Última atualização: 21/06/2019

Capítulo 1

Senior Year, o último do colegial, finalmente havia chegado. Para muitos estudantes, é um pesadelo, todas as provas de vestibulares, a pressão de ter que ir bem em todas as disciplinas e fazer o maior número de atividades extracurriculares possível para ter um bom currículo e ser aceito na melhor universidade, a tristeza de ter que se despedir dos amigos que fizeram parte de um dos momentos mais importantes da sua vida, sem saber se algum dia voltará a vê-lo, ter que imaginar uma vida totalmente nova e solitária longe de toda a sua família e pessoas que ama.
Ter de decidir todo o seu futuro com apenas dezessete anos de idade é uma tarefa muito difícil.
Mas não para , ela já tem tudo planejado: Terminará o colegial na Churchill, será aceita na IMU, na Índia, se formará em Engenharia Naval e então entrará para a US Navy. Esse é o seu grande sonho desde que tinha doze anos e ela não está disposta a deixar ninguém atrapalhá-la.
caminha pelos corredores cheios da Winston Churchill High School, falta pouco para o sinal da primeira aula tocar, então a menina se dirige ao seu armário às pressas — ela odeia chegar atrasada. No meio do caminho, acaba esbarrando com alguém e não demora a constatar ser , o Quarterback do time de futebol.
— Ei, olha por onde anda, garota! — ele vocifera, irritado.
— Olha você por onde anda, idiota, esqueceu de tirar o capacete? — ela cospe, recolhendo os livros do chão.
— Ih, a nerd ficou estressadinha! — um dos outros garotos zomba, fazendo-a revirar os olhos.
— Por que você não vai, sei lá, correr em volta do campo ao invés de ficar me enchendo o saco? É a única coisa que vocês sabem fazer mesmo!
A joga os braços para o alto, exasperada, e sai marchando a passos largos em direção ao armário, ignorando os gritos e comentários zombeteiros dos garotos do time. Ela simplesmente odiava todo aquele grupo de garotos prepotentes que se acham melhores que os outros só por causa de um estúpido uniforme. Nervosa, ela abre o armário e retira de lá o livro Romeu e Julieta para aula de Literatura Inglesa, o primeiro tempo do dia. O sinal toca e ela caminha até a sala, sentando-se em sua corriqueira segunda carteira da primeira fileira, esperando até que a Senhora Perkins começar a aula.
adentra a sala e ela bufa, observando-o sentar na última fileira. Ele era o único do time naquela sala, aparentemente. O que um garoto como ele faria na aula de Literatura Inglesa Avançada? Nenhum dos caras do time parecem ser fã de leitura.
Provavelmente está querendo melhorar o currículo para entrar em uma boa universidade, assim como eu, ela pensou.
— Bom dia, classe! — Senhora Perkins diz, assustando . — Sejam bem-vindos ao Senior Year, o ano mais importante de suas vidas! Espero que já estejam se preparando para ter um bom destaque e entrar na universidade dos sonhos, ficarei lisonjeada em escrever suas cartas de recomendação... — Todos os rostos na sala se iluminam. — Se vocês tiverem um bom desempenho na minha aula, é claro.
A mulher sorri e a turma inteira solta um murmúrio de descontentamento. A professora continua falando sobre como foram suas férias na Europa, que conheceu a casa em que Shakespeare nasceu e blábláblá.
se desliga completamente do que ela diz e começa a rabiscar o esboço de um submarino. Não é que ela odeie Shakespeare ou literatura, ela tenta ao máximo se dedicar a todas as disciplinas, porém o que realmente a interessa é a Ciência; Matemática, Química e Física são suas matérias favoritas.
— Para esse semestre, faremos uma atividade diferente. Vocês trabalharão em duplas... — Todos em volta começam a comemorar. — Que eu irei escolher, é claro.
Mais um uníssono burburinho de reclamação da turma ecoa por toda a sala.
— Eu não vou me sentar do lado de qualquer nerd nojento! — Jessica, uma líder de torcida, grita.
— Bem, então você deveria ter pensado nisso antes de se inscrever na minha aula — a professora rebate. — Nessa sala sou eu quem manda, se você não concorda, pode se tirar, mas sua nota automaticamente se tornará um grande zero.
A menina cruza os braços sob o peito, emburrada, e emite uma bufada de ar. revira os olhos e depois sorri levemente. Pelo menos dessa vez não teria nenhuma líder de torcida tentando ser sua amiga para convencê-la a fazer todo o trabalho.
— Mais alguém tem alguma objeção? A porta está aberta para todos se retirarem, se quiserem — a mulher diz e toda a sala permanece em silêncio. — Foi o que pensei. Irei organizá-los por ondem alfabética de acordo com seus sobrenomes para que seja um processo mais fácil.
O corpo da automaticamente fica tenso. Espera, ordem alfabética? Isso que dizer que ela tinha chance de ficar junto com , certo? e são sobrenomes muito próximos.
A professora começa a chamar os nomes e os alunos se juntam às suas duplas. Alguns soltam expressões de reclamação e outros comemoram, porém a maioria não parece nada feliz com aquilo.
espera impacientemente seu sobrenome se aproximar, ela começa a balançar a perna em ritmo frenético enquanto repete em sua mente:
Por favor, que não seja o . Por favor, que não seja o !
— Senhorita e senhor ! — a professora anuncia.
bufa, deixando a cabeça pender sobre a mesa, derrotada. Isso não pode estar acontecendo.
Ela ouve o barulho de uma cadeira sendo arrastada ao seu lado e direciona o olhar ao causador do som excruciante, que exibe seus dentes perfeitamente brancos. sente todo seu corpo ser preenchido pela raiva e diz:
— Não venha sorrir pra mim, não pense que sou como essas garotas que ficam ao seus pés com qualquer sorriso e fazem tudo que você quer. Eu não vou fazer todo esse trabalho sozinha!
— Wow, wow, wow, wow! — Ele ergue as mãos em sua defesa. — Eu só ia dizer oi! Jesus, você precisa parar de ser tão agressiva, garota, não é como se eu fosse te atacar ou algo do tipo.
— Que seja — responde, mexendo em seus livros e fingindo indiferença.
A professora continua chamando os nomes até que o último par fosse formado. Com todos sentados em seus devidos lugares, ela diz:
— Não é segredo para ninguém que eu amo Shakespeare. — Todos na sala riem, inclusive a própria mulher. — Quero que vocês reescrevam um soneto de Shakespeare com suas próprias palavras, da maneira que quiserem, mas precisam trabalhar juntos. Acompanharei de perto cada dupla para me certificar de que não tenha ninguém fazendo trabalho sozinho.
A mulher lança um olhar sugestivo para as mesas em que Jessica e Claire, uma das garotas mais inteligentes e tímida da escola, estão sentadas, e a líder de torcida revira os olhos.
— Espero que todos tenham trazido o livro que pedi ou já começarão o ano perdendo alguns pontos comigo!
abre o livro impecavelmente intacto que pertenceu a sua mãe quando ainda estudava e começa a leitura junto com a professora. De repente ela sente alguém cutucá-la no braço e não demora a perceber quem é, virando-se furiosa para o garoto, que sorri e diz:
— Posso ler junto com você? Esqueci meu livro em casa.
A menina bufa e empurra o livro para o lado para que ele pudesse também enxergar, e volta a acompanhar a leitura.
— Obrigado, você é mais legal do que eu imaginei — ele sussurra em seu ouvido, fazendo a menina pular na cadeira. Com o coração acelerado, respira fundo, desejando que aquele semestre passe o mais rápido possível.

●●●


Acompanhado de seu time, se alonga antes de começar o treinamento do dia. O garoto tivera uma manhã bem incomum ao ser escolhido para produzir um trabalho com . Ele já conhece a menina de longe, sabe que ela é bastante famosa na escola pelo seu intelecto e também pelo ódio ainda não justificado que ela alimenta pelo time de futebol americano. Ele sabe que vai ser uma tarefa difícil trabalhar com ela, mas não vai deixar que isso atrapalhasse a sua paixão pela literatura.
Paixão essa a qual somente ele tinha ciência, é claro, se seu pai desconfiar que os planos dele passam longe de ser se tornar um jogador profissional, provavelmente o mataria. Não iria mentir, ele adora o futebol, adora a adrenalina de entrar em campo enquanto todos gritam seu nome e vencer o adversário, mas nenhuma sensação é mais prazerosa do que a de lecionar, compartilhar seus conhecimentos com crianças e adolescentes, formar suas opiniões, mudar os seus futuros, é isso o que ele mais anseia fazer pelo resto de sua vida. Pena que para isso teria que enfrentar todos que as pessoas que ama.
— Soube que você pego a nerdzinha como dupla em Literatura — Ezekiel, seu melhor amigo, comenta e balança a cabeça, confirmando. Havia se esquecido de como as notícias correm naquele colégio. — Que merda, cara, não queria ser você agora. Por que você faz essa aula, afinal?
— Pra ter créditos extra — o garoto mente, erguendo os ombros. — E ela não é tão ruim assim.
— Não é tão ruim assim? Cara, ela odeia a gente! Você se lembra de quando ela fez um abaixo-assinado para tirarem o nosso campo e darem para o time de hockey feminino? “Precisamos apoiar as mulheres no esporte” é o caralho! — Zeke aponta. — A Jessica tá uma fera com isso.
— Não é como se fosse escolha minha. — dá de ombros.
— Sobre o que vocês estão falando? — Peter, o wide receiver, questiona.
vai fazer dupla com a esquentadinha em um trabalho — o running back responde antes que o amigo pudesse se pronunciar.
— Nossa, cara, meus pêsames — outro corredor diz, fazendo careta.
— E ainda disse que “ela não é tão ruim assim” — Zeke imita uma voz aguda, fazendo os amigos rirem. — Talvez a gente devesse fazer ele provar isso.
Ezekiel sorri largamente e logo percebe quais são as intenções do amigo, o que não o agrada nem um pouco.
— Eu sei o que esse sorriso significa e a resposta é não.
— Qual é, !
— Já disse que não! — o quarterback responde, irritado.
— Tá legal, vamos aumentar a aposta: E se valer um equipamento novo?
encara o amigo querendo esganá-lo. Ele sabe muito bem que o garoto precisa de um equipamento novo e está querendo guardar suas economias. É uma boa proposta, uma ótima proposta, na verdade. O garoto suspira.
— O que tenho que fazer exatamente?
— A sua missão será fazer com que a nerd...
corrige e o amigo revira os olhos.
— Tanto faz. A sua missão será fazer com que não apenas goste de futebol americano, mas se torne uma fanática. Se rolar um beijo ou uma paixãozinho por você, aí será um ponto extra, mas o ponto principal é o futebol. Topa?
emite uma bufada de ar e passeia as mãos pelos cabelos em sinal de nervosismo.
Como diabos ele faria isso?
Mas é uma proposta irrecusável.

O quarterback suspira e balança a cabeça em confirmação, fazendo os amigos soltarem gritos de comemoração e pularem em cima dele. Ele não tinha ideia de como faria aquela garota mudar de opinião, mas agora estava disposto a dar tudo de si para conseguir.

●●●


Quando chega a hora do almoço, se senta em sua habitual mesa no canto da cafeteria e logo em seguida Alexia, sua meia-irmã, e Elena, a melhor amiga dela, se sentam ao seu lado. Ambas são líderes de torcida, as únicas toleráveis naquela escola, e a garota desconfia que provavelmente suas mães obrigam Lexie a ficar junto com ela durante o recreio, pois sabem que não é exatamente uma pessoa sociável. Elas estão constantemente tentando criar um laço entre as duas, mas nunca se sentiu realmente próxima da meia-irmã e já faz mais de dez anos desde que sua mãe e a mãe de Lexie se casaram.
— Então, como foi seu primeiro dia de aula, ? — a negra começa a puxar assunto.
— Estressante. Logo no primeiro tempo descobri que terei a pior dupla de trabalho possível — a garota bufa, tirando seu sanduíche da sacola.
— Quem? — pergunta Elena e a indica a mesa dos populares com o queixo. — Jessica?
— Não, .
Automaticamente Lexie larga sua latinha de Coca-Cola zero sobre a mesa, quase cuspindo o líquido que estava em sua boca em cima da irmã.
— VOCÊ TÁ FAZENDO DUPLA COM ? — a garota praticamente grita, levando vários alunos a encarar a mesa delas.
Ótimo, agora a escola inteira sabe, pensou a garota, querendo se esconder debaixo da mesa e cavar um buraco no chão.
— Sim, Lexie, agora dá pra manter o volume mais baixo? — a pede, sentindo o rosto esquentar.
— Desculpa, eu só fiquei surpresa. Você odeia futebol americano e todos os jogadores. — A garota ergue os ombros.
— Eu sei, mas não foi escolha minha. A professora organizou por ordem alfabética.
— Eu aceitaria totalmente ficar no seu lugar por um dia só pra ficar perto do — Lexie sorri maliciosa e revira os olhos.
— Você já não tem um namorado, Lexie? — Elena pergunta e a negra fica desconsertada.
— Sim, mas o é o garoto mais bonito da escola, todas as garotas querem ele.
— Bem, eu não quero. — dá de ombros.
— Nem eu — afirma Elena. — Ah, droga, ele tá olhando pra cá.
A desvia o olhar para as mãos, que ainda seguravam o sanduíche intacto.
— Merda, agora ele se levantou e tá vindo em nossa direção — ela volta a falar.
— Dá pra calar a boca, Elena? Aja naturalmente! — Alexia rebate.
Os olhos de automaticamente se arregalam. Ele ficou louco? Como assim ele está vindo falar com ela no meio do refeitório, na frente de todo mundo?
— Hey, Lexie, Elena — ele cumprimenta e as garotas respondem com “e aí”. — Ei, , você pode me encontrar no campo depois do treino amanhã pra gente discutir sobre o trabalho?
— Você quer que a gente se encontre depois da escola? — a garota questiona, com uma sobrancelha arqueada.
— É, sabe, pra começar logo o trabalho e tal, quanto antes a gente fizer, melhor.
A o encara os alguns segundos. Todos os olhares no recinto recaem sobre a garota, curiosos sobre o porquê aquela conversa estar acontecendo.
Então era isso que ele quer? Chamar atenção? Deixá-la constrangida? Pois não vai conseguir tão fácil.
— Tudo bem, me encontre na lanchonete na rua atrás da escola às três e meia em ponto. Por favor, não se atrase, eu odeio pessoas que não cumprem seus compromissos.
O garoto balança a cabeça negativamente, reprovando a atitude da menina, e sorri em divertimento.
— Tudo bem, general, é você quem manda.
leva a mão direita até a testa, batendo continência para , e caminha para longe da mesa.
Ignorando todos os olhares em volta, inclusive o de sua meia-irmã, que a encara boquiaberta, a menina leva seu sanduíche a boca, dando uma grande mordida em seguida.

Capítulo 2

havia acordado de bom humor essa manhã, porém tudo foi por água abaixo quando ela pôs os pés dentro da sala de Química e descobriu que sua tão adorada professora Lydia Moss não estava lá e sim um homem bem mais velho, com menos de 1/3 da inteligência dela e muito menos atraente — ela havia alimentado uma paixonite pela professora durante grande parte do segundo ano, mas prometeu a si mesma que nunca contaria isso a ninguém.
O resto do dia segue entediante, até finalmente o último sinal tocar e suspirar, aliviada. Quando a garota cruza o portão da escola, avista sua mãe com o corpo parcialmente ao lado de fora carro, acenando para ela. A menina respira fundo e se arrasta até o veículo, abrindo a porta do carona e se jogando sobre o banco.
— Você precisa mesmo me levar? Eu sei como chegar lá sozinha, não é como se eu fosse fugir ou sei lá.
— Eu sei disso, mas hoje é a sua primeira sessão desde que as aulas começaram, então eu quero me certificar de que está tudo bem.
— Mãe, pelo amor de Deus, é o segundo dia de aula! Não tem nada acontecendo além de todo mundo falando sobre as estúpidas férias! — a menina responde, exasperada.
— Ei, olha o linguajar! — a mais velha repreende. — Bem, enquanto você se recusar a falar sobre suas “estúpidas férias”, teremos que passar por isso toda semana.
bufa e cruza os braços sob o peito, emburrada, enquanto a mãe dá partida no carro.
— Não deveríamos esperar a Lexie? — questiona.
— Ela vai ficar até mais tarde por causa do treino das líderes de torcida. Você deveria tentar entrar para o time também, seria bom pra você fazer novas amizades.
Uma forte gargalhada explode pela garganta de , ecoando pelo veículo.
— Essa foi muito engraçada, mãe.
— Querida, eu sei que quer se dedicar aos estudos e acho isso maravilhoso, mas você também é uma adolescente, deveria fazer amigos, sair e se divertir! Por que não entra para algum clube? Como o Clube de Debate ou de Matemática?
— Eu tentei o clube de Matemática no primeiro ano, lembra? Mas fui desclassificada da competição por dizer que uma questão estava mal formulada, o que depois eles mesmos perceberam que era verdade.
— Talvez a comissão de formatura então?
— Jessica nunca deixaria eu chegar perto da organização do baile perfeito dela, além de que não tenho tempo para isso por causa das aulas de reforço e monitoria.
, sua vida deveria ser mais do que ensinar crianças de dez anos a multiplicar e dividir!
— Mãe, eu tô bem assim! — a garota vocifera, irritada, e a mais velha suspira.
— Querida, eu só estou preocupada com você, com a sua saúde mental. Você sabe que tudo que falo é porque eu quero o seu bem, não é?
— Eu sei e agradeço por isso, mas eu estou bem. É sério.
Addison sorri e estende a mão direita para a filha, cobrindo a mão dela com sua própria.
Não demora mais do que alguns minutos até elas chegarem à frente do prédio. coloca a mochila sobre o ombro direito e abre a porta, saindo do carro enquanto murmura um “tchau". Ao perceber que sua mãe ainda não havia dado partida no carro, a se inclina, fitando a mulher pela janela aberta.
— Você não vai embora?
— Vou, mas antes quero ver você entrando — Addison retruca e a garota a encara indignada.
— Sério, mãe? Você não confia em mim?
— Não é falta confiança, é proteção.
revira os olhos e dá as costas à mãe, caminhando em direção ao edifício.
— Tchau, se cuida e faça algum progresso! — Addison grita. — Eu te amo!
A menina se vira apenas para fazer gestos, como quem diz “vai embora" antes de finalmente entrar no prédio. entra no elevador, aperta o botão do segundo andar e coloca seus fones de ouvir, para evitar qualquer pessoa que entrasse de puxar assunto.
Após chegar ao segundo andar, caminha pelo corredor cor de creme até uma cadeira no canto do cômodo. Algumas crianças estão brincando no tapete de borracha, montando peças de Lego, enquanto suas mães estão sentadas nas cadeiras em volta, folheando revista sobre os riscos das drogas e àlcool ou conversando entre si. A garota suspira, sabendo que ainda demoraria um pouco até chegar a sua vez e ela não tinha com o que se distrair.
É por isso que prefiro ir ao dentista, ela pensou, pelo menos lá tem o aquário e a televisão.
Desenho animado chama mais atenção das crianças do que peças de Lego. Se ao menos houvesse algum livro para ajuda-a a passar o tempo, mas infelizmente só tem essas revistas chatas falando coisas que todo mundo já sabe que faz mal para a saúde, porém continuam usando porque o ser humano é patético e autodestrutivo.
Seu nome é chamado após alguns minutos, o que a deixa surpresa, e ela se levanta, entrando na sala. A mulher sentada atrás da mesa sorri para a garota e ela me senta em uma das cadeiras a sua frente. É irônico como tudo é completamente diferente do que ela sempre imaginou: Não é uma sala luxuosa com uma estante enorme de livros, cercada por quadros e com o famoso divã vermelho em que pudesse deitar e despejar todas as suas frustrações enquanto a mulher só faz anotações em um caderninho em silêncio — se sentiria bem mais feliz se fosse realmente desse jeito.
— Boa tarde, .
— Boa tarde, Doutora Edwards.
— Já disse que pode me chamar de Laura.
— Prefiro não fazer isso — a responde, ríspida.
— Bem, vamos começar com o de sempre: Como foi a sua última semana? Você começou o último ano ontem, não é? Como foi essa volta?
— Normal.
— Não aconteceu nada que queira falar sobre? Nenhuma nova amizade? Algo que a fez sentir de forma diferente? — a mulher insiste e a menina dá de ombros.
Laura suspira e observa o rosto da menina por alguns segundos, em silêncio. .
— Olha, , eu estou aqui para te ajudar, mas você precisa me permitir fazer isso. A terapia não vai adiantar de nada se você não se esforçar nem que seja um pouco.
— Olha, eu nem queria estar aqui, mas infelizmente sou obrigada pela minha mãe. Sei que provavelmente você já está de saco cheio de mim, então porque a gente não facilita logo as coisas? Você me libera logo e a gente nunca mais vai precisar passar por isso de novo. — Laura apoia os cotovelos na mesa, encarando-a fixamente. — Eu tenho um compromisso depois daqui, então se pudermos acabar com isso de uma vez, ficarei agradecida. .
— Bem, eu estou fazendo a minha parte para que tudo siga o mais rápido e tranquilo possível, mas não posso fazer nada se você continuar sendo rasa nas suas respostas. Continuaremos aqui, andando em circulos, enquanto você não se abrir. Eu tenho todo tempo que for necessário e você sempre diz que não tem nada de interessante ou importante para fazer, então provavelmente esse compromisso pode esperar, ou não?
respira fundo e olha para o teto. Essa mulher só pode estar testando minha paciência, ela pensa.
— Eu tenho que encontrar uma pessoa para fazer um trabalho. Pronto, falei, satisfeita? Agora posso ir?
A garota faz menção de se levantar e Laura ergue a mão, pedindo-a para esperar.
— Que tipo de trabalho? Como tem sido a sua relação com essa pessoa?
— É um trabalho de literatura. A professora escolheu as duplas e eu fiquei com um idiota do time de futebol.
— E como isso fez você se sentir?
— Com raiva. Muita raiva. — A menina cerra os punhos que apoia sobre os braços da cadeira.
— E por quê? — Porque ele é um idiota que acha que qualquer garota se rasteja aos pés dele e que eu serei uma delas, mas não vou. Não vou ser feita de babaca para que ele se aproveite de mim e depois me deixe sozinha e grávida, enquanto vive o sonho patético dele.
— Você fala com muita convicção de que isso irá acontecer, parece ser algo pessoal para você.
— Pode-se dizer que já tive uma desagradável experiência com um jogador babaca.
— Mas isso não quer dizer que é uma regra. Como pode ter tanta certeza se só conheceu um? Não acha que está generalizando?
— Porque eu sei, eles são todos babacas que usam as pessoas e depois descartam como se fossem lixo. — A aperta os dedos ao redor da madeira sobre suas palmas com tanta intensidade que chega doer.
— Bem, você não pode afir...
— Mas eu tenho certeza — responde, firme.
A mulher anota alguma coisa em seu caderninho e em seguida observa por alguns instantes, apoiando o queixo sobre as mãos, sem diz uma palavra sequer, o que faz com que a menina junte as mãos sobre o colo, remexendo os dedos de maneira inquieta, querendo correr para bem longe dali, e isso não passa despercebido pela psicóloga. Laura apoia o caderno sobre a mesa, juntamente com seus óculos, e abre um leve sorriso.
— Acho que podemos encerrar por aqui, já tivemos um bom avanço hoje. Quero que pense mais sobre a sua raiva e o porquê dela existir, vamos explorá-la mais daqui para frente. Até semana que vem, .
A não responde nada, apenas se levanta e pega sua mochila, jogando-a sobre os ombros e saindo da sala a passos largos.

●●●


Enquanto caminhava até o ponto, vê o ônibus que precisava pegar partir e pragueja baixinho. Seriam quarenta minutos esperando o próximo, então a garota opta por gastar apenas os vinte de caminhada até o local enquanto a voz de Tyler Joseph ecoar por seus ouvidos através do fone no último volume.
A menina cruza a porta da lanchonete, provocando o e avista em uma mesa ao canto, distraído olhando para o celular, e guarda o headphone na mochila enquanto caminha até ele. Ao constatar sua presença, o garoto sorri.
— Olha só se não é a senhorita pontualidade chegando atrasada!
— Por favor, não começa — a diz, sentando-se na cadeira mais próxima. — Peço desculpas pelo atraso, mas eu tive um motivo.
— Que era...?
— Não é importante no momento — a menina retruca. — Então, sobre o que você queria falar comigo?
parece finalmente lembrar o motivo dos dois terem se encontrado naquele estabelecimento e pega sua mochila que estava no chão, jogando-a sobre a mesa sem delicadeza alguma, e retira um imenso bolo de papel de dentro.
— Eu andei pesquisando sobre Shakespeare e descobri que ele escreveu mais de cento e cinquenta sonetos! — diz, animado, enquanto encara a pilha de papel com os olhos arregalados.
— Uau! Esse cara tinha bastante tempo livre — ironiza. —, mas é compreensível, já que não existia luz, TV nem internet naquela época, eles tinham que arranjar algo pra tirar do tédio. — Ela ergue os ombros. — O que você propõe fazermos com tudo isso aí?
— Bem, eu estava pensando em a gente ler todos eles e observar o que eles têm de comum e qual é o sentimento que querem passar, entender realmente a essência de Shakespeare, sabe?
A fita o garoto com uma das sobrancelhas arqueadas, intrigada com a tamanha empolgação que ele demonstra ao falar.
— Você parece mesmo animado com essa coisa toda, , estou impressionada.
— Eu disse que você não faria esse trabalho sozinha, , além de que eu e Shakespeare compartilhamos a uma paixão, eu gosto mesmo de literatura e não estou naquela aula por nada.
tenta esconder sua expressão surpresa, no entanto, não obtém muito sucesso.
Ele deve estar zoando, pensa, é um quarterback, o garoto mais popular da escola, e caras como ele não gostam de literatura, poesia ou sei lá, eles gostam de sair para festa e pegar garotas. Ele só tá dizendo isso para que eu fique apaixonada por ele.
apoia os cotovelos sobre a mesa e entrelaça os dedos, apoiando o queixo sobre eles, e encara duramente.
— Vamos dizer que talvez eu tenha gostado da sua ideia, como vamos fazer isso? São muitos sonetos pra analisar em pouco tempo.
— Eu estive pensando em a gente pegar dois ou três por dia, ler e fazer algumas anotações e no outro dia trocar um com o outro e debater se concordamos ou não.
— Então você quer dizer nós vamos ter que fazer isso — A garota aponta para si e depois para o garoto. — todos os dias?
— Sim — ele responde com a maior naturalidade do mundo.
não consegue evitar a gargalhada que explode por sua garganta.
Ela e se encontrando todos os dias? Nem morta ela concordaria com uma coisa absurda dessas.
— Isso não vai dar certo, eu tenho coisas para fazer à tarde e tenho certeza de que você deve ter treino ou sei lá.
— Não precisa ser um encontro físico, podemos usar Skype, FaceTime ou mensagem mesmo. — O garoto retira o celular do bolso e ergue para . — Coloque o seu número aí.
A fita um tanto incrédula. Agora ele quer trocar mensagens com dois namoradinhos? Isso está ficando pior do que ela imaginava, porém, de certa forma ainda é mais tolerável do que eles se encontrarem todos os dias.
finalmente cede e pega o celular das mãos de , digitando seu número, e em seguida pega o seu próprio e entrega ao garoto para fazer o mesmo.
— Ei, é o brasão da Corvinal no seu papel de parede? — questiona. — É uma ótima casa, só perde para a Grifinória.
— Grifinória só é conhecida e aclamada porque J.K. Rowling nunca deu espaço para as outras casas se sobressaírem, se não fosse por isso, todo mundo saberia que Corvinal é a melhor casa — Ela argumenta, puxando seu celular das mãos de .
Quando abre a boca para retrucar, a garçonete se aproxima deles e deposita o copo com milkshake sobre a mesa. Ele havia se esquecido completamente que tinha pedido aquilo antes da chegar.
— Ei, você quer comer ou beber alguma coisa? Pode pedir, é por minha conta.
— Não, obrigada.
— Toma, pode pegar meu milkshake — empurra a taça em direção à .
— Obrigada, mas eu não quero, — Ela arrasta o copo de volta.
— Não, eu insis-
Quando impulsiona a taça para novamente, o recipiente vira, derramando todo o seu conteúdo sobre a garota.
automaticamente se levanta e encara o próprio corpo, incrédula. Isso. Não. Pode. Estar. Acontecendo.
finalmente percebe o que havia feito e também se levanta, pegando o maior número de guardanapos no compartimento sobre a mesa.
, me desculpa, eu-
— Não encoste em mim! — a garota vocifera quando ele se aproxima.
— E-eu vou pagar por uma blusa nova pra você, vamos procurar uma loja por perto.
— Eu não quero a droga do seu dinheiro, !
A arranca os guardanapos das mãos do garoto e começa a esfregar sobre a roupa, em uma tentativa desesperada de amenizar o estrago feito.
avista sua camisa reserva do time saindo por entre o zíper aberto da mochila e agarra a peça, oferecendo-a à garota.
— Vista isso.
— Eu preferiria andar pelada na rua a cobrir meu corpo com essa coisa — desdenha.
, por favor, não é hora para isso.
A garota fita os olhos suplicante de e então reveza entre sua camisa totalmente encharcado e transparente e a peça nas mãos dele. O que era pior? Sair na rua totalmente ensopada com sutiã à mostra ou usar a Jersey estúpida dele?
pragueja mentalmente, odiando seu lado racional por fazê-la sucumbir daquela maneira patética e pegar a camisa das mãos de , marchando para o banheiro em seguida. Ela retira a blusa e molha a parte limpa para remover os resquícios da bebida grudenta que ainda estavam impregnados em sua pele.
Ela iria matar um dia, disso tinha certeza.
veste a Jersey, que felizmente é maior do que o esperado, no entanto, ainda fica um pouco apertada na área dos seios e da barriga, porém nada que seja muito perceptível, apesar de desconfortável. Ela sai do banheiro e caminha de volta à mesa, todavia, quando faz menção de abrir a boca para se desculpar mais uma vez, ela resgata sua mochila e lhe dá as costas sem dizer uma palavra.

●●●


Após passar o resto da tarde na casa dos Johnson, ensinando geometria para David, o filho mais novo da família, finalmente chega em casa. Ela avista Wendy sentada ao sofá, entretida com o livro em seu colo, e toca em seu ombro para chamar a atenção dela.
“Oi, como foi o dia na escola hoje?”, diz em língua de sinais para a irmã mais nova.
“Foi legal, fiz uma nova amiga, o nome dela é Jazmin.”
“Isso é muito legal! Você fez seu dever de casa?”, a questiona e a menina balança a cabeça positivamente. “Se todas as respostas estiverem certas, te darei uma barra de chocolate depois, mas não conta pra ninguém.”
põe o dedo em riste sobre os lábios e a irmã imita o gesto, sorrindo.
— Ah, você chegou. Vá lavar as mãos e ajude Opal a arrumar a mesa para o jantar.
A obedece o pedido da mãe e vai até o banheiro. Ela encara o chuveiro em uma luta interna se deveria ou não aproveitar para tomar banho logo, porém seu estômago faz um barulho tão alto que é impossível de ignorar. A garota vai até a sala de jantar e retira os talheres de dentro do armário, colocando-os ao lado dos pratos que sua mãe já tinha arrumado.
— Como foi seu dia, querida? — pergunta Opal.
ainda não se sente confortável em chamar Opal de mãe, mas isso não quer dizer que ela não a considere sua mãe ou não percebe o esforço que ela faz pra se aproximar dela.
— Entediante. Tem um novo professor de Química na escola que é horrível! Ele passou alguns exercícios sobre pilhas pra gente e eu disse que a reação global da última questão estava errada porque o zinco é ânodo, então sofre oxidação e perde elétrons e ele tinha feito o contrário, aí ele disse que se eu me achava tão inteligente que fosse ao quadro corrigir, eu fui e provei que estava certa. Enfim, provavelmente estou no topo da lista negra dele agora.
— Ok, eu não entendi uma palavra do que você acabou de dizer, então vou fazer como sempre faço com todos meus alunos: Balançar a cabeça e fazer cara de paisagem — a mulher diz, fazendo rir.
— Traduzindo: Eu sou a Hermione e ele o Snape.
— Ah, essa referência eu entendi!
As duas caem na gargalhada e Addison entra no cômodo, carregando uma panela cheia de comida, e a coloca no centro da mesa enquanto Lexie vai até a sala chamar a caçula. Todas se sentam à mesa e se servem do jantar.
— Um passarinho me contou que alguém está fazendo trabalho com o garoto mais popular da escola... — Addison diz, também fazendo sinais para a mais nova poder entender. Essa é uma regra da casa para Wendy sempre se sentir incluída.
A larga os talheres sobre o prato, fazendo o barulho alto ecoar pela sala, e fita a meia-irmã com expressão raivosa.
— Sério, Lexie?
— Foi ela quem perguntou, eu não podia mentir. — A negra ergue os ombros.
— Bem, você se recusa a me contar qualquer coisa sobre a sua vida, então infelizmente tenho que perguntar pra outra pessoa — Addison responde, parecendo ofendida.
— Ai meu Deus, mãe, não tem o que contar! É só um trabalho, não é nada demais! — A garota joga as mãos para o alto, exasperada.
— Por enquanto... — Opal sugere.
— Por que vocês estão tentando agir como mães heterossexuais chatas? Já pararam pra pensar que talvez eu nem goste de garotos? Ou talvez eu seja bi? É, definitivamente sou bi.
— Só estamos tentando ser abertas a todas as possibilidades, querida, e ficamos muito felizes que você se sinta confortável para nos contar isso — Addison responde, segurando a mão da filha sobre a mesa.
— Como você pode saber isso? Você nunca beijo ninguém, ! — Lexie retruca.
— Bem, não é necessário beijar alguém pra sentir atração, Lexie! — A bate os punhos sobre a madeira, fazendo toda a mesa tremer.
— Então você está admitindo que sente atração pelo ? — a negra volta a dizer, sorrindo.
— Não! — vocifera, irritada.
— Então por que você está usando a Jersey dele?
leva o olhar ao próprio corpo e só então se dá conta de que ainda estava vestindo a camisa e pragueja mentalmente.
— O idiota derrubou milkshake em cima de mim e me emprestou a camisa dele. Acredite, eu não queria usar essa porcaria — a garota desdenha. — Podemos focar em outra coisa que não seja a minha vida amorosa inexistente, por favor? Lexie, como foi o seu treino hoje? Se divertiu muito com seus pompons?
— Foi ótimo, obrigada por perguntar, — a menina ironiza. — Jessica está pensando em nos inscrever para o Campeonato Estadual, então provavelmente vamos começar a treinar bem mais pesado.
— Campeonato estadual? Uau, meu bebê está crescendo! — Opal diz, orgulhosa, fazendo a filha sorrir.
— Ah, acabei de lembrar que vamos ter uma festa do pijama para todos os alunos do último ano na sexta e você está intimada a ir, .
A garota deixa uma risada escapar. Vai sonhando.
— É uma ótima ideia, você deveria ir, — Opal declara.
— É o seu último ano, querida, você deveria aproveitar todos os momentos junto com seus colegas, fazer novos amigos, se divertir — Addison argumenta.
— E nós já sabemos que você não vai ao baile de boas-vindas, então, vamos, por favor, por favor, por favor! — Lexie suplica.
suspira. Ela sabia que se dissesse não, suas mães iriam reclamar sobre isso por meses.
— Tá bom, eu vou — ela cede, por fim, e Lexie emite um gritinho em comemoração. — Mas não espere que eu seja muito sociável.
— Garota, depois de alguns copos, a sua opinião vai ser totalmente diferente.
— Não vai ter álcool nessa festa, não é? — Opal questiona com uma sobrancelha arqueada e Lexie arregala os olhos.
— N-não, claro que não, só ponche de fruta — Lexie defende, porém não parece nada convincente devido ao nervosismo, o que quase fez rir.
Elas terminam o jantar enquanto Opal e Addison conversam sobre seus respectivos dias no trabalhos e quando se levanta e começa a caminhar para fora do cômodo, sua mãe diz:
— Hoje é seu dia de lavar a louça.
— O quê? Mas eu já fiz isso ontem! — ela argumenta, indignada.
— Mas hoje Lexie me ajudou a preparar o jantar, então a louça é sua de novo.
A lança um olhar furioso em direção à meia-irmã e a garota lhe responde com um sorriso vitorioso, dando de ombros.
espera até que as mães tenham ido para o quarto e vai atrás de Wendy, que escovava os dentes, e sinaliza:
“Se você lavar a louça por mim, te darei dez dólares amanhã.”
“Fechado", a menina responde.
Elas trocam um aperto de mão e se vira, caminhando até seu quarto com um sorriso enorme estampado no rosto.
Ah, os benefícios de ter uma irmã mais nova.


Continua...









comments powered by Disqus