Última atualização: 21/07/2019
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Capítulo 1

JULHO DE 1999



― Oi! ― uma mulher loira e alta abriu a porta do quarto de hospital, aparecendo com o marido, ambos cada um com um bebê, animada mas sussurrando.

― Taylor, Louis! ― outro homem foi cumprimentar aqueles que chegaram, também tão animado quanto e também sussurrando.

― Como vocês estão, Harold? Como a Katherine está? E a bebê? ― o marido da primeira não conseguia conter o entusiasmo.

― As duas estão bem, está tudo bem, ótimo, na verdade. ― o novo pai também não conseguia esconder a alegria e a emoção.

― A e o também não podiam esperar para conhecerem a nova amiga deles. ― Taylor mostrou o pacotinho inconsciente em seus braços e Louis fez o mesmo.

Atrás de Harold, uma mulher de cabelos negros e olhos fadigados descansava numa cama com lençóis incrivelmente brancos, abraçando um amontoado de cobertorzinhos.

― Louis, Taylor... ― Harold olhou para os bebês nos braços dos amigos. ― e . Conheçam nossa filha, .

Os outros adultos se aproximaram da mais nova mamãe, encarando aquela coisinha incrivelmente pequena e com um rosto parecendo um joelho, como a maioria dos recém-nascidos; mas todos concordaram que, mesmo com aquela aparência, havia algo especial sobre ela.

― Ela é tão linda. ― Taylor sussurrou, incrédula, olhando com orgulho para a amiga cansada. ― Parabéns, Kathy.

― Obrigada. ― a citada abriu um sorriso com aquele brilho de mãe de primeira viagem; cheia, estressada, exausta, porém realizada. ― Eu não acredito que isso esteja acontecendo.

― Confie em mim, depois de três meses de noites mal dormidas, você começará a acreditar. ― Louis brincou, feliz que agora seus melhores amigos entenderiam o que ele estava passando há seis meses.

Aquelas famílias, e , eram amigos desde muito antes de serem “famílias”. Vindouros da mesma escola, os homens também cursaram a faculdade juntos, viraram sócios e abriram uma firma de advogados. Taylor era uma professora de filosofia e Katherine uma recém-formada em Artes. Pouco depois dos eventos aqui citados, as novas famílias compraram casas lado a lado em uma vizinha ótima em San Francisco, criando os filhos lado a lado para serem amigos assim como eles. , , e menos de dois anos depois, , aprenderiam a falar juntos, andar juntos, brincar juntos, até que começassem a conquistar suas independências, mas eles fariam até isso juntos. Entretanto, nada seria capaz de ficar perfeito por muito tempo; a tempestade chegou mais cedo para alguns do que para outros, mas, eventualmente, chegou para todos.


AGOSTO DE 2009



― Ai, eu ‘tô tão chateada que as aulas voltam amanhã. ― suspirou enquanto desenhava vários passarinhos em seu caderno.

Sua melhor amiga e sua irmã mais nova, ambas juntas a ela na casa da árvore, concordaram.

― Quem você acha que vai ser nosso novo professor de história? ― , a amiga, perguntou enquanto esperava , a irmã de , fazer sua jogada no xadrez.

― Desde que não seja aquele bobo do senhor Waters, eu vou ficar feliz. ― respondeu, ainda concentrada em seu desenho.

― Háhá! Ganhei! ― se vangloriava, fazendo bufar.

― Eu quero revanche! ― a loirinha protestou, formando um beicinho.

― Tudo bem, mas eu ganhei nas últimas três vezes. ― a mais nova replicou, mas cedeu ao desejo da outra.

Enquanto as meninas reorganizavam o tabuleiro e terminava seu desenho, elas ouviram passos pesados na escada do lado de fora e, logo mais, três batidas na porta.

― Quem é?! ― gritou.

― É o , me deixem entrar. ― ele pediu, provocando um rolar de olhos e um suspiro da irmã gêmea.

― Você não ‘tá vendo o cartaz de “não é permitido garotos” na porta? ― ela novamente perguntou.

― Não sou cego, Francie, mas eu ‘tô com tanto tédio, jogar Guitar Hero sozinho é muito sem graça. ― o menino se justificou, trabalhando para que sua voz parecesse triste e ele fosse visto como coitado.

― Vou com você. ― gritou para ouvir, mas logo se voltou para as outras meninas. ― Já terminei meu desenho.

― Ah, obrigado , você é a melhor. ― se atreveu a abrir a porta por alguns centímetros, mas sem ao menos ver o olhar da irmã, porém senti-lo, fechou ela rapidamente assim que a amiga passou.

e entraram na casa deste com passos apressados ao sentirem o cheiro de biscoitos assados, animados com a expectativa de comê-los.

― Mãe? ― o garoto gritou para encontrá-la.

― Estou na cozinha! ― ela respondeu com o mesmo tom.

Os amigos se entreolharam e sorriram, correndo até o cômodo que a mãe de indicou.

― Gente, eu já disse para não correrem pela casa! ― a mulher os repreendeu quando eles chegaram, fazendo as crianças ficarem cabisbaixas. ― Agora, me deem um beijo.

Os dois foram para cada lado dela e beijaram suas bochechas.

― Como está tudo na sua casa, ? ― ela perguntou quando voltou aos seus afazeres.

― Papai e mamãe andam brigando bastante. ― a menina respondeu na maior naturalidade, chocando a mãe do amigo.

― Ah, eu tenho certeza que eles vão se resolver. ― ela tentou a confortar.

― Eu acho que não. ― disse, novamente, com muita naturalidade e com uma expressão de paisagem.

Taylor quando encarando aquele tipo de situação ficava simplesmente transtornada. Se fosse ela tendo problemas com o marido, tentaria ao máximo não externar isso de forma tão intensa para os filhos como os costumavam fazer com as suas meninas. O casal eram seus amigos do coração, mas eles cometiam tantos erros quando se tratava de paternidade/maternidade que fazia Taylor sentir vontade de abraçar e para sempre.

― Bem, que tal vocês dois irem para a sala e assistirem um pouco de televisão enquanto os cookies assam, hein? ― ela abriu seu sorriso materno, acariciando os ombros do filho.

― O novo episódio de Feiticeiros de Waverly Place é agora! ― a menina se lembrou, causando seu amigo ficar tão animado quanto ela.

― Vamos! ― exclamou, apostando uma corrida até a sala.

― Não... ― Taylor iria repreendê-los, mas eles deixaram o cômodo antes de ela terminar, e ela abriu um sorriso bobo. ― corram.

Aquela poderia ser a milésima vez na sua vida que Taylor assistia os dois pequenos saírem correndo, mas toda vez que aquilo acontecia a memória de quando os dois eram menores do que seus cachorros de estimação e corriam com suas pernas curtas e gordinhas voltava para a sua mente. Ela amava a amizade que o filho e a vizinha tinham, e orava todos os dias para que aquele amor e cumplicidade entre os dois nunca mudasse.


SETEMBRO DE 2009



“Tudo que eu peço é que o meu marido me ligue e fale que chegará tarde para que eu não tenha que ficar aqui esperando que nem uma tonta!”

“Eu já disse que eu tentei, Katherine, mas o sinal do meu celular é muito fraco no escritório!”

“Isso é conversinha idiota e eu sei disso!”

“Você só está sendo paranoica.”

“Não, estou sendo eu! A eu que eu sempre fui, a que não queria uma vida familiar, que não queria todas essas coisas as quais você me arrastou!”

“Eu nunca fiz você fazer nada que se sentisse obrigada! Você faz a merda que quiser na sua vida!”

“Ah, por favor, não se faça de sonso, Harold!”

“Ok, então. Vá embora Katherine, saia dessa casa e pare de viver essa vida confortável que eu te dou, afinal você nunca tira sua bunda desse sofá sem ser nos momentos em que você vem me desprezar ou desprezar nossas filhas!”

“Vá para o inferno!”

“Logo depois de você!”


Essas eram as palavras, ou melhor, os gritos, que e tinham que ouvir todos os dias. Entretanto, à medida que os anos passavam, as brigas pioravam e as vozes aumentavam. Era o verdadeiro inferno para aquelas duas crianças.

Assim que o silêncio imperou, ouviu de seu quarto os típicos passos pesados de sua mãe após ela passar por uma situação que a irritava. Sentada no canto da parede abraçando as próprias pernas, ela quase pulou quando ouviu a maçaneta da sua porta.

― O que você está fazendo aí? ― a mãe questionou, colocando a mão no quadril.

― Estava tentando não ouvir os gritos. ― a garotinha respondeu, cabisbaixa.

― Você deveria estar fazendo seu dever de casa, . ― ela soltou o nome da filha com certo desprezo.

― Eu não consegui fazer! ― a pequena voltou a se justificar, fazendo a mãe revirar os olhos.

― Não jogue a culpa da sua incapacidade em mim, garotinha insolente. Agora, vá. ― Katherine ordenou, como se não conhecesse a filha e como ela reagiria depois daquilo.

― Não. ― cruzou os braços e fez bico, desafiando a mãe frente ao fato de ter sido ofendida.

― Sim, você vai! ― a mais velha agarrou o braço da filha, tentando arrastá-la até a escrivaninha dela.

― Para, você está me machucando! ― a menina reclamou e se debateu até que a mãe a soltasse.

Entretanto, quando isso aconteceu, ao invés da filha se acalmar, ela acabou gritando na cara da mãe e correndo para fora de casa, ignorando os berros da mãe.

Aquela não era a primeira vez que isso acontecia; era constantemente o alvo da própria mãe. Jovem demais para compreender os motivos para a mulher ser assim, além da falha da própria mulher de entender como se deve tratar uma criança, o relacionamento das duas era complicado e cheio de conflitos como aquele.

No meio da calçada, a pequena tropeçou com uma mulher alta, magra e com cabelos cacheados e loiros; sua vizinha e mãe de seus amigos.

, querida, o que aconteceu? ― Taylor agachou para ficar olho a olho com a criança.

― Minha mãe, ela... ― a menina era incapaz de formular uma frase com a tristeza e raiva que sentia. ― aí ela disse aquelas coisas e... eu fugi, e...

― Shh, calma. ― Taylor acariciou o cabelo castanho da pequena e enxugou suas lágrimas. ― Vem, eu vou te levar para casa.

― Não! ― se desesperou ainda mais. ― Por favor, tia, eu não posso voltar para lá! Não, não, não!

― Ei, olhe para mim. ― a mulher pediu, e a menina obedeceu, encarando os olhos azuis, carinhosos e maternos dela. ― Vai ficar tudo bem. Você confia em mim?

― Confio. ― ela assentiu lentamente, se acalmando.

― Então pegue a minha mão. ― Taylor pediu gentilmente, estendendo a mão. ― Tudo vai se resolver, você vai ver.

Assim que a obedeceu e as duas começaram a caminhar, Katherine apareceu com seus típicos saltos altos, óculos escuro e como se estivesse indo para um reunião de negócios quando na verdade não tinha para onde ir.

― Ah, Tay, sinto muito! ― ela se desculpou, rindo nervosamente, tentando se aproximar de , que fechou a cara novamente. ― Essa garotinha sabe ser bem dramática, desculpa se ela te incomodou.

Taylor abriu um sorriso cínico para a vizinha e voltou a se agachar na frente de , acariciando seus braços.

― Ei, querida, que tal você entrar na minha casa? O tio Louis pode abrir a porta para você e e Francie já terminaram os deveres deles e devem estar jogando vídeo game, tenho certeza que eles ficarão muito felizes em te ver. ― ela aconselhou, fazendo a menina sorrir e correr imediatamente para a vizinha.

― Por que você fez isso?! ― Katherine perguntou com indignação.

― Porque eu e você precisamos ter uma conversinha longe das crianças. ― Taylor mudou sua postura diante da amiga, com um olhar quase que ameaçador.

― Ela é a minha filha, Taylor. ― a morena se impôs, mas a outra não aceitou aquela posição.

― Sim, Katherine, ela é a sua filha, mas tudo que você faz ultimamente é a humilhar e fazê-la chorar! ― a reclamou. ― Estou cansada de ela chegar lá em casa, às vezes chorando, às vezes sentindo nada, porque Harold e/ou você fizeram ou falaram alguma coisa para deixá-la daquele jeito.

― Ela só está sendo dramática, Taylor! Honestamente, você realmente vai acreditar na palavra de uma criança de dez anos? ― Katherine parecia achar tudo aquilo um absurdo, como se tudo que a outra falasse entrasse por um ouvido e saísse pelo outro.

― Sim, eu vou! Eu sei que você e o seu marido passam por problemas, mas deixem suas filhas fora disso! ― comandou. ― Tanto quanto estão num momento importante do crescimento delas, estão quase na pré-adolescência, e o que elas sentem agora podem afetar elas por anos.

― A diferença é que a não é tão teimosa e chorona quanto a . ― Katherine bufou e cruzou os braços, mas Taylor não conseguia acreditar no que estava ouvindo.

― Porque ela é tímida, Katherine! ― Taylor estava chegando ao ponto de gritar. ― Só porque a é a filha não planejada, não quer dizer que você tem que compará-la com a irmã mais nova ou com qualquer criança, e também não quer dizer que você tem o direito de tratá-la desse jeito! Cada criança, cada filho é diferente e você tem que aprender a lidar com eles de um jeito ou de outro, mas se você só degradar e humilhar a desse jeito e relevar o seu favoritismo pela , isso só vai prejudicar vocês. vai perceber o seu jogo e aquela garotinha ama a irmã dela, não demorará para ela ficar contra você, também.

― Quem é você para me dizer o que fazer como uma mãe? A senhorita perfeição? ― a ainda estava incrédula com aquela conversa.

― Não sou a senhorita perfeição, nenhuma mãe é perfeita. ― Taylor já falava com mais calma. ― Entretanto, eu já estive no lugar da . O favoritismo dos meus pais para com o meu irmão era evidente, além de que eles sempre me deixavam para baixo para aumentar a estima dele. Depois de passar por isso, eu prometi que nunca faria aquilo com os meus filhos e, sei lá, parece estar funcionando. e frequentemente vocalizam o afeto que têm por mim e por Louis, têm boas relações com todos na volta deles, entre outras coisas boas. É claro, eles têm os defeitos deles como toda criança tem, mas nada que não possa ser corrigido com uma conversa ou com um bom trabalho.

Katherine ficou sem palavras e até um pouco constrangida, então Taylor decidiu que encerraria a conversa por ela mesma.

― Bem, vou enviar a para casa depois das nove. Por favor, reflita sobre o que eu disse. ― Taylor pediu, pousando a mão no ombro da outra afetuosamente antes de ir.

De fato, Katherine ficou semanas e mais semanas pensando naquela conversa. Meses, na verdade. Contudo, de nada adiantaria; e Katherine continuariam a ter uma relação conturbada por anos e anos a fio até que a mesma explodisse.

DEZEMBRO DE 2009
Taylor calmamente passava suas mãos pelo cabelo loiro da filha, tão parecido com o dela mesma, tentando formar o coque perfeito. As luzes do espelho do camarim afetavam um pouco seu trabalho por elas a cegarem parcialmente, mas nada poderia fazê-la parar.

― Mãe. ― a menina chamou a atenção.

― O que foi, meu amor? ― ela perguntou, ainda concentrada no penteado.

― Você sabe quando a vai chegar? ― perguntou de volta, com um toque de preocupação. ― A apresentação já vai começar.

― Não faço ideia, Francie. ― a mãe suspirou. ― Mas tenho certeza que chegará logo.

E, de fato, não demorou cinco minutos para a melhor amiga de aparecer já com o uniforme de bailarina e um penteado bem feito, além da expressão emburrada e os braços cruzados. Katherine vinha atrás dela, com uma expressão pior que a da filha. Exatamente naquela hora Taylor conseguira acabar o coque de e colocar a presilha, então a garota imediatamente saiu da cadeira e foi abraçar .

― Onde estavam? ― Taylor questionou.

se atrasou, não consegui achá-la por muito tempo até vê-la jogando beisebol com seu filho no seu pátio. ― Katherine sussurrou, ainda irritada.

― Por favor, me diga que você não falou ou fez nada para aborrecê-la. ― a loira suplicou, mas recebeu um silêncio como resposta e um virar de costas.

Pouco tempo depois, a professora apareceu para chamar as meninas para o palco, então o que restou para as mulheres foi se dirigirem à plateia e aproveitarem a apresentação.

― Ei, o que aconteceu? ― Louis, o marido de Taylor, perguntou para ela assim que a viu um pouco para baixo, carinhosamente colocando a mão no joelho dela.

― Não aguento como aquela garotinha é infeliz. ― ela respondeu, balançando a cabeça.

― Que garotinha? ― ele não entendeu.

.

― Ah. ― Louis jogou a cabeça para trás. ― Mas ela não é infeliz, ela está sempre correndo e brincando com os nossos filhos, sorrindo e rindo.

― É, quando ela está na nossa casa com os nossos filhos e a irmã dela. ― suspirou. ― Mas a relação dela com a Katherine está cada vez pior, e o relacionamento da Katherine com o Harold também.

― Querida, eles são os nossos amigos. ― ele olhou para os olhos dela, e ela os fechou.

― Isso não quer dizer que temos que achar o jeito com que eles tratam as filhas deles correto. ― ela se firmou.

― Eu sei, e eu também não acho, mas aquela família sempre foi complicada. Quando ela crescer, tudo vai melhorar, você verá. ― o marido tentou a tranquilizar e beijou sua testa. ― Agora, vamos aproveitar a apresentação.

Ela obedeceu, assim como todos ali presentes na plateia. Quando as meninas chegaram para apresentarem seu recital de natal, parecia que o mundo era apenas delas. O brilho, a neve falsa, as coreografias, estava tudo perfeito ― inclusive era algo incrível para meninas de dez anos e até menos. Parecia magia.

Então, ao ver o mini espelho dela e a melhor amiga da mesma tão concentradas e presentes ali no palco, interagindo uma com a outra e cooperando, Taylor sentiu que, mesmo que demorasse muito tempo, tudo ficaria bem, assim como seu marido disse. Elas tinham uma a outra, além dos outros amigos. Aquelas amizades não seriam passageiras; a cumplicidade e o amor que aquelas crianças tinham era infinito e definitivamente só cresceria com o tempo.

Tudo ficará bem.

Ela tinha que acreditar nisso.



Capítulo 2

MARÇO DE 2013



Com o corpo cheirando a cloro mesmo depois de um banho rápido no vestiário, caminhava pela escola depois do seu treino de natação, com o objetivo de apenas pegar o ônibus e ir embora. Contudo, um evento mudou sua intenção.

No corredor, uma criatura esguia se encolhia no banco ao lado dos armários, pintando um livro para colorir. Uma criatura que conhecia muito bem – alguns diriam que até demais. Ela levantou seu rosto e o olhou fixamente com seus olhos castanhos e carinhosos.

― O que você está fazendo aqui ainda, ? Achei que a sua detenção fosse só até às quatro. ― ele perguntou para a melhor amiga, intrigado.

― Eu... só não quero ir para casa. ― a garota deu de ombros, suspirando. ― Minha mãe entrou com os papéis do divórcio e aparece lá em casa todos os dias para pegar as coisas dela aos poucos para o hotel onde ela está se hospedando, e toda vez que ela aparece e meu pai está lá eles brigam como dois animais de diferentes espécies na floresta competindo pela presa.

― E a ? ― sentou ao lado dela no banco.

― A situação inteira está estressando ela também, mas você sabe, ela é a . ― entortou os lábios. ― Ela está fingindo que não está lidando com isso, colocando as mãos no ouvido e tentando proteger a visão dela de que o mundo continua perfeito.

― Bem, você está meio que fazendo a mesma coisa que ela, você só não está em casa para tampar as orelhas. ― ele tentou ironizar um pouco, mas tudo que recebeu foi um olhar torto da garota.

― Estou lidando muito bem com a situação, muito obrigada. ― ela tentou demonstrar confiança, mas tudo que o viu foi tristeza nos olhos dela; afinal, você não passa uma vida inteira ao lado de alguém sem aprender toda a sua linguagem corporal. ― E é melhor que eles se divorciem, prefiro isso a ouvir os gritos deles todo santo dia.

Kat. ― ele a chamou pelo seu apelido carinhoso, adaptado do chocolate preferido da menina, olhando diretamente nos olhos dela.

. ― ela encarou os lindos olhos azuis-esverdeados dele de volta, mas com uma cara de paisagem.

― Você não precisa fingir para mim que não se importa. Não para mim. Eu sei que você se importa.

― Vou me afastar de você. Você me conhece perigosamente bem. ― apontou para ele e assumiu um tom humorístico que funcionou, já que o garoto riu antes de tirar o dedo dela da frente dele e colocar seu braço na volta dos ombros dela.

― Mas esse é exatamente o ponto, já que eu te conheço perigosamente bem, você não pode se afastar de mim, se não eu conto todos os seus podres. ― retrucou com a mesma tática, mas não demorou para voltar ao seu tom normal. ― Ei, que tal ao invés de ir para sua casa, você vai para a minha comigo agora? Você pode fofocar com a ou fazer seja lá o que vocês duas fazem, depois jogar CS comigo e assistir 10 Coisas que Eu Odeio em Você quantas vezes quiser.

― Você vai deixar eu explodir as galinhas no CS? ― ela fez um beicinho convincente.

― Qualquer coisa para te agradar. ― ele encolheu os ombros e fez uma careta conformada. ― Ah, e chame a para ir também.

― Se você continuar sendo um amigo tão bom assim eu vou ter que te assassinar para não ficar em dívida com você, afinal nunca chegarei ao seu nível. ― ela o empurrou levemente com o braço e olhou para ele com carinho. ― Obrigada.

― Ei, esses quatorze anos de amizade têm que servir para algo, certo? ― parecia mais tímido após o agradecimento e o olhar lançado em sua direção.

Quase quatorze. ― o corrigiu.

― Ah é, ainda lembro do dia em que você nasceu, 17 de julho de 1999, uma terça-feira adorável...

― Era um sábado, . ― ela riu da palhaçada dele.

― Shh, não estrague a memória falsa do meu eu com seis meses de idade. ― ele continuou brincando, e os dois ficaram cerca de mais dez minutos conversando dentro da escola antes de ir para a casa do garoto.

De algum jeito, mesmo depois de tantos anos de amizade, a vida deles só pareciam ficar cada vez mais interessante no ponto de vista um do outro. Ao invés de se cansarem, queriam passar cada vez mais tempo juntos. E, é claro, suas idades precoces e o fato de se conhecerem a vida inteira os cegou acerca dos motivos verdadeiros por um bom tempo, mas isso nunca os impediu de buscarem o que queriam: o bem-estar um do outro.


SETEMBRO DE 2013



Ainda nem era oito da manhã da manhã de um sábado, mas já estava com seu nariz enfiado nos livros. Ela gostava da calmaria das manhãs dos fins de semana, já que sua irmã mais velha e seu pai acordavam mais tarde e não faziam algum barulho que poderia distrai-la ― intencionalmente ou não, afinal era uma fã de colocar som alto na hora que a mais nova estivesse estudando, apenas para provocá-la.

Entretanto, aquele não era apenas qualquer dia. Então, não demorou muito para que Harold aparecesse com toda sua graça usando um roupão e com seus cabelos castanhos ― que foram logo herdados pelas filhas ― completamente bagunçados.

― Bom dia, aniversariante! ― o pai exclamou e a tirou do sofá para abraçá-la com uma força inacreditável que quase sufocou a própria filha. ― Como você está se sentindo com treze anos?

― Do mesmo jeito que eu me sentia com doze. ― ela riu com o entusiasmo dele tão cedo.

― Mas você é uma adolescente agora! Não está sentindo nenhuma vontade de colocar piercings ou se tatuar sem a minha permissão? ― ele brincou enquanto ia até a cozinha para fazer o próprio café.

― Ainda não, mas quando eu quiser fazer essas coisas eu te informo. ― assentiu, ainda rindo.

― Quais serão nossos planos para hoje? ― Harold perguntou quando sentou na mesa do café, fazendo a garota fechar o livro que estava lendo ajeitar a própria postura no sofá.

― Eu estava pensando em nós três irmos para o shopping com os . ― ela respondeu, expondo a sua ideia.

― Acho que é um ótimo plano. No Westfield?

― É claro.

― Só porque ele tem sua livraria favorita. ― ele disse em um tom de como já sabia a resposta dela, ironizando o hobby da filha.

― Ei, não posso fazer nada se você falou que me daria todos os livros que eu quisesse. ― deu de ombros e fez uma expressão convencida.

Dez dos livros que você quer. ― ele corrigiu.

― É, tanto faz. ― ela imitou uma voz desinteressada.

― Você adora explorar seu pobre paizinho. ― Harold se fingiu de vítima.

― Não tanto quanto você adora explorar seus clientes. ― a garota levou a brincadeira a um patamar maior, fazendo o pai ficar indignado, mas ainda em um nível humorístico.

― Você está ficando cada vez mais parecida com a sua irmã. ― ele revirou os olhos e riu por mais alguns segundos, até que ficou sério e, até, um pouco sem jeito, preocupando a filha.

― O que houve, pai? ― ela perguntou.

Harold respirou fundo. Ela sabia que suas filhas odiavam falar sobre o divórcio, principalmente , que adorava fingir que nada estava acontecendo. Contudo, era um assunto que ele já tinha adiado e evitado por muito tempo. Ele pegou a mão delicada da garota e olhou nos grandes olhos azuis dela, réplicas exatas dos olhos de sua ex-esposa.

― Então, você sabe que o processo do divórcio entre eu e sua mãe já está acabando, certo? ― ele começou a falar.

― Sim, graças a Deus. Não aguento mais isso. ― deu uma risada que era um misto de alívio e nervoso.

― Entretanto, ainda temos alguns assuntos a resolver. ― Harold revelou, já assustando um pouco a pequena. ― Seu tio Louis, como meu advogado e amigo, me aconselhou a fazer isso há muito tempo, mas eu adiei tudo isso porque eu sei como você não gosta de falar sobre o divórcio.

― Desembucha logo, pai. ― a garota parecia cada vez mais assustada.

― A juíza quer falar com você. ― ele finalmente disse, mas sem explicar muito.

― Por quê? ― franziu a testa.

― Porque eu e Katherine estamos brigando por sua guarda. ― Harold jogou a bomba, chocando a menina mais do que tudo, mesmo ela já tendo a noção de que era aquilo que acontecia naquele tipo de processo. ― Na maioria das vezes os juízes ficam ao lado da mãe nesses casos, mas no nosso tudo está muito acirrado. Então, a juíza quer falar com você em particular e a sua decisão vai meio que "desempatar" tudo isso.

― Uau. ― a menina parecia surpresa, mas não de um jeito bom. Ela fechou os olhos e seu rosto se avermelhou, acompanhando a confusão mental que ela estava sentindo. ― E-eu não sei como me sentir sobre isso.

― Não estou pedindo para você tomar uma decisão agora. Na verdade, a juíza ainda não definiu uma data, então assim que isso acontecer eu te falo. ― ele suspirou, não gostando de vê-la naquela situação. ― Mas eu ainda preciso te pedir mais uma coisa.

― O quê?! ― ficava cada vez mais assustada com a situação.

― Por favor, não fale nada sobre isso para a sua irmã. A Katherine não pediu a guarda dela. ― contar a verdade era doloroso para Harold, e a comprovação daquilo era as inúmeras gesticulações que ele fazia. ― Você sabe como o relacionamento delas já é complicado, isso pode piorar tudo.

― Ela não quis a ? ― a filha parecia ainda mais confusa do que antes.

― Acho que é por isso que eles estão tão indecisos sobre a sua guarda, já que ela quer te separar da irmã. ― explicou. ― Mas você promete que não vai contar para a ?

― Eu... ― antes que pudesse dizer algo, ela foi interrompida.

― Por favor, vocês não precisam fazer nenhuma promessa.

A dona daquela frase e daquela voz estava parada no primeiro degrau da escada, com os braços cruzados, vestindo um pijama de Harry Potter e com o cabelo liso e comprido extremamente bagunçado. Harold e olharam para com uma expressão de “nós-podemos-explicar”, mas ao a notarem o jeito que ela se portava, puderam ver que ela parecia se sentir vazia.

― A minha mãe não me quer. Está tudo bem. ― ela mostrou um sorrisinho sem dentes e caminhou até a cozinha, pegando um saco de biscoitos e comendo sentada no balcão. O pai e a irmã a seguiram, não sabendo o que esperar do “furacão ”, como às vezes a chamavam quando ela estava em um dia ruim.

― Está tudo bem se não estiver tudo bem, filha. ― Harold tentou a consolar, mas a garota ainda assim não demonstrou alguma emoção.

― Não, sério, eu prefiro que seja assim. Você pode imaginar se ela quisesse a minha guarda e ganhasse? Nah, morar aqui com você é muito melhor. ― era difícil distinguir se estava falando com o pai e a irmã ou com si mesma, tentando se convencer a não sentir aquela situação.

... ― a irmã mais nova a olhou com aqueles olhos grandes e tristes, sentindo pena dela, mas a outra não aceitou aquilo.

― Eu já disse que estou bem! ― exclamou, quase gritando. ― Eu e aquela... mulher não temos um momento bom desde que eu tinha, sei lá, uns quatro anos.

― Ela ainda é a sua mãe. ― Harold afirmou, como se dissesse que não a culparia se ela ficasse triste ou brava ou com qualquer outra emoção.

― Eu não me importo. ― ela disse, cabisbaixa e esfregando as mãos para tirar o farelo dos biscoitos, saindo do balcão e se virando para a irmã. ― Que horas vamos para o shopping?

― Hã... meio-dia, eu acho. ― respondeu, ainda confusa com a reação da mais velha.

― Ótimo. ― fez o caminho de volta para a escada e se pendurou no corrimão, virando o pescoço para o pai e a irmã mais nova, que a olhavam ainda sem acreditar em como ela estava lidando com a situação. ― Vocês não precisam se preocupar comigo, não tem necessidade.

Os dois assistiram a garota subir até o quarto novamente, olhando entre si e dando de ombros, como se realmente começaram a achar que ela estava tudo bem quanto aquilo. Levaria muito tempo até que qualquer um conseguisse realmente lidar com a adolescente.

(...)
Algumas horas depois


Já no shopping há algumas horas, depois de comerem quilos e mais quilos de comida, depois de terem visto um filme e depois de terem acompanhado na sua jornada incansável atrás dos livros perfeitos, os e os se dispersaram pelas lojas; Taylor, e foram comprar algumas roupas, Louis e Harold foram para uma loja de eletrônicos e e foram para uma papelaria comprar algumas coisas para a escola.

estava olhando pelas araras perto do provador, onde a melhor amiga se encontrava, provando roupa atrás de roupa. A matriarca dos estava no banco na frente da entrada, analisando cada look da filha, dando sua opinião e olhando para a mesma como se ela fosse a criatura mais linda do universo.

Mesmo já com quatro semanas de aula, o baile de boas-vindas aconteceria em apenas alguns dias depois. já tinha comprado seu vestido há muito tempo, mas , como uma perfeccionista e se esforçando para fazer parte do comitê quando entrasse no ensino médio, estava muito exigente com o dela. Ela já procurava sua vestimenta desde as férias de verão, mas nada parecia ser o suficiente.

Então, ela experimentou vestido após vestido naquela loja, sempre pesando os pensamentos da mãe sobre os mesmos, até que achou um perfeito; era verde, com os ombros caídos, a parte de cima justa e a parte de baixo com uma saia mais solta. saiu da cabine e foi mostrá-lo para a mãe, e foi justamente nessa hora que desviou seu olhar das camisetas da Disney para observar a cena da amiga.

Era uma cena simples; Taylor foi até a filha, ajeitou as partes do vestido que ela vestiu mal, alisou-o, deu um passo para trás e a observou. Seus olhos se encheram de orgulho, suas mãos se juntaram e sua boca se contraiu com a vontade de chorar ao ver tão linda, e tão parecida com ela, daquele jeito. também se emocionou. Era apenas um vestido, apenas um baile, apenas um momento simples entre mãe e filha, mas aquilo ainda assim conseguiu abalar de um jeito que ela nunca se abalou antes.

― Ei, , o que você acha? ― falou mais alto para a amiga ouvir e deu uma voltinha, mostrando o vestido para ela.

― Você está... perfeita. ― ela respondeu com lágrimas nos olhos. Ela realmente estava falando a verdade e o que pensava, mas as lágrimas não eram por causa disso. ― Olha, eu só vou... tomar um ar, ok? Eu já volto.

notou que a amiga estava mexida com algo, então depois de assisti-la indo embora da loja, ela fez de tudo para sair daquele vestido o mais rápido que pudesse para procurá-la.

Em sua caminhada até a saída do shopping, passou pelo corredor da papelaria em que e estavam. Já que ele já estava pagando pelo seu produto no caixa, que era virado para a porta, ele pôde ver aquela figura tão parecida com a sua melhor amiga passando por ali com uma expressão arrasada. Sem se delongar, o pagou o que deveria pagar e correu para confirmar sua suspeita de que aquela garota era .

No estacionamento, ele a encontrou com a mão encostada em uma parede, olhando para o chão, tentando chorar baixinho para que ninguém a notasse. se aproximou e tocou no ombro dela com delicadeza.

? ― ele a chamou.

A garota se virou para o amigo. Seus olhos marejados e lápis de olho borrado denunciavam a situação. Olhando para ele, a garota se sentiu confortável o suficiente para tirar a mão da parede e correr para um abraço. não liberou uma palavra de sua boca, e também não. Aquela demonstração de carinho bastava.

Poucos minutos depois, apareceu com uma expressão preocupada, os olhos arregalados e a testa franzida. Ela encarou o irmão, ainda com os braços na volta de , e moveu os lábios em uma pergunta: “O que aconteceu?”. O gêmeo, como resposta, apenas deu de ombros, indicando que não sabia.

percebeu outro corpo ali, então saiu do abraço de e olhou para a melhor amiga como se estivesse arrependida.

― Sinto muito pelo meu showzinho na loja. ― disse.

― Que showzinho, ? Você fez absolutamente nada. ― acariciou o braço dela. ― Você quer nos contar o que houve?

A respirou fundo, tentando achar forças para responder àquela pergunta. Ela fechou os olhos e deixou algumas últimas lágrimas caírem antes de abrir a boca.

― Meus pais, o divórcio, minha mãe, ela... ― a garota, que recebia um afago em seu cabelo por parte de , se enrolava entre as palavras, sentindo cada pensamento que passava por sua cabeça antes de falar. ― Ela pediu pela custódia da , mas não quis a minha. E eu nem sei por que estou triste, afinal se ela ganhasse e eu morasse com ela seria um verdadeiro inferno, mas...

Com aquelas palavras, começou a chorar novamente, mas ainda mais do que antes.

― Ela ainda é a sua mãe, . ― repetiu as palavras que Harold disse para a filha horas antes.

Sobrecarregada pelos próprios sentimentos, abraçou os dois melhores amigos e continuou chorando em silêncio, encerrando o assunto com apenas uma pergunta:

― Por que a minha mãe não me quer?


OUTUBRO DE 2013



Cerca de um mês passara desde o aniversário de . Desde aquele dia, ficou de detenção três vezes, estava surtando por causa das provas de meio de ano letivo, ganhou um campeonato regional de natação e , além de estar sentindo o mesmo que , foi para o tribunal conversar com a juíza sobre o divórcio dos pais.

Lá, ela respondeu a todas as perguntas que lhe fizeram; disse todas as coisas formais, falou que tinha uma boa relação com a família e que não possuía uma preferência emocional entre o pai e a mãe. Em um ponto da conversa, a juíza a questionou sobre e o relacionamento dela com os pais, pois ela tinha ficado curiosa com a falta de luta pela custódia da irmã mais velha. não escondeu a verdade ― revelou que o relacionamento da irmã com o pai era bom, e que com a mãe era terrível. Ela também respondeu sobre com quem ficaria mais confortável morando, onde ela se sentia mais segura e amada.

amava a sua mãe. Sabia que a mulher tinha defeitos, mas tentava relevá-los; não era uma fã de intrigas. Odiava o jeito com que ela tratava sua irmã mais velha, mas tinha seu próprio relacionamento com Katherine, e ele não era ruim. Entretanto, aquela era uma situação em que a verdade precisava ser nítida, e ela sabia que seria mais feliz morando com o pai.

Então, as decisões finais chegaram; já que quando casaram no civil o regime era de separação total de bens, essa parte não foi difícil. A casa ficou com Harold, um apartamento no centro de San Francisco ficou com Katherine, dois dos três carros que eles possuíam também ficaram com Katherine. Já quanto à custódia, ficou com Harold, como havia sido seu desejo.

Menos de uma semana depois do divórcio, Katherine foi para a casa do ex-marido para buscar sua última caixa de pertences. Na hora do dia em que apareceu, Harold ainda estava trabalhando e estava em um grupo de estudos, então restou para abrir a porta.

― Oi. ― a mãe a cumprimentou sem jeito, abrindo um sorriso amarelado.

Sem cumprimentá-la de volta de um modo verbal, abriu mais espaço na porta para que Katherine entrasse.

― O papai deixou sua caixa embaixo da escada. ― revelou, completamente inexpressiva.

― Muito obrigada. ― ela agradeceu pela informação. Ao notar a frieza da filha, Katherine decidiu agir imaturamente e também ativar seu orgulho, entrando na casa de nariz empinado e com um ar autoritário.

cruzou os braços e nem se incomodou em fechar a porta da entrada. A garota ficou apenas assistindo a mãe procurando pela caixa e carregando-a “isso é o mais próximo de um trabalho braçal que essa mulher vai chegar”, pensava ela.

Enquanto observava a adulta de cabelos pretos e roupas da moda em sua frente, não conseguiu evitar ouvir aquele pequeno martelo em sua mente, batendo de novo e de novo com o pensamento “Minha mãe me odeia. Ela não me quis. Ela nunca quis”. Aquilo só a aborrecia mais em uma situação que já era severamente desagradável.

― Você está pronta? ― a adolescente perguntou com impaciência.

― Sim. ― Katherine suspirou e pegou todas as caixas que precisava, e nem se incomodou em ajudá-la.

― Bem, nos vemos em breve. ― cordialmente se despediu quando a mulher não estava nem perto da calçada.

― Acredito que sim. ― novamente, Katherine abriu seu sorriso falso sem dentes. ― Diga um “olá” para a sua irmã, por favor.

Sem falar mais nada, apenas assentiu ao favor da mulher e nem esperou até ela chegar no carro, batendo a porta na cara dela. Mesmo com aquele “te vejo em breve”, demoraria anos para aquelas duas se encontrarem novamente. A relação das duas foi eternamente prejudicada depois do processo da custódia de . Tantas coisas haviam acontecido antes disso, mas aquilo foi o estopim.

Essa é a versão resumida da história da família . À medida que as meninas foram ficando mais velhas, mais coisas foram reveladas, mas nada que pudesse reconstruir ou reparar a relação entre mãe e filha mais velha. Algumas coisas na vida tentam nos quebrar intencionalmente, apenas para que não tenhamos mais como ser consertados. seria eternamente um espírito quebrado quando se trataria de assuntos familiares, e não havia cola ou marceneiro no mundo que fosse capaz de recuperar aquele espírito.



Capítulo 3

JULHO DE 2014



Aquele deveria ser o dia mais perfeito do ano até aquele momento. O céu azul, o sol brilhando como nunca, um calor suportável e a natureza em seu ápice da beleza.

Era tradição entre os e passarem algumas semanas do verão no sítio da segunda família. Quando os pais ainda não eram pais, apenas quatro universitários aproveitando a vida, Harold herdou aquele sítio de seu avô, mantendo o território como um “escape” de sua rotina e um segredo que contou apenas para os melhores amigos.

Com o nascimento dos gêmeos, de e, logo depois, de , o chalé dentro do sítio se tornou uma casa cheia de quartos, quase uma pousada. Nenhum verão se passou sem cada uma das crianças gritarem nos ouvidos dos adultos “que dia nós vamos para o sítio?”. Eles já não eram mais crianças, mas a insistência continuou.

Contudo, era a primeira vez que , e não estavam particularmente animados para a viagem. Os três apareceram com características parecidas: os cabelos levemente bagunçados, os olhos cobertos por óculos escuros e os rostos extremamente inchados.

A razão para aquilo era o aniversário da mais velha no dia anterior. Em segredo, os três adolescentes saíram para beber com suas identidades falsas recentemente confeccionadas, pulando as janelas de suas respectivas casas em um horário em que já deveriam estar dormindo. Os pais não viram a ação durante a madrugada, mas com certeza suspeitaram de algo quando o "trio maravilha" sorrateiramente apareceu.

― Quem está animado para essa viagem?! ― a mãe dos gêmeos apareceu com seu sorriso radiante e sua animação que, embora na maioria das vezes bem-vinda, foi um gatilho para a frustração dos filhos e da amiga destes.

― Yay... ― eles sincronicamente “comemoraram” com as vozes arrastadas.

― Vocês ficaram embriagados do refrigerante que tomamos ontem no restaurante, crianças? ― o pai de e espertamente perguntou, não conseguindo ser enganado pelo “disfarce” dos jovens.

― Só fiquei conversando com eles por mensagem até tarde papai, só isso. ― a aniversariante de outrora tentou se justificar, mas não obteve sucesso.

― Qualquer um que cair nesse truque fajuto de vocês três é um tolo. ― Louis expressou, jogando algumas malas na mini van. ― Vocês estão de castigo.

― Mas não fizemos nada, papai! ― a voz alta e estridente de fez a própria ficar tonta.

― Sim, claro. ― Taylor riu ironicamente e olhou para o marido e para o amigo. ― Ei, vocês lembram quando estávamos no primeiro ano do ensino médio e pulamos o muro da escola para irmos beber depois que o irmão do Louis comprou fardos e mais fardos de cerveja para nós?

― Ah, é, bons tempos... ― Harold sorriu de lado com a lembrança e logo encarou a sua filha mais velha e os amigos dela. ― Depois disso, nossos pais nos castigaram por um mês. Mas já que nós planejamos essa viagem desde o fim da do ano passado e é uma tradição, o castigo virá assim que voltarmos para a cidade. D’accord?

D’accord, papai. ― respondeu, revirando os olhos por baixo de seus óculos escuros.

― Ok, agora vamos antes que durma aqui na calçada de tanto esperar. ― , a única inocente naquela história, se pronunciou.

O grupo não teve escolha além de obedecer a mais nova, entrando nos carros de cada família e rodando por San Francisco inteira até a zona rural, um caminho tão familiar quanto o de casa, causando um tédio extremo até a chegada no local.

A chegada não foi nada menos do que mágica, como sempre era. Os sete desceram dos veículos quase simultaneamente, tirando as malas e observando o ambiente.

O terreno era vasto, cheio de árvores, flores e arbustos de espécies diferentes. O barulho relaxante do lago que não ficava longe dali era possível de se ouvir, além do cheiro de um lugar longe da poluição ser agradável até demais. Para um grupo de pessoas que era acostumado com a vida agitada da cidade grande, aquilo não era nada mal.

― Finalmente. ― Harold disse assim que saiu do carro e inalou quase todo o ar presente.

― Ainda bem que você nunca foi viciado em cocaína. ― tirou os óculos escuros e caçoou dele, que revirou os olhos.

― Você deveria ser uma comediante, querida. ― ele divertidamente sugeriu para a filha, não mostrando expressão alguma.

― Papai, por favor, pegue a chave e vamos entrar. ― pediu, esperando ansiosamente para explorar a casa e o resto do sítio. Harold fez o que a filha mais nova queria, delicadamente abrindo a porta da frente do sobrado.

― Não se esqueçam que o quarto perto do banheiro do segundo andar que costumava ser dos gêmeos está sendo reformado, então vocês quatro dormirão juntos. ― o relembrou, se dirigindo aos adolescentes.

― Mas por que vocês três não ficam no mesmo quarto? Ficaria menos cheio do que nós quatro. ― perguntou, sugerindo que os pais ficassem todos juntos.

― Porque nós somos os adultos, filho. ― Louis sorriu de lado e com certa autoridade, rindo das crianças.

― Totalmente injusto. ― cruzou os braços e fez seu típico biquinho de menina mimada.

― Por que vocês estão reclamando? Assim vocês não terão que fazer suas festas do pijama escondido de nós, como tem sido nos últimos anos. ― Taylor passou a mão na bochecha da filha e riu da reação das crianças ao terem seu segredo revelado. ― Agora desfaçam as malas e aproveitem as férias, pestinhas.

Os jovens acabaram obedecendo o pedido da única matriarca presente, subindo as escadas de madeira perto do sofá da sala de estar, onde eles se encontravam anteriormente, andando pelo corredor estreito até chegarem ao cômodo que dividiriam.

O quarto agora, obviamente, tinha duas camas a mais do que antes. Um par ― o original ― encontrava-se com as cabeceiras juntas à parede, de frente para a porta, enquanto outro par estava com as cabeceiras a cada lado da janela que dava de frente para o campo, com uma vista distante do lago. Era apertado, mas nada que quatro adolescentes não pudessem se acostumar ― especialmente adolescentes que gostavam tanto uns dos outros.

― Eu quero a cama da janela! ― e gritaram ao mesmo tempo, fazendo com que eles rissem de si mesmos e se entreolhassem, ficando inexplicavelmente de bochechas rosadas.

― Ok, então, cada um fica com uma cama da janela. ― riu e fez uma careta, achando estranho a sintonia dos dois. ― Eu e ficamos com as da parede.

― Muito obrigada, meninas. ― a mais velha atirou um beijo de agradecimento para a irmã e a melhor amiga, colocando a mochila que carregava em cima da cama que queria.

fez a mesma ação que a amiga, logo fazendo a volta na cama e olhando para o mundo através da janela. Uma imensidão verde invadiria seus olhos se não fossem as nuvens carregadas invadindo um céu anteriormente ensolarado.

― Será que vamos para o lago hoje? ― o garoto perguntou com preocupação, devido a sua vontade insaciável de entrar na água.

― Cara, você é um peixinho. ― a gêmea não o respondeu, apenas adicionou o comentário enquanto ria e encostava os braços no ombro dele, acompanhando sua visão para fora da janela. ― Nós mal chegamos e você já quer ir para as profundezas da água.

― Eu estou com saudades dos meus treinos da natação. ― ele se justificou, formando um biquinho divertido com seus lábios.

― Você e a devem ser os únicos que sentem falta da escola. ― fez uma careta, mas também mostrava-se risonha.

― Isso é porque eu e ela somos muito dedicados aos nossos estudos. ― disse com certo convencimento, andando até a cama em que estava deitada, já com um livro em suas mãos. Ele sentou ao lado dela e passou o braço pelo seu corpo. ― Estou certo, pequena ?

― Não. ― ela propositalmente respondeu de maneira simples e fria, com os olhos ainda fixos no papel, levantando-os levemente alguns segundos depois para rir de forma escondida.

― Vocês s não são engraçadas! ― ele foi aumentando o tom de voz conforme se aproximava da amiga para dar-lhe cócegas, deixando-a sem conseguir parar de rir, se contorcendo como nunca e também brava por causa dos outros dois itens.

― Eu te odeio, ! ― gritou quando as cócegas pararam, batendo nele com o livro que ela anteriormente lia.

― Ah, qual é, é impossível me odiar. ― o garoto ria histericamente enquanto se defendia dos ataques da amiga.

― Nah, é bem possível. ― disse, assentindo.

― É, bastante. ― falou ao mesmo tempo que a melhor amiga enquanto ela se entreolhavam seriamente, se concordando.

― Vocês duas são simplesmente... ― aproximou-se delas lentamente, formando garras com as mãos. Já sabendo o que aconteceria, as duas andavam para trás. ― horríveis!

Ele as alcançou, pegando as pernas delas com cada braço e as colocando em cada ombro, como se estivesse carregando dois sacos de batata. As garotas gritavam e imploravam pelo chão, mas ele não obedecia, achando aquilo o máximo.

― Nos solta, seu brutamontes! ― gritava enquanto eles desciam às escadas, dando pequenos socos nas costas dele, que era onde ela alcançava.

― Acho que seria um tanto quanto perigoso eu soltar vocês aqui, não? ― ria, se deleitando daquela situação ao extremo.

― Você é desprezível, irmãozinho! ― gritava de maneira com que sua voz ficasse muito fina, uma maneira que ela sabia que o irritaria.

― Ei, o que está acontecendo? ― Taylor perguntou assim que eles desceram, acompanhada dos outros pais.

― Elas estão de castigo. ― o filho dela respondeu, com uma face séria.

― Ah. ― Louis balançou a cabeça, como se não estivesse surpreso.

― Podem continuar. ― Harold parecia nada interessado.

― Vocês são os piores pais de todos! ― gritava enquanto era levada pelo irmão até o sofá, onde foi atirada junto com a melhor amiga do jeito mais desastrado possível, causando risadas pela parte de todos os presentes.

― Nem se atreva a chegar perto de mim! ― avisou, erguendo o dedo indicador para , que se aproximava para sentar ao lado dela no sofá.

― Você é realmente uma figura, sabia? ― o garoto desobedeceu a ordem da amiga e sentou ao lado dela, passando o braço em sua volta. Contudo, aquilo não obteve efeito; cruzou os braços e olhou para a frente, fingindo não estar prestando atenção nele.

― Sim, eu sei. ― ela disse, inexpressiva.

― Eu ainda sou seu melhor amigo? ― mostrou olhos pidões, querendo buscar pelo perdão de forma bem-humorada.

olhou atravessadamente para ele e tentou evitar um sorriso. Sentada naquela posição, com as pernas e os braços cruzados, o cabelo liso e castanho sendo levemente atingido pela brisa que entrava pela janela e não conseguindo resistir aos encantos e graças do garoto ao seu lado, nunca pensou ter presenciado um momento tão lindo com ela quanto aquele.

― Talvez. ― ela respondeu, ainda tentando parecer séria.

sorriu levemente, olhando para ela como se apenas os dois estivessem presentes naquela sala de estar.

― Eu sabia. ― ele se inclinou ao lado de , falando baixinho e até de forma galanteadora, algo que não foi intencional e que ele só percebeu quando ela retribuiu o olhar docilmente, não demorando muito para descê-lo até os lábios naturalmente rosados e chamativos do amigo.

Eles rapidamente se afastaram, desajeitados e envergonhados, tentando acreditar que ninguém ali vira a cena. De fato, Louis e Harold naquele momento estavam preocupados demais escolhendo as cervejas que colocariam no freezer, mas Taylor e não puderam deixaram de notar o clima estranho que pairou sobre aquele cômodo, sorrindo uma para outra com a possibilidade de e estarem começando a gostar um do outro.

― Então... ― pigarreou, procurando pela atenção do irmão e da amiga. ― Vocês querem ir ao lago ou assistir um filme?

― Assistam um filme. ― Taylor pediu, sorrindo carinhosamente para os adolescentes. ― Começou a chover.

― Mas essa é que é a graça! ― protestou, mas recebeu um olhar autoritário da mãe.

... ― a voz dela acompanhou o olhar.

― Tudo bem. ― ele a obedeceu, suspirando.

― Vocês desfizeram as malas? ― Harold perguntou.

Os três adolescentes se olharam, tentando não rir com a mentira que contariam em seguida.

― Claro, papai, desfizemos. ― assentiu, com uma face risonha mas que tentava ser séria. O pai a encarou com desconfiança, mas decidiu deixar aquilo para lá.

Enquanto os adultos foram arrumar seus respectivos quartos, , , e ― assim que ela desceu para a sala após organizar sua parte do cômodo que dividiria com os outros três ― escolheram um filme para assistir dentro dos catálogos enormes da Netflix e da Hulu. Com protestos da parte de , decidiram assistir ao clássico “De Repente 30”.

― Como vocês acham que estaremos com trinta anos? ― perguntou, olhando pela roda dos amigos. O irmão estava abraçado com , estava sentada numa cadeira, encantada pelo filme que já assistira milhares de vezes e ela mesma estava deitada no sofá menor. ― Eu quero ser uma fotógrafa e estar casada com alguma pessoa rica e famosa.

― Eu quero ser uma neurocirurgiã bem-sucedida. ― respondeu de forma pomposa, completamente decidida sobre o que queria mesmo ainda não alcançando os quatorze anos.

― Eu espero estar trabalhando com algum tipo de Design e não sei se quero alguém ao meu lado, só o tempo dirá. ― , ao contrário das outras duas, foi reflexiva, deitando a cabeça no ombro do amigo, que se distraiu por alguns segundos com a imagem antes de responder à irmã.

― Não sei como quero estar. ― ele confessou, como se não estivesse ligando. ― Só... quero viver a minha vida.

― Sério? ― franziu o cenho, olhando diretamente para .

― Não pensa nem em ser nadador? ― a irmã perguntou, não sabendo sobre a indecisão do gêmeo mesmo convivendo todos os dias com ele.

― Natação é só um hobby para mim. ― ele disse. ― Talvez eu use como um jeito mais fácil de entrar na faculdade e conseguir uma bolsa, mas não pretendo nadar profissionalmente depois que me formar na UCLA ou em Stanford.

― Mas você não tem nenhuma pista sobre o que quer? ― também perguntou, impressionada ao estar na frente de alguém que não estava planejando o futuro, algo impossível na concepção dela.

― Tudo que eu sei é que eu não quero fazer o que os nossos pais fazem, que é Direito. ― se ajeitou no sofá e começou a enumerar as coisas que não queria. ― Nem Medicina, ou Engenharia, ou Administração. Nada dessas profissões mais “conceituadas” e tradicionais. Eu só quero fazer algo em que eu vou ser feliz e que fará diferença na minha própria vida... só não sei o que isso seria.

― Bem. ― voltou a falar depois de alguns segundos de silêncio, olhando carinhosamente para o . ― Só saiba que estaremos aqui para te ajudar a decidir e se encontrar.

― Obrigado. ― ele retribuiu o olhar, abrindo um sorriso genuíno e amoroso.

e se encararam, rindo dos irmãos e da óbvia atração que estava sendo construída ali.

― Do que vocês estão rindo? ― desviou a atenção de e observou as outras meninas com certa confusão.

― Nada. ― elas cessaram as risadas, mas não pararam de se expressar em como aquela situação foi estranha.

Deixando aquele assunto de lado, eles voltaram a assistir ao filme até o final. Sendo apenas cinco da tarde, eles decidiram que não desobedeceriam seus pais e não entrariam no lago, mas mesmo com o risco de chuva os adolescentes exploraram o campo aberto, sentando abaixo de uma árvore de tronco enorme apenas a alguns metros de distância da água. levou um livro, enquanto , e praticamente saquearam a geladeira e os armários com todas as comidas e bebidas que levaram.

― Então, agora que estamos sozinhos e longe dos nossos pais... ― abriu a boca assim que organizou todo o “piquenique”. ― Que noite foi essa?!

e assentiram com os olhos arregalados, lembrando de todos os acontecimentos, enquanto apenas ficava alheia ao que eles conversavam.

― Vocês conseguem acreditar que aquela garota achou que eu fosse um universitário? ― ele as relembrou de um momento que considerou glorioso, com os olhos brilhando.

― Deve ser porque sua barba cresceu antes da maioria dos garotos da nossa idade. ― a irmã dele sugeriu, enquanto a amiga parecia visivelmente desconfortável.

― Acho que foi só porque eu sou irresistível. ― atirou o cabelo que não tinha para trás, brincando com seu próprio convencimento. Aquilo fez e rirem um tanto quanto alto, mas apenas abriu um sorriso amarelo e passou a prestar atenção em seu salgadinho, preocupando o melhor amigo. ― , você está se sentindo bem?

A garota assentiu rapidamente e voltou a abrir um sorriso sem graça, sem falar algo.

Comemorar o aniversário com os melhores amigos indo para um bar pela primeira vez foi simplesmente incrível, mas eles estavam justamente falando sobre o seu momento menos favorito da noite. A imagem de se escorando com apenas uma mão na mesa em que uma ruiva lindíssima estava sentada com outras amigas que não lhe chamaram a atenção, flertando com ela, olhando para ela como se ela fosse a criatura mais linda do universo fez o estômago de embrulhar inexplicavelmente. Ela odiou lembrar daquele momento, mas não sabia o porquê ― tinha plena consciência de que o amigo virava cada vez mais paquerador, acompanhou a saga do primeiro beijo dele dois anos antes, assim como a de sua primeira paixonite, alguns meses antes, também.

― Eu só estou um pouco mal do calor, apenas. ― ela finalmente disse alguma coisa, não amenizando a preocupação dos amigos e principalmente de .

― Você quer voltar lá para dentro? ― ele perguntou, acariciando o braço dela.

balançou a cabeça negativamente.

― Acho que só vou ali no lago lavar o meu rosto. ― ela anunciou cabisbaixa, fazendo força para sair do chão.

Ela caminhou até a água, permanecendo e agachando em sua beira como um sapo, não encostando seus joelhos no chão e passando um esforço enorme para conseguir se manter fazendo força em suas coxas. Antes de pegar a água com a mão, parou para olhar para a sua própria reflexão distorcida do lago, consumida por sentimentos que ela nem sabia do que se tratavam. Os três que sobraram abaixo da árvore a cuidaram de longe; até colocou o livro para o lado, preocupada com a irmã. parecia tratar a água como sua terapia ― algo sobre como ela escorria em seu rosto a acalmou e fê-la refletir. Finalmente aliviada, ela voltou para seus amigos.

― Você está se sentindo melhor? ― perguntou, pousando a mão no ombro da garota.

― Sim. ― ela abriu um sorriso fraco. ― Vamos continuar.

Os quatro pegaram um tipo de comida e ficaram se encarando, sem saber o que falar. ficou mais envergonhada do que nunca, pensando que eles tinham captado seu ciúme, quando não foi o caso. Ela olhava para a toalha em que eles estavam sentados, de cabeça baixa, deixando seu cabelo longo atrapalhar sua vista e representar a sua vergonha.

― Então, como está a sua vida amorosa, ? ― a loira foi quem teve que falar com ela novamente.

― Praticamente inexistente. ― a deu de ombros, lambendo os dedos depois de terminar de comer uma laranja.

― Achei que você estivesse ficando com aquele Billy da turma de vocês. ― novamente deixou o livro de lado, curiosa com a vida da irmã.

― Só fiquei com ele uma vez. ― fez uma careta. ― Ele é um idiota, nunca namoraria alguém como ele. Na verdade, não sei se eu namoraria alguém.

― Por quê? ― dessa vez foi o dono da curiosidade, parecendo diretamente afetado pela declaração dela.

― Qual é o ponto de namorar? Ficar juntos por um tempo e casar? E se eu acabar como nossos pais? ― ela apontou para ela e para a irmã mais nova, logo mostrando um semblante triste. ― Não sei se eu seria capaz de sobreviver a isso.

― Mas existem tantos outros casais que ficam juntos até um dos dois morrer! ― exclamou com um tom romântico. ― E aliás, você não precisa se casar com alguém que você namorou no Ensino Médio.

― Nossos pais se conheceram no Ensino Médio. Os de vocês começaram a namorar no último ano e os nossos na faculdade. ― abraçou as próprias pernas e encostou o queixo nos joelhos. ― Não sei, acho que só tenho medo, sabe? Sentir algo tão forte por alguém só para essa pessoa um dia sair da minha vida... Por que vocês pensam que eu não sou próxima de ninguém além de vocês?

Com aquela pergunta que não precisava de resposta, os outros três se entreolharam, visivelmente desconfortáveis.

― Sinto muito, agora eu deixei as coisas estranhas. ― se deitou na toalha, colocando a mão no abdômen e deixando um dos joelhos dobrados. ― Esse definitivamente não é o meu dia.

De repente, ela sentiu alguém se aproximando. deitou a cabeça exatamente ao lado da cabeça da melhor amiga, mas o resto do corpo ficou ao lado contrário. Eles se olharam, e aqueles olhos azuis-esverdeados não representavam nada além de um carinho, amor e admiração profunda.

― Eu tenho certeza que você vai achar alguém incrível algum dia, , que faça você não sentir o que sente hoje. ― ele sorriu, acariciando o cabelo dela. ― E se não encontrar, você já é incrível por si só.

Surpresa com as palavras dele, permaneceu paralisada e sentia a sua respiração parar. mudou o lugar, mas isso não mudou a expressão enamorada da garota. Ela saiu da posição deitada e voltou a ficar sentada com as pernas cruzadas, tentando evitar olhar para e olhar para a natureza ou para as garotas, mas aquilo foi quase impossível.

Nas próximas semanas, seria uma fonte de enormes gatilhos para . Eles dividiam o quarto, sentavam lado a lado na maioria das refeições, iam para o lago juntos, praticavam exercícios juntos, mas sempre que ele olhava para ela com o mínimo de afeição, o que a garota sentia era algo parecido com o seu corpo desligando, deixando nada além de sensações tentadoras e instintos. Nas primeiras vezes que ela sentiu tais coisas, só conseguia pensar que era algo passageiro e que no próximo dia aquilo teria ido embora, mas ela não poderia estar mais errada.

tentou ignorar, evitar, negar. Contudo, no fundo mais escuro de sua alma, ela sabia que estava apaixonada por . Aquele mesmo que ela não saberia como seria uma vida sem ele ao lado, o que viu o bom, o melhor e o pior dela, o que compartilhou um berço, brinquedos e segredos com ela. Todas aquelas lembranças pareciam ter sido há milhões de anos, e tudo que ficou foi um sentimento devastador, um sentimento que ela achava tão errado, mas ao mesmo tempo tão certo.

Sua vontade era falar tudo que sentia, ir para o topo de uma árvore e gritar o que estava preso em sua garganta. Entretanto, o medo da rejeição dele e do julgamento dos outros fê-la ficar quieta por um longo tempo. Então ela enterrou aquela paixão a sete palmos do coração dela, contou para a ninguém até que ela sentisse que fosse uma boa hora.

Na verdade, lidou com aquilo muito bem. , por alguns dias, sabia que tinha algo de estranho, mas assim que a garota fez a decisão de deixar tudo debaixo dos panos, foi como se tudo voltasse ao normal novamente. Os momentos de falta de ar e de quase beijos ainda existiam, mas ela fazia o máximo para que aquilo não a consumisse.

No último dia antes de eles voltarem para a cidade, todos estavam em uma pressa terrível para irem para o lago, especialmente o garoto. Dessa vez, eles não iriam para a parte mais próxima da casa, mas caminhariam um bocado até a parte com a cachoeira. A única que não se encontrava na sala de estar para todos irem juntos era , que estava tendo dificuldades para amarrar o seu biquíni.

Impaciente, o subiu até o quarto e bateu na porta com certa força.

, vamos! ― ele estava irritado, mal podendo esperar para entrar na água.

― Estou indo, ! ― ela respondeu com igual irritação, mas baixou o tom. ― Só estou com um pouco de dificuldade aqui.

O garoto abriu a porta para ver no que poderia ajudar para ela ir mais rápido, mas se surpreendeu com a imagem a qual encontrou. estava em pé, em frente ao espelho tentando amarrar a parte de cima de seu biquíni rosa neon e preto. A expressão dela, um misto de concentração e frustração, com o lábio inferior sendo mordido e a testa franzida fez com que só quisesse ficar ali assistindo ela se arrumar ― junto com a imagem da brisa encostando em seu cabelo no dia em que eles chegaram lá, era uma das imagens mais belas que ele já vira na vida.

― Ei! ― ela chamou a sua atenção ao estralar os dedos. ― Se você quer que a gente vá logo, preciso da sua ajuda.

― Claro. ― ele disse baixinho, caminhando até ela.

O garoto ficou atrás dela e afastou seu cabelo longo. Ele olhou para o espelho que refletia a imagem dos dois ― a concentração de e a parte de baixo dos seus seios que era visível, e o rosto envergonhado de . Ele a tocou de maneira gentil, descendo suas mãos da parte dos ombros até o meio da coluna dela, pegando as pontas do tecido e as juntando com um nó e, depois, um laço. Ele não conseguia parar de olhar para a pele dela e o quão convidativa para os seus lábios ela parecia, e não demorou muito para que a garota sacasse o que estava acontecendo.

― Acho que precisamos ir. ― falou de maneira esbaforida, virando para ver o rosto dele.

― É. ― pigarreou, tentando sair da transe em que se encontrava anteriormente. ― Vamos.

pegou o macacãozinho de malha preto que usaria por cima do biquíni e que estava atirando em sua cama e o colocou nos ombros, andando pelo quarto e, antes de sair do mesmo, olhando para trás e sorrindo para o garoto, deixando perplexo e com a imagem do seu corpo, com o sentimento de querer mais e com o coração batendo mais forte. Naquele momento, a força da paixão já não vinha mais de apenas um lado. Naquele momento, os jogos realmente começaram.



Capítulo 4 - Parte Um

JANEIRO DE 2015



Com o toque das 16h, fez o último alongamento da sessão que seguia o treino das líderes de torcida. Como a chefe, ela dispensou todas as garotas e terminou o treino, esperando pela garota de cabelo castanho no fundo.

não lembrava muito bem como foi que a melhor amiga a arrastou para a equipe de líderes de torcida. era extremamente envolvida em todos os eventos da escola, em vários clubes, organizava todos os bailes e os yearbooks. Ela só lembrava que queria ajudá-la em algumas daqueles coisas, e foi assim que ela começou a frequentar a escola por mais 1h além do horário das aulas e a vestir um top e uma saia minúsculos feitos de malha.

― Você está pronta para ir? ― a loira foi até a melhor amiga, que estava sentada no chão gelado do ginásio.

― Sim. ― ela assentiu, sorrindo. ― Vamos até o ou direto para casa?

― Até o . Ele não tem uma carona e vamos ter que aguentar o cheiro de cloro no ônibus. ― fez uma careta de nojo e tremeu.

― É o aniversário de vocês, , não fique tão brava. ― a garota riu, pegando sua bolsa esportiva, que era quase maior que seu próprio corpo. ― Vocês precisam passar esse tempo juntos.

― Mas já passamos tempo juntos todo santo dia! Só porque é nosso aniversário não quer dizer que o sentimento mude. ― a protestou, já enquanto elas caminhavam pelo pátio e em direção à piscina coberta da escola.

Mesmo já estando suadas pelo treino, o vapor e a umidade do ginásio da piscina quando elas entraram invadiram suas narinas e suas peles, causando um certo desconforto assim como um certo relaxamento. O time de natação, tanto o masculino que treinava do lado direito, quanto o feminino que treinava do lado esquerdo, já parecia ter se dispersado e o treino acabado.

As garotas olharam ao redor, procurando pelo garoto, mas ele não parecia estar dentro de seu campo de visão. Entretanto, outra pessoa chamou a atenção de .

Uma das integrantes do time de natação saía da piscina de forma graciosa, com seu uniforme de nadadora que denunciava todas as suas curvas, óculos de natação e uma touca de borracha. Ela retirou os últimos dois itens quando já estava com seus pés no piso da superfície, revelando seu cabelo cacheado e volumoso e seus olhos maravilhosamente castanhos.

O nome dela era Jane O’Hara. Ela tinha entrado naquele ano letivo, em setembro de 2014, vinda de Santa Barbara. Era colega de em três disciplinas: história, álgebra e ciências. Tinham virado grandes amigas, especialmente depois de virarem parceiras de laboratório na última disciplina citada. Entretanto, o jeito que o coração de batia sempre que via a novata não era característico de uma amizade.

― Oi. ― a voz masculina de seu irmão gêmeo atrás dela a assustou, mas fez a amiga ao seu lado sorrir.

ficou visivelmente desorientada e sem jeito, pigarreando e olhando para todos os lados.

― Hã... vamos para casa? ― ela perguntou a , ainda confusa.

― Claro, só deixa eu pegar as minhas coisas primeiro. ― ele a respondeu e apontou para o vestiário com o polegar. Antes de ir, porém, ele viu alguém se aproximar, ao contrário da irmã, que ficou olhando para ele. ― Oi, Jane.

Só aquele nome fez se virar, novamente, com muita intensidade e surpresa.

― Oi, gente. ― a garota anunciada por os cumprimentou e se virou apenas para os gêmeos. ― Ouvi dizer que hoje é o aniversário de vocês, parabéns!

― Muito obrigado. ― o agradeceu, e deu um leve empurrão na irmã, tentando fazer com que ela saísse da transe em que estava, devido a presença de Jane.

― Nós vamos dar uma festa mais tarde, você quer ir? ― a convidou assim que recuperou seus sentidos.

― Claro! ― a menina parecia entusiasmada. ― Onde será?

― Na nossa casa, Avery Street número 30. ― a loira lhe deu o endereço, fazendo a outra abrir um enorme sorriso.

― Estarei lá! ― disse, logo se afastando para se despedir. ― Nos vemos mais tarde, então.

― Tchau. ― parecia lastimada em dar-lhe aquele até adeus, mesmo sabendo que não demoraria para vê-la novamente.

e se olharam, rindo das reações apaixonadas de . A loira olhou para os dois com cara de paisagem.

― É, como se vocês tivessem o direito de falar de mim. ― ela revirou seus olhos azuis-esverdeados e depois se virou para o irmão novamente. ― Vamos lá, pegue suas coisas, se não vamos perder o ônibus.

Ele obedeceu a irmã, caminhando com cuidado pelo chão molhado até o vestiário, voltando dois minutos depois com uma bolsa esportiva muito parecida com as bolsas das garotas, porém maior e de cor preta.

O trio foi até o ponto de ônibus e esperaram pelo veículo. Quando entraram, frustraram o motorista, o cobrador e os passageiros pelos seus cheiros de suor e cloro, mas eles mal pareciam se importar. Eles se sentaram nos lugares do fundo, os únicos que possuíam mais de dois assentos lado a lado, para que pudessem sentar juntos.

Eles começaram a falar sobre os planos para a noite. De alguma forma, conseguiu passar por cima da irmã e fazê-la aceitar uma festa simples em casa, ao invés de uma festa de dezesseis anos toda elaborada, em um salão e decorada de uma maneira que fariam as pessoas pensarem que apenas ela estava de aniversário. A casa ainda teria belos enfeites e até profissionais contratados para os drinks, mas desse jeito a festa ainda seria para os dois.

― O que os seus pais vão fazer durante essa festa? ― questionou, sabendo que uma celebração que envolvia e não seria algo inocente.

― Bem, nossa mãe contratou esses bartenders que só fazem drinks sem álcool, mas é claro que estaremos lá para batizá-los, e eles também nos ajudaram com a decoração. ― piscou.

― Fora isso, eles disseram que não vão interferir e que vão dormir na sua casa com o tio Harold e esperar que a casa esteja em pé quando o sol nascer. ― complementou, com um sorrisinho cínico.

riu e balançou a cabeça negativamente.

― Vocês são horríveis. ― disse.

― Só queremos nos divertir um pouquinho. A vida é curta. ― deu seu sorrisinho torto, cujo ele andava usando muito nos dias atuais para conquistar aqueles em sua volta. E a precisava admitir, era realmente um sorriso muito sexy.

― Bem, eu não discordo de vocês. ― ela riu fraco e olhou pela janela, avistando o ponto em que eles desceriam, pronta para anunciar aos amigos. ― Estamos chegando.

Os adolescentes pegaram suas bolsas esportivas e suas mochilas, passando pelo ônibus cheio e, consequentemente, recebendo olhares tortos dos passageiros os quais eles atrapalharam com seus carregamentos, mas não havia nada que eles pudessem fazer. Eles desceram do veículo e começaram o seu caminho de quatro quadras até a casa dos , que vinha primeiro no sentido em que eles caminhavam do que a de .

De repente, alguns passos antes da caminhada terminar, os três ficaram parados. e ficaram petrificados da maneira mais maravilhosa possível, arregalando os olhos e abrindo as bocas de uma maneira que eles não sabiam se sorriam ou apenas permaneciam chocados.

Na frente da casa deles, dois carros estavam estacionados com grandes laços em cima de cada um. Um Citroën C3 branco para e um New Fiesta vermelho para . sorriu para os amigos, já sabendo da surpresa que os pais deles planejaram muito tempo antes, ajudando os mesmos com todas as tramoias.

Os gêmeos correram para abraçar os pais, que estavam parados ao lado dos carros, mais alegres do que nunca com o aniversário de seus filhos e com a óbvia felicidade deles ao perceberem o que ganharam.

― Vocês são os melhores pais do universo! ― disse, ofegante com a corrida e com a euforia da surpresa.

― Não acredito que vocês conseguiram esconder isso da gente. ― abriu um dos sorrisos mais gigantes já vistos pela humanidade, combinando com seus sentimentos.

― Bem, não conseguiríamos tal feito sem as nossas queridas e . ― Louis apontou para a amiga dos filhos, que deu de ombros e sorriu de maneira convencida.

― Você sabia disso?! ― os irmãos gritaram em coro, incrédulos.

― Por que diabos vocês pensaram que eu e a começamos a falar de carros completamente do nada quando fomos para aquela hamburgueria? ― ela riu. ― Além de que continuávamos insistindo até que vocês falassem os que vocês gostavam. Foi tão óbvio!

― E Harold também ajudou ao esconder os carros na garagem dele quando os compramos, dois dias atrás. ― Taylor revelou, e cada palavra emitida sobre aquele assunto só alegrava e chocava mais os aniversariantes.

― Nós definitivamente temos as melhores pessoas ao nosso redor. ― declarou , colocando as mãos no peito e formando uma expressão emocionada.

― Espera, temos mais uma surpresa. ― a mãe sorriu sorrateiramente, prendendo a atenção dos filhos. ― Venham conosco.

Dessa vez, nem sabia do que se tratava. Taylor e Louis foram em direção à porta da frente, sendo seguidos pelos adolescentes. Eles a abriram, e ali dentro estava um garoto de aproximadamente 1.80, cabelo preto, olhos castanho-esverdeados, roupas rasgadas e um sorriso radiante.

! ― gritou de uma maneira capaz de despertar qualquer um em um raio de 50km, sem demorar a se atirar no garoto.

era o primo de e , filho do problemático irmão mais novo de Louis. Por morar em Los Angeles, que era 5h de distância de San Francisco, o garoto os visitava raramente. Entretanto, os primos procuravam qualquer oportunidade para irem para LA visitar o garoto, considerando que os três eram muito apegados.

― Surpresos em me ver? ― ele riu, acariciando os cachos loiros da prima e logo largou deles para abraçar .

― Cara, é tão bom te ver! ― o primo expressou, dando leves tapinhas nas costas de .

― Vocês realmente pensaram que eu perderia o aniversário dos primos mais legais do mundo? ― o garoto questionou, ainda risonho. Ele olhou para a garota ao lado de , percebendo sua presença e abraçando. ― , quanto tempo!

― Eu sei, uns dois anos, certo? ― ela sorriu com a lembrança, questionando após sair do abraço.

― É, a última vez que estive aqui. ― assentiu. Seu semblante alegre acabou sendo substituído por um preocupado quando percebeu a ausência de outra garota. ― Onde está a ?

sorriu maliciosamente. Ela sabia que a irmã e o menino acabaram desenvolvendo uma certa quedinha um pelo outro desde a última visita de , algo meio infantil, considerando que a garota tinha doze anos. Contudo, mantinha mais contato com o primo de seus amigos do que .

― Ela está na nossa casa, provavelmente estudando. ― respondeu. ― Mas ela virá aqui depois para se arrumar conosco e comparecer à festa.

― É cara, você vai testemunhar um acontecimento histórico. ― disse. ― em uma festa com a gente.

― Ela não gosta de festas? ― perguntou, franzindo o cenho com a estranheza daquela revelação.

― A sai conosco o tempo inteiro, desde que não envolva música, bebidas e pessoas dançando. ― riu. ― Mas acho que ela vai gostar dessa festa em particular...

, sendo um garoto esperto e nada lerdo, captou a mensagem da e riu baixinho, um tanto envergonhado pela obviedade de sua ansiedade por ver a irmã dela.

― Ok, agora vamos botar a mão na massa, pois temos apenas algumas horas! ― Taylor comandou, fazendo todos correrem para dentro de casa e começarem os preparativos.


(...)



, ainda vestindo suas roupas do dia, porém segurando o vestido que usaria naquela noite, tocou a campainha da casa dos e ficou ali na frente, esperando alguém abrir a porta. Estava muito alegre por ser o aniversário dos seus amigos e realmente queria se divertir naquela noite, mas apenas o sentimento de que veria todo mundo da escola que não gostava e teria que aguentar mais e mais menores de idade se embebedando fazia-lhe suspirar, querendo apenas sua cama e seus preciosos livros. Tentaria ficar até o final da noite por e , mas não prometeria nada.

Mas, de repente, algo a fez mudar de ideia.

Enquanto ela esperava, ouviu a voz do patriarca dos alguns segundos após o toque da campainha soar. , você pode abrir a porta?” foi o que a garota ouviu. Aquilo foi o bastante para cada osso em seu corpo enfraquecer imediatamente e sua estrutura quase desabar.

, o único garoto com quem ela foi capaz de ter uma certa conexão, fora o próprio primo do mesmo, mas este era considerado como irmão. , entretanto, tinha tudo para desviar de seus sentidos. Mesmo quando criança, ele foi a primeira quedinha da garota; eles tinham o mesmo gosto para livros, música e aquele jeito de menino relaxado, porém extremamente inteligente já a atraía desde os seus doze anos de idade. E ao vê-lo em pé, abrindo a porta e com um sorriso surpreso, aquela atração que achou que teria sido apenas uma atração infantil se reacendeu como a maior das chamas.

― Oi. ― foi o único cumprimento que ela conseguiu pensar, enquanto o encarava com seus grandes olhos azuis, quase saídos de um desenho animado.

... oi. ― parecia tão embaraçado quanto a garota, mas ficou encantado com o próprio reflexo dentro dos olhos inspiradores dela. Ele saiu de seu estado hipnotizante, pigarreando e abrindo a entrada para que ela passasse. ― Pode entrar.

caminhou aos poucos, não conseguindo evitar olhar para o menino que não via há dois anos, sentindo um pequeno calor em seu coração, como se estivesse no mais confortável dos lugares.

― Então... ― pressionou os lábios, encarando a garota de cima a baixo. ― É muito bom te ver.

― É muito bom te ver, também. ― ela retribuiu a cordialidade enquanto suas bochechas queimavam a cada olhar que ele a lançava.

― Hã... as garotas já estão se arrumando lá em cima. ― ele anunciou, percebendo que já não conseguia mais pensar no que falar para , ainda não se recuperando do fato que ela estava ali em sua frente.

― Obrigada. ― ela agradeceu, mexendo a cabeça e quase correndo nas escadas até o quarto de .

abriu a porta de maneira tão forte que o barulho emitido foi parecido com o de um estouro, assustando as outras duas garotas dentro do cômodo. foi a que ficou mais frustrada, por estragar a maquiagem que estava fazendo na aniversariante depois que pulou de medo.

, por Deus, não entre desse jeito! ― a irmã mais velha a reprendeu, bufando em incredulidade.

― Sinto muito, eu só... ― a garota ofegava e estava muito mais branca do que o normal, preocupando as outras duas.

― Você está bem? ― perguntou, franzindo a testa.

― Sim, estou... ― não conseguia fazer com que sua respiração voltasse ao normal, o que apenas a deixava mais nervosa. ― Eu acabei de ver o .

Assim que ela mencionou o nome do menino, e se olharam, sorrindo marotamente uma para a outra e logo para , com a irmã mais velha erguendo uma sobrancelha.

― Então é por isso que você está agindo desse jeito... ― riu. ― E como foi?

― Estranho. ― a mais nova respondeu com uma careta no rosto.

and sitting in the tree... cantarolou, fazendo uma dancinha na cadeira em que era maquiada.

K-I-S-S-I-N-G! complementou, também mexendo seus ombros e sua cabeça, irritando sua irmãzinha.

― Vocês são muito engraçadas. ― disse em tom irônico e revirando os olhos.

― Eu acabei de ouvir a música do beijo na árvore? ― surgiu do nada, parado no meio do corredor com um sorriso curioso e sem camisa, provavelmente pois estava se arrumando quando ouviu as garotas.

As três assentiram, o respondendo.

― Quais foram as vítimas? ― ele perguntou novamente.

― A e o . ― respondeu.

― Gostei. ― riu junto com a irmã e a melhor amiga, não se importando com uma bufando com todo o ar que tinha no peito.

Nessa sessão de risos, um se destacou. pousou seus olhos em , que sempre teve uma risada contagiante e alegre. Ele prestou atenção em todos os seus movimentos: o sorriso largo que levantava suas bochechas, o nariz que se contraía à medida que a risada ficava mais intensa, seus olhos quase fechando e sua mão afastando uma das únicas mechas que escapava de seu rabo de cavalo para atrás da orelha. O garoto também notou que ela ainda não tinha se arrumado, estando ainda com o uniforme de líder de torcida, focada somente em enfeitar para a festa. Ele não se importava. Se a decisão coubesse a ele, na verdade, usaria aquele uniforme todos os dias.

― Por que você está me encarando? ― o questionou, tentando manter a seriedade, mas não conseguia esconder o fato de que amava ser o centro das atenções de .

Ele abriu um sorriso de canto, colocando as mãos nos bolsos da calça, sem tirar os olhos da garota curiosa em sua frente. Encarou-a dos pés à cabeça, pousando justamente nos seus lábios, que mesmo de longe eram capazes de lhe deixarem consumido em tentação.

― É isso que você vai usar para a festa? ― perguntou divertidamente, formando uma falsa expressão de quem a julgava seriamente. riu e balançou a cabeça.

― Saia daqui, palhacinho. ― ela pediu de forma provocante, o que o fez demorar para atendê-la. Assim que o garoto sumiu pelo corredor, a fechou a porta do quarto de , sentindo-se de volta aos tempos de casa na árvore e clubinho secreto das meninas.

― E eu fui a vítima da canção do beijo? ― estava indignada, se referindo ao clima do lugar com o óbvio flerte entre a irmã e o amigo. ― Dava para cortar a tensão desse quarto com uma faca!

― Você fica mais pirada a cada dia, bebê. ― disse, citando um apelido que a irmã mais nova sempre odiou.

― Nah, a tá certa. ― se virou para a melhor amiga. ― Você e o meu irmão precisam arranjar um quarto de motel para resolver isso aí.

― Eu tenho quinze anos, , tenho certeza que motel nenhum deixaria eu entrar. ― a se desviou da parte importante do assunto, tentando fazer com que ele fosse embora. Ela só se esqueceu do fato que ela tinha uma irmã e uma melhor amiga muito inteligentes e insistentes.

― Esse não é o ponto, meu anjo. O ponto é que você e o precisam resolver isso, não aguento mais ficar no meio de vocês dois e ter medo de ser engolida por essa força magnética que vocês exalam. ― admitiu, passando blush nas bochechas e se olhando no espelho ao invés de olhar para a amiga.

Quando o quarto foi consumido pelo silêncio e acharam que o assunto morrera, mas aquilo na verdade só significava que a mente de estava barulhenta demais para ela mesma.

― O quão estranho seria nós dois juntos? ― ela perguntou, cabisbaixa e brincando com as próprias unhas, nervosa com as possíveis respostas.

― Bem, nós quatro fomos criados como uma família só... ― ficou pensativa, ponderando dentro de sua mente o que seria melhor como resposta. ― Mas eu não sei, toda vez que eu olhei para vocês dois, nunca pareceu que vocês tinham esse olhar sobre um ao outro em particular.

― O te trata de um jeito que ele nunca tratou nós duas. ― complementou, mas aquilo só intrigou a sua irmã mais velha.

― E que jeito seria esse? ― franziu o cenho em confusão.

― Como você fosse a garota mais incrível do mundo. ― respondeu. ― Como a única que o escuta e o entende.

― Acho que isso começou quando tínhamos aquele “clubinho” da casa da árvore apenas para meninas e passamos por aquela fase de odiarmos garotos, e mesmo com tudo isso você era a única que brincava com o e ficava com ele para que ele não se sentisse sozinho. ― explicava ao mesmo tempo que terminava de se maquiar. ― Quer dizer, eu sou a irmã gêmea dele e mesmo que tenhamos aquela conexão estranha que a maioria dos gêmeos têm, nós somos muito diferentes. Você o entende de maneiras que eu não consigo.

absorveu todas as palavras da amiga, tentando associá-las com seus sentimentos e decidir o que faria. Não conseguia evitar ficar nervosa quando o assunto surgiu, fazendo com que suasse tudo que suou no treino novamente.

― Obrigada, gente. ― ela suspirou, ainda confusa com toda a conversa. ― Acho que vou tomar banho agora, estou bem atrasada.

― Está bem, eu termino a minha maquiagem. ― a confortou com o sorriso que abriu, sabendo que a situação da melhor amiga não deveria estar fácil.

― Ah, e eu começo a te maquiar quando eu voltar, ok? ― se dirigiu à irmã mais nova, que concordou com o que ela disse.

Com tudo esclarecido, foi até a cama da amiga, abriu sua bolsa esportiva e pegou o vestido que usaria, caminhando delicadamente até o banheiro. Ela jogou o vestido em cima do vaso sanitário, pendurou a toalha no box do chuveiro e cuidadosamente tirou seu uniforme de líder de torcida, deixando-o em cima da pia.

Antes de ligar o chuveiro e entrar, ela encarou a si mesma no espelho acima da pia. Tirou o elástico do cabelo, observando ele cair suavemente em seus ombros antes de ultrapassar os seus seios. De repente, toda a conversa que teve com a irmã e a melhor amiga voltou em sua mente.

passou a observar cada detalhe do seu rosto; a testa de tamanho médio, o nariz que embora pequeno tinha uma ponta gordinha e um dorso um pouco largo e levemente torto. Sua boca tinha um desenho confuso, principalmente na hora de aplicar batom, mas ela a achava bonitinha. Sua pele era mista e possuía algumas espinhas espalhadas pelo rosto, com uma oleosidade particular para aquele dia, principalmente após o seu treino. Seus olhos, embora da cor mais comum, eram sua característica favorita. Juntando eles com seus cílios naturalmente extensos e o desenho da sobrancelha, ela conseguia criar centenas de olhares diferentes ― na opinião de , a melhor coisa sobre seus olhos eram o quão expressivos eles poderiam ser. A garota poderia dizer absolutamente nada, mas qualquer um que se incomodasse a olhar em seus olhos saberia deduzir o que ela sentia.

Ela era uma garota bonita, tinha plena consciência disso. Também sabia que tinha o potencial de ser mais do que era, se ela se incomodasse em se esforçar. gosta de meninas bonitas, ela pensava. Mas será que ele gosta de mim dessa maneira?

Decidiu deixar aquilo de lado. Não se rebaixaria por causa de um garoto ― uma das únicas boas lições que sua mãe deixou foi que nem ela ou deveriam se rebaixar daquele jeito. A melhor solução para aquela paixonite era conversar com , afinal, ele era o melhor amigo dela; eles conversavam sobre tudo, sem filtros e sem enrolação.

Ele entenderia, certo?


(...)



inspirou o ar sereno da noite. Já arrumada, com o cabelo encaracolado e um vestido verde solto em todas as partes do corpo, ela se encontrava sentada no balanço do pátio dos . Era possível ouvir a música recém colocada e algumas pessoas chegando aos poucos, tocando a campainha e esperando pelos aniversariantes. A preferiu ficar ali, no canto que desde criança ela sempre gostou de estar em dias movimentados na casa dos vizinhos.

Não demorou para que o balanço ao lado dela fosse ocupado por outra pessoa. A solidão voluntária de atraiu para o ambiente, sem deixar de observar como a garota ficava linda quando atingida pela luz do luar.

― Estou interrompendo o barulho da sua mente? ― o garoto pediu a permissão, sorrindo para a garota que o encarava por baixo.

― Não tem barulho. ― ela balançou a cabeça em direção ao assento ao lado dela, rindo enquanto permanecia cabisbaixa. ― Fique à vontade.

sentou no lugar requisitado, segurando suas mãos no ferro que suspendia o balanço no ar. Ele se impulsionou de maneira sutil, mas sem conseguir tirar os olhos de .

― Então... ― ele vociferou após alguns minutos de um silêncio constrangedor. ― Faz tempo que não conversamos.

― Bem, nós falamos um com o outro pela internet de vez em quando. ― o corrigiu de uma maneira que ele considerou errônea, encarando os próprios pés tocando na grama gasta.

― Não é a mesma coisa. ― afirmou.

Ainda um pouco constrangida, assentiu lentamente.

― Verdade. ― concordou, fazendo aquilo a última coisa que saiu de sua boca por certo momento.

olhou para ela de forma intrigada, não conseguindo entender o porquê de ela estar agindo daquele jeito. Na última vez que se viram ela era tão falante ao redor dele, tão animada e tão cheia de vida. Agora, parecia nervosa, quieta e tímida, assim como ela era com o resto do mundo.

, você está bem? ― perguntou.

― Sim, estou. Por quê? ― mesmo com a resposta positiva, a garota parecia não conseguir olhá-lo diretamente, fazendo com que ele ficasse convincente de que aquilo era uma mentira.

― Você está agindo de uma maneira meio estranha. ― confessou, procurando proferir palavras que não a machucassem.

― Não estou agindo de maneira estranha. ― saiu na defensiva, se arrependendo logo depois e suspirando com pesar. ― Só não sou muito chegada a festas, principalmente as em que eu vejo meus colegas de escola.

assentiu lentamente, mesmo pressentindo que aquelas palavras eram apenas meias verdades. sabia que estava do jeito que estava por causa da brincadeira de mau gosto da parte de e mais cedo; o pensamento da possibilidade de gostar de alguém no sentido romântico a assustava, pois nunca lhe ocorreu aquilo antes. Ela nunca teve nem uma quedinha infantil por alguém além dele, imagine algo mais forte.

Um pouco chateado por não estar tendo a conversa com que ele pensava que teria, permaneceu cabisbaixo, se remoendo nos próprios sentimentos. Ele amava os primos mais do que tudo no mundo e estava muito feliz por ter aquela oportunidade de vê-los, mas precisava admitir que a única pessoa que consumiu cada um de seus pensamentos e ocupou sua mente durante a viagem de Los Angeles para San Francisco fora . A inteligente, doce e tímida . Então, não saber o que falar e se enrolar em 8 a cada 10 palavras que saíam de sua boca não estava nos seus planos quando ele aguentou todo aquele tempo naquele veículo fedido.

A notou que o garoto estava visivelmente chateado, não conseguindo evitar se sentir exuberantemente culpada. Ela subiu o olhar e virou seu pescoço, esperando ele retribuir a ação.

― Estou muito feliz que você está aqui. ― confessou assim que o momento chegou.

, impressionado com a casca da menina se quebrando aos poucos, abriu o típico sorriso torto do núcleo masculino do clã , capaz de fazer até o coração mais gelado se derreter.

― Sério? ― ele indagou, obtendo um balançar de cabeça afirmativo como resposta.

― Você deveria vir mais vezes para San Francisco. ― sugeriu, deixando implícita a falta que a presença física de fazia.

― E você deveria visitar LA. ― ele levemente inclinou o corpo, retrucando a sugestão dela.

― Admito que um dos meus maiores desejos é conhecer a Cidade das Estrelas. ― ela assentiu lentamente, pressionando os lábios.

― Bem, as minhas portas sempre estarão abertas para você. ― manteve o olhar fixo nela, que o encarou de volta com a expressão mais fofa e ao mesmo tempo mais eletrizante do universo.

Com aquela conversa esclarecedora, deixou a timidez e o medo de lado e papeou normalmente com o garoto, como se as últimas horas não tivessem acontecido.


(...)



A sala de estar, combinada com a sala de jantar e a cozinha já estavam sufocantes de tantas pessoas presentes. Entretanto, na opinião de , um pouco de calor humano naquela noite fria era muito mais que bem-vindo.

Enquanto ela falava com algumas pessoas, ela não conseguia deixar de olhar para cima, no topo da escada dentro da casa, cuidando para ver quando e desceriam. seria a responsável por “anunciá-los”, uma mera formalidade que a loira insistiu em performar, como a caçadora de atenção que ela sempre foi, então a melhor amiga estava um pouco nervosa com aquela situação, não querendo atrasá-los por estar distraída conversando com alguém.

O momento finalmente chegou e os gêmeos fizeram o sinal para que a amiga se posicionasse. Ela caminhou até o lugar onde foi montada os equipamentos de som, ao lado do começo da escada, pegou o microfone e o ligou, pedindo a atenção dos presentes.

― Alô, alô, atenção aqui! ― ela exclamou até que a onda de conversa se acalmasse, sempre sorrindo durante o processo. ― Bem, para aqueles que não me conhecem, eu sou a e moro aqui ao lado. O motivo pelo qual estamos aqui hoje se trata de duas pessoas que significam o universo inteiro para mim. Desde o meu primeiro dia de vida eles estiveram ali, sempre na minha volta para me incomodar, me irritar, mas também para me amar, me acolher, me aconselhar. Eu literalmente não sei o que seria sem eles. Então, por favor, juntem-se a mim para celebrar a vida dessa dupla mais que especial, e !

Os convidados bateram palmas de forma entusiasmante, emocionando os gêmeos que desciam as escadas e os cumprimentavam com sorrisos e acenos. Eles foram até a melhor amiga e a abraçaram forte, dando beijos em lados diferentes da bochecha dela, lisonjeados pela sua homenagem.

― Muito obrigada, , pelas suas palavras lindas. ― agradeceu a amiga assim que pegou o microfone dela. ― E também, muito obrigada a todos que estão aqui para comemorar nossos dezesseis anos. Eu esperei a minha vida inteira por essa festa e bem, só...

A loira encarou o irmão gêmeo, rindo e não sabendo o que fazer, querendo que ele complementasse. pegou o microfone da mão dela para executar o que ela parecia pedir.

― Aproveitem e festejem para caralho, assim como nós iremos! ― ele completou, dando uma piscadela que fez todos os convidados em um raio de 100m suspirar.

O DJ contratado selecionou a playlist e botou Dark Horse para tocar, fazendo com que a festa se agitasse e os adolescentes se concentrarem na pista de dança improvisada na sala de estar. arrastou os dois aniversariantes para lá, se movimentando com eles.

Pouco a pouco outros grupos se juntaram a eles; os colegas do time de natação de , as meninas do cheerleading squad, além de todos os outros que sentiram vontade. A festa inteira parecia estar concentrada na pista de dança, consumidos pelo talento do DJ e pelas músicas que eram tocadas.

Depois de sentir corpos demais e vários tipos de bebidas diferentes sendo jogados em seu cabelo, decidiu se afastar por alguns segundos, desesperadamente procurando por água naquela casa que ela já conhecia tão bem. Para alcançar o seu objetivo, teve que interromper um casal muito entretido na bancada americana para alcançar a torneira e colocar o líquido no copo com tranquilidade.

― Sabe, teria sido perfeito se você tivesse continuado com o seu uniforme de líder de torcida. ― a garota sentiu cada parte de seu corpo arrepiar quando sentiu a voz de tão próxima de sua orelha.

. ― ela proferiu o apelido do melhor amigo, virando seu corpo para que ficasse de frente para ele, fazendo com que o seu corpo quase se emergisse com a bancada da cozinha.

― Você fica bem com o seu uniforme de líder de torcida. ― ele continuou, sem tirar a expressão galanteadora de seu rosto.

― Bem, não era apropriado. ― “se defendeu”, mas apresentando a mesma linguagem corporal que o garoto.

― Claro que era, mas você fica bonita de qualquer jeito. ― deu de ombros, dessa vez a encarando com carinho.

― Sabe... ― a garota passou a ter a ideia de brincar com ele, sorrindo de lado. ― Você querer ditar as roupas que uma garota usa é muito errado.

― Ah, é? ― ele levantou a sobrancelha, entrando na brincadeira.

― É, quero dizer, você está dizendo o que eu deveria usar baseado na sua concepção de beleza, querendo objetificar sua melhor amiga. Isso é errado. ― fez um biquinho, balançando a cabeça e gesticulando enquanto falava. Logo, ela sentiu o olhar tenro de caindo sobre ela, enquanto ele permanecia calado. ― O que foi?

― Nada, você só... ― o ficou tão hipnotizado pela garota que se atropelou nas próprias palavras. ― O jeito que você disse todas essas coisas... com uma convicção e paixão, eu não sei, pareceu tão legal.

― Eu só estava brincando com você, . ― se explicou, não querendo passar a impressão de que realmente achava que o melhor amigo a estava objetificando.

― Eu sei, mas... ― ainda completamente em transe, a encarava fixamente, conduzindo lentamente a sua mão até uma mecha do cabelo da menina que estava solto em seu rosto, a afastando. Ele tirou a mão do cabelo e a levou até a bochecha dela, acariciando levemente.

― Mas o quê? ― perguntou baixinho, sentindo o clima óbvio sendo criado ali, olhando diretamente aos lábios convidativos do garoto.

não respondeu a pergunta de ; pareceu nem a ouvir. Ele continuou hipnotizado, movido pelos seus próprios instintos. Não demorou para que juntasse sua mão à dela, entrelaçando seus dedos. Seu corpo inclinava em direção ao da garota, seus nervos se acalmavam à medida que eles se aproximavam.

O não conseguia se conter; sua atração por crescia a cada dia passado, a cada toque sentido. Seus sentimentos estavam mais bagunçados que nunca ― ele não conseguia diferenciar paixão de desejo carnal, e o fato de seus lábios estarem muito próximos um do outro e o de seu olfato conseguir sentir o cheiro de menta da pasta de dente dela só o deixava mais confuso. Ele não sabia se estava apaixonado ou apenas sendo pego por toda aquela tensão. Tudo que ele sabia é que a queria, mas não sabia como vociferar aquela sensação. Não queria conversar, não queria complicações ― o caminho que parecia inevitável parecia ser o único.

E eles estavam próximos daquilo. Tão próximos.

Capítulo 4 - Parte Dois

“E eles estavam próximos daquilo. Tão próximos.”


não pensou, nem por um segundo, em se esquivar. Se pudesse, ela moraria naquele momento. Tantas pessoas gritando, cantando mais alto que a música, dançando; mas, de certa maneira, toda vez que ela e estavam juntos, era como se todo mundo ao redor desaparecesse. Mesmo quando não havia aquela proximidade, mesmo em um dia simples em que os dois estavam apenas assistindo um filme com as famílias deles e comendo pipoca, toda vez que eles tinham uma conversa paralela que apenas os envolvia, a sensação era de que ninguém mais estava ali.

Mas tinham pessoas ali. Esse foi o problema. Quase sessenta convidados estavam lá, então e não passaram despercebidos pelos seus colegas. Na verdade, só pela vontade de serem babacas, os companheiros de time de natação de e as meninas do esquadrão de líderes de torcida decidiram surpreender os aniversariantes ao pegá-los no colo e os levarem até a piscina, apenas para os atirarem na água.

foi pego a força e afastado da melhor amiga, que quando percebeu o que todo mundo viu quase morreu de vergonha. Entre gritos de “caras, me soltem”, “isso não é engraçado” e “vocês vão me pagar”, o corpo inteiro do garoto, seguido pelo de sua irmã, foi jogado com todas as forças na piscina do pátio, molhando todos que estivessem num raio de 10 metros de distância.

― Eu odeio todos vocês! ― gritava enquanto se debatia freneticamente na água. ― Ainda não estou bêbada o suficiente para rir disso.

As expressões indignadas dos aniversariantes divertiram seus convidados. Em meio às risadas, e foram ajudar e respectivamente, mas o seu maior erro foi confiar neles. No mesmo segundo que eles ofereceram suas mãos, os gêmeos os empurraram para a piscina, obtendo o mesmo impacto anterior quando eles foram as vítimas.

Em menos de um minuto, boa parte das pessoas que estavam ao redor pularam voluntariamente na água. Logo, ficou quase impossível se mover ali dentro, mas ninguém se preocupou com isso ― embora estivesse frio, a chama da adolescência os impediu de se importarem.

Quando finalmente decidiram sair, os aniversariantes, junto de suas melhores amigas e de seu primo, foram para os banheiros pegar toalhas.

― Vocês são loucos. ― comentou com uma risada fraca enquanto ajudava os amigos a se secarem. ― Podem pegar uma pneumonia.

― Pelo menos será uma pneumonia memorável. ― brincou, com , e concordando.

A conversa entre os cinco foi interrompida pelo som da campainha tocando, algo que os intrigou.

― Alguém está atrasado. ― ergueu uma sobrancelha e disse em um tom julgador.

A loira estava pronta para dar um sermão em qualquer que fosse o convidado atrasado, mas ela definitivamente não estava preparada para o baque que receberia em seguida.

Ao abrir a porta, Jane O’Hara estava ali parada, com toda a sua graça. A menina deixou seus cachos soltos, mal aplicou maquiagem ― mas que pessoa com aquela pele de neném precisaria de uma base? ―, vestia uma blusa com pouco brilho por baixo de uma calça social, deixando-a embora presa, solta ao mesmo tempo, além dos saltos baixos para que não ficasse excessivamente alta, junto com o fator de que realmente não se sentia confortável com saltos muito altos.

― Desculpa o atraso, eu moro no outro lado da cidade. ― a menina se justificou, mal sabendo que a perdoou pelo atraso no mesmo segundo que viu seu rosto.

― Tudo bem, Jane, é muito legal você ter vindo. ― interviu, sorrindo para a colega do time de natação.

― Eu que fico feliz por terem me convidado. ― Jane sorriu de volta, alcançando aos gêmeos uma sacola de papel para cada. ― Não sabia exatamente o que comprar, mas espero que gostem.

― É ótimo, muito obrigada! ― agradeceu, olhando ora para o presente ainda não aberto, ora para a garota, não conseguindo conter a felicidade.

Por alguns segundos, as duas ficaram olhando uma a outra com certo acanhamento, até que Jane notou como os irmãos pareciam molhados.

― O que aconteceu com vocês? ― ela questionou, rindo e tocando em uma mecha do cabelo úmido da aniversariante, sem saber o impacto que isso causaria.

― Alguns dos nossos convidados idiotas nos atiraram na piscina. ― a fechava os olhos, pressionava os lábios e balançava a cabeça como sinal de sua vergonha.

― Ah, queria ter presenciado esse momento. Com certeza teria entrado junto. ― Jane riu, não deixando de reparar na beleza da menina em sua frente mesmo com o cabelo molhado e a maquiagem levemente borrada.

― Teria sido divertido. ― , levemente se soltando, falou com um certo duplo sentido. ― As bebidas ficam à esquerda da escada, temos vários salgadinhos na cozinha, a pista de dança de verdade fica na sala da estar, mas tem alguns que estão dançando em partes aleatórias da casa. Espero que aproveite a festa.

― Com certeza irei. ― a convidada sorriu de canto, assentindo em agradecimento pelas direções que lhe foram dadas e saindo de perto para socializar com outras pessoas.

Alguém está apaixonadinhaaaa... cantarolou no ouvido da irmã antes de fugir dela para evitar vários socos em seu braço.

(...)


foi com até o quarto do primo deste para ajudá-lo na busca de alguma roupa limpa e seca para o garoto. Já fazia um tempo que não entrava naquele cômodo, sendo a sala de estar e o quarto de os lugares da casa mais frequentados, então não lhe passou despercebida a mudança.

― O quarto dele mudou. ― comentou, pensando o mesmo que a garota enquanto olhava em volta.

― Só espero não achar nenhuma revista adulta por aqui. ― fez uma careta, causando uma risada alta do garoto que a acompanhava.

― Você é tão inocente. ― disse, balançando a cabeça e vasculhando o guarda-roupa do primo. ― Mas não acho que o seja esse tipo de cara.

― Considerando que ele vive rodeado de mulheres, é bom que ele realmente não goste pelo bem da sua própria existência. ― retrucou em um tom ameaçador, logo erguendo o pescoço para ver o que o garoto estava fazendo. ― Achou alguma coisa?

― Não. ― suspirou e fez uma careta de nojo ao observar as roupas que o primo possuía. ― O aderiu à moda dos surfistas.

― Bem, então pegue uma prancha e vá para a praia, porque você precisa vestir alguma coisa. ― a foi até ele e pegou uma blusa de manga comprida e gola alta preta e uma calça jeans, as alcançando. ― Aqui, vista assim.

― Você virou bem mandona, hein? ― franziu o cenho e a encarou enquanto tirava as roupas molhadas.

― É pelo seu próprio bem. ― mostrou uma expressão convencida.

Entretanto, sua face plena se desfez quando ficou diante da imagem de um sem camisa. Nunca antes tendo ficado diante de uma situação daquelas, tudo que sentiu foi inédito ― a sensação de arrepios, a respiração cortante e o coração batendo em um ritmo mais forte nunca lhe pareceram bons ao serem separados, e nenhum deles aparecera misturado com uma tentação devastadora. A primeira reação de foi virar para trás, não podendo vê-lo, algo que o fez rir.

― Por que você fez isso? ― perguntou.

― Hã... ― ela tentava recuperar o fôlego, se atrapalhando para falar. ― As pessoas geralmente não gostam quando as outras as veem se vestindo, então eu fiz o que fiz.

― Não me importo em você me olhar, . Não tenho vergonha. ― disse, mas seus pensamentos maquiavélicos não demoraram em perceber que ele poderia jogar com a garota. ― A não ser que você ache que eu tenho algo para me envergonhar.

Caindo na armadilha do , teve um momento de desespero interno que só ela era capaz de entender e de sentir. Seu rosto ficou mais pálido do que já era normalmente, sua boca se contraiu e seus olhos pareciam que saltariam de seu rosto de maneira cômica, como vista em muitos desenhos animados.

― Claro que você não tem! ― ela exclamou. ― Você é muito bonito... quer dizer, não muito, você é bonito. Ok, agora parece que estou te rebaixando, mas você é muito atraente. Quer dizer, não atraente, atraente, sabe? Não é uma opinião pessoal, baseado em sua aparência e em sua personalidade, a maioria das pessoas te acharia atraente. Não que alguém não te acharia atraente, mas...

. ― ele chamou a atenção dela para que parasse de falar, fazendo com que ela virasse para vê-lo e confirmar que já estava completamente vestido.

― O quê? ― a garota observou a expressão séria no rosto de se transformar em uma brincalhona.

― Estava apenas mexendo com você. ― admitiu, sorrindo de canto.

o encarou com cara de tacho, cruzando os braços.

― Quando foi que você virou esse idiota, hein? ― ela formou um beicinho, tendo ficado claramente decepcionada. riu, passando o braço pelo pescoço dela.

― Qual é, sua vida seria muito chata sem mim, pode confessar.

Os olhos de pousaram nos de , penetrando na alma dela, fazendo-a perder o controle do ar que entrava e saía de seu pulmão. A garota ficou paralisada, sem saber o que fazer, apenas aguardando qual seria o próximo passo dele. Lentamente, o rosto do garoto foi se aproximando do dela; ele deixou de lado toda sua racionalidade, atendendo apenas ao magnetismo que sentia em seu corpo. Entretanto, , em um momento de desespero, se afastou.

― Eu nunca beijei alguém. ― ela contou, com a voz um pouco alta demais, enquanto ainda parecia atordoado.

― Ah. ― ele disse, abaixando a cabeça e logo a reerguendo. ― Tudo bem.

― Sinto muito. ― a garota suspirou, sentindo-se constrangida. ― Eu fiquei meio nervosa e... só saiu.

― Não tem problema, . ― já mais calmo e racional, sorriu de canto, um tanto envergonhado pelo que fez. ― Eu que deveria estar me desculpando.

― Você realmente ia me beijar? ― a perguntou depois de minutos de um silêncio desconfortável.

Sem saber como responder aquilo em voz alta, apenas assentiu, completamente arrependido de ter feito o que fez, considerando como a garota estava reagindo.

― Por quê? ― ela franziu o cenho, completamente confusa.

― Por que você acha? ― ele riu nervosamente, decidindo já falar tudo que passava por sua mente. ― Eu gosto de você.

― V-Você gosta de mim?

Aquela situação inteira deixava incrédula. Enquanto crescia, ela sempre foi a quietinha e discreta do grupo, a garota que sempre passou despercebida. Enquanto , e chamavam a atenção de todos com suas personalidades marcantes e inquietas, era a garota que os ignorava enquanto lia um livro e comia uma maçã. Nunca se sentiu superior por ser daquele jeito, na verdade era completamente ao contrário ― já tentou muitas vezes ser como eles pelo medo de algum dia ser excluída, mas quando os outros três expressaram que aquilo seria impossível, ela voltou à posição confortável de ser si mesma.

Todos esses fatores faziam-na não acreditar que alguém pudesse notar sua presença, imagine gostar dela de um jeito romântico. Entretanto, ela sempre sentiu que a via de um jeito diferente das outras pessoas, então embora a confissão dele a deixasse surpresa por fora, por dentro é como se fosse tudo que ela esperava.

― É claro que eu gosto. ― o garoto coçou a nuca, evitando a encarar com uma expressão boba, não conseguindo atingir seu objetivo. ― Você é inteligente, linda, tem um gosto incrível para livros e música e é uma garota muito interessante. Aliás, você me acalma muito. O último ano foi uma merda lá em casa, meu pai está virando uma pessoa pior do que ele já era e toda vez que eu conversava com você, mesmo online, me distraía de tudo e fazia eu me sentir melhor.

Os olhos de pareciam mais abertos e redondos do que já naturalmente eram, revelando seu choque por estar recebendo uma declaração daquelas. Até o momento, esse tipo de discurso foi visto por ela apenas em livros e filmes de romance e séries de televisão. Ao mesmo tempo que era um choque, ela sentiu seu coração aquecer e um sorriso tímido automático.

― Isso é sério?

― Se eu disser que sim você para com as perguntas? ― brincou e os dois riram. ― É óbvio que é sério.

colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha, estando completamente sem reação acerca de toda aquela situação. Suas bochechas queimaram como se fosse verão e seu coração parecia que pularia para fora do peito, deixando-a até um pouco sem fôlego.

― Bom saber. ― aquela foi a única coisa que ela conseguiu expressar após sentir seu corpo se acalmando um pouco, acompanhada de um sorriso sugestivo de ambos os lados.

― Então... ― olhou para os próprios pés e logo para ela, lambendo os próprios lábios que estavam pressionados, mostrando que seu constrangimento não tinha ido embora totalmente. ― Vamos voltar para a festa?

assentiu, então divertidamente ofereceu seu braço para que ela o entrelaçasse com um dela, o que ela fez enquanto soltava risadas contagiantes, fazendo o garoto rir junto. Eles voltaram a festejar com os amigos como se nada tivesse acontecido, mas lá dentro já sabiam que não era um momento que esqueceriam tão cedo.

(...)


estava se sentindo como a rainha da floresta enquanto observava seus colegas aproveitarem a festa sentada em um degrau no meio da escada, dando-lhe uma visão privilegiada de todo o movimento. Durante os dez minutos que estava ali, já tinha visto dois casais se agarrando como não houvesse amanhã, três brigando como animais porque algum componente do casal foi visto flertando com outra pessoa, uma menina chorando, Jane e tendo uma conversa que parecia agradável e uma gritaria generalizada e escandalosa dos colegas de time de natação de .

― Oi, . ― Samantha, uma de suas parceiras no esquadrão de líderes de torcida apareceu repentinamente e sentou-se ao seu lado, sorrindo em sua típica alegria.

― Oi, Sammy. ― ela a cumprimentou de volta. ― Está gostando da festa?

― Ah, muito. ― a ruiva piscou e sorriu sugestivamente. ― Está sendo épica, com certeza será mencionada por meses.

― Os s nunca falham. ― afirmou e tomou um gole da bebida que a outra segurava, fazendo uma careta com o gosto extremamente amargo e ardente. ― Jesus, você realmente batizou esse drink!

― Não sou fraca, minha amiga. ― Samantha mostrou uma expressão convencida, mas a desmanchou quando passou a analisar a linguagem corporal da garota ao seu lado.

parecia tensa, como se algo a incomodasse. Às vezes ela desviava o olhar, mas na maioria das vezes ele recaía sobre o grupo de garotos escandalosos que buscavam a atenção das garotas. Samantha, tendo um dos ouvidos mais cheios da escola, sabia do que aquilo se tratava.

Os -s frequentemente entravam nos assuntos do colégio. Embora fossem amigos dos outros colegas e muito sociáveis, a conexão que aquele grupo tinha entre si era especial e, muitas vezes, alvo de fofocas. Estas só aumentaram quando o verão acabou. Quase todos notaram como o tratamento de sobre e vice-versa tinha mudado em relação aos anos anteriores; eles ficaram mais tímidos quando estavam juntos, os olhares se tornaram mais atenciosos e carinhosos, eles se tocavam e ficavam mais grudados fisicamente falando, os tons de vozes mudaram. Todas essas mudanças fizeram com que se espalhasse o rumor de que eles tinham ficado juntos durante as férias.

Aquela era a razão pela qual Samantha estava ali. Ela já estava de olho em há semanas, e sua atração só aumentou naquela festa ― especialmente depois de vê-lo sem camisa quando os colegas o jogaram na piscina. Entretanto, ela considerava uma amiga, embora não tão próxima, e queria checar com ela se estava tudo bem ela dar em cima de seu melhor amigo.

― Ei, , me diga uma coisa. ― Samantha chamou a atenção dela, que imediatamente encarou a colega. ― Aconteceu algo entre você e o durante o verão?

― O quê? ― ficou surpresa com aquela pergunta que, para ela, parecia repentina. ― Não, não aconteceu.

― E existe a probabilidade de algo acontecer num futuro próximo? ― perguntou novamente, mas dessa vez ela deixou pensativa.

― Eu... ― suspirou, contemplando o nada. ― Eu não sei.

― Você ficaria brava se eu ficasse com ele? ― Samantha continuou com os questionamentos, sempre com medo das respostas da outra.

― Sammy, se eu ficasse brava com todas as garotas que se atraíssem ou ficassem com o eu ficaria brava com toda a nossa turma. Inclusive com alguns garotos. ― ela riu levemente, embora aquilo fosse verdade. ― Você é solteira e ele é solteiro, não tem nada que eu possa fazer sobre isso.

― É, mas nós somos do mesmo esquadrão e temos um bocado de aulas juntas, só não quero que as coisas fiquem estranhas entre nós. ― a garota expressou sua preocupação.

― Está tudo bem, sério, ele é só um amigo. ― a confortou, abrindo um sorriso um tanto amarelo com a própria mentira. ― Vai fundo.

― Obrigada , você é a melhor. ― Samantha a abraçou rapidamente e desceu às escadas para conversar com .

“Sim, eu realmente sou a melhor”, a pensou em um momento de auto compadecimento. A verdade era que dizer tudo aquilo para sua colega doeu, mas era necessário. Só porque ela sentia algumas coisinhas por , não quer dizer que tiraria seu livre arbítrio. Sua amizade era importante demais para ser reduzida ao que ela pensava ser uma mera paixonite.

Aliás, aquela provavelmente seria apenas uma ficada de uma noite. Pelo menos foi isso que tentou dizer a si mesma para não enlouquecer em ciúme. Já sentindo-se mal com a cena dos dois conversando, se levantou e saiu dali, procurando tomar um ar fresco bem longe daqueles dois.

(...)


A noite foi longa e a festa durou por toda a madrugada, mas nada de interessante acontecera depois de aceitar ficar com Samantha. não conseguiu encontrar Jane novamente para conversar, o clima entre e nunca mais voltou a ser o mesmo e , tentando se distrair, assumiu o papel de party planner, cuidando de toda a parte técnica da festa e fazendo de tudo para que as coisas não saíssem de controle e os pais de seus amigos não os condenassem a um castigo eterno no dia seguinte.

Após limparem o que era possível da festa com o nível de sono e álcool que estavam, os cinco dormiram juntos no maior quarto da casa ― o de Taylor e Louis ―, estando completamente exaustos e sem paciência para definir quem dormiria onde e com quem. Com , e dormindo na cama, sobrou para os mais novos dormirem no chão.

Passaram-se poucas horas quando os poucos raios de sol que passaram pelas cortinas blecaute atingiram os olhos de , forçadamente o acordando. À medida que seus olhos abriam, o garoto foi percebendo o ambiente ao seu redor e a sua própria presença ali. Não demorou para que sentisse um peso a mais em cima dele, e quando foi capaz de ter a percepção real do que estava acontecendo, notou que estava com a cabeça deitada em seu peito e ele com o braço em volta de seu corpo.

agora estava em um dilema; queria se levantar para arrumar suas coisas, já que voltaria para Los Angeles logo depois do almoço, mas a imagem de dormindo em seu peito era apenas linda demais para se ignorar. A garota dormia de boca fechada, formando um biquinho, com os olhos fechados de uma maneira que parecia tão pacífica, tão inspiradora, tão calma. Aquilo o fazia querer que o momento não acabasse.

Para não interromper a paz da garota tão abruptamente, ele apenas forjou um espasmo no ombro. nem se incomodou em abrir os olhos, apenas saiu de cima dele e se deitou em direção ao outro lado, provavelmente não notando o que estava acontecendo. Antes de se levantar, sorriu. era uma mina de ouro e uma das únicas coisas boas acontecendo para ele recentemente.

O garoto pegou sua mochila que já tinha arrumado antes de dormir e desceu as escadas delicadamente para não acordar os seus primos e as . Largou o objeto no sofá e caminhou até a cozinha, ficando surpreso com a presença de seus tios ali antes de ver que já eram onze horas da manhã.

― Bom dia, . ― seu tio o cumprimentou sem tirar os olhos do livro que lia.

― Bom dia, tio Louis. ― ele cumprimentou de volta.

― Você quer algo para comer, querido? ― sua tia apareceu por trás, colocando rapidamente suas mãos em cima dos ombros de antes de começar a vascular pela cozinha. ― Temos frutas, cereais, torradas...

― Só uma fruta ‘tá de bom tamanho, obrigado tia. ― o garoto acenou a cabeça em agradecimento, recebendo uma maçã em menos de um minuto.

― Então, nos fala os podres da festa. O que os nossos filhos fizeram? ― Taylor perguntou, encostada na bancada e tomando um café.

― Não sei se posso falar. ― riu nervosamente, não sabendo se seus tios falavam sério ou se era mais um dos truques de seu jeito pouco convencional de criar os filhos. ― Maaaas eles se comportaram.

― Sério? ― Louis abaixou o livro e encarou o sobrinho com os olhos semicerrados, suspeitando de sua última fala.

― Seríssimo. ― o garoto assentiu lentamente. ― A prova é que nós não destruímos nada e o que os outros destruíram nós recolhemos.

Taylor encarou o marido, que a encarou de volta; os dois encararam o sobrinho e logo voltaram a se encarar, suspirando e dando de ombros.

― Isso é um milagre. ― a loira ergueu uma sobrancelha. ― Espero que você não esteja mentindo.

― Não estou. ― o garoto riu fraco.

― Que horas você quer que eu te leve na rodoviária? ― o tio perguntou, fazendo encarar o relógio novamente.

No dia anterior ele pretendia ir durante a tarde, para que tivesse tempo de se despedir de todo mundo. Entretanto, em menos de meia hora já sairia um ônibus para Los Angeles. A viagem, principalmente naquele tipo específico de veículo, já era longa, mas aquele não era o único motivo que o fez considerar ir embora mais cedo; ele lembrou da conversa que teve com certa garota na noite anterior, de como ele tomou uma coragem que nunca teve antes ― ele sabia que alguma coisa entre ele e começara, mas com sua vida estando uma bagunça naquele momento e a sua inexperiência, o desejo de fugir sem dizer adeus foi mais forte.

― Pode ser agora? ― ele perguntou de volta, mas Louis encarou a esposa com uma expressão estranha.

― Claro, mas você já se despediu de todo mundo? ― o tio questionou.

― Eu posso deixar um bilhete. Sabe como é, praticamente sete horas de viagem de ônibus, é tão cansativo e quanto mais tarde eu for, pior vai ser. ― tentou o enrolar, e aparentemente funcionou, já que o homem não demorou em pegar as chaves do carro e levar o sobrinho embora.

(...)

Na segunda-feira seguinte


e estavam com as expressões mais chateadas da história daquele colégio. Além de abatidas pelo fim de semana com sono desregulado, apenas outra coisa poderia deixá-las daquele jeito: garotos.

À distância, a mais velha observava o melhor amigo com a mão apoiada na parede do corredor conversando com uma ruiva que estava tão perto dele que se algum monitor passasse por ali, eles pegariam uma detenção, com certeza. Samantha olhava para o garoto o qual beijou quase a festa inteira como quem mal conseguia esperar para repetir a dose, mas o que mais doía para a era que o olhar de demonstrava o mesmo.

― Uau, acho que vocês não estão muito bem, hein? ― aproximou-se das amigas já comentando a má aparência das duas.

― Isso é eufemismo. ― respondeu, bufando e com os braços cruzados.

ainda não ligou para você? ― a perguntou e a outra garota balançou a cabeça negativamente. mostrou-se chocada com a atitude do primo ao ficar boquiaberta.

― Ainda não acredito que ele fez isso. ― ela suspirou, olhando para o lado. ― Mas não importa.

― E você? ― a loira encarou , que deu de ombros.

― Pergunte para o seu irmão. ― ela apontou para o casal que agora se beijava de maneira inapropriada para um ambiente escolar.

― Ele parece um cachorro tarado. ― mostrou uma expressão de nojo quando observou a cena a qual foi apontada pela amiga. ― Mas ei, ouvi dizer que essa união teve a sua bênção.

― É, porque eu sou burra. ― revirou os olhos.

― Vai ficar tudo bem, garotas. ― a ficou no meio das irmãs, abraçando as duas. ― Vocês verão.

encarou a tela do próprio celular sem notificações enquanto a irmã mais velha fazia o mesmo com o melhor amigo antes de seus olhares caírem sobre si mesmas, rezando para todos os deuses existentes para que estivesse certa e seus corações não quebrarem em pedaços.

Capítulo 5

ABRIL DE 2015
Segunda-feira



O conforto de sua cama e a quantidade de presentes em sua volta consolavam , que há três semanas estava com o pé imobilizado devido à uma torção. A quantidade de matéria que tinha que estudar para as provas finais do ano letivo a distraía do fato de que poderia não participar da final do campeonato nacional de futebol como líder de torcida, que aconteceria no próximo final de semana.

― Tem espaço para mais coisas? ― apareceu sorrateiramente na porta com o seu sorriso tipicamente avassalador e uma sacola do que parecia ser infinitas porcarias. Desde que teve que ficar em repouso, o garoto fazia questão de fazê-la companhia todos os dias depois da aula.

― Sempre. ― a garota fez um gesto para que ele entrasse no quarto e assim o fez, saltando na cama ao lado dela.

― Então, o que você estava fazendo? ― o melhor amigo perguntou enquanto abria um pacote de Doritos.

Tentando estudar. ― lançou um olhar como se fosse culpado pela interrupção de seus estudos, mas rindo levemente enquanto isso.

― Você está de repouso com a oportunidade de ficar aqui o dia inteiro assistindo séries e filmes e comendo até explodir, mas está estudando ao invés disso? ― ele divertidamente julgava. ― Não foi assim que eu te criei, .

― Bem, eu não sou um crânio que nem a , então preciso me esforçar se quiser passar de ano. ― dessa vez, a garota falou sério ao invés de entrar na brincadeira.

― Ah, qual é, você bem inteligente. ― tentou a consolar, mas não conseguiu.

― Diga isso para a minha tarefa de matemática. ― ela apontou para o livro aberto em cima de seus pés, fazendo uma careta para o objeto inanimado.

― Aqui, eu te ajudo. ― o garoto se espichou para pegar o livro, logo voltando a sua posição anterior e se aproximando mais de , mostrando a página que estava aberta. ― Qual é a sua dúvida?

― Esse exercício. ― ela apontou. ― Não tenho a mínima ideia por onde começar.

― Ah. ― franziu o cenho, pensando em como poderia explicar para a garota. ― Bem, primeiro você multiplica os números nos parênteses e subtrai o primeiro número antes deles pelo resultado desses números, e depois você resolve o resto da equação.

― É isso? ― ela ergueu as sobrancelhas. ― Achei que tinha que resolver os números fora dos parênteses primeiro.

― Não, sempre os de dentro dos parênteses primeiro. ― ele reforçou.

― Obrigada, . Você é o melhor. ― agradeceu e deu um beijo na bochecha dele, notando uma vermelhidão na região alguns segundos depois. ― Vou fazer isso depois, o que quer fazer?

― Só conversar com você um pouquinho. ― ele sorriu carinhosamente e pousou a mão em cima da dela. ― Parece que não fazemos isso há muito tempo.

― Eu concordo, mas sobre o que você quer conversar? ― ela perguntou, mas observou como o amigo mudou de postura e pareceu desconfortável. ― É sobre a Samantha, não é?

Nos últimos meses, desde a festa de aniversário dos , a líder de torcida, amiga de e de , continuou ficando com ― com algumas interrupções, já que o gênio dos dois não era fácil quando estavam juntos. Entretanto, eles já estavam sólidos e sem brigas há um bom tempo. Uma das coisas as quais o e a pararam de falar sobre foi a vida amorosa individual de cada um; superficialmente, por “não aguentarem o outro em um relacionamento”, mas a realidade era que a paixonite que tinham adquirido ― principalmente por parte da garota ― parecia ter atrapalhado.

― Bela reação, melhor amiga. ― ele a provocou, mas ela apenas suspirou.

― Desculpa, pode falar. ― continuou com uma expressão desagradável, o que não passou despercebido, mas decidiu ignorar.

― Bem, as coisas entre nós tem estado muito boas... ― o garoto hesitantemente contava, sempre com receio da reação da melhor amiga. ― e eu estou pensando em perder a minha virgindade com ela. Aproveitar que esse final de semana meus pais viajam logo depois que você e a também forem e a Samantha não vai com o resto da equipe.

não soube segurar sua reação com aquela notícia. Ela se engasgou levemente com o Doritos que comia e tossiu de tanta surpresa. Após se preocupar em ajudá-la, se arrependeu amarguradamente de ter contado aquilo para ela.

― Eu sabia que não deveria ter contado... ― ele sussurrou enquanto acariciava o ombro dela à medida que a tosse diminuía.

― Não, está tudo bem. ― respirou fundo e fechou os olhos. ― Eu fico feliz que você esteja me contando isso.

― Feliz? ― ergueu uma sobrancelha ao duvidar da garota.

― Tudo bem. ― ela suspirou e revirou os olhos. ― Eu não estou feliz que você esteja me contando, mas... agradecida, talvez.

― Por quê? ― ele perguntou após alguns segundos de silêncio, mas não pareceu entender.

― Por que o quê?

― Por que você não gosta de mim e da Samantha?

― Eu gosto de você e eu gosto dela, mas, vocês dois juntos... ― pressionou os lábios, sentindo-se presa naquela situação.

tocou levemente em seu queixo com a intenção de que ela erguesse a cabeça e o olhasse nos olhos. Ele a conhecia mais do que qualquer um, então queria procurar uma resposta para seu questionamento, que era mesmo que o anterior, em sua expressão. Ele conseguia lê-la como um bom livro, nunca deixando algo passar ― ok, passavam algumas coisas, talvez. Ele não era o maior observador.

― Não acho que ela seja boa o suficiente para você. ― a garota timidamente murmurou, mal conseguindo encará-lo.

― E quem você acha que seria?

ficou em silêncio, nervosa com o que responder. Ela procurou o máximo evitar aqueles olhos azul-esverdeados, sabendo que no momento que caísse neles, seria honesta sobre tudo. Para sua sorte, eles foram interrompidos por uma batida leve na porta e pelo pai da garota entrando logo após.

― Você está precisando de alguma ajuda, querida? ― perguntou afetivamente.

― Não papai, estou bem. ― ela sorriu levemente e observou enquanto ele saía dali até poder voltar a se dirigir a de maneira constrangedora, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha e evitando contato direto. ― De qualquer maneira, isso não importa. Você é o meu melhor amigo e se você está feliz com ela, então eu também estou feliz.

― Então você acha que eu devo... fazer você-sabe-o-quê? ― , mesmo não sendo totalmente convencido pelas palavras de , as aceitou de qualquer maneira.

― Se é o que você quer. ― ela deu de ombros como se não se importasse, mesmo que cada átomo em seu corpo implorasse para que a garota fosse honesta e gritasse o quanto queria que desistisse de Samantha para ficar com ela. Entretanto, a felicidade do melhor amigo realmente era o que ela priorizava no momento, então ela precisou deixar os próprios desejos de lado.

― Obrigado, . ― ele agradeceu com um sorriso e segurando levemente a mão dela por alguns segundos, fazendo com que ela suspirasse pesadamente.

Nas próximas horas a fez o máximo para que aquele assunto não voltasse a ser levantado, obtendo sucesso. Eles fingiram que aquela conversa nunca existiu e voltaram a estudar juntos, fofocar juntos, comer juntos e a assistir seus filmes favoritos, como era rotineiro.


(...)
Na manhã seguinte



― Então, como está a nossa garota? ― o homem de jaleco branco perguntou para a garota em sua frente, sentada em uma maca com as pernas penduradas e balançando no ar.

― Ela está muito bem e esperando que você tenha boas notícias. ― semicerrou seus olhos castanhos. ― Tipo, notícias que uma certa pessoa poderá ir para certo campeonato em certa cidade.

― Bem... ― o médico mostrou uma expressão pessimista enquanto encarava sua prancheta, mas logo sorriu de canto para a paciente. ― Certa pessoa tirará o gesso do pé hoje e poderá ir para certo campeonato em certa cidade.

comemorou com leves gritinhos junto ao seu pai e sua irmã, que a acompanhavam e estavam cada um ao seu lado.

― Mas você não vai poder fazer muitas manobras ou acrobacias ou piruetas ou seja lá o que for que vocês líderes de torcida façam, viu? ― o homem a avisou com um olhar firme.

― Claro, doutor. Vou informar às minhas colegas. ― ela assentiu, mas ainda sem conseguir conter sua animação com a boa notícia que acabara de receber.


(...)
Sexta-feira



A escola parecia mais estar em dia de jogo do que em mais um dia letivo comum; todos os alunos estavam eufóricos com a final do campeonato, mesmo aqueles que não faziam parte do time de futebol e/ou que sequer iriam na viagem, então fizeram questão de se despedirem daqueles que jogariam. O estacionamento estava lotado, com cada jovem ali animado pela excursão.

― Cara, queria tanto estar indo com vocês. ― disse enquanto a irmã gêmea e a melhor amiga se preparavam para entrar no ônibus.

― Não, você não queria. ― a loira riu fraco, já sabendo de todos os planos do irmão.

― Você tem coisas maiores para acontecer nesse fim de semana. ― brincou, embora a própria diversão tenha feito ela ter sentido vontade de vomitar.

― Tudo bem, vocês ganharam. ― ele abraçou as duas e deu um beijo no topo da cabeça de cada uma. ― Não sintam tanto a minha falta.

― Não se preocupe com isso. ― revirou os olhos com o convencimento do irmão.

As garotas se despediram rapidamente de seus pais e partiram para o ônibus como se o fossem perder, mesmo que faltasse mais de dez minutos até que ele partisse. A animação para conhecerem Seattle, uma cidade que nunca estiveram antes, era maior do que tudo, e a vontade de fazer farra no ônibus mais ainda. Elas sentaram uma ao lado da outra e esperaram ansiosamente para o treinador começar o discurso com o itinerário, o que não demorou para acontecer.

― Muito bem, crianças, estamos finalmente a caminho de um momento o qual esperamos o ano inteiro. Antes de eu começar com toda a baboseira motivacional de um treinador, vou deixá-los a par de nosso roteiro. Primeiro, chegaremos em Seattle durante a noite, provavelmente, então descansaremos. No sábado, relaxaremos e faremos uma confraternização com os nossos adversários nova-iorquinos e com a diretoria da federação, isso inclui as líderes de torcida. E, como todos sabemos, o domingo será o dia do grande jogo...

Elas não precisaram escutar mais nada. De fato, a parte da confraternização foi boa o suficiente para que olhasse para a melhor amiga com uma expressão marota.

― Nunca fiquei com nova-iorquinos antes. ― disse.

― Achei que você estivesse apaixonada. ― provocou ao falar de maneira um tanto melódica.

― Apaixonada, mas não compromissada. E você também não está. ― ela piscou. ― Será um final de semana proveitoso para nós duas.

― Se você diz... ― a riu fraco e virou o pescoço para a janela, observando enquanto desaparecia à medida que o ônibus tomava mais distância. Ela suspirou; quando superarei isso, Deus?, pensou. nunca teria um final de semana proveitoso sabendo o que aconteceria com o garoto durante o tempo que estaria fora.

Ou talvez, um final de semana sem ele poderia ser tudo que ela precisava.


(...)



Os olhos de estavam envoltos por milhares e milhares de palavras. Desde o aniversário dos gêmeos ela tinha aumentado sua carga de leitura e de estudos, para se distrair do fato que certo alguém foi embora sem lhe dizer adeus. Nada mais importava para ela a não ser a escola e a sua própria família.

Claro, não ficou todos aqueles meses sem contatar a garota, muito pelo contrário. Após algumas semanas ele mandou algumas mensagens, um tanto vazias e sem muito significado, apenas algo para sustentar aquela situação platônica; entretanto, a poderia ser nova, mas não era burra. Todas aquelas mensagens permaneceram não lidas.

Entretanto, em uma de suas pausas dos estudos, ela fez o grandioso erro de checar seu celular. Navegou rapidamente por suas redes sociais até que seu coração pulou com a notificação que apareceu no topo de sua tela. respirou fundo, tentando se segurar para que não a abrisse ― afinal, se o fizesse, todas as outras mensagens recebidas anteriormente constariam como lidas ―, mas suas emoções falaram mais alto.



Oi. (04:07 PM)

Então, eu devo parecer um idiota para você. (04:07 PM)

Parecer não, eu sou mesmo. (04:07 PM)

Eu provavelmente deveria parar de te enviar tantas mensagens. (04:08 PM)

Odeio saber que estou te incomodando (04:08 PM)

mas sei lá, é tanta coisa acontecendo (04:08 PM)

que mesmo que nas últimas semanas eu esteja falando sozinho aqui (04:08 PM)

só o fato de ver a sua foto aqui no canto já me acalma. (04:08 PM)

... (04:09 PM)

Enfim, espero que você esteja bem. (04:13 PM)

E, novamente, desculpa por ser um merda. (04:13 PM)

pressionou os lábios e mexeu no cabelo freneticamente, algumas das manias que tinha quando se sentia nervosa. Ela não sabia o que responder, apenas conseguia se sentir muito, mas muito mal. Talvez fosse hora do castigo dele terminar, ele parecia arrependido. Contudo, ela respondeu com apenas uma mensagem.

Você não é um merda, está tudo bem. (04:18 PM)



Em menos de dois minutos, a garota foi pega de surpresa quando o nome do garoto passou a piscar em sua tela, significando que ele estava ligando. Sem antes hesitar, ela atendeu.

― Oi. ― ele a cumprimentou do outro lado da linha de uma maneira um tanto quanto constrangedora.

― Oi. ― a contribuiu com o constrangimento.

― Então...

― Então... ― ela repetiu.

― Desculpa, . Eu fui um idiota. ― foi possível ouvir a respiração pesada dele.

― Você acha? ― a garota perguntou sarcasticamente.

― Eu deveria ter dito um adeus nem que tivesse sido por um bilhete. ― ele continuava.

― Sim, você deveria ter feito isso. ― ela concordou. ― Mas não fez.

― Você significa muito para mim.

ficou em silêncio por alguns bons segundos. Aquelas palavras a afetaram, deixando-a calada em um mar de pensamentos barulhentos.

― Bem, parece que você não demonstra isso muito bem. ― a constatou, tentando manter-se firme mas sentindo a maior vontade de liberar as lágrimas que acumulavam em seus olhos.

― Eu realmente não demonstro. Mas eu te juro, , algum dia eu vou te explicar o porquê. ― disse, mas aquilo não a satisfez.

― Algum dia, ? Por que não agora? Eu estou aqui, eu estou ouvindo. ― ela parecia desesperada, mas a garota já estava em um ponto que não conseguia mais conter suas emoções.

― Não posso. ― a voz dele parecia mais quieta que o normal.

― Uma ova que não pode! , você sabe que pode confiar em mim. ― ela se lamentava, mas isso não foi o suficiente.

― Olha, , sinto muito por ter feito o que fiz, mas eu não posso e nem quero te contar o que está acontecendo. Não estou pronto. ― ele suspirava, fazendo com que o barulho quase atrapalhasse a ligação.

― Tudo bem. ― a garota se conformou. ― Só por favor, não suma de novo.

― Eu prometo que não farei isso. Nos falamos mais tarde? ― perguntou esperançosamente.

― Claro. ― encarou as próprias unhas, contendo-se para que não as roesse de tanto estresse.

Ela ouviu o bipe que indicava o final da chamada, mas isso só indicava o começo de muita confusão e um misto de emoções que a garota talvez não conseguisse aguentar.


(...)
Sábado



A chegada do ônibus no hotel em que ficariam em Seattle aconteceu como previsto. e , ao invés de aproveitarem a noite da chegada, decidiram dormir devido ao cansaço e aproveitarem a manhã seguinte para conhecerem o hotel e checarem seus “adversários”.

Não era o hotel mais luxuoso, mas com certeza tinha sua beleza. Não parecia também ser muito novo, mas tinha alguns resquícios de modernidade. Entretanto, o café da manhã era extremamente farto, e o melhor, era de graça! As garotas pareciam sentir que teriam a prova de suas vidas com tanta comida à frente delas, então elas honraram suas personalidades e tentaram comer tudo que podiam.

― Ei. ― chamou a atenção da melhor amiga enquanto elas comiam tranquilamente seus pedaços de torta. ― Tem um cara à sua direita que não para de te encarar.

― O que? Você está mentindo. ― duvidou da de primeira enquanto ria e demonstrava uma careta, mas logo olhou para onde a amiga indicou, encontrando exatamente o que lhe foi apontado.

Um garoto com olhos semelhantes à esmeralda e cabelo que brilhava como ouro sorriu timidamente na direção da , voltando a conversar com seus companheiros de mesa como se nada tivesse acontecido. Algo aqueceu no corpo de , e ela sabia exatamente o quê.

― Ele é lindo. ― ela disse, hipnotizada.

― Será que ele é da outra escola ou só um hóspede do hotel? ― questionava enquanto ela também não conseguia tirar os olhos do garoto.

― Tomara que seja da outra escola, aí poderemos vê-lo de novo durante a confraternização. ― mostrou um sorriso sugestivo, fazendo a melhor amiga rir.

― Eu sabia que era só um Deus grego aparecer que você esqueceria do meu irmão idiota. ― ela continuou rindo e revirou os olhos.

― Eu vou pegar um cupcake. ― a garota fugiu do assunto, porém de maneira bem-humorada, saindo do lugar com um sorriso no rosto e uma alegria que não era tão usual nos últimos meses.

Ela passou por todo o buffet de doces até encontrar o que queria, levando alguns segundos para escolher o que pegar.

― Escolha difícil, hein? ― uma voz masculina ao seu lado se manifestou, fazendo com que ela tirasse seu foco dos bolinhos e olhando ao seu lado. Era o mesmo garoto que a encarou minutos atrás.

― Você está me stalkeando? ― perguntou de maneira brincalhona, semicerrando os olhos e colocando uma mão no quadril.

― Sinto muito se te assustei. ― ele deu de ombros, encostando-se no balcão sem tirar os olhos dela.

― Nah, foi um bom susto. ― ela disse suavemente, mostrando-se despreocupada, porém um tanto galanteadora.

Aquele foi o momento em que ela realmente sentiu medo. Que atitude era essa? Que era essa? Normalmente ela se esquivaria timidamente e mal proferiria cinco palavras, que por acaso seriam palavras bem vagas e sem sentimentos. Contudo, a garota já conseguia sentir que aquela não era uma situação normal.

― Você ainda não me respondeu. ― o garoto apontou.

― Bem, é uma escolha difícil. Amo todos os cupcakes. ― respondeu, desinteressada. ― Está satisfeito?

― Muito. ― ele assentiu lentamente de maneira irônica, mas ainda não conseguia desviar o olhar dela.

― Você ainda não me disse seu nome. ― ela afirmou.

― E nem você o seu. ― rebateu.

― Me chamo .

― E eu sou o . ― ele estendeu a mão para que ela cumprimentasse e, quando a alcançou, beijou seu dorso. ― Prazer em conhecê-la.

― Uau, temos um cavalheiro entre nós. ― riu, mas tentava fingir que estava impressionada.

― Tudo que você quiser, milady. ― zombou e se curvou diante a ela.

― Então, você é de Nova Iorque? ― ela diretamente perguntou, e ele ficou boquiaberto.

― Como você sabe? Você está me stalkeando? ― ele fez pouco da frase que ela disse anteriormente.

― Não, sou de São Francisco. ― a garota explicou, e foi rápido em seu raciocínio.

― Ah, então você é uma adversária? ― o menino questionou.

― Praticamente. ― deu de ombros.

A interação entre os dois foi interrompida pelos colegas do garoto, como reconheceu. Eles gritaram algo que foi inaudível para ela, mas que pareceu entender.

― Bem, preciso ir. ― ele pegou um cupcake de chocolate com cobertura e granulados, colocando no prato da menina e se aproximando do ouvido dela. ― Acho que nos veremos mais tarde então, californianinha.

― Nos veremos. ― ela confirmou enquanto sua visão dele se desfazia lentamente, sorrindo com a possibilidade de uma próxima conversa.


(...)



estava finalizando os detalhes do jantar que faria para a namorada. Inicialmente ele não tinha planejado algo assim, mas presumiu que aquilo deixaria a noite ainda mais agradável. O garoto não era o mais talentoso dos chefs, então ele usou seu talento em um macarrão com queijo e gelatinas para a sobremesa.

Assim que ele colocou o último utensílio na mesa, ouviu o soar da campainha. correu até a porta, mas quando a alcançou adotou uma postura diferente, com o objetivo de não parecer tão ridiculamente nervoso quanto parecia.

― Oi, Samantha. ― ele sorriu suavemente quando viu a namorada em sua frente. ― Você está linda.

Realmente, ela estava. A garota usava um vestido rosa liso que revelava todas as suas curvas, soltou o cabelo ruivo e o cacheou, além de parecer mais radiante que nunca.

― Tudo por você. ― Samantha piscou um olho e deu um selinho em assim que entrou na casa.

A garota já esteve lá antes, então não precisou de uma tour; apenas seguiu o namorado até a cozinha. Samantha o observou desligar o fogão e tirar a panela com o conteúdo desconhecido para ela e colocar na mesa com toda sua curiosidade ativada.

― Uhh, o que você fez? ― ela perguntou de maneira animada.

― Macarrão com queijo. ― o sorriu de um jeito convencido e divertido ao mesmo tempo.

― Uau, estou impressionada. ― a garota ergueu uma sobrancelha e encostou em uma cadeira, recebendo um beijo de . Os dois acabaram se animando um pouco demais, então ela acabou os separando com uma risada leve. ― Vamos salvar isso para mais tarde.

― Como você quiser. ― ele sorriu de canto e puxou a cadeira para que ela pudesse se sentar. ― Vamos comer, então.

O casal permaneceu pouco falante durante o jantar. Ambos pareciam sentir uma mistura de nervosismo com excitação pelo que aconteceria mais tarde ― ao mesmo tempo que a vontade era de pular a refeição e ir direto para o que importava, eles também queriam que aquele jantar durasse para sempre.

A menina elogiou o macarrão e a sobremesa; embora simples, estava tudo muito bom e bem caprichado. Assim que terminou de limpar tudo, eles passaram um tempo no sofá, assistindo qualquer coisa que estivesse na televisão como aquela velha desculpa para poderem se beijar.

Começou lentamente, com a mão de pousada na bochecha da menina, enquanto a mão da mesma acariciava a nuca do garoto. Aquilo durou pouco, visto que a animação dos dois já era visível antes mesmo de tudo começar. Entre mordidas de lábio e beijos delicados no pescoço, o parou a namorada quando a mesma tentava tirar sua camisa.

― Quer ir ao meu quarto? ― ele sugeriu com a ajuda de seu sorriso mais irresistente enquanto permanecia com o rosto quase grudado no de Samantha.

― Você nem precisa perguntar. ― a ruiva respondeu com um sorriso tão sugestivo quanto o do garoto, apenas aumentando as expectativas dele.

O casal subiu às escadas e seguiu até o quarto, um lugar da casa que Samantha ainda não conhecia direito, apenas de relance na primeira vez que a mostrou toda a casa. O garoto informou que teria uma surpresa e saiu dali, deixando-a sozinha para que pudesse analisar tudo em sua volta.

A garota ficou perambulando na volta, analisando cada pôster e móvel que o namorado possuía. Por fim, parou na frente da cômoda dele, mas era o conteúdo que estava em cima dela que a interessou; uma série de fotos de com sua família, seus colegas do time de natação, sua irmã e com o muito conhecido grupo de amigos dos -. Contudo, foi uma outra foto que lhe chamou mais atenção; nela, e se encontravam em uma cachoeira lindíssima. A garota usava um biquíni rosa neon e preto e ele estava sem camisa, apenas com um calção azul. Ambos pareciam estar muito molhados e eles posaram para a foto com abraçando a melhor amiga e beijando sua bochecha. Nenhuma das outras fotografias eram parecidas com aquela, nem as outras com a própria ― que eram numerosas ― ou com suas outras amigas.

Já sentindo um pequeno incômodo, Samantha sentiu algo diferente na parte de trás do porta-retrato. Ela virou o objeto e encontrou um pedaço de papel dobrado colado desajeitadamente na madeira que segura a foto. Ela o arrancou, não conseguindo conter a curiosidade para ler o que estava escrito ali.

“Eu sei que dar uma fotografia de presente de aniversário para alguém é algo nada criativo, mas eu acho essa tão perfeita com nossos sorrisos e a paisagem de fundo que eu precisei ir para alguma loja e comprar a moldura perfeita e te dar (mas juro que tem mais, viu? Nunca que eu deixaria essa data se resumir apenas nessa foto).
Feliz aniversário . Eu te amo daqui até a eternidade,

Sua Kat”



Samantha sentiu seu sangue ferver. Não importava o quanto ela tentava ignorar, sempre seria mais importante para o seu namorado do que ela mesma. Aquele pedaço de ciúmes sempre foi o motivo pelo qual não conseguia sustentar um relacionamento com ele e sempre procurava algo aleatório para que eles pudessem brigar e terminar. era a razão da felicidade de , enquanto era a razão para a insegurança de Samantha. O que aquela garota tinha de tão especial? Mas a boba era ela, afinal todos seus amigos tentaram lhe avisar. Sempre que ela dizia que namorava , falavam “nossa, eu achava que ele namorava aquela menina do cabelo castanho com quem ele sempre anda”. Não era algo repentino.

Quando o garoto voltou a ruiva já não conseguia esconder as lágrimas que se formavam. A “surpresa” dele foi uma garrafa de vinho e ele parecia particularmente animado com aquilo, entrando no quarto com um sorriso divertido.

― Olha, peguei isso da adega do meu pai. ― ergueu a garrafa e percebeu que a namorada estava de costas para ele encarando alguma coisa que não conseguiu identificar.

― Ele não vai sentir falta? ― Samantha perguntou fungando, lentamente virando o corpo para que pudesse olhar para ele. mostrou uma expressão de choque ao ver que ela estava com os olhos marejados e um semblante triste.

― Sam, o que houve? ― ele foi até ela com muita preocupação, alcançando o rosto da namorada para que assim enxugasse suas lágrimas, mas ela o afastou. Em seguida, olhou para baixo e conseguiu ver o que ela encarava antes; o retrato que ganhara de aniversário de .

― Eu não vou conseguir fazer isso, . ― Samantha disse, cabisbaixa.

― Tudo bem, amor, nós podemos fazer isso outro dia ou nunca, se é o que você quer. ― ele tentou pousar a mão na bochecha dela, mas novamente a garota o afastou.

― Eu não estou falando de sexo, estou falando do nosso namoro. ― dessa vez Samantha o olhou nos olhos, precisando que ele entendesse sua sinceridade.

― Por que? Eu fiz alguma coisa? ― ele parecia mais preocupado ainda.

― Não, você não fez. Eu que deveria ter aberto meus olhos mais cedo. ― a garota levemente ergueu o porta-retrato e alcançou pra ele, que parecia incrédulo.

― Eu não tenho nada com a , Samantha! ― se justificou aumentando um pouco o tom de voz, se arrependendo alguns segundos depois.

― Fisicamente pode não ter, mas nós dois sabemos em que lugar seu coração está. E não está comigo. ― a garota foi pegar a bolsa que deixaram em cima da cama, mas pegou suas mãos.

― O que eu preciso fazer para você acreditar que eu não sinto nada por ela além de amizade? ― ele perguntou a encarando diretamente.

― Olhe nos meus olhos e diga que não está apaixonado por ela. Que você não a ama e nunca pensa nela, que não pensou nem por um segundo em beijá-la e tê-la para você, ou que ela nunca fez você perder seu fôlego com a beleza dela e que suas palavras e atitudes carinhosas não correm pela sua mente. ― a garota parecia abatida, mas mesmo assim foi capaz de se manter firme. ― Isso não é de agora, . Eu penso nisso quase todos os dias quando vejo vocês chegando na escola juntos, ou quando você olha para ela e ela olha para você quando precisam se despedir.

― Samantha... ― ele fechou os olhos e engoliu seco, querendo que ela o escutasse, mas sabendo que tudo que ela falava era verdade.

― Está tudo bem, . Nós não escolhemos quem amamos. ― ela deu de ombros e se desprendeu de suas mãos. ― Só por favor, deixe-me ir embora.

suspirou e concordou com o que ela pediu, mesmo que doesse. Então ele a deixou ir, mas precisou falar algo antes.

― Sam. ― ele a chamou, e ela virou o corpo para poder vê-lo. ― Eu sinto muito.

― Eu sei que você sente. ― Samantha assentiu e finalmente foi embora.


(...)



se olhou no espelho; ela alisou o vestido preto que vestiu para que ele se ajustasse melhor em seu corpo e deitou a cabeça no ombro, decidindo se gostava ou não do look.

, vamos lá! Já é a quarta vez que você muda de roupa! ― se mostrava impaciente enquanto assistia a melhor amiga não se decidir no que usaria.

― Ok, ok, podemos ir agora. ― a garota disse enquanto finalizava alguns toques de sua maquiagem e pegava sua bolsa. ― Você acha que ele vai gostar?

― Se ele não gostar, ele é um idiota. ― a loira sorriu, mas logo desmanchou a expressão feliz substituindo por uma insatisfeita. ― Agora vamos!

― Tudo bem! ― riu da melhor amiga enquanto era puxada para o salão de festas do hotel.

A decoração do salão consistia nas cores tanto da escola de São Francisco quanto a de Nova Iorque e os mascotes de ambas ― um cachorro e um tubarão, respectivamente ―, além de luzes intimistas e as mesas divididas entre as cores.

nem se incomodou em sentar em algum lugar; assim que viu quem queria, sabia exatamente o que fazer. Ela fingiu estar interessada na conversa da roda das líderes de torcida até que sentiu um leve toque em seu ombro.

― Oi. ― ele a cumprimentou com um sorriso.

― Oi. ― ela o fez de volta com certa timidez.

Céus, ele estava lindo. tinha um cabelo castanho claro, quase puxado para o loiro, e pusera a quantidade suficiente de gel que um cabelo daqueles precisaria. Ele vestia uma jaqueta de couro e uma camisa cinza por baixo e parecia mais bonito do que lembrava daquela manhã.

― Garotas, eu já volto. ― ela avisou suas colegas e focou sua atenção no garoto em sua frente. ― Então... você está aqui.

― E você também. ― ele riu da falta de jeito da garota para aquilo. ― Quer andar um pouco?

A concordou ao balançar a cabeça positivamente e os dois rodearam o salão em passos lentos e após pegarem copos de refrigerante e alguns salgadinho foram ao jardim.

Conversar com parecia tão fácil. falou sobre quase tudo: sua escola, seus amigos, sua família, todos os problemas com a mãe, mencionou seus hobbys, suas manias, suas séries e filmes favoritos, o que geralmente fazia no dia-a dia, enquanto o garoto também desabafou sobre o fato de seus pais serem divorciados e como ele morava com a mãe e o pai estava muito longe e, assim como ela, falou sobre seus amigos, embora seu grupo não fosse tão leal e grudado quanto o de . Por fim, mencionou a cidade de seu pai: São Francisco, um fato que deixou a garota um tanto chocada.

― Ai meu Deus, qual é o nome dele? Talvez eu o conheça, mesmo que São Francisco tenha mais de oitocentos mil habitantes. ― ela perguntou de uma maneira bem humorada, mas o garoto parecia sério.

― Ah, você definitivamente o conhece, por isso não vou responder. ― ele disse.

― Então me fale apenas seu sobrenome. ― sugeriu, e o garoto olhou para ela.

.

. ― ela sorriu. ― Por favor?

O garoto respirou fundo.

― Meu sobrenome é Redwood. ― ele respondeu e a ficou boquiaberta. ― Está feliz?

― Seu pai é Vincent Redwood, o prefeito?! ― ela arregalou os olhos, ainda não conseguindo acreditar mesmo quando ele a confirmou assentindo a cabeça. ― Ai. Meu. Deus! Por que você não mora lá, então? Eu achava que ele tinha apenas dois filhos.

― Sim, os meus irmãos mais novos que ele teve com a minha madrasta. ― suspirou. Tinha tanto a contar e a mesma quantidade de coisas a esconder, então decidiu que falaria apenas o superficial. ― Diríamos que eu e o coroa não nos damos muito bem e ele nem lutou pela minha guarda durante o divórcio com a minha mãe.

― Ah, eu te entendo muito bem. ― arqueou as sobrancelhas e balançou a cabeça. ― Minha mãe também não lutou pela minha guarda, mas lutou pela da minha irmã.

― Uau. ― ele se compadeceu com a garota e ergueu seu copo de refrigerante. ― Um brinde aos nossos pais horríveis.

― Um brinde que vale a pena. ― ela riu e brindou os copos com ele. ― É tão legal ter alguém com quem falar sobre o quão merda a minha mãe é e não ser julgada ou receber um “vai ficar tudo bem”. Todos os meus amigos têm famílias tão perfeitas que eu até me sinto culpada em reclamar.

― Eu sinto o mesmo. Não que todos os meus amigos tenham famílias perfeitas, mas a maioria é bem estruturada, afinal algumas famílias ricas preferem a morte ao divórcio e ao escândalo. ― fez algumas caretas para complementar sua fala, fazendo a garota rir.

― Espera, faz aquela coisa com seu rosto que você fez quando disse “escândalo”. ― ela pediu entre risadas e o menino fez sua expressão divertidamente assustadora. ― Isso é ótimo.

― Oh, eu realmente sou ótimo com caretas.

― Então faça essa. ― a garota mostrou uma expressão aleatória, e dessa vez quem riu foi ele.

― Que tal essa, então? ― ao invés de imitá-la, botou a mão no rosto dela e olhou em seus olhos, como se estivesse pedindo consentimento para o seu próximo passo. Ao perceber que encarava ora os seus lábios, ora seus olhos, ele recebeu aquilo como um “sim” e se aproximou mais, dando-lhe um longo selinho. ― Era assim que você queria?

― Não tenho certeza... ― mostrou olhos galanteadores e passou a falar mais baixo. ― Acho que vou precisar ver mais uma vez para confirmar.

riu dela novamente, mas dessa vez avançou com mais rapidez e eles se beijaram com vontade, como se estivessem esperando o dia inteiro por aquele momento ― o que de fato estavam.

O beijo dele era calmo, mas feroz ao mesmo tempo. Seus lábios pareceram encaixar como peças em um quebra-cabeça, algo que ela nunca sentira antes. Suas respirações pareciam sincronizadas, assim como seus corpos em si; pousou a mão na coxa dela, enquanto ela arranhava levemente a nuca dele. Foi o melhor beijo que já tinha recebido até aquele momento.

Os dois ficaram juntos pelo resto da noite, surpreendendo os presentes ― exceto por , é claro. Muito por serem de duas escolas que no dia seguinte se enfrentariam em busca de um título nacional, mas também pela maioria dos colegas de acharem que ela era apaixonada por e por ela nunca ficar grudada em um garoto nas festas da turma. Entretanto, não demorou para que eles se acostumassem.

No fim da confraternização, fez questão de levar até a porta do seu quarto. Enquanto estavam nos corredores, ele pegou sua mão e ela sentiu uma corrente de energia por seu corpo, como se aquela fosse apenas a primeira vez que sentiria aquilo, não a única ou última.

― Obrigada por essa noite. ― ela disse ao se encostar na porta e sentir o toque dele em sua cintura. ― Não me divertia assim há muito tempo.

― Digo o mesmo. ― ele sorriu. ― Então, estão preparados para perder amanhã?

― Desculpa, você me confundiu com um espelho? ― ela brincou e ele balançou a cabeça negativamente.

― Você é má. ― deu-lhe um beijo rápido. ― Boa noite.

― Ei, espera. ― abriu a bolsa que carregava e tirou uma caneta dali de dentro. ― Quero te dar o meu número.

― Você pode me dar amanhã. ― ele disse.

― Infelizmente, vencendo ou perdendo, nós vamos embora uma hora depois do jogo. Se ganharmos, a comemoração vai ser no ônibus de volta. ― ela disse com um biquinho formado em seus lábios. ― Acho que nem vamos conseguir nos despedir.

― Que pena, queria passar um pouco mais de tempo com você. ― ele agarrou sua cintura novamente e depositou um beijo na ponta de seu nariz.

― Eu te convidaria para entrar se esse quarto fosse só meu. ― ela suspirou. ― Mas enfim, me alcança seu braço.

fez o que pediu e ela arregaçou suas mangas, escrevendo seu número delicadamente para que todos os dígitos ficassem legíveis.

― Pronto. ― ela disse e apontou a caneta para ele. ― Não suma, está bem?

― Eu não ousaria, afinal você está muito perigosamente apontando uma caneta para mim. ― respondeu e abriu um sorriso capaz de derreter todo o corpo da garota, mesmo que no momento tudo que ela conseguia fazer era rir do que ele disse.

― Boa noite, então. ― quando se acalmou das risadas, foi a vez de avançar e ela segurou o rosto dele, o beijando intensamente antes de se despedir.

No dia seguinte, os dois realmente não conseguiram se ver. O café da manhã tinha horários diferentes marcados para cada escola para que a concentração dos jogadores fosse mais eficiente e as líderes de torcida passaram o dia ensaiando as coreografias que mostrariam durante o jogo e no intervalo. O único momento em que seus olhares cruzaram foi na própria partida.

Depois que viu aquela garota com as roupas ajustadas do uniforme de líderes de torcida e com suor por todo seu corpo, sua concentração no jogo caiu drasticamente. Jesus, definitivamente foi uma estratégia dos californianos para que ganhassem, ele pensou. Contudo, mesmo que fosse, ela era uma linda estratégia.

No final os colegas da realmente ganharam. Ela admitia sentir vontade de perder a viagem e ficar com para “consolá-lo” ― de uma maneira que seria interessantíssima para os dois lados ― pela derrota, mas sabia que não poderia fazer aquilo. Por fim, apenas piscou na direção do garoto enquanto saía do estádio, recebendo o mesmo gesto de volta.

Ela saiu de Seattle com a certeza de que aquele seria um final de semana inesquecível para si; mesmo que seu coração de verdade estivesse em São Francisco com certa pessoa, conseguiu se divertir de verdade e tirar a mente de , algo que queria há muito tempo. Todavia, ela parecia sentir que aquele final de semana ainda renderia muito.

Uma pena que deixou tudo de lado quando viu as esperando no estacionamento da escola com um olhar digno de tirar o fôlego para a melhor amiga.

Quando ele pararia de mexer com a cabeça dela?

Capítulo 6

JUNHO DE 2015


era capaz de espumar de tanta raiva. Já deveria ser a décima quinta loja que ela ia e até aquele momento ela não encontrara um vestido que lhe agradasse para sua festa de dezesseis anos que seria em menos de um mês.
― Eu não aguento mais! ― ela esbravejou enquanto saía de mãos vazias.
― Você vai achar o seu vestido, . Ele está por aí bem escondido em algum lugar, mas você vai achá-lo nem que tenha que ir ao lixão. ― tentou consolá-la com humor, mas aquilo só obteve um impacto negativo na amiga.
― Não está ajudando, . ― ela disse apoiada por um olhar ameaçador.
― Desculpa. ― a loira riu, mas logo desmanchou sua expressão e permaneceu na frente de , percebendo a face triste que ela demonstrava. ― Isso não é apenas pelo vestido, é?
respirou fundo e desviou o olhar, mirando-o no chão de concreto que pisava. Sua melhor amiga estava certa; não era só sobre o vestido. Seus últimos meses tinham sido relativamente bons, mas foi só o mês antes de seu aniversário chegar que tudo pareceu desmoronar.
― Não, não é. ― ela engoliu seco. ― O parou de conversar comigo absolutamente do nada, não fica mais online, não leu minhas últimas mensagens e nunca mais apareceu. O já estava estranho desde aquele fim de semana da viagem, mas parece que ele me afasta cada vez mais. E ainda tem a minha mãe...
― O que tem a sua mãe? ― sabendo que aquele era um assunto complicado, pegou algumas mechas do cabelo de e passou seus dedos delicadamente nelas como um gesto de carinho, algo que a sempre gostou muito.
― Bem, você sabe que nós tivemos poucos momentos felizes na minha infância e alguns desses poucos momentos sempre envolviam a minha festa de dezesseis anos. ― ela começou a explicar, tentando manter-se firme. ― Ela me mostrava seu álbum de aniversário, que foi muito simples porque sua família não tinha exatamente as melhores condições de vida durante a adolescência dela, mas que a minha avó fez de tudo para que fosse uma festa perfeita dentro dessas condições. Ela me dizia o quanto eu era sortuda por ter uma vida muito melhor que a dela, financeiramente falando, e que ela gostaria de me dar uma festa bem grande com todos os detalhes que eu quisesse, assim como a minha avó fez com ela. Na época eu deveria ter uns oito anos e dizia que queria uma festa cheia de unicórnios e algodão doce. ― ela riu fraco com a lembrança. ― Nós falávamos sobre os detalhes, como seria a decoração, a paleta de cores, o convite, as flores e principalmente o vestido, que seria da minha cor favorita e com o corte que eu quisesse. Quando ela escovava meu cabelo antes de ir para a escola, ela sempre falava qual seria o penteado perfeito. Eu não sei, deve parecer bem estúpido da minha parte.
― Não é, . Não é estúpido. ― continuou mostrando seu apoio.
― E agora ela fala menos comigo do que antes. Ela mal está falando com a própria ! ― disse com indignação. ― Parece que ela está bem empenhada em não participar disso do jeito que prometeu. Só queria que o meu pai estivesse aqui e não naquela maldita conferência.
abraçou ela quando viu que a amiga estava a ponto de chorar.
― Olha, que tal nós voltarmos amanhã com toda a nossa trupe? Posso chamar as meninas do esquadrão, podemos trazer a e a minha mãe também. Será um dia das garotas, o que acha? ― ela sugeriu, deixando a amiga pensativa.
― Parece uma boa ideia. ― respondeu e abriu um sorriso fraco, já se sentindo mais animada ainda. ― Você é a melhor amiga do universo inteiro, sabia?
― Eu tinha uma pequena noção. ― piscou e riu em sincronia com a outra garota. ― Vamos para casa?
assentiu e foi com até o carro desta, tentando esquecer tudo que estava acontecendo por pelo menos alguns minutos.

(...)


O ocaso era o momento preferido do dia para entrar na piscina. Com a chegada do verão ele sempre se sentia mais vivo, mas até aquele momento esse não tinha sido o caso.
Desde que Samantha terminara com ele, o garoto sentia-se diferente. Não queria acreditar nas coisas que ela tinha lhe dito, mas parecia não ter escolha. Toda vez que via , se sentia estranho e sem saber o que fazer. Ele sabia que tinha uma atração física pela melhor amiga, aquilo não era novidade para ninguém. Entretanto, ele achava que aquilo era normal, afinal era tão linda, quem não se sentiria atraído por ela?
Mas se apaixonar era outra coisa completamente diferente. Até aquele dia achava que a proteção e o carinho que sentia por ela eram normais, que a necessidade da companhia dela era algo corriqueiro para a maioria das relações entre melhores amigos.
Uma das coisas que mais mexeu com a cabeça dele foi quando voltou de Seattle. Ela voltou como uma pessoa completamente diferente, com mais atitude e menos timidez. Além disso, como “agradecimento por ele ter sido honesto com ela sobre Samantha”, ela também contou do envolvimento que teve com um dos jogadores do outro time durante o fim de semana da viagem, algo que o fez sentir um ciúme muito maior do que seria capaz de sentir pela ex-namorada quando ela passou a sair com outro garoto menos de dois dias depois que terminou com . Aquilo abriu os olhos dele, mas de uma maneira não muito boa.
A maioria diria que ele não estava lidando com aquilo muito bem; sabia que não estava sendo o melhor dos amigos ao afastar de sua vida só porque ele se sentia confuso, mas ele mal conseguia raciocinar perto dela. Ele frequentemente parava de prestar atenção no que ela falava porque se distraía com o brilho dos seus olhos ou com cada traço de seu rosto quando ela estava feliz, triste, frustrada, cansada ou animada. O garoto descobriu coisas sobre ela que ele nunca tinha percebido antes, como o modo que seu nariz franzia sempre que ela sorria, ou como ela colocava uma mecha de seu cabelo atrás da orelha sempre que falava de um assunto complicado, ou como pressionava seus lábios e logo abria um sorriso tímido quando era elogiada.
Maldita seja e suas maneiras adoráveis de ser quem ela era. Maldito seja ele mesmo por não perceber mais cedo o que sentia além da atração física.
mergulhou todo o corpo na piscina, querendo se afogar nos próprios pensamentos.
― Está ocupado? ― ele ouviu a voz da irmã gêmea quando voltou a superfície.
― Não. ― o garoto respondeu e nadou até a borda, cruzando e encostando seus braços nela enquanto sentava e mergulhava apenas os próprios pés.
― Então, eu falei com a hoje. ― contou, mas se incomodou com o silêncio do irmão. ― Ela está bem chateada. O aniversário dela está chegando e a mãe dela está ignorando ela novamente, amanhã vamos sair com as garotas do time e com a mamãe para ver se ela fica mais feliz.
― Legal. ― foi tudo que ele comentou enquanto balançava a cabeça. mostrou-se mais irritada do que antes.
― Sabe, a mãe dela não é a única razão pela qual ela está chateada. ― a loira continuou, dessa vez com um tom de voz bem mais severo. ― Por que você está a ignorando, ?
Mesmo sob pouca luz ela conseguiu perceber a expressão arrependida do irmão e como ele desviava o olhar dela.
― Você ainda não me respondeu. ― afirmou.
― Quando a Samantha terminou comigo, ela me disse que eu estava apaixonado por . ― começou. ― Quer dizer, eu já me sentia atraído por ela, mas nunca percebi que eu poderia estar...
― Bem, só você não percebeu. E ela. ― a irmã balançou a cabeça.
― A questão é que eu não consigo mais ficar perto dela. Eu estou tão confuso. ― ele suspirou.
― Ela é a sua melhor amiga, , e ela precisa de você tanto quanto você precisa dela. ― olhou para o irmão com compaixão. ― Eu sei que é uma situação complicada, mas a sua amizade tem que ser maior do que isso.
Ambos não falaram mais nada. O garoto captou o que ela quis dizer, ponderando sobre as palavras da irmã.
, entretanto, tentava conter sua êxtase. Ela sabia bem que a melhor amiga era apaixonada por e, embora suspeitasse que o sentimento era recíproco, não tinha obtido uma confirmação até aquele momento. Não achou que seria justo falar para ele a natureza dos sentimentos de e vice-versa ― eles mesmos deveriam fazer isso. Contudo, isso não significava que ela não poderia tramar algumas coisas como a boa cupido que se considerava, não é?

(...)

observou o desenho inacabado. Ela pegou o enorme papel delicadamente, deitando a cabeça e tentando decidir se gostava.
Devido a sua falta de paciência para encontrar seu vestido perfeito, ela decidiu que desenharia tudo que tinha em mente; um vestido azul cerúleo, longo e justo. Sua “modelo” no desenho tinha ficado um tanto exagerada, mas ela tinha que admitir que gostou do resultado.
Interrompeu aquele momento ao ouvir o som de alguém batendo em sua porta, levantando-se de sua escrivaninha para abri-la. Surpreendeu ao ver que quem estava em sua frente era justamente seu melhor amigo, acompanhado de uma cara de paisagem e longos suspiros.
. ― ela não conseguiu esconder um choque em sua voz.
― Acho que essa é a primeira vez que você fica surpresa em me ver. ― ele riu fraco por se sentir sem graça, mas sentiu a necessidade de amenizar a situação de alguma maneira.
― Desculpa, é que... ― pareceu constrangida, achando que o garoto tinha se ofendido com a forma que ela se portou, mas foi interrompida por ele.
― Eu sei que não tenho sido o melhor amigo que eu costumava ser. ― ele dizia com uma voz tão baixa que a garota teve que se esforçar para ouvir, mas ele acabou aumentando o tom. ― Sinto muito.
olhou diretamente para os olhos castanhos da melhor amiga, mas parece que aquilo só fê-la sentir-se mais constrangida.
― A te contou? ― os olhos dela se arregalaram mais do que o normal. Não era normal que ela mantivesse segredos de , mas naquele caso ela acabou se sentindo tão vulnerável que achou mais fácil se fechar para ele em relação a isso.
― Ela só confirmou algo que eu já sabia. ― ele disse.
― Que é o quê? ― franziu o cenho.
― Que eu estou sendo um idiota com você. ― pegou a mão dela, causando uma rápida queimação na bochecha de . ― Eu me lembro de você ter me contado toda aquela história da sua mãe com o seu aniversário de dezesseis anos. Deveria saber que você estava passando por algo ruim.
― Não é só isso, . ― ela permaneceu cabisbaixa por alguns segundos até voltar a olhar para ele e revelar mais motivos do porquê estava chateada. ― Você não é só o meu melhor amigo por estar comigo durante momentos difíceis, não é só isso que eu quero de você. Eu não queria que você estivesse do meu lado só para me emprestar um ombro para chorar, eu queria que você estivesse do meu lado para rir comigo sobre algo idiota ou que estivesse ao meu lado nem que fosse para estudar. Eu queria a sua companhia, independentemente de estar feliz ou não.
― Eu sinto muito. ― ele disse novamente, olhando para os próprios pés.
― Só quero entender por que você está me afastando. ― confessou, tentando achar algo que pudesse decifrar pelo jeito que ele a encarasse ou por suas expressões, mas falhou na busca.
― É que...
não sabia o que responder. O toque aveludado da mão dela entrelaçada na dele, o olhar confuso dela sobre o dele e a energia que ela passava só faziam-no querer admitir tudo que sentia, toda a bagunça presente em sua mente. Mas ele não tinha a força para assim fazer. Não sabia como seria a reação dela e tinha medo do que aconteceria caso ele derramasse tudo para cima dela quando nem tinha certeza do que estava acontecendo com si.
― Não vai acontecer novamente. Prometo. ― abriu um sorriso fechado, dizendo a única coisa que conseguiu pensar.
― Acho bom. ― respondeu de maneira manhosa e balançando suas mãos entrelaçadas por alguns segundos antes de largar. ― Agora preciso da sua opinião para algo.
― Claro, pode dizer. ― seus olhos seguiam a garota enquanto ela pegava um desenho de sua mesa e o entregava.
― Então, eu tenho tido um problemão tentando achar o vestido perfeito para o meu aniversário e aí eu cheguei em casa e isso só surgiu na minha cabeça e eu comecei a desenhar. ― ela explicava animadamente. ― Se eu não achar algum parecido amanhã, provavelmente verei quanto custa mandar fazer. Você acha que ficará bem em mim?
observou atentamente o desenho. Depois dos trocentos reality shows de moda que o fizera assistir, o garoto ficou assustado com o talento dela como designer, considerando que os traços estavam iguais aos dos estilistas profissionais dos programas que eles assistiam. Nele, continha uma modelo com o cabelo encaracolado e com parte do cabelo puxada para trás e uma única mecha na parte da frente do rosto que vestia um vestido longo azul-turquesa que destacava todas as partes do corpo e só era solto da panturrilha para baixo. Só de imaginar a garota num daqueles ele sentiu uma pontinha de calor em seu corpo.
― Bem? ― ele arqueou as sobrancelhas. ― , você ficará... maravilhosa.
A melhor amiga o encarou com um sorriso tímido pelo elogio. Esperava apenas um “você ficará bem sim”, mas não um “maravilhosa” acompanhado de um suspiro pesado. Aquilo a deixou atenta, mas em menos de dez segundos ele já mudara de assunto.
― Ei, o seu pai ainda está viajando? ― ele perguntou e ela assentiu. ― A está em casa também?
― Sim, provavelmente lendo alguma coisa. Por que as perguntas? ― perguntou de volta.
― Que tal vocês irem jantar ali em casa hoje? A minha mãe disse que fará massa ao molho pesto e provavelmente terá de sobra, já que isso sempre acontece quando ela faz massa. ― sugeriu e ela pareceu gostar da ideia.
― Claro, só vou falar com a . Você quer ir agora? ― o garoto acenou com a cabeça e ela foi fazer o que disse.
A irmã mais nova de aceitou o convite e os três foram em direção à casa de . Como ele previra, Taylor ficou muito feliz em receber as meninas para o jantar, mas repreendeu o filho pois, se soubesse mais cedo, teria feito mais comida.
― Mas você sempre que você faz macarrão sobra alguma coisa. ― o marido comentou, deixando o filho feliz, mas a esposa emburrada.
― Enfim. ― a mulher se voltou às vizinhas após revirar os olhos para Louis e . ― Vocês sabem que sempre serão bem-vindas para almoçarem aqui.
― Especialmente quando o Harold não está aqui. ― Louis complementou. ― Ele me disse que a conferência está muito chata.
― Sim, ele mal pode esperar para voltar. ― riu.
― Ainda bem que não fui com ele, então. ― disse.
― O que está fazendo agora que as aulas acabaram, ? ― Taylor perguntou enquanto arrumava a mesa e era ajudada pela mais nova.
― Lendo, mas dessa vez por lazer. ― ela explicou. ― Simplesmente não consigo deixar minha mente se aquietar, mesmo nas férias.
― Ah, mas isso é ótimo, querida. Lembro que seu pai era exatamente assim, também. Sempre tirava as melhores notas. ― ela rememorou. ― Você pode ser igual a sua mãe na aparência, mas a sua personalidade é 100% do Harold.
― Já me disseram isso. ― sorriu e assentiu. ― Mas você acha que alguma de nós duas tem a personalidade parecida com a nossa mãe?
Taylor congelou. Ela sabia que as garotas não tinham o melhor relacionamento com a mãe delas, mas já que ela perguntou, não queria mentir.
― Olha, a Katherine jovem era muito diferente da Katherine adulta e mãe. ― Taylor procurava ser o mais delicada possível. ― Quando nós a conhecemos na faculdade, ela era muito calma e serena, embora adorasse uma festa e arranjar alguns probleminhas aqui e ali. A própria família dela também não era muito fácil. Quando lembro da Kathy nesse tempo eu consigo ver tanto...
A mulher percebeu que estava falando demais e decidiu interromper a si mesma, pois sabia que o que pretendia falar em seguida poderia trazer problemas para ela.
― A . ― a esperteza de e as descrições que a vizinha dera de sua mãe fizeram-na lembrar da irmã mais velha imediatamente, fazendo com que ela mesma completasse a fala que Taylor não conseguiu terminar.
― É. ― suspirou. ― Mas a sua irmã é muito mais empática que a Katherine, acredite em mim.
― Eu sei. ― assentiu lentamente, mas sabia que Taylor falava a verdade. Sempre notou as similaridades entre a irmã e a mãe, mesmo que elas não se dessem bem.
Aquilo encerrou a conversa, e pouco tempo depois já estavam todos jantando. não pôde comparecer, e obviamente as garotas notaram sua ausência. Taylor e Louis explicaram que ela estava dormindo na casa de “uma tal de Jane”. , e se entreolharam com sorrisinhos maliciosos.
― Ela tem passado bastante tempo com essa garota, inclusive. ― Taylor comentou, franzindo o cenho.
― Ah é, nós notamos que elas se aproximaram bastante no último ano letivo. Jane é muito simpática, não sei se ou contaram que ela está no time feminino de natação. ― falou, tentando manter-se casual e sem vazar nenhuma informação que não coubesse a ela.
― Ah, sério? ― Louis pareceu surpreso e olhou para o filho. ― Isso é bem legal.
― Ela é uma das melhores. ― complementou. ― Além de tirar ótimas notas. Uma ótima garota, aquela lá.
Os amigos voltaram a se olhar com seus sorrisinhos. Se e Jane começassem a namorar, pelo menos eles já estavam deixando as coisas mais leves ao elogiar a garota por quem a loira era apaixonada, embora ela mesma não tenha vocalizado isso ao grupo.
O momento foi interrompido pelo toque do celular de Louis. Embora Taylor tenha pedido para que o marido o desligasse, ele declarou ser importante e foi atender a chamada. Poucos minutos depois, ele voltou pálido e com o corpo duro, preocupando a família e as visitas.
― Amor, o que aconteceu? ― Taylor levantou-se imediatamente da cadeira ao notar a expressão do marido.
― O Scott foi preso. ― ele disse.
― Scott? ― sussurrou para , curiosa por não saber de quem se tratava.
― O meu tio, pai do . ― ele respondeu com o mesmo tom, mas mostrando uma expressão preocupada. Assim que revelou a informação, e , principalmente, pareceram chocadas.
― Eu preciso ir para Los Angeles, tentar soltar ele e ver como está. ― Louis respirou fundo e fechou os olhos. ― Deus, por que fui ter justamente um irmão tão inconsequente?!
― Calma, vai dar tudo certo. ― Taylor tentou mostrar apoio ao marido e massageou levemente os seus ombros. ― Você quer que eu vá com você?
― Não precisa, fique aqui com os gêmeos, vou pegar uma mochila porque provavelmente só vou conseguir voltar amanhã de noite. ― ele respondeu e depois se voltou para as visitas. ― Garotas, sinto muito que a noite tenha se transformado nisso.
― Que nada, tio Louis, essas coisas acontecem. ― foi quem falou, pois parecia chocada demais para fazê-lo. ― Se precisar de algo, estaremos aqui.
― Muito obrigado. ― ele acenou com a cabeça e subiu rapidamente para pegar as coisas necessárias e voltou pouco tempo depois, já parecendo completamente preparado. Ele foi até o filho e beijou a sua testa. ― Tenha uma boa noite, filho.
― Ligue para nós quando chegar, ok? ― o garoto pediu e seu pai assentiu.
― Pode deixar. ― ele foi até a esposa e deu um selinho nela, mas logo percebeu sua expressão angustiante. Louis tocou em sua bochecha. ― Vai ficar tudo bem, Tay.
― Eu sei, é que as coisas com o seu irmão sempre são bem complicadas e eu queria estar com você. ― a mulher mostrou um leve beicinho, causando o primeiro sorriso do marido em quase uma hora.
― O seu apoio já é mais do que o suficiente para mim. ― ele declarou e a beijou por mais tempo do que anteriormente. ― Eu te amo.
― Eu também te amo. ― Taylor retribuiu com um sorriso apaixonado e foi até a porta da frente para abri-la. ― Dirija com cuidado.

(...)

Todo mundo que e pensaram em chamar estava ali. A mãe da primeira, a irmã mais nova da segunda e suas companheiras do esquadrão de líderes de torcida. mostrou o desenho para todas elas, dizendo que o objetivo era encontrar um vestido pelo menos parecido com aquele.
Elas passaram por inúmeras lojas no centro da cidade, mas nenhuma tinha um vestido que se assemelhasse ao menos um pouco com o que a futura aniversariante queria. O sol já estava se pondo quando o grupo decidiu ir a um shopping para ver se haveria ele em alguma loja como uma última tentativa.
Foi numa loja nos fundos do segundo andar que a magia aconteceu. Na vitrine, notou que um vestido rosa na manequim tinha os cortes muito parecidos com o do desenho que fizera.
― Esse é igual ao que você queria, ! ― exclamou. ― Pena que é rosa.
― Não custa tentar. ― afirmou, entrando na loja logo em seguida.
Uma vendedora a abordou da maneira tradicional, perguntando se a garota precisava de ajuda. tirou o desenho da bolsa e mostrou para a mulher, afirmando que o vestido que estava na vitrine era muito parecido e queria saber se na loja havia em outros tons. O coração da adolescente se aqueceu quando a vendedora a respondeu que sim, trazendo depois de alguns minutos o mesmo vestido nos tons de vermelho, preto, roxo e um maravilhoso azul royal.
Os olhos da menina brilharam e suas companheiras comemoraram. Ela foi até o provador e quase chorou quando viu seu reflexo no espelho. Mesmo que tenha imaginado o vestido num tom de azul mais claro, o royal pareceu ter sido feito para ela e sua pele.
― Está... está perfeito. ― ela disse quando lentamente foi mostrar às meninas que a acompanhavam como o vestido ficava nela.
― Ai meu Deus. ― , junto com outras, levou a mão para a frente da boca, chocada com o quão linda sua irmã ficou. ― Você precisa levar!
continuou sorrindo e em êxtase até pegar a etiqueta e observar o preço do vestido. A garota murchou ali mesmo.
― É caro demais. ― suspirou. ― Não acredito! Finalmente acho o vestido perfeito e ele é completamente fora do meu limite. Parece que foi planejado.
Extremamente chateada, ela colocou suas roupas normais e devolveu o vestido para a vendedora, agradecendo pela atenção e se desculpando por tirar seu tempo. Sem ânimo algum, disse que as colegas poderiam voltar para as suas casas e se desculpou com elas também, que a consolaram rapidamente e logo fizeram o que a garota sugeriu.
Por fim sobraram apenas , , e Taylor no shopping. As três últimas fizeram um pequeno esforço para animar a primeira, mas nada pareceu funcionar.
― Ei garotas, que tal jantarmos aqui? ― Taylor sugeriu e as outras concordaram. ― Escolham o que quiserem comer e achem uma mesa, ok? Só vou fazer algo rapidinho e me encontro com vocês.
As meninas fizeram o que a mãe de pediu. em um dia normal pediria apenas um combo do Whopper no Burger King, mas devido ao dia ruim, pediu dois e ainda batata extra; pegou a salada do Subway e encontrou um buffet de Sushi, se esbanjando nele. Elas escolheram uma mesa exatamente no meio da praça de alimentação e esperaram uns bons dez minutos por Taylor, que voltou com um à la minuta e uma enorme sacola no braço.
― Caramba, mãe, o que você comprou? ― riu fraco e bisbilhotou a sacola, sorrindo quando viu o que tinha ali dentro. ― Ai meu Deus.
― O que foi? ― perguntou de maneira curiosa, se esticando para tentar ver o que tinha ali também.
Taylor botou a sacola no colo de , que a encarou com a testa franzida. Por estar suja de ketchup no canto da boca e com as mãos piores do que isso, ela pegou um guardanapo e se limpou antes de ver o que havia dentro.
A observou bem, voltando a olhar em direção à mulher, apresentando olhos marejados.
― Tia Taylor... eu não acredito nisso. ― ela disse tão baixo que quase parecia sussurrar. ― Você comprou o vestido.
― Para você, querida. ― a loira sorriu de maneira carinhosa, emocionando ainda mais a garota.
― Mas era tão caro! ― exclamou.
― Você merece. Considere como um presente de aniversário.
― Continua sendo caro para um presente.
Você merece. ― Taylor reforçou, olhando nos olhos da menina que mal conseguia enxergar algo com tantas lágrimas bloqueando sua visão.
saiu imediatamente da sua cadeira para abraçá-la da maneira mais amorosa possível. A garota sentiu um calor e um carinho que nunca na vida sentira da parte da sua própria mãe biológica. Naquele exato momento, na realidade, ela esqueceu tudo sobre Katherine e sentiu-se extremamente grata pelo que a vizinha tinha feito, sentindo uma leveza e uma sensação muito estranha, mas muito boa, em seu coração.
― Obrigada, obrigada, obrigada! ― ela repetitivamente agradecia, mas ainda não achava que era o suficiente.
― Era o vestido perfeito. ― Taylor falava como se estivesse se justificando, já tão emocionada quanto a garota.
Foi naquele momento que soube que, mesmo tendo uma mãe biológica que mal se importava com ela, sempre teria uma mãe de coração ao seu lado. E aquilo já começava a importar mais para ela do qualquer outra coisa.

(...)

estava completamente entediado e isso era evidente pelo jeito completamente folgado que estava deitado no sofá e pelo fato de estar zarpando pelos canais e nunca parar em um para assistir algo; parecia que nada prestava.
O garoto bufava de minuto a minuto, não tendo ideia do que fazer. Quando sentiu um pouco de sede, levantou-se pela primeira vez em quase duas horas para pegar um copo de água na cozinha.
Assim que ele voltava para a sala, o barulho de uma chave destrancando a porta chamou sua atenção, mas ele esperava que fosse sua mãe e sua irmã voltando do passeio com . Entretanto, surpreendeu-se quando seu pai apareceu ali carregando uma enorme mala e com o seu primo, , atrás dele.
― Ah, oi gente. ― ele os cumprimentou de uma forma não tão alegre por causa dos acontecimentos da noite anterior. ― Como foi lá?
― Complicado, conto os detalhes mais tarde. ― Louis respondeu. ― , você se importa em dividir o quarto com o ?
― Claro que não me importo, você vai ficar aqui por quantos dias, cara? ― ele perguntou ao se dirigir para o primo.
― Na verdade, , o morará conosco por um tempo. ― seu pai informou, intrigando o garoto.
― Uau... ― arqueou a sobrancelha, mas voltou a olhar para com a expressão chocada e confusa. ― Seja bem-vindo, então.
acenou com a cabeça, ainda calado e visivelmente abalado. Ele apenas murmurou algo inaudível e subiu para o quarto do primo que, a partir daquele momento, seria dele também.
Ele só queria gritar, espernear e fugir. Contudo, tudo que poderia fazer naquele momento era desfazer as malas e seguir em frente como se nada tivesse acontecido em Los Angeles, mesmo sabendo que receberia perguntas sobre isso por toda eternidade.
“Vá para São Francisco com o seu tio.” Ele ainda via em sua mente o macacão laranja e o rosto sujo. “Você não tem nada aqui em Los Angeles”.
“Eu tenho você.”
“Não mais. Vá, garoto, e nunca mais volte.”
Nunca mais volte. Nunca. Nunca.

Capítulo 7

JULHO DE 2015

dedilhava cuidadosamente as cordas em seu violão enquanto permanecia sentado no colchão macio que lhe foi fornecido quando se mudou para a casa dos tios. Aproveitava a paz incomum da casa, causada pelo aniversário de que os tios estavam ajudando o pai dela e ela mesma a organizar.
Irritado com a desafinação, ele colocou a palheta na boca e passou a ajustar as cordas. Foi justamente com essa imagem que invadiu o quarto sem ao menos bater na porta antes.
― Ai meu Deus! Sinto muito, , eu não tinha ideia que tinha alguém aqui! ― a menina pareceu desesperada e muito envergonhada, mas sentiu-se hipnotizada pelo relance que teve do garoto sem camisa, com os lábios pressionando a palheta e tocando violão.
― Tudo bem. ― ele abriu um sorriso modesto.
― O pediu para eu vir aqui e pegar a carteira dele. ― ela se justificou.
― Está na mesa de canto dele, eu acho. ― revelou, mas pareceu confuso. ― Por que ele queria que você pegasse a carteira dele?
― Ele quer comprar umas flores para a de surpresa. ― sorriu. ― Tão fofo.
Lentamente, foi entendendo o que realmente acontecia em São Francisco além de suas raras visitas. O grupo de amigos dos primos era mais unido do que ele pensava,
― E por que ele mesmo não veio aqui? ― perguntou novamente.
― Ele ficou com preguiça. ― ela deu de ombros e riu.
― Típico. ― o garoto comentou, acompanhando a garota nas risadas.
De repente, tudo ficou muito quieto. foi pegar a carteira de , mas não saiu do quarto assim que conseguiu o que queria. Ela ficou parada de uma maneira um tanto quanto desajeitada, como se quisesse falar algo antes de ir.
― Você vai ao aniversário, certo? ― ela perguntou com certa esperança.
― Ah, , eu não sei... Não estou muito animado. ― resmungou levemente, mas aquilo não a convenceu.
― Por favor! Pela . ― ela pediu, mas percebeu que teria que se dedicar mais. Ela embalou o corpo de um jeito tímido e olhou diretamente para ele com os lábios formando um beicinho. ― Por mim?
não conseguia acreditar que estava usando sua muito conhecida beleza acanhada para convencê-lo de algo; não parecia algo que a garota faria alguns meses atrás. Entretanto, seus lábios propositalmente inchados, seus olhos azuis penetrantes e seus movimentos adoráveis se fizeram irresistíveis.
― Tudo bem... Por você. ― ele ressaltou, devolvendo o olhar.
Ela sorriu ora para o chão, ora para o garoto antes de sair do quarto, satisfeita com a sua pequena, porém significante, investida.
Aquela com certeza seria uma noite memorável.

(...)


encarava as variadas espécies de flores organizadas em caixas com a testa franzida devido à sua indecisão. Ele não era exatamente o tipo de cara que saberia exatamente o tipo de flor para dar a uma garota em seu aniversário, mas o fato de tal garota ser já fazia com que ele olhasse para toda aquela situação diferentemente.
Ele instantaneamente se arrependeu de não ter levado a irmã ou com ele. Elas certamente saberiam o que a gostaria, elas sempre sabiam. não queria receber dicas dos vendedores pois eles não tinham ideia de quem era ou o que ela apreciaria e ele precisava que fosse algo perfeito.
Após sua paciência se esgotar com si mesmo, o garoto pegou o celular e discou o número de .
― O que você quer, ? Estou ocupada. ― e seu rotineiro amor de irmã não abalaram o garoto.
― Você está com a agora? ― ele perguntou.
― Sim, por quê?
― Você pode ir para outro cômodo, por favor? ― pediu e ele conseguiu ouvir a respiração pesada dela pelo telefone.
― A gente está se maquiando. ― ela continuou impaciente.
― Por favor, , é sério.
― Tudo bem. ― a garota resmungou e demorou alguns segundos para falar novamente. ― O que foi?
― Eu estou comprando flores para a , mas é segredo. ― ouviu um “own” no outro lado da linha. ― Mas eu não tenho ideia do que posso comprar.
― Ela sempre amou tulipas.
― Tulipas? ― o garoto ficou confuso. ― Mas eu achei que ela odiasse amarelo.
― Nem todas as tulipas são amarelas, sabia? ― mesmo que não estivessem se vendo pessoalmente, sabia que ela provavelmente fez sua expressão de sabichona. ― Enfim, a partir daqui você está sozinho. Preciso voltar imediatamente, senão eu vou atrasar a .
― Não, , espera! ― a súplica do menino foi em vão, pois em menos de um segundo ele ouviu o bipe que indicava que a ligação tinha acabado.
procurou por um dos funcionários e questionou se naquela floricultura eles possuíam tulipas. A mulher de avental o levou até uma parte da loja apenas com esse tipo de flores, de variadas cores e tamanhos. O garoto ponderou por alguns segundos sobre quais levaria, até decidir que provavelmente adoraria um buquê com tulipas rosas, brancas e roxas ― suas três cores favoritas ― e fez o pedido.

(...)


observou a janela com uma expressão preocupada no rosto. A noite já começara a cair e ela sequer tinha colocado o vestido que usaria para recepcionar os convidados ― ela somente usaria o vestido azul quando a festa começasse oficialmente. Os pontos positivos eram que ela já estava no salão de festas, que possuía dois andares e o segundo seria usado para a mesma se arrumar, e que já estava maquiada. O que faltava era arrumar seu cabelo e sua irmã chegar com os vestidos.
A espera parecia interminável e cada minuto passado parecia durar uma hora. Sua respiração já estava no nível de precisar ser regulada de tanto nervosismo que a garota sentia. O único motivo pelo qual ela não roía suas unhas era porque elas já estavam perfeitamente feitas e não queria estragar o seu look quando estivesse pronto, mas se fosse em qualquer dia normal, seus dedos estariam em carne viva.
chegou quase uma hora antes da festa começar, recebendo o maior xingamento da sua vida pela parte da irmã mais velha.
― Sinto muito, ! O carro do papai estragou no meio do caminho. ― ela se justificou e a outra cruzou os braços.
― Tudo bem, mas a festa começa a qualquer momento! Preciso ficar pronta e a cabeleireira nem chegou ainda. ― suspirou, batendo o pé freneticamente no chão.
Coincidentemente, poucos minutos depois da garota falar aquilo o seu celular soou o toque definido para mensagens. Seu corpo amoleceu e sua expressão enrijeceu quando leu o conteúdo.
― A cabeleireira vai se atrasar, o filho dela está com uma febre. ― contou com o coração dividido entre sentir pena da mulher e sentir o desespero de não ficar com o cabelo pronto.
― Olha, eu poderia fazer algo no seu cabelo agora para a recepção, afinal a cabeleireira provavelmente vai chegar a tempo da hora da festa. ― a irmã mais nova sugeriu, deixando a outra esperançosa.
― Sério? Que penteados você consegue fazer? ― recuperou o brilho nos olhos.
― Tranças e... ― a garota ficou pensativa. ― Acho que só tranças. E eu sei mexer em um babyliss, mas não sei se conseguiria deixar tudo bonitinho.
A aniversariante ponderou sobre suas opções naquele momento; não seria o penteado mais profissional, mas o seu desespero era tanto que minutos antes ela já estava pensando em fazer a recepção de cabelo solto e apenas escovado.
― Tudo bem, uma trança está de ótimo tamanho do jeito que as coisas estão indo hoje. ― riu de nervoso, mas preparou tudo para que ela e ficassem confortáveis.
agradeceu aos céus com a rapidez e a habilidade da irmã. Mesmo que tranças fossem um penteado para situações mais casuais, a que ela fez estava perfeita para a ocasião. Ela caía suavemente até um pouco abaixo dos seus ombros, enquanto duas pequenas mechas ficaram soltas perto de seu rosto, dividindo a atenção com a maquiagem delicada.
― Ugh, o que eu fiz para te merecer? ― a garota abraçou com todo o amor fraternal disponível em seu corpo.
― Nada, eu que sou uma boa pessoa. ― ela brincou, causando uma expressão de paisagem em .
― Não importa, ainda te amo. ― ela riu e atirou um beijo para , não podendo fazer isso em seu rosto para que não borrasse o batom.
No meio da brincadeira das irmãs, elas ouviram alguém batendo na porta e se preocuparam com a possibilidade de ser a cabeleireira agora que estava pronta, mas para suas sortes ― ou, pelo menos, a sorte de ― era .
Ele já parecia estar pronto para a festa; vestia um terno azul marinho ― que em algumas luzes a sua diferença para com um preto seria quase imperceptível ―, o cabelo estava bem escovado e sem fios rebeldes e o seu perfume de cheiro fresco estava bem mais acentuado, atraindo os sentidos de .
― Bem, vou dar uma volta e ver se está tudo bem. ― sentiu a tensão entre a irmã e o amigo e decidiu deixá-los sozinhos, que mal pareceram notar a sua saída.
― Você está aqui. ― disse com os olhos arregalados. ― Já tem mais gente chegando?
― Não, eu que vim muito cedo, mas tive um motivo. ― o parecia nervoso e abriu um sorriso não muito grande, mas significativo.
Foi apenas quando ele ergueu o braço que viu que carregava um buquê de flores, mas o melhor foi quando ela conseguiu observar que eram tulipas. Lindas tulipas, equilibradas e misturadas entre os tons leves de branco, rosa e lilás.
! ― a sua voz afinou com a emoção que passou a sentir. ― Elas são para mim?
― É claro. ― ele assentiu, as entregando à garota. ― Feliz aniversário, .
encarou o buquê e, em seguida, o melhor amigo. O jeito que seu coração acelerou ao ganhar o presente e que seu corpo arrepiou quando sentiu seu cheiro denunciavam que aquela maldita paixão ainda não tinha ido embora, mas pelo menos naquele momento ela teve, pela primeira vez, a sensação de que talvez seus sentimentos fossem recíprocos.
Ela largou as flores em uma cadeira e correu para o seu abraço, sentindo um conforto como nunca antes.
― Muito obrigada. ― disse quase que como um sussurro. ― Por isso e por tudo.
apertou e se envolveu mais no abraço, enquanto a palma da sua mão sentia a delicadeza da renda do vestido que usava. Ele beijou o topo da cabeça dela, não tendo dificuldade em alcançá-lo devido à diferença de altura entre os dois. Quando eles se separaram, a mão de involuntariamente desceu até a mão dela, entrelaçando seus dedos. Ele se aproximou dela novamente e acariciou sua bochecha, sendo completamente levado pelo momento. chegou a sentir um pequeno toque do lábio dele no dela, mas essa interação foi interrompida pela porta sendo repentinamente aberta, fazendo com que os jovens pulassem para longe um do outro.
― Papai! ― a garota exclamou, ofegante, ao ver o seu pai parado ali com a mão na maçaneta e a testa franzida.
― Olá, querida, só vim aqui te avisar que alguns dos convidados já estão chegando, então é melhor que você desça para as fotos. ― Harold avisou. A filha assentiu e despediu-se do com um aceno, passando pelo pai antes de sair dali.
O encarou ora as flores pousadas na cadeira, ora e lembrou-se da cena que contemplou ao chegar ali.
― Tem algo acontecendo entre vocês dois? ― ele perguntou ao garoto, que assumiu uma postura quase tensa.
― Não, tio Harold... Quer dizer, sr. , não precisa se preocupar. ― respondeu com certa confusão. Uma coisa era tê-lo como um vizinho e amigo da família, quase tio. Outra era vê-lo como o pai da garota por quem estava apaixonado. ― Eu vou... hum... descer...
Harold assistiu o garoto sair dali com a maior vontade de gargalhar dele, mas sentiu pena ao mesmo tempo. Tê-lo como um possível futuro genro não seria de todo ruim.

(...)


Conforme a noite foi passando, os pés de foram se deteriorando cada vez mais, ao ponto de ela já não conseguir senti-los. A segunda parte da noite já chegara e ela já estava com seu perfeito vestido azul e com o penteado que tinha escolhido, com a cabeleireira chegando uma hora depois do combinado. Ela só estava esperando o maquiador terminar de retocar sua maquiagem quando ouviu o toque do seu celular e se surpreendeu com o nome “Katherine” piscando em sua tela.
― Mãe? ― ela já diretamente perguntou, demonstrando-se um pouco chocada.
― Feliz aniversário, . ― disse com pouco entusiasmo na voz.
― Obrigada, eu acho. ― a menina franziu o cenho e estranhou a ligação. ― Eu sei que você não vem, mãe, não precisa me avisar por telefone. O fato de você ter me ignorado pelas últimas semanas já foi o suficiente.
― Desculpa, aconteceu um imprevisto... ― Katherine usou a desculpa de sempre, nem surpreendendo a filha. ― Mas eu vou aparecer nos próximos dias. Preciso falar com você e a sua irmã.
― Não tenha pressa. ― disse um tanto quanto agressivamente, sendo a última coisa falada naquela ligação; sua mãe desligou a chamada após alguns segundos de silêncio.
Honestamente, a garota não tinha tempo para dramatizar sobre a situação com a sua mãe, muito menos ficar curiosa com o assunto sobre o qual ela queria falar com e . Ela focou apenas em ficar pronta para que a festa oficialmente começasse.

(...)


olhava ao redor com a maior expressão de tédio possível. Adorava seus primos, adorava e , mas a rodinha de outros amigos deles? Os colegas? Desprezíveis, com atitudes que beiravam um nível animalesco. Ele só não saía dali porque estava com os tios e se segurando na esperança de ter alguns momentos com .
― Sabe, seria bom se você socializasse com algumas pessoas daqui. Quando o verão acabar, eles serão seus colegas. ― seu tio Louis sugeriu, mas o garoto apenas suspirou.
― Não estou interessado.
― Até o , a e a ficaram presos entre si. Eles têm outros amigos, mesmo que os principais sejam eles mesmos. ― Taylor comentou. ― Por favor, , estamos pensando no seu bem.
Os tios apenas ouviram um “uhum” saindo da boca dele e se encararam, antes de perceberam o motivo real de o sobrinho estar distante e falando pouco. Ele não parava de olhar para uma menina com um vestido curtinho verde-água e com parte do cabelo liso preso para trás que andava para lá e para cá no salão, conversando com os organizadores da festa e o próprio pai.
― Parece que ele já tem companhia... ― o casal riu baixo entre si, mas os escutou. Ele apenas riu dos tios e sorriu de canto antes de voltar a observar a menina.
Após alguns minutos, olhou em direção à mesa dos s e abriu um enorme sorriso quando viu que estava ali, logo acenando suavemente. Ele acenou de volta e achou uma das coisas mais fofas do mundo quando ela corou levemente e voltou a fazer o que fazia antes.

(...)


conversou por boa parte do tempo com os seus colegas do time de natação até ouvir as primeiras melodias da canção que escolheu para descer às escadas e começar a festa. A maioria das luzes do salão foram apagadas e a única que restou foi a do holofote que seguiria os passos da garota à medida que ela descia.
Quando deu seus primeiros passos, os convidados não tiveram outra escolha além de olharem para ela; mesmo ela não estando vestida como uma “princesa”, com um vestido de saia bufante e um cabelo exageradamente cheio de spray, sua beleza naquela noite estava de tirar o fôlego. Tudo nela estava lindo, desde o vestido azul que adequou às suas curvas, o penteado que deixou seu cabelo ondulado de uma maneira natural, sua maquiagem delicada e até sua postura elegante. A vontade de foi ir até ali e ele mesmo recebê-la, mas sabia que não poderia fazê-lo.
O pai de pegou a mão da garota quando ela chegou ao último degrau, levando-a até a pista de dança, presente no meio do salão. A música parou e a garota pegou o microfone que o DJ alcançou a ela.
― Ai meu Deus, eu não acredito que esse dia finalmente chegou. ― ela disse, rindo com a mão no coração. ― Quem me conhece há bastante tempo sabe que eu falo sobre essa festa desde... bem... sempre! Eu mudei muito com o passar dos anos e quando eu era uma criança e uma pré-adolescente eu sempre imaginava essa festa como um grande vômito de unicórnio, mas agora estou feliz que não escutei a minha eu do passado e fiz algo que tenha mais a ver com quem sou hoje, algo ainda feminino mas com mais neutralidade e personalidade. Mas fazer isso não seria possível sem a ajuda da minha organizadora e, é claro, da minha família e dos meus amigos, especialmente meu pai Harold, minha irmã , meus melhores amigos e e os pais deles Taylor e Louis. Vocês ajudaram a fazer a festa dos meus sonhos e me acalmaram sempre que um imprevisto aparecia ou quando eu achava que algo daria errado. Vocês não têm ideia do quão agradecida eu sou por ter todos vocês ao meu lado.
Naquele momento, todos os citados e a própria aniversariante já estavam com os olhos marejados, mas fizeram um bom trabalho ao tentarem segurar as lágrimas, porém não conseguiram esconder os sorrisos.
― Por fim, agradeço a todos pela presença. Cada pessoa convidada tem um lugar especial no meu coração e eu realmente espero que vocês gostem dessa festa que foi planejada com todo o carinho. Muito obrigada por comemorarem meus dezesseis anos comigo e agora... comam muito, bebam muito e dancem muito! ― terminou o seu discurso e imediatamente o DJ passou a tocar músicas animadas, levando quase todos da festa à pista de dança. A aniversariante, entretanto, foi com os olhos arregalados e bufando em direção à mesa que , e estavam sentados, sentando-se ali também. ― Fui bem?
― Foi ótima, amiga. ― esfregou o ombro de , que sorriu com tranquilidade.
― Obrigada. ― agradeceu.
― Quer um gole d’água? Você parece cansada. ― ofereceu o copo que tomava e a garota aceitou de bom grado.
― Você não tem ideia. ― foi a resposta da garota para o que ele presumiu. Ela tomou um pouco do líquido o devolveu. ― Muito obrigada.
― Você não tem mais nada para fazer e pode aproveitar a festa? ― a melhor amiga perguntou.
― Não. E por falar nisso, preciso ir cumprimentar outras pessoas. ― revirou os olhos e se levantou, pegando espontaneamente na mão de , atraindo os olhares dos familiares do garoto ali presentes. ― Vamos dançar juntos depois, certo?
assentiu com um sorriso que denunciava o quão fascinado estava pela garota naquela noite. Ela retribuiu esse sorriso e o atirou um beijo antes de ir embora, deixando-o na expectativa por boa parte do tempo até voltar.

(...)

Após algumas horas, já suava de tanto que dançou na pista de dança. No meio da festa ela conseguiu encontrar Jane O’Hara misturada entre seus colegas de classe e dançou com ela o máximo que aguentou, não conseguindo evitar os sorrisos e o coração acelerado enquanto o fazia. Quando decidiu que já não estava mais resistindo, ela voltou à mesa de sua família para “reabastecer” e recuperar suas energias, surpresa quando percebeu que a mãe a encarava.
― Você parecia feliz dançando ali. ― ela disse enquanto a filha se sentava.
― Bem, adoro festas. ― falou como se não soubesse que a mãe queria direcionar o assunto à outras coisas.
― Qual é o nome daquela garota com quem você dançou, mesmo? ― Taylor perguntou com o cenho franzido.
― Jane. ― respondeu com um pouco de hesitação na voz.
― E é a mesma Jane com quem você anda tendo várias festas do pijama e passando o tempo, certo? ― a mãe perguntou novamente como se já não tivesse feito essa associação anteriormente.
― Sim. ― a garota respondeu novamente, sentindo medo do rumo que aquela conversa parecia estar tomando.
― Você gosta dela, ? Num sentido romântico? ― Taylor novamente questionou, e a filha fechou os olhos e suspirou.
― Será que podemos falar sobre isso em outro momento, por favor, mamãe? ― quase suplicava de tanto medo da reação que sua mãe poderia ter caso ela dissesse a verdade no meio da festa.
― Se é o que você quer. ― a mulher deu de ombros.
― Obrigada. ― ela suspirou de alívio e se levantou para voltar a dançar, mas sentiu os dedos ossudos de Taylor na volta do seu pulso.
― Eu só quero que você saiba que, se você gosta da Jane, ela sempre será bem-vinda em nossa casa.
Toda a angústia que sentira anteriormente se dissipou quando ouviu aquelas palavras vindas da mãe, sendo substituída por um sentimento de extrema felicidade e gratidão. Os olhos da jovem lacrimejaram e ela pressionou os lábios como uma maneira de não deixar as lágrimas rolares, mas acabou abraçando Taylor com todo o amor que possuía por ela, por mim sussurrando em seu ouvido:
Você não tem ideia do quanto isso significa para mim.

(...)


Já fazia muito tempo que a festa tinha começado, mas boa parte dos convidados ainda estavam concentrados na pista de dança. Quando finalmente terminou de cumprimentar todo mundo em todas as mesas, ela voltou para a mesa onde agora estavam , e conversando. Ela agressivamente interrompeu a conversa ao pegar na mão de e o arrastar até a pista.
― Ei, eu preciso do meu braço, ! ― o garoto reclamou entre risos, se divertindo com a situação.
― Bem, você respondeu que dançaria comigo depois que eu terminasse tudo que precisasse fazer. ― se justificou.
― Você é cruel, mulher. ― balançou a cabeça negativamente em desaprovação, mas acompanhou a garota.
A música que tocava era bem agitada, possibilitando que eles dançassem de maneira espontânea e, muitas vezes, cômica. Ambos não eram pessoas que faziam questão de dançar muito, mas quando o faziam, era épico. Eles simplesmente não se importavam se pareciam bobos ou idiotas dançando, só queriam saber de se divertirem ao máximo.
Seguiram por cerca de três músicas nesse ritmo, até que, em um momento, o DJ estranhamente pôs uma canção lenta, o que a aniversariante achou que não estaria no repertório. Entretanto, quando ela foi olhar para a cabine, lá estava com um sorriso maroto, acenando para a melhor amiga e o irmão como se fosse a pessoa mais esperta do universo. Eles riram da loira, logo se encarando com um pouco de vergonha.


See her come down, through the clouds
I feel like a fool
I ain't got nothing left to give Nothing to lose


― Não precisamos dançar essa, se não quiser. ― disse.
― Nah, parece uma música legal. ― arqueou uma sobrancelha enquanto prestava atenção na melodia.
― E você por acaso sabe dançar músicas lentas? ― ela riu, mostrando uma expressão engraçada.
― Podemos tentar. ― o garoto olhou em seus olhos e deu de ombros. Ele estendeu a mão para ela, que após levantar o olhar para ele de forma intrigada, entrelaçou sua mão na dele e pousou a outra em seu ombro, e ele pôs a mão que sobrou na cintura dela.


So come on love, draw your swords
Shoot me to the ground
You are mine, I am yours
Lets not fuck around


Eles começaram com certa distância, estando um pouco perdidos de como poderiam executar aqueles movimentos, até que decidiram que deixariam ser levados pela música. Por muitas vezes os seus olhares se encontraram e, devido à natureza romântica daquele momento, seus corações passaram a bater mais forte e seus sentidos se confundirem.
Passado algum tempo, se sentiram confortáveis o suficiente para juntarem mais os seus corpos, fazendo com que suas bochechas se tocassem e seus troncos se encaixassem um no outro. A partir dali, já mal notaram a presença das outras pessoas em sua volta e se sentiram como os únicos ali. encostou sua cabeça no ombro do garoto, e ele conseguiu sentir o cheiro agradável e incomparável dos seus cabelos castanhos.


Cause you are, the only one...
The only one


Nenhum dos momentos em que eles ficaram sozinhos, nenhum dos seus quase beijos e de atração intensa anteriores chegaram aos pés daquele. Foi naquele dia, naquela festa, naquela noite, que eles sentiram uma intimidade e uma aproximação como nunca antes. À medida que eles sentiram que a música terminava, a garota tirou a sua cabeça de onde estava, mas a pele de sua bochecha roçou com a dele e suas respirações se misturaram. Eles permaneceram com suas testas juntas até que a canção acabou e deu lugar para uma outra bem mais animada, fazendo com que voltassem aos seus juízos.
Contudo, a atração não foi embora.
Tanto quanto viram que o outro sentia o mesmo. Aquela dança deixou tudo tão claro, tão nítido pois, mesmo com a música seguinte tocando, eles seguiram se encarando como se soubessem o que viria a seguir.
― Eu... eu acho que vou tomar um ar. ― disse. assentiu com tristeza, achando que aquilo significava que ela queria se afastar, mas aquilo não foi a última coisa que a garota falaria. ― Você quer vir comigo?
O concordou com um sorriso curto, porém esperançoso. A menina pegou na sua mão novamente e o conduziu até o jardim do salão, que era de uma beleza ímpar. Mesmo com a noite mais do que definida, havia pequenas luzes de diferentes cores que interferiam nas próprias cores das inúmeras flores presentes ali. soltou da mão dele e ficou em sua frente.
Então, eles voltaram a olhar um para o outro. Os olhos azuis-esverdeados nos castanhos, o brilho selvagem do garoto e o ingênuo da garota, um em cima do outro. Não se importaram com a brisa noturna e gelada que batia em suas peles, afinal a situação em si aquecia seus corpos com a adrenalina.
E, finalmente, eles avançaram ao mesmo tempo. Seus lábios se tocaram com a mesma urgência que sentiram um pelo outro naquele último ano de sentimentos tão confusos e nublados, seus corpos se juntaram com toda a necessidade que possuíram em senti-los nos últimos meses. Nada mais importava.
Lá estavam e . Antigos amigos, enfim juntos pelo selar de seus lábios e palavras ainda não ditas.
Mas ainda havia tanta estrada para andar...

So come on Love, draw your swords
Shoot me to the ground
You are mine, I am yours
Let’s not fuck around



Continua...



Nota da autora: E AÍ? TÁ TUDO BEM DEPOIS DESSE CAPÍTULO? TÃO RESPIRANDO?
Eu simplesmente surteeeeei escrevendo esse capítulo. O auge uma autora se apegar tanto a uma história e aos seus personagens, certo? Pois é. Eu mesma amo tanto várias coisas sobre esse capítulo além da cena final, como o pp preocupado com o tipo de flor para comprar, a irmã da pp sentindo aquela famosa sensação vendo o primo do pp tocando violão sem camisa, a cena entre a irmã gêmea do pp e a mãe. Espero que vocês tenham gostado de ler esse capítulo tanto quanto eu gostei de escrever!
A música na cena final se chama Draw Your Swords do Angus and Julia Stone, que para mim é uma das mais lindas existentes! Embora eu tenha colocado o link direto do Youtube ali em cima, ela também está disponível na playlist oficial da fanfic (link abaixo, no ícone do Spotify). Além disso, não se esqueçam de entrar para o grupo das minhas fanfics e seguir o meu Instagram de autora e o da pp!
Muito obrigada por lerem, nos vemos jájá! <3



Outras Fanfics:
03. Everybody's Watching Me: Ficstape: The Neighbourhood - I Love You
07. Gonna Get Caught: Ficstape: Demi Lovato - Don't Forget
09. Stop The World: Ficstape: Demi Lovato - Here We Go Again
09. Scars: Ficstape: Miley Cyrus - Can't Be Tamed
10. SOS: Ficstape: Abba Gold - Greatest Hits
11. Contagious: Ficstape: Avril Lavigne - The Best Damn Thing
14. Everytime: Ficstape: Britney Spears - The Essential
15. She Don't Like The Lights: Ficstape: Justin Bieber - Believe
24. Fallingforyou: Ficstape: The 1975 - The 1975 (Deluxe)


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