Última atualização: 04/03/2019
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Prólogo


sempre teve uma queda pelo perigo. Talvez fosse a euforia trazida pela adrenalina ou até aquela viciante sensação de um “quase”, que na verdade nunca se concretiza. Ela não tinha certeza do porque, muito menos se preocupava em investigar os motivos de sua distinta personalidade. A mulher simplesmente era o que era e ponto. Não era dada a floreios, quem dirá à falsidade.
Com não havia meios termos e para ela, sua forma de agir sempre era a correta. Sempre. Isso costumava deixar à sua irmã, Katherine , completamente maluca. Ainda mais sendo a responsável por cuidar de sua maninha após a morte de seus pais. Kat era tudo para Ollie, e a mais velha fez o máximo que pode para cria-la.
E como agradecia? Sendo malcriada e metida a dona de seu próprio nariz. Mesmo quando era um pingo de gente, a mulher se recusava a largar mão de suas vontades e argumentações, por mais incoerentes que estas fossem. Mas no fim das contas, os traços insubordinados da pequena rebelde vieram a calhar.
Ela era a escolha perfeita para Tom Horton, diretor do FBI, em sua busca por uma face nova, recém-formada de Quantico que pudesse integrar seu projeto. Ele não usaria qualquer figurão para conduzir sua nova operação, ultrassecreta. De nada lhe adiantaria a fama, muito pelo contrário, holofotes somente deturpariam o objetivo de tudo aquilo. Quem ele necessitava era de uma pessoa determinada e teimosa o suficiente para topar a operação impraticável que tinha a propor.
E isso nos traz de volta a e suas características peculiares. Não havia nenhum formando daquele ano de 2018 que saltasse mais aos olhos de Tom. O maior problema seria convencê-la a aceitar embarcar naquela missão impossível, mas ele tinha certeza de que uma vez que a fizesse se envolver de verdade com o caso, ela nunca desistiria.
Não fazia o tipo de largar o osso, nem mesmo dar o braço a torcer. E era com isso que o diretor Horton estava contando. Sua prioridade era encontrar o segundo criminoso mais procurado do país e trazê-lo a justiça. Porém, não era com o ideal de buscar o que é justo que ele estava realmente preocupado. Com seu cargo chegando ao fim e sua reputação manchada por escândalo atrás de escândalo, aquela era sua cartada final antes que se aposentasse.
A escolha de alguém para ser caçado, tampouco fora aleatória - como nada é na realidade. Por mais que o homem - que atendia pelo codinome Blackwell - fosse o segundo da lista de mais procurados, ele ainda era uma grande interrogação, não só para o FBI, como também para as demais agências de inteligência.
Tudo o que haviam conseguido após anos de pesquisa, gasto de verbas e de pessoal, era saber que Blackwell atendia por esse mesmo codinome e que era um homem caucasiano, no máximo em seus trinta anos.
Esses dados desanimadores não lhes trariam a lugar algum, e as buscas foram sendo reduzidas mais e mais até que outros criminosos desviassem por completo o foco investigativo.
Mesmo quando parecia que absolutamente todos haviam desistido, o pobre do Tom Horton ainda possuía alguma esperança. E que bom que ainda o fazia. Nesse ponto, ele se identificava com . Se acreditasse em algo, levaria suas crenças para o túmulo, imaculadas por qualquer influência externa.
Engraçado como a vida se trata de um emaranhado de escolhas e de caminhos que se bifurcam em novos resultados e novas possibilidades. Se não fosse por alguém insignificante como Tom Horton e seus desejos de glória e poder, ainda estaria trabalhando na sede do FBI na Califórnia, como era seu plano original. Não fosse pela garra e teimosia da mulher, Blackwell ainda estaria na cobertura de seu edifício, se banhando em uísque e conduzindo seus negócios como o habitual.
Mas o mais importante de tudo, é que se os caminhos de e Blackwell nunca houvessem se cruzado, eu nem mesmo estaria contando essa estória.


Capítulo 1



Kate olhou para mim com os olhos marejados, mas com um sorriso amplo de orgulho. Corri até minha irmã e abracei-a forte, suspirando em seus cabelos ricos com aquele cheiro amadeirado que tanto me lembrava de nossa casa de infância. Sentiria muita falta dela quando me mudasse, mas ao mesmo tempo, estava muito animada para começar a fazer o que amava.
Sou impulsiva que nem o inferno, uma teimosa do caralho, e mandona pra cacete. Mas parece que esses são os ingredientes para uma boa agente do FBI. Vai entender, talvez seja por isso que o país tá um caos. Se enchessem as ruas de ’s, estou certa de que teríamos algum tipo de catástrofe em escala global.
Ao nosso redor, famílias e mais famílias cumprimentavam os formandos de Quântico, em nossa pequena cerimônia não oficial. Obviamente uma ideia minha. Pensei que seria importante reunir a todos mais uma vez, antes que nós nos espalhássemos pelas unidades do FBI, Estados Unidos afora. Alguns estavam insatisfeitos com os lugares para onde seriam mandados, mas não eu.
Primeira da turma em todas as provas, seria mandada para uma das grandes unidades na Califórnia. Alguns de meus amigos também não haviam se saído tão mal, conseguindo postos nas filiais de Nova York, Boston e ali mesmo na Virginia, em Washington D.C., uma das mais concorridas.
Após meses de treinamento, confesso que sentiria falta de cada um daqueles rostinhos que fora obrigada a aturar, colaborar e conviver. Mas eu sentia que nos reencontraríamos logo. Minha intuição nunca falha e afinal, o mundo não é tão grande quanto parece.
Kate atenciosamente trouxera minhas malas, já que eu iria direto para o aeroporto após a comemoração.
- Tem certeza, ? – Perguntou pela milésima vez, com a expressão preocupada.
Eu não poderia culpa-la - muito - pela indecisão. Eu sempre fora uma pessoa muito instintiva. Agia pelo mero impulso e sempre seguindo minha intuição, não importando quais eram as chances de estar errada.
Não lamentava por esses traços, que apesar de dificultarem meu convívio com os seres humanos que gostam de seguir regras, foram responsáveis por me trazer até ali. Após uma série de buscas profissionais sem sentido, eu conseguira encontrar meu lugar e minha vocação.
- Não precisa ficar assim, Kate. – Sorri, me afastando de seu segundo abraço consecutivo. – Eu vou ficar bem. A Califórnia está só a um passo de Rhode Island!
- Ah, sim. Exceto pelo fato de que nossa cidade natal dá para o Atlântico e a Califórnia para o Pacífico. Mas hey, "pertinho", só atravessar os Estados Unidos de uma ponta à outra. – Disse, com uma careta irônica.
- Não seja tão dramática, Kate! Nada que um jatinho não resolva. – Pisquei, com um meio sorriso.
O taxi que me aguardava buzinou, chamando minha atenção mais uma vez.
- Está na hora, eu suponho. – Murmurei, limpando a garganta, emocionada. Não que fosse admitir. – Diga ao Phill que visitarei vocês no natal e que estou louca para conhecer minha sobrinha.
Minha irmã assentiu, acariciando sua barriga, e inspirando fundo. Abriu a boca em algumas tentativas de falar algo. Porém, coloquei minha mão sobre a sua em seu ventre e beijei sua testa.
- Vou ficar bem. – Repeti, olhando no fundo de seus olhos. – O tempo vai passar rapidinho, vai ver.
Ela assentiu e acenou para mim, enquanto eu entrava no carro o qual meus colegas haviam ajudado a encher com minhas tralhas. O motorista resmungou algo para si, que eu só pude interpretar como um “finalmente”, e trocou a marcha, olhando-me pelo retrovisor.
- Para onde, moça?
- Aeroporto Ronald Reagan.


Suspirei dramaticamente pensando em tudo que estava arriscando. Tudo que estava deixando para trás. Mas a nostalgia não era a única que me abatia. Também estava extremamente excitada para começar uma nova vida. Ter um novo começo, e em uma profissão completamente diferente das que já havia experimentado.
Porém, não consegui nem mesmo terminar minha longa reflexão sobre o mundo e acerca dos mistérios que o destino nos reserva. Ou para aqueles não creem em predestinação, minha viagem nas bifurcadas consequências de cada escolha que fazemos no dia a dia, não importando o quão insignificantes pudessem parecer.
Não tive nem a oportunidade de observar a paisagem de Quantico se desvanecendo em uma palheta borrada através do vidro do carro. Não consegui ter tempo de puxar um papo cabeça com o taxista apressadinho.
Nada disso foi possível graças ao veículo que saiu - não se sabe de onde - para fechar o taxi em que eu estava. Quase bati minha cara no estofado do banco da frente com a freada brusca. Mas agradeci ao universo somente pelo fato do motorista ter conseguido frear em primeiro lugar.
Segundos se passaram, e quatro homens e duas mulheres de terno saíram do veículo - que agora eu percebera se tratar de uma van preta – e começaram a se aproximar. Peguei minha bolsa à meus pés e comecei a vasculha-la freneticamente.
- Cacete, o que foi isso?! Moça, o que diabos está fazendo?! – Perguntou o taxista, me olhando como se eu fosse doida.
Ignorei-o, retirando as pencas de maquiagem, mudas de roupa, lencinhos e outras coisas aleatórias, até conseguir achar o que estava procurando.
AHÁ! - Sorri, retirando minha arma da maleta no fundo da bolsa. – Mal saí de Quântico... – Gargalhei, encaixando o pente e colocando-a na parte de trás de minha calça.
Só então saí do carro, cruzando os braços para os homens que nos cercavam. Eu estaria morta antes de deixar alguém me intimidar, ou ao menos saber que estava conseguindo fazê-lo.
- Senhorita ? – Perguntou o mais alto deles.
- Ela mesma. – Repliquei, com um olhar incisivo para qualquer movimento suspeito.
- Precisamos que venha conosco.
- Ô queridinho... – Comecei, limpando minha garganta. - Vai com calma, tudo bem?! Primeiro vai se apresentando e me diz que merda vocês querem comigo, porque eu posso não ter tido uma mãe, mas minha irmã me ensinou que não se fala com estranhos.
- E você está falando mesmo assim, não está?! – Levantou uma sobrancelha, fazendo um gesto para que seus colegas - irritadinhos com minha recusa - aguardassem.
- Claro, é o que eu sempre digo! Regras estão aí para serem quebradas. Mas nem fudendo que vou entrar em uma van com vocês. Essa porra parece ter insufilm nas janelas!
- Entregue a pasta para ela, Patterson. – Revirou os olhos, acenando.
Peguei o envelope, me recostando no taxi parado, e comecei a vasculhar os documentos que tinham ali dentro. Surpreendentemente eu os reconhecia.
- Blackwell? – Indaguei, confusa. – O que tem ele? Achei que tivessem desistido de caçá-lo.
- Sim e a senhorita deixou bem claro suas reticências quanto a isso. E enquanto a maioria de seus instrutores de Quântico podem ter sido bem céticos nesse quesito, a senhorita impressionou uma em especial...
- Zia Penhallow. – Assenti. – Ela foi a única que aceitou ouvir minhas teorias sobre o caso.
- Não sei se sabe, senhorita , porém a senhora Penhallow tem contato direto com o Diretor Geral do FBI.
- “Contato direto”? É assim que estão chamando fuder hoje em dia? Bom saber. – Pisquei, arrancando alguns risos dos agentes. Ao menos dos dois que tinham senso de humor.
- Colabore, senhorita , temos um cronograma a cumprir. – Rebateu, mas segurando o riso, que eu vi!
- Tá, tá bem. O que tem isso?
- Tom Horton está para se aposentar. Mas antes que o faça, pretende fazer um último grande ato em nome da segurança nacional.
- Ou seja, quer terminar o mandato cheio de glória. – Gargalhei. – E deixe-me adivinhar, pretende apreender o segundo criminoso mais procurado dos Estados Unidos?!
- Exatamente.
- Que ótimo para o Tom. Muito bom para ele, agora o que tenho a ver?! E quem diabos são vocês, cacete?!
- Não podemos responder à segunda pergunta agora, já que está abaixo de seu nível de confidencialidade no momento. Mas o Diretor quer que seja você a comandar a força tarefa. Uma vez que aceite, lhe diremos tudo o que precisa saber.
- Ok. Qual é o truque? – Perguntei, provavelmente não tão animada quanto ele esperava. Ao menos por fora. Já minha mente estava à mil com todas as possibilidades que aquilo representava.
- O que quer dizer?
- Acabei de me formar. Mesmo sendo a primeira da turma e o caralho a quatro, esse criminoso está sendo caçado há anos, por mais de uma agência. Não temos nem uma descrição dele ainda. Só sabemos seu codinome. – Aproximei-me do homem que discutia comigo. – Me diga, qual é o seu nome. – Repliquei, apontando para ele.
- Patrick.
- Pois então, Patrick. Não acha esquisito, tudo isso? Só quero que me diga como vocês pretendem me fuder.
- Não sei nada quanto às motivações do senhor Horton, . – Disse, deixando implícito que ele mesmo tinha outras motivações. - Mas do modo como eu vejo, você tem duas escolhas. Vá para a Califórnia, cresça na sede de lá, faça contatos e quando empacar daqui há uns dez anos, sempre fique se perguntando o que poderia ter acontecido se tivesse aceitado. OU, aceite essa chance, arrisque. Demonstre seu verdadeiro potencial, e mesmo que ele tente ferrá-la de alguma forma, ou que a esteja usando, você também estará fazendo uso disso para alavancar sua carreira.
Perdi o ar quando ele avançou mais em minha direção, olhando para o fundo de meus olhos e sussurrando as palavras que saberia que seriam irresistíveis para mim:
- Agora me diga. No jogo da vida, quem você é? Aquela que se arrisca e faz grandes apostas ou a que se acomoda e contenta-se com o que lhe vêm facilmente?
- Porra, você sabe que tipo de pessoa eu sou, ou não estaria aqui em primeiro lugar.
- Então está resolvido. – Piscou, afastando-se como se estivesse um pouco desorientado. – Larson, Parrish, tragam as malas dela. – E voltou seu olhar novamente para mim, gesticulando para a porta aberta da van. – Temos muito o que conversar.

Blackwell




- Porra, Fibonacci! – Xinguei, dando a volta em minha mesa e pousando nela meu copo de uísque.
- Signori , estou fazendo o máximo que posso, mas muito disso está fora de meu alcance. Nossos diamantes são os melhores do campo, mas somente o fato de termos um competidor que vende a preços de banana, isso desvaloriz...
- Não quero saber, cacete! O seu trabalho é justamente estar a par de tudo e tomar providências antes que essas merdas aconteçam! Está me entendendo, farabutto?
- Perdão . Gostaria mesmo de ter boas notícias, mas a realidade é outra.
- Odeio ter que misturar a parte ilegal de minha empresa com a lícita! Você, mais do que ninguém sabe o quanto isso chama atenção, Fibo! – Voltei para trás de minha mesa no escritório, dando um soco no mogno, já quase afundado com anos de negócios. Frustrantes sim, mas também lucrativos. – Sabe o que aconteceu da última vez...
- Têm notícias dela? – Perguntou, olhando para baixo enquanto eu observava minhas tatuagens surgirem, ao dobrar as mangas da blusa social.
-Saia. Irei tomar conta disso. – Suspirei, enquanto o homem atendia a meu pedido prontamente.
Estar perto de mim quando estava irritado não era nada bonito. Normalmente eu puniria alguém que falhou comigo, como Fibonacci. Porém, em respeito à sua dedicação de anos à parte legítima de minha empresa, tentei me acalmar com respirações fundas. Ênfase no tentando. Se soubesse há quanto tempo eu não vou à Doutora Hope...
Ela não liga. Alguma parte de meu interior dizia que na verdade ligava sim, apesar de meus pensamentos obscuros. Nosso último encontro ainda estava cravado em minha mente, como um lembrete de que meu anjo finalmente havia desistido de mim.
Por mais que nunca fosse admitir para mim mesmo, suas palavras haviam me machucado. Alguma parte de minha alma- que eu nem possuía consciência da existência – quebrou-se, provavelmente de maneira irreversível naquele dia.
Um toque na porta de meu escritório lembrou-me de não pensar mais sobre isso. Era inútil remoer o passado. Esperava que onde quer que estivesse, fosse feliz. Mais do que ninguém, ela merecia isso.
- Entre. – Revirei os olhos com a batida insistente.
- Como está ? – Perguntou Eloise Langford, com um sorriso irritante.
- Ah, melhor impossível. – Ri seco, preenchendo meu copo de uísque até quase transbordar. – Quer um pouco?
- Não, obrigada. – Replicou, piscando e acomodando-se na poltrona em frente a minha mesa.
- E então?! – Levantei a sobrancelha aguardando seu relatório mensal. – E me diga que são boas notícias, porque já tem tanta merda acontecendo, que eu juro qu...
- Blackwell. – Cortou, balançando a cabeça em negativa. – Por quanto tempo nos conhecemos?
- Uns dez anos? – Respondi, mordendo o lábio inferior e acomodando-me em minha cadeira.
- Quinze. – Replicou, torcendo os lábios em desgosto. Revirou os olhos com minha risada. – E nesse tempo todo eu nunca te trouxe más notícias. Não é hoje que vou começar.
- Como está a produção?
- Excelente, mas estava querendo contrat...
- Contrate. E quanto às vendas?
- Tivemos uns problemas com os malditos Leppards... – Assenti, concordando. Os novos no negócio sempre enchiam a porra do saco. – Os Chauncey-Gallaways cuidaram disso, contudo. – Gargalhou. – Malditos Cartéis de Armas.
- Ainda não acredito que as famílias se juntaram. Isso parece a porra de um filme.
- Só se for Romeu e Julieta, prevejo muitas mortes pela frente.
- Uma Gallaway e um Chauncey unidos pelo Matrimônio. Porra, nunca pensei que viveria para ver iss...
O som de batidas na madeira desviaram nossa atenção para a figura de meu segurança à porta. Quando percebi que trazia um pacote em suas mãos, congelei no lugar. Mantive o olhar fixo no envelope, como se a qualquer momento pudesse sair alguém armado de dentro dele.
Já fazia um tempo que eu passara pela tensão de receber uma foto ensanguentada de - minha ex-namorada, mas eterno amor de minha existência. Sequestrada por uma de minhas próprias seguranças pessoais em busca de vingança, a mulher sofrera nas mãos da traidora infiltrada, durante meses até que conseguíssemos resgatá-la. Somente consegui relaxar no momento que captei a identificação no remetente de um de meus centros de investigação, soltando o ar que estava segurando.
- Chefe, sinto muito interromper, mas nossos olhos na inteligência mandaram notícias urgentes.
- Eloise, infelizmente terei que...
- Porra, Blackwell. Sempre durante a merda da minha reunião. – Levantou-se com uma careta.
- Olhe a boca. – Disse, no automático, pensando no que diria naquele momento.
- Hipócrita! – Riu, balançando a cabeça e pegando sua bolsa. – Mais trilhões sendo perdidos, a cada uma dessas remarcações, não se esqueça disso!
Gargalhei, acostumado com o drama que ela sempre fazia, apesar de estar coberta de razão.
- Peça para Julliet colocar Eloise... – Ordenei, sendo cortado por meu segurança experiente.
- Na lista de urgência, sei. – Replicou, Rorik, assentindo.
- Tá vendo, até ele sabe! – Berrou a mulher, do corredor.
Fui deixado sozinho na sala, com aquela bomba em meu colo. Da última vez que eu recebera um pacote assim, acabara com a descoberta de que a pessoa que eu mais amava no mundo havia sido sequestrada debaixo de meu nariz, então pode entender minha hesitação. Saquei meu canivete, cortando o lacre e pescando um pen drive do fundo do envelope.
Rapidamente o pluguei em meu notebook e comecei a ler o que dizia a mensagem da carta que o acompanhava, ao passo que as informações carregavam.

Blackwell,
Tom Horton, diretor adjunto geral do Federal Bureau of Investigation (F.B.I.) está criando uma força tarefa para caçá-lo. As imagens dos possíveis líderes estão no pen-drive. A C.I.A. ainda está preocupada com um vazamento de informações internas por dois de seus integrantes, a aviadora Jane Sanchez e o sniper John Asher. Também parecem ignorar que eles chegaram ao senhor no ano passado.
A N.S.A. continua acompanhando , mas não fazem ideia de sua ligação com o Senhor. O passado da senhorita Winters está relacionado a o porquê da vigilância, mas não acreditamos que esta se estenderá por muito tempo.
Já a Agência Iniciativa está muito ocupada lidando perseguindo com dois fugitivos, a hacker Sadie Townsand e o agente ex-agente Daniel Collins. Ainda não fazem ideia do real envolvimento do senhor na tragédia em Sacramento.
E enfim, quanto ao F.B.I. com a força tarefa de Tom Horton, é pouco provável que tenham êxito, mas pensei que gostaria de saber.
Também soubemos de informações sobre a senhorita como nos pediu. Ela está morando com sua irmã, Sara Winters. Também obtivemos outras informações que podem lhe interessar. Como o senhor foi enfático quanto à manter certa privacidade da moça, os dados extras estão contidos em uma pasta em separado no pen-drive. Ela é protegida por uma senha: seu codinome.
Dessa forma, se assim desejar, basta apaga-la imediatamente. Porém, lhe advirto chefe, que o que descobrimos - embora não forneça risco à vida de – é de grande valia para o senhor.



Passei meu olhar pela tela do computador, analisando as fotos atentamente. Quando me deparei com a pasta criptografada, pousei o mouse acima dela, pensando se a abriria ou não. Por que se a vida de e sua segurança não estavam em jogo, o que realmente estava?! O que valia desafiarem minha ordem expressa de nem pensar em investigar informações além de seu bem-estar?! Que ousassem proferir recomendações a mim para que violasse sua privacidade?!
Poderia eu, depois de tudo que lhe infligi, deliberar sobre algo em sua vida?! Eu não era nada para ela, afinal. Ela mesma me dissera isso, não foi? No mesmo dia em que, de uma hora para a outra, passou de querer construir uma vida comigo, a me considerar como o monstro que eu sabia que era, mas que ela sempre negara a existência.



- E então meu amor? – Indaguei, dando alguns passos em sua direção.
- Fique aí. – Falou, com a voz fria. – Preciso que vá embora.
- Quer que eu fique ou que vá?! Decida-se baby, você é de câncer e não de libra. – Brinquei, sentindo meu coração martelando dolorosamente em meu peito.
- Não quero mais que fique em minha vida. – Disse automaticamente. – Não entende?! Quer que eu desenhe?! Você não faz ideia do quanto me faz mal?
- Mas você diss...
- Acha que eu estava falando sério? – Riu sarcasticamente. – Eu poderia ter morrido. Tudo por sua culpa. Eu SÓ disse tudo aquilo para... Para ver se você embarcava mesmo naquela baboseira de que você, uma praga na minha vida, não teria culpa nenhuma do que aconteceu.
- Por favor, ... – Dei um passo para perto de sua cama e ela virou-se para não encarar meu rosto.
- Já pedi para ir embora. – Murmurou.



Não. Se em um piscar, ela me cortara de sua vida, eu não tinha mais nenhum direito de violar sua privacidade. Nunca abriria mão de ter ciência de seu bem-estar. Porém, quando coloquei dois contratados atrás dela, prometi a mim mesmo que não mexeria com o que não é da minha conta.
Ela já não ficara muito feliz com minha intromissão e dissecação de sua vida antes que começássemos a nos envolver. O que nos rendera nossa brincadeira de apelidos. Enquanto eu a chamava de Carente, por seu jeitinho carinhoso e preocupado, ela me chamava de Stalker. Não sei como não antevimos o quanto nossa relação daria errado. Claramente eu sempre fui o degenerado.
Desliguei as luzes, e deixei o escritório, escoltado por Rorik. Saímos do Bunker e caminhamos até o carro. Tinha muito a fazer, e não ficaria horas ruminando sobre abrir ou não o documento, quando sabia muito bem o que deveria ser feito. Se aquela coisa de curiosidade não dera muito certo para Pandora ao abrir sua caixa, imagine para alguém com metade de sua índole.
Afinal, enquanto muitos viviam somente uma vida, eu tinha um alter-ego perigoso sempre tentando me dominar. Sempre estimulando aquela besta dentro de mim, sedenta pelo pior do que há na humanidade. Aquele era um jogo constante que eu fazia, na luta para obter ao menos um pouco de equilíbrio. Mas digamos que meu lado empresário bilionário não parecia ser forte o suficiente para combater meu monstro interior. E se ele conseguisse realmente escapar, com todo o poder e influência que tenho, a situação não ficaria nada bonita.


Capítulo 2



- Nem ferrando. – Repliquei, dando a volta na mesa enquanto apontava para Patrick.
- Ah, vamos lá, ! Se você parasse de discutir só um minuto sobre tudo o que eu falo, ia ser tudo um pouco mais fácil, não acha?! – Rebateu o homem com uma carranca, se jogando na poltrona do recinto.
Estávamos em uma espécie de mansão isolada, e eu não conseguia parar de me perguntar se Tom Horton acreditava que éramos uma espécie de X-men, trabalhando nas sombras para combater o mal encarnado na figura de Blackwell.
- SE VOCÊ ME ESCUTASSE POR UM SÓ MINUTINHO VERIA QUE TENHO RAZÃO!
- Pessoal...
- RAZÃO?! VOCÊ ESTÁ LOUCA SE PENSA QUE...
- Pessoal!
- O que é, Patterson?! – Perguntamos simultaneamente, fazendo-a revirar os olhos em irritação.
Não estávamos sendo muito justos com a pobre da Patterson, que tivera que ouvir nossa discussão durante todo o percurso. Havíamos acabado de chegar a tal “Mansão X-men” - ou talvez devesse dizer “Torre dos Vingadores”, com a iminência da Guerra Civil, que estava para acontecer entre mim e “Patrick chato”.
- Primeiro, parem de gritar. Vamos ficar aqui durante muito tempo, e eu juro que se eu ouvir mais um berro de algum de vocês dois, vou ser obrigada a atirar em alguma parte não-letal, mas muito dolorosa do corpo de ambos, estão entendendo?
Assentimos para a mulher, que se deslocou do canto da sala em que estava recostada para apoiar as mãos à mesa longa de madeira. Aquela devia ser uma sala de jantar, grande o suficiente para abrigar toda a equipe.
- Segundo... – Continuou, com uma carranca. – Temos dez lugares para o resto da força-tarefa permanente. Cinco integrantes a escolherá e os outros cinco serão do Patrick. Está bem? – Perguntou, suspirando, já esperando discordâncias. Porém, nenhum de nós poderia discutir muito com sua lógica.
Mais uma vez assentimos, com olhares de desgosto. Éramos dois teimosos sob o mesmo teto. Deus nos ajude. Sentamos à mesa, vendo Patterson discar os últimos dígitos para a central de operações e aguardamos os bipes, até que o encarregado atendesse.
- Quem é para buscarmos? – Perguntou, indo direto ao ponto.
- Primeiro as damas. – Sussurrou Patrick, fazendo com a mão um gesto teatral de reverência, que me fez querer macular aquela face absolutamente perfeita dos infernos.


Mais tarde, minhas habilidades de oratória foram postas em prova ao ter de fazer um belo de um discurso motivador para aquela inútil busca.
- Estamos em uma caçada perigosa. – Afirmei, limpando minha garganta. – Blackwell não é exatamente um criminoso fácil de ser encontrado.
- Imagina, só demoraram cinco anos para descobrirem seu codinome! – Brincou Robbie, recebendo um tapa bem dado em sua cabeça por .
- Mas nossa equipe vai tentar o impossível, certo?! Temos aqui a nata da nata de Quântico. Não me decepcionem. – Terminei, olhando firmemente nos olhos de cada um dos presentes.
- Vocês ouviram a moça. – Disse Patrick, com um meio sorriso. – Se alguém vai desistir, que o faça agora!
Um silêncio tenso abateu a sala de jantar, enquanto todos se entreolhavam esperando para ver quem seria o maricas a desistir. Pelo menos era isso que eu pensava, enquanto tentava disfarçar o nervosismo, torcendo meus dedos por debaixo da mesa.
Uma mão tranquilizadora pousou sobre a minha, e apesar de seu dono ser ninguém menos do que Patrick, aproveitei de seu calor relaxante.
- Infernos! – Berrou um dos amigos de Patrick, que acreditava se chamar Colin. – Estou dentro. – Piscou para mim.
- Não é como se eu tivesse algo para fazer nos próximos anos... – Disse , minha maior adversária em nossa época de treinamento em Quantico, dando de ombros.
- Eu, Robbie e Trev estamos dentro. – Sorriu Ethan.
Mais alguns integrantes do grupo de Patrick acenaram em concordância, me tranquilizando ainda mais sobre a possibilidade da operação fracassar antes mesmo de começar.
- Eu não sei, ... – Comentou Katie, balançando a cabeça em indecisão. – Eu ia para Washington D.C. Arriscar isso por...
- Olha, Kitty, eu sei que nada é garantido aqui. E seu sonho sempre foi a sede de Washington. Não se engane, eu entenderei completamente se escolher sair por aquela porta, ninguém aqui vai te julgar por isso. Mas eu preciso de você... Não chamaria se não precisasse.
A mulher torceu os lábios em um biquinho pensativo, e quando finalmente abriu a boca para dar o veredicto, apertei a mão de Patrick, nervosa. Realmente precisávamos dela, eu não havia dito aquilo para convencê-la simplesmente. Katie sabia fazer uma análise comportamental do criminoso como ninguém, traçando perfis que poderiam ser a chave para nossa busca.
Ainda mais quando sabíamos tão pouco do criminoso em questão. Até onde eu sabia Blackwell podia ser uma mulher e “tudo” o que a CIA descobriu estava errado.
- Tudo bem. – Replicou. – Eu fico. Mas tem que me prometer que isso não é mais uma de suas ideias malucas. Que acredita haver realmente alguma chance disso ser feito.
- Eu prometo. – Assenti, firmemente.
- Acho que só falta eu, então... – Suspirou um dos homens de Patrick. – Por que acha que em tantos anos de buscas sem sucesso, logo nós iremos encontra-lo?
- Eu... – Limpei minha garganta, olhando para meu colo, brincando com os dedos de Patrick. E por mais sujo que isso possa parecer, não. Não foi do jeito divertido. – Minha resposta provavelmente não vai ser o que esperam. Não vai reconforta-los. Mas eu simplesmente sinto, cada fibra de meus ossos sente... Que vamos encontra-lo. Nunca deixei de seguir minha intuição, e hoje não vai ser o dia que começarei.
Levantei os olhos, esperando que o homem já estivesse a meio caminho de seja lá de onde tinha vindo. Porém, encontrei todos me encarando como se o que disse fizesse sentido. Menos , claro. Ela me olhava como se eu fosse maluca, mas aquilo não era muita novidade da parte dela.
- Então estou dentro. Somos todos agentes, não somos?! Com o que poderíamos contar mais do que nossa intuição. – Falou, abrindo um meio sorriso. – A propósito, chefa, meu nome é Powers. – Piscou, em um claro flerte que me fez corar internamente.
Por fora, somente abri um sorrisinho malicioso. Mas assim que o fiz, senti a mão tranquilizante de Patrick sendo arrancada da minha, e desviei o olhar para vê-lo direcionando uma carranca ao amigo. Aquilo seria muito divertido... Pensou meu demoniozinho interno.
- Bem, quem está no comando? – Disse Robbie, com uma sobrancelha levantada.
- Eu estou. – Respondemos eu e Patrick simultaneamente.
Olhei feio para o agente secreto, puxando-o para a cozinha com um sorriso forçado e um murmúrio baixo de “Patrick, querido, posso falar com você um minuto?”.
- O que foi, agora, ? – Indagou, cruzando os braços.
- Você pode tirar seu cavalinho da chuva. Meus amigos estão arriscando muito para estar aqui e o inferno vai congelar antes que eu deixe você dar alguma ordem, tá entendendo?
- Hmm. – Ronronou, alcançando uma mecha solta de meu cabelo e conseguindo me desconcertar de tal forma que me perdi em minha argumentação.
- O que foi? Tira essa mão do meu cabelo. – Dei um tapinha leve em sua mão, irritada.
- Ahn? Ah, é só que você fica muito linda quando está brava. – Falou, me pegando tanto de surpresa, que arfei ao observá-lo se aproximar com as duas mãos sobre a bancada ladeando minha cintura recostada. - E sabe...? O melhor é que você parece nem perceber.
- Cretino, não me venha com esses elogios enrustidos. – Tagarelei, não conseguindo conter a vermelhidão em minhas bochechas. Aproximei-me de seu ouvido sensualmente.
- Cretino? – Arfou, deitando a cabeça de lado, como que tentando me desvendar.
- Queridinho... – Comecei com um meio sorriso. - Isso aqui é para você aprender o que é espaço pessoal. – Sussurrei, dando uma joelhada em suas partes íntimas e caminhando tranquila e satisfeita, de volta para a sala de estar.
- Ok, acredito que possamos começar amanhã, pessoal. Estão liberados.
- E o Patrick? – Perguntou , desconfiado.
- Ah, ele já foi descansar. Sabe como é, viagens assim exigem muito de um homem da idade dele.
franziu a testa, começando a gargalhar quando um Patrick – muito nervoso, diga-se de passagem – penetrou o recinto, parando a meu lado.
- Você sabe que temos a mesma idade, né? – Perguntou, com uma careta.
- Vai sonhando, vovô. – Repliquei, prevendo que esse seria meu mais novo hobbie. Se eu não morreria de tédio na mansão X-men eu precisaria de alguma atividade além de procurar por alguém inalcançável, que atormentava meus pesadelos. E pode apostar que irritar o Patrick serviria como uma ótima distração.


Blackwell


Deslizei para fora de Portia, derrubando-me a seu lado na cama. A ruiva certamente sabia como se divertir, mas não importava o quanto fosse escroto, ou o quanto eu tentasse, não conseguia transar com ela sem pensar nisso como uma espécie de traição.
Fora que resolvera me largar. Com razão, mas ainda sim fora algo extremamente doloroso para mim. A mulher que eu jurara amar para sempre, e que ainda não superara, parecia assombrar meus dias com seu rosto angelical e sua boca inteligente e audaciosa, a única pessoa no mundo que conseguia me dominar por completo.
- ... – Suspirou Portia, me trazendo de volta ao presente. – Fiquei um pouco surpresa quando me ligou.
- Bem, eu precisei de um tempo para colocar a cabeça no lugar. – Bufei, controlando-me para ser gentil. Eu não sabia com sê-lo senão com . Parecia fora de minha natureza ser algo diferente de direto, curto e grosso. Claro que no sentido sexual eu já não era tão assim.
- Na verdade fiquei surpresa que não ligou antes. – Se espreguiçou, ronronando.
- Mas eu estava com . – Disse, com a voz áspera, não gostando da direção que a conversa estava tomando.
- Sim, a sem sal. Não sei como aturou ela por tanto tempo, quer dizer... – Começou a tagarelar, me fazendo tremer de raiva.
- Saia. – Rugi.
- O que? – Perguntou, não acostumada a ver meu lado sério. Em todos os anos em que fiquei com ela, a filha de um amigo próximo de meu pai.
- Você me ouviu, só sai. Não posso admitir que fale assim dela.
- Credo, ela ainda envenena você, mesmo não estando aqui! – Revirou os olhos, catando suas roupas e caminhando até a porta.
- Quando cansar de ser trouxa por aquela mulher, me procura. – Terminou, deixando-me com os pensamentos turbulentos.
Ainda tinha muito a resolver sobre minha ex em meu coração, mas não seria ali, nem naquele momento pós-sexo com outra mulher. Não era certo. Tomei um banho e vesti meu terno, saindo com meu segurança a reboque.
- Lance, prepare o carro, vou fazer uma ligação.
- Sim, chefe. – Replicou, assim que saímos do elevador do arranha céu.
Andei pela garagem até ter certeza de que era distância suficiente de qualquer um que pudesse ousar me interromper.
- Instituto Reminiscência, boa tarde. – Falou uma voz enjoadamente doce.
- Priscila. – Grunhi. – Diga o relatório.
- Senhor Black, não sei do que está falando.
- Cacete! Toda santa vez eu tenho que te assegurar da porra da propina? Eu sei sua conta, nunca deixei de te pagar, agora deixa de se fazer de desentendida e me diz como está a paciente 11.410!
- Ela... – Pela primeira vez desde que liguei, a atendente hesitou, fazendo com que alarmes soassem em minha mente.
- Não adoce pra mim, te pago pra dizer a verdade. – Cortei apreensivo.
- Ela piorou desde a última vez. Mas já esteve pior, senhor Black. Nada além do esperado.
- E as tulipas...
- Azuis, sim. Estão sendo repostas regularmente. Tenho certeza que ela as aprecia.
- Preciso que envie a prova como o habitual. Receberá seu dinheiro assim que cumpri-lo.
- Estou encaminhando a imag...
Desliguei, sem conseguir conter minha ansiedade. Abri meu e-mail criptografado e abri a fotografia, analisando-a por uns segundos. Sim, ainda estava viva. Transferi o dinheiro instantaneamente, reforçando a necessidade de destruir o celular pré-pago que um de meus capangas havia lhe fornecido naquela manhã.
- Para onde, chefe? – Perguntou Lance, abrindo o separador entre o banco traseiro e o frontal.
- Só dirige, logo eu devo te dar um endereço. – Afirmei, buscando em minha maleta meu notebook e o pen drive ao qual estava hesitante em abrir.
- Perdoe-me ... – Sussurrei, não me contendo em digitar a senha da pasta trancada e acessar o que quer que meus informantes pareciam querer tanto que eu soubesse que se arriscaram a contrariar minhas ordens.
Imediatamente uma imagem e um documento abriram em minha tela. Analisei a imagem, sorrindo ao ver o rosto sorridente de , enquanto olhava para baixo. Entrei em choque ao perceber no que seu olhar se centrava.
Suas mãos suaves estavam pousadas em seu ventre que estava muito mais inchado que o normal. Aquela barriga que despontava era inconfundível. Tremi, ao clicar no documento em pdf que acompanhava a imagem. Tratava-se de um relatório médico claro como o dia. Pela data da concepção, não havia nenhuma chance de que aquela criança não fosse minha.
Se antes de saber disso eu já era super-protetor com , imagine agora que eu sabia que ela carregava um bebê. Nosso bebê. Joguei o computador no banco a meu lado de qualquer jeito e abri novamente o separador.
- Lance, ative o plano de extração. Estamos indo buscar .


Capítulo 3



- Nós vamos encontrá-lo a tempo, senhor Horton. Não se preocupe. – Disse, terminando uma longa e excruciante ligação com o futuro ex-Diretor do FBI para dizer que a força tarefa que ele me incentivara a formar, em seu último ato de glória, não estava dando frutos.
Fazia um mês que estávamos vigiando os cartéis de drogas e os criminosos mais propensos a fazer negócios com Blackwell, porém aquilo não parecia estar nos levando a lugar algum. Se o homem já era um fantasma, agora que começáramos a investiga-lo mais intensamente, parecia que ele havia desaparecido do submundo do crime.
Nenhuma maldita palavra, nenhum fodido rumor ou qualquer coisa que indicasse seus próximos passos. E para melhorar tudo, eu acabara de ser informada que um caso estava começando a ser construído contra ele.
- Boas notícias? – Perguntou Patrick, com um olhar irônico.
- Ótimas. – Repliquei, com um sorriso forçado. – Pessoal. – Chamei a atenção do grupo reunido na sala como todos os dias, atrás de computadores. Alguns não estavam mais ali, mas espalhados por diversos estados americanos investigando e reportando mensalmente a atividade de outros notórios criminosos de nosso conhecimento, que talvez pudessem ter alguma ligação com nosso alvo. Mas todos sabíamos que aquele curso de ação dificilmente traria frutos positivos. Só que o desespero não deixava tantas opções.
- Não temos nada. – Suspirou .
- Diga logo, o que o chefe queria, ?! – Indagou . Estremeci, estranhando o apelido carinhoso vindo dela. Competimos por tanto tempo na Academia que era difícil lembrar que dessa vez estávamos no mesmo time.
- Acabo de descobrir que nossa busca agora tem data de expiração.
- O que quer dizer? – Questionou Collin erguendo-se da cadeira, nervoso. Todos lançaram olhares igualmente apreensivos, menos Patrick, que sempre parecia saber mais do que deixava transparecer.
- Por algum motivo, há alguns meses, Blackwell fez comércio com um grupo de ativistas radicais, autointitulado de Defensa Rubra. – Falei, buscando em meu computador imagens para projetar na televisão da sala.
- Acredito que conheço esse grupo. – Afirmou Kate. – Eles estavam sempre aparecendo no jornal por buscarem briga com as maiores companhias mineradoras. Confesso que com os dados que traziam a público, expondo tais empresas, até mesmo eu comecei a torcer para os delinquentes. – Gargalhou, batendo a mão na de Robbie.
- Sim, até que estes ativistas viram que as notícias sempre eram abafadas e resolveram seguir outro curso de ação. Bem mais violento do que os meros roubos de dados e cibercrime aos quais estavam acostumados. O líder da Defensa Rubra decidiu que seria uma boa ideia fazer negócios com nosso alvo. De alguma forma conseguiu contatar o Blackwell. – Repliquei.
- E para quê? – Franziu Trev. Mas não fui eu que respondi meu antigo companheiro de Quantico.
- Comprar uma bomba. – Respondeu Patrick.

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Depois de uma breve exposição dos estragos causados pela explosão de uma fábrica de armas em Sacramento, continuei a dar a aterradora notícia que acabara de descobrir através do comandante de toda a operação.
- Acontece que o massacre em Sacramento pediu por uma ação rápida. Logo o nome de Blackwell virá a público, através do processo contra os integrantes da Defensa Rubra, que já estão sob nossa custódia. E assim que o público souber de Blackwell, acabou.
- Isso significa que pegará muito mal para a segurança nacional se o público souber que tem um criminoso à solta, ao qual nenhuma de nossas milhares de agências de inteligência, sejam as públicas, sejam as secretas, conseguiu apreender. – Completou Patrick.
- E não haverá julgamento se não apreendermos o principal suspeito. O ministério público já possui uma testemunha, ela está sobre a proteção da WITSEC, o programa de proteção à testemunha da Califórnia.
- E quem é a pobre alma? – Perguntou , curiosamente.
- Sadie Townsand. Uma das integrantes da Defensa Rubra, que em troca de imunidade total concordou em delatar seus antigos companheiros e também a Blackwell. Logo o processo começará. Então precisamos encontra-lo.
- Mas como? Se durante todos esses meses ele não voltou à ativa? O que mais podemos fazer? – Perguntou Robbie, batendo na mesa em frustração.
- Eu não desisti de um trabalho em Washington D.C. para falhar aqui.
- Não foi você que foi chamado para trabalhar no Serviço Secreto, com a guarda pessoal do Presidente, Kate! – Rebateu Patterson.
- Talvez estejamos olhando para tudo isso de uma forma errada... – Falei, somente recebendo a atenção de Patrick e , mais próximos a mim, enquanto o resto da equipe se gabava dos lugares em que poderiam estar se não ali.
- O que quer dizer? – Disse , interessado.
- Calem a boca, cacete! – Berrei, com um sorriso começando a surgir em minha face.
- Qual é sua ideia? – Questionou Patrick, com um olhar interessado. Esperei que todos fizessem silêncio para anunciar nosso novo curso de ação.
- Estivemos esperando esse tempo todo que Blackwell simplesmente emergisse das sombras, ou que fizesse algo no futuro que nos trouxesse sua identidade ou localização.
- Só diga logo onde quer chegar, cérebro. – revirou os olhos. Ali sim estava minha adversária.
Sorri para ela, sabendo que por detrás de suas grosserias havia uma... Cobra. Ela era mesmo uma cobra.
- Liguem para todos os seus contatos, na CIA, NSA no próprio FBI e em todas as agências que tiverem conhecimento. Quero aqui TODOS os arquivos passados aos quais o Blackwell já tenha sido suspeito, acusado ou mesmo mencionado. Ou até mesmo casos arquivados em que tenham seu perfil de atuação. Vamos revisar cada caso, cada pasta de dados até descobrir alguma fodida pista, entenderam?
Todos assentiram com expressões um pouco desapontadas, mas com pontinhas de esperança, sem nenhum plano melhor do que aquele.
- Kate, ligue para Ethan, e para os homens de Patrick. Está na hora de retornarem para cá, precisaremos de todos para a quantidade de informação a ser revistada.
- Indo. – Assentiu, já discando em um dos celulares descartáveis sobre o balcão de entrada.
Cada um buscou uma linha segura para contatar suas próprias fontes e buscar antigos casos em que Blackwell estava envolvido. Seria uma longa busca, mas algo me fazia sentir que aquilo daria certo. Minha intuição estava completamente certa de que havia algo que as agências deixaram escapar. Algo que pudéssemos usar contra o criminoso mais procurado.
- Você sabe que seu plano se baseia na falha de alguma das agências de inteligência em descobrir uma pista útil contra Blackwell, não sabe?
- Sim. – Assenti para Patrick, mordendo meu lábio.
- Então porque parece tão certa de que irá funcionar?
- Intuição. – Dei de ombros, jogando-me no sofá.
– Convencida. – Murmurou, sentando-se a meu lado.
- E temos algo que eles não tem, afinal. – Arqueei a sobrancelha.
- O quê pode ser isso? Falta de recursos? Pouco pessoal? Somos um time de desgarrados em busca de um fantasma, desesperados em achar uma agulha no palheiro.
- Temos unidade, Patrick. – Repliquei, revirando os olhos para suas brincadeiras. – Sabe o que essas agências mais odeiam fazer? Compartilhar inteligência com outras agências. Cada uma fica com a sua peça do quebra cabeça, com um ego grande demais para ceder que outra possa levar crédito por suas apreensões, isso tudo em busca de mais e mais financiamento.
- Agora sim você soa como uma ativista, vai entrar para a Defensa Rubra?! – Gargalhou, pegando no ar o travesseiro que eu jogara nele.
- Ah, sim. Meu novo lema será “Guiar o mundo para alcançar a paz”. – Ri em retorno. – Mas e você? – Perguntei, ficando subitamente séria. – Acredita que consigamos encontrá-lo antes do prazo final?
- Um mês para fazer o que já não fizemos nessa mesma quantidade de tempo... Para realizar o que nenhuma outra agência já conseguiu... Não tenho tanta fé em nossas chances. – Disse, fazendo meu meio sorriso murchar. – Mas eu acredito em você. – Completou. – Com a minha inteligência e sua teimosia o bastardo não vai se manter anônimo por muito mais tempo.
- Heyy, por que não a minha inteligência? – Reclamei com um biquinho, mas com o humor bem mais leve de que alguém além de mim acreditava naquela loucura de plano. Bem, mais ou menos.
- Por quê a terra gira em torno do sol? As coisas são como são, . – Comentou, alisando meu braço levemente e afastando-se com seu celular à mão.
Vai dar certo. Pensei. Tem que dar.

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Uma frustrante semana depois obtivemos nossa primeira pista. Quase não acreditei quando berrou, distraindo-me do arquivo que eu encarava sonolenta, presa por horas na mesma frase de um depoimento policial, o de Thomas Porter, o líder da Defensa Rubra.


“E então eu disse. - O suspeito pausou. – Eu disse que a NSA tinha conhecimentos sobre alguém ligado ao Blackwell. – O policial encarregado questionou a quem o suspeito se referia. – Uma inocente qualquer. Somente sei seu primeiro nome: .”

- ENCONTREI! – Foi aí que resolveu interceder, correndo para conectar seu notebook à tela principal da sala.
Ethan deu um pulo, fingindo que não estava babando há umas duas boas horas na autópsia de uma das vítimas do fogo cruzado em uma das transações de Blackwell. Era comum que morressem pessoas quando se tratava dos instáveis e rivais cartéis de armas dos Leppards e dos Chaunceys em sua busca por território e poder. O rumor era que Blackwell fosse responsável por mediar as relações entre as famílias, fazendo negócios com ambos e se assegurando de receber bons lucros a troco do sofrimento alheio.
- O que? – Questionei, imediatamente alerta.
- Um dos poucos vídeos que temos, que suspeitamos que Blackwell tenha estado presente.
- Ele nunca mostra a maldita face. – Resmungou , puxando seus cabelos em frustração.
- Sim, mas... MAS, meses atrás tivemos murmúrios de uma traição dentro do próprio grupo de Blackwell. Uma funcionária antiga dele, ou o que acreditamos ter sido uma antiga segurança de seu time foi encontrada morta em um prédio abandonado. Foram reportados tiros e a polícia conseguiu filmagens das câmeras de segurança do edifício ao lado. Não conseguimos saber ao certo o que aconteceu, minha teoria é que a vítima tenha traído seu chefe. A questão é que alguns minutos depois dos tiros, uma van preta é vista buscando um homem e uma mulher da cena do crime. Como não se pode distinguir o rosto do homem, acreditamos que seja Blackwell, mas a mulher que o acompanhava, consegui um conjunto parcial de traços de sua face através da reflexão no vidro do carro.
- Mas isso é quase perfeito! Busque na base de dados da polícia para ver se conseguimos alguma correspondência, ! – Afirmei, tentando esconder minha animação súbita.
- Já está sendo feito, . – Replicou, com um sorriso presunçoso.
Mas dessa vez não senti-me irritada pela mulher. Somente tinha que me conter para não abraça-la por ser quase tão boa quanto eu para perceber algo assim. Quase tão boa, obviamente.
- Só não entendo como ele permitiu que alguém de sua equipe fosse tão desleixado. Ela não deve ser treinada como ele é. – Comentou Patrick, algumas horas depois, fazendo-me arregalar os olhos instantaneamente. – Não me surpreenderia se a pobrezinha estiver em uma vala nesse momento.
- Não está. – Falei firmemente, buscando a folha correta do depoimento de Thomas.
- Como sabe? – Perguntou Patrick com o cenho franzido.
- Porque tenho quase certeza... Ahá! – Afirmei, acenando com o papel para . – Tenho quase certeza de que essa mulher se chama .
- E...
- Thomas diz que ela e Blackwell eram ligados. Acha que isso é código para quê?
- Ela pode ser qualquer contato dele... – Disse , provando meu ponto de mais cedo.
- Não pode, se não seria muito mais habilidosa em esconder sua própria identidade. – Comentou Patrick, começando a compreender onde eu queria chegar. – Ou teríamos notícias dela. Blackwell é conhecido por só fazer negócio com os piores e mais conhecidos criminosos do submundo ilegal.
- Então quer dizer que essa mulher é inocente? – Brincou , incrédula.
- Sim. Só é culpada de envolver-se pessoalmente com um homem tão perigoso.
- Ela é amante do Blackwell. – Completou , atraindo nossos olhares.
- Nesses arquivos da CIA, temos a menção de que fosse possível que nosso alvo tivesse relações com uma mulher em especial, mas nunca descobrimos quem ao certo. Tudo baseava-se em especulações de ex-empregados de Blackwell, mortos antes de poderem depor em qualquer meio oficial.
- Irei cruzar referências com o nome para tentar agilizar o processo, mas ainda sim, ainda pode demorar um dia até que dê resultados.
- Ao menos temos por onde começar, suspirei.

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Horas depois, enfim o buscador apitou sinalizando dois possíveis resultados. Katie projetou a imagem de duas mulheres distintas no telão.
- E agora? Qual das candidatas pode ser a amante de nosso querido alvo?
- A da direita. – Falou Robbie sem hesitar.
- E como sabe? – Perguntou , antes que eu pudesse fazê-lo.
- Porque no caso da NSA que eu estava analisando o traçador de perfil descreveu nosso criminoso como propenso a gostar de morenas. – Riu em seco.
- Como que eles chegam a essas conclusões, cara. – Franziu Trev balançando a cabeça.
- Se quiser mesmo saber pode ler as quinhentas páginas de perfil psicológico do Blackwell. – Suspirou Robbie.
- Ok, suponhamos que essa pessoa esteja certa. – Respirei fundo, olhando para Patrick. – Então temos que encontrar essa mulher.
- Powers é seu nome. – Disse Kate, pegando um dos tablets à disposição e começando a digitar furiosamente.
- Por onde começamos a procurar?
- Acabo de entrar em seu facebook. Ela possui uma conta abandonada, mas consegui acesso e estou buscando imagens em que ela possa ter aparecido.
- Redes sociais são assustadoras. – Comentou Trev.
- Aqui! Temos uma aparição de em uma festa no subúrbio de Wisconsin em Milwaukee. – E logo arregalou os olhos. - É melhor do que pensávamos. Se esta mulher de fato é amante de Blackwell ele deve estar por perto.
- Por... – Comecei a perguntar até que observei a foto projetada na tela a nossa frente. – Deus!
- Porque Powers está grávida. – Replicou Kate a minha pergunta não pronunciada.
Assenti para o traço inconfundível do ventre acentuado da mulher nos fundos da foto grupal. Parecia que não fazia ideia de estar sendo fotografada. Mas fosse quem fosse que tenha postado aquela foto fora nossa salvação.
Pois pela primeira vez desde que criamos a força tarefa, tínhamos uma missão.


Blackwell


- Chefe, tentar buscar a senhorita poderá ser arriscado. O senhor sabe o quanto as autoridades têm farejado ultimamente atrás de suas atividades. Principalmente por culpa dos idiotas Defensores Rubros e seu maldito julgamento. – Comentou Dana.
- Você tem alguma outra fodida ideia? Vocês me ajudaram a recuperar uma vez antes, e das mãos de alguém muito mais esperto do que as forças policiais, por deus! – Mirei o encarar de cada uma das “Crânios” que já haviam me tirado de confusões muitas vezes no passado. - São inúteis, agora, cacete?
O time de supostos especialistas em tecnologia e agentes corruptos treinados reunidos em meu bunker pareceu encolher-se simultaneamente em constrangimento. Mas... não, na verdade era desconforto. Todos ali sabiam que por mais duras que fossem, minhas palavras doíam muito menos do que minhas ações.
- Pode ser feito... Somente chamará uma atenção indesejada para nós. Para o senhor. – Falou uma das novas especialistas em tecnologia, com uma firmeza admirável para quem ainda não estava acostumada com meu jeito... Peculiar.
- Então é um risco que terei que assumir. – Disse, agarrando meu terno. – Foram vocês que elaboraram o plano de extração. Além do mais, como é mesmo que dizem? Tempos desesperados, medidas desesperadas. – Pisquei confiante e saí para o corredor escuro.

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- Para onde, senhor Black? – Indagou o motorista, já à minha espera.
- Para a sede da empresa, Lance. - Acenei, girando o anel em minha mão. – E estou com pressa. - Completei, logo mudando meu foco para a paisagem que passava pela janela do veículo. - Tempos desesperados, medidas desesperadas... – Murmurei novamente, mais para convencer-me do que a qualquer um que pudesse me ouvir.
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- Por que sempre que temos uma reunião, parece que tem o peso do mundo em seus ombros, Signori Black?
- Bugiardo! – Cumprimentei, sem graça, a meu velho amigo.
- Algo o preocupa? – Indagou.
- Nada com que deva se incomodar. – Cortei, com um olhar definitivo. – Como andam os negócios, Fibo?
- Tudo tinindo, Signori. Estamos preparados para a aquisição da Wurtz Tech e o açougueiro já foi avisado de seu próximo trabalho. Não deverá demorar muito repicar esta empresa, já está a ponto de declarar falência. Revitalizaremos tudo com a ajuda de nosso pessoal e venderemos os pedaços logo após.
- Temos compradores potenciais?
- Ainda não. Mas não devemos ter muitos problemas para encontra-los uma vez que comece a revitalização. – Replicou.
- Tudo bem. Qualquer coisa avise-me. Posso estar distante esses dias, mas não quer dizer que não esteja de olho nos negócios, Fibonacci.
- Eu acredito, mio amico. – Assentiu. – Nada abala o Signori Black o suficiente para atrapalhar sua dedicação à empresa.
- Adeus, farabutto!
- Addio, Signori. – Respondeu, com uma pequena reverência antes de sair de meu escritório.

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Mais tarde, Lance esperava-me recostado no carro, com um arquivo em mãos. Entregou-me entrando no carro e não tardando a arrancar em direção ao destino. O homem trabalhava comigo a tempo o suficiente para saber quando não tentar puxar assunto. Depois da traição de Petra, uma das mais antigas agentes à meu serviço, eu passara a não confiar plenamente em mais ninguém. Não quando a saúde de estava em jogo.
Folheei o arquivo, encontrando descrições sobre o plano de ação. Se tudo desse certo, naquela mesma noite eu estaria com minha ex-namorada e meu futuro filho a salvo. Logo após esse pensamento perguntei-me se eu não estava mentindo para mim mesmo. O monstro dentro de mim levantou uma questão assustadora, a qual eu não tinha respostas: e se fosse ela quem precisasse ser protegida de mim?
Mas eu era egoísta. E nada me impediria de estar em Milwaukee, Winsconsin naquela noite. Absolutamente nada poderia entrar em meu caminho. Ou ao menos era o que eu acreditava.
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Assim que o helicóptero pousou no campo abandonado de um de meus contatos, corri para o grande veículo que nos aguardava com coletes à prova de bala e munição.
- Para quê isso tudo? – Perguntei, desconfortável. – Achava que estava escondida aqui por conta própria, fora de perigo.
- Precaução, senhor. – Respondeu a mulher que me aparamentava. Acredito que seu nome fosse Heather, não era uma face nova em minha equipe tática.
- Tudo bem. – Assenti, finalmente entrando na van. – Me atualize no plano.
- A senhorita Powers tem ficado na casa de uma família de comerciantes, famosa nessa região. Hoje a noite haverá um grande jantar em honra dessa mesma família. E acreditamos que estará lá. O senhor irá arrumado como um dos convidados junto a Lance e a convencerá a acompanha-lo até a saída dos fundos, onde aguardaremos à postos para agir com qualquer sinal de problemas.
- Simples e direto. – Completei.
- Assim esperamos. Não é aconselhável que demore muito no jantar. Como um evento de cobertura fotográfica, não poderá arriscar ser pego por qualquer imagem, isso levantaria muitas perguntas acerca de sua empresa.
- Sei o que estou fazendo. – Assenti. – Aprendi com a melhor. – Completei, lembrando-me de Petra. A traidora pode ter ameaçado o amor de minha vida, mas antes de revelar-se como tal me ensinara muito sobre como manter-me longe das autoridades.
Poucos minutos depois, a van parou, a uma quadra de onde seria o evento.
- Vamos para os fundos, boa sorte, senhor Blackwell. – Disse Heather, fechando a porta atrás de mim e de Lance e acenando.
- Hora do jogo, Lance. Hora do jogo.
Aquela seria a noite que eu recuperaria . De uma forma ou de outra.


Capítulo 4




*Aviso: Este capítulo foi baseado na música My Blood do 21 Pilots.


Vultos de tecido giravam por toda a amplitude do salão ao som da pequena orquestra organizada em um modesto palco. Diversas canções de ópera soavam em um crescendo agradável a meus ouvidos. Tomei um gole de Champagne, alisando meu vestido borgonha*e estendendo a mão para Patrick.
- E então...? – Levantei minha sobrancelha sugestivamente.
- Hmm... – Desviou o olhar para mim por um ligeiro segundo, analisando os presentes disfarçadamente, mas com uma atenção típica de um agente de seu porte. – O que foi? – Perguntou, agora encarando, confuso, minha palma esticada em sua direção.
- Me dá o prazer dessa dança?
- Na verdade, é uma ótima ideia. Poderemos vigiar melhor o salão como um todo. – Assentiu, fechando seu paletó. Pegou meu copo e seu próprio e largou em uma mesa qualquer, acompanhando-me até o centro das atenções.
- Nos escondendo à plena vista? – Questionei, rindo de forma contida.
- Precisamente madame. – Replicou, pousando sua mão na minha e a outra firmemente em minha cintura.
Foi então que quase como se tudo estivesse cronometrado ou coreografado, os músicos fizeram a contagem inicial e começaram uma nova canção. Para minha surpresa e deleite, se tratou de “Carmen”. Abri um pequeno sorriso, contendo-me para não cerrar meus olhos em apreciação da doce melodia, muito bem interpretada, por sinal. Se aquilo não fosse uma missão, eu estaria parabenizando e babando na bela cantora lírica de olhos obsidiana que combinavam com seu vestido.
- . – Disse Patrick, chamando minha atenção com um leve aceno para sua esquerda. Uma mulher grávida e com um físico compatível com a descrição que possuíamos de observava toda a agitação de um canto da festa, enquanto ouvia a uma mulher mais velha tagarelar. Provavelmente se tratava de uma das anfitriãs, tendo em vista o carinho que parecia nutrir por nosso alvo.
- Eu vou... – Comecei a dizer, antes que os instrumentos parassem de tocar abruptamente.
- Mas onde é que ela se meteu? – Questionou Patrick, escrutinando cada canto de onde antes havia avistado a amante de nosso alvo.
- Olha. – Apontei para onde todos pareciam se dirigir, próximo às elegantes escadas de mogno.
Um agudo tilintar ressoou do cristal da taça da senhora tagarela de mais cedo aos ouvidos da multidão reunida na enorme mansão. Olhos atentos se fixaram na imagem quase divina da mulher que se prostrava, altiva, no meio das escadas, com sua própria visão de águia que parecia cativar a cada um dali. E confesso que eu não era uma exceção. Algo sobre aquela dama de cabelos platinados era capaz de impor respeito ao mais covarde dos homens.
- Gostaria de propor um brinde... – Começou a filha da anfitriã, plantada a seu lado, sem a mesma elegância, mas com uma voz projetada de forma impressionante, para todos os cantos do recinto decorado. – Este não foi um ano fácil para minha família. Tivemos a perda dolorosa de um amigo muito próximo em um trágico acidente de trânsito, e logo depois, o câncer de meu papai, nosso bom e velho George... – Deu uma pausa para dar uma risada com o público, mas engolindo o choro enquanto encarava seu pai. – O maldito câncer retornou para atormentar nossas vidas. – Engoliu em seco. - Porém, novamente Deus permitiu que ele fosse forte o suficiente para vencer a doença. Ainda neste mês, como em um alento, recebemos uma inesperada visita, de um anjo em nossas vidas. Ela é a convidada de honra de hoje, e vocês a conhecem, não é? – Brincou, provocando risadas descomplicadas de parte do público.
- Onde ela está? – Perguntou um homem grisalho, no meio da confusão. – Vai lá, !
Um coro seguiu em concordância, e a bela e tímida jovem que havíamos visto mais cedo, não teve outra escolha senão emergir do grupo para perto da discursista, que voltou a sua fala tão logo quanto teve a chance.
Não prestei muita atenção em suas palavras seguintes, pois assim que obtive a visão da silhueta de , comecei a pensar que nossa teoria talvez não fosse tão maluca assim, afinal.
Tenho confirmação visual do alvo.” Murmurei, soltando a mão de Patrick, a qual nem havia percebido ter pego, e gesticulando para que ele circulasse pelo outro lado do salão, somente à espera do fim do discurso para extrair Powers daquele lugar.
Entendido, Cherry, prossiga com a Operação Bloqueio.” Ouvi responder com malícia, e uma risada baixa, provavelmente de Patterson a seu lado na van de fuga.
Preciso perguntar?” Murmurou Patrick, com o que eu sabia – mesmo que naquele momento não pudesse vê-lo – ser um sorriso de escárnio.
É que esse era meu codinome na Academia, em Quantico.” Suspirei, xingando mentalmente. Quase como se pudesse sentir minha raiva, a mulher soltou uma risada abafada. E eu replicaria com uma tiradinha irônica e vingativa. Até faria isso. Não fosse...
- Desculpe, sou tão desastrada... – Abri os olhos aos quais havia cerrado, mortificada por ter dado um encontrão tão feio no homem a minha frente.
- Não tem problema. – Resmungou ele, sem nem mesmo olhar para mim. Seus olhos somente se detiveram em minha pessoa por poucos segundos antes que ele se retirasse, lançando-me um meio sorriso que fez meu coração congelar e meus pelos do braço se arrepiarem como se tivesse levado um baita de um choque.
O que me acordou foi a salva de palmas com o fim do longo discurso e a imagem de afastando-se para o que pareciam ser as portas da cozinha com um semblante ansioso. Caminhei atrás dela a passos rápidos, ou o mais veloz possível sem que parecesse que eu a estava seguindo e deslizei furtivamente para dentro do cômodo ao qual a mulher havia entrado.
- Senhorita Powers. – Chamei sua atenção, sentindo adrenalina pulsar em minhas veias com uma leve animação. – Preciso que venha comigo. – Disse, tentando soar o menos ameaçadora possível.
A mulher olhou-me como se eu tivesse outra cabeça, tentando me decifrar.
- Ele está aqui, não está? Diga a ele que eu não podia contar... Diga que sinto muito, mas não podia... – Balançou a cabeça, quase me convencendo de sua agonia.
- Senhorita, não estou com o Blackwell.
- Eu tinha que proteger o beb... Espera, mas se não está com o , quem é você? – Perguntou com um tom assustado e um pouco alterado. Mas não tive tempo de responder, antes que Patrick entrasse no recinto, seguido por e Robbie, vestidos de garçom.
- e Patrick Jacobs, FBI. Não temos muito tempo. – Afirmou, gesticulando para que fôssemos andando até o cômodo seguinte, do lado oposto do grande salão.
- Para onde estão me levando? – Indagou a mulher, olhando em volta apreensiva. – Eu gostaria de ver uns distintivos antes de qualquer coisa!
- Mas nós... – Começou , nervoso.
- Mostre logo para ela. Só deus sabe quantos inimigos o pai dessa criança deve ter. – Afirmei, tentando trocar um olhar com a mulher que transmitisse todo o meu respeito.
Powers poderia ter muitos defeitos, mas ela era uma sobrevivente. Em poucos meses, de uma cidadã comum, contribuinte com impostos, ela fora convertida a fugitiva grávida e futura mãe solteira. Sim, eu poderia implicar com muita coisa sobre suas escolhas de parceiro para a vida, mas eu entendia o que era a dificuldade de criar uma criança sozinha. Eu podia ver todos os dias o peso da preocupação de minha irmã Katherine comigo após a morte de nossos pais. Era como se sua própria dor não mais importasse, porque tudo o que tinha de si, dedicou a minha criação.
- Ok. – Assentiu para nossas identificações, rapidamente mostradas por Robbie.
- Pronto, agora nos mostre a saída dos fundos, senhorita. – Murmurou Patrick, impaciente.
- Não tão rápido, imbecil. – Ouvimos uma voz grave quebrar o ar de ansiedade a desespero. Havia uma doçura letal em seu tom que me transportou de volta à trombada de minutos atrás. Aquele era o mesmo cara. – E nem pensem em reagir, ou meus homens não hesitarão em atirar. – Completou, ao ver que Robbie e Patrick trocavam olhares significativos.
E pela segunda vez na noite congelei, mas não pela sensação do cano de uma arma na parte de trás de meu crânio. Não, aquilo era somente perturbador, mas fazia parte de minha descrição de trabalho, ossos do ofício. O que me fez arregalar os olhos até minhas pálpebras doerem foi a próxima fala de , que confirmou que meu maior sonho e meu maior pesadelo estavam se tornando realidade.
- ...? – Perguntou, com a voz quebrando de emoção.
Era ele. O segundo homem mais procurado dos Estados Unidos, caçado por diversas agências de inteligência, o criminoso que se esquivou da lei durante anos sem deixar rastros, o objeto de minha maior obsessão em Quantico nas aulas de Psicologia Comportamental do Crime estava ali, na minha frente. Por deus, eu havia esbarrado nele na festa!
- . – Pronunciou, de uma forma tão gentil que quase doeu a meus ouvidos o impacto da diferença de sua tonalidade anterior. Sua face de anjo, mais para um Lúcifer do que um Amenadiel, transmutou-se com um novo brilho em seu olhar ao mirar sua amada. Se eu estivesse no cinema assistindo aquele momento como se fosse um filme, tenho certeza de que não era para mim que estaria torcendo, mas sim para que ambos conseguissem escapar das garras da lei mais uma vez.
E dessa vez, a ficção venceu.

* Borgonha é um tom de vermelho com uma pequena porção de púrpura associado ao vinho da Borgonha do qual recebe o nome, o qual por sua vez, deriva da região francesa da Borgonha. A cor borgonha é similar a outros tons de vermelho escuro como bordô.

Blackwell


Surrounded and up against a wall // I'll shred them all, and go with you

- Eu vou te levar para casa, meu anjo. – Disse, envolvendo em um abraço apertado. Olhei para meus homens por cima de seu ombro e assisti enquanto davam uma coronhada nos agentes do FBI que queriam captura-la. Nada nem ninguém a tiraria de mim novamente.
- Não! – Berrou a agente que havia sido deixada consciente, enquanto via seus amigos arrastados para o canto escuro da sala e era amarrada por Lance em uma cadeira.
- Querida, vá com Lance. Preciso trocar uma palavrinha rápida com a agente . – Falei, beijando sua testa. A mulher assentiu, muda, ainda abalada com a reviravolta de acontecimentos.
Caminhei até onde meu capanga deixara e inclinei-me acima dela, com os olhos penetrando os seus com ferocidade suficiente para passar minha mensagem. Mesmo assim, a mulher não moveu um músculo, já sendo muito mais corajosa que metade de meus homens, devo assumir.
- Você achou que seria fácil? Tão simples levar para longe de mim alguém que eu amo? – Indaguei, com as sobrancelhas franzidas. Surpreendi-me com a risada sarcástica que seguiu minha pergunta, algo inesperado para mim.
- Blackwell, finalmente... Mas devo dizer que encontrá-lo foi tudo menos fácil. – Disse ela, com um meio sorriso tenso. Podia estar amarrada e olhando-me de baixo para cima, mas era como se durante todo o tempo, ela ainda estivesse no controle. No estado em que eu estava naquele momento, após reencontrar e ainda ansioso por quase tê-la perdido para os agentes federais, só o que podia pensar da atitude da mulher é que era fodidamente irritante.
- Qual é o seu problema?
- Você por enquanto. – Replicou, perdendo o sorriso que ostentava.
- Não se preocupe. – Respondi, recolocando meu paletó. – Estou de retirada. – Acenei, piscando o olho para a agente, satisfeito com a alta probabilidade daquilo iria irritá-la.
Não pude ver sua expressão enquanto eu saía da mansão para encontrar , mas o som de um grunhido feroz foi confirmação o suficiente. Em poucos segundos estávamos nos retirando do local em direção a um ponto seguro e isolado.
Minha vontade era de voar para longe, onde eu sabia que o FBI não teria jurisdição e a CIA nunca poderia me encontrar. Porém, devido à situação de , já nos últimos estágios de gravidez não seria seguro, muito menos prudente transportá-la. Além disso, antes de tudo, tínhamos muito a conversar sobre o futuro de nosso filho.
Algumas horas mais tarde...
”You’re facing down a dark hall // I’ll grab my light, and go with you”

- Realmente deixou de me amar? – Perguntei, logo depois martirizando-me por ter começado com a indagação a qual eu mais temia a resposta.
- Você está brincando comigo? – virou-se para mim, envelopando meu rosto em suas mãos como sempre costumou fazer. Inspirei como se estivesse respirando pela primeira vez em meses. Seu perfume veio a mim com seu poder intoxicante. E era como se meu corpo ignorasse os alarmes em minha mente racional e abraçasse esse velho vício com tudo o que havia em mim.
Aproximei minha face da sua e tirei proveito daquela proximidade que eu não tinha há meses. Era ali que mais sentia-me seguro, com minha face sendo acariciada por sua palma, com seus dedos percorrendo meu cabelo e seus olhos trancados nos meus.
- Você é mesmo um bobo. – Gargalhou ela, puxando minha mão para sentar-me junto a ela na cama. – Claro que eu ainda te amo. Se não porque acha que estaria aqui contigo voluntariamente?
- Você tem um ponto. Mas ainda não explica porque de uma hora para a outra resolveu acabar com o que tinha entre nós e...
- , eu deixar você, isso nunca foi sobre nós, não realmente. – Suspirou a mulher, apertando meu braço gentilmente.
- Sobre o bebê então? Por que não me contou? Escolheu enfrentar isso sozinha...
- Quando o médico pediu para que você saísse daquele quarto de hospital e me contou que eu estava esperando um... bebê. Ah, , eu havia acabado de ser sequestrada por um de seus próprios empregados! Já pensou se eu tivesse perdido essa criança? Nunca me perdoaria por isso. Eu escolhi envolver-me em seu mundo. Mas não irei escolher isso para meu filho. Sua “profissão” – Falou, com aspas no ar. – Traz muitos perigos em sua descrição. Dessa vez tinha sido alguém do seu próprio círculo, mas e quando um de seus inimigos decidisse aplicar a Lei de Talião? Viver temendo uma vingança de olho por olho, dente por dente parece um futuro promissor para você?
- Eu... Sei que perdi sua confiança, amor. Não queria que fosse assim. Odeio que você tenha sido implicada em meus pecados. Mas poderia ter falado alguma coisa...
- Eu conheço você, . Nunca me deixaria ir se eu não quebrasse seu coração, se não devolvesse meu colar... – Disse com uma careta envergonhada, mas ao mesmo tempo não parecendo ter nenhum arrependimento. – Mas eu fiz isso pelo nosso filho.
- Eu entendo. Não gosto nem um pouco da forma como as coisas ficaram, não me entenda mal. Mas eu compreendo.
- Eu sabia que algum dia entenderia. Mas você meio que estragou tudo indo atrás de mim tão cedo.
- Não pedirei desculpas por isso. Sei que não tenho muito crédito contigo para pedir isso, mas pode confiar que está segura aqui comigo? Que vocês - Sorri emocionado, tocando de leve em seu ventre. - ...Estarão seguros, ao menos durante esta noite?
A mulher simplesmente assentiu enquanto soltava um enorme bocejo.
- Wow , abre mais a boca, não consegui enxergar nosso filho. – Brinquei, enfatizando as últimas palavras. Ainda novas para mim, e muito gostosas de serem ditas, eu devia admitir.
- Boboca. – Revirou os olhos, lançando mais de uns de seus brandos xingamentos e puxando-me para deitar junto a si. Abracei-a de lado, formando nossa conchinha, agora com um intruso bem vindo à misturinha de mim e da razão de minha existência. Espero que mais dela do que de mim...
- Voc... – Comecei, após alguns minutos, mas desistindo e beijando seu pescoço.
- O que foi? – Virou o rosto para trás, tentando mirar meus olhos.
- Já sabe o sexo do bebê?- Perguntei, um pouco nervoso.
- Preferi fazer surpresa. – Respondeu, balançando a cabeça. – Mas cheguei a pensar em nomes possíveis.
- Me diz.
- Se fosse menino, gostaria que se chamasse John, assim ele poderia ter o mesmo apelido do pai. – Disse ela, fazendo-me esconder meu sorriso lisonjeado em seu cabelo.
- E na remota possibilidade do ser uma menina? – Brinquei, fazendo-a gargalhar.
- Então seu nome seria Sarah, como minha irmã.
- A sua irmã que me odeia? – Perguntei, com uma sobrancelha erguida.
- Ela não te odeia, e o senhor sabe muito bem que irmã eu só tenho uma!
- Mas não importa de qualquer forma. – Falei, convencido.
- E por quê? – estranhou.
- Por que eu sei que o vai vir.
- Sinto muito querido, mas algo me diz que será uma menina... – Riu a mulher, provavelmente só tentando me provocar.
- Vai sonhando, gatinha. Vai sonhando.
Mais tarde, quando pensava que a mulher já estava no quinto sono, ouvi um sussurro, quase inaudível.
- Amor, será que você ainda teria o meu colar?
Separei-me de seu calor, um pouco relutante – para as duas partes, já que dela ouvi um resmungo -, para somente pegar o relicário que comprara para ela no que pareciam ser muitos muitos anos atrás.
Agachei-me ao lado de sua forma sonolenta que me observava como se esperasse que eu fosse sumir a qualquer piscada de olho. Posicionei o relicário de coração em volta de seu pescoço e selei nossos lábios de leve.
- Prontinho, está no lugar de onde nunca deveria ter saído.
sorriu para mim com uma intensidade que me marcou. Havia esquecido o poder de seus sorrisos para iluminar-me como o 4 de julho e seus fogos de artifício. Seus olhos eram meu sol, seu ventre nosso futuro, e sua boca meu alento.
Nos beijamos por um tempo e voltei a minha posição anterior. Pouco antes de cair no sono pensei ter ouvido um choro baixinho. Mas não estranhei, aquele dia havia sido muito intenso para nós dois.
Não sou de subestimar , mas meu pior erro foi não ter notado sua inquietude fora do comum antes. Não antes de tudo sair dos trilhos.


Capítulo 5

Blackwell



Naquela manhã, experimentei algo mágico. Um chute sob minha mão, ainda pousada sobre o ventre de , despertou-me para a realidade.
- Bom dia, pequeno . – Suspirei, murmurando para não acordar .
- Eu me perguntei quando Sarah iria acordá-lo. – Sorriu a mulher, parecendo mais do que desperta, provocando-me ainda com sua teoria do beber seu uma menina.
- Bom dia, amor. – Falei, beijando sua bochecha ternamente. Coloquei-a deitada de barriga para cima e dei um leve beijo em seu ventre. Em nenhum momento tirei meus olhos dos seus, que pareciam emocionados e vidrados como se isso tudo fosse um sonho.
- . – Disse ela, buscando meu rosto e trazendo até si para avaliar-me mais de perto e juntar nossos lábios tão rapidamente como o bater de asas de uma borboleta. – Qual é o problema?
- Nenhum. – Sussurrei, desviando meus olhos de sua face avaliadora. Mas infeliz ou felizmente, a mulher me conhecia demais para cair em minha mentira. Somente bastou o arquear de uma de suas sobrancelhas para que eu bufasse, derrotado, deitando-me a seu lado novamente.
- , eu não tive o melhor exemplo de pai. Você sabe meu passado, minha mãe tentou com tudo o que tinha dentro de si, me criar da melhor forma que soube, mas os danos que meu pai causou a mim e a... Só não quero acabar traumatizando meu filho.
- Amor, nunca duvidei que pudesse ser um bom pai. – Afirmou, séria. – Seu mundo não é o ideal para criar uma criança, mas... daremos um... um jeito. – Suspirou pesadamente, quase como se ela mesma não acreditasse nisso.
- Ok. – Assenti, fingindo que suas palavras haviam me convencido. Ela, por sua vez, fingiu que acreditou em meu meio sorriso. E assim, encaramos o teto do quarto por alguns segundos, sem saber o que dizer, até que soou uma batida na porta.
- Deve ser Lance. – Afirmei, dando um último beijo em e erguendo-me da cama. – Descanse, anjo. Tenho muito a arranjar. -Completei, lançando um último sorriso para a mulher.
- Eu te amo, . – Assustou-me, fazendo virar-me para ela novamente, já à porta. - Apesar de tudo... – Balançou a cabeça, como que para clarear seus pensamentos. - Sempre te amarei. – Também te amo . Com todo o coração, e por todas as nossas vidas. Amo vocês. – Completei, piscando e saindo para dar de cara com um Lance apreensivo.
- Chefe, bom dia.
- Bom dia, Lance. Anima essa cara, enfim o juízo final chegou. -Brinquei.
- Parece que sim. – Riu, colocando uma mão em meu ombro e fazendo-nos parar no meio do corredor. – Chefe, foi um prazer trabalhar para você, todos esses anos...
- Não me venha com porcarias sentimentais, Lance. – Comecei, sério. – Mas obrigada por ter sido leal durante todo esse tempo. – Assenti, apertando seu ombro de volta, e voltando a andar em direção à sala de segurança.
Sempre soube que quando chegasse a hora, Lance não poderia me acompanhar em minha fuga. O plano de contingência, elaborado há anos atrás por meu time e atualizado constantemente, para o caso em que fosse necessário fugir, trazia consigo muitas viagens entre países não extraditáveis. Mas meu segurança mais leal tinha laços, uma família aqui na américa. Me acompanhou por tantos anos, mas essa seria a reta final.
- O que temos? – Perguntei, para a equipe de craniozinhos
- Senhor Blackwell, nós...
- Lexi, tem 4 anos que trabalha para mim, pode me chamar de .
- Ookay... – Respondeu, tentando esconder seu sorriso. Minha equipe estava acostumada com meu bom humor quando estava a meu lado. – Preciso somente de confirmação para ativar o Programa Juízo Final, mas creio que estejamos bem para prosseguir.
- Iremos apagar sua existência, todas as fotos, menções, quase tudo o que a internet tem de registros de você. – Começou Dana, outra que integrava meu time há muitos anos. - Mas o senh... . - Corrigiu-se, diante de minha careta. - Você precisa entender que isso não servirá para apagar todos os seus traços. O senhor possuía uma empresa bilionária, e era uma figura pública, o que torna tudo mais difícil. A parte legítima de seus negócios deverá ser passada para alguém sem ligações com o crime, e mesmo assim, é possível que com qualquer leve incongruência nos registros da empresa, a corregedoria ataque sem a menor clemência. Os agentes que viram você já devem estar produzindo um retrato falado, isso se algum deles ainda não o reconheceu. Precisamos de uma resposta agora, se quisermos atrasar a polícia por tempo o suficiente.
- Ative. – Falei, sem um pingo de dúvidas. – Juliette, ligue para Fibonnaci, faça-o vir até aqui. Rorik, Houston, venham comigo para o corredor... – E continuei, em um volume mais baixo. - E Lance, vá ver se está bem, se precisa de algo.
- Houston, preciso que comece os preparativos. Compre passagens para mim e para em diversas companhias aéreas e para diversos destinos. Coloque diversos carros na rua, com agentes de nossa equipe que pareçam comigo e com a . Quero a polícia confusa. Também converse com o piloto de meu jato, e alerte o pessoal das docas, certifique-se que o container está pronto. Não pode haver um erro na execução, se não game over, está me entendendo? – Perguntei, franzindo o cenho.
- Entendido. – Engoliu em seco, caminhando de volta para a sala de controle.
- Rorik, o que vou lhe dizer é muito importante e nem preciso comentar que não é para sair daqui, não é? – Perguntei, com a voz dura, esperando que assentisse para só então continuar. – Viaje até o Instituto Reminiscência. Preciso que extraia de lá a paciente 11.410 com a máxima urgência. Tenho um contato lá dentro, se chama Priscila, e este é seu telefone. – Entreguei um cartão para ele. – Ela é uma mulher inteligente e sorrateira, então não confie completamente nela, fará de tudo por mais dinheiro.
- Qual o nome da paciente, senhor? Se não se importa em me informar.
- Valerie. – Cuspi o nome, expirando. – Valerie Wilson é o nome pelo qual está registrada... Mas seu verdadeiro nome é Valerie Blackwell.
- ... – Rorik arfou, tentando esconder sua surpresa.
- Mais alguma coisa, ou vai ficar plantado aí que nem um idiota? – Perguntei, revirando os olhos, e me retirando sem esperar resposta.
Passando pela mesa de Juliette em direção ao escritório, encontrei-a ao telefone, gesticulando para que eu entrasse. Fibonacci já esperava, suando frio, quase azul de nervosismo. Ele era o CFO, o diretor financeiro da Black Industries, e nunca. Repito. Nunca havia sido convocado a meu escritório às pressas.
Fibo conhecia meu braço de ferro, mesmo que somente na parte legal de meus negócios. A empresa que começou como fachada para lavagem de dinheiro de meu papel no submundo revelou-se com o tempo demasiado lucrativa. Muito disso devia-se ao gênio do mundo corporativo que era Fibonacci.
- Farabutto! - Exclamou, mas sem seu tom brincalhão habitual.
- Fibo. Não tenho muito tempo, mas tudo será explicado mais tarde. – Comecei, direto ao ponto. – Preciso que assuma a empresa. Que compre todas a minha parte, agora.
- Toda? Todas as ações? – Indagou, com seus olhos quase triplicando de tamanho. – Mesmo que tivesse capital para isso...
- Não se preocupe com o preço, eu daria tudo a você, se não precisasse de uma fonte de renda rápida, sem alertar aos bancos em que tenho depósitos, de grandes retiradas.
– Não entendo, Signori Black. Está com problemas?
- Vou precisar sumir Fibo. Essa pode ser a última vez que nos vemos. – Afirmei, sentindo minha urgência instalar-se em seus ombros tensos.
- Como preferire. Todo homem tem seus segredos. Se precisar de alguma ajuda...
- Sei onde e como contatá-lo. Obrigado amico mio.
- Foi um prazer fazer negócios com você. – Assentiu, assinando os papéis com os termos, que haviam sido redigidos por Lexi mais cedo. – Addio, Bugiardo. – Apertou minha mão, quando terminou, erguendo-se de sua cadeira.
- Adeus, Fibo. – Lancei-lhe um meio sorriso e saí para buscar .


A simples visão da falta de um segurança à porta do quarto foi o que me alertou. Escancarei a porta, para encontrar um Lance fazendo um torniquete em sua perna, sangrando com um tiro, e Winston a seu lado, desacordado e com uma pancada em sua cabeça.
- Chefe... – Soltou Lance, com o tom mais envergonhado que eu já ouvira pronunciar. – Acabaram de leva-la. Levaram a senhorita .
- PORRA! – Dei um soco na parede, atravessando o gesso em um estrondo que chamou a atenção de meus empregados na sala de controle.
- O que está acontecendo? – Perguntou Heather, com Houston e Coulson à tira-colo.
-Agora vocês aparecem. – Ri em seco, balançando a cabeça. – Coulson, vai buscar a porcaria de um médico para Lance e Winston.
- Malditos silenciadores. – Puxei meus cabelos, com os olhos cerrados firmemente. Era como se meu pesadelo estivesse recomeçando.
- O que lhe pareceu, Lance? – Questionou Heather, aproximando-se do homem que grunhia de dor, enquanto sangrava em meu carpete.
- Eram 5 homens, talvez 7. Todos aparelhados até os dentes e com máscaras. Consegui ferir um deles, não pode ter ido tão longe.
- Precisamos procura-la a partir do... – Começou Houston, sendo interrompido por um toque de celular. Meu toque de celular. Meu coração pulou uma batida ao verificar que se tratava de um número desconhecido.
- Sou eu. – Pronunciei, com uma rispidez que fez mesmo os mais próximos a mim, afastarem-se um passo.
- Sei que não está sozinho. Finja que é uma ligação qualquer, você não quer acabar levantando a suspeita de um de seus homens, quer? Eu odiaria acabar deslizando minha faca pelo rostinho da sua amante. – Ouvi uma voz metálica dizer, provavelmente alterada por algum programa de voz.
- O que você quer, Portia? Não é a hora! – Inventei, vendo os olhos de minha equipe, imediatamente deslizarem de volta para os feridos e para analisar o local com a menção do nome de minha antiga companheira de transa.
- Ora ora... Tem mais de uma? Que menino malvado. – Disse a voz, irritando-me além da conta.
– Vá direto ao fodido ponto.
- Temos a sua doce . Se quiser recuperá-la, venha sozinho e traga todos os diamantes que sei que têm em seu cofre. Se eu suspeitar que trouxe companhia, ou que por um acaso faltou alguma pedrinha, eu cortarei a garganta dela antes mesmo que possa dizer oops.
- Ok. Onde? – Sussurrei, virando-me para não deixar que vissem meu desespero.
- Hanson Lake Drive, no parque da Floresta nacional de Chequamegon-Nicolet.
- Posso estar lá em uma hora.
- Acho bom chegar em meia. Minha paciência se esgota rápido.
Assim que a ligação foi finalizada, caminhei até Lance e peguei sua arma.
- Preciso sair por uns minutos. – Afirmei, checando o tambor por balas. – Arrumem tudo para quando eu retornar.
Heather, o recém acordado Winston, Lance e Coulson trocaram olhares preocupados. Todos divididos entre querer me perguntar que diabos eu tinha que fazer no meio daquela crise, e seu amor próprio ou vontade de auto conservação por questionar minha ordem direta.
- Quer que algum de nós o acompanhe? Posso pedir a Houston... – Começou Lance, que perdeu a batalha de encarar, já muito cansado.
- Não. - Cortei, com firmeza. – Vocês têm suas ordens. É só segui-las, de uma vez, Lance. Tenta acertar dessa vez. Não acredito em terceiras chances. – Terminei, saindo do quarto e batendo a porta bem no momento em que o homem baixou a cabeça em desapontamento. Nunca falhara comigo.


Em exatos trinta minutos caminhei para a o ponto indicado no mapa de meu celular. A floresta estendia-se vasta e repleta de galhos pelados com os indícios do inverno a ingressar. Peguei minha arma detrás de minha calça, e desfiz a trava de segurança. Poderia estar caminhando para um abatedouro, provavelmente estava. Porém, se eliminar-me satisfizesse meus inimigos, eu estava de bem com isso, desde que deixassem e o pequeno de fora da carnificina. Eu iria para o inferno sorrindo se isso significasse que ambos ficariam bem. Queimaria no fogo ardente sabendo que apesar de todos os meus pecados, que se tratavam de uma lista bem extensa, eu havia produzido um grãozinho de esperança, que nesse momento florescia no ventre da pessoa que eu mais amava no mundo.


- Largue esta arma agora mesmo. – Ouvi uma voz metálica dizer, antes mesmo de avistar os três indivíduos que apontavam metralhadoras para mim. Dois deles ladeando um furgão ao qual eu supunha que tivessem .
- Onde está ela? – Perguntei, ignorando sua ordem, e aproximando-me vagarosamente de onde estavam.
- Poderá vê-la quando obedecer a minhas ordens. Jogue esta arma ao chão e deixe que ele o reviste. – Disse a pessoa mascarada, apontando para seu parceiro. Pelo que podia ver, tratava-se da líder da gangue, ou de um líder de porte mais modesto.
- Tudo bem. – Acenei, sem muitas escolhas. Eu sabia, afinal em que estava me metendo.
Joguei a arma ao chão e levantei os braços aguardando que o capanga se aproximasse de mim. Quando começou a revistar meu corpo, aproveitei para desarmá-lo em um movimento fluido, dando um soco em seu pescoço pouco protegido pelo colete e alcançando a faca que tinha escondida em meu paletó. Pressionei-a na garganta do homem, protegendo-me mantendo seu corpo a minha frente como um colete humano.
- Está maluco? Nós estamos segurando metralhadoras e temos sua mulher grávida. – Disse a líder, aparentando estar extremamente confusa por um tempo. – Abra, mostre para ele. – Acenou para seu parceiro, dando de ombros.
A imagem de saindo da van e aparentemente bem fez-me abrir um sorriso momentâneo que se esvaiu assim que comecei a entender a armadilha em que havia me metido.
- . Solte ele. – Disse, pausadamente, com uma expressão assustada.
Fiz o que ela pediu imediatamente, caindo de joelhos perante sua forma, que caminhou até mim com a ajuda da mulher que antes apontava uma metralhadora em minha direção. E a peça final do quebra cabeça clicou em minha cabeça enquanto a mulher retirava sua máscara para revelar a face de Olívia. Subestimara aquela agente do FBI, cego por como eu sempre fora. E enquanto o homem que eu soltara colocava algemas de um metal gélido em meus pulsos, erguia-se acima de minha forma derrotada junto à mulher que me privaria de minha liberdade e possivelmente de minha vida.
- , eu...
- Não importa, .
- Mas eu...
- Já disse que não importa! - Levantei minha voz, pela primeira vez desde que nos conhecêramos.
- Eu te amo, . Só que a polícia não concederia proteção a uma fugitiva. Fiz isso por nosso filho. – Suspirou, com lágrimas derramando-se por sua face.
- Eu sempre te amei, . Também sempre soube que algum dia teria que pagar por meus pecados. Só não esperei que fosse ser você minha executora. – Afirmei, cerrando os olhos para não ter mais que ver a mulher que me trouxera o céu, mas que seria meu transporte direto para o inferno. E por mais que soubesse que eu merecia tudo aquilo, o golpe em minhas costas não deixou de doer menos.
Fui levado até o furgão por , sentindo-me morto por dentro. Um homem vazio, que sempre soube que a conta chegaria algum dia, por tudo o que fez. Sentei-me, vendo a porta se fechar e entrando em um carro de polícia recém-chegado, através da janelinha do furgão.
- Você achou que seria fácil? – Disse a agente, sentando-se a minha frente e olhando diretamente em meus olhos. - Tão simples sair ileso de pagar pelos seus pecados?
- Nunca esperei sair ileso, agente . Somente queria proteger a quem eu amo.
- Você não ama ninguém além de si mesmo. – Replicou, secamente. - Olha o que fez com ela, arrastando-a para o meio dessa bagunça.

- É bom cuidar bem dela e do bebê. – Disse, começando em um murmúrio. - Você não tem ideia da quantidade de inimigos... – Balancei a cabeça, rezando para que ficassem bem. - É melhor cuidar bem deles. – Reforcei, sério.
- Isso é uma ameaça? – Perguntou a mulher, parecendo inabalada. Diante de meu silêncio, replicou. – A proteção de está garantida pela polícia, graças a você. – Lançou-me um sorriso sarcástico.
Novamente mantive-me em silêncio. Resignação? Não sabia do que se tratava ao certo. Sentia-me pronto para encarar minha execução, mas sem saber o que esperar dela. Só pude abrir um meio sorriso sarcástico quando ouvi os primeiros acordes da música Highway to Hell ressoando do rádio do furgão. Talvez eu estivesse começando a ficar maluco, mas apreciava a ironia daquela canção enquanto eu estava literalmente em uma auto-estrada para o inferno.
- Desculpe meu companheiro Wade, ele tem um gosto sem igual para o sarcasmo. – Gargalhou a policial, cruzando os braços e cantarolando baixinho a música que representava seu grande êxito e meu inevitável fracasso.


No stop signs, speed limit // Nobody's gonna slow me down
Like a wheel, gonna spin it // Nobody's gonna mess me 'round
Hey, satan! // Paid my dues
Playin' in a rockin' band // Hey mama! Look at me // I'm on my way to the promised land
I'm on the highway to hell // Highway to hell
Don't stop me!

Capítulo 6

Blackwell




*AVISO: Este capítulo contém cenas fortes de violência, principalmente em seu início.


Um mês depois...

Pingos de sangue escorriam de meu nariz para o chão, manchando o concreto com sua vividez assombrosa. Pus meu braço acima de mim para tentar proteger minha face, porém meus esforços foram inúteis, ao retirá-lo dessa posição segundos depois de sentir uma forte agulhada em meu cotovelo. O maldito guarda acertara seu cassetete em meu nervo, causando um arrepio de dor que nem mesmo seu soco poderia causar.
Deixei-lhe me acertar repetidamente até enxergar tudo por uma lente vinho, com os olhos vidrados no chão ao qual passei a ter meu rosto pressionado. O gesto protetor que fizera previamente era mero instinto, mas exatamente aquilo que eu desejava. Ser tão destruído por fora como estava por dentro.
Porém, na maré de sensações dolorosas de agulhadas, ardores de feridas, gelidez de hematomas, repuxões de músculos atingidos, percebi que nada seria o suficiente. Nem mesmo se aquele policial me atingisse até eu me defrontar com a face da morte. Nenhuma sensação poderia ser pior do que perder alguém que se ama, ainda mais tendo em vista minhas últimas palavras para ela: “Eu sempre te amei, . Também sempre soube que algum dia teria que pagar por meus pecados. Só não esperei que fosse ser você minha executora.”
Por que diabos eu sentira a necessidade de conjugar o verbo amar no passado? Talvez fosse um pressentimento, um feeling de que a batida das asas de uma borboleta não causa uma mera ventania, mas sim um furacão que arrasa tudo o que tiver por perto. A vitória da agente pode até ter sido aquele bater de asas, mas infernos, eu era o furacão.


Dez dias antes da solitária.

Ser preso não significa somente ser privado da liberdade “física”. Também representa um encarceramento mental ao redor de uma rotina enlouquecedora. Por exemplo, um insistente gotejar passou a colorir meus dias com uma frequência cronológica incrível. Era como um relógio que a cada tique e a cada taque servia para relembrar de cada segundo passado na Penitenciária San Quentin.
Cada som agudo de água infiltrada atingindo o chão de concreto queria dizer menos um minuto com meu filho a nascer. E minha rotina na prisão começou com uma tranquilidade que durou somente até receber uma visita da própria mulher que me pusera naquele buraco.


Uma estridente campainha soou, seguida pela abertura da grade de minha cela. Já contara 527 pingos desde que acordara. E houvera dois esguichos de um rato que eu não sabia bem a localização naquele cubículo no subsolo.


- Blackwell, tem visita!
- Pensei que não pudéssemos ter visitas... - Externei meus pensamentos, genuinamente surpreso.
- É sua advogada. - Falou o oficial que me acompanhou até uma sala reservada. -
Observei a agente , recostada em um dos cantos da caixa de metal, parecendo nervosa. Seus olhos passavam por mim, não conseguindo manter-se sobre minha figura por mais do que dois segundos.
Minhas algemas foram presas à mesa assim que sentei-me na cadeira de ferro.
- Agente . – Falei, levantando meu olhar de meus pulsos para a mulher. E por sua falta de protestos, imaginei que as câmeras da sala privada estivessem desligadas. – O que está fazendo aqui? Por que a não ser que tenha mudado drasticamente de carreira desde que nos conhecemos, você não poderia nem mesmo estar aqui. – Declarei o óbvio, arrepiando-me com a aparência arredia da mulher.
-Desculpe-me... Eu precisava vê-lo e não conseguiria de outra forma... - Suspirou a agente, parecendo cansada. Meu sangue gelou com seu tom gentil antes mesmo que pudesse dizer o que se seguiu. - Eu não queria ser a pessoa a ter dar péssimas notícias, mas como parece que sou a única que se importa em avisá-lo, tive que vir até aqui.
Cruzei meus braços, assentindo e esperando que me desse o golpe, que foi maior do que o esperado.
- Como sabe, o senhor...
- Para você é . Não acha que passamos dessa fase? – Interrompi rapidamente, gesticulando para que continuasse.
- Como sabe, Blackwell – Continuou, com um olhar teimoso, que logo foi nublado por um outro sentimento indecifrável. – Você foi preso na Califórnia, como exigido pelo Estado, já que o crime pelo qual o prenderam tem competência estadual.
“E como deve saber, esse estado específico possui pena de morte. Sinto em lhe informar que o senhor está sendo considerado como um forte candidato para tal punição. O julgamento está desenrolando-se bem como esperado... Não tão bem para o senhor. Há uma testemunha ligando-o ao massacre de Sacramento.”
- Sadie Townsand. – Levantei a sobrancelha, pouco abalado.
- Não vou nem gastar meu tempo escondendo o que você já sabe. – Deu de ombros.
- O que eu sei é que vou ser morto por uma falha do sistema investigativo norte-americano. Mas acredite no que quiser. – Foi minha vez de imitá-la, com descaso. – Agora me diz logo como está meu filho.
- Na verdade... É uma menina. – Replicou com um brilho no olhar. – O nome ficou...
- Sarah. – Respondi, antes que pudesse falar, recebendo um assentimento em concordância.
Então estava certa.


“- E na remota possibilidade do ser uma menina? – Brinquei, fazendo-a gargalhar.
- Então seu nome seria Sarah, como minha irmã.
- A sua irmã que me odeia? – Perguntei, com uma sobrancelha erguida.
- Ela não te odeia, e o senhor sabe muito bem que irmã eu só tenho uma!
- Mas não importa de qualquer forma. – Falei, convencido.
- E por quê? – estranhou.
- Por que eu sei que o vai vir.
- Sinto muito querido, mas algo me diz que será uma menina... – Riu a mulher, provavelmente só tentando me provocar.
- Vai sonhando, gatinha. Vai sonhando.”



Fechei os olhos bem apertados, com emoção. Eu era pai. Nunca pensei que pudesse me tornar pai. Nunca tive ninguém que me fizesse sonhar com algo do tipo e ignorar todo o mal exemplo que tive em minha própria família. Meu desastre de pai e ainda maior de irmão mais velho não me forneceram indicativos de como lidar, criar, ninar uma criança como ela merece.
- E ? – Finalmente me atingiu a realização. – Ficará no programa de proteção?
- Isso... É outra coisa que eu tinha que falar. Sinto muito, Blackwell, mas a sua mulher... Ela não sobreviveu ao parto. – Terminou, com a voz firme, mas gentil.
Balancei a cabeça, com uma ira e uma mágoa que não cabiam em mim, mas não conseguindo externa-las naquele momento. Preferi focar-me em saber da criança, foçando-me a pronunciar uma pergunta coerente com o nó que tinha em minha garganta.
- Ela foi realocada pelos serviços em um local protegido. – Respondeu a agente prontamente.
- Bom. - Pronunciei-me finalmente, após uns minutos em silêncio digerindo a notícia. – Certifique-se que seja uma boa família. – Olhei para a mulher, com os olhos brilhando suplicantes. Não me importava se tivesse que beijar os pés daquela mulher, ou lamber o chão em que pisa. Só queria que a pequena Sarah tivesse um lar.
- Eu... Farei visitas regulares. Não se preocupe.
- Se eu estivesse com ela... – Suspirei, pensando novamente em .
- Os médicos afirmaram que desde o início era uma gravidez complicada e algo me diz que a senhorita Powers já sabia dos riscos. Sinto muito, mas preciso ir, senhor Blackwell. Ninguém pode saber que estive aqui.
Assenti, observando-lhe juntar suas coisas e recolocar seu casaco para sair da sala.
- Por isso que ela mandou-me para esse buraco, não foi?- De repente me atingiu. – Ela não queria que eu ficasse com o bebê. Não realmente. – Esclareci.
- Sinto que você já sabe a resposta. – Replicou, já à porta, com os olhos brilhantes como os meus, mas partindo antes que eu pudesse especular qualquer motivo para seu estado.
Fui levado de volta à minha cela, repensando tudo que já me dissera. Naquele mar de mentiras, será que algo fora real? Pois aquela resposta eu não sabia. E temia que agora, com a morte da fonte de todas elas, nunca fosse capaz de descobrir.





Cinco dias antes da solitária.

- Está na hora! – Berrou Bruce, do alto do ringue improvisado.
Os detentos mais influentes e os policiais mais corruptos vibraram em retorno, aguardando ansiosamente por seus momentos de escape. Os presos obviamente pela fuga da monótona rotina da prisão, já quanto aos guardas, podiam ser verificados os mais variados motivos. Alguns clamavam estarem ali para complementar seus salários ridículos considerando o quão arriscado eram suas funções. Outros tinham apreço pela descarga de adrenalina que recebiam a cada luta livre arranjada.
Talvez fosse até pelo simples gosto por sangue, mas o fato é que aquele evento pequeno e clandestino era capaz de reunir a escória da escória da Terra. E é claro que eu estava no meio, não importava se virasse um santo pelo resto de minha vida, nada apagaria as atrocidades que já cometi. Não era para o céu que estava me encaminhando, disso eu tinha a mais total certeza.
- De um lado temos o peso meio-médio, da Ala B, o segundo mais procurado da América, ou ex-procurado... – Corrigiu-se, causando risadas do público e ganhando uma careta minha. – Blackwell! – Fez uma pausa. – Do outro, temos o peso meio-pesado, rei da Ala D, Gordon Pruitt! – Anunciou, apontando-nos nossas posições. – Façam suas apostas! – Terminou, logo depois declarando o início da luta.
Assim que ouvi o ligeiro toque do sino, apaguei em uma nuvem de movimentos instintivos. Em poucos minutos já havia vencido o primeiro round. Bastavam a mim, os reflexos de meu treinamento desde garoto. Aquela era a única conexão que já tive com meu irmão mais velho, nossas tardes praticando boxe e assistindo a UFC pela pequena televisão da sala. Algumas das minhas únicas lembranças felizes de infância passavam por essa atividade, tão simples, mas tão significativa.
“SEGUNDO ROUND!”
“Gordon acerta um soco na costela de Blackwell... Essa deve ter doído!”
“Gordon tenta outra investida, mas Blackwell tem uma base sólida e se esquiva!”
“ Blackwell bate com seu joelho na face de Gordon, que tenta leva-lo para o chão, mas acaba se desequilibrando. Diabos, depois dessa seu ombro deve estar ferrado!”
“Blackwell evita um nocaute e encerra com chave de ouro em uma guilhotina afiada!”

Sangue escorria pela carne exposta do que restara dos nós de meu punho. Tensionei o músculo do braço, que ficara muito mais desenvolvido desde que eu fora preso. Isso em uma vã tentativa de ignorar a dor lacitante que irradiava dali e de alguma de minhas costelas cobertas por tatuagens.
Pergunto-me o porquê?! Pensei, retoricamente indagando-me sobre minhas próprias razões deturpadas. Porque agora que eu seria pai, e não anos antes, quando eu ainda era um mero garoto inconsequente. Um jovem que corria riscos como maratonas e que não tinha nenhum escrúpulo.
- Humpf - Gemeu o homem à minha frente, trazendo minha atenção de volta a ele. Sua forma abatida transpirava sua derrota. Tinha o maxilar deslocado e o peito coberto por hematomas, provavelmente parecidos com os que eu mesmo ostentava em minha pele suada. Mas a diferença crucial era que naquela luta fora eu que vencera.
- Blackwell, meus senhores! – Anunciou o narrador da luta, levantando minha mão direita. Ouviram-se muitas comemorações combinadas com muitos xingamentos dos apostadores do lado perdedor.
Toda aquela brincadeira ocorria uma vez por semana no subsolo sob a área de serviço. Tudo sobre os narizes dos ignorantes oficiais limpos e presos ordinários, fora do grupo de alta prioridade do Complexo Correcional do Estado da Califórnia: a Penitenciária San Quentin.
Fazia uma semana desde que me visitara portando as chocantes notícias de . Encarcerado candidato à pena de morte, viúvo do amor de minha vida e... pai privado de ver sua filha? Não podia acreditar no peso que a agente depositara em minhas costas em uma única parada para me ver.
Duas semanas desde que a havia falecido. Duas semanas de máxima negação e martírio de minha parte. Especulações sobre seus últimos pensamentos antes de morrer eram meu passatempo mais masoquista. Quanta dor deve haver sentido em seu último suspiro? Será que considerava o sangue que dera, literalmente pela vida de nossa filha, ser uma traquinagem do acaso ou um deboche do destino?
Eu não sabia, nem tinha como saber. Afinal, não havia estado lá por ela em seus últimos momentos de vida. Minha forma especial de tortura consistia em repetidamente trabalhar nessas perguntas em meu confinamento. Enquanto olhava para o teto descascado de minha cela, enquanto comia a comida sem gosto da cantina ou corria pelo pátio.
Nos últimos dias, também o fazia enquanto lutava. Por que já não via mais ponto. A pequena Sarah seria “realocada” e acompanhada pela assistência social. Minha filha seria posta nos braços de uma família qualquer, a qual eu torcia para ser uma daquelas famílias sem graça que vão à missa nos Domingos. Que fazem festinhas de aniversário mesmo no contar dos primeiros meses de um bebê. Que possuísse pais que não a colocassem em perigo somente por respirarem.
Já fora responsável por acabar com a vida de . Me mataria antes que pudesse causar o mesmo a minha filha. Ou ao menos deixaria que um lutador melhor do que eu ou talvez mesmo o próprio Estado da Califórnia – com sua pena de morte - me mandassem para o inferno.





E foi assim, metendo-me em todo o tipo de encrenca que pudesse encontrar, que acabei irritando outro detento, tão influente como eu, mas muito mais experiente por seu tempo encarcerado. Mal pude sentir a tensão ao entrar no refeitório. Aquele estalar que prenunciava o pior dos males.
Um arrepio percorreu-me ao entrar na cantina, mas já era tarde. O estopim estourou em poucos segundos, sem esperar por preparações de minha parte, e fui atacado pelo primeiro dos presos da gangue de Müller. Consegui esquivar-me da facada, mas não do soco.
Cambaleei para trás, batendo na parede fria, e abaixando-me antes que o homem pudesse dar mais uma investida com a arma branca. Atingi-lhe com um soco que o nocauteou direto para a inconsciência, mas foi exatamente esse o momento que o guarda resolveu intervir. O bastardo que vigiava aquela ala odiava-me com uma intensidade que nem mesmo eu sentia.
- Detento! – Chamou atenção, segurando meu braço com força. Aproveitou para sussurrar em meu ouvido, antes de soar um alarme e levar-me da cena. – Eu disse que você iria se foder comigo.
- Policial Parrish, não sabia desse seu desejo por mim. – Debochei, com um sorriso doloroso por meu lábio rachado.
- Vamos ver como você curte a solitária, babaca. Replicou, jogando-me ao chão assim que chegamos ao local e começando a me agredir tão logo retirou novamente as algemas.
Nem pensei em retrucar, somente cedi à sua raiva, tentando suplantar a minha própria. Mas não foi o suficiente, pois como já disse, na maré da mais pura dor, percebi que nada conseguiria suplantar minha mágoa. Nem mesmo se aquele policial me atingisse até eu me defrontar com a face da morte e como meu Virgílio, me levasse aonde mereço estar pagando meus crimes. E não era ali na Penitenciária San Quentin, mas em um lugar muito pior.


Capítulo 7



E mais uma vez naquele ano eu estava em um evento de gala. Porém, não mais como infiltrada, e sim como eu mesma: a agente recém-formada que liderou uma missão vitoriosa de captura do segundo criminoso mais procurado dos Estados Unidos. Nada demais, realmente.
Senti uma mão pousar gentilmente em minha cintura e virei-me para encarar e sua namorada à reboque. A mulher estava linda em um vestido à altura da ocasião, porém parecia extremamente deslocada. Para percebê-lo bastava olhar para suas feições.
- , Temperance! – Cumprimentei-os, lembrando-me de ter sido apresentada à ela mais cedo. – Estão gostando?
- Sabe que horas podemos ir embora? – Indagou , repuxando sua gravata, tão cansado daquela pompa toda quanto sua namorada.
- A resposta é não, então. – Gargalhei, começando a ajeitar o nó no tecido que o enforcava. – Permita-me.
- Obrigado. – Suspirou, entregando seu drink para Temperance e ajeitando sua postura.
- Melhor? – Perguntei, dando um tapinha em seu rosto e terminando minha própria bebida.
O homem assentiu, mas foi interrompido antes que pudesse falar qualquer coisa. Uma voz no microfone anunciou o começo da cerimônia de entrega das condecorações. Pediu para que fôssemos para detrás do palco improvisado.
- Essa é nossa deixa, querida. – Disse , dando um selinho em Temperance e puxando-me para o mar de gente que se dirigia para próximo do palco. Mal tive tempo de acenar para ela, mas lancei um meio sorriso apologético e corri atrás dele. Ou o mais próximo que podia conseguir naquele salto.
Chegada a hora de subir ao palco, pomo-nos em fila e ouvimos o discurso de Tom Horton, que naquela ocasião estava aproveitando para apresentar oficialmente sua aposentadoria e nomear um candidato que apoiaria para substituí-lo.
- ... É com muito gosto que entrego essas condecorações ao time que por minhas ordens foi responsável pela prisão de Blackwell, o homem que escapou durante anos de diversas agências, mas que teve a justiça alcançando-lhe há um mês. E é com muita honra de haver servido o FBI por muitos anos, que nomeio Lupita Langdon como minha sucessora nas funções da direção geral.
Com o anúncio ouviram-se muitos aplausos e Horton pareceu estar em sua própria bolha, apreciando seu momento de glória antes da queda. Sua aposentadoria quase que forçada que há meses havia me trazido a oportunidade de caçar Blackwell em seu nome parecia quase que uma decisão própria pelo dever cumprido.
O homem com quem eu tivera longas conversas com updates de nossos achados, muitas vezes nulos, mal dedicara dois olhares a mim. Ambos com um desdém característico de quem olhava para algo que já não lhe tinha uso. E realmente era assim que me sentia. Usada até meu máximo. Esgotada por aquele jogo de gato e rato com o criminoso que me enlouquecera por anos nas aulas de psicologia do crime em Quântico, mas que agora não representava mais nenhum perigo para mim.
E ali em meio aquela pompa, fiquei perguntando-me “e agora?”. Não era por falta de coisas a fazer. Acontece que haver capturado um procurado da estirpe de Blackwell deixara-me famosa no mundo das agências de inteligência. Apesar dos convites da NSA e de algumas outras agências privadas mais discretas, mas não menos poderosas, quando o próprio presidente lhe requisita para fazer parte de sua guarda pessoal, não é algo que se queira ou se possa recusar.
Mas mesmo com uma nova ocupação tão excitante, não conseguia concentrar-me em ficar animada. Diabos, nem mesmo conseguia dormir. Não após a visita que tive com Blackwell. A quantidade de maquiagem para disfarçar minhas olheiras pode ter passado despercebida por muitas pessoas, mas não por .
- Também não consegue dormir? – Comentou comigo, logo após a cerimônia. Havia saído para tomar um ar no pátio, e se tomara um susto com sua presença logo atrás de mim, a surpresa fora ainda maior por seu tom compreensivo. Nós não éramos bem amigas, mais para adversárias. era uma boa agente. Eu era melhor. Ou ao menos sobre isso que era nossa constante competição.
- O que me denunciou? A quantidade de drinks que tomei ou meu revirar de olhos toda hora que Tom falava “meu” time como se tivesse algo a ver com o que conseguimos conquistar?
- Na verdade foi como a pele do seu rosto está homogênea. Quase não te reconheci, boneca. – Brincou, recebendo de mim um olhar repreensivo. - E de certa forma é mesmo o time dele... O dinheiro dele e em parte suas conexões que tornaram a operação possível. – Comentou, dando de ombros e cobrindo-se mais com sua pashmina.
- Ok, entendo isso. Mas esse homem não tem nenhum pingo de humildade no corpo, né? – Gargalhei, sendo acompanhada pela mulher a meu lado, observando o céu. Um longo silêncio se seguiu.
- Experimenta recorrer à raiz do que está te incomodando. – Finalmente, ela completou, com uma piscadela. – Eventualmente funcionou para mim. - Arriscou um meio sorriso, mas terminou me lançando uma careta bem mais sua cara.Virou-se com meu assentimento, somente parando por uns segundos ao ouvir meu chamado.
- ... Obrigada.
- Não se acostume, .
- Nem sonharia com isso, Valdez. – Repliquei.


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Em dois dias estava encaminhando para a casa de minha irmã para passar o feriado. Katherine me esperava no aeroporto de Rhode Island com um lindo bebê em seus braços. Seu marido, Phill, estava agachado ao lado do menininho que era capaz de encher meu coração de puro amor. O pequeno Cody, o primeiro filho do casal, afastava sua cabeça do pai que tentava ajeitar seu cabelo, em vão. Os cachos indomáveis se estendiam por sua cabeça em belas ondas assim como as de minha irmã mais velha.
Assim que me viu, arrastando um carrinho com minha única mala, o pequeno abriu um enorme sorriso com um dente faltando e veio correndo em minha direção. Sorri, agachando e aguardando por tempo o bastante para ver o cartaz que ele segurava, quase maior do que seu corpo: Bem Vinda, Tia !
- Tia maninhaaa! – Guinchou, quando finalmente chegou a meus braços. Ri do apelido que havia dado de tanto ouvir sua mãe me chamando dessa forma.
- Pequeno Cody. – Beijei sua testa, balançando seu corpo de um lado para o outro até fazê-lo rir.
- Tia ‘ninha, viu o cataz que eu e a mamãe desenhamos? – Perguntou, com os olhos arregalados.
- Sim, meu querido. Adorei a supresa.
- ...presa! – Riu, descendo de meu colo e correndo para atrás da perna de seu pai, enquanto o mesmo me cumprimentava.
- Bem-vinda, maninha. – Disse minha irmã, abraçando-me de lado e mostrando-me o bebê de oito meses em seus braços. – Essa aqui é a pequena Madison. – Passou o pacotinho de neném para meus braços.
Olhei para minha pequena sobrinha. Ela bocejava de uma forma adorável, apertando seus dedinhos em um punho. E foi ali que soube que aquela ali seria uma pequena lutadora. Claro que também o xodó da tia.
- Bem vinda ao mundo, pequena Maddie. – Ri, com lágrimas em meus olhos. Eu amava meu trabalho, mas era muito triste que por vezes ele me privasse de eventos como o nascimento da filha de minha irmã mais velha.
Não desgarrei de minhas duas crianças até a hora do almoço de Ação de Graças, quando muitos dos convidados e membros da família já haviam chegado e seria rude para mim, manter-me no quarto das crianças. Mas foi mais pela hora da soneca do dia de Maddie mesmo.
Cumprimentei a todos com um Cody também sonolento em meu colo, e retornei para o quarto deles para deixa-lo em sua cama de Ferrari. Minha irmã mimava aquelas crianças demais, aquilo era certo.
- Venha para a hora das graças, ! – Sussurrou minha irmã, na sala de jantar, e direcionou-se ao resto da família. – Esse ano, iremos dar graças pelo que e por quem somos gratos de termos nossas vidas. - Explicou, olhando para cada um do recinto atentamente. Por exemplo, eu sou grata pelas novas adições à família, a pequena Maddie, e a esposa do primo Travis, e sou grata que minha maninha tenha conseguido vir para passar esse feriado conosco e por meu marido Phillip, que sempre me dá suporte. Te amo, querido. – Completou, beijando-lhe profundamente, até a vovó Pearl dar um audível pigarro.
O próximo na linha continuou com os agradecimentos, mas desliguei-me até ser minha própria vez. Não conseguia parar de pensar no que dissera. Qual seria a fonte de minha insônia. Eu capturara Blackwell. Não era isso que eu queria? Eu saíra daquela operação sem mesmo um arranhão, e a maior parte de minha equipe, menos um tiro no braço de durante a captura do criminoso. Eu tivera uma grande vitória pessoal no trabalho e tinha milhões de coisas para estar grata. Mas por que parecia que algo ainda me incomodava? Por que parecia que o caso de Blackwell ainda não estava encerrado para mim?
Mais tarde, quando os convidados já haviam se dispersado, coloquei um casaco e preparei-me para sair. Claro que exatamente nesse momento Kate tinha que passar pela sala fazendo perguntas que eu não queria responder.
- Onde vai? – Franziu a testa.
- Não posso te contar. – Repliquei, encolhendo-me. – É sobre o trabalho.
- Ah... entendi. – Assentiu, com os olhos arregalados. – Volte logo então... – Começou, balançando a cabeça. – Só volte, ok? Acabei de te ter de volta. Ainda não quero dizer adeus.
- Não se preocupe! Em três horas estou aqui de novo. – Sorri, abraçando-lhe.
Eu não sabia muito sobre o que aconteceria quando chegasse onde queria estar. Mas estava certa como o inferno de que não voltaria em três horas. Meu instinto me dizia que havia mais naquilo do que eu pensava. E mais uma vez ele estava correto. Eu só ainda não sabia como.


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- E ela está sendo bem alimentada? – Perguntei, observando a face pacífica da pequena Sarah Blackwell brincando com os bonecos de seu berço.
- É claro, como a senhorita deve saber, temos uma amamentadora que deixa leite materno aqui a cada três dias. – Replicou a mulher, ainda crente que estava ali como avaliadora dos Serviços de Adoção.
- E onde está o tal John? – Perguntei, arqueando a sobrancelha. – Seu marido não leva esse processo à sério? – Arrisquei-me, ao debochar, somente querendo uns momentos sozinha com a neném.
- De forma alguma, Senhorita...
- . – Repliquei, sem ver razão para mentir meu sobrenome. Não era como se aquele casal do subúrbio pacato de Rhode Island pudesse me delatar.
- Oh... Sim. Me dê licença por uns segundos. – Assentiu a jovem mulher. – Irei ver o que está prendendo o John.
- Tudo bem, Jane. – Pisquei, comemorando internamente e sacando o celular assim que ela deixou o recinto.
Disquei o número da pessoa que menos queria ouvir minha voz naquele momento.
- Não! – Falou a voz enjoada, desligando antes mesmo que eu pudesse me pronunciar.
Disquei novamente seu número, revirando os olhos.
- Não, . – Suspirou, derrotado atendendo após três tentativas minhas.
- Você nem me deixou fazer meu caso... – Disse, com um biquinho e um tom suplicante.
- Caso? Não tem caso! Da ultima vez você quase me deixou em apuros desligando a câmera de segurança enquanto falava com um dos maiores criminosos do nosso século!
- Não exagera, Rhodes. – Repliquei. – Desculpa, tá bem?! É isso que você quer ouvir?!
- Não, sua vaca. – Resmungou baixinho.
- Eu ouvi isso! – Berrei, pegando Sarah no colo ao ver que a havia perturbado.
- O que é isso? Uma criança? ! Não me diz que fez o que acho que fez.
- Não me faça dizer o que não quer ouvir, palhaço. – Ri. – Só preciso falar com o Blackwell por uns minutos. Eu juro que não vou dar tanto problema dessa vez.
- Está louca?
- Por favorzinho?
- Tem cinco minutos. – Resmungou, cedendo. – Por que eu ainda tento?! – Questionou para si mesmo, provavelmente balançando a cabeça de seu posto na prisão em que Blackwell estava sendo detido até o fim do julgamento.
- Também te amo, Rhody! – Comemorei, embalando Sarah com o balanço de minha dancinha que pareceu deixa-la animada para dar gritinhos incompreensíveis.
Uns minutos depois pude ouvir a voz de quem havia perturbado meu sono nos últimos anos.
- Quem é?
- Blackwell. – Falei, afastando meu celular da bebê que tentava agarrá-lo desde que ouvira a voz, ou melhor, o rugido de seu pai do outro lado da linha.
- Agente . – Limpou a garganta. – A que devo a honra em um dia como estes? Não deveria estar com sua família ou algo assim? Kate, não é? – Indagou, já sabendo a resposta.
Arrepiei-me que soubesse o nome de minha irmã. Mas não me incomodei em perguntar-lhe como havia obtido tal informação. O homem fora por muito tempo o rei do crime, claro que sabia o nome da irmã da mulher que o botara atrás das grades. Perguntei-me, porém, o que mais aquele homem devia saber sobre mim.
- Ah, querido, não sentiu saudades de mim? – Brinquei, fazendo o joguinho que começamos no dia que o conhecera.
- É claro que sim. Meus dias ficam tranquilos demais sem você me infernizando com seus comentários sarcásticos. – Debochou, tossindo.
- É estranho se eu perguntar como você está...? – Indaguei, hesitante.
- Estou preso. – Replicou, parecendo irritado. – E vivo... Por enquanto – Suspirou. – E não está. E minha filha sabe se lá onde...
Sua fala foi interrompida quando Sarah deu mais um de seus gritinhos. Congelei, com medo de que ele houvesse ouvido aquilo. Mas é claro que havia.
- Onde você está?! . Onde... O que foi isso? – Disse com a voz tremendo.
- Er... – Comecei a elaborar uma mentira qualquer, que aquela fosse minha sobrinha, mas desisti quando percebi que era aquilo que eu realmente queria desde o início. Minha irmã me criara a maior parte de minha vida. Por mais que fosse um homem considerado mau para a noção moral e de Justiça da sociedade, ele era também um pai. Simplesmente não era certo que Sarah fosse privada de conhecer seu pai biológico, ainda mais com a pendente pena de morte. – Conheça Sarah... Sua filha. – Finalmente quebrei o silêncio de expectativa.
- Po... Poderia passar para ela um pouco? Sei que ela não vai entender, mas...
- Sim. – Respondi firme, mas sem jeito, sinalizando quando havia colocado o telefone no ouvido da nenê. Nunca soube o que o homem havia dito para a criança naquela tarde. Mas podia sentir sua emoção ao descobrir que eu estava com sua filha. Era como se tudo estivesse sendo despejado novamente no homem, todas as notícias que eu lhe dera, as quais ele somente engolira e encontrara outras formas, mais agressivas para extravasar.
Sim. Eu soubera de suas aventuras lutando na prisão. Na hora em que a ligação desconectou e voltou para Rhodes, o homem me falou tudo sobre. “Quase que não pôde falar com ele”. Informara-me. “Passou duas semanas na solitária após incitar uma briga no refeitório e xingar um policial.” Também pude ver a expressão serena de Sarah, enquanto a depositava no berço com cuidado. Havia sido embalada e dormira em meu colo com um lindo sorriso em sua face, pela voz do pai.
- Afaste-se do bebê. – Disse Jane, fazendo-me girar para sua forma e a de seu marido. Só não esperava que ambos tivessem armas apontadas para mim.
- O que... – Balancei a cabeça confusa, erguendo meus braços defensivamente.
- Ouça bem, . Precisamos amarrá-la a uma cadeira na sala? Não desejamos mal a você.
- Então por que me amarrariam em primeiro lugar? – Indaguei, descrente.
- Para que ouça nossa história toda antes de sair fazendo presunções. – Replicou John, finalmente abrindo a boca, enquanto me encaminhavam até a sala e sua mulher me gesticulava para sentar na poltrona.
- Sei como é teimosa e como sua intuição funciona. – Riu Jane, sentando-se no sofá e deixando sua arma na mesinha enquanto seu marido continuava armado.
- Ah, é? E como sabe disso?
- Porque você capturou o Blackwell... – Especulou, dando de ombros. Mas seu marido tinha uma teoria melhor.
- Porque ela é igualzinha. – Brincou, levando um soquinho de Jane em seu braço.


--


Duas horas depois e após a história mais esquisita que já havia ouvido, eu entrei silenciosamente na casa de minha irmã, pegando minhas coisas no quarto de hóspedes. Passei pelo corredor com minha mala nos braços para não fazer barulho, mas me deparei com um Cody sonolento voltando do banheiro.
- Tia maninha? – Perguntou, bocejando. Parecia um anjinho em seu pijama com dragões de várias cores. – Tá indo ‘bora? – Fez uma carinha de choro.
- Sshhh.. – Sibilei, largando minha mala no chão e abraçando-lhe. – A titia vai ter que ir, meu amor... Mas eu voltarei logo e prometo que a gente brinca de pintar nas telas que a tia te deu, tá bem?
- Tá bem! Tiamo, tia ‘ninha. – Replicou, bocejando novamente e dando um beijinho em minha bochecha que me fez apertá-lo ainda mais em meus braços antes de soltá-lo.
- Te amo, pequeno. – Sussurrei, pegando minhas coisas e fazendo uma rápida parada na cozinha antes de entrar no carro de meus novos conhecidos enxugando uma lágrima.


- Está tudo bem? – Perguntou Jane, franzindo a testa para mim através do espelho retrovisor.
- Hum, sim. – Repliquei, observando seu marido terminar de guardar minha mala e voltar para o passageiro a seu lado. – Para onde vamos?
- Temos que nos reunir com duas pessoas que podem nos ajudar em tudo isso. – Respondeu.
- Quem? – Indaguei, curiosa. – Daniel Collins e Sadie Townsand. – Respondeu, olhando feio para o marido quando ele sugeriu que queria dirigir.
- Se você voltar a aproximar essa mão da chave ou da maçaneta, eu a decepo. – Fechou a cara, ligando o motor. – Aliás, sabe que dirijo muito melhor que você.
- Ok, querida. Mas sei que ama demais minha mão para fazer algo do tipo. – Sussurrou sugestivamente, fazendo-a rir.
Observei a ambos, incrédula. Como podiam tratar com tanta serenidade o fato de saberem o paradeiro do agente Collins e da antiga testemunha do caso de Blackwell? Diabos, ela era uma ex-membra do grupo de ativistas da Defensa Rubra que causara tanta destruição por onde passara!
- Como vocês são tão tranquilos com isso tudo? – Finalmente perguntei.
- Você se acostuma. – Replicou .
- É... – Resmunguei, olhando pela janela. Contemplei o longo caminho que tínhamos pela frente literal e metafóricamente. – Espero que sim. – Terminei, voltando-me para a pequena Sarah em sua cadeirinha, alheia à confusão que seu pai causara. Dei-lhe meu dedo para que ela segurasse com sua mãozinha.
“Não se preocupe, pequena. Vai ficar tudo bem.” Tentei transmitir com meu olhar, percebendo sua inquietação. E como se entendesse, senti um aperto em meu indicador e seus olhos piscando com força para os meus antes de voltar a brincar com seu brinquedinho.
Imaginei minha irmã lendo o bilhete que eu deixara às pressas. Devia estar muito brava e preocupada comigo. Ela nunca fora muito... Entusiasmada com minha escolha de profissão. Mas sempre me encorajara a fazer o que meu coração mandava e rezava para que eu sempre voltasse para casa. Por esse motivo eu sabia que ela seria uma mãe maravilhosa para Cody e Maddison.


“Me perdoe Kate, mas precisei ir. Não posso contar muitos detalhes, você entende... Espero que não fique muito chateada. Estou triste de quebrar minha promessa, mas juro que tenho um bom motivo. Devo estar louca, mas preciso fazer algo muito doido, maninha. Mal posso acreditar no que estou prestes a fazer, no processo pode ser que eu pareça a vilã da história, mas lembre-se que te amo. Nunca vou deixar de ser sua .
P.s.: dê um beijo em Maddy e Cody por mim e diga à Phill que sinto muito.”


Capítulo 8

Blackwell




- Como bem sabem as partes, com o clamor da acusação pela pena de morte, é necessário que o destino do réu seja decidido pelo júri de forma unânime. – Proferiu a Juíza, com firmeza. – O júri chegou a alguma conclusão? – Indagou, dessa vez desviando o olhar para as pessoas que decidiriam se eu estava ou não em meus últimos meses de vida.
- Sim, meritíssima. – Replicou um deles, uma mulher jovem, com um papel em mãos.
- E a qual conclusão chegaram?
- O júri considera o réu culpado de todas as acusações, assassinatos múltiplos com uso de explosivos, ser membro ativo de organização criminosa, bem como líder e incitador da desordem pública.
- Quanto à votação? – Perguntou a autoridade, com um brilho curioso em seu olhar. Ouvi cochichos entre o enorme público que viera crucificar-me por meus crimes. A tensão na sala de audiências tornou-se palpável e pude sentir meu advogado de defesa, um enviado qualquer da defensoria, contorcendo-se na cadeira.
- Unânime, meritíssima. – Finalmente a júri principal quebrou a expectativa, levando a certa comemoração do público, que fez-me rir secamente.
- Então o réu ao haver cometido crimes capitais, está condenado à morte pelo estado da Califórnia. Deverá passar seus últimos dias na Penitenciária Estadual de San Quentin, a mesma em que já está, até que o período de apelações cesse e possa receber a injeção letal. – Proferiu, batendo o seu martelo e completando com naturalidade. – Esta sessão está encerrada.
- Meritíssima! – Começou meu advogado, parecendo mortificado.
- Relaxe, Peter. – Suspirei, forçando seu ombro a sentar-se novamente.
- Como relaxar?! Isso é um absurdo, senhor Blackwell! Metade das provas da acusação eram circunstanciais para dizer o mínimo! Sem mencionar a credibilidade duvidosa das poucas testemunhas, que foram todas igualmente condenadas.
- Fique Calmo. - Repeti, suspirando e pousando as mãos algemadas sobre minha cabeça. - Eu já esperava que isso acontecesse. Vi nos olhos da juíza desde a primeira audiência.
- Nem ao menos foi ela que decidiu...
- Não? – Lancei um olhar significativo a ele. Meu mirar provavelmente transmitia mais certezas do que eu realmente possuía. Mas se anos de liderança me ensinaram algo, fora a escutar minha intuição.
Era oficial então, eu morreria pela mão do estado da Califórnia. Uma picada e tudo estaria acabado. Certamente não tinha sido assim que tinha imaginado meu fim. Na realidade, tudo ainda parecia surreal em minha cabeça, como se estivesse assistindo a tudo de fora e aquele sentado em um banco da corte não fosse eu.
Atrás de mim e a meu lado, pessoas comemoravam minha execução. Em alguns lugares mais sombrios, meus inimigos festejavam ao fim de meu reinado. E aqui estava eu, forte por fora, como se não ligasse para nada, mas me questionando por dentro como que poderia deixar a minha filha sozinha em um mundo como esse. Um mundo corrupto, cheio de pessoas insensíveis, vingativas e procurando a primeira oportunidade de atropelar o próximo se isso significar que chegarão ao topo.
A pequena Sarah ficaria na mão de quem? Pais normais do subúrbio que a ensinarão a pular amarelinha?! Talvez seja melhor para ela se eu estiver morto Minha mente pensou, maldosamente. Mas ela era meu bebê. E agora a única lembrança que teria do pai é que ele foi um homem tão mau que teve de ser executado.
- Vamos sair daqui, os repórteres já se dispersaram. – Suspirou Peter, com um olhar culpado.
- Diz você, não é? Tenho quase certeza que vou ser levado pelos brutamontes ali, pelos fundos da corte.
- Bem, sim...
- Não ouse sentir culpa, fez o que pôde, Peter. – Pisquei, levantando-me, já com um guarda de cada lado meu. Ambos completamente aparamentados e de uniforme.
- Fique em paz, senhor Blackwell. – Respondeu, pegando suas pastas de forma um pouco desajeitada.
Assenti, começando a caminhar para meu destino derradeiro. Fui posto na van policial que esperava com reforços na garagem dos fundos. Sentei-me recostando a cabeça à parede, sem fazer contato visual com os guardas.
- Sabiam que a última execução por qualquer outro método que não seja a injeção letal aconteceu em 2013, quando Robert Gleason, voluntariamente, optou pela cadeira elétrica?
Indaguei, fazendo meu melhor para irritá-los. Não havia muito como minha situação pudesse piorar, certo? E eu precisava realmente me distrair do fato que aquela deveria ser minha última estada no mundo exterior aos limites da prisão.
- Cale a boca. – Falou um dos policiais, revirando os olhos e ajeitando o suporte de sua arma.
- Tudo isso no estado da Virgínia. – Continuei, como se não houvesse ouvido seu grunhir entediado. – Eu sempre odiei a maldita Califórnia, sabe?! E agora vou apodrecer em uma cela enquanto meu advogado tenta apelar e reverter essa decisão. Assim que encerrarem-se os períodos de qualquer apelação finalmente haverá uma ordem de execução e eu terei a data de minha morte. Nem todos sabem o dia da sua morte, mas eu sei. – Gargalhei, em êxtase pela descarga de adrenalina que atravessava meu corpo.
- Cala a porra da boca, Blackwell. – Rosnou o outro guarda, olhando para seu cassetete e meu rosto em uma mensagem clara.
Obedeci, pensando no que eu me transformara. Como passara de um pequeno garotinho a chefe do crime bilionário e criminoso no corredor da morte. Como a vida consegue ter reviravoltas simultaneamente previsíveis e surpreendentes. Cada caminho bifurcando-se em outros muitos que dão em um mesmo destino.
E o meu parecia-me aquele.
Ao menos até sentir a van dando uma parada brusca, com seus freios cantando. Tremi, levantando-me, ainda preso a algemas que estavam firmemente atadas ao próprio veículo. Observei pasmo enquanto as portas se abriam e um saco preto era enfiado em minha cabeça. Ouvi sons de berros e gemidos de luta, sem fazer a menor ideia de que merda estava acontecendo.
Não importava o que eu achasse que sabia, a vida parecia amar debochar de mim e me trazer de volta à escuridão do desconhecimento. Ou talvez eu sempre fui um dos homens da caverna de Platão, vivendo nas sombras desde o começo, sem nunca saber quais eram os planos que o mundo real me tinha destinado.
E tudo começava com a primeira face que vi ao ter o saco retirado e a claridade sendo devolvida a meus olhos, que contraíram-se subitamente. Assim que reconheci a face a minha frente, contive um gargalhar incrédulo. Se eu tivesse que apostar quem me tiraria da prisão, a última pessoa que arriscaria especular seria a própria pessoa que me mandou para lá.
- Blackwell. – Cumprimentou, com um meio sorriso.
Compartilhei um olhar significativo com a mulher, após já ter sido arrastado para outro veículo, que eu supunha ser um caminhão de sorvete. O automóvel já acelerava pela auto-estrada há bons cinco minutos quando enfim respondi seu cumprimento, ainda mergulhado em seu olhar enigmático.
- Agente .


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Semanas Atrás
Penitenciária Estadual San Quentin



Encarei os dois desconhecidos a minha frente, dentro de uma das salas de visitas da prisão. Contudo, conseguia sentir que não se tratava de uma visita normal. Não bastasse a aparência nervosa do casal, que nem mesmo parecia conseguir sentar-se, antes que qualquer palavra pudesse ser proferida, a câmera de segurança foi adulterada.
- Jane, tem certeza de que isso é uma boa ideia? – Perguntou o homem de aparência militar, mas com vestes que contrastavam com o cabelo raspado, dando-lhe um ar de motociclista.
- Tem uma ideia melhor? – Suspirou a mulher, puxando a cadeira e sentando-se com ela ao contrário à minha frente. Também possuía um porte atlético, e tinha seu cabelo em um rabo de cavalo que se estendia até o meio das costas.
- Hum hum... – Limpei a garganta, chamando a atenção de ambos, que se encaravam em um embate mental. Esperei que me mirassem para continuar. – Não queria interromper, mas qual exatamente é meu papel aqui?
- Blackwell... Temos umas perguntas para você. – Respondeu a mulher, aparentemente “Jane”, sem rodeios.
- E o que exatamente na minha situação te faz pensar que irei responder?
- Ah, mas você vai. Por que temos conhecimentos que podem tirá-lo dessa confusão em que se meteu, mas não parece muito ansioso para sair. – Replicou, gesticulando com naturalidade.
- Pois então... Se está tão segura, senhorita, porque não?! Até meu julgamento o máximo de entretenimento que tenho na caixa que chamam de cela é ler a terrível seleção de livros da biblioteca.
- O que está lendo? – Abriu um meio sorriso de curiosidade.
- Um tal de “Cinquenta Tons de Cinza”. Supostamente é um best seller, mas não sei como, se aquele personagem principal não sabe realmente como fazer uma mulher sentir-se especial. Quer dizer, olha como a narradora parece estar sempre ented...
- Olha só, dá para parar de olhar assim para minha mulher e prestar atenção no que temos a lhe perguntar? – Replicou o homem, que para mim mantinha-se anônimo.
- Por deus, John, acalme-se. – A mulher revirou os olhos acabando com o mistério. - Blackwell, precisamos que nos descreva com detalhes que merda você fez no dia treze de novembro de dois mil e quatorze.
- Essa data não me traz lembranças... – Suspirei, tentando disfarçar a batida que meu coração havia pulado.
- Ele está mentindo.
- Ah, sério?! - Ironizou Jane, fazendo graça de John, antes de voltar-se para mim. – Corte essa fachada, Blackwell. Sabemos que estava na Cracóvia, sabemos que envolveu-se na missão do agente Daniel Collins de recuperar a filha do embaixador russo. Até mesmo sabemos tudo sobre a agência Iniciativa. Mas sabe o que não se encaixa nisso tudo?
- Eu? – Revirei os olhos.
- Não consigo entender seu interesse nessa missão muito menos em um ponto no qual a missão de Daniel e Catherine já estava cumprida. Quer dizer, por que ajudar seus inimigos em uma vingança pessoal? – Continuou Jane, com uma sobrancelha arqueada.
- Sim. Por que um criminoso como você, que têm inimigos entre o clã Nowak, os ajudaria a raptar e assassinar a agente Catherine Langford? – Indagou John com os punhos cerrados.
- Mas quem disse a vocês que Catherine está morta? – Gargalhei, friamente. – Vocês tem todos os fatos, mas olham para tudo de forma errada. Quem disse que eu estava lá para ajudar o clã Nowak?! Quem disse que à época eles já eram meus inimigos?!
Observei ambos congelarem e quase pude ouvir as engrenagens no cérebro dos dois trabalhando a um ritmo acelerado. Novamente encararam-se parecendo travar uma conversa mental, habilidade admirável para um casal possuir, dependente de uma sincronia extrema.
- O que mais podemos questionar a partir disso?! Em Sacramento, o senhor realmente era mandante do atentado?!
- POR QUE DIABOS EU IRIA QUERER EXPLODIR UMA FÁBRICA?! – Estourei, fazendo Jane recuar de sua proximidade e a John encarar-me com uma careta. - Acha que mesmo se quisesse fazê-lo contrataria aquele bando de nerds ativistas da Defensa Rubra para a missão? Eu venho me escondendo por anos, isso só atraria atenção para mim, que é o que eu menos quero. Olha onde isso me levou!
- E tem toda a questão dos trabalhadores morrendo também, não é... – Murmurou John, com um meio sorriso de deboche.
- Quer saber se ao vender a bomba para aquele palerma do Thomas eu sabia que ele iria realmente bombardear uma fábrica?! Considerei atende-los em meu bunker por pura curiosidade, mas no momento que me falaram que a NSA sabia sobre minha relação com é como se nada fosse mais importante do que eu saber exatamente o que isto era. Nunca pensei que realmente fossem detonar a bomba.
- E seu erro custou milhares de vidas, ainda sim. – Comentou John, com o cenho franzido.
- Não preciso de mais ninguém me julgando. Acabamos aqui.
- Mas sobre Catherine Langford... – Começou Jane, esperançosa.
- Vocês são agentes, não são?! – Questionei, impaciente.
- Ex-agentes... Sabe como é, desentendimentos com o alto escalão. – John deu de ombros.
- Bem então investiguem e parem de me encher o saco, porra! – Berrei, alto o suficiente para alertar os policiais quea guardavam no corredor.
Fui arrastado de volta para minha cela, com milhares de lembranças desagradáveis circulando minha mente turbulenta. O massacre em Sacramento, o incidente com Catherine Langford em Cracóvia, a morte de ... Tudo parecia um embolado de tragédias seguidas, retirando todas minhas forças.
Recostei em minha cama desconfortável, descobrindo minhas tatuagens por debaixo da blusa. Encarei o desenho intrincado de um leão em meio a padrões quase indígenas que estendiam-se até meu ombro. Tudo a frente de ponteiros de um relógio que pareciam pressagiar meu tempo na prisão, onde a passagem das horas parecia relativa e sem importância. De que me servia o tempo se não poderia voltar atrás para desfazer nenhuma daquelas catástrofes?!


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- Sadie, quanto tempo?! – Perguntei, contorcendo-me nervosamente no banco de trás da van de fuga, com Blackwell encarando-me com um olhar desconcertante.
- Poucos minutos. Basta alcançarmos o bunker, e estaremos cobertos pelas próximas semanas. E sabe que depois que a poeira baixar poderemos fugir do país e...
- Passar para a segunda fase da missão, eu sei. – Repliquei, coçando minha nuca.
- Aguenta firme, . – Sorriu Jane do banco passageiro.
- Sabe que John deve estar morrendo de preocupação à uma hora dessas, não sabe?! – Provoquei. – Daniel deve estar lhe irritando tanto que vai querer estourar os próprios miolos. – Gargalhei, sendo acompanhada pela tosse disfarçada de Sadie, que confirmava minha assunção.
Mal conhecia a ambos os casais, mas era como se sentisse uma proximidade a eles que parecia transcendente. Não se tratava de nada em nível de corpo, ou até de alma, mas sim uma conexão espiritual tão forte e sincrônica que era como se nós pudéssemos realizar qualquer coisa juntos.
Dito e feito, fizemos com que o ex segundo mais procurado dos Estados Unidos perdesse seu status de ex procurado e membro do corredor da morte. E olha que em tese éramos os mocinhos. Mas parece que vez ou outra a vida nos testa para saber até onde nossa bússola moral pode ir à busca por Justiça. Era bom saber que a minha não tinha norte e minha loucura não possuía limites.
Depois de uns minutos, paramos em um beco e trocamos de carro novamente, mas para um modelo menor, que esperávamos que fosse menos chamativo.
- Isso são sirenes? – Perguntei, entrando em pânico.
- Calma , ... – Começou Sadie, mas lançando um olhar nervoso sobre o retrovisor.
- São sirenes de ambulância. – Gargalhou o criminoso a meu lado.
- Como pode ter certeza?
- Não posso. Mas acredito que um criminoso tenha uma probabilidade bem alta de saber quando está sendo seguido, não é mesmo, agente ?!
- Querido, eu te joguei na cadeia, te apresentei sua primeira filha, e te tirei da prisão. Vivemos uns momentos bem fortes juntos, porque diabos ainda me chama dessa forma?! - Irritei-me, atraindo olhares desconfiados de Jane.
Antes que Blackwell pudesse responder, fizemos uma virada brusca e logo na outra esquina, nos esperava um carro de polícia, que começou a nos perseguir tão logo passamos pela viatura.
- Bem, ok. Isso aí que é uma sirene de polícia. – Riu Blackwell com um sorriso amarelo.
Fechei a cara, prendendo meu cabelo em um coque e colocando um boné em sua cabeça. Retirei suas algemas com a chave que conseguira em um dos policiais que deixamos desacordados na via, onde recapturamos o criminoso que agora me olhava com um meio sorriso surpreso.
- Ah, que bom saber que tinha isso em você o tempo todo e meus pulsos estavam aqui me matando. – Disse com seu riso de canto, não parecendo tão irritado, quanto tentava aparentar.
- Temos pouco tempo, ! – Murmurou Jane, olhando para trás com irritação. Pegou sua arma e aprontou-a, segurando por dentro de sua bolsa.
- Cala a boca e veste logo essa camisa por cima desse uniforme de prisão. – Falei, direcionando-me a Blackwell depois de assentir para a mulher.
- Sim, senhora. – Obedeceu, abotoando a camisa vermelha larga que havíamos trazido e cobrindo suas pernas com um cobertor que achamos na traseira.
- Vira aqui Sadie! Vai ser mais deserto, talvez ele não tenha chamado reforços.
- Está maluca?! Sabe quantas viaturas devem estar procurando pela gente? Em minutos podemos estar encarando umas vinte.
- Confie em mim. – Supliquei, suspirando e segurando no banco da frente. – Vire agora! - Berrei, vendo-a dar uma guinada que quase jogou-me contra Blackwell.
- E agora? – Perguntou Jane, quando fomos chegando a um beco sem saída.
- Pare o carro. – Repliquei, recebendo um encarar e berros de todos naquele carro logo depois.
- O QUÊ?!
- Espero que saiba o que está fazendo. – Suspirou Sadie, parando no acostamento.
Preparamos nossas armas, mas mantivemos uma fachada tranquila enquanto o guarda caminhava até nosso carro. Sadie ajeitou seu cabelo e puxou seus documentos falsos da bolsa. Havia me esquecido de seu status de foragida, então rezei para que meus instintos estivessem corretos e não pusesse a todos nós em uma cela de cadeia.
- Boa tarde, seu guarda. – Piscou ela, após abaixar o vidro do banco de motorista. – A que devemos a honra de conhecer.... Ernie, certo?! – Perguntou, abrindo um sorriso angelical para o homem após ler a identificação no peito dele.
- Oh... Documentos... Carro... – Murmurou, desconcertado e um pouco incoerente.
Mas também, quem poderia culpa-lo?! Sadie Townsand era a perfeita imagem de uma princesa rebelde. Possuía uma pequena estatura, um cabelo curto e revolto na altura dos ombros, tingido de uma fúcsia que chamava atenção de qualquer um. Particularmente não seria minha primeira escolha se eu fosse fugitiva, mas agora eu era.
Oh, deus, será que devo tingir meu cabelo também?!, pensei, franzindo a testa.
Contudo, apesar de extremamente chamativa não poderia negar o quanto a mulher era atraente, com seu piercing no nariz e tatuagens em seus antebraços. Ela sem dúvidas era o clichê de uma hacker. Somente não transparecia o quão perigosa podia ser em uma luta. Mas seu marido Daniel, ensinara-lhe táticas que nem mesmo eu havia aprendido em Quântico.
Era de certa forma estranho para mim estar em meio àquele grupo de pessoas tão bem treinadas. Provavelmente eu era uma das menos letais ali, e olha que ninguém iria querer encontrar-me em um beco escuro.
- Ook... Terei de aplicar uma multa, estavam acima do nível de velocidade. – Replicou a autoridade, que parecia um pouco nervoso.
- Está bem, seu guarda. – Suspirou Sadie parecendo triste. Aquela mulher sabia atuar! Ninguém diria que aquele era um veículo roubado.
- Ok então, estão libe... – Interrompeu-se, arregalando os olhos ao averiguar o banco de trás.
- Merda. – Murmurei, abrindo um sorriso amarelo para o homem.
- Senhorita, isso aí no banco são algemas?! – Perguntou, fazendo-me corar mais que uma beterraba.
- São...?! – Repliquei, buscando uma explicação plausível para meu descuido, mas falhando miseravelmente.
- Senhor Ernie, posso ter uma conversa contigo? – Indagou Blackwell, fazendo-nos todas os mirarmos com berros mudos de “você está maluco?!”.
O homem saiu do carro e sussurrou algo que fez o guarda corar e apertar sua mão com um meio sorriso. O policial nos liberou e logo estávamos novamente na auto-estrada. Fui eu a primeira a quebrar o silêncio e perguntar-lhe o que diabos havia dito ao policial.
- Ah, nada demais. Só expliquei-lhe outro uso eficiente para as algemas. Ele disse que experimentaria com sua mulher em casa. – Deu de ombros, fazendo-me ficar da cor do cabelo de Sadie de tão encabulada.
- Isso aí é influência de Cinquenta tons de cinza?! – Indagou Jane, segurando o riso.
- Não me ofenda. – Replicou ele, com um ar realmente estupefato.
Jane gargalhou incontrolavelmente e Sadie sorriu com um olhar conhecedor. O homem somente me analisou com uma expressão divertida e maliciosa que me fez contorcer no meu banco, totalmente a contragosto.
- Acredito que gostarei de conhecê-la... . – Disse, pronunciando meu nome vagarosamente como se fosse uma língua estrangeira que estivesse começando a desvendar. – E pode chamar-me de . – Terminou com uma piscadela.
Agora ele resolve atender meu pedido de chamar-me pelo nome!
Pensei, frustrada. Xinguei-o mentalmente pelo resto da viagem até nosso local protegido.


Maldito fosse Blackwell!



Capítulo 9

Blackwell




Assim que entramos no que elas chamavam de bunker, mas que estava mais para um galpão subterrâneo sem graça, ouvimos os berros. Antes mesmo que pudesse me alarmar, pôs a mão em meu ombro e sussurrou em meu ouvido.
- Não esquenta, são só dois idiotas.
Observei-a revirar os olhos e assenti, ainda mantendo, porém, a tensão em meu corpo. Olhei em volta no recinto, das paredes imaculadamente pintadas de branco, às caixas depositadas em alguns cantos, levando-me a intuir que aquele andar se tratava de uma espécie de depósito. Novamente descemos um nível no prédio comercial, que bem acima de nós possuía milhares de empresas de informática, como uma espécie de centro de tecnologia e segurança de sistemas. Enquanto fugitivos circulavam no subsolo, seus trabalhadores passavam por somente mais um dia de suas rotinas. Alguns desses funcionários, Sadie afirmara serem antigos contatos seus.
- Isso foi um...
- Gritinho de bebê? – Indagou , gargalhando. – Desculpe, mas sim, deixamos Daniel e John cuidando da sua filha.
- E eles são qualificados? – Debochei, com uma sobrancelha arqueada. – Pelo que me lembro do Agente Collins, ele sabe muito bem como segurar uma metralhadora, mas crianças?!
- Os dois são provavelmente os menos indicados, na realidade. – Provocou Sadie.
- Não parece um filme para vocês?! – Indagou , embarcando na brincadeira.
- “Uma criança, dois incapazes, um criminoso e as três panteras”?! – Sugeriu, Jane. Todos olhamos para ela com um olhar negativo. Na verdade o meu deveria parecer preocupado. Com que marmanjos elas deixaram minha filha?!
- “Os policiais, o criminoso e um bebê”?! – Berrou um homem, de dentro do cômodo que entrávamos.
- Melhor, mas ainda não! – Disse Sadie, com um olhar pensativo.
- “Seis Foragidos e Um Bebê”?! – Sugeriu , fazendo-me finalmente ceder a um sorriso de canto.
A agente então caminhou até onde dois homens discutiam, a frente de uma cadeirinha de bebê depositada no sofá.
- O que foi agora, entre vocês dois?! – Sadie protestou, colocando a mão no peito de cada um dos homens. – Daniel, me explica.
- O John não entende o que o choro de um bebê significa, só isso. – Falou o tal de Daniel, cruzando os braços.
- Ela estava com fome, isso era óbvio! – Rebateu o outro, suponho que John.
Porém, não consegui prestar muita atenção, com os olhos fixos na neném que pegou de Sadie, - que antes a segurava como uma granada. Sarah tinha um dedinho em sua boca, sugando-o com força. Uma manta azul a envolvia, envelopando-a como um pacotinho. Era o pacotinho mais fofo que eu já pusera meus olhos. E quando seus olhinhos encontraram os meus...
- , eu lhe apresento oficialmente Sarah Blackwell, sua filha. – Sussurrou, passando-a para mim. Suspirei, beijando a testa do bebê, sem saber se focava na sensação de tê-la em meus braços ou em absorver sua aparência tenra.
- Tão linda... – Mal podia acreditar que eu seria responsável por aquele pacotinho.
Subiu um calor em meu peito de um novo sentimento de respeito por , que havia carregado minha filha em seu ventre e tornara aquilo possível. Preocupação logo me tomou, fazendo-me questionar como eu faria para proteger minha filha de meu mundo. Poderia matar qualquer um que ousasse quebrar seu coração. Sacrificaria qualquer coisa para fazer com que estivesse feliz e segura. Nada mais me importava naquele momento.





Observei a transmutação de sentimentos, mudando a carranca habitual de em uma expressão tão linda que fiquei totalmente hipnotizada. Aquele amor fraternal estava carimbado em sua face, traduzido em uma dedicação absoluta, sem qualquer outro interesse senão o bem de Sarah. Sem nem mesmo precisar desviar os olhos da cena do pai conhecendo sua filha, senti através do súbito silêncio que não era a única a observar a família reduzida.
- Hum... Vamos dar-lhes um tempo. – Finalmente consegui pronunciar-me, limpando a garganta e empurrando o resto dos ex-agentes, para dar alguma privacidade aos Blackwells na sala do pequeno apartamento subterrâneo.
- Nunca pensei que ele fosse capaz de amar alguma coisa. – Murmurou Daniel, suspirando. – Ainda não consigo acreditar que o odiei por tanto tempo quando na realidade ele não... matou Catherine. – Terminou, trêmulo, com a mão de Sadie acariciando seu braço.
- Eu ainda não acredito nessa história toda, na verdade. – Falei, encarando todos aqueles ex-agentes e a Hacker. – Temos tanto a fazer, logo teremos que contar o plano a Blackwell. E rezar para que ele aceite nos ajudar a por um fim nessa maldita conspiração.
- Acha que ele irá resistir? – Indagou Jane, segurando minha mão e dando um pequeno aperto reconfortante.
– Depois de tudo o que sacrificamos por isso... – Suspirou John, balançando a cabeça, contrariado.
- Sinceramente, eu não sei... O que eu pensava conhecer de Blackwell... Já não tenho mais ideia do que ele poderia fazer.
- Merda. – Falou Sadie, sacando um isqueiro e sentando-se à mesa da sala de jantar, passando a mão pela chama antes de guarda-lo novamente.
- Só sei os fatos, ele acabou de conhecer a filha, e para o que temos de fazer Sarah não poderá estar conosco. – Alertei, dando de ombros. – Só esperem essa noite para que ele passe com a bebê. Depois disso... Eu falo com ele.
- Vou mandar uma mensagem criptografada ao casal que ficará com ela. – Murmurou Sadie, já com o seu laptop a sua frente, digitando freneticamente, o que fez Daniel sorrir ligeiramente.
- Muito bem. Daniel e Jane, vocês são especialistas em munição. Ativem todos os contatos que tiverem, precisaremos de material.
- Eu posso ajudar a Sadie a criar as identidades e passaportes. – Sugeriu John, dando um beijo na bochecha de sua mulher, antes de se juntar a Sadie na mesa.
- Ok, mais tarde poderemos procurar mais refúgios pela cidade. Agora tenho que dar as ótimas notícias ao Blackwell. – Abri um sorriso irônico.
- Amanhã partiremos para o próximo esconderijo. Estejam preparados. – Replicou Daniel, colocando seu casaco, sendo seguido por Jane.
Respirei fundo antes de levar a mão à maçaneta da porta que nos separava do quarto onde Blackwell ninava Sarah. O homem não ficaria nada feliz com o que eu tinha a dizer, disto estava certa, mas quanto a sua reação, não havia mentido, realmente era imprevisível.
- Tome cuidado, . – Sussurrou Sadie, antes que pudesse entrar. Lançou-me um olhar significativo que parecia refletir meus próprios pensamentos. Ele pode ser diferente do que você imaginava, mas ainda é um criminoso.
Assenti para a mulher, entrando no quarto e aproximando-me do homem que observava sua filha dormir tranquilamente na cadeirinha de bebê.
- Como você a fez dormir? Ficamos anos tentando... – Comecei, logo depois desistindo e chamando-lhe para sentar um pouco mais distante de onde Sarah dormia, para conversarmos com mais calma.
- Está pronta para me contar que merda é essa? – Indagou, com o cenho franzido. – Suponho que não me trouxeram aqui somente da bondade de seus corações. – Parou, por um segundo com uma careta. – Ou maldade dependendo do ponto de vista. Afinal, se sou culpado, minha pena é ficar recluso da sociedade a qual eu envenenava, não é?
- Por mais que eu fosse adorar ficar discutindo sobre o nosso maravilhoso sistema penal, não é para isso que estamos aqui.
- Claramente. Então me diga logo.
- , - Apelei ao seu primeiro nome. – Sabemos que Catherine, a ex parceira do Daniel está viva. Sabemos também que você se envolveu onde não devia, salvando-a e que descobriu os detalhes da Operação Minerva.
- Mas como possivelmente poderiam saber...
- É uma longa história. – Suspirei, encolhendo meus ombros. – E precisamos de sua ajuda. – Completei antes de ser levada de volta à sala de John e Jane, enquanto contava-lhe tudo o que haviam me dito.


“Jane encarava-me, sentada no sofá da casa do casal que supostamente era o novo guardião de Sarah Blackwell. Comecei a ficar impaciente, remexendo-me e cruzando os braços, aguardando que dissesse logo sobre o que era tudo aquilo.
- Eu era uma pilota da Força Aérea, e fui recrutada para uma divisão nova da CIA, que basicamente me escalava para missões entregando pacotes de alta confidencialidade. Eu era jovem e muito ingênua, então o pensamento de trabalhar para uma agência de inteligência em algo perigoso assim pareceu-me nada mais do que excitante. Mas quando ingressei na divisão Ômega, comecei a desconfiar que algo ali não estava certo. Passei meses seguindo as ordens cegamente até que um dia, uma entrega deu errado. Foi aí que conheci John...
- Sim, eu era um SEAL e trabalhava para o Comando Naval de Operações especiais, e não só era deslumbrado por meu título como também tinha um legado familiar na Marinha. Acontece que certo dia, cheguei a um nível qualificado que fui informado das atividades de uma agência. Não sei se já ouviu falar da agência Iniciativa. – Foi a vez de John hesitar, observando-me.
- Só lendas, mas...
- Ela existe, acredite. – Riu em seco, entregando-me um relatório. Comecei a ler, sem saber que era possível ficar mais incrédula do que já estava.


OPERAÇÃO ATLAS
RELATÓRIO DA MISSÃO: Agente Parnell, Código Cifra Ypse Ivory 29, foi escalada para ativação de dispositivo explosivo, que já se encontra instalado na fábrica Nuclear Corporations pelo associado Maxuel Hemming.
ATUALIZAÇÃO: O pacote a ser sanado foi entregue por uma agente da Divisão Ômega e está próximo ao local de detonação. A Agente Parnell está em posição, e nenhum dos ativistas da Defensa Rubra – exceto o coagido Maxuell - ou Blackwell possuem conhecimento do ocorrido. A trilha de evidências foi devidamente plantada por ela em conjunto com o Agente Lionel (C.C.= Zetta, Tennison, 46).
RESULTADO DA MISSÃO: Pacote devidamente destruído e ativos incriminados. Dezenas de mortos e centenas de feridos devido a presença de lixo radioativo indevidamente descartado. Mesmo assim, explosão ficou contida em dois andares da planta do local. Sistemas de segurança ativados com sucesso, como previsto pelos técnicos. Tudo encaminhado para o início da Operação Minerva.



- Não entendo metade do que está escrito aqui, e vocês não me abordariam se não soubessem quem são esses agentes, afinal, não é?! – Repliquei, levantando os olhos do papel.
- Essa é a questão. Não sabemos ainda quem é o tal agente Lionel. Mas sabemos quem é a agente Parnell.
- E quem seria essa pessoa? Teria de ter acesso à bomba e à Defensa Rubra. – Indaguei a Jane.
- A agente que incriminou Blackwell e realmente detonou a bomba, que pagou Max Hemming para trazer a ideia ao seu grupo de ativistas de plantá-la na Nuclear Corporations foi Parnell. Mas a conhece por outro nome...
- . – Falei, prendendo minha respiração com o peso da revelação que me atingira. – Mas não pode ser, ela era somente uma civil...
- Parnell deu origem a uma nova identidade a qual pudesse usar para infiltrar-se na vida do Blackwell e extrair informações suficientes para quando chegasse o momento certo. A Iniciativa planejou isso desde o início. E pensa bem, se fizeram tudo isso somente para destruir um pacote...
- Imagine o que não devem ter planejado para a Operação Minerva. – Completou John, alternando o olhar entre mim e sua esposa.”


Terminei de falar, observando a face de Blackwell transtornada a partir do momento que eu mencionara . O tanto que aquela mulher havia impactado sua vida, nada era por acaso. Supus que quem quer que houvesse implantado na vida do criminoso fosse algum de seus inimigos, alguém que nutrisse um ódio profundo por ele. E quem quer que o tenha feito dentro daquela massa indistinta de opositores a Blackwell era o que mais gostaria de saber.
Quer dizer, não só poderiam ser criminosos com interesse no fim de seu reinado, como familiares de vítimas que o culpavam pelo ataque em Sacramento, ou até mesmo alguma agência do Governo que o quisesse derrubar no silêncio para roubar toda a glória. Eu apostava no último caso, porém, o que não conseguia desvendar era porque então ao descobrir onde Blackwell estava, não tomou um passo a frente para assumir a captura. No lugar disso, o FBI ganhara atenção graças a meu papel na força tarefa montada por Horton.
Algo não cheirava bem naquela história toda, mas o que quer que fosse, eu tinha o profundo desejo de investigar e trazer a tona. Tudo o que mais queria era conseguir terminar essa missão auto-designada e voltar para meus sobrinhos e minha irmã. Mas o caminho a ser percorrido ainda era longo demais para que pudesse vislumbrar seus contornos e as curvas bruscas que me aguardavam.
- Não pode ser. – Balançou a cabeça, gargalhando de forma ressentida.
- Pensa, . Quem mais tinha acesso a você? Como foi que os Defensores Rubros fizeram com que aceitasse lhes vender a bomba em primeiro lugar?!
- Disseram-me que sabiam de dados que a NSA tinha ligando-me à .
- Esses dados nunca existiram, . Eles souberam disso pela própria , ela provavelmente os subornou para plantarem a bomba, talvez realmente não soubessem que realmente seria detonada.
- Mas para me incriminar... Há coisas que mesmo à eu nunca ousei contar. Coisas do meu passado importantes e perigosas demais para se saber. – Rebateu o homem, passando a mão em seu cabelo.
- ... Você conhece o nome Cecilia Hope?
O homem parou imediatamente seus movimentos, apertando seus olhos com uma fúria que gelou-me da cabeça aos pés. Se um olhar pudesse matar, eu já estaria a sete palmos do chão. Assustei-me ainda mais quando ele começou a bater palmas, parecendo esquecer-se momentaneamente de sua filha dormindo a poucos passos de nós.
- Quem diria. , , um anjo a meus olhos, mas uma mentirosa patológica. Quem diria... – Cantarolou, parecendo ter perdido a cabeça. – Ela era mesmo minha perdição, só não da forma como eu pensava. – Gargalhou, dando um soco na parede, que deve ter acabado com os nós de seus dedos.
- ... – Murmurei, levantando-me. – ! – Chamei com mais vigor, quando ele não respondeu a meu olhar intenso. – Blackwell! Eu sei que te enganou, sei que te fez ir à psicóloga, Doutora Hope para supostamente lidar com seus problemas de raiva. Ela ter recebido gravações de suas sessões... Isso não só é doentio, como é bastante para engolir, mas preste atenção, precisamos de sua ajuda para consertar tudo isso. Sem saber o que o inimigo sabe, não podemos nem começar nossas buscas.
- E quem por acaso é esse seu inimigo invisível, ?! Hein?!
Fiquei calada, observando-lhe respirar fundo e sentar-se novamente comigo, acalmando-se aos poucos.
- A iniciativa? Os chefes de ? A divisão Ômega da CIA? – Especulei. – Eu não sei, Blackwell. Sinceramente, não tenho informações suficientes para apontar desde já um culpado para essa bagunça. – Bati na mesa, perdendo meu próprio temperamento. - Mas uma coisa eu sei, os verdadeiros culpados e envolvidos nesse esquema que culminou em Sacramento devem pagar. Já pensou o quanto isso deve ser maior do que nós? O plano final deles me assusta, e quando meu instinto me manda fazer algo, eu simplesmente cumpro suas ordens.
- Eu não posso ajuda-los. Entendeu? Coloca na sua cabeça, , que não tem nenhuma possibilidade no inferno de que eu conte a vocês meu passado ou que envolva minha filha em mais perigos do que já o fiz. Não me importo quem tenha sido ou o que tenha feito, ela ainda sim me deu um presente que eu nunca esperei receber, e não vou sair por aí dando uma de Justiceiro com todos vocês malucos! – Berrou, finalmente acordando Sarah, que começou a chorar, balançando os bracinhos até estar no colo do pai.
- Isso é justamente por ela. E pelos meus sobrinhos. E pelos futuros filhos que eu venha a ter. Me faz doente pensar que eu morreria deixando um mundo caótico para eles viverem. Faça o que quiser então, Blackwell. Mas eu prefiro morrer tentando dar uma de “Justiceira”, do que ser uma covarde e tentar fugir do inevitável. Não se esqueça de que os problemas vão te alcançar, não importa onde você esteja. – Cuspi, com um tom rouco, para perturbar pouco a bebê e saí da sala bufando.
- Acredito que a conversa tenha sido um sucesso. – Brincou Sadie, mas com um olhar preocupado.
- Ele vai mudar de ideia. Amanhã de manhã ele vai ter mudado de ideia. – Repeti, com a mão na testa fervendo.
- Está tudo bem, ? – Perguntou John, segurando meu ombro com leveza.
- Estou só cansada. – Repliquei, deitando-me no sofá. Fiquei com os olhos fechados, mas acordada por um bom tempo até ouvir murmúrios de Sadie e John.


“Acha mesmo que ele vai mudar de ideia?”
“É bom que mude... Se não estamos fritos.”


Blackwell




Remexi-me na poltrona onde dormia, atormentado por sonhos que espelhavam lembranças que já haviam sido minha utopia e se transmutaram em um pesadelo do qual eu não poderia escapar, mesmo quando acordado. A sensação inebriante de uma noite mal dormida embebedava-me com os sabores amargos de uma forte dor de cabeça e do desconforto de meu corpo encolhido no móvel. Mas nada disso importava a minha mente, vagando a mil por hora até a noite em que voltara para mim pela primeira vez, anos atrás, logo depois de sua fuga ao descobrir de meu passado e presente criminoso.


“- Oi. – Sussurrei.
- Olá. – Replicou com um sorriso amplo. Certamente queria me matar com todas as sensações que estava despertando em meu peito e... Mais embaixo também.
- Oi. – Repeti, como um bobo, acariciando sua face.
- Peça logo desculpas ao homem para que possamos subir. – Ordenou ela, fazendo-me franzir as sobrancelhas.
- Para quem, linda?
- Para o porteiro, seu pateta. Já disse para parar de sair xingando os outros por aí! Você têm ido à Doutora Hope como combinamos? – Estreitou os olhos de forma fofa.
Sorri assentindo. Abracei-a lateralmente virando para o porteiro que nos encarava com uma careta engraçada. É, aquilo também era comum. Quando estava com acabava atraindo ainda mais atenção, mas não pelo medo de mim, e sim por estranhar meu comportamento.
- Foi mal aí, cara. – Abri um sorriso falso, dando um tapinha no ombro do homem. Aí sim que seu rosto pareceu ficar branco como papel.
Contive minha gargalhada até virarmos, recebendo um soco da mulher em meu ombro.
- Custava ter sido educado desde o início? O cara pareceu que estava mijando nas calças. – Disse séria.
Sorri para ela enquanto entrávamos no elevador. Petra e Lance, que sabiam por experiência que era melhor esperarem, ficaram para subir depois. Beijei o topo de sua cabeça, tentando disfarçar meu riso. tampouco conseguiu conter a gargalhada que brotou de seu peito, e cobriu seus olhos com as mãos. Provavelmente estava envergonhada de estar rindo do cara pelas costas. Esse sim era o caráter da mulher que eu amava.”



Abri os olhos, tentando conter minha raiva. Eu podia ter muita culpa no cartório, mas bagunçara minha vida de formas que eu nunca conseguiria perdoar. Observei a face pacífica da única coisa boa que pudera me trazer, parecia estar dormindo profundamente enquanto chupava sua chupeta laranja. Meu pacotinho de amor teria de separar-se de mim mais uma vez.
Meu coração acelerou-se e deu uma parada súbita ao imaginar-me deixando minha filha com alguém. Parecia uma ideia inconcebível, e eu devia estar louco por jogar aquela oportunidade de estar solto e com minha filha fora. Mas por mais que odiasse admitir, a agente tinha razão em um ponto. Eu teria de trabalhar para expor quem quer que estivesse me desejando morto. Não queria que esse fosse o legado a deixar para Sarah.
Duas horas depois, o grupo todo encarava-me, enquanto eu passava a mão por minha barba mal feita, após todo aquele tempo na prisão. Buscavam meu veredito, mas ao mesmo tempo podia sentir que não saberiam o que fazer se eu lhes dissesse não. Me matariam? Me devolveriam ao corredor da morte? Não, a segunda seria tão boa quanto a primeira. Para eles, não havia outra alternativa senão as palavras proferidas por mim após certo suspense.
- Estou dentro.





Continua...



Nota da autora: E aí, pessoal! O que acharam da primeira interação real entre os pps?! Ainda não sei como será a combinação dos dois trancafiados em um bunker até a poeira baixar, mas estou pesando em muitas faíscas voando de um lado para o outro, e sabem como é... Um dia algum deles entra em combustão e BAAAM! AUHSUAH Vocês sabem o que quero dizer com isso!
Depois me digam o que acharam do capítulo, lembrando que 04. Sweater Weather e 16. Criminal, que passam-se no mesmo universo que essa fic, e depois desse capítulo aqui chegamos no epílogo de Sweater Weather cronológicamente! Amarei ler seus comentários <3, são meus maiores incentivos! Quem desejar entrar para a família no facebook para acompanhar melhor a fic será mais do que bem vindo! Somente clicar no link abaixo! Beijinhos de Luz e até a próxima!





Outras Fanfics da Gabi Heyes:
One More Dream (Outros- Em Andamento)
16. Criminal (Restritas- Fictsape Britney Spears)
04. Sweater Weather (Restritas - Ficstape The Neighbourhood - I Love You)


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