Última atualização: 06/04/2018
Contador:

Um - O Pedido

I think I’m ready for something new
(Tom Fletcher – Something New)

BAILE DE FORMATURA, 2007

A menina balançava seu vestido de baile amarelo de um lado para o outro, enquanto o rapaz continuava sentado, completamente desanimado, da mesma forma que estava desde que eles tinham chegado. e se conheciam desde que tinham cinco anos de idade e ela se mudou para a casa ao lado da dele, depois que seus pais se separaram. As janelas dos seus quartos ficavam uma de frente para a outra e eles costumavam passar horas e horas, noites e mais noites conversando. Eles falavam sobre tudo, provavelmente eram as pessoas que eles mais confiavam no mundo. Ela sempre foi uma pessoa meio estranha e adorava isso, ele se divertia com as ideias loucas da amiga, por mais que algumas delas nunca dessem certo. E hoje, no baile de formatura deles, resolveram vir juntos, porque a garota que foi apaixonado durante todo o ensino médio foi convidada exatamente pelo rapaz que estava interessada. Então, para comemorar a como a vida poderia ser tão ingrata com ambos ao mesmo tempo, combinaram que ir juntos. Pelo menos não iriam sozinhos e poderiam tentar se divertir de alguma forma, por mais que não parecesse muito interessado nisso.
Ela estava tentando se divertir, dançando com qualquer música que tocava, mesmo que o rapaz se recusasse a ser seu par. Ela parava em sua frente e fazia diversos passos engraçados, para tentar, ao menos, fazer o amigo sorrir. E estava tendo sucesso com isso. Mas uma música lenta começou a tocar e todos os casais se formaram, indo para a pista. não queria se a única a ficar para trás, então foi até seu amigo, praticamente implorar por uma dança.

- Por favor, , é nosso baile de formatura, nossa libertação. Temos que comemorar! – ela falou, segurando na mão do rapaz e tentando fazê-lo levantar
- Comemorar o que, ? – ele perguntou, fazendo força para se manter sentado.
- Nunca mais teremos que estudar matemática, física e química, quer um motivo melhor do que esse? Quer dizer, menos o cdf aqui que vai fazer Engenharia Química na faculdade. – ela fez uma careta e o rapaz gargalhou – Nós vamos embora daqui e não teremos mais que sofrer por nenhuma Leigh ou Aaron. – o rapaz ponderou, afirmando com a cabeça – E por último, mas não menos importante, porque eu quero. Agora vem. – ela puxou com um pouco mais de força e contou com a boa vontade dele em levantar. Eles se enfiaram no meio dos alunos na pista e começaram a se balançar de forma desconjuntada.
- Eu sou um péssimo dançarino. – comentou, balançando a cabeça.
- Bem, não se pode ser bom em tudo, não é mesmo. – a menina comentou, rolando os olhos. A música mudou e uma bem antiga começou a tocar. Os olhos da menina brilharam e um sorriso genuíno brotou nos lábios dele.
- Eu amo essa música. – os dois disseram ao mesmo tempo, rindo em seguida. – “When the night has come and the land is dark...” - cantarolaram juntos.
- Pelo menos esse DJ tem um bom gosto, as músicas são legais. – comentou, aparentemente surpreso.
And the moon is the only light we'll see... ♪♪
- Eu falei que você ia gostar da festa, seu chato. – ela fez uma expressão convencida.
- Ok, tudo bem, não está tão ruim assim. – ele assumiu, como se não se importasse.
- , eu tava aqui pensando... – a garota mudou de assunto repentinamente.
- Isso é perigoso. – ele brincou, recebendo um tapa da amiga em resposta e rindo alto em seguida.
No, I won't be afraid, no, I won't be afraid... ♪♪
- Não, é sério de verdade. – a expressão dela se tornou mais fechada e preocupada – Não sei se é essa festa ou todo esse clima de despedida, mas você é o único amigo de verdade que eu tenho e eu estava me perguntando se daqui a dez, quinze, vinte anos, você ainda será meu amigo. Não sei, vai que você arruma uma esposa que não gosta de mim. – ela deu de ombros.
Just as long as you stand, stand by me... ♪♪
- Por que você tá falando isso? – ele perguntou, confuso – Você acha que eu deixaria de ser seu amigo?
- Casamentos acabam, por que amizades não acabariam? – ela disse, mordendo o lábio inferior. sempre soube que o divórcio dos pais de tinha mexido muito com ela, mas nunca teve muita noção da dimensão que tudo tinha tomado em sua vida. Eles pararam de dançar e ele tocou o rosto da amiga, fazendo com que ela o olhasse.
And, darling, darling stand by me... ♪♪
- , que história é essa? Você acha que nossa amizade vai acabar assim tão fácil depois de doze anos? Você tem muito o que me aturar ainda. Tire essas ideias loucas da sua cabeça.
- Mesmo que a sua futura esposa faça você escolher entre mim e ela? – perguntou, com um sorriso bobo.
- Eu escolho você, dou preferência pelo tempo de convivência. – ele sorriu, sentindo os braços da menina passarem pelo seu pescoço, o puxando para um abraço apertado.
If the sky that we look upon should tumble and fall... ♪♪
- Me desculpe se eu estou muito carente, mas essa mudança para a faculdade tá acabando com a minha cabeça que já não é muito boa. – ela fez uma careta. Ele suspirou, pegando a mão da amiga e a girando no meio da pista, para que pudessem voltar a dançar.
- Não esqueça que eu estarei lá com você, um pouco mais longe do que o normal, mas apenas a alguns prédios de distância. – ele piscou e ela afirmou – Eu tenho uma proposta louca para fazer pra você.
And the mountains should crumble to the sea... ♪♪
- Adoro propostas loucas. – ela sorriu abertamente, esquecendo um pouco a tristeza que estava a dominando antes.
- Eu sei bem muito bem disso. – comentou, balançando a cabeça com vigor.
- Pare de me enrolar e fala de uma vez, você sabe que eu sou curiosa.
I won't cry, I won't cry, no, I won't shed a tear... ♪♪
- Eu quero propor que, caso nós dois estejamos solteiros até os quarenta anos, a gente se casa. Assim não teremos que nos preocupar com nossos companheiros nos fazendo escolher. – ela apertou os olhos, fazendo uma cara engraçada.
- Eu sempre soube que você era apaixonado por mim, , você nunca me enganou. – brincou, fazendo o amigo soltar uma alta gargalhada, chamando a atenção de todos ao redor – Mas, sim, eu aceito seu pedido de casamento com vinte e três anos de antecedência. Agora pode começar a torcer para eu não me casar, porque eu sei que é isso que você fará todos os dias de sua vida.
- Você não existe, . – ele riu, beijando o topo da cabeça da amiga.
Just as long as you stand, stand by me... ♪♪

🤰 👶 👪


e foram para a mesma faculdade mais tarde naquele ano. Ele foi cursar Engenharia Química e ela, sem ter certeza do que fazer da vida, começou fazendo Psicologia, mas logo nos primeiros semestres viu que não seria algo que a interessaria. Então mudou para Pedagogia, não que estivesse muito certa do que estava fazendo, mas pelo menos dessa vez ela foi até o final. Mesmo estando em grupos e locais diferentes pela primeira vez em doze anos, os amigos faziam tudo o que era possível para ficarem juntos. Sempre que conseguiam, eles se encontravam no bar perto da faculdade para conversar sobre a vida, as aulas, as desilusões amorosas, qualquer bobagem que aparecia ou apenas para ficarem perto um do outro, mesmo sem falar nada. E dessa forma eles viram namoros começarem, terminarem, começarem de novo e acabarem de vez. Alguns corações foram partidos, amizades conquistadas, algumas perdidas também, mas o que realmente importava era que o tempo passava e eles continuavam juntos, como se nada tivesse mudado, exatamente da forma que tinham prometido um ao outro.
Cinco anos depois, ambos formados, eles não queriam voltar para casa dos seus pais, então foram em busca de um apartamento para eles. Não que fossem morar juntos, mas um ajudou o outro a achar o seu próprio cantinho, de acordo com o que o emprego que conseguiram proporcionava. encontrou um apartamento pequeno no centro, perto de tudo. Tinha um quarto relativamente grande e uma sala relativamente pequena, o que cabia no seu orçamento de engenheiro auxiliar de uma empresa farmacêutica. Não se preocupou muito com a decoração, já que era um apartamento alugado. Toda e qualquer sobra de dinheiro do mês ia para o banco, onde mantinha uma poupança há um bom tempo. Já se apaixonou por um loft quase do tamanho do seu antigo quarto, na casa de sua mãe, que ficava em cima de uma floricultura. Ela dizia que ali seria o lugar perfeito, porque sempre teria cheiro de flores, sem que ela precisasse gastar dinheiro com isso. Todas as coisas da menina mal cabiam naquele apartamento, mas ela o amava mais que tudo na vida. Ela usou todas as suas economias para deixá-lo do jeito que imaginou. As contas acabavam atrasando um pouco em alguns meses, porque o salário de professora do jardim de infância não era muita coisa, mas ela estava muito feliz com o pouco tinha e isso lhe parecia o suficiente.
O tempo passava e crescia na empresa, depois de quatro anos trabalhando na Bayer como engenheiro auxiliar, ele já havia sido promovido duas vezes, passando a engenheiro sênior e chefe do seu setor. Ele estava pesquisando sobre uma especialização que a empresa oferecia em seu país sede, na Alemanha, mas a disputa era grande e ele não tinha conseguido a vaga nas últimas cinco tentativas, mas ele não desistiria. Já continuava a lecionar para crianças, dava mais algumas aulas e conseguia um pouco mais de dinheiro que antes. Só que ela não tinha grandes planos de carreira como , ela só queria um emprego que pudesse se manter. Se conseguisse pagar as contas no final do mês e sobrasse um pouco de dinheiro para se divertir, já estaria feliz.
Nesses últimos anos, não havia tido nenhum namorado sério, só o Josh, que acabou sendo um enorme babaca quando tentou beijar uma amiga sua, Jade, sem saber que era amiga da própria namorada. Ela chorou no colo de , que consolou mais um coração partido da amiga. Nada que o tempo não curasse. Já tinha namorado duas vezes: um que durou dois anos e terminou porque, aparentemente, ele trabalhava demais e tinha tempo de menos; e o outro que durou cerca de dois meses. Diane não gostava de , na verdade ela tinha muitos ciúmes da amiga do namorado. E então, como se mais de vinte anos de amizade não fosse significar nada perto de dois meses de namoro, ela pediu que se afastasse de . O rapaz terminou com ela dias depois do pedido, mas nunca comentou o caso com a amiga, porque ele sabia que não acabaria bem.
E dessa forma, as coisas seguiam sem muitas mudanças, num mesmo ritmo, como a vida deveria ser. Eles de encontravam todas as quintas-feiras, era o costume deles, uma tradição. Uma semana na casa de , na seguinte na casa de , onde conversavam sobre o que tinha acontecido na semana, comiam alguma coisa bem gordurosa e viam quantos episódios de Friends conseguissem até pegarem no sono no sofá. Quem olhasse de fora os veria como um casal e seria um belo casal, porque não tinha uma única coisa em que não combinassem ou que discordassem, só que depois de tantos anos, provavelmente não cabia nenhum romance ali. Os outros amigos até brincavam, dizendo que eles já eram um casal, só não tinham percebido. Mas será que valia a pena arriscar uma amizade tão longa, em um relacionamento que poderia não dar certo? Era um tiro no escuro e isso nem passava pela cabeça deles.

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COFFEE HOUSE, 2015

esperava a amiga no café que eles sempre frequentavam e, para variar, ela estava atrasada. Era uma caminhada de menos de dez minutos da casa dela até ali, enquanto ele morava logo na esquina, sabia que tinha saído de casa muito cedo. Ele olhou no celular e viu que a mensagem que ela tinha enviado, avisando que já estava chegando, era de vinte minutos atrás. Mas ele sabia que ela não estava chegando e, muito provavelmente, ainda estava em casa. Então apenas pegou o aparelho, tirando uma foto fingindo uma expressão cansada e enviou para ela, recebendo uma risada em resposta e a seguinte frase em seguida:

“Agora é sério, estou chegando.”
, 14:47

Ele olhou para o lado de fora, vendo a menina passar pela janela, que cobria grande parte da parede externa do lugar. Ela sorriu abertamente quando viu o amigo, fazendo uma careta, ele abaixou a cabeça, balançando a mesma lentamente, enquanto ria baixo.
entrou na cafeteria, tirando o casaco e andando apressadamente para ocupar o lugar ao lado de . Ela sorriu ao sentar, apoiando o agasalho na cadeira vazia ao seu lado. Colocou o celular sobre a mesa e respirou fundo, tomando coragem para iniciar a conversa que tinha pedido para ter com o amigo.

- Tá tudo bem? – perguntou, notando que ela estava nervosa.
- Acho que é falta de cafeína. – respondeu rapidamente, levantando a mão para chamar a garçonete. estalava os dedos nervosamente enquanto esperava, balançando as pernas debaixo da mesa. percebeu e colocou sua mão sobre a dela, fazendo um carinho suave. Ele sorriu de lado, arqueando a sobrancelha, como se perguntasse: “Tá tudo bem mesmo?” e viu que ele tinha percebido o seu nervosismo e balançou a cabeça lentamente, com uma expressão de “deixa pra lá.” – Eu quero um expresso duplo com creme, por favor. – ela pediu, assim que a garçonete chegou – E ele...
- Um cappuccino, com um pouquinho de canela. – o rapaz pediu, sorrindo de lado para a atendente. – , qual o problema? Você se envolveu em alguma confusão? Não adianta me falar que tá tudo bem, que não aconteceu nada, porque eu te conheço melhor do que você mesma. Você não fica assim por nada. Anda, me diz o que aconteceu de tão grave que você está quase arrancando seus dedos e fazendo um buraco no chão.
- Não aconteceu nada, de verdade. Bem, não ainda... – ela molhou os lábios antes de continuar – É que eu tomei umas decisões a respeito da minha vida e eu preciso conversar com você a respeito delas, porque eu preciso da sua opinião e do seu conselho. Você sabe o quanto eu levo tudo o que você fala a sério, não é?
- Claro que sei, então me fala. – ele pediu, já sendo dominado pela curiosidade.
- É que é muito complicado, . Eu não sei se você vai entender, você é homem, talvez você não entenda essas coisas.
- Bem, se você me explicasse ou pelo menos tentasse, eu poderia dizer se entendi ou não, certo?
- Ok. – disse, respirando fundo e olhando para o rapaz pelo canto dos olhos. – Você sabe que eu não tenho uma vida legal como a sua, eu não me formei na faculdade dos sonhos, eu não tenho o emprego que sempre desejei, eu basicamente trabalho para viver, não pode eu realmente gosto do que eu faço, certo?
- Mas isso foi uma escolha sua, . Nós conversamos muito sobre isso quando você escolheu fazer pedagogia na faculdade, eu disse que você não iria gostar...
- Deixa eu terminar, por favor. – ela pediu, fechando os olhos fortemente.
- Tudo bem, desculpa te interromper. – o rapaz falou, percebendo que havia algo de estranho na amiga.
- Eu não fiz boas escolhas na vida quando se tratavam de realizar os meus sonhos. Até porque eu nunca soube verdadeiramente o que eu queria fazer... enfim. Não é para falar sobre como eu nunca tive certeza de nada na vida que eu te chamei aqui, . A verdade é que eu tenho vinte e seis anos e nenhuma realização, nada grande e emocionante na minha vida. É como se eu estivesse desperdiçando cada minuto meu na Terra, desperdiçando grande parte de vida curta que nós temos. Então eu resolvi fazer uma coisa... – ela foi interrompida pela garçonete, que trazia o pedido que eles haviam feito. Eles agradeceram e ela se afastou. E enquanto levava a xícara ate os lábios, voltou a falar. – , eu quero ter um bebê. – ela disse rápido, se atropelando nadas palavras, antes que perdesse a coragem de falar. O rapaz se engasgou com a bebida e encarou a amiga, completamente confuso.
- Você vai ter um bebê? – ele disse, sussurrando, como se não acreditasse muito – Quem é o pai? Como isso aconteceu? ...
- Não, . – ela interrompeu o surto do rapaz – Eu quero ter um bebê. Um filho, meu filho. Eu sei que parece loucura, mas é o único sonho que eu sempre tive e que eu posso realizar no momento.
- Por algum acaso você pensou em tudo a respeito na realização desse sonho? Dos custos, de todo o trabalho de envolve colocar uma criança no mundo e, principalmente, uma coisa chamada pai? , você mal consegue pagar suas contas no final do mês direito e uma criança gera muitos custos.
- Eu falei com a minha mãe... – ela disse e ele revirou os olhos. A mãe de era uma as pessoas menos ajuizadas que conhecida, é claro que ela daria apoio para a filha. – E ela disse que eu poderia voltar para casa, lá tem três quartos, eu poderia ficar no meu antigo e arrumar o outro para o bebê. Assim eu já economizaria o do aluguel, eu tenho algumas economias e ela me ajudaria. Eu acho que ela adorou a ideia do bebê, ainda mais eu voltando para cara com um bebê.
- Claro que ela adorou, seria mais uma criança para ela criar da forma louca dela. – comentou e riu – Porque vamos combinar, , sua mãe não faz o requisito de “mãe normal”.
- Eu sei que não faz, , não discutiremos a respeito disso, até porque eu sou prova viva dos métodos loucos que criação que ela tinha. Só que esse bebê teria a mim e eu o criaria da minha própria forma estranha. – ela brincou e ele rolou os olhos, respirando fundo em seguida.
- Acho que você está decidida a respeito disso e o intuito dessa conversa era apenas me comunicar, certo?
- Você não entende, . É que o tempo passa, eu vejo as pessoas ao meu redor conquistando tudo o que sempre sonharam e eu me vejo parada no mesmo lugar. Eu sempre quis ser mãe, sempre quis ter uma família grande e linda. Ter várias crianças correndo pela casa, ouvir meus filhos brincando, ajudar na lição, levar para a escola, organizar as coisas das festas de aniversário. Você sempre teve sonhos diferentes, o seu ideal de vida é algo focado no trabalho, na carreira, mas eu não penso assim. – ela suspirou, passando a mão pelo rosto, desapontada com a falta de apoio que vinha do amigo – Eu não lembro de como viver em família, não sei se eu era muito nova ou se a minha vida apenas com a minha mãe não foi o exemplo de vida em família que eu idealizei. Então eu sempre pensei, sempre me imaginei vivendo numa casa grande, com meus filhos, meu marido, um cachorro, esses sonhos bobos que algumas garotas tem. Só que cada dia que passa, parece que está mais distante de acontecer. E os desejos e prioridades mudam. Eu não quero um marido, eu quero um filho, uma coisinha que eu sei que eu vou amar mais do que qualquer coisa nesse mundo e que vai me amar de volta. Pode ser loucura, , mas eu não me importo.
- Realmente, , eu não entendo, mas eu não entender não muda nada. É o seu sonho, não o meu. O que eu acho ou deixo de achar, não importa no momento. Se eu faria algo assim? Provavelmente não, mas é você que tem que escolher e independente da escolha... – ele colocou a mão sobre a mesa, para a amiga a segurasse – Você sabe que eu estarei por perto, não é mesmo?
- Você não vai me achar louca por querer ter um filho sozinha? – ela perguntou, sorrindo de lado. Vendo o amigo sorrir, balançando a cabeça lentamente.
- Eu já te acho louca normalmente, então não. Talvez uma criança ajude a criar um pouco de juízo na sua cabeça. – brincou, bebericando um pouco de sua bebida.
- Bem, talvez você me achei mais louca ainda depois do que eu realmente tenho pra falar. – continuou, escondendo uma careta até da xícara de café.
- Você já está grávida? – o rapaz perguntou, sobressaltado.
- Não, , eu já falei que não. – ela respirou fundo, coçando a cabeça, tentando criar coragem. – Eu tenho pensado nisso há um tempo e imaginando possibilidades de como isso seria possível. Não queria ter um filho fruto de uma relação casual, então me restaria a doação de esperma.
- Que assunto estranho, . Será que eu não posso ficar apenas no apoio, sem saber de muitos detalhes? Posso te acompanhar nas consultas, posso te ajudar com os desejos durante a madrugada e brincar com o bebê quando ele nascer, mas eu não gostaria de me envolver na sua busca por um pai para essa criança. – disse, fazendo a menina morder o lábio inferior e parecer desconfortável.
- Eu não imagino o filho sendo metade meu e metade de um desconhecido. Então eu pensei na pessoa que eu mais confio no mundo, mais inteligente, companheira, um excelente amigo e que doaria ótimos genes para o meu bebê, inclusive, quem sabe, um maravilhoso par de olhos ...
- , não. Sem condições. – o amigo respondeu, entendendo exatamente aonde a menina queria chegar com aquela história. Ele ria de nervoso, sem saber se controlar. Ele passou a mão pelo cabelo, visivelmente desconsertado pelo pedido que ela ainda nem tinha feito.
- , só pense na possibilidade. – ela pediu, vendo o rapaz parecer cada vez mais apavorado.
- Você está me pedindo algo que vai além de todos os limites. – ele murmurou, colocando as duas mãos no rosto, sem saber como agir, o que falar ou fazer. – Você está me pedindo para ser pai do seu filho. – disse baixo, como se fosse segredo. Talvez ele ainda não tivesse coragem de falar em voz alta.
- Eu não estou pedindo que você seja o pai do meu filho. – a menina falou, vendo a expressão assustada do rapaz se tornar confusa – Eu só preciso do seu esperma. – disse, como se fosse a coisa mais simples no mundo.

¹ A música que toca no baile de formatura é Stand by Me, do Ben E. King.


Dois - "Eu Aceito"

There isn't anything I wouldn't do for you
(Randy Newman – You've Got a Friend in Me)


- Tá, então eu não seria o pai da criança, apenas doaria um pouco do meu esperma e você teria o bebê sozinha? – perguntou, ainda tentando assimilar toda aquela história e rezando para que a amiga o corrigisse, mas logo viu que tinha entendido certo, ao olhar de lado, vendo a garota balançar a cabeça, afirmando.
- Assim como seria se eu procurasse um doador anônimo. Inclusive, você teria que assinar um termo que deixaria claro que você não tem direitos sobre a criança. Eu não quero que você tenha o trabalho e as preocupações de um pai, . Nunca pediria que você assumisse essa responsabilidade sem que fosse um desejo seu, não existe isso, é loucura demais até pra mim. – bebericou um pouco de seu café – A questão é que eu queria uma pessoa que eu conhecesse, confiasse e você me pareceu, me parece, a melhor opção: inteligente, bonito, educado, simpático. Tudo o que eu posso querer que meu filho seja, mas eu não posso e nem vou te obrigar a nada.
- Você sabe que isso é loucura, não é? Que não nenhuma chance de eu ser apenas um doador para essa criança, porque eu vou saber que é meu filho, as pessoas vão saber, elas vão falar...
- Ninguém precisa saber. Aliás, ninguém precisa saber de nada, eu posso muito bem ter engravidado numa transa casual e o pai não quis assumir. Isso acontece todos os dias, com várias mulheres, ninguém vai desconfiar. Eu seria apenas mais uma “mãe solteira”, por pior que seja esse termo. – a amiga buscou a mão do rapaz, tocando-a levemente, fazendo com que ele a olhasse – Eu não vou te pressionar, porque sabia que seria praticamente impossível você aceitar essa ideia, mas achei que deveria tentar, pelo menos. Mas se você não quiser, , não tem problema. Eu escolho um doador da clínica e não tocamos mais nesse assunto.
- Você não vai ficar chateada comigo? – ele perguntou, olhando a amiga pelo canto dos olhos.
- Claro que não. – respondeu, com sinceridade em sua voz.
- É que é difícil pensar nisso, como seria eu olhar para essa criança e não enxergar como minha também.
- Eu entendo, juro que te entendo. – ela disse, sorrindo de lado – E como prometido, não tocaremos mais no assunto, ok? Sobre o que quer falar agora, alguma resposta do curso de especialização da empresa?
- Nada ainda, mas o período de inscrição ainda está aberto, tem mais um ou dois meses para sair o resultado, só resta esperar. – deu de ombros, como se não se importasse, mas sabia que ele se importava, sim. Ele tentava uma vaga nesse curso há anos, mas eram sempre os mesmos queridinhos do chefe que conseguiam, já que todos queriam passar um ano na Alemanha com tudo pago. Aliás, quem não queria?
- Você vai conseguir dessa vez, algo me diz isso. Só que não sei o que eu vou fazer sem você aqui. – a menina sorriu de lado, vendo o rapaz rolar os olhos.
- Não sofra por antecedência, . Você sempre diz que eu vou conseguir dessa vez, mas a vez chega e eu não consegui.
- Mas dessa vez é diferente, eu sonhei que você estava na Alemanha duas noites atrás, na manhã seguinte eu passei em frente à livraria e tinha um dicionário inglês-alemão na vitrine. Logo mais na frente, naquela loja de material esportivo que tem duas ruas antes da escola, tinha uma camisa da Alemanha na vitrine e quando eu cheguei ao trabalho, a Joy tinha me levado um strudel de maçã. – apoiou o rosto numa das mãos e encarou a amiga, segurando o riso, enquanto balançava a cabeça lentamente. Ela era simplesmente incrível quando queria provar alguma coisa, mesmo se fosse uma besteira qualquer. sempre encontraria pontos e explicações das mais diversas e absurdas para mostrar que estava certa – Então não foi apenas uma sensação. Foi a sensação, um sonho e três elementos que comprovam tudo, porque duas coisas formam uma coincidência, mas três já é certeza. – ela sorriu, convicta de que estava certa.
- Nossa, com certeza a vaga é minha, ninguém vai poder competir com um sonho, um dicionário, uma camisa e um strudel. Se não tivesse o strudel até daria, mas quando ele apareceu, eu vi que não tinha mais chances. – o rapaz zombou, fazendo a menina apertar os olhos.
- Tudo bem, se não quer acreditar, não acredite. Mas comece a pensar como será viver longe de mim por um ano, porque eu sei que você não vai aguentar. – comentou, vendo o amigo balançar a cabeça, afirmando.
- Tem, o que, vinte anos que a gente se vê quase todos os dias? – perguntou retoricamente.
- Basicamente. Você acha que sobrevive?
- Ah, com certeza não. – o rapaz brincou, como se não levasse muito a sério a possibilidade de ficar longe por todo esse tempo.

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Mesmo com a negativa de , iria continuar com o seu plano, então era por isso que ela estava na sala de espera da sua ginecologista, Adelaide, pela terceira vez só nesse último mês. Ela tinha passado toda a manhã na escola que dava aula e tinha vindo direto para a consulta, nem tinha almoçado tamanha era sua ansiedade. A médica havia passado alguns exames pra ela, desde os mais simples, como os de sangue, até alguns mais chatos, como uma ultrassonografia transvaginal, que a menina achou extremamente desconfortável, mas a médica disse que precisava saber como estava o útero e se ele estava em boas condições para a inseminação. Após a liberação da doutora, poderia seguir com a segunda parte do plano: encontrar um doador, já que tinha rejeitado seu pedido quatro dias atrás. Ela já tinha feito uma pequena busca e encontrado uma clínica boa e que cabia em seu orçamento, e que tinha sido a própria Adelaide que havia lhe indicado. Talvez ela pudesse até mesmo acompanhar o procedimento ou indicar algum conhecido que trabalhasse lá. Enquanto ainda estavam conversando sobre o assunto, era como se toda essa ideia ainda fosse um sonho distante, mas a cada consulta, a cada etapa avançada, era como se tudo se tornasse mais real, só que isso não a assustava, muito pelo contrário, parecia cada vez mais disposta a seguir adiante. A secretária simpática sorriu em sua direção e disse que ela podia entrar agora. A menina repetiu o gesto, antes de pegar sua bolsa, a sacola que carregava todos os exames e seguir na direção o consultório. Ela bateu levemente na porta e entrou assim que ouviu a voz de Adelaide lhe dizendo para entrar. Com um sorriso de lado, caminhou até a cadeira que estava de frente para a mesa da doutora e sentou-se, esperando que a mesma lhe dessa atenção. Adelaide deveria ter a idade da mãe de , já que as duas se conheceram na escola, quando tinham cerca de quinze anos. Seus cabelos estavam numa cor entre o loiro e o branco, como se ela estivesse cansada de colorir os fios e fosse assumir a cor natural deles. Ela tinha um sorriso caloroso e acolhedor, o que fazia com que se sentisse bem e confortável de estar ali, compartilhar seus desejos e se abrir. Adelaide foi uma das primeiras pessoas que comentou a vontade de ter o bebê sozinha e ela não se opôs, muito pelo contrário, disse que se essa fosse a real vontade da menina, ela lhe ajudaria. E era verdade, já que está acompanhando todo o processo desde o início.

- Boa tarde, querida. Como está hoje? – a mais velha perguntou, depois de organizar uma série de folhas e voltar sua atenção para a menina.
- Ansiosa, eu acho. – sorriu, nervosa, pegando os exames. Ela sabia que caso tivesse algo errado, ela não poderia fazer nada.
- Não seja boba, você é jovem, está em plena forma e tem tudo o que precisa para gerar um bebê lindo e saudável. Agora vamos aos exames, fez todos?
- Acredito que sim. – respondeu, entregando todos os envelopes para a médica, que olhou cada folha atentamente. Analisou as ultrassonografias, os exames de sangue, de taxa de hormônio e todos outros que ela havia solicitado, até mesmo o de rotina que tinha feito na primeira consulta e que o resultado tinha ficado pronto há alguns dias. Adelaide não falava nada, então só a observava com apreensão, mordendo o canto da unha do dedão, como se isso fosse deixá-la mais calma.
- Você está nervosa? – a doutora perguntou, com um vestígio de riso em sua voz.
- Apreensiva pode ser uma palavra melhor, eu acho. – a mais nova disse, sem conseguir deixar de demonstrar o nervosismo em sua voz.
- Não precisa de nada disso, está tudo certo. Só uma alteração nos níveis de ferro, mas isso pode e será resolvido com um suplemento, que você tomaria de qualquer forma, só vamos adiantar o início. Também vou receitar ácido fólico e vitamina D, você pode optar pelo complexo B, onde tem tanto a vitamina D, quanto o ferro e o ácido fólico, fora os demais suplementos, mas fica a seu critério. E, claro, fontes naturais são muito bem vindas, folhas escuras, feijão, beterraba ajudam no nível de ferro e ácido fólico, e uma caminhada durante a manhã para pegar o sol, ajuda no nível de vitamina D. – Adelaide parou por um instante, enquanto preenchia a receita e explicava como, quando e a quantidade de cada suplemento que deveria ingerir por dia – E como está tudo certo e pela sua taxa hormonal e as imagens do seu útero, seu próximo período fértil e em cerca de quinze dias, então, bem, agora cabe a você, minha parte está feita.
- Como assim, eu já posso escolher o doador, marcar a inseminação?
- Sim, faça o acompanhamento em casa, compre aqueles bastões de teste de fertilidade, no momento em que você a ovular, que entrar em seu período fértil, entre em contato com a clínica e agende uma data. Procure pelo Evan e diga que quem lhe indicou foi a Adelaide e que eu vou acompanhar seu procedimento, eu já entrei em contato com eles e falei sobre você, já está tudo adiantado. Assim eles vão te agendar para os dois ou três dias depois, e que vai coincidir com a data próxima a sua ovulação, o que facilita todo o processo. – a doutora parou de falar, observando a expressão de , que parecia estar em outro lugar no momento – Você está prestando atenção no que eu estou falando?
- Sim, estou. É que está acontecendo e eu estou ficando bem nervosa. – ela confessou, suspirando em seguida. Adelaide largou a caneta que segurava e estendeu uma das mãos para que segurasse.
- Você está segura que é isso que quer fazer? Pesou os prós e contras? Viu se está realmente preparada psicológica e financeiramente para o bebê? Vai saber lidar com o fato de que não terá um pai para dividir as responsabilidades? – a médica fez todas essas perguntas, sem dar tempo para que respondesse – Porque se a resposta para qualquer uma dessas perguntas for “não”, eu vou te aconselhar a pensar melhor em todo esse plano. Mas se a resposta for “sim”, não vejo o porquê do medo ou do nervosismo. É apenas mais um passo na direção da realização do seu sonho. É um bebê que você quer, certo?
- Sim. – falou, sorrindo de lado.
- Então não há por que temer.

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Aceitando os conselhos e as palavras de incentivo de Adelaide, decidiu até a clínica de fertilização logo após a consulta. A clínica era perto do consultório, num prédio duas ruas abaixo, então foi caminhando, parando num café no caminho, para comer alguma coisa. Só que ela sentia como se tivesse um nó em sua garganta, que só poderia ser desfeito depois que ela resolvesse todo esse assunto. Mas, ainda assim, ela se esforçou para comer um muffin de banana e um café, tentando relaxar um pouco.
Assim que terminou, retornou seu caminho, chegando prédio bem rapidamente. Optou por subir os quatro lances de escada, já que os consultórios eram no segundo andar. Não tinham muitas pessoas na sala de espera, então não tinha muito tempo para se acostumar com a ideia, mas resolveu não pensar muito. E, caminhando até o balcão da recepcionista, ela logo se apresentou.

- Oi, boa tarde. – a garota sorriu de lado, meio sem jeito.
- Boa tarde, como posso lhe ajudar? – a recepcionista, que viu se chamar Hannah, cumprimentou de volta, com uma simpatia ímpar.
- Não sei foi com você que falei ao telefone da outra vez, mas a Dra. Adelaide me indicou a clínica e eu liguei na semana passada. Me disseram que eu poderia passar e pegar os formulários de cadastro dos doadores para avaliação.
- Qual é o seu nome? - Hannah perguntou.
- . – ela respondeu, vendo a recepcionista fazer uma busca em seu computador rapidamente.
- Aqui, encontrei. – chamou a atenção – Você está na lista dos pacientes do Dr. Evan Gardner. – a atendente pegou um formulário e uma prancheta na mesa, entregando nas mãos de .
- Só preciso que você preencha essa ficha com os seus dados, para que eu possa colocar no sistema.

agradeceu e sentou-se numa das cadeiras para responder as questões. No começo era perguntas simples, como nome completo, data de nascimento, estado civil, nome dos pais, essas coisas mais básicas. Mas depois as perguntas começavam a ficar mais pessoais e a menina começou a se preocupar com o teor das últimas questões, aquelas no final da quinta página do formulário. Tinham perguntas a respeito de sua saúde e, principalmente, sobre as suas preferências quanto aos doadores. Folheando rapidamente, ela viu que as três últimas folhas eram, basicamente, características que ela gostaria que seu doador tivesse, assim, ao marcar no perfil, o sistema selecionaria as melhores opções para ela. Só que não era muito boa nessas coisas de escolher, não importava muito se o cara tivesse olhos claros, fosse loiro, negro, ruivo ou tivesse 1,90 de altura. Ela só queria que a pessoa fosse bacana e que isso influenciasse na personalidade do bebê, mas como escolher isso através de um formulário? Então ela apenas respirou fundo e tentou não se sentir como se escolhesse um prato num restaurante. No final das contas ela tinha deixado de marcar poucas coisas, como não querer doadores com propensão a nascimento de múltiplos, um bebê já era o bastante.

- Já terminei. – disse, devolvendo a prancheta com os formulários já preenchidos.
- Ok, vou colocar suas informações no sistema e já lhe chamo para entregar as fichas. – Hannah respondeu e apenas acenou com a cabeça.
Ela caminhou de volta para onde estava sentada e começou a mexer no celular para gastar o tempo. Viu que sua mãe tinha mandado algumas mensagens, mas resolveu ver depois, quando chegasse em casa. Já tinha enviado uma foto sua no trabalho, com uma expressão derrotada, como se não pudesse esperar para o dia acabar. Ela sorriu brevemente, tirando uma foto de si mesma fazendo uma careta e escrevendo:

“Por isso é bom trabalhar apenas meio período.”
, 15:09

Alguns segundos depois o amigo apenas respondeu com uma carinha revirando os olhos. mexeu nas suas redes sociais, olhou as notícias no celular e depois de cerca de vinte minutos, Hannah a chamou novamente, com uma pasta simples nas mãos.

- Desculpe a demora, é que são muitas opções para você, demorou um pouco para organizar, mas aqui está. – a recepcionista entregou a pasta nas mãos de – Assim que escolher ou que estiver preparada para o procedimento, basta entrar em contato. O Dr. Evan já nos informou que a sua médica nos encaminhará todos os exames e que auxiliará no procedimento, então só precisamos marcá-lo mesmo.
- Ok, muito obrigada. – a menina disse, observando o pequeno volume de papel em suas mãos – Eu entro em contato para marcar.

chegou em casa, mas ficou sem coragem de olhar as fichas. Ela ficou encarando aquela pasta por longos minutos, até que desistiu e levantou do sofá, deixando-a em cima do mesmo e seguiu pra o banheiro, ela precisava de um banho para relaxar. Depois ela acabou se distraindo com outras coisas, viu as mensagens de sua mãe em seu celular e achou a ideia que ela deu muito interessante. Lena, sua mãe, tinha lhe dito que não via porque ela continuar naquele apartamento por mais tempo, gastando com as despesas, já que ela iria se mudar de volta de qualquer forma e o dinheiro que ela economizaria agora, ajudaria a bancar as despesas da inseminação e tudo que teria que comprar no futuro para o bebê. A verdade é que Lena parecia mais animada que com essa ideia, se possível, ela nem mesmo questionou a opção da filha por uma inseminação, talvez estivesse traumatizada com casamentos, mas a ideia de ter um bebê em casa, de ter um neto, fez com que seu mundo ficasse colorido e alegre novamente.

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Era quinta-feira, mas tinha esquecido, ela tinha passado o restante da tarde empacotando parte de suas coisas. A menina só lembrou-se do encontro semanal com , quando o mesmo entrou pela porta, carregando duas pizzas, um engradado de cervejas e refrigerantes. Ele parou perto da porta e encarou a amiga no chão da sala, rodeada de livros e mais um monte de bagunça.

- O que tá acontecendo? – o rapaz perguntou, colocando a coisas que carregava na pequena mesa que tinha perto da cozinha.
- Minha mãe disse que seria interessante eu voltar para casa logo, assim eu posso economizar dinheiro e, bem, ela tá certa. Então tirei a tarde para começar a organizar as coisas, mas eu não sou muito boa nisso.
- Dá pra perceber. – ele respondeu, sorrindo de lado e com um pouco de ironia em sua voz.
- Você podia ser menos chato e me ajudar aqui, não é? Seu senso de organização seria muito interessante e proveitoso. Então traga esse corpinho para cá e me ajude a embalar essas coisas. – disse, com um tom de voz autoritário e um pouco engraçado – Ah, traga as pizzas e o meu refrigerante também.
- Mais alguma coisa, senhora?
- Não, é o bastante. – ela riu, balançando a cabeça.

Eles comeram uma pizza inteira e metade da outra, tomaram suas cervejas e empacotaram quase tudo que estava na sala e parte das coisas da cozinha. Agora eles estavam no sofá, com estava deitado com a cabeça no colo de e estavam conversando sobre tudo e qualquer coisa. Até que se mexeu, desconfortável com algo, ele passou a mão pelo acento do sofá e puxou uma pasta, fazendo a amiga ficar um pouco nervosa.

- O que é isso? – ele perguntou, curioso.
- Nada de importante. – a garota respondeu, pegando a pasta de sua mão e jogando no chão, perto dos seus pés.
- Se não era importante, por que você ficou nervosa desse jeito? – olhou atentamente para o rosto dela, sentando no sofá para poder olhar em seus olhos.
- São fichas de possíveis doadores, eu fui até a clínica hoje e peguei para escolher. – ela deu de ombros e o rapaz foi pego de surpresa. Ele não esperava que ela desse continuidade a sua ideia tão rápido.
- E tem algo interessante?
- Não sei, eu não olhei ainda, não tive coragem. – sua voz estava baixa, como se ela estivesse com medo.
- Você quer que eu te ajude? – ele sorriu de lado, tentando encorajar a , que parecia um pouco desanimada.
- Tem certeza que quer se envolver nisso? Antes você disse que não iria me ajudar a escolher. – a amiga disse, com um tom de voz acusatório.
- E sei o que eu falei, só que eu quero te ajudar. É uma coisa importante pra você, eu quero ser parte disso de alguma forma. – sorriu de lado, apoiando a cabeça no sofá e depois tombando para o lado, na direção onde estava sentada. – Anda, pega a pasta, vamos dar uma olhada. – a menina respirou fundo, antes de se abaixar para pegar a pasta e abrir, puxando uma folha aleatória.
- Esse cara tem 1,75 de altura, cabelos e olhos castanhos, é contador, gosta de cachorros e assistir futebol. – ela disse, lendo em voz alta algumas características do possível doador.
- Não, próximo. – falou, balançando a mão.
- Por quê? – perguntou, segurando o riso. Ela olhou para o amigo, que a encarava como se estivesse pronto para julgar as pessoas.
- Por que é muito comum, poderia ser qualquer um que você cruzasse na rua agora.
- E qual é o problema? – a garota riu alto, balançando a cabeça lentamente, como se negasse.
- Se você vai ter um bebê por encomenda, que ele seja de uma pessoa “especial”. – fez aspas com as mãos e a menina riu mais ainda.
- Ai, , me poupe. – ela rolou os olhos, puxando outra folha da pasta. – Ok, esse aqui tem 1,90 de altura, cabelos castanhos, olhos verdes, advogado, gosta de viajar e ler livros. – a menina parou por uns segundos e se virou para o amigo – Por que um advogado doaria esperma para uma clínica de fertilidade? Sem julgamentos, só uma pergunta mesmo.
- Não sei, , talvez ele não queira filhos para ele mesmo, mas queria garantir que tenha pedacinhos seus pelo mundo.
- Nossa, dispenso. – ela respondeu, deixando essa folha junto com a anterior. Eles leram cerca de vinte e cinco fichas, rindo bastante com os comentários que faziam delas. não conseguia levar a sério o fato de ter que escolher um pai para o seu bebê entre aqueles caras. Eram pessoas que ela nunca viu e nunca veria na vida. Por mais que ela não quisesse um companheiro, ela queria, pelo menos, conhecer a pessoa. – , eu acho que isso não vai dar certo.
- Por quê? – o rapaz perguntou, sentando de forma direita no sofá.
- Porque eu não consigo levar nada disso, nenhuma dessas pessoas, a sério. Nós vimos várias e várias fichas, e eu só consegui encontrar defeitos.
- Nem mesmo o ruivo dos olhos azuis? Talvez seu bebê nasça parecendo o Ed Sheeran. – tentou brincar, mas não estava no clima.
- Não posso escolher um pai como se escolhesse um delivery, não posso. – ela deu de ombros, balançando a cabeça lentamente. Sua expressão era como se ela segurasse o choro. ainda não tinha visto a dimensão do que aquilo significava para , ele achou que seria mais um plano louco que ela abandonaria em alguns dias, como ela sempre faz. Mas não, esse era real. Ela queria esse bebê.
- , não fica assim, você sabe que eu não gosto de te ver triste. – ele pediu, passando a mão pelos ombros da amiga e trazendo para perto, ela apoiou a cabeça em seu peito e ficou ali aninhada.
- Eu sei que você não gosta, mas eu não tenho como evitar, infelizmente. Acho que terei que adiar esses planos para até quando eu estiver apta a realizá-lo da forma tradicional ou, não sei, dormir com o primeiro cara que eu encontrar na rua agora.
- Pelo menos piadas você está fazendo, então o caso não é tão grave.
- , cala a boca. – disse, com a voz baixa e fraca. E então ele viu um brilho e seu rosto e quando olhou mais atentamente, percebeu que era uma lágrima que escorria.
levantou a mão, passando, suavemente, pelo rosto da amiga, e depois pôs a mão em seus cabelos, deixando que ela chorasse. Ele observou aquela cena e algo dentro dele doeu, seu coração estava apertado e sentia como se devesse fazer alguma coisa. sabia que naquele momento ele estava dividido entre o que ele achava que deveria fazer e o que ele sentia que deveria fazer. Ver naquele estado acabava com ele, ainda mais sabendo que tinha o poder de resolver tudo com um simples “sim”. Mas se aceitasse, ele seria pai, querendo ou não, independente de documentos ou qualquer registro. Cada vez que ele olhasse para aquela criança, ele saberia. Mas será que seria capaz de lidar com isso? Será que ele conseguiria viver sua vida, sabendo que tem um filho com a sua melhor amiga? Será que iria casar, ter outros filhos e viver normalmente? Será que seria assim tão ruim ter algo que o ligasse a para sempre? Afinal, ela era uma das pessoas mais importantes no mundo e ele desejava que fosse sempre assim. E uma criança metade ele, com seu pensamento rápido e sua facilidade de lidar com problemas, e metade ela, com a sua incrível capacidade de se adaptar, seu senso de humor e a forma maravilhosa e livre de ver a vida, parecia ser perfeita.
- Eu aceito. – disse, fazendo levantar os olhos e o encarar.
- O que? – ela perguntou, com a expressão confusa.
- Eu aceito ser seu doador. – repetiu, vendo a expressão da amiga se iluminar.
- Você está falando sério? – perguntou, levantando o corpo e ficando bem próxima a , com as mãos em seu rosto, fazendo com que ele a encarasse com seus olhos .
- Eu ficaria honrado. – ele sorriu de lado, vendo um sorriso gigantesco ocupar os lábios da amiga, antes que a mesma passasse os braços ao redor de seu pescoço e o puxasse para um abraço apertado.
- , muito obrigada. – ela disse, ainda com as lágrimas escapando pelos seus olhos, mas dessa vez de pura felicidade. – Obrigada, obrigada, obrigada... – ela repetia infinitamente, como se não houvesse palavras suficientes.
- Você sabe que eu faço qualquer coisa por você. Eu cheguei a pensar que isso seria além do meu limite, mas eu acho que se fosse o inverso, eu também não conseguiria pensar em nenhuma outra pessoa mais perfeita para ser mãe do meu bebê além de você.


Três - Alemanha

Oh, you're the best friend that I ever had
I've been with you such a long time

(Queen – You're My Best Friend)


Não que estivesse questionando sua decisão de ser doador de , mas ali, sentado na sala de espera do consultório, tendo alguns olhares sobre ele, começou a se perguntar se era realmente necessário ele ir até a consulta com a amiga. Não basta apenas “fazer sua parte”? Podia apostar que as outras mulheres, que estavam no mesmo ambiente que eles, deveriam estar pensando que ele tinha algum problema. Não que se importasse com a opinião alheia, mas não gostava de imaginar as pessoas questionando ou pensando qualquer coisa ao seu respeito. Talvez ele se importasse mais do que quisesse admitir.

- . – cutucou a amiga, que estava entretida lendo uma revista.
- Hmm. – ela respondeu, sem dar muita atenção, estava muito concentrada lendo uma coluna de fofocas.
- Eu acho que aquela mulher ali pensa que somos um casal. – murmurou, apontando discretamente para uma senhora que estava sentada perto da porta. levantou os olhos rapidamente, vendo quem era, e depois voltou os mesmos para a revista.
- Acho que ela vai ficar decepcionada então. Ou não, vai que ela ficou interessada em você. – ela brincou, arqueando as sobrancelhas, enquanto o rapaz balançava a cabeça lentamente, negando.
- E também acho que ela pensa que eu sou estéril. – falou mais baixo, fazendo a amiga rir. Ela não conseguiu segurar o riso, chamando a atenção de todo mundo que estava na recepção. – Por que você tá rindo?
- Talvez você possa oferecer seus serviços a ela, que tal? Assim você acaba com as duas desconfianças delas de uma vez só. – a menina disse fazendo rolar os olhos.
- Por que você não me leva a sério? – perguntou, levemente incomodado com as respostas dela. deixou a revista de lado e estendeu uma das mãos para o amigo segurar e ele pegou.
- Porque suas preocupações são bobas demais, . Quem liga para o que aquela moça pensa de você? Você nunca mais vai vê-la na vida. – falou, sorrindo de lado e dando de ombros. – E mesmo que visse, que diferença faria? É verdade? Nós somos um casal?
- Não. – respondeu, já entendendo onde ela queria chegar.
- Você é estéril?
- Não... eu acho. – disse, incerto. – Bem, espero que não.
- Eu também. – comentou, divertida. – Enfim, você precisa parar de se importar com o que as pessoas pensam de você. Bem, as outras pessoas, não eu. A minha opinião importa bastante. – alargou o sorriso e viu rolar os olhos.
- Você não se importa com o que pensam de você? – ele perguntou, vendo a menina negar automaticamente.
- Eu pareço me importar? Ou melhor, eu vivo como se me importasse? – indagou, retoricamente. – Me importo com o que você acha, levo sua opinião em conta em tudo na minha vida. Às vezes um pouco da minha mãe também, mas ela é meio doida e de gente louca já basta eu. – ela fez uma careta e ele sorriu de lado, levantando a mão que seguravam até perto dos lábios e beijando levemente o dorso da mão da amiga. – Você é a pessoa mais sensata que eu conheço, então eu te escuto. Mas as outras pessoas, ninguém importa. Se aquela senhora quiser imaginar que somos um casal com problemas para engravidar, que pense, não vai mudar nada na minha vida.
- Ok, tudo bem. – falou, dando-se por vencido. – Exercício diário agora: me importar menos com a opinião dos outros. – falou, mais para si do que para qualquer um, mas limpou a garganta levemente, chamando sua atenção. – Reformulando: me importar menos com a opinião dos outros, exceto com a da minha grande amiga . Porque a dela é de extrema importância.
- Viu como você aprender rápido? É por isso que eu te amo. – ela brincou, dando um beijo rápido em sua bochecha.
- . – a enfermeira falou, chamando a atenção dos dois. A menina acenou, pegando suas coisas para segui-la.

Caminharam pelo pequeno corredor, na direção do consultório e entraram na quarta porta da esquerda. O doutor Gardner já os esperava, ele tinha alguns papéis em suas mãos e reconheceu alguns de seus exames entre eles. Sentaram-se nas cadeiras que estavam em frente à mesa e aguardaram até que o médico terminasse de analisar todos os resultados. estava visivelmente nervosa e parecia tranquilo, mas estava era preocupado com a amiga. Ele olhou em sua direção, piscando um dos olhos, para tentar quebrar um pouco do gelo, mas a menina não parecia muito no clima. Ele estendeu uma das mãos em sua direção e eles ficaram de mãos dadas, enquanto tentava acalmar a amiga.

- Bem, senhorita . – Dr. Gardner disse, sorrindo em sua direção. Ele deveria ter cerca de cinquenta anos, seus cabelos eram grisalhos, tinha marcas de expressão ao redor dos olhos e a voz suave, quase acolhedora.
- Me chame de , por favor. – ela pediu, odiava formalidades demais.
- Ok, . Então me chame de Ewan, vamos tornar tudo mais casual. Acredito que esse seja seu amigo que será o doador.
- Sim, , muito prazer. – o rapaz se apressou em esticar uma das mãos na direção do médico.
- Preciso dizer que esse seu gesto é muito bacana, já me disse na consulta anterior o quanto ela quis que você fosse o doador, mas a ideia não lhe pareceu muito agradável no início.
- Sim, eu precisei de alguns dias para me acostumar com tudo isso. – ele respondeu, tentando soar o mais sincero possível, porque, por dentro, ainda estava apavorado.
- Todo processo se torna menos complexo quando a mulher está mais confortável e a parece bem mais tranquila com você. – o médico comentou, pegando um resultado específico. – , de acordo com o seu exame de sangue, seu próximo período fértil deve ser em cerca de dez dias. Não há nenhuma alteração ou algo que precise se preocupar, todos os exames estão ótimos. O útero está perfeito para o implante, basta escolhermos o dia certo para não ter nenhum problema. Então, se tivermos todos de acordo, podemos marcar o procedimento. – ela olhou para , que pareceu respirar fundo por um instante.
- ? Tudo bem? – perguntou, temporariamente preocupada.
- Sim, podemos marcar. – o rapaz respondeu de forma rápida, como se estivesse no automático.
- Não. – ela sorriu de forma carinhosa. – Quero saber se está tudo bem com você, porque não tá parecendo. – ela se ajeitou na cadeira, para ficar de frente para ele. – Olha, se você quiser desistir, tudo bem, eu não vou ficar chateada. Escolho um doador anônimo e você não precisará lidar com nenhuma das mil problemáticas que estão passando pela sua cabeça nesse exato momento.
- Não é isso, é que vai ser difícil olhar para esse bebê e não vê-lo como meu filho. Porque eu sei do contrato de confidencialidade que eu terei de assinar, dos termos que deixam claro que eu não posso vir a querer reclamar a paternidade dele. Mas na minha cabeça eu vou saber. Vocês me entendem? – ele perguntou, vendo o médico afirmar com a cabeça e suspirar, porque ela sabia que ele estava certo. Não era um documento qualquer que impediria se sentir qualquer tipo de amor paternal pelo bebê. Talvez ela devesse ter pensado melhor nisso.
- Eu entendo o seu ponto, . Porque os homens que fazem as doações não fazem ideia quando elas são usadas ou por quem, então eles não possuem a oportunidade de criar nenhum tipo de laço com o bebê que ajudaram a gerar. Mas, se você conseguir olhar pelo lado bom, você terá um pequeno bebê por perto que, independente de tudo, saberá que é um pouco responsável por ele. Seja sendo pai, padrinho, tio ou um grande amigo. É só uma nomenclatura, o que vai valer é como vocês vão se relacionar. Há tantos pais no papel que não são pais de verdade. – Dr. Ewan falou, fazendo o rapaz pensar um pouco. Ele estava certo, afinal. Tinham tantas crianças no mundo com o nome do pai na certidão de nascimento, mas sem o pai na vida delas. Talvez o bebê de pudesse ser o contrário, sem o nome do pai na certidão, mas sempre por perto na vida, ajudando em tudo o que ele pudesse vir a precisar: um apoio para o primeiro passo, uma ajuda com as primeiras palavras, um conselho para as primeiras namoradas, um apoio para as primeiras decepções. E para isso ele não precisava de um nome, só precisava estar lá.
- Acho que entendi seu ponto. – falou brevemente para o médico, antes de girar o corpo na direção da amiga. – Eu não preciso ser o pai desse bebê para ser o pai, certo? Eu posso estar lá sempre, ser aquele que estará do seu lado em todos os momentos que você e ele precisarem.
- Só se você quiser. – disse, dando de ombros. – Eu não vou exigir nada de você, . Eu não quero um marido ou um pai, só quero um bebê.
- Eu quero. – afirmou, com convicção dessa vez. Era como se tudo começasse a fazer sentido em sua cabeça. – Tudo certo, doutor, podemos marcar.
- Ótimo, adoro quando tudo se resolve bem, então aqui está o contrato de doação de sêmem para o rapaz. Assinando esse contrato, você abre mão de todo e qualquer direito sobre o bebê gerado com o seu sêmem, não podendo assim exercer a paternidade da criança que for gerada. – o médico lhe entregou um papel nas mãos de . – E o contrato de recepção de sêmem para a moça. Após a assinatura você está ciente com o anonimato do doador e que não estará apta a reclamar pelos deveres do doador como pai. – eles pegaram as folhas e leram todo o texto, assinando logo em seguida. Dr. Ewan juntou o contrato de aos seus documentos e exames, e deixou o de para arquivar com os dos demais doadores.
- Agora é só aguardar a data do procedimento? – o rapaz perguntou, vendo o médico afirmar com a cabeça.
- Basicamente, mas antes eu preciso de uma coisinha sua, rapaz. – Dr. Ewan começou a falar, fazendo uma careta engraçada na direção de . – Precisamos fazer um exame básico numa amostra sua, então, se fosse possível... – ele abriu a gaveta de sua mesa e pegou um pote de amostra para exames.
- O que? Ah... – começou a perguntar antes de entender o que ele queria. Era uma amostra do seu esperma. Ele encarou pelo canto dos olhos e ela mordia os lábios para não rir, já imaginando a vergonha que ele estava sentindo.
- Você pode ir até à recepção, a Hannah vai te acompanhar até a sala de coleta. Há alguns materiais lá, caso precise de ajuda. – a menina riu um pouco mais alto, fazendo o médico olhar em sua direção por um segundo, antes de continuar a falar com o rapaz. – Não se preocupe com ela.

deixou o consultório, caminhando rapidamente até o balcão da recepção. Olhou o crachá da menina que estava sentada na mesa e acenou em sua direção, apenas pedindo que ele a acompanhasse. Caminharam pelo corredor do lado oposto ao do consultório, indo até a última porta. Hannah disse que ele poderia usar o que quisesse da sala e que era só deixar o pote em cima da mesa perto da parede antes de sair, que eles mesmos recolheriam. sentou-se na poltrona assim que a menina saiu e encarou as revistas e os DVDs em sua frente, pensando o quão estranho era tudo aquilo. Mas era pela , certo? Então ele deveria fazer o que precisasse, mesmo que tivesse que ser isso. Por isso escolheu um DVD pela capa e rezou para que não demorasse muito.


Os amigos sentaram num café depois saírem do consultório, já que tinha tirado o restante da tarde de folga, dizendo que iria ao médico e resolveram ficar um pouco por ali mesmo. Depois de fazer os pedidos, ficou com o olhar pedido, sem prestar muita atenção no que o rapaz lhe dizia. Só respondendo com poucas palavras as suas perguntas.

- Você tá nervosa? – o rapaz perguntou, percebendo a amiga mais calada do que o normal.
- Não, acho que ansiosa é a palavra. – ela passou a mão, pelo cabelo, colocando alguns fios atrás da orelha. – É que conforme vamos avançando as fases, vai se tornando real. E eu sinto como se fosse a minha única chance, a única vez que terei a chance de realizar esse sonho. Então sinto como se tivesse que agarrar essa oportunidade, como se tivesse que segurar esse bebê, que ainda nem existe, dentro de mim com todas as minhas forças. Ou tudo isso terá sido em vão.
- , não fala assim, você terá outras chances. Se não der certo agora, você pode tentar de novo depois, não?
- Eu meio que gastei a maior parte das minhas economias e as da minha mãe nessa tentativa, se não der certo... – deixou a frase morrer, porque ela sabia que tinha entendido. Ele colocou a mão sobre a dela em cima da mesa, fazendo um carinho.
- Você não controle sobre muitas coisas na sua vida, na verdade, você não tem controle sobre quase nada, mas você pode controlar como essas coisas vão te afetar. Se você manter esse pensamento derrotado, não há chances de algo dar certo, porque você já assumiu que não vai conseguir. E mesmo que algo aconteça, , você tem vinte e seis anos, é tão jovem. Nós somos jovens, parece que tudo precisa ser agora, imediatamente. Só que você não sabe do futuro, quem sabe se na hora que você sair daqui, não vai esbarrar com um cara qualquer na esquina, vão se apaixonar e quando perceber estarão casados, com cinco filhos e uma casa enorme e bagunçada. Porque você e cinco crianças, eu acho impossível qualquer tipo de organização. – brincou, tentando fazê-la rir e conseguindo. bateu levemente em seu braço, balançando a cabeça. – A questão é que tendo esse bebê agora ou não, você não sabe o que o destino te guarda. Não precisa ser pessimista com toda e qualquer coisa que acontece em sua vida. Não precisa e nem pode. Mas saiba que vai dar tudo certo, em dez dias você fará o procedimento e em nove meses teremos um lindo bebê em nossos braços e vai nascer a cara do tio .
- Você não existe. – ela disse, simplesmente.
- Ah, existo sim. E vou cobrar com juros e correção esse pequeno grande favor. - Eles riram, e depois conversaram sobre mil coisas que não fosse a possível gravidez ou o procedimento. disse que queria tirar isso da cabeça um pouco e não contrariou.

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DOIS MESES DEPOIS

Era quinta-feira e estava esperando chegar a casa na mãe dela. Ela tinha se mudado há algumas semanas e estava tentando se adaptar novamente. Hoje ela estava mais nervosa do que nunca, já que tinha comprado alguns testes de gravidez. Ela tinha quase certeza que estava grávida, sentia-se diferente, mais completa, preenchida. Só que precisava confirmar e tinha prometido ao amigo que ele estaria junto quando ela fizesse o teste. Agora mal conseguia controlar a sua ansiedade e a vontade de ir ao banheiro, já que tinha tomado quase uns quatro livros de água na última hora. Durante o tempo que esperava, de forma quase impaciente, ela deitou em sua cama e encarou o teto, lembrando-se de como tudo foi estranho. De entrar em uma sala, como se fosse fazer um exame, de ouvir o Dr. Ewan dizer algumas coisas que ela não ouviu, porque seus ouvidos zumbiam pelo nervosismo e sentir um leve desconforto por alguns segundos. E foi isso. Um pequeno procedimento de poucos minutos. O período de repouso, onde ela precisou ficar deitada numa maca especial, com as pernas para cima, durou mais que todo o processo. Também lembrou de sentir medo o tempo todo depois da inseminação, de pensar que daria errado, que tudo escorreria de dentro dela e levaria embora a chance de realizar o seu sonho. Se achou tão tola de sentar ao contrário no sofá, sempre com as pernas para cima, para a “gravidade agir”. Porque, se ela tivesse que engravidar, ela engravidaria, nenhuma dessas artimanhas loucas ajudaria ou impediria. Mas se mal não faz, qual o problema, não é mesmo?
Quando ouviu a batida em sua porta, ela se alarmou e ficou ainda mais nervosa quando viu o rosto do rapaz surgir. Ele sorria abertamente, muito animado, e ficou surpreso de não ver a mesma expressão no rosto da amiga. Ela estava apavorada. Era como se ela quisesse e não quisesse fazer o teste, pois ao passo que poderia ter certeza que tinha um bebê em sua barriga, poderia apenas ver que tudo não passava de uma ilusão de sua mente.

- Qual o problema, ? – perguntou, entrando no quarto e deixando a bolsa que carregava em cima de uma poltrona.
- Eu estou nervosa, . Nervosa pra caramba. – confessou, achando bem estranho o rapaz não ter percebido isso.
- Mas não tem motivos para isso, vai dar tudo certo.
- Você não sabe, então pare de tentar me enganar, ok? – ela se levantou, pegando uma sacola em cima da mesa, que ficava perto da janela. Virou a sacola em cima da cama e o rapaz pode contar cinco testes diferentes.
- Você quer ter certeza mesmo, né? – ele forçou a entonação da palavra, fazendo a menina rolar os olhos.
- Eu ainda vou fazer um de sangue amanhã, eu preciso de certeza. – respondeu, um pouco sem paciência.
- Ok, então vai lá, estarei aqui torcendo. – o rapaz falou, ajudando a recolher todas as caixas e colocando de volta na sacola.
entrou no banheiro e começou a ler cada instrução, para não se confundir. Conforme fazia um teste, deixava o mesmo junto à sua caixa, para poder comparar depois. Deixou todos em cima da pia do banheiro, lado a lado, e voltou para o quarto, com o rosto quase pálido.
- Ok, temos que esperar dez minutos agora, alguns ficam prontos antes, mas eu prefiro ver todos juntos. Então, por favor, me distraia, antes que eu tenha um treco. – ela pediu, sentando-se na cama, na frente de . Ele pegou o celular e marcou 10 minutos na contagem regressiva.
- Tá, tenho duas notícias pra você, uma boa e uma ruim. Qual quer ouvir primeiro?
- A boa. – falou, respirando fundo em seguida.
- Ok, a boa é que o resultado dos aprovados para o curso de especialização na Alemanha sai na semana que vem, serão duas vagas dessa vez. – o rapaz disse, vendo brotar um sorriso de esperança nos lábios da amiga.
- Que maravilha, as chances dobraram.
- Não necessariamente, já que a ruim é que eu ouvi o sobrinho do meu chefe falando que estava muito feliz de ter conseguido a vaga. Ou seja, uma vaga é dele.
- Mas isso não é justo, ele começou a trabalhar lá há quatro meses! – a menina exclamou, se sentindo quase íntima do rapaz, de tanto que ouviu falar mal dele e de como ele era protegido e ajudado apenas por ser sobrinho do chefe.
- , desde quando empregos e escolhas em empresas são justas? – ele perguntou retoricamente, vendo a menina rolar os olhos. – As chances continuam as mesmas, só que eu continuo achando que eu não tenho chances.
- Um dia uma pessoa muito inteligente me disse: “Se você manter esse pensamento derrotado, não há chances de algo dar certo, porque você já assumiu que não vai conseguir.” – falou, tentando imitar a voz de , mas falhando de forma incrível. O rapaz estreitou os olhos, enquanto a menina alargava o sorriso. Ela adorava quando conseguia usar algo que ele disse contra ele mesmo.
- Ok, sem pensamentos pessimistas. – falou, dando-se por vencido.
- Quanto tempo? – perguntou e ele entendeu de imediato o que ela queria saber.
- Dois minutos. – respondeu, arrastando um pouco o corpo para sentar mais perto dela. – Independente o resultado, eu quero dizer que você é muito corajosa. Provavelmente a pessoa mais corajosa que eu conheço, não tem medo de enfrentar seus problemas ou perseguir seus sonhos, sejam eles quais forem. Você vai ser uma mãe incrível, a melhor de todas.
- Eu amo você. – disse, encostando a cabeça no peito do amigo.
- Eu também te amo. – Ele passou os braços ao redor dela, tentando deixá-la confortável, tentando fazê-la se sentir protegida. Mas foram interrompidos pelo barulho insistente do alarme. A menina levantou os olhos, mas não se moveu, era como se estivesse congelada no lugar. se levantou e estendeu as mãos para ela. – Vamos, você está a cerca de quinze passos da realização do seu sonho. Vai ficar com medo agora? – segurou sua mão e caminharam lentamente até o banheiro, onde ficaram lado a lado em frente a pia. Olhando cada um dos testes, sentia como se o seu coração fosse sair do peito tamanha era a felicidade. Positivo. Sentiu uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Positivo. Mordeu o lábio inferior, tentando controlar o choro que vinha apressado. Positivo. Sentiu os braços de ao redor do seu corpo. Positivo. O rapaz falava coisas que ela não entendia, ela só colocou as mãos sobre a barriga, pensando na pequena pessoa que carregava agora. Positivo.

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tinha dado a notícia para sua mãe assim que pegou o resultado do exame de sangue, que fez logo no início da manhã de sexta-feira. Lena ficou muito emocionada, já planejando mil mudanças na casa a chegada do neto e depois fazendo mil recomendações para a filha, dizendo que ela precisava se resguardar agora no começo, que precisava marcar uma consulta com a Adelaide, que precisava de vitaminas e continuou uma longa lista por quase cinco minutos. Mas a menina nem se importou, a animação da mãe parecia um reflexo da sua, assim como a de . Ela se sentia sortuda por estar rodeada de pessoas que a apoiavam, que torciam pelo seu sucesso e que a ajudariam em qualquer situação. Só que para completar essa lista, ainda faltavam alguns nomes, três para ser mais exata: Lilly, Anthony e Noah, os amigos que ela carregava para a vida, junto com . Assim que recebeu o resultado, enviou uma mensagem para todos, solicitando um encontro urgente naquela noite, ela não conseguia manter muitos segredos deles e já teria que guardar um enorme.
Encontrou na porta do restaurante assim que chegou, o rapaz já estava lá, como sempre foi o primeiro a chegar. Entraram e resolveram pedir uma mesa para esperar pelos outros, para não correrem o risco de ter que esperar ainda mais. Lilly enviou uma mensagem dizendo que chegava em dez minutos, que estava saindo do metrô, enquanto Anthony e Noah viriam encontrá-los um pouco mais tarde, por causa do trabalho. Eles ainda não sabiam que estava grávida, muito menos que tinha planejado tudo. Ela tinha decidido que, para todo mundo, o bebê seria fruto de uma relação casual que não deu certo, e para a mãe de , o bebê seria de um doador anônimo, já ela não estava disposta a ouvir um sermão todos os dias, pelo restante de sua vida, de várias pessoas diferentes, porque seus outros amigos, principalmente Lilly, não seriam tão favoráveis as suas escolhas como foi. Esse seria o maior segredo que eles já dividiram na vida e ela sentia que podia confiar em , porque ele nunca mostrou que não merecesse sua confiança.
E depois que escureceu, seus amigos começaram a chegar. Lilly foi a primeira, ela veio direto do trabalho, já reclamando que tinham combinado num restaurante e não num bar, porque ela precisava de cerveja, muita cerveja. Mesmo dizendo que era sexta-feira e que ela não poderia estar tão estressada assim, ela apenas respondeu: “o meu trabalho me obriga a beber”. Ela era advogada e trabalhava num enorme escritório de advocacia, mas sempre falava não era isso que queria fazer, seu sonho era montar um escritório simples e ajudar pessoas que não tem como pagar um bom advogado, mas que ela precisava arcar com alguns luxos como comer e pagar aluguel, então precisava aceitar as barbaridades que via no trabalho. Precisar não precisava, mas aceitava porque não conseguiria manter o padrão de vida que tinha em outro emprego. Cerca de vinte minutos depois, Anthony e Noah também chegaram, Anthony tinha estudado com , e Lilly no ensino médio, passaram grande parte da adolescência juntos e levaram a amizade para depois a escola, até mesmo agora, dez anos depois. Já Noah era uma adição tardia, ele conheceu Anthony na faculdade de Arquitetura e eles se apaixonaram quase que à primeira vista. Anthony sentiu um pouco de medo de contar aos amigos que estava apaixonado por outro rapaz, mas quando ele tomou coragem, viu que não tinha nenhum motivo para ter medo antes. Todos disseram que quem ele namorava não fazia diferença alguma, mas que eles estavam felizes por ele amar alguém que o amava de volta. E isso já tinha três anos. Desde então Noah tinha sido integrado ao grupo, como se já fizesse parte desde sempre. Há alguns meses eles abriram o escritório de arquitetura deles e estavam trabalhando como loucos, mas não podiam e nem queriam reclamar, pois estavam fazendo exatamente o que queriam.

- Lilly quer ir a um bar, disse que o dia dela foi estressante demais para apenas um café. – comentou, assim que os rapazes sentaram-se à mesa.
- Quem foi agora? O patrão grosseiro ou o que trai a esposa? – Noah perguntou, com um traço de riso em sua voz.
- Foi o traidor, o grosseiro eu já finjo que não existe. Cada grito ou ignorância dele faz com que eu perca um dia de vida, eu acho. – ela respondeu, sendo dramática como sempre.
- Então por que você continua lá? – Anthony perguntou, como se não soubesse. Na verdade ele nunca perdia uma oportunidade de perturbá-la.
- Porque na luta entre dinheiro e saúde mental, ela escolheu dinheiro. – falou, bebendo um pouco de sua água, enquanto era alvejado pelo olhar mortal de Lilly.
- A sessão de ataques gratuitos já acabou? – ela perguntou, fingindo estar incomodada, mas rindo em seguida. – Eu gosto do dinheiro, eu preciso dele, mas se um dia eu perceber que estou ficando louca...
- Mais? – falou baixo, mas todos ouviram.
- Ok, tudo bem, fui convidada para jantar ou para ser completamente arrasada?
- Para jantar, porque tenho novidades. – a outra amiga respondeu.
- Ótimo, então vamos todos começar a beber, porque eu não quero ir para casa sóbria hoje. – Lilly sorriu forçado, chamando o garçom. – Eu quero uma cerveja. – pediu.
- Duas. – acompanhou.
- Quatro. – Noah falou, após Anthony afirmar com a cabeça que também queria.
- E a senhorita? – o garçom se voltou para .
- Quero um suco de laranja, com pouco açúcar, por favor. – respondeu, sorrindo de lado.
- Suco de laranja? – Lilly estranhou, já que era a sua maior companheira nas bebedeiras. – Você tá bem? – riu, fazendo piada.
- Sim, estou muito bem, aliás. – respondeu, pensando como contaria para eles da gravidez, mas chegando à conclusão que não havia uma forma fácil.
- E qual é a grande novidade? – Anthony perguntou, abaixando os olhos para o menu.
- Minha grande novidade me impede de beber, vai me fazer engordar alguns quilos e deve nascer em cerca de oito meses, um pouco menos... – ela observou as expressões de seus amigos mudarem completamente, Anthony parecia não conseguir respirar, Noah levou uma das mãos à boca e Lilly, bem, Lilly estava reagindo à sua própria maneira. Ela começou a rir descontroladamente, uma risada engraçada e alta, que fez com que as pessoas ao redor, em outras mesas e na sua também, a acompanhassem.
- Você tá grávida? – ela perguntou entre as risadas.
- Quem é o pai? – Noah completou, ainda muito chocado.
- É um cara que eu conheci uns dois meses atrás, eu fui numa festa, ele estava lá, coisas aconteceram... Bem, muitas coisas aconteceram. – apontou para a própria barriga.
- Mas e o nome dele? Você tem algum contato? Vai atrás dele? – Anthony parecia muito confuso e preocupado. Nesse meio tempo, o garçom chegou com os pedidos, Noah agradeceu e ele saiu rapidamente.
- Não, eu vou ter o meu bebê sozinha. – ela deu de ombros, como se fosse uma coisa simples.
- Sozinha? – Lilly perguntou, temporariamente recuperada. – Como assim sozinha? Você tem a gente.
- Eu sei que tenho vocês, por isso não me preocupo. – falou, sorrindo para os amigos. – Soube de tudo hoje e precisei contar logo para vocês. Era como se não fosse verdade até falar.
- ? – Anthony chamou a atenção do amigo, que se manteve calado o tempo todo. – Você é o mais responsável daqui, você não vai dizer que ela precisa achar esse cara? Bem, no mínimo ele precisa saber que será pai, não? – a menina o encarou por longos segundos, onde eles trocaram um olhar quase cúmplice.
- sabe o que ela faz da vida dela, se acha que esse bebê crescerá bem sem um pai, acho que não devemos nos intrometer. – deu de ombros, vendo uma expressão confusa ocupar o rosto de cada um dos três amigos. Todos sabiam que essa não era uma coisa que ele falaria. Numa situação normal, ele seria o primeiro a dizer que tinha que procurar o pai do bebê.
- Quem é você e o que fez com o ? – Lilly perguntou, fazendo balançar a cabeça, rindo.
- Ele já me deu um sermão, já disse todas as suas frases clássicas sobre responsabilidade, mas percebeu não há nada a fazer. Eu quero o meu bebê, mas não quero um pai para ele.
- Ok, então. – Anthony disse, sem parecer muito certo de tudo. – Teremos um bebê.
- Ao bebê da . – Lilly levantou sua cerveja, vendo o seu gesto sendo imitado por todos.
- Ao bebê da . – as vozes repetiram em uníssono.

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Quando chegou ao trabalho na segunda-feira seguinte, viu que tinha um bilhete do seu chefe em sua mesa. No papel dizia para ele procurá-lo em sua sala assim que chegasse, pois havia um assunto importante que precisavam discutir. O rapaz estranhou, mas deixou sua bolsa em cima da cadeira e olhou para ver se a luz da sala estava acesa e saber se Stephan já estava lá, mas estava tudo apagado. Então sentou-se, para esperar até que ele chegasse. Ligou o computador e começou a fazer algumas coisas que deixou pendente da semana anterior, sempre atento as movimentações do corredor. Mandou uma mensagem para , dizendo que o chefe estava atrás dele e que isso o deixou preocupado, porque nunca tinha acontecido. E ela respondeu: “sinto cheiro de promoção”.
Ele riu, porque tinham mudado de posição nos últimos dias, ele tinha se tornado o pessimista e ela a que sempre pensava positivo, talvez fosse isso que faltava. Mas como não conseguiu se acalmar, respondeu alguns emails que estavam não lidos, iniciou uma solicitação de compras de alguns materiais que a fábrica solicitou, mas não tirava os olhos do relógio. Tinha conseguido fazer quase quarenta minutos passar, mas nada ainda do chefe. Suspirou, precisava de um café. Foi até a copa, encontrando Kenny sentado por lá, lendo um jornal, como se não tivesse nada mais produtivo a fazer. Conversaram sobre os jogos do fim de semana, riu das piadas sem graça que ele sempre fazia. Foi bom para distrair um pouco a mente e parar de pensar no que Stephan poderia querer lhe falar. Depois de uns quinze minutos, ele voltou para a sua mesa e assim que chegou, Connor, o rapaz que trabalhava na mesa ao seu lado, e sobrinho do seu chefe, falou:

- Stephan disse que está te esperando lá na sala dele, parece sério. – ele tirou seus olhos do computador no final da frase, apenas para fazer uma careta. – É uma pena, porque eu gostava de trabalhar com você. – Connor riu em seguida, claramente fazendo uma piada. respirou fundo e coçou a cabeça, tentando controlar o nervosismo.
- Obrigado. – respondeu, antes de seguir para a sala do chefe. Caminhou lentamente, cruzando os poucos metros que os separavam. Bateu na porta e esperou que lhe permitissem entrar.
- Entre. – ouviu a voz grave de Stephan do lado de dentro. Abriu a porta, murmurando um “com licença”. – Ah, , ótimo! Precisava muito falar com você, sente-se. – o tom do chefe estava calmo e suave, não parecia com o que alguém usa quando vai demitir alguém. – Tenho uma pergunta muito importante para te fazer: como vai o seu passaporte?
- Não entendi, senhor. – o rapaz respondeu, com a expressão confusa e o mais velho abriu um sorriso, tirando os óculos de grau por um instante e se acomodando melhor na cadeira.
- Você se inscreveu para nosso programa de especialização na sede da empresa na Alemanha, certo? Esse ano nós temos duas vagas, uma é do Connor e a outra, bem, ela é sua, se você aceitar. Sua solicitação foi aceita e precisamos dos seus documentos, diploma da faculdade, histórico escolar, essas coisas. – ouviu as palavras, mas demorou a conseguir assimilá-las. Seu cérebro entrou num processo acelerado, onde só conseguia pensar em duas palavras: especialização e Alemanha. Foram tantos anos tentando, tantos anos sendo rejeitado, que agora ele nem conseguia falar. – Rapaz, você tá bem? Tá meio pálido.
- Eu tô, bem, acho que tô. – respondeu, incerto. Ele queria rir, não sabia se chorava ou se gritava, sentia como se tivesse uma bola em sua garganta.
- Ótimo, então espero sua documentação até sexta, vamos providenciar toda a papelada, passagens, hospedagem e tudo o que você vai precisar. E então é só você se preparar para morar na Alemanha por um ano. Um ano inteirinho na Europa, parece bacana. – Stephan disse a última frase mais para si mesmo do que para , mas o rapaz já estava fora de si mais uma vez, porque, finalmente, tinha caído na real. Ficaria fora por um ano, doze meses, 365 dias. E tinha escolhido o pior momento para isso. precisaria dele com o bebê, ele não podia abandoná-la nesse momento. Porque era isso que ele estaria fazendo, a abandonando. E se ele não fez isso em vinte anos, por que faria agora?


Quatro - "Você vai."

If I could fly, I'd be coming right back home to you
I think I might give up everything, just ask me to

(One Direction – If I Could Fly)


Era quinta-feira e estava sentado na pequena mesa na cozinha de seu apartamento. chegaria em alguns minutos ele continuava encarando os documentos que havia separado para levar para o trabalho, mas que enrolava e fingia que tinha esquecido todo os dias. Stephan o cobrava diariamente, pedindo que Denise, sua assistente, lembrasse o rapaz da documento de duas a três vezes por dia, todos os dias. Aparentemente eles precisavam comprar as passagens e enviar tudo para o escritório da Alemanha. Ele ainda não tinha tido coragem de contar a que tinha sido selecionado, porque ele não sabia se queria ir. Bem, ele queria ir, mas ele também queria ficar. Seu coração pesava só de pensar que não estaria por perto durante a gestação e no nascimento do bebê. Ele sabia que não deveria se apegar, mas ele já tinha se apegado a toda a ideia. Não de ser pai, mas de estar por perto, de dividir tudo com ela. Imaginou indo nas consultas médicas, acompanhando nas ultrassonografias, no parto. Se pegou pensando se poderia ser um dos primeiros a ver o bebê no mundo, talvez, quem sabe, um dos primeiros a segurá-lo. Poder dizer a ele, mesmo sempre que ele pudesse entender, o quanto a mãe o desejou e quão feliz ele estava em ajudar. Mas se ele escolhesse ir, perderia tudo isso. Ganharia conhecimento, grandes chances de crescimento na empresa, desenvolvimento profissional, mas até que ponto ele estava preocupado com isso? Até que ponto isso era a parte mais importante da sua vida? Ele seria uma das dessas que a vida gira em torno do trabalho e apenas disso?

- . – ele ouviu a voz da amiga, logo depois do barulho da porta se abrindo. – Me ajuda aqui. – ela riu, mas o som foi abafado pelo som de algo caindo no chão. Ele chegou à sala, vendo o saco do mercado rasgado no fundo, uma lata de cerveja caída no chão, enquanto a menina se equilibrava para segurar todas as outras coisas.
- O que é isso tudo? – o rapaz perguntou, pegando a sacola de suas mãos com cuidado, para que nada mais caísse e seguindo para a cozinha.
- Comprei umas coisinhas para fazer um jantar pra gente, não posso ficar me entupindo de pizza e outras besteiras agora, né. – disse, colocando a bolsa em cima do sofá e indo atrás dele. – Vou fazer um macarrão, coisa simples.
- Podia ter falado, assim eu pedia para entregar e você não tinha o trabalho. – falou, se encostando a pia e vendo a amiga fazer uma careta.
- Claro que não, eu quero fazer. – sorriu e lado, tirando as coisas da sacola e colocando sobre a mesa. Pegou a panela que iria precisar e tratou de já colocar a água para ferver. ficou a encarando, em silêncio. Ela percebeu que havia algo estranho, mas resolveu esperar que ele se sentisse confortável para falar. – Hey, coloca as suas cervejas e o meu suco na geladeira.
- Ah, tudo bem. – o rapaz respondeu, ainda meio distraído. foi pegar o pacote com frango e viu um envelope em cima da mesa. Olhando para o amigo, ela perguntou:
- O que é isso? – demorou um pouco para responder, tentando inventar uma desculpa qualquer.
- Coisa do trabalho, nada importante. – respondeu. Não era uma mentira, mas também não era verdade. O que tinha naquele envelope era muito importante, mas não parecia querer lidar com aquilo naquele momento. Talvez mais tarde. Ele já tinha adiado a semana toda, mais alguns minutos não faria diferença.
- Hmm. – murmurou, como se acreditasse. – Alguma novidade? – ele se limitou a balançar a cabeça, negando.
- E você?
- Também não, tudo tranquilo. – respondeu, começando a preparar a comida.
- E o bebê? – perguntou, não conseguindo esconder o sorriso.
- Tá bem. Eu contei lá no trabalho, porque vou precisar que alguém me substitua, eles ficaram muito felizes, animados. Vou trabalhar até quando eu aguentar, como deve nascer em junho, eu emendaria a licença com as férias e voltaria no ano seguinte. Achei legal da parte deles, porque não são todos os lugares que me permitiriam isso.
- Sim, você vai ter os primeiros seis meses livres apenas para pensar no bebê, vai ser bom para vocês dois.
- Qual o problema, ? Você não tá bem, eu consigo perceber que você tá me escondendo alguma coisa, que você quer me dizer algo, mas não consegue. Sabe que não precisa disso, não é? Sabe que pode me falar qualquer coisa. – falou, deixando a comida de lado e voltando seu corpo na direção do rapaz, para olhar diretamente para ele.
- Eu sei disso, . Sei disso tudo, só preciso de um tempo, eu vou falar. – respondeu, se sentindo ainda mais desconfortável com a situação.
- Tudo bem, vou esperar você ter o seu tempo. – ela disse, se aproximando e dando um beijo no rosto do amigo. – Agora vai pra sala, essa sua cara amarrada está me deixando enjoada. – um sorriso forçado tomou conta do seu rosto, enquanto o rapaz ria abertamente.

Enquanto cozinhava, se sentou no sofá, com a TV ligada, mas sem conseguir prestar muita atenção. Ele não tinha muito, agora que ela já havia percebido que tinha algo estranho, o tempo era menor ainda. Tentou planejar o que falaria, elaborar um pequeno roteiro em sua cabeça, mas ele só conseguia imagina a fisionomia desapontada da amiga quando fechava os olhos. Ele não queria ser, de forma alguma, motivo para que ela ficasse triste, mas não tinha outra escolha. Precisava ser sincero e falar, mesmo sem ter a mínima noção de como seria sua reação. Em outra situação, ficaria imensamente feliz, porque ela sabia muito bem o quanto ele desejou esse curso, mas agora era diferente. Tudo tinha mudado.

- Macarrão com frango e brócolis. – disse, com uma expressão orgulhosa em seu rosto. – Não é por falsa modéstia, não, mas está com uma cara ótima.
- Tá mesmo. – comentou, sentindo o aroma que vinha do prato. – O cheiro está muito bom.
- Então vamos comer. – ela disse, pegando as bebidas na geladeira e sentando-se a mesa. tentou, mas não conseguiu mais fingir que estava tudo bem. Ele olhou a direção da amiga, suspirando pesadamente.
- Eu preciso te falar uma coisa, estou procurando como desde segunda-feira, mas não consegui pensar em nada, então não vou mais enrolar.
- , fiquei preocupada agora. – respondeu, deixando a comida de lado e prestando atenção no rapaz. – O que aconteceu? – Ele molhou o lábio inferior, mordendo-o por alguns segundos.
- Saiu o resultado da minha inscrição para o curso na Alemanha. – a voz dele estava muito desanimada para o tipo de notícia que daria.
- Ai, meu Deus. – ela disse colocando a mão no peito, já fazendo uma associação mental do que ele tinha que falar e não conseguia, com a sua aprovação. – E qual foi a resposta?
- Eles me selecionaram. – ele falou por fim, vendo um sorriso gigantesco se formar nos lábios de . – Meu chefe falou comigo na segunda-feira e eu tenho que levar toda a documentação até amanhã, mas eu não podia fazer isso antes de conversar com você. Acho que vou recusar.
- O que? – a voz da menina soou estridente e o tom completamente incrédulo. Ela apoiou as mãos na mesa, olhando para com uma expressão que beirava o choque. – Como assim você não vai? Você fala disso há quatro anos, sempre disse que é o seu maior sonho, sempre reclamou quando não era selecionado. Inclusive estava reclamando disso semana passada. O que mudou? O que pode ser maior e mais importante que isso, ?
- Você. – ele respondeu, de forma simples, fazendo a menina desmontar por dentro. – Eu sinto como se devesse ficar aqui com você, . Sinto como se você precisasse de mim. E quando eu penso no bebê, vejo que esse é o pior momento para ficar um ano longe. Serão tantas coisas acontecendo e eu prometi que ficaria ao seu lado. Nunca quebrei uma promessa com você e não estou disposto a começar agora.
- . – ela disse, com os olhos marejados, estendendo uma das mãos por cima da mesa, para que ele pegasse. – Eu não posso deixar que você desista dos seus sonhos por mim. Seria muito mais do que egoísmo...
- Mas eu quero fazer parte disso, quero estar aqui quando o bebê nascer e...
- Você vai fazer parte disso, quer dizer, você já é parte disso. Esse bebê é metade seu e eu nunca vou esquecer isso, mas você precisa esquecer. – voz de estava baixa e calma, como se ela estivesse se controlando para não chorar. – Eu pedi que você fosse meu doador, não o pai do meu bebê. Você será como um tio para ele ou ela e tios não desistem dos seus sonhos por seus sobrinhos. Muito pelo contrário, eles os perseguem, fazem desse sonho realidade, para ter algo bom para dar de exemplo no futuro. Se desistir disso por mim, eu vou me sentir mal pelo resto da minha vida. Porque você me ajudou a realizar o seu sonho, mas aqui estou eu, te impedindo de realizar o seu.
- Você não está impedindo nada. – ponderou, mas a menina balançou a cabeça, negando, enquanto passava a mão pelos olhos, secando algumas lágrimas que caiam.
- Ai, que droga, meus hormônios já estão todos descontrolados e essa gravidez mal começou. – brincou, rindo sem graça e respirando fundo para tentar se acalmar.
- Não precisa ficar assim por isso, . Não é importante. – tentou argumentar, mas não parecia muito interessada em suas desculpas.
- Se eu não estivesse grávida, você não pensaria duas vezes antes de aceitar. Ao invés de estarmos aqui tendo essa conversa, estaríamos num bar, bebendo todas, mesmo amanhã sendo dia de trabalho. Você teria me contato no segundo seguinte que ficou sabendo e as minhas lágrimas seriam de alegria. E, sim, isso é importante. Isso é muito importante para você como profissional e como pessoa. Porque não há nada melhor no mundo do que conseguir realizar um sonho antigo, meu amigo. E nãohá problema nenhum em ser um pouco egoísta uma vez na vida, caso seja isso que você esteja pensando. Pense em você primeiro, para variar. Tá sempre tão preocupado com o que os outros vão pensar, como vão reagir, como vão viver sem você. Então para e pensa como será pra você viver sem isso. – respirou fundo, fechando os olhos por alguns segundos. – Você vai, . Você vai, nem que eu tenha que ir amanhã, pessoalmente, levar seus documentos e depois te arrastar para dentro do avião. Você vai porque daqui a uns anos, vai olhar para trás e pensar na oportunidade que deixou passar. Você vai porque eu estou extremamente orgulhosa de você agora e sei que vai fazer a coisa certa. E, principalmente, você vai porque você quer ir. Se não quisesse, já teria recusado, não teria reunido tudo o que precisava naquele envelope.
- Eu quero ficar, . – disse mais uma vez, vendo a amiga sorrir de lado, não acreditando em nenhuma palavra do que ele dizia.
- Você pode ficar repetindo isso quantas vezes quiser, até conseguir convencer a si mesmo. Porque a mim você não vai conseguir.

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Assim que chegou ao trabalho no dia seguinte, deixou o envelope com os documentos em cima da mesa de Denise, com um bilhete preso em cima “desculpe a demora”. Depois da conversa que teve com na noite anterior, ele pensou muito durante quase a noite toda, chegando à conclusão que ele não podia, simplesmente, negar essa oportunidade. Era algo único pra ele, uma chance que tinha de crescer profissionalmente. Então se permitiu ser egoísta, pelo menos em seu ponto de vista, pensar em si, apenas em si mesmo, antes dos outros. Se permitiu escolher algo que seria bom para si, mesmo que isso pudesse machucá-lo um pouco no começo. E era um ano, só um ano.
Assim que Stephan passou pela mesa dele, mais tarde no mesmo dia, dizendo que a sua documentação já tinha sido conferida, aprovada e tinha seguido para o financeiro, para providenciarem as passagens e todos os demais tramites. Tudo dando certo, ele e o Connor viajariam no começo do ano seguinte, logo após as festas de fim de ano. O que ainda lhe daria um pouco mais de um mês por aqui ainda. Tentou parecer animado, mas parte dele estava triste em partir. nunca tinha ficado tanto tempo longe de casa, dos pais, dos amigos, de . Ele não sabia como seria ficar sozinho em outro país, sem conhecer ninguém. Não era uma pessoa que fazia amizades com facilidade, era mais do tipo de mantê-las. Quem fazia amigos por onde passava era , como se ela tivesse uma luz dentro dela que atraia as pessoas e depois ninguém mais conseguia se afastar. Ele pegou o celular, enviando uma mensagem para a amiga:

“Tudo certo, embarco no começo do ano que vem.”
, 10:48


Encarou as duas fotos que tinha numa parte mais escondida de sua mesa, uma dele, , Lili, Anthony e Noah, no seu último aniversário. Eles estavam completamente bêbados, mas aquela era uma das fotos que ele mais amava na vida. E na outra estava apenas ele e , deveriam ter uns dezoito anos na época, e estavam no baile da escola. Tiraram fotos numa daquelas máquinas que saem uma sequência de fotos. Numa delas eles estavam fazendo uma careta muito engraçada, ele sempre olhava aquela foto quando precisava relaxar um pouco. O telefone vibrou em cima da mesa e o nome de apareceu no visor:

“Eu sabia que você ia tomar a decisão certa.”
, 10:55

sorriu de lado, feliz com o fato de estar tudo bem entre eles. O aparelho vibrou de novo, por duas vezes seguidas.
“Precisa contar aos outros, vamos comemorar. Amanhã na sua casa, às 20hs. Vou avisá-los.”
, 10:59

“Ah, comidas por sua conta, rs.”
, 10:59

riu, balançando a cabeça, antes de responder.
“Ok, comidas por minha conta.”
, 10:59


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, , Lilly, Anthony e Noah estavam sentados ao redor da mesa de centro na sala do apartamento de . Comendo pizza, falando besteiras e rindo sobre qualquer coisa. Já eram quase duas da manhã, mas ninguém parecia que iria embora nem tão cedo. disse que ele teria que contar a novidade para os outros três, mas que podia esperar pelo momento em que ele se sentisse mais confortável. Só que a única pessoa que ele tinha algum medo de machucar com essa notícia era , então ele não tinha mais medo de contar nada. Seus pais não paravam de falar sobre isso desde o dia anterior, quando o rapaz contou, depois de entregar a documentação. Era capaz de metade da cidade já saber, porque Kathy e John estavam extremamente orgulhosos do filho e não perdiam uma oportunidade sequer de falar sobre a sua nova conquista.

- Eu tava aqui pensando. – Lilly falou, colocando sua cerveja no chão e se recostando no sofá. – Será que depois que o bebê da nascer, a gente vai conseguir fazer coisas assim? Ficar acordado até tarde, falando um monte de coisa sem sentido, enchendo a cara e nos entupindo de pizza?
- Bem, enchendo a cara ela já não está, então já começou a mudar. – Anthony falou, rindo. Lilly rolou os olhos, porque ele tinha entendido o ponto dela, mas estava apenas perturbando.
- Você me entendeu, Tony. Porque, assim, quando um bebê nasce, as prioridades mudam, né...
- Vocês podem ficar tranquilos, sempre serão prioridades na minha vida. Talvez tenhamos que mudar o local e horário dos encontros, mas nada vai mudar drasticamente. Eu só vou ter um bebê, então nós vamos nos reunir para beber, comer besteiras e falar sobre coisas aleatórias, mas também trocar algumas fraldas.
- Ah, essa parte eu dispenso, posso ficar só com as brincadeiras? – Noah falou, fingindo uma careta.
- Tudo bem então, se vocês estão me prometendo que nada vai mudar, eu acredito. – Lilly disse, dando de ombros e bebendo mais um gole de sua cerveja. e trocaram um olhar cúmplice que Anthony percebeu.
- O que foi? – ele perguntou. A menina mordeu o lábio inferior e deu de ombros, como se dissesse: “agora não tem mais jeito, né?”
- Vocês sabem que eu sempre me inscrevo para o processo seletivo do curso especialização que a empresa oferece na Alemanha, certo? – perguntou retoricamente, vendo os amigos se sentarem de forma mais reta e prestarem atenção no que ele estava dizendo. – Esse ano tinham duas vagas e... eu consegui uma. – Lilly arregalou os olhos, Anthony deixou os lábios se abrirem num sorriso, sendo acompanhado por Noah.
- Como assim? Como foi isso? Explica direito. – Anthony pediu, extremamente animado.
- Na segunda-feira o meu chefe pediu que fosse até a sala dele e disse que a vaga era minha, que eu tinha até ontem para levar a documentação, porque eles dariam entrada ao processo de visto, compra de passagem, alojamento e tudo mais.
- Pergunta importante. – Lilly falou, chamando a atenção de todos. – Por que ela soube antes de nós três? – perguntou, apontando na direção de , que riu, balançando a cabeça lentamente. – Não estou gostando nadinha dessa história de vocês dois dividindo segredos. Nós somos um grupo. Um grupo! Se forem começar a dividir em panelinhas, eu vou sobrar. Porque já temos esse casalzinho aqui. – ela olhou para Anthony e Noah. – A gente finge que gosta deles, mas é chato quando ficam de conversa paralela. Agora vai começar vocês dois também?
- Lilly, não precisa ficar com ciúme. – brincou, vendo a amiga a olhar de cara feia.
- Não é ciúme, eu só gosto das coisas certas.
- Vamos voltar ao que interessa? Depois nós lidamos com o ciúme dela. – Noah disse se voltando para . – Caramba, eu to muito feliz por você. – ele se levantou, indo até onde estava, dando-lhe um abraço apertado. – Eu ouço você falar sobre isso desde que eu te conheci, lembro de todas as suas tentativas, basicamente. E ver você conseguindo isso agora e como a realização de um sonho. Parece até que é meu sonho também. – ele mordeu o lábio inferior. Noah era uma pessoa muito sensível, ele se solidarizava muito com tudo o que as pessoas passavam. Se você tinha um problema, qualquer um, que não conseguia solucionar, era só falar com ele. Se não conseguisse te ajudar a resolver, pelo menos você teria alguém para dividir aquele fardo. E quando era algo bom, como essa notícia, sempre ficava feliz como se fosse com ele, então era sempre maravilhoso dividir as coisas com ele, porque você sentia que ele se importava de verdade, não era apenas fachada.
- Obrigado, Noah. – falou, apoiando a mão no ombro do amigo. – Eu estava inseguro sobre ir ou não, porque eu não sabia se queria deixar tudo aqui, deixar vocês. Então eu conversei com a e ela abriu os meus olhos.
- Você realmente pensou em não ir? – Lilly perguntou, enquanto levantava e caminhava até onde o rapaz estava. Ela passou o braço pela cintura dele, apertando o máximo que podia. – Parabéns, meu amigo. Você merece. – sussurrou em seu ouvido.
- Pensei. – confessou. – Tanto que eu fiquei sabendo na segunda e só entreguei a documentação ontem. Tinham muitas coisas na minha cabeça, eu só conseguia pensar que seria um ano longe de todo mundo. E eu nunca passei mais do que uma semana longe de vocês.
- . – Anthony disse, também se aproximando. – Não é como se você estivesse indo para sempre, cara. É um ano, passa muito rápido. E é como o Noah disse: é a realização do seu sonho, mas acho que cada um de nós aqui sente como se fosse um pouquinho seu também. Nós dividimos tudo isso com você. Estou tão orgulhoso.
- Pode ser que seja esse o momento de realizações pessoais no grupo. Eu com o meu bebê, por não? com sua especialização, Anthony e Noah com o escritório deles. Só falta você, Lilly. – disse, vendo a amiga a olhar pelo canto dos olhos. Não havia um tom acusatório ou de cobrança em sua voz, pelo contrário, ela soava até mesmo um pouco preocupada. – Talvez esse seja o empurrãozinho que sempre falta para você deixar aquele emprego louco que você tem e fazer algo que realmente goste, ou que te faça feliz.
- Eu não vou mentir, não. – a menina falou, ainda abraçada a . – Eu penso nisso todos os dias. Acho que só preciso de coragem mesmo. E talvez um pouco de apoio. – ela deu de ombros.
- Você tem a gente. – Noah disse, sorrindo em sua direção.
- Eu sei disso e agradeço todos os dias.
- Não querendo acabar com o lindo clima que temos aqui, mas acho que devemos começar a pensar numa coisa. – falou, chamando a atenção.
- O que? – perguntou, com um pingo de curiosidade em sua voz.
- Sua festa de despedida. – ela sorriu de lado, vendo o rosto dos amigos se iluminarem. – Já tenho muitas ideias.
- Quando você vai, ? – Lilly perguntou, levantando a cabeça para encará-lo.
- Acho que na primeira semana de janeiro.
- Ótimo, temos tempo para planejar uma festa maravilhosa. – ela respondeu, visivelmente animada.
- Não precisa de festa. – o rapaz falou, mas sendo altamente ignorado por todos os amigos.
- Quando um dos nossos melhores amigos consegue uma oportunidade de estudar na Alemanha, nós comemoramos, sim. Está nas regras. – Anthony comentou, fazendo todos rirem e concordarem.
- Comemorar a viagem do e o bebê da . – Noah exclamou. e se olharam, como se comunicasse somente pelo olhar. Pra eles não tinha necessidade nenhuma de festa, mas se conheciam bem seus amigos, eles fariam questão. E, bem, não faria mal comemorar um pouco, não é mesmo?


Cinco - Lembra de Mim

We keep this love in this photograph
We made these memories for ourselves

(Ed Sheeran - Photograph)



10 semanas de gestação – 7 semanas para a viagem

estava deitada na mesa de exames, pronta para sua primeira ultrassonografia. Ela tinha sonhado com esse momento desde que tinha descoberto que estava grávida. Seria a primeira vez que veria e ouviria o seu bebê. O coração estava acelerado e ela se perguntava se alguém conseguia ouvi-lo, mesmo que fosse de longe, porque ela jurava que conseguia ouvir, como se ele batesse fora do seu corpo. Como se soubesse que a amiga estava nervosa, tocou seu rosto, fazendo com que ela o olhasse, e sorriu de lado, estendendo uma das mãos. Eles entrelaçaram os dedos e a menina tentou se acalmar, por mais que soubesse que não seria tão fácil assim. Lena, a mãe da menina, também estava lá e o coração pesada de nervosismo. Não pelo exame, mas por ver a filha naquele estado. estava feliz, claro, mas estava sempre preocupada, sempre pensando em muita coisa ao mesmo tempo, gastando sua energia em assuntos que não tinha necessidade no momento, como dinheiro. É claro que era importante, é claro que deveriam se preocupar, mas não no começo da gravidez. Era tudo tão recente para ela ter aborrecimentos. Então Lena tentava fazer tudo parecer mais leve, mais fácil, por mais que isso acabasse soando como displicência por parte da filha. Bem, pra ela não era displicência, era uma forma diferente de preocupação.
estava em meio aos preparativos para a viagem, que seriam em menos de dois meses. Nesse tempo ainda teriam as festas de final de ano e a tal festa de despedida que cismaram que fariam e que já tinham até marcado. Seria no apartamento do Anthony e do Noah, que eles tinham acabado de reformar e que tinha muito espaço, já tinha até uma data marcada: sábado, dia 05 de janeiro. E ele viajaria na segunda seguinte, dia 07. Tentava não pensar muito nisso e aproveitar o tempo que ainda tinha perto dos amigos, mas toda vez que olhava para , ele lembrava da viagem e se sentia culpado, por mais que ela dissesse que não era para que ele se sentisse assim. Então ele acabava se sentindo duas vezes culpado. Mas quando via a animação da amiga com a sua viagem, listando coisas que ele não podia deixar de fazer, lugares que não poderia deixar de conhecer, acabava se sentindo um pouco melhor. dizia que ele teria que aproveitar esse tempo fora pelos dois, porque ela não iria poder fazer algo do tipo nem tão cedo. Então a menina acabava mandando sempre um lugar novo que viu na internet e que ele teria que ir, tirar uma foto dele, depois uma foto de uma foto dela e mandar, assim ela sentiria com se estivesse participando de tudo também.

- Olá, bom dia. – a médica disse, ao entrar na sala. – Meu nome é Rachel e vou fazer o seu exame. , certo? – perguntou, olhando a ficha antes de se sentar.
- Isso mesmo. – respondeu já deitada na maca, com os olhos brilhando de excitação.
- O exame é simples, uma transvaginal normal, vamos ouvir o coração do bebê, não se preocupem ou se assustem, ele costuma bater bem rápido mesmo. – a doutora deu mais uma olhada na ficha, antes de continuar. – Aqui informa que você está com cerca de 10 semanas de gravidez, correto?
- Certo, fiz dez semanas ontem, contando pela data aproximada do exame de sangue.
- Ok, então temos que fazer uma ultrassonografia transvaginal. Fique numa posição confortável, por favor. – pediu, enquanto higienizava as mãos e colocava as luvas. – Pernas no apoio. – colocou uma perna de cada lado numa parte elevada da maca. A médica pegou um aparelho de forma quase fálica, com uma ponta afinada, colocou uma camisinha na ponta e lambuzou bastante com uma espécie de gel. Se aproximando de , ela colocou o aparelho por debaixo do roupão que ela usava.
- Pera aí, isso vai... – falou rápido, antes de perceber o que ia acontecer. – Ah, sim. Vai. – A amiga reprimiu um sorriso, mordendo o lábio inferior, enquanto ele a encarava, completamente chocado. – Isso não dói? – perguntou, preocupado.
- , tá tudo bem. – ela disse, tentando tranquilizá-lo. – Não dói.
- Eu só não estava preparado. – o rapaz comentou, olhando para Lena pelo canto dos olhos, mas a mais velha estava com os seus presos ao pequeno monitor. Até que um som especialmente diferente chamou a atenção do rapaz. Os batimentos eram fortes e acelerados, como um bater de asas de uma borboleta. E tudo ao redor se transformou em nada, porque ele só tinha atenção para o barulho e a pequena forma que apareceu no monitor. Era minúsculo, parecia um amendoim, mas pra ele... era o amendoim mais lindo que já tinha visto na vida.
estava olhando para o monitor com uma expressão que beirava a incredulidade. Ouvir o som do coração de seu bebê batendo foi algo surreal. Foi como ter mais do que certeza que ele estava ali, que ele existia. E depois ver aquele pedacinho de gente, em plena formação, dentro do seu corpo, era como se ela, finalmente, tivesse tomado ciência do que estava acontecendo. Que era verdade. Que seu bebê estava a caminho. Agora não era um exame ou um papel que dizia que seu bebê estava em sua barriga. Ela estava vendo. Ele era real. As lágrimas se formaram em seus olhos e ela não conseguiu segurar, deixando-as rolarem livres pelo seu rosto, uma após a outra. , vendo o estado da amiga, se aproximou, puxando uma cadeira que tinha por perto e sentando-se ao seu lado. Dessa forma, eles ficavam quase na mesma altura. Ele encostou sua cabeça a dela e, quando viu, também estava chorando. Sabia que não podia se envolver naquela situação. Que não podia se sentir diretamente ligado àquela criança, mas isso não era algo que ele poderia controlar, ou era?
- Desculpa atrapalhar esse momento, eu sei que é sempre muito emocionante. – a doutora disse, chamando a atenção de todos. – Só queria dizer que tudo está normal. O saco gestacional está em perfeitas condições, os batimentos cardíacos do bebê estão normais. Nada a se preocupar, tudo está da exata forma que deveria. Se vocês olharem aqui. – ela apontou num lugar específico da tela. – Poderão ver o desenho da coluna se formando. Ele está com cerca de três centímetros agora, o que também é dentro do padrão. Vocês tem alguma pergunta? – ela disse, vendo os dois mais jovens apenas balançarem a cabeça, negando. Enquanto a mais velha sorriu, vendo a expressão de felicidade estampada no rosto da filha.
- Querida, pede uma imagem para levar e mostrar pra todo mundo. – Lena disse, vendo acenar com a cabeça, afirmando rapidamente.
- Sim, será que é possível? – perguntou.
- Claro, deixa eu imprimir uma extra, fora do resultado do exame. – a médica disse, antes de mexer no computador novamente. Assim que a pequena imagem saiu da impressora, ela foi parar nas mãos de , que olhava feito uma boba para a mesma. pegou o papel logo depois, encarando aquele serzinho em formação e pensando como ele poderia ser tão importante mesmo antes de vir ao mundo. Era como se estivesse destinado a ser grande. E depois que tomou a imagem em suas mãos, ele não devolveu para , que ficou com o braço esticado na direção do amigo, pedindo de volta.
- , me devolve a foto do meu útero, por favor. – pediu, com um vestígio de riso em sua voz.
- Não precisam brigar. – a Rachel disse, colocando outra imagem para imprimir. – Eu dou outra para a mãe, deixa essa com o pai babão. – Lena riu, enquanto os dois se olharam, assustados e preocupados.
- Não, querida. Esse não é o pai do bebê, é só um amigo da minha filha. – a mãe de tratou de responder, ainda rindo. Os dois tentaram relaxar, levar na brincadeira, mas viram que a médica percebeu o clima estranho que ficou entre eles e isso não podia acontecer.
- Sim, ele é o padrinho do bebê. – completou, sorrindo de lado.
- Ah, me desculpe pela confusão. – ela disse, enquanto dava imagem para a menina. – Pelo menos esse bebê terá um excelente padrinho.

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13 semanas de gestação – 4 semanas para a viagem

- Eu não sei por que ainda insisto em sair de casa com vocês. – falou, sentando num banco que tinha no meio do corredor do shopping. – Minhas costas doem e eu não quero ficar andando de um lado para o outro.
- Mas a culpa não é minha, você sabe que isso foi ideia da Lilly. – falou, apontando para a amiga.
- Ah, não sejam chatos. Vocês estavam reclamando que não tinham roupa. Um vai passar um ano fora e só vem velharia no armário. A outra tá grávida e vive choramingando no meu ouvido que nenhuma roupa serve mais. – ela olhou na direção de antes de continuar. – Alguma calça jeans ainda cabe em você? – a amiga apenas negou com a cabeça. – Você está satisfeita em andar pra cima e pra baixo com essa calça de moletom velha? – a outra negou novamente. – Então levante desse banco e vamos até a loja achar alguma coisa para você.
- Olha, acho que você deveria ser mais gentil com uma mulher grávida. – falou, vendo a amiga rolar os olhos.
- Não se ela estiver sendo absurdamente chata. – Lilly fez uma careta, rindo em seguida. Elas andavam mais a frente, enquanto caminhava atrás, carregando as sacolas de todas as roupas que as amigas lhe obrigaram a comprar. Se ele estivesse sozinho, não teria comprado um terço daquelas peças, mas elas ficaram lembrando incessantemente como seria importante ele se vestir bem no tempo que ficasse fora. Ele não via motivos para isso, mas resolveu aceitar a sugestão.
- Olha, eu vou falar uma coisa muito importante. – disse, vendo os olhares atentos dos amigos nela. – Eu estou com fome.
- Eu quero que você me diga algo novo agora, . – Lilly riu, balançando a cabeça. – Podemos matar a fome do bebê, pela décima vez hoje, antes de comprar a sua calça. Vamos.
Sentaram numa mesa na praça de alimentação, enquanto a que estava grávida devorava um sanduíche – quase – saudável, os outros dois tomavam apenas um café. não estava conseguindo controlar a fome nos últimos dias, mas sua médica, Adelaide, disse que era normal, que o bebê estava crescendo e agora o ritmo aceleraria, a ponto dela começar a notar as mudanças em seu corpo com mais facilidade ao passar dos dias. Agora que ela já estava com quase quatro meses de gravidez, seu corpo já estava mais arredondado e uma pequena protuberância já estava evidente em seu ventre. Sempre que parava em frente ao espelho, ficava se olhando e imaginando como seria quando seu bebê já estivesse grande dentro dela, quando sua barriga já estivesse enorme. Sonhava tanto com esse momento, que se pegava estufando um pouco, querendo que já estivesse visível o bastante.
- Então, mamãe. – Lilly falou, chamando a atenção da amiga. – Quando vamos saber o sexo do bebê para comprarmos o enxoval?
- Quando nascer. – respondeu, simplesmente, limpando o canto da boca que estava sujo de alguma coisa.
- Como assim quando nascer? Eu não acredito que você vai me deixar na curiosidade até lá. Eu preciso saber se eu serei titia de uma menina ou de um menino. – Lilly parecia totalmente incomodada com a escolha de .
- Isso muda alguma coisa? Não vamos amar esse bebê independente do sexo? – ela perguntou, de forma retória, vendo a outra rolar os olhos, vendo que seu argumento não tinha muito sentido. – Então não venha questionar a minha escolha. Eu só quero saber se está saudável, o restante quero surpresa. Podemos comprar tudo colorido, vai ficar ainda mais lindo.
- Ok, ok. Tudo colorido. Posso começar a planejar a reforma com os meninos? – Lilly falou, como se fosse algo simples.
- Que reforma? – respondeu, completamente confusa. A amiga sorriu, olhando para que também riu, cúmplice. Ela sabia que estavam escondendo algo dela, mas já tinha cansado de tentar descobrir, quando fosse o momento, ela descobriria.
- É o nosso presente pra você e pro bebê, vamos reformar o quartinho pra ele, deixar do jeito que você disse que queria, mas que não sabia como fazer. Anthony e Noah vão fazer o projeto, eles já tem todos os conhecidos para fazer as mudanças, já eu e a Lilly vamos ajudar na parte da decoração. – respondeu, olhando a amiga pelo canto dos olhos, prestando atenção em todas as suas reações.
- Vocês não precisam fazer isso. – ela disse, mordendo o lábio inferior, como se quisesse chorar.
- A gente sabe que não precisa, mas a gente quer fazer. – Lilly disse, dando de ombros e bebendo o restante do seu café. – Já está esquematizado, não precisa se preocupar. Só tem uma coisa: você só vai ver quando estiver pronto. Acho que a gente te conhece bem o bastante para fazer as coisas ao seu gosto.
- Eu não posso deixar que vocês gastem o dinheiro de vocês comigo. Não posso.
- A gente não vai gastar com você, vamos gastar com o bebê, então pode. – respondeu, fazendo a amiga rir. – , não se preocupa com isso. O que a gente vai fazer e qualquer coisa que vier a fazer no futuro, é de coração. Sempre vai ser de coração. Nós te amamos e vamos amar esse bebê da mesma forma, talvez até mesmo um pouco mais. Então esquece o dinheiro e foca no fato de que você terá o quartinho exatamente da forma que imaginou. Isso sim é importante.

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15 semanas de gestação – 2 semanas para a viagem

abriu a porta do apartamento de , encontrando uma pequena confusão na sala, o que não era nada característico dele. Estranhou logo de cara, até que viu as malas abertas no canto e logo entendeu que ele, provavelmente estava arrumando as coisas que levaria na viagem. Já estava tão perto. Já era Natal e com todas as comemorações que estavam por vir, ele não queria deixar nada como fazer em cima da hora. Típico de . Ela tinha ido até a casa da Lilly para levar o presente da amiga e tinha combinado que passaria na casa do rapaz na volta, assim iriam para a casa dela. Eles sempre comemoravam juntos, desde pequenos, já que suas famílias eram vizinhas e se reuniam. E esse ano não seria diferente. Fora que tinham muitas novidades para comemorar: o bebê, a viagem do rapaz. Estavam todos muito animados. Assim que ela chegou, ele já estava pronto e eles saíram, pegaram um táxi na porta e em alguns minutos já estavam na casa dela.
Ela foi tomar um banho para se arrumar, colocou um vestido vermelho bem soltinho, que acabava por deixar a pequena barriguinha bem marcada. Arrumou o cabelo prendendo apenas de um lado e passou um batom, se sentindo mais linda do que nunca. Quando voltou ao quarto, encontrou o rapaz sentado em sua cama, com dois embrulhos em seu colo. Estranhou um pouco, mas logo caminhou até se sentar ao lado do amigo.

- O que foi? – perguntou, com um ar de curiosidade em sua voz.
- Quero te dar seu presente de Natal. – disse, segurando a pequena sacolinha em sua mão. – Mas antes, vou dar o do meu afilhado. – estendeu a caixa amarela, com balões coloridos na tampa.
- Mas ainda não é Natal, . – a menina brincou, mas mesmo assim pegou o presente.
- Eu estou ansioso e prefiro dar meu presente sem ninguém por perto. – ela abriu a caixa com cuidado, desembrulhando os papeis que protegiam o conteúdo. Quando tirou, era um pequeno macacão branco, bem delicado, com um pequeno bordado na região do tronco e um tecido tão macio, que parecia puro algodão.
- , isso aqui é... maravilhoso. – a menina sorriu, olhando para o amigo, antes de se aproximar e passar os braços ao redor do seu pescoço, beijando sua bochecha.
- Como não sabemos o sexo, eu resolvi não arriscar e comprar branco mesmo. É neutro, é básico e não terá nenhum tipo de problema.
- É a primeira roupinha do meu bebê, eu ainda não comprei nada. Estava esperando pra comprar tudo mais pra frente. Nada mais especial que o primeiro presente se seu, não é? Logo você, um dos responsáveis por tudo isso. – disse, vendo o amigo sorrir de lado e tocar seu rosto levemente.
- , eu só quero dizer. Deixar ainda mais claro, se for possível, que eu estarei do seu lado em tudo, em todos os momentos, em qualquer circunstância. Mesmo quando eu tiver longe, espero que você ainda consiga me sentir por perto. E é por isso que eu comprei isso aqui pra você. – pegou uma pequena caixa dentro da sacola, colocando nas mãos da menina, que abriu rapidamente. Dentro tinha um colar dourado, com a corrente bem fina e discreta, e com um pingente de relicário, em formato oval e com aplicações de pequenas pedrinhas brilhantes. – Abre o pingente. – ele pediu e a menina fez.
Dentro tinham duas fotos: uma de quando eles tinham cerca de seis anos de idade e estavam brincando na praia, numa das primeiras viagens que fizeram juntos. estava agarrada ao pescoço de e sorria abertamente, mostrando os dentes que faltavam. Ela amava muito aquela foto e o rapaz sabia; Do outro lado tinha uma das últimas fotos que tinham tirado, tinha sido na última reunião de todos os amigos, na casa de , para contar sobre a viagem. Havia todo um significado especial, porque aquela era a primeira foto em que eles eram, na verdade, três, num sentido bem amplo em entendimento. Por mais que tentasse negar ou ignorar o fato, sempre seria uma parte do bebê e uma parte importante. Sem ele, aquela criança não existiria e ela tinha plena noção disso, tanto que agradecia ao amigo mentalmente todos os dias de sua vida. E agora ela poderia carregar consigo, sempre, uma lembrança de como tem sido importante em sua vida e em momentos tão diferentes. Desde uma viagem simples quando crianças, até mesmo a realização do maior sonho enquanto adultos.
- , que coisa maravilhosa. – ela exclamou, vendo as fotos. Seus olhos se encheram de lágrimas, que ela não conseguiu segurar. – Eu te amo tanto, eu vou sentir tanto a sua falta. Mas a mesma quantidade de saudade que eu já sinto, é o que eu sentirei de orgulho. Porque você merece tanto isso. Merece tanto ser feliz, ter seus sonhos sendo realizados. E por mais que eu não seja uma parte tão importante do seu, quanto você é do meu, espero que quando você olhe para trás, lembre de mim, lembre de nós dois.
- Eu não vou precisar olhar para trás pra lembrar de você, . Porque você vai estar sempre comigo. Eu vou, sim. Mas eu vou voltar. – eles se abraçaram novamente, ficando na mesma posição por alguns segundos. Era como se eles estivesse se despedindo, um pouco a cada dia.
- Coloca em mim, por favor. Eu nunca mais vou tirar esse colar. – a menina pediu, virando de costas e para que o rapaz pudesse prender o fecho. – Agora eu vou te dar o seu presente de Natal, já que você adiantou todo o processo. Só que comparado com o seu, o meu presente parece, mas também é totalmente diferente. – falou, enquanto levantava e abaixava, para pegar uma caixa de presente que estava debaixo da cama. Era preta, com uma fita dourada amarrada em volta. – Você sabe que eu não gosto muito de presentes impessoais, então eu fui bem à fundo para fazer esse presente pra você. Porque, sim, eu que fiz. – comentou, antes de colocar a caixa nas mãos do rapaz.
Ele desfez o laço e tirou a tampa, vendo uma espécie de álbum de fotografias. Logo na capa, tinha “since 1995”, que foi o ano em que eles se conheceram, escrito a mão, numa letra bem desenhada. Conforme ele passava as folhas, encontrava fotos, desenhos e até mesmo alguns objetos que remetiam a coisas que os dois passaram juntos ao longo dos últimos vinte e dois anos. Tinha uma concha da viagem que fizeram até a praia quando tinham oito anos, tinha um desenho do convite do baile de formatura da escola, o símbolo das fraternidades que fizeram parte na universidade, fotos, fotos e mais fotos. De todos os momentos que viveram juntos, até mesmo uma cópia da imagem do ultrassom do bebê que estava a caminho. Era como uma pequena viagem ao tempo.
- Ai, meu Deus, . – exclamava, a cada página diferente que olhava. Ele levava uma das mãos à boca e fazia uma expressão pensativa, como se estivesse relembrando cada uma das situações. – Que presente maravilhoso.
- Isso pra é você olhar cada página dessa e ver a quantidade de histórias que já temos juntos. E as páginas em branco do final, são para mais quantas o futuro nos reservar.

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16 semanas de gestação – 1 semana para a viagem

A festa de Ano Novo tinha sido programada para o apartamento da Lilly dessa vez. Ela estava muito feliz que tinha conseguido um namorado novo, o Scott, e dessa vez parecia que era um cara legal. Ele também era advogado, mas de um escritório diferente, que era foco em pequenas causas, para pessoas que, provavelmente, não teriam dinheiro para arcar com os custos de uma boa defesa, caso necessitassem. O exato tipo de trabalho que Lilly queria, mas não tinha coragem de largar o emprego para fazer. e chegaram lá por volta das oito da noite para ajudar a amiga na arrumação, Anthony e Noah já estavam lá. Eles penduraram balões, colocaram as bebidas para gelar, ligaram a música nas alturas, até mesmo uma iluminação especial a menina tinha preparado. A hora foi passando e as pessoas começaram a chegar, se espalhando pelo apartamento, comendo, bebendo, conversando e, principalmente, se divertindo.
Todos os diversos colegas do grupo que ainda não sabiam da gravidez de , acabaram ficando sabendo durante a festa, já que sua barriga estava quase evidente, bem redondinha por baixo do vestido branco que a menina tinha escolhido. Ele era mais apertado e reto, o que fazia com que a barriga ficasse completamente marcada na peça. Todos vinham cumprimentar e parabenizar pela gravidez, alguns faziam a famigerada pergunta a respeito do pai e sempre respondia da mesma forma: “serei só eu.” É claro que não era verdade, porque ela tinha muita gente ao seu lado, mas era uma forma de tirar as pessoas do seu pé. Enquanto todos bebiam até começar a perder um pouco da compostura, continuava completamente sóbria, comendo mais do que precisava, mas não se importava. também não estava bebendo muito, só o de sempre. Já Noah e Lilly, estavam completamente bêbados antes mesmo das onze da noite, tendo ela Scott atrás para evitar qualquer acidente e Anthony, que já estava quase no mesmo estado que o namorado também.

- Você acha que eles conseguem ficar acordados até a virada do ano? – perguntou a , que estava parada ao seu lado, assistindo Lilly e Noah dançarem de forma bem bizarra no meio da pista improvisada. – Aposto 20 que Noah é o primeiro a dormir.
- Aposto 30 que a Lilly vai virar o ano sem sapato, se equilibrando no Scott, mas ambos acordados. O que eles farão depois da meia noite eu já não sei. – a menina deu de ombros, rindo de lado.
- Não vale, porque ela já está sem sapatos. – o rapaz comentou, apontando para os pés da amiga.
- Então eu já ganhei. – a menina deu de ombros, fazendo-o rir. Scott ajudou Lilly a caminhar até onde eles estavam, fazendo com que ela se sentasse no sofá por um instante.
- Eu falei que não era pra ela beber dessa forma tão cedo, assim ela nem vai ver o ano virar. – ele comentou, vendo a namorada apoiar a cabeça no encosto do sofá e fechar os olhos brevemente.
- Pega um copo de água, que daqui a pouco ela tá melhor. Sempre fez isso, já até aprendi a lidar. – disse, vendo o rapaz acenar com a cabeça, indo até a cozinha e voltando com um copo na mão. Ele sentou ao lado da namorada e fez com que ela bebesse um pouco. Anthony e Noah também se aproximaram, Noah estava um pouco melhor, estava quase molhado de suor de tanto que dançaram, talvez tenha sido isso que ajudou Noah a melhorar.
- Pensei que fosse ver você nesse estado como a Lilly, Noah. Vocês estavam completamente sem limites. – disse, vendo o amigo sentar numa poltrona, tentando respirar um pouco.
- Ah, eu parei um pouco há alguns minutos, fiquei só na água, ou então eu iria apagar, com certeza. – sorriu, porque ele também sabia que ele iria dormir, ele sempre fazia isso.
- Faltam cinco minutos para o Ano Novo, preparados? – Anthony disse, bem animado.
- Eu vou jogar uma água no rosto para voltar a ser gente. – Lilly comentou, levantando e seguindo para o banheiro, como Scott logo atrás.
- O máximo de animação que o meu corpo me permite. – falou, fazendo uma careta, enquanto movimentava um pouco as costas.
- Ainda com dor? – perguntou, preocupado.
- Sim, mas a médica disse que era normal, não precisa ligar o alerta. – ela brincou.
- Você está me pedindo para não me preocupar com alguma coisa? Você realmente não me conhece. – o rapaz comentou, terminando sua bebida e apoiando o copo na mesa.
- Um minuto para o ano novo! – alguém gritou, fazendo se assustar. Lilly já estava se volta ao lado de Scott, e Noah segurava as mãos de Anthony, enquanto cantarolavam a música que tocava.
- Mais um ano novo juntos. – disse, passando os braços pelos ombros da amiga e a puxando para mais perto. – Pelas minhas contas, agora já são uns sessenta e quatro.
- Acho que são sessenta e cinco. – ela entrou na brincadeira. – Nós vamos começar o ano juntos, mas não vamos terminar juntos pela primeira vez.
- Não lembra disso agora, por favor. – pediu, fazendo uma careta.
- Desculpa, mas eu lembro disso toda hora. – respondeu dando de ombros.
- DEZ! – alguém gritou. Lilly abraçou o namorado, olhando fundo em seus olhos, com um sorriso bobo nos lábios. Anthony e Noah estavam um de frente para o outro, trocando selinhos a cada número que gritavam. A contagem regressiva prosseguia, enquanto todos já começavam a se abraçar.
- FELIZ ANO NOVO! – gritaram, quase uníssono.
Quando olharam em volta, e perceberam que era um dos poucos que não estavam em casal. Os outros estavam todos trocando beijos apaixonados, comemorando a chegada do novo ano. Os amigos se olharam pelo canto dos olhos, um tanto desconfiados.
- Nem se anima, , eu não vou te beijar. – falou, e eles começaram a rir, antes de trocar um abraço apertado de longos segundos.


Seis - Até Logo

And I told you to be patient [...]
In the morning, I'll be with you
But it will be a different kind

(Birdy – Skinny Love)


17 semanas de gestação – 4 dias para a viagem

disse ao rapaz que estava se sentindo um pouco cansada, com dor nas costas, nas pernas e uma indisposição que não a deixou desde cedo, e perguntou se ao invés de saírem para jantar, podiam ficar na casa dela, deitados na cama, vendo TV e comendo um monte de besteiras. Principalmente morangos. Já que ela estava sonhando com morangos desde o dia anterior. já não fazia o tipo que negava seus pedidos, depois de grávida então, era algo impossível. Então assim que estava livre do trabalho, passou no mercado e comprou todas as coisas que sabia que a amiga gostava, desde chocolate, a batatas chips e morangos. Mas assim que saiu do mercado, sentiu o celular vibrar no bolso, era uma mensagem de dizendo:

“Ah, se não for muito incomodo, traz doce de leite também, rs.”
, 17:06

“E não esquece meu chocolate!”
, 17:06

suspirou, olhando para dentro do mercado e vendo a grande fila que já tinha se formado. Balançou a cabeça lentamente, antes de caminhar de volta.

“Mais alguma coisa? Fale agora ou cale-se para sempre.”
, 17:07

“Não, só isso tudo.”
, 17:07

Lena abriu a porta pra ele, que estava com as sacolas atrapalhando tudo. Colocou algumas coisas na geladeira e deixou na bolsa o que não precisava. subiu as escadas e encontrou jogada na cama, com uma expressão bem derrotada. Seu coração apertou no mesmo instante, mas logo lembrou da habilidade incrível que a amiga tinha de manipulá-lo. Aproximou-se lentamente da cama, vendo a menina o acompanhar com os olhos, sem dizer nenhuma palavra. Ficou a encarando por alguns segundos, antes que ela começasse a rir, sem motivo nenhum.

- O que foi? – perguntou, vendo ainda sorrindo em sua direção. Ela cobriu parte do rosto com uma almofada, fazendo uma cara travessa.
- Não acredito que você trouxe isso tudo pra eu comer. – falou, levantando as sobrancelhas, ansiosa.
- Para nós comermos. – corrigiu e ela deu de ombros, como se não se importasse.
- Eu vou comer mais de qualquer maneira. Você sabe que eu tenho prioridade...
- Não gosto do fato de você usar sua gravidez para tirar coisas de mim. – murmurou, segurando a sacola pela parte de baixo e virando tudo em cima da cama. soltou um grito breve, vendo a chuva de doces caindo em cima de si mesma, e depois seus lábios se alargarem um sorriso, parecendo uma criança. – Você parece ter oito anos de idade, sabia?
- Pareço ter oito, com carinha de quase trinta e disposição de oitenta. Tá bom pra você? – ela perguntou de forma retórica, olhando entre os diversos tipos de chocolate que o amigo tinha comprado. Até que achou a embalagem dourada que tanto procurava. Era o seu chocolate favorito. – Oh! Você lembrou. – exclamou, mostrando o chocolate para , como se não tivesse sido ele que tivesse comprado.
- Claro, né? Era capaz de você me expulsar daqui a pontapés se eu esquecesse. Ficou o dia todo: “o chocolate, .”, “não esquece meu chocolate, .”, “vê se não esquece”. – reclamou, afinando a voz para imitar a da amiga, que rolou os olhos.
- Eu já ouvi a minha voz e ela não parece nada com isso. – se limitou a falar. – Enfim, vai ficar aí em pé, todo azedo, ou vai sentar aqui para começarmos a comer? – perguntou, quase impaciente.
- Eu não tô azedo. – respondeu, colocando sua bolsa jogada ao lado da cama e sentando ao lado da amiga. – Só não ouvi aquela palavrinha mágica, sabe? Que geralmente falamos quando as pessoas fazem algo que pedimos...
- Muito obrigada, . Você é incrível, a melhor pessoa de todo o mundo. Não sei o que vou fazer sem você por perto. – disse, exagerando, vendo o amigo fazer uma careta enquanto a olhava de lado. – A última parte é verdade. – a menina sorriu, tombando a cabeça para esbarrar levemente no rapaz, que tentou continuar sério, mas não conseguiu, deixando o corpo cair nas almofadas, ficando mais confortável. A amiga deitou ao seu lado, já com um chocolate nas mãos, sem nenhuma cerimônia. Mordeu um pedaço, fazendo uma cara que era o misto de felicidade e satisfação.
- O que vamos fazer? – o rapaz perguntou, vendo a amiga olhar em sua direção com uma expressão um tanto quanto curiosa.
- Bem, eu pensei comigo mesma: “já que vai viajar, acho que podemos fazer algo que ele gosta muito...”, então. – ela pegou o controle, mudando o a função da TV para que a internet funcionasse nela. Então a imagem do filme apareceu na tela, fazendo o olhar do rapaz de iluminar.
- Ah, não acredito. – ele jogou a cabeça para trás, soltando uma gargalhada alta, e olhou a amiga em seguida, onde falaram juntos:
- DIE HARD! – e riam mais em seguida. Eles sempre faziam isso quando alguém falava do filme “Duro de Matar”, era o favorito de e também citavam em Friends, a série favorita de . Num episódio do seriado, os personagens Joey, Ross e Chandler estão vendo o filme e sempre falam o nome juntos, com a mesma entonação, bem animados. E de tanto que já viram a série e o filme, aquela virou uma piada interna para os dois.
- Sim, Duro de Matar pela septuagésima quinta vez, se a minha conta estiver certa. – brincou, pegando um pacote de batatas, já que seu chocolate já tinha acabado, e se sentando de forma mais confortável. – Mas depois que o filme acabar, será minha vez de ficar feliz.
- Tudo bem, a gente pode ver Friends pela milésima vez depois do filme. – falou, com a voz arrastada. Deitando ao seu lado roubando algumas batatas do pacote e recebendo um olhar nada agradável da menina. – O que foi? Tem outros três ali, deixa de ser gulosa.

Depois que John McClane salvou todas as pessoas, que comeu quase todas as batatas, brigando com cada vez que ele comia mais do que ela achava que ele deveria. E também depois que quase todos os chocolates foram devorados, os amigos estavam jogados no chão, em frente à cama. estava com a cabeça deitada no colo de , e eles estavam vendo um dos episódios de Friends favoritos da menina: o que Joey e Chandler disputavam o apartamento com Mônica e Rachel, numa brincadeira de quem sabia mais sobre os outros. Ele achava engraçado o fato da amiga falar quase todas as frases junto com eles, mas não comentou nada, porque ele era assim com Duro de Matar também.

- Eu tava pensando. – ele disse, chamando a atenção de . – Numa brincadeira assim, sobre quem sabe mais do outro, quem você acha que ganharia?
- Hmm, acho que você. – a menina confessou, pegando mais uma batata do pacote. – Você lembra de tudo. Eu sou de tipo que lembra apenas das coisas inúteis. Bem, sei lá, talvez dependeria das perguntas.
- A gente podia fazer algo assim um dia, não é? Eu e você contra Lilly e Anthony. Noah podia ser o Ross, cuidava das perguntas. Seria muito engraçado. – falou, vendo os olhos de brilharem só de imaginar.
- Agora nós temos que fazer isso. – a menina forçou a entonação da palavra, para demonstrar a necessidade que sentia. E então pegou uma batata, passando no doce de leite e levando a boca. fez uma careta quase que automaticamente e ela viu. – O que foi?
- Batata de cebola e salsa com doce de leite, sério? – perguntou, um tanto quanto incerto se deveria questionar qualquer coisa. A menina apenas olhou para o seu rosto e deu de ombros, como se não se importasse.
- Pra mim parece bom. – respondeu, vendo o amigo se calar. Até que sentiu algo estranho.
Ela se sentou direito e olhou para o rapaz com uma expressão confusa. percebeu que algo não parceria certo e assumiu uma postura preocupada. Seus olhos correram o rosto da menina, descendo para as suas mãos, que tinham largado a batata e que agora estavam em cima de sua barriga. Seu coração acelerou e o nervosismo tomou conta do seu corpo.
- O que foi? – perguntou, apressado. Levando suas mãos para cima das dela, tocando, gentilmente, sua barriga também, com a pontinha dos dedos.
- Eu tô sentindo umas coisas estranhas. – disse, com a voz entre a confusão e o medo. – Eu nunca senti isso antes, então não sei se devo me preocupar.
- Mas o que você tá sentindo? – perguntou, tocando uma região da barriga da menina que não estava coberta pela blusa. Assim que seus dedos tocaram a pele dela, ele também sentiu algo e a olhou, com os olhos arregalados.
- Você também sentiu isso? – ela disse, quase sussurrando. apenas fez que sim com a cabeça sem falar nada. Eles se olharam por alguns segundos, até que sentiram novamente. – Será que o bebê tá se mexendo? – murmurou, com a voz baixa, como se estivesse com medo de assustá-lo.
- Eu acho que sim. – o rapaz respondeu, mordendo o lábio inferior. Ele queria chorar, de verdade. Não sabia nem o porquê, só queria. Mas sabia que não podia, ele tinha prometido não se envolver, tinha prometido que seria apenas um padrinho para esse bebê, mas como isso seria possível? Quando todo e qualquer momento que eles compartilhavam fazia vir a mente dele algo como: “esse bebê é seu também”? Então ele olhou para , viu seus olhos repletos de expectativa, com um claro misto de medo e ansiedade. E ele perderia tudo isso, todas as primeiras vezes. Odiava isso. Odiava ter que atravessar um oceano. Odiava ir para outro continente, para outro país. Odiava apenas a ideia de ficar longe de . Só pensar nisso fazia o seu coração ficar apertado. Esperava que isso melhorasse com o tempo, porque não conseguiria viver assim por um ano.
Resolveram chamar Lena, que era a pessoa mais sabia de bebês e gravidez naquela casa, talvez ela pudesse ajudar. A mais velha veio rápido, assustada com os gritos, parando perto da porta.
- O que foi? – perguntou, assustada, vem os dois sentados no chão, com as mãos na barriga da filha. Pensou logo no pior. – Você tá com dor? Tá sentindo algo? – se aproximou rapidamente, abaixando ao lado deles.
- Não, não estou com dor, mas tô sentindo umas coisas muito estranhas. – falou, puxando a mão da mãe, colocando na parte de baixo da sua barriga, abaixo do umbigo. – Eu nunca senti isso. Parece gases, mas ao mesmo tempo é diferente. – tentou se fazer ser entendida, mas nem ela conseguia explicar.
- Querida, eu acho que é só o bebê mexendo mesmo. – Lena disse, sorrindo de lado, fazendo um carinho aonde o futuro neto estava. – Nessa fase da gravidez é difícil mesmo de sentir, causa até estranheza, mas é só o seu bebê chamando sua atenção. – deu de ombros, olhando de lado e vendo a montanha de embalagens de chocolate que tinha no chão, perto da cama. – E também, né, você entupiram a criança de doce. Quando a grávida come muito açúcar, o bebê acaba ficando mais agitado.
- Menos mal, então. Eu já tava nervoso. – murmurou, sentando mais relaxado e se permitindo respirar direito.
- Era a primeira vez. Com o tempo ela vai aprendendo a diferenciar as coisas que sente, um movimento do bebê, um chute, um incômodo qualquer. Só uma dor ou qualquer sensação estranha que não pode deixar pra lá, nunca. – a mãe de reforçou, falando com a filha como se ela fosse uma criança pequena. – Me chama, independente da hora.
- Tudo bem, mãe. – ela respondeu, com a voz meio arrastada, igualzinho como fazia quando era adolescente e só queria que Lena parasse de falar.
- Tudo bem, vou para o meu quarto, qualquer coisa...
- Qualquer coisa, eu te chamo. Eu sei, mãe. – a menina sorriu de lado, vendo a mãe passar a mão suavemente pela sua barriga, antes de levantar e sair pela porta.
- Ainda tá se mexendo? – perguntou, arrastando o corpo para se aproximar mais da menina.
- Às vezes. – respondeu, passando a mão de um lado para o outro do próprio ventre, como se estivesse chamando a atenção do bebê.
- Eu posso...? – o rapaz deixou a pergunta morrer, enquanto esticava o braço na direção dela.
- Claro. – disse, pegando a mão dele e colocando numa região um pouco abaixo de seu umbigo, mantendo a dela por cima. – Quando ele mexe, eu sinto bem aí, por fora é como se fosse uma vibração, mas por dentro eu sinto a movimentação. É uma coisa muito, muito louca, . Tem um bebê dentro de mim, de verdade. – estava radiante, quase que emitia uma luz própria, de tão feliz que estava. E o rapaz continuou com sua mão colada à sua barriga, mas sem conseguir tirar seus olhos dela. Era impossível.
- Eu acho que, no fim das contas, essa foi a melhor despedida que poderíamos ter. – disse, vendo a amiga fechar os olhos por alguns segundos e balançar a cabeça, afirmando. – Nós poderíamos ter ido a um restaurante, comido bem, com certeza algo melhor que chocolate e batata com doce de leite, mas não seria tão... a gente.
- Eu não gosto quando você usa a palavra despedida. – disse, como se contasse um segredo. – Parece é que é tão permanente. Parece que eu vou te deixar naquele aeroporto na segunda e nunca mais vou te ver. – algumas lágrimas brotaram nos olhos da menina. levou suas mãos até o rosto dela, secando seus olhos e depois as apoiou nas laterais, fazendo com que ela o olhasse.
- , você sabe que não importa aonde eu vá, não importa o que eu faça. Eu sempre vou voltar pra você, não é? – ele perguntou, se forma retórica. Pelo menos era assim que ele queria ser entendido.
- Agora eu sei. – a menina brincou, sentindo os lábios do rapaz tocarem levemente sua testa.

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17 semanas de gestação – 2 dias para a viagem

estava sentada na cama de , dobrando algumas peças que ele tinha deixado em cima da mesma, enquanto ele mesmo arrumava outras coisas que levaria. Hoje era a festa de despedida que os amigos tinham organizado pra ele e ficou de levá-lo quando fosse o momento, então, enquanto esperavam, estavam terminando de preparar tudo para a viagem. O rapaz estava assustado com a quantidade de roupa que surgiu para levar, sendo que ele era sempre muito básico, levava sempre o mínimo para todos os lugares. Só que dessa vez, estava no seu pé, quase que regulando todas as coisas que ele deveria ou não levar.

- Eu vou voltar, . Não precisa embalar a minha mudança permanente, não. – ele brincou, vendo a quantidade de coisa que ela tinha separado para ele levar.
- Um ano, . Você precisa estar preparado! – a menina comentou, abusando da entonação para intensificar a última frase. – E se você tiver uma entrevista de emprego importante ou um grande encontro com uma garota bem legal? Precisa estar sempre preparado.
- Estar preparado não significa que eu preciso levar cinco paletós diferentes. – o rapaz ponderou, vendo a amiga rolar os olhos. – Que, aliás, são todos os que eu tenho. Incluindo o novo que vocês me fizeram comprar.
- E eles vão ficar fazendo o que aqui, enquanto você estiver na Alemanha? Duvido que você vá gastar dinheiro com roupas novas por lá. – ela fez uma careta presunçosa quando viu que estava certa. – Agora pare de reclamar, me ajude a dobrar essas camisas. Eu sou péssima nisso.
- Eu sei que você é péssima em arrumar malas. Na verdade, é péssima em arrumar quase tudo. – comentou, recebendo um olhar mortal em resposta, enquanto retirava dois paletós da pilha que a menina tinha organizado, deixando apenas um bege claro, um preto e o azul escuro que tinha comprado na última vez que foram ao shopping.
- Então por que me chamou para te ajudar, seu mal agradecido? – ela perguntou, jogando uma camiseta em seu rosto, fazendo o rapaz rir um pouco mais alto.
- Eu não tinha muitas opções. Meus pais estão ocupados, Anthony e Noah estão trabalhando. E entre você e a Lilly, bem...
- Você sabe que eu vou contar pra ela, né? – disse, com um traço de humor em sua voz e apenas balançou a cabeça, afirmando.
- Não me importo, ela sabe. – respondeu, pegando a camisa de botões que estava no colo da amiga e arrumando em cima da cama antes de começar a dobrar. Assim que terminou, colocou sobre a pilha que já tinha e encarou a menina pelo canto dos olhos, mordendo o lábio inferior, como se tivesse algo para falar.
- O que você quer falar? – perguntou, puxando numa camiseta do bolo de peças que tinha em cima da cama, já que ela achava mais fácil de dobrar.
- Eu queria te pedir um favor.
- Não me diga que você quer um óvulo meu. – ela brincou, rindo alto em seguida, vendo apenas colocar a mão no rosto e balançar a cabeça, como se não acreditasse no que tinha escutado. – Foi uma piada legal, confessa.
- Foi péssima. – ele disse, vendo o responder com uma careta sem graça. – O que eu queria pedir era que você ficasse do olho nas coisas por aqui, pelo menos até o bebê nascer, porque depois eu sei que vai ficar complicado. Eu ia pedir para a minha mãe, mas tem muita coisa na cabeça dela. E eu não sei se ela vai lidar bem com a viagem, tenho pegado ela chorando pelos cantos, murmurando pro meu pai que não sabe o que vai fazer longe de mim... E eu não queria forçar nada, sabe? Vir aqui não pode ser bom pra ela.
- Tudo bem, eu posso fazer esse pequeno esforço por você. Ou melhor, pela tia Kathy. Você não tá merecendo nada. Só que vai ser difícil pra mim também, senhor . – a menina disse, batendo levemente na perna do rapaz, tentando se fazer do forte, mas controlando a respiração para não chorar ali mesmo.
- Eu sei que vai, . Mas você é forte, mais forte do que eu, e estou contando com você para me apoiar, porque eu não vou segurar essa barra sozinho. – confessou, vendo a amiga apoiar a cabeça em seu ombro, encarando o chão.
- Você vai estar a quilômetros de distância fisicamente, mas em nossas cabeças e corações, estaremos sempre por perto. Sempre que precisar, me liga, manda mensagem, chama no skype pra ver meu rostinho lindo, não sei, faz qualquer coisa. Chora, fala que quer voltar, que eu minto e digo que ninguém te quer aqui, e dou mais de dez motivos pelo qual você deve continuar lá. – levantou os olhos, encarando os de , sorrindo de lado. – Eu já estou segurando essa barra com você desde o começo, não vai ser agora ou mês que vem que vou desistir. São mais de vinte anos, . Nós dividimos uma vida. Não vai ser agora que tudo vai mudar. E eu te desafio a achar uma mulher para passar tanto tempo assim do seu lado. Você não vai achar nunca.
- Você está tornando as coisas mais difíceis, . – o rapaz murmurou, vendo a amiga fazer uma careta e dar de ombros.
- Nunca falei que iria facilitar pra você, ainda mais quando você está me abandonando. – ela forçou a entonação da última palavra, fingindo-se de magoada. – Mas é sério, eu estou tentando pensar que você vai viajar e voltar na semana que vem, assim fica mais fácil. Aí na semana que vem e penso que você volta na outra. E vai ser assim até você voltar. Porque se eu ficar pensando que será um ano, um ano inteirinho, trezentos e sessenta e cinco dias, eu vou enlouquecer. E eu não posso me dar ao luxo de perder o juízo, eu sou responsável por duas pessoas agora. Você acha que eu sou uma pessoa forte, mas é só uma carcaça, , por dentro eu não sou nada disso. Eu engano bastante. Enfim... – Thais parou de falar por um instante, respirando fundo e encarando as próprias mãos, como se quisesse se acalmar. – Acho que devemos encerrar esses assuntos pesados por aqui ou então chegaremos num clima de total velório na sua festa de despedida e ambos sabemos que isso é completamente inaceitável. Então vamos melhorar esse astral, vamos nos divertir essa noite, vamos fingir que temos 20 anos de idade, nenhuma responsabilidade na vida e não nos preocupar com nada além de sermos felizes. Pelo menos essa noite.
- Sem choro, sem tristeza, sem reclamações. Vamos fingir que nada vai acontecer segunda-feira. – respondeu, estendendo a mão na direção da amiga, como se eles selassem um trato. – Pelo menos essa noite.
- Fechado. – ela sorriu, apertando sua mão. – Agora eu preciso me recompor, porque você acabou comigo, . Você não pode fazer uma coisa dessas com uma mulher grávida, eu estou muito sensível.

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Tinha mais gente do que imaginava na festa, mais do que ele lembrava que conhecia, pra ser sincero. O apartamento de Anthony e Noah estava completamente lotado, com umas das músicas preferidas do rapaz fazendo as caixas de som vibrarem. Tudo era para e sobre , desde a música, passando pelas bebidas e indo até as comidas, que eram tudo coisas que o rapaz gostava muito e costumava comer sempre. Ou seja, era uma festa regada a cerveja, pizza de pepperoni e batata frita. E como não podia beber, estava aproveitando muito bem a comida, acompanhando tudo com suco de laranja e refrigerante. Todos estavam conversando e pareciam estar se divertindo bastante. Alguém sempre se aproximava para cumprimentar e desejar uma boa viagem, parabenizar pela conquista, dar boa sorte e coisas assim. Até mesmo Diane, a última namorada mais séria que teve, e Maggie, a que o que namoro tinha durado dois anos, foram a festa. Já tinha muito tempo que ele não via nenhuma das duas e ficou surpreso por elas terem aparecido, principalmente Diane, já que eles não tinham terminado muito bem. Já Maggie estava realmente feliz que vê-lo novamente, e, principalmente, feliz por vê-lo conseguindo realizar um de seus maiores sonhos. Depois de alguns minutos de conversa, descobriu que ela estava noiva, mas optou por não levá-lo, achou que seria estranho.

- Fico feliz que tenha conseguido, , você sempre falou tanto disso. – Maggie disse, sorrindo de lado, enquanto eles estavam parados, frente a frente, perto da janela do apartamento. – Sei que as coisas podem não ter parecido boas na época, mas não ficou nenhuma mágoa da minha parte, longe disso, eu só desejo coisas boas a você.
- Também fiquei feliz de te ver aqui hoje, Mag, ainda mais depois de tanto tempo sem te ver. Fico contente que as coisas estejam dando certo pra você, que vai casar. Você sempre falou de casar, ter filhos, construir uma família. Eu fico realmente feliz que tenha encontrado alguém para dividir esse sonho com você. – respondeu.
- E eu espero que num futuro próximo também tenha espaço para algo assim na sua vida, porque ninguém nasce e vive para trabalhar, . Todo mundo precisa de alguém ao lado para dividir as dificuldades e as alegrias. Não deixa ficar tarde demais para perceber isso, tá? – a menina pediu, vendo coçar a cabeça, um pouco desconfortável. – Você vai realizar um sonho agora, assim vai abrir espaço para outro. Talvez para alguém...
- Eu já tenho alguém para dividir as coisas... – o rapaz murmurou, talvez mais para si mesmo do que para a outra. Ele olhou para o lado, vendo conversar animadamente com Lilly e Scott.
- A não vale. Eu estou falando em amor romântico. Aquela pessoa que você fecha os olhos de noite e é a última imagem que vê, mas que também é o primeiro pensamento que tem pela manhã. – Maggie falou, em tom de brincadeira, chamando a atenção dele. – Ela tá seguindo a vida dela também, vai ter um bebê. Lilly arrumou um namorado, Anthony e Noah estão bem como sempre, perfeitos um para o outro. E você, até quando vai continuar achando que apenas você é o suficiente para você mesmo?
- Eu tenho um ano inteiro para pensar sobre isso, Mag. – respondeu, querendo encerrar o assunto. Ele não era muito bom para falar sobre sentimentos, principalmente os dele.
- Então pense. – a menina pediu, dando um passo a frente e beijando-o no rosto. – Boa viagem. – e enquanto ela se afastava, tentou impedir que as palavras dela tivessem algum efeito sobre ele, mas já era tarde demais. Será que era tão ruim assim querer ser o suficiente para si mesmo? Será que ele deveria ser como todos, estar condicionado a amar alguém? Casar, ter filhos... tudo isso era uma regra?

- Que papo mais pesado para uma despedida. – Anthony falou, pegando algumas latinhas de cerveja que estavam em cima da mesa de centro e jogando na sacola de lixo. – Não sabia que a Maggie viria com um discurso desses ou então nem convidaria.
- Mas eu gostei de revê-la, não teve problema nenhum nisso, eu só fiquei encucado, sabe? Será que eu serei uma pessoa pela metade se não tiver uma família? Esposa, filhos e etc...? – perguntou, vendo os amigos se entreolharem, sem saber o que falar.
- Nada na vida funciona da mesma forma pra todo mundo, . – Lilly falou, sentando ao lado do amigo. – Não vê eu mesma, que endossava o seu coro, dizendo que não tinha interesse em manter nenhum relacionamento sério, que só de pensar numa ideia de família tradicional já sentia a alergia atacando, estou aqui fazendo planos de morar junto com o Scott.
- Como é? – disse, com a voz alarmada, uns três tons acima do normal.
- E você pensou que falando assim não chamaria atenção. – Scott brincou, rindo abertamente na cozinha, enquanto ajudava Noah com a louça suja.
- Scott e eu temos conversado sobre dividir um apartamento, porque ele passa a maior parte do tempo no meu e o dele só serve para acumular gastos e sujeira. – Lilly disse, dando de ombros, como se não fosse importante. – Mas não é isso que vem ao caso. O que eu quero dizer é que as coisas mudam, a vida muda. Num segundo você é de um jeito e então passa um vento, você respira, pisca, e já é outra pessoa. Hoje, agora, você pode não querer se casar, pode não se imaginar acordando todo dia ao lado da mesma pessoa pelo resto da sua vida, com crianças correndo pela casa. Hoje a sua prioridade pode ser o seu trabalho. Tudo bem, não há nada de errado nisso, assim como não há nada de errado em você acordar amanhã e pensar: acho que quero me casar um dia. Ou, arrumar uma namorada e olhar pra ela, pensando: acho que quero me casar agora.
- Wow. – Anthony disse, parado do meio da sala, enquanto olhava para Lilly com a expressão surpresa. – Quem é você e o que fez com a minha amiga surtada?
- Eu tô errada? – ela perguntou, olhando na direção de , que apenas balançou a cabeça, negando.
- Eu não sei por que o se deixou impressionar tanto pelo o que a Maggie falou. Não é como se você fosse casar amanhã ou não fosse casar nunca. Você precisa parar, urgentemente, de querer viver todos os dias em um só. Você sofre demais por antecedência, isso não ajuda em nada. – falou, finalmente se envolvendo na conversa. – Por exemplo, hoje não era dia de estarmos tendo essa conversa, você viaja na segunda, vai passar um ano se preparando para o restante da sua vida profissional. Se tem um momento que você não deveria se preocupar com isso, é agora. Suas prioridades são outras. Então, por favor, viva um dia de cada vez. Aproveite cada dia pelo o que ele é: único. Você não vai conseguir reviver nada dessa viagem, então eu preciso que você me prometa, que prometa a todos nós, que vai aproveitar cada segundo, viver todas as experiências que puder. Que quando você voltar, não vai ter uma única coisa que te fará pensar: “eu deveria ter feito isso”. Você pode prometer isso pra mim? Ou melhor, todos vocês podem prometer pra mim que farão isso, que viverão todos os dias da melhor forma possível, aproveitando toda e qualquer boa oportunidade que aparecer?
- Eu prometo. – respondeu, estendendo a mão para que a amiga segurasse. Eles entrelaçaram seus dedos antes de sentir a mão de Lilly sobre a deles.
- Eu prometo também. – ela disse, com um sorriso no canto dos lábios.
- Eu também. – Anthony se aproximou deles, colocando sua mão junto a deles. Noah e Scott vieram da cozinha e se juntaram aos amigos, colocando as mãos juntas e participando daquela pequena promessa em grupo. Anthony levantou, indo até a cozinha e voltando com uma garrafa de água e copos, serviu um pouco em cada um, entregando os para os amigos.
- Eu quero propor um brinde. Um brinde a várias coisas, na verdade acho que combina com esse momento que estamos tendo aqui agora. Primeiro, quero brindar aos nossos sonhos. está partindo para realizar o dele, está gerando o seu, Noah e eu estamos vivendo o nosso, Lilly está fazendo o seu acontecer, cada dia um pouco mais, e eu sei que isso tem muito da ajuda do Scott. Talvez isso que importa de verdade, mais do que realizar, o que importa é fazer ser real. Buscar, lutar, porque o que vem depois é consequência. Então se estamos todos reunidos aqui hoje, tendo a chance de comemorar cada pequena vitória que temos, é porque batalhamos muito para que tudo acontecesse. Em segundo lugar, eu quero brindar ao amor, que é o que nos mantém juntos, independente de qualquer coisa, independente do tempo que passar. Eu me sinto privilegiado de ter vocês na minha vida, de poder chamá-los de amigos e de meu amor. – ele olhou na direção de Noah, deixando um sorriso escapar. – Não é todo mundo que pode dizer que é tão amado, não da forma que eu posso. Da forma que vocês podem. Porque eu amo vocês, amo cada um de vocês. E em terceiro lugar, quero homenagear o meu amigo , que é uma das melhores pessoas que existem nesse mundo inteiro. Que foi a primeira pessoa pra quem eu falei que estava apaixonado por um homem. Que foi a primeira pessoa a me incentivar a falar sobre o que eu estava sentindo e que em nenhum momento demonstrou nada além de amor por mim. Meus pais sempre comentam o fato de eu não ter irmãos, mas eles estão errados, porque eu tenho um irmão, sim. – Anthony olhou para com os olhos marejados, enquanto o outro já estava chorando e nem tentava disfarçar. estava com o rosto todo molhado e a maquiagem toda borrada. Até mesmo Lilly, que fazia o tipo durona, já estava entregue a emoção. – , eu desejo nada mais do que uma vida de felicidades e realizações pra você. Eu poderia desejar que esse um ano passasse voando pra você voltar logo, mas eu não vou fazer isso. Vou desejar que ele passe de uma forma que você seja capaz de aproveitar cada segundo. Se tem alguém que merece isso, é você. – levantou, abraçando forte o amigo. Eles continuaram assim por longos segundos, enquanto todos os outros tentavam absorver todas as palavras de Anthony, porque elas tinham sido muito especiais.

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17 semanas de gestação – 1 dia para a viagem

No dia seguinte, os pais de fizeram um almoço de despedida na casa deles e todos estavam lá: , Lena, Anthony, Noah, Lilly, Scott, além de , Kathy e John é claro. Os pais do rapaz se juntaram para organizar um almoço com tudo o que o filho gostava: frango frito com o tempero especial que Kathy aprendeu com a sua própria mãe, purê de batatas, salada de repolho, o menu clássico da família . estava muito feliz com tudo o que estavam fazendo para ele, tanto que não conseguia para se sorrir, já Kathy parecia a ponto de chorar a qualquer momento, tanto que ela mal olhava na direção do filho. John estava mais tranquilo, ou pelo menos era o que aparentava. Estava mais ansioso, nervoso e orgulhoso, do que triste. percebeu toda a situação e foi se sentar ao lado dela depois do almoço, enquanto todos conversavam. A mais nova estendeu a mão na direção da outra, com um sorriso fraco nos lábios. Ela entendia o que Kathy estava sentindo, porque ela também estava se sentindo mal de alguma forma. Provavelmente não era a mesma coisa, porque não era o filho dela indo pra longe, mas conseguia imaginar. Seu bebê não tinha nem nascido, mas não conseguia nem pensar em passar um dia longe dele, quanto mais um ano. E pela reação de Kathy, o que falam deve ser realmente verdade: eles nunca deixam de ser nossos bebês, de ser crianças diante dos nossos olhos. Então não tinha muito o que falar, dizer que ia ficar tudo bem era básico, porque iria mesmo, estava indo viajar, ele não ia desaparecer para sempre. O que ela poderia fazer para ajudar?

- Sabe, eu sei que não sou o , estou muito longe de ser ele, mas eu vou ficar por aqui, se precisar de qualquer coisa, a qualquer momento, você pode bater aqui do lado e pedir socorro. – a menina sorriu mais abertamente, vendo a expressão da mais velha se suavizar. – Você é como uma segunda mãe pra mim, então na falta do seu filho, talvez eu possa ser uma filha genérica, não sei, talvez só ocupar um espacinho que ficar vazio.
- Ah, minha querida. – Kathy a abraçou forte, beijando cada lado do seu rosto em seguida. – Se eu tivesse uma filha, Deus sabe que eu queria que fosse exatamente como você. E agora com esse bebê...
- É claro que não vai substituir nada, mas você pode matar as saudades da época que o era novinho. – deu brincou, vendo a mais velha balançar a cabeça, concordando. Ela colocou uma das mãos na barriga da menina, sorrindo de lado por um instante.
- Sabe, o é tão focado na vida profissional dele, que eu não sei se ele me dará a felicidade de ser avó um dia. Então, pra mim, mesmo que seja só um pouquinho, bem de mentira, eu penso no seu bebê como meu neto. Espero que Lena não se importe com isso. – Kathy sorriu, mas para o bebê na barriga, do que para . A menina prendeu a respiração por alguns segundos, só olhando para a mulher acariciando sua barriga, feliz por um bebê que não fazia a mínima ideia que era, de fato, o seu neto. Na sua cabeça, mil perguntas surgiam, porque ela já estava se sentindo mal mentindo para todo mundo, principalmente para as pessoas que estavam naquela casa. Talvez fosse mais fácil contar de uma vez, acabar com essa mentira que estava a prestes a tirar sua sanidade. Só que contar a verdade significaria dar a um papel, uma responsabilidade que ele não queria assumir, que nunca foi a vontade dele. E não podia obrigá-lo. Ela não tinha o direito de arrastá-lo para dentro do seu sonho.
- É claro que ela não vai se importar. – tentou sorrir, mas deve ter feito uma careta estranha ao invés disso.
- Deixa eu servir a sobremesa, fiz a torta de amoras que ele tanto gosta. – Kathy comentou, levantando e deixando perdida em seus próprios pensamentos. O fato é que tinha, finalmente, entendido a péssima ideia que tinha sido pedir para ajudá-la na inseminação, porque o peso da culpa, de esconder algo tão importante quanto isso de todo mundo, ia acompanhá-la pelo resto da vida. Ela se xingou internamente por ter sido burra o bastante e não ter pensado em nada, em nenhuma consequência. Ela deveria ter pesado todos os prós e contras, mas só pensou no lado bom das coisas. Achou que deveria ser assim ao menos uma vez na vida. “Por que não fez o de sempre e abriu meus olhos?”, pensou. Mas agora era tarde demais, não tinha muito o que fazer. Era rezar para que isso não fosse um problema no futuro. E também que o bebê não fosse muito parecido com . “Merda, eu não tinha pensado nessa possibilidade.”, xingou mentalmente.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou, se aproximando da amiga e abaixando para ficar na sua altura. Ele percebeu que algo tinha acontecido e tentou fazer com que ela falasse, mas sem sucesso.
- Estou com um pouco de dor nas costas, nada de muito grave. Só cansaço mesmo. - mentiu, dizendo que não tinha acontecido nada. Ela era uma péssima mentirosa, mas no pior dos cenários, pra ela, só pensaria que ela tava chateada pela viagem dele no dia seguinte. O que era verdade, mas não toda a verdade.
- Quer que eu te leve pra casa? – perguntou, preocupado.
- Claro que não, . Por dois motivos: 1. Eu estou bem; 2. Eu moro, literalmente, aqui do lado. – a menina brincou, fazendo o amigo rir e quebrando um pouco o clima pesado.

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17 semanas de gestação – Dia da viagem

Parecia uma pequena excursão ao aeroporto. Tinham mais pessoas do que o normal, mas ninguém parecia se importar muito. Kathy estava abraçada ao filho desde o momento em que colocaram os pés no aeroporto e não parecia muito disposta a soltá-lo, nem mesmo para ele ir embora de fato. John não queria demonstrar, mas seus olhos vermelhos denunciavam as lágrimas que ele não conseguiu segurar. Anthony, Noah e Lilly estavam perto dos pais de , esperando uma pequena brecha para falar com o amigo, enquanto Lena e estavam um pouco mais para trás, destacadas. A menina não estava mais conseguindo controlar a sua tristeza com a viagem do amigo. A carcaça que ela falou dias antes tinha começado a ruir e ela não tinha parado de chorar desde que tinha acordado. Talvez tivesse, finalmente, percebido que o dia tinha chegado e que não dava mais para adiar. Pensou muito e cogitou ficar em casa, porque seria doloroso demais vê-lo embarcar, mas seria mais ainda não vê-lo. E ela queria passar os últimos minutos que podia com ele, todos os minutos que pudesse. Parecia exagero, podia ser, mas ela não ligava muito. Tinha passado os últimos vinte e dois anos de sua vida ao lado de , a ideia não tê-lo por perto sempre a assustava, a deixava um pouco sem chão e ela odiava se sentir assim, totalmente despreparada. Então, sem saber como lidar com tudo isso, preferiu se manter afastada, por não saber nem o que falar.
abraçou forte a sua mãe, apoiando uma mão de cada lado de seu rosto, olhando atentamente para o seu rosto e sorriu. Deu um beijo longo e carinhoso em sua testa, puxando a mais velha para perto mais uma vez.

- Eu vou sentir muitas saudades. – ele disse, sentindo as lágrimas dela molharem sua camisa. – Vou te ligar todos os dias, eu prometo.
- Me promete que vai se cuidar. Que vai comer direito, que vai aproveitar muito essa oportunidade, que vai ser feliz. – Kathy pediu, passando as mãos pelos olhos, vendo o filho a encarar com um sorriso no canto dos lábios.
- É claro que eu vou. – o rapaz disse, apertando o abraço mais uma vez, antes de soltá-la.
- Eu amo você, meu filho.
- Eu também te amo, mãe. – os lábios da mulher se apertaram contra a bochecha dele, deixando uma leve marca de batom, que ela tentou limpar, inutilmente. – Não tem problema. – ele disse, balançando a cabeça lentamente. John se aproximou, colocando a mão no ombro de , vendo o filho olhar em sua direção.
- Não faça nada que eu não faria. – o homem disse, vendo o menino sorrir abertamente. – Faça tudo o que tenha vontade, aproveite cada minuto. Nós vamos sentir muitas saudades.
- Eu também vou, pai. – respondeu, abraçando o mais velho com vontade. Algumas lágrimas teimosas escaparam dos olhos de John sem que ele quisesse, mas ele nem tentou impedir. – Eu te amo. – ele falou, sentindo o pai o abraçar mais forte por alguns segundos.
- Eu te amo, rapaz, demais. – o pai sussurrou. Antes de se separarem completamente, John deu um beijo no rosto do filho e parou ao lado da esposa, passando o braço ao redor de seu ombro, tentando acalmá-la um pouco.
Lilly se aproximou, apoiando o rosto no peito de e olhando para o rapaz da forma que conseguia. Ele passou a mão pelas suas costas e ajeitou o cabelo que caia em seu rosto.
- Eu vou sentir muito a sua falta, quem vai me perturbar gratuitamente? Quem vai fazer piadinhas sem graça ou falar besteiras sem sentido só para me animar? Quem vai estar disposto a me ouvir falar sobre qualquer coisa às oito da manhã num domingo chuvoso? – ela se afastou para olhar nos olhos do amigo, vendo a expressão dele, que parecia um misto de felicidade e tristeza. – O que a gente vai fazer sem você?
- Um ano só, vai passar rápido. Pelo menos eu fico dizendo isso pra mim mesmo diariamente, talvez em algum momento eu acredite. – ele brincou, segurando a mão da menina entre as suas. – Eu também não sei o que vou fazer sem vocês, mas pensa pelo lado positivo, vocês terão uns aos outros.
- Nós só somos poderosos juntos. – ela sorriu de lado, vendo o gesto se repetir no rosto do rapaz. – Mas você tem ir, então seja muito feliz, aproveite bastante, tome todas as cervejas possíveis e existentes. Aproveite em nome de nós cinco.
- Sempre. – ele respondeu, sentindo a amiga o abraçar.
- Eu amo você, meu amigo. Boa viagem. – Lilly falou baixo, com a voz embargada. Quando eles se afastaram, algumas lágrimas já tinham escapado e ela secou o rosto rapidamente.
- Eu também te amo, sua doida. – ele implicou, fazendo a menina sorrir. Noah e Anthony se aproximaram, cutucando a cintura da menina.
- Não regula o , ele tem que embargar daqui a pouco. – Anthony disse, fazendo uma careta fingida.
- Ai, tá bom. – ela revirou os olhos e caminhou até onde estava, logo depois de dar mais um beijo do rapaz.
- Eu não sou bom em despedidas e nem em fazer longos discursos quando não estou bêbado. – Anthony começou a falar, fazendo morder o lábio inferior para não rir. – Então eu só quero dizer para você aproveitar cada segundo dessa viagem, não focar apenas nos estudos e no trabalho. Lembra de viver, porque viver é muito importante. Você é meu irmão, não sei o que vamos fazer sem você por aqui, mas a gente vai dar um jeito, não se preocupa.
- Eu amo você, cara. – falou, puxando o amigo para um abraço apertado.
- Eu também amo você. – Anthony respondeu, apertando um pouco mais o abraço antes de se afastar. Noah se aproximou, já chorando. Talvez ele nem conseguisse falar muita coisa.
- , eu sei que nós não temos o mesmo tempo de amizade, mas eu... – ele não conseguiu mais falar nada, porque começou a chorar mais do que deveria. o puxou para um abraço, passando a mão pelas suas costas, tentando acalmá-lo.
- Não precisa ficar assim, Noah. Eu não quero ver vocês tristes, assim vai ser mais complicado ainda pra mim. – ele pediu, vendo o rapaz balançar a cabeça, afirmando.
- Só que é difícil demais aguentar com isso, eu não sei lidar com despedidas. – Noah falou e balançou a cabeça, como se já soubesse. – Eu só queria que você soubesse que você é uma das melhores pessoas do mundo todo. Sempre foi maravilhoso comigo, fez com que ele me sentisse em família com vocês. E mesmo não tendo todos esses longos anos de amizade como vocês, eu realmente sinto como se todos fossem uma parte de mim. Então com a sua viagem, é como se um pedaço de mim estivesse partindo. Por isso peço que você cuide bem dele e o traga de volta são e salvo.
- Você é um ser humano incrível, uma pessoa iluminada que a vida colocou no caminho do Anthony e me deu a oportunidade de chamar de amigo também. E eu só queria te pedir uma coisa: cuida da pra mim, por favor. Você tem uma sensibilidade incrível e eu sei que você consegue entender o meu pedido, o significado dele. Nada contra meus amigos, mas eu só confio esse trabalho a você. – pediu, vendo Noah balançar a cabeça, afirmando.
- Pode ficar tranquilo, farei o meu melhor. – eles sorriram abertamente, antes de se abraçarem apertado, sussurrando um “eu amo você” e um “boa viagem”.
caminhou até onde , Lena e Lilly estavam, percebendo que estava mais nervosa do que deveria. Lena sorriu em sua direção, o abraçando por alguns segundos, beijando ambos os lados do seu rosto e desejando uma boa viagem para ele. O rapaz parou em frente a amiga, estendendo a mão em sua direção. levantou os olhos vermelhos para encará-lo antes de colocar sua própria mão sobre a dele. Eles caminharam até mais a frente, mais afastados de todos. colocou as mãos ao lado do rosto da menina, fazendo com que ela olhasse pra ele. não conseguia desviar o olhar nem se quisesse. Ela sabia que eram os últimos minutos em longos meses que teriam e não queria perder nenhum instante.
- ... – a voz do rapaz soou baixa e arrastada, como se ele estivesse quase chorando pela primeira vez naquela tarde. – Eu não quero te ver assim. Quando você me disse para ir, eu pensei que você não ficaria dessa forma, mas agora não tem condições de eu entrar naquele avião, não sem saber se você ficará bem.
- Eu vou ficar bem, . Pelo menos eu vou tentar. – a menina falou, levantando a mão para tocar o rosto do rapaz. Tentou limpar a mancha de batom que Kathy tinha deixado, mas também não conseguiu. – Só que agora é verdade e, bem...
- Só me promete que você vai se cuidar, que você vai cuidar do noss... – ele parou por um instante, fechando os olhos e balançando a cabeça antes de continuar. – Promete que vai cuidar do bebê. Que vai mantê-lo quentinho e protegido até o momento certo. Que vai ficar calma, feliz, quieta, para que esses últimos meses passem de forma tranquila. Eu preciso saber que você vai ficar bem ou então eu não terei condições de embarcar em avião nenhum.
- Você vai entrar naquele avião e decolar na direção do seu sonho, meu amigo. Vai ser feliz e depois vai voltar completamente realizado pra gente. – ela apoiou as mãos na barriga – Porque nós estaremos te esperando aqui. Nós dois. Ah! – ela exclamou, levando a mão até perto do pescoço e puxando o colar que ele tinha dado de Natal. – Esse colar não vai sair mais do meu pescoço, vai ser uma forma de te ter perto de mim. E eu tenho mais uma surpresa pra você. – abriu a bolsa, pegando um envelope e entregando nas mãos de . – Eu escrevi algumas coisas pra você, não tem trezentos e sessenta e cinco cartas para ler uma diferente por dia, mas tem algumas. E tem uma foto nossa, a mesma que você colocou no colar. A primeira em que estamos nós três: eu, você e o nosso bebê. Porque ele também é seu, . – ela deu de ombros, como se estivesse cansada de tentar se enganar.

Passageiros do voo United UA 962 com destino a Berlim, embarque imediato no portão 6.

- Você tem que ir, não pode perder o seu voo. – a menina falou, como se quisesse se afastar, mas a puxou para um abraço apertado. Ela afundou seu rosto na curva do pescoço do rapaz e apenas sentiu as lágrimas escorrerem. passou a mão pelos cabelos dela, também sentindo o próprio rosto molhado pelo choro que não conseguia mais segurar.
- Eu só quero que saiba que é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Eu posso estar aqui, na Alemanha ou até em Marte. Nada vai mudar o que eu sinto por você. – o rapaz beijou a testa da menina, em seguida os dois lados de seu rosto e olhou em seus olhos. – Eu amo você. É sério.
- Eu também te amo, . – ela suspirou, sentindo um aperto estranho em seu peito, enquanto encarava os olhos do amigo. Eles se abraçaram mais uma vez antes dele se afastar para buscar o carrinho com a sua bagagem, acenou para todos uma última vez, porque não conseguiria falar com cada um novamente. E caminhou de volta até onde ela estava, andaram lado a lado, ele empurrando o carrinho com uma das mãos e segurando a mão da amiga com a outra. Ela apoiava a cabeça no ombro dele. Chegaram até o portão, o limite onde poderia ir. Se olharam nos olhos mais uma vez, ficando assim por alguns segundos. Até que encostou seus lábios na testa da amiga, antes de se virar e passar pelo portão, mas não sem antes falar:
- Até logo, .


Sete - Müllerstraße 178

I can count on you like four, three, two
And you'll be there
Cause that's what friends are suppose to do

(Bruno Mars - Count on Me)


18 semanas de gestação – Primeira semana de viagem
Platz vor dem Neuen Tor 6, Berlin, Alemanha – 07:05 AM

estranhou acordar num quarto que não era o seu. Num apartamento que não era o seu. Numa cidade que não era a sua. Demoraria algum tempo para ele se acostumar a nova rotina, mas não era como se ele não estivesse tentando. Quando chegou no dia anterior, tratou de procurar a representante da empresa, uma moça chamada Susan, que o ajudaria em sua acomodação, e depois foi atrás de Connor, porque não queria ficar sozinho. Não que fosse muito amigo do sobrinho do chefe, mas era bom ter um rosto conhecido em meio a tanta novidade. O outro rapaz tinha chegado dois dias antes, então já estava um pouco menos confuso.
Quando olhou pela janela, vendo uma paisagem estranha, meio nublada, com as pessoas bem agasalhas para escapar do frio intenso e pensou logo em , ela sempre reclamava de sair de casa quando estava muito frio. Ele não poderia ligar pra ela agora, nem muito menos vê-la. Não tinha nem 24 horas que tinha chegado e ele já queria voltar. sabia que não servia para essas coisas de ficar longe das pessoas que gostava. Falaram que era questão de costume, que com o tempo ele iria sentir saudades, sim, mas saberia lidar. Mas naquele momento, o rapaz só queria saber, mais ou menos, quanto tempo demorava pra isso.
Tomou um banho e foi se arrumar para o seu primeiro dia. Connor disse que passaria em seu quarto às sete e meia da manhã e já eram sete e dez. Olhou entre as opções que tinha, pegando uma blusa de botões azul, de mangas longas, sua mãe tinha lhe dado aquela camisa no Natal. Sorriu com a lembrança de Kathy, sentindo o coração apertar um pouco. Suspirou, pensando:
- Espero aguentar vinte e quatro horas, pelo menos.
Ajeitou os cabelos, colocando todos os documentos que haviam mandado da empresa numa pasta e a pasta em sua bolsa. Olhou no relógio, faltavam cinco minutos para o horário marcado por Connor, então apenas se sentou na cama novamente, esperando o rapaz chegar. Pegou o celular, olhando as últimas coisas que postaram nas redes sociais. Noah tinha postado uma foto de todos os amigos na despedida de , colocando na legenda: “o real significado da palavra amizade.”
- Isso é a cara do Noah. – falou para si mesmo, subindo a linha do tempo da rede social, vendo se tinha algo mais de interessante, mas nem encontrou. Olhou para frente, vendo o envelope que havia lhe entregado um pouco antes de embarcar, com as cartas que ela disse que escreveu. Ele ainda não tinha lido nenhuma, talvez não tivesse coragem, porque sabia que não aguentaria. Mas quando percebeu, já tinha aberto o mesmo e puxado uma folha lá de dentro, só que antes que pudesse ler, ouviu batidas da porta. Era Connor. Deixou o envelope em cima da cama, leria algo quando voltasse. Pegou o celular, sua bolsa, o casaco grosso que tinha trazido, as luvas e caminhou até a porta.
Os rapazes pararam numa cafeteria perto de uma estação de metrô e ficou nervoso, tentando falar o pouco de alemão que sabia. Ele tinha feito curso durante vários anos, na expectativa de um dia conseguir essa oportunidade, mas falar a língua numa aula é totalmente diferente de conversar com nativos. Ele teve algumas dificuldades com a pronuncia, mas ficou feliz de conseguir entender tudo. Fizeram seus pedidos e se sentaram numa mesa mais ao fundo, ainda tinham tempo até o horário do trabalho.

- É coisa de cinco minutos daqui até o prédio, não precisa se preocupar. – Connor comentou, bebendo um pouco do seu cappuccino. olhou em seu relógio e faltava cerca de trinta e cinco minutos para o horário que pediram que ele chegasse lá. Então se permitiu relaxar um pouco.
- Você não tá nervoso ou ansioso, qualquer coisa? – perguntou, vendo o rapaz sorrir de lado, torcendo os lábios de um jeito estranho.
- Eu nunca fiquei tão ansioso pra uma coisa na minha vida. – confessou, dando uma risadinha e vendo o imitar. – Mas eu tento não deixar isso me abalar. Estou aqui tem três dias, estou tentando em adaptar ao ambiente, deixar tudo menos estranho. Deve estar confuso demais pra você ainda, né?
- Sim, ontem eu estava em casa, com minha família, meus amigos e hoje eu estou aqui, sozinho, num país estranho, onde a maioria das pessoas não entende o que eu falo e eu não os entendo também. – parou de falar por um instante, respirando fundo. – É um pouco mais do que confuso.
- Você é muito próximo da sua família, né? – Connor perguntou, vendo o outro rapaz balançar a cabeça, afirmando. – Pra mim é mais fácil, porque não tenho tanta convivência com ninguém. Moro sozinho há anos, meus pais moram outro estado, a gente se via em feriados prolongados, essas coisas, o mais próximo de família que tinha lá em Morristown é o meu tio Stephan, então não é como se eu estivesse perdendo muita coisa.
- Não, eu sou muito próximo da minha família. Meus pais moram lá cidade, há alguns minutos do meu antigo apartamento, tenho meus amigos que estão na minha vida desde o ensino médio. E tem minha amiga, minha melhor amiga, a gente se conhece desde os cinco anos, sempre fizemos tudo juntos. Agora ela tá grávida e eu tive que vir pra cá, então vou perder tudo. É muito difícil. Por mim, eu tinha desistido, mas ela me obrigou. – viu Connor sorrindo de lado e repetiu o gesto. – É uma excelente oportunidade, busquei por isso nos últimos quatro anos, mas agora que aconteceu, que é real, eu tô com um pouco de medo.
- Sem medo. – Connor respondeu rapidamente, fazendo um gesto com as mãos, como se afastasse algo. – Você não pode começar nada novo com medo. Nervoso e ansioso, tudo bem, porque faz parte. Mas medo eu vejo como um sentimento que atrai coisas boas, porque você tende a se afastar quando está com medo e aqui você precisa aproveitar tudo o que puder.
- Todo mundo me falou isso. Meus amigos foram bem enfáticos até, disseram que eu deveria aproveitar todas as oportunidades que aparecessem. – disse, lembrando as recomendações de seus amigos.
- Então você não pode contrariá-los. – Connor sorriu de lado, bebendo um pouco mais de seu cappuccino.

Connor tinha vinte e cinco anos, era mais novo que , mas se portava como se fosse mais velho, talvez fosse o peso das experiências de vida. Quando fez dezenove anos, pegou parte da herança que seu avô tinha lhe deixado e usou para fazer uma viagem pela Europa, num estilo “mochilão”. Passou dias andando por cidades que nunca tinha ouvido falar, conversando com estranhos, dormindo em albergues, aproveitando tudo o que podia. Sempre ouviu do seu velho avô que a vida era para ser vivida, mas que ele não teve a oportunidade e que queria que o neto tivesse. Então em cada cidade que chegava, ia para local mais alto do lugar para conversar com o seu avô, porque sentia que ele estava ao seu lado durante toda a viagem.
Quando voltou, cerca de dois meses depois, era como se tivesse envelhecido cinco anos em poucas semanas. Mas não na aparência, mas em sua personalidade. Resolveu que entraria na faculdade e que se mudaria, então saiu de Ohio e se mudou para New Jersey, onde estudou Engenharia Química, como , e depois foi trabalhar com o seu tio na Bayer, onde estava a menos de um ano. E agora estava na Alemanha, aproveitando a oportunidade da empresa.

dizia não gostar muito de Connor, o achava muito expansivo, muito despojado e um pouco intrometido. E tudo tinha piorado quando descobriu que o rapaz tinha conseguido uma vaga no curso com tão pouco tempo de trabalho, tudo por culpa do tio que tinha. Ele não achava justo que as pessoas tivessem privilégios assim por causa da família, mas estava começando a mudar seu pensamento em relação ao rapaz. Connor estava sempre conversando e brincando com todo mundo, sempre alegre, disponível para conversar. Talvez não fosse algo forçado, era da personalidade dele. E já que teriam que conviver juntos, ou próximos, até porque eles só tinham um ao outro, seria bom manter um relacionamento agradável. E a conversa de hoje foi um passo importante para isso.

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Müllerstraße 178, Berlin, Alemanha – 08:15 AM

Connor e chegaram ao prédio da empresa cerca de quinze minutos antes do horário marcado. Fizeram a identificação na entrada, se enrolando com o alemão e depois seguiram para a ala oeste, onde o setor de engenharia química ficava. Subiram até o nono andar, parando na pequena recepção que tinha. Viram que tinham cerca de mais duas pessoas esperando, conversando em inglês entre si. Os rapazes se olharam e se aproximam dos dois, como se quisessem se entrosar. Era um menino e uma menina, que pareciam se conhecer. Conversavam sobre coisas aleatórias de Londres, como o show que eles queriam ter ido antes de viajar. Connor olhou para pelo canto dos olhos, dando de ombros. Ele era bom em fazer amizades.

- Oi, com licença. – ele sorriu, tentando parecer simpático. – Meu nome é Connor, esse é o meu amigo . Por algum acaso vocês também estão aqui para o curso? A gente ouviu vocês falando e o inglês chamou nossa atenção, foi como um alívio. – os dois riram, sendo acompanhados pelos outros.
- Sim, nós viemos de Londres. – a menina disse. – Eu sou a Julie. – estendeu a mão na direção dos dois rapazes.
- Eu sou o Harper. – o outro repetiu o gesto. Connor e sentaram ao lado deles, tentando conhecê-los um pouco. Quanto mais pessoas ele pudesse manter perto, seria melhor.
- Nós chegamos ontem, ainda estamos bem confusos com tudo, com o idioma, com a cidade, mas acho que a gente vai se acostumar logo. – o rapaz disse, vendo afirmar com a cabeça.
- Eu também estou muito perdido, espero que essa fase de adaptação não demore muito. – comentou.
- Basta alguns dias, você vai ver. O Harper e eu passamos seis meses em Roma dois anos atrás, coisa de duas semanas depois que chegamos, ele parecia que morava na cidade a vida toda. – Julie disse, fazendo o homem ao seu lado rir, balançando a cabeça, como se negasse.
- Eu apenas me adapto facilmente a todas as situações. – deu de ombros, vendo a menina afirmar com a cabeça.
- Vocês se conhecem há muito tempo? – Connor perguntou, com uma expressão curiosa.
- Desde a faculdade, entramos e saímos juntos. Harper não sabe mais viver sem mim. – ela brincou, cutucando o amigo, que apenas rolou os olhos.
- E vocês, se conhecem há muito tempo? – o rapaz repetiu a pergunta, vendo balançar a cabeça, negando.
- Não, acho que dois de seis meses, não é? Talvez um pouco mais. – respondeu, vendo o inglês menear com a cabeça.
- Talvez agora vocês possam criar um vínculo bacana, porque é sempre bom nessas situações.

A conversa se encerrou naquele momento, porque viram uma mulher muito bem vestida passar pelas portas de vidro e caminhar na direção deles. Ela tinha um sorriso simpático nos lábios e parecia estar mais feliz do que era possível naquela hora do dia.

- Bom dia. – ela exclamou, unindo as mãos à frente do corpo e assumindo uma postura bem profissional. – Eu me chamo Magda Svenja e sou a responsável pelo Curso de Aprimoramento de Talentos da Bayer. Vou pedir que os senhores e a senhorita me acompanhem até a sala de reuniões, onde teremos uma breve conversa sobre o curso, como ela funcionará e todos os benefícios que ele proporcionará na vida profissional de vocês. Por aqui, por favor. – apontou para as portas de vidro, sendo acompanhada por todos assim que passou pela mesma.

Todos se sentaram ao redor da grande mesa de vidro, concentrando-se próximo de onde Magda parou, mexendo rapidamente num notebook e fazendo a parede atrás de si se iluminar com o logo da empresa. Nos minutos seguintes a mulher fez uma breve apresentação da empresa e do curso que fariam, explicando quais seriam as atividades, a carga horária e, principalmente, como seria a experiência deles ali. Eles teriam aula todos os dias na parte da manhã numa parte anexa ao prédio, que foi construída e preparada apenas para isso, e após o almoço eles trabalhariam ali naquele mesmo andar, junto com a equipe deles que já havia passado pelo curso. Seria uma forma de colocar em prática tudo o que estavam estudando e também continuar aprendendo. As aulas começariam no dia seguinte e iriam até duas semanas antes do Natal, que era quando o curso se encerraria. Magda achou de bom tom frisar que aqueles que se sobressaíssem durante o programa poderiam receber ofertas e novas oportunidades ao final do mesmo, então era sempre bom aproveitar todas as chances de mostrar interesse e trabalho bem feito.

Assim que encerraram a conversa, Magda os convidou para conhecer parte do prédio, já que eles passariam grande parte do dia ali. Caminharam pelos longos corredores, indo até o anexo onde estudariam, depois voltando ao novo andar e conhecendo a sala onde eles ficariam. Tinha uma mesa para cada um e eles podiam escolher. ficou com uma perto da janela, de onde era possível ver uma praça mais ao fundo. Parecia agradável poder olhar para esse ponto ao longo do dia, principalmente se estivesse sendo estressante. Magda então chamou o restante da equipe, mais cinco pessoas, para apresentar aos novos companheiros. Eram dois rapazes e três meninas, e ela disse seus nomes: Krista, Lisbeth, Eileen, Dierk e Erik.
Krista tinha os cabelos castanhos encaracolados na altura do ombro, os olhos num tom quase mel e sardas pelo rosto quase todo, era a mais alta das meninas e tinha um sorriso simpático e caloroso. Lisbeth tinha os cabelos vermelhos cortados na altura do queixo, os olhos verdes chamavam atenção e contrastavam fortemente com os fios, fazendo com que você não soubesse muito bem pra onde olhar primeiro. Eileen tinha os cabelos loiros caindo até o meio das costas, seus olhos eram num tom profundo de azul. E ela mantinha um sorriso no canto dos lábios, como se estivesse um pouco sem graça com toda a atenção. Dierk era alto e magro, o rosto fino era quase todo ocupado pelos grandes óculos de grau que usava, o cabelo castanho, quase preto, era cortado bem baixo. Sua expressão era meio carrancuda, mas ele estava apenas nervoso. E Erik mantinha um sorriso largo nos lábios, os cabelos num tom loiro escuro tinham um corte onde um pequeno topete se destacava no alto da cabeça. Os olhos escuros passavam segurança, como se ele soubesse bem o que fazer.

deu um sorriso tímido na direção de seus novos companheiros e depois ficou encarando as mãos, sem saber direito que fazer. Sentou-se em sua nova cadeira, apoiando as costas no encosto e respirando fundo.
- Nervoso com o primeiro dia? – ouviu uma voz feminina bem perto. Era Eileen, a loira que tinha chegado com o grupo. Ela sentou-se à mesa que ficava bem ao lado da sua ligando o computador. Seu inglês era ótimo, comparado com alemão de , era maravilhoso, mas tinha um leve sotaque, que fazia querer sorrir enquanto ela falava. Não porque era engraçado, mas porque ficava... bonitinho.
- Mais do que eu gostaria. – respondeu, sendo sincero. Ela sorriu, estendendo a mão em sua direção.
- Eu sou a Eileen, muito prazer. – falou, vendo o rapaz repetir o gesto, com um sorriso nos lábios.
- Sou .

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42 Moris Ave, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 18:56 PM

estava sentada na privada, com a tampa fechada, enquanto Lilly passava um creme estranho em seu rosto. Ela tinha saído do trabalho e ido direto para sua casa, e chegou falando como o creme era maravilhoso, que as mulheres do escritório tinham usado e achado incrível, então ela comprou também. E como ela era uma excelente amiga, tinha decidido que dividiriam essa experiência. Então Lilly estava espalhando o creme verde, que tinha um cheiro estranho – uma mistura de pepino com algo que remetia a limpeza e que não conseguiu decifrar –, por todo o rosto de . Depois elas mudaram de posição e foi a vez de Lilly ser coberta pelo creme. Ela reclamava que estava gelado, mas apenas ignorava, passando o hidratante em cada pedacinho de seu rosto. Depois elas se sentaram na cama, encarando a televisão desligada.

- Quando você quiser me fazer uma surpresa, traz comida. – comentou, vendo a amiga rolar os olhos e começar a rir. – É sério, eu tô com fome.
- Podemos pedir alguma coisa, o que você quer? Pizza? – Lilly viu a amiga arregalar os olhos, com interesse, balançando a cabeça com vigor. Então pegou o celular e ligou para a pizzaria que ficava perto dali, talvez não demorasse muito. – Do que você quer? Pepperoni? Mussarela? As duas? – brincou.
- As duas, grandes. – respondeu, vendo a outra franzir testa, meio surpresa. Apenas deu de ombros, passando a mão pela barriga proeminente. Lilly fez o pedido e informaram que demoraria cerca de meia hora, então precisaria sobreviver até lá. Ela continuou fazendo um carinho na barriga, até que sentiu o bebê se mexer novamente, o que a fez ficar sobressaltada. – O bebê tá mexendo! – exclamou, fazendo Lilly derrubar o celular no chão com o susto.
- Eu quero sentir. – gritou, quase desesperada, fazendo rir. Ela puxou a mão de Lilly e colocando no exato lugar onde a dela estava antes, continuou mexendo na barriga, incentivando o filho a mexer novamente.
- Vamos bebezinho, sua tia quer sentir você. – pediu, afinando a voz, como se estivesse mesmo falando com um bebê. – Você mexeu para o tio .
- Como é? O foi embora e ainda conseguiu sentir o bebê mexer antes de mim? Não, isso não tá certo. – Lilly reclamou. Ela odiava não ser a primeira em tudo, até mesmo nas coisas que não eram, realmente, uma competição. Ela se acomodou numa posição melhor, deitando com a barriga para baixo, ficando de frente para e colocou as duas mãos na barriga da amiga, sem nenhuma cerimônia. – Oi, bebê, aqui é a Tia Lilly, a tia mais legal que você vai ter na sua vida. Eu conheci a sua mãe muitos anos atrás e eu sou uma das pessoas que ela mais ama no mundo, então acho justo você falar comigo, porque ela também uma das pessoas que eu mais amo e, em breve, você também será. – ela olhou para cima, vendo sorrindo em sua direção. Lilly deu uma piscadela, voltando sua atenção para a barriga. – Pois bem, você não vai falar mesmo comigo? Vou ficar aqui falando até amanhã e... – ela ficou em silêncio quando sentiu uma vibração bem embaixo de onde estava sua mão direita. – Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! – Lilly ergueu os olhos, arregalados, para , com a boca aberta, completamente chocada. A amiga sorriu, incentivando ela a falar mais. Só que antes que Lilly pudesse falar qualquer coisa, as duas sentiram algo diferente. – O que foi isso?
- Não sei, acho que ele chutou. – disse, tão surpresa quanto Lilly. Pressionou a mão no exato lugar que tinha sentido o leve impacto antes e assim que fez, sentiu um novo chute em resposta. – Tá chutando mesmo, tá chutando muito. – exclamou, levando uma das mãos à boca e sentindo os olhos marejarem. ficava extremamente emocionada toda vez que sentia seu bebê mexer, porque era como se ela tivesse mais certeza ainda que ele estava ali, crescendo dentro dela. Que o seu sonho era real. Elas continuaram a prestar atenção no bebê, até que ele se cansou e parou, como se tivesse dormido.
- Nunca tinha acontecido antes? – a amiga perguntou e ela negou, apenas balançando a cabeça. Então Lilly soltou um gritinho de comemoração. – Não acredito que fui a primeira a sentir. – balançou o corpo, ainda celebrando. – precisa saber disso.
- Lilly, deixa ser boba. – falou, sentindo um aperto no peito de ouvir o nome do amigo. Não tinha se permitido pensar muito nele, porque isso a deixava triste.
É claro que estava imensamente feliz pela oportunidade que ele estava tendo, ela foi uma das pessoas que mais o incentivou a ir, ainda quando ele mesmo quis desistir... por ela. Parecia besteira ficar triste agora, mas não é como se ela tivesse escolha, não podia deixá-lo perder isso, não conseguiria viver com essa culpa. Mas parecia que não conseguia viver com a saudade também. E isso porque tinha cerca de vinte e quatro horas que tinha partido. Ainda faltavam outros trezentos e sessenta e quatro dias. Mais de vinte e uma mil horas. E mais segundos do que podia contar. Não que não estivesse contando.
- Eu vou contar para todo mundo. – Lilly disse pegando o celular no chão e digitando rapidamente uma mensagem.

“Adivinhem quem foi a primeira a sentir o bebê da chutando?
Claramente eu já sou a tia preferida.”

Lilly, 19:17


O celular de logo apitou em cima da mesa de cabeceira e ela jogou a cabeça para trás, rindo da amiga e de suas conquistas.
- Você é ridícula. – falou, olhando a cara de presunçosa da amiga. Só que antes que ela pudesse responder, os dois celulares apitaram ao mesmo tempo.

“Claro que você é a tia preferida... é a única.”
Anthony, 19:19

“Exijo uma reavaliação de preferências. Vamos todos nos reunir
e vemos pra quem ele se mexe primeiro.”

Noah, 19:20

- deve estar em casa essa hora, né? – Lilly comentou, olhando as mensagens dos meninos. – Na verdade, eu não sei direito a diferença do horário.
- Acho que são cinco horas a mais, então ele deve estar dormindo, talvez. Não sei mais a programação do . – havia um pouco de ressentimento no tom de voz de e Lilly percebeu. Ela se sentou ao lado da amiga, segurando sua mão e olhando atentamente para o seu rosto.
- Olha, , eu sei que não sou o . Não sou organizada como ele, não sou certinha e provavelmente não vou saber te ajudar nas mesmas coisas que ele sabia, mas eu tô aqui. Anthony e Noah estão aqui também. Não é como se você estivesse sozinha. Eu sei que não vamos substituí-lo, que não vamos ocupar o seu lugar, mas talvez, quem sabe, a gente possa encontrar um lugarzinho só nosso, que tal? – suspirou, apertando levemente a mão da amiga, antes de esticar o corpo para pegar seu celular.

“Reavaliação agendada para amanhã, horário a combinar.
Combinem o melhor horário pra vocês com a Lilly e venham me ver, tô sempre disponível.”

, 19:23


deixou o celular ao lado do corpo, esticando as pernas e as costas para se alongar. Ficou olhando para a amiga por alguns segundos, ela estava deitada na cama, com a barriga para cima e as pernas erguidas, apoiadas na cabeceira, e ria bastante enquanto olhava a tela do celular, provavelmente alguma mensagem de Scott. Lembrou de todas as coisas que pensou no almoço na casa de Kathy, sobre como o bebê poderia nascer parecido com o , como isso poderia ser um problema para ela no futuro. Estavam só elas ali, confiava em Lilly, então poderia muito bem ser sincera e contar tudo, pedir ajuda para a amiga, porque ela estava ficando louca. Mas por outro lado, ela se questionava se deveria realmente sofrer por antecipação, porque ela poderia estragar tudo por nada, seu filho nasceria igual a ela e ninguém nunca desconfiaria de nada. Seguiriam achando que é fruto de uma relação casual que não foi em frente. Esse era o plano, certo? Então ela deveria seguir. Mas nunca foi muito boa em seguir com planos.

- Lilly, você acha loucura eu ter esse bebê sozinha? – falou, vendo a amiga virar o rosto na sua direção, com o cenho franzido, como se estivesse confusa. – Sabe, você acha que eu deveria procurar o pai, contar da gravidez.
- Você sabe onde ele tá? – ela perguntou, sentando imediatamente, deixando o celular de lado. – Tipo, consegue encontrá-lo com facilidade?
- Talvez... – mentiu, rezando para que estivesse sendo convincente.
- Bem, eu acho que seria bom, porque ele tem o direito de saber que será pai, mesmo que escolha não fazer parte da criação da criança. Se um dia ele vier a saber que tem um filho, ele pode fazer valer seus direitos como pai e talvez não de uma forma amigável. Juridicamente falando, ele pode entrar na justiça para garantir os direitos dele como pai. Então se você conseguisse revolver essa questão enquanto ainda não envolve diretamente a criança, provavelmente é melhor. Mas é homem, né, , as chances de ele querer assumir são menores que a minha paciência com as pessoas no dia a dia. Acho que um dos únicos homens que fariam isso na face da Terra era o . – Lilly riu abertamente, sendo acompanhada de , mas o riso da outra era diferente, era de puro nervosismo.
- Mas a questão não é essa, de contar ao pai, mas sim de criar o bebê sozinha. Você acha que eu devo dar a chance dele ter um pai? Porque eu cresci sem o meu e fiquei bem, mas acho que é sempre bom para uma criança ter mais referências enquanto cresce, certo? Eu só sei que passei a minha vida toda me questionando se tinha sido minha culpa, se tinha sido por minha causa que o meu pai foi embora e eu não quero que... – a voz da menina meio que morreu no final da frase, demonstrando sua vulnerabilidade.
- A culpa não é sua, . E muito menos será do seu filho. – Lilly se apressou em falar, se aproximando e segurando a mão da amiga entre as suas. – Claro que crescer com os dois pais pode ter influência na vida e no desenvolvimento da criança, mas nunca será algo primordial. Necessário mesmo é o amor que você tem de sobra para dar a ele. É o carinho que você terá, o cuidado. E se precisar de mais referências, a gente tá aqui. Essa criança será a mais mimada e amada de todo o mundo. Então se você quiser ir atrás do pai, ótimo, tem todo o meu apoio, mas se você não quiser, ótimo também e terá mais ainda o meu apoio. Você é incrível, absurdamente forte e será uma excelente mãe, não comece a se questionar agora. Ter um pai ao seu lado não te fará melhor. Quantas mulheres você conhece que criam seus filhos sozinhas?
- Muitas. – respondeu, com a voz baixa, lembrando logo da sua própria mãe.
- Você acha que foi fácil todos os dias? Que elas não quiseram desistir ou que choraram até dormir? Nunca vai ser fácil. Porque, né, é a vida. Mas quando você sentir eu tá pesado demais, você sabe quem chamar, certo? Você sempre segurou minha barra, agora é minha vez. – Lilly sorriu de lado, vendo a amiga a puxar para um abraço apertado. A campainha soou atrapalhando o momento, então elas se separaram. – Vou pegar as pizzas.
- Tem refrigerante na geladeira. – gritou quando a amiga já estava no corredor. Os dois celulares vibraram ao mesmo tempo e a menina pegou o dela, desbloqueado a tela e vendo a notificação de uma nova mensagem. riu sozinha, era como se ele adivinhasse.

“Lilly, o bebê mexeu primeiro comigo, não tente me roubar isso.
Estou longe, mas ainda estou de olho.”

, 19:35


🤰 👶 👪


Platz vor dem Neuen Tor 6, Berlin, Alemanha – 00:35 AM

estava de volta ao seu pequeno apartamento, encarava o teto, sem saber o que fazer. Podia ligar para a mãe, para , para um dos amigos, era meia noite aqui, mas lá eram sete da noite, Lilly estava com , ele poderia conversar com as duas um pouco, matar as saudades e depois dormir. Só que sabia que não conseguiria lidar com isso agora, estava muito recente e ele não era uma pessoa forte. Só que era difícil demais estar sozinho. Sim, ele morava sozinho, mas tinha tanta gente que ele amava e também o amava por perto. E agora ele estava sozinho de verdade. Se precisasse algo, teria que recorrer ao Connor e ele não conhecia o Connor, como poderia se abrir? Ficou pensando nas mensagens que Lilly mandou, no bebê se mexendo, chutando e ele não estando lá. Teria que se acostumar, porque quando voltasse, o bebê já existiria, seria uma pequena pessoa e não poderia ficar lamentando o que perdeu, sim tentar aproveitar o que poderia acompanhar. Acompanhar de longe, como tio, padrinho, amigo. Mesmo sabendo que também era seu, que eles compartilhariam um laço maior do que qualquer coisa pelo restante da vida de ambos. Mas ele fez uma promessa e cumpriria.
Respirou fundo, olhando o envelope que tinha lhe dado, esticou o corpo e o pegou, puxando uma folha aleatória de dentro do mesmo. A caligrafia inconfundível da menina o fez sorrir. odiava sua letra, mas ele adorava. Era confusa e estranha, assim como a dona.

Querido ,

Você embarca em dez dias e é como se eu já estivesse sentindo você cada vez mais longe de novo. Um pouco a cada dia. Acho que assim é até melhor, sabe? Porque me dá tempo para acostumar, não sei. Eu estava aqui pensando, foram tantas coisas que passamos juntos, mas não consigo me lembrar da última vez que ficamos tanto tempo separados e não consigo. Talvez tenha sido na sua viagem de férias, no primeiro ano do ensino médio, quando você foi para a casa dos seus avós no Michigan. Foram longos dois meses, confesso... Lembro de sentar na porta de casa durante a tarde e ficar olhando as pessoas passando na rua, porque eu não tinha nada para fazer. Depois ficava parada na janela, olhando para a sua, como se você fosse aparecer num passe de mágica. Acho que foi o pior verão da minha vida, espero que o seu tenha sido melhor.
Quer saber, eu acho que nós temos sorte, porque não é todo mundo que tem a chance de ter algo assim durante a vida, ou até mesmo parte dela, . E nós temos vivido isso ao longo de quase toda a nossa. São mais de vinte anos. Todas as minhas memórias estão atreladas a você. Tanto as boas, quanto as ruins, porque você sempre esteve por perto. Eu sei que tenho em você alguém para confiar de olhos fechados, que vai me apoiar independente do que acontecer. Que vai me ajudar a levantar, que vai me acompanhar quando o caminho ficar difícil demais para seguir sozinha. E agora você me deu a coisa mais importante da minha vida e eu serei eternamente grata por isso. Talvez eu nunca seja capaz de retribuir, eu sei muito bem disso, mas espero que todas as vezes que você olhar para esse bebê, veja um pouco de você nele. Veja como a nossa amizade deu frutos, maravilhosos frutos. Veja como nós dois seguiremos juntos até depois que não estivermos mais por aqui. Porque viveremos nesse bebê. E nos filhos dele. Nos netos, bisnetos. Acho que esse é o nosso destino, estar sempre junto, até mesmo quanto estamos longe. E é assim que eu sinto você perto de mim, talvez mais perto do você sempre esteve.

Com amor,



Continua...




Nota da autora: (06/04/2018)
Primeiro dia do mozão na Alemanha, ele morrendo de saudades de lá e a gente morrendo de saudades daqui. Não sei se ela vai conseguir guardar esse segredo por muito tempo não, viu. Essa principal tá desesperada para compartilhar seus problemas e suas dúvidas com alguém. O primeiro que der uma abertura, capaz dela contar.
Espero que vocês tenham gostado do capítulo e me desculpem pela falta de att em março, mas vou tentar compensar esse mês.
Até a próxima!
Beijos da That
ps. Eu mudei o meu grupo do Facebook, porque no outro tinha muita gente que não participava, então quem quiser entrar no novo, é só clicar no ícone do Facebook ali embaixo.

Aqui abaixo estãoas redes sociais onde vocês podem acompanhar a fanfic, até mesmo um instagram e um twitter, e há também uma playlist que eu uso para me inspirar para escrever. Caso queiram as minhas redes sociais pessoais, basta clicar no ícone "ffobs" e seguir para a minha página de autora. Também fiz um grupo whats para reunir as leitoras que quiserem falar comigo. Às vezes eu fico meio desesperada querendo falar com alguém, querendo uma cobaia, então quem quiser entrar, é só clicar aqui.



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