Última atualização: 05/12/2017

Um

I think I’m ready for something new
(Tom Fletcher – Something New)

BAILE DE FORMATURA, 2002

A menina balançava seu vestido de baile amarelo de um lado para o outro, enquanto o rapaz continuava sentado, completamente desanimado, da mesma forma que estava desde que eles tinham chegado. e se conheciam desde que tinham cinco anos de idade e ela se mudou para a casa ao lado da dele, depois que seus pais se separaram. As janelas dos seus quartos ficavam uma de frente para a outra e eles costumavam passar horas e horas, noites e mais noites conversando. Eles falavam sobre tudo, provavelmente eram as pessoas que eles mais confiavam no mundo. Ela sempre foi uma pessoa meio estranha e adorava isso, ele se divertia com as ideias loucas da amiga, por mais que algumas delas nunca dessem certo. E hoje, no baile de formatura deles, resolveram vir juntos, porque a garota que foi apaixonado durante todo o ensino médio foi convidada exatamente pelo rapaz que estava interessada. Então, para comemorar a como a vida poderia ser tão ingrata com ambos ao mesmo tempo, combinaram que ir juntos. Pelo menos não iriam sozinhos e poderiam tentar se divertir de alguma forma, por mais que não parecesse muito interessado nisso.
Ela estava tentando se divertir, dançando com qualquer música que tocava, mesmo que o rapaz se recusasse a ser seu par. Ela parava em sua frente e fazia diversos passos engraçados, para tentar, ao menos, fazer o amigo sorrir. E estava tendo sucesso com isso. Mas uma música lenta começou a tocar e todos os casais se formaram, indo para a pista. não queria se a única a ficar para trás, então foi até seu amigo, praticamente implorar por uma dança.

- Por favor, , é nosso baile de formatura, nossa libertação. Temos que comemorar! – ela falou, segurando na mão do rapaz e tentando fazê-lo levantar
- Comemorar o que, ? – ele perguntou, fazendo força para se manter sentado.
- Nunca mais teremos que estudar matemática, física e química, quer um motivo melhor do que esse? Quer dizer, menos o cdf aqui que vai fazer Engenharia Química na faculdade. – ela fez uma careta e o rapaz gargalhou – Nós vamos embora daqui e não teremos mais que sofrer por nenhuma Leigh ou Aaron. – o rapaz ponderou, afirmando com a cabeça – E por último, mas não menos importante, porque eu quero. Agora vem. – ela puxou com um pouco mais de força e contou com a boa vontade dele em levantar. Eles se enfiaram no meio dos alunos na pista e começaram a se balançar de forma desconjuntada.
- Eu sou um péssimo dançarino. – comentou, balançando a cabeça.
- Bem, não se pode ser bom em tudo, não é mesmo. – a menina comentou, rolando os olhos. A música mudou e uma bem antiga começou a tocar. Os olhos da menina brilharam e um sorriso genuíno brotou nos lábios dele.
- Eu amo essa música. – os dois disseram ao mesmo tempo, rindo em seguida. – “When the night has come and the land is dark...” - cantarolaram juntos.
- Pelo menos esse DJ tem um bom gosto, as músicas são legais. – comentou, aparentemente surpreso.
And the moon is the only light we'll see... ♪♪
- Eu falei que você ia gostar da festa, seu chato. – ela fez uma expressão convencida.
- Ok, tudo bem, não está tão ruim assim. – ele assumiu, como se não se importasse.
- , eu tava aqui pensando... – a garota mudou de assunto repentinamente.
- Isso é perigoso. – ele brincou, recebendo um tapa da amiga em resposta e rindo alto em seguida.
No, I won't be afraid, no, I won't be afraid... ♪♪
- Não, é sério de verdade. – a expressão dela se tornou mais fechada e preocupada – Não sei se é essa festa ou todo esse clima de despedida, mas você é o único amigo de verdade que eu tenho e eu estava me perguntando se daqui a dez, quinze, vinte anos, você ainda será meu amigo. Não sei, vai que você arruma uma esposa que não gosta de mim. – ela deu de ombros.
Just as long as you stand, stand by me... ♪♪
- Por que você tá falando isso? – ele perguntou, confuso – Você acha que eu deixaria de ser seu amigo?
- Casamentos acabam, por que amizades não acabariam? – ela disse, mordendo o lábio inferior. sempre soube que o divórcio dos pais de tinha mexido muito com ela, mas nunca teve muita noção da dimensão que tudo tinha tomado em sua vida. Eles pararam de dançar e ele tocou o rosto da amiga, fazendo com que ela o olhasse.
And, darling, darling stand by me... ♪♪
- , que história é essa? Você acha que nossa amizade vai acabar assim tão fácil depois de doze anos? Você tem muito o que me aturar ainda. Tire essas ideias loucas da sua cabeça.
- Mesmo que a sua futura esposa faça você escolher entre mim e ela? – perguntou, com um sorriso bobo.
- Eu escolho você, dou preferência pelo tempo de convivência. – ele sorriu, sentindo os braços da menina passarem pelo seu pescoço, o puxando para um abraço apertado.
If the sky that we look upon should tumble and fall... ♪♪
- Me desculpe se eu estou muito carente, mas essa mudança para a faculdade tá acabando com a minha cabeça que já não é muito boa. – ela fez uma careta. Ele suspirou, pegando a mão da amiga e a girando no meio da pista, para que pudessem voltar a dançar.
- Não esqueça que eu estarei lá com você, um pouco mais longe do que o normal, mas apenas a alguns prédios de distância. – ele piscou e ela afirmou – Eu tenho uma proposta louca para fazer pra você.
And the mountains should crumble to the sea... ♪♪
- Adoro propostas loucas. – ela sorriu abertamente, esquecendo um pouco a tristeza que estava a dominando antes.
- Eu sei bem muito bem disso. – comentou, balançando a cabeça com vigor.
- Pare de me enrolar e fala de uma vez, você sabe que eu sou curiosa.
I won't cry, I won't cry, no, I won't shed a tear... ♪♪
- Eu quero propor que, caso nós dois estejamos solteiros até os quarenta anos, a gente se casa. Assim não teremos que nos preocupar com nossos companheiros nos fazendo escolher. – ela apertou os olhos, fazendo uma cara engraçada.
- Eu sempre soube que você era apaixonado por mim, , você nunca me enganou. – brincou, fazendo o amigo soltar uma alta gargalhada, chamando a atenção de todos ao redor – Mas, sim, eu aceito seu pedido de casamento com vinte e três anos de antecedência. Agora pode começar a torcer para eu não me casar, porque eu sei que é isso que você fará todos os dias de sua vida.
- Você não existe, . – ele riu, beijando o topo da cabeça da amiga.
Just as long as you stand, stand by me... ♪♪

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e foram para a mesma faculdade mais tarde naquele ano. Ele foi cursar Engenharia Química e ela, sem ter certeza do que fazer da vida, começou fazendo Psicologia, mas logo nos primeiros semestres viu que não seria algo que a interessaria. Então mudou para Pedagogia, não que estivesse muito certa do que estava fazendo, mas pelo menos dessa vez ela foi até o final. Mesmo estando em grupos e locais diferentes pela primeira vez em doze anos, os amigos faziam tudo o que era possível para ficarem juntos. Sempre que conseguiam, eles se encontravam no bar perto da faculdade para conversar sobre a vida, as aulas, as desilusões amorosas, qualquer bobagem que aparecia ou apenas para ficarem perto um do outro, mesmo sem falar nada. E dessa forma eles viram namoros começarem, terminarem, começarem de novo e acabarem de vez. Alguns corações foram partidos, amizades conquistadas, algumas perdidas também, mas o que realmente importava era que o tempo passava e eles continuavam juntos, como se nada tivesse mudado, exatamente da forma que tinham prometido um ao outro.
Cinco anos depois, ambos formados, eles não queriam voltar para casa dos seus pais, então foram em busca de um apartamento para eles. Não que fossem morar juntos, mas um ajudou o outro a achar o seu próprio cantinho, de acordo com o que o emprego que conseguiram proporcionava. encontrou um apartamento pequeno no centro, perto de tudo. Tinha um quarto relativamente grande e uma sala relativamente pequena, o que cabia no seu orçamento de engenheiro auxiliar de uma empresa farmacêutica. Não se preocupou muito com a decoração, já que era um apartamento alugado. Toda e qualquer sobra de dinheiro do mês ia para o banco, onde mantinha uma poupança há um bom tempo. Já se apaixonou por um lotf quase do tamanho do seu antigo quarto, na casa de sua mãe, que ficava em cima de uma floricultura. Ela dizia que ali seria o lugar perfeito, porque sempre teria cheiro de flores, sem que ela precisasse gastar dinheiro com isso. Todas as coisas da menina mal cabiam naquele apartamento, mas ela o amava mais que tudo na vida. Ela usou todas as suas economias para deixá-lo do jeito que imaginou. As contas acabavam atrasando um pouco em alguns meses, porque o salário de professora do jardim de infância não era muita coisa, mas ela estava muito feliz com o pouco tinha e isso lhe parecia o suficiente.
O tempo passava e crescia na empresa, depois de quatro anos trabalhando na Bayer como engenheiro auxiliar, ele já havia sido promovido duas vezes, passando a engenheiro sênior e chefe do seu setor. Ele estava pesquisando sobre uma especialização que a empresa oferecia em seu país sede, na Alemanha, mas a disputa era grande e ele não tinha conseguido a vaga nas últimas cinco tentativas, mas ele não desistiria. Já continuava a lecionar para crianças, dava mais algumas aulas e conseguia um pouco mais de dinheiro que antes. Só que ela não tinha grandes planos de carreira como , ela só queria um emprego que pudesse se manter. Se conseguisse pagar as contas no final do mês e sobrasse um pouco de dinheiro para se divertir, já estaria feliz.
Nesses últimos anos, não havia tido nenhum namorado sério, só o Josh, que acabou sendo um enorme babaca quando tentou beijar uma amiga sua, Jade, sem saber que era amiga da própria namorada. Ela chorou no colo de , que consolou mais um coração partido da amiga. Nada que o tempo não curasse. Já tinha namorado duas vezes: um que durou dois anos e terminou porque, aparentemente, ele trabalhava demais e tinha tempo de menos; e o outro que durou cerca de dois meses. Diane não gostava de , na verdade ela tinha muitos ciúmes da amiga do namorado. E então, como se mais de vinte anos de amizade não fosse significar nada perto de dois meses de namoro, ela pediu que se afastasse de . O rapaz terminou com ela dias depois do pedido, mas nunca comentou o caso com a amiga, porque ele sabia que não acabaria bem.
E dessa forma, as coisas seguiam sem muitas mudanças, num mesmo ritmo, como a vida deveria ser. Eles de encontravam todas as quintas-feiras, era o costume deles, uma tradição. Uma semana na casa de , na seguinte na casa de , onde conversavam sobre o que tinha acontecido na semana, comiam alguma coisa bem gordurosa e viam quantos episódios de Friends conseguissem até pegarem no sono no sofá. Quem olhasse de fora os veria como um casal e seria um belo casal, porque não tinha uma única coisa em que não combinassem ou que discordassem, só que depois de tantos anos, provavelmente não cabia nenhum romance ali. Os outros amigos até brincavam, dizendo que eles já eram um casal, só não tinham percebido. Mas será que valia a pena arriscar uma amizade tão longa, em um relacionamento que poderia não dar certo? Era um tiro no escuro e isso nem passava pela cabeça deles.

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COFFEE HOUSE, 2012

esperava a amiga no café que eles sempre frequentavam e, para variar, ela estava atrasada. Era uma caminhada de cerca de quinze minutos da casa dela até ali, enquanto ele morava logo na esquina, sabia que tinha saído de casa muito cedo. Ele olhou no celular e viu que a mensagem que ela tinha enviado, avisando que já estava chegando, era de vinte minutos atrás. Mas ele sabia que ela não estava chegando e, muito provavelmente, ainda estava em casa. Então apenas pegou o aparelho, tirando uma foto fingindo uma expressão cansada e enviou para ela, recebendo uma risada em resposta e a seguinte frase em seguida:

“Agora é sério, estou na esquina.”
14:47

Ele olhou para o lado de fora, vendo a menina passar pela janela, que cobria grande parte da parede externa do lugar. Ela sorriu abertamente quando viu o amigo, fazendo uma careta, ele abaixou a cabeça, balançando a mesma lentamente, enquanto ria baixo.
entrou na cafeteria, tirando o casaco e andando apressadamente para sentar ao lado de . Ela sorriu ao sentar, apoiando o agasalho na cadeira vazia ao seu lado. Colocou o celular sobre a mesa e respirou fundo, tomando coragem para iniciar a conversa que tinha pedido para ter com o amigo.

- Tá tudo bem? – perguntou, notando que ela estava nervosa.
- Acho que é falta de cafeína. – respondeu rapidamente, levantando a mão para chamar a garçonete. estalava os dedos nervosamente enquanto esperava, balançando as pernas debaixo da mesa. percebeu e colocou sua mão sobre a dela, fazendo um carinho suave. Ele sorriu de lado, arqueando a sobrancelha, como se perguntasse: “Tá tudo bem mesmo?” e viu que ele tinha percebido o seu nervosismo e balançou a cabeça lentamente, com uma expressão de “deixa pra lá.” – Eu quero um expresso duplo com creme, por favor. – ela pediu, assim que a garçonete chegou – E ele...
- Um cappuccino, com um pouquinho de canela. – o rapaz pediu, sorrindo de lado para a atendente. – , qual o problema? Você se envolveu em alguma confusão? Não adianta me falar que tá tudo bem, que não aconteceu nada, porque eu te conheço melhor do que você mesma. Você não fica assim por nada. Anda, me diz o que aconteceu de tão grave que você está quase arrancando seus dedos e fazendo um buraco no chão.
- Não aconteceu nada, de verdade. Bem, não ainda... – ela molhou os lábios antes de continuar – É que eu tomei umas decisões a respeito da minha vida e eu preciso conversar com você a respeito delas, porque eu preciso da sua opinião e do seu conselho. Você sabe o quanto eu levo tudo o que você fala a sério, não é?
- Claro que sei, então me fala. – ele pediu, já sendo dominado pela curiosidade.
- É que é muito complicado, . Eu não sei se você vai entender, você é homem, talvez você não entenda essas coisas.
- Bem, se você me explicasse ou pelo menos tentasse, eu poderia dizer se entendi ou não, certo?
- Ok. – disse, respirando fundo e olhando para o rapaz pelo canto dos olhos. – Você sabe que eu não tenho uma vida legal como a sua, eu não me formei na faculdade dos sonhos, eu não tenho o emprego que sempre desejei, eu basicamente trabalho para viver, não pode eu realmente gosto do que eu faço, certo?
- Mas isso foi uma escolha sua, . Nós conversamos muito sobre isso quando você escolheu fazer pedagogia na faculdade, eu disse que você não iria gostar...
- Deixa eu terminar, por favor. – ela pediu, fechando os olhos fortemente.
- Tudo bem, desculpa te interromper. – o rapaz falou, percebendo que havia algo de estranho na amiga.
- Eu não fiz boas escolhas na vida quando se tratavam de realizar os meus sonhos. Até porque eu nunca soube verdadeiramente o que eu queria fazer... enfim. Não é para falar sobre como eu nunca tive certeza de nada na vida que eu te chamei aqui, . A verdade é que eu tenho 27 anos e nenhuma realização, nada grande e emocionante na minha vida. É como se eu estivesse desperdiçando cada minuto meu na Terra, desperdiçando grande parte de vida curta que nós temos. Então eu resolvi fazer uma coisa... – ela foi interrompida pela garçonete, que trazia o pedido que eles haviam feito. Eles agradeceram e ela se afastou. E enquanto levava a xícara ate os lábios, voltou a falar. – , eu quero ter um bebê. – ela disse rápido, se atropelando nadas palavras, antes que perdesse a coragem de falar. O rapaz se engasgou com a bebida e encarou a amiga, completamente confuso.
- Você vai ter um bebê? – ele disse, sussurrando, como se não acreditasse muito – Quem é o pai? Como isso aconteceu? ...
- Não, . – ela interrompeu o surto do rapaz – Eu quero ter um bebê. Um filho, meu filho. Eu sei que parece loucura, mas é o único sonho que eu sempre tive e que eu posso realizar no momento.
- Por algum acaso você pensou em tudo a respeito na realização desse sonho? Dos custos, de todo o trabalho de envolve colocar uma criança no mundo e, principalmente, uma coisa chamada pai? , você mal consegue pagar suas contas no final do mês direito e uma criança gera muitos custos.
- Eu falei com a minha mãe... – ela disse e ele revirou os olhos. A mãe de era uma as pessoas menos ajuizadas que conhecida, é claro que ela daria apoio para a filha. – E ela disse que eu poderia voltar para casa, lá tem três quartos, eu poderia ficar no meu antigo e arrumar o outro para o bebê. Assim eu já economizaria o do aluguel, eu tenho algumas economias e ela me ajudaria. Eu acho que ela adorou a ideia do bebê, ainda mais eu voltando para cara com um bebê.
- Claro que ela adorou, seria mais uma criança para ela criar da forma louca dela. – comentou e riu – Porque vamos combinar, , sua mãe não faz o requisito de “mãe normal”.
- Eu sei que não faz, , não discutiremos a respeito disso, até porque eu sou prova viva dos métodos loucos que criação que ela tinha. Só que esse bebê teria a mim e eu o criaria da minha própria forma estranha. – ela brincou e ele rolou os olhos, respirando fundo em seguida.
- Acho que você está decidida a respeito disso e o intuito dessa conversa era apenas me comunicar, certo?
- Você não entende, . É que o tempo passa, eu vejo as pessoas ao meu redor conquistando tudo o que sempre sonharam e eu me vejo parada no mesmo lugar. Eu sempre quis ser mãe, sempre quis ter uma família grande e linda. Ter várias crianças correndo pela casa, ouvir meus filhos brincando, ajudar na lição, levar para a escola, organizar as coisas das festas de aniversário. Você sempre teve sonhos diferentes, o seu ideal de vida é algo focado no trabalho, na carreira, mas eu não penso assim. – ela suspirou, passando a mão pelo rosto, desapontada com a falta de apoio que vinha do amigo – Eu não lembro de como viver em família, não sei se eu era muito nova ou se a minha vida apenas com a minha mãe não foi o exemplo de vida em família que eu idealizei. Então eu sempre pensei, sempre me imaginei vivendo numa casa grande, com meus filhos, meu marido, um cachorro, esses sonhos bobos que algumas garotas tem. Só que cada dia que passa, parece que está mais distante de acontecer. E os desejos e prioridades mudam. Eu não quero um marido, eu quero um filho, uma coisinha que eu sei que eu vou amar mais do que qualquer coisa nesse mundo e que vai me amar de volta. Pode ser loucura, , mas eu não me importo.
- Realmente, , eu não entendo, mas eu não entender não muda nada. É o seu sonho, não o meu. O que eu acho ou deixo de achar, não importa no momento. Se eu faria algo assim? Provavelmente não, mas é você que tem que escolher e independente da escolha... – ele colocou a mão sobre a mesa, para a amiga a segurasse – Você sabe que eu estarei por perto, não é mesmo?
- Você não vai me achar louca por querer ter um filho sozinha? – ela perguntou, sorrindo de lado. Vendo o amigo sorrir, balançando a cabeça lentamente.
- Eu já te acho louca normalmente, então não. Talvez uma criança ajude a criar um pouco de juízo na sua cabeça. – brincou, bebericando um pouco de sua bebida.
- Bem, talvez você me achei mais louca ainda depois do que eu realmente tenho pra falar. – continuou, escondendo uma careta até da xícara de café.
- Você já está grávida? – o rapaz perguntou, sobressaltado.
- Não, , eu já falei que não. – ela respirou fundo, coçando a cabeça, tentando criar coragem. – Eu tenho pensado nisso há um tempo e imaginando possibilidades de como isso seria possível. Não queria ter um filho fruto de uma relação casual, então me restaria a doação de esperma.
- Que assunto estranho, . Será que eu não posso ficar apenas no apoio, sem saber de muitos detalhes? Posso te acompanhar nas consultas, posso te ajudar com os desejos durante a madrugada e brincar com o bebê quando ele nascer, mas eu não gostaria de me envolver na sua busca por um pai para essa criança. – disse, fazendo a menina morder o lábio inferior e parecer desconfortável.
- Eu não imagino o filho sendo metade meu e metade de um desconhecido. Então eu pensei na pessoa que eu mais confio no mundo, mais inteligente, companheira, um excelente amigo e que doaria ótimos genes para o meu bebê, inclusive, quem sabe, um maravilhoso par de olhos ...
- , não. Sem condições. – o amigo respondeu, entendendo exatamente aonde a menina queria chegar com aquela história. Ele ria de nervoso, sem saber se controlar. Ele passou a mão pelo cabelo, visivelmente desconsertado pelo pedido que ela ainda nem tinha feito.
- , só pense na possibilidade. – ela pediu, vendo o rapaz parecer cada vez mais apavorado.
- Você está me pedindo algo que vai além de todos os limites. – ele murmurou, colocando as duas mãos no rosto, sem saber como agir, o que falar ou fazer. – Você está me pedindo para ser pai do seu filho. – disse baixo, como se fosse segredo. Talvez ele ainda não tivesse coragem de falar em voz alta.
- Eu não estou pedindo que você seja o pai do meu filho. – a menina falou, vendo a expressão assustada do rapaz se tornar confusa – Eu só preciso do seu esperma. – disse, como se fosse a coisa mais simples no mundo.

¹ A música que toca no baile de formatura é Stand by Me, do Ben E. King.


Dois

There isn't anything I wouldn't do for you
(Randy Newman – You've Got a Friend in Me)


- Tá, então eu não seria o pai da criança, apenas doaria um pouco do meu esperma e você teria o bebê sozinha? – perguntou, ainda tentando assimilar toda aquela história e rezando para que a amiga o corrigisse, mas logo viu que tinha entendido certo, ao olhar de lado, vendo a garota balançar a cabeça, afirmando.
- Assim como seria se eu procurasse um doador anônimo. Inclusive, você teria que assinar um termo que deixaria claro que você não tem direitos sobre a criança. Eu não quero que você tenha o trabalho e as preocupações de um pai, . Nunca pediria que você assumisse essa responsabilidade sem que fosse um desejo seu, não existe isso, é loucura demais até pra mim. – bebericou um pouco de seu café – A questão é que eu queria uma pessoa que eu conhecesse, confiasse e você me pareceu, me parece, a melhor opção: inteligente, bonito, educado, simpático. Tudo o que eu posso querer que meu filho seja, mas eu não posso e nem vou te obrigar a nada.
- Você sabe que isso é loucura, não é? Que não nenhuma chance de eu ser apenas um doador para essa criança, porque eu vou saber que é meu filho, as pessoas vão saber, elas vão falar...
- Ninguém precisa saber. Aliás, ninguém precisa saber de nada, eu posso muito bem ter engravidado numa transa casual e o pai não quis assumir. Isso acontece todos os dias, com várias mulheres, ninguém vai desconfiar. Eu seria apenas mais uma “mãe solteira”, por pior que seja esse termo. – a amiga buscou a mão do rapaz, tocando-a levemente, fazendo com que ele a olhasse – Eu não vou te pressionar, porque sabia que seria praticamente impossível você aceitar essa ideia, mas achei que deveria tentar, pelo menos. Mas se você não quiser, , não tem problema. Eu escolho um doador da clínica e não tocamos mais nesse assunto.
- Você não vai ficar chateada comigo? – ele perguntou, olhando a amiga pelo canto dos olhos.
- Claro que não. – respondeu, com sinceridade em sua voz.
- É que é difícil pensar nisso, como seria eu olhar para essa criança e não enxergar como minha também.
- Eu entendo, juro que te entendo. – ela disse, sorrindo de lado – E como prometido, não tocaremos mais no assunto, ok? Sobre o que quer falar agora, alguma resposta do curso de especialização da empresa?
- Nada ainda, mas o período de inscrição ainda está aberto, tem mais um ou dois meses para sair o resultado, só resta esperar. – deu de ombros, como se não se importasse, mas sabia que ele se importava, sim. Ele tentava uma vaga nesse curso há anos, mas eram sempre os mesmos queridinhos do chefe que conseguiam, já que todos queriam passar um ano na Alemanha com tudo pago. Aliás, quem não queria?
- Você vai conseguir dessa vez, algo me diz isso. Só que não sei o que eu vou fazer sem você aqui. – a menina sorriu de lado, vendo o rapaz rolar os olhos.
- Não sofra por antecedência, . Você sempre diz que eu vou conseguir dessa vez, mas a vez chega e eu não consegui.
- Mas dessa vez é diferente, eu sonhei que você estava na Alemanha duas noites atrás, na manhã seguinte eu passei em frente à livraria e tinha um dicionário inglês-alemão na vitrine. Logo mais na frente, naquela loja de material esportivo que tem duas ruas antes da escola, tinha uma camisa da Alemanha na vitrine e quando eu cheguei ao trabalho, a Joy tinha me levado um strudel de maçã. – apoiou o rosto numa das mãos e encarou a amiga, segurando o riso, enquanto balançava a cabeça lentamente. Ela era simplesmente incrível quando queria provar alguma coisa, mesmo se fosse uma besteira qualquer. sempre encontraria pontos e explicações das mais diversas e absurdas para mostrar que estava certa – Então não foi apenas uma sensação. Foi a sensação, um sonho e três elementos que comprovam tudo, porque duas coisas formam uma coincidência, mas três já é certeza. – ela sorriu, convicta de que estava certa.
- Nossa, com certeza a vaga é minha, ninguém vai poder competir com um sonho, um dicionário, uma camisa e um strudel. Se não tivesse o strudel até daria, mas quando ele apareceu, eu vi que não tinha mais chances. – o rapaz zombou, fazendo a menina apertar os olhos.
- Tudo bem, se não quer acreditar, não acredite. Mas comece a pensar como será viver longe de mim por um ano, porque eu sei que você não vai aguentar. – comentou, vendo o amigo balançar a cabeça, afirmando.
- Tem, o que, vinte anos que a gente se vê quase todos os dias? – perguntou retoricamente.
- Basicamente. Você acha que sobrevive?
- Ah, com certeza não. – o rapaz brincou, como se não levasse muito a sério a possibilidade de ficar longe por todo esse tempo.

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Mesmo com a negativa de , iria continuar com o seu plano, então era por isso que ela estava na sala de espera da sua ginecologista, Adelaide, pela terceira vez só nesse último mês. Ela tinha passado toda a manhã na escola que dava aula e tinha vindo direto para a consulta, nem tinha almoçado tamanha era sua ansiedade. A médica havia passado alguns exames pra ela, desde os mais simples, como os de sangue, até alguns mais chatos, como uma ultrassonografia transvaginal, que a menina achou extremamente desconfortável, mas a médica disse que precisava saber como estava o útero e se ele estava em boas condições para a inseminação. Após a liberação da doutora, poderia seguir com a segunda parte do plano: encontrar um doador, já que tinha rejeitado seu pedido quatro dias atrás. Ela já tinha feito uma pequena busca e encontrado uma clínica boa e que cabia em seu orçamento, e que tinha sido a própria Adelaide que havia lhe indicado. Talvez ela pudesse até mesmo acompanhar o procedimento ou indicar algum conhecido que trabalhasse lá. Enquanto ainda estavam conversando sobre o assunto, era como se toda essa ideia ainda fosse um sonho distante, mas a cada consulta, a cada etapa avançada, era como se tudo se tornasse mais real, só que isso não a assustava, muito pelo contrário, parecia cada vez mais disposta a seguir adiante. A secretária simpática sorriu em sua direção e disse que ela podia entrar agora. A menina repetiu o gesto, antes de pegar sua bolsa, a sacola que carregava todos os exames e seguir na direção o consultório. Ela bateu levemente na porta e entrou assim que ouviu a voz de Adelaide lhe dizendo para entrar. Com um sorriso de lado, caminhou até a cadeira que estava de frente para a mesa da doutora e sentou-se, esperando que a mesma lhe dessa atenção. Adelaide deveria ter a idade da mãe de , já que as duas se conheceram na escola, quando tinham cerca de quinze anos. Seus cabelos estavam numa cor entre o loiro e o branco, como se ela estivesse cansada de colorir os fios e fosse assumir a cor natural deles. Ela tinha um sorriso caloroso e acolhedor, o que fazia com que se sentisse bem e confortável de estar ali, compartilhar seus desejos e se abrir. Adelaide foi uma das primeiras pessoas que comentou a vontade de ter o bebê sozinha e ela não se opôs, muito pelo contrário, disse que se essa fosse a real vontade da menina, ela lhe ajudaria. E era verdade, já que está acompanhando todo o processo desde o início.

- Boa tarde, querida. Como está hoje? – a mais velha perguntou, depois de organizar uma série de folhas e voltar sua atenção para a menina.
- Ansiosa, eu acho. – sorriu, nervosa, pegando os exames. Ela sabia que caso tivesse algo errado, ela não poderia fazer nada.
- Não seja boba, você é jovem, está em plena forma e tem tudo o que precisa para gerar um bebê lindo e saudável. Agora vamos aos exames, fez todos?
- Acredito que sim. – respondeu, entregando todos os envelopes para a médica, que olhou cada folha atentamente. Analisou as ultrassonografias, os exames de sangue, de taxa de hormônio e todos outros que ela havia solicitado, até mesmo o de rotina que tinha feito na primeira consulta e que o resultado tinha ficado pronto há alguns dias. Adelaide não falava nada, então só a observava com apreensão, mordendo o canto da unha do dedão, como se isso fosse deixá-la mais calma.
- Você está nervosa? – a doutora perguntou, com um vestígio de riso em sua voz.
- Apreensiva pode ser uma palavra melhor, eu acho. – a mais nova disse, sem conseguir deixar de demonstrar o nervosismo em sua voz.
- Não precisa de nada disso, está tudo certo. Só uma alteração nos níveis de ferro, mas isso pode e será resolvido com um suplemento, que você tomaria de qualquer forma, só vamos adiantar o início. Também vou receitar ácido fólico e vitamina D, você pode optar pelo complexo B, onde tem tanto a vitamina D, quanto o ferro e o ácido fólico, fora os demais suplementos, mas fica a seu critério. E, claro, fontes naturais são muito bem vindas, folhas escuras, feijão, beterraba ajudam no nível de ferro e ácido fólico, e uma caminhada durante a manhã para pegar o sol, ajuda no nível de vitamina D. – Adelaide parou por um instante, enquanto preenchia a receita e explicava como, quando e a quantidade de cada suplemento que deveria ingerir por dia – E como está tudo certo e pela sua taxa hormonal e as imagens do seu útero, seu próximo período fértil e em cerca de quinze dias, então, bem, agora cabe a você, minha parte está feita.
- Como assim, eu já posso escolher o doador, marcar a inseminação?
- Sim, faça o acompanhamento em casa, compre aqueles bastões de teste de fertilidade, no momento em que você a ovular, que entrar em seu período fértil, entre em contato com a clínica e agende uma data. Procure pelo Evan e diga que quem lhe indicou foi a Adelaide e que eu vou acompanhar seu procedimento, eu já entrei em contato com eles e falei sobre você, já está tudo adiantado. Assim eles vão te agendar para os dois ou três dias depois, e que vai coincidir com a data próxima a sua ovulação, o que facilita todo o processo. – a doutora parou de falar, observando a expressão de , que parecia estar em outro lugar no momento – Você está prestando atenção no que eu estou falando?
- Sim, estou. É que está acontecendo e eu estou ficando bem nervosa. – ela confessou, suspirando em seguida. Adelaide largou a caneta que segurava e estendeu uma das mãos para que segurasse.
- Você está segura que é isso que quer fazer? Pesou os prós e contras? Viu se está realmente preparada psicológica e financeiramente para o bebê? Vai saber lidar com o fato de que não terá um pai para dividir as responsabilidades? – a médica fez todas essas perguntas, sem dar tempo para que respondesse – Porque se a resposta para qualquer uma dessas perguntas for “não”, eu vou te aconselhar a pensar melhor em todo esse plano. Mas se a resposta for “sim”, não vejo o porquê do medo ou do nervosismo. É apenas mais um passo na direção da realização do seu sonho. É um bebê que você quer, certo?
- Sim. – falou, sorrindo de lado.
- Então não há por que temer.

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Aceitando os conselhos e as palavras de incentivo de Adelaide, decidiu até a clínica de fertilização logo após a consulta. A clínica era perto do consultório, num prédio duas ruas abaixo, então foi caminhando, parando num café no caminho, para comer alguma coisa. Só que ela sentia como se tivesse um nó em sua garganta, que só poderia ser desfeito depois que ela resolvesse todo esse assunto. Mas, ainda assim, ela se esforçou para comer um muffin de banana e um café, tentando relaxar um pouco.
Assim que terminou, retornou seu caminho, chegando prédio bem rapidamente. Optou por subir os quatro lances de escada, já que os consultórios eram no segundo andar. Não tinham muitas pessoas na sala de espera, então não tinha muito tempo para se acostumar com a ideia, mas resolveu não pensar muito. E, caminhando até o balcão da recepcionista, ela logo se apresentou.

- Oi, boa tarde. – a garota sorriu de lado, meio sem jeito.
- Boa tarde, como posso lhe ajudar? – a recepcionista, que viu se chamar Hannah, cumprimentou de volta, com uma simpatia ímpar.
- Não sei foi com você que falei ao telefone da outra vez, mas a Dra. Adelaide me indicou a clínica e eu liguei na semana passada. Me disseram que eu poderia passar e pegar os formulários de cadastro dos doadores para avaliação.
- Qual é o seu nome? - Hannah perguntou.
- . – ela respondeu, vendo a recepcionista fazer uma busca em seu computador rapidamente.
- Aqui, encontrei. – chamou a atenção – Você está na lista dos pacientes do Dr. Evan Gardner. – a atendente pegou um formulário e uma prancheta na mesa, entregando nas mãos de .
- Só preciso que você preencha essa ficha com os seus dados, para que eu possa colocar no sistema.

agradeceu e sentou-se numa das cadeiras para responder as questões. No começo era perguntas simples, como nome completo, data de nascimento, estado civil, nome dos pais, essas coisas mais básicas. Mas depois as perguntas começavam a ficar mais pessoais e a menina começou a se preocupar com o teor das últimas questões, aquelas no final da quinta página do formulário. Tinham perguntas a respeito de sua saúde e, principalmente, sobre as suas preferências quanto aos doadores. Folheando rapidamente, ela viu que as três últimas folhas eram, basicamente, características que ela gostaria que seu doador tivesse, assim, ao marcar no perfil, o sistema selecionaria as melhores opções para ela. Só que não era muito boa nessas coisas de escolher, não importava muito se o cara tivesse olhos claros, fosse loiro, negro, ruivo ou tivesse 1,90 de altura. Ela só queria que a pessoa fosse bacana e que isso influenciasse na personalidade do bebê, mas como escolher isso através de um formulário? Então ela apenas respirou fundo e tentou não se sentir como se escolhesse um prato num restaurante. No final das contas ela tinha deixado de marcar poucas coisas, como não querer doadores com propensão a nascimento de múltiplos, um bebê já era o bastante.

- Já terminei. – disse, devolvendo a prancheta com os formulários já preenchidos.
- Ok, vou colocar suas informações no sistema e já lhe chamo para entregar as fichas. – Hannah respondeu e apenas acenou com a cabeça.
Ela caminhou de volta para onde estava sentada e começou a mexer no celular para gastar o tempo. Viu que sua mãe tinha mandado algumas mensagens, mas resolveu ver depois, quando chegasse em casa. Já tinha enviado uma foto sua no trabalho, com uma expressão derrotada, como se não pudesse esperar para o dia acabar. Ela sorriu brevemente, tirando uma foto de si mesma fazendo uma careta e escrevendo:

“Por isso é bom trabalhar apenas meio período.”
15:09

Alguns segundos depois o amigo apenas respondeu com uma carinha revirando os olhos. mexeu nas suas redes sociais, olhou as notícias no celular e depois de cerca de vinte minutos, Hannah a chamou novamente, com uma pasta simples nas mãos.

- Desculpe a demora, é que são muitas opções para você, demorou um pouco para organizar, mas aqui está. – a recepcionista entregou a pasta nas mãos de – Assim que escolher ou que estiver preparada para o procedimento, basta entrar em contato. O Dr. Evan já nos informou que a sua médica nos encaminhará todos os exames e que auxiliará no procedimento, então só precisamos marcá-lo mesmo.
- Ok, muito obrigada. – a menina disse, observando o pequeno volume de papel em suas mãos – Eu entro em contato para marcar.

chegou em casa, mas ficou sem coragem de olhar as fichas. Ela ficou encarando aquela pasta por longos minutos, até que desistiu e levantou do sofá, deixando-a em cima do mesmo e seguiu pra o banheiro, ela precisava de um banho para relaxar. Depois ela acabou se distraindo com outras coisas, viu as mensagens de sua mãe em seu celular e achou a ideia que ela deu muito interessante. Lena, sua mãe, tinha lhe dito que não via porque ela continuar naquele apartamento por mais tempo, gastando com as despesas, já que ela iria se mudar de volta de qualquer forma e o dinheiro que ela economizaria agora, ajudaria a bancar as despesas da inseminação e tudo que teria que comprar no futuro para o bebê. A verdade é que Lena parecia mais animada que com essa ideia, se possível, ela nem mesmo questionou a opção da filha por uma inseminação, talvez estivesse traumatizada com casamentos, mas a ideia de ter um bebê em casa, de ter um neto, fez com que seu mundo ficasse colorido e alegre novamente.

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Era quinta-feira, mas tinha esquecido, ela tinha passado o restante da tarde empacotando parte de suas coisas. A menina só lembrou-se do encontro semanal com , quando o mesmo entrou pela porta, carregando duas pizzas, um engradado de cervejas e refrigerantes. Ele parou perto da porta e encarou a amiga no chão da sala, rodeada de livros e mais um monte de bagunça.

- O que tá acontecendo? – o rapaz perguntou, colocando a coisas que carregava na pequena mesa que tinha perto da cozinha.
- Minha mãe disse que seria interessante eu voltar para casa logo, assim eu posso economizar dinheiro e, bem, ela tá certa. Então tirei a tarde para começar a organizar as coisas, mas eu não sou muito boa nisso.
- Dá pra perceber. – ele respondeu, sorrindo de lado e com um pouco de ironia em sua voz.
- Você podia ser menos chato e me ajudar aqui, não é? Seu senso de organização seria muito interessante e proveitoso. Então traga esse corpinho para cá e me ajude a embalar essas coisas. – disse, com um tom de voz autoritário e um pouco engraçado – Ah, traga as pizzas e o meu refrigerante também.
- Mais alguma coisa, senhora?
- Não, é o bastante. – ela riu, balançando a cabeça.

Eles comeram uma pizza inteira e metade da outra, tomaram suas cervejas e empacotaram quase tudo que estava na sala e parte das coisas da cozinha. Agora eles estavam no sofá, com estava deitado com a cabeça no colo de e estavam conversando sobre tudo e qualquer coisa. Até que se mexeu, desconfortável com algo, ele passou a mão pelo acento do sofá e puxou uma pasta, fazendo a amiga ficar um pouco nervosa.

- O que é isso? – ele perguntou, curioso.
- Nada de importante. – a garota respondeu, pegando a pasta de sua mão e jogando no chão, perto dos seus pés.
- Se não era importante, por que você ficou nervosa desse jeito? – olhou atentamente para o rosto dela, sentando no sofá para poder olhar em seus olhos.
- São fichas de possíveis doadores, eu fui até a clínica hoje e peguei para escolher. – ela deu de ombros e o rapaz foi pego de surpresa. Ele não esperava que ela desse continuidade a sua ideia tão rápido.
- E tem algo interessante?
- Não sei, eu não olhei ainda, não tive coragem. – sua voz estava baixa, como se ela estivesse com medo.
- Você quer que eu te ajude? – ele sorriu de lado, tentando encorajar a , que parecia um pouco desanimada.
- Tem certeza que quer se envolver nisso? Antes você disse que não iria me ajudar a escolher. – a amiga disse, com um tom de voz acusatório.
- E sei o que eu falei, só que eu quero te ajudar. É uma coisa importante pra você, eu quero ser parte disso de alguma forma. – sorriu de lado, apoiando a cabeça no sofá e depois tombando para o lado, na direção onde estava sentada. – Anda, pega a pasta, vamos dar uma olhada. – a menina respirou fundo, antes de se abaixar para pegar a pasta e abrir, puxando uma folha aleatória.
- Esse cara tem 1,75 de altura, cabelos e olhos castanhos, é contador, gosta de cachorros e assistir futebol. – ela disse, lendo em voz alta algumas características do possível doador.
- Não, próximo. – falou, balançando a mão.
- Por quê? – perguntou, segurando o riso. Ela olhou para o amigo, que a encarava como se estivesse pronto para julgar as pessoas.
- Por que é muito comum, poderia ser qualquer um que você cruzasse na rua agora.
- E qual é o problema? – a garota riu alto, balançando a cabeça lentamente, como se negasse.
- Se você vai ter um bebê por encomenda, que ele seja de uma pessoa “especial”. – fez aspas com as mãos e a menina riu mais ainda.
- Ai, , me poupe. – ela rolou os olhos, puxando outra folha da pasta. – Ok, esse aqui tem 1,90 de altura, cabelos castanhos, olhos verdes, advogado, gosta de viajar e ler livros. – a menina parou por uns segundos e se virou para o amigo – Por que um advogado doaria esperma para uma clínica de fertilidade? Sem julgamentos, só uma pergunta mesmo.
- Não sei, , talvez ele não queira filhos para ele mesmo, mas queria garantir que tenha pedacinhos seus pelo mundo.
- Nossa, dispenso. – ela respondeu, deixando essa folha junto com a anterior. Eles leram cerca de vinte e cinco fichas, rindo bastante com os comentários que faziam delas. não conseguia levar a sério o fato de ter que escolher um pai para o seu bebê entre aqueles caras. Eram pessoas que ela nunca viu e nunca veria na vida. Por mais que ela não quisesse um companheiro, ela queria, pelo menos, conhecer a pessoa. – , eu acho que isso não vai dar certo.
- Por quê? – o rapaz perguntou, sentando de forma direita no sofá.
- Porque eu não consigo levar nada disso, nenhuma dessas pessoas, a sério. Nós vimos várias e várias fichas, e eu só consegui encontrar defeitos.
- Nem mesmo o ruivo dos olhos azuis? Talvez seu bebê nasça parecendo o Ed Sheeran. – tentou brincar, mas não estava no clima.
- Não posso escolher um pai como se escolhesse um delivery, não posso. – ela deu de ombros, balançando a cabeça lentamente. Sua expressão era como se ela segurasse o choro. ainda não tinha visto a dimensão do que aquilo significava para , ele achou que seria mais um plano louco que ela abandonaria em alguns dias, como ela sempre faz. Mas não, esse era real. Ela queria esse bebê.
- , não fica assim, você sabe que eu não gosto de te ver triste. – ele pediu, passando a mão pelos ombros da amiga e trazendo para perto, ela apoiou a cabeça em seu peito e ficou ali aninhada.
- Eu sei que você não gosta, mas eu não tenho como evitar, infelizmente. Acho que terei que adiar esses planos para até quando eu estiver apta a realizá-lo da forma tradicional ou, não sei, dormir com o primeiro cara que eu encontrar na rua agora.
- Pelo menos piadas você está fazendo, então o caso não é tão grave.
- , cala a boca. – disse, com a voz baixa e fraca. E então ele viu um brilho e seu rosto e quando olhou mais atentamente, percebeu que era uma lágrima que escorria.
levantou a mão, passando, suavemente, pelo rosto da amiga, e depois pôs a mão em seus cabelos, deixando que ela chorasse. Ele observou aquela cena e algo dentro dele doeu, seu coração estava apertado e sentia como se devesse fazer alguma coisa. sabia que naquele momento ele estava dividido entre o que ele achava que deveria fazer e o que ele sentia que deveria fazer. Ver naquele estado acabava com ele, ainda mais sabendo que tinha o poder de resolver tudo com um simples “sim”. Mas se aceitasse, ele seria pai, querendo ou não, independente de documentos ou qualquer registro. Cada vez que ele olhasse para aquela criança, ele saberia. Mas será que seria capaz de lidar com isso? Será que ele conseguiria viver sua vida, sabendo que tem um filho com a sua melhor amiga? Será que iria casar, ter outros filhos e viver normalmente? Será que seria assim tão ruim ter algo que o ligasse a para sempre? Afinal, ela era uma das pessoas mais importantes no mundo e ele desejava que fosse sempre assim. E uma criança metade ele, com seu pensamento rápido e sua facilidade de lidar com problemas, e metade ela, com a sua incrível capacidade de se adaptar, seu senso de humor e a forma maravilhosa e livre de ver a vida, parecia ser perfeita.
- Eu aceito. – disse, fazendo levantar os olhos e o encarar.
- O que? – ela perguntou, com a expressão confusa.
- Eu aceito ser seu doador. – repetiu, vendo a expressão da amiga se iluminar.
- Você está falando sério? – perguntou, levantando o corpo e ficando bem próxima a , com as mãos em seu rosto, fazendo com que ele a encarasse com seus olhos .
- Eu ficaria honrado. – ele sorriu de lado, vendo um sorriso gigantesco ocupar os lábios da amiga, antes que a mesma passasse os braços ao redor de seu pescoço e o puxasse para um abraço apertado.
- , muito obrigada. – ela disse, ainda com as lágrimas escapando pelos seus olhos, mas dessa vez de pura felicidade. – Obrigada, obrigada, obrigada... – ela repetia infinitamente, como se não houvesse palavras suficientes.
- Você sabe que eu faço qualquer coisa por você. Eu cheguei a pensar que isso seria além do meu limite, mas eu acho que se fosse o inverso, eu também não conseguiria pensar em nenhuma outra pessoa mais perfeita para ser mãe do meu bebê além de você.


Três

Oh, you're the best friend that I ever had
I've been with you such a long time

(Queen – You're My Best Friend)


Não que estivesse questionando sua decisão de ser doador de , mas ali, sentado na sala de espera do consultório, tendo alguns olhares sobre ele, começou a se perguntar se era realmente necessário ele ir até a consulta com a amiga. Não basta apenas “fazer sua parte”? Podia apostar que as outras mulheres, que estavam no mesmo ambiente que eles, deveriam estar pensando que ele tinha algum problema. Não que se importasse com a opinião alheia, mas não gostava de imaginar as pessoas questionando ou pensando qualquer coisa ao seu respeito. Talvez ele se importasse mais do que quisesse admitir.

- . – cutucou a amiga, que estava entretida lendo uma revista.
- Hmm. – ela respondeu, sem dar muita atenção, estava muito concentrada lendo uma coluna de fofocas.
- Eu acho que aquela mulher ali pensa que somos um casal. – murmurou, apontando discretamente para uma senhora que estava sentada perto da porta. levantou os olhos rapidamente, vendo quem era, e depois voltou os mesmos para a revista.
- Acho que ela vai ficar decepcionada então. Ou não, vai que ela ficou interessada em você. – ela brincou, arqueando as sobrancelhas, enquanto o rapaz balançava a cabeça lentamente, negando.
- E também acho que ela pensa que eu sou estéril. – falou mais baixo, fazendo a amiga rir. Ela não conseguiu segurar o riso, chamando a atenção de todo mundo que estava na recepção. – Por que você tá rindo?
- Talvez você possa oferecer seus serviços a ela, que tal? Assim você acaba com as duas desconfianças delas de uma vez só. – a menina disse fazendo rolar os olhos.
- Por que você não me leva a sério? – perguntou, levemente incomodado com as respostas dela. deixou a revista de lado e estendeu uma das mãos para o amigo segurar e ele pegou.
- Porque suas preocupações são bobas demais, . Quem liga para o que aquela moça pensa de você? Você nunca mais vai vê-la na vida. – falou, sorrindo de lado e dando de ombros. – E mesmo que visse, que diferença faria? É verdade? Nós somos um casal?
- Não. – respondeu, já entendendo onde ela queria chegar.
- Você é estéril?
- Não... eu acho. – disse, incerto. – Bem, espero que não.
- Eu também. – comentou, divertida. – Enfim, você precisa parar de se importar com o que as pessoas pensam de você. Bem, as outras pessoas, não eu. A minha opinião importa bastante. – alargou o sorriso e viu rolar os olhos.
- Você não se importa com o que pensam de você? – ele perguntou, vendo a menina negar automaticamente.
- Eu pareço me importar? Ou melhor, eu vivo como se me importasse? – indagou, retoricamente. – Me importo com o que você acha, levo sua opinião em conta em tudo na minha vida. Às vezes um pouco da minha mãe também, mas ela é meio doida e de gente louca já basta eu. – ela fez uma careta e ele sorriu de lado, levantando a mão que seguravam até perto dos lábios e beijando levemente o dorso da mão da amiga. – Você é a pessoa mais sensata que eu conheço, então eu te escuto. Mas as outras pessoas, ninguém importa. Se aquela senhora quiser imaginar que somos um casal com problemas para engravidar, que pense, não vai mudar nada na minha vida.
- Ok, tudo bem. – falou, dando-se por vencido. – Exercício diário agora: me importar menos com a opinião dos outros. – falou, mais para si do que para qualquer um, mas limpou a garganta levemente, chamando sua atenção. – Reformulando: me importar menos com a opinião dos outros, exceto com a da minha grande amiga . Porque a dela é de extrema importância.
- Viu como você aprender rápido? É por isso que eu te amo. – ela brincou, dando um beijo rápido em sua bochecha.
- . – a enfermeira falou, chamando a atenção dos dois. A menina acenou, pegando suas coisas para segui-la.

Caminharam pelo pequeno corredor, na direção do consultório e entraram na quarta porta da esquerda. O doutor Gardner já os esperava, ele tinha alguns papéis em suas mãos e reconheceu alguns de seus exames entre eles. Sentaram-se nas cadeiras que estavam em frente à mesa e aguardaram até que o médico terminasse de analisar todos os resultados. estava visivelmente nervosa e parecia tranquilo, mas estava era preocupado com a amiga. Ele olhou em sua direção, piscando um dos olhos, para tentar quebrar um pouco do gelo, mas a menina não parecia muito no clima. Ele estendeu uma das mãos em sua direção e eles ficaram de mãos dadas, enquanto tentava acalmar a amiga.

- Bem, senhorita . – Dr. Gardner disse, sorrindo em sua direção. Ele deveria ter cerca de cinquenta anos, seus cabelos eram grisalhos, tinha marcas de expressão ao redor dos olhos e a voz suave, quase acolhedora.
- Me chame de , por favor. – ela pediu, odiava formalidades demais.
- Ok, . Então me chame de Ewan, vamos tornar tudo mais casual. Acredito que esse seja seu amigo que será o doador.
- Sim, , muito prazer. – o rapaz se apressou em esticar uma das mãos na direção do médico.
- Preciso dizer que esse seu gesto é muito bacana, já me disse na consulta anterior o quanto ela quis que você fosse o doador, mas a ideia não lhe pareceu muito agradável no início.
- Sim, eu precisei de alguns dias para me acostumar com tudo isso. – ele respondeu, tentando soar o mais sincero possível, porque, por dentro, ainda estava apavorado.
- Todo processo se torna menos complexo quando a mulher está mais confortável e a parece bem mais tranquila com você. – o médico comentou, pegando um resultado específico. – , de acordo com o seu exame de sangue, seu próximo período fértil deve ser em cerca de dez dias. Não há nenhuma alteração ou algo que precise se preocupar, todos os exames estão ótimos. O útero está perfeito para o implante, basta escolhermos o dia certo para não ter nenhum problema. Então, se tivermos todos de acordo, podemos marcar o procedimento. – ela olhou para , que pareceu respirar fundo por um instante.
- ? Tudo bem? – perguntou, temporariamente preocupada.
- Sim, podemos marcar. – o rapaz respondeu de forma rápida, como se estivesse no automático.
- Não. – ela sorriu de forma carinhosa. – Quero saber se está tudo bem com você, porque não tá parecendo. – ela se ajeitou na cadeira, para ficar de frente para ele. – Olha, se você quiser desistir, tudo bem, eu não vou ficar chateada. Escolho um doador anônimo e você não precisará lidar com nenhuma das mil problemáticas que estão passando pela sua cabeça nesse exato momento.
- Não é isso, é que vai ser difícil olhar para esse bebê e não vê-lo como meu filho. Porque eu sei do contrato de confidencialidade que eu terei de assinar, dos termos que deixam claro que eu não posso vir a querer reclamar a paternidade dele. Mas na minha cabeça eu vou saber. Vocês me entendem? – ele perguntou, vendo o médico afirmar com a cabeça e suspirar, porque ela sabia que ele estava certo. Não era um documento qualquer que impediria se sentir qualquer tipo de amor paternal pelo bebê. Talvez ela devesse ter pensado melhor nisso.
- Eu entendo o seu ponto, . Porque os homens que fazem as doações não fazem ideia quando elas são usadas ou por quem, então eles não possuem a oportunidade de criar nenhum tipo de laço com o bebê que ajudaram a gerar. Mas, se você conseguir olhar pelo lado bom, você terá um pequeno bebê por perto que, independente de tudo, saberá que é um pouco responsável por ele. Seja sendo pai, padrinho, tio ou um grande amigo. É só uma nomenclatura, o que vai valer é como vocês vão se relacionar. Há tantos pais no papel que não são pais de verdade. – Dr. Ewan falou, fazendo o rapaz pensar um pouco. Ele estava certo, afinal. Tinham tantas crianças no mundo com o nome do pai na certidão de nascimento, mas sem o pai na vida delas. Talvez o bebê de pudesse ser o contrário, sem o nome do pai na certidão, mas sempre por perto na vida, ajudando em tudo o que ele pudesse vir a precisar: um apoio para o primeiro passo, uma ajuda com as primeiras palavras, um conselho para as primeiras namoradas, um apoio para as primeiras decepções. E para isso ele não precisava de um nome, só precisava estar lá.
- Acho que entendi seu ponto. – falou brevemente para o médico, antes de girar o corpo na direção da amiga. – Eu não preciso ser o pai desse bebê para ser o pai, certo? Eu posso estar lá sempre, ser aquele que estará do seu lado em todos os momentos que você e ele precisarem.
- Só se você quiser. – disse, dando de ombros. – Eu não vou exigir nada de você, . Eu não quero um marido ou um pai, só quero um bebê.
- Eu quero. – afirmou, com convicção dessa vez. Era como se tudo começasse a fazer sentido em sua cabeça. – Tudo certo, doutor, podemos marcar.
- Ótimo, adoro quando tudo se resolve bem, então aqui está o contrato de doação de sêmem para o rapaz. Assinando esse contrato, você abre mão de todo e qualquer direito sobre o bebê gerado com o seu sêmem, não podendo assim exercer a paternidade da criança que for gerada. – o médico lhe entregou um papel nas mãos de . – E o contrato de recepção de sêmem para a moça. Após a assinatura você está ciente com o anonimato do doador e que não estará apta a reclamar pelos deveres do doador como pai. – eles pegaram as folhas e leram todo o texto, assinando logo em seguida. Dr. Ewan juntou o contrato de aos seus documentos e exames, e deixou o de para arquivar com os dos demais doadores.
- Agora é só aguardar a data do procedimento? – o rapaz perguntou, vendo o médico afirmar com a cabeça.
- Basicamente, mas antes eu preciso de uma coisinha sua, rapaz. – Dr. Ewan começou a falar, fazendo uma careta engraçada na direção de . – Precisamos fazer um exame básico numa amostra sua, então, se fosse possível... – ele abriu a gaveta de sua mesa e pegou um pote de amostra para exames.
- O que? Ah... – começou a perguntar antes de entender o que ele queria. Era uma amostra do seu esperma. Ele encarou pelo canto dos olhos e ela mordia os lábios para não rir, já imaginando a vergonha que ele estava sentindo.
- Você pode ir até à recepção, a Hannah vai te acompanhar até a sala de coleta. Há alguns materiais lá, caso precise de ajuda. – a menina riu um pouco mais alto, fazendo o médico olhar em sua direção por um segundo, antes de continuar a falar com o rapaz. – Não se preocupe com ela.

deixou o consultório, caminhando rapidamente até o balcão da recepção. Olhou o crachá da menina que estava sentada na mesa e acenou em sua direção, apenas pedindo que ele a acompanhasse. Caminharam pelo corredor do lado oposto ao do consultório, indo até a última porta. Hannah disse que ele poderia usar o que quisesse da sala e que era só deixar o pote em cima da mesa perto da parede antes de sair, que eles mesmos recolheriam. sentou-se na poltrona assim que a menina saiu e encarou as revistas e os DVDs em sua frente, pensando o quão estranho era tudo aquilo. Mas era pela , certo? Então ele deveria fazer o que precisasse, mesmo que tivesse que ser isso. Por isso escolheu um DVD pela capa e rezou para que não demorasse muito.


Os amigos sentaram num café depois saírem do consultório, já que tinha tirado o restante da tarde de folga, dizendo que iria ao médico e resolveram ficar um pouco por ali mesmo. Depois de fazer os pedidos, ficou com o olhar pedido, sem prestar muita atenção no que o rapaz lhe dizia. Só respondendo com poucas palavras as suas perguntas.

- Você tá nervosa? – o rapaz perguntou, percebendo a amiga mais calada do que o normal.
- Não, acho que ansiosa é a palavra. – ela passou a mão, pelo cabelo, colocando alguns fios atrás da orelha. – É que conforme vamos avançando as fases, vai se tornando real. E eu sinto como se fosse a minha única chance, a única vez que terei a chance de realizar esse sonho. Então sinto como se tivesse que agarrar essa oportunidade, como se tivesse que segurar esse bebê, que ainda nem existe, dentro de mim com todas as minhas forças. Ou tudo isso terá sido em vão.
- , não fala assim, você terá outras chances. Se não der certo agora, você pode tentar de novo depois, não?
- Eu meio que gastei a maior parte das minhas economias e as da minha mãe nessa tentativa, se não der certo... – deixou a frase morrer, porque ela sabia que tinha entendido. Ele colocou a mão sobre a dela em cima da mesa, fazendo um carinho.
- Você não controle sobre muitas coisas na sua vida, na verdade, você não tem controle sobre quase nada, mas você pode controlar como essas coisas vão te afetar. Se você manter esse pensamento derrotado, não há chances de algo dar certo, porque você já assumiu que não vai conseguir. E mesmo que algo aconteça, , você tem vinte e sete anos, é tão jovem. Nós somos jovens, parece que tudo precisa ser agora, imediatamente. Só que você não sabe do futuro, quem sabe se na hora que você sair daqui, não vai esbarrar com um cara qualquer na esquina, vão se apaixonar e quando perceber estarão casados, com cinco filhos e uma casa enorme e bagunçada. Porque você e cinco crianças, eu acho impossível qualquer tipo de organização. – brincou, tentando fazê-la rir e conseguindo. bateu levemente em seu braço, balançando a cabeça. – A questão é que tendo esse bebê agora ou não, você não sabe o que o destino te guarda. Não precisa ser pessimista com toda e qualquer coisa que acontece em sua vida. Não precisa e nem pode. Mas saiba que vai dar tudo certo, em dez dias você fará o procedimento e em nove meses teremos um lindo bebê em nossos braços e vai nascer a cara do tio .
- Você não existe. – ela disse, simplesmente.
- Ah, existo sim. E vou cobrar com juros e correção esse pequeno grande favor. - Eles riram, e depois conversaram sobre mil coisas que não fosse a possível gravidez ou o procedimento. disse que queria tirar isso da cabeça um pouco e não contrariou.

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DOIS MESES DEPOIS

Era quinta-feira e estava esperando chegar a casa na mãe dela. Ela tinha se mudado há algumas semanas e estava tentando se adaptar novamente. Hoje ela estava mais nervosa do que nunca, já que tinha comprado alguns testes de gravidez. Ela tinha quase certeza que estava grávida, sentia-se diferente, mais completa, preenchida. Só que precisava confirmar e tinha prometido ao amigo que ele estaria junto quando ela fizesse o teste. Agora mal conseguia controlar a sua ansiedade e a vontade de ir ao banheiro, já que tinha tomado quase uns quatro livros de água na última hora. Durante o tempo que esperava, de forma quase impaciente, ela deitou em sua cama e encarou o teto, lembrando-se de como tudo foi estranho. De entrar em uma sala, como se fosse fazer um exame, de ouvir o Dr. Ewan dizer algumas coisas que ela não ouviu, porque seus ouvidos zumbiam pelo nervosismo e sentir um leve desconforto por alguns segundos. E foi isso. Um pequeno procedimento de poucos minutos. O período de repouso, onde ela precisou ficar deitada numa maca especial, com as pernas para cima, durou mais que todo o processo. Também lembrou de sentir medo o tempo todo depois da inseminação, de pensar que daria errado, que tudo escorreria de dentro dela e levaria embora a chance de realizar o seu sonho. Se achou tão tola de sentar ao contrário no sofá, sempre com as pernas para cima, para a “gravidade agir”. Porque, se ela tivesse que engravidar, ela engravidaria, nenhuma dessas artimanhas loucas ajudaria ou impediria. Mas se mal não faz, qual o problema, não é mesmo?
Quando ouviu a batida em sua porta, ela se alarmou e ficou ainda mais nervosa quando viu o rosto do rapaz surgir. Ele sorria abertamente, muito animado, e ficou surpreso de não ver a mesma expressão no rosto da amiga. Ela estava apavorada. Era como se ela quisesse e não quisesse fazer o teste, pois ao passo que poderia ter certeza que tinha um bebê em sua barriga, poderia apenas ver que tudo não passava de uma ilusão de sua mente.

- Qual o problema, ? – perguntou, entrando no quarto e deixando a bolsa que carregava em cima de uma poltrona.
- Eu estou nervosa, . Nervosa pra caramba. – confessou, achando bem estranho o rapaz não ter percebido isso.
- Mas não tem motivos para isso, vai dar tudo certo.
- Você não sabe, então pare de tentar me enganar, ok? – ela se levantou, pegando uma sacola em cima da mesa, que ficava perto da janela. Virou a sacola em cima da cama e o rapaz pode contar cinco testes diferentes.
- Você quer ter certeza mesmo, né? – ele forçou a entonação da palavra, fazendo a menina rolar os olhos.
- Eu ainda vou fazer um de sangue amanhã, eu preciso de certeza. – respondeu, um pouco sem paciência.
- Ok, então vai lá, estarei aqui torcendo. – o rapaz falou, ajudando a recolher todas as caixas e colocando de volta na sacola.
entrou no banheiro e começou a ler cada instrução, para não se confundir. Conforme fazia um teste, deixava o mesmo junto à sua caixa, para poder comparar depois. Deixou todos em cima da pia do banheiro, lado a lado, e voltou para o quarto, com o rosto quase pálido.
- Ok, temos que esperar dez minutos agora, alguns ficam prontos antes, mas eu prefiro ver todos juntos. Então, por favor, me distraia, antes que eu tenha um treco. – ela pediu, sentando-se na cama, na frente de . Ele pegou o celular e marcou 10 minutos na contagem regressiva.
- Tá, tenho duas notícias pra você, uma boa e uma ruim. Qual quer ouvir primeiro?
- A boa. – falou, respirando fundo em seguida.
- Ok, a boa é que o resultado dos aprovados para o curso de especialização na Alemanha sai na semana que vem, serão duas vagas dessa vez. – o rapaz disse, vendo brotar um sorriso de esperança nos lábios da amiga.
- Que maravilha, as chances dobraram.
- Não necessariamente, já que a ruim é que eu ouvi o sobrinho do meu chefe falando que estava muito feliz de ter conseguido a vaga. Ou seja, uma vaga é dele.
- Mas isso não é justo, ele começou a trabalhar lá há quatro meses! – a menina exclamou, se sentindo quase íntima do rapaz, de tanto que ouviu falar mal dele e de como ele era protegido e ajudado apenas por ser sobrinho do chefe.
- , desde quando empregos e escolhas em empresas são justas? – ele perguntou retoricamente, vendo a menina rolar os olhos. – As chances continuam as mesmas, só que eu continuo achando que eu não tenho chances.
- Um dia uma pessoa muito inteligente me disse: “Se você manter esse pensamento derrotado, não há chances de algo dar certo, porque você já assumiu que não vai conseguir.” – falou, tentando imitar a voz de , mas falhando de forma incrível. O rapaz estreitou os olhos, enquanto a menina alargava o sorriso. Ela adorava quando conseguia usar algo que ele disse contra ele mesmo.
- Ok, sem pensamentos pessimistas. – falou, dando-se por vencido.
- Quanto tempo? – perguntou e ele entendeu de imediato o que ela queria saber.
- Dois minutos. – respondeu, arrastando um pouco o corpo para sentar mais perto dela. – Independente o resultado, eu quero dizer que você é muito corajosa. Provavelmente a pessoa mais corajosa que eu conheço, não tem medo de enfrentar seus problemas ou perseguir seus sonhos, sejam eles quais forem. Você vai ser uma mãe incrível, a melhor de todas.
- Eu amo você. – disse, encostando a cabeça no peito do amigo.
- Eu também te amo. – Ele passou os braços ao redor dela, tentando deixá-la confortável, tentando fazê-la se sentir protegida. Mas foram interrompidos pelo barulho insistente do alarme. A menina levantou os olhos, mas não se moveu, era como se estivesse congelada no lugar. se levantou e estendeu as mãos para ela. – Vamos, você está a cerca de quinze passos da realização do seu sonho. Vai ficar com medo agora? – segurou sua mão e caminharam lentamente até o banheiro, onde ficaram lado a lado em frente a pia. Olhando cada um dos testes, sentia como se o seu coração fosse sair do peito tamanha era a felicidade. Positivo. Sentiu uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Positivo. Mordeu o lábio inferior, tentando controlar o choro que vinha apressado. Positivo. Sentiu os braços de ao redor do seu corpo. Positivo. O rapaz falava coisas que ela não entendia, ela só colocou as mãos sobre a barriga, pensando na pequena pessoa que carregava agora. Positivo.

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tinha dado a notícia para sua mãe assim que pegou o resultado do exame de sangue, que fez logo no início da manhã de sexta-feira. Lena ficou muito emocionada, já planejando mil mudanças na casa a chegada do neto e depois fazendo mil recomendações para a filha, dizendo que ela precisava se resguardar agora no começo, que precisava marcar uma consulta com a Adelaide, que precisava de vitaminas e continuou uma longa lista por quase cinco minutos. Mas a menina nem se importou, a animação da mãe parecia um reflexo da sua, assim como a de . Ela se sentia sortuda por estar rodeada de pessoas que a apoiavam, que torciam pelo seu sucesso e que a ajudariam em qualquer situação. Só que para completar essa lista, ainda faltavam alguns nomes, três para ser mais exata: Lilly, Anthony e Noah, os amigos que ela carregava para a vida, junto com . Assim que recebeu o resultado, enviou uma mensagem para todos, solicitando um encontro urgente naquela noite, ela não conseguia manter muitos segredos deles e já teria que guardar um enorme.
Encontrou na porta do restaurante assim que chegou, o rapaz já estava lá, como sempre foi o primeiro a chegar. Entraram e resolveram pedir uma mesa para esperar pelos outros, para não correrem o risco de ter que esperar ainda mais. Lilly enviou uma mensagem dizendo que chegava em dez minutos, que estava saindo do metrô, enquanto Anthony e Noah viriam encontrá-los um pouco mais tarde, por causa do trabalho. Eles ainda não sabiam que estava grávida, muito menos que tinha planejado tudo. Ela tinha decidido que, para todo mundo, o bebê seria fruto de uma relação casual que não deu certo, e para a mãe de , o bebê seria de um doador anônimo, já ela não estava disposta a ouvir um sermão todos os dias, pelo restante de sua vida, de várias pessoas diferentes, porque seus outros amigos, principalmente Lilly, não seriam tão favoráveis as suas escolhas como foi. Esse seria o maior segredo que eles já dividiram na vida e ela sentia que podia confiar em , porque ele nunca mostrou que não merecesse sua confiança.
E depois que escureceu, seus amigos começaram a chegar. Lilly foi a primeira, ela veio direto do trabalho, já reclamando que tinham combinado num restaurante e não num bar, porque ela precisava de cerveja, muita cerveja. Mesmo dizendo que era sexta-feira e que ela não poderia estar tão estressada assim, ela apenas respondeu: “o meu trabalho me obriga a beber”. Ela era advogada e trabalhava num enorme escritório de advocacia, mas sempre falava não era isso que queria fazer, seu sonho era montar um escritório simples e ajudar pessoas que não tem como pagar um bom advogado, mas que ela precisava arcar com alguns luxos como comer e pagar aluguel, então precisava aceitar as barbaridades que via no trabalho. Precisar não precisava, mas aceitava porque não conseguiria manter o padrão de vida que tinha em outro emprego. Cerca de vinte minutos depois, Anthony e Noah também chegaram, Anthony tinha estudado com , e Lilly no ensino médio, passaram grande parte da adolescência juntos e levaram a amizade para depois a escola, até mesmo agora, dez anos depois. Já Noah era uma adição tardia, ele conheceu Anthony na faculdade de Arquitetura e eles se apaixonaram quase que à primeira vista. Anthony sentiu um pouco de medo de contar aos amigos que estava apaixonado por outro rapaz, mas quando ele tomou coragem, viu que não tinha nenhum motivo para ter medo antes. Todos disseram que quem ele namorava não fazia diferença alguma, mas que eles estavam felizes por ele amar alguém que o amava de volta. E isso já tinha três anos. Desde então Noah tinha sido integrado ao grupo, como se já fizesse parte desde sempre. Há alguns meses eles abriram o escritório de arquitetura deles e estavam trabalhando como loucos, mas não podiam e nem queriam reclamar, pois estavam fazendo exatamente o que queriam.

- Lilly quer ir a um bar, disse que o dia dela foi estressante demais para apenas um café. – comentou, assim que os rapazes sentaram-se à mesa.
- Quem foi agora? O patrão grosseiro ou o que trai a esposa? – Noah perguntou, com um traço de riso em sua voz.
- Foi o traidor, o grosseiro eu já finjo que não existe. Cada grito ou ignorância dele faz com que eu perca um dia de vida, eu acho. – ela respondeu, sendo dramática como sempre.
- Então por que você continua lá? – Anthony perguntou, como se não soubesse. Na verdade ele nunca perdia uma oportunidade de perturbá-la.
- Porque na luta entre dinheiro e saúde mental, ela escolheu dinheiro. – falou, bebendo um pouco de sua água, enquanto era alvejado pelo olhar mortal de Lilly.
- A sessão de ataques gratuitos já acabou? – ela perguntou, fingindo estar incomodada, mas rindo em seguida. – Eu gosto do dinheiro, eu preciso dele, mas se um dia eu perceber que estou ficando louca...
- Mais? – falou baixo, mas todos ouviram.
- Ok, tudo bem, fui convidada para jantar ou para ser completamente arrasada?
- Para jantar, porque tenho novidades. – a outra amiga respondeu.
- Ótimo, então vamos todos começar a beber, porque eu não quero ir para casa sóbria hoje. – Lilly sorriu forçado, chamando o garçom. – Eu quero uma cerveja. – pediu.
- Duas. – acompanhou.
- Quatro. – Noah falou, após Anthony afirmar com a cabeça que também queria.
- E a senhorita? – o garçom se voltou para .
- Quero um suco de laranja, com pouco açúcar, por favor. – respondeu, sorrindo de lado.
- Suco de laranja? – Lilly estranhou, já que era a sua maior companheira nas bebedeiras. – Você tá bem? – riu, fazendo piada.
- Sim, estou muito bem, aliás. – respondeu, pensando como contaria para eles da gravidez, mas chegando à conclusão que não havia uma forma fácil.
- E qual é a grande novidade? – Anthony perguntou, abaixando os olhos para o menu.
- Minha grande novidade me impede de beber, vai me fazer engordar alguns quilos e deve nascer em cerca de oito meses, um pouco menos... – ela observou as expressões de seus amigos mudarem completamente, Anthony parecia não conseguir respirar, Noah levou uma das mãos à boca e Lilly, bem, Lilly estava reagindo à sua própria maneira. Ela começou a rir descontroladamente, uma risada engraçada e alta, que fez com que as pessoas ao redor, em outras mesas e na sua também, a acompanhassem.
- Você tá grávida? – ela perguntou entre as risadas.
- Quem é o pai? – Noah completou, ainda muito chocado.
- É um cara que eu conheci uns dois meses atrás, eu fui numa festa, ele estava lá, coisas aconteceram... Bem, muitas coisas aconteceram. – apontou para a própria barriga.
- Mas e o nome dele? Você tem algum contato? Vai atrás dele? – Anthony parecia muito confuso e preocupado. Nesse meio tempo, o garçom chegou com os pedidos, Noah agradeceu e ele saiu rapidamente.
- Não, eu vou ter o meu bebê sozinha. – ela deu de ombros, como se fosse uma coisa simples.
- Sozinha? – Lilly perguntou, temporariamente recuperada. – Como assim sozinha? Você tem a gente.
- Eu sei que tenho vocês, por isso não me preocupo. – falou, sorrindo para os amigos. – Soube de tudo hoje e precisei contar logo para vocês. Era como se não fosse verdade até falar.
- ? – Anthony chamou a atenção do amigo, que se manteve calado o tempo todo. – Você é o mais responsável daqui, você não vai dizer que ela precisa achar esse cara? Bem, no mínimo ele precisa saber que será pai, não? – a menina o encarou por longos segundos, onde eles trocaram um olhar quase cúmplice.
- sabe o que ela faz da vida dela, se acha que esse bebê crescerá bem sem um pai, acho que não devemos nos intrometer. – deu de ombros, vendo uma expressão confusa ocupar o rosto de cada um dos três amigos. Todos sabiam que essa não era uma coisa que ele falaria. Numa situação normal, ele seria o primeiro a dizer que tinha que procurar o pai do bebê.
- Quem é você e o que fez com o ? – Lilly perguntou, fazendo balançar a cabeça, rindo.
- Ele já me deu um sermão, já disse todas as suas frases clássicas sobre responsabilidade, mas percebeu não há nada a fazer. Eu quero o meu bebê, mas não quero um pai para ele.
- Ok, então. – Anthony disse, sem parecer muito certo de tudo. – Teremos um bebê.
- Ao bebê da . – Lilly levantou sua cerveja, vendo o seu gesto sendo imitado por todos.
- Ao bebê da . – as vozes repetiram em uníssono.

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Quando chegou ao trabalho na segunda-feira seguinte, viu que tinha um bilhete do seu chefe em sua mesa. No papel dizia para ele procurá-lo em sua sala assim que chegasse, pois havia um assunto importante que precisavam discutir. O rapaz estranhou, mas deixou sua bolsa em cima da cadeira e olhou para ver se a luz da sala estava acesa e saber se Stephan já estava lá, mas estava tudo apagado. Então sentou-se, para esperar até que ele chegasse. Ligou o computador e começou a fazer algumas coisas que deixou pendente da semana anterior, sempre atento as movimentações do corredor. Mandou uma mensagem para , dizendo que o chefe estava atrás dele e que isso o deixou preocupado, porque nunca tinha acontecido. E ela respondeu: “sinto cheiro de promoção”.
Ele riu, porque tinham mudado de posição nos últimos dias, ele tinha se tornado o pessimista e ela a que sempre pensava positivo, talvez fosse isso que faltava. Mas como não conseguiu se acalmar, respondeu alguns emails que estavam não lidos, iniciou uma solicitação de compras de alguns materiais que a fábrica solicitou, mas não tirava os olhos do relógio. Tinha conseguido fazer quase quarenta minutos passar, mas nada ainda do chefe. Suspirou, precisava de um café. Foi até a copa, encontrando Kenny sentado por lá, lendo um jornal, como se não tivesse nada mais produtivo a fazer. Conversaram sobre os jogos do fim de semana, riu das piadas sem graça que ele sempre fazia. Foi bom para distrair um pouco a mente e parar de pensar no que Stephan poderia querer lhe falar. Depois de uns quinze minutos, ele voltou para a sua mesa e assim que chegou, Connor, o rapaz que trabalhava na mesa ao seu lado, e sobrinho do seu chefe, falou:

- Stephan disse que está te esperando lá na sala dele, parece sério. – ele tirou seus olhos do computador no final da frase, apenas para fazer uma careta. – É uma pena, porque eu gostava de trabalhar com você. – Connor riu em seguida, claramente fazendo uma piada. respirou fundo e coçou a cabeça, tentando controlar o nervosismo.
- Obrigado. – respondeu, antes de seguir para a sala do chefe. Caminhou lentamente, cruzando os poucos metros que os separavam. Bateu na porta e esperou que lhe permitissem entrar.
- Entre. – ouviu a voz grave de Stephan do lado de dentro. Abriu a porta, murmurando um “com licença”. – Ah, , ótimo! Precisava muito falar com você, sente-se. – o tom do chefe estava calmo e suave, não parecia com o que alguém usa quando vai demitir alguém. – Tenho uma pergunta muito importante para te fazer: como vai o seu passaporte?
- Não entendi, senhor. – o rapaz respondeu, com a expressão confusa e o mais velho abriu um sorriso, tirando os óculos de grau por um instante e se acomodando melhor na cadeira.
- Você se inscreveu para nosso programa de especialização na sede da empresa na Alemanha, certo? Esse ano nós temos duas vagas, uma é do Connor e a outra, bem, ela é sua, se você aceitar. Sua solicitação foi aceita e precisamos dos seus documentos, diploma da faculdade, histórico escolar, essas coisas. – ouviu as palavras, mas demorou a conseguir assimilá-las. Seu cérebro entrou num processo acelerado, onde só conseguia pensar em duas palavras: especialização e Alemanha. Foram tantos anos tentando, tantos anos sendo rejeitado, que agora ele nem conseguia falar. – Rapaz, você tá bem? Tá meio pálido.
- Eu tô, bem, acho que tô. – respondeu, incerto. Ele queria rir, não sabia se chorava ou se gritava, sentia como se tivesse uma bola em sua garganta.
- Ótimo, então espero sua documentação até sexta, vamos providenciar toda a papelada, passagens, hospedagem e tudo o que você vai precisar. E então é só você se preparar para morar na Alemanha por um ano. Um ano inteirinho na Europa, parece bacana. – Stephan disse a última frase mais para si mesmo do que para , mas o rapaz já estava fora de si mais uma vez, porque, finalmente, tinha caído na real. Ficaria fora por um ano, doze meses, 365 dias. E tinha escolhido o pior momento para isso. precisaria dele com o bebê, ele não podia abandoná-la nesse momento. Porque era isso que ele estaria fazendo, a abandonando. E se ele não fez isso em vinte anos, por que faria agora?


Quatro

If I could fly, I'd be coming right back home to you
I think I might give up everything, just ask me to

(One Direction – If I Could Fly)


Era quinta-feira e estava sentado na pequena mesa na cozinha de seu apartamento. chegaria em alguns minutos ele continuava encarando os documentos que havia separado para levar para o trabalho, mas que enrolava e fingia que tinha esquecido todo os dias. Stephan o cobrava diariamente, pedindo que Denise, sua assistente, lembrasse o rapaz da documento de duas a três vezes por dia, todos os dias. Aparentemente eles precisavam comprar as passagens e enviar tudo para o escritório da Alemanha. Ele ainda não tinha tido coragem de contar a que tinha sido selecionado, porque ele não sabia se queria ir. Bem, ele queria ir, mas ele também queria ficar. Seu coração pesava só de pensar que não estaria por perto durante a gestação e no nascimento do bebê. Ele sabia que não deveria se apegar, mas ele já tinha se apegado a toda a ideia. Não de ser pai, mas de estar por perto, de dividir tudo com ela. Imaginou indo nas consultas médicas, acompanhando nas ultrassonografias, no parto. Se pegou pensando se poderia ser um dos primeiros a ver o bebê no mundo, talvez, quem sabe, um dos primeiros a segurá-lo. Poder dizer a ele, mesmo sempre que ele pudesse entender, o quanto a mãe o desejou e quão feliz ele estava em ajudar. Mas se ele escolhesse ir, perderia tudo isso. Ganharia conhecimento, grandes chances de crescimento na empresa, desenvolvimento profissional, mas até que ponto ele estava preocupado com isso? Até que ponto isso era a parte mais importante da sua vida? Ele seria uma das dessas que a vida gira em torno do trabalho e apenas disso?

- . – ele ouviu a voz da amiga, logo depois do barulho da porta se abrindo. – Me ajuda aqui. – ela riu, mas o som foi abafado pelo som de algo caindo no chão. Ele chegou à sala, vendo o saco do mercado rasgado no fundo, uma lata de cerveja caída no chão, enquanto a menina se equilibrava para segurar todas as outras coisas.
- O que é isso tudo? – o rapaz perguntou, pegando a sacola de suas mãos com cuidado, para que nada mais caísse e seguindo para a cozinha.
- Comprei umas coisinhas para fazer um jantar pra gente, não posso ficar me entupindo de pizza e outras besteiras agora, né. – disse, colocando a bolsa em cima do sofá e indo atrás dele. – Vou fazer um macarrão, coisa simples.
- Podia ter falado, assim eu pedia para entregar e você não tinha o trabalho. – falou, se encostando a pia e vendo a amiga fazer uma careta.
- Claro que não, eu quero fazer. – sorriu e lado, tirando as coisas da sacola e colocando sobre a mesa. Pegou a panela que iria precisar e tratou de já colocar a água para ferver. ficou a encarando, em silêncio. Ela percebeu que havia algo estranho, mas resolveu esperar que ele se sentisse confortável para falar. – Hey, coloca as suas cervejas e o meu suco na geladeira.
- Ah, tudo bem. – o rapaz respondeu, ainda meio distraído. foi pegar o pacote com frango e viu um envelope em cima da mesa. Olhando para o amigo, ela perguntou:
- O que é isso? – demorou um pouco para responder, tentando inventar uma desculpa qualquer.
- Coisa do trabalho, nada importante. – respondeu. Não era uma mentira, mas também não era verdade. O que tinha naquele envelope era muito importante, mas não parecia querer lidar com aquilo naquele momento. Talvez mais tarde. Ele já tinha adiado a semana toda, mais alguns minutos não faria diferença.
- Hmm. – murmurou, como se acreditasse. – Alguma novidade? – ele se limitou a balançar a cabeça, negando.
- E você?
- Também não, tudo tranquilo. – respondeu, começando a preparar a comida.
- E o bebê? – perguntou, não conseguindo esconder o sorriso.
- Tá bem. Eu contei lá no trabalho, porque vou precisar que alguém me substitua, eles ficaram muito felizes, animados. Vou trabalhar até quando eu aguentar, como deve nascer em junho, eu emendaria a licença com as férias e voltaria no ano seguinte. Achei legal da parte deles, porque não são todos os lugares que me permitiriam isso.
- Sim, você vai ter os primeiros seis meses livres apenas para pensar no bebê, vai ser bom para vocês dois.
- Qual o problema, ? Você não tá bem, eu consigo perceber que você tá me escondendo alguma coisa, que você quer me dizer algo, mas não consegue. Sabe que não precisa disso, não é? Sabe que pode me falar qualquer coisa. – falou, deixando a comida de lado e voltando seu corpo na direção do rapaz, para olhar diretamente para ele.
- Eu sei disso, . Sei disso tudo, só preciso de um tempo, eu vou falar. – respondeu, se sentindo ainda mais desconfortável com a situação.
- Tudo bem, vou esperar você ter o seu tempo. – ela disse, se aproximando e dando um beijo no rosto do amigo. – Agora vai pra sala, essa sua cara amarrada está me deixando enjoada. – um sorriso forçado tomou conta do seu rosto, enquanto o rapaz ria abertamente.

Enquanto cozinhava, se sentou no sofá, com a TV ligada, mas sem conseguir prestar muita atenção. Ele não tinha muito, agora que ela já havia percebido que tinha algo estranho, o tempo era menor ainda. Tentou planejar o que falaria, elaborar um pequeno roteiro em sua cabeça, mas ele só conseguia imagina a fisionomia desapontada da amiga quando fechava os olhos. Ele não queria ser, de forma alguma, motivo para que ela ficasse triste, mas não tinha outra escolha. Precisava ser sincero e falar, mesmo sem ter a mínima noção de como seria sua reação. Em outra situação, ficaria imensamente feliz, porque ela sabia muito bem o quanto ele desejou esse curso, mas agora era diferente. Tudo tinha mudado.

- Macarrão com frango e brócolis. – disse, com uma expressão orgulhosa em seu rosto. – Não é por falsa modéstia, não, mas está com uma cara ótima.
- Tá mesmo. – comentou, sentindo o aroma que vinha do prato. – O cheiro está muito bom.
- Então vamos comer. – ela disse, pegando as bebidas na geladeira e sentando-se a mesa. tentou, mas não conseguiu mais fingir que estava tudo bem. Ele olhou a direção da amiga, suspirando pesadamente.
- Eu preciso te falar uma coisa, estou procurando como desde segunda-feira, mas não consegui pensar em nada, então não vou mais enrolar.
- , fiquei preocupada agora. – respondeu, deixando a comida de lado e prestando atenção no rapaz. – O que aconteceu? – Ele molhou o lábio inferior, mordendo-o por alguns segundos.
- Saiu o resultado da minha inscrição para o curso na Alemanha. – a voz dele estava muito desanimada para o tipo de notícia que daria.
- Ai, meu Deus. – ela disse colocando a mão no peito, já fazendo uma associação mental do que ele tinha que falar e não conseguia, com a sua aprovação. – E qual foi a resposta?
- Eles me selecionaram. – ele falou por fim, vendo um sorriso gigantesco se formar nos lábios de . – Meu chefe falou comigo na segunda-feira e eu tenho que levar toda a documentação até amanhã, mas eu não podia fazer isso antes de conversar com você. Acho que vou recusar.
- O que? – a voz da menina soou estridente e o tom completamente incrédulo. Ela apoiou as mãos na mesa, olhando para com uma expressão que beirava o choque. – Como assim você não vai? Você fala disso há quatro anos, sempre disse que é o seu maior sonho, sempre reclamou quando não era selecionado. Inclusive estava reclamando disso semana passada. O que mudou? O que pode ser maior e mais importante que isso, ?
- Você. – ele respondeu, de forma simples, fazendo a menina desmontar por dentro. – Eu sinto como se devesse ficar aqui com você, . Sinto como se você precisasse de mim. E quando eu penso no bebê, vejo que esse é o pior momento para ficar um ano longe. Serão tantas coisas acontecendo e eu prometi que ficaria ao seu lado. Nunca quebrei uma promessa com você e não estou disposto a começar agora.
- . – ela disse, com os olhos marejados, estendendo uma das mãos por cima da mesa, para que ele pegasse. – Eu não posso deixar que você desista dos seus sonhos por mim. Seria muito mais do que egoísmo...
- Mas eu quero fazer parte disso, quero estar aqui quando o bebê nascer e...
- Você vai fazer parte disso, quer dizer, você já é parte disso. Esse bebê é metade seu e eu nunca vou esquecer isso, mas você precisa esquecer. – voz de estava baixa e calma, como se ela estivesse se controlando para não chorar. – Eu pedi que você fosse meu doador, não o pai do meu bebê. Você será como um tio para ele ou ela e tios não desistem dos seus sonhos por seus sobrinhos. Muito pelo contrário, eles os perseguem, fazem desse sonho realidade, para ter algo bom para dar de exemplo no futuro. Se desistir disso por mim, eu vou me sentir mal pelo resto da minha vida. Porque você me ajudou a realizar o seu sonho, mas aqui estou eu, te impedindo de realizar o seu.
- Você não está impedindo nada. – ponderou, mas a menina balançou a cabeça, negando, enquanto passava a mão pelos olhos, secando algumas lágrimas que caiam.
- Ai, que droga, meus hormônios já estão todos descontrolados e essa gravidez mal começou. – brincou, rindo sem graça e respirando fundo para tentar se acalmar.
- Não precisa ficar assim por isso, . Não é importante. – tentou argumentar, mas não parecia muito interessada em suas desculpas.
- Se eu não estivesse grávida, você não pensaria duas vezes antes de aceitar. Ao invés de estarmos aqui tendo essa conversa, estaríamos num bar, bebendo todas, mesmo amanhã sendo dia de trabalho. Você teria me contato no segundo seguinte que ficou sabendo e as minhas lágrimas seriam de alegria. E, sim, isso é importante. Isso é muito importante para você como profissional e como pessoa. Porque não há nada melhor no mundo do que conseguir realizar um sonho antigo, meu amigo. E nãohá problema nenhum em ser um pouco egoísta uma vez na vida, caso seja isso que você esteja pensando. Pense em você primeiro, para variar. Tá sempre tão preocupado com o que os outros vão pensar, como vão reagir, como vão viver sem você. Então para e pensa como será pra você viver sem isso. – respirou fundo, fechando os olhos por alguns segundos. – Você vai, . Você vai, nem que eu tenha que ir amanhã, pessoalmente, levar seus documentos e depois te arrastar para dentro do avião. Você vai porque daqui a uns anos, vai olhar para trás e pensar na oportunidade que deixou passar. Você vai porque eu estou extremamente orgulhosa de você agora e sei que vai fazer a coisa certa. E, principalmente, você vai porque você quer ir. Se não quisesse, já teria recusado, não teria reunido tudo o que precisava naquele envelope.
- Eu quero ficar, . – disse mais uma vez, vendo a amiga sorrir de lado, não acreditando em nenhuma palavra do que ele dizia.
- Você pode ficar repetindo isso quantas vezes quiser, até conseguir convencer a si mesmo. Porque a mim você não vai conseguir.

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Assim que chegou ao trabalho no dia seguinte, deixou o envelope com os documentos em cima da mesa de Denise, com um bilhete preso em cima “desculpe a demora”. Depois da conversa que teve com na noite anterior, ele pensou muito durante quase a noite toda, chegando à conclusão que ele não podia, simplesmente, negar essa oportunidade. Era algo único pra ele, uma chance que tinha de crescer profissionalmente. Então se permitiu ser egoísta, pelo menos em seu ponto de vista, pensar em si, apenas em si mesmo, antes dos outros. Se permitiu escolher algo que seria bom para si, mesmo que isso pudesse machucá-lo um pouco no começo. E era um ano, só um ano.
Assim que Stephan passou pela mesa dele, mais tarde no mesmo dia, dizendo que a sua documentação já tinha sido conferida, aprovada e tinha seguido para o financeiro, para providenciarem as passagens e todos os demais tramites. Tudo dando certo, ele e o Connor viajariam no começo do ano seguinte, logo após as festas de fim de ano. O que ainda lhe daria cerca de dois meses por aqui ainda. Tentou parecer animado, mas parte dele estava triste em partir. nunca tinha ficado tanto tempo longe de casa, dos pais, dos amigos, de . Ele não sabia como seria ficar sozinho em outro país, sem conhecer ninguém. Não era uma pessoa que fazia amizades com facilidade, era mais do tipo de mantê-las. Quem fazia amigos por onde passava era , como se ela tivesse uma luz dentro dela que atraia as pessoas e depois ninguém mais conseguia se afastar. Ele pegou o celular, enviando uma mensagem para a amiga:

“Tudo certo, embarco no começo do ano que vem.”
10:48


Encarou as duas fotos que tinha numa parte mais escondida de sua mesa, uma dele, , Lili, Anthony e Noah, no seu último aniversário. Eles estavam completamente bêbados, mas aquela era uma das fotos que ele mais amava na vida. E na outra estava apenas ele e , deveriam ter uns dezoito anos na época, e estavam no baile da escola. Tiraram fotos numa daquelas máquinas que saem uma sequência de fotos. Numa delas eles estavam fazendo uma careta muito engraçada, ele sempre olhava aquela foto quando precisava relaxar um pouco. O telefone vibrou em cima da mesa e o nome de apareceu no visor:

“Eu sabia que você ia tomar a decisão certa.”
10:55

sorriu de lado, feliz com o fato de estar tudo bem entre eles. O aparelho vibrou de novo, por duas vezes seguidas.
“Precisa contar aos outros, vamos comemorar. Amanhã na sua casa, às 20hs. Vou avisá-los.”
10:59

“Ah, comidas por sua conta, rs.”
10:59

riu, balançando a cabeça, antes de responder.
“Ok, comidas por minha conta.”
10:59


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, , Lilli, Anthony e Noah estavam sentados ao redor da mesa de centro na sala do apartamento de . Comendo pizza, falando besteiras e rindo sobre qualquer coisa. Já eram quase duas da manhã, mas ninguém parecia que iria embora nem tão cedo. disse que ele teria que contar a novidade para os outros três, mas que podia esperar pelo momento em que ele se sentisse mais confortável. Só que a única pessoa que ele tinha algum medo de machucar com essa notícia era , então ele não tinha mais medo de contar nada. Seus pais não paravam de falar sobre isso desde o dia anterior, quando o rapaz contou, depois de entregar a documentação. Era capaz de metade da cidade já saber, porque Kathy e John estavam extremamente orgulhosos do filho e não perdiam uma oportunidade sequer de falar sobre a sua nova conquista.

- Eu tava aqui pensando. – Lilli falou, colocando sua cerveja no chão e se recostando no sofá. – Será que depois que o bebê da nascer, a gente vai conseguir fazer coisas assim? Ficar acordado até tarde, falando um monte de coisa sem sentido, enchendo a cara e nos entupindo de pizza?
- Bem, enchendo a cara ela já não está, então já começou a mudar. – Anthony falou, rindo. Lilly rolou os olhos, porque ele tinha entendido o ponto dela, mas estava apenas perturbando.
- Você me entendeu, Tony. Porque, assim, quando um bebê nasce, as prioridades mudam, né...
- Vocês podem ficar tranquilos, sempre serão prioridades na minha vida. Talvez tenhamos que mudar o local e horário dos encontros, mas nada vai mudar drasticamente. Eu só vou ter um bebê, então nós vamos nos reunir para beber, comer besteiras e falar sobre coisas aleatórias, mas também trocar algumas fraldas.
- Ah, essa parte eu dispenso, posso ficar só com as brincadeiras? – Noah falou, fingindo uma careta.
- Tudo bem então, se vocês estão me prometendo que nada vai mudar, eu acredito. – Lilly disse, dando de ombros e bebendo mais um gole de sua cerveja. e trocaram um olhar cúmplice que Anthony percebeu.
- O que foi? – ele perguntou. A menina mordeu o lábio inferior e deu de ombros, como se dissesse: “agora não tem mais jeito, né?”
- Vocês sabem que eu sempre me inscrevo para o processo seletivo do curso especialização que a empresa oferece na Alemanha, certo? – perguntou retoricamente, vendo os amigos se sentarem de forma mais reta e prestarem atenção no que ele estava dizendo. – Esse ano tinham duas vagas e... eu consegui uma. – Lilly arregalou os olhos, Anthony deixou os lábios se abrirem num sorriso, sendo acompanhado por Noah.
- Como assim? Como foi isso? Explica direito. – Anthony pediu, extremamente animado.
- Na segunda-feira o meu chefe pediu que fosse até a sala dele e disse que a vaga era minha, que eu tinha até ontem para levar a documentação, porque eles dariam entrada ao processo de visto, compra de passagem, alojamento e tudo mais.
- Pergunta importante. – Lilly falou, chamando a atenção de todos. – Por que ela soube antes de nós três? – perguntou, apontando na direção de , que riu, balançando a cabeça lentamente. – Não estou gostando nadinha dessa história de vocês dois dividindo segredos. Nós somos um grupo. Um grupo! Se forem começar a dividir em panelinhas, eu vou sobrar. Porque já temos esse casalzinho aqui. – ela olhou para Anthony e Noah. – A gente finge que gosta deles, mas é chato quando ficam de conversa paralela. Agora vai começar vocês dois também?
- Lilly, não precisa ficar com ciúme. – brincou, vendo a amiga a olhar de cara feia.
- Não é ciúme, eu só gosto das coisas certas.
- Vamos voltar ao que interessa? Depois nós lidamos com o ciúme dela. – Noah disse se voltando para . – Caramba, eu to muito feliz por você. – ele se levantou, indo até onde estava, dando-lhe um abraço apertado. – Eu ouço você falar sobre isso desde que eu te conheci, lembro de todas as suas tentativas, basicamente. E ver você conseguindo isso agora e como a realização de um sonho. Parece até que é meu sonho também. – ele mordeu o lábio inferior. Noah era uma pessoa muito sensível, ele se solidarizava muito com tudo o que as pessoas passavam. Se você tinha um problema, qualquer um, que não conseguia solucionar, era só falar com ele. Se não conseguisse te ajudar a resolver, pelo menos você teria alguém para dividir aquele fardo. E quando era algo bom, como essa notícia, sempre ficava feliz como se fosse com ele, então era sempre maravilhoso dividir as coisas com ele, porque você sentia que ele se importava de verdade, não era apenas fachada.
- Obrigado, Noah. – falou, apoiando a mão no ombro do amigo. – Eu estava inseguro sobre ir ou não, porque eu não sabia se queria deixar tudo aqui, deixar vocês. Então eu conversei com a e ela abriu os meus olhos.
- Você realmente pensou em não ir? – Lilly perguntou, enquanto levantava e caminhava até onde o rapaz estava. Ela passou o braço pela cintura dele, apertando o máximo que podia. – Parabéns, meu amigo. Você merece. – sussurrou em seu ouvido.
- Pensei. – confessou. – Tanto que eu fiquei sabendo na segunda e só entreguei a documentação ontem. Tinham muitas coisas na minha cabeça, eu só conseguia pensar que seria um ano longe de todo mundo. E eu nunca passei mais do que uma semana longe de vocês.
- . – Anthony disse, também se aproximando. – Não é como se você estivesse indo para sempre, cara. É um ano, passa muito rápido. E é como o Noah disse: é a realização do seu sonho, mas acho que cada um de nós aqui sente como se fosse um pouquinho seu também. Nós dividimos tudo isso com você. Estou tão orgulhoso.
- Pode ser que seja esse o momento de realizações pessoais no grupo. Eu com o meu bebê, por não? com sua especialização, Anthony e Noah com o escritório deles. Só falta você, Lilly. – disse, vendo a amiga a olhar pelo canto dos olhos. Não havia um tom acusatório ou de cobrança em sua voz, pelo contrário, ela soava até mesmo um pouco preocupada. – Talvez esse seja o empurrãozinho que sempre falta para você deixar aquele emprego louco que você tem e fazer algo que realmente goste, ou que te faça feliz.
- Eu não vou mentir, não. – a menina falou, ainda abraçada a . – Eu penso nisso todos os dias. Acho que só preciso de coragem mesmo. E talvez um pouco de apoio. – ela deu de ombros.
- Você tem a gente. – Noah disse, sorrindo em sua direção.
- Eu sei disso e agradeço todos os dias.
- Não querendo acabar com o lindo clima que temos aqui, mas acho que devemos começar a pensar numa coisa. – falou, chamando a atenção.
- O que? – perguntou, com um pingo de curiosidade em sua voz.
- Sua festa de despedida. – ela sorriu de lado, vendo o rosto dos amigos se iluminarem. – Já tenho muitas ideias.
- Quando você vai, ? – Lilly perguntou, levantando a cabeça para encará-lo.
- Acho que na primeira semana de janeiro.
- Ótimo, temos tempo para planejar uma festa maravilhosa. – ela respondeu, visivelmente animada.
- Não precisa de festa. – o rapaz falou, mas sendo altamente ignorado por todos os amigos.
- Quando um dos nossos melhores amigos consegue uma oportunidade de estudar na Alemanha, nós comemoramos, sim. Está nas regras. – Anthony comentou, fazendo todos rirem e concordarem.
- Comemorar a viagem do e o bebê da . – Noah exclamou. e se olharam, como se comunicasse somente pelo olhar. Pra eles não tinha necessidade nenhuma de festa, mas se conheciam bem seus amigos, eles fariam questão. E, bem, não faria mal comemorar um pouco, não é mesmo?


Continua...




Nota da autora: (05/12/2017)
PARABÉNS, FÓBIS!!!
A att é curtinha, mas foi feita de coração, juro. Tudo para participar dessa atualização maravilhosa de aniversário desse site maravilhoso.
O mozão vai viajar. Juro que isso dá um aperto no coração, mas é tudo por uma boa causa. É o sonho dele, né?
Quero agradecer, mais uma vez, por vocês estarem lendo a fic, meu coração quase não aguenta os comentários de vocês.
Beijo da That.



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