Última atualização: 14/09/2018

Um - O Pedido

I think I’m ready for something new
(Tom Fletcher – Something New)

BAILE DE FORMATURA, 2007

A menina balançava seu vestido de baile amarelo de um lado para o outro, enquanto o rapaz continuava sentado, completamente desanimado, da mesma forma que estava desde que eles tinham chegado. e se conheciam desde que tinham cinco anos de idade e ela se mudou para a casa ao lado da dele, depois que seus pais se separaram. As janelas dos seus quartos ficavam uma de frente para a outra e eles costumavam passar horas e horas, noites e mais noites conversando. Eles falavam sobre tudo, provavelmente eram as pessoas que eles mais confiavam no mundo. Ela sempre foi uma pessoa meio estranha e adorava isso, ele se divertia com as ideias loucas da amiga, por mais que algumas delas nunca dessem certo. E hoje, no baile de formatura deles, resolveram vir juntos, porque a garota que foi apaixonado durante todo o ensino médio foi convidada exatamente pelo rapaz que estava interessada. Então, para comemorar a como a vida poderia ser tão ingrata com ambos ao mesmo tempo, combinaram que ir juntos. Pelo menos não iriam sozinhos e poderiam tentar se divertir de alguma forma, por mais que não parecesse muito interessado nisso.
Ela estava tentando se divertir, dançando com qualquer música que tocava, mesmo que o rapaz se recusasse a ser seu par. Ela parava em sua frente e fazia diversos passos engraçados, para tentar, ao menos, fazer o amigo sorrir. E estava tendo sucesso com isso. Mas uma música lenta começou a tocar e todos os casais se formaram, indo para a pista. não queria se a única a ficar para trás, então foi até seu amigo, praticamente implorar por uma dança.

- Por favor, , é nosso baile de formatura, nossa libertação. Temos que comemorar! – ela falou, segurando na mão do rapaz e tentando fazê-lo levantar
- Comemorar o que, ? – ele perguntou, fazendo força para se manter sentado.
- Nunca mais teremos que estudar matemática, física e química, quer um motivo melhor do que esse? Quer dizer, menos o cdf aqui que vai fazer Engenharia Química na faculdade. – ela fez uma careta e o rapaz gargalhou – Nós vamos embora daqui e não teremos mais que sofrer por nenhuma Leigh ou Aaron. – o rapaz ponderou, afirmando com a cabeça – E por último, mas não menos importante, porque eu quero. Agora vem. – ela puxou com um pouco mais de força e contou com a boa vontade dele em levantar. Eles se enfiaram no meio dos alunos na pista e começaram a se balançar de forma desconjuntada.
- Eu sou um péssimo dançarino. – comentou, balançando a cabeça.
- Bem, não se pode ser bom em tudo, não é mesmo. – a menina comentou, rolando os olhos. A música mudou e uma bem antiga começou a tocar. Os olhos da menina brilharam e um sorriso genuíno brotou nos lábios dele.
- Eu amo essa música. – os dois disseram ao mesmo tempo, rindo em seguida. – “When the night has come and the land is dark...” - cantarolaram juntos.
- Pelo menos esse DJ tem um bom gosto, as músicas são legais. – comentou, aparentemente surpreso.
And the moon is the only light we'll see... ♪♪
- Eu falei que você ia gostar da festa, seu chato. – ela fez uma expressão convencida.
- Ok, tudo bem, não está tão ruim assim. – ele assumiu, como se não se importasse.
- , eu tava aqui pensando... – a garota mudou de assunto repentinamente.
- Isso é perigoso. – ele brincou, recebendo um tapa da amiga em resposta e rindo alto em seguida.
No, I won't be afraid, no, I won't be afraid... ♪♪
- Não, é sério de verdade. – a expressão dela se tornou mais fechada e preocupada – Não sei se é essa festa ou todo esse clima de despedida, mas você é o único amigo de verdade que eu tenho e eu estava me perguntando se daqui a dez, quinze, vinte anos, você ainda será meu amigo. Não sei, vai que você arruma uma esposa que não gosta de mim. – ela deu de ombros.
Just as long as you stand, stand by me... ♪♪
- Por que você tá falando isso? – ele perguntou, confuso – Você acha que eu deixaria de ser seu amigo?
- Casamentos acabam, por que amizades não acabariam? – ela disse, mordendo o lábio inferior. sempre soube que o divórcio dos pais de tinha mexido muito com ela, mas nunca teve muita noção da dimensão que tudo tinha tomado em sua vida. Eles pararam de dançar e ele tocou o rosto da amiga, fazendo com que ela o olhasse.
And, darling, darling stand by me... ♪♪
- , que história é essa? Você acha que nossa amizade vai acabar assim tão fácil depois de doze anos? Você tem muito o que me aturar ainda. Tire essas ideias loucas da sua cabeça.
- Mesmo que a sua futura esposa faça você escolher entre mim e ela? – perguntou, com um sorriso bobo.
- Eu escolho você, dou preferência pelo tempo de convivência. – ele sorriu, sentindo os braços da menina passarem pelo seu pescoço, o puxando para um abraço apertado.
If the sky that we look upon should tumble and fall... ♪♪
- Me desculpe se eu estou muito carente, mas essa mudança para a faculdade tá acabando com a minha cabeça que já não é muito boa. – ela fez uma careta. Ele suspirou, pegando a mão da amiga e a girando no meio da pista, para que pudessem voltar a dançar.
- Não esqueça que eu estarei lá com você, um pouco mais longe do que o normal, mas apenas a alguns prédios de distância. – ele piscou e ela afirmou – Eu tenho uma proposta louca para fazer pra você.
And the mountains should crumble to the sea... ♪♪
- Adoro propostas loucas. – ela sorriu abertamente, esquecendo um pouco a tristeza que estava a dominando antes.
- Eu sei bem muito bem disso. – comentou, balançando a cabeça com vigor.
- Pare de me enrolar e fala de uma vez, você sabe que eu sou curiosa.
I won't cry, I won't cry, no, I won't shed a tear... ♪♪
- Eu quero propor que, caso nós dois estejamos solteiros até os quarenta anos, a gente se casa. Assim não teremos que nos preocupar com nossos companheiros nos fazendo escolher. – ela apertou os olhos, fazendo uma cara engraçada.
- Eu sempre soube que você era apaixonado por mim, , você nunca me enganou. – brincou, fazendo o amigo soltar uma alta gargalhada, chamando a atenção de todos ao redor – Mas, sim, eu aceito seu pedido de casamento com vinte e três anos de antecedência. Agora pode começar a torcer para eu não me casar, porque eu sei que é isso que você fará todos os dias de sua vida.
- Você não existe, . – ele riu, beijando o topo da cabeça da amiga.
Just as long as you stand, stand by me... ♪♪

🤰 👶 👪


e foram para a mesma faculdade mais tarde naquele ano. Ele foi cursar Engenharia Química e ela, sem ter certeza do que fazer da vida, começou fazendo Psicologia, mas logo nos primeiros semestres viu que não seria algo que a interessaria. Então mudou para Pedagogia, não que estivesse muito certa do que estava fazendo, mas pelo menos dessa vez ela foi até o final. Mesmo estando em grupos e locais diferentes pela primeira vez em doze anos, os amigos faziam tudo o que era possível para ficarem juntos. Sempre que conseguiam, eles se encontravam no bar perto da faculdade para conversar sobre a vida, as aulas, as desilusões amorosas, qualquer bobagem que aparecia ou apenas para ficarem perto um do outro, mesmo sem falar nada. E dessa forma eles viram namoros começarem, terminarem, começarem de novo e acabarem de vez. Alguns corações foram partidos, amizades conquistadas, algumas perdidas também, mas o que realmente importava era que o tempo passava e eles continuavam juntos, como se nada tivesse mudado, exatamente da forma que tinham prometido um ao outro.
Cinco anos depois, ambos formados, eles não queriam voltar para casa dos seus pais, então foram em busca de um apartamento para eles. Não que fossem morar juntos, mas um ajudou o outro a achar o seu próprio cantinho, de acordo com o que o emprego que conseguiram proporcionava. encontrou um apartamento pequeno no centro, perto de tudo. Tinha um quarto relativamente grande e uma sala relativamente pequena, o que cabia no seu orçamento de engenheiro auxiliar de uma empresa farmacêutica. Não se preocupou muito com a decoração, já que era um apartamento alugado. Toda e qualquer sobra de dinheiro do mês ia para o banco, onde mantinha uma poupança há um bom tempo. Já se apaixonou por um loft quase do tamanho do seu antigo quarto, na casa de sua mãe, que ficava em cima de uma floricultura. Ela dizia que ali seria o lugar perfeito, porque sempre teria cheiro de flores, sem que ela precisasse gastar dinheiro com isso. Todas as coisas da menina mal cabiam naquele apartamento, mas ela o amava mais que tudo na vida. Ela usou todas as suas economias para deixá-lo do jeito que imaginou. As contas acabavam atrasando um pouco em alguns meses, porque o salário de professora do jardim de infância não era muita coisa, mas ela estava muito feliz com o pouco tinha e isso lhe parecia o suficiente.
O tempo passava e crescia na empresa, depois de quatro anos trabalhando na Bayer como engenheiro auxiliar, ele já havia sido promovido duas vezes, passando a engenheiro sênior e chefe do seu setor. Ele estava pesquisando sobre uma especialização que a empresa oferecia em seu país sede, na Alemanha, mas a disputa era grande e ele não tinha conseguido a vaga nas últimas cinco tentativas, mas ele não desistiria. Já continuava a lecionar para crianças, dava mais algumas aulas e conseguia um pouco mais de dinheiro que antes. Só que ela não tinha grandes planos de carreira como , ela só queria um emprego que pudesse se manter. Se conseguisse pagar as contas no final do mês e sobrasse um pouco de dinheiro para se divertir, já estaria feliz.
Nesses últimos anos, não havia tido nenhum namorado sério, só o Josh, que acabou sendo um enorme babaca quando tentou beijar uma amiga sua, Jade, sem saber que era amiga da própria namorada. Ela chorou no colo de , que consolou mais um coração partido da amiga. Nada que o tempo não curasse. Já tinha namorado duas vezes: um que durou dois anos e terminou porque, aparentemente, ele trabalhava demais e tinha tempo de menos; e o outro que durou cerca de dois meses. Diane não gostava de , na verdade ela tinha muitos ciúmes da amiga do namorado. E então, como se mais de vinte anos de amizade não fosse significar nada perto de dois meses de namoro, ela pediu que se afastasse de . O rapaz terminou com ela dias depois do pedido, mas nunca comentou o caso com a amiga, porque ele sabia que não acabaria bem.
E dessa forma, as coisas seguiam sem muitas mudanças, num mesmo ritmo, como a vida deveria ser. Eles de encontravam todas as quintas-feiras, era o costume deles, uma tradição. Uma semana na casa de , na seguinte na casa de , onde conversavam sobre o que tinha acontecido na semana, comiam alguma coisa bem gordurosa e viam quantos episódios de Friends conseguissem até pegarem no sono no sofá. Quem olhasse de fora os veria como um casal e seria um belo casal, porque não tinha uma única coisa em que não combinassem ou que discordassem, só que depois de tantos anos, provavelmente não cabia nenhum romance ali. Os outros amigos até brincavam, dizendo que eles já eram um casal, só não tinham percebido. Mas será que valia a pena arriscar uma amizade tão longa, em um relacionamento que poderia não dar certo? Era um tiro no escuro e isso nem passava pela cabeça deles.

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COFFEE HOUSE, 2015

esperava a amiga no café que eles sempre frequentavam e, para variar, ela estava atrasada. Era uma caminhada de menos de dez minutos da casa dela até ali, enquanto ele morava logo na esquina, sabia que tinha saído de casa muito cedo. Ele olhou no celular e viu que a mensagem que ela tinha enviado, avisando que já estava chegando, era de vinte minutos atrás. Mas ele sabia que ela não estava chegando e, muito provavelmente, ainda estava em casa. Então apenas pegou o aparelho, tirando uma foto fingindo uma expressão cansada e enviou para ela, recebendo uma risada em resposta e a seguinte frase em seguida:

“Agora é sério, estou chegando.”
, 14:47

Ele olhou para o lado de fora, vendo a menina passar pela janela, que cobria grande parte da parede externa do lugar. Ela sorriu abertamente quando viu o amigo, fazendo uma careta, ele abaixou a cabeça, balançando a mesma lentamente, enquanto ria baixo.
entrou na cafeteria, tirando o casaco e andando apressadamente para ocupar o lugar ao lado de . Ela sorriu ao sentar, apoiando o agasalho na cadeira vazia ao seu lado. Colocou o celular sobre a mesa e respirou fundo, tomando coragem para iniciar a conversa que tinha pedido para ter com o amigo.

- Tá tudo bem? – perguntou, notando que ela estava nervosa.
- Acho que é falta de cafeína. – respondeu rapidamente, levantando a mão para chamar a garçonete. estalava os dedos nervosamente enquanto esperava, balançando as pernas debaixo da mesa. percebeu e colocou sua mão sobre a dela, fazendo um carinho suave. Ele sorriu de lado, arqueando a sobrancelha, como se perguntasse: “Tá tudo bem mesmo?” e viu que ele tinha percebido o seu nervosismo e balançou a cabeça lentamente, com uma expressão de “deixa pra lá.” – Eu quero um expresso duplo com creme, por favor. – ela pediu, assim que a garçonete chegou – E ele...
- Um cappuccino, com um pouquinho de canela. – o rapaz pediu, sorrindo de lado para a atendente. – , qual o problema? Você se envolveu em alguma confusão? Não adianta me falar que tá tudo bem, que não aconteceu nada, porque eu te conheço melhor do que você mesma. Você não fica assim por nada. Anda, me diz o que aconteceu de tão grave que você está quase arrancando seus dedos e fazendo um buraco no chão.
- Não aconteceu nada, de verdade. Bem, não ainda... – ela molhou os lábios antes de continuar – É que eu tomei umas decisões a respeito da minha vida e eu preciso conversar com você a respeito delas, porque eu preciso da sua opinião e do seu conselho. Você sabe o quanto eu levo tudo o que você fala a sério, não é?
- Claro que sei, então me fala. – ele pediu, já sendo dominado pela curiosidade.
- É que é muito complicado, . Eu não sei se você vai entender, você é homem, talvez você não entenda essas coisas.
- Bem, se você me explicasse ou pelo menos tentasse, eu poderia dizer se entendi ou não, certo?
- Ok. – disse, respirando fundo e olhando para o rapaz pelo canto dos olhos. – Você sabe que eu não tenho uma vida legal como a sua, eu não me formei na faculdade dos sonhos, eu não tenho o emprego que sempre desejei, eu basicamente trabalho para viver, não pode eu realmente gosto do que eu faço, certo?
- Mas isso foi uma escolha sua, . Nós conversamos muito sobre isso quando você escolheu fazer pedagogia na faculdade, eu disse que você não iria gostar...
- Deixa eu terminar, por favor. – ela pediu, fechando os olhos fortemente.
- Tudo bem, desculpa te interromper. – o rapaz falou, percebendo que havia algo de estranho na amiga.
- Eu não fiz boas escolhas na vida quando se tratavam de realizar os meus sonhos. Até porque eu nunca soube verdadeiramente o que eu queria fazer... enfim. Não é para falar sobre como eu nunca tive certeza de nada na vida que eu te chamei aqui, . A verdade é que eu tenho vinte e seis anos e nenhuma realização, nada grande e emocionante na minha vida. É como se eu estivesse desperdiçando cada minuto meu na Terra, desperdiçando grande parte de vida curta que nós temos. Então eu resolvi fazer uma coisa... – ela foi interrompida pela garçonete, que trazia o pedido que eles haviam feito. Eles agradeceram e ela se afastou. E enquanto levava a xícara ate os lábios, voltou a falar. – , eu quero ter um bebê. – ela disse rápido, se atropelando nadas palavras, antes que perdesse a coragem de falar. O rapaz se engasgou com a bebida e encarou a amiga, completamente confuso.
- Você vai ter um bebê? – ele disse, sussurrando, como se não acreditasse muito – Quem é o pai? Como isso aconteceu? ...
- Não, . – ela interrompeu o surto do rapaz – Eu quero ter um bebê. Um filho, meu filho. Eu sei que parece loucura, mas é o único sonho que eu sempre tive e que eu posso realizar no momento.
- Por algum acaso você pensou em tudo a respeito na realização desse sonho? Dos custos, de todo o trabalho de envolve colocar uma criança no mundo e, principalmente, uma coisa chamada pai? , você mal consegue pagar suas contas no final do mês direito e uma criança gera muitos custos.
- Eu falei com a minha mãe... – ela disse e ele revirou os olhos. A mãe de era uma as pessoas menos ajuizadas que conhecida, é claro que ela daria apoio para a filha. – E ela disse que eu poderia voltar para casa, lá tem três quartos, eu poderia ficar no meu antigo e arrumar o outro para o bebê. Assim eu já economizaria o do aluguel, eu tenho algumas economias e ela me ajudaria. Eu acho que ela adorou a ideia do bebê, ainda mais eu voltando para cara com um bebê.
- Claro que ela adorou, seria mais uma criança para ela criar da forma louca dela. – comentou e riu – Porque vamos combinar, , sua mãe não faz o requisito de “mãe normal”.
- Eu sei que não faz, , não discutiremos a respeito disso, até porque eu sou prova viva dos métodos loucos que criação que ela tinha. Só que esse bebê teria a mim e eu o criaria da minha própria forma estranha. – ela brincou e ele rolou os olhos, respirando fundo em seguida.
- Acho que você está decidida a respeito disso e o intuito dessa conversa era apenas me comunicar, certo?
- Você não entende, . É que o tempo passa, eu vejo as pessoas ao meu redor conquistando tudo o que sempre sonharam e eu me vejo parada no mesmo lugar. Eu sempre quis ser mãe, sempre quis ter uma família grande e linda. Ter várias crianças correndo pela casa, ouvir meus filhos brincando, ajudar na lição, levar para a escola, organizar as coisas das festas de aniversário. Você sempre teve sonhos diferentes, o seu ideal de vida é algo focado no trabalho, na carreira, mas eu não penso assim. – ela suspirou, passando a mão pelo rosto, desapontada com a falta de apoio que vinha do amigo – Eu não lembro de como viver em família, não sei se eu era muito nova ou se a minha vida apenas com a minha mãe não foi o exemplo de vida em família que eu idealizei. Então eu sempre pensei, sempre me imaginei vivendo numa casa grande, com meus filhos, meu marido, um cachorro, esses sonhos bobos que algumas garotas tem. Só que cada dia que passa, parece que está mais distante de acontecer. E os desejos e prioridades mudam. Eu não quero um marido, eu quero um filho, uma coisinha que eu sei que eu vou amar mais do que qualquer coisa nesse mundo e que vai me amar de volta. Pode ser loucura, , mas eu não me importo.
- Realmente, , eu não entendo, mas eu não entender não muda nada. É o seu sonho, não o meu. O que eu acho ou deixo de achar, não importa no momento. Se eu faria algo assim? Provavelmente não, mas é você que tem que escolher e independente da escolha... – ele colocou a mão sobre a mesa, para a amiga a segurasse – Você sabe que eu estarei por perto, não é mesmo?
- Você não vai me achar louca por querer ter um filho sozinha? – ela perguntou, sorrindo de lado. Vendo o amigo sorrir, balançando a cabeça lentamente.
- Eu já te acho louca normalmente, então não. Talvez uma criança ajude a criar um pouco de juízo na sua cabeça. – brincou, bebericando um pouco de sua bebida.
- Bem, talvez você me achei mais louca ainda depois do que eu realmente tenho pra falar. – continuou, escondendo uma careta até da xícara de café.
- Você já está grávida? – o rapaz perguntou, sobressaltado.
- Não, , eu já falei que não. – ela respirou fundo, coçando a cabeça, tentando criar coragem. – Eu tenho pensado nisso há um tempo e imaginando possibilidades de como isso seria possível. Não queria ter um filho fruto de uma relação casual, então me restaria a doação de esperma.
- Que assunto estranho, . Será que eu não posso ficar apenas no apoio, sem saber de muitos detalhes? Posso te acompanhar nas consultas, posso te ajudar com os desejos durante a madrugada e brincar com o bebê quando ele nascer, mas eu não gostaria de me envolver na sua busca por um pai para essa criança. – disse, fazendo a menina morder o lábio inferior e parecer desconfortável.
- Eu não imagino o filho sendo metade meu e metade de um desconhecido. Então eu pensei na pessoa que eu mais confio no mundo, mais inteligente, companheira, um excelente amigo e que doaria ótimos genes para o meu bebê, inclusive, quem sabe, um maravilhoso par de olhos ...
- , não. Sem condições. – o amigo respondeu, entendendo exatamente aonde a menina queria chegar com aquela história. Ele ria de nervoso, sem saber se controlar. Ele passou a mão pelo cabelo, visivelmente desconsertado pelo pedido que ela ainda nem tinha feito.
- , só pense na possibilidade. – ela pediu, vendo o rapaz parecer cada vez mais apavorado.
- Você está me pedindo algo que vai além de todos os limites. – ele murmurou, colocando as duas mãos no rosto, sem saber como agir, o que falar ou fazer. – Você está me pedindo para ser pai do seu filho. – disse baixo, como se fosse segredo. Talvez ele ainda não tivesse coragem de falar em voz alta.
- Eu não estou pedindo que você seja o pai do meu filho. – a menina falou, vendo a expressão assustada do rapaz se tornar confusa – Eu só preciso do seu esperma. – disse, como se fosse a coisa mais simples no mundo.

¹ A música que toca no baile de formatura é Stand by Me, do Ben E. King.


Dois - "Eu Aceito"

There isn't anything I wouldn't do for you
(Randy Newman – You've Got a Friend in Me)


- Tá, então eu não seria o pai da criança, apenas doaria um pouco do meu esperma e você teria o bebê sozinha? – perguntou, ainda tentando assimilar toda aquela história e rezando para que a amiga o corrigisse, mas logo viu que tinha entendido certo, ao olhar de lado, vendo a garota balançar a cabeça, afirmando.
- Assim como seria se eu procurasse um doador anônimo. Inclusive, você teria que assinar um termo que deixaria claro que você não tem direitos sobre a criança. Eu não quero que você tenha o trabalho e as preocupações de um pai, . Nunca pediria que você assumisse essa responsabilidade sem que fosse um desejo seu, não existe isso, é loucura demais até pra mim. – bebericou um pouco de seu café – A questão é que eu queria uma pessoa que eu conhecesse, confiasse e você me pareceu, me parece, a melhor opção: inteligente, bonito, educado, simpático. Tudo o que eu posso querer que meu filho seja, mas eu não posso e nem vou te obrigar a nada.
- Você sabe que isso é loucura, não é? Que não nenhuma chance de eu ser apenas um doador para essa criança, porque eu vou saber que é meu filho, as pessoas vão saber, elas vão falar...
- Ninguém precisa saber. Aliás, ninguém precisa saber de nada, eu posso muito bem ter engravidado numa transa casual e o pai não quis assumir. Isso acontece todos os dias, com várias mulheres, ninguém vai desconfiar. Eu seria apenas mais uma “mãe solteira”, por pior que seja esse termo. – a amiga buscou a mão do rapaz, tocando-a levemente, fazendo com que ele a olhasse – Eu não vou te pressionar, porque sabia que seria praticamente impossível você aceitar essa ideia, mas achei que deveria tentar, pelo menos. Mas se você não quiser, , não tem problema. Eu escolho um doador da clínica e não tocamos mais nesse assunto.
- Você não vai ficar chateada comigo? – ele perguntou, olhando a amiga pelo canto dos olhos.
- Claro que não. – respondeu, com sinceridade em sua voz.
- É que é difícil pensar nisso, como seria eu olhar para essa criança e não enxergar como minha também.
- Eu entendo, juro que te entendo. – ela disse, sorrindo de lado – E como prometido, não tocaremos mais no assunto, ok? Sobre o que quer falar agora, alguma resposta do curso de especialização da empresa?
- Nada ainda, mas o período de inscrição ainda está aberto, tem mais um ou dois meses para sair o resultado, só resta esperar. – deu de ombros, como se não se importasse, mas sabia que ele se importava, sim. Ele tentava uma vaga nesse curso há anos, mas eram sempre os mesmos queridinhos do chefe que conseguiam, já que todos queriam passar um ano na Alemanha com tudo pago. Aliás, quem não queria?
- Você vai conseguir dessa vez, algo me diz isso. Só que não sei o que eu vou fazer sem você aqui. – a menina sorriu de lado, vendo o rapaz rolar os olhos.
- Não sofra por antecedência, . Você sempre diz que eu vou conseguir dessa vez, mas a vez chega e eu não consegui.
- Mas dessa vez é diferente, eu sonhei que você estava na Alemanha duas noites atrás, na manhã seguinte eu passei em frente à livraria e tinha um dicionário inglês-alemão na vitrine. Logo mais na frente, naquela loja de material esportivo que tem duas ruas antes da escola, tinha uma camisa da Alemanha na vitrine e quando eu cheguei ao trabalho, a Joy tinha me levado um strudel de maçã. – apoiou o rosto numa das mãos e encarou a amiga, segurando o riso, enquanto balançava a cabeça lentamente. Ela era simplesmente incrível quando queria provar alguma coisa, mesmo se fosse uma besteira qualquer. sempre encontraria pontos e explicações das mais diversas e absurdas para mostrar que estava certa – Então não foi apenas uma sensação. Foi a sensação, um sonho e três elementos que comprovam tudo, porque duas coisas formam uma coincidência, mas três já é certeza. – ela sorriu, convicta de que estava certa.
- Nossa, com certeza a vaga é minha, ninguém vai poder competir com um sonho, um dicionário, uma camisa e um strudel. Se não tivesse o strudel até daria, mas quando ele apareceu, eu vi que não tinha mais chances. – o rapaz zombou, fazendo a menina apertar os olhos.
- Tudo bem, se não quer acreditar, não acredite. Mas comece a pensar como será viver longe de mim por um ano, porque eu sei que você não vai aguentar. – comentou, vendo o amigo balançar a cabeça, afirmando.
- Tem, o que, vinte anos que a gente se vê quase todos os dias? – perguntou retoricamente.
- Basicamente. Você acha que sobrevive?
- Ah, com certeza não. – o rapaz brincou, como se não levasse muito a sério a possibilidade de ficar longe por todo esse tempo.

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Mesmo com a negativa de , iria continuar com o seu plano, então era por isso que ela estava na sala de espera da sua ginecologista, Adelaide, pela terceira vez só nesse último mês. Ela tinha passado toda a manhã na escola que dava aula e tinha vindo direto para a consulta, nem tinha almoçado tamanha era sua ansiedade. A médica havia passado alguns exames pra ela, desde os mais simples, como os de sangue, até alguns mais chatos, como uma ultrassonografia transvaginal, que a menina achou extremamente desconfortável, mas a médica disse que precisava saber como estava o útero e se ele estava em boas condições para a inseminação. Após a liberação da doutora, poderia seguir com a segunda parte do plano: encontrar um doador, já que tinha rejeitado seu pedido quatro dias atrás. Ela já tinha feito uma pequena busca e encontrado uma clínica boa e que cabia em seu orçamento, e que tinha sido a própria Adelaide que havia lhe indicado. Talvez ela pudesse até mesmo acompanhar o procedimento ou indicar algum conhecido que trabalhasse lá. Enquanto ainda estavam conversando sobre o assunto, era como se toda essa ideia ainda fosse um sonho distante, mas a cada consulta, a cada etapa avançada, era como se tudo se tornasse mais real, só que isso não a assustava, muito pelo contrário, parecia cada vez mais disposta a seguir adiante. A secretária simpática sorriu em sua direção e disse que ela podia entrar agora. A menina repetiu o gesto, antes de pegar sua bolsa, a sacola que carregava todos os exames e seguir na direção o consultório. Ela bateu levemente na porta e entrou assim que ouviu a voz de Adelaide lhe dizendo para entrar. Com um sorriso de lado, caminhou até a cadeira que estava de frente para a mesa da doutora e sentou-se, esperando que a mesma lhe dessa atenção. Adelaide deveria ter a idade da mãe de , já que as duas se conheceram na escola, quando tinham cerca de quinze anos. Seus cabelos estavam numa cor entre o loiro e o branco, como se ela estivesse cansada de colorir os fios e fosse assumir a cor natural deles. Ela tinha um sorriso caloroso e acolhedor, o que fazia com que se sentisse bem e confortável de estar ali, compartilhar seus desejos e se abrir. Adelaide foi uma das primeiras pessoas que comentou a vontade de ter o bebê sozinha e ela não se opôs, muito pelo contrário, disse que se essa fosse a real vontade da menina, ela lhe ajudaria. E era verdade, já que está acompanhando todo o processo desde o início.

- Boa tarde, querida. Como está hoje? – a mais velha perguntou, depois de organizar uma série de folhas e voltar sua atenção para a menina.
- Ansiosa, eu acho. – sorriu, nervosa, pegando os exames. Ela sabia que caso tivesse algo errado, ela não poderia fazer nada.
- Não seja boba, você é jovem, está em plena forma e tem tudo o que precisa para gerar um bebê lindo e saudável. Agora vamos aos exames, fez todos?
- Acredito que sim. – respondeu, entregando todos os envelopes para a médica, que olhou cada folha atentamente. Analisou as ultrassonografias, os exames de sangue, de taxa de hormônio e todos outros que ela havia solicitado, até mesmo o de rotina que tinha feito na primeira consulta e que o resultado tinha ficado pronto há alguns dias. Adelaide não falava nada, então só a observava com apreensão, mordendo o canto da unha do dedão, como se isso fosse deixá-la mais calma.
- Você está nervosa? – a doutora perguntou, com um vestígio de riso em sua voz.
- Apreensiva pode ser uma palavra melhor, eu acho. – a mais nova disse, sem conseguir deixar de demonstrar o nervosismo em sua voz.
- Não precisa de nada disso, está tudo certo. Só uma alteração nos níveis de ferro, mas isso pode e será resolvido com um suplemento, que você tomaria de qualquer forma, só vamos adiantar o início. Também vou receitar ácido fólico e vitamina D, você pode optar pelo complexo B, onde tem tanto a vitamina D, quanto o ferro e o ácido fólico, fora os demais suplementos, mas fica a seu critério. E, claro, fontes naturais são muito bem vindas, folhas escuras, feijão, beterraba ajudam no nível de ferro e ácido fólico, e uma caminhada durante a manhã para pegar o sol, ajuda no nível de vitamina D. – Adelaide parou por um instante, enquanto preenchia a receita e explicava como, quando e a quantidade de cada suplemento que deveria ingerir por dia – E como está tudo certo e pela sua taxa hormonal e as imagens do seu útero, seu próximo período fértil e em cerca de quinze dias, então, bem, agora cabe a você, minha parte está feita.
- Como assim, eu já posso escolher o doador, marcar a inseminação?
- Sim, faça o acompanhamento em casa, compre aqueles bastões de teste de fertilidade, no momento em que você a ovular, que entrar em seu período fértil, entre em contato com a clínica e agende uma data. Procure pelo Evan e diga que quem lhe indicou foi a Adelaide e que eu vou acompanhar seu procedimento, eu já entrei em contato com eles e falei sobre você, já está tudo adiantado. Assim eles vão te agendar para os dois ou três dias depois, e que vai coincidir com a data próxima a sua ovulação, o que facilita todo o processo. – a doutora parou de falar, observando a expressão de , que parecia estar em outro lugar no momento – Você está prestando atenção no que eu estou falando?
- Sim, estou. É que está acontecendo e eu estou ficando bem nervosa. – ela confessou, suspirando em seguida. Adelaide largou a caneta que segurava e estendeu uma das mãos para que segurasse.
- Você está segura que é isso que quer fazer? Pesou os prós e contras? Viu se está realmente preparada psicológica e financeiramente para o bebê? Vai saber lidar com o fato de que não terá um pai para dividir as responsabilidades? – a médica fez todas essas perguntas, sem dar tempo para que respondesse – Porque se a resposta para qualquer uma dessas perguntas for “não”, eu vou te aconselhar a pensar melhor em todo esse plano. Mas se a resposta for “sim”, não vejo o porquê do medo ou do nervosismo. É apenas mais um passo na direção da realização do seu sonho. É um bebê que você quer, certo?
- Sim. – falou, sorrindo de lado.
- Então não há por que temer.

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Aceitando os conselhos e as palavras de incentivo de Adelaide, decidiu até a clínica de fertilização logo após a consulta. A clínica era perto do consultório, num prédio duas ruas abaixo, então foi caminhando, parando num café no caminho, para comer alguma coisa. Só que ela sentia como se tivesse um nó em sua garganta, que só poderia ser desfeito depois que ela resolvesse todo esse assunto. Mas, ainda assim, ela se esforçou para comer um muffin de banana e um café, tentando relaxar um pouco.
Assim que terminou, retornou seu caminho, chegando prédio bem rapidamente. Optou por subir os quatro lances de escada, já que os consultórios eram no segundo andar. Não tinham muitas pessoas na sala de espera, então não tinha muito tempo para se acostumar com a ideia, mas resolveu não pensar muito. E, caminhando até o balcão da recepcionista, ela logo se apresentou.

- Oi, boa tarde. – a garota sorriu de lado, meio sem jeito.
- Boa tarde, como posso lhe ajudar? – a recepcionista, que viu se chamar Hannah, cumprimentou de volta, com uma simpatia ímpar.
- Não sei foi com você que falei ao telefone da outra vez, mas a Dra. Adelaide me indicou a clínica e eu liguei na semana passada. Me disseram que eu poderia passar e pegar os formulários de cadastro dos doadores para avaliação.
- Qual é o seu nome? - Hannah perguntou.
- . – ela respondeu, vendo a recepcionista fazer uma busca em seu computador rapidamente.
- Aqui, encontrei. – chamou a atenção – Você está na lista dos pacientes do Dr. Evan Gardner. – a atendente pegou um formulário e uma prancheta na mesa, entregando nas mãos de .
- Só preciso que você preencha essa ficha com os seus dados, para que eu possa colocar no sistema.

agradeceu e sentou-se numa das cadeiras para responder as questões. No começo era perguntas simples, como nome completo, data de nascimento, estado civil, nome dos pais, essas coisas mais básicas. Mas depois as perguntas começavam a ficar mais pessoais e a menina começou a se preocupar com o teor das últimas questões, aquelas no final da quinta página do formulário. Tinham perguntas a respeito de sua saúde e, principalmente, sobre as suas preferências quanto aos doadores. Folheando rapidamente, ela viu que as três últimas folhas eram, basicamente, características que ela gostaria que seu doador tivesse, assim, ao marcar no perfil, o sistema selecionaria as melhores opções para ela. Só que não era muito boa nessas coisas de escolher, não importava muito se o cara tivesse olhos claros, fosse loiro, negro, ruivo ou tivesse 1,90 de altura. Ela só queria que a pessoa fosse bacana e que isso influenciasse na personalidade do bebê, mas como escolher isso através de um formulário? Então ela apenas respirou fundo e tentou não se sentir como se escolhesse um prato num restaurante. No final das contas ela tinha deixado de marcar poucas coisas, como não querer doadores com propensão a nascimento de múltiplos, um bebê já era o bastante.

- Já terminei. – disse, devolvendo a prancheta com os formulários já preenchidos.
- Ok, vou colocar suas informações no sistema e já lhe chamo para entregar as fichas. – Hannah respondeu e apenas acenou com a cabeça.
Ela caminhou de volta para onde estava sentada e começou a mexer no celular para gastar o tempo. Viu que sua mãe tinha mandado algumas mensagens, mas resolveu ver depois, quando chegasse em casa. Já tinha enviado uma foto sua no trabalho, com uma expressão derrotada, como se não pudesse esperar para o dia acabar. Ela sorriu brevemente, tirando uma foto de si mesma fazendo uma careta e escrevendo:

“Por isso é bom trabalhar apenas meio período.”
, 15:09

Alguns segundos depois o amigo apenas respondeu com uma carinha revirando os olhos. mexeu nas suas redes sociais, olhou as notícias no celular e depois de cerca de vinte minutos, Hannah a chamou novamente, com uma pasta simples nas mãos.

- Desculpe a demora, é que são muitas opções para você, demorou um pouco para organizar, mas aqui está. – a recepcionista entregou a pasta nas mãos de – Assim que escolher ou que estiver preparada para o procedimento, basta entrar em contato. O Dr. Evan já nos informou que a sua médica nos encaminhará todos os exames e que auxiliará no procedimento, então só precisamos marcá-lo mesmo.
- Ok, muito obrigada. – a menina disse, observando o pequeno volume de papel em suas mãos – Eu entro em contato para marcar.

chegou em casa, mas ficou sem coragem de olhar as fichas. Ela ficou encarando aquela pasta por longos minutos, até que desistiu e levantou do sofá, deixando-a em cima do mesmo e seguiu pra o banheiro, ela precisava de um banho para relaxar. Depois ela acabou se distraindo com outras coisas, viu as mensagens de sua mãe em seu celular e achou a ideia que ela deu muito interessante. Lena, sua mãe, tinha lhe dito que não via porque ela continuar naquele apartamento por mais tempo, gastando com as despesas, já que ela iria se mudar de volta de qualquer forma e o dinheiro que ela economizaria agora, ajudaria a bancar as despesas da inseminação e tudo que teria que comprar no futuro para o bebê. A verdade é que Lena parecia mais animada que com essa ideia, se possível, ela nem mesmo questionou a opção da filha por uma inseminação, talvez estivesse traumatizada com casamentos, mas a ideia de ter um bebê em casa, de ter um neto, fez com que seu mundo ficasse colorido e alegre novamente.

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Era quinta-feira, mas tinha esquecido, ela tinha passado o restante da tarde empacotando parte de suas coisas. A menina só lembrou-se do encontro semanal com , quando o mesmo entrou pela porta, carregando duas pizzas, um engradado de cervejas e refrigerantes. Ele parou perto da porta e encarou a amiga no chão da sala, rodeada de livros e mais um monte de bagunça.

- O que tá acontecendo? – o rapaz perguntou, colocando a coisas que carregava na pequena mesa que tinha perto da cozinha.
- Minha mãe disse que seria interessante eu voltar para casa logo, assim eu posso economizar dinheiro e, bem, ela tá certa. Então tirei a tarde para começar a organizar as coisas, mas eu não sou muito boa nisso.
- Dá pra perceber. – ele respondeu, sorrindo de lado e com um pouco de ironia em sua voz.
- Você podia ser menos chato e me ajudar aqui, não é? Seu senso de organização seria muito interessante e proveitoso. Então traga esse corpinho para cá e me ajude a embalar essas coisas. – disse, com um tom de voz autoritário e um pouco engraçado – Ah, traga as pizzas e o meu refrigerante também.
- Mais alguma coisa, senhora?
- Não, é o bastante. – ela riu, balançando a cabeça.

Eles comeram uma pizza inteira e metade da outra, tomaram suas cervejas e empacotaram quase tudo que estava na sala e parte das coisas da cozinha. Agora eles estavam no sofá, com estava deitado com a cabeça no colo de e estavam conversando sobre tudo e qualquer coisa. Até que se mexeu, desconfortável com algo, ele passou a mão pelo acento do sofá e puxou uma pasta, fazendo a amiga ficar um pouco nervosa.

- O que é isso? – ele perguntou, curioso.
- Nada de importante. – a garota respondeu, pegando a pasta de sua mão e jogando no chão, perto dos seus pés.
- Se não era importante, por que você ficou nervosa desse jeito? – olhou atentamente para o rosto dela, sentando no sofá para poder olhar em seus olhos.
- São fichas de possíveis doadores, eu fui até a clínica hoje e peguei para escolher. – ela deu de ombros e o rapaz foi pego de surpresa. Ele não esperava que ela desse continuidade a sua ideia tão rápido.
- E tem algo interessante?
- Não sei, eu não olhei ainda, não tive coragem. – sua voz estava baixa, como se ela estivesse com medo.
- Você quer que eu te ajude? – ele sorriu de lado, tentando encorajar a , que parecia um pouco desanimada.
- Tem certeza que quer se envolver nisso? Antes você disse que não iria me ajudar a escolher. – a amiga disse, com um tom de voz acusatório.
- E sei o que eu falei, só que eu quero te ajudar. É uma coisa importante pra você, eu quero ser parte disso de alguma forma. – sorriu de lado, apoiando a cabeça no sofá e depois tombando para o lado, na direção onde estava sentada. – Anda, pega a pasta, vamos dar uma olhada. – a menina respirou fundo, antes de se abaixar para pegar a pasta e abrir, puxando uma folha aleatória.
- Esse cara tem 1,75 de altura, cabelos e olhos castanhos, é contador, gosta de cachorros e assistir futebol. – ela disse, lendo em voz alta algumas características do possível doador.
- Não, próximo. – falou, balançando a mão.
- Por quê? – perguntou, segurando o riso. Ela olhou para o amigo, que a encarava como se estivesse pronto para julgar as pessoas.
- Por que é muito comum, poderia ser qualquer um que você cruzasse na rua agora.
- E qual é o problema? – a garota riu alto, balançando a cabeça lentamente, como se negasse.
- Se você vai ter um bebê por encomenda, que ele seja de uma pessoa “especial”. – fez aspas com as mãos e a menina riu mais ainda.
- Ai, , me poupe. – ela rolou os olhos, puxando outra folha da pasta. – Ok, esse aqui tem 1,90 de altura, cabelos castanhos, olhos verdes, advogado, gosta de viajar e ler livros. – a menina parou por uns segundos e se virou para o amigo – Por que um advogado doaria esperma para uma clínica de fertilidade? Sem julgamentos, só uma pergunta mesmo.
- Não sei, , talvez ele não queira filhos para ele mesmo, mas queria garantir que tenha pedacinhos seus pelo mundo.
- Nossa, dispenso. – ela respondeu, deixando essa folha junto com a anterior. Eles leram cerca de vinte e cinco fichas, rindo bastante com os comentários que faziam delas. não conseguia levar a sério o fato de ter que escolher um pai para o seu bebê entre aqueles caras. Eram pessoas que ela nunca viu e nunca veria na vida. Por mais que ela não quisesse um companheiro, ela queria, pelo menos, conhecer a pessoa. – , eu acho que isso não vai dar certo.
- Por quê? – o rapaz perguntou, sentando de forma direita no sofá.
- Porque eu não consigo levar nada disso, nenhuma dessas pessoas, a sério. Nós vimos várias e várias fichas, e eu só consegui encontrar defeitos.
- Nem mesmo o ruivo dos olhos azuis? Talvez seu bebê nasça parecendo o Ed Sheeran. – tentou brincar, mas não estava no clima.
- Não posso escolher um pai como se escolhesse um delivery, não posso. – ela deu de ombros, balançando a cabeça lentamente. Sua expressão era como se ela segurasse o choro. ainda não tinha visto a dimensão do que aquilo significava para , ele achou que seria mais um plano louco que ela abandonaria em alguns dias, como ela sempre faz. Mas não, esse era real. Ela queria esse bebê.
- , não fica assim, você sabe que eu não gosto de te ver triste. – ele pediu, passando a mão pelos ombros da amiga e trazendo para perto, ela apoiou a cabeça em seu peito e ficou ali aninhada.
- Eu sei que você não gosta, mas eu não tenho como evitar, infelizmente. Acho que terei que adiar esses planos para até quando eu estiver apta a realizá-lo da forma tradicional ou, não sei, dormir com o primeiro cara que eu encontrar na rua agora.
- Pelo menos piadas você está fazendo, então o caso não é tão grave.
- , cala a boca. – disse, com a voz baixa e fraca. E então ele viu um brilho e seu rosto e quando olhou mais atentamente, percebeu que era uma lágrima que escorria.
levantou a mão, passando, suavemente, pelo rosto da amiga, e depois pôs a mão em seus cabelos, deixando que ela chorasse. Ele observou aquela cena e algo dentro dele doeu, seu coração estava apertado e sentia como se devesse fazer alguma coisa. sabia que naquele momento ele estava dividido entre o que ele achava que deveria fazer e o que ele sentia que deveria fazer. Ver naquele estado acabava com ele, ainda mais sabendo que tinha o poder de resolver tudo com um simples “sim”. Mas se aceitasse, ele seria pai, querendo ou não, independente de documentos ou qualquer registro. Cada vez que ele olhasse para aquela criança, ele saberia. Mas será que seria capaz de lidar com isso? Será que ele conseguiria viver sua vida, sabendo que tem um filho com a sua melhor amiga? Será que iria casar, ter outros filhos e viver normalmente? Será que seria assim tão ruim ter algo que o ligasse a para sempre? Afinal, ela era uma das pessoas mais importantes no mundo e ele desejava que fosse sempre assim. E uma criança metade ele, com seu pensamento rápido e sua facilidade de lidar com problemas, e metade ela, com a sua incrível capacidade de se adaptar, seu senso de humor e a forma maravilhosa e livre de ver a vida, parecia ser perfeita.
- Eu aceito. – disse, fazendo levantar os olhos e o encarar.
- O que? – ela perguntou, com a expressão confusa.
- Eu aceito ser seu doador. – repetiu, vendo a expressão da amiga se iluminar.
- Você está falando sério? – perguntou, levantando o corpo e ficando bem próxima a , com as mãos em seu rosto, fazendo com que ele a encarasse com seus olhos .
- Eu ficaria honrado. – ele sorriu de lado, vendo um sorriso gigantesco ocupar os lábios da amiga, antes que a mesma passasse os braços ao redor de seu pescoço e o puxasse para um abraço apertado.
- , muito obrigada. – ela disse, ainda com as lágrimas escapando pelos seus olhos, mas dessa vez de pura felicidade. – Obrigada, obrigada, obrigada... – ela repetia infinitamente, como se não houvesse palavras suficientes.
- Você sabe que eu faço qualquer coisa por você. Eu cheguei a pensar que isso seria além do meu limite, mas eu acho que se fosse o inverso, eu também não conseguiria pensar em nenhuma outra pessoa mais perfeita para ser mãe do meu bebê além de você.


Três - Alemanha

Oh, you're the best friend that I ever had
I've been with you such a long time

(Queen – You're My Best Friend)


Não que estivesse questionando sua decisão de ser doador de , mas ali, sentado na sala de espera do consultório, tendo alguns olhares sobre ele, começou a se perguntar se era realmente necessário ele ir até a consulta com a amiga. Não basta apenas “fazer sua parte”? Podia apostar que as outras mulheres, que estavam no mesmo ambiente que eles, deveriam estar pensando que ele tinha algum problema. Não que se importasse com a opinião alheia, mas não gostava de imaginar as pessoas questionando ou pensando qualquer coisa ao seu respeito. Talvez ele se importasse mais do que quisesse admitir.

- . – cutucou a amiga, que estava entretida lendo uma revista.
- Hmm. – ela respondeu, sem dar muita atenção, estava muito concentrada lendo uma coluna de fofocas.
- Eu acho que aquela mulher ali pensa que somos um casal. – murmurou, apontando discretamente para uma senhora que estava sentada perto da porta. levantou os olhos rapidamente, vendo quem era, e depois voltou os mesmos para a revista.
- Acho que ela vai ficar decepcionada então. Ou não, vai que ela ficou interessada em você. – ela brincou, arqueando as sobrancelhas, enquanto o rapaz balançava a cabeça lentamente, negando.
- E também acho que ela pensa que eu sou estéril. – falou mais baixo, fazendo a amiga rir. Ela não conseguiu segurar o riso, chamando a atenção de todo mundo que estava na recepção. – Por que você tá rindo?
- Talvez você possa oferecer seus serviços a ela, que tal? Assim você acaba com as duas desconfianças delas de uma vez só. – a menina disse fazendo rolar os olhos.
- Por que você não me leva a sério? – perguntou, levemente incomodado com as respostas dela. deixou a revista de lado e estendeu uma das mãos para o amigo segurar e ele pegou.
- Porque suas preocupações são bobas demais, . Quem liga para o que aquela moça pensa de você? Você nunca mais vai vê-la na vida. – falou, sorrindo de lado e dando de ombros. – E mesmo que visse, que diferença faria? É verdade? Nós somos um casal?
- Não. – respondeu, já entendendo onde ela queria chegar.
- Você é estéril?
- Não... eu acho. – disse, incerto. – Bem, espero que não.
- Eu também. – comentou, divertida. – Enfim, você precisa parar de se importar com o que as pessoas pensam de você. Bem, as outras pessoas, não eu. A minha opinião importa bastante. – alargou o sorriso e viu rolar os olhos.
- Você não se importa com o que pensam de você? – ele perguntou, vendo a menina negar automaticamente.
- Eu pareço me importar? Ou melhor, eu vivo como se me importasse? – indagou, retoricamente. – Me importo com o que você acha, levo sua opinião em conta em tudo na minha vida. Às vezes um pouco da minha mãe também, mas ela é meio doida e de gente louca já basta eu. – ela fez uma careta e ele sorriu de lado, levantando a mão que seguravam até perto dos lábios e beijando levemente o dorso da mão da amiga. – Você é a pessoa mais sensata que eu conheço, então eu te escuto. Mas as outras pessoas, ninguém importa. Se aquela senhora quiser imaginar que somos um casal com problemas para engravidar, que pense, não vai mudar nada na minha vida.
- Ok, tudo bem. – falou, dando-se por vencido. – Exercício diário agora: me importar menos com a opinião dos outros. – falou, mais para si do que para qualquer um, mas limpou a garganta levemente, chamando sua atenção. – Reformulando: me importar menos com a opinião dos outros, exceto com a da minha grande amiga . Porque a dela é de extrema importância.
- Viu como você aprender rápido? É por isso que eu te amo. – ela brincou, dando um beijo rápido em sua bochecha.
- . – a enfermeira falou, chamando a atenção dos dois. A menina acenou, pegando suas coisas para segui-la.

Caminharam pelo pequeno corredor, na direção do consultório e entraram na quarta porta da esquerda. O doutor Gardner já os esperava, ele tinha alguns papéis em suas mãos e reconheceu alguns de seus exames entre eles. Sentaram-se nas cadeiras que estavam em frente à mesa e aguardaram até que o médico terminasse de analisar todos os resultados. estava visivelmente nervosa e parecia tranquilo, mas estava era preocupado com a amiga. Ele olhou em sua direção, piscando um dos olhos, para tentar quebrar um pouco do gelo, mas a menina não parecia muito no clima. Ele estendeu uma das mãos em sua direção e eles ficaram de mãos dadas, enquanto tentava acalmar a amiga.

- Bem, senhorita . – Dr. Gardner disse, sorrindo em sua direção. Ele deveria ter cerca de cinquenta anos, seus cabelos eram grisalhos, tinha marcas de expressão ao redor dos olhos e a voz suave, quase acolhedora.
- Me chame de , por favor. – ela pediu, odiava formalidades demais.
- Ok, . Então me chame de Ewan, vamos tornar tudo mais casual. Acredito que esse seja seu amigo que será o doador.
- Sim, , muito prazer. – o rapaz se apressou em esticar uma das mãos na direção do médico.
- Preciso dizer que esse seu gesto é muito bacana, já me disse na consulta anterior o quanto ela quis que você fosse o doador, mas a ideia não lhe pareceu muito agradável no início.
- Sim, eu precisei de alguns dias para me acostumar com tudo isso. – ele respondeu, tentando soar o mais sincero possível, porque, por dentro, ainda estava apavorado.
- Todo processo se torna menos complexo quando a mulher está mais confortável e a parece bem mais tranquila com você. – o médico comentou, pegando um resultado específico. – , de acordo com o seu exame de sangue, seu próximo período fértil deve ser em cerca de dez dias. Não há nenhuma alteração ou algo que precise se preocupar, todos os exames estão ótimos. O útero está perfeito para o implante, basta escolhermos o dia certo para não ter nenhum problema. Então, se tivermos todos de acordo, podemos marcar o procedimento. – ela olhou para , que pareceu respirar fundo por um instante.
- ? Tudo bem? – perguntou, temporariamente preocupada.
- Sim, podemos marcar. – o rapaz respondeu de forma rápida, como se estivesse no automático.
- Não. – ela sorriu de forma carinhosa. – Quero saber se está tudo bem com você, porque não tá parecendo. – ela se ajeitou na cadeira, para ficar de frente para ele. – Olha, se você quiser desistir, tudo bem, eu não vou ficar chateada. Escolho um doador anônimo e você não precisará lidar com nenhuma das mil problemáticas que estão passando pela sua cabeça nesse exato momento.
- Não é isso, é que vai ser difícil olhar para esse bebê e não vê-lo como meu filho. Porque eu sei do contrato de confidencialidade que eu terei de assinar, dos termos que deixam claro que eu não posso vir a querer reclamar a paternidade dele. Mas na minha cabeça eu vou saber. Vocês me entendem? – ele perguntou, vendo o médico afirmar com a cabeça e suspirar, porque ela sabia que ele estava certo. Não era um documento qualquer que impediria se sentir qualquer tipo de amor paternal pelo bebê. Talvez ela devesse ter pensado melhor nisso.
- Eu entendo o seu ponto, . Porque os homens que fazem as doações não fazem ideia quando elas são usadas ou por quem, então eles não possuem a oportunidade de criar nenhum tipo de laço com o bebê que ajudaram a gerar. Mas, se você conseguir olhar pelo lado bom, você terá um pequeno bebê por perto que, independente de tudo, saberá que é um pouco responsável por ele. Seja sendo pai, padrinho, tio ou um grande amigo. É só uma nomenclatura, o que vai valer é como vocês vão se relacionar. Há tantos pais no papel que não são pais de verdade. – Dr. Ewan falou, fazendo o rapaz pensar um pouco. Ele estava certo, afinal. Tinham tantas crianças no mundo com o nome do pai na certidão de nascimento, mas sem o pai na vida delas. Talvez o bebê de pudesse ser o contrário, sem o nome do pai na certidão, mas sempre por perto na vida, ajudando em tudo o que ele pudesse vir a precisar: um apoio para o primeiro passo, uma ajuda com as primeiras palavras, um conselho para as primeiras namoradas, um apoio para as primeiras decepções. E para isso ele não precisava de um nome, só precisava estar lá.
- Acho que entendi seu ponto. – falou brevemente para o médico, antes de girar o corpo na direção da amiga. – Eu não preciso ser o pai desse bebê para ser o pai, certo? Eu posso estar lá sempre, ser aquele que estará do seu lado em todos os momentos que você e ele precisarem.
- Só se você quiser. – disse, dando de ombros. – Eu não vou exigir nada de você, . Eu não quero um marido ou um pai, só quero um bebê.
- Eu quero. – afirmou, com convicção dessa vez. Era como se tudo começasse a fazer sentido em sua cabeça. – Tudo certo, doutor, podemos marcar.
- Ótimo, adoro quando tudo se resolve bem, então aqui está o contrato de doação de sêmem para o rapaz. Assinando esse contrato, você abre mão de todo e qualquer direito sobre o bebê gerado com o seu sêmem, não podendo assim exercer a paternidade da criança que for gerada. – o médico lhe entregou um papel nas mãos de . – E o contrato de recepção de sêmem para a moça. Após a assinatura você está ciente com o anonimato do doador e que não estará apta a reclamar pelos deveres do doador como pai. – eles pegaram as folhas e leram todo o texto, assinando logo em seguida. Dr. Ewan juntou o contrato de aos seus documentos e exames, e deixou o de para arquivar com os dos demais doadores.
- Agora é só aguardar a data do procedimento? – o rapaz perguntou, vendo o médico afirmar com a cabeça.
- Basicamente, mas antes eu preciso de uma coisinha sua, rapaz. – Dr. Ewan começou a falar, fazendo uma careta engraçada na direção de . – Precisamos fazer um exame básico numa amostra sua, então, se fosse possível... – ele abriu a gaveta de sua mesa e pegou um pote de amostra para exames.
- O que? Ah... – começou a perguntar antes de entender o que ele queria. Era uma amostra do seu esperma. Ele encarou pelo canto dos olhos e ela mordia os lábios para não rir, já imaginando a vergonha que ele estava sentindo.
- Você pode ir até à recepção, a Hannah vai te acompanhar até a sala de coleta. Há alguns materiais lá, caso precise de ajuda. – a menina riu um pouco mais alto, fazendo o médico olhar em sua direção por um segundo, antes de continuar a falar com o rapaz. – Não se preocupe com ela.

deixou o consultório, caminhando rapidamente até o balcão da recepção. Olhou o crachá da menina que estava sentada na mesa e acenou em sua direção, apenas pedindo que ele a acompanhasse. Caminharam pelo corredor do lado oposto ao do consultório, indo até a última porta. Hannah disse que ele poderia usar o que quisesse da sala e que era só deixar o pote em cima da mesa perto da parede antes de sair, que eles mesmos recolheriam. sentou-se na poltrona assim que a menina saiu e encarou as revistas e os DVDs em sua frente, pensando o quão estranho era tudo aquilo. Mas era pela , certo? Então ele deveria fazer o que precisasse, mesmo que tivesse que ser isso. Por isso escolheu um DVD pela capa e rezou para que não demorasse muito.


Os amigos sentaram num café depois saírem do consultório, já que tinha tirado o restante da tarde de folga, dizendo que iria ao médico e resolveram ficar um pouco por ali mesmo. Depois de fazer os pedidos, ficou com o olhar pedido, sem prestar muita atenção no que o rapaz lhe dizia. Só respondendo com poucas palavras as suas perguntas.

- Você tá nervosa? – o rapaz perguntou, percebendo a amiga mais calada do que o normal.
- Não, acho que ansiosa é a palavra. – ela passou a mão, pelo cabelo, colocando alguns fios atrás da orelha. – É que conforme vamos avançando as fases, vai se tornando real. E eu sinto como se fosse a minha única chance, a única vez que terei a chance de realizar esse sonho. Então sinto como se tivesse que agarrar essa oportunidade, como se tivesse que segurar esse bebê, que ainda nem existe, dentro de mim com todas as minhas forças. Ou tudo isso terá sido em vão.
- , não fala assim, você terá outras chances. Se não der certo agora, você pode tentar de novo depois, não?
- Eu meio que gastei a maior parte das minhas economias e as da minha mãe nessa tentativa, se não der certo... – deixou a frase morrer, porque ela sabia que tinha entendido. Ele colocou a mão sobre a dela em cima da mesa, fazendo um carinho.
- Você não controle sobre muitas coisas na sua vida, na verdade, você não tem controle sobre quase nada, mas você pode controlar como essas coisas vão te afetar. Se você manter esse pensamento derrotado, não há chances de algo dar certo, porque você já assumiu que não vai conseguir. E mesmo que algo aconteça, , você tem vinte e seis anos, é tão jovem. Nós somos jovens, parece que tudo precisa ser agora, imediatamente. Só que você não sabe do futuro, quem sabe se na hora que você sair daqui, não vai esbarrar com um cara qualquer na esquina, vão se apaixonar e quando perceber estarão casados, com cinco filhos e uma casa enorme e bagunçada. Porque você e cinco crianças, eu acho impossível qualquer tipo de organização. – brincou, tentando fazê-la rir e conseguindo. bateu levemente em seu braço, balançando a cabeça. – A questão é que tendo esse bebê agora ou não, você não sabe o que o destino te guarda. Não precisa ser pessimista com toda e qualquer coisa que acontece em sua vida. Não precisa e nem pode. Mas saiba que vai dar tudo certo, em dez dias você fará o procedimento e em nove meses teremos um lindo bebê em nossos braços e vai nascer a cara do tio .
- Você não existe. – ela disse, simplesmente.
- Ah, existo sim. E vou cobrar com juros e correção esse pequeno grande favor. - Eles riram, e depois conversaram sobre mil coisas que não fosse a possível gravidez ou o procedimento. disse que queria tirar isso da cabeça um pouco e não contrariou.

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DOIS MESES DEPOIS

Era quinta-feira e estava esperando chegar a casa na mãe dela. Ela tinha se mudado há algumas semanas e estava tentando se adaptar novamente. Hoje ela estava mais nervosa do que nunca, já que tinha comprado alguns testes de gravidez. Ela tinha quase certeza que estava grávida, sentia-se diferente, mais completa, preenchida. Só que precisava confirmar e tinha prometido ao amigo que ele estaria junto quando ela fizesse o teste. Agora mal conseguia controlar a sua ansiedade e a vontade de ir ao banheiro, já que tinha tomado quase uns quatro livros de água na última hora. Durante o tempo que esperava, de forma quase impaciente, ela deitou em sua cama e encarou o teto, lembrando-se de como tudo foi estranho. De entrar em uma sala, como se fosse fazer um exame, de ouvir o Dr. Ewan dizer algumas coisas que ela não ouviu, porque seus ouvidos zumbiam pelo nervosismo e sentir um leve desconforto por alguns segundos. E foi isso. Um pequeno procedimento de poucos minutos. O período de repouso, onde ela precisou ficar deitada numa maca especial, com as pernas para cima, durou mais que todo o processo. Também lembrou de sentir medo o tempo todo depois da inseminação, de pensar que daria errado, que tudo escorreria de dentro dela e levaria embora a chance de realizar o seu sonho. Se achou tão tola de sentar ao contrário no sofá, sempre com as pernas para cima, para a “gravidade agir”. Porque, se ela tivesse que engravidar, ela engravidaria, nenhuma dessas artimanhas loucas ajudaria ou impediria. Mas se mal não faz, qual o problema, não é mesmo?
Quando ouviu a batida em sua porta, ela se alarmou e ficou ainda mais nervosa quando viu o rosto do rapaz surgir. Ele sorria abertamente, muito animado, e ficou surpreso de não ver a mesma expressão no rosto da amiga. Ela estava apavorada. Era como se ela quisesse e não quisesse fazer o teste, pois ao passo que poderia ter certeza que tinha um bebê em sua barriga, poderia apenas ver que tudo não passava de uma ilusão de sua mente.

- Qual o problema, ? – perguntou, entrando no quarto e deixando a bolsa que carregava em cima de uma poltrona.
- Eu estou nervosa, . Nervosa pra caramba. – confessou, achando bem estranho o rapaz não ter percebido isso.
- Mas não tem motivos para isso, vai dar tudo certo.
- Você não sabe, então pare de tentar me enganar, ok? – ela se levantou, pegando uma sacola em cima da mesa, que ficava perto da janela. Virou a sacola em cima da cama e o rapaz pode contar cinco testes diferentes.
- Você quer ter certeza mesmo, né? – ele forçou a entonação da palavra, fazendo a menina rolar os olhos.
- Eu ainda vou fazer um de sangue amanhã, eu preciso de certeza. – respondeu, um pouco sem paciência.
- Ok, então vai lá, estarei aqui torcendo. – o rapaz falou, ajudando a recolher todas as caixas e colocando de volta na sacola.
entrou no banheiro e começou a ler cada instrução, para não se confundir. Conforme fazia um teste, deixava o mesmo junto à sua caixa, para poder comparar depois. Deixou todos em cima da pia do banheiro, lado a lado, e voltou para o quarto, com o rosto quase pálido.
- Ok, temos que esperar dez minutos agora, alguns ficam prontos antes, mas eu prefiro ver todos juntos. Então, por favor, me distraia, antes que eu tenha um treco. – ela pediu, sentando-se na cama, na frente de . Ele pegou o celular e marcou 10 minutos na contagem regressiva.
- Tá, tenho duas notícias pra você, uma boa e uma ruim. Qual quer ouvir primeiro?
- A boa. – falou, respirando fundo em seguida.
- Ok, a boa é que o resultado dos aprovados para o curso de especialização na Alemanha sai na semana que vem, serão duas vagas dessa vez. – o rapaz disse, vendo brotar um sorriso de esperança nos lábios da amiga.
- Que maravilha, as chances dobraram.
- Não necessariamente, já que a ruim é que eu ouvi o sobrinho do meu chefe falando que estava muito feliz de ter conseguido a vaga. Ou seja, uma vaga é dele.
- Mas isso não é justo, ele começou a trabalhar lá há quatro meses! – a menina exclamou, se sentindo quase íntima do rapaz, de tanto que ouviu falar mal dele e de como ele era protegido e ajudado apenas por ser sobrinho do chefe.
- , desde quando empregos e escolhas em empresas são justas? – ele perguntou retoricamente, vendo a menina rolar os olhos. – As chances continuam as mesmas, só que eu continuo achando que eu não tenho chances.
- Um dia uma pessoa muito inteligente me disse: “Se você manter esse pensamento derrotado, não há chances de algo dar certo, porque você já assumiu que não vai conseguir.” – falou, tentando imitar a voz de , mas falhando de forma incrível. O rapaz estreitou os olhos, enquanto a menina alargava o sorriso. Ela adorava quando conseguia usar algo que ele disse contra ele mesmo.
- Ok, sem pensamentos pessimistas. – falou, dando-se por vencido.
- Quanto tempo? – perguntou e ele entendeu de imediato o que ela queria saber.
- Dois minutos. – respondeu, arrastando um pouco o corpo para sentar mais perto dela. – Independente o resultado, eu quero dizer que você é muito corajosa. Provavelmente a pessoa mais corajosa que eu conheço, não tem medo de enfrentar seus problemas ou perseguir seus sonhos, sejam eles quais forem. Você vai ser uma mãe incrível, a melhor de todas.
- Eu amo você. – disse, encostando a cabeça no peito do amigo.
- Eu também te amo. – Ele passou os braços ao redor dela, tentando deixá-la confortável, tentando fazê-la se sentir protegida. Mas foram interrompidos pelo barulho insistente do alarme. A menina levantou os olhos, mas não se moveu, era como se estivesse congelada no lugar. se levantou e estendeu as mãos para ela. – Vamos, você está a cerca de quinze passos da realização do seu sonho. Vai ficar com medo agora? – segurou sua mão e caminharam lentamente até o banheiro, onde ficaram lado a lado em frente a pia. Olhando cada um dos testes, sentia como se o seu coração fosse sair do peito tamanha era a felicidade. Positivo. Sentiu uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Positivo. Mordeu o lábio inferior, tentando controlar o choro que vinha apressado. Positivo. Sentiu os braços de ao redor do seu corpo. Positivo. O rapaz falava coisas que ela não entendia, ela só colocou as mãos sobre a barriga, pensando na pequena pessoa que carregava agora. Positivo.

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tinha dado a notícia para sua mãe assim que pegou o resultado do exame de sangue, que fez logo no início da manhã de sexta-feira. Lena ficou muito emocionada, já planejando mil mudanças na casa a chegada do neto e depois fazendo mil recomendações para a filha, dizendo que ela precisava se resguardar agora no começo, que precisava marcar uma consulta com a Adelaide, que precisava de vitaminas e continuou uma longa lista por quase cinco minutos. Mas a menina nem se importou, a animação da mãe parecia um reflexo da sua, assim como a de . Ela se sentia sortuda por estar rodeada de pessoas que a apoiavam, que torciam pelo seu sucesso e que a ajudariam em qualquer situação. Só que para completar essa lista, ainda faltavam alguns nomes, três para ser mais exata: Lilly, Anthony e Noah, os amigos que ela carregava para a vida, junto com . Assim que recebeu o resultado, enviou uma mensagem para todos, solicitando um encontro urgente naquela noite, ela não conseguia manter muitos segredos deles e já teria que guardar um enorme.
Encontrou na porta do restaurante assim que chegou, o rapaz já estava lá, como sempre foi o primeiro a chegar. Entraram e resolveram pedir uma mesa para esperar pelos outros, para não correrem o risco de ter que esperar ainda mais. Lilly enviou uma mensagem dizendo que chegava em dez minutos, que estava saindo do metrô, enquanto Anthony e Noah viriam encontrá-los um pouco mais tarde, por causa do trabalho. Eles ainda não sabiam que estava grávida, muito menos que tinha planejado tudo. Ela tinha decidido que, para todo mundo, o bebê seria fruto de uma relação casual que não deu certo, e para a mãe de , o bebê seria de um doador anônimo, já ela não estava disposta a ouvir um sermão todos os dias, pelo restante de sua vida, de várias pessoas diferentes, porque seus outros amigos, principalmente Lilly, não seriam tão favoráveis as suas escolhas como foi. Esse seria o maior segredo que eles já dividiram na vida e ela sentia que podia confiar em , porque ele nunca mostrou que não merecesse sua confiança.
E depois que escureceu, seus amigos começaram a chegar. Lilly foi a primeira, ela veio direto do trabalho, já reclamando que tinham combinado num restaurante e não num bar, porque ela precisava de cerveja, muita cerveja. Mesmo dizendo que era sexta-feira e que ela não poderia estar tão estressada assim, ela apenas respondeu: “o meu trabalho me obriga a beber”. Ela era advogada e trabalhava num enorme escritório de advocacia, mas sempre falava não era isso que queria fazer, seu sonho era montar um escritório simples e ajudar pessoas que não tem como pagar um bom advogado, mas que ela precisava arcar com alguns luxos como comer e pagar aluguel, então precisava aceitar as barbaridades que via no trabalho. Precisar não precisava, mas aceitava porque não conseguiria manter o padrão de vida que tinha em outro emprego. Cerca de vinte minutos depois, Anthony e Noah também chegaram, Anthony tinha estudado com , e Lilly no ensino médio, passaram grande parte da adolescência juntos e levaram a amizade para depois a escola, até mesmo agora, dez anos depois. Já Noah era uma adição tardia, ele conheceu Anthony na faculdade de Arquitetura e eles se apaixonaram quase que à primeira vista. Anthony sentiu um pouco de medo de contar aos amigos que estava apaixonado por outro rapaz, mas quando ele tomou coragem, viu que não tinha nenhum motivo para ter medo antes. Todos disseram que quem ele namorava não fazia diferença alguma, mas que eles estavam felizes por ele amar alguém que o amava de volta. E isso já tinha três anos. Desde então Noah tinha sido integrado ao grupo, como se já fizesse parte desde sempre. Há alguns meses eles abriram o escritório de arquitetura deles e estavam trabalhando como loucos, mas não podiam e nem queriam reclamar, pois estavam fazendo exatamente o que queriam.

- Lilly quer ir a um bar, disse que o dia dela foi estressante demais para apenas um café. – comentou, assim que os rapazes sentaram-se à mesa.
- Quem foi agora? O patrão grosseiro ou o que trai a esposa? – Noah perguntou, com um traço de riso em sua voz.
- Foi o traidor, o grosseiro eu já finjo que não existe. Cada grito ou ignorância dele faz com que eu perca um dia de vida, eu acho. – ela respondeu, sendo dramática como sempre.
- Então por que você continua lá? – Anthony perguntou, como se não soubesse. Na verdade ele nunca perdia uma oportunidade de perturbá-la.
- Porque na luta entre dinheiro e saúde mental, ela escolheu dinheiro. – falou, bebendo um pouco de sua água, enquanto era alvejado pelo olhar mortal de Lilly.
- A sessão de ataques gratuitos já acabou? – ela perguntou, fingindo estar incomodada, mas rindo em seguida. – Eu gosto do dinheiro, eu preciso dele, mas se um dia eu perceber que estou ficando louca...
- Mais? – falou baixo, mas todos ouviram.
- Ok, tudo bem, fui convidada para jantar ou para ser completamente arrasada?
- Para jantar, porque tenho novidades. – a outra amiga respondeu.
- Ótimo, então vamos todos começar a beber, porque eu não quero ir para casa sóbria hoje. – Lilly sorriu forçado, chamando o garçom. – Eu quero uma cerveja. – pediu.
- Duas. – acompanhou.
- Quatro. – Noah falou, após Anthony afirmar com a cabeça que também queria.
- E a senhorita? – o garçom se voltou para .
- Quero um suco de laranja, com pouco açúcar, por favor. – respondeu, sorrindo de lado.
- Suco de laranja? – Lilly estranhou, já que era a sua maior companheira nas bebedeiras. – Você tá bem? – riu, fazendo piada.
- Sim, estou muito bem, aliás. – respondeu, pensando como contaria para eles da gravidez, mas chegando à conclusão que não havia uma forma fácil.
- E qual é a grande novidade? – Anthony perguntou, abaixando os olhos para o menu.
- Minha grande novidade me impede de beber, vai me fazer engordar alguns quilos e deve nascer em cerca de oito meses, um pouco menos... – ela observou as expressões de seus amigos mudarem completamente, Anthony parecia não conseguir respirar, Noah levou uma das mãos à boca e Lilly, bem, Lilly estava reagindo à sua própria maneira. Ela começou a rir descontroladamente, uma risada engraçada e alta, que fez com que as pessoas ao redor, em outras mesas e na sua também, a acompanhassem.
- Você tá grávida? – ela perguntou entre as risadas.
- Quem é o pai? – Noah completou, ainda muito chocado.
- É um cara que eu conheci uns dois meses atrás, eu fui numa festa, ele estava lá, coisas aconteceram... Bem, muitas coisas aconteceram. – apontou para a própria barriga.
- Mas e o nome dele? Você tem algum contato? Vai atrás dele? – Anthony parecia muito confuso e preocupado. Nesse meio tempo, o garçom chegou com os pedidos, Noah agradeceu e ele saiu rapidamente.
- Não, eu vou ter o meu bebê sozinha. – ela deu de ombros, como se fosse uma coisa simples.
- Sozinha? – Lilly perguntou, temporariamente recuperada. – Como assim sozinha? Você tem a gente.
- Eu sei que tenho vocês, por isso não me preocupo. – falou, sorrindo para os amigos. – Soube de tudo hoje e precisei contar logo para vocês. Era como se não fosse verdade até falar.
- ? – Anthony chamou a atenção do amigo, que se manteve calado o tempo todo. – Você é o mais responsável daqui, você não vai dizer que ela precisa achar esse cara? Bem, no mínimo ele precisa saber que será pai, não? – a menina o encarou por longos segundos, onde eles trocaram um olhar quase cúmplice.
- sabe o que ela faz da vida dela, se acha que esse bebê crescerá bem sem um pai, acho que não devemos nos intrometer. – deu de ombros, vendo uma expressão confusa ocupar o rosto de cada um dos três amigos. Todos sabiam que essa não era uma coisa que ele falaria. Numa situação normal, ele seria o primeiro a dizer que tinha que procurar o pai do bebê.
- Quem é você e o que fez com o ? – Lilly perguntou, fazendo balançar a cabeça, rindo.
- Ele já me deu um sermão, já disse todas as suas frases clássicas sobre responsabilidade, mas percebeu não há nada a fazer. Eu quero o meu bebê, mas não quero um pai para ele.
- Ok, então. – Anthony disse, sem parecer muito certo de tudo. – Teremos um bebê.
- Ao bebê da . – Lilly levantou sua cerveja, vendo o seu gesto sendo imitado por todos.
- Ao bebê da . – as vozes repetiram em uníssono.

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Quando chegou ao trabalho na segunda-feira seguinte, viu que tinha um bilhete do seu chefe em sua mesa. No papel dizia para ele procurá-lo em sua sala assim que chegasse, pois havia um assunto importante que precisavam discutir. O rapaz estranhou, mas deixou sua bolsa em cima da cadeira e olhou para ver se a luz da sala estava acesa e saber se Stephan já estava lá, mas estava tudo apagado. Então sentou-se, para esperar até que ele chegasse. Ligou o computador e começou a fazer algumas coisas que deixou pendente da semana anterior, sempre atento as movimentações do corredor. Mandou uma mensagem para , dizendo que o chefe estava atrás dele e que isso o deixou preocupado, porque nunca tinha acontecido. E ela respondeu: “sinto cheiro de promoção”.
Ele riu, porque tinham mudado de posição nos últimos dias, ele tinha se tornado o pessimista e ela a que sempre pensava positivo, talvez fosse isso que faltava. Mas como não conseguiu se acalmar, respondeu alguns emails que estavam não lidos, iniciou uma solicitação de compras de alguns materiais que a fábrica solicitou, mas não tirava os olhos do relógio. Tinha conseguido fazer quase quarenta minutos passar, mas nada ainda do chefe. Suspirou, precisava de um café. Foi até a copa, encontrando Kenny sentado por lá, lendo um jornal, como se não tivesse nada mais produtivo a fazer. Conversaram sobre os jogos do fim de semana, riu das piadas sem graça que ele sempre fazia. Foi bom para distrair um pouco a mente e parar de pensar no que Stephan poderia querer lhe falar. Depois de uns quinze minutos, ele voltou para a sua mesa e assim que chegou, Connor, o rapaz que trabalhava na mesa ao seu lado, e sobrinho do seu chefe, falou:

- Stephan disse que está te esperando lá na sala dele, parece sério. – ele tirou seus olhos do computador no final da frase, apenas para fazer uma careta. – É uma pena, porque eu gostava de trabalhar com você. – Connor riu em seguida, claramente fazendo uma piada. respirou fundo e coçou a cabeça, tentando controlar o nervosismo.
- Obrigado. – respondeu, antes de seguir para a sala do chefe. Caminhou lentamente, cruzando os poucos metros que os separavam. Bateu na porta e esperou que lhe permitissem entrar.
- Entre. – ouviu a voz grave de Stephan do lado de dentro. Abriu a porta, murmurando um “com licença”. – Ah, , ótimo! Precisava muito falar com você, sente-se. – o tom do chefe estava calmo e suave, não parecia com o que alguém usa quando vai demitir alguém. – Tenho uma pergunta muito importante para te fazer: como vai o seu passaporte?
- Não entendi, senhor. – o rapaz respondeu, com a expressão confusa e o mais velho abriu um sorriso, tirando os óculos de grau por um instante e se acomodando melhor na cadeira.
- Você se inscreveu para nosso programa de especialização na sede da empresa na Alemanha, certo? Esse ano nós temos duas vagas, uma é do Connor e a outra, bem, ela é sua, se você aceitar. Sua solicitação foi aceita e precisamos dos seus documentos, diploma da faculdade, histórico escolar, essas coisas. – ouviu as palavras, mas demorou a conseguir assimilá-las. Seu cérebro entrou num processo acelerado, onde só conseguia pensar em duas palavras: especialização e Alemanha. Foram tantos anos tentando, tantos anos sendo rejeitado, que agora ele nem conseguia falar. – Rapaz, você tá bem? Tá meio pálido.
- Eu tô, bem, acho que tô. – respondeu, incerto. Ele queria rir, não sabia se chorava ou se gritava, sentia como se tivesse uma bola em sua garganta.
- Ótimo, então espero sua documentação até sexta, vamos providenciar toda a papelada, passagens, hospedagem e tudo o que você vai precisar. E então é só você se preparar para morar na Alemanha por um ano. Um ano inteirinho na Europa, parece bacana. – Stephan disse a última frase mais para si mesmo do que para , mas o rapaz já estava fora de si mais uma vez, porque, finalmente, tinha caído na real. Ficaria fora por um ano, doze meses, 365 dias. E tinha escolhido o pior momento para isso. precisaria dele com o bebê, ele não podia abandoná-la nesse momento. Porque era isso que ele estaria fazendo, a abandonando. E se ele não fez isso em vinte anos, por que faria agora?


Quatro - "Você vai."

If I could fly, I'd be coming right back home to you
I think I might give up everything, just ask me to

(One Direction – If I Could Fly)


Era quinta-feira e estava sentado na pequena mesa na cozinha de seu apartamento. chegaria em alguns minutos ele continuava encarando os documentos que havia separado para levar para o trabalho, mas que enrolava e fingia que tinha esquecido todo os dias. Stephan o cobrava diariamente, pedindo que Denise, sua assistente, lembrasse o rapaz da documento de duas a três vezes por dia, todos os dias. Aparentemente eles precisavam comprar as passagens e enviar tudo para o escritório da Alemanha. Ele ainda não tinha tido coragem de contar a que tinha sido selecionado, porque ele não sabia se queria ir. Bem, ele queria ir, mas ele também queria ficar. Seu coração pesava só de pensar que não estaria por perto durante a gestação e no nascimento do bebê. Ele sabia que não deveria se apegar, mas ele já tinha se apegado a toda a ideia. Não de ser pai, mas de estar por perto, de dividir tudo com ela. Imaginou indo nas consultas médicas, acompanhando nas ultrassonografias, no parto. Se pegou pensando se poderia ser um dos primeiros a ver o bebê no mundo, talvez, quem sabe, um dos primeiros a segurá-lo. Poder dizer a ele, mesmo sempre que ele pudesse entender, o quanto a mãe o desejou e quão feliz ele estava em ajudar. Mas se ele escolhesse ir, perderia tudo isso. Ganharia conhecimento, grandes chances de crescimento na empresa, desenvolvimento profissional, mas até que ponto ele estava preocupado com isso? Até que ponto isso era a parte mais importante da sua vida? Ele seria uma das dessas que a vida gira em torno do trabalho e apenas disso?

- . – ele ouviu a voz da amiga, logo depois do barulho da porta se abrindo. – Me ajuda aqui. – ela riu, mas o som foi abafado pelo som de algo caindo no chão. Ele chegou à sala, vendo o saco do mercado rasgado no fundo, uma lata de cerveja caída no chão, enquanto a menina se equilibrava para segurar todas as outras coisas.
- O que é isso tudo? – o rapaz perguntou, pegando a sacola de suas mãos com cuidado, para que nada mais caísse e seguindo para a cozinha.
- Comprei umas coisinhas para fazer um jantar pra gente, não posso ficar me entupindo de pizza e outras besteiras agora, né. – disse, colocando a bolsa em cima do sofá e indo atrás dele. – Vou fazer um macarrão, coisa simples.
- Podia ter falado, assim eu pedia para entregar e você não tinha o trabalho. – falou, se encostando a pia e vendo a amiga fazer uma careta.
- Claro que não, eu quero fazer. – sorriu e lado, tirando as coisas da sacola e colocando sobre a mesa. Pegou a panela que iria precisar e tratou de já colocar a água para ferver. ficou a encarando, em silêncio. Ela percebeu que havia algo estranho, mas resolveu esperar que ele se sentisse confortável para falar. – Hey, coloca as suas cervejas e o meu suco na geladeira.
- Ah, tudo bem. – o rapaz respondeu, ainda meio distraído. foi pegar o pacote com frango e viu um envelope em cima da mesa. Olhando para o amigo, ela perguntou:
- O que é isso? – demorou um pouco para responder, tentando inventar uma desculpa qualquer.
- Coisa do trabalho, nada importante. – respondeu. Não era uma mentira, mas também não era verdade. O que tinha naquele envelope era muito importante, mas não parecia querer lidar com aquilo naquele momento. Talvez mais tarde. Ele já tinha adiado a semana toda, mais alguns minutos não faria diferença.
- Hmm. – murmurou, como se acreditasse. – Alguma novidade? – ele se limitou a balançar a cabeça, negando.
- E você?
- Também não, tudo tranquilo. – respondeu, começando a preparar a comida.
- E o bebê? – perguntou, não conseguindo esconder o sorriso.
- Tá bem. Eu contei lá no trabalho, porque vou precisar que alguém me substitua, eles ficaram muito felizes, animados. Vou trabalhar até quando eu aguentar, como deve nascer em junho, eu emendaria a licença com as férias e voltaria no ano seguinte. Achei legal da parte deles, porque não são todos os lugares que me permitiriam isso.
- Sim, você vai ter os primeiros seis meses livres apenas para pensar no bebê, vai ser bom para vocês dois.
- Qual o problema, ? Você não tá bem, eu consigo perceber que você tá me escondendo alguma coisa, que você quer me dizer algo, mas não consegue. Sabe que não precisa disso, não é? Sabe que pode me falar qualquer coisa. – falou, deixando a comida de lado e voltando seu corpo na direção do rapaz, para olhar diretamente para ele.
- Eu sei disso, . Sei disso tudo, só preciso de um tempo, eu vou falar. – respondeu, se sentindo ainda mais desconfortável com a situação.
- Tudo bem, vou esperar você ter o seu tempo. – ela disse, se aproximando e dando um beijo no rosto do amigo. – Agora vai pra sala, essa sua cara amarrada está me deixando enjoada. – um sorriso forçado tomou conta do seu rosto, enquanto o rapaz ria abertamente.

Enquanto cozinhava, se sentou no sofá, com a TV ligada, mas sem conseguir prestar muita atenção. Ele não tinha muito, agora que ela já havia percebido que tinha algo estranho, o tempo era menor ainda. Tentou planejar o que falaria, elaborar um pequeno roteiro em sua cabeça, mas ele só conseguia imagina a fisionomia desapontada da amiga quando fechava os olhos. Ele não queria ser, de forma alguma, motivo para que ela ficasse triste, mas não tinha outra escolha. Precisava ser sincero e falar, mesmo sem ter a mínima noção de como seria sua reação. Em outra situação, ficaria imensamente feliz, porque ela sabia muito bem o quanto ele desejou esse curso, mas agora era diferente. Tudo tinha mudado.

- Macarrão com frango e brócolis. – disse, com uma expressão orgulhosa em seu rosto. – Não é por falsa modéstia, não, mas está com uma cara ótima.
- Tá mesmo. – comentou, sentindo o aroma que vinha do prato. – O cheiro está muito bom.
- Então vamos comer. – ela disse, pegando as bebidas na geladeira e sentando-se a mesa. tentou, mas não conseguiu mais fingir que estava tudo bem. Ele olhou a direção da amiga, suspirando pesadamente.
- Eu preciso te falar uma coisa, estou procurando como desde segunda-feira, mas não consegui pensar em nada, então não vou mais enrolar.
- , fiquei preocupada agora. – respondeu, deixando a comida de lado e prestando atenção no rapaz. – O que aconteceu? – Ele molhou o lábio inferior, mordendo-o por alguns segundos.
- Saiu o resultado da minha inscrição para o curso na Alemanha. – a voz dele estava muito desanimada para o tipo de notícia que daria.
- Ai, meu Deus. – ela disse colocando a mão no peito, já fazendo uma associação mental do que ele tinha que falar e não conseguia, com a sua aprovação. – E qual foi a resposta?
- Eles me selecionaram. – ele falou por fim, vendo um sorriso gigantesco se formar nos lábios de . – Meu chefe falou comigo na segunda-feira e eu tenho que levar toda a documentação até amanhã, mas eu não podia fazer isso antes de conversar com você. Acho que vou recusar.
- O que? – a voz da menina soou estridente e o tom completamente incrédulo. Ela apoiou as mãos na mesa, olhando para com uma expressão que beirava o choque. – Como assim você não vai? Você fala disso há quatro anos, sempre disse que é o seu maior sonho, sempre reclamou quando não era selecionado. Inclusive estava reclamando disso semana passada. O que mudou? O que pode ser maior e mais importante que isso, ?
- Você. – ele respondeu, de forma simples, fazendo a menina desmontar por dentro. – Eu sinto como se devesse ficar aqui com você, . Sinto como se você precisasse de mim. E quando eu penso no bebê, vejo que esse é o pior momento para ficar um ano longe. Serão tantas coisas acontecendo e eu prometi que ficaria ao seu lado. Nunca quebrei uma promessa com você e não estou disposto a começar agora.
- . – ela disse, com os olhos marejados, estendendo uma das mãos por cima da mesa, para que ele pegasse. – Eu não posso deixar que você desista dos seus sonhos por mim. Seria muito mais do que egoísmo...
- Mas eu quero fazer parte disso, quero estar aqui quando o bebê nascer e...
- Você vai fazer parte disso, quer dizer, você já é parte disso. Esse bebê é metade seu e eu nunca vou esquecer isso, mas você precisa esquecer. – voz de estava baixa e calma, como se ela estivesse se controlando para não chorar. – Eu pedi que você fosse meu doador, não o pai do meu bebê. Você será como um tio para ele ou ela e tios não desistem dos seus sonhos por seus sobrinhos. Muito pelo contrário, eles os perseguem, fazem desse sonho realidade, para ter algo bom para dar de exemplo no futuro. Se desistir disso por mim, eu vou me sentir mal pelo resto da minha vida. Porque você me ajudou a realizar o seu sonho, mas aqui estou eu, te impedindo de realizar o seu.
- Você não está impedindo nada. – ponderou, mas a menina balançou a cabeça, negando, enquanto passava a mão pelos olhos, secando algumas lágrimas que caiam.
- Ai, que droga, meus hormônios já estão todos descontrolados e essa gravidez mal começou. – brincou, rindo sem graça e respirando fundo para tentar se acalmar.
- Não precisa ficar assim por isso, . Não é importante. – tentou argumentar, mas não parecia muito interessada em suas desculpas.
- Se eu não estivesse grávida, você não pensaria duas vezes antes de aceitar. Ao invés de estarmos aqui tendo essa conversa, estaríamos num bar, bebendo todas, mesmo amanhã sendo dia de trabalho. Você teria me contato no segundo seguinte que ficou sabendo e as minhas lágrimas seriam de alegria. E, sim, isso é importante. Isso é muito importante para você como profissional e como pessoa. Porque não há nada melhor no mundo do que conseguir realizar um sonho antigo, meu amigo. E nãohá problema nenhum em ser um pouco egoísta uma vez na vida, caso seja isso que você esteja pensando. Pense em você primeiro, para variar. Tá sempre tão preocupado com o que os outros vão pensar, como vão reagir, como vão viver sem você. Então para e pensa como será pra você viver sem isso. – respirou fundo, fechando os olhos por alguns segundos. – Você vai, . Você vai, nem que eu tenha que ir amanhã, pessoalmente, levar seus documentos e depois te arrastar para dentro do avião. Você vai porque daqui a uns anos, vai olhar para trás e pensar na oportunidade que deixou passar. Você vai porque eu estou extremamente orgulhosa de você agora e sei que vai fazer a coisa certa. E, principalmente, você vai porque você quer ir. Se não quisesse, já teria recusado, não teria reunido tudo o que precisava naquele envelope.
- Eu quero ficar, . – disse mais uma vez, vendo a amiga sorrir de lado, não acreditando em nenhuma palavra do que ele dizia.
- Você pode ficar repetindo isso quantas vezes quiser, até conseguir convencer a si mesmo. Porque a mim você não vai conseguir.

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Assim que chegou ao trabalho no dia seguinte, deixou o envelope com os documentos em cima da mesa de Denise, com um bilhete preso em cima “desculpe a demora”. Depois da conversa que teve com na noite anterior, ele pensou muito durante quase a noite toda, chegando à conclusão que ele não podia, simplesmente, negar essa oportunidade. Era algo único pra ele, uma chance que tinha de crescer profissionalmente. Então se permitiu ser egoísta, pelo menos em seu ponto de vista, pensar em si, apenas em si mesmo, antes dos outros. Se permitiu escolher algo que seria bom para si, mesmo que isso pudesse machucá-lo um pouco no começo. E era um ano, só um ano.
Assim que Stephan passou pela mesa dele, mais tarde no mesmo dia, dizendo que a sua documentação já tinha sido conferida, aprovada e tinha seguido para o financeiro, para providenciarem as passagens e todos os demais tramites. Tudo dando certo, ele e o Connor viajariam no começo do ano seguinte, logo após as festas de fim de ano. O que ainda lhe daria um pouco mais de um mês por aqui ainda. Tentou parecer animado, mas parte dele estava triste em partir. nunca tinha ficado tanto tempo longe de casa, dos pais, dos amigos, de . Ele não sabia como seria ficar sozinho em outro país, sem conhecer ninguém. Não era uma pessoa que fazia amizades com facilidade, era mais do tipo de mantê-las. Quem fazia amigos por onde passava era , como se ela tivesse uma luz dentro dela que atraia as pessoas e depois ninguém mais conseguia se afastar. Ele pegou o celular, enviando uma mensagem para a amiga:

“Tudo certo, embarco no começo do ano que vem.”
, 10:48


Encarou as duas fotos que tinha numa parte mais escondida de sua mesa, uma dele, , Lili, Anthony e Noah, no seu último aniversário. Eles estavam completamente bêbados, mas aquela era uma das fotos que ele mais amava na vida. E na outra estava apenas ele e , deveriam ter uns dezoito anos na época, e estavam no baile da escola. Tiraram fotos numa daquelas máquinas que saem uma sequência de fotos. Numa delas eles estavam fazendo uma careta muito engraçada, ele sempre olhava aquela foto quando precisava relaxar um pouco. O telefone vibrou em cima da mesa e o nome de apareceu no visor:

“Eu sabia que você ia tomar a decisão certa.”
, 10:55

sorriu de lado, feliz com o fato de estar tudo bem entre eles. O aparelho vibrou de novo, por duas vezes seguidas.
“Precisa contar aos outros, vamos comemorar. Amanhã na sua casa, às 20hs. Vou avisá-los.”
, 10:59

“Ah, comidas por sua conta, rs.”
, 10:59

riu, balançando a cabeça, antes de responder.
“Ok, comidas por minha conta.”
, 10:59


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, , Lilly, Anthony e Noah estavam sentados ao redor da mesa de centro na sala do apartamento de . Comendo pizza, falando besteiras e rindo sobre qualquer coisa. Já eram quase duas da manhã, mas ninguém parecia que iria embora nem tão cedo. disse que ele teria que contar a novidade para os outros três, mas que podia esperar pelo momento em que ele se sentisse mais confortável. Só que a única pessoa que ele tinha algum medo de machucar com essa notícia era , então ele não tinha mais medo de contar nada. Seus pais não paravam de falar sobre isso desde o dia anterior, quando o rapaz contou, depois de entregar a documentação. Era capaz de metade da cidade já saber, porque Kathy e John estavam extremamente orgulhosos do filho e não perdiam uma oportunidade sequer de falar sobre a sua nova conquista.

- Eu tava aqui pensando. – Lilly falou, colocando sua cerveja no chão e se recostando no sofá. – Será que depois que o bebê da nascer, a gente vai conseguir fazer coisas assim? Ficar acordado até tarde, falando um monte de coisa sem sentido, enchendo a cara e nos entupindo de pizza?
- Bem, enchendo a cara ela já não está, então já começou a mudar. – Anthony falou, rindo. Lilly rolou os olhos, porque ele tinha entendido o ponto dela, mas estava apenas perturbando.
- Você me entendeu, Tony. Porque, assim, quando um bebê nasce, as prioridades mudam, né...
- Vocês podem ficar tranquilos, sempre serão prioridades na minha vida. Talvez tenhamos que mudar o local e horário dos encontros, mas nada vai mudar drasticamente. Eu só vou ter um bebê, então nós vamos nos reunir para beber, comer besteiras e falar sobre coisas aleatórias, mas também trocar algumas fraldas.
- Ah, essa parte eu dispenso, posso ficar só com as brincadeiras? – Noah falou, fingindo uma careta.
- Tudo bem então, se vocês estão me prometendo que nada vai mudar, eu acredito. – Lilly disse, dando de ombros e bebendo mais um gole de sua cerveja. e trocaram um olhar cúmplice que Anthony percebeu.
- O que foi? – ele perguntou. A menina mordeu o lábio inferior e deu de ombros, como se dissesse: “agora não tem mais jeito, né?”
- Vocês sabem que eu sempre me inscrevo para o processo seletivo do curso especialização que a empresa oferece na Alemanha, certo? – perguntou retoricamente, vendo os amigos se sentarem de forma mais reta e prestarem atenção no que ele estava dizendo. – Esse ano tinham duas vagas e... eu consegui uma. – Lilly arregalou os olhos, Anthony deixou os lábios se abrirem num sorriso, sendo acompanhado por Noah.
- Como assim? Como foi isso? Explica direito. – Anthony pediu, extremamente animado.
- Na segunda-feira o meu chefe pediu que fosse até a sala dele e disse que a vaga era minha, que eu tinha até ontem para levar a documentação, porque eles dariam entrada ao processo de visto, compra de passagem, alojamento e tudo mais.
- Pergunta importante. – Lilly falou, chamando a atenção de todos. – Por que ela soube antes de nós três? – perguntou, apontando na direção de , que riu, balançando a cabeça lentamente. – Não estou gostando nadinha dessa história de vocês dois dividindo segredos. Nós somos um grupo. Um grupo! Se forem começar a dividir em panelinhas, eu vou sobrar. Porque já temos esse casalzinho aqui. – ela olhou para Anthony e Noah. – A gente finge que gosta deles, mas é chato quando ficam de conversa paralela. Agora vai começar vocês dois também?
- Lilly, não precisa ficar com ciúme. – brincou, vendo a amiga a olhar de cara feia.
- Não é ciúme, eu só gosto das coisas certas.
- Vamos voltar ao que interessa? Depois nós lidamos com o ciúme dela. – Noah disse se voltando para . – Caramba, eu to muito feliz por você. – ele se levantou, indo até onde estava, dando-lhe um abraço apertado. – Eu ouço você falar sobre isso desde que eu te conheci, lembro de todas as suas tentativas, basicamente. E ver você conseguindo isso agora e como a realização de um sonho. Parece até que é meu sonho também. – ele mordeu o lábio inferior. Noah era uma pessoa muito sensível, ele se solidarizava muito com tudo o que as pessoas passavam. Se você tinha um problema, qualquer um, que não conseguia solucionar, era só falar com ele. Se não conseguisse te ajudar a resolver, pelo menos você teria alguém para dividir aquele fardo. E quando era algo bom, como essa notícia, sempre ficava feliz como se fosse com ele, então era sempre maravilhoso dividir as coisas com ele, porque você sentia que ele se importava de verdade, não era apenas fachada.
- Obrigado, Noah. – falou, apoiando a mão no ombro do amigo. – Eu estava inseguro sobre ir ou não, porque eu não sabia se queria deixar tudo aqui, deixar vocês. Então eu conversei com a e ela abriu os meus olhos.
- Você realmente pensou em não ir? – Lilly perguntou, enquanto levantava e caminhava até onde o rapaz estava. Ela passou o braço pela cintura dele, apertando o máximo que podia. – Parabéns, meu amigo. Você merece. – sussurrou em seu ouvido.
- Pensei. – confessou. – Tanto que eu fiquei sabendo na segunda e só entreguei a documentação ontem. Tinham muitas coisas na minha cabeça, eu só conseguia pensar que seria um ano longe de todo mundo. E eu nunca passei mais do que uma semana longe de vocês.
- . – Anthony disse, também se aproximando. – Não é como se você estivesse indo para sempre, cara. É um ano, passa muito rápido. E é como o Noah disse: é a realização do seu sonho, mas acho que cada um de nós aqui sente como se fosse um pouquinho seu também. Nós dividimos tudo isso com você. Estou tão orgulhoso.
- Pode ser que seja esse o momento de realizações pessoais no grupo. Eu com o meu bebê, por não? com sua especialização, Anthony e Noah com o escritório deles. Só falta você, Lilly. – disse, vendo a amiga a olhar pelo canto dos olhos. Não havia um tom acusatório ou de cobrança em sua voz, pelo contrário, ela soava até mesmo um pouco preocupada. – Talvez esse seja o empurrãozinho que sempre falta para você deixar aquele emprego louco que você tem e fazer algo que realmente goste, ou que te faça feliz.
- Eu não vou mentir, não. – a menina falou, ainda abraçada a . – Eu penso nisso todos os dias. Acho que só preciso de coragem mesmo. E talvez um pouco de apoio. – ela deu de ombros.
- Você tem a gente. – Noah disse, sorrindo em sua direção.
- Eu sei disso e agradeço todos os dias.
- Não querendo acabar com o lindo clima que temos aqui, mas acho que devemos começar a pensar numa coisa. – falou, chamando a atenção.
- O que? – perguntou, com um pingo de curiosidade em sua voz.
- Sua festa de despedida. – ela sorriu de lado, vendo o rosto dos amigos se iluminarem. – Já tenho muitas ideias.
- Quando você vai, ? – Lilly perguntou, levantando a cabeça para encará-lo.
- Acho que na primeira semana de janeiro.
- Ótimo, temos tempo para planejar uma festa maravilhosa. – ela respondeu, visivelmente animada.
- Não precisa de festa. – o rapaz falou, mas sendo altamente ignorado por todos os amigos.
- Quando um dos nossos melhores amigos consegue uma oportunidade de estudar na Alemanha, nós comemoramos, sim. Está nas regras. – Anthony comentou, fazendo todos rirem e concordarem.
- Comemorar a viagem do e o bebê da . – Noah exclamou. e se olharam, como se comunicasse somente pelo olhar. Pra eles não tinha necessidade nenhuma de festa, mas se conheciam bem seus amigos, eles fariam questão. E, bem, não faria mal comemorar um pouco, não é mesmo?


Cinco - Lembra de Mim

We keep this love in this photograph
We made these memories for ourselves

(Ed Sheeran - Photograph)



10 semanas de gestação – 7 semanas para a viagem

estava deitada na mesa de exames, pronta para sua primeira ultrassonografia. Ela tinha sonhado com esse momento desde que tinha descoberto que estava grávida. Seria a primeira vez que veria e ouviria o seu bebê. O coração estava acelerado e ela se perguntava se alguém conseguia ouvi-lo, mesmo que fosse de longe, porque ela jurava que conseguia ouvir, como se ele batesse fora do seu corpo. Como se soubesse que a amiga estava nervosa, tocou seu rosto, fazendo com que ela o olhasse, e sorriu de lado, estendendo uma das mãos. Eles entrelaçaram os dedos e a menina tentou se acalmar, por mais que soubesse que não seria tão fácil assim. Lena, a mãe da menina, também estava lá e o coração pesada de nervosismo. Não pelo exame, mas por ver a filha naquele estado. estava feliz, claro, mas estava sempre preocupada, sempre pensando em muita coisa ao mesmo tempo, gastando sua energia em assuntos que não tinha necessidade no momento, como dinheiro. É claro que era importante, é claro que deveriam se preocupar, mas não no começo da gravidez. Era tudo tão recente para ela ter aborrecimentos. Então Lena tentava fazer tudo parecer mais leve, mais fácil, por mais que isso acabasse soando como displicência por parte da filha. Bem, pra ela não era displicência, era uma forma diferente de preocupação.
estava em meio aos preparativos para a viagem, que seriam em menos de dois meses. Nesse tempo ainda teriam as festas de final de ano e a tal festa de despedida que cismaram que fariam e que já tinham até marcado. Seria no apartamento do Anthony e do Noah, que eles tinham acabado de reformar e que tinha muito espaço, já tinha até uma data marcada: sábado, dia 05 de janeiro. E ele viajaria na segunda seguinte, dia 07. Tentava não pensar muito nisso e aproveitar o tempo que ainda tinha perto dos amigos, mas toda vez que olhava para , ele lembrava da viagem e se sentia culpado, por mais que ela dissesse que não era para que ele se sentisse assim. Então ele acabava se sentindo duas vezes culpado. Mas quando via a animação da amiga com a sua viagem, listando coisas que ele não podia deixar de fazer, lugares que não poderia deixar de conhecer, acabava se sentindo um pouco melhor. dizia que ele teria que aproveitar esse tempo fora pelos dois, porque ela não iria poder fazer algo do tipo nem tão cedo. Então a menina acabava mandando sempre um lugar novo que viu na internet e que ele teria que ir, tirar uma foto dele, depois uma foto de uma foto dela e mandar, assim ela sentiria com se estivesse participando de tudo também.

- Olá, bom dia. – a médica disse, ao entrar na sala. – Meu nome é Rachel e vou fazer o seu exame. , certo? – perguntou, olhando a ficha antes de se sentar.
- Isso mesmo. – respondeu já deitada na maca, com os olhos brilhando de excitação.
- O exame é simples, uma transvaginal normal, vamos ouvir o coração do bebê, não se preocupem ou se assustem, ele costuma bater bem rápido mesmo. – a doutora deu mais uma olhada na ficha, antes de continuar. – Aqui informa que você está com cerca de 10 semanas de gravidez, correto?
- Certo, fiz dez semanas ontem, contando pela data aproximada do exame de sangue.
- Ok, então temos que fazer uma ultrassonografia transvaginal. Fique numa posição confortável, por favor. – pediu, enquanto higienizava as mãos e colocava as luvas. – Pernas no apoio. – colocou uma perna de cada lado numa parte elevada da maca. A médica pegou um aparelho de forma quase fálica, com uma ponta afinada, colocou uma camisinha na ponta e lambuzou bastante com uma espécie de gel. Se aproximando de , ela colocou o aparelho por debaixo do roupão que ela usava.
- Pera aí, isso vai... – falou rápido, antes de perceber o que ia acontecer. – Ah, sim. Vai. – A amiga reprimiu um sorriso, mordendo o lábio inferior, enquanto ele a encarava, completamente chocado. – Isso não dói? – perguntou, preocupado.
- , tá tudo bem. – ela disse, tentando tranquilizá-lo. – Não dói.
- Eu só não estava preparado. – o rapaz comentou, olhando para Lena pelo canto dos olhos, mas a mais velha estava com os seus presos ao pequeno monitor. Até que um som especialmente diferente chamou a atenção do rapaz. Os batimentos eram fortes e acelerados, como um bater de asas de uma borboleta. E tudo ao redor se transformou em nada, porque ele só tinha atenção para o barulho e a pequena forma que apareceu no monitor. Era minúsculo, parecia um amendoim, mas pra ele... era o amendoim mais lindo que já tinha visto na vida.
estava olhando para o monitor com uma expressão que beirava a incredulidade. Ouvir o som do coração de seu bebê batendo foi algo surreal. Foi como ter mais do que certeza que ele estava ali, que ele existia. E depois ver aquele pedacinho de gente, em plena formação, dentro do seu corpo, era como se ela, finalmente, tivesse tomado ciência do que estava acontecendo. Que era verdade. Que seu bebê estava a caminho. Agora não era um exame ou um papel que dizia que seu bebê estava em sua barriga. Ela estava vendo. Ele era real. As lágrimas se formaram em seus olhos e ela não conseguiu segurar, deixando-as rolarem livres pelo seu rosto, uma após a outra. , vendo o estado da amiga, se aproximou, puxando uma cadeira que tinha por perto e sentando-se ao seu lado. Dessa forma, eles ficavam quase na mesma altura. Ele encostou sua cabeça a dela e, quando viu, também estava chorando. Sabia que não podia se envolver naquela situação. Que não podia se sentir diretamente ligado àquela criança, mas isso não era algo que ele poderia controlar, ou era?
- Desculpa atrapalhar esse momento, eu sei que é sempre muito emocionante. – a doutora disse, chamando a atenção de todos. – Só queria dizer que tudo está normal. O saco gestacional está em perfeitas condições, os batimentos cardíacos do bebê estão normais. Nada a se preocupar, tudo está da exata forma que deveria. Se vocês olharem aqui. – ela apontou num lugar específico da tela. – Poderão ver o desenho da coluna se formando. Ele está com cerca de três centímetros agora, o que também é dentro do padrão. Vocês tem alguma pergunta? – ela disse, vendo os dois mais jovens apenas balançarem a cabeça, negando. Enquanto a mais velha sorriu, vendo a expressão de felicidade estampada no rosto da filha.
- Querida, pede uma imagem para levar e mostrar pra todo mundo. – Lena disse, vendo acenar com a cabeça, afirmando rapidamente.
- Sim, será que é possível? – perguntou.
- Claro, deixa eu imprimir uma extra, fora do resultado do exame. – a médica disse, antes de mexer no computador novamente. Assim que a pequena imagem saiu da impressora, ela foi parar nas mãos de , que olhava feito uma boba para a mesma. pegou o papel logo depois, encarando aquele serzinho em formação e pensando como ele poderia ser tão importante mesmo antes de vir ao mundo. Era como se estivesse destinado a ser grande. E depois que tomou a imagem em suas mãos, ele não devolveu para , que ficou com o braço esticado na direção do amigo, pedindo de volta.
- , me devolve a foto do meu útero, por favor. – pediu, com um vestígio de riso em sua voz.
- Não precisam brigar. – a Rachel disse, colocando outra imagem para imprimir. – Eu dou outra para a mãe, deixa essa com o pai babão. – Lena riu, enquanto os dois se olharam, assustados e preocupados.
- Não, querida. Esse não é o pai do bebê, é só um amigo da minha filha. – a mãe de tratou de responder, ainda rindo. Os dois tentaram relaxar, levar na brincadeira, mas viram que a médica percebeu o clima estranho que ficou entre eles e isso não podia acontecer.
- Sim, ele é o padrinho do bebê. – completou, sorrindo de lado.
- Ah, me desculpe pela confusão. – ela disse, enquanto dava imagem para a menina. – Pelo menos esse bebê terá um excelente padrinho.

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13 semanas de gestação – 4 semanas para a viagem

- Eu não sei por que ainda insisto em sair de casa com vocês. – falou, sentando num banco que tinha no meio do corredor do shopping. – Minhas costas doem e eu não quero ficar andando de um lado para o outro.
- Mas a culpa não é minha, você sabe que isso foi ideia da Lilly. – falou, apontando para a amiga.
- Ah, não sejam chatos. Vocês estavam reclamando que não tinham roupa. Um vai passar um ano fora e só vem velharia no armário. A outra tá grávida e vive choramingando no meu ouvido que nenhuma roupa serve mais. – ela olhou na direção de antes de continuar. – Alguma calça jeans ainda cabe em você? – a amiga apenas negou com a cabeça. – Você está satisfeita em andar pra cima e pra baixo com essa calça de moletom velha? – a outra negou novamente. – Então levante desse banco e vamos até a loja achar alguma coisa para você.
- Olha, acho que você deveria ser mais gentil com uma mulher grávida. – falou, vendo a amiga rolar os olhos.
- Não se ela estiver sendo absurdamente chata. – Lilly fez uma careta, rindo em seguida. Elas andavam mais a frente, enquanto caminhava atrás, carregando as sacolas de todas as roupas que as amigas lhe obrigaram a comprar. Se ele estivesse sozinho, não teria comprado um terço daquelas peças, mas elas ficaram lembrando incessantemente como seria importante ele se vestir bem no tempo que ficasse fora. Ele não via motivos para isso, mas resolveu aceitar a sugestão.
- Olha, eu vou falar uma coisa muito importante. – disse, vendo os olhares atentos dos amigos nela. – Eu estou com fome.
- Eu quero que você me diga algo novo agora, . – Lilly riu, balançando a cabeça. – Podemos matar a fome do bebê, pela décima vez hoje, antes de comprar a sua calça. Vamos.
Sentaram numa mesa na praça de alimentação, enquanto a que estava grávida devorava um sanduíche – quase – saudável, os outros dois tomavam apenas um café. não estava conseguindo controlar a fome nos últimos dias, mas sua médica, Adelaide, disse que era normal, que o bebê estava crescendo e agora o ritmo aceleraria, a ponto dela começar a notar as mudanças em seu corpo com mais facilidade ao passar dos dias. Agora que ela já estava com quase quatro meses de gravidez, seu corpo já estava mais arredondado e uma pequena protuberância já estava evidente em seu ventre. Sempre que parava em frente ao espelho, ficava se olhando e imaginando como seria quando seu bebê já estivesse grande dentro dela, quando sua barriga já estivesse enorme. Sonhava tanto com esse momento, que se pegava estufando um pouco, querendo que já estivesse visível o bastante.
- Então, mamãe. – Lilly falou, chamando a atenção da amiga. – Quando vamos saber o sexo do bebê para comprarmos o enxoval?
- Quando nascer. – respondeu, simplesmente, limpando o canto da boca que estava sujo de alguma coisa.
- Como assim quando nascer? Eu não acredito que você vai me deixar na curiosidade até lá. Eu preciso saber se eu serei titia de uma menina ou de um menino. – Lilly parecia totalmente incomodada com a escolha de .
- Isso muda alguma coisa? Não vamos amar esse bebê independente do sexo? – ela perguntou, de forma retória, vendo a outra rolar os olhos, vendo que seu argumento não tinha muito sentido. – Então não venha questionar a minha escolha. Eu só quero saber se está saudável, o restante quero surpresa. Podemos comprar tudo colorido, vai ficar ainda mais lindo.
- Ok, ok. Tudo colorido. Posso começar a planejar a reforma com os meninos? – Lilly falou, como se fosse algo simples.
- Que reforma? – respondeu, completamente confusa. A amiga sorriu, olhando para que também riu, cúmplice. Ela sabia que estavam escondendo algo dela, mas já tinha cansado de tentar descobrir, quando fosse o momento, ela descobriria.
- É o nosso presente pra você e pro bebê, vamos reformar o quartinho pra ele, deixar do jeito que você disse que queria, mas que não sabia como fazer. Anthony e Noah vão fazer o projeto, eles já tem todos os conhecidos para fazer as mudanças, já eu e a Lilly vamos ajudar na parte da decoração. – respondeu, olhando a amiga pelo canto dos olhos, prestando atenção em todas as suas reações.
- Vocês não precisam fazer isso. – ela disse, mordendo o lábio inferior, como se quisesse chorar.
- A gente sabe que não precisa, mas a gente quer fazer. – Lilly disse, dando de ombros e bebendo o restante do seu café. – Já está esquematizado, não precisa se preocupar. Só tem uma coisa: você só vai ver quando estiver pronto. Acho que a gente te conhece bem o bastante para fazer as coisas ao seu gosto.
- Eu não posso deixar que vocês gastem o dinheiro de vocês comigo. Não posso.
- A gente não vai gastar com você, vamos gastar com o bebê, então pode. – respondeu, fazendo a amiga rir. – , não se preocupa com isso. O que a gente vai fazer e qualquer coisa que vier a fazer no futuro, é de coração. Sempre vai ser de coração. Nós te amamos e vamos amar esse bebê da mesma forma, talvez até mesmo um pouco mais. Então esquece o dinheiro e foca no fato de que você terá o quartinho exatamente da forma que imaginou. Isso sim é importante.

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15 semanas de gestação – 2 semanas para a viagem

abriu a porta do apartamento de , encontrando uma pequena confusão na sala, o que não era nada característico dele. Estranhou logo de cara, até que viu as malas abertas no canto e logo entendeu que ele, provavelmente estava arrumando as coisas que levaria na viagem. Já estava tão perto. Já era Natal e com todas as comemorações que estavam por vir, ele não queria deixar nada como fazer em cima da hora. Típico de . Ela tinha ido até a casa da Lilly para levar o presente da amiga e tinha combinado que passaria na casa do rapaz na volta, assim iriam para a casa dela. Eles sempre comemoravam juntos, desde pequenos, já que suas famílias eram vizinhas e se reuniam. E esse ano não seria diferente. Fora que tinham muitas novidades para comemorar: o bebê, a viagem do rapaz. Estavam todos muito animados. Assim que ela chegou, ele já estava pronto e eles saíram, pegaram um táxi na porta e em alguns minutos já estavam na casa dela.
Ela foi tomar um banho para se arrumar, colocou um vestido vermelho bem soltinho, que acabava por deixar a pequena barriguinha bem marcada. Arrumou o cabelo prendendo apenas de um lado e passou um batom, se sentindo mais linda do que nunca. Quando voltou ao quarto, encontrou o rapaz sentado em sua cama, com dois embrulhos em seu colo. Estranhou um pouco, mas logo caminhou até se sentar ao lado do amigo.

- O que foi? – perguntou, com um ar de curiosidade em sua voz.
- Quero te dar seu presente de Natal. – disse, segurando a pequena sacolinha em sua mão. – Mas antes, vou dar o do meu afilhado. – estendeu a caixa amarela, com balões coloridos na tampa.
- Mas ainda não é Natal, . – a menina brincou, mas mesmo assim pegou o presente.
- Eu estou ansioso e prefiro dar meu presente sem ninguém por perto. – ela abriu a caixa com cuidado, desembrulhando os papeis que protegiam o conteúdo. Quando tirou, era um pequeno macacão branco, bem delicado, com um pequeno bordado na região do tronco e um tecido tão macio, que parecia puro algodão.
- , isso aqui é... maravilhoso. – a menina sorriu, olhando para o amigo, antes de se aproximar e passar os braços ao redor do seu pescoço, beijando sua bochecha.
- Como não sabemos o sexo, eu resolvi não arriscar e comprar branco mesmo. É neutro, é básico e não terá nenhum tipo de problema.
- É a primeira roupinha do meu bebê, eu ainda não comprei nada. Estava esperando pra comprar tudo mais pra frente. Nada mais especial que o primeiro presente se seu, não é? Logo você, um dos responsáveis por tudo isso. – disse, vendo o amigo sorrir de lado e tocar seu rosto levemente.
- , eu só quero dizer. Deixar ainda mais claro, se for possível, que eu estarei do seu lado em tudo, em todos os momentos, em qualquer circunstância. Mesmo quando eu tiver longe, espero que você ainda consiga me sentir por perto. E é por isso que eu comprei isso aqui pra você. – pegou uma pequena caixa dentro da sacola, colocando nas mãos da menina, que abriu rapidamente. Dentro tinha um colar dourado, com a corrente bem fina e discreta, e com um pingente de relicário, em formato oval e com aplicações de pequenas pedrinhas brilhantes. – Abre o pingente. – ele pediu e a menina fez.
Dentro tinham duas fotos: uma de quando eles tinham cerca de seis anos de idade e estavam brincando na praia, numa das primeiras viagens que fizeram juntos. estava agarrada ao pescoço de e sorria abertamente, mostrando os dentes que faltavam. Ela amava muito aquela foto e o rapaz sabia; Do outro lado tinha uma das últimas fotos que tinham tirado, tinha sido na última reunião de todos os amigos, na casa de , para contar sobre a viagem. Havia todo um significado especial, porque aquela era a primeira foto em que eles eram, na verdade, três, num sentido bem amplo em entendimento. Por mais que tentasse negar ou ignorar o fato, sempre seria uma parte do bebê e uma parte importante. Sem ele, aquela criança não existiria e ela tinha plena noção disso, tanto que agradecia ao amigo mentalmente todos os dias de sua vida. E agora ela poderia carregar consigo, sempre, uma lembrança de como tem sido importante em sua vida e em momentos tão diferentes. Desde uma viagem simples quando crianças, até mesmo a realização do maior sonho enquanto adultos.
- , que coisa maravilhosa. – ela exclamou, vendo as fotos. Seus olhos se encheram de lágrimas, que ela não conseguiu segurar. – Eu te amo tanto, eu vou sentir tanto a sua falta. Mas a mesma quantidade de saudade que eu já sinto, é o que eu sentirei de orgulho. Porque você merece tanto isso. Merece tanto ser feliz, ter seus sonhos sendo realizados. E por mais que eu não seja uma parte tão importante do seu, quanto você é do meu, espero que quando você olhe para trás, lembre de mim, lembre de nós dois.
- Eu não vou precisar olhar para trás pra lembrar de você, . Porque você vai estar sempre comigo. Eu vou, sim. Mas eu vou voltar. – eles se abraçaram novamente, ficando na mesma posição por alguns segundos. Era como se eles estivesse se despedindo, um pouco a cada dia.
- Coloca em mim, por favor. Eu nunca mais vou tirar esse colar. – a menina pediu, virando de costas e para que o rapaz pudesse prender o fecho. – Agora eu vou te dar o seu presente de Natal, já que você adiantou todo o processo. Só que comparado com o seu, o meu presente parece, mas também é totalmente diferente. – falou, enquanto levantava e abaixava, para pegar uma caixa de presente que estava debaixo da cama. Era preta, com uma fita dourada amarrada em volta. – Você sabe que eu não gosto muito de presentes impessoais, então eu fui bem à fundo para fazer esse presente pra você. Porque, sim, eu que fiz. – comentou, antes de colocar a caixa nas mãos do rapaz.
Ele desfez o laço e tirou a tampa, vendo uma espécie de álbum de fotografias. Logo na capa, tinha “since 1995”, que foi o ano em que eles se conheceram, escrito a mão, numa letra bem desenhada. Conforme ele passava as folhas, encontrava fotos, desenhos e até mesmo alguns objetos que remetiam a coisas que os dois passaram juntos ao longo dos últimos vinte e dois anos. Tinha uma concha da viagem que fizeram até a praia quando tinham oito anos, tinha um desenho do convite do baile de formatura da escola, o símbolo das fraternidades que fizeram parte na universidade, fotos, fotos e mais fotos. De todos os momentos que viveram juntos, até mesmo uma cópia da imagem do ultrassom do bebê que estava a caminho. Era como uma pequena viagem ao tempo.
- Ai, meu Deus, . – exclamava, a cada página diferente que olhava. Ele levava uma das mãos à boca e fazia uma expressão pensativa, como se estivesse relembrando cada uma das situações. – Que presente maravilhoso.
- Isso pra é você olhar cada página dessa e ver a quantidade de histórias que já temos juntos. E as páginas em branco do final, são para mais quantas o futuro nos reservar.

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16 semanas de gestação – 1 semana para a viagem

A festa de Ano Novo tinha sido programada para o apartamento da Lilly dessa vez. Ela estava muito feliz que tinha conseguido um namorado novo, o Scott, e dessa vez parecia que era um cara legal. Ele também era advogado, mas de um escritório diferente, que era foco em pequenas causas, para pessoas que, provavelmente, não teriam dinheiro para arcar com os custos de uma boa defesa, caso necessitassem. O exato tipo de trabalho que Lilly queria, mas não tinha coragem de largar o emprego para fazer. e chegaram lá por volta das oito da noite para ajudar a amiga na arrumação, Anthony e Noah já estavam lá. Eles penduraram balões, colocaram as bebidas para gelar, ligaram a música nas alturas, até mesmo uma iluminação especial a menina tinha preparado. A hora foi passando e as pessoas começaram a chegar, se espalhando pelo apartamento, comendo, bebendo, conversando e, principalmente, se divertindo.
Todos os diversos colegas do grupo que ainda não sabiam da gravidez de , acabaram ficando sabendo durante a festa, já que sua barriga estava quase evidente, bem redondinha por baixo do vestido branco que a menina tinha escolhido. Ele era mais apertado e reto, o que fazia com que a barriga ficasse completamente marcada na peça. Todos vinham cumprimentar e parabenizar pela gravidez, alguns faziam a famigerada pergunta a respeito do pai e sempre respondia da mesma forma: “serei só eu.” É claro que não era verdade, porque ela tinha muita gente ao seu lado, mas era uma forma de tirar as pessoas do seu pé. Enquanto todos bebiam até começar a perder um pouco da compostura, continuava completamente sóbria, comendo mais do que precisava, mas não se importava. também não estava bebendo muito, só o de sempre. Já Noah e Lilly, estavam completamente bêbados antes mesmo das onze da noite, tendo ela Scott atrás para evitar qualquer acidente e Anthony, que já estava quase no mesmo estado que o namorado também.

- Você acha que eles conseguem ficar acordados até a virada do ano? – perguntou a , que estava parada ao seu lado, assistindo Lilly e Noah dançarem de forma bem bizarra no meio da pista improvisada. – Aposto 20 que Noah é o primeiro a dormir.
- Aposto 30 que a Lilly vai virar o ano sem sapato, se equilibrando no Scott, mas ambos acordados. O que eles farão depois da meia noite eu já não sei. – a menina deu de ombros, rindo de lado.
- Não vale, porque ela já está sem sapatos. – o rapaz comentou, apontando para os pés da amiga.
- Então eu já ganhei. – a menina deu de ombros, fazendo-o rir. Scott ajudou Lilly a caminhar até onde eles estavam, fazendo com que ela se sentasse no sofá por um instante.
- Eu falei que não era pra ela beber dessa forma tão cedo, assim ela nem vai ver o ano virar. – ele comentou, vendo a namorada apoiar a cabeça no encosto do sofá e fechar os olhos brevemente.
- Pega um copo de água, que daqui a pouco ela tá melhor. Sempre fez isso, já até aprendi a lidar. – disse, vendo o rapaz acenar com a cabeça, indo até a cozinha e voltando com um copo na mão. Ele sentou ao lado da namorada e fez com que ela bebesse um pouco. Anthony e Noah também se aproximaram, Noah estava um pouco melhor, estava quase molhado de suor de tanto que dançaram, talvez tenha sido isso que ajudou Noah a melhorar.
- Pensei que fosse ver você nesse estado como a Lilly, Noah. Vocês estavam completamente sem limites. – disse, vendo o amigo sentar numa poltrona, tentando respirar um pouco.
- Ah, eu parei um pouco há alguns minutos, fiquei só na água, ou então eu iria apagar, com certeza. – sorriu, porque ele também sabia que ele iria dormir, ele sempre fazia isso.
- Faltam cinco minutos para o Ano Novo, preparados? – Anthony disse, bem animado.
- Eu vou jogar uma água no rosto para voltar a ser gente. – Lilly comentou, levantando e seguindo para o banheiro, como Scott logo atrás.
- O máximo de animação que o meu corpo me permite. – falou, fazendo uma careta, enquanto movimentava um pouco as costas.
- Ainda com dor? – perguntou, preocupado.
- Sim, mas a médica disse que era normal, não precisa ligar o alerta. – ela brincou.
- Você está me pedindo para não me preocupar com alguma coisa? Você realmente não me conhece. – o rapaz comentou, terminando sua bebida e apoiando o copo na mesa.
- Um minuto para o ano novo! – alguém gritou, fazendo se assustar. Lilly já estava se volta ao lado de Scott, e Noah segurava as mãos de Anthony, enquanto cantarolavam a música que tocava.
- Mais um ano novo juntos. – disse, passando os braços pelos ombros da amiga e a puxando para mais perto. – Pelas minhas contas, agora já são uns sessenta e quatro.
- Acho que são sessenta e cinco. – ela entrou na brincadeira. – Nós vamos começar o ano juntos, mas não vamos terminar juntos pela primeira vez.
- Não lembra disso agora, por favor. – pediu, fazendo uma careta.
- Desculpa, mas eu lembro disso toda hora. – respondeu dando de ombros.
- DEZ! – alguém gritou. Lilly abraçou o namorado, olhando fundo em seus olhos, com um sorriso bobo nos lábios. Anthony e Noah estavam um de frente para o outro, trocando selinhos a cada número que gritavam. A contagem regressiva prosseguia, enquanto todos já começavam a se abraçar.
- FELIZ ANO NOVO! – gritaram, quase uníssono.
Quando olharam em volta, e perceberam que era um dos poucos que não estavam em casal. Os outros estavam todos trocando beijos apaixonados, comemorando a chegada do novo ano. Os amigos se olharam pelo canto dos olhos, um tanto desconfiados.
- Nem se anima, , eu não vou te beijar. – falou, e eles começaram a rir, antes de trocar um abraço apertado de longos segundos.


Seis - Até Logo

And I told you to be patient [...]
In the morning, I'll be with you
But it will be a different kind

(Birdy – Skinny Love)


17 semanas de gestação – 4 dias para a viagem

disse ao rapaz que estava se sentindo um pouco cansada, com dor nas costas, nas pernas e uma indisposição que não a deixou desde cedo, e perguntou se ao invés de saírem para jantar, podiam ficar na casa dela, deitados na cama, vendo TV e comendo um monte de besteiras. Principalmente morangos. Já que ela estava sonhando com morangos desde o dia anterior. já não fazia o tipo que negava seus pedidos, depois de grávida então, era algo impossível. Então assim que estava livre do trabalho, passou no mercado e comprou todas as coisas que sabia que a amiga gostava, desde chocolate, a batatas chips e morangos. Mas assim que saiu do mercado, sentiu o celular vibrar no bolso, era uma mensagem de dizendo:

“Ah, se não for muito incomodo, traz doce de leite também, rs.”
, 17:06

“E não esquece meu chocolate!”
, 17:06

suspirou, olhando para dentro do mercado e vendo a grande fila que já tinha se formado. Balançou a cabeça lentamente, antes de caminhar de volta.

“Mais alguma coisa? Fale agora ou cale-se para sempre.”
, 17:07

“Não, só isso tudo.”
, 17:07

Lena abriu a porta pra ele, que estava com as sacolas atrapalhando tudo. Colocou algumas coisas na geladeira e deixou na bolsa o que não precisava. subiu as escadas e encontrou jogada na cama, com uma expressão bem derrotada. Seu coração apertou no mesmo instante, mas logo lembrou da habilidade incrível que a amiga tinha de manipulá-lo. Aproximou-se lentamente da cama, vendo a menina o acompanhar com os olhos, sem dizer nenhuma palavra. Ficou a encarando por alguns segundos, antes que ela começasse a rir, sem motivo nenhum.

- O que foi? – perguntou, vendo ainda sorrindo em sua direção. Ela cobriu parte do rosto com uma almofada, fazendo uma cara travessa.
- Não acredito que você trouxe isso tudo pra eu comer. – falou, levantando as sobrancelhas, ansiosa.
- Para nós comermos. – corrigiu e ela deu de ombros, como se não se importasse.
- Eu vou comer mais de qualquer maneira. Você sabe que eu tenho prioridade...
- Não gosto do fato de você usar sua gravidez para tirar coisas de mim. – murmurou, segurando a sacola pela parte de baixo e virando tudo em cima da cama. soltou um grito breve, vendo a chuva de doces caindo em cima de si mesma, e depois seus lábios se alargarem um sorriso, parecendo uma criança. – Você parece ter oito anos de idade, sabia?
- Pareço ter oito, com carinha de quase trinta e disposição de oitenta. Tá bom pra você? – ela perguntou de forma retórica, olhando entre os diversos tipos de chocolate que o amigo tinha comprado. Até que achou a embalagem dourada que tanto procurava. Era o seu chocolate favorito. – Oh! Você lembrou. – exclamou, mostrando o chocolate para , como se não tivesse sido ele que tivesse comprado.
- Claro, né? Era capaz de você me expulsar daqui a pontapés se eu esquecesse. Ficou o dia todo: “o chocolate, .”, “não esquece meu chocolate, .”, “vê se não esquece”. – reclamou, afinando a voz para imitar a da amiga, que rolou os olhos.
- Eu já ouvi a minha voz e ela não parece nada com isso. – se limitou a falar. – Enfim, vai ficar aí em pé, todo azedo, ou vai sentar aqui para começarmos a comer? – perguntou, quase impaciente.
- Eu não tô azedo. – respondeu, colocando sua bolsa jogada ao lado da cama e sentando ao lado da amiga. – Só não ouvi aquela palavrinha mágica, sabe? Que geralmente falamos quando as pessoas fazem algo que pedimos...
- Muito obrigada, . Você é incrível, a melhor pessoa de todo o mundo. Não sei o que vou fazer sem você por perto. – disse, exagerando, vendo o amigo fazer uma careta enquanto a olhava de lado. – A última parte é verdade. – a menina sorriu, tombando a cabeça para esbarrar levemente no rapaz, que tentou continuar sério, mas não conseguiu, deixando o corpo cair nas almofadas, ficando mais confortável. A amiga deitou ao seu lado, já com um chocolate nas mãos, sem nenhuma cerimônia. Mordeu um pedaço, fazendo uma cara que era o misto de felicidade e satisfação.
- O que vamos fazer? – o rapaz perguntou, vendo a amiga olhar em sua direção com uma expressão um tanto quanto curiosa.
- Bem, eu pensei comigo mesma: “já que vai viajar, acho que podemos fazer algo que ele gosta muito...”, então. – ela pegou o controle, mudando o a função da TV para que a internet funcionasse nela. Então a imagem do filme apareceu na tela, fazendo o olhar do rapaz de iluminar.
- Ah, não acredito. – ele jogou a cabeça para trás, soltando uma gargalhada alta, e olhou a amiga em seguida, onde falaram juntos:
- DIE HARD! – e riam mais em seguida. Eles sempre faziam isso quando alguém falava do filme “Duro de Matar”, era o favorito de e também citavam em Friends, a série favorita de . Num episódio do seriado, os personagens Joey, Ross e Chandler estão vendo o filme e sempre falam o nome juntos, com a mesma entonação, bem animados. E de tanto que já viram a série e o filme, aquela virou uma piada interna para os dois.
- Sim, Duro de Matar pela septuagésima quinta vez, se a minha conta estiver certa. – brincou, pegando um pacote de batatas, já que seu chocolate já tinha acabado, e se sentando de forma mais confortável. – Mas depois que o filme acabar, será minha vez de ficar feliz.
- Tudo bem, a gente pode ver Friends pela milésima vez depois do filme. – falou, com a voz arrastada. Deitando ao seu lado roubando algumas batatas do pacote e recebendo um olhar nada agradável da menina. – O que foi? Tem outros três ali, deixa de ser gulosa.

Depois que John McClane salvou todas as pessoas, que comeu quase todas as batatas, brigando com cada vez que ele comia mais do que ela achava que ele deveria. E também depois que quase todos os chocolates foram devorados, os amigos estavam jogados no chão, em frente à cama. estava com a cabeça deitada no colo de , e eles estavam vendo um dos episódios de Friends favoritos da menina: o que Joey e Chandler disputavam o apartamento com Mônica e Rachel, numa brincadeira de quem sabia mais sobre os outros. Ele achava engraçado o fato da amiga falar quase todas as frases junto com eles, mas não comentou nada, porque ele era assim com Duro de Matar também.

- Eu tava pensando. – ele disse, chamando a atenção de . – Numa brincadeira assim, sobre quem sabe mais do outro, quem você acha que ganharia?
- Hmm, acho que você. – a menina confessou, pegando mais uma batata do pacote. – Você lembra de tudo. Eu sou de tipo que lembra apenas das coisas inúteis. Bem, sei lá, talvez dependeria das perguntas.
- A gente podia fazer algo assim um dia, não é? Eu e você contra Lilly e Anthony. Noah podia ser o Ross, cuidava das perguntas. Seria muito engraçado. – falou, vendo os olhos de brilharem só de imaginar.
- Agora nós temos que fazer isso. – a menina forçou a entonação da palavra, para demonstrar a necessidade que sentia. E então pegou uma batata, passando no doce de leite e levando a boca. fez uma careta quase que automaticamente e ela viu. – O que foi?
- Batata de cebola e salsa com doce de leite, sério? – perguntou, um tanto quanto incerto se deveria questionar qualquer coisa. A menina apenas olhou para o seu rosto e deu de ombros, como se não se importasse.
- Pra mim parece bom. – respondeu, vendo o amigo se calar. Até que sentiu algo estranho.
Ela se sentou direito e olhou para o rapaz com uma expressão confusa. percebeu que algo não parceria certo e assumiu uma postura preocupada. Seus olhos correram o rosto da menina, descendo para as suas mãos, que tinham largado a batata e que agora estavam em cima de sua barriga. Seu coração acelerou e o nervosismo tomou conta do seu corpo.
- O que foi? – perguntou, apressado. Levando suas mãos para cima das dela, tocando, gentilmente, sua barriga também, com a pontinha dos dedos.
- Eu tô sentindo umas coisas estranhas. – disse, com a voz entre a confusão e o medo. – Eu nunca senti isso antes, então não sei se devo me preocupar.
- Mas o que você tá sentindo? – perguntou, tocando uma região da barriga da menina que não estava coberta pela blusa. Assim que seus dedos tocaram a pele dela, ele também sentiu algo e a olhou, com os olhos arregalados.
- Você também sentiu isso? – ela disse, quase sussurrando. apenas fez que sim com a cabeça sem falar nada. Eles se olharam por alguns segundos, até que sentiram novamente. – Será que o bebê tá se mexendo? – murmurou, com a voz baixa, como se estivesse com medo de assustá-lo.
- Eu acho que sim. – o rapaz respondeu, mordendo o lábio inferior. Ele queria chorar, de verdade. Não sabia nem o porquê, só queria. Mas sabia que não podia, ele tinha prometido não se envolver, tinha prometido que seria apenas um padrinho para esse bebê, mas como isso seria possível? Quando todo e qualquer momento que eles compartilhavam fazia vir a mente dele algo como: “esse bebê é seu também”? Então ele olhou para , viu seus olhos repletos de expectativa, com um claro misto de medo e ansiedade. E ele perderia tudo isso, todas as primeiras vezes. Odiava isso. Odiava ter que atravessar um oceano. Odiava ir para outro continente, para outro país. Odiava apenas a ideia de ficar longe de . Só pensar nisso fazia o seu coração ficar apertado. Esperava que isso melhorasse com o tempo, porque não conseguiria viver assim por um ano.
Resolveram chamar Lena, que era a pessoa mais sabia de bebês e gravidez naquela casa, talvez ela pudesse ajudar. A mais velha veio rápido, assustada com os gritos, parando perto da porta.
- O que foi? – perguntou, assustada, vem os dois sentados no chão, com as mãos na barriga da filha. Pensou logo no pior. – Você tá com dor? Tá sentindo algo? – se aproximou rapidamente, abaixando ao lado deles.
- Não, não estou com dor, mas tô sentindo umas coisas muito estranhas. – falou, puxando a mão da mãe, colocando na parte de baixo da sua barriga, abaixo do umbigo. – Eu nunca senti isso. Parece gases, mas ao mesmo tempo é diferente. – tentou se fazer ser entendida, mas nem ela conseguia explicar.
- Querida, eu acho que é só o bebê mexendo mesmo. – Lena disse, sorrindo de lado, fazendo um carinho aonde o futuro neto estava. – Nessa fase da gravidez é difícil mesmo de sentir, causa até estranheza, mas é só o seu bebê chamando sua atenção. – deu de ombros, olhando de lado e vendo a montanha de embalagens de chocolate que tinha no chão, perto da cama. – E também, né, você entupiram a criança de doce. Quando a grávida come muito açúcar, o bebê acaba ficando mais agitado.
- Menos mal, então. Eu já tava nervoso. – murmurou, sentando mais relaxado e se permitindo respirar direito.
- Era a primeira vez. Com o tempo ela vai aprendendo a diferenciar as coisas que sente, um movimento do bebê, um chute, um incômodo qualquer. Só uma dor ou qualquer sensação estranha que não pode deixar pra lá, nunca. – a mãe de reforçou, falando com a filha como se ela fosse uma criança pequena. – Me chama, independente da hora.
- Tudo bem, mãe. – ela respondeu, com a voz meio arrastada, igualzinho como fazia quando era adolescente e só queria que Lena parasse de falar.
- Tudo bem, vou para o meu quarto, qualquer coisa...
- Qualquer coisa, eu te chamo. Eu sei, mãe. – a menina sorriu de lado, vendo a mãe passar a mão suavemente pela sua barriga, antes de levantar e sair pela porta.
- Ainda tá se mexendo? – perguntou, arrastando o corpo para se aproximar mais da menina.
- Às vezes. – respondeu, passando a mão de um lado para o outro do próprio ventre, como se estivesse chamando a atenção do bebê.
- Eu posso...? – o rapaz deixou a pergunta morrer, enquanto esticava o braço na direção dela.
- Claro. – disse, pegando a mão dele e colocando numa região um pouco abaixo de seu umbigo, mantendo a dela por cima. – Quando ele mexe, eu sinto bem aí, por fora é como se fosse uma vibração, mas por dentro eu sinto a movimentação. É uma coisa muito, muito louca, . Tem um bebê dentro de mim, de verdade. – estava radiante, quase que emitia uma luz própria, de tão feliz que estava. E o rapaz continuou com sua mão colada à sua barriga, mas sem conseguir tirar seus olhos dela. Era impossível.
- Eu acho que, no fim das contas, essa foi a melhor despedida que poderíamos ter. – disse, vendo a amiga fechar os olhos por alguns segundos e balançar a cabeça, afirmando. – Nós poderíamos ter ido a um restaurante, comido bem, com certeza algo melhor que chocolate e batata com doce de leite, mas não seria tão... a gente.
- Eu não gosto quando você usa a palavra despedida. – disse, como se contasse um segredo. – Parece é que é tão permanente. Parece que eu vou te deixar naquele aeroporto na segunda e nunca mais vou te ver. – algumas lágrimas brotaram nos olhos da menina. levou suas mãos até o rosto dela, secando seus olhos e depois as apoiou nas laterais, fazendo com que ela o olhasse.
- , você sabe que não importa aonde eu vá, não importa o que eu faça. Eu sempre vou voltar pra você, não é? – ele perguntou, se forma retórica. Pelo menos era assim que ele queria ser entendido.
- Agora eu sei. – a menina brincou, sentindo os lábios do rapaz tocarem levemente sua testa.

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17 semanas de gestação – 2 dias para a viagem

estava sentada na cama de , dobrando algumas peças que ele tinha deixado em cima da mesma, enquanto ele mesmo arrumava outras coisas que levaria. Hoje era a festa de despedida que os amigos tinham organizado pra ele e ficou de levá-lo quando fosse o momento, então, enquanto esperavam, estavam terminando de preparar tudo para a viagem. O rapaz estava assustado com a quantidade de roupa que surgiu para levar, sendo que ele era sempre muito básico, levava sempre o mínimo para todos os lugares. Só que dessa vez, estava no seu pé, quase que regulando todas as coisas que ele deveria ou não levar.

- Eu vou voltar, . Não precisa embalar a minha mudança permanente, não. – ele brincou, vendo a quantidade de coisa que ela tinha separado para ele levar.
- Um ano, . Você precisa estar preparado! – a menina comentou, abusando da entonação para intensificar a última frase. – E se você tiver uma entrevista de emprego importante ou um grande encontro com uma garota bem legal? Precisa estar sempre preparado.
- Estar preparado não significa que eu preciso levar cinco paletós diferentes. – o rapaz ponderou, vendo a amiga rolar os olhos. – Que, aliás, são todos os que eu tenho. Incluindo o novo que vocês me fizeram comprar.
- E eles vão ficar fazendo o que aqui, enquanto você estiver na Alemanha? Duvido que você vá gastar dinheiro com roupas novas por lá. – ela fez uma careta presunçosa quando viu que estava certa. – Agora pare de reclamar, me ajude a dobrar essas camisas. Eu sou péssima nisso.
- Eu sei que você é péssima em arrumar malas. Na verdade, é péssima em arrumar quase tudo. – comentou, recebendo um olhar mortal em resposta, enquanto retirava dois paletós da pilha que a menina tinha organizado, deixando apenas um bege claro, um preto e o azul escuro que tinha comprado na última vez que foram ao shopping.
- Então por que me chamou para te ajudar, seu mal agradecido? – ela perguntou, jogando uma camiseta em seu rosto, fazendo o rapaz rir um pouco mais alto.
- Eu não tinha muitas opções. Meus pais estão ocupados, Anthony e Noah estão trabalhando. E entre você e a Lilly, bem...
- Você sabe que eu vou contar pra ela, né? – disse, com um traço de humor em sua voz e apenas balançou a cabeça, afirmando.
- Não me importo, ela sabe. – respondeu, pegando a camisa de botões que estava no colo da amiga e arrumando em cima da cama antes de começar a dobrar. Assim que terminou, colocou sobre a pilha que já tinha e encarou a menina pelo canto dos olhos, mordendo o lábio inferior, como se tivesse algo para falar.
- O que você quer falar? – perguntou, puxando numa camiseta do bolo de peças que tinha em cima da cama, já que ela achava mais fácil de dobrar.
- Eu queria te pedir um favor.
- Não me diga que você quer um óvulo meu. – ela brincou, rindo alto em seguida, vendo apenas colocar a mão no rosto e balançar a cabeça, como se não acreditasse no que tinha escutado. – Foi uma piada legal, confessa.
- Foi péssima. – ele disse, vendo o responder com uma careta sem graça. – O que eu queria pedir era que você ficasse do olho nas coisas por aqui, pelo menos até o bebê nascer, porque depois eu sei que vai ficar complicado. Eu ia pedir para a minha mãe, mas tem muita coisa na cabeça dela. E eu não sei se ela vai lidar bem com a viagem, tenho pegado ela chorando pelos cantos, murmurando pro meu pai que não sabe o que vai fazer longe de mim... E eu não queria forçar nada, sabe? Vir aqui não pode ser bom pra ela.
- Tudo bem, eu posso fazer esse pequeno esforço por você. Ou melhor, pela tia Kathy. Você não tá merecendo nada. Só que vai ser difícil pra mim também, senhor . – a menina disse, batendo levemente na perna do rapaz, tentando se fazer do forte, mas controlando a respiração para não chorar ali mesmo.
- Eu sei que vai, . Mas você é forte, mais forte do que eu, e estou contando com você para me apoiar, porque eu não vou segurar essa barra sozinho. – confessou, vendo a amiga apoiar a cabeça em seu ombro, encarando o chão.
- Você vai estar a quilômetros de distância fisicamente, mas em nossas cabeças e corações, estaremos sempre por perto. Sempre que precisar, me liga, manda mensagem, chama no skype pra ver meu rostinho lindo, não sei, faz qualquer coisa. Chora, fala que quer voltar, que eu minto e digo que ninguém te quer aqui, e dou mais de dez motivos pelo qual você deve continuar lá. – levantou os olhos, encarando os de , sorrindo de lado. – Eu já estou segurando essa barra com você desde o começo, não vai ser agora ou mês que vem que vou desistir. São mais de vinte anos, . Nós dividimos uma vida. Não vai ser agora que tudo vai mudar. E eu te desafio a achar uma mulher para passar tanto tempo assim do seu lado. Você não vai achar nunca.
- Você está tornando as coisas mais difíceis, . – o rapaz murmurou, vendo a amiga fazer uma careta e dar de ombros.
- Nunca falei que iria facilitar pra você, ainda mais quando você está me abandonando. – ela forçou a entonação da última palavra, fingindo-se de magoada. – Mas é sério, eu estou tentando pensar que você vai viajar e voltar na semana que vem, assim fica mais fácil. Aí na semana que vem e penso que você volta na outra. E vai ser assim até você voltar. Porque se eu ficar pensando que será um ano, um ano inteirinho, trezentos e sessenta e cinco dias, eu vou enlouquecer. E eu não posso me dar ao luxo de perder o juízo, eu sou responsável por duas pessoas agora. Você acha que eu sou uma pessoa forte, mas é só uma carcaça, , por dentro eu não sou nada disso. Eu engano bastante. Enfim... – parou de falar por um instante, respirando fundo e encarando as próprias mãos, como se quisesse se acalmar. – Acho que devemos encerrar esses assuntos pesados por aqui ou então chegaremos num clima de total velório na sua festa de despedida e ambos sabemos que isso é completamente inaceitável. Então vamos melhorar esse astral, vamos nos divertir essa noite, vamos fingir que temos 20 anos de idade, nenhuma responsabilidade na vida e não nos preocupar com nada além de sermos felizes. Pelo menos essa noite.
- Sem choro, sem tristeza, sem reclamações. Vamos fingir que nada vai acontecer segunda-feira. – respondeu, estendendo a mão na direção da amiga, como se eles selassem um trato. – Pelo menos essa noite.
- Fechado. – ela sorriu, apertando sua mão. – Agora eu preciso me recompor, porque você acabou comigo, . Você não pode fazer uma coisa dessas com uma mulher grávida, eu estou muito sensível.

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Tinha mais gente do que imaginava na festa, mais do que ele lembrava que conhecia, pra ser sincero. O apartamento de Anthony e Noah estava completamente lotado, com umas das músicas preferidas do rapaz fazendo as caixas de som vibrarem. Tudo era para e sobre , desde a música, passando pelas bebidas e indo até as comidas, que eram tudo coisas que o rapaz gostava muito e costumava comer sempre. Ou seja, era uma festa regada a cerveja, pizza de pepperoni e batata frita. E como não podia beber, estava aproveitando muito bem a comida, acompanhando tudo com suco de laranja e refrigerante. Todos estavam conversando e pareciam estar se divertindo bastante. Alguém sempre se aproximava para cumprimentar e desejar uma boa viagem, parabenizar pela conquista, dar boa sorte e coisas assim. Até mesmo Diane, a última namorada mais séria que teve, e Maggie, a que o que namoro tinha durado dois anos, foram a festa. Já tinha muito tempo que ele não via nenhuma das duas e ficou surpreso por elas terem aparecido, principalmente Diane, já que eles não tinham terminado muito bem. Já Maggie estava realmente feliz que vê-lo novamente, e, principalmente, feliz por vê-lo conseguindo realizar um de seus maiores sonhos. Depois de alguns minutos de conversa, descobriu que ela estava noiva, mas optou por não levá-lo, achou que seria estranho.

- Fico feliz que tenha conseguido, , você sempre falou tanto disso. – Maggie disse, sorrindo de lado, enquanto eles estavam parados, frente a frente, perto da janela do apartamento. – Sei que as coisas podem não ter parecido boas na época, mas não ficou nenhuma mágoa da minha parte, longe disso, eu só desejo coisas boas a você.
- Também fiquei feliz de te ver aqui hoje, Mag, ainda mais depois de tanto tempo sem te ver. Fico contente que as coisas estejam dando certo pra você, que vai casar. Você sempre falou de casar, ter filhos, construir uma família. Eu fico realmente feliz que tenha encontrado alguém para dividir esse sonho com você. – respondeu.
- E eu espero que num futuro próximo também tenha espaço para algo assim na sua vida, porque ninguém nasce e vive para trabalhar, . Todo mundo precisa de alguém ao lado para dividir as dificuldades e as alegrias. Não deixa ficar tarde demais para perceber isso, tá? – a menina pediu, vendo coçar a cabeça, um pouco desconfortável. – Você vai realizar um sonho agora, assim vai abrir espaço para outro. Talvez para alguém...
- Eu já tenho alguém para dividir as coisas... – o rapaz murmurou, talvez mais para si mesmo do que para a outra. Ele olhou para o lado, vendo conversar animadamente com Lilly e Scott.
- A não vale. Eu estou falando em amor romântico. Aquela pessoa que você fecha os olhos de noite e é a última imagem que vê, mas que também é o primeiro pensamento que tem pela manhã. – Maggie falou, em tom de brincadeira, chamando a atenção dele. – Ela tá seguindo a vida dela também, vai ter um bebê. Lilly arrumou um namorado, Anthony e Noah estão bem como sempre, perfeitos um para o outro. E você, até quando vai continuar achando que apenas você é o suficiente para você mesmo?
- Eu tenho um ano inteiro para pensar sobre isso, Mag. – respondeu, querendo encerrar o assunto. Ele não era muito bom para falar sobre sentimentos, principalmente os dele.
- Então pense. – a menina pediu, dando um passo a frente e beijando-o no rosto. – Boa viagem. – e enquanto ela se afastava, tentou impedir que as palavras dela tivessem algum efeito sobre ele, mas já era tarde demais. Será que era tão ruim assim querer ser o suficiente para si mesmo? Será que ele deveria ser como todos, estar condicionado a amar alguém? Casar, ter filhos... tudo isso era uma regra?

- Que papo mais pesado para uma despedida. – Anthony falou, pegando algumas latinhas de cerveja que estavam em cima da mesa de centro e jogando na sacola de lixo. – Não sabia que a Maggie viria com um discurso desses ou então nem convidaria.
- Mas eu gostei de revê-la, não teve problema nenhum nisso, eu só fiquei encucado, sabe? Será que eu serei uma pessoa pela metade se não tiver uma família? Esposa, filhos e etc...? – perguntou, vendo os amigos se entreolharem, sem saber o que falar.
- Nada na vida funciona da mesma forma pra todo mundo, . – Lilly falou, sentando ao lado do amigo. – Não vê eu mesma, que endossava o seu coro, dizendo que não tinha interesse em manter nenhum relacionamento sério, que só de pensar numa ideia de família tradicional já sentia a alergia atacando, estou aqui fazendo planos de morar junto com o Scott.
- Como é? – disse, com a voz alarmada, uns três tons acima do normal.
- E você pensou que falando assim não chamaria atenção. – Scott brincou, rindo abertamente na cozinha, enquanto ajudava Noah com a louça suja.
- Scott e eu temos conversado sobre dividir um apartamento, porque ele passa a maior parte do tempo no meu e o dele só serve para acumular gastos e sujeira. – Lilly disse, dando de ombros, como se não fosse importante. – Mas não é isso que vem ao caso. O que eu quero dizer é que as coisas mudam, a vida muda. Num segundo você é de um jeito e então passa um vento, você respira, pisca, e já é outra pessoa. Hoje, agora, você pode não querer se casar, pode não se imaginar acordando todo dia ao lado da mesma pessoa pelo resto da sua vida, com crianças correndo pela casa. Hoje a sua prioridade pode ser o seu trabalho. Tudo bem, não há nada de errado nisso, assim como não há nada de errado em você acordar amanhã e pensar: acho que quero me casar um dia. Ou, arrumar uma namorada e olhar pra ela, pensando: acho que quero me casar agora.
- Wow. – Anthony disse, parado do meio da sala, enquanto olhava para Lilly com a expressão surpresa. – Quem é você e o que fez com a minha amiga surtada?
- Eu tô errada? – ela perguntou, olhando na direção de , que apenas balançou a cabeça, negando.
- Eu não sei por que o se deixou impressionar tanto pelo o que a Maggie falou. Não é como se você fosse casar amanhã ou não fosse casar nunca. Você precisa parar, urgentemente, de querer viver todos os dias em um só. Você sofre demais por antecedência, isso não ajuda em nada. – falou, finalmente se envolvendo na conversa. – Por exemplo, hoje não era dia de estarmos tendo essa conversa, você viaja na segunda, vai passar um ano se preparando para o restante da sua vida profissional. Se tem um momento que você não deveria se preocupar com isso, é agora. Suas prioridades são outras. Então, por favor, viva um dia de cada vez. Aproveite cada dia pelo o que ele é: único. Você não vai conseguir reviver nada dessa viagem, então eu preciso que você me prometa, que prometa a todos nós, que vai aproveitar cada segundo, viver todas as experiências que puder. Que quando você voltar, não vai ter uma única coisa que te fará pensar: “eu deveria ter feito isso”. Você pode prometer isso pra mim? Ou melhor, todos vocês podem prometer pra mim que farão isso, que viverão todos os dias da melhor forma possível, aproveitando toda e qualquer boa oportunidade que aparecer?
- Eu prometo. – respondeu, estendendo a mão para que a amiga segurasse. Eles entrelaçaram seus dedos antes de sentir a mão de Lilly sobre a deles.
- Eu prometo também. – ela disse, com um sorriso no canto dos lábios.
- Eu também. – Anthony se aproximou deles, colocando sua mão junto a deles. Noah e Scott vieram da cozinha e se juntaram aos amigos, colocando as mãos juntas e participando daquela pequena promessa em grupo. Anthony levantou, indo até a cozinha e voltando com uma garrafa de água e copos, serviu um pouco em cada um, entregando os para os amigos.
- Eu quero propor um brinde. Um brinde a várias coisas, na verdade acho que combina com esse momento que estamos tendo aqui agora. Primeiro, quero brindar aos nossos sonhos. está partindo para realizar o dele, está gerando o seu, Noah e eu estamos vivendo o nosso, Lilly está fazendo o seu acontecer, cada dia um pouco mais, e eu sei que isso tem muito da ajuda do Scott. Talvez isso que importa de verdade, mais do que realizar, o que importa é fazer ser real. Buscar, lutar, porque o que vem depois é consequência. Então se estamos todos reunidos aqui hoje, tendo a chance de comemorar cada pequena vitória que temos, é porque batalhamos muito para que tudo acontecesse. Em segundo lugar, eu quero brindar ao amor, que é o que nos mantém juntos, independente de qualquer coisa, independente do tempo que passar. Eu me sinto privilegiado de ter vocês na minha vida, de poder chamá-los de amigos e de meu amor. – ele olhou na direção de Noah, deixando um sorriso escapar. – Não é todo mundo que pode dizer que é tão amado, não da forma que eu posso. Da forma que vocês podem. Porque eu amo vocês, amo cada um de vocês. E em terceiro lugar, quero homenagear o meu amigo , que é uma das melhores pessoas que existem nesse mundo inteiro. Que foi a primeira pessoa pra quem eu falei que estava apaixonado por um homem. Que foi a primeira pessoa a me incentivar a falar sobre o que eu estava sentindo e que em nenhum momento demonstrou nada além de amor por mim. Meus pais sempre comentam o fato de eu não ter irmãos, mas eles estão errados, porque eu tenho um irmão, sim. – Anthony olhou para com os olhos marejados, enquanto o outro já estava chorando e nem tentava disfarçar. estava com o rosto todo molhado e a maquiagem toda borrada. Até mesmo Lilly, que fazia o tipo durona, já estava entregue a emoção. – , eu desejo nada mais do que uma vida de felicidades e realizações pra você. Eu poderia desejar que esse um ano passasse voando pra você voltar logo, mas eu não vou fazer isso. Vou desejar que ele passe de uma forma que você seja capaz de aproveitar cada segundo. Se tem alguém que merece isso, é você. – levantou, abraçando forte o amigo. Eles continuaram assim por longos segundos, enquanto todos os outros tentavam absorver todas as palavras de Anthony, porque elas tinham sido muito especiais.

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17 semanas de gestação – 1 dia para a viagem

No dia seguinte, os pais de fizeram um almoço de despedida na casa deles e todos estavam lá: , Lena, Anthony, Noah, Lilly, Scott, além de , Kathy e John é claro. Os pais do rapaz se juntaram para organizar um almoço com tudo o que o filho gostava: frango frito com o tempero especial que Kathy aprendeu com a sua própria mãe, purê de batatas, salada de repolho, o menu clássico da família . estava muito feliz com tudo o que estavam fazendo para ele, tanto que não conseguia para se sorrir, já Kathy parecia a ponto de chorar a qualquer momento, tanto que ela mal olhava na direção do filho. John estava mais tranquilo, ou pelo menos era o que aparentava. Estava mais ansioso, nervoso e orgulhoso, do que triste. percebeu toda a situação e foi se sentar ao lado dela depois do almoço, enquanto todos conversavam. A mais nova estendeu a mão na direção da outra, com um sorriso fraco nos lábios. Ela entendia o que Kathy estava sentindo, porque ela também estava se sentindo mal de alguma forma. Provavelmente não era a mesma coisa, porque não era o filho dela indo pra longe, mas conseguia imaginar. Seu bebê não tinha nem nascido, mas não conseguia nem pensar em passar um dia longe dele, quanto mais um ano. E pela reação de Kathy, o que falam deve ser realmente verdade: eles nunca deixam de ser nossos bebês, de ser crianças diante dos nossos olhos. Então não tinha muito o que falar, dizer que ia ficar tudo bem era básico, porque iria mesmo, estava indo viajar, ele não ia desaparecer para sempre. O que ela poderia fazer para ajudar?

- Sabe, eu sei que não sou o , estou muito longe de ser ele, mas eu vou ficar por aqui, se precisar de qualquer coisa, a qualquer momento, você pode bater aqui do lado e pedir socorro. – a menina sorriu mais abertamente, vendo a expressão da mais velha se suavizar. – Você é como uma segunda mãe pra mim, então na falta do seu filho, talvez eu possa ser uma filha genérica, não sei, talvez só ocupar um espacinho que ficar vazio.
- Ah, minha querida. – Kathy a abraçou forte, beijando cada lado do seu rosto em seguida. – Se eu tivesse uma filha, Deus sabe que eu queria que fosse exatamente como você. E agora com esse bebê...
- É claro que não vai substituir nada, mas você pode matar as saudades da época que o era novinho. – deu brincou, vendo a mais velha balançar a cabeça, concordando. Ela colocou uma das mãos na barriga da menina, sorrindo de lado por um instante.
- Sabe, o é tão focado na vida profissional dele, que eu não sei se ele me dará a felicidade de ser avó um dia. Então, pra mim, mesmo que seja só um pouquinho, bem de mentira, eu penso no seu bebê como meu neto. Espero que Lena não se importe com isso. – Kathy sorriu, mas para o bebê na barriga, do que para . A menina prendeu a respiração por alguns segundos, só olhando para a mulher acariciando sua barriga, feliz por um bebê que não fazia a mínima ideia que era, de fato, o seu neto. Na sua cabeça, mil perguntas surgiam, porque ela já estava se sentindo mal mentindo para todo mundo, principalmente para as pessoas que estavam naquela casa. Talvez fosse mais fácil contar de uma vez, acabar com essa mentira que estava a prestes a tirar sua sanidade. Só que contar a verdade significaria dar a um papel, uma responsabilidade que ele não queria assumir, que nunca foi a vontade dele. E não podia obrigá-lo. Ela não tinha o direito de arrastá-lo para dentro do seu sonho.
- É claro que ela não vai se importar. – tentou sorrir, mas deve ter feito uma careta estranha ao invés disso.
- Deixa eu servir a sobremesa, fiz a torta de amoras que ele tanto gosta. – Kathy comentou, levantando e deixando perdida em seus próprios pensamentos. O fato é que tinha, finalmente, entendido a péssima ideia que tinha sido pedir para ajudá-la na inseminação, porque o peso da culpa, de esconder algo tão importante quanto isso de todo mundo, ia acompanhá-la pelo resto da vida. Ela se xingou internamente por ter sido burra o bastante e não ter pensado em nada, em nenhuma consequência. Ela deveria ter pesado todos os prós e contras, mas só pensou no lado bom das coisas. Achou que deveria ser assim ao menos uma vez na vida. “Por que não fez o de sempre e abriu meus olhos?”, pensou. Mas agora era tarde demais, não tinha muito o que fazer. Era rezar para que isso não fosse um problema no futuro. E também que o bebê não fosse muito parecido com . “Merda, eu não tinha pensado nessa possibilidade.”, xingou mentalmente.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou, se aproximando da amiga e abaixando para ficar na sua altura. Ele percebeu que algo tinha acontecido e tentou fazer com que ela falasse, mas sem sucesso.
- Estou com um pouco de dor nas costas, nada de muito grave. Só cansaço mesmo. - mentiu, dizendo que não tinha acontecido nada. Ela era uma péssima mentirosa, mas no pior dos cenários, pra ela, só pensaria que ela tava chateada pela viagem dele no dia seguinte. O que era verdade, mas não toda a verdade.
- Quer que eu te leve pra casa? – perguntou, preocupado.
- Claro que não, . Por dois motivos: 1. Eu estou bem; 2. Eu moro, literalmente, aqui do lado. – a menina brincou, fazendo o amigo rir e quebrando um pouco o clima pesado.

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17 semanas de gestação – Dia da viagem

Parecia uma pequena excursão ao aeroporto. Tinham mais pessoas do que o normal, mas ninguém parecia se importar muito. Kathy estava abraçada ao filho desde o momento em que colocaram os pés no aeroporto e não parecia muito disposta a soltá-lo, nem mesmo para ele ir embora de fato. John não queria demonstrar, mas seus olhos vermelhos denunciavam as lágrimas que ele não conseguiu segurar. Anthony, Noah e Lilly estavam perto dos pais de , esperando uma pequena brecha para falar com o amigo, enquanto Lena e estavam um pouco mais para trás, destacadas. A menina não estava mais conseguindo controlar a sua tristeza com a viagem do amigo. A carcaça que ela falou dias antes tinha começado a ruir e ela não tinha parado de chorar desde que tinha acordado. Talvez tivesse, finalmente, percebido que o dia tinha chegado e que não dava mais para adiar. Pensou muito e cogitou ficar em casa, porque seria doloroso demais vê-lo embarcar, mas seria mais ainda não vê-lo. E ela queria passar os últimos minutos que podia com ele, todos os minutos que pudesse. Parecia exagero, podia ser, mas ela não ligava muito. Tinha passado os últimos vinte e dois anos de sua vida ao lado de , a ideia não tê-lo por perto sempre a assustava, a deixava um pouco sem chão e ela odiava se sentir assim, totalmente despreparada. Então, sem saber como lidar com tudo isso, preferiu se manter afastada, por não saber nem o que falar.
abraçou forte a sua mãe, apoiando uma mão de cada lado de seu rosto, olhando atentamente para o seu rosto e sorriu. Deu um beijo longo e carinhoso em sua testa, puxando a mais velha para perto mais uma vez.

- Eu vou sentir muitas saudades. – ele disse, sentindo as lágrimas dela molharem sua camisa. – Vou te ligar todos os dias, eu prometo.
- Me promete que vai se cuidar. Que vai comer direito, que vai aproveitar muito essa oportunidade, que vai ser feliz. – Kathy pediu, passando as mãos pelos olhos, vendo o filho a encarar com um sorriso no canto dos lábios.
- É claro que eu vou. – o rapaz disse, apertando o abraço mais uma vez, antes de soltá-la.
- Eu amo você, meu filho.
- Eu também te amo, mãe. – os lábios da mulher se apertaram contra a bochecha dele, deixando uma leve marca de batom, que ela tentou limpar, inutilmente. – Não tem problema. – ele disse, balançando a cabeça lentamente. John se aproximou, colocando a mão no ombro de , vendo o filho olhar em sua direção.
- Não faça nada que eu não faria. – o homem disse, vendo o menino sorrir abertamente. – Faça tudo o que tenha vontade, aproveite cada minuto. Nós vamos sentir muitas saudades.
- Eu também vou, pai. – respondeu, abraçando o mais velho com vontade. Algumas lágrimas teimosas escaparam dos olhos de John sem que ele quisesse, mas ele nem tentou impedir. – Eu te amo. – ele falou, sentindo o pai o abraçar mais forte por alguns segundos.
- Eu te amo, rapaz, demais. – o pai sussurrou. Antes de se separarem completamente, John deu um beijo no rosto do filho e parou ao lado da esposa, passando o braço ao redor de seu ombro, tentando acalmá-la um pouco.
Lilly se aproximou, apoiando o rosto no peito de e olhando para o rapaz da forma que conseguia. Ele passou a mão pelas suas costas e ajeitou o cabelo que caia em seu rosto.
- Eu vou sentir muito a sua falta, quem vai me perturbar gratuitamente? Quem vai fazer piadinhas sem graça ou falar besteiras sem sentido só para me animar? Quem vai estar disposto a me ouvir falar sobre qualquer coisa às oito da manhã num domingo chuvoso? – ela se afastou para olhar nos olhos do amigo, vendo a expressão dele, que parecia um misto de felicidade e tristeza. – O que a gente vai fazer sem você?
- Um ano só, vai passar rápido. Pelo menos eu fico dizendo isso pra mim mesmo diariamente, talvez em algum momento eu acredite. – ele brincou, segurando a mão da menina entre as suas. – Eu também não sei o que vou fazer sem vocês, mas pensa pelo lado positivo, vocês terão uns aos outros.
- Nós só somos poderosos juntos. – ela sorriu de lado, vendo o gesto se repetir no rosto do rapaz. – Mas você tem ir, então seja muito feliz, aproveite bastante, tome todas as cervejas possíveis e existentes. Aproveite em nome de nós cinco.
- Sempre. – ele respondeu, sentindo a amiga o abraçar.
- Eu amo você, meu amigo. Boa viagem. – Lilly falou baixo, com a voz embargada. Quando eles se afastaram, algumas lágrimas já tinham escapado e ela secou o rosto rapidamente.
- Eu também te amo, sua doida. – ele implicou, fazendo a menina sorrir. Noah e Anthony se aproximaram, cutucando a cintura da menina.
- Não regula o , ele tem que embargar daqui a pouco. – Anthony disse, fazendo uma careta fingida.
- Ai, tá bom. – ela revirou os olhos e caminhou até onde estava, logo depois de dar mais um beijo do rapaz.
- Eu não sou bom em despedidas e nem em fazer longos discursos quando não estou bêbado. – Anthony começou a falar, fazendo morder o lábio inferior para não rir. – Então eu só quero dizer para você aproveitar cada segundo dessa viagem, não focar apenas nos estudos e no trabalho. Lembra de viver, porque viver é muito importante. Você é meu irmão, não sei o que vamos fazer sem você por aqui, mas a gente vai dar um jeito, não se preocupa.
- Eu amo você, cara. – falou, puxando o amigo para um abraço apertado.
- Eu também amo você. – Anthony respondeu, apertando um pouco mais o abraço antes de se afastar. Noah se aproximou, já chorando. Talvez ele nem conseguisse falar muita coisa.
- , eu sei que nós não temos o mesmo tempo de amizade, mas eu... – ele não conseguiu mais falar nada, porque começou a chorar mais do que deveria. o puxou para um abraço, passando a mão pelas suas costas, tentando acalmá-lo.
- Não precisa ficar assim, Noah. Eu não quero ver vocês tristes, assim vai ser mais complicado ainda pra mim. – ele pediu, vendo o rapaz balançar a cabeça, afirmando.
- Só que é difícil demais aguentar com isso, eu não sei lidar com despedidas. – Noah falou e balançou a cabeça, como se já soubesse. – Eu só queria que você soubesse que você é uma das melhores pessoas do mundo todo. Sempre foi maravilhoso comigo, fez com que ele me sentisse em família com vocês. E mesmo não tendo todos esses longos anos de amizade como vocês, eu realmente sinto como se todos fossem uma parte de mim. Então com a sua viagem, é como se um pedaço de mim estivesse partindo. Por isso peço que você cuide bem dele e o traga de volta são e salvo.
- Você é um ser humano incrível, uma pessoa iluminada que a vida colocou no caminho do Anthony e me deu a oportunidade de chamar de amigo também. E eu só queria te pedir uma coisa: cuida da pra mim, por favor. Você tem uma sensibilidade incrível e eu sei que você consegue entender o meu pedido, o significado dele. Nada contra meus amigos, mas eu só confio esse trabalho a você. – pediu, vendo Noah balançar a cabeça, afirmando.
- Pode ficar tranquilo, farei o meu melhor. – eles sorriram abertamente, antes de se abraçarem apertado, sussurrando um “eu amo você” e um “boa viagem”.
caminhou até onde , Lena e Lilly estavam, percebendo que estava mais nervosa do que deveria. Lena sorriu em sua direção, o abraçando por alguns segundos, beijando ambos os lados do seu rosto e desejando uma boa viagem para ele. O rapaz parou em frente a amiga, estendendo a mão em sua direção. levantou os olhos vermelhos para encará-lo antes de colocar sua própria mão sobre a dele. Eles caminharam até mais a frente, mais afastados de todos. colocou as mãos ao lado do rosto da menina, fazendo com que ela olhasse pra ele. não conseguia desviar o olhar nem se quisesse. Ela sabia que eram os últimos minutos em longos meses que teriam e não queria perder nenhum instante.
- ... – a voz do rapaz soou baixa e arrastada, como se ele estivesse quase chorando pela primeira vez naquela tarde. – Eu não quero te ver assim. Quando você me disse para ir, eu pensei que você não ficaria dessa forma, mas agora não tem condições de eu entrar naquele avião, não sem saber se você ficará bem.
- Eu vou ficar bem, . Pelo menos eu vou tentar. – a menina falou, levantando a mão para tocar o rosto do rapaz. Tentou limpar a mancha de batom que Kathy tinha deixado, mas também não conseguiu. – Só que agora é verdade e, bem...
- Só me promete que você vai se cuidar, que você vai cuidar do noss... – ele parou por um instante, fechando os olhos e balançando a cabeça antes de continuar. – Promete que vai cuidar do bebê. Que vai mantê-lo quentinho e protegido até o momento certo. Que vai ficar calma, feliz, quieta, para que esses últimos meses passem de forma tranquila. Eu preciso saber que você vai ficar bem ou então eu não terei condições de embarcar em avião nenhum.
- Você vai entrar naquele avião e decolar na direção do seu sonho, meu amigo. Vai ser feliz e depois vai voltar completamente realizado pra gente. – ela apoiou as mãos na barriga – Porque nós estaremos te esperando aqui. Nós dois. Ah! – ela exclamou, levando a mão até perto do pescoço e puxando o colar que ele tinha dado de Natal. – Esse colar não vai sair mais do meu pescoço, vai ser uma forma de te ter perto de mim. E eu tenho mais uma surpresa pra você. – abriu a bolsa, pegando um envelope e entregando nas mãos de . – Eu escrevi algumas coisas pra você, não tem trezentos e sessenta e cinco cartas para ler uma diferente por dia, mas tem algumas. E tem uma foto nossa, a mesma que você colocou no colar. A primeira em que estamos nós três: eu, você e o nosso bebê. Porque ele também é seu, . – ela deu de ombros, como se estivesse cansada de tentar se enganar.

Passageiros do voo United UA 962 com destino a Berlim, embarque imediato no portão 6.

- Você tem que ir, não pode perder o seu voo. – a menina falou, como se quisesse se afastar, mas a puxou para um abraço apertado. Ela afundou seu rosto na curva do pescoço do rapaz e apenas sentiu as lágrimas escorrerem. passou a mão pelos cabelos dela, também sentindo o próprio rosto molhado pelo choro que não conseguia mais segurar.
- Eu só quero que saiba que é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Eu posso estar aqui, na Alemanha ou até em Marte. Nada vai mudar o que eu sinto por você. – o rapaz beijou a testa da menina, em seguida os dois lados de seu rosto e olhou em seus olhos. – Eu amo você. É sério.
- Eu também te amo, . – ela suspirou, sentindo um aperto estranho em seu peito, enquanto encarava os olhos do amigo. Eles se abraçaram mais uma vez antes dele se afastar para buscar o carrinho com a sua bagagem, acenou para todos uma última vez, porque não conseguiria falar com cada um novamente. E caminhou de volta até onde ela estava, andaram lado a lado, ele empurrando o carrinho com uma das mãos e segurando a mão da amiga com a outra. Ela apoiava a cabeça no ombro dele. Chegaram até o portão, o limite onde poderia ir. Se olharam nos olhos mais uma vez, ficando assim por alguns segundos. Até que encostou seus lábios na testa da amiga, antes de se virar e passar pelo portão, mas não sem antes falar:
- Até logo, .


Sete - Müllerstraße 178

I can count on you like four, three, two
And you'll be there
Cause that's what friends are suppose to do

(Bruno Mars - Count on Me)


18 semanas de gestação – Primeira semana de viagem
Platz vor dem Neuen Tor 6, Berlin, Alemanha – 07:05 AM

estranhou acordar num quarto que não era o seu. Num apartamento que não era o seu. Numa cidade que não era a sua. Demoraria algum tempo para ele se acostumar a nova rotina, mas não era como se ele não estivesse tentando. Quando chegou no dia anterior, tratou de procurar a representante da empresa, uma moça chamada Susan, que o ajudaria em sua acomodação, e depois foi atrás de Connor, porque não queria ficar sozinho. Não que fosse muito amigo do sobrinho do chefe, mas era bom ter um rosto conhecido em meio a tanta novidade. O outro rapaz tinha chegado dois dias antes, então já estava um pouco menos confuso.
Quando olhou pela janela, vendo uma paisagem estranha, meio nublada, com as pessoas bem agasalhas para escapar do frio intenso e pensou logo em , ela sempre reclamava de sair de casa quando estava muito frio. Ele não poderia ligar pra ela agora, nem muito menos vê-la. Não tinha nem 24 horas que tinha chegado e ele já queria voltar. sabia que não servia para essas coisas de ficar longe das pessoas que gostava. Falaram que era questão de costume, que com o tempo ele iria sentir saudades, sim, mas saberia lidar. Mas naquele momento, o rapaz só queria saber, mais ou menos, quanto tempo demorava pra isso.
Tomou um banho e foi se arrumar para o seu primeiro dia. Connor disse que passaria em seu quarto às sete e meia da manhã e já eram sete e dez. Olhou entre as opções que tinha, pegando uma blusa de botões azul, de mangas longas, sua mãe tinha lhe dado aquela camisa no Natal. Sorriu com a lembrança de Kathy, sentindo o coração apertar um pouco. Suspirou, pensando:
- Espero aguentar vinte e quatro horas, pelo menos.
Ajeitou os cabelos, colocando todos os documentos que haviam mandado da empresa numa pasta e a pasta em sua bolsa. Olhou no relógio, faltavam cinco minutos para o horário marcado por Connor, então apenas se sentou na cama novamente, esperando o rapaz chegar. Pegou o celular, olhando as últimas coisas que postaram nas redes sociais. Noah tinha postado uma foto de todos os amigos na despedida de , colocando na legenda: “o real significado da palavra amizade.”
- Isso é a cara do Noah. – falou para si mesmo, subindo a linha do tempo da rede social, vendo se tinha algo mais de interessante, mas nem encontrou. Olhou para frente, vendo o envelope que havia lhe entregado um pouco antes de embarcar, com as cartas que ela disse que escreveu. Ele ainda não tinha lido nenhuma, talvez não tivesse coragem, porque sabia que não aguentaria. Mas quando percebeu, já tinha aberto o mesmo e puxado uma folha lá de dentro, só que antes que pudesse ler, ouviu batidas da porta. Era Connor. Deixou o envelope em cima da cama, leria algo quando voltasse. Pegou o celular, sua bolsa, o casaco grosso que tinha trazido, as luvas e caminhou até a porta.
Os rapazes pararam numa cafeteria perto de uma estação de metrô e ficou nervoso, tentando falar o pouco de alemão que sabia. Ele tinha feito curso durante vários anos, na expectativa de um dia conseguir essa oportunidade, mas falar a língua numa aula é totalmente diferente de conversar com nativos. Ele teve algumas dificuldades com a pronuncia, mas ficou feliz de conseguir entender tudo. Fizeram seus pedidos e se sentaram numa mesa mais ao fundo, ainda tinham tempo até o horário do trabalho.

- É coisa de cinco minutos daqui até o prédio, não precisa se preocupar. – Connor comentou, bebendo um pouco do seu cappuccino. olhou em seu relógio e faltava cerca de trinta e cinco minutos para o horário que pediram que ele chegasse lá. Então se permitiu relaxar um pouco.
- Você não tá nervoso ou ansioso, qualquer coisa? – perguntou, vendo o rapaz sorrir de lado, torcendo os lábios de um jeito estranho.
- Eu nunca fiquei tão ansioso pra uma coisa na minha vida. – confessou, dando uma risadinha e vendo o imitar. – Mas eu tento não deixar isso me abalar. Estou aqui tem três dias, estou tentando em adaptar ao ambiente, deixar tudo menos estranho. Deve estar confuso demais pra você ainda, né?
- Sim, ontem eu estava em casa, com minha família, meus amigos e hoje eu estou aqui, sozinho, num país estranho, onde a maioria das pessoas não entende o que eu falo e eu não os entendo também. – parou de falar por um instante, respirando fundo. – É um pouco mais do que confuso.
- Você é muito próximo da sua família, né? – Connor perguntou, vendo o outro rapaz balançar a cabeça, afirmando. – Pra mim é mais fácil, porque não tenho tanta convivência com ninguém. Moro sozinho há anos, meus pais moram outro estado, a gente se via em feriados prolongados, essas coisas, o mais próximo de família que tinha lá em Morristown é o meu tio Stephan, então não é como se eu estivesse perdendo muita coisa.
- Não, eu sou muito próximo da minha família. Meus pais moram lá cidade, há alguns minutos do meu antigo apartamento, tenho meus amigos que estão na minha vida desde o ensino médio. E tem minha amiga, minha melhor amiga, a gente se conhece desde os cinco anos, sempre fizemos tudo juntos. Agora ela tá grávida e eu tive que vir pra cá, então vou perder tudo. É muito difícil. Por mim, eu tinha desistido, mas ela me obrigou. – viu Connor sorrindo de lado e repetiu o gesto. – É uma excelente oportunidade, busquei por isso nos últimos quatro anos, mas agora que aconteceu, que é real, eu tô com um pouco de medo.
- Sem medo. – Connor respondeu rapidamente, fazendo um gesto com as mãos, como se afastasse algo. – Você não pode começar nada novo com medo. Nervoso e ansioso, tudo bem, porque faz parte. Mas medo eu vejo como um sentimento que atrai coisas boas, porque você tende a se afastar quando está com medo e aqui você precisa aproveitar tudo o que puder.
- Todo mundo me falou isso. Meus amigos foram bem enfáticos até, disseram que eu deveria aproveitar todas as oportunidades que aparecessem. – disse, lembrando as recomendações de seus amigos.
- Então você não pode contrariá-los. – Connor sorriu de lado, bebendo um pouco mais de seu cappuccino.

Connor tinha vinte e cinco anos, era mais novo que , mas se portava como se fosse mais velho, talvez fosse o peso das experiências de vida. Quando fez dezenove anos, pegou parte da herança que seu avô tinha lhe deixado e usou para fazer uma viagem pela Europa, num estilo “mochilão”. Passou dias andando por cidades que nunca tinha ouvido falar, conversando com estranhos, dormindo em albergues, aproveitando tudo o que podia. Sempre ouviu do seu velho avô que a vida era para ser vivida, mas que ele não teve a oportunidade e que queria que o neto tivesse. Então em cada cidade que chegava, ia para local mais alto do lugar para conversar com o seu avô, porque sentia que ele estava ao seu lado durante toda a viagem.
Quando voltou, cerca de dois meses depois, era como se tivesse envelhecido cinco anos em poucas semanas. Mas não na aparência, mas em sua personalidade. Resolveu que entraria na faculdade e que se mudaria, então saiu de Ohio e se mudou para New Jersey, onde estudou Engenharia Química, como , e depois foi trabalhar com o seu tio na Bayer, onde estava a menos de um ano. E agora estava na Alemanha, aproveitando a oportunidade da empresa.

dizia não gostar muito de Connor, o achava muito expansivo, muito despojado e um pouco intrometido. E tudo tinha piorado quando descobriu que o rapaz tinha conseguido uma vaga no curso com tão pouco tempo de trabalho, tudo por culpa do tio que tinha. Ele não achava justo que as pessoas tivessem privilégios assim por causa da família, mas estava começando a mudar seu pensamento em relação ao rapaz. Connor estava sempre conversando e brincando com todo mundo, sempre alegre, disponível para conversar. Talvez não fosse algo forçado, era da personalidade dele. E já que teriam que conviver juntos, ou próximos, até porque eles só tinham um ao outro, seria bom manter um relacionamento agradável. E a conversa de hoje foi um passo importante para isso.

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Müllerstraße 178, Berlin, Alemanha – 08:15 AM

Connor e chegaram ao prédio da empresa cerca de quinze minutos antes do horário marcado. Fizeram a identificação na entrada, se enrolando com o alemão e depois seguiram para a ala oeste, onde o setor de engenharia química ficava. Subiram até o nono andar, parando na pequena recepção que tinha. Viram que tinham cerca de mais duas pessoas esperando, conversando em inglês entre si. Os rapazes se olharam e se aproximam dos dois, como se quisessem se entrosar. Era um menino e uma menina, que pareciam se conhecer. Conversavam sobre coisas aleatórias de Londres, como o show que eles queriam ter ido antes de viajar. Connor olhou para pelo canto dos olhos, dando de ombros. Ele era bom em fazer amizades.

- Oi, com licença. – ele sorriu, tentando parecer simpático. – Meu nome é Connor, esse é o meu amigo . Por algum acaso vocês também estão aqui para o curso? A gente ouviu vocês falando e o inglês chamou nossa atenção, foi como um alívio. – os dois riram, sendo acompanhados pelos outros.
- Sim, nós viemos de Londres. – a menina disse. – Eu sou a Julie. – estendeu a mão na direção dos dois rapazes.
- Eu sou o Harper. – o outro repetiu o gesto. Connor e sentaram ao lado deles, tentando conhecê-los um pouco. Quanto mais pessoas ele pudesse manter perto, seria melhor.
- Nós chegamos ontem, ainda estamos bem confusos com tudo, com o idioma, com a cidade, mas acho que a gente vai se acostumar logo. – o rapaz disse, vendo afirmar com a cabeça.
- Eu também estou muito perdido, espero que essa fase de adaptação não demore muito. – comentou.
- Basta alguns dias, você vai ver. O Harper e eu passamos seis meses em Roma dois anos atrás, coisa de duas semanas depois que chegamos, ele parecia que morava na cidade a vida toda. – Julie disse, fazendo o homem ao seu lado rir, balançando a cabeça, como se negasse.
- Eu apenas me adapto facilmente a todas as situações. – deu de ombros, vendo a menina afirmar com a cabeça.
- Vocês se conhecem há muito tempo? – Connor perguntou, com uma expressão curiosa.
- Desde a faculdade, entramos e saímos juntos. Harper não sabe mais viver sem mim. – ela brincou, cutucando o amigo, que apenas rolou os olhos.
- E vocês, se conhecem há muito tempo? – o rapaz repetiu a pergunta, vendo balançar a cabeça, negando.
- Não, acho que dois de seis meses, não é? Talvez um pouco mais. – respondeu, vendo o inglês menear com a cabeça.
- Talvez agora vocês possam criar um vínculo bacana, porque é sempre bom nessas situações.

A conversa se encerrou naquele momento, porque viram uma mulher muito bem vestida passar pelas portas de vidro e caminhar na direção deles. Ela tinha um sorriso simpático nos lábios e parecia estar mais feliz do que era possível naquela hora do dia.

- Bom dia. – ela exclamou, unindo as mãos à frente do corpo e assumindo uma postura bem profissional. – Eu me chamo Magda Svenja e sou a responsável pelo Curso de Aprimoramento de Talentos da Bayer. Vou pedir que os senhores e a senhorita me acompanhem até a sala de reuniões, onde teremos uma breve conversa sobre o curso, como ela funcionará e todos os benefícios que ele proporcionará na vida profissional de vocês. Por aqui, por favor. – apontou para as portas de vidro, sendo acompanhada por todos assim que passou pela mesma.

Todos se sentaram ao redor da grande mesa de vidro, concentrando-se próximo de onde Magda parou, mexendo rapidamente num notebook e fazendo a parede atrás de si se iluminar com o logo da empresa. Nos minutos seguintes a mulher fez uma breve apresentação da empresa e do curso que fariam, explicando quais seriam as atividades, a carga horária e, principalmente, como seria a experiência deles ali. Eles teriam aula todos os dias na parte da manhã numa parte anexa ao prédio, que foi construída e preparada apenas para isso, e após o almoço eles trabalhariam ali naquele mesmo andar, junto com a equipe deles que já havia passado pelo curso. Seria uma forma de colocar em prática tudo o que estavam estudando e também continuar aprendendo. As aulas começariam no dia seguinte e iriam até duas semanas antes do Natal, que era quando o curso se encerraria. Magda achou de bom tom frisar que aqueles que se sobressaíssem durante o programa poderiam receber ofertas e novas oportunidades ao final do mesmo, então era sempre bom aproveitar todas as chances de mostrar interesse e trabalho bem feito.

Assim que encerraram a conversa, Magda os convidou para conhecer parte do prédio, já que eles passariam grande parte do dia ali. Caminharam pelos longos corredores, indo até o anexo onde estudariam, depois voltando ao novo andar e conhecendo a sala onde eles ficariam. Tinha uma mesa para cada um e eles podiam escolher. ficou com uma perto da janela, de onde era possível ver uma praça mais ao fundo. Parecia agradável poder olhar para esse ponto ao longo do dia, principalmente se estivesse sendo estressante. Magda então chamou o restante da equipe, mais cinco pessoas, para apresentar aos novos companheiros. Eram dois rapazes e três meninas, e ela disse seus nomes: Krista, Lisbeth, Eileen, Dierk e Erik.
Krista tinha os cabelos castanhos encaracolados na altura do ombro, os olhos num tom quase mel e sardas pelo rosto quase todo, era a mais alta das meninas e tinha um sorriso simpático e caloroso. Lisbeth tinha os cabelos vermelhos cortados na altura do queixo, os olhos verdes chamavam atenção e contrastavam fortemente com os fios, fazendo com que você não soubesse muito bem pra onde olhar primeiro. Eileen tinha os cabelos loiros caindo até o meio das costas, seus olhos eram num tom profundo de azul. E ela mantinha um sorriso no canto dos lábios, como se estivesse um pouco sem graça com toda a atenção. Dierk era alto e magro, o rosto fino era quase todo ocupado pelos grandes óculos de grau que usava, o cabelo castanho, quase preto, era cortado bem baixo. Sua expressão era meio carrancuda, mas ele estava apenas nervoso. E Erik mantinha um sorriso largo nos lábios, os cabelos num tom loiro escuro tinham um corte onde um pequeno topete se destacava no alto da cabeça. Os olhos escuros passavam segurança, como se ele soubesse bem o que fazer.

deu um sorriso tímido na direção de seus novos companheiros e depois ficou encarando as mãos, sem saber direito que fazer. Sentou-se em sua nova cadeira, apoiando as costas no encosto e respirando fundo.
- Nervoso com o primeiro dia? – ouviu uma voz feminina bem perto. Era Eileen, a loira que tinha chegado com o grupo. Ela sentou-se à mesa que ficava bem ao lado da sua ligando o computador. Seu inglês era ótimo, comparado com alemão de , era maravilhoso, mas tinha um leve sotaque, que fazia querer sorrir enquanto ela falava. Não porque era engraçado, mas porque ficava... bonitinho.
- Mais do que eu gostaria. – respondeu, sendo sincero. Ela sorriu, estendendo a mão em sua direção.
- Eu sou a Eileen, muito prazer. – falou, vendo o rapaz repetir o gesto, com um sorriso nos lábios.
- Sou .

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42 Moris Ave, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 18:56 PM

estava sentada na privada, com a tampa fechada, enquanto Lilly passava um creme estranho em seu rosto. Ela tinha saído do trabalho e ido direto para sua casa, e chegou falando como o creme era maravilhoso, que as mulheres do escritório tinham usado e achado incrível, então ela comprou também. E como ela era uma excelente amiga, tinha decidido que dividiriam essa experiência. Então Lilly estava espalhando o creme verde, que tinha um cheiro estranho – uma mistura de pepino com algo que remetia a limpeza e que não conseguiu decifrar –, por todo o rosto de . Depois elas mudaram de posição e foi a vez de Lilly ser coberta pelo creme. Ela reclamava que estava gelado, mas apenas ignorava, passando o hidratante em cada pedacinho de seu rosto. Depois elas se sentaram na cama, encarando a televisão desligada.

- Quando você quiser me fazer uma surpresa, traz comida. – comentou, vendo a amiga rolar os olhos e começar a rir. – É sério, eu tô com fome.
- Podemos pedir alguma coisa, o que você quer? Pizza? – Lilly viu a amiga arregalar os olhos, com interesse, balançando a cabeça com vigor. Então pegou o celular e ligou para a pizzaria que ficava perto dali, talvez não demorasse muito. – Do que você quer? Pepperoni? Mussarela? As duas? – brincou.
- As duas, grandes. – respondeu, vendo a outra franzir testa, meio surpresa. Apenas deu de ombros, passando a mão pela barriga proeminente. Lilly fez o pedido e informaram que demoraria cerca de meia hora, então precisaria sobreviver até lá. Ela continuou fazendo um carinho na barriga, até que sentiu o bebê se mexer novamente, o que a fez ficar sobressaltada. – O bebê tá mexendo! – exclamou, fazendo Lilly derrubar o celular no chão com o susto.
- Eu quero sentir. – gritou, quase desesperada, fazendo rir. Ela puxou a mão de Lilly e colocando no exato lugar onde a dela estava antes, continuou mexendo na barriga, incentivando o filho a mexer novamente.
- Vamos bebezinho, sua tia quer sentir você. – pediu, afinando a voz, como se estivesse mesmo falando com um bebê. – Você mexeu para o tio .
- Como é? O foi embora e ainda conseguiu sentir o bebê mexer antes de mim? Não, isso não tá certo. – Lilly reclamou. Ela odiava não ser a primeira em tudo, até mesmo nas coisas que não eram, realmente, uma competição. Ela se acomodou numa posição melhor, deitando com a barriga para baixo, ficando de frente para e colocou as duas mãos na barriga da amiga, sem nenhuma cerimônia. – Oi, bebê, aqui é a Tia Lilly, a tia mais legal que você vai ter na sua vida. Eu conheci a sua mãe muitos anos atrás e eu sou uma das pessoas que ela mais ama no mundo, então acho justo você falar comigo, porque ela também uma das pessoas que eu mais amo e, em breve, você também será. – ela olhou para cima, vendo sorrindo em sua direção. Lilly deu uma piscadela, voltando sua atenção para a barriga. – Pois bem, você não vai falar mesmo comigo? Vou ficar aqui falando até amanhã e... – ela ficou em silêncio quando sentiu uma vibração bem embaixo de onde estava sua mão direita. – Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! – Lilly ergueu os olhos, arregalados, para , com a boca aberta, completamente chocada. A amiga sorriu, incentivando ela a falar mais. Só que antes que Lilly pudesse falar qualquer coisa, as duas sentiram algo diferente. – O que foi isso?
- Não sei, acho que ele chutou. – disse, tão surpresa quanto Lilly. Pressionou a mão no exato lugar que tinha sentido o leve impacto antes e assim que fez, sentiu um novo chute em resposta. – Tá chutando mesmo, tá chutando muito. – exclamou, levando uma das mãos à boca e sentindo os olhos marejarem. ficava extremamente emocionada toda vez que sentia seu bebê mexer, porque era como se ela tivesse mais certeza ainda que ele estava ali, crescendo dentro dela. Que o seu sonho era real. Elas continuaram a prestar atenção no bebê, até que ele se cansou e parou, como se tivesse dormido.
- Nunca tinha acontecido antes? – a amiga perguntou e ela negou, apenas balançando a cabeça. Então Lilly soltou um gritinho de comemoração. – Não acredito que fui a primeira a sentir. – balançou o corpo, ainda celebrando. – precisa saber disso.
- Lilly, deixa ser boba. – falou, sentindo um aperto no peito de ouvir o nome do amigo. Não tinha se permitido pensar muito nele, porque isso a deixava triste.
É claro que estava imensamente feliz pela oportunidade que ele estava tendo, ela foi uma das pessoas que mais o incentivou a ir, ainda quando ele mesmo quis desistir... por ela. Parecia besteira ficar triste agora, mas não é como se ela tivesse escolha, não podia deixá-lo perder isso, não conseguiria viver com essa culpa. Mas parecia que não conseguia viver com a saudade também. E isso porque tinha cerca de vinte e quatro horas que tinha partido. Ainda faltavam outros trezentos e sessenta e quatro dias. Mais de vinte e uma mil horas. E mais segundos do que podia contar. Não que não estivesse contando.
- Eu vou contar para todo mundo. – Lilly disse pegando o celular no chão e digitando rapidamente uma mensagem.

“Adivinhem quem foi a primeira a sentir o bebê da chutando?
Claramente eu já sou a tia preferida.”

Lilly, 19:17


O celular de logo apitou em cima da mesa de cabeceira e ela jogou a cabeça para trás, rindo da amiga e de suas conquistas.
- Você é ridícula. – falou, olhando a cara de presunçosa da amiga. Só que antes que ela pudesse responder, os dois celulares apitaram ao mesmo tempo.

“Claro que você é a tia preferida... é a única.”
Anthony, 19:19

“Exijo uma reavaliação de preferências. Vamos todos nos reunir
e vemos pra quem ele se mexe primeiro.”

Noah, 19:20

- deve estar em casa essa hora, né? – Lilly comentou, olhando as mensagens dos meninos. – Na verdade, eu não sei direito a diferença do horário.
- Acho que são cinco horas a mais, então ele deve estar dormindo, talvez. Não sei mais a programação do . – havia um pouco de ressentimento no tom de voz de e Lilly percebeu. Ela se sentou ao lado da amiga, segurando sua mão e olhando atentamente para o seu rosto.
- Olha, , eu sei que não sou o . Não sou organizada como ele, não sou certinha e provavelmente não vou saber te ajudar nas mesmas coisas que ele sabia, mas eu tô aqui. Anthony e Noah estão aqui também. Não é como se você estivesse sozinha. Eu sei que não vamos substituí-lo, que não vamos ocupar o seu lugar, mas talvez, quem sabe, a gente possa encontrar um lugarzinho só nosso, que tal? – suspirou, apertando levemente a mão da amiga, antes de esticar o corpo para pegar seu celular.

“Reavaliação agendada para amanhã, horário a combinar.
Combinem o melhor horário pra vocês com a Lilly e venham me ver, tô sempre disponível.”

, 19:23


deixou o celular ao lado do corpo, esticando as pernas e as costas para se alongar. Ficou olhando para a amiga por alguns segundos, ela estava deitada na cama, com a barriga para cima e as pernas erguidas, apoiadas na cabeceira, e ria bastante enquanto olhava a tela do celular, provavelmente alguma mensagem de Scott. Lembrou de todas as coisas que pensou no almoço na casa de Kathy, sobre como o bebê poderia nascer parecido com o , como isso poderia ser um problema para ela no futuro. Estavam só elas ali, confiava em Lilly, então poderia muito bem ser sincera e contar tudo, pedir ajuda para a amiga, porque ela estava ficando louca. Mas por outro lado, ela se questionava se deveria realmente sofrer por antecipação, porque ela poderia estragar tudo por nada, seu filho nasceria igual a ela e ninguém nunca desconfiaria de nada. Seguiriam achando que é fruto de uma relação casual que não foi em frente. Esse era o plano, certo? Então ela deveria seguir. Mas nunca foi muito boa em seguir com planos.

- Lilly, você acha loucura eu ter esse bebê sozinha? – falou, vendo a amiga virar o rosto na sua direção, com o cenho franzido, como se estivesse confusa. – Sabe, você acha que eu deveria procurar o pai, contar da gravidez.
- Você sabe onde ele tá? – ela perguntou, sentando imediatamente, deixando o celular de lado. – Tipo, consegue encontrá-lo com facilidade?
- Talvez... – mentiu, rezando para que estivesse sendo convincente.
- Bem, eu acho que seria bom, porque ele tem o direito de saber que será pai, mesmo que escolha não fazer parte da criação da criança. Se um dia ele vier a saber que tem um filho, ele pode fazer valer seus direitos como pai e talvez não de uma forma amigável. Juridicamente falando, ele pode entrar na justiça para garantir os direitos dele como pai. Então se você conseguisse revolver essa questão enquanto ainda não envolve diretamente a criança, provavelmente é melhor. Mas é homem, né, , as chances de ele querer assumir são menores que a minha paciência com as pessoas no dia a dia. Acho que um dos únicos homens que fariam isso na face da Terra era o . – Lilly riu abertamente, sendo acompanhada de , mas o riso da outra era diferente, era de puro nervosismo.
- Mas a questão não é essa, de contar ao pai, mas sim de criar o bebê sozinha. Você acha que eu devo dar a chance dele ter um pai? Porque eu cresci sem o meu e fiquei bem, mas acho que é sempre bom para uma criança ter mais referências enquanto cresce, certo? Eu só sei que passei a minha vida toda me questionando se tinha sido minha culpa, se tinha sido por minha causa que o meu pai foi embora e eu não quero que... – a voz da menina meio que morreu no final da frase, demonstrando sua vulnerabilidade.
- A culpa não é sua, . E muito menos será do seu filho. – Lilly se apressou em falar, se aproximando e segurando a mão da amiga entre as suas. – Claro que crescer com os dois pais pode ter influência na vida e no desenvolvimento da criança, mas nunca será algo primordial. Necessário mesmo é o amor que você tem de sobra para dar a ele. É o carinho que você terá, o cuidado. E se precisar de mais referências, a gente tá aqui. Essa criança será a mais mimada e amada de todo o mundo. Então se você quiser ir atrás do pai, ótimo, tem todo o meu apoio, mas se você não quiser, ótimo também e terá mais ainda o meu apoio. Você é incrível, absurdamente forte e será uma excelente mãe, não comece a se questionar agora. Ter um pai ao seu lado não te fará melhor. Quantas mulheres você conhece que criam seus filhos sozinhas?
- Muitas. – respondeu, com a voz baixa, lembrando logo da sua própria mãe.
- Você acha que foi fácil todos os dias? Que elas não quiseram desistir ou que choraram até dormir? Nunca vai ser fácil. Porque, né, é a vida. Mas quando você sentir eu tá pesado demais, você sabe quem chamar, certo? Você sempre segurou minha barra, agora é minha vez. – Lilly sorriu de lado, vendo a amiga a puxar para um abraço apertado. A campainha soou atrapalhando o momento, então elas se separaram. – Vou pegar as pizzas.
- Tem refrigerante na geladeira. – gritou quando a amiga já estava no corredor. Os dois celulares vibraram ao mesmo tempo e a menina pegou o dela, desbloqueado a tela e vendo a notificação de uma nova mensagem. riu sozinha, era como se ele adivinhasse.

“Lilly, o bebê mexeu primeiro comigo, não tente me roubar isso.
Estou longe, mas ainda estou de olho.”

, 19:35


🤰 👶 👪


Platz vor dem Neuen Tor 6, Berlin, Alemanha – 00:35 AM

estava de volta ao seu pequeno apartamento, encarava o teto, sem saber o que fazer. Podia ligar para a mãe, para , para um dos amigos, era meia noite aqui, mas lá eram sete da noite, Lilly estava com , ele poderia conversar com as duas um pouco, matar as saudades e depois dormir. Só que sabia que não conseguiria lidar com isso agora, estava muito recente e ele não era uma pessoa forte. Só que era difícil demais estar sozinho. Sim, ele morava sozinho, mas tinha tanta gente que ele amava e também o amava por perto. E agora ele estava sozinho de verdade. Se precisasse algo, teria que recorrer ao Connor e ele não conhecia o Connor, como poderia se abrir? Ficou pensando nas mensagens que Lilly mandou, no bebê se mexendo, chutando e ele não estando lá. Teria que se acostumar, porque quando voltasse, o bebê já existiria, seria uma pequena pessoa e não poderia ficar lamentando o que perdeu, sim tentar aproveitar o que poderia acompanhar. Acompanhar de longe, como tio, padrinho, amigo. Mesmo sabendo que também era seu, que eles compartilhariam um laço maior do que qualquer coisa pelo restante da vida de ambos. Mas ele fez uma promessa e cumpriria.
Respirou fundo, olhando o envelope que tinha lhe dado, esticou o corpo e o pegou, puxando uma folha aleatória de dentro do mesmo. A caligrafia inconfundível da menina o fez sorrir. odiava sua letra, mas ele adorava. Era confusa e estranha, assim como a dona.

Querido ,

Você embarca em dez dias e é como se eu já estivesse sentindo você cada vez mais longe de novo. Um pouco a cada dia. Acho que assim é até melhor, sabe? Porque me dá tempo para acostumar, não sei. Eu estava aqui pensando, foram tantas coisas que passamos juntos, mas não consigo me lembrar da última vez que ficamos tanto tempo separados e não consigo. Talvez tenha sido na sua viagem de férias, no primeiro ano do ensino médio, quando você foi para a casa dos seus avós no Michigan. Foram longos dois meses, confesso... Lembro de sentar na porta de casa durante a tarde e ficar olhando as pessoas passando na rua, porque eu não tinha nada para fazer. Depois ficava parada na janela, olhando para a sua, como se você fosse aparecer num passe de mágica. Acho que foi o pior verão da minha vida, espero que o seu tenha sido melhor.
Quer saber, eu acho que nós temos sorte, porque não é todo mundo que tem a chance de ter algo assim durante a vida, ou até mesmo parte dela, . E nós temos vivido isso ao longo de quase toda a nossa. São mais de vinte anos. Todas as minhas memórias estão atreladas a você. Tanto as boas, quanto as ruins, porque você sempre esteve por perto. Eu sei que tenho em você alguém para confiar de olhos fechados, que vai me apoiar independente do que acontecer. Que vai me ajudar a levantar, que vai me acompanhar quando o caminho ficar difícil demais para seguir sozinha. E agora você me deu a coisa mais importante da minha vida e eu serei eternamente grata por isso. Talvez eu nunca seja capaz de retribuir, eu sei muito bem disso, mas espero que todas as vezes que você olhar para esse bebê, veja um pouco de você nele. Veja como a nossa amizade deu frutos, maravilhosos frutos. Veja como nós dois seguiremos juntos até depois que não estivermos mais por aqui. Porque viveremos nesse bebê. E nos filhos dele. Nos netos, bisnetos. Acho que esse é o nosso destino, estar sempre junto, até mesmo quanto estamos longe. E é assim que eu sinto você perto de mim, talvez mais perto do você sempre esteve.

Com amor,



Oito - 30 semanas

And we'll come together fine
All we need is just a little patience

(Guns N' Roses – Patience)


30 semanas de gestação – Três meses de viagem
42 Moris Ave, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 13:56 PM

Noah parou com o táxi na porta da casa de e ligou para a amiga, pedindo para o taxista buzinar algumas vezes também. Ela tinha uma consulta com a ginecologista e ele iria com ela, fazendo aquilo que havia pedido: tomar conta de já estava com uma barriga enorme e parecia um pouco mais descoordenada que o normal. Ajeitou a blusa cinza que usava, puxando para baixo a parte que teimava em ficar subindo por causa da barriga, e a camiseta xadrez que usava por cima estava aberta, e nem se quisesse poderia fechar, porque a barriga impedia qualquer tentativa. Veio andando mais lentamente, com uma expressão meio emburrada.

- Noah, nossa consulta é daqui a uma hora quase, por que você me apressou dessa forma? – ela perguntou, enquanto ele abria a porta traseira do táxi e a ajudava a entrar. O rapaz deu a volta, entrando pelo outro lado e encarando a amiga. – Eu poderia ter, pelo menos, penteado o cabeço direito, olha o meu estado! – ela reclamou, apontando para a própria cabeça, onde os cabelos estavam todos puxados num coque bagunçado e presos de qualquer maneira.
- Você sabe que eu não gosto de chegar atrasado. – tentou explicar, mas apenas rolou os olhos.
- Atrasado é diferente de extremamente adiantado. – ela olhou no relógio. – Vamos chegar uns quarenta minutos antes da hora, se eu tiver que ficar lá esperando, você vai ver só.
- Dá pra você relaxar, por favor? A Doutora Adelaide já disse que você não pode ficar se estressando a toa. – Noah disse, olhando no seu celular, enquanto a amiga bufava ao seu lado.
- Se as pessoas cooperassem, eu não precisaria me estressar. – respondeu, atravessada.
- Hormônios... – ele cantarolou, encarando pelo canto dos olhos, vendo a sombra de um sorriso brotar em seus lábios. – Vamos lá, se você der um sorriso agora, eu compro um sorvete de chocolate pra você.
- Não me trate como uma criança, Noah. – riu mais abertamente, parecendo um pouco mais relaxada. – E você sabe que a Adelaide disse que eu precisava emagrecer, não engordar mais.
- Ela só vai ficar sabendo se você contar. – o rapaz disse, dando de ombros. parecia estar pensando sobre e ficou em silêncio por alguns minutos, até que respondeu:
- Mas se for assim, eu quero sorvete de menta com chocolate, com calda de chocolate. Um pote, do grande. – pediu, fazendo a expressão que tinha descoberto que fazia com que ganhasse qualquer coisa, de qualquer pessoa. Bastava um pequeno sorrisinho e as mãos apoiadas na enorme barriga.
- Tudo bem. – Noah respondeu, balançando a cabeça lentamente. – Você e essa carinha são extremamente perigosas.


e Noah estavam sentados na sala de espera do consultório da Doutora Adelaide há quase quarenta minutos. A menina não estava com uma expressão muito agradável, enquanto o rapaz ficava a encarando, tentando fazê-la rir. fez uma careta, levantando por um instante e esticou as costas, reclamando que estava com dor de tanto ficar sentada naquela cadeira desconfortável. Caminhou um pouco de um lado para o outro, até que a porta da sala abriu e Adelaide surgiu, com um sorriso breve nos lábios.

- Vamos, . – Noah pegou a bolsa da amiga e caminhou atrás dela até dentro do consultório. Eles se sentaram nas cadeiras que tinham em frente à mesa da médica, que se sentou na sua própria, olhando atentamente para a grávida. – Como está se sentindo?
- Irritada. – disse, sincera, mas rindo logo em seguida. – Cansada, com muito sono e muitas dores nas costas.
- Normal, você está entrando no terceiro trimestre, o bebê está ficando grande, as coisas tendem a ficar um pouco mais desconfortáveis. Você pode usar mais travesseiros, apoiar as costas, apoiar a barriga. Se exercitar também ajuda bastante, mas nada muito pesado ou que exija esforço. Uma caminhada leve pela manhã, aulas de hidroginástica, ioga, pilates. Tudo isso vai ajudar no seu humor, no cansaço, nas dores e, principalmente, no peso que não estamos conseguindo manter dentro da meta, não é mesmo?
- Eu estou tentando muito manter o peso, seguir a dieta, mas é muito difícil. Eu sinto muita fome e o bebê não quer comida saudável. – brincou, vendo a médica balançar a cabeça lentamente, como se não acreditasse na desculpa que ela deu.
- Posso caminhar com você alguns dias da semana antes do trabalho, talvez uma companhia te anime, te faça realmente sair de casa e se exercitar. – Noah comentou e Adelaide pareceu ter gostado da sugestão.
- É uma excelente ideia, porque estamos vendo que sozinha ela não fará nada. Podem começar com duas vezes na semana, aumentando para, no máximo quatro, conforme sentir que você aguenta o ritmo, as distâncias e o exercício. Já que você está me enrolando desde o início da gravidez, começar a se exercitar assim na fase final requer mais cuidado. Enfim, vamos ver o peso? – Adelaide falou, levantando de sua cadeira e seguindo até a balança que tinha perto da mesa de exames. subiu na mesma evitando olhar para a médica que movia os pesos para saber o valor exato e encarava Noah, que estava sentado ao seu lado direito. Ela fez uma leve careta, como se estivesse com medo do que ouviria a seguir. – Nós tínhamos dito um quilo por mês, certo? Mês passado você tinha engordado dois e no quarto mês tinha engordado três, mas acho que a bronca fez efeito, porque você engordou 900 gramas da última consulta pra cá. – a médica fez uma expressão de orgulho, rindo da pequena comemoração que fez.
- Eu tenho tentado muito, muito mesmo controlar a alimentação e o Noah é minha testemunha, mas tem dias que não consigo, é mais forte que eu.
- Sair da dieta que planejamos um dia ou outro, não tem problema, mas comer apenas besteiras como você quer todos os dias, não dá e você sabe muito bem. – a doutora comentou, pegando o medidor de pressão arterial. Pediu que se sentasse na mesa de exames, prendendo o aparelho em seu braço. – 11 por 7, está excelente e mantendo o mesmo nível ao longo dos meses. As caminhadas também podem ajudar para manter a pressão estável, o que é importantíssimo nesse momento final da gravidez.
- Minha mãe me faz tomar, pelo menos, dois copos de suco de laranja todo dia. Ela diz que é bom para manter a pressão estável. – a menina comentou, vendo a médica balançar a cabeça.
- É ótimo, além de ser fonte de vitamina C. Por falar nisso, ainda está tomando o suplemento que eu receitei? A sua taxa de ferro estava um pouco abaixo do que desejável no último exame de sangue.
- Estou sim, minha mãe não me deixa esquecer.
- E ela tem comido porções diárias de alimentos ricos em ferro, sei porque me responsabilizei por isso. – Noah comentou, se sentindo muito importante.
- Você está muito bem cercada, . – Adelaide disse, apontando para que a menina deitasse na mesa de exames. Tocou sua barriga, verificando a altura do útero e o tamanho e posição do bebê, depois pegou um estetoscópio, encostando à barriga para ouvir os batimentos cardíacos. – Está tudo bem, a barriga está no tamanho dentro da normalidade, os batimentos normais. Você tem sentido algum desconforto além das dores nas costas? Dor nas pernas? Notou alguma veia mais aparente ou a formação de varizes? Os enjoos passaram?
- Não, nadinha. E os enjoos passaram de vez, graças a Deus.
- Graças a Deus mesmo. – Noah murmurou, lembrando da noite que passou com a amiga, enquanto ela enjoava por tudo o que via pela frente. Ele não dormiu por pura preocupação, medo que ela se sentisse mal de madrugada e ele não visse. Pensou que esses enjoos eram mais comuns no início da gravidez, mas teve esse problema até perto do sexto mês e foi um dos motivos pelo qual a sua alimentação era tão ruim, ela, basicamente, só conseguia comer pizza, morango e maçã. Agora que essa fase tinha passado, Lena tinha colocado muitas verduras e legumes em sua alimentação. Nem parecia a mesma pessoa.
- Só vou medir a circunferência da sua barriga e terminamos. – a médica disse, pegando uma fita métrica, passando pelas costas da menina e juntando com a ponta na altura do seu umbigo. – Você está com 31 centímetros. Geralmente a barriga acompanha a quantidade de semanas da gestação, mas está tudo dentro da normalidade. Só deve significar que o bebê é grande. E vai crescer ainda mais nesse último trimestre.
- Eu vou explodir. – brincou, ajeitando a blusa e se sentando na mesa.
- Então tá certo, continue comendo os alimentos ricos em ferro e tomando o suplemento, e me traga um novo exame de sangue na próxima consulta, para eu ver se o nível de ferro normalizou. Faça as caminhadas, melhores a alimentação, cuide da pressão, não se estresse por bobeira. Estamos entrando na fase final da gravidez, agora pode parecer que vai demorar mais que o normal para o tempo passar, mas quando você menos esperar, seu bebê estará nascendo. – Adelaide falou, sorrindo de lado. – Se estiver desconfortável para dormir, vê se você acha uma daquelas almofadas compridas, que você apoia ao longo do corpo, vai te ajudar a dormir melhor.
- Ah, eu sei qual é. Vou procurar depois. – disse, tentando anotar isso mentalmente. Ela se levantou da mesa de exames, onde ainda estava sentada. – Muito obrigada, Adelaide.
- Até mês que vem. – a médica disse, abrindo a porta do consultório para os dois amigos.
- Até. Tchau. – disseram ao mesmo tempo, se despedindo brevemente dela, caminhando ao lado até a saída.

🤰 👶 👪


Müllerstraße 178, Berlin, Alemanha – 17:40 PM


estava totalmente instalado na Alemanha, assim como já estava adaptado a toda a rotina de trabalho. O curso era incrível, ele estava aproveitando cada minuto, adquirindo todo e qualquer conhecimento que podia. Tinha plena noção que a sua carreira ia mudar bastante depois que terminasse, porque ele estava indo para outro patamar. Poderia assumir responsabilidades maiores e até chefiar alguns setores de pesquisas. Só de pensar nas possibilidades que se abririam no futuro, ele ficava em êxtase, já que era tudo o que sempre sonhou e que agora tinha grandes chances de se tornar realidade.

- . – Harper, o rapaz que tinha vindo da Inglaterra para o curso, parou perto de sua mesa, chamando sua atenção. – Nós vamos sair para um bar depois do expediente hoje, você quer ir também?
- Vai todo mundo? – perguntou, olhando na direção de Connor, que conversava de forma animada com Lisbeth e Julie.
- Acho que sim, só estamos esperando o Dierk voltar de uma reunião e sairemos. Foi ideia da Krista, porque já estamos aqui há um tempo e ainda não tivemos uma oportunidade de nos conhecermos melhor. – o inglês respondeu, vendo o afirmar com a cabeça.
- Vou sim, só preciso terminar esse relatório, mas faltam alguns parágrafos. – sorriu de lado, vendo o gesto se repetir no rosto do companheiro de trabalho.
- Ótimo, vamos te esperar. – Harper disse, antes de ir ao encontro dos outros que estavam batendo papo.

voltou seus olhos para o computador, focando sua atenção no trabalho, para que pudesse terminar logo. A ideia dessa pequena reunião era bem legal, porque poderia abrir novas possibilidades de contato humano para o rapaz. Nos últimos meses, sua vida tinha resumido em estudar, trabalhar, comer comida congelada, falar no Skype com sua família e amigos e beber qualquer coisa com o Connor. Ele sentia que estava até mesmo regulando Connor, como se estivesse o prendendo em sua rotina monótona. Porque eles tinham se aproximado bastante nos últimos meses, a saudade que sentiam e sensação estranha de serem a única referência de casa um do outro. E Connor tinha aquele espírito livre, transbordava carisma, mas sempre ficava no hotel, porque sentia que deveria fazer companhia para o novo amigo. sabia que ele estava deixando de fazer as coisas para não deixá-lo sozinho, gostava dessa preocupação, mas também não queria ser um problema ou um peso para Connor.


estava no bar com os colegas de trabalho: Harper, Julie, Krista, Lisbeth, Eileen, Dierk, Erik e Connor, eles tomavam algumas cervejas, mesmo com o frio que fazia naquela noite. Era sexta-feira, então o lugar estava cheio, uma música tocava ao fundo, mas o rapaz não conseguia distinguir qual era, porque estavam todos conversando e rindo alto. Connor estava ao seu lado direito na mesa e parecia estar um pouco mais bêbado que os demais, o que fez pensar que ele não devia ser do tipo que bebe muito. Krista estava do lado esquerdo, conversando algo com Erik que não entendia, ou não prestava atenção direito.

- , você já aprendeu a pedir seu café sem errar o pedido? – Julie perguntou, quase da outra ponta da mesa, fazendo todos riem. chegava, quase todos os dias no primeiro mês, dizendo que teve que repetir cinco ou seis vezes para que a atendente entendesse o seu pedido. E todo mundo começou a brincar com isso.
- Eu acho que estão quase conseguindo me entender agora. Eu só preciso repetir uma vez, nem tenho mais que apontar no menu. – respondeu, entrando na brincadeira, mesmo ele sendo o alvo da piada.
- Você tá melhor que eu. – Harper disse, participando da conversa. – Semana passada eu fui ao mercado e me pararam na rua para perguntar as horas, bem, eu acho que eram as horas. Eu fiquei tão nervoso, me enrolei tanto, que falei errado. E antes que eu pudesse consertar, o rapaz saiu andando muito rápido, quase correndo, na direção do metrô. – continuou, ouvindo a risada alta de Lisbeth e rindo junto. – Acho que eu o fiz acreditar que estava atrasado para algo importante.
- Realmente, isso eu ainda não fiz, mas já sei que é melhor eu mostrar o relógio ao invés de falar. – falou, dando uma dica. Enquanto a conversa continuava, ele pegou o celular no bolso, olhando as horas e vendo se tinha alguma mensagem. Ele tinha combinado de conversar com pelo Skype naquela noite, então não podia demorar muito. Quando bloqueou novamente a tela do aparelho, percebeu que Krista estava olhando pra ele.
- Desculpa perguntar. – ela disse, com uma expressão amistosa. – Mas essa menina que tá na foto do seu papel de parede, é a mesma que esta nas fotos que você tem na sua mesa, não é?
- É sim. – ele afirmou com a cabeça, desbloqueando o celular e virando na direção da colega.
- É sua namorada? É que eu vi que ela está em várias fotos com você, tem uma muito bonitinha dela grávida e você do lado, super babão... – Krista deixou a frase morrer, rindo em seguida, vendo que o rapaz agora acessava a galeria do celular, mostrando outras fotos.
- Não, ela não é minha namorada, é minha melhor amiga. – ele mostrou uma foto deles de quando eram bem pequenos, que ele deixava salva no celular. – A gente se conhece desde os cinco anos de idade, crescemos juntos, sempre fizemos tudo juntos e agora ela tá lá grávida e eu to aqui. – fez uma breve careta, vendo Krista fazer uma expressão meio chateada.
- Deve ser bem chato, né. Mas você tinha que fazer uma escolha e é o seu futuro. – ela disse, tentando soar compreensiva. – Pelo menos, você consegue acompanhar tudo, mesmo de longe. – comentou, vendo as últimas fotos que tinha enviado para .
- Ah, nada disso. – riu, bloqueando o celular de novo e colocando no bolso. – Ela me obrigou a vir, por mim eu tinha ficado. Eu queria participar da gravidez, estar por perto, ajudar com o bebê. Mas... Eu faço isso quando voltar. – Krista balançou a cabeça, concordando, enquanto bebia um pouco de sua cerveja. Ele olhou para Eileen, que estava sentada na sua frente, atenta ao que Julie falava, mas às vezes ficava com o olhar perdido, como se estivesse pensando em outra coisa.

- Tá tudo bem? – perguntou, chamando a atenção da loira, que pareceu se assustar com a pergunta direcionada a ela e sorriu de lado, quando percebeu que era que estava falando.
- Tá tudo certo, eu só estou com a cabeça em outro lugar. – deu de ombros, apoiando as costas no encosto da cadeira. Por mais que tivesse sorrido ou estivesse se esforçando para parecer que estava tudo bem, percebeu que tinha algo errado. Pensou em perguntar, se oferecer para ajudar, mas não sentiu como se tivesse tanta intimidade assim com a menina. Eileen era muito calada, sempre ficava na dela, não era muito de falar durante o expediente e mesmo sentando ao lado de , eles nunca tinham parado para conversar direito.
- Se quiser conversar... – deixou a frase morrer, decidindo arriscar ser um pouco simpático.
- Só se for sobre algo bem aleatório. – ela brincou, apoiando os braços na mesa e, em seguida, a cabeça numa das mãos. – Preciso me distrair.
- Algo bem aleatório, ok, vamos pensar. – ele fingiu estar muito concentrado, pensando em algum assunto muito importante. – Pandas? – perguntou, vendo a menina rir e balançar a cabeça. – Unicórnios? Talvez não um animal...
- Unicórnio é um animal? – Eileen indagou, mordendo o lábio inferior e prendendo o riso.
- Parece um cavalo, não é? Então deve ser. – deu de ombros. – Comida! Você quer falar de comida? Filmes da Disney? – continuou falando, sem parar, distraindo a menina. – Já sei, eu sou um gênio. Acabei de pensar no melhor assunto aleatório e que de quebra vai te animar. Vamos falar sobre Friends.
- Eu nunca vi Friends. – ela respondeu, vendo uma expressão chocada surgir no rosto do rapaz.
- Que tipo de pessoa nunca viu Friends? Você está vivendo errado. Isso é um absurdo, Eillen! – ele respondeu, fingindo estar muito surpreso. – Teremos que corrigir isso.


Platz vor dem Neuen Tor 6, Berlin, Alemanha – 23:36 PM

chegou no seu apartamento, depois de deixar Connor em seu quarto. Mandou uma mensagem para , dizendo que iria tomar um banho e que logo estaria online no Skype. Cerca de dez minutos depois, ele sentou na cama, colocando o notebook no colo. Procurou o nome da amiga, solicitando uma conversa por vídeo. Chamou algumas vezes, até o rosto sorridente de surgir na tela do computador. Ela ainda estava com a roupa que usou para ir à consulta, porque do consultório, tinha ido às compras com Noah e chegado alguns minutos atrás.

- Eu conheço essa camisa xadrez. – acusou, sem nem dizer oi. Ele ouviu a risada alta de e sorriu junto, era impossível não sorrir.
- Oi pra você também. – ela respondeu, fazendo uma careta. – E sim, essa camisa é sua. Também é uma das poucas roupas que ainda estão entrando em mim, mas olha... – ela levantou, ficando de pé na frente da câmera, mostrando o corpo quase inteiro. – Ainda sendo sua, ela não fecha na barriga. – fez um movimento trazendo a camisa para frente e tentando fechar, mas faltavam alguns centímetros de tecido para que os botões conseguissem fazer seu trabalho. – , eu estou gigante!
- Isso é bom, não é? Quer dizer que o bebê está grande. – perguntou, apoiando o rosto nas mãos, olhando com cara de bobo para a amiga e sua barriga enorme. Pensou como o bebê devia estar mexendo enlouquecidamente agora e desejou muito estar em casa. fez que ia se sentar novamente e ele interveio. – Não senta, eu quero ver mais a barriga.
- Só mais um pouquinho, porque eu estou cansada. Andei muito com o Noah agora de tarde depois da consulta. Depois ainda tive que ver as coisas da reforma que eles estão fazendo aqui para o quarto do bebê. Antes da decoração eles até me deixam dar opiniões, mas o Anthony já disse que quando essa fase acabar, eu estarei proibida de entrar lá. – falou, passando a mão pela barriga, quase que de forma involuntária. – E hoje nós compramos muitas coisas para o bebê, tenho que te mostrar, antes que eu esqueça ou acabe dormindo enquanto falo com você de novo.
- Ah, você foi ao médico hoje, como foi? – perguntou, visivelmente interessado.
- Tá tudo certo, consegui ficar dentro da meta do peso, a pressão tá estável, os batimentos do bebê estão normais. Eu tava pesquisando agora pouco, por curiosidade, e vi que o bebê deve ter cerca de 40 centímetros agora e já pesa mais de um quilo. Tá grande mesmo. – exclamou, com um sorrisinho bobo nos lábios. – A minha barriga está com 31 cm, o que é bom e significa que tá até maior que o normal. Na semana que vem eu faço a última ultrassonografia, aí terei certeza do tamanho e do peso atual.
- Tá chegando a hora, né. – o rapaz comentou, animado, e viu a expressão de se tornar mais séria. – O que foi?
- Eu fico nervosa quando penso que tá chegando a hora do parto. Porque eu comecei a entender como tudo o que vai mudar na minha vida e isso é muito assustador. – a menina confessou, quis estar perto para lhe dar um abraço e lhe dizer que estava tudo bem, que iria dar tudo certo. Falar isso através do computador não parecia ter o mesmo significado.
- , não pensa assim. Você sonhava com isso, certo? Então pensa que você está prestes a realizar o seu sonho. Isso que deveria importar. É claro que a sua vida mudar, muito provavelmente tudo vai girar em torno do bebê no começo, toda a sua atenção será destinada a ele, mas será que isso é tão ruim assim? – perguntou, mas não desejando mesmo uma resposta, apenas fazê-la pensar. – Depois, quando você estiver acostumada a ele e ele a você, tudo deve ir voltando, aos poucos, ao normal. E mesmo que não volte, que tudo mude numa escala maior do que você imagina, que a sua vida se torne algo totalmente diferente do que você planejou, você é uma das pessoas mais capazes de mudar que eu conheço, altamente adaptável. E vai ser uma mãe incrível. Talvez a melhor que existirá no mundo, mas não fale para minha mãe que eu disse isso.
- Ok, ok. – respirou fundo, fechando os olhos por um instante, como se precisasse se acalmar e conseguindo. – Obrigada, . – mordeu o lábio inferior, respirando fundo. – Droga, eu queria te dar um abraço agora.
- Eu também queria, . – o rapaz disse, tocando a tela, como se pudesse tocar o rosto da amiga. – Sei que deveria ser a parte mais centrada de nós dois, já que você está totalmente envolvida por hormônios, como o Noah comentou comigo outro dia, e também porque eu sempre fui a razão e você a emoção, mas é muito difícil. Essa viagem tem mexido demais com a minha cabeça.
- Isso é bom. Você tem que ser mais mente aberta, . Sempre fechado nesse seu casulo a prova de sentimentos. Não faz bem. – comentou.
- Não vamos falar sobre isso, ok? Me mostre as coisas que você comprou. E depois, se você quiser, podemos ver Friends até você, ou eu, pegarmos no sono. Assim você relaxa um pouco.
- Adorei a ideia. – a menina exclamou, pegando duas sacolas que deixou sobre a cama. – Vou te mostrar as roupinhas, são as coisas mais lindas. – disse, pegando as peças que estavam cuidadosamente arrumadas nas bolsas. Tinham alguns macacões, uns sapatinhos, umas blusinhas e algumas calças. De todas as cores, com estampas de animais, estrelas e até mesmo um todo preto, um tanto quanto sério demais. – Mas o meu preferido é esse aqui. – exclamou, pegando um casaquinho branco, de tricô, com bordados coloridos na parte da frente. Era minúsculo e ela só conseguia imaginar o seu bebê perdido ali dentro, sendo a coisa mais fofa do mundo inteiro. – E o melhor é que ele combina com o macacão que você deu, vai ficar lindo.
- É tudo tão pequeno, fico imaginando um bebê dentro delas, uma mini pessoa. – o rapaz riu, sendo acompanhado pela menina. – Nem parece de verdade.
- Sim, as coisas são minúsculas. Olha o tamanho dessa meia. – disse, levantando um pedacinho de pano que deveria ter uns 10 centímetros. – É uma coisa mais fofinha que a outra.
- É uma coisa mais linda que a outra. – o murmurou, mais para si do que qualquer outra coisa. Só era difícil saber se ele estava se referindo às roupinhas, ou a amiga. estava sempre com os olhos brilhando, um sorriso aberto e algo diferente, que ele não sabia explicar. Talvez fosse a gravidez, talvez fossem todas as mudanças. não sabia direito. A única coisa que tinha certeza era que a amiga estava mais bonita do que em qualquer momento de sua vida. E ele estava feliz que vê-la assim.


Nove - "Você gosta dela?"

And I am feeling so small
It was over my head
I know nothing at all

(A Great Big World – Say Something)


34 semanas de gestação – Quatro meses de viagem
42 Moris Ave, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 16:15 PM

A campainha tocou e Lena foi atender. Estavam todos juntos: Lilly, Scott, Anthony e Noah, eles traziam grandes sacolas em suas mãos e estavam todos muito contentes. tinha marcado um pequeno chá de bebê, nada muito movimentado, só a família e os amigos próximos mesmo. Por isso que estavam lá apenas os quatro recém-chegados, Kathy e John. Ela tinha combinado com que ligaria pra ele, assim ele poderia participar de alguma forma, mesmo que fosse por vídeo. Os amigos colocaram os presentes na mesa as sala, Anthony e Noah começaram a arrumar as coisas que tinham levado, já Lilly foi até a cozinha, para ajudar com o que tivesse para fazer. estava terminando de decorar o bolo que tinha feito, era de morango com chantilly, seu preferido, Lena tinha feito alguns doces e Kathy alguns sanduíches. Não precisava de muita coisa, afinal eles eram poucos.
Arrumaram tudo na mesa da sala, levando o suco de laranja que Lena tinha feito mais cedo. Logo estavam todos reunidos, conversando sobre qualquer coisa e rindo das piadas que Anthony fazia. estava ansiosa, porque falaram que iriam mostrar como tinha ficado o quarto do bebê hoje, assim ela teria tempo de terminar de arrumar as coisas ao seu gosto. Então estava louca para que a levassem logo, porque, mesmo morta de curiosidade, ela não viu nada enquanto estavam arrumando.

- Cadê o ? Ele não ia participar por vídeo? – Anthony perguntou, chamando a atenção de . A menina afirmou com a cabeça, olhando para o celular pela terceira vez em menos de dois minutos. Tinha enviado mais de uma mensagem para o rapaz, mas ele não há respondia há um tempo. Estava preocupada, porque não costumava não fazer o que prometia.
- Ele não responde minhas mensagens. – comentou, aparentando estar um pouco chateada. Lilly percebeu e se levantou, caminhando até onde a amiga estava.
- deve ter tido alguma emergência, . Essas coisas acontecem. – ponderou, como se não fosse muito importante. – Vem, vamos olhar todos esses presentes maravilhosos que você ganhou. – Lilly pegou uma das mãos da menina, levando até onde estavam as bolsas. – Acredito que tenhamos exagerado um pouco, mas somos todos titios de primeira viagem. – falou, encarando a pilha enorme de presentes comparado ao número de pessoas na sala.
- Abre um dos meus primeiro. – Noah falou, se apressando para ficar ao lado delas. Ele pegou um dos embrulhos, o que tinha um papel de presente branco com bolinhas coloridas e um laço azul. sorriu, segurando a pequena caixa nas mãos. Ela se sentou no sofá, desfazendo o laço com cuidado. Dentro da caixa, tinha um par de sapatinhos amarelos, com a aplicação de uma girafa na parte de cima. – Não é fofo? – ele perguntou, com os olhos brilhando em expectativa.
- É coisa maravilhosa, Noah. – a grávida disse, sorrindo abertamente. – Eu ainda não consigo lidar com o tamanho e acreditar que isso cabe no pé de um bebê. É tão pequenininho.
- E combina com esse aqui. – Anthony se apressou em falar, entregando um embrulho azul. – Não sei se é tão fofo, porque fui eu que escolhi, mas achei lindinho. abriu, encontrando um conjunto com uma blusa, casaco e calça. Onde a blusa era branca, já a era calça amarelo claro e o casaco era branco com detalhes também em amarelo. – Nós apostamos nas cores, acho que deve ter uma coisa de cada cor aí. – brincou.
- Será que vocês podem parar de furar fila? – Lilly pediu, chamando a atenção. Ela deixou uma caixa no colo de . – Esse é um dos meus. Eu gosto de coisa combinando, então comprei várias. – explicou antes mesmo que a menina pudesse abrir. E quando fez, encontrou diversos tipos de mamadeiras, de vários tamanhos diferentes. – Eu não faço ideia para que serve cada uma, eu só pedi uma de cada. Acho que a Lena e a Kathy podem te ajudar com isso depois.
- Pode deixar que nós ajudamos, sim. – Kathy afirmou, enquanto se levantava e caminhava até a mesa, pegando um dos presentes. – Esse é meu e fui eu que fiz. – ficou curiosa e tratou logo de ver o que era. Quando puxou o presente da embalagem, viu que era uma manta de tricô, com bordados nas pontas. Muito do jeito de coisa feita por quem gosta da gente, que podemos sentir o amor em cada ponto. Era uma coisa maravilhosa, tão linda, que a menina ficou com lágrimas nos olhos.
- Kathy, isso é incrível. É muito bonito, estou até sem palavras. – respondeu, abrindo a peça com cuidado, para ver cada detalhe.
- É quase uma tradição na minha família, quando minha avó estava grávida, minha bisavó fez uma manta para ela, assim como a minha avó fez para minha mãe, e ela também fez para mim. Como eu não tenho filhas e não sei se meu filho me dará netos, quis passar essa tradição à frente com você, que é como se fosse a minha filha também. Desculpa pela apropriação, Lena. – a mais velha brincou, sorrindo de lado, com as pequenas rugas ao redor dos olhos aparecendo, como se eles sorrissem também.
- Sem problemas, minha amiga. – Lena respondeu, se aproximando para ver a peça terminada. Ela já sabia do presente, mas não tinha visto depois de pronta. Elas se conheciam tempo o bastante para não se importarem com o amor que sentiam pelos filhos uma da outra. Era até bom, porque sabiam que se alguma acontecesse, eles não ficariam sozinhos.
- É um presente meio bobo, mas... – Kathy continuou, mas foi interrompida.
- Não é bobo, Kathy, não mesmo. – se apressou em falar, deixando a peça no sofá ao seu lado, com cuidado, e se levantando. – Eu estou até sem saber o que falar. – confessou, sentindo a própria voz embargar. Ela esticou os braços na direção da vizinha, sentindo seu abraço caloroso.
- Acho que deveríamos ter deixado a Kathy por último, né? Agora todos os presentes vão parecer feios e sem importância. – Scott comentou, fazendo todo mundo rir.
- Sim, Kathy estragou a brincadeira. – Lilly concordou, caminhando até a mesa onde estavam todas as comidas. – Vou até me entupir de doce, porque não tem nem como competir com isso.
- Vamos comer. – Lena disse, fazendo um gesto para que todos se aproximassem na mesa. – Depois voltamos para os presentes. E como eu não comprei nada, vou precisar de um tempo para me embalar para presente. – brincou, vendo a filha balançar a cabeça lentamente, como se não acreditasse no que a mãe tinha dito.
Depois que todos levantaram, pegou o celular novamente, vendo se tinha alguma mensagem de . E quando olhou para a tela sem nenhuma notificação, sentiu uma onda de decepção tomar o seu corpo. Ele não era assim, não sumia sem dar explicações, não deixava de cumprir as coisas que tinha prometido, principalmente a ela. As coisas estavam mudando e não havia nada que pudesse fazer para evitar. Mesmo sabendo que deveria ignorar, abriu a conversa com o rapaz, enviando uma nova mensagem. Sem nenhuma grosseria, mas repleta de ironia, do jeito que ela gostava de agir quando estava irritada.

“Gostaria de agradecer a sua presença, mesmo que virtual, no meu chá de bebê. Muito obrigada mesmo.”
, 16:33


🤰 👶 👪


Lilly cobriu os olhos da amiga assim que terminaram de subir as escadas e pararam na porta do quarto do bebê. Decidiram que entrariam apenas os quatro primeiro, já que o espaço era pequeno e ficaria muito aperto se fossem todos juntos. estava bem mais animada e não conseguia conter a expectativa. Até mesmo o bebê se remexia, inquieto dentro da barriga, devido a ansiedade da mãe.

- Preparada? – ela ouviu a voz de Anthony por perto e fez que sim com a cabeça. Escutou o barulho da porta abrindo e alguém segurando sua mão, levando-a para dentro do quarto.
- A gente espera que você goste e que tenha ficado ao seu agrado. – Lilly falou, antes que tirar as mãos que cobriam os olhos da amiga. ficou boquiaberta. O quarto era a coisa mais linda que ela já tinha visto, muito mais do que podia ter imaginado ou feito por conta própria.
- Wow. – foi a única coisa que conseguiu falar.

A pintura era toda em tons de branco e cinza, bem claro e discreto, o que permitia que a decoração pudesse ganhar destaque. Era tudo, absolutamente tudo, colorido e de todas as cores. Tinham ursinhos de pelúcia, brinquedos dos mais variados e até mesmo uma cabana, dessas de tecido, que o bebê demoraria bastante para ser grande o suficiente para entrar e brincar por conta própria. O berço era branco com detalhes em madeira, assim como o armário e a cômoda. Perto da janela tinha uma grande poltrona branca, que poderia usar para amamentar, colocar o bebê para dormir ou apenas sentar e ficar olhando seu filho. Na parede perto da porta tinham algumas prateleiras, onde eles colocaram alguns livros infantis e alguns porta-retratos vazios, que ela poderia ocupar posteriormente, com imagens do bebê. Apenas um estava com uma foto e se aproximou lentamente, pegando o mesmo nas mãos e olhando mais de perto.

- Foi um pedido do . – Noah disse, percebendo que a menina encarava a imagem dos dois amigos ainda crianças. Foi na primeira viagem de férias para a praia que eles fizeram, eles tinham passado o dia caçando conchas na areia e na foto eles estavam extremamente felizes, abraçados e mostrando o resultado do esforço que tiveram. Ela amava aquela foto e sempre se perguntou onde tinha ido parar, porque tinha sumido um tempo atrás. – Ele disse que essa foto aqui teria um significado especial para você, não entendi muito bem o porquê, mas aceitei a sugestão.
- Eu amo essa foto. – a menina disse, passando a mão levemente pelo vidro da moldura, como se estivesse falando mais para si mesma, do que para os amigos. Ela respirou fundo, trazendo a imagem para perto do corpo, deixando perto do coração, enquanto olhava ao redor, ainda sem saber o que falar.
- Gostou? – Anthony perguntou, se aproximando do namorado, que estava parado ao lado de . Ela olhou na direção dos amigos, com lágrimas nos olhos.
- Eu não sei o que falar, porque qualquer coisa, qualquer palavra, não será suficiente. Vocês são umas das pessoas mais incríveis do mundo e eu sou extremamente sortuda de todas na minha vida. Acho que não fazem ideia do quanto vocês são importantes pra mim e eu espero que um dia eu possa retribuir tudo isso. – ela sorriu de lado, deixando o porta-retrato no lugar e abrindo os braços. – Eu amo vocês. – os amigos, delicadamente, a abraçaram ao mesmo tempo, com cuidado para não apertar demais a barriga e tentando, também, se adaptar a ela, que estava enorme.
- A gente também te ama. – Lilly murmurou, beijando o rosto de . – E você também. – continuou, passando a mão, em forma de carinho, onde o bebê estava.


34 semanas de gestação – Quatro meses de viagem
Torstraße 134, 10119 Berlin, Alemanha – 20:08 PM

parou na frente do restaurante e olhou no relógio. Ele estava alguns minutos atrasado, mas tinha se atrapalhado um pouco para chegar, mesmo sendo perto do seu apartamento. Eileen tinha marcado às oito, então deveria estar chegando. Sentiu o celular vibrando, vendo que tinha uma mensagem da menina, avisando que estava perto. Esfregou uma mão na outra, tentando não ficar nervoso. Não era exatamente um encontro romântico, era um jantar de agradecimento que ela insistiu que deveria pagar a ele, não que fosse deixá-la pagar tudo. Ele tinha sentido que ela não estava bem da primeira vez que todos do escritório saíram juntos. Desde então, tinham se aproximado bastante, a ponto da menina conseguir abrir o seu coração para o rapaz, contando o real motivo para ela estar tão chateada naquele dia: ela tinha terminado tudo com o namorado. Eles estavam juntos por quase dois anos e ela sentia que não estava mais tão apaixonada quanto deveria. Então ao invés de empurrar a relação com a barriga, resolveu terminar. Mas mesmo sendo uma iniciativa dela, isso a magoou, porque antes de serem namorados, eles eram amigos e Eileen acabou perdendo alguém que era importante.
Então entrou em cena, servindo como um amigo inesperado num momento em que ela precisava. Ela falou que nunca tinha assistido Friends, então ele fez o download e levou todas as temporadas num pendrive porque, segundo ele, a série curaria qualquer coração partido. E de fato funcionou, Friends curou parte do coração partido de Eileen e lhe deu um novo amigo, para ocupar o lugar do que ela tinha perdido.

- Desculpa o atraso. – a menina falou, se aproximando de . Ela tirou os fones do ouvido, guardando na bolsa e o cumprimentou com um beijo no rosto. – Eu perdi o metrô que deveria ter pego e só veio outro depois de quinze minutos.
- Não tem problema. – o rapaz disse, abrindo a porta do restaurante e segurando para que ela pudesse passar. Pediram uma mesa para dois e logo foram encaminhados para uma que estava vaga, mais ao fundo do salão. tirou o seu casaco, apoiando nas costas da cadeira, antes de se sentar de frente para Eileen e sorrir de lado, sem demonstrar o nervosismo que ainda não tinha passado.
- Tá tudo bem? – ela perguntou, passando os olhos pelo cardápio.
- Comigo sim, e com você? – respondeu, colocando o celular para vibrar e guardando no bolso do casaco, não queria que fizesse barulho e atrapalhasse as outras pessoas.
- Mais ou menos. Eu vi o Urick hoje, de longe, acho até que ele não me viu. Ele estava com uma garota... – ela comentou, apoiando o cardápio na mesa e fazendo uma careta, como se estivesse um pouco chateada pelo ocorrido.
- Oh! Que chato. – falou, vendo a expressão de Eileen se repetir em seu rosto. Ela deu de ombros, como se isso não importasse muito, mas ele sabia que importava, sim.
- Não é como se eu estivesse apaixonada por ele ainda, mas é complicado ver essas coisas, sabe? É difícil ver que ele superou tudo, seguiu em frente tão rápido. Fui eu que terminei e continuo aqui triste, enquanto ele já está em outra.
- Eileen, as pessoas reagem de forma diferente, talvez ele precise alguém novo ao seu lado para te esquecer. Não dizem que um novo amor é a forma mais fácil de esquecer o anterior? Talvez seja isso que falte pra você, finalmente, seguir em frente. – o rapaz disse, sem perceber os significados ocultos que poderiam ter em sua frase. – Não se preocupe tanto. – continuou, colocando sua mão sobre a dela, que estava em cima da mesa. Eles se olharam por alguns segundos, com suas mãos juntas. viu surgir no rosto de Eileen um sorriso que fez seu coração bater de uma forma diferente. Mas ele não queria confundir ou complicar as coisas, então se afastou, pegando o cardápio para disfarçar e dissipar qualquer clima estranho que poderia ter ficado entre eles. Não queria se envolver com alguém enquanto estivesse aqui, nunca foi seu foco. Veio para a Alemanha com um objetivo em mente e seguiria firme nele. Só que olhar o sorriso sem graça que ocupava o rosto vermelho de vergonha que Eileen carregava, percebeu que isso poderia ter mais difícil do que imaginava.
- Obrigada. – a menina murmurou, sentindo seu rosto quente. Sua cabeça ferveu com pensamentos que não queria ter no momento, mas que não conseguia evitar. era um cara muito legal, fora que era totalmente diferente dos que ela conhecida e costumava se envolver. Eileen não queria confundir as coisas, não queria pensar que ele estava sendo tão simpático com ela só porque estava interessado. Talvez ele apenas fosse incrivelmente apaixonante e não conseguisse evitar.
- Vamos pedir? – o rapaz perguntou, tentando manter o clima amistoso.

🤰 👶 👪


- Você mora aqui perto, não é? – Eileen perguntou, assim que deixaram o restaurante e pararam na calçada.
- Sim, eu vou andando para lá. – apontou para o lado esquerdo – Mas vou te acompanhar até o metrô, não vou deixar você andando sozinha uma hora dessas.
- Não precisa, . É um pouco mais ali na frente e a rua é movimentada. – a menina tentou argumentar, mas não parecia que mudaria de ideia. Ele começou a andar na direção que ela veio mais cedo, ignorando o que ela tinha dito. – Tudo bem então. – murmurou mais para si mesma. Caminharam lado a lado em silêncio por alguns instantes, parecia que um clima estranho que se criado entre eles e não era isso que queriam. – Eu disse que ia te pagar o jantar e você não deixou.
- Isso nunca foi uma opção, Eileen. – disse, rolando os olhos e rindo.
- Qual o problema, uma mulher não pode te pagar o jantar? – ela indagou, com os braços cruzados na altura do peito, como se estivesse ofendida.
- Claro que pode, inclusive adoro, mas não quando eu quero fazer uma gentileza.
- Então na próxima vez eu pago. – a menina disse, meio que sem pensar. O rapaz começou a caminhar um pouco mais devagar, ficando para trás e ela percebeu. Virou o corpo para olhar em sua direção, confusa.
- Terá uma próxima vez? – ele perguntou, vendo seu rosto ficar vermelho novamente. Eileen rolou os olhos, voltando a caminhar. Eles atravessaram a rua e pararam na entrada da estação do metrô.
- Ah, já estava me esquecendo. – a loira falou, mexendo na bolsa e puxando um pendrive preto, mostrando para o rapaz. – Muito obrigada por me fazer viver da forma certa.
- Foi um prazer ser o responsável por colocar Friends em sua vida. – sorriu abertamente, estendendo o braço para pegar o objeto da mão da menina. Seus dedos roçaram os dela suavemente e ele levantou os olhos, encarando o mar azul escuro que eram os de Eileen.
- Até segunda. – ela se apressou em falar, dando um beijo rápido no rosto do rapaz e descendo as escadas da estação do metrô sem nem olhar para trás. , por sua vez, ficou parado lá por mais alguns segundos, com um sorriso bobo nos lábios, percebendo que, provavelmente, já era tarde para tentar não confundir as coisas.
- Até. – murmurou para si mesmo, antes de respirar fundo e começar a longa caminhada até seu apartamento. Procurou o celular pelos bolsos, vendo as mensagens de quando achou. E sua mente deu um estalo.

“Gostaria de agradecer a sua presença, mesmo que virtual, no meu chá de bebê. Muito obrigada mesmo.”
, 16:33

Merda.
Ele havia esquecido o que tinha combinado com ela.
E se tinha uma coisa que odiava era ser esquecida. E ignorada também.
Ele tinha feito as duas coisas, portanto era um homem morto.


34 semanas de gestação – Quatro meses de viagem
42 Moris Ave, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 20:14 PM

pensou seriamente em ignorar a chamada quando apareceu a notificação em seu computador, tanto que deixou o barulho irritante soar por alguns segundos. Até que percebeu que não conseguiria se livrar tão facilmente de , porque ele era insistente, ainda mais quando sabia que estava errado.

- Agora é tarde, já acabou. – falou, assim que a imagem do amigo surgiu na tela. Ele estava com uma expressão culpada, mas isso não fez o coração da menina amolecer.
- Eu sei que eu tô errado, sei que não encontrarei nenhum motivo bom o bastante para você me desculpar, mas eu posso tentar? – pediu, fazendo a melhor cara de cachorro arrependido que podia.
- Não, não pode. – foi sincera, forçando um sorriso. – Você podia ter me avisado, mas achou melhor me ignorar. Se tem uma coisa que eu odeio nessa vida, é ser ignorada. Ser esquecida também. E você achou que seria divertido fazer um combo.
- Não foi de propósito, , eu juro. – o rapaz ainda tentava se explicar. – É que a Eileen queria me agradecer e me convidou para jantar. Quando eu aceitei, não percebi que era no mesmo dia do seu chá. Se tivesse lembrado, nunca teria marcado nada...
- Deixa eu ver se eu entendi. – a menina o interrompeu, com uma expressão nada agradável. – Você deixou de fazer algo que tinha me prometido, porque foi a um encontro com outra garota? – falando deixou tudo muito pior do que realmente era e percebeu.
- Não era um encontro. – ele tratou de corrigir, como se isso fosse melhorar as coisas.
- Isso é pior ainda! – ela esbravejou. – Eu até poderia tentar entender se você fizesse isso por uma possibilidade de sexo, mas na verdade você apenas me trocou por outra pessoa.
- , não é isso, por favor, tenta me entender. – pediu, fechando os olhos, percebendo que a amiga estava mais estressada que o normal. Ele realmente não deveria tê-la irritado hoje. – A Eileen estava passando por um momento difícil, precisava de um amigo, alguém para conversar, então eu a ajudei e ela quis me recompensar. Eu não percebi que tinha marcado no mesmo dia que o seu chá de bebê. Sendo o que esse bebê é, você realmente acha que isso não era importante pra mim?
- Aparentemente não é tão importante assim, né? – ela sorriu, de forma forçada, sendo extremamente difícil de lidar. – Essa sua namoradinha, ela é bonita? – perguntou, com um tom irônico na voz.
- Ela não é minha namoradinha. – o rapaz negou, suspirando em seguida, passando a mão pelo rosto.
- , eu te conheço, tá? Acho que melhor que você mesmo. Então por mais que tente negar, você tá com essa cara de bobo, a mesma que fazia depois que ia se encontrar com a Maggie. Então se ela não é sua namorada, será em breve.
- , não apressa as coisas. Ela terminou com o namorado há um mês. Eu só quis animá-la. Eu falei de Friends e ela disse que nunca tinha visto. Você acredita que, realmente, existe uma pessoa nunca tinha visto Friends? – falou, vendo fingir estar extremamente chocada. Ela estava deitada no escuro, só com a luz do computador iluminando o quarto. Não era tarde, mas a menina estava muito cansada. – Então eu baixei os episódios e coloquei no pendrive. Agora ela fica me mandando mensagens comentando os episódios, fica fazendo piadinhas com referências aos personagens. – ele riu sozinho, como se lembrasse de alguma coisa. – Ela não para de falar do episódio da troca de apartamentos, esse é um dos meus preferidos também.
- Nossa, como você é um cara legal. – havia uma sombra de ironia em sua voz e ela rolou os olhos, sem muita animação.
- O que foi, ? Por que você tá me tratando assim?
- Nada, eu só estou aqui sentada há, sei lá, quase meia hora, ouvindo você falar dessa menina que eu não lembro o nome...
- Eileen.
- Que seja, não perguntei. – cortou novamente, com a mesma falta de paciência de antes.
- , qual o problema? Eu não posso falar dela? Você tá com ciúme? – ele disse, mordendo o lábio inferior para reprimir um sorriso.
- Não, . Não estou com ciúme, estou apenas sem paciência para ficar ouvindo você falar por horas sobre a mesma coisa ou sobre uma pessoa que eu nem conheço. – a menina respondeu, levantando um pouco o corpo e tentando procurar uma posição confortável. O rapaz percebeu que ela o chamou pelo nome e estranhou. só fazia isso quando estava muito irritada. – Eu estou cansada, com dor nas costas, com sono e você não para de falar dessa Eileen, e de Friends.
- Pensei que você gostasse de Friends.
- De Friends eu gosto. – ela respondeu rápido, cruzando os braços em cima da barriga.
- . – disse, esperando que ela olhasse para a tela do computador. Depois de alguns segundos ignorando, olhou, com uma expressão nada convidativa. – Você está com ciúmes. E eu não estou perguntando, estou afirmando.
- Você está absurdamente longe de mim, passa a maior parte do seu tempo com essa menina, quando nós estamos conversando, você sempre arruma uma forma de colocá-la no meio. Hoje você perdeu o chá de bebê, pois estava com ela e esqueceu da vida, porque, aparentemente, ela é mais importante que todo mundo, e agora... – ela bufou, torcendo os lábios antes de continuar. – E agora você está dividindo Friends com ela. Friends! A minha série favorita, a nossa série! Que eu sempre falo sobre, que você sabe que eu tenho o maior ciúme. Eu não tô nem aí que ela nunca tinha visto, que continuasse sem ver a minha série. Qual o próximo passo? Assistir Duro de Matar? Vai fazer piadinhas de “Die Hard” com ela também? – esperou que ela despejasse tudo o que estava sentindo, ficando em silêncio pelos segundos que se seguiram. – Eu devo estar sendo extremamente absurda agora, mas eu não ligo. Não ligo nem um pouquinho. Eu estou grávida, cansada e irritada, isso deve me dar o direito de ter atitudes como essas.
- Você não está sendo absurda. – falou, com um tom de voz baixo, suave, como se quisesse acalmá-la. olhou para o computador, com um olhar descrente. Até ela sabia eu tinha exagerado. – Tudo bem, foi um pouquinho, sim. Mas eu entendo. – o rapaz deu de ombros.
- Eu não quero que você entenda, . Porque entender não vai mudar nada, você vai continuar aí, longe de mim. Eu queria que tivesse uma forma do tempo passar mais rápido, que eu apertasse um botão e você aparecesse aqui do meu lado, dizendo que tinha voltado de vez. Porque isso também significaria que o bebê nasceu, que essa fase desconfortável, estressante e que acaba com a minha sanidade, já passou. – ela respirou fundo algumas vezes, passando a mão pelo rosto e depois pelo cabelo, visivelmente nervosa.
- Acho que é até meio babaca pedir que você se acalme agora, né? – perguntou, de forma retórica, vendo a amiga balançar a cabeça, concordando. – Eu não sei o que fazer ou falar, , de verdade. Eu também queria estar aí com você, já disse isso várias vezes, mas não posso. Sei que deve ser uma fase, que você deve estar com a sua mente sobrecarregada, que deve estar exausta, mas, por favor, tente não se pegar a esses detalhes, não se estressar por bobeira. Não é como se eu fosse te trocar pela Eileen.
- Eu sei que devo me acalmar, não me exaltar por besteira, mas é mais forte do que eu. Você vem com essa história, esquece de mim, arruma uma namoradinha, coloca Friends no meio. É como se ela estivesse roubando tudo o que é importante pra mim. – disse, sem medo de parecer ciumenta, porque estava tudo muito claro. – Fora que eu não consegui dormir essa noite, o bebê não parava de mexer e eu não encontrava uma posição confortável, porque parecia que ele estava atravessado na minha barriga. Eu tinha que ir ao banheiro quase que de cinco em cinco minutos. Quero muito ser mãe, esse bebê foi muito desejado, é muito amado, mas não aguento mais estar grávida. – confessou, colocando para fora tudo que estava a incomodando, porque sabia que não julgaria. – Bebê, por favor, ajude a mamãe, me deixe dormir. Porque daqui a pouco você vai nascer e eu não vou mais poder dormir mesmo.
- Queria ser um cavalo marinho. – falou, vendo a menina levantar os olhos para a tela do computador, confusa pela frase fora de contexto. Percebendo a sua expressão, ele tratou de explicar. – Os machos carregam os bebês, então eu poderia te ajudar, aliviar um pouco pra você. – rolou os olhos, balançando a cabeça, como se não tivesse achando a ideia nem um pouco interessante. – Ou não, sei lá...
- Acho que vou tentar dormir, . Quando eu fico irritada assim, só consigo resolver de duas formas: ficando bêbada ou dormindo. Como eu não posso escolher a primeira opção, tentarei a segunda.
- Você quer que eu fique aqui até você pegar no sono? Posso até cantar. – ele sorriu, sem conseguir fazer a amiga entrar no clima da brincadeira.
- Até pode, mas sem cantar. Finge que tá fazendo cafuné na minha cabeça daí, que eu vou imaginar que estou sentindo daqui. – pediu, arrumando os travesseiros na cama, incluindo o comprido, que Noah tinha comprado para ela dias atrás. Ela deitou apoiando a barriga na almofada e encontrando uma posição confortável. Esticou a mão, diminuindo o brilho da tela do computador. Ela viu quando o rapaz tocou a tela, fingindo que estava fazendo um carinho leve na amiga. – Isso não quer dizer que eu te desculpei, não. Ainda estou muito chateada.
- Eu sei. – murmurou, reprimindo um sorriso.
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, até que a menina abriu os olhos novamente, olhando para o amigo, que também estava deitado, mas com o computador apoiado na barriga. Ela tinha muitos pensamentos em sua cabeça atrapalhando seu possível sono. Bem, na verdade não eram tantos assim. Somente um a assombrava de uma forma que ela não sabia explicar. A ideia de perder para outra pessoa mexia com seu coração e seu corpo de uma forma que ela não entendia. O coração acelerava, as mãos suavam, sentia um aperto, uma angústia, uma dificuldade de respirar. Ele já teve outras namoradas e ela nunca se sentiu dessa forma. Mas agora era diferente, ela sentia que era diferente. Não sabia por que, só sentia. Então precisava de uma resposta. – ? – a voz dela soou baixa, meio incerta.
- Oi. – ele falou, com a voz arrastada, como se também estivesse ficando com sono.
- Você gosta dela? – era difícil descrever todos os níveis de emoções diferentes naquela pergunta. Havia um misto de curiosidade, tristeza, medo, saudade e... ciúme. Talvez mais ciúmes do que se orgulhava. ficou em silêncio, deixando sua mão cair da tela do computador, pensando numa resposta. E a cada segundo que passava, a menina sentia o coração bater mais forte. Era estranho, meio dolorido. Como se a resposta do rapaz pudesse atingi-la de uma forma que ela não esperava.
- Não sei. – percebeu que estava confuso, ela conseguia sentir isso só em sua voz, nem precisava olhar em seu rosto. – Talvez. – Uma sensação de perda tomou seu corpo. Era como se ele tivesse se afastando ainda mais dela. Agora seria mais do que geograficamente. E não tinha nada que pudesse fazer, porque nem ela sabia o que estava acontecendo consigo mesma. Esperava que fosse apenas mais uma mudança brusca de humor ou uma confusão de sua cabeça.
- Eu tô com medo. – confessou, mas não seria capaz de explicar como essa sensação era abrangente. Era medo do desconhecido que seria a maternidade, medo da distância que poderia passar a existir entre os dois, medo do quão sozinha ela poderia se sentir num futuro próximo. Talvez ela tivesse mais coisas na cabeça do que poderia lidar no momento. Fechou os olhos, sentindo uma lágrima solitária rolar pelo seu rosto. E rezou para que a escuridão do quarto impedisse que o rapaz visse. Disfarçou, passando a mão pelo rosto, encarando a tela do computador mais uma vez, vendo encarando o teto, como se também estivesse imerso em seus pensamentos.
- De que? – perguntou, sentindo que havia um clima estranho, não só entre eles, mas também na conversa. Pensou em perguntar, ver se a amiga queria conversar, mas não sentiu uma abertura para isso. , às vezes, guardava muita coisa para si mesma, o que não era bom. Ela acumulava mais do que deveria e isso a esgotava pouco a pouco.
- Do futuro. – ela fechou os olhos novamente, respirando fundo, tentando lidar com toda a confusão que estava a sua cabeça. – Da vida. – Aquela conversa tinha se tornado mais do que ela podia suportar. – De tudo.


Dez - "Queria Você Aqui"

May you always be courageous
Stand upright and be strong
May you stay forever young

(Bob Dylan – Forever Young)


39 semanas de gestação – Cinco meses de viagem
42 Moris Ave, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 04:21 AM

sentiu um desconforto e acordou no susto. Suas mãos, instintivamente, desceram para a barriga e ela respirou fundo. Era uma dor estranha, diferente das que ela tinha sentido na semana anterior, parecia uma cólica, só que mais forte. Então sentou na cama, esperando o desconforto passar, esperando para ver se sentia mais alguma coisa, mas nada acontecia. Olhou no relógio para tentar calcular, mais ou menos, o tempo de intervalo entre cada uma das dores. Porque, se fosse uma contração, ela teria que fazer esse controle. Eram quase seis da manhã e ela não queria fazer um alarde desnecessário, então ficou deitada na cama, esperando qualquer “novidade”. Cerca de trinta minutos depois, a dor voltou. Era na mesma intensidade, durando poucos segundos. A menina apenas respirou fundo, tentando relaxar e ficar tranquila. Se aquilo se tornasse um padrão, ela avisaria a alguém. Não queria fazer um alarde para no final ser outro alarme falso.
Na semana anterior, e Noah tinham corrido para a emergência, porque ela estava sentindo dores abaixo da barriga e pensou que estivesse entrando em trabalho de parto. E como Adelaide disse que depois das 37 semanas, qualquer desconforto deveria ser avaliado e levado em consideração, então não pensaram duas vezes antes de seguir para o hospital. Mas, no final das contas, era um alarme falso, só que os exames mostraram que o bebê já estava em posição e “encaixando”, como os médicos dizem, ou seja, poderia nascer a qualquer momento.
Depois de, mais ou menos, duas horas fazendo esse acompanhamento e vendo que as dores estavam num padrão constante, percebeu que era o momento de falar com alguém. Esperou que a próxima contração viesse e assim que passou, levantou da cama com certa dificuldade, porque sua barriga estava enorme, e depois caminhou até o quarto de sua mãe, que dormia de forma calma e despreocupada.

- Mãe. – a menina falou baixo, enquanto tocava o ombro da mãe, balançando de leve.
- Hmm. – Lena respondeu, sem abrir os olhos.
- Eu acho que agora são contrações de verdade. – disse, como se fosse algo simples. A mais velha despertou rapidamente, ficando de pé quase num pulo.
- O que você tá sentindo? Quantas vezes sentiu? Quanto tempo durou? – lotou a filha de perguntas, mais do que ela podia responder na hora.
- Calma, respira. – a mais nova pediu, sentando na cama da mãe e esticando o corpo para trás, tentando aliviar um desconforto que sentia nas costas há alguns dias. Lena sentou ao lado da filha, parecendo mais nervosa que a grávida. – Eu senti a primeira cerca de duas horas atrás, fiz o acompanhamento e elas estão de meia em meia hora. Não doem muito, é mais um desconforto do que realmente dor. Dura coisa de vinte ou trinta segundos... Talvez tenha acontecido antes, mas não tão forte para que eu sentisse. – deu de ombros, como se não fosse muito importante.
- Tá, temos que ligar para a Adelaide, deixá-la avisada. Talvez possa ser outro alarme falso, mas devemos ficar preparadas. – Lena falou, procurando pelo celular, que sempre sumia quando ela mais precisava.
levantou, voltando para o seu quarto. O nervosismo de sua mãe estava-a deixando enjoada e confusa. Deitou na cama novamente, tentando relaxar. Ouvia a mãe revirando o próprio quarto e falando consigo mesma, ainda procurando pelo telefone. A menina respirou fundo, esticando o braço e pegando o próprio celular na mesa de cabeceira. Ela sabia que a mãe queria ajudar, mas ansiosa e nervosa como estava, não conseguiria nem achar a própria cabeça em cima do pescoço.
- Mãe, já estou ligando! – gritou, quando confirmou a ligação. Lena entrou no quarto, sentando ao lado da filha e colocando a mão em sua barriga. Ela estava bem mais baixa e dura, parecia realmente que o bebê estava descendo. – Oi, Adelaide, bom dia. É a , desculpa te ligar tão cedo, mas você disse para que eu entrasse em contato caso sentisse algo diferente e, bem, eu estou sentindo...
- Oi, querida, bom dia. – a voz da médica soou quase animada do outro lado da linha. Nem parecia que era antes das sete da manhã. – Me fale o que está sentindo.
- Eu acordei sentindo uma cólica leve e uma dor nas costas, na altura da lombar, que vem e vão de tempos em tempos.
- Você fez algum controle? – Adelaide soou um pouco mais profissional.
- Sim, eu contei e elas estão de meia em meia hora, durando cerca de trinta segundos.
- A dor é forte ou suportável?
- É mais um desconforto do que uma dor em si. – a menina respondeu, ouvindo a médica murmurar em resposta, como se estivesse fazendo notas mentais.
- Ok. Eu vou precisar que você fique bem relaxada, porque você deve estar entrando em trabalho de parto. Ainda deve demorar, suas contrações estão espaçadas e curtas, então não há necessidade que você vá para o hospital agora. Pode ser que o processo se acelere nas próximas horas e sua bolsa rompa daqui a meia hora, como também pode progredir lentamente e demorar mais algumas horas. Tudo vai depender do seu corpo e como ele vai reagir. – Adelaide falava devagar, como se não quisesse deixar a futura mamãe nervosa, ou ainda mais nervosa. – Assim que a bolsa estourar, você vai para o hospital. Eu te encontrarei lá, então não esqueça de me avisar, ok?
- Ok. – respondeu com a voz baixa, como se estivesse, lentamente, entendendo o que estava acontecendo.
- O que ela disse? – Lena perguntou, ansiosa. Ela estava mais nervosa do que realmente queria estar. Lena sabia que deveria ser o referencial de segurança para , mostrar a ela que tudo daria certo. Só que ela não era assim, não era uma pessoa “segura”. Lena era muito destrambelhada, sempre agitada. Ela tinha noção que tinha sido uma mãe mais doida do que deveria e tinha dito a si mesma que melhoraria nisso como avó. Só que era mais forte que ela, não era como se escolhesse ser assim.
- Calma aí, mãe. - a filha levantou a mão, pedindo que ela esperasse.
- Então tome um banho, se alimente bem e relaxe. No máximo, caminhe um pouco pela casa, isso pode ajudar a acelerar o processo, caso você esteja com pressa. Caso não queria, basta esperar o seu bebê sentir que é o momento de vir ao mundo. E não se desespere caso note algum sangramento, é normal, é apenas o seu corpo se preparando para a chegada do seu filho. – a médica percebeu que a menina estava em silêncio por muito tempo e se preocupou um pouco. – , você está me ouvindo?
- Estou sim, só preciso de um tempinho para absorver tudo. Sei que é o momento pelo qual eu estava esperando, mas a gente nunca está preparada quando ele chega. – respondeu, sincera. – E também preciso acalmar a minha mãe. – completou, rindo e olhando na direção de Lena, que fazia uma careta, meio contrariada.
- Não se desespere, minha querida. Nosso corpo é preparado para isso, você vai perceber como tudo será muito mais simples do que parece. E peça para Lena não te deixar nervosa também.
- Obrigada, Adelaide. – a menina disse, com a voz num misto de nervosismo e felicidade.

Assim que desligou o telefone, Lena a encarava com a expressão ansiosa e respirou fundo, porque lidar com o bebê querendo nascer e sua mãe, seria muita coisa para a sua cabeça.
- Ela disse que ainda pode demorar um pouco, que é para eu avisar quando a bolsa estourar e seguir para o hospital, que ela vai me encontrar lá. Tudo vai depender de como o meu corpo vai reagir e como todo o processo vai seguir. Pode demorar meia hora, assim como pode demorar horas. – a menina explicou, mesmo tendo em mente que sua mãe deveria saber tudo isso, já que já tinha tido um bebê, mas também sabia que, naquele momento, Lena devia mal saber seu próprio nome. – Então é para eu tomar um banho, me alimentar bem e relaxar. Se quiser acelerar o processo, posso caminhar pela casa, que ajuda. Caso não queira, só esperar.
- Ok, banho, comida e relaxar. – Lena repetiu para si mesma, como se estivesse decorando algo. – Vou descer para preparar algo pra você comer.
- Tudo bem. – sorriu de lado, vendo que a mãe estava tremendo um pouco. – Mãe... – ela chamou sua atenção, pegando uma de suas mãos. – Vai dar tudo certo.
- Sim, vai dar tudo certo. – a mais velha forçou um sorriso. – Eu que deveria estar te tranquilizando, não o inverso. – a filha sorriu mais abertamente com o comentário.
- Nós duas sabemos que as coisas não acontecem da forma correta por aqui, não é mesmo?
- Vou fazer aquelas panquecas que você gosta. – Lena disse, levantando da cama e seguindo na direção da porta. – Ela, provavelmente, vai ficar um tempo sem comer depois que for para o hospital, então o café da manhã tem que ser reforçado. – falava para si mesma, antes de sumir pelo corredor.

Depois que ficou sozinha, tentou organizar seus pensamentos e não surtar. Ela teria um bebê em breve, muito em breve, então sua cabeça teria que estar no lugar, porque ela seria responsável por uma pequena pessoa e isso não dava espaço para erros. Tentou fingir que estava pronta, que esses últimos meses foram o bastante para que ela pudesse ajustar a sua vida para a chegada do seu filho, mas percebeu que nada tinha mudado de fato. Ela continuava aquela menina aérea, sem muito foco e que sonhava acordada dia após dia. Essa não podia ser mais a sua realidade e precisava se transformar, antes que acontecesse alguma coisa que a obrigasse a mudar. O bebê havia sido seu desejo, certo? A realização de um sonho, de construir sua família. Então esse crescimento interior teria que vir acoplado nessa mudança. precisava deixar qualquer medo de lado agora, pensar apenas no seu filho. Deixar para imaginar as mudanças em sua vida depois. Porque, agora, só serviria para aumentar uma pressão que já era gigantesca. Era como se o seu mundo tivesse dobrado de tamanho e ela precisasse carregá-lo nas costas. Sozinha. Sem apoio. Sem nenhuma ajuda. Ela precisaria crescer. O nascimento do seu bebê deveria ser o nascimento de si mesma, novamente.

Pegou o celular, tinha que avisar seus amigos que muito em breve eles teriam um companheiro. Sentiu o desconforto mais uma vez e respirou fundo, contando os segundos em sua cabeça mesmo.

“Tem alguém querendo nascer. E dessa vez eu acho que é de verdade.”
, 06:47


Esperou até que seu celular começasse a tocar enlouquecidamente. O primeiro a ligar foi Noah, mais desesperado que a própria Lena. pediu que ele ficasse calmo, que estava tudo sobcontrole ainda, repetiu tudo o que Adelaide lhe disse ao telefone, mas ainda assim ele disse que estava indo para a casa dela, para estar lá para levá-la ao hospital assim que precisasse. Ele e Anthony tinham comprado um carro nas últimas semanas, era usado, meio antigo, mas até que era bonito. E Noah comentava constantemente que agora ela tinha alguém para levá-la ao hospital, que ele estava mais tranquilo e tudo mais. estava se esforçando para não acreditar que parte do motivo para a compra daquele carro era ela. Anthony ficaria no escritório até um pouco mais tarde, mas logo os encontraria, ou na casa de , ou no hospital.
A segunda a ligar foi Lilly, que disse que nem iria trabalhar, que também estava indo para a casa da amiga. Que era para ela fazer a respiração cachorrinho que elas tinham treinado na aula de Lamaze. E, por mais que tentasse dizer que ainda não era a hora de fazer essa respiração, Lilly não parou de falar enquanto não ouvia a amiga respirar fundo e, em seguida, expirar, tudo isso pelo telefone.
O último foi .

- . – a voz do rapaz estava ansiosa do outro lado da linha. – Estou tentando falar com você há muito tempo.
- Lilly estava me mantendo presa no telefone. Ela queria que eu fizesse os exercícios da aula de Lamaze para que ela ouvisse. – a menina comentou, rindo em seguida.
- Como você tá? Está com dor? Você já está indo para o hospital? – ele a lotou de perguntas. Ainda tinha um clima estranho entre eles desde a última briga e nenhum dos dois sabia explicar o motivo. Sempre que eles conversavam, parecia que tinha algo entre eles, atrapalhando a comunicação, impedindo que eles conseguissem, realmente, falar um com o outro.
- Eu tô bem, não está doendo tanto ainda. – ela enfatizou a última palavra, como se estivesse tentando se preparar mentalmente. – A doutora Adelaide disse para eu ir para o hospital assim que a bolsa estourasse, que era para acompanhar as contrações e ver como elas estão progredindo. Bem, eu acredito que vá demorar, porque elas começaram há quase duas horas e continuam da mesma forma.
- Quando você diz demorar, significa o que? Mais uma hora? Duas? Cinco? Eu não entendo muito dessas coisas. – ele confessou, com a voz baixa. odiava não saber de algo.
- Bem, depende de como as coisas vão desenvolver por aqui. Adelaide disse que poderia ser meia hora, cinco, dez horas... Não é um relógio, sabe?
- Entendi. – ele murmurou, mais para si mesmo, do que pra ela. – Sua mãe está com você? Você pode chamar minha mãe, ela tem experiência nessas áreas...
- Minha mãe tá aqui, sim. Fazendo umas cinquenta panquecas pra mim, eu acho, porque tenho que me alimentar. – respondeu, imaginando a mãe meio surtada na cozinha.
- Quem vai te acompanhar ao hospital? – a pergunta a pegou de guarda baixa, porque ela sabia quem iria acompanhá-la, talvez ela tivesse mais acompanhantes que o permitido, mas estava faltando alguém. Sem o ali, sempre estaria faltando alguém. Independente de brigas, qualquer desentendimento ou novos namorados. Eles sempre precisariam um do outro para estarem completos.
- Eu tenho muitos acompanhantes, . – a menina comentou, tentando fingir que estava tudo bem, que não estava faltando ninguém ali. – E sua mãe pediu que eu a avisasse também. Não sei se ela vai até lá antes do bebê nascer, mas com certeza deve ir depois.
- Estão cuidando bem de você, não é? Eu pedi pro Noah que... – o rapaz perguntou, com um pouco de culpa implícita em sua voz. Sabia que deveria estar lá naquele momento. Mais do que qualquer um, ele deveria estar lá.
- Eu estou bem. – repetiu, tentando convencer o amigo e também a si mesma, mas não foi muito feliz nessa tentativa. percebeu sua incerteza.
- ... – ele disse, ouvindo a amiga suspirar do outro lado da linha. Ela sentiu os olhos arderem e uma vontade repentina de chorar. Um bolo se formou em sua garganta, a impedindo de falar qualquer coisa sem que começasse realmente a chorar. Ouvindo um suspiro entrecortado, sentiu seu coração apertar. Odiava ver dessa forma. – . – repetiu, ainda sem ter nenhuma resposta. – Vai dar tudo certo... – disse, incerto, sem saber se era realmente isso que precisava falar naquele momento.
- Queria você aqui. – ela confessou, sentindo o aperto em seu peito se fechar ainda mais. – Sei que tinha prometido que não tornaria isso mais difícil ainda para nós dois, que não colocaria nenhuma cobrança em cima de você. Mas, , é muito difícil... Tá muito difícil. Eu tenho quase todo mundo que eu amo ao meu lado, mas falta uma pessoa. Sempre vai faltar uma pessoa sem você aqui.
- Eu queria estar aí ao seu lado, segurar sua mão e dizer que vai ficar tudo bem. Você sabe disso, não sabe? – ele perguntou.
- Sei. – disse, como se também soubesse que apenas isso não é o bastante. – Podemos tentar o skype dessa vez de novo, só não prometo na hora do parto de verdade, porque seria um pouco estranho. – tentou brincar, para relaxar a mente.
- Deixa o celular ao seu lado, bem onde eu estaria. – pediu, ouvindo amiga apenas murmurar em resposta, afirmando. – Qualquer coisa você me liga. Assim que estiver indo para o hospital.
- Eu ligo, pode deixar. – ela respirou fundo, soltando o ar pesadamente pela boca. – Vai dar tudo certo, não é?
- Vai, sim. Vai dar tudo certo, . – repetiu, tentando tranquilizar a amiga e a si mesmo.

🤰 👶 👪


Quase sete horas depois das primeiras dores, ainda estava em casa, deitada em sua cama, assistindo TV, com as pernas para o alto, numa posição que parecia confortável. As contrações tinham diminuído de intervalo, estavam a cada quinze minutos agora e as dores também tinham mudado, estavam um pouco mais forte. Lilly estava deitada ao seu lado, mexendo no celular, já cansada de esperar pelo bebê que tinha prometido que iria nascer. Noah estava sentado na frente da cama, olhando para a televisão, mas sem realmente prestar atenção no filme que eles fingiam ver. Já Anthony estava deitado no chão, cochilando brevemente, ele tinha resolvido algumas pendências que tinham no escritório e ido direto para a casa da amiga, mas como tudo estava demorando mais do que imaginaram, ele resolveu dormir um pouco. A calmaria foi interrompida quando a menina sentiu uma nova contração, que dessa vez foi um pouco mais forte que as anteriores. Ela ergueu o corpo por reflexo, pousando as mãos na barriga e gemeu, chamando a atenção dos amigos, que olharam rapidamente em sua direção, numa atitude protetora. Permaneceu nessa posição pelos segundos que seguiram, respirando fundo, como se quisesse controlar a dor.

- Essa foi mais forte. – comentou, colocando as pernas para fora da cama e recebendo ajuda para se levantar, não aguentava mais ficar deitada. Ia caminhando na direção do banheiro, mas parou de repente, levando as mãos para a barriga. Sentiu uma pressão e uma sensação de um estouro dentro de si, como de um balão de gás. Logo depois, um líquido começou a escorrer, sem controle, por entre suas pernas. arregalou os olhos, petrificada em seu lugar.
- , você tá fazendo xixi nas calças? – Lilly comentou, um tanto quanto confusa.
- Não... – a menina respondeu brevemente. E então todos perceberam o que estava acontecendo. Agora era verdade, o bebê ia nascer.

Noah levantou rapidamente, correndo até o quarto do bebê. Ele pegou a bolsa que estava preparada e a mala da amiga, voltando para onde os outros estavam. Anthony tinha descido para avisar Lena e Lilly continuava parava na frente de , com a expressão tão assustada quanto a da grávida.
- Nós temos que ir. – Noah disse, nervoso.
- Ela não vai sair assim, toda molhada. – Lilly disse, olhando na direção dele, como se dissesse “se acalma”, apenas com o olhar. – Desce, vai colocando as coisas do carro, liga para a médica e arruma tudo o que precisar, que eu vou ajudar a a se trocar.
- Mas, Lilly... – ele tentou falar, só que ela interrompeu.
- Vai, Noah.

Ele saiu, contrariado, enquanto Lilly caminhou até o armário, pegando a roupa que tinha separado para vestir. Ajudou a amiga a tirar todas as peças que estavam molhadas e ficou em silêncio, tentando passar um pouco de calma a ela. Pegou uma toalha no armário, segurou em seus braços, e olhou em sua direção com a expressão confusa.
- Vai que você vira uma cachoeira de novo, melhor nos prevenirmos, né? – deu de ombros, vendo os lábios da outra se repuxar num sorriso.
- Não sei se uma toalha vai ajudar muito, mas vale a tentativa. – respirou fundo, passando a mão pelos cabelos e encarando Lilly pelo canto dos olhos. – Tá acontecendo...
- Vai dar tudo certo. – ela se limitou a dizer, como se tivesse certeza do que falava.
- Como você sabe? Como você pode ter tanta certeza?
- Você esqueceu que eu sempre sei de tudo? – sorriu abertamente, numa postura altamente esnobe. É claro que Lilly não sabia o que estava dizendo, na verdade, Lilly não sabia de nada relacionado a gravidez, mas tinha noção de como a cabeça da amiga deveria estar fervilhando, num misto de emoções, então ela deveria fazer o máximo que pudesse para tranquilizá-la. Mesmo que isso significasse usar suas poucas habilidades como atriz e manter Noah longe, ou, até mesmo, dopado.
Lena apareceu no quarto com Anthony, suas mãos tremiam e ela tinha lágrimas nos olhos. Suas mãos protetoras foram na direção da filha, a puxando para um abraço. percebeu que a mãe estava nervosa e que ela chorava, automaticamente, ela começou a chorar também. Talvez pelo medo, ou nervosismo, até mesmo pela emoção. Mas não era o momento para isso ainda. Lilly suspirou, ela precisaria de mais sedativos, porque um bebê, Lena e Noah eram muito para uma grávida só lidar, não conseguiria aguentar os três.
- Tony, você pode ajudar a a descer? – pediu, enquanto segurava, disfarçadamente, a mão de Lena, fazendo-a ficar ao seu lado. Assim que os dois sumiram pelo corredor, ela olhou para a mais velha, pensando em palavras mais leves para usar. Porque, né, era a mãe da sua amiga. – Lena, eu sei que estamos todos nervosos e você mais ainda, porque é a sua filha e o seu neto. E por isso eu quero pedir para que você se controle, por favor.
- Mas eu não estou fazendo nada, Lilly. – a mais velha a olhou como se não entendesse o que ela estava falando.
- Eu sei que não está. – mentiu, mas não queria magoá-la. – Só que eu sei como você tende a ser altamente passional, como você não lida bem em situações como essa e a precisa que você mantenha a cabeça no lugar, não só você, mas todos nós. Porque ela não pode se preocupar comigo, com você, com o Noah ou com qualquer pessoa que não seja ela mesma e o bebê. Você tá me entendendo? – a mais velha balançou a cabeça, afirmando. – Então quando você se mostra meio descontrolada, chorando, tremendo, isso não ajuda em nada. Pelo contrário, só vai deixá-la mais nervosa. Por isso, por favor, tente se controlar, ao menos perto dela.
- Tudo bem, eu vou tentar. – a mais velha disse, respirando fundo e passando as mãos pelo rosto, secando as lágrimas. – Mas é muita emoção, sabe...
- Eu imagino que seja. – Lilly sorriu de lado, tentando amenizar o clima entre as duas. – Mas nós teremos muito tempo para nos emocionarmos depois que o bebê chegar.

🤰 👶 👪


Morristown Medical Center
100 Madison Avenue, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 12:55 PM


Eles tinham chegado ao hospital há pouco tempo e estavam esperando a doutora Adelaide sair do quarto. Ela tinha chegado minutos atrás e estava fazendo um rápido exame em , então eles deixaram o quarto, para que elas tivessem mais privacidade. A médica abriu a porta e parou no meio deles.

- Estamos progredindo, talvez não demore tanto quanto foi até a bolsa romper. – Adelaide começou a falar, fazendo todos olharem em sua direção. – Ela está com três centímetros de dilatação e temos que chegar aos dez. Eu falei que se ela quiser caminhar pelo quarto, tudo bem, isso ajuda a acelerar, então vocês podem ajudar nisso. As contrações ficarão menos espaçadas e mais longas conforme o tempo for passando, então nos intervalos ajudem ela a relaxar, podem fazer massagem nas costas, nos pés, ver uma posição mais confortável. Se precisarem de alguma coisa, se notarem algo errado, é só apertar o botãozinho que tem ao lado da cama, que uma enfermeira vem para ajudar. Façam o possível para mantê-la calma. – sorriu, olhando na direção de Lena. – Eu volto em breve.

Todos se movimentaram para entrar no quarto, mas Lilly segurou a mão de Noah, pedindo para ele ficar um segundo ali com ela. O rapaz a encarou, com a expressão confusa, mas a menina só começou a falar depois que ficaram sozinhos.
- Eu sei que você tá nervoso, que tudo isso mexe muito com a sua cabeça, mas se controle. – Lilly pediu, vendo o olhar de Noah se tornar mais esclarecido quando ele entendeu. – Você fica muito desesperado, igual a Lena, e a não pode lidar com a loucura de vocês. Eu falei a mesma coisa pra ela, se calma, não demonstra o seu nervosismo, porque vai atingi-la e, consequentemente, vai atingir o bebê.
- Mas você não tá nervosa? – ele perguntou, passando a mão pelo cabelo, um pouco desconfortável.
- É claro que eu tô nervosa. Tô nervosa pra caramba, mas ninguém precisa saber. – disse rápido, como se fosse um segredo. – Se eu perceber que você tá perdendo o controle, eu vou arrumar um tranquilizante e você só vai ver esse bebê quando acordar.
- Tá bom. – Noah falou, respirando fundo em seguida. Ele não era tão bom em esconder seus sentimentos assim, mas tentaria pela amiga. Lilly estava certa, não tinha que lidar com mais isso, ela já tinha preocupações o bastante em sua cabeça.

Voltaram para o quarto e encontraram de pé, com as mãos apoiadas na cama, enquanto Anthony massageava suas costas, na região da lombar. Ela mantinha os olhos fechados, como se estivesse sendo dor, mas não quisesse demonstrar. Tentou se alongar um pouco, levando o corpo para trás, mas desistiu no meio do movimento, levando as mãos até a barriga e respirando fundo. As contrações não paravam, pelo contrário, pioravam cada vez mais. Fazia tantas horas que ela lidava nisso, que seu corpo já estava ficando exausto.
A menina começou a caminhar lentamente pelo quarto, respirando bem fundo e tentando relaxar um pouco, mas estava difícil. Parava sempre que sentia que uma contração se aproximava e tentava manter a respiração sobcontrole, para aguentar as dores. Mas elas estavam cada vez piores. Suas costas doíam, o seu corpo estava cansado e a sua mente estava ficando esgotada. Não conseguia parar de pensar no parto, no bebê, nas dores, no futuro... Em tudo. Parecia que todos os problemas, os atuais e os futuros, tinham combinado de se juntarem para tentar tirar a pouca sanidade que a menina ainda tinha. Então imagens aleatórias e pensamentos soltos, de possíveis problemas que poderiam acontecer, ocupavam a sua mente e, por mais que ela tentasse não pensar neles, era a única coisa que ela conseguia pensar. Era como se tudo a sua volta estivesse numa velocidade menor que a do seu cérebro, ela não conseguia forçar sua atenção em nada, só no seu pequeno surto interno. Então cada vez que respirava fundo, não era apenas para aguentar com as dores, era também para tentar lidar com a pequena batalha que interna que travava contra si mesma.

- ... – ouviu alguém chamar seu nome e voltou à realidade. – Tá tudo bem? – era Lilly, que estava sentada ao lado de sua mãe no pequeno sofá que tinha no quarto.
- Tá sim, eu só estou cansada. – mentiu, não queria preocupar ninguém. Eles, provavelmente, estavam lidando com seus próprios problemas.
- Então deita um pouco, tenta relaxar. – Lena disse, levantando a caminhando até a filha. – Seu corpo está trabalhando muito, então é normal que você se sinta assim. – segurou uma das mãos da filha, levando-a até a cama e ajudando que ela se sentasse e depois que deitasse.
- Será que ainda vai demorar muito? – perguntou, mais para si, do que para qualquer outra pessoa. Fechou os olhos quando outra contração começou, deixando o ar escapar lentamente por entre seus lábios.
- Quer que chame a médica? – Anthony falou, tocando a mão da menina com a sua. Ela balançou a cabeça lentamente, negando.
- Acho que está na mesma, pelo menos eu sinto que está na mesma. – respondeu, com um sorriso meio sofrido no canto dos lábios. – Conseguiram falar com o ? Ele pediu para avisar quando viéssemos para o hospital, mas naquela loucura toda, eu esqueci. E agora eu nem sei onde tá meu celular.
- Eu liguei, mas tava desligado. Ele tá em horário de trabalho, não é? Talvez esteja numa reunião, sei lá... – Noah ponderou, vendo acenar, concordando. Ela não queria se preocupar com os sumiços de , então resolveu apenas ignorar o que podia irritá-la.
- Vocês não precisam ficar presos aqui, como expectadores do meu sofrimento. – a menina mudou o assunto, para seguir com o seu plano de ignorar as preocupações e coisas que a irritavam. Podem dar uma volta, se distrair, acho que vamos demorar aqui, não é mesmo, bebê? – tocou a barriga, como se falasse com o filho.
- Nós viemos ficar com você. – Lilly falou, se acomodando no sofá, como se deixasse claro que não iria a lugar nenhum. – Mesmo que você seja como a Rachel e tenha um trabalho de parto de 21 horas.
- Adoro quando vocês usam referências de Friends pra falar comigo.


Já tinha quase três horas que eles tinham chegado ao hospital, quase dez horas que estava em trabalho de parto. Sua expressão demonstrava como ela estava exausta, exaurida, esgotada. As contrações estavam quase seguidas e durando mais do que ela queria e conseguia aguentar. Algumas vezes um grito escapava por entre seus lábios trêmulos, apenas como reflexo de como todo o seu corpo estava tomado pela dor. Todos diziam que ela precisava respirar, que precisava se manter calma, mas é fácil falar quando não é o seu corpo que está, literalmente, se abrindo e não é você que está sentindo tudo isso. A porta se abriu no meio de uma contração e Adelaide a olhou com uma expressão compassiva, pelo menos ela a entendia.

- Como você está? – perguntou quase que por perguntar, já que o olhar de dizia tudo.
- Se eu pudesse, eu mesma puxava esse bebê daí de dentro nesse instante. – respondeu, sincera. – Eu não estou aguentando mais.
- Vamos ver como está nosso avanço. – a médica comentou, se aproximando para um exame rápido. se mostrou um pouco incomodada com o toque da médica, mas relaxou de novo assim que ela se afastou. – Bem, acho que vou pedir para preparem a sala de parto.
- Sério? – a menina disse, como se não acreditasse.
- Dez centímetros, está na hora. – a mais velha sorriu, retirando as luvas que usava. – Como vocês são muitos aqui, vou permitir entrarem dois com ela, desde que fiquem calmos e não atrapalhem, ok? Se resolvam, que eu volto em alguns minutos para te buscar.

A médica se afastou para deixar o quarto assim que as vozes se alteraram, para decidir quem iria com a grávida, mas assim que ela saiu, outra pessoa entrou, deixando a mochila cair junto da porta e caminhando rapidamente para perto da cama onde estava. Ela olhou em sua direção no mesmo momento e sentiu o coração acelerar, não estava esperando por isso.

- ? – a exclamação de Anthony fez com todos parassem a mini discussão e encarassem o rapaz que tinha acabado de chegar. Ele parece nervoso e ofegante, como se tivesse corrido muito para chegar até lá.

parou ao lado da amiga e segurou uma de suas mãos entre as dele, trazendo para perto do corpo. Observou com atenção o estado da menina, visivelmente preocupado. Um sorriso surgiu em seus lábios e ele achou graça da expressão surpresa que ainda mantinha em seu rosto.

- Pensei que não chegaria a tempo. – ele disse rápido, enquanto tocava, gentilmente, a barriga de . – A viagem demorou muito.
- , o que você tá fazendo aqui? – a menina murmurou, num misto de incredulidade, surpresa e felicidade. Ela sempre quis que ele estivesse lá quando o bebê nascesse. Sempre que imaginava esse momento, estava ao seu lado, mas depois da notícia de sua viagem, essa imagem tinha se tornado apenas um desejo impossível. nunca esperou que ele largasse tudo para vir, que deixasse tudo de lado para estar perto dela. Era mais do que ela poderia pedir, mas estava feliz, estava radiante que ele estava ao lado dela novamente.
- Eu prometi que estaria ao seu lado, lembra? – falou, vendo a menina afirmar com a cabeça, ainda com os olhos meio arregalados e um sorriso bobo nos lábios. – E você sabe que eu sempre cumpro minhas promessas.
- Mas e o seu curso? O seu trabalho? – ela perguntou, depois de ser acometida por uma nova contração. pareceu assustado com a expressão de dor que ela fez e olhou na direção dos amigos, como se pedisse ajuda. Eles deram de ombros, como se quisessem dizer que era normal.
- Eles estarão lá quando eu voltar. – respondeu, colocando as mãos ao lado do rosto da menina, fazendo com que ela o olhasse nos olhos. ficou com o olhar preso ao dele, sem nenhuma chance de escapatória. Presa aos seus lindos olhos . – Você é mais importante, nunca se esqueça disso.
- Ótimo, agora só restou uma vaga para assistir o parto e que é, claramente, da avó do bebê. – Lilly reclamou, em tom de brincadeira, cruzando os braços e olhando na direção de .
- O que? Não, vocês podem ir, eu... – ele tentou amenizar a situação, mas Noah o interrompeu.
- Não é como se tivéssemos vindo de outro país, só isso já faz com que fiquemos para trás? – ele disse, fazendo Anthony rir.
- É uma disputa perdida. – complementou o namorado.
- Ao invés de reclamar de mim, vocês poderiam me dar um abraço. Afinal, tem alguns meses que não nos vemos, não é mesmo? – fingiu estar chateado, abraçando cada um dos amigos e recebendo um beijo carinhoso de Lena.
- Kathy sabe que você está aqui? – a mais velha perguntou, vendo o rapaz negar com a cabeça.
- Ninguém sabia, eu decidi depois que falei com a no telefone mais cedo. Tinha noção que iria demorar muito, que poderia chegar depois do bebê ter nascido, mas eu precisava vir, eu precisava estar aqui... – ele olhou na direção de , com quem trocou um olhar cúmplice. Ela sabia o motivo da necessidade que ele sentia de estar ali.
- Então vou avisá-la, ela vai ficar muito feliz. – comentou, pegando a bolsa e caminhando para fora do quarto.
- Ainda não acredito que você está aqui. – a menina disse, sentindo os olhos se encherem de lágrimas e as palavras faltarem. Ela tinha noção que as coisas estavam estranhas entre eles, mas sabia que nada mudaria, nunca. O que tinham era diferente, era pra sempre.
- Eu não podia perder isso, precisava ver esse bebê, precisava conhecê-lo... – a precisava dele, mas não quis falar isso alto, porque poderia ganhar significados diferentes do que realmente tinha e porque os outros poderiam estranhar.

Adelaide entrou novamente do quarto, junto com parte da equipe de enfermagem. Eles colocaram em outra maca e começaram a preparação para levá-la para a sala de parto. Todos ficaram mais nervosos do que já estavam, inclusive a menina, que estava com as mãos frias e suadas. Os quatro amigos e Lena caminhavam atrás da médica e falavam sem parar no ouvido de , sobre todas as coisas que ele deveria fazer para tentar ajudar.

- Lembra da respiração cachorrinho, a gente aprendeu na aula de Lamaze. – Noah falou.
- Às vezes ela fica sem ar com a respiração cachorrinho, então lembra sempre de pedir para ela respirar bem fundo entre as contrações, porque ela sempre esquece. – Lilly lembrou.
- Não esquece de tirar uma foto do bebê no colo da assim que ele nascer. – Anthony complementou.
- Hey, calma. – parou no meio do corredor, vendo os três pararem também, o encarando com suas expressões confusas. – Vocês estão me deixando doido.
- Tá bom, desculpa. – Lilly, respirou fundo, como se tentasse voltar ao normal. – Só esteja lá por ela e, bem, por nós... – ela sorriu de lado.
- Eu vou cuidar dela, prometo. – o rapaz afirmou, andando um pouco mais rápido para alcançar a médica, que já estava quase no final do corredor.

🤰 👶 👪


respirava fundo, sentindo uma pressão forte na barriga e uma vontade de fazer força. Adelaide estava bem na sua frente, se posicionando para o parto. Tinham mais dois enfermeiros na sala e uma pediatra, que faria os primeiros exames no bebê, assim que ele nascesse. e Lena estavam atrás da maca, cada um de um lado, ambos paramentados, com as proteções nas roupas, luvas, tocas e tudo mais. A menina sentia como se o bebê estivesse descendo, estivesse, realmente, saindo. A pressão aumentava, assim como a vontade de fazer força, para tirá-lo de uma vez. O que tinha demorado tanto antes, parecia que seria rápido dessa vez.

- O bebê está vindo, . Você consegue sentir uma pressão? - Adelaide olhou para a menina, vendo-a balançar a cabeça várias vezes, afirmando. – Então quando vier a próxima contração e você sentir vontade de fazer força, faça, ok? A maior que puder, pelo tempo que a contração durar. Quando acabar, você respira, tenta descansar um pouco, porque depois faremos tudo de novo depois, até o bebê sair.
- Tudo bem. – ela disse, com a voz cortada pela respiração irregular.
- Se lembre de respirar fundo pelo nariz e expirar pela boca. – falou, se aproximando e apoiando uma das mãos no ombro da menina.
- Eu estou tentando, mas tá difícil. – respondeu, com os dentes trincados. Uma nova contração se aproximava e ela respirou fundo.
- Vamos lá, , faça força, o máximo que puder. – a médica disse, olhando para cima e vendo o rosto da menina se contorcer numa careta, devido ao esforço. – Não estamos tendo muito avanço, você precisa fazer mais força.
- Estou fazendo o máximo que posso. – choramingou, deixando o corpo exausto tombar na maca.
- Eu sei que é difícil, mas você precisa se esforçar. – Lena falou, passando a mão pelos cabelos da filha. Alguns fios estavam molhados de suor, por causa da força que ela fazia.
- Na próxima contração, faça o melhor que conseguir. – Adelaide pediu, apalpando a barriga da menina, sentindo onde o bebê estava. sentiu o corpo se contrair novamente e respirou fundo, tentando colocar seu bebê para fora dessa vez. – Ótimo, está vindo, continue assim, continue empurrando. – a menina segurou na lateral da maca, se apoiando e levantou levemente o corpo, como se tentasse encontrar uma forma de continuar. percebeu e segurou o braço da amiga, passou o seu pelas costas dela, como se a abraçasse. Ele apoiou a cabeça no ombro, deixando seu rosto lado a lado com o dela. – Ótimo, , o bebê está vindo, ele está coroando. – Adelaide exclamou e a menina sentiu uma sensação quente, um ardor. Soltou o ar, que não percebeu que estava que estava prendendo, e se deixou relaxar por alguns segundos. – A cabeça já está saindo. – a médica anunciou e Lena deu a volta para olhar, colocando a mão no rosto, segurando o choro. – Você está indo muito bem. Quando sentir as dores de novo, o bebê vai escorregar um pouco para fora e depois você vai precisar empurrar novamente, para que saiam os ombros, ok?
- Ok, ok, ok... – a menina repetia, como se não tivesse entendendo muito bem o que ela estava falando, só repetindo palavras avulsas.
- ... – passou a mão pelo rosto da amiga, tirando os fios de cabelo que estavam soltos e se prendiam no suor de sua pele. – Você está conseguindo, só mais um pouco e o bebê estará aqui. Só mais um pouco, respira. – ela inspirou bem fundo, seguindo suas recomendações, apoiando a cabeça no amigo, completamente exausta.
- A contração vai voltar, pronta para os últimos empurrões? – Adelaide perguntou, levantando os olhos para a menina, vendo sua expressão cansada. – Falta pouco agora.
- Vamos, , você consegue. Só mais um empurrão... – disse, incentivando. A menina respirou fundo, sentindo a pressão na barriga voltar. segurou nos braços do amigo e fez o máximo de força que conseguia.
- Isso, , ótimo. – a médica disse, estimulou. A menina sentiu que seu filho estava vindo ao mundo, que era só questão de tempo. Seu corpo lhe mostrava isso, as sensações, os estímulos que tinha. O bebê estava nascendo, a cabeça tinha saído e o ombro descia lentamente. Tronco, barriga, pernas e pés. Ele estava aqui. Ela sentiu um vazio entre os segundos que passaram entre o momento em que o bebê deixou de estar dentro dela e que começou a chorar. Um choro alto, forte, que fez seu coração acelerar, seus olhos se encherem de água e seu corpo transbordar de um sentimento que não sabia descrever.
- Nasceu, minha filha. Nasceu! – Lena exclamou, não conseguindo mais segurar as lágrimas. A imagem do neto vindo ao mundo foi mais do que ela poderia desejar ver em sua vida. Foi uma experiência, uma imagem que nunca esqueceria.
- Você conseguiu, , você conseguiu. – repetia continuadamente, enquanto beijava o topo da cabeça da amiga. Seus olhos também estavam marejados e ele sabia que não conseguiria segurar as lágrimas por muito tempo.
- Cadê? Eu quero ver... – disse, com a voz baixa, extremamente cansada. Ela esticou o corpo, querendo ver o seu bebê e enxergou as enfermeiras o limpando rapidamente e enrolando numa manta. Adelaide o segurou com cuidado, depositando o pequeno embrulho nos braços ansiosos da menina, que tremia de excitação e emoção.
- É um menino. – a médica murmurou, enquanto olhava seu filho pela primeira vez. Ela não conseguia falar nada, as palavras pareciam não ter capacidade para exprimir o tamanho do amor que ela conseguia sentir crescer em si. Como se fosse um fogo, que a consumia por dentro. Era como se daquele momento em diante, nada no mundo teria mais importância do que aquela pequena pessoinha em seus braços. – Você já tem um nome? – a menina apenas balançou a cabeça, negando, sem conseguir tirar os olhos do seu bebê. – Tudo bem, então deixarei apenas o seu nome na identificação.

Lena se aproximou, com o rosto molhado pelas lágrimas, e parou ao lado da filha, beijando seu rosto e, em seguida, dando um beijo rápido do neto. Eram as duas pessoas mais importantes de sua vida agora, para quem ela faria tudo o que pudesse e também o que não pudesse. levantou os olhos para a mãe, vendo a sua própria emoção refletida nela. E agora ela entendia o que era o sentimento de uma mãe, o que era a sensação de amar mais outra pessoa do que a si mesmo. Era uma loucura, era insano, completamente sem explicações. Estendeu o braço, como se dissesse para ela segurar o neto. Lena pegou o bebê com cuidado, segurando-o junto ao corpo por alguns segundos. Manteve os olhos fechados e seus lábios se mexiam, como se ela murmurasse algo para si mesma. Talvez rezando para que Deus protegesse aquela criança, talvez agradecendo por tudo ter dado certo, ou apenas tentando dizer aquilo que também não conseguia.
O bebê voltou para os braços de e pegou o celular para tirar uma foto, como os amigos tinham pedido. Ele percebeu como a amiga estava distraída, num momento íntimo com o seu filho. Ela o encarava com tanta ternura, com tanto amor, que era como se esse sentimento pudesse ser visto, tocado e sentido através das fotos que o rapaz tirou. Era uma cena linda, incrível e ele não conseguia não se envolver. Por mais que tentasse evitar pensar daquela forma, ele tinha presenciado o nascimento do seu filho. Era isso que aquele menino seria: seu filho. Por mais que ele nunca soubesse isso, por mais que ele nunca pudesse falar sobre isso. Mas só de ter essa oportunidade, já se sentia abençoado. Porque ele estava lá fazendo parte daquele momento, estava ao lado da amiga, da forma que tinha prometido, da forma que sempre disse que estaria. olhou em sua direção, com um sorriso fraco nos lábios e indicou o bebê com a cabeça.

- Você quer segurar? – a menina perguntou, vendo o olhar assustado do amigo. Ele queria ter aquele bebê nos braços, mas não sabia se deveria, se conseguiria, na verdade. Era tão pequeno... tão frágil.
- Eu não sei... – murmurou, incerto. Ela sorriu de lado, esticando a mão para colocar o bebê nos braços desajeitados do rapaz, que, instintivamente, trouxe a criança para mais perto do corpo. sentiu seu coração acelerar e o choro o venceu. As lágrimas escorriam devagar, sem que ele pudesse controlar. Aquele bebê poderia crescer sem saber de nada, mas, com certeza, cresceria sabendo o quanto ele, , seu tio, padrinho, amigo, parceiro ou qualquer outra coisa que ele puder ser, o amava.

🤰 👶 👪


Algumas horas depois, estava de volta ao quarto, cercada por seus amigos. O bebê ainda estava no berçário, tinha saído da incubadora há pouco tempo e chegaria ao quarto em breve. Todos já tinham marcado presença na frente ao berçário, com os olhos fixos no pequeno bebê que dormia tranquilamente. Já a nova mamãe tentava descansar, mas não conseguia dormir, pensando que o seu filho poderia chegar enquanto ela estivesse dormindo. Quando a enfermeira entrou no quarto, trazendo o carrinho com o bebê, todos se agitaram. Ela parou ao lado da cama, colocando-o no colo de e dizendo para tentar amamentar quando ele acordasse. Assim que ficaram sozinhos, Lilly já se aproximou, ansiosa para segurar seu pequeno sobrinho. O bebê passou de colo em colo, sendo mimado e amado do jeito que todos sabiam que ele seria, e ainda assim continuou dormindo.
Quando ele acordou, tentou amamentar, mas não conseguiu. O bebê não pegava, quando pegava, não conseguia sugar e ela se preocupou se ele não ficaria com fome. Chamaram a enfermeira, que disse que caso ele não conseguisse mamar e começasse a chorar, era só chamar novamente, que ela o levaria para tomar o complemento no berçário. Isso aconteceu alguns minutos depois, quando o neném acordou e começou a chorar a ponto de ficar todo vermelho. A enfermeira o levou e quando ele voltou, estava mais calmo e dormia novamente.
Como estava tudo tranquilo, Lilly disse que iria em casa tomar um banho e trocar de roupa, Lena também foi para casa descansar um pouco. Já Anthony e Noah foram até a cafeteria para comprarem algo para comer. ficou com , fazendo companhia para ela e seu filho. A menina estava cansada, os olhos estavam pesando e ela mal conseguia mantê-los aberto.

- Você pode cochilar, se quiser. – o rapaz disse, sentando perto da amiga e ao lado do pequeno bercinho onde o bebê estava.
- Estou dividida entre a minha necessidade de dormir e a minha vontade de ficar de olho nesse pequeno. – ela confessou, com a voz baixa e sonolenta.
- Ele precisa de um nome. – lembrou, vendo a menina balançar a cabeça, afirmando.
- Eu sei disso, mas não tive nenhuma ideia que me agradasse. Se quiser, pode me dar uma sugestão, prometo pensar com carinho. – sorriu, bocejando involuntariamente. se aconchegou na cama, tombando a cabeça para o lado, olhando na direção do bebê e do amigo. – Obrigada.
- Pelo que? – perguntou, franzindo a testa.
- Por tudo. – ela deu de ombros, como se fosse simples. – Por estar aqui, por estar sempre do meu lado, por me apoiar e por, você sabe, tornar tudo isso possível.
- Sabe que eu faço qualquer coisa por você, não é? – sorriu de lado, tocando o rosto da menina. – Agora descansa, eu fico de olho nele, qualquer coisa eu te acordo. – falou, sem precisar insistir muito.

Minutos depois já estava dormindo, sua expressão tranquila mostrava a sua felicidade e isso também era motivo de alegria para o rapaz. Afinal, se estava feliz, ele também estava. Fora que com aquele pequeno bebê no mundo, a felicidade deles tinha multiplicado por mil. Era estranho pensar nele como metade dele e metade de sua amiga. Era estranho pensar que agora ele era pai e que não podia dizer a ninguém. Era estranho perceber todo aquele sentimento brotar em seu peito, tendo a noção que teria que deixá-lo escondido e silencioso.
Talvez ele conseguisse. Talvez não fosse tão difícil. Afinal ele não ficaria tão longe, eles conviveriam. O menino saber ou não que eles eram pai e filho não mudava nada. Era como ele tinha falado, antes mesmo de fazer a doação: ele não precisava ser realmente o pai para amar aquela criança como um pai. poderia ser a figura paterna que o menino precisasse, ser sua referência, ser seu amigo, seu parceiro. Poderia ser qualquer coisa. E quando olhava para ele, quando via seu rosto, quando via as bochechas gordinhas, os dedinhos pequenininhos, o narizinho gordinho como o da mãe, percebia que ele poderia ser qualquer coisa para aquela criança. Não só poderia, como queria. Foi como um pequeno momento de iluminação. Tudo tinha mudado, ele tinha mais alguém com quem se preocupar no mundo, alguém para quem voltar, alguém para pensar no futuro, alguém para imaginar em sua vida para sempre. Será que é assim que a pessoa se sente quando se descobre pai?
esticou o braço, pegando o bebê no colo com cuidado. Aconchegou perto de seu corpo, de uma forma que ele ficava bem acomodado e numa posição boa para dormir. Tocou sua mão e sentiu o coração acelerar quando, mesmo adormecido, o menino segurou o seu dedo com toda a pouca força que tinha e continuou assim, sem soltá-lo. Ele sorriu, mordendo o lábio inferior para não chorar. Será que essa era a forma que ele teve para mostrar que aceitava a proposta de ? Para lhe dizer que o aceitava em sua vida? O rapaz esperava que sim. As pálpebras do bebê tremeram e ele parecia que ia acordar, então levantou com cuidado, balançando o corpo, como se tentasse colocá-lo para dormir novamente. Sem perceber, ele já estava murmurando uma música qualquer. Não sabia se Bob Dylan era apropriado para crianças, mas a letra parecia bonita o bastante. Era como se mostrasse parte dos seus desejos para o futuro daquela criança.

- May you grow up to be righteous, may you grow up to be true. May you always know the truth and see the lights surrounding you. May you always be courageous, stand upright and be strong. – cantarolou, com os lábios meio repuxados num sorriso. – May you stay forever young. Forever young, forever young, may you stay forever young...¹
- Eu adoro essa música. – ele ouviu a voz embargada da amiga soar atrás dele. Estava tão envolvido com o bebê, que nem tinha percebido que ela estava acordada.
- Desculpa, eu te acordei? – perguntou, apressado, vendo-a balançar a cabeça, negando.
- Eu nem tinha dormido de verdade ainda, aí ouvi te ouvi cantando e fiquei curiosa para ver o que você estava fazendo. Até que você leva jeito com bebês... – respondeu, com um sorriso bobo nos lábios. passou a mão pelos cabelos, tentando colocá-los no lugar, mas desistindo no meio do processo. continuou balançando seu sobrinho, se aproximando um pouco mais da cama. A amiga os encarava com uma expressão quase orgulhosa, era como se ela estivesse contente que eles estivessem tendo a oportunidade de compartilharem um momento como esse. Como se fossem pai e filho. – E eu tava aqui pensando: Dylan é um nome legal.


¹ "Que ao crescer você se torne justo, que ao crescer você se torne verdadeiro, que você saiba sempre discernir a verdade q enxergar as luzes que o cercam. Que você seja sempre corajoso, aguente firme e seja forte. Que você possa permanecer para sempre jovem. Jovem para sempre, jovem para sempre." A música que o principal canta no capítulo é Forever Young, do Bob Dylan.


Onze - Ser Mãe

I won't let nobody hurt you
Won't let no one break your heart
And even though you want to
Please, try to never grow up

(Taylor Swift – Never Grow Up)


Uma semana após o nascimento – Seis meses de viagem
42 Moris Ave, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 02:49 AM

balançava Dylan de um lado para o outro, inutilmente, pois o bebê não parava de chorar. Eram quase três da manhã e ele estava chorando desde um pouco depois de meia noite. Olhou para as flores que começavam a murchar na sua mesa de cabeceira. tinha comprado antes de voltar para a Alemanha. Ele ficou ao seu lado por todos os momentos que ela lembra, só tinha saído do hospital para tomar um banho na casa dos pais e seguir para o aeroporto. tinha ficado cerca de vinte horas apenas em Nova Jersey, não tinha sido o bastante para matar as saudades, mas tinha ficado mais do que feliz apenas por ele ter estado lá. Significou mais do que qualquer coisa, qualquer ato. Ela queria que ele ficasse, mas não falou nada. Ele, provavelmente, sabia disso, mas não tinha muito o que fazer. Agora tinha lidar com o peso das suas escolhas sozinha, como deveria ser, de fato. Mas ter ao seu lado tornava tudo tão mais fácil, ela estava tão acostumada com isso, que era difícil pensar de outra forma. Talvez ele tivesse uma ideia de como acalmar Dylan, talvez ele tivesse um colo mais receptível ou mais jeito com crianças. Todas essas perguntas ficariam no talvez, eles nunca teriam uma resposta para elas.
A menina estava exausta, mal tinha dormido na noite passada e cochilado pouco durante o dia. Suas costas doíam, os seis estavam doloridos e inchados e Dylan não parecia que iria parar de chorar em breve. Já tinha trocado a fralda, tentado amamentar, mas nada faziam com que ele se acalmasse. Provavelmente era fome, porque ele ainda não conseguia mamar direito, como se não tivesse força, e ela não conseguia tirar leite o bastante com a bomba que a mãe tinha lhe dado. Ela estava nervosa, porque não conseguia acalmar o seu próprio filho. Será que seria sempre assim? Será que seria sempre assim difícil? queria gritar, queria correr e, principalmente, queria chorar junto com o seu bebê. Sentia-se completamente incapaz. Por isso não conseguiu conter as lágrimas que escorriam pelo seu rosto, enquanto trazia seu filho para mais perto, deixando-o bem juntinho ao seu corpo.
- Dylan, meu bem, a mamãe tá fazendo o que pode. – murmurou, com a voz baixa e embargada. – Diz pra mim o que você tá sentindo, o que você quer. – pediu, inutilmente. – Por favor, meu filho, se acalma.
- ... – Lena entrou no quarto, vendo a filha parada no meio do mesmo, com o bebê nos braços, os olhos vermelhos e o rosto molhado pelas lágrimas. – Minha filha, o que foi?
- Eu não consigo, mãe. Eu não consigo. – ela disse, encarando a mãe com a expressão arrasada. – Eu não consigo acalmar meu próprio filho. – Lena viu nos olhos da filha como se gritasse por ajuda. E era pra isso que ela estava ali.
- Querida, calma. – falou, se aproximando. Passou as mãos pelo rosto de , secando suas lágrimas e pegou o neto com cuidado. – Vai no banheiro, lava o rosto e se acalma, é assim mesmo. – pediu, vendo a filha obedecer aos seus comandos quase que de forma robotizada. Ela voltou e sentou na cama, com a expressão derrotada de antes. – Vocês estão se conhecendo, então é normal que tenham esses problemas, ainda mais que o Dylan ainda não está conseguindo se alimentar direito. O complemento que disseram para dar em caso de necessidade costuma dar gases, pode ser isso, talvez seja fome ou até mesmo manha, porque está com sono. – Lena deitou o bebê na cama, colocando as mãos sobre a barriga dele, fazendo uma massagem leve. – Pega aquele óleo que compramos, vamos fazer uma massagem nele, pra ver se relaxa um pouco. – foi até o quarto do filho e voltou com o vidro nas mãos, sentando ao lado da mãe, que já tinha tirado o casaquinho que o bebê usado e levantado sua blusa, deixando a pele da barriga exposta. – Coloca um pouco do óleo nas mãos e esfrega bem, pra deixá-la bem quente, e depois faz uma massagem na barriga dele, movimentando a mão em círculos, de leve, para ajudar caso ele esteja com gases. – instruiu a filha, que fez o que ela disse, passando uma mão na outra por várias vezes. Quando sentiu que estava quente, começou a fazer a massagem do jeito que a mãe ensinou, vendo Dylan se acalmar um pouco. – Eu aprendi isso com a sua avó, não sei se eles ficam mais tranquilos apenas pelo contato, pelo toque, pelo carinho, mas sempre funciona. – Lena completou, sorrindo para o neto entre as palavras. Dylan ainda parecia desconfortável com alguma coisa, mas o toque da mãe pareceu ter acalmado e amenizado um pouco o que ele sentia. continuou a massagem por alguns minutos, descendo os movimentos para as perninhas do bebê e indo até em cima, no tronco. Só parou quando percebeu que ele tinha pegado no sono. Ele estava tranquilo, com a respiração leve, como se estivesse relaxado e, também, cansado. Ela ficou com medo de mexer nele e acabar acordando-o, então ajeitou as almofadas ao redor dele na cama, para que ficasse protegido. Ele era muito novinho para rolar ou algo do tipo, mas era melhor prevenir. Assim que se permitiu respirar de novo, sentiu o choro querer voltar com força total, mas não queria desmoronar na frente da mãe. A menina estava sentindo o peso da maternidade em seus ombros e temia não aguentar. Foi algo que ela mesma escolheu, pesou todos os prós e contras e pensou apenas no sonho que tinha de ser mãe. Mas “ser mãe” é algo altamente romantizado, porque essas partes difíceis são não mostrada na TV, nos filmes ou comentada em conversas casuais. Como se as pessoas quisessem esconder esse pequeno segredo sujo, mas que não deveria ser segredo para ninguém. Ser mãe é difícil. Ter um filho é difícil. Provavelmente a função mais trabalhosa e complexa de todo o mundo. E estava questionando suas habilidades e a sua capacidade.

- O que foi? – Lena perguntou, como se pudesse ler a mente da filha. Ou ela apenas conhecia tão bem, que podia perceber quando algo não ia bem, apenas pela expressão no rosto da menina.
- Eu não sou uma boa mãe. – confessou, suspirando profundamente e deixando o corpo cair contra os travesseiros na cama.
- Como você pode ter tanta certeza disso? Por uma semana de experiência? Minha filha, ao contrário do que falam por aí, ninguém nasce sabendo ser mãe. É algo que vamos aprendendo. Erramos, acertamos, erramos novamente e depois mais uma vez. Não é uma ciência lógica, nós vamos nos adaptando, vamos nos conhecendo. – a mais velha sorriu, segurando a mão da filha e a puxando suavemente, para que ela deitasse em seu colo, da mesma forma que fazia quando ela era mais nova, porque algumas coisas nunca mudam. – Vocês são novidades um para o outro, estão juntos há alguns meses, sim, mas essa relação de mãe e filho ainda está sendo construída. Dê tempo ao tempo e, principalmente, dê um tempo a você mesma, não se cobre tanto. Tem coisas que estão além da sua capacidade ainda.
- Mas nem amamentar direito eu consigo. – murmurou, com os lábios pressionados contra a almofada que Lena havia colocado em seu colo.
- Mas amamentar não te faz mais ou menos mãe, querida. – a mais velha passou a mão pelos cabelos desarrumados da filha, tentando colocar alguns fios no lugar. – Seu corpo está se adaptando a essa nova fase, ele pode começar a produzir leite o suficiente amanhã, depois ou semana que vem, assim como pode secar no próximo mês. Como eu disse, não é uma ciência exata. Você disse que o Dylan ainda não consegue sugar direito, dê um tempo a ele também, quando ele estiver com um pouco mais de força, talvez consiga.
- Mais força? – a mais nova exclamou, fazendo a mãe rir baixo. – Se ele usar mais força, é capaz do bico dos meus peitos saírem na boca dele. É sério, eu não imaginei que doesse tanto.
- Vai passar, , vai passar. Nada nessa vida é permanente. – Lena disse, mas não sabia que ela se referia à dor ou a tudo. A menina levantou o corpo, encarando a mãe. Elas nunca estiveram tão próximas como nos últimos meses. Ela sabia que a mãe adoraria a ideia de ser avó, mas não tinha imaginado como isso seria bom para a relação delas como mãe e filha. – As dores vão passar, assim como os seus medos, suas angustias e a sua certeza de que é uma péssima mãe. Mas os medos de hoje, serão substituídos por outros, assim como as suas angustias e certezas. – Lena esticou a mão e pegou a escova de cabelo que estava na mesa de cabeceira e pediu para que a filha se virasse, para pentear seu cabelo. Coisa que ela tinha começado a fazer antes de Dylan pôr-se a chorar. – Nós temos que nos adaptar. Você tem que aprender a primeira lei das mães: a da adaptação. Essa é uma das habilidades que nós adquirimos assim que nossos filhos nascem, porque nos vemos capazes de fazer coisas que não sabíamos que conseguíamos antes. Seja alterando nosso corpo, rotina e modo de viver de acordo com as necessidades que a vida impõe. Sempre tentando fazer o nosso melhor, mesmo que ele não seja o melhor para os nossos filhos. É a vida de uma mãe: sempre se preocupar, sempre pensar no filho, sempre se questionar se está sendo boa o bastante.
ficou sem perguntando se Lena tinha esses questionamentos em sua cabeça, se ela pensava que não era uma mãe boa o bastante para ela. E se sentiu culpada por não deixar isso claro o bastante sempre. Elas poderiam ter suas diferenças, Lena poderia não ser a pessoa mais sã que a menina conhecia, mas ela sempre foi uma mãe incrível. Sempre esteve ao seu lado quando precisou, segurou sua barra e a apoiou, independente do que fosse. E esperava que conseguisse ser assim com Dylan também.
- Mãe... – a menina murmurou, virando um pouco a cabeça para olhá-la. – Eu acho que nunca falei como você foi e é incrível, não é? Mesmo com esse seu jeitinho louco e único. – sorriu de lado, vendo a mais velha imitar seu gesto. – Eu sempre me senti segura ao seu lado, porque sabia que tinha alguém para me apoiar, independente do que acontecesse. Você foi minha mãe e meu pai. É os melhores pais que eu poderia ter. E agora, como se não bastasse, está sendo maravilhosa com o Dylan também. Então se eu conseguir ser um terço da mãe que você é, já estarei mais do que satisfeita, porque você é incrível. Eu amo você, demais.
- Ah, minha querida... – Lena disse, puxando a filha para um abraço apertado. – Você é a coisa mais importante que eu tenho na minha vida, nunca se esqueça disso.


Depois da dificuldade que tiveram na noite anterior, Dylan dormiu até a manhã seguinte, permitindo que descansasse também. A menina acordou por volta das nove da manhã, vendo que o bebê não estava ao seu lado na cama, como havia deixado. Desceu até a cozinha, onde tinha escutado vozes e viu Lena conversando com o neto, enquanto preparava o café da manhã. Se pegou sorrindo sozinha observando a cena. Nunca tinha parado para pensar como aquela casa tinha ficado grande e silenciosa depois que foi embora. Sua mãe sempre foi uma pessoa alegre, que gostava de falar, ficar sozinha deve ter sido difícil pra ela, mesmo tendo Kathy e John morando logo ao lado. Uma coisa é você ter bons amigos como vizinhos, mas outra totalmente diferente é ter alguém por perto sempre, no café da manhã, almoço e jantar. Ela não ligava pra isso, mas Lena se importava e muito.

- Aposto que quando ele estiver grande o bastante para conversar com dessa forma, você vai cansar e não vai querer papo. – falou, se apoiando no batente da porta e vendo a mãe virar o corpo para encará-la. Lena sorriu de lado, balançando a cabeça, como se negasse.
- Claro que não, vou ouvir cada palavra e frase confusa com toda a paciência do mundo. Porque é pra isso que uma avó serve, não é meu amorzinho? – perguntou de forma retórica, abaixando o corpo para ficar da altura do carrinho onde Dylan estava.
- Tá na hora dele comer, ou pelo tentar. A última vez foi ontem, quando ele tava chorando. – a menina disse, se aproximando dos dois e pegando o filho no colo.
- Não esqueça que temos pediatra hoje. – a mãe lembrou, vendo a filha assentir, como se lembrasse. – Noah vai nos levar como disse ou pegamos um táxi?
- Eu não sei, mas acho que podemos ir de táxi, já abusamos demais do Noah nesses dias. – comentou, caminhando para fora da cozinha. – Vou ver se ele consegue mamar, depois já deixo ele pronto para irmos. Aí você pode ir tomar banho, que depois você fica com ele enquanto eu me arrumo. Tudo bem?
- Tudo bem, mas não esquece de tomar café. Se você não se alimentar, não vai conseguir...
- Produzir leite. – a menina completou a frase, revirando os olhos. – Eu sei, mãe, você já me disse isso cinquenta milhões de vezes. Mas eu estou sentindo meus peitos a ponto de explodirem aqui, então acho que não preciso e nem posso produzir mais agora. Antes de sairmos eu como, tudo bem?
- Tá bom... – Lena disse, fazendo um sinal com a mão, para que ela fosse logo.

subiu as escadas, indo para o quarto de Dylan. Sentou na poltrona que tinha perto da janela e encarou o filho, que ainda parecia meio sonolento. Ela o ajeitou em seu colo tentou amamentar mais uma vez. Uma a mão livre, ela apertava suavemente o próprio seio, como se tentasse ajudar a fazer o leite sair. Depois de mais algumas tentativas fracassadas, percebeu que Dylan tinha conseguido pegar da forma certa e estava, de fato, mamando. Ela arregalou os olhos, sem querer se mexer muito, nem para comemorar um pouquinho que fosse, para não atrapalhar. Apenas ficou lá sentindo todas as emoções que aquela ação lhe propiciava. Era o momento mais íntimo da breve relação de mãe e filho que compartilhavam. E ela estava feliz de, finalmente, conseguir alimentá-lo da forma que queria. Era um sofrimento para os dois, já que ele ficava com fome, se irritava por não conseguir mamar e depois sentia gases pelo complemento; e ela ficava com os seios inchados, doloridos, cheios de leite, mas não conseguia tirar com a bombinha. Só sentia algum alívio quando Lena lhe permitia algum tempo livre para que ela tomasse um banho e ela relaxava debaixo da água quente e o calor ajudava no seu desconforto. Esperava que agora fosse o início de tempos mais tranquilos para ambos.
A menina passou a mão livre, de forma leve, pelo rosto do bebê. Dylan esticou sua pequena mão, envolvendo um dos dedos da mãe e segurando com força, enquanto fechava os olhos e comia seu “café da manhã”. sorriu de lado, mordendo o lábio inferior e se sentindo mais emocionada do que deveria. Ela ainda não tinha se acostumado com esses pequenos gestos do seu bebê, talvez um dia deixasse de ser uma novidade, talvez deixasse de ser emocionante. Mas, muito provavelmente, esse gesto só seria substituído por outro. Depois por outro. E assim sucessivamente, pelo tempo em que ela estivesse viva.

🤰 👶 👪


e Lena aguardavam na sala de espera, a consulta de Dylan estava marcada para as onze e trinta da manhã, mas elas já estavam lá desde as onze. O bebê estava dormindo no colo da mãe, como se não se importasse de ter saído de casa e nem do barulho que as outras crianças faziam ao redor. O Dr. Coogler tinha sido indicado pela Adelaide, era sobrinho dela, e fazia pouco tempo que tinha se formado, mas era excelente. Claro que ela era suspeita para falar, mas ela não indicaria se ele não fosse realmente capaz.

A porta da sala se abriu e a secretária disse que elas poderiam entrar. Lena levantou primeiro, pegando a bolsa do bebê, a sua e a da , caminhando até o consultório. A menina veio logo atrás, carregando seu filho com cuidado. Assim que entrou, percebeu o médico sentado em sua mesa, escrevendo algo no que parecia uma agenda. Ele ficou em silêncio e concentrado por alguns segundos, antes de levantar a cabeça e encará-las com um sorriso simpático no rosto. estava esperando alguém jovem, já que sua médica disse que ele era recém-formado, mas não esperava que ele fosse tão novo. Provavelmente tinha a sua idade ou quase e era, bem, ele era lindo. Ficou sem jeito pela forma que o olhava e desviou os olhos, antes que ele percebesse.

- Bom dia, eu sou o Doutor Benjamin Coogler, mas prefiro que me chamem de Benjamin, ou Ben, já que teremos uma longa convivência daqui para frente. – ele deixou a caneta que segurava sobre a mesa e estendeu a mão na direção das duas mulheres.
- Eu sou Lena. – a mais velha respondeu primeiro, apertando a mão do rapaz, sorrindo de volta.
- E eu sou . – a menina falou, fazendo um pequeno malabarismo para apertar a mão do rapaz.
- Ah, então você é a paciente da minha tia? Ela disse tinha me indicado para uma paciente que ainda não tinha um pediatra. Fico feliz que tenha aceitado a sugestão. – Benjamin comentou, levantando e caminhando até a mesa de exame, se encostando a mesma enquanto falava. – É complicado para novos médicos conseguirem pacientes, ainda mais pediatras, as mães preferem os mais experientes.
- Confio na sua tia, se ela diz que você é competente, eu acredito. – respondeu, caminhando até perto do médico.
- Muito obrigada pela confiança, então. – o rapaz sorriu mais uma vez. – Vamos dar uma olhada nesse meninão? – a menina deitou o filho na mesa de exames e viu Benjamin começar a examiná-lo com uma destreza invejável. Verificou seu batimentos, o tamanho, o peso, os reflexos. Movimentou as pernas do bebê, vendo se ele tinha algum problema nos quadris, olhou sua pele, os olhos, a parte interna dos ouvidos. Ou seja, fez uma avaliação geral. - Você está conseguindo amamentar normalmente? – perguntou, chamando atenção de .
- Estamos tendo alguns problemas, mas parece que vamos nos acertar. Hoje, antes de sairmos, ele conseguiu mamar de verdade pela primeira vez.
- E quando ele tem dificuldade vocês dão o complemento?
- Sim, o mesmo que indicaram no hospital. – a menina respondeu, mordendo os lábios, atenta ao que ele dizia. – Tem algum problema? Ele emagreceu muito?
- Bebês sempre perdem peso nesses primeiros dias, é bem normal. Só precisamos ficar atentos quando essa perda é muito grande. Pelas informações que a minha tia enviou, ele perdeu 150 gramas, então não é preocupante, ficou até abaixo da taxa limite. – o médico a tranquilizou.
- Ah, menos mal, porque pela dificuldade que estávamos tendo, pensei que ele tivesse perdido mais. Já estava realmente preocupada. – falou, voltando a colocar a roupa de Dylan, enquanto Benjamin estava parado ao seu lado.
- , fale sobre as cólicas. – Lena disse, lembrando a filha.
- Ah, é verdade. – a menina balançou a cabeça, virando o corpo na direção do médico. – Ele tem muitas cólicas, eu acho que é do complemento, porque ele só toma isso além do meu leite. E como não posso dar mais nada, queria saber o que mais podemos fazer.
- Pode deixá-lo bem quentinho, principalmente a região da barriga, deitá-lo do lado esquerdo e massagear levemente a região, pra ver se dissipa qualquer desconforto. Infelizmente é comum, mas talvez ele tenha alguma intolerância, podemos fazer um teste.
- Ok, vamos fazer o teste, é melhor. – respondeu, vendo o médico balançar a cabeça, afirmando. – Ontem nós fizemos uma massagem e pareceu funcionar um pouco, usamos um óleo corporal que compramos pra ele, esquentei as mãos e fiz uma massagem circular pela barriga dele. Acho que funcionou, porque ele dormiu depois disso.
- Eles adoram qualquer contato, esse artifício muito bom, se você conseguir pegar o jeito então, é ótimo. Mas como ele ainda é muito novo para qualquer outro método, você pode tomar chá de erva doce e camomila quando sentir que ele está com muitas cólicas, porque tudo que você ingere vai para o seu leite, logo vai para ele também. Então é um caminho mais longo, mas funciona.
- Você disse isso na frente da minha mãe, agora vou acabar bebendo uns cinco litros de chá por dia. – brincou, fazendo a mãe apertar os olhos e o médico rir baixo.
- Mas não pode exagerar, porque pode ter efeito laxativo pra ele. Quando sentir que ele está desconfortável, você toma o chá e na próxima vez que amamentar, já vai ajudar.
- Tudo bem, nada de excessos. Ouviu, mãe? – a menina disse, pegando o filho no colo e o acomodando com cuidado.
- Você disse que estava com dificuldades para amamentar, quer alguma ajuda? Algum conselho?
- Mostra seus machucados, talvez ele esteja pegando errado... – Lena iria dizendo, mas a interrompeu.
- Não precisa. – sorriu forçado na direção da mãe. – Acho que ele está começando a se acostumar, caso ainda tenhamos problemas na próxima consulta, eu falo. E sobre os machucados, bem...
- É normal, os seios sempre ficam um pouco feridos no início, mas depois a pele e a mãe se acostumam. – Benjamin falou, como se entendesse que a menina estava um pouco sem jeito de mostrar seus seios para um completo desconhecido. Mesmo que ele fosse médico, ela não estava cogitando isso e foi pega de surpresa pela própria mãe. Olhou na direção da menina, vendo seu rosto levemente vermelho de vergonha e mordeu o lábio inferior para reprimir o riso.
O celular de começou a tocar e ela pediu que Lena pegasse em sua bolsa. Era Noah, dizendo que estava na rua e queria saber se elas já estavam saindo, porque poderia dar uma carona para eleas. A menina disse para a mãe avisar que já estavam saindo e que ele poderia esperá-las na porta da clínica. Lena disse que iria para o lado de fora ver se o encontrava e esperaria a filha lá fora.
- Eu vou marcar a nova consulta para...? – deixou a pergunta no ar, porque não sabia quando deveria voltar.
- Quinze dias, para vermos o peso e fazermos o exame para eliminar qualquer possibilidade de intolerância.
- Ok, quinze dias. – falou para si mesma, como se tentasse memorizar. Ela caminhou em direção à porta, vendo o rapaz se apressar para ajudá-la a abrir.
- Até a próxima consulta, senhorita . – ele disse, parecendo estranhamente formal.
- Ah não, nada disso. – ela respondeu rapidamente, com um traço de humor em seu tom. – Se eu devo te chamar de Benjamin, você tem que me chamar de .
- Tudo bem, tudo bem. – o médico sorriu de lado, balançando a cabeça. - Até a próxima, .
- Até a próxima, Benjamin.


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Müllerstraße 178, Berlin, Alemanha – 15:05 PM


estava de volta à sua rotina normal, de trabalho e curso, mas ainda tirava algumas horas de seus dias para se dedicar a algumas atividades que se tornaram importantes pra ele: estar com Eileen e, agora, saber como Dylan estava. Ir até os Estados Unidos não causou muitos problemas no trabalho, mas deixou Eileen um pouco confusa. Ela entendia que eles eram amigos de longa data, mas achou estranho o rapaz viajar por mais de dez horas para ver um bebê nascer e depois voltar, tudo isso em menos de 24 horas. Não era uma coisa que você faria pelo filho de uma amiga, era algo que você faria pelo seu próprio filho... O rapaz sabia da promessa que ele tinha feito para e iria cumpri-la, logo, não contaria nada para Eileen, mesmo que isso pudesse comprometer o relacionamento que eles nem tinham ainda. Só que ela precisava entender que o que ele tinha com era gigante e mesmo que aquele bebê não fosse “seu filho”, ele faria a mesma coisa. Talvez ela não tivesse uma amizade assim.
Ele tinha levado uma foto dos três: ele, e Dylan. E agora a foto estava na sua mesa do trabalho, onde ele podia olhar a todo momento. As pessoas sempre passavam e perguntavam quem eram, diziam que o bebê era lindo, questionavam se era filho dele. Aos poucos ele entendeu o desconforto de Eileen, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Aquela era uma parte dele que não poderia ser tirada ou mudada.

Uma moça de outro departamento foi até a sala onde trabalhava, para tirar algumas dúvidas, eles conversaram brevemente sobre algumas fórmulas e sobre os testes de um novo medicamento que estavam produzindo. Caminharam até a mesa de , para o rapaz o mostrasse algumas amostras de resultados que tinha recebido mais cedo, só que ela ficou logo interessada na foto que ocupava sua mesa, sorrindo de lado enquanto olhava. Apontou e perguntou se podia pegar para ver de perto, apenas balançou a cabeça, afirmando.

- Essa foto é muito bonita, o bebê é uma gracinha. – ela disse, enquanto sorria de lado. – Me faz lembrar quando minha filha era novinha assim, é uma época tão boa.
- Ele nasceu tem uma semana só, é super novinho. – disse, tentando não parecer muito babão.
- Ele é lindo, sua esposa também. Vocês formam uma família muito linda. – a moça disse, sem nenhuma maldade. A expressão de mudou, ele arregalou os olhos e prendeu a respiração por alguns segundos. Qualquer associação de Dylan com ele, como se fossem pai e filho, o deixava apavorado, como se alguém pudesse descobrir tudo a qualquer momento.
- Ela não é minha esposa, é minha amiga e esse é o filho dela, meu afilhado. – se explicou rapidamente, de uma forma que nem tinha tanta necessidade. Ele deveria aprender a lidar melhor com essas coisas e não praticamente surtar.
- Ah, me desculpe a confusão. – a moça disse, mordendo o lábio e com o rosto ficando vermelho de vergonha.
- Não precisa se desculpar, as pessoas sempre confundem mesmo. – o rapaz respondeu rapidamente, sem pensar.
- Mas, de qualquer forma, seriam uma bela família. – ela comentou, sorrindo de lado, fazendo o coração de acelerar de uma forma estranha.


Doze - Escolhas

Spaces between us
Hold all our secrets
Leaving us speechless
And I don’t know why
Who’s gonna be the first to say goodbye?

(One Direction – Spaces)


Cinco meses após o nascimento – Onze meses de viagem
42 Moris Ave, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 14:11 PM

- Eu não acredito que você ainda não pediu o telefone do médico do Dylan. – Lilly falou, como se fosse a coisa mais absurda que ela ouviu nos últimos tempos. – E eu tô falando do telefone pessoal, não o do consultório. – rolou os olhos, voltando a dobrar as roupas que tinha tirado da secadora.
- Ele é médico do meu filho, não inventa. - a menina pediu, pegando as peças e colocando dentro das gavetas corretas.
- Por isso mesmo, além de lindo, ainda seria assistência médica gratuita! – a amiga exclamou, fazendo jogar a cabeça para trás, rindo alto. – Sério, , você precisa começar a pensar mais em você mesma, não pode ficar vivendo em função do Dylan para sempre. Há quanto tempo você não tem um encontro? Há quanto tempo você não dá um beijo? Há quanto tempo você não tran...
- Eu já entendi, ok? Não precisa ficar me lembrando. Só que eu tenho muitas coisas na minha vida agora. Tenho uma casa enorme cuidar, tenho um filho, a trabalho que vai retornar em breve. Não posso e tenho de onde tirar tempo para lidar com um namorado. – falava, enquanto saia do quarto e descia as escadas, com Lilly logo atrás. Era sábado e ela tinha decidido tirar o dia para ficar com a amiga e o sobrinho postiço. Dylan estava crescendo rápido e era como se ele aprendesse algo novo todos os dias e ela adorava estar sempre por perto para acompanhar.
- Então, se você namorasse o Benjamin... – Lilly disse o nome do rapaz com uma entonação diferente, vendo a amiga balançar a cabeça, como se não acreditasse no que estava ouvindo. – Parte dos seus problemas seria resolvido, porque ele já conhece o Dylan, eles se dão bem e não terá todo aquele clima estranho de contar ao cara que você tem um bebê de quatro meses. Fora que ele é lindo. – a menina intensificou o elogio, fazendo parar e virar o corpo em sua direção, olhando diretamente para ela.
- O Scott sabe disso? – perguntou, arqueando as sobrancelhas, com a expressão curiosa.
- Meu namorado sabe que eu o amo, mas também sabe que eu não sou cega. – ela pegou o celular, mexeu por alguns segundos e depois estendeu o mesmo na frente do rosto da amiga. – Como você pode dispensar isso? – Lilly falou, mostrando a última foto que Benjamin tinha postado em sua rede social, como se não aceitasse a recusa da amiga em tomar qualquer atitude.
- Você segue ele no Instagram? – perguntou, pegando o celular da mão dela e olhando mais de perto. – Nem eu tive essa coragem.
- Claro que não, apenas sei o user e me mantenho informada. – deu de ombros, como se não fosse nada de muito relevante. – Médico, bonito e bom com crianças. Ele é o pacote completo, ! Melhor que ele, só o Anthony ou o Noah, mas eles não contam, porque são almas gêmeas. – Lilly sorriu de lado. – Ou o ...
- O que tem o ? – perguntou, ignorando as roupas que estava colocando na máquina de lavar, como se não tivesse prestado atenção em tudo o que a amiga disse, apenas focado no nome do rapaz.
- Nada, só disse que melhor que o Benjamin, só o Noah, o Anthony e o . – Lilly sorriu, esperando que entrasse na brincadeira com ela, mas ela não estava mais no mesmo clima.
- Se Noah não tivesse o Anthony e o Anthony não tivesse o Noah, se o não tivesse a Elen... – a menina deixou a frase morreu, com a voz estranha.
- O nome dela não é Eileen? – a amiga perguntou, vendo dar de ombros, como se não se importasse.
- Não sei, deve ser. – falou, querendo encerrar o assunto. Fechou a máquina de lavar e colocou para funcionar. – Estávamos falando do Benjamin, como o assunto foi parar no e na namorada dele? – indagou, virando na direção de Lilly, cruzando os braços na altura do peito.
- Não sei bem, mas serviu para ilustrar que todos do grupinho estão namorando, menos você. Logo, mais um motivo para pedir logo o telefone do médico gato. – Lilly forçou um sorriso, vendo que não tinha aceitado muito o seu argumento.
- Bem, eu não queria dizer isso, mas eu já tenho o telefone dele. – respondeu, caminhando para fora da área de serviço antes que a amiga pudesse reagir àquela informação. Lilly arregalou os olhos e correu atrás de , como se fosse uma adolescente, dando gritinhos e pulando de forma quase vergonhosa.
- Liga pra ele! Liga pra ele!
- Claro que não, é para emergências. – falou, tentando colocar um pouco de juízo na cabeça de Lilly.
- Mais emergência que a sua necessidade de contato físico com o sexo oposto?
- Lilly, pelo amor de Deus, para com isso. O Benjamin é médico do meu filho, por isso que ele me deu o telefone dele, para emergências. – falou, enquanto entrava em seu quarto. Lilly, não satisfeita, pegou o celular da amiga olhando se ela tinha trocado alguma mensagem com ele e vendo que estava certa.
- Se é apenas para emergências, você tem tido muitas, não é mesmo? – comentou, enquanto subia as mensagens de forma aleatória, sem ler realmente alguma, só vendo se tinham muitas. – Porque, pelo tamanho dessa conversa, devem ser cerca de dez emergências por noite.
- Lilly, você é inacreditável. – falou, correndo para tirar o celular da mão da amiga, que ria mais do que devia.
- Calma, eu não li nada. – levantou os braços, como se pedisse desculpas. Sentiu o celular ser tirado de sua mão num movimento rápido. – Só não entendo sua necessidade de negar algo que está, evidentemente, rolando. Se não houvesse interesse, de ambas as partes, essas conversas não existiriam.
- É complicado... – a menina mordeu o lábio inferior, como se tentasse encontrar uma forma de explicar. – São vários motivos, mas os principais são dois: eu estou num momento muito estranho da minha vida e tenho medo de me envolver com alguém por carência, de confundir as coisas e acabar me machucando ou machucando a outra pessoa; e o Benjamin é incrível com o Dylan, ele é um médico excelente, se as coisas não derem certo, eu teria que procurar outro médico e eles já estão tão acostumados um com o outro.
- E quem disse que não vai dar certo? – Lilly perguntou, sendo séria pela primeira vez em minutos, não havia nenhum traço de humor em sua voz. – Ninguém entra num relacionamento tendo 100% de certeza de que dará certo, assim como não entra pensando que vai dar errado. Você só precisa tentar... – viu que parecia pensar no assunto, ficando em silêncio pelos segundos que se seguiram. – Mas também não precisa tenta agora. – amenizou, vendo a expressão da amiga se torcer num sorriso. – Sei que estou perturbando, é só porque eu me preocupo com você. Mas não quero forçar nada, se rolar, que seja de forma natural.
- Sim, de forma natural... – falou, caminhando na direção da cama e se sentando ao lado da amiga. – Mas olha essa foto e me diz se tem como ser natural? – perguntou, mostrando para Lilly uma das fotos que estava nas redes sociais dele, onde Benjamin estava na praia com os amigos. Elas riram e continuaram passando as fotos, como se tivessem dezesseis anos novamente e as únicas preocupações que tinham eram os garotos que gostavam.


Platz vor dem Neuen Tor 6, Berlin, Alemanha – 19:45 PM

tentou ligar mais uma vez para , mas a amiga não atendeu. Já era a terceira vez naquele dia e, sei lá, talvez a décima naquela semana. Eileen estava sentada em sua cama, o esperando, eles tinham combinado de sair para jantar e aproveitar a noite de sábado. O rapaz encarou, a agora namorada, pelo canto dos olhos, enquanto enviava um mensagem para a amiga. Eileen não estava com a expressão das melhores, então sentiu que deveria dar um pouco mais de atenção a ela.

- Hey... – chamou sua atenção, sorrindo de lado, tentando fingir que estava tudo bem. – Vamos?
- Você não tem que falar com a sua amiga? – ela perguntou, se esforçando para não demonstrar seu desconforto em seu tom de voz.
- Até tem, mas não estou conseguindo, então posso deixar para depois. – o rapaz deu de ombros, sentando ao lado da menina, que estava com os braços cruzados e não se mostrava muito convidativa. – Porque agora eu vou dar atenção para a minha namorada. – passou os braços ao redor do seu corpo, puxando-a para mais perto. Ele deu um beijo em seu rosto, vendo que ela mordeu o lábio inferior, como se tivesse se segurando para não sorrir.
- Não, tudo bem, eu posso esperar. – Eileen falou, mas sabia que ela estava apenas fazendo charme. Ele forçou o seu corpo para frente, fazendo com que a menina deitasse na cama e colocou-se por cima dela, com seus rostos bem próximos.
- Ah, mas eu não posso esperar. – disse, antes de juntar seus lábios num beijo intenso. Eileen passou a mão pelas costas do rapaz, enquanto sentia as dele deslizando pelas suas pernas. – Tá tudo bem? – perguntou, percebendo a expressão estranha dela.
- Vocês são bem próximos, né? – havia um traço de ciúme no tom de voz de Eileen, mas ele decidiu não comentar sobre isso.
- Ela é minha melhor amiga, nos conhecemos desde os cinco anos de idade. – respondeu, passando a mão pelo rosto da namorada, ajeitando alguns fios de seu cabelo que estavam fora do lugar.
- Nossa! É meio difícil competir com isso. – a menina confessou, sentindo o rosto esquentar.
- Mas não tem nenhuma competição, Eileen. – se apressou em responder. – A é minha amiga, nada mais do que isso, e você é minha namorada. Eu gosto de vocês duas, mas de formas completamente diferentes. – o rapaz sorriu de lado, tocando o nariz da menina, enquanto falava. Ela também se permitiu sorrir, mesmo que ainda estivesse um pouco enciumada. Era difícil para qualquer pessoa lidar com uma amizade dessas do seu parceiro. Quando a pessoa tem um nível de intimidade e cumplicidade maior do que com você.
- Queria ter um amigo assim. Desses que viaja por dez horas, para ficar menos de vinte horas ao meu lado, só para acompanhar o nascimento do meu bebê. Que usa uma foto nossa no papel de parede do celular, que tenha uma foto minha e do meu filho da mesa do trabalho... – Eileen falou, de forma irônica, vendo jogar a cabeça para trás, rindo abertamente.
- Também queria que você tivesse um amigo assim, alguém que você soubesse que estaria ao seu lado em qualquer situação. Eu tenho quatro e saber isso torna tudo mais fácil.
- Ok, ok. Já entendi que não posso falar da sua amiga. – ela sorriu, encarando o rapaz pelo canto dos olhos. – Espero conhecê-la um dia, talvez eu entenda porque você gosta tanto dela.
- Sim, vocês precisam se conhecer. – concordou, ficando visivelmente animado. – Eu tenho certeza que a vai te adorar.
- Eu espero que sim, já que devo precisar do selo de aprovação dela, né? – ela perguntou, em tom de brincadeira.
- Ah, com certeza. No dia em que eu tiver que me casar, a minha futura esposa terá que conquistar a , não meus pais.
- Ok, obrigada pelo aviso. – a menina brincou, antes de passar o braço ao redor do pescoço do namorado e puxá-lo para mais perto. – O que você acha de cancelarmos o jantar e pedirmos algo por aqui mesmo? – alcançou rapidamente seu estado de espírito e não demorou em concordar.
- Acho uma ideia excelente. – respondeu, juntando seus lábios com vontade.


42 Moris Ave, Morristown, Nova Jersey, Estados Unidos – 14:40 PM

terminou de dar banho em Dylan e o arrumava enquanto Lilly preparava a bolsa dele, com algumas fraldas e uma muda de roupa, para caso tenha algum acidente. Kathy tinha pedido para passar um restinho da tarde com o bebê e não viu problema nisso, já que era logo ao lado e Kathy era de extrema confiança. Fora que isso lhe daria algumas horas de descanso ou apenas uma oportunidade de passar um tempo com Lilly.
A campainha tocou enquanto ela ainda o vestia, então a amiga desceu para abrir a porta para a mais velha, enquanto terminava de vestir o casaquinho no filho. Dylan estava enorme e balançava os braços e as pernas, como se estivesse muito animado.

- Você tá feliz, meu amor? – ela perguntou, abaixando o rosto até a altura do dele, encostando os narizes. Ele sacudiu os braços, como se respondesse que sim. – Vamos pentear esses cabelinhos que sobraram nessa cabeça? – falou, pegando a escova macia e passando pelos fios que restaram em Dylan, depois que grande parte caiu com o tempo. Depois de pentear, ela colocou uma touca e arrumou o restante da roupa. – Agora está quentinho e bem agasalhado, pronto para brincar com a tia Kathy, não é? – ela falava com o filho como se ele a entendesse.
- Onde está o meu bebê? – a mais velha perguntou, entrando no quarto com Lilly logo atrás. Assim que viu Dylan, o rosto de Kathy se iluminou e os lábios se repuxaram num sorriso. Ela pegou o menino nos braços, o abraçando com cuidado e carinho.
- Kathy, coloquei algumas fraldas, tem leite suficiente para três mamadeiras, uns brinquedos e uma muda extra de roupa. Acredito que não terá problemas.
- Claro que não teremos problemas, não é, Dylan? – falou, pegando a bolsa e apoiando nos ombros. – Dê tchau para a sua mãe, diz que volta daqui a pouco, depois que a vovó Kathy matar as saudades de ter um bebezinho em casa. – o menino a olhava com curiosidade, com seus grandes olhos encarando a mais velha, como se tudo fosse novidade. – O trago antes de anoitecer.
- Sem problemas, vou aproveitar para descansar. – disse, sorrindo de lado. – Isso é, se a Lilly deixar.

Kathy se despediu e desceu as escadas com o bebê em seu colo. Assim que chegou em casa, deixou as coisas em cima do sofá e o colocou no tapete de bebês que tinha comprado. Ela sempre passava bastante tempo com Dylan, então achou que seria mais fácil comprar algumas coisas. Era como se ele também fosse da sua família e, de alguma forma, Kathy sentia que era. O bebê rolava de um lado para o outro, enquanto tentava, inutilmente, alcançar o próprio pé. Não conseguindo, ele sacudiu as mãos, esbarrando num brinquedo que estava ao seu lado. Ele, imediatamente, pegou-o da forma que conseguiu, levando-o à boca. Ela o colocou com a barriga para baixo e ele se movimentava, levantando levemente o pescoço, como se quisesse olhar ao redor. Curioso como qualquer bebê.
De tanto que se mexia, o menino deixou a touca cair, então Kathy o pegou no coloco, colocando-o sentado em suas pernas, para ajeitar. Viu que ele estava suando um pouco e como estavam dentro de casa, deixou que ele ficasse sem. Tentou ajeitar seus cabelos com cuidado, mas enquanto mexia nos fios, notou que Dylan tinha uma pequena marca perto da orelha direita, onde o cabelo costuma cobrir, mas como tinha caído naquela parte, tinha ficado visível. Era uma forma irregular, num tom um pouco mais escuro que a pele do bebê, mas nada muito gritante. Até sorriu, quando lembrou como comentava com o marido que aquela marca parecia um ovo frito, porque ser arredondada, mas irregular. Depois sentiu tudo virar de cabeça para baixo, porque nada fazia sentido. Por que Dylan teria esse sinal? Era muita coincidência. Sua cabeça deu um nó, porque ela conhecia uma pessoa que tinha uma marca como aquela e naquele exato lugar: seu filho, . Depois, enquanto revezava seu olhar entre a marca e o bebê, percebeu que sempre que olhava para Dylan via muito de nele, mas não conseguia pensar como isso seria possível, então achava que era apenas coisas de sua imaginação. Mas havia muito de nele: os traços do rosto, o formato da boca e, principalmente, a cor dos olhos. O azul profundo, que parecia brilhar a todo o momento. Kathy começou a questionar a própria sanidade, enquanto enumerava todas as coisas que lhe faziam lembrar o seu próprio filho.
Será que era a sua vontade louca de ser avó que estava mexendo com a sua cabeça? Será que a sua capacidade de discernir o real do impossível estava abalada. Será que ela estava imaginando coisas? Levantou, pegando o álbum de família, onde tinham várias fotos de quando era um bebê, e olhou as fotos enquanto encarava Dylan bem na sua frente. De repente não era algo da sua imaginação, seus desejos mexendo com a sua cabeça.
Eles eram idênticos. Como se Dylan fosse uma nova versão de seu filho, com algumas adições de .
Kathy mordeu o lábio inferior, se segurando para não chorar. Ela sabia que algo a ligava àquele bebê, mas nunca soube explicar o que era. Pensou que fosse a proximidade que tinha com , o carinho que sentia pela menina. Mas, aparentemente, o vínculo que eles tinham ia além disso. Era um vínculo de sangue. Não sabia explicar, não sabia como era possível ou como tinha acontecido, mas Dylan era seu neto. Ninguém poderia negar, ninguém conhecia mais como ela.
Encarou suas bochechas gordinhas e sentiu quando ele segurou fortemente em suas mãos. Seus olhos brilhavam e Kathy sentiu seu coração acelerar. Se ela já tinha um amor enorme por aquele bebê antes, agora então era mais que o dobro, mais que o triplo. Sentia como se segurasse o seu maior desejo em seus braços, como se tivesse com a continuação de sua família em suas mãos. E o melhor, era a junção da sua família, com a de sua amiga. Se antes eles já estavam ligados para sempre pelos laços da amizade, agora estavam ligados também através daquele bebê.
Se eles quisessem que todos soubessem, teriam falado. Então Kathy decidiu guardar isso para si mesma. Ela nem precisava confirmar nada, seu coração lhe dizia que era verdade. E ela poderia manter esse amor dentro do seu próprio coração. Afinal, ela estaria por perto sempre, de qualquer maneira. Já se sentia avó de Dylan antes, agora tinha sido apenas uma confirmação. A afirmação de que a ligação que ela sentia não era a toa, não era fruto da sua cabeça. De alguma forma ela tinha um pequeno . Um bebê. Um neto.

🤰 👶 👪


Müllerstraße 178, Berlin, Alemanha – 16:34 PM

O expediente estava chegando ao fim naquela segunda-feira e ainda corria para terminar o relatório que ficou de enviar até o final do dia para sua chefe. Mas antes que pudesse finalizar, viu a secretária de Magda passar pela porta e parar em frente a sua mesa, com um sorriso cordial nos lábios.

- , a senhora Svenja deseja vê-lo em sua sala. – a menina disse, tentando não soar apressada.
- Agora? Ela pediu pra eu terminar esse relatório antes do final do expediente. – o rapaz disse, mas viu a secretária balançar a cabeça, negando.
- Ela disse que você pode entregar amanhã pela manhã, que precisa conversar com você urgentemente e que está lhe aguardando em sua sala.
- Ok, então... – respondeu, um pouco contrariado e bastante confuso. O que Magda poderia querer com ele agora de tão urgente? Será que queria conversar sobre o seu retorno para os Estados Unidos? Tratar das passagens, do encerramento do vínculo, do curso? Poderia ser, mas se fosse isso, ela falaria com todos, não apenas com ele.
Caminhou atrás da secretária pelo corredor, passando pela série de escritórios dos executivos da empresa, chegando ao de Magda, que ficava no final do corredor. A menina bateu levemente na porta, esperando uma resposta. Assim que ouviram a voz firme da chefe, ela abriu um pouco a porta, informando que estava esperando.

- Pode entrar. – falou, antes de fazer parte do caminho de volta, retornando para a sua mesa na recepção. respirou fundo antes de abrir a porta e colocar parte do corpo para dentro da sala.
- Senhora Svenja? – disse, com a voz baixa, vendo que ela já o aguardava.
- Olá, , entre e sente-se, por favor. – a mais velha pediu, apontando para uma das poltronas à sua frente. O rapaz fez o que ela pediu, sentindo que suas mãos estavam geladas e trêmulas, pelo nervosismo. – Sei que você deve estar imaginando por que eu te chamei até aqui, certo?
- Sim e bem confuso também. – confessou, vendo sua chefe sorrir de lado. Então percebeu que o assunto, provavelmente, não era ruim, já que Magda estava de bom humor.
- Não se preocupe. Eu pedi que você viesse aqui, porque preciso conversar algo com você antes do encerramento do nosso vínculo. O mês de novembro já está acabando e logo iniciaremos o último mês do curso de aperfeiçoamento. – ela parou por um momento, apoiando o corpo no encosto da cadeira, ficando mais confortável. – Todos os anos, nós oferecemos uma nova oportunidade como bonificação aos melhores alunos do curso. E nesse ano, você foi um dos destaques. Meus parabéns.
- Nossa, eu não sei nem o que falar... – o rapaz tentou responder, mas acabou gaguejando mais que falando.
- Todos os seus professores elogiaram a sua postura nas aulas, sua iniciativa e participação. Assim como a responsável pelo setor onde você estava alocado durante esses meses. É visível a sua capacidade de crescer e de aprender, e nós aqui na empresa gostamos de recompensar os nossos bons funcionários. – Magda parou novamente, apoiando os braços na mesa e tombando o corpo para frente, ficando mais próxima ao menino. – Nós entramos em contato com a sede de Nova Jersey e pedimos que nos enviassem a sua proposta de dissertação de mestrado, que você aplicou para uma bolsa que eles ofereceram dois anos atrás. Eles nos enviaram e achamos muito interessante o seu desejo de continuar crescendo e desenvolvendo seus estudos no campo da Engenharia de Bioprocessos. Acreditamos que um funcionário motivado a continuar buscando conhecimento, é um funcionário em que vale a pena investir. – Svenja sorriu, esperando uma reação de extrema felicidade do rapaz, que ficou apenas a encarando, com a expressão completamente impassível, como se não acreditasse no que estava acontecendo. – Por isso, nós temos o prazer de te oferecer uma bolsa de mestrado na Hochschule für Technik und Wirtschaft ou, como é conhecida, a HTW Berlin.


Platz vor dem Neuen Tor 6, Berlin, Alemanha – 21:28 PM

tentou chamar no Skype, já imaginando que a amiga não atenderia, mas se espantou quando a mesma surgiu na tela depois de alguns segundos, como se estivesse esperando sua ligação. Ela apareceu sorridente no computador, fazendo o rapaz sorrir também do outro lado.

- Quanto tempo, hein. – a menina exclamou, bancando a chateada.
- Tentei falar com você várias vezes no sábado, não finge que não viu. – ele se defendeu, vendo alargar o sorriso.
- Eu sei, estava só te perturbando. – respondeu, tentando quebrar o gelo. – Tudo certo por aí?
- Tudo indo, eu acho...
- Aconteceu alguma coisa? Você está estranho. – perguntou, estranhando a expressão do rapaz.
- Eu fiquei sabendo de uma coisa que me pegou desprevenido e estou tentando assimilar as coisas ainda, me decidir.
- Se precisar de ajuda... Sei que as coisas andam estranhas entre nós, mas eu continuo sendo eu, ou seja, estou sempre aqui por você. – deu de ombros, vendo a expressão do amigo ficar ainda mais carrancuda.
- Eu sei disso e torna tudo pior, se é possível. – falou, um pouco mais baixo, mas ela ouviu da mesma forma. Queria saber o que era, mas se não queria falar, não forçaria, esperaria pelo momento dele.
- E então? Como está o curso, o trabalho? – ela deixou a voz morrer um pouco antes de continuar. – A Eileen...
- Tá tudo certo. Eu tô aprendendo muita coisa, é tudo o que eu esperava e mais um pouco. Tá sendo incrível, um sonho.
- Fico feliz em saber que você está vivendo seu sonho farmacêutico, porque eu estou vivendo o meu também, pena que ele vem com fraldas sujas, um despertador toda madrugada e os seios quase em carne viva. Mas é o paraíso. – ela brincou, vendo sorrir pela primeira vez. – Ver aquela carinha sorrindo pra mim faz tudo valer a pena.
- Eu imagino, fico vendo as fotos que você me manda e babando loucamente nele.
- Ele tem os olhos iguais aos seus. – fez uma breve careta, mordendo o lábio inferior. – Espero que ninguém repare nisso.
- Ninguém vai reparar nos olhos com a carinha fofinha que tem. Acho que o Dylan é a sua cara. – comentou, vendo a amiga balançar a cabeça como negasse. Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, o que foi um pouco constrangedor. Era como se eles não soubessem mais conversar, como se não tivessem mais assunto. O que era estranho, porque por mais que passassem a maior parte do tempo juntos, eles sempre tinham assunto. Mas isso era antes...
- Então... – falou, mordendo o lábio inferior, como se quisesse acabar com o silêncio que os dominou. – Já tem data para voltar? Só depois do ano novo mesmo? – ficou continuou em silêncio, mas algo sem seu rosto o denunciou. A menina franziu a testa, um tanto quanto confusa. – O que foi? Algum problema?
- É que eu recebi uma proposta... – o rapaz finalmente falou, depois de longos segundos de espera. E então a amiga entendeu tudo, ele nem precisava mais explicar. A sua expressão era um misto de confusão, dúvida, culpa, ansiedade. E não havia nada nela que mostrasse que ele tinha dito não.
- Você vai ficar mais quanto tempo? – o tom de voz animado de antes sumiu. sofreu um baque, como se tivessem tirado o seu chão. Ela estava contando as semanas, os dias, para voltar e agora tudo tinha sido em vão. Era como se ela tivesse sido largada num lugar que ela não conhecia e não sabia como voltar para casa. era quase um ponto de referência e sem ele, ela ficava perdida. E agora continuaria.
- Eu não sei ainda se ficarei, não dei nenhuma resposta...
- Quanto tempo, ? – perguntou novamente, respirando fundo.
- Dois anos. – respondeu, com a voz baixa e sem vida, o que era estranho para quem tinha acabado de ganhar uma excelente oportunidade.
- Bem, parabéns. – ela mostrou um sorriso forçado. – Eu vou desligar, porque eu tenho que...
- Não, , por favor. – pediu, sem conseguir olhar para a frente. – Eu queria falar com você, porque preciso de um conselho, uma opinião...
- Você não precisa de conselho, nem de opinião, muito menos da minha aprovação. – a expressão que a menina tinha no rosto era a de quem sorri querendo chorar, então a pessoa fica presa num momento entre os dois gestos. Mas sua voz embargada a entregava. – Se você não quisesse ficar, se quisesse mesmo voltar, não estaria com essa cara de arrependido ou com essa dificuldade de me contar. Teria reagido da forma que fez quando ganhou a bolsa e pensou em desistir por mim, teria a mesma certeza que não viajaria e precisaria do meu incentivo para ficar. Só que dessa vez é tudo diferente, . Você quer ficar, está claro. A vida nos fez seguir caminhos diferentes, acontece. Agora você tem suas responsabilidades, as suas escolhas, e eu as minhas. E elas não se encontram. – deu de ombros, mordendo o lábio inferior e respirando fundo. – Parabéns pela sua proposta, que você aproveite muito tudo o que está vivendo, ok? Agora eu tenho que ir. O Dylan acordou, ele tá chorando aqui.
- ... – falou, tentando fazê-la parar de tagarelar. – Vamos conversar, não faz assim.
- Eu tenho que ir, . – ela falou, antes de encerrar a chamada, sem nem mesmo se despedir.

ficou encarando a tela do computador, sem ter muita certeza do que fazer. Dylan não estava chorando, ele nem estava em casa. Lilly tinha ido embora e Lena ainda estava fora. Pela primeira vez em muito tempo ela estava sozinha. E se sentindo sozinha, num sentido bem amplo. Era como se ela estivesse levando a vida esperando por , esperando pela sua volta. E essa notícia tinha sido como uma bomba, que a deixou completamente seu rumo.
Tinha vivido toda a sua vida junto de , construindo seus próprios pedaços ao redor dele. Agora se sentia oca, como se algo estivesse faltando. Ela sabia o que era ele, era que estava faltando. Só que ela não podia mais esperar. Esperar por algo que nem sabia o que era. Precisava começar a viver a sua vida. E sem depender se outra pessoa. Focar em si mesma, em suas necessidades. E lembrou das palavras que Lilly lhe disse mais cedo, que precisava começar a pensar mais em si mesma, não pode ficar vivendo em função do filho para sempre. E ela, realmente, precisava viver.
Usando toda a sua coragem, e o ímpeto que tomou conta do seu corpo, pegou o telefone digitou uma mensagem rapidamente. Pensou durante longos e longos segundos se deveria apertar o botão de enviar. Era como se o seu lado que gostava de arriscar estivesse adormecido ou não existisse mais. Não era medo de rejeição, era medo do que poderia acontecer. Medo de estar sendo precipitada. Medo de não ser realmente o que ela quer. Só que ela estava cansada de ter medo. E de esperar.

Oi, tudo bem? Queria saber se você tem algo planejado para mais tarde.
, 15:48


Ficou encarando a tela do celular por cerca de dois minutos, se sentindo dividida entre a vontade de apagar a mensagem e o medo de não receber uma resposta positiva. estava tão apavorada, que demorou alguns segundos até de reagir ao som do celular anunciando uma nova mensagem. Respirou fundo algumas vezes antes de ler, porque não tinha mais como voltar atrás. Precipitada ou não, ela tinha feito alguma coisa. Tinha tentado seguir a vida. Sem mais esperar por nada. Ou ninguém.

Felizmente agora eu tenho. O que tem em mente? Talvez um café?
Benjamin, 15:51


Continua...




Nota da autora: (05/08/018)
Oi, migas.
Estou muito feliz, porque Dylan está no ar há treze meses e esse é o capítulo doze. Ou seja, quase consegui atualizar uma vez por mês. Para uma pessoa que atualizava as histórias de seis em seis meses, essa é uma média MARAVILHOSA.
Não sei se vocês gostam muito de mim agora, mas espero que sim. Tudo isso estava no planejamento e tomara que vocês entendam a necessidade mais na frente. Não fiquem tristes, vai dar tudo certo.
Até a próxima!
Beijos da That
ESTOU PROCURANDO PELA STEFANE, QUE PARTICIPOU DA BRINCADEIRA DE UM ANO DE DYLAN!


ps. Eu mudei o meu grupo do Facebook, porque no outro tinha muita gente que não participava, então quem quiser entrar no novo, é só clicar no ícone do Facebook ali embaixo.

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