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Última atualização: 20/04/2020

Capítulo 1

E quando menos esperarmos, encontraremos alguém que se apaixonará por cada defeito, cada detalhe, cada traço existente em nós. Alguém que nos faça entender um significado diferente da palavra amor, despertando em nós efeitos jamais sentidos antes.

Essa era uma das frases que mais ouviu durante sua época romântica na qual seu foco literário e cinematográfico se voltavam para os típicos romances água e açúcar, onde os olhares à primeira vista faziam o coração sobressaltar e atingir uma velocidade incalculável, e apenas com um contato, os personagens principais já sentiam que haviam conhecido o amor da vida. Também tinham os famosos contos de fadas da Disney e seus famosos finais felizes e claro, não podia se esquecer das playlists que davam vontade de chorar só em ler os nomes com músicas devastadoras para um pobre coração apaixonado. Por mais românticas que fossem todas as teorias e conspirações do clichê, não acreditava cem por cento mesmo tendo sua mãe ao seu pé de ouvido sempre falando “existe alguém neste mundo que um dia irá se apaixonar perdidamente em você, basta não ter pressa”.
Já havia virado sua frase motivadora de relacionamentos.
Toda vez que descobria que estava gostando de alguém, e no final não dava certo - o que se resumia na maior parte do tempo -, Sra. lançava seu lema sentindo-se a própria psicóloga amorosa. Aquilo era tão repetitivo que um dia resolveu acreditar, afinal, palavra de mãe era uma previsão certeira como muitos falavam. Já havia cansado de sair de casa sem seu guarda-chuva achando que nada ocorreria, mesmo com sua mãe quase enfiando o objeto goela baixo, e voltar totalmente encharcada, então... por que não?
Resolveu esperar pelo tal carinha que apaixonaria perdidamente por ela, que amaria cada traço, cada pedaço de si, e blá, blá, blá.
Mas não obteve sucesso.
Ficou anos e anos acreditando nos diversos conselhos e frases meia boca, acreditando que a cada ano que entrava, seria O ano em que finalmente toda conspiração clichê entraria em sua vida e a tal pessoa surgiria para ser um acréscimo, já que nunca acreditou no famoso ditado “metade da laranja”.
Entretanto, nada ocorria, apenas decepção mesmo, o que já era normal.
Seguiu aproveitando ao máximo sua solteirice, mantendo uma pequena luz de esperança acesa no fim do túnel, mesmo com seu subconsciente a avisando da farsa que era. Teve pequenos casos, casos tão pequenos que só duraram apenas uma noite e pronto. Algumas dores de cabeça aqui, desilusões ali - muitas talvez -, chateações - à beça -, e boas amizades que foram cruciais e acabavam suprindo um pouco de sua carência. Sua adolescência não foi a pior coisa do mundo, até os momentos de ressacas variadas foram boas, mas em termos amorosos… tal “urucubaca” a perseguia até hoje.
– Para quem são as duas “Mocas” com baunilha extra? – em uma extrema animação, Lindsay chegou ao balcão com dois copos de cafés medianos em suas mãos e um sorriso agradável em seus lábios.
apontou com a cabeça para o casal ao canto da loja tendo-a apoiada em suas mãos que serviam de apoio graças ao seu cotovelo apoiado na bancada de mármore.
– Para aquele casal ali na ponta. As torradas que eles pediram tão aqui do lado, vou chamá-los…
– Eu entrego a eles. – Lindsay a interrompeu antes mesmo dela se desfazer da posição.
Acompanhou-a com o olhar observando todo seu trajeto onde a garota andava entusiasmadamente, jogando o corpo para lá e para cá como se estivesse ouvindo alguma música animada.
Educadamente, pediu licença aos pombinhos que ainda mantinham as mãos entrelaçadas e um sorriso acolhedor na face, colocando seus pedidos na mesa e engatando alguma conversa que ao ver da amiga, seria sobre o relacionamento deles, já que toda hora se olhavam para afirmar alguma coisa. Ao mesmo tempo que era algo tão fofo, era também esquisito para . Era tão estranho ver duas pessoas exalando um sentimento na qual ainda não havia vivido.
Qual era a sensação de se estar apaixonado? De ter alguém que te admirasse e quisesse sua companhia sempre? Parecia ser tão…
– Não entendo como ela consegue sorrir neste trabalho. – jogando seu velho e famoso pano em seus ombros, Roxy se juntou a amiga, chamando-lhe atenção com uma indignação estampada em sua face.
Havia terminado de ajeitar a louça como sempre fazia antes de encerrar o expediente, suas mãos ainda estavam enrugadas e seu avental sujo a pingos de café e requisitos de chocolate.
– Alguém leu o manual de trabalho.
Um cliente feliz vem de um atendente feliz. Não basta apenas sorrir para câmera, tem que sorrir para seu cliente também. – cantarolou com uma falsa felicidade em sua voz, o que fez a morena ao seu lado soltar um pequeno riso. – Patético. Parei na página dez porque não sou obrigada a nada, e acho idiotice exigirem essa leitura como se não soubéssemos atender as pessoas. Só pode ser ideia do mal comido do Daniel. – lançou um olhar intimidador onde a mesma logo entendeu o recado, revirando os olhos.
– Eu sei que ele é seu tio, mas isso não me impede de xingá-lo. É patético, temos o que? Cinco anos de idade? Duvido também que você tenha lido. Só Lindsay mesmo com esse jeito esquisito dela.
Por mais errado que fosse, Roxy estava certa. Lembrando-se do dia em que havia recebido o tão falado livro pelo seu tio, mal havia aberto uma página sequer daquele manual, e até hoje ele apenas servia como suporte para seu abajur localizado na mesa de canto ao lado da sua cama. Para dizer que não havia tentado, leu apenas a introdução de um parágrafo, mas logo foi interrompida pelo ensaio da banda durante a tarde que depois resultou em um jantar na casa de devido a visita da mãe dela. Não podia fazer uma desfeita daquelas, não era sempre que a Sra. Sanchez saía do Brasil para ir a Los Angeles visitá-los.
Poderia ter lido nos outros dias? Poderia, mas tantos acontecimentos foram ocorrendo que nem mais se lembrava da obrigação, e por fim, a aparência esverdeada do manual havia dado um belo toque ao seu quarto, não queria desorganizar tudo, então resolveu deixá-lo por ali mesmo e seguir seus instintos trabalhistas que continuavam dando sempre certo.
Ou quase sempre.
– Não sei como ela consegue ser tão… certinha. – continuou ainda se referindo a Lindsay, que ainda se entretinha com o casal.
“Pobre pombinhos.”, pensou .
Lindy poderia se resumir a uma garota que havia saído de um filme da Disney, mais precisamente A Bela e a Fera devido a tonalidade de seu cabelo semelhante ao da Bela, e seu jeito meigo e menininha que a fazia aparentar uma idade muito menos da que tinha, principalmente quando usava suas famosas saias mid rodadas e seu famoso oxford acinzentado criando um estilo bem vintage anos 50. Sua feição também não ajudava muito no quesito idade, sua pele rejuvenescida não possuía nenhum tipo de olheira ou sinais de mal dormir, o que gerava uma certa inveja em e um questionamento do que ela usava. Apenas algumas espinhas eram aparentes, onde a mesma não se importava de deixá-las à mostra.
– Vai ver que o sorriso ajuda a passar essa ideia. – comentou dando de ombros.
– Ela sempre está sorrindo, estou lhe dizendo, no fundo ela deve ser uma máquina que seu tio comprou para nos espionar!
– E de onde meu tio tiraria tanto dinheiro assim?
– Sei lá no que sua família é envolvida, só sei que é estranho uma pessoa estar sempre de bom humor, principalmente pessoas que mandam mensagens cheias de emoticons em plena seis da manhã!
– Assim como é estranho uma pessoa estar sempre de mau humor e desconfiando de tudo e todos? – rebateu em uma pergunta retórica a vendo bufar e revirar os olhos, enquanto se desencostava do balcão para ajeitar a coluna.
Ao contrário de Lindsay, Roxy já era uma pessoa um pouco mais complicada e que não ligava muito para as regras do jogo. Poderia a considerar cinquenta por cento o oposto de Lindsay em termos de personalidade e aparência, pois ela era a própria Mulan das histórias, apenas tendo uma tonalidade de pele um pouco mais escura do que a personagem e um cabelo um pouco mais longo. Suas vestimentas não eram tão drásticas a ponto de mostrar suas atitudes rebeldes, pelo contrário, ela amava se vestir bem e sempre trajava uma boa e elegante calça social, com suas blusas longas, fazendo jus ao seu curso de advocacia universitária.
– Não estou de mau humor, só evito mostrar muito meus dentes. Sorrir cansa a mandíbula.
– Aham, assim como falar demais também?
– Esse posto já não é meu quando você chega aqui cheia dos estresses universitários, que por falar nisso, hoje não teve.
– Sentiu falta? – ergueu a sobrancelha demonstrando uma certa curiosidade.
– Nha, nem tanto, apenas achei estranho para algo que já se tornou uma rotina quando nos encontramos.
– Deve ter sido porque não fui hoje. – deu de ombros, voltando para o caixa da loja, porém a movimentação estava tão pouca que nem fazia tanta diferença.
– Ah, verdade, por isso que você chegou cedo! – automaticamente revirou os olhos.
Chegar cinco minutos depois não deveria ser considerado atraso, afinal, o que eram cinco minutos?! Quase ninguém conseguia fazer nada em cinco minutos. Cinco minutos era menos do que a tolerância para chegar nas aulas, cinco minutos era o trajeto que fazia do seu quarto para o banheiro nas difíceis manhãs. Cinco minutos era quase nada!
– Roxy, você me cansa.
– Meu passatempo favorito, mas por que não foi?
– Precisava de um tempo para relaxar, por mais que isso aqui... – apontou para o avental que exibia o nome do The Coffee Bean & Tea Leaf. – … não seja exatamente sinônimo de relaxamento.
– Tempo de que? – Lindsay parou a sua frente, do outro lado do caixa, apoiando-se no balcão.
– Da universidade. São tantas coisas ocorrendo que eu precisava de um tempo para respirar. Já estava à beira de um colapso.
– Oh, mas não foi a madame que disse que iria dar conta de tudo esse semestre quando nós avisamos que estava sendo muita coisa? Está arredando? – Roxy provocou enquanto Lindy ria baixo.
realmente estava se segurando para não avançar nela e fazê-la provar do gosto da água suja da pia, mas no fundo, até que a mesma tinha um por cento de verdade. Havia colocado em mente de que daria conta de tudo no início do curso, poderia cumprir os horários das aulas, trabalhar no café, participar do jornal da universidade, do comitê de festas, e sobrar tempo para seu tão sonhado artigo sem tema, mas que desejava postar no New York Times. E tudo estava até indo bem logo no início, mas só no começo mesmo.
– Não, Roxy, eu não estou arredando, até porque nem posso fazer isso. Não posso parar, você sabe muito bem. Preciso de todo dinheiro possível, e estar participando de algumas atividades universitárias me dá créditos e ajuda no valor do curso.
– Sei bem. – ela pôs uma mão em seus ombros. No fundo, Roxy era uma boa amiga, por mais irritante que fosse seu jeito de tirar do sério. – Mas então, quando é que vocês vão lá em casa ensaiar? Estou com saudades da barulheira e do agouro. – questionou entre risadas e um sorriso totalmente provocador e insuportável. Realmente o passatempo de Roxy havia se tornado irritá-la, mas tinha ciência de que no fundo, bem lá no fundo, ela gostava dela.
– Fico impressionada com esse amor por mim, mas por enquanto não, em breve batemos lá para acabar com seu um por cento de paciência e paz.
– Estarei ansiosamente esperando com meu copo de camomila para relaxar meus neurônios. – enquanto riam, começaram a organizar a bancada e ajudar Lindy a limpar as demais mesas para fechar o turno e entregar aos funcionários da noite.
Não demoraram muito para se arrumar, em poucos minutos já estavam caminhando pela longa calçada da Third Street Promenade, ouvindo as diversas melodias dos artistas de rua que ali se encontravam. O aglomerado de pessoas já se tornava um pouco intenso, e com certeza mais tarde ali estaria lotado, mesmo sendo quarta-feira. As pessoas costumavam sair um pouco à noite para curtir alguns lugares de comida que se tinha por ali, principalmente turistas. Há poucos metros viraram a esquina dando de cara com um pôr-do-sol que definhava gradativamente bem no horizonte da praia.
Elas tinham um total privilégio de trabalhar ali.
– Fico frustrada por nunca conseguirmos assistir ao pôr do sol juntas no Pier de Santa Mônica. – Lindsey deu a voz com um ar melancólico e frustrante.
– Você nunca assistiu? – Roxy questionou um tanto quanto incrédula.
– Claro que já! No meu primeiro dia aqui fiz questão de assistir, o problema é que nós três nunca conseguimos assistir juntas!
– E por que teríamos que assistir juntas? – rebateu Roxy.
– Por que é legal? – Lindy respondeu de uma maneira óbvia, fazendo Roxy revirar os olhos e bufar, achando tudo aquilo uma perda de tempo. – Mas podemos reverter essa situação hoje e pegar o finalzinho do pôr do sol…
– Desculpa, Lindy, fiquei de chegar mais cedo em casa para levar a janta para minha prima. Ava deve estar aos prantos de fome… – sua feição esperançosa logo se desfez, deixando-a cabisbaixa. – Mas a Roxy pode te acompanhar, não é, Roxine? – respondeu rapidamente, vendo sua amiga a olhar incredulamente.
– Eu o quê?!
– Uns minutinhos não irão fazer mal, e também, você está de carro, pode aproveitar e dar uma carona para Lindy. – sabendo bem quem era Roxy, ela tinha a total certeza de que a mesma estaria a xingando nas quatro diferentes línguas que ela sabia falar, e provavelmente bolando um plano para fazê-la se arrepender amargamente do que havia feito. Mas tudo aquilo se resumia na vingança pelo “passatempo favorito” dela, e a conhecendo muito bem, sabia que a mesma não negaria um pequeno favor a amiga, principalmente pelo histórico seu histórico de vida.
– Só porque deixei um pouco a mais de comida para o Freddie Mercury. – ela rangeu os dentes, fuzilando-a com os olhos.
– Ele sobrevive, gatos possuem sete vidas. Vejo vocês no próximo expediente!
Dando meia volta, antes que Roxy achasse qualquer coisa para acertá-la, seguiu seu caminho até o ponto de ônibus onde pegou um transporte parando no In-n-Out na qual uma pequena fila já começava a se formar. Pediu dois combos do Double Double para levar para casa recebendo já as mensagens incessantes de Ava perguntando onde estava e jogando seu típico drama diário sobre quão faminta estava. Retornou novamente ao ponto para pegar seu ônibus que seguia para Venice. Por mais famosa que fosse, Venice não se resumia a casas caras e grandiosas, claro que havia uma parte do distrito que nem vendendo seus órgãos conseguiria ter dinheiro para comprar um imóvel lá, mas tinha uma parte onde as casas eram “normais”, comparando às demais; sua avó sempre amou Venice pela tranquilidade e comodidade que era ter bares e outros pontos de lazer, então seu avô não poupou esforços para encontrar algo em seu orçamento quando decidiram se mudar para lá. Sua sorte foi ter conseguido comprar a casa por um preço extremamente bom e ter feito uma reforma nela tendo quatro quartos - para abrigar e seus pais por um tempo, e logo depois sua prima que mudou quando seus pais retornaram a Chicago - e uma pequena área nos fundos onde seus dois gatos de pelagem manchada viviam perambulando.
Do ponto de ônibus até a casa durava cinco minutos de caminhada, limpou os pés como de costume no tapete da frente - mania de limpeza que sua avó sempre tivera - e quando foi encaixar a chave na fechadura da porta, a mesma foi aberta brutalmente fazendo-a dar um pulo de susto para trás.
– Cadê a comida? – Ava questionou em um tom ameaçante e exaltante. Seus olhos logo brilharam ao perceber a sacola do In-N-Out nas mãos da prima. – Você trouxe meu favorito?
– Boa noite para você também, amore. E sim, trouxe, e a senhora está me devendo uma passagem de ônibus, pois tive que pegar dois.
– Você não tem o cartão de ônibus?
– A linha para ir lá é outra, bebê.
– Uh, ma bad. Porém não fez mais do que sua obrigação, estava quase devorando a comida dos gatos. – Ava olhava atentamente seus movimentos de tirar os pacotes de comida do saco, enquanto pegava alguns copos e o jarro de suco.
– Ninguém mandou você não saber cozinhar. – cantarolou, organizando os combos na mesa.
– Ninguém mandou você me traumatizar queimando aquelas pipocas quando éramos menores. Acho que sua mãe ainda cobra pelo serviço de limpeza do teto.
– Não sabia que tinha que ficar mexendo toda hora a panela, foi a primeira vez que tentamos fazer algo do tipo.
– Para nunca mais! – começaram a organizar a mesa para que pudessem jantar os hambúrgueres. Entre tantos papéis postos na mesa - a maioria contas - um de coloração preta e palavras prateadas a chamou atenção. Parecia ser um convite de algum evento bem animado devido às cores chamativas e decorativas. Pegou na curiosidade de saber o que era, lendo aos poucos e enquanto seus olhos pairavam sobre as palavras, seu cenho mais se franzia. Quando terminou, olhou rapidamente para Ava que a encarava com uma feição um pouco nervosa e mordia parte do seu lábio inferior.
– O que é isso? – questionou de imediato, vendo a respirar fundo e chegar mais perto da mesa, receosa.
– Um convite? – respondeu em um tom totalmente sem graça, mas a cara fechada que mantinha logo deu a entender que eu não estava brincando. Suspirando pesado, ela continuou: – Ele esteve aqui mais cedo, mas não exatamente aqui em casa. Pelo que vi, ele estava indo para casa de , e sua mãe estava no jardim ajeitando algumas coisas.
– O que ele queria?
– Não sei, não deu muito para ouvir a conversa, mas eles ficaram conversando por um tempo lá fora, estava observando da janela, e minutos depois sua mãe entrou toda animadinha segurando esse convite.
– E ela disse que iria para a “inauguração do West Club, sábado, às oito horas, em West Hollywood. A entrada é franca e os preços comemorativos de reinauguração. Não perca!”. – usou seu melhor tom de deboche para ler uma das frases em destaque no convite.
Era patético, simplesmente patético.
– Não sei, ela só esbanjou um sorriso e subiu logo em seguida. – e com certeza sua mãe iria.
Não era por nada não, mas sentia-se como se uma flechada tivesse passado em seu coração ou como se tivessem roubado dela a Brendy, guitarra dos anos 50 que seu avô havia a presenteado quando tinha 12 anos. Não acreditava que mesmo depois de tudo, de todas as horas conversando e explicando para sua mãe do ocorrido, de todos os momentos que ela a viu passar, a mesma teria a coragem, a audácia de prestigiar um show dele, da banda deles. Tudo bem que sua mãe havia ido passar algumas semanas na cidade como costumava fazer durante seu período de férias, e por causa daquilo, até entendia que talvez a mesma quisesse curtir seus dias de glória, mas justo no show deles? Era inacreditável, inconcebível, inadmissível!
Sua vontade era de amassar aquele papel tão bem elaborado com suas próprias mãos, imaginando cada um deles ali, implorando por piedade e misericórdia, pedindo por perdão pelo inferno que fizeram a ela. Mas a grossura do papel certamente lhe traria arranhões. Merda, e ainda por cima o convite era de qualidade!
– Não acredito que a minha própria mãe está me traindo! – Ava rolou os olhos se aproximando.
, qual é. – retirou o convite de sua mão, o jogando na mesa. – Para de drama que a rainha do drama sou eu. Você sabe que sua mãe não vai. Ela só deve ter ficado animada por revê-lo. Sabe o quanto ela gostava dele. era tipo aquele filho que ela nunca teve…
– Foda-se o sentimento por ele! Ela tem que pensar na própria filha assim como meu pai faz!
– Seu pai esbanja um certo desgosto por ele porque nenhum pai gostaria de ver sua filha sofrer, e também, vamos ser sinceras, seu pai tinha uma pontinha de ciúmes dele porque achava que vocês tinham algo.
– Ainda bem que ele não gostava, pois vejo que tenho pessoas traidoras nesta família. – Ava aproximou-se mais, segurando suas mãos.
– Não crucifique sua mãe, ela não tem culpa do que ocorreu. Apenas foque nos seus planos e esqueça esse povinho medíocre. Eles não merecem estar na sua lista de preocupações, muito menos pairando em seus pensamentos. Deixar com que isso te afete é perda de tempo, apenas ignora, eles que te perderam.
Aquelas palavras fizeram com que seus ânimos se acalmassem aos poucos. Ava era, com certeza, a melhor pessoa na qual conhecia em termos de conselho, era como uma irmã que jamais teve com uma personalidade forte e na maioria das vezes madura, quando não fazia seus dramas. Agradecia aos céus por ela ter saído de Chicago e ido morar na Califórnia assim que terminou seu ensino médio. Seus pais ficaram receosos por um tempo, assim como sua irmã mais velha que ainda morava na cidade gelada devido ao seu trabalho no governo local, mas Ava sempre gostou de sair da rotina, de viver aventuras, conhecer novos horizontes; sua alma livre a fazia amar desafios, tanto que decidiu não fazer faculdade. Seu foco acabou sendo a fotografia onde chegou a frequentar alguns cursos e sempre que podia, participava de workshops para aprimorar seus trabalhos.
– Obrigada. – esbanjou um singelo sorriso a ela, onde a mesma a retribuiu da mesma maneira. – Mas ainda tento entender como ele consegue tanta oportunidade.
– Ah, meu amor. – ela se afastou, indo em direção à mesa. – Quando o papai pode bancar, oportunidades caem do céu. Mas sua hora vai chegar, então até lá, não pense muito, guarde suas forças para devorar esses hambúrgueres que já estão esfriando de tanto esperar.
Riu com sua motivação.
– E cadê a dona traidora da família? – perguntou pela sua mãe, vendo Ava dar de ombros.
– Saiu desde cedo. Disse que iria resolver alguns problemas pendentes da casa e logo depois encontrar algumas amigas, e vovó ligou para saber se a casa ainda está de pé.
– Ela deve chegar tarde. – viu a ruiva assentir com gosto após uma enorme mordida em seu hambúrguer.
Decidiram por fim assistir um filme apostando quem seria a perdedora que cairia no sono primeiro, e claro, Ava perdeu. Adormeceu logo nos primeiro vinte minutos de filme, como sempre. chegou a assistir até a metade do filme, desligando a TV logo em seguida. Já passava-se da meia noite e acordar às cinco da manhã não seria nada fácil. Tentou acordar a outra pelo menos cinco vezes, mesclando entre cutuques, gritos, e puxões, mas nada adiantou. “Ela que se vire depois”, pensou.
Derrotada, subiu para um banho relaxante e revigorante, seguindo para seu quarto. Contudo, entretanto, todavia, enquanto se organizava, ouviu vozes distantes e risadas incessantes vindo de fora. Pela proximidade, tudo indicava que vinha do jardim e logo um calafrio percorreu seu corpo quando associou a um possível ladrão, mas nenhum ladrão assaltaria uma casa fazendo tanto barulho. A varanda do quarto ficava para a parte do fundo da casa onde foi se aproximando aos poucos, e graças a longa cortina branca que cobria a porta, pôde observar discretamente duas pessoas conversando no jardim da casa ao lado, mais precisamente na casa de , seu vizinho. Jogou um pouco a cabeça para fora, tendo a ajuda do pano da cortina que a escondia, ou pelo menos achava que escondia, observando com os olhos semicerrados duas silhuetas em pé como se estivessem se despedindo, logo associando a e . Ambos deram um aperto de mão, como sempre faziam, rindo como se comemorassem algo. seguiu na frente para entrar em casa seguido por que antes de entrar, deu uma breve olhada em direção a sacada onde a garota estava, encarando por uns segundos. jogou seu corpo rapidamente contra a parede, respirando fundo na tentativa de se acalmar, procurando um motivo para ter seu coração tão acelerado quanto um carro de fórmula 1. Talvez fosse porque já fazia tempo que não via tão perto assim, e querendo ou não, sua ferida não estava cem por centro cicatrizada. tinha adotado uma norma em sua vida, estava disposta a superá-lo e seguir a vida sem a total existência de . Havia o tirado de suas redes sociais, por mais doloroso que foi, mensagens e contatos visuais nunca mais, o evitava a todo custo na universidade - onde para sua sorte, eram de campus diferentes -, e toda vez que algum sentimento antigo ressurgia, era tomado pelos pensamentos de ódio e repulsa. Toda sua luta seguia adiante, mas sentia que o destino brincava consigo, parecia que quanto mais tentava esquecer dele, o mundo fazia questão de que ela soubesse de sua existência.


Capítulo 2

Se eu tivesse feito outras escolhas, não teria conhecido você.

Por mais óbvio que fosse, aquela frase resumia toda a pequena insônia que teve naquela noite. De início, pensou que fosse o calor, e mesmo ligando ar condicionado, sua cama parecia extremamente desconfortável para si. Cada posição que encontrava, até mesmo as mais estranhas possíveis como ficar com a cabeça para baixo, não traziam nenhum pingo de sono muito menos de relaxamento. Optou então por deitar-se de barriga para cima com as mãos sobre ela. Contar carneirinhos ou inventar uma pequena história para que pudesse servir como porta de entrada para o sono parecia ser uma boa opção, sendo assim, fechou os olhos tentando se concentrar ao máximo e procurar um relaxamento profundo, mas logo sua mente se teletransportava para uma cena na qual não desejava lembrar nem pintada a ouro. Balançou a cabeça na tentativa de afastar todos seus pensamentos, voltando a sua falha tentativa de relaxamento e concentração. Talvez criar alguma cena com algum ídolo ou momentos que jamais aconteceria poderia resultar no seu tão sonhado sono, talvez fosse uma boa ideia se sua mente não tivesse tão ligada ao seu passado.

“Cinco anos atrás. - Venice High School.

O início do semestre havia chegado e com ele o tão sonhado colegial também. Eram conhecidos como “Sophmore” o que indicava que estavam no primeiro ano do ensino médio. De acordo com boatos que sempre rolavam, a chegada ao colegial era como uma entrada para o paraíso, as coisas seriam diferentes, a liberdade chegaria aos poucos, uma nova perspectiva de vida começaria misturada a festas e bebidas. esperava que realmente sua vida lhe trouxesse mais animação, colocava expectativas de que tudo fosse como nos filmes e a curtição rolasse a solta.
Tanto ela quanto e haviam feito do possível e impossível para pegar o máximo de matérias juntos, mesmo que tivessem suas divergências estudantis. Haviam conseguido pegar poucas, sendo uma delas a aula de música, a que mais os interessavam. A única coisa ruim era a aula de matemática que acabou sendo a matéria anterior. Uma das coisas que jamais conseguiria entender era a questão de tantas contas em sua vida. Qual a necessidade de aprofundar tanto em números e cálculos, sendo que não desejava nem um pouco seguir uma carreira que fosse da área de exatas. O professor já estava prontificado na frente da sala falando sobre algum assunto que logo percebeu ser equação. Por mais irritante que fosse, ela fazia de tudo para anotar e evitar qualquer tipo de recuperação no final do semestre.
– Por que matemática tem que existir mesmo? – ela questionou a que atentamente continuava escrevendo em seu caderno na fileira ao lado.
– A vida é composta de números, precisamos deles para que tudo tenha lógica. – o garoto comentou sem tirar a atenção um segundo sequer das suas anotações.
devorava cada palavra que o professor dizia, era apaixonado por exatas e sua ciência, na verdade, ao ver de , o garoto parecia ser um amante da escola. Se vivessem em um filme, certamente seria o garoto nerd, só que sem a aparência estereotipada de óculos grandes, blusa xadrez e calças coladas; sua forma de vestir seria voltada para o típico garoto apaixonado por poesia com um cabelo preto até a metade das costas, roupas simples, porém fascinado por Vans, o que combinava totalmente com sua maneira de ser.
semicerrou os olhos tentando entender qual a lógica que aquela frase possuía. Encarou a sua frente, que do mesmo modo, encarava o irmão.
– O que foi? É filosofia! – protestou.
– Não se usa filosofia em matemática! – rebateu.
– Claro que usa! Há tantos filósofos que eram matemáticos! Como assim você não sabe de…
– Ah não, . – interferiu. – Não vem com sua lista de filósofos, não. Foca na matemática e esquece o que falamos. Já sabemos que você roubou metade da minha inteligência quando estávamos na barriga da nossa mãe.
revirou os olhos, dando a língua a sua irmã que ignorou totalmente suas atitudes. Ambos eram gêmeos com grandes diferenças visuais e de personalidade. Quem não os conhecessem apenas diriam que eram meros irmãos, onde com certeza seria o mais velho, devido a sua altura e alguns avanços hormonais como uma voz mais grave, enquanto seria dois anos mais nova.
Um era completamente o oposto do outro. era mais na dele, raridade era ouvir sua voz, sempre que a manifestava era como um mar de sutileza e calmaria, enquanto era do tipo mais comunicativa quando sua timidez a permitia. Possuía mais um jeito escandaloso em seu meio social com um defeito de ser avoada, o que sempre irritava .
Acabaram se conhecendo mesmo quando sua avó os apresentou após sua mudança. Não foi logo de imediato que começaram a se falar, era pior do que no quesito timidez, escondia-se atrás dos avós para não cumprimentar, inventava desculpas para não sair de casa e interagir com outras crianças, sempre achava que estava incomodando quando pensava em chamar para brincar. A escola acabou os aproximando já que passaram a ir e voltar andando pela proximidade que era, e aos poucos, se tornaram inseparáveis a ponto de se sentir a terceira “gemêa”.
Tiveram mais trinta minutos sobre o assunto após o tempo de cópia. A maioria da turma já se encontrava fora de órbita, vagando em outros pensamentos fora da sala de aula. brincava com a caneta enquanto seu dedo a girava em cima da mesa com seu rosto apoiado desajeitadamente em sua mão com o apoio do seu cotovelo. Sonolenta e sem ânimo, desejando que tudo aquilo acabasse para dar o pé e ir para a aula de música, sua atenção pairou em um garoto um pouco mais a sua frente, uma fileira após a de . Sua jaqueta azul marinho era um pouco mais acolchoada do que os demais, cobrindo um pouco a sua nuca onde um cabelo um pouco mais baixo, que corria de uma lateral a outra, dava um molde perfeito de topete para os cachos abertos e dourados no topo da cabeça. Sua atenção estava totalmente voltada para o professor como se devorasse cada palavra que ele dizia, como havia feito minutos atrás. Não lembrava de tê-lo visto na escola, visto que a maioria de sua turma antiga ainda continuava na mesma sala. Deveria ser novo, seus ombros estavam caídos, e sua coluna formava uma corcunda entregando seu desconforto.
– Turma! – Sr. Julius chamou atenção assim que parou de escrever no quadro, despertando-a da análise do menino novo. – Vou passar uma lista de exercícios que deve ser começada aqui e terminada em casa para a próxima aula. Podem fazer em duplas, grupos, ou individual, só não quero barulho. – devagar, o pessoal ia se juntando e formando alguns grupos. e logo se juntaram a ela, e assim que receberam o papel, começaram a fazer.
– Vamos tentar terminar isso aqui, não quero nem um pouco ter que usar meu precioso tempo em casa, a não ser que faça para mim. – comentou com um sorriso e um olhar pidão no rosto, mas apenas recebeu um dedo do meio de seu irmão. – Grosso!
– Fica sonhando, , mas vamos começar logo.
folheou algumas páginas, vendo a pouca quantidade de questões, mas logo sabia que ter pouco era sinônimo de dificuldade. Suspirou profundamente xingando mentalmente o professor por seu fetiche de ver aluno utilizar o precioso tempo livre para ficar sofrendo por matemática. Não duvidava nada que suas noites eram com uma taça de vinho na mão, lendo qualquer livro de matemática avançada, exalando sua risada diabólica enquanto imaginava o choro de cada estudante.
Para a sorte dela, parecia que o tempo estava ao seu favor já que a cada olhada que dava para o relógio, parecia que nenhum ponteiro havia se mexido. Começou a analisar a sala mais uma vez, vendo que alguns mexiam nos celulares fingindo que estavam solucionando a questão, enquanto outros estavam realmente concentrados, inclusive o novato, que estava sozinho. Ele parecia ser bom, a caneta não parava um minuto sequer, seu olhar não saia do papel e sua postura permanecia a mesma: encurvada.
Cogitou em chamá-lo para participar do grupo, mas logo lembrou do quanto odiava conhecer pessoas novas. Quer dizer, não era muito bem um ódio, mas não era sempre que novas pessoas se adaptavam a um grupo ou tinham gostos familiares, ou até mesmo puxavam assunto, o que acabava gerando o famoso silêncio constrangedor, algo que ela abominava. Por isso que somente andava com e , e para ela estava bom daquele jeito, mas algo em si dizia para dar essa chance, seu subconsciente trabalhava para que a mesma aceitasse a ideia.
Talvez não fosse tão mal assim, e também, estavam em um novo ano, nada como iniciar de uma nova maneira.
– Gente, seria problema se incluíssemos alguém aqui? – viu seus amigos a olharem confusamente, esperando uma breve explicação. – É que… bem… o novato ali é o único que está fazendo só e…
– Meu Deus, , mal chegou na escola e já está interessada em alguém? – se prontificou a falar em tom um pouco alto, fazendo a amiga se segurar para não voar em cima dela. acabou acertando um chute certeiro em seu tornozelo, onde a mesma gemeu de dor. – Outch, grossa!
– Vai com calma, gafanhoto. Não é porque falaram que ensino médio é tudo diferente, que você já vai querer se jogar pra cima de todos e viver a vida louca. – revirou os olhos, lançando um dedo do meio ao amigo.
Se curvou um pouco mais sobre a mesa na tentativa de chegar mais perto deles, evitando que suas bocas grandes chamassem mais a atenção da sala.
– Oh, bando de burros, não estou interessada em ninguém não. Usem a cabeça de vocês para pensar em coisa útil ao meu respeito! Tô falando isso porque ele parece ser inteligente, não tirou a cara do papel uma vez se quer.
– Hum… já está reparando demais, hein? – comentou e logo, novamente, acertou um outro chute em sua canela, onde dessa vez ela a encarou com uma feição séria. – Quer parar com isso? Preciso das minhas pernas para andar, merda!
– Então mande sua boca ajudá-las, ficando com essa matraca fechada! – rosnou, vendo-a lhe lançar um olhar indignante.
– Meninas, aqui não é local para se matarem, por favor, deixem isso para quando chegarmos em casa, de preferência em um local onde seja fácil de limpar sangue. Não quero me envolver no crime. – comentou sem tirar a atenção das questões, onde respondia com uma certa dificuldade.
– Cala a boca, . Vá terminar de fazer sua obrigação. – o garoto apenas elevou o dedo para a irmã que rapidamente deu um tapa em sua mão, o fazendo rir. – Mas só comentando sobre esse assunto. Se você acha interessante, , ele pode se juntar a nós. Fico feliz em saber que está querendo ser mais comunicativa.
Em uma feição explícita ao tédio das palavras de , apenas rolou os olhos, observando novamente o garoto que se encontrava na mesma posição. Ele realmente estava empenhado em terminar a atividade e aquilo seria ótimo para garantir seu tempo livre pela tarde, entretanto, apenas uma simples coisa a impedia de se levantar e marchar até ele esbanjando uma simpatia: ela odiava introduções. Se demorou séculos para se aproximar de e , com aquele garoto não seria diferente, suas bochechas se ruborizaram só de pensar em chegar perto e tomar uma iniciativa mesmo sabendo que era apenas um convite para estudo e não para beijar.
Olhou rapidamente para que devido a sensação de estar sendo observado, elevou apenas o globo ocular a encarando com uma feição temerosa. Não era difícil de identificar o que ela queria, o sorriso largo junto com as pálpebras batendo rapidamente era uma comunicação que adquiriu ao longo dos anos. Sempre quando queria algo, era sempre o mesmo modo de pedir, e sempre recaia sobre ele, e nem adiantava rebater, o olhar de cachorro que caiu da mudança era pior do que o Gato de Botas do Shrek. Frustrado, apenas levantou-se esbanjando uma indisposição tremenda, aproximando-se do garoto e pousando uma de suas mãos nas costas dele.
Conversou um pouco até ambos olharem para as duas que fingiam estar fazendo as questões atenciosamente. Não demorou muito para que voltasse ao seu lugar, só que dessa vez, carregando uma cadeira a mais onde posicionou entre o menino e .
– Galera, esse aqui é . , essas são , minha irmã, e , minha irmã de consideração.
– Prazer, . – rapidamente cumprimentou, recebendo um dos mais belos sorrisos que já tinha visto.
esbanjava uma simpatia única, seus traços eram marcantes de uma adolescência entregando-lhe ser um pouco mais velho do que . Sua voz começava a ter um aspecto mais firme, mas não tão exageradamente como a de um Henry Cavill da vida. Ainda não possuía sinais de barba ou de bigode, mas se tivesse, seu barbeador fazia um belo serviço deixando sua pele lisa que nem a de um bebê. Algumas vermelhidões surgiam na região da bochecha o que acabava sendo um pouco charmoso, pois lembrava pequenas sardas, mas seus óculos de armação preta chamava uma atenção para seu olhar castanho que possuía uma certa claridade com a luz da sala. Não sabia ao certo se eram castanhos claros ou escuros, mas qualquer tipo combinava com aquele sorriso torto e sem graça que o mesmo esbanjava enquanto interagia com . Seus cachos agora eram mais presentes do que visto de costas, e dois deles caiam sobre sua testa sem o preocupar.
Seu físico estava coberto pelo casaco grosso, mas não parecia ser do tipo atlético, era uma mistura de nerd com… Pela primeira vez na vida, não conseguiu associá-lo bem como costumava fazer com as pessoas. era uma mistura de nerd com um jeito de ser, um garoto simpático, inteligente, com um papo divertido e uma beleza pra lá de única.

Realmente, havia sido um prazer conhecê-lo."

Que merda!
Foi a primeira coisa que pensou ao ouvir o barulho irritante do despertador do celular. Sentiu seus músculos enrijecerem, enquanto suas pálpebras lutavam contra o sono devido às poucas horas de descanso; o vento frio do ar condicionado não ajudava muito no quesito disposição matinal, fazendo seu corpo se fundir ainda mais com o colchão. Tateou com os dedos na mesa de canto até encontrar o aparelho, sendo quase cega pela forte luminosidade que irradiava dela.
Tinha que se lembrar de diminuir a intensidade da luminosidade antes de dormir. Preguiçosamente, percorreu seu olhar pelo quarto percebendo a cama de Ava vazia e totalmente arrumada. A única explicação que encontrou foi sobre seu sono ter a controlado mais do que sua vontade de acordar, e certamente a mesma ainda estava jogada no sofá desde a noite passada. Tomou um rápido banho para despertar, vestindo uma simples roupa composta por calça jeans, tênis, uma blusa e seu velho cardigã salmão que era seu xodó. Fez um rápido café, colocou duas fatias de pão na torradeira, e encheu os pratos dos dois gatos que roçavam em sua perna. Se ela deixasse para Ava colocar a comida, era capaz dos próprios gatos assaltarem a geladeira cheios de indignação por verem seus potes zerados. Sua avó odiaria saber que seus bichanos estavam passando fome na própria casa, e ela não queria levar essa culpa. Ambos tinham um grande significado para ela, assim como tinham para a própria , e não era à toa que sua avó sempre a pedia para cuidar deles caso algo ocorresse.
Quando terminou, percebeu que faltava pouco tempo para o ônibus passar. Pegou rapidamente a bolsa ao lado do kilo de chaves de sua mãe, o que indicava que a mesma já estava em casa, fechando a porta atrás de si. Não deu nem dois passos quando sentiu uma leve vibração no bolso da calça...

Nessa😼:
Hey babycakes, ainda está em casa??
Me espera uns cinco minutinhos pfvr.


Franziu o cenho perguntando a si mesma se estava vendo coisas ou aquilo era realmente verdade. não tinha o costume de acordar cedo, tanto que a maioria de suas aulas eram sempre no segundo período ou à tarde, evitando de madrugar na universidade como ela sempre dizia. Poderia ser um trote ou alguém que tinha roubado seu celular, ou ela poderia estar com seus casos de sonambulismo - o que fazia evitar 99% de dormir no mesmo quarto que ela -, mas resolveu esperar. Se era realmente ela, algum caroço tinha ali no meio, só esperava que a madame não demorasse tanto, pois enfrentar os olhares mortíferos da professora Rayna em plena sete da manhã estava fora de cogitação. Para sua surpresa, e sorte, não demorou, em poucos minutos sua voz grave soou perto de si e sua face aparecia pela janela do carro.
– Hey, babycakes, demorei? – questionou retirando seus óculos de sol, enquanto exibia um largo sorriso.
– Ora, ora, deu formiga na cama? – encostou-se na porta, encarando-a.
– Quem me dera, elas seriam mais amigáveis do que o frenético do meu despertador tocando me lembrando da prisão que viverei hoje. Não vai entrar? – automaticamente olhou para o banco de trás checando se havia alguém ali. Percebendo sua atitude um tanto estranha, logo soltou uma risada nasalada, negando com a cabeça. – Ele não veio. A aula de hoje é pela tarde, por isso que estou de carro, pois caso contrário, ele já teria dominado como sempre. – revirou os olhos lembrando da possessividade que seu irmão tinha pelo carro que na verdade, era deles. Ganharam quando completaram 16 anos. Presente do pai.
– E quando você vai ganhar o seu carro ou ele o dele? – fechou a porta ao seu lado, vendo dar partida.
– Quando um anjo iluminar a cabeça dos meus pais. Não sei de quem foi a ideia genial de dar apenas um carro a nós dois. Isso tem dedo de meu pai… dedo não, uma mão inteira com a mania de economizar. Eu aceitaria um seminovo sem problemas.
– Pelo menos você tem…
– Que é a mesma coisa que nada, já que noventa por cento das vezes é quem dirige com a desculpa esfarrapada de que sou barbeira. – por ironia do destino, ou não, no exato momento em que ela terminou a frase, sentiu uma freada brusca que a fez quase beijar o painel do carro e voltar. – SINALIZA, IDIOTA! Viu, e a culpa ainda é minha?!
– Ok… enfim, aula no primeiro horário hoje?
– In-fe-liz-mente. O professor terá uma reunião no outro horário então decidiu passar a aula para esse horário. Meus olhos estão doendo.
– Bem-vinda a minha realidade…
– Se for assim, não quero ser bem-vinda, não. – riram com tal comentário. Aproveitando a liberdade, foi mudando as estações de rádio até parar em uma onde Blame do Calvin Harris tocava dando uma animada naquela manhã tão monótona. – esteve lá em casa ontem… – sentiu de perto seu tom receoso por tocar no nome dele, mas deu de ombros. Não poderia deixar afetá-la tanto a ponto de não conseguir citá-lo.
– Eu sei… vi pela varanda. Ele e seu irmão não sabem ser nada silenciosos.
– Nem me diga… Fiquei horas trancada no meu quarto fingindo que não o conhecia, mas bem… ele foi deixar uns convites lá, parece que vai ter algum showzinho deles em um restaurante ai.
– Eu sei. – viu sua amiga virar bruscamente para ela com os olhos quase saltando suas pálpebras e seu queixo quase tocar no chão de incredulidade.
– Você sabe?? Como?? Passei horas só imaginando como seria contar para você!
– Sei, porque a madame resolveu bater lá em casa para entregar um na maior cara de pau para minha mãe.
– Sério?? Por quê??
– Quem souber morre. – deu de ombros. – Ava me contou, e o pior é que minha mãe ficou toda felizinha.
– Não me surpreendo, já que ela sempre amou ele.
– In-fe-liz-mente. – a imitou. – Do jeito que ela é, é capaz de ir.
– E você vai?
! – a repreendeu.
– Desculpa, é só que, sei lá, sua mãe está na cidade e talvez fosse uma ideia legal você ir com ela e a Ava para curtirem um tempo juntas, por mais que seja… ele. – suspirou pesado pensando na possibilidade.
Por um lado, tinha razão. Não era sempre que sua mãe conseguia ir visitá-la, e passar um tempo junto a ela em um lugar que não fosse shopping ou a sala de sua casa seria algo interessante. Sem falar nas décadas que não saía com Ava por causa de sua agenda universitária e adulta lotada.
– Não quero dar a um gostinho de que as coisas podem caminhar para um bom lado.
– E não vai. – comentou já estacionando o carro na universidade. O papo foi tão intenso que mal perceberam que haviam chegado. A mesma logo virou em sua direção, pegando em suas mãos. – Você não precisa ser amigável com ele, muito menos falar. Vá apenas para curtir com a gente.
– A gente? – questionou erguendo uma de suas sobrancelhas, já sacando o lance da garota. Provavelmente ela iria, e não queria aguentar o tranco de ficar com seu irmão e a trupe do bolinha. – Você só quer que eu vá para te fazer companhia.
– Tuchê! – estralou os dedos informando o seu acerto. – Estava pensando em chamar os meninos, mas não quero sair de lá sendo escoltada por seguranças acusada de se envolver em uma briga. E também… – continuou rapidamente, evitando que falasse. – Eu tenho que ir já que meu pai também vai, ele acha que a minha presença seria um grande incentivo ao meu querido irmãozinho. – finalizou em sua voz totalmente cantarolante, mas debochada. – Como se ele se importasse.
– Ele se importa, como sempre se importou com você.
– Duvido. Desde aquele dia as coisas têm sido bem… estranhas. Chegamos a conversar e a decretar de que nada daquilo iria afetar nossa relação de irmãos, mas tenho sentido de que nada é como antes.
– É uma merda o jeito como as coisas mudaram, e continuam mudando. Me sinto culpada por isso, sei que não deveria, mas me sinto.
– Você deveria ter parado na parte em que disse que ele se importava comigo. – ela suspirou pesadamente. – , você sabe de quem foi a culpa, e uma dessas pessoas é o . Você tem que parar de passar a mão na cabeça dele.
– Eu sei, é involuntário, mas…
– Nada de “mas…”. Eu entendo toda sua aflição, até porque não foi só você que perdeu um amigo ou um irmão, eu também tive perdas, mas o que podemos fazer? Pessoas têm suas escolhas, e sabem das consequências. Eles não as mediram quando criaram o caos, então agora que sofram com elas. Tira essa culpa que não existe de você, garota.
Por mais que sua amiga estivesse completamente certa, e que parte de sua mente acreditava em sua inocência, seu outro lado ainda se encontrava em um estado confuso e caótico criando mil teorias para o que possivelmente poderia ter ocorrido. O fato é que nem ela mesmo sabia o que tinha acontecido realmente, e era difícil de se conviver com algo na qual não sabia da verdade e muito menos dos motivos que levaram àquela briga. Pior de tudo era ter que conviver com as pessoas que mais lhe magoaram, vendo-os agir de consciência extremamente limpa, e ela mesma ter que fingir que não se importava com nada.
Se despediu de e seguiu pro segundo andar onde teria sua primeira aula, imaginando a correria de como seria seu dia. O festival de Outono se aproximava e tinha pouco tempo para finalizar, ou melhor, começar a organizar os detalhes da parte jornalística do jornal da universidade. Aceitar o cargo de suplente talvez não foi uma das melhores escolhas que fez no semestre anterior, por mais que fosse um algo a mais em seu currículo, e uma bela ajuda para o seu artigo - na qual ainda não fazia ideia do que fazer - tal cargo lhe demandava tempo, principalmente por ter que revisar as matérias antes de enviar para a impressão.
O jornal era dividido em setores como entretenimento, esportes, eventos anuais, culinária e muitos outros, além disso, contava com a ajuda dos estudantes de design que ajudava na montagem e tratamento de fotos. Os professores de jornalismo serviam como orientadores, tendo uma pessoa como “líder” para ser o mediador entre eles e os alunos, que no caso se chamava Briana Banks, e que de acordo com , era a mesma coisa que nada.
, finalmente te encontrei! – a voz de Pandora a fez parar no meio da escadaria que dava pro segundo andar, onde a mesma descia correndo até o seu encontro. – Acabei de falar com Briana, ela pediu uma reunião para acertar as questões do jornal no evento.
– Faltando um mês e pouco a madame resolve, agora, se preocupar?
– Briana sendo Briana. – deu de ombros. – Ela é mais perdida do que calouro em primeiro dia de aula.
– Como que ela conseguiu o cargo mesmo? – realmente, isso era algo que nunca entendeu.
Briana não era lá do tipo de pessoa ruim, maléfica, que ria dos outros enquanto se vangloriava da posição que tinha, pelo contrário, ela era até legal. Mas o que não entendia era como uma pessoa que mal aparecia no trabalho ainda continuava com o cargo de líder, e pior, como conseguia que tudo saísse nos conformes.
– Quem souber morre, mas preciso de sua posição logo, pois estou feito uma tresloucada por essa universidade atrás dos outros por causa desta reunião.
– Tres-o-quê?
– Tresloucada. – respondeu como se fosse óbvio, mas devido a feição de , logo entendeu que aquele vocabulário não fazia parte de seu dicionário. – Louca, doida, maluca!
– Ah…E por que Briana não está fazendo isso também?
– Disse que estaria ocupada. – assim como ela, Pam era a outra pessoa que fechava o time das suplentes do jornal que mais parecia secretária de Briana. Pandora era da equipe de design, começou fazendo as capas e ajeitando as imagens das páginas, mas seu jeito organizado logo foi favorável a Briana que, utilizando de sua bondade e vontade de se envolver mais na área, usava Pandora como um fax humano. Tanto quanto Pam entraram na mesma época no jornal, o que ajudou muito a criar uma amizade já que uma foi o suporte da outra em um local totalmente desconhecido. O que mais impressionava era o estilo marcante que Pandora possuía, de longe poderia dizer que se a mesma fizesse algo relacionado a moda, seria a próxima Coco Chanel. Seu cabelo black era uma marca na qual a mesma havia assumido há pouco tempo, junto com algumas mechas roxas em suas pontas, combinando perfeitamente com seu velho par de óculos redondo prateado que mais lembrava os óculos de sua avó. Se usasse aquele acessório, certamente seria uma ofensa aos amantes da moda, ela não possuía tanto estilo como Pandora, e com isso, nem arriscava em usar novos apetrechos, mas na amiga, o par de óculos era a cereja do bolo. – Pode ser amanhã, cinco e meia? – continuou.
– Da tarde? – Pam respondeu com um aceno de cabeça e um sorriso tão sem graça nos lábios que sacou que não se tratava dela, mas sim de Briana.
– Só me falta ela querer acampar nesta universidade.
– Desculpa, . Sei que sua vida está uma loucura, assim como a de todo mundo, mas infelizmente é Briana que está no poder. Eu te avisei para assumir o cargo.
– Eu prezo pela minha saúde mental, Pam. Briana só vive na vibe paz e amor porque não assume diretamente tudo isso. Eu trabalho amanhã. Marca isso para semana que vem. Uma terça, às duas da tarde, se for o caso.
– Caso não possa ser na terça, poderíamos fazer amanhã, só que nesse horário das duas? – suspirou pesadamente tentando não se estressar com tanta informação em plena manhã.
Teria que ter uma mente calma para aturar o resto do dia, e Briana não estava a ajudando em nada. Ambas resolviam muito mais coisas do que ela, seu título era apenas uma fachada.
– Acho que dá, eu me viro no trabalho. – Pandora assentiu, anotando novamente.
– Desculpa estar complicando mais sua vida, mas temos que resolver logo. Sem uma organização exata, não teremos como cobrir o evento, e isso é uma deixa para atrair novos estudantes e fazer com que o jornal tenha um destaque a mais na universidade.
– A vida não está fácil para ninguém.
– Infelizmente... nunca mais consegui colocar minhas leituras em dia. Enfim, tenho que passar as novas informações para Briana e encontrar os demais. Nos vemos depois? – assentiu em afirmação.
Pandora saiu em disparada as escadas abaixo em um perfeito sincronismo de dar inveja a ; se fosse a mesma, já teria tropeçado e dado de cara no chão. Já havia perdido a conta de quantas vezes quase caiu naqueles degraus por serem tão curtos.
Checou seu relógio vendo que faltavam exatamente dez minutos para a aula começar, dava tempo de sobra de ir até a sala arrastando os pés e pensando nos pecados que havia cometido em vidas passadas para não ter nascido tão rica quanto a Kim Kardashian. Não a faria mal fazer parte de sua família, por mais que odiasse fofocas com seu nome, mas não se importaria muito com isso, contanto que tivesse seus milhões em conta, poderiam criar centenas de rumores da sua pessoa.
Girou os calcanhares retomando a sua rota para a sala, rezando para que ninguém mais aparece, entretanto, para sua eterna infelicidade, o mesmo par de olhos da noite passada a encarava do alto da escada, debruçado sobre o vasto corrimão do primeiro andar. Com um sorriso presunçoso nos lábios, o mesmo se atreveu a descer alguns degraus em sua direção fazendo xingar todos os nomes possíveis em sua mente. Esperava mesmo que ele apenas passasse por ela e seguisse seu caminho como mero desconhecido, entretanto, o olhar do garoto não estava para alguém que apenas passaria despercebido, e a paciência de de iniciar qualquer conversa com estava abaixo de zero. Pensou em dar meia volta, mas foi impedida quando ouviu seu nome.
! Fugindo de mim? – respirou fundo, controlando-se ao máximo para que suas emoções não tomassem conta dela e acabasse como da última vez que conversaram, com objetos voando para os lados.
Não estava a fim de brigas ou discussões, precisava agir como se ele fosse apenas uma pessoa qualquer, em um momento qualquer, perguntando algo totalmente irrelevante. Fez sua melhor cara de desentendida, virando-se em sua direção, percebendo o quão perto o mesmo já estava.
– Zero motivos para fugir de você, . Até porque, eu não te devo nada.
– Bem, você me deve uma conversa.
– Não, eu não te devo, a época de cobrar já passou, e se me der licença, eu tenho uma aula para assistir. – como ele ousava a falar que ela estava devendo uma conversa? Depois de séculos, milénios? Fez menção de sair, mas o mesmo se pôs em sua frente, fazendo-a respirar fundo novamente. – Se eu chegar atrasada nessa aula, eu juro, belas barbas de Albus Dumbledore, que você vai fazer uma turnê em cada canto de um brioco.
– Ou seja, vai me mandar tomar no cú.
– Eu já estou mandando. – ele deu de ombros.
– Você vai na inauguração do West Club?
– Não sei, tenho muita coisa para fazer.
– Como…
– Como fazer algo que não é da sua conta, .
– Assistir Netflix enquanto come pipoca com nutella? – revirou os olhos em desgosto.
Aquele era um dos melhores programas para final de semana! Como ele ousava a falar daquela preciosidade de momento com tanto escárnio?
– A agenda já está cheia. Mas suponho que não seja esse o real motivo dessa conversa. O que você quer?
já conhecia bem aquela típica enrolação, era péssimo com mentiras, não era à toa que sua carreira como ator no colegial não foi para frente. Ele não conseguia persuadir as pessoas, nem mesmo enganá-las. Toda vez que tentava, ele começava a se coçar, principalmente a nuca quando um pingo de nervosismo o atingia. Era por aquelas e outras que seus papéis acabavam sendo secundários, e muitas vezes de figurinista.
– Além da sua presença no sábado, preciso que libere a sala de música hoje para que eu possa ensaiar com a banda. Fui tentar agendar mais cedo e vi o nome do William lá, precisamos muito ensaiar hoje.
Erguendo uma de suas sobrancelhas e com um sorriso sarcástico nos lábios, ajeitou mais ainda sua pose, deixando um riso sair por sua boca. Tal gesto causou um temor em por receio de uma resposta negativa, mas ainda assim, insistiu em manter sua confiança com um belo sorriso.
– Não. – foi a única coisa que ela falou, antes de virar e seguir caminho contrário, deixando um totalmente embasbacado para trás.
Por mais que parte de si já estivesse esperando pela resposta, sua outra parte confiante falava mais alto. Não era mais questão de pedido e sim, necessidade. Caso não ensaiassem naquela tarde, a apresentação do sábado seria um fiasco, e ter uma tarde livre para ensaio não era algo lá tão fácil de se conseguir. Sendo assim, conseguiu ser mais rápido do que ela, parando novamente em sua frente, a fazendo bufar de raiva.
– Qual é, Bey, eu preciso ensaiar com o pessoal.
– Primeiro que você não tem mais autorização de me chamar assim, garoto. Segundo, você tem um estúdio em sua casa, pode muito bem organizar sua reuniãozinha lá como sempre faz. Tenho que ensaiar também! – revirou os olhos com desgosto em meio às palavras, colocando uma das mãos no bolso da frente da calça, enquanto a outra alisava vagarosamente sua nuca, transformando sua postura amistosa em um total incômodo.
– Olha, eu e a banda precisamos ensaiar para sábado. Na terça vocês ensaiaram por horas e não conseguimos vaga para ontem.
– E…? Ao contrário de você, eu não tenho uma sala de ensaio com microfone, parede acústica, instrumentos… o que me leva a sempre reservar o daqui, e hoje é o dia em que todos da minha banda podem ensaiar.
– Você tem a garagem de , vocês sempre tocaram lá.
– Para depois os vizinhos ficarem enchendo o saco por causa do barulho? Não, obrigada, eu passo. Acho que você esqueceu que ali se trata de uma vizinhança e que a garagem dela não tem parede à prova de som, ao contrário de...
– Mim, eu sei, não precisa repetir milhares de vezes, .
– Não me chame assim. – respondeu, rangendo os dentes.
– Mas é seu nome, garota! – rebateu em um tom mais elevado e irritadiço.
é o meu nome!
– Eu só quero a sala para eu ensaiar com a banda! – a àquela altura, suas vozes já eram audíveis a ponto de qualquer um que passasse por ali, parasse por pura curiosidade para ver o que estava ocorrendo.
Estar frente a frente com ele depois de bom tempo não estava sendo uma das melhores experiências que ela pensou que teria após anos, nada daquilo estava em seus planos, muito menos em seus desejos. Parecia que nada havia mudado desde a última vez, tirando que agora as coisas estavam mais civilizadas, mas qual era a dificuldade dele em aceitar um “não”? Por que tinha que ser tão cabeça dura a ponto de insistir em algo na qual ele sabia que não necessitava tanto? Suas têmporas já começavam a latejar assim como sua paciência chegar ao limite. Olhou rapidamente no relógio vendo que faltavam apenas cinco minutos para aula, e não, não tinha mais paciência para aturar nada.
, por favor. – a voz dele já estava lhe dando nos nervos, e junto com a pressão de chegar logo na aula, apenas falou a primeira coisa que lhe veio em mente antes de prosseguir caminho quase correndo.
– Vou pensar. Te mando mensagem.

♪♪



A corrida até a sala foi necessária, e seu fôlego mal existia. Realmente estava precisando fazer alguma atividade aeróbica para melhorar seu condicionamento físico, se tivesse que correr novamente igual daquele jeito, sairia da universidade em uma ambulância e dois socorristas fazendo massagem cardíaca em seu tórax. Chegou ao local faltando apenas cinco minutos, e sentiu um forte alívio por não ver a presença da professora. Os alunos já tomavam posição em seus lugares, mas de forma aleatória e desorganizada, sentados em cima da mesa, virados de contra ao quadro, enquanto outros permaneciam em pé conversando despreocupadamente. Como de costume, caminhou desajeitadamente entre eles até chegar no cara de moletom de lã verde musgo e cabelos castanhos claro acima dos ombros, mais conhecido como sua salvação diária de tédio e morte das quintas matinais.
– Pensei que estivesse querendo ouvir o sermão da professora.
– E ter uma morte dolorosa e lenta? Jamais!
– Já estava pensando na cor do seu caixão, e na música que tocaria no plano de fundo, talvez a marcha imperial.
– A marcha imperial não é para uma entrada triunfante?
– Sua entrada triunfante no céu, por se livrar do falatório da professora.
– Tuchê! – riu, deixando o livro em sua mesa, virando-se na direção da amiga.
– Vai fazer o que no final de semana? Nunca mais saímos para colocar o papo em dia e afogar as mágoas no álcool. Quer dizer, eu afogar no álcool e você nas comidas.
– Nada demais, apenas ficar em casa assistindo Netflix com pipoca e nutella. – revirou os olhos, dando uma risada nasalada. – Vida de uma estudante com a alma velha.
– Típico de , isso sim. Me avise se puder, podemos falar com e Will também. – assentiu, tornando novamente sua atenção para o livro em sua mesa.
– The Legend? Você não estava lendo O Senhor dos Anéis até semana passada? – questionou, sentando-se na cadeira ao lado do garoto que delicadamente fechou o livro sobre a mesa, dando toda atenção necessária a amiga.
– Terminei no final de semana e peguei esse na biblioteca. Conta sobre um momento pós apocalíptico aqui em Los Angeles. – comentou com a maior tranquilidade do mundo, como se fosse algo tipicamente normal de acontecer.
Havia duas coisas na qual odiava com todas suas forças de comentar: sobre seu passado, e temas tenebrosos capazes de ocorrer. Não que a mesma acreditasse cem por cento de que acontecimentos pós-apocalíptico como de A Quinta Onda ou Resident Evil fossem ocorrer, era quase impossível existir zumbis ou alienígenas que fossem dominar o mundo, porém não descartava a hipótese de que tais fatos poderiam sim ocorrer; aquilo lhe causava pavor e uma pequena angústia só de lembrar, com isso, sempre que podia, evitava de falar ou citar.
– Sei que não gosta desses assuntos, mas deveria dar uma chance a este livro. Não fala diretamente sobre dominação do mundo por coisas sobrenaturais, apenas uma praga que domina a cidade. – Lis arregalou os olhos, encarando a cara limpa de .
Ele só podia estar brincando.
– Cruzes! Se já existem doenças não curáveis, imagina uma que pode dominar o mundo?! É pior do que zumbis, ! Obrigada, mas deixa eu com meus livros de Harry Potter mesmo.
– Ah, medo do você-sabe-quem a senhora não tem, não é mesmo?
– Claro que não, até porque eu sei muito bem que ele não existe!
– Como você sabe? Como tem tanta certeza?
– Sabendo, , é fantasia, e agora chega de tanta filosofia matinal porque minha paciência de segunda já se esvaiu.
– Posso saber que bicho te mordeu logo hoje?
– Um bicho chamado , conhece?
– Tão bem conheço como sei do amor de vocês. Outch! – encolheu o braço após sentir a fúria do beliscão de em si. – Agressiva, não quero pegar essa raiva, não! – e novamente seu braço foi atacado por outro beliscão, porém mais longo e forte. – Outch, ! Meu braço é fino!
– Ninguém manda ser linguarudo e não ter carne para suportar beliscões, mas que suporta tatuagens. – deu língua ao amigo que retribuiu da mesma maneira.
confiava de olhos de fechados em , ambos tinham uma amizade inabalável. Havia o conhecido na mesma época em que entrou naquela Universidade, há quase dois anos atrás, em sua primeira aula no curso de Comunicação e Jornalismo. As constantes aulas só serviram para observar melhor o garoto que costumava sentar-se no canto com seus variantes livros a cada semana. Julgando o livro pela capa, não parecia ser um amante da literatura, muito menos possuir um temperamento tão calmo e, quando queria, sábio. Seus cabelos que tocavam os ombros tirava um pouco o modo “nerd” de sua face, assim como suas roupas que costumavam ser bem apagadas e simples, escondendo as vastas tatuagens que possuía, dedicadas às séries literárias que mais amava. Mesmo tendo todo esse jeito, era o próprio “nerd interior”, odiava faltar aulas, por mais chatas que fossem, e sua vida regrada a organização chegava a irritar .
Acabaram se aproximando após o tal famoso “evento”, “babado” ou como alguns titulavam “barraco musical”, mas tudo graças a que, por coincidência, já o conhecia, e assim o convidou para fazer parte da banda.
A atenção se modificou a sua frente quando a professora entrou em sala já pegando seu famoso livro “Macbeth” de Shakespeare, e começou a ler para a turma. Era uma tortura em plena manhã ter que ouvir aquela voz tão calma e serena ditando uma história de Shakespeare em um linguajar totalmente antigo e confuso. Até que gostava das literaturas antigas e se interessava por muitos contos, entretanto, odiava o modo de como a Sra. Bennet comandava a aula, era basicamente ela e aquela voz e nada mais. Até mesmo não resistia ao incontrolável sono e assim, como alguns alunos presentes, deitava sua cabeça e tirava um longo cochilo. Ao final da aula era possível contar nos dedos a quantidade de pessoas que haviam prestado atenção totalizando em dois: a própria professora e Bonnie, a líder ruiva do grupo de Literatura antiga da Universidade.
Os segundos eram como horas, torturantes e infernizantes, apenas seu corpo estava presente ali, já que sua mente vagava nos pensamentos em relação à banda, na reunião e nas coisas que teria que fazer ao longo da semana.
Só de lembrar seu corpo já entrava em um estado exaustivo.
Por que não poderia ter logo seu lindo diploma e uns bons dólares na conta?
Quando ouviu a voz do professor parar, já sabia que a aula havia acabado. Recolheu suas coisas rapidamente saindo ao lado de , que coçava o olho devido ao sono.
– Quando é que será o ensaio da banda mesmo? – perguntou o garoto ainda com uma voz arrastada e sonolenta.
– Hoje, . Pelo amor do santo de todos os santos, não vá me dizer que havia esquecido e marcou algo. Will vai ficar uma fera se souber que teremos que cancelar, na verdade, ele irá ficar. – o garoto sentiu o peso das últimas palavras dita pela amiga, criando uma curiosidade em si.
– Por que ele vai ficar? – repetiu da mesma forma e intensidade que ela, erguendo uma de suas sobrancelhas.
respirou fundo já imaginando o quanto ouviria de devido ao modo que ela havia tratado mais cedo. Não que ele gostasse de , pelo contrário, evitava a todo custo contato com o garoto devido as coisas que ele fez a , mas se um dia tivesse que falar com , não o trataria mal ou com grosseria. Ele preferia se manter neutro naquela relação, porém sempre dando o suporte a amiga, o problema é que a tanta neutralidade acabava irritando , e para não acabar em uma situação pior, ela acreditava que tudo aquilo na verdade era a lerdeza de .
Definitivamente ele era lerdo.
– Porque esse foi o motivo da minha quase discussão com . Ele veio pedir para liberar a sala de música para que pudesse ensaiar com a bandinha dele para um evento aí, e eu acabei falando que iria ver.
– E por que não liberamos? – aquilo foi quase como um tiro no coração de .
Já sentia a dor de uma bala entrando em seu coração e saindo pelo outro lado, perfurando certeiramente seu órgão e deixando um rastro de dor e surpresa. Teve que colocar a mão no peito para quase não cair para trás e segurá-la bem firme para que não voasse no rosto do amigo. até se assustou com a feição espantosa e os olhos totalmente arregalados da garota, dando um passo para trás.
– Por que não liberamos, Patterson? Por que não liberamos?! – questionou com escárnios e de maneira retórica. – Porque nossa banda precisa mais do que a dele!
– Mas usamos a sala de música da última vez, seria justo se fosse a vez dele.
– Justo? Agora você quer falar de justiça citando ele? não se preocupou comigo quando fez o que fez, não será agora que irei me preocupar com ele e aquele grupo! Eles têm onde ensaiar e nós não.
– Ok, ok… – levantou as mãos em forma de redenção. – Sua cara está me assustando, e já estou sentindo a morte chegar e sou muito novo para isso. Mas veja com os demais, preciso adiantar para a próxima aula. Até mais tarde, senhora injustiça.
– Até, senhor justiça.

♪♪



Após duas incessantes aulas, glorificou o momento em que foi liberada, indo até a saída do prédio seguindo o grupo de alunos que se dissiparam no meio do caminho, passando pelo pátio e caminhando até o prédio onde se localizava o refeitório. O tempo ensolarado causava uma sensação térmica angustiante fazendo com que muitos optassem por vestimentas leves. Mesmo outubro chegando, e o verão já ter ido embora, Los Angeles ainda possuía um forno na temperatura máxima, o que não era muito a “praia” de .
Chegou ao local que já possuía um certo tumulto devido ao horário de almoço. Acabou encontrando e ambos, parados na porta, vasculharam o local com o olhar na tentativa de encontrar suas velhas companhias e um local vago para sentar-se. Era mais fácil para do que pra procurá-los, afinal, seu um metro e setenta e pouco, quase oitenta, tinha que servir para algo. Em meio a tantas pessoas, os olhos de não conseguiram não reparar no pequeno grupo sentado praticamente na mesa do centro. Era como se o destino estivesse cooperando para que seu olhar os encontrassem lhe causando um aperto no coração e um mar de memórias em sua mente. estava sentado ao lado de Jackson onde provavelmente, o segundo estaria fazendo como de costume suas piadas totalmente sem graça, zombando de alguém, enquanto fingia que ouvia e apoiava, mas no fundo, com certeza estava viajando em seus próprios pensamentos. Lembrava fortemente das vezes em que comentava com ela sobre o quanto Jackson deveria desistir da vida de comediante, realmente era um saco. Já ao seu lado, Dannah estava literalmente sentada na mesa de frente para , com seus braços descobertos mostrando suas enormes tatuagens, o tendo no meio de suas pernas, mas sem nenhum contato físico. Não lhe era estranho ver o quanto ambos haviam se aproximado, até porque, desde o primeiro dia em que havia pisado naquela universidade, o pessoal tinha o tratado muito bem… Bem até demais.
– Os encontrei! – exclamou ao encontrar a mesa com os dois amigos, caminhando em suas direções.
O caminho que fizeram passava bem perto da mesa de , e para foi totalmente impossível não sustentar o contato visual com o mesmo. Encarar aquele par de olhos que transmitia um sentimento de indignação, mas ao mesmo tempo frustração pela situação que estavam passando, não era nada confortável, mas para ela nada daquilo soava real, jamais acreditaria nas coisas vindas de novamente.
Na mesa do canto do refeitório, e Will pareciam estar em um debate bem intenso e divertido devido aos sorrisos aleatórios que saiam de seus rostos.
– Qual é o debate? – questionou , sentando de frente para .
A garota por sua vez respirou fundo e engoliu seco, tomando uma postura mais ereta e elegante possível.
– Estávamos apenas falando do quanto a moça nova da cantina gosta do Will.
– Colocar um pouco mais de batata frita não é sinônimo de estar apaixonada. – Will revirou os olhos, já farto do assunto, mas não dava trégua.
– Claro que é, olha só para isso, ela colocou migalhas para mim!
– Vai ver que ela se perdeu nos encantos do Sr. William Cooper e esqueceu da pessoa seguinte. – retrucou pegando uma de suas batatas e pondo na boca.
– Que sorte a minha. – comentou em seu tom sarcástico, revirando os olhos e já esticando sua mão para roubar algumas batatas do amigo.
– Ei, tira a mão. – protestou Will, dando um tapa na mão da garota.
– Eu tenho direitos, foi graças a você que não tive as minhas!
– Agora a culpa é minha se a mulher não foi com sua cara?
– A culpa é sua por distraí-la com sua beleza.
– Que beleza, garota?
– Será que as crianças podem parar de discutir? – comentou, sendo totalmente ignorada pelos dois.
– Sua beleza, garoto! E nem vem com esse papinho de que você não é bonito, esqueceu do show do The Killers?
– Eu estava curtindo o show tranquilamente. – Will ergueu os braços em forma de rendição.
– Ok, pessoal, será que podemos… – tentou mais uma vez, mas acabou sendo falha.
Lançou um olhar de ajuda para , mas o máximo que o garoto fez foi dar de ombros.
Não me mete nisso não, daqui a pouco sobra pra mim. – cochichou.
– Eram coroas, William, c-o-r-o-a-s! Que por sinal, não entendi por que estavam naquele show, mas, você tem noção do que é isso? Você é praticamente um Chris Hemsworth da vida, conquista as novinhas e as coroas! – Will bufou, erguendo o olhar para cima, contraindo seus lábios e mentalizando o que havia feito para ser castigado daquela maneira. – Só quero só ver se você vai agir dessa maneira quando tiver uma namorada ou namorado! – comentou, já com a boca cheia de batata frita.
– E quem disse que eu quero ter? , para de agir feito cúpido. – disse revirando os olhos com uma voz farta.
– Só estou tentando ajudar a desencalhar um amigo! – ela respondeu em sua defesa. – Mas eu quero continuar encalhado, me deixa curtir a areia. – Will respondeu em sua naturalidade serena, fazendo revirar os olhos e se aquietar.
Aproveitando o momento de trégua, acabou comentando da conversa que teve com mais cedo, e sobre a possibilidade de ceder a sala de ensaio para eles naquele dia. Claro que a ideia foi totalmente recusada por Will, que entrou em um quase conflito com que se pôs um tanto a favor sobre a liberação. se pôs ao lado de William alegando que “se fosse ao contrário, aposto que não cederiam para nós” o que era total verdade ao ver de , mas algo em si dizia para ceder somente daquela vez.
– Bem, temos algumas horas antes de decidir. Pelo menos hoje não precisaremos desmarcar por causa do , não é? – questionou, vendo o garoto a olhar repentinamente.
– Eu? – o menino apontou para si, confuso.
– Você mesmo, meu caro Watson. Ou você esqueceu que possui uma pequena e irritante mania de esquecer dos seus compromissos e desmarcá-los em cima da hora?
– Eu não esqueço, apenas ocorre um choque de horário, ocorre com todo mundo.
– Comigo não. – Will tratou de limpar seu nome.
– Eu uso meu celular, às vezes me passo, mas nada que me faça desmarcar. – completou.
– Vocês são exceções da vida, mas não marquei nada para hoje… eu acho. Mas em todo caso, eu cancelo.
– Você tem que perder essa mania, já pensou em ter um caderno para isso? – indagou .
– Já, mas nunca dá certo, acabo esquecendo de checar ou de escrever, ou acabo esquecendo onde coloquei e então acabo perdendo. Quando encontro, eu já comprei outro e fico com milhares em casa.
– E o celular? – Will deu a voz.
– Acabo esquecendo de checar. – deu de ombros.
– É meu filho, seu problema é um caso sério a ser estudado... se os cientistas tiverem paciência. – dando alguns tapinhas nas costas dele, comentou.

Pandora 🙆:
, emergência.
Preciso de sua ajuda.
Sr. Collins quer alguém logo na parte de esportes.
Pode ir comigo até o prédio de educação física? 😬


🙋:
Nem pergunto por Briana pq já sei da resposta.
Me encontre em 10 min na frente do nosso prédio.

– Não, não, não! Estou atrasada! Que merda! E tudo culpa de William e sua beleza Hemswortiana. – disse em pulo, recolhendo suas coisas rapidamente, enquanto os demais olhavam confusos.
– Hems o quê? – Will questionou.
– Hemswortiana, derivado da família Hemsworth onde todos conquistam as pessoas de meia idade.
– Mas eu não fiz nada!
– Claro que fez! Perdemos tempo discutindo sobre você. Enfim, se forem ensaiar me mandem mensagem. – soltando beijinhos no ar, se retirou às pressas tombando em quem via pela frente enquanto ajeitava sua mochila nas costas.
– Essa menina, ela é maluca. Eu tô falando sério.
– Foi descobrir isso agora? – comentou, levantando-se em seguida. – Pandora precisa de minha ajuda agora. Mando mensagem para vocês sobre o ensaio.
– Só espero que seja uma mensagem confirmando. – Will falou, recebendo uma piscadela de antes da mesma se retirar.

♪♪


– Se aqui não fosse quase uma eternidade para chegar, seria o lugar que intitularia como a oitava maravilha do mundo. – Pandora disse enquanto seu olhar brilhava ao admirar o campo de futebol onde uma equipe de estudantes aquecia-se para o típico treino.
– Oitava maravilha que tirou meu fôlego, literalmente. Com essa andada, percebi o quão sedentária eu realmente estou.
– Não me importo de fazer uma caminhada diária sempre para cá. – lhe lançou um olhar surpresa, jamais tinha visto um lado tão safada de Pandora. A garota exalava a fofura misturada com seriedade, não conseguia nem ao menos imaginá-la beijando alguém, quanto mais fazendo sexo. – O que? Estou errada?
– Não, não mesmo, mas me surpreende ouvir isso de você. – respondeu de forma divertida.
– Culpa dos hormônios, e do meu signo escorpião, por mais que não acredite muito. Mas não é como se eu nunca tivesse transado, né?
– É que você tem uma aparência tão meiga que é difícil de acreditar que dentro dessa mente existam pensamentos eróticos.
– É como dizem, os santos são os piores. – ela deu uma piscadela divertida, fazendo-a rir. – Mas obrigada pela companhia, . Espero mesmo não ter te estorvado.
– Ãn?
– Atrapalhado…
– Ah, sim... – Ter uma conversa usual com Pandora às vezes se tornava complicado quando a mesma insistia em usar vocábulos que não pertenciam ao dicionário de vida de . – Mas não atrapalhou, não. Estava no refeitório com o pessoal e hoje à tarde não tenho aula, apenas um possível ensaio, mas nada certo. Então, tecnicamente, eu estava livre.
– Possível ensaio?
– É… estou esperando uma decisão para saber se iremos conseguir ensaiar ou não.
– Problemas no auditório?
– Não dessa vez. Meu problema tem nome e se chama . Ele veio até a mim hoje pela manhã pedir para ensaiar no auditório, já que William tinha reservado para nossa banda. Eles vão tocar no sábado em uma inauguração de um bar lá em West Hollywood, e diz ele que precisam muito ensaiar e o único local é aqui. Não vou mentir que minha vontade tá sendo de ligar o foda-se assim como ele fez comigo, e ir ensaiar com minha banda, sem falar que os outros, com exceção de que disse que tanto faz, não querem abrir mão do ensaio, então tudo tá conspirando para ligar o foda-se. Mas não sei por que estou pensando tanto nisso, e muito menos por que eu disse a ele que pensaria.
– Talvez porque, no fundo, você se importe? – fez uma pergunta retórica, direcionando o olhar para . – Eu sei bem pouco de vocês, , apenas os rumores que rolaram e algumas coisas que você me disse. Mas se algo persiste em sua mente, significa que tem uma devida importância. Entretanto, se você tá querendo uma convicção da minha pessoa, sugiro que siga sua vontade maior. Eu admiro muito a posição de . – a encarou curiosamente devido a sua última fala, o que fez Pandora logo perceber o desentendimento da amiga e tentar se explicar. – Digo, não estou dizendo que ele é o certo da história e vocês os errôneos, mas convenhamos que ceder algo para o “inimigo” é o autocontrole que todos gostariam de ter. Porque por um lado, o ensaio tem uma importância para eles, não sei quanto a vocês, mas eles vão precisar para uma finalidade que envolve um trabalho, ou seja, uma troca mútua entre patrão e funcionário, então tudo tem que estar nos conformes.
– Eu sei, Pam. – suspirou pesadamente. – Mas ainda não possuo esse autocontrole que tanto domina. As coisas que ocorreram ainda estão bem recentes em minha cabeça, a minha vontade é de ver todos ali indo se… foder, literalmente, mas… não sou tão filha da puta assim.
– Eu te entendo. Possuo uma batalha interna entre meu lado escorpiano vingativo, e libriano justiceiro. É uma merda, mas vá pensando com calma, e na pior das hipóteses, liga o foda-se e vá ensaiar.
lançou lhe um riso de gratidão, mas sua mente ainda trabalhava na possível resposta que daria. Estava se odiando por deixá-lo lhe afetar indiretamente, era uma merda, queria ser bem filha da puta e não ligar, como Dannah faria.
O vasto corredor vermelho e branco do prédio exibia os diversos troféus ganhado pelo time de basquete, futebol e outros esportes praticados. Iam de gerações, décadas, até os mais recentes, mesclando com fotos antigas e novas de times. O arsenal se estendia até o final onde ao lado direito, atrás de uma porta de vidro, encontrava-se a secretaria da coordenadora do curso. Apresentaram-se ao secretário que mais lembrava um jogador estupendo de futebol, seria fácil confundi-lo como algum treinador ou até mesmo algum professor. Seus braços definidos sobressaiam-se um pouco pelas longas mangas da camisa branca social, e uma gravata vermelha que chamava atenção, mas não tanto quanto seus olhos castanhos que mesmo sendo escuros, possuíam um ar charmoso e intenso. O cabelo bem cortado de estatura baixa exalava uma seriedade, mas o sorriso amistoso e sua forma gentil de recebê-las foi o ponto crucial para saber o quão amigável ele era.
– Está decretado, se o Sr. Collins me pedir para vir sempre aqui, não irei reivindicar, de jeito algum. Este espaço é o paraíso, um olimpo. – Pam comentou quando saíram da sala em direção ao bebedouro, enquanto esperavam serem chamadas pela coordenadora local.
– Estou realmente sem palavras. – comentou rindo.
– Por que no nosso campus não temos pessoas assim? Pessoas de meia idade tomam a maior proporção nos centros administrativos, nem dá aquela vontade de perder aula e inventar uma história qualquer para sempre comparecer aos locais.
– Pam...?! – manifestou-se embasbacada com as palavras dela.
Realmente, estava tão surpresa quanto no dia em que havia descoberto que Hannah Montana na verdade era Miley Cyrus, aquele lado de Pandora ela jamais tinha conhecido.
– Ok, talvez na parte de perder aula eu fui longe demais em relação ao meu eu, mas convenhamos que não é uma má ideia.
– Não é, eu já “filei” algumas aulas por causa de pessoas, mas a questão é ouvir isso vindo de você, a pessoa que mais gosta de trabalhar do jeito certo… Jamais tinha conhecido esse seu lado.
– Estou tentando mudar um pouco, conhecer novos horizontes. – Pandora suspirou pesadamente, sentindo o velho incômodo preencher sua mente. – É que… é, estou mudando, são fases da vida.
Mesmo sentindo que algo estava errado, resolveu não interferir mais. Engoliu a postura firme que a amiga mostrou acreditando em suas palavras, talvez realmente ela estivesse se soltando mais e quebrando um pouco algum tabu existente nela. Enquanto a esperava beber água no bebedouro, um burburinho de vozes conhecidas preencheu o silêncio do corredor vazio. Algumas salas estavam com portas abertas, enquanto outras mantinham-se fechadas. As vozes foram ficando mais intensas, e sua curiosidade apenas se agravou quando ouviu seu nome ser proliferado.
Ela tinha certeza de que tinha ouvido, e mesmo sabendo que poderia existir tantas ou Alissas naquele local, queria checar mesmo se não era a sua pessoa na boca de sabe-se lá quem. Seguiu o som até uma das salas que possuía metade da porta entreaberta, encontrando uma posição boa para ouvir o máximo que podia.
, o que você…
– Shiii – puxou Pandora próximo a si, pedindo silêncio com seu dedo indicador.
– Depois que você tomou lugar dela, as coisas começaram a fluir melhor. Conseguimos mais shows, nossos ensaios são harmônicos, e ah, sem aquelas músicas bregas e antigas que ela gosta de ouvir. Era um porre quando a madame obrigava a gente a tocar o que ela queria. Quem ela queria conquistar? A meia idade? – a mesma voz soltou uma risada alta e grotesca, que por um instante fez se sentir diante de algum vilão nojento de filmes.
Pelo que conhecia, tudo indicava que era a voz de Jackson.
Aquela risada era reconhecível quilômetros de distância, assim como sua voz grave que mais parecia estar sendo pronunciada para dentro do que para fora devido aos anos de bomba que tomava para criar músculos. Sua voz ainda a causava repulsa, principalmente quando as infelizes memórias retornavam em sua mente, porém sua aversão e irritação se intensificou quando ouviu a risada de pela sala.
Ele estava concordando?
– Não é tão mal assim, ela só curte estilos diferentes… – explicou. – , ou melhor, , tem gostos peculiares, ela me fazia ouvir algumas músicas antigas também...
– Tá vendo, isso é patético. – ele o interrompeu. – Forçar alguém a gostar de algo. Não ia dar certo. Não ia mesmo. Ela não muda o jeito mandona de ser, não aceita opiniões, se acha a rainha da razão, ainda duvido que ela vá liberar o espaço.
– Relaxa, Jackson, você está se precipitando à toa. Eu falei com ela com jeitinho, vai liberar, ela tem aquele coração mole que não aguenta dizer um não.
A mente de borbulhava em pura raiva e repulsa. Sorte a deles que Deus não havia trabalho dignamente em seu lado barraqueiro, muito menos proporcionado o tanto de coragem para invadir aquela sala e fazê-los engolir palavra por palavra, letra por letra. As mãos de se formaram em um punho tão firme que chegou a assustar Pandora, sua raiva exalava pelo seu corpo como uma fogueira em chamas, sua feição era mais tenebrosa do que a do próprio Bruce Banner quando transformava-se em Hulk.
Ela desejava ser uma versão do Hulk para esmagá-los com as próprias mãos.
, vamos. Sra. Rodriguez já, já vai nos chamar. – Pandora sussurrou, puxando a amiga, mas a mesma puxou o braço para si.
– Eu preciso ver até onde essa conversa vai chegar.
– Você não merece ouvir isso, .
– Claro que mereço, Pam. É de mim que estão falando!
– E que horas vamos saber que a madame vai liberar o espaço? Temos até às quatro horas para ensaiar. – Jackson continuou com sua típica voz de ironia.
– Vou mandar mensagem para ela. Enquanto isso, avise a Dannah e para nos encontrarem aqui.
– Ela vai te ignorar, tenha certa disso. – revirou os olhos devido ao péssimo hábito pessimista e insistente que o amigo tinha.
– Ok, Jackson, eu vou procurar ela. Ligue para o pessoal e me encontrem na frente do auditório, então.
– Toma cuidado para ela não querer acertar uma flauta em você como da última vez. – aconselhou rindo com gosto, seguido pela risada alta de . – Sério, ela tem algum problema.
– Não exagera. Ela ficou irritada com razão, fomos uns filhos da puta e…
– Ah, começou…
– Vai tomar no cú, Jackson! – disse, mas sua voz não era irritadiça, pelo contrário, a diversão manifestava-se em sua voz.
Se havia algo na qual ela se arrependia amargamente, era de não ter tido coragem para jogar aquela flauta na cabeça de Jackson. Teria sido uma bela cena, mesmo sabendo que a flauta não tinha culpa em absolutamente mente, e que não teria dinheiro para pagar hospital, mas quem ligava? A sorte deles foi que sua raiva fez com que a mira falhasse miseravelmente, acertando apenas uma parede atrás de . Mas ainda sim seu desejo realmente estava sendo de invadir aquela sala e pegar o primeiro objeto e tacar na cabeça daqueles dois, e não mediria esforços para que fosse uma cadeira. O que mais a deixava incrédula era o fato de ter aceitado tudo aquilo ao seu respeito como se ela não tivesse significado nada para ele, se bem que ela não tinha nenhum direito de estar surpresa, uma vez que ele permitiu que as divergências musicais ocorressem.
Um barulho de mesa se arrastando logo foi ouvido, seguido de passos que a cada momento ficava mais próximo da porta. Percebendo a aproximação, automaticamente Pandora a puxou para a sala ao lado, fechando a porta logo em seguida. Seu coração batia rapidamente de raiva, enquanto Pandora ainda permanecia-se estática devido a adrenalina. Respiraram fundo de olhos fechados, acalmando-se aos poucos. havia esquecido completamente que cursava Educação Física, e que haveria chances mínimas de encontrá-lo ali, se tivesse lembrado teria dado uma desculpa a Pam para não ver mais aquela cara na sua frente, porém, por outro lado, saber daquela conversa só havia aumentado sua sede de vingança, e se ele achava que ela era a rainha do auditório, ele estava muito mais do que certo.
– Não era para você ter me puxado, eu queria ver a cara dele quando me encontrasse!
– Negativo, você não iria querer mesmo! Na verdade, não era nem para você ter ouvido essas lorotas. – Pandora rebateu, indignada.
– Claro que era, Pam! Eu jamais forcei alguém a cantar as músicas que eu queria, era sempre uma troca mútua. O que posso fazer se as minhas cordas vocais combinam com um estilo antigo?
– Se você sabe da verdade, pra que se estressar com a mentira?
– Porque é inacreditável saber que não gostava das minhas músicas! A gente sempre se divertia ouvindo-as, eu pensei que…
– Aham. – o coração das garotas deu um sobressalto quando ouviram um pigarro atrás de si.
Seus olhos esbugalharam, e seus lábios haviam tomado uma tonalidade pálida quando perceberam um grupo de alunos as encarando perplexos, enquanto o professor mantinha uma postura nada amigável. Haviam invadido uma sala de aula repleta de estudantes, onde apenas a luz do retroprojetor iluminava o local. Não conseguiram proferir uma palavra sequer.
– Vocês desejam algo? – ele questionou com rigidez e insatisfação.
Sim, elas desejavam. Desejavam achar algum buraco para enfiar seus corpos inteiro e não sair mais de lá.

♪♪


🙋:
as 14 horas no auditório
SEM FALTA!!
Vamos ensaiar!😡

😼:
Taporra que a garota tá virada no cão
O que aconteceu mulher?

William ✌:
Show!
Já estou aqui!

Dean🤓:
Vai ter ensaio mesmo?
Eita.

William ✌:
á sabemos que não vai.

Dean🤓:
Eu poderia saber o por quê?
Só falei “eita”, não posso falar “eita”?

🙋:
Trate de desmarcar TUDO , quero vocês lá!
E tomem cuidado para não serem vistos.

Dean🤓:
Parem de me culpar por algo que não fiz!!
Eu vou, mandona.


Liz🙋:
EU NÃO SOU MANDONA!!!🤬

😼:
KKKKKKKKKKKKKK
A garota ta virada na porra
quero saber o motivo, hein??
Já estou indo

♪♪


O caminho que antes percorrido em mais ou menos quinze minutos havia durado apenas oito minutos, se elas tivessem contado. Após o pequeno mico, e a satisfatória conversa com a coordenadora do curso de Educação Física que havia aceitado a proposta de mandar alguns de seus alunos para ajudar na parte jornalística de esportes do jornal, e Pandora saíram disparada em direção ao campus evitando encontrar quem quer que fosse, principalmente do grupo de . Pam agradeceu mentalmente pelas caminhadas diárias que costumava fazer perto da noite, havia lhe ajudado muito a não perder o fôlego durante a rápida andada e não havia se cansado tanto, já , acreditava veemente que seu coração iria sair pela boca a procura de misericórdia por tê-lo forçado demais. Sua boca implorava por água e suas vias aéreas queimavam mais do que os tacos apimentados da Taco Bell. Pelo menos sua missão havia ocorrido com sucesso não tendo dado de cara com ninguém durante o caminho.
Se despediu de Pandora que seguiu em direção ao Jornal para contar a novidade para o Sr. Collins, e caminhou em direção ao auditório musical, onde antes de entrar, passou em seu armário para pegar cola e glitter, despejando o conteúdo quase todo na maçaneta, onde logo após fechou a porta atrás de si, trancando-a imediatamente. Só esperava que ninguém tentasse entrar ali naquele momento.
– Meu Deus, garota, que desespero é esse? – questionou, vendo a afobação e irritação nos olhos da amiga. – O que aconteceu?
– O que aconteceu? – exasperou. – O que aconteceu é que homens são idiotas, imbecis, a pior raça do planeta terra!
– Obrigado pela parte que me toca. – protestou, recebendo um sorriso de desculpas da amiga.
– Vocês dois não se enquadram nisso.
– Então não somos homens? – questionou.
– Somos uma exceção, . – William disse. – Espero.
– Até agora são sim. – respondeu.
– Deixe-me adivinhar… ? – perguntou, vendo a amiga pegar a guitarra violentamente, passando a alça por cima de si. – Ei, a guitarra não te fez nenhum mal. – Mas a pessoa que iria usá-la sim! E eu pensando na possibilidade de liberar o ensaio para aquele cretino.
– Ok, você já xingou ele, mas ainda não contou o que realmente houve.
– Fui ao prédio de Educação Física com Pandora e acabei ouvindo uma conversa dele com o merda do Jackson falando de mim!
– Espera. – a interrompeu. – falando mal de você? ?
, ! O próprio, ou quem mais seria?
– Tem certeza?
– Não, estou mentindo porque gosto de criar ódio gratuito. Claro, né, ! E não acredito que você quer proteger ele igual ao senhor justiça aí. – disse indignada apontando para que fez uma expressão de afetado.
– Não é protegendo ele, mas é que é tão… surpreendente.
– Surpreendente é saber que você estava pensando em liberar a sala para os babacas, . – Will deu a voz, sentando-se na bateria. – E acho que deveríamos fazer algo mais útil do que discutir sobre quem falou mal de quem. Ensaiar é nossa prioridade caso a gente queira ganhar o concurso.
– Bem, já fiz algo útil, e espero que nossos amigos não se importem de ter algo gosmento em mãos.
O concurso de bandas era uma competição anual que a gravadora JAML realizava todo ano, abrindo portas para novas bandas lançarem-se no ramo musical, proporcionando um prêmio que englobava um contrato anual com a gravadora, juntamente com a gravação de CD, assessoria e agenda de shows. Era uma grande oportunidade que até mesmo aqueles que não viviam literalmente da música tentavam, e mesmo tendo a banda Communique como hobbie, concordaram que poderia ser uma boa tentativa mesmo não tendo colocado muita fé de que passariam. Costumavam apenas tocar em pequenos bares nos finais de semana, principalmente no pub do tio de William, onde havia sido o mesmo que informou sobre o concurso e os inscreveu. A primeira fase se resumiu em mandar um vídeo tocando qualquer música por um certo tempo, onde os resultados saíram em menos de uma semana. Seus queixos quase pararam no chão quando viram o nome da banda na lista dos colocados, assim como a banda de que aparecia um pouco mais a frente. Para , era de se esperar que eles iriam tentar, oportunidades assim até mesmo o Coldplay tentaria.
A segunda fase seria exatamente em um mês, onde ocorreria as audições presenciais e um contato maior com os jurados. Estavam tranquilos quanto a isso, já que o máximo que tinham que fazer era escolher de uma a duas músicas e ensaiá-las, o real problema se voltava na questão financeira, onde era de cunho obrigatório ter pelo menos um valor já em mãos para a terceira fase. Não possuíam tanto dinheiro assim, e ter patrocinadores era mais difícil do que imaginavam, com isso, passaram a procurar por empregos de curto prazo. transferia metade do seu salário da cafeteria para o cofre da banda, enquanto fazia bicos dando aulas particulares, e William de assistente no conservatório de música da universidade. contribuía com o dinheiro, mas sempre que tentavam descobrir como, a mesma trocava de assunto como se nada tivesse ocorrendo, o que intrigava que acabou deixando de lado o caso após algum tempo.

Cretino 💩:
Onde vc está?
Posso ir para o auditório??
???



O dedo de foi diretamente ao botão de silenciar, colocando o celular em seu bolso, e começando a cantar quando a soltou os primeiros acordes de Lady Writer, música da banda Dire Straits em sua guitarra.
Não haviam problemas com música, eram abertos para qualquer ritmo musical, qualquer estilo musical, entretanto, costumavam seguir a linha de músicas antigas com uma leve pegada de rock.

♪♪


Com o celular em mãos, checava a cada cinco minutos a espera de alguma resposta da garota. Queria acreditar que não seria tão filha da puta a ponto de deixá-lo na mão sem nenhuma resposta. Não, ela não faria isso, não era de sua natureza, ela sempre se preocupava em ajudar os outros não importa quem fosse, mas sua paciência já estava perto do limite. Fazia um tempo desde que saiu da sala a procura dela, percorreu todo o campus, chegando até mesmo a ir ao jornal e no auditório, onde apenas encontrou William tocando despreocupadamente a bateria, que lhe deu boas-vindas com uma resposta curta e grossa.
Encontrou com os outros em um dos corredores, seguindo novamente em direção ao auditório acreditando que talvez a garota não quisesse respondê-lo ou tivesse esquecido, deixando o local totalmente vazio. Mas suas ideias estavam totalmente equivocadas quando puxou a porta e viu a mesma ficar no mesmo lugar, sentindo algo gosmento se espalhar pela palma de sua mão.
– Mas que merda… – bravejou encarando o brilho rosa pegajoso em si, tendo a fala interrompida por um baixo som que saía do local.
Imediatamente olhou pelo vidro retangular da porta, vendo um grupo de pessoas tocando animadamente como se a plateia estivesse totalmente cheia. Não foi difícil de identificar quem era, sempre fora muito animada em seus ensaios, gostava de percorrer por todo o palco atuando como se estivesse realmente em um show ao vivo. Aquilo costumava o divertir muito quando ensaiavam juntos anos atrás, admirava a animação e a leveza que a mesma exalava mesmo sendo apenas os dois em um cubículo de ensaio. tinha uma incrível performance, não podia negar, mas naquele instante, vê-la ali, e ainda com o auditório trancado e uma gosma brilhante na maçaneta da porta, fez crescer uma fúria em si.
– Hum, a sua ex está ensaiando e nem te avisou. – Dannah desdenhou olhando pelo outro vidro. – Pelo visto o coração mole dela se enrijeceu.
– Ela não é minha ex namorada, Dannah. – o peitoral de se elevou e logo depois o ar saiu por suas narinas de forma pesada.
– E quem disse namorada aqui? Eu disse? – rebateu em seu mesmo tom, lançando lhe um olhar vitorioso, o que fez apenas soltar uma risada incrédula, passando a mão limpa pela nuca.
Se era guerra que ela queria, seria guerra que ela teria.


Capítulo 3

😼:
Morreu no quarto, foi?


🙋:
Uma mulher não pode se arrumar em paz???

😼:
Se arrumar é uma coisa
agora se preparar pro casamento é outra!
Eu sei que estará lá
mas não é para tanto
2 FUCKING HORAS VOCÊ AI !!



🙋:
VÁ.TOMAR.NO.CÚUU
se quiser pode ir, vou depois

😼:
Você não vai, eu sei
Garota, não me testa!
ABRE A PORRA DA PORTA AGORA!


♪♪


Aplicando levemente um gloss que era quase imperceptível, apenas para hidratar os lábios, analisou-se mais uma vez no espelho vendo se realmente ir apenas com um short de malha preto, blusa lisa e um blazer da mesma tonalidade do short, junto com uma bota de salto serviriam para a ocasião diante a tantas pessoas extremamente arrumadas ali. Se estava confortável, então estava perfeito, como dizia seu pai. Analisou o rosto vendo apenas um forte delineado preto e rímel diferenciarem da sua aparência usual. Não queria se arrumar tanto e nem colocar quase um quilo de maquiagem na cara, muito menos ter que gastá-la para aquele momento.
– Já não basta ter mofado no banheiro da sua casa, agora quer mofar aqui? – disse assim que entrou no banheiro, parando ao lado de sua amiga, ajeitando o colete jeans que dava uma cor ao seu vestido reto preto.
prontamente revirou os olhos, encostando-se na bancada enquanto encarava a amiga.
– Estava me ajeitando apenas, já que fui arrastada a força de lá.
– Teve sorte de não ter sido arrastada pelos cabelos. Agora vamos, já, já o show vai começar e Ava está louca a sua procura.
… – choramingou. – Vamos voltar para casa, vai. Minha mãe e Ava nem vão perceber, voltamos para pegar elas depois. Lá em casa tem Netflix, pipoca, poderíamos estar colocando nossa cronologia da Marvel em dia.
– Pra depois ouvir os esporros de meu pai? Nem pensar! Assistir a um show não vai te matar, .
– Eu poderia estar fazendo coisas mais úteis agora, como por exemplo, dormindo!
– Garota, hoje é sábado, ninguém dorme cedo aos sábados.
– Eu durmo! – protestou.
– Você não conta. – segurou firme no pulso da morena, puxando-a para fora.
Derrotada, seguiu não muito animada com a proposta de estar ali para assistir um show da sua antiga banda. Não era questão de ciúmes ou inveja, mas apenas indignação por eles serem tão sacanas e conquistarem tantas coisas. Era até uma perda de tempo comparar ao público que costumava ter no bar do tio de Will. O lugar estava cheio, praticamente lotado, era como se o próprio Justin Timberlake anunciasse um pequeno pocket show e mais da metade da cidade resolvesse gastar suas economias mesmo alegando crise financeira. Estava impossível de andar, respirar, de ter um bom ar que não fosse uma mistura de perfumes e fumaças adocicadas de gelo seco. As luzes coloridas iluminavam muito mais do que as placas neon espalhadas por todo ambiente.
“O pessoal está aqui pela inauguração do local e não pela banda”, pensou.
Estava tentando manter isso em mente para alimentar sua dignidade e ego, a banda Atlas não era muito reconhecida ainda, só possuíam privilégios de terem mais contato com pessoas externas, e sorte de serem contratados para fazer shows ou cantar em festas de aniversários, como ela normalmente via através das fotos de pelo perfil do Instagram, mas nada muito famoso... Quer dizer, os locais eram melhores do que os que ela costumava tocar, mas também era devido ao pai de que, por ser publicitário bem renomado, conseguia passagem livre para o filhinho expor seu talento vocálico.
– Achei que tivesse morrido. – Ava gritou devido a intensa música eletrônica que tocava ao fundo, entregando a bebida a prima, mas a mesma recusou.
– Era meu desejo, mas não me deixa realizá-lo.
– Assiste primeiro o show, depois você pode partir para sua morte. É bom que fico com sua guitarra. Outch! – reclamou quando sentiu um tapa acertar sua cabeça.
– Vá sonhando. – dito isso, entregou novamente o copo a prima que a encarou de cara fechada.
– Só hoje!
– Não, Ava. Eu não sou mais assim…
– Ok, como quiser, madame.
– Desculpa a demora, acabei me perdendo no meio de tanta gente. – ouviu uma voz totalmente conhecida atrás de si, reconhecendo Pandora, que retornava com três copos em mãos. – ! Finalmente te encontrei. Acabei reconhecendo sua prima devido a sua última festa de aniversário e resolvi me juntar a ela. Pensei que não viria.
– Eu também, mas fui ameaçada. Não sabia que esse tipo de festa te agradava. – a viu fazer uma careta, antes de responder.
– Nha, nem tanto. Meu pai é um dos publicitários do dono daqui, então pensei que seria legal pelo menos dar um pulo para não dormir tão cedo aos sábados, ninguém mais faz isso.
– Tuchê, bebê. – falou, lançando lhe um olhar glorioso, fazendo-a revirar os olhos.
A mente de estava mais preocupada em sair dali do que seguir tal regra dos sábados, infelizmente sabia que sua noite seria mais longa ao perceber uma leve alteração em sua mãe, que já começava a requebrar de um lado pro outro perto dali, chamando a atenção de alguns que passavam. Logo, Ava e Pandora se renderam a dança, juntando-se a ela e puxando e consigo. Até que gostava de dançar, mas não estava muito no humor para tal hábito, mas acabou se deixando levar, talvez a noite não acabasse tão mal assim.
A música não se estendeu por muito tempo, e logo soube que o show começaria quando a intensidade das luzes se voltaram para o palco, e sua mãe foi se espremendo pela plateia como celular posto em mãos.
Qual pecado havia cometido para passar por tal humilhação? Por que não podia ter uma mãe que agisse tão civilizadamente como o pai de que apenas estava sentado com o celular em mãos filmando?
O estrondoso som da guitarra junto com uma forte batida de bateria fez com que o coração de quase sair goela fora, sentindo tudo estremecer dentro de si. Seria mesmo necessário começar um show testando o coração das pessoas? Pelas batidas compassadas em uma pequena lentidão não era muito difícil de adivinhar de que se tratava de Believer do Imagine Dragons, o que acabou surpreendendo a garota, já que sabia da paixão absurda que possuía pelo Coldplay - tanto que o nome da banda era em homenagem a música Atlas -. Estava apostando todas as fichas que a primeira música seria deles, mas se enganou. A voz grave do garoto tomou conta do local em questão de segundos, tomando proporções inexplicáveis pelo seu corpo no quesito arrepio. Havia um bom tempo que não ouvia a melodia de sua voz e podia jurar que ele não costumava ter um grave tão sexy e uma afinação de dar inveja. Certamente ele havia tomado algumas aulas de canto ou apenas a puberdade tinha lhe dado um belo presente.
Seu traje tinha uma formalidade mesmo usando sua típica jaqueta de couro preta com uma camiseta branca por baixo, calça jeans preta e um tênis da mesma coloração, mas seu cabelo, um pouco mais longo do que o normal, penteado para trás era a cereja do bolo da formalidade. Sua presença de palco era uma das bem mais vistas, sentia-se como se estivesse em casa não transparecendo nenhum nervosismo, por mais que soubesse que por dentro, o garoto estava se tremendo. Ele sempre teve problemas com plateias, mas sempre soube esconder muito bem. seguia um pouco mais atrás de , tocando calmamente seu baixo, transparecendo seu jeito sereno com suas roupas - um suéter marrom, calça jeans, e seu velho vans branco -, e sua feição prazerosa, o que era total contrário a Jackson que com sua usual camisa de caveira, coberta apenas por um blazer preto, sentia-se o próprio guitarrista do Guns n Roses, mesmo a música não sendo rock’n roll. Por fim, Dannah se encontrava ao fundo do palco em sua bateria, seguindo o mesmo tipo de traje dos demais, curtindo seu próprio mundo da música.
Por mais que não quisesse admitir, eles tinham sintonia, harmonia, e sabiam entreter o público como ninguém. Era possível sentir a exalação de sensualidade de que tentava conquistar cada garota daquele espaço. Saber que estavam indo tão bem, e principalmente sem ela, fez com que sentisse um pequeno incômodo em si, e uma forte agonia subir pelo seu corpo a ponto de fazer sua garganta secar exigindo que a mesma bebesse algo. Tateou a mesa encontrando o primeiro copo com uma bebida transparente, sentindo o álcool descer rasgando sua goela baixo.
– Que merda! – esbravejou por perceber que não se tratava de sua água.
Toda aquela situação já estava saindo de seu controle. Por mais que tentasse não prestar tanta atenção nele, estava sendo impossível, queria observar cada expressão, cada movimento, cada nota que ele expressava, e jurou ter visto o intenso olhar do garoto em si enquanto cantava a terceira, talvez quarta música daquela noite que era More Than You Know do Axwell Ingrosso. Patético, rolou os olhos, cruzando os braços, mas a cada batida, por mais animadora que fosse, a cada olhar de para si só fazia com que a angústia se propagasse.
A cada música parecia que a galera ia mais ao delírio, em um momento, parou para dar algumas palavras. Só esperava que ele não ousasse a citar o nome dela no meio de tanta gente. Sim, aquele seria o cúmulo da humilhação e ela não era obrigada a passar por aquilo.
Ok, ela precisava ir ao banheiro, talvez aquela bebida não tivesse lhe caído bem, ironicamente.
Sentiu uma lágrima escorrer pelo seu rosto assim que deu de cara com o espelho, limpando-a rapidamente.
– Não, , não. Não, não, não. – dizia a si mesma, enquanto andava de um lado para o outro sacudindo as mãos, tentando afastar qualquer tipo de sentimento passado ou lembrança. – Não, porra, não! – se permitiu gritar vendo que estava sozinha no ambiente.
Deveria ter realmente ficado em casa, ainda não se sentia tão bem na presença daquele quarteto, mesmo demonstrando estar tão bem quanto. Era por aquelas e outras que havia evitado tanto encontrá-los na universidade, de encará-los, e principalmente de dirigir a palavra a . Ainda havia uma ferida em si com um pequeno buraco aberto, mas não podia continuar daquele jeito. Trancou-se em uma das cabines do banheiro, sentando-se na tampa do vaso, enquanto esperava todo aquele misto de sentimentos desaparecer. Não tinha condições de assistir aquele show, de jeito nenhum. Ela não estava preparada, por mais que durante todo esse tempo tivesse achado que sua fortaleza estava cem por cento rígida, e que nada poderia a abalar.
Mas tudo não passou de um equívoco que despertou um profundo ódio em si. Era uma merda, tudo era uma merda, e não aguentava mais viver naquela situação.
Sua coragem ressurgiu quando olhou o horário percebendo que havia passado muito tempo ali. Com certeza as meninas estariam achando que a mesma já tinha ido embora, e não estava nem um pouco a fim de ser esquecida ali. Encarou-se mais uma vez no espelho, pondo as mãos na bancada de mármore.
– Você consegue, garota! Você consegue, você é melhor do que tudo isso, você está bem! Você está super bem!!
Decidida, ajeitou sua postura, assim como suas roupas, abrindo fortemente a porta do banheiro quase derrubando uma garota que chegava ali. Seguiu caminho com toda elegância e confiança que possuía até a mesa onde os demais estavam percebendo que o show já havia acabado. Ótimo, não precisaria mais olhar para a cara deles. Tentou incorporar a própria Beyoncé na passarela, exalando uma autoconfiança e um sorriso intimidador nos lábios. Não era assim que a chamava? De Bey? Então ela seria. Só precisava criar uma boa desculpa para um sumiço de aproximadamente quarenta minutos. Um “eu me perdi”, ou “a fila do banheiro estava quilométrica”, poderia ser uma ótima opção. Clichê, mas sempre funcionava. Entretanto, sua confiança e determinação foram interrompidas pela parada brusca que fez quando sua visão captou uma imagem ao longe.
‘Táporra, táporra, táporra’! – exclamou, escondendo-se um pouco atrás de um casal que dançava e a encarava como uma estranha. – Desculpa… – disse baixinho.
Tinha esquecido que o pai de e estava ali, logo, era claro que iria para lá com sua velha companhia para a mesa onde estavam.
Que merda, , cadê sua confiança? Deus, não era para tanto! Não precisava colocar minha confiança em jogo!
Poderia dar a volta e sair pela porta ali mesmo, dando a desculpa que havia passado mal, mas acabou lembrando que sua chave estava na bolsa de Ava, logo, sofreria no frio da noite. Ou, poderia ficar por ali mesmo esperando os dois saírem, voltar para pegar a chave e dar no pé… Mas Ava e não a liberariam.
– Que merda, ! – disse a si mesmo, recebendo mais uma vez o olhar do casal escudo, que logo a deixou ali, desprotegida.
A mão de Ava acenando logo lhe chamou a atenção, vendo seu disfarce ir por água abaixo. Suspirou fundo, colocando em mente de que ela conseguiria, era uma mulher independente e não sofria mais por antigas amizades… Não mais! Caminhou determinadamente sentindo o olhar de em si, que conversava ainda com sua mãe.
– Onde estava, mulher? – perguntou.
– Fui no banheiro, e acabei… ãnn… conhecendo uma pessoa, ai você sabe… Conversa vai, conversa vem... Por isso a demora. – disse por fim, rezando para que ambas acreditassem em sua mentira, mas percebeu que a atenção de , agora, havia mudado de lado com seu olhar nada amigável ao ouvir aquela explicação. – .
. – respondeu no mesmo tom, se aproximando. revirou os olhos tentando não se afetar com tudo aquilo. – Que bom que conseguiu fazer suas ocupações e vir para cá. E pelo visto tem se divertido muito com as pessoas, não é?
– Pois é, infelizmente imprevistos acontecem, assim como ameaças. – disse a última parte um pouco mais alta do que gostaria, vendo e Ava se afastarem despreocupadamente. Traidoras! – E o pessoal daqui são muito gente boa, tem um papo bem legal. – pigarreou. – Vi que conseguiram ter um ótimo ensaio, huh?
– Isso é um elogio? – indagou provocantemente.
– Sincronismo, vamos dizer assim.
– Agradeço a você, e seu modo educado de nos incentivar a ensaiar em novos locais.
– De nada! Um novo ambiente é sempre bom, e também, sua casa sempre estará aberta para você criar educação e saber compartilhar as coisas com aqueles que não tem. – não aguentou o riso sarcástico, deu um gole em na lata em mãos mal acreditando que estava tendo realmente aquela conversa com ela.
– Eu moro em uma residência estudantil, se você ainda lembra.
– Oh, claro que lembro. – rebateu a ironia. – Mas você também tem uma casa com equipamentos lá, e uma garagem acusticamente maravilhosa. O que você precisa é acabar com esse egoísmo, conselho de colega.
– Egoísmo? – indagou dando uma risada mais alta do que a de antes. – Egoísmo? Tem certeza de que eu sou o egoísta dessa relação? Ou é você que ainda guarda um rancor?
– Rancor? – questionou soltando uma risada nasalada. – Não tenho rancor, agradeço demais por eu não guardar algo que quero passar longe de ter, só que infelizmente, você chegou tarde demais lá, só isso. Aceita, .
– Ah, claro, porque se fosse para qualquer um estaria super livre, não é? Agora só porque é da banda…
, se existe uma coisa na face desta terra na qual eu não tenho é rancor de você ou muito menos daquela banda, mas parece que você está trabalhando fortemente para que eu comece a ter dessa sua cara. Independentemente de quem for, a sala está sempre disponível, só que existe algo chamado lista de espera. Então se você quer ser exclusivo, ache outro meio de se tornar.
– Como ser exclusivo se você já toma esse posto? – a música alta de fundo com a fúria que ambos sentiam fez com que elevassem as vozes mais do que deviam, chamando um pouco de atenção ao redor, causando um certo desconforto em .
– Desculpa se a patética mandona, dona da razão aqui se programa antes e não deixa as coisas para cima da hora. Mas não se preocupe, , farei do possível e impossível para não cruzarmos mais caminho. E que bom que vocês sabem que foram uns filhos de uma puta mesmo! Aprende com isso. – pegou rapidamente a bolsa em cima da mesa, sem dar vez a responder, seguindo em direção oposta, o deixando boquiaberto, e espumando de raiva para trás.
Em fortes passos, acabou dando um susto em Ava ao abrir a bolsa dela, pegando a chave de casa.
, o que houve? – perguntou assim que viu o estado irritadiço da prima.
– Parabéns, vocês conseguiram deixar meu sábado muito mais diferente e animador! Não era isso que vocês queriam? Que eu não deixasse meus problemas interferir na minha vida? Pois vejam só, descobri que eles apenas estão começando, obrigada por só afirmarem a minha teoria de que a presença de e em um mesmo lugar é o próprio inferno! Da próxima vez quando eu falar que irei ficar em casa, é para vocês aceitarem! – virou-se para sua mãe, que a encarava com um olhar preocupado. – Seu filho postiço é um amor de pessoa! Me encontrem em casa, pra mim já deu.


Capítulo 4

"Era domingo, mais especificamente um domingo à tarde. Se muitos achavam que o último dia da semana era monótono e entediante, estavam mais do que certos. O tempo andava mais devagar, as ruas ficavam mais silenciosas e o ar era como um sonífero. não pensava de tal maneira, na verdade, ele adorava os domingos para colocar todas suas pendências musicais em dia. Costumava se trancar horas e mais horas no quarto, saindo apenas para alimentar seu estômago ou quando alguém o chamava. O vídeo de um cara ensinando a como tocar o solo de guitarra da música Sultans of Swing da banda Dire Straits captava toda sua atenção, suas mãos trabalhavam nos acordes de seu velho companheiro Ringo, um violão folk que havia ganhado de seu pai anos atrás, enquanto sua mente trabalhava para lembrar cada sequência e batida. Seus dedos vermelhos já pediam por misericórdia, sua coluna nem existia mais devido à má posição, mas a ânsia de ganhar aquela aposta falava mais alto do que qualquer dor, ele não iria perder aquela aposta, não mesmo!
– Desista, . Esse solo de guitarra é muito complicado para sua capacidade de guitarrista. – empurrou a cadeira giratória da pequena escrivaninha, até a cama onde o garoto estava. – Nem todos possuem essa capacidade de ser estrela do Rock, mas pense pelo lado bom, você pode trabalhar como o cara do som ou como meu assistente de palco. Prometo te pagar bem.
– Fico muito emocionado com todo esse seu apoio, é algo incentivador.
– É apenas minha sinceridade falando. demorou séculos para aprender.
– Se ela aprendeu, eu também consigo aprender, uh? – a risada irônica da menina o fez pausar o vídeo, passando a encará-la com desgosto.
Pra que inimigos quando se tinha como amiga, não é mesmo?
é uma lenda da guitarra, ela consegue pegar o ritmo e a cifra em um piscar de olhos, enquanto você é…
– A próxima lenda.
– Vá sonhando, bebê. Não tenho o dia todo para esperar você aprender, e se aprender. Te dei uma semana, e aposta é aposta. Anda, quero meu pagamento. – não poupou revirar os olhos, e soltar um muxoxo de desgosto.
Maldita hora em que seu ego masculino havia falado mais alto e apostado vinte dólares com . Se ele tivesse tido tempo durante a semana, e não perdido tanto tempo com aquela maldita redação, com certeza teria vinte dólares a mais em sua carteira e o poder de se glorificar como o mestre da guitarra.
O olhar vitorioso junto com o sorriso debochado de ainda o encarava com gosto. Sentindo o gostinho da derrota, deixou de lado sua guitarra, retirando o dinheiro com relutância da carteira, erguendo a nota logo em seguida na altura de , enquanto os olhos da garota brilhavam como um diamante.
– Você pode ter ganhado, mas você vai ter que vir pegar. – retribuiu o sorriso vitorioso, se saciando com a careta de desgosto da garota. Nem mesmo o famoso biquinho junto com o famoso olhar de cachorro que caiu do caminhão de mudança e uma feição de choro fizeram baixar sua guarda. O garoto continuou encarando-a sem mudar seu semblante, balançando prazerosamente o dinheiro em mãos como se as notas soltassem um maravilhoso aroma hipnotizante. Vencida pelo cansaço, arrastou-se com a cadeira até a cama, parando na lateral oposta a ele. – Ainda está muito longe. – cantarolou, vendo os olhos tão castanhos da garota revirarem em perfeita sincronia.
Não sabia por que, mas amava quando a mesma exibia uma feição um tanto irritada, seu queixo sempre se franzia automaticamente devido a força que fazia para manter a boca fechada, que no final acabava formando mais um bico do que uma feição afrontosa. Seus olhos amendoados diminuíam com o peso das sobrancelhas franzidas, elevando ainda mais as maçãs do rosto. Era totalmente o oposto de ameaçador.
Soltando resmungos, levantou-se desanimada, arrastando seu corpo até a cama. Esticou a mão até o dinheiro que mais parecia se afastar de si. Quando sentiu seu limite de equilíbrio, sentiu a mão de tocar em seu punho e com um simples movimento, seu corpo foi de encontro ao colchão.
– FILHO DA MÃE! – bradou. – ISSO É JOGO SUJO!
– Você foi muito lerda, bebê. – mostrou a língua para a garota, que logo rebateu levantando-se e jogando seu corpo contra o dele.
– Me dá meu dinheiro, caralho!
– Olha a língua! – brincou , que tentava se esquivar das mãos da amiga e esconder o dinheiro atrás de si.
– Foda-se minha língua, eu quero meu prêmio!!
– Ué, como você vai poder sentir a baba dos garotos sem sua língua? Ou é você que baba eles?
– Meu beijo é maravilhoso, deveria ser considerado uma das sete maravilhas do mundo!
– Validado por quem?
– Por mim, idiota! Agora me dá a porra do dinheiro! – se esticou mais, ficando cada vez mais por cima do garoto que tentava se esticar a todo custo.
– Você está cometendo equívocos. – comentou, rindo.
– Você nunca experimentou, não tem como saber. – ela respondeu com dificuldade, mantendo o foco no dinheiro.
– Nunca tive oportunidade. – seu pensamento automático acabou soando mais alto do que queria, fazendo com que seu coração palpitasse ainda mais. Por sorte não estava focada em suas palavras, seu alvo estava sendo realmente o dinheiro que escondia debaixo de si. – Você quer? – indagou, mudando o assunto. – Tudo bem, você terá.
Em uma simples jogada, conseguiu jogar na cama ficando por cima da garota, prendendo suas pernas entre as dele, iniciando um ataque de cócegas que já declarava seu fim naquela terra. Ele sabia mais do que ninguém o quanto a menina abominava de cócegas, era uma repulsa, algo que causava um lado assassino que jamais vira, tanto que ele mesmo já sabia que sua morte estava por perto, mas aquilo não o intimidou. Mesmo vendo a garota chorar de rir e xingá-lo de tudo quanto era nome, continuou até um certo momento onde a cara de risada dela havia se transformado em um profundo choro. Sentiu seu coração gelar, assim como a garganta secar e um peso na consciência o atingir por inteiro.
Puta merda. O que ele havia feito? Não queria ter chegado naquele ponto.
tampava seu rosto com suas mãos onde seu peito até chegava a soluçar. Sem saber o que fazer, afrouxou mais suas pernas, segurando levemente os braços dela na tentativa de fazê-la olhar para o mesmo.
… eu não queria…
Era tarde, em um perfeito movimento conseguiu agarrar os braços do menino e com toda força do corpo, o girou para o outro lado da cama, quase caindo, o prendendo entre suas pernas, e firmando seu pulso no colchão. Liberou rapidamente uma de suas mãos, pegando sem dificuldade o dinheiro no bolso dele, passando lentamente, em seguida, o papel no rosto embasbacado do rapaz.
– Está sentindo o cheiro da vitória, coração mole?
– Mas… Que merda, eu pensei que…
– Olha a língua, bebê! Dá próxima vez, lembre-se que eu trabalho pensando no meu Oscar! – o garoto revirou os olhos, cruzando os braços acima do peitoral.
Por mais contrariado que tivesse devido a sua derrota - duas vezes, diga-se de passagem - ver o sorriso aberto na face de o deixava feliz, era impossível se chatear com alguém que lhe fazia bem e era como um porto seguro. Estar com era muito mais do que diversão, era ter um conforto, uma alma que o entendia até mesmo sem se expressar por palavras, onde um mero contato lhe fazia se sentir protegido, seguro. Ela tinha cheiro de lar, daqueles que você desejaria passar toda sua vida. não era qualquer garota, seu sorriso tinha um charme incomum, o jeito que sempre colocava seus fios cacheados para atrás da orelha era tão formoso, e sua mania de sempre passar a língua entre os lábios quando estava nervosa era encantador, tão encantador que o efeito que causava nele era algo inexplicável e assustador, principalmente pelo papel que carregava de melhor amigo. estava tão perdido em seus pensamentos que mal percebeu que a garota ainda permanecia em cima de sua barriga, encarando-o de uma maneira questionadora.
Ao se dar conta da situação, sentiu um calor incomum percorrer seu corpo e uma tensão se instalar em sua espinha. Desde quando aquele lugar havia ficado tão quente?
– Algum problema? – ela questionou com sua doce inocência.
– E-eu s-só, – pigarreou. – Só estou esperando a madame sair. Está achando que eu sou banco?
– Por um segundo até que achei. – rebateu de forma divertida, deitando ao lado do rapaz.
levantou rapidamente, pegando sua guitarra como se fosse guardá-la enquanto tentava se recuperar e acalmar seus batimentos cardíacos.
Caminhou até o outro lado do quarto colocando sua guitarra no suporte de parede, mas sua atenção acabou sendo desviada quando ouviu a voz soar pelo cômodo.
– Você já sentiu medo do futuro? – a encarou com o semblante questionador.
– Por que essa pergunta tão filosófica agora?
– Porque eu estou pensando nisso agora? – rebateu de forma retórica.
– E por que você está ativando seu modo Sócrates agora?
, é sério!
– Eu também estou falando sério. Deve existir um motivo para você perguntar isso. – respirou fundo, voltando a sentar na cama.
– Eu… eu tenho pensado nisso já faz um tempo, do quanto é estranho sentir medo do futuro, estranho sentir medo do amanhã, é estranho porque deveríamos estar ansiosos para saber a próxima surpresa, capítulo de nossas vidas, entretanto, o que mais queremos saber é se iremos ter realmente o que mais desejamos. A mente é algo muito louca!
– Ok… e por que você tem pensado nisso…? – falou com um certo receio de questionar, temendo pela explicação que teria.
– Estava pensando nesse fim de semestre, último ano na escola, ano que vem estaremos em universidades diferentes e não sei se estou pronta para ter meu melhor amigo há quilômetros de distância, sabe? De não ter mais esses momentos bestas com você.
– Hum… então o nome disso é saudade de mim? – caminhou até a beira da cama, sentando-se perto dela, enquanto esbanjava sua melhor feição convencida, recebendo como resposta um tapa nas costas. – Tá vendo, é por isso que vou me mudar, não aguento mais ser saco de pancada.
– Idiota. – ela revirou os olhos.
se ajeitou melhor na cama, ficando mais próximo e frente a frente dela.
– Eu evito pensar no futuro porque não quero ter esse tipo de pensamento em minha mente. Mas sim, bate um medo, uma insegurança, mas acredito que quando dois querem as coisas acontecem, e bem, eu quero e você quer continuar a amizade, então não tem com o que se preocupar. Eu virei para cá em quinze em quinze dias, prometo não perder as datas importantes como o seu aniversário, o aniversário dos gêmeos e claro, meu aniversário, que passarei sempre com vocês, e também, você pode me visitar quando quiser. Los Angeles não é tão longe de São Francisco, são quase duas horas de avião, é um pulo.
– Falar soa tão fácil.
– Já disse, quando dois querem…
– Eu sei, é só que… – ela suspirou pesado. – tenho medo que as coisas mudem.
– Como…?
– Como você arrumar uma outra namorada que mude sua cabeça e lhe faça mudar todos seus planos, ou encontre amigos que façam a mesma coisa e aí, você vai mudar de número, bloquear das redes sociais e toda vez que eu tentar te ligar, vai falar “desculpa, tô ocupado”.
– Outch, não sabia que você me via como um ser influenciado. – pôs a mão no coração com uma feição de dor.
– Você virou meu melhor amigo, te influenciou a isso. E falando em influência, como vai ficar o seu relacionamento com Kiara?
– Bem, não estávamos em um relacionamento, só estávamos saindo e nos conhecendo, mas conversamos essa semana e decidimos apenas levar na amizade. Não iria dar muito certo eu em São Francisco e ela na Pensilvânia, são polos extremos. – ouvir aquilo só fez com que o coração de se apertasse mais ainda e a preocupação aumentasse.
Se ele não acreditava que daria certo com uma pessoa que ele estava gostando, tendo um possível relacionamento, imagine com alguém que era amiga?
Vendo a aflição exposta na face de , prontamente a puxou para um abraço, depositando a cabeça no ombro dela.
– Ei, nem pense em comparar você com a Kiara, são coisas totalmente diferentes. Estou lhe dizendo, nada irá mudar, nada! Você e os gêmeos sempre serão minha prioridade, sempre!
– Você promete? – a doce e sussurrada voz dela soou por seus ouvidos.
– Prometo.”


O pingente dourado em forma de medalha ia de um lado para o outro sendo acompanhado pelo olhar concentrado de . As iniciais dos nomes do antigo quarteto ainda eram bem evidentes e claras em uma tonalidade de dourado só que mais clara. Havia ganhado de quando se mudou, tinha sido um presente que sempre manteve consigo chegando até considerar um amuleto da sorte, mas agora, se questionava se já havia gastado todo poder da sorte que aquele símbolo possuía. Nos últimos meses, por mais que já tivesse se acostumado sem a presença da garota em sua vida, ainda era difícil de não ter as risadas exaltantes dela, das conversas que sempre acabavam em apostas, dos domingos onde não faziam nada, mas principalmente de sua companhia.
– Ainda tenho também, só que fica guardado na parte de meias do meu armário. – comentou entrando no quarto com um balde de pipoca em mãos e duas garrafas de cerveja. – Se eu usasse, com certeza criaria mil teorias sobre isso.
– E daí?
– Não faz mais sentido para mim, e eu pensei que não fizesse para você também. – entregou a garrafa aberta ao amigo, fazendo um brinde e dando uma longa golada em seguida.
– Eu já superei, só tenho porque…
– Porque você não superou. – respondeu com seu tom óbvio, fazendo rolar os olhos com seu típico desgosto em sua face. – Você engana a qualquer um menos a mim e a si mesmo.
não disse nada, apenas pegou uma mão de pipoca colocando logo em seguida na boca, sentindo o peso de tomar o lado vazio da cama.
– Você tem quantas dessas? – disse se referindo a cerveja em suas mãos, levando o gargalo mais uma vez até sua boca.
– Só mais uma. – mentiu , ele sabia mais do que ninguém das intenções de com as cervejas, e não queria, mais uma vez, passar uma noite no hospital com o amigo no soro.
– Mentiroso.
– Cauteloso, seria a palavra correta. – deu um gole na cerveja esperando que o amigo risse e fizesse o mesmo, mas ao contrário do que acreditava, apenas presenciou a cara frustrada de enquanto o mesmo se encostava na cabeceira da cama. – Você sabe que é normal não superar situações, correto?
– Eu superei. – sua voz saiu mais áspera do que de costume. – Eu só… não sei… é, sei lá… sinto falta de algumas coisas. – seu olhar pairou sobre o pingente em sua mão. Um riso abafado saiu de suas narinas chamando ainda mais a atenção de . – E engraçado é que no dia em que brigamos sério, eu não estava com isso.
– Não venha me dizer que esse pingente é mágico e só por isso vocês brigaram. – comentou sarcasticamente.
e eu nunca brigamos, só tivemos um pequeno desentendimento quando ela começou a sair com Glenn.
– Namorar, no caso.
– Sair, . – respondeu com impaciência.
Por que as pessoas insistiam em falar namoro quando não houve, de fato, um pedido oficial?
– Uma saída por quase um ano? Relacionamentos mudam.
– Foda-se, . – secou rapidamente o resto da bebida em um único gole, levantando-se em seguida. – A questão é que eu superei, e tudo isso é apenas uma nostalgia querendo me atingir. Vou pegar outra bebida.
– Só toma cuidado para não cair da escada, não quero gastar dinheiro com ambulância. – não se deu ao luxo de virar para trás e encarar o amigo, apenas mostrou o dedo do meio por cima dos ombros, abrindo a porta em seguida, porém foi obrigado a parar quando ouviu seu nome, entre risadas, ser chamado por . – , sério, só uma pergunta. – encarou com desdém ao amigo, preparando-se para uma possível pergunta idiota. – Desde quando você é apaixonado por ela?
E novamente, nada respondeu, apenas levantou os dois dedos do meio, fechando a porta atrás de si em seguida, mas sentindo seu coração começar a acelerar.
Apaixonado, hunf, qual era das pessoas em achar que amigos próximos não podiam ser apenas amigos? Tudo bem que ele tinha uma lista de adjetivos caso precisasse descrever a garota, e já sentiu seu corpo esquentar com alguns toques dela, mas não chegava a ser paixão, longe disso. Em meios a tantos pensamentos, mal percebeu um corpo próximo a si, bem à sua frente, por pouco não se esbarrava na garota de cabelos longos e negros, assim como suas vestimentas escuras onde a única cor que sobressaia sobre si era o vermelho de um desenho de coruja na blusa, que supostamente era de . Ele lembrava muito bem daquela blusa no amigo.
. – disse sem expressão, porém desconfortável.
A garota que antes tinha a atenção na tela do celular, agora o encarava da mesma maneira, mas com um olhar um pouco mais sombrio e carregado de desprezo.
, não sabia que estava aqui.
– Não sabia que havia chegado.
– Mas agora sabe, e espero que vocês não façam barulho igual da última vez, preciso estudar.
A situação que envolvia abraços fortes, cutucadas, e puxão para dentro do quarto para compartilhar novidades foi trocada por uma batida forte na porta e um cheiro de indiferença no ar. Anos atrás, com certeza correria pelo corredor se jogando nos braços do garoto com um sorriso no rosto, passando o resto do dia com ele e no vídeo game ou no jardim tocando qualquer coisa que fosse e jogando conversa fora. É, ele precisava de mais uma bebida.

♪♪


– Só me lembra mais uma vez o porquê de Briana estar no comando do jornal.
– Porque ninguém mais quis o cargo, apenas ela. Eu te forcei a entrar, e a única coisa que a senhorita disse foi “Está louco, ? Tá achando que eu tenho cara de desocupada?” – a voz afetada do garoto soou tão fina que foi forçada a encará-lo semicerrando os olhos, mas ela não podia repreendê-lo tanto, pois suas palavras carregavam uma porcentagem significativa de verdade.
Ela teve a chance de estar no cargo de Briana e consequentemente organizar todo aquele caos que chamavam de jornal, e assim, evitar que reuniões marcadas em cima da hora, em plena manhã de segunda-feira ocorressem. Não somente isso, mas o fato também de manter comunicação entre e evitar que as coisas ocorressem sem aviso prévio. Nem todo mundo tinha o tempo livre para fazer e estar nos locais na hora em que a madame quisesse! E se ela tivesse conseguido o cargo, não estaria em plena sete da manhã de segunda-feira para uma reunião emergencial do jornal. Isso porque ela havia cancelado de última hora a reunião da sexta-feira. Estava nítido de que nem todos ali estavam contentes com a situação. Pandora praticamente dormia em cima da mesa tendo sua prancheta como travesseiro, outros utilizavam o café como artifício de despertar, e alguns dormiam em pé mesmo, escorados na parede.
– Desculpe o atraso, perdi o horário, não deveria ter assistido o filme de ontem até tarde. – Briana adentrou na sala com seu típico sorriso de sexta feira nos lábios.
E ela ainda tinha chegado meia hora depois. “Alguém tem que parar essa garota”, pensou, enchendo todo seu pulmão de ar para não surtar ali mesmo.
– Bem, – a loira cutucou Pam que logo despertou em um pulo, ajeitando seus óculos na face. – Podem se sentar, tenho poucas coisas para avisar, preciso que vocês prestem atenção. – visto que a enorme mesa redonda que se encontrava logo no centro da sala não suportava a quantidade de pessoas ali, alguns optaram por ficar de pé, assim como e . – Sexta passada tive uma reunião com o coordenador e algumas pessoas do comitê de organização festiva, por isso que acabei cancelando a reunião de última hora... – pelo menos ela havia um bom motivo – … e esse semestre teremos dois eventos importantes aqui na Universidade. O primeiro, que acontecerá na próxima sexta, que é o festival de outono. – ela deu uma pausa, passando o dedo no caderno aberto sobre a mesa. – Deixa eu ver… ah, sim. Neste ano iremos organizar aqui pelo campus. Será pela tarde estendendo até à noite. Durante à tarde terão bandas tocando, barracas com comida, e à noite terá fogueira, marshmallows, bebidas e comidas, e claro, mais música ao vivo só que com um cantor que não sei o nome. Preciso que alguém escreva sobre e publique imediatamente na edição de amanhã do jornal.
Se havia algo melhor do que aula cancelada, eram as festas da universidade, principalmente quando era relacionado a alguma estação do ano. Normalmente as coisas eram livres, bem livres, tão livres que sempre ocorria alguma confusão, mas a administração local parecia não se importar tanto.
– A segunda é sobre o concurso anual de bandas da gravadora JAML. A universidade, em parceria com a gravadora, aceitou a proposta de patrocinar uma banda daqui. – os olhos de pareciam diamantes semi-polidos, o brilho em seu olhar era mais intenso do que de uma estrela. Aquela seria a chance que teria para conseguir se manter estabilizada na competição. – Mas claro, nada será de graça. As bandas terão que passar por uma seleção aqui e quem decidirá serão os próprios alunos. As inscrições começam na quarta e o resultado final será duas semanas antes da competição de lá. Durante esse tempo, as bandas terão que se organizar e conquistar o público daqui. Preciso disso pronto hoje também para entrar na edição de quarta logo pela manhã. Tem que ser A edição. – em um profundo suspiro de alívio, Briana fechou o caderno ajeitando sua postura na cadeira. – Ufa, é isso por hoje. Depois teremos mais outras reuniões.
ficou uma fera ao ouvir das demais reuniões que teria durante a semana, teria que se virar nos trinta para cumprir suas obrigações, entretanto, sua mente não estava se importando naquilo, que se dane! As ideias e a euforia de uma suposta vitória haviam renascido nela, e olhar cúmplice de já dizia tudo. Eles tinham que se inscrever naquela competição, eles tinham que ganhar aquele patrocínio.
Quarta-feira seria o dia.

♪♪


– Todos os cabos estão naquele canto, os microfones já estão conectados, e os aparelhos afinados. Em quinze minutos vocês começam a tocar. – Madison, conhecida também como a rainha das festas, informou a Will e antes de colocarem suas mochilas no canto atrás do palco.
A garota fazia parte do grupo de organização de eventos da universidade, e seu reconhecimento não por besteira, ela realmente sabia como organizar um evento, principalmente festas. Era só ter o lugar que a diversão estava garantida em todos os sentidos. Não era à toa que sua reputação entre os administradores locais não era uma das melhores. Todo final de semana ela dava um jeito de organizar uma festa em seu dormitório ou em qualquer lugar pela universidade. ainda não sabia como ela não havia sido expulsa dali, talvez seus pais tivessem muita influência e a universidade não quisesse perder aquele dinheiro. Era o único motivo.
– Qualquer dúvida, é só me chamar! – continuou, passando algumas mechas do cabelo para trás. – Boa sorte, Will, arrase como sempre na bateria.
A singela piscadela não passou despercebido por que torcia a boca discretamente segurando seu riso. Quando a garota saiu do seu campo de visão, a mesma não poupou seu olhar malicioso a William que sem entender, franziu o cenho com desconfiança.
– Tá com problema no olho? – a intensidade da careta de mantendo o mesmo olhar e alastrando um largo sorriso sem mostrar os dentes fez com que William desse um passo para o lado, mantendo uma distância não tão próxima a amiga. – Você tá o cosplay do Coringa. Sério, o que foi?
– Sua beleza Hemswortiana tá fazendo efeito. – ele revirou os olhos na mais pura exaustão.
Ah, não, até mesmo tinha entrado naquela onda de ? Até mesmo a própria que parecia ser imune às criações sem graça do pessoal?
– O que foi que eu fiz, hein?
– Nada, ué. Apenas conquistando os corações das mulheres. – William indagou uma dúvida com o olhar. – Vai dizer que não percebeu o charme de Madison com você? Até mesmo iria perceber, e olha que ele é a pessoa mais lerda para flertes. “Arrase como sempre na bateria”.
– Ela só me desejou boa sorte, isso se chama educação.
– Aham, então ela foi super mal-educada comigo por não me desejar boa sorte. Cadê o “Arrase como sempre no vocal, ”.
– Você não é boa com imitações.
– E você está andando muito com o .
– Quem está andando muito comigo? – a voz do garoto soou ao lado deles, enquanto o mesmo terminava os últimos ajustes no teclado.
– William. Ele não percebeu que Madison estava dando em cima dele.
– E a beleza Hemswortiana ataca, senhoras e senhores! – o braço direito de posou fortemente nos ombros de Will fazendo com que sua guitarra escorregasse para o lado.
– E a sua indelicadeza também.
– Aceita que você conquista o coração das mulheres, William. – rebateu de forma simples.
O garoto passou os dedos pelas têmporas já não suportando mais o assunto. Era difícil para ele aceitar que era sim bonito, ele não se via essa coca-cola toda por mais que as meninas, e até mesmo , insistissem no assunto. Tinha muita coisa em si que gostaria de mudar a começar pelo cabelo que, por ser liso, ficava escorrendo pelo seu rosto o incomodando. Era por essas e outras que ele havia optado desde sua época no ensino médio por raspar o cabelo, deixando pequenos fios imperceptíveis.
– Você e seu físico são como um ímã. – completou a garota, tirando o braço do ombro do amigo.
– Eu realmente não sei do que vocês estão falando. – e ele realmente esperava que elas estivessem erradas, não queria acreditar que era só por causa dos seus poucos músculos que, supostamente, as mulheres se interessavam nele.
Não mesmo, cadê o interesse na personalidade? Retornou para bateria deixando as duas para trás que ainda comentavam do assunto. Entretanto, a felicidade de ambas cessou quando alguns grupos já chegavam ao espaço aberto tomando algumas mesas, inclusive e sua trupe. O olhar de Dannah percorreu sobre eles com o desgosto estampado em sua face. sabia muito bem o que era aquilo: a indignação de não ser a banda deles, afinal, todos gostavam de estar sob os holofotes. Mas o olhar de era totalmente ilegível, principalmente quando pairou por por mais tempo do que devia. não sabia ao certo se era mágoa, raiva, indignação, saudade, mas ela tinha certeza de que a amiga estava desconfortável com toda aquela atenção para si. O que era estranho já que era uma das pessoas que mais aplicavam a lei do “100% nem aí para você”.
– Vamos começar? – comentou tirando de seus pensamentos, enquanto checava o celular da amiga a procura da playlist.
– Ã… claro, eu só… Merda!
– O que foi? – perguntou preocupada.
– Esqueci de pedir mais palhetas para Madison. Sabe onde ela tá? – ficando na ponta dos pés, analisou o local com o olhar negando com a cabeça em seguida.
– Ela não tá aqui, mas ela não deve tá muito longe. Madison nunca perde shows, tenta ver se não está por aqui por perto, mas vá logo.
– Certo! Volto em um segundo, talvez ela esteja no banheiro. – passando pela do refeitório em passos rápidos, seguiu caminho pelo vasto corredor adentrando a terceira porta à direita.
O banheiro não ficava tão longe, o que não demandaria tanto tempo para retornar ao refeitório e esperar Madison pegar as palhetas, entretanto, para sua infelicidade, o banheiro estava mais morto do que o primeiro dia em que sua banda tocou no bar do tio de Will. As seis portas brancas das cabines que ficavam em frente ao espelho estavam encostadas sem nenhuma alma viva. ainda se arriscou a conferir melhor, mas acabou dando-se por vencida quando percebeu o silêncio do local. O jeito seria tocar apenas com uma palheta, rezando para que a mesma não pulasse de seus dedos durante o show, era uma merda quando acabava perdendo-as no chão e tinha que usar sua habilidade não tão avançada de olhar de gavião para enxergá-la. Girou a maçaneta da porta de entrada do banheiro, mas não a viu se mover. a puxou mais algumas vezes, mas nada ocorreu, a porta permanecia estática.
Não.
Não.
Não.
Não, ela não podia estar presa, não podia desperdiçar a chance única de fazer grande parte da universidade conhecer a banda dela, seria uma ótima divulgação para obter suporte e votos para conseguir a tão sonhada vitória e receber o patrocínio da faculdade.
Não era possível! Nem mesmo nos piores casos de filmes de clichê a personagem principal tinha tanta má sorte quanto ela. Nem mesmo nas fanfics que lia as personagens entravam em tanta enrascada como ela costumava entrar. O que estava ocorrendo?!
– Socorro! Aqui dentro do banheiro! A porta está emperrada! – seus gritos não pareciam surtir efeito, nem mesmo as pancadas fortes que deu na porta pareceu chamar a atenção de alguém.
A única solução era ligar para . Claro, o celular! Como não havia pensado naquilo antes? Tateou rapidamente pelos bolsos de sua calça, do casaco, mas sua única esperança se esvaiu ao lembrar de ter dado seu celular a para que a mesma checasse a setlist.
Merda!
Faltavam poucos minutos para o show começar, ela tinha que pensar rápido, e muito rápido, caso contrário o refeitório ficaria sem sua típica animação e ela sabia o quanto era ruim, principalmente para Madison que tentava manter a reputação de “líder que sempre tem as melhores ideias e não deixa a universidade virar um lugar morto”. Madison certamente não iria deixar mais que sua banda tocasse, acharia que não tinham responsabilidade e seriedade, ela deveria ter levado suas palhetas extras. Ok, ela não podia se dar por vencida, talvez houvesse algum meio de sair dali. Olhou ao redor na tentativa de encontrar um ponto de luz, mas todo o ar fresco que circulava do local vinha de cinco pequenos basculantes que nem mesmo sua cabeça passava, era óbvio que ela ficaria entalada ali, a não ser que ela quisesse virar piada por um semestre inteiro sendo conhecida como “a mamãe noel dos basculantes”.
Fechando os olhos, soltou todo o ar sentindo a derrota bater. Quem quer que fosse que tivesse feito aquilo com ela, pagaria, e pagaria muito caro, menos se fosse a moça da limpeza, talvez ela tivesse fechado para fazer manutenção mais tarde. Continuou batendo e gritando, chutando a porta e gritando, gritando e gritando, sentindo sua garganta ficar seca por tanto esforço e suas cordas vocais pedindo por misericórdia.
Derrotada, foi forçada a sentar no chão do banheiro, encolhendo suas pernas contra si. Não entendia por que sempre perdia oportunidades incríveis e momentos que poderiam ser revolucionários em sua vida. Parecia que vivia em uma maré de azar com águas turvas que só traziam problemas e mais problemas, a começar pelas amizades que tivera que se rebelaram ser quem não eram, passando por um coração partido, seguido de confiança quebrada, expulsão de banda e para fechar com chave de ouro, um buraco negro de mágoas. Credo, sua mãe com certeza a mandaria tomar banho de sal grosso por uma semana, mas até mesmo ela estava entrando na lista de decepções de . Tudo estava se tornando tão merda, por mais que tentasse revirar as coisas, mas parecia que as situações estavam fora de seu controle. Qual era o propósito da vida por dar oportunidades e tirá-las facilmente? Estava difícil de controlar tais pensamentos, principalmente o início do que seriam lágrimas. Talvez ela realmente tivesse que desistir de tudo e levantar a bandeira branca. Talvez a banda não fosse para dar certo e que tudo aquilo era perda de tempo. Seus pensamentos continuaram por um pequeno tempo, mas por sorte, por aquele 1% de sorte, ao longe, ouviu uma voz familiar chamar pelo seu nome. Se não era anjo, ela era sua sorte. Levantou em um pulo batendo novamente a palma da mão com força na porta, gritando pelo nome da garota.
, aqui! Estou no banheiro!
? Meu Deus, garota, o que… Tá trancado!
– Não tenho como destrancar, não sei o que houve.
– Espera um minuto.
Não demorou muito para ouvir um clique na porta e logo em seguida a imagem de com uma mulher aparecerem em seu campo de visão causando um grande alívio em si.
– Como a senhorita foi parar ai dentro? – a mulher de baixa estatura questionou com desconfiança.
Sua vestimenta larga já entregava que a mesma trabalhava na equipe da limpeza; blusa larga branca de botões, calça do mesmo tipo, bota de borracha e um boné que cobria todo seu cabelo. Sua face não lhe parecia totalmente amigável, a severidade estava claramente estampada em seu olhar.
– Estava procurando Madison e quando percebi, a porta não queria mais abrir, pensei que algum funcionário tivesse trancado por algum motivo.
– Mas eu sou a funcionária deste pavimento neste turno e não coloquei essa placa de interditado aqui não.
“Banheiro interditado”, dizia a placa com letras pretas grandes em um fundo amarelo vivo. Realmente era uma placa bem chamativa, ela teria prestado atenção se a placa realmente tivesse ali minutos atrás.
– Mas não havia nenhuma placa quando entrei, se tivesse eu teria visto e… – uma lâmpada logo acendeu em sua mente. – O SHOW! , NÓS ESTAMOS...
, calma… sobre isso… – as mãos frias de tomaram as de por inteiro. – Fomos substituídos por…
não deixou terminar, já sabia o que viria a seguir e queria ver com seus próprios olhos a realidade batendo em sua porta. Correndo até o refeitório, ao longe, já conseguia ouvir a forte batida de música e uma voz muito familiar cantando Cry Baby do The Neighbourhood. A voz carregada de animação, o som dos instrumentos sendo tocados com gosto, preparados para qualquer situação… ou armação. Não seria tão surpreendente se descobrisse que foi alguém daquele grupinho que armou tudo aquilo contra ela. Quem mais seria? Seus sentimentos estavam mais confusos do que sua mente, se fosse verdade, se tudo aquilo fosse verdade, havia perdido todos os pontos consigo chegando ao primeiro lugar do pódio de ódio, negação e repulsa.
O público cantava e se remexia, enquanto outros apenas admiravam com um sorriso satisfatório no rosto. cantava demonstrando todo seu carisma e segurança de palco, enquanto os demais tocavam seus instrumentos com um enorme prazer. Foi necessário bons segundos para assimilar tudo aquilo. Era para ela estar ali no palco, segurando o microfone enquanto era tomada pelo entusiasmo da plateia. Era para estar tocando seu teclado com todo seu charme, enquanto passeava pelo palco mostrando seu solo de guitarra e William dava suporte na bateria descontando todo seu prazer nos tambores. Era para estar tocando Somebody Told Me do The Killers em sua voz, mas a única coisa que estava saindo de si era raiva e nojo, repulsa de alguém que foi capaz de jogar baixo para conseguir algo. Ela tinha mais do que certeza de que havia um dedo podre de naquela situação, tanto sabia que o sorriso do rapaz não demonstrou nenhuma compaixão quando seu foi de encontro ao dela, pelo contrário, estava feliz, radiante e prestes a começar uma guerra.
Se era jogo baixo que ele queria, era jogo baixo que ele teria.


Capítulo 5

"Embarque para Guarulhos, portão 3.
Os portões já se encontravam abertos há quase dez minutos, mas ninguém havia tido a coragem de dar um passo e embarcar na aeronave. , segurando fortemente a alça de sua mochila de urso panda, observava sua mãe limpando as tímidas lágrimas que escorriam dos olhos de , enquanto seu pai permanecia ao seu lado com os ombros caídos, passando a mão na pequena careca a cada minuto, sustentando o olhar na cena, entregando a aflição e nervosismo pela situação. Mesmo tendo apenas dez anos, conseguia enxergar o grande arrependimento estampado no olhar de seu pai, não somente no dele, mas as profundas olheiras cobertas por uma péssima maquiagem na face de sua mãe não ajudavam muito. Tudo aquilo poderia ser diferente, todo aquele momento poderia ser inexistente, e naquela hora ela poderia estar em seu velho apartamento, ouvindo música no quarto esperando o sono vir, enquanto , na cama de cima, já estaria em seu décimo sono. A facilidade de dormir do irmão era incrível, era algo que ela realmente sentia inveja e desejava ter durante toda sua vida. Poderiam estar curtindo o resto das férias em Fortaleza, no Beach Park ou traçando alguma rota por alguns estados como faziam de costume, ou sua mãe estaria apenas em frente ao computador terminando algumas contas da empresa em que trabalhava na área de contabilidade, e seu pai terminando mais um slide sobre o curso de empreendedorismo que administrava para a mesma empresa. Foi assim que eles se conheceram, trabalhando em um mesmo local, na mesma empresa, mas nenhum dos dois imaginavam que o final do relacionamento seria a pior parte. Poderia ser tanta coisa, mas não estava sendo. Estava sendo um dos piores momentos de sua curta vida onde ela apenas queria acordar e perceber que nada aquilo era real e sim, um pesadelo.
Quase sem forças, Lúcia levantou-se passando o olhar para a pequena garota que ainda permanecia na mesma posição com a mesma cara fechada. Ver sua mãe daquela maneira era como receber uma facada no coração mesmo não sabendo exatamente como era a dor, mas o que estava sentindo com certeza era pior do que aquilo. Ter a incerteza de quando a veria novamente estava sendo angustiante para sua pequena mente de dez anos.
E o Natal e Ano Novo? Como seria? Quem iria fazer as famosas rabanadas natalinas ou catar as uvas passas do arroz que seu pai tanto insistia em colocar? Quem iria ajudá-la a comprar as roupas de fim de ano e pesquisar na internet as cores para o ano seguinte? Sua mãe era uma figura feminina na casa e passar a morar apenas com figuras masculinas seria uma grande mudança, e tudo bem que ela não seria a única mulher na casa, visto que estavam indo morar com sua avó, mas ela não tinha tanta intimidade assim. A última vez que havia visto sua avó por parte de pai foi há tantos anos quando a mesma foi visitá-los no Brasil, um mês não dava para muita coisa.
O abraço forte de sua mãe a despertou do transe, seria a última vez que sentiria aquele cheiro de perfume doce que antes era tão enjoativo, mas agora ela não se importava, se pudesse, colaria aquele aroma em seu nariz para sempre.
estava lutando para não chorar, odiava qualquer coisa que provocasse lágrimas, mas estava sendo praticamente impossível. Sentiu as finas gotas percorrerem em suas bochechas, caindo diretamente em sua blusa.
– Temos que ir, o embarque já vai encerrar. – seu pai anunciou com a voz falha.
Logo se aproximou e ambos estavam de frente para Lúcia que permanecia agachada.
– Isso não é um adeus, eu prometo visitar vocês em todas as minhas férias. Podemos conversar por chamada de vídeo, e sempre que precisarem, nem que seja na madrugada, vocês podem me ligar. – ela disse tentando manter-se firme com a voz.
– Você vai passar o ano novo com a gente? – questionou, mas o suspiro pesado e o olhar caído de sua mãe já lhe entregavam a resposta.
– Tentarei, querida. Mas em todo caso, será legal. Você estará com seus avós e com seu pai. Vai ser diferente, pense nisso. – mas ela não queria nada diferente, na verdade, nenhum dos dois queriam que fosse diferente, eles só queriam a velha rotina de volta. – Tudo isso é para o bem de vocês…
– Não está me fazendo bem, eu estou triste. Se fosse para meu bem, eu estaria feliz. – rebateu fechando a cara.
O olhar cansado de seus pais se cruzaram demonstrando a dor daquelas palavras, foi como um tiro no coração.
– Obedeçam ao seu pai e lembrem-se, cuidem um do outro, fiquem sempre juntos, ok? Eu amo vocês!
– Não! – novamente jogou-se nos braços da mãe, apertando-a como se fosse seu urso de pelúcia favorito. – Por favor, mamãe, não! Eu não quero, eu não quero!
… – pôs a mão no ombro da irmã.
– Me larga, ! – suas mãos tocaram levemente o rosto de sua mãe. – Por favor, vamos ficar, vamos ficar!
– Vai ser bom para ti, eu te prometo. Estarei em breve lá, prometo a você. – Lúcia pôs suas duas mãos no pequeno rosto da filha, enxugando as lágrimas. – Agora vá e não olhe para trás, ok?
– Mas… Mas…
– Vá…
A mão de seu pai envolveu sua pequena mão com cautela, chamando sua atenção, enquanto o mesmo lançou um sorriso encorajador a ela. Aos poucos, foram caminhando em direção ao local indicado, e enquanto esperavam o pai entregar as passagens para passar para a sala de embarque, se permitiu olhar para trás novamente, vendo agora as lágrimas escorrerem feito um rio pelo rosto de sua mãe. Sua vontade era de voltar ali correndo, abraçá-la e nunca mais soltá-la. Não se importava de ficar no Brasil, não se importava de perder a chance de conhecer um novo local, ela só queria o seu conforto de volta, sua antiga vida de volta e crescer ali, nem que fosse na mesmice de sempre. Seus olhos começaram a lacrimejar, e uma dor absurda começou a tomar conta de si; sua respiração começou a ficar mais ofegante, ela queria gritar, jogar tudo para o alto e fazer tudo aquilo em mente. Ela queria, e como queria, mas instantaneamente, sentiu uma mão envolver a sua, apertando fortemente. Olhou para o lado vendo , com os olhos pesados de lágrimas, proferir com piedade a frase:
– Por favor, não me deixe."

Existiam muitas coisas na vida que irritavam : pessoas irritantes e intrometidas, mudanças ridículas em filmes só por causa do público, a demora por Leonardo DiCaprio ter ganhado o Oscar, o filme de Guerra Civil, e claro, professores que achavam que alunos eram como robôs e tinham a capacidade de entregar um trabalho do jeito que queriam sem passar nenhuma base.
Aquilo com certeza era a pior coisa.
E tudo bem que havia deixado para fazer as coisas em cima da hora, mas nada estava animando-a a começar a fazer aquele trabalho para a aula sobre crítica cinematográfica, e olhe que ela amava filmes! Mas o professor havia conseguido transformar uma matéria que tinha tudo para dar certo e ser a melhor do semestre, no puro inferno e terror. Ver o ponteiro cursor da página piscando e ter apenas cinco parágrafos escritos era desanimador.
– E é por isso que esse trabalho é uma grande merda, porque eu não sei o que escrever nessa MERDA, já que o professor não ensinou absolutamente N-A-D-A! Pronto! – pressionou com força a tecla enter no teclado, dando um grito de raiva em seguida.

😼:
Me diz como você tá conseguindo sobreviver a esse trabalho!!
Tá impossível!

Enviou a mensagem, deixando o celular ao lado do computador, apoiando sua testa na mesa. Logo sentiu algo vibrar, e sem levantar a cabeça, apenas pegou o aparelho checando a resposta.

🙋:
Ainda nem comecei.
Estou no trabalho
Mas pelo visto não sobreviverei também


Enviando apenas um “boa sorte” em seguida, deixou de lado o celular, ajeitando sua postura novamente. Se arrependimento matasse, ela estaria em decomposição no solo há séculos, tinha que parar com aquela mania de deixar para fazer tudo de última hora, e tudo bem que o professor tinha avisado com quase dois meses de antecedência, mas quem em sã consciência passava um trabalho de 8 páginas sobre um assunto que mal foi visto em aula? Ela estava mais perdida do que o próprio Homem-Aranha na batalha de Guerra Civil.
Seus neurônios já estavam tão saturados que olhar para a parede roxa do seu quarto estava sendo mais interessante do que fazer aquele maldito trabalho para o dia seguinte. Sua coluna nem mais existia e seus olhos já imploravam por misericórdia de tão expostos que estavam para a tela do computador.
– O que eu fiz para merecer isso? – choramingou. – Tudo bem, . Você consegue! É apenas um trabalho, nota, o que isso vale em sua vida, hein? Tudo bem que seu diploma e sua carreira, mas você consegue. Ele terá que aceitar o que você colocar aí.
Respirou fundo, relendo o pequeno parágrafo na tela. Começou a analisar as palavras e o contexto, sua mente parecia que estava começando a trabalhar. Havia sentido até um pouco de mais ânimo. Sim, estava conseguindo! Já conseguia sentir suas ideias chegando, a inspiração batendo na porta, só faltava passar tudo aquilo para o papel! Sim, ela conseguiria, ela… Um som estrondoso soou pelo quarto quase lhe causando um ataque cardíaco pelo susto. Mais notas e notas musicais começaram a ser tocadas em um som alto e claro. Se não estivesse enganada, o ritmo denunciava a música By The Way do Red Hot Chili Peppers.
Olhou para a tela novamente do computador e agora, em sua mente, só existia um branco.
– Ah, não… Não, não, não! QUE ÓDIO! – disse em uma profunda raiva, respirando fundo, levantando rudemente da cadeira.
Ela tentava ser pacífica? Tentava. Respirava fundo em todas as situações apenas julgando as pessoas em sua mente e fazendo xingamento mental, mas quando o assunto abordava entrega de trabalho e concentração, nem mesmo as aulas online de yoga davam resultado.
Abriu a porta do seu quarto com força, já sabendo de onde era o som.
Claro, quem mais seria?
Maldito dia em que concordou com por ter comprado aquela caixa amplificadora, ela teria ido contra, mas viu benefícios para si mesma também. Mas se ele continuasse com aquele barulho, não mediria esforços para dar fim naquela maldita caixa.
Com toda força do ódio que estava sentindo, espalmou a mão com força contra a porta três vezes.
Sem resultados.
Respirou fundo novamente, contando até dez, e bateu de novo.
Mas nada. O som ainda continuava em seu volume máximo.
Ok, ela não estava para brincadeiras. Desta vez, esmurrando a porta, utilizou sua garganta para tentar chamar atenção:
, DIMINUI ESSE SOM AGORA OU EU JURO PELO AMOR QUE VOCÊ TEM PELO SEU BAIXO, QUE EU ARRANCO SEU FÍGADO COM ELE!
Nenhuma resposta foi obtida. O som ainda continuava na mesma altura, assim como os acordes de baixo que seguiam o ritmo na música.
, ABRE ESSA PORTA AGORA! – sem sucesso. – , EU TÔ…
– Qual o problema? – a porta logo se abriu dando um susto na mesma que já se preparava para esmurrar novamente.
O som já possuía um volume mais baixo, porém não o silêncio em que a mesma desejava. O mesmo respondeu com tranquilidade, recebendo o olhar incrédulo da gêmea.
“Ou ele está chapado ou é cara de pau mesmo.”, pensou .
– O problema é que eu tenho que terminar um trabalho infeliz para amanhã e sua música não está ajudando!
– Eu estou ensaiando.
– Ensaie em outro lugar ou ponha seu fone de ouvido. Eu avisei a esta casa inteira que eu estaria presa neste trabalho e preciso de si-lên-cio!
– Já se passaram três horas desde que você avisou.
– Mas eu não terminei o trabalho, ser abençoado!
– A culpa não é minha se você deixa tudo para cima da hora. – continuou com sua serenidade e sarcasmo estampados na face e na voz.
Discutir com era ao mesmo tempo bom e ruim. Sua calmaria tinha lados positivos e negativos, onde em todas as vezes era muito difícil de vê-lo se alterar, o máximo que ocorria quando ele chegava ao seu ápice era do mesmo engrossar a voz, fechar a cara e sair do local. Entretanto, discutir com alguém que sempre demonstrava estar zen era ter a dúvida de se a pessoa estava falando sério ou estava te fazendo de besta. Isso era algo que ela gostava nele, sempre o colocava para discutir com as pessoas que ela não gostava, pois amava vê-las surtando devido ao deboche do irmão, mas quando era com ela… a coisa mudava. Mas raramente eram as vezes em que ambos brigavam. Desde a mudança, sempre tentavam entrar em um acordo e ver o lado do outro, porém as coisas desandaram depois do ocorrido com a banda. Parecia que o deboche havia estampado na face de quando o mesmo ia falar com , o que acabava a irritando mais ainda.
– A culpa não é minha se ele é um mal amado que gosta de ver o sofrimento dos alunos! – ela rebateu.
– Você quem deixou tudo para cima da hora. Aceite suas consequências e pare de culpar os outros.
– Eu aceito, mas estou pedindo o mínimo de respeito comigo. Cadê sua ajuda?
– Eu estou te ajudando, mostrando que você tem que passar por essa consequência.
– Eu tenho 21 anos, , sei bem das minhas consequências. Eu só quero que você respeite o meu espaço! Dios mio, eu deveria ter me mudado na primeira oportunidade! – disse ajeitando os fios que caiam em seu rosto do coque mal feito.
– E quem está te impedindo? – a voz de tomou um tom mais firme, porém sem elevação do tom.
parou por uns segundos, encarando com seu olhar incrédulo o sarcasmo misturado com aquela resposta.
– DINHEIRO, FILHOTE DE DIABRETE DE CORNUALHA! DI-NHEI-RO! – parecia que havia esquecido todo o seu passado e desafios que enfrentaram, sem falar nas promessas feitas para sua mãe.
Ah, se ela soubesse de tudo aquilo que estava ocorrendo, se ela soubesse que há mais ou menos dois anos que eles fingem um bom convívio quando a mesma vai visitá-los… se ela soubesse de tudo o que se passava, com certeza estariam em um castigo eterno, presos em um mesmo cômodo onde só sairiam após os acertos de contas, e foda-se a idade, foda-se a fase adulta. Seus pais sempre fizeram o que pôde para mantê-los juntos, mostrando o quão importante era aquele sentimento de irmandade, e nenhum dos dois reclamavam, pelo contrário, ambos eram uma boa companhia um para o outro.
Era.
Olhar para e ver que, mesmo depois de tudo aquilo e de toda tentativa de um pedido sem briga, o mesmo continuava com a mesma cara neutra, só causou mais revolta em . Que se foda o trabalho, o professor, tudo! Seu ódio não estava mais voltado para aquilo e sim para toda a situação. Já estava cansada, farta do clima que pairava em sua casa. Conviver com daquela forma estava sendo extremamente doloroso. Forçar uma frieza com alguém que já foi um grande conforto para si era exaustivo, mas ele mesmo pedia, ele mesmo fazia de tudo para que ela agisse de tal maneira, assim como estava ocorrendo naquele momento.
– Sabe… – disse respirando fundo, fechando os olhos por um minuto. – Na verdade, eu deveria ter ficado no Brasil. Feito o que tive mais vontade naquela merda de despedida e corrido de volta para nossa mãe e deixado você vir para cá sozinho. Talvez nossa convivência fosse melhor se houvesse saudade no meio. As coisas seriam diferentes e você saberia valorizar as pessoas, porque há dois anos que você não sabe o que é isso.
– É vem você trazendo as coisas do passado...
– Claro, até porque você está vivendo ainda nele! E em todos os sentidos! E quer saber, sortuda é por não ter que conviver com essa pessoa que você se tornou. Pra mim já deu.

♪♪


A última vez que havia demonstrado uma revolta tão profunda foi após o final do filme A Esperança. Ela não aceitava de jeito nenhum aquele “adeus” que Katniss deu a Gale. Não, não, não, era inadmissível! E não que ela quisesse que fosse igual ao livro, longe disso, mas o revoltante “adeus” não se encaixava no contexto da história, quer dizer… Gale sempre ajudou Katniss e tudo bem que ele errou ao confiar em Coin, mas ele não sabia de suas intenções!
Sua revolta foi tão intensa que quase a geladeira perdia a porta de tanta força que ela pôs para fechar, assim como a porta do carro. Jogos Vorazes tinha sido uma das poucas histórias do gênero apocalíptico que lhe gerou interesse e prendeu sua atenção, mesmo ela tendo pavor a esse tipo de trama, afinal, era algo que certamente poderia ocorrer no mundo e a mesma não gostava nem de pensar nisso. Ela não teria chances, morreria no primeiro dia de algum caos apocalíptico ou do temeroso Jogos Vorazes, e apostava o maior valor que tivesse em mãos que sua morte seria a mais besta e irracional possível.
Toda aquela ira e ódio parecia ter retornado com mais intensidade para si, e quem sofria agora eram os copos descartáveis de papel e a máquina de fazer café da cafeteria onde trabalhava. Havia esmagado uns seis copos, errado na montagem do café quatro vezes, e gasto mais ou menos um litro de leite pela quantidade que deixou cair no chão ao preparar os pedidos. O slogan “um cliente feliz vem de um atendente feliz. Não basta apenas sorrir para câmera, tem que sorrir para seu cliente também.” havia ido para o brejo, esquecido no churrasco assim como o seu humor naquela tarde.
– Você deveria usar essa cara no Halloween, aposto que ganharíamos o prêmio de loja mais assustadora. – Roxy sorriu com sarcasmo, pegando os dois copos de café preparados por para levar ao balcão, recebendo o olhar de ira da amiga. – Espero que não tenha trocado os pedidos, seu tio vai a falência desse jeito.
– Problema dele. – respondeu ríspida.
– Não, o problema vai ser seu por destruir não somente o investimento, mas uma família. Seus pais ficariam devastados por saber que a filhinha estragou o sonho do titio. – suspirou, cruzando os braços, mas sem desfazer sua feição de ódio.
– Essa é sua ajuda? Porque se for, não está funcionando.
– Aqui está, tenham uma ótima tarde. – Roxy entregou o café ao rapaz, e logo dirigiu a atenção a . – Normalmente esse é o meu jeito de te animar. Você me xinga de volta, trocamos farpas e damos risada no final, mas tô vendo que o chernobyl ultrapassou os limites dessa vez.
– Não só ultrapassou, mas conseguiu tirar todo meu ânimo do dia e da banda. Desde mais cedo que não conversamos nada no grupo, quer dizer, eu não falei nada. Me sinto culpada por termos perdido essa oportunidade, estávamos tão animados…
– Ah, ! Me poupe, garota! O chernobyl faz merda e você leva a culpa?!
– Se eu não tivesse ido atrás de Madison, não teria ficado presa no banheiro e teríamos tocado.
– Se o hiroshima tivesse senso de humildade, e não fosse tão individualista, vocês teriam tocado sim.
– Não era chernobyl?
– Não é tudo a mesma merda? Então? E se você continuar assim, eu serei a próxima culpada por te dar um tapa na cara para ver se você muda com essa ideia de que tudo é sua culpa. – respirou fundo.
Mesmo não querendo dar muita credibilidade a Roxy, sabia que ela estava cem por cento certa, e que nada daquilo teria ocorrido se não fosse tão individualista e egoísta, coisa que ele não era. Ela só foi atrás da solução de um problema e infelizmente outro problema a prendeu. Entretanto, parte da sua indignação estava voltada sim para ocorrido, parecia que nada dava certo e tudo tinha que ter um dedo seu. Quando que algo não ocorreu devido a , ou Will? Sempre era ela, e sempre tinha que ter um do clube do bolinha metido na situação. Entretanto, outra parte voltava-se para . Desde o dia da grande briga de ambos, ela vinha se perguntando o que tinha feito para o garoto mudar tanto com ela e começar a agir como se a mesma fosse sua pior inimiga. Logo ele que jurou, olhando em seus olhos, que nada mudaria e que sempre estaria ali por ela. A mudança que ocorreu em havia sido da água pro vinho, do dia para à noite, e ela jamais, jamais mesmo havia pensado de que um dia, a pessoa que prometeu tanta lealdade a ela, seria sua pior decepção. Sem falar em que era outra dor que ela nem gostava de lembrar.
, Roxy tem razão, tirando a parte da ameaça, mas a culpa não foi sua. – Lindsay falou do outro lado do balcão, entregando a bandeja deixada pelos clientes na mesa. – Mas não querendo te ofender e se te ofender, me desculpa, mas não é minha intenção te ofender, é só uma pergunta mesmo, sabe… Uma dúvida…
– Diz logo, Lindsay! – impaciente, Roxy bradou, recebendo um revirar de olhos da menina.
– Como tem certeza que foi ? Você viu alguém te trancando lá?
– LINDSAY! – Roxy gritou, indignada.
– O que eu fiz? Eu disse que era uma dúvida… – Lindsay encolheu os ombros e passando o olhar para as unhas que se debatiam uma nas outras, demonstrando um nervosismo. – Desculpa, , não era para te ofender…
– Não, é que…
– .. é que isso realmente passou pela minha cabeça e…
– … Lindsay, tá tudo bem…
– … e eu só queria saber, e eu não tô defendendo ele….
– Lindy! Tudo bem! Calma, respira! – se aproximou da amiga, pegando em suas mãos. Ela parecia uma boneca de porcelana, onde qualquer coisa que falassem, causaria um surto na mesma. – é o único que teria motivos para fazer isso.
– Não tem outras bandas lá?
– Tem, mas a rivalidade delas não chega aos pés da Atlas com a Communique. Nosso histórico é… pesado, e também não foi nenhuma outra banda que ficou do lado de fora do auditório de música com as mãos cheias de cola, enquanto ouvia sua rival ensaiar despreocupadamente.
– Cheias de quê?
– Cola e glitter. – respondeu com naturalidade, vendo a feição das amigas transbordarem a incredulidade. – Não foi nada demais comparado ao que eles fizeram comigo!
– Não sabia que você tinha um lado maligno. Estou impressionada… – quase acreditou na atuação de Roxy pela perplexidade em sua face, mas sabia que no fundo, a garota só estava fazendo seus típicos jogos sarcásticos.
– Eles estavam falando mal de mim! Não iria permitir que depois disso eles ensaiassem. E se eu pudesse, teria feito coisa pior. – sua última frase saiu em um tom baixo, mas bem audível para as outras duas que se entreolharam.
– Estou embasbacada com sua audácia, . Você sendo maligna?
– Ué, eu convivo com você, não é mesmo? – Roxy parou por um segundo, entortando os lábios.
– Bom ponto. Mas enfim, sendo ou não, ele não tinha direito de substituir a banda e… – sua fala, assim como sua atenção, foram interrompidas pelo barulho da porta de vidro se abrindo, tendo três figuras ilustres adentrando ao local. – … e falando no diabo… – Roxy completou desanimada, caminhando em direção ao balcão.
O sorriso de estampava de canto a canto da sua face demonstrando uma segurança que poucos jovens possuíam. Mas não era apenas ele que demonstrava tamanha felicidade na face, Dannah e Jackson não se pouparam em exibir sua confiança. Os dois últimos se dirigiram a mesa um pouco mais no canto, dando uma rápida olhada a , onde Jackson se atreveu até jogar um tchauzinho, pegando seus celulares logo em seguida, depositando toda atenção nos aparelhos, enquanto o primeiro dirigiu-se ao balcão do mesmo modo em que havia entrado. Seu olhar direcionou unicamente e exclusivamente a que mesmo não encarando muito, havia percebido a tamanha cara de pau. olhava e admirava dos pés à cabeça, sempre achou incrível o fato da garota ir atrás do que almejava e batalhar por isso, e nem mesmo o típico uniforme da cafeteria tirava a beleza que ela irradiava, pelo contrário, conseguia dar charme em qualquer peça de roupa, principalmente quando deixava seus indiscretos fios cacheados caírem pela lateral do rosto enquanto seu cabelo estava preso a um coque. Percebendo o olhar direto do rapaz, Roxy se prontificou em sua frente, pigarreando em seguida.
– Vai querer levá-la para casa, colega? Desculpa, mas ela não está à venda. – Roxy proferiu de forma ríspida e direta, chamando a atenção do garoto que arqueou uma de suas sobrancelhas como resposta pelo modo na qual a garota estava agindo.
, um pouco mais afastada, segurava o riso assim como Lindsay, que trocava olhares com a mesma.
– Bem caloroso esse atendimento. – o tom irônico de assim como seu semblante foi a junção perfeita para tirar o restante da paciência que Roxy não tinha.
Eles nunca tiveram muito contato, na verdade, poucas vezes que se viram e chegaram a conversar. O papo mais longo que tiveram foi quando , em seus poucos dias de trabalho, o levou junto com os outros para conhecer o local. Fora isso, apenas quando o mesmo aparecia para comprar algo, mas raramente ela o atendia. Tudo o que a garota sabia dele era através das queixas que que fazia semanalmente quando voltava da faculdade, e saber da sua última armação para cima de sua amiga não havia agradado-a muito.
Ao perceber a atitude de Roxy de respirar fundo e soltar o ar rapidamente pelas narinas, e Lindsay se entreolharam novamente já sabendo o que iria ocorrer: discussão, briga, tapa e uma demissão. E de longe queria aquilo, não mesmo, ela não suportaria carregar mais outra culpa em si. Ela entendia o motivo da indignação da amiga, e se fosse com uma delas, ela faria o mesmo, pegaria a raiva para si e daria algum jeito de proteger. E outra, ela já estava lidando com tudo aquilo, então, por que não atender? Mostrar profissionalismo era um meio de superioridade, certo? Ao dar o primeiro passo para tirar Roxy da jogada, viu um corpo passar pela portinha do balcão, puxando delicadamente Roxy para trás, tirando-a do caminho.
Com toda gentileza e jeitinho Disney que tinha, Lindsay abriu um sorriso receptivo, abrindo o sistema no computador.
– Olá, senhor, qual o seu pedido?
logo olhou para , confuso, e retornou a atenção para a garota a sua frente que mantinha o sorriso no rosto.
“Caffeine Free com certeza”, pensou.
Era o que ele sempre pedia, odiava cafeína, mas adorava o sabor que um café descafeinado tinha. Era estranho, mas…
– E-eu quero um Caffeine Free, Tea Latte com baunilha extra e um Ice Blended de caramelo com leite de amêndoas.
– Pequeno, médio ou grande?
– Tudo médio.
– Ok… vinte dólares. Gostaria de contribuir com alguma gorjeta?
– Se não fosse pelo seu atendimento, não iria contribuir, mas…
– Se não fosse pelo atendimento dela, você sairia com café na cabeça. – Roxy sussurrou pegando o papel do pedido na mão de Lindsay, voltando para a máquina de fazer café onde estava.
– Caffeine Free com certeza é o dele. – sussurrou a amiga, esquentando o leite, enquanto Roxy preparava o chá.
– O quê?
– Ele gosta do sabor do café descafeinado, mas odeia cafeína porque o deixa com insônia. Chá não é seu forte, a não ser que seja de maçã com canela. – Roxy a encarou com dúvida. – Ele diz que a canela disfarça o gosto enjoativo de beber água quente com gosto. – deixou o copo de lado apenas com leite, começando a preparar o outro pedido.
– Bem, ele vai provar um café meio diferente hoje. – ao ouvir um barulho estranho no nariz da amiga, seu peito se enchendo de ar e o copo em suas mãos, rapidamente a encarou assustada, puxando o copo para si.
– O que você está fazendo? – sussurrou , assustada.
– Ué, deixando um presentinho para ele. – Roxy respondeu no mesmo tom.
– Você vai cuspir no café?!
– O que é que tem? – questionou de forma inocente vendo negar com a cabeça.
– Você ficou maluca? Quer perder seu emprego?!
– Daniel não vai saber, !
– Claro que vai! Ele tem câmeras por aqui, e se perceber algo estranho, vai querer denunciar.
– A gente diz que foi leite estragado, uma formiga que caiu sem querer, talvez uma barata…
– Daniel tem um cuidado extremo com esse lugar, minha mão fica ressecada de tanto álcool em gel que temos que passar. Ele não vai cair nessa, e se cair, ele vai surtar!
Roxy revirou os olhos.
– Você diz que sente tanto ódio e rancor desse garoto, mas quando é para dar o troco, fica de cú doce.
– Não é cú doce! Só não quero perder o meu emprego e nem você perca o seu, e também, já dei meu troco.
– Colocando cola na maçaneta de uma porta? Nossa, , você deveria estar na cadeia!
– Me deixa, Roxy. – revirando os olhos, dirigiu-se perto do balcão para pegar mais tampas para os copos.
Aquilo foi a deixa para que se aproximasse e debruçasse um pouco mais no balcão, ficando próximo a ela.
– Então, , soube o que ocorreu hoje. Espero que esteja bem. Queria ter assistido seu show e…
respirou fundo, mais uma vez.
O que quer que fosse que o destino estivesse planejando, ter mais presente em sua vida não estava ajudando. A paz que estava conquistando aos poucos, assim como o modo de lidar com a ausência e fingir que nenhum deles existiam já estava em um bom progresso, mas tê-lo ali novamente, agindo daquela maneira, estava sendo torturante. Talvez tudo aquilo fosse apenas um teste de paciência que a vida lhe proporcionou para que a mesma conseguisse controlar mais seu temperamento. Porém… Mais do que ela já teve? Impossível!
E ela não podia fazer muita coisa, afinal, estava no trabalho e querendo ou não, era cliente, e mesmo não tendo lido o enorme livro verde de seu tio, ela sabia muito bem que um péssimo tratamento e atendimento não era lá muito favorável para uma empresa, muito menos para os funcionários, então, o único jeito mesmo era catar o resto de paciência no fundo do posso e surtar quando chegasse em casa.
Deu um último suspiro, ainda agachada na frente do armário, levantando em seguida e dando totalmente de cara com e aquele sorriso forçado.
– E eu espero que você melhore essa sua cara de pau e essa inveja que tem da minha banda. Não será trapaceando que você me tirará do jogo.
– Jogo? Do jogo para conseguir espaço na faculdade? Ou melhor, na cidade?
– Da comp… – e logo ela se calou.
Ele ainda não sabia da competição das bandas, o anúncio ainda seria postado na quarta no jornal da universidade, vazar aquela informação seria como um atentado fortíssimo a Briana.
Nem imaginava o surto que seria se houvesse algum vazamento, a garota estava cuidando de tudo nos mínimos detalhes para fazer o grande anúncio pelo jornal, até porque, aquela notícia seria a chave para tornar o jornal mais popular, conseguindo mais likes no Instagram e claro, seria mais popularidade para ela.
não queria guerra com Briana, ninguém iria querer guerra com Briana, seria o puro suicídio.
– Jogo da popularidade, . Tornar sua bandinha mais famosa para ter mais público e adoradores cegos.
– E tem certeza de que eu sou o invejoso?
– Vá a merda. – rosnou, voltando ao balcão de preparação dos pedidos, posicionando-se ao lado de Roxy.
Desde quando mesmo que ele havia se tornado aquele completo imbecil? Os três pedidos estavam quase prontos, só faltava colocar o café do Caffeine Free, adicionar a baunilha extra no Tea Latte e colocar o leite de amêndoas no Ice Blender. analisou tentando adivinhar qual pedido pertencia a quem. Com certeza a ordem era , Dannah e Jackson. Dannah adorava baunilha e Jackson era intolerante a lactose, sendo assim, finalizou todos e entregou a com um sorriso sem mostrar os dentes. – Volte sempre.
– Espero que tenha feito seu trabalho, e sabe, sobre hoje, eu realmente…
, se você não sair daqui agora, eu juro por tudo que é mais sagrado que você sairá com esse café cabeça.
– Você sabe que aqui é um local público e que eu posso te denunciar ao seu chefe, não sabe?
– Nossa, ameaçando sua melhor amiga, ? Quem te viu quem te ver, ainda bem que caí fora desse barco de falsidade há muito tempo…
– O que eu posso fazer se você nunca deixou eu explicar a situação?
, eu não quero saber! Desiste disso, esquece!
– Tá vendo, você sempre…
– Tanto faz, caralho! Agora dá o fora daqui e some da minha vida! – a voz firme e grossa de foi tão alta que assustou todos ali, até mesmo Dannah e Jackson que estavam totalmente entretidos em seus celulares pararam para ver o que estava ocorrendo.
Sem dizer mais nada, pegou com rigidez a bandeja com os três pedidos, saindo bravamente do local sem se importar com a força colocada para abrir a porta, sendo seguido pelos outros dois. O peito de subia e descia, acalmando-se aos poucos, e tudo o que ela conseguia pensar era em como sua vida havia chegado naquele ponto.
– Uau, me lembre de maneirar sempre contigo. Receber um grito desse me cago nas calças. – Roxy comentou, embasbacada.
– Engraçadinha você, Roxy… Eu não sou de fazer isso.
– Não duvido muito, mas mudando rapidinho de assunto, acho que você errou nos pedidos. O café descafeinado ainda tá aqui, assim como o leite de amêndoas, só que a baunilha foi quase embora.
– Resolvi ajudar meus amigos, afinal, é sempre bom ter uma insônia já que ele diz que precisa tanto ensaiar, não é mesmo? – pegou o pano ao lado limpando as mãos. – E não se preocupe, com certeza o outro tem algum remédio para lactose, caso não tenha, que pena.
– E a da baunilha? – Lindsay questionou.
– Ela que lute para aguentar tanto sabor na boca.
– Cara, você é má! – Roxy comentou, esbanjando um orgulho em sua fala e trocando um sorriso confiante com .
A vingança seria aos poucos, e estava nem aí se ele voltasse ali para reclamar do atendimento, o mesmo havia pedido e provocado, ela não sairia por baixo tão facilmente. O problema foi que ambas haviam esquecido da entrada pelos fundos do estabelecimento, e não contavam com a presença ilustre de Daniel que, subitamente apareceu na porta atrás das meninas, causando um pequeno susto nelas com uma cara nada amigável.
, no meu escritório, agora!
– Merda!
, quer que a gente vá…
– Não Lindy, tá tudo bem. Continuem com o atendimento. – jogando o pano para o lado, seguiu na frente até a sala de seu tio, sentando-se em uma das poltronas que dava de frente para a mesa.
Daniel veio logo atrás, fechando a porta atrás de si e posicionando-se em sua cadeira do outro lado da mesa, só que agora, com uma feição mais preocupada. Receber sermões aos vinte e um anos não estava nos seus planos, muito menos perder o emprego que havia conquistado depois de muito pedir a ele. Como havia deixado uma situação a controlar feito marionete?
– Você me garantiu que leu o livro que te dei no primeiro dia aqui, e eu não lembro de ter nenhuma frase que dizia “grite com seus clientes”.
não é qualquer pessoa, Daniel.
– Mas ele deixa de ser seu namorado e passa a ser um cliente a partir do momento em que você está atrás do balcão, usando os trajes da loja.
– Credo, ele não é meu namorado! Por que vocês acham que todo homem com uma mulher é namorado, hein? Que pensamento mais… – pensou em dizer machista, mas lembrou que ele era também seu chefe. – antigo.
– Não quero saber, . Ele é um cliente, você não tem motivos para gritar daquela maneira! Imagina se tivesse mais clientes ali? E outra, ele pode criar uma má reputação daqui.
– Ele não ousaria. – encostou-se na cadeira, cruzando os braços. – E sim, eu tive motivos.

– Qual é, Daniel! Como se minha mãe nunca tivesse te contado nada sobre minha situação com esse garoto. – Daniel suspirou, passando uma das mãos pelo cabelo.
– Ela me contou sim, mas eu não quero que traga seus problemas para o trabalho.
– Eu não trouxe, ele que veio até a mim, infelizmente. Você sabe que não sou assim!
– Eu sei, mas , entenda. Dentro de uma área de trabalho temos que manter o profissionalismo mesmo com a nossa paciência zerada. Se fosse em outro lugar, você seria demitida na hora, e não é porque sou seu tio que eu não posso te demitir.
Não, não, não, demissão seria a última coisa que ela precisaria naquele momento. Demissão iria acabar com todos seus planos com a banda, causar um conflito terrível com sua mãe e uma mágoa extrema com ele.
se encolheu mais ainda no sofá com as mãos tapando o rosto, rezando para que ele não fizesse aquilo. Por favor, quem tivesse controlando toda a sua vida que tivesse piedade dela.
Subitamente, sentiu seu celular vibrar em seu bolso mais de uma vez. As mensagens eram incessantes, deveria ter mais de umas dez, se ela estivesse contando. Pegou rapidamente o aparelho, checando quem seria o autor daquele surto vibratório.
– Não haverá uma segunda vez, ouviu bem? – Daniel avisou, mas a atenção da garota não estava nele. Não mesmo! – , você está me ouvindo? – lia atentamente cada palavra daquela mensagem sentindo seu coração palpitar a toda velocidade.
Ela não estava crendo, na verdade, que aquilo tinha acontecido. Se aquele dia já estava pior, o dia seguinte seria pior ainda e com certeza ninguém estava preparado para aquele evento tão… surpreendente.
? – Daniel falou novamente, conseguindo chamar um pouco da sua atenção.
– S-sim, sim, eu entendi. – disse levantando rapidamente. – Eu preciso ir.
, nós estamos tendo uma conversa séria aqui!
– Eu sei, e eu já ouvi. Virei uma criança para receber sermões e castigos. Ficar aqui até tarde limpando o chão da loja.

– Daniel, já entendi. Não irá se repetir, eu prometo. No meu próximo turno deixarei esse chão branquinho. Preciso ir. – depositando um beijo na testa do tio, saiu em disparada para seu pequeno armário organizando suas coisas rapidamente. Por sorte já estava na hora de ir, acabou encontrando Roxy e Lindsay que também já estavam se arrumando, mas pararam ao ver a cara sem reação da amiga.
– Meu Deus, você foi demitida? – Roxy questionou. – Responde, !
– Não, é que… – ela não conseguiu dizer mais nada, apenas apontou a tela do celular para as meninas, vendo-as primeiro olhar confusas, mas depois entenderem o recado.

Dean🤓:


!!
Vazaram ad informaxões dax
Mue pai, prexiso mi acalmar.
Espera.
Pronto.
Já anunciaram o projeto da faculdade em parceria com a JAML, toda universidade já sabe do projeto de bandas.
Briana vai ficar uma fera!
O mais estranho é que essa informação foi através da rádio daqui, que nós sabemos que está desativada HÁ SÉCULOS!
, será que o apocalipse está perto?




Capítulo 6

– Ok, eu duvido muito que essa dupla vai passar para a final, eles não se esforçam para apresentar algo novo, parece que estão sempre no replay.
– Eles são uma dupla de pop, . Você queria o que? Que tocassem um country do nada? – colocou os dois potes de pipoca na mesa de centro, acompanhada por que trazia alguns copos e uma garrafa de refrigerante logo atrás.
– Claro que não. – respondeu, pegando uma mão cheia de pipoca e pondo na boca. – Só estou dizendo que eles passaram a temporada toda tocando quase a mesma coisa. Nem pensaram em sair da zona de conforto.
– E o que seria essa zona de conforto? – questionou.
– Mesmas batidas e músicas semelhantes, e olha que música pop tem uma variedade enorme!
– Bem, eu acho que eles conseguem a vaga para a final, e que não será com a banda de rock. – a mesma rebateu, sentando-se no chão perto do sofá.
– Por mim a mulher ganha e vai batalhar com a banda de rock. – sentada no braço do sofá ao lado de , opinou enquanto se esticava com dificuldade até alcançar um dos copos com o líquido que enchia. – Desculpa, , mas estou com o . A banda pelo menos se jogou em uns solos de guitarra irados, a mulher soltou uns falsetes incríveis, enquanto a dupla…
– Ah, qual é, eles tocaram ukulele! – protestou, virando-se para os dois. – Isso é sair da zona de conforto.
– Solos de guitarra. – levantou uma de suas mãos. – Ukulele. – baixando a outra. – Nada contra quem toca, mas fazer um solo de guitarra exige muita experiência, assim como falsetes.
– Assim como tocar outro instrumento também. – rebateu a garota, virando-se agora na outra direção. – , você tem o dever de ficar do meu lado. Qual sua opinião sobre isso?
O garoto que até então não havia dado nenhuma palavra, esticou-se na poltrona ao lado com o copo em mãos fazendo sua melhor pose pensativa.
– Concordo com . – respondeu de forma tranquila, vendo a garota fazer uma dancinha de alegria com os braços, enquanto revirava os olhos.
– Mas pera, só isso que você tem a dizer? – questionou incrédula com a pouca resposta do rapaz. Ela já estava feliz por pelo menos ter alguém que concordasse com ela, mas, alguns argumentos a mais seriam totalmente bem-vindos e bem úteis naquele momento. – Nada a acrescentar?
– Não sou crítico musical. – deu um gole em sua bebida. – Mas se deseja tanto a minha opinião, eu acho que os irmãos tem um adicional peculiar na forma de…
– Obrigada pela sua contribuição, . Próximo. – de imediato, cortou a fala do garoto, virando-se logo para a Tv, enquanto os demais riam da cena.
Agora ela lembrava o porquê que evitava de questionar as coisas a . Quando o garoto se empolgava na explicação, toda conversa virava uma palestra.
Domingos à noite já haviam uma programação fixa para eles: se encontrar na casa de alguém, preparar qualquer comida e assistir a batalha musical da JAML. O programa que já estava em sua quarta temporada ainda era bem popular no país, principalmente entre os jovens almejantes da vida musical. O sonho de passar pela longa seleção e ganhar a competição com direito a um ano de contrato com a gravadora e uma carreira de sucesso havia se tornado um sonho mundial.
– Como você pode dizer que essa banda é boa, ? Cara, nós damos de dez a zero neles! Eu sou muito melhor do que eles. – o comentário de chamou a atenção das garotas que passaram a encará-lo com uma incredulidade no olhar.
Eles nem podiam, primeiro, se intitular como banda, pois nem nome tinha e a única coisa que faziam eram tocar no quintal dos gêmeos quando tinham um tempo livre, ou no pequeno estúdio musical na casa de quando dava, e mesmo assim a harmonia musical mandava lembranças.
– Garoto? De onde vem tanta autoestima assim? – questionou, segurando a risada sarcástica.
– É uma luta pra fazer você soltar a voz, ! Você só canta em karaokê e olhe lá, quem dirá soltar a voz mundialmente. – tacou uma das almofadas no garoto que, rapidamente, conseguiu defender-se com seus braços.
– E quem disse que o papel de cantar seria comigo? O poder de encantar com o canto é todo seu.
– A pronto, ai sim que não iriamos passar nem da primeira fase.
– Garota? De onde vem tanta baixa autoestima assim? – retrucou imitando tanto a voz quanto o jeito de , fazendo a garota encará-lo com os olhos semicerrados.
– É bom sonhar alto, pena que o dinheiro faz a gente cair. – comentou, chamando a atenção de todos. – Eu acho que passaríamos sim da primeira fase, mas não da segunda por motivos financeiros.
– E é aí que você se engana, meu caro Sherlock Holmes!
– Watson. – corrigiu.
– O quê?
– É Watson, não Sherlock Holmes. Você é Sherlock, eu sou Watson.
– Tanto faz! – abanou o ar com a mão. – Se juntássemos dinheiro durante o ano e conseguíssemos um patrocínio, isso não seria mais um problema.
– E você acha que isso é fácil? – deu a voz.
– Tentar não custa nada. E qualquer coisa, eu conversaria com meu pai para dar uma força inicial.
Diante de toda interação, se mantinha em silêncio com os olhos pregados ao nada e uma feição que, pela leitura de , ele já sabia muito bem do que se tratava.
– Vou me arrepender amargamente disso, mas, , um chocolate pelos seus pensamentos. – ele falou receoso.
O sorriso de alargou-se em seu rosto. Lentamente, encarou os três seres ali presentes, saindo de sua postura totalmente esparramada no chão para uma ereta e sentada.
– Vamos criar o nome da banda!


e sua desilusão amorosa, e sua insatisfação sexual, Ava e seu trabalho fotográfico.
Esses foram os três dias em que teve certeza do quão trabalhoso e árduo era o trabalho de um padre em um confessionário ou até mesmo de uma psicóloga em dia de atendimento. Após isso, passou a admirar cem por cento o trabalho daqueles que possuíam uma paciência tremenda de sentar e apenas ouvir os demais jogarem seus problemas e pecados para fora. Já havia presenciado muitas coisas, mas nada se comparava ao que seus olhos e paciência enfrentavam naquele momento. Briana andava de um lado para o outro, mexendo e jogando seus braços em todas direções existentes, enquanto seus dedos articulavam dando apoio a sua fala exaltada. Alguns alunos tentavam encontrar um bom lugar na pequena sala do jornal para não levar um tapa na cara ou receber uma salivada com cheiro de hortelã. A fúria tomava conta da íris esverdeada da jovem e seu rosto parecia que ia explodir a qualquer momento de tão vermelho que estava.
– Eu deixei bem claro o quão importante era essa informação para o jornal, ia ser um furo e tanto! Iriamos ter mais visibilidade, credibilidade e seriedade! Passaríamos de “pessoas que só ficam em redes sociais” para “pessoas que vão atrás de informações para nos atualizar”, e o que recebo de volta é uma traição?!
Desde que as redes sociais passaram a ter mais valor no meio acadêmico do que os jornais em papel, a reputação do jornal em si caiu drasticamente. As pessoas acreditavam que era fácil fazer parte daquela equipe, bastava navegar pelo Instagram e Facebook, ver qualquer besteira que estava ocorrendo pelo campus e pronto, trabalho feito. Mas todos ali sabiam o quão árduo era produzir uma matéria e encontrar a melhor maneira de passar a informação, sem falar na questão de conseguir mais visualizações nas breves postagens nas redes sociais, e sabia muito bem de tudo isso, afinal, o trabalho de revisão e aprovação era dela.
– Briana, ninguém aqui traiu sua confiança. – Keith, a garota da seção de música se prontificou a falar, mas logo encolheu seus ombros quando o olhar feroz da garota fixou-se em si.
– Então por que toda universidade já sabe do evento?! Como a “garota da rádio” teve essa informação? – vociferou. – Me diz! Informação tem perna agora? – Kaith nada respondeu.
Os olhares arregalados, insatisfeitos e impacientes já descreviam muito bem o humor de cada um ali diante da situação.
Tudo bem que havia sido um acontecimento muito grave e que possivelmente poderia ter um traidor entre eles, mas gritar com a equipe não traria benefício algum. queria falar, dizer exatamente tais palavras, mas não estava afim de ouvir os berros incessantes da garota em seu ouvido. Não havia acordado de bom humor, na verdade, seu humor havia esvaído desde a noite anterior, então a paciência estava zerada.
– E o que faremos agora? – questionou Ryan, da seção de culinária.
Passando os dedos entre os fios embaraçados devido a intensa movimentação, Briana respirou fundo, soltando todo o ar que tinha em seus pulmões logo em seguida, tentando manter uma calma que a mesma sabia que não alcançaria tão cedo.
– Vamos manter a data da publicação, só que eu quero mudanças, quero a publicação seja enfática, algo chame muito mais a atenção do que o pronunciamento de ontem. Assim que estiver pronto, enviem para mim. Eu mesma mandarei para a xerox. – ajeitando a postura, assim como os fios castanhos claros que caiam em seu rosto, ela continuou. – E não achem que isso ficará assim, ainda irei descobrir quem fez isso.
– Por que não postamos algo sucinto no Instagram e Facebook hoje? – Pandora cochichou para que deu de ombro.
– Seria mais sensato já que a informação já foi vazada e o pessoal teria mais tempo para pensar. – respondeu da mesma forma. Pandora respirou fundo, voltando sua atenção a Briana, enquanto suas mãos, inquietas, batucavam as costas da prancheta A4 que segurava. – Por que você não fala? – incentivou. – Talvez seja melhor colocar para fora o que está pensando.
– O quê? N-não. Briana iria surtar ainda mais.
– É só uma opinião, Pam. Não é uma sentença de morte.
A menina suspirou.
– Eu sei, mas… Não sei, ela parece tão estressada...
– Podem voltar ao trabalho! – a voz de Briana pôs um ponto final naquela reunião.
Em poucos segundos, o pessoal foi se dispersando pela sala, enquanto outros saiam porta afora para suas aulas. Pandora, e ainda permaneciam no mesmo local, observando a tentativa falha da líder de voltar a sua tranquilidade.
– Sabe, nesses poucos semestres que estou aqui, jamais presenciei uma exaltação tão profunda dela. Eu até presumia que a mesma não possuía um lado tão anuviado devido a sua maneira dispersa. – o comentário de Pandora atraiu um olhar confuso de , que com uma sobrancelha erguida, questionou:
– Anu... o quê?
– Sombrio, . – respondeu. – Vou te dar um dicionário de presente.
– E eu uma gramática para vocês aprenderem a falar a minha língua. – rebateu a garota, revirando os olhos.
– Grossa! – retrucou ele, recebendo uma língua como resposta.
– Pam, eu acho sua ideia ótima, você deveria falar com Briana e perder esse medo que tem dela.
– Não é medo, , é só que…
Em meio a conversa, mal perceberam quando a garota se aproximou, juntando-se ao trio.
– Eu não acredito que reativaram essa maldita rádio. – comentou com a fúria em si, passando novamente as mãos pelos cabelos que mais se embaraçavam do que ajeitavam. – Pra que? O jornal estava dando conta das postagens, estamos tendo um bom número de acesso, não é, Pam? – Pandora rapidamente assentiu. – Então qual o motivo de trazerem esse tormento de volta?! Argh!
– Vendo por outro lado, a rádio é mais acessível já que as pessoas vão ter contato em qualquer lugar do campus. – comentou receoso, preparando-se para o ataque da garota.
– Mas o jornal também! Redes sociais, o pessoal vive com o celular em mãos! – Briana rebateu.
– Mas nas redes sociais não postamos a matéria completa. Fazemos um pequeno marketing sobre o que estará na próxima edição do jornal. Precisaríamos de algo online para ter essa facilidade que a rádio tem. As pessoas não vão atrás de informação, a informação que vai até os ouvintes e da forma mais simples e rápida possível.
E ele estava certo, tão certo que fez Briana expirar pelo nariz demonstrando toda sua insatisfação e irritação com o caso.
O que seria agora do jornal? Além de toda pressão em relação a fazer um ótimo trabalho, agora teriam que lidar com o fato de existir uma concorrência.
– Argh, odeio pressões! Meu trabalho estava indo tão bem, todo o destaque que estávamos ganhando, o trabalho duro que estávamos fazendo... – o trabalho que nós fazemos por você. Pensou . – Eu tenho que fazer algo, eu tenho que… Pandora, me ajuda!
– E-eu… B-bem… – a garota não conseguia falar, na verdade, não tinha nem o que falar. A única coisa que vinha a sua cabeça era aceitar o desafio e criar algo novo. – Bri, eu não…
– Tudo tem que ser eu! – bradou a garota. – Quem coloca ordem aqui? Eu! Quem não faz merda? Eu! Vou tirar satisfações com o Sr. Alonzo!
– Briana, seria melhor falar com o Sr. Collins primeiro…
– Aquele velho mixuruca não deve saber de nada, Pandora! Cadê ele aqui? Hein?! Pois bem, será logo com o coordenador do curso e eu não quero saber! – em passos largos e fortes, a garota se dirigiu até a porta, esbarrando furiosamente em alguns alunos que entravam ao local.
– Não sei o que é pior, uma Briana avoada ou uma Briana enfurecida.
– Uma Briana inexistente seria melhor, . – em um suspiro cansativo, Pandora ajeitou sua mochila nas costas, voltando sua atenção para os ao seu lado. – Eu vou atrás dela, se Briana der o mesmo show aqui em frente ao coordenador, vai ser um ato inoportuno. Mantenho-os informados.
– Certo, e Pam, não esquece do que eu falei. Sua ideia é boa.
A mesma assentiu de forma hesitante, saindo em disparada pelo corredor.
Não demorou muito para e fazerem o mesmo e saírem da sala. Alguns alunos perambulavam pelo longo local à espera do horário de suas aulas, enquanto outros corriam apressadamente devido ao atraso. A próxima aula que teriam seria mais ou menos em trinta minutos, então era um ótimo momento para comer algo.
– Nunca vi tanta coisa ocorrer de vez nesta universidade como tem sido esses dias. – comentou, caminhando lado a lado de , que apenas carregava sua mochila na lateral de suas costas. – E também, nunca vi Briana tão preocupada com o jornal.
– Briana está preocupada com a própria reputação, isso sim. Se você perguntar qualquer coisa que ocorre no jornal a ela, o cérebro dela dará o erro 404. Ela só fez tudo isso porque o evento era algo inédito que somente ela teve o rápido acesso, e postar a informação em primeira mão no jornal, faria com que tivesse mais procura. E claro, o nome dela estaria estampado na edição, o que levaria os professores a verem o “empenho” que ela tem, enfim, apenas ela e nada mais.
– Tenho muita pena do coordenador por ter que ouvir o blá, blá, blá dela.
– E eu de Pandora que corre feito uma sombra atrás dela. Pam faz muito mais do que Briana ali, nem sei por qual motivo ela não assume a liderança.
– Você acha que essa rádio pode atrapalhar o jornal? – questionou, mudando um pouco o assunto, enquanto parava na fila da lanchonete. – Digo, se a pessoa que comanda agora teve informações tão rápidas sobre o evento, poderá ter informações sobre outras coisas também.
– Não acho que o coordenador deixaria uma coisa interferir na outra, muito menos o Sr. Collins. Com certeza eles devem ter dado limitações a pessoa do tipo “vá atrás de sua própria informação”, “não interfira em nada do jornal”, já que uma não faz parte da outra.
– O jornal não estava dando conta? Sem falar que tem aquela teoria bizarra da sala ser amaldiçoada.
– Você fala tanto de mim por acreditar em coisas apocalípticas, mas acredita em locais amaldiçoados. – riu ironicamente, dando os ombros. – Isso é história que o povo conta.
– Estranha é você acredita em apocalipse e não acredita em fantasmas!
– Eu acredito, só finjo que é mentira para não desistir de sair de casa. Coisa que você não está ajudando muito… – protestou, um pouco impaciente do que o normal. Ela queria terminar logo aquele assunto, a rádio tinha voltado e pronto! Direito de quem estava comandando agora, e por mais que batesse uma curiosidade por saber quem era, ela tinha muitos outros problemas a resolver. Uma hora a identidade seria revelada. – A rádio só parou porque o Sr. Collins teve uma briga tremenda com a Sra. Bonnie, e quando ela se aposentou, ele resolveu não prosseguir com a rádio. O jornal sempre foi mais importante para ele.
– Tem algo muito estranho… – asseverou o garoto.
Revirando os olhos, pôs a mão na testa já imaginando o que viria a seguir. e curiosidade não trabalhavam juntos, não mesmo, principalmente se o garoto tivesse imerso nos livros de detetive ou investigação policial. Lembrava-se muito bem da última vez em que ele tentou desvendar algo. Investigar um possível relacionamento de sua irmã mais nova com um carinha de sua escola não era lá um dos melhores casos, mas ele conseguiu o que queria: a verdade, e uma cena nada agradável de vê-la na mais profunda intimidade com o cara. Resultado, quase dois meses sem Dina olhar em sua cara, e diversos pesadelos à noite.
– Nem venha dar um de Robert Langdon para desvendar sinais ocultos.
– Mas… – ele tentou rebater, mas foi interrompido pela amiga.
– Dois sorvetes de cookies, por favor. – pediu assim que o atendente se aproximou.
Não demorou muito para os pedidos estarem no pequeno balcão e ambos seguirem em silêncio até a mesa mais próxima. Jogando o pescoço de um lado para o outro, soltou um longo suspiro, sendo observada por . A coluna ereta e a boca reta eram bem evidentes.
Em questão de segundos, uma mão voou sobre o pequeno pote de sorvete posto à mesa que nem mesmo os olhos de conseguiram captar.
, o que você está fazendo? – protestou a garota, afastando a mochila da mesa para ter uma visão melhor do amigo.
– Comprovando minhas suspeitas de que toda essa irritabilidade e tensão tem nome. –ela grunhiu com aquela atitude, revirando os olhos. – Qual é, . Você pode enganar o Sherlock, mas não a mim.
A garota se esticou ao máximo pegando ferozmente o pote de volta, onde logo em seguida pôs uma grande quantidade de sorvete na boca.
! – vociferou com a boca cheia. – E não me olhe com essa cara de cansado do assunto, porque sou eu que estou farta de encontrar com ele!
– Eu não fiz nada.
– Claro que fez! Eu vi sua feiç… Merda, congelei meu cérebro!
Ele riu.
– Aquele infeliz fica me seguindo pra tudo quanto é canto, e ontem foi tirar a minha santa paz lá na cafeteria. – ela continuou enquanto tentava amenizar a dor massageando as têmporas.
– Mas lá é um local público. Ele tem direito de ir tomar um café em tudo quanto é lugar.
– De que lado você está, ? – ela firmou fortemente as mãos na superfície da mesa. – Com tantas cafeterias por ai, ele vai logo lá, exigindo isso e aquilo, e que deveríamos conversar e blá, blá, blá…
suspirou forte, ajeitando um pouco as mochilas em sua frente como se fosse uma fortaleza. Ele tinha medo do que a amiga poderia fazer e nada melhor do que se prevenir antes da fatalidade. Não era que ele gostava de ou não via problema no que o rapaz tinha feito, longe disso, ele realmente tinha sido um grande babaca, idiota, e extremamente desprezível, entretanto, acreditava que uma mera conversa pudesse quebrar o campo de ódio que havia formado envolto do coração de .
– E por que você não conversa?
Ok, talvez realmente ele não deveria ter cutucado a fera e muito menos a ferida da fera. Era muito novo para morrer e nem tinha feito metade das coisas da sua lista de “coisas para fazer antes de morrer”. Quem iria escrever seu próprio livro e transformá-lo em roteiro? Como iria adotar um furão e nomeá-lo de furinho se estivesse caixão?
Mas o olhar aceso e mortífero, junto com a mandíbula trincada de já indicava que seus sonhos seriam interrompidos ali mesmo.
, c-calma, é s-só que v-você… Ai meu Odin… é, você conversando libera esse peso.
– Eu não quero liberar peso, , só quero esquecer a existência dele. Por que vocês não conseguem ver o quanto que esse garoto me odeia?!
– Eu acho qu…
Sem nem esperar a resposta, pegou sua mochila, pondo-a em seu ombro, marchando em direção ao prédio. Não iria ficar ali ouvindo lero-lero sobre o que ela deveria ou não fazer. Sua decisão já estava tomada e agradeceria se as pessoas a respeitasse. O fato era que não exista mais nada entre e ela que teria que ser resolvido, absolutamente nada. Ele teve todo o tempo do mundo para rever a situação, mas não moveu um palito. Todo o carinho e afeto que ela tinha por ele estava enterrado a sete palmos do chão e sem chance de desenterro. Jamais pensara que alguém pudesse enganá-la como o mesmo fez, ele brincou com seus sentimentos, mentiu por todos aqueles anos de amizade, literalmente descartou da pior maneira um companheirismo que por ela, duraria anos. Mas a questão que não saía de sua cabeça era: Por que ele desperdiçou tanto tempo de sua vida em uma mentira, e por que ele continuava atrás dela?


Ao chegar no corredor de aulas, adentrou rapidamente ao banheiro para checar sua aparência matinal. Cachos ao alto em um coque mal feito, a pouca maquiagem contendo apenas corretivo, blush, rímel e gloss - que agora já sumia dos seus lábios devido ao sorvete -, e seu velho uniforme para dias calorentos composto de calça jeans rasgada, uma regata preta, um casaco preso a sua cintura - era muito incomum sair sem algum agasalho mesmo em dias escaldantes - e seu vans preto favorito. Look perfeito para sobreviver a mais um dia na terra.
Deu uma última checada encontrando na porta que, ao perceber a presença da amiga, fechou seu livro e seguiu ao seu lado sem falar nada.
Era melhor realmente ficar calado do que causar seu próprio velório.
O corredor já começava a lotar e, para infelicidade de ambos, a aula era na última sala. Pessoas se batiam e espremiam para chegar a tempo, era impossível não ter um contato físico naquele ambiente longo e estreito, entretanto, foi um corpo veloz que confirmou essa teoria. Por sorte, as mãos ágeis de evitaram a queda que a pessoa sofreria.
– Meu Deus, desde quando aqui se tornou pista de treino para maratona? – ele brincou, entre risos, segurando a garota pelos braços.
! – exclamou de forma surpresa, limpando a garganta logo em seguida.
Seu corpo ainda estava de frente para o garoto que permanecia na mesma posição, encarando-a com um sorriso amistoso. Um aroma cítrico, suave, que com certeza tinha um leve toque de limão invadiu sua narina tirando-lhe um pouco do foco, mas ao perceber então que seus três livros eram as únicas coisas que estavam entre ela e o garoto, afastou-se rapidamente tentando manter a postura firme.
– E eu achando que eu estava péssima essa manhã. – comentou vendo que nem mesmo o velho batom vermelho estava no presente nos lábios da amiga que trajava uma vestimenta toda preta, tendo apenas o desenho verde na blusa longa como destaque.
– E-eu saí de casa apressada. – gaguejou um pouco, checou as horas no relógio de pulso.
Ela estava atrasada. E como estava!
– Te mandei mensagem ontem, mas voc…
– Estava sem celular. Longa história. Briguei com . – deu um riso rápido. – Depois nos falamos melhor, babycakes. Beijos. – ao longo que sua voz ia sumindo entre o burburinho da multidão, a imagem também foi se perdendo entre as pessoas de forma rápida, devido a sua pressa.
– Realmente o dia está bem estranho. – disse por fim, continuando seu caminho com que mantinha seus olhos semicerrados.
Realmente estava muito estranho.


♪♪


Duas horas de aula se resumiam em um pedido para tirar a alma da sala e deixar apenas o corpo, principalmente quando o professor apenas insistia em falar e falar, achando o dono da razão. Não era à toa que o nome da matéria tinha fama de prática da comunicação com o sono, e os alunos realmente conseguiam atingir as profundezas de seus devaneios. Por sorte, a aula seguinte havia sido cancelada pela professora, decretando assim a paz mundial entre a paciência de e seu sono.
Ânimo, ânimo que hoje ainda é terça e a semana só está começando! – a voz abafada e ruidosa tomou conta dos corredores.
Parando bruscamente, pôs a mão para que fizesse o mesmo, chamando atenção da garota.
– Ah, não… – sua frase foi interrompida pelo longo dedo indicador do amigo que olhava atentamente para a pequena caixa de som nos cantos das paredes amarronzadas.
– Shiii…
Uma coletânea de música será tocada durante os intervalos para que vocês possam relaxar e curtir o momento. Em breve abriremos um meio de comunicação para que vocês possam pedir as músicas que desejam. E agora vamos para as notícias! A cantina principal passará a servir mais opções de comida vegetariana após a reunião dos coordenadores. Ao que indica, a partir da semana que vem serão ofertados…
– Não consigo reconhecer a voz. – indignado, comentou estreitando os olhos.
– Mas é claro, cabeça! Por acaso você conhece as vozes das mais de dez mil pessoas que existem neste campus? Ou mais até...
– Mas pelo menos é uma garota, não é?
– Não sei, . – respondeu impaciente. Por que ele não podia deixar aquela história de lado e voltar apenas a se encucar com suas leituras investigativas? – A voz tá bem abafada, e a pessoa usou “abriremos”, ou seja, pode ser mais de uma. Mas vamos deixar isso pra outra hora e aproveitar a cantina vazia. – choramingou.
… e não esqueçam que amanhã começa a inscrição para o campeonato musical. Lembrando que a banda ou artista que obtiver a maior aprovação e afeto do público universitário, receberá um patrocínio da nossa universidade! Não esqueçam que as vagas são limitadas, então corram! – Não é possível…
– Não é possível digo eu, homem! Fica ai com sua paixão platônica, eu vou alimentar meu bucho!


William ✌:
Cadê vocês?!
Já estou na mesa.


🙋:
Já estou chegandoo

Guardando o celular de volta a parte frontal da mochila, continuou seu caminho sem a presença de . Por um lado, acabou sendo até bom para ela, já que não estava no seu melhor dia e, querendo ou não, o fato do dia anterior havia a irritado ainda mais. Não era possível que parte dela ainda se irritava com as provocações de . Todas as vezes que ele ia a seu encontro era para irritá-la, provocar, a tirando do sério, e tudo bem que antigamente o passatempo de ambos era irritar um ao outro, mas não havia mais graça, muito menos sentido para ele continuar com as antigas brincadeiras.
Chega, acabou, game over!
Suas ações só a deixava mais confusa e com uma vontade tremenda de arrastar aquela carinha bonita no asfalto.
Gostaria de ser uma fortaleza, daquelas inquebráveis que nem um canhão seria capaz de destruir, ou apenas ter traços de capricórnio, principalmente aqueles associados a serem um livro fechado. Com certeza tudo seria diferente se ela fosse um livro trancado a sete chaves, principalmente no primeiro semestre da faculdade.
A caminho do refeitório, a presença de uma Dannah ouvindo tranquilamente música com um dos fones de ouvido enquanto girava o outro lhe chamou atenção. Os longos fios de cachos abertos estavam metade solto e metade preso em um coque mal feito, como ela sempre gostava de usar. Desde que a conhecia, sabia o quanto Dannah adorava fios longos, ela mal cortava aquelas madeixas, mas também, mal cuidava. Shampoo, condicionador e um creme qualquer, e pronto. Era uma ofensa para as cacheadas de plantão, tanto que as visitas constantes de na casa da garota, anos atrás, foi uma salvação quando a mesma resolveu clarear algumas partes, resultando em cachos virando ondas.
Realmente já tinha um bom tempo, pois nem mesmo as partes claras existam mais. Percebendo a atenção de em si, Dannah a retribuiu com um olhar enraivecido, enquanto seus lábios permaneciam retos, sem expressão. Era nítido de que algo no dia anterior havia ocorrido com seu corpo e sabia muito bem que tinha a ver com o excesso de baunilha. Isso foi a deixa para que curvasse uma das laterais do seu lábio para cima formando em um belo e confidente meio sorriso, vendo os olhos da garota ao seu lado arderem ainda mais. A porta do refeitório foi o que as separaram, onde Dannah seguiu para o lado direito, enquanto seguiu em direção a Will que mexia distraidamente seu celular um pouco a sua frente.
– Que bicho que te mordeu? – o garoto perguntou sem tirar os olhos da tela.
– A turma do bolinha com uma Luluzinha intrometida. – sentou-se de frente para o rapaz.
– O que aconteceu? – a íris cor de mel do amigo passou a encará-la por cima dos óculos que ele mal usava.
Era raro, muito raro vê-lo com aquele acessório, ainda mais na universidade, mas a armação preta e retangular só complementava mais a beleza que Will escondia.
Como aquele garoto não se sentia bonito?
Alto, musculoso, careca, mas com uma fina e curta camada de fios pretos que insistiam em permanecer em sua cabeça; olhos intensos e uma personalidade misteriosa e única. William era sinônimo de mistério com um toque de intriga.
contou por alto sobre a ida de na cafeteria, suas provocações, e principalmente a vingança que havia preparado para o trio.
– Você sabe que vingança atraí vingança, não é mesmo? – Will cruzou os braços sobre a mesa.
– Foi uma vingança necessária.
– Que vingança? – a voz questionadora de soou pelo ambiente que começava a ter um certo burburinho, enquanto a mesma sentava ao lado de . – William, visual novo? É para…
– Enxergar, porque não quis colocar lente de contato. – respondeu de forma curta.
Ele já sabia o que vinha a seguir e não estava nem um pouco afim de debater sobre sua aparência e vida amorosa.
Ele nunca estava afim.
– Isso só ajuda mais as garotas a te observarem, grosso! – ele revirou os olhos em pura impaciência com o comentário dela.
– Vem cá, tá fugindo da polícia por algum acaso? – comentou voltando-se para a amiga.
– Não, por qu… aaaah! Foi mal não atender a ligação de ontem, meu pai forçou e eu a termos uma noite de interações que se estendeu até meia noite.
– E deu certo?
– Se ficar olhando um para a cara do outro com cara de cu é dar certo, bem, foi perfeito!
– O que houve? – Will questionou.
– Tivemos uma discussão, longa história, mas é a mesma coisa de sempre.
– Me sinto mal por tudo isso. – comentou, cabisbaixa.
– Você pode parar por ai, garota. Irmão brigam, se batem, se xingam…
– Mas não vocês.
– Garota? Somos irmãos e não seres do planeta “boa convivência”. Você esqueceu que eu tive que dividir por nove meses a barriga de minha mãe com aquele ser? Brigamos desde de lá, e outra, ele tem mais culpa no cartório do que eu, então pare!
– Mas…
Uma lufada com aroma de papel acertou em cheio o nariz de fazendo-a dar um pulo para trás da cadeira. O pequeno jornal de apenas sete folhas e tamanho A4 estampava uma imagem com algumas pessoas tocando instrumentos musicais e o logo da JAML em grande destaque.
– Briana mudou de ideia, publicou o jornal hoje já com a notícia. – a voz de soou entre os três.
Um sorriso amistoso se formou na face de ao lembrar do que havia dito a Pandora. Se aquela postagem estava ali era porque a garota enfrentou Briana e jogou a ideia na mesa. Era bom saber que Pam estava saindo das sombras da garota, ela precisava fazer isso caso quisesse ser vista e reconhecida. Mas prontamente seu sorriso desfez ao lembrar de não ter recebido nenhuma mensagem sobre a publicação do jornal e muito menos da matéria. Briana havia dado o aval sem ao menos consultá-la, sendo que aquele era seu trabalho, ela era a responsável pela revisão dos conteúdos!
Mesmo sendo a “líder”, a garota não tinha esse direito.
abriu rapidamente a folha na área da reportagem, passando o olho pelos textos ali escritos.
– Só que as inscrições abrem hoje. – anunciou o garoto, sentando-se à frente de que prontamente respirou fundo.
– Como assim abrem hoje? – bradou . – Era para ser amanhã, hoje era só para postar o informativo nas redes sociais! Meu Deus, essa garota enlouqueceu?!
– Hoje pela manhã, sim!
– Como o senhor Collins permitiu isso? Ele, ele…
– E se é aquele ele sabe, . Mas eu entendo o lado de Briana, ninguém iria quer ter uma informação vazada dessa maneira. – você entende todo mundo, . Pensou . – Tô dizendo que a garota da rádio precisa ser encontrada.
– Garota? Como você sabe que é uma? – rapidamente questionou.
– Ele supõe que é uma. – corrigiu . – Aproveitando vocês aqui, me ajudem a tirar essa ideia maluca dele de investigar quem está por trás dessa rádio!
– M-mas gente, pra quê?
, pense bem, se descobrirmos quem é a pessoa, conseguiremos evitar com que isso ocorra novamente. A rádio e o jornal podem trabalhar juntos!
– Claro que não! – protestou . – Você sabe da treta que envolve ambas, senhor Collins jamais aceitaria isso!
– Ele tem que seguir em frente para as coisas darem certo, ! Se resolver com sabe-se lá quem!
Da forma que havia falado, sentiu bem a dupla conotação em sua frase.
– Não me venha confundindo as coisas! Nem tudo tem solução, e se o jeito que o senhor Collins achou de seguir em frente foi esquecendo a rádio, ninguém pode julgar! Ele tem os motivos.
– Só estou falando a verdade, e pare de achar que tudo agora tem duplo sentido. Caso contrário as coisas vão piorar.
E dali só foi ladeira abaixo. e começaram uma discussão que estava sendo impossível de acompanhar. Pessoa da rádio, senhor Collins, brigas passadas, aceitação, era tanta coisa, tanta informação que William não sabia para quem mais olhar e desistira de entender, voltando sua atenção para o celular, enquanto permanecia estática, sentindo seu coração palpitar mais rápido do que nunca. Suas mãos subiam e desciam por suas pernas e uma tensão havia instalado em seus ombros. Em um impulso, pegou sua mochila da mesa, retirando-se rapidamente, mas sua saída discreta foi impedida quando segurou em seu pulso.
– O que foi?
– E-eu tenho que ir. Lembrei que tenho uma atividade para fazer para a aula da tarde.
– Mas você nem almoçou. – comentou .
– Eu tenho alguns biscoitos na bolsa, açúcar ajuda no metabolismo.
– Mas isso não é almoço. – protestou o mesmo.
– Claro que é, ! – o garoto se encolheu na cadeira pela forma firme e brusca de , que logo se arrependeu pelo modo que falou, baixando o olhar. – O que vocês decidirem da banda está ótimo para mim, qualquer coisa me manda mensagem.
Apertando levemente o ombro de , seguiu rumo a saída do mesmo modo que saira mais cedo, no corredor.
Em meio a tanta turbulência e informações, de uma coisa estava certo, aquele dia estava sendo extremamente estranho. Era raro de ver sair de si. Havia apenas dois momentos que tiravam do sério e a fazia se esconder em sua toca: TPM ou trabalhos estressantes. Mas tudo bem, tentaria conversar com a mesma mais tarde para saber o que de fato estava ocorrendo. Ao ver a amiga desaparecer do seu campo de visão, pretendia retomar o olhar aos dois garotos que mantinham o foco também na porta do local, só que a presença de quatro pessoas sentadas em uma mesa próxima lhe chamou atenção. Claro que estaria encarando-a como costumava fazer quando estavam em um mesmo ambiente. Dessa vez, Dannah estava sentada de frente para ele, tendo ao seu lado e Jackson na frente. Tal posição era perfeita para a observação do garoto, e começara a se questionar por quanto ele estava daquele jeito e o quanto que havia prestado atenção na conversa, se é que havia conseguido. Seus olhos se encontraram por um instante e ao contrário do modo como Dannah a encarou mais cedo, e principalmente do que havia imaginado sobre o que aconteceria caso o encontrasse, sua feição não esbanjava um ódio ou fúria, longe disso, a inexpressividade era a peculiaridade estampada em sua face.
Boca reta, olhos intensos e um pouco caídos, e mesmo de longe era possível notar uma pequena meia lua na bolsa dos olhos onde a cafeína, supostamente, seria a culpada. O mesmo pedaço de papel que havia jogado na frente de minutos atrás também se encontravam em suas mãos, e não foi difícil de saber qual página lhe chamou atenção.
Não… ele não ia se inscrever também no campeonato, iria? Não seria justo, ele tinha condições de entrar no concurso da JAML, ele tinha recursos, ele… estava sorrindo, um sorriso confiante, um sorriso de que entendia os pensamentos de , um sorriso de que iria se inscrever no concurso também.



Capítulo 7

sentiu um alívio quando viu o ponto final naquela tão trabalhosa carta para a universidade. Mal acreditara que ano seguinte sua vida tomaria um rumo diferente e longe da caótica e agitada Los Angeles, tendo finalmente a liberdade que sempre sonhou de morar sozinho.
Baixou a tela do notebook, recolhendo os rascunhos na mesa os deixando alinhados no canto. À noite ele voltaria e revisaria ainda mais o texto com cautela antes de juntá-lo com os demais documentos de envio. Seu relógio de pulso amadeirado herdado de seu avô marcavam quatro e vinte da tarde. Em poucos minutos a galera já estaria ali para ensaiar e ele mal havia ajeitado o estúdio, sendo assim, colocou seu celular no bolso após checar as mensagens, seguindo em direção a vasta escada de granito preto que se encontrava no meio da casa ligando o segundo andar a ampla sala de mármore branco com manchas amarronzadas, e paredes brancas preenchida com pinturas clássicas de bordas douradas. Ideia de sua mãe, uma amante nata da arte. Não era à toa que a mesma trabalhava em uma das melhores galerias de artes da cidade, administrando ainda um dos museus mais conhecidos dali. Prosseguiu para o fundo da casa onde um pequeno estúdio de academia estava montado onde era o “mini estúdio musical” de seu avô. Seu pai havia herdado aquele imóvel após o falecimento do senhor anos atrás, deixando o restante da herança a seus irmãos. Claro que se não fosse por isso, jamais viveriam em uma casa tão espaçoso como era aquele lugar. Tudo havia sido fruto do trabalho árduo e produtivo de seu avô, um ex produtor musical.
– Vai demorar muito ai? – fechou a porta de correr atrás de si, sentindo o gelo do ambiente bater contra seu rosto.
Como sempre, o ar-condicionado do lugar estava em dezesseis graus.
Seu pai que puxava uma barra de cento e cinquenta quilos não parou o trabalho duro. Seus músculos pulsavam sobre seus braços dando a sensação de que iriam explodir a qualquer momento.
– Vai se aquecer para treinar? – questionou o homem, arfando.
– Não, a galera está vindo ensaiar, preciso usar o estúdio. – apontou para a porta ao fundo.
Havia sido uma decisão de toda família sobre preservar o estúdio em memória ao senhor , mas a única mudança ali feita foi em relação ao tamanho que acabou sendo reduzido para construir a pequena academia.
Deixando a barra de lado, Steven levantou-se ficando à altura do filho, enquanto passava um pequeno pano em sua testa encharcada.
– Não era para você estar fazendo sua carta da universidade? – questionou.
– Finalizei o rascunho a pouco tempo.
– E por que não finalizou a carta? – rolou os olhos.
Já sabia até onde aquela conversa iria chegar e como iria terminar.
Cabeça borbulhando, irritação à flor da pele, e um estresse entre ambos que resultaria na frase mais comum dita por seu pai: você poderia se esforçar mais.
Se passar quase um mês pensando naquela bendita carta não era esforço, bem, o que seria então? E não que não fosse esforçado, pelo contrário, enquanto garotos da sua idade estavam curtindo todos os finais de semana entre amigos, bebidas e festas, ele priorizava seus treinos na piscina e a boa reputação escolar com foco na universidade. Não somente ele, mas toda a família tinha um sonho de ingressar ele e seu irmão em uma das melhores instituições do país, então para isso ocorrer, era necessário esforço, algo que ele possuía até demais. Mas claro que ele tinha que tirar alguns dias para viver a vida, curtir a adolescência e fazer o que gostava, e aquele dia era o dia perfeito para isso.
Respirando fundo, ele respondeu:
– Porque minha cabeça já está doendo, e eu prefiro revisar em outra hora, e também já tinha marcado com o pessoal de ensaiar hoje.
– Você tem que colocar suas prioridades em primeiro lugar, não estou dizendo que não deve se reunir com o pessoal, mas…
– … você deve se esforçar mais. – completou , enquanto via seu pai tomar um longo copo d’água.
– Não fale com essa voz irônica.
– Não estou. – mentiu. – Só repeti o que você vive dizendo há anos. Eu tenho me esforçado, mas também tenho que fazer o que eu gosto, e tocar com a banda me agrada.
– Mas isso não vai te levar a nada, . A sua entrada para a faculdade que irá, a sua natação, e até mesmo o seu curso irão fazer diferença na sua vida. – pegando suas coisas e passando por ele, Steven depositou a mão no ombro do filho, falando antes de sair. – Não brinque com sua vida.


– Viva Joshua! – o coro de felicitações tomou conta da sala, enquanto o garoto dos cabelos castanho escuro, em forma de topete, apagava suas dezoito velas em cima do bolo recheado de glacê branco com letras grandes e coloridas formando “FELIZ ANIVERSÁRIO”.
– Nem acredito que meu bebê vai para faculdade também. – Monica, mãe dos garotos, choramingou, abraçando o filho de lado enquanto uma de suas mãos apertava o rosto do garoto contra o dela.
, aproveitando o momento, largou um assobio fino que fez seu irmão pular de susto.
– Um viva para a candidatura! – Steven ergueu a taça de champanhe, sendo acompanhado pelos outros três ali presentes.
– E juízo nessa nova fase. – completou dando um peteleco na cabeça de Josh que rapidamente tentou revidar.
– Juízo que você não tem? – retrucou Josh.
– Juízo que garantiu minha volta à Los Angeles e meu ingresso no time de natação, idiota! – respondeu em um tom orgulhoso.
Voltando-se a sentar à mesa, Josh partiu um pequeno pedaço do bolo, como seguia a tradição, deixando o resto do trabalho a sua mãe que aos poucos, serviu cada um.
– É tão bom estarmos todos reunidos juntos nesta noite. – ela comentou com sua voz doce. – Que bom que conseguiu dormir aqui hoje conosco, .
– Sabe como é, o bom filho à casa retorna, e mesmo sendo um dia comum, sem nada importante, pensei, “por que não?”. – encarou Josh de forma divertida que logo retrucou com um dedo do meio. – Que coisa feia, Josh. Mãe, cadê a educação desse garoto?
– Ah, mas vocês parem! E Josh, pare com isso, não é porque é seu aniversário que não irei brigar com você!
– Mas… – ele tentou, mas o olhar de sua mãe foi mais forte fazendo-o se aquietar.
esbanjou um sorriso extremamente vitorioso antes de pôr um pedaço de bolo na boca, enquanto seu irmão silabava um “você me paga”.
Aquilo era muita nostalgia e diversão para uma noite só.
– Mas e você, , como andam os estudos? – e só faltava a cereja do bolo vindo de seu pai para tudo estar completo.
– Está bem, continuo treinando, estudando... – faltando algumas aulas – … ensaiando…
Desde que entrara na faculdade, evitava ao máximo expor o que fazia, o que acontecia em sua vida, principalmente sobre sua vida acadêmica a seus pais. Ele já era grande o bastante para cuidar de sua própria vida e arcar com as consequências dela, mas parecia que seu pai ainda o via como o da infância, adolescência, que tinha que viver para os estudos e não para si próprio. Foi por tal motivo que havia optado por continuar morando em uma residência estudantil quando retornara à cidade, a bolsa que havia ganhado com a natação tinha o ajudado no valor da universidade e suas despesas ficavam por conta dos bicos que fazia com a banda. Ainda assim seus pais insistiam em depositar uma pequena quantia todos os meses para ajudá-lo, o que era muito bom, mas evitava de tocar muito no dinheiro, só em caso de emergência, queria provar para si mesmo de que era possível viver por conta própria.
Em outras palavras, o orgulho falava sempre mais alto.
– Sabe que pode retornar quando quiser, não sabe? A porta sempre estará aberta.
– Eu sei, mãe. – trocou um sorriso amistoso com a mulher de cabelo castanho e curto. – E morar lá tem sido até bom. Meu colega de quarto é legal, não me atraso muito para as aulas, – às vezes, pensou – participo dos eventos, – e principalmente das festas – e tenho treinado mais.
– Que continue assim, meu filho! Seu futuro será brilhante! – em frente aos holofotes? Claro! pensou por fim, dando um breve sorriso.
Mas sua visita naquela noite não era apenas para o aniversário de Josh, claro que foi o principal motivo, mas a competição da JAML era algo que rondava sua mente desde que ele e a banda passaram para a segunda fase. Eles tinham condições de se manterem na competição, um trabalho aqui, juntar mais dinheiro ali e perfeito, e mesmo sabendo que a universidade estava dando uma ótima chance, não estavam tão dispostos a encarar um desafio antes de um pior ainda. Tudo seria mil vezes melhor se seu pai fosse o patrocinador. Teriam mais recursos, facilidades, principalmente visibilidade e torcida pelos contatos que seu pai tinha com empresas e micro negócios, mas como falar com ele sem que houvesse nenhum surto ou chatices com suas frases prontas?
Bem, teria que tentar, já havia dito a Dannah e a Jackson que iria fazer isso após saírem da cafeteria, então era tudo ou nada.
– Falando em brilhante… – ótimo jeito de começar, se crucificou em seus pensamentos. – ... esse ano tem o concurso anual da JAML, e eu e o pessoal nos inscrevemos. – o olhar repentino de Steven foi a razão pela qual um arrepio correu por sua espinha, mas ele continuou com a voz firme. – A universidade tá com uma proposta de patrocinar um artista ou banda, mas é por voto popular, então pensei… – umedeceu os lábios com a língua, respirando fundo antes de continuar – ... por que não perguntar a meu pai se ele não pode nos ajudar com um patrocínio? Já que você conhece muitas pessoas...
Esperava que aquele simples discurso ajudasse e fosse o bastante para receber um “sim”, entretanto, viu apenas Steven apoiar seus cotovelos sobre o vidro da mesa de seis lugares, enquanto curvava seu corpo um pouco pra frente para poder vê-lo melhor, já que sua mãe estava entre eles. A seriedade estampada na face de seu pai já entregava a que aquele trabalho seria muito mais difícil do que a bateria de 50 metros livre com obstáculos na água.
– Que tempo você terá para treinar, estudar, e participar disso, ?
– O tempo que sempre tive? – respondeu de forma retórica.
– Pra que isso? Por que não foca no seu futuro ao invés disso?
respirou fundo.
Porque era a porcaria da vida dele, porque era algo que ele gostava, amava. Porque tentar não custava nada! Quer dizer, um pouco, talvez.
O que custava a ele dar uma chance? Apenas uma chance! E se Steven não acreditava que a banda não era coisa boa pro seu futuro, por que diabos continuava oferecendo locais para eles tocarem? Por que sempre o convidava para as festas, falava da banda para seus amigos e sempre no final do show os elogiava?!
– Eu sabia que isso ia dar errado. – sussurrou para si mesmo, jogando o corpo e a cabeça para trás, enquanto suas mãos pousavam em sua testa.
– Mundo da música é difícil, você sabe disso! – Steven continuou, mas não iria ficar ali ouvindo aquele lero-lero, não era obrigado a suportar tudo aquilo novamente.
Um simples “não” já bastava, pronto!
Simples, rápido e fácil!
– E quem disse que eu quero algo fácil? – rebateu , que em um pulo, levantou-se da cadeira pegando a garrafa de champanhe que ainda se encontrava pela metade, imersa no balde cheio de gelo. Aquilo seria uma boa ajuda para sua noite. – Eu espero que um dia você confie em mim e nos meus sonhos, assim como meu avô aceitou a sua carreira. – vociferou antes de seguir caminho para seu antigo quarto.

A porrada de um travesseiro não era a melhor maneira de ser acordado, principalmente quando cada pálpebra dos seus olhos parecia ter ganhado um quilo de peso a mais. Com dificuldade, permitiu-se enxergar a claridade do ambiente, vendo uma figura totalmente conhecida a sua frente, carregando um copo cheio de água.
– Nem ouse. – avisou com sua voz rouca, mas suas palavras foram em vão quando sentiu o líquido frio tocar sua face. – PUTA MERDA, JOSH! O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA?!
– A inteligência que você não tem e a vingança perfeita pela noite de ontem. – grunhiu, passando fortemente os dedos pelos olhos pesados e molhados. – Eu deveria ter feito algo pior por ter deixado um clima péssimo na mesa, mas sei muito bem como nosso pai é complicado para aceitar as escolhas do outro.
Ele já sabia que seu irmão se referia a sua própria sexualidade. Não havia sido fácil contar a Steven que um dos seus filhos era bissexual e que já tinha se relacionado com um homem. Foi logo quando se mudou para São Francisco e a única “solução” momentânea que seus pais acharam para processar tudo aquilo foi mandar Josh para passar uma semana com seu irmão. jamais vira Josh tão cabisbaixo e sem ânimo, era como se alguém tivesse arrancado seu velho Super Nintendo e incinerado aquela relíquia. Foi difícil de ajudá-lo, estava receoso com o que aconteceria à sua volta, mas com o passar dos meses as coisas foram esfriando e a aceitação chegando aos poucos.
– Eu não entendo, Josh. Uma hora ele tá me elogiando pelos shows, e na outra ele barra qualquer tipo de sonho que vá além de palcos de bares.
– Ele ainda possui a mentalidade antiga de que para ter sucesso na vida é necessário de um diploma, mas ele mesmo esquece que estamos em tempos diferentes, cara.
– Tão antiga que pega parte das finanças e monta uma academia sem ter diploma na área?
– E quem disse que precisa ter diploma para abrir algo?
– A mesma pessoa que disse que carreira musical não dá em nada! – colocou os pés para fora com dificuldade, sentando-se em seguida na beira da cama, ficando de frente para Josh. – O jeito é usar meu dinheiro mesmo ou trabalhar.
– Ou participar do concurso da sua faculdade. O que foi? – indagou ao perceber a careta que o irmão fazia balançando a cabeça de forma negativa.
– É muita coisa para fazer, e esse negócio de voto popular, conquistar o pessoal... argh, é uma merda. Um sorteio seria muito mais fácil.
– Mas não era você que não queria facilidade? E outra, você vai passar por isso depois, só que para milhões de pessoas. Pense nessa oportunidade como um treinamento.
– É diferente, Josh, você não entenderia.
– Ah, a velha frase de alguém que sabe que está errado. No final das contas, você deve tá com medo de competir.
– Ah não, nem comece com seus desafios!
– Medo de outra banda ser boa e tomar seu lugar. Com certeza! Ou, de você ser rejeitado. É isso! Rejeição, não é? – fechou os olhos apoiando sua cabeça em suas mãos.
Quais pecados havia cometido na vida anterior? Se fosse um jeito de pagar por eles, preferia ter sua alma levada do que continuar ouvindo novamente sermões.
– Não é isso, Josh.
– Admita, . Não precisa ficar escondendo seus sentimentos, tem outra banda que vai participar que você tá com receio de ganhar?
E logo uma imagem de veio em sua mente.
Não sabia bem o motivo, mas a cena da garota em cima do palco com seus cachos soltos, cantando com o corpo e alma, jogando sua simpatia e talentos nos versos das músicas continuava rondando sua mente.
Será que estava preocupado com isso? Dela conseguir e... Não, ela não iria participar, ou iria?
Será que ela iria?
Com certeza iria!
Não era de sua natureza perder algo que estava praticamente gritando “oportunidade” bem a sua frente. era a pessoa mais determinada que ele conhecia, se queria algo ou alguém a desafiava, ela ia até o fim da batalha para conseguir o prêmio. Mesmo gerando um pouco - ou muita - teimosia e perseverança, a garota era difícil de desistir, mas por incrível que pareça, achava tal atitude uma de suas melhores qualidades.
Uma pontada logo atingiu sua cabeça, piorando ainda mais o pesar dos olhos. Céus, será que seu fim estava próximo? Não era para levarem a sério quando falou sobre levarem sua alma. Estava difícil de manter a concentração e principalmente seus olhos abertos, entretanto, sabia muito bem o motivo do seu problema e não foi a meia garrafa de champanhe que o deixou acordado quase a noite toda.
– Pense bem, . Não custa nada tentar se é algo que você realmente queira. – Josh lhe tirou de seus devaneios, caminhando até a porta. – E outra, desde quando meio litro de champanhe já te derruba? Você costumava ser mais forte!
Ele ainda era, mas não quando o assunto se tratava de cafeína.


♪♪


Era como se o efeito do café tivesse deixado completamente seu corpo, permitindo com que o acúmulo de sono mais o pouco do álcool da noite anterior passasse a dominá-lo. A luta para se manter acordado durante a primeira aula foi intensa, a cadeira da última fileira no canto do auditório foi sua escolha e ali, permitiu-se tirar um pequeno cochilo abaixando a cabeça coberta pelo capuz do seu moletom, que se prolongou até o final da aula. O pigarro alto do professor próximo a si foi seu despertador, e os olhos fixos e severos do homem foi o aviso de que mais problemas poderiam surgir. Saindo rapidamente dali, e dando as diversas desculpas ao professor alto e careca, seguiu em direção ao banheiro jogando água desajeitadamente em seu rosto na tentativa de se manter aceso. Ainda tinha que aturar mais duas aulas e um treino de duas horas e meia pela tarde. Não podia estar daquele jeito, era capaz de se afogar na piscina e sua morte nem seria por asfixia, mas sim, pelas mãos do seu treinador.
Mas nada adiantou.
Pelo reflexo no espelho pôde observar as meias luas inchadas abaixo dos seus olhos e suas pálpebras ainda caídas, sua pele estava um pouco mais flácida, principalmente na região da testa que possuía leves dobras devido ao esforço que fazia para forçar os olhos a não apagarem de vez. Ele não ia aguentar, a professora que o desculpasse, mas sua presença seria em outro local. A mesma sala em que costumava filar aula com Jackson foi a escolhida. Ficava no corredor da secretaria e as aulas só ocorriam lá em caso de emergência.
Escolhendo uma das cadeiras do canto, deixou-se levar pelo sono, mas sem antes se crucificar pelo maldito café. Como ele não havia sentido o gosto da cafeína? Como?! E maldita tinha sido por ter armado aquilo contra ele, a garota claramente sabia dos seus problemas com a cafeína, costuma utilizá-la apenas para virar a noite quando precisava fazer trabalhos, os resultados do dia seguinte eram sempre péssimos, quase um zumbi de Resident Evil. Se caso um dia eles precisassem de uma inspiração ou figurantes para um filme, ele seria a escolha perfeita após um belo copo de café.
Acabou acordando com a vibração de mensagem do celular onde uma nota de apareceu no visor informando que estavam no refeitório. Seu corpo ainda suplicava por mais algumas horinhas de sono em um local mais confortável, ficar com a coluna encurvada só serviu para lhe deixar com os ombros e pescoço doloridos, e uma dor infeliz nas costas.
Entre idas e vindas de alunos, onde alguns se acomodavam na vasta grama verde, aproveitando a pouca sombra de uma das árvores, ainda se arrastava um pouco para andar, mas acabou parando bruscamente quando um braço segurando alguns papéis parou em sua frente.
– As inscrições para o concurso iniciam-se hoje. Se você é artista ou tem uma banda, aproveita! – a garota que segurava um dos exemplares do jornal com um sorriso extremamente largo no rosto lhe entregou o jornal, enquanto uma pilha de papéis mantinham-se presos em sua outra mão contra seu corpo.
Mesmo sonolento, foi impossível não reparar naquele sorriso tão contente e amistoso, e em seu modo animado de falar. Seu cabelo black estava preso em um coque alto e volumoso, deixando duas pequenas tranças caírem de cada lado do seu rosto, passando pela frente dos óculos arredondados e prateados com um ar vintage que complementava seu estilo.
Um pouco atordoado, e sem saber se era pela beleza da garota ou pelo sono, pegou o exemplar, agradecendo com a cabeça e retribuindo com um sorriso, seguindo em direção ao seu ponto final.
Como ele nunca tinha a visto por ali?
A multidão o empurrava sem dó nem piedade, o arrastando até o refeitório onde logo encontrou as três figuras à mesa.
– E eu só pensava que zumbis existiam na ficção. – comentou segurando o riso, encarando que deu uma risada debochada, jogando o jornal na mesa.
– E eu só pensava que você abria essa boca para falar coisas de coisas necessárias. –rebateu, sentando-se ao lado de Dannah.
– Eu só quero saber o que aconteceu para você chegar neste estado de calamidade, meu querido.
– Tá pior do que a última ressaca. – comentou Jackson em um tom brincalhão, mas apenas bufou, deixando toda sua indignação sair pelo ar da boca.
Deveria ter realmente optado pelas horas extras de sono na cadeira desconfortável. Escondendo o rostos nas mãos, deixou-se afundar sua face nelas, deslizando os dedos pelas laterais da face.
– Foi aquele maldito café. – disse em uma voz um pouco abafada. – Aquela porra tinha cafeína. Passei à noite em claro e ainda tomei metade de uma garrafa de champanhe sozinho.
– Alguém deveria demitir aquela garota. Por conta dela, nunca mais quero ver baunilha em minha vida. Passei horas achando que iria fazer uma lavagem estomacal pela boca de tão enjoada que fiquei. – Dannah disse, revirando os olhos.
– Eu fiz, só que por outro lugar. – com sua voz indignada, Jackson continuou. – Tão incompetente que nem sabe trabalhar.
– Jackson, eu pensei que você fosse mais inteligente. – riu sem ânimo, sentindo um pequeno incômodo nas palavras do rapaz. realmente tinha usado seu lado da vingança. – Parabéns, você foi sorteado com uma vingança da nossa queria .
– Ela ainda lembra que meu corpo odeia lactose? Maldita!
deu de ombros, fechando a cara por um momento. Por mais complicada que toda aquela situação fosse, um incômodo pesava em si quando ouvia alguém falar mal de ou rebaixá-la. Não, ela não trabalhava mal, ela não era uma maldita com tom rancoroso, ela só era vingativa, e muito, e sabia utilizar os momentos à seu favor, mas com todas aquelas atitudes, ela realmente estava pedindo para que “maldita” entrasse na lista de suas características.
– Mas e aê, conta como foi ontem com o seu velho. Ele vai nos ajudar com a banda? – Dannah lhe tirou dos pensamentos, o colocando em outra situação que gostaria ao máximo de evitar.
– Ajudar a nos virar, isso sim. – deu um longo suspiro. – Ele chegou com a mesma história de sempre de que hobby não leva a nada, mas o diploma te dá o mundo.
– Seu pai precisa decidir se apoia a banda ou não. – ela continuou. – Então de volta ao plano A.
De fato, não havia muito o que fazer, o jeito era cada um achar um trabalho e juntar o máximo de dinheiro possível. Entretanto, as palavras de Josh continuavam martelando em sua cabeça: será mesmo que ele tinha medo da rejeição ou era um péssimo competidor?
Bem, na verdade, dependia do tipo de competição já que na piscina ele se garantia.
Sua atenção saiu da pequena sujeira na mesa para a imagem de que passava às pressas, um pouco ao seu lado, em direção a saída do local. A garota parecia apreensiva e afobada, com uma feição que exalava preocupação pegando desajeitadamente o aparelho telefônico na bolsa. logo pegou o celular do bolso o encarando com uma estranha expectativa, mas a tela permaneceu escura. Não, ela não ia mandar mensagem como sempre fazia quando estava em um péssimo dia, eles não estavam vivendo mais os velhos tempos onde em qualquer situação, mandava a localização para que ele pudesse ir lá e confortá-la. Não sabia mais o que se passava na vida da garota, a não ser pelos breves comentários e reclamações vindas de .
Não soube bem o porquê, mas logo seus olhos voltaram-se para trás encarando a imagem de que ainda observava a amiga sumir entre a multidão, e por um momento, seu olhar pousou no dele. O mesmo olhar frio, antipático e sem o brilho que ela passara a ter quando o via, sem a boa e antiga camaradagem de quando se olhavam e já entendiam o recado um do outro. Mas mesmo assim ela continuava a mesma , com seu coque no topo da cabeça enquanto seus cachos saiam desajeitadamente por ele e alguns cobriam seu rosto; uns bem definidos e outros amassados, meio desajeitados, mas charmosos. Com certeza a mesma não havia penteado o cabelo pela manhã, o coque havia sido a saída para não se atrasar, ela sempre fazia aquilo e reclamava por horas sobre o quanto odiava desembaraçar o cabelo. Ela era a mesma , a mesma garota que criava uma revanche como ninguém, mas nenhuma que chegasse a utilizar seu ponto fraco como arma.
Realmente tinha apelado para um jogo baixo e sujo.
Pôde perceber o bate e volta que ela fez ao olhar o jornal que ainda estava à sua frente.
Jornal, o concurso, a banda… Então ela iria participar...
Claro que iria.
Foi quando uma ideia surgiu em sua mente e um sorriso confidente e desafiador brotou em seus lábios.
Ele sabia exatamente o que fazer.

♪♪


– Sério? Não foi você que disse que esse tipo de concurso não era grandes coisas e que era melhor guardamos o nosso tempo ensaiando? – Jackson questionou ao seu lado, mostrando um mix de indignação e confusão pela mudança repentina de .
– Ué, pessoas mudam de ideias e tentar não custa nada.
– Ok, cara, mas não poderíamos fazer isso depois? Você deveria estar no treino. – assim como , Jackson também era atleta, só que de futebol.
Sua bolsa foi garantida após um olheiro se impressionar com sua agilidade de defesa no gol durante um campeonato interescolar. Quando a oportunidade bateu à sua porta, não pensou duas vezes em se dedicar mais ainda ao esporte, trocando a ideia de cursar design por Educação Física, mas sem deixar o amor pela guitarra de lado.
– Uma vez na vida não mata ninguém.
– Eu não acho que… – Jackson deixou a frase morrer ao perceber que apressava ainda mais seus passos, quase correndo, em direção a enorme mesa posta no corredor no térreo do prédio administrativo.
Quatro pessoas estavam sentadas à mesa entregando a ficha de inscrição para que o fluxo fosse ainda mais rápido. Por sorte, não havia fila e uma das pessoas estava livre. Ao se aproximar, o jovem ruivo lhe entregou amistosamente a ficha, lhe passando algumas informações a respeito sobre como prosseguir e preencher. Sua grande surpresa não foi com a facilidade daquele processo, mas sim, com quem estava ao seu lado.
– Veja só, não perde uma oportunidade. – pegou uma caneta próxima a garota, curvando-se para preencher o formulário.
A jovem que lhe encarava há pouco tempo atrás prontamente deu um pulo ao ouvir a sua voz, e não conteve a risada diante da situação.
Recompondo-se, e revirando os olhos, como sempre, ela proferiu de forma ríspida:
– Veja só, você está tomando o lugar de alguém que realmente precisa.
– E você precisa? – encarou-a de soslaio.
– Esqueceu quem eu sou, ?
– Você acha que eu esqueci, ? Opa, . – ela bufou, impaciente, dando uma rápida olhada para ele pelo canto dos olhos.
– Você esqueceu muitas coisas, , principalmente a sua consideração e humildade pelas as pessoas.
riu, mas não foi um riso baixo e muito menos forçado, foi um riso espontâneo e incrédulo que acabou chamando atenção não somente dos atendentes, mas de , que passou, agora, a encará-lo de forma questionadora. – Virei palhaça agora?
– Talvez, é que seus discursos divergem tanto da realidade que chega a ser cômico. E ah, muito obrigado por ter colocado sua humildade em meu café. Fico feliz em saber que ainda lembra que meu corpo ama cafeína, estava precisando realmente de uma noite em claro para tomar essa decisão. – ironizou. – E agora, se me der licença, irei inscrever minha banda. – pegando o papel, saiu do local sem esperar por Jackson.
Não sabia muito bem para onde ir, mas tinha que ser em qualquer lugar que pudesse respirar e aliviar toda aquela tensão e má sensação que estava sentindo. Seus pés batiam fortemente no chão e sua boca ainda se mantinha reta com a feição séria, quem passasse por ele com certeza imaginaria que havia fracassado em alguma bateria de natação ou alguém havia pisado em calo.
– Você praticamente cuspiu as palavras na cara dela. – Jackson comentou assim que conseguiu alcançá-lo, parando em um canto mais afastado do prédio.
– Eu sei. – passou as mãos pelos fios um pouco longo do cabelo.
– Parecia que ela ia soltar raios dos olhos a qualquer momento.
– Eu sei.
– Sério, ela…
– Eu sei, Jackson. Ela está puta da vida, e não conseguimos nem ter uma simples conversa! Nunca!
O garoto semicerrou os olhos encarando , cruzando os braços.
– E pra que você quer conversar com ela? , qual é, a garota te odeia!
– Eu sei! E acha que sou desumilde por seguir meus sonhos, quem ela pensa que é?! – àquela altura, já bradava de forma intensa, quase cuspindo fogo pela boca, enquanto andava de um lado para o outro.
– O que é que tem? Que diferença faz a opinião dela na sua vida?
abriu e fechou a boca algumas vezes procurando por palavras, mas não conseguiu proferir nada. O problema era que a opinião dela fazia muita diferença desde o dia em que ele percebeu que seu coração batia fortemente quando seus olhares se encontravam.

♪♪


Jogando sua mochila no pé da cama e seu celular no pequeno criado mudo, atirou-se de costas no colchão, sentindo o macio lhe envolver em um abraço confortante. Finalmente uma superfície na qual poderia descansar sem lhe causar dor.
Tudo o que mais queria agora era um pouco de paz e sossego.
– Ei, você chegou. – Connor, seu colega de quarto britânico e companheiro de treino, saiu do banheiro enxugando o cabelo de tom aloirado escuro, trajando apenas uma bermuda verde militar que ia até o joelho. – Não foi treinar hoje por quê?
– Meu corpo faleceria se eu entrasse na piscina. É uma longa história, mas resumindo, o dia foi cheio e complicado.
– Espero que o treinador entenda seus motivos, porque ele não gostou muito da sua ausência. – declarou, terminando de vestir uma camisa branca de manga curta, dirigindo-se até sua parte para pegar o restante de seus pertences. – Mas falando sério, . Não falte mais, o campeonato está se aproximando e não quero ser prejudicado na nossa bateria em dupla, muito menos desapontar a equipe. Mas bem, precisando de qualquer coisa, é só falar. Estou indo jantar com o Mason, quer vir?
– Não, estou bem. Vou tomar um banho e apareço por lá antes do refeitório fechar. – Connor assentiu, saindo em seguida, mas logo voltou, colocando apenas a cabeça para dentro do quarto.
– Esqueci de avisar, o treinador quer falar contigo. Pediu para que o encontrasse na sala dele ou hoje ou amanhã.
concordou com cabeça, e quando percebeu que estava sozinho no cômodo, expeliu todo ar dos pulmões deixando toda tensão daqueles dias sair de seu corpo, se aquilo realmente fosse possível. Parecia que a cada notícia as coisas só pioravam mais ainda. Não esperaria pelo dia seguinte para matar sua curiosidade ou sofrer novamente, se fosse para ter um dia “merda” que ocorresse tudo de vez. Aproveitando que ainda não se passava das seis, e Michael - seu treinador - com certeza estaria em sua sala, tomou um rápido banho, pegou um refrigerante em uma das máquinas presente no térreo da residência e seguiu rumo em direção a sala do treinador que ficava perto da piscina esportiva. Alguns nadadores ainda treinavam, e não foi difícil encontrar o homem alto e robusto que mais lembrava um Henry Cavill da vida, só que com fios de cabelo meio grisalhos.
– Minha sala, agora. – anunciou, deixando sua pequena prancheta na bancada sem ao menos esperar o garoto se aproximar.
Marchou até a pequena sala logo na entrada do corredor, esperando que entrasse primeiro para assim, fechar a porta atrás de si e parar de frente a sua mesa carregada de papéis.
– Olha, eu sei que… – pretendia continuar sua fala, mas as palavras acabaram morrendo no meio do caminho quando Michael começou a mexer no computador de forma irritadiça, virando bruscamente a tela para sua direção.
– Sabe o que é isso? – questionou da mesma forma em que seu humor estava: irritado e impaciente.
– Uma lista de presença? – deduziu, vendo vários nomes e números em uma tabela, e principalmente o seu, que era um dos primeiros.
– Sabe quantos vermelhos você já tem? A média! Mais uma ausência e você perde a matéria por falta, ! – bradou, erguendo seu corpo, caminhando em direção a um dos armários de vidro que ocupava boa parte daquele local. Entre livros e medalhas, alguns porta-retratos exibiam várias equipes, em épocas distintas, mostrando orgulhosamente suas medalhas para a foto. – Nós temos uma reputação e temos que continuar com essa reputação. Aqui não é colegial que professor fica atrás de aluno, . Quando eu te aceitei na equipe, ofertando a bolsa, foi porque eu gostei de você e principalmente da sua dedicação, mas você está botando tudo a perder com suas faltas e até mesmo suas notas.
Ok, qual era a do destino que resolveu transformar suas noites em sessões de lições de moral sobre sua vida e o que ele tinha ou não que fazer? Primeiro seu pai, depois seu irmão, depois que o chamou de desumilde, e agora seu próprio treinador estava agindo como um deles. Por que as pessoas insistiam em tomar conta de sua vida? Ele não era mais criança, sabia das consequências e matar aula algumas vezes não era tão mal, e nem lembrava de ter faltado tanto.
– Eu tive uns problemas ontem à noite, por isso que faltei o treino hoje. Não acredito que tudo isso esteja ocorrendo só porque uma simples cafeína resolveu derrubar meu corpo!
– Então todos os dias ocorre isso? Porque se a resposta for sim, já começo a achar que está sabotando seu corpo para não comparecer aos compromissos.
– O que? Claro que não! – falou rapidamente tentando conter a altura de sua voz. – Sério, eu tive uns problemas ontem à noite. – e hoje pela manhã, pela tarde, e agora à noite, pensou. – Olha, se faltar o treino foi tão sério assim, beleza, não faltarei mais.
O problema era que Michael parecia não o compreender, e muito menos aceitar suas desculpas. A cada palavra dita o homem encarava o teto e respirava fundo.
– Espero que esteja falando sério, porque do mesmo jeito que você recebeu a bolsa, você pode perdê-la.
Agora aquela conversa estava indo longe demais. Perder a bolsa significaria mais conflito com seus pais e tudo o que ele menos queria naquele momento era entrar em guerra com a família. Seus pais não pagariam a anuidade da faculdade, não mesmo! A felicidade de ambos quando souberam da oferta da bolsa em São Francisco foi tremenda, e quando o assunto se voltou a Los Angeles foi como ganhar na loteria. Puderam então guardar suas economias para a faculdade de Josh, que ingressaria em pouco tempo. Perder aquela bolsa iria desestabilizar tudo o que havia conquistado.
– Calma, não precisa chegar a esse extremo.
, quando te fiz a oferta da bolsa, eu expliquei as exigências e circunstâncias, e deixei bem claro sobre as notas e as presenças. Se você não cumpre, você perde.
respirou fundo. Só queria sair daquela sala, comer e capotar na cama. Tentar esquecer todos aqueles problemas nem que fosse por curto prazo, sua mente precisava de um descanso.
– Ok, treinador, não se preocupe que nada disso irá se repetir. Estarei presente em todos os treinos e em todas as aulas.
Só não prometo me manter acordado toda a aula, pensou.
Mas era como se algo não estivesse certo, pressentia aquilo, e a mordida no lábio inferior que Michael deu, juntamente com a forte inspiração que inflou seu peito, já informava que tinha caroço naquele angu.
– Durante esse mês você não precisa vir todos os dias para os treinos. – os olhos de se arregalaram, mas depois se transformaram em pura confusão. Uma hora ele reclamava sobre sua presença e na outra reduzia a sua presença? – A coordenadora soube do seu caso e pediu para conversar comigo. Ela não está lá muito contente com suas atitudes, mas consegui limpar sua barra, só que você terá que fazer um favor para mim. – passou a mão pelos cabelos, engolindo seco.
Mil pensamentos começaram a surgir em sua cabeça. Será que ele iria pedir para que limpasse toda a área da piscina? Não… ele mal sabia utilizar aqueles produtos de limpeza. Talvez servir de assistente… Não seria tão mal fazer favores como pegar papéis ali, ir atrás de tal pessoa, entregar um cafezinho na hora do intervalo… ou seria?
– Você ficará responsável pela parte de esportes no jornal. Estão precisando de alguém urgentemente lá, e enquanto não encontramos um candidato certo para essa vaga, você será o substituto temporário.
só faltou morrer com a saliva presa em sua garganta pelo peso da informação. Conseguiu disfarçar bem o pequeno sufocamento apenas com um pigarro, enquanto suas mãos não sabiam onde parar.
Ele não era jornalista, odiava aquela área! Nunca havia sido bom em redação e criar textos era pior do que resolver cálculos de química. Ele seria um caos, um apocalipse para o mundo jornalístico, o próprio desastre em pessoa.
– Mas eu não sou jornalista! Nem gosto dessa área, na verdade, eu nem sei o que fazer!
– Não é nada demais, só preciso que a coordenadora me deixe em paz com esse assunto, e você já está aqui há um bom tempo, sabe dos eventos esportivos, então, por que não? – baixou a cabeça de forma insatisfeita. – Não estou satisfeito com isso, preferia você aqui na piscina do que lá, mas é juntar o útil ao agradável. Você está na berlinda, então é isso ou sua bolsa.





Continua...



Nota da autora: Olá, xuxus!
Sei que atrasei um pouco nos capítulos - talvez muito, sorryyy -, mas para compensar, trouxe uma atualização dupla!
Espero que gostem, obrigada pelos comentários, amo saber o que estão achando da história!!
See you soon, xoxo

Ps: Ah, se acharem algum errinho, sintam-se livres para falar <3




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