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Última atualização: 05/01/2021

Prólogo

Eu sentia cada batida de meu coração mais acelerada a cada passo que eu dava. O sangue era bombeado por cada uma de minhas veias em um frenesi desenfreado que causava uma sensação de que meu rosto pegava fogo. Uma pontada em minha nuca demonstrava a pressão cada vez mais elevada e a cada segundo meu cérebro gritava em meus pensamentos exatas quatro palavras.

Você está sendo seguida.

No entanto, cada vez que olhava para trás, procurando, esperando descobrir onde estava meu perseguidor, utilizando meus sentidos aguçados para obter uma certa vantagem, eu encontrava o vazio e isso deveria me tranquilizar visto que, não, era apenas uma paranóia tola, mas não. Era como se não poder ver aumentasse a tensão em meus músculos, fizesse meu sangue ferver e meus órgãos se retorcerem.
Eu costumava pensar que minha espécie havia sido agraciada pela natureza, numa comparação com as outras, já que podíamos escutar passos dados a vários metros de distância com nitidez, bem como o momento exato em que as frequências cardíacas aceleravam. O olfato apurado me permitia sentir cada odor em sua forma completa e as flores eram sempre as minhas favoritas, bem como chocolate quente em uma manhã fria e a hemoglobina, meu vício desde que eu havia nascido. Só de pensar nesta última, eu conseguia até mesmo vê-la correndo pelas veias e sentia minha garganta secar, ansiando pelo seu gosto. Durante a noite, não havia exatamente como se esconder de alguém como eu e refletindo sobre todas essas características eu só podia amar ser quem era.
Era uma pena que nem todos viam assim, principalmente os que não eram como eu. Estes deixavam que o medo os cegasse e o preconceito criasse uma barreira entre nós. Ser da minha espécie era carregar o veneno russo em meu DNA.
De uma forma perturbadora, meus sentidos aguçados pareciam não funcionar naquele momento, a adrenalina pulsava com cada vez mais intensidade, eu engolia em seco, tentando me livrar daquele maldito nó na garganta, então suspirava e tentava me convencer de que não havia como ser atacada por algo invisível, que se realmente houvesse alguém me seguindo, eu saberia. Repetia meu mantra de que tudo estava bem e tentava me lembrar de qualquer música que eu pudesse cantar e que fosse capaz de me distrair. Ironicamente, eu não lembrava de nenhuma, eu mal conseguia raciocinar qualquer coisa que não fosse aquele medo repentino.
Virei mais uma vez para trás, sentindo que minhas costas formigavam como se algo não só estivesse atrás de mim como respirava muito próximo à minha pele. Mais uma vez, eu encontrei o vazio.
— Sua cabeça está lhe pregando peças, só isso — resmunguei, pigarreando para que minha voz saísse com mais clareza e repetindo as palavras mais uma vez. Na primeira, eu não havia soado convincente o suficiente.
Soltei o ar mais uma vez e não soube se era realmente o frio que me fazia tremer ou o medo. Talvez os dois. Numa tentativa falha de esfregar uma palma na outra para me esquentar, acabei dando um pulinho pelo susto ao ouvir o som de passos. Não era ninguém, se fosse, eu conseguiria detectar mais do que o seu caminhar. Definitivamente, era coisa da minha mente cansada. Não podia mais perder o tempo de olhar para trás e me deparar com apenas o nada. Aquilo era apenas o efeito de mais uma noite fria daquele inverno longo e impiedoso.
Assoviei ao virar a esquina, me sentindo mais confortável com um pouco mais de iluminação naquele trecho. As luzes daquela rua estreita deixaram meu coração mais quente. Eram apenas luzes amareladas e fracas saindo daqueles postes envelhecidos. No entanto, estava me sentindo segura e bem com aqueles feixes que conseguiam iluminar o suficiente para eu poder ver que realmente estava sozinha. Era bobeira demais da minha mente. O vento estava forte também, o frio parecia conversar com a noite escura. Uma conversa alta e sombria.
Senti o ar começar a diminuir quando tive que virar novamente, mesmo que meu destino estivesse próximo, conseguia sentir as batidas do meu coração acelerarem como se ele fosse sair do meu próprio peito. Parecia uma maratona e eu só precisava chegar em casa. Não estava longe, não era impossível. Não tinha nada atrás de mim. Mas a sensação de que tinha alguém realmente respirando bem na minha nuca se apossou de meus poros mais uma vez. Um sussurro no meu ouvido dizia que eu não conseguiria chegar a tempo.
A mente realmente era traiçoeira. Meu medo sussurrava no meu ouvido e ele era mesmo manipulador, tão manipulador que me fez apertar os passos naquela corrida entre o medo e eu. Só tinha nós dois ali, naquela rua vazia. Meu medo, a lua escondida entre as nuvens com formatos abstratos naquele céu escuro, sem estrelas por ser apenas mais uma maldita noite de inverno. Ouvi os solados dos meus sapatos gritarem no asfalto quando parei de imediato, me deparando com uma sombra que não era a minha.
Virei na mesma hora e realmente não tinha nada ali, apenas a sombra de um poste. Era só o poste.
Gritei no instante em que algo passou pela minha perna e saltei para o outro lado. Um gato preto daqueles que viviam em lixeiras. Ele tinha os olhos arregalados e verdes. Eles me olhavam como se tivesse visto uma assombração.
— Você que me assustou, não foi o contrário aqui não. Nem me olha assim também — mostro a língua para ele. Suspirando, soltando todo aquele ar que eu tinha praticamente engolido a força. Notei que ele tinha se eriçado um pouco mais, seus pelos mais em pé do que o normal de um gato estar e isso fez eu juntar minhas sobrancelhas levemente. Só conseguia pensar que poderia ter algo de errado comigo, já que eu não havia notado nem sinal daquele animal antes de ter o contato físico com o bichano. Seria o medo ofuscando o alerta quando deveria dispará-lo?
Então o gato apenas soltou um miado alto e exagerado, na minha opinião. Estávamos sozinhos e ele que tinha me assustado, mas aquele som me deu uma impressão clara de que ele estava brigando com outra coisa. Outro predador.
Rolei meus olhos com o pensamento, fechando mais o casaco no meu corpo e voltando para o meu caminho. Estava quase em casa e aquilo tudo iria acabar. Poderia dizer que venci aquela noite fria e vazia. Sentia saudades das noites de verão, onde nesse horário ainda teria crianças nas ruas.
O ar saiu dos meus pulmões de forma mais pesada ao notar que os postes da minha rua estavam com problemas de novo. Sem luz mais uma vez. Justo naquela noite, naquele momento. E novamente aquele arrepio na espinha me lambeu. Mas ele veio mais forte, realmente como um aviso de que talvez eu estivesse errada a noite toda. Algo dentro de mim berrava que eu realmente não estava sozinha. Puxei o ar com certa pressa, começando a correr porque daquela vez eu não queria mesmo olhar para trás e ver se estava ou não sozinha.
As coisas ao meu redor passavam como um borrão e eu sentia como se meu coração desse um salto até a garganta. Minha casa estava a cada segundo mais próxima, eu sabia disso e minha busca pelo alívio e segurança de minha residência era só o que me movia naquele momento. A ideia de que dentro de alguns segundos nada poderia me fazer mal e eu teria um bom banho quente levando embora qualquer resquício daquele trajeto. Eu não sabia o que havia dado em mim naquela noite, não sabia se eu estava mesmo sendo seguida, mas não era como se eu quisesse descobrir.
Avistei a fachada de minha casa a alguns metros e quase ri ao encontrar a grama de meu quintal. Toda vez que minha mãe vinha me visitar, ela reclamava que eu precisava dar um jeito naquilo, mas quando eu conseguia uma folga do trabalho eu só conseguia pensar em dormir tudo o que eu não podia durante a semana.
Parei de correr assim que cheguei à minha porta, colocando as mãos em meus joelhos, respirando fundo enquanto tentava recuperar meu fôlego. Minhas chaves estavam em algum lugar da minha bolsa e quando fui procurá-las me praguejei porque nunca colocava em um bolso específico, era sempre jogada de qualquer jeito em meio a todas as outras coisas. Viver com pressa dava nisso. Por que minhas mãos tinham que tremer tanto? A ameaça havia ido embora, eu estava sã e salva na minha casa, só precisava abrir aquela bendita porta e… O barulho de algo se movendo atrás de mim fez com que eu retesasse meu corpo, endireitando minha postura e engolindo a seco. Onde estavam aquelas chaves? Por que eu tinha que ser tão desorganizada? Mordi minha boca, temendo olhar para qualquer lado que fosse, paralisada de repente. Adiantaria se eu corresse? Se eu gritasse? Eu conseguiria fugir com as coisas agindo de forma estranha dentro de mim? Meus sentidos não funcionavam, então eu deveria deduzir que a velocidade acentuada estaria do mesmo jeito, mas… E se fosse apenas aquele gato maldito? Era impressão minha ou a grama havia se mexido?
Se minha respiração não estivesse ruidosa demais ou se o pânico não me paralisasse daquele jeito, talvez eu conseguisse prever o que aconteceria a seguir. Talvez eu nem tivesse saído do trabalho naquela noite se soubesse que eu nunca mais tornaria a entrar em minha casa.
Primeiro eu senti algo me puxar para trás, agarrando meus cabelos com tanta força que eu senti como se meu couro cabeludo fosse arrancado junto com os fios. Meus olhos se encheram de lágrimas, eu senti que engasgava e o grito que eu queria soltar jamais saiu.
— Por favor… — era o que eu queria dizer, mas a minha voz parecia ter sumido e eu tive quase certeza de que uma risada havia ecoado em meus ouvidos, se deliciando com o meu desespero. Solucei, tremi, tentei me debater, implorando por um resquício de misericórdia.
Então, com um empurrão violento, meu corpo foi lançado na calçada, a mão agarrou meus cabelos com ainda mais força e de repente eu senti como se meu crânio se partisse quando minha cabeça se chocou contra o chão uma, duas, três vezes. Na primeira, a dor lancinante denunciou os ossos de meu nariz se esmagando, na segunda, minha mandíbula já não tremia mais com os meus soluços, eu não tinha mais nenhum controle sobre ela. Já na terceira, bem, na terceira, eu implorei para que tudo aquilo acabasse. Para que a morte me abraçasse e levasse a dor.
Meus cabelos foram puxados mais uma vez, como se quem quer que tivesse me atingido quisesse olhar o estrago que havia feito em meu rosto. Dessa vez, eu ouvi com clareza a risada diabólica que ecoou e quando consegui abrir meus olhos o mínimo possível eu vi, vi as feições de quem me atacava, de quem havia feito aquele joguinho de perseguição, como se temperasse a presa antes do golpe final. Não havia nada além de maldade naquele olhar.
Então eu senti o golpe final, muito mais brutal do que os outros.

Estava acabado.


Capítulo Um

O barulho da cabeceira da cama batendo contra a parede me incomodava um pouco, o que só me fazia ir com mais força para que os gemidos dela invadissem o quarto. Meus dedos afundaram mais em sua pele, segurando sua cintura fina com um pouco mais de precisão. Sentia gotas de suor escorrendo pelo meu peito e costas. Talvez pelo corpo todo, mas tudo que eu realmente queria sentir era o meu pau pulsando dentro dela. Além daquele barulho, de repente não tão incômodo assim, agora seus gemidos aumentavam pela excelente ideia dela de rebolar contra meu quadril. Meus olhos se reviraram por dentro das minhas pálpebras de tanto tesão.
No momento que vi que a mão dela tinha escapado da cabeceira e ela tentaria sair daquela posição, não deixei. Segurei seu quadril com as duas mãos agora, a puxando contra mim com um pouco mais de brutalidade. Em resposta, ela apenas soltou um gemido mais alto. E antes de meter de novo deixei a palma da minha mão bem marcada em sua bunda, voltando a segurá-la pra meter mais forte, ouvindo uma risadinha por ela ter batido a cabeça na cabeceira com isso. Quase soltei um “ops” com isso, mas estava com muito tesão pra soltar algo além dos meus grunhidos.
Fiz a curva de seu corpo, subindo minhas mãos pela lateral dele até uma de minhas mãos conseguir agarrar seu cabelo comprido, enrosquei algumas mechas na minha mão e puxei com força, fazendo seu tronco vir para trás e ela sair daquela posição de quatro. Com a outra mão fiz questão de explorar sua barriga até subir para o meio de seus seios. Puxei seu cabelo para o lado esquerdo, para poder ter acesso ao seu pescoço exposto, onde não fui nem um pouco delicado com os chupões. E parece que nem ela se importou já que rebolou ainda mais gostoso no meu pau.
Não me segurei em agarrar um de seus seios, esfregando minha palma no mamilo que estava extremamente duro, me deixando com água na boca para chupar com vontade. No entanto, me controlei em apenas deixá-lo no meio dos meus dedos pra poder apertar seu seio com tanto desejo que tive que sair de dentro dela pra meter com mais força. Senti meu corpo estremecer quando mais uma vez ela rebolou seu quadril contra o meu, me instigando a continuar naquele ritmo. Apertei seu seio com mais força, mordendo meus lábios e deixando que meus grunhidos ecoassem cada vez mais altos naquele cômodo.
Me curvei sobre ela, deixando um chupão forte em um de seus ombros, não resistindo e não querendo parar por aí. Desci até um pouco abaixo de suas costelas e deixei uma mordida ali, outra vez não me importando com delicadeza porque eu estava com tesão demais para isso. Escutei um gritinho ecoar dos lábios dela e sorri cheio de malícia porque ela tinha gostado. Voltei a subir minha boca até seu pescoço, deixando o ar sair ruidosamente naquela região, soprando contra sua pele e metendo com mais força, sentindo que meu pau ia tão fundo dentro dela que precisei de uns segundos para me manter firme. Agarrei sua bunda com força, deixando minhas unhas curtas rasparem sua pele, abrindo-a para que eu pudesse ver com mais clareza meu pau entrando e saindo de dentro dela.
Senti que faltava muito pouco para que eu explodisse de prazer e olhando a curva deliciosa de seu corpo eu senti uma vontade absurda de gozar naquela bunda. Ninguém mandava ser tão redonda e deliciosa. Do jeito que aquela mulher estava me deixando, o problema seria eu parar de gozar. Aumentei o ritmo, metendo com cada vez mais velocidade, fechando meus olhos com força e ouvindo o barulho da cama batendo cada vez mais alto. Os gemidos dela também aumentaram e eu sabia que a qualquer momento ela também gozaria bem gostoso.
De repente, ouvi um barulho muito conhecido e quis acreditar primeiro que era coisa da minha cabeça, mas quando o som irritante e estridente ecoou mais alto, com o tom característico que eu não poderia recusar nem se estivesse morrendo, eu quis explodir quem estivesse do outro lado da linha.
Era a porcaria do meu celular. Por que eu não desligava aquela merda mesmo? Ah, porque eu não podia.
— Puta que pariu — soltei, sentindo que puto não era o suficiente para me definir naquele momento. Desabei em cima da garota, respirando fundo porque meu pau chegou ficar dolorido de frustração, então me levantei da cama, dando um jeito de catar logo aquela bosta.
— O que é? — atendi, de qualquer jeito, sem nem olhar direito para a mulher deitada na minha cama. Olhar para ela só me faria ficar mais irritado. Suspirei, passando a mão por meus cabelos e tentando não desejar a morte de ninguém. — Me diga que isso é uma emergência.
É uma emergência, — eu deveria ficar em alerta ou qualquer coisa do tipo, visto que era a voz do meu chefe do outro lado, mas eu não estava nem aí. Interromper uma foda daquele jeito que deveria ser crime federal. Como ele ficou sem falar mais nada, eu bufei e quis cortar o papo furado de uma vez.
— Se é uma emergência, seria bom dizer logo do que se trata — se eu corria o risco de levar uma advertência ou qualquer merda desse tipo falando daquele jeito com meu chefe? Com certeza, mas, de novo, eu não estava nem aí.
Já estou vendo que alguém acordou de mau humor. Há uma ocorrência no Armazém 54 da Lincoln Street.
Tá certo que minha foda já estava arruinada, mas saber que eu tinha que sair da minha casa em horário que nem era o do meu plantão já era demais.
— Porra, isso é sério? Cadê o povo que faz plantão nessas horas, chefe? — resmunguei, querendo a caveira de todos eles.
Tá todo mundo em ocorrência, , mas mesmo que não estivessem, esse é uma de suas especialidades — bufei bem alto ao ouvir aquilo. Aquela porra de delegacia não vivia um dia sem mim mesmo.
— Você me deve uma foda — foi o que eu acabei soltando, conformado de que não tinha jeito, eu teria mesmo que ir para o local de crime.
Estou mandando a localização para seu telefone. Vá para lá o mais rápido possível — nem me despedi e desliguei o celular, catando as minhas roupas pelo quarto e vestindo com pressa. Passei as mãos em meus cabelos, apenas os puxando para trás e verifiquei se as chaves do carro estavam no bolso da calça mesmo. Então só aí reparei que a garota ainda estava deitada na porra da minha cama ainda, olhei para ela e abri meus braços.
— Estou com pressa demais pra te acompanhar até a saída — estalei os dedos para ela fazer o que tivesse que fazer. — Bate a porta quando sair, tá?
Rolei meus olhos com a lerdeza dela. Ela não viu que eu tinha me vestindo? Não ia terminar de foder de roupa. Bufei pelo caminho, já vendo que meu humor não ia melhorar nem com dois litros de café. Tirei as chaves do bolso, as girando em meus dedos e olhando para a lua rapidamente, sem estrela alguma mais uma vez. Inverno longo esse mesmo. Destranquei o carro, não demorando nenhum segundo a mais para ligar e dar partida.

🕵🏻


Era uma emergência como ele havia me dito. O caralho de uma emergência no meio da porra da noite. Inferno! Bati no volante, ligando o rádio para ver se tocava alguma música que prestava. Mas todas só me deixavam com mais tesão e mais raiva. Tesão e raiva nunca era boa combinação. Lambi meus lábios ao puxar o ar com mais força, achando que respirar iria me acalmar. Tirei meu celular do bolso do casaco, passando a localização para o GPS do carro, deixando-o me guiar e levar até essa tal emergência.
Estacionei na esquina do armazém, descendo do carro e batendo a porta com um pouco de força ao ver a descer do dela logo à frente. Só podia estar de brincadeira comigo mesmo! Além de ela ser um tremendo pé no saco nos meus melhores dias, até quando meu humor estava maravilhoso e eu não tinha mandado ninguém ir tomar no cu ela conseguia fazer tudo piorar em segundos. Imagina agora que eu queria explodir a porra do mundo!
— Um donuts estragado era melhor que essa sua cara. — Foi a primeira coisa que ela me disse, fazendo uma careta ao olhar para a minha cara. Mostrei logo o dedo do meio para ela porque não estava com paciência para suas gracinhas.
— Quanto menos você precisar falar comigo vai ser melhor para nós dois, — respondi seco, passando na frente dela porque era capaz de eu mandá-la calar a boca só de respirar ao meu lado.
— Passar a minha madrugada com você não estava nos meus planos também, fofinho. — Ouvi mais uma vez a voz dela atrás de mim e tive que virar meu rosto apenas para lançar mais um daqueles meus olhares de “cala a porra da boca”. Então ela soltou sua risadinha de vitória porque parecia que aquela maluca adorava me ver fora do sério.
Tudo bem, era só eu ignorar. Era bom nisso... Não, eu não era. Inspirei mais profundamente e entrei no armazém. Passando meus olhos pelo lugar já isolado pela polícia e vendo como parecia em perfeito estado para ter um corpo ali no meio dele. A passou por mim, se abaixando na fita amarela com cuidado para olhar mais de perto, puxando a caderneta enquanto começava a tomar nota do que via. Acabei fazendo a mesma coisa momentos depois, olhando o corpo pendurado por uma corda e usando minha câmera para registrar algumas fotos. Cheguei mais próximo da vítima, analisando nos mínimos detalhes e fotografando traços que me pareceram relevantes. Os olhos abertos, totalmente sem vida. A pele extremamente mais pálida que a lua lá fora.
— Onde que isso é a emergência? — resmunguei para mim mesmo, dando uma olhada feia para a , que tinha me encarado com um ponto de interrogação na testa. Não estava falando com ela. Rolei meus olhos com isso, tirando-os do corpo e passando pelo local. Estava levemente empoeirado, o que poderia indicar que alguém tinha o limpado hoje mais cedo, a própria poeira me contava isso.
— Talvez um bilhete? — Ouvi a voz da e me virei rapidamente para ela. Vendo que ela olhava o balcão com cuidado para não tirar nada do lugar enquanto colocava as luvas. Fui até ela e apontei apenas com o queixo para um caderno que parecia ter sido fechado às pressas, fotografei e coloquei a marcação de evidência, preparando um dos sacos de coleta para que levássemos aquilo para o laboratório. Mesmo com uma avaliação preliminar, precisávamos buscar tudo nos mínimos detalhes e em meio à minha análise notei que tinha uma orelha no meio das páginas. A ruiva foi até o caderno e o abriu exatamente onde estava a orelha na folha, mas parecia não ter nada lá pelo que seus olhos verdes contaram alto e claro para todos ali.
— Ela foi interrompida nessa frase. Estava adicionando uns preços aqui e não terminou de desenhar o cifrão direito. Um cliente? Ou a vontade de se matar? — A ruiva levantou seus olhos e me olhou. Fiquei a encarando por alguns momentos até voltar para o corpo ainda pendurado ali.
— Um cifrão incompleto. Um pedido de socorro. — Dei a volta pelo lugar, notando levemente uma marca no chão que aquela prateleira tinha sido arrastada demais para fazer aquilo no chão, clicando mais uma vez minha câmera. Olhei mais atentamente para ela e depois olhei para a porta. A prateleira mais perto da porta, talvez eles a arrastaram para poder deixar a porta mais trancada, além da fechadura. Tomei o registro mais uma vez.
— Acredito que já podemos liberar o corpo para análise do IML. Darkmore precisa dar uma olhada no que temos aí e eu quero poder olhar com mais atenção esse local. O que levou essa garota a se matar? — Ouvi a ruiva começar a falar, passando seus olhos verdes mais intensos e brilhosos pelo lugar como se eles fossem uma lupa.
— Se isso realmente não foi homicídio — retruquei, apenas de birra com ela porque estava mais do que claro que aquilo era um caso de suicídio. Nosso protocolo, no entanto, exigia que processássemos toda a cena até o fim, o que não melhorou muito o meu humor. Não haveria ninguém para prender no final das contas, então que graça aquilo tinha?
— Se você diz, Sherlock — escutei soltar, cheia de sarcasmo e olhei em sua direção, estreitando meus olhos, mas ela nem fez questão de me encarar de volta. Continuou analisando a cena, enquanto tomava notas naquela maldita caderneta.
— Isso faz de você o Watson? — não me segurei e respondi, arqueando uma sobrancelha e me abaixando para fotografar o que me parecia uma pegada perfeita. A vítima estava descalça e o formato era o de alguém que usava algum tipo de sapato, o que poderia ser um agravante.
— Não subestime o Dr. Watson. Sherlock sempre me pareceu apaixonado por ele, sabe? — passou por mim, piscando de um jeito atrevido.
— Apaixonado… — resmunguei como um velho turrão. — Até parece. — Eu odiava ser desarmado por quem quer que fosse, mas quando se tratava de a situação era dez vezes pior.

🕵🏻


Eu não fazia ideia de onde havia se metido e também nem queria saber. Aquela mulher já era insuportável mesmo longe de mim, imagine perto. Mas nossa presença havia sido requerida no necrotério e eu ficava puto quando precisava estar em algum lugar com alguém e a pessoa simplesmente tomava chá de sumiço.
Com a maior cara de bunda, eu segui pelos corredores, cumprimentando quem falava comigo com um resmungo que falava por si só que eu não ia parar para conversar.

O necrotério ficava numa parte mais isolada, principalmente por causa do cheiro insuportável que vinha daquele lugar. Naquele dia ainda estava tranquilo, mas quando chegava cadáver em estado avançado de decomposição não havia quem aguentasse o fedor. Eu não gostava muito de ir até lá, não pelos cadáveres em si, mas porque era frio pra caralho.
Quando dobrei o corredor e dei de cara com as portas do lugar que apelidei carinhosamente como geladeira, pude ouvir uma música alta ecoar de lá de dentro, como se fosse uma rave e não um necrotério. Soltei uma risada e provavelmente aquela havia sido a primeira vez que eu havia rido naquele dia. Então empurrei a porta e assim que adentrei a grande sala onde havia uma enorme conservadora, alguns armários e as macas onde eram feitas as necropsias, dei de cara com Wisteria Darkmore, e até aí nada de muito novo, exceto pelo fato de que ela estava dançando enquanto abria o peito de nosso cadáver com um bisturi.
— Nem esperou por mim para começar a necropsia? — perguntei, chamando atenção dela, fazendo-a tomar um susto e me olhar com os olhos arregalados.
— Por Osíris, isso não se faz, ! — Levou uma das mãos ao peito, nem ligando que sua luva estivesse ensanguentada.
— Foi mal, não queria te assustar, mas a festa parecia boa e não gosto de ser deixado de lado. — Eu poderia dizer que meu humor até havia melhorado um pouco e nem tinha como não melhorar. Aquela ali era doida de pedra.
— Eu só estava abrindo a caixa torácica. Você vive reclamando se o sangue espirra em você. Não quero fazer necropsia com um velho resmungão do meu lado. — Deu de ombros, então riu da cara indignada que eu fiz.
— Eu não sou um velho resmungão. — Na verdade, eu era, mas não daria o braço a torcer.
— Disse o velho. — Me deu língua e eu me aproximei, querendo espiar o que ela fazia com o cadáver.
— Chega de conversa fiada e abaixa esse som, pelo amor de Deus! Como é que você trabalha com isso? — reclamei, porque estávamos quase gritando um para o outro.
— Meu necrotério, minhas regras. — Estreitou os olhos para mim, apontando o bisturi e eu levantei as mãos em rendição. — Se você reclamar de novo, vai fazer companhia pra colega ali. — Indicou o cadáver em seguida.
— Tá certo, eu só não gosto de falar gritando. — Ela voltou a me apontar o bisturi e eu dei risada. — Ok, ok, não está mais aqui quem falou.
— Bom menino. — E quando ela ia começar a me falar o que já havia observado no cadáver, fomos interrompidos por passando pelas portas.
— Ah, apareceu a margarida — soltei, com meu melhor tom de ironia.
— Laudos não se escrevem sozinhos, . — Revirou os olhos para mim, então abriu um sorriso para Wisteria. — E então, o que temos aqui? Me passe essa playlist depois, quero algo divertido para malhar.
Eu consigo pensar em outra coisa bem divertida para te fazer malhar, .
Por pouco, eu não a retruquei, por muito pouco mesmo. Se Darkmore não tivesse prontamente respondido, eu deixaria aquilo escapar.
— Menina, você me segue no Spotify? Qualquer coisa te mando o link do meu perfil mais tarde, ou te sigo e você me segue para ver minhas playlists por lá. Tem para todos os humores. Como esse cadáver aí me pareceu simpático, pensei em músicas mais animadas — ela disparou a falar e eu não sabia como era possível alguém falar tão rápido. Wisteria era animada até demais com as coisas e aquilo deveria me irritar, principalmente quando eu estava com meu pior humor, mas o efeito era o contrário.
— Wisteria. — Percebi que eu e a chamamos juntos e eu fiz uma careta, olhando para ela com uma sobrancelha erguida e recebendo uma expressão irônica que nem precisaria de resposta.
— Ah é! Vocês querem saber dessa belezinha aqui. — Tocou o corpo e sorriu quando assentimos. — Fiz uma busca geral por vestígios e a princípio ela tem um material debaixo das unhas. Coletei para análise, mas tenho quase certeza de que é terra. Parti então para as lesões externas e a vítima apresenta o rosto cianótico, bem característico de casos de asfixia, há o sinal de Bonnet, evidenciando as tramas do da corda, mas não houve a protrusão da língua, que é típico em casos de suicídio por enforcamento.
— Não houve o quê? — questionei, porque não me atentava àquelas questões de medicina legal.
— Protusão da língua, quer dizer que a vítima não projetou a língua para fora. Veja bem, quando ocorre o enforcamento, se perde o controle dos músculos dessa região, por isso ela sai para fora da boca — Wisteria explicou, de um jeito até animado. Aquela ali era estranha, ela parecia realmente gostar daquelas coisas.
— Continue — pediu, me olhando significativamente, como se eu tivesse sido inconveniente por interromper.
— Um segundo — levantou um dedo, então prosseguiu o que fazia quando chegamos à geladeira, analisando os órgãos dentro da caixa torácica. — Ah sim, temos lesões na coluna cervical e também no aparelho laríngeo.
— Desenrole logo esse laudo, Darkmore — escutei minha parceira dizer e odiei concordar nem que fosse mentalmente com ela.
— Senhoras e senhores, temos um suicídio por enforcamento, mas acho que vocês já imaginavam isso — bufei, frustrado por aquela perda de tempo. — Vou emitir o laudo e logo encaminharei ao chefe. Vão precisar de mim para mais alguma coisa?
— Obrigada, Wisteria. Por hoje, espero que seja tudo — lhe respondeu. — Vê se aproveita e vai dormir, , meu avô rabugento tem uma cara melhor do que a sua — me disse, enquanto saía da sala.
— Muito engraçada. Cai fora — retruquei, sem paciência, então olhei para Wisteria e sorri um pouco para ela. — Acho que vou é precisar de uma companhia para uma cerveja amanhã. Topa?
— Às oito tá bom pra você? — Wisteria me respondeu e eu assenti, satisfeito.
Aquele caso havia sido frustrante, mas isso não queria dizer que o restante do meu dia seria.

🕵🏻


Saindo do necrotério eu dei um jeito de ir logo para casa descansar porque nem fodendo que eu conseguiria trabalhar naquele laudo do local de crime. Dizer que eu estava cansado seria uma piada. A frustração de uma foda interrompida, somada à de um caso sem graça quase me esgotou.
Eu cheguei em casa e tomei um banho para tirar o fedor de gente morta. Ia arrumar algo para comer, mas quando sentei no sofá para pedir um delivery, acabei desmaiando por ali mesmo e horas depois eu acordei com uma puta dor nas costas, ouvindo minha campainha tocar freneticamente.
Levantei, xingando o mundo e o ser desprovido de noção que me incomodava quando eu tinha deixado claro que precisava dormir. Segui até a porta de cueca mesmo, não ligando para nada, sentindo vontade de fuzilar quem quer que fosse e arqueei uma sobrancelha, surpreso por encontrar Wisteria ali. Eu tinha dormido demais e perdido a hora em que combinei com ela?
— Darkmore? — soltei, encarando meu relógio e descobrindo que eram seis da manhã. Quem em sã consciência batia na porta dos outros às seis da manhã? Ela pareceu estar em alguma espécie de transe, encarando meu corpo porque eu estava quase pelado e se não fosse o mau humor de ser acordado, eu com certeza ia comentar aquilo. — Darkmore? — chamei novamente, então ela balançou a cabeça, parecendo despertar.
— Eu sei, estou acordando o urso de seu sono profundo e corro o risco de morrer, mas nós tivemos uma reviravolta no caso e eu precisava falar com você e com a . Nenhum dos dois atendia o celular, então lembrei que sei onde você mora — se explicou, parecendo nervosa e a única coisa que eu realmente ouvi foi que tivemos uma reviravolta no caso.
— Que reviravolta? — perguntei, de repente esquecendo o mau humor e me sentindo ansioso.
— Surgiu uma nova evidência e parece que não houve suicídio coisa nenhuma. Nosso caso se trata de um homicídio.


Capítulo Dois

UM DIA ANTES


O reflexo do sol me obrigou a colocar óculos escuros enquanto caminhava pelo comércio mais concorrido da cidade. Meu andar era de determinação, no entanto, meu foco estava no aparelho dentro do meu bolso. Odiava esperar as coisas porque eu sabia que era uma pessoa ansiosa e neste momento eu estava aguardando uma simples ligação com o meu plantão definido.
Um sorriso quase nasceu em meus lábios pintados de vermelho com o pensamento que apareceu na minha mente. Não era uma simples reflexão, mas sim um pedido. Odiaria ter que aturar o ego de em um plantão. Porém, era incontestável que ele também desejaria aquilo e o universo poderia ser gentil conosco e nos poupar disso.
Tentaria não ser tão otimista assim, mas estava sendo esperançosa. Um sorriso leve e gentil fora desenhado em meus lábios ao ver uma comerciante estender uma de suas especiarias na minha direção. Seu braço mecanizado e os incisivos mais alongados que os de um ser humano comum. Ao meu ver era apenas uma bela mulher trabalhando no que fazia de melhor. Fui de encontro até ela, aproximando meu rosto do pote em sua mão e consegui sentir minha barriga até roncar com o cheiro delicioso de caramelo que vinha de lá de dentro.
— Deixa eu adivinhar… — Bati com o indicador em meu queixo. — Caramelo queimado, uva branca e uma pitada de canela, huh?
Ela sorriu abertamente para mim, assentindo com a cabeça com aquele tom de surpresa. Então pegou outro potinho de outra cor e estendeu para mim novamente. Fiz o mesmo processo de inalar aquele cheiro delicioso.
— Hmm… — Lambi meus lábios, erguendo a sobrancelha esquerda. — Esse é um desafio para mim. Não sei dizer que fruta está misturada junto ao que eu acho que deva ser chocolate derretido com leite.
Olhei para a moça, que assentiu com a cabeça e então mostrou o desenho da fruta.
— Como não reconheci que era abacaxi? — Neguei levemente. — Vou levar um desse, por favor.
Retirei as notas do bolso da minha jaqueta e entreguei à gentil mulher, que abriu um sorriso ainda maior, fazendo também um gesto formidável de agradecimento. Assisti com atenção ela embrulhar o doce com tanto carinho e afeto, sabia e sentia que tinha amor pelo que ela fazia. O mundo em que vivíamos não era justo com nenhum da raça deles e era uma das minhas maiores raivas. Cada um deles eram simples, trabalhadores, seres com sentimentos assim como todos nós. No entanto, a minha raça não havia aprendido a lição de que só porque é diferente não significa que seja inferior.
Peguei o embrulho muito bem detalhado e delicado de suas mãos mecânicas, fazendo uma reverência em agradecimento pelo carinho e atenção que ela teve comigo. Senti meu celular vibrar no bolso e então me afastei de sua pequena barraca, pegando o aparelho no bolso e vendo que era uma mensagem da Wisteria. Não precisava nem abrir para saber que era algum de seus memes e piadinhas engraçadas. Ninguém tinha o humor de Wisteria, isso todos sabíamos.
Não tive tempo de desbloquear o celular para ver a mensagem, minha atenção foi levada de volta à barraca daquela mestiça quando ouvi seu grito. Um homem soltava gargalhadas debochadas e perversas da mulher que se encontrava no chão, tentando salvar todo o seu trabalho que estava esparramado pelo asfalto. Meu sangue ferveu no instante seguinte. Não consegui pensar ou controlar minha raiva. Fui até o sujeito e puxei seu braço esquerdo todo para trás, torcendo para que ele levasse seu tronco para frente, onde abaixei com ímpeto seu peito e cabeça contra a madeira de uma das barracas.
— Com que direito você age dessa forma? — rosnei no seu ouvido, torcendo um pouco mais seu pulso para que grunhisse.
— Eu tenho todo o direito do mundo para agir assim. Esse tipo de verme sujo e imundo que não tem direito algum de viver entre a gente. — Ouvi ele cuspir suas palavras ao direcionar seu olhar para a pobre mestiça. — Somos superiores a vocês, raça imunda!
Ergui seu tronco apenas para bater com sua cabeça de novo na madeira pelo simples fato de que a voz dele me irritou ao ponto disso. Tirei as algemas e prendi um lado no seu pulso levemente torcido e puxei seu outro braço sem lhe dar tempo de pensar em tentar escapar.
— Ótimo. Você terá muito tempo para conviver com a sua raça superior na cadeia então — comentei calmamente. Já havia batido sua cabeça duas vezes, quem sabe no meio do caminho até a delegacia eu poderia bater um pouco mais.
— Você não tem esse direito de me prender apenas por isso. — Revirei meus olhos com aquele idiota que ainda estava falando.
— Não tenho? — O virei de frente para mim. — Fala de novo no meu rosto o que eu devo ou não fazer. Te garanto que a próxima pancada será em um lugar muito mais sensível que essa sua cabeça oca.
Encarei o sujeito com ambas sobrancelhas erguidas, torcendo desejosamente que ele duvidasse de mim. Adoraria melhorar meu humor dando mais umas porradas em idiotas como ele. O babaca estava sendo meu prato cheio do dia. Não era uma boa maneira de começar uma bela manhã de trabalho? Metendo porrada em preconceituosos?
— Você vai me pagar por isso, mulher — grunhiu, o que me tirou um sorriso de canto.
— Vou? Quero ver então. — Pisquei um olho para ele e o arrastei basicamente pelo comércio até onde tinha deixado a viatura estacionada.
Sem um pingo de paciência para aquele sujeito, o empurrei para dentro do veículo, praticamente o jogando lá dentro e ignorando mais protestos de sua parte. Qualquer coisa que eu fizesse ali com ele não chegava a um terço da humilhação que havia feito com a pobre mulher.
Aquela não era a primeira vez que eu presenciava aquele tipo de cena e talvez fosse por isso que eu me sentia tão irritada. Era realmente revoltante e fazia com que a raiva borbulhasse em minhas veias. Os gritos e xingamentos de protesto que ele soltava não ajudavam em nada também.
Liguei o rádio em uma música qualquer para que assim pudesse abafar a voz irritante daquele cara e adquirir uma postura mais plena quando chegasse à delegacia.
Assim que parei a viatura diante do prédio, o sujeito começou a gritar ainda mais, se é que isso era possível.
— Isso é um absurdo! Essa maluca me prendeu por nada! Um cidadão de bem não pode nem caminhar pelo centro da cidade que tem que passar por isso.
Eu tive que rir daquela fala dele. Cidadão de bem?
— É claro, porque violação ao patrimônio e agressão física e verbal são ações típicas de um cidadão de bem, não é mesmo? — Eu queria socar a cabeça dele contra a parede. Minhas mãos até tremiam enquanto eu o arrastava para dentro, passando por alguns colegas e populares curiosos pelo escândalo que aquele ser nojento fazia.
Me recusava a chamá-lo de ser humano.
— Eu não fiz nada, pessoal. Essa maluca me prendeu do nada! Claramente está descontrolada, não estão vendo? — Parecendo me ignorar completamente, ele continuou gritando e até se debatendo com os braços algemados para trás.
— Mas o que é que está acontecendo aqui? — Nem vi de onde surgiu o delegado Ridgway, mais conhecido como meu chefe.
Abri minha boca para responder, mas obviamente o desgraçado foi mais rápido.
— Vocês precisam controlar melhor essas agentes policiais femininas de vocês. Com certeza isso aí é coisa dos hormônios delas, eu nunca vou entender. Essa mulher simplesmente me prendeu do nada. Eu estava caminhando pelo centro da cidade e do nada ela me atacou e me prendeu.
Cada palavra dele descia como veneno pela minha garganta. Minhas mãos se fecharam automaticamente, uma em punho, a outra contra o braço dele e eu praticamente cravei minhas unhas ali, desejando que estivesse fazendo isso em outro lugar apenas pela audácia daquele comentário machista.
— Esse sujeito estava atacando uma pobre mulher no meio de uma feira, senhor. Destruiu todo o patrimônio dela, além de abrir essa boca imunda para despejar ofensas que não irei repetir aqui porque não achei a minha no lixo — expliquei a situação com o máximo de calma possível, por mais que minha voz estivesse um tanto abalada pelo nervosismo. Eu sentia vontade de socar aquele homem e ao mesmo tempo de gritar e chorar.
— Agente , deixe-o acompanhar o oficial Morris, por favor — Ridgway disse simplesmente, me encarando com seriedade.
— Mas eu já falei que não fiz nada! Essa mulher é louca e eu vou processá-la por agressão! Vou processar toda essa delegacia. Vocês não fazem ideia de com quem estão lidando! — ameaçou, apontando um dedo enquanto Morris indicava que o cara fosse com ele.
Sinceramente, eu não via a hora de vê-lo longe e apodrecendo atrás das grades.
— Pode processar, querido — respondi com ironia simplesmente porque não conseguia ver aquele sujeito saindo impune depois de cometer uma atrocidade como aquela.
, pode vir comigo, por favor? — Escutei a voz séria do delegado e o encarei com uma sobrancelha erguida pela surpresa.
— É claro, senhor — concordei de imediato, então o segui para dentro de sua sala, fechando a porta atrás de mim quando ele indicou com um sinal que eu o fizesse.
, você sabe que admiro muito o seu trabalho aqui na delegacia — começou, fazendo uma pausa como se esperasse que eu dissesse alguma coisa.
— Mas… — completei o que já esperava que fosse dizer simplesmente pelo seu tom de voz cauteloso.
— Mas esse tipo de atitude não pode acontecer.
— Como é? — Fiquei completamente incrédula, até pedindo para que ele repetisse porque eu me recusava a acreditar que aquelas palavras haviam saído de sua boca.
— Esse tipo de atitude não pode acontecer, . Você é uma detetive, precisa ter uma postura mais profissional dentro da delegacia. Causar uma cena como a de hoje pega muito mal para sua imagem.
De repente, eu quis gritar e espernear do mesmo jeito que aquele babaca de antes.
— Pega mal para a minha imagem? Eu não estou me importando com ela, delegado Ridgway. O meu papel é prender criminosos e não ficar cuidando do que as pessoas pensam a meu respeito — respondi com acidez.
— Aí é que está, senhorita . Você perde completamente a credibilidade quando esse tipo de escândalo acontece. Agora o sujeito ameaçou com um processo e nós vamos ter que acalmá-lo para evitar que isso aconteça. — A forma como ele continuava falando como se eu fosse uma criança fazia meu sangue ferver cada vez mais.
— Com acalmar vocês querem dizer que vão deixar aquele verme sair impune, não é? Ele estava agredindo uma pobre mulher apenas por ser uma mestiça, pelo amor de Deus! — me exaltei, levantando da cadeira onde havia sentado e me segurando para não apontar o dedo na cara de Ridgway.
— Veja bem, você está arriscando sua posição na delegacia por uma mestiça, . Acha mesmo que vale toda essa fadiga? — Arqueou uma sobrancelha para mim.
Pisquei meus olhos, como se assim eu pudesse apagar aquela imagem dele. Eu já havia ouvido alguns boatos e não era a primeira vez que o delegado Ridgway me soltava comentários completamente machistas, mas eu realmente deveria ter previsto que o racismo estava impregnado nele também.
Senti nojo.
— Uma mestiça, mas ainda assim um ser humano como eu ou você — retruquei rispidamente.
— Acalme-se, não foi isso que eu quis dizer. É só que esse tipo de caso não vai nos levar a nada, . Hoje você o prende, amanhã o advogado aparece com a fiança paga e você ainda terá que responder a um processo por agressão. Estou te poupando. — Suas feições se tornaram quase paternais e eu quis cuspir em sua cara.
— Entendi. E com isso você espera quem sabe que eu te agradeça, não é? — De uma forma completamente ultrajante percebi que não adiantaria discutir com ele.
— Não se preocupe. Vou dar um jeito de abafar o que aconteceu aqui hoje, mas volto a te pedir que evite que isso ocorra novamente, ok?
Pela milésima vez, eu fechei minhas mãos em punho, travando um pouco o maxilar para evitar que eu gritasse com ele ou me debulhasse em lágrimas de raiva.
— Sim, senhor. — Minha voz quase fraquejou ao respondê-lo. — Permissão para me retirar, senhor.
— Concedida, agente . — O sorriso em seus lábios carregava um certo tom de triunfo e naquele momento, como em muitos outros, eu me questionei se valia mesmo a pena passar por tudo aquilo para realizar meu sonho de criança de ser uma detetive.
Caminhei rapidamente pelos corredores da delegacia, ignorando alguns olhares que senti sobre mim enquanto me mantinha impassível até que entrasse em uma das salas vazias.
Assim que me encontrei sozinha, desabei.
O ar entrava como ácido quanto mais eu tentava respirar. Parecia que o mundo nunca evoluiu e só caminhávamos para trás, nunca para a frente. Era desesperador ao ponto que eu queria apenas berrar com todas as minhas forças naquela droga de sala.
Forcei ainda mais minhas unhas em minha própria carne, sentindo perfurar um pouco quanto mais eu cerrava meus próprios punhos com extremo ódio. Estava furiosa e decepcionada. Uma combinação que não era compatível em nada e poderia causar catástrofes. Fechei meus olhos, forçando minhas pálpebras ao sentir as lágrimas grossas escorrerem por todo meu rosto, o molhando de uma forma feroz e rápida.
— Argh! — grunhi não me importando se alguém fosse ouvir porque se eu não colocasse essa merda para fora…
Droga, ! Tente se controlar, inferno!
Não queria dar ouvidos à minha mente, mas pensei que, se fosse um dos oficiais trazendo aquele verme, de fato a situação teria sido completamente diferente. Duvido muito que o delegado falaria sobre a imagem do oficial que fosse! Esse tipo de coisa sempre acabava com o meu dia, com o meu humor e matava um pouco mais o meu sonho.
Batalhei muito para estar onde estava e em momentos assim eu acabava me questionando se tinha mesmo valido a pena. Ter que obedecer ordens de um líder que tinha a mente tão pequena quanto a de uma noz. Toda vez que me lembrava de que, além de comentários machistas, agora presenciei um completamente racista, mais lágrimas quentes deslizavam por todo o meu rosto e eu não conseguia arranjar forças nem para secá-las.
Eu não contava que o meu momento naquela sala seria interrompido por alguém, muito menos que seria quem abriria a porta e me veria naquele estado.
. — Sua voz carregava uma seriedade que contrastava um pouco com a personalidade rabugenta e ao mesmo tempo brincalhona dele.
. — Forcei minha voz a sair, mas ao mesmo tempo ecoou mais baixa e falha. — Aconteceu algo?
— Me diga você. Saiu feito um foguete da sala do Ridgway — disse enquanto me encarava, mas eu evitava o olhar de volta. Detestava que me vissem chorar.
— Foi para não voar na cara dele feito um foguete mesmo — rebati sem muito humor, virando meu rosto na direção oposta. — Você precisa de alguma coisa?
— Não era para menos também. — Me surpreendi ao vê-lo concordar comigo em alguma coisa. — Só vim ver como você está. Nunca tinha te visto desse jeito nem em nossas piores brigas.
Umedeci meus lábios e voltei a olhar para ele porque estava surpreendida até mesmo com o que percebi ser preocupação da parte dele.
— Você ficou sabendo o que houve então — concluí, suspirando pesadamente. — Já está começando a ficar preocupado comigo, ? — Ergui uma sobrancelha, sentindo o humor suave no meu tom de voz agora.
— Não apenas fiquei sabendo, como eu mesmo tratei de levar o sujeito e enchê-lo de porrada antes de ser liberado — comentou, deixando uma risada irônica ecoar de seus lábios. — Eu? Preocupado? Até parece. — Revirou os olhos. — Só tô me certificando de que tá tudo okay e não vou correr o risco de você me matar quando passar por mim nos corredores. — E até eu acabei rindo com aquele comentário porque nós dois sabíamos que não era bem verdade.
— Está aí uma cena que eu iria me deliciar vendo bem mais do que comer chocolate — soltei, estalando a língua no céu da boca. Tinha me deixado bem de alguma forma saber que pelo menos aquele filho da puta tinha tomado uma surra e, pelo que conhecia de , a surra tinha sido mesmo ótima. — Sinto vontade de te matar até nos meus melhores dias. — Fiz um biquinho. — Fica tranquilo que o seu segredo está a salvo comigo. preocupado. — Passei meus incisivos em meu lábio inferior ao provocá-lo só mais um pouquinho.
— Tenho a impressão de que é principalmente nos seus melhores dias, mas não se preocupe porque é recíproco — ele retrucou, lançando um olhar um tanto mais demorado para meus lábios antes de voltar a encarar meus olhos, estreitando os seus. — Pelo menos você tá parecendo um pouco melhor. Já voltou a ser engraçadinha.
— Implicar com você deu uma melhorada mesmo no meu humor. — Tombei a cabeça para o lado, conseguindo até deixar um sorriso mínimo aparecer no canto dos meus lábios. — … — minha voz saiu mais baixa, com um certo receio, mas a forcei a sair novamente. — Valeu por ter dado a surra naquele babaca. — Me neguei a pensar que estava mesmo o agradecendo pela primeira vez na minha vida, mas senti necessidade de fazer isso.
— Nada que ele não merecesse, . O filho da puta precisava aprender que não é melhor do que ninguém só porque se considera puro — disse a última palavra em um tom de desprezo com o qual eu me identificava. — Odeio esse tipo de gente e pela forma como você saiu da sala do Ridgway, imagino que ele tenha te mostrado exatamente quem é.
— Isso nos mostra o quanto ainda vivemos no passado — comentei um pouco mais baixo, soltando um suspiro pesado. No entanto, conseguia sentir uma leve admiração por saber que discordava daquilo tudo. Meus olhos ficaram presos nele por alguns longos segundos, fixados em seus olhos como se estivessem presos. Entreabri meus lábios ao deixar meu ar sair novamente, de uma forma mais lenta. — Enfim... — soltei seu nome em um tom de cumprimento e passei por ele, saindo da sala.
— E continuaremos vivendo nele se não fizermos nada a respeito, não é? — assentiu, então apenas me respondeu com um aceno de cabeça quando passei por ele, deixando que eu me afastasse.

ATUALMENTE


Eu certamente teria reclamado do horário em que recebi a ligação de se estivesse de fato dormindo naquele momento. Por maior que fosse o meu cansaço devido ao dia de trabalho que tivemos, eu não conseguia fechar meus olhos por mais do que poucos minutos. Toda vez que eu fazia isso, voltava a pensar nas teorias sobre o caso de hoje, no quanto a vítima parecia jovem e havia tirado a própria vida de uma maneira tão trágica.
Era quase como se eu estivesse esperando por aquele chamado, que havia partido de Wisteria, para que nós dois comparecêssemos ao necrotério com urgência. não havia me dado muitos detalhes por telefone, apenas disse algo que tinha a ver com evidência nova.
Não demorei muito em vestir alguma roupa mais apropriada do que meu próprio pijama, então segui com pressa até a delegacia.
Durante a madrugada, o local obviamente era muito menos movimentado, quase deserto e ali havia apenas os policiais que estavam de plantão.
Passei meu cartão de identificação pela cancela da porta, porque essa era a única forma de entrar em alguns setores mais restritos do prédio e não me surpreendi nem um pouco ao ouvir a voz um tanto alta de Wisteria ecoar pelo corredor do necrotério.
Quando não era ela conversando animadamente, sempre dava para ouvir suas músicas tocando em alto e bom som.
— É sério, . Você devia conhecer! Tenho certeza de que, se passasse um tempinho lá na Lux, não ficaria tão mau humorado. — A escutei dizer no mesmo momento em que adentrei o local.
— O lugar é milagroso, por acaso? — questionei, trazendo a atenção deles para mim. — Porque só se for para melhorar o humor desse rabugento. — Torci meu nariz ao implicar com também.
— Ah, pronto. Agora as duas resolveram fazer complô. Vão se catar! — bufou, revirando os olhos em seguida. — Quer parar com a ladainha agora que chegou e falar logo que evidência nova é essa? Eu tenho mais o que fazer, Darkmore.
— Ih, acho que eu acordei o ursão num mal momento — Wisteria zombou sem demonstrar nem um pouco de receio. Sabia tanto quanto eu que apenas ladrava, morder era outra história.
— Quando é que ele tem um bom momento? — perguntei a ela em um cochicho, sorrindo de lado. — O ursão está com pressa para provavelmente ir à caça da noite. Então não vamos prendê-lo aqui por muito tempo antes que piore. — Voltei a olhar mais seriamente para Wisteria para que ela nos contasse o que tinha descoberto porque também estava curiosa e ansiosa.
— Cuidado, . Desse jeito vou achar que você gostaria de ser a minha caça da noite. — O comentário de me fez encará-lo bem a tempo de vê-lo umedecer seus lábios e me tirou uma encarada bem feia em sua direção. Ele era um tremendo de um abusado!
— Uh! Deixem isso daí para quando estiverem sozinhos ou eu vou querer participar também. — Foi praticamente impossível não rir ao ouvir o que Wisteria disse em seguida. Ela tinha um dom de sempre descontrair as situações.
— Até porque de caça eu não tenho nada. Seria muito mais fácil você virar a minha, . — Pisquei um olho para ele e sorri de forma sexy para Wisteria. — Nós o deixamos de lado — sussurrei para ela, porém acabei rindo em seguida por estarmos provocando o homem que provavelmente perderia a paciência que ele já não tinha logo logo.
— Virar sua caça? Interessante — ele comentou apenas, me lançando um olhar analítico de cima a baixo que, devo confessar, me arrancou arrepios completamente indesejados.
— Sabe o que é interessante também? Esse corpinho aqui que vocês trouxeram pra mim — Wisteria voltou a chamar atenção para o caso. — A princípio, todos nós pensávamos que se tratava de um suicídio porque, convenhamos, tínhamos vários sinais característicos, não é? A coloração azulada na pele, as marcas da corda no pescoço, o rompimento das vértebras. No entanto, após fazer uma análise sanguínea, encontramos uma substância bastante interessante no corpo da nossa amiga aqui.
Então Darkmore fez uma pausa dramática e nos encarou com verdadeira empolgação no olhar. Era até um tanto inspiradora a forma como ela amava a própria profissão.
— Qual substância? — questionei com tamanha curiosidade, olhando o corpo com as sobrancelhas arqueadas e depois encarei .
— Cianeto — respondeu simplesmente.
— Cianeto? — questionou o que eu mesma havia acabado de pensar.
— Isso mesmo. Cianeto de hidrogênio, para ser mais específica. Isso se evidencia pela coloração azulada, que chamamos de cianose, acentuada. Se ignorarmos por um segundo as marcas da corda, podemos ver uma escoriação linear logo abaixo da tireóide, que vai se estendendo por toda a circunferência do pescoço. Só que isso nem é o mais interessante nisso tudo… O mais curioso é que, historicamente, o cianeto na forma de Zyklon B foi usado pela primeira vez nos campos de extermínio alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Lembram das câmaras de gás em Auschwitz?
Escutei cada uma das palavras de Wisteria com atenção, absorvendo todas as informações da melhor forma que pude ao mesmo tempo em que tentava encaixar algumas peças em minha mente. , ao meu lado, parecia fazer a mesma coisa.
— Está dizendo então que o enforcamento foi apenas uma encenação? — questionei o que já estava claro, apenas para externar meus pensamentos.
— Exatamente. E por algumas horas funcionou, não é mesmo? Estávamos todos crentes de que não passava de mais um trágico caso de suicídio — ela me respondeu.
— Uma jogada esperta, devo dizer. Simular um suicídio que cobriria várias evidências de homicídio. Eu só não entendi por que encobrir algo que já poderia parecer naturalmente um suicídio. Não é como se fosse comum as pessoas saírem por aí jogando as outras em câmaras de gás novamente. — O comentário de fazia muito sentido e por isso mesmo eu olhei dele para Darkmore, esperando pela resposta que a garota daria.
— É aí que tudo fica ainda mais curioso e interessante, meu caro — Wisteria se pronunciou, fazendo mais uma pausa dramática. — Nossa vítima não é uma qualquer. Temos uma mestiça.


Continua...



Nota das autoras: A vontade de pegar a pp no coloco e abraçar ela bem forte, meu Deus! O coração apertou demais, concordam? E essa reação completamente inesperada do nosso pp poço do mau humor? Contem para a gente o que acharam, por favor! Comentários nos incentivam demais.
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Beijos e até a próxima.
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