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Prólogo

Ignorando tudo o que prometi a mim mesma e tudo que prometi a ela, injetei mais uma dose em mim, desabando no chão frio do banheiro.
Nada importaria quando o efeito da droga atingisse meu corpo, ela me faria esquecer tudo. Eu sabia que era errado, mas também sabia que era o único jeito de ter um pouco de paz, mesmo que ela fosse momentânea.
Levantei-me com dificuldade e saí do banheiro daquele bar imundo. Mal conseguia me aguentar em pé, já sentia os prazerosos espasmos percorrendo e se apossando lentamente do meu corpo.
Eram como pequenos choques que percorriam cada milímetro do meu corpo, deixando-me acordada e dando-me a sensação de êxtase e prazer. Meus olhos já piscavam freneticamente, minha visão estava embaçada e meu corpo cambaleava, tonto.
Ter aquelas sensações já era rotina para mim, não havia nada mais natural e comum do que noites como aquela. A sensação que se seguia após aos excessos aos quais eu me submetia era incontestavelmente dolorosa e humilhante, mas eu realmente não me importava. Não mais. Eu faria qualquer coisa para tirar a dor do meu peito, para fazer todas as malditas lembranças sumirem de vez. Eu daria minha vida para esquecer tudo, inclusive os motivos que me levaram a enfiar agulhas em meus braços.
Eu não queria estar ali, não queria ser aquilo. Por mais que muitas vezes eu travasse uma batalha silenciosa contra todos aqueles demônios, não havia escapatória. Eu era a droga, minha própria droga. A única culpada por tudo aquilo era eu mesma. A velha cicatriz em meu peito latejava com tanta intensidade que a única forma de esquecê-la era me drogando. Cambaleei até o balcão a fim de pedir alguma bebida quando senti um par de mãos fortes me agarrarem brutalmente pelos ombros e me jogarem para fora do bar.

- Cansei de vocês drogados de merda no meu bar! - gritou segundos antes de entrar novamente no bar.

Meu corpo ficou jogado na calçada durante um tempo que eu julguei longo o suficiente para serem horas, até que os olhares de pena e nojo das pessoas que ali passavam começaram a me ferir e eu resolvi sair. Tentei acender um cigarro, mas minhas mãos trêmulas acabaram por derrubar o isqueiro em uma poça d’água.
Uma chuva fria e silenciosa caia sobre mim, borrando minha maquiagem velha e mal feita. Eu sabia muito bem que não havia lugar para onde eu pudesse ir, o máximo que eu poderia fazer era perambular pelas ruas molhadas até desmaiar em uma esquina qualquer.
Meus olhos já não enxergavam nitidamente e meu corpo me traía. Minha cabeça rodava tanto que senti meu senso de direção se esvair de mim. Eu podia desabar em qualquer lugar, não fazia diferença. Pelo pouco que eu podia ver da lua, julguei que eram quase três da manhã. As poucas pessoas naquela rua estavam tão drogadas quanto ou até mais que eu e nem sequer notavam minha presença. Caminhei então até uma praça vazia.
Meu coração começou a acelerar como nunca havia feito antes, parecia querer saltar ferozmente do meu peito e correr para longe. Eu nunca havia sentido aquela dor antes. Será que finalmente o fim estava próximo para mim? É, talvez fosse isso. Talvez finalmente meu velho e cansado coração pudesse descansar em paz e eu devia isso a minha boa e velha melhor amiga, a heroína.
Eu caí na grama molhada, sentido a dor lacerante me partindo ao meio. Sorri ao pensar que finalmente minha hora havia chegado, finalmente eu teria um pouco de paz. Eu sabia que o inferno me esperava, mas qualquer coisa era infinitamente melhor do que viver aquilo, do que ser aquilo. Se fosse realmente a morte, então eu a aceitava de braços abertos e de bom grado. Assim eu finalmente teria paz e poderia esquecer todas as lembranças indesejadas sem nenhum tipo de droga, bebida ou cigarros para serem apagados pela chuva.
Como num flash, a imagem dela veio à minha cabeça. Ela seria então o último pensamento que invadiria minha mente, a última lembrança a me atormentar sem permissão.
Será que ela estava bem? Será que havia fugido? Onde estava, então? Será que ainda se lembrava de mim?
Ela foi à única que um dia se importou comigo. Lembrava-me de que ela costumava dizer que eu era muito boazinha e não merecia aquele tipo de vida. Também costumava dizer que quando tudo aquilo acabasse, seríamos uma família novamente, que seríamos felizes de verdade.
Senti minhas pálpebras se fecharem lentamente, algumas lágrimas escorriam pelo meu rosto em uma mistura de tristeza e alívio. Antes de fechar completamente os olhos, vi um homem correr em minha direção.
A última coisa que vi antes de ser engolida completamente pela escuridão foi um par de olhos extremamente me fitando intensamente, como uma luz no final do túnel.

“Nas garras ferozes das circunstâncias, não me encolhi nem fiz alarde do meu pranto. Golpeado pelo acaso, minha cabeça sangra, mas não se curva. Longe deste lugar de ira e lágrimas só assombra o horror da sombra. Ainda assim, a ameaça dos anos me encontra e me encontrará sempre, destemido. Não importa quão estreita seja a porta, quão profusa em punições seja a lista. Sou mestre do meu destino. Sou capitão da minha alma.” - One Three Hill.


I

“- Posso vê-la? Talvez valha alguma coisa. – Meu pai assentiu e eu corri para meu quarto, sentindo as lágrimas transbordando dos meus delicados olhos.

Ele entrou no meu quarto sem sequer bater na porta e me olhou por alguns segundos até começar a falar.

- ? Pode vir aqui um momento?

Balancei a cabeça negativamente e corri para o outro lado do quarto, me escondendo pateticamente entre a cama e o guarda-roupa. Observei meu pai entrar no quarto e caminhar em passos largos até onde eu estava, agarrando meu braço com força e me arrastando para fora do quarto sem dizer uma palavra. Tampouco eu disse, sabia que só o enfureceria mais e ele acabaria me machucando, como nas outras vezes. Tentei me controlar, mas as lágrimas continuaram caindo pelo meu rosto. Eu sabia que se elas continuassem a cair, irritaria meu pai mais ainda.
Quando chegamos à sala, ele soltou meu braço e me empurrou para o sofá. Um homem alto e moreno estava parado na minha frente, me analisando lentamente dos pés a cabeça. Ele deu um meio sorriso e se virou para o meu pai.

- Acho que é suficiente para pagar sua dívida. – O homem disse sorrindo para mim e me analisando novamente – Mas fico com uma por vez.

estava sentada no chão, mas ao contrário de mim, não haviam lágrimas em seu rosto, apenas um semblante sério e sem sentimentos. Provavelmente por que era a irmã mais velha e praticamente a “mãe” da casa, então ela se sentia na obrigação de ser forte por mim e por todos ao redor. Quando esboçava aquelas feições eu sabia que as coisas não estavam bem, sabia que ela estava se esforçando ao máximo para não sair do seu limite. Momentos como aquele provavam que seus dezesseis anos eram meramente físicos.
Meu pai caminhou até ela e segurou seu rosto, levantando-a do chão. Os dois se encararam por alguns minutos e ela continuou sem esboçar qualquer sentimento.

- Adeus, filha. – Ele tentou beijar a testa dela, mas ela se afastou e cuspiu no chão.
- Eu te odeio. Eu não sou sua filha. Não me toque. – Meu pai fechou os olhos com raiva e eu corri para abraçar minha irmã, sabendo o que lhe aguardava depois daquelas palavras frias.
- Não vai embora , por favor! Não posso ficar sem você! – Eu disse aos prantos enquanto me jogava nos braços dela, que como sempre me acolheram maternalmente.

Ao invés de bater em minha irmã como imaginei que meu pai faria, ele apenas ficou em silêncio observando a cena que se desenrolava. Eu solucei algumas vezes e me apertei ainda mais , com medo de que ela me deixasse.

- Se cuida, . – ela beijou o topo da minha cabeça - Não deixa eles te levarem, você é boa demais para isso. – ela passou a mão em meus cabelos longos e negros e tocou minha bochecha delicadamente – Essa vida não é para você. Fuja o mais rápido possível. – ela sussurrou me abraçando.
- Nem pra você! – gritei.
- Por favor, diga ao que eu o amo. E seja forte. A gente vai ser ver um dia , mas, por favor, lute. Não deixa eles destruírem você também.

O homem a puxou com força, arrancando-a do meu alcance e a segurou pelo cabelo. Eu solucei pela milésima vez e tentei alcançá-la, mas meu pai me puxou com força para trás.

- Eu te amo , nunca se esqueça. – Minha irmã gritou e pude perceber o tom choroso que sua voz adquiriu.
- Eu também amo você!

O homem que a segurava sorriu ironicamente e a arrastou para fora da casa. Assim que a porta da frente foi fechada, meu pai soltou minha blusa e eu corri desesperadamente em direção a janela. Vi o homem tentando enfiar no banco traseiro do carro enquanto ela chutava e o socava. Ele deu um tapa em seu rosto e mesmo de longe eu pude ver as lágrimas grossas e pesadas escorrendo pelo rosto de minha irmã. Ele a agarrou pela cintura e a jogou dentro do carro com uma brutalidade desnecessária. Observei o carro se afastar enquanto minhas pernas tremiam e as lágrimas teimosas escorriam.
Eu sabia que era a próxima e que nem toda a força do mundo mudaria isso. Não havia para onde fugir.”


...


Acordei encharcada de suor e assustada, olhei ao meu redor e percebi que estava completamente sozinha. Eu não estava mais no parque, mas também não sabia onde estava. Estava deitada em uma cama muito macia e limpa. A última vez que eu havia me deitado em uma cama tão confortável para dormir tinha sido há cerca de quatro anos antes.
Meu corpo doía por completo e eu sabia que era o efeito pós-droga. Eu suspirei e me levantei, tentando lembrar-me de como eu havia ido parar naquele lugar. A última coisa de que me lembrava era de cair no chão de uma praça vazia e molhada.
Alguns flashs da noite anterior tomaram minha mente. Lembrava-me do homem me expulsando do bar, do meu isqueiro caindo em uma poça d’água, andando devagar até a praça... E então os olhos. A imensidão que se encontrou aos meus olhos pouco antes de eu caminhar para minha suposta morte, que já então eu sabia não se tratar de morte alguma.
Sentei-me na cama e comecei a massagear minhas têmporas.
Após um tempo levantei-me com dificuldade e me debrucei sobre a janela do quarto que ficava acima da cama. Estava fechada. Eu a abri e olhei para baixo. Estava em um prédio e em um andar bem alto, provavelmente uma cobertura. Olhei para baixo e me imaginei caindo. O vento batendo em meus cabelos pretos, a sensação de liberdade. E então o baque, a morte. A dor... A dor que seria prazerosa e lenta, angustiante e deliciosa. Tudo que eu merecia naquele momento. Eu abri a janela toda e me sentei ali. Meus pés balançavam devagar e eu pensava em todas as coisas que poderia fazer ali de cima. Lá em baixo, as pessoas passavam com pressa, os carros buzinavam, a vida seguia seu curso natural, sem que ninguém imaginasse que uma garota estava prestes a deixar seu corpo se estourar no concreto.
Coloquei minhas mãos no parapeito da janela e me preparei para acabar com tudo aquilo de uma vez por todas. Fechei os olhos e mordi o lábio com força, imaginando como seria a sensação. Pelo menos eu ia sentir alguma coisa que não fosse essa dor que me acompanha há tantos anos ou o efeito das drogas, cigarros e alcool barato. Eu ia sentir a vida em sua mais bela manifestação: a morte.
Ventava muito, levantava meu cabelo e balançava minhas roupas. Eu tirei minha jaqueta de couro puída e a joguei para trás, ela caiu na cama em um baque mudo. Respirei fundo. Eu tinha tomado uma decisão e pela primeira vez em muito tempo, uma decisão que julgava completamente certa.
Quando comecei a balançar meu corpo para enfim me jogar de vez, eu fechei meus olhos e sorri com um último pensamento.
Eu finalmente poderia encontrar as pessoas que eu amava.
Ou quase todas.
Foi então que deixei meu corpo pesar lentamente para frente.

Mas eu não caí. Não, pois um par de mãos me segurou antes que meu corpo desgrudasse completamente do parapeito da janela. Fui puxada com força para dentro do quarto e não abri os olhos, apenas suspirei e ouvi uma voz doce e calma sussurrar.

- Você está bem?

Abri os olhos e me deparei com um par de olhos grandes e me encarando com feições de preocupação. O reconhecimento foi imediato: Eram os mesmos olhos que me observavam na noite anterior.

- Você ia realmente se jogar? – permaneci em silêncio e sem me mover – Não sei por que ia fazer isso, mas não o faça. Você não precisa... – apenas soltei uma risada irônica.
- Quem é você? O que te fazer pensar que tem o direito de falar assim comigo? Você não me conhece. – Eu disse com raiva, me sentando na cama.
- Meu nome é ... . Você está no meu apartamento e eu te ajudei por que você precisava de ajuda. – ele sorriu – Minha vez de perguntar: Qual o seu nome? Por que tentou se jogar e o que estava fazendo caída naquela praça? – Eu passei a mão em meus cabelos ainda úmidos e olhei para ele.

Aqueles olhos me olhavam com um sentimento que eu não conseguia diferenciar de dó. E eu odiava que as pessoas me olhassem daquela forma.

- Eu não conheço você e não preciso de ajuda. – ele levantou e colocou as mãos para o alto, como quem diz que se rende, e foi em direção à porta – Só preciso de alguns minutos e vou embora. – Eu não sorri e ele saiu do quarto sem dizer nada.

Antes que eu pudesse sequer pensar no meu próximo passo ele estava de volta ao quarto com uma toalha e algumas roupas na mão.

- Tome um banho, aqui tem algumas roupas da minha irmã, pode usar. Não precisa ter pressa. Leve o tempo que precisar.– Ele me entregou e saiu em silêncio do quarto, fechando a porta antes que eu pudesse protestar, como ele provavelmente sabia que eu faria.

Eu olhei para a toalha e as roupas e decidi entrar no banho. Que meu orgulho fosse para o caralho, eu precisava realmente me limpar.
O banheiro ficava no quarto, uma porta atrás de mim. Eu entrei, tirei minha roupa suja e molhada e entrei debaixo do chuveiro.
Ajustei a temperatura da água para a mais quente possível, embaçando o espelho rapidamente. Deixei a água cair na minha cabeça e lavar aquele cheiro de bebida e cigarro que estava impregnado em mim, apesar de saber que o cheiro já fazia parte de mim.
Meus pulsos exibiam marcas profundas das minhas várias e inúteis tentativas de suicídio. Eu deveria ter pulado de um prédio desde a primeira vez. Meu braço direito estava cheio de marcas de agulhas, algumas bem recentes, meu corpo estava cheio de hematomas, alguns velhos, outros novos.
Existia uma parte de mim que queria parar, que queria ser eu mesma de novo. Não queria depender de drogas e bebidas para viver. Mas eu sabia que era tarde demais para deixar aquela parte assumir o controle, aquela estava morta há anos. Se eu parasse, não havia o que recuperar. Eu era só uma garota morta que haviam esquecido de enterrar.
As lembranças retornaram a minha cabeça e eu apertei minhas mãos contra ela, tentando expulsá-las de vez.
Eu não queria mais lembrar, doía mais que viver o presente. Lembrar do dia em que tudo mudou. Eu fechei o chuveiro e vesti as roupas que havia me emprestado. Eu não entendia por que ele estava fazendo isso, mas eu deveria encontrar as palavras para agradecê-lo, pois aquela havia sido a melhor coisa que alguém já havia feito por mim em muito tempo.

“Michelangelo disse uma vez que o melhor jeito de julgar os elementos essenciais de uma estátua é jogá-la de um morro e as peças que não forem importantes vão se quebrar. Às vezes a vida é assim, ela nos joga morro abaixo, mas quando atingimos o fim e só restam às coisas mais importantes é quando nossa visão clareia. É quando nos agarramos ao que conhecemos enquanto a esperança se mexe dentro de nós.” - One Three Hill


II

“- Eu tenho certeza de que minha boneca é muito mais bonita que a sua, . – disse enfiando um vestido vermelho pela cabeça de sua Barbie.
- Não viaja . – eu sorri – Não acredito que estamos brincando de Barbie. Não estamos um pouco velhas demais para isso?
- Não estamos tão velhas assim, maninha! – ela revirou os olhos e deu uma gargalhada.
- Você tem 16 anos e eu 13! Acho que já passamos da idade das Barbies.

...


- Se cuida, . – ela beijou o topo da minha cabeça - Não deixa eles te levarem, você é boa demais para isso. – ela passou a mão em meus cabelos longos e negros e tocou minha bochecha delicadamente – Essa vida não é para você. Fuja o mais rápido possível. – ela sussurrou me abraçando.
- Nem pra você! – gritei.
- Por favor, diga ao que eu o amo. E seja forte. A gente vai ser ver um dia , mas, por favor, lute. Não deixa eles destruírem você também.


...


Acordei mais uma vez chorando e agarrando o travesseiro com força. Sentei-me na cama e enxuguei as lágrimas com a barra da minha blusa. Respirei fundo e caminhei até o interruptor de luz, acendendo a lâmpada e iluminando o quarto então escuro. Aquele era o terceiro dia que eu passava na cobertura de e também o terceiro dia na qual eu não fazia uso de qualquer substância ilícita, álcool e cigarros. É claro que naquele ponto eu já sentia todos os efeitos da abstinência dos três itens. Eu deixaria aquele lugar naquele mesmo dia, logo após roubar algumas coisas que tivessem valor o suficiente para serem vendidas e me deixarem confortável por alguns meses.
Passei os três dias anteriores a aquele sentada em um canto fitando a parede branca do quarto onde eu estava dormindo. sempre vinha trazer água, comida, roupas limpas e ocasionalmente tentava conversar comigo sobre qualquer assunto, mas eu me recusava a conversar com ele ou sequer dizer meu nome. Eu não tinha fome, pelo menos não de comida, eu apenas bebia água e mordiscava um ou outro pedaço de pão enquanto tentava arrancar algumas palavras de mim. Mas eu não falei com ele, nem sequer uma palavra. Eu não ia contá-lo nada sobre minha vida, tampouco ia dizer meu nome. Se ele soubesse quem eu era – e pior, se eu soubesse quem ele era – eu iria me apegar, iria ter esperança ou qualquer sentimento tão patético quanto. Eu precisava ir embora daquele lugar. Eu precisava sentir.
Minha cabeça latejava sem sequer uma pausa e minhas mãos tremiam moderadamente. Eu sabia que iria piorar nas próximas horas e os mais variados sintomas tomariam conta de todo o meu corpo.
E é claro que aqueles sonhos também ajudavam na degradação do meu estado. Eles eram a razão de eu evitar dormir sempre que possível, preferindo desmaiar de tão bêbada ou drogada. Quando eu desmaiava por esses motivos, os sonhos não me perturbavam, ou pelo menos eu não me lembrava deles. Na maioria das vezes. Olhei para o chão e avistei minhas roupas – as que eu usava quando me trouxe para cá – limpas e dobradas. Em cima delas eu pude ver o conteúdo dos bolsos da minha jaqueta: Um maço de cigarros, um dos meus isqueiros, meus documentos, algumas moedas e uma foto velha e desgastada que mostrava minha mãe, eu e minha irmã, abraçadas. Peguei as roupas e caminhei até o banheiro com o intuito de tomar meu último banho ali.
Deixei a água cair e levar com ela todas as lembranças indesejadas. Seria temporariamente, mas aliviaria um pouco o sentimento que tentava me dominar. Provavelmente tempo suficiente para eu conseguir um substituto.
Naquele ponto eu já sentia dor em todos os pontos do meu corpo e dificuldade para respirar. Tudo aquilo era saudades da minha amiga. A partir do momento em que você se torna amiga dela, já não se pode viver sem ela, não se pode respirar, andar, comer. Naquele momento eu precisava dela mais que tudo.
Minha tentativa de levar as lembranças embora falhava, mais que isso, eu podia claramente ouvir as vozes sussurrando no meu ouvido, quase cantando uma velha e conhecida canção.

“– Apesar de ser novinha, olha como é bonita! – ele dizia segurando forte meu braço. – E, além disso é virgem. – O homem que conversava com ele sorriu malicioso.
- Vou querer essa daí mesmo. Sei que vai cobrar caro por ela, uma moça tão bonita, tão jovem... E ainda por cima virgem! Não deve ter sido trabalho fácil achá-la. Oh Deus, dou quanto você quiser por uma noite com ela. – eu senti as lágrimas querendo sair, mas tive que segurá-las. Eu não podia demonstrar nada, sabia que seria punida por qualquer demonstração de sentimentos.
O homem que me segurava pegou um papel no bolso e entregou ao outro, que sorriu.”

Eu senti meu peito latejar com a lembrança e comecei a chorar novamente.

“- Feito. Essa quantia é cara, mas tenho certeza que valerá apena. – sentir o homem soltar seu aperto bruto por um momento, mas outro par de mãos passaram e me segurar, essas por sua vez de um jeito repugnante.
- Vamos logo, boneca. – senti vontade de vomitar ao ouvir ele me chamar daquele jeito. O homem me arrastou com ele para dentro de um quarto qualquer, arrastando junto com ele minha inocência.”


Senti minhas pernas trêmulas cederem e me levarem de encontro ao chão. Dos meus lábios escapou um grito agonizante e choroso. Levei as mãos até a cabeça e a apertei com força, fechando os olhos com mais força ainda.

- VÃO EMBORA! – gritei para os demônios que atormentavam meus pensamentos.

Não conseguia pensar em outra coisa a não ser nos sussurros nos meus ouvidos. Nas músicas baixas entoadas para tirar minha sanidade de mim, lenta e dolorosamente. Os demônios pediam - não, eles mandavam - que eu os alimentasse. O que eles queriam era mais que óbvio.
Mal ouvi as portas e senti as mãos de me levantando do chão do banheiro. Eu já não sabia se estava chorando ou apenas murmurando coisas desconexas e ele fechou o chuveiro atrás de mim. Enrolou-me em uma toalha e me levou para o quarto no colo enquanto a dor entorpecia todo o meu corpo e eu tentava expulsar as vozes de perto de mim.
Ele me sentou na cama e olhou dentro dos meus olhos, minhas lágrimas escorriam brutalmente pelo meu rosto. Eu nunca chorava na frente de alguém, na verdade, o único choro que eu conhecia há anos era o da dor da abstinência. Eu nunca chorava por motivos sentimentais ou por pensar em alguma coisa que me tocasse (seja para bem ou mal), raramente eu tinha tempo para pensar em qualquer uma dessas coisas. O máximo que poderia acontecer era que eu acordasse molhada pelas lágrimas que escorriam silenciosas durante o meu sono e as lembranças que ele trazia. Mas todas aquelas lágrimas acumuladas ao longo dos anos estavam sendo postas para fora agora, num surto de abstinência que eu nunca tinha enfrentado antes. Sempre foi fácil recorrer as drogas quando eu precisava, mas ali, naquele quarto estranho e ao mesmo tempo tão familiar, isso não era uma opção.
Ele não disse nada, apenas tentou segurar minha mão, que eu puxei de volta. Ele continuou me observando e apenas ficou ali, mantendo uma distância confortável e segura. Eu poderia atacá-lo ali mesmo, poderia mesmo com minha pequena estrutura desacordá-lo e ir em busca da única coisa que poderia me fazer bem, mas sua presença era de alguma forma reconfortante, assim como o fato dele saber que não deveria tentar se aproximar novamente. Fosse isso por medo ou respeito.
Eu não sabia o motivo pela qual ele estava fazendo isso, me ajudando e sendo bom comigo. Eu só sabia que quando eu olhava dentro daqueles olhos sabia que alguma coisa me puxava para seu lado, me fazia não querer machucá-lo ou correr. Eu me lembrava daquela noite em que a cor dos seus olhos foram a única coisa a qual eu queria me segurar antes de partir. E eu não queria me sentir assim, eu não poderia me sentir assim sem destruí-lo no processo. Coisas ruins aconteciam com as pessoas da qual eu me aproximava.
Eu sabia que ele sabia perfeitamente da minha natureza e do que eu era capaz, ele sabia que eu era um monstro, mas ele não tinha medo. Ele havia levado uma viciada para dentro de sua própria casa e estava cuidando dela como se a conhecesse, ignorando todo e qualquer perigo que aquilo poderia representar para sua própria integridade físicas. Ele a tratava com calma, paciência e compreensão. Ele só podia estar fora de si.
Minha respiração começava a se normalizar, o choro já cessara lentamente. Ele se levantou e minha garganta soltou um barulho, um murmúrio quase inaudível de reclamação. Ele me olhou, surpreso.

- Só vou pegar algumas roupas pra você. Quer que eu fique?

Concordei com a cabeça e ele pegou algumas roupas no guarda-roupas do quarto onde eu ficava. Ele as colocou na minha frente e continuou onde estava antes.

- Acho que vou vomitar. – sussurrei.
- Quer que eu pegue um balde ou te ajude a ir ao banheiro?
- Banheiro.

Ele me levantou devagar, tomando cuidado para que a toalha que me enrolava não caísse. Ao entrar no banheiro, me ajoelhei na frente do vaso e comecei a vomitar copiosamente. Dougie segurou meu cabelo para trás e também minha testa, dizendo que eu poderia forçar a cabeça para frente. E eu forcei, vomitando por longos quinze minutos. Ele não saiu de lá até que eu parasse e conseguisse me sentar. Buscou as roupas, me deu privacidade para que me vestisse, me limpasse e então me ajudou a voltar para o quarto.

- Você se sente melhor?
- Sim. Sinto muito, você não precisava ter visto tudo isso. Eu prometo que vou embora nas próximas horas. Você já fez muito.
- Eu te disse que poderia levar o tempo que precisar, não disse? – ele sorriu, se levantou e saiu do quarto.

Respirei fundo e fui até o banheiro novamente para lavar a boca um pouco mais e tirar o gosto de vômito que ainda estava impregnado nela. Enquanto isso, não conseguia parar de pensar no sorriso de e no jeito com que ele segurou meu cabelo e minha testa enquanto eu vomitava. Eu repetia copiosamente para mim mesma que não deveria dar qualquer chance para ele se aproximar, mas havia alguma coisa, alguma força magnética, que me puxava para ele e para aqueles olhos cor de mar e ao mesmo tempo de céu.
Eu me levantei e fui até a porta, ele estava fazendo panquecas e colocando em dois pratos. Eu me escorei no batente da porta e olhei para ele, que sorriu de volta para meu olhar.

- Estou fazendo panquecas pra gente. Quando estiverem prontas eu te chamo. Quer dizer, se você quiser sair do quarto. Posso levá-las para você, se preferir. Tente comer um pouco. – eu assenti e continuei parada olhando ele.
- Obrigada, . – Eu disse. – Acho que vou esperar aqui mesmo. – eu me sentei na mesa a frente dele - E a propósito, meu nome é . – Sem sequer perceber, mostrei-o um sorriso, meu primeiro de verdade em um bom tempo.

Naquela época eu não fazia ideia de como, mas sabia que ele havia feito todos os demônios irem embora. Eles não sussurrariam mais, pelo menos não naquele dia. Não enquanto a voz dele era tudo que meus ouvidos podiam escutar.

“Essa escuridão tem um nome? Essa crueldade, esse ódio, como ele nos encontrou? Ela se meteu em nossas vidas ou nós a procuramos e a abraçamos? O que aconteceu conosco que agora mandamos nossos filhos para o mundo como mandamos jovens para a guerra, esperando que voltem a salvo, mas sabendo que alguns deles se perderão no caminho? Quando perdemos o nosso caminho? Consumidos pelas sombras, engolidos completamente pela escuridão… Essa escuridão tem um nome? Acaso, é o seu nome?” - One Three Hill


III

Minha mãe morreu quando eu tinha apenas cinco anos. Ela teve um tipo agressivo de câncer e como a boa lutadora que era, ainda sobreviveu mais dois anos após um diagnóstico que dizia que ela tinha apenas 6 meses. Após isso minha irmã mais velha, , foi a unica figura adulta na minha vida, apesar de ter apenas nove anos. Você imagina o quão difícil deve ser ter que se tornar mãe aos nove anos?
Meu pai já bebia muito antes mesmo da minha mãe morrer, mas as drogas só vieram depois e as apostas também. Chegamos a ficar meses a fio sem o ver, sem ter alguém que comprasse comida em casa ou que nos ajudasse. Os vizinhos chamavam o serviço social sempre que ele sumia, mas no final das contas acabávamos voltando para aquela casa, para as surras que ele nos dava enquanto estava em casa e para o completo abandono no resto do tempo. Sempre que o serviço social aparecia e nos buscava, acabavam nos mandando para casas diferentes. Fica longe da minha irmã era pior do que qualquer surra com os objetos que meu pai encontrava pela casa, então pedimos os vinhos que parecem de o denunciar.
Apesar de nunca ter tido uma infância normal, posso dizer que tive bons dias ao lado da minha irmã. Ela fez todo o possível para que eu não tivesse que crescer rápido demais como ela teve que crescer, e eu sempre seria muito grata por isso e por tudo que ela fez por mim.
Aos treze anos conheceu , seu primeiro namorado. tinha quinze anos e se tornou um irmão mais velho para mim, o mais próximo de uma figura paterna que já tive. Ele sempre estava por perto, nos ajudando e amando incondicionalmente. Eles ficaram juntos até o dia em que minha irmã partiu. Eu apenas o vi novamente quando ele foi até nossa casa procurar por ela, mas não cheguei sequer a falar com ele. Só ouvi gritos e o barulho do punho do meu pai se chocando contra o rosto do rapaz de dezesseis anos e chorei em silêncio, trancada no quarto com medo de ser a próxima. Nunca pensei que o veria de novo e evitava pensar sobre sua existência, era só mais uma das feridas abertas que nunca cicatrizavam.
se virou para mim novamente e abriu um sorriso, levando os dois pratos de panqueca até a mesa, juntamente com uma jarra de suco.
Eu não havia comido praticamente nada desde que havia chegado lá, eu nunca tinha fome de verdade por causa da quantidade de drogas que usava diariamente. Esse era, na verdade, um fato explicítio por causa da minha nutrição. Eu nunca cheguei a me pesar naquela época, mas tenho certeza que eu não tinha mais que 45 quilos enquanto media cerca de um metro e setenta. Eu não parecia humana naquele ponto. Mas com tanto tempo sem ela, eu tinha fome, ou ao menos algo parecido com isso.

- Por que você está fazendo isso? – perguntei enquanto levava um pedaço das panquecas até a boca, mastigando com dificuldade. Estavam maravilhosas.
- Fazendo o que?
- Me ajudando, me tratando bem. Você não deveria trazer drogadas que desmaiam na rua para casa, seus pais nunca lhe ensinaram isso? Eu sou uma pessoa ruim, . Ruim de verdade. Poderia ter machucado você ou coisa pior. – disse sem encará-lo.
- Você não pertence àquele mundo.
- Você não me conhece. – soltei uma risada amarga.
- Mas eu poderia.
- Não. Não poderia e nem deveria. – ficamos em silêncio por alguns segundos.
- Está sozinha?
- Minha mãe morreu quando eu era criança, meu pai... Ele me... Abandonou. – concluí – Eu tenho uma irmã mas já não vejo ela há alguns anos. Eu fugi.
- Fugiu? – Ele levantouuma sobrancelha.
- Bom, ela me ajudou a fugir da vida que nós levavamos. Sou uma covarde, nunca voltei pra ela. Não posso dizer que tive sorte, por que não tenho levado uma vida exatamente boa depois disso. Mas qualquer coisa é melhor que aquele lugar. Meu pai nos abandonou quando eu tinha treze anos. Ele era um viciado, se importava mais com as drogas e jogos do que conosco. Bem, comigo não tem sido tão diferente. Eles dizem que devemos aprender com nossos erros, mas eu pareço uma mula que só repete as mesmas coisas que sofreu. E eu não sei porque estou falando tudo isso. Eu sinto muito. Novamente, porque eu estou aqui? Por que você está fazendo isso?
- Foram seus olhos. – ele deu de ombros.

Ele disse enquanto enchia nossos copos com mais suco. Não dissemos mais nada enquanto comíamos e vez ou outra, nossos olhos se encontravam. Parecia que isso dizia muito mais que qualquer palavra – e que sorte, pois por mais que eu tentasse, nada saía da minha boca.

...


O apartamento nada modesto de era decorado com bom gosto e cheio de memórias familiares. Sua irmã estava presente em diversas fotos, assim como seus pais e uma outra garota que ainda não havia sido mencionada, talvez uma irmã mais velha, que estampava apenas uma única foto ao lado dele. Não que ele tivesse me falado sobre sua família até o momento, eu apenas sabia da existência deles por fotos e objetos pela casa – como as roupas e pertences que eu estava usando desde que chegara ali -.
Eu ainda não havia indo embora poucos dias depois da minha crise e não sei dizer até hoje – assim como não sei dizer tantas coisas – o motivo disso. Nos próximos dias eu não me sentia tão mal, apesar de não me sentir bem.
Era uma tarde e estávamos sentados no sofá da sala. Eu começara a me permitir sair do quarto algumas poucas vezes e pude reparar que ele estava sempre em casa e no computador, provavelmente trabalhando. Me sentia culpada por atrapalhar sua rotina e sua vida, mas algo me fazia ficar mais e mais naquele apartamento.
Nós nunca trocavamos muitas palavras, ele normalmente ligava a TV e se sentava num sofá enquanto eu me sentava no outro, como naquele exato dia.
A TV exibia um filme qualquer e eu não prestava tanto atenção, só queria estar ali.

- Tudo bem? – ele perguntou, desviando o olhar de seu computador pela primeira vez.
- Acho que sim. – ele sorriu e voltou a digitar – Eu te contei sobre a minha família no outro dia. E a sua? E você?

Ele pareceu extremamente surpreso com minha pergunta e provavelmente com o fato de eu estar conversando com ele, já que desde o dia das panquecas não haviamos trocado praticamente nenhuma palavra. Ele continuou sorrindo enquanto deixava o computador de lado e se concentrava em mim com os olhos curiosos e tão .

- Bom, somos eu, minha mãe e , minha irmã mais nova. Meu pai se mandou quando eramos crianças e nunca mais tivemos contato. Minha mãe mora em outro estado não muito longe daqui e minha irmã foi estudar moda em Paris, voltou ao se formar, mas agora foi passar algum tempo lá de novo. Sempre fomos bem próximos, você vai gostar dela quando a conhecer.
- Conhecê-la?
- Em algum momento provavelmente sim, ela sempre vem me visitar. – ele sorriu – E, bom, sobre mim...
- Eu não vou ficar aqui até ela voltar. Você sabe.
- Bom, sobre mim, de novo, eu trabalho no ramo musical, o que me permite muito tempo em casa e também muito tempo com os meus amigos. – ele disse ignorando completamente o que eu havia falado - E, bom, não sei, o que você gostaria de saber? – ele riu.
- Acho que está bom, só gostaria de saber o suficiente para não estar invadindo a casa de um completo estranho. – eu também ri com ele.
- Quer saber de algo que vai fazer eu não ser mais, definitivamente, um estranho?
- O que?
- Sabe aquelas jujubas coloridas? – concordei – sou completamente viciado naquilo, mas abomino as roxas. Sempre jogo fora ou dou pra quem estiver perto.
- Agora eu realmente tenho certeza de que você é um cara muito estranho, . – eu ri - Caralho, nem lembro a última vez que comi isso, mas a minha mãe sempre comprava essas jujubas pra mim e minha irmã quando éramos bem pequenas.
- Todos fazem graça disso, mas é algo importante. Imagina se eu como as roxas e morro? Nunca se sabe.
- É, nunca se sabe. Dá próxima vez, dê todas pra mim, não vou reclamar.
- Feito! – ele sorriu, me olhando intensamente por alguns minutos.
E eu me odiei profundamente por ter abaixado minha guarda pela segunda vez.

...


Pouco tempo tempo depois eu tive um dia excepcionalmente ruim. costumava trancar a porta quando saía e esse foi um dos dias na qual ele teve que ir até seu trabalho resolver algum problema. Não que nós dois passassemos todo o tempo juntos, conversando, e que fossemos amigos de fato, mas a presença dele no apartamento me fazia sentir bem mais segura e calma, mesmo que estando em outro cômodo. Eu sabia que se alguma coisa acontecesse, ele me ajudaria.
O que ele estava tentando fazer diariamente era ganhar minha atenção e confiança aos poucos. E, bom, talvez ele estivesse conseguindo. Eu tentava me esconder no quarto, tentava não responder aos seus sorrisos tão compreensivos, mas continuava sendo sugada para o olho do furacão que ele estava sendo na minha vida. Ao mesmo tempo que ele era um cais, um porto seguro no qual meu barco devia atracar, ele também era um furacão que estava dizimando tudo ao meu redor. Eu ainda não sabia se isso era bom ou ruim, mas sabia que era essa polaridade que me fazia ficar ali naquela casa.
Eu liguei a TV algumas vezes, mas não conseguia ficar sentada e quieta assistindo. Tentei limpar algumas coisas, tentei cozinhar, tentei dormir. Nada adiantava e eu continuava me sentindo mais e mais agitada. Torci para que ele chegasse logo e quando minhas lamúrias foram atendidas, saí correndo do quarto como uma criança numa manhã de natal.

- Hey! Achei que fosse estar dormindo. Trouxe duas coisas pra gente.
- Pra gente? – arqueei uma sobrancelha.
- É! O , um dos meus amigos do trabalho, me emprestou esse filme que ele disse ser ótimo. Pequena Miss Sunshine ou algo assim. Então pensei que a gente podia ver junto, passei no supermercado e comprei pipoca, refrigerante e... – ele enfiou a mão na sacola e puxou um saco enorme e colorido – Jujubas! O maior tamanho que eles tinham. – nunca parava de sorrir, o que chegava até a me incomodar às vezes, mas dessa vez, como tantas outras, não pude evitar sorrir com tanto carinho direcionado a mim.
- Posso ficar com as roxas?
- Elas já eram suas antes de pedir. – ele piscou e eu ri – Por que você não coloca o filme na televisão enquanto eu faço a pipoca?
- Tudo bem.

Ele me entregou o DVD e eu rumei até a sala, descobrindo até bem rapidamente como tudo aquilo funcionava. voltou não muito depois com copos de refrigerante, pipoca e jujubas, se equilibrando como um malabarista. Nós nos sentamos no chão, como sempre numa distância confortável que ao mesmo tempo tão próxima. O filme nos fez rir, quase chorar um pouco – me fazendo descobrir que ele era muito emotivo – e conversar algumas vezes. Ele me deu todas as jujubas roxas e eu tentei fazê-lo comer algumas, sem sucesso.

- Vai lá, abre a boca, vamos ver se você é bom em pegar as coisas. – eu jogava as jujubas e ele tentava comê-las no ar, me fazendo gargalhar em todas as tentativas falhas – Você é péssimo, eu sabia!
- E quer dizer que a senhorita é boa?
- Quer testar? – ele jogou uma, duas, três e eu consegui pegar todas.

Quando foi minha vez de jogar de novo, minha mão direita parou de me obedecer e tremia muito. Eu a segurei com força, fechando os olhos. Eu parei de rir imediatamente, fazendo também parar, sério.

- Posso? – ele indicou as minhas mãos e eu dei de ombros, fechando os olhos novamente.

Ele as segurou forte entre as suas e deu um beijo. Eu apenas respirei fundo e engoli as lágrimas, olhando para a porta.

- Você vai ficar bem.

Eu encarei a porta por mais algum tempo, parte de mim desejando estar longe, tão longe dali e com algumas agulhas fincadas em meu corpo ou uma corda em meu pescoço. Já a outra parte queria que me trancasse naquela casa e me ajudasse a fazer sua última frase ser real, queria ficar bem. As duas partes gritavam tão alto que eu não sabia qual ouvir ou pra onde ir, só sabia que eu deveria fazer algo rápido, antes que eu o machucasse.

...


Sete dias se passaram e a cada segundo eu me sentia pior. Minhas mãos tremiam tanto que realizar tarefas simples como acender um cigarro tornavam-se lentas e quase torturantes. Eu percebi que era hora de ir embora, de vez.
Era uma segunda de manhã e estava no fogão, tentando preparar ovos e bacon para nosso café da manhã. Ele havia me dito que tinha que trabalhar naquela semana, mas que eu poderia ficar em casa vendo um filme ou lendo, ou o que eu quisesse, como das outras poucas vezes que ele saía. Também me disse que tentaria voltar logo após o almoço e que iríamos fazer algumas compras para mim, coisas básicas e tudo mais. Perguntou-me alguns milhões de vezes se eu ficaria bem, se precisava de alguma coisa e pediu para que eu não fosse embora. Eu apenas ri e concordei.

- Quer dizer, sério, não saia daqui ou faça nada. – ele disse, meio sorrindo, meio sério.
- Não se preocupe, não vou roubar nada. – ri.
- Não, eu não quis dizer isso ! – quase corei quando ele me chamou pelo apelido, mas apenas sorri com o canto da boca – Eu realmente preciso ir. Fique bem, por favor.
- Eu vou.

Suspirei, pensando que aquela seria a última vez em que eu veria meu herói dos os olhos enquanto ele saia de casa. Observei pela janela do meu quarto emprestado o Civic preto de deixar o prédio. Não se passou sequer uma hora e eu abri o grande armário do quarto de e retirei minha jaqueta, perdida entre os outros milhares de roupas que eu jamais usaria ou sonharia em ter. Infelizmente levaria as roupas que estavam no meu corpo, peças que me emprestara vindas do guarda-roupa de Alice, mas só o faria por falta de alternativa. Procurei meus poucos pertences e rumei até a sala, onde peguei alguns trocados que estavam em cima da mesinha de centro. não era uma pessoa muito organizada, então sempre havia dinheiro jogado pelos cômodos da casa. Voltei ao quarto e abri o guarda-roupa, pegando uma das milhares bolsas da Gucci, que aparentava ser cara. No meio de tantas, Alice não daria falta de uma. Já saindo do apartamento, suspirei observando a porta. Não tinha muito o que se pensar ou se dizer, eu só precisava ir embora. Iria de certa forma sentir falta do tempo em que vivi ali e do modo como fui tratada por . Confesso que também pensei que sentiria falta dos olhos dele me olhando com carinho e da forma como ele sorria nas poucas vezes em que nos falamos. Ainda éramos estranhos, sim, mas era uma estranheza boa, confortável, cheia de sorrisos e olhares que diziam tudo e nada.
Desci pelas escadas e deixei o prédio pela garagem. Eu não conhecia o bairro bem, nunca havia passado por ali a pé e não me lembrava da última vez que havia passado por ali de carro, ou ônibus. Apenas caminhei por entre as pessoas, minha cabeça estava baixa e meus passos apressados. Usei os trocados que achei na sala para pegar um ônibus até o bairro onde eu costumava ficar na periferia da cidade, onde alguns “amigos” moravam. Quase uma hora depois, desci do ônibus. Andei um pouco e avistei uma casa com a tintura velha, já descascando e suja. Fui até a porta e bati, sendo atendida por uma mulher na casa dos quarenta e com o cabelo “loiro de farmácia”.

- Dallas.
- .

Ela deu espaço para que eu entrasse e fechou a porta, logo após sumindo na escada da casa. Caminhei até a conhecida cozinha e encontrei um grupo de homens jogando poker.

- Olha só quem voltou...
- Quem é vivo sempre aparece. – ri – Trouxe algo – joguei a bolsa em cima do rapaz que havia falado comigo – Vale muito. Muito mesmo.
- O que você quer?
- O de sempre.
- É seu, docinho. É sempre bem vinda aqui. – ele mostrou os dentes em um sorriso sacana e eu o retribui, logo após deixando a sala – Mas não se esqueça das regras! – ele gritou de longe.

Subi a mesma escada por onde Dallas desapareceu e logo estava no já tão familiar corredor da casa. Logo ao final estava o pequeno quarto onde eu dormia às vezes, um lugar apertado e com cheiro de mofo, sêmen e sangue. Tirei a jaqueta e a joguei sobre o fino colchão que ficava no chão, um dos únicos objetos no quarto. Encontrei Dallas no quarto ao lado, preparando algumas encomendas.

- Eu quero uma. – disse apontando para uma das embalagens – E onde consigo um isqueiro?
- Você sempre quer muito... – resmungou – Não sei por que ainda deixam você ficar aqui.
- Porque meus peitos ainda não caíram. – resmunguei olhando para o decote dela.
- Some.

Peguei o que ela me havia me entregado e voltei ao quarto. Sentei-me no colchão e encarei a seringa e a colher na minha mão por alguns segundos. Deite-me no fino colchão e olhei para o teto, cheio de rachaduras e mofo. Minha cabeça doía, como sempre que ficava tempo demais sem minha amiga, mas toda vez que encarava a seringa e o pequeno vidro em minhas mãos a imagem dos olhos de me vinham a mente. Eu sabia que isso não significava muito, ele não era mais importante que minhas necessidades, eu mal o conhecia. Eu repetia isso para mim mesma sem parar: Ele não me conhecia, eu não o conhecia. E ele não deveria me conhecer, eu não poderia deixar que isso acontecese. De qualquer forma, eu não poderia mais voltar, não depois de ter roubado da sua casa daquela forma. Quando a agulha perfurou meu braço eu podia jurar que ouvi uma voz sussurrar “Eu realmente preciso ir. Fique bem, por favor”.
“Eu vou ficar”, pensei comigo mesma enquanto fechava os olhos e deixava uma única e solitária lágrima escapar.

...

Acordei com um barulho alto e quase ensurdecedor vindo de algum lugar próximo. Passei as mãos pelo rosto e olhei em volta, ainda estava no mesmo quarto. Eu peguei minhas roupas jogadas pelo chão do lugar e caminhei até o banheiro no corredor sem sequer olhar para os dois homens que estavam adormecidos no quarto onde eu estivera.
Entrei no banheiro e tranquei a porta. Liguei a ducha e entrei debaixo dela, lavando-me freneticamente, meus braços sujos de sangue e meu corpo de sêmen. Mas eu sabia, não importava o quanto me esfregasse, a sujeira jamais sairia de mim. Sentei-me no chão sujo do banheiro e chorei enquanto a água caia em minha cabeça. Não sabia pelo que estava chorando, mas me deixei chorar, ali ninguém poderia me ver ou ouvir.

“É sua culpa, , você escolheu isso”.
- Eu nunca... – sussurrava.
“Você deixou sozinha, você foi covarde e fugiu. Você escolheu essa vida.”
- Eu sei. Eu sei... – deitei-me e abracei os joelhos.

Pensei em , em minha mãe, meu pai, em Jason, em e até mesmo em . Lembrei de cada detalhe que já me fez triste ou feliz e então encarei as marcas no meu braço por um longo tempo, talvez até as lágrimas cansarem de cair. Então sai da ducha, vesti minhas roupas e comprei mais algumas pedras com o dinheiro que os homens no quarto haviam me dado.

“Carmen, Carmen, ficando acordada até de manhã. Apenas 17, mas ela anda pelas ruas tão má. É alarmante, de verdade, o quão convincente ela pode ser, enganando a todos dizendo que ela está se divertindo. Querida, está vestida sem lugar para ir. Essa é a curta história da garota que você conhece, confiando na simpatia de estranhos, dando nós em cabos de cerejas, sorrindo, fazendo favores em festas. Coloque seu vestido vermelho, passe seu batom, cante sua música, agora que a câmera está ligada e você está viva novamente. Meu amor, eu sei que você me ama também, você precisa de mim, você precisa de mim em sua vida, você não pode viver sem mim e eu morreria sem você, eu mataria por você.” Carmen, Lana Del Rey.

IV

“- Eu não consegui o suficiente. Jason vai me bater de novo. – choraminguei enquanto entrava na casa.
pegou o dinheiro que eu tinha nas mãos e contou, olhando-me preocupada.
- Precisa se esforçar mais ou as coisas vão ficar ruins, . Ninguém gosta disso, mas não queremos que coisa pior aconteça conosco. – ela pegou algumas notas do seu bolso e colocou junto as minhas – Agora ele não vai fazer nada com você. E não se preocupa, eu tinha mais do que eu o suficiente. Some daqui, vai.

Eu caminhei até o pequeno quarto que dividia com mais algumas garotas da minha idade e me sentei na beirada da cama. Eu estava sozinha, sempre era a primeira a chegar e sabia que realmente precisava me esforçar mais, caso contrário continuaria sendo castigada no meu lugar. De algum jeito, ele sempre descobria quando ela me dava dinheiro.
Mais tarde, quando todas chegaram, Jason passou nos quartos recolhendo o dinheiro. Não pude dormir a noite toda ouvindo os gritos de enquanto ele lhe espancava. Não importava o quanto eu fechasse o travesseiro ao redor dos meus ouvidos, os gritos dela ficavam cada vez mais altos e a culpa em mim cada vez mais insuportável. Ela nunca pararia de se sacrificar por mim, mesmo quando eu tentava assumir a culpa e ser castigada no lugar dela. ”

- Quanto você conseguiu? – Savannah me perguntou enquanto se sentava na beirada do asfalto.
- O suficiente para o quarto e minhas coisas. – guardei um maço de notas no bolso e me sentei ao lado dela – Obrigada por me ceder um lugar aqui.
- Você já é de casa, garota. – ela disse com um sorriso meio triste.

Era triste, de fato. Mas não só para mim, mas para todas as garotas que ali estavam. Algumas escolheram estar ali, outras eram obrigadas. Algumas sequer tinham a idade que eu tinha quando comecei. Suspirei e me odiei por estar ali novamente, mas era a única maneira fácil de conseguir algum dinheiro, coisa de que eu precisava urgentemente. E como eu havia dito para Dallas, meus peitos ainda não haviam caído.
A noite já havia acabado e eu agora caminhava em direção à velha casa em que eu estava morando, a mesma na qual eu procurei abrigo quando saí do apartamento de . Dallas e seu marido, Carter, não me cobravam muito pela estadia e eu ainda tinha um modo extremamente fácil de conseguir heroína. Já faziam duas semanas que eu havia voltado para as ruas e eu já estava me acostumando ao fato de nunca mais ver . A única lembrança que eu guardava dele eram seus olhos e, talvez, sua gentileza. Mas não importava, não havia porque pensar naquilo. Já era passado.
Eram quatro da manhã e quando eu entrei no meu quarto desabei no colchão. O efeito da última dose havia passado há no mínimo meia hora e eu já queria mais. Mas eu sabia que se estivesse alta com certeza algum dos homens que ali também moravam apareceria querendo transar comigo e não me dariam um centavo por isso.
Para mim, sexo era apenas algo que eu fazia por dinheiro, e, além disso, só quando eu já havia me drogado. Era algo que eu jamais me permitiria (e nem queria) fazer sã, era algo que me dava repulsa e, sim, uma obrigação. Eu nunca havia sequer beijado alguém por vontade própria, já que fui obrigada a me prostituir com apenas treze anos, idade na qual eu jamais sequer pensara em garotos de forma romântica.
Tremendo de frio, tirei as roupas que vestia e peguei minha jaqueta e uma calça velha que Dallas havia me dado. Adormeci antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa.

...


“- Pare de bater nela! Ela não fez nada! – eu gritei apertando a blusa contra o corpo.
- Fique quieta, ! Ninguém lhe chamou aqui! – gritou mais alto, me olhando em pânico.
- Acho que você precisa de modos, garota. Você vai aprender a não levantar a voz para mim nunca mais.

Ele soltou enquanto prometia não ter se esquecido dela e me agarrou pelo braço, me arrastando para um quarto no andar de cima. Eu chorava e tentava me soltar dele, quando ele me jogou no chão e trancou a porta.

- Seu pai nunca te ensinou a não levantar a voz com alguém mais velho, garota? – fiquei em silêncio enquanto ele abria a gaveta e tirava algo de lá – Vou ser bonzinho com você hoje, você vai ficar tão feliz comigo que quem sabe talvez apareça qualquer dia desses no meu quarto para eu foder você. – ele riu e eu vi ele encher uma seringa sorrindo.

Eu sabia o que ele iria fazer, ele havia feito isso com várias das garotas dali, como forma de elas jamais tentarem fugir, como forma de que elas precisassem deles.

- Não, por favor. Por favor. – eu chorei enquanto ele me segurava com força e apertava meu braço.
- Só vou te dar uma dose de alegria, sorria, criança.
- Por favor... – sussurrei enquanto a agulha perfurava meu braço.”

Quando acordei eram quase quatro da tarde. Tomei um copo de água e fumei um cigarro enquanto ajudava Dallas a embalar a mercadoria que deveria sair no dia. Injetei mais do que devia e quando eram quase oito da noite e saí para fazer qualquer coisa. O efeito estava fraco, parecia vir devagar e não suprir a necessidade que eu tinha de levar as vozes embora. A cada dia eu precisava de um pouquinho mais. Quando cheguei ao bar mais próximo injetei mais um pouco e fiz um cara qualquer me pagar algumas doses de Vodca. Antes que o dono do bar me expulsasse eu saí com um cigarro na boca e pronta para uma confusão qualquer, como em qualquer outro dia. Não muito longe encontrei um grupo de garotos da minha idade cheirando cocaína. Um deles me ofereceu um pouco em troca de um favor. Chupei o garoto, dei um tiro e saí de lá sem me lembrar sequer o nome de minha mãe. Não me lembro mais do resto daquela noite, mas me lembro de desmaiar em algum canto de um parque qualquer e desejar mais uma vez que a morte me buscasse.
Mas ela não buscou e tampouco o fez daquela vez.

...


- Por onde você andou? – Dallas disse quando eu entrei na casa.

Era hora do almoço e ela estava comendo algum tipo de sanduíche enquanto fazia o balanço do mês, lembrando-me que eu não sabia a ultima vez que tinha comido alguma coisa.

- Por aí, me divertindo. – dei de ombros e peguei alguns pacotes em cima do armário – Peguei três – Joguei o dinheiro em cima da mesa e ela não disse nada.

Quando subi para o quarto minha cabeça latejava e eles conversavam comigo alegremente. Tentei ignorar, mas como sempre, eles falavam mais alto que qualquer outro pensamento que eu pudesse ter.

“Vadia inútil. Não vai voltar para salvar sua irmã?”
- Eu não sei onde ela está. Não me encham.

Mas eles não pararam, eles nunca param. Sem pensar direito, injetei o máximo que consegui e me joguei na cama.

“Você a fez apanhar, a fez perder tudo, pegou o dinheiro que ela havia juntado e fugiu. Nunca voltou. Você não se envergonha?”
“Ela não tinha mais que sua idade. Como pode fazer isso com ela?”
“Ela talvez esteja morta agora. Isso não incomoda você?”
“Vadia. Viciada. Inútil. Porque ainda está viva?”
- CALADOS! NÃO É MINHA CULPA! VÃO EMBORA! – gritei tampando mais ainda os ouvidos.

Meus braços tremiam e uma dor horrível tomou conta da minha cabeça. Comecei a ficar enjoada e logo estava vomitando no chão do quarto, minhas pernas também tremendo. Meu corpo tremia, doía, tudo parecia errado. Deitada no meu próprio vômito eu desmaiei, completamente sozinha e apenas desejando que eles se calassem de uma vez por todas.

...

Quando eu acordei não reconheci o lugar onde me encontrava. Não havia mofo no teto e nem cheiro algum no ar. Senti algo pressionando meu braço e olhei para o mesmo. Uma agulha estava presa nele com um esparadrapo. Meus olhos seguiram o pequeno tubo que se seguia até uma bolsa de soro ao meu lado, que pingava lentamente. Ao olhar para os lados vi cortinas claras e compridas, percebendo então que estava em um hospital.

- Finalmente acordou. – a cortina se abriu e uma mulher sorridente entrou no quarto.

Ela trocou a bolsa com soro e injetou algo dentro dela com uma seringa. Logo após parou ao meu lado e sorriu.

- Sou Joanna, sua enfermeira no momento.
- Quem me trouxe para esse lugar?
- Alguém chamou uma ambulância, você estava caída na rua.
- Quando vou poder ir embora?
- Quando estiver melhor. Você teve uma overdose leve, mas apresenta um caso grave de desidratação, queremos deixar você no soro por mais algum tempo.

Ela sorriu mais uma vez e saiu sem dizer mais nada. Era simpática, admito. Mais tarde me trouxe chá e conversou mais um pouco comigo. Explicou-me sobre como cheguei ao hospital e disse que a overdose não fora assim tão leve, mas que fui levada a tempo para o hospital e por isso não tive mais nada sério (como se a overdose em si já não fosse séria o suficiente). Na “cabine” ao meu lado estava Sean, um garoto simpático e que havia quebrado a perna. Já era noite quando eu percebi que realmente precisava sair daquele lugar.

- Quando vou poder sair? – perguntei novamente, quando Joana voltou para me ver.
- Em breve.

Saiu sorridente – para variar – e eu acabei cochilando. Quase uma hora depois acordei. Eu podia ver pela pequena janela quase à minha frente que já estava escurecendo. Joanna entrou novamente pelas cortinas, puxando alguém pela mão. A pessoa não entrou, mas eu podia ver que estava lá. Ela retirou com delicadeza a agulha que estava em meu braço e limpou sangue que estava coagulado em volta de onde a agulha a pouco estivera.

- Vem, entra , eu já tirei a agulha. Idiota. – ela riu e eu olhei confusa para o rapaz que entrava pelas cortinas.

A primeira coisa que vi foi, é claro, os olhos. Sempre , sempre tão intensos e dizendo tantas coisas em silêncio. olhou dentro dos meus olhos e deu um sorriso torto, logo após me olhando de cima a baixo. Senti-me confusa, o que ele estava fazendo ali e como havia me achado?

- Achou que ia fugir de mim, não é? – ele riu.
- O que diabos você está fazendo aqui?
- Então, a Joanna me ligou ontem de noite e disse que uma garota parecida com a que eu estava procurando havia dado entrada aqui. Eu vim checar, você estava desacordada e realmente era você.
- Você estava me procurando? Ou me seguindo?
- Eu estava te procurando desde o dia em que você foi embora. Eu fiquei muito preocupado.
- Como você conhece a Joana?
- Ela é namorada do meu amigo, o . Foi realmente uma grande coincidência, . Ou talvez simplesmente fosse pra ser... Certo? – fiquei em silêncio – Vem, vamos pra casa. A Jô disse que você está liberada.
- Pra casa?
- É, pra casa, dãh. Nossa casa e tudo mais. Vem, já está ficando tarde e eu ainda tenho que comprar algo para gente comer.

puxou minha mão e me tirou dali. Não vi Joanna por perto para agradecer e apenas deixei me levar. Eu estava em um daqueles momentos de completa perplexidade, não conseguia acreditar que justo me achara ali. Eu apenas o segui calada por que não sabia o que fazer, não sabia como lidar com aquela situação, principalmente sabendo que ele estava me procurando e que parecia realmente preocupado. Ao mesmo tempo em que era completamente estranha a forma como ele me tratava, a intimidade que ele havia misteriosamente desenvolvido e o fato dele continuar tentando me salvar, eu me sentia confortada e segura por saber que ainda havia alguém no mundo que se importava comigo. Talvez a única pessoa. E a forma como ele disse “nossa casa” piscava na minha mente. Casa. Será que finalmente eu tinha um lar? O que estava acontecendo? Tudo parecia completamente irreal e minha cabeça dava voltas.

“Vem, vamos pra casa.”
“Agora você vai poder ir para casa, . Você vai ser feliz de novo. Por favor, me prometa que você vai! Não faça que isso seja em vão. Por favor, irmãzinha.”
“É, pra casa, dãh. Nossa casa e tudo mais.”

...


Quando acordei no dia seguinte não havia ido trabalhar e eu não queria ir embora, apesar de saber que precisava. Sai do quarto e dei de cara com ele deitado no chão da sala, rodeado de papéis. Fui até a cozinha e vi que ele havia feito chá. Enchi uma xícara e voltei para a sala, sentando-me no sofá e observando como ele misturava as folhas e fazia anotações.

- Achei melhor trazer o trabalho para casa hoje. Não que isso seja ruim, na verdade.
- Você não precisa fazer isso.
- Está tudo bem, eu gosto de ficar em casa.
- Estou falando sério, precisamos conversar.
- Eu estou ouvindo.
- Você não pode mais fazer isso. Não pode ficar me procurando por aí e tentando me trazer pra cá, não pode continuar com essa ilusão que criou de mim. Você não me conhece, , estou cansada de dizer isso. O que há de errado com você? Eu sou uma viciada. Eu me drogo todos os dias, várias vezes por dia e com várias coisas diferentes. Eu moro num quarto alugado na casa do meu traficante ou então fico na rua mesmo, eu não faço porra nenhuma da vida, eu não tenho roupas, perdi a maioria dos meus documentos, não tenho família, não tenho dignidade. Eu roubei você antes de fugir, você sabe, não sabe? E sabe que eu posso fazer de novo? Eu não tenho o menor controle sobre mim mesma. Eu posso te machucar, posso te machucar de verdade. O que você tem na cabeça? Sério, eu não entendo e não sei bem se quero entender. Isso é errado, muito errado. Não pode me tratar como se me conhecesse ou fossemos amigos. Para ser sincera, isso é super bizarro, ninguém normal faz isso. Então pare, pare de tentar me fazer ficar, pare de me tratar bem e me dar esperanças. Eu não posso ficar . Você não pode me salvar, não sou um projeto social ou humanitário. Puta merda, vai pra África ajudar crianças ou algo do gênero!
- Eu já te disse, são seus olhos.
- E o que essa merda de resposta significa, ? – disse irritada.
- Que você sempre vai ter um lar aqui se precisar e quiser.
- Por favor, me diga a verdade.
- É tão difícil acreditar que alguém quer te ajudar?
- ... O que você quer? É sexo?
- O que? Que tipo de pessoa você pensa que eu sou? – ele se irritou – Ok, desculpa, não quis usar esse tom de voz. Não, , eu não quero sexo. Sabe o que eu quero? Quero que você fique aqui, quero ajudar, quero te dar todas as minhas jujubas roxas. – eu ri, involuntariamente - Eu até liguei para minha irmã e pedi para ela vir aqui me ajudar. Ela vai te levar para fazer compras e tudo mais, e vamos arrumar o quarto de visitas para você, vai ser seu quarto, tipo, pra sempre. É sério, eu quero ajudar, quero mesmo. Eu sei que você não consegue entender, mas eu juro, eu não espero nada em troca, eu só quero ajudar. Me deixa te ajudar.

me olhava com os olhos chorosos e eu suspirei, tomando um gole do meu chá. Não tinha escolha, tinha? Ele iria até o outro lado do mundo atrás de mim, era claramente o que seus olhos diziam.

- Só espero que possa me contar o porquê de tudo isso um dia.
- Só prometa que não vai sumir de novo. Por favor.
- Eu não posso prometer isso, você sabe. Eu gostaria de poder.

"Quando nós ficamos perdidos, quando o céu está baixo, eu olho para você para me guiar para casa. Quando não há chão e nem pra onde ir, eu estarei te esperando para me guiar para casa." Foxes - All I Need

V

(Música do capítulo – Fragile, Gnash feat. Wrenn)

“O tempo está correndo.”
“Tic-tac, tic-tac.”
“Não vai resolver isso?”
“Você é tão fraca.”
“Deveria sair para se divertir um pouco, o que acha?”
“Não sente minha falta?”
“Volte, .”

Acordei um pouco desnorteada e me levantei antes de deixar os pensamentos intrusivos me dominarem por completo. Caminhei até a cozinha e vi lendo jornal e tomando chá, uma manhã como qualquer outra naquele grande e confortável apartamento. Sentei-me na cadeira ao seu lado e peguei um biscoito numa vasilha a minha frente, mordiscando-o. Minha cabeça doía terrivelmente e o simples fato de ficar de pé era um martírio, já que minhas pernas tremiam incontrolavelmente e a dor atravessava meu corpo de ponta a ponta.

- Você está bem?
- Sim. – respondi entre dentes, caminhando até a sala e me jogando no sofá.
- Você precisa falar sobre isso, .
- Eu não estou no clima, .
- Quer um abraço, ? – disse, tentando ser engraçado.
- Não. Você poderia deixar me deixar em paz?
- Eu só estou tentando ajudar.
- Eu não pedi sua ajuda. Eu nunca pedi a sua ajuda.

Saí do cômodo com raiva, entrei no banheiro do “meu” quarto e tranquei a porta. Poucas coisas eram piores do que estar sóbria. Estando assim eu conseguia me lembrar de tudo, todo o passado, todo o presente, toda as merdas existentes há tanto tempo na minha vida. Os pensamentos intrusivos já citados martelavam na minha cabeça sem trégua. A presença de melhorava sempre a situação, mas eu sabia que em algum ponto seria insuportável e também sabia que continuar contando com a presença dele era um erro. E, também, naquele exato momento até a voz dele me causava náuseas.
Olhei-me no espelho, vendo meus grandes olhos envoltos por uma grande bolsa roxa e decorado com algumas lágrimas, sem qualquer resquício de vida. Os lábios rachados e sem cor, maltratados pelo descaso e tempo. Meu rosto, pálido e sem vida, já não era mais o mesmo de tantos anos antes e jamais seria novamente. Era difícil imaginar como eu sequer conseguia ficar em pé ainda com tão pouco peso e força. Nos meus braços manchas, hematomas e marcas de agulha. Além de cicatrizes, muitas delas, provocadas por brigas ou por motivos da qual eu não me recordava mais - ou pelo menos tentava não recordar.
Encarei a garota no espelho e tentei convencer a mim mesma de que aquela era realmente eu. . Aquela garota destruída por drogas, bebida, surras, prostituição e autodestruição era eu. Era tudo que eu nunca quis ser em minha vida e definitivamente a única coisa que eu era naquele momento.
Eu quis gritar. Quis gritar o mais alto e mais forte que pudesse, quis que todos soubessem o que havia realmente acontecido comigo e que alguém de fato pudesse me salvar de tudo o que havia me tornado. Queria que alguém me segurasse pelos ombros e me lembrasse de quem eu realmente era.

- Ele não pode me salvar, ninguém pode me salvar. – sussurrei a mim mesma.

Eu continuava ignorando todos os sinais de que tudo aquilo, aquela casa, , aquela vida, era errado. Continuava me deixando levar, deixando o tempo passar, deixando ele se apegar a mim e eu me apegar a ele. Eu estava jogando com ele ou ele estava jogando comigo?
Senti nojo de mim mesma. Tive vontade de arrancar minha pele para tirar toda a sujeira contida em mim. Ela nunca saíria, não fácil assim.
Olhei-me novamente no espelho e soltei um grito. Dominada pela raiva, soquei com toda a força que podia o espelho a minha frente, eu não queria mais encarar a verdade triste e podre que estava na minha frente.
Percebi que precisava de verdade de alguma coisa para me tirar da realidade naquele exato momento. Precisava de outra dose longa e demorada da minha melhor amiga e eu não podia esperar mais. Quem sabe se eu aplicasse a dose certa eu poderia finalmente esquecer tudo, de vez.
Ouvi um barulho rápido e me desequilibrei, sendo amparada por um par de braços. Ele me segurou com força contra si enquanto eu tentava me soltar.

- Não me toca! Me solta!

Ele não respondeu e continuou me segurando com força enquanto eu esperneava e batia nele. Mordi seu braço com força e nem mesmo assim ele me soltou, só arfou de dor e soltou um suspiro.

- Você não pode me prender aqui, isso é crime, sabia?
- Você não vai a lugar nenhum, . Eu não vou soltar você. Não vai deixar que faça aquilo de novo. Eu prometi.
- Eu não me importo! Você não percebe? Eu não dou a mínima pra nada disso! Eu só quero ir embora!
- Você não vai. Eu prometi. – ele repetiu e eu não entendia, apenas tentava fugir.

Gritei alto e chorei mais alto ainda enquanto ainda me debatia nos braços dele. Ele não tinha o direito de me dizer o que fazer ou onde ficar. A vida era minha, a desgraça era minha. Naquele momento eu só precisava de uma dose, eu não precisava dele.
Após algum tempo eu desisti de lutar contra ele e caí sem forças no chão. não me soltou. Minha respiração ficou pesada e o choro passou de desesperado para triste. passou a me abraçar ao invés de me conter, sentado no chão ao meu lado. Enfiei meu rosto na sua camisa manchada com meu sangue e solucei. Minha mão tremia muito e eu podia perceber alguns pedaços do espelho fincados a ela.

- Me deixa ir, . Por favor. Eu já te disse, eu não quero nada disso, eu não consigo melhorar.– sussurrei com a voz trêmula, chorando baixinho.
- Você é tão melhor que isso, . – ele sussurrou no meu ouvido e beijou meu cabelo – Você é muito melhor que tudo isso.
- Você não pode me salvar, . Ninguém pode. Você nem sequer me conhece. – olhei em seus olhos e percebi que ele havia afrouxado a prisão dos braços a minha volta.
- Eu preciso que você me deixe te ajudar, .

aconchegou-me em seus braços, como se eu fosse frágil e precisasse ser protegida. Naquele momento, de fato, eu era. Ele passava a mão devagar pelo meu cabelo até que meu choro cessou e minha consciência também. Era a primeira vez que eu deixava alguém me tocar daquela forma em toda a minha vida e pela primeira vez, me senti confortável sendo tocada por um homem. E eu não quis fugir, só quis fazer dos seus braços minha morada.
...

- Precisamos ir ao hospital, sua mão parece péssima.

Essas foram as primeiras palavras que ouvi de quando acordei algumas horas mais tarde, deitada no sofá da sala com a mão enrolada em uma camiseta velha dele, já cheia de sangue.

- É, eu acho que sim.

me levou até a garagem do seu prédio e entramos em seu carro. Eu não entendia de carros, mas sabia que era algum muito caro e, obviamente, que era muito bonito e confortável. Mais uma vez me perguntei o que diabos eu estava fazendo ali e porque ele tentava me encaixar em um mundo que definitivamente não era nada do que eu podia lidar com. Eu não sabia muito bem o que dizer a ele depois do que havia acontecido, não sabia se minhas palavras seriam suficientes diante de tudo que ele havia dito e feito por mim naquele dia e em todos os outros em que estive em sua casa e em sua vida.

- Obrigada. – sussurrei, sem graça.
- Você não precisa me agradecer por nada, .
- Obrigada por ter ficado lá comigo e eu sinto muito por ter te machucado. – minha voz vacilou ao ver a marca da minha mordida em seu braço - Eu te disse, eu perco o controle. Eu perco completamente o controle e eu posso ser perigosa. Me perdoa. - Não foi nada, não se preocupe. Eu estou bem, a sua mão é a unica coisa que me preocupa aqui. – ele sorriu – Você se importa? – disse apontando para o rádio.
- É claro que não. - Ouvi uma música começar a tocar no volume baixo.

I'm sorry you saw me shaking
Sinto muito por você ter me visto tremendo
Stay with me for a day
Fique comigo por um dia
I've got no one to hold me
Eu não tenho ninguém para me abraçar
Cause I, I turn them all away
Porque eu, eu faço todos irem embora

- Sinto muito por ter te segurado com força lá no banheiro, eu fiquei com medo de que você se machucasse mais. Olha, eu me sinto péssimo por isso, de verdade. E por estar meio que prendendo você. Eu não quero que você vá embora porque quero que você melhore, tenho esperança em você. Você entende? – ele respirou fundo – Me diz, o que você quer? Se você realmente quiser ir embora, não vou mais te impedir. Não é certo da minha parte fazer isso.
- Eu... – mordi o lábio – Eu não sei. Eu surto e só quero fugir, mas algo em você me faz querer ficar. Só que , eu não controlo esses surtos, a abstinência.
- É meio difícil salvar alguém que não quer ser salva, então eu preciso que você me deixe estar na sua vida. Eu não posso te forçar a nada e por isso eu realmente me sinto péssimo por hoje.
- Você é tipo um anjo da guarda ou algo assim, o primeiro que já tive. Fico feliz por não estar morta, porque se eu estivesse não poderia ter conhecido você. Eu nunca vou entender o que você está fazendo, mas sou muito grata por tudo, mesmo mal te conhecendo. Não existem pessoas como você por aí, sabe.
- Eu só quero que você fique bem.
- Eu só preciso que saiba de uma coisa, eu falei sério quando disse que você não pode me salvar. A unica pessoa que pode me salvar sou eu mesma. Você pode ajudar, é claro, eu preciso de ajuda. Mas preciso acreditar em mim mesma e eu não acredito, nunca acreditei. Então eu preciso de tempo e preciso que você não me deixe mais usar essa merda de heroína. Eu vou morrer, se continuar e vou morrer muito em breve. – eu comecei a chorar baixinho– E noventa por cento do tempo eu quero morrer, quero ir embora e parar de sofrer... Mas você tem me feito pensar diferente e agora, nesse exato momento, eu não quero estar morta e eu nem sequer lembro da ultima vez que me senti assim. Eu só quero consertar minha mão, voltar para casa e ver televisão com você. Então me prenda, se precisar. Faça o que tiver que fazer, mas não me deixa voltar pra rua de novo.

I don't wanna be alone
(Eu não quero estar sozinha)
But I'm better on my own
(Mas eu fico melhor apenas comigo mesmo)

estacionou no hospital e foi comigo até a sala de espera. Demos minhas identificações e nos sentamos, esperando que eu fosse chamada para ser atendida. Como sempre, ele foi extremamente cuidadoso em questão de contato físico. Ele me entendia muito bem e isso era completamente bizarro. Eu sabia, no fundo, que havia muito que ele não estava me contando e que os motivos que nos levaram até aquele momento eram muito maiores do que pareciam ser.
Era quase uma dádiva pensar racionalmente, sem interferência de qualquer outro fator. Eu realmente ainda não entendia como isso acontecia. Eu não havia mentido para , eu queria ser salva. Não literalmente ser salva, eu queria ajuda, queria me sentir como naquele momento sempre, queria ter esperança e querer melhorar. Acho que eu nunca havia tentado, pois nunca houve chance alguma sozinha. Eu devia isso a , devia isso a minha mãe. Aquela era minha chance, minha única chance de qualquer coisa e acho que a vida não me daria outra.

Cause I'm fragile
(Por que eu sou frágil)
God, I'm fragile
(Deus, eu sou frágil)

Olhei para e quis que ele me abraçasse novamente. Quis sentir toda aquela segurança que os braços dele emanavam, aquela confiança que os olhos me davam. era naquele momento um porto seguro para mim e eu jamais queria que ele deixasse de ser isso, apesar de só o conhecer há algumas semanas. Isso era completamente irreal e confuso. Era, afinal, a primeira vez que eu tinha isso depois de deixar . Não podia jogar isso fora, como já havia pensado tantas vezes.

I'm sorry you saw me breaking
(Eu sinto muito que você tenha me visto quebrar)
But stay with me don't stray
(Mas fique comigo, não se vá)
God, I wish you would hold me closely
(Deus, eu queria que você me segurasse tão perto)
Don't think I don't feel the same
(Não pense que eu não sinto o mesmo)

- ? – uma mulher alta e esguia apareceu na sala, chamando-me.
- Quer que eu entre com você, ?
- Não precisa , obrigada. – sorri para ele e me levantei, caminhando em direção a mulher.

Segui-a até uma sala no início de um corredor e ela indicou que eu me sentasse em uma pequena maca. Ela perguntou qual o problema e mostrei-a minha mão, inchada e ainda tremendo um pouco, devido aos cortes.

- A situação está feia aqui, querida. Como conseguiu fazer isso com sua mão? – ela disse segurando-a e analisando cuidadosamente.
- Soquei um espelho. – esclareci e ela arqueou uma sobrancelha.
- Por qual motivo?
- Eu não sei.

Observei-a limpar minha mão e retirar alguns cacos de espelho presos a minha pele com uma pinça. Doía, claro, mas nada insuportável. Logo após limpar tudo, ela pegou uma agulha e começou a suturar o corte mais profundo.

- Crise de abstinência?
- Como sabe?
- Seus braços. – disse sem me olhar.
- É. – ela ficou em silêncio – Quer acabar isso logo agora, não é? Não vou machucar você.
- Você é só uma garotinha assustada. Eu não tenho medo de você.
- Seu irmão? Seu namorado?
- Irmão. – respondeu, com um sorriso triste – Nem sempre somos capazes de salvar quem amamos, querida. Não deixe que as pessoas que te amam percam você.
- Eu não tenho pessoas que me amam, doutora. Não tenho ninguém.
- E quanto ao garoto com você na sala de espera?
- Ele... – refleti por alguns segundos – Ele só toma conta de mim.
- Bom, isso soa bastante como amor para mim.
- Acho que eu sequer sei o que é amor. – ri com certa amargura e ela suspirou, olhando-me com um olhar triste e pensativo.

Ela colocou alguns curativos na minha mão e colocou uma faixa sobre tudo. Me disse que eu deveria trocar os curativos todo dia e limpar os ferimentos, mas que iria ficar bem em pouco tempo. Agradeci-a e sai da sala, encontrado no mesmo lugar em que o havia deixado. Ele apenas sorriu ao me ver e fomos até o carro em silêncio, nossas mãos tão próximas que eu podia sentir os dedos dele esbarrando-se nos meus e uma corrente elétrica percorrer meu corpo da ponta dos dedos até cada fio de cabelo do meu corpo.

God, I wish I could love you
(Deus, eu gostaria de poder te amar)


“Dê uma olhada em você no espelho. Quem você vê te olhando? É a pessoa que você quer ser? Ou é alguém que você queria ser? A pessoa que você deveria ser, mas acabou não sendo? É alguém dizendo a você que você não pode ou não quer? Porque você pode. Acredite que o amor está por aí. Acredite que sonhos se realizam todos os dias. Porque eles se realizam. Às vezes, a felicidade não vem do dinheiro, da fama ou do poder. Ás vezes, a felicidade vem dos bons amigos e da família e da tranquila nobreza de se levar uma boa vida. Então dê uma olhada nesse espelho e lembre-se de ser feliz, porque você merece ser. Acredite nisso. E acredite que os sonhos se realizam todos os dias. Porque eles se realizam.” - One Tree Hill





Continua...



Nota da autora: Agora, como eu já disse, começamos a colocar alguns pingos nos i's. A infelizmente não vou mentir: a coisa vai ficar meio feia daqui pra frente, mas ao mesmo tempo podemos ver a pp começando a se envolver maravilhosamente com esse pp mais que lindo. Sou completamente apaixonada por esse homem! hahaha #autorababona. Agradeço muito pelo carinho de todos que estão lendo a história, conversando comigo sobre e etc. Sou super aberta, então fiquem livres para críticar e dar sugestões. E, ah! Muita gente tem me questionada sobre os motivos do pp não ter levado ela pro hospital quando a encontrou a primeira vez, mas isso será explicado ao decorrer da história spoiler alert tem a ver com os motivos pela qual ele está ajudando ela.
Querem falar comigo? Algum erro, comentário, elogio ou crítica? Podem me encontrar no meu Facebook e no meu email. xx





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