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Prólogo

Ignorando tudo o que prometi a mim mesma e tudo que prometi a ela, injetei mais uma dose em mim, desabando no chão frio do banheiro.
Nada importaria quando o efeito da droga atingisse meu corpo, ela me faria esquecer tudo. Eu sabia que era errado, mas também sabia que era o único jeito de ter um pouco de paz, mesmo que ela fosse momentânea.
Levantei-me com dificuldade e saí do banheiro daquele bar imundo. Mal conseguia me aguentar em pé, já sentia os prazerosos espasmos percorrendo e se apossando lentamente do meu corpo.
Eram como pequenos choques que percorriam cada milímetro do meu corpo, deixando-me acordada e dando-me a sensação de êxtase e prazer. Meus olhos já piscavam freneticamente, minha visão estava embaçada e meu corpo cambaleava, tonto.
Ter aquelas sensações já era rotina para mim, não havia nada mais natural e comum do que noites como aquela. A sensação que se seguia após aos excessos aos quais eu me submetia era incontestavelmente dolorosa e humilhante, mas eu realmente não me importava. Não mais. Eu faria qualquer coisa para tirar a dor do meu peito, para fazer todas as malditas lembranças sumirem de vez. Eu daria minha vida para esquecer tudo, inclusive os motivos que me levaram a enfiar agulhas em meus braços.
Eu não queria estar ali, não queria ser aquilo. Por mais que muitas vezes eu travasse uma batalha silenciosa contra todos aqueles demônios, não havia escapatória. Eu era a droga, minha própria droga. A única culpada por tudo aquilo era eu mesma. A velha cicatriz em meu peito latejava com tanta intensidade que a única forma de esquecê-la era me drogando. Cambaleei até o balcão a fim de pedir alguma bebida quando senti um par de mãos fortes me agarrarem brutalmente pelos ombros e me jogarem para fora do bar.

- Cansei de vocês drogados de merda no meu bar! - gritou segundos antes de entrar novamente no bar.

Meu corpo ficou jogado na calçada durante um tempo que eu julguei longo o suficiente para serem horas, até que os olhares de pena e nojo das pessoas que ali passavam começaram a me ferir e eu resolvi sair. Tentei acender um cigarro, mas minhas mãos trêmulas acabaram por derrubar o isqueiro em uma poça d’água.
Uma chuva fria e silenciosa caia sobre mim, borrando minha maquiagem velha e mal feita. Eu sabia muito bem que não havia lugar para onde eu pudesse ir, o máximo que eu poderia fazer era perambular pelas ruas molhadas até desmaiar em uma esquina qualquer.
Meus olhos já não enxergavam nitidamente e meu corpo me traía. Minha cabeça rodava tanto que senti meu senso de direção se esvair de mim. Eu podia desabar em qualquer lugar, não fazia diferença. Pelo pouco que eu podia ver da lua, julguei que eram quase três da manhã. As poucas pessoas naquela rua estavam tão drogadas quanto ou até mais que eu e nem sequer notavam minha presença. Caminhei então até uma praça vazia.
Meu coração começou a acelerar como nunca havia feito antes, parecia querer saltar ferozmente do meu peito e correr para longe. Eu nunca havia sentido aquela dor antes. Será que finalmente o fim estava próximo para mim? É, talvez fosse isso. Talvez finalmente meu velho e cansado coração pudesse descansar em paz e eu devia isso a minha boa e velha melhor amiga, a heroína.
Eu caí na grama molhada, sentido a dor lacerante me partindo ao meio. Sorri ao pensar que finalmente minha hora havia chegado, finalmente eu teria um pouco de paz. Eu sabia que o inferno me esperava, mas qualquer coisa era infinitamente melhor do que viver aquilo, do que ser aquilo. Se fosse realmente a morte, então eu a aceitava de braços abertos e de bom grado. Assim eu finalmente teria paz e poderia esquecer todas as lembranças indesejadas sem nenhum tipo de droga, bebida ou cigarros para serem apagados pela chuva.
Como num flash, a imagem dela veio à minha cabeça. Ela seria então o último pensamento que invadiria minha mente, a última lembrança a me atormentar sem permissão.
Será que ela estava bem? Será que havia fugido? Onde estava, então? Será que ainda se lembrava de mim?
Ela foi à única que um dia se importou comigo. Lembrava-me de que ela costumava dizer que eu era muito boazinha e não merecia aquele tipo de vida. Também costumava dizer que quando tudo aquilo acabasse, seríamos uma família novamente, que seríamos felizes de verdade.
Senti minhas pálpebras se fecharem lentamente, algumas lágrimas escorriam pelo meu rosto em uma mistura de tristeza e alívio. Antes de fechar completamente os olhos, vi um homem correr em minha direção.
A última coisa que vi antes de ser engolida completamente pela escuridão foi um par de olhos extremamente me fitando intensamente, como uma luz no final do túnel.

“Nas garras ferozes das circunstâncias, não me encolhi nem fiz alarde do meu pranto. Golpeado pelo acaso, minha cabeça sangra, mas não se curva. Longe deste lugar de ira e lágrimas só assombra o horror da sombra. Ainda assim, a ameaça dos anos me encontra e me encontrará sempre, destemido. Não importa quão estreita seja a porta, quão profusa em punições seja a lista. Sou mestre do meu destino. Sou capitão da minha alma.” - One Three Hill.


I

“- Posso vê-la? Talvez valha alguma coisa. – Meu pai assentiu e eu corri para meu quarto, sentindo as lágrimas transbordando dos meus delicados olhos.

Ele entrou no meu quarto sem sequer bater na porta e me olhou por alguns segundos até começar a falar.

- ? Pode vir aqui um momento?

Balancei a cabeça negativamente e corri para o outro lado do quarto, me escondendo pateticamente entre a cama e o guarda-roupa. Observei meu pai entrar no quarto e caminhar em passos largos até onde eu estava, agarrando meu braço com força e me arrastando para fora do quarto sem dizer uma palavra. Tampouco eu disse, sabia que só o enfureceria mais e ele acabaria me machucando, como nas outras vezes. Tentei me controlar, mas as lágrimas continuaram caindo pelo meu rosto. Eu sabia que se elas continuassem a cair, irritaria meu pai mais ainda.
Quando chegamos à sala, ele soltou meu braço e me empurrou para o sofá. Um homem alto e moreno estava parado na minha frente, me analisando lentamente dos pés a cabeça. Ele deu um meio sorriso e se virou para o meu pai.

- Acho que é suficiente para pagar sua dívida. – O homem disse sorrindo para mim e me analisando novamente – Mas fico com uma por vez.

estava sentada no chão, mas ao contrário de mim, não haviam lágrimas em seu rosto, apenas um semblante sério e sem sentimentos. Provavelmente por que era a irmã mais velha e praticamente a “mãe” da casa, então ela se sentia na obrigação de ser forte por mim e por todos ao redor. Quando esboçava aquelas feições eu sabia que as coisas não estavam bem, sabia que ela estava se esforçando ao máximo para não sair do seu limite. Momentos como aquele provavam que seus dezesseis anos eram meramente físicos.
Meu pai caminhou até ela e segurou seu rosto, levantando-a do chão. Os dois se encararam por alguns minutos e ela continuou sem esboçar qualquer sentimento.

- Adeus, filha. – Ele tentou beijar a testa dela, mas ela se afastou e cuspiu no chão.
- Eu te odeio. Eu não sou sua filha. Não me toque. – Meu pai fechou os olhos com raiva e eu corri para abraçar minha irmã, sabendo o que lhe aguardava depois daquelas palavras frias.
- Não vai embora , por favor! Não posso ficar sem você! – Eu disse aos prantos enquanto me jogava nos braços dela, que como sempre me acolheram maternalmente.

Ao invés de bater em minha irmã como imaginei que meu pai faria, ele apenas ficou em silêncio observando a cena que se desenrolava. Eu solucei algumas vezes e me apertei ainda mais , com medo de que ela me deixasse.

- Se cuida, . – ela beijou o topo da minha cabeça - Não deixa eles te levarem, você é boa demais para isso. – ela passou a mão em meus cabelos longos e negros e tocou minha bochecha delicadamente – Essa vida não é para você. Fuja o mais rápido possível. – ela sussurrou me abraçando.
- Nem pra você! – gritei.
- Por favor, diga ao que eu o amo. E seja forte. A gente vai ser ver um dia , mas, por favor, lute. Não deixa eles destruírem você também.

O homem a puxou com força, arrancando-a do meu alcance e a segurou pelo cabelo. Eu solucei pela milésima vez e tentei alcançá-la, mas meu pai me puxou com força para trás.

- Eu te amo , nunca se esqueça. – Minha irmã gritou e pude perceber o tom choroso que sua voz adquiriu.
- Eu também amo você!

O homem que a segurava sorriu ironicamente e a arrastou para fora da casa. Assim que a porta da frente foi fechada, meu pai soltou minha blusa e eu corri desesperadamente em direção a janela. Vi o homem tentando enfiar no banco traseiro do carro enquanto ela chutava e o socava. Ele deu um tapa em seu rosto e mesmo de longe eu pude ver as lágrimas grossas e pesadas escorrendo pelo rosto de minha irmã. Ele a agarrou pela cintura e a jogou dentro do carro com uma brutalidade desnecessária. Observei o carro se afastar enquanto minhas pernas tremiam e as lágrimas teimosas escorriam.
Eu sabia que era a próxima e que nem toda a força do mundo mudaria isso. Não havia para onde fugir.”


...


Acordei encharcada de suor e assustada, olhei ao meu redor e percebi que estava completamente sozinha. Eu não estava mais no parque, mas também não sabia onde estava. Estava deitada em uma cama muito macia e limpa. A última vez que eu havia me deitado em uma cama tão confortável para dormir tinha sido há cerca de quatro anos antes.
Meu corpo doía por completo e eu sabia que era o efeito pós-droga. Eu suspirei e me levantei, tentando lembrar-me de como eu havia ido parar naquele lugar. A última coisa de que me lembrava era de cair no chão de uma praça vazia e molhada.
Alguns flashs da noite anterior tomaram minha mente. Lembrava-me do homem me expulsando do bar, do meu isqueiro caindo em uma poça d’água, andando devagar até a praça... E então os olhos. A imensidão que se encontrou aos meus olhos pouco antes de eu caminhar para minha suposta morte, que já então eu sabia não se tratar de morte alguma.
Sentei-me na cama e comecei a massagear minhas têmporas.
Após um tempo levantei-me com dificuldade e me debrucei sobre a janela do quarto que ficava acima da cama. Estava fechada. Eu a abri e olhei para baixo. Estava em um prédio e em um andar bem alto, provavelmente uma cobertura. Olhei para baixo e me imaginei caindo. O vento batendo em meus cabelos pretos, a sensação de liberdade. E então o baque, a morte. A dor... A dor que seria prazerosa e lenta, angustiante e deliciosa. Tudo que eu merecia naquele momento. Eu abri a janela toda e me sentei ali. Meus pés balançavam devagar e eu pensava em todas as coisas que poderia fazer ali de cima. Lá em baixo, as pessoas passavam com pressa, os carros buzinavam, a vida seguia seu curso natural, sem que ninguém imaginasse que uma garota estava prestes a deixar seu corpo se estourar no concreto.
Coloquei minhas mãos no parapeito da janela e me preparei para acabar com tudo aquilo de uma vez por todas. Fechei os olhos e mordi o lábio com força, imaginando como seria a sensação. Pelo menos eu ia sentir alguma coisa que não fosse essa dor que me acompanha há tantos anos ou o efeito das drogas, cigarros e alcool barato. Eu ia sentir a vida em sua mais bela manifestação: a morte.
Ventava muito, levantava meu cabelo e balançava minhas roupas. Eu tirei minha jaqueta de couro puída e a joguei para trás, ela caiu na cama em um baque mudo. Respirei fundo. Eu tinha tomado uma decisão e pela primeira vez em muito tempo, uma decisão que julgava completamente certa.
Quando comecei a balançar meu corpo para enfim me jogar de vez, eu fechei meus olhos e sorri com um último pensamento.
Eu finalmente poderia encontrar as pessoas que eu amava.
Ou quase todas.
Foi então que deixei meu corpo pesar lentamente para frente.

Mas eu não caí. Não, pois um par de mãos me segurou antes que meu corpo desgrudasse completamente do parapeito da janela. Fui puxada com força para dentro do quarto e não abri os olhos, apenas suspirei e ouvi uma voz doce e calma sussurrar.

- Você está bem?

Abri os olhos e me deparei com um par de olhos grandes e me encarando com feições de preocupação. O reconhecimento foi imediato: Eram os mesmos olhos que me observavam na noite anterior.

- Você ia realmente se jogar? – permaneci em silêncio e sem me mover – Não sei por que ia fazer isso, mas não o faça. Você não precisa... – apenas soltei uma risada irônica.
- Quem é você? O que te fazer pensar que tem o direito de falar assim comigo? Você não me conhece. – Eu disse com raiva, me sentando na cama.
- Meu nome é ... . Você está no meu apartamento e eu te ajudei por que você precisava de ajuda. – ele sorriu – Minha vez de perguntar: Qual o seu nome? Por que tentou se jogar e o que estava fazendo caída naquela praça? – Eu passei a mão em meus cabelos ainda úmidos e olhei para ele.

Aqueles olhos me olhavam com um sentimento que eu não conseguia diferenciar de dó. E eu odiava que as pessoas me olhassem daquela forma.

- Eu não conheço você e não preciso de ajuda. – ele levantou e colocou as mãos para o alto, como quem diz que se rende, e foi em direção à porta – Só preciso de alguns minutos e vou embora. – Eu não sorri e ele saiu do quarto sem dizer nada.

Antes que eu pudesse sequer pensar no meu próximo passo ele estava de volta ao quarto com uma toalha e algumas roupas na mão.

- Tome um banho, aqui tem algumas roupas da minha irmã, pode usar. Não precisa ter pressa. Leve o tempo que precisar.– Ele me entregou e saiu em silêncio do quarto, fechando a porta antes que eu pudesse protestar, como ele provavelmente sabia que eu faria.

Eu olhei para a toalha e as roupas e decidi entrar no banho. Que meu orgulho fosse para o caralho, eu precisava realmente me limpar.
O banheiro ficava no quarto, uma porta atrás de mim. Eu entrei, tirei minha roupa suja e molhada e entrei debaixo do chuveiro.
Ajustei a temperatura da água para a mais quente possível, embaçando o espelho rapidamente. Deixei a água cair na minha cabeça e lavar aquele cheiro de bebida e cigarro que estava impregnado em mim, apesar de saber que o cheiro já fazia parte de mim.
Meus pulsos exibiam marcas profundas das minhas várias e inúteis tentativas de suicídio. Eu deveria ter pulado de um prédio desde a primeira vez. Meu braço direito estava cheio de marcas de agulhas, algumas bem recentes, meu corpo estava cheio de hematomas, alguns velhos, outros novos.
Existia uma parte de mim que queria parar, que queria ser eu mesma de novo. Não queria depender de drogas e bebidas para viver. Mas eu sabia que era tarde demais para deixar aquela parte assumir o controle, aquela estava morta há anos. Se eu parasse, não havia o que recuperar. Eu era só uma garota morta que haviam esquecido de enterrar.
As lembranças retornaram a minha cabeça e eu apertei minhas mãos contra ela, tentando expulsá-las de vez.
Eu não queria mais lembrar, doía mais que viver o presente. Lembrar do dia em que tudo mudou. Eu fechei o chuveiro e vesti as roupas que havia me emprestado. Eu não entendia por que ele estava fazendo isso, mas eu deveria encontrar as palavras para agradecê-lo, pois aquela havia sido a melhor coisa que alguém já havia feito por mim em muito tempo.

“Michelangelo disse uma vez que o melhor jeito de julgar os elementos essenciais de uma estátua é jogá-la de um morro e as peças que não forem importantes vão se quebrar. Às vezes a vida é assim, ela nos joga morro abaixo, mas quando atingimos o fim e só restam às coisas mais importantes é quando nossa visão clareia. É quando nos agarramos ao que conhecemos enquanto a esperança se mexe dentro de nós.” - One Three Hill


II

“- Eu tenho certeza de que minha boneca é muito mais bonita que a sua, . – disse enfiando um vestido vermelho pela cabeça de sua Barbie.
- Não viaja . – eu sorri – Não acredito que estamos brincando de Barbie. Não estamos um pouco velhas demais para isso?
- Não estamos tão velhas assim, maninha! – ela revirou os olhos e deu uma gargalhada.
- Você tem 16 anos e eu 13! Acho que já passamos da idade das Barbies.

...


- Se cuida, . – ela beijou o topo da minha cabeça - Não deixa eles te levarem, você é boa demais para isso. – ela passou a mão em meus cabelos longos e negros e tocou minha bochecha delicadamente – Essa vida não é para você. Fuja o mais rápido possível. – ela sussurrou me abraçando.
- Nem pra você! – gritei.
- Por favor, diga ao que eu o amo. E seja forte. A gente vai ser ver um dia , mas, por favor, lute. Não deixa eles destruírem você também.


...


Acordei mais uma vez chorando e agarrando o travesseiro com força. Sentei-me na cama e enxuguei as lágrimas com a barra da minha blusa. Respirei fundo e caminhei até o interruptor de luz, acendendo a lâmpada e iluminando o quarto então escuro. Aquele era o terceiro dia que eu passava na cobertura de e também o terceiro dia na qual eu não fazia uso de qualquer substância ilícita, álcool e cigarros. É claro que naquele ponto eu já sentia todos os efeitos da abstinência dos três itens. Eu deixaria aquele lugar naquele mesmo dia, logo após roubar algumas coisas que tivessem valor o suficiente para serem vendidas e me deixarem confortável por alguns meses.
Passei os três dias anteriores a aquele sentada em um canto fitando a parede branca do quarto onde eu estava dormindo. sempre vinha trazer água, comida, roupas limpas e ocasionalmente tentava conversar comigo sobre qualquer assunto, mas eu me recusava a conversar com ele ou sequer dizer meu nome. Eu não tinha fome, pelo menos não de comida, eu apenas bebia água e mordiscava um ou outro pedaço de pão enquanto tentava arrancar algumas palavras de mim. Mas eu não falei com ele, nem sequer uma palavra. Eu não ia contá-lo nada sobre minha vida, tampouco ia dizer meu nome. Se ele soubesse quem eu era – e pior, se eu soubesse quem ele era – eu iria me apegar, iria ter esperança ou qualquer sentimento tão patético quanto. Eu precisava ir embora daquele lugar. Eu precisava sentir.
Minha cabeça latejava sem sequer uma pausa e minhas mãos tremiam moderadamente. Eu sabia que iria piorar nas próximas horas e os mais variados sintomas tomariam conta de todo o meu corpo.
E é claro que aqueles sonhos também ajudavam na degradação do meu estado. Eles eram a razão de eu evitar dormir sempre que possível, preferindo desmaiar de tão bêbada ou drogada. Quando eu desmaiava por esses motivos, os sonhos não me perturbavam, ou pelo menos eu não me lembrava deles. Na maioria das vezes. Olhei para o chão e avistei minhas roupas – as que eu usava quando me trouxe para cá – limpas e dobradas. Em cima delas eu pude ver o conteúdo dos bolsos da minha jaqueta: Um maço de cigarros, um dos meus isqueiros, meus documentos, algumas moedas e uma foto velha e desgastada que mostrava minha mãe, eu e minha irmã, abraçadas. Peguei as roupas e caminhei até o banheiro com o intuito de tomar meu último banho ali.
Deixei a água cair e levar com ela todas as lembranças indesejadas. Seria temporariamente, mas aliviaria um pouco o sentimento que tentava me dominar. Provavelmente tempo suficiente para eu conseguir um substituto.
Naquele ponto eu já sentia dor em todos os pontos do meu corpo e dificuldade para respirar. Tudo aquilo era saudades da minha amiga. A partir do momento em que você se torna amiga dela, já não se pode viver sem ela, não se pode respirar, andar, comer. Naquele momento eu precisava dela mais que tudo.
Minha tentativa de levar as lembranças embora falhava, mais que isso, eu podia claramente ouvir as vozes sussurrando no meu ouvido, quase cantando uma velha e conhecida canção.

“– Apesar de ser novinha, olha como é bonita! – ele dizia segurando forte meu braço. – E, além disso é virgem. – O homem que conversava com ele sorriu malicioso.
- Vou querer essa daí mesmo. Sei que vai cobrar caro por ela, uma moça tão bonita, tão jovem... E ainda por cima virgem! Não deve ter sido trabalho fácil achá-la. Oh Deus, dou quanto você quiser por uma noite com ela. – eu senti as lágrimas querendo sair, mas tive que segurá-las. Eu não podia demonstrar nada, sabia que seria punida por qualquer demonstração de sentimentos.
O homem que me segurava pegou um papel no bolso e entregou ao outro, que sorriu.”

Eu senti meu peito latejar com a lembrança e comecei a chorar novamente.

“- Feito. Essa quantia é cara, mas tenho certeza que valerá apena. – sentir o homem soltar seu aperto bruto por um momento, mas outro par de mãos passaram e me segurar, essas por sua vez de um jeito repugnante.
- Vamos logo, boneca. – senti vontade de vomitar ao ouvir ele me chamar daquele jeito. O homem me arrastou com ele para dentro de um quarto qualquer, arrastando junto com ele minha inocência.”


Senti minhas pernas trêmulas cederem e me levarem de encontro ao chão. Dos meus lábios escapou um grito agonizante e choroso. Levei as mãos até a cabeça e a apertei com força, fechando os olhos com mais força ainda.

- VÃO EMBORA! – gritei para os demônios que atormentavam meus pensamentos.

Não conseguia pensar em outra coisa a não ser nos sussurros nos meus ouvidos. Nas músicas baixas entoadas para tirar minha sanidade de mim, lenta e dolorosamente. Os demônios pediam - não, eles mandavam - que eu os alimentasse. O que eles queriam era mais que óbvio.
Mal ouvi as portas e senti as mãos de me levantando do chão do banheiro. Eu já não sabia se estava chorando ou apenas murmurando coisas desconexas e ele fechou o chuveiro atrás de mim. Enrolou-me em uma toalha e me levou para o quarto no colo enquanto a dor entorpecia todo o meu corpo e eu tentava expulsar as vozes de perto de mim.
Ele me sentou na cama e olhou dentro dos meus olhos, minhas lágrimas escorriam brutalmente pelo meu rosto. Eu nunca chorava na frente de alguém, na verdade, o único choro que eu conhecia há anos era o da dor da abstinência. Eu nunca chorava por motivos sentimentais ou por pensar em alguma coisa que me tocasse (seja para bem ou mal), raramente eu tinha tempo para pensar em qualquer uma dessas coisas. O máximo que poderia acontecer era que eu acordasse molhada pelas lágrimas que escorriam silenciosas durante o meu sono e as lembranças que ele trazia. Mas todas aquelas lágrimas acumuladas ao longo dos anos estavam sendo postas para fora agora, num surto de abstinência que eu nunca tinha enfrentado antes. Sempre foi fácil recorrer as drogas quando eu precisava, mas ali, naquele quarto estranho e ao mesmo tempo tão familiar, isso não era uma opção.
Ele não disse nada, apenas tentou segurar minha mão, que eu puxei de volta. Ele continuou me observando e apenas ficou ali, mantendo uma distância confortável e segura. Eu poderia atacá-lo ali mesmo, poderia mesmo com minha pequena estrutura desacordá-lo e ir em busca da única coisa que poderia me fazer bem, mas sua presença era de alguma forma reconfortante, assim como o fato dele saber que não deveria tentar se aproximar novamente. Fosse isso por medo ou respeito.
Eu não sabia o motivo pela qual ele estava fazendo isso, me ajudando e sendo bom comigo. Eu só sabia que quando eu olhava dentro daqueles olhos sabia que alguma coisa me puxava para seu lado, me fazia não querer machucá-lo ou correr. Eu me lembrava daquela noite em que a cor dos seus olhos foram a única coisa a qual eu queria me segurar antes de partir. E eu não queria me sentir assim, eu não poderia me sentir assim sem destruí-lo no processo. Coisas ruins aconteciam com as pessoas da qual eu me aproximava.
Eu sabia que ele sabia perfeitamente da minha natureza e do que eu era capaz, ele sabia que eu era um monstro, mas ele não tinha medo. Ele havia levado uma viciada para dentro de sua própria casa e estava cuidando dela como se a conhecesse, ignorando todo e qualquer perigo que aquilo poderia representar para sua própria integridade físicas. Ele a tratava com calma, paciência e compreensão. Ele só podia estar fora de si.
Minha respiração começava a se normalizar, o choro já cessara lentamente. Ele se levantou e minha garganta soltou um barulho, um murmúrio quase inaudível de reclamação. Ele me olhou, surpreso.

- Só vou pegar algumas roupas pra você. Quer que eu fique?

Concordei com a cabeça e ele pegou algumas roupas no guarda-roupas do quarto onde eu ficava. Ele as colocou na minha frente e continuou onde estava antes.

- Acho que vou vomitar. – sussurrei.
- Quer que eu pegue um balde ou te ajude a ir ao banheiro?
- Banheiro.

Ele me levantou devagar, tomando cuidado para que a toalha que me enrolava não caísse. Ao entrar no banheiro, me ajoelhei na frente do vaso e comecei a vomitar copiosamente. Dougie segurou meu cabelo para trás e também minha testa, dizendo que eu poderia forçar a cabeça para frente. E eu forcei, vomitando por longos quinze minutos. Ele não saiu de lá até que eu parasse e conseguisse me sentar. Buscou as roupas, me deu privacidade para que me vestisse, me limpasse e então me ajudou a voltar para o quarto.

- Você se sente melhor?
- Sim. Sinto muito, você não precisava ter visto tudo isso. Eu prometo que vou embora nas próximas horas. Você já fez muito.
- Eu te disse que poderia levar o tempo que precisar, não disse? – ele sorriu, se levantou e saiu do quarto.

Respirei fundo e fui até o banheiro novamente para lavar a boca um pouco mais e tirar o gosto de vômito que ainda estava impregnado nela. Enquanto isso, não conseguia parar de pensar no sorriso de e no jeito com que ele segurou meu cabelo e minha testa enquanto eu vomitava. Eu repetia copiosamente para mim mesma que não deveria dar qualquer chance para ele se aproximar, mas havia alguma coisa, alguma força magnética, que me puxava para ele e para aqueles olhos cor de mar e ao mesmo tempo de céu.
Eu me levantei e fui até a porta, ele estava fazendo panquecas e colocando em dois pratos. Eu me escorei no batente da porta e olhei para ele, que sorriu de volta para meu olhar.

- Estou fazendo panquecas pra gente. Quando estiverem prontas eu te chamo. Quer dizer, se você quiser sair do quarto. Posso levá-las para você, se preferir. Tente comer um pouco. – eu assenti e continuei parada olhando ele.
- Obrigada, . – Eu disse. – Acho que vou esperar aqui mesmo. – eu me sentei na mesa a frente dele - E a propósito, meu nome é . – Sem sequer perceber, mostrei-o um sorriso, meu primeiro de verdade em um bom tempo.

Naquela época eu não fazia ideia de como, mas sabia que ele havia feito todos os demônios irem embora. Eles não sussurrariam mais, pelo menos não naquele dia. Não enquanto a voz dele era tudo que meus ouvidos podiam escutar.

“Essa escuridão tem um nome? Essa crueldade, esse ódio, como ele nos encontrou? Ela se meteu em nossas vidas ou nós a procuramos e a abraçamos? O que aconteceu conosco que agora mandamos nossos filhos para o mundo como mandamos jovens para a guerra, esperando que voltem a salvo, mas sabendo que alguns deles se perderão no caminho? Quando perdemos o nosso caminho? Consumidos pelas sombras, engolidos completamente pela escuridão… Essa escuridão tem um nome? Acaso, é o seu nome?” - One Three Hill


III

Minha mãe morreu quando eu tinha apenas cinco anos. Ela teve um tipo agressivo de câncer e como a boa lutadora que era, ainda sobreviveu mais dois anos após um diagnóstico que dizia que ela tinha apenas 6 meses. Após isso minha irmã mais velha, , foi a unica figura adulta na minha vida, apesar de ter apenas nove anos. Você imagina o quão difícil deve ser ter que se tornar mãe aos nove anos?
Meu pai já bebia muito antes mesmo da minha mãe morrer, mas as drogas só vieram depois e as apostas também. Chegamos a ficar meses a fio sem o ver, sem ter alguém que comprasse comida em casa ou que nos ajudasse. Os vizinhos chamavam o serviço social sempre que ele sumia, mas no final das contas acabávamos voltando para aquela casa, para as surras que ele nos dava enquanto estava em casa e para o completo abandono no resto do tempo. Sempre que o serviço social aparecia e nos buscava, acabavam nos mandando para casas diferentes. Fica longe da minha irmã era pior do que qualquer surra com os objetos que meu pai encontrava pela casa, então pedimos os vinhos que parecem de o denunciar.
Apesar de nunca ter tido uma infância normal, posso dizer que tive bons dias ao lado da minha irmã. Ela fez todo o possível para que eu não tivesse que crescer rápido demais como ela teve que crescer, e eu sempre seria muito grata por isso e por tudo que ela fez por mim.
Aos treze anos conheceu , seu primeiro namorado. tinha quinze anos e se tornou um irmão mais velho para mim, o mais próximo de uma figura paterna que já tive. Ele sempre estava por perto, nos ajudando e amando incondicionalmente. Eles ficaram juntos até o dia em que minha irmã partiu. Eu apenas o vi novamente quando ele foi até nossa casa procurar por ela, mas não cheguei sequer a falar com ele. Só ouvi gritos e o barulho do punho do meu pai se chocando contra o rosto do rapaz de dezesseis anos e chorei em silêncio, trancada no quarto com medo de ser a próxima. Nunca pensei que o veria de novo e evitava pensar sobre sua existência, era só mais uma das feridas abertas que nunca cicatrizavam.
se virou para mim novamente e abriu um sorriso, levando os dois pratos de panqueca até a mesa, juntamente com uma jarra de suco.
Eu não havia comido praticamente nada desde que havia chegado lá, eu nunca tinha fome de verdade por causa da quantidade de drogas que usava diariamente. Esse era, na verdade, um fato explicítio por causa da minha nutrição. Eu nunca cheguei a me pesar naquela época, mas tenho certeza que eu não tinha mais que 45 quilos enquanto media cerca de um metro e setenta. Eu não parecia humana naquele ponto. Mas com tanto tempo sem ela, eu tinha fome, ou ao menos algo parecido com isso.

- Por que você está fazendo isso? – perguntei enquanto levava um pedaço das panquecas até a boca, mastigando com dificuldade. Estavam maravilhosas.
- Fazendo o que?
- Me ajudando, me tratando bem. Você não deveria trazer drogadas que desmaiam na rua para casa, seus pais nunca lhe ensinaram isso? Eu sou uma pessoa ruim, . Ruim de verdade. Poderia ter machucado você ou coisa pior. – disse sem encará-lo.
- Você não pertence àquele mundo.
- Você não me conhece. – soltei uma risada amarga.
- Mas eu poderia.
- Não. Não poderia e nem deveria. – ficamos em silêncio por alguns segundos.
- Está sozinha?
- Minha mãe morreu quando eu era criança, meu pai... Ele me... Abandonou. – concluí – Eu tenho uma irmã mas já não vejo ela há alguns anos. Eu fugi.
- Fugiu? – Ele levantouuma sobrancelha.
- Bom, ela me ajudou a fugir da vida que nós levavamos. Sou uma covarde, nunca voltei pra ela. Não posso dizer que tive sorte, por que não tenho levado uma vida exatamente boa depois disso. Mas qualquer coisa é melhor que aquele lugar. Meu pai nos abandonou quando eu tinha treze anos. Ele era um viciado, se importava mais com as drogas e jogos do que conosco. Bem, comigo não tem sido tão diferente. Eles dizem que devemos aprender com nossos erros, mas eu pareço uma mula que só repete as mesmas coisas que sofreu. E eu não sei porque estou falando tudo isso. Eu sinto muito. Novamente, porque eu estou aqui? Por que você está fazendo isso?
- Foram seus olhos. – ele deu de ombros.

Ele disse enquanto enchia nossos copos com mais suco. Não dissemos mais nada enquanto comíamos e vez ou outra, nossos olhos se encontravam. Parecia que isso dizia muito mais que qualquer palavra – e que sorte, pois por mais que eu tentasse, nada saía da minha boca.

...


O apartamento nada modesto de era decorado com bom gosto e cheio de memórias familiares. Sua irmã estava presente em diversas fotos, assim como seus pais e uma outra garota que ainda não havia sido mencionada, talvez uma irmã mais velha, que estampava apenas uma única foto ao lado dele. Não que ele tivesse me falado sobre sua família até o momento, eu apenas sabia da existência deles por fotos e objetos pela casa – como as roupas e pertences que eu estava usando desde que chegara ali -.
Eu ainda não havia indo embora poucos dias depois da minha crise e não sei dizer até hoje – assim como não sei dizer tantas coisas – o motivo disso. Nos próximos dias eu não me sentia tão mal, apesar de não me sentir bem.
Era uma tarde e estávamos sentados no sofá da sala. Eu começara a me permitir sair do quarto algumas poucas vezes e pude reparar que ele estava sempre em casa e no computador, provavelmente trabalhando. Me sentia culpada por atrapalhar sua rotina e sua vida, mas algo me fazia ficar mais e mais naquele apartamento.
Nós nunca trocavamos muitas palavras, ele normalmente ligava a TV e se sentava num sofá enquanto eu me sentava no outro, como naquele exato dia.
A TV exibia um filme qualquer e eu não prestava tanto atenção, só queria estar ali.

- Tudo bem? – ele perguntou, desviando o olhar de seu computador pela primeira vez.
- Acho que sim. – ele sorriu e voltou a digitar – Eu te contei sobre a minha família no outro dia. E a sua? E você?

Ele pareceu extremamente surpreso com minha pergunta e provavelmente com o fato de eu estar conversando com ele, já que desde o dia das panquecas não haviamos trocado praticamente nenhuma palavra. Ele continuou sorrindo enquanto deixava o computador de lado e se concentrava em mim com os olhos curiosos e tão .

- Bom, somos eu, minha mãe e , minha irmã mais nova. Meu pai se mandou quando eramos crianças e nunca mais tivemos contato. Minha mãe mora em outro estado não muito longe daqui e minha irmã foi estudar moda em Paris, voltou ao se formar, mas agora foi passar algum tempo lá de novo. Sempre fomos bem próximos, você vai gostar dela quando a conhecer.
- Conhecê-la?
- Em algum momento provavelmente sim, ela sempre vem me visitar. – ele sorriu – E, bom, sobre mim...
- Eu não vou ficar aqui até ela voltar. Você sabe.
- Bom, sobre mim, de novo, eu trabalho no ramo musical, o que me permite muito tempo em casa e também muito tempo com os meus amigos. – ele disse ignorando completamente o que eu havia falado - E, bom, não sei, o que você gostaria de saber? – ele riu.
- Acho que está bom, só gostaria de saber o suficiente para não estar invadindo a casa de um completo estranho. – eu também ri com ele.
- Quer saber de algo que vai fazer eu não ser mais, definitivamente, um estranho?
- O que?
- Sabe aquelas jujubas coloridas? – concordei – sou completamente viciado naquilo, mas abomino as roxas. Sempre jogo fora ou dou pra quem estiver perto.
- Agora eu realmente tenho certeza de que você é um cara muito estranho, . – eu ri - Caralho, nem lembro a última vez que comi isso, mas a minha mãe sempre comprava essas jujubas pra mim e minha irmã quando éramos bem pequenas.
- Todos fazem graça disso, mas é algo importante. Imagina se eu como as roxas e morro? Nunca se sabe.
- É, nunca se sabe. Dá próxima vez, dê todas pra mim, não vou reclamar.
- Feito! – ele sorriu, me olhando intensamente por alguns minutos.
E eu me odiei profundamente por ter abaixado minha guarda pela segunda vez.

...


Pouco tempo tempo depois eu tive um dia excepcionalmente ruim. costumava trancar a porta quando saía e esse foi um dos dias na qual ele teve que ir até seu trabalho resolver algum problema. Não que nós dois passassemos todo o tempo juntos, conversando, e que fossemos amigos de fato, mas a presença dele no apartamento me fazia sentir bem mais segura e calma, mesmo que estando em outro cômodo. Eu sabia que se alguma coisa acontecesse, ele me ajudaria.
O que ele estava tentando fazer diariamente era ganhar minha atenção e confiança aos poucos. E, bom, talvez ele estivesse conseguindo. Eu tentava me esconder no quarto, tentava não responder aos seus sorrisos tão compreensivos, mas continuava sendo sugada para o olho do furacão que ele estava sendo na minha vida. Ao mesmo tempo que ele era um cais, um porto seguro no qual meu barco devia atracar, ele também era um furacão que estava dizimando tudo ao meu redor. Eu ainda não sabia se isso era bom ou ruim, mas sabia que era essa polaridade que me fazia ficar ali naquela casa.
Eu liguei a TV algumas vezes, mas não conseguia ficar sentada e quieta assistindo. Tentei limpar algumas coisas, tentei cozinhar, tentei dormir. Nada adiantava e eu continuava me sentindo mais e mais agitada. Torci para que ele chegasse logo e quando minhas lamúrias foram atendidas, saí correndo do quarto como uma criança numa manhã de natal.

- Hey! Achei que fosse estar dormindo. Trouxe duas coisas pra gente.
- Pra gente? – arqueei uma sobrancelha.
- É! O , um dos meus amigos do trabalho, me emprestou esse filme que ele disse ser ótimo. Pequena Miss Sunshine ou algo assim. Então pensei que a gente podia ver junto, passei no supermercado e comprei pipoca, refrigerante e... – ele enfiou a mão na sacola e puxou um saco enorme e colorido – Jujubas! O maior tamanho que eles tinham. – nunca parava de sorrir, o que chegava até a me incomodar às vezes, mas dessa vez, como tantas outras, não pude evitar sorrir com tanto carinho direcionado a mim.
- Posso ficar com as roxas?
- Elas já eram suas antes de pedir. – ele piscou e eu ri – Por que você não coloca o filme na televisão enquanto eu faço a pipoca?
- Tudo bem.

Ele me entregou o DVD e eu rumei até a sala, descobrindo até bem rapidamente como tudo aquilo funcionava. voltou não muito depois com copos de refrigerante, pipoca e jujubas, se equilibrando como um malabarista. Nós nos sentamos no chão, como sempre numa distância confortável que ao mesmo tempo tão próxima. O filme nos fez rir, quase chorar um pouco – me fazendo descobrir que ele era muito emotivo – e conversar algumas vezes. Ele me deu todas as jujubas roxas e eu tentei fazê-lo comer algumas, sem sucesso.

- Vai lá, abre a boca, vamos ver se você é bom em pegar as coisas. – eu jogava as jujubas e ele tentava comê-las no ar, me fazendo gargalhar em todas as tentativas falhas – Você é péssimo, eu sabia!
- E quer dizer que a senhorita é boa?
- Quer testar? – ele jogou uma, duas, três e eu consegui pegar todas.

Quando foi minha vez de jogar de novo, minha mão direita parou de me obedecer e tremia muito. Eu a segurei com força, fechando os olhos. Eu parei de rir imediatamente, fazendo também parar, sério.

- Posso? – ele indicou as minhas mãos e eu dei de ombros, fechando os olhos novamente.

Ele as segurou forte entre as suas e deu um beijo. Eu apenas respirei fundo e engoli as lágrimas, olhando para a porta.

- Você vai ficar bem.

Eu encarei a porta por mais algum tempo, parte de mim desejando estar longe, tão longe dali e com algumas agulhas fincadas em meu corpo ou uma corda em meu pescoço. Já a outra parte queria que me trancasse naquela casa e me ajudasse a fazer sua última frase ser real, queria ficar bem. As duas partes gritavam tão alto que eu não sabia qual ouvir ou pra onde ir, só sabia que eu deveria fazer algo rápido, antes que eu o machucasse.

...


Sete dias se passaram e a cada segundo eu me sentia pior. Minhas mãos tremiam tanto que realizar tarefas simples como acender um cigarro tornavam-se lentas e quase torturantes. Eu percebi que era hora de ir embora, de vez.
Era uma segunda de manhã e estava no fogão, tentando preparar ovos e bacon para nosso café da manhã. Ele havia me dito que tinha que trabalhar naquela semana, mas que eu poderia ficar em casa vendo um filme ou lendo, ou o que eu quisesse, como das outras poucas vezes que ele saía. Também me disse que tentaria voltar logo após o almoço e que iríamos fazer algumas compras para mim, coisas básicas e tudo mais. Perguntou-me alguns milhões de vezes se eu ficaria bem, se precisava de alguma coisa e pediu para que eu não fosse embora. Eu apenas ri e concordei.

- Quer dizer, sério, não saia daqui ou faça nada. – ele disse, meio sorrindo, meio sério.
- Não se preocupe, não vou roubar nada. – ri.
- Não, eu não quis dizer isso ! – quase corei quando ele me chamou pelo apelido, mas apenas sorri com o canto da boca – Eu realmente preciso ir. Fique bem, por favor.
- Eu vou.

Suspirei, pensando que aquela seria a última vez em que eu veria meu herói dos os olhos enquanto ele saia de casa. Observei pela janela do meu quarto emprestado o Civic preto de deixar o prédio. Não se passou sequer uma hora e eu abri o grande armário do quarto de e retirei minha jaqueta, perdida entre os outros milhares de roupas que eu jamais usaria ou sonharia em ter. Infelizmente levaria as roupas que estavam no meu corpo, peças que me emprestara vindas do guarda-roupa de Alice, mas só o faria por falta de alternativa. Procurei meus poucos pertences e rumei até a sala, onde peguei alguns trocados que estavam em cima da mesinha de centro. não era uma pessoa muito organizada, então sempre havia dinheiro jogado pelos cômodos da casa. Voltei ao quarto e abri o guarda-roupa, pegando uma das milhares bolsas da Gucci, que aparentava ser cara. No meio de tantas, Alice não daria falta de uma. Já saindo do apartamento, suspirei observando a porta. Não tinha muito o que se pensar ou se dizer, eu só precisava ir embora. Iria de certa forma sentir falta do tempo em que vivi ali e do modo como fui tratada por . Confesso que também pensei que sentiria falta dos olhos dele me olhando com carinho e da forma como ele sorria nas poucas vezes em que nos falamos. Ainda éramos estranhos, sim, mas era uma estranheza boa, confortável, cheia de sorrisos e olhares que diziam tudo e nada.
Desci pelas escadas e deixei o prédio pela garagem. Eu não conhecia o bairro bem, nunca havia passado por ali a pé e não me lembrava da última vez que havia passado por ali de carro, ou ônibus. Apenas caminhei por entre as pessoas, minha cabeça estava baixa e meus passos apressados. Usei os trocados que achei na sala para pegar um ônibus até o bairro onde eu costumava ficar na periferia da cidade, onde alguns “amigos” moravam. Quase uma hora depois, desci do ônibus. Andei um pouco e avistei uma casa com a tintura velha, já descascando e suja. Fui até a porta e bati, sendo atendida por uma mulher na casa dos quarenta e com o cabelo “loiro de farmácia”.

- Dallas.
- .

Ela deu espaço para que eu entrasse e fechou a porta, logo após sumindo na escada da casa. Caminhei até a conhecida cozinha e encontrei um grupo de homens jogando poker.

- Olha só quem voltou...
- Quem é vivo sempre aparece. – ri – Trouxe algo – joguei a bolsa em cima do rapaz que havia falado comigo – Vale muito. Muito mesmo.
- O que você quer?
- O de sempre.
- É seu, docinho. É sempre bem vinda aqui. – ele mostrou os dentes em um sorriso sacana e eu o retribui, logo após deixando a sala – Mas não se esqueça das regras! – ele gritou de longe.

Subi a mesma escada por onde Dallas desapareceu e logo estava no já tão familiar corredor da casa. Logo ao final estava o pequeno quarto onde eu dormia às vezes, um lugar apertado e com cheiro de mofo, sêmen e sangue. Tirei a jaqueta e a joguei sobre o fino colchão que ficava no chão, um dos únicos objetos no quarto. Encontrei Dallas no quarto ao lado, preparando algumas encomendas.

- Eu quero uma. – disse apontando para uma das embalagens – E onde consigo um isqueiro?
- Você sempre quer muito... – resmungou – Não sei por que ainda deixam você ficar aqui.
- Porque meus peitos ainda não caíram. – resmunguei olhando para o decote dela.
- Some.

Peguei o que ela me havia me entregado e voltei ao quarto. Sentei-me no colchão e encarei a seringa e a colher na minha mão por alguns segundos. Deite-me no fino colchão e olhei para o teto, cheio de rachaduras e mofo. Minha cabeça doía, como sempre que ficava tempo demais sem minha amiga, mas toda vez que encarava a seringa e o pequeno vidro em minhas mãos a imagem dos olhos de me vinham a mente. Eu sabia que isso não significava muito, ele não era mais importante que minhas necessidades, eu mal o conhecia. Eu repetia isso para mim mesma sem parar: Ele não me conhecia, eu não o conhecia. E ele não deveria me conhecer, eu não poderia deixar que isso acontecese. De qualquer forma, eu não poderia mais voltar, não depois de ter roubado da sua casa daquela forma. Quando a agulha perfurou meu braço eu podia jurar que ouvi uma voz sussurrar “Eu realmente preciso ir. Fique bem, por favor”.
“Eu vou ficar”, pensei comigo mesma enquanto fechava os olhos e deixava uma única e solitária lágrima escapar.

...

Acordei com um barulho alto e quase ensurdecedor vindo de algum lugar próximo. Passei as mãos pelo rosto e olhei em volta, ainda estava no mesmo quarto. Eu peguei minhas roupas jogadas pelo chão do lugar e caminhei até o banheiro no corredor sem sequer olhar para os dois homens que estavam adormecidos no quarto onde eu estivera.
Entrei no banheiro e tranquei a porta. Liguei a ducha e entrei debaixo dela, lavando-me freneticamente, meus braços sujos de sangue e meu corpo de sêmen. Mas eu sabia, não importava o quanto me esfregasse, a sujeira jamais sairia de mim. Sentei-me no chão sujo do banheiro e chorei enquanto a água caia em minha cabeça. Não sabia pelo que estava chorando, mas me deixei chorar, ali ninguém poderia me ver ou ouvir.

“É sua culpa, , você escolheu isso”.
- Eu nunca... – sussurrava.
“Você deixou sozinha, você foi covarde e fugiu. Você escolheu essa vida.”
- Eu sei. Eu sei... – deitei-me e abracei os joelhos.

Pensei em , em minha mãe, meu pai, em Jason, em e até mesmo em . Lembrei de cada detalhe que já me fez triste ou feliz e então encarei as marcas no meu braço por um longo tempo, talvez até as lágrimas cansarem de cair. Então sai da ducha, vesti minhas roupas e comprei mais algumas pedras com o dinheiro que os homens no quarto haviam me dado.

“Carmen, Carmen, ficando acordada até de manhã. Apenas 17, mas ela anda pelas ruas tão má. É alarmante, de verdade, o quão convincente ela pode ser, enganando a todos dizendo que ela está se divertindo. Querida, está vestida sem lugar para ir. Essa é a curta história da garota que você conhece, confiando na simpatia de estranhos, dando nós em cabos de cerejas, sorrindo, fazendo favores em festas. Coloque seu vestido vermelho, passe seu batom, cante sua música, agora que a câmera está ligada e você está viva novamente. Meu amor, eu sei que você me ama também, você precisa de mim, você precisa de mim em sua vida, você não pode viver sem mim e eu morreria sem você, eu mataria por você.” Carmen, Lana Del Rey.

IV

“- Eu não consegui o suficiente. Jason vai me bater de novo. – choraminguei enquanto entrava na casa.
pegou o dinheiro que eu tinha nas mãos e contou, olhando-me preocupada.
- Precisa se esforçar mais ou as coisas vão ficar ruins, . Ninguém gosta disso, mas não queremos que coisa pior aconteça conosco. – ela pegou algumas notas do seu bolso e colocou junto as minhas – Agora ele não vai fazer nada com você. E não se preocupa, eu tinha mais do que eu o suficiente. Some daqui, vai.

Eu caminhei até o pequeno quarto que dividia com mais algumas garotas da minha idade e me sentei na beirada da cama. Eu estava sozinha, sempre era a primeira a chegar e sabia que realmente precisava me esforçar mais, caso contrário continuaria sendo castigada no meu lugar. De algum jeito, ele sempre descobria quando ela me dava dinheiro.
Mais tarde, quando todas chegaram, Jason passou nos quartos recolhendo o dinheiro. Não pude dormir a noite toda ouvindo os gritos de enquanto ele lhe espancava. Não importava o quanto eu fechasse o travesseiro ao redor dos meus ouvidos, os gritos dela ficavam cada vez mais altos e a culpa em mim cada vez mais insuportável. Ela nunca pararia de se sacrificar por mim, mesmo quando eu tentava assumir a culpa e ser castigada no lugar dela. ”

- Quanto você conseguiu? – Savannah me perguntou enquanto se sentava na beirada do asfalto.
- O suficiente para o quarto e minhas coisas. – guardei um maço de notas no bolso e me sentei ao lado dela – Obrigada por me ceder um lugar aqui.
- Você já é de casa, garota. – ela disse com um sorriso meio triste.

Era triste, de fato. Mas não só para mim, mas para todas as garotas que ali estavam. Algumas escolheram estar ali, outras eram obrigadas. Algumas sequer tinham a idade que eu tinha quando comecei. Suspirei e me odiei por estar ali novamente, mas era a única maneira fácil de conseguir algum dinheiro, coisa de que eu precisava urgentemente. E como eu havia dito para Dallas, meus peitos ainda não haviam caído.
A noite já havia acabado e eu agora caminhava em direção à velha casa em que eu estava morando, a mesma na qual eu procurei abrigo quando saí do apartamento de . Dallas e seu marido, Carter, não me cobravam muito pela estadia e eu ainda tinha um modo extremamente fácil de conseguir heroína. Já faziam duas semanas que eu havia voltado para as ruas e eu já estava me acostumando ao fato de nunca mais ver . A única lembrança que eu guardava dele eram seus olhos e, talvez, sua gentileza. Mas não importava, não havia porque pensar naquilo. Já era passado.
Eram quatro da manhã e quando eu entrei no meu quarto desabei no colchão. O efeito da última dose havia passado há no mínimo meia hora e eu já queria mais. Mas eu sabia que se estivesse alta com certeza algum dos homens que ali também moravam apareceria querendo transar comigo e não me dariam um centavo por isso.
Para mim, sexo era apenas algo que eu fazia por dinheiro, e, além disso, só quando eu já havia me drogado. Era algo que eu jamais me permitiria (e nem queria) fazer sã, era algo que me dava repulsa e, sim, uma obrigação. Eu nunca havia sequer beijado alguém por vontade própria, já que fui obrigada a me prostituir com apenas treze anos, idade na qual eu jamais sequer pensara em garotos de forma romântica.
Tremendo de frio, tirei as roupas que vestia e peguei minha jaqueta e uma calça velha que Dallas havia me dado. Adormeci antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa.

...


“- Pare de bater nela! Ela não fez nada! – eu gritei apertando a blusa contra o corpo.
- Fique quieta, ! Ninguém lhe chamou aqui! – gritou mais alto, me olhando em pânico.
- Acho que você precisa de modos, garota. Você vai aprender a não levantar a voz para mim nunca mais.

Ele soltou enquanto prometia não ter se esquecido dela e me agarrou pelo braço, me arrastando para um quarto no andar de cima. Eu chorava e tentava me soltar dele, quando ele me jogou no chão e trancou a porta.

- Seu pai nunca te ensinou a não levantar a voz com alguém mais velho, garota? – fiquei em silêncio enquanto ele abria a gaveta e tirava algo de lá – Vou ser bonzinho com você hoje, você vai ficar tão feliz comigo que quem sabe talvez apareça qualquer dia desses no meu quarto para eu foder você. – ele riu e eu vi ele encher uma seringa sorrindo.

Eu sabia o que ele iria fazer, ele havia feito isso com várias das garotas dali, como forma de elas jamais tentarem fugir, como forma de que elas precisassem deles.

- Não, por favor. Por favor. – eu chorei enquanto ele me segurava com força e apertava meu braço.
- Só vou te dar uma dose de alegria, sorria, criança.
- Por favor... – sussurrei enquanto a agulha perfurava meu braço.”

Quando acordei eram quase quatro da tarde. Tomei um copo de água e fumei um cigarro enquanto ajudava Dallas a embalar a mercadoria que deveria sair no dia. Injetei mais do que devia e quando eram quase oito da noite e saí para fazer qualquer coisa. O efeito estava fraco, parecia vir devagar e não suprir a necessidade que eu tinha de levar as vozes embora. A cada dia eu precisava de um pouquinho mais. Quando cheguei ao bar mais próximo injetei mais um pouco e fiz um cara qualquer me pagar algumas doses de Vodca. Antes que o dono do bar me expulsasse eu saí com um cigarro na boca e pronta para uma confusão qualquer, como em qualquer outro dia. Não muito longe encontrei um grupo de garotos da minha idade cheirando cocaína. Um deles me ofereceu um pouco em troca de um favor. Chupei o garoto, dei um tiro e saí de lá sem me lembrar sequer o nome de minha mãe. Não me lembro mais do resto daquela noite, mas me lembro de desmaiar em algum canto de um parque qualquer e desejar mais uma vez que a morte me buscasse.
Mas ela não buscou e tampouco o fez daquela vez.

...


- Por onde você andou? – Dallas disse quando eu entrei na casa.

Era hora do almoço e ela estava comendo algum tipo de sanduíche enquanto fazia o balanço do mês, lembrando-me que eu não sabia a ultima vez que tinha comido alguma coisa.

- Por aí, me divertindo. – dei de ombros e peguei alguns pacotes em cima do armário – Peguei três – Joguei o dinheiro em cima da mesa e ela não disse nada.

Quando subi para o quarto minha cabeça latejava e eles conversavam comigo alegremente. Tentei ignorar, mas como sempre, eles falavam mais alto que qualquer outro pensamento que eu pudesse ter.

“Vadia inútil. Não vai voltar para salvar sua irmã?”
- Eu não sei onde ela está. Não me encham.

Mas eles não pararam, eles nunca param. Sem pensar direito, injetei o máximo que consegui e me joguei na cama.

“Você a fez apanhar, a fez perder tudo, pegou o dinheiro que ela havia juntado e fugiu. Nunca voltou. Você não se envergonha?”
“Ela não tinha mais que sua idade. Como pode fazer isso com ela?”
“Ela talvez esteja morta agora. Isso não incomoda você?”
“Vadia. Viciada. Inútil. Porque ainda está viva?”
- CALADOS! NÃO É MINHA CULPA! VÃO EMBORA! – gritei tampando mais ainda os ouvidos.

Meus braços tremiam e uma dor horrível tomou conta da minha cabeça. Comecei a ficar enjoada e logo estava vomitando no chão do quarto, minhas pernas também tremendo. Meu corpo tremia, doía, tudo parecia errado. Deitada no meu próprio vômito eu desmaiei, completamente sozinha e apenas desejando que eles se calassem de uma vez por todas.

...

Quando eu acordei não reconheci o lugar onde me encontrava. Não havia mofo no teto e nem cheiro algum no ar. Senti algo pressionando meu braço e olhei para o mesmo. Uma agulha estava presa nele com um esparadrapo. Meus olhos seguiram o pequeno tubo que se seguia até uma bolsa de soro ao meu lado, que pingava lentamente. Ao olhar para os lados vi cortinas claras e compridas, percebendo então que estava em um hospital.

- Finalmente acordou. – a cortina se abriu e uma mulher sorridente entrou no quarto.

Ela trocou a bolsa com soro e injetou algo dentro dela com uma seringa. Logo após parou ao meu lado e sorriu.

- Sou Joanna, sua enfermeira no momento.
- Quem me trouxe para esse lugar?
- Alguém chamou uma ambulância, você estava caída na rua.
- Quando vou poder ir embora?
- Quando estiver melhor. Você teve uma overdose leve, mas apresenta um caso grave de desidratação, queremos deixar você no soro por mais algum tempo.

Ela sorriu mais uma vez e saiu sem dizer mais nada. Era simpática, admito. Mais tarde me trouxe chá e conversou mais um pouco comigo. Explicou-me sobre como cheguei ao hospital e disse que a overdose não fora assim tão leve, mas que fui levada a tempo para o hospital e por isso não tive mais nada sério (como se a overdose em si já não fosse séria o suficiente). Na “cabine” ao meu lado estava Sean, um garoto simpático e que havia quebrado a perna. Já era noite quando eu percebi que realmente precisava sair daquele lugar.

- Quando vou poder sair? – perguntei novamente, quando Joana voltou para me ver.
- Em breve.

Saiu sorridente – para variar – e eu acabei cochilando. Quase uma hora depois acordei. Eu podia ver pela pequena janela quase à minha frente que já estava escurecendo. Joanna entrou novamente pelas cortinas, puxando alguém pela mão. A pessoa não entrou, mas eu podia ver que estava lá. Ela retirou com delicadeza a agulha que estava em meu braço e limpou sangue que estava coagulado em volta de onde a agulha a pouco estivera.

- Vem, entra , eu já tirei a agulha. Idiota. – ela riu e eu olhei confusa para o rapaz que entrava pelas cortinas.

A primeira coisa que vi foi, é claro, os olhos. Sempre , sempre tão intensos e dizendo tantas coisas em silêncio. olhou dentro dos meus olhos e deu um sorriso torto, logo após me olhando de cima a baixo. Senti-me confusa, o que ele estava fazendo ali e como havia me achado?

- Achou que ia fugir de mim, não é? – ele riu.
- O que diabos você está fazendo aqui?
- Então, a Joanna me ligou ontem de noite e disse que uma garota parecida com a que eu estava procurando havia dado entrada aqui. Eu vim checar, você estava desacordada e realmente era você.
- Você estava me procurando? Ou me seguindo?
- Eu estava te procurando desde o dia em que você foi embora. Eu fiquei muito preocupado.
- Como você conhece a Joana?
- Ela é namorada do meu amigo, o . Foi realmente uma grande coincidência, . Ou talvez simplesmente fosse pra ser... Certo? – fiquei em silêncio – Vem, vamos pra casa. A Jô disse que você está liberada.
- Pra casa?
- É, pra casa, dãh. Nossa casa e tudo mais. Vem, já está ficando tarde e eu ainda tenho que comprar algo para gente comer.

puxou minha mão e me tirou dali. Não vi Joanna por perto para agradecer e apenas deixei me levar. Eu estava em um daqueles momentos de completa perplexidade, não conseguia acreditar que justo me achara ali. Eu apenas o segui calada por que não sabia o que fazer, não sabia como lidar com aquela situação, principalmente sabendo que ele estava me procurando e que parecia realmente preocupado. Ao mesmo tempo em que era completamente estranha a forma como ele me tratava, a intimidade que ele havia misteriosamente desenvolvido e o fato dele continuar tentando me salvar, eu me sentia confortada e segura por saber que ainda havia alguém no mundo que se importava comigo. Talvez a única pessoa. E a forma como ele disse “nossa casa” piscava na minha mente. Casa. Será que finalmente eu tinha um lar? O que estava acontecendo? Tudo parecia completamente irreal e minha cabeça dava voltas.

“Vem, vamos pra casa.”
“Agora você vai poder ir para casa, . Você vai ser feliz de novo. Por favor, me prometa que você vai! Não faça que isso seja em vão. Por favor, irmãzinha.”
“É, pra casa, dãh. Nossa casa e tudo mais.”

...


Quando acordei no dia seguinte não havia ido trabalhar e eu não queria ir embora, apesar de saber que precisava. Sai do quarto e dei de cara com ele deitado no chão da sala, rodeado de papéis. Fui até a cozinha e vi que ele havia feito chá. Enchi uma xícara e voltei para a sala, sentando-me no sofá e observando como ele misturava as folhas e fazia anotações.

- Achei melhor trazer o trabalho para casa hoje. Não que isso seja ruim, na verdade.
- Você não precisa fazer isso.
- Está tudo bem, eu gosto de ficar em casa.
- Estou falando sério, precisamos conversar.
- Eu estou ouvindo.
- Você não pode mais fazer isso. Não pode ficar me procurando por aí e tentando me trazer pra cá, não pode continuar com essa ilusão que criou de mim. Você não me conhece, , estou cansada de dizer isso. O que há de errado com você? Eu sou uma viciada. Eu me drogo todos os dias, várias vezes por dia e com várias coisas diferentes. Eu moro num quarto alugado na casa do meu traficante ou então fico na rua mesmo, eu não faço porra nenhuma da vida, eu não tenho roupas, perdi a maioria dos meus documentos, não tenho família, não tenho dignidade. Eu roubei você antes de fugir, você sabe, não sabe? E sabe que eu posso fazer de novo? Eu não tenho o menor controle sobre mim mesma. Eu posso te machucar, posso te machucar de verdade. O que você tem na cabeça? Sério, eu não entendo e não sei bem se quero entender. Isso é errado, muito errado. Não pode me tratar como se me conhecesse ou fossemos amigos. Para ser sincera, isso é super bizarro, ninguém normal faz isso. Então pare, pare de tentar me fazer ficar, pare de me tratar bem e me dar esperanças. Eu não posso ficar . Você não pode me salvar, não sou um projeto social ou humanitário. Puta merda, vai pra África ajudar crianças ou algo do gênero!
- Eu já te disse, são seus olhos.
- E o que essa merda de resposta significa, ? – disse irritada.
- Que você sempre vai ter um lar aqui se precisar e quiser.
- Por favor, me diga a verdade.
- É tão difícil acreditar que alguém quer te ajudar?
- ... O que você quer? É sexo?
- O que? Que tipo de pessoa você pensa que eu sou? – ele se irritou – Ok, desculpa, não quis usar esse tom de voz. Não, , eu não quero sexo. Sabe o que eu quero? Quero que você fique aqui, quero ajudar, quero te dar todas as minhas jujubas roxas. – eu ri, involuntariamente - Eu até liguei para minha irmã e pedi para ela vir aqui me ajudar. Ela vai te levar para fazer compras e tudo mais, e vamos arrumar o quarto de visitas para você, vai ser seu quarto, tipo, pra sempre. É sério, eu quero ajudar, quero mesmo. Eu sei que você não consegue entender, mas eu juro, eu não espero nada em troca, eu só quero ajudar. Me deixa te ajudar.

me olhava com os olhos chorosos e eu suspirei, tomando um gole do meu chá. Não tinha escolha, tinha? Ele iria até o outro lado do mundo atrás de mim, era claramente o que seus olhos diziam.

- Só espero que possa me contar o porquê de tudo isso um dia.
- Só prometa que não vai sumir de novo. Por favor.
- Eu não posso prometer isso, você sabe. Eu gostaria de poder.

"Quando nós ficamos perdidos, quando o céu está baixo, eu olho para você para me guiar para casa. Quando não há chão e nem pra onde ir, eu estarei te esperando para me guiar para casa." Foxes - All I Need

V

(Música do capítulo – Fragile, Gnash feat. Wrenn)

“O tempo está correndo.”
“Tic-tac, tic-tac.”
“Não vai resolver isso?”
“Você é tão fraca.”
“Deveria sair para se divertir um pouco, o que acha?”
“Não sente minha falta?”
“Volte, .”

Acordei um pouco desnorteada e me levantei antes de deixar os pensamentos intrusivos me dominarem por completo. Caminhei até a cozinha e vi lendo jornal e tomando chá, uma manhã como qualquer outra naquele grande e confortável apartamento. Sentei-me na cadeira ao seu lado e peguei um biscoito numa vasilha a minha frente, mordiscando-o. Minha cabeça doía terrivelmente e o simples fato de ficar de pé era um martírio, já que minhas pernas tremiam incontrolavelmente e a dor atravessava meu corpo de ponta a ponta.

- Você está bem?
- Sim. – respondi entre dentes, caminhando até a sala e me jogando no sofá.
- Você precisa falar sobre isso, .
- Eu não estou no clima, .
- Quer um abraço, ? – disse, tentando ser engraçado.
- Não. Você poderia deixar me deixar em paz?
- Eu só estou tentando ajudar.
- Eu não pedi sua ajuda. Eu nunca pedi a sua ajuda.

Saí do cômodo com raiva, entrei no banheiro do “meu” quarto e tranquei a porta. Poucas coisas eram piores do que estar sóbria. Estando assim eu conseguia me lembrar de tudo, todo o passado, todo o presente, toda as merdas existentes há tanto tempo na minha vida. Os pensamentos intrusivos já citados martelavam na minha cabeça sem trégua. A presença de melhorava sempre a situação, mas eu sabia que em algum ponto seria insuportável e também sabia que continuar contando com a presença dele era um erro. E, também, naquele exato momento até a voz dele me causava náuseas.
Olhei-me no espelho, vendo meus grandes olhos envoltos por uma grande bolsa roxa e decorado com algumas lágrimas, sem qualquer resquício de vida. Os lábios rachados e sem cor, maltratados pelo descaso e tempo. Meu rosto, pálido e sem vida, já não era mais o mesmo de tantos anos antes e jamais seria novamente. Era difícil imaginar como eu sequer conseguia ficar em pé ainda com tão pouco peso e força. Nos meus braços manchas, hematomas e marcas de agulha. Além de cicatrizes, muitas delas, provocadas por brigas ou por motivos da qual eu não me recordava mais - ou pelo menos tentava não recordar.
Encarei a garota no espelho e tentei convencer a mim mesma de que aquela era realmente eu. . Aquela garota destruída por drogas, bebida, surras, prostituição e autodestruição era eu. Era tudo que eu nunca quis ser em minha vida e definitivamente a única coisa que eu era naquele momento.
Eu quis gritar. Quis gritar o mais alto e mais forte que pudesse, quis que todos soubessem o que havia realmente acontecido comigo e que alguém de fato pudesse me salvar de tudo o que havia me tornado. Queria que alguém me segurasse pelos ombros e me lembrasse de quem eu realmente era.

- Ele não pode me salvar, ninguém pode me salvar. – sussurrei a mim mesma.

Eu continuava ignorando todos os sinais de que tudo aquilo, aquela casa, , aquela vida, era errado. Continuava me deixando levar, deixando o tempo passar, deixando ele se apegar a mim e eu me apegar a ele. Eu estava jogando com ele ou ele estava jogando comigo?
Senti nojo de mim mesma. Tive vontade de arrancar minha pele para tirar toda a sujeira contida em mim. Ela nunca saíria, não fácil assim.
Olhei-me novamente no espelho e soltei um grito. Dominada pela raiva, soquei com toda a força que podia o espelho a minha frente, eu não queria mais encarar a verdade triste e podre que estava na minha frente.
Percebi que precisava de verdade de alguma coisa para me tirar da realidade naquele exato momento. Precisava de outra dose longa e demorada da minha melhor amiga e eu não podia esperar mais. Quem sabe se eu aplicasse a dose certa eu poderia finalmente esquecer tudo, de vez.
Ouvi um barulho rápido e me desequilibrei, sendo amparada por um par de braços. Ele me segurou com força contra si enquanto eu tentava me soltar.

- Não me toca! Me solta!

Ele não respondeu e continuou me segurando com força enquanto eu esperneava e batia nele. Mordi seu braço com força e nem mesmo assim ele me soltou, só arfou de dor e soltou um suspiro.

- Você não pode me prender aqui, isso é crime, sabia?
- Você não vai a lugar nenhum, . Eu não vou soltar você. Não vai deixar que faça aquilo de novo. Eu prometi.
- Eu não me importo! Você não percebe? Eu não dou a mínima pra nada disso! Eu só quero ir embora!
- Você não vai. Eu prometi. – ele repetiu e eu não entendia, apenas tentava fugir.

Gritei alto e chorei mais alto ainda enquanto ainda me debatia nos braços dele. Ele não tinha o direito de me dizer o que fazer ou onde ficar. A vida era minha, a desgraça era minha. Naquele momento eu só precisava de uma dose, eu não precisava dele.
Após algum tempo eu desisti de lutar contra ele e caí sem forças no chão. não me soltou. Minha respiração ficou pesada e o choro passou de desesperado para triste. passou a me abraçar ao invés de me conter, sentado no chão ao meu lado. Enfiei meu rosto na sua camisa manchada com meu sangue e solucei. Minha mão tremia muito e eu podia perceber alguns pedaços do espelho fincados a ela.

- Me deixa ir, . Por favor. Eu já te disse, eu não quero nada disso, eu não consigo melhorar.– sussurrei com a voz trêmula, chorando baixinho.
- Você é tão melhor que isso, . – ele sussurrou no meu ouvido e beijou meu cabelo – Você é muito melhor que tudo isso.
- Você não pode me salvar, . Ninguém pode. Você nem sequer me conhece. – olhei em seus olhos e percebi que ele havia afrouxado a prisão dos braços a minha volta.
- Eu preciso que você me deixe te ajudar, .

aconchegou-me em seus braços, como se eu fosse frágil e precisasse ser protegida. Naquele momento, de fato, eu era. Ele passava a mão devagar pelo meu cabelo até que meu choro cessou e minha consciência também. Era a primeira vez que eu deixava alguém me tocar daquela forma em toda a minha vida e pela primeira vez, me senti confortável sendo tocada por um homem. E eu não quis fugir, só quis fazer dos seus braços minha morada.
...

- Precisamos ir ao hospital, sua mão parece péssima.

Essas foram as primeiras palavras que ouvi de quando acordei algumas horas mais tarde, deitada no sofá da sala com a mão enrolada em uma camiseta velha dele, já cheia de sangue.

- É, eu acho que sim.

me levou até a garagem do seu prédio e entramos em seu carro. Eu não entendia de carros, mas sabia que era algum muito caro e, obviamente, que era muito bonito e confortável. Mais uma vez me perguntei o que diabos eu estava fazendo ali e porque ele tentava me encaixar em um mundo que definitivamente não era nada do que eu podia lidar com. Eu não sabia muito bem o que dizer a ele depois do que havia acontecido, não sabia se minhas palavras seriam suficientes diante de tudo que ele havia dito e feito por mim naquele dia e em todos os outros em que estive em sua casa e em sua vida.

- Obrigada. – sussurrei, sem graça.
- Você não precisa me agradecer por nada, .
- Obrigada por ter ficado lá comigo e eu sinto muito por ter te machucado. – minha voz vacilou ao ver a marca da minha mordida em seu braço - Eu te disse, eu perco o controle. Eu perco completamente o controle e eu posso ser perigosa. Me perdoa. - Não foi nada, não se preocupe. Eu estou bem, a sua mão é a unica coisa que me preocupa aqui. – ele sorriu – Você se importa? – disse apontando para o rádio.
- É claro que não. - Ouvi uma música começar a tocar no volume baixo.

I'm sorry you saw me shaking
Sinto muito por você ter me visto tremendo
Stay with me for a day
Fique comigo por um dia
I've got no one to hold me
Eu não tenho ninguém para me abraçar
Cause I, I turn them all away
Porque eu, eu faço todos irem embora

- Sinto muito por ter te segurado com força lá no banheiro, eu fiquei com medo de que você se machucasse mais. Olha, eu me sinto péssimo por isso, de verdade. E por estar meio que prendendo você. Eu não quero que você vá embora porque quero que você melhore, tenho esperança em você. Você entende? – ele respirou fundo – Me diz, o que você quer? Se você realmente quiser ir embora, não vou mais te impedir. Não é certo da minha parte fazer isso.
- Eu... – mordi o lábio – Eu não sei. Eu surto e só quero fugir, mas algo em você me faz querer ficar. Só que , eu não controlo esses surtos, a abstinência.
- É meio difícil salvar alguém que não quer ser salva, então eu preciso que você me deixe estar na sua vida. Eu não posso te forçar a nada e por isso eu realmente me sinto péssimo por hoje.
- Você é tipo um anjo da guarda ou algo assim, o primeiro que já tive. Fico feliz por não estar morta, porque se eu estivesse não poderia ter conhecido você. Eu nunca vou entender o que você está fazendo, mas sou muito grata por tudo, mesmo mal te conhecendo. Não existem pessoas como você por aí, sabe.
- Eu só quero que você fique bem.
- Eu só preciso que saiba de uma coisa, eu falei sério quando disse que você não pode me salvar. A unica pessoa que pode me salvar sou eu mesma. Você pode ajudar, é claro, eu preciso de ajuda. Mas preciso acreditar em mim mesma e eu não acredito, nunca acreditei. Então eu preciso de tempo e preciso que você não me deixe mais usar essa merda de heroína. Eu vou morrer, se continuar e vou morrer muito em breve. – eu comecei a chorar baixinho– E noventa por cento do tempo eu quero morrer, quero ir embora e parar de sofrer... Mas você tem me feito pensar diferente e agora, nesse exato momento, eu não quero estar morta e eu nem sequer lembro da ultima vez que me senti assim. Eu só quero consertar minha mão, voltar para casa e ver televisão com você. Então me prenda, se precisar. Faça o que tiver que fazer, mas não me deixa voltar pra rua de novo.

I don't wanna be alone
(Eu não quero estar sozinha)
But I'm better on my own
(Mas eu fico melhor apenas comigo mesmo)

estacionou no hospital e foi comigo até a sala de espera. Demos minhas identificações e nos sentamos, esperando que eu fosse chamada para ser atendida. Como sempre, ele foi extremamente cuidadoso em questão de contato físico. Ele me entendia muito bem e isso era completamente bizarro. Eu sabia, no fundo, que havia muito que ele não estava me contando e que os motivos que nos levaram até aquele momento eram muito maiores do que pareciam ser.
Era quase uma dádiva pensar racionalmente, sem interferência de qualquer outro fator. Eu realmente ainda não entendia como isso acontecia. Eu não havia mentido para , eu queria ser salva. Não literalmente ser salva, eu queria ajuda, queria me sentir como naquele momento sempre, queria ter esperança e querer melhorar. Acho que eu nunca havia tentado, pois nunca houve chance alguma sozinha. Eu devia isso a , devia isso a minha mãe. Aquela era minha chance, minha única chance de qualquer coisa e acho que a vida não me daria outra.

Cause I'm fragile
(Por que eu sou frágil)
God, I'm fragile
(Deus, eu sou frágil)

Olhei para e quis que ele me abraçasse novamente. Quis sentir toda aquela segurança que os braços dele emanavam, aquela confiança que os olhos me davam. era naquele momento um porto seguro para mim e eu jamais queria que ele deixasse de ser isso, apesar de só o conhecer há algumas semanas. Isso era completamente irreal e confuso. Era, afinal, a primeira vez que eu tinha isso depois de deixar . Não podia jogar isso fora, como já havia pensado tantas vezes.

I'm sorry you saw me breaking
(Eu sinto muito que você tenha me visto quebrar)
But stay with me don't stray
(Mas fique comigo, não se vá)
God, I wish you would hold me closely
(Deus, eu queria que você me segurasse tão perto)
Don't think I don't feel the same
(Não pense que eu não sinto o mesmo)

- ? – uma mulher alta e esguia apareceu na sala, chamando-me.
- Quer que eu entre com você, ?
- Não precisa , obrigada. – sorri para ele e me levantei, caminhando em direção a mulher.

Segui-a até uma sala no início de um corredor e ela indicou que eu me sentasse em uma pequena maca. Ela perguntou qual o problema e mostrei-a minha mão, inchada e ainda tremendo um pouco, devido aos cortes.

- A situação está feia aqui, querida. Como conseguiu fazer isso com sua mão? – ela disse segurando-a e analisando cuidadosamente.
- Soquei um espelho. – esclareci e ela arqueou uma sobrancelha.
- Por qual motivo?
- Eu não sei.

Observei-a limpar minha mão e retirar alguns cacos de espelho presos a minha pele com uma pinça. Doía, claro, mas nada insuportável. Logo após limpar tudo, ela pegou uma agulha e começou a suturar o corte mais profundo.

- Crise de abstinência?
- Como sabe?
- Seus braços. – disse sem me olhar.
- É. – ela ficou em silêncio – Quer acabar isso logo agora, não é? Não vou machucar você.
- Você é só uma garotinha assustada. Eu não tenho medo de você.
- Seu irmão? Seu namorado?
- Irmão. – respondeu, com um sorriso triste – Nem sempre somos capazes de salvar quem amamos, querida. Não deixe que as pessoas que te amam percam você.
- Eu não tenho pessoas que me amam, doutora. Não tenho ninguém.
- E quanto ao garoto com você na sala de espera?
- Ele... – refleti por alguns segundos – Ele só toma conta de mim.
- Bom, isso soa bastante como amor para mim.
- Acho que eu sequer sei o que é amor. – ri com certa amargura e ela suspirou, olhando-me com um olhar triste e pensativo.

Ela colocou alguns curativos na minha mão e colocou uma faixa sobre tudo. Me disse que eu deveria trocar os curativos todo dia e limpar os ferimentos, mas que iria ficar bem em pouco tempo. Agradeci-a e sai da sala, encontrado no mesmo lugar em que o havia deixado. Ele apenas sorriu ao me ver e fomos até o carro em silêncio, nossas mãos tão próximas que eu podia sentir os dedos dele esbarrando-se nos meus e uma corrente elétrica percorrer meu corpo da ponta dos dedos até cada fio de cabelo do meu corpo.

God, I wish I could love you
(Deus, eu gostaria de poder te amar)


“Dê uma olhada em você no espelho. Quem você vê te olhando? É a pessoa que você quer ser? Ou é alguém que você queria ser? A pessoa que você deveria ser, mas acabou não sendo? É alguém dizendo a você que você não pode ou não quer? Porque você pode. Acredite que o amor está por aí. Acredite que sonhos se realizam todos os dias. Porque eles se realizam. Às vezes, a felicidade não vem do dinheiro, da fama ou do poder. Ás vezes, a felicidade vem dos bons amigos e da família e da tranquila nobreza de se levar uma boa vida. Então dê uma olhada nesse espelho e lembre-se de ser feliz, porque você merece ser. Acredite nisso. E acredite que os sonhos se realizam todos os dias. Porque eles se realizam.” - One Tree Hill

VI

(Música do capítulo – Can You Feel My Heart, BMTH cover by Katy Jackson)

O caminho de volta foi diferente. Não que eu conhecesse tão bem a cidade, mas não me lembrava de ter passado por nenhuma das ruas pela qual dirigia agora. Ele virou a esquina e senti um calafrio percorrer minha espinha à medida em que o carro se aproximava do final da rua.

- Eu conheço essa rua.
- Como assim?
- Eu costumava morar aqui. – disse em tom baixo. A não ser pela grama alta ao seu redor, a antiga casa amarela continuava do mesmo jeito que eu havia deixado anos atrás.

- Você quer parar um pouco?
- Sim.

estacionou o carro à poucos metros da casa. Eu deixei um longo suspiro escapar por meus lábios e saí do carro enquanto ele me seguia atentamene. Atravessei a grama descuidada e parei em frente à porta, segurando um dos meus braços junto ao corpo. Senti uma mão segurar meu ombro e dei um passo a frente, girando a maçaneta da velha porta. Não estava trancada.
Logo ao ver a sala, me senti inundada por lembranças e as lágrimas me vieram aos olhos. me seguia, ainda em silêncio. Minhas pernas seguiram em frente, sem comando, para a velha lareira onde vários porta-retratos se encontravam acima do batente. A poeira parecia ser parte da casa e era impossível saber há quanto tempo alguém não a limpava ou sequer a visitava. Peguei um deles e retirei o pó com o polegar, sorrindo ao ver a imagem ali.

- É sua mãe? – perguntou, apontando a mulher mais velha da foto, que estava ao lado de duas crianças sorridentes.
- É. Era o aniversário dela, o último fora do hospital. Eu era muito nova para me lembrar exatamente de como foi, mas me lembro de que estávamos felizes. – sussurrei.
- Você se parece muito com ela.

Guardei o porta-retratos junto ao peito e observei a sala por mais um momento. Não queria ver mais, então apenas caminhei para a mesma direção de onde havia vindo. Sentei-me na pequena escada que dava acesso a porta e vi sentar-se ao meu lado. Tirei a foto de dentro do porta-retratos e arremessei-o com raiva a meio do matagal que meu antigo quintal havia se tornado. Eu observava a foto, meu dedo fazendo o contorno de nossos corpos lentamente. Eu, minha mãe e , sentadas uma ao lado da outra em um grande banco. Sorríamos intensamente e com certeza nós sequer cogitávamos o que nos esperava no futuro.

- Elas eram muito bonitas.
- Sim. Eu sinto muita falta delas. – engoli o choro.
- Nem todas as lembranças são ruins, não faz mal se permitir lembrar as vezes.
- Lembrar não é bom quando se é uma pessoa fraca.
- Você é muito mais forte do que imagina, . Você só se esquece de acreditar às vezes.

Ele colocou a mão sobre a minha e a apertou gentilmente. Olhei para o seu rosto e vi que ele sorria, um sorriso tão gentil quanto sua mão na minha. Percebi que ele me dava força, talvez a necessária para que eu me livrasse de todos os demônios que habitavam minha mente e que naquele exato momento sussurravam sorrateiramente em meus ouvidos, beliscando minha pele e tentando me fazer sair de mim novamente.

...


A volta para casa foi silenciosa. Eu sabia que ele me olhava pelo canto do olho vez ou outra, mas meu medo de ser pega olhando era maior que a vontade de encará-lo. Então tudo o que eu fazia era sentir o peso de seus olhos sobre mim.
Ao chegarmos ao seu apartamento, entrei para o quarto que no momento eu chamava de meu, guardei a foto e tomei um banho demorado. Lembrei a mim mesma de como eu era sortuda por receber tantas chances assim, praticamente do nada. Eu tinha que me lembrar sempre, martelar aquilo mais forte do que as outras coisas que martelavam ali. A teoria de que era um anjo era cada vez mais forte em minha mente distorcida.
Ao sair do banho, escolhi um dos vestidos do guarda-roupas da irmã de . Ele havia me dito que poderia ficar à vontade com as roupas dela, afinal, ela não tinha planos de voltar tão cedo. Ouvi o barulho da porta se abrindo e entrou no quarto. Ele me observou dos pés a cabeça e sorriu.

- O que foi? Estou muito estranha com esse vestido?
- Não, de jeito nenhum!
- Então por que está rindo?
- Porque você está linda.
- Obrigada. Eu acho. – eu disse, sentindo minhas bochechas arderem.
- Por nada – riu – Você já vai dormir?
- Acho que sim.
- Não vou incomodar, então. Boa noite, .
- Boa noite, .

“- Anda , coloca a porra do pé aqui! – disse juntando as mãos perto da janela, par que eu me apoiasse nelas.
- Você tem certeza de que isso vai dar certo? – Eu perguntei com medo.
- É claro que vai! O Jason saiu e a Carol disse que ele não volta hoje. Talvez nunca tenhamos uma oportunidade assim, temos ao menos que tentar.
Eu concordei e tirei as mãos do fundo do meu casaco, onde uma razoável soma de dinheiro – que havia me dado – se encontrava. Eu respirava com dificuldade e quando cheguei a centímetros de minha irmã, as lágrimas resolveram aparecer.
- Eu tenho medo do que vai acontecer com você . – Disse enquanto sentia as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Encaixei meu pé entre suas mãos.
- Não tenha, . Eu sei cuidar de mim mesma. Hey, vai ficar tudo bem, não chore. Não se esqueça de fazer o favor que te pedi. E seja boa. – ela completou – Eu sei que você consegue. A gente se encontra um dia, eu prometo.
- Eu te amo mana.
- Eu também, nunca se esqueça. – Ela sorriu pra mim pela última vez e eu pulei a janela – Seja boa!

Assim que meus pés tocaram o chão, eu corri. Corri o máximo que podia, levando a capacidade de minhas pernas e pulmões ao máximo. Eu também chorava, chorava um choro silencioso e dolorido, mas ao mesmo tempo aliviado. A noite era escura e a única luz que iluminava a rua naquele dia era a da lua. Eu não sabia para onde estava indo, mas sabia que qualquer lugar era melhor que aquele. Uma onda de alívio me percorreu ao pensar que jamais precisaria estar ali novamente. Essa mesma onda de alívio se tornou dor e medo ao me lembrar de que isso significava que também não veria minha irmã novamente por um longo tempo, talvez.
Eu sentia medo por ela, medo por nós duas. O que Jason faria com ela quando descobrisse que ela havia me ajudado a escapar? Um calafrio percorreu minha espinha ao imaginar tal fato. Não havia escapatória, Jason sempre sabia. Eu não podia fazer o sacrifício de ser em vão, então jurei a mim mesma que eu daria a volta por cima e voltaria para buscá-la de uma forma ou de outra.
Quando me vi longe o suficiente da rua, senti meus pés diminuírem o ritmo por si próprios. O frio começava a se mostrar presente e nem mesmo meu casaco velho podia contê-lo. Suspirei. Me vi rodeada por incertezas e por um mundo grande demais para ser percorrido apenas com minhas duas pernas.
Para onde eu iria agora? Como viveria? Haveria alguma chance de qualquer futuro para mim?
Só obtive essas respostas após longos anos de autodestruição e dúvida.”

Acordei com um barulho alto na cozinha. Ao chegar lá, encontrei se equilibrando com várias coisas em suas mãos. Ele preparava o café da manhã. Dentro de mim, naquele dia, não havia nada.

- Bom dia! – ele disse, alegre.
- Bom dia. Achei que estava começando a terceira guerra mundial aqui dentro. – ri.
- Eu te acordei? Sinto muito! Vai, sente-se, estou fazendo waffles para a gente.

Eu me sentei em uma das cadeiras e observei enquanto ele acabava. Logo ele colocou um prato a minha frente e se sentou ao meu lado com outro. Mal toquei nos waffles, mas fiz questão de que ele pensasse que sim.

- Eu tenho que ir trabalhar. Promete que fica bem sozinha?
- Sei cuidar de mim mesma, .
- Vou ligar, só por garantia.
- Posso estar dormindo.
- Espertinha. – ele riu – Vou me atrasar. Eu chego aqui lá para as duas, qualquer coisa é só me ligar. Deixei meu número anotado do lado do telefone.
- Sim, senhor.

depositou em beijo suave em minha testa – e eu lutei contra o desejo de o afastar - e logo após deixou o apartamento. Ele não trancou a porta.
Esperei que se passassem uma hora de sua saída e fui para o quarto trocar de roupa. Calça jeans, uma blusa qualquer e minha velha jaqueta em cima de tudo. Saí do apartamento com apenas uma palavra em minha mente vazia: Heroína.

...


Eu sentia alguém tocando meu corpo. As mãos do rapaz seguravam firmemente meus seios e então passeavam pela extensão de minha barriga livremente. Quando ele tentou tirar o que restava de minha roupa, acordei do meu transe.

- Saia.
- O que?
- Saia de perto de mim, seu monte de lixo!

Empurrei-o para longe com as mãos e me levantei. Eu não sabia onde estava e nem como havia ido parar ali. Suspirei e procurei minhas coisas pelo chão. Eu ainda estava drogada e meus pensamentos estavam se misturando confusamente, não me deixando associar a realidade ao momento.
O rapaz que eu havia rejeitado havia esquecido minha presença e preparava algumas carreiras para si. Não fez menção de que iria me oferecer. Saí do quarto e dei de cara com o corredor da casa de Dallas. Não havia ninguém à vista e eu saí da casa com passos apressados. Precisava ir para casa.

“Você não tem casa.”

Cheguei ao prédio de e entrei pelos fundos. Não sabia das horas e apenas rezava mentalmente para que ele ainda não tivesse chegado em casa. Suspirei de alívio ao entrar e ver seu apartamento vazio. Meu maior medo era que ele descobrisse o quão fraca eu era, que ele descobrisse que eu não estava tentando me curar como eu disse. Não sei o que seria pior, sua rejeição ou sua benevolência.

Me livrei das roupas e tomei um banho demorado. As lágrimas escorriam pelo meu rosto junto com a água. Eu queria, sim, ajuda. Queria ficar bem, mas não sabia como fazer isso. Não era tão simples quanto parecia para as pessoas ao redor. Eu não podia simplesmente parar.

Saí para a sala enquanto enxugava meus cabelos. Só percebi que havia algo errado quando ouvi uma voz feminina gritando.

- O QUE DIABOS...? – a garota pulou do sofá, onde estava sentada, e assumiu uma posição defensiva.
- Quem é você?
- Eu quem pergunto, quem é você? O que você está fazendo na minha casa? – ela me olhava de cima a baixo e eu entendi quem era ela.
- Você é a irmã do .
- Sim, eu sou. – respondeu a minha afirmação - E você...?
- Eu sou... Amiga dele. .

Estendi a mão e ela a pegou, desconfiada. A garota era um palmo mais alta que eu e os olhos, , não mentiam sobre seu parentesco com , eram exatamente os mesmos. Ela era, sendo modesta, maravilhosa.

- Eu sou . não me disse que tinha uma namorada. – disse séria.
- O que? Não! Eu não sou a namorada dele. Sou uma amiga. Estou morando aqui como ahn, um favor, por um tempo. – ela continuava com o olhar desconfiado – Oh meu deus, desculpe-me, estou usando suas roupas. Sinto muito mesmo, me disse que eu poderia usá-las, já que você demoraria a volta e...
- Não se preocupe com isso, . – disse o nome de forma estranha – Eu não ia usá-las mais, de qualquer jeito. Eu trouxe um guarda-roupa novo de Paris.
- Eu realmente sinto muito, . Eu não sabia que iria aparecer por aqui. vai te explicar quando chegar do trabalho.
- Já disse para não se preocupar. – ela bateu a mão, finalmente abandonando um pouco a postura desconfiada – Está tudo bem, eu acho. Eu só me assustei um pouco, não me contou sobre você.
- Talvez ele não tenha tido a oportunidade. – disse, ignorando a lembrança de dizendo que ela me ajudaria também.

assentiu em silêncio e caminhou até seu quarto, que até então eu usava. Fechou a porta atrás de si e não vi sinal dela até a hora em que chegou em casa.
Confesso que estava assustada. Era claro para mim o fato de que a irmã de não gostava de mim. Ela olhava dentro de meus olhos ao falar comigo, não deixando escondido o sentimento de repulsa e desconfiança. Nitidamente ela sabia quem eu era. O que eu era. Quando chegou eu estava deitada no sofá. Assim que ouviu o barulho da porta se abrindo, saiu do seu quarto e praticamente voou em cima do irmão, sufocando-o em um abraço.

- ?! – ele disse surpreso, abraçando-a de volta.
- Estou de volta! - Ele deu um beijo no rosto dela e sorriu, ainda surpreso.
- Eu realmente não imaginei que você fosse voltar tão rápido! Achei que levaria mais algumas semanas.
- Era para ser uma surpresa! Cansei de Paris e senti saudades de casa.

Os dois sorriram um para o outro e se abraçaram novamente. Eu era apenas uma intrusa na cena, permitindo a mim mesma assistir em silêncio e fingir não estar ali. Os dois conversaram por alguns minutos até que olhou para o lado e viu que eu estava ali.

- Ah, meu deus, como eu fui esquecer de você ? – ele foi até mim e me estendeu a mão para que eu me levantasse – , essa é a . Ela está morando comigo por uns tempos.
- Nós nos apresentamos mais cedo, você está um pouco atrasado . – ela riu falsamente – Mais tarde conversaremos sobre isso.

Ninguém disse mais nada a respeito e o resto do dia se desenrolou lentamente. Quando já era fim de noite, se recolheu para o seu quarto, dando boa noite a e mal dirigindo seu olhar a mim. Seu desprezo não era novidade alguma em minha vida.
Pouco depois, se sentou do meu lado no sofá e passou o braço ao redor dos meus ombros. Encolhi com seu toque e ele retirou o braço, sussurrando um pedido de desculpas. Assenti.

- Sinto muito pela , ela está brava porque não contei a ela sobre você. Você pode dormir no meu quarto hoje, tudo bem? Depois arrumamos um lugar para você dormir.
- Eu posso dormir na sala, não se incomode.
- Não é incomodo. Eu faço questão.

Não discuti. me levou até o quarto dele e, como sempre, disse que eu podia chamá-lo se precisasse de qualquer coisa. Beijou minha testa cautelosamente, com medo da rejeição por minha parte, e se retirou, fechando a porta e apagando a luz.
Eu me sentia... Vazia. Na verdade, eu não me sentia, não sentia nada. Estava mecanizada, apenas fazia, respondia, ia. Isso era bom, não sentir. A felicidade (já desconhecida por mim) não vinha, porém a dor também não.
Porém, mesmo assim, não conseguia dormir. Sabia que estava acordado ainda, pois escutava seus passos pela sala. Pouco tempo após, ouvi uma porta se abrindo a voz de sua irmã baixa.

- Ela já dormiu?
- Já.
- O que diabos tem de errado com você, ? – ela disse após um suspiro – Ela é uma viciada! O braço dela está cheio de marcas de agulha, você reparou nisso? Você sabe com o que está lidando? Perdeu completamente o juízo, foi?
- Eu sei o que ela é, . Não precisa falar comigo assim.
- Onde conheceu essa mulher? – não respondeu – Me responda! - ela praticamente gritou.
- Achei ela desmaiada há algumas semanas e quis ajudá-la.
- PORRA, ! Você realmente perdeu o juízo!
- , você não é minha mãe. Essa é a minha vida, a minha casa e eu decido o que faço com ambos. Eu sei das minhas decisões e porque as tomei, não se intrometa.
- Você não pode salvá-la. Não salvou Carolyne e não salvará ela. Entendeu? Pare com isso! Ela deve ser só mais uma prostituta viciada e está se aproveitando de você!
- Você não a conhece para falar assim.
- E nem você!
- A conheço bem o suficiente para saber que é uma boa pessoa e que não entrou nessa vida porque quis! Ela quer ajuda e eu vou ajudá-la, nada que diga vai mudar isso.
- Não vou deixar você destruir sua vida, não de novo! Quero essa garota longe, está me ouvindo? LONGE, longe dessa vadia!

Can you hear the silence?
(Você pode ouvir o silêncio?)
Can you see the dark?
(Você pode ver a escuridão?)
Can you fix the broken?
(Você pode consertar o quebrado?)
Can you feel, can you feel my heart?
(Você pode sentir, pode sentir o meu coração?)

Quando voltei a sentir, tudo veio de uma vez.
Prostituta. Vadia. Viciada.
Levantei-me da cama e me apoiei na parede, tonta. Poderia vomitar a qualquer momento.

- Não grite, vai acordá-la!
- FODA-SE!
- Não precisa gritar mais, . Estou indo embora. – eu disse saindo do quarto e agarrando minha camiseta na sala.
- ...
- Não vou destruir a sua vida, . Já destruí a vida de muitas pessoas. Acabou, não quero mais magoar ninguém. Não sei quem é Carolyne, mas sua irmã está certa, você também não pode me salvar.
- Me deixa...
- Não. Não importa. Sou uma vadia, uma viciada, uma prostituta, eu não valho a sua ajuda. Não podemos fingir que isso vai funcionar, pois não vai. Me deixa ir e viva a sua vida, ok? Nós dois sabemos que nada disso faz sentido. Tentar me salvar não é algum tipo de redenção seja lá para o que você esteja procurando. Eu já disse, não sou seu projeto social e nem seu ticket de perdão para com deus ou seja lá o que você esteja procurando.
Não deixei que ele falasse mais nada e deixei o apartamento. Quis correr, mas apenas caminhei para fora do prédio. Não ouvi passos atrás de mim e foi aí que as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Acreditar em e em tudo que ele parecia querer me proporcionar tinha sido um erro. Não havia qualquer resquício de esperança para mim, eu estava apenas me iludindo pela beleza da situação.

Can you help the hopeless?
(Você pode ajudar o desesperado?)
Well, I'm begging on my knees
(Bem, eu estou implorando de joelhos)
Can you save my bastard soul?
(Você pode salvar minha alma condenada?)
Will you wait for me?
(Você vai esperar por mim?)

Entrei num beco perto da mesma praça em que havia me achado. Havia um rapaz mais ou menos da minha idade encostado no muro, conversando com outros e segurando uma mochila. Eu sabia bem o que ele era. Me aproximei e retirei tudo que eu tinha dos bolsos, jogando em cima dele.

- O que você quer?
- Você sabe. Rápido.
- Tem certeza?
- Me dê logo, porra.
- Vai precisar pagar mais.
- Pode pegar com Dallas. Trabalho para ela.

Ele não discutiu. Abriu sua mochila e logo me deu o que eu queria. Apertei minha jaqueta forte contra o meu corpo, tão forte quanto as lágrimas escorriam. Me joguei num canto escuro e abracei os joelhos, encostando a cabeça neles e chorando alto.
Eu queria, deus sabe que eu queria, ser salva. Ser feliz, ser normal. Mas eu não podia, não havia salvação. Minha alma estava condenada, sem volta. Lembrei-me de todas as vezes que eu implorei a ele que me salvasse, que me tirasse daquela vida. Eu era uma criança, eu o implorei e ele jamais me ouviu. Então, se aquilo que eu iria fazer era realmente um pecado, deus haveria de me perdoar.
Pensei em minha mãe e em seus olhos gentis, pensei em minha irmã e em todas as vezes que ela fez minha vida valer algo. Pensei no meu pai, pensei no ódio que eu tinha por ele e em como eu queria perdoá-lo, mas não conseguia. Pensei em todas as promessas que fiz e não consegui cumprir, em todas as falhas, todas as pequenas chances que perdi. Pensei em tudo que eu poderia ter sido, se não fosse o que eu era.

I'm sorry, brothers
(Me perdoem, irmãos)
So sorry, lover
(Me perdoe, amor)
Forgive me, father
(Me perdoe, pai)
I love you, mother
(Eu amo você, mãe)

Tirei a jaqueta e usei a manga para amarrar em volta do meu braço com mais força do que o necessário. Minhas veias já estavam tão finas que mal conseguia vê-las. Pressionei a agulha sobre a pele do braço. Meu dedo estava no êmbolo da seringa e minha mão tremia.

“Eu sinto tanto, . Sinto tanto, mãe...”

Eu olhava fixamente para a ponta da agulha, incapaz de enfiá-la por debaixo da minha pele. E a dor, a dor me cortava. Me destruía, me transformava em um nada maior do que eu já era. As lágrimas pareciam cada vez mais pesadas para meu leve rosto suportar.
Deslizei lentamente agulha para dentro da minha pele. O dedo ainda no êmbolo, a dor no peito crescente. E eu ouvia a voz dele, eu ouvia a voz de me pedindo para voltar para casa. Mas ele não estava lá, não havia voz, não havia casa. Era tudo uma grande piada da vida, uma grande ilusão. Mais uma, apenas.

- !
- Me deixe em paz! – solucei para a voz em minha cabeça, que teimava em imitar a de – Você não é ele, me deixe em paz! – gritei.
- Sou eu, ... Larga isso, vamos para casa.

.

- Pare de confundir a minha cabeça, vá embora! Você não é ele! Você é só uma das vozes e eu já sei o que vocês querem, então me deixem em paz! - Sou eu, olha para cima. Sou eu, .

Respirei fundo e olhei lentamente para cima, vendo os olhos profundos de me encarando. Ele parecia desesperado e suava, estava perto, porém não tanto.

- Vá embora! Por que você veio? Vá embora! Você não entende?
- Eu entendo e é por isso que eu estou aqui! Você não quer isso, eu sei que não.
- Eu quero... Eu quero!
- Eu estou aqui e eu não quero que você vá embora. Eu não quero.

Can you hear the silence?
(Você pode ouvir o silêncio?)
Can you see the dark?
(Você pode ver a escuridão?)
Can you fix the broken?
(Você pode consertar o quebrado?)
Can you feel my heart?
(Você pode sentir o meu coração?)

- Você não pode entender, . Não pode! O vazio não vai embora, a dor não vai embora, eu preciso ir! Não há conserto, não há volta, só há o vazio. Você não entende, nunca vai entender! Não é a primeira vez que eu uso hoje, eu saí enquanto você trabalhava.
- Eu quero ajudar. Eu posso ouvir você, , eu sinto o seu coração. Eu sinto você, eu sei quem você é. Por favor, fique. Por mim. Por . Pela sua mãe. Fique.
- Eu não consigo lidar com tudo, eu não consigo fazer a voz ir embora, não consigo fazer as coisas ficarem bem. Eu não posso mandar meus demônios embora, , eles não querem ir.
- Mandaremos juntos, eu te prometo. Só não vá.
- ...
- ...
- Você sabe que não pode me salvar.
- Eu não quero te salvar, . Eu só quero te ajudar. Eu prometi.
- Não me faça sofrer mais.
- Eu não vou, eu te prometo. Me deixa chegar perto. – eu assenti e ele sentou devagar ao meu lado – Solte isso, ok?
- Eu não posso...
- Me dê.
- ...
- Por favor.

Eu suspirei e com dificuldade retirei a agulha de dentro da minha pele. retirou-a com cuidado da minha mão e a jogou no chão. Desabei em seus braços, deixando que ele passasse-os ao meu redor enquanto eu escondia meu rosto na curva de seu pescoço. Ele beijou minha cabeça e me apertou contra seu corpo.

- Enquanto eu estiver aqui, juro que não estará sozinha outra vez. – ele sussurrou.

I'm scared to get close and I hate being alone
(Eu tenho medo de me aproximar e eu odeio estar sozinho)
I long for that feeling to not feel at all
(Eu anseio por aquele sentimento de não sentir nada)
The higher I get, the lower I'll sink
(Quanto mais alto me elevo, mais devagar eu afundo)
I can't drown my demons, they know how to swim
(Eu não posso afogar meus demônios, eles sabem como nadar)

me carregou até em casa e me deitou em sua cama. Não vi sua irmã e na verdade, não vi muito após ser tirada de lá. Só me lembro de cair no sono, entre lágrimas e entre os braços de . A primeira vez que estava em uma cama com um homem e não sentia vontade de vomitar. Pelo contrário, eu sentia que não queria sair de lá. E, por mais uma vez, a esperança me dominou juntamente a um sentimento que eu ainda não sabia o que era, mas sabia que era culpa de . E sempre seria.

“O tempo leva tudo. O que você quer e o que não. O tempo leva tudo. O tempo arrasa tudo. E no final, só resta a escuridão. Às vezes, encontramos outros nessa escuridão. E outras vezes, perdemos eles de novo.” One Tree Hill.


VII

Quando acordei no dia seguinte, não estava ao meu lado. Na verdade, eu não sabia ao certo se ele havia dormido ali comigo, já que eu caí no sono assim que me deitei. Eu não sabia o que queria que tivesse sido.
Minha cabeça latejava e senti certa dificuldade para levantar da cama, já que minhas pernas tremiam.
Assim que saí do quarto, percebi que não estava sozinha no apartamento. Poderia ser ou , então rezei pela primeira opção. Andei lentamente em direção a cozinha, de onde vinham os barulhos, e logo avistei uma garota desconhecida.
Ela tinha a pele morena e o cabelo preto nos ombros, estava de costas para mim e cozinhava alguma coisa. Cheirava como panquecas - e devo destacar que panquecas muito boas. O fato de não saber quem era ela me assustava (ainda não havia superado minha dificuldade em comunicação com estranhos desenvolvida com o vício) e pensei em voltar ao meu quarto, mas antes que pudesse fazê-lo ela percebeu minha presença e se virou, abrindo um grande e reluzente sorriso.

- Bom dia! Você deve ser a , certo? Sente-se, eu fiz nosso café da manhã! – eu me sentei, em silêncio – Espero que goste de panquecas e presumo que tome café, né? Quem não toma café hoje em dia?

Ela me entregou uma xícara cheia de café e colocou um prato com algumas panquecas na minha frente. Não era muito, provavelmente havia contado a ela, quem quer que ela fosse, sobre minha dificuldade em me alimentar.

- Ah, que falta de educação a minha, né? Nem me apresentei. Meu nome é Lori, eu trabalho com o . Ele me pediu para dar um pulo aqui e ajudar você com algumas coisas, não queria que você ficasse sozinha – ela se sentou à minha frente com o seu prato, com muito mais conteúdo que o meu, e uma xícara de café – Já vi que você não é de falar muito, mas tudo bem. Não precisa ter medo de mim nem nada do tipo, eu sou do bem, não vou dar um chilique igual a . – fiz uma cara de espanto quando ela mencionou o nome da irmã de – Ah, me contou sobre a cena dela. Olha, não liga, viu? A é, de verdade, uma pessoa ótima, mas também sabe ser uma vaca. Ela só precisa de tempo para se acostumar com as novidades.

Não convencida, continuei com minha feição de espanto e beberiquei meu café. Queimei os lábios e recuei rapidamente, respirando lentamente pela boca para aliviar a sensação. Encarei as panquecas a minha frente e percebi o quanto estava com fome. Não me lembrava qual era a última vez que tinha me alimentado. Parti um pequeno pedaço com o garfo e levei a boca, mastigando e engolindo lentamente.
Uma coisa sobre a droga, é que ela tira tudo de você, até sua capacidade de se alimentar. Estando drogada, eu sequer me lembro de que comida existe e de que eu preciso dela para ficar de pé. Já fiquei dias sem comer e só percebia quando a exaustão completa vinha. Quem olhava para mim podia ver claramente que eu estava muito abaixo do meu peso, provavelmente até desnutrida. É claro que nada daquilo importava quando eu estava alta. Toda essa falta de alimentação tornou meu estômago muito sensível, aguentando apenas pequenas quantidades de comida e ingeridas com cuidado. Eu raramente podia comer, e quando o fazia, tinha que tomar cuidado para não vomitar tudo.
Mas lá, lá eu não precisava comer com o pesar de não saber qual seria a próxima oportunidade em que poderia fazê-lo de novo. Lá eu não precisava ter medo de ninguém, estava protegida e segura.
Porém, não poderia ficar lá por muito tempo e sabia disso. Não poderia destruir mais pessoas além de mim mesma. Não podia mentir mais.

- disse que mandaria alguém para levar as coisas dela, parece que ela já arrumou tudo. me disse que você vai ficar no quarto de hospedes agora e me pediu para te levar para fazer compras e arrumar umas roupas e qualquer outra coisa que você precise.

Queria murmurar que não tinha dinheiro ou que não queria sair com ela, ou ficar no quarto de hóspedes. Só queria ir embora dali, eu precisava ir. Não queria causar problemas e nem abusar da boa vontade de mais.

- E, não se preocupe, temos um grande orçamento para cobrir nossas compras – ela deu um risinho feliz – Vai ser ótimo, você vai ver! Há quanto tempo não sai com uma amiga? – “nunca saí com uma amiga” pensei enquanto dava de ombros e colocava outro pedaço na boca – Bom, vou encarar isso como “há um bom tempo, Lori!”. Vamos nos divertir, sério. Me dê uma chance, eu posso ser legal. Sei que eu falo demais, mas prometo que sou legal.

Continuei calada enquanto mastigava. Tomei um pequeno gole do café e continuei ouvindo Lori tagarelar sobre qualquer coisa durante um bom tempo. Tenho certeza de que ela percebeu que minhas pernas tremiam quando nos levantamos para deixar o apartamento, porém ela não disse sequer uma palavra sobre isso. Apenas continuou tagarelando e sorrindo, e tempos depois percebi que essa era basicamente uma das melhores coisas sobre ela. O fato dela sempre estar sorrindo e tentando animar as pessoas ao seu redor era sua característica mais marcante e amada por todos.
Lori dirigia um carro antigo – que eu não sabia dizer o nome -, porém muito confortável e bonito. Eu permaneci calada durante o trajeto até o shopping mais próximo enquanto ela falava sobre seu emprego na gravadora de . Sim, tinha uma gravadora e naquele momento isso foi uma grande novidade para mim, que sabia muito pouco sobre a vida pessoal dele. Ele também tinha uma banda, aparentemente.
Quando chegamos ao local, logo ela me puxou para variadas lojas e eu me senti como uma pequena barbie, ou como uma criança sendo guiada pela mãe. Pensando bem agora, “mãe” é uma palavra ótima para definir Lori e sua presença a partir daquele dia em minha vida. Nós fomos a todos os tipos de loja, comprando roupas, sapatos, produtos de higiene e todo o tipo de coisa que ela julgou que eu fosse precisar. Eu tentava, ao máximo, impedir os exageros dela, mas ela continuava a repetir sobre nosso “limite ilimitado” para compras e todas as coisas que eu poderia ter. Ela estava muito mais animada que eu, apesar de que confesso que estava um pouco vibrante por dentro. Eu nunca havia feito compras daquele jeito e também estava começando a gostar daquela morena tão gentil e amável. Durante aquele dia com ela, mal percebi a tremedeira nas pernas, a dor de cabeça e todos os demais efeitos que a abstinência causava em mim.
Mais tarde ela sentiu fome e me arrastou para a praça de alimentação com ela. Eu disse que não estava com fome, mas ainda sim ela me fez dividir um grande prato de espaguetti com ela. Devo ter dado no máximo cinco garfadas intercaladas com goles pequenos em um copo d’água, mas ela fingiu não reparar enquanto comia com vontade nossa refeição.
Pouco antes de irmos embora, paramos em uma loja – provavelmente a mais cara que entramos – de vestidos para festas. Questionei Lori o motivo de irmos ali e ela me explicou alegre, como sempre.

- Então, na semana que vem vai haver esse jantar super-mega-especial e nós duas precisamos de roupas adequadas para ele. vai te explicar depois o que é, mas basicamente é quando você vai conhecer o pessoal da gravadora e da banda, apesar de esse não ser o motivo real do jantar. E não podemos vestir qualquer coisa, é num lugar pra lá de chique que o escolheu e ah, você vai ver e vai saber logo!

Apenas concordei, receosa em pedir mais informações. Decidi aguardar que me contasse quando fosse a hora certa. Também ignorei o fato de não saber quem era , apesar de desconfiar que fosse alguém da banda ou da gravadora.
Nós demoramos mais tempo do que eu imaginei lá. Não por minha causa, claro que não, eu escolhi o primeiro vestido que Lori me mostrou – que era verde (ela dizia que contrastava bem com meus olhos), discreto e batia nos meus joelhos, sem decote ou nada do gênero, mas ainda sim muito bonito, provavelmente o vestido mais bonito que já tinha tido na vida – enquanto ela se descabelava sobre seu vestido. Parecia que era realmente um jantar importante para ela. Depois de algumas horas e suspiros, ela se decidiu por um longo vestido azul com alguns enfeites brilhantes e rendas. Era muito bonito e elegante, mas ela ainda parecia receosa quanto à escolha, apesar de já tê-la feito.
Quando nós chegamos em casa, muitas horas depois de termos saído, estava sentado no sofá da sala lendo uma revista. Ele pulou com nossa chegada e sorriu, vindo em nossa direção e dando um beijo estalada na testa de Lori e sorrindo para mim, como sempre receoso.

- Então, como foram as compras de vocês?
- Ótimas! Apesar de que eu me senti extremamente tagarela pelo tanto que tive que falar, a é muito calada. Mas foi ótimo sim, agora só precisamos arrumar as coisas dela no quarto de visitas e vai estar tudo perfeito! Toma, leva essas pra lá e vamos buscar o resto!

Ela jogou as sacolas que tinha em mãos e também as que estavam nas minhas em cima dele e nós voltamos para buscar o resto. nos ajudou a colocar tudo no lugar e em uma hora o quarto de visitas era oficialmente o meu novo quarto. Nós três sorrimos, satisfeitos com nosso trabalho e então tomamos algumas xícaras de chá – eu tomei só metade, mas eles estavam tão alegres que mal repararam – e Lori se despediu para ir para sua casa. Eu agradeci, de coração, por toda a ajuda e disposição dela no dia. Ela, sem receios, me abraçou com força e beijou meu rosto, sussurrando então algo que só eu pude ouvir.

- Eu também acredito em você, .

Eu apenas sorri enquanto observava ela ir embora. Não posso negar que as palavras mexeram comigo, mas tentei não pensar muito no exato momento em que ela disse, apenas conclui que havia contado tudo sobre mim para ela.
Depois da partida de Lori, eu e nos sentamos no sofá da sala e depois de alguns minutos eu reuni a coragem necessária para falar.

- Obrigada, . Pelas compras, pela Lori, e tudo mais. Eu continuo sem palavras suficientes para te agradecer.
- Não precisa agradecer, é um prazer ajudar. Espero que tenha se divertido hoje. - É, foi bom, a Lori é muito enérgica e alegre. – eu ri.
- Sim, ela é, não pude pensar em alguém melhor para pedir isso. – ele também riu e então ficou sério por alguns instantes – É, então, sobre a ... Eu queria te pedir desculpas novamente. A forma como ela agiu foi imperdoável e ela não vai aparecer aqui por um bom tempo, até já levou as coisas dela embora.
- Você sabe que não precisava disso, não é? Ela é sua irmã.
- Precisava sim. Não gosto desse tipo de atitude e acho que ela realmente tem muito no que pensar antes de voltar pra cá. Essa é minha casa, então são minhas regras. Não posso deixar ela fazer o que bem entender. – concordei em silêncio – E hey, estou tão feliz que você esteja conseguindo conversar melhor comigo. Antes você ficava quase o tempo todo calada e sumida, mas olha só você aqui! Obrigada por isso.
- Acho que eu quem tenho que agradecer. – sorri.
- Posso te abraçar? Vai ser rapidinho, prometo.

Eu ri e concordei. Ele passou os braços ao meu redor e me envolveu um abraço que eu não poderia definir como menos que aconchegante. Quando ele se afastou, tive vontade de pedir para que ficasse só mais um pouco, ou que me deixasse deitar sobre seu peito e descansar, ou qualquer coisa equivalente. Mas claro, só deixei que ele se afastasse e nós dois sorrimos, sem graça.

- Estou cansada, vou tomar banho e dormir. – disse me levantando – Obrigada de novo. Boa noite, .
- Boa noite, . Se precisar de algo, é só me chamar, tudo bem?

Concordei e sorrimos um para o outro novamente. Esses sorrisos se tornaram tão presentes, tão necessários e tão cumplices que eu podia sentir a esperança vibrar em mim a cada vez que eles se mostravam. Eles se tornaram necessários em meu dia-a-dia.
Logo que entrei no quarto, suspirei. Não acendi a luz, apenas rumei para minha cama e me joguei nela, incapaz de chegar até o banheiro. A tremedeira estava lá, como sempre esteve, se intensificando com a chegada da noite e mostrando que não me deixaria tão facilmente como eu pensava que iria.
Ah, droga, porque eu precisava tanto de você assim? Porque você tinha que me tirar a capacidade de andar, dormir, viver? Jamais irei parar de me perguntar o porquê de tudo aquilo em minha vida, de toda aquela dor e sofrimento sem compensação alguma, ao menos até aquele momento.
Com dificuldade, adormeci para um sono turbulento e cheio de pesadelos.

...

“- Mamãe? Quando a gente vai poder ir para casa? Eu quero que você faça panquecas pra gente de novo. – sussurrou para mãe, deitada ao seu lado na cama de seu pálido quarto hospitalar.

A mãe da garotinha de apenas cinco anos tossiu e nada disse. Ela era muito nova para entender, mas sua irmã, , entendia tudo. Ela estava sentada numa cadeira ao lado da mãe, segurando sua mão e, como sempre, orando por algum tipo de milagre.

- ... – ela falou lentamente – Prometa que vai cuidar da sua irmã. Ela é apenas um bebê ainda.
- Mãe, não fala assim, por favor. Nada vai acontecer, não...
- Por favor. – ela interrompeu – Prometa. Eu preciso.
- Eu prometo mãezinha. Prometo.

beijou-lhe a mão e deixou as lágrimas escorrerem pelo rosto. se remexeu ao lado da mãe.

- Você vai embora mamãe? Por que? – perguntou triste.
- A mamãe está muito cansada, , então um senhor bonzinho vai vir me buscar para descansar um pouco com ele. Mas escute, vai ficar tudo bem, não precisa ficar triste. A mamãe sempre vai estar cuidando de vocês duas.
- Nós te amamos, mãe. – sussurrou – Muito mesmo.
- Eu também amo você, meus anjos.

Foi a última vez em que as garotas ouviram sua mãe falar. Poucas horas depois, ela adormeceu para um sono profundo e sem sonhos. estava no corredor do hospital, sentada com a enfermeira, mas podia ouvir claramente e jamais se esqueceria da irmã chorando deseperadamente.”

Acordei suando muito e sentindo todas as veias do meu corpo queimando. As lágrimas se misturavam ao suor e meu batimento cardíaco era tal que podia sentir meu coração querendo fugir daquele peito machucado. Sentei-me com dificuldade e arfei, observando com dificuldade minhas mãos, que tremiam e tinham as veias saltadas. Chorei um pouco mais e me levantei com dificuldade, caminhando até a cozinha, apoiada nas paredes da casa.
Segurei com força um copo entre minhas duas mãos, tentando pegar um pouco de água, mas pouco depois ele se esvaiu das minhas mãos e foi de encontro ao chão. Minutos depois, apareceu assustado.

- Sinto muito, eu... Água. – eu sussurrei, me sentando na cadeira da cozinha e fechando os olhos.
- Vem cá.

Ele me carregou e me levou até seu quarto. Não encontrei força em mim para interferir. Após me deitar em sua cama, ele voltou até a cozinha, provavelmente para limpar a bagunça que eu havia feito. Quando voltou, ele se sentou ao meu lado e me ajudou a beber um pouco de água, que ele trazia em uma garrafa de plástico.

- Quer me contar?
- Foi só um pesadelo. – ele se aproximou um pouco e encostou a mão em minha cabeça. Quando percebeu que eu não ia recuar, ele começou a mexer em meu cabelo com seus dedos – Com a minha mãe. – seu carinho fazia minhas palavras fluírem mais facilmente e sem medo – Quando ela morreu, o hospital... E minha irmã gritando... O cheiro, a sensação... Era tão real.
- Foi só um sonho ruim. Não é real, não mais.
- A dor... É real, não é sonho e... Não vai embora. Ela não vai embora. – eu solucei com força e me entreguei ao choro, procurando desesperadamente pelos braços dele – Eu fodi tudo. Com todos.

me abraçou com força e beijou minha cabeça repetidas vezes, tentando me acalmar. Ele ainda acariciava meus cabelos e conversava por sussurros entre os beijos.

- Ei, não chora. Eu sei que dói, eu também já perdi alguém. E eu sei que não posso comparar minha dor com sua, depois de tudo que você já passou. E eu não sei nem metade do que você passou, , mas eu sei que você nunca mais vai precisar passar por nada disso se depender de mim. Acabou, a dor acabou. Você pode deixar ela ir embora. Acabou.

Ele beijou minha bochecha e eu me virei para encarar seus olhos, tão intensos como no dia em que me encontrou. Hipnotizantes. As palavras dele ecoavam na minha cabeça e eu queria fazer elas soarem tão reais quanto pareciam ser. Queria acreditar e fazê-las reais. Eu não queria, nunca mais, voltar para as ruas, não queria usar heroína – por mais que meu corpo implorasse por isso -, não queria me prostituir e nem sofrer tanto. Eu queria uma vida tranquila, feliz e confortável. Com ele. Eu queria ele. Meus lábios formigavam e eu percebi que o que eu sentia era mais do que carinho ou gratidão. Pela primeira vez na minha vida, o toque de um homem não me causava repulsa. E eu queria beijá-lo, eu queria colar meus lábios nos dele e ver pela primeira vez qual era a sensação de beijar alguém por que eu queria e porque tinha sentimentos para com a pessoa. Ele seria meu primeiro beijo.
E então eu o beijei. Sem pensar mais vezes, colei meus lábios nos deles, assustando-o. Apesar de assustado, ele não se afastou. Deixou que eu o beijasse e me beijou de volta, sempre com todo aquele cuidado para não me afastar ou assustar. Como se eu fosse um gatinho assustado e pudesse correr dele a qualquer segundo.
Foi rápido, intenso e tão bom quanto eu sempre sonhei que poderia ser. Permaneci de olhos fechados quando nossos rostos se afastaram, mas pude sentir seus olhos me fitando. Quando abri os meus, ele me observou e encostou sua testa na minha, segurando meu rosto com uma das mãos e limpando uma das minhas lágrimas com seu polegar.

- Você acha que isso é certo? Sabe que essa não era minha intenção não é?
- Você é o primeiro cara que eu beijo assim. – respondi apenas.
- Obrigada por confiar em mim. Eu sei o quanto é difícil pra você. E eu quero ajudar. Eu quero que você fique bem e eu... Eu gosto de você. Só gosto de você. E de ficar perto de você. Gosto do seu sorriso, da sua voz. E eu juro, eu não te ajudei esperando nada disso, mas aconteceu e está acontecendo. Parece um imã que me puxa e continua me puxando pra você, desde o dia em que eu te vi naquela praça. E eu não quero que você fuja mais, não quero que tenha medo de mim. Quero que fique confortável perto de mim. Por favor, se eu fizer algo inapropriado, me diga. Eu só não sei como agir. - eu concordei silenciosamente – Eu nunca tive a intensão de gostar de você assim, mas toda vez que eu olho nos seus olhos, eu sinto algo que nunca senti antes. E eu não quero parar de sentir isso, . – sorri ao ouvir pela segunda vez meu apelido nos lábios dele – Mas eu não quero te assustar, não quero ir rápido demais, então só me avisa se eu fizer algo errado, tudo bem?
- Tudo bem.
- Posso te beijar?

Eu concordei e ele tocou seus lábios novamente nos meus, em fazendo sorrir em seus lábios.

- Obrigada. Obrigada. Você não está me assustando. Eu não quero ir embora. Eu gosto de você. Eu não sei como, mas eu gosto. E eu quero ficar aqui, com você, . Eu quero mesmo. Então não me deixa ir embora, por mais que eu grite, chore e surte. Eu sei que tenho mudanças bruscas de humor e que é difícil. E vai ser difícil, mas, por favor, não me deixa ir. Não deixa a dor ficar.

concordou e me beijou novamente. Nós dois não dissemos mais nada, apenas nos deitamos e pouco após, adormecemos. A mão dele estava em minha cintura e eu não tinha vontade de afastá-la dali.
Eu nunca havia gostado de alguém antes.
Pouco antes do sono, um sono sem sonhos ruins e calmo, me atingir, pude notar que a tremedeira, a dor e a queimação tinha ido embora. Foi a noite mais tranquila que tive em anos.

"A vida vem a nós saindo da escuridão e existem momentos em que você deve ir atrás dos medos e enfrentá-la. Uma vida pode surgir em você fora da escuridão, quem você irá escolher para encarar isso, poderia ser uma pessoa que você confia e o amor que eles têm por você ajudará a te guiar até a luz, ou então você se perderá nessa escuridão. Será que te darão escolhas nobres? Ou será que essa pessoa é alguém que está te testando, alguém novo? A vida exige que você saia para fora da escuridão, e quando sair, existe uma pessoa na sua vida com quem você pode contar. Alguém estará te observando quando você tropeçar e cair. E nesse momento, te dará força para encarar seus medos sozinho." One Tree Hill

VIII

Quando acordei pela manhã, ainda estava ao meu lado. Me levantei com cuidado para não acordá-lo e caminhei até a sala. Não sentia a tremedeira, mas sabia que era questão de tempo até ela mostrar-se novamente, assim como as vozes, a raiva e os impulsos nada amigáveis.
Sentei-me no sofá e lembrei da noite passada. Sorri e toquei meus lábios ao lembrar de todas as palavras e beijos trocados, suspirando de um jeito bom. Apesar daquele velho sentimento me dizendo que tudo isso era errado e que eu devia parar e ir embora antes de machucar mais pessoas como eu sempre fiz, eu não queria isso. Queria ser egoísta, queria ficar, queria estar com . Hoje, amanhã, depois... Quem sabe sempre? É, sempre seria muito bom. Melhor e muito mais do que eu merecia.
Olhei para frente e avistei a revista que estava folheando quando eu e Lori chegamos em casa no dia anterior. Ela estava aberta numa matéria pequena, intitulada “McFLY anuncia turnê sul-americana”. Li rapidamente e descobri tratar-se da banda de , muito mais famosa do que eu havia imaginado. América do sul? Turnê? “Banda de pop-rock mais aclamada do momento”? Soltei a revista, um pouco assustada, e tirei aquilo da cabeça antes que afetasse todas as minhas decisões.
Pouco depois, saiu pela porta e sorriu para mim. Eu sorri de volta, um pouco envergonhada e ele caminhou até mim, beijando meu rosto com cautela.

- Bom dia.
- Bom dia, .
- Você dormiu bem? Teve mais pesadelos?
- Não, sem pesadelos, eu dormi muito bem. E você?
- Também. Que tal tomarmos café, eim? Estou com uma fome danada.

Ele me puxou pela mão até a cozinha e então preparou ovos e torradas para nós dois. Belisquei o que dei conta e ele me ajudou com o resto.

- Hm, hey, nós temos um compromisso no final de semana.
- É o jantar que Lori me mencionou?
- É sim. Ela te explicou o que é?
- Na verdade, não.
- É o noivado dela. Da Lori. Ela e o , um dos caras da minha banda. Ela te falou da banda, né?
- Sim. Noivado? Uau. É por isso que ela demorou tanto a escolher o vestido.
- É. Isso. Você vai conhecer meus amigos, amigas, e tudo mais. Tudo bem pra você?
- Sim, claro. Quer dizer... Vai ser legal, tudo bem. Já tenho até um vestido e tudo mais.
- Ah, é? Aposto que deve ser lindo.
- É verdade. Lori disse que combina com meus olhos. – ri – Hm, , tem algo que queria te dizer.
- Pode falar. – ele disse com a boca cheia.
- É sobre ontem. , eu... Eu gostei do que aconteceu, você sabe. Quer dizer, fui eu que te beijei. Mas eu não sei com qual intensidade de acontecimentos e sentimentos eu consigo lidar. Eu não quero estragar as coisas, com você e com a sua vida.
- Não se preocupa com isso, tá? – ele colocou sua mão em cima da minha, acariciando ela levemente e me mostrando um sorriso – Eu sei disso tudo. Vai ficar tudo bem. No seu ritmo.

Eu sorri de volta e voltamos a tomar nosso café em meio a conversas bobas. Eu gostaria muito que ele tivesse beijado meus lábios naquela manhã, porém ele se manteve numa distância que eu admito ter achado confortável e ideal. Eu precisava me acostumar com aquele contato aos poucos, apesar de sempre ansiar por mais e mais. Era sempre assim quando estava por perto, parecia nunca ser suficiente.
Pouco depois, ele teve que ir para a gravadora e me deixou sozinha em casa. Sentada em meu novo quarto, podia ver a rua pela janela e o desejo de sair e procurar um pouco de alívio. Minha perna tremia, solitária, enquanto eu tentava resistir a esses impulsos. Eu não queria escapulir e me drogar todas as vezes que fosse trabalhar. Se eu realmente fosse ficar aqui, se eu realmente fosse ficar com ele, eu teria que fazer isso direito. Ficar limpa e ser boa. Por ele, por Lori, por Jess... Pela minha mãe. Por todos que me amam ou amaram um dia, que me ajudaram e incentivaram.
Minha mente vagava até e em toda a saudade que eu sentia dela. Como queria reencontrá-la e ajuda-la assim como ela me ajudou. Abraçá-la mais uma vez e poder dizer a ela que ficaria tudo bem. Minha irmã, minha amada irmã, que deu tudo por mim e agora estava tão longe e perdida. Provavelmente ainda com Jason, em todo aquele mundo de autodestruição e dor. Mundo esse da qual estava tentando me tirar. Esse era o principal motivo pela qual eu sabia que devia ficar forte: Por Jess, por todas as oportunidades que não tivemos e por tudo que ela abriu mão por mim em todos aqueles anos sofridos.
Era difícil ocupar minha mente, e foi naquela tarde que eu descobri algo que não lembrava mais fazer parte de mim: O amor pela arte. Com algumas folhas de papel e alguns lápis, pude fazer alguns rabiscos e constatar que eu ainda sabia desenhar. O primeiro que fiz foi , de uma forma como eu jamais a esqueceria: Sentada na beira da cama contando suas poucas notas escondidas. Dias após dia, ela fazia isso para me ajudar a fugir daquele lugar. Também havia um da minha mãe, com as poucas lembranças que eu tinha dela, a maioria por fotos.
Aquilo ocupou uma parte considerável do meu dia e quando percebi, já estava na porta. Ele sorria muito e trazia uma caixa estranha numa mão e várias sacolas na outra, me deixando extremamente curiosa.

- Eu trouxe uma surpresa! – ele disse animado, vindo em minha direção – Consegue adivinhar o que é? – ele disse me mostrando a caixa com cuidado e sentando-se ao meu lado.
- Hm, não. O que é? – tentei olhar, curiosa.
- Sem espiar! Vai, tenta.
- Posso ter uma dica ou algo assim? – assim que eu o disse, pude ouvir um miado baixo vindo de dentro da caixa e olhei assustada para ele – É UM GATO? TEM UM GATO AÍ DENTRO?
- Sim! – ele disse animado, abrindo a caixa e revelando um pequeno filhote branco, peludo e com lindos olhos claros – Ela não é a coisa mais fofa que você já viu? Estava numa vitrine de um petshop aqui perto e quando eu a vi só consegui pensar “ei, acho que a amaria um filhotinho para fazer companhia enquanto eu trabalho!”. E aí, o que achou?
- Ela é tão linda! Meu deus, eu quero segurá-la. – eu disse tirando ela com cuidado da caixa e colocando em meu colo – Ai, meu deus... Obrigada , ela é tão fofa! Eu nunca tive um bichinho de estimação antes!
- Então, como vamos chama-la?
- Não sou muito boa com nomes. Você tem alguma sugestão? – eu ri, acariciando os pelos de minha mais nova companheira.
- Hm, que tal Snow? Ela é branca. E fofa. Parece neve.
- Gostei. Você gostou do seu nome, Snow? – perguntei segurando ela na minha frente e ela miou – É, acho que você gostou sim.
- Você gostou mesmo, né? Você está reluzente. – riu.
- Sim, eu amei , obrigada, obrigada! – beijei rapidamente o rosto dele e então voltei minha atenção novamente para Snow.
- Eu comprei todas as coisas que a moça da loja disse que ela precisaria, tá tudo aqui, só precisamos descobrir como funciona. Ela vai dormir no seu quarto? - Claro. – eu sorri – Vamos arrumar as coisas dela! – disse animada, pegando a sacola como uma criança animada com seus presentes de natal.

...


Os dias passaram rápido, principalmente agora que eu tinha Snow e meus desenhos como companhia quando saía. Vi Lori apenas uma vez, quando ela passou para visitar nossa nova pequena mascote e trazer um pequeno presente para ela. Snow era a coisinha mais mimada e fofa desse mundo.
Quando percebi, já era o dia do tão dito jantar. Não dava para negar o quanto eu estava ansiosa, afinal, eu iria conhecer os amigos e companheiros de banda de . Além disso, eu tinha medo de a qualquer momento uma crise de abstinência me tomar e eu perder o controle.
Eu estava limpa há três semanas. Sem saídas furtivas enquanto ele estava fora, sem surtos desesperados. Mas, sim, alguns dias eram bem mais difíceis que outros e algumas noites pareciam longas demais para que eu as suportasse. Nessas noites, a única coisa que me fazia continuar em mim era e todo o seu amor. Ou o que eu julgava ser amor, pois não via outro tipo de explicação para tudo que ele estava fazendo por mim.
Nossa relação – se eu podia chamar assim – era uma mista confusão. nunca sabia qual era a hora certa de se aproximar ou sequer de conversar. E eu entendia isso e gostava ainda mais dele por esses receios. Nós havíamos nos beijado algumas poucas vezes mais, mas nada mais que isso. Acho que ele entendia os meus receios quanto a relações físicas e respeitava isso, por isso mantinha uma distância confortável. Mas em todas as noites que acordei chorando, ele corria o mais rápido possível para o meu quarto e me acalmava com seu carinho e atenção, me fazendo dormir novamente em seus braços.
A cada dia que se passava eu me sentia mais apaixonada por ele.
No dia do jantar, chegou cedo para se arrumar e disse que sairíamos de casa as seis da tarde. Munida do vestido comprado por Lori e todos os acessórios e maquilhagens que ela havia também comprado, lancei para mim mesma o desafio de ficar maravilhosa. Eu não me sentia bonito há anos. Eu me sentia perdida olhando para todas aquelas coisas que eu não sabia usar e que me lembrava demais da época em que cores baratas enfeitavam meu rosto para atrair a freguesia. E eu me lembrava, também, do quanto odiava ter que me pintar daquele jeito nojento.
Quando entrei no banheiro, rumei para o chuveiro e tomei um banho rápido. Quando saí, parei em frente ao espelho e suspirei, encarando minha imagem. Eu não podia negar que estava bem melhor do que havia chegado ali: Minhas bochechas tinham muito mais cor e eu podia notar uma quantidade maior de carne presa aos meus ossos. Mas ainda sim, a tristeza e o vício não haviam retirado suas marcas de mim. As cicatrizes, internas e externas, eram evidentes em meus olhos, meu rosto e todo meu corpo, desde as cicatrizes grossas no pulso até os pequenos e crônicos hematomas nas pernas. Tive vergonha de mim, do meu corpo e de tudo que eu era. Ou de tudo que um dia eu fui. Senti algumas lágrimas molharam meu rosto e logo as sequei, pegando uma toalha e me enxugando por completo também.
Peguei os pinceis, as sombras e todas as outras coisas e comecei a tentar fazer algo belo em mim. A dificuldade era imensa, não só pela falta de conhecimento naquela prática, mas também pela tremedeira que jamais me abandonava e dificultava tarefas mais minimalistas. Quando terminei e julguei que estava razoável, guardei tudo e coloquei meu vestido, escolhido especialmente com mangas compridas para que não vissem minhas cicatrizes. Como meu cabelo era muito quebrado e feio naquela época, amarrei ele em um coque e suspirei, observando o resultado. Eu estava muito bonita e aquilo era inegável.
Me sentia uma princesa com aquele vestido. Em toda a minha vida, eu jamais havia usado algo tão bonito ou havia me sentindo tão bonita e tão normal. Finalmente eu era uma garota normal, indo a um jantar e vestindo uma roupa bela. Ao menos naquele dia, era o que eu era. E nada nesse mundo podia ter me feito tão feliz naquele momento.

- Ei, você já está pronta? – ouvi bater na porta e dizer.
- Sim, eu estou, só um segundo.

Guardei o que restava das coisas e me olhei mais uma vez no espelho antes de sair, colocando uma pequena mexa do cabelo que havia se soltado atrás da orelha. Quando eu abri a porta, abriu um grande sorriso. Eu sorri também, sem graça, e encolhi as mãos atrás das costas.

- Você está maravilhosa.
- Você está exagerando.
- Juro que não estou exagerando nem um pouco. – ele segurou minha mão e a beijou, delicadamente – Eu poderia jurar, hoje, que você é a mulher mais linda que eu já vi.

Eu corei instantaneamente com suas palavras e nós ficamos em silêncio por alguns segundos, apenas olhando um para o outro. não soltou minha mão. Nós seguimos até a sala, onde eu chequei se havia comida e água para Snow e se tudo estava em ordem. Depois, nós deixamos o apartamento e seguimos para a garagem, entrando no carro de .

- Então, preparada?
- Não. – eu ri – Mas vamos lá. Essa vai ser uma aventura da qual sei que não irei me arrepender.

Nós seguimos entre risadas até nosso destino. Vez ou outra, tirava a mão do volante e a colocava na minha, acariciando levemente meus dedos e me fazendo sorrir de orelha a orelha. Quando chegamos, pude ver que era um restaurante muito caro. saiu do carro primeiro e abriu a porta para mim, me ajudando a descer e sorrindo.
Antes de entrarmos no lugar, ele me segurou pela cintura e colou os lábios nos meus rapidamente, me fazendo ficar desnorteada por alguns segundos e segurar nele com a mesma força.

- Desculpa. Não podia entrar antes de fazer isso.

Eu apenas sorri de volta, envergonhada, e ele me beijou uma última vez antes de me puxar para dentro do restaurante. Ele deu nossos nomes e logo fomos conduzidos a uma sala restrita para eventos. Assim que entramos, percebi que provavelmente éramos os últimos a chegar, apesar da sala não estar muito cheia. havia me dito que o jantar era apenas para os amigos íntimos de Lori e e eles fariam outro jantar apenas para suas famílias.

- Então, pessoal, essa é a . E ... Bom, você já conhece a Lori e a Joana. – meus olhos percorreram seus rostos e ambas sorriram para mim. Elas estavam deslumbrantes - Esses são , o noivo da Lori e , o namorado da Joana. E esse aqui é o...
- ? – sussurrei, chocada quando meus olhos pararam nos dele.

não havia mudado praticamente nada desde nosso último encontro. Seus olhos escuros fitavam os meus com surpresa e ele não disse nada enquanto nos encarávamos. Na verdade, ninguém disse nada, a sala se calou repentinamente. Ambos não conseguíamos esboçar qualquer reação um para o outro e desconfiei então de que ele não estava me reconhecendo.

- . – dei um sorriso torto.
- Espera, vocês se conhecem? – Lori perguntou, sorrindo curiosa enquanto passava o braço pelos seus ombros.
- É, nós nos conhecemos?
- Sim. Ao menos, nós costumavamos nos conhecer. – respirei fundo – Você costumava namorar a minha irmã há alguns anos. Muito anos. . Jess. Você não se lembra?
- Espera... ? É realmente você?
- Em carne e osso. – sorri novamente – Que coincidência, não?
- Sim. Coincidência. – ele murmurou, apenas.
O clima estranho permaneceu apenas por mais alguns minutos e, graças a deus, todos resolveram ignorar o que havia ocorrido e continuar com as apresentações e risadas. E eu ainda estava paralisada por dentro. Na minha mente, flashs e lembranças do nosso passado, meu e de , não paravam de passar e me inundar. Suas risadas, seu amor, sua presença e proteção. Tudo que ele havia significado para mim e , tudo refletido no pequeno murmurio que ele deu ao me reconhecer. Indiferença.
Era uma grande sorte eu já estar acostumada com ela.
Sua presença fazia meu estômago se revirar e meu corpo se aquietar. Ansiedade, medo e tantos outros sentimentos estavam à flor da minha pele. E ele não parava de me encarar com seus olhos inexpressivos nem por um segundo.
O jantar ocorreu bem e levemente. Recebi alguns elogios pela minha aparência, aos quais eu respondi com alegria. Quando a comida foi servida, tive grande dificuldade em comer e disfarçar a tremedeira em minhas mãos. Eu, honestamente, não sabia se era pelo nervosismo em que a situação (tanto o jantar em si como a presença de ) estavam me causando ou pela abstinência. Acho que era uma grande mistura de tudo isso. me encarou durante todo o tempo, mas eu não conseguia ler a expressão em seu rosto. Estava vazia, tanto quanto a minha. Já , sorria o tempo todo e sua felicidade era explícita. Todos os seus amigos pareciam me aprovar, ao menos pareciam, e acho que isso o deixava feliz. E, é claro, me deixava mais que feliz. Não que eu precisasse de aprovação, mas era bom se sentir acolhida. Aceitação era algo que eu não tinha, nem de mim mesma, haviam muitos anos. Todos estava rindo e e Lori estavam radiantes. Ver o amor assim, de tão perto, me deixava com vontade de prova-lo e de ter um dia o que eles tinham. Eu nunca cogitei que o destino guardava algo assim para mim, mas, nas últimas semanas, muitas coisas se provaram contrárias e acho que eu devia a mim mesma um pouco de direito em acreditar e sonhar de novo. A sobremesa estava sendo servida quando pigarreou e anunciou que iria sair para fumar. Ele me olhou profundamente antes de deixar a sala, fazendo um leve movimento discretamente com a cabeça para que eu fosse junto. Protelei por alguns minutos e então tomei coragem para me levantar e segui-lo.

- Acho que vou roubar um cigarro do . – eu sussurrei para – Eu te conto depois. – ele concordou.

Reuni toda a coragem que havia dentro de mim e após oscilar por alguns segundos, depositei um beijo suave na bochecha de , lutando contra a vergonha, e me levantei, rumando até a porta. Não olhei para trás para ver sua reação, estava envergonhada demais para isso.
Segui até os fundos do restaurante, onde encontrei sentada num banco com um cigarro na mão. A outra mão apoiava sua cabeça e seus olhos estavam fechados, sua feição era dura.
Me sentei ao seu lado e fiquei alguns minutos em silêncio, sabendo que ele estava ciente de minha presença.

- Posso pegar um?
- Você não deveria fumar.
- Eu não deveria fazer a maior parte das coisas que faço, . E nem por isso não as faço. – ele deu um meio riso e me passou um cigarro e seu isqueiro.

Acendi e traguei fundo, soltando a fumaça lentamente enquanto observava o céu sem estrelas daquela noite. Encostei minha cabeça na parede atrás de nós enquanto tragava novamente e esperava que ele quebrasse o silêncio desconfortável entre nós.

- Não consigo acreditar que é você. Você é a do . A garota que ele tirou da rua e que todos nós achamos loucura. É você. – ele disse, mais para si mesmo do que para mim – Você era quase minha irmã. E agora você...
- E agora estou fodida.
- Só não parece você. Não a você que eu conhecia.
- Aquela garota se foi, . Para sempre.
- Você está tão magra, seu cabelo está tão... Você parece outra pessoa. Seus olhos... – ele suspirou – O que fizeram com você, ?
- A vida não foi gentil comigo. – eu ri, sarcástica – Não como para você. Você é famoso agora. Jess teria ficado muito orgulhosa se pudesse te ver agora.
- Ela está...? – ele olhou para mim de repente, assustado.
- Eu não sei.

Nós dois ficamos em silêncio por mais alguns minutos. Eu encarava o céu, mas sentia os olhos de sobre mim. Sabia que ele estava vendo minhas mãos tremerem enquanto meu pulmão se enchia com aquela fumaça tóxica. Mais uma parte de mim que eu destruía aos poucos.

- Vocês sumiram. Eu acordei e vocês haviam ido embora. Tudo o que tive foi uma porta na minha cara. Vocês não disseram adeus e eu nunca soube. Inferno, eu estive louco por tanto tempo atrás de vocês e agora... Depois de tantos anos você aparece sem explicações, do nada.
- Eu sinto muito, . – sussurrei – Eu sinto muito.

Me entreguei a todos os sentimentos ruins e deixei que eles saíssem de mim. Abaixei minhas barreiras, ele não as merecia, não ele, não meu irmão. Joguei o que restava do cigarro no chão e coloquei minha cabeça entre as mãos, me encolhendo. As lágrimas coçavam meus olhos enquanto eu imaginava na porta da minha antiga casa e meu pai a batendo em sua cara.

- Nós não vimos isso chegando, não sabíamos de nada. Eu juro. Eles simplesmente a levaram e então a mim e eu... Eu sinto tanto, eu deveria ter feito algo, mas que porra eu poderia ter feito? Eu só tinha treze anos, , apenas treze anos. Quando eles a levaram, ela disse “diga ao que eu o amo”... E repetiu a mesma coisa na última vez em que a vi, anos depois. E , me perdoa por não ter te dado esses recados. Eu poderia inventar um milhão de desculpas, mas a pura verdade era que eu estava ocupada demais me drogando para ir te procurar.
- Quando eles a levaram?
- Você, sabe, meu pai tinha todas aquelas dívidas com jogos e drogas e tantas outras coisas. Ele estava devendo para um cara perigoso daquela vez, ele estava muito ferrado. Então ele fez a única coisa óbvia para ele. Ele fez a troca.
- Você não quer dizer...
- Ele nos vendeu. Primeiro a Jess, depois a mim. Uns caras vieram e nos levaram para um lugar da qual sempre soubemos que não conseguiríamos sair. Nós não tínhamos escolha. Nós passamos por todo tipo de merda. Eu fui drogada. Eu só tinha treze anos. E tive que aguentar tantos caras nojentos em cima de mim, me dando dinheiro que eu sequer iria ficar com. Meu corpo não valia aquelas notas. Minha alma também não. Mas que escolhas nós tínhamos? Não tínhamos para onde ou como fugir, não tínhamos nada. Alguns anos depois, Jess me ajudou a escapar e nós juntamos algum dinheiro escondidas. Ela pediu que eu te procurasse e pedisse ajuda. E eu não o fiz. Eu já estava viciada naquele ponto, doses de heroína eram meu castigo por me comportar mal ou até mesmo bem, eram a forma de me prender lá. Eu fiquei nas ruas. Eu aprendi que a única forma de conseguir dinheiro fácil era continuar a ficar em baixo daqueles caras tão nojentos. Eu gastei todo o dinheiro da Jess de forma desprezível. E nunca voltei para procura-la. Eu sei o quanto sou nojenta, desprezível e ingrata. Sei que não mereço o seu perdão, o dela ou de ninguém. Mas a única coisa que posso te pedir é que, por favor, não conte nada ao . Ele é tudo que eu tenho agora. A única razão pela qual eu consigo ficar de pé sem me drogar. Ele está me salvando e eu realmente quero ser salva dessa vez, então, por favor...

Antes que eu pudesse completar a frase, me abraçou. Ele me envolveu com força enquanto eu engolia minhas lágrimas e não me soltou.

- Você não tem que pedir perdão a mim, . Você não é nada disso. Você é uma guerreira. Nada disso é culpa sua. Você vai ficar bem. Você tem a mim agora também. Você é minha irmã e eu nunca te deixaria assim. Você vai conseguir sair disso tudo, nós vamos encontrar a e vai ficar tudo bem. Você confia em mim?
- Sim, eu confio. – eu o abracei de volta – Eu te amo, . Muito. Senti sua falta.
- Eu também, . Muito. Se eu pudesse, mataria cada um dos caras que fizeram você passar por tudo isso. Não dá pra descrever o nojo que estou sentindo por eles terem feito tudo isso com vocês. Vocês são minha família, sempre serão.
- Nós temos que acha-la. Eu não sei onde ela está... – disse meio desesperada.
- Você tem que ficar bem. Então, nós vamos acha-la. Eu prometo.

Nós ficamos ali por mais alguns minutos, abraçados olhando o céu. E tudo me pareceu mais leve, tão leve que eu poderia estar flutuando. Eu estava sentindo tantas coisas naquele momento, mas acho que a principal era alívio. Finalmente eu havia posto tudo para fora, finalmente havia reencontrado e as coisas pareciam fluir. O destino estava me ajudando e sorrindo para mim, finalmente. Naquela noite eu pude sentir a verdadeira esperança nascer em mim. Ali, dentro do abraço aconchegante do meu irmão, ou com os lábios de nos meus, com Lori e seus amigos sorrindo para mim, em todos aqueles momentos eu pude sentir que a vida guardava muito mais para mim e que eu seria feliz. Talvez não no dia seguinte, ou na semana seguinte, mas eu seria. Caberia a mim a paciência e força para saber esperar e suportar tudo.

“Eu beijei as cicatrizes em sua pele, eu ainda te acho linda e eu jamais quero perder minha melhor amiga. Como isso parece? Bom, eu me sinto em chamas. Me faça uma promessa essa noite: Ame como um maremoto. Sem sonhos em sepulturas precoces, eu nunca quis que as coisas acabassem assim. As químicas vão te trazer para casa de novo. E é isso, quando acaba nós podemos dizer que quando a morte é súbita nós lutamos contra ela.” A Match Into The Water – Pierce The Veil

IX

Eu tive muitos dias bons até acordar para o que eu chamo de meu primeiro dia realmente ruim. Aquele dia foi o gatilho para todas as merdas que se seguiram naquele período da minha vida. Ao me levantar, a tremedeira era muito maior do que o normal e eu podia sentir meu corpo quente. Além disso, eu estava nauseada e com muita dor pelo meu corpo inteiro. percebeu assim que me viu que eu não estava bem, daquela vez não era possível disfarçar.

- Bom dia, . – ele sorriu – Café?
- Não, obrigada. – sentei-me a sua frente na mesa.
- Dia difícil?
- E está só começando. - nós ficamos em silêncio enquanto ele comia e eu observava.
- O que acha de ir ao estúdio comigo hoje? Depois vamos comer uma pizza ou algo assim.
- Está tudo bem, vou ficar bem aqui.
- Não vou deixar você aqui sozinha.
- Eu não vou fugir e nem me drogar. – encarou o rapaz, séria - E eu tenho a Snow. – completou.
- Por favor, venha. Vai ser bom.

Suspirei e me rendi, indo ao meu quarto vestir uma roupa melhor. Sempre que vestia algo e lembrava que era meu, o sentimento de gratidão para com me tomava. Nunca poderia agradecer o suficiente pelo que ele estava fazendo por mim.
Nós deixamos o apartamento pouco depois e logo estávamos no estúdio. Era um lugarzinho aconchegante e divertido, eu devo admitir. Lori estava lá e me recebeu com um grande abraço, me fazendo sentar ao lado dela enquanto ia trabalhar. Eles estavam compondo uma nova canção e estavam muito focados nisso, pelo que ela me contou.

- Tell me, are you feeling strong? Strong enough to love someone? And make it through the hardest storm... cantarolou, dedilhando o violão. A voz dele era linda.
- And bad weather. completou, sorrindo.
- Cara, você é um gênio. A porra de um gênio. – deu um highfive no amigo e logo anotou algo em um caderno.

- está muito empenhado nessa.
- Dá pra ver. – eu sorri.
- Você sabe porque, né?
- Na verdade, não sei.
- É a sua música. É óbvio. – uma voz desconhecida disse e fez com que nós duas olhássemos para trás e déssemos de cara com – Oi, meninas.
- Oi, . – Lori disse com um sorriso tímido. Eu permaneci em silêncio.
- Oi, . – ela se sentou ao meu lado – Eu te devo um pedido de desculpas. - Não se preocupe com isso.
- Eu me preocupo com isso. Fui idiota e tive atitudes imperdoáveis para com você. O meu irmão se importa muito com você e se ele acredita em você, não sou eu que devo ir contra isso. Ele gosta de você e eu estou disposta a aprender a gostar também. Eu sinto muito por tudo, podemos começar de novo? – ela disse estendendo a mão para mim e dando um sorriso um pouco forçado.
- Está tudo bem. – eu apertei sua mão – Vamos começar do início.

deu outro sorriso meio forçado e então nós voltamos nossa atenção para o ensaio dos garotos, dentro da parte de gravação do estúdio. Nós podíamos ouvi-los, mas eles não podiam nos ouvir.
Eu não sabia se de fato acreditava no pedido de desculpas de . Ela provavelmente só queria agradar o irmão, mas fiquei feliz de qualquer forma pela trégua. Se eu iria continuar a ter qualquer coisa com , ter uma relação com ela fazia parte do pacote e eu queria fazer tudo certo dali em diante.
Eu ainda não me sentia bem, mas senti que a temperatura do meu corpo diminuiu com o passar do dia. Nós pedimos comida chinesa – da qual eu praticamente não comi nada – e eu passei grande parte do dia conversando com Lori e , que aos poucos abaixava a guarda perto de mim. também, aos poucos, começava a se soltar mais comigo na frente das outras pessoas. Ele segurava minha mão sempre e algumas vezes beijou meu rosto, sendo que antes ele não demonstrava muito qualquer coisa afetiva em frente sequer de Lori. O melhor de tudo, para mim, era me sentir confortável e não me importar com aquilo. Eu me sentia, na verdade, muito bem e feliz.
Quando os garotos finalizaram tudo que tinham para fazer, rumamos para uma pizzaria no final da rua. Sentei-me entre e , que pareciam disputar discretamente minha atenção. Ambos protetores e carinhosos, sempre tentando me ajudar e alegrar. Pedimos nossas pizzas e mais uma vez eu praticamente só fingi que comi. Pouco depois, minhas dores de cabeça estavam se tornando quase insuportáveis e eu cutuquei .

- Hey, podemos ir para casa? Minha cabeça está me matando.
- Claro, vamos. – ele sorriu – Está tudo bem?
- Sim, é realmente só a minha cabeça. Vou lá fora tomar um ar e te encontro no estacionamento.

Eu me despedi rapidamente de todo mundo e rumei para a porta da pizzaria, me escorando no muro e respirando fundo enquanto a brisa do início da noite batia no meu rosto. Respirei fundo mais algumas vezes e desejei desesperadamente ter um cigarro. Ou um pouco de heroína. É, um pouco de heroína seria perfeito e faria tudo aquilo passar. No entanto, eu não podia. Eu era mais forte que aquilo.

- ? ? – ouvi algum chamar e me virei assustada – Meu deus, há quanto tempo! Não acredito que é realmente você! – uma mulher com um cabelo ruivo mal tingido me encarava, sorrindo com seus dentes amarelos e estragados. Metanfetamina. – Você parece tão diferente, o que aconteceu? Está bonita, meu deus, você parece até alguém de verdade.
- Quem diabos é você? – respondi, me afastando.
- Sou eu, cara, a Melissa! A Mel, lembra? A gente dividiu o quarto por uns tempos. Caraca, eles não vão acreditar quando eu disser que te vi por aqui! Se você soubesse como o Jason surtou quando você sumiu, garota!
- Saia de perto de mim. Você não pode contar isso a ninguém, ouviu? Não pode, se não...
- Se não...? Fala sério, garota. Você precisa voltar. Estão todos loucos atrás de você, inclusive sua irmã.
- Você está mentindo, está mentindo! – repeti, ainda me afastando – Não chegue mais perto de mim!
- Eu posso te levar até lá, não é longe, vamos!
- SAIA! ME DEIXE EM PAZ!

Eu gritei e saí correndo dali, indo em direção ao estacionamento. Meu coração batia num ritmo que eu sabia que não era normal, minhas veias pareciam saltar para fora do meu corpo. Quando parei em frente ao carro de , pude perceber o quanto eu estava suando e o quanto meu corpo estava quente, novamente. Sentei-me no chão enquanto ouvia os demônios cantando em meus ouvidos após tanto tempo calados. A minha volta, tudo eram vultos e pude ouvir a voz de . Sabia que ele estava ao meu lado, mas parecia distante. Ele me levantoue segurou meu rosto apático entre as mãos, dizendo coisas que eu não conseguia distinguir. Suas palavras eram apenas ruídos em minha mente despedaçada.

- ? O que aconteceu? – ouvi uma voz feminina ao longe.
- Sai de perto de mim! Você não vai me levar embora, não vai... NÃO VAI! – eu gritei e apertei com força as mãos entre minha cabeça, encolhendo meu corpo.
- Sou eu, , o que foi?
- ELA QUER ME LEVAR EMBORA, ELA VAI ME TIRAR DAQUI, POR FAVOR, TIRA ELA DAQUI! – apontei para a silhueta feminina ao lado de .
- É só a , , o que está acontecendo? Fica calma, por favor, ninguém vai te levar a lugar algum!
- Ela vai me levar embora ela vai me levar embora ela vai me levar embora...

Comecei a chorar com toda a força que tinha enquanto sentia a mistura de lágrimas e suor encharcarem meu rosto. Tudo ficou escuro e por um momento eu pensei que tudo estava perdido.

Eu precisava de heroína.

”Estou esperando por você.”

...


As minhas memórias dos próximos dois dias após aquele episódio são turvas. Quando eu acordei já era manhã do dia seguinte, e estavam de olho em mim enquanto debatiam sobre me levar ou não para o hospital. Minha febre beirava os limites da permanência em casa, mas eu sabia que não estava doente. Não do jeito que eles pensavam.
Quando eles me explicaram sobre o episódio da pizzaria, compreendi que não existia nenhuma Melissa. Não naquele momento: Melissa havia sido morta anos antes, quando ainda dividíamos um quarto. Overdose de metanfetamina. As alucinações apenas provavam que a abstinência não era mais algo ignorável e que dali para frente eu não poderia contar com a sorte ou fingir que as coisas estavam simplesmente bem. Ou que os demônios se calariam.
As tremedeiras eram intensas e mal posso descrever a dor. Ela estava por toda parte, em cada um de meus membros e correndo pelas minhas veias. Era como se sem doce, meu sangue doesse para circular. Eu não conseguia pensar muito naqueles momentos, mas lembro-me de que o medo era uma das únicas coisas que me vinha à mente. Eu tinha medo de machucar alguém enquanto estava fora de mim, medo de perder a única ajuda que eu poderia ter.
, por incrível que pareça, foi uma das pessoas que mais me ajudou naqueles dois dias. Ela mantinha uma toalha úmida em minha testa e a trocava sempre que ficava quente demais, além de me ajudar a tomar banho e coisas do gênero. Eu não conseguia ficar muito tempo em pé, então essa ajuda era muito importante. estava mais distante, acho que ele estava assustado e eu não o culpava. Ele tinha que trabalhar, então não estava o tempo todo em casa, não como . Mas ainda sim, quando estava, ele ficava ao meu lado, segurava minha mão e me falava um pouco sobre seu dia. Não que eu me lembre das coisas que ele havia me dito, mas eu sabia que ele havia dito. Me lembrava da voz dele lá.
Apesar de que, hoje, tudo parece ter sido uma grande alucinação.
Ainda parece ser uma.
Depois desses dois terríveis dias, as coisas estavam mais claras para mim, principalmente a minha necessidade por um pouco de heroína, apenas um pouco para aquietar meus demônios.
Quando acordei no terceiro dia, eu já sabia que algo horrível iria acontecer.

- Bom dia, . – sorriu para mim, me entregando uma caneca com chocolate quente – Fiz para você, já que parece estar bem melhor hoje.
- Obrigada. – ela sorriu e eu forcei um gole para dentro. Não era daquilo que eu precisava – E obrigada por tudo. Você não precisava estar fazendo tudo isso pra mim.
- Eu te devia isso. Te julguei mal e fui uma pessoa ruim com você. Você merecia saber que sou mais que aquilo. Também quero ajudar. – ela deu um meio sorriso.

Ela saiu do quarto e pouco após eu me levantei, largando a caneca no chão e seguindo pelo mesmo caminho que ela. Ela parecia ter rumado para o quarto do irmão, então me esgueirei até a porta da sala, na esperança de dar uma pequena escapulida.
Estava trancada.

“Ainda existem janelas, você sabe.”

Aquilo era ridículo, estávamos num andar muito alto, eu não poderia pular pela janela. Eles sabiam, mas apenas riram de mim enquanto eu procurava a chave freneticamente pelas bancadas da copa e da cozinha.

“Droga, droga, droga. Quanta droga você consegue por pra dentro?”

Parei por um segundo e pensei no que poderia usar para abrir o trinco da porta. Eu não tinha grampos de cabelo e um dente de um garfo não era longo o suficiente para a tarefa, conclui enquanto encarava a gaveta aberta de talhares.

“Tic-tac, tic-tac. E então, , quanto tempo você consegue ficar sem sua querida heroína?”

- PAREM! – eu gritei com toda a força que meus pulmões tinham e sem querer impulsionei meu braço para trás, derrubando a gaveta de talheres e sentindo uma das facas arranhar minha perna.

veio correndo com o barulho do meu grito e da gaveta, olhando assustada para a cena que se desenrolava.

- ? O que diabos está acontecendo? Você está bem?
- Fique longe de mim, ok? Fique longe de mim... – sussurrei chorando e me abraçando, encolhida.
- O que foi?
- Eu preciso ir, você precisa destrancar a porta você precisa destrancar a porra da porta da porta... Por favor.
- Eu não posso deixar você sair. Você sabe disso, sabe o que vai fazer.
- Por favor, é só dessa vez... Só dessa vez. Eu preciso, a dor precisa parar eles precisam se calar eu preciso... Você não entende não entende não entende... Você precisa me deixar ir...
- Você precisa se acalmar, ok? Se acalme e nós vamos resolver isso.
- Se você não abrir a PORRA DA PORTA EU JURO QUE VOU PELA JANELA! – gritei com raiva – AGORA!

Ela não sabia o que fazer. Ela olhava repetidas vezes para mim, para a porta e para a janela. Meu corpo inteiro tremia e eu não estava no controle naquele momento.

“Voe, passarinho, vá atrás do seu triste destino. Você já sabe qual é ele, não é mesmo?”

Aproveitando a confusão dela, corri em direção à janela e senti-a me agarrando por trás, seus braços muito mais fortes que os meus me prendendo em um abraço esmagador. Relutante, eu tentava me soltar e gritava com ela, que continuava não cedendo. Mas eu podia jurar que estava sentindo o cheiro de seu medo naquele instante. Ela sabia que não era mais eu ali.

- Pare com isso, por favor. Se acalme. – ela dizia, desesperada e com a voz trêmula. Com medo.

Com medo de mim.

- ME SOLTA SUA VADIA!

A forcei para trás algumas vezes até conseguir me livrar dela. Seu corpo caiu com força para trás e sua cabeça bateu com força numa das mesas da sala, fazendo-a perder a consciência imediatamente. Pude ver um filete de sangue escorrer pelo chão, manchando o carpete.

- Merda... – sussurrei para mim mesma, assustada.

Eu havia a machucado.
Eu era uma drogada de merda e não merecia nada daquilo, nada daquele amor e daquele apoio. Comecei a chorar mais ainda e senti minhas pernas cedendo e parte da minha consciência voltando. Joguei meus braços ao redor de e a abracei, sentindo que ela ainda respirava.

- , acorda, eu sinto muito, por favor, eu não queria te machucar, eu juro que não. Eu só queria um pouco de doce...

“Não minta, você queria a vadia morta.”

- CALEM-SE! VOCÊS NÃO SABEM DE NADA, NÃO MANDAM EM MIM, PAREM DE TENTAR ME CONTROLAR! SAIAM!

“Nós somos vocês, . Cada medo, cada desejo, cada parte de seu passado e presente. Não pode nos expulsar fácil assim.”

Eu bati na minha cabeça com força enquanto gritava alto e olhava ao meu redor rapida e completamente desesperada. Meus olhos se fixaram na gaveta caída na cozinha e no reflexo brilhante dos talheres que antes estavam dentro dela. E foi então que tomei a decisão mais estúpida da minha vida. Ou uma das.

- Se o preço para vocês saírem é que eu saia também, então certo. É o que vou fazer. Vocês não vão me dominar. Não mais.

“Finalmente você entendeu.”

“Inexpressivo, ele fica lá sentado com olhar vazio para o nada. Nenhum sinal de vida reluziu em seu rosto, até que um dia ele sorriu e parecia que com orgulho o vento o beijou. Adeus. E então ele morreu.”
Beyond The Realms Of Death, Judas Priest.





Continua...



Nota da autora: Querem falar comigo? Algum erro, comentário, elogio ou crítica? Podem me encontrar no meu Facebook e no meu email. xx





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