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Última atualização: 10/11/2020

1. Arar

Aos 13


Fechou seu livro depois de exatos dois minutos tentando sem sucesso ler um capítulo. A culpa não era da autora, ela adorava suas histórias; sua própria mente era o que a impedia de ler, ansiosa por alguma interação. Pela primeira vez, ela era a garota nova da escola. E estava morrendo de medo daquilo.
Não havia história trágica em sua família, havia trocado de escola simplesmente porque seus pais decidiram mudar de cidade. Viviam em Campos, mais ao norte do estado, em uma casa digna de filme da sessão da tarde – grande, espaçosa, com um quintal enorme e em tons pastéis. No entanto, foi decidido que ficar mais perto da capital seria melhor para a primogênita, que evidentemente não concordava, já que tudo que precisava estava ali perto da antiga casa, incluindo as amigas. Contudo, “No futuro você vai me agradecer” era argumento suficiente para seus pais encerrarem a discussão e se mudarem para Niterói.
Ela soltou um suspiro conformado, passando os dedos levemente pela capa do livro. Sim, seria perfeito ser a princesa de Genovia... Mas a única coisa em comum que ela e a princesa Mia tinham era o fato de ambas escreverem em um diário. E a garota, inclusive, não via a hora de chegar em casa e poder pegar o seu.
– Esse filme vai passar na TV hoje – ouviu de repente e, surpresa, levantou a cabeça. Seria redundante dizer que não sabia quem era o garoto ao seu lado, afinal não conhecia ninguém.
– Hã? – foi tudo o que conseguiu responder, com uma careta.
– O Diário da Princesa – disse ele, rindo levemente. Ela olhou novamente para a capa do livro, conferindo o título num lapso de memória. – Minha irmã enche o saco com essa história, tive que trocar o dia da TV com ela por causa disso.
– Você tem dia pra ver TV? – continuava confusa. Por que ele estava falando aquilo com ela?
– Tenho. Quer dizer, não exatamente...
Ele olhou para cima, pensativo, enquanto segurava o cotovelo. A garota pôde notar que ele estava com vergonha, talvez fosse o jeito estranho dele de tentar fazer amizade.
– É que só tem uma TV na sala – continuou. – Eu e minha irmã viemos pra casa da minha vó esse ano, e de tarde a gente tem que dividir o dia de quem fica com o controle. Segunda é o meu dia.
– Ah, sim – ela assentiu com a cabeça, sem saber o que falar em seguida.
– Eu me chamo – ele finalmente soltou o próprio braço, sorrindo. Em resposta, ela fez o mesmo.
– seu nome saiu levando de si todo o peso que sentia antes. Ela não era mais invisível. – Pode me chamar de .
– Tá bem, pareceu tão aliviado quanto ela por conversar com alguém. – Você quer lanchar? Eu ainda não comi nada e já tá quase na hora da aula de novo.
– Desculpa, eu já comi – as pontas dos lábios dela inverteram a posição, caindo. Naqueles microssegundos em que o garoto à sua frente a ouviu, ela sentiu que algo poderia escapar das suas mãos. – Mas posso te fazer companhia, pode ser?
Ele não respondeu à pergunta com palavras, mas sua satisfação foi suficiente para que, a partir dali, passassem não só aquele intervalo juntos.


Aos 14


– Quem dos seus amigos você beijaria? – disse Kim, provocando a reação do restante da roda. Ela tinha somente um amigo e uma amiga e, até onde sabia, não se atraía por garotas. Era uma pergunta propositalmente constrangedora, da qual não conseguiria escapar sem que acabasse o magoando ou virando alvo de comentários e zombaria. Maldita hora em que havia inventado de participar do Verdade ou Consequência, pensou, e escolhido verdade, achando que ninguém teria como a comprometer.
Olhou ao redor, vendo a expectativa no rosto de todos, incluindo . Ele parecia nervoso assim como ela, mas também queria uma resposta – há muito tempo. As bochechas de ardiam de vergonha, em um espaço de tempo em que segundos pareciam correr ao contrário dos ponteiros do relógio. Aquela viagem da escola ficaria marcado pelo resto do ano.
– Fala, ! – Kim a apressou, seu olhar de leoa em cima da presa que era a outra garota. Sua pergunta, assim como o convite para que e participassem, especificamente depois de Yara ir se deitar, era um show à parte, previamente combinado entre as garotas mais velhas. Não era nada pessoal, apenas a humilhação pública de pessoas vulneráveis para diversão adolescente. Uma atitude nada saudável, mas quem iria os reprovar por fazer uma simples pergunta? Os anos de escola eram perigosos, no mínimo.
– Eu tenho que responder essa?
– É verdade ou desafio, e não “pulo essa” e desafio – rebateu Pietra, do outro lado da roda. Kim soltou um riso debochado. – Ou você tá com vergonha por que é bv?
– Eu não sou bv – desviou o olhar, mentindo descaradamente. A quem queria enganar? Ninguém da escola, tampouco daquela viagem específica, tinha a visto com um garoto além de . Aquela não seria a primeira vez que tentavam insinuar um romance entre os dois.
– Então não tem problema você responder – Pietra concluiu, e a mais nova quis cavar um buraco no chão e se esconder ali mesmo. Olhou novamente para Kim; Lucas cochichava ao ouvido dela.
– Você pode trocar pelo desafio, – disse a dona da pergunta. – Mas não vai poder trocar mais e vai ter que cumprir. Aceita?
respirou aliviada por um instante. Tudo para não ter de responder à pergunta.
Próximo a ela, percebeu o que se desencadearia, porém aquela era uma decisão que não o pertencia.
– Eu aceito, eu acho – sem pensar muito, a garota respondeu. Quando olhou novamente para , pouco tempo depois, a ficha caiu.
Oh oh.
A frase seguinte de Kim parecia ter sido dita em câmera lenta:
– Você tem que beijar o .
Aquele era o primeiro grande erro de sobre .
Um silêncio sepulcral veio em seguida, até mesmo os risinhos não podiam ser captados por ela. Em choque com o desafio, sua única reação foi de, pouco a pouco, abrir a boca a ponto de seu queixo parecer literalmente ter caído. Ao seu lado, tentava entender o que ele mesmo sentia por estar ali, exposto e sob vigilância.
– Seja cavalheiro, , tome a iniciativa – Lucas incentivou, empurrando-o em sua direção. Desequilibrando-se, o garoto se apoiou em uma mão, aproveitando para se levantar. Parou bem à frente da amiga, e, ainda embasbacada, ela o olhou sem saber como reagir. Ele não a encarava de volta, mas ainda assim a pegou pela mão e a puxou para fora da roda, sob assovios e piadinhas do restante do grupo.
Em verdade, ele também não gostava da situação. Quem havia dado o direito a Kim, Pietra e Lucas de brincarem com os outros daquela forma? Não queria fazer parte daquilo, sobretudo sendo envolvido sem sequer concordar. Ele não estava somente com vergonha, estava frustrado e, consequentemente, furioso.
– Aonde você tá indo? – perguntou a garota, virando-se para trás para ver se eram seguidos. Depois de montar todo o circo, os outros não nos deixariam escapar com aquela facilidade, deixariam?
pareceu entender seus pensamentos, apressando o passo até que começassem a correr. Em momento algum sua voz se fez audível, enquanto adentravam, sob os protestos de folhas e galhos secos, o bosque escuro ainda dentro do sítio. Pararam quando perceberam já estarem longe demais para que os achassem. percebeu que a mão de suava mais que o possível para uma noite amena.
– Obrigada por me salvar – falou baixo, uma vez que o eco do bosque era suficiente para que entendessem o que o outro dizia. Tentou afrouxar sua mão entrelaçada à dele, tendo um aperto em resposta.
– Você me odeia, ?
– Quê? – ela franziu o cenho, um reflexo que não seria visto. – Que pergunta é essa?
– Eu perguntei – usou seu tom frio, diferente do que ela estava acostumada a ouvir – se você me odeia, .
Então ele a soltou, e sua mão bateu como uma pedra contra seu corpo. Ele continuava de costas, impedido fisicamente de encará-la pelas suas próprias vontades.
– Por quê... – a garota começou, deixando a frase morrer no ar.
– Por quê? – ele pareceu rir, virando-se para ela enfim. Apesar da penumbra, ela conseguia ver as bochechas dele coloridas pelo esforço da fuga. – Eu sou tão horrível assim?
, o que você tá falando? Você é o meu melhor amigo!
– Talvez eu não queira ser só o seu amigo!
continuou atordoada, surpresa por ver aquela outra face de . Desejava que Yara estivesse ali para ajudá-la, mas seria impossível àquela hora, o que a deixava sozinha para enfrentar o que quer que estivesse acontecendo. Nunca sequer havia pensado em como um possível afeto, aquilo estava muito além para a sua cabeça. Eles – os três – eram como irmãos, não eram?
– Você não pode me pedir pra gostar de você assim – argumentou, sem conseguir olhá-lo nos olhos, embora se esforçasse muito. – Desculpa.
Ele respirou fundo, olhando para cima. A rejeição inevitável doía como uma flecha atirada em seu peito, dificultando o ar a chegar em seus pulmões.
– É verdade, eu não posso – disse, ainda na mesma posição. – E eu também não posso me obrigar a ser seu amigo, agora.
– Como assim?
– Vai embora – sua resposta foi rápida e incisiva. Quando ela tentou dizer que não sabia voltar, ele a interrompeu com uma repetição gutural que ecoou por anos a fio dentro da sua cabeça.


Aos 17


Angela passeava pelo corredor com um megafone e sua roupa ridícula de cupido durante o intervalo entre as aulas. Era a semana do dia dos namorados, e como parte do grêmio estudantil, a garota promovia o correio do amor, uma forma de arrecadar dinheiro para o baile do fim do ano letivo. Toda vez que sua voz era amplificada pelo megafone, desejava agredi-la, e não era a única. A pedido de Alexia, Lucas e Miguel roubaram o megafone e a cesta de corações de Angela e puseram sobre os armários, onde ela obviamente não alcançaria do alto dos seus 1,55m.
Apesar de rir de início, acabou se irritando quando pediu para que devolvessem os pertences de Angela e não a deram ouvidos. Dali para virar um show, bastava somente a plateia, que começava a se aglomerar ao redor da membra do grêmio. A pior parte do ensino médio era os próprios alunos, sempre dispostos a fazer a vida dos outros um inferno simplesmente por diversão.
Cansada de chamar o nome de Miguel e Lucas, entrou na sala para buscar uma cadeira e acabar com a brincadeira, mas ao sair, viu que não havia mais os dois objetos no lugar de antes, um deles, inclusive, já estava na mão da dona. À frente dela, um garoto alto entregava a cesta com cuidado para que os vários corações não caíssem. Tamanha foi a surpresa de que quase derrubou a cadeira sobre seu pé: era . Sua presença depois de três anos sem vê-lo fez com que seu coração saltasse para a boca de saudades. Não houvera um dia depois daquela briga que ela não pensasse em pedir desculpas e fazer as pazes, até lembrar que não lhe devia desculpas.
Ela não era culpada por nada.
Ela não podia mandar no seu próprio coração, tampouco no dele. E gradativamente se acostumou com essa verdade, até que o tivesse esquecido quase completamente.
Por mais que ele importasse para ela mais que noventa por cento das suas amizades no colégio, ela não podia nem iria correr atrás dele no primeiro momento em que o visse. Não só pelo seu orgulho, mas também porque o próprio quis se afastar. Ele havia ido embora de repente, sem se despedir. Ela respeitava sua decisão.
E aquilo continuava doendo.
– Pra que essa cadeira, ? – perguntou Miguel, levando-a a desviar o olhar no momento em que jurava que se virava para ela.
– Ela queria ajudar a gordelícia – Alexia respondeu pela amiga, rolando os olhos. – Tava reclamando ainda agora, depois quis ser a boazinha.
– Me incomodar com um alto-falante não é querer praticar bullying com ninguém – justificou-se, pondo a cadeira em chão firme.
– Ai, agora tudo é bullying, que saco – sua amiga saiu de perto, jogando o cabelo para trás com mais vontade que o necessário. balançou a cabeça para os lados, após um suspiro cansado. Miguel se aproximou, tomando em mãos a cadeira para pôr no lugar.
– Exagerei, né? – inclinado sobre o encosto, ele entortou os lábios. assentiu à sua pergunta. – Desculpa, bebê.
Desviou o olhar, ainda não cedendo. Ela odiava ser chamada de bebê, quando ele notaria?
– Mais tarde eu compro um coração da Angela e peço desculpas, tá bom assim? – ela olhou-o de soslaio, arqueando uma sobrancelha por alguns segundos antes de concordar. Miguel a beijou brevemente, em seguida pedindo licença para voltar para a sala. Ela aproveitou a deixa para procurar novamente pelo corredor, mas ele havia sumido.
E se sentia com quatorze anos novamente, sozinha no escuro.



2. Fertilizar

Aos 13


A segunda semana foi aguardada com ansiedade. Depois de descobrir que poderia apenas trocar de carteira para se sentir acolhida, sentando-se à frente de e ao lado de Yara, se viu animada para mais uma aula. Como uma menina crescida no interior, era fácil para ela criar apego em pouco tempo, bastava lhe darem a oportunidade – o que, felizmente para ela, havia feito.
Quando seu pai a deixou em frente a escola, ela quase esqueceu de se despedir. Disse um “Tchau, até mais tarde” e pulou para fora do carro, carregando sua mochila jeans consigo. A nova amiga já a aguardava no pátio, animada, e logo encaminharam para a sala de aula para conversar antes do primeiro sinal do dia soar.
– Bom dia, turma! – disse uma mulher jovem enquanto se aproximava de sua mesa. Yara se voltou para a amiga e o irmão, confusa, murmurando “Quem é ela?”, ao que os dois negaram com a cabeça. , no entanto, parecia muito mais atento que as duas. – A professora Vera já estava pra se aposentar, semana passada foi a última dela em sala de aula, e a partir de hoje eu que vou estar com vocês.
– Se você não fechar a boca, a baba vai cair – Yara se dirigiu ao irmão, que apenas fingiu que nada acontecera. meneou a cabeça, olhando mais uma vez para a nova professora, que realmente era de se chamar atenção. A mulher, Sarah, se apresentou e prosseguiu com a aula, não intencionalmente tirando suspiros de e outros meninos da turma vez ou outra.


Aos 17


O professor Dias, treinador de basquete, já começava a trazer as bolas para o ginásio, sinal de que as garotas estavam atrasadas com a sequência do dia. Caterine não conseguira acompanhar o ritmo do grupo de ginástica rítmica, o que fazia a profa. Wanda exigir de todas mais repetições, ao ponto da perfeição e exaustão. Quando entraram os primeiros jogadores do time, ficou aliviada; não aguentava mais dar estrelinhas, estava tonta.
– Ok, meninas, continuamos quinta – disse a professora, batendo palmas para chamar a atenção do grupo. – Todas pro vestiário!
Alexia se aproximou, tomando um gole de água.
– Não aguento mais essa garota lesada, por que a Wanda não dá um jeito nisso logo? – disse a , lançando um olhar para Caterine. – Quem a aprovou, aliás?
a ignorou a partir do momento em que ela abrira a boca, já que Caterine estava no grupo por causa de Alexia. Além disso desde aquela manhã, no intervalo, mal conseguia se concentrar em qualquer coisa que fosse. A garota olhava com mais atenção aos arredores do colégio desde que descobrira que tinha se rematriculado, sem Yara, em abril e estava em outra turma. Já era junho, e ela estava ocupada demais com seu mundinho para notar que seu (ex-)melhor amigo tinha reaparecido. Em verdade, havia tantos rostos ali que ela precisaria de mais que atenção nas pessoas à sua volta. Apesar de fazer ginástica rítmica desde nova, só aderiu às líderes de torcida – um grupo formado no ano anterior pelas mesmas amigas da ginástica – no começo daquele mês de junho. não era lá a mais popular dentro do pelotão, preferia manter um perfil discreto, então evitava exposição e contato com quem não estava acostumada, no máximo sabia nomes e rostos pelo que seus amigos contavam. Agora, no entanto, teria que participar de torcidas de quaisquer competições que a escola estivesse inscrita, o que significava conhecer de fato cada um dos atletas.
E nenhum deles havia contado sobre , nem mesmo os que já o conheciam, como Lucas. Eles não eram obrigados a reportar a ela qualquer mudança na escola, claro, mas nem mesmo um comentário? Nem mesmo pela aparência dele? Porque sim, havia mudado e muito desde a última vez que ela o vira, não era mais magrelo nem usava aparelho. Seu corte de cabelo não era esquisito como antes, e seus olhos expressivos continuariam sempre sendo seu maior atrativo, embora agora houvesse muitos outros. E aquela nova pessoa que era, facilmente notável dentre os outros, havia se escondido de em seu próprio nicho. Ela ainda não conseguia assimilar isso.
– Ele vai aparecer já, já, se é isso que você tá procurando – Alexia pôs seu rosto bem à frente da amiga, e em vez de afastá-la, se viu com esperança. – Mas você não pode ficar fedida pra falar com seu amorzinho, bebê.
– Vou te bater toda vez que você me chamar assim – riu sem humor, dando o braço a amiga para irem ao vestiário.
– Por que o Miguel pode e eu não? – Alexia fez biquinho, ficando ridícula aos olhos de .
– Ele também não pode – observou a outra rapidamente –, só não sabe disso ainda.
– BOLA! – gritaram poucos segundos antes de algo pesado se chocar contra a sua cabeça, jogando-a desastrosamente de encontro com o chão.
– Puta merda, quem foi o babaca?! – vociferando, Alexia se dividia entre socorrer a amiga e olhar ao redor. A cabeça de latejou em reação ao seu grito.
– Ela tá bem? – disse um dos garotos, abaixando ao seu lado. Ela conseguiu se pôr sobre os joelhos, segurando e pressionando sua testa com as duas mãos. – Você tá bem?
– Minha cabeça tá doendo – resmungou de olhos fechados. Ouvia o burburinho das pessoas em volta, algumas mais curiosas em saber se não teriam um esporro para ouvir quando ela saísse dali.
– Hadzicki! – como se fosse possível, ela parecia ter sido acertada novamente – Acompanhe a sua amiga até a enfermaria.
A ironia do treinador os referir como amigos, sem saber de um terço da história, parecia incômoda naquele momento.
– Consegue se levantar, ? – a garota assentiu à pergunta de Alexia, segurando-se em seu braço apoiado em seu ombro. Ao abrir os olhos, a garota viu o vermelho em sua mão livre, assustando-se.
– Eu tô sangrando pra caralho – foi sua única reação antes de paralisar. se pôs embaixo do seu braço, segurando sua cintura para a erguer. Não por acaso, a enfermaria era logo ao lado, o que impediu a garota de acreditar piamente que acabaria morrendo por causa da hemorragia. E não fosse seu mais novo machucado, estaria morrendo de vergonha pela proximidade com seu ex-melhor amigo.
Por outro lado, agia por instinto de proteção. Era fácil para ele ignorar todo o contexto entre os dois, quando a ajudar era uma ordem e também uma questão moral. Ele jamais deixaria de ajudar alguém em necessidade, independentemente de quem fosse. O que não significava, no entanto, que suas entranhas não parecessem todas reviradas enquanto os dois caminhavam em um silêncio tenso até a seção de saúde.
Seguindo as recomendações dos professores de não abaixar a cabeça, tentou espiar pelo canto do olho. “Eu não devia dar tanta importância pra isso”, pensou, já que ele só estava cumprindo ordens. O garoto nem mesmo a olhava enquanto cuidadosamente a guiava para o banco disponível na recepção da enfermaria, antes do médico terminar o atendimento a outro aluno. Era evidente que ele não queria proferir qualquer palavra, enquanto ela se sentia constrangida demais para o fazer. Eram ambos semiconhecidos ocasionalmente no mesmo lugar.
? – chamou a enfermeira, e devagar caminhou até ela, imaginando que, quando fosse liberada, não estaria mais lá.
– Vou precisar ir ao hospital? – perguntou a garota, sofrida. A mulher riu, balançando a cabeça para os lados.
– Um bom curativo resolve, o dr. Ramires só vai checar se tá tudo ok – parando em frente à porta do consultório, a simpática enfermeira sorriu antes de abri-la. – Pronto, pode entrar.
Depois de alguns exames básicos de reflexo e ocular e mais uma bateria de perguntas, constatando que não tinha sofrido uma concussão, o dr. Ramires recomendou que ela ficasse em repouso absoluto, e caso apresentasse algum sintoma, horas mais tarde, procurasse um hospital. Em seguida, um curativo menor que a garota esperava foi feito acima da sobrancelha direita dela. Ela tivera a sorte de reduzir parte do impacto no chão com as mãos, em um reflexo que nem mesmo teve consciência no momento. Entretanto, sua atual condição a impedia de voltar sozinha para casa, um problema não tão irrelevante.
De volta à recepção da enfermaria, tentou ligar para Miguel do telefone da escola, mas ele não atendeu, provavelmente ocupado com o treino de futebol. Alexia tinha a aula particular logo depois dos ensaios, não poderia desviar para tão longe antes sem que se atrasasse em quase uma hora. Para esperar seus pais, teria que ficar até às 19h no colégio, o que não era a melhor escolha. Sem saída, ela se conformou por ter de cuidar de si mesma naquele momento – se mantivesse a calma, tudo daria certo. Agradeceu à enfermeira que lhe atendeu e se dirigiu para fora da seção.
– Hey – interrompendo seus pensamentos, viu se desencostar da parede ao lado da porta. Todo o calor que antes estava na sua cabeça desceu imediatamente para os pés. – Tá tudo bem?
– Sim, eu... – ela tentou se recompor rapidamente. Aquilo não era nada demais, apenas curiosidade. Além dele, todos que estavam no ginásio poderiam fazer a mesma pergunta. Ambos tentavam se convencer da mesma ideia. – ... não posso ir pra casa?
Ele franziu o cenho, de alguma forma parecendo divertido com a sua confusão. Ela mantinha o mesmo jeito de anos atrás. Pensar nisso o fez travar por um instante.
– Digo, o médico recomendou que eu não fosse sozinha, por causa das duas pancadas em sequência – apontou para o corte na testa e para sua nuca. – E o pior de tudo é que semana que vem é a foto do anuário, o meu último.
– Eu te acompanho e você faz uma franja – disse ele, com bom humor, mas sem rir.
– Não é tão simples assim – ela rebateu, ignorando em partes suas sugestões. – Eu não fico bem de franja.
– Não me lembro de você ficar feia de jeito nenhum – deu de ombros, pondo as mãos nos bolsos. Era apenas uma constatação fatual, para ele. ficou quieta, não queria parecer fútil ao discutir sobre corte de cabelo, ou pelo menos era o que dizia a si mesma. – Precisa ir embora agora? Tenho que avisar ao treinador que não vou poder ficar.
– Por que você tá sendo legal comigo do nada? – ela não conseguiu se segurar, embalada pela naturalidade da situação. De uma hora para a outra, ele parecia ter apagado o passado e voltado a ser seu melhor amigo.
– Não preciso de razão pra ser legal com alguém.
A verdade era que ele sentia tanta falta dela quanto ela sentia a dele, mas não revelaria naquele momento – talvez nem mesmo em outro. Ele notou uma fagulha se apagando nos olhos dela, ainda assim se manteve firme. Aquilo não era nada demais, disse a si mesmo.
Aceitando a justificativa dele, sinalizou que buscaria seu material e o aguardaria próxima a saída. Com o sabor agridoce daquela primeira conversa, ela tentou se convencer de que, por mais que quisesse falar sobre tudo que passou, no momento não conseguiria pensar em nada que valesse a pena falar.
Enquanto via a garota se afastar, soltou um ar que não sabia estar segurando até então. Já fazia tantos anos, ele já havia mudado tanto, por que ainda sentia um soco no estômago cada vez que a via?


Aos 13


Yara virou mais uma página da Capricho, chegando à seção dos micos, e as duas garotas comemoraram. Aproveitavam a luz acesa do corredor para ler, uma vez que estavam deitadas sobre colchonetes no meio da sala, o que a avó de Yara costumava fazer quando passava a noite ali. A matriarca, no entanto, não gostava que as “crianças” ficassem acordadas até mais tarde, então as meninas tinham de conter o riso para não chamar atenção. Do outro lado da sala, jogava Pokémon em seu game boy, absorto o bastante para não ouvir o que sua irmã e amiga diziam.
– Lê o primeiro – disse –, eu leio o debaixo.
– Tá – Yara concordou, se ajeitando sobre a revista. apoiou a cabeça sobre os braços cruzados, usando-os de travesseiro enquanto se deitava de barriga para baixo como a amiga. – Um dia eu estava na festa junina do colégio e o menino que eu era a fim estava do meu lado. Bateu um vento bem gelado e eu disse ‘Nossa, estou morrendo de frio’, na esperança, claro, de que ele me oferecesse o casaco (ou, quem sabe, um abraço). Fiquei esfregando os braços como se estivesse com frio e ele simplesmente falou ‘Ah, tá… Eu não estou, não. Essa minha blusa é bem quentinha’. E só.
– Que sem graça – reclamou, e a amiga assentiu. – Deu nem pra rir.
– Se o fizesse isso contigo, eu ia rir – Yara alfinetou, segurando o riso. Olhou rapidamente para o irmão, que nem mesmo reagiu.
– Mas ele sempre me empresta o casaco – rebateu a outra, fazendo uma careta insatisfeita.
– Ah é, ele que é o trouxa da história – a primeira disse por fim, deixando sem entender.
– NÃO! – se sobressaltou, assustando as duas. Quando se deu conta do que havia feito, abaixou o videogame da frente do seu rosto e arregalou os olhos, todos em um silêncio tenso. Tentaram prestar atenção aos sons que vinham do corredor, podendo ouvir o ranger alto da cama de madeira da avó dos gêmeos.
– Por que você fez isso?! – Yara ralhou em um sussurro, ao que seu irmão proferiu “Foi sem querer”. O som das dobradiças já antigas os fez se apressarem, a garota escondendo a revista sobre o travesseiro enquanto o garoto abandonava o videogame portátil sobre o sofá, juntando-se às outras nos colchonetes.
Na urgência de fingirem estar dormindo, cada um improvisou como pôde: Yara, mais próxima do corredor, manteve-se de bruços com os olhos minimamente entreabertos; estava no meio, virou as costas para a amiga e se cobriu até o peito, as mãos unidas e repousadas sob o rosto; , entre a amiga e o sofá, precisou se cobrir até a cabeça, pois era um péssimo mentiroso. Tamanha era a sua falta de jeito que, sem perceber, deitou-se sobre o próprio edredom, precisando puxar o de para se cobrir. A garota tentou o avisar inutilmente, terminando com o rosto também coberto. O tecido esticado sobre os dois permitia que ambos mantivessem os olhos bem abertos, que se cruzaram em meio à penumbra. sorriu, apertando os próprios lábios uns contra os outros, divertida pela adrenalina ainda que repreendesse o amigo. fez sinal de silêncio, tão atento ao corredor quanto sua irmã. Não queria ser pego acordado no meio da noite, como já havia sido outras vezes – sua avó não perdoava nem mesmo as visitas por desobediências, a própria era testemunha.
Os três ouviram atentamente os passos dos chinelos de borracha chegarem à sala. Congelados pelo medo de serem pegos, os três mal respiravam. Quando os mesmos passos se distanciaram e o feixe de luz se apagou, antes da porta se fechar novamente, perguntou a com o olhar se já estavam seguros. O garoto não a respondeu, absorto em decorar cada traço do rosto à sua frente. Um sorriso fraco e impensado se fez presente nele, e todos os pares de olhos se fecharam quando cada um pôde sentir a maciez dos lábios do outro. Longos segundos chegaram ao fim quando se afastou. Com as írises cautelosas, esperou que ela reagisse de alguma forma, o estômago dando voltas de ansiedade. Seu rosto quase se contorceu ao ouvir as palavras finalmente saírem da boca que – finalmente! – beijara:
– Esse cobertor é meu.





Continua...



Nota da autora (10/11/2020): Oi! Queria ter divulgado e atualizado antes, mas tive problemas pessoais que me impediram e passei dias sem cabeça pra abrir o word... Aliás, sempre que puderem, digam a quem vocês amam o quanto essa pessoa é importante, ok? Fiquem bem e, se puderem, em casa ♥
xx Abby





Outras Fanfics:
Longfics:
Theater - McFly / Finalizadas
[/independentes/t/theater.html]

Shortfics/oneshots e Ficstapes:
I L.G.B.T.? - LGBTQIA+ / Finalizada
[/independentes/i/ilgbt.html]
Theater: Three Little Words - Especial All Stars 2014 / Finalizada (Spin-Off de Theater)
[/independentes/t/theaterthreelittlewords.html]
05. I Want it All - Ficstape #001: Arctic Monkeys – AM / Finalizada
[/ficstape/05iwantitall.html]
02. Lola - Ficstape #011: McFly – Memory Lane / Finalizada
[/ficstape/02lola.html]
07. Jealous - Ficstape #020: Beyoncé – Self-Titled / Finalizada
[/ficstape/07jealous.html]
Estado Latente - McFly / Finalizada
[/independentes/e/estadolatente.html]
Mesmerized - Especial Dia do Sexo (The Wanted) / Finalizada
[/independentes/m/mesmerized.html]
Falling Away with You - Restritas - Originais / Finalizada (ATENÇÃO: Conteúdo sensível, suicídio.)
[/independentes/f/fallingawaywitu.htm]
Famous Last Words - LGBTQ / Finalizada (ATENÇÃO: Conteúdo sensível, suicídio. Releitura da fic acima.)
[/independentes/f/famouslastwords.htm]
Fear of Sleep - McFly / Finalizada
[/independentes/f/fearofsleep.htm]
Second Heartbeat - Restritas - Bandas (McFly) / Finalizada
[/independentes/s/secondheartbeat.htm]
Reminiscences - Originais / Finalizada
[/independentes/r/reminiscences.htm]
He's Got You High - Originais / Finalizada
[/independentes/h/hesgotyouhigh.htm]
She's Got You High - Originais / Finalizada
[/independentes/s/shesgotyouhigh.htm]
Farewell - Especial de Agosto 2013 / Finalizada
[/independentes/f/farewell.html]
Give Me a Reason - Especial FFAwards 2013 / Finalizada (Spin-Off de Give Me Novacaine)
[/independentes/g/givemeareason.html]

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