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Última atualização: 30/08/2020

How can you treat me like that when I'm giving my all to you?

Eu senti cada pedaço do meu corpo em máxima percepção antes de chegar ao ápice. Nós dois chegamos juntos, não era algo tão incomum entre nós dois, dada a sincronia exagerada que tínhamos um com o outro. Deixei o corpo cair ao lado do dele. Ofegante, encarei o teto por muito tempo. Tanto que, quando voltei a mim, olhei para o lado e ele havia caído no sono. E então eu me senti suja.
Já havia acontecido outras vezes, infelizmente. Mas daquela vez era diferente. Eu não queria dizer nada a ele pois tinha medo de estragar tudo, dele correr de mim, muito embora as coisas não parecessem ser desse jeito entre a gente. Estava plenamente consciente de que não tinha necessidade de me expor àquela situação de forma alguma.
Ajuntei minhas coisas com pressa, acho que nunca me vesti tão rápido. Uma das meias havia ficado perdida por algum canto, mas calcei minha bota mesmo sem encontrá-la. Só precisava sair dali. Fui na porta do banheiro checar se estava visualmente aceitável. O celular ia começar a tocar na hora, mas encostei ele no meu corpo para abafar o barulho antes de conseguir desligar o som. Na cama, ele apenas de remexeu um tanto e continuou dormindo.
Com passos de criança, deixei o quarto. No corredor do hotel, aparentemente ninguém. Estava pronta para entrar no meu quarto quando o elevador tocou, indicando que havia parado no andar.
! – Meu irmão gritou e, pelo tom de voz, pude constatar que estava sob influência alcoólica.
– Oi, Danny. – Respondi mais baixo.
– Aconteceu alguma coisa?
– Nada. – Respondi curta, tentando esconder o rosto.
Meu irmão parou no meio do corredor. Merda. O filho da puta me conhecia bem demais.
– O que houve?
– Não houve nada, Danny.
– Olha nos meus olhos e diz que não houve nada.
Levei alguns minutos para me concentrar. Respirei fundo, segurei o choro e o encarei. Ficamos ali por uns segundos, Danny até parecia ter recuperado um pouco da sua sobriedade.
– Não houve nada. – Eu disse.
E meu irmão saberia a quilômetros que eu estava mentindo. Não importava, eu só precisava acabar com aquela noite. Sem esperar mais uma resposta, entrei no quarto e travei a porta atrás de mim. Corri para tirar a mala de dentro do pequeno armário de hotel e comecei a jogar as roupas de qualquer jeito lá dentro, inclusive tirando meu próprio vestido e sapatos para colocá-los lá. Ao invés deles, tratei de encaixar um jeans, blusa, moletom e tênis confortáveis. Peguei o demaquilante na necessaire e limpei o resto de maquiagem que tinha no rosto. Dei uma última olhada no quarto, não estava esquecendo nada. Se estivesse, também, foda-se.
Uma vez no corredor, apertei incessantemente o botão do elevador, mas nada do filho da puta aparecer. Esperei o máximo que minha ansiedade deixou, mas acabei desistindo e me coloquei para correr dezoito andares abaixo de escada, segurando um peso da porra com a mala. Eu precisava correr dali antes que me arrependesse ou que alguém surgisse e tentasse me convencer de que era para ficar.
Fiz o check out na recepção mais rápida ainda. Por sorte, finalmente, um táxi estava deixando um passageiro na porta do hotel. Dei uma de mal educada e saí entrando, de qualquer jeito. O senhor ao volante olhou para trás, assustado.
– Aeroporto, por favor.
– Senhorita, está tudo bem?
Fiz que sim. Ele ia insistir, mas acabou desistindo. Enquanto a paisagem de Liverpool passava pelos meus olhos através da janela do carro, eu segurava insistentemente as lágrimas que queria rolar a qualquer instante. Faltava muito para poder me sentir livre ainda. Peguei o primeiro voo para Londres. Logo no portão de desembarque, já prestei atenção nos próximos voos. Havia um para Miami. Era longe, mas ia servir.
O celular vibrou no meu bolso. Dezenas de notificações foram ignoradas, mas eu não podia simplesmente despistar meu irmão.
– Oi.
– Onde você tá?
– Indo pra América.
– O quê?!
– Danny, é segredo.
, o que o Dougie fez?
– Nada.
!
– Dougie não fez nada, Danny. – Murmurei para mim mesma, como se aquilo fosse necessário. – Eu que fui burra de achar que seria diferente dessa vez.
– Você vai pra casa do papai?
– Vou.
– Me manda notícias de lá.
– Mantém segredo sobre isso, tá? – Pedi. – Por favor.
– Eu te amo, .
– Também te amo.
Eu desliguei a ligação e, logo depois, o aparelho. A primeira coisa que fiz foi tirar o chip, quebrá-lo, ir até o banheiro e deixar que seguisse esgoto abaixo.




Não havia ninguém na cama quando eu acordei, mas tudo bem até aí. Levantei, fui até o banheiro e descarreguei a bexiga. Sabia que tinha reunião com possíveis contratantes na sala de conferências do hotel em poucas horas e estava com uma ressaca de merda. Lavei o rosto para ver se adiantava de alguma coisa, mas não fez a mínima diferença. Então voltei para o quarto, enfiei uma calça de moletom e sentei na beira da cama. Foi quando vi o papel dobrado na mesa de cabeceira.

Dougie,
eu sinto muito.
Por favor, não me procure.
E seja feliz.
Eu vou sempre amar você.


Cacete, eu reconheceria aquela caligrafia mesmo que estivesse quase sem a minha visão. Olhei para o lado onde supostamente teria dormido e a cama estava em ordem demais. Ela não havia passado a noite ali.
Do jeito que estava, saí do quarto. Bati na porta do vizinho, nada. Bati de novo, ainda sem resposta. Foi quando o carrinho das camareiras apontou no corredor e eu corri até elas, literalmente.
– Bom dia. Vocês teriam a chave do 1415?
– 1415?! – A senhora arqueou uma sobrancelha. – A hóspede saiu ontem à noite.
Merda, merda, merda, merda...
Eu me sentia sufocando. O desespero era tanto que cheguei a esquecer de agradecer a informação. Peguei o celular imediatamente e liguei para . O número dava como inexistente. Mas como inexistente? É claro que existia! Era o número dela fazia anos! Tentei de novo, agora a chamada não podia ser completada. Liguei por diferentes aplicativos, simplesmente não me atendia. Deixei tantas mensagens quanto pude, mas ela não recebeu nenhuma.
Caralho, eu realmente estava perdendo a paciência. Cheguei ao ponto de quase arrancar meus cabelos quando voltei ao corredor. Virei para o lado oposto, dessa vez, e continuei socando portas. Não era possível que todos tivessem ido embora e me deixado ali.
– Danny, abre essa merda. – Gritei.
Tom saiu do quarto ao lado antes que Danny atendesse a porta.
– O que tá acontecendo?
– Cadê a ?
Ele deu de ombros.
– Sei lá. A última vez em que a vi, ela estava com você.
– Danny! – Gritei de novo.
– Dougie, o que tá acontecendo?
– Danny, abre a porra da porta.
– Dougie... – Tom insistiu.
– Danny, cadê a ?
Ele ainda não respondia e eu estava começando a ter um ataque de pânico quando foi a vez de Harry sair pelo corredor. Eu me deixei cair, as pernas bambas não suportavam mais o peso do meu corpo. De repente, a ressaca não mais importava. Junto comigo, caiu o pequeno bilhete que ela havia deixado. Antes que eu pudesse raciocinar, estava em prantos. Na minha mão, o celular que eu insistia em tentar usar para falar com ela. Por mais que eu estivesse teoricamente namorando com alguém, ainda era a nossa foto de plano de fundo. Eu tinha tentado me matar no passado, mas acho que nunca me odiei tanto quanto o fiz naquela manhã.


No matter what you say to me, we are not the same.

– Corta! – Gritei do meu assento.
– Pausa pro almoço. – O diretor disse, a voz um pouco mais baixa que a minha.
Recebi alguns olhares emburrados mas os ignorei. Liam falou com um dos figurantes e, logo depois, se virou para a minha direção, andando até mim com um sorriso travesso no rosto.
– O que é?
– Você tá tirando o Nathan do sério.
– Se ele não é um bom diretor, meu amor, o problema é todo dele.
– Esquentadinha, como sempre...
– Mas é claro! – Falei mais alto. – Você tá achando que isso é besteira porque não viu o vídeo de Better On Me. Aquela merda é o que acontece quando a amiga do cantor e melhor roteirista do mundo não tá junto pra acompanhar a filmagem e a edição.
– Ficou tão ruim assim?
– Você realmente não viu, né?
– Não, na verdade. Eu e o Max não somos muito amigos, você sabe.
– Sei. – Ponderei, juntando meus pertences na bolsa que havia levado. – Mas ainda assim... O Lou não reclama do que eu faço e me coloca como autoridade quando se trata dos clipes dele. Louis Tomlinson não tem um clipe ruim, pode me agradecer por isso.
Liam me puxou pela cintura, encaixou o nariz no meu pescoço e inspirou.
– Tá cheirosa hoje.
– As pessoas estão começando a achar que a gente tem alguma coisa, Liam.
– Ah, para. Como se você se importasse!
Não evitei rir e o empurrei para que houvesse certa distância entre nós.
– Almoça comigo?
– Claro. – Ele respondeu e ofereceu o braço para que eu o segurasse. – Falando em Louis, ele mandou não te contar porque era pra ser surpresa, mas toma um banho e coloca uma roupa bonita quando chegar no hotel.
– Louis tá vindo? – Perguntei, animada.
– É pra fingir surpresa. Vamos levar você pra jantar.
– Hm, um ménage à trois. Com vocês dois? Não nego, sempre quis.
Liam coçou a cabeça, rindo, e me observou andar até o carro alugado com um sorriso bobo no rosto. Menos de quarenta minutos depois, estávamos de volta ao set de filmagens. Eu estava um pouco menos puta, isso era certo, mas eu ainda estava autoritária como sempre. Havia um certo trauma embutido em um dos meus últimos trabalhos. Better On Me, do Max George, ex The Wanted e outro amigo que eu colecionava. Sua nova música era maravilhosa – ao menos, para mim –, mas eu devia assumir que o clipe, cujo acompanhamento tive que abandonar por conta de outros compromissos profissionais, tinha ficado uma merda. O meu maior medo, naquele instante, era ter outro diretor que não respeitasse todas as recomendações que eu havia colocado no roteiro e fizesse uma cagada daquelas. Mas Max teria o quê? Dez mil visualizações em um mês? Pois é, Liam teria mil vezes esse valor no mesmo período. Max havia conseguido meus serviços pela amizade. Liam, por mais que fosse um dos melhores amigos que eu tinha, envolvia muito também da minha própria divulgação e não podia cometer o erro de Max com ele.
– Bongiovi, podemos conversar?
– Vá em frente, Smith. – Respondi Nathan, o diretor, com a boca cheia de biscoito.
– Olha, a produção entende que você e o Liam são amigos, mas as pessoas não estão exatamente confortáveis, sem saber quais ordens seguir, as suas ou as minhas.
– As pessoas ou você?
, nós estamos tentando uma convivência amigável aqui.
– É senhorita Bongiovi, amigo.
– Que seja. Eu só quero terminar isso o quanto antes possível.
– Bem... – Disse, dissimulada, puxando um pirulito da bolsa e o desembrulhando com lentidão exagerada. – Aí você fala com o Liam. Porque a Syco e a Columbia podem até contratar você, mas quem tem o artista na palma da mão?
Ele olhou para mim de cara feia na milésima vez no dia e eu abri um sorriso bem debochado, sentando no assento reservado a mim e cruzando as pernas em seguida. Nathan tinha que manter a postura, eu estava ali como amiga e convidada do “patrão” no final das contas. Demoramos bem mais que o previsto para terminar o que estava agendado para aquele dia? Sim, com certeza. Mas ficou bom e, se eu continuasse com o poder que eu estava tendo ali, provavelmente terminaríamos dias antes do prazo marcado.
– Oi, pai!
– Oi, bebê. – Meu patriarca respondeu, do outro lado da linha, quando o telefone tocou já no final do dia. – Tudo certo por aí?
– Pode-se dizer que sim. E como vai a Filadélfia?
– Quente. Olha só, você falou com seu irmão hoje?
– Ainda não, pai. Falei com a Georgia, ela me colocou pra falar com o Cooper... Por quê?
– Você não abriu o Instagram, né?
– Não tive tempo. O que houve?
– Bem, faz isso. E aí você vai querer falar com o seu irmão.
Olhei para os lados e notei que a minha ligação podia estar atrapalhando o processo. Não queria dar motivos justos para desgostarem de mim – não até então.
– Pai, eu to no set. Posso te ligar mais tarde?
– Claro, querida, fico no aguardo.
Enquanto os figurantes se preparavam para uma nova cena, eu abri o aplicativo. A quantidade de notificações, de uma hora para a outra, se multiplicou de forma admirável. Arqueei a sobrancelha quando notei uma postagem de Danny, a foto no estúdio que tinha em casa. Havia uma pasta ao fundo, na tela. Se eu não me esforçasse para notar, não veria o título. “McFLY”. Por hora, no entanto, decidi ignorar aquilo. Mandei uma mensagem para Izzy, mulher do Harry, perguntando se estava tudo bem por lá. Voltei a minha atenção para o trabalho e deixei o aparelho de lado.
– The Bazaar ou Parkway Grill?
– Por que não pode ser o Providence? – Respondi Liam, ainda com a cabeça abaixada e digitando algumas mensagens no celular.
– Porque eu já te levei lá mil vezes no último mês.
– Tudo bem então.
– Ei, – Ele tirou o celular da minha mão, guardou no seu bolso e, de frente para mim, colocou as duas mãos na minha cintura. – o que tá acontecendo? Você tá desligada desde mais cedo.
Respirei fundo e abri um sorriso forçado.
– Não é nada. Eu juro. Foi apenas um pressentimento, mas já tá tudo bem.
– Tem certeza?
Fiz que sim, sem querer falar e deixar transparecer na voz que podia haver algum problema. Ele sorriu, compreensivo e, como de praxe, me ofereceu o braço. Caminhamos até o carro alugado. Liam me deixou no hotel enquanto me preparava para a noite. Fui treinando a reação de surpresa desde então, Louis odiava que alguém estragasse qualquer detalhe mínimo dos seus planos, coisa que a gente insistia em fazer.
Obviamente, eu achava o The Ritz-Carlton um exagero, mas Liam estava bancando tudo com a justificativa de que a sua melhor amiga deveria ter tanto luxo quanto ele. Alugou um quarto para mim, vizinho ao seu. Nós tínhamos tudo bem alinhado e eu estava no melhor espírito possível para dar prosseguimento ao meu trabalho com ele. Então pedi serviço de quarto e, enquanto aguardava, coloquei a banheira para encher. Levei algo em torno de trinta minutos ali, degustando um vinho tinto suave delicioso e curtindo um bom tanto de água gelada no meio do verão de Los Angeles.
Stack It Up era uma música boa, no geral. Não era a minha favorita do Liam, mas dava pra aproveitar muitos detalhes e pensar em como usá-los em cena. Enquanto na banheira, repetidamente escutava a música, repassando os detalhes na minha mente e procurando onde poderia ter uma falha ou caberia um aprimoramento do que já havia sido planejado. Era uma coisa que eu fazia errado, não conseguir me desvencilhar facilmente do trabalho. Talvez fosse por isso que eu era tão boa no que fazia.
Com meu banho acabado, desci para o andar do spa. Fiz uma massagem relaxante express, manicure e pedicure, pedi que cuidassem do meu cabelo para que saísse do tradicional liso e, no meu ápice de preguiça, fiz logo a maquiagem também. Subi para o quarto a tempo de ficar em dúvida entre um vestido longo e um macacão. Optei pela segunda opção que, apesar de ser tradicional, deixava as minhas costas à mostra até o limite. Dei uma checada no espelho final e sentei no divã do quarto, revisando o roteiro planejado para o clipe de Stack It Up até que a campainha anunciou minha visita.
– Meu Deus, – Louis me recebeu do outro lado da porta. – você tá tão gostosa que eu começo a me perguntar qual motivo é suficiente pra eu não te trancar no quarto.
Abri um sorriso de orelha a orelha e deixei que ele me tomasse em um abraço apertado.
– Você e Liam são gêmeos, sempre falando uma merda. – Brinquei. – Eu deveria me preocupar?
– Com o quê?
– Com seus sentimentos sobre mim.
Louis sorriu e pendeu a cabeça.
– Nós nunca daríamos certo como um casal, somos muito amigos pra isso. Eu te amo, mas como irmã.
– Ai, essa doeu.
– Para de graça.
– Até porque seria estranho. Uma irmã com tensão sexual...?
– É, a tensão sexual seria bem estranha mesmo. – Ele riu. – Liam avisou que ia sair então.
– Ele mandou eu me preparar bem.
– Vamos então? – Louis, com o mesmo costume do amigo, me ofereceu o braço. – Ele tá esperando a gente lá embaixo.
Acabamos optando pelo Providence. Estava lotado, mas nada que uma leve pressão não resolvesse. Quando eu ia para Los Angeles, era a minha primeira opção em restaurante porque eu gostava de frutos do mar e o camarão deles era de outro mundo. E foi surpreendente que, naquela noite, arrumassem uma boa mesa para nós três. Começamos com um champagne enquanto aguardávamos o menu principal.
– Eu deveria dizer que não podemos falar de trabalho?
– Ela nunca não fala de trabalho. – Liam resmungou, fazendo Louis rir.
– E então? Como começou a gravação?
– Bem. – Respondi. – Não temos o melhor diretor do mundo, mas...
– Para com isso, o Nathan é bom. – Liam o defendeu.
– Eu sou melhor. – Retruquei. – E você me ama.
– Estou enfeitiçado, – Liam brincou, dando de ombros. – fazer o quê?
O garçom se aproximou com os menus. Pedimos, de entrada, uma porção de queijo artesanal. Eu fiquei com um Coleman Farms Celtuce, Liam optou por um Buri e Louis escolheu um Santa Barbara Spot Prawn.
– Vocês dois começam quando? – Liam perguntou.
Kill My Mind? – Louis respondeu e continuou. – Mês que vem vamos pra Irlanda filmar.
– Se a previsão do tempo continuar boa. Não quero chuva.
– Você é feita de açúcar agora?
– Não, mas o roteiro planejado não foi imaginado pra um dia chuvoso.
– Vão encontrar com Niall por lá? – Liam seguiu nos questionando. – Acho que ele tá em casa.
– Se você nos der a honra da sua caríssima companhia, podemos considerar uma reunião. Que tal? – Sugeri.
– A casa que marcamos de alugar é grande, dá pra fazer uma festa.
– Eu adoraria uma boa festa! – Disse e tomei mais um pouco da bebida.
Em meio às risadas, senti o telefone começar a vibrar no bolso da calça. Puxei o aparelho e o identificador de chamadas me deu um arrepio imediato. Tinha alguma coisa ali e eu podia sentir.
– Meninos, – Eu disse, levantando o celular à altura dos olhos deles. – vocês me dão licença?
Os dois assentiram e eu me afastei da mesa com passos largos até a área de fumantes que, naquele dia, felizmente estava vazia. Não demorei nada para atender a ligação.
– Oi! O que houve? Desculpa, passamos o dia filmando, eu não to me dando bem com o diretor, tá tudo um inferno e...
– Vamos voltar. – Danny disse.
– O quê?
– McFLY, .
– Danny, do que você tá falando?
– Estamos marcando de dar uma entrevista e contar que vamos liberar uma música nova por semana até a data do show de retorno. Já marcamos com a O2 Arena. Vamos soltar um documentário sobre as músicas lançadas e queremos você pra cuidar da edição dele.
Queremos?
– Sim. – Ele confirmou. – Nós quatro.
– Danny, eu não sei...
– Precisamos de você aqui, .
– Vocês não precisam de mim pra voltar.
– Mas precisamos de você pra cantar Tranny, e sabe o quanto essa música significa pra gente.
Respirei fundo. De longe, observei os dois pares de olhos que me acompanhavam atentamente. Voltei à mesa logo, o cérebro processando as mil informações recém obtidas e o que eu estava decidindo fazer com a minha vida naquele instante.
– Vou pra Londres quando terminarmos o vídeo. – Disse aos dois, sem mais nem menos. – Meu irmão precisa de mim.
– Eu posso te oferecer uma carona. Tenho um jato fretado, tenho que ir pra lá também. – Liam respondeu e eu apenas assenti.


I've long run out of my last chances but she's on her way.

A memória nem era tão fresca assim na minha mente, mas era o suficiente para me render bons sonhos. A primeira vez em que nossos lábios se tocaram foi extremamente tenra. Foi o primeiro homem que beijei, e ainda era um dos únicos. Começou com algo quase imperceptível mas, quando suas mãos envolveram minhas costas e eu levei meus braços até o seu pescoço, foi como se o destino estivesse selado. Se não fosse por um alto nível de respeito entre nós dois – e a minha idade na época, é claro –, provavelmente teríamos evoluído para algo mais naquela mesma noite.
Transylvania é nossa. – Dougie foi firme. – Eu não toco sem você, você não toca sem mim...
– E onde eu entro nessa história? – Danny perguntou, interrompendo a conversa.
– Você entra no mesmo acordo. – Completei, mais firme ainda. – Não tocamos sem estarmos todos juntos. Nós três.
– Isso significa que você vai ter que subir ao palco. – Meu irmão sorriu, travesso.
A aeromoça tocou de leve meu ombro.
– Vamos pousar.
Sorri educadamente em resposta e afivelei meu cinto, me ajeitando na poltrona. Liam, do outro lado do corredor, olhou para mim.
– O que você vai fazer enquanto estiver por aqui?
– Tenho que conversar com Danny direito ainda, não sei ao certo quais os planos dele exatamente.
– A Irlanda ainda tá de pé? – Louis perguntou. – Vou só fazer escala no Heathrow com vocês e seguir pra casa. Tenho que ir ver as crianças.
– Eu sinceramente não sei se precisaremos adiar, Lou. De qualquer forma, vou enviar o roteiro pra você por e-mail.
– Você sabe que não vou filmar enquanto você não estiver comigo, não sabe?
– Não posso te atrasar. É que... – Suspirei, sentindo o característico frio na barriga que indicava a baixa na altitude. – É família, Lou, eu não sei o que vai acontecer.
– Não tem problema. Você sabe que eu te entendo, mais do que ninguém.
Forcei um sorriso e olhei pela janela. Ainda não era Londres lá embaixo, mas já estávamos chegando. Peguei minha bagagem e me despedi dos meninos na pista de pouso ainda. Um pequeno buggy elétrico me levou até a parte privada do desembarque destinada à chegada de jatos particulares. Assim que agradeci o motorista, ajeitei as malas no carrinho e passei pela porta de vidro, um pequeno ser de oitenta centímetros de altura veio correndo na minha direção. Eu larguei tudo que estava fazendo e abaixei na altura de Cooper, recebendo e retribuindo um dos abraços mais deliciosos que eu já tive a chance de experimentar na vida.
– Minha coisa gostosa! – Eu gritei. – Como a tia sentiu saudades de você!
Fiz cócegas na barriga de Cooper, que abaixou a cabeça e riu da graça. Meu irmão vinha logo atrás, vestindo seu usual look que exclamava ‘estou envelhecendo mas ainda me sinto um garotão’. Nós dois abrimos um sorriso largo quando nos encaramos pela primeira vez e, segurando Cooper no colo, fui tomada por um abraço apertado. Danny, então, deixou um beijo na minha testa.
– Você veio. – Ele murmurou.
– Nunca te deixaria na mão, e você sabe disso.
Danny sorriu para mim e foi até o carrinho com as malas, empurrando-o na direção do estacionamento do aeroporto enquanto eu fingia que conversava com Cooper, que soltava sons que eu me esforçava para entender.
– E Georgia?
– Casamento na Cornualha esse fim de semana. Estamos só eu, você e o macaquinho aí. – Meu irmão apontou para Cooper. – Você comeu no voo?
– Comi sim. Liam tá numa dieta de ganho de massa muscular ou qualquer coisa parecida, tinha bastante comida disponível.
– Como foi o vídeo?
– Normal. – Dei de ombros. – Um estresse aqui com o produtor, outro estresse ali com o diretor...
– Nada novo sob o sol.
– Nada novo sob o sol. – Repeti com um sorriso.
Nós pegamos a estrada logo. Em certa altura da Bath Road, Danny tomou uma direção diferente da que estava acostumada.
– Onde estamos indo? – Perguntei baixo para não acordar Cooper, adormecido no banco de trás.
– Giovanna insistiu em fazer um almoço pra você.
– Não precisava.
– Não tinha como negar. Até porque eu tenho medo dela.
– Sei disso. – Ri com a observação. – Alguma mudança que eu precise saber antes de voltar à vida londrina?
Danny deu de ombros e encaixou a seta para fazer a próxima conversão.
– Nada digno de nota que venha à minha mente agora.
Estacionamos na frente da casa de Tom. Da janela, era visível as sombras de Buzz e Buddy pulando animados. Havia outro carro parado na frente e, pelo vidro de trás, vi as duas cadeirinhas no banco.
– Harry também veio?
– Não fui eu quem planejou isso, .
Peguei a bolsa de mão na mala e entreguei a Danny. Tirei eu mesma Cooper da cadeirinha, não queria perder um minuto com o meu sobrinho. Ele acordou mas permaneceu deitado em meu ombro, o rei da preguiça havia puxado a tia e o pai. De repente, a porta se abriu e quatro crianças, maiores que Cooper, vieram correndo na minha direção, assustando meu sobrinho por breves instantes antes que ele deixasse bem claro que queria fazer parte da brincadeira também.
Era ‘tia ’ para todos os lados, bloqueando meu caminho como fãs faziam com a banda em qualquer lugar. Inevitavelmente, tive que deixar Cooper de lado por um minuto para dar atenção à minha horda de seguidores fieis. Giovanna e Izzy observavam tudo do batente da porta com um sorriso no rosto.
– Alguém fez falta. – Izzy disse ao receber Kit de volta aos seus pés.
– Acho que sim, né? – Brinquei e a puxei para um abraço.
– Desse jeito, vou ficar com ciúmes. – Harry brincou atrás de Izzy.
Revirei os olhos e estiquei os braços para abraçá-lo também. Ele me apertou com força contra seu corpo, quase parecendo que não me largaria mais, e deixou um beijo na minha testa antes de me liberar para seguir com os cumprimentos. Giovanna foi a próxima, dividida em me receber e tentar conter as crianças que estavam agitadas ao extremo.
– Você não precisava ter marcado nada.
– Ah, por favor! – Ela me abraçou. – Seria uma estupidez não comemorar.
– Comemorar o quê, Gi?
– Sua volta, ora.
– Não é nada demais.
– É sim. – Giovanna insistiu. – Quer tomar um banho antes de comer?
– Não tem problema, eu faço isso quando chegar na casa do meu irmão.
Max estava preso à sua cadeirinha de alimentação, ladeado por um bowl de legumes, e eu me aproximei dele rapidamente para fazer carinho em sua cabeça. Em um primeiro momento, ele estranhou, mas foi só eu fazer uma brincadeira que ele se desmanchou numa curta gargalhada. Meu corpo foi logo tomado por um abraço de lado.
– Desculpa não estar na porta te esperando com todo mundo. – Tom disse.
– Sem problemas, eu te perdoo dessa vez.
– Vamos sentar então? – Giovanna sugeriu.
– Eu quero sentar do lado da tia ! – Buzz e Buddy gritaram ao mesmo tempo.
– Ok, ok! Um de cada lado.
– Eu também quero. – Lola resmungou e eu olhei para Harry e Izzy com uma cara de ‘me salva’.
– Buzz, – Eu me virei para o mais velho, seria mais fácil de fazê-lo entender. – você pode ceder seu lugar dessa vez pra Lola? A tia vai voltar aqui mais vezes e, na próxima, eu prometo que você vai poder sentar ao meu lado.
Ele sorriu, fez que sim e correu para o lado do pai. A mesa estava repleta de opções variadas. Sentei e aguardei que todos se servissem antes de eu mesma colocar meu prato.
– Vão contar o que me aguarda?
Harry abriu um sorriso, escondido parcialmente pelo copo de suco à sua frente.
– Conversar sobre negócios agora? – Tom protestou.
– Mais cedo ou mais tarde, vai ter que ser feito.
– Lá vem a ‘menina negócios’. – Danny revirou os olhos. – Vamos ter tempo pra conversar sobre isso eventualmente.
– Aliás, quando você vai estar livre, ? To terminando mais uma narrativa e gostaria que você desse uma olhada antes de eu enviar pra minha editora antes.
– Depende mais do seu marido e dos companheiros fieis dele. – Disse, olhando de cara feia para Harry.
– Tia , – Lola, tímida, chamou do meu lado. – você sabia que eu estou fazendo aula de balé pra me tornar uma bailarina igual o papai?
– É verdade? – Perguntei com interesse e ela assentiu correndo com um sorriso. – Você me ensinaria alguns movimentos? Eu não sei fazer nenhum.
– São muito fáceis, tia , começando por um...
– Lola. – A voz de Izzy soou firme. – Depois do almoço.
Ela concordou com a cabeça e voltou a pegar seu talher.
– Tia , você vai ficar pro aniversário de um ano do Max? – Buzz perguntou. – É no mês que vem.
– O do Kit também.
– Vou ficar. – Confirmei.
– E o meu? – Buddy perguntou ao meu lado.
– Mas o seu é só em fevereiro.
Ele soltou uma risada sapeca e escondeu o rosto.
– Buzz e Buddy, deixem a sua tia comer em paz.
– Tudo bem, mamãe.
Buddy fez cara de deboche, fingiu que não estava ouvindo e começou a cantarolar uma música qualquer. A conversa girou em torno de crianças, receitas e projetos profissionais de Izzy e Giovanna. Tom, não era novidade para ninguém, estava para lançar outro livro infantil e contava sobre como experimentava os próprios filhos como críticos para o que produzir. Eventualmente, alguém perguntava sobre o que eu estava fazendo por fora, até que nos colocamos a tirar os pratos principais para substituir a mesa posta por algumas sobremesas.
– Eu sei que não é da minha conta... – Gi murmurou próxima da geladeira. – Mas você e Liam estão tendo alguma coisa?
– O quê?! – Deixei escapar um grito histérico. – Não, claro que não. Por quê?
– É que vocês andam tão próximos ultimamente...
– Não é nada além de relação profissional e boa amizade. Liam tem os contatos certos, não se esqueça disso.
– Você não precisa de contatos certos quando tem o seu pai. – Ela me passou uma travessa. – E ele? Como está?
– Bem, o Bon Jovi vai seguir turnê pela América do Sul em breve, então ele basicamente tá ocupado com os preparativos e os ensaios.
– Danny comentou que ele estava com um problema na garganta.
– Nada demais. Uns antibióticos e repouso forçado deram conta de estabilizar.
– Você vai com ele pra turnê?
– Até havia uma certa intenção, mas preciso saber das dimensões corretas do que tá acontecendo por aqui e esses meninos não abrem a boca.
– Esses meninos?! Tá falando de mim? – Harry nos interrompeu.
– Fofoqueiro...
Ele fez careta para mim e tomou a travessa da minha mão, levando-a até a mesa de jantar. Nós fizemos mais uma rodada de quem servia quem e eu enchi meu recipiente com Banoffe Pie. Comi e, logo depois, chutando o balde com o projeto de dieta que estava inventando, me servi de um pouco do sorvete de morango disposto, enchendo de calda de chocolate e confeitos.
– Meu Deus! – Eu disse, ainda de boca cheia, o que levou as crianças a darem risada. – Onde você comprou esse sorvete, Gi?
– Receita caseira da mãe do Tom. – Ela sorriu orgulhosa e olhou para o marido. – É simplesmente sensacional, não é?
– Você precisa me passar a receita porque puta que...
Menos, , tem crianças.
– Desculpa. – Disse, mostrando um sorriso amarelo.
As crianças nem notaram porque, logo depois, a campainha da casa tocou.
– Tio Dougie chegou! – Buzz gritou depois de espiar pela janela. – Mamãe, posso abrir?
– Pode. – Giovanna disse após olhar para mim.
Dougie entrou pela porta e foi como se todo o mundo tivesse parado – com exceção das barulhentas crianças, é claro. Eu procurei fingir que nem estava me importando e peguei mais uma colherada do sorvete. Ouvia, como se fosse longe, enquanto Dougie cumprimentava todos na casa. Chegaria eventualmente a minha vez, estava mais que consciente disso.
A merda foi bater o olho nele. Não havia contato direto com Dougie desde... Bem, desde o fatídico episódio. Cinco anos nos separaram e não era surpresa nenhuma que o tempo tivesse favorecido ele. No entanto, eu era orgulhosa demais para deixar transparecer qualquer sinal perceptível de que ainda efeito dele sobre mim. E eu odiava que ainda houvesse.
– Oi. – Ele disse e contraiu os lábios em um pequeno sorriso.
Nós nos abraçamos e os outros presentes pareceram segurar a respiração enquanto o contato físico acontecia. Forcei um sorriso quando nos separamos.
– Oi. – Devolvi.
– Bom te ver de novo.
– É bom estar de volta. – Respondi, ergui a cabeça e, como se nada tivesse acontecido, voltei para o meu lugar na mesa. – E então, Gi, você estava falando sobre o livro. Já tem título?


The innocence has all been broken, how did we get this way?

Eu saí do banheiro com o vestido parcialmente no corpo e uma toalha enrolada na cabeça.
– Georgia! – Chamei. – Pode me ajudar aqui, por favor?
Minha cunhada surgiu no corredor descalça e secando as mãos na calça. Virei as costas para ela, que fechou meu zíper rapidamente.
– Você podia vestir um número menor, eu adoraria pegar emprestado esse aí.
– Eu não emagreço pra não correr esse risco. – Brinquei com ela.
– E você acha que eu não sei disso?
Cooper veio disparado no corredor em cima de seu patinete.
– Coops, por favor! Não anda aqui dentro!
– Ele vai entender sim... – Murmurei.
– Eu tenho que tentar, né?
– Posso pegar seu secador emprestado?
– Claro, tá pendurado no banheiro do meu quarto.
– To indo lá!
Terminei de me arrumar em questão de uma hora e meia. Chequei no celular e não foi novidade quando constatei que Liam estava atrasado. Saí do meu quarto emprestado e desci para a sala, onde meu irmão assistia um jogo de futebol entre Liverpool e Arsenal.
– Não precisa se preocupar comigo hoje, não vou voltar pra cá essa noite.
– Voltou aos dezoito anos? – Ele brincou comigo.
– Uma vez na vida, a gente tem que resgatar o pouco de juventude que existe dentro de nós antes que ela se esvaia de uma vez por todas.
– Desculpa, esqueci que tenho uma irmã escritora.
Roteirista! – Corrigi.
– Não é tudo a mesma coisa?
– Definitivamente, não. – Respondi enquanto ia checando se tudo o que eu precisava estava na minha bolsa. – O papai sabe a diferença.
– O papai puxa saco de você desde sempre.
Alguém buzinou lá fora, eu sorri para meu irmão e dei um beijo na bochecha dele.
– Amanhã tá de pé?
– Tá sim. Você aparece por aqui que horas?
– Depende de hoje, mas não pretendo chegar depois das dez.
– Ok então, boa festa.
– Tchau, Georgia! – Gritei da porta.
Liam sorriu para mim de dentro do seu carro.
– Olha só a mulher mais linda de toda a Inglaterra...
– Você não tem visto muitas mulheres além de mim, né?
– Na verdade, só minhas irmãs. – Ele riu e se esticou por cima do apoio central para me cumprimentar. – Como estão as coisas por aí?
– Estão indo. Vou sair amanhã com meu irmão pra dar uma olhada em alguns imóveis.
– Então ficou sério. – Liam concluiu, partindo com o carro.
– Ah, isso ficou sim.
– Cirque Le Soir hoje?
– Tava pensando na Maddox Club, na verdade.
– Pode ser também, o acesso tá a uma ligação de distância.
– Liga, então. – Pedi.
Liam deixou o carro com um amigo que nos encontrou logo na frente da boate. Nós conseguimos entrar logo e os dois fomos guiados diretamente para a Green Room. Ele foi direto até a bancada e sinalizou algo para o barman. Eu fui direto para o box que ele havia conseguido reservar de última hora para nós dois. Puxei o celular do bolso, meu pai havia deixado uma mensagem.

Oi, meu bebê
Como você tá?
Acabei de falar com seu irmão
Boa sorte pra vocês dois amanhã


Liam ainda estava ocupado, então comecei a digitar uma mensagem.

Oi, pai
Estou bem, dei uma saída com o Payne
Mando notícias amanhã se tomarmos alguma decisão


Minha companhia estava voltando com dois drinks nas mãos. Ele colocou um dos copos na minha frente e se sentou ao meu lado.
– Aproveite, cortesia da casa.
– O que é isso? – Perguntei.
– Margaritas.
– Eu sei o que são, quero saber o motivo pelo qual você fez essa escolha. Porque, caso você não tenha notado, eu te conheço e sei que você não é de bebidas delicadas.
– Bebida delicada para uma companhia delicada.
– Companhia delicada?! Ah, tá! – Eu ri e bebi um pouco. – Teremos vítimas do senhor Liam Sexy Payne essa noite?
– Só se a chance for muito boa pra perder. Pretendo curtir com a minha amante número um hoje.
– Eu sou sua amante número um?!
– É claro que é! A melhor delas!
Nós dois explodimos em uma gargalhada. Três outras margaritas depois – para cada um –, Liam me puxou pela mão até a pista de dança. O DJ da noite não era exatamente bom, mas as músicas que estavam tocando eram satisfatórias. Eu não conhecia a música, mas Liam era bom dançarino e eu tinha aprendido alguma coisa com ele. Coloquei as mãos em seus braços enquanto ele colocava as dele na minha cintura.
– Louis deveria estar aqui! – Eu gritei próxima de seu ouvido.
– Por quê?!
– Dançar com dois homens é maravilhoso!
Liam riu de mim e puxou meu corpo para mais perto do dele.
– Tem um cara de olho em você.
– Tá com ciúmes, Payne?
– Eita, merda... – Ele falou, baixando o volume da voz por um instante. – E aí, Poynter?
Ai, caralho...
– E aí, Payne?
Liam me largou e, dois segundos depois, estava trocando um abraço com Dougie, que estava sendo seguido por outros dois caras da mesma idade que ele.
!
Tinha momento mais inoportuno do que completamente bêbada para dar de cara com ele?
– Oi, Doug.
– Não sabia que você estaria por aqui.
– Até uma hora atrás, eu não viria mesmo.
– Entendi.
O clima ficou estranho e Liam se posicionou ao meu lado. Dougie, de repente, abriu um sorriso.
– Esses são Josh e Mark.
– Prazer. – Respondi, só com um aceno de cabeça. – Liam, eu vou lá no bar pegar mais uma. Vem comigo?
Não esperei que ele me seguisse. Ele acenou rapidamente e veio logo atrás, apertando o passo e com uma expressão na cara que denunciava o quanto ele não estava entendendo o meu comportamento. Mas eu esperei até que nos encontrássemos longe o suficiente da música.
– Vou embora, Liam.
– O quê?! Por quê?
– Não vou ficar no mesmo lugar que ele, não faz nem sentido.
, você ir embora que não faz sentido. Você veio aqui comigo, não foi? Que diferença ele faz?
– Você não entende... – Murmurei e abaixei a cabeça.
– Fala comigo então.
– Liam, por favor, – Eu implorei. – não fica chateado, mas isso é pessoal. Sei que somos amigos há anos, mas essa é uma parte da minha vida que eu prefiro guardar pra mim.
...
Eu olhei para ele uma última vez e foi como se todo o álcool da noite já tivesse saído de mim. Cheguei perto dele, deixei um beijo demorado na sua bochecha e me virei na direção da saída. Havia uma fila de táxis, por sorte, então não demorou nada para que eu deixasse o local. Tentei destrancar a porta com o máximo de delicadeza possível mas, quando cheguei, meu irmão estava no hall de entrada com os olhos arregalados.
– Meu Deus, , você me deu um susto.
– Desculpa.
– Tá tudo bem?
– Tá, tá sim.
– Você não ia passar a noite fora?
– Até ia, mas...
Eu não consegui terminar a frase. Fui direto para a cozinha com Danny em meu encalço.
– Mas o quê?!
– Dougie apareceu por lá.
– Tá brincando, né?
– Gostaria de estar. – Respondi e enchi um copo com água. – Desculpa ter te assustado.
– Tudo bem, não tem problema. Você quer conversar sobre o que aconteceu?
– Não, Danny, obrigada por se oferecer.
Ele hesitou, mas não era típico do meu irmão insistir nessas horas.
– Bem, se precisar, você sabe onde me encontrar. – Ele disse e eu assenti em resposta. – Devo supor que amanhã teremos compromisso mais cedo?
– Pode deixar no horário original mesmo.
– Tudo bem então. – Danny chegou mais perto e me deu um beijo na testa. – Boa noite.
– Boa noite.
Subi para a suíte de hóspedes alguns minutos depois, esperando que toda a minha pressão baixasse um pouco. Tomei um banho longo, regado de água bem quente. Se não fosse por Cooper dormindo no quarto ao lado – e ninguém gostaria de acordar Cooper no meio da noite –, eu teria colocado alguma música no celular. Fui deitar sem me sentir bem, mas ficaria pior se eu não dormisse.

Bom dia, Payne
Desculpa por ontem à noite
Eu realmente sinto muito
Posso te recompensar por isso?
Vamos remarcar
Por favor
Me desculpa


– Bom dia.
– Bom dia, Danny. – Respondi meu irmão do sofá.
Ele estava extremamente sonolento ainda e arregalou os olhos quando notou Cooper, concentrado no desenho que passava na televisão, ao meu lado.
– Ele acordou e eu não escutei?
– Acho que você tá ficando velho. – Falei. – Brincadeira. Eu passei pela da porta do quarto, escutei os sons, abri a porta e ele estava lá, conversando sozinho com o amigo imaginário.
– Você deu alguma coisa pra ele comer?
– Não, porque não sei o que a Georgia tem planejado pra hoje na alimentação dele, então decidi esperar por um de vocês dois. Ele também não reclamou ou pediu comida.
– Georgia vai demorar a sair do quarto hoje, inclusive vamos precisar levar o Cooper com a gente.
– O que houve? – Perguntei.
– Ela passou mal a noite inteira, acho que tá com a garganta inflamada. Os remédios só fizeram efeito agora de manhã, então sabe lá Deus a hora que ela vai acordar.
– Sem problemas.
– Quer café? – Meu irmão perguntou, se virando para a cozinha.
– Aceito sim.
Dei banho em Cooper depois de comermos e me preparei para deixarmos a casa do meu irmão em busca de Finlay Faulkner, amigo seu e corretor de imóveis. Danny me recebia muito bem em todas as minhas visitas loucas à Inglaterra, mas os planos envolviam ficar bem mais tempo lá do que o previsto e não seria nada justo ficar atrapalhando a vida que meu irmão construíra com Georgia. Ele insistia que eu não tinha com o que me preocupar, mas eu sabia bem que tinha sim.
Meus requisitos eram simples: apartamento, vista para o Tâmisa, três quartos – para mim, para um escritório decente e para visitas –, varanda para momentos de inspiração, dois banheiros para eu sempre ter o meu, hidromassagem, não muito longe do centro de Londres e uma cozinha onde eu pudesse me divertir suficientemente. Nada de comprar. Até então, na minha cabeça, eu estava na Inglaterra só de passagem e voltaria para a casa do meu pai na Filadélfia quando terminasse de ajudar meu irmão e a banda. Faulkner pareceu entender isso, pelo menos.
O primeiro imóvel tinha um quarto com uma vista sensacional para o Tâmisa, mas a cozinha era um cômodo totalmente separado da sala de estar e de jantar, e isso não era exatamente o que eu tinha em vista. O segundo imóvel era térreo e isso era algo que eu dispensava por completo, principalmente por questão de segurança. O terceiro imóvel tinha cômodos extremamente minúsculos, design muito retrô e a vista pro rio era obtida através de uma das menores janelas que eu vi na vida. O quarto imóvel decepcionou o próprio Faulkner, pois o dono havia dito que havia sim vista pro rio e, embora a cozinha fosse totalmente integrada com os outros ambientes e o prédio fosse de uma arquitetura estonteante, também não havia hidromassagem e os cômodos eram muito pequenos. O quinto imóvel possuía um ambiente clean que certamente havia sido planejado por um designer de interiores e, muito embora a cozinha não fosse integrada às salas de jantar e estar, era enorme, porém faltava a varanda. O sexto imóvel tinha tudo, era de dar inveja, mas o valor não era exatamente o que eu estava disposta a gastar com aquela brincadeira; mesmo assim, vimos outro apartamento no mesmo prédio. O oitavo imóvel tinha quase tudo perfeitamente, a cozinha era um espetáculo, mas sem vista. O nono imóvel era o sonho, mas era muito caro. O décimo era simples até demais, e os outros imóveis acabaram ofuscando-o. O décimo primeiro, igualmente lindo e igualmente caro a outros que já haviam surgido na lista. O décimo segundo era o mais lindo de todos, embora a vista para o rio não fosse tão boa quanto em outros, e nem o preço tão bom assim. O décimo terceiro era até legal, mas era muito caro se comparado a outros melhores.
No final do dia, interrompido por um Cooper com muita raiva por não estar brincando ou fazendo qualquer outra coisa do seu agrado, nós acabamos indo para uma cafeteria. Enquanto eu trocava o meu sobrinho, Danny ia tentando sondar Faulkner para outras opções, mas eu já estava exausta. Acabei optando pelo décimo segundo por design e cozinha, que era uma das maiores que eu já havia visto, quase do tamanho da cozinha do meu pai. No final da semana, meu irmão estava me ajudando a me instalar no bairro de Wandsworth. Eu só esperava que aquilo tudo não fosse sem razão.


And I'm asking myself... Is it worth this at all?

Eu me preparei de propósito. Não ia ser a única abalada com aquilo tudo nem fodendo. Coloquei uma calça social skinny preta com cintura alta, um cropped preto de renda e um blazer que deixaria o necessário à mostra. Marquei meus olhos com um esfumado marrom claro, um delineado padrão e cílios postiços não muito exagerados. Na boca, um vermelho matte daria conta exatamente do que eu queria. Finalizei com um scarpin alto e também preto nos pés e solicitei um transporte para o estúdio onde estávamos programados para gravar. Dougie Poynter queria brincar? Ótimo. Ele não fazia ideia do que eu havia aprendido nos anos longe dele.
– Bom dia, meninos! – Entrei na sala reservada para nós em um prédio na Birdcage Walk. – Vejo que o cenário foi montado.
– Do jeito que você pediu. – Harry se levantou e veio me dar um abraço.
– Danny ainda não chegou?
– Pneu furado. – Tom respondeu por ele. – Vai para onde tão sedutora assim?
– Liam vai me pegar aqui quando terminarmos. Preciso acertar algumas coisas referentes ao próximo vídeo dele, e ele quer ajuda com uma composição.
– Próximo vídeo?! Ele não acabou de gravar um?
– O mercado tá bom pro cara, ué, não poso fazer nada. Além do mais, ele precisa pagar a pensão do filho. – Brinquei. – Isso sem contar que ele me recomenda pros melhores artistas.
– Não somos os melhores dos melhores? – Harry ergueu uma sobrancelha.
– Bem, levando em conta que vocês me arrumaram uma reunião com o Michael Bublé e com o John Legend...
– Cheguei! – Danny gritou da porta.
– Ótimo. Quanto mais cedo terminarmos, melhor.
– Uau, mocinha, onde você vai?
– Payne. – Tom respondeu por mim e meu irmão revirou os olhos, tirando o casaco dos ombros.
– Quero novidade.
, que bom te ver! – Outra pessoa se juntou a nós.
– Oi, Fletch. – Respondi com um sorriso forçado, pedindo a Deus que ele não viesse me dar um abraço e percebesse que eu ainda não havia superado minhas intrigas pessoais com ele. – Então... Podemos?
– Claro. – Ele apontou uma cadeira ao lado da câmera principal para mim.
Eu sentei, puxei um sketchbook da bolsa e preparei a caneta.
– Que ordem vamos seguir?
– A ordem do álbum mesmo.
Red¸ Touch the Rain, We Were Only Kids... Depois é Dare You to Move?
– Não, Hyperion vem antes. – Dougie finalmente falou alguma coisa.
Notei, nesse instante, que ele estava preso demais ao celular. Demorei um tempo para reagir, mas logo voltei às minhas anotações.
Corner of my Mind, Josephine...
– Na verdade... – Meu irmão me interrompeu, olhando para Dougie de imediato. – Você não contou pra ela?
– Contou o quê?! – Perguntei.
Dougie largou o celular, finalmente bloqueado, em cima da mesa. Eu conhecia aquele olhar e quase podia ouvir ele dizer um “merda”.
Break Me e Something About You entraram no setlist. São a sexta e a oitava música, respectivamente.
Engoli em seco mas disfarcei.
– Tudo bem. As músicas são dele, ele tem todo o direito de usá-las onde quiser. – Disse, vendo Dougie fechar um pouco o semblante ao ouvir minhas palavras. – Fechamos então com Lucky Ones e Man on Fire após Josephine?
– Tem Those Were the Days e Pretty Girls também, .
Eu só olhei para Tom e ele deu um passo para trás.
– Isso é pra trazer McFLY de volta ou não?
– As músicas quase todas são lideradas totalmente pelo seu irmão, isso sem contar que vocês dois escreveram a maioria delas.
– Eu to falando de essência. Those Were the Days é Tom Fletcher featuring alguém, não tem nada de McFLY. Igual Pretty Girls.
– Nós vamos brigar de novo?! – Harry entrou no meio, entre eu e Tom.
– Acalmem-se, vocês dois. A gente grava essas e, se tiver espaço pra conversar quando tudo acabar, conversamos melhor sobre o assunto.
Eu queria fuzilar meu irmão por não deixar a coisa estourar. Tom tinha começado com a divisão da banda, ele merecia ter sobre ele todas as consequências. Se a minha TPM era uma delas, eu realmente não dava a mínima. Pior que ter que encarar Tom naquela situação, lembrando de tudo o que eu estava relevando para estar ali, era ter que olhar para Fletch.
Não havia real motivo para que eu o odiasse. Era assim que uma pessoa de fora avaliaria minha relação com o empresário que tomou conta da banda do meu irmão desde sempre. Porém eu não era só irmã do vocalista principal. Eu era fã também. Meu primeiro ídolo foi meu pai, seguido por meu irmão. Eu tinha ataques histéricos com músicas novas, eu dava gritinhos quando ia aos shows, corria para dançar quando as músicas deles tocavam nas rádios... Eu sabia, sobretudo, como uma fã se sentia.
Brasil, maio de 2011, menos de uma semana após o meu aniversário. Até então, as redes sociais não eram nada do que se tornaram poucos anos depois e nem todo mundo conhecia tão bem o meu rosto. Eu fui ao país acompanhar meu irmão com a turnê mundial da banda e, na verdade, ficar de olho em Dougie. O show em São Paulo correu muito bem e, logo após o término dele, nós nos preparamos para o encontro com alguns – qual é, algumas, todos nós sabemos que eram só meninas – fãs. Seria feito em uma sala especial da casa de shows. A verdade é que não havia muito tempo, já que precisávamos pegar um voo para outro estado no mesmo país. Mas a cena que eu vi naquela noite foi completamente desnecessária, desrespeitosa e, no mesmo nível, inesquecível.
Um grupo com cinco meninas entrou primeiro. Elas não pareciam se conhecer muito bem, pois entraram separadas. Estavam tensas. Quando os olhos delas brilharam ao verem a banda, o choque de realidade chamado Fletch caiu sobre elas.
– Vocês têm trinta segundos para uma foto, andem logo. – Ele falou rispidamente, sem se preocupar com falar mais devagar para o caso de nem todas entenderem bem o inglês, ou ainda sem dar tempo para que elas processassem a informação.
Eu devia ficar quieta, sabia disso, mas não consegui me conter. Só a fala dele seria suficiente para me tirar do sério, mas achei que ia ficar tudo bem se ele simplesmente fosse ignorado. Como se não fosse suficiente, ele deu ordem para que os seguranças começassem a retirar as meninas e trouxessem o outro grupo. Nenhuma das cinco primeiras garotas trocou uma palavra sequer com nenhum integrante da banda. Foi a foto mais ridícula da história do McFLY: os meninos e as meninas, todos com cara de quem estava desconfortável. Foi aí que eu e meus vinte anos de pura coragem nos metemos na confusão.
– Ei! – Eu gritei e levantei do canto do palco, onde estavam terminando de desmontar a bateria. – Você tá sendo um idiota, Fletch. As garotas não têm nada a ver com seu mau humor.
– Não se mete, pirralha.
– O que você disse? – Danny virou para ele e engrossou a voz.
– Você trouxe a criança, ela é responsabilidade sua.
Os dois se encararam, Harry e Tom separaram a possível briga. Eu me encolhi enquanto Tom convencia Fletch a ir para o backstage e ficar por lá que eles dariam conta com os seguranças de gerenciarem o meet and greet. As garotas daquela noite não sabiam, mas Danny estava furioso. Chegou até a destratar uma delas e só notou quando, entre os grupos, eu chamei sua atenção. Nós cinco cuspimos fogo por diferentes motivos durante o resto da turnê pelo país.
Mesmo desconfortável com todas aquelas lembranças voltando, o trabalho fluiu bem. Eu até consegui deixar de notar Dougie e suas checadas frequentes, tanto em mim quanto no celular. Eram incessantes!
– A próxima é Josephine. – Anunciei.
– Podem começar quando quiserem. – Carl, o câmera ao meu lado, disse.
Os quatro respiraram fundo. Tom começou primeiro.
– Sabe... O que eu mais gosto nessas músicas é que a letra conta uma história, monta um cenário...
– Como Party Girl? – Harry perguntou, o que levou os quatro, junto comigo, a uma breve risada.
She likes to dance all by herself...
... ‘Cause she’s a party girl.
– É claro. – Dougie brincou e cantarolou o refrão, rindo de novo.
– Isso foi uma coruja? – Meu irmão perguntou.
– É à noite. Ela é uma party girl. – Dougie justificou e continuou cantarolando.
Os quatro dispararam em uma nova gargalhada.
– A gente podia ter feito uma piada com essa, chamar a música de Night Owl.
Ninguém conseguiu, novamente, segurar as gargalhadas. Esperamos até que eles se acalmassem novamente.
– Essa sempre foi a minha favorita. – Harry disse e olhou para mim logo depois, ao que eu respondi com um pequeno sorriso.
– Eu lembro que você adorava ela, desde que a gente tava no País de Gales. – Tom comentou.
– É que eu adorava a energia de lá e tudo fluiu tão bem... A música pareceu sair da gente naturalmente.
– É uma música muito estranha. – Dougie interrompeu Harry.
– Mas nós somos estranhos! – Tom disse e todos riram. – É como se fosse a Tranny desse álbum.
Só de ouvir o nome, eu encolhi. Não deixei de prestar atenção e fazer meu trabalho, mas não era mais a mesma que estava por ali. Transylvania ainda era um capítulo aberto na minha vida, e eu nem tinha certeza absoluta sobre querer fechá-lo ou não. Era meu ponto fraco, definitivamente. Josephine foi um roteiro aleatório que eu e Danny transformamos em música. Não tinha nada de Tranny nela. Talvez fosse o embate anterior, mas a fala de Tom só me colocou nos nervos mais um pouco.
De qualquer forma, estranhamente finalizamos bem as gravações. Deixei por conta deles gravarem sobre as músicas que eu não considerava como sendo, de fato, parte do tão esperado sexto álbum da banda. Enquanto eu ponderava sobre isso, meu celular tocou, indicando uma mensagem de Liam, que avisava sobre sua chegada. Dougie, nesse instante, foi até o cômodo ver algumas das cenas que havíamos acabado de filmar, era a minha deixa. Tirei o conjunto de moletom de dentro da enorme bolsa que eu havia levado comigo.
– Danny, protege o perímetro, vou me trocar. – Avisei.
– O quê?!
– Vou me trocar! – Repeti, mostrando a roupa para ele.
– Mas você não ia sair com o...
– Eu vou, depois eu te explico. Só não conta pra ninguém. Pode ser?
Danny assentiu, foi para a divisão entre os outros cômodos do lugar e ficou disfarçando enquanto eu corria contra o tempo. Assim que terminei, desci correndo para o carro que já estava me aguardando. Fomos até o apartamento de Liam trocando assuntos triviais. Quando cheguei lá, a primeira coisa que ele fez foi me entregar o rascunho da letra da música. Passei o olho pelas palavras rapidamente.
– É uma música romântica... – Murmurei para mim mesmo. – Claro que seria.
– O que houve?
– Nada, nada. – Menti.
Tomei meu lugar no teclado já montado e acertei a partitura no suporte. Verifiquei o volume do aparelho e, quando me dei por satisfeita, olhei para Liam, que me deu um sinal positivo. Comecei com os acordes e fui me deixando envolver pelas melodias, chegando até a improvisar às vezes, vendo os sorrisos de Liam para mim de canto. No que eu entendi ser o último refrão, decidi me aventurar e começar a cantar por conta própria, explorando as possibilidades de high notes ainda não decididas para finalizar a música.
If we can make it through December... – Saí do ritmo por um instante para ajustar a música para o meu tom. – ... every new year we’ll be together. ‘Cause all I want for Christmas is you and me to fix this...
– Eu odeio como você faz a minha voz parecer uma merda. – Liam disse quando eu terminei.
– Se você tivesse um professor como o meu pai, entenderia.
– O que achou?
– Ficou ótima, Liam, de verdade.
– Que bom que você gostou. – Ele abriu um sorriso enorme. – Podemos seguir pro clipe de Live Forever? Antes que o Tommo descubra que eu to contigo e o ciúmes dele façam o sexto sentido disparar e ele te ligar.
– Eu pegaria o Louis de novo e não pegaria você, Liam.
– Você pegaria nós dois de novo.
Revirei os olhos, ri e me virei na cadeira.
– Vamos, me diga o que você quer pra eu começar a imaginar.


I should have know much better.

Acordei pela manhã e a primeira coisa que eu fiz foi ligar o celular. Havia um bom punhado de e-mails e algumas mensagens em grupos de WhatsApp. Verifiquei o contato do meu irmão, que tinha enviado uma foto de Cooper tomando café mais cedo. Chequei o horário, estava cedo ainda para meus compromissos do dia. Abri o bloco de notas do celular e verifiquei a lista de afazeres. Ir até o ateliê fazer a prova do vestido para o lançamento do álbum, passar na gráfica e pegar os orçamentos das impressões, checar se os novos fones de ouvido haviam sido entregues na minha caixa postal, conferir a documentação para os serviços de streaming, comprar roupas novas para a academia, verificar se Josh Harper havia feito minha encomenda... Parei aí e voltei para o e-mail. A resposta era simples: “Esteja em meu escritório às onze e meia.” Então eu levantei e comecei o meu dia.
Josh Harper era um dos melhores designers cujo trabalho eu já havia visto. Ele era capaz de ler a mente de seus clientes perfeitamente e transformar em um serviço muito bem feito. Com uma descrição simples e pouca conversa, Josh fazia artes magníficas. Já havia trabalhado com ele a respeito de Louis e Liam no passado. Havia chegado a vez do McFLY lhe dar algum crédito por sua especialidade.
Eu estava indo para a cozinha quando meu telefone vibrou, indicando a chegada de uma mensagem de contato importante.

Bom dia, gatinha
Teria um tempo para o seu melhor amigo no almoço?

Bom dia, Lou
Dia cheio hoje
Que tal depois de amanhã?

Poxa
Estou com saudades

Haha
Para de drama

Liam disse que você estava sentimental da última vez que se encontraram
Tá tudo bem?

Tá sim, foi só coisa de mulher
Deve ter sido a TPM
Quer falar sobre meu período menstrual?

Nossa
Você é nojenta
Só quis ser seu amigo
E você não menstrua

Me assusta que você me conheça tão bem a esse ponto
Aliás
Você está acordado a essa hora?

Ainda não fui dormir

É minha hora de perguntar
Tá tudo bem?

Tá sim
Só saudade delas

Respirei fundo. Havia perdido minha avó e aquilo tinha causado uma dor imensa em mim. Mesmo assim, era algo esperado, de certa forma. Louis havia perdido a mãe e a irmã em uma tomada só, praticamente. Por mais que eu tentasse, não conseguiria nem imaginar como ele estava quebrado por dentro. As letras das músicas só eram um décimo da ilustração de quão destruído ele estava.

Ei
Vou cancelar meus compromissos
Vamos almoçar
Eu e você
Aqui em casa
Cozinho alguma coisa bem gostosa pra gente
Que tal aquele meu purê de batatas que você ama?

Nem adianta, , já sei que você tem compromisso
Tá tudo bem, eu vou ficar bem
Foi só um lapso de saudade que apertou hoje
Podemos deixar pra outro dia

Jantar hoje então?
Por favor
Não quero te ver mal

Eu não estou mal

Lou
Por favor
Me deixa te ver hoje


Esperei pela resposta, que não demorou nem dois minutos para chegar.

Ok
Vou praí depois da academia
Devo chegar por volta das oito

Que bom
Vai ser um prazer te ver
Estou com saudades

Também estou

Sorri e guardei o celular no bolso do short do pijama, indo para a cozinha. Tinha pedido pizza no dia anterior e esquentei o restante em uma frigideira. Enquanto isso, preparava um pouco de café. Mandei uma mensagem para meu irmão, que informou que estaria almoçando e, logo após, em reunião com o restante da banda para decidir finalmente sobre o formato do lançamento. Confirmei o lugar onde estariam e me encaminhei para o banho.
Felizmente, tinha visitado o salão no dia anterior e não precisei lavar o cabelo. Botei jeans e camiseta, calcei um tênis confortável, passei um delineador e máscara nos olhos e saí de casa, carregando minha imponente mochila e meus óculos escuros. Minha primeira parada foi na gráfica e não demorei muito, pois já estavam me esperando. Peguei o que precisava, guardei dentro de uma pasta específica na mochila e peguei outro táxi para meu próximo destino, o escritório do Spotify em Londres. Fiz os acertos que precisava com os advogados e achei melhor deixar os empresários do Deezer para outro dia, já que não havia marcado horário com eles e precisava me apressar para outros compromissos.
Estava no táxi para a sala comercial de Harper quando meu telefone vibrou em meu bolso. Não evitei sorrir quando olhei para o visor, identificando o remetente da chamada.
– Oi, pai.
– Oi, bebê. Como você tá?
– Bem, e o senhor?
– Estamos bem. Poderia estar mais frio por aqui, mas estou aceitando o que tenho por agora.
– Ah, até que a temperatura por aqui está agradável. – Disse, olhando pela janela. – Mas me diga... Por que ligou?
– Queria saber se a minha querida filha teria um horário vago para o seu velho pai.
– Por favor, pai, para. O senhor não é velho coisa nenhuma!
Ele riu do outro lado enquanto eu ria comigo mesma.
– Lembra da música que eu te enviei esses dias?
Unbroken?
– Sim, essa mesma.
– Me lembro, por quê?
– Vídeo. Tenho algumas ideias, gostaria de conversar pessoalmente com você a respeito.
– Vou demorar a ter tempo pra ir até a América, pai.
– Eu iria até aí, na verdade. Seria bom. Assim, poderíamos passar um tempo juntos. Eu, você, seu irmão e o Cooper.
– Seria ótimo mesmo... – Murmurei. – Mas eu preciso resolver e acertar datas com o meu irmão. Prefiro não dar certeza por enquanto.
– Tudo bem. Achei melhor falar logo pra ser o primeiro a entrar na próxima vaga na sua agenda. Afinal de contas, minha filha agora é uma mulher de sucesso e muito atarefada.
– Sem drama, senhor Bongiovi.
Meu pai riu de novo.
– Me avisa assim que tiver uma possível data pra isso?
– Claro, pai, pode deixar. Enquanto isso, já me manda por mensagem as tais ideias que o senhor tem sobre o vídeo. Me ajuda a ir pensando até lá.
– Vou mandar mais tarde, quando chegar em casa. Se eu não lembrar, me cobra.
– Sim, senhor. Mais alguma coisa?
– É bom ouvir sua voz, filha. – Ele disse calmamente. – Melhor ainda é ouvir e saber que você está feliz, mesmo que soe cansada.
Eu gargalhei, atraindo a atenção do motorista, que me encarou pelo retrovisor por breves minutos. Fechei a cara logo e murmurei um pedido de desculpas.
– Também estou com saudades, pai, vai ser ótimo recebê-lo por aqui.
– Me liga! E dá um abraço no seu irmão por mim.
– Pode deixar.
– Eu te amo.
– Também te amo, pai.
Desliguei e, em vinte minutos, o taxista parou na frente do prédio indicado. Paguei e deixei o troco com ele, para compensar minha espontaneidade ao conversar com meu pai no telefone. Cheguei no local combinado um pouco mais cedo do que o previsto. Mesmo assim, fui prontamente recebida e entrei no escritório de Josh Harper logo.
– Senhorita Bongiovi, a quê devo a honra?
– Se você está me recebendo sem saber o motivo pelo qual vim até aqui, você está fodido.
Ele riu e se levantou para me cumprimentar.
– Recebi seus e-mails. Muito detalhista, como sempre. Não foi exatamente o meu trabalho mais fácil, como nunca é quando se trata de você.
– Eu não esperava que fosse diferente.
– Eu também não. – Ele disse e riu, virando o monitor de seu computador para mim. – As opções de logo são essas aqui.
Josh foi passando as imagens pausadamente de uma em uma, finalizando com a tela reunindo todas as opções.
– E então? O que acha?
– Eu não sou a banda, né, preciso levar pra eles.
– Sim, claro, é por isso que vou enviar pro seu e-mail agora, mas gostaria de sua opinião. Achou a paleta de cores ideal?
– Eu gosto dessa cor, você fez isso pra me comprar.
– Dessa vez, eu juro que não.
Observei melhor a tela, passando o olho em cada logo cuidadosamente. Quando finalmente tomei minha decisão e apontei a parte da tela com a minha escolha, Josh prontamente clicou sobre ela e abriu diversas outras artes, referentes a capa de álbum, flyer de evento e outras coisas.
– Tomei a liberdade de ajudar um pouco mais nas ideias e já planejei o rascunho do restante das artes com base nas opções que eu disponibilizei.
– Essa está ótima, Harper.
– É uma surpresa pra mim. – Ele fechou os arquivos e girou o monitor de volta para si.
– Por quê?
– Achei que você fosse escolher a vermelha.
– Já temos uma música com o nome dessa cor, acho que é suficiente.
– Enviado! – Josh falou. – Você deve receber no seu e-mail em breve. Passe na recepção que a Morgan vai te entregar os impressos.
– Perfeito, Harper, muito obrigada!
Nós trocamos um último cumprimento e eu deixei seu escritório. Sabia que os meninos estariam reunidos para decidir alguns aspectos referentes ao show de retorno, então acabei trocando o destino quando já estava dentro do táxi. Passamos por um drive thru e, assim, peguei meu almoço. Fui recebida por apenas três dos quatro quando entrei na sala de reunião montada no imóvel que havíamos alugado temporariamente para a produção.
! – Danny gritou ao me ver.
– Olá, meninos. – Meu irmão se levantou e me abraçou. – Desculpa interromper a reunião de vocês, tenho novidades.
– Sobre as artes? – Harry perguntou.
– Isso mesmo. – Sorri e abri a mochila, tirando as impressões de lá. – Não vou demorar aqui porque tenho que resolver umas coisas com o pessoal da edição e marquei de encontrar um amigo daqui a pouco, mas achei que poderia deixar com vocês, pra vocês já irem dando uma olhada...
– Essa aqui tá sensacional! – Tom apontou para a arte com a paleta de cores vermelha. – Será que poderíamos mudar a fonte?
– Tem sempre a opção.
– Gostei dessa. – Meu irmão indicou outra arte.
– É a minha favorita. – Falei.
– Acho que é a minha também. – Harry concordou conosco. – Fletcher, você está em desvantagem.
– Estou vendo...
– Mas isso é tudo provisório. – Eu os interrompi. – Há mais arte além dessas, com base nas diferentes opções. Eu sei que hoje é um dia corrido pra todos nós, além de 25% da banda não estar aqui para decidir. Podemos deixar marcado pra depois de amanhã, às dez horas? Eu mostro tudo o que eu tiver pra vocês e levo de volta pro Harper fazer os ajustes necessários.
– E aí? – Outra pessoa entrou na sala de reunião.
Eu levantei o olhar até ele, talvez rápido até demais. O que encontrei fez meu estômago embrulhar. Em um primeiro momento, meu cérebro processou as informações e concluiu que eu deveria estar pensando besteira, que era uma menina nova demais e que aquilo provavelmente era um engano meu. Mas então eu desci o olhar até suas mãos, que estavam com os dedos entrelaçados. Engoli em seco, respirei fundo e fiz o possível para disfarçar qualquer reação externa. Minha primeira ideia foi fingir que o telefone estava vibrando. Peguei o aparelho do bolso, franzi a testa ao olhar para a tela e fiz sinal para que aguardassem um instante.
– Alô? – Falei ao colocar ao aparelho na orelha. – Ei, calma, o que tá acontecendo? – Fingi estar escutando atentamente enquanto formulava uma boa história na minha cabeça. – Ok, fica tranquilo, não é o fim do mundo. Eu to indo pra sua casa agora, pode ser? – Esperei mais alguns segundos e tranquilizei minha feição, sabendo que estava sendo observada por todo mundo ali. – Beleza, chego em menos de meia hora.
Finalizei meu teatro guardando o celular no bolso e pegando a mochila que havia levado com minhas anotações e material de trabalho. Fiz tudo de forma desastrada propositalmente e deixei um beijo bem rápido na bochecha de Danny.
– Desculpa, gente, problema, preciso correr. Me avisem o que decidirem sobre a arte assim que possível, por favor.
– Ei, espera. Onde você tá indo? – Meu irmão perguntou.
– Louis tá com problemas, não entendi direito. Eu te ligo no caminho pra lá.
Falei e passei correndo por Dougie e a menina, que ainda estavam na porta de entrada. Desci de escada mesmo, às pressas, e saí do prédio. Ironicamente, me lembrava muito uma situação que eu havia vivido também com Dougie no passado.


Won't you think about what you're about to do to me and back down?

Eu soquei a parede do meu quarto sem nem perceber. A dor não se deu o trabalho de vir.
– Como ninguém me contou disso antes? – Eu gritei. – Vocês não pensaram, por um segundo sequer, que isso precisava chegar pra mim antes?
, os vizinhos...
– Que se fodam os vizinhos! – Respondi meu irmão.
, nós realmente achamos que não ia pra frente. – Harry disse, apoiado na parede, bem ao lado do meu irmão. – Pra quê falar sobre isso com você nesse caso? Só pra te causar mais dor de cabeça? Nós realmente estamos surpresos quanto a ele ter aparecido com ela lá. Talvez ele só tenha ido com ela porque você não estava marcada pra estar com a gente...
– Isso não tá melhorando as coisas, Harry. – Meu irmão murmurou.
Fiz força para fechar a mala média que levaria comigo. Normalmente, a quantidade de roupa que eu armazenara dentro dela caberia com espaço de sobra, mas meu estresse era tanto que eu estava tendo que forçar o zíper. Minha cabeça estava estourando. Coloquei a mão na testa, massageando as têmporas como se fosse fazer melhorar.
– Me digam, por favor... – Sussurrei, finalmente baixando o tom de voz, lutando contra mim mesma e as palavras que eu estava prestes a proferir. – ... Que eu não fui a única a sentir o cheiro.
Meu irmão e Harry trocaram um olhar demorado, estavam os dois escolhidos e acuados.
– Não vamos tirar conclusões precipitadas, .
– Conclusões precipitadas?! – Voltei a me exaltar. – Caralho, Danny, eu sei o que é o cheiro de maconha! E sei mais ainda o que é cheiro de vodca. Então não tentem me enrolar ou...
– A gente não sabe como confrontar o Dougie agora, essa é a questão!
– E deixar rolar o que aconteceu em 2011?!
– Porra, , claro que não!
O telefone tocou na hora que Danny levantou a voz. Estávamos todos altamente estressados e o barulho nos fez despertar. Respirei fundo algumas vezes e peguei o aparelho.
– Oi, Lou.
Oi. Só queria saber se você vai conseguir chegar a tempo. Tem um voo hoje à noite ainda com vagas, se você precisar. Ainda não recebi notícias suas, imaginei que tivesse dado um problema. Geralmente, a essa hora, você já estaria me ligando e cobrando horário.
Olhei para Danny e Harry, que pareciam interessados em saber sobre o que eu estava conversando.
– Pode ir na frente. – Respondi. – Eu vou remarcar minha ida pra mais tarde.
Quer que eu faça isso por você aqui?
– Não, Lou, pode deixar.
, se você tiver um problema, nós podemos remarcar a filmagem...
– Sem necessidade, já disse. Fica tranquilo. Eu te ligo mais tarde.
Ok então. Boa sorte.
– Obrigada. – Agradeci e fiquei me perguntando o porquê.
– O que houve? – Harry perguntou.
– Bem... Alguém tem que fazer alguma coisa a respeito disso, não é mesmo? – Falei e puxei a mala da cama para o chão. – Não dá pra ficar aqui, de braços cruzados, igual a vocês dois.
– Onde você vai, ? Não tem que estar em Dublin amanhã cedo?
– Não importa, Danny. Nem que eu vá de trem mais tarde até Holyhead e pegue a balsa. Eu me recuso a ver o que eu vi em 2011 acontecendo de novo. – Resmunguei e saí puxando a mala pelo apartamento, gritando para os dois antes de sair pela porta. – E tranquem tudo quando saírem!
Estava impaciente na frente do elevador, quase disposta a ir de escadas quando meu irmão saiu correndo no hall e simplesmente parou ao meu lado.
– Onde você vai? – Perguntei.
– Se você for pedir um táxi, pode ser que demore. Um carro por aplicativo, igualmente. E você tem compromissos a seguir. Eu posso te deixar lá mais rápido e, depois, te levar pro aeroporto ou pra estação de trem.
O elevador chegou ao andar logo antes de Harry passar pela porta, trancando tudo. Nós descemos em silêncio até onde o carro de Danny estava estacionado. Eu me despedi de Harry com um olhar e seguimos caminhos diferentes a partir dali. No meio do caminho, percebi que simplesmente não fazia ideia de onde Dougie estava morando. Mas Danny sabia e era isso que importava. Mesmo assim, mesmo parecendo totalmente decidida, eu congelei quando chegamos ao nosso destino. Meu irmão se limitou a apontar para uma casa em específico antes de mergulharmos em segundos de um silêncio constrangedor.
– Você quer que eu entre com você? – Danny perguntou.
– Acho melhor eu fazer isso sozinha.
– Tudo bem, vou estar te esperando aqui fora. Qualquer coisa... – Ele hesitou. – Me liga, me grita... Sei lá...
Eu assenti e deixei o carro. Na minha vida, já tinha dado passos muito difíceis de serem tomados mas, naquele instante, pareciam os mais complicados de todos os tempos. Ainda hesitei ao estar na frente da porta, já com o dedo apontado para o botão da campainha. Bastou um frame de Dougie caído ao lado do carro, oito anos atrás, para eu me decidir de vez. O problema foi que eu ouvi risadas assim que a campainha soou do lado de dentro. Uma delas, eu conhecia muito bem. A outra era de uma mulher. Dougie, de repente, só abriu a porta de uma vez.
! – Ele ficou boquiaberto, a feição deixou um sorriso espontâneo de lado e deu lugar a espanto total. – E-eu... É-é... D-desculpa, não t-te esperava aqui t-tão...
– Nós podemos conversar? – Eu interrompi sua gagueira.
– Dougie, quem é? – A voz veio de dentro e, segundos depois, a garota surgiu atrás dele.
Garota... Uma criança, isso sim! Então eu senti o maldito cheiro. Eles estavam bebendo. Enquanto eu processava isso, Dougie olhou por cima do meu ombro e notou o carro de Danny.
– A sós, Dougie. Por favor. – Eu insisti.
– Como é? – A garota se meteu. – Olha só, você não manda em mim, muito menos nele, e...
– Maddy, – Dougie disse, firme, e engoliu em seco. – eu ligo pra você mais tarde.
– Dougie, você vai deixar ela falar assim com você?
Ela – Dougie frisou a palavra, ainda bem tenso. – é a irmã do Danny.
A menina, então, arregalou os olhos. Ainda estava puta da vida, isso era bem óbvio para mim, mas então ela se voltou para dentro. Fiquei esperando logo ao lado da porta enquanto a assistia recolher suas coisas de cima do sofá e da mesinha de centro da sala de estar, onde eu podia observar também os copos metade vazios. Quando foi sair, ela avançou na direção de Dougie, na intenção de beijá-lo, mas ele virou o rosto e fez o beijo dela acabar ficando em sua bochecha direita. Ela não gostou nada daquilo, mas deixou sua casa mesmo assim. Nós ficamos em silêncio por alguns segundos depois disso.
– Danny não vai entrar? – Dougie perguntou.
– Só se precisar. – Eu disse, respirando fundo, o que estava difícil de me trazer paz já que, assim, eu só sentiria mais o cheiro da bebida. – Acho melhor termos essa conversa só nós dois.
Dougie se aproximou da porta e fechou, passando a chave logo em seguida.
– O que você quer falar?
Não disse nada. Ao invés disso, apontei para os copos em cima da mesa. Dougie murchou.
– Eu não estava bebendo.
– Primeiro, são dois copos. Segundo, o cheiro de vodca é inconfundível, e eu consigo sentir o cheiro daqui. Terceiro, eu não sou otária. Quarto... – Fiz uma pausa, tentando encontrar as palavras corretas para tudo aquilo. – Mesmo que você estivesse só tomando água, Dougie! O que você tem na cabeça? Ter uma pessoa assim perto de você nunca vai te fazer bem, muito pelo contrário!
– Você tá com ciúmes?
– Ciúmes, Dougie?! Sério que essa é a sua hipótese?
– Olha, você não voltou, ok? Não me julgue por ter seguido em frente.
– E eu julguei alguma vez? – Comecei a gritar novamente, minha garganta já dando sinais de que eu teria problemas no dia seguinte e provavelmente ficaria sem voz. – Você ficou com a Ellie por um tempão. Por anos, Dougie! E você não ouviu uma palavra sequer sair da minha boca contra isso. Eu até torci pra vocês dois ficarem juntos porque, do pouco que conheço ela, sabia que ela seria boa pra você. Agora não venha colocar palavras na minha boca e dizer que eu estou com ciúmes, porque eu não estou. Posso ter ido embora, Dougie, mas foi por mim. Eu nunca deixei de te amar e você sabe disso. Inclusive, foi a última coisa que eu te disse antes de desaparecer. Lembra disso? Se você não confia mais em mim, ótimo, que seja. Só não venha jogar no lixo tudo o que eu fiz por você desde o momento em que te encontrei morto até você estar livre das drogas e do álcool de vez, porque eu me doei pra você naqueles meses e não vou aceitar ser tratada como um nada.
– Você não é um nada pra mim, , nunca foi!
– Então por que você tá fazendo isso?
Saí andando até a mesinha de centro. Peguei o primeiro copo e levei à boca. Vodca. Peguei o segundo e bebi também. Minha reação foi instantânea. Eu taquei o copo no chão de qualquer jeito, e ele estilhaçou.
– Só falta você vir me dizer que também não tá usando drogas de novo, porque eu senti o cheiro de maconha da primeira vez que vi a garota e senti de novo agora.
, eu...
Dougie simplesmente parou. Ficou encarando um ponto fixo no chão do espaço entre nós, a respiração muito pesada. Nesse momento que eu percebi que tinha começado a chorar.
– Sabe, Dougie... – Retomei a conversa, tentando controlar meu sistema nervoso. – Numa coisa, você tava certo naquela carta. Você não tem o direito de me levar pro fundo do poço com você. Então tome uma decisão, ou eu vou tomar. Ajeita a sua vida de novo, bota ela nos trilhos. Eu firmei um compromisso com o meu irmão de ajudar com o retorno da banda e vou embora da sua vida. Mas ou você se comporta ou sai da banda e da nossa vida. Da mesma forma que nós cogitamos tirar o Fletcher, dá pra tirar você e seguir em frente.
Acabei com o espaço entre nós dois para poder encarar seus olhos bem de perto.
– Sem palavras, Dougie?
– Eu nunca quis te magoar. – Ele murmurou, quase inaudível.
– Nunca quis mas é o que você mais faz.
Tirei o conjunto de folhas de dentro da minha bolsa, pendurada no ombro esquerdo, e praticamente empurrei contra a barriga dele, que segurou sem jeito imediatamente.
– Da próxima vez que for fazer essas merdas, – Apontei para o copo quebrado dessa vez. – vê se lembra de quem estava ao seu lado quando você acordou no hospital, ou quem te ajudou a administrar a casa quando sua cabeça não estava bem, ou quem te fez companhia na terapia, ou quem dirigiu pra você enquanto você não estava cem por cento... Ou quem inspirou as palavras dessa carta de suicídio. Se o que nós vivemos não for suficiente pra te motivar a parar com isso de vez, nada vai ser. E aí você me avisa pra eu poder desistir de você com a consciência tranquila, sabendo que eu tentei de tudo mesmo.
Destranquei a porta e saí. Assim que entrei no carro, desmanchei em lágrimas. Sentia como se estivesse sufocando, como se não houvesse ar para respirar. Danny, ao meu lado, no banco do motorista, estava indeciso sobre me deixar passar por aquilo sozinha ou me oferecer apoio. De um jeito ou de outro, só de ele estar ali já me passava uma sensação de alívio.
– Você precisa que eu te leve a um hospital? – Meu irmão perguntou, a voz baixa.
Eu respirei fundo e funguei. Danny tirou uma caixa de lenços do porta-luvas e me ofereceu, o que aceitei de bom grado.
– Só me leva pro aeroporto.
– Tem certeza de que tudo bem você voar assim?
– Tenho.
– Você bebeu?! – Danny perguntou.
Olhei para ele, a sobrancelha arqueada dava um toque engraçado a cena. Ainda me controlando no choro, comecei a rir. Pedi que ele desse a partida e contei tudo para ele no caminho para o aeroporto. Felizmente, mesmo que tivesse pensado ser impossível dar tempo, eu cheguei a tempo de pegar o voo com Louis ainda, que ficou extremamente surpreso de me ver sentar ao seu lado quando ele já estava dentro do avião.
– Tá tudo bem?
Fiz que sim, abri meu melhor sorriso e afivelei o cinto para a decolagem.


Time to wipe your soul clean.

Eu senti que estava sendo observada, mas preferi não falar nada. Continuei encarando o papel, como se aquilo fosse resolver o problema.
– No que você pensa tanto? – Louis perguntou.
– Nas cenas que você pediu com os atores, as ideias que você me passou... Só vai dar pra ficar bom se a gente começar a filmar mais ou menos uma hora antes do sol nascer, por causa da iluminação. E torcer pro dia estar nublado.
– Eu sei que não é sobre isso e você sabe que eu sei.
Olhei para Louis, forçando uma cara de deboche.
– Tem uma outra cena também que me incomodou.
– Lá vamos nós com a senhorita não-sei-fugir-do-assunto. – Louis ironizou e chegou sua cadeira para mais perto de mim. – Qual delas?
– A cena da Miki descendo a escada para, supostamente, entrar na área do show. Não parece que faz parte do mesmo cenário.
– Mas faz parte! Do que você tá falando?
– A iluminação. Tudo tem vermelho e ela está justamente numa parte que não tem nada de vermelho. – Mexi no celular, selecionei o arquivo específico e entreguei a ele. – Pode dar play.
Louis viu o vídeo três vezes e me devolveu o aparelho.
– Ah, , não precisa ficar tão perfeito. Faz parte do lugar, a iluminação foi o de menos.
– Eu gostaria de filmar de novo, se possível. – Disse e fechei meu sketchbook. – Se bem que... Não, deixa quieto. Vamos deixar como está mesmo.
– Agora eu tenho certeza de que tem algo errado. Você nunca volta atrás, ainda mais quando se trata dos seus detalhes.
Louis me acompanhou com os olhos quando eu levantei e deixei o sketchbook em cima da mesa onde o ombrelone estava apoiado.
– Eu não gosto dela.
– Da Miki? – Louis perguntou.
– Também. – Eu ri. – Ela não é...
– Natural.
– Isso.
– Bem, – Ele deu de ombros e se levantou da espreguiçadeira também. – você sabe que eu nunca quis um aspecto muito profissional nos meus vídeos de qualquer jeito.
– Quer falar sobre o que você pediu pra Walls?
– Ah, combina com a música, vai.
– Se não quer um aspecto profissional, por que me chamou então pra fazer o vídeo?
– Porque você é minha melhor amiga e sabe ser uma ótima profissional até quando o objetivo é não ser profissional.
Louis entrou na jacuzzi, me deixando sozinha. Eu olhei para o sketchbook mais uma vez, incerta sobre deixá-lo lá. Tinha a sensação de que devia estar trabalhando, mas a mente estava tão bagunçada que eu nem conseguia entender. Talvez fosse justamente a cobrança que eu estava fazendo em cima de mim mesma – não só a respeito do vídeo de Kill My Mind que estávamos produzindo, mas também a respeito da situação em Londres. Eu precisava de uma folga de mim mesma.
Escolhi não entrar de vez na água. Sentei na beira da jacuzzi externa da varanda do meu quarto no Dingle Skellig Hotel e deixei que o sol começasse a esquentar minhas costas.
– Ele não te merece e você sabe disso.
– Dougie?
Louis apenas assentiu. Eu olhei para a vista esplendorosa que tínhamos do mar dali e observei atentamente, sem propósito algum, um barco pequeno que passava na área.
– Vamos alugar um barco. – Anunciei. – Você sabe pilotar um?
– Sei pagar alguém pra pilotar um muito bem. – Louis riu.
– Estou falando sério, Lou.
Eu olhei para ele, seus olhos estreitos tentando olhar para mim por conta da claridade do sol.
– Se nós não fossemos amigos, eu mostrava pra ele como você devia ser tratada.
– Como assim?!
– Eu ia te pegar pela cintura, – Louis disse, levantou e fez exatamente o que tinha falado, me puxando para bem perto dele. – te dar um beijão cinematográfico e tratar você como a princesa que você é.
Eu apoiei minhas mãos nos ombros dele e comecei a rir.
– Você é impossível.
– Por que eu não te conheci antes de você se apaixonar por ele, hein?
– Eu nem sabia da existência de Doncaster até conhecer você, meu amor.
– Você tava perdendo o melhor que o Reino Unido tinha a te oferecer.
– O que o Reino Unido tem de melhor pra me oferecer eu já conheço.
– E quem é?
– Não é ‘quem’, é ‘o quê’. – Respondi, me desvencilhei dele e sentei no outro extremo da jacuzzi. – The Body Shop.
– Lá vem você com esses papinhos de mulherzinha.
– Claro! Você já viu o efeito do condicionador de leite de baobá deles?
– Então o The Body Shop é o segredo da sua beleza. – Louis concluiu.
– Quase isso. – Eu ri. – Mas um mágico nunca revela todos os seus truques.
– Meu Deus, estamos falando de xampu e condicionador.
– Não é só xampu e condicionador. – Falei, alcancei meu óculos escuro e, dobrando uma toalha para usar como travesseiro, deitei a cabeça na borda da jacuzzi.
– Você é um moleque quando quer mas, quando decide ser menininha, ninguém te para.
Eu não respondi nada e Louis riu sozinho. Eventualmente, ele fez a mesma coisa que eu. Como estava cansada, fisicamente por ter acordado cedo para trabalhar e mentalmente por não conseguir tirar a maldita preocupação com Dougie da cabeça, acabei cochilando.
Acordei sozinha na jacuzzi, mas Louis havia armado uma mesa do lado de fora e havia uma embalagem de pizza em cima dela. O sol estava se pondo e, assim que eu voltei a ter consciência descentemente, minha barriga roncou. Eu ri daquilo e ajeitei a toalha antes de me levantar, prevendo que a temperatura baixa do lado de fora me faria sentir bastante frio. Entrei, botei um conjunto de moletom reforçado e voltei para o lado e fora para eu e Louis comermos pizza enquanto tomávamos um bom vinho e falávamos besteiras aleatórias.
No dia seguinte, fui acordada por batidas na porta. Olhei para a porta da varanda e, ao ver que estava escuro ainda do lado de fora, estranhei. Achei que tinha sido coisa da minha cabeça, então só me remexi na cama e virei para o outro lado. De repente, outra batida. Levantei, me enrolei no roupão do hotel e destravei a primeira tranca da porta, abrindo parcialmente. Louis estava com um sorriso travesso no rosto, uma mochila pendurada nas costas e uma sacola de plástico decorada nas mãos.
– Não me pergunta como eu consegui, – Ele disse. – só veste que eu to te esperando aqui fora.
O biquini era preto liso com mil detalhes. A calcinha era de cós alto, com as laterais vazadas. A parte de cima tinha detalhes em faixas cruzadas que iam quase até a altura do cós da calcinha. Acompanhando o conjunto, uma saída de praia longa de mangas cumpridas, toda em um tule bordado em branco bem leve. Tomei um banho rápido, vesti o presente, separei algumas coisas essenciais em uma bolsa pequena e saí. Nós deixamos o hotel rumo à marina em frente ao aquário da cidade. Entramos em uma lancha de porte médio, só eu, Louis e um marinheiro, e deixamos a costa, indo ao encontro do nascer do sol.
– Você não precisava ter feito isso. – Resmunguei quando senti a sombra de Louis sobre mim enquanto tentava pegar um pouco de sol na proa da lancha.
Ele sentou ao meu lado e, quando espiei por baixo da aba do chapéu, outro presente dele, Louis estava me oferecendo uma maçã, o que eu aceitei de bom grado.
– Bem, você aceitou transformar o que era pra ser a gravação de um clipe na gravação de um curta metragem.
– Eu sou roteirista, é o que eu faço.
– Sem planejamento?
– Pense assim... – Sugeri, dando uma segunda mordida na maçã. – Foi providência divina. Eu queria passar um tempo longe, você precisava que eu estivesse longe...
– Mesmo assim, não foi planejado. Eu sei do quanto você gosta de ter tudo estritamente milimetrado nesse seu bloquinho de notas...
Sketchbook! – Eu o corrigi e Louis riu.
– Que seja. Veja esse passeio como uma forma de agradecer pelo que você fez, ajudar você a tirar as preocupações da sua cabeça e te descansar pro que vem a seguir.
Eu bufei, mordi mais uma vez a maçã e deitei a cabeça novamente.
– Eu vou fazer o casting da próxima vez.
– A próxima vez tá bem próxima, to aguardando só a sua disponibilidade pra repassar as informações pra equipe.
– Eu pensei num cenário.
– Hm... – Ele mordeu a própria maçã e respondeu de boca cheia mesmo. – Fale mais.
– Marrocos. A parede erguida no meio do deserto. Ia ficar foda.
– Marrocos?! Surgiu do nada a ideia?
– Vi uma foto no Instagram ontem à noite, depois que você saiu. Aí bateu a ideia, pesquisei e cheguei a essa conclusão.
– Vai querer fazer o casting ou posso repassar a tarefa?
– O Benchegra faz um ótimo casting, gosto dele. E o Lightening é um ótimo diretor também, você podia falar com ele.
– Vou fazer isso quando voltarmos ao continente. O que acha de um jantar, nós três?
– Nós quatro, você quer dizer. – Eu corrigi. – Porque ele não vai a lugar nenhum sem o irmão. E quando eu digo ‘lugar nenhum’, entenda ‘projeto nenhum’.
– Você acha o Daniel um bom diretor de fotografia?
– Acho sim. – Resmunguei, sabendo que não teria convencido Louis. – Aquela cena da dança que você comentou... Pensei em você todo de terno preto. Você fica um tesão de preto.
– A roteirista agora quer escolher até a minha roupa.
– É meu trabalho, senhor Tomlinson.
Ele riu de mim e puxou meu chapéu.
– Estamos chegando.
A Great Blasket Island não era muito afastada do continente, mas estávamos em um ponto particularmente isolado. O marinheiro aproximou a lancha lentamente da areia da praia. Eu não estava exatamente em minha habitual conjuntura, precisava limpar a mente. Tirei a saída de praia, deixando-a escorrer para o chão da proa e, da borda, saltei para o mar.
A água estava extremamente gelada, mas era estranho como, com o corpo submerso, eu me sentia menos pressionada a estar bem. Em vez de subir logo para a superfície, eu me segurei ali embaixo mais alguns segundos. Se pudesse, teria respirado fundo, isso me ajudaria a desintoxicar a alma. De repente, ouvi o barulho de alguma coisa grande caindo na água. Louis me fez emergir de propósito.
– Meu Deus, , você ficou louca?
Eu ri para sua cara de preocupado e o puxei para um abraço. Louis ficou sem entender nada. O marinheiro, menos ainda. Ele ainda jogou uma boia, mas eu dispensei com um aceno de cabeça e, soltando o abraço de Louis, comecei a remar em direção à praia.
Nós chegamos à terra firme completamente isolados. A temperatura estava agradável, em torno dos 75ºF. Para aquela localização, era até quente. A água, no entanto, estava bem gelada, e o vento que nos atingiu ao chegarmos na praia fez o frio me envolver com tudo. Eu sentei na areia e deixei o sol fazer o trabalho dele enquanto a sensação térmica melhorava. O marinheiro ficou no barco para tomar conta enquanto eu e Louis explorávamos o entorno da praia onde tínhamos ancorado.
– O que são aquelas ruínas ali? – Perguntei a Louis enquanto subíamos uma trilha por entre a vegetação rasteira.
– Bem... Acho que eu devia ter contratado um guia turístico também.
Eu olhei para trás a tempo de vê-lo rir e segui meu caminho.
– Aqui seria um ótimo cenário pra um clipe.
– Pra qual das minhas músicas você sugere?
Dei uma boa observada em todo o arredor.
– Não pensei em uma das suas pra cá.
– McFLY? – Ele questionou e eu apenas assenti. – Isso era pra você tirar o Dougie da cabeça.
– Ah, isso não se trata do Dougie. É que você ainda não ouviu as músicas, estão realmente muito boas. Você não tem noção do que vem por aí.
– Só o suspense que você tá fazendo já é o suficiente pra eu saber que posso esperar por algo surpreendente. Mas que segurar a fofoca do ano é complicado...
– Contei pra você porque confio em você, Lou. Bico fechado.
Eu parei de subir ao chegar na primeira ruína. Passei a mão pelos poucos blocos que ainda estavam em pé e, ao lado deles, fiquei encarando o mar em silêncio por longos segundos. Aí sim eu pude respirar fundo, sentir a boa energia do lugar e sorrir para valer pela primeira vez em um bom tempo.
– Se não demorarmos aqui, o Tommy disse que tem um bom lugar pra ver baleias e golfinhos. Você quer ir?
– Quero fazer tudo! – Disse, sorrindo, para Louis.


This is agony and you know you're putting me through.

Louis levantou o celular e tirou uma foto da fatia de pizza junto com a taça de vinho.
– Pelo amor de Deus, não poste isso.
– Por quê?
– Não quero que ninguém saiba que estou de volta a Londres.
– Ok então. – Louis, arregalando os olhos, guardou o celular de volta no bolso. – Tá virando um hábito pizza e vinho.
– Não é um hábito ruim. – Disse e me sentei ao lado dele na bancada.
– Massa e vinho não é um hábito ruim?
– Minha família é italiana, Louis, olha lá o que você vai falar depois disso.
Ele apenas riu e tomou um gole do vinho, que eu tinha como presente da última visita do meu pai a Londres. Aproveitei a deixa e tomei um pouco também. Ficamos em um silêncio sepulcral por mais alguns instantes.
– Você não tá bebendo demais, ?
– Eu estou bem.
– Tem certeza, né?
– Tenho, Lou, fica tranquilo. – Respondi e peguei a fatia com as mãos mesmo, arrancando um pedaço logo depois.
– Por que você não quer que saibam que você tá de volta?
– Pra virem aqui me tirarem a paz? – Resmunguei e tomei mais vinho, escolhendo uma quantidade maior daquela vez. – Não, obrigada.
– Você tá ficando muito antissocial, senhorita Bongiovi.
– E desde quando você se importa, senhor Tomlinson? – Eu imitei sua pose. – Não esqueça que quem pediu uma noite de filmes foi você.
– Sabe o que dizem quando alguém chama o amigo pra ir ver “filmes”, não sabe? – Ele brincou, fazendo as aspas no ar com os dedos.
– Sim, sei. Ver filmes. E hoje teremos dois filmes policiais espanhóis.
– Filme legendado, ? Puta que pariu... Desde quando você quer pagar de intelectual?
– E desde quando você é tão crítico? – Peguei a garrafa de vinho e a minha taça. – Nem sei por qual razão paramos aqui. Deveríamos ter ido logo pra sala.
– Pra gente não manchar aquele seu tapete maravilhoso, como você sempre fala.
– Se eu manchar, você me dá outro. Vamos? – Apontei com a cabeça para a sala de estar.
Enquanto Louis levava as pizzas que havíamos pedido e os nossos respectivos pratos, eu cuidei das bebidas. Liguei a televisão e abri o aplicativo da Netflix. Sobre os protestos de Louis, selecionei o filme O Guardião Invisível e coloquei para tocar. Não devia ter nem cinco minutos depois que sentamos no chão e começamos a ver o filme, o meu telefone tocou. Estranhei de imediato quando olhei para o identificador de chamadas.
– Harry?
– Oi, . Podemos conversar?
– Claro, fala.
– Pessoalmente...
– Hm... – Eu fiz sinal rapidamente para que Louis não fizesse nenhum som. – Olha, eu to sem data fixa pra voltar, então...
, eu to vendo a luz do seu apartamento ligada daqui de baixo.
Puta que pariu. Tentei pensar em uma desculpa rápida, mas Harry não se convenceria. Merda.
– Eu to com visita, Harry.
– É assunto sério.
Bufei. Harry nunca insistia, pelo contrário. Ele era o perfeito tipo ‘não quero incomodar a nenhum custo’. Sempre educado ao extremo, não havia defeitos em Harry. Então era normal de se pensar que ele não estaria insistindo se não houvesse real urgência no assunto.
– Ok, pode subir.
Louis olhou para mim, desconfiado. Pegou sua taça e finalizou o que ainda estava dentro dela, levantando-se em seguida.
– Nem precisa falar nada.
– Lou...
– Eu escutei o nome ‘Harry’ e, – Ele me interrompeu. – a julgar pela sua cara, o assunto começa com ‘dou’ e termina com ‘gie’.
– Não contei pra ninguém que tinha voltado por causa da chance de acontecer isso.
– Eu sei, meu amor, mas tá tudo bem. – Louis pegou a mochila pequena dele no sofá e pendurou nas costas, me dando um beijo na testa em seguida. – Podemos adiar pra amanhã, na minha casa. Lá, é mais difícil de te encontrarem. O que acha?
– Pode ser.
– Eu vou indo então.
– Leva um pouco de pizza, Lou!
– Ah, deixa aí. Eu pego algo no caminho. Você que tava insistindo em pizza mesmo... – Ele deu de ombros e foi para a porta do apartamento, abrindo-a bem na hora em que Harry chegou. – Fala aí, Judd! Tudo bem?
– Tudo certo, Tomlinson, e com você?
– As coisas vão bem, obrigado. E as crianças?
– Estão ótimas! Muito espertas. Vi fotos do seu, ele tá a sua cara.
– Eu espero que não fique assim quando for mais velho. – Louis apontou para o próprio rosto, brincando, e deu dois tapas no ombro de Harry. – Bom te ver, cara.
– Igualmente. – Harry respondeu.
– Lou, me manda uma mensagem dando notícias quando chegar em casa.
– Pode deixar! – Ele gritou, já no hall do elevador.
Eu me voltei para o vinho. Desistindo da taça, peguei a garrafa mesmo e bebi um bom tanto direto do gargalho. Harry se aproximava, eu podia ouvir os passos, mas não procurei fazer contato visual.
– Posso perguntar o motivo da tentativa de mentira?
– Não queria ser perturbada, como você deve imaginar.
Nós ficamos em silêncio. O filme continuava passando e eu não havia percebido. Como eu e Louis ainda estávamos marcados de assistirmos juntos, busquei o controle lentamente e pausei a transmissão.
– Danny me disse que você não ficou muito bem depois que foi conversar com o Dougie, antes de ir pra Irlanda.
– Danny é um fofoqueiro sem sentido.
– Ele pediu que eu viesse, pra te falar a verdade. – Harry esticou os braços no encosto do sofá. – Ele também pediu pra eu não dizer que ele pediu que eu viesse, mas...
– Vá direto ao ponto.
– Estamos preocupados com o Dougie, é claro. A situação toda não parece boa, justamente porque parece ter potencial pra gerar o mesmo resultado de 2011. Mas também estamos preocupados com você.
– Não há razão pra se preocuparem comigo.
– Da última vez que não nos preocupamos, você praticamente sumiu das nossas vidas por anos.
– O contexto não envolvia apenas o Dougie.
– Mas o envolvia também!
– Harry, o que você quer de mim? – Finalmente olhei para ele. – Disse ao Dougie o que precisava dizer. Se ele não levar a sério nada do que eu disse, ele não merece a sua preocupação, muito menos a minha. Eu fiz a minha parte. Agora é esperar que aquele desmiolado faça a parte dele também.
– Você ainda gosta dele.
– Não, não gosto.
– Você mentiu melhor quando tentou dizer que não estava em Londres, e olha que foi uma mentira horrível.
Peguei a garrafa, dei mais três goles. A onda bateu na mesma hora, mas eu não estava ligando muito. Levantei do chão, deixando a garrafa na mesa de centro, junto da pizza que eu deveria estar comendo. Com Louis.
– Primeiro, ele tem outra e eu jamais ousaria entrar entre Dougie e uma mulher novamente na minha vida porque eu me amo e eu me respeito. – Olhei para Harry finalmente. – Segundo, eu vim até Londres para ajudar a banda com o retorno, e é estritamente isso o que vou fazer porque foi isso que Danny me pediu. Terceiro, se o Dougie não se importa, não adianta de nada eu me preocupar.
– Mas adiantaria se você ainda tivesse uma chance com ele?
– Eu nunca vou ter uma chance com ele de novo, Harry! Bongiovi e Dougie Poynter são um casal que nunca deveria ter acontecido e que não vai acontecer de novo.
– Você fala com tanta certeza que parece que quer se convencer disso, como se não fosse verdade.
– E se for? Qual o problema nisso? – Eu gritei, percebi que estava no ponto de começar a chorar. – Olha, Harry, eu sei que você provavelmente veio com a melhor das intenções, mas eu coloquei um ponto final nisso há quase uma década, e eu preciso que esse ponto final fique por lá.
– Não é justo, .
– Com quem não é justo? Com o Dougie?!
– Não. Comigo, com seu irmão, com seu sobrinho, com sua cunhada, com a Izzy, com meus filhos...
– Eles não têm nada a ver com isso.
– Mas você tá na vida deles, . – Harry se sentou melhor. – Você entrou na vida deles. Eles sentem saudade de você, eles pedem para ver você, eles esperam ansiosamente pelo dia em que você vai aparecer de novo. Você não pode fazer isso com a gente.
– E o Dougie podia fazer aquilo comigo?
– Ele te ama, !
– Se me amasse, por que não foi atrás de mim, Harry?
– Demoramos meses pra descobrir onde você tava. – Ele argumentou.
– Era o suficiente. Dougie tinha dinheiro, poderia muito bem pegar um avião e ir para lá. Que eu negasse vê-lo. Se ele quisesse mesmo, ele insistiria até resolver as coisas. Sabe como eu sei? Porque foi assim que eu construí minha carreira, lutando pelo que eu quero.
– Você conhece o Dougie, sabe que a cabeça dele funciona de uma forma atípica.
– Eu me nego terminantemente a viver esse amor platônico de novo.
– Dougie não é mais o mesmo, . Ele amadureceu.
– Não foi o que eu vi quando estive na casa dele.
– Que tanto você viu nada casa dele, ?
Eu parei por um segundo no tempo. Estava irritada, quase tremendo de raiva, mas aquela pergunta mostrou que havia um buraco na história.
– Danny não te contou?
– Me contou o quê?
Respirei fundo, bufei. Larguei meu corpo ao lado de Harry no sofá. Arqueei a coluna para frente e apoiei os cotovelos nos meus joelhos.
– Ele estava bêbado. E drogado. Negou até o último segundo que a bebida era vodca, mas eu provei. E tenho quase certeza de que vi a tal namorada dele guardar um cigarro de maconha na bolsa quando ele pediu que ela fosse embora pra gente conversar.
– Danny não falou nada disso.
– Pois é, bem-vindo à realidade.
– Puta que pariu... – Harry murmurou. – Nós temos que tirar essa garota de perto do Dougie.
Nós? – Eu ri, nervosa. – Espero que esse nós seja você e Danny.
, por favor!
– Não quero me meter nisso, Harry. Eu que peço ‘por favor’.
– Você é a única pessoa que pode intervir a essa altura.
– Por quê eu?
– Porque você é a única coisa que faria o Dougie largar tudo na vida.
– Não faria, Harry. – Sussurrei, triste e abalada.
– Vamos fazer o seguinte. – Ele se aproximou mais de mim. – Eu e Izzy vamos fazer uma festa para o Kit no final de semana, como você sabe. Leve o Louis, eu aviso a Izzy sobre isso. Todo mundo já pensa que vocês dois estão juntos mesmo.
– Quer que eu faça ciúmes nele?
– Parece lógico para mim.
– Não posso usar o Louis pra uma coisa dessas.
– Tenho certeza de que, se eu ligar e explicar a situação, ele aceita de primeira. Se for você a ligar então...
– Harry, eu nunca quis envolver mais gente nisso. Eu nunca nem quis que o Dougie voltasse pra minha vida.
– Você nunca quis que ele voltasse pra sua vida ou você nunca quis precisar tirá-lo momentaneamente dela? – Harry perguntou e se levantou.
Minha mente estava confusa, eu estava sentindo vontade de vomitar. Respirei fundo, puxando o ar pelo nariz e soltando pela boca. Tentei repetir a respiração calmamente por algumas repetições.
– Eu não sei, Harry, eu não sei...
– Pensa sobre o assunto. O convite tá aberto e você sempre vai ser bem-vinda na minha casa, levando ou não companhia. Vou falar com a Izzy e já deixá-la avisada sobre a possibilidade. Acredito que você também gostaria que seu irmão soubesse, mas aí acho também que você é quem deveria dar a notícia para ele sobre seguir essa tática de jogo.
– Nossas vidas não são um jogo, Harry.
– Se fazer delas um jogo é o preço a se pagar pra manter alguém que amamos vivo e bem, eu não me importo. – Ele deu de ombros e se afastou na direção da porta. – Espero que você saiba que eu te amo, , e que nunca diria algo pro seu mal.
Escutei a porta se fechar enquanto encarava a tela desligada do meu celular. Em certa altura, desbloqueei, mas então fiquei encarando a foto do papel de parede: eu e Cooper, deitados no sofá. Abri um sorriso leve enquanto ainda observava a imagem, hesitando em abrir o aplicativo de ligações. Por fim, tomei minha decisão. Escutei os toques e, em um curto espaço de tempo, a pessoa do outro lado atendeu.


Funny feeling happened today, somewhere buried in the past.

– Eu espero que você seja uma boa atriz, porque eu sou um merda em atuar. Acho que você já deve ter concluído isso por conta própria, mas não custa avisar.
– Cala a boca, Louis.
– É, acho que você não concluiu.
– Tia ! – Escutei uma voz abafada gritar através da porta, que logo foi aberta, revelando uma Lola vestida com collant, tutu e meia-calça, que correu na minha direção e me deu um abraço.
– Oi, meu bebê! – Abaixei e peguei Lola no colo, lembrando imediatamente de que ela não era mais tão pequena quanto eu queria que fosse. – Como você tá?
– Eu já comi os docinhos.
– E a mamãe deixou?
– O papai deixou. – Ela deu um risinho de vergonha.
– Entra, . – Izzy me convidou e me puxou para um abraço. – E aí, Louis? Seja bem-vindo e não se importe com a bagunça.
– Não tem problemas. É uma festa de criança, to acostumado.
– Onde tá o aniversariante? – Perguntei.
– Brincando nos fundos junto com alguns coleguinhas da creche, alugamos alguns brinquedos. Louis, os meninos estão lá também, na churrasqueira, se você quiser ir acompanhá-los.
– Claro, vou passar lá pra dar um oi.
Eu abaixei quando Louis se afastou e coloquei Lola no chão, que correu para a sala de brinquedos dos Judd, de onde vinha um som ensurdecedor de crianças gritando. Respirei fundo e me preparei para incorporar a ‘tia ’.
– Harry falou contigo? – Perguntei a Izzy.
– Falou sim, e eu devo acrescentar que concordo com a tática dele.
– Eu espero que vocês estejam certo.
– Inclusive... – Izzy sussurrou. – Ela está aí.
– Dougie trouxe uma drogada pra festa do Kit?
– Se puder pegar leve com o palavreado...
– Ah, sim. Desculpa, vou me policiar.
Nós duas fomos até a cozinha, onde minha cunhada e Giovanna estavam ajudando com alguns preparativos. Fui puxada para abraços apertados e conversas aleatórias. Georgia tinha um sorriso cúmplice no rosto enquanto Giovanna segurava um olhar curioso. Deixei aquela anotação mental reservada e fui para o quintal da casa, a fim de entregar o presente de Kit, que veio correndo na minha direção assim que me viu – ou seria melhor ‘assim que viu o pacote grande que eu carregava’?
– Tia ! – Ele gritou e me abraçou pelo pescoço quando eu abaixei.
– Feliz aniversário, Kit! – Eu disse e apertei um beijo em sua bochecha rosada. – É pra você.
– Posso abrir?
– Claro! – Falei e ele sorriu.
Assisti enquanto ele desembrulhava a caixa sem o menor cuidado. Rasgou o papel de presente todo, mas eu jamais julgaria porque faria igual, mesmo sendo adulta. Quando viu o desenho do conjunto de material para pintura, pulou feliz da vida.
– Papai, papai! – Chamou insistentemente por Harry, que se virou para nós. – Olha!
Ele veio até onde eu estava com Kit e me deu um beijo na testa antes de atender o filho. Fez alguma graça, conduziu o filho a agradecer pelo presente e foi andando comigo até onde ele e os meninos estavam. De longe, eu vi a garota grudada em Dougie como se fosse um carrapato. Harry passou o braço pelos meus ombros e me deu um aperto, parecia querer me lembrar de que jogo nós estaríamos jogando aquela noite.
! – Danny gritou, com Cooper no colo, que logo esticou as mãos para que eu o pegasse. – Nem acredito que eu cheguei antes de você.
– Tava esperando a princesa aqui ficar pronta. – Apontei com os olhos para Louis.
– E aí, ? – Tom deu um beijo desengonçado na minha bochecha enquanto eu dava atenção para Cooper.
– Nem falei com as crianças porque estão tão entretidas... Mas não vi Max.
– Ele tá dormindo lá em cima. Tá com um resfriado, não dormiu bem durante a noite...
– Que merda, hein... – Disse e olhei para Dougie, mas logo voltei minha atenção para Cooper e apertei a bochecha dele, que riu.
– Maddy, você já conhece a minha irmã? – Danny disse, fingido.
– Nós nos vimos outro dia. – Ela respondeu educadamente, o tom de voz baixo, e tentou forçar um sorriso.
– Eu tava falando pra eles sobre aquela mudança no setlist que você sugeriu. – Harry nem deixou o silêncio se instaurar.
– Acho até que não era pra eu estar aqui. – Louis riu. – Assunto confidencial?
– Não, cara, você é família. – Danny brincou e eu quase ri com a frase forçada.
– E não é nada demais também. – Eu falei. – É só um detalhe.
– Mas foi uma boa ideia. The guy who turned her down vai causar impacto.
– O medley vai causar impacto. Até porque as pessoas nem esperam ver Not Alone tão facilmente assim. – Corrigi meu irmão.
– E Tranny vem logo depois? – Tom perguntou e eu afirmei com a cabeça. – Você entra já pro medley ou vai entrar só pra Tranny?
– Só pra Tranny. Era essa a promessa, e eu vou cumprir. – Falei, mas me veio um frio na barriga só de pensar em subir no palco depois de tantos anos fora dele.
– Bem, o anúncio vai ser feito daqui a duas semanas, então temos tempo ainda pra pensar em qualquer coisa antes de começarmos os ensaios.
– Os jornalistas ainda não terem se ligado que vocês andam se encontrando e que a tá de volta é o que mais me impressiona. – Louis comentou.
– Alguns jornalistas já sabem e já assinaram contrato de confidencialidade. Isso ajuda muito. Se a informação vazar antes da hora, o McFLY vai ganhar uma grana preta. E, com McFLY, quero dizer eu também.
– Você sempre foi integrante do McFLY, – Harry falou. – você não é algo à parte.
, pode me ajudar aqui? – Izzy me gritou de dentro da casa.
Devolvi Cooper, hesitante em trocar para o colo do pai. Propositalmente, coloquei minhas mãos nas costas de Louis e olhei para ele como se tentasse fingir uma comunicação não verbal antes de ir para dentro. As meninas estavam precisando de ajuda com a montagem de uma bandeja para a mesa do bolo. Enquanto elas decidiam pontos importantes, eu fui lá, com toda a minha classe de uma mulher crescida de vinte e oito anos, e roubei um docinho. Giovanna bateu na minha mão logo depois. Eu, é claro, ri.
– Você é uma criança incurável, !
– É um aniversário de criança! – Dei de ombros.
– Falando em criança... – Ela olhou para os lados e apoiou os cotovelos na bancada. – Você não disse que não estava tendo nada com Liam, mas com Louis...
– Como assim?
– Ah, , você sabe...
O meu cérebro pausou o tempo para processar. Gi e Tom então não estavam sabendo do suposto plano?!
– Eita... Meu irmão tá me chamando. – Disfarcei muito mal. – Já volto, Gi.
Disparei na direção do quintal e saí puxando Danny e Harry para longe dos meninos sem nenhum fingimento. Os dois ficaram surpresos, arregalaram os olhos e quase me pararam antes de chegarmos à quina do terreno deles.
– Tom não tá sabendo? – Perguntei entredentes.
Os dois se olharam. Meu irmão e Harry estavam muito amiguinhos nos últimos dias, eu deveria ter notado que aquilo não podia resultar em decisões inteligentes.
– Nós achamos melhor manter ele fora dessa jogada. – Meu irmão explicou com o tom de voz baixo.
– E não pensaram em me contar que eles não saberiam?
– Você não contou pra ela? – Harry arqueou uma sobrancelha para Danny.
– Eu achei que você ia contar. – Meu irmão rebateu.
Bati com a palma da mão na testa. Os dois eram mais atrapalhados do que eu poderia dizer.
– Ok... – Fiz uma pausa e respirei fundo. – Sobre qual assunto eu vim conversar com vocês aqui? Disse pra Gi que você tinha me chamado, Danny.
– Deixa eu pensar.
– Vê se pensa em algo certo dessa vez. – Rosnei.
– Já sei! – Harry falou. – Academia.
– Todo mundo sabe que eu não vou pra academia, Harry.
– Justamente. Eu e sei irmão vamos juntos, você queria saber de um personal trainer que atenda lá e nós conseguimos o contato agora.
– Parece uma merda. – Danny riu.
– Ei, garotos! – Izzy nos gritou à distância. – Meus pais vão precisar ir embora, vamos cantar o ‘parabéns’ logo.
Dei uma última olhada para os dois. Danny era cinco anos mais velho que eu, Harry era um ano mais velho que ele, e eu ainda sentia como se fosse minha obrigação tomar conta dos dois a qualquer custo.
Nós nos aproximamos da mesa montada e Louis nos encontrou no caminho. Colocou um dos braços por trás de mim, a mão na minha cintura. Eu ri e dei uma olhada para Georgia, que fingia que não estava notando. No final das contas, Louis era melhor ator que eu. Um pouco depois do ‘parabéns’, Tom e Giovanna foram embora porque Max não estava nem um pouco bem.
Os convidados começaram a ir embora aos poucos, mas nós estávamos determinados a ficar, até porque eu estava curtindo um tempo com meu sobrinho. Em certa altura da tarde, quando o sol já ameaçava querer se esconder, fui até a mesa e roubei dois dos docinhos que sobraram, um para mim e um para Cooper, que ainda estava no meu colo. Georgia se aproximou com passos curtos, segurando uma taça de vinho.
– Você é uma péssima influência pro meu filho. – Ela disse e eu ri.
– Foi ele que me convenceu, eu nem queria docinho. Não é, Cooper?
Ele resmungou algo que não entendi e continuou mastigando como se nada mais pudesse atrapalhá-lo. Georgia bufou e se aproximou mais ainda de mim, mexendo com Cooper antes de parar ao meu lado.
– O pediatra diz que é normal ele ainda não estar falando direito, mas todas as outras crianças falam...
– Você confia no pediatra?
– Confio, claro, ele é ótimo e foi minha irmã quem recomendou.
– Então paciência, Ge. Deixa o tempo tomar a frente do negócio. Cooper já tá bem grandinho.
– Será?
Eu olhei para Dougie, alheia à conversa com minha cunhada. A garota continuava colada nele a todo custo. Se aquele jogo não desse certo, eu ia ter cavado uma cova funda demais para sair de lá. Todos os sentimentos reprimidos por anos estavam batendo à porta, prontos para arrombarem a fechadura que eu tinha criado com muito esforço. Não conseguia definir qual era exatamente a minha vontade naquele momento.
– Você acha que tá dando certo? – Falei, o volume mais baixo.
– O quê?
– O que meu irmão e Harry inventaram.
– Sobre Dougie? – Ela perguntou e tomou mais um gole do vinho enquanto eu assentia. – Tenho certeza de que sim.
– Por que você tem certeza?
– Você pode até não estar vendo, mas ele tá incomodado desde que vocês chegaram. E não pode ver você perto do Louis que quase revira os olhos.
– Então você tá reparando.
– Conheço o Dougie há mais de uma década, né, . Essas coisas são fáceis de notar.
Mesmo com Cooper no colo, puxei a taça da mão de Georgia e terminei o conteúdo de uma vez. Ela fingiu estar surpresa, mas riu e fez sinal de que ia do lado de dentro para pegar mais bebida para nós duas. Pensei duas vezes antes de me aproximar novamente do círculo em que os meninos – e a garota – continuavam. Cooper chegou perto esticando os braços para o pai, e eu entreguei meu sobrinho para Danny. Logo depois, abracei Louis com um braço só. Ele deixou um beijo sobre a minha cabeça enquanto não cortavam a conversa.
– E a Irlanda, Tomlinson? – Harry perguntou a Louis.
– Foi muito boa. Os clipes vão ficar incríveis.
– Os clipes? – Meu irmão ficou confuso. – No plural?
Eu ri com a pergunta.
– Longa história, depois eu conto. Mas as filmagens realmente ficaram muito boas.
– Quando sai o primeiro?
Louis só olhou para mim e retribuiu o abraço que eu estava lhe dando.
– Se ninguém dificultar meu trabalho, dia treze. Já programamos o anúncio, estou esperando me enviarem a versão final pra gente aprovar.
– Vai ficar bom, você que fez. – Louis disse. – Ah, a também falou que uma das músicas que vocês vão lançar combina com um lugar que a gente visitou.
– Vocês querem que o McFLY filme no mesmo lugar onde você filmou, perto um do outro? – Danny brincou.
– Não, não filmamos lá. Eu aluguei um barco pra nós dois, fomos dar uma volta entre as filmagens.
Se fosse planejado, Louis não soaria tão espontâneo. Eu e Harry seguramos a risada, Danny arregalou os olhos, mas eu só vi os olhos de Dougie queimando.
– Eu acho que tenho algumas fotos desse passeio, posso mostrar pra vocês. Ou estão no seu celular, Lou? – Eu me preparei para finalizar com a cereja do bolo. – Como o passeio foi uma surpresa dele pra mim, não pude me preparar e acabei não levando a câmera profissional.


So what's the point in aiming tall when you're guaranteed to fall?

Eu não me sentia leve como naquele dia em anos. Estava dançando livremente, sem noção nenhuma do ridículo – e essa era a melhor parte. Buzz e Buddy me davam as mãos, meu irmão à minha frente, entre eles também. Nós todos formávamos um círculo que não parava de girar em torno do próprio eixo ao som de diversas das músicas do McFLY, algumas que eu tinha ajudado a produzir de alguma forma.
Harry chegou um tempo depois, dando para acrescentar Lola e Kit à nossa brincadeira. Os olhos do meu pai brilhavam ao ver aquela cena. Eu, como fã do McFLY e não como irmã de um dos integrantes – ou ex-sei lá o quê de outro –, estava em puro êxtase. O que eu e Dougie tivemos no passado não tinha nunca me freado quanto a ser fã deles, e ver o McFLY de volta à ativa era algo que me proporcionava um sentimento simplesmente indescritível.
Tive que chamar Louis, é claro, porque ainda éramos parte de uma encenação perfeita. Mas não tinha como negar que, quando Dougie chegou e passou pela porta do enorme camarim sozinho, só faltou eu pular de felicidade. Eu me contive porque, além de ainda precisarmos seguir com o roteiro, eu também estava ali para dar apoio profissional à banda. Então Tom desligou o som e eu soube que era hora de finalizarmos os detalhes para subirmos ao palco. As crianças fizeram caras tristes em protesto ao fim da bagunça.
– Chega, crianças, hora de deixar os adultos trabalharem. – Giovanna chegou para levar Buzz e Buddy pela mão.
– Mas eu quero trabalhar também. – Buddy cruzou os braços na frente do corpo. – Papai, posso trabalhar com você?
– Hoje não, Buddy. Hoje você vai ver o papai tocar com a mamãe e o Buzz. Amanhã você pode trabalhar comigo, pode ser?
Ele fechou a cara e foi andando junto de Giovanna e do irmão. Izzy também levou Lola e Kit, menos resistentes. Louis saiu após um simples olhar, desejando boa sorte a todos nós. Meu pai fez menção de sair também, mas queríamos que ele continuasse ali. Afinal de contas, conselhos de um homem que estava fazendo aquilo por mais que o dobro de tempo que nós jamais seriam dispensáveis.
– Ok, quanto tempo temos? – Harry perguntou.
– Vinte e três minutos. – Eu respondi depois de olhar no relógio. – Alguém tem alguma coisa para dizer que precise ser conversada antes de vocês subirem ao palco?
– Acho que os ajustes que precisavam ser feitos estão em ordem.
– Dougie, você tem alguma observação a fazer? – Tom questionou.
Ele olhou para mim antes de responder.
– Da minha parte, tá tudo certo. ?
– Eu entro só pra uma música, não tem o que não estar certo. – Respondi com a cabeça erguida. – Pai, quer fazer alguma observação?
– Vocês já estão bem grandinhos, as asas já estão grandes o suficiente para voarem sem meu apoio.
– Não é sobre apoio, pai. Queremos sua opinião porque ela é importante para nós. – Meu irmão insistiu.
Meu pai suspirou e deu dois passos para a frente, para ficar mais perto de nós.
– Poupem as vozes. Você especialmente, Danny. – Ele apontou para o meu irmão. – Você tem uma high note de grande duração logo na primeira música e, por mais que você estivesse em turnê solo antes disso, suas músicas não têm a mesma exigência vocal que as músicas da banda tem. Vocês estavam sem tocar juntos há anos. Não vai ser a mesma coisa, não se entreguem demais pra energia não acabar antes da hora. No mais, confiem em vocês mesmos. Apesar do longo tempo de pausa, vocês ainda sabem fazer isso, e fazem bem..
Ele deu dois tapinhas simultâneos no meu ombro e no ombro de Danny. Nós seis nos entreolhamos por fim e ficou óbvio quando estávamos todos convencidos. Apesar dos anos enferrujados, nós ainda tínhamos conexão.
– Ok, vinte minutos agora. Acho melhor aproveitarmos pra seguir pro aquecimento.
– Boa noite, meninos, desculpem-me pelo atraso.
Revirei os olhos só de ouvir aquela voz. Toda a felicidade do momento se dissipou com a chegada da pessoa que eu menos queria ver, e olha que os candidatos da concorrência eram fortes.
– E aí, Fletch? – Tom o cumprimentou com um meio abraço.
Ele olhou para mim e o sorriso murchou. Por minha vez, mantive um sorriso debochado no rosto. Fletch não ousaria me olhar atravessado, ainda mais com meu pai exatamente ao meu lado.
– E então? Quais são os planos? O que eu preciso saber?
– Você não precisa saber de nada, Fletch. – Meu irmão piscou um olho para ele. – A tem tudo sob o controle dela.
Fletch engoliu em seco. Eu abri mais ainda o sorriso e, conforme meu irmão ia caminhando na direção da saída, eu o segui, com meu pai vindo logo atrás. Fomos até a sala com os instrumentos e Danny começou a se preparar enquanto Harry separava as baquetas principais e reservas para levar consigo.
– Então a briga persiste?
– Eu nunca vou ir com a cara dele, Judd, entenda isso. – Peguei a caixa de palhetas e entreguei a Danny, que separou as suas. – Já disse a vocês que todas as decisões nessa banda pesam muito pro lado do Tom e vocês não acreditam. Fletch continuar com vocês é uma dessas decisões. Vocês se viram muito bem sem ele.
– Nós estamos nos virando muito bem sem ele porque você tá aqui. A quem vamos recorrer se não for a ele quando você for embora?
Eu suspirei. Ia responder, mas Dougie entrou na sala e eu achei melhor dar o assunto por selado, nem que fosse momentaneamente. Assisti em silêncio enquanto eles faziam os últimos preparativos. De lá, já dava para ouvir a multidão excitada do lado de fora. Isso, consequentemente, dava o frio na barriga pré-show, do qual eu me lembrava vagamente, e a lembrança era tão boa quanto a sensação que estávamos sentindo naquele momento.
Cada passo dado em direção à porta que levava ao palco fazia com que a pressão subisse mais. As ordens finais foram dadas, as últimas decisões foram tomadas. Depois de quase meia década, o McFLY estava pronto para subir no palco de novo. E eu, como fã, mal podia esperar para ver aquilo.
– Boa sorte. – Disse a todos mas dei um beijo na bochecha especial em Danny. – Vai ser incrível, como sempre foi. Vejo vocês em quinze músicas.
Todos os quatro sorriram para mim. O sinal foi dado e Harry assumiu sua posição, sendo seguido por Dougie e Tom. Segundos depois, as primeiras notas de Red soaram. Senti o característico arrepio e, quando Danny olhou para mim antes do instante planejado para que ele entrasse no palco, sorriu mais uma vez. Dei um tapinha na sua bunda, empurrando-o para lá.
– O show mal começou e seus olhos já estão brilhando. – Meu pai disse, ao meu lado.
– É o acúmulo de anos sem ver o McFLY ao vivo.– Dei uma desculpa esfarrapada. – O senhor pode seguir pro camarote, pai, não precisa ficar por aqui. Tá tudo em ordem.
– Tem certeza?
– Absoluta.
– Bem, então eu vou aproveitar o show dos meus filhos lá de cima. Você me avisa por mensagem se precisar que eu volte.
Assenti e ele deixou um beijo na minha testa. Cruzei os braços e fiquei observando, encostada à um dos pilares da estrutura do palco, sorrindo igual boba porque estava verdadeiramente feliz pela primeira vez em muito tempo. Peguei o celular, gravei um vídeo curto e postei no stories do Instagram. Queria mesmo era postar no céu, para que todo ser vivente pudesse presenciar o que eu chamava de paraíso.
Estava aproveitando as músicas para aquecer minha voz. Afinal de contas, fazia quase meia década desde que o McFLY pisara em um palco pela última vez. Eu já estava fora deles por quase dez anos completos. Quando We Were Only Kids começou, eu fiquei extremamente nervosa, não sabia se era pelo fato de a música ter muito significado para mim ou se era porque eu sabia que, depois dela, havia apenas o medley de cinco minutos me separando de dar o primeiro passo.
Conforme a música acabou, Dougie e Harry saíram do palco rapidamente enquanto Danny e Tom assumiu a posição central na ponte que estendia o palco para o meio do público com seus violões. Eu repetia na minha cabeça “vai dar tudo certo” como um mantra. O meu coração disparou enquanto Harry me ajudava a colocar o fone de retorno e prender o aparelho no cós da minha calça. Confirmei que os cadarços estavam bem amarrados, chequei pela câmera frontal do celular que a maquiagem e o penteado estavam no lugar. Então Not Alone terminou e eu prendi a respiração. Era a minha vez.
Dougie e Harry voltaram ao palco. Danny e Tom saíram da ponte e foram para a parte principal do palco também. As luzes se acenderam e Danny fez uma breve brincadeira com o público de novo. Então a escuridão no palco voltou e eu caminhei para o centro dele. Vi de relance quando o pedestal com meu microfone foi colocado entre Danny e Dougie, o do meu irmão sendo afastado um pouco para mais perto de Tom. Ainda no escuro, as primeiras notas foram tocadas no teclado, que imitava perfeitamente um órgão. Então a luz acendeu sobre mim e eu comecei a cantar as primeiras frases da música.
A sensação não havia se perdido. Era incrível ouvir milhares de vozes gritando de felicidade e saber que você era o motivo daquela euforia toda. E aquilo foi o remédio que eu não sabia que precisava para toda aflição que eu estava secretamente vivendo nas últimas semanas, desde que havia voltado para Londres.
No refrão, eu tirei o microfone de seu suporte, no pedestal, e pulei feliz da vida com meu irmão e Tom. Nem eu sabia que tinha tanto fôlego ainda dentro de mim. Também não sabia se meus joelhos ainda aguentavam toda aquela pressão de repente, já que eu havia adotado um estilo de vida sedentário por anos, mas não estava nem um pouco preocupada.
Danny, então, me puxou para perto dele e de seu pedestal para o pós-refrão. O brilho que estava nos meus olhos refletia nos dele. O sorriso estava tão aberto que os lábios poderiam começar a doer a qualquer momento de tão estendidos que estavam.
Who is your lover? – Dougie e Tom perguntaram.
I couldn’t tell. – Eu e meu irmão respondemos, cantando alegremente no mesmo microfone.
When hell freezes over?
That’s when I’ll tell. – Danny cantou comigo e começamos a rir logo depois.
Era melhor que aquele limbo entre sobriedade e embriaguez, quando a pessoa que está bebendo fica rindo de qualquer coisa. Toda a energia era maravilhosa, revigorante. Até mesmo quando eu olhei para Dougie, não havia mágoa ou ressentimento. Havia o McFLY, havia o palco, havia o público e havia Transylvania. O efeito que aquela música tinha em mim era indescritível – transcendental, na falta de uma palavra melhor. Eu queria reviver aquele momento a cada segundo por toda a minha vida.
O solo de guitarra chegou e nós quatro estávamos ali na frente dançando animados como fazíamos dez anos antes, como se ninguém estivesse nos observando. Harry, de cima, sorria para a cena, e dava para ver em seu sorriso o quanto ele queria estar ali embaixo também. No pós-refrão depois do solo, era esperado que, conforme a música ficasse mais calma, eu e Dougie nos aproximássemos para cantar nossas partes como sempre fizemos. Afinal de contas, ninguém sabia qual era o real escândalo por trás da minha ida para a América.
Quando levantei os olhos até os dele, o meu coração palpitou. Eu podia tentar mentir para mim mesma, inventar desculpas diversas, mas Dougie ainda era o primeiro homem que tinha feito eu me sentir especial, e talvez fosse o único. Ele tinha sido um babaca, sim, mas eu não conseguia odiar Dougie o tanto que queria odiar. A pose de durona escondia um coração que, desde o primeiro momento, foi derretido por ele.
Eu me permiti abrir um sorriso pequeno enquanto ele me observava, cantando comigo, e Dougie retribuiu. Minhas bochechas queimaram e eu agradeci por ter uma boa camada de maquiagem de qualidade cobrindo minha pele. Nossa parte mais íntima terminou e eu me afastei antes que ficasse estranho. Coloquei meu microfone de volta no suporte do pedestal e segurei a barra de cima, como se aquilo fosse me preparar para a parte mais emocionante da música.
Cantar sozinha a parte de Dougie e Tom tinha um efeito especial sobre mim. Era para ser, de longe, a melhor parte da música. Mas então eu bati o olho na plateia, em específico na garota prostrada à frente do pedestal de Dougie, separada do público geral por uma grade. Ele estava com os olhos em mim, mas ela estava fixa nele. Ela estava lá, e foi suficiente para me tirar toda a felicidade dos últimos minutos. Tudo o que eu imaginei nos últimos dias, todas os pensamentos ruins que me rondavam sempre que eu lembrava daquele projeto de casal estavam de volta e estavam estragando tudo.
Eu terminei a música profissionalmente, mas só uma pessoa muito ingênua deixaria de notar a mudança. Danny mudou o tom de voz, Tom tentou seguir sem mudança, Dougie não tirava o olho de mim. Quando eu cantei a última palavra da música, as luzes se apagaram e eu disparei para fora do palco, pegando imediatamente o celular que havia ficado ali por perto e indo para fora da arena. Aquela brincadeira havia ido longe demais e o preço estava saindo muito caro para mim.


Push until it's over then turn over and do it again.

Ao final de The heart never lies, os quatro se juntaram ao centro do palco e curvaram-se perante a plateia enquanto dividiam um abraço geral. Havia muito mais tensão naquela reverência ao público do que qualquer um ali presente podia imaginar, com exceção das esposas dos três casados, que já haviam entendido muito bem tudo o que havia acontecido mais cedo naquele mesmo palco, onde eles estavam distribuindo sorrisos falsos para esconder a inquietação dentro deles próprios. Até Tom, que era o menos conectado dos amigos, estava nervoso.
Então as luzes se apagaram de vez e Dougie correu como se a vida dele dependesse disso. Harry, no entanto, tinha não só dois anos a mais de vida, mas também muito mais sabedoria que Dougie, ainda mais quando se tratava de relacionamentos. Ele sabia que havia sido parte do que resultara naquele momento de desespero, que havia feito aquilo ao insistir para que se envolvesse mais ainda. Sentindo-se culpado, Harry sabia que uma ação tinha que partir dele urgentemente.
– O que você vai fazer? – Harry praticamente gritou ao entrar no camarim que a banda dividia e ver Dougie jogando suas coisas de qualquer forma na grande mochila que havia levado.
– Eu vou atrás dela. – Dougie respondeu, decidido. – Eu preciso ir atrás dela.
– Agora que a merda tá feita? Vai fazer o quê, Dougie?! Implorar por perdão? Porque eu acho que você não mereceria nem se listasse todas as merdas que você fez desde que ela voltou a Londres, e olha que elas seriam apenas uma minúscula parcela.
– Você tá do meu lado ou do lado dela?
– Do lado dela, é claro! – Harry ralhou, mas mal sabia Dougie que aquele discurso estava pronto desde que a ideia de enciumá-lo propositalmente surgiu. – Quem tá agindo como um babaca aqui é você. Não só com ela, mas com a garota que você trouxe pra conviver com a gente também. Conviver com os meus filhos, Dougie! Antes, éramos só nós e foda-se, mas temos filhos agora, e você os meteu nessa brincadeira que você anda fazendo com a própria vida quando trouxe aquela garota pra perto.
– Foda-se, Harry, eu preciso falar com a .
– Você não vai a lugar nenhum enquanto não me escutar. – O baterista se colocou entre o colega e a saída do camarim. – Se quiser sair daqui sem passar por mim, vai ter que passar pelo irmão dela. Ou pior, pelo pai dela, que viu tudo literalmente do camarote, caso você não se lembre dos detalhes. Se eu to disposto a defender a com a minha vida, imagina como eles estarão sabendo que você, mais uma vez, magoou a menininha deles. Então você vai lá encarar o Danny e o John como o covarde que é ou senta aí e tenta ser homem pelo menos uma vez na vida. E você vai ter que passar por um de nós, já que a não te deu o endereço do apartamento onde ela está ficando. Palpite de sorte, Dougie... Nem o pai nem o irmão dela vão querer que você vá visitá-la a essa altura.
Os ombros de Dougie caíram. Enquanto Harry bufava como um touro, ele tinha sua cabeça envolta na maior das confusões que já vivera – e não eram poucas. Começava a sentir um ataque de pânico iniciando. Sentia a necessidade de ao menos dois goles de qualquer bebida alcoólica para se tranquilizar. Sentia tudo, menos que estava no controle de sua própria vida.
– Harry, por favor... – Ele suplicou ao amigo, em uma última tentativa de fazê-lo ceder. – Eu preciso... Preciso...
– Tá, você precisa falar com ela. Eu entendi e concordo. Mas como sabe que não é tarde demais?
– Não importa. Eu ainda vou precisar.
– Dougie, senta!
Harry assistiu enquanto o relutante amigo deixava a mochila no chão e sentava no sofá do camarim. Estavam ambos irritados por motivos diferentes causados por uma mesma pessoa: Jones Bongiovi.
– Você a magoou desde o primeiro momento, Dougie. Desde a primeira vez em que vocês perceberam que tinham sentimentos um pelo outro, você deveria ter assumido a pro mundo. Você é o homem da relação, era seu dever tomar a frente. Era seu dever tratá-la como uma rainha. Mas você, desde sempre, empurrou a pro escanteio. Fez dela uma segunda opção quando ela deveria ter sido a única. Porque... Dougie, você pode duvidar do que eu vou te dizer agora, mas nem sua mãe fez tanto por você quanto a fez.
– Eu sei disso, Harry.
– Então por que você não assumiu a antes?! – Harry gritou.
– Não sei, Harry! – Dougie gritou de volta. – Eu não sei! A gente decidiu esperar porque nenhum dos dois sabia como o Danny reagiria se soubesse. E aí a gente foi esperando, esperando...
– Até que o mundo inteiro já sabia e vocês não tinham assumido ainda. É a desculpa mais esfarrapada que eu já escutei na vida, Dougie, e olha que eu tenho que escutar a Lola justificar o porquê de ela não ter guardado os brinquedos quando a mãe pediu.
– Você não entende porque você não tá vivendo isso! Pra você, foi fácil. Ela era só a violinista, era só substituir a Izzy por outra profissional se tudo desse errado entre vocês dois.
– Então você acha que foi fácil? – Harry pegou uma cadeira e sentou de frente para Dougie. – Primeiro que você não faz ideia do que é manter um relacionamento à distância quando ela tinha todos os motivos do mundo pra ter ciúmes de mim. Depois que não é só sobre o que vão pensar do casal, não é só sobre manter. É sobre ficar com alguém pra valer, pro que der e vier, e não desistir da pessoa por meros problemas da vida. Você viu como eu e a Izzy lutamos pra ter um filho, você viu o quão destruídos nós dois ficamos, ainda mais depois do Tom conseguir o que nós queríamos desde muito antes dele, e estávamos dando tudo pra conseguir. Então não, Dougie, nunca foi fácil. Porque é difícil todo dia. Todo santo dia, eu tenho que fazer dar certo. Não por mim e nem pelos meus filhos, mas porque a Izzy, desde o primeiro dia, se esforçou pra fazer dar certo também, gastando tempo e esforço que ela podia ter usado com outra coisa. Isso é respeito, Dougie, e você nunca respeitou a de verdade.
– Eu faria de tudo por ela!
– Mentira. Tanto que você não fez. Se tivesse feito, ela não teria fugido daqui quando a música acabou. Se tivesse feito, ela nem teria ido embora e ficado longe das nossas vidas por anos pra começo de conversa. Agora você tem uma escolha pra fazer, Dougie. Se for lá, é bom que você se torne homem no momento em que passar por essa porta, porque nenhum de nós está disposto a te dar outra chance se você magoar a de novo.
Dougie respirou fundo. A confusão crescia cada vez mais dentro de si mas, depois de uma década, sua mente finalmente começava a clarear.
– Eu preciso falar com alguém primeiro. – Dougie murmurou.

―‖―‖―‖―


O apartamento estava mais frio do que o comum. O meu peito estava pesado e tornava uma simples respiração difícil de se fazer. Tudo em mim pedia para que aquilo tivesse um repentino fim e que eu acordasse do pesadelo sem lembrar do que tinha acontecido.
Larguei a bolsa no espaço livre da cristaleira que ficava ao lado da porta de entrada do apartamento. Não queria ir para o quarto, sentia que seria fácil demais apagar e que aquilo não solucionaria nenhuma porcentagem dos meus problemas. Ao invés disso, fui até a cozinha, peguei uma das garrafas de vinho do meu pai e levei comigo para as poltronas decorativas perto do piano de cauda que eu havia instalado ali. Se não estivesse tão frio do lado de fora, eu teria ido para a varanda e encararia o Tâmisa até o amanhecer.
Eu sentia como se merecesse o sofrimento. Quer dizer... O que eu esperava? Que a paixão de anos fosse simplesmente se esvair de mim como em um passe de mágica? Que tudo o que eu vivi e senti por Dougie, de repente, não tivesse mais significado para mim? Que ele não me afetasse mais? E ainda por cima... Que ele fosse ser um santo, que fizesse mil e um cursos de como aprender a valorizar uma mulher de verdade e, então, voltasse para mim transformado?
Queria todo aquele sentimento de volta, a paixão intensa que sentíamos um pelo outro e que sempre era suficiente. Mas eu não queria aquilo na noite em que Dougie, de repente, sentisse a minha falta e ligasse, pedindo uma visita, ou simplesmente aparecesse na porta do apartamento onde eu morava. Eu queria todo dia. Não vi quando fiquei necessitada de um relacionamento sério, mas aconteceu antes de acontecer com Dougie – se é que tinha acontecido com ele àquela altura. Claro que havia a preocupação externa a qualquer sentimento romântico, mas eu o amava tão intensamente que não estava nem um pouco surpresa de ter desmoronado quando finalmente, depois de tantos anos longe, olhei em seus olhos.
Já estava quase chegando no final da garrafa quando a campainha tocou. Já era de se esperar. Abri a câmera frontal do celular só para verificar se eu estava minimamente apresentável e não parecia uma bêbada qualquer. Então a campainha tocou de novo. Eu levantei, deixei a garrafa sobre a mesa de jantar no caminho e fiz uma preparação mental rápida sobre a mentira que contaria para meu pai. Estava para escolher menstruação. Afinal de constas, ele não fazia a mínima ideia de que eu fazia uso de hormônios para não passar por isso. Seria a desculpa perfeita e ele não faria perguntas detalhadas. A campainha, então, tocou uma terceira vez. Eu só abri a porta, mas não era nem meu pai e nem meu irmão, que seria o meu segundo palpite, que estavam ali.
– O que você veio fazer aqui? – Perguntei, desviando o olhar imediatamente.
– Eu posso entrar?
– Pode dizer o que tiver que dizer daqui, Dougie.
– Por favor.
– Não. – Fui firme. – Você já causou dano o suficiente por hoje.
, por favor, não torne as coisas mais difíceis.
– Eu?! ‘Por favor’ digo eu. Não vem com essa. Eu posso ter feito muitas coisas erradas, posso ter tomado muitas decisões que não deveria ter tomado, mas eu nunca dificultei nada.
– Ok. Eu sei que não mereço. Mas , por favor... Me deixa entrar, escuta o que eu tenho que falar. Você pode não gostar, e aí tudo bem, eu vou embora do mesmo jeito que cheguei. Mas eu preciso falar, por favor.
Relutante, dei espaço para que Dougie entrasse. Ele foi na frente e eu fiquei na porta ainda, hesitando. Considerei deixá-lo ali e sair sem rumo. Só não queria ficar a sós com ele. Mas então o bom senso me venceu. Não havia aonde ir àquela hora da noite, além de não ser exatamente seguro. Depois de uns instantes, fechei a porta e fui para a sala.
– A vista daqui é muito bonita.
Acompanhei seu olhar e observei, por um breve momento, a Londres iluminada. A imagem quase me confortava, mas a realidade puxava meu pé ao menor sinal de uma tentativa de escape.
– Fala logo o que você tem tanto que falar e vai embora, Dougie. – Eu o cortei.
... Eu sinto muito.
Com um sorriso debochado, sentei parcialmente no encosto do sofá. Então cruzei os braços na frente do corpo.
– Você vai ter que ser mais específico sobre qual a razão por trás do seu arrependimento de hoje, porque são tantas que eu nem sei de qual você tá falando.
– Por tudo. – Ele disse e eu desviei o olhar no exato momento em que ele olhou para mim. – Por não ter te tratado como você merecia, por ter te dado trabalho, por ter... Ah, cara, foram tantas cagadas...
– Finalmente concordamos em alguma coisa. – Falei e Dougie revirou os olhos.
– Eu não tenho como voltar no tempo, ! – Ele levantou o tom de voz. – Você acha que eu não teria voltado se tivesse esse poder? Teria feito tudo diferente! O eu de hoje não aprova o que o eu de dez anos atrás fazia.
– Mas, ainda assim, você se envolveu com uma pessoa que tinha tudo pra te levar de volta pro fundo do poço de dez anos atrás.
– Você não tava aqui!
– Nem eu nem essa garota com quem você tá éramos as únicas opções! – Gritei.
– Eu não sei, , só aconteceu e, quando eu vi, já tava no meio da confusão de novo. – Dougie deu mais uma desculpa. – Eu mudei, . Em algumas coisas, mudei pra melhor. Em outras, nem tanto. Mas eu mudei. Não tenho orgulho do que fiz nos últimos dias nem do que eu fiz no passado, mas eu quero reparar isso e tenho que começar por você. Sempre foi você, . Agora, antes... Vai sempre ser por você.
Respirei fundo e engoli em seco. Descruzei os braços e apoiei as mãos no encosto do sofá. Nem tinha percebido que já começara a chorar.
– Era isso?
...
– Se for, pode ir. – Eu não deixei que Dougie falasse.
– Eu quero você, . Mais do que nunca, eu te quero mais do que tudo. Mais do que jamais quis qualquer outra coisa na minha vida.
– Você não pode chegar e esperar que eu esteja igual uma babaca esperando for você. Nem um cachorro, um dos seres mais inocentes do mundo, esperaria por você nessas condições.
– Mas eu não estou esperando isso. – Ele saiu de perto da mesa de jantar e começou a dar passos lentos até mim. – Eu sei do preço a pagar pelos diversos erros que eu cometi, mas eu estou disposto a pagar por eles se você for a recompensa do progresso.
Tentava controlar a respiração. Não me importava qual fosse a consequência, levantei o olhar até ele. Dougie estava próximo demais, mais próximo do que no show. Meu coração pulava batidas enquanto o azul dos olhos dele me hipnotizada pela milésima vez na vida. Minha garganta estava seca e a vista, embaçada por conta das lágrimas.
– Eu nunca mais vou deixar você me fazer de segunda opção. – Disse entredentes.
– Não é pra você ser a minha segunda opção, . Nem hoje, nem daqui a dez, vinte, trinta anos. Eu quero fazer de você a minha primeira e única até o fim da minha vida, se você também quiser. Era o que eu devia ter feito desde o primeiro momento.


With the weight of it all, it's hard not to fall.

Demorei para localizar exatamente onde eu estava quando veio o sentimento de estar começando a acordar. Os olhos abriram mais lentos que a minha consciência. Eu levei tempo até processar o que estava no meu campo de visão, e a primeira coisa que eu vi de fato foi o extraterrestre colorido olhando para mim de volta. O resto da tatuagem apareceu em questão de segundos.
Levantei de supetão e o mundo em minha volta girou por conta do exagero com o vinho na noite anterior. Olhei para Dougie, deitado no tapete do chão da minha sala de estar, a manta do sofá que cobria seu corpo e, parcialmente, o meu também. O sol brilhava forte através das grandes janelas de vidro porque as cortinas estavam abertas, e só Deus sabe como ele não acordou com meu movimento brusco.
Eu corri para o meu quarto, cobrindo meu corpo como se fosse ajudar de alguma forma. Tranquei a porta principal assim que passei por ela e fui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro e entrei debaixo da água com tanta pressa que esqueci de pegar uma toalha nova, pois a anterior havia ido para a lavanderia. Foi meia hora debaixo do chuveiro, esfregando a minha pele com tanta força que cheguei a fazer um machucado no braço. Depois de colocar roupas quentes, mais meia hora procurando pelo meu celular na ponta do pé para não o acordar.
Assim que encontrei, no meio das duas únicas almofadas que haviam ficado no sofá, peguei o aparelho e caminhei de volta para o quarto. Ignorei as mil notificações, só fui direto para o aplicativo de chamadas e digitei o número do meu irmão.
Ash? – Oi, eu...
Tá tudo bem? Você tá em casa?
– É claro que eu to em casa, onde mais eu estaria?
O que aconteceu ontem... Por que você está sussurrando? Tá tudo... – Danny... – Tratei de interrompê-lo. – Dougie tá aqui.
Segundos de silêncio. Felizmente ou não, havia nenhuma surpresa naquilo.
Bem, isso explica muita coisa. – Como assim? – Perguntei e sentei na cama, olhando para a porta e torcendo para que o baixo volume não o acordasse.
Também não estávamos sabendo do paradeiro dele. Com o histórico que o Dougie tem e depois do que a gente viu acontecer, ficamos mais preocupados com ele do que com você, até porque eu fui até o seu prédio, vi as luzes do seu apartamento ligadas lá de baixo, achei melhor não incomodar porque só queria saber se você tinha ido pra casa mesmo... Enfim... Acho que você tem uma história mais interessante pra me contar. – Não tenho.
Como não? – Eu não me lembro direito, já tinha bebido um bom bocado de vinho quando ele chegou, as memórias estão um pouco turvas.
Uau. – Danny suspirou. – E nós pensamos que estávamos velhos demais pra esse tipo de coisa... – Você não tá ajudando.
Desculpa, acho que eu ainda to atordoado. O almoço em família ainda tá de pé? – É claro que sim, não tem motivo pra ser cancelado.
Ok então, o papai disse que iria sair do hotel e passar aí por volta das onze, porque você foi embora ontem à noite sem falar com ninguém e ele queria checar primeiro se tava tudo bem contigo, e agora são nove e meia... – Merda.
É, eu pensei o mesmo. Não que ele vá se importar, mas achei que você gostaria de saber e não ser surpreendida. – Eu vou dar um jeito.
Pensa pelo lado bom... – Eu podia ouvir o sorriso na voz do meu irmão, Danny conseguia achar graça até de problemas que estavam dando nós em nossos pescoços. – Ainda bem que ele tem essa mania de não aceitar ficar nas nossas casas, porque ia ser bem engraçado se... – Não começa, Danny.
Ok, desculpa. – Ele riu. – O que você vai fazer? – Ainda to pensando nisso.
Tudo bem. Vou tentar descansar mais um pouco, ontem foi puxado. Me avisa se tomar alguma decisão. – Pode deixar.
Ah, e eu te enviei um vídeo. – Danny disse. – Dá uma olhada. E se você se sentir mal com o vídeo, vai pro Instagram que as fotos de ontem à noite estão incríveis. – Beleza, obrigada.
Desliguei a chamada e, mais uma vez, fiquei encarando a porta. Então decidi abrir a conversa com Danny antes mesmo de sair. O anexo era recente, provavelmente enviado logo antes da minha ligação. Dei play no vídeo e o volume do meu celular estava no máximo. Tampei o alto-falante correndo, pausei o vídeo com a outra mão e peguei meu fone de ouvido, na cabeceira da cama. Encaixei as duas peças no lugar e coloquei o vídeo para rodar novamente.
Era como se os acordes fossem capazes de quebrar meu coração todo mais uma vez. Alguém da zona mais próxima do palco filmou precisamente o momento em que eu e Dougie trocamos o olhar que eu desejava nunca ter trocado com ele. Engoli em seco e, por mais que doesse o mesmo tanto da noite anterior – ou mais, porque o jeito como acordei não facilitou em nada as coisas –, não consegui desviar ou parar. A dor seguiu aumentando em meu peito, o aperto crescente sem a menor previsão de ceder ou sequer estabilizar.
Eu vi como Dougie me observava, eu vi o exato momento em que notei a presença da outra na plateia. Vi a felicidade em mim morrer a partir desse instante, vi os passos apressados para sair do palco o mais rápido possível e Dougie encarando o caminho por onde eu havia seguido. O pouco de vida que ainda havia em mim esvaiu-se por completo.
Tirei os fones de ouvido, coloquei de volta no lugar e saí do quarto na ponta do pé. Dougie havia mudado de posição, sua cabeça não estava mais apoiada na almofada que estava no chão. Fui até a cozinha, fechei a porta dela e liguei a cafeteira. Usei seis cápsulas em uma das maiores canecas que eu tinha. Peguei o casaco de Dougie que estava em cima da mesa de jantar, vesti e saí para a varanda com cuidado para não fazer barulho ao abrir a porta. Eu me distanciei propositalmente e fui para o lado onde o Tâmisa era mais visível. Não levou nem trinta segundos até as lágrimas começarem a rolar.
De supetão, tirei o casaco de Dougie. A escolha foi péssima, o cheiro dele estava impregnado no tecido. Não era cheiro de perfume, era o cheiro dele mesmo. Bebi um pouco do café, que ainda estava bem quente, entre soluços. O frio do lado de fora era o que menos incomodava. Ao menos, o tempo estava aberto e o sol ajudava um pouco. Cheguei no fundo do poço naquela varanda, sem nem prever.
...
– Agora não, Dougie, por favor.
– O que houve? Ontem...
– Ontem foi um erro, Dougie. – Disse, firme. – Não devia ter acontecido e não vai acontecer de novo. Sugiro que você esqueça de uma vez por todas, vai ser mais fácil pra nós dois.
– Não fala assim, , por favor.
– Eu que deveria estar pedindo pra você não falar assim comigo. – Gritei e virei para poder encará-lo.
Dougie estava só de bermuda, tremendo de frio e mais vulnerável do que nunca.
, por favor...
– Já cumpri com a minha promessa. Vou devolver o apartamento pro senhorio, comprar as passagens e voltar pros Estados Unidos, de onde eu nunca deveria ter saído.
– Eu não quero que você vá.
– Aí é problema seu, Poynter.
...
– Eu não vou ser a outra, Dougie! – Gritei. – Caralho, eu não sei que problema mental você tem que não consegue processar isso nessa sua cabeça de merda! Você não vai me fazer de segunda opção de novo. Nem hoje, nem nunca mais! Chega! Volta pra filha da puta com quem você tava antes, eu não me importo, só some...
– Terminei com ela antes de vir pra cá ontem à noite, . – Ele me interrompeu.
Todo o discurso que eu tinha na ponta da língua sumiu. Engoli em seco, sob a observação constante dele. As lágrimas cessaram e o frio estava mais perceptível. Eu me encolhi, abraçando meu próprio corpo.
– Eu fui sincero ontem, , nada do que eu disse foi mentira. Eu amo você, eu sinto muito por tudo. Se você não me ama mais, ok, tudo bem, eu entendo e vou me retirar com um dos pedidos de desculpa mais sinceros que eu já fiz na vida. Mas se você ainda me ama... , por favor... Me dá essa chance, só mais essa. Eu juro que não vou desperdiçar.
– Chega de corações partidos, Dougie, eu quero deixar essa vida pra trás.
– Então vem comigo, por favor. – Ele começou a dar passos na minha direção. – Vamos fazer isso dar certo juntos. Eu sei que nós dois podemos ser bons em conjunto, que formamos uma boa dupla, e eu não quero deixar de ter você por perto. Nem como amiga, nem como algo mais. Eu quero você aqui, custe o que custar, e to disposto a fazer o que for pra que você me dê só essa chance.
– O meu pai tá vindo pra cá em pouco tempo, eu preciso me arrumar porque nós vamos sair.
– E a gente?
Eu finalizei o restante do café de uma vez só.
– Vou colocar uma roupa decente e encontrar com meu pai lá embaixo. Leve o tempo que for, tranca a porta quando sair que eu vou levar uma chave reserva e dou um jeito de pegar a chave que tá aqui com você.
– Mas ...
– Coloca na pia, por favor. – Entreguei a caneca na mão dele e segui de volta para dentro do apartamento.
Como já estava de banho tomado, apenas coloquei uma roupa mais apresentável e fui para a frente do espelho colocar um pouco de maquiagem no rosto. Enquanto deixei o celular tocando músicas aleatórias – que não fossem McFLY porque, por mais que eu fosse fã tanto quanto era irmã de um dos integrantes, não estava com saco pois sabia que meus ouvidos ressaltariam a linha do baixo e que os acordes me trariam lembranças indesejadas àquela altura –, ouvi as batidas na porta. Ignorei, era o que eu precisava fazer.
Olhei no relógio, faltavam quinze minutos para onze horas. Mandei uma mensagem para meu pai, avisando que estava indo pra casa de Danny e que ele podia encontrar comigo lá para irmos ao restaurante. Abri a porta, passei direto por Dougie como se ele nem estivesse ali. Na descida para o térreo, meu pai avisou que estava chegando já e poderíamos ir juntos.
Nem Cooper me animou. Eu sentei na mesa do restaurante completamente alheia à conversa, brincando eventualmente com meu sobrinho e sorrindo quando minha atenção era requisitada. Os dois sabiam que eu estava afetada pelo dia anterior – Danny sabia particularmente que havia mais ainda para afetar-me – e os dois respeitavam o meu silêncio porque sabiam que eu já teria falado se quisesse.
Fomos levar Cooper para um passeio logo depois e eu nem sei exatamente porque não fui embora para casa, a fim de ficar sozinha como gostaria e precisava ficar naquele momento. Passeamos pelo ZSL London Zoo até que o mais novo começou a demonstrar sinais de cansaço. Meu pai me deixou em casa e eu fiquei aliviada com a iminência de estar na minha cama, eu e meus pensamentos.
Arqueei uma sobrancelha quando saí do elevador porque ouvia claramente uma televisão ligada que vinha do meu apartamento. Não entendi nada. Coloquei a chave na fechadura e girei com pressa. Quando abri, Dougie virou para trás, no sofá, e olhou para mim preocupado.
– Eu fiquei porque precisava de uma resposta.
– Tá tudo bem. – Murmurei e revirei os olhos.
Virei para fechar a porta, ouvi Dougie levantar do sofá.
– Seu irmão sabe que eu estou aqui?
– Sabe, contei hoje cedo enquanto você ainda estava dormindo. – Terminei com a porta e virei para Dougie. – Você não tá mentindo, tá?
– Sobre o quê?
– Sobre a gente, Poynter.
– Não. – Ele disse e deixou os ombros caírem.
– Se você me sacanear de novo, eu juro que nunca mais vai me ver na vida, não importa McFLY, não importa as crianças, não importa nada disso.
– Isso é um ‘sim’?
Dougie tinha um sorriso largo nos lábios. Aquele gesto fazia com que eu lembrasse de tempos muito bons na minha vida, talvez os melhores, sobre quando eu estava descobrindo quem eu realmente era. Eu não pensei duas vezes. Só cobri o espaço entre nós dois e beijei Dougie. Ao menos, daquela vez, eu estaria sóbria e lembraria por completo de seja lá o que acontecesse.


We're on a one way mission and we can take it or die.

– Senhora, seu pedido. – A atendente disse de forma simpática e empurrou os dois copos enormes de café na nossa direção. – O seu é o com o coração na tampa, o outro é o do seu marido.
– Ele não é meu...
– Obrigado! – Dougie me interrompeu e pegou a bandeja com os dois cafés, seguindo na direção da porta da cafeteria imediatamente.
Eu parei por um instante, tão incrédula que fiquei. Por conta disso, perdi tempo e fiquei para trás. Tive que apertar o passo para chegar até ele, que não me esperou de forma alguma.
– Você tinha mesmo que fazer aquele showzinho lá dentro?
– Não foi showzinho nenhum.
– Ah, não, imagina! – Eu peguei o meu café da bandeja que ele carregava na marra.
– Viu? Já estamos brigando como um casal normal.
– Dougie, para.
– Igualzinho a como era antes. – Ele continuou provocando e abriu a porta do prédio para que eu passasse em sua frente.
Cumprimentamos o porteiro do turno, que já estava cansado de ver a banda por ali. Eu ajeitei o óculos escuro para ficar no topo da minha cabeça e entramos no elevador de uma vez. Em silêncio, eu dei o primeiro gole no café. A careta foi instantânea. Alguém tinha errado na mão e o café ficou aguado.
A porta do elevador se abriu no terceiro andar e nós dois saímos por ela. De alguma forma, eu sentia que estávamos sendo observados, muito embora todos ao redor estivessem completamente ocupados com seus respectivos serviços. Nós sabíamos bem o caminho e não havia erro. Dougie, mais uma vez, abriu a porta para mim e eu entrei na sala de reunião antes dele.
– ... porque eles simplesmente não conseguiam... Ah! Oi, ! – O sorriso do meu irmão se abriu e, de repente, seu rosto estava mudado para uma expressão de total confusão. – E Dougie?!
– Bom dia pra você também. – Ele disse e sentou logo.
– Tá tudo bem? – Meu irmão veio me abraçar e sussurrou no meu ouvido, investigando minha expressão facial enquanto eu apenas assentia. – Tem certeza?
– A gente tem meia hora. – Harry informou.
– Certo. – Eu respirei fundo e coloquei a bolsa em cima da mesa. – Me desculpem pelo atraso, eu tive uns imprevistos e...
Nesse exato momento, Dougie estava com o copo na boca e simplesmente engasgou. Começou a tossir, ficou sem ar. Nós quatro ficamos olhando enquanto ele se recuperava. Eu, particularmente, tinha uma sobrancelha arqueada e uma bronca pela cena na ponta da língua. Quando Dougie parou de tossir, eu só segui para a minha bolsa e peguei o notebook.
– Sinceramente... – Murmurei mas a intenção não era essa, era para ser um pensamento apenas.
De repente, eu era o novo centro de atenção dos ocupantes daquela sala de reunião. Deixei o notebook na mesa e engoli em seco, então sentei como se não soubesse que estavam observando cada movimento seu.
– Podemos começar? – Perguntei, sugerindo que eles se concentrassem no assunto que levou nós cinco até ali naquela manhã.
Meus olhos saíram da tela do notebook, que ligava, e foram até os de Harry por acaso. Ele alternava o olhar incessantemente entre eu e Dougie. Então, depois de alguns segundos constrangedores, ele começou a abrir um sorriso malicioso.
– Vocês dois estão juntos. – Harry concluiu.
– Hein?
Danny virou para mim imediatamente com cara de “por que você não falou comigo sobre isso antes”. Eu abaixei a cabeça e digitei a senha no notebook com a maior naturalidade e todo o fingimento possível.
!
– O quê?
– Meu Deus, eu preciso contar pra Izzy... – Harry ria consigo mesmo do outro lado da mesa, pegando o celular e começando a digitar freneticamente.
– É sério isso? – Meu irmão insistiu. – Vocês dois estão mesmos juntos?
– Você é lerdo mesmo, né, Jones? – Tom riu na cara dele.
– Não é que eu sou lerdo, é que eu esperava que ela me contasse.
– E eu te contei. – Larguei de vez o notebook, cruzei os braços e olhei para Danny. – Te contei na manhã depois do show, quando eu te liguei pra falar que tinha passado a noite com ele.
– Você contou pra ele?
– Dougie, não é a hora...
– Eu achei que... Que... – Meu irmão ficou de boca aberta lá sem falar nada, em completo choque.
– Nós podemos tratar disso depois, gente? – Perguntei, de saco cheio. – Podem falar a merda que quiserem da minha vida pessoal quando o tempo estiver sobrando, mas a gente tem que sair daqui em... Vinte e cinco minutos!
Eu tive que obrigá-los a ficarem quietos e prestarem atenção em mim. Repassei os detalhes do script que tinha construído para o clipe simples de We Were Only Kids, cujo set de filmagens principal seria visitado ainda naquela manhã. Os quatro fizeram as perguntas necessárias sobre tudo o que tinha sido planejado e assistiram juntos o protótipo que eu tinha criado usando outros clipes já existentes como modelos, tanto clipes do McFLY como de outros artistas. Vinte minutos depois, nós estávamos com o tempo apertado mas tínhamos finalizado.
Harry e Tom estavam conversando alguma coisa sobre a escola onde Buzz estudava e onde pretendiam colocar Lola e Buddy para estudarem também. Eles acabaram saindo na frente e ficamos eu, meu irmão e Dougie para trás. Danny estava distraído no celular, parecia estar com a cabeça distante. Eu estava arrumando a bolsa e senti que o clima, de repente, estava estranho. Quando dei por mim, Danny tinha ido na direção de Dougie com violência e encarava-o de uma distância muito curta.
– Olha só, eu não me importo com os anos de banda, – Meu irmão praticamente rosnou, e eu o havia visto irritado daquela forma pouquíssimas vezes durante nossas vidas inteiras. – vou foder com você se isso for sacanagem.
O meu primeiro pensamento foi que eu deveria intervir, mas até que a cena estava divertida de onde eu estava. Cruzei os braços e fiquei observando Dougie engolir em seco e ficar todo tenso.
– Não é sacanagem, Danny.
– Você ao menos terminou com a outra ou vai só colocar a minha irmã como segunda opção de novo?
– Eu terminei, Danny. – Dougie arqueou uma sobrancelha. – Não to entendo, você me viu terminar com ela quando a gente ainda tava na O2 Arena.
Meu irmão fez cara de confuso por um segundo mas recuperou a postura rapidamente.
– Eu vou foder com você se isso for sacanagem. – Danny repetiu.
– Não é sacanagem, cara.
Danny ofereceu a mão para um aperto. Nem precisei estar segurando a mão dele para saber o tanto de força que ele usou. Mas aí já estava começando a ficar tedioso para mim.
– As meninas querem privacidade pra trocar uns beijinhos?
Só faltou meu irmão cuspir fogo.
– Você sabe que eu...
– Não precisa fazer ameaças, Danny, já estou crescidinha e posso cuidar de mim mesma. Afinal de contas, é o que eu tenho feito há anos sem você nos Estados Unidos. – Acrescentei, colocando a bolsa no ombro. – Se for sacanagem dele, eu vou foder com ele muito antes de você sequer pensar no que vai fazer a respeito.
Passei por entre os dois, caminhando em direção à porta. Ao ver que ambos ficaram estáticos com o que eu disse, revirei os olhos, respirei fundo e virei de volta para eles.
– Vamos ou não?
Harry havia ido de carro, explicou que deixou Izzy e as crianças para passarem o dia com os pais dela. Nós cinco cabíamos perfeitamente nele, então só seguimos para Dorking, uma cidade pequena não muito longe de Londres. Do prédio, onde ficava a sala de reunião que havíamos alugado, até lá, levamos uma hora, o que era vinte minutos a menos que o previsto pelo GPS originalmente, já que o trânsito estava em bom estado – felizmente. Eu só queria garantir o horário porque havia marcado com o dono do lugar às onze horas da manhã e não admitia atrasos da minha própria parte.
Eu fiquei sabendo da fazenda por conta de alguns contatos que tinham outros contatos que indicaram o lugar. Dentro dela, havia uma área reservada com uma cabana construída no topo de uma minúscula ilha. O acesso era feito através de uma ponte que passava por cima do lago. Tudo era pequeno. A cabana tinha um quarto só, o lago não era lá grandes coisas e eu me perguntava se seria possível passar na ponte com os equipamentos para filmagem. Se não fosse, teríamos que dar um jeito de usar o pequeno bote para levar tudo até a ilha e eu não estava certa sobre a segurança daquela suposta operação. Mas, de qualquer forma, dado o orçamento pequeno e o ideal que eu tinha para aquele vídeo, o lugar era perfeito.
– E então? O que acharam?
– É legal. – Harry disse, observando a cozinha.
– Qual a sua ideia?
– Como eu já disse, retratar momentos de intimidade entre vocês – Respondi Tom enquanto sentava na poltrona de couro entre a porta da varanda e a lareira. – A imagem que vai ser passada aqui é que vocês estão em união, em sincronia. Acho que vai ser interessante porque vocês precisam resgatar essa imagem perante a mídia.
– A banda tá tão mal assim? – Meu irmão falou.
– Bem, o Harry deixou claro na primeira entrevista de vocês depois do anúncio da volta que o Tom foi o culpado pelo hiato. Não tem como acharem que o clima está exatamente bom.
– Eu não falei isso!
– Não diretamente, mas falou nas entrelinhas.
– Cadê o cara que tava com a gente? – Dougie perguntou.
– Disse que ia dar privacidade e que esperaria. – Respondi e voltei a ficar de pé. – Para as cenas internas, nós podemos controlar a iluminação artificialmente, mas eu queria marcar de vir aqui em um dia com o tempo fechado. Sem chuva, é claro. Mas acho que seria favorável ter uma imagem melancólica, tem tudo a ver com o campo harmônico da música. Então podemos registrar vocês pescando, nadando, fazendo fogueira...
Expliquei mais algumas das minhas ideias. No final das contas, perguntei o que eles achavam e, após os quatro trocarem olhares curiosos, apenas concordaram. Eu não trabalhava com o McFLY tinha tanto tempo que talvez eles estivessem estranhando a minha postura. De qualquer forma, era como eu trabalhava e não abria mão. Voltamos para Londres após almoçarmos em um restaurante local e deixarmos certo com o proprietário do lugar que eu entraria em contato para marcar a data com certeza.
Harry deixou Danny no Westfield Stratford City, onde Georgia estava com Cooper aguardando por ele. Tom acabou ficando por lá também, disse que pegaria um táxi para casa porque era sentido oposto ao que Harry deveria seguir. Eu insisti também em ficar por lá, mas Harry insistiu mais, dizendo que o desvio no caminho dele era curtíssimo e não faria tanta diferença. Quando Dougie desceu comigo na frente do prédio, ele se limitou a dar um olhar malicioso na nossa direção e, depois, um sorriso triunfante.
Eu entrei direto para o escritório. Abri o notebook em cima da mesa, liguei e comecei a pensar em todas as coisas que eu precisava agendar para dar prosseguimento ao que estava sendo planejado. A publicidade, contratação de fotógrafos, aluguel de equipamento, marketing, design gráfico... Isso não era nem o começo! Então notei o óbvio. Podia ser boa no que fazia, mas eu era uma só. Não ia conseguir dar conta de tudo o que vinha pela frente se continuasse trabalhando por conta própria sem a equipe que tive comigo por anos quando estava nos Estados Unidos.
Peguei o telefone, digitei algumas mensagens para antigos conhecidos até conseguir o número que queria. Enquanto esperava pelas respostas, anotava algumas coisas no bloco de notas físico que mantinha comigo sempre. A minha mente começava a conseguir promover algum nível de organização quando eu finalmente pude ligar para uma antiga conhecida, com quem eu tinha estudado e trabalhado durante pouco tempo antes de tirar meus anos de férias da Inglaterra.
– Oi... Alona? – Falei quando o outro lado da ligação ficou mudo.
Sim, quem fala?
Jones.
! – Ela gritou do outro lado. – Menina... Quanto tempo faz que não nos falamos! Eu nem sei o que dizer... Quero dizer... Como você tá?
– Estou bem, obrigada. E você?
Bem também, claro.
– Eu liguei pra saber se você ainda trabalha na área.
Claro que sim. – Alona começou a falar. – Depois de dois filhos, eu preciso pagar as fraldas de alguma forma.
– Ah, não sabia que você teve bebês!
E cachorros. – Ela acrescentou.
– Bem... Meus parabéns. Atrasado, eu suponho. Mas, ainda assim...
Fica tranquila, , nós passamos dessa fase. – Ela desconversou. – Então... Do que precisa?
– Quero saber quando você tem tempo pra gente se encontrar. Pra um jantar, que seja. Precisamos conversar sobre alguns serviços que preciso manter por definitivo. Estou precisando montar uma equipe.
Você está em Londres?
– Sim, não ficou sabendo do show?
Fiquei sim, mas imaginei que você teria voltado logo depois.
– Não. – Suspirei, olhando para a paisagem através das largas portas de vidro da minha varanda e sentindo os braços de Dougie envolvendo a minha cintura ardilosamente, então finalmente disse as palavras que precisava dizer desde que tomara a decisão. – Eu estou de volta. Pra ficar.


Continua...



Nota da autora: Eu não sei como me sentir, sinceramente, porque o coração tá batendo tão forte por esses dois...








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