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Última atualização:11/01/2021

Capítulo 1

Gaara encolheu-se embaixo da mesa de madeira ao ouvir passos próximos, fechando os olhos e cobrindo o rosto com os braços, esperava ouvir os gritos a qualquer segundo, mas surpreendeu-se ao ouvir uma voz perguntar-lhe gentilmente:
— Por que você está escondido?
Abriu os olhos esverdeados, virando-se minimamente para o lado, encontrando uma garotinha de longos cabelos , encarando-o com os olhos castanhos em expectativa:
— Por que você está escondido aqui? — Repetiu, ajoelhando-se ao seu lado.
O garoto permaneceu em silêncio por um instante, antes de respondê-la, mas interrompeu-se ao ouvir gritos dos garotos mais velhos ao redor, tornando a abaixar a cabeça contra seus joelhos. A menina o encarou confusa por um instante, antes de inclinar-se para o lado, vendo um grupo de meninos correndo pela rua, olhando atrás de cada canto, gritando uns para os outros.
Ficou em pé rapidamente, cruzando os braços por sobre a mesa de madeira, ajeitando a toalha branca para que o ruivo passasse despercebido. Instantes depois viu um dos meninos aproximando-se apressado, dando a volta rapidamente na mesa e ficando de frente a ele, com os braços cruzados:
— Quer alguma coisa? — Perguntou grosseiramente ao encará-lo.
O moreno a encarou por um instante, rolando os olhos ao empurrá-la para o lado:
— Saia da frente , está me atrapalhando.
— Se você encostar em qualquer coisa eu vou chamar meus pais! — Avisou rapidamente, empurrando-o para o lado — Vocês fizeram uma bagunça semana passada, ele vai falar com seu pai, Hiroshi!
O adolescente a encarou por um instante, pronto para empurrá-la e tirá-la de sua frente, mas viu a mãe da garota a poucos passos de distância, contentando-se a olhá-la com sua melhor expressão de desprezo, antes de se afastar correndo, reunindo-se aos amigos pouco depois.
esperou até ver todos os garotos sumirem de seu campo de visão, antes de tornar a abaixar-se e encarar o garoto ruivo, que ainda parecia um tanto assustado:
— Eles já foram embora, você pode sair agora — sorriu pequeno em sua direção, mas ele não se moveu —, esse é um péssimo lugar para se esconder, se quer saber. — Esperou que ele saísse dali, estranhando quando não o fez — Já vamos abrir o restaurante, se você ficar aqui, daqui a pouco vão te encontrar. — Alertou, vendo-o encará-la assustado. — Se quiser posso te ajudar a achar um lugar melhor…
Ele respirou fundo, concordando com um aceno, enquanto virava-se, arrastando-se pelo chão. A menina sorriu em sua direção, estendendo a mão para que ele, mas notou quando o garoto a encarou desconfiado, baixando a mão e começando a andar alguns passos mais à frente:
— Venha, é por aqui.
Gaara a encarou por um instante, virando-se para os lados e vendo apenas os trabalhadores que andavam pela rua, não parecendo se importarem com as duas crianças, tornou a olhá-la, seguindo-a a poucos passos de distância, caminhando com ela pela rua lateral do restaurante. Andaram em silêncio por quase dez minutos, para um terreno um pouco mais afastado do centro de Sunagakure, até que ela parou ao lado de uma casa, apontando para o portão lateral:
— Pode ficar aqui se quiser — avisou, mostrando um galpão aos fundos do terreno da casa — ninguém vem até aqui, então ninguém vai te ver aqui.
— É a sua casa? — O ouviu perguntar com a voz baixa, a loira concordou com um aceno.
— Aquele é meu quarto — apontou para a janela do segundo andar, que dava de frente para o pequeno galpão —, só eu posso ver essa parte do terreno, nem meus pais vão saber que você está aqui.
O garoto tornou a concordar com um aceno, passando pela porta e olhando ao redor, o galpão era iluminado apenas pela luz que entrava pelas frestas entreabertas, não era muito grande, e tinham várias caixas ao redor, mas aparentemente ele estaria momentaneamente seguro.
— Pode vir aqui quando quiser — virou-se quando ela tornou a falar, parada ao seu lado.
— Obrigado.
Ela sorriu pequeno em sua direção, antes de virar-se para sair:
— Preciso ajudar minha mãe, talvez te veja depois… — Então parou, olhando-o com curiosidade — Qual seu nome? — O garoto permaneceu em silêncio, encarando-a com os olhos verdes. — Eu sou .
Sorriu mais uma vez, antes de sair correndo em direção ao restaurante.
Gaara sentou-se no chão, cruzando as pernas e olhando para os cantos, esperando por mais um tempo antes de poder voltar em segurança para sua casa.

Já haviam se passado alguns dias desde que havia encontrado aquele garoto, e desde então ficou ansiosa para vê-lo novamente. Estava curiosa com o jeito dele, parecia um tanto desconfiado e, acima de tudo, triste. Ela gostaria de entender o motivo, talvez ele também fosse novo na cidade, e por isso as outras crianças não gostassem dele, assim como não gostavam dela. Imaginou que talvez eles pudessem brincar juntos, longe dos outros.
Abriu a janela de seu quarto assim que entrou no cômodo, incomodada com o calor do ambiente; aquilo era a coisa que menos gostava de Suna, era sempre muito quente, fosse dia ou noite.
Olhou para o céu claro por alguns instantes, uma careta presente em seu rosto, em desagrado ao ver o sol alto. Imaginou que morreria de calor com a roupa que usava, e internamente se questionava como as outras pessoas na cidade não se importavam com o calor. Virou o rosto, curiosa, ao ouvir um barulho, vendo um vulto passar correndo e entrar no galpão na parte de trás do terreno de sua casa. Estreitou o olhar por alguns instantes, sorrindo pequeno ao reconhecer os cabelos ruivos do garoto; ele havia seguido seu conselho e agora se escondia ali.
Saiu rápido do quarto, pegando dois dos bolinhos que sua mãe havia deixado em cima da mesa da cozinha, e passando pela porta, em direção ao quintal.
— Oi! — Sorriu assim que os olhos verdes do garoto a encaram, notando que ele relaxou um pouco ao reconhecê-la. — Tudo bem?
Ele apenas meneou a cabeça, sem nada responder. Sentando-se no chão e cruzando as pernas, olhando-a de longe. mordeu o lábio inferior, pensando em algo que pudesse fazer o ruivo conversar com ela.
— Quer um? — Ofereceu o doce, estendendo-o na direção dele.
O garotinho a olhou por alguns instantes, antes de esticar a mão, aceitando o bolinho e agradecendo em voz baixa. sentou-se a alguns centímetros de distância, mastigando devagar e olhando-o de soslaio, queria chamá-lo para brincar, mas achava que ele não aceitaria.
— Por que você precisa se esconder? — Perguntou quando os dois terminaram de comer, olhando-o curiosa.
Ele olhou para baixo, o cenho franzido e a expressão triste presente em seus olhos verdes. A garota suspirou, pensando se talvez fosse melhor voltar para sua casa e brincar sozinha, quando o escutou dizer com a voz baixa, quase num sussurro;
— Porque eu sou um monstro.
A resposta dele a pegou de surpresa, e o garoto notou quando ela o encarou sem entender, negando com um aceno pouco depois;
— Você não parece um monstro pra mim…
— Não? — Ele a encarou ansioso. — É o que todo mundo diz.
— Por que dizem isso? — Tornou curiosa, vendo-o baixar a cabeça, sem nada responder — Minha mãe sempre fala que a gente não pode acreditar em tudo o que nos dizem, — contou baixinho, atraindo a atenção do ruivo — eu não acho que você pareça um monstro. Você acha que é?
O garoto deu de ombros, parecendo incerto.
— Talvez você seja mais legal que os outros, e eles tenham ciúmes disso.
— Você acha?
— Tenho certeza!
Os dois se encararam por um momento, e o garotinho sorriu pequeno;
— Eu me chamo Gaara.
— Muito prazer! — Sorriu, estendendo a mão para ele.
Gaara reparou na luva que a garota usava, achando estranho por um segundo, mas não demorou a devolver o cumprimento, sorrindo timidamente em sua direção.
Tornaram a se encarar sem graça após soltarem as mãos, ambos tinham várias perguntas na cabeça, e o mesmo receio de fazer o outro se afastar, antes que pudessem, de fato, se aproximarem.
— Eu acabei de me mudar com meus pais — começou a contar, puxando conversa.
— Onde vocês moravam?
— Iwagakure, meu pai era um ninja de lá e minha mãe era daqui, e eles resolveram voltar pra cá.
— Por que?
— Não faço ideia — deu de ombros, seus pais nunca haviam explicado o motivo de precisarem sair da Vila Oculta da Pedra, apenas fizeram de um dia para outro.
tinha sido acordada no meio da noite por sua mãe, dizendo que precisavam sair dali. Pegou algumas coisas e saíram no meio da madrugada, ficaram dias andando, parando poucas vezes para descansarem, até chegarem em Sunagakure.
— Você gostava de lá? — Gaara perguntou curioso, nunca havia saído dali, não fazia ideia de como eram as outras cidades.
— Mais ou menos, gostava dos meus amigos, mas o pessoal não era muito legal — respondeu, achava as pessoas de Iwa muito grosseiras e antipáticas. Em Suna as coisas não eram muito melhores para ela, mas achava que era por ter se mudado recentemente e as outras crianças não a conhecerem, esperava que com o tempo as coisas mudassem. — Mas pelo menos não era tão quente… Você não liga para o calor?
Gaara sorriu, negando com um aceno.
— Já estou acostumado.
— Eu não sei se vou me acostumar — fez careta, negando com um aceno —, está sempre muito quente… E tem a areia também, sempre entra no meu olho!
Gaara riu baixo;
— Você mora na Aldeia da Areia, é claro que tem areia!
concordou, não parecendo muito animada.
— E você? Sempre morou aqui?
— Sim, toda minha família é de Suna… Meu pai é o Kazekage.
A garota abriu a boca, surpresa;
— Você é filho do Kazekage? — Repetiu chocada, vendo-o concordar — Deve ser legal, não é?
— Não muito — negou, suspirando.
— É por isso que os outros garotos não gostam de você? — Perguntou baixo, Gaara a encarou por um instante;
— Também…
estava curiosa, queria saber qual era o outro motivo e por quê o chamavam de monstro, mas percebeu que ele não parecia à vontade com o assunto, por isso resolveu falar de outra coisa;
— Você tem irmãos?
— Tenho dois mais velhos, Temari e Kankuro.
— Eles são legais?
— Às vezes…
Mais uma vez eles ficaram em silêncio, sem saber o que dizer, até que Gaara apontou para as mãos da garota;
— Por que você usa luvas se disse que está sempre com calor?
A garotinha deu de ombros, olhando para as próprias mãos;
— Eu ainda não consigo controlar bem minhas emoções, então se eu não usar a luva, posso sem querer encostar em alguém e ler a mente dessa pessoa… Minha mãe disse que nem todo mundo gosta, por isso eu preciso evitar até conseguir controlar…
Gaara arregalou os olhos, encarando-a com a boca aberta;
— Você pode ler minha mente?
— Às vezes — concordou, sem graça — já fiz algumas vezes, mas nunca de propósito — avisou rapidamente — mas não consigo controlar quando fazer isso, por isso não posso encostar muito nas pessoas, pra não machucar ninguém…
O ruivo concordou com um aceno, entendendo bem o que ela queria dizer;
— O que você pode fazer? — Ela perguntou curiosa. Gaara encolheu os ombros;
— Eu consigo controlar a areia, mas não sempre — contou, com medo que ela lhe pedisse para mostrar —, não sei bem como fazer ainda…
— Deve ser legal — ela sorriu ao encará-lo —, ainda mais que tem tanta areia aqui!
Os dois riram, e então franziu o cenho;
— Quantos anos você tem?
— Sete, e você?
— Seis, mas meu aniversário é em algumas semanas! — Contou sorridente — Você quer brincar?
Gaara pensou por um instante, concordando com a cabeça;
— Espera aqui, eu vou buscar um jogo pra gente! — Avisou sorridente, antes de se levantar e correr para dentro de casa, pegando seu jogo de tabuleiro favorito, e, antes de sair, mais dois bolinhos para dividir com seu novo amigo.


Capítulo 2

Nas semanas seguintes Kato percebeu que, por mais que Gaara parecesse se sentir mais à vontade próximo dela, ainda era bastante reservado. Por vezes parecia desconfiado, e não entendia muito bem suas brincadeiras ou piadas, de uma forma que ela precisasse explicar a maioria delas.
Ele também não parecia muito bom em entender quando ela estava falando sério ou não, como uma das vezes que eles tiveram uma pequena discussão e ela, emburrada, disse que o detestava. No mesmo instante percebeu nos olhos esverdeados dele a surpresa e, segundos depois, tristeza. A garota tratou de explicar-se, dizendo que aquilo não era verdade, apenas uma forma de falar. Contudo, após aquele dia, teve o cuidado de não repetir aquelas palavras.
Cerca de uma semana depois de começarem a conversar, conheceu Temari e Kankuro, os dois pareciam tão desconfiados quanto Gaara nos primeiros minutos, mas suavizaram suas expressões quando a mais nova ofereceu algumas tortinhas que sua mãe havia lhe dado. Kankuro gostou tanto do doce, que até mesmo sorriu em sua direção algumas vezes.
Temari, embora tivesse simpatizado com a garota, não demonstrava tanto quanto o irmão, mas aquilo passou despercebido por Kato, que pareceu maravilhada com tudo o que a loira já conseguia fazer, seu sonho era ser uma ninja e ver uma garota tão forte apenas alguns anos mais velha que ela, fez a expectativa crescer em seu peito.
Os três já frequentavam a Academia, diferente dela que só começaria em alguns meses, e por isso os encheu de perguntas, extremamente curiosa com todas as aulas, ficando maravilhada com tudo o que lhe contavam, mas após um tempo descobriu que Kankuro aumentava muito as informações que dava, o que fazia Temari rolar os olhos o tempo todo.
Gaara parecia mais tímido quando seus irmãos estavam por perto, e ela não entendia bem o motivo, mas também preferia quando estavam só os dois, porque o ruivo conversava mais com ela quando não tinha ninguém olhando.
Poucos dias depois descobriu sobre o Shukaku selado dentro do garoto, e entendeu o motivo das crianças e moradores da vila o temerem e, ao mesmo tempo, odiarem. Embora também tivesse ficado assustada, não achava justo que todos o chamassem de monstro; Não era culpa de Gaara que aquilo estivesse dentro dele.
Gaara parecia assustado e com raiva a maior parte do tempo, e haviam dias que ele não queria conversar, sendo monossilábico quando perguntava alguma coisa, porém não se importava de escutá-la falar sobre qualquer assunto que fosse. Por vezes parecia tão curioso quanto ela, querendo saber mais sobre sua família e como era sua vida na outra aldeia. Kato já havia contado sobre como seus pais se conheceram, embora não parecesse muito animada com aquele assunto, Gaara não demorou a perceber que ela não gostava de falar sobre o pai;
— Minha mãe era uma ninja da Areia, meu pai era da Pedra, eles se conheceram em uma missão que trabalharam juntos… — Passou a mão pelos cabelos, olhando para as mãos — Minha mãe pediu para ir para Iwagakure, o Kazekage permitiu… Nunca soube se ele deixou ou se ela o convenceu… Depois que eu nasci ela deixou de ser uma ninja, meu pai continuou trabalhando pra aldeia, e agora estamos aqui…
— Você acha que sua mãe controla as pessoas? — Gaara questionou em voz baixa, vendo-a negar com um aceno.
— Agora não, antes sim. Mas ela não usa mais o kekkei Genkai dela, sempre fica doente quando usa.
— Doente?
— Ela não consegue mais controlar todas as vozes — apontou para a própria cabeça, sem olhá-lo —, da última vez que ela usou quase morreu, agora ela não usa mais.
Permaneceram em silêncio por alguns instantes, até o ruivo virar-se para encará-la;
— Isso pode acontecer com você também?
Kato concordou com um aceno, fechando os olhos com força.
— Eu não controlo a areia — o garoto disse baixinho, quase em um sussurro — eu consigo fazer algumas coisas, mas eu não controlo. Eu não precisava correr daqueles garotos — confessou, vendo-a encará-lo nos olhos —, mas eu sei o que vai acontecer se eu…
A garota sorriu pequeno, concordando com um aceno;
— Tá vendo como você não é um monstro, Gaara? Se você fosse, não se importaria de machucar eles.
O garoto abriu a boca para contradizer aquela frase, mas apenas concordou com um aceno: sentiu-se bem em saber que, mesmo sabendo sobre o Bijū dentro dele, ainda estava ao seu lado. Pensou em contar-lhe o que aconteceu meses atrás com Yashamaru, mas então teve medo que ela se afastasse, Gaara não queria perdê-la tão rápido.

Com o passar dos meses, Gaara pegou-se rindo algumas vezes, mesmo que boa parte do tempo continuasse com aquela sensação estranha em seu peito. Achava que em algum momento as coisas dariam errado como sempre tinha sido; Kato acabaria se afastando dele e ele tornaria a ficar sozinho, aquele pensamento doía.
Sabia que seu pai não gostava da garota e, por vezes, o mandou se distanciar, por algum motivo que Gaara não compreendia, o Kazekage o queria sozinho, isolado de todos como ele esteve por meses antes de Kato aparecer;
Havia perdido a única pessoa que sempre esteve ao seu lado quando Yashamaru morreu, mas saber que o tio o odiava, assim como todos, fez crescer a raiva em seu ser.
Temari e Kankuro não gostavam de passar o tempo com ele, mas eram obrigados pelo pai, Gaara sabia que os dois também o temiam e o maior dilema que tinha em si era saber se gostava ou não daquilo: Se ninguém se importava com ele, não havia motivos para que ele ligasse para outras pessoas, estaria melhor sozinho.
Durante semanas aquilo funcionou, não precisava de mais ninguém ao seu lado, e eram nesses dias que algo parecia crescer em seu peito, a raiva tomava conta de si e, por vezes, não se importava com a ideia de machucar alguém, aquilo até o agradava.
Contudo, em alguns dias, algo parecia diferente e eram naqueles dias que Gaara preferia esconder-se, porque tinha uma parte de si que não queria machucar ninguém, que não queria ficar sozinho.
Foi em um desses dias que apareceu e, por um instante, ele lembrou-se de Yashamaru; Quando a garota lhe estendeu a mão, Gaara pensou no tio e nas vezes que o homem o ajudou. Pensar nele agora doía, porque sabia que Yashamaru não se importava com ele, mas por um momento esqueceu-se de tudo aquilo e apenas a seguiu.
Gaara não entendia porque gostava da companhia da garota, ela era um tanto irritante às vezes, parecia falar mais ainda quando notava que ele não estava de bom humor, e era extremamente curiosa, perguntava-lhe sobre tudo. Ao mesmo tempo, preferia quando ela estava lá para perguntar-lhe qualquer coisa e, no fundo, não se importava tanto com a conversa, até gostava. Mas não conseguia entender o motivo, e menos ainda o porquê de temer que ela se afastasse, era só uma questão de tempo para que Kato o deixasse e ele deveria estar preparado para aquilo;
Não podia cometer o mesmo erro duas vezes, era como Yashamaru, algum dia ela também tentaria machucá-lo, mas Gaara sabia que, quando esse dia chegasse, ela não o derrotaria. Pensar naquilo parecia apertar seu peito, ao mesmo tempo que sabia que ela não poderia machucá-lo, sentia dor ao imaginar que ele provavelmente a mataria e, nesse dia, ele a perderia para sempre, assim como havia perdido seu tio.
— Oi, Gaara!
Virou-se ao ouvir a voz animada da garota, em tempo de sentir os braços dela apertar-lhe gentilmente. O ruivo ficou sem reação por um instante, afastando-se assustado segundos depois;
— O que...?
— Feliz Aniversário! — Sorriu, ainda mantendo os braços próximos dele, não parecendo reparar na relutância do outro.
— O que está fazendo?
— Te dando parabéns, ué? — Franziu o cenho, confusa — Não é seu aniversário?
Gaara concordou com um aceno, afastando-a antes que ela o abraçasse uma segunda vez.
— Sabe que não gosto que encostem em mim. — Disse baixo, respirou fundo, concordando;
— Mas é seu aniversário, se eu não te dar um abraço, como vai saber que eu gosto de você e te desejo coisas boas?
Ele viu a garota encará-lo com a sobrancelha arqueada e as mãos na cintura, quase como se o desafiasse a contradizê-la.
— Não precisa me abraçar para me dar os parabéns, não quero que encostem em mim, Kato.
A garota cruzou os braços, fazendo um barulho com a boca ao olhar para baixo, parecendo chateada.
— Sei que não, mas achei que não fosse se importar no seu aniversário… — Disse triste, olhando os próprios pés. — Sinto muito.
Gaara a encarou por um instante, percebendo que ela estava realmente chateada com a situação. Fechou os olhos e respirou fundo antes de tornar a olhá-la;
— Tudo bem — falou baixo, atraindo sua atenção — só hoje.
abriu um sorriso animado, tornando a abraçá-lo com força, Gaara fechou os olhos, mas não moveu as mãos para retribuir;
— Feliz aniversário, Gaara! Espero que seu dia seja muito legal e que você só tenha coisas boas nos seus dias! — Disse, permanecendo mais alguns instantes abraçada ao amigo, antes de se afastar alguns centímetros. — Viu? Não foi tão difícil!
O ruivo olhou para o lado, não respondendo nada. Não admitiria em voz alta, mas parte de si havia sim gostado do pequeno contato, nem mesmo lembrava-se quando havia sido a última vez que alguém tinha o abraçado e Kato havia sido a única a lembrar-se do seu aniversário.
— Tudo bem se eu te abraçar mais vezes? — Perguntou, juntando as mãos e olhando-o animada. O garoto pensou por um instante, mas negou com a cabeça. — Pelo menos no seu aniversário? É só uma vez por ano, Gaara!
— Certo.
— Ótimo! Agora vem, eu pedi pra minha mãe fazer um bolo pra você! — Avisou sorridente, vendo-o abrir a boca surpreso.
— Por que?
— Porque não dá pra comemorar um aniversário sem bolo! Agora vem! — Disse, puxando-o apressada em direção à sua casa.
— Não precisa me segurar — resmungou, tentando evitar suas mãos.
A garota riu baixo, caminhando ao seu lado até que chegassem em sua casa, aproveitando que seus pais já haviam saído para trabalhar. Gaara olhou ao redor quando andaram até a cozinha, era a primeira vez que entrava na casa da garota. O local era bem mais simples que sua casa, mas lhe deu a sensação de bem-estar como há muito não sentia.
— Aqui! — Apontou para um bolo redondo em cima da mesa, virando-se para pegar os talheres e pratos, junto com o suco.
Comeram em silêncio por alguns minutos, Gaara mastigou devagar, olhando-a de canto;
— Por que fez isso?
Kato o encarou confusa, dando de ombros antes de tomar um gole de sua bebida;
— É seu aniversário e você é meu amigo.
O garoto concordou com um aceno, sorrindo pequeno em sua direção.
Após comerem, os dois subiram até o quarto da garota, passando o resto da tarde brincando com um jogo de tabuleiro e comendo mais alguns pedaços de bolo, enquanto conversavam sobre coisas diversas, incluindo as aulas na Academia, a qual a garota tinha começado há poucas semanas.
Quando começou a escurecer, Gaara espreguiçou-se, se levantando para ir embora, sendo acompanhado pela mais nova até à porta, virou-se para se despedir e logo foi surpreendido por outro abraço apertado;
— O que está fazendo?
— Você disse que eu posso te abraçar no seu aniversário! — Piscou divertida, vendo-o arregalar os olhos verdes.
— Uma vez!
Kato negou com a cabeça, sorrindo animada;
— Eu perguntei se poderia te abraçar mais vezes e você disse que posso te abraçar apenas no seu aniversário. Mas eu nunca disse que era uma vez no seu aniversário! — Explicou rindo, antes de tornar a passar os braços pelos ombros do amigo. Gaara suspirou, levantando um único braço, dando um tapinha em suas costas.
— Já está bom, Kato, pode me soltar agora!
— Espera! — Pediu baixo, apertando-o ainda mais, antes de soltá-lo, sorrindo largo — Pronto, acho que agora dá pra esperar até seu próximo aniversário!


Capítulo 3

Um ano depois.

O garoto olhou para o céu claro, suspirando ao notar que o sol estava alto, sabendo que aquilo significava que, de fato, ele estava esperando há muito tempo.
Colocou as mãos nos bolsos e desencostou da pedra em que estava escorado, começando a caminhar cabisbaixo em direção à sua casa.
Já fazia um tempo que se sentia estranho, por vezes preferia evitar encontrar com Kato, porque sentia que tinha algo errado ali: Gaara continuava a ser temido por todas as outras pessoas, inclusive seus irmãos, mas algo dentro dele não se importava mais com aquilo, parecia até mesmo gostar. Era como se ele ficasse mais forte com a raiva que crescia em si sempre que alguém se assustava com sua presença. Kato parecia ser a única que não se importava com aquilo, embora já tivesse dito um dia que às vezes via algo que a assustava em seus olhos, porque ele parecia diferente, principalmente quando haviam outras pessoas ao redor. Ela também sabia que Gaara estava mudando, mesmo que nenhum dos dois entendesse o motivo daquilo.
O ruivo sentia-se cada vez mais irritado, queria ficar sozinho a maior parte do tempo e, mesmo quando a amiga estava junto, algo parecia incomodá-lo. Ele só não entendia o porquê; sempre quis ter amigos, alguém que se importasse com ele de verdade, mas agora havia uma parte dentro dele que queria afastá-la.
Sabia que ela ficava chateada com aquilo, percebia o olhar triste sempre que ele dizia que não queria companhia, contudo, não desistia de sua amizade e continuava ao seu lado, mesmo quando passavam o dia todo sem conversar.
Parte dele era grato por aquilo, por saber que ela se importava, mas era cada vez maior a sua vontade de ficar sozinho, a sensação de não precisar de ninguém, nem mesmo dela.
Mesmo assim, quando não apareceu para darem uma volta como haviam combinado, sentiu algo apertar em seu peito. E se ela tivesse se cansado dele e agora não quisesse mais ser sua amiga?
Suspirou tristemente, continuando seu caminho pelas ruas de Sunagakure, considerou se voltava direto para sua casa ou se tentava falar com a mais nova; não era comum Kato não avisar que não poderia aparecer, ela sempre dava um jeito de dizer com antecedência.
Algo poderia ter acontecido.
Andou devagar em direção à casa da amiga, um pouco afastada do centro da cidade. Parou na porta e pensou se deveria ou não bater, sabia que o pai de não gostava muito dele, menos ainda que se aproximasse da garota, talvez a colocasse de castigo se Gaara batesse na porta.
Olhou ao redor, pensando se deveria, ou não, tentar chamar sua atenção jogando areia na janela de seu quarto e, foi durante esses segundos de devaneios que ouviu um barulho alto vindo de dentro da casa. Estreitou o olhar, aproximando-se da janela ao lado da porta.
Não conseguia ver muito, embora pudesse ouvir a voz grossa do Sr. Kato. Pouco depois viu descer correndo as escadas, com o pai a seguindo cambaleante.
Gaara prendeu a respiração quando aproximou-se da luz, e ele pode ver os machucados em seu rosto.
A loira segurou uma kunai quando o pai a alcançou, tentando, em vão, proteger-se.
Gaara fechou as mãos em punho quando viu o moreno acertar-lhe um tapa no rosto, puxando-a pelos cabelos.
O garoto sentiu a raiva dominá-lo, aquilo explicava os hematomas que volta e meia Kato tinha no rosto e braços, sempre dizendo que havia caído ou se machucado sozinha.
Como pode não ter reparado naquilo antes?
Abriu a porta da sala de supetão, vendo a expressão surpresa da amiga ao encontrá-lo ali, e a raiva nos olhos do pai dela.
— Você! — Cuspiu, puxando o braço da filha — Saia da minha casa, seu esquisitão. Já disse que não te quero aqui! — Gritou.
tentava soltar-se do aperto, mas seu pai era muito mais forte do que ela.
Entretanto, o mais velho não era mais forte que Gaara, ninguém era mais forte que o ruivo e sua areia.
Foi uma confusão de apenas alguns segundos, em um momento Gaara moveu o braço na direção do homem, a mão aberta, e sua areia avançou rapidamente, envolvendo-se por todo o corpo do moreno, levantando-o vários centímetros no ar. O ruivo então fechou a mão em punho e a areia apertou-se sobre o homem, pouco a pouco, ao passo que ele gritou em desespero, tentando soltar-se sem êxito.
deu passos para trás quando seu pai a soltou, caindo de joelhos no chão quando viu o que acontecia, piscou lentamente, surpresa com tudo o que via.
Viu o sangue começar a escorrer da boca de seu pai e, por um instante, achou que ele merecia o que estava por vir, porém, foi quando focou sua atenção na areia que lembrou-se de Gaara; olhando-o assustada, notando que ele nem mesmo piscava, a expressão de puro ódio presente em seus olhos;
— Gaara, não — pediu baixo, aproximando-se do amigo —, por favor.
O ruivo a encarou por poucos segundos, o cenho franzido.
— Não faça isso, não seja igual a ele.
— Ele merece — disse em voz baixa, olhando para o rosto machucado da garota.
concordou com um aceno;
— Mas você não merece.
O garoto demorou alguns segundos para entender, mas afrouxou o aperto, por fim concordando com um aceno. O soltou por completo, fazendo com que o homem caísse com força no chão, enquanto sua areia voltava devagar para a cabaça presa em suas costas.
Os dois notaram a pose estranha que o moreno estava caído, o sangue escorrendo de sua boca, os olhos abertos.
deu passos vacilantes em direção a seu pai, ajoelhando-se ao seu lado e encarando-o, antes de inclinar-se alguns centímetros, tentando ouvir as batidas de seu coração.
Virou-se para o amigo menos de um minuto depois, constatando que seu pai estava morto. Sabia que não tinha sido a areia, ele ainda se contorcia segundos antes, foi a queda que o matou, quebrando seu pescoço com a força do impacto.
Gaara não diria que estava arrependido, nem que sentia muito, mas pensou que agora, talvez, realmente quisesse ficar longe dele, afinal, independentemente de qualquer coisa, ele havia matado o pai dela.
— Eu preciso chamar alguém — disse baixo, pensando na história que diria para sua mãe e todos os outros, não poderia acusar o amigo que só tentava ajudá-la. — Você não pode ficar aqui — levantou-se andando até o ruivo —, vou dizer que ele caiu da escada, você não pode estar aqui, Gaara!
— Pode dizer que fui eu — respondeu no mesmo tom, vendo-a negar com um aceno —, não me importo que saibam.
— Mas eu sim, — tornou nervosa, segurando a vontade de chorar — não vou deixar que te culpem por isso, Gaara. Vai embora, eu preciso pedir ajuda!
O garoto hesitou, mas concordou com um aceno segundos depois, virando-se para sair da casa, mas parando na porta, ainda incerto.
— Eu não me importo…
— Eu sei — respirou fundo, sorrindo pequeno em sua direção —, mas agora é minha vez de te ajudar. É melhor você ir, rápido!
— Você está bem? — Perguntou, dando um passo em sua direção, prestando mais atenção em seus machucados, Kato concordou com um aceno. Gaara a encarou profundamente, dizendo tão baixo quanto um sussurro; — Eu sei que ele é seu pai, mas não me arrependo. Não vou deixar que te machuquem.
deu um passo em frente, abraçando-o apertado por alguns instantes, surpreendeu-se quando sentiu as mãos de Gaara em suas costas, retribuindo sem jeito aquele gesto. Soltou-o e deu dois passos para trás, fungando enquanto tentava evitar que lágrimas caíssem;
— Obrigada, Gaara, mas agora você precisa ir.
O ruivo concordou a contragosto, dando passos para fora da casa, antes de dizer por sobre o ombro;
— Eu te vejo amanhã, Kato.


Gaara esperou por horas, mas não apareceu naquele dia.
Nem no outro e nem no seguinte.
Uma parte de si começou a apertar seu peito, preocupado que ela talvez tivesse finalmente entendido o que aconteceu, do que ele era capaz e, por isso, resolveu ficar longe dele. Seria uma escolha inteligente, mas o ruivo não queria aquilo.
Pelo menos não completamente.
Aquela parte que queria afastá-la parecia comemorar, e ainda mais satisfeito ao saber que havia sido o responsável pela morte do homem.
O quão poderoso ele estava ficando para ter matado um adulto tão facilmente?
O quão mais poderoso ele poderia ficar?
Olhou a areia ao seu redor, repensando no que tinha acontecido há três noites e em como conseguiu controlá-la tão bem, foram apenas dois movimentos, ele nem mesmo precisou dizer nada, a areia veio naturalmente a ele, e daquela vez não foi para defendê-lo, foi para atacar.
Gaara não precisava se preocupar em se defender, sua areia fazia isso sem que ele nem mesmo precisasse pensar, mas não imaginou que teria tamanha facilidade para poder atacar outra pessoa.
E, ao pensar nisso, pegou-se tentando entender o motivo de ter sentido tanta raiva a ponto de considerar matar o homem; era claro que ele não queria Kato machucada, mas não sabia que se importava tanto assim para matar por ela.
Voltava para casa quando ouviu passos apressados em sua direção, virando-se em tempo de ver correndo até ele. A garota parou a pequenos passos de distância, colocando a mão sobre o peito para recuperar a respiração acelerada, antes de sorrir em sua direção;
— Desculpe o atraso, não consegui sair nos outros dias por causa do Conselho, e hoje minha mãe precisou de ajuda — explicou, passando a mão pelos cabelos compridos.
Gaara reparou que os machucados presentes em seu rosto já não estavam tão escuros quanto antes, embora ainda se destacassem com facilidade.
— O que você disse que aconteceu? — Perguntou curioso, colocando as mãos nos bolsos da calça. deu de ombros, não parecendo querer conversar sobre o assunto.
— Que ele estava correndo atrás de mim e caiu das escadas porque tinha bebido muito — contou em voz baixa, olhando ao redor para garantir que ninguém os escutasse —, acho que pensaram que eu quem tinha o empurrado. Começaram a me perguntar várias coisas repetidas — então tentou conter um sorriso, mas ele notou os olhos dela brilharem — e eu consegui usar meu kekkei genkai!
— O que? — Tornou surpreso, ficando frente a frente com ela — Como?
— Comecei a ficar nervosa, porque me perguntavam a mesma coisa de novo e de novo, acho que esperavam que eu falasse diferente — explicou-se apressada —, e o homem do Conselho que estava me interrogando, ele encostou na minha mão, achou que estava me confortando, eu sei lá — deu de ombros, sorrindo esperta segundos depois — e aí aconteceu, foi meio sem querer, mas eu falei umas coisas e ele acreditou em tudo, e saiu contando pra todos que foi apenas um acidente!
Gaara impressionou-se por alguns segundos, arregalando levemente os olhos.
— Então agora está tudo certo?
— Sim — confirmou com um aceno —, se eu soubesse que era só encostar nele teria feito isso no primeiro dia — suspirou, parecendo cansada.
— Sua mãe sabe o que aconteceu? — Tornou alguns segundos depois, vendo-a negar com um aceno.
— Não, disse a mesma coisa pra ela, não acho que ela tenha se importado tanto assim, quer dizer… Está triste, mas não parece tão triste, sabe?
— Você está bem? — Questionou ao encará-la nos olhos.
Kato sorriu pequeno;
— Sinceramente? Melhor impossível!




Continua...



Nota da autora: FELIZ 2021!! Espero que esse ano seja incrível para todas vocês!
Sobre a fic: é sério, do cap 4 pra frente os caps são mais longos, mas esses primeiros não tem como ficarem muito maiores rsrs
No mais, espero que estejam gostando e não esqueçam de comentar! O cap. 4 já está quase pronto e não demora muito pra entrar!!
xx




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