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Última atualização: 20/01/2021

Capítulo 1


Eu escolhi uma calça de malha que imitava jeans, uma blusa de manga curta branca, meias inteiramente brancas e um tênis feminino preto, tudo para demonstrar o máximo de neutralidade possível. Completei minha escolha com uma bolsa grande marfim, com um casaco e um guarda-chuva dentro, por prevenção. Sabia a ficha inteira da criança pela descrição da vaga: seis anos, intolerante a lactose, escola convencional no turno da manhã, natação às segundas e quartas, futebol às terças e quintas, inglês na sexta. O que eu mais me perguntava era qual a necessidade dos endinheirados de colocarem os filhos para fazerem mil cursos diferentes. não era a primeira criança de pais ricos de quem eu tomaria conta, mas eu quase esperava que fosse a última porque estava quase na hora de deixar os serviços simples para trás, pegar meu diploma e passar a trabalhar integralmente como arquiteta.
– Já vai, filha? – Minha mãe perguntou quando eu passei pela cozinha, o corredor no mais completo escuro ainda.
– Vou sim, pediram pra eu chegar às sete.
– Vai fazer que percurso?
– Vou pegar um ônibus até a estação de BRT. O condomínio deles é bem perto do ponto, dá pra ir andando.
– De qualquer forma, toma cuidado e me manda uma mensagem quando chegar.
– Pode deixar, mãe.
– Boa sorte. – Ela me deu um abraço e voltou para a cozinha, provavelmente estava preparando a refeição do meu irmão caçula.
O trânsito no Rio de Janeiro àquela hora já estava começando a ficar caótico, o que era incrível. O bom era que, mesmo caótico, o BRT era um ótimo meio de transporte e me permitia ficar um tempo a mais na cama. Se isso fosse antes das Olimpíadas, quando a via expressa foi inaugurada, eu provavelmente levaria mais que o dobro do tempo naquele percurso.
Por sorte, um ônibus encostou assim que eu parei na estação e eu consegui entrar rapidamente, ainda com lugar para sentar. Como lotou, dificilmente precisaria ceder meu assento para alguém, pois estava longe da porta e, até alguém que precisasse chegasse lá, passaria antes pelo preferencial. Mesmo assim, eu me mantinha atenta para saber se seria necessário.
A viagem de Realengo até a Barra da Tijuca não levou nem uma hora, o que era bem incrível para quem havia crescido na zona oeste. Eu estava tensa, mesmo que não fosse a minha primeira vez. Tinha uma carta de recomendação ótima dos meus patrões anteriores e a minha entrevista com a mãe do havia sido muito boa. Se não gostara de mim, pelo menos era ótima em disfarçar.
Na portaria do condomínio, minha entrada já estava autorizada, o que significava que aguardavam por mim. Enquanto eu cumprimentava o porteiro e o mesmo me desejava boa sorte no novo serviço como se já me conhecesse, uma Mercedes saiu arrancando pela porta da garagem. Observei o motorista irritadinho desaparecer entre os demais carros e entrei no hall do prédio. O elevador levou cerca de trinta segundos para chegar. Ao entrar, apertei o botão para o décimo oitavo andar. O impulso para subir foi tão grande que chegou a me dar enjoo mas, só de pensar na quantidade de degraus que teria que subir para chegar até o apartamento desejado, meu medo desaparecia.
Quando o visor logo acima da porta indicou que estava quase chegando ao meu destino, olhei para o grande espelho e chequei meu visual. Não gostava de estar de cara limpa, então coloquei um delineado bem discreto nos olhos e caprichei no rímel e lápis de olho. Achei que, assim, poderia agradar melhor, já que os padrões daquele tipo de gente provavelmente não permitiriam me aceitar ‘naturalmente’. Verificando que estava tudo em ordem, saí do elevador. Havia apenas duas portas que davam para o hall do andar, uma com a placa ‘serviço’ escrita logo acima dela. No entanto, não havia campainha ali, então optei pela outra porta.
– Bom dia, ! – me recebeu, aparentemente já arrumada para sair. – Chegou cedo, bom que posso sair mais cedo também. Fez boa viagem?
– Fiz sim, dona , bom dia.
– Ah, quê isso de dona . Pode me chamar só de , fica tranquila.
– Ok, obrigada.
– Agora tem alguém que eu gostaria que você conhecesse... – Ela foi até a entrada para um corredor enquanto eu fiquei parada ainda bem próxima da porta. – , vem cá, a mamãe já vai sair.
olhou para mim e sorriu simpaticamente. Em alguns segundos, uma criança loira saiu de lá com metade do uniforme vestido. Virou-se para mim e abriu um sorriso, balançando a mão em um cumprimento cheio de vergonha por estar na frente de uma pessoa nova.
, essa é a , ela vai cuidar de você no lugar da Aline a partir de agora, como a gente já tinha conversado. Tudo bem, filho?
A criança fez que sim. abaixou na altura de , deu um beijo na sua bochecha e, ao se levantar, pegou uma bolsa que estava em cima da mesa.
– Tudo o que você precisa saber tá naqueles papeis que eu te entreguei. Se precisar de qualquer coisa, me liga. A Glória, governanta, vai chegar daqui a pouco, ela precisou se atrasar por motivos particulares hoje. Sua cópia da chave é essa. – falou e deixou um molho na minha mão. – Já te passei a senha do aplicativo do Uber, certo?
– Passou sim. – Eu respondi e assenti simultaneamente.
– E o colégio do é o...
– Saint John.
– Ótimo, você é maravilhosa! – Ela se aproximou de mim e deu um beijo espontâneo na lateral do meu rosto. – Assim que eu sair da reunião, venho pra gente conversar melhor. Tem comida na geladeira, pode pegar o que quiser. Obrigada, mais uma vez, por vir tão rápido.
– Sem problemas, dona .
– Só , não esqueça. E sinta-se em casa. – Ela disse com outro sorriso simpático e fechou a porta, deixando eu e para o lado de dentro.
Respirei fundo e pedi aos céus para que tudo desse certo. Quando me virei, ele estava no mesmo lugar.
– E aí, ? Tudo bem? – Tentei interagir.
– Tudo sim. – Ele respondeu rápido e extremamente educado.
– Por que você não termina de colocar seu uniforme? Vamos sair pra te levar pra escola já já.
Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça e voltou para dentro do corredor. Isso me deu tempo para dar uma checada no visual do lugar. A sala era enorme e era o primeiro cômodo, possuindo uma porta gigante de vidro que dava para uma varanda fechada. Os móveis pareciam caríssimos. Na estante, diversos retratos de , e seu esposo, Diego. Carlos o venerava, mas eu não era muito ligada em futebol. Assistia e torcia. Sabia que ele jogava bem e tudo mais, mas era mais contida como torcedora. Eu tinha uma tarefa dificílima em tentar conter sua animação com o fato de eu estar trabalhando para um de seus maiores ídolos.
– Estou pronto, tia . – O pequeno surgiu de volta.
– Então vamos? – Ofereci a mão para ele. – E pode chamar só de tia . Você gostaria que eu te chamasse de algum jeito ou só de ?
– Eu gosto de , papai me chama assim.
– Então tá, . Vamos?
O trajeto para o colégio foi tranquilo e, logo, eu estava de volta. Abri a porta principal depois de testar algumas chaves. Do lado de dentro, havia o som de mais alguém. Deixei minha bolsa em um cabideiro próximo à porta e fui caminhando na direção do som até acabar na cozinha, que era uma das maiores que eu tinha visto na vida. Uma senhora estava separando alguns ingredientes, de costas para mim.
– Bom dia. – Falei, e ela se virou imediatamente.
– Ah, bom dia! Você deve ser a , certo?
– Isso mesmo. E a senhora é a Glória?
– Sim, isso, muito prazer. – Ela disse e me cumprimentou com um abraço. – Dona falou que você viria hoje. Espero que você tenha sorte aqui.
– Sorte?! – Perguntei.
– Ah, querida, sabe como é... O dinheiro não compra felicidade, entende?
Eu assenti e assisti a senhora se afastar, voltando ao que estava fazendo.
– Posso ajudar, dona Glória?
– Nenhuma das babás anteriores do se ofereceram, então já gosto de você. – Ela disse, sorridente. – Pode sim, por favor. Pegue uma espátula de silicone na segunda gaveta e uma bacia de inox na porta à direita das gavetas e traga pra mim.
– Sim, senhora.
Como me conhecia bem, coloquei um despertador para o horário de buscar na escola. Ele saiu de lá sorridente, com uma folha A4 em mãos com um desenho que ele jurava ser um carro de fórmula 1 – mas eu acho que estava mais para um carrinho de mão. A professora de natação dele estava com o próprio filho no hospital e, por isso, sua aula da tarde foi cancelada, o que nos rendeu algumas horas em casa. As recomendações expressas para que ele não passasse mais de trinta minutos seguidos ou uma hora por dia no videogame me fizeram pensar que ele seria insistente, mas foi só falar que ele deixou o console no sofá e, sem dizer nada, foi brincar com alguns carrinhos miniatura.
era um ótimo anfitrião, devo dizer. Ele fez questão de me mostrar a casa toda, até mesmo o quarto dos pais, que eu neguei e disse a ele que não deveria entrar porque eu era uma visita. Pareceu entender, mas talvez fosse informação demais para a mente de um menininho de seis anos. Quase na hora da sua mãe voltar, ele pediu para ver um filme e eu perguntei se ele já havia visto ‘Dinossauro’. Com uma resposta negativa, fiz um resumo e animou. Achei o filme na internet mas, com menos de dez minutos, ele dormiu. Fiquei aguardando no sofá enquanto não chegava até que escutei uma chave girando na fechadura principal. Comecei a levantar devagar do sofá para não acordar , mas quem eu encontrei não era quem eu esperava.
– Opa! – Diego, o marido de e pai de , ofereceu a mão para um cumprimento. – Boa tarde. ?
– Boa tarde. , na verdade. – Falei em tom baixo.
Diego checou por cima do meu ombro e viu o filho adormecido no sofá.
– Peço desculpas pelo engano então, vou procurar me lembrar. Ele se comportou? Deu tudo certo hoje?
– Deu sim, senhor. Ele só não teve natação, a dona mandou mensagem avisando que não precisava levar porque a professora teve uma emergência.
– Tudo bem. – Ele checou o relógio, parecia caro. – Acho que já deu seu horário.
– Sua esposa pediu pra que eu esperasse por ela, pra acertarmos alguns detalhes.
– Pode ir pra casa, eu resolvo com ela. Se você esperar mais, o trânsito vai ficar um inferno e você não chega ainda hoje.
– O senhor tem certeza? Ela não vai ficar chateada?
– Fica tranquila, eu vejo isso. Vocês terão tempo depois pra falar sobre tudo o que precisarem.
Eu hesitei, mas realmente já havia passado do meu horário e eu estava já bem preocupada com a lotação do BRT. Só queria mesmo era causar uma boa impressão no meu primeiro dia.
– Tudo bem então, eu agradeço.
– Que isso, não tem de quê! Até amanhã.
– Até. – Eu respondi com um sorriso, peguei minha bolsa no cabideiro e saí pela porta que ele havia mantido aberta.
No caminho para casa, mandei mensagem para minha mãe, informando onde estava e quanto tempo deveria levar. Chequei meus e-mails e havia um informe da faculdade, avisando que o sistema ficaria fora do ar e que os alunos da modalidade de ensino à distância – como era o meu caso – não teriam acesso às aulas por setenta e seis horas. Eu estava atrasada com meu conteúdo, mas acabaria recebendo uma folga forçada. Seria bom, de qualquer forma. Ao menos eu poderia ter tempo para me acostumar com a nova rotina, mesmo que pouco, e usaria o que me sobrasse para adiantar alguns serviços que eu havia conseguido como free lancer.
A faculdade de Arquitetura e Urbanismo estava me comendo, essa era a verdade, mas o divórcio dos meus pais não tinha sido nada amigável e tudo estava correndo na justiça ainda, deixando minha mãe com a pensão do meu avô, falecido militar, para sustentar os dois filhos e ela mesma. Com sorte, eu consegui uma boa bolsa por conta das notas da faculdade e estava conseguindo pagar uma parte das contas com o que recebia de salário. No caminho para casa, eu só pensava em quando aquilo ia acabar e nós poderíamos nos ver livres daquela situação toda.


Capítulo 2

– Tia , nós podemos tomar sorvete?
– Vou ligar pra sua mãe pra ver se você pode.
– Não precisa pedir pra mamãe!
– Como assim? – Coloquei as mãos na cintura, fingindo ter autoridade e tentando passar uma imagem de adulta responsável. – Sabia que não pode esconder segredos dos pais?
– Por quê?
– Porque coisas ruins acontecem com quem esconde segredos dos pais. Você tem que contar tudo pra sua mãe e pro seu pai sempre. – Falei e, disfarçando, usei o celular para mandar uma mensagem para .
– Mas aí eles brigam comigo.
– Então você fala pra eles que eles não podem brigar com você por falar a verdade. Mas isso não significa que você possa fazer coisas erradas.
– Como o quê, tia ?
– Como comer doces sem pedir pra sua mãe antes.
– Eu posso ligar pra ela?
– A tia já mandou mensagem. – Revelei, rindo. – Mas podemos ligar pra você falar com ela sim. Você quer?
– Quero!
Na hora que peguei meu celular, a mensagem de chegou em resposta à minha.
– Ei, a mamãe acabou de responder. Ela deixou!
– Eba! – falou e saiu correndo na direção da cozinha. – Tia Glória, eu quero sorvete, por favor, por favor, por favor, por favor...
– Acalme-se, menino. Vou pegar pra você. De que sabor você quer?
– De morango, tia Glória.
– E você, ?
– Eu?! Não, obrigada, nem posso.
– Está de dieta?
– Não, é que eu prefiro não abusar da sorte, ainda mais sendo nova aqui.
– Ah, a última coisa que a dona ou o seu Diego vão falar é sobre isso, fica tranquila. Temos de chocolate, flocos e morango. Qual você quer?
– Pode ser de flocos.
– Ótima escolha!
Glória voltou com duas taças enormes, recheadas de sorvete, calda e confeitos. Parecia extremamente luxuoso para mim, que estava acostumada com, no máximo, um sundae do Bob’s ou do Mc Donald’s. Eu e saímos caminhando para a gigante varanda com vista para o mar e sentamos em um dos bancos de madeira.
– Tia , qual a sua cor favorita?
– Vermelho. A sua deve ser azul, né?
– É sim. – Ele abriu um sorriso enorme. – Como você adivinhou?
– Será que não é porque seu quarto é todo azul?
Ele riu e escondeu o sorriso na taça, como se estivesse com vergonha.
– As outras tias não eram tão legais quanto você.
– Como assim?
– As tias que ficavam comigo.
– Ah, , tenho certeza de que elas gostavam de você do jeito delas.
– A tia Suelen era velha.
Eu acabei rindo, mas sabia que não deveria. O problema era que não tinha possibilidade de corrigir uma criança depois de rir justamente do que deveria ser corrigido. Enquanto isso, a porta do apartamento, a mais de dez metros de distância de onde estávamos, se abriu.
– Papai! – largou a taça do meu lado e saiu correndo na direção do pai.
Eu queria esconder a minha taça a todo custo, mas Diego me viu logo depois enquanto abraçava .
– Boa tarde, !
– Boa tarde. – Respondi, levantando e levando as duas taças comigo sem responder de novo que meu nome não era . – Eu perguntei à dona , ela autorizou o sorvete e a dona Glória falou que eu podia tomar, que não teria problema.
– Ele almoçou direito?
– Sim, até comeu um pouco mais.
– Então não tem problema mesmo. – Ele assentiu. – está em casa?
– Não, senhor. Ela disse que tem atendimento até oito horas da noite hoje, mas avisou que o senhor chegaria mais cedo e eu não precisaria passar do meu horário. Mas posso ficar mais, se o senhor precisar.
– Já disse que não precisa me chamar de senhor, . Olha... Eu tenho uma ligação importante pra fazer agora e vou estar no escritório pelos próximos minutos. Será que você pode garantir que o não atrapalhe? Aviso assim que eu estiver livre e ele puder entrar se quiser.
– Sem problemas.
Ele se afastou para dentro do corredor e eu não ousei observar mais. Fui até a cozinha e verifiquei que dona Glória estava retirando um tabuleiro com um cheiro maravilhoso de dentro do forno.
– O que é?
Cookies com gotas de chocolate. – Ela respondeu. – Os biscoitos da paz.
– Biscoitos da paz?!
– Sim, é que todos gostam. Seu Diego, dona , ... Até aquela velha chata mãe da dona gosta, e Deus me proteja dela me ouvir falando isso.
Ri do comentário. Dona Glória depositou o tabuleiro em cima da bancada, pegou um dos cookies com uma espátula de silicone e, agilmente, alcançou um pequeno prato. Juntou mais dois cookies ao primeiro e estendeu para mim.
– Prova, você vai amar.
– Mas estou comendo sorvete!
– Melhor ainda. – Ela brincou. – Só espera uns três a cinco minutos pra esfriar a ponto de não queimar a boca.
Assenti e peguei mais um bocado do sorvete. reapareceu logo depois, de cara emburrada.
– O que houve? – Perguntei.
– Papai entrou no escritório e trancou a porta. Ele nunca fala comigo quando ele tranca a porta.
– O papai tem que trabalhar.
– Mas ele já chegou do trabalho. – protestou e subiu na banqueta ao meu lado, puxando sua taça para perto. – Por que ele tem que trabalhar de novo?
– Tá vendo isso aqui? – Apontei para o sorvete. – Isso é caro, custa dinheiro. Sabia que a tia não tem isso em casa?
– Você não tem sorvete em casa?! – Ele se assustou e eu ri.
– Não, estou falando da taça. Ela é muito bonita, sabia? A taça, a colher que você está usando. E sabe essa pedra aqui? – Passei a mão na bancada. – Também é muito cara. A sua televisão é cara, o seu videogame é caro, o sofá é caro, o fogão pra tia Glória fazer comida é caro, a roupa que você veste é cara... Mas sabe o que tudo isso tem em comum? É tudo muito bom, de primeira categoria!
– O que isso quer dizer?
– Que é o melhor que existe!
– Isso é bom?
– É muito bom! E o papai tem que trabalhar pra pagar tudo isso. Mas o papai me contou que ele vai falar quando terminar pra você pode ir lá brincar com ele se quiser.
– Verdade?! O papai vai brincar comigo?
– Vai sim! É só você pedir com jeitinho.
fez cara de pensativo por um instante e voltou a pegar mais um pouco do sorvete.
– Tia , você pode brincar comigo lá no campo?
– Quer dizer que você quer treinar uns chutes, mocinho? – Brinquei.
– Eu quero ficar no gol dessa vez.
– Tudo bem então. Vai lá pegar a bola.
Antes que eu percebesse, os cookies separados para mim estavam em um pote com tampa e estavam em maior quantidade. Olhei para dona Glória e abri um sorriso em um agradecimento silencioso.
– Você leva jeito com crianças. – Ela observou.
Eu sorri com o elogio e dei de ombros.
– É a experiência. – Ressaltei e fui para a porta do apartamento. – ?
Ele veio correndo do corredor, já chutando a bola, mesmo que fosse contra as regras da casa. Decidi não interromper a felicidade do pequeno e direcionei-o para o hall do elevador. Antes de chegarmos ao andar do playground, eu tirei um dos cookies do pote e dei uma mordida. Por Deus, eles realmente eram divinos. me observava curioso.
– Tá gostoso?
– Tá sim. Quer um?
– Não posso. – Ele deu de ombros e olhou triste para a porta. – Mamãe disse que eu só posso comer um doce por dia e eu já comi o sorvete. Quero crescer pra ficar igual você, tia , e comer mais de um doce por dia.
– Mas só pode se lembrar de escovar os dentes.
– Eu vou lembrar. Eu vou ser adulto, ué!
A porta do elevador se abriu. saiu correndo, chutando a bola, e eu saí rindo. Éramos só nós dois no playground, o que era estranhável. Pela hora, muitas crianças já deveriam estar em casa após as aulas da manhã. Nesse ponto, pelo menos, eu sabia que Diego e eram ótimos pais, porque preocupavam-se com estimular o filho a praticar exercícios, mesmo que mínimos. Na minha época, não tinha tecnologia e, depois da escola, era certo de ter dezenas de crianças levadas no meio da rua para brincar de alguma coisa.
– Tia , tia ! – gritou de longe. – Duvido você fazer um gol em mim.
– Até eu duvido, . A tia não sabe jogar bola.
– Tenta!
Deixei o pote com os cookies em um banco ao lado da grama sintética, tirei o tênis e a meia e fui para a frente do gol. jogou a bola na minha direção e eu mal consegui parar ela com meus pés. Ele fez cara feia e posicionou-se entre as traves, bem no meio, e apontou para um canto. Eu chutei com todo o esforço que eu podia fazer, mas nem teve trabalho. A bola deslizou calmamente para fora do gol sem a intervenção do meu ‘goleiro’.
– Poxa, tia, você é muito ruim.
Sabe a sinceridade das crianças? Ela pode doer às vezes!
– Eu não sei jogar futebol.
– O papai pode te ensinar. Ele é muito bom. Você já viu ele jogando?
– A tia também não costuma assistir futebol.
– O papai é muito bom. Ele fez um gol uma vez que ninguém mais fez, sabia?
– Sério? – Fingi interesse, algo que eu sabia fazer muito bem quando tratava-se de relacionar-me com as crianças de quem eu tomava conta. – Me diz como foi.
Ele se distraiu em gestos e descrições exageradas a ponto de esquecer da bola – graças a Deus, eu não queria ser humilhada por uma criança novamente. gostava muito da mãe, mas do pai... O jeito que os olhos dele brilhavam quando citava qualquer história ou fato que envolvesse Diego aquecia meu coração.
Por sorte, eventualmente, outra criança chegou e foi brincar com ele. Também estava acompanhado da babá, cujo nome era Sofia e era da baixada fluminense. Ficamos conversando por um tempo enquanto os dois, e Lucca – era a nova moda dos ricos inventar nomes novos em cima de nomes padrões e repetir consoante sem necessidade? –, corriam para cima e para baixo no campo. Quando notei, já tinha passado das cinco e eu nem me preparara para ir embora ainda.
– Eita! – Acabei gritando.
– O que houve? – Sofia perguntou.
– Preciso ir embora. ! – Eu o chamei. – Vamos, a tia precisa ir embora.
– Mas já?
Eu e Sofia rimos da reação dele.
– Já, são mais de cinco horas.
– Tá bom então. – Ele concordou obediente e despediu-se do amiguinho para voltarmos para seu apartamento. – Você podia voltar aqui pra gente jogar outro dia.
– Somos do terceiro andar. – Sofia disse. – Pode chamar lá, estamos sozinhos todas as tardes.
Eu assenti e sorri para ela e Lucca, subindo logo em seguida. estava exausto e suado mas, mesmo assim, jogou-se no sofá. Eu chequei mais uma vez o relógio. Hesitei quando pensei em que decisão tomar. Entrar e ir até o escritório seria ousadia demais ou gritar pelo nome do patrão da boca do corredor poderia ser pior? Acabei optando pela primeira opção.
– Com licença... – Disse após bater na porta de leve.
? Ah, entra, por favor.
– Desculpa interromper, é que deu a minha hora. O senhor precisa de mais alguma coisa?
– Na verdade... Nós podemos conversar?
– Claro. Houve algum problema?
– Não, não, não é isso. Sente-se. – Ele me ofereceu uma cadeira de couro preta que estava decorando o ambiente. – É que eu tenho um jogo na Argentina em duas semanas, é um jogo importante. A não vai poder ir, mas eu queria saber se você poderia ir com o . Eu acerto com você os valores adicionais. Vai ser tudo pago. Voo, alimentação, hospedagem... Iríamos na terça e voltaríamos na sexta. Você pode?
– Eu acho que sim, mas...
– Po, que legal! – Ele encostou no meu ombro. – Fico feliz. Eu não vou poder dar atenção ao o tempo inteiro porque vou estar concentrado com a equipe, mas vou ficar com ele quando puder. Você pode ir passear sozinha nesse tempo, se quiser.
– Tudo bem, eu vou ver se posso mesmo e aviso o senhor.
– Ótimo!
O sorriso de sempre fazia com que eu ficasse curiosa para saber se aquela felicidade toda era verdade ou atuação.


Capítulo 3

Eu quase deixei a mala cair na hora que entrei no quarto. A minha garganta secou instantaneamente. Olhei em volta, tinha alguma coisa errada com o que eu estava vendo. O quarto era quase do tamanho da minha casa. Fiquei tão anestesiada com o choque de realidade que esqueci completamente de avisar minha mãe que havia chegado no hotel. Quando Diego disse que iria pagar meus gastos de hospedagem, eu sinceramente achei que fosse ser em um albergue ou coisa do tipo, não no InterContinental de Buenos Aires. Só havia uma coisa a se fazer: repetir as cenas de cinema e pular com tudo na cama que, embora fosse de solteiro, parecia mais confortável que todos os lugares onde eu já havia dormido.
Acordei de manhã antes do despertador. Tomei um banho completo, coloquei uma roupa confortável e decente. Como tinha tempo livre, deu tempo até de secar o cabelo. Mandei uma mensagem de ‘bom dia’ para minha mãe, dando-lhe um panorama geral de como seria a minha manhã. Calcei um tênis social aconchegante e joguei um casaco de moletom por cima do conjunto. Era abril ainda, mas a temperatura estava bem baixa. Quando estava já para sair do quarto, alguém bateu na minha porta. Chequei pelo olho mágico e Diego e estavam a postos. Abri a porta imediatamente.
– Bom dia! – Eu os cumprimentei, recebendo prontamente um abraço de .
– Bom dia, . – Diego me cumprimentou com um aceno de cabeça. – Você já tomou café?
– Ainda não.
– Tem problema se você puder já ficar com o ? Eu vou descer pra tomar café também, mas preciso já me apresentar. Aí, a partir de agora, eu já não posso mais ficar com ele oficialmente porque tenho que ficar concentrado com o time para o jogo, mas vou verificar as coisas sempre e não vou sair de perto do celular
– Sem problemas, podemos ir para o restaurante. – Confirmei e tranquei a porta, caminhando ao lado deles direto para o elevador.
– Nós vamos estar na academia agora de manhã, depois do almoço. Se rolar qualquer emergência, pode pedir pra alguém me avisar lá.
– Sim, senhor. – Respondi.
– Senhor?! – Diego arqueou uma sobrancelha, brincando.
– Desculpa. Eu acerto da próxima vez.
Diego riu da minha fala.
– Eu já deixei o cartão para emergências com você, certo?
– Certíssimo.
– E a senha é...?
– A data de aniversário do . – Baguncei o cabelo do mais novo, que riu.
– Se ele precisar de qualquer coisa, pode usar. Confio no seu julgamento pra decidir se ele precisa ou não de algo. Esse cartão também pode ser utilizado pras suas refeições. E falando nisso, você pode levar o pro restaurante do hotel ao meio-dia? É o horário que vamos almoçar, vou tentar permissão pra comer com ele.
– Sim, eu levo, sem falta.
– Se você quiser comer em outro lugar, pode comer também, não tem problema. Aí eu vou precisar de você à uma e meia da tarde. Isso, claro, se eu conseguir a permissão pra comer com ele.
– Acho que vou ficar por aqui mesmo. Se o senhor precisar que eu fique com o antes, eu vou estar por perto.
– Diego, ! É Diego! – Ele me chamou a atenção. – Vou descontar do seu salário o próximo ‘senhor’.
– Tá ok, vou parar. – Anunciei na hora que o elevador parou no térreo e nós saímos, quase soltando um é .
– Eles têm piscina, você pode usar. Lá mesmo, eles dão toalhas. As roupas do estão no meu quarto, na mala dele, e a chave de lá é essa aqui. – Diego se virou para mim, já na porta do restaurante, e entregou-me um cartão. – Qualquer coisa, você sabe onde eu estou e pode ligar. Faltou algum detalhe?
– Eu queria saber se posso levá-lo ao zoológico depois do almoço.
– Claro, pode sim. Usa o aplicativo do Uber com a conta lá de casa, pode pagar os ingressos e os lanches no cartão de emergência.
– Tá ok, obrigada. – Disse, percebendo que aquele era o ponto em que nos separaríamos. – Vou compartilhar a localização do meu celular com você, aí fica mais fácil de saber onde nós estamos.
– Seria ótimo. Obrigado, mais uma vez, . Você coloca o prato dele?
– Coloco sim. – Sorri para ele e peguei na mão de para seguirmos caminho.
Comemos ovos mexidos com torradas e achocolatado, não tinha erro. Pela manhã, insistiu em ir para a piscina, já que escutara o pai dizer que estava liberado. Nós almoçamos e saímos assim que Diego me “devolveu” . Eu acho que era a criança naquele instante, porque não estava nem dez por cento do tanto de animada que eu estava. Havia estado incontáveis vezes no zoológico do Rio de Janeiro, mas a experiência nem se comparava. , é claro, não estava fora do país pela primeira vez, muito menos lhe faltava vivência em passeios interessantes como aquele. Eu realmente estava fascinada.
Tiramos fotos com araras, camelos, elefantes, cabras, zebras, lhamas, até gansos. Quando passamos pelos felinos e viu pessoas tirando fotos juntos a leões e tigres, eu neguei veementemente. Não podia chamar a atenção dele de forma agressiva porque não era sua mãe, mas eu jamais permitiria que uma criança sob os meus cuidados entrasse na jaula com um animal daquele tamanho. Felizmente, antes de uma pirraça ser instaurada – seria a primeira de comigo e eu não fazia a mínima ideia de como ia lidar com ela –, um funcionário do zoológico me indicou que havia uma sessão específica para crianças. Fim da história: – e eu, é claro, não resisti – tirou foto com um filhote de tigre de bengala.
Chegamos no hotel bem cansados, não sem antes passarmos em um McDonald’s perto do hotel e acabarmos cada um com um sorvete caprichado. Assim que o elevador parou no nosso andar, Diego apareceu no fim do corredor com um outro homem. disparou, atropelando palavra com palavra sobre tudo o que tinha feito naquele dia. Diego só conseguia rir enquanto abraçava o tanto que podia do filho sem precisar abaixar, então olhou para mim.
– Parece que deu tudo certo. – Ele comentou.
– Deu sim, ele gostou muito.
– Você teve notícias da nesse meio tempo?
– Não. Até cheguei a enviar algumas fotos, mas ela nem visualizou ainda.
– Tia , mostra as fotos pra ele.
– O papai tá ocupado, .
– Mostra, por favor! – Ele implorou e Diego riu, parecendo se lembrar imediatamente do colega que estava ao seu lado.
– Ah! , esse aqui é o Diego. Outro Diego. Ele é o nosso goleiro principal. Diego, essa é a , ela tá cuidando do por esses dias.
O homem sorriu para mim e me ofereceu a mão para um cumprimento, que aceitei de bom grado.
– Tudo bem?
– Tudo certo, – Respondi com um sorriso. – e com você?
– Tudo certo também.
– Diego, será que ela e a Isabela não iam gostar de se conhecer?
– Verdade! – O “outro Diego” comentou, pegando o celular no bolso da calça que estava vestindo. – Vou mandar uma mensagem pra ela.
Isabela era sobrinha de Diego e tinha ido para Buenos Aires com o tio e a mãe para ver o jogo também. Era um jogo importante, algo sobre não continuar na competição se o time não vencesse. Eu realmente estava alheia a toda e qualquer regra de futebol, não era interessante para mim. De qualquer forma, nós conversamos rapidamente no corredor dos nossos quartos e, como uma gostou da outra – aparentemente –, marcamos de sair para um bar ou shopping. Quando eu argumentei que não poderia sair porque não tinha dinheiro e ainda tinha o , recebi um olhar taxativo do meu patrão e uma ordem expressa de que o cartão para emergências podia e devia ser utilizado, que era parte do meu bônus pela viagem. Deixamos um tempo de duas horas e meia entre o momento em que trocamos nossos números de telefone e a hora de sairmos. Por sorte, eu tinha lavado o cabelo, então usei o tempo livre para uma soneca rápida, já que ficou com a irmã do outro Diego com a permissão do próprio pai porque eles se conheciam.
– Meu tio falou que você é a babá do filho do Diego. – Isabela comentou quando finalmente sentamos à mesa no Sullivan’s Irish Pub & Restaurant, nosso destino encontrado pelo TripAdvisor.
– Sou sim.
– Já tem muito tempo?
– Faz quatro meses semana que vem.
– E você tá gostando?
– É ótimo. Paga as contas e sobra um dinheiro pra comer fora no final do mês, sabe? – Eu ri e Isabela me acompanhou.
– Eles brigam muito, né?
– Quem?
– O Diego e a .
– Ah, isso não é problema meu. – Comentei e cheguei para o lado ao ver o garçom trazendo nossas bebidas, usando de um gracias muito mal adaptado ao sotaque carioca. – Sou paga pra cuidar do , e é isso que eu faço. Não devo me meter no casamento de nenhum dos meus patrões.
– Isso é louvável. – Isabela ofereceu a bebida dela na minha direção, como em um brinde solitário. – Você é a primeira que não se mete.
– Como assim?
– Eu acompanho bastante meu tio, sabe? Ele e a minha mãe são muito próximos. Ela faz o agenciamento das redes sociais dele e tudo mais, e eu to estudando pra ser jornalista esportiva em dois anos. Ficar perto desse meio é legal, já ensina algumas coisas. E você não é a primeira pessoa que cuida do filho de algum deles que eu conheço nessas viagens. Sem ofensas, seu trabalho não é motivo de vergonha, de jeito nenhum.
– Não ofendeu. – Respondi e bebi um pouco da cerveja.
– Então... Você é diferente.
– Isso é bom?
– Acho que é. – Isabela riu. – Você não quer fofocar sobre seus patrões. É a primeira.
– Recebi boa educação.
– É uma boa explicação pra isso. – Nós duas sorrimos uma para a outra.
Ficamos conversando um pouco sobre a nossa vida pessoal. Isabela era de Ribeirão Preto, mas havia mudado para o Rio de Janeiro com a mãe por necessidade de acompanhar o tio quando ele começou a jogar pelo Flamengo. Estava começando a cursar a pós-graduação em jornalismo esportivo pela PUC – só o nome da faculdade já me mostrava que pouco dinheiro não era a situação ali na minha frente. Era três anos mais velha que eu. Montava o retrato do que deveria ser uma patricinha, mas Isabela era tudo menos superficial. Nós acabamos voltando para o hotel antes, pouco depois das dez, porque ela tinha chamada de vídeo agendada com o namorado e eu tinha uma noite de sono de pendência urgente.
– Nós podemos sair amanhã. Você já veio em Buenos Aires antes? – Isabela perguntou quando já estávamos para finalizar a noite quando peguei já adormecido no quarto que ela dividia com a mãe.
– Não, nunca tinha nem saído do país antes.
– Ah, então ótimo. Nós podemos ir no Museu Nacional de Belas Artes.
– Eu não posso, – Disse. – mas obrigada pelo convite.
– Não pode?!
– É, eu tenho que ficar com o amanhã o dia inteiro.
– Ah! Eu sei, bobinha. Falei pra levar ele também. E aí a gente pode ir até no Museu da Criança. Fica num shopping aqui perto, é legal até pra adultos. De qualquer forma, eu prefiro sair com um garotinho de quase cinco anos do que sair com mulher de jogador. Poucas daqui são companhias agradáveis, – Ela sussurrou e, olhando para os lados como se o assunto fosse top secret, chegou mais perto. – quase nenhuma, para falar a verdade.
Nós duas rimos como se fossemos amigas por um bom tempo.
– Nesse caso, pode ser. Só preciso confirmar com o Diego...
– Ele vai deixar, não se preocupe. Ele é um cara legal, deve ser um patrão legal também.
– Mesmo assim, eu gosto de confirmar. – Argumentei. – Amanhã, antes do café, eu verifico a possibilidade com ele.
– Tudo bem. Nos encontramos no restaurante então?
– Claro, pode ser! – Respondi, animada.
– Até amanhã, então, . Boa noite.
A viagem durou pouco mais de dois dias além daquele, e tudo correu dentro da mais perfeita ordem. Eu fui a um estádio pela primeira vez. Ainda por cima, fora do país. É claro, foi uma experiência estranha, mas eu fiquei feliz simplesmente por ver feliz, torcendo pelo pai. Diego não era o pai com mais paciência do mundo, mas ele se esforçava e isso criava um laço muito bonito entre eles, que eu gostava de admirar entre todas as crianças de quem eu já havia cuidado desde que começara a trabalhar como babá. Já eram melhores que muitas famílias dos meus empregos anteriores. Conheci um outro país, pontos turísticos que eram inalcançáveis para mim, vi um jogo de futebol de um campeonato importante e, de quebra, ainda acabei ganhando uma nova amiga no pacote. Havia, definitivamente, um saldo positivo naquela viagem. Além de, é claro, deixar meu irmão em casa morrendo de inveja.


Capítulo 4

– Então o emprego é bom?
, cuidado com os coleguinhas! – Gritei através da tela que limitava a área interna do playground infantil temporário do Barra Shopping. – Ah, Gi, paga bem, os patrões são bons.
– Ele é bom? – Minha amiga apontou para , descendo pelo escorrega enquanto eu o observava.
– O ?! – Eu só ri. – Giselle, você não tem ideia da paz que é cuidar dele. Acho que ele é a criança mais tranquila que eu já tomei conta desde que comecei a trabalhar como babá.
– Eu ia perguntar se os pais são bons, mas você tá com a criança num shopping no dia que a gente marcou pra fazer alguma coisa porque era sua folga.
– O pai dele tá viajando com o time e a mãe teve uma emergência familiar.
– Você já escutou desculpas melhores que essas de gente que pagava menos, .
– Eu sei, mas acontece. Não tem problema, eu vou ficar bem. Eu vou receber bem.
– Tia , olha o que eu sei fazer. – chamou a minha atenção de dentro do playground e deu uma estrelinha.
– Muito legal, mas cuidado pra não acertar ninguém, viu?
Ele saiu correndo e pulando na direção do escorrega maior que desembocava na piscina de bolinhas. Observei atenta enquanto ele desaparecia entre as bolas azuis e, logo depois, ressurgiu e falou alguma coisa com o amiguinho ao lado.
– Você me escutou, ?
Virei para Giselle, um pouco atordoada.
– Não, desculpa, eu estava prestando atenção no .
– Eu perguntei como o Carlos tá lidando com você trabalhando pra um dos maiores ídolos dele.
– Carlos é mais novo que eu, então eu consigo impor respeito. – Falei. – Ele tentou fazer algumas graças, mas cortei logo e acho que ele entendeu o recado.
– Às vezes eu queria entender sua mãe...
– Por quê?
– Ela mima seu irmão demais. Será que ela não vê que ele tá ficando um adulto horrível por causa disso?
– Ah, Gi, a minha mãe quer compensar pra ele não se sentir abandonado pelo pai.
– Mas seu pai abandonou vocês, com todo o respeito.
– Vai entender. – Dei de ombros ao mesmo tempo em que a recreadora chamou o nome de , acusando que seu tempo havia acabado, então nós nos aproximamos da saída das crianças. – De qualquer forma, falta pouco pra eu formar, começar a trabalhar e ajudar minha mãe a ser independente.
– A advogada falou mais alguma coisa sobre o processo do divórcio?
– Estamos aguardando o juiz se pronunciar sobre uma petição aí que eu não entendi muito mas que vai ser pra provar que ele deve indenização a ela.
– Tia ! – saiu suado do brinquedo, dando o assunto por encerrado entre eu e Giselle. – Você viu a cambalhota que eu dei no tapete?
– Vi sim, você fez muito bem.
– Você tirou foto pra enviar pro papai?
– Tirei e já enviei.
– Ele respondeu? – Os olhinhos brilharam na minha direção e eu fiquei triste por saber que a resposta não agradaria.
– Seu pai gostou muito! – Menti, mesmo sabendo que não era uma atitude muito correta ao se tratar de uma criança. – Mas o papai não podia falar porque ele tinha que treinar.
– Poxa, ele sempre tem que treinar. – cruzou os braços e emburrou a cara.
– Mas o papai precisa treinar pra ficar bom e ganhar dinheiro pra comprar sorvete e bolinhos pra você.
– Nós podemos tomar sorvete, tia ?
– Eu tenho que ver com a sua mãe.
Peguei o celular e comecei a mandar mensagem para , torcendo para que ela olhasse o celular naquele meio tempo – ou então eu teria que dar algum doce escondido para a criança contra a recomendação dos pais. Enquanto isso, nós íamos em direção à praça de alimentação do shopping. De qualquer forma, precisava comer alguma coisa, nem que fosse um sanduíche natural, que eu descobri que não fazia ideia de onde comprar porque eu simplesmente preferia ir direto às porcarias. Um ótimo exemplo para crianças!
– Tia , eu quero o brinquedo do Dois Irmãos! – gritou e puxou minha blusa.
– Dois Irmãos?! – Giselle arqueou uma sobrancelha.
– É um filme da Disney. – Revirei os olhos e respondi. – , a mamãe tem que deixar.
– Você pode pedir o McLanche Feliz com tomate cereja e danoninho ou purê de maçã. – Giselle sussurrou ao meu lado.
Respirei fundo e olhei o celular mais uma vez. Na conversa com , constava que ela havia estado online menos de um minuto atrás. Bufei, impaciente, perguntando-me como ela podia simplesmente ignorar uma mensagem da pessoa que sabidamente estava com o filho dela. Nesse mesmo instante, o meu celular tocou. Arregalei os olhos ao ver quem era mas atendi de qualquer forma.
– Oi, Diego. Boa tarde.
Boa tarde, . A disse que o tá com você.
– Tá sim, nós viemos ao shopping.
Mas por que ela precisou deixar ele com você hoje?
– Ela disse que teve uma emergência familiar e perguntou se eu podia ficar com ele à tarde.
Por um segundo, eu podia jurar que tinha escutado Diego soltar um “puta que pariu” baixinho do outro lado da ligação.
A acertou com você o extra?
– Ela disse que conversaríamos melhor sobre isso amanhã, quando ela estivesse em casa.
Eu vou transferir pra sua conta agora, ok?
– Não precisa, eu...
Fica tranquila, , eu resolvo isso com ela. Você pode passar pro , por favor?
Eu pensei em tentar argumentar, mas só respondi um “claro” que eu quase não ouvi e dei o telefone na mão de , explicando que o pai queria falar com ele. Claro que o brilho no olhar dele chegou a aumentar e suas mãozinhas pegaram rapidamente o celular da minha mão. Giselle olhou curiosa para mim logo depois, enquanto eu tentava ignorar fosse lá o que estivesse falando com o pai simplesmente porque não era da minha conta.
– O que houve?
Dei de ombros.
– Sei lá, algum problema.
– É sempre assim?
– Às vezes, mas o fica bem, então não é problema meu.
– Vamos no McDonald’s mesmo pra comprar o lanche dele?
– Não sei. To com fome também, mas não posso comer besteira na frente dele e dar um mau exemplo.
– É só você falar pra ele que ele não pode e ponto final.
– O tem cinco anos, ele não entende as coisas tão facilmente assim ainda.
– Entende sim, você tá subestimando a criança.
– Acho melhor esperar pela resposta da mãe dele, Gi.
– A mãe dele vai responder? Porque, se ela não falou nada até agora e você disse que ela tá numa emergência...
Eu suspirei e deixei os ombros caírem.
– Tia ! O papai quer falar com você. – me chamou, dando o celular para mim.
– Obrigada, . – Sorri para ele e peguei o aparelho, colocando na orelha logo em seguida. – Pode falar, Diego.
Vocês estão em qual shopping?
– No Barra Shopping.
Você pode levar o pra casa? A minha mãe vai te encontrar lá.
– Distrai o rapidinho. – Sussurrei para Giselle após tampar o microfone do meu celular, levantando da mesa onde estávamos e dando três passos, o que seria suficiente para que não ouvisse. – Eu posso só dar lanche pra ele antes? Nós acabamos de parar na praça de alimentação, ele já tinha pedido lanche. Eu só to esperando a dona confirmar se posso comprar um lanche no McDonald’s pra ele.
Pode sim, eu to confirmando. Você acha que leva quanto tempo entre pedir o lanche e ele comer?
– Ah, uns quarenta minutos, no máximo. A fila tá um pouco grande.
Tá ok. Pode pedir um lanche pra você também, eu te reembolso depois. Você leva o pra casa quando terminar?
– Levo sim, sem problemas.
Eu vou te passar por mensagem o número da minha mãe. Você pode falar pra ela quando estiver saindo do shopping?
– Posso, claro.
Perfeito então, . Eu te agradeço e peço perdão pela inconveniência da minha esposa em te atrapalhar no seu dia de folga.
– Não tem problema, eu estava por perto.
Mesmo assim, você não precisava ter trabalhado hoje. Vou fazer a transferência do extra pra sua conta agora. Depois, me manda o valor do lanche de vocês que eu transfiro também o valor.
– Tá tudo bem, não precisa.
Precisa sim, . Vou ficar aguardando o valor. Mais uma vez, obrigado.
Ele se despediu e desligou. Eu engoli em seco, pensei estar encrencada. Se tinha uma coisa que eu odiava naquele tipo de serviço era quando os pais davam ordens diferentes e eu ficava perdida, como cego em meio a um tiroteio, perguntando-me sobre quais ordens deveria seguir e quais deveria ignorar. Nada daquilo parecia certo, mas eu procurei poupar daquilo, como havia feito com outras crianças antes. Eu, mais do que ninguém, sabia o quanto o relacionamento instável dos pais podia custar caro no futuro.
Dona Catarina era uma senhora de muito bom humor, sempre disposta a tudo e simpática a qualquer custo. Ela era mais simpática que seu próprio filho, um estranho insistente quando tratava-se de ser cordial com os funcionários – descobri, depois, que não era só comigo toda aquela educação. Não conhecia muito do passado dele mas, a julgar por certas atitudes, imaginava que havia alguma história ali que fazia com que ele agisse daquela forma. No mais, ficava bem claro que dona Catarina havia criado Diego muito bem.
Eu deixei com a avó na portaria de seu condomínio e, logo depois, peguei outro uber para voltar para o shopping, onde Giselle me esperava pois eu pedi para ir sozinha. Por mais que estivesse na minha folga, não imaginava ser bom aparecer com uma pessoa de fora por lá. Pessoas ricas tinham padrões. Elas estavam ok com terem suas vidas invadidas por alguns estranhos, mas não admitiriam, de jeito nenhum, que houvesse outras intromissões não autorizadas em suas existências. Não imaginava que Diego ou até mesmo dona Catarina seriam esse tipo de pessoa, mas achei melhor prevenir. O emprego era bom, pagava bem, eu precisava dele a todo custo.
– Será que fica muito tarde pra gente ir no cinema ver alguma coisa? – Giselle perguntou quando eu cheguei de volta ao shopping.
– Não sei se estou afim de ver filme.
– Você realmente ficou chateada com a situação do , hein!
– Ah, é muita confusão pra eu ficar pensando.
– Será que isso não é ruim pra você?
– Como assim? – Eu me virei para Giselle, que estava mandando mensagem para o namorado enquanto falava comigo.
– Seu emprego, . Você trabalha com famílias endinheiradas e sempre deixa escapar que a relação dos pais com os filhos é problemática. Eu me pergunto se você já não viveu o suficiente disso na sua própria casa e se isso não pode piorar como você se sente a respeito de tudo o que aconteceu.
– Eu to bem, Gi.
– Tem certeza?
– Tenho. – Declarei. – E, no final das contas, eu preciso pagar a mensalidade da faculdade e ajudar com as despesas em casa enquanto o juiz não termina de julgar o divórcio.
Ela bufou e revirou os olhos.
– Seu pai é um grande filho da puta.
– Isso ele sempre foi, casado com a minha mãe ou não.
– A sua mãe tá bem com isso?
– Nós estamos vivendo com menos conforto, é claro, e as coisas não estão exatamente simples, mas estamos dando conta e ela se sente mais livre agora do que se sentia quando tava com ele.
– Isso é bom, né?
– Tem que ser. – Eu ri. – Mas acho que ela nem pensa muito nisso. O divórcio tá rolando mas acho que ela tá se sentindo muito bem com a pensão que meus avôs deixaram pra ela. Acho que ela nem tá ligando pro dinheiro do meu pai, ela diz que não quer.
– Como ela não quer?! Seu pai tá podre de rico, enriqueceu ao lado dela. Como ela não quer o dinheiro? É dela por direito!
Enquanto Giselle protestava, chegou a nossa vez na fila de atendimento para o totem de sorvete do McDonald’s. Pelo menos, eu já podia comer um belo de um McFlurry de Ovomaltine com calda extra sem ter que me preocupar com dar o bom exemplo para ou não.


Capítulo 5

Não era a primeira vez que eu passava por uma situação como aquela desde que comecei a cuidar de crianças para pagar a faculdade e ajudar em casa, mas nunca era fácil. Eu entrei no apartamento com a cópia da chave que havia entregado a mim e desejei dar meia volta no mesmo instante. Coloquei a minha bolsa no lugar de sempre, só depois que ouvi os gritos vindo do corredor. Segurei a respiração, não queria ser percebida ali de jeito nenhum.
Dona Glória estava na cozinha e fez sinal para que eu me mantivesse em silêncio. Depois, deu de ombros, como se dissesse que não havia o que fazer referente àquilo. Nesse instante, eu me perguntei se aquela situação era corriqueira ali na casa, ainda mais depois da breve conversa sobre os casamentos dos jogadores que tive em Buenos Aires com Isabella.
Tentei não ouvir, mais por respeito e educação do que por qualquer outra coisa, mas os palavrões estavam altos demais para não serem notados. E aí uma palavra puxava a outra. Entendia poucas conexões entre elas, na verdade. Parecia muito uma guerra para decidir quem gritava mais alto. O assunto nem parecia ser o mesmo por duas frases seguidas. Em um momento, estava falando sobre o tempo de Diego em casa. No outro, o assunto era um deles estar mimando demais. Não fazia o mínimo sentido, era brigar por brigar. Eu conhecia muito bem aquilo, vivi quase duas décadas disso dentro da minha própria casa.
Encostei em um dos balcões da cozinha e fiquei lá parada. Ainda de cabeça baixa, vi dona Glória me oferecer uma caneca de café. Aceitei, mesmo que eu tivesse tomado uma boa quantidade em casa. Aquele parecia ser o prelúdio de um dia mais longo do que eu previ para mim. E então, de repente, Diego irrompeu pelo corredor, não nos viu e saiu pela porta, batendo a mesma com uma força totalmente desnecessária. O fato de ele sair pareceu que permitiu que nós duas respirássemos de novo.
– Fica tranquila, finja que nada aconteceu. – Dona Glória disse a mim em um sussurro. – Na verdade, seria até melhor você dizer que chegou um pouco atrasada. A dona vai levar uns minutos pra sair do quarto ainda. É sempre assim.
– Onde o tá?
– No quarto dele, certamente.
– E eles discutem assim, desse jeito, com no quarto ao lado?
Dona Glória deu de ombros e virou-se para tirar alguns pratos da lavadora de louças. O mais estranho foi que, mesmo trabalhando ali por alguns poucos meses, eu não havia presenciado nada daquele tipo. Indiretas, frases um pouco agressivas... Tudo bem, acontecia, todo mundo tinha o direito de se estressas de vez em quando. Mas a tranquilidade de Glória para lidar com a situação era incômoda ao ponto de eu estranhar, o que só podia querer dizer que aquilo era sim corriqueiro.
Cerca de quinze minutos depois, como Glória havia predito, saiu do quarto. Como eu sabia o que tinha acontecido, dava para ver que ela tinha chorado, mas estava tentando disfarçar. Eu nem ia seguir pela linha de Glória, mas acabei indo por ela no último segundo.
– Bom dia, dona . Desculpa o atraso, o trânsito estava um pouco caótico...
– Você atrasou? – Ela pareceu surpresa. – Não tem problema, eu atrasei também. Há alguma chance de você ficar até mais tarde hoje, ? Eu preciso resolver uns problemas...
– Eu não tenho certeza absoluta, preciso verificar. Poderia avisar ao longo do dia, se estiver tudo bem pela senhora.
– Tudo bem, tudo bem, só me avise. – Ela disse, falava bem baixo. – O não vai pra escola hoje, ele não tá se sentindo bem. Fique de olho nele, por favor. Dei novalgina às quatro da manhã. Se algo piorar, o cartão do plano de saúde está junto com todos os outros documentos dele.
– Sim, senhora.
Ela fez menção de dizer alguma coisa, mas desistiu e saiu pela porta sem dizer mais nada. Se estava querendo disfarçar, era muito ruim naquilo. Ao menos, o clima estranho não ia perdurar na presença dela. Só isso já era suficiente para eu me sentir menos estressada pelos primeiros acontecimentos do dia. Mas aí tinha a preocupação de saber que estava doente. Àquela altura, eu até cheguei a questionar-me se ele estava mesmo ou se era uma mentira para integrar o fingimento horrível de .
Na ponta do pé, fui até a porta do quarto dele. Abri a porta lentamente. A cortina estava completamente fechada e a única luz ali era proveniente do fraco abajur. estava dormindo, a respiração pesada. Era quase inacreditável, dada a gritaria que tinha acabado de acontecer na parede atrás da cama dele. Decidi não acordá-lo, ele iria sair do quarto e procuraria na sala imediatamente quando fizesse isso. Então voltei para perto de Glória.
– Tem torta alemã na geladeira, querida. Se quiser pegar um pedaço, vá em frente.
– Não, obrigada. – Disse ao entrar na cozinha novamente. – Quer ajuda com o almoço? ainda está dormindo.
– Justifica a dona não ter insistido para que ele fosse ao colégio hoje... – Ela observou.
– Vou deixar que ele durma até não querer mais, deve ser bom pra recuperar seja lá o que ele tá sentindo.
– Provavelmente sim. Mas não, não preciso de ajuda com o almoço, está tudo encaminhado já. Obrigada pela oferta.
Eu assenti e segui para a sala de estar. Não havia a menor possibilidade de um dos meus patrões chegarem e encontrarem a maluca da babá largada no sofá deles, vendo uma série qualquer na Netflix. saiu mais tarde do que deveria de casa, então dificilmente voltaria, mesmo que ela nunca tivesse voltado desde que eu comecei a trabalhar para eles. Sobre Diego, eu já conhecia os esquemas, então sabia que, como havia tido jogo no sábado, o domingo havia sido de folga e os treinos retornariam na segunda e durariam o dia inteiro. Se algum deles, por algum absurdo do destino, surgisse, eu ia falar que era um presente para mim mesmo por ter ouvido a discussão.
Mentira, eu nunca teria coragem de fazer uma coisa dessas.
Enquanto assistia a penúltima temporada de Suits, senti uma presença extra na sala. subiu lentamente no sofá e deitou no meu colo, aconchegando-se manhoso. Coloquei a mão sobre sua cabeça e senti a temperatura um pouco alta. Só então que olhei para ele e vi o cobertor na sua mão, que ele tentou jogar por cima do próprio corpo.
– Ei, mocinho, você vai ficar pior se usar a coberta.
– Mas eu to com muito frio, tia .
– Posso ver sua temperatura?
Ele fez que sim. Eu levantei com cuidado e fui até o quarto dele. Peguei o termômetro e voltei para a sala. Trinta e seis graus celsius. Ele estava quente e era por outro motivo qualquer. Então sorri para ele, disse que podia usar a coberta porque estava melhor e mudei a programação transmitida na televisão para que fosse adequada a ele. No meio da manhã, saiu de seu marasmo e decidiu que queria comer tudo e mais um pouco da geladeira.
Fiquei feliz, parecia ser sinal de melhora mas, se havia dado novalgina a ele, havia tido febre ou dores. Com essa conclusão, não foi grande surpresa que ele apagasse completamente no sofá de novo depois de estar desperto por um momento. Como já estava cansada de ficar no sofá, pensei em ir para a cozinha e ajudar Glória, mesmo que ela tivesse negado, só para ter algo a fazer.
No caminho entre a sala e a cozinha, havia um quadro enorme dos três. Eu fiquei imaginando que tipo de família era aquela. Seria hipocrisia minha dizer que não tinha espiado os perfis no Instagram dos dois. Eram expositivos – até demais, para o que eu considerava saudável. Declarações de amor? Programadas! Não podiam ficar sem dizer que o outro era o seu mundo por menos de quarenta e oito horas. Aquele quadro era só a cereja no topo do bolo. Mas, se eram tão amorosos um com o outro assim, como que tinham uma vida repleta de brigas? Porque a reação de Glória à gritaria só poderia significar que aquilo era bem comum naquele apartamento.
Desisti de ir ajudar na cozinha e fui para a varanda, de um ponto onde pudesse observar o sofá onde estava e, assim, verificar seu estado à distância. O dia estava relativamente frio e, no ponto exato onde eu sentei, uns bons raios de sol estavam chegando. Aproveitei para tentar relaxar. Peguei o celular, abri em um jogo qualquer. Tentei usar o jogo para ficar distraída, mas só conseguia pensar em como proteger daquilo.
Ele estava dormindo naquele dia, ok, mas e nos outros? O que será que ele já tinha escutado antes o pai dizer para a mãe ou a mãe dizer para o pai? Porque o pouco que eu ouvi indicava que as ofensas eram mútuas e recíprocas. Eu me incomodava por ter vivido aquilo dentro da minha casa por muito tempo. Não queria que outra criança passasse por aquele sofrimento, queria que eu tivesse alguém ao meu lado para proteger-me de tudo o que eu passei com minha mãe. era um anjo, não merecia nada daquilo. E os pais eram irresponsáveis sim por terem aquele tipo de conversa tão perto dele.
O incômodo acabou com o meu dia. Minha cabeça ia da discussão até as possíveis consequências para qualquer um envolvido na vida do casal, passando pelo fato de estar doente e variando entre “estou cansado, tia ” e “vou quebrar o prédio inteiro pulando de um sofá para o outro”. Eu não sabia disfarçar meu humor alterado, mas até isso dona Glória pareceu só ignorar. Era um hábito recorrente ali, deveria dizer.
Quanto ao pedido de hora extra que havia feito a mim logo antes de sair para trabalhar, eu arrumei uma das piores desculpas da minha vida. Mandei mensagem explicando que estava para levar minha mãe para viajar e que tinha tentado ver com outra pessoa para acompanhá-la até a rodoviária. Disse que não tinha conseguido um substituto para mim e que precisaria ir, sendo assim, estando impossibilitada de ficar mais tempo. Ela respondeu com um textinho educado sobre eu ter liberdade para conversar com aquela sobre aquele tipo de assunto sempre que precisasse, agradeceu por eu ter tentado ficar e disse que eu poderia ir embora no meu horário que a mãe de Diego iria aparecer no apartamento para ficar com . Ótimo, assim eu poderia ir embora daquele lugar com a energia horrível a ponto de fazer eu me sentir mal.
– Dia ruim no trabalho, filha?
– Discussão entre os patrões, pra variar. – Eu disse à minha mãe quando entrei em casa e sentei na mesa de jantar que ficava no meio da cozinha.
– Já disse que você tem que ficar tranquila e não se envolver emocionalmente nisso. Seu trabalho é fazer companhia à criança, cuidar dela para suprir a ausência momentânea dos pais. Você tá se formando em arquitetura, não em psicologia. – Ela falou. – Eu fiz vitamina de abacate, você quer?
– Quero sim, mãe.
Ela foi até a bancada e pegou o liquidificador que eu nem tinha notado. Serviu um dos nossos maiores copos e entregou para mim. Logo depois, sentou na cadeira à minha frente.
– Obrigada.
– Você mal começou a trabalhar e já vai precisar de férias?
Eu ri.
– Vou aguentar, mãe.
– Filha, – Ela estendeu a mão por cima da mesa e tocou o meu braço. – eu posso segurar as pontas por um tempo se o trabalho estiver te fazendo mal.
– Da última vez que a senhora falou isso e eu dei ouvidos, quase fomos à falência total.
– Não vejo problema nisso.
– Vai dar certo, mãe. – Eu falei e tomei um pouco da vitamina. – Olha, essa daqui ficou uma das melhores, hein!
– Não fuja do assunto, mocinha.
– Não estou fugindo, só estou elogiando sua vitamina.
– Ah, tá... – Ela se fingiu de desentendida. – Acho bom a senhorita cuidar da sua saúde mental porque, se você não se cuidar, vai ter que se ver comigo.
Ela levantou rindo e foi para a pia, começando a arrumar as coisas para a janta.


Capítulo 6

Mais um dia, mais uma situação desconfortável. Eu estava esperando uma decisão com a cara mais fingida e mais incômoda possível. Não cansava de ficar pior. Então saiu do corredor, a cara mais falsa que a minha e os olhos vermelhos. De maconha que não eram...
! Oi, bom dia.
– Bom dia. – Respondi, tentando forçar um sorriso.
– O tá brincando no quarto, já vesti o uniforme nele. Eu vou indo pro trabalho, quem vai te render mais tarde é o Diego.
Eu assenti mas ela foi tão rápida que não deu tempo para falar mais nada. Antes que eu percebesse, já tinha saído pela porta do apartamento. Eu engoli em seco e tentei refazer minha expressão facial. Afinal de contas, mais uma vez, não tinha nada a ver com aquilo. Como Glória estava atrasada, não liguei muito para procedimentos e fui embora com ele para o colégio.
Assim que voltei para o apartamento deles, por continuar sozinha, peguei o notebook que havia levado na bolsa e sentei à mesa de jantar, abrindo os programas necessários para adiantar pedidos de clientes que haviam solicitado meus serviços como freelancer. Estava já com tudo aberto, inclusive um bloco de notas físico que eu gostava de usar com frequência, quando o telefone tocou. Estranhei quando vi o identificador.
– Alô?
Oi, . – Ouvi Diego falar do outro lado. – Você tá no apartamento?
– To sim.
Pode me fazer um favor?
– Posso sim. O que houve?
Eu deixei uma bolsa de viagem pequena em cima da minha cadeira, no escritório. Ela é toda preta, com o símbolo da Adidas em relevo, branco. Estou a dez minutos da entrada do prédio. Pode levar lá embaixo, por favor?
– Claro. – Respondi. – Vou pegar e descer com ela pra já.
Obrigado, .
Sorri educadamente como se estivesse conversando com ele frente a frente. Já estava quase acostumada a engolir a raiva do nome errado. Suspendi o meu notebook, fechei a tampa dele e segui corredor adentro. Nunca tinha ido tão longe, a porta do quarto de era a segunda, só ficava depois do banheiro social. Sabia que a porta logo ao lado era a do quarto dos seus pais porque já havia visto aberta de relance. Então restavam as outras três portas.
Abri uma, era um escritório, mas claramente feminino demais para ser de Diego. Eu até pensei ser estranho porque, trabalhando para eles por meses, não havia tido nenhum sinal de ter um escritório dentro do apartamento, mas também não fiquei pensando muito. Segui para a outra porta, um quarto de hóspedes. É claro, tinha que ser a última.
Entrei no escritório sem jeito. Mesmo que não tivesse ninguém em casa, eu me sentia desconfortável só de saber que estava invadindo o espaço pessoal deles. Então decidi ser o mais rápida possível e fazer nada além do que havia sido solicitado. Fui até a cadeira e já ia saindo quando vi que a bolsa estava aberta. Ia só fechar o zíper quando a embalagem lá dentro chamou a minha atenção.
Eram camisinhas. Definitivamente camisinhas. No plural! Levei segundos até reagir. Primeiro, veio a dúvida... Se ele estava casado, para quê camisinhas? Ok, podia ser um método contraceptivo, mas eu já conhecia o suficiente para saber que era muito improvável. E mesmo que fosse para usar com a esposa... Para quê ele precisava levar aquilo para a rua? Uma fuga da rotina?! Bem, faria sentido se eu não tivesse decorado a agenda dos dois e soubesse que, naquele dia, Diego teria treino o dia inteiro. E mesmo que fosse para uma fuga da rotina... Várias?! Ele era um jogador de futebol, não era uma máquina. Pensamentos demais, .
Tentei tirar os pensamentos da minha cabeça rapidamente. Fechei a bolsa de uma vez por todas e torci para Diego não lembrar de ter deixado aberto ou ligar os pontos quando abrisse e visse que as camisinhas estavam por cima. De propósito, balancei um pouco a bolsa para tentar misturar o conteúdo. Saí, tranquei a porta e entrei no elevador. Quanto mais perto do térreo estava, mais nervosa eu ficava.
Cheguei à calçada com antecedência. Chequei no celular a hora em que Diego havia ligado e fiz as contas. De acordo com ele, estava dois minutos adiantada. Guardei o celular de novo no bolso e fiquei observando os carros que passavam. Em pouco tempo, uma Mercedes branca encostou e o vidro do carona abaixou.
– Ei, ! – Diego abaixou o óculos escuro para cumprimentar-me, esticando a mão. – Obrigado.
– De nada. – Respondi.
– Ah! Antes que eu me esqueça, ele não vai ter aula de inglês hoje, teve algum problema com a professora.
– Tudo bem, eu vejo se consigo revisar alguma coisa com ele.
– Seria incrível, obrigado por isso também. – Ele sorriu e foi embora.
Fiquei olhando para o carro que afastava-se quando algo acendeu a minha memória. O carro. Era o mesmo caro que eu havia visto saindo cantando pneu no meu primeiro dia lá. E a lembrança me fez pensar nas possibilidades sobre o que havia acontecido naquela manhã para ele estar tão irritado – sim, irritado, não atrasado, aquela cantada de pneu não era de gente atrasada. Se bem que, visto o que eu já havia presenciado, não seria novidade nenhuma se eu descobrisse que havia sido mais uma briga dos dois.
Já estava parecendo uma idiota de tanto demorar ali na calçada. Balançando a cabeça, dei meia volta e retornei para dentro do prédio. Cumprimentei o porteiro de novo e peguei o elevador. Antes que eu entrasse de volta no apartamento, o meu celular tocou. Tudo naquele dia estava parecendo um looping infinito de coisas que repetiam-se de várias maneiras diferentes.
– Alô? – Atendi.
, Glória acabou de me ligar. Disse que está com um problema familiar grave que vai explicar depois e que vai precisar faltar hoje. Você tem como fazer o almoço pra hoje? Se não tiver, pode pedir um delivery com o...
– Eu consigo fazer o almoço, pode deixar.
Use o que precisar do armário. Se faltar alguma coisa, pode pedir do mercado. Vou te mandar o número do WhatsApp deles, então você pode pedir entrega se precisar de alguma coisa.
– Vou ver o que tem e informo se precisar de algo extra.
Ok, , muito obrigada.
Eu estava sendo alvo de vários agradecimentos, e olha que não era nem nove horas da manhã. O estranho era que nenhum deles parecia espontâneo. Mesmo assim, eu precisava adiantar a minha vida. Teria a tarde cheia com por lá, já que ele não teria aula, e aí os meus planos de adiantar meu trabalho iriam por água abaixo, como se fazer o almoço, por si só, não fosse ocupar meu tempo o suficiente. Então estalei os dedos na frente do corpo e estalei o pescoço.
Abri todos os armários, fiz uma varredura geral. Logo depois, chequei a geladeira e o congelador. Tinha material para fazer macarrão com molho branco e frango sem que eu precisasse ter muito trabalho ou pedir coisa do mercado. Comecei logo para deixar as coisas no meio do caminho, para adiantar. Afinal de contas, ainda teria que ir no colégio buscar .
– E aí, ? Ficou gostoso?
– Onde a tia Glória tá? – Ele perguntou sem responder a minha pergunta.
– Não sei, a mamãe disse que ela teve uns problemas.
– Ela vem amanhã?
– Amanhã é sábado, lembra? – Falei.
– Hoje é sexta?
– É sim. – Respondi. – Por quê?
– Hoje tem aula de inglês.
– Na verdade, , a sua professora também teve problemas e não vai poder te dar aula hoje.
– Poxa, todo mundo tá faltando hoje. – Ele emburrou, afastou o prato e cruzou os braços.
Ótimo, pirraça, tudo o que eu precisava para a cereja do bolo daquele dia super maravilhoso.
– Ei, você não vai comer o macarrão que a tia preparou?
De repente, mudou e os olhos começaram a brilhar. Pirraça bipolar, estava só melhorando.
– Não foi a tia Glória?
– Você tá vendo a tia Glória aqui? – Fiz graça e apontei por cima do meu ombro, na direção da cozinha. – Eu não to. E a gente come comida na caixinha quando a Glória não tá e eu não faço o almoço, lembra?
fez que sim, deu uma risadinha e colocou um pouco na boca, mastigando devagar.
– Tá gostoso.
– Então come tudo. Depois do almoço, você vai descansar um pouco, pode jogar meia hora e, depois, a tia vai te dar uma aula de inglês. Pode ser?
De novo, ele afirmou com a cabeça. Eu ofereci a palma da minha mão para ele, que bateu com tudo. Sorri e terminamos de almoçar enquanto assistíamos um episódio de Turma da Mônica. Eu deixei terminando o desenho e fui lavar o resto de louça. E mesmo com trabalho para fazer, eu não conseguia tirar da minha cabeça aquela imagem. As malditas camisinhas.
Embalagem preta, círculo e letras dourados na frente. Eu nunca ia conseguir esquecer aquilo. De jeito nenhum. Podia apostar que, da próxima vez que estivesse em uma farmácia, por mais que tentasse, ia reconhecer a embalagem como se meus olhos fossem um scanner de reconhecimento. Estava mais do que irritada por aquilo não sair da minha mente. Já estava tentando forçar minha mente a imaginar coisas absurdas, como zebras com pescoço de girafa ou aviões voando de cabeça para baixo. Ia ser um longo dia.
– Tia, já posso jogar? – gritou da sala.
Eu bufei. Apoiei as mãos na beira da bancada, abaixei a cabeça e respirei fundo. Olhei o relógio, já tinha cerca de quarenta minutos desde que ele tinha terminado.
– Pode sim, . – Finalmente respondi. – Meia hora, hein! Vou estar contando.
Aproveitei a distração dele para adiantar o pouco que dava do meu trabalho. só não iria ver o que eu estava fazendo no notebook se estivesse no videogame. Televisão, desenho, nem mesmo o jogo solitário com a bola na varanda impediria de ir lá fofocar e fazer mil perguntas sobre algo que ele jamais entenderia com a idade que tinha. O videogame, naquela tarde, foi ótimo porque não só era do interesse dele, mas meu também, ainda mais quando não se tinha Glória para fazer interrupções sobre fofocas inúteis em que nem eu nem estávamos interessados.
Deixei jogando mais um pouco enquanto pensava em técnicas para ajudá-lo. Acabei permitindo que ele jogasse um pouco de bola na varanda enquanto eu conectava meu notebook à televisão. Abri o Google e chamei para dentro, falando para que ele ficasse sentado no sofá enquanto eu estava sentada no chão para ter acesso ao notebook e ir digitando o que fosse necessário. Meia hora depois, eu já havia até oferecido recompensa pela quantidade de acertos que ele conseguisse.
– Beleza, . Você tem... – Dei uma checada no meu bloco de notas. – Doze pontos.
– É muito?
– Mais ou menos, eu sei que você consegue fazer melhor. Vamos pro próximo.
Deixei de exibir a tela na televisão para que apenas eu vise o que estava fazendo diretamente no notebook. Pesquisei e selecionei a imagem de um pato, abrindo apenas ela para que não houvesse nenhum dizer que pudesse reconhecer.
– Qual o nome desse animal, ?
Chiken.
– Não... Chiken é parecido, mas não é esse.
Ele fez cara de pensativo. Estava quase fazendo força para tentar resgatar a memória.
Duck! É duck, não é, tia Di?
– Isso mesmo! – Eu comemorei com ele e bati palmas. – Mais um ponto pro . Depois do doze vem...?
– Treze! – Ele gritou de novo.
– Isso aí, muito bem.
– Oi, pessoal. – Tomei um susto com a voz atrás de mim.
– Papai! – levantou do sofá e saiu correndo, abraçando o pai com tudo. – Papai, eu to com treze pontos no jogo da tia Di.
– E que jogo é esse? – Diego perguntou, ou estava realmente interessado ou fingia melhor do que eu imaginava ser possível.
– Eu ganho um ponto se eu acertar qual é o animal e, se eu fizer vinte pontos, a tia Di vai fazer um bolo de cenoura com cobertura de chocolate.
– É verdade? – Ele perguntou e olhou para mim, sorrindo, aí eu imediatamente vi a bolsa e minha mente surtou. – Vamos fazer o seguinte. Eu acerto com a tia Di pra ela poder terminar o jogo depois, tá na hora de ela ir embora.
– Eu posso ficar mais um pouco, dá pra terminar.
– Eba! – comemorou antes do pai dar o aval.
– Me esperem então, quero ver esse jogo. – Diego disse e deu dois tapinhas amigáveis no meu ombro. – Obrigado, , você é incrível mesmo.
Tudo o que eu senti foi nojo da mão de Diego me tocando.

Capítulo 7

– Você viu a previsão do tempo pra mais tarde, ? – Dona Glória perguntou enquanto eu a ajudava a guardar a louça depois do almoço.
– Vi sim, e vou me dar mal. Esqueci o guarda-chuva.
– Você sempre deve ter um guarda-chuva, querida. Eu vou ver se dona tem algum disponível.
– Não, quê isso, não quero incomodar ninguém.
– Mas é dever dela providenciar esse tipo de coisa pra você, .
– Não penso assim, dona Glória, mas obrigada pela preocupação. Eu posso me virar com o que tenho, uma chuva de vez em quando faz bem.
– Você deveria é pedir pra sair mais cedo.
– Não dá. – Disse e coloquei o último copo no armário. – vai ter aula em casa e a dona pediu pra eu não deixar a professora aqui sozinha.
Ela fez uma expressão de quem não tinha entendido o porquê da ordem, mas deu de ombros e continuou com o serviço. Da cozinha aberta, podia ver no telefone. Estava conversando com um primo distante a pedido do pai, que organizou a ligação por chamada de vídeo. Era melhor do que se estivesse entretido completamente com o videogame ou a televisão, então eu considerava como sendo uma vitória.
– Dona Glória...
– Sim, querida?
– Rolou mais alguma coisa do tipo... Tipo quando...
– Brigas, você quer dizer? – Ela me interrompeu, usando a palavra que eu tentava evitar. – Ah, sempre acontece. Algumas em menor intensidade, outras em maior... Por quê?
– To sentindo o tão tristinho ultimamente...
– Ah, é de se esperar. Esses pais de hoje em dia não são como os de antigamente, que se preocupavam em serem pais de verdade, em criarem as crianças pra valer. Só largam os pequenos na frente de um eletrônico qualquer e o celular que crie os filhos deles.
Murmurei alguma coisa em concordância só para não deixar de responder. Chequei meu celular. Estava esperando por um e-mail importante da faculdade, o que deixou-me excessivamente ansiosa naquele dia.
– Sabe, , na minha época de tomar conta de criança, eu cuidei de uma menininha no Leblon chamada...
Salva pelo gongo! A campainha tocou no exato momento em que dona Glória ia começar a contar mais uma de suas histórias mirabolantes. Não que eu tivesse algo contra ela, era uma governanta maravilhosa em vários sentidos, mas eu esgotava a minha cota de paciência com pessoas mais velhas tentando mostrar-me sempre satisfeita para seja lá o que minha mãe fizesse ou falasse. A professora de inglês do se ajeitou na mesa de jantar e lá mesmo começou a conversar com ele, usando mais termos em inglês do que eu julgava ser saudável para uma criança daquela idade. Mas eu não era a mãe dele, então...
O tic tac do relógio estava mais lento naquele dia. Era normal que o tempo passasse mais rápido quanto mais tempo eu tivesse junto da família por estar mais acostumada à rotina, mas era estranho como tudo com eles era o contrário de tudo o que eu já tinha vivenciado. Não questionava muito também, estava quase livre da necessidade de manter um trabalho informal para dar conta de manter a minha existência. E conforme o dia ia chegando ao seu fim, as más notícias só aumentavam.
Só de olhar pela vidraça do apartamento, eu vi que o tempo estava mudando subitamente. Não devia ser surpresa nenhuma para mim, já que minha mãe havia comentado antes de eu sair de casa que eu deveria levar um guarda-chuva. Talvez o tempo estivesse virando só para servir de praga por eu não ter dado ouvidos a ela. Mães tinham superpoderes bem óbvios, e mudar o tempo era definitivamente um deles, porque não era possível que um dia tão lindo como o que começou naquela manhã estivesse transformando-se naquilo. Mas eu tratei de entrar em estado de conformação e seguir meu caminho.
Quando pus os pés na calçada, senti o vento gelado da frente fria chegando. Ali, seria mais gelado ainda, já que era bem perto do mar. Abracei meu próprio corpo e segui andando para o sinal mais próximo, a fim de atravessar para chegar à estação de BRT. O vento apertava mais a cada segundo que passava e eu podia sentir as gotículas anunciando a chuva que estava por vir. Eu olhei para o céu e as nuvens negras não me trouxeram nenhum alívio. Foi quando a Mercedes encostou ao meu lado e eu nem notei até que o vidro abaixou e eu ouvi meu nome sendo chamado de dentro dela.
– Oi, ! Entra aí.
– Eu vou pegar o ônibus pra ir pra casa, tá tudo bem.
– Que nada, olha o temporal que vai cair. – Ele acionou o alerta no painel central do carro. – Entra, eu te deixo em casa.
– É muito longe daqui, não precisa.
– Não tem problema, .
– Sério, eu to bem.
– Entra! – Diego insistiu. – A previsão pra hoje tá feia, não é seguro ficar muito tempo na rua.
Eu ia insistir mais, mas já estava ficando estranho. Bem... Já tinha ficado, definitivamente. Contra a minha vontade e imaginando que a imagem não estava exatamente bonita aos olhos de um transeunte – uma mulher como eu, vestida de forma respeitosa mas simples, entrando em um carro cujo valor eu jamais poderia quantificar –, aceitei quando Diego abriu a porta para que eu sentasse ao seu lado. Não nego que estaria mais confortável se ficasse no banco de trás, mas também seria só mais um detalhe para deixar a situação mais estranha ainda.
Quando dei uma meia virada para encaixar o cinto de segurança no lugar dele, vi a bolsa no banco de trás, a mesma que eu tinha levado para ele no fatídico dia. Engoli em seco. Minha garganta ficou seca e meu coração acelerou. Por um momento, a bolsa era tudo o que eu conseguia focar.
– Tá tudo bem? – Diego perguntou, o que acabou fazendo com que eu voltasse a mim.
– Tá, tá sim...
– Você mora perto do shopping da Multiplan em Campo Grande, não é?
– Isso.
– Se importa se fizermos o trajeto pela transoeste ao invés de fazer pela transolímpica? Eu vou só dar uma parada no prédio de um colega pra deixar uma coisa.
– Sem problemas, é mais rápido por lá mesmo.
Eu sentia que estava sendo observada minuciosamente. Com a bolsa no colo, eu tentava focar no retrovisor externo à minha direita sem dizer uma palavra sequer. O trânsito estava fluindo com certa facilidade, o que era menos preocupante.
– E então... – Ele usou o típico tom de quem só estava querendo puxar assunto. – Você é do Rio mesmo?
– Sou sim.
– Eu sou de Ribeirão Preto. – Diego disse e eu quase falei um ‘bom pra você’. – Você já foi a São Paulo?
– Algumas vezes.
– Tem família lá?
– Sim, uma tia.
– E gostou do estado?
– Não é muito diferente daqui.
Os raios no céu ficavam cada vez mais intensos e as gotas que caíam no vidro da frente do carro estavam cada vez mais grossas. Do lado de fora, podia ver pessoas praticamente correndo para fazerem o que tivessem que fazer antes que a chuva começasse a cair de fato. Eu deveria estar entre aquelas pessoas.
– Quanto tempo você acha que vamos levar até lá?
– Cerca de cinquenta minutos. – Respondi e segurei a bolsa com mais força. – Não precisa me levar até lá, pode me deixar em uma estação de BRT qualquer que eu me viro e chego bem em casa.
– Quê isso! É o mínimo que eu posso fazer por você, quem tem iluminado tanto a vida do meu filho.
Forcei um sorriso como resposta. Estava muito sem jeito. De um segundo para o outro, a chuva caiu. Forte como não caía havia meses. O barulho da água batendo contra o teto do carro era ensurdecedor e o volume era tão intenso que Diego teve que reduzir a velocidade porque não dava para ver direito através do vidro principal.
– Da última vez que a previsão do tempo indicou uma tempestade tão intensa como a que tá prevista pra hoje, o Rio parou por uma semana. – Ele comentou quando paramos em um sinal. – Foi pouco tempo antes de você começar a trabalhar pra gente. Lembra dessa chuva?
– Lembro sim. – Respondi apenas para não o deixar falando sozinho.
– Um amigo perdeu uma sobrinha em um táxi soterrado nessa tempestade. – Ele disse com a voz triste. – Acho que nem eu, nem , muito menos gostaríamos de sequer imaginar que algo desse tipo aconteceu com você. Por isso que eu insisti em te levar.
– Essas coisas acontecem. Ando de transporte público faz muito tempo. Já estive em meio a tiroteio, arrastão... Não é a chuva que vai me assustar.
Algo que você certamente não entende porque, provavelmente, nunca colocou os pés em um transporte público, ainda mais no Brasil, quase completei. Segurar a minha vontade de falar uma gracinha ou outra estava tornando-se, de repente, uma habilidade muito boa.
– Eu sinto muito que você tenha passado por essas situações. – Ele disse. – Quer ouvir música?
Diego continuou puxando assuntos aleatórios enquanto eu tentava responder sem muito interesse, esperando que ele eventualmente desistisse de conversar comigo. Pouco antes de sairmos da área povoada na avenida das Américas, entramos em um condomínio. A bolsa que estava atrás ficou com um homem que atendeu o carro na garagem do prédio. Não sei o que me deixou mais curiosa, o fato da bolsa ter ficado com outro homem ou ele não ter sequer demonstrado qualquer tipo de estranhamento por eu, uma mulher, estar com Diego e mais ninguém no carro.
O resto do caminho foi mais lento do que o esperado. No túnel, o trânsito parou um pouco, o que atrasou um bom tanto do caminho. Quando pegamos a rua principal do meu bairro, demos de cara com um grande alagamento. Diego nem titubeou. Enquanto dezenas estavam incertos, ele jogou o carro para dentro da água com a maior tranquilidade do mundo e passou direto. O único veículo que eu vi ter coragem de fazer aquilo foi um ônibus.
Assim que viramos a esquina da minha rua, que eu indiquei pacientemente enquanto segurava as respostinhas mal educadas que vinham à minha cabeça, pensei imediatamente no falatório que seria quando os vizinhos me vissem chegando em um carro daquele. Não importava o tanto que estava chovendo, eles certamente veriam, e eu não teria a mínima paciência para lidar com nenhum boato inventado por um dos desocupados da minha rua.
– Pode me deixar aqui. – Eu disse sem pensar.
– Sua casa é aqui?
– Subindo a ladeira, mas não tem problema.
– Eu te levo lá. – Diego seguiu em frente.
– Não. – Fui mais energética mesmo sem querer, e Diego finalmente notou que havia algo a mais no meu pedido, então eu voltei a ficar tímida subitamente. – Você não entenderia.
– Não quer que te vejam chegando comigo?
– O problema não é você, é o... É o carro. Vai chamar muita atenção aqui, e nem todo mundo na vizinhança é de boa índole. Não sei nem se é seguro pra você, na verdade.
– Mas tá chovendo bastante lá fora.
– Não tem problema, já me ajudou muito. De qualquer forma, eu pegaria muito mais chuva se você não me trouxesse então... Obrigada pela carona. – Falei e desafivelei meu cinto. – Nos vemos amanhã.
Diego, então, se virou para o banco e trás e pegou algo que estava logo atrás de mim. Quando voltou para a frente, ele me entregou uma jaqueta de couro.
– Não tenho guarda-chuva, mas dá pra te ajudar a se proteger um pouco.
– É sério, não precisa.
– Eu insisto.
Sem querer lutar, eu sorri timidamente e joguei a toalha. Ajeitei a jaqueta por cima da minha cabeça, deixando-a cair pela lateral dos meus ombros. Com rapidez, abri a porta do carro, saí e fechei imediatamente, torcendo para que não tivesse molhado muito do lado de dentro. Disparei ladeira acima, segurando minha bolsa junto ao meu corpo para que molhasse o mínimo possível. Quando terminei de subir a rua, foi inevitável olhar para trás, e Diego ainda estava lá, o carro ligado. Antes de eu terminar o caminho de vez, ele piscou o farol para mim, manobrou e buzinou enquanto eu abria o portão de casa.


Continua...



Nota da autora: Se eu fiz uma fic separada para o Arrasca, eu tinha que fazer uma separada pro Diego haha espero que gostem, que fiquem por aqui para acompanhar o que vai acontecer daqui pra frente e que não esqueçam de deixar um comentário!





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