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Finalizada em: 20/10/2019

Capítulo Único

Cara ,

Eu sempre quis começar uma carta com um “caro fulano”, e eu sinto muito que esta seja a primeira e última vez em que farei isso. E por favor, não chore. Agora principalmente, mais do que em qualquer outro instante, porque quero que sua vista não fique embaçada esteja bem limpa para que você leia essa minha letra horrível da qual você sempre reclamou. E afinal de contas, sei que você tem dores de cabeça fortes quando chora então, por favor, te peço mais uma vez que não derrame lágrimas por alguém como a minha pessoa.
Sonhei com você desde a primeira vez em que te vi. Você lembra disso? Estávamos os dois bem nervosos no dia porque eu não tudo podia dar errado. Depois você me contou que sua vó precisou resolver algumas coisas e te abandonou com o Danny, e ele não queria estar perto de você justo naquele dia. Seria estranho absurdo que dizer que eu senti algo naquele dia? Você tinha doze anos, não parece certo agora, mas eu senti algo quando te vi. Eu juro.
Não nego que eu achava muito estranho ter uma menina com a gente a o tempo todo. Minha mãe, por outro lado, achava que isso era bom, que impediria a gente de fazer merda colocaria freios na gente. Mal ela sabia que nós te colocávamos num quarto com videogame e doces pra fazermos as nossas farras. Talvez seja por isso que ela deixou de gostar de você com o tempo. Ou talvez fosse simplesmente ciúmes de uma mãe com a figura feminina mais próxima do filho dela.
Te amei antes de perceber. Percebi que meu amor por você se tornou outra coisa antes de perceber muito depois dele ser algo de fato. Aquele nosso primeiro beijo me levou pro céu, sabia? Hoje eu acho que o Danny me mataria se soubesse, principalmente porque a diferença de idade era relevante se levássemos em conta que você tinha só quinze e eu, dezoito. É, seu irmão me mataria. Seu pai, eu não sei. Seu pai é o cara mais legal que existe no mundo. Eu queria ter tido um pai como ele.
Ninguém nunca vai saber disso se você não contar, e eu peço que esse seja só mais um dos nossos múltiplos segredos. Você sabia que eu escrevi a letra de Sorry’s Not Good Enough pra você? O resto da banda acha que é sobre qualquer garota aleatória, uma história que eu inventei na minha cabeça. Era sobre você, sobre a bagunça na minha mente. Depois daquele beijo, eu queria mais e mais, mas todo o problema que eu estava vivendo comigo mesmo me impedir impedia de permitir que eu te envolvesse por completo. Tirar você da reta quando eu estava me enfiando no buraco, por mais que talvez tenha te magoado, foi a melhor coisa que eu podia ter feito. Eu te salvei.
Sorry’s Not Good Enough é um pouco sobre isso, sobre eu te a gente se amar insanamente, sobre eu te admirar como jamais admirei alguém e, por causa disso, querer te afastar. Uma vez, alguém me disse que amar também é deixar ir, e eu te deixei ir porque era o melhor pra você. “Don’t go changing” é um apelo. Você ser quem você é era a minha última salvação esperança. A música não é sobre você pedir desculpas pra mim, mas sobre eu querer dizer que sinto muito mas sei saber que sentir muito não é suficiente.
De 2006 pra 2007, quando nós começamos a nos aproximar muito mais intensamente do que antes, eu me afundei de vez no sentimento. Estava ouvindo um jazz uma vez e escrevi umas estrofes. Duas delas me chamaram a atenção. “’Cause I envy the air that touches you hair, and if it was me there’d be wind everywhere”. Eu derivei uma música dessas palavras. Você vai encontrá-la em um pendrive junto com outras coisas que vou detalhar mais à frente. Quero que você e só você escute. É um último presente meu. Tem uma letra um tanto quanto infantil, mas entenda: eu tinha uma mente infantil naquela época.
Mas você ainda era muito inalcançável pra mim. Eu não queria prejudicar minha amizade com seu irmão, não queria que seu pai passasse a me ver com maus olhos. Me envolver com a Louise foi um jeito de tentar te esquecer, tentar te colocar pra fora do meu coração. Só Deus sabe como eu queria que fosse a sua boca quando eu beijava a Louise, ou o seu corpo quando eu tocava o dela. No primeiro momento em que você voltou a olhar nos meus olhos, eu falhei. Com a Louise, porque ela não era culpada de eu estar perdidamente apaixonado por outra mulher, e com você, por ter tratado do nosso caso como se fosse algo para esconder. Eu nunca trairia você, mas também não deveria ter traído outra mulher contigo.
Logo depois, quando eu engatei em outro relacionamento, sobre o qual eu prefiro nem falar, eu achei que fosse dar certo. Mas você estava mais mulher ainda. Além do meu coração, você estava ganhando outra parte do meu corpo – não me culpe por esses pensamentos, eu sou um homem, você sabe – e não tratar você com a devida intensidade que eu queria tratar foi o que começou o fim. Você foi a minha primeira droga. Eu deveria ter percebido ali que eu tinha algo de errado no meu corpo na conexão entre meu corpo e minha mente.
Eu sinto muito por ter mentido pra você, por ter dito que era só álcool, por ter fingido que estava bem quando não estava, por ter omitido a profundidade do meu problema e por dezenas de outras coisas mais que eu gastaria tempo demais enumerando. Você não merecia nada disso. Queria muito ter sentado contigo, conversado antes de deixar a minha mente se fundir nessa merda que eu to vivendo. Você teria entendido, teria me ajudado. Eu não queria te meter nessa, mas você era forte o suficiente pra entrar e tirar nós dois de lá. Foi só mais uma das cagadas que eu fiz. Então eu só percebi que sua ajuda teria me salvado quando era tarde demais, e eu sabia que você já não seria mais tão forte assim pra entrar no buraco e tirar nós dois de lá.
Você era a minha sobriedade. Quando eu estava com você, eu queria estar sóbrio, queria viver cada segundo. Pra mim, nada era mais importante do que sentir a sua pele na palma da minha mão, sentir quando você beijava o meu pescoço e fincava os dedos nas minhas costas... Te fazer mulher foi a coisa mais sensacional que eu vivi na minha pobre existência. Nunca estive com você sob efeito de nenhuma substância, com exceção de um pouco de álcool às vezes, porque queria lembrar de tudo que envolvia você. Se eu fechar os olhos agora, posso lembrar da última vez com clareza ainda, muito embora eu esteja um tanto bêbado agora. Seu cheiro é o que eu queria levar pra mim pra sempre. Mas então eu precisava viajar com a banda, e você estava focada em começar a sua faculdade. A distância entre nós foi a minha desgraça.
Por que nós nunca ficamos juntos, ? Quero dizer... Por que nunca nos tornamos namorados? O que nos separada desse status? Nesses quase cinco anos depois do nosso primeiro beijo, eu ainda não sei dizer. Eu queria, mas não sabia como colocar em palavras. Eu sempre quis você. Desde o primeiro momento em que percebi que você estava saindo da fase da adolescência e se tornando uma mulher admirável, eu quis você. Mas não sei dizer por qual motivo fui um idiota contigo. Você me amava com todas as suas forças, eu sei bem, fui testemunha desse sentimento, mas eu me fechei pra você por medo de te prejudicar. E eu sinto muito por isso.
Eu peço que não chore por mim porque eu não sou alguém que mereça. Ter tomado essa decisão foi o que me fez sentir leveza em muito tempo. Não me orgulho de quem sou, não me orgulho de ter te trazido pra esse mundo. Você não sabia, e eu não te culpo por isso. Se fosse eu no seu lugar, também tentaria ver outra realidade que não fosse a merda na qual eu me meti. Eu deveria ter confiado mais em você, deveria ter dito quando comecei a ter problemas. Você saberia lidar com isso melhor que eu. E eu falhei, , falhei em não notar o quanto te você me amava.
Comecei com drogas leves e fui indo para as mais pesadas. O Tom me mataria se soubesse, então deixa ele fora disso, por favor. Ele vai achar que falhou comigo porque ele, mais do que ninguém, é quem mais se preocupou com a índole de todos nós. Diga a ele só que eu tinha problemas mentais, que eu não me tratei, que eu escondi de todo mundo e não optei por conversar. Coloque a culpa em mim. Tudo bem assim, eu vou estar em paz.
Me meti nessa porque perdi uma mulher, sabia? Não quero culpar ela. Você sabe bem de quem estamos falando. Mas a filha da puta me apresentou às drogas mais pesadas. Ela me distraiu da saudade que eu sentia de você e eu achei que gostasse dela. E como eu não vi antes que era uma armadilha? Você era sempre foi a melhor opção pra mim desde sempre. Mais uma vez, e eu não vou cansar de repetir, eu fui um burro por não ter visto a verdade que tava na minha cara.
Quando a desgraçada foi embora, eu achei que tudo fosse ruir ao meu redor. Você estava lá, você sempre esteve lá por mim, mas a minha mente é uma bagunça, meu amor, e eu só soube atrapalhar tudo. Então eu estava em dor por ter perdido ela mas também por não conseguir me abrir com você, a única pessoa que sempre mereceu o melhor de mim.
Eu cheguei a pensar que ficar com você pra valer fosse o meu remédio, mas eu tinha medo. Tinha medo porque você sempre atraiu a todos com quem você conviveu, era um ímã pra boas pessoas, e eu não me destacaria. Como você teria olhos pra um fodido como eu quando tinha tanta gente melhor por perto? Eu queria arriscar mesmo assim. Queria você comigo, o fogo dentro de mim queria que você sentisse o mesmo, mas eu sabia que isso significava te arrastar para o mesmo buraco onde eu estava, e eu nunca quis faria isso.
A agonia é minha melhor amiga, meu amor. Ficar te observando, me apaixonar aos poucos, ver que você era única e especial e que eu jamais encontraria outra como você Esse seu jeito diferente me enebriava é a minha droga o meu vício passatempo preferido. Sua espontaneidade, o otimismo, perseverança e o seu sorriso... Ver você ser você sempre foi uma delícia. Uma delícia inalcançável. E eu poderia ter tentado a chance, e não ter tentado é o que mais dói em mim.
Deus, como eu queria seu abraço agora. Um último abraço, e eu poderia morrer em paz. Era tudo o que eu queria. Você. Olhar nos seus olhos, dizer o quanto eu te amo e que nada disso é culpa sua. Tudo é culpa só minha. Você seria a cura pra mim mesmo se eu não fosse tão estúpido. Eu deixaria você me quebrar em pedaços, , deixaria você me usar, me magoar, e ainda assim seria a sensação mais maravilhosa do mundo.
Minha mente virou um lugar em que eu não queria estar mais. Eu me odeio por tantos motivos que nem saberia por onde começar. Me odeio por ter deixado chegar a esse ponto? Me odeio por saber que vou te provocar dor? Me odeio por saber que, colocando um fim à minha vida, estou desistindo de você? Eu não sei, , não sei. Só sei que não aguento mais tanta dor, a falta de silêncio da na minha cabeça.
Não quero viver num mundo onde nós não vamos dar certo. O meu ideal de vida é você, e agora estou abrindo o caminho pra que você encontre a felicidade que tanto merece. Um drogado, viciado, bêbado... Seu pai não ia querer isso pra você. Seu irmão, muito menos. E eu não vou te deixar escolher porque tenho medo de você me amar o tanto que eu gostaria que amasse te amo e me escolher mesmo assim. Você não merece isso.
Eu preciso pedir de novo pra você não ficar triste? Eu vou ficar bem, seja lá onde eu estiver quando você tiver essas folhas em mãos. Quero que seja feliz. Case-se com um homem que te respeite e diga a ele que, se ele não andar na linha, vou aparecer por lá e puxar o pé dele de madrugada. Cuide do seu irmão, cuide do Tom, cuide do Harry. O Tom pode ocupar meu lugar no baixo e você, ocupar o dele na guitarra e vocal. Que tal? Sua voz é linda, já disse isso algumas vezes, mas não custa dizer uma última vez.
Sou uma pessoa boa, . No fundo, eu juro que sou. Uma pessoa boa, com boas intenções, que não tem mais poder sobre o seu corpo. Colocar um fim à minha vida é um jeito nobre de proteger as pessoas que eu amo de quem eu posso me tornar se continuar sem esse controle. Nunca quis te causar dor. Sofreria mil vidas pra que você não tivesse que passar por nada de ruim.
Lembra do ano passado? Eu, você e a Cornualha? Acho que foi o ponto em que eu estive mais perdidamente apaixonado por você. Era a nossa primeira noite lá. Você acordou no meio da noite, me encontrou sentado na poltrona que dava para a varanda, sentou no meu colo, me puxou para um beijo e perguntou o que me incomodava. Aquele dia, eu te perguntei se você me amava. Você me disse que me amaria até o último dia da sua vida, sem importar o que pudesse acontecer. Eu realmente espero que você me ame esse tanto, e que esse sentimento seja suficiente para te confortar.
Passamos dias incríveis lá porque, finalmente, podíamos ser quem nós queríamos sem a pressão dos outros à nossa volta. Na nossa terceira noite lá, eu tive a visão mais linda do mundo. Nós havíamos chegado tarde da noite e você enfiou uma camiseta minha para dormir. Acordei na outra manhã meio desnorteado, fui no banheiro e, quando voltei, dei por mim que estava desperdiçando a chance de te apreciar. O mar ao fundo foi só um contraste. Quem me ensinou a usar a câmera profissional foi você, então eu fiz juz e tirei a melhor foto do universo: você, na minha camiseta, sorrindo com o que provavelmente era um sonho; as pernas nuas por cima dos lençóis onde você me fez o homem mais feliz do mundo repetidas vezes; o cabelo espalhado pelas suas costas como se estivesse propositalmente posando para uma revista.
Na minha escrivaninha, você vai encontrar essa foto, a camiseta e um documento, que você deve levar ao nosso advogado para que ele faça a transferência do que é meu para o seu nome. O pendrive com a música está lá também. Além disso, há uma coisa que eu queria devolver. Você me deu um bracelete masculino quando estreamos o Radio:Active como forma de comemoração. Eu mandei cravar nossos nomes na placa de ouro dele. Se um dia você sentir minha falta, basta olhar para ele e quero que olhe para ele e se lembre de que eu te amo muito e que vou sempre estar com você
Muito obrigado por tudo o que você fez por mim. Por ter tentado me animar quando eu estava pra baixo, por cantar pra eu dormir quando tinha minhas crises de insônia, por me ensinar a tocar um instrumento com seis cordas, por dividir comigo todas as conquistas e sonhos que você teve, por me amar incondicionalmente apesar de eu ser quem eu sou. Você nunca vai saber o quanto eu sou grato por ter tido você na minha vida. Você é o melhor presente que eu já recebi ganhei na vida.
Diga a minha mãe que, apesar de tudo, eu a amo muito. E diga a ela também que não tem quem culpar nessa história. Eu cavei minha própria cova, eu escolhi estar nessa posição. Não vou sofrer, eu pesquisei sobre isso. Só quero colocar um fim nessa dor. Vou ser uma pessoa melhor quando estiver em outro plano.
Vou sempre olhar por você, , de onde eu estiver, e meu amor por você vai me acompanhar pra sempre, independente de qualquer coisa. Viva uma vida direita, orgulhe-se dela.
Tentei não ser clichê, do jeito que você gosta. E tentei mais ainda escrever um inglês correto pra futura melhor roteirista do mundo.
Eu te amo. Vou sempre te amar.


Era a milésima vez que eu lia aquela carta, sabia as palavras de cor. Gostava de me machucar, de sentir a dor em cada osso do meu corpo. Fechava os olhos só para relembrar o momento em que entrei e encontrei Dougie desacordado. O meu grito ainda ecoava na minha própria mente. A dor ainda estava ali como se estivesse acontecendo comigo ainda, como se eu ainda estivesse presa naquele momento. E embora suas palavras repetissem isso nas entrelinhas em quase todos os parágrafos, eu sabia que a culpa era minha sim.
Não conseguia pregar o olho porque checava se Dougie estava respirando ao menos uma vez por minuto. Danny havia insistido que eu precisava ir para casa, mas não deixaria o hospital por nada. Tom e Harry estavam, como podiam, dando o apoio que nós precisávamos. Giovanna e Izzy também, mais ainda. Eram irmãs mais velhas para mim, as mulheres que faltavam na minha vida, e nunca me deram tanto apoio como naqueles dias. Elas me passaram uma confiança que eu nem sabia que existia.
Os médicos repetiam diariamente que não havia mais risco para ele, que Dougie estava sob sedação apenas para conter os efeitos da abstinência. Eu não acreditava. Então relia aquela carta como se pudesse tirar dali qualquer informação para salvar Dougie de si mesmo. Não era obrigação minha, claro que não. Eu não podia ajudar alguém que não quisesse ser ajudado. Mas o meu amor por ele superava toda e qualquer regra que ditasse o quanto eu estava sendo idiota ao me doar tanto para ele.
Quando Sam chegou, eu não a deixei entrar. Foi uma briga generalizada. Se ela não me odiava de vez até ali, eu a faria odiar, daria motivo para todas as gracinhas que ela falou um dia de mim para o filho dela. Talvez, se tivesse sido uma boa mãe, Dougie não estaria ali. Então esperamos que Dougie acordasse em um dos intervalos entre as sedações e ele foi quem deu o veredito. Eu fiquei, com todos os direitos de um responsável legal sobre alguém que não tinha como responder por si mesmo o tempo inteiro. Sua mãe foi para a casa de um familiar próximo e, quando eu decidisse ser menos carrancuda, deixaria que ela se aproximasse. Foi o pouco de palavra que obtivemos dele nos primeiros dias de internação.
Duas batidas de leve na porta me colocaram em alerta por um instante. Danny colocou a cara para dentro do quarto.
– Como ele tá?
– O médico disse que vai começar a diminuir a sedação.
– Ele falou alguma coisa?
– Abriu os olhos e me viu. – Falei, me encolhendo sobre o cobertor na desconfortável poltrona para acompanhantes. – Mas falar...
– Quer ir pra casa? Eu fico aqui enquanto...
– Não vou sair do hospital sem ele.
– Vai tomar um banho, pelo menos, então. Prometo não sair daqui enquanto você não estiver de volta.
Olhei para meu irmão, um tanto quanto desconfiada, mas ele não quebraria uma promessa daquelas. Peguei então a muda de roupa limpa que ele havia levado no dia anterior e corri para o banheiro do quarto. Esperava que a água quente conseguisse me relaxar um pouco, mas tudo bem se fosse daquela forma. Era a terceira calça de moletom seguida que eu vestia, meu mais novo uniforme. Dougie estava fora de risco, mas eu não ia dar o braço a torcer em momento algum.
Quando voltei para o quarto, Tom e Giovanna estavam por lá, conversando em voz baixa em um canto mais distante da cama. Gi se virou para mim, mas eu estava mais preocupada com verificar se o peito de Dougie continuava descendo e subindo.
– Ei. – Ela falou comigo, se aproximando e me puxando para um abraço. – Você precisa descansar.
– Eu to bem.
– Não tá que eu sei.
– Gi, eu to bem sim.
– Você é péssima em mentir.
Revirei os olhos e desci os ombros. Não estava com a mínima intenção de lutar contra aquilo.
– Nós viemos mais cedo porque vamos pra casa dos pais do Tom hoje. É aniversário do pai dele.
– Dá um beijo no tio Bob pra mim. E diz que eu não apareci porque...
Não terminei a frase, apenas gesticulei na direção de Dougie. Eles dois não deixavam de ir ali nenhum dia. Harry e Izzy também não. Georgia aparecia quando podia, mas não podia julgá-la. Estava a pouco tempo na família “McFLY”, apenas dois anos. Era algo pesado pedir para que ela fizesse parte daquilo também. No fundo, todos concordavam que talvez fosse a melhor opção que ela não se envolvesse naquilo por enquanto. Dougie precisava de família. A nossa família.
Harry e Izzy chegaram um pouco depois. Izzy estava só de passagem também, ia viajar para ver os pais. Harry ia ficar mais um pouco e se ofereceu para ficar por ali enquanto eu tirava um cochilo. Minha aparência não negava o peso que eu estava carregando nas costas. Olhava meu reflexo no espelho do banheiro e mal me reconhecia.
... – Acordei com Harry afagando meu ombro. – Tem certeza de que você não quer ir pra casa? Só essa noite. Eu posso ficar.
Abri os olhos rapidamente. Chequei, de novo, se Dougie continuava respirando. Era padrão. Só conseguia reagir depois disso.
– Vou ficar. – Falei, decidida.
– É que o horário de visita tá acabando.
– Pode ir, Harry. De verdade. Tá tudo bem. Obrigada pela companhia.
Ele se aproximou de mim, a irmã caçula emprestada, e deixou um beijo no topo da minha cabeça.
– Qualquer coisa, me manda uma mensagem. A hora que for. Vou dormir no seu irmão essa noite.
– Obrigada, Harry.
– Eu te amo, viu?
– Também te amo. – Respondi e o vi sair pela porta. – Somos apenas nós dois de novo, Doug.
Ficar sozinha na maior parte do tempo era o pior de se estar ali, abria espaço para a minha mente processar mil coisas. Eu me quebrava em pedaços vez após vez, era como se eu não conseguisse ficar bem por nada. Estar ali me lembrava dos meus breves anos de adolescência, quando eu colocava Simple Plan ou My Chemical Romance no fone de ouvido e nem sabia o motivo de derramar tantas lágrimas. Mas ali era sério. Nem havia mais lágrima a ser derramada, meu olho estava completamente seco.
Batidas na porta, novamente, me colocaram de orelha em pé. Não autorizei ninguém a entrar, mas o doutor Lewis Ryan entrou mesmo assim. Ele era um dos mais compreensivos da equipe. Logo atrás dele, veio Amy Burrows, minha enfermeira favorita daquele hospital inteiro.
– Como estamos hoje?
– Bem, – Respondi, me levantando da poltrona. – eu acho.
– Nós viemos trocar a medicação dele, ok? – Ele disse e eu assenti. – A partir de agora, a gente vai suspender o remédio que mantém ele dormindo e trocar por um que vai manter ele mais calmo, porém acordado.
– Não tem risco?
– Exatamente agora, não. Isso era só pra controlar o estado mental dele. Nós vamos manter a metadona, mas vamos diminuindo as doses até o corpo dele começar a responder de volta. Vou continuar prescrevendo também o antiemético e o antidiarreico, pra controlar os sintomas secundários. Você tem alguma dúvida do que eu disse até aqui?
Fiz que não, ele tentou sorrir para mim.
– Ele vai acordar. Não se preocupa, isso é normal. – Ryan continuou. – Se ele quiser falar, deixa. Eu sei que seu instinto vai dizer pra ele não fazer isso, mas é bom que ele vá recuperando o poder de controle sobre o corpo dele.
Eu assenti novamente.
– Você está se cuidando, ?
– Tenho prioridades agora.
– Amy, – Ele chamou a enfermeira. – dá uma checada nos sinais vitais dela. Faz um hemograma completo, pelo menos.
– Não precisa. – Insisti.
– Pode deixar, doutor. – Ela respondeu do outro lado enquanto trocava a bolsa de soro fisiológico de Dougie.
Fui obrigada a aceitar que me avaliassem. Em segredo, torcia para que tudo estivesse certo comigo para que as pessoas parassem de me encher o saco sobre eu não ser capaz de aguentar aquilo tudo. Eu era capaz sim, e provaria a todos.
Estava tão focada no livro que tentava ler – eu precisava de outras palavras que não fossem as da carta – que demorei a ouvir o chiado. O barulho do maquinário era constante, na maior parte do tempo, mas certa mudança era bem característica. A frequência do bip, ao menos uma vez por dia, aumentava repentinamente. Dougie estava acordando.
Larguei o livro em cima da poltrona, me desvencilhei da coberta e corri para o seu lado. Seus olhos azuis me encararam de volta. Estavam sem brilho algum.
– To aqui. – Falei.
Ele começou a levar a mão até o acesso da nutrição parenteral. Notei sua intenção e fui rápida em segurá-lo.
– Não pode, Dougie, é isso que tá te mantendo vivo.
– Eu não...
– Para. – Eu o interrompi, ciente de que estava indo contra o que o médico havia acabado de me falar. – Procura não se esforçar por enquanto.
– Mas eu quero. – A voz soou rouca. – Água.
Corri até o frigobar, enchi um copo e levei até perto dele. Ajustei a cabeceira para que ele ficasse mais perto de estar sentado e levei um canudo até a sua boca. Ele tomou um pouco, mas logo fez sinal para que eu desprezasse o resto.
– Quero ir embora.
– Mas não pode. – Respondi, tentando colocar tranquilidade na voz e mantendo um carinho de leve no topo da cabeça dele. – Você precisa ficar em observação médica por um tempo antes de receber alta.
Os olhos dele varreram o quarto, parando exatamente nas folhas de papel onde ele havia escrito sua tentativa de despedida para mim. De repente, os olhos azuis, mesmo opacos, me encaravam com muito mais intensidade.
– Você...
– Tá tudo bem. – Despistei.
, eu...
– Já disse que tá tudo bem. – Alisei a cabeça dele mais uma vez. – Vou avisar os meninos que você acordou, ok?
Dougie assentiu, o semblante triste como nunca havia visto. Eu me virei para pegar o celular e tratei de levar as folhas da carta comigo para que ele não olhasse para elas novamente. Escondi no armário do quarto, onde ele dificilmente teria acesso. Quando pudesse, iria dar um jeito de encaixar na pequena mala que Danny levara para mim. De qualquer forma, eu realmente precisava parar de ler aquelas palavras, superar o que tinha acontecido, erguer a cabeça e seguir em frente.
– Oi, . – Harry atendeu o celular do meu irmão. – Danny tá tomando banho. Aconteceu alguma coisa?
– Ele acordou. – Falei baixo, observando-o de canto de olho. – O médico trocou a medicação dele. Eu entendi que Dougie não vai mais dormir tanto quanto antes.
– O médico falou alguma coisa sobre alta?
– Não, mas eu também não perguntei.
– Ele tá bem?
– Não sei dizer, Harry, mas acho que sim.
– Amanhã, nós vamos praí no primeiro horário de visitas, ok?
– Tudo bem, aguardo vocês. – Respondi. – Pode avisar meu irmão que eu liguei?
– Claro, vou fazer isso. Peço pra ele te mandar uma mensagem.
– Obrigada, Harry.
– De nada, meu amor.
– Era o Harry? – Dougie perguntou.
Eu fiz que sim e voltei a me aproximar.
– Você contou pra eles?
– Sobre o quê?
– Sobre a carta.
Neguei com a cabeça.
, – Dougie tomou fôlego para continuar a frase. – o que aconteceu? Por que eu estou aqui e não...?
– Morto? – Completei a frase dele sem nem raciocinar.
Acho que a palavra doeu mais em mim do que nele, porque eu dei dois passos para trás, sentei no sofá, apoiei os cotovelos nos joelhos e, abaixando minha cabeça até que esta ficasse suportada pelas minhas mãos, comecei a chorar. Eu me lembrava de episódios em que havia chorado muito – não que fosse tão surpreendente assim ver Bongiovi chorar.
O primeiro deles foi numa crise de saudades aguda que tive de Dougie. Eu tinha dezoito anos e ele estava em turnê com o McFLY. De repente, o aperto crescente no meu peito se tornou angustiante e eu travei por completo. Já estava na faculdade nessa época, mas o meu corpo deixou de responder a qualquer estímulo. Tive uma crise de choro que durou horas, Dougie largou tudo e voltou para Londres para me ver.
Outro desses episódios foi quando tocamos Transylvania ao vivo pela primeira vez. Havia uma parte que eu e Dougie havíamos modulado para ser usada especialmente na apresentação ao vivo. Aquilo tocava o meu coração de uma forma extraordinária. Eu deixei a apresentação no meio, todo mundo achou que era planejado para que a banda seguisse sem mim. Dei a desculpa de que subiu um enjoo por causa do nervosismo de estar em cima do palco e eu corri para vomitar. Era mentira. Estava trancada em um banheiro químico chorando horrores porque achava que Dougie não me amava como eu o amava.
Além desses dois, o único que me vinha à mente era quando recebi a carta dizendo que havia sido aceita em Oxford. Eu dei um grito, preso na minha garganta por dias. Todo mundo correu para me acudir e me encontraram tremendo no chão, chorando muito. Eram lágrimas de felicidade.
Tirando as vezes em que eu era bem nova – meu pai fazia visitas rápidas entre shows e eu me negava a aceitar a despedida –, não costumava deixar os outros saberem o que eu estava sentindo. Eu chorava fácil, mas dava um jeito de me colocar entre quatro paredes até me recuperar. Minha fama era de durona, mas as pessoas não conheciam a de verdade. Dougie conhecia. Até demais.
Foi pensando nisso que eu tive a pior crise de choro de todas. Parecia que tinha uma faca sendo constantemente encaixada no meu peito. Era física a dor, disso eu tinha certeza. Não me deixava respirar ou pensar em suspender aquele ataque. Dougie estava em estado crítico, não podia ter um estímulo emocional tão forte assim. Então eu levantei correndo e saí do quarto. Amy me encontrou segundos depois, caída na lateral da porta, ainda me desmanchando em lágrimas.
– Ei, – Ela se abaixou à minha altura. – o que houve?
– Eu não aguento a dor. – Deixei escapar. – Por favor, faz a dor parar.
Amy era a criatura mais doce do mundo. Sentou ao meu lado e me puxou para que eu deitasse minha cabeça sobre o seu ombro.
– Minha querida, ninguém disse que isso seria fácil. – Ela falou, a voz pacífica. – Você quer que eu ligue pra sua família?
Por um momento, quis dizer que sim, mas logo neguei com a cabeça.
– Ele acordou, foi isso? – Amy perguntou e eu assenti. – Vocês têm que conversar. Não sei o que os dois dividem, mas sei que você ama muito esse menino. Eu vou fazer o seguinte: não vou contar ao setor psiquiátrico que ele está consciente, não por agora. Vou dar tempo pra vocês dois. Conversem.
Voltei para dentro do quarto alguns minutos depois. As enfermeiras do setor me ajudaram a melhorar a cara, secar as lágrimas, respirar fundo e voltar para dentro de mim. Quando passei pela porta, tinha um copo enorme de mocaccino nas mãos. Dougie observava meus passos como podia, em silêncio.
– Eu encontrei você. – Disse, antes que ele falasse qualquer coisa. – Inconsciente, no chão da sua garagem. Seu pulso estava muito fraco, eu mal podia ouvir o seu coração bater. A Devon, sua vizinha, ouviu os meus gritos e ligou pra emergência. Fiquei com você até eles chegarem. Vim pra cá na ambulância. E estou aqui desde então.
– Me desculpe.
– Por que você não conversou comigo? – Perguntei, a angústia saindo pelos meus poros.
– Você teria ficado ao meu lado.
– É claro que eu teria ficado!
– Mas eu...
– Heroína, Dougie! Heroína! – Perdi a razão e comecei a falar alto. – Você podia ter morrido sem querer muito fácil.
– Eu não me importava.
– Se importava comigo, ao menos?
– Claro que sim.
– Então por que diabos não imaginou que eu ia ficar na merda se você morresse? – Não pude evitar as lágrimas novamente. – A minha vida ia acabar sem você, Dougie, puta que pariu. Que ideia você tinha na cabeça?
– Eu nunca quis que você sofresse.
– Mas eu to sofrendo, Dougie! Você acha que não dói em mim ler as palavras que você escreveu como se você não fosse ter um amanhã?
– Você não devia ter me socorrido.
– Eu devia sim.
– Você fica melhor sem mim.
– Não fico não. – Discordei, me aproximando da beira da cama, meus ombros murchando, e tomei uma das mãos de Dougie nas minhas. – Pelo amor de Deus, Dougie, eu amo você. Não te julgaria por ter acontecido o que aconteceu. Eu faria o que fosse possível pra você ficar bem. Pra você ficar comigo.
– Eu sinto muito.
– Sentir muito não é o suficiente. Não foi isso o que você disse?
Dougie assentiu e desviou o olhar de mim.
– Eu te amo, Dougie. – Terminei de voltar para a calmaria. – Eu nunca iria ficar melhor sem você.
Havia certo brilho de volta nos olhos dele quando Dougie voltou a me encarar. Ele ameaçou um movimento com os dedos, como se acariciasse minhas mãos.
– Você emagreceu. – Dougie concluiu. – Muito. E não tá dormindo.
Dei de ombros.
– Ossos do ofício.
...
– Comer, dormir... São distrações. Eu precisava saber que você tava respirando, não podia perder tempo fazendo outra coisa.
– Eu to aqui.
– Mas, por pouco, não esteve. – Abaixei a cabeça, chorando baixinho de novo. – Não quero te perder.
– Me desculpa, . Eu... Eu não... , eu nem sei o que falar. Eu não to bem, , preciso de ajuda.
– Era só ter me pedido.
– Eu não queria te fazer mal.
– Entendi isso. – Olhei novamente para ele e foi ali que eu perdi o fio do pensamento. – Sinto muito por não ter visto antes.
– Não foi culpa sua.
– Foi sim.
– Ei. – Dougie chamou a minha atenção e, com a cabeça, indicou o espaço livre ao seu lado.
O meu consciente inteiro gritava que eu não deveria estar fazendo aquilo, mas eu subi na cama. Apertei meu corpo entre o de Dougie e a grade lateral, que continha os controles. Deitei de lado e aproximei a cabeça do seu ombro.
– To aqui, pode dormir. Não vou a lugar nenhum. Eu juro.
Suas palavras foram como um decreto para mim. O braço de Dougie do meu lado estava sem acesso nenhum e ele o passou por baixo do meu pescoço. Apoiei a cabeça em seu ombro e apaguei. Por quanto tempo? Muito.
, – Ouvi meu nome baixinho. – eu fico feliz de você não estar mais chorando, mas vão me demitir se souberem que eu vi essa cena e deixei.
Dougie estava dormindo. Amy me encarava com um sorriso tranquilizador no rosto. Eu, provavelmente, estava com o cabelo bagunçado, os olhos arregalados e a cara amassada. Fui rápida em me recompor e, me desvencilhando do braço dele, desci da cama.
– Desculpa. – Sussurrei.
– Sem problemas. Vim trocar a medicação dele, é a última do meu turno. Nos vemos amanhã à noite?
– Sim, com certeza.
– Alguém do próximo turno vai tirar a alimentação parenteral dele. – Amy me informou. – Você vai se divertir hoje dando comida na boca.
– Meu Deus...
– Com o tempo, ele vai recuperar o controle da própria musculatura. Se precisar de alguma coisa, nem que seja só conversar... Tem o meu número, não tem?
Eu assenti, dando uma última olhada em Dougie.
– Ele vai ficar bem. – Ela me consolou. – Já tá fora de risco. Agora é só fazer o desmame com a metadona, observar os possíveis efeitos, fazer esse rapaz passar por uns exames... Até então, a evolução dele tá boa pro que aconteceu, , você pode ficar menos nervosa. Eu entendo que é difícil pra quem tem envolvimento emocional, que você sempre vai esperar o pior... Mas fica tranquila, tá?
Amy pegou na minha mão e sorriu.
– O setor de psiquiatria vai visitá-lo amanhã. Achei que você gostaria de saber.
– Obrigada, Amy.
– De nada. – Ela se aproximou e deu um beijo na minha bochecha. – Me liga se precisar, viu?
– Pode deixar.
Fiquei olhando até ela sair. Quando me virei, aqueles olhos azuis estavam me encarando. Tomei um susto.
– Desculpa, não quis te apavorar.
– Tá tudo bem.
– Você conseguiu dormir?
Fiz que sim e voltei para o seu lado na cama. Seus olhos baixaram para o meu pulso. O bracelete.
– Você pegou.
– Danny pegou, na verdade.
– Mas você disse que não tinha contado a ninguém sobre a carta.
– Posso ter me expressado mal. – Eu disse. – Danny sabe sobre a carta, não sabe sobre o conteúdo. Eu pedi que ele pegasse as coisas.
Dei um passo para trás e abri um pouco o casaco, deixando a blusa – que ele também havia deixado para mim – à mostra. Dougie deu um meio sorriso.
– Queria que você visse quando acordasse de vez.
, eu sinto muito.
– Não sinta, ok? – Peguei sua mão e a levei até minha boca, deixando um beijo sobre os nós dos seus dedos. – O que importa é que você tá aqui e vai ficar bem.
– O que as pessoas sabem sobre isso?
– Pedi pro médico manter o assunto privado. Então só sabem que seu corpo tá fraco por causa dos efeitos dos gases do escapamento. Ele deu uma desculpa boa pra te manter sedado quando, na verdade, era só pra recuperar o seu sistema nervoso.
– Você planejou tudo.
– Eu li a carta no caminho pro hospital, ainda dentro da ambulância.
...
– Não quero explicações, ok? Só quero que não se repita. Vou estar ao seu lado sempre, não vou te abandonar enquanto você não estiver completamente bem.
– Então você vai me abandonar? – Ele perguntou com urgência.
– Não, Dougie, eu só quis dizer que você precisa de ajuda, e que eu vou trabalhar pra você ficar bem até estar curado.
, eu...
– Cadê o nosso campeão? – Meu irmão quase gritou da porta do quarto.
Dei um sorriso fraco para Dougie e me afastei da cama. Danny me cumprimentou primeiro, mas logo foi dar atenção a Dougie. Eu aproveitei a distração dos dois, peguei mais uma roupa de muda e fui para o banheiro.

POV Dougie
saiu do banheiro enrolada na toalha. Olhou para mim com aquele sorriso que só ela sabia dar e andou até o lado da cama. Sem dizer uma palavra sequer, subiu em cima de mim, colocando um joelho de cada lado do meu quadril. Olhei para meu braço esquerdo, não lembrava de terem tirado os acessos de mim. Ela, ainda em silêncio, deixou a toalha cair para trás. Eu fiquei embasbacado, como sempre ficava, desde a primeira vez até a última.
Conhecia os contornos daquele corpo. Poderia navegar nele de olhos fechados e jamais erraria o caminho por um milímetro sequer. Sabia onde ela gostava de ser tocada, em que exato lugar eu deveria encostar – e como encostar – para produzir um efeito específico nela. Inconscientemente, levei minhas mãos até as laterais da sua cintura.
, pode entrar alguém a qualquer momento.
Ela sorriu para mim, aquele sorriso sacana que eu sabia que ela só dividia comigo, e eu amava saber disso. Levou o dedo indicador aos meus lábios e se inclinou na minha direção. Seus lábios tocaram os meus e eu já estava entregue. Sentia como jamais havia sentido na minha vida. Era a melhor sensação do mundo. Havia sentido tanta falta dela que não poderia colocar em palavras.
Não costumava ser tão quieta, mas não seria eu quem iria questionar. Ela não quebrou o contato visual comigo em nenhum momento, mas as mãos afastavam os lençóis e coberta do hospital para os lados. Sua mão foi até a parte mais sensível do meu corpo. Não me aguentei, deixei um grunhido escapar da minha garganta. levantou só mais um pouco e se preparou para encaixar em mim. Foi quando um barulhinho chato fez todo o sentido.
Acordei e estava transpirando. estava apagada na poltrona, a coberta por cima do corpo em que a camisa que se tornou a minha favorita repousava. Eu fiquei a fitando por alguns segundos antes de virar a cara para o teto. A luminosidade fraca que vinha do corredor por debaixo da porta me incomodava um pouco e eu ia pedir para tirarem aquela porra de máquina que fazia barulho o tempo inteiro. Estava me enlouquecendo mais do que eu consegui enlouquecer a mim mesmo. Mas o tédio acabou me vencendo de novo e eu dormi. Não gostava de não ter tanto controle assim do meu sono enquanto estava lá. Queria me manter acordado, queria conversar com tanto quanto pudesse. Eu precisava disso, mas a rotina hospitalar não deixava.
– Senhor Poynter? – Uma enfermeira colocou a cara para dentro da porta.
Eu ainda estava dormindo, e não queria ser acordado naquele momento, mas me comportei. A enfermeira sorriu. remexeu na cadeira e, quando percebeu que tinha mais alguém ali, se colocou em melhor postura rapidamente.
– Bom dia, Daisy. – disse.
– Bom dia, senhorita Bongiovi. Senhor Poynter, o nosso psiquiatra está aqui para vê-lo.
– Tudo bem, – Respondi. – pode mandá-lo entrar.
– Na verdade... – Ela coçou a nuca, sem jeito. – Ele precisa conversar com o senhor a sós em um primeiro momento. Depois, a senhorita Bongiovi pode e deve entrar pra conversarem todos juntos.
– Sem problemas. – disse, pegou o casaco de moletom e calçou as pantufas.
– Não. – Bati o pé. – Ela fica.
– Dougie, sem show. – Ela disse e eu murchei na hora, nunca tive coragem para bater de frente com ela e não seria a primeira vez em que eu faria aquilo. – Eu vou estar do outro lado da porta, te esperando.
Assisti ela se afastar e cumprimentar Daisy com um abraço rápido. não era de abraçar as pessoas. Eu estranhei. E então um homem de mais ou menos quarenta e cinco anos entrou.

POV
– Senhorita Bongiovi?
O sobrenome estava começando a me irritar. Eu usava o nome do meio, Jones. Danny usava e só era chamado de Danny Jones. Por que eu tinha que ser a Bongiovi e não podia ser a Jones?
– Sim, – Coloquei um sorriso no rosto para a senhora que me abordava e, pelo uniforme, podia dizer que era médica do hospital. – sou eu.
– Tudo bem? – Ela me estendeu a mão e eu aceitei o cumprimento. – Meu nome é Libby Sharpe, eu componho a equipe da psiquiatria do Saint Thomas junto com o doutor Taylor Wong, que está com o senhor Poynter lá dentro. Poderíamos conversar por um instante no meu consultório?
Eu olhei para a porta imediatamente.
– Fique tranquila, o doutor Wong não sairá daí enquanto você não voltar. Eu garanto.
Não havia ficado tanto tempo assim longe dele desde que nos internamos lá. Estava em uma cadeira mais confortável que a poltrona do quarto, mas me sentia dez vezes mais incomodada ali.
– As enfermeiras me contaram sobre alguns detalhes da história que a senhorita tem com o paciente. – Sharpe começou. – Em especial, a enfermeira Burrows e o doutor Ryan. Gostaria de saber, em primeiro lugar, como se sente com tudo isso.
– Feliz que ele esteja vivo.
– Não parece feliz.
– Ainda falta muito pra resolver. Não foi uma situação tão simples.
– Nisso eu devo concordar. – Ela ponderou e se ajeitou na sua cadeira. – Posso te oferecer uma água?
– Não, estou bem.
– Se precisar, pode pedir.
Eu assenti.
– Como está a estadia de vocês aqui? Bem, dentro do possível?
– Doutora, sem querer ofender, mas a senhora me trouxe aqui por um motivo. Pode ser direta, por favor? Não gosto de rodeios e quero mesmo voltar pra lá logo.
– Então você é das minhas. – Ela sorriu para mim. – Você tinha um relacionamento com o paciente?
– Eu e Dougie não tínhamos nada rotulado.
– Mas ele deixou uma carta de despedida apenas para a senhorita, certo?
Respirei fundo. Estava finalmente conseguindo esquecer a carta e ela tinha que trazer o assunto de volta.
– Sim, certo.
– Pode me informar o conteúdo dessa carta?
– É pessoal. Desculpa, mas prefiro manter pra mim mesma.
– Tudo bem. – A médica respondeu. – Eu te trouxe para conversar com garantia de confidencialidade e o doutor Wong estará fazendo a mesma coisa com o senhor Poynter neste momento. O caso não é exatamente raro.
Ela explicou mil coisas científicas para as quais a minha ansiedade não deu a mínima. O ponto era único: ela queria que eu não me envolvesse mais romanticamente com Dougie. Não enquanto ele não estivesse cem por cento, e essa parte era reservada apenas para meu conhecimento. Depois, cabia a nós a decisão. Enquanto isso – e Wong reforçou quando eu voltei ao quarto –, nós tínhamos liberdade total para cuidar um do outro. Mas todos os dois foram taxativos: sem beijos ou outros contatos físicos com segundas intenções. E, no fundo, eu entendia. Dougie precisava ver primeiro que ele não dependia de mim, que ele podia ser feliz por conta própria e que eu só seria útil como uma complementariedade. Ao contrário do que Dougie repetiu na carta, eu não era a sua cura. Eu era exatamente o contrário.
Saímos do hospital duas semanas depois, foi a primeira e única vez em que ele teve contato com a mãe – por vontade própria, eu não fiz nenhuma pressão depois da cena no hospital. Fiz uma mudança temporária para a sua casa. Quartos separados, recomendação médica. Eu cozinhei incessantemente, sempre comida de altíssima qualidade, zero porcaria. Uma empregada doméstica dava conta de fazer a limpeza. Três vezes por semana, eu levava Dougie para a terapia no hospital. Esperava do lado de fora. Eventualmente, o médico pedia para conversar comigo a respeito de como eu via a evolução dele. Danny, Harry e Tom apareciam todo dia. Até meu pai largou a turnê nos Estados Unidos para dar as caras por lá.
Dois meses e meio depois, Dougie deu um veredito: queria um cachorro. Levei ele até um canil e voltamos para casa com um filhote de Golden Retriever. Eu via a mudança nos seus olhos. O cabelo melhorara de qualidade, havia sorriso em seu rosto. Dougie acordava cedo, passava uma hora na mini academia que montara em casa. Algumas vezes, chegou a fazer o café da manhã para nós. Eu estava feliz por ele estar avançando tanto mas sabia que, no meu coração, eu só queria que o médico dissesse que ele estava recuperado por completo para que eu pudesse deixar a cama do quarto de hóspedes e passar uma noite com Dougie acariciando o meu cabelo. Estava com saudades daquela sensação, era a melhor do mundo.
Era terça. Fui ao mercado enquanto deixava Dougie fazendo os exercícios dele. Quando cheguei de volta, encontrei a casa em completo silêncio – com exceção de Bethoven, é claro, que não hesitava em fazer um estardalhaço. Deixei as compras em cima da bancada da cozinha. Virei para a geladeira e havia um bloco de folhas, as mesmas daquela carta, penduradas com um ímã. Meu coração quase parou. Eu deixei tudo o que estava fazendo e corri pela casa. Bethoven, sem entender nada, veio atrás. Fui de cômodo em cômodo até notar o post it rosa na porta do banheiro de sua suíte.

Vai ler a carta, sua desesperada.
Estou apenas tomando um banho.


Os ombros caíram, a cabeça relaxou. Consegui voltar a respirar normalmente sob o olhar atento de Bethoven, que se perguntava se era uma brincadeira com ele ou se era coisa de humanos. Voltei com passos curtos e lentos para a cozinha. Tomei a resma na minha mão, enchi um copo com suco de manga que estava na geladeira do dia anterior e me sentei no sofá da sala. Bethoven subiu logo atrás e deitou a cabeça no meu colo, como se adivinhasse que eu ficaria ali por alguns minutos ainda.

Cara ,

Estou feliz por fazer isso uma segunda vez. É chique, né? Você tem cara de quem já fez isso algumas vezes. Eu não sou tão inteligente ou importante como você, então nem tenho pra quem escrever assim. Só fiz isso pra você porque você merece ser tratada como a rainha que é.
Quando comecei minha última carta para você, eu era uma pessoa completamente diferente. Estava completamente fodido – eu ainda sou um fodido, mas um fodido feliz. Não via mais esperança. Não sei nem se eu queria ver esperança. Tinha certeza de que não tinha jeito. Mas tinha uma coisa que eu sabia lá e se mostrou mais verdade ainda ao longo do tempo: você sempre foi a solução dos meus problemas.
Agora é estranho me ver de onde estou. Tenho vontade de acordar, e não é mais só porque você tá aqui em casa, no quarto ao lado, e eu sei que vou te ver quando der as caras no corredor. A minha vida tem mais graça. A comida parece mais gostosa, as músicas parecem mais divertidas, o simples ato de deitar no sofá parece mais cômodo. Estar na minha pele voltou a ser confortável. Eu nunca vou ter palavras pra te agradecer o suficiente por ter desempenhado um papel essencial nessa minha ascensão, mas prometo passar o resto da minha vida tentando.
Nos momentos em que você esteve fora, eu escrevi outra música – acho que você pode ser declarada oficialmente como minha musa inspiradora. Essa tem uma letra infantil também (surpresa, ainda sou infantil), mas tem uma energia totalmente diferente e eu gostaria que você fosse a primeira pessoa a ver a letra antes de eu levá-la pros meninos. Eu a chamei de Something About You e mal posso esperar para tocá-la para você quando terminar de ler essa carta.


Well, my ex girlfriends took hours
Getting ready but you don't take half as long
You're always smell of flowers
And it's like you wake up with your make up on

Too good to be true

There's something 'bout you
There's something, something, something 'bout you
There's something 'bout you
There's something 'bout you

Well, you must have super powers
'Cause you play guitar much better than I do
You join me in the shower
Well, you look so sexy covered in shampoo

Too good to be true

There's something 'bout you
There's something, something, something 'bout you
There's something 'bout you
There's something 'bout you

Not because you're beautiful
More than I deserve
Something more than unusual
Yeah, like you were sent to rock the earth

My friends think you're amazing
Because you don't flinch when you're getting tattooed

Too good to be true

There's something 'bout you
There's something, something, something 'bout you

Not because you're beautiful
More than I deserve
Something more than usual
Yeah, like you were sent to rock the earth

You must been anti-aging
'Cause you dress it's still 1952

It must be true

There's something 'bout you
There's something, something, something 'bout you
There's something 'bout you
There's something, something, something 'bout you
There's something 'bout you
There's something, something, there's something, something
There must be something, something 'bout you

There's something 'bout you
There's something 'bout you



Sabe, ... Uma coisa não mudou. Eu ainda te amo mais do que amo a mim mesmo. O Wong fala que isso é errado. Quer saber? O Wong que vá se foder. Você ainda é a minha cura e agora é a minha heroína – com todo o perdão do trocadilho, você sabe o que eu quis dizer. Eu te amo demais e nunca vou cansar de dizer isso. Pra ninguém.



PS: Pensou que não teria presentinhos dessa vez também? Tem! Uma caixa vermelha na geladeira. Aproveite.
PS2: Se o Tom falar que o nome é uma cópia fajuta de All About You, eu não sou responsável pelos meus atos.


Eu era curiosa, Dougie sabia. Corri até a geladeira. A caixa estava lá, mas estava cheia de bombons. Peguei ela na mão e foi assim que senti o fundo falso. Com uma sobrancelha arqueada, depositei a caixa sobre a bancada da cozinha – ao lado das compras que eu deveria ter guardado – e tirei os doces de lá. Levantei a camada de papelão e ela revelou uma caixa de veludo grande. O colar era de ouro, uma corrente tão fina e delicada que dava medo de mexer nela. De pingente, um coração minúsculo, as iniciais “” e “D” gravadas. Na caixa de veludo, ainda, jazia outro recadinho.

Eu já mandei o Wong ir se foder na carta. Agora me faz o favor de mandar ele ir se foder também e vem tomar um banho comigo, pelo amor de Deus. Eu não aguento mais a saudade.


Sabia que estava fazendo merda? Sabia. Mas foda-se o Wong, não é mesmo?


Essa short é o prelúdio de uma long, e você pode descobrir o que acontece depois clicando aqui!



Nota da autora: Esses dois estão no meu coração. Pra você que chegou até aqui, não hesite em ler I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You), que é a long desse mesmo universo. E não se esqueça de deixar um comentário!



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