Última atualização: 24/02/2019

Prólogo

As nuvens de chuva já cobriam o céu escuro de Londres, mas os refletores iluminavam o gramado do Wembley Stadium deixando os mais de 82 mil torcedores atentos ao que acontecia próximo ao gol.
O jogador sentia seu coração bater acelerado, o suor escorrendo por seu corpo cansado depois de tanto tempo correndo. Sentia como se suas pernas fossem fraquejar a qualquer momento, implorando por um descanso após os 120 minutos jogados.
A prorrogação tinha sido toda do sacrifício, já que seu time tinha feito as três substituições em tempo normal, se saísse, o Borussia Dortmund jogaria com um a menos os trinta minutos restantes.
Entretanto, naquele instante nada disso importava, era como se o tempo tivesse parado e todos os problemas tivessem sido afastados de sua mente.
Ao fundo ouvia o barulho vindo das arquibancadas, nem mesmo sabia o que diziam, não conseguia entender, mas sabia que mais uma vez estavam lá, como sempre estiveram.

O alemão respirou fundo, andando com a bola em mãos até a marca do pênalti, colocando-a no local pintado, inclinando-se para ajeitá-la com calma.
Olhou para o goleiro que dava alguns pulos embaixo da meta, seus olhares se encontraram por poucos segundos, ambos se respeitavam pelas partidas que jogaram juntos na Seleção e pelos jogos como o daquela noite, em que eram rivais.
levantou-se e então se virou, dando as costas para o gol e afastando-se alguns passos da bola. Viu seus companheiros mais adiante, em linha, abraçados, incentivando-o com sorrisos e alguns joinhas, afirmando que tudo daria certo. Dois ou três estavam ajoelhados, de olhos fechados, as mãos juntas, rezando para que ele acertasse. Ao canto, próximos a linha do campo estavam os reservas junto com toda a comissão técnica e os preparadores físicos, todos o encorajando de alguma forma, esperançosos com a jogada.
Os jogadores do Bayern München não estavam muito diferente, do outro lado do gramado, abraçados, torcendo por seu erro.

acenou com a cabeça para os companheiros e então tornou a virar-se em direção ao gol, encarando Neuer por algum tempo;
Os dois se conheciam bem demais, Manuel já tinha salvo pênaltis batidos por ele três vezes nos últimos anos.
Fechou os olhos respirando fundo mais uma vez, esperando o som do apito do juiz.
Era agora ou nunca.
Aquela era a bola do jogo, era a bola do título.
O momento de confirmar seu nome na história do clube que tanto amava tinha chegado, era aquela a hora de agradecer por tudo o que a torcida tinha feito durante seus dez anos em Dortmund.
Sentia o olhar de todos no estádio sobre seus ombros, a atenção de todos os torcedores, jogadores e fãs de futebol presos nele.
seria o herói ou o vilão daquela noite.

Abriu os olhos assim que ouviu o som estridente autorizando a batida, ao fundo os gritos que entoavam na arquibancada, vindos do lado amarelo, eram o que parecia dar ainda mais certeza para , era o momento do Borussia brilhar;
“Und wenn Sie das Spiel zu gewinnen und an der Spitze sind, werden wir hier singen: Borussia! Und wenn Sie das Spiel verlieren und du dort unten bist, werden wir hier singen: Borussia!¹
Era a hora de definir o campeão da Champions League², aquele era o ápice, o desfecho que a torcida merecia.
encarou o goleiro bávaro enquanto corria, segurando a respiração no momento do chute, acompanhando com o olhar o trajeto da bola em direção ao gol.
Por um instante o estádio ficou em silêncio, antes de explodir em gritos;
Manuel Neuer caído do lado direito, enquanto a bola tinha morrido no fundo da rede do lado esquerdo, o Borussia Dortmund era campeão!

¹ Canto da torcida do BVB em todos os jogos: “E se você ganhar o jogo e estiver no topo, nós estaremos aqui cantando: Borussia! E se você perder o jogo e estiver lá embaixo, nós estaremos aqui cantando: Borussia!”

² A final da Uefa Champions League de 2012/13 ocorreu em Londres. Os finalistas eram Borussia Dortmund e Bayern München, ambos alemães. Na final verdadeira, a vitória foi do Bayern por 2x1 em tempo normal. Na fanfic, é do BVB nos pênaltis.


UM.

O jogador esticou-se para pegar sua mala na esteira antes de seguir com o resto do time pelo corredor de desembarque. Olhou para o lado ao ver o amigo cutucando-o com o cotovelo, retirando os fones de ouvido para escutar o que ele dizia, mas não era necessário, pois ao fundo escutava a gritaria.
Sorriu orgulhoso ao escutar o que todos gritavam, sorrindo para seu melhor amigo, recebendo um tapinha nas costas como cumprimento. Respirou fundo, preparando-se psicologicamente para o que viria a seguir; gritos, palmas, flashes e mãos o puxando para todos os lados Perdeu as contas de quantas vezes foi abraçado, de quantos beijos recebeu no rosto ou na cabeça. Inclusive dois na boca – coisa rápida, nada de língua.
Microfones eram colocados à sua frente, apenas sorria e dizia estar feliz.
Nem mesmo sabia o que perguntavam, parecia ter ficado surdo com aquela gritaria no saguão de entrada do aeroporto.
Um garotinho e seu pai choraram de emoção quando parou ao lado deles para uma foto, pegando o menino no colo, antes de autografar sua camiseta amarela.
Em determinado momento estava espremido entre torcedores, nem mesmo sabia onde estava os companheiros ou os seguranças. Tinha tantas pessoas ao seu redor, que não fazia ideia de como sair daquele meio, mas não se importou por nem um segundo.
logo apareceu ao seu lado, tão extasiado quanto ele próprio.
Tiraram mais algumas fotos, deram mais alguns autógrafos e, depois de mais de uma hora, finalmente conseguiram continuar o caminho para fora do aeroporto.
Sentiu uma mão puxá-lo novamente, impedindo-o de entrar na van branca que esperava os jogadores na saída.
Virou-se a tempo de ver uma jornalista de cabelos compridos lhe perguntar algo e apontar o microfone para o rapaz;
Todos os presentes queriam aquela resposta, todos queriam o desfecho para a situação a qual se encontrava há vários meses.
O alemão apenas sorriu, dando de ombros sem importar-se com o que respondeu, se tivesse feito merda, seu agente que resolvesse mais tarde, era pra isso que era pago no final das contas.
Naquela hora nada no mundo era mais importante do que aquele time e aquela torcida!

Já tinha gritado tanto quanto os fãs e sentia seu braço doer de tanto acenar, tinha certeza de que nunca mais deixaria de sorrir depois daquele dia, seu rosto estava levemente amortecido, mas continuava sem se importar. Só queria continuar comemorando com os companheiros, comissão técnica e com os diretores que, assim como ele, estavam em uma passeata pelas ruas principais de Dortmund. Todos queriam ver a taça com que, por tanto tempo, sonharam.
A Champions League era deles.
Nada poderia superar aquele momento.
Era o auge.
“E agora, senhoras e senhores, o rapaz da cobrança do título, o artilheiro da Champions League, !"
Os gritos pareciam ainda mais altos agora. Todos acenavam, bandeiras do Borussia balançavam por todos os lados, pessoas nas janelas de suas casas aplaudiam.
– Vocês são incríveis! Não sei como agradecer por todo esse tempo! Vou ser um pouco clichê e imitar o , afinal, esse babaca foi o primeiro a falar, quanta ousadia dessa criança! – empurrou levemente o amigo que gargalhou, dando-lhe um tapa. – Isso aqui, tudo o que fizemos, tudo o que conquistamos, é tudo graças a vocês! Tudo por vocês! – levantou a taça o mais alto que pode, mostrando para toda a torcida que os cercava. – Vocês são os melhores fãs do mundo. Borussia Dortmund é o melhor clube do mundo! Esses caras aqui... Esses caras com quem passo a maior parte dos meus dias, eles são fantásticos! Vocês são fantásticos! O que fazem por nós... O que fazem todo jogo... Não importa o que o mundo diga, vocês são a melhor torcida do mundo! Só quem veste essa camisa, só quem pisa em nossa casa pode sentir isso. Eles não têm medo de nós, ele têm medo de vocês, porque quando vocês começam a cantar nada é mais forte do que isso! Vocês nos fazem vencer! Essa taça é de vocês!


ESPN
“Eu nasci para vestir amarelo e preto! Não importa o quanto me ofereçam, Dortmund é minha casa! Não trocaria esse time nem essa torcida por dinheiro nenhum! Jamais faria nada que pudesse decepcionar os nossos torcedores! Sou completamente apaixonado por esse clube! Eu não vou sair. Não vou trocar essa torcida por outra, não vou trocar esse time. Não pretendo sair nunca! Amo esse lugar, amo essa cidade, sou feliz aqui. Devo tudo o que tenho ao Borussia. Devo tudo a essa torcida! Não importa o que digam, não importa o quanto ofereçam, acreditem quando eu digo: eu nasci para vestir amarelo e preto! Sou fã desse time, amo vestir essa camisa! Essa é a minha casa!”
– Era essa a resposta que a torcida esperava! A parede amarela pode continuar comemorando, o melhor jogador do time nesta temporada vai ficar em Dortmund! – dizia o apresentador do programa, olhando para as câmeras, enquanto imagens do time e de passavam na tela ao fundo. – Depois de semanas com muitas especulações sobre a saída do jogador para o rival Bayern München, depois do próprio Guardiola, que irá assumir o time no próximo mês, afirmar que faria de tudo para vestir a camisa nove do time, o jogador declarou na frente de todos que estavam esta manhã no aeroporto, que não irá sair de Dortmund! Não importa a oferta, e nós sabemos que elas foram altas, ele continuará vestindo a camisa do Borussia Dortmund!

desligou a televisão, espreguiçando-se no sofá preto de sua casa.
Olhou o relógio no pulso, certificando-se que ainda era cedo para ir encontrar os amigos na boate, poderia descansar mais um pouco antes de aproveitar à noite bebendo até beirar o coma alcoólico, para repor as semanas que não tinha nem mesmo passado perto de uma cerveja.
Esticou-se cruzando os braços atrás da cabeça, um sorriso calmo nos lábios.
Sua vida não poderia estar melhor do que naquele momento;
Sabia que não deveria ter dado aquela resposta, deveria ter desviado o assunto, assim como tinha feito nas últimas semanas, mas naquele momento encontrava-se tão satisfeito, tão completo profissionalmente, que nada no mundo o tiraria de Dortmund. Pelo menos os boatos acabariam e os fãs, assim como o próprio Klopp, confirmaram que o jogador não os deixaria.
Não que em algum momento considerasse vestir a camisa do Bayern ou de qualquer outro time, tinha sido verdadeiro quando falou que não se importava com o dinheiro; Dortmund era sua casa.
Não tinha desmentido os comentários antes, porque o marketing do time e seu agente tinha combinado de anunciar sua renovação no final da temporada, já tinha até gravado o vídeo com o anúncio e realizado um novo photoshoot para a divulgação oficial.
Tinha estragado os planos de todo mundo, mas duvidava que alguém fosse reclamar com ele por não ter se controlado.
Nem acreditava que alguém poderia realmente achar que ele consideraria sair daquele clube, não depois de tudo o que tinha passado para alcançar o profissional;
Lembrava-se bem de como tudo tinha começado: era apenas um garoto de classe média de Stuttgart que sonhava em ter uma banda de rock, porém trocou as aulas de bateria por aulas de tuba e acabou tocando na banda do bairro, junto com alguns colegas. Ainda se lembrava da roupa social que tinha que usar junto com um colete vermelho nos eventos, era cômico pensar que realmente tinha passado por tudo aquilo, mas não se arrependia, tinha sido importante para sua formação, e ainda tocava vez outra, era um hobby que ele manteve mesmo depois de tantos anos.

A mudança realmente aconteceu durante um campeonato de futebol em sua escola – coisa boba em sua opinião, mas o professor de educação física era amigo de um dos olheiros do Borussia, e o homem de cabelos grisalhos estava lá no dia das finais.
Lembrava-se do professor o chamando alguns dias depois na sala do diretor, junto de seus pais. Achava que a garota que ele tinha beijado algumas horas antes tinha falado alguma coisa, que ele seria expulso por aquilo. “Pai, foi só um beijo!”, sussurrou para o homem, enquanto os dois esperavam para falar com o diretor (Hadrian ainda gostava de lembrar o filho dessa história, quando o mesmo voltava para casa nos feriados para ficar com a família).
O pequeno tinha ficado animado com a ideia de fazer testes para um dos maiores times da Alemanha, mas seu pai o lembrou de que ele já tinha feito um teste para o Stuttgart e tinha sido recusado.
“Nenhum talento especial!” , tinha dito o homem na hora de dispensar o garoto.
O olheiro do Borussia, Joseph, discordava.
Achava que tinha potencial; era rápido, tinha bom domínio de bola e visão de jogo, além de um “faro” para gol.
O rapaz não pensou duas vezes quando o chamaram para a base, mesmo que tivesse que deixar sua família e os amigos para mudar de cidade.
Era sua chance, de repente, ser jogador de futebol profissional era seu objetivo.
Em questão de dias, virou seu grande sonho.
Sabia que não seria nenhum astro do rock tocando tuba, por que não arriscar ser ídolo de algum time?
Sua mãe tinha sido totalmente contra; Seu garotinho indo morar tão longe?
, você não conhece essas pessoas!”, mas no final a mulher acabou por concordar, depois de fazer algumas exigências, é claro, não aceitaria seu filho parando de estudar tão cedo.

conheceu seu melhor amigo na primeira semana no clube; os dois frequentavam a mesma escola, mas , um garoto franzino e de cabelos , não precisava morar no espaço ofertado pelo clube, os seus pais do garoto moravam em Dortmund.
adorava os pais de , eram engraçados, simpáticos e extremamente carinhosos.
Depois das aulas e treinos, os dois garotos voltavam para a casa de pelo menos três vezes na semana.
Conforme os meses e anos foram passando, os dois garotos chamavam cada dia mais atenção nas categorias de base; Ganharam a maioria dos campeonatos que disputavam com os companheiros. Tinham um time forte, entrosado e amigo.
Contudo, foi apenas quando Klopp assumiu o time principal que os dois garotos tiveram sua grande oportunidade; o novo técnico gostava de valorizar os garotos criados no clube, achava que os jogadores da base davam mais valor na hora de vestir a camisa. Quando entravam em campo eles mostravam mais vontade de vencer do que um jogador que tinha sido “criado” em outro time.
No dia em que Klopp foi assistir a uma final do sub-18, deus dois passes para gols, sendo que um foi de , que pouco antes do final do jogo acabou sofrendo um pênalti e deixou o melhor amigo cobrar – uma “troca de favores” extremamente comum entre eles.
Nem tinham saído do campo quando Klopp os chamou, pedindo para se apresentarem no time principal na segunda-feira, depois daquilo tudo mudou radicalmente para os dois;
Assinaram contrato com o clube e começaram a receber semanalmente.
começou como titular poucas semanas depois, pois o garoto se enquadrava perfeitamente no novo esquema de jogo.
, por outro lado, dividia a vaga com mais dois jogadores e normalmente, acabava entrando no decorrer do segundo tempo, pelo menos até o cara titular se machucar e ele aproveitar a oportunidade;
Gols, assistências e boas apresentações em campo garantiram seu nome no time principal mesmo após a volta do companheiro, junto com Robert Lewandowski, que assim como outro jovem do time, Mario Götze, viraram grandes amigos.
Os quatro estavam sempre juntos.
Sempre, até Mario dizer semanas atrás que estava saindo do time no final da temporada, indo para o rival, Bayern München.
e tentaram convencer o amigo a ficar, mas nada do que tinham dito o convenceu do contrário; o valor que o Bayern pagaria era muito superior ao que ele recebia no BVB.

O jogador bocejou, espreguiçando-se no sofá antes de esfregar o rosto, por um momento considerou ficar em casa descansando, estava a quase 24 horas sem dormir, ainda animado demais com o título da noite anterior para conseguir fechar os olhos por mais de vinte minutos. Mas era uma noite de comemoração, depois de tantas semanas focado no time, era a hora de se divertir.
Pegou o celular ao seu lado enviando uma mensagem para , dizendo que já estava de saída.
Calçou os sapatos e levantou-se, pegando a carteira e a chave do carro na mesinha de centro, ajeitou os cabelos uma última vez antes de sair de casa, pronto para beber com os amigos e terminar à noite na cama com sua namorada.



DOIS.

“Acrescente duas colheres de açúcar e então...”
“A abelha rainha usa...”
“Não perca uma matéria especial sobre o Brasil, sede da Copa...”
“Amanhã a máxima será de...”
“Lindsay Lohan foi intimada a comparecer...”
“Ainda não sabemos sobre o estado de saúde de ...”
“Beyoncé e Jay-Z foram...”
“Shakira e o filho estavam hoje...”
“Tudo o que sabemos foi que o jogador bateu o carro depois...”
“Os três foram levados ao...”
“Novo filme do Superman já está em cartaz...”

encarou o trailer do filme por cinco segundos, considerando se valeria à pena ir ao cinema para ver Henry Cavill; não era nenhuma fã de filme de super-herói, mas admitia que era sempre válido ver o ator sem camisa. Por fim, desistindo de encontrar alguma programação para aquele horário, apenas desligou a televisão e virou-se para o lado em seu sofá branco, encarando o teto por alguns instantes.
Levantou-se em direção a cozinha, colocando uma água para esquentar enquanto pegava um pacotinho de chá e colocava em uma xícara grande. Cruzou os braços encostando na bancada da pia, esperando para que a mesma fervesse, deixando pensamentos aleatórios preencherem sua cabeça.
Precisava de um hobby para os finais de semana, mas não fazia ideia do que poderia ser;
, sua melhor amiga, já tinha a convidado para algumas aulas experimentais para terem uma atividade em dupla, mas nada a motivava de verdade. Principalmente porque Kuster era mais do estilo fitness, coisa que passava longe, não tinha a mínima vontade de acordar cedo para correr no parque, ou ir para academia. Já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha pago a mensalidade e não apareceu mais de duas vezes para andar na esteira ou algo do tipo.
Assim que preparou seu chá preto, a inglesa retornou para a sala, pegando um dos livros sobre a estante para começar a ler; O Grande Gatsby foi o escolhido da vez, mas mal esticou as pernas sobre o sofá, ajeitando-se para ficar confortável, e seu celular já começou a tocar.
- Como está o encontro? - perguntou animada, assim que atendeu.
- Srta. ? - uma voz feminina questionou no outro lado da linha.
- Hm… Sou eu. Quem fala? - tornou confusa, encarando mais uma vez o número que aparecia na tela, junto ao nome de sua amiga e uma foto das duas juntas.
- Boa noite, meu nome é Simone, eu sou enfermeira do LWL – Klinik Dortmund, estou ligando para informar que a Srta. Kuster sofreu um acidente e está internada no hospital. Tentamos contato com os pais, mas ninguém atendeu... A Srta. é parente da paciente?
- Eu... O que? Eu... – começou atônita, sentou-se no sofá e apertando o telefone contra sua orelha, não sabia o que fazer ou falar, não parecia capaz de assimilar tudo aquilo. Não poderia ser , ela estava em um encontro com um cara que tinha conhecido em um aplicativo, como poderia estar no hospital?
- Senhorita? – ouviu a enfermeira chamar-lhe.
- Eu... Sou a melhor amiga dela... – respondeu em um sussurro após alguns segundos. – O que aconteceu? Ela está bem? Ela...?
- Infelizmente ainda não sabemos dizer, ela está sendo observada pelos médicos nesse instante. A senhorita poderia vir ao hospital? Ou tentar contatar alguém da família? Estamos tentando há vários minutos e não conseguimos.
- Eu já estou indo. – desligou antes que pudesse se dar conta do que fazia.
Seus movimentos pareciam automáticos, se a perguntassem depois sobre qualquer coisa após a notícia ela não saberia responder nada, não lembrava-se de ter trocado seu pijama, e menos ainda de como conseguiu dirigir até o hospital.

Tinha consciência que deveria ter sido multada no caminho, tinha certeza que havia passado por pelo menos três sinais vermelhos, e estava acima da velocidade permitida em alguns trechos, mas não se importava.
Poderia perder a carteira de motorista naquele momento que não faria diferença.
Ao chegar à rua do hospital percebeu o quanto estava lotado, reparou em alguns fotógrafos e várias pessoas com camisetas amarelas e bandeiras de algum time que ela não se importou em saber qual era, embora suspeitasse; aquela cidade só tinha espaço para um time de futebol.
Precisou rodar por alguns minutos para conseguir uma vaga, e então andar a pé até a entrada do hospital, o qual estava completamente tumultuado.
Viu alguns seguranças tentando acalmar a multidão amarela, algum torcedor deveria ter se machucado em alguma briga depois do jogo, era algo comum, mas não entendia o motivo de tamanha movimentação;
Sabia que o Borussia tinha vencido a Champions League, até assistiu ao jogo junto com os amigos em um bar próximo do trabalho, e tinha quase certeza que Aaron e Max tinham ido para o aeroporto recepcionar os jogadores, mas não fazia ideia do porquê aquela bagunça na frente ao hospital. Será que eles não poderiam fazer essa gritaria em outro lugar?
Teve dificuldades até chegar aos seguranças na entrada e conseguir passar, precisou mostrar seus documentos e dizer o nome da amiga para que, depois de confirmar com alguém na recepção, finalmente deixassem-na entrar.

Andou pelos grandes corredores, o local não estava tão movimentado quanto o lado de fora, mas estava cheio. Parou na recepção, chamando uma das mulheres que ali estava, usando um jaleco branco e um crachá com seu nome, o qual a garota não se deu ao trabalho de ler, a senhora olhou-a e começou a digitar no computador, até que ouviram outra voz aproximando-se.
- Kuster? – perguntou a ruiva, se virou no mesmo instante confirmando com a cabeça e andando até a mesma, que tinha vindo de um corredor lateral.
- Exatamente, é minha amiga. Me ligaram dizendo que ela sofreu um acidente... – a voz falhou na última frase, pigarreou tentando manter a voz firme.
- Óh, sim! Senhorita ? Fui eu quem ligou, sou Simone, lamento conhecê-la nessa circunstância desagradável... – a mulher estendeu a mão, as duas se cumprimentaram e começar a andar em direção ao elevador. – Conversei com o médico há poucos minutos, o estado dela não é crítico, ela não corre risco nenhum, não se preocupe! – falou calmamente, tentando tranquilizar a outra.
soltou a respiração de uma só vez, não tinha percebido que estava com aquela sensação de sufocamento desde que a mulher começou a falar. O alívio correu por seu corpo ao saber que pelo menos ela não estava tão mal.
- E como ela está? O que aconteceu? – tornou para a enfermeira, assim que o elevador chegou ao térreo e as duas entraram.
- Acidente de carro, ela está envolvida no acidente de , chegou com ele e o outro motorista…
- Acidente de quem? - questionou confusa, piscando repetidamente, o nome não soando estranho aos seus ouvidos.
- ? O jogador de futebol? A senhorita não percebeu o tumulto lá fora?
concordou com a cabeça, surpresa ao saber sobre o jogador já que tinha o visto na televisão horas antes do jogo da noite anterior; Aaron não parava de dizer o quão bom atacante ele era, mas só o que realmente percebeu, já que não torcia para o BVB, era que o jogador ficava muito bem com aquela barba por fazer. Tinha até olhado algumas fotos no mesmo no Instagram.
- Não sei ao certo o que aconteceu, mas sua amiga estava no carro que bateu com o de . A propósito, nenhum jornalista sabe quem eram as duas pessoas do outro carro, não divulgamos os nomes sem autorização das famílias, apenas avisamos que o quadro dos dois é estável!
- O outro homem, Peter, está bem? - lembrou-se do empresário com quem tinha marcado.
- Está sim, a família dele já foi informada, ele foi o que menos se machucou, apenas uma concussão, acredito que até amanhã já seja liberado. Está conversando com os policiais no momento…
- Policiais?
- Sim, sim. Foi um acidente grave, ele e sua amiga tiveram sorte de não saírem tão machucados. Ao que indica, ele foi o responsável pelo acidente, atravessou o sinal vermelho e bateu no carro de … - a mulher parou de falar quando a porta do elevador se abriu no 17° andar e então se virou para a outra – Por favor, não comente sobre o caso dele com ninguém. Não temos autorização para divulgar nada por enquanto.
- Não se preocupe, não falarei nada. – ela tentou dar um sorriso, mas pela expressão da enfermeira, não teve muito sucesso.
- Sua amiga vai ficar bem! – comentou apertando gentilmente o ombro da loira.
As duas continuaram a andar, agora em silêncio, pelo corredor, indo para uma área mais reservada, olhou rapidamente para os lados, vendo apenas um enfermeiro em uma mesa de informações mais afastada. Ao chegarem ao final do corredor à ruiva a olhou com um leve sorriso nos lábios.
- O doutor deve vir logo, espere aqui! Se precisar de alguma coisa pode pedir para me chamarem! – apontou para o local em que o homem de jaleco analisava alguns papéis, digitando algo no computador.

Estava no silêncio absoluto já fazia quase uma hora, escutava seu coração acelerado e o tic-tac do relógio na parede, ninguém tinha aparecido até aquele instante. Nenhuma informação sobre .
Continuava sem conseguir falar com os pais da amiga, e não tinha certeza se gostaria de falar com eles antes de ter algo mais concreto.
Um tempo depois viu um casal passando pelo corredor, a mulher ainda com o rosto vermelho das lágrimas, mas parecendo tranquila. Imaginou que fossem os pais de Peter, e pensou em conversar com eles, porém nunca tinha visto Peter sem ser por fotos, nem mesmo sabia o sobrenome dele, ou se o homem sabia de sua existência.
Recostou-se na cadeira em que estava, passando a língua pelos lábios secos enquanto esperava por notícias.
Era pouco mais de uma da manhã quando um rapaz apareceu, os olhos vermelhos e inchados, a aparência cansada, e um leve odor de cerveja.
Sentou-se duas cadeiras de distância e ficou em silêncio, perdido em pensamentos.
reparou no porte atlético do rapaz, e seu rosto era um tanto familiar.
Após alguns minutos o rapaz tirou o celular do bolso discando rapidamente e então colocando o aparelho próximo a orelha esquerda, suspirou frustrado após alguns toques. Tentou discar mais algum número e colocou-o próximo ao ouvido novamente, sua mão tremendo.
A inglesa pode ouvir o barulho da caixa de mensagem vindo do telefone ao lado, virou-se levemente em direção ao homem, que voltava a guardar o aparelho no bolso.
O passou as mãos pelo rosto, bagunçando o cabelo em seguida e então encostou a cabeça na parede fria, fechando os olhos por alguns instantes.
Ouviu-o fungar e então inclinar-se para frente, encostando os cotovelos nos joelhos e apoiando sua cabeça nas mãos fechadas.
- Você está bem? Quer um copo d’água? – ela perguntou gentilmente.
O homem olhou-a por alguns segundos, parecendo confuso ao finalmente notar que não estava sozinho naquele corredor, ficando um pouco surpreso ao reparar nisso.
- Não, obrigado. – disse com a voz falha, passando a mão pelo nariz levemente vermelho, sentou-se corretamente, olhando atentamente para a outra – Você não é uma jornalista, é? – perguntou com a cabeça inclinada, vendo-a negar com a cabeça.
- Só quero saber sobre a minha amiga.
Ele concordou desculpando-se.
Passaram-se mais alguns minutos de silêncio até o rapaz notar alguma coisa, virando-se confuso;
- Sua amiga é a garota que estava no outro carro?
- Foi o que me disseram, mas não sei bem o que aconteceu. - suspirou olhando para o relógio - Imagino que você seja amigo do outro cara, não?
Ele concordou com um aceno, sorrindo de leve.
- Você não sabe quem é o outro cara?
mordeu o lábio, rindo sem graça;
- Fica muito ruim se eu contar que só soube quem é ontem?
O negou com um aceno, dando de ombros.
- Pelo menos descobriu no dia do título! - piscou.
- Você também é jogador, não é? Por isso parece familiar…
- , só não digo que é um prazer, porque a situação não é das melhores... - estendeu a mão, apertando-a da inglesa;
- , entendo e concordo completamente! - sorriram um para o outro por poucos segundos, antes da mulher perguntar em voz baixa - Você sabe o que aconteceu?
suspirou, concordando lentamente, inclinando-se de novo para frente e apoiando os braços nas pernas;
- Estávamos em uma boate comemorando e o acabou brigando por telefone com a namorada, porque eles ainda não tinham se visto, eu sei lá… Enfim, ele estava indo buscá-la quando… - pigarreou para recuperar a voz antes de continuar - Me ligaram não tem muito tempo falando sobre o acidente, eu não fazia ideia... Não sei dizer o que aconteceu, mas tenho certeza que ele não estava bêbado. Quando conversamos ele parecia muito melhor do que eu... E, definitivamente, precisa de muito mais do que um copo de cerveja para ficar bêbado. – a mulher assentiu com a cabeça, tornando a olhar para frente, então era mesmo provável que Peter tivesse causado o acidente – Sei que ele bateu com o carro dos seus amigos, mas não sei quem furou o sinal ou o que...
Ficaram em silêncio novamente, ambos extremamente cansados e apreensivos.
- Você já teve alguma notícia? – questionou, vendo-a negar com a cabeça.
- Pediram para que esperasse aqui, mas a enfermeira disse que não parecia ser tão grave... Não entendo na verdade, se não foi grave, por que toda essa demora, não é mesmo? – olhou apreensiva para o jogador.
fez um barulho estranho com a boca, o que fez a mulher arquear a sobrancelha, esperando por alguma resposta;
- Você não viu o estado do carro, não é? – ele perguntou sem graça, ela apenas negou, tornando a ficar preocupada – Foi uma batida feia, o carro de capotou, o outro acabou acertando um poste, não estou dizendo que ela não está bem nem nada, mas... – ele tentava se explicar, quase como se estivesse desculpando-se por aquela informação.
concordou olhando para o chão, mordendo o lábio inferior nervosa.
- Hey, calma! Vai ficar tudo bem! – ouviu a voz suave do rapaz ao seu lado. reparou que estava roendo as unhas e batendo o pé no chão, sabia que era irritante, Aaron sempre reclamava daquilo, mas não conseguia controlar. Eram os primeiros sinais de que estava nervosa com alguma coisa.
Sentiu a mão gelada do jogador sobre a sua, notando que segurava o braço da cadeira com certa força, sentiu seus dedos ficarem dormentes por um tempo. Olhou-o vendo um pequeno sorriso de conforto nos lábios finos do rapaz. Suspirou relaxando os ombros, sorrindo de volta para ele após alguns instantes.

puxou um assunto qualquer com ela, apenas para não ficarem naquele silêncio e distraírem-se um pouco, conversando sobre a vida de cada um, coisas bobas do dia-a-dia, alguns minutos depois viram um médico com uma prancheta na mão, ambos levantaram-se apressados, andando para perto do homem.
- Boa noite, sou o Dr. Schümmer, você é parente da Srta. Kuster? – perguntou para a mulher que negou com a cabeça.
- Amiga... – respondeu nervosa.
- Preciso falar com os familiares, de ambos. – disse olhando para , que suspirou.
- Os pais de estão em Stuttgart, só conseguiram voo para mais tarde! – comentou agoniado.
- Doutor, os pais de estão na Itália, ainda não consegui avisá-los sobre o acidente... Por favor. – pediu quase chorando. passou um braço pelos ombros dela, tentando acalmá-la.
O médico olhou para os dois por algum tempo, concordando em seguida.
- Os dois estão com quadros estáveis; a senhorita Kuster está dormindo por conta dos remédios, mas deve acordar em algumas horas, consegui conversar com ela por algum tempo, embora reclamasse da dor e tenha ficado com vários hematomas, de modo geral ela está bem, não tem com o que se preocupar! Assim que ela acordar você poderá entrar para vê-la.
não pode evitar o suspiro de alívio que passou por seus lábios, quase como tirasse um peso de suas costas. O sorriu em sua direção, apertando-lhe o ombro gentilmente, passando algum apoio.
- , por outro lado, – ele suspirou antes de continuar – está em coma induzido. Ele bateu forte com a cabeça quando o carro capotou, e a batida dos carros foi do lado do motorista, ele recebeu todo o impacto. Acabou ficando preso nas ferragens, não sabemos ao certo o quanto isso pode tê-lo ferido. Não sabemos se terá sequelas quando acordar. Estamos fazendo todos os exames para ter certeza que a coluna não foi atingida no impacto, mas não podemos garantir nada por agora.
O jogador piscou ao ouvir tudo aquilo, abrindo a boca para falar alguma coisa, mas nada vinha a sua mente. O braço que estava sobre o ombro da mulher pendeu ao seu lado, não sabia o que dizer ou pensar, nem sabia se tinha entendido direito o que o médico tinha dito.
- Alguma previsão para ele acordar, doutor? - questionou ao ver o estado do .
O médico negou com a cabeça, respirando fundo.
- Ainda não está descartado o risco de morte, estamos fazendo todo o possível para diminuir os danos o máximo possível. Por hora é tudo o que posso adiantar sobre o estado dele. - virou-se para que ainda parecia em choque - Eu preciso falar com os pais de quando eles chegarem, assim que tiver alguma novidade eu venho avisar.
Sorriu compreensivo para os dois, enquanto via o acenar, ainda atônito.
encarou o homem, sem saber o que dizer, sabia muito bem o que aquilo significava.
, em contrapartida, só entendia a palavra coma e risco de morte.
Parecia que vibrava contra seus ouvidos, e o desespero voltou a tomar conta de si ao entender que seu melhor amigo estava desacordado em uma cama de hospital.
Sentiu os braços da mulher em seus ombros, quando ela o abraçou em um impulso, afirmando para ele que tudo ficaria bem, e logo acordaria. Retribuiu o gesto com força, sentindo as lágrimas escorrerem por seus olhos sem que pudesse evitar;

estava em coma e ninguém sabia quando ele acordaria.


TRÊS.

ESPN

“Estamos aguardando a declaração do responsável pelo quadro de , o Dr. Robert Schümmer. A última informação que tivemos é que o jogador continua em coma induzido e os médicos estão esperando-o acordar para fazerem novos exames.
Já fazem três dias desde o acidente, e ainda não sabemos qual o estado real do jogador.
Mais cedo, como vocês podem ver nessas imagens recuperadas, o jogador e melhor amigo de , , e o técnico do Borussia Dortmund, Jurgen Klopp, estiveram novamente no hospital.
”Estamos esperando que ele acorde para saber se está tudo bem. é um rapaz forte, tenho certeza que logo ele estará em campo novamente!”
, que tem vindo todos os dias visitar o amigo e ficar com os familiares de , não declarou mais do que ontem;
“- Se eu soubesse alguma coisa eu diria, mas não sei de nada!”
Como vocês podem ver, embora ainda tenhamos muitos torcedores em áreas próximas ao hospital, o movimento diminuiu consideravelmente, após o presidente do hospital pedir para os fãs e a mídia evitarem permanecer na entrada, para não atrapalhar outros pacientes. Sobre o casal do outro carro, embora não tenham tido as identidades reveladas, soubemos que estão bem. O motorista já foi liberado do hospital e já prestou um segundo depoimento para a polícia; Fomos informados que ele perdeu o controle do carro devido à pista molhada da chuva, e não conseguiu frear quando o sinal fechou. A mulher que estava com ele ficou nos últimos dois dias em observação, mas deve ter alta hoje à tarde, ela também foi interrogada pela polícia assim que acordou na segunda-feira.

Stuttgart Nachrichten

“Já fazem sete dias desde o acidente de carro do jogador , em Dortmund, e ainda não tivemos novidades sobre seu quadro clínico.
Na manhã de hoje, foram divulgadas as imagens feitas por uma câmera no prédio na esquina do acidente; o motorista do CLA prata – que não teve seu nome divulgado - furou o sinal e acertou a lateral do Lamborghini preta do jogador, fazendo-o perder o controle e capotar com o carro.
O acidente ocorreu às 23h30 quando o atleta saia de uma casa noturna;
Segundo informações, o jogador ficou menos de uma hora na boate e não tinha bebido mais do que dois copos de cerveja, quando saiu para buscar a namorada, a modelo Rachel Völkers. viajaria para Stuttgart na terça-feira à tarde, depois de encerrar seus compromissos com o time, para passar alguns dias na casa dos pais.”

West Line Dortmund

“Foi confirmado hoje que o não corre mais risco de morte.
Embora continue em coma, o médico responsável, Dr. Schümmer, informou que o risco está totalmente descartado.
O motorista responsável pelo acidente será indiciado por lesão corporal culposa, sem intenção, já que a possibilidade de homicídio está fora de questão. A princípio a família de informou que vai esperar ter algo mais concreto sobre o estado de , antes de tomarem qualquer atitude jurídica.
É certo que, independente da condição do jogador, o motorista será processado pelo acidente.”

Die Welt – Berlin

“O técnico da Seleção, Joachim Löw, veio ao hospital LWL – Klinik Dortmund para saber sobre , o jogador é uma das esperanças alemãs para o título da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Já se passaram dez dias desde o acidente e ainda não tivemos notícias significativas sobre o quadro do jogador.
“- É complicado o que aconteceu com , ele é um jogador novo e talentoso. Não me preocupo com a Copa do Mundo, ainda temos um ano para disputá-la, quero saber se ficará bem. Infelizmente não tive nenhuma informação nova sobre isso.” – ao ser perguntado se a demora para o jogador acordar o preocupa, Löw respondeu; - “É preocupante com qualquer um, quando você vê o que aconteceu com o carro de você imagina que foi grave, mas temos que esperar pelo melhor. Os médicos que estão cuidando dele sabem o que fazem. Temos que confiar que logo estará melhor em breve, já é um alívio sabermos que ele está fora de risco. Sabemos que é complicado, mas não temos dúvidas que logo ele estará bem.”

Ruhr Nachrischten – Dortmund

“Já se passaram três semanas desde o acidente de , o médico responsável, Robert Schümmer, informou que deverá acordar entre hoje e amanhã, seu quadro é estável e já apresenta melhoras.
A aplicação da barbitúrica³ foi utilizada para diminuir a pressão intracraniana no jogador após o acidente. Segundo o Dr. Schümmer, os resultados obtidos até agora mostram uma melhora no estado geral do jogador, que nos últimos dois dias recebeu uma dose menor do medicamento. O pai de emocionou-se na hora de falar do filho;
“- Você nunca espera que uma coisa dessas vá acontecer com alguém próximo, menos ainda com um filho. Educamos ele para ser um bom rapaz, quando ele veio morar em Dortmund ficamos preocupados com a vida que poderia levar, era muito novo... Sempre dissemos para dirigir com cuidado e não pegar o carro depois de beber, mas quando o problema é o motorista do outro carro, o que você vai fazer? Não coloco toda a culpa nele, mas ele estava bêbado. Não sei quem é esse homem, não falei com ele e não quero falar. Só espero que abra os olhos. Só quero meu filho de volta.”

Stuttgart Nachrichten

“Muitos jogadores têm mandado mensagens de apoio para durante essas três semanas, o jogador deve recobrar os sentidos nas próximas horas. Ao saberem disso, novamente outros atletas prestaram sua homenagem ao alemão;

Cristiano Ronaldo postou em seu twitter;
@Cristiano ‘Boa sorte @21, espero que dê tudo certo e você volte logo para os gramados que é o seu lugar, meu amigo!’

O sueco Ibrahimovic também usou o twitter para prestar homenagem;
@Ibra_Official ‘Zlatan nem sempre diz isso, mas é um ótimo jogador, um dos poucos jogadores que gosto. Boa sorte, @21’

O espanhol Sérgio Ramos lembrou do jogo entre BVB e Real Madrid pela Champions, no qual fez um hat-trick.
@SergioRamos ‘Espero poder jogar contra @21 em breve, ainda quero uma revanche do nosso último encontro nos gramados. É maravilhoso poder jogar com um jogador como ele.’

Ashley Cole, jogador inglês, também lembrou de ;
@TheRealAC3 ‘Melhoras para o @21 excelente jogador. Triste vê-lo passar por tudo isso.’

Outro inglês que também lembrou de foi o sempre polêmico, Joey Barton;
@Joey7Barton ‘Espero que o @21 se recupere logo. Vocês falam de Messi, Neymar e CR7, mas o melhor da temporada foi o alemão’
@Joey7Barton ‘Não vejo o que qualquer um deles faça, que não faça melhor. FIFA você o odeia por ser alemão? Esqueça as aulas de história!’

Götze, que foi apresentado essa semana pelo Bayern München, pronunciou-se novamente:

@MarioGoetze ‘Continuem com as boas vibrações para meu amigo @21, tenho certeza que ele ficará bem! #PrayFor
O twitter oficial da Seleção Alemã também tornou a comentar sobre o caso:
@DFB_Team ‘Ficamos felizes em dizer que nosso atacante @21 deve sair do coma nas próximas horas! #PrayFor

Também tivemos a atualização do Borussia Dortmund, que todo dia mantém a torcida informada sobre o estado do jogador;
@BVB ‘Estamos felizes com as novidades, @21 sairá do coma em algumas horas!’ @BVB ‘Agradecemos o carinho de todos com nosso @21 e desejamos que logo ele volte para os gramados. #PrayFor

postou em seu instagram uma foto com e uma mensagem de apoio; a foto tirada quando estavam no hotel em Londres, depois da final da Champions League, vocês podem ver os dois sorrindo com as medalhas de primeiro lugar e segurando seu troféu de melhor jogador da partida;
“É triste não poder fazer nada para ajudá-lo, . Depois de todos esses anos juntos agora não posso te ajudar quando você mais precisa. Mas agora falta pouco, logo você estará treinando conosco novamente e fazendo o que mais gosta, GOLS. Levante logo @21, ainda temos mais alguns campeonatos para vencer, irmão. E mais algumas partidas de vídeo-game para disputar!”
No twitter, as tags #Prayfor continuam em primeiro nos trends de todo o país desde o acidente. Voltaremos a qualquer momento com mais informações.

¹ Barbitúricos são medicamentos - drogas - dados para pacientes com cérebro danificado para induzir o coma, eles reduzem a taxa de metabolismo do tecido cerebral, assim como o fluxo sanguíneo cerebral. Com essas reduções, os vasos sanguíneos do cérebro se estreitam, diminuindo o volume ocupado pelo cérebro, e portanto, a pressão intracraniana. Acredita-se que com o inchaço aliviado, a pressão diminui e alguma ou toda lesão cerebral possa ser evitada.

QUATRO.

abriu os olhos devagar, sentia-se sonolento, cansado.
A claridade o incomodou por alguns segundos, fazendo-o piscar repetidas vezes até acostumar-se com a luz do lugar. Passou a língua pelos lábios, sentindo-os secos e então moveu a cabeça minimamente, tentando lembrar-se do lugar em que estava.
Ouviu uma voz baixa, e ao olhar para o outro lado, reconheceu a mulher próxima a janela, conversando no telefone, enquanto mexia do fio da persiana.
Tornou a olhar para os lados, observando atentamente o quarto em que estava;
Cores claras predominavam no lugar que, além da cama em que o jogador estava, possuía um sofá branco, uma televisão presa à parede e um corredor do lado direito, que provavelmente levava ao banheiro. Viu um armário de cor marfim, o qual possuía um frigobar embutido. Olhou para o lugar em que sua mãe estava, próximo a uma poltrona também branca, que possuía uma coberta azul, idêntica à que estava em sua cama.
olhou por um instante a cama na qual estava, notou sua perna esquerda engessada até acima do joelho, bufando por um momento. Não sabia o que tinha feito, mas aquele claramente não era um bom sinal, se estava com a perna engessada, precisaria de pelo menos dois meses para recuperar-se. Ainda bem que estava em de férias, assim não perderia nenhum jogo.
O bipe do aparelho ao seu lado chamou sua atenção, fazendo-o encarar a quantidade de eletrônicos ao lado da cama, o qual não sabia a utilidade nem o nome, só reconhecendo a bolsa de soro com duas agulhas ligadas ao seu braço direito.
Estranhamente nada daquilo o incomodou, nem mesmo saber que tinha quebrado a perna de alguma forma que nem mesmo lembrava.
Sentia-se ao mesmo tempo um pouco confuso; seu corpo parecia pesado, mas ao mesmo tempo estava relaxado. Imaginou que tinham lhe dado algum remédio para dor e por isso sentia tanto sono, não seria a primeira vez que aquilo acontecia. Por um momento tentou lembrar de como tinha acabado em um hospital, mas sua mente parecia vaga para tal ato, e, de novo, não se incomodou. Seu esforço estava todo em não se deixar levar pelo sono mais uma vez; suas pálpebras pesavam como se estivesse horas sem dormir, o que era irônico, já que tinha acabado de acordar.
Estava prestes a ser vencido pelo sono, quando escutou um gritinho vindo do seu lado direito, reconhecendo a voz animada e surpresa de sua mãe, antes da mesma grudar sua mão com a do filho. Notou aos poucos os olhos lacrimejados e uma das mãos da mulher próxima ao peito.
Amélie tinha um sorriso aliviado em seus lábios, os olhos atentos ao mínimo movimento do caçula, certificando-se que ele estava bem, para só então curvar-se em sua direção, beijando-lhe a testa e acariciando seus cabelos curtos.
- Como está se sentindo, filho? – perguntou com a voz embargada, segurando firmemente sua mãe.
passou novamente a língua pelos lábios secos, e então respondeu com a voz fraca;
- Com sede. - pigarreou ao notar o quão baixa sua voz estava, mas o movimento pareceu arranhar sua garganta.
A mulher sorriu concordando com a cabeça, soltando-lhe a mão e andando até o frigobar, retirando uma garrafa d’água e pegando um copo plástico.
- Sem gás? – questionou com o cenho franzido.
Era tão acostumado com água gaseificada, que sentia como se sua sede nunca fosse saciada quando era apenas água.
- Acho que você não pode tomar água com gás agora, querido. – a mulher estendeu o copo, mas voltou atrás no último segundo – Não sei se você pode tomar água também... Acho melhor esperarmos o médico.
- Mãe... – a voz fraca e falha do filho parecia repercutir com mais intensidade nos ouvidos da mulher, ela queria fazer esse pequeno agrado para ele, mas talvez aquilo prejudicasse sua saúde.
- O doutor já está vindo querido, logo você poderá tomar toda a água que quiser! – sorriu deixando o copo no bidê ao lado da cama e voltando a ficar próxima ao jogador, pegou em sua mão novamente tornando a acariciar seus cabelos.
- O que aconteceu? – perguntou com os olhos fechados, era difícil mantê-los abertos.
Sentia seu corpo inteiro pesar, embora não doesse, mas quase não conseguia se mexer, todo pequeno movimento que fazia parecia refletir em dor. Até para virar a cabeça era ruim.
- Você não se lembra de nada – quis saber a mulher o tom de voz baixo, ainda acariciava-lhe os cabelos. negou uma única vez com a cabeça, ainda de olhos fechados, poderia dormir novamente, parecia uma boa ideia. – Você sofreu um acidente de carro, querido, mas agora está tudo bem. Você está acordado, isso que importa!
não respondeu nada, não parecendo entender o que aquilo significava.
Ouviu ao fundo uma porta abrindo-se e alguns passos no quarto.
- ! – ouviu a voz masculina falar, mas seus olhos estavam pesados demais para tentar descobrir quem tinha entrado, foi dominado pelo sono mais uma vez.

Ruhr Nachrischten – Dortmund

acordou!
Acabamos de saber que está acordado!
O jogador saiu do coma às 6h00 da manhã de hoje.
Os médicos começarão os exames a qualquer momento.”

West Line - Dortmund

está recobrando os sentidos. O jogador manteve-se acordado por alguns minutos durante essa manhã, mas devido aos medicamentos acabou dormindo novamente.

Estamos no aguardo de novas notícias a qualquer momento!”

ESPN

“- Sra. me ligou dizendo que acordou há poucos minutos. Preciso ver como meu irmão está!” - disse assim que chegou ao hospital, por volta das 06h45.
O jogador ainda não saiu e não tivemos mais noticias, não sabemos se acordou novamente, não sabemos se os exames já começaram, mas o ídolo do Borussia Dortmund está de volta!”

Twitter

@BVB Nosso maravilhoso garoto já está consciente! @21 acordou por alguns minutos, conversou com a mãe e... Pediu água! Nosso garoto está de volta!
@BVB acabou dormindo novamente por causa da medicação, assim que soubermos de mais notícias avisaremos! #Krieger #PrayFor


dirigia devagar em busca de uma vaga para estacionar, precisou dar a volta da quadra duas vezes, antes de conseguir deixar o carro em um bom local. Descendo assim que pegou sua bolsa no banco do carona. Acionou o alarme ao tempo em que olhava para os lados, para poder atravessar a rua, vendo a fachada do pequeno café que encontraria a poucos metros de distância.
Sentiu o celular vibrar no bolso da jaqueta que usava, tirando-o só para confirmar que não era nada importante, mas as várias mensagens da amiga, reclamando que estava com fome.
- Pronto, pode parar de chorar! - falou assim que entrou no local e sentou-se na mesa da amiga, mais ao canto do pequeno café.
- Por dez segundos você não está atrasada! - resmungou, batucando os dedos no tampo da mesa.
- Pois bem, eu preciso atravessar a cidade para chegar aqui, não é?
- Azar o seu, meu bem. - deu de ombros, sorrindo de lado em seguida.
rolou os olhos por um instante, antes de negar com a cabeça. Era sempre assim quando se encontravam, começavam uma pequena discussão boba e logo mudavam de assunto.
- Já pediu? - questionou enquanto olhava o cardápio.
- Não, né? Eu sou educada e espero minha amiga para comermos juntas, e é por isso que sempre acabo com fome!
- Exagerada que só, ein? - replicou sem olhá-la, pensando no que pediria.
nem mesmo se dava ao trabalho de fingir que escolheria alguma coisa diferente do habitual;
A apfelstrudel daquele lugar era a melhor de Dortmund, e era sempre sua escolha, junto com algum suco ou chá gelado. sempre enrolava para decidir, mas Kuster não comentava nada, porque a amiga normalmente escolhia coisas diferentes para comer.
- Vão querer fazer o pedido agora? - a garçonete perguntou sorrindo simpática.
- Sim, por favor! Eu quero aquela torta de maçã maravilhosa e um café preto.
- Eu vou querer uma toast Hawaii e um chá gelado, obrigada! - pediu entregando o cardápio. - O que foi? - perguntou quando viu a careta da amiga.
- Nunca fui muito fã de misturar frutas com comida salgada. - deu de ombros.
- Ah, eu gosto… E não consegui comer direito no trabalho hoje, precisei ajudar na reunião porque a Verena precisou levar o filho do médico, saí da sessão direto pra reunião e só deu tempo de comer um sanduíche.
- Como estão as coisas na KBE-V? Já conseguiu alguém pra preencher seu horário?
- Não, não, acredito que vai ser o Kevin mesmo, mas ainda demora algumas semanas para o Steve liberá-lo, então por enquanto vou ajudando ou fico sem ter o que fazer. - deu de ombros.
- E como estão as coisas no escritório?
- Arrgh! - rolou os olhos - Detesto o cara novo que colocaram para me substituir nos dias que estive de atestado, um babaca, sério! Se tem uma coisa que eu não suporto, é homem que se acha melhor só porque tem a porcaria de um pênis!
riu, embora concordasse com um aceno. Tinha perdido a conta do número de vezes que tinha sido ignorada por ser mulher, como se sua opinião não fosse tão importante quanto a dos outros.
- Eu fico triste, de verdade, - continuou, após a garçonete entregar o pedido das duas - transar é tão bom, mas lembrar que homem vem no pacote já me deixa surtada.
- Falando nisso, - começou antes de morder sua torrada - como ficou as coisas com o Peter?
deu de ombros, dando uma garfada em sua torta;
- Ele ainda está esperando para saber se vai ter processo ou não, troquei algumas mensagens com ele têm uns dois dias, veio perguntar como eu estava, etc, etc… Admito que estou com pena da situação dele, imagina, se o nome dele vaza o cara vai ser a pessoa mais odiada da Alemanha depois de Hitler!
A inglesa rolou os olhos, negando com a cabeça;
- Não tem nem comparação uma coisa com a outra, !
- Eu sei, mas você entendeu a proporção que eu quis colocar, ne? - sorriu sem graça - Todo mundo ama o , até eu que detesto o Borussia gosto dele! Se o tetra vier ano que vem, tenho certeza que ele será um dos responsáveis, já quase consigo ver ele fazendo o gol do título… - suspirou - Enfim, vi no noticiário que ele já saiu do coma, não deve demorar a ter alta agora, não é?
Questionou encarando a amiga que era muito mais entendida de medicina do que ela, mas não soube o que responder;
- Sinceramente, não faço ideia. A última vez que conversei com , ele disse que os médicos ainda não sabem o que aconteceu com ele, estavam esperando ele acordar para saber se teria alguma sequela…
- Oh meu deus, eu nunca vou me perdoar se descobrir que ficou com algum problema por causa do acidente!
- Não é sua culpa, , e nem era você dirigindo! - suavizou, mas a amiga negou por um momento.
- Mesmo assim, você consegue imaginar? Às vezes eu acordo do meio da noite pensando sobre isso… Um de nós poderia ter morrido nesse acidente e foi por pura besteira! Eu só fiz uma brincadeira e o Peter me olhou para responder, ver a foto que eu estava mostrando no celular, e depois não conseguiu frear. Não levou mais de dez segundos, !
passou a língua pelos lábios, pensando em algo que pudesse responder para acalmar a amiga. Imaginava o quanto ela sofria com a culpa, mesmo não sendo algo que pudessem controlar ou mudar. Peter estava ainda pior, tinha o conhecido dias após o acidente, ainda no hospital, quando ele entrou no quarto de para saber como ela estava; Ele tinha dito uma crise de choro na sua frente, só de pensar que poderia ser responsável pela morte de alguém.
Por um momento tinha pensado que Peter Fischer fosse apenas um cara rico e irresponsável, como boa parte dos homens que tinha o costume de sair, mas ficou surpresa ao perceber que ele não era nada daquilo. Claro que uma coisa não justificava a outra, ele ainda tinha causado o acidente por um descuido, alguém poderia ter morrido, mas no fundo Peter parecia uma boa pessoa e culpava-se o tempo todo por aquilo. Pelo o que sabia, Fischer tinha tentado conversar com os pais do jogador, mas nenhum dos dois pareceu muito à vontade com aquilo, pelo menos até saberem que estava bem. Peter não tinha achado estranho, tinha certeza que se fosse o contrário, sua família não iria querer nem saber de , a menos que fosse para vê-lo preso.
- Vai ficar tudo bem com o , ! Assim como ficou com você e o Peter, vai dar tudo certo! - esticou a mão pegando na da amiga, passando certa confiança.
Ficaram em silêncio por algum tempo, antes da inglesa puxar outro assunto, tentando distraí-la;
- Então vocês dois não vão sair de novo? Achei ele legal, sabe?
Kuster deu uma risada nasalada, antes de sorrir de canto;
- Tenho bom gosto, não é?
concordou, sorridente.
- Fiquei até surpresa!
deu com a língua, antes de suspirar.
- Não sei bem como vai ser, achei ele muito legal no nosso encontro, muito melhor do que eu esperava, sabe? Mas depois de tudo… Não sei, pode ser estranho… Acho que a gente vai sempre lembrar do acidente se continuar saindo, e não acho que seja algo bom.
deixou seu prato de lado, já tendo terminado sua refeição, apoiou os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos, entrelaçando os dedos embaixo do queixo, piscando lentamente;
- Eu acho que você poderia conversar com ele sobre isso, descobrir o que ele pensa. Não agora, claro, dá uns dias para vocês dois se “distraírem”, mas se você acha que pode dar certo, tenta conversar com ele, , vai que ele pensou a mesma coisa? Vai que ele gostou de você também? Um segundo encontro não faz mal a ninguém! Se vocês acharem que realmente não tem como superar, ok, vida que segue!
- Aí eu odeio quando você vem dar uma de psicóloga pra cima de mim! - reclamou, terminando sua torta. - Eu nem sei, quer dizer… A gente nem se beijou! - cochichou para a amiga, vendo-a rir.
Kuster tinha quase como princípio de vida sempre beijar as pessoas que ela achava interessante, era sua forma de saber se teria futuro. Era algo bobo, mas normalmente funcionava; Através do beijo ela era capaz de descobrir se sentia apenas uma atração ou um algo a mais.
- Por falar em encontros, já está na hora de você voltar para a pista, não é? - desconversou, vendo suspirar.
- Não é exatamente fácil.
- É claro que é fácil, , você está evitando sair dessa sua bolha de tiazona solteira porque é medrosa!
- Eu não sou uma tiazona solteira, e não estou em bolha nenhuma. - replicou, negando com um aceno - Eu sei lá, só acho difícil confiar em alguém de novo, e não acho certo sair com alguém só por sair, se eu não acho que pode dar certo.
- , meu amor, presta atenção no que a tia vai te dizer: - foi a vez de inclinar-se sobre a mesa, encarando a melhor amiga - Você tem mais é que sair só por sair e beijar o maior número de caras possíveis, para tentar salvar um pouco do tempo que você desperdiçou com o babaca do David, quem perdeu foi ele, linda!
- Eu sei, , eu só fico pensando o que poderia ter feito de diferente pra dar certo, entende?
- Você quer que eu te diga? - Kuster pigarreou, ajeitando-se na cadeira - Teria dado certo se você fosse a pessoa que era oito anos atrás, quando começaram a namorar, o problema é que você cresceu como pessoa, evoluiu, resolveu ir em busca dos seus sonhos e objetivos, enquanto o Evans ficou estagnado na mesma, esperando você se cansar de brincar na Alemanha e voltar para a Inglaterra para ser a esposa troféu que ele queria, foi isso que aconteceu.
parou por alguns instantes, encarando-a com a boca ligeiramente aberta.
- Caramba, Kuster, bate mais que tem um lado que ainda não sentiu! - tentou brincar, mesmo que as palavras da amiga tivessem feito efeito em seu interior. - Eu sei que não chegou a ser minha culpa, não totalmente, mas… Foram oito anos, eu o conheço minha vida toda, tinha certeza que ele era o cara…
concordou, suspirando e suavizando o tom de voz;
- Eu sei, desculpa, mas eu não gosto de saber que você ainda está aqui, parada na mesma, enquanto aquele inglesinho de merda está aproveitando a vida dele.
- Em minha defesa, eu não estou “parada na mesma”, só mudei minhas prioridades…
- Que continuam sendo seu trabalho, da mesma forma que tem sido desde que você veio morar em Dortmund! - bufou, rolando os olhos - Não digo para você deixar isso de lado, porque eu sei que te faz bem e você gosta, mas você pode aproveitar a vida um pouco mais do que só ficar entre casa-trabalho, sabe? Ninguém vai te julgar se você começar a sair com outras pessoas, ou se você descobrir que, opa, quem diria, gosta de transar com desconhecidos! Século 21, , século 21!
As duas permaneceram em silêncio por alguns instantes, enquanto esperavam a conta.
esperou a garçonete se afastar, para voltar ao assunto anterior;
- Sabe o que eu acho?
- Não, e nem quero, mas você vai dizer mesmo assim… - brincou, levando um empurrão de leve no ombro.
- Você deveria ligar para o !
- Como é?
- Chama ele para sair, ! Qual é, ele ficou totalmente na sua!
- Não faço ideia do que você está dizendo… - desconversou, atravessando a rua assim que os carros pararam no sinal.
- Aham que não faz. Eu vi ele todo desapontadinho que não tinha mais motivos para você ir ao hospital, porque eu já estava de alta! Aposto que ele torceu pra eu ter quebrado algo só pra ficar mais uns dias lá! - riu quando a amiga a encarou.
- Que horror, Kuster!
- É brincadeira! - deu de ombros - Mas aposto que ele pensou! - piscou para a outra, que apenas rolou os olhos, negando com um aceno. - Liga para ele, sua ridícula! Se você sentir que não tem nada ali, pelo menos garante amizade com alguém famoso, ué!?
- Interessada na fama dele, é? - questionou divertida, com as mãos na cintura, antes de abrir o carro.
- Sempre! - respondeu assim que entrou no banco do carona - Sério, , liga pra ele! Você não estava me dizendo que ele era super legal, blablabla? Então, pronto!
- Eu acho que se ele quisesse teria me chamado para sair.
- Vai ver ele não percebeu que você tava dando moral pra ele, você não é muito boa com isso, amiga!
tornou a negar, ligando o carro.
- Se você não ligar, eu ligo!
- Não se atreva!
- Já me atrevi! - gritou ao encontrar o número gravado no celular da amiga.
- Meu deus, Kuster! Por que deus eu sou sua amiga?
- Porque eu sou maravilhosa! - sorriu, antes de colocar o telefone no viva voz, e ambas ouvirem chamar.
- E eu vou dizer o que? - perguntou apreensiva, olhando-a com o cenho franzido.
passou a língua pelos lábios, sorrindo de lado.
- Fala que você viu que o acordou, pergunta se está tudo bem e…
- ? - a voz animada de se fez presente, e as duas pararam no mesmo instante; a inglesa encarou a amiga sem qualquer reação, enquanto a alemã segurava a risada. - Alô?
- Hm… Oi, ? - pigarreou, querendo que a voz soasse mais confiante, ao tempo que parava no sinal fechado - Tudo bem?
- Melhor agora, e você?
virou-se com um sorriso enorme do rosto, sussurrando um “eu te disse”, enquanto sentia o rosto esquentar aos poucos.
- Tudo bem…
- Precisa de algo? - o questionou do outro lado.
- Ahn, não, não… Na verdade… - respirou fundo antes de usar a desculpa da amiga - Bem, eu vi você na televisão mais cedo… Queria saber se está tudo bem ou se posso ajudar em alguma coisa…
- Ah, sim! acordou mais cedo, mas ainda não consegui falar com ele, pensei que ele acordaria de novo depois de algum tempo, mas até agora nada… - suspirou alto - Continuo esperando para saber se ele está ok.
- Entendo... Bom, só liguei para saber se estava tudo bem, mas se eu puder ajudar em algo é só me avisar, ok? Você deve estar cansado, não quero incomodar e...
- Não imagina, você não incomoda de maneira nenhuma! sorriu para a amiga, piscando animada – Hm... E sua amiga, tudo bem com ela? - emendou rápido.
- Claro, melhor impossível! – sorriu ironicamente encarando novamente , que continuava a segurar a risada.
- Fico feliz, não pude me despedir de você aquele dia, quando vi vocês já tinham ido embora... Pensei em ligar, mas como já era tarde... explicou-se, apenas concordou fazendo um barulho com a boca, sem saber mais o que dizer. – Você tem compromisso amanhã?
e se encararam por alguns instantes.
- Quer dizer… – ele parecia sem graça devido ao silêncio da mulher - Você trabalha, não é?
- Hm... Pois é... – comentou nervosa sem saber o que dizer. Fazia tanto tempo que ela não fazia aquilo, que nem mesmo achava que sabia como flertar com alguém.
- Ah… Bem… Só queria saber se você gostaria de sair… Tomar um café, ou talvez um chá? - riu sem graça, fazendo referência ao fato dela ser inglesa.
Ela riu nervosa olhando para a amiga que ainda olhava incrédula para o telefone, nem achava que o alemão seria tão direto, em seguida piscou animada, sussurrando vários “aceita” para a outra.
permaneceu em silêncio por alguns instantes, olhando a rua ao invés de virar-se para a amiga ou responder algo, parecia que seu cérebro tinha dado pane.
Sentiu-se ridícula por aquela situação, vinte e sete anos e parecer uma adolescente na frente do garoto bonito da escola? Por deus, já tinha passado daquela época…
- ? - chamou novamente.
- Ah, oi! Desculpe! - mordeu o lábio inferior. - A ligação cortou…
- Sem problemas, acabei entrando no elevador, pode ter sido isso… - ele respondeu - E então, o que acha? Está livre amanhã?
- Sabe o que é, ? - começou incerta - Não sei bem como será meu horário na clínica amanhã…
bateu com a mão na testa, fazendo um barulho alto, evitando xingar a amiga.
- Entendo… - pareceu decepcionado, e talvez tenha sido seu tom de voz que fez sentir-se mal por aquilo. Afinal para que tinha ligado se não era para dizer nada com nada?
- Você está livre na sexta?


CINCO.

desligou o telefone com um sorriso nos lábios e voltou para o quarto de com três copos de café, ao entrar viu o Sr. e a Sra. sentados no sofá, conversando em voz baixa.
Entregou-lhes a bebida e então virou-se para o lixo próximo à cozinha, jogando fora a embalagem de papelão. Jogou-se contra a poltrona ao lado da cama do amigo, esticando as pernas sobre a mesma e passou a ver o filme que estava na televisão.
Sinceramente não via diferença entre o agora e o da primeira noite em que o amigo tinha sofrido o acidente, exceto que agora ele quase não tinha arranhões pelo rosto ou braços, e os poucos hematomas que ainda tinham, estavam quase todos sumindo. Mas se os médicos diziam que ele estava bem, que era uma questão de minutos até o atacante acordar, aquilo era bom o bastante para .
era seu melhor amigo desde que se conheceram, anos atrás, nas categorias de base.
era rotulado como nerd naquela época na escola, e todos implicavam com ele, quase não tinha amigos e, mesmo os colegas de time evitavam ficar com ele durante os estudos, menos é claro, nos dias de prova, nestes dias todos queriam sentar perto dele.
foi diferente.
Para , era ainda mais legal que os amigos que tinha deixado em Stuttgart.
Já para , o atacante era o único amigo de verdade que tinha até aquele momento.
No primeiro dia de no time, os dois tiveram que fazer dupla, e não foi ruim para nenhum dos garotos; conversaram bastante durante aquela tarde, e nas outras também.
Poucos dias depois entrou para a mesma sala de e, diferente dos outros, sentou ao seu lado, sorrindo para o e cumprimentando-o antes de colocar seu material e começar a prestar atenção na professora.
não gostava da escola, mas fazia o necessário e pedia ajuda para quando não entendia alguma coisa. Sempre fazia os trabalhos com ele, não porque era esperto, mas porque era divertido ficar com o garoto.
Não precisou de muitos dias para tornar-se popular na escola, e ninguém entendia como ele continuava andando com , mas ele o fazia. Gostava da companhia dele, o garoto sempre ria das piadas ridículas que ele contava. Passavam o intervalo das aulas juntos, treinavam juntos e depois jogavam vídeo-game, ou simplesmente saiam para tomar sorvete ou ir ao cinema.
tinha mais jeito com as garotas que , e era essa a forma que retribuía a ajuda nos estudos; Sempre apresentava garotas diferentes ao amigo que, após algumas dicas, foi tornando-se mais confiante e convidava as garotas para sair sem qualquer ajuda do outro.
já tinha passado algumas férias na casa dos pais de , conhecia toda a família do amigo, até tinha saído com uma prima dele durante alguns dias, mas o relacionamento acabou quando voltaram para Dortmund.
Os dois estiveram juntos em todas as conquistas do time, e em várias situações na escola; constrangedoras ou engraçadas, fossem em festas ou algum problema com garotas.
Eles eram melhores amigos há mais de quinze anos, vê-lo em uma situação na qual sabia que não tinha como fazer algo para ajudá-lo era difícil para , era como se algo nele não estivesse completo; quem estava na cama, mas também se sentia ferido de alguma forma.
era o irmão que ele não tinha.

Ouviram uma batida na porta e então o médico entrou, sorrindo sereno ao cumprimentá-los.
Hadrian e Amélie levantaram-se no mesmo instante, e sorriu sem graça quando notou o olhar do doutor nele, como se o julgasse por estar com os pés sobre a cama de .
Robert Schümmer era mais alto que , próximo dos 1.90, no auge de seus quarenta e cinco anos, já tinha alguns fios brancos misturados com os castanhos escuros, os olhos esverdeados pareciam sempre esperançosos, mesmo quando tinha notícias ruins para dar.
- Precisamos conversar um pouco. – falou calmamente, Sr. e Sra. se entreolharam antes de concordarem com a cabeça. – Importa-se de ficar um pouco com ? – perguntou para , que negou rapidamente com a cabeça.
O médico tornou a virar-se para a porta abrindo-a e a segurando para os pais do jogador passarem, seguindo-os logo depois.

encarou a porta fechada por uns instantes, tornando a esticar as pernas, suspirando ao encarar o teto branco. Tinha ficado curioso.
O doutor sempre falava as coisas na sua frente, então por qual motivo tinha saído e fechado à porta?
Deixou o copo vazio em cima da bandeja branca, a qual tinha copos de plástico e uma jarra d’água.
Virou-se de lado para encarar o perfil do amigo;
- Você sabe que está deixando todos preocupados, não é? - apoiou o braço do apoio da poltrona, encarando-o entediado - Digamos que se você não levantar logo, eu vou arrebentar sua cara, ok? - riu sem humor, bocejando ao tempo que olhava para o teto. - Só falta você para ter alta, sabia? O casal do outro carro já saiu daqui tem dias… - passou a língua pelos lábios secos, balançando levemente os pés sobre a cama - Eu conversei com a amiga dela, . - soprou sorridente - Bonitona, você provavelmente gostaria dela, é bem o seu estilo, infelizmente para você eu vi primeiro - riu malandro - e você tem namorada. Aliás Rachel chega esse final de semana… Não conseguiu faltar a viagem… Sua namorada está em Nova York, , com aquele monte de homem bonitão querendo uma chance de ficar com ela… Se eu fosse você levantava logo pra eles saberem que não tem chances… - encarou-o por alguns segundo, sorrindo fraco. - Eu vou sair com a na sexta, demorei dias para conseguir uma oportunidade de chamá-la para sair… - mordeu o lábio inferior ao encarar o amigo, sentindo-se culpado - Eu deveria desmarcar, né? Você tá aí bancando a bela adormecida de barba e eu pensando que deveria comprar preservativo… - sorriu de lado, rindo baixo ao olhá-lo - Aposto que as enfermeiras devem te ver pelado o tempo todo, te limpando para lenço já que você não pode tomar banho… Qual é, ! Você precisa de um beijo da Rachel pra acordar, ou o quê? Todo mundo sente sua falta, sabe? A gente precisa de você no time, Klopp está enlouquecendo! Me liga o tempo todo para saber se tenho novidades...- suspirou com a falta de resposta do amigo, olhando para as próprias mãos - Quando sua mãe me ligou, achei que chegaria aqui e você estaria acordado, provavelmente contando alguma piada sem graça que eu só rio por obrigação, porque você sabe que não é bom com isso, não? - cruzou os braços enquanto olhava para à porta, tornando a recostar a cabeça no estofado da poltrona - Eu queria saber do que eles estão falando…
- Mulherzinha… Sempre querendo saber das fofocas…
O virou-se assustado ao ouvir a voz fraca do amigo, o qual deu um sorriso fraco, os olhos levemente abertos.
levantou-se rapidamente, um sorriso estampado em seu rosto.
- Finalmente, seu filho da puta! – falou balançando a cabeça – Você estava esperando eu vir chorar ao seu lado? – perguntou gargalhando, dando-lhe um tapinha no peito.
riu fracamente, passando a língua pelos lábios secos em seguida.
- O que eu perdi? – questionou com a voz falha, negou com a cabeça, mal acreditando que o amigo estava acordado.
- Nada muito relevante, acho. Está todo mundo preocupado com você... Mas isso não importa agora, você está acordado! – colocou as mãos na cintura, mal acreditando no que via. – Seu merda! Sabe o tempo que eu passei nesse hospital esperando você acordar? Caralho, eu sou um amigo maravilhoso, você não me merece!
O atacante riu baixo, fazendo careta ao notar que a ação o incomodava, respirou fundo com certa dificuldade, tentando manter os olhos abertos.
- Não se atreva a dormir de novo, eu vou chamar o médico e seus pais, estão todos aqui! - avisou andando de costas, apontou o dedo ameaçadoramente para o amigo - Eu vou te acordar na base da porrada se você voltar a dormir, seu babaca!

abriu a porta rapidamente, olhando para os lados viu o médico e os pais de no corredor afastado, andando quase correndo até eles, o sorriso estampada em seu rosto;
- acordou, doutor! – falou animadamente, os três viraram-se em sua direção– Ele está acordado!
voltou para o quarto, abrindo a porta de supetão, seguido pelos demais;
- Você não dormiu de novo, não é? – perguntou assim que entrou, olhando para que negou com um aceno.
- Não, achei que você fosse chorar se não visse meus lindos olhos azuis...
riu, olhou para a porta, vendo os pais e mais um homem passarem por ela.
- Filho! – a mulher sorriu andando até ele, beijando-lhe a testa.
O pai parou ao seu lado, o sorriso largo presente em seu rosto cansado;
- Que bom que está acordado, ! – sorriu apertando a mão do filho entre as dele.
- Ainda estou com sede... – reclamou com uma leve careta.
O outro homem sorriu, virando-se para a mãe do jogador.
- A senhora pode dar um pouco de água para ele.
A mulher virou-se no mesmo instante, pegando um copo e enchendo-o com o líquido incolor que estava em uma jarra ao lado da cama, levando-o para perto do filho instantes depois.
abriu a boca tomando um gole, depois outro e mais outro.
Nunca um copo de água pareceu-lhe tão bom, nem depois de quarenta e cinco minutos correndo em campo.
- , eu sou o responsável por seu caso, me chamo Robert Schümmer. - Apresentou-se, vendo-o concordar com um aceno, enquanto tomava sua água. - Como está se sentindo? – o homem perguntou, tomou mais um gole de água antes de conseguir responder.
- Cansado... Meio pesado, acho. Sinto meu corpo pesado... – falou com a voz fraca.
- Entendo, isso é por causa do excesso de medicamentos, e pelo tempo que está deitado. Já fazem três semanas desde o seu acidente, rapaz. – o doutor sorriu amigavelmente. – Precisa ir com calma, digamos que seu corpo tem que se acostumar novamente com os movimentos depois de tanto tempo parado.
concordou com a cabeça, suspirando e pedindo por mais um pouco de água.
- Sente alguma dor? – tornou a questionar, o jogador negou após terminar de engolir. – Lembra-se de alguma coisa?
O atacante pensou por alguns segundos, os quatro parados próximos à cama, esperando sua resposta.
- Fui para a boate com Lewan, encontrei … Me pagaram uma bebida eu acho... Ficamos conversando por algum tempo, então eu liguei para a Rach, porque ela ainda não tinha chego... – mantinha o cenho franzido, tentando lembrar-se de tudo. - Brigamos por alguma coisa… Então eu resolvi que iria buscá-la… - passou a língua pelos lábios, tentando lembrar-se de mais detalhes - Encontrei com num canto com uma garota e atrapalhei os dois… - riu baixo, vendo o arquear a sobrancelha - Esbarrei com o Kevin antes de sair… Estava escolhendo uma música para ouvir quando o sinal abriu e depois só lembro de uma buzina alta e a luz na minha cara...
O doutor sorriu compreensivo para o jogador, olhando a prancheta com algumas informações sobre o quadro clínico dele.
- Bem, a boa notícia do momento, além de ter acordado você não teve perda de memória, e devido ao choque da batida isso é uma grande notícia. – explicou calmamente falando diretamente com , embora olhasse para os outros três vez ou outra – Preciso que você entenda algumas coisas, ok? Muitos pacientes após sofrerem um trauma como o seu acabam ficando muito estressados ao acordarem, devido aos efeitos colaterais, seja dos remédios ou do acidente.
O jogador concordou com a cabeça, prestando atenção em cada palavra, embora lutasse contra o sono que tentava dominá-lo mais uma vez.
- Quando você sofreu o acidente , seu carro acabou capotando após você perder o controle e, devido à forte batida do seu lado, você ficou preso no meio das ferragens até os bombeiros conseguirem tirá-lo. Você bateu forte com a cabeça, teve um corte profundo e um princípio de traumatismo cranioencefálico o qual não sabíamos o quanto poderia afetá-lo até que você acordasse. - explicou o mais calmamente que pode, tentando facilitar quando notava o olhar confuso do paciente - Tivemos que administrar doses de barbitúrica, um remédio para você entrar em coma. – fez uma careta ao ouvir a palavra, sempre associando “coma” com algo ruim – Não se preocupe, entenda que com isso pudemos diminuir a pressão no seu cérebro, diminuindo as chances de uma lesão.
- Então... Estou okay? – perguntou confuso, não fazia ideia do que aquilo tudo realmente significava.
- Precisamos fazer mais uma bateria de exames para ter certeza que você não sofreu nenhuma lesão no cérebro, agora que está acordado os resultados podem ser diferentes dos que obtivemos antes. Mas, a julgar por te ver conversando normalmente, não diria que tenha alguma sequela no cérebro!
Os pais do jogador, e o próprio pareceram mais aliviados após a fala do doutor, pelo menos até ele respirar fundo e voltar a falar;
- Entretanto, seu cérebro não foi à única parte afetada devido ao acidente... – Começou olhando para a folha em sua prancheta – Você teve três costelas quebradas e uma perfuração no pulmão o que levou ao hemotórax, um acúmulo de sangue na caixa torácica. – o jogador piscou duas vezes, abrindo a boca levemente. Como ele ainda estava vivo depois de tudo isso? – Você não precisa se preocupar com essa parte, já corrigimos esse problema, porém temos que manter o tratamento para sua recuperação ser cem por cento. Ou seja, precisaremos fazer mais alguns exames e você continuará tomando mais alguns remédios. O importante nisso , é que se você sentir qualquer dor, por menor que seja, você deve relatar seja para mim ou para um dos enfermeiros. Preciso que você me conte se sentir qualquer coisa, okay?
Por mais uma vez concordou, respirando fundo – esperando sentir alguma coisa, o que não aconteceu – voltou a prestar atenção no doutor.
- Você também quebrou a perna esquerda, mas só precisa ficar com o gesso por mais alguns dias, ela já está quase boa novamente.
olhou para a perna engessada, notando pela primeira vez alguns rabiscos coloridos no gesso, franzindo o cenho ao reconhecer um “I ♥ enorme, além de desenhos do símbolo do Borussia.
- O que...? – olhou para o amigo que deu de ombros.
- Achei importante deixar claro para todas as enfermeiras que você me ama, principalmente caso você acordasse e não lembrasse de mim, ué.
Os pais do jogador riram, Sr. apertando gentilmente o ombro do .
- Depois você não sabe por que todo mundo pensa que somos um casal, né? Seu gay! – reclamou rolando os olhos, um sorriso fraco nos lábios. – Tenho mais alguma coisa doutor, ou já bati a cota?
O médico olhou para os pais do jogador, a mãe do rapaz apertou sua mão.
- Era sobre isso que estava conversando com seus pais há poucos minutos, . Você teve uma lesão na coluna vertebral e ainda não sabemos o tanto que isso pode, ou não, ter interferido nos seus movimentos. – o doutor tirou os óculos de aros pretos, limpando-o em seu jaleco, olhou diretamente para o paciente. – Precisamos fazer novos exames quando o efeito de toda a medicação passar para sabermos se você teve algum trauma devido à esta lesão, ou se está tudo bem.
- O que isso quer dizer? – foi quem perguntou ao notar que pareceu sem reação.
- Isso quer dizer... – o homem suspirou cansado – Que não sabemos o quão grave foi esta lesão e, talvez, ela interfira em seus movimentos. Sabemos que você não está tetraplégico, pois você está mexendo os braços e conseguiu inclinar-se para tomar água.
- Eu... Posso... Eu...
- Você talvez não possa andar, .


@BVB
Já está acordado! @21 já está colocando as fofocas em dia com @! O jogador ainda passará por exames finais, mas nosso atacante já está conversando normalmente!

@BVB
sofreu algumas lesões no acidente, que já estão sendo tratadas, além de ter quebrado a perna, mas como podem ver na foto abaixo, o enfermeiro particular (aka ), já tratou de cuidar disto! #Forever

SEIS.

TWITTER

@ O Belo Adormecido acordou e é meu! LOL #

@21
Primeiramente, estou okay. Segundamente, não aguento mais gelatina. Terceiramente, alguém leve o daqui! xD

INSTAGRAM

@21 Hallo Leute!
Eu gostaria de agradecer pelas mensagens de apoio que tenho recebido nas últimas semanas, não conseguirei responder todo mundo, mas li muitas delas e agradeço de coração por todas! Já me sinto melhor e acredito que logo menos estarei em campo novamente!

Ruhr Nachrischten – Dortmund

“E foi com estas mensagens, e essa foto postada no Instagram, na qual podemos ver fazendo joinha ainda em seu quarto no hospital LWL – Klinik Dortmund, que o jogador avisou que já está melhor!
ainda passará por mais alguns exames – como informou o Dr. Shümmer, responsável pelo caso de desde o acidente. Todos aparentam estar muito confiantes na recuperação do aurinegro, mas às próximas 72 horas serão imprescindíveis para sabermos quanto tempo demorará até o jogador voltar à campo.”


colocou o celular no bolso, assim que respondeu a mensagem enviada por , informando que estava esperando na entrada. Retirou seu jaleco branco, pendurando-o no gancho metálico atrás da porta de seu escritório, antes de sair, trancando a porta.
- Volto às 14h30, se precisar de mim...
- É só ligar! – Eileen, a assistente de vinte e dois anos, respondeu sorridente, antes de também levantar-se, saindo para o horário de almoço.
achava pouco provável alguém a ligar, nem mesmo tinha pacientes para o período da tarde, poderia ficar o dia inteiro fora e ninguém nem mesmo perceberia.
Desceu os dois lances de escada, chegando à recepção principal da clínica, acenando para as poucas pessoas que estavam por ali. Passou a mão pelos cabelos soltos, ajeitando-os antes de passar pela porta de vidro, saindo em direção ao estacionamento.
Sentia-se levemente confiante, parte de si dizia que estava bem vestida, nada muito além do casual, afinal era apenas um almoço em um restaurante próximo. O problema nem mesmo era sua roupa, o que a abalava era o emocional. Tinha tantos meses que não tinha um encontro.
Encontro.
Precisava lembrar de não utilizar aquela palavra na frente da melhor amiga, tinha passado dois dias insistindo que era apenas um almoço, não um encontro. Mas no fundo o nervosismo a deixava ainda mais ciente de que sim, ela bem sabia quais eram as intenções de . E as suas também não eram assim tão diferentes.
O era divertido, interessante e bonito, achava improvável alguém em sã consciência não se sentir empolgada com a perspectiva de sair com ele, fosse em um jantar em um restaurante chique, ou um simples almoço.
Avistou encostado na porta de seu Aston Martin preto, enquanto mexia no celular; vestia uma jeans escura e uma camiseta branca, deixando o braço tatuado a mostra.
A inglesa estava a poucos passos do portão de visitas, quando escutou uma voz animada a chamando, virou-se sorridente já sabendo de quem se tratava, voltando alguns passos de encontro ao garotinho;
Kevin Breuer vestia sua camiseta favorita, mesmo que alguns bons números maior que ele.
Branca com o símbolo do Real Madrid e o grande número sete preto nas costas, junto ao nome de Cristiano Ronaldo, o jogador preferido do pequeno alemão. A camiseta tinha um autógrafo já um pouco desgastado pelo número de vezes que tinha sido lavada, mas ele não se importava; fazia pouco mais de dois meses que tinha conseguido encontrar o jogador português, depois do jogo entre BVB e Real Madrid, pela Champions League, passou dias contando para todo mundo como tinha sido o encontro com seu ídolo, e a camisa que tinha ganho de presente virou seu uniforme, pelo menos duas vezes na semana fazia questão de vesti-la.
O garoto empurrou sua cadeira de rodas para perto da doutora, gritando sorridente ao parar próximo à ela:
- Adivinha! Adivinha o que o Capitão disse!
riu ao ouvir o apelido do amigo; Steve era o fisioterapeuta responsável pelo tratamento inicial de Kevin, e sua semelhança com o personagem da Marvel não demorou a ser notada por Breuer e outras crianças que estavam na clínica, foi uma questão de dias até todos os pacientes e funcionários aderirem ao apelido de “Capitão” para se referirem ao doutor.
- Hm... – franziu o cenho cruzando os braços enquanto fazia sua melhor expressão de pensativa, sorrindo para a mãe de Kevin antes de respondê-lo – Que você está parecendo o Barry Allen de tão rápido que está a sua recuperação?
- Ele não me chamou de Flash! – cruzou os bracinhos, chateado. – Mas ele disse que eu tô rapidão e que logo você vai ser minha fisioterapeuta!
riu com a animação do mais novo, passando a mão pelos cabelos loiros do garoto, enquanto agachava-se para ficar na mesma altura;
- Isso sim é uma boa notícia, mas será que é verdade, mãe? – questionou ao olhar para a mulher de cabelos curtos, que acenou concordando.
- Oh, desta vez é verdade sim, Kevin está indo muito bem, têm se dedicado nos exercícios! – olhou orgulhosa para o menino, que sorriu ainda mais, concordando com a cabeça.
- Neste caso, vou falar com o Capitão para ver quando você vai poder ingressar para a S.H.I.E.L.D, agente. – piscou para o mais novo, que riu batendo continência e concordando alegre.

Kevin tinha apenas sete anos e estava há pouco mais de cinco meses na KBE-V. Assim como outras crianças estava na fase dos super heróis, adorava tanto os da DC quanto os da Marvel, não sabendo decidir qual era seu preferido. Vez ou outra aparecia com o uniforme do Batman ou uma camisa do Homem de Ferro, ou algum acessório do Capitão América para brincar.
Ao notarem que o garoto não era o único interessado nos personagens, e pensando em deixar as coisas mais leves e divertidas para as crianças, o diretor e os fisioterapeutas resolveram renomear cada parte do tratamento;
Steve cuidava do Projeto Super Soldado, no qual Kevin e outras quatro crianças se tratavam. Era o local em que aprendiam como tudo na clínica funcionava, faziam exames e, aos poucos, ganhavam mais resistência para seguirem adiante com os processos de recuperação.
Normalmente Steve Rielmet trabalhava apenas com crianças e adolescentes, pois a maioria dos adultos já entravam direto na segunda parte do tratamento;
junto com mais dois colegas, Aaron e Heinz, cuidavam da área em que os pacientes davam os primeiros passos ou, dependendo do caso, os primeiros movimentos. Quando os adultos chegavam diretamente nesta parte, os três também ficavam responsáveis por adaptarem-nos a clínica e explicar o passo a passo de cada setor. As crianças chamavam aquela parte de S.H.I.E.L.D, pois só quem já estava forte o suficiente poderia ingressar.
A Liga da Justiça era a fase na qual os pacientes trabalhavam em grupo, tanto com exercícios físicos quanto mentais, pois era sempre importante que aprendessem a socializar novamente. Aquele era o setor no qual a maioria dos adultos mais tinha dificuldade, devido ao comum pensamento de inferioridade devido à nova situação em que se encontravam.
Era sempre um processo mais complicado que necessitava de mais atenção dos responsáveis, principalmente psicológica, por isso a maioria dos fisioterapeutas ou já era formado, ou estavam estudando para concluírem sua graduação em Psicologia.
E, ao chegarem na última parte do tratamento, quando a maioria dos pacientes já estava com recuperação total ou chego ao limite do que seria possível, eles entravam para o que as crianças chamavam de Avengers, pois estavam prontos para voltarem ao “mundo real”. Muitos preferiam continuar na KBE-V na tentativa de recuperar-se ainda mais, pois em alguns casos não aceitavam o máximo que tinham chego, por ainda não ser o resultado que esperavam.

O garoto abriu à boca para comentar algo com a doutora, mas antes que as palavras pudessem chegar a sua garganta, seus olhos brilhantes prenderam atenção em alguém que caminhava até eles; , magro, tatuagens espalhadas pelos braços e um corte de cabelo duvidoso.
Olhou assustado para o jogador ao reconhece-lo, vendo-o sorrir ao notar a expressão do mais novo.
As duas mulheres viraram-se no mesmo instante para descobrir o que tinha atraído a atenção do menino.
- Olá, espero não estar atrapalhando! – soou constrangido pela pequena interrupção, colocando as mãos no bolso da calça.
- De forma alguma, - sorriu, cumprimentando-o com um beijo no rosto – , esta é Olivia Breuer e este é o Kevin!
estendeu a mão para a mulher antes de agachar-se para conversar com o garoto;
- Tudo bem com você, campeão? – estendeu a mão, vendo o aperto forte e animado de Kevin, que apenas sorria maravilhado, deixando visível os dois dentinhos que faltavam.
- Você é o jogador do Borussia, não é?
- Isso depende, para qual time você torce? – questionou cruzando os braços.
- Borussia! Borussia! – bateu palmas, gritando animado, fazendo os três adultos rirem.
- E essa camiseta do Real Madrid que você está vestindo, é o que? – replicou com a sobrancelha arqueada.
- Eu ganhei do Cristiano! – contou, mostrando o autógrafo no canto. – Mas eu torço para o Borussia!
coçou a barba rala, pensativo por alguns instantes;
- Se eu te der uma camisa do BVB autografada por todo o time, você guarda essa do Cristiano?
- Pelo time todo? – questionou com os olhos brilhando, concordou com um aceno – Até você e o ?
- Sim, até o chato do vai assinar. E o Klopp também! – piscou para o garotinho que olhou sorridente para a mãe;
- Ouviu, mamãe, ouviu? O amigo da tia vai me dar uma camiseta do Borussia! Assinada! – então Kevin virou para , que mantinha um sorriso no roso olhando a cena – Não sabia que você era amiga de jogador, tia...
- Ah, eu só conheço pessoas legais, não é? – piscou para ele – Mas nem o é tão legal quanto você!
Kevin começou a rir quando percebeu a careta de ofendido que o jogador fez.
- Muito bem, filho, vamos embora agora, não é? Seu pai já está nos esperando! – Olivia chamou, ao se dar conta que os dois muito provavelmente tinham algum compromisso.
- Mas e a minha camiseta? – olhou chateado para o jogador, que sorriu de canto.
- Eu tenho que encontrar com o time primeiro, estão todos de férias, mas assim que eu conseguir venho te entregar, tudo bem?
- Eu vou continuar usando a do Cristiano! – respondeu desconfiado, logo virando-se para a mulher – Tchau, tia! Até segunda! – esticou-se para abraça-la, inclinou-se em sua direção, sentindo os bracinhos do garoto ao redor de seu pescoço.
- Descanse bem, Kevin, semana que vem conversamos para ver quando você vai subir de nível, senhor!
- Táaa! – acenou sorridente, virando-se para o – Tchau, , não esquece minha camiseta, você prometeu!
riu concordando, mexendo nos cabelos curtos dele;
- Promessa é dívida, assim que der eu te entrego, mas tem que se comportar, ok?
Os dois se despediram do casal, seguindo para o estacionamento mais ao lado, enquanto e seguiram para a entrada de visitantes.
- Garoto esperto! – comentou rindo, segurando o portão para que ela passasse. – O que aconteceu com ele?
suspirou triste, lembrando-se de quando o conheceu;
- Kevin estava de férias com a família, quis tentar andar à cavalo junto com o irmão, mas acabou caindo, fraturou a coluna vertebral... – respondeu em voz baixa, sentindo quando apertou-lhe a mão suavemente, ao pararem na frente do carro.
- O garoto parece bem animado, tenho certeza que logo ele vai estar cem por cento, não é? – tentou animá-la, sorrindo carinhoso. concordou com um aceno, sorrindo pequeno, antes de entrarem no carro.
- Ele vem progredindo muito nos últimos dois meses, logo começarei o tratamento dele, mas ainda não sabemos se ele vai se recuperar totalmente..
encarou-a por alguns instantes, sem saber exatamente o que dizer.
Por um momento sentiu-se extremamente sortudo, nunca pensava em problemas daquele tipo, mas volta e meia reclamava de várias coisas que, naquele instante, pareciam sem sentido. E então lembrou-se de , o qual estava no hospital e não queria conversar com ninguém desde que começou a fazer os novos exames, temendo que tivesse alguma sequela do acidente.
- Tenho certeza que ele vai ficar bem, crianças são mais resistentes do que nós, não? Aposto que logo menos os pais dele vão estar reclamando que ele não para de correr pela casa e não deixa ninguém dormir! – piscou sorridente, vendo-a rir concordando.

O casal aguardava pelo pedido, conversando coisas banais do dia a dia, mantinha um sorriso calmo nos lábios, sempre prestando atenção no que contava; gostava de conversar com ela, a inglesa sabia de vários assuntos que ele não entendia, mas sempre parecia fácil conversarem.
Ainda estavam se conhecendo, então tudo era novidade, e o assunto não parecia faltar.
Estava tudo bem, mas tinha reparado que de pouco em pouco o jogador olhava para o relógio em seu pulso, suspirando vez ou outra;
- Está tudo bem? – perguntou apontando para o relógio.
passou a mão pelos cabelos curtos, nem mesmo sabia como começar o assunto e, ao mesmo tempo, não sabia se queria inicia-lo. A ideia do almoço era para, além de passar mais um tempo com a mulher, poder fingir que nada estava acontecendo.
- Estou preocupado com , o médico disse que talvez ele tenha alguma sequela do acidente, sabe? Estão fazendo alguns exames para checar... Não entendo muito, é tudo técnico demais, entende? – sorriu sem graça.
mordeu o lábio inferior, pensando um pouco antes de responde-lo;
- Você lembra o tipo de sequela?
- Ele disse... Bem... Várias coisas, mas... – suspirou baixando o tom de voz – Existe a possibilidade de que... Talvez... Talvez não possa mais andar...
encarou-o nos olhos por alguns segundos, inclinando-se para a frente, tocando a mão de que estava sobre a mesa;
- Não tem nada definitivo ainda, não é? ainda precisa do resultado dos exames, não adianta você ficar pensando sobre tudo o que pode acontecer, . De repente passa alguns dias e vai sair do hospital pronto para jogar novamente, pode ser que demore um pouco mais, mas não adianta você ficar pensando em tudo de errado que pode acontecer antes de saber em definitivo. – o jogador apertou a mão da inglesa, concordando de leve – De qualquer forma, pelo pouco que você me contou sobre seu amigo, mesmo que algo aconteça, tenho certeza que ele não vai ser do tipo que vai desistir, não é verdade?
inclinou-se também, baixando o nível da voz, ainda mantendo suas mãos juntas, era um pequeno conforto saber que a mulher estava ali para escutá-lo desabafar;
- Não gosto de pensar sobre isso, e é claro que não comento com ele ou os pais, mas conheço o minha vida inteira... – passou a língua pelos lábios finos antes de concluir, pensando nas palavras que usaria – Não sei como ele reagiria se algo acontecesse... Quer dizer... Eu não sei, bem... É isso o que mais me preocupa na situação inteira, entende?
concordou com um aceno, apertando-lhe a mão.
- Eu sei que não é fácil, mas como eu disse, você precisa esperar para saber, não adianta pensar em tudo agora, porque você só estará sofrendo com antecedência. Você não sabe se ele terá realmente alguma sequela, ou como ele vai reagir se tiver, imagino que nem ele mesmo saiba. São coisas do momento, que, infelizmente, não temos controle. O importante é você estar ao lado dele, independente do resultado dos exames, vai precisar do seu apoio!
suspirou, sorrindo pequeno antes de voltar a conversar em tom normal.
- Desculpe, não era minha intenção levar para este lado... Não quis deixar essa vibe pesada em nosso primeiro encontro, desse jeito você não vai querer um segundo! – piscou, brincalhão.
riu tornando a recostar-se na cadeira, soltando suas mãos;
- Você já está pensando no segundo?
- Sinceramente? Já pensei até aonde posso te levar no terceiro. – respondeu sorridente, cruzando os braços enquanto esperava a reação da mulher, que olhou para o lado, sorrindo de leve, as bochechas coradas.

encarava o teto do quarto, bufando vez ou outra.
Detestava ficar sozinho, pois só conseguia pensar em coisas ruins, mas no momento não suportava ficar na companhia de ninguém, agoniado demais com os resultados que não ficavam prontos. Ou talvez estivessem, e o doutor não quisesse contar por ser algo ruim.
Nem sequer conseguia imaginar o que faria da sua vida se realmente não pudesse mais andar, esperava que fosse tudo um engano e assim que os remédios saíssem de seu sangue, voltaria a sentir o movimento das pernas.
Tinha uma sensação ruim dentro do peito, mas tentava fingir que não percebia.
Tentava se distrair com tudo, mas nada fazia real efeito.
Sua atenção não durava mais do que dez segundos, já tinha pego o celular inúmeras vezes para tentar fazer algo que o distraísse: tinha conferido algumas mensagens no Twitter, visto algumas fotos no Instagram, até respondido algumas conversas no whatsapp, mas cansou-se de tudo e tentou ver televisão. E então voltou a mexer no celular, tentar distrair-se com algum jogo, antes de pegar o livro que sua mãe tinha deixado ao lado da cama, mas depois de ler quatro vezes o mesmo parágrafo e não entender nada, deixou-o de lado.
Queria que estivesse ali, provavelmente o ignoraria também, mas pelo menos escutaria a voz e a risada do amigo, ao invés de ficar naquele silêncio. Rolou os olhos ao pensar no amigo, que estava em um encontro com alguma mulher que ele não tinha se dado ao trabalho de saber como tinham se conhecido. Não o julgava, porque sabia que tinha passado todas aquelas semanas no hospital, aguardando por notícias, ele poderia ter ido viajar e aproveitar as férias, mas preferiu ficar em Dortmund para estar próximo de , era de se esperar que após tantas semanas ele quisesse se divertir um pouco. Mas ao mesmo tempo que entendia, parte de si o culpava por estar, muito provavelmente, transando, do que ali com ele, jogando vídeo game ou conversando, ou qualquer outra coisa.

Olhou para a porta ao escutar vozes vindas do corredor, e logo depois pode ver Rachel entrar no quarto, retirando os óculos de sol e deixando-os sobre o sofá, junto de sua bolsa grande.
prestou atenção nos mínimos detalhes, só então percebendo a falta que tinha sentido da namorada.
Völkers parou por um momento, as mãos na cintura e um sorriso nos lábios grossos, antes de negar com a cabeça, fazendo uma leve careta;
- Eu já disse que detesto quando você deixa essa barba crescer?
riu baixo, concordando com um aceno ao vê-la aproximar-se mais, inclinando-se sobre ele, encostando seus lábios enquanto tentava abraça-lo, o jogador correspondeu o abraço com força;
- Eu disse para sua mãe que não era porque você estava inconsciente que precisava ficar com essa cara de hipster, sinceramente!
- Achei que você chegaria amanhã ou teria me barbeado antes de te ver! – piscou tranquilo, ignorando os problemas por alguns instantes.
- Nem mesmo queria ter ido, tentei adiar a viagem, mas estavam me pressionando por causa do desfile e do contrato...
- Eu sei, não se preocupe. Está tudo bem.
- Não, não está! Eu deveria estar aqui quando você acordou, eu quem deveria ter te visto primeiro, ! Deveria ter ficado cuidando de você...
negou, abanando a mão;
- Não tinha nada que você pudesse fazer, o importante é estar aqui agora.
Rachel sorriu novamente, prendendo os cabelos compridos enquanto sentava-se ao seu lado na cama.
- Como se sente?
- Estou bem – deu de ombros -, aguardando o resultado dos exames, ainda tomando alguns remédios, nada fora do normal.
- Você já sabe quando terá alta? Estou pensando em algo que poderia fazer para quando voltasse para casa... – mordeu o lábio inferior, dando uma olhada no corpo do jogador – Senti sua falta...
arqueou a sobrancelha, sorrindo de canto.
- E o que seria?
Völkers riu baixo, negando com um aceno.
- Acho melhor esperarmos até você chegar em casa para falarmos sobre isso... Quando terá alta?
- Não sei ainda, - suspirou – talvez demore mais algumas semanas, não sei bem... – então tornou a encarar a modelo, sorrindo de lado – De repente era uma boa ideia você me contar o que estava pensando, podemos adaptar pra cá, o que acha?
Rachel gargalhou, negando com um aceno.
- Por mais tentador que seja, e um fetiche também, acho melhor não arriscar de ter seus pais entrando no quarto e nos vendo nessa situação!

abriu a porta de supetão, gritando na hora que viu o casal junto;
- AHÁ! Sabia que não poderia deixar meu homem sozinho, que logo teria alguém tentando se aproveitar da situação dele! – colocou a mão no peito – Esperava mais de você, !
- Ah, cala à boca!
- Ora, ora, até fez a barba... – notou o rosto liso do amigo, ao tempo que cumprimentava Rachel – Raspou a região de baixo também? Ou você não se importa com isso, Völkers?
A modelo rolou os olhos, rindo baixo.
- Não posso dizer que senti falta de você, , talvez esteja na hora de você encontrar uma namorada, assim pode nos deixar em paz por algum tempo.
O cruzou os braços, dando de ombros;
- Meu amor, não é por sua causa que estou aqui, aliás, se soubesse que você já tinha chego, nem teria me dado o trabalho de vir...
suspirou passando a mão pelos cabelos, não aguentava mais a implicância da namorada e de seu melhor amigo.
- E como foi seu encontro? – mudou o assunto, antes que Rachel também desse alguma resposta atravessada.
- Melhor do que o esperado! – sorriu confiante, sentando-se na poltrona próxima – Inclusive já estou marcando o segundo.
- Não acredito que alguma mulher concordou em sair com você duas vezes?! Qual é o problema da coitada?
- Há.Há, muito engraçado, juro que por dentro estou morrendo de rir!
- Sério que você vai sair com ela de novo? – perguntou, genuinamente surpreso – Caramba, ela deve ser boa na cama!
sorriu de lado, negando com um aceno.
- Não foi esse tipo de encontro, só fomos almoçar, ela precisava voltar para o trabalho...
- Oh, meu deus, ela trabalha? Impressionante, meu garoto está evoluindo!
- Será que finalmente chegou a hora em que vai arranjar uma namorada? – a mulher questionou rindo, acompanhada pelo namorado.
- Não sei se vamos tão longe, - começou despreocupado – mas é uma pessoa com quem quero sair mais algumas vezes para ver o que acontece...
- Algumas? Muito bem, é oficial, vou querer conhece-la! Já pode marcar um jantar lá em casa quando eu sair daqui!

SETE.

tinha terminado todos os exames que precisava fazer, desde que o efeito completo dos medicamentos tinha passado, não teve tempo para descansar; foram 4 dias de um exame atrás do outro, e a pior parte é que ele continuava a sentir o corpo pesado, e ainda não conseguia movimentar suas pernas, nem mesmo conseguia senti-las.
No fundo rezava para ser apenas pelo coma das últimas semanas, Dr. Schümmer tinha dito que poderia ser aquilo, e o jogador esperava que fosse. Mas a cada dia que acordava e não conseguia movimentá-las, seu coração apertava.
Não aguentava mais esperar o tempo passar para que pudesse voltar a se movimentar, andar o tempo todo e correr, nem gostava de imaginar o tempo que precisaria para se recuperar antes de voltar a jogar bola. Agora já imaginava perder toda a primeira parte da temporada.
Estava praticamente em abstinência.
Sempre tinha usado o futebol para descontar suas raivas e frustrações com problemas fora de campo, com o passar dos anos aprendeu a voltar toda a sua raiva para os jogos, transformando o sentimento em determinação.
Era por isso que estava sempre focado nos jogos, a cada gol marcado, a cada grito da arquibancada e cada jogo ganham só o faziam sentir-se mais livre, mais determinado de fazer o seu melhor o tempo todo.
Seus gols eram uma forma de rebater todas as críticas que recebera a vida inteira.
Eram sua forma de gritar foda-se para o mundo, ou ao menos, para as pessoas que sempre duvidaram dele.
estava desesperado para sair daquele quarto, não aguentava mais esperar os resultados e não via a hora de poder voltar para casa.
Sentia seu corpo travar todas as vezes que um enfermeiro chegava com uma cadeira de rodas, para levá-lo para alguma sala para novos testes.
Sentia-se aflito toda vez que algum médico tocava em alguma parte de sua perna e ele não a sentia.
Uma bola feita de angústia e medo tomava sua garganta sempre que via o médico franzir o cenho e fazer alguma anotação em sua prancheta.
Sentia o rosto vermelho e a queimação por dentro de seu corpo todas ás vezes que passava por alguém e essa pessoa lhe dava um sorriso de conforto, quase de pena.
E se o pior acontecesse e ele passasse o resto da vida preso em uma cadeira de rodas?
O que seria dele?
era jogador, tinha apenas 27 anos, era praticamente um adolescente no mundo futebolístico.
Times de vários países estavam procurando seu agente e fazendo propostas milionárias por ele.
Pessoas que ele não conhecia gritavam seu nome na rua, vestiam a camisa amarela do Borussia com seu nome e número, ou a branca da Alemanha.
Mesmo os torcedores adversários gritavam seu nome quando ele jogava pela Seleção.
Em pouco mais de um ano teria a Copa do Mundo no Brasil, e ele era um dos nomes já dados como certos no ataque.
era jovem demais para ter sua carreira arruinada daquela forma.

Klopp tinha vindo para uma visita no dia seguinte ao que tinha acordado, conversaram por algum tempo e ele garantiu que nada seria diferente. Falou para o atacante priorizar sua recuperação sem pensar em mais nada naquele momento, ainda contava com o jogador para a temporada, e o atacante sempre teria seu lugar entre os onze iniciais.
avisou que o time não estava procurando nenhum atacante para substituí-lo, que todos o aguardavam e só tomariam alguma decisão após saberem qual seria o tempo que demoraria para voltar a campo. sentiu-se mais calmo, a pressão diminuiu levemente ao saber que ele continuava sendo a primeira opção do Borussia Dortmund, por mais que não tivesse dito em voz alta, um de seus medos era justamente de perder espaço no time, saber que todos ainda contavam com o alemão elevava sua moral, agora só dependeria dos exames para saber quando voltaria a treinar.

Durante todas as noites desde que tinha acordado do coma, rezava baixinho antes de dormir. Nunca tinha sido muito religioso, mas durante aqueles dias ele pedia, implorava para que alguém lá em cima o ajudasse.
Faria qualquer coisa, tinha prometido e pretendia cumprir tudo o que tinha dito assim que saísse daquele hospital, assim que estivesse andando.
Durante aquela noite, faltando pouco mais de doze horas para ter seus resultados divulgados, esperou seu pai dormir no sofá do canto, para começar a pedir em voz baixa, no mais completo escuro, o silêncio apenas sendo quebrado pelos pequenos bipes causados pela máquina que monitorava seus batimentos cardíacos;
- Não sou a melhor pessoa do mundo, nunca fui de te pedir muita coisa, nunca fui de agradecer muito por nada, mas, por favor, por favor, me ajuda dessa vez, Cara! – mantinha os olhos fechados, as mãos unidas, concentrado como nunca na vida – Por favor, eu só preciso disso... Eu não preciso de todo aquele dinheiro, eu posso doar metade para crianças, hospitais, igrejas... Qualquer coisa, por favor. Por favor, Deus, me ajuda. – sussurrou olhando para o teto, lágrimas escorrendo por seu rosto.

ainda ria, incapaz de terminar sua mais nova história.
Era um riso fácil que sempre contagiava as pessoas próximas a ele, sem nem mesmo saberem o motivo da graça, mas apenas porque vê-lo movimentando as mãos e segurando a risada, enquanto movimentava os cabelos, era mais divertido do que as próprias piadas.
Naquele momento contava sobre uma conversa com Mitch Langerak, goleiro reserva do Borussia. sorria conforme o amigo falava, fazendo um barulho parecido com uma risada sempre que achava necessário, mas no fundo não fazia ideia do que Mitch tinha feito.
Sua mente estava perdida em outro lugar, os pensamentos vagavam sobre o resultado dos exames, o coração batia pesado e aquela bola de angústia continuava parada em sua garganta.
continuava a falar sem parar, e sabia que era apenas na intenção de distraí-lo, porque aquele era ; péssimo com palavras, mas ótimo com atitudes. Era um grande amigo e sempre tentava ajudar a todos, mesmo que não soubesse como.
O jogador era uma pessoa positiva demais, mesmo quando tinha seus próprios problemas tentava ver o lado bom das coisas, uma luz no fim do túnel.
Aquela era uma das qualidades no amigo que mais prezava, mesmo que às vezes quisesse soca-lo por manter o sorriso no rosto, ao invés de entrar em pânico.

Quando o médico passou pela porta, acompanhado de Amelie, Hadrian e Rachel, os dois jogadores conversavam, rindo de algo. Aos poucos, tinha conseguido distrair o suficiente, por pelo menos alguns minutos.
Os dois viraram-se ao mesmo tempo quando viram o homem de jaleco branco entrar no quarto.
conseguia ver o olhar dos pais, tão apreensivos quanto ele com a resposta que viria.
Sua mãe aproximou-se, tentando sorrir confiante em sua direção, segurando em sua mão ao parar ao lado de . Rachel, que só tinha sido informada no dia anterior sobre a real situação de , sentou-se ao seu lado da cama, passando o braço por seus ombros, depois de beijar-lhe a bochecha.
Hadrian não era homem de muitas palavras, ou gestos, mas também estava ali ao lado do filho, piscando rapidamente em sua direção, o sorriso calmo nos lábios.
tinha se afastado poucos centímetros, para dar espaço para os pais do amigo aproximarem-se, cruzou os braços encarando o médico, em busca de algum sinal sobre o estado de seu amigo. Detestava aquela sensação de não poder fazer nada para ajudar, queria puxar logo a prancheta das mãos do homem e ler ele mesmo o resultado.
acenou com a cabeça para o doutor, Robert tinha algumas olheiras profundas, resultado dos vários dias que não dormia direito. O jogador sabia da pressão que estava com o doutor desde seu acidente de carro, pois a imprensa não o deixava em paz, procurando por qualquer notícia de ; A mídia voltou a acampar na frente do hospital desde que tinha acordado, repórteres recusavam-se a sair sem alguma notícia, mas a direção do hospital era bem enfática quando dizia que nada seria revelado sem o consentimento de e seus pais.
As duas irmãs de – que tinham ido para Dortmund por alguns dias, assim que o jogador acordou, tinham sido abordadas na saída, precisando da ajuda dos seguranças para chegarem ao carro.
, vez ou outra, dizia apenas que estava bem, mas nada além daquilo.
Até Rachel, que adorava receber atenção das câmeras, ficava transtornada toda vez que precisava passar pelo grupo de jornalistas.
Para o doutor tinha sido um pouco pior; um repórter do Bild chegou a ficar na frente da casa do médico, esperando o mesmo sair para conseguir alguma notícia, tendo sido necessário chamar a polícia para afastá-lo. Robert Schümmer precisou afastar-se por alguns dias dos seus outros pacientes, por pedido da diretoria do hospital, alguns casos eram tão ou mais importantes que o do jogador, mas com toda a confusão causada pela mídia, os diretores da LWL – Klinik Dortmund, tinham achado melhor ter um médico totalmente a disposição de , para que os exames fossem realizados mais rápido e o jogador ter alta o mais breve possível.

A tensão que se formou quando o doutor pigarreou era quase palpável.
O silêncio prevaleceu e só o bipe dos aparelhos médicos eram ouvidos, e vez ou outra uma respiração mais pesada. O aparelho que media o batimento cardíaco de começou a subir gradativamente, conforme a ansiedade do jogador aumentava.
- Acho melhor terminar logo com isso, não é? – Robert sorriu serenamente, vendo o jogador confirmar ansioso.
ouviu todas as explicações que o médico dizia, mal piscava, tentando absorver o máximo possível de tudo aquilo. Dr. Schümmer deixou de lado os termos técnicos, explicando-lhe da forma mais clara possível para que servia cada exame e o que cada resultado significava.
De um modo geral, já poderia ir para casa, poderia tirar o gesso na próxima semana e os medicamentos que ainda precisava poderia tomar sozinho em sua casa.
Aos poucos, o peso em seus ombros diminuía e sua pulsação se regularizava, o nó em sua garganta praticamente não existia, mas ainda tinha uma pequena pontada em seu interior que lhe dizia para não ficar tão confiante.
- E as minhas pernas, doutor? Quanto tempo preciso até voltar a treinar? – questionou apreensivo, a expectativa crescendo em seu peito.
O médico o encarou por alguns instantes, olhando os resultados de por poucos segundos, enquanto pensava em uma forma de dar-lhe a notícia.
notou quando o homem deu um pequeno suspiro e travou o maxilar, quando tornou a encará-lo, o sorriso sereno já não estava mais presente em seu rosto, e soube exatamente o que aquilo significava.
Fechou os olhos com força e baixou a cabeça, ouvindo o que o mais velho dizia, embora não conseguisse mais assimilar tudo aquilo.
Notou o aperto em sua mão intensificar-se, ouvindo a voz da sua mãe exclamar em voz baixa, desacreditada. Hadrian xingou alto, dizendo que aquilo deveria ser um equívoco, que os exames deveriam ter sido trocados.
encarou os próprios pés por algum tempo, negando com a cabeça, incapaz de qualquer outra reação.
ainda sentiu quando o aperto em seus ombros diminuiu e o braço da namorada pendeu ao seu lado, ao tempo em que ela levava a mão na boca, chocada com aquilo.
O atacante sentiu o nó em sua garganta voltar ainda maior do que antes, seus batimentos aceleraram e seus pensamento agitaram-se.
Sentiu o estômago embrulhar e uma sensação estranha que só tinha sentido uma vez, quase dois anos antes, quando pulou de bungee jump;
Caía rapidamente e não tinha qualquer apoio, a sensação de segurança parecia não existir.
estava caindo, perdendo tudo o que prezava e a garantia de que poderia recuperar-se era mínima.
-... Isso vai depender muito da sua força de vontade, , você ainda é novo e têm recursos financeiros para tentar os melhores tratamentos do país. É provável que vá demorar mais do que você gostaria, mas não é impossível! Já vi casos tão complicados quanto o seu, até piores, em que os pacientes se recuperaram com o tempo... – o médico suspirou colocando uma mão no joelho do jogador. – Você só precisará ter paciência e se dedicar ao tratamento, tenho certeza que se fizer isso em um ou dois anos, talvez um pouco mais, mas tenho certeza que você voltará a andar...
- Dois anos? – sua voz saiu fraca, quase inaudível, quando ele encarou o médico.
Sua carreira estava arruinada, assim como sua vida.

tornou a olhar para baixo e fechar os olhos quando todos saíram de seu quarto, não queria ver ninguém naquele momento. Não queria sentir os olhares de pena que direcionavam a ele.
Só queria acordar daquele pesadelo, descobrir que ainda estava para bater o pênalti da final da Champions, talvez acordar em seu apartamento na cama com a namorada.
Qualquer coisa que não fosse sua realidade atual.
abriu os olhos visualizando o teto branco do quarto, sussurrando baixo enquanto uma lágrima solitária caia de seus olhos;
“Por que eu?”

● LIVE

- O treinador da Seleção, Joachim Löw, está junto do presidente do Borussia Dortmund, Reinhard Rauball e do treinador Jürgen Klopp, conversando com o doutor Robert Schümmer, responsável pelo acompanhamento de . O jogador não foi confirmado na coletiva que será realizada na sala de imprensa do hospital, o que sabemos é que os resultados dos exames realizados saíram ontem, mas até o momento não tivemos nenhuma atividade do jogador nem ninguém de sua família sobre o assunto.

[...]

- A situação de tem sido complicada desde o acidente. Quando ele chegou ao hospital, inconsciente, e devido às lesões externas – e então internas devido à batida – soubemos que seria difícil que ele saísse sem nenhuma sequela. Sendo o mais claro possível, aplicamos doses controladas de barbitúrica para diminuir os danos no cérebro causados pelo acidente. Isso o levou ao coma induzido, e apenas confirmamos que foi uma boa decisão após o resultado dos exames, a sequela poderia ter sido muito maior devido aos primeiros traumas pós-acidente de . Infelizmente, embora a grande maioria dos problemas que ele adquiriu no acidente já estejam sob controle... Entendam, nunca é fácil dar uma notícia como essa para ninguém... A lesão na medula espinhal que sofreu foi muito grave; A medula é uma área sensível do nosso corpo e qualquer trauma pode ser prejudicial! Trata-se de um grande feixe de nervos que vem desde o cérebro até as costas, começa na junção do crânio com a primeira vértebra cervical e termina na altura entre a primeira e segunda vértebra lombar, atingindo entre 44 a 46 cm de comprimento. É ela a responsável por transportar sinais do cérebro para o resto do corpo e do corpo para o cérebro. Quando uma pessoa sofre uma lesão na medula, ela perde a capacidade de mover músculos e sentir em todas as partes do corpo abaixo do local atingido. A lesão do ocorreu na região da L4, área responsável pelos músculos da perna...
- O que isso quer dizer, doutor?
- Isso quer dizer que, infelizmente, não poderá andar por algum tempo. Não podemos dizer se é uma condição definitiva no momento. Parte dos resultados dependerá do tratamento e fisioterapia que ele irá fazer a partir de agora...

[...]

- Klopp! O que vai acontecer agora? Vocês vão contratar outro jogador para substituí-lo?
- A notícia foi muito de repente, nenhum de nós estava esperando algo assim. Ainda vamos analisar a nossa situação e ver o que podemos fazer até o início da temporada. Mas, sim, precisaremos ir ao mercado ver nossas opções. No momento o mais importante é a saúde e recuperação de . É essa nossa maior preocupação.

[...]

- O contrato que foi renovado com será rescindindo, Rauball?
- Não temos intenção nenhuma disso. Acabamos de renovar por mais cinco anos com e é assim que continuaremos. não é só um jogador que faz alguns gols e então vendemos para quem pagar mais, não é assim que as coisas funcionam. Antes desse acidente disse muito claramente que seu desejo era continuar em Dortmund, assim como o nosso é que ele continue vestindo nossa camisa 21. Esperamos que ele se recupere e estaremos aqui para dar todo o apoio necessário para essa atual condição. No momento o mais importante, como Klopp citou, é a recuperação de , é o que mais nos interessa agora. faz parte da família do Borussia Dortmund e estaremos sempre com ele.

[...]

- Löw, já imagina quem estará na Copa no lugar de , ou você tem esperanças que ele se recupere em tempo?
- era o nome confirmado no nosso ataque, agora temos onze meses para a Copa do Mundo, e deverei considerar opções para seu lugar, mas nesse momento não sabemos quanto tempo precisará para estar cem por cento, a vaga dele estará aqui esperando por ele quando estiver pronto, se for á tempo da disputa no Brasil, melhor para todos nós, caso contrário, teremos os jogos para a Euro de 2016.

ESPN

“- [...] A notícia pegou todos os fãs de surpresa! Estávamos todos esperando que logo voltasse a campo, ainda em tempo da pré-temporada! É realmente um choque para todos o que está acontecendo com o atacante. O sentimento nesse momento é similar em todos; é muito novo e vinha construindo uma carreira brilhante. A última temporada dele pelo Borussia foi simplesmente incrível. Acho que ninguém estava pronto para uma notícia dessas...
- Você acha que ele se recupera logo?
- É difícil dizer, não entendo muito dessas coisas, mas ao que tudo indica ele vai precisar de, ao menos, um ano para se recuperar.
- Podemos dizer que ele não irá à Copa do Mundo?
- Eu diria que é muito improvável nas atuais circunstâncias...
- Muitos estão dizendo que está acabado depois dessa... Vai ser obrigado a pendurar as chuteiras mais cedo...
- Nesse momento acho que o que todos podemos fazer é torcer pela sua recuperação e que ele seja forte para aguentar o que estiver por vir!”

Ruhr Nachrischten – Dortmund

“Ainda não tivemos nenhuma resposta vinda de . Vinte e quatro horas depois da notícia vir à público, muitos fãs voltaram a ficar na frente do hospital. Parece que um dos enfermeiros contou que só sairá do LWL – Klinik Dortmund no final de semana, estamos no aguardo.
Tivemos novamente vários jogadores e outras celebridades desejando melhoras desde ontem;

@Cristiano É difícil, mas não é impossível! Boa sorte @21, te vejo em breve nos gramados!

@neymarjr volta pra campo que ainda não decidimos quem é o melhor de nós dois @21 ;) #étóis

@ Estamos todos com você, estamos todos te esperando @21! Eu sei que você consegue meu amigo!

@MarioGoetze Não desista, não deixa de acreditar, você vai voltar e vai fazer muitos gols ainda bro @21 #partofGotze #partofthefamily

@DFB_Team Estamos todos torcendo por sua recuperação @21 e estamos todos com você nesta hora assim como estivemos nas vitórias!

@BVB Por favor, continuem rezando para nosso garoto! Continuem torcendo por sua recuperação! Nosso amigo @21 vai voltar para nossa casa, em breve nos vemos no Westfalenstadion!

estava há mais de setenta e duas horas sem dormir direito e recusava o remédio que o ajudaria a descansar.
Recusava as doses de morfina que diminuiriam suas dores.
Recusava ligar a televisão.
Recusava conversar com alguém e recusava-se a comer, pelo menos até o Dr. Schümmer dizer que passaria mais tempo internado e com soro, caso não se alimentasse.
O técnico do Borussia, assim como o presidente do time e o técnico da Seleção tinham aparecido na manhã antes da coletiva de imprensa. Ele se recusou a recebê-los.
não queria ver ninguém.
Sempre que alguém entrava no quarto ele fechava os olhos, fingindo dormir, embora soubesse que seus pais, assim como e Rachel, desconfiassem que ele estava acordado.
Era um misto de raiva e desespero, dor e decepção.
Não conseguia acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo.
Sentia que sua vida tinha acabado.
Não tinha outros planos para sua vida.
Era sempre o futebol. Era sempre o BVB.
Nas poucas vezes que sofreu alguma lesão durante o jogo, nunca passou por sua cabeça o que aconteceria se não pudesse jogar novamente.
Sempre tinha sido cuidadoso com sua saúde; exercitava-se todos os dias, mesmo quando estava de férias. Nunca exagerava nas bebidas, principalmente quando teria treino no dia seguinte, odiava estar de ressaca.
Todas as vezes que teve algum problema muscular fez tudo o que os médicos do clube mandaram.
Se ele necessitasse ficar duas semanas de cama sem mexer a perna direita, ele passaria duas semanas deitado, levantando-se apenas para usar o banheiro ou tomar banho.
não tinha um “plano B”.
Ou melhor, tinha sim, seu B era Borussia Dortmund.
Assim como o A era a Alemanha, sua Seleção tão amada.

Naquele momento ele não queria saber o que os outros diziam sobre ele, no fundo já imaginava;
“Jogador novo com uma boa carreira pela frente, lamentável o que aconteceu.”
“É de dar pena em qualquer um...”

odiava que as pessoas sentissem pena dele, que lamentassem por algum motivo.
Ele sempre se considerou bom o suficiente para sair dos problemas sozinho, não precisava de ajuda e, principalmente, não precisava que ninguém sentisse pena.
Sempre foi homem o suficiente para dar a volta por cima.
Fosse acabando com as críticas e fazendo um hat-trick depois de algumas partidas sem marcar, fosse pegando a melhor amiga da ex que o traiu.
E foi pensando nisso que, ao ver a porta do quarto abrir novamente, encarou o homem que passava por ela, com uma prancheta em mãos;
não tinha mais tempo a perder. Não iria deixar sua vida acabar daquele jeito, ainda tinha muito o que fazer, campeonatos para disputar.
E, enquanto existissem chances, por menores que fossem, estaria ali, lutando para fazer o seu melhor, como sempre tinha feito.
Quando o doutor virou-se para ele, um sorriso cordial no rosto, falou antes que o outro pudesse interrompê-lo;
- Quanto tempo eu preciso para voltar a andar? Como isso vai funcionar?
Robert o olhou surpreso por poucos segundos, relaxando os ombros depois, o sorriso alargando-se levemente em seu rosto.
- É bom saber que você está disposto a fazer a fisioterapia, vim aqui justamente para tentar conversar a respeito!
o encarava decidido, mal piscava, querendo demonstrar toda sua determinação.
Faria todo o possível e impossível para sair daquela situação. Nada o impediria de conseguir conquistar mais um objetivo, naquele momento todo o seu ser tinha esse único foco em mente, muito maior do que tudo o que já quis em sua vida;
- Eu vou voltar. – a voz saiu embargada e ao mesmo tempo dura, confiante. – Eu vou fazer o impossível para voltar a jogar.

OITO.

Os pais de estavam sentados nas cadeiras enfrente a mesa do médico, enquanto o caçula estava em uma cadeira de rodas ao lado da janela, olhando a chuva fraca que caía do lado de fora. O doutor entrou na sala menos de dois minutos depois, sorrindo brevemente para o Sr. e a Sra. e apertando o ombro de , que o olhou assim que o homem passou por ele. Com certa dificuldade, por não estar acostumado com a cadeira, virou-a o suficiente para olhar o médico de perfil.
Dr. Robert puxou a própria cadeira um pouco para trás da mesa, deixando-a de lado, porém sem ficar de costas para o casal; era sua prioridade, mas também queria olhar para os pais dele durante a conversa. Gostava de manter o contato visual, passava a confiança necessária para os pacientes quando conversavam.
- Muito bem, , decidido que você vai realmente começar a fisioterapia o mais breve possível, e levando em conta sua posição financeira e sua vontade de voltar aos gramados, separei as clínicas que, em minha opinião, são as mais bem estruturadas para esse tratamento. Desde já eu lembro que isso vai requerer muito de você, não só fisicamente, mas emocionalmente também. – Schümmer olhava para o jogador, que concordou com a cabeça em silêncio. – Bom, então, como eu informei antes, não sou especializado na área, estarei aqui para qualquer dúvida que você possa vir a ter referente ao tratamento, mas sinceramente não é a minha área, então eu não posso afirmar uma coisa que eu não saiba do que se trata, ok? De qualquer forma, estas são ás cinco clínicas que costumo recomendar para meus pacientes; Uma é nos Estados Unidos e duas na Inglaterra. – comentou entregando panfletos sobre as clínicas à medida que contava - As outras duas são aqui na Alemanha, Physiotherapie-Praxis em Berlim, uma das melhores do mundo, mas voltada também à outros tratamentos, e a KBE-V que é aqui em Dortmund. – Sorriu orgulhoso entregando o último panfleto – Vocês talvez já tenham ouvido falar sobre ela, é bem famosa. O diretor é um amigo de anos e já tive alguns pacientes que a escolheram pela estrutura e facilidade. Caso tenha interesse posso agendar uma visita para você na próxima semana, , tanto em Berlim quanto em Dortmund.
- Qual dessas seria a melhor? – perguntou Amelie, enquanto analisava os folhetos.
- Bem, é claro que é uma decisão completamente do paciente, apenas deixamos as opções. Porém, como médico, e por conhecer de perto toda a estrutura e grande parte do quadro médico do local eu, particularmente, indico a KBE-V.

abriu o panfleto referente à clínica que o médico citou, nas fotos, o terreno parecia enorme, assim como o prédio de dois andares.
O jogador já tinha escutado sobre a clínica, embora nunca tivesse prestado muita atenção, nunca teve motivos para isso.
Lembrava-se vagamente de ter visto uma reportagem sobre o local, quando Angela Merkel, a chanceler alemã, o visitou meses atrás...
não ficou nem dois minutos assistindo a notícia, antes de mudar de canal.
O panfleto tinha algumas informações sobre a clínica, os tratamentos e parte dos funcionários, alguns dos melhores em suas respectivas áreas. Tinha algumas fotos de pacientes, tanto crianças quanto adultos em alguma fase de tratamento, fossem andando com a ajuda de muletas ou andadores, fosse em uma piscina. Na parte de trás do folheto tinha um mapa de como chegar ao local.
ficou levemente surpreso ao perceber que o endereço não era tão distante;
Ficava próxima ao Bezinrksfriedhof Dortmund Aplerbeck, um grande parque da região de Holzwickede. Provavelmente menos de 15 km do Westfalenstadion.
morava na área de Barop, na Zechenstraße Str., próxima ao centro universitário, mas não o suficiente para incomodar-se com a bagunça dos estudantes.
Chegava em menos de quinze minutos no estádio, quando não tinha trânsito.
O tempo para chegar até a KBE-V não deveria ser muito superior a 30 minutos.
Na verdade, não era nem longe do hospital no qual se encontrava naquele momento, talvez fosse por isso que o médico tinha indicado.
O homem deveria conhecer muito bem o local, principalmente sendo amigo do diretor.
olhou para o homem que ainda conversava com Amelie e Hadrian sobre a clínica dos Estados Unidos, e então pigarreou atraindo a atenção dos três;
- Eu gostaria de ver essa clínica, não penso em sair da Alemanha. Também vou querer olhar à de Berlim, se não me sentir bem em nenhuma então pensarei em Inglaterra e Estados Unidos. – avisou decidido, olhando brevemente para os pais, que concordaram com um sorriso leve.
Era visível a preocupação de sua mãe. O atacante tentou sorrir de volta, mas o máximo que conseguiu foi uma careta.
Sentia-se cansado, tanto física quanto mentalmente.

Respirou fundo assim que deitou a cabeça no travesseiro, fechou os olhos e cochilou no instante seguinte, sendo acordado minutos depois quando uma enfermeira apareceu para lhe ajudar a tomar banho.
sentia o rosto esquentar toda vez que isso acontecia.
riu quando o amigo confessou esse pequeno entrave, e disse que ele tinha sorte por ter uma enfermeira bonitona ensaboando-o. Mas havia uma grande diferença naquela situação para um momento no qual ele se divertia com alguma mulher durante o banho.
Era estranho e desconfortável, mal falava ou olhava para a mulher durante esses minutos – que normalmente pareciam horas entre o banho e a ajuda para se vestir e voltar a deitar.
Assim que saiu do banheiro na cadeira de rodas, com a mulher o empurrando, viu o amigo sentado em sua cama, o controle remoto na mão e um sorriso de lado.
- Oi, meu amor! Você nem me esperou para o banho... Vou ligar para o Mario, aposto que ele me esperaria! – falou chateado, sem esconder o ar brincalhão. riu balançando a cabeça.
- Pode ir, eu tenho o Mats...
gargalhou levantando-se e assumindo o lugar da enfermeira, para ajudar a sentar-se na cama, embora a mulher não tenha se afastado muito, apenas por garantia.
sentia-se desconfortável com a enfermeira, mas sentia-se ainda pior quando precisava de para ajudá-lo. Ou qualquer outra pessoa próxima.
O colocou a cadeira de rodas ao lado da cama, ficando à frente do amigo e passando os braços envolta do tronco de , puxando-o com certa dificuldade; era maior e mais pesado do que o meia. segurou um dos braços do amigo com força, garantindo que não passaria a vergonha de cair, e com um grande impulso estava em pé. virou-o ajudando o outro a sentar-se na cama e então, apoiou as duas mãos no colchão e, com bastante esforço, conseguiu ir mais para o meio do leito. Viu o melhor amigo segurar suas pernas e, conforme virava-se, colocá-las esticadas na cama.
Quando a enfermeira notou que estava realmente seguro e em bons cuidados, sorriu brevemente, despedindo-se em seguida. , por outro lado, riu novamente para o amigo, sentando-se na cama junto dele.
- Eu preciso de espaço, , vai mais pra lá! – o empurrou com o braço.
- Não seja egoísta, eu já dividi minha cama com você!
- Nunca mais repita isso! – reclamou indignado, olhando para à porta – Imagina se alguém entra e escuta você falando isso?
gargalhou alto, jogando a cabeça para trás, riu tanto que ficou sem ar.
- Você realmente pensa que as pessoas nos consideram um casal? Você tem a Rachel, lembra?
- Nunca se sabe... – deu de ombros – Mas soa extremamente estranho você dizer que dividimos a cama...
- Ué, mas você estava bêbado, e não dividi porque eu quis. Você que caiu lá e não levantou mais... Eu não iria dormir no sofá na minha própria casa, não é mesmo? Além do mais, tinha espaço até para o Götze se ele estivesse junto...
- Pois é, mas essa aqui não é uma cama tão grande, então vai pro sofá!
- Seu insensível, assim você fere meus sentimentos! – reclamou dando língua, mas sentando-se novamente aos pés da cama. – Soube que você topou fazer o tratamento...
confirmou com a cabeça, olhando para a televisão, na qual passava um episódio de Game of Thrones.
- Terei alta amanhã e vou ver a clínica sábado, disseram que é boa...
s novamente sorriu, mas de forma diferente. o conhecia bem demais para não notar isso;
- O que foi?
- Nada... Será que eu posso ir junto?

● N24 LIVE

“[...] está de saída do hospital neste momento! Podemos ver a grande movimentação próxima as portas principais do prédio, e os seguranças tentando acalmar todos os fãs e jornalistas!
O pai de está saindo primeiro! Vejam! Ele não parece muito feliz com o tumulto. Vamos tentar uma palavra com ele... Bem, os seguranças não deixam nos aproximarmos.
A mãe de está vindo de cabeça baixa, é a senhora com o chapéu preto! Rachel Völkers também está saindo acompanhada de um segurança do hospital, entrando diretamente no veículo.
O carro está estacionado logo à frente da saída!
Os seguranças agora estão impedindo completamente a passagem das pessoas, ninguém consegue se aproximar.
As portas novamente estão se abrindo!
está passando... Esperem! Ele não está sozinho... Ele está com !
está saindo do hospital em uma cadeira de rodas, sendo empurrado por !
não está olhando para ninguém, a cabeça baixa e o boné cobrindo seu rosto, o jogador visivelmente não quer conversar... Não deve ser um momento fácil para ele...
- ! ! Como você está se sentindo? !
- Quando você começa a fisioterapia?
- , você vai sair do país para se tratar?
O segurança está ajudando a entrar no carro! está sendo carregado pelo segurança! está logo atrás, entrando junto com o companheiro de time!”

ESPN

“- [...] Se para nós que somos fãs de futebol e admiradores de é difícil ver essa cena, imaginem o que se passa na cabeça do jogador! É provável que ele pense em todas as possibilidades que nós já dissemos aqui sobre a carreira dele, e a principal seja de aposentar as chuteiras antes do tempo. É realmente lastimável ver algo assim!
- Deve ser mesmo muito difícil toda essa situação...
- O mais engraçado é que se pensarmos bem, o casal do outro carro não sofreu quase nada na hora do impacto, o motorista saiu no mesmo dia e a mulher que estava junto saiu dias depois! Nem um braço quebrado, nem nada. O único que realmente sofreu foi .
- Imagino que agora que foi confirmada a lesão de , ele vai dar continuidade ao processo em cima do motorista, não?
- Ainda não tivemos nenhuma informação sobre isso, apenas as declarações anteriores dos pais dele, o advogado de está no caso, mas ninguém comentou como será o processo, nem mesmo sabemos se irá processá-lo.
- Bem, no momento só nos resta esperar alguma notícia seja por , amigos ou familiares. E continuamos com a torcida para que ele melhore logo!”

desligou a televisão, jogando o controle para o lado.
Suspirou passando a mão pelos cabelos antes de encarar a parede da sala.
Ouviu ao fundo os pais e a namorada conversando, falando sobre a imprensa e todo o tumulto, antes de sua mãe começar a explicar para Rachel sobre as visitas agendadas as clínicas de fisioterapia. A modelo dizia que queria acompanha-los, mas não tinha certeza se poderia cancelar uma sessão de fotos que estava adiando há quase duas semanas, não se importava, até preferia que ela não fosse.
Não gostava que Rachel o visse naquele estado, e no fundo, achava que ela também preferia evitá-lo. Völkers não tinha dito nada sobre o assunto, estava sempre sorridente e dizia estar confiante na recuperação do namorado, mas vez ou outra o jogador tinha a impressão que ela ficava extremamente desconfortável com qualquer coisa relacionada a sua nova situação.
Não que ele se sentisse confortável, mas seus pais e parecia muito mais tranquilos, preocupados apenas em incentivá-lo de alguma forma.
- Está tudo bem, filho? – Hadrian perguntou ao sentar-se ao lado do mais novo, no sofá da sala. deu de ombros. – Ansioso para conhecer a clínica?
deu um sorrisinho irônico, antes de soltar o comentário de forma debochada;
- Claro, mal posso esperar.
Hadrian respirou fundo encarando a televisão desligada, em outros momentos teria o mandado tomar cuidado com o tom de voz que usava, mas o Dr. Schümmer tinha o alertado que aquilo era comum, e precisariam ser um pouco mais pacientes com .
- Agendamos para às 13 horas à visita, quer ir junto, não é? – puxou o assunto, vendo-o concordar com um aceno, encarando novamente a parede.
- Eu quero falar com o meu advogado. – comentou em voz baixa, surpreendendo o pai. – De preferência amanhã mesmo.
- Você vai dar continuidade no...
- É claro que eu vou, você já viu o meu estado, pai? Alguém vai pagar por isso, e espero que seja na cadeia.

mexeu-se na cama, aos poucos acordando por completo. Bocejou enquanto coçava os olhos com a mão, e então passou alguns segundos olhando para o lugar vazio ao seu lado da cama, tentando lembrar-se do sonho que teve na noite anterior.
Pegou o celular em cima do travesseiro ao lado, desbloqueando-o para abrir suas mensagens, um pequeno vício que tinha adquirido ao longo dos meses e não conseguia se desfazer.
Foi no meio de outro bocejo que reparou no horário, cedo demais para estar desperto, mas reparou com pesar que não tinha sono nenhum.
Escutou o estômago roncar alto, parecia que não comia há vários dias pelo barulho.
Virou-se desajeitado na cama, pronto para andar até o banheiro e tomar uma ducha, mas nada aconteceu.
Estranhou por breves segundos antes de apoiar os cotovelos no colchão e tentar levantar-se por mais uma vez, mas, de novo, não teve o resultado esperado.
Não conseguia mexer-se com a rapidez e força necessária para fazer o simples movimento.
Por um momento pensou no que tinha feito na noite anterior, se teria bebido tanto à ponto de sua ressaca ser forte o suficiente para deixa-lo daquela forma.
Sentiu um arrepio passar por todo o seu corpo e um vazio atingir seu estômago;
Mas não era de fome, poderia jurar que tinha perdido o apetite naquele instante.
Foi só quando reparou na cadeira de rodas mais ao lado da cama, que lembrou-se por completo de sua nova condição;
Por um minuto inteiro tinha esquecido do acidente e de todo o resto.
Durante 60 segundos era só mais um dia em que acordava em seu quarto, pronto para tomar banho e tomar café, ou qualquer outra coisa que envolvesse sua rotina diária.
Afundou a cabeça sobre o travesseiro de penas de ganso, deixando sua mente vagar rapidamente por tudo o que tinha acontecido nos últimos dias, desde que tinha acordado no hospital.
Ficou naquela mesma posição por alguns minutos, esperando a vontade de chorar passar, aguardando aquele desespero e angústia sumirem de seu peito, mas tinha sido em vão.
Não percebeu quando perdeu o controle e as lágrimas começaram a cair, mas tapou a boca para impedir o barulho do soluço alto que escapou por sua garganta.
O que faria de sua vida dali em diante?
E se a fisioterapia não funcionasse e ele passasse o resto da vida em uma cadeira de rodas?
Deixou o olhar cair por sobre o corpo coberto, passando as mãos pelo rosto, limpando os vestígios de lágrimas. Respirou fundo antes de jogar a coberta para o lado, encarando o peito desnudo e a calça de moletom cinza que usava.
Passou a mão pelo tronco, por sua barriga e quadril.
Apertou por um instante seu membro, sentindo-o pulsar contra sua mão, o suspiro aliviado passou por seus lábios, e então sentou-se desajeitado na cama, esticando os dois braços e apertando suas coxas, e então os joelhos e pernas.
Tentou mais de uma vez mexe-las, apertou-as como pode e então tentou dar-se um tapa.
Nada.
Voltou a jogar o tronco contra o colchão, encarando o teto, sem saber o que fazer ou o que pensar.

esperou quase uma hora até alguém abrir à portar de seu quarto, logo vendo sua mãe entrar sorridente;
- Bom dia, querido! Achei que dormiria até mais tarde...
- Eu preciso sair dessa cama, mãe, não aguento mais ficar deitado!
A mulher concordou saindo por um instante e indo pedir ajuda ao marido; O jogador era pesado demais para a senhora servir de apoio.
já se encontrava desesperado, precisava levantar, estava morrendo de fome e, o que mais o incomodava no momento;
- Pai, pelo amor de deus, eu preciso mijar! Me leva ao banheiro! – suplicou assim que o homem passou pela porta.
Hadrian riu leve antes de aproximar-se, ajudando o filho a sentar na beirada da cama e puxar suas pernas para fora. Encostou a cadeira de rodas ao lado do colchão e, com certo esforço, colocou o mais novo em pé, sentindo-o apoiar-se por completo em seus ombros, antes de quase jogar-se sobre a cadeira. Hadrian mal tinha posicionado as pernas do filho antes dele tentar, sozinho, ir até o banheiro à poucos metros de distância.
Vendo o desespero dele, Hadrian colocou-se atrás da cadeira, abrindo à porta e ajudando o filho a parar logo à frente da privada.
- Precisa de...?
- Não, tudo bem, consigo me virar daqui. Pode deixar, eu te chamo.
Claramente constrangido com a situação inteira, principalmente por ter seu pai ao lado, só começou a puxar a calça quando seu pai saiu do banheiro.
Quase gemeu de desespero ao notar que sua vontade parecia ter triplicado desde que saiu da cama. Porém, naquele momento, reparou o quão trabalhoso era levantar-se o suficiente para puxar sua calça e boxer. Não tinha precisado passar por aquela situação nos últimos dias, tinha uma sonda ligada a seu corpo e, na noite anterior aproveitou que estava no banho para fazer no chuveiro.
- Deus, eu não merecia isso... – sussurrou ainda desesperado pela situação inteira.
Não tinha forças o suficiente para colocar-se em pé e, definitivamente, não conseguiria apoiar-se para puxar suas roupas para baixo.
Sua única opção no momento foi abrir o vaso e, com muita dificuldade, mexer-se na cadeira o suficiente para tirar as peças de roupas o tanto necessário para conseguir mirar.
- , você precisa de algo filho? Não têm problema nenhum se... – Sr. parou a frase ao ouvir um barulho alto vindo do outro cômodo, abriu à porta no mesmo instante, vendo o filho caído ao chão, próximo à pia;
A torneira estava aberta e à água escorria, o sabonete estava caído no chão ao lado de .
Hadrian fechou a torneira antes de agachar-se ao lado do jogador, ajudando-o a sentar-se no chão antes de tentar levantá-lo.
O problema era que era pesado.
Não era gordo, nem poderia ser com o tanto de exercícios que fazia diariamente e o tanto que corria em dias de jogo, seus 83 quilos eram muito bem distribuídos em seus 1,88 de altura.
Mas ele era pesado para seus pais o carregarem.
Hadrian conseguia servir de apoio quando o filho já estava em um ponto elevado, conseguia o colocar em pé e segurá-lo por poucos, mas suficientes, segundos. Entretanto, o homem de 58 anos não tinha mais a força de antes para carregá-lo ou levantá-lo do chão.
era maior e mais pesado que o pai e ambos sabiam disso.
- Eu só tentei lavar a mão... – comentou em tom baixo, olhando para todos os cantos, menos para o pai.
A vergonha queimava em seu ser e tinha certeza que o rosto estava vermelho, era uma situação, no mínimo, humilhante para o alemão.
O mais velho sorriu compreensivo, embora ainda tentasse pensar em uma forma de colocar o filho de volta na cadeira de rodas.
- já está pronto? – ouviram uma voz bem conhecida aproximando-se no corredor. – Sua mãe me disse que você já acordou! Você... ? – questionou da porta do quarto.
- Aqui dentro... – chamou pouco mais alto e logo o já estava entrando no banheiro.
- Resolveu meditar? – perguntou confuso ao olhar o amigo no chão.
- Halt’s Maul¹ e me ajuda aqui... – pediu tentando usar um tom de brincadeira, mas sentindo-se cada vez mais envergonhado;
Agora não era apenas o pai, mas também o melhor amigo o vendo naquela situação degradante.
sorriu aproximando-se, envolveu o braço pela lateral direita do corpo do amigo, enquanto Hadrian segurava o braço esquerdo do filho e, juntos, conseguiram levantá-lo o suficiente para que ele pudesse novamente apoiar-se nos braços da cadeira, e então com mais algum esforço dos três homens, estava novamente sentado.
- Querido, você está gordo! – avisou passando a mão pela testa, limpando um falso suor.
- Você que é fracote! – rebateu.
- Você já tomou café, ? – Sr. perguntou com um sorriso calmo nos lábios.
- Na verdade não, vim aqui já pensando em esvaziar a geladeira, a minha só tem água! – deu de ombros sem se importar, recebeu um soco leve na costela, como resposta de .
- Ainda preciso tomar um banho...
- Hm... Quer minha ajuda, amor?
- Eu acho que seria uma ideia melhor se Amélie o ajudasse com isso... – Sr. argumentou.
- Deus, não tenho mais três anos, pai, não quero a mãe me vendo pelado... – negou com a cabeça.
- E prefere que seu amigo o veja? – questionou divertido.
- Senhor ... O senhor realmente não sabe o que acontece nos chuveiros depois do treino, não é?
- Eu prefiro continuar não sabendo...
rolou os olhos, aceitando apenas a ajuda para trocar a cadeira que usava para outra dentro do box do banheiro, que o doutor tinha recomendado.
Esperou os dois saírem do banheiro para começar a despir-se, enquanto a água do chuveiro esquentava.

¹Halt’s Maul = "Cala boca", "Fica quieto".

NOVE.

Assim que estacionou o SUV Range Rover Sport branco de no estacionamento da clínica, o e os pais do amigo desceram do carro. Hadrian pegou a cadeira de rodas no porta-malas, enquanto deu a volta no veículo, abrindo à porta para o atacante, ajudando-o a descer.
- Me diz de novo, por que tenho um carro tão alto? – reclamou após descer com bastante dificuldade e permanecendo em pé, mantendo-se apoiado no amigo.
- Porque é só assim que você consegue alguma atenção... – deu de ombros, antes de o ajudar a sentar-se na cadeira.
- Bom, não vai ser muito útil no momento, não é? Não tem condições de eu dirigi-lo.
até pensava em algo para respondê-lo, mas agradeceu mentalmente quando os pais de os chamaram, já caminhando em direção a portaria.
sentia-se extremamente nervoso, o frio na barriga, tão comum em dias de jogo, naquele momento era algo que ele não achava um dia ter sentido. Respirou fundo algumas vezes antes de conseguir olhar em volta, notando o terreno largo e o prédio de dois andares mais ao fundo, quando a entrada do grupo foi autorizada.
- Estamos atrasados! – Amélie avisou, olhando no relógio de pulso – Você demorou muito no banho, filho…
- Sabe há quantos dias eu não tomo um banho direito, mãe? – perguntou grosseiro, recebendo um olhar atravessado do pai.
suspirou olhando para os lados.
Realmente tinha demorado quase quarenta minutos na banheira, mas foi necessário para colocar alguns pensamentos em ordem e para sentir-se limpo. Isso sem contar que não precisava de ninguém o olhando nu e ajudando-o com o banho.
Uma grande placa de alguma pedra preta que não sabia o nome estava poucos metros à frente, Klinische Behandlung und Erholung von Verletzungen estava escrito em grandes letras brancas e abaixo o nome do diretor responsável, Dr. Scheidemman.

Continuaram andando pela calçada de porcelanato branco até chegam a entrada, passaram por uma porta de vidro automática, chegando na recepção, uma sala bem ampla, iluminada e arejada, com grandes janelas e paredes brancas.
No canto uma grande estante de madeira clara com vários livros e outros documentos que pareciam importantes. Poltronas confortáveis em tons bege, e uma mesa de centro com algumas revistas e o jornal do dia.
No lado direito, próximo à outra porta de vidro grande, uma planta para decorar.
percebeu que todo o local tinha bastante espaço entre as poltronas e ele notou que deveriam ser para as pessoas que, como ele, precisavam de cadeira de rodas. No fundo da sala uma grande mesa do mesmo material e cor da estante, com um computador moderno, telefone e cadeiras giratórias brancas.
Os quatro encaminharam-se até lá e esperaram, visto que no momento não tinha ninguém ali.
Sr. e Sra. sentaram-se nas cadeiras brancas, ficou logo ao lado da mãe e ficou em pé atrás do amigo.
Na mesa alguns papéis estavam organizados e duas pilhas de folhetos sobre a clínica estavam mais ao canto para os visitantes.
pegou analisando-o rápido e logo devolvendo-o ao mesmo local. Foi quando ouviram um passos vindo da lateral e logo uma moça alta, negra de cabelos cacheados, presos em um rabo-de-cabelo, veio até eles com uma pasta creme em mãos.
- Boa tarde! – sorriu para todos apertando suas mãos, a mulher usava calça preta e uma camisa social branca, junto com suas sapatilhas também pretas. Tinha um crachá com uma foto 3x4, seu nome e função pendurado em um cordão vermelho envolta de seu pescoço – Bem vindos à KBE-V, meu nome é Marielle Bloch, como posso ajudá-los?
A moça deu a volta em sua mesa, colocando a pasta dentro de uma gaveta.
- Temos um horário marcado para uma visita, está no nome de . - o senhor sorriu educado.
A recepcionista fez uma rápida busca em seu computador, sorrindo em seguida antes de pegar o telefone e discar dois números.
- Doutor, o senhor já está aqui. – ela aguardou a resposta, concordando algumas vezes antes de desligar. – Me desculpem, mas o doutor Klaus, que é o diretor geral da clínica, está em uma reunião com alguns sócios e vai demorar mais um pouco. Se os senhores quiserem aguardar alguns minutos, vou chamar outra pessoa para acompanhá-los!
Enquanto os quatro voltaram para perto das poltronas, olhando ao redor e conversando sobre coisas aleatórias, um homem entrou pela porta principal, cabelos loiros curtos e bem alinhados, roupa social e terno de um tom escuro e uma gravata cinza. Carregava um garotinho nos braços, o qual ria de alguma coisa, o homem andou até a recepcionista que sorriu ao cumprimentá-los.
- Oi, Kevin!
- Oi, oi, oi! – disse animado agarrado ao pai – Esse é meu papai, a gente foi almoçar e eu comi currywurst!
- E você não me trouxe nem um pouco? – Marielle questionou brincando.
- Eu comi tu-di-nho! – falou devagar, o sorriso espalhado no rosto.
- É por isso que está ficando gordo! – o Sr. Breuer falou apertando a barriga do garotinho. – O doutor já chegou?
- Já sim, está esperando por vocês na sala dele!
O homem agradeceu e virou-se para a porta de acesso ao corredor, mas assustou-se quando ouviu o grito do filho.
- !
virou-se ao ouvir seu nome e sorriu ao reconhecer o garotinho do outro dia.
- E aí, campeão! – levantou-se aproximando-se do menino. e seus pais olhavam um tanto surpresos a reação do loiro, não era como se o jogador não fosse atencioso com fãs, especialmente crianças, mas não esperavam que ele conhecesse alguém na clínica – Como está? Pronto pra correr pelos gramados?
- Ainda não... – fez careta cruzando os braços – Mas vou começar com a tia daqui uns diazinhos! Esse é meu papai, papai esse é o Woodyinho!
- Muito prazer! – o homem estendeu a mão, apertando a do jogador.
- Igualmente! – sorriu educado antes de virar-se novamente para o garoto – Você já viu quem está ali? – virou-se apontando para o amigo.
Kevin olhou-o por alguns segundos, arregalando os olhos em seguida.
- Mein Gott!¹ - abriu a boca chocado – Pai é o ! Oi ! – acenou contente para o jogador que apenas sorriu retribuindo o aceno tímido.
- Ele está meio chateado agora, mas até que ele é legal, sabe? – contou ao ver que o amigo não parecia nem um pouco animado de ser reconhecido.
- vai ficar aqui também? – Kevin perguntou para .
- Kevin! Você não pode ficar perguntando essas coisas...
- Tudo bem, sem problemas! – sorriu tranquilo – Estamos só visitando agora... Talvez ele fique, talvez vá para outra...
- Mas aqui é tão legal! – Kevin o olhou sério, quase descrente que alguém fosse capaz de escolher outro lugar.
- Bem... É complicado... Coisa de gente grande, sabe? - deu de ombros.
- E a minha camiseta? – perguntou de repente ao lembrar-se da promessa.
- Ah... Eu ainda não consegui encontrar todo mundo, vamos voltar a treinar daqui alguns dias e aí eu pego, tudo bem? – piscou para o garoto que concordou.
- Vamos Kevin, já estamos atrasados! – o homem avisou antes de estender a mão – Até à próxima!
- Até mais! Tchau, criança! – Kevin esticou os braços para um abraço rápido no jogador, o qual riu bagunçando os cabelos do mais novo.

voltou a sentar-se e reparou no olhar atento do amigo, virou-se para ele esperando o que estava por vir;
- Como é que você conhece aquele garoto?
- Hm... Eu o vi uns dias atrás, sabe...? – deu de ombros.
Os pais de no momento pareciam mais interessados em conversar do que em prestar atenção nos dois jogadores.
- Você já esteve aqui? Foi por isso que parecia tão apressado, não é? – comentou confuso – Por que você veio até aq...?
- Com licença, - uma moça parou no meio da sala, próxima aos quatro. – meu nome é Eileen Linck e sou a responsável por acompanhá-los para que possam conhecer nossas instalações. Se puderem me acompanhar, por favor... – estendeu o braço em direção a porta de vidro.
Sr. e Sra. levantaram-se quase de imediato, levantou-se com calma e ajudou o amigo que ainda o olhava desconfiado.
- Von Gott... Eu conheço alguém que trabalha aqui, só isso! – respondeu em voz baixa, enquanto paravam em frente a moça.
- Quem? - tornou a questionar desconfiado, sorriu pequeno, mas antes que pudesse responder escutou a voz da mulher.
- Para começar, gostaria de dar-lhes ás boas-vindas a KBE-V! Caso tenham alguma dúvida podem me perguntar a qualquer momento, tudo bem?
A garota não parecia ter mais de 23 anos, era loira e tinha os cabelos compridos presos em um rabo-de-cavalo alto, os olhos castanhos escuros e brilhantes, além de um sorriso simpático que, aparentemente, era comum no local. Usava o mesmo uniforme da recepcionista e um crachá com foto, nome e função.
- Eu sou Hadrian e está é minha esposa Amélie e meu filho , é um amigo da família! – disse enquanto apertava a mão da mulher e apontava para os outros.
- É um prazer recebê-los, embora eu saiba que esta não deve ser a melhor das situações para vocês! – sorriu compreensiva para que fez um gesto rápido com a cabeça, sem nada dizer.
Era isso que mais temia, que as pessoas tivesse aquele tom de pena ao referir-se à ele.
Eileen começou a contar-lhes sobre a clínica durante o percurso.
- Hoje temos oito doutores no nosso quadro clínico, divididos em quatros áreas, - atravessaram à porta de vidro e seguiram por um corredor branco e largo. Poucos metros à frente do lado direito tinham dois elevadores e as escadas de acesso ao segundo piso. - e contamos com outros vinte funcionários na clínica entre recepcionistas, seguranças, zeladores, nutricionista e secretárias. No momento temos dezesseis pacientes; sendo dez crianças e adolescentes, entre cinco a dezoito anos e seis acima dessa faixa.
Continuaram reto até chegarem a algumas salas, todas as portas eram brancas e possuíam uma placa de identificação. No final do corredor chegaram ao refeitório.
- Muito bem, aqui é o restaurante da clínica e contamos com um nutricionista para o menu de cada dia. Muitos pacientes almoçam ou fazem algum lanche aqui, assim como todo o quadro de funcionários, fisioterapeutas e o diretor.
O local, assim como a recepção, tinha grandes janelas e às portas de entrada eram de vidro.
Quatro longas mesas brancas, para dez pessoas cada, estavam espalhadas no local, todas com cadeiras metálicas de estofamento também brancos.
O buffett era no canto esquerdo, mas no momento estava vazio.
Tinha uma janela pequena de vidro fumê e a porta de acesso a cozinha, a qual possuía uma placa de ”Somente Funcionários“.
- Temos horário fixo de duas horas para o almoço, mas sempre temos lanches para o dia inteiro, visto que muitos fisioterapeutas acabam por não poderem almoçar no horário, ou pacientes acabam vindo direto do trabalho ou da escola sem terem feito alguma refeição antes.- Eileen esperou que os quatro voltassem a passar pela porta antes de conduzi-los pelas outras salas. - No segundo andar ficam as salas dos fisioterapeutas, cada um tem sala e secretária individuais, mas em três das quatro áreas que trabalhamos temos bastante interação entre fisioterapeutas e pacientes, então, na prática, acaba todo mundo misturado.
- Como exatamente funciona essa separação? E, me desculpe a pergunta, você é uma das fisioterapeutas? – Amélie questionou, a garota parecia muito jovem, embora simpática, não sabia se lhe passava a confiança necessária.
- Não, não. Eu sou secretária de uma das fisioterapeutas, como no momento ela está com um paciente não estava precisando da minha ajuda, por isso estou guiando-os hoje. E eu já explico para a senhora sobre a divisão. – sorriu antes de abrir uma porta. – Essa é uma das academias que temos, no total são três. Todos os doutores têm vários equipamentos em suas salas, que basicamente são divididas em duas, o escritório e a sala de fisioterapia. Mas estas aqui são muito mais completas, é bem comum eles virem para cá com os pacientes para exercitarem-se.
A sala era ainda maior que o refeitório, tinha equipamentos de todos os tipos, a maioria eram daqueles bem comuns em academias, como esteiras, bicicletas e equipamentos para musculação.
Também havia alguns tatames organizados ao canto, cordas e bolas daquelas usadas em pilates. As janelas de vidro cobriam grande parte da parede e por elas podiam ver os gramados e árvores do terreno.
Assim que saíram da sala Eileen voltou a falar;
- Às próximas duas salas também são academias, mas uma delas é mais voltada às crianças, visto que temos um grande número de pacientes em uma faixa etária menor – abriu a porta apenas para eles poderem dar uma olhada rápida, era praticamente o mesmo da primeira, com exceção dos brinquedos educativos e coloridos que tinha por ali. – Vamos subir para o segundo andar, não poderemos entrar em todas as salas, pois a maioria está sendo ocupada no momento, mas elas são muito parecidas em alguns aspectos, porém cada doutor gosta de dar um toque pessoal.
Todos entraram no elevador e, assim que as portas metálicas abriram-se, puderam reparar no quão maior o andar parecia, o corredor era um tanto mais estreito que o do primeiro andar, provavelmente devido ao número muito maior de portas que tinham ali.
reparou que todas as paredes da clínica eram brancas, mas alguns detalhes eram na cor marrom. Todas as janela eram enormes e, no geral, a clínica dava uma sensação boa, ele ainda não sabia definir o que era, mas achava muito agradável.
sempre detestou hospitais e clínicas por sentir-se preso, uma sensação quase claustrofóbica, mas a KBE-V era o oposto;
Conseguia ver muito além das quatro paredes e, talvez fosse esse o motivo das janelas tão grandes e das cores claras em todos os ambientes.
E, até o momento, as duas pessoas que encontrara pareciam felizes com seus trabalhos e muito simpáticas. Reparou que não era só com ele, por ser conhecido, mas aparentemente com todas os pacientes; A recepcionista tinha tratado muito bem o garotinho e o pai.
- Vocês devem ter reparado que temos muito mais do que oito portas aqui, não é? – Eileen acabou por tirá-lo de seus devaneios ao voltar a falar – Isso porque, além delas temos a sala de reuniões, a qual não podemos entrar agora pois o diretor está lá com outras pessoas, a sala particular dele e também uma sala de descanso para os funcionários e fisioterapeutas da clínica.
Ela abriu a última porta do lado esquerdo, e esperou que todos entrassem.
Era grande e arejada como todas as outras, com três grandes sofás pretos, um pequeno armário branco e uma mesa de granito preta, com garrafas térmicas em cima. Dois grandes vasos de flores nos cantos próximos às janelas, um frigobar mais ao lado, próximo à um bebedouro e uma televisão enorme presa à parede, na qual passava o jornal.
- Opa! – viraram-se ao ouvir uma nova voz. – Não sabia que tínhamos visitas!
- Desculpe a invasão doutor, só estou mostrando o local! – Linck desculpou-se, embora o recém chegado não parecesse aborrecido.
O homem tinha cabelos castanhos escuros um pouco compridos, nada exagerado. Segurava um copo de café e uma pasta de cor creme com o nome da clínica. A barba e o bigode mais pareciam um cavanhaque, e os olhos castanhos pareciam bem amistosos. O sorriso branco brincava nos lábios dele antes de virar-se para os outros.
- Boa tarde! – aproximou-se apertando a mão de cada um – Meu nome é Heinz Weiss! – na hora de cumprimentar os dois jogadores notou no mesmo segundo quem eles eram, mas ao invés de comentar sobre, apenas sorriu. – Sejam vem vindos e fiquem à vontade, estão com uma ótima guia!
O fisioterapeuta pediu licença e sentou-se no sofá tomando um gole de seu café e começando a ler o relatório que estava em suas mãos.
Ao saírem da sala Eileen continuou guiando-os pelo corredor, e então pararam em frente à um grande mural de metal em cor preta;
Bem grande estava escrito o nome da clínica e logo abaixo vários nomes e fotos.
- Como a senhora me perguntou sobre as divisões, creio que essa seja uma forma prática de lhes mostrar; Aqui temos o nome dos três fundadores da clínica – apontou para os primeiros nomes e fotos do painel. Os três senhores já eram idosos, mas sorriam confiantes nas imagens. – Aqui temos o diretor, Dr. Scheidmman – o homem de cabelos escuros e barba rala tinha um leve sorriso nos lábios e vestia um terno, assim como os três fundadores. – Estes dois são os sócios da clínica, são da família dos fundadores, mas só vêm até aqui para reuniões e para saber como está o andamento de tudo. Normalmente não temos contato com eles, embora algumas vezes eles gostem de acompanhar algumas sessões com pacientes. Agora, esses são os fisioterapeutas que temos aqui no momento;

Steven Rot
Fisioterapeuta.

- O doutor Rot é o primeiro responsável na maioria dos casos, embora no geral, ele trabalhe mais com crianças. Ele é o que chamamos internamente de recepcionista, ele explica grande parte dos tratamentos e ajuda nos primeiros meses após os traumas, dependendo do caso é claro. É ele quem vai ajudar o paciente a criar uma resistência maior para poder começar nas outras áreas. Dizemos que, na maioria ele trabalha com crianças, porque na maioria, os adultos que chegam na KBE-V não precisam tanto dessa sutileza que ele tem e compreendem o que precisam fazer mais rapidamente, mas isso também depende de como a pessoa está emocionalmente, algumas têm mais dificuldades para expressar-se após um trauma.

Aaron Krauβ | Heinz Weiss |
Fisioterapeuta e Psicólogo. | Fisioterapeuta e Psicólogo. | Fisioterapeuta e Psicóloga.


- Os doutores Weiss, que vocês já conheceram, o doutour Krauβ e a doutora são os responsáveis pela parte mais difícil da fisioterapia, principalmente porque quando trata-se de adultos, na maioria dos casos eles são o primeiro contato do paciente. São responsáveis por fazê-los adaptar-se aos poucos a suas novas condições, independente de serem temporárias ou definitivas. É por isso também que todos são formados em psicologia. É muito comum uma pessoa após passar por um trauma, além de não aceitar muito bem sua condição, começar a envolver-se com drogas ou álcool para tentar aliviar o estresse, e acaba por desenvolver um vício. Eles cuidam tanto da parte emocional quanto da física e, a parte mais pesada da fisioterapia é com eles. É bem repetitivo e cansativo, os três são bem exigentes com cada exercício, mas é necessário para que cada paciente desenvolva-se melhor.

Nadine Strauss | Verena Ducke
Fisioterapeuta. | Fisioterapeuta e Psicóloga.

- As doutoras Strauss e Ducke são responsáveis pela fisioterapia em grupo. É o terceiro estágio que temos na clínica, embora já seja trabalhado a aceitação, é normal alguns pacientes não quererem mais sair de casa ou encontrar com outras pessoas. Nessa fase é muito trabalhado o desenvolvimento pessoal, seria quase como uma reunião para todos conversarem, assim os pacientes entendem que não são os únicos passando por problemas e, algumas vezes, o que passam não é o mais grave. É uma área bem importante, pois além de interagir e contar um pouco dos próprios problemas e medos, a grande maioria acaba vendo cada situação de uma forma diferente e tenta ajudar de alguma forma, a si mesmo e aos outros. Ás vezes temos palestras de ex-pacientes que conseguiram recuperar os movimentos e outros que, embora o trauma seja irreversível, aceitaram sua condição e continuam vivendo da melhor forma possível. São palestras motivacionais bem importantes, que são abertas para todos na clínica, independente do estágio do paciente, e também são abertas para familiares e amigos.

Thomas Hoyer | Max Gerstner
Fisioterapeuta. | Fisioterapeuta.

- Por fim temos os doutores Hoyer e Gerstner que estão responsáveis pelo último estágio de recuperação. No segundo temos bastante desgaste físico, assim como no último. São as duas áreas que mais exigem dos pacientes e duas das mais importantes. A diferença é que na segunda, os fisioterapeutas responsáveis são os mais próximos possíveis de cada paciente, então eles entendem os limites de cada um e, embora sempre tentem atingi-lo, raramente tentam passar disso devido ao desgaste emocional e físico. Já nessa fase, por ser a última, já é esperado que os pacientes tenham desenvolvido uma força maior, o que significa estarem mais preparados para passar desse limite todo dia. O doutor Hoyer é o mais severo, e o que exige mais de cada paciente, normalmente demora algum tempo para cada paciente acostumar-se com ele, mas depois que isso acontece os pacientes entendem que o principal objetivo é fazer com que eles tenham disposição suficiente para avançar a cada passo. O doutor Max é bem exigente também, mas ele usa palavras mais sutis para incentivar cada um. – Eileen sorriu ao terminar seu discurso já gravado depois de tantas vezes que o citou. – Alguma pergunta?
- Como vocês escolhem quem vai trabalhar com cada paciente? Ou são todos juntos? – Amélie questionou interessada.
- Bem, isso depende um pouco dos horários de cada um, na primeira fase cada consulta têm em torno de uma hora e meia a duas, e são de duas a três vezes por semana, então o Dr. Rot é o que mais tem tempo livre, o que o faz ajudar em outras áreas quando necessário. – fez uma pequena pausa antes de continuar - A terceira também costuma ser bem tranquila, e cada sessão dura mais ou menos duas horas, duas vezes por semana. Mas a segunda e a quarta por serem mais físicas exigem mais tempo e dedicação tanto do paciente quanto do fisioterapeuta, costumam ter sessões de três a quatro horas por dia, de quatro a cinco vezes por semana. Então, basicamente cada um pode ter dois pacientes por vez. Mas isso também é relativo, temos muitos pacientes que confiam tanto em um só fisioterapeuta, estão tão bem adaptados com ele que acabam seguindo todo o tratamento com o mesmo. Todos os fisioterapeutas que trabalham no KBE-V sabem como funciona cada área e têm experiência, então quando necessário eles podem alterar suas funções sem nenhum problema. Oficialmente essas são as divisões e os fisioterapeutas responsáveis, mas não significa, obrigatoriamente, que não mudem conforme cada caso. – voltou a sorrir começando a guiá-los pelo corredor.
- E algum dos fisioterapeutas têm horário livre? – Hadrian perguntou interessado, não sabia se o filho tinha gostado do lugar, mas até aquele momento estava achando tudo incrivelmente bom. , porém não falava nada, mas prestava atenção na conversa.
- Olha, aí teríamos que dar uma conferida na recepção, Marielle têm todos os horários, eu só tenho da fisioterapeuta com quem trabalho! – desculpou-se antes de passar por uma porta de vidro aberta. - Com quem você trabalha? – perguntou curioso.
- Sou secretária da Dra. ! – deixou-os entrarem primeiro antes de segui-los. – Falando nisso, essa é minha sala.
O local era bem menor do que as outras salas que tinham visto.
Já na entrada era possível ver a mesa de madeira escura, a qual possuía um telefone, computador e impressora. O relógio redondo na parede informava que já eram 14h30 da tarde, fazia mais de uma hora que estavam na clínica. A parede, aliás, era de uma cor creme com alguns detalhes na pintura. Tinham três certificados junto a mesma, além de uma placa grande com as iniciais da clínica.
Ao lado da mesa, do lado direito duas janelas grandes, as quais estavam fechadas e uma persiana preta que estava aberta. Tinha também um sofá de dois lugares e uma poltrona preta.
E uma pequena mesa de centro, da mesma cor, com algumas revistas. Próximo à janela do lado esquerdo tinha uma porta de vidro, na qual uma placa presa estava escrito ”Dra. e logo abaixo “Fisioterapeuta e Psicóloga“. A outra porta, mais ao lado, tinha uma placa sinalizando que era o banheiro.
Eileen tirou uma chave do bolso e abriu à porta, deixando-os entrar primeiro.
- E esta é a sala da Dra. , todas as salas seguem o mesmo padrão, tendo o escritório e a área de fisioterapia juntas e, dependendo do fisioterapeuta, uma área para a sessão de psicologia.
Aquela sala era facilmente três ou quatro vezes maior que a sala da secretária.
Tinha várias janelas e as mesmas em sua maioria estavam abertas.
Era grande, iluminada e bem espaçosa, embora tivesse muitos objetos e móveis.
Uma mesa pequena de madeira com o usual computador e telefone, embora também tivesse alguns papéis, dois carimbos e um porta-canetas. Duas cadeiras de estofamento branco, assim como todos os outros detalhes da clínica. Três prateleiras logo atrás da mesa, nas quais tinham vários livros com diferentes títulos e alguns enfeites, como um porta livro da ponte de Londres e uma miniatura do Big Ben. Em três partes das paredes possuía uma grande parede de madeira escura, em uma delas, do lado direito da mesa, com uma televisão presa.
Do lado esquerdo, entretanto, alguns quadros com certificados e outros documentos que pareciam tão importantes quanto. Na sala também tinha um grande espelho fixado na parede de frente à alguns equipamentos de fisioterapia. Eileen tinha razão quando disse que os fisioterapeutas tinham seus próprios equipamentos.
Na sala tinha uma maca, bicicleta, uma mini cama elástica, bola, colchonete, um tipo de ferro que ele não fazia ideia da utilidade, corda, esteira e barras de ferro que abriam um caminho, quase como uma esteira e, para finalizar, no outro canto da sala, mais afastado, o que julgava ser para a parte de psicologia, um sofá mais largo e estofado, junto com uma poltrona, com um biombo para separação, embora o mesmo estivesse encostado na parede.
- Muito bem, se vocês me acompanharem agora, vou mostrar nossas instalações externas! – a mulher novamente esperou todos se retirarem para fechar a sala.

Após pegarem o elevador e descerem para o térreo, atravessaram a porta de vidro e passaram pela recepção. Seguiram por uma calçada pelos jardins grandes, verdes e floridos com duas grandes árvores e alguns bancos. Duas crianças, uma delas usando cadeira de rodas e a outra muletas, estavam junto com uma das doutoras, tomando sol e brincando com algum jogo.
- Aquela é a doutora Strauss, ela sempre fica alguns minutos no jardim com os pacientes antes de acabar o horário. – informou acenando para ela quando a fisioterapeuta olhou em direção aos visitantes.
- É sempre tão calmo? – Amélie perguntou, sentindo um vento leve em seu rosto.
- Geralmente sim, são quase três horas agora, então a maioria está na fisioterapia. Só temos um maior movimento quando os pacientes chegam ou vão embora, principalmente as crianças! – riu leve antes de abrir uma outra porta de vidro.
O prédio era muito menor que o principal e, ao entrarem, puderam reparar que só tinha uma grande piscina e alguns equipamentos de natação.
- Aquela é a doutora ! – apontou para uma mulher na água junto com um homem.
Ela usava um maio preto e tinha os cabelos presos e um tanto molhados. Eileen guiou-os até uma pequena arquibancada, deixando-os assistirem um pouco da fisioterapia para terem uma ideia de como seria, caso decidisse ficar na clínica.
O homem, na casa dos quarenta estava boiando com os braços envoltos em um macarrão de piscina azul, usava uma bermuda escura e uma regata branca. Não conseguiam ouvir o que os dois conversavam devido à distância, mas era visível que o homem, aos poucos, relaxava.
A doutora tinha um braço segurando entre a cabeça e as costas dele, garantindo que ele não se afogasse e, com o braço direito, ajudava-o com os movimentos das pernas.
- Ela parece um pouco nova, não é mesmo? – Hadrian comentou coçando a barba rala enquanto observava a cena.
- A maioria dos fisioterapeutas aqui não chegaram nem aos trinta... Dra. têm vinte e sete. – Eillen contou divertida – O diretor, os doutores Weiss e Hoyer e a Dra. Strauss são a exceção por aqui!
- Mas... Não me entenda mal, tenho certeza que todos têm suas qualificações, mas... – Hadrian pareceu sem jeito.
- O senhor acha que, por serem novos, talvez não tenham tanta experiência ou conhecimento? – Linck completou cordialmente. – Eu entendo, a maioria das pessoas que chega aqui pela primeira vez pensa o mesmo. Mas, eu posso garantir que todos os fisioterapeutas daqui são extremamente profissionais e hábeis o suficiente para estarem exercendo suas funções! Por a maioria ser mais nova, estão sempre muito bem dispostos e são muito atenciosos. Caso queiram, os senhores podem conversar com alguns dos pacientes que já estão por aqui.. – apontou para o homem na piscina – Sr. Miller é um que ficou bem preocupado quando entrou e acabou sendo atendido pela Dra., mas agora ele é um dos que mais elogia o trabalho dela. – Eileen sorriu olhando-os.
- Você não parece dizer isso só por trabalhar aqui... – Amélie comentou olhando diretamente nos olhos da secretária – Parece algo mais pessoal...
e olharam para a secretária quando ela deu um risinho sem graça, concordando com a cabeça em seguida.
- Antes de trabalhar aqui eu estava como paciente... – todos a olharam espantados quando ela fez essa pequena confissão – Eu fui uma das que duvidou muito da capacidade da Dra. , ela mal tinha começado na clínica quando a colocaram como minha fisioterapeuta. Eu queria alguém mais experiente do que ela, mas os outros já tinham os horários cheios... Agora eu acho que dei sorte! – sorriu perdida em lembranças – Acho que, justamente por eu ser a primeira paciente dela, ela foi muito atenciosa em cada detalhe, me acostumei muito rápido com o tratamento...
- O que aconteceu com você? – era a primeira vez que falava, desde que começaram a andar pelo local.
- Acidente de moto... Acabei batendo em outro carro e voei por cima dele com o impacto. Trauma na medula e vários arranhões como resultado. Poderia ter sido pior, imagino...
- E quanto tempo você precisou para voltar a andar?
- Pouco mais de um ano, sendo quase oito meses com a Dra. – sorriu leve para ele, imaginava como deveria estar se sentindo. - Sr. Miller, que agora vocês podem ver na piscina, teve um acidente muito pior, perdeu praticamente todos os movimentos do corpo. – suspirou pesarosa, assim como os demais ao olhar para o homem - Ele é inglês, assim como a doutora, sofreu um acidente alguns anos atrás e tratou-se na maior parte do tempo nos Estados Unidos, conforme passaram meses e ele não progrediu muito, procurou outra clínica, estava indo para a Inglaterra quando soube da KBE-V e resolveu tentar... Não gostou muito ao saber que seria paciente de alguém tão nova, é claro, mas... Bem, ele já recuperou setenta por cento dos movimentos. Eu ainda era paciente quando ele chegou... Ele passou pela terceira parte mesmo estando com a Dra., porque precisava de mais tempo para recuperar-se... Hoje é o último dia dele com ela e...
- Cheguei! – ouviram um grito vindo da entrada, com um homem andando apressado até a piscina, antes de deixar suas coisas próximas à borda e pular, dando um mergulho rápido e nadando até o local que os dois estavam na água.
- ... E agora ele vai ser paciente do Dr. Gerstner! – apontou rindo para a piscina.
O homem era loiro, tinha cabelos curtos e era alto, isso tinha sido o máximo que viram antes dele pular na água.

Após alguns minutos Eileen os guiou até a recepção do prédio principal, sorrindo ao se despedir de todos;
- Bem, foi um prazer conhecê-los, espero que tenham gostado da visita e da clínica! Será muito bom ver vocês de novo! – apertou a mão de cada um e então parou com as mãos atrás das costas – E, mesmo que decida por outro lugar para seu tratamento, te desejo muita sorte, !
- Obrigado...
- Gostamos muito da visita, muito obrigada pela atenção! – Amélie sorriu de volta, tinha simpatizado não só com a secretária mas como todos que encontrou no local. Ainda não tinha visto a outra clínica, mas achava que se seu filho escolhesse a KBE-V estaria em boas mãos. - Qualquer dúvida que tenha restado, por favor, não hesitem em nos perguntar ou nos ligar! – acenou com a mão antes de passar pela porta de vidro e seguir pelas escadas.
- Caso meu filho decida por ficar aqui, teria algum fisioterapeuta disponível? – Hadrian perguntou para Marielle que estava encarregada de passar-lhes alguns detalhes e valores.
- Só um minutinho... – parou de mexer nos papéis que estava separando para entregar-lhes e começou a olhar seu computador. Abriu um arquivo do excel com os nomes e horários de todos os fisioterapeutas e pacientes que estavam na clínica e pouco depois sorriu virando a tela do computador para que eles pudessem analisar.
- Esta é a lista de todos os nossos fisioterapeutas e os horários... Como podem ver o doutor Rot têm alguns livres e, como a Dra. está terminando com um paciente hoje, ela fica com um horário aberto e o doutor Gerstner fica com o dele completo... O doutor Krauβ também têm disponibilidade, mas apenas dois dias... Poderíamos colocá-lo com ele, caso seja o seu interesse ter fisioterapia dois dias por semana, .
- Bem... Antes de combinar um horário precisamos saber se ele vai ficar... Ainda temos uma visita na clínica de Berlin... – Hadrian lembrou pegando a pasta creme com os papéis que a recepcionista entregava.
- Certo, fiquem à vontade para ligar ou voltarem para conversar, caso estejam em dúvida! – a mulher levantou-se começando a acompanhá-los até a saída.
estava em silêncio e não parava de olhar para os lados enquanto andavam pela calçada, fato notado pelo amigo, mas antes que pudesse perguntar, o loiro parou sorrindo, olhando para algo mais atrás.
- É a doutora , não é? – perguntou para Marielle, que ao virar-se sorriu concordando com um aceno.
- Vocês gostariam de falar com ela antes de sair?

A recepcionista acenou para a doutora, andando até ela, trocaram algumas palavras e logo as duas voltaram para perto dos quatro. A mulher parecia ainda mais nova de perto, tinha cabelos em tom escuro de castanho, os quais estavam molhados e soltos. Ela agora usava uma calça jeans clara, tênis e uma camiseta preta. Usava também um jaleco branco com a logo da clínica e seu nome bordado em preto.
- Boa tarde! – estendeu a mão para cumprimentar os pais do jogador que estavam mais à frente, o sotaque era forte, e lembrou-se de Eileen dizendo que a fisioterapeuta era inglesa.
- Olá! – sorriu aproximando-se mais.
Ela pareceu confusa por um segundo, mas sorriu para ele momentos depois.
- O que você faz aqui? – perguntou após trocarem um beijo no rosto.
- Acompanhando o , você sabe... – deu de ombros e apontou o amigo. olhava a cena sem comentar ou expressar nada, mas estendeu a mão quando ela fez menção de cumprimentá-lo.
- Muito prazer, ! – sorriu tranquila.
- , esses são meus pais Hadrian e Amélie... – apontou para cada um.
Não sabia o motivo de parecer tão amigável com ela, sendo que estava em silêncio desde que tinha começado o tour, mas tinha algo que o fazia sentir-se mais calmo ao olhar a inglesa.
Sem contar, é claro, que ela era uma das fisioterapeutas do local, e ele queria ter uma opinião sobre seu caso.
- Eles vieram conhecer a clínica hoje, talvez venha mais vezes... – Marielle riu fraco dando uma leve indireta. arqueou a sobrancelha para ela com um leve sorriso, antes de tornar a falar.
- Bem... Caso isso aconteça, será um prazer ter você por aqui! De qualquer forma desejo-lhe boa sorte, vai precisar de bastante disposição e força de vontade para seguir com o tratamento.
- Quanto tempo você acha? – questionou interessado.
A mulher passou a língua pelos lábios antes de respondê-lo, as mãos nos bolsos do jaleco.
- Isso depende de cada um, não sei qual é seu estado e não vi seus exames para dar uma certeza... Mas mesmo que tivesse não poderia dar com precisão uma data, isso vai sempre depender da sua força de vontade e como vai prosseguir nessa situação inteira. Normalmente varia de pessoa para pessoa, algumas levam menos tempo para desenvolver uma resposta ao tratamento, porém não significa que não está tendo nenhum resultado, entende? – ela quase se desculpava com o olhar por não poder dar-lhe a resposta que ele queria. – É meio complicado de explicar sem saber quais foram os resultados do seu exame... Mas tenho certeza que independente do local que você escolha para fazer seu tratamento, se sairá bem no devido tempo. – sorriu para ele que concordou com um aceno, em meio de um suspiro cansado.
- Se eu trouxesse os resultados você poderia dar uma olhada? – questionou de novo, mordendo o lábio inferior.
A inglesa abriu a boca para responder, olhando para Marielle por um momento.
- Não sei exatamente se poderia fazer isso... – continuou olhando a colega, o cenho franzido, então tornou a olhar para o jogador – Imagino que só poderia dar uma opinião extra-oficial...
- Mas não poderia se responsabilizar por isso, qualquer coisa que você diga e, que venha a estar errada, poderia comprometer a clínica, já que trabalha aqui... – a morena comentou também pensando sobre o assunto.
concordou com a cabeça, olhando sem graça para o jogador.
- Você só poderia olhar se eu resolver ficar aqui?
- Imagino que independente de ficar aqui, ou em outra clínica, o fisioterapeuta responsável por seu caso irá analisar e dar as respostas que você precisa, ou pelo menos uma ideia do tempo de tratamento necessário... Em todo o caso, sinto muito por não poder ajudar mais.
- Tudo bem, eu entendo... – concordou com um meio sorriso nos lábios.
No fundo sabia desde o começo que isso não aconteceria.
Ela não iria analisar seus exames sem saber se ele ficaria na clínica em que ela trabalha, embora parecesse bem sem graça por não poder ajudar.
- De qualquer forma, agradecemos sua atenção, doutora! – Sra. sorriu para a mais nova.
Ela concordou com a cabeça, olhando o relógio de pulso em seguida antes de voltar a olhá-los;
- Se me derem licença, preciso terminar alguns documentos sobre meu último paciente. Foi um prazer conhecê-los! – estendeu a mão novamente, despedindo-se de todos.
- Hey, espera! – deu um passo pra frente antes que a mulher se afastasse. – Hm... O que acha de sairmos amanhã? – perguntou em voz baixa para os outros não ouvirem, embora o amigo parecesse prestar bastante atenção.
- Eu marquei com a , mas se não tiver problemas para você… Tenho certeza que ela não se incomodará com isso!

tinha acabado de deitar-se quando percebeu que não tinha sono algum.
Passou o resto da tarde olhando todos os papéis e panfletos, procurando notícias na internet sobre a KBE-V.
Também olhou o site da clínica em Berlin; gostava da cidade, mas pela comodidade preferia permanecer em Dortmund.
Sendo sincero consigo mesmo, tinha gostado do ambiente da clínica que visitou, e também achou as pessoas que viu simpáticas, para dizer o mínimo.
Ficou desconfiado com o fato da maioria dos fisioterapeutas serem muito novos, mas ao mesmo tempo sentia-se confortável com aquilo. Deviam ter todos mais ou menos sua idade, e o loiro que pulou na piscina, Dr. Ge-qualquer-coisa, parecia com alguém que ele poderia ter em seu círculo de amizades. A secretária ter dito que passou pelo tratamento e ver que ela estava andando como se nada tivesse acontecido, era um dos pontos positivos da visita à clínica.
Assim como o homem que estava na piscina e recuperava boa parte dos movimentos.
Também achou a inglesa interessante, e a maioria dos ingleses que conhecia eram sempre bem comprometidos com o trabalho, o que significaria que ela se dedicaria bastante ao tratamento.
De qualquer forma, achava que qualquer um que viesse a ser responsável por seu tratamento iria querer mostrar mais trabalho do que em outros casos comuns, ele era afinal das costas.
Reparou também em como sorriu e pareceu animado perto dela, e como o amigo mexia em seus cabelos sem parar, e como ria alto;
parecia a pessoa mais excêntrica e ridícula do mundo quando estava próximo à alguém de seu interesse. Era quase cômico.
E não precisou de muito tempo para entender que aquela deveria ser a mulher com quem ele tinha saído recentemente.

Virou-se brevemente pegando o controle de sua televisão, não ficou surpreso ao descobrir que ainda era notícia em 80% dos canais sobre esporte.
Será que não tinha nenhum amistoso para eles narrarem?
Nenhum jogador sendo fotografado com outra mulher?
Nenhuma modelo jurando ter trocado nudes com alguém casado?
Pegou seu celular em cima do bidê, abrindo o Twitter para ver se tinha algo interessante;
Milhões de mentions. Várias fotos marcando-o, assim como no Instagram, ele logo viu.
Resolveu olhar algumas das mensagens e fotos, arrependendo-se quase que imediatamente.
Tinham várias mensagens de apoio, era verdade.
Muitas mesmo.
De todos os lugares do mundo.
Em várias línguas, a maioria ele nem conhecia.
E tinham fotos, várias dele com a camisa do Borussia ou da Seleção, comemorando gols.
Rindo com amigos. Qualquer coisa com mensagens de ”Get well soon“.
Inclusive imagens de outros jogadores com ele desejando-lhe melhoras.
Mas tinham várias fotos e links para alguma matéria sobre seu acidente, fotos dele deixando o hospital. Gifs dele sendo retirado do carro pelo resgate.
Ele nem sabia que alguém tinha filmado o acidente.
Imagens dos dois carros batidos, o seu destruído.
E muitas, muitas mesmo, imagens e vários retweets de um tweet do Bild, com o link de uma matéria do jornal.

“O Trauma de – dos gramados para a cadeira de rodas!“
era o título da matéria. Uma foto dele deixando o hospital no dia anterior.
Recortes de mensagens de várias pessoas sobre o acidente.
Entrevista de especialistas dizendo que ele não se recuperaria, nem para a Copa, nem para voltar a jogar.
”Deverá deixar os gramados“
”Sem chances de voltar a jogar“
“Nunca mais será o mesmo“
“Sua carreira acabou“
“Pelo menos ganhou uma Champions“.

Jogou seu smartphone pela cama e respirou fundo.
A raiva subindo por seu corpo, seu coração parecia bombear mais rápido, distribuindo aquele sentimento para cada parte de seu ser.
A cada momento tinha mais certeza do que faria, e não se importava do que custaria.
voltaria para os gramados, mais rápido do que todos pensavam.

DEZ.

não ficou nem um pouco surpreso ao ver os flashes de câmeras apontados em sua direção quando saiu da área de desembarque do aeroporto de Berlin junto de seus pais e Rachel. Apenas abaixou a cabeça, afundando o boné que usava para cobrir o máximo possível seu rosto, enquanto faziam o caminho até o estacionamento, com a ajuda de alguns seguranças do local.
Demoraram alguns minutos para conseguirem passar pelos fotógrafos, jornalistas e curiosos que estavam no caminho, mas o jogador respirou aliviado assim que entrou no carro que os esperava.
Rachel sentou-se ao seu lado, segurando em sua mão e sorrindo para o namorado, que apenas sorriu leve como resposta, sem ânimo para dizer qualquer coisa.
Não demorou muito para chegarem no hotel que tinham reservado e deixarem suas coisas, recusou-se a descer para almoçar no restaurante, preferindo ficar sozinho em seu quarto e receber a comida ali mesmo; quanto menos pessoas o vissem daquele jeito, melhor.


Pouco depois das duas horas, o táxi estacionou na frente do Physiotherapie-Praxis Berlim, e o jogador desceu do carro junto com seus pais e namorada, entrando no grande terreno da clínica. Diferente da KBE-V, o local não tinha uma área verde tão grande, mas tinham quatro prédios grandes, bem parecidos com os prédios governamentais.
Foram atendidos por um dos recepcionistas, e logo a diretora da clínica apareceu para acompanhá-los durante a visita, explicando detalhes sobre os tratamentos e o funcionamento geral do local.
Como já tinha sido dito pelo Dr. Schümmer, embora fosse uma das referências não só na Europa, mas uma das melhores do mundo, a PPB não era voltada apenas para o tipo de trauma que tinha sofrido, e sim em todos os tipos de fisioterapia, fossem por acidentes graves ou pequenos.
Não achava que seria tratado de qualquer jeito, tinha certeza que seria muito bem atendido, mas, até aquele momento não tinha se interessado pelo local em Berlim, primeiro porque o número de funcionários e pacientes era muito maior, o que significava que teria que lidar com várias pessoas no local todos os dias, e, também sabia, após pesquisar na internet, que a clínica também tinha uma política nem tão reservada sobre o tratamento dos pacientes; Alguns atletas e outros famosos já tinham sido tratados naquele lugar, por lesões menores, e sempre tinham algum vídeo ou entrevista exposto na web.
O que mais precisava naquele momento era de privacidade, a simples ideia de ter seu tratamento relatado para o mundo o incomodava tanto quanto receber os olhares de pena das pessoas.
Outro contra sobre a PPB era o fato de ser em Berlim, gostava da cidade, mas não queria passar meses longe de Dortmund, e seus pais já tinham avisado que estariam ao seu lado durante todo o tempo, não poderia pedir para os dois além de largarem suas vidas em Stuttgart, mudarem para o outro lado do país e, assim, ficarem ainda mais longe do restante da família; sabia o quanto eles eram apegados aos netos, por mais que de Dortmund eles não fossem ver as crianças todas os dias, ainda seriam apenas algumas horas de carro ou trem até a cidade, o que os possibilitava de visitá-los toda semana se quisessem.
Embora continuasse prestando atenção em tudo o que falavam durante a visita, no fundo já tinha feito sua decisão.


olhou o GPS do carro, logo virando a esquina para a Kleppingstraße e, poucas quadras depois, avistou o letreiro vermelho com um desenho de cacto do Sausalitos.
Estacionou em uma vaga do outro lado da rua, antes de seguir em direção ao restaurante e bar mexicano. Assim que passou pela porta não demorou para encontrar sentada em uma mesa mais afastada, acompanhada de outra mulher.
- Eu não acredito que vocês estão bebendo sem mim!
abriu um sorriso fácil ao olhar para o jogador, deixando sua cerveja na mesa e levantando-se para cumprimentá-lo com um abraço.
- Querido, você está atrasado! - respondeu rindo, antes de virar-se para apresentá-lo para a outra mulher - Kuster, . - apontou de um para outro, não demorando para ver os dois darem um rápido beijo no rosto, antes do alemão sentar-se ao lado da fisioterapeuta, retirando os óculos escuros.
- O que estamos bebendo? - perguntou ao olhar a long neck das duas, com a imagem de caveira mexicana no rótulo.
- A especialidade da casa; Tequila Beer! - respondeu, erguendo sua cerveja, antes de dar um gole.
logo acenou para um garçom, pedindo o mesmo, aproveitando para dar uma olhada ao redor; O lugar não estava lotado, embora tivesse várias mesas ocupadas. Parecia muito maior por dentro do que era por fora, pois não estava esperando muita coisa quando viu a fachada do bar. O teto dava a impressão de obra não acabada, com o cinza do cimento ainda visível, mas, com as pequenas luzes vermelhas acesas ao redor, mal se percebia. As paredes eram de um tom vermelho escuro, o que deixava parecendo que já era tarde da noite por ali, embora não fosse nem duas da tarde. O bar, mais ao canto, estava movimentado, os barman e garçons trabalhavam bastante para atender os clientes, fazendo drinks ou shots para os que estavam sentados nas banquetas ao redor, e o cheiro de comida apimentada pareceu despertar seu apetite.
Assim que o garçom voltou com sua bebida, o trio aproveitou para pedir tortilla, nachos e burritos, antes de puxarem um assunto qualquer para conversarem.
e se entenderam logo de cara, tendo um senso de humor parecido e várias coisas em comum.
Após várias cervejas e muita conversa, o celular de começou a tocar em cima da mesa, e só o que os dois conseguiram ver antes dela puxar o aparelho, parecendo sem graça quando saiu para atender, foi o nome “Peter” no visor.
demorou alguns segundos para ligar o nome à pessoa, e ficou surpresa com aquilo, principalmente pela amiga não contar que continuava falando com o homem.
saiu para ir ao banheiro, não demorando muito para voltar à mesa, e quando o fez já estava ali, conversando com a inglesa.
- Eu sei… É só… Ah, eu meio que gosto dele, sabe?
- De quem? - perguntou interessado, dando um sorriso de lado - Do cara que ligou agora?
Kuster rolou os olhos, dando de ombros, antes de concordar com um aceno.
- Qual o problema? - o tornou a perguntar ao ver que a outra parecia desconfortável.
- Peter é o cara que estava com no dia do acidente. - lembrou, concordou com um aceno, sem saber o que dizer. - Amiga, se você quer sair com ele, ninguém tem nada com isso, é uma escolha de vocês dois.
- Eu sei, só que… Parece estranho, sabe? Ele é legal, as primeiras vezes que conversamos após o acidente ficava aquele clima chato, agora parece que está voltando ao normal, sabe? E, não chegou a ser cem por cento culpa dele, não é? Não foi como se a gente tivesse planejado tudo aquilo…O que você acha? - perguntou para , querendo mais uma opinião para a situação toda.
demorou alguns segundos para responder, antes de dar de ombros;
- É como a falou, se você gosta dele ninguém tem nada com isso, mas você sabe que ele ainda será processado, não é? estava vendo para conversar com o advogado sobre isso, acho que assim que iniciar o tratamento ele já vai dar continuidade…
- A gente conversou sobre isso - Kuster suspirou -, ele já estava esperando, sabe? E já disse que não acha errado, no lugar do faria o mesmo, mas… Bem… - deu de ombros, sem saber o que dizer.
- Ele vai pedir o pagamento do tratamento? - perguntou para , curiosa.
- Acredito que sim, mas não tenho certeza. - comentou pensativo, antes de tomar mais um gole de sua cerveja - Ele sabe que não precisa do dinheiro, mas é meio que uma forma de ter alguma “vingança”, entende? Porque ele foi o único que se machucou com tudo isso.
- Faz sentido, sinceramente eu faria o mesmo. - concordou, passando a mão pelos cabelos em seguida. - Vocês acham que seria muito estranho eu sair com ele de novo?
- , você não deve nada a ninguém. O problema é de vocês dois e apenas de vocês.
- Sem contar, que se seu medo for por saberem que estavam envolvidos, eu acho que o nome dele não foi divulgado, não é? Quase ninguém sabe a identidade de vocês dois, e não é como se o fosse dar uma entrevista falando “Olha o nome deles é Peter e , olha a foto deles aqui”. Ele está com raiva de vocês, mas não vai fazer nada além do processo. - explicou, franzido o cenho por um instante - O cara vai ter condições de pagar o tratamento?
- Não sei direito, sei que ele ganha bem, mas deve depender dos custos… - comeu um último nacho, antes de olhar para os dois - contou que esteve na KBE-V…?
- Sim, parece que gostou bastante, mas foi visitar a clínica de Berlim hoje, não sei o que ele vai decidir. Imagino que ele prefira ficar por aqui, mas tem a Rachel também, ela passa bastante tempo lá, não me surpreenderia se ele escolhesse Berlim por causa dela…
- Você também sentiu o ressentimento na voz dele? - brincou, olhando para a amiga.
- Não é bem assim, - defendeu-se rindo - a gente não se dá muito bem, mas não é como se nos odiássemos, eu só tenho a impressão que ela quer ganhar fama nas costas dele, entende? Mas garante que não é nada disso, então… - deu de ombros - Pra mim ele só gosta do sexo com ela, mas quem sou eu para julgar.
As duas mulheres riram, negando com a cabeça.
- Ei, isso me lembra… Se ele escolher a KBE-V, você será a fisioterapeuta dele?
bebericou sua cerveja antes de concordar com um aceno;
- Acho bem provável, mas não depende de mim, então não sei. Inclusive acho que seria bem estranho se eu for a responsável…
- Por que? - os dois perguntaram juntos.
- Primeiro, porque minha melhor amiga estava no carro que causou o acidente. Segundo, porque eu conheço você, - apontou para - e terceiro, eu não estou assim tão animada em ser cobrada duas vezes mais pelo trabalho; Se o resultado do tratamento demorar a aparecer, não será o único me questionando.
- Acha que pode dar algum problema pra você? - questionou surpresa.
- Eu acho que pode dar problema para a clínica toda. Mesmo que todo mundo tente deixar o mais privado possível, é óbvio que várias pessoas vão ficar prestando atenção no que acontece com ele; se sair satisfeito, então teremos um “marketing” gratuito e positivo, se ele não gostar do tratamento, vai ter muita gente falando negativamente da KBE-V.
- Mas você acha que ele pode voltar a andar, não é? - questionou em seguida, curvando-se para frente.
- É como eu disse para ele, não tenho como falar sem ter visto os exames. Pode ser que sim, pode ser que não. Pode ser que em dois meses ele já esteja bem, pode ser que em dois anos não tenha nenhum resultado significativo. - suspirou. - Independente de qualquer coisa, acho que o maior problema vai ser ele lidar com a atenção que vai receber o tempo todo.
- já está louco com tudo isso, - comentou chateado - mesmo dentro de casa, até comigo ele está diferente.
- Dá para entender o lado dele, , a maioria das pessoas acaba passando por isso, agora imagina um cara que está sempre na televisão, conhecido na Europa inteira? Ele vai precisar muito do seu apoio.


esperava alguém, seu pai ou mãe, aparecerem para ajudá-lo a descer às poucas escadas que separavam o corredor dos quartos do resto da casa, cerca de quatro degraus.
Suspirou impaciente, a cabeça encostada na parede fria, enquanto batucava os dedos da mão esquerda no joelho. Nunca imaginou que esses pequenos degraus fossem um problema tão grande.
Nem mesmo quando seus sobrinhos eram bebês e suas irmãs o visitavam. Mesmo que um deles tenha se aventurado a subir sozinho quando tinha menos de dois anos, e rolado do terceiro degrau; muito choro e um pequeno galo na cabeça - além de um sermão de vinte minutos de Monika, sua irmã mais velha, o culpando por ser irresponsável e não ter prestado atenção do garotinho.
tinha ficado sozinho com três crianças pequenas!
Como podia ser responsável por cuidar dos trigêmeos?
No fundo agradecia de Nika não ter mais confiado em deixar os filhos com ele antes deles completarem cinco anos. Não que eles tenham se acalmado, mas era muito mais fácil prestar atenção em Olla, Enno e Lou agora que eles entendiam o significado de video-game e doces.
O mesmo servia para Luke e Mathilda, os gêmeos de três anos de Paloma.
Ao lembrar-se disso, imaginou o quão grande era a probabilidade de quando, e se, ele e Rachel cassassem, ser pai de gêmeos, ou trigêmeos, ou seja lá o número que fosse.
Só Deus sabia o quão não preparado para cuidar de crianças ele era. Ele até gostava e tentava, mas era uma missão impossível, digna de Tom Cruise. não serviria para ser pai, mas não deveria ser um problema, porque Rachel também não estava querendo ser mãe e “estragar seu corpo”, pelo menos nos próximos anos.
Entre um pensamento aleatório e outro, escutou passos vindo em direção ao corredor, vendo sua mãe poucos segundos depois.
- Filho, você podia ter chamado!
O jogador deu de ombros, vendo a mulher aproximar-se, parando atrás do mais novo e inclinando para trás a cadeira, de forma a levantar alguns centímetros a parte da frente da mesma.
segurou com força nos apoios de braço, prendendo a respiração involuntariamente, enquanto a mãe o descia pela pequena escada.
- Vou chamar alguém para vir arrumar isso, não faz sentido ter essas escadas por enquanto. – Amélie comentou, apenas concordou com a cabeça, sem responder nada. Já tinha pensado que teria que modificar algumas coisas, embora esperasse que não fosse por muito tempo. – Também estou colocando a maioria das coisas da cozinha nos armários de baixo. E estou procurando uma empregada para tempo integral, você não pode continuar só com diarista, . Na verdade, falei com o Dr. Schümmer e ele também concorda que seria bom você ter uma enfermeira, pelo menos por algumas semanas, enquanto você está se adaptando... – continuou antes de entrar no corredor em direção ao banheiro.
suspirou enquanto empurrava a cadeira até a cozinha, na qual seu pai preparava o jantar. Parou ao lado da mesa, apoiando o braço e baixando a cabeça, cansado.
- Qual o problema? Achei que estaria animado agora que só faltam alguns detalhes para iniciar seu tratamento... – Hadrian sorriu para o caçula, enquanto terminava de picar os tomates para fazer o molho.
O jogador deu de ombros, um tanto aborrecido, apoiando a cabeça na mão e encarando o pai.
- Não gosto de ficar dependendo de todos para tudo. Não consigo descer as escadas, mal consigo ir ao banheiro sozinho, nem sair da cama eu consegui sem cair...
Comentou frustrado, após ter tentado levantar-se durante a madrugada para usar o banheiro, e caído de cara no chão.
Sr. concordou com a cabeça, olhando brevemente para o outro, antes de virar-se para o fogão e colocar o tomate e o resto dos ingredientes na panela.
- Vai ter que se acostumar aos poucos, ... Vai ser assim por um tempo, Dr. Schummër disse que após alguns dias de fisioterapia você conseguirá fazer mais coisas sozinho, é só uma questão de costume...
Ele fez um barulho com a boca, olhando para o teto branco, um suspiro escapando por seus lábios.
- Não quero precisar de alguém toda vez que tenho que levantar. Não quero ficar dependendo de alguém para fazer coisas normais...
Hadrian continuou mexendo o molho, porém virou-se lateralmente para encarar o filho.
- , nesse momento você precisa esquecer esse orgulho. Até você estar preparado e adaptado, você vai precisar de ajuda. Você vai precisar pedir ajuda.
O atacante concordou com a cabeça em meio a um grande suspiro.
Não queria dar uma resposta e soar arrogante, mas ele era extremamente orgulhoso e todo mundo sabia disso.
Detestava depender da ajuda de alguém para qualquer coisa. Gostava de fazer as coisas por conta própria, sem precisar de ninguém.
Aquela situação parecia ficar pior a cada momento;
Não podia movimentar as pernas, não podia jogar bola. Precisava de ajuda para tudo, não conseguia fazer mais nada sozinho.
Aquilo tudo era um pesadelo.


A campainha tocou quase trinta minutos depois, quando os três já estavam sentados à mesa, servindo-se do jantar preparado pelo mais velho.
tinha acabado de desligar o Skype, no qual falava com Nika e os trigêmeos, quando escutaram o barulho na porta. Amélie se levantou ainda rindo dos netos, que tinham passado os últimos minutos com cuecas na cabeça, em um novo método de fazer a mãe enlouquecer, enquanto o marido estava viajando à trabalho.
- ! – sorriu para o jogador que a cumprimentou animado.
Ambos voltaram para a cozinha conversando e Hadrian e apenas levantaram a cabeça, cumprimentando-o educada.
- Achei que você já tivesse a chave da casa... – Sr. comentou brincando, enquanto deu de ombros, concordando.
- Na verdade eu tenho, e ele tem da minha, mas sou educado e não quero que pensem que eu invado a casa do garotão aqui! – sorriu sentando-se à mesa junto da família, escutando-os rirem de seu comentário.
- Quer jantar, querido?
- Não, obrigado! Comi a tarde toda... Imagino que Klopp não ficará feliz amanhã... - suspirou com falso pesar.
- O que você estava fazendo? – perguntou interessado, querendo se distrair com qualquer coisa e tirar os pensamentos de sua situação atual.
- Estava em um restaurante mexicano com algumas amigas, - sorriu – uma delas é a Dra. !
arqueou a sobrancelha, curioso.
- Ah, é verdade, você já a conhecia! Como ela é, ? – questionou Amélie, interessada.
- Bem, não somos melhores amigos, sabe? Faz pouco tempo que nos conhecemos... – coçou o queixo constrangido – Mas ela é bem... Inglesa! – riu leve – Educada, mas bem simpática... E parece bem profissional, o garotinho que eu encontrei quando fomos à clínica, ele adora a , parece meio desesperado para começar a fisioterapia com ela... E é bem engraçada também, bom, de um jeito bem inglês, é claro... Às vezes não entendo o que ela fala por causa do sotaque e porque ela fala rápido, mas é bem okay. – sorriu.
- Ela parece uma boa pessoa, - a mulher comentou docemente - acho que você ficará bem se ela for sua fisioterapeuta, filho...
virou-se para o melhor amigo;
- Você vai ficar na KBE-V mesmo?
Ele concordou tomando um gole de suco, respondendo com calma;
- Gostei da clínica em Berlim, mas eles trabalham com muitas coisas por lá... Aqui parece ser voltado apenas para recuperação física... E o pessoal parece bom... Sem contar que fica perto de casa, então depois que eu estiver mexendo as pernas é mais prático para ir aos treinos do Borussia... – comentou olhando para seu prato de comida – E posso assistir os jogos do estádio também!
Sorriu brevemente para o amigo, que deu um sorriso enorme como resposta.
- Gott sei Dank¹! Já estava imaginando ter que pegar um avião para Berlin o tempo todo!
- Desde que você não se importe da sua namorada talvez ser minha fisioterapeuta...- brincou sacana, vendo os pais olharem para os dois, com o cenho franzido – A é a mulher com quem estava saindo quando eu estava no hospital...
abriu e fechou a boca duas vezes, antes de dar de ombros;
- Não estava “saindo”, e a gente não está namorando, ela nem quis me beijar ainda! – bufou chateado, ouvindo a risada dos três.
- Não vai ficar estranho entre vocês se ela for a responsável por seu tratamento, ? – Hadrian perguntou segundos depois.
- Se ela não começar a reclamar do pra mim, tudo certo.
- Reclamar? – o questionou ofendido – Você quer dizer: pedir conselhos para me conquistar, não é mesmo? Falando em namoradas, cadê a futura senhora ?
o olhou entediado, respondendo enquanto terminava de mastigar seu espaguete;
- Está resolvendo algumas coisas em Berlim e volta amanhã à tarde para ficar aqui por algumas semanas, antes de viajar à trabalho.
- Eu sinto que eu não deveria perguntar isso, ainda mais na frente dos seus pais, mas... – suspirou, pensando por dois segundos antes de soltar – Como é que vocês estão? Achei que ela passaria mais tempo com você e...
- Ela tem que trabalhar, – o amigo cortou, já sabendo ao que ele se referia -, não posso pedir pra largar tudo e ficar ao meu lado. Estamos na mesma rotina de sempre, ou quase isso. – apontou para as pernas, voltando a comer em seguida.
- Não quis ofender, - começou, o tom de voz tranquilo – só achei que ela tentaria ficar mais em Dortmund...
- Longe de mim querer me meter, - Amélie atraiu a atenção dos homens – mas talvez eu concorde um pouco com , ela mal ficou dois dias no hospital!
- Mãe, eu estava em coma, não faria diferença se Angela Merkel estivesse ao meu lado naquele quarto. E Rachel estava trabalhando, não é como se ela estivesse em casa o tempo todo e não quisesse me ver. – Respondeu um tanto irritado – Não foi você mesma quem me disse que ela ligava e mandava mensagem o tempo todo para saber de mim?
- Sim, mas...
- Pois bem, a gente continua ótimo, quando Rachel não estiver ocupada vai ficar aqui, como sempre aconteceu, e se ela estiver trabalhando, vamos ficar alguns dias sem nos ver. Desde o começo a gente deixou claro que nem ela e nem eu abandonaria o trabalho para ficar com o outro, se era assim antes, não teria porque mudar agora. Fim.
- Tudo bem, não está mais aqui quem falou de Rachel Völkers! – ergueu as mãos, desculpando-se com um sorriso leve – Mudando de assunto, o que temos para sobremesa?

e estavam sentados no sofá espaçoso do apartamento do mais velho, assistiam a nova versão do Homem Aranha quando o atacante pigarreou chamando a atenção do amigo.
- Falei com o Féher hoje, ele foi me buscar no aeroporto...
concordou com a cabeça, aguardando terminar, ainda prestando atenção no filme.
rolou os olhos entediado, era sempre a mesma coisa com ;
Ele nunca prestava atenção no que lhe era dito e depois ficava perguntando mil vezes a mesma coisa. Era algo irritante, mas ao mesmo tempo era bom tê-lo para desabafar ou apenas para contar bobagens.
- Ele quer que eu faça uma coletiva até quarta-feira... Disse que seria bom dar uma resposta logo, já que tem tanta gente discutindo sobre o assunto...
- Legal...
O jogador olhou para o amigo, levantando a mão e lhe acertando um tapa na cabeça. - Porra, eu aqui falando que tenho que estar na frente de mil repórteres babacas e você prestando atenção no Andrew Garfield? Sério, cara?
- Fick dich ins Knie!² - praguejou passando a mão no local atingido, olhando-o torto. – Não sei qual a dificuldade, quantos milhões de coletivas você já deu? Setenta por cento das vezes empurramos você depois do jogo para falar com a imprensa... – deu de ombros sem importar-se, bufou.
- Era diferente, não é? Eu jogava, eu falava do time, do jogo, de faltas... Não ficava sentado esperando várias perguntas direcionadas à minha vida pessoal! olhou-o por poucos segundos, dando de ombros e voltando a prestar atenção na televisão.
- Não sei se te contaram, , mas hoje em dia existe uma coisa chamada internet. Féher não falou nada sobre precisar ser uma entrevista com jornalistas, falou?
viu o amigo espreguiçar-se, após subirem os créditos do filme, enquanto calçava os tênis que havia tirado mais cedo. O bocejou olhando para o amigo e sorrindo;
- O que foi? Quer uma foto, meu amor? – perguntou rindo ao reparar no quanto o outro o encarava. sorriu mostrando o dedo do meio.
- Você é muito magrelo, queridinho... Eu quero ter o que pegar! – piscou dando um sorriso safado. abriu a boca indignado, levantando-se de imediato e virando-se de costas, inclinou a bunda e apontou para a mesma, olhando por cima do ombro para o amigo.
- Você está vendo isso aqui? Tem ideia de quantas matariam para pegar nessa bunda maravilhosa que eu tenho?
gargalhou, inclinando a cabeça para trás e colocando a mão no rosto, segurando mais alguns risos altos.
Por um momento esqueceu-se dos problemas.
Sentiu-se leve e tranquilo, como sempre.
Esse era mais um dos pontos que apreciava no outro, sempre o fazia rir de algo, sempre conseguia fazer com que esquecesse do peso do mundo, mesmo que momentaneamente.
- Você tem razão, como pude esquecer? – riu inclinando-se para dar um tapa na bunda do , visto que ele ainda estava inclinado esperando por uma resposta. – Uma maravilha, ein?
riu concordando, antes de voltar a sentar-se no sofá, terminando de colocar o tênis.
- Você é um ingrato mesmo, me ofendendo... Saiba que eu posso pegar quem eu quiser naquele time como melhor amigo, mas eu escolhi você. Seu ridículo! – falou colocando a mão no peito, falsamente ofendido.
riu, inclinando-se o suficiente para colocar a mão no ombro dele;
- Não seja assim, eu podia ser shippado com qualquer outro, mas foi com você que eu postei fotos e mensagens no twitter, isso é amor! – ele piscou divertido, concordou rindo.
- Devíamos tirar uma foto e postar, AGORA! Pra demonstrar o quanto você me ama! E vários emoticons de coração! “Mein Gott, o que seria de mim sem meu amor maior, minha alma gêmea, ? Coração, coração”. – disse movendo as mãos no ar, como se estivesse visualizando a manchete da própria frase.
negou com um sorriso leve.
- Talvez depois... Agora me conta uma coisa, - ele passou a língua pelos lábios, sentando-se mais ereto e colocando as mãos sobre a coxa. – Como você conhece a fisioterapeuta do KBE-V?
sorriu passando a mão pela nunca, um tanto desconfortável com a pergunta. Não queria citar a forma como conheceu a inglesa, pois achava que talvez desistisse de ficar na clínica de Dortmund quando soubesse que uma das fisioterapeutas era amiga da garota que estava no carro que causou o acidente, na primeira vez que foi contar sobre , apenas falou que ela também estava no hospital visitando uma amiga.
sabia que para aquilo não influenciaria em nada seu trabalho, ela tinha deixado aquilo bem claro mais cedo, e não parecia se incomodar nem um pouco, inclusive desejava que melhorasse logo. Infelizmente não sabia como seu amigo reagiria se soubesse de toda a verdade, o atacante estava com raiva demais para raciocinar de forma coerente.
- Eu já te contei, não foi? – começou, tornando a olhar para a televisão – Ela estava no hospital esperando uma amiga que estava internada... Conversamos por algum tempo na sua primeira noite lá, e depois nos encontramos por mais alguns dias e trocamos telefone...
fez um barulho com a boca, achava que estava muito nervoso para uma história tão simples, mas preferiu não fazer comentários, talvez ele estivesse inseguro por alguma razão. Especialmente por saber que ele iria estar no local de trabalho da mulher, talvez achasse que podia tentar sacaneá-lo e contar alguma história engraçada ou vergonhosa sobre ele.
- Não sei, - coçou a barba distraído – ela parece legal. Deve ser uma boa fisioterapeuta, não é?
rolou os olhos, embora ainda mantivesse o sorriso.
- Claro, claro. Mas, bem, quero dizer, fisicamente, ela é bonita, não é?
riu fraco, pensando na mulher que tinha visto por poucos minutos no dia anterior.
Os cabelos molhados e soltos, o sorriso tranquilo e simpático. Os olhos castanhos bonitos e brilhantes... Não reparou tanto nas qualidades físicas dela no momento, mas pensando bem agora, sim, era bonita, e tinha um sotaque legal.
- Ela é gata, ! Vai com fé!
sorriu, mas logo fez uma careta de desagrado.
- Eu bem que queria... – suspirou pesaroso, passando a mão pelos cabelos.
arqueou a sobrancelha, um sorriso maroto nos lábios.
- Não me diga que ela prefere morenos com cortes de cabelo normal? – gargalhou quando o outro mostrou o dedo do meio, xingando baixinho.
- Sou irresistível, ok? Meus cabelos e minhas tatuagens são um charme a mais! – deu língua, antes de olhar para o amigo, fazendo um bico nem tão fingido – Eu não sei direito o que fazer, já conversamos bastante, sabe? Mas ao mesmo tempo eu não sei tantas coisas sobre ela... Ela é meio reservada...
- Você não estava com ela hoje? – questionou confuso.
- Sim, junto com mais uma amiga dela, inclusive eu já sei muita coisa sobre a amiga, mas quase nada sobre ela... Quer dizer, só o básico, entende?
- Chama ela para sair, só vocês dois. – sugeriu – Mas chama à noite, para um jantar ou algo do tipo, se você continuar saindo com ela durante o dia, vai passar a impressão que só quer amizade.
- É uma boa ideia... – comentou pensativo, e então abriu um sorriso – Se der certo já podemos fazer aqueles encontros de casais, não é? Eu e , você e Rachel!
gargalhou, concordando com a cabeça.
- Primeiro você tem que beijá-la, .

acordou sentindo-se estranho no dia seguinte.
Estava extremamente sonolento quando o alarme do seu celular começou a tocar, e, no momento que o alcançou do lado da cama, para desligá-lo, sentiu uma pontada no peito quando viu o lembrete que aparecia na tela junto ao horário.

10:00
Volta aos treinos!!

Respirou fundo tentando não pensar que era isso que deveria estar fazendo; Acordando depois de um merecido descanso para voltar a sua rotina de jogador.
Deveria ter tido suas semanas de férias, após uma temporada maravilhosa no Borussia Dortmund. teria viajado bastante, passado bons dias ao lado da namorada em alguma praia, provavelmente Ibiza, o que também renderia um bronzeado para o próximo mês ou algo do tipo.
acordaria com preguiça, mas ao mesmo tempo animado para reencontrar todo o time.
Ele dirigiria até o Dortmund Brackel, escutaria o discurso de uma hora e meia de Klopp sobre a necessidade de dedicação de cada jogador para a nova temporada.
Conheceria os novos jogadores e iria, aos poucos, acostumando-se com a ausência de outros, entre eles Mario Götze que agora estava no Bayern München.
Tinha sido assim na última temporada, e nos últimos dez anos vestindo aquela camisa.
Contudo, não seria assim naquela manhã.
tinha trocado, o campo pela clínica, e a bola pela cadeira de rodas.
Sentou-se em sua cama com esforço, puxando as cobertas para o lado e inclinando-se para frente, aos poucos, puxou a cadeira de rodas para mais perto de si, tomando cuidado para não se desequilibrar e cair como no dia anterior.
Queria levar o menor tempo possível para fazer aquilo, era uma pequena forma de se sentir mais independente, mesmo que parecesse significar o mesmo que nada.
Mal tinha começado e já se sentia cansado com todo o esforço, nunca tinha imaginado o quão pesado era, e o quão complexo parecia aquele simples movimento.
Com dificuldade e mais devagar do que gostaria, puxou as pernas para a lateral da cama, sentando-se mais ao canto. Passou a língua pelos lábios secos, continuando o processo o mais rápido que conseguia, porém, quanto mais tentava acelerar o movimento, mais sentia que seu corpo não correspondia.
Suas mãos começaram a tremer com o esforço e, quando conseguiu sentar e os pés tocaram o chão, mesmo que não pudesse sentir o piso gelado, não conseguia forçar o suficiente para erguer o tronco e sentar-se a cadeira;
Já tinha aprendido que não era uma boa ideia tentar jogar-se contra a cadeira, tinha passado horas caído no chão na madrugada anterior, até alguém encontrá-lo, e não queria repetir a experiência.
Respirou fundo várias vezes, tentando acalmar-se, esperou as batidas de seu coração normalizarem e as forças voltarem para seus braços. Sempre achou que era mais forte do que aquilo, para que tinha passado tanto tempo em uma academia se agora nem conseguia levantar o próprio corpo?
Entretanto, quando voltou a se mexer, seu pai passou pela porta com um sorriso animado nos lábios;
- Olha só pra você, acordou cedo! – Aproximou-se lentamente – Precisa de ajuda? – Perguntou incerto.
Ficava feliz ao ver o filho tentando movimentar-se sozinho, embora sentisse um aperto no peito sempre que não conseguia fazer o que queria, e acabava com uma expressão de derrota na face.
já tinha virado um homem, sua barba e seus vinte e sete anos mostravam isso.
Era independente financeiramente desde os vinte e dois, nunca deu muita dor de cabeça aos pais, parte disso porque passou bons anos em Dortmund, longe dos olhos atentos de Amélie e Hadrian.
O caçula sempre foi motivo de orgulho para a família, era um excelente jogador e uma pessoa maravilhosa.
Gostava de ajudar os amigos e os parentes.
Divertia-se muito, mas sabia de suas responsabilidades.
cresceu sendo um homem melhor do que Hadrian esperava, mas vê-lo naquela situação era complicado; Sabia que o filho queria jogar a Copa do Mundo, ganhar todos os títulos possíveis com o Borussia Dortmund, e sabia o quanto ele apreciava sua independência.
Podia fazer o que quisesse, quando quisesse.
Mas agora, por mais que ele visse o filho tentando ao máximo conseguir fazer coisas simples, sempre que via aquele olhar desapontado, sentia como se seu coração despedaçasse.
Sentia-se incapaz por não poder ajudá-lo, como sempre tinha feito.
- Acho que consigo me virar… - respondeu voltando a se concentrar nos movimentos lentos que fazia.
Por fim, conseguiu erguer-se poucos centímetros, puxando a cadeira com a mão direita e, praticamente jogando-se sobre a mesma, quando sentiu o braço esquerdo fraquejar de novo.
Acabou sentando muito na ponta, todo desajeitado, mas aos poucos conseguiu movimentar-se o suficiente para sentar-se corretamente e, com ajuda de Hadrian, dobrou suas pernas, colocando-as apoiadas no suporte para pés. Segurou nas rodas empurrando-se devagar até o guarda-roupas, puxando uma bermuda preta da primeira porta e uma boxer vermelha de dentro da gaveta, e uma camiseta azul da segunda porta, colocando as peças de roupa em seu colo, seguiu para o banheiro em seguida.
Isso era algo que estava o irritando nos últimos dias, e tinha certeza que continuaria assim: Precisava de tanto tempo para conseguir sentar-se em sua cadeira, e pouco depois já tinha todo o trabalho de ir tomar banho e movimentar-se ainda mais.
Não fazia nem uma semana que estava em casa e já estava cansado.
Hadrian saiu do quarto depois de confirmar que o filho estava bem, deixando à porta aberta, para o caso dele precisar de algo e gritar por ajuda, como na noite anterior quando precisou sair da banheira.
E, até pensando nesse detalhe constrangedor, após dar descarga na privada e, com certo esforço, esticar-se o suficiente para lavar as mãos, preferiu empurrar sua cadeira de rodas até o box do banheiro.
Tirou a calça e a cueca que usava ali mesmo, depois de intermináveis minutos, jogando-as para fora do box e fechando a porta de vidro. Ligou o chuveiro no instante seguinte, e arrependeu-se de imediato quando sentiu a água gelada cair em seu corpo, tentou empurrar-se para o lado sem muito sucesso, e, aos poucos, à água foi esquentando.
Parou de resmungar após algum tempo, resolvendo tentar relaxar por alguns instantes.
Seria mais um dia atípico para ele, pelo menos no momento.
Ainda precisava acostumar-se com sua nova rotina, e, embora não quisesse passar por aquilo por tanto tempo, preferia que não demorasse tanto para pegar o jeito de fazer as coisas básicas que precisava no dia-a-dia.

Entre um pensamento aleatório e outro, enquanto sentia a água quente cair sobre seus ombros e cabeça, acabou pensando sobre a pequena conversa que teve com e os pais no jantar do dia anterior; Eles também tinham percebido que Rachel parecia evitá-lo, aquilo não era apenas coisa da sua cabeça.
Bufou frustrado, fechando os olhos.
Não mentiu quando disse que entendia que a namorada estava ocupada com o trabalho, mas achou que depois que ela soube que ele não poderia andar, preferiu afastar-se dele. Mesmo em Berlim ela não fez tanta questão de estar ao seu lado, fosse no hotel ou na visita da clínica. Sabia que ela também deveria estar tendo dificuldade para aceitar a situação inteira, mas esperava que ela estivesse um pouco mais presente, nem que fosse por mensagens.
Pensando em seu relacionamento com a modelo, o qual já tinha mais de três anos, começou a pensar no tempo em que ficavam separados devido a seus trabalhos, mas sempre que voltavam a se encontrar, passavam pelo menos um dia ou uma noite todinha no quarto. E então lembrou-se do tempo que estavam sem transar.
Tinha ficado um mês entre não ver a namorada, ou não poder transar por estar concentrado para a final da Champions League. Na noite da final ficou no hotel junto com os amigos, pois embarcariam de volta para Dortmund no outro dia cedo, e, na noite que estava comemorando o título e, muito provavelmente, terminaria com sexo em seu quarto, banheiro e, talvez, até mesmo cozinha, sofreu o acidente.
O que mais o frustrou naquele momento foi que, ao perceber que estava a mais de um mês sem sexo, nem por um momento conseguiu ficar excitado pensando na namorada.
Tentou lembrar-se da última vez que transaram, ou no sexchat que tiveram quando ela estava viajando, inclusive com algumas trocas de fotos, mas nada daquilo foi suficiente.
Chegou a pensar em outras mulheres, fosse alguma ex-namorada ou alguma atriz que ele costumava gostar, ou qualquer filme pornô que já tinha assistido, mas nada daquilo resolveu.
Tentou tocar-se por mais alguns instantes, mas ao ver que nada acontecia ficou ainda mais nervoso;
E se tivesse acontecido algo com aquela parte também?
E se por causa do acidente, além de não conseguir mais andar, não conseguisse mais ficar excitado?
Deus aquilo era um pesadelo.
Por fim deixou à água cair sobre seu corpo, terminando seu banho após alguns minutos;
Quanto mais cedo começasse sua fisioterapia, melhor.

Hadrian estacionou o carro do filho e, pouco depois os três já estavam passando pelo portão de entrada da KBE-V.
coçou o nariz enquanto olhava ao redor, tudo parecia tão calmo quanto no sábado, ao olhar em seu relógio percebeu o motivo: Já passavam das duas e meia da tarde, os pacientes já deveriam estar em seus tratamentos.
Passaram pelas portas de vidro seguindo até a recepção, Marielle sorriu assim que os viu, levantando-se para cumprimentá-los;
- Boa tarde, Sr. e Sra. - estendeu a mão -, !
- Olá, querida! - Amélie sorriu educada, sentando-se na cadeira. - decidiu fazer o tratamento aqui mesmo!
- Que maravilha, - tornou a sentar-se, olhando para o jogador - achamos que te perderíamos para Berlim! - piscou brincalhona.
deu um meio sorriso, dando de ombros em seguida;
- Vocês tiveram uma ou duas coisas que me fizeram escolher ficar em Dortmund…
- Foi a , não é? Aquele sotaque sempre conquista os pacientes! - riu baixo, acompanhada pelos pais do jogador, enquanto deu um sorriso sem graça. - Muito bem, vou avisar ao diretor que vocês estão aqui, ele sempre gosta de conversar com um paciente assim que o mesmo resolve começar seu tratamento com a gente, explicar algumas coisas, sabe? Só precisamos passar alguns documentos para vocês lerem com calma e nos devolverem preenchidos, ok? Pode ser hoje ou…
- Hoje! - respondeu apressado - Quero começar o mais breve possível, se der pra ser agora mesmo será ótimo.
Marielle riu, colocando o cabelo solto atrás da orelha.
- Acredito que hoje a gente não consiga começar, mas vocês poderão falar com o diretor e com o fisioterapeuta que cuidará do seu tratamento, ok?
A mulher entregou alguns papéis e formulários para o jogador preencher, enquanto conversava por telefone com o diretor.
tinha acabado de assinar os documentos e usado seu cartão de crédito para fazer o pagamento mensal do tratamento, quando um homem na casa dos quarenta, de cabelos pretos extremamente bem penteados, entrou pela recepção.
Usava uma camisa social branca e uma gravata preta, sorriu assim que os avistou, adiantando-se para cumprimentá-los com a mão estendida.
- Klaus Scheidmman, muito prazer!
- , - o jogador respondeu, cumprimentando-o com um aperto - estes são meus pais, Hadrian e Amélie.
Klaus sorriu para os três, antes de virar-se para Marielle;
- Já está tudo certo?
- Sim, já estou fazendo o cadastro do no nosso sistema.
- Ótimo, Mari, chame a , ok? Quero ela na minha sala assim que terminar a reunião dela com o Gerstner.
- Sim, senhor.
- Se puderem me acompanhar até minha sala, podemos conversar um pouco melhor sobre seu tratamento, ?!

O diretor abriu à porta para a família passar e deu uma olhada geral na sala espaçosa do diretor; tinha janelas grandes do lado esquerdo, as quais estavam com boa parte das persianas abertas, dando uma boa visão do jardim e de parte da área da piscina. Um sofá grande de couro, parecido com o que o jogador tinha em casa, e mais duas poltronas também pretas, uma mesa de centro de vidro com um pequeno vaso de flores e uma revista da KBE-V, uma televisão de 48 polegadas presa na parede próxima à porta, a qual, no momento, encontrava-se desligada.
Do outro lado da sala, uma mesa de mogno escurecido, grande e muito bem organizada; possuía apenas um notebook moderno, o telefone fixo, um porta canetas, além de uma pasta com a logo da clínica e alguns papéis dentro.
A estante atrás da mesa era do mesmo material e cor, tinha alguns livros grossos e pastas pretas também com o emblema da KBE-V, ao canto um grande vaso de flor com uma folhagem bonita e bem cuidada.
O diretor apontou para as duas cadeiras em frente à sua mesa, com estofamento preto, as quais eram idênticas a que ele próprio sentou, após abrir espaço para que pudesse ficar exatamente a sua frente.
- Muito bem, antes de mais nada, eu gostaria de saber se vocês tem alguma dúvida restante, que eu possa esclarecer antes de começarmos?
- Sinceramente eu só quero começar o mais cedo possível. - suspirou, passando a mão pelos cabelos. - Mas também quero pedir o máximo de descrição possível, um dos motivos que me fizeram escolher a KBE-V, além da facilidade por ser perto da minha casa, foi justamente por terem me falado que vocês não trabalham com um número muito grande de pessoas ao mesmo tempo. Quero ter o mínimo possível de contato com outras pessoas e, principalmente a imprensa.
Klaus ajeitou-se na cadeira, concordando com um aceno;
- Entendemos que, por você escolher fazer seu tratamento aqui, teremos uma atenção muito maior do que estamos acostumados, mas de forma alguma queremos expor nem a você, nem a qualquer outro paciente ou funcionário da clínica, . Qualquer informação que eu, ou qualquer outra pessoa do meu quadro de funcionários possa a vir a passar, será com seu consentimento. Nenhuma imagem sua será divulgada sem que você permita, ok? - explicou calmo, sua voz era forte e, ao mesmo tempo, tranquila.
Em poucos minutos de conversa notou que Klaus exalava respeito e confiança em sua fala. Era perceptível também o quão profissional ele era, apenas por olhar sua sala e sua pose, enquanto conversava com as pessoas. Não parecia ser o tipo de homem que precisava gritar ou ser grosseiro com alguém para conseguir que as coisas fossem feitas como ele queria.
- Contudo, , embora todos aqui dentro te conheçam e alguns inclusive sejam torcedores do Borussia Dortmund, - piscou, apontando para si mesmo, fazendo os três rirem baixo - você não será tratado diferente de nenhum outro paciente que temos. Não fazemos distinção de ninguém aqui dentro, então da mesma forma que conversarei com todos para respeitarem seu espaço, preciso que você faça o mesmo com os demais, e isso inclui meus funcionários. Eu entendo que para muitos pacientes o tratamento é difícil e alguns demoram mais do que outros para verem o resultado, mas eu não permito em hipótese alguma que maltratem quem trabalha nesta clínica, seja da faxineira ao fisioterapeuta. Aqui dentro, , embora seja conhecido por todos, você será mais um paciente e será tratado igual a todos os que passam pela KBE-V.
O jogador concordou com a cabeça, um tanto surpreso ao saber que não teria um tratamento diferenciado.
- Muito bem, imagino que esteja interessado em saber sobre como faremos seu tratamento, não é mesmo? - sorriu, vendo o jogador curvar-se para frente, ansioso - Inclusive, gostaria de me desculpar por sábado, costumo ser o responsável por acompanhar à todos em sua primeira visita pela clínica, mas acredito que a senhorita Linck tenha deixado uma boa impressão, não é mesmo?
- Sim, sim, ela foi muito atenciosa! - Hadrian sorriu, recostando-se na cadeira, os braços cruzados.
- Vocês já sabem quem será o responsável por meu tratamento? Tinham me dito que tinha uma ou duas opções…? - tornou a questionar, Klaus sorriu.
Abriu uma planilha com os horários de seus fisioterapeutas, digitando alguma coisa na barra de buscas e deletando em seguida algumas informações, antes de tornar a virar-se para a família;
- A princípio, tínhamos conversado sobre a possibilidade de você ser tratado por dois fisioterapeutas, - encarou o jogador, que franziu o cenho em dúvida - não é uma atitude incomum, mas, é claro, a decisão final será sempre sua. Temos algumas opções com horários vagos alguns dias na semana, mas como você passou a informação de que gostaria de fazer seu tratamento todos os dias, temos duas opções; Thomas Hoyer tem alguns horários livres, porém ele altera entre manhã e tarde, pois já está tratando de outro paciente. - explicou mostrando a planilha para o jogador - Nossa segunda opção, a mais indicada na verdade, seria , que acabou de terminar com seu paciente e ainda terá algumas semanas livres antes de começar o tratamento de uma das crianças, sendo assim, ela tem manhãs e tardes livres.
- Eu poderia fazer todos os dias com ela? Período integral?
- Pelo menos pelas próximas semanas, sim. Quando ela começasse com o novo paciente você precisaria escolher um único período, ou, como comentei antes, poderia fazer com dois fisioterapeutas para o contra turno.
- Não teria diferença? - perguntou confuso, cruzando as mãos sobre o colo.
- Acaba dependendo muito da sua adaptação, na verdade. Caso não goste dessa forma, então o mais indicado seria escolher apenas um horário para ter o tratamento com um único fisioterapeuta, seja ou Hoyer. De qualquer forma, se escolher a , pelo menos uma vez na semana será atendido por Weiss ou Kraβ; Os três são responsáveis pelo mesmo setor, e costumam trocar de pacientes, assim, de uma forma geral, todos têm contato com o tratamento e podem passar outra opinião sobre cada caso. A cada quinze dias temos uma reunião geral na clínica, então mesmo os que não sejam responsáveis por seu tratamento estarão sabendo como está seu desenvolvimento para o caso de que, se por algum imprevisto, você precise mudar de fisioterapeuta, tenhamos outro sabendo o que está acontecendo e como seguir com sua fisioterapia. - explicou com calma, olhando do jogador para os pais - É claro que, como você pediu por mais privacidade, se não quiser trabalhar desta forma, deixaremos você apenas com a , por exemplo, e não terá tanto contato com os outros dois.
- Então ela vai ser mesmo minha fisioterapeuta?
- A princípio seria o mais indicado, mas caso não esteja satisfeito, podemos te encaminhar para o Hoyer, porém, como expliquei, seus horários vão alterar entre manhã e tarde.
Hadrian e Amélie apenas olhavam para o filho aguardando uma resposta, estavam bastante satisfeitos com a explicação e, mesmo com a pouca idade, a mulher parecia bem profissional.
ficou em silêncio por alguns instantes, pensativo, antes de concordar com um aceno;
- Problema nenhum, só não tenho certeza se prefiro o período da manhã ou tarde.
Ouviram uma leve batida na porta, antes de se fazer presente na sala, após Klaus pedir para que entrasse.
- Boa tarde! - cumprimentou enquanto caminhava-se até a mesa do diretor, estendendo a mão para os pais de , que levantaram-se para receber a recém-chegada, e então para o próprio jogador - Como vai, ?
- Bem, imagino… - sorriu fraco.
- , acabou de me confirmar que será seu paciente, só não temos certeza do horário ainda, não é? - riu baixo.
A inglesa concordou com um aceno, sorrindo educada.
- Na verdade eu queria fazer o período integral até você começar com o outro paciente, pode ser? - perguntou olhando de para Klaus.
O diretor concordou com aceno, deixando claro que estava a critério da mulher decidir;
- Sem problemas, mas primeiro precisamos dos seus exames completos para passarmos um diagnóstico e sabermos como montar sua fisioterapia.
- Posso trazer amanhã cedo para você olhar! - respondeu rápido, ansioso.
- Ótimo! - a inglesa sorriu, antes de pigarrear, pensando por um instante antes de recomeçar; - Só tenho um adendo para você, , acredito que seja importante saber desde já, e caso prefira, poderá mudar de fisioterapeuta antes de começarmos…
- Você não torce para o Borussia? - brincou.
riu fraco, vendo Klaus olhar curioso para a mulher, sem saber ao que ela se referia;
- Não, sou inglesa, então… - deu de ombros, mas logo mudou o tom para mais sério - Na verdade é mais sério do que isso, acredito que nem o diretor estava sabendo disso, mas… Como vamos passar um tempo juntos de agora em diante, acho importante te deixar avisado que… - respirou fundo, encarando o jogador;
Tinha pensado nisso durante boa parte da noite anterior, logo após mandar uma mensagem para seu celular avisando que tinha escolhido a KBE-V, sabia que ela acabaria seria a responsável por seu tratamento por ter horários vagos. Parte de si ainda não estava muito satisfeita, principalmente por saber que seria muito mais cobrada do que o normal, contudo não era ela quem escolhia seus pacientes, e, sendo quem fosse, seu trabalho era ajudar como pudesse.
- Não sei se você teve contato com as pessoas responsáveis pelo seu acidente, , - começou, atraindo ainda mais a atenção do jogador, que franziu o cenho confuso - mas a mulher que estava no outro carro, eu a conheço.
Klaus respirou fundo, parecendo compreender algo.
Hadrian e Amélie pareceram chocados com a informação, desacreditados com a coincidência.
continuava a encarando, sem dizer nada.
- Foi assim que você conheceu o , não foi? - perguntou em voz baixa, assimilando o que ela dizia com a conversa que tinha tido com o amigo na noite anterior. apenas concordou com a cabeça, sem dizer mais nada. - Vocês são amigas?
tornou a concordar, aguardando pela reação do jogador.
respirou fundo, levando a mão aos cabelos, antes de encarar Klaus;
- Eu posso responder amanhã se vou querer continuar com a ou mudar para o Hoyer?
Notou quando a mulher fechou os olhos por um segundo, abaixando a cabeça em silêncio.
- Claro que sim, . - O homem concordou no mesmo instante - Sinto muito, eu não tinha ideia que era este o caso… - desculpou-se, olhando de lado para a mulher.
Por um momento o jogador teve certeza que, após deixarem a sala, Klaus começaria a reclamar pela inglesa não ter dito aquilo antes.
- Não tem problema, eu só quero pensar um pouco antes de tomar uma decisão oficial, mas vou continuar meu tratamento na KBE-V, a menos que você me diga que sua amiga também estará aqui…? - perguntou encarando mulher.
- Não, não. Você não a encontrará na clínica. - assegurou, sorrindo pequeno.
O alemão concordou.
- Muito bem, acredito que até amanhã eu já tenha uma resposta em definitivo. De qualquer forma, agradeço a atenção dos dois. - esticou a mão para despedir-se de Klaus, enquanto seus pais levantavam-se, fazendo o mesmo com o diretor e a fisioterapeuta.
deu a volta na mesa, aproximando-se sem jeito do jogador;
- Obrigado. - disse em voz baixa, deixando a mulher confusa, quando apertaram as mãos - Por ter me contado sobre sua amiga.
- Era o mínimo que poderia fazer, . Se, por acaso, resolver continuar comigo, é importante que tenhamos uma boa relação e que possamos confiar um no outro, só assim podemos trabalhar bem.
O homem sorriu fraco, soltando suas mãos após o aperto e seguindo para a porta junto de seus pais.
- ? - Klaus começou assim que eles deixaram a sala. - Como foi que você não me contou isso antes, ?
- Eu sinto muito, senhor. Não fazia ideia que as coisas terminariam assim, menos ainda que viria para a KBE-V…


respirou fundo, passando as mãos pelos cabelos curtos.
Esfregou as palmas das mãos no rosto, tentando parecer o mais tranquilo possível. Sorriu sem mostrar os dentes, embora soubesse que deveria parecer forçado, tanto quanto as entrevistas que precisava dar depois de uma derrota do time, na qual precisava elogiar o jogo adversário, ao invés de xingar todo mundo.
Fechou os olhos e mexeu os ombros e a cabeça, relaxando um pouco.
Tornou a respirar fundo antes de ajeitar-se da melhor forma que podia em sua cadeira, a luz da sala estava apagada e sabia que aquilo deixaria o vídeo mais escuro, mas naquele momento ele não se importava.
Ajeitou sua camiseta branca e passou as mãos na calça jeans escura, parando-a na coxa, querendo parecer despojado.
Esperou Féher, seu agente, aproximar a câmera o suficiente e, então, deu o melhor sorriso que pode quando a tela do notebook mostrou sua própria imagem, e a luz vermelha da câmera acendeu.
Féher fez um joinha com a mão, sinalizando que o jogador poderia começar;

IS LIVE NOW ON FACEBOOK

- Hey, Facebook! - Ergueu a mão em um cumprimento, pigarreando para sua voz sair mais alta e confiante, antes de voltar a falar - Bem, é a primeira vez que eu tento fazer uma live, então se der errado, eu culpo a tecnologia. - Sorriu leve, dando de ombros - Primeiro, gostaria de agradecer a todos vocês por todas as mensagens e pensamentos positivos. De verdade, caras, vocês são incríveis! Muito obrigado mesmo por todas as demonstrações de carinho de vocês, foi bem importante para mim nesses últimos dias. - Passou a mão pelos cabelos, coçando a nuca, antes de passar a língua pelos lábios e continuar - Também gostaria muito de agradecer a todo o pessoal da LWL - Klinik Dortmund por todo o atendimento que tive durante essas semanas. Agradeço a todos os enfermeiros e médicos pela atenção comigo e com minha família, especialmente ao doutor Schümmer, ele foi fantástico! Eu estaria muito pior sem ele… - respirou fundo, olhando para baixo por um momento. - Quero agradecer à minha família também, por todo o apoio de sempre, ao meu pai e minha mãe que até vieram morar comigo por um tempo… Voltei a ser o garotinho da mamãe! - Deu uma risada fraca, que duvidava convencer alguém - E, é claro, ao pessoal do time; Recebi todas as mensagens, áudios, chocolates, cartão e todos os balões que mandaram. E vocês já podem levar o de volta, não me importo, viu? - Aos poucos deixou o ar brincalhão de lado, sorrindo pequeno antes de começar a falar sobre o principal - Vocês já devem ter visto que o time voltou a treinar hoje, em preparação para a pré-temporada, logo menos os campeonatos recomeçam e, bem, vocês já sabem qual é a rotina de jogos, não é? Infelizmente não estarei participando nem dos treinos, nem desse começo de temporada… Não faço ideia de quando voltarei para os campos… - fechou os olhos por alguns segundos, antes de voltar a olhar para a câmera e falar com a voz fraca - Não sei quanto tempo vou precisar, sinceramente eu nem sei mais se isso ainda é possível… De verdade, se depender de mim eu volto o mais breve possível, mas ainda não sei como as coisas vão ser daqui em diante. - fungou baixo - Começo meu tratamento amanhã, mas ainda não sabemos o tempo que será necessário, o que eu garanto é que no que depender de mim, vou dar o máximo como sempre fiz em todos os jogos em que vesti a camisa do Borussia ou da Seleção. - Passou a língua pelos lábios secos, a voz embargada. Por mais que ele tentasse manter-se firme, sentia os olhos marejarem aos poucos - Eu amo jogar futebol e quero voltar a fazer isso, mas no momento minha prioridade é outra. Primeiro eu quero me recuperar o suficiente para voltar a andar, a pelo menos pisar nos gramados… - ele parou de olhar para a câmera por alguns instantes, passando a mão pelo rosto, antes de voltar com um leve sorriso nos lábios - Mas, de verdade, nesse momento eu só quero agradecer a todos vocês pelo apoio que tive durante todos estes anos e, me desculpem se eu os decepcionei de alguma forma… - então ergueu a mão mais uma vez, despedindo-se - Até mais, Facebook!

WAS LIVE ON FACEBOOK

¹Gott sei Dank! – Graças a Deus!
²Fick dich ins Knie! – Vá se foder


ONZE.

estava saindo do banheiro com uma toalha branca sobre os ombros, quando viu deitado de barriga para cima em sua cama, as pernas esticadas. Tinha o celular próximo ao rosto e parecia jogar alguma coisa, devido a velocidade que mexia os polegares.
- , meu amor, você esqueceu o endereço da sua casa, ou...?
acabou derrubando o smartphone em seu rosto com o susto que levou, estava tão concentrado em passar de fase que não escutou o amigo se aproximando.
- Não me assusta desse jeito, eu podia ter morrido. Estou novo para enfartar!
rolou os olhos, empurrando a cadeira até próximo ao guarda-roupas, tirando uma regata verde-água de dentro.
- Às vezes me pergunto como você pode ser tão afeminado, sinceramente.
Virou-se em tempo de ver mostrar-lhe o dedo do meio, xingando alto.
- É com essa boca que você beija sua nova namorada? Vou lavar com sabão, !
olhou para a entrada do quarto, vendo mastigando uma maçã, enquanto olhava falsamente desapontado para .
e , reparou, vestiam o uniforme de treino do Borussia, com seus números marcados na camiseta.
- E aí, cara? – se aproximou, fazendo um high-five e depois inclinando-se para abraçar o amigo.
- Cara, essa maçã você trouxe de casa? – perguntou com a sobrancelha arqueada.
olhou-o confuso.
- Quem é que anda com uma maçã no bolso?
- Porra, já não bastava , agora você também vai assaltar a geladeira? Na próxima vez passem no mercado antes de virem me ver!
- Não seja mesquinho! – riu – Você é mais rico do que a gente, deveria nos sustentar! Deveria me sustentar, já que você me ama!
virou-se para o zagueiro, que apenas ria da pequena discussão;

- Boa sorte, você está encarregado de tratá-lo de agora em diante. O alimente três vezes por dia, ok? Se for mais do que isso ele fica dócil, porém engorda.
gargalhou fazendo um joinha, enquanto via o jogando-se na cama com os braços abertos, falando algo sobre“como a vida é injusta e ninguém o amava“.
sentou-se ao lado de , terminando sua maçã, enquanto terminava de se vestir.
- E o que fazem aqui tão cedo? São sete horas!
- É dia do me dar carona, mas ele disse que passaria aqui antes do treino, então eu fiz o enorme sacrifício de acordar mais cedo, só para te ver! – sorriu, fazendo um coração com a mão para o atacante. deu-lhe um tapa leve no braço.
- Não fica se abrindo para o meu homem não, rapaz. Procure um pra você!
Os amigos riram alto da voz fina que tinha feito.
- O meu me largou, infelizmente. - suspirou com pesar - Preciso de um novo namorado, e já que o está apaixonadinho... - sorriu maroto, virando-se para - O que acha de me dar uma carona nessa sua cadeira, tigrão?
fez sua melhor cara de chocado, com direito a mão no peito e queixo caído. Enquanto encarava o defensor, sem reação por um instante, até começar a gargalhar, junto aos outros dois. Riu tanto que sentiu pontadas em sua barriga, fazia semanas que não ria daquele jeito, sentia-se leve.
, embora ainda risse, sentia-se um pouco culpado por não ter estado mais presente na vida do amigo nas últimas semanas. Embora os dois não fossem tão próximos como era com , e tinham bastante coisas em comum e passavam um bom tempo juntos até quando não estavam em concentração. Tinha passado no hospital quando sofreu o acidente e estava em coma, mas viajou para ver a família e visitar a irmã que tinha acabado de ter uma filha, além de aproveitar as férias para rever os amigos e descansar.
Mandava mensagens e ligava para o atacante regularmente, mas sabia que não era o mesmo, não que o tivesse cobrado ou parecesse incomodado com aquilo, entretanto, uma parte de si sentia-se culpada, sabendo que poderia ter feito muito mais pelo amigo.
- De qualquer forma, como foi ontem? - perguntou após parar de rir.
- Nada fora do comum, Klopp reclamou porque estava todo mundo muito lento na hora da corrida... Falou que todos temos que nos dedicar mais para mantermos o título da Champions... E conquistar a Bundes esse ano... Que também deveríamos nos dedicar em homenagem à você...
concordou com a cabeça, jogando a toalha no chão e passando a mão pelos cabelos úmidos, voltando para o banheiro para passar um pente no mesmo.
- Ele também apresentou os caras novos, parecem okay. – completou.
- Bons?
- Bem, tem esse tal de Mikhitaryan que não deu pra ver jogar direito, e o Aubameyang... Na hora do jogo coletivo deu pra ver que ele é rápido.
- Sim, - concordou – deixou Roman no chão!
- E você também! – riu, vendo olhá-lo com cara de poucos amigos.
sorriu, esperava, de verdade, que o time se saísse bem na nova temporada.
- E ninguém falou do Mario? – perguntou quando voltou ao quarto, vendo suspirar triste e dar de ombros.
- Klopp falou que não podemos ser “viúvas de Mario Götze“, que precisamos de alguém para fazer o papel dele no jogo, e só... – fez um barulho de desagrado com a boca.
Ainda não conseguia acreditar que Mario tinha deixado o time da forma que foi, parecia mais chateado que todos. Os dois eram melhores amigos, mas só soube da mudança junto com o restante dos companheiros.
- E... Já começou um boato pelo clube, não sei... – continuou, olhando para que concordou em silêncio.
- Que boato? – o atacante perguntou curioso, calçando os tênis com certa dificuldade, mas recusando a ajuda que os dois tinham oferecido.
- Bem, Mario foi para Ibiza com um pessoal, certo? Lewan e a namorada também foram. E parece que tinha um pessoal do Bayern...
- E? – arqueou a sobrancelha – Qual é, tem gente legal no Bayern, sempre jogamos com eles pela Seleção...
Os dois amigos negaram com a cabeça.
- Parece que Guardiola quer o Lewan no time, como você já tinha recusado as ofertas mesmo antes do acidente… Estão procurando outro atacante, estão dizendo que vai fazer uma oferta por Robert, para a janela de janeiro.
travou o maxilar, não podiam perder Lewandowski naquele momento.
Robert Lewandowski e eram a melhor dupla de ataque do campeonato alemão e umas das melhores de toda a Europa.
Era absurdo o número de gols que os dois tinham feito na última temporada com a ajuda de e Mario, os quais armavam a maioria das jogadas e davam assistências para os gols.
não poderia jogar, e agora caberia a Lewan marcar os principais gols e ajudar o time a manter a boa fase da temporada anterior.
Lewan não deixaria o time na mão daquela forma, simplesmente não poderia.
- Robert não vai sair do time desse jeito.
- Eu realmente espero que não, a maioria dos atacantes já tem time, e acho pouco provável conseguirmos algum muito bom em janeiro...
suspirou concordando com a cabeça com o comentário de , no fundo achava que parte daquilo era sua culpa;
A diretoria toda tinha certeza que ele voltaria em tempo da pré-temporada, ninguém considerou ir ao mercado fazer contratações por atacantes quando tinham ele e Lewan no elenco.
E quando ficou claro que perderia metade (ou toda) a temporada, os bons jogadores já tinham fechado contrato com algum time, ou renovado nos que já estavam.
- Enfim, não adianta ficar pensando nisso agora, só quem sabe o que fazer se continua ou se vai é o Lewan... O que a gente pode fazer é continuar jogando e tentando suprir as faltas, e você... – esticou a mão apontando para – É bom se dedicar bastante a essa fisioterapia e voltar a jogar logo, vamos precisar de você no time.
sorriu concordando, antes dos três saírem do quarto e irem em direção a sala.
só iria para a clínica em 40 minutos, mas acordou com a conversa dos pais no corredor, e não conseguiu voltar a dormir devido a ansiedade, tinha uma pequena palpitação no peito sobre o início de sua fisioterapia.
Os dois visitantes jogaram-se no sofá, após pegar um sanduíche de queijo e presunto que a senhora tinha oferecido, novamente comentou o quanto os dois estavam dando prejuízo à sua geladeira, antes dele mesmo pegar um sanduíche e um copo de suco de laranja.
Voltou para a sala junto dos amigos, aproveitado para realmente sentar no sofá, deixando um pouco aquele ar incômodo da cadeira de rodas.
terminou de comer rapidamente, e, enquanto esperava os outros, olhou sorridente para a cadeira de , virando-se para ele com um ar brincalhão.
- Você se importaria se eu a usasse um pouco?
- O que?
- Parece tão legal!
- Você só pode estar brincando com a minha cara...
- Por favor! – O zagueiro juntou as mãos, implorando sorridente.
rolou os olhos, pegando o controle remoto e ligando a televisão no jornal da manhã.
O jogador entendeu isso como um sinal positivo, e quase jogou-se na cadeira, sentando-se e girando pela sala com ela.
viu quando enfiou o pedaço restante de pão na boca, e correu atrás do zagueiro, pedindo para ele o deixar brincar também, o que foi negado com um sonoro “eu vi primeiro!“.
O jogador acompanhou seus dois amigos gargalhando enquanto andavam pela casa, depois de desistir de tirar e simplesmente sentar em seu colo.
Os pais do alemão saíram da cozinha ao ouvirem a bagunça, para descobrir o que estava acontecendo, a cena era, no mínimo, inusitada;
estava sentado no sofá, ralhando com os amigos, enquanto os dois o ignoravam, empurrando a cadeira com certa rapidez por todo o living room e circulando em torno da mesa da sala de jantar.
- Meu deus, não sei se isso realmente cansa ou se o está muito gordo. Não aguento mais!
- Vai se foder, eu só engordei umas oitocentas gramas nas férias! Seu fracote!
Hadrian pigarreou alto, cruzando os braços e encarando os dois jogadores que ainda estavam usando a cadeira para rodar pela casa.
- Hm... Já acabamos aqui, não é ? – falou ao levantar-se com rapidez, sendo seguido pelo defensor, que tratou de empurrar a cadeira de volta para perto do sofá.
Hadrian sorriu levemente, nunca entendeu o motivo dos amigos de seu filho terem tanto medo dele.
- Medrosos! – acusou, apoiando-se no canto do sofá para voltar a sua cadeira, já estava quase na hora de ir para a clínica, e não queria chegar atrasado em seu primeiro dia, ainda precisaria conversar com o diretor.
- Hm... Acho melhor a gente ir indo pro treino, huh?
- De acordo! De acordo! – acenou com a cabeça duas vezes.
- Nos vemos mais tarde, , se comporte, já soube que tem umas mulheres interessantes no lugar! – piscou rindo, antes de fazer um toque de mão com o amigo.
Por um momento imaginou o que teria dito sobre , e não sentiu-se tão à vontade com a risada do amigo.
- Podemos te pegar às seis se você quiser...? - ofereceu, despedindo-se dos pais do amigo.
- Vamos estar com ele hoje, querido! – Amélie sorriu para o , o qual concordou, levemente chateado.
- Vocês vão ficar lá o tempo todo? – perguntou assustado.
- Não precisa fazer essa cara, só queremos ver como as coisas serão. Como vai funcionar seu tratamento, preocupações de pais. – Hadrian avisou, viu quando o filho suspirou – Não é nada demais, . Aposto que todos os pais fazem isso.
- Não quando o filho tem vinte e sete anos, Mein Gott, homem! – ralhou indignado.
- ! – o pai chamou seriamente e o outro bufou cruzando os braços.
- Tá, tá! Tanto faz, só não fiquem fazendo aqueles comentários constrangedores.
- Que comentários? – e perguntaram ao mesmo tempo, sorrindo de orelha a orelha, olhando para os pais do atacante.
- Nem pensem nisso! – apontou o indicador para os amigos que fizeram caras de inocente.
Os dois jogadores saíram rindo, enquanto os três ficaram terminando de se arrumar, mal tinha chegado ao quarto para escovar os dentes, quando sentiu o celular vibrar com a notificação do Twitter, informando que tinha o marcado em um tweet:

Saudades do meu amor, @21 nos treinos. No momento me contentando com o que tenho.


Em anexo uma foto de , fazendo bico, enquanto beijava uma foto de no próprio celular. não sabia se ria ou chorava, dentre tantos jogadores, tirou o mais afeminado do grupo para ser seu melhor amigo.
@ tem certas coisas que você não precisa deixar público, meu amor. Também estou com saudades ♥
aproveitou para mandar no whatsapp a mensagem que queria desde o dia anterior, achava que era melhor perguntar pessoalmente, mas não tinha dito oportunidade, e estava curioso para esperar mais tempo:
“Por que não me disse que é amiga da mulher envolvida no acidente?”
Demorou menos de um minuto para a resposta chegar:
pediu para contar pessoalmente caso você fosse para a KBE-V, malz bae”
O jogador respirou fundo, guardando o telefone no bolso, terminando de escovar os dentes antes de sair do quarto.

Os chegaram com quinze minutos de antecedência e, diferente das outras duas visitas, a clínica estava bastante movimentada.
Viu dois dos fisioterapeutas conversando na entrada da recepção, os quais ele reconheceu do folheto que tinha pego no primeiro dia: Hoyer e Krauβ.
Os dois pareciam centrados na conversa, e notou o quão novo Aaron parecia ser, talvez nem estivesse na casa dos trinta. Tinha cabelos castanhos curtos e olhos verdes, junto com uma barba loira por fazer. Vestia o jaleco na KBE-V por cima de uma camiseta preta, jeans e tênis.
Thomas segurava uma pasta branca com a logo da clínica, concordando com o que Krauβ dizia, fazendo alguns comentários, a expressão séria. Hoyer deveria estar com uns quarenta e cinco, talvez até um pouco menos, dava para ver a diferença entre os dois até na forma de se vestir; sapato bem engraxado, calça preta e uma camisa social branca, além do jaleco, os cabelos pretos bem penteados e com gel. O mais velho tinha uma pose mais séria, enquanto Aaron, mesmo sério, parecia ter um ar mais relaxado.
Aaron abriu espaço quando viu os três aproximando-se, cumprimentando-os com um sorriso cordial, não precisou de mais do que dois segundos para reconhecer , e por um breve momento sentiu-se tentado a pedir uma foto com um de seus jogadores favoritos, mas limitou-se a sorrir para a família, cumprimentando-os simpático, assim como Hoyer;
- Bom dia! – Thomas cumprimentou-os com um leve aceno de cabeça.
- Você vai ficar com a , não é? – perguntou para , concluindo antes mesmo dele responder – Vai gostar, ela é legal, mas ela vai te fazer chorar um pouco nos primeiros dias! – piscou sorrindo, levando uma cutucada do outro.
- Não fale assim! – ralhou ao ver a expressão confusa do novo paciente – é um pouco rígida, mas uma boa fisioterapeuta, você vai ver! A propósito, seja bem vindo!
- Obrigado – comentou com um leve sorriso no rosto, não comentando nada sobre a mulher.
Aquilo tudo parecia tão estranho, mas ao mesmo tempo não estava sentindo-se mal.
Não pareciam o tratar de forma diferente, nem por ser jogador, nem mesmo por estar naquela situação. Mas talvez ainda fosse muito cedo para tirar qualquer conclusão – O Diretor já chegou?
- Acredito que sim, ele é sempre um dos primeiros a estar por aqui… - Aaron deu alguns passos, olhando para o estacionamento - O carro dele já está lá, acredito que é só irem para o escritório dele, já sabem onde fica?
- Sim, sim, fizemos um tour pela clínica, já estamos familiarizados, muito obrigada! - Amélie agradeceu, antes de pedirem licença e afastarem-se até o elevador. despediu-se com um aceno e um sorriso sem graça, enquanto seguia com os pais.
Hadrian achou melhor perguntar na recepção se poderiam entrar para falar com o diretor, e enquanto esperavam, ouviu a risada de Aaron e a voz da inglesa ao fundo;
- Vai uma ajuda, ?
- Achou que eu não aceitaria? - respondeu jogando uma mochila e pastas para o outro carregar, cumprimentando-o com um beijo no rosto, ouvindo-o reclamar do quanto ela era abusada.
Hoyer riu leve, cumprimentando-a também;
- Seu novo paciente já chegou, perdeu a chance de ver Aaron quase chorar de emoção!
- Ei, eu não fui nem um pouco indiscreto, nem vem. - reclamou, vendo os dois rirem.
sorriu de lado, baixando a cabeça e tornando a olhar para frente, parando de ouvir a conversa dos três, e voltando a acompanhar os pais para o elevador, quando eles acenaram.

Klaus levantou-se para cumprimentá-los, sorrindo para os três e esperou que se acomodassem antes de voltar a sentar em sua cadeira, deixando alguns papéis que lia de lado.
- Ansioso para começar, ?
- Muito, - concordou, sorrindo nervoso - parece que já fazem semanas que estou nessa cadeira, quanto antes começar, menos tempo vou continuar nela.
O diretor riu baixo, cruzando os braços as mãos sobre a mesa;
- Bem, tenho certeza que você vai se dedicar bastante para que isso aconteça o mais rápido possível, não? - o jogador tornou a acenar positivamente com a cabeça - Muito bem, já fez sua escolha? Estou esperando sua decisão para chamar Hoyer aqui e conversarmos com ele e…
- Na verdade, - interrompeu-o - andei pensando ontem e acredito que não vou ter problemas em trabalhar com a Dra. , já que me afirmaram que a amiga dela não estará na clínica, imagino que isso não precisará ser um empecilho, não é mesmo? Além de que, com ela poderia fazer fisioterapia todos os dias, correto?
Klaus sorriu, afirmando com a cabeça;
- Tenho certeza que não será nenhum problema para a Dra. , ela é extremamente profissional, não vai misturar as coisas, entretanto, caso tenha alguma dificuldade, nessa ou em outras questões de adaptação, podemos escolher outro para atendê-lo, .
- Ótimo, podemos começar hoje, então?

e os pais foram acompanhados por Klaus até o escritório da inglesa, vendo Eileen na recepção, organizando alguns documentos dentro de uma pasta, ela parou assim que eles entraram.
- Bom dia, Link, acredito que você poderá ajudar o com o cadastro, não é?
- Bom dia! É claro, será um prazer! - sorriu animada, cumprimentando os outros três.
Enquanto a recepcionista conversava com e preenchia a papelada, Klaus despediu-se dos , voltando para sua sala. Não demorou dois minutos para aparecer em sua sala, acompanhada de Aaron, que a ajudava carregar parte do seu material.
- Bom dia! - sorriu assim que passou pela sala de espera, vendo a pequena família, cumprimentando Hadrian com um aperto de mão, e, quando foi fazer o mesmo com Amélie, sentiu os braços da senhora envolta de seu pescoço.
- Bom dia, querida!
rolou os olhos, um tanto constrangido, antes de cumprimentar a mulher com um aperto de mão.
- Então vamos trabalhar juntos? - sorriu educada em sua direção, vendo-o concordar com um aceno.
- Acredito que isso não será um problema, não é?
- Tenho certeza que faremos não ser um problema, . Pronto para começar?

Assim que o Sr. e Sra. estavam acomodados nas cadeiras de frente a mesa, com bem ao meio, de frente para a inglesa, , após ter deixado suas coisas em um canto, sorriu em sua direção, inclinando-se sobre a mesa, as mãos cruzadas sobre a mesma;
- Bem, imagino que você tenha algumas perguntas antes de começarmos, não?
concordou, inclinando-se mais a frente, pigarreou levemente antes de falar;
- Agora você pode olhar meus exames, certo? – sorriu de lado.
concordou quase rindo, pegando o envelope grande que a senhora retirou da bolsa.
A fisioterapeuta abriu-o pegando os resultados dos exames iniciais e as radiografias que ali estavam. Analisou com cuidado os documentos, levantando-se de sua mesa e andando com as radiografias, colocando-as contra um aparelho fixado à parede, quase ao lado do espelho.
cruzou as mãos, esfregando o polegar esquerdo contra a palma da mão direita, estava nervoso, ansioso. Mordia o canto do lábio inferior sem nem perceber, a respiração acelerando aos poucos. Sentiu quando sua mãe colocou uma mão em seu braço, apertando-lhe gentilmente.
Virou-se para ela rapidamente, acenando com a cabeça um pequeno “eu estou okay“, antes de tornar a olhar a fisioterapeuta.
parecia concentrada no que fazia, mantinha o cenho franzido enquanto analisava os exames, e então pareceu procurar alguma coisa, voltando para a mesa e mexendo no envelope:
- Estes são todos os exames que você tem? Não está faltando mais nenhum?
O jogador negou com a cabeça.
- Foi tudo o que eu recebi do hospital - respondeu ansioso.
concordou com um aceno, tornando a sentar em sua cadeira, deixou os documentos de lado e olhou diretamente para .
- E então...?
- Tenho uma notícia boa, e outra nem tanto. – soltou o ar – Seu caso parece muito melhor do que eu imaginei que seria, no momento parece que a lesão que você sofreu foi uma compressão medular, - fechou os olhos por um momento – se for realmente o caso, você vai precisar de uma pequena cirurgia, no entanto, para confirmarmos esse diagnóstico preciso que você faça mais alguns exames que estão faltando, ok?
- Certo, mas então se for uma cirurgia eu vou andar mais rápido?
- Se eu realmente confirmar que é uma compressão medular, significa que será reversível, o que já é um ponto excelente. A cirurgia que você fará será para retirar o que está fazendo essa compressão.
Ela puxou uma das radiografias e uma caneta fechada, mostrando para os três.
- Próximo a L4, que foi a atingida no seu acidente, tem essa mancha, consegue ver? – curvou-se mais próximo a mesa, olhando para o local que ela apontava, assim como seus pais – No primeiro momento achei que poderia ser alguma hemorragia, mas está visível em todas e independente do ângulo, e continua do mesmo tamanho...
- E como não viram isso antes?
- Você foi atendido pelo doutor Schümmer, não é? Ele não é bem um especialista na área, ou seja, ele viu um pouco mais do básico no seu caso; Que sua L4 foi lesionada e que isso causou a falta de movimento em suas pernas... Ele estava mais preocupado com algum tipo de lesão cerebral que você pudesse ter, que inclusive está em um dos relatórios médicos - apontou para o envelope ao lado - ... De qualquer forma, com os novos exames terei uma noção maior do que está errado. Se for necessária uma cirurgia, sua recuperação nos primeiros meses será mais demorada e mais puxada, mas pode acontecer mais rápido. - Ao perceber um pouco da confusão que os três pareciam estar, tentou explicar de outra forma - Digamos que, pelo o que eu tinha ouvido sobre seu caso, achei que sua lesão tinha sido um corte completo, se fosse, ou se for o caso, então vamos conversar novamente... O ponto é que eu realmente preciso desses exames, - ela parecia incomodada por não conseguir definir o diagnóstico – se for um corte transversal, na maioria dos casos é um tipo de lesão irreversível...
- Eu não vou andar? – questionou surpreso.
- , estou dizendo que seu caso não parece ser esse, mas ainda não posso confirmar. Pelo o que estou vendo agora, e eu vou mostrar esses exames para os outros fisioterapeutas no intervalo para ter mais algumas opiniões, seu caso é compressão medular.
Nenhum dos falou nada por alguns segundos.
Os pais de pareciam aliviados, porém nem tanto, queriam tanto que a fisioterapeuta estivesse certa e fosse a lesão na qual o filho poderia voltar a andar, mesmo passando por cirurgia, porém, ao mesmo tempo, temiam que fosse a outra e ele nunca mais voltasse a jogar.
Mal podiam imaginar o filho nesse caso, sabiam o quanto ele estava sofrendo agora, e não queriam ver o que aconteceria se ele não melhorasse logo.
não sabia o que estava sentindo:
Mil pensamentos bombardeavam sua mente.
Ele talvez voltasse a andar mais rápido, mas talvez ele não andasse nunca mais.
Queria que ela confirmasse logo o que ele tinha, que ela lhe desse uma data.
Deus, ele precisava tanto saber.
- Se eu fizer essa cirurgia, de quanto tempo eu preciso?
o olhou por alguns segundos, o queixo apoiado em uma mão, enquanto com a outra batucava os dedos da mesa, pensando em uma forma delicada de falar o que precisava.
- , eu preciso que você entenda duas coisas: a primeira que eu, sinceramente, não posso te dar um prazo exato, mesmo depois de ver seus novos exames. Como eu disse no outro dia, sempre varia com cada paciente. Não estou dizendo que você será mais ou menos esforçado do que os outros, mas você pode demorar mais tempo para responder ao tratamento, ou pode fazê-lo excepcionalmente bem e passar para a próxima etapa em menos tempo que o necessário.
- Quanto tempo? – perguntou grosseira e impaciente. Ele só precisava dessa resposta.
- ... – Amélie chamou baixo, ao notar o tom exaltado do filho.
- Eu preciso saber se poderei ir à Copa. É só isso que você precisa me dizer agora.
o encarou, ignorando o tom de voz, entendia muito bem a aflição que o jogador passava.
- Eu preciso dos seus exames, agora, para ser sincera... Eu diria pelo menos oito meses. – viu-o suspirar passando a mão pelos cabelos, frustrado – Entenda, o fato de você ser um jogador favorece muito, porque seu corpo já está adaptado com os esforços físicos, você possivelmente terá mais facilidade em alguns exercícios... Significa que poderemos acelerar em algumas partes, mas ainda assim você vai precisar de um tempo maior para recuperar os movimentos. Não é algo que vai acontecer do dia para a noite, . – tornou a cruzar as mãos, ainda olhando para o jogador. – Você já teve contato com crianças pequenas?
O atacante franziu o cenho, estranhando a pergunta, mas confirmou com um aceno.
- Certo... Você já acompanhou elas aprendendo a andar? Dando os primeiros passos?
- Eu vi um pouco meus sobrinhos...
- Pois bem, - ela sorriu tranquila, explicando melhor seu exemplo – elas demoram um tempo para engatinhar, não é? Se você as coloca no chão, por mais que tente ensinar o movimento correto, elas têm alguma dificuldade para controlar seu peso e movimentar as pernas de forma a sair do lugar. – concordou recordando-se dos vídeos que as irmãs tinham mandado na época dos bebês – Depois que elas vão desenvolvendo esse movimento elas não param mais no mesmo lugar, correto? – novamente acenou – E poucos tempo depois elas já estão tentando escalar as coisas, criando um equilíbrio maior e tentando ficar em pé, até darem seus primeiros passos com o passar das semanas...
- É uma explicação muito boa, mas eu ainda não entendi o que isso tem a ver comigo. – reclamou, quase entediado.
- ! – Amélia tornou a ralhar. – Desculpe, doutora.
- Não precisa se desculpar. – a inglesa sorriu para mulher - Entendo perfeitamente. O ponto no qual quero chegar, – ela tornou a encarar o jogador –, é que seu caso será bem parecido. Entenda, no momento é como se você fosse uma criança dando seus primeiros passos. Não estou dizendo que você seja! – Corto-o assim que o viu a olhar torto e abrir a boca para reclamar – Mas no momento é a forma mais fácil de te explicar o que está acontecendo com seu corpo. Você precisa recuperar seus movimentos, reaprender a manter o equilíbrio para voltar a andar. No momento seu cérebro não tem nenhuma conexão com a área que movimenta suas pernas, ele não está recebendo os impulsos necessários. Digamos que nós precisaremos refazer essa ligação entre seu cérebro e suas pernas... É nisso que vamos trabalhar por algum tempo, e quando seu cérebro já estiver respondendo a estes impulsos, então vamos trabalhar a parte em que você volta a andar e chutar a gol.
concordou contra sua vontade, assimilando aos poucos o que a fisioterapeuta dizia. - E eu vou precisar de oito meses?
passou a língua pelos lábios antes de responder, segurando a vontade de suspirar.
- Aproximadamente, ainda precisarei de seus novos exames. E vai depender muito de como você irá reagir. Pode ser que em três meses você já esteja pronto para o resto do tratamento, mas também pode acontecer de passarmos os próximos oito meses trabalhando nessa parte.
bufou, passando as mãos pelas coxas, olhando para o lado.
Escutou a voz de seus pais quando eles começaram com novas perguntas sobre o tratamento.
- Ele vai precisar de algum medicamento? – Amélie questionou interessada.
- Para a fisioterapia? – A viu concordar – Não, não. Ele só vai precisar tomar algum remédio se começar a ter problemas relacionados ao emocional, o máximo que vai precisar relacionado a parte física é um relaxante muscular.
- E é você quem indica? – Hadrian tornou a perguntar.
- Bem, nós vamos ter alguns dias para conversar, dependendo da situação, digamos que se fugir um pouco do meu controle – ele arqueou a sobrancelha encarando-a -, eu posso indicá-lo para ter outro tratamento...
- Você vai me trocar de fisioterapeuta?
- Eu não disse isso. E não estou dizendo no sentido físico. É em um sentido emocional, se com o passar do tempo você não for... Se acalmando, digamos assim, ou não conseguir lidar bem com tudo, eu posso indicá-lo a um psiquiatra e então ele o indicaria algum remédio que poderia ajudá-lo.
- Psiquiatra? Tipo, se eu for louco ou algo do tipo?
arqueou a sobrancelha, o sorriso já não estava mais presente em seus lábios.
- Não é bem assim que funciona, a maioria das pessoas deveriam consultar um psicólogo ou psiquiatra, sabia? Muitas pessoas têm tendências a depressão por várias razões e conversar com alguém pode ajudar, porém existem muitos casos que só melhoram com o remédio adequado. - Explicou-lhe, antes de voltar ao seu ponto inicial - Então, basicamente, durante as nossas consultas eu vou poder analisar melhor o quão bem você está levando seu tratamento, em um sentido emocional. Se em algum momento eu notar que você está com problemas mais sérios, te indico um psiquiatra. É assim que funciona...
- E você não poderia indicar um remédio?
- Eu não vou precisar disso, mãe!
- É só uma dúvida.
- Não posso, não tenho formação nessa área... – concluiu, terminando a pequena discussão, e vendo rolar os olhos – Não acho que seja seu caso, mas de qualquer forma, se eu notar que você está saindo da linha, e com isso quero dizer algum tipo de drogas, lícitas ou ilícitas, encerramos seu tratamento até que você resolva parar com isso, entendeu?
O jogador a encarou, não tinha mais o ar calmo, no lugar uma expressão séria e quase desafiadora esperava uma resposta que não tinha certeza de qual era, mas pronunciou-se da mesma forma;
- Eu não tenho certeza se você sabe, mas eu não poderia me drogar sendo jogador...
- Eu também tenho certeza que não seria o primeiro nem o último caso. – arqueou a sobrancelha, dando de ombros – É muito simples , a partir do momento em que eu perceber que você está bebendo muito, fumando ou começando algum outro vício, nós vamos conversar seriamente uma vez, se não der resultado vamos para a segunda tentativa, se precisarmos de uma terceira encerramos a fisioterapia.
- Se você me disser que está usando alguma coisa, pode ter certeza que eu mesma conversarei com ele! – Amélie olhou diretamente para o caçula.
- Espere aí, vamos ter que conversar e você vai contar para eles tudo o que eu disser?
- Não. A menos que seja algo extremamente sério a ponto de eu considerar que você pode colocar sua vida em risco, não posso dizer nada nem para seus pais, nem ninguém. O que quer que conversemos, ficará apenas entre nós dois!
- E você vai me julgar...? – perguntou desconfiado. A inglesa sorriu de lado.
- Se você me disser que já matou alguém, possivelmente eu chame a polícia, e só por garantia voltarei para Londres, caso contrário não tenho motivos para fazer comentários, a menos que você me peça algum tipo de conselho. – Piscou.
riu levemente concordando com a cabeça.
- Talvez eu precise de um ou dois... – brincou dando de ombros mais tranquilo, ouviu a risada baixa dela e, por algum motivo, sentiu vontade de escutar mais vezes, era um riso bom de se ouvir.
- Por falar nisso, normalmente eu coloco um dia na semana com meus pacientes para essas sessões, então você pode escolher um dia que acredite ser melhor para conversarmos.
- Pode ser na quinta-feira. - Respondeu sem pensar muito - E se eu quiser fazer duas vezes na semana?
- Não é o mais indicado, porque precisamos trabalhar sua parte física, mas esporadicamente não tenho problemas se você quiser fazer isso.
concordou com a cabeça, vendo-a digitar alguma coisa no notebook, e logo depois carimbar e assinar alguns papéis quando os imprimiu.
- Imagino que você já assinou todos os documentos que precisa, não?
- O contrato com a KBE-V e um formulário hoje com as horas para tratamento…
- Essa vai ser sua tarefa de casa de hoje!
abriu à segunda gaveta de sua mesa, retirando uma pasta e puxando duas folhas em branco.
- Preciso preenchida para amanhã, com os mínimos detalhes, acredito que seus pais possam ajudar caso você tenha tido alguma fratura quando criança... – apontou para uma parte na segunda folha, o casal concordou – E medicamentos, caso tome algum, não importa se é para dormir ou para ressaca, preciso que nomeie todos, ok?
- Certo... – concordou olhando por cima as perguntas.
- , eu preciso que você faça esses exames para podermos avaliar sua condição e começarmos de verdade sua fisioterapia. Vou passar para Eileen agendar no primeiro horário vago que eles tenham, ok?
- Excelente.
- Alguma pergunta sobre qualquer coisa da clínica ou tratamento?
- Como o que eu quero saber você ainda não me disse, e já entendi que fico de castigo se beber... Não tenho mais dúvidas...
- A questão não é você beber, mas saber beber. Não adianta aparecer aqui bêbado ou de ressaca, vou te mandar dar meia volta e ir dormir.
- Vou lembrar de tomar bastante café... – comentou e como resposta teve um leve tapa da sua mãe em seu braço.
- É para você se dedicar, , depois não adianta ficar emburrado em casa, reclamando.
- Von Gott, eu só estava brincando!
- Vamos esperar que ele permaneça sendo um bom rapaz, não é? – sorriu para os pais do jogador, que riram. - Muito bem, , até seus novos exames não podemos fazer muita coisa, para não corrermos o risco de piorar seu estado, com isso temos duas opções: Você pode ficar aqui e conversamos durante as próximas horas sobre qualquer coisa que você queira, desde o tratamento a algum problema que esteja tendo, ou dúvidas gerais e dicas, seja para tomar banho, levantar da cama, etc. Ou, infelizmente, você estará dispensado por hoje. O que prefere?
- Tem alguma chance de eu conseguir fazer esses exames hoje?
- Podemos tentar marcar, não é? Vou ver o que conseguimos. - sorriu, antes de levantar-se com os papéis em mãos para falar com Eileen.
O jogador permaneceu em silêncio por alguns minutos, ouvindo-a conversar com a alemã, e então Link estava no telefone, ligando para tentar agendar os exames de , antes de tornar a passar a ligação para a doutora.
Cinco minutos após ter saído, estava de volta na sala com os documentos em mãos e um post-it amarelo sobre os mesmos.
- Esteja neste endereço às 16h30, .
- Obrigado, doutora.
- Podemos ir para casa, por enquanto? - Hadrian questionou ao ver o endereço e o horário.
- Por hoje sim, acredito que até amanhã à tarde já teremos o resultado dos exames, e podemos confirmar de uma vez por todas o diagnóstico.
- Finalmente!
- Aproveite o descanso porque não sou de dispensar meus pacientes desse jeito, ok?
- Não se preocupe, eu não vou querer ir embora! - piscou sorrindo, antes de despedir-se.
- Até amanhã, !
- Até amanhã, Doutora.

DOZE.

Klaus parou de analisar os papéis sobre sua mesa ao ouvir a batida na porta, logo vendo Collins passar pela mesma. Retirou os óculos de grau de aro preto, colocando-o sobre a mesa, cruzando os braços e relaxado, vendo-a sentar na cadeira a sua frente, o sorriso confiante que nunca deixava o rosto do diretor.
- Senhor... – ela coçou a cabeça, um pouco sem graça - Como devo trabalhar com ?
- Como assim?
- O senhor sabe o que ele procura, e não sei se dizer para ele que não funciona dessa forma será suficiente.
Klaus coçou a barba, concordando com um aceno lento.
- Conversamos sobre isso semana passada, não foge muito do que discutimos na reunião. – deu de ombros, cruzando as mãos sobre a mesa. A fisioterapeuta pareceu levemente incomodada, passou a língua pelos lábios antes de responder.
- Mas, senhor... Vocês querem um prazo que eu não posso dar. Não adianta eu dizer que ele estará ok em dois meses se não for verdade. Vai criar uma expectativa que muito provavelmente não será correspondida, - argumentou gesticulando com as mãos – e vai se sentir pior se não puder atingir o prazo.
- Você ainda nem olhou os exames... – negou com a cabeça, abanando com a mão – Está sendo muito pessimista, Collins.
A outra suspirou meneando a cabeça.
- Eu só... Eu não quero dar um tempo para ele voltar a andar, sabendo que isso não será tão simples ou rápido. Falta menos de um ano para a Copa, ele teria que estar cem por cento em menos de oito meses para poder ser convocado. Quais as possibilidades?
- Só saberemos depois que ele realizar os novos exames, não é? Vá conversando com ele, não dê um prazo exato. Pensaremos nisso quando os resultados chegarem e no decorrer do tratamento conversamos quantas vezes forem necessárias. – Klaus podia ver o quão desconfortável a mais nova estava com a situação, e ele entendia; A pressão era muito maior do que em qualquer outro paciente, por mais que todos dissessem que não. – , você não tem com o que se preocupar. Faça o seu trabalho tão bem como tem feito durante esses anos, tenho certeza que não será um desafio tão grande...
- Ah, é? E essa história de falar com jornalistas? – negou com a cabeça – Se, em algum momento, acontecer o mesmo que aconteceu com o doutor Robert, de pararem em frente à minha casa, eu nem saio para trabalhar, ok? Vou ficar lá até nomearem outra pessoa para o meu lugar!
- Não seja tão dramática, sempre pensei que ingleses adorassem desafios! – sorriu brincalhão. A fisioterapeuta estreitou os olhos, levantando-se da cadeira.
- Apenas quando não envolvem a minha pseudo-reputação de fisioterapeuta.
- Sua “pseudo-reputação“ continuará tão boa como antes, até melhor.
Ela fez uma careta leve, suspirando em seguida.
- Como você está? – perguntou levantando-se também e dando a volta em sua mesa, parando de frente a mulher. Ela deu de ombros evitando olhar para o homem.
- Acho que só um pouco cansada com tudo, e essa pressão extra com o …, Mas vou confiar que seja verdade o que você disse e não será nada diferente dos outros pacientes.

O jogador sorria conforme a secretária conversava com ele, tentando atrair sua atenção para além da bateria de exames que o homem tinha acabado de fazer.
A mulher era bonita, tinha um sorriso legal e olhos azuis. Os cabelos loiros e compridos estavam soltos, cobrindo parte de seus ombros e costas. Vez ou outra, reparou, ela mordeu o lábio ou colocou o cabelo atrás da orelha, olhando-o e sorrindo logo depois. Se estivessem em uma balada, e fosse solteiro, lhe pagaria uma bebida no mesmo instante e, para ser honesto, achava que se a chamasse para um jantar, ela aceitaria quase que imediatamente mesmo sabendo que ele namorava.
Ainda era Erick quem estava ali, e continuava tão bonito quanto antes.
“E modesto também!”, pensou sorrindo.
Mas ele não a chamaria para sair, nem que estivesse solteiro, não nessa situação.
No fundo sua mente ainda parecia presa nos resultados que não ficavam prontos nunca, e no horário que o relógio marcava.
A secretária, que não prestou atenção no nome, ria um pouco mais alto de uma história que o jogador tinha contado – que nem mesmo era tão engraçada -, mas a risada e a forma que a mulher o olhava fez seu ego inflar, era bom saber que ainda tinha seu charme.
Entretanto esse pensamento saiu de sua mente assim que ele viu passar pela porta de entrada da clínica de ortopedia, a inglesa usava uma calça jeans clara e sapatilhas pretas, junto com uma blusinha branca com detalhes coloridos. Collins sorriu quando avistou mais à frente, colocando os óculos de sol na cabeça e prendendo parte dos cabelos soltos com ele.
- Boa tarde! – cumprimentou os dois, aproveitando para sentar-se no sofá ao lado do alemão. A secretária a olhou por breves momentos, analisando-a quando a recém-chegada se virou para o homem – Como está, ?
- Nervoso...? – fez uma careta, embora um sorriso permanecesse em seus lábios ao falar com a mulher – Achei que os resultados sairiam mais rápido...
- Vai dar tudo certo! – piscou tranquila, olhando para os lados – Seus pais não vieram?
- Foram almoçar, não estava com muita fome então preferi ficar por aqui... – deu de ombros.
concordou com a cabeça, olhou para a secretária bonita e sorridente (a qual tinha voltado a mexer em seu computador quando notou que já não prestaria mais tanta atenção nela, embora vez ou outra olhasse na direção do jogador).
- Entendo...
olhou para a secretária, ao ver a inglesa sorrindo sugestiva enquanto encarava-o. O olhar do jogador encontrou com os azuis da mulher sem-nome, a qual ficou vermelha no mesmo instante, sorrindo discretamente e voltando a digitar rapidamente.
arqueou a sobrancelha para , levemente surpreso e negando com a cabeça em seguida.
- Não foi bem isso, não.
- Certo... – ela sorriu embora ainda parecesse desconfiada, novamente negou com a cabeça. – Muito cansado de ontem?
negou com a cabeça, um sorriso leve nos lábios.
- Como estão as coisas?
- Nada tão ruim tirando o principal - apontou para suas pernas -, nada muito novo para contar, não é como se eu estivesse fazendo muitas coisas esses dias…
- O que você faz para se distrair? - Collins perguntou interessada - Digo, além de festas e mulheres… Livros, filmes…?
- Eu ficaria ofendido com esse seu julgamento estereotipado, se ele não fosse real. - resmungou, dando de ombros em seguida, ouvindo-a rir baixo - Mas gosto de ler bastante, autobiografias ou livros sobre algum acontecimento importante, vez ou outra alguma ficção ou suspense.
- Sério? - respondeu um tanto surpresa - Qual o último que você leu?
- O último que estava lendo ainda não terminei, acabou sendo na época da final, então deixei de lado um pouco para focar no futebol e depois, bem…, Mas era sobre Auschwitz, não é um tipo de leitura fácil, mas acho importante manter o Holocausto em mente, sabe? É estranho, não é algo que eu gostaria de conversar sobre, porém gosto de ter na cabeça para nunca correr o risco de esquecer o que aconteceu.
sorriu pequeno, concordando com um aceno. Nunca imaginaria como um cara tão centrado e preocupado com a história do país, mesmo sabendo o quão delicado era para os alemães falarem sobre tudo o que tinha acontecido durante aqueles anos, e ao mesmo tempo tão conscientes de tudo, sempre preocupados em não deixar algo remotamente próximo aquilo acontecer novamente.
- E você gosta de ler o que?
- Um pouco de tudo na verdade, no momento estou lendo sobre um serial killer americano. Eu sei! - riu quando viu a cara de assustado do homem - Infelizmente não consigo evitar, tenho certa curiosidade. Acredito que seja meu lado psicólogo! - deu de ombros - Os documentários da Netflix sobre o assunto? Vi todos!
riu, embora visivelmente surpreso com aquilo; quem diria que a inglesa, toda centrada da clínica, era fã de histórias sobre assassinatos e serial killers?
Conversaram sobre mais algumas banalidades, até o jogador parar com o cotovelo apoiado sobre o braço da cadeira de rodas, e o queixo sobre a mão fechada;
- Mas e aí, doutora? Tem algum “doutor” na sua vida ou segue solteira?
Collins abriu a boca surpresa com a pergunta, sentindo as bochechas esquentarem por um instante;
- Você pega intimidade bem rápido, ein?
- Sou um livro aberto, o mínimo que espero é ter a mesma liberdade com as pessoas com quem converso.
A inglesa o encarou por um instante, arqueando a sobrancelha;
- Não me lembro de ter feito perguntas pessoais como essa, .
O jogador abanou a mão, antes de voltar a apoiar o rosto da mesma.
- Nem precisa, você pode encontrar tudo no Google, mas se quiser, é só perguntar! - sorriu pequeno, vendo-a negar sem graça, olhando para o lado. - Então existe alguém!
rolou os olhos, negando lentamente.
- Não que isso seja da sua conta - encarou-o por um segundo -, mas não, não tenho ninguém desde que terminei há alguns meses.
- E o ? - questionou interessado, afirmando mentalmente que o último motivo para importar-se com a resposta era para avisar o amigo, nada além daquilo.
Collins pareceu surpresa por um instante, esqueceu-se que os dois eram amigos, sentindo-se um pouco desconfortável com o pensamento que lhe veio à cabeça; se saísse com de novo, os dois jogadores conversariam sobre ela? Não queria seu paciente sabendo sobre sua vida amorosa, não era certo.
- Saímos duas vezes, não foi nada demais… Ele falou algo diferente? - questionou curiosa.
negou devagar, passando a língua pelos lábios antes de responder, querendo analisar a expressão da mulher;
- Não posso falar sobre isso, ele tentaria me empurrar da escada, e levando em conta minha situação atual, não teria um bom resultado! - piscou divertido, vendo-a rir baixo. - Mas e aí? Interessada no ou você só quer dar uns beijos nele?
Collins o encarou com a boca aberta, surpresa com o atrevimento.
- Você não pode estar falando sério?
- Ué, por que não? é meu amigo, quero saber o que é melhor para ele. - deu de ombros, sorrindo pequeno.
negou com a cabeça, passando a mão pelo cabelo enquanto olhava para o lado, pegando uma revista e começando a folheá-la.
- Você só está me dando a impressão que quer se divertir com ele, sabe disso, não é? - cantarolou, vendo-a olhá-lo com cara de poucos amigos, antes de voltar a prestar atenção na revista. riu, tornando a olhar para a frente e cruzando os braços, muito mais tranquilo agora que a mulher estava com ele. Por um instante, porém, pensou sobre e juntos, e se eles realmente começassem a namorar? Sentiu um certo incômodo no estômago, mas ignorou, prestando atenção no programa que passava na televisão.
Passados alguns minutos de silêncio, quase constrangedores para Collins, senhor e senhora voltaram, cumprimentando a inglesa assim que a avistaram.
Amélie sorriu, abraçando-a empolgada e dizendo o quanto ela estava bonita, deixando a inglesa com as bochechas vermelhas e constrangido pelo comentário de sua mãe para a fisioterapeuta. Ainda não tinha entendido o motivo da mulher gostar tanto da doutora, achava que era por ela ser sua fisioterapeuta, mas não tinha tanta certeza.
Os mal tinham sentado no sofá em que Collins estava, quando um homem de jaleco branco apareceu com os exames do jogador. O médico sorriu para , reconhecendo-a como responsável por outros pacientes.
- Collins, como está? – estendeu a mão para a fisioterapeuta, que se levantou para conversar com o mais velho. – Não notei que era você a responsável por ...
- Começamos essa semana, - ela sorriu – mas precisava confirmar algumas coisas antes do tratamento!
O alemão concordou apontando para sua sala, pedindo para que ela o acompanhasse. ficou olhando-os, aguardando ser chamado, mas voltou-se para ele antes que o jogador fizesse qualquer comentário.
- Será rápido, eu prometo. Logo estaremos conversando sobre isso, ok?
Ele apenas concordou com um aceno de cabeça, não podendo fazer muito mais ao olhar a inglesa seguindo o homem para outra sala. Virou-se para seus pais, que pareciam tão ansiosos quanto ele próprio.
- Por que sempre parece que demora mil anos quando ela diz que será uma conversa rápida?

colocou os fones de ouvido do celular, ligando-os em um volume alto e deixando o aparelho sobre seu colo, enquanto esperava a inglesa voltar com seus exames e o resultado principal sobre eles. Ele sentia o estômago embrulhado e uma vontade súbita de colocar para fora seu café da manhã o atingiu, o jogador fechou os olhos por um minuto, respirando fundo e soltando o ar lentamente pela boca. Sentia a mão tremer levemente e o medo voltar a atingi-lo.

Tinha tanto medo do que Collins diria... queria jogar a Copa do Mundo, queria voltar a jogar pelo Borussia, mas acima de tudo, queria livrar-se daquela cadeira de rodas, queria parar de precisar tanto de ajuda. Queria sua independência de volta!
Sentiu uma mão quente tocar sua mão trêmula e a envolveu, apertou-a levemente, abriu os olhos pronto para encarar sua mãe, mas surpreendeu-se ao perceber que o par de olhos que o observavam e o sorriso tranquilo nos lábios pertenciam a outra pessoa. Puxou os fones com a outra mão, ainda mantendo a mão da inglesa firme entre a sua, não perdendo nem por um segundo o contato visual.
- E aí? – perguntou sentindo sua boca tão seca quanto quando acordou no hospital depois do coma. O coração batendo acelerado.
suspirou sentando-se no sofá ao lado de , ainda segurando sua mão – a qual ele não diminuiu nem por um momento o aperto -, sorriu brevemente para Amélie e Hadrian antes de voltar o olhar para o atacante. Demorou alguns segundos para respondê-lo, mordendo levemente o lábio inferior. sentiu o ar faltar.
- Hm... Estou com seus exames... E... – a mulher mostrou o envelope grande e branco, tornou a suspirar olhando-o em seguida – Vamos ter que cancelar seu tratamento por hora, você vai precisar fazer sua cirurgia e ficar de repouso por alguns dias! – sorriu para ele.
continuou a encarando por um tempo, aos poucos o significado naquela notícia o atingindo e o sorriso crescendo em seus lábios.
- Isso é sério? – ela confirmou com um aceno, ainda sorrindo para ele. deixou uma risada nervosa escapar, logo sua mãe veio abraçar-lhe, deixando um beijo em sua testa e garantindo que logo estaria tudo bem, assim como seu pai que parecia tão empolgado quanto ele próprio.
- Vou ver com a Eileen para podermos marcar sua operação, ok? – avisou ao pegar o celular, soltando gentilmente a mão de e afastando-se para ligar para a secretária. ainda acompanhou com o olhar a fisioterapeuta andando para fora, antes de voltar a prestar atenção no que seus pais falavam.
Passados poucos minutos, os três caminharam em direção à saída, a fim de irem embora da clínica, encontrando parada em um canto, ainda ao telefone, segurando uma agenda com o símbolo da KBE-V, ela concordou algumas vezes com a pessoa com quem conversava, antes de tornar a responder;
- Sexta-feira seria excelente! – equilibrou o celular com o ombro contra a orelha, enquanto anotava algo na agenda – Tudo bem, vou me certificar! Confirmado o horário?! – os pararam a apenas alguns passos da fisioterapeuta, que se virou com um sorriso, terminando a ligação - Okay, muito obrigada! Até logo! – Collins desligou o celular, colocando-o na bolsa novamente, junto com sua agenda. – Sexta-feira às 10h30, , não se atrase!

No restante da tarde, os quatro acabaram indo à um café próximo à clínica na qual tinha feito os exames, enquanto conversavam, o jogador aproveitou para comer alguma coisa.
explicou detalhadamente o resultado dos exames e o que, de fato, significavam.
Também explicou como funcionaria o tratamento de dali em diante, e o dispensou do tratamento para o dia seguinte, sendo marcado de se encontrarem na sexta-feira, no hospital no qual seria operado.
Conforme informado para o jogador e seus pais, a operação não seria longa.
Provavelmente em pouco mais de uma hora – se a anestesia fizesse efeito rapidamente -, e já seria levado de volta ao quarto para observação e, possivelmente, ganharia alta no sábado à tarde, conforme os médicos confirmassem que estava tudo bem. Depois disso, permaneceria cerca de dez dias em casa, para repouso absoluto antes de começarem sua recuperação.
Depois de tudo acertado, despediu-se, informando que precisaria voltar à KBE-V para informar a Klaus os resultados. Tanto Hadrian quanto Amélie abraçaram a inglesa, agradecendo por toda ajuda e dedicação que ela já demonstrava com , o qual ficou extremamente sem graça. Amélie simpatizou tanto com a fisioterapeuta que, antes da mais nova afastar-se em direção ao próprio carro, a abraçou de novo;
- Tenho certeza que seus pais morrem de saudades de você por ficar tanto tempo longe, mas também tenho certeza que eles sentem muito orgulho de você, querida! – as palavras foram tão sinceras, que no mesmo instante abraçou-a ainda mais forte, agradecendo baixinho.

Na quinta-feira Collins apareceu na KBE-V apenas à tarde, para uma rápida reunião com Klaus e os sócios da clínica sobre o resultado dos exames, a operação e o tratamento de . Os sócios - que mal esperaram e Klaus terminarem de explicar o que os resultados significavam -, pareciam extremamente satisfeitos com a notícia, imaginando que logo o jogador voltaria a andar, o que aumentaria ainda mais o prestígio da KBE-V.
Klaus também ficou satisfeito com a expectativa do jogador voltar para seu time, afinal assim como Krauβ e Gerstner, era fanático pelo BVB, embora não demonstrasse da mesma forma.
O jogador, por outro lado, aproveitou que tinha sido dispensado para entrar em contato com seu agente, que foi até sua casa assim que desligou o telefone, desmarcando uma reunião com um dos assessores da empresa na qual trabalhava – era um de seus principais clientes.
Féher só faltou pular quando soube que provavelmente voltaria mais cedo do que pensava para os gramados e que, de fato, poderia voltar já que seu estado não era tão grave como todos pensaram a princípio.
August Féher era quinze anos mais velho que , os cabelos loiros já estavam tomados pelos brancos e as entradas eram bem visíveis em sua cabeça, a barba grande e bem cuidada o deixavam com uma aparência mais respeitosa, assim como os óculos de grau, mas embora aparentasse uma pose firme e séria, Féher era uma pessoa muito calma e sorridente.
Abraçou o jogador desajeitado, dando-lhe tapinhas nas costas e informando que iria até o Borussia para conversar com Klopp e Rauball sobre a situação do atacante. Insistiu para que fizesse uma declaração das redes sociais sobre seu novo estado, e informou que seria necessária uma coletiva de verdade desta vez.
Terminou dizendo que seria muito mais interessante uma coletiva dentro a KBE-V, junto com a responsável pelo tratamento do jogador, e com o diretor da clínica.
negou com a cabeça, achava que aquilo seria demasiado exagero e possivelmente prejudicaria o dia dos outros pacientes e doutores, devido à grande movimentação que aquilo causaria na clínica, sem contar que ele tinha a mais absoluta certeza que Collins não iria gostar da ideia de aparecer na frente de várias câmeras. Entretanto, Féher lembrou-o que não era a inglesa quem tinha que aceitar ou não alguma coisa, e os sócios da KBE-V obviamente ficariam animados com a perspectiva de propaganda gratuita para o local.
Por fim, mesmo contrariando os vários pedidos de de fazer apenas uma declaração online, como tinha feito anteriormente, Féher saiu da casa do jogador já com o celular em mãos, ligando para seu assistente e mandando-o arranjar-lhe uma reunião com o pessoal da clínica de Dortmund e do Borussia.

Sexta-feira acordou às três da manhã, e daí em diante não conseguiu pregar os olhos por mais de dois minutos, estava ansioso demais para voltar a dormir. Só sairia de casa para o hospital às 8h30, então esperou até o relógio apitar às sete horas para levantar-se, já conseguindo com um pouco menos esforço colocar-se na cadeira de rodas e seguir para o banheiro.
Enquanto sentia a água quente cair sobre sua cabeça e ombros, olhou para suas pernas, imóveis. Perguntava-se quando voltaria a senti-las, quando voltaria a movimentá-las como deveria.
Terminou seu banho e, após mais tempo que desejava, terminou de se secar e saiu do box, foi quando percebeu que não tinha pego suas roupas. Deixou a toalha sobre o colo, e voltou para o quarto, sentindo o rosto esquentar com a possibilidade de os pais aparecerem. Seus ouvidos atentos a qualquer sinal de que eles estariam se aproximando.
Pegou uma bermuda azul, uma regata preta e uma boxer da mesma cor, voltando para o banheiro o mais rápido que conseguiu.
Passados quase dez minutos – dos quais ele perdeu mais da metade para vestir a boxer e a bermuda, escovou os dentes e passou seu desodorante (em excesso, ele admitia), deu duas borrifadas de perfume no pescoço e voltou para o quarto, passando a mão pelos cabelos húmidos. Pegou duas mudas de roupas e colocou dentro de uma mochila pequena, para levar ao hospital.
sentiu o estômago roncar e quase riu da ironia, todos as manhãs ele comia por obrigação, não por sentir fome, mas no único dia que ele deveria ficar de jejum, seu estômago dava sinal de que ele poderia morrer se não colocasse para dentro algum alimento, qualquer que fosse.
Ignorando o buraco negro de fome em sua barriga, o jogador abriu a porta do quarto, empurrando a cadeira até o corredor em direção a sala. Segurou as rodas com certa força, tentando por tudo evitar ir muito rápido e acabar caindo na sua mais nova rampa, que agora cobria os poucos degraus de antes. Sentindo-se satisfeito consigo mesmo por estar minimamente mais independente, chegou à sala e esperou por seus pais, que tomavam café sossegados, como se o filho não estivesse contando os minutos para poderem ir ao hospital e ele fazer logo aquela cirurgia...

já usava as roupas de hospital (um tipo de camiseta comprida que ia até metade das suas coxas, totalmente aberto às costas e apenas amarrado com duas pequenas cordinhas, uma na altura do pescoço e outra da cintura, as quais não cobriam sua bunda branca), estava sentado na cama, com as pernas para fora, os braços segurando firmemente o colchão, enquanto esperava pela enfermeira que viria buscá-lo na hora da cirurgia.
Seu pai conversava com um dos médicos responsáveis pelo procedimento, enquanto sua mãe estava na sala de espera, conversando com sua irmã pelo telefone. Encarava seu próprio celular, ignorando a vontade de mandar uma mensagem grosseira para a namorada. Aquele era um dos momentos mais importantes da sua vida, e ela não estava ao seu lado. Rachel deveria ter ido para Dortmund na segunda-feira à tarde, mas ao invés foi para Paris em um evento que talvez gerasse um novo contrato para desfilar em alguma Fashion Week. “Boa sorte, meu amor” era o que dizia a mensagem que ela tinha mandado, porque nem mesmo ligou para saber como ele estava.
tentava por tudo pensar em algo que o não o fizesse pegar o aparelho e mandar a mulher à merda. Estava quase irracional sua raiva. No fundo sabia que não poderia contar 100% com Rachel, e aquele era o relacionamento deles, sempre tinha sido daquela forma; O trabalho sempre viria primeiro. Contudo, as coisas estavam diferentes agora, estava em uma cadeira de rodas e ela parecia não se importar. Aliás, ela parecia se importar sim, a ponto de evitá-lo.
Bufou nervoso, xingando em voz baixa ao tempo que a porta do quarto se abriu, e no mesmo instante que o jogador viu quem passou sorridente por ela, ele sentiu seu rosto esquentar violentamente.
Aquilo era quase tão humilhante quanto precisar de ajuda para tomar banho!
- Olá, como está? – perguntou deixando sua bolsa sobre o sofá em frente a cama, e aproximando-se do atacante. - Espero que sua frase tão educada não tenha sido para mim! - questionou com a sobrancelha arqueada.
negou rápido, sorrindo pequeno.
- Claro que não, e... Bem, se considerarmos que eu estou praticamente nu e vou fazer uma cirurgia em alguns minutos... – deu de ombros tentando parecer descontraído, embora no fundo tivesse vontade de jogar-se embaixo da cama para ela não o ver vestido daquele jeito.
riu, concordando com a cabeça, antes de voltar para próximo do sofá, sentando ali mesmo e dando um pouco mais de privacidade ao homem.
- Não posso fazer nada quanto a sua falta de roupa, mas a respeito da cirurgia, não tem com o que se preocupar, sério. Será rápido e indolor!
fez um barulho com a boca, concordando, coçou a barba por fazer, ainda se sentindo envergonhado com a situação inteira, até que seu olhar caiu sobre o aparelho de televisão, desligado.
- Você falou com o doutor Scheidmman? – perguntou repentinamente.
- Ontem à tarde, tivemos uma pequena reunião com os sócios... Por que?
- Hm... Talvez, só talvez, meu agente esteja tentando marcar uma reunião com eles... – comentou passando a mão pelo pescoço, olhando para as próprias pernas.
manteve o cenho franzido por alguns instantes, esperando continuar por vontade própria, visto que ele permaneceria em silêncio, ela perguntou o motivo.
- Ele quer uma coletiva para a imprensa... Na KBE-V, com o Klaus presente...
A inglesa concordou devagar, imaginou que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.
- Posso entender a razão... – sorriu fraco para ele, fez uma leve careta.
- E com você também. Afinal, meu tratamento vai começar com você... - completou sem encará-la.
Collins abriu a boca surpresa, as sobrancelhas levemente levantadas.
- É o que...?
não teve tempo de tentar explicar que ele achava aquilo desnecessário, ou qualquer outra coisa, pois no instante seguinte uma enfermeira apareceu com uma cadeira de rodas, para levar o jogador para a operação.
ajudou-o a ficar em pé, servindo-lhe de apoio, antes de ajudá-lo a sentar na cadeira, notando o rosto corado do jogador quando o mesmo se desequilibrou por um segundo e sua camiseta abriu-se um pouco mais nas costas, mostrando parte dos seus glúteos.
- Estarei te esperando aqui, ok? Vai dar tudo certo! – abraçou-o, sendo correspondida com um sorriso nervoso e um acenar de cabeça. soltou a respiração quando passou pela porta do quarto, sentindo um misto de nervosismo e ansiedade, misturados com um calor que se espalhou de seu rosto para outras partes do corpo quando a inglesa o abraçou.

sentiu a claridade lhe incomodar quando abriu os olhos, uma sensação de déjà vu o atingiu quando olhou para o teto do quarto branco. Pela janela, ao seu lado direito, pode ver o céu claro do lado de fora, respirou fundo, ouvindo os bipes dos aparelhos e olhando ao redor. No sofá, estava sentada, as pernas cruzadas enquanto ela parecia distraída lendo uma revista sobre psicologia. reparou no vestido verde água que ela usava, quando ela estava em pé passava da metade das coxas, mas com ela sentada devido às pernas cruzadas, o mesmo tinha subido, dando-lhe uma visão um pouco maior de suas coxas.
pegou-se olhando para as pernas da doutora por alguns instantes, subindo o olhar desde a sapatilha preta que ela usava até o decote pequeno no peito. Os cabelos soltos da mulher cobriam parte de seu rosto, visto que ela estava levemente curvada para frente, parecendo realmente interessada no que lia. notou um pequeno caderno e uma caneta ao seu lado, com algumas anotações, e não demorou a perceber que ela anotava coisas que lia e achava importante. E foi quando ela terminou de escrever no caderno que ela subiu os olhos para o local em que o jogador estava, sorrindo para ele em seguida, deixando tanto a revista quanto o caderno de lado, andando para perto da cama.
- Sente-se bem?
- Acredito que sim, sei lá, meu corpo inteiro parece formigar... – olhou para um dos aparelhos ao lado da cama, voltando a sorrir em seguida.
- Seus batimentos estão normais, a sensação é devido a anestesia, os efeitos já devem estar passando...
- E como foi à cirurgia? – questionou ansioso.
- Um absoluto sucesso! Como eu disse, nada com que você devesse se preocupar.
A mulher viu quando o homem respirou fundo, soltando a respiração devagar, parecendo muito mais relaxado agora do que das vezes anteriores que ela o tinha visto. Não que parecesse estressado o tempo todo, ou nervoso, mas ela notava que ele mantinha o cenho franzido sempre que ela começava a falar sobre sua situação ou tratamento, e que desde que o tinha conhecido ele nunca pareceu cem por cento calmo; sempre mantinha os ombros tensionados e a mandíbula levemente travada, mesmo quando conversava ele parecia parcialmente tenso, e o sorriso dele nunca parecia de todo verdadeiro. Quase como se parte dele se mantivesse no modo tenso, por mais que ele aparentasse estar tranquilo.
- Então agora é só começar a fisioterapia? – sorriu animado.
- Daqui alguns dias, você precisa descansar...
- Von Gott, mais do que eu tenho descansado? Passei semanas deitado em uma cama, acho que já posso começar amanhã mesmo, não?
Collins negou com a cabeça, achando engraçado o desespero dele.
- Negativo, preciso ter certeza que sua recuperação da operação foi cem por cento, ou podemos prejudicar seu tratamento e, ao invés de você voltar a andar mais cedo, vai demorar mais tempo. Pense nisso!
concordou a contragosto, olhando para o teto por um instante e então franzido o cenho.
- Cadê meus pais?
- Conversando com sua família sobre a operação, já devem estar voltando. Sua mãe parecia bem nervosa, mesmo depois que você veio para o quarto. Imagino que ela não tenha gostado de te ver desacordado novamente...
O jogador concordou com um aceno curto, não sabendo o que responder no momento.
Poucos minutos depois, enquanto os dois conversavam sobre algumas banalidades para se distrair, os pais do alemão passaram pela porta, ambos sorrindo no mesmo instante em que a voz do filho chegou a seus ouvidos.
- ! Como está, querido? – Amélie aproximou-se, beijando a testa do caçula.
Reparando que o jogador estava em excelentes mãos e já parecia muito mais calmo e, após o médico aparecer confirmando que ele estava bem e teria uma noite tranquila, despediu-se dos , garantindo que voltaria no dia seguinte quando ele recebesse alta para conversarem caso aparecesse qualquer dúvida, fazendo-os prometer que a ligariam caso tivesse algum problema, por menor que fosse.
permaneceu olhando a porta após a mulher sair, entendia perfeitamente o motivo de ela ir embora; Primeiro ele não estava precisando de nenhuma atenção especial, a operação tinha sido tranquila e ele só ficaria de repouso, tomando alguns analgésicos para as dores. Segundo: Ela nem mesmo tinha obrigação de estar ali, parecia muito claro que ela tinha ficado com ele durante a operação para dar apoio e deixar-lhe mais calmo. De qualquer forma, ao vê-la sair, sentiu-se um pouco decepcionado, mesmo que não tivesse motivos para aquilo, no fundo queria que ela continuasse fazendo-lhe companhia.

TREZE.

O jogador estava sentado em sua cama assistindo desenho animado, quando ouviu a campainha tocar. Rapidamente ajeitou-se como pode na cama, passando a mão pelos cabelos, mais compridos do que gostaria, antes de mudar o canal para um jornal qualquer que falava sobre protestos de alguns ativistas de direitos humanos.
Não demorou para ouvir a batida na porta e logo se fez presente, sorrindo ao vê-lo bem disposto;
- Como se sente? - questionou sentando-se no canto da cama, após cumprimentá-lo com um beijo no rosto.
estava sem camiseta, devido a cinta que ainda usava em na região da cintura, para evitar grandes movimentos que pudessem retardar sua recuperação. Não que não pudesse usar uma camiseta, mas ficava desconfortável e extremamente quente. Mas aquela não era a primeira vez que a doutora o via sem camisa, e o jogador já começava a ficar mais relaxado com relação aquilo.
Aos poucos tentava não passar tanta vergonha na frente da mulher, apesar de que ela já o tinha visto com a bunda de fora no hospital, ele achava pouco provável que pudesse piorar.
- Cansado de passar tanto tempo na cama, mas fora isso, melhor. E você?
- Tudo certo, praticamente de férias até a próxima semana, não é? - deu de ombros, rindo baixo.
tinha o visitado em duas outras oportunidades durante aquelas duas semanas, além de ir logo cedo no dia seguinte a cirurgia, e, por mais que negasse para si mesmo, ela era sempre a visita que mais esperava. Gostava da atenção que recebia da fisioterapeuta, de como ela prestava atenção no que ele dizia e se interessava mesmo pelos assuntos bobos. A mulher usava uma saia longa preta com estampas de flores e regata branca, além de colares e pulseiras, o cabelo preso em um coque desajeitado, mas que mesmo com os fios soltos ainda a deixavam bonita.
começou um assunto qualquer, prendendo a atenção do alemão, que por mais que tentasse evitar, vez ou outra parava o olhar nos lábios da mulher, mas não por muito tempo.
Sempre se mantinha focado nos olhos e no rosto, nas expressões e no sorriso dela, o quanto gesticulava as mãos para falar e como sorria ao dizer algo engraçado. sorria junto apenas por vê-la daquele jeito.
Seu pensamento começou a vagar embora ele continuasse sorrindo e concordando, parte de si ouvia sua voz e prestava atenção nas palavras, mas outra parte pensava em como deveria ser tê-la como amiga, sair para fazer qualquer programa e apenas aproveitar sua companhia, mas não de forma doutora-paciente, apenas como amigos. E, embora realmente reprimisse o pensamento, gostaria de saber como seria beijá-la. queria experimentar.
Tão rápido esses pensamentos vinham a sua cabeça, eles iam embora. tinha namorada e seu melhor amigo estava interessado na mulher, mas mesmo sabendo daquilo não foi uma nem duas vezes durante os últimos dias que pegou-se pensando no que a mulher estaria fazendo e como poderia chamar sua atenção. E como queria poder beijá-la. E no quão errado era pensar naquilo.
E, mais uma vez, acenava com a cabeça rindo ao mesmo tempo da inglesa, fazendo comentários sobre o que entendia do assunto, enquanto parte de si ainda desejava ter-lhe conhecido primeiro que . E se tivesse a conhecido antes do acidente. Será que ela também pensava nele de vez em quando? Será que também queria beijá-lo? O que aconteceria se ele fizesse aquilo?
. Rachel. . Rachel.
A cada momento que pensava sobre a mulher, a imagem do melhor amigo e da namorava pareciam pular em sua cabeça, lembrando-o de quão errado era ele sentir-se atraído por ela.
Era errado de tantas formas que ele agradecia por nenhum dos três terem a chance de ler sua mente.
- Mas e você, , o que tem feito?
- Ah, você sabe - pensado em você, completou mentalmente -, vendo televisão, lendo, tentando não morrer de tédio. Aliás, eu estou quase terminando o livro que você me emprestou, e estou pronto para procurar spoiler na internet para saber o final.
- Vai estragar tudo se você fizer isso!
- Eu sei, mas eu não acredito que ao mesmo tempo que eu quero que ela escape eu detesto a mulher! Ela é a vítima e eu quase gosto mais do Frederick! A parte da narrativa dela é muito chata!
riu, concordando.
- Pensei a mesma coisa quando eu estava lendo! Mas mantinha na cabeça que ele tinha sequestrado a Miranda, para não correr o risco de sentir pena dele! - explicou, vendo-o concordar.
- É bem diferente daquele Lolita, já leu?
- Você já leu? - perguntou surpresa.
- É claro que sim, você realmente me colocou numa base típica, não é? Jogador que só vai para todas as festas e não tem interesse em nada?
- Nunca disse isso! - ergueu as mãos, embora o sorriso em seu rosto deixasse evidente que tinha sido aquilo mesmo.
- Enfim, antes que eu fique ofendido… Naquele livro eu consegui odiar o cara o tempo todo, mas nesse eu quase sinto pena do Frederick e o cara é um stalker! Ele sequestrou a Miranda! - explicou agitado, negando com a cabeça - Ela escapa no final? Ou ele a mata?
- Eu não vou contar, mas podemos conversar sobre quando você terminar. - piscou, animada. Vendo-o negar com a cabeça;
- Não foi isso que eu perguntei!
- Não vou estragar sua leitura, mas quando terminar posso te emprestar um outro muito bom, mas mais moderno. É uma trilogia na verdade, o cara é um ex-detetive que largou tudo porque o cara que ele perseguia foi atrás da família dele.
abriu a boca, negando por um segundo.
- Como é que você fica lendo essas coisas? Quando falou que iria me emprestar um livro achei que seria algum romance meia boca do John Green.
arqueou a sobrancelha, um sorriso de escárnio nos lábios;
- Quem estereotipou quem agora?
gargalhou, concordando e se desculpando.
- Obrigado.
- Pelo livro? - questionou confusa, vendo-o negar.
- Por tudo. - respondeu sincero, encarando-a por alguns instantes.
A inglesa sorriu em sua direção, um pouco surpresa pela forma como parecia expor os sentimentos vez ou outra, embora não falasse muito sobre. Era uma palavra ou um gesto, mas ela sabia o que ele queria dizer quando o fazia.
Chegou a abrir a boca para dizer mais alguma coisa, lembra-lo que estaria ao seu lado nos próximos meses, para o que ele precisasse. Porém, antes que conseguisse achar as palavras para respondê-lo, viu a porta ser aberta e uma mulher entrar gritando sorridente;
- Bom dia meu amor! Sentiu saudades?

encarou a namorada tão surpreso quanto , não esperava que ela fosse chegar em Dortmund, principalmente aquele horário, naquele dia.
- Rachel? Ahn… Essa é Rachel minha namorada, Rachel, essa é a doutora , minha fisioterapeuta. - apresentou, sem jeito.
- É um prazer! - estendeu a mão, levantando-se para o cumprimento.
A modelo parou por um segundo ao ver a outra mulher no quarto, embora distante, sorrindo leve para , tocando sua mão por um instante, antes de aproximar-se do namorado, jogando-se em seu colo e beijando-lhe profundamente por um minuto. sentiu-se desconfortável com a cena, preferindo olhar para o tapete do que para o casal, coçando a orelha sem graça, aproveitando para distanciar-se quando os dois se separaram.
- Como sua namorada está de volta e tenho certeza que vocês tem muito o que conversar, - sorriu educada - eu já vou indo, te vejo segunda-feira na clínica, .
- Eu, ahn… Claro, até segunda… - despediu-se com um aceno de cabeça, embora a mulher já estivesse passando pela porta, claramente querendo evitar ver os dois voltarem aos beijos.
Rachel continuou em seu colo, agarrada em seu pescoço por mais um instante, certificando-se que a inglesa tinha ido embora, antes de rolar pela cama.
- Feliz em me ver, bebê?
- Claro, claro… - respondeu sorrindo de lado - Um pouco surpreso apenas, você disse que vinha só na próxima semana…
- Eu sei, mas quis compensar por não ter vindo antes, sabe como é com as sessões de fotos e todo o resto…
Völkers começou a tagarelar sobre as últimas semanas no trabalho, o quanto estava cansada de tantas fotos, e de tantos fotógrafos, de como o pessoal era antipático, e tantas outras coisas que estava cansado de ouvir por sempre se a mesma história. Apenas concordou com a cabeça, enquanto ela saia de seu colo, tirando os sapatos e jogando-se ao seu lado na cama, pegando um travesseiro para deitar a cabeça e encarando o teto enquanto falava.
estava feliz por ter a namorada ao seu lado após tantas semanas separados, mas ao mesmo tempo questionava se era mesmo necessário ela ter chegado aquele dia, poderia ter ido em tantos outros horários, mas não, é claro que ela tinha que chegar enquanto ele falava com .
O que a mulher pensaria dele com tudo aquilo?
Pareceu um pouco mais do que óbvio que Rachel só tinha feito aquilo porque estava junto, a alemã detestava qualquer mulher perto de , era extremamente ciumenta mesmo que ele não desse motivos para tal.
Se tinha uma coisa que não fazia era trair, embora flertasse com uma mulher ou outra as vezes, não saiu com nenhuma depois que começou um relacionamento sério com Rachel.
- Você ouviu alguma coisa do que eu disse? - a mulher questionou após algum tempo no qual não tinha feito qualquer comentário, alheio demais nos próprios pensamentos.
- Você está cansada das fotos e da equipe… Aham…
A mulher bufou, frustrada ao notar o pouco caso que o jogador fazia sobre a situação.
- O que sua fisioterapeuta estava fazendo aqui? Meio antiético ela se ofereceu para vir te visitar na sua casa, não?
suspirou, negando.
- Ela veio ver se eu estou ok porque não tenho feito nada nas últimas duas semanas, e fui eu quem convidei. - respondeu calmo, e, de fato disse que se ele precisasse de algo poderia ligar, mas foi quando falou que estava morrendo de tédio que ela se ofereceu para passar lá e conversarem um pouco, principalmente levando em conta que tinha viajado junto com o time em pré-temporada. Nem seu melhor amigo estava em casa.
Quem também tinha passado para visitá-lo foi uma de suas irmãs, Paloma, dizendo que as crianças morrem de saudade do tio e estão loucas para irem visitá-lo.
Rachel não pareceu muito convencida, mas não seguiu no assunto, não querendo conversar muito sobre o assunto. Logo engatou uma conversa diferente, fazendo com que os dois se distraíssem por algum tempo e lembrasse porque sentia sua falta na maior parte do tempo.

desceu do carro sorrindo, digitando em seu celular enquanto andava lentamente para dentro da clínica, respondendo a mensagem que tinha recebido de . Desde que o jogador tinha viajado com o time, na semana anterior, tinham passado praticamente todos os dias trocando mensagens, na maioria das vezes sendo apenas coisas aleatórias, mas que fazia os dois rirem.
era divertido e ela gostava da presença do loiro, estava até bastante ansiosa para o encontro que teriam quando ele voltasse para a Alemanha em algumas semanas.
Guardou o celular no bolso e seguiu pela recepção, cumprimentando os pacientes e funcionários que estavam por ali, antes de seguir para sua sala, para preparar as coisas antes que chegasse, o que não demorou muito. Menos de trinta minutos que estava em sua sala já ouviu a batida na porta, e logo o jogador estava parado no meio da sala, conforme ela tinha pedido.
Como tinha imaginado, de fato o jogador tinha uma hemorragia na região da vértebra, causada por um dos ossos das costelas quebradas, o que logo depois formou um coágulo, grande o suficiente para causar a compressão e cortar a sensibilidade da região. Porém nos primeiros resultados a hemorragia não aparentava ser tão grande, fato que a deixou em dúvida para passar qualquer diagnóstico definitivo.
De qualquer forma, agora que a cirurgia tinha sido realizada, e o coágulo removido, os ossos das costelas de já estavam cem por cento e era uma questão de tempo até ele voltar a boa forma física, mas para os primeiros dias ela ainda queria ir devagar até ter certeza que ele poderia seguir com um tratamento mais pesado.
- Muito bem, preparado?
- Eu queria dizer que sim, mas agora que estou aqui fiquei nervoso… - respondeu olhando ao redor.
- Não se preocupe, é seu primeiro dia, se você sentir que está muito pesado me avisa e paramos por um tempo, ok?

olhou o relógio, fazia tempo demais que estava deitado naquele tatame de EVA, depois de muito esforço, em sua opinião. A única coisa boa de tudo aquilo foi ela ter concordado que o jogador poderia se sentir mais à vontade se seus pais não participassem da sessão.
sentiu o suor escorrer por seu rosto, mas quando ela perguntava dizia que estava bem e poderia continuar.
- É cansativo no começo, mas você precisa acostumar-se a fazer esse movimento de elevar o corpo, acostumar-se a aplicar a força necessária em seus braços.“
Foi o que a inglesa tinha dito após alguns minutos, por sorte, não pode ver o olhar de desagrado de ao perceber que não teria qualquer ajuda.
Aquilo era realmente cansativo, seus braços doíam e também sentia pequenos espasmos.
Achava que seria muito mais fácil apenas jogar-se ou qualquer coisa, era quase um perito em cair nos últimos dias, mas ela queria complicar sua vida; Fez com que ele levantasse para depois inclinar o tronco e apoiar as duas mãos no chão, antes de virar-se para, devagar e com calma, sentar-se. Ele facilmente teria desistido e sentado de qualquer jeito, se ela não tivesse dito que ele teria que fazer tudo três vezes, se ela percebesse que ele estava tentando matar o treino.
Manteve-se em silêncio, apenas respondendo o mínimo necessário desde que ela pediu para ele deitar-se. Era uma situação bem estranha, sentia seu quadril doer e tinha certeza que aquela altura os nervos das pernas estariam queimando. Se ele pudesse senti-los, é claro.
Estava deitado como se fosse fazer flexões, as pernas dobradas, enquanto a fisioterapeuta mantinha as mãos apoiadas em seus joelhos, segurando-os juntos, não entendia bem a razão, já que nem sentia a região, mas depois considerou a possibilidade de suas pernas simplesmente “deslizarem“ ao invés de manterem-se flexionadas. estava colocando pressão suficiente para que isso não ocorresse, enquanto , que já estava suado, fazia as flexões que ela pedia.
Puxar o ar, erguer o tronco, elevar os braços, segurar os joelhos, soltar o ar, voltar a deitar-se e... repetir!
- Você faz todo mundo passar por isso no primeiro dia? – perguntou entre uma puxada de ar e outra, sentindo o suor pingando de seu rosto no chão e no peito.
- Cansado? Mal começamos, . – ela deu um sorriso de lado que o jogador teria achado um sorriso bonito se não estivesse ocupado reclamando mentalmente pela piadinha sem graça. – Você é um atleta, achei que teria um físico mais preparado para umas flexões, não é?
- Atleta parado há dois meses, não é? E aquele papo de “você precisa ir com calma e ter paciência?“ – questionou ao deitar-se novamente, respirando fundo algumas vezes antes de voltar a fazer o movimento.
- Vou deixar você fazer um dia com o Weiss, aposto que nunca mais vai reclamar de mim!
Ele franziu o cenho por breves momentos, antes de voltar a sentir-se cansado demais para reclamar. Não queria nem imaginar do que o outro fisioterapeuta seria capaz.
Achava que Klopp sempre tinha sido exigente nos aquecimentos antes dos treinos, entretanto, agora, pensando bem, ele achava que preferia dar as cinco voltar no campo do que manter-se naquelas flexões.
- Muito bem, pode descansar cinco minutos!
soltou o ar de uma única vez, muito próximo ao rosto da fisioterapeuta, devido ao movimento de vai e vem que fazia ao segurar seus joelhos.
Sempre ficava perto dela quando levantava o tronco, teve tempo suficiente para reparar nas pequenas pintinhas que ela tinha próximo ao nariz, e no sorrisinho que ela dava toda vez que ele fazia algum barulho devido ao cansaço, mas parecia muito entretida olhando se o movimento estava certo para reparar na atenção exagerada que dava ao seu rosto. E conforme esse pensamento veio à sua cabeça, ele agradeceu, estava tão suado e tinha certeza que o rosto estava vermelho.
Não deveria parecer muito atraente.
Desejava ter passado mais desodorante e um pouco mais de perfume, talvez ele já estivesse fedendo...
Disfarçadamente o alemão virou o rosto para o lado, fingindo limpar o suor na camiseta, enquanto dava duas fungadas pra ver se sentia um cheiro desagradável vindo da axila.
Quando voltou a encostar o tronco no chão, pode reparar que ela olhava para o lado, distraída.
Passou a língua pelos lábios antes de levantar-se, andando para perto de um equipamento, a mulher olhou o relógio de pulso, suspirando antes de virar-se para o jogador.
- Deu sorte hoje, vou te liberar para o horário de almoço dez minutos antes, porque não faz sentido começar outra atividade agora. - explicou voltando a sentar-se ao lado do jogador, de pernas cruzadas. achou a cena fofinha. Levantou-se até ficar parcialmente sentado, usando os antebraços para apoiar seu corpo ao chão. – Mas esteja nessa sala às duas horas em ponto para podermos continuar, entendido?
Fez um barulho com a boca, um leve muxoxo saindo por seus lábios. Já estava começando a arrepender-se de ficar dois horários com ela, não aguentaria por muito tempo todo aquele esforço.
esperou ele ajeitar-se melhor, antes de ajudá-lo a voltar a sentar em sua cadeira de rodas, assim que ele estava acomodado, liberou-o para o almoço, informado que se ele e os pais quisessem, o restaurante da clínica já estava aberto.

O jogador queria ter levado outra camiseta e uma toalha, mas no fundo o que ele queria era tomar um banho, porque ele poderia não estar fedendo ainda, mas não demoraria para aquilo acontecer tendo mais algumas horas de fisioterapia na parte da tarde.
Olhou para o prato e foi só quando viu a comida que percebeu o quão faminto estava. Seu Schnitzel parecia delicioso, acompanhava arroz, batatas assadas e salada de alface, pepino e tomate.
Comeu rápido, fingindo não ouvir quando sua mãe pedia para que mastigasse direito a comida antes que se engasgasse, ao tempo que dava as últimas garfadas, o restante dos pacientes começava a chegar no restaurante, dividindo-se em mesas e na fila do buffet.
Seus pais aproveitavam para contar alguma novidade sobre a família, o que sempre fazia o mais novo agradecer mentalmente. Estava cansado de ser o centro das atenções o tempo todo.
logo apareceu com outros fisioterapeutas, sentando-se os três em uma outra mesa para conversar. Vez ou outra ele notava o riso fácil no rosto da inglesa.
Os três pareciam conversar entretidos demais para prestar muita atenção ao redor, Max estava sentado ao lado da inglesa e os dois pareciam muito próximos, o que não passou despercebido por . A mulher prestava atenção em tudo que os dois diziam, especialmente o mais velho, concordando vez ou outra com o que ele falava e completando alguns comentários.
Alguns outros pacientes chegaram cumprimentando de longe o grupo de doutores, e, ao passarem pela mesa em que estava com os pais, cumprimentaram-no desejando boas-vindas, mas sem comentar nada que o deixasse desconfortável.
Logo outros fisioterapeutas e funcionários também chegaram para almoçar, e então todas as mesas estavam cheias, incluindo a que os se encontravam. analisou todo o local, a conversa parecia animada em todas as mesas, eram altas simplesmente porque alemães sempre falam alto, mas nenhum deles gritava, todos pareciam se entender muito bem.
O diretor apareceu minutos depois, cumprimentando alguns pacientes mais próximos, sentou-se à mesa com os fisioterapeutas, que ainda debatiam sobre os exames de , embora Strauss, Weiss, Krauβ e Rot já estivessem com seus pratos, mastigando vez ou outra.
Ainda rindo de alguma coisa que conversavam, o grupo de doutores que faltava levantando-se com para pegarem comida.
E sorriu sem graça, sentindo o rosto esquentar aos poucos quando passou por ele, piscando para o jogador enquanto tornava a caminhar para a mesa, com a bandeja em mãos. O jogador por fim deixou os pais conversando com o pessoal da mesa e foi para o jardim, aproveitar um pouco do sol enquanto esperava para voltar a sua sessão.
- Posso? - virou-se ao ver um dos fisioterapeutas apontando para o banco ao seu lado.
- À vontade!
O loiro sentou-se de forma relaxada, esticou as pernas no gramado e fechou os olhos por alguns instantes, inclinando a cabeça para trás, distraído.
- Você achou meu lugar preferido para pegar sol, quando temos, claro... – riu baixinho, ouvindo o jogador acompanhá-lo.
- Notei que não é muito quente por causa das árvores. – comentou olhando para cima, uma grande árvore fazendo sombra no local.
- Exato! – o fisioterapeuta virou-se para ele, estendendo a mão – Aliás, sou Max Gerstner! - ! – apertou a mão do outro.
- Primeiro dia, não é? Está gostando? – o doutor perguntou interessado, ainda com o jeito relaxado.
- Não sei bem, não fiz muita coisa ainda, acho que sim… Tirando que eu comecei a suar com quinze minutos de fisioterapia... – deu de ombros, ouvindo-o rir baixo, voltando a olhar para frente, viu as mães das crianças se despedirem e seguirem com seus filhos para o estacionamento. – Faz tempo que você trabalha aqui?
- Entrei aqui como estagiário quando estava na faculdade, tem cinco anos já... Não me imagino trabalhando em outro lugar, é estranho, porque nunca me imaginei como fisioterapeuta, coloquei como segunda opção pra faculdade, a primeira era medicina... – deu de ombros, um sorriso calmo nos lábios, lembrando-se da época. – E você, sempre pensou em ser jogador? riu negando com a cabeça, passou a mão na coxa antes de começar a responder.
- Eu tinha duas opções; ser bombeiro ou ser músico. Mas tocava tuba... Não conheço nenhum rockstar que toque tuba... – os dois riram antes do jogador terminar o raciocínio – Futebol foi uma coisa repentina, me chamaram para fazer um teste no Borussia e eu passei, depois disso eu resolvi que essa seria a melhor profissão do mundo... Nem sei se podemos chamar de profissão, nunca entendi ao certo... Não existe uma faculdade pra jogar futebol, não é?
Max concordou, passando a mão nos cabelos.
- Acho que é relativo, precisa da mesma dedicação que qualquer pessoa em uma faculdade, e sempre achei as porcentagens para se tornar jogador menores... Quer dizer, sempre vai ter alguém mais novo ou mais rápido... Futebol é muito relacionado à fases... Vê o Fernando Torres? Todos tinham certeza que ele seria o melhor do mundo, foi para o Chelsea e virou motivo de piadas...
- Pois é, nunca entendi muito bem o que aconteceu... Às vezes não é só fisicamente que o cara fica desgastado, mas psicologicamente também... Se você está fazendo muitos gols, acha que é imparável, se fica dois ou três jogos sem marcar, se sente o pior jogador do mundo...
Gerstner novamente concordou com a cabeça;
- É meio ingrato também, vejo como torcedor, tem cara que duas temporadas atrás todo mundo chamava de ídolo, dizia que seria capitão do time e etc, se machucou e voltou mais lento, o pessoal já fica em cima, deve ser muito louco... Você não teve nenhum problema com isso, não é?
negou, um sorriso leve nos lábios.
- Acredito que em parte porque comecei no BVB e não fui pra outros times, talvez se tivesse saído antes as coisas seriam diferentes... Ou se não tivesse rendido tanto... Lembro quando disputava a vaga de titular, odiava ficar no banco, e quando passava um jogo em branco parecia mil vezes pior, mesmo se o time vencia... Porque parecia que eu não era bom o suficiente e o outro cara seria sempre a primeira opção...
- Imagino, graças a Deus não tem essas competições aqui, eu ficaria sempre na reserva. – brincou sorridente.
- Quem seria o titular? – riu continuando o papo, viu o loiro pensar por alguns segundos, fazendo uma careta.
- Não sei ao certo, por experiência Weiss e Hoyer teriam mais confiança, imagino… Inclusive teve uma época que o Hoyer estava para assumir a vaga de diretor da clínica, mas recusou, foi aí que chamaram o Klaus para vir trabalhar aqui. Ele era responsável por outra clínica em Munique...
aproveitou a conversa para, aos poucos, tirar suas dúvidas de forma descontraída;
- Essa parte de experiência conta muito? Porque os horários de vocês são sempre bem cheios, não é? Conversei com o diretor faz alguns dias, ele me falou que sempre depende de mil coisas...
- É... – começou pensativo – É complicado, quando eu entrei cada fisioterapeuta ficava uma média de três à quatro meses com algum paciente, e então a gente mudava... Depois de um tempo resolveram mudar o sistema, e então distribuíram como está agora, cada um em um setor diferente, revezando entre os fisioterapeutas da mesma área… Mas teve paciente que não quis ir adiante, trocar de fisioterapeuta, queria continuar com o mesmo, entende? Então, bem, tivemos que mudar novamente, tive que substituir o Weiss por um tempo, foi... Divertido... Os dias de fisioterapia com o Aaron e a , eram sempre os mais engraçados...
quis fazer algumas perguntas sobre a sua fisioterapeuta, mas ficou em dúvida se deveria. Max poderia comentar com ela mais tarde a respeito, e seria um tanto constrangedor se isso ocorresse. Talvez ela pensasse que ele não a considera uma boa fisioterapeuta.
Max olhou o relógio no pulso, fazendo um barulho com a boca.
- Acho melhor irmos voltando, é bem paranoica com horários... – falou rindo enquanto levantava-se. – E também tenho um paciente, acho que já deve estar chegando...
acompanhou-o pelo jardim até chegarem à recepção, os dois conversavam sobre coisas banais no caminho, para não ficarem no silêncio. O fisioterapeuta parecia um cara legal, sorria e fazia bastante brincadeiras, e novamente imaginou que o loiro poderia facilmente estar incluído em seu círculo de amizades, e tinha certeza que se entenderia muito bem com ele.

Ele sorriu para a mulher quando a mesma disse que estava liberado dos exercícios físicos pelo resto do dia. Aceitando a toalha que ela lhe ofereceu, para secar o suor do rosto e cabelos, também aceitou a garrafa de água que ela estendeu, tomando-a rapidamente.
- Então posso ir para casa? - perguntou animado, querendo chegar em casa para tomar um banho o mais rápido possível.
- Caramba, você quer mesmo se livrar de mim, não é? - questionou com as mãos na cintura, fazendo-o rir e negar com um aceno.
- Claro que não, doutora. Só estou cansado e precisando de um banho.
encarou-o por um instante, pensativa.
- Você não trouxe roupa de banho, não é?
negou com a cabeça, um pouco confuso com a pergunta, mas já tendo algumas imagens formando-se em sua mente.
- Eu iria dizer que poderíamos tentar alguma atividade na piscina, pelo menos para você relaxar os músculos por alguns minutos… Aliás, deixe sempre uma muda de roupas na mochila, ok? Pode ser que eu resolva fazer alguma atividade na água de última hora.
- Sim, senhora. - bateu continência, brincando.
- O que acha de conversarmos por um tempo?
- Não fizemos isso nos últimos dias? - arqueou a sobrancelha.
negou com a cabeça, sorrindo leve.
- Aquilo era conversa do dia-a-dia, , quis dizer para o caso de você querer conversar sobre alguma coisa que esteja sentindo. Não se preocupe, nada do que você me disser sairá dessa sala, lembra?
passou a mão pelos cabelos, coçando a nuca, sem graça.
- Parece um pouco injusto quando eu não sei quase nada sobre você, não?
abriu a boca para responder alguma coisa, mas desistiu e apenas sorriu de lado.
- O que quer saber?
- Ahn, bem... Não sei... Achei que você não responderia nada... - comentou sincero, passando a mão sobre a barba, pensando em sua primeira pergunta - Bem, por que veio para Dortmund? Por que a KBE-V?
O cenho da mulher franziu levemente, ela pareceu pensativa por alguns instantes, como se estivesse escolhendo as palavras certas, os dois continuaram sentados no tatame, conversando tranquilos.
- Dortmund não foi minha primeira opção, morei em Berlim por algum tempo, fiz um estágio na Physiotherapie-Praxis enquanto estava estudando. Conheci Klaus em uma palestra que ele foi apresentar na minha faculdade, conversamos por alguns minutos e eu contei sobre meu projeto de conclusão do curso... Foi quando estava terminando o estágio, no último semestre da faculdade, que comecei a enviar alguns currículos... Em algum momento Klaus me chamou para conhecer a KBE-V e... Bem, aqui estou! - deu de ombros.
- E por que você veio pra Alemanha?
A mulher desviou o olhou por alguns segundos, parecendo considerar se responderia à pergunta, por fim acabou suspirando;
- Londres já não era mais minha casa há alguns anos, achei melhor mudar de cidade, mas para ser sincera, não imaginei que passaria tanto tempo na Alemanha.
entendeu que ela não queria falar sobre aquilo e, após alguns segundos, mudou o tema da conversa, embora a curiosidade para saber o que realmente tinha acontecido ainda estivesse lá.
- O que os seus pais fazem? - mudou de assunto, vendo-a agradecer com um sorriso pequeno.
- Minha mãe é pediatra e meu pai é oncologista, fui criada no meio de médicos!
- Verdadeiro ou falso que ingleses preferem chá do que café? - perguntou rindo.
- Verdadeiro.
- Verdadeiro ou falso que a Seleção Inglesa está morta?
arqueou a sobrancelha, encarando-o por um instante;
- Em processo de desenvolvimento.
- Ou seja, morta.
- Hey!
fez mais algumas perguntas bobas até liberá-lo, pedindo para que ele descansasse o máximo possível e, para o caso de dores musculares, que ela tinha quase certeza que ele teria, passou o nome de dois remédios.

Deixou o livro na cabeceira da cama, eram quase meia noite, mas o sono não vinha.
Estava cansado, mas não o suficiente para conseguir dormir. Sentia o corpo dolorido, mas não conseguia relaxar a ponto de simplesmente fechar os olhos e apagar.
Olhou para Rachel deitada ao seu lado, a mulher não tinha ido ao seu primeiro dia na KBE-V, disse que tinha alguns assuntos pendentes para tratar com seu empresário, mas que o esperaria quando voltasse querendo saber as novidades. De fato, e Rachel conversaram por um bom tempo quando ele voltou, e o jogador pode compartilhar vários pensamentos sobre a clínica e o tratamento.
não sabia ao certo como sentia-se com relação a namorada agora.
Três meses antes estava pronto para pedi-la em casamento, já estava olhando alianças para comprar. Qualquer uma que fosse bem cara e com um brilhante enorme, assim quando fosse ver o valor do anel, Rachel saberia que o jogador tinha gasto uma bela grana com a mulher.
Não que fossem casar naquele ano, ou no próximo, mas depois de tantos anos juntos, sentia que era a coisa certa a fazer; firmar um compromisso mais sério com a alemã.
Estavam juntos há anos e estavam sempre bem, vez ou outra brigavam mais pela distância do que pelos ciúmes ou qualquer outro motivo, mas era sempre algo que resolviam em pouco tempo.
Às vezes ficavam semanas sem conseguir se ver, mas estavam sempre em contato.
Era um relacionamento complicado devido suas profissões, e ambos sabiam que não iriam abrir mão delas, embora sempre fizessem o possível para passar algum tempo juntos, mesmo que rápido.
Ele não costumava se importar com a ausência, assim como ela, sentia saudades e obviamente sentia falta de transar quando ficavam muito tempo afastados, mas os dois conseguiam lidar muito bem com aquilo.
Pensando bem, iria pedi-la em casamento por gostar dela e estar acostumado com sua presença (ou ausência). E achava que estava na hora de começar a sossegar, estava chegando perto dos 30 e sentia que era hora de começar um “algo a mais”. Já tinha sua profissão consolidada, dinheiro sobrando e uma bela namorada. Faltava apenas mudar o status de “namorando” para “casado”. Talvez pudessem ter um filho em dois ou três anos. Sabia que Völkers não queria um filho agora, mas era algo para um futuro nem tão distante.
Contudo, no momento sentia-se um pouco egoísta com tudo aquilo, pois queria mais atenção da mulher. Queria que ela estivesse ao seu lado desde o acidente, que fosse ela ao seu lado quando acordou no hospital depois do coma. Preferia que fosse ela ajudando-o com tudo, ao invés de seus pais ou . No fundo esperava muito mais da mulher, e nada daquilo tinha acontecido.
Ao mesmo tempo entendia os motivos dela, Rachel não poderia largar a carreira por ele, não daquela forma. Ela fazia certo esforço para estar ao seu lado, mas também parecia que ela não queria estar lá.
Rachel mal ficou ao seu lado durante a pequena viagem para ver a outra clínica.
Não foi com ele visitar a KBE-V, nem esteve ao seu lado quando precisou fazer a pequena cirurgia.
Por mais que lhe incomodasse pensar daquela forma, sentia que a mulher, propositalmente ou não, estava o afastando mais e mais.
começou a cogitar estar sendo um fardo da vida dela, assim como na dos pais, e aquilo o assustou mais do que qualquer outro pensamento;
Quanto tempo demoraria para ele ficar sozinho?

QUATORZE.

Na quinta-feira recebeu uma ligação de Féher informando que a coletiva para a imprensa seria realizada na sexta-feira, após uma semana de fisioterapia, na qual, na visão do agente, já seria suficiente para o jogador responder algumas perguntas que pudessem fazer sobre a clínica e também sobre o atendimento que vinha recebendo.
O jogador suspirou um tanto contrariado, não queria ficar na frente de câmeras e jornalistas. Mal conseguia conversar com os amigos e família, o que menos precisava era ser assistido por pessoas do país inteiro naquela condição.
No entanto parecia que suas preferências não seriam levadas em conta no momento; Féher já tinha combinado tudo com os sócios e diretor da KBE-V e a coletiva seria realizada às 15h30 e teria 40 minutos de duração, para evitarem de atrapalhar os demais pacientes.
Ao lado de , estariam um dos sócios, Klaus, e Klopp, o qual tinha tirado um dia da pré-temporada para participar da entrevista.
Achava que a doutora estaria tão desconfortável quanto ele, mas pelo menos ela não seria o alvo das fotos e perguntas, ao contrário dele.
encarou o celular por um instante, pensando se mandaria uma mensagem para a inglesa avisando sobre a coletiva, a qual ela provavelmente já estaria sabendo. Mordeu o lábio inferior encarando o nome da fisioterapeuta nos contatos do whatsapp, era uma foto bonita, ele pensou. Vendo-a pela primeira vez; a doutora estava nos jardins da KBE-V, sorria para a câmera com os braços cruzados e vestindo seu jaleco branco, a mesma foto de um dos encartes da clínica, a qual falava um pouco sobre os fisioterapeutas que trabalhavam no lugar e suas formações acadêmicas.
Pensou por um instante no quanto gostava de vê-la sorrindo, parecia sempre confiante, como se soubesse tudo o que aconteceria.
Gostava de falar com ela, mesmo que fosse sobre coisas aleatórias, como quando estava no hospital para ser operado e ela puxava assunto apenas para distraí-lo.
Ouviu a voz de Rachel o chamando ao mesmo tempo em que tinha apertado “enviar”.

Os jardins da KBE-V estavam bem mais cheios do que o costume, cadeiras brancas dobráveis espelhadas em sete fileiras, com cinco em cada uma. Um tablado elevado à frente de todas, com uma mesa comprida com mais quatro cadeiras e um espaço vago logo ao meio; cinco microfones e cinco garrafas d’água. Atrás do tablado um grande pôster amarelo, com os símbolos da Evonik, Puma e mais alguns patrocinadores, tanto do time alemão quanto do jogador, além das logos da KBE-V e do BVB em destaque ao centro.
Pela janela fechada da sala do diretor, podia ver os jornalistas e repórteres começando as chamadas para seus devidos jornais; a entrevista entraria ao vivo para alguns canais de esportes, as câmeras já estavam colocadas, todas direcionadas para a mesa na qual o grupo estaria em poucos minutos.
Faltava menos de meia hora para o início da coletiva quando passou pela porta da sala, cumprimentando os homens que ali estavam.
olhou para ela, vestia uma calça jeans escura, tênis e camiseta preta, com o usual jaleco branco por cima, os cabelos presos em um rabo-de-cavalo alto. tinha uma maquiagem leve no rosto, e um batom claro nos lábios. Após ser apresentada a Féher e Klopp, a inglesa virou-se para o jogador, aproximando sorridente e erguendo a mão para um cumprimento formal, da mesma forma que tinha feito com os outros homens.
A inglesa parecia confiante ao responder August quando o agente direcionou algumas perguntas a doutora, mas reparou que a mulher parecia levemente nervosa e respirava fundo vez ou outra, imaginou o quanto ela deveria estar ansiosa sobre precisar participar da coletiva, entretanto não teve tempo de conversar com ela e sanar suas dúvidas momentâneas, pois logo já estavam saindo da sala, em direção à coletiva nos jardins.
Os homens saíram na frente, mas a mulher ficou para trás ainda parecendo um tanto incomodada, antes de virar-se em direção à porta e avistar o jogador que continuava parando, esperando por ela.
Sorriu confiante, contrastando com seu ar nervoso, antes de apontar para a saída;
- Acho que estão todos te aguardando lá embaixo!
- Eu sei... – falou empurrando a cadeira até próximo a mulher – Não é tão ruim, sabe? Vai ficar tudo bem. – sorriu para ela, vendo-a franzir o cenho por um segundo, parecendo confusa – A entrevista... Não é por isso que está nervosa? – perguntou sem entender, começando a se sentir idiota por confundir as coisas e palpitar em algo que não sabia.
, por outro lado, sorriu tranquila, acenando rapidamente com a cabeça.
- Não é a melhor parte do meu dia, mas dá para viver, não é? – comentou dando alguns passos para trás da cadeira de rodas do jogador, e empurrando-o. – Alguma dica?
- Hm... – permaneceu em silêncio quando entraram no elevador vazio, Klopp, Féher, Klaus e Franz (o sócio da KBE-V que estava presente), tinham descido pelas escadas e os esperavam na recepção. – Tente não parecer desconfortável com as perguntas, por mais que você queira socar alguém... E nunca olhe diretamente nos olhos de ninguém, eles sentem seu medo e vão te engolir viva se você der abertura!
riu concordando com um aceno, antes das portas metálicas tornarem a abrir e os dois caminharem para a entrada, junto dos outros.

Estavam todos prontos, sentados em seus lugares aguardando o horário combinado para a entrevista começar.
colocou o óculos de sol, embora tivesse visto Féher acenar negativamente com a cabeça, não queria parecer arrogante, mas o sol estava diretamente em seus olhos, o que o incomodava profundamente.
Ao virar para o lado, fingindo não ver os sinais de mão do agente, pôde ouvir um dos jornalistas, Matthias Dersch, fazendo a chamada da matéria para entrarem ao vivo no canal, assim como tantos outros jornalistas, a luz da câmera ficou vermelha e logo o jornalista pigarreou antes de começar a falar;

●LIVE - A coletiva com , diretamente da prestigiada Klinisch Behandlung und Erholung Von Verletzungen, começa em pouco menos de dois minutos. O jogador já está aqui junto à Klopp, o administrador Franz Heartz que é um dos sócios responsáveis pela clínica, o diretor geral Klaus Scheidmman e a inglesa, que – pelo que fomos informados – é a fisioterapeuta responsável pelo tratamento de !

Reparou que Alex também parecia prestar atenção do que o homem falava, o cenho franzido de leve, olhando de lado para a movimentação do local. estava sentada entre Klaus e , enquanto o jogador tinha ao seu lado direito o técnico, e do outro lado dele o sócio da KBE-V.
Pouco depois Fehér aproximou-se do centro da mesa, anunciando que a coletiva estaria começando e, enquanto andava para o lado, apontou para jornalistas aleatórios, escolhendo a ordem das perguntas;
As primeiras, como previsto mais cedo, seriam sobre o estado emocional do jogador.
mal teve tempo de respirar fundo e assumir outra postura antes de ouvir o primeiro questionamento, tirando seu óculos antes de responder ao que veio;

Como você está se adaptando?
- Não tem sido a melhor fase da minha vida, tanto pessoal quanto profissionalmente falando. É tudo muito estranho, um tanto assustador e, para ser sincero, às vezes me sinto uma criança dependendo dos meus pais para tudo. Até para tomar banho precisei de ajuda nos primeiros dias! – risos – Mas, acho que estou começando a me adaptar, já me sinto um pouco mais ágil para fazer o movimento de levantar e sentar, tomo banho sozinho como gente grande – mais risadas -, mas é bem estranho na maior parte do tempo, principalmente quando acordo pela manhã e percebo que é real.
Está confiante com o tratamento?

- Tenho que estar, não é? Ainda não fizemos muita coisa, mas tenho certeza que estará tudo bem dentro de alguns meses.
Como está sendo atendido na KBE-V?
- Não tenho do que reclamar, todo o pessoal aqui está sendo maravilhoso, bem atenciosos... Os pacientes também são ótimas pessoas. Até o momento, está tudo cem por cento, embora, é claro, eu preferisse não conhecer a clínica e as pessoas nessas circunstâncias...
Está tendo mais atenção por ser famoso?
- Até agora ninguém pediu uma foto, - risos - então acredito que a resposta seja não.
Arrepende-se da escolha pela clínica?
- De forma alguma. Como disse, não tenho qualquer reclamação sobre a KBE-V ou sobre a equipe, a estrutura é muito boa e me sinto bem aqui. Sem contar que é apenas alguns minutos de casa, não é? Posso chegar em tempo de ver Game of Thrones na TV. – risos e um grito de Quem é o seu preferido? – Vou ser clichê e escolher o Jon Snow! – novas risadas.
Voltando ao assunto, quanto tempo demora seu tratamento?
E foi quando fizeram essa pergunta, que o alemão suspirou, olhando para o lado de e Klaus, aguardando que eles tomassem a vez para as perguntas.
- Acho que eles sabem disso melhor do que eu...
olhou no mesmo instante para Klaus, o qual começou um discurso sobre o estado geral do jogador e como seria o tratamento dali para frente. O diretor também ressaltou a importância da operação realizada há poucos dias e como aquilo deveria agilizar sua recuperação.
A próxima pergunta foi direcionada à Klopp, perguntando se ele esperava o retorno do jogador ainda para aquela temporada, a qual foi respondida com um simples sorriso do treinador:
- Se me disserem que está pronto para jogar amanhã, então ele estará no meu onze inicial, como sempre. Caso contrário, ainda teremos muitos campeonatos e muitas temporadas para vê-lo jogando.
Uma nova rodada de perguntas começou, dessa vez quem começou respondendo foi Franz, o qual pareceu muito satisfeito com a escolha do jogador pela KBE-V, e que garantiu que fariam o necessário para o atacante voltar aos gramados o mais breve possível, embora, novamente reafirmou que eles não tinham como prever quando isso aconteceria mas, ele tinha certeza, seria muito bem tratado por .
No mesmo instante pareceu que os jornalistas lembraram-se da inglesa, que quase se afogou com o gole de água que estava tomando, quando uma pergunta bastante direta veio à ela;
- Você se considera capaz de seguir com o tratamento de , ou seria uma ideia melhor que ele fosse encaminhado para um dos doutores?
sorriu brevemente antes passar a língua pelos lábios e responder:
- Acredito, sim, ser tão capaz quanto qualquer um dos meus colegas e, imagino que meu currículo na KBE-V, demonstre isso.
quis rir, mas ao invés ele pigarreou, curvando-se para o microfone, atraindo a atenção dos jornalistas novamente.
- Estou muito satisfeito tendo a doutora sendo responsável pelo meu tratamento, tenho certeza que ela não é só bonita, mas muito profissional e competente também. Já faz uma semana que comecei meu tratamento e posso garantir que ela é bem rigorosa, tem gritado comigo mais do que o Klopp nos treinos.

Twitter
@BVBDepreBR não é , mas @21 defendeu que foi uma beleza a inglesa! #GetWellSoon
@FansBR namore com alguém que te defenda como @21 defende a nova fisioterapeuta #GetWellSoon
@BrOTP SEI NÃO EIN????? EU VI ISSO AI EIN, @21 #GetWellSoon
@BrOTP Se eu fosse o @ estaria preocupado com o fim do BROTP com @21 #GetWellSoon
@BR Lendo nas entrelinhas, @21 já pegou ou vai pegar a inglesa! #GetWellSoon #ByeByeRachel
@Depre “@21: ela não é só bonita” VOCÊS VIRAM O QUE EU VI????? I know how you feel about traição @ document.write(Erich)

O jogador suspirou ao ver o número de notificações que chegavam devido à entrevista, sendo vários destes fotos nas quais ele era marcado no Instagram, e vários novos memes; Alguns dele olhando para e corações subindo. Montagens de vendo falar sobre a inglesa e chorando ao fundo. Uma das imagens era durante a entrevista, na qual apareceria olhando-o enquanto ele respondia uma pergunta qualquer, e acima dela um balãozinho com um coração.
Eram tantos comentários e memes sobre o assunto que ele não sabia se ria ou chorava. Talvez devesse dar RT em um deles só para saberem que ele estava vendo, e não era nada daquilo.
E foi exatamente o que fez, procurou com cuidado um dos muitos que o marcavam, e deu um simples retweet, deixando o restante da internet explodir com aquilo.
E a resposta foi quase imediata.
O jogador suspirou, deixando o celular na mesa, encarando a parede por alguns instantes.
Talvez devesse ter escolhido outro, mas achava que um com junto escrito “olhem à vontade, todo mundo sabe que é meu!” era o mais apropriado. Era uma brincadeira e não prejudicava ninguém, só zoava ele mesmo e , mais do que o normal com o “” que já era construído há anos!

O alemão tentou se concentrar em outra coisa, embora fosse difícil já que seu cérebro parecia querer lembrar palavra por palavra que tinha dito durante a entrevista. “Ela não é só bonita”. Bom, não era como se ele estivesse mentindo, era?
A inglesa, de fato, era bonita. Verdammt ¹, ela era linda!
- ?
achou que poderia ter tido um ataque cardíaco e que provavelmente não o teve por ser um atleta que se alimentava bem. Mas o susto que tomou quando ouviu a voz de e sentiu a mão da doutora em seu ombro o fez jogar o corpo para trás de uma forma dolorida, principalmente pela forma na qual virou o pescoço, sentindo um pequeno choque por ele, devido à dor de mau jeito.
o olhou curiosa ao ver a reação do jogador, logo segurando a risada pela expressão assustada.
- Desculpe, não quis assustá-lo, te chamei duas vezes e você não ouviu!
- Tudo bem, - suspirou, massageando de leve o pescoço - então, como foi a reunião?
- Nada fora do normal. - respondeu sentando-se em sua cadeira, deixando as pastas que carregava em uma gaveta. - Um pouco de cobrança por parte do seu agente e técnico para sua recuperação, mas fora isso nada muito relevante! E você, como se sente após sua primeira entrevista?
- Eu sei lá, acho que bem, ainda não vi nenhuma matéria sobre para saber o que estão dizendo.
passou a língua pelos lábios, inclinando-se para frente e apoiando as mãos na mesa;
- Você está assim tão preocupado com o que vão dizer?
O homem respirou fundo, dando de ombros;
- Eu passei anos acostumado em ter meu nome nas mídias por causa do futebol, gols, premiações, derrotas, sempre por causa de coisas profissionais, eu consigo contar nos dedos de uma mão as vezes em que virei notícia por coisas pessoais antes do acidente. Agora é só disso que falam. Não tenho mais relevância no futebol, só por estar nessa cadeira estúpida. - desabafou, deixando as mãos caírem sobre o colo e olhando para baixo. - É como se nada do que eu tivesse feito tivesse qualquer importância, porque só lembram de mim como o cara que sofreu um acidente e nunca mais vai jogar bola, - respirou fundo, encarando-a por um instante - sabe o que eles diziam quando eu acordei e souberam que estava sem andar? “Pelo menos ganhou uma Champions League”, todo mundo deu minha carreira por encerrada.
colocou o cabelo atrás da orelha, pensando por um instante no que dizer;
- E você? Também está dando sua carreira por encerrada?
- É claro que não! - protestou, olhando-a assustado, como se a mulher tivesse duas cabeças - Alô? Será que você não percebeu ainda minha pressa em voltar a jogar?
A inglesa concordou com um aceno, sorrindo leve;
- Deixa eu reformular a pergunta: Você está dando sua vida como encerrada?
O jogador continuou a olhá-la descrente por um momento, mas não sabia exatamente como respondê-la;
- Vamos supor, só por um minuto, que você passe por todo o tratamento, mas não consiga voltar a jogar futebol, ou mesmo a andar. Sua vida encerra aos vinte e sete anos?
- Que tipo de pergunta…?
- Eu quero saber como você se sente, , de verdade. Porque você está tão preocupado com o que todo mundo vai pensar e falar de você, mas o que você acha de você mesmo agora? O que você vai achar daqui um ano se continuar assim? Daqui cinco ou dez? Sua vida acaba ou continua?
abriu a boca sem nada responder, parecia mudo.
Como foi que chegaram em uma pergunta tão profunda? Tinha menos de cinco minutos e ele estava vendo memes na internet e até rindo de alguns, embora se alguém perguntasse ele fosse negar veementemente.
- Eu… Eu…
continuou a encarar a inglesa por um tempo, e então baixou o olhar, sua mente parecia vazia e incapaz de formular uma frase, nem mesmo um “sim” ou “não” ele parecia capaz. E ele sabia o motivo;
- Eu não sei… - soprou com a voz baixa, encarando as mãos. - Eu… Eu pensei que fosse morrer quando soube. Eu não achei que sairia do hospital, eu nem mesmo queria ter acordado se era pra passar por isso. - revelou em sussurros, passando a língua pelos lábios antes de continuar, a boca seca - Eu passei dias com raiva de todo mundo, quando eu paro pra pensar no que aconteceu eu ainda sinto isso, é só que…
O alemão fechou os olhos por um instante, antes de tornar a encarar doutora;
- Eu também fico com medo. - confessou, engolindo em seco. sentiu os olhos marejarem, e tornou a fechá-los antes que começasse a chorar. - Eu odeio ficar sozinho ou sem ter nada para fazer porque eu não consigo tirar isso da cabeça, eu tento pensar em outras coisas, qualquer coisa, e às vezes funciona, mas eu sinto medo e raiva o tempo todo. Eu não sei o que eu vou fazer se eu não melhorar, eu nem sei o que fazer se isso demorar anos. Eu mal consigo pensar em estar aqui na próxima semana, e ao mesmo tempo é tudo o que eu tenho na cabeça, porque quanto mais eu me esforçar mais rápido eu melhorarei. Eu não sei o que eu faço…
sentiu como se os olhos queimassem e logo as lágrimas desceram por sua face, abaixou o rosto, colocando as mãos sobre o mesmo. Sentia-se tão fraco por estar daquele jeito. mal o conhecia e já estava vendo-o chorar daquela forma, mas quanto mais ele tentava evitar as lágrimas, mais forte elas pareciam cair.
Não demorou para que logo sentisse o braço de sobre seus ombros, enquanto ela sentava na cadeira ao seu lado, puxou suas mãos de frente ao rosto, fazendo com que o jogador a encarasse, coisa que ele tentou evitar o máximo possível;
- Ei, , está tudo bem. Vai ficar tudo bem, eu prometo pra você, ok? Isso vai passar - dizia com a voz calma, mantendo o contato visual, enquanto apertava suas mãos -, você vai sair dessa, e eu estou aqui pra te ajudar a conseguir. Eu vou estar ao seu lado para cada passo que você vai dar!
- E se eu não voltar? - murmurou com a voz falha - E se os exames estiverem errados? Se demorarem anos?
- Eu vou continuar aqui e eu vou te ajudar em cada processo, eu vou te ajudar em cada passo para viver assim até você estar pronto para deixar essa cadeira. Eu não vou deixar você desistir, !
- Eu estou cansado… - replicou, desviando o olhar - Eu sei que não faz tanto tempo, mas tudo mudou. Não só pra mim, meus pais deixaram tudo em Stuttgart pra ficarem comigo, eu deixei meu time na mão. Minhas irmãs se sentem culpadas porque não podem vir me ver o tempo todo, o resto da minha família não para de perguntar sobre mim… Meus amigos ficam mandando mensagens querendo me ver o tempo todo, me levar pra sair… Eu não aguento mais…
passou a língua pelos lábios, afastando-se por um momento;
- , você tem ideia da sorte que você tem por ter todas essas pessoas se preocupando com você?
- Eu seeei… - concordou, fungando - Mas eu não quero depender das pessoas tanto assim…
- , - deixou o tom de voz um pouco mais grave, chamando sua atenção - semanas atrás você mal conseguia levantar da cama sozinha, certo? Hoje, menos de um mês depois, se eu te empurrar dessa cadeira, você vai conseguir levantar sozinho. Um mês atrás você precisava de ajuda para tomar banho, hoje você já se vira sozinho, não é?
- Sim, mas…
- São pequenas conquistas que você precisa celebrar, você não pode ficar pensando no que você podia fazer há 4 meses, . Você precisa pensar no que não conseguia fazer quando saiu do hospital, mas agora consegue. Com o tempo isso só vai melhorando, você só vai alcançando objetivos maiores.
O jogador meneou a cabeça, concordando em silêncio. Sentia o nó em sua garganta o impedindo de dizer mais coisas e, ao mesmo tempo, uma vontade de gritar com o mundo.
Como aquilo poderia estar acontecendo com ele?
- Parece que eu voltei a ser criança, meus pais precisam cuidar de mim novamente, eu não posso fazer coisas sozinho… Eu sinto que estou dando trabalho à todos ao meu redor, até mesmo você.
sorriu pequeno, negando uma única vez;
- Não é nada demais te ajudar na fisioterapia, ou conversar com você quando precisar desabafar. E tenho certeza que seus pais não se importam em estar ao seu lado. Se fosse um deles precisando, você não os ajudaria?
- É diferente…
- Eu sei que sim, e entendo você querer sua independência de volta, mas isso faz parte, , é uma fase que está passando e logo será superada. O que você pode fazer agora é aprender a lidar com ela e se esforçar para, então, não ser assim tão dependente quanto você acha que é.
O alemão então abriu a boca mais uma vez, mas tornou a fechá-la. Ficando em silêncio.
- O que foi? Você sabe que não vou contar para ninguém, não é? Nem te julgar por nada do que está me dizendo.
deu um longo suspiro antes de continuar;
- Eu não sei se é coisa da minha cabeça, mas parece que a Rachel está me afastando, entende…? Sempre tivemos um relacionamento ok, mesmo à distância, porque quando estávamos juntos parecia que nunca estivemos separados, sabe? Mas desde o acidente, mesmo quando ela está perto parece distante…
- Distante… Como se estivesse distraída? - questionou tentando entender o problema, o cenho franzido.
- Não… Distante, afastada mesmo, como se estivesse me afastando.
- Você está falando da sua namorada? A mesma que entrou no quarto no final de semana passado e esqueceu que eu estava presente quando foi te beijar? - comentou rindo baixo, cutucando-o com o comentário. consentiu, mesmo sorrindo de leve.
- Acredito que ela tenha ficado um pouco enciumada com você, porque, sinceramente, depois que você foi embora, posso contar com uma mão o número de vezes que ela me beijou, e não necessariamente daquela forma.
mordeu o lábio inferior, concordando antes de replicar;
- Não pode ser devido a presença dos seus pais? Ela pode ficar um pouco tímida?
- Nah. Talvez você devesse aparecer lá mais vezes para testarmos.
A inglesa riu, piscando;
- Quem sabe eu não apareço de surpresa quando souber que ela está na cidade?
- Fechado!
- Você sabe o que tem que fazer, não?
a encarou por um instante, aguardando a resposta.
- Precisa conversar com ela, . Talvez ela esteja passando por algum problema no trabalho e por isso pareça distante, não significa que está tentando te evitar. E se ela sente ciúmes de você, se importa bastante!
- Eu sei, mas é que também parece muito egoísmo pedir para ela ficar mais tempo ao meu lado. Eu só… Sei lá… Parece que estou atrapalhando a vida dela no momento…
- A única pessoa que você atrapalha é a si mesmo quando pensa coisas como essas. Você está em uma cadeira de rodas e não pode andar, porém isso não quer dizer que está morto ou que não possa fazer as coisas.
Ele sorriu sem ânimo ao olhar para a mulher, séria e motivada a passar a mesma empolgação para o alemão;
- Você sabe que no momento nada disso conta muito, né? Você pode dizer que eu poderia competir nas paraolímpiadas, e eu não poderia me importar menos.
- Parece que vamos ter um longo caminho até você mudar de atitude, ein?
O homem sorriu sem emoção;
- Boa sorte com isso, doutora.

Parte de si estava muito envergonhada e dava graças pelo final de semana, afinal seriam dois dias “livres” antes de tornar a encontrar a fisioterapeuta. Entretanto, também parecia ter tirado um certo peso das costas. Pode, finalmente, colocar em palavras e dizer em voz alta o que sentia.
Sabia que tinha que falar com a namorada, assim como a inglesa o aconselhou antes de se despedirem, mas ao mesmo tempo queria evitar aquela conversa o máximo possível.
No fundo tinha medo que Rachel encarasse aquilo como um ultimato e fosse a gota final para ela terminar tudo e realmente não queria ficar sozinho naquele momento.
Estava sentado em uma cadeira na sala de jantar, com o notebook ligado na tomada próxima, ele já tinha terminado sua refeição há algum tempo e estava apenas conferindo alguns emails e respondendo alguns colegas que tinham entrado em contato anteriormente.
Depois de um tempo resolveu ver como estavam as coisas após a entrevista de mais cedo, e começou jogando o próprio nome no Google, logo vendo o número absurdo de matérias das últimas horas o envolvendo. As imagens em sua maioria também não eram surpresa; da coletiva recente, jogos anteriores e algumas do acidente (fosse seu carro destruído ou a ambulância o levando para o hospital). Algumas que divergiam eram com ao seu lado.
Clicando em uma delas, na descrição pode ler “... fisioterapeuta inglesa …”
E foi aí que algo passou pela cabeça do jogador, o qual não demorou para refazer sua busca na web; .
Não tinha tantos links quanto antes, mas ainda apareceu um número alto de notícias relacionadas à mulher. foi clicando nos sites que pareciam mais confiáveis e, aos poucos, foi colhendo toda a informação que não sabia sobre ela;
O link do Instagram foi o primeiro que apareceu, o qual o jogador clicou no mesmo instante e, frustrado, notou que era bloqueado;
A fisioterapeuta tinha exatas 62 fotos postadas, 80 seguidores e seguia pouco mais de cem pessoas. A foto de perfil pegava apenas o rosto, mas era possível ver o topo do moletom azul que ela usava. Era uma foto bonita, assim como a do whatsapp. No perfil tinha a frase “Always wanting a good cup of tea.”
riu levemente, ainda pensando se apertava o botão do “follow”.
Clicou requisitando a permissão e ficou encarando a tela do notebook, como se a qualquer momento ele fosse ser liberado para visualizar as fotos postadas pela inglesa. Depois de alguns minutos, quando viu que nada aconteceria, saiu da página e clicou em outro link, - Facebook -, o qual também era bloqueado, tendo apenas as informações básicas:

Live in Dortmund
From London
Born in 23, July 1986.
então clicou na foto de perfil, tinha os cabelos mais compridos e mais claros –aparecendo a raiz escura em boa parte -, presos em um rabo-de-cavalo, estava sentada em um tronco de árvore ao lado de uma fogueira, em frente a uma barraca de acampamento.
passou um longo tempo olhando aquela imagem, parecia tão feliz nela, o sorriso largo o fez sorrir junto sem nem reparar.
Clicando para o lado, tinha uma foto de com os cabelos presos em um coque bagunçado, óculos de sol e uma mochila de viagem nas costas, ela segurava um mapa grande e ao fundo aparecia o Muro de Berlin.
Na próxima, ela estava com os cabelos claros soltos e mantinha os braços abertos, atrás se via a London Eye iluminada ao anoitecer.
Passando para a última, a fisioterapeuta parecia mais nova, tinha os cabelos curtos, usava uma beca preta e o capelo, sorria segurando o diploma do colégio e apontando pra cima.
ficou atualizando a página, o motivo ele não tinha certeza.
Queria ver mais, saber mais.
Mas nada acontecia, tudo o que estava bloqueado antes, continuava bloqueado independente do número de vezes que ele atualizava a rede social.
Por fim, voltou para a pesquisa, clicando em um link de um site britânico que também falava sobre a inglesa e a entrevista do dia, leu por cima a matéria e no final a mesma era linkada em outra, que parecia falar sobre toda a família , a qual ele apertou assim que notou;

“O sucesso dos
O sucesso e profissionalismo de uma das mais tradicionais famílias inglesas não parou em Benjamin (58) e Audrey (57).
O diretor do The Royal London Hospital deve estar novamente muito orgulhoso da filha, (27), que deixou Londres há sete anos para terminar a faculdade na Alemanha.
Depois de concluir a faculdade de fisioterapia em Berlin, transferiu-se para Dortmund, iniciando as atividades na prestigiada KBE-V e concluindo também seu segundo curso; Psicologia.
Com um trabalho excelente e um currículo impecável, tem seu nome e rosto agora conhecidos pelos fãs de futebol, já que seu mais novo paciente é ninguém menos que o queridinho alemão, - o qual sofreu um acidente de carro uma noite depois de conquistar a Champions League no Wembley, junto ao Borussia Dortmund.
apareceu na coletiva de mais cedo do jogador, agora sendo a responsável pela continuidade do tratamento de .
Ao ser questionada com uma pergunta um tanto machista, demonstrou que assim como os pais, não se assusta com um desafio.
Ficou evidente também que a inglesa já conquistou a simpatia do jogador, que pareceu extremamente confiante ao afirmar que está satisfeito com a escolha de para seu tratamento.

Os sofreram uma terrível perda há dezesseis anos, quando Nathan, na época com 18, sofreu um acidente e veio a falecer poucas semanas depois no hospital, durante as férias da família na Itália. Muito foi comentado quando a fisioterapeuta trocou a Inglaterra pela Alemanha, que um dos motivos seria a perda do irmão, a qual ela não teria superado.
Entretanto, agora parece estar seguindo em frente e dando continuidade ao sucesso de todas as gerações dos .”

No final da matéria tinha uma foto antiga da família, Benjamin - com seus cabelos pretos, curtos e bem alinhados -, sentado no sofá claro de dois lugares, abraçado com a esposa, Audrey, - a mulher tinha os cabelos castanhos escuros e um sorriso animado nos lábios, era bastante parecida com a mãe-, os dois sorriam usando suéteres com desenhos natalinos, junto dos dois filhos; Nathan sentava no braço esquerdo do sofá, vestia seu suéter verde com uma rena de nariz vermelho, junto com uma touca de natal. Nathan tinha os cabelos pretos mais compridos e uma barba rala, o sorriso brincava em seus lábios, o corpo esbelto era abraçado de lado pela mãe, enquanto ele segurava uma xícara branca, a qual apontava para frente, como em um brinde. Se lembrava em muito a mãe, tinha certeza que se ainda estivesse vivo, Nathan seria a cara do pai.
Já a da foto não deveria ter mais de dez ou onze anos, tinha também uma expressão feliz e um sorriso enorme no rosto, os cabelos claros estavam soltos e tinha uma tiara de rena, usava um suéter vermelho com a barba do Papai Noel cobrindo boa parte da roupa. Ela estava em pé ao lado direito, próxima ao pai, tinha entre os braços um gato listrado, o qual também parecia usar um enfeite natalino.
Ao fundo, uma grande árvore de natal enfeitada, com vários presentes espalhados embaixo, eles pareciam extremamente felizes juntos, sorridentes para a foto.
Lendo a legenda, sentiu uma pontada no peito;
Aquele tinha sido o último Natal que os passaram juntos, Nathan morreu três semanas após aquela foto.

O jogador continuava encarando a imagem no computador, pensando o que faria se fosse uma de suas irmãs mais velhas. Deus, aquilo deveria ser horrível.
Suspirou tristemente, os braços cruzados, ainda encarando os quatro sorridentes.
- O que está fazendo? – a pergunta veio de sua mãe, distraído quase gritou de susto, mas recuperou-se em tempo.
Apontou para o computador, vendo a mulher aproximar-se para ler o que ele indicou.
Aos poucos notou as lágrimas que preencheram os olhos azuis da mais velha, e a fungada que a mesma deu, evitando o choro.
- Von Gott! Ele era tão novo... Tinha a vida inteira pela frente... Que horror! Imagine o que os pais dele passaram...
apenas concordou com a cabeça, sem pronunciar-se.
Ficou curioso para saber mais sobre a vida da inglesa, mas não conseguiu muito mais informações. Queria saber sobre ela, sobre sua família, como era a vida em Londres, o que tinha acontecido com seu irmão. Mas nada disso apareceu na pesquisa.
Também duvidava que algum site tivesse algo pessoal, talvez ele mesmo já soubesse mais do que imaginava; Relembrando as conversas que tiveram nas últimas semanas, sempre com assuntos aleatórios, ele poderia citar o livro, filme, série e até a peça favorita dela. Assim como comida, cidade, hobbies e o lugar preferido de Dortmund. Não parecia muito, mas gostava de saber que tinha aquele tanto de coisas sobre ela, e esperava saber mais.
sentiu um pequeno apertão no ombro, e por um momento achou que fosse seu pai, pois era algo que ele normalmente fazia, um apertão ou tapinha nas costas. Entretanto tinha sido Rachel, antes de dar-lhe as costas e caminhar para a sala, assistindo um pouco de televisão.
“Você precisa conversar com ela. Pode estar com problemas no trabalho. Não está te evitando”.
As palavras da doutora logo voltaram a ocupar sua mente, e o jogador até olhou para o lado, vendo a namorada deitada no sofá com o controle remoto em mãos, porém preferiu procurar algum filme no computador, pegando os fones de ouvido ao invés de sentar-se com a modelo.

O alemão bocejou e então esfregou os olhos, sentiu o corpo cansado e em partes dolorido. Deixou o notebook ao lado na cama, e ajeitou-se para dormir. Eram quase onze horas, mas ele ainda escutava a televisão ligada vindo da sala, na qual Rachel assistia um episódio de RuPaul’s.
Virou a cabeça para o lado e puxou o lençol, fechando os olhos em seguida.
estava sentado sozinho no vestiário do time, usando apenas uma toalha branca em sua cintura, sentia-se cansado pelo jogo, e ouvia a conversa dos amigos enquanto estavam tomando uma ducha. então puxou seu celular e colocou seus fones de ouvido, escutando o que alguns fãs falavam sobre o jogo em um podcast. O jogador virou-se para andar até seu armário, mas tinha alguém de costas para ele mexendo em suas coisas. Ele franziu o cenho, chamando a atenção de quem quer que fosse, quando a porta do armário fechou, ele viu a inglesa encará-lo, sorrindo sem graça por ter sido pega em flagrante.
A mulher segurava o perfume dele em mãos, e aproximou-se olhando para baixo, um sorriso pequeno nos lábios.
- Desculpe por invadir, eu só queria… Alguma coisa sua.
Ele a encarou por um instante, vendo-a morder os lábios e olhá-lo de volta, tentando conter o sorriso sedutor.
- Sabe… Já que eu não posso ter… você…
o encarava, aguardando por uma resposta que não vinha.
Ela então abriu a jaqueta que usava, e prendeu o ar ao reparar que não vestia nada por baixo, mas por algum motivo não conseguia ver direito seus seios, era como se estivessem borrados. Ele esfregou os olhos por um instante e tornou a olhá-la, sorria em sua direção, aproximando-se ainda mais e apoiando-se em seus ombros para ficar na ponta dos pés, sussurrando em seu ouvido;
- A menos que eu possa…
As mãos do jogador foram para sua cintura, sentindo a pele gelada da mulher por baixo da jaqueta. Sentiu os braços dela ao redor de seu pescoço, ao tempo em que ela jogava-se sobre ele, aproximando ainda mais seus corpos. tinha o corpo gelado dela contra o seu, e no momento seguinte a inglesa empurrou-o contra os armários, beijando-lhe o pescoço.
- Eles podem ouvir… - o jogador sussurrou com os olhos fechados, as mãos firmes em sua cintura, decidido a não deixá-la se afastar.
- , eles podem assistir se quiserem.
Sorriu marota antes de juntarem os lábios, e puxar a toalha que ele usava para baixo.
Arrepiou-se quando sentiu a mão dela em seu órgão, massageando-o enquanto o beijava.
então retirou de vez a jaqueta que ela usava, tendo-a completamente nua em sua frente, segurou-a em seus braços, andando em direção ao banco, sentando-se e puxando-a para seu colo.
Seus corpos estavam suados, mas o alemão continuava segurando-a contra si, ouvia os suspiros da inglesa e as vezes que ela chamava seu nome com a voz falha.
Queria mais dela para si, e ao tempo que investia contra ela, sua voz tornou-se mais alta, mas não era seu nome que ela chamava. Ela não estava mais com ele.
Abriu os olhos e assustou-se ao vê-la com ;
- Você não achou que tinha chances contra mim, não é?

acordou atordoado, os cabelos e parte do corpo suados e a respiração falha.
Passou a língua pelos lábios secos e virou-se para pegar o copo de água que sempre tinha ao seu lado na cama. Eram apenas 23h30.
Sentou-se na cama ainda sentindo o coração bater acelerado, as imagens do sonho tão vívidas em sua mente, que era quase como se pudesse escutá-la ao seu lado, sorrindo para ele enquanto gritava o nome de seu melhor amigo.
Oh, ele estava tão ferrado.

¹ Verdammt – Droga, caramba.



Continua...





comments powered by Disqus