Última atualização: 30/08/2020
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Prólogo


Dean.

A guerra estava vencida. Ao menos, por enquanto. Miguel estava fora de mim, de uma vez por todas. O problema é que, agora, tínhamos que lidar com as consequências. Tivemos baixas, infelizmente, mas não havia tempo para pensar nelas.
Não fazíamos ideia do estrago que Anael havia feito na mente da garota. Nem imaginávamos que fosse possível que ela ainda estivesse viva, mas teríamos que tentar. Não havia motivos para que ele fosse um anjo diferente. Os fatos eram bem claros: não se matava um anjo sem matar o hospedeiro. Mas seu coração ainda batia, o que deveria significar algo. Seja lá quem ela fosse, ela merecia viver, e nós três – eu, meu irmão e Castiel – iríamos lutar por isso. Afinal de contas, era o negócio da família, não era?
O problema é que já haviam se passado duas semanas e meia, e nada. Levá-la a um hospital? Por quê não? Bem, talvez porque o estrago que fizemos da última vez deixou rastros demais e estava muito cedo para correr alguns riscos. Então mantivemos ela no bunker. Castiel e Rowena fizeram uma leitura nela. Estava tudo bem, até então, mas o corpo dela simplesmente não respondia a nada. Não estava se alimentando, não estava bebendo água, mas nem por isso ficava desnutrida ou desidratada. O coração, no entanto, continuava batendo.
Éramos três, revezando constantemente para que a desconhecida nunca ficasse sozinha, e eu acabei sendo o sorteado. Passava das duas da manhã quando eu, sentado na poltrona, estava quase pegando no sono. Escutei um barulho fora do normal e entrei em alerta.
– Sam?
Ninguém respondeu.
– Cas?! – Tentei de novo.
Foi então que eu me virei para a garota. Esta, com os maiores olhos que já vi, se encolheu na cama rapidamente, como se para ficar o mais distante de mim possível. Não saberia dizer quem de nós dois estava mais assustado, mas seu olhar me lembrava uma coisa muito importante: ela havia estado, esse tempo todo, presa em sua própria mente enquanto Anael fazia suas farras com Miguel – dentro de mim ou não. Ela havia visto tudo e ela certamente, naquele instante, achava que eu era ele. Tratei rapidamente de me aproximar, mas foi rápido demais.
– Relaxe, não sou quem você pensa que eu sou. – Tentei dizer, com calma, levantando as mãos quase que em rendição. – Você está num lugar seguro agora, ok? Tá tudo bem, você tá bem. E tá livre.
A garota respirava com muita intensidade, ainda completamente assustada.
– Pode me dizer o seu nome?
E não veio nada. Ela moveu a boca, depois de muito tempo, mas não saía som dela. Foi quando ela percebeu duas coisas. A primeira era que eu realmente não estava ali para maltratá-la. A segunda era que sua voz havia sumido por completo.


Capítulo 1



Eu sufocava enquanto conseguia respirar perfeitamente. As perguntas em minha mente eram tantas que se tornaram impossíveis de contabilizar. Aquele era Miguel, mas não era. Havia passado tempo o suficiente para temer aqueles olhos, mas agora Miguel, ou seja lá quem fosse, me trazia comida na cama. Ele dizia que seu nome era Dean e eu teimava em não acreditar – se bem que acreditar em qualquer coisa, àquela altura, era completamente plausível.
Anjos existiam. Demônios existiam. Tudo o que eu havia visto na minha infância em filmes de terror que minha mãe me proibia de ver... Tudo aquilo existia. Lobisomens, vampiros, bruxas, e mil outras criaturas que eu nem fazia ideia do que eram. Um anjo havia estado em minha mente, conversando internamente comigo enquanto tomava conta do meu corpo e eu assistia em silêncio, sem poder fazer nada. Eu briguei, é claro, mas foi tão inútil quanto tentar tapar o sol com uma peneira. Anael, de longe, era o ser mais doentio e desprezível que tivera o desprazer de imaginar.
Sam e Castiel eram o nome dos outros. Desses, eu tinha menos medo. Lembrava vagamente da imagem dos dois, junto a outro homem, mais novo, entrando em um dos galpões de Miguel. Lembrava, também, dos olhos fixos em Miguel com um certo tom de carinho que, na época, eu não entendia. Talvez agora tudo fizesse sentido, mas eu ainda temia pela minha vida. Podia sentir meus batimentos cardíacos aumentando quando ele se aproximava. Na verdade, eu podia sentir tudo, desde a mínima brisa que passava pela fresta da porta até a vibração dos passos fora do estranho cômodo onde eu me encontrava.
Podia me mexer também, mesmo que minimamente. Meus braços e pernas estavam completamente inúteis e, embora minha voz tivesse tomado chá de sumiço, os músculos da face me deixavam fazer alguma coisa, incluindo mastigar. E Dean – ou Miguel, eu ainda não estava certa sobre isso – me ajudava com isso frequentemente. Toda vez que ele aparecia, minha expressão era provavelmente de terror, e ele tentava ser o mais delicado possível com tudo, mas não diminuía meu pavor. Os pensamentos em minha mente eram aos milhares e não poder exteriorizá-los agravava toda a situação.
– Vamos, não faça cara feia. Eu sei que não é o melhor rosbife do mundo, mas eu comi e ficou muito bom. – Dean quebrou o silêncio entre nós.
Era humilhante. Minha careta não era resultante do gosto. Estava, na verdade, uma delícia. Dean estava errado, talvez fosse o melhor rosbife do mundo. Mas eu, uma mulher de quase trinta anos, estava sendo alimentada, na boca, por um homem de... Trinta e cinco?! Eu não sabia. E nem podia perguntar, o que me levava a outro problema, um bem maior: necessidades fisiológicas. Era o que eu mais tentava esquecer, mais do que a época de Anael em minha cabeça.
– Tá ruim?
Eu pisquei duas vezes, um indicador negativo combinado em um monólogo entre eu e Sam. Não, cara, não é nada disso. Eu não consigo falar e, caralho, eu acho que preferia morrer a ser alimentada na boca desse jeito. Afinal de contas, por que diabos vocês estão me mantendo aqui e não me levaram pra porra de um hospital?
– Foi Sam que fez. Ele gosta de cozinhar mas não assume. Eu acho que ele cozinha bem.
Ok, eu já estou cansada disso. Me leve pra um hospital, onde médicos de verdade vão poder investigar o que eu tenho e, quem sabe, me tirar desse limbo. Onde enfermeiras vão fazer esse maldito trabalho que você insiste em fazer. Eu ouvi batidas na porta e, logo, Sam entrou.
– Dean, Rowena chegou.
– Pode trazer ela pra cá.
– Que história eu conto?
– A verdadeira, Sam.
Havia tristeza e derrota em seus semblantes. Talvez eu percebesse isso porque havia tempo demais para meus pensamentos aleatórios, mas não sabia dizer se eles percebiam isso uns nos outros ou, então, percebiam e simplesmente ignoravam. Se fosse a segunda opção, fingiam muito bem. Ou apenas estavam fazendo cena para mim. As possibilidades, como sempre, eram mil e as respostas, zero. E, enquanto eu devaneava, uma mulher entrou. Era baixa, muito baixa, ruiva, extremamente magra e com uma maquiagem pesada que destoava de sua figura. As roupas também eram contrastantes, mas eu não podia ver muito de onde estava.
– Bem, jovem Winchester, o que temos aqui?
– É basicamente isso que você tá vendo.
– Preciso de boas informações para fazer o meu trabalho bem feito.
– Chamamos você justamente porque precisamos de informações.
Ela limpou a garganta.
– Ok, vou ver o que posso fazer.
– Rowena, – Dean disse, firme, segurando em seu braço ameaçadoramente. – pega leve com ela. Não sabemos como tá a mente dessa garota e, seja lá o que tiver acontecido, o objetivo vai ser sempre garantir que ela se recupere o máximo possível.
“O máximo possível”? Que diabos isso significa?
– Eu entendi, querido. Vou tomar cuidado.
Ele se afastou e talvez, na primeira vez desde que acordei, eu queria que ele estivesse mais próximo. Não me sentia segura ali mas, na presença e proximidade daquela mulher, me sentia menos segura ainda. Ela deixou a bolsa em uma mesa próxima da cabeceira da cama e se aproximou. Suas mãos tinham um halo brilhante verde neon.
– Não se preocupe, minha cara, não vai doer. – Ela disse a mim.
A sensação foi parecida com quando Anael se apossou do meu corpo, mas em uma escala muito menor. Senti a temperatura do meu corpo cair e, pela primeira vez, eu senti algo em minhas pernas e braços. Era suor, definitivamente. Por um minuto, eu achei que pudesse ser sinal de que eu podia ter esperança. Estava consciente, em algum lugar da minha mente, de que havia levado alguns minutos, mas tempo era algo relativo na minha mente nos últimos dias. Podiam ter sido segundos que, para mim, não haveria diferença.
– E então? – Dean a abordou, conotando ansiedade.
Ela deu de ombros.
– Parece que está tudo bem com ela, Dean, não há nada fora do normal.
– Claramente, há algo muito fora do normal aqui.
– Dean, vocês deveriam levar essa garota para um médico, não para uma bruxa.
Isso! Isso mesmo! Um médico, por favor! É isso mesmo que eu quero! Comecei a piscar os olhos freneticamente, esperando que Dean visse e entendesse o recado.
– E dizer o quê, Rowena?! Que ela foi abusada por um anjo? Vão me internar junto! – Foda-se! – Além disso, não temos como saber se um médico seria capaz de curar ela pra valer. Você sabe muito bem que a gente não tem um histórico bom com pessoas que deixamos para médicos tomarem conta.
Opa! O quê?! Ok, talvez a ideia do hospital não seja tão boa.
– Você fala de Jack. – Ela sussurrou, mas minha audição estava boa além do normal. – Dean, não foi culpa sua.
– É claro que foi! – Ele gritou mas, logo depois, olhou para mim, assustado consigo mesmo. – Me desculpe, eu não quis te assustar. Rowena, acho melhor tratarmos desse assunto lá fora.
Não! Eu quero saber o que tá acontecendo comigo. Ou melhor... Eu preciso. Mas os dois deixaram o ambiente e Sam veio logo depois.
– Oi. – Ele murmurou, a voz suave como sempre. – A comida estava boa? – Pisquei uma vez e ele abriu um sorriso de ponta a ponta do rosto. – Você se importa se eu ler?
Pisquei duas vezes enquanto o assistia buscar um livro cujo nome não consegui ver. Eu sabia, no fundo, que não podia me mexer mas, mesmo assim, tentei esticar o pescoço. A insistência provocou uma pequena dor, e eu desisti. Eles haviam colocado uma televisão de led pendurada na parede para que eu pudesse me distrair. Foram longos minutos de tortura enquanto eles passavam de canal em canal para que eu finalmente desse uma piscada única, consentindo com a escolha. Mas eu já estava de saco cheio do National Geographic e não podia pedir para ninguém que mudassem o canal por mim.
Sam adormeceu na cadeira ao meu lado e eu também me deixei levar pelo sono inevitável um tempo depois.
Era uma das raras noites – será que era noite mesmo? – em que eu sonhava. Havia sempre um homem neles. Era alto, de cabelos negros e feições másculas como eu jamais havia visto. Naturalmente lindo. Eu não fazia ideia de quem era, mas me tratava como se eu fosse uma rainha. Sempre carinhoso, ele nunca personificava alguém que me faria mal. Ainda assim, eu tinha um pé atrás com aqueles delírios.
Sim, delírios, porque eu só imaginava que um delírio pudesse me levar àquilo. Se bem que demônios existiam, então que mal teria em achar que um homem daqueles gastaria seu tempo com uma mulher como eu? Não importava, porque ele estava me trazendo café da manhã na cama. Em certos momentos, seu rosto se confundia com o de Dean, e eu julgava que era minha mente confundindo a irrealidade com lembranças recentes. Lembranças... Eu queria saber das minhas últimas, mas era só outro item do meu pobre corpo que não estava em seu pleno funcionamento.
Então, em algum momento, eu acordei com o barulho da porta se abrindo. Dean e Castiel deram uma boa olhada em mim, os dois se mantendo em silêncio. O anjo se aproximou de mim sorrindo e deu um leve toque no ombro de Sam, ainda adormecido ao meu lado.
– Sam, vocês tem um caso. – Ele murmurou. – Uma lanchonete, na beira da estrada que vai daqui para Burr Oak. Dezenas exterminados.
Do que vocês estão falando?
– Os olhos... – Sam não terminou a pergunta e Castiel apenas assentiu. – Vai ficar com ela?
Eu vi, pelo canto dos olhos, que Sam apontou com a cabeça para mim. Ei, eu ainda estou aqui, eu ainda consigo ouvir e vocês sabem disso. Me coloquem no meio da conversa, pelo amor de Deus! Castiel, novamente, assentiu e Sam se levantou. Direcionou um olhar para mim, seguido de um de seus sorrisos forçados que tentavam passar, com certeza, uma sensação de conforto, mesmo que mínima. Ele deixou o recinto e eu observei atentamente enquanto Castiel mantinha sua atenção em outro lugar que não fosse na cama onde eu repousava.
De Castiel, eu tinha um medo particular. Ele era anjo, isso eu tinha processado. Minha mente ainda não tinha aceitado totalmente os fatos, e o processo não estava sendo muito tranquilo, mas ok. Eu acreditava que ele era um anjo, no fundo. E era justamente isso que tirava o meu sono. Um anjo havia estado em meu corpo, em minha mente. Um anjo matou dezenas e dezenas de inocentes com as minhas próprias mãos – que, naquele instante, nem eram capazes de realizar qualquer movimento –, se não foram centenas, ou até milhares. Um anjo havia destruído famílias, desolado vilarejos, atormentado a população de bem.
Mas anjos não eram bons? Não. Agora eu sabia que não. E Castiel era um anjo. Mas Miguel... Não, Miguel não. É Dean. Dean havia dito que Castiel era bom. Mas Castiel era anjo. E anjos não eram bons. Meu Deus, eu estou enlouquecendo mais ainda, se é que isso ainda era possível. Tirem esse homem, anjo ou sei lá o que de perto de mim, por favor! Ou os dois irmãos, se é que são irmãos mesmo, não fazem ideia do quanto Castiel me aterroriza ou simplesmente sabem e ignoram. Parece com tudo que acontece nesse inferno de lugar é assim, seguindo sempre a mesma merda de métrica.
– Ei. – A voz grossa soou pelo cômodo. – Enquanto os meninos estão fora, queria testar uma coisa que pode te ajudar a sair desse estado catatônico. Você gostaria de tentar?
Pisquei duas vezes, firme. Não, cacete, de jeito nenhum! Você ficou maluco?! Aquele filho da puta do Anael não conseguiu e agora você vai terminar o trabalhinho sujo dele? Vá se foder! Não direi ‘sim’ a um anjo nunca mais em minha vida. Se você é tão do bem assim, não consegue ver o terror em meus olhos?
– Eu entendo que esteja com medo, – Entende porra nenhuma. – mas eu juro que não vai doer. Não importa o quanto eu repita, vou insistir: não sou nada do que você viu em Anael.
Ah, tá, eu acredito. E o papai noel? Chega quando? Se bem que, nessa altura do campeonado... Será que o papai noel existe?
– Por favor, eu só vou tocar em você. Sam e Dean disseram que era melhor que eu não fizesse isso porque você já sofreu muito nas mãos de um ser celestial, mas eu realmente acho que posso te ajudar. Eu só vou tocar em você, não vai doer.
Pisquei duas vezes novamente. Que caralho de homem difícil de entender as coisas! Será que Sam não explicou o procedimento pra ele?
– Sei que vai parecer uma violação porque não pode se mexer e lutar contra. Por favor, não pense assim. Enxergue como uma prova de que eu valho a pena a confiança ou, ao menos, a tentativa. Mas, por favor...
Ele, claramente, estava procurando palavras para continuar, mas pausou ali mesmo e deu um passo na direção da cama. Eu tentei me debater, é claro, por instinto, mas nada resultou do esforço em vão. Ele deu outro passo e eu tinha certeza de que tudo ia começar de novo quando ele tocou em meu braço. Uma luz forte emanou do lugar e eu precisei fechar os olhos. Não houve dor, não houve pausa no tempo, não houve nada de anormal, a não ser pelo formigamento. Eu senti o toque, senti meu braço pela primeira vez em dias. E então Castiel olhou pra mim.
Seus olhos brilhavam um azul quase branco, luminoso. Esperei que se apagassem lentamente, ainda assustada.
?
Isso! ! Isso, sou eu!


Capítulo 2


Sam

– E nós repetimos quantas vezes que não era pra fazer nada disso?
– Dean, não precisa disso tudo...
– Caralho, Sam, é claro que precisa! – Ele gritou e deu um soco no tampo na mesa.
Eu estava farto daquilo e me retirei da biblioteca, indo imediatamente em direção ao quarto onde dormia. Parecia até, por alguns instantes, que a ideia de deixá-la em um hospital e ponto final era justa. Ela diria o quê? Que havia sido sequestrada pelos irmãos Winchester? E diria isso antes ou depois de confessar que um anjo havia estado na mente dela? Ou melhor, o que falaria sobre Miguel? Estava na companhia de um dos arcanjos mais poderosos do céu em pleno planeta terra? Nós constávamos como mortos, ela constaria como maluca. Isso se recuperasse a voz, ainda tinha esse detalhe.
– Sam, – Eu ouvi o sussurro preencher o ambiente. – eu sinto muito.
– Não precisa sentir, Cas. Você sabe bem como o meu irmão é. Dê tempo a ele. Algumas horas sozinho, refletindo, e ele vai perceber que tá fazendo merda. Como sempre.
– Juro que não fiz mal nenhum a ela, pode questioná-la sobre isso.
– Eu acredito em você. – Suspirei, observando-a. – E nós já perguntamos. Agora é melhor você ir. Dean vai pirar se te encontrar por aqui.
Castiel já estava se virando, não sem antes dar uma última olhada em , quando uma lâmpada acendeu sobre a minha cabeça. Não era boa ideia, nada nunca era se partisse de mim, mas precisava arriscar.
– Na verdade, acho o contrário.
– O quê?
– Fica aqui, por favor. Tenta não... Você sabe... Não interagir com ela.
– Acho que não estou entendendo.
– Só mantenha ela viva pra nós, ok? Voltamos logo.
Eu disparei em direção à biblioteca, de volta para onde estava. Dean não estava lá, mas a chave do Impala sim. Peguei e fui para a cozinha, minha segunda e correta opção. Puto da vida que estava, não era surpreendente que ele fosse tomar uma ou outra garrafa de cerveja. Joguei a chave da direção dele e torci para que sua suposta inteligência o ajudasse a capturar antes que caísse no chão. Aposta confirmada, Dean tornou a olhar para mim, um tanto confuso mas já entendendo onde eu queria chegar.
– Você dirige.
– Não podemos deixar a garota sozinha, e não me invente de dizer que você teve a brilhante ideia de deixar aquele filho da puta do Castiel com ela.
Você dirige. Não foi um pedido.
Dei a costas para ele e fui para a garagem. Minutos depois, a teimosia em pessoa apareceu, bufando. Entrou no carro e bateu a porta com mais força do que o necessário, mostrando arrependimento logo depois.
– Pra onde?
– Pro lugar de sempre.
Ele estava pronto para iniciar um protesto mas permaneceu calado. Chegamos ao túmulo improvisado em menos de meia hora, talvez o maior tempo que levamos até lá. Não havia bebidas entre nós, e isso era novidade. Eu sentia falta dela, tanto quanto ou mais que Dean. De certa forma, ficava chateado por ele achar que tinha direto de ter mais saudades do que eu. Dean tinha seis anos a mais com ela, mais do que eu jamais teria, graças àquele acidente fatídico. Eu tentava culpar Jack, mas não conseguia. Só conseguia culpar a mim mesmo por não ter passado mais tempo ainda com ela.
– Qual era o ponto em me trazer aqui?
– O que a mamãe faria se estivesse viva?
– Não deixaria Castiel chegar perto da garota de novo.
– É o nome. Foi o mesmo Castiel que você tanto recrimina que descobriu. E, só pra completar, mamãe nunca foi tão babaca com ninguém como você tá sendo com ele.
– Se estivesse fazendo uma coisa certa, não teria escondido.
– Talvez ele tenha escondido porque sabia que você seria um babaca.
– Eu não estou sendo um babaca.
Soltei um riso irônico.
– Não, claro que não, eu que estou... – Murmurei.
A vista era bonita. Mamãe, quando viva, havia passado pela US-24 e não parava de dizer que, quando a hora dela chegasse, queria que suas cinzas fossem despachadas no Glen Elder State Park, precisamente no ponto com a melhor vista para o lago Waconda. De acordo com suas palavras, aquilo a lembrava de sua juventude e sua época de caçadora com seus pais e, além do mais, ali ficaria confortável para que ela descansasse após a morte e estaria a trinta minutos do bunker, caso quiséssemos fazer uma visita. Eu ia ali escondido de Dean. Éramos os únicos que sabiam que ali, embaixo daquela pedra teoricamente impossível de levantar – mas era só destravar o apetrecho que inventamos –, estavam as cinzas de nossa mãe e do irmão adotado que recebemos.
– Você quis vir aqui pra quê? Pra me dizer que ela ia me dar uma bronca? Novidade, nerd, ela não está mais aqui.
– Mas não custa nada fazer a memória dela valer a pena.
– Olha, Sammy, entendo todo o seu bom coração com relação a isso, mas ainda salvamos vidas. É esse o negócio da família, certo? – Eu assenti mediante a fala do meu irmão. – Sabe lá Deus o que essa menina passou e ainda vai passar então, por favor, não ache que estou errado quando digo algo para protegê-la.
– Castiel poderia descobrir mais coisas e, assim, nós teríamos mais o que fazer por ela.
– Por favor, a garota claramente tem algo contra o Castiel, e não é pra menos depois de tudo que aconteceu.
.
– O quê?!
. É o nome dela. É a quarta vez no dia que eu chamo a sua atenção pra isso, mas você se recusa a usar. É por que foi Castiel que descobriu e você não quer dar o braço a torcer e dizer que ele acertou em cheio ao transgredir uma regra que você impôs?
Ele bufou e desviou o olhar. Eu tinha uma discreta vontade de sorrir nesses momentos, pois era o jeito secreto dele esconder e não assumir que eu estava certo.
– Não sei quanto tempo você acha que tem, – Resmunguei, colocando ênfase no nome. – mas eu vou sempre considerar o mínimo possível. E, sim, a mamãe te daria uma bronca e estaria agradecendo Castiel agora pelo que ele fez, como até mesmo deve estar.
Eu levantei e segui em direção ao carro, sem a real intenção de entrar no Impala. Caminhei a pé pela estrada, na direção de casa, até escutar o barulho do V8 se aproximando.
– Agora você deu pra fazer pirraça?
– Me poupe desse papo.
– Vai, entra logo no carro.
Revirei os olhos, obedeci e seguimos de volta para casa. Com os humores menos exaltados, nos preparamos para mais uma refeição. Era meu dia de alimentar , e eu podia ver o quanto ela detestava aquilo quando olhava para seu rosto. Terminei o que tinha que fazer, deixando uma teoricamente satisfeita assistindo TV sob a supervisão, dessa vez, de Dean. Castiel olhava alguns livros quando cheguei à biblioteca.
– Você fez mais alguma coisa?
– Depois das consequências da última tentativa, achei melhor não.
– Fez bem.
A conversa teve uma pausa relativamente grande, então tomei a liberdade de me sentar junto a ele.
– Procurando algo específico?
sobreviveu a uma possessão angelical, e nós sabemos muito bem que isso é a coisa mais estranha que já vimos.
– Achou alguma coisa útil?
– Por enquanto, não, mas desistir não está nos meus planos.
– Bom. Você descobriu mais alguma coisa além do nome dela?
Castiel deixou o livro de lado, finalmente, demonstrando o quanto estava incomodado com minhas perguntas. No fundo, eu não ligava. Estava mesmo era interessado em descobrir tudo o que pudesse a respeito dela.
– Não, Sam, não descobri. As coisas estão bem confusas e a mente dela está completamente embaralhada. Às vezes, precisamos dar tempo ao tempo. Pra valer.
– Mas você acha que seria seguro repetir?
– Repetir o quê?
– Sua... Exploração?! Não sei como definir isso.
– Podemos conversar a respeito, muito embora Dean tenha demonstrado suas ressalvas de um jeito... Digamos... Peculiar, e eu não esteja certo sobre a vontade de nisso. Por enquanto, eu prefiro me manter nos estudos. Acho que será mais produtivo.
– Certo... – Murmurei, quase sem conseguir escutar minha própria voz. – Então tá. Me chama se encontrar alguma coisa.
Castiel resmungou alguma coisa desconexa e eu desisti, indo em passos lentos para o cômodo que chamava de quarto. Dei uma bela arrumada na pilha de livros e anotações por cima de minha escrivaninha pessoal, passando o olho por cima das palavras e torcendo para que, assim, eu captasse algo despercebido antes. Depois foi a vez das roupas na pequena cômoda, que era mais do que suficiente para as poucas peças mas, mesmo assim, eu conseguia manter desarrumada. Por fim, me joguei na cama, certo de que esfriar a cabeça talvez fosse aproveitável para um bom desempenho posterior no caso de , mas o telefone tocou. Afinal de contas, não era a única pessoa a sofrer nas mãos do sobrenatural.
Aparentemente, não era única nem no estado. Deixando-a sob os cuidados de Castiel – com uma lista infinita de observações e ordens criadas por Dean –, começamos a arrumar as bolsas para a saída. Algumas roupas seriam suficientes. O relato nos fazia desconfiar de alguma coisa ligada a fantasmas, o que poderia remeter a resoluções simples. Muito embora nós tivéssemos um grande problema nas mãos, Kobe Horsley era um grande contato e nós éramos, de longe, os caçadores mais próximos do local. Negar seria estranho e, àquela altura do campeonato, precisávamos manter os olhares curiosos bem longes do bunker.
Dodge City. População? Vinte e oito mil habitantes. Três horas e meia em duzentas milhas de estrada, passando por Osborne, Russell, Great Bend e Kinsley, todas com metade ou menos dos habitantes de Dodge City. Isso nos garantia uma maior segurança, mas nada perto dos menos de trezentos habitantes do Lebanon. Ainda assim, era em torno de vinte por cento da quinta maior cidade do estado. E cá entre nós, o Kansas era o trigésimo quarto em cinquenta a nível de população, então nós realmente nos preocupávamos um pouco menos do que o normal sobre encontros com os locais, o que tornava o lugar bom para nossa base. Além disso, estávamos no ponto mais ao centro do país possível, e isso permitia que não houvesse prejuízo entre as cidades mais distantes que pudessem precisar do nosso auxílio.
Eu e meu irmão nos hospedamos no motel Do Drop Inn, entre o centro de Kinsley e o condado de Ardell, outra área desprovida de população. Não era exatamente em Dodge City, mas ficar longe de um lugar sob investigação às vezes era estratégico. Meu serviço era simples, instalar nossa base na pequena mesinha reservada para refeições dentro do quarto. A televisão era dispensável, então a mesa destinada a ela também serviria de grande ajuda. Notebooks colocados nos lugares, livros bem ao lado, trocamos de roupa, colocando nossos melhores ternos e gravatas, e seguimos para Dodge City. Vinte incrivelmente rápidos minutos depois, estávamos entrando no departamento de polícia da cidade.
– Agentes John e Bowie, FBI. Viemos tratar sobre o assassinato da família Stipe.
– Segundo andar. – O rapaz novo nos respondeu. – Saindo do elevador, virem à direita. A sala do delegado é a terceira porta.
Dean assentiu, com um sorriso debochado no rosto que tentei repreender sem ser visto. Nós nos encaminhamos para o elevador mantendo a postura. A primeira coisa que notei foi que não havia câmeras, o que era ótimo.
– John e Bowie?! – Dean perguntou.
– Sim. Elton John e David Bowie.
– Sério?! Tá de sacanagem, né?
– Você sempre faz a escolha, dá um tempo.
– Só que eu não...
O barulho anunciou nossa chegada ao andar desejado. Caminhamos até a tal porta, atraindo alguns olhares. Três batidas e ouvimos um singelo “entre”. O senhor do outro lado da mesa já devia ter quase sessenta anos e tinha o porte físico que eu gostaria de ter quando chegasse naquela idade. Só me faltava a cara de mau. .
– Agentes...?
– John e Bowie. – Eu me apressei em responder, oferecendo logo a mão para um rápido cumprimento, e meu irmão tratou de me seguir.
– Vieram aqui por causa de Clairy, Armie e Hope Stipe.
– Sim. – Dean respondeu a afirmação. – Gostaríamos de saber se o senhor se incomodaria de nos ceder um pouco de espaço na investigação.
– Devo dizer que é uma consideração estranha, já que vocês devem saber que geralmente não queremos vocês por perto.
Eu dei de ombros e abri o meu melhor sorriso.
– Só seguimos ordens e, infelizmente, incomodá-lo nesse momento faz parte delas.
– Bem, sentem-se. – Ele nos ofereceu as cadeiras em sua frente. – Sou o Capitão Meyers. Em que posso ser útil aos federais hoje?


Capítulo 3

Dean.

Meu corpo pedia por cinco horas de sono sem interrupção. Cinco não! Seis! Isso! Seis horas de sono, direto. Meu Deus, seria sensacional. Mas não tinha tempo para aquilo. Castiel era o certo para ficar com a garota, sim, definitivamente, porque era o único que podia estar o tempo inteiro com ela, com exceções para necessidades fisiológicas, coisa que estava por conta da Charlie do outro universo, que nos fazia visitas diárias. Além do mais, seria menos estranho na mente dele cuidar de tudo o que fazíamos e... Bem, aquilo me incomodava tanto que eu nem gostava de pensar no assunto. Infelizmente, fazia parte do negócio. E eu seguia com algo em mente me dizendo que, embora fosse tudo muito estranho, eu estava no caminho certo.
– Eu vou na rua comprar comida. Você quer alguma coisa?
– Cerveja. – Resmunguei para Sam.
– Isso eu já previa. To falando de algo fora do óbvio.
Pensei por alguns instantes.
– Não, to de boa.
– Ok então, volto em vinte minutos.
Eu apenas assenti, em silêncio. Voltei minha atenção momentaneamente para , que estava dormindo em paz, incrivelmente, como se o mundo não estivesse caindo à nossa volta. Percebi, enquanto deixava minha mente esvaziar, que estava morrendo de fome e que foi idiotice não pedir para Sam trazer, pelo menos, dois pedaços de torta. Mas agora era tarde demais e eu não ia ligar só pra isso.
– Dean, pode ir descansar, eu fico por agora.
– Pode deixar, Cas, eu te chamo quando precisar.
– Você tá acabado.
– Eu sei.
Castiel a observou por alguns instantes quando terminou de se aproximar de mim.
– Não é culpa sua.
– Claro que é.
– Você tá exagerando. – Ele disse e ficou de frente para mim, entrando no caminho entre meus olhos e . – E eu sei bem que você tá pensando agora que não devia ter feito uma porção de coisas, mas você não se lembra de quantas vidas salvou com suas escolhas?
– Mas perdemos muitas também e ela... – Tomei fôlego para continuar. – Ela é mais uma vítima.
– Nisso eu concordo, mas ela é vítima do Anael, não sua.
– Cas, eu vi o que ela viu. Caso você não se lembre, tudo isso começou porque eu disse ‘sim’ a Miguel em um primeiro momento.
– Você só disse ‘sim’ porque a vida do seu irmão tava na reta.
– E não é isso que temos feito durante anos? Ferrar com a vida dos outros a troco de salvar a nós mesmos?
Não percebi que tinha elevado a voz mais do que deveria. Eu olhei, na mesma hora, por cima do ombro dele. estava de olhos abertos agora. Deixei Castiel para lá e me aproximei da cama improvisada.
– Desculpa. – Falei. – Você quer comer agora?
piscou duas vezes.
– Prefere continuar dormindo?
Ela piscou duas vezes de novo. Caralho, o que ela quer então?
– Está com algum problema?
Uma terceira negativa e eu estava irritado, principalmente pelo fato de que tinha alguém ali que havia perdido a voz e não merecia nada daquilo. Então percebi seu olhar indo na direção da TV repetidas vezes. Ufa.
– Um filme?
Finalmente, um aceno positivo. Ótimo, tínhamos um tanto de avanço, e era suficiente para me deixar um pouco menos com raiva. Coloquei em um canal qualquer e perguntei se estava bom. Mais um aceno positivo e eu pedi licença para ir até a cozinha pegar um pouco de café. Sam estava chegando de volta na hora em que entrei.
– Ela ainda tá dormindo?
– Não, fiz o favor de subir a voz enquanto estava lá. Agora ela tá vendo TV.
– Bom... Vou fazer lasanha, tudo bem?
– Ótimo, e a cerveja?
– Café e cerveja?! – Ele observou, notando a cafeteira ligada. – Você deve estar mesmo desesperado.
– Eu estou.
– A cerveja ainda tá no carro, em resposta à sua pergunta. Vou lá buscar, só deixa eu colocar um pouco de água pra ferver.
– Pode deixar, eu vou. – Disse e deixei ele lá.
Subi a escadaria aos pulos, não foi exatamente uma boa ideia. Assim que meus olhos acharam o brilho do céu, senti a vista escurecer e fiquei tonto. Pensei, em primeiro, na possibilidade de ter tido uma queda de pressão, mas parecia muito com os episódios de mau estar que tive quando Miguel saiu mas deixou uma porta aberta. Mas Miguel estava morto, então não havia motivo para me preocupar, certo? Bem, eu esperava que estivesse. Então peguei a cerveja e entrei para o bunker de volta, o mais rápido possível.
– Cas? – Gritei. – Cas!
– O que foi? – Ele surgiu.
– Sai daqui.
– O quê?!
– Volta em quinze minutos.
– Mas, Dean...
– Vai, Cas!
Ele desapareceu ao mesmo tempo em que Sam veio, da cozinha. Eu peguei um punhal que estava no meio dos equipamentos e cortei a palma da minha mão esquerda. Comecei a desenhar o sigilo na madeira enquanto meu irmão me observava, sem entender nada.
– Se eu sumir, – Comecei a falar antes de terminar o desenho. – não confia em me deixar voltar.
– Do que você tá falando?
Eu terminei o que estava fazendo, tenso ao extremo. Fechei os olhos, esperando o pior, mas nada aconteceu. Abri os olhos e Sam ainda me encarava como se eu fosse maluco.
– O que tá acontecendo?
Ainda desconfiado, chequei o entorno.
– Tive um mau pressentimento.
– E precisava disso tudo?
De repente, uma lâmpada se acendeu sob a minha cabeça. Corri até onde estava e, para a minha felicidade – se assim eu poderia dizer –, ela continuava no mesmo lugar onde eu havia a deixado. Sam estava logo atrás de mim.
– Você vai me contar do que isso se trata?
– Lembra de quando eu passava mal, antes da gente descobrir que Miguel não tinha ido embora de vez?
– Claro, lembro, mas...
– Aconteceu de novo.
Sam, agora, parecia entender a gravidade do problema.
– Vamos esperar o Castiel voltar, e aí ele dá uma boa checada em você.
– Boa ideia. – Murmurei.
– Agora seria uma boa você ir lá limpar aquele sangue todo de cima da mesa.
– Você não pode me ajudar nessa?
– Tá de brincadeira, né?
Mais tranquilo, abri um sorriso amarelo e Sam revirou os olhos, me deixando sozinho. Fui para o quarto, limpar o corte e colocar algo para ajudar na cicatrização. Estava focado no que estava fazendo quando ouvi uma voz feminina chamar meu nome. Olhei em volta, preocupado com ter alguma ligação com o episódio recente, mas estava certo sobre estar ficando um pouco paranoico demais com aquilo tudo. Terminei o que comecei e voltei para .
– Dean, a mesa! – Sam gritou, provavelmente da cozinha.
percebeu minha presença, mas escolheu ignorar e continuar olhando para a tela. Peguei um pouco de sabão líquido na lavanderia, um pano de chão velho e um balde com água. Estava começando a esfregar quando Sam apareceu com uma garrafa de refrigerante na mão.
– Depois você pode ir limpar o meu quarto.
– Vai se foder. – Resmunguei.
– Dean, eu liguei pra Rowena e ela... Ela disse que teve uma ideia e que poderíamos colocar uma enfermeira aqui.
– Não temos provas de que Anael foi morto. E se ele estiver por aí, caçando a garota, da mesma forma que Miguel me caçou pra voltar pro meu corpo? Não podemos confiar em ninguém pra isso.
– Ela falou algo sobre hipnose.
– Não tá melhorando.
– Olha, nem eu, nem você e muito menos o Cas estamos satisfeitos com tudo isso. Estamos desconfortáveis, e ela também, com certeza. Provavelmente, ela tá mais desconfortável que a gente. Ter uma enfermeira aqui facilitaria tudo. Seríamos quatro com menos desconforto.
– Sam, não tem necessidade.
– Tem certeza?
– Absoluta.
Ele ficou em silêncio por uns segundos, e eu realmente esperei que aquilo fosse o fim do assunto, mas eu conhecia bem meu irmão para saber que ele não havia parado por ali.
– Seria bom pra todos nós, Dean.
– Sam, é arriscado.
– Eu sei.
Torci o pano dentro do balde e passei na madeira uma última vez, para ter certeza de que havia ficado realmente limpo.
– Você acha mesmo que vale colocar a gente em risco?
– Dean, nós temos que tentar.
– E como vamos fazer isso, mente brilhante?
– O aparelho que você usou pra entrar na cabeça da...
Ele não terminou a frase e eu senti, imediatamente, o aperto crescente no meu peito. Tinha vontade de gritar toda vez que pensava nela.
– Da mesma forma que os Homens de Letra britânicos usaram pra fazer lavagem cerebral na mamãe, nós podemos usar com ela.
– Não tem garantias de que realmente funcione.
– Você viu a mãe, ela ia matar a Jody. E é só ligar pro Ketch que...
– Que a gente espalha essa informação muito além do necessário, Sam.
– A Rowena disse que pode tentar hipnose, mas acho que você tá esquecendo da pessoa mais importante nesse círculo de decisões.
– Quem? Castiel?!
– Não, Dean, a .
Ela estava ainda acordada. Não era novidade, já que tinha dormido por bastante tempo antes de eu fazer a merda de acordá-la. Eu me aproximei com um sorriso no rosto, muito embora meu humor não fosse, nem de longe, aquele. Parei na cabeceira da cama e apoiei as costas na parede. Fiquei ali, fingindo estar interessado no filme horrível que estava passando, mas estava só meu corpo no local. A mente divagava entre as mil coisas que estavam acontecendo, dentre elas as possíveis consequências de ações que estávamos tomando.
– Ei, – Eu hesitei. – ... Podemos conversar?
Conversar, Dean? Sério que você perguntou isso pra uma pessoa que não pode falar? Você é um idiota mesmo. Uma piscada, positivo. Ótimo, bom começo, eu me achava um idiota mas ela, aparentemente, não.
– Você se sentiria melhor se mantivéssemos uma mulher aqui permanentemente pra lidar com as suas questões... Bem... Questões sanitárias? A Charlie não pode ficar o tempo inteiro, tem sua própria vida para manter sob disfarce e não podemos pedir uma coisa dessas a ela.
Positivo de novo, mas eu ainda tinha certeza de que estava sendo simples demais para a situação.
– Preciso que seja sincera comigo. Você entende o que está acontecendo?
Negativo. Era o que eu temia, mas era bom sinal – ou eu achava que era.
– Ok. Eu sei que você não pode fazer perguntas pra mim, e isso provavelmente é a pior parte. O anjo que esteve em você não é tão poderoso quanto o anjo que esteve em mim mas, ainda assim, nós precisamos ter medo da possibilidade disso se repetir. Você entende isso?
Positivo, mais uma vez, e eu podia ver um misto de medo e confusão no seu olhar.
– Trazer alguém pra cá é te colocar em risco. Nós nunca temos cem por centro de certeza sobre algo ou alguém, e poderia ser uma pessoa conectada, de alguma forma, a Anael. Miguel morreu, mas não sabemos se Anael realmente morreu. Quando Miguel me deixou da primeira vez, eu achei que tinha acabado, mas ele voltou, e voltou pior. Se não fosse por um milagre, ele teria me matado. Você esteve presa dentro da sua mente com Anael. Acha que ele apresenta um perigo tão grande assim pra você?
Positivo. Merda.
– Eu não sou a favor de botar mais alguém aqui dentro. Você entende o porquê? Entende o risco que existe nisso? Entende que queremos, a princípio, estabilizar essa questão quanto a Anael pra, então, tomarmos uma decisão secundária e que, por isso, estamos andando em ovos com você?
Mais um positivo e eu comecei a me questionar se aquela garota estava com sua sanidade em perfeita ordem. Mas quem de nós ali estava falando palavras e mais palavras sozinho mesmo? Eu odiava aquele monólogo com todas as minhas forças.
– Ainda assim, você se mantém na primeira opinião de que se sentiria melhor com uma mulher de fora aqui?
Ela confirmou e eu respirei fundo. Desviei o olhar do dela, outra coisa que me incomodava demais. Ter que ficar olhando em seus olhos me deixava desesperado, irritadiço e confuso. As memórias que tinha da época em que ambos éramos dominados por aqueles parasitas filhos da puta pioravam a situação, me fazendo ter flashes de momentos em que – na verdade, Anael – estava fazendo coisas desumanas. Eu preferia, realmente, acreditar que ele estava morto a pensar que havia a possibilidade de ele estar em outra pessoa, vitimando outro inocente.
Deixei a lateral da cama para começar a preparar o carrinho-barra-mesa improvisado que usávamos para dar de comer a . Limpei os talheres com o guardanapo que havia ali e peguei um pouco de água da torneira. Separei um guardanapo novo e limpo. Deixei tudo em ordem para que só faltasse o serviço de Sam. Foi quando ouvi a voz de novo, mais clara dessa vez. Era uma voz feminina, nem tão grave nem tão suave. Não era firme, nem um pouco, mas chamava meu nome e eu tinha certeza de que não era coisa da minha cabeça. Arqueei uma sobrancelha e segurei a respiração, como se aquilo fosse me ajudar em alguma coisa.
Olhei de volta para . Ela, por sua vez, tinha os olhos arregalados. Assustado, olhei em volta, rodando em meu próprio eixo e tirando a arma do cós da calça. Empunhei o revólver e ouvi, mais uma vez, a voz. Estava prestes a gritar alguma coisa quando me dei conta da direção de onde vinha a voz. Meu coração estava disparado.
– Foi você?
piscou uma vez. Positivo.


Capítulo 4

.

– Achei que isso fosse ser gradual.
– Eu também. – Respondi.
Dean havia me colocado sentada, em noventa graus, na cama pela primeira vez. Eu ainda não podia mexer pernas e braços, mas sentia tudo superficialmente, e meu corpo agradeceu a postura.
– Bem... Eu não sei... Como você se sente?
– Estranha.
– Bem, acho que você deveria se sentir assim mesmo.
– Dean, não é? – Ele confirmou. – Dean, por que não me levaram para um hospital? – Fiz a pergunta de um milhão de dólares.
Ele desviou o olhar do meu e coçou o cabelo antes de responder.
– Nós estamos nisso faz muito tempo, . Já levamos muitos a um hospital, acredite em mim. E sabe quantos sucessos nós tivemos? Zero. Então nós simplesmente paramos de contar com médicos e passamos a nos garantir por conta própria.
– A bruxa, você quer dizer?
– Rowena é só uma parte da história.
– Entendi...
– Eu posso fazer algo por você? Não sabe o ódio que eu estava de ter que fazer perguntas de sim ou não.
– Não estava exatamente satisfeita com isso também, acho que você deve saber. – Respondi. – Acho que gostaria de um copo de água.
– Claro, vou buscar.
– Dean. – Eu o chamei quando ele se virou. – Por quê eu?
Passamos a melhor tarde – eu sabia que era tarde pois podia perguntar, agora, sobre as horas – em dias conversando sobre dezenas de coisas diversas. Sam e Castiel se aproximaram quando Dean foi contar a eles sobre minha voz ter voltado. Eu tinha milhares de perguntas mas, aparentemente, eles também, e eu precisei destrinchar sobre como estava me sentindo, pedaço por pedaço. No geral, eu até me sentia bem, se fosse levar em conta o contexto todo. E mesmo que eu repetisse isso mil vezes, eles ainda me sufocavam com perguntas demais.
– Temos uma surpresa! – Sam disse, entrando no quarto depois de me deixarem sozinha por alguns minutos. – É algo bobo, mas você vai adorar. Dean, pode trazer.
A cadeira de rodas era de um modelo bem simples, mas o sorriso no rosto de Sam me fez rir também. Era quase tocável a pureza nas suas intenções. Com o tempo ali, eu havia aprendido mais do que pensei ser possível sobre como ler uma pessoa, e Sam era incrível para se fazer isso. Castiel era inocência pura mas eu ainda não o julgava confiável por se tratar de um anjo. Dean tinha boas intenções como o irmão, mas se podia ver as cicatrizes do passado no cansado olhar que ele carregava mesmo quando abria um sorriso. Talvez, eu pensava, fosse consequência do que Miguel havia feito nele, porque eu entendia bem como era se sentir despedaçado por dentro nesse caso.
E então tinha Sam, que era todo sorrisos bobos arrancados por motivo nenhum, às vezes por ele mesmo. Parecia uma criança ganhando doce a todo momento. As cicatrizes do passado ainda estavam ali – uma, literalmente, em seu rosto –, mas ele parecia ter maior poder de resiliência que o irmão. Ver todo o esforço que ele colocava nas suas ações para comigo me faziam querer sorrir em resposta, mesmo que eu estivesse com o humor terrivelmente azedo. Sentia como se ele fosse o irmão mais velho que eu não havia tido.
– Não precisava.
– Claro que precisava. E temos mais uma novidade. Vamos te levar pra tomar um banho de sol amanhã cedo.
– Isso não é arriscado?
– Não vamos sair do perímetro do bunker, – Dean respondeu. – fique tranquila quanto a isso. Além do mais, o Cas tá cuidando da segurança da área por enquanto. Nós falamos sobre trazer alguém pra ficar aqui o tempo inteiro, mas acho que talvez não seja necessário. Se sua voz voltou, não deve demorar pros seus movimentos voltarem também.
– Eu não teria tanta certeza. – Murchei. – E se não voltarem? Seria plausível, eu acho.
– É claro que vão voltar. Não estou nem considerando outra opção.
– Dean, eu acho melhor...
– Não, Sammy, ela precisa ver esperança em nós. Tudo vai ficar bem, entendeu, ? Eu e meu irmão vamos fazer ficar bem.
Eu sentia uma pressão no tom de voz que ele usava que me deixava um tanto desconfortável, eu deveria assumir, mas abaixei a cabeça e concordei com ele. Então deixei o assunto de canto e foquei na nova notícia. Sair do quarto seria sensacional, e eu estava morrendo de ansiedade por aquilo. A outra parte de mim também estava com medo, mas o cansaço e tédio superavam e se faziam maioria.
Dean colocou um relógio no quarto, foi um dos meus primeiros pedidos. Logo depois, ele trouxe a cadeira para perto da minha cama. Ficou meia hora procurando como travar as rodas enquanto eu observava tanto quanto podia, achando um tanto de graça da situação.
– Posso?
– O quê?
– Te colocar na cadeira.
– É a primeira vez que você pede pra fazer alguma coisa.
– Desculpa, , eu não faço a mínima ideia do que eu to fazendo.
– Pode chamar de . – Respondi. – Não sei o porquê, mas acho que gostava desse apelido.
– Você não se lembra?
– Bem, disso vocês esqueceram de perguntar, não é mesmo? – Brinquei. – Eu lembro de coisas de um passado antigo. Lembro que cresci em uma fazenda, no interior da Carolina do Sul. Meus pais se chamavam Hugh e Nicole, mas eles faleceram em um acidente em 2017.
– Eu sinto muito por isso. – Dean falou e começou a forrar a cadeira com um cobertor grosso. – Perdi meus pais também. Minha mãe, duas vezes.
– Duas vezes?!
– Uma quando eu tinha seis anos. Um demônio chamado Azazel a matou como forma de cobrar por um pacto que ela havia feito anos antes. Recentemente, pouco antes de encontramos você, ela...
A pausa me fez perceber que prolongar o assunto seria muito idiota da minha parte.
– Acho que eu superei a perda dos meus pais. É a lembrança mais recente que eu tenho.
– Família?
– Não tínhamos por perto, pais australianos.
– Você era uma menina aventureira então? – Ele perguntou quando começou a tirar o cobertor de cima das minhas pernas.
– Eu era. – Sorri com a lembrança. – Mas perdi essa menina em algum lugar antes de entrar pra faculdade.
– O que você ia cursar?
– Direito. Tinha um senso de justiça sonhador, mas descobri que o mundo é uma verdadeira merda.
– Pronta? – Ele cortou o assunto rapidamente.
Eu assenti e Dean tirou meu corpo da cama com uma facilidade exagerada. No caminho entre a cama e a cadeira, nossos olhares se cruzaram e Dean deixou escapar um sorriso que considerei ser nada além de educação e falta de jeito, o que encaixava perfeitamente com a personalidade dele. Então, devidamente alocada em meu lugar, Dean começou a me empurrar pelo cômodo. De primeira, enfrentamos um belo obstáculo: um degrau na porta do quarto.
– Tem certeza de que isso é uma boa escolha? Já estou dando trabalho demais pra vocês.
– Fica tranquila. – Ele repetiu pela milésima vez no dia e suspendeu a cadeira comigo. – Você é o trabalho mais fácil que eu e meu irmão já tivemos.
– Que merda, hein!
– Pois é...
O sol não estava exatamente à todo vapor, mas sentir o calor proveniente de seus raios na minha pele provocou em mim uma sensação maravilhosa. A quantidade de armas que Sam e Dean portavam, no entanto, me deixava tensa constantemente, como se algo muito ruim fosse acontecer a qualquer momento. Por sorte e para a felicidade geral, as armas serviram apenas por precaução e, logo, eu estava sendo carregada de volta para dentro do bunker.
– Ei. – Falei quando Sam estava me levando na direção do corredor que reconheci como sendo onde meu quarto ficava. – Posso ficar em outro lugar?
Ele estranhou a pergunta e precisou de uns segundos para se recompor.
– Claro. Onde quer ir?
– Qualquer lugar que não seja o quarto.
– Eu vou fazer o café da manhã. Você quer acompanhar?
Qualquer lugar que não seja o quarto. – Repeti.
Sam era tagarela quando eu não falava. Agora que eu podia responder suas perguntas com clareza e fazer ocasionais observações quanto a um comentário ou outro, ele parecia uma metralhadora de palavras. Algumas vezes entre o bacon e os ovos, me perdi na velocidade, mas acabei retomando o enredo afinal. Sua animação me provocava sorrisos aleatórios. Eles não deviam ter muita companhia ali.
– Você quer pimenta no seu?
– Sim, por favor.
– Orégano?
– Sam, eu... – Castiel parou subitamente ao me ver ali, ficando quase em estado de choque. – Ah! Olá, , como vai?
– Bem. – Respondi em um tom mais baixo do que usei para manter a conversa, ou seria mais um quase monólogo?, com Sam. – Poderia ir para o quarto agora?
– Claro, deixa só eu...
– O problema sou eu? – Castiel perguntou, interrompendo a fala de Sam. – Se for, eu posso sair.
– Você estava aqui antes de mim. – Respondi.
– Mas quem precisa de cuidados agora é você, e eu entendo perfeitamente que tenha receios quanto a mim.
– Vou ficar bem, o Dean mesmo bateu nessa tecla com bastante entusiasmo. Além disso, você mesmo me disse que queria me provar que era de confiança. De uma forma ou de outra, acho que vocês estão me ajudando, então talvez dar tempo ao tempo seja a solução.
Castiel arregalou os olhos e fez menção de concordar com a minha fala. Mesmo assim, eu preferia manter uma certa distância enquanto deixava minha mente processar algumas coisas. Pelo menos, o orégano que Sam ofereceu ficou de fora do prato, mesmo eu não tendo respondido se queria ou não.
– Tá bom?
– Geralmente, tá. Vocês me perguntavam isso todo dia e era um saco.
– Era um saco também nunca ter resposta.
– Desculpa.
– Não é sua culpa. – Sam disse. – Meu irmão tava à beira de enlouquecer.
– Por minha culpa?
– Por sua causa. Ele vivia gritando pras paredes que queria uma resposta pra sua perda de voz.
– E eu queria uma resposta pra tudo. – Murmurei.
– Acho que é a minha vez de pedir desculpas.
Sam deixou o pote de lado e limpou o canto da minha boca. Logo depois, ele ajeitou o travesseiro nas minhas costas.
– Como vocês aguentam isso tudo? – Perguntei.
– Isso o quê?
Tudo. Anjos, demônios, vampiros, lobisomens... Cara, eu nem sei do que chamar algumas coisas que eu vi.
– Nós fomos criados com isso. Azazel...
– O demônio que matou sua mãe? – Eu o interrompi rápido demais. – Desculpa, Dean comentou sobre isso.
Ele tentou abrir um de seus sorrisos educados.
– Tudo bem. Mas é ele sim. Em grande parte, quero dizer. Eu tinha seis meses, dá pra imaginar que eu não vivi outro mundo além desse. Até tentei, mas...
– Mas o quê?
Sam fez uma pausa e eu percebi que não deveria ter instigado ele a continuar.
– Mas a vida acontece. – Ele disse, forçando um sorriso que eu sabia que era longe de como ele se sentia por dentro. – E agora eu e Dean estamos por aí. É como ele fala... Caçar coisas, salvar pessoas... É o negócio da família.
– Quantos anos vocês tem?
– Eu tenho trinta e seis, o Dean tem quarenta.
– Estão bem cuidados pra idade.
Ele riu pele nariz do meu comentário.
– Não diga isso pro meu irmão. O ego dele pode encher em proporções assustadoras.
Eu sorri em resposta.
– Vou tentar me lembrar.
– Precisa de alguma coisa? Vou tomar o meu café e limpar a bagunça que deixei na cozinha.
– Acho que to bem, pode ficar tranquilo.
– Vou pedir pro Dean vir pra cá assim que ele estiver livre.
– Não precisa. – Sussurrei, mas era tarde de mais e Sam havia partido.
Provavelmente pela quebra na rotina que o retorno da minha voz causou, eu acabei ficando literalmente solitária. Não havia a TV ligada, mesmo que eu estivesse odiando o aparelho nos últimos dias. O silêncio era perturbador também e, sentada como haviam me deixado, eu podia observar melhor o cômodo em que me alojava. Alguns barulhos aleatórios e impossíveis de se identificar podiam ser ouvidos enquanto eu notava que eles haviam colocado certo esforço em fazer ali parecer menos macabro, mas ainda era bem insalubre. É claro que eu não diria a eles. Afinal de contas, eles realmente estavam se esforçando em fazer tudo muito bem feito por mim. O problema é que eu não sabia se isso era bom ou ruim.


Capítulo 5

Sam.

– O que você tá fazendo?
– Uma receita nova que eu vi na internet.
– Você sabe que na internet também tem pornô, né? Muito melhor que sites de receita.
Eu revirei os olhos e voltei a cortar as cebolas. Cozinhar estava se mostrando meu novo hobby e me ajudava a relaxar, mesmo que fosse pela necessidade de alimentar alguém além de eu e meu irmão. Falando nele, não percebi quando deixou a cozinha após seu comentário maldoso, e também nem dei trela para isso. Continuei focado no que estava fazendo, curtindo um momento de paz. Em pouco mais que uma hora, minha batata gratinada estava pronta.
– Vamos lá, você consegue. – Ouvi a voz de Dean ao longe. – Mais uma vez.
– Não consigo, Dean.
– Consegue sim, eu acredito em você. Tenta mais uma vez.
– Dean, é sério.
– Eu também to falando sério.
– Deixa a menina em paz, Dean. – Eu me meti na conversa, chegando perto com o prato dela. – O que vocês estão tentando?
– Ele quer que eu segure o controle remoto.
– Apertar o botão não foi o suficiente?
– Temos que evoluir, – Dean disse com um sorriso de orelha a orelha. – então vamos treinar.
– Ele é sempre assim?
– Nem sempre. – Castiel deu as caras. – Mas, quando ele decide ser chato, ultrapassa todos os limites.
Houve um silêncio breve, talvez ligado ao incômodo que sentia a respeito de Castiel, e nós não tentávamos investigar esse ponto porque realmente pensávamos que seria menos pior assim. Mas então tentou esticar o pescoço na direção do prato que eu tinha deixado sobre a mesa da biblioteca. Seu interesse me fez voltar à realidade.
– Que carne é essa?
– Acho que é coxão mole.
– Agora você entende de cortes? – Dean provocou.
– Nem vem. , eu provei, tá gostoso. A batata também, já percebi de você gosta de um carboidrato.
– Gosto mesmo. – Ela riu. – E então, quem vai me alimentar?
Mais um silêncio, mais constrangedor que o último, e Dean trocou de lugar, sentando-se ao lado dela.
– Qual foi a do climão? Estão fazendo isso tem mais de mês e só agora que perceberam que é estranho?
– É que agora você fala.
– Pra caralho. – Dean completou Castiel.
– Olha os modos! – Chamei a atenção. – Vou voltar pra cozinha. Dean, quando você quiser comer, já sabe.
Eu dificilmente saía sozinho. Estava com Dean o tempo inteiro nos últimos meses. Era bom demais ter um tempo para mim sem as piadas sem graças do meu irmão mais velho. Não me entenda mal, eu o amo com todas as forças que tenho, mas Dean consegue ser bem insuportável quando quer. Castiel era chato às vezes também, mas era sem querer.
Teoricamente, o Impala seria meu e dele, já que o carro era uma herança, mas Dean sempre dava um jeito de surtar quando eu saía sem avisar, mesmo que ele soubesse muito bem para onde eu sempre ia. Era estranho pensar que apenas as cinzas dela estavam ali e que não significava merda nenhuma que eu estivesse indo a visitar eventualmente, mas eu gostava de acreditar que minha mãe estava vendo aquilo de algum lugar e se sentindo feliz por ser lembrada.
– Sam Winchester...
– Não começa, Charlie.
– Você costumava ser mais legal.
– E você costumava ser menos invasiva.
Ela deu de ombros e sorriu.
– Invasiva é basicamente o que vocês tem me pedido pra ser. Temos novidades com a hóspede?
– Acho que nada que você não saiba ainda. Ela e Dean estão na biblioteca.
– Vai sair?
Hesitei e acabei deixando-a sozinha sem responder. Na minha cabeça, o trajeto estava todo planejado e não tinha nada que pudesse desviar a minha atenção. Éramos eu, o acelerador e os vidros abaixados. Engano meu, porque o celular tocou alguns minutos depois de eu pegar a estrada.
– O que houve?
– Volta pra casa.
– Tá brincando, né?
que pediu. – Charlie respondeu e repetiu. – Volta pra casa.
– Dean não pode resolver, seja lá sobre o que isso se trata?
– Seu irmão acabou de sair, disse que foi comprar suprimentos, mas eu sei bem que ele vai voltar com um ou dois fardos de cerveja. E um ou dois pedaços de torta.
– Charlie!
– É sério, campeão, não fui eu que escolhi. Só estou ligando porque a hóspede não tem um celular e eu, como uma boa cuidadora de idosos, estou fazendo a vontade dela.
– Você não falou isso perto da , falou?
– Ah, ela está aqui sim, ouvindo tudo o que eu... Claro que não, Sam!
Bufei, revirei os olhos e indiquei com a seta que ia parar no acostamento.
– Ok, estou retornando.
Dean ia reclamar duas vezes. Uma por eu ter saído com o Impala, outra por eu ter saído com o Impala quando ele queria sair. Mas ok, Dean não teria o direito de reclamar dessa vez, eu já estava pagando pelo meu pecado por ter saído e dirigido um bom tanto à toa.
– Eu espero que isso seja bom. – Disse a Charlie, que estava me esperando na base da escada de entrada. – Eu realmente precisava sair.
– Você não precisava nada.
– Às vezes eu odeio o tanto que você parece com a Charlie do nosso mundo.
– Então a Charlie do seu mundo era bem legal. – Ela parou na ponta do corredor e apontou na direção dos quartos. – Vai em frente, vou deixar você curtir esse momento sozinho. Até porque já fiz o que precisava, então eu vou aproveitar pra ir embora antes que o anjo de estimação de vocês volte. Ele me dá arrepios.
– O Cas é gente boa.
Charlie deu de ombros e sorriu.
– Não coloco minha mão no fogo por ninguém.
– Sei disso.
– Então... Até mais, alce, a gente se vê amanhã.
Desgraçada.
– Até mais. – Respondi educadamente, contendo a vontade de soltar pelo menos um palavrão.
Cas não estava em casa, definitivamente, pois estava tudo silencioso demais, com exceção do barulho da televisão do quarto de . Não gostava daquela sensação, de escutar meus próprios passos. Passava a impressão de que eu estava sendo seguido. De acordo com os últimos acontecimentos, nem era muito estranho pensar aquilo, o que me fez dar meia volta imediatamente. O corredor não podia estar mais limpo. Voltei a atenção para o meu destino e também não havia ninguém. Era só o velho Sam sendo bem neurótico, mais que o próprio irmão.
– Pode entrar. – gritou quando eu bati na porta.
Ela estava sentada na poltrona, assistindo um episódio antigo de – acredite se quiser – Tom & Jerry. Olhei rápido para a cena que se passava, o que me fez rir.
– Ei, olha isso.
Sua expressão denunciava o tanto de força que ela estava fazendo mas, pouco a pouco, eu puder ver seu braço levantando.
, isso é... É incrível!
– Eu sei, né? Dean vai ter um surto quando voltar e descobrir que eu consigo fazer isso.
– Acho que você devia ir com calma. Tá tudo voltando rápido demais. Sua voz, os movimentos... Meu irmão é bem persuasivo, não deixa ele te pressionar muito.
– Você acha que eu não quero isso também? É sensacional, Sam! Eu to ficando bem!
Tinha um sorriso enorme, a primeira vez que eu via um daqueles em seu rosto. Imediatamente, a raiva por ter dado meia volta se dissipou. Estava verdadeiramente muito feliz por ela e, muito embora não curtisse ser otimista, achei melhor manter a boca fechada e a deixar curtir sua mais nova conquista.
– Como você conseguiu?
– Não sei, eu só... Só pensei bem forte e... Voilà! Mas tem um problema.
– O que houve?
– Não consegui o mesmo com minhas pernas.
Eu me aproximei de , sentando no braço da poltrona. Ela era um tanto mais nova que nós – não muito, mas era –, porém demonstrava ter mais garra ainda para lutar pela própria vida. Então fiz o que jamais deveria ter feito, mostrar que estava emocionalmente envolvido, e acariciei o topo da sua cabeça.
– Vamos dar tempo ao tempo. Você conseguiu com o braço, vai conseguir com as pernas. Quando Dean chegar, tenho certeza de que ele vai te ajudar.
O sorriso voltou ao seu rosto. Menos intenso, mas voltou. Já era suficiente para mim. E eu também tinha a desculpa perfeita para...
– Seu filho da mãe! – Dean gritou quando entrou na cozinha. – Podia ter me avisado!
– Avisado de quê?!
– Que ia sair com o meu carro.
Nosso carro, você quer dizer?
Dean revirou os olhos com força.
– Se fizer isso de novo, vão saltar da órbita.
– Você é tão infantil.
Você é tão infantil... – Fiz voz de criança para imitá-lo e, inevitavelmente, acabei revirando meus próprios olhos também. – Que tal parar de palhaçada e me escutar? Tenho uma coisa que você vai querer ouvir. Ou melhor, ver.
– Espero que seja bom mesmo, porque eu to considerando seriamente colocar laxante na sua água. – Meu irmão ameaçou.
– Eu que deveria colocar na sua depois dessa.
– Desembucha, moleque!
– Vá falar com a .
Dean perdeu a postura de machão imediatamente e deu um passo para trás.
– Aconteceu alguma coisa?
– Vai lá!
Dava pra ouvir as risadas dos dois por todo o bunker. conseguiu comer sozinha naquela noite. Bem... Ela tentou, para ser mais preciso. Os primeiros movimentos foram bem difíceis e acabaram espalhando molho de tomate por toda a mesa e roupa. Rendeu primeiramente risos, depois uma cara de desapontamento que tratamos de afastar e, então, se rendeu e pegou uma das almondegas com a mão mesmo. Novos risos, felizmente sem desapontamento posterior.
– Sabe o que eu vi na internet hoje? – Dean apareceu na cozinha, me ajudando a arrumar as coisas depois que deixamos tudo pronto para dormir.
– Pornô?
– Também, mas não. E não vou falar sobre pornô com você, irmãozinho.
– Eu realmente gostaria que não.
– Tá me ouvindo?
– É claro que to.
– Nossa hóspede tá se recuperando da paralisia, então é bem provável que seja tudo reversível. Concorda?
– Não exatamente, mas...
– Não importa. – Ele me interrompeu. – Eu vi um vídeo na internet que mostra que, se você estimular a dor no local que tá paralisado, aumenta a chance de voltar.
– Você vai machucar ela?
– Espetar com um alfinete.
– Puta que pariu...
– Me diz se não é uma boa ideia.
– Quando você teve uma boa ideia, Dean?
– Ah, para, não sou tão ruim assim.
– Ei. – A voz de Castiel irrompeu pelo cômodo, e o tom não era nada amigável. – Outro lugar. Três horas ao sul.
Dean e eu fechamos a cara na mesma hora.
Modus operanti igual ao anterior?
Ele se limitou a assentir.
– Deixa que eu vou, não estamos conseguindo muito disse mesmo.
– Nós não vamos em missões sozinhos, Sam.
– Vamos comigo então, Castiel?
– Hm... É... Claro. Podemos ir.
– Resolvido então. Volto assim que possível e, se alguma coisa der errado, eu vou avisar.
Dean revirou os olhos, de novo.
– Tomem cuidado, vocês dois.
Dessa vez, havia sido uma farmácia. Quase dez corpos no chão, todos com os olhos queimados. Não havia sentido aparente naquilo, isso era bem claro para mim. Ainda assim, algum anjo, ou seja lá o que fosse, estava matando vários aleatoriamente. Sentido é claro que devia haver, ninguém mata por matar. Crowley matava, mas até mesmo ele mudou. O primeiro passo era descobrir o sentido que fazia para quem estivesse cometendo aqueles crimes, mas eu não conseguiria nada ali em Pratt, então voltei para casa.
– Dean, cheguei. – Gritei quando entrei.
Não obtive resposta, mas também não procurei falar muito mais. O silêncio clássico do lugar me assustava, como sempre. Fui direto para a cozinha, o cômodo do bunker que eu mais frequentava nas últimas semanas. Não houve surpresa nenhuma em encontrar uma pilha de louça suja desnecessária.
– Podia ter botado de molho. – Resmunguei com meus pensamentos enquanto observava a frigideira engordurada.
– Eu falei! – Dean gritou do outro lado do bunker. – Puta que pariu!
Deixei o que estava fazendo e saí correndo. Achei mesmo que podia ter acontecido alguma coisa. O primeiro lugar que procurei foi seu quarto, nada. Nossa improvisada sala de televisão, nada. Quarto da , menos ainda. Então eu me dirigi para a biblioteca, o último lugar onde ele poderia estar. Em sua frente, estava com um sorriso no rosto que só não era maior que o sorriso do meu irmão. Por mais que estivesse com o peso totalmente suportado pelos braços de Dean, ela estava em pé.
– Olha isso! – Ele gritou. – Cas! Cas, vem aqui! Você precisa ver isso!
– Calma, Dean, não é o fim do mundo. – respondeu. – Eu ainda não consigo me firmar, nem um pouco.
– Mas vai. Eu falei que você ia chegar até aqui, então você vai terminar.
– Dean...
– Você vai terminar. – Ele repetiu, mais enfático dessa vez, usando um tom de voz quase que agressivo, então eu e decidimos deixar pra lá e fingir que não estávamos querendo manter qualquer esperança longe para não correr o risco de dar com os burros n’água.


Capítulo 6

.

Eu estava sentada em uma poltrona recém adquirida. Olhava para meus pés e não entendia como podia sentir tanto e, ao mesmo tempo, não sentir nada. Tentei esticar a ponta dos dedos, mas só obtive um leve tremor em resposta. Nas duas pernas, pelo menos.
– Você acha que um par de muletas te ajudaria?
– Não sei. – Sussurrei em resposta para a pergunta de Dean.
– Se for o caso, podemos arrumar.
– Você sabe que não precisa fazer de tudo pra mim, né?
– É o mínimo que poderíamos fazer.
– Por quê, Dean? – Questionei, virando tanto quanto podia meu tronco na sua direção. – Por quê? Quero dizer, vocês não tinham que fazer nada. Era só me largar num hospital e o destino que fizesse seu trabalho.
– Destino e hospital não são uma combinação boa pra pessoas que passaram pela nossa mão.
– Mesmo assim, Dean, eu...
– Você não tem culpa do que te aconteceu. – O Winchester mais velho me interrompeu. – Eu sei toda a dor que você sentiu, e talvez você esteja bem pior do que eu, porque já to calejado dessa vida. Vi muita gente inocente sofrer e descobri, mais de uma vez, que deveria manter as pessoas por perto até ter certeza de que elas estavam salvas. Pra valer.
– Seu irmão não pode te ver sentimental assim. – Murmurei.
– O quê?!
Abri um sorriso e fingi que estava ignorando sua presença. Por mais que eu estivesse ali há algum tempo e, no começo, estivesse completamente receosa com suas escolhas, os testemunhos que escutei de ambos os irmãos – ocasionalmente, de Castiel também, mas eu ainda estava nervosa quanto a ele – me faziam querer fugir cada vez menos dali. Tudo o que eu vi foi bem convincente também, porque eu tinha medo do que poderia me ocorrer se colocasse os pés fora do bunker.
Charlie era engraçada de se ver e de ouvir suas histórias, e eu sentia falta dela agora que estava me virando sozinha com as mãos. Eles arrumaram uma cadeira de rodas higiênica para mim. Era só me colocar lá que eu dava um jeito de tirar a roupa, ligar o chuveiro e tomar banho sozinha. Não havia palavras para descrever como eu me sentia bem por ter aquele poder sob mim mesma novamente. E nem vou comentar sobre o controle dos meus esfíncteres naturais, porque eu nunca achei que sentiria tanta saudade de controlá-los.
– No que você tanto pensa?
– Hm?
– Você tá pensativa.
– Não to pensando em nada. – Falei. – O Sam demora a voltar?
– Ele foi atender um caso numa cidade próxima, mas depende mais do que tá acontecendo lá do que dele.
– O caso é sobre o quê?
– Achamos que um espírito atrelado à casa. Vou saber mais tarde, quando ele ligar pra dar notícia.
– Entendi. – Respondi, baixo.
– Quer treinar de novo?
Dei de ombros.
– Que mal pode fazer?
De toda a minha evolução, o que mais me frustrava era não conseguir ficar de pé por conta própria. Dean ainda era meu apoio, majoritariamente. Sem seus braços me sustentando, minhas pernas não se mantinham firmes no lugar. E ele parecia mais determinado que eu para atingir minha completa recuperação, então fazia um certo esforço específico e focal afim de aumentar, como pudesse, a chance de chegarmos à minha “cura” mais rápido.
Dean se posicionou na minha frente e, colocando os braços por baixo dos meus, aguardou que eu me ajeitasse para começar a me levantar. Sustentando o meu corpo, ele me colou de pé. Olhou para o chão, verificou que eu estava na postura correta e deu um passo para trás, ainda me mantendo.
– Alguma coisa diferente?
– A dor diminuiu.
– Ok, um passo. – Ele ordenou.
– Dean, você sabe que eu não consegui dar um passo por conta própria até então.
– Pensa com força.
– Eu to pensando, Dean!
– Bota mais força ainda.
– Não consigo.
– Ei, olha pra mim.
Conhecia aquele tom de voz. Precedia um dos seus belos discursos motivadores com uma pitada sarcástica no final das contas. Sam dizia que o irmão era um babaca transvestido de um homem bem apessoado. Eu só achava que Dean tinha um dos corações mais moles que eu já havia visto mas tinha vergonha disso – ou talvez medo de parecer afetivo quando não queria ser e precisava assumir uma posição de “machão” –, e aquela pitada sarcástica era para disfarçar isso e não se deixar notar.
Tirei minha atenção dos pés, para onde insistia fitar, e levantei o rosto. Já havia acontecido antes, mas eu senti um impacto maior. Quando nossos olhares se conectaram, eu vi Dean ameaçar abrir a boca para começar o tal discurso, mas então ele fechou novamente. Não houve sorrisinho, mas meu coração pulou uma batida. E ao contrário da outra vez em que isso aconteceu, durante a minha primeira transferência da cama para a cadeira de rodas, o momento durou. Nenhum dos dois piscando, as respirações sincronizadas... Não saberia dizer quanto tempo durou. Estava começando a ficar assustada com a situação quando o som de outra pessoa se fez audível no ambiente.
– Dean, Sam pediu pra eu vir avisar que ele vai emendar o caso em outro.
Ele continuou me sustentando, mas abaixou a cabeça. Então veio o sorrisinho. Meu coração palpitou de novo. Cacete, aquele sorriso não era simplesmente por educação. Falta de jeito? Talvez. Mas não tinha nada a ver com educação, disso eu tinha certeza. O pior é que meu corpo estava respondendo. Só conseguia ouvir minha própria consciência gritando, a todo momento: Não, !
– Tudo bem, Cas.
– Você vai ligar pra ele?
– Agora não.
Foi a minha vez de abaixar a cabeça e rir, mas eu sabia bem que meu sorriso era puramente por estar achando graça da situação.
– Eu devo ligar?
Não, Cas.
– Então o que eu devo fazer?
Dean bufou, e eu deixei escapar um riso mais forte.
Que merda... – Ele sussurrou para mim e, logo depois, levantou a voz e a cabeça. – Pode ir comprar cerveja?
– Mas nós temos cerveja.
– Eu quero mais cerveja, Castiel. – Dean usou um tom de voz mais duro.
Parece que dessa vez ele entendeu. De qualquer forma, eu esperei em silêncio e sem me mover por alguns instantes.
– Desculpa por isso.
– Tudo bem. – Respondi baixo, com a certeza de que minhas bochechas estariam da cor de tomates, queimando a minha pele como eu não lembrava de ter acontecido antes. – Acho melhor a gente deixar pra tentar fazer algum tipo de exercício de novo amanhã.
– Como assim?! – Dean elevou a oitava da voz. – Eu fiz alguma coisa de errado?
– Tá tudo bem, Dean, já disse. Pode me colocar de volta na poltrona, por favor?
, eu...
– Tá tudo bem. – Repeti, olhando novamente em seus olhos e tentando abrir um sorriso que parecesse sincero.
Castiel voltou com a cerveja alguns minutos depois. Eu estava adorando a ausência de Sam por um motivo: Dean era um desastre na cozinha. Eventualmente, minha presença lá era necessária, e me sentir útil de qualquer forma era maravilhoso. Naquela noite em particular, estávamos cozinhando almôndegas e Dean não fazia ideia de como se fazia um molho de tomate a partir do zero. Então acabei mandando Castiel de volta à rua, que voltou com ingredientes frescos para que eu pudesse preparar na mesa e direcionar para Dean, no fogão.
– Onde você aprendeu a cozinhar? – Dean perguntou enquanto me via cortando os tomates a ponto de parecerem uma massa homogênea. – Sam nunca fez isso.
– Vocês são homens da caverna. – Resmunguei e entreguei a tábua a ele. – Liga o fogo da panela. Quando começar a caramelizar, joga o tomate e mistura.
– Ainda não respondeu.
– Com a minha avó.
– E onde ela tá agora?
– Na prisão psiquiátrica.
Dean arregalou os olhos e parou o que estava fazendo.
– Não solta a colher! – Eu gritei. – Vai queimar, Dean.
– Você percebe o que acabou de me dizer?
Caí na gargalhada. Castiel, um tanto tenso, sentado no outro extremo da mesa, levantou a sobrancelha.
– Eu to brincando, Dean, minha avó morreu.
– Isso não é brincadeira que se faça.
– No final das contas, você colocou uma desconhecida aqui, não é? – Disse, séria, arqueando uma sobrancelha sugestiva. – Ficou com medo de quem eu poderia ser?
– Na verdade, eu te pesquisei. – Castiel falou e meus ombros se encolheram. – Weir, filha de Hugh e Nicole Weir, nascida em 04 de setembro de 1990 na região de Queesland, na Austrália, e...
– Ok, Cas, nós entendemos. – Dean o interrompeu, e eu agradeci seu gesto com o olhar, mantendo meu silêncio. – Você quer ir na mercearia de novo?
Ainda tensa, não evitei soltar um riso leve quando abaixei a cabeça e voltei aos preparos da janta. Se dependesse de Castiel, íamos ficar a noite inteira falando sobre coisas aleatórias e sem sentido. Dean, por sua vez, deixaria o bunker pegar fogo. Algo naquela noite me dizia que era assim que eu vivia antes, com um sorriso no rosto apesar das adversidades, e eu gostava da pessoa que eu era meses antes de perder a memória. Antes, também, de ser possuída por um maldito anjo.
Sam chegou pouco menos de uma semana depois. Um olho roxo, nariz quebrado, a mão inchada provavelmente por conta de uma outra fratura também, mas vivo. Foi inevitável fazer o link do estado dos dois irmãos com as cicatrizes que se faziam presentes em seus rostos e braços. Por baixo das roupas, elas provavelmente se multiplicavam de forma desordenada. Então eu me colocava para pensar no porquê deles fazerem aquilo. A história da mãe, eu sabia, mas ainda assim... Não me parecia bom. Ou saudável.
Enquanto isso, eu seguia com as pernas quase inúteis. Uma evolução mínima aqui, outro minúsculo progresso ali, mas eu ainda não andava. A não ser com a ajuda de Dean, mas aí era outro caso. E por mais que meu subconsciente estivesse gritando que havia algo errado naquela solicitude, eu ainda me sentia mais segura ali do que do lado de fora. Os irmãos terem adaptado o bunker para que eu pudesse transitar o máximo possível com a cadeira de rodas sem depender deles foi só uma prova disso. O problema que talvez eles não tivessem previsto que eu podia aparecer onde não me desejavam.
Estava distraída por um bom tempo, mas o período que passei completamente acamada me deu certos super poderes, e eu acabei captando algo que talvez não quisesse notar. As vozes estavam alteradas mas distantes, então eu não consegui distinguir quem era quem à de onde eu estava. No entanto, contra todos os meus instintos, eu virei a cadeira de rodas na direção da origem dos sons e comecei a me empurrar para lá. Em certo ponto, constatei que se tratava da biblioteca.
– Você tá fazendo merda, Dean.
– Não to. – Ouvi a voz do mais velho insistir. – Ela vai ficar bem.
– E depois o quê? Vai liberar pro mundo?
– Não era a minha intenção.
– Então vai manter ela aqui, como se estivesse em cárcere privado?
– Sam, você não tá ajudando.
– Você não entende que é arriscado ter alguém de fora aqui! – Sam aumentou um pouco a voz. – Não sabemos como tá a mente dela. A pode muito bem estar esperando o momento perfeito pra fugir daqui e gritar aos quatro ventos sobre nós.
A raiva me subiu no momento. Eu tinha para mim que jamais faria algo como aquilo. Eles haviam me salvado, e cuidaram de mim quando ninguém mais fez. Devia a minha vida a eles. E como Sam ainda ousava pensar sobre mim daquela forma?
Estava pronta para dar meia volta e ir para meu quarto, ficar lá até não poder mais esconder que estava tentando evitar todos eles, quando ouvi uma batida seca, provavelmente no tampo de madeira na mesa.
– Ela não é nada disso!
– Você, de todo mundo, vai defender ela?
– A não é nada disso. – Dean insistiu. – Ela fica.
Então a discussão é sobre eu ir embora?
– Dean...
– Nós salvamos pessoas, Sammy. A fica.
Os dois ficaram em silêncio por um bom tempo. Em certo momento, consegui notar a respiração pesada dos irmãos. E se eu conseguia ouvir a respiração deles, eles provavelmente podiam ouvir a minha também. Comecei a dar meia volta novamente com a cadeira. Dei de cara com Cas, fazendo sinal para que eu ficasse quieta. Ele, sem dizer uma palavra sequer mas parecendo ler a minha mente, tomou a posição atrás de mim e começou a me empurrar de volta para o quarto.
Ok. Talvez eu estivesse começando a dar o braço a torcer pelo anjinho ingênuo.


Capítulo 7

Dean.

Quando eu vi o anúncio na internet, mil pensamentos se passaram pela minha cabeça. Como contar a ela era o principal deles. Primeiro porque eu teria que explicar que joguei o nome dela em um site de busca online e eu estava tendo dificuldades em processar como criar uma história que não parecesse absurda, que não me fizesse passar vergonha e que também não a assustasse. Então a lâmpada acendeu sobre a minha cabeça. Castiel! Levou apenas alguns segundos entre eu pensar no nome dele e o sem noção aparecer na garagem.
– O que houve?
– Não é possível que você tenha sentido de longe.
– Senti o quê?
Eu tentava, mas era impossível não revirar os olhos quinhentas vezes quando estava falando com Castiel.
– Preciso da sua ajuda.
Bati na porta do quarto de alguns minutos mais tarde. Não houve resposta imediata, então bati de novo. Comecei a achar que tinha algo errado. Repeti o ato mais uma última vez. Se não tivesse resposta, eu iria entrar de um jeito ou de outro.
– Quem é?
Ufa.
– Sou eu. – Eu quem?, idiota. – Dean.
Houve certo silêncio antes de uma nova resposta.
– Não to me sentindo bem hoje, Dean, acho melhor a gente deixar pra treinar em outro momento.
– Eu vim por outro motivo.
Mais silêncio. Havia definitivamente algo de errado. era tagarela.
– Pode entrar. – Ela finalmente respondeu.
Abri a porta e a encontrei sentada na cama, debaixo da coberta.
– O que houve? – Nós perguntamos um ao outro simultaneamente.
– Você primeiro. – Ela continuou logo.
– Mas você disse que não tá se sentindo bem.
– Vai passar.
– Pode ser importante.
– Eu vou ficar bem. – insistiu. – O que você veio falar?
constava como desaparecida para um determinado site de uma firma de advocacia na Luisiana e o informe havia sido noticiado em alguns jornais locais pequenos e outros não tão pequenos assim. Um pedido com urgência solicitava que qualquer um que soubesse do paradeiro dela entrasse em contato. Depois que Castiel – na teoria, porque era eu na prática – descobriu isso, eu consultei o sistema da polícia por meio de um programa hacker que Sam havia desenvolvido. Não era alerta nacional, mas realmente tinha sido dada como desaparecida não só pela firma de advocacia mas também por um homem chamado Henry Carter, que se dizia noivo dela. Joguei na internet novamente, agora adicionando o nome do homem à busca. Não havia confusão. Era da Weir que estava conosco que todos aqueles resultados falavam.
– Bem... – Ela gaguejou algumas vezes antes de formular qualquer frase quando eu terminei a história. – Nós podemos dizer que eu estava em um repouso espiritual ou qualquer coisa do tipo.
– E como explicamos a questão das suas pernas não estarem funcionando direito?
– É... Tem isso.
– Pois é.
Castiel tentou fazer barulho de propósito ao entrar no quarto.
– Oklahoma. – Ele falou.
– O que tem?
– Um hotel que tenha sala de reunião. Não vamos até a Luisiana mas também não deixamos ninguém vir aqui.
– Ou deixamos morrer o assunto.
– Você quer deixar morrer, ? – Castiel perguntou.
Eu sabia ler as pessoas? Não. Mas estava transparente na minha frente. Sam foi totalmente contra a ideia, e eu nem entendia o porquê, mas nós arrumamos nossas coisas mesmo sem ele e partimos para uma viagem cansativa de cinco horas e meia até a cidade de Norman, na região central do Oklahoma. Havia um hotel chamado Super 8 que possuía uma sala para encontros e eventos. Mesas redondas com seis cadeiras, era só sentar lá e a tirar apenas quando fosse seguro. Para isso, Castiel nos ajudaria.
Quando dei um nome diferente para realizar a hospedagem, arqueou a sobrancelha. Ao menos não perguntou ou disse nada na frente do recepcionista. Fomos nós dois para o quarto. Enquanto eu a colocava na cama, Castiel apareceu.
– Eles vão levar duas horas pra chegar aqui, pelo menos. São dois homens, um bem mais novo que o outro, ousaria dizer que deve ser advogado e estagiário. E a julgar pelo carro que estão usando, não são de um escritório de advocacia qualquer.
– Qual é o carro? – Perguntei.
– Um Mercedes classe E.
– Merda...
– Devo fazer mais alguma coisa?
– Continua de olho neles e me informa quando faltar, ao menos, trinta minutos para eles chegarem.
– Sem problemas.
Ele desapareceu e eu terminei de empurrar a cadeira de rodas para um canto do quarto. estava se esticando para jogar a coberta por cima das pernas.
– Pode deixar, eu te ajudo.
– Não precisa.
– Quê isso, precisa sim.
– Dean, – Ela disse mais firme, segurando a coberta com força. – não precisa.
A incisividade dela me pegou de guarda baixa. Dei um passo para trás e sentei na segunda cama do quarto. Estava começando a me arrepender de ter levado até ali e considerando tentar falar com Castiel para desviar os advogados.
, o que tá acontecendo?
– Não tá acontecendo nada.
Mulheres... Eu revirei os olhos por dentro. Tinha medo do que poderia acontecer se ela me visse, de fato, fazendo aquilo.
– Você quer que eu vá embora? – Perguntei a primeira coisa que passou pela minha cabeça. – Eu posso ir. Se você quiser falar pra eles sobre eu e meu irmão, sobre tudo o que aconteceu... Não tem problema. De verdade. Eu não vou ficar chateado, não vou atrás de você pra me vingar ou qualquer coisa do tipo.
– É isso o que você quer?
– O quê?! – Eu me assustei com o meu próprio tom de voz. – Claro que não!
– Então por que tá sugerindo tanto?
– Eu não estou sugerindo tan... – Respirei fundo, tentei manter a calma. – , nós tivemos que escolher no seu lugar por muito tempo, mas agora você tem liberdade pra fazer muita coisa. No fundo, não precisa da gente pra nada. Nós estamos nos esforçando, é claro, pra te proteger além do padrão pra um humano comum. Mas é claro que você está livre pra ir quando quiser. Não teríamos como te proteger do que aconteceu se você for embora, mas tudo bem se você quiser isso. Nosso objetivo era te salvar e te manter segura. O primeiro passo foi concluído. Você não tem culpa de nada do que aconteceu. Se quiser ficar, vamos continuar nos esforçando pra criar um ambiente seguro pra você até que seu corpo volte completamente ao normal e você possa voltar à sua potência máxima de autodefesa. Mas você sempre teve a escolha, nós jamais iríamos de encontro à sua vontade. Queremos o melhor pra você. Foi só isso que eu quis dizer, .
– Você usa muitos plurais.
– Como?
– “Nós estamos”, “nós vamos”, “nós queremos”, “nós tivemos”... Nós, nós, nós! Vejo muito você e pouco “nós”. Bem, a não ser que você esteja falando do Castiel. Aí eu devo te dar razão na parte do plural.
– O que tá havendo, ?
– Pergunte a seu irmão.
Era por isso que não tínhamos mulheres. Eu deixei sozinha e fui para o banheiro da suíte. Era o banheiro mais bonito de todos os lugares onde já tínhamos nos hospedado – contando com a época em que andávamos, crianças, com o nosso pai. Havia uma pia de granito, a cuba estava sem manchas e o espelho pegava de ponta a ponta da parede. Banheira limpa e cortina sem mancha de mofo? Eu nunca tinha nem sonhado com aquilo.
Olhei meu reflexo no espelho – sem área embaçada, sem rachadura, sem pedaço faltando, sem mancha de procedência duvidosa – e comecei a me perguntar o que eu estava fazendo. Estava à beira de perder a paciência, tentando mantê-la o máximo possível, com alguém que não tinha a mínima culpa do que estava acontecendo. Isso me lembrada da fala de a respeito de Sam. Tinha acontecido alguma coisa e eu não estava sabendo, mas eu estava querendo dar um final feliz para aquela bagunça toda.
, eu...
Saí do banheiro abrindo a boca, mas ela tinha apagado. Sem ter muito o que fazer, eu acabei tirando os calçados dos pés e deitei na cama ao lado. Minha cabeça não aguentava mais pensar tanto e eu estava doido por uma cama confortável. Se eles tinham duas horas para chegar ainda, Castiel não voltaria em menos de uma hora. Isso tudo de cochilo? Para mim? Puta que pariu, era um sonho! No final das contas, ele demorou até mais que isso, me promovendo uma das melhores sonecas que tirei em anos.
Nós dois colocamos na cadeira da sala de reuniões. Fechei a cadeira de rodas e coloquei embaixo da mesa onde eu iria ficar. Ela colocou em si um vestido longo que Castiel parou para comprar, algo que desviasse a atenção de suas pernas. Deixei dois blocos de caderno e uma variedade de canetas e marcadores com ela.
– Você tem certeza de que não quer revisar as coisas?
– Tenho.
– Não quer que eu vá embora?
Não, Dean. – Ela revirou os olhos. – Tá tudo bem.
– Você tá fazendo drama, não tá nada bem.
Ela ameaçou abrir um sorrisinho e olhou para mim, o humor completamente diferente de antes.
– Nós conversamos quando isso acabar. Não vou tomar nenhuma decisão sem descobrir sobre o que isso se trata antes.
Hesitei mas acabei assentido.
– Ok então, vou estar na mesa de trás, cadeira logo atrás de você. Se precisar de qualquer coisa, – Fixei bem a palavra. – é só gritar.
Castiel provavelmente não tinha mentido sobre o carro. Os caras eram elegantes, mas nem um pouco intimidadores. Tentei ignorar as palavras e fingi que não era capaz de ouvir tudo. Na voz dela, no entanto, não tinha como não notar que ela estava bem calma. “Menos pior” para mim. Com tranquila, eu ficaria tranquilo também. Assim que os homens se levantaram e Castiel confirmou que eles tinham saído, eu me mudei de mesa.
– Cas, fica de olho neles até a gente sair.
– Mais alguma coisa?
– Não. – Respondi. – Você quer fazer o quê agora, ?
– Eu não sei. – Ela murmurou.
– Tá tudo bem?
– Não sei também.
Outro humor? Puta que pariu!
– Preciso que você fale comigo, mesmo que seja o mínimo, pra eu poder te ajudar.
Ela hesitou. Muito. Por dentro, eu estava roendo todas as unhas possíveis. Por fora, calmo como um cisne. Cisnes eram calmos, certo?
– Eu lembrei de tudo.
– Como assim?
– Eu lembrei de tudo. – Ela repetiu. – Você... Você... Você me salvou.
, eu não...
– Você tirou ele de mim.
– Não foi nada demais.
– Foi sim! – gritou e me puxou para um abraço.
Não nego que fiquei surpreso, mas deixei que ela me abraçasse por um bom tempo. Se isso era sendo , tudo bem, que fosse. Eu esperava de coração que aquilo significasse uma melhora para ela. Não havia laços entre nós dois, não havia motivos lógicos para eu fazer o que estava fazendo. Era apenas Dean Winchester, na melhor essência dele mesmo, tentando fazer o mundo ser um lugar melhor. Não me importava de me foder toda vez que me metia em uma dessas furadas, mas ver um inocente no meio daquilo tudo quase que me machucava. Só que estava demonstrando emoção pela primeira vez e eu nem sabia como reagir. Então eram duas coisas que eu esperava: que aquilo significasse uma melhora para ela e que eu não estivesse sendo um babaca como normalmente era. Até porque, para mim, não havia problema em ser um babaca. Já para ela...
– Eu também tenho uma fazenda. – Ela murmurou e, quando olhei de volta para ela, seus olhos estavam arregalados.
– O quê?!
Eu queria investigar, perguntar, minha curiosidade estava tento um ataque cardíaco, mas fomos interrompidos.
– Dean! – Castiel apareceu, ofegando. – Eles estão voltando.
foi a primeira a arregalar os olhos. Eu literalmente peguei no colo e fiz sinal para que Castiel levasse a cadeira de rodas. Terminei de colocar no banco de trás quando a Mercedes encostou bem ao lado do Impala. Segurei a respiração, mas ela foi mais rápida que minha mente. Antes que eu visse, ela se cobriu com a manta que havíamos levado e deitou no banco. O homem olhou para o carro. Merda.
– Sessenta e sete? – Ele perguntou para mim, apontando com a mão direita para o carro.
Abri um sorriso amarelo e apoiei o braço no teto.
– Sim. – Respondi. – Bonito, né?


Capítulo 8

Sam.

Eu não sei quem estava mais assustado ao sair do carro, eu ou meu irmão. Talvez eu, porque vê-lo naquela situação já me era incômodo o suficiente de tão fora do normal que ele estava. Dean não era o cara que se deixava guiar por emoção ou qualquer coisa do tipo. Quando queria, era bem direto: sim ou não, nada de talvez. Mas ele estava agindo de forma estranha desde que havia acordado e voltado a falar. Se eu estava desconfiado? Quem não estaria?! Bem... Aparentemente, meu irmão não estaria.
A entrada era escondida em uma das estradas intermunicipais mais pacatas da Louisiana. De lá, seguimos por um caminho de terra que deve ter se estendido por, ao menos, três milhas desde o asfalto. Dean estava se contorcendo por conta do Impala mas não queria demonstrar. Bom, ao menos assim ele via algum ponto negativo naquilo. O problema foi quando nos deparamos com o portal enorme, ladeado por esculturas de cavalos, e praticamente pulou no banco de trás.
– É aqui. – Ela afirmou.
saiu do carro com a ajuda de Castiel, que a carregou no colo, mexeu em alguma coisa na lateral do portão gigante de madeira e ele se abriu. O Impala passou, revelando um terreno totalmente diferente de tudo o que já havíamos visto. Depois do portão, a estrada ainda era de terra, mas em melhor qualidade. Andamos ainda cerca de uma milha até chegarmos à primeira construção, um chalé enorme montado em madeira. Cerca de vinte metros à frente dele, uma área com piscina grande o suficiente para dar uma festa, junto a uma edícula com móveis de madeira e uma cozinha externa. Além da piscina, um lago se estendia até perder de vista, com uma ilha de concreto no meio, acessível por meio de uma extensa ponte de madeira. Do outro lado do lago, havia um casarão de dois andares bem escondido entre diversas árvores diferentes.
Dean parou o carro em uma sombra. Castiel saiu logo e foi até a mala, buscar a cadeira de rodas de . Eu devia assumir, estava surpreso com aquilo tudo. Mas, por mais surpreso que eu estivesse, ainda estava com um péssimo pressentimento.
– Aqui é o salão de festas. – disse enquanto meu irmão a retirava do carro para colocá-la na cadeira. – Tem uma cozinha enorme, mesas de jogos, um sofá maravilhoso no mezanino onde eu gostava de me esconder pra dormir durante o dia...
Notei que os olhos dela brilhavam.
– Era aqui que você morava?
– Até a faculdade, sim.
– E depois? – Dean insistiu.
– Fui pra Baton Rouge.
– Fica o quê?! Umas três horas daqui?
– Três horas e meia, em média. – Ela respondeu e apontou para a direção que o caminho de terra seguia. – Lá pra trás, tem os estábulos, o celeiro e o...
De repente, pareceu ter um surto. Tentou se colocar de pé com pressa e acabou quase caindo ao chão, se não fosse eu e meu irmão reagindo rápido.
– Ei, ei, ei! O que houve?
– Meus animais! – gritou.
– O quê?! Como assim?
– Se eu estava fora esse tempo todo, quem cuidou deles?
Dean olhou para mim como se procurasse uma resposta. Eu simplesmente dei de ombros.
– Dá pra ir de carro até lá? – Meu irmão pegou a ela.
– Dá, a maior parte do caminho sim, eu...
– Ok, então. Calma, vou te levar até lá. – Ele a interrompeu, pegou no colo e a devolveu para dentro do carro.
Ele saiu com tanta pressa que acabou deixando eu e Castiel ali. Nós trocamos um olhar e, logo depois, Castiel virou as costas para mim. Quase sem ter outra opção, fui até a porta da cabana à nossa frente e forcei. Estava destrancada.
– Sam, não somos os donos daqui. – Castiel me repreendeu.
– Ela também não é dona do bunker, mas...
– O que tá acontecendo? – Ele entrou no meu caminho.
– Cas, eu só quero sentar em algum lugar.
– Seu irmão tá te evitando. – Castiel estreitou os olhos. – Você não viajou com a gente pra ver os advogados da . Relutou muito para vir nos encontrar aqui. De uns tempos pra cá, tem saído em caçadas sozinho. Não ajuda mais a cuidar dela como ajudava antes.
pode se cuidar muito bem agora.
– O que tá acontecendo, Sam?
– Nada.
– Eu achava que seu irmão mentia mal, mas você é pior ainda nisso.
– Pode me deixar passar?
– Sam...
– Eu só quero passar, por favor. – Falei e, sem esperar que Castiel reagisse, contornei seu corpo. – Não era nem pra eu estar aqui.
Castiel ignorou meu sussurro e ficou do lado de fora mesmo. O interior da cabana era interessante. O mezanino do qual havia falado realmente existia. Ele era composto por um cômodo só, no qual se misturavam ambientes de sala de estar, sala de jantar, cozinha e salão de jogos. Havia uma porta próxima a mesa de bilhar que eu deduzi ser o banheiro, mas vasculhar era ultrapassar os limites até mesmo do meu mau humor. A escada para o mezanino ficava entre essa e outra porta, mais larga, que também não procurei investigar. Apenas me acomodei no sofá disposto em frente a uma televisão moderna e fechei os olhos.
Acredito que tirei um cochilo, porque me senti sendo acordado pelo barulho da lenta do Impala voltando para perto de nós. Dean tirou do carro mais uma vez, a colocando na cadeira de rodas com a ajuda de Castiel, de novo. Era um trabalho duplo que eu odiava estar vendo e, mesmo que eu não entendesse o tanto que aquilo me incomodava, simplesmente não conseguia parar de sentir que estava me corroendo de dentro para fora.
– Os animais dela estão vivos. – Dean disse, entrando no chalé. – Mas temos um problema.
– Só um? – Ironizei.
– Tem funcionários aqui.
– Então é mais de um.
– Sam, por favor...
– O que foi, Dean? Vai ficar nesse ‘por favor’ até quando?
Meu irmão revirou os olhos.
quer ficar, ela diz que é seguro.
– Claro que ela disse isso...
– Se você tem um problema, é só me falar. Passamos anos brigando entre a gente pra conseguir salvar um ao outro e, logo agora, você vai dar uma de histérico?
– É claro que eu vou! A verdade tá na sua cara e você não vê!
– Não é bem isso que eu to percebendo.
– Gente, – Castiel entrou. – quer ir ver a casa.
Dean foi logo para o lado de fora. Eu hesitei, pensei mil vezes que ia ficar sentado ali mesmo e dane-se o que viesse a partir daquele momento. Cheguei a cogitar pegar o Impala e ir embora, ou então andar até achar o primeiro carro que me servisse para fazer a viagem de volta para casa porque Dean ficaria muito puto se eu mexesse no Impala. Mas, no final das contas, acabei me levantando. Dean estava seguindo com na cadeira de rodas mesmo e eu seguia os dois logo atrás. Castiel estava dando a volta no lago enquanto isso, aparentemente.
Etapa dois da surpresa: não reclamar de nada porque tudo pode ficar pior. O andar debaixo da casa era composto de outro megacômodo, contendo sala de jantar, sala de estar, sala de TV e cozinha. Um corredor levava para um banheiro e a porta central nele mostrava uma larga cama de casal. Eu não fui até lá, mas Dean levou onde ela queria. Por perto, uma escada levava para o segundo andar da casa. Voltei à minha posição inicial, sentado no sofá como quem poderia tirar um cochilo a qualquer instante. Mas o possível cochilo se transformou em algo bem pior que eu só fui descobrir quando abri os olhos de volta e lá fora estava escuro.
Havia uma luz do outro lado do lago, que eu imaginei que vinha de dentro da cabana. Uma neblina densa preenchia a propriedade e dava um clima macabro à minha visão. De dentro da casa, notei que havia algumas lanternas penduradas em algo que provavelmente era destinado a chaves. Testei a primeira, não funcionava. A segunda também estava inútil. Três devia ser meu número da sorte, porque funcionou e era boa o suficiente. Eu ajeitei a arma por dentro da minha calça e saí, caminhando atento a qualquer barulho estranho que pudesse indicar perigo.
– ... porque eu iria arruinar tudo e eles eram certinhos demais pra ter uma filha desse jeito.
– A bela adormecida acordou. – Dean disse quando me viu. – Sirva-se, pizza fresquinha.
– Quem foi comprar?
– Nós fomos de carro até uma cidade aqui perto e compramos.
– Todos os três?
– Não, Castiel ficou de olho em você.
– A casa tava bem vazia quando eu acordei.
– Ah, Sam, come aí. Você fica muito mal humorado quando tá com fome. A até lembrou de pedir uma pizza cheia de palhaçada pra você.
Antes, mal falava o nome. Agora é ‘ isso’, ‘ aquilo’, ‘ tudo’... Eu me aproximei e notei uma pequena caixa com adesivo em cima a identificando como pizza vegana.
– Obrigado, .
– De nada. – Ela respondeu, a voz mais baixa que a minha.
Os três conversavam mais descontraídos e eu percebi que estava me tornando o novo Castiel para . Ao fim da conversa, nós quatro nos dirigimos à casa principal. Era meio trágico, mas ela nos guiou até o quarto do andar térreo, que pertenceu aos pais no passado. Algumas roupas ainda estavam no closet e ela deixou que eu e Dean procurássemos por algo para vestir. Revezamos no banheiro de baixo enquanto ela dava conta de si mesma no banheiro da suíte inferior.
– Sam, – Dean veio falar comigo na sala ao sair do banheiro. – ela disse que tem quarto lá em cima e que você pode usar.
– Você vai ficar onde?
– Aqui na sala, caso ela precise de alguma coisa.
– Eu posso ficar na sala também.
Dean deu de ombros.
– Tudo bem, você que sabe.
Ele jogou a toalha por cima de uma das cadeiras da mesa de jantar e se sentou no sofá oposto ao meu.
– Você não percebe que tudo isso tá muito estranho?
– De novo com essa conversa, Sam?
– Deve ser porque eu não consigo pensar em outra coisa.
– Já disse que você tá imaginando coisa.
– Talvez você ache que tem uma conexão com ela porque os dois passaram por situações parecidas em alguns pontos, mas isso não significa que você possa ler a mente dela e afirmar, com certeza, se isso tem ou não algo de errado.
– Você também não pode fazer isso e tá bem cismado com a garota.
– É esse o ponto em que eu quero chegar! – Gritei. – Antes era “garota”, demorou pra sair um “” e agora é só “”. Você tá se envolvendo emocionalmente.
– Sam, a questão é a seguinte: nós protegemos as pessoas, e ela precisa de muita proteção do meu ponto de vista. Eu vi o que Miguel foi capaz de fazer. Você também, mesmo que não pareça. Não sei você, mas eu só vou deixar a garota em paz quando puder ter certeza de que ela não corre mais risco referente ao que aconteceu.
– E como você vai ter certeza?
Dean recostou a cabeça no sofá e respirou fundo.
– A gente errou quantas vezes?
– Algumas. – Respondi.
– E acertou quantas?
– Várias.
– Então eu fico com as estatísticas nessa e escolho confiar no meu instinto. Pode ser?
Dei de ombros e me levantei.
– Você que sabe. Ela indicou algum quarto que possa ser usado?
– Desistiu?
– Desisti. – Confirmei. – E então? Ela indicou ou não?
– Qualquer um que não seja o que tem um retrato na porta.
– Ótimo então. Se precisar de mim, estarei lá em cima.
Meu irmão assentiu. Foi a última coisa que eu vi antes de subir a escada. A tal porta com um retrato era a imagem de uma mais nova ladeada por um casal. Os três tinham sorrisos deslumbrantes. estava usando uma roupa de equitação e, logo atrás dela, um cavalo parecia estar ciente de que uma foto estava sendo tirada. Por um segundo, deu saudade da minha mãe e até mesmo do meu pai.
Escolhi o quarto ao lado. A cama não era bem de casal, mas também não era uma de solteiro comum. Qualquer coisa era melhor do que a cama que eu tinha no bunker, então tudo bem. Ajeitei os travesseiros e uma coberta que encontrei no baú ao pé da cama. Olhei pela janela uma última vez e, lá fora, parecia tudo tranquilo. Então desisti de seja lá o que eu estivesse tentando imaginar e deitei na cama para dormir.


Capítulo 9

Dean.

Quando eu comecei a abrir os olhos, percebi que o ambiente estava claro e silencioso demais. Despertei com um pulo do sofá e fui até a porta do quarto onde estava ficando. Dei três batidas na madeira antes de chamá-la, mas não obtive resposta. Colei meu ouvido na porta e não escutei nada vindo lá de dentro. Dei uma de abusado e comecei a abrir a porta, a cama estava bagunçada mas o quarto não tinha nem um fantasma lá dentro. Bem, não tinha fantasma até onde eu sabia.
?
Nada. A porta do banheiro da suíte estava aberta então ou estava caída por lá, desmaiada ou pior, ou ela tinha saído. Mas então eu lembrei de onde havia deixado a cadeira de rodas e percebi que ela não estava mais lá. Voltei para a sala e olhei pela janela. Havia, certamente, uma mulher em cima de uma cadeira de rodas na ilha do lago, mas não dava para afirmar de lá que era . Então eu coloquei um casaco por cima da roupa que estava usando e saí da casa, caminhando com pressa contida até ela.
– Bom dia, Dean. – Ela disse quando eu comecei a me aproximar pelas suas costas.
– Hm... Bom dia. Foi meu irmão que te trouxe pra cá?
– Não, foi Castiel.
– Desculpa, eu não ouvi nada.
– Não tem problema.
– Os funcionários...
– Eles chegam por outra entrada e vão lá pra trás direto. Não se preocupe, não teremos problemas quanto a isso. Quando eu melhorar, vou no banco pra suspender os pagamentos automáticos e vou procurar ter mais autonomia por aqui. Afinal de contas, eu ainda sou a patroa.
Ela continuou com o olhar distante, sem olhar para mim uma vez sequer.
– O lugar aqui é muito bonito.
– Obrigada. – respondeu. – Meu pai construiu a maior parte.
– Ele tinha bom gosto. – Falei a primeira coisa que me veio à mente.
Ouvi passos na ponte que levava à ilha. Quando me virei, dei de cara com Castiel.
– Fui comprar suprimentos. Deixei tudo na cozinha.
Eu assenti.
– Vou lá ver o que dá pra fazer. Comprou o quê de carne?
falou que a gente pode comer o peixe daqui.
Por um segundo, meu mundo travou.
– Tem como pescar aqui?! – Eu estava consciente de que minha voz tinha subido, pelo menos, uma oitava.
– Tem sim, as varas ficam no quartinho ali...
– Que peixes tem aqui?
Eu acabei interrompendo , que riu com a minha animação.
– Meu pai trouxe tilápias do Brasil. Ele tava vendendo a maioria pra Louisiana State University, pra The University of New Orleans, pra Mississipi State University, pra University of Texas at Austin, pra Rice University, pra Texas A&M University, pra Texas Tech University... Enfim, tem mais na lista e eu não vou lembrar de todas.
– Pra que as faculdades querem esse peixe?
– Tratamento para queimaduras. A pele desse peixe tem se tornado extremamente eficaz. A carne também é muito boa. Então o meu pai tem parceria com os cursos de Medicina, Biologia e Medicina Veterinária. Ele fornece peixe, seja pra estudar a questão das queimaduras ou pra analisar a qualidade da carne, e recebe de volta consultoria. No começo, era um experimento, pra ver se a espécie conseguiria sobreviver aqui. Então deu certo e... É isso aí que você tá vendo!
– É incrível.
– Eu sei, né? – Ela sorriu, mas os lábios logo voltaram a exibir o semblante sério. – Sam acordou.
Eu olhei para a casa e vi meu irmão saindo pela porta principal.
– Vou lá falar com ele e ver o que...
Fomos interrompidos pelo som de uma campainha estridente. Todos nós levantamos uma sobrancelha.
– Você tá esperando alguém?
– Não, eu... Eu não...
! – Uma voz masculina ecoou ao longe.
Ela olhou para mim, parecia estar assustada.
– Vou lá ver. – Castiel falou.
– Dá pra ver lá do chalé. As câmeras são acessíveis por lá.
Reconheci o rosto de uma das matérias que vi quando estava considerando contar a ela ou não sobre os advogados que a procuravam. Era Henry, o suposto noivo dela. Fiquei me perguntando durante segundos que pareceram horas se comentava ou não, já que parecia não reconhecer o homem. No final das contas, achei que ela merecia saber e escolher por conta própria.
– É Henry Carter. Acho que era seu noivo antes de você desaparecer. Bem, foi o que eu vi na internet na época.
– Eu não lembro dele.
Ouvimos a voz do homem chamá-la de novo.
– Eu deveria atender, Dean? – perguntou.
Eu dei de ombros.
– Acho que é uma escolha sua, .
Ela respirou fundo e olhou de volta para a câmera.
– Posso dar uma ideia? – Castiel falou. – Nós levamos a pra casa, ajeitamos ela e vamos atender o cara. Se for problema, nós interceptamos antes mesmo de deixar saber que ela tá aqui.
pareceu achar a ideia uma boa. Então nós fomos até a casa com pressa, sob o som da campainha tocando mais vezes. Cruzamos com Sam no caminho, que nos seguiu de volta. Ele foi no carro preparar algumas armas, para o caso de precisarmos. Ajeitei na poltrona da sala, cobrindo as pernas dela com uma manta que estava por perto. Eu me virei com pressa para poder ir com Castiel até o portão, mas me segurou pelo braço antes que eu fosse para longe.
– Dean... – Ela hesitou. – Fica por perto. Por favor.
Eu tentei dar um sorriso confortador para ela.
– Pode deixar, não vou deixar nada de mal te acontecer.
Ela fingiu sorrir. Esperei até que ela, com o olhar, se mostrou bem com a ideia de eu ir atender o cara. De primeira, eu e Castiel não vimos nada que chamasse a atenção. Castiel fez questão de apertar a mão dele, mas olhou para mim com cara de que não tinha sentido nada de errado. Então ele deu de ombros.
O homem entrou vestido em um terno que, de longe, não parecia em nada com as réplicas baratas que levávamos para os nossos casos. Dirigia um BMW X6. Só de sacanagem, disse a ele que não estava deixando rodar com carros lá por dentro. Ia, pelo menos, fazer aquele mauricinho suar naquele terno.
! – Ele gritou na porta da casa.
Correu na direção dela e a abraçou. parecia mais perdida do que nunca.
– Hm... Oi.
– Por onde você esteve? Eu tentei te ligar diversas vezes. Cheguei a achar que você tivesse sido sequestrada ou qualquer coisa do tipo! Rodamos aqui dentro várias vezes, eu achei que estávamos procurando pelo seu corpo e...
De repente, o homem notou que eu ainda estava ali.
– Olha, obrigado por me receber, agora pode me deixar sozinho com a minha noiva.
Minha noiva, mimimi... Contive a revirada de olhos e abri um sorriso bem babaca. Olhei para , que estava com os olhos arregalados. Apontei com a cabeça para o corredor que levava para o quarto onde ela estava ficando enquanto o engomadinho não estava olhando e melhorei o sorriso para ela. pareceu ficar um pouco mais tranquila ao entender a minha mensagem. Então saí do campo de visão deles e sentei no chão, apoiando minhas costas na parede. Não era como se escutar a conversa dos outros fosse um sacrifício para mim mas, dessa vez, ela praticamente tinha pedido para eu escutar, certo?
– Você... – O homem respirou fundo e arrastou uma cadeira para perto dela, pelo que eu podia deduzir. – Você perdeu peso. Tem certeza de que tá bem?
– Eu to ótima.
– Você não parece bem. Onde esteve esse tempo todo?
– Em um... Em um retiro espiritual.
– Por que não me avisou? Eu teria ido até você e...
– Queria ficar sozinha.
– E a gente? Você mudou seu telefone?
– Sofri um pequeno acidente. Caí por lá e esmaguei o telefone.
– Você sabe meu número de cor.
– Eu achei que sabia.
Tinha que assumir, era muito boa em inventar desculpas. Talvez eu até devesse aprender um pouco com ela.
– Quem são esses dois que estão aqui?
– Um deles é meu novo advogado e o outro é enfermeiro.
O cara arrastou a cadeira de novo.
, eu não sei o que falar. Nós ainda estamos juntos?
– Fiz o retiro porque queria ficar sozinha, Henry. – Eu senti que ela hesitou em falar o nome dele. – Acho que ainda não deu tempo pra processar.
– Mas nós podemos. Nós conseguimos superar tudo! Era só você ter me falado que eu...
O barulho em seguida foi o de um corpo caindo no chão. Eu levantei imediatamente, sem me preocupar com não parecer que estava espiando. estava no chão e a única palavra que saía da sua boca era meu nome.
– O que você fez? – Perguntei ao homem.
– Eu só puxei ela para que ficasse de pé, perto de mim. Eu...
Abaixei e envolveu meu pescoço com seus braços.
– Deixa que eu ajudo. – Ele se meteu.
– Ele sabe o que tá fazendo. – usou a voz mais agressiva que eu já tinha escutado vindo dela.
Tentei disfarçar, mas eu sorri com aquilo. Segurei seu corpo com firmeza e o devolvi para a poltrona. manteve a cabeça baixa.
– Amigo, acho melhor você ir embora. – Falei
– Eu sou dono disso aqui, eu vou embora quando eu quiser.
Virei para , ela negou com a cabeça.
– A dona disse que não.
... – Ele tentou apelar.
– Acho melhor você ir, Henry. Se eu quiser que você volte, procuro você.
– Você acabou de dizer que não tem meu número.
– Ok, anota ele em algum lugar mas, por favor, acho melhor você ir embora.
– Tá terminando comigo?
– To. – Ela foi firme.
– E o nosso casamento? O que eu faço com tudo aquilo?
– Desculpa, eu não quero mais.
Ele hesitou muito, mas desistiu e foi embora, andando quase correndo de volta para seu carro. Eu fiquei assistindo da janela, rindo por dentro só de imaginar o calor que ele estava sentindo.
– Obrigada, Dean. – falou.
– Você tá bem? Se machucou?
– Caí em cima do meu braço, mas vai passar.
– Posso tentar arrumar um remédio.
– Ah, eu vou ficar bem. – Ela insistiu. – Obrigada por não ter se afastado.
– Você pediu pra eu ficar.
Ela sorriu. Sam entrou pela porta no mesmo instante.
– Estamos seguros?
– Parece que sim. – Respondi. – Quando puder, dá uma pesquisada sobre esse cara.
– Já dei. – Meu irmão respondeu.
– E aí?
– O cara parece não ter nada de errado.
– Eu não faço ideia de quem é ele. – disse, colocando nós dois em alerta.
– Achei que você só tava estranhando, que fosse lembrar. – Respondi.
– Não, eu basicamente não conheço ele.
– Você achou alguma ligação entre ela e o cara? – Perguntei para Sam.
– Nada aparente.
– O escritório de advocacia é o mesmo dos caras que a gente foi encontrar?
– Não.
– A gente precisa investigar mais esse cara.
– Ele foi embora. – Castiel disse da porta de entrada.
Olhei de volta para nessa hora e percebi que ela estava mais confusa ainda. Então me aproximei dela e abaixei ao seu lado.
– Tá tudo bem? – Sussurrei.
Ela fez que sim, mas não tinha certeza nenhuma no gesto.
– Você lembra que pode pedir pra gente suspender isso tudo na hora que você bem entender, não lembra?
assentiu de novo.
– Perdeu a voz de novo, mocinha?
Quando ela abriu um sorriso, mesmo que bem pequeno, eu me dei por satisfeito. Parei de perturbar ela e fui até a varanda externa à casa, onde meu irmão estava.
– Vai, joga na minha cara todos os pontos negativos nisso.
– Eu nem preciso, você sabe muito bem.
Virei para o lago.
– Nós temos que pescar.
– Você já tá bebendo a essa hora?
– Não, é o nosso almoço.
– Ah, pesca... – Meu irmão murmurou. – Já até entendi onde ela te conquistou.
– Você sabe que não tem nada a ver.
– Tá, que seja. E o que vamos fazer com o cara?
– Cavar até sair petróleo. Algo me diz que tem parada errada aí.
– Que bom que concordamos em alguma coisa.
– Dá pra você parar de implicar? – Gritei.
– Na verdade, não.
Eu bufei em resposta.
– Castiel encostou nele. Acho que ele já teria falado se tivesse sentido alguma coisa errada.
– Então vamos recorrer à internet ou isso vai virar mais um caso nosso?
Pensei por alguns instantes.
– Primeira opção. Se não der certo, a segunda. Agora eu vou esperar a poeira baixar e conversar com a a respeito disso. Se ela lembra de tudo e só não lembra dele, talvez aí esteja parte da resposta que a gente procura.


Capítulo 10

.

O ar estava diferente naquele dia. Acordei um pouco mais disposta, sentia como se estivesse mais fácil respirar. Mas estava um pouco quente, então puxei a coberta para fora do meu tronco. Nesse exato instante, eu senti. A sensibilidade estava mil vezes maior nas minhas pernas. Olhei para baixo, para meus dedos dos pés. Fiz força. Exigiu um pouco de mim mas, finalmente, eu os mexi.
– Dean! – Gritei.
Menos de dez segundos depois, ele entrou no quarto completamente ofegante.
– O que houve?
– Olha isso!
Fiz força e a perna veio, dobrando na minha direção. Tremia muito, mas mexia. Eu não tinha controle algum sobre qualquer movimento similar até aquele instante mas, mais uma vez, as coisas tinham mudado. Claro, com um certo período de tempo considerável entre os sinais de progresso, mas qualquer mudança positiva devia ser comemorada.
, isso é...
– Incrível! – Completei.
– É mais que incrível, é... – Dean sorriu e olhou para mim, transmitindo gentileza com seu olhar. – Eu estou muito feliz por você.
– Obrigada.
Escondi o rosto ao lhe responder. Ficamos em silêncio por um longo tempo, até que ele finalmente se moveu na direção do lado da cama onde eu estava. Esticou a mão para mim e me ajudou a virar na cama, embora eu visivelmente notasse que já não precisava mais de tanto esforço para realizar aquele movimento.
– Será que você consegue? – Dean olhou para o chão sugestivamente.
– Não sei, podemos tentar.
Era a primeira vez em um longo tempo que eu aceitava tentar. O esforço que estávamos gastando naquilo e a falta de resultados me frustrava de um jeito que me fazia considerar ser melhor continuar parcialmente inválida do que persistir em me convencer de que eu não era capaz. Naquele dia, no entanto, parecia que eu tinha colocado o dedo na corrente elétrica e o choque havia me dado motivação o suficiente.
Segurei nos braços de Dean e desci os pés. Eu sentia o chão de forma muito mais apurada, isso era claro para mim. Ele tentou me sustentar antes da hora, mas eu praticamente hesitei. Senti um pouco mais, fiz durar um pouco mais a sensação. Então me firmei e peguei impulso com a ajuda de Dean. Em um segundo, eu podia jurar que estava de fato em pé. No outro, eu estava com os braços de Dean envoltos em mim, seu rosto perto até demais. Trocamos um olhar parte assustado parte surpreso e, pouco tempo depois, acabamos rindo, desviando o olhar um do outro. Dean me ajudou a sentar de volta na cama depois de quase cair.
– Desculpa, eu não devia ter cedido. Devia ter pensado na possibilidade de você não conseguir se sustentar de primeira.
– Tá tudo bem, a gente pode tentar mais tarde.
– Certeza?
Fiz que sim e sorri, um pouco tímida e sem entender o porquê. Ele foi até o canto do quarto e puxou a cadeira de rodas higiênica para perto da cama.
– Banho agora?
– Pode ser.
– Ok então. – Ele se aproximou, me ajudou a sustentar meu corpo e me sentou com delicadeza na cadeira. – Quais roupas eu separo pra você?
– Pode deixar, eu pego. – Falei e comecei a me arrastar na direção da cômoda do quarto, abrindo a primeira gaveta.
– Te espero lá fora então, vou aproveitar e tomar um banho também. Me grita qualquer coisa?
– Claro, com certeza.
Ele sorriu e me deixou sozinha no quarto. Tirei das gavetas uma calça de moletom de um tom entre rosa e violeta, uma blusa vermelha de manga média e um conjunto confortável de calcinha e sutiã. Tomei banho rapidamente, e não levei a mesma demora padrão para colocar a calcinha e, depois, a calça. Eu consegui firmar meus pés, mesmo que minimamente, no apoio da cadeira. Com isso, foi possível que eu levantasse um pouco o quadril e liberasse a passagem das peças de roupa. Para quem já estava até se acostumando com o estresse de antes, foi maravilhoso.
– Bom dia, .
– Bom dia, Cas. – Sorri para o estranho anjo, vendo Sam ao longe. – Bom dia, Sam.
– Bom dia. – Ele respondeu com menor entonação na voz.
– Eu vou pescar um pouco hoje pra gente comer peixe, pode ser? – Dean falou.
– Seria ótimo, obrigada.
, eu poderia falar com você? – Castiel pediu.
– Claro. Sobre o que se trata?
– Podemos ir lá fora?
Olhei para a cadeira de rodas e ele entendeu. Deu uma última olhada para Dean e, se posicionando, começou a me empurrar para fora da cabana, me levando até a beira do lago, no gramado.
– E então...?
– Sam está preocupado com a possibilidade dos funcionários serem um problema para nós.
– Como assim?
– Começarem a investigar, estranharem, descobrirem mais do que deviam... Eu não me preocupo com nada a respeito disso, mas eles passaram muito tempo trabalhando em ficar fora do radar das autoridades.
– Mas os funcionários nem vêm nessa parte.
– Dean te levou lá mais de uma vez.
– Eu achei que ele só fez isso porque achou que estava tudo bem.
– Você não conhece o Dean. – Castiel falou e sentou no banco, ao lado da minha cadeira. – Ele nunca agiu tão impulsivamente como tem agido com você. Ninguém questiona porque ele tem um sexto sentido muito bom. Mas eu te conheci durante esses dias, vi já como você reage a certas coisas. Você tá desconfortável com o Sam como esteve comigo antes. Comigo, era perfeitamente entendível, mas acho que você precisa receber explicações sobre o Sam. Ele é uma pessoa boa, muito boa. Só não está confortável porque está preocupado.
– Ele não precisa estar aqui, Cas.
– Mas ele não vai abandonar o irmão. Eles têm a ligação mais forte que eu já vi na vida e eu te garanto: eles não vão virar as costas um pro outro nunca.
– Por que estão aqui ainda? Eu poderia chamar uma enfermeira, ou qualquer coisa do tipo.
– Dean quer garantir que você vai ficar bem antes de ir embora. Garantir nível 101%, com zero chances de falhas.
– O que pode acontecer? To na minha casa!
– Onde você estava quando Anael tomou conta de você?
Eu segurei a respiração com a pergunta.
– Pois é. – Castiel falou. – E você é um caso raríssimo dentro do que eles já viram por aí. É por isso que o Dean tá mais preocupado ainda e vai redobrar os cuidados com você.
– Eu não sou mais uma criança.
– Mas ele vê assim, fazer o quê?
Respirei fundo, olhei para o lago. Uma ave se aproximou da superfície e, com agilidade, pegou um filhote de peixe com o bico.
– Cas, eu ainda não tenho confiança total em você mas, se eu te pedir um favor, promete que cumpre?
– Claro, , o que for necessário.
Tentei girar a cadeira de rodas para ficar de frente para ele, mas a grama não deixou e eu fingi que nada tinha acontecido para não passar vergonha na frente de um anjo. Meu Deus, que frase absurda...
– Diga a eles que não vou ficar chateada se forem embora, que não vou ligar pra polícia ou qualquer coisa do tipo. Eu agradeço o que fizeram por mim. Ainda não entendo muito, mas estou viva e bem. Depois do que passei, acho que não estaria aqui se vocês realmente não desejassem o bem pra mim. Mas não quero ser um fardo na vida de ninguém.
– Vou dizer, mas já sei a resposta.
– E qual é?
– Você não é um fardo, . Isso é o que nós fazemos, protegemos as pessoas de coisas que elas nem sabem que existem.
– Mas eu sei que existe agora.
– É só o primeiro passo da proteção. – Ele olhou para mim e tentou sorrir. – Acho melhor subirmos de volta para a cabana. Você acabou de acordar, precisa se alimentar bem para começar o dia.
Nós fomos para a cabana e preparamos algumas coisas para comer. Fiquei ouvindo histórias antigas sobre seres que Dean enfrentara até a hora do almoço. Depois, acompanhei eles em uma maratona de filmes antigos de faroeste. Pouco antes de escurecer, eu estava quase pegando no sono quando vi Dean se aproximar pelo canto do olho.
, tem problema se eu der uma saída? O Cas vai ficar aqui tomando conta de você.
– Acho que não tem problema.
– Só vou deixar Sam na estrada, ele vai assumir um caso no Novo México. Aproveito e trago algumas besteiras pra gente comer, o que você acha? Livro você de ter trabalho tendo que me fazer cozinhar e me livro de lavar louça.
Eu abaixei a cabeça e acabei rindo, olhando novamente para Dean logo depois.
– Pode ir, eu vou ficar bem.
– Cas, não tira o olho dela.
– Não vou, Dean.
– Ok então, eu já volto, não demoro.
Ouvi o barulho do Impala saindo e, logo depois, virei a cadeira para Castiel, que estava sentado imóvel no sofá, petrificado como um cadáver. Chegou a me dar calafrios. Sem dizer nada, fui para o quarto. Arrumei algumas roupas que estavam fora das gavetas, tomei um pouco de água e dei uma olhada pela janela. A noite que estava chegando lá fora estava bonita de se observar, a lua finalmente completando seu ciclo e iluminando todo o gramado ao redor da casa principal. Enquanto eu apreciava, memórias gostosas da minha vida prévia ali invadiam a minha mente, trazendo sensações que, em sua maioria, eram boas. Mas logo lembrei de Castiel na sala e, muito embora a confiança estivesse chegando e tomando o lugar da dúvida aos poucos, eu ainda estava agindo como uma babaca, deixando-o esperando sozinho.
– Quer assistir alguma coisa? – Perguntei ao chegar na sala.
– Posso assistir o que você desejar.
– Estou perguntando se você quer assistir alguma coisa.
– Não, eu estou bem.
– Então tá. Eu vou...
Fomos interrompidos por um barulho de algo muito grande quebrando do lado de fora. Castiel se levantou mais rápido do que eu pensava ser possível e, de um jeito que eu só podia achar que era desumano, estava empunhando uma pistola e um punhal, um em cada mão.
– O que foi isso?
– Talvez sejam galhos quebrando com o vento.
– Não está ventando hoje. – Castiel disse com sua voz grave, me assustando de imediato. – Eu vou lá fora verificar.
– Não! – Eu gritei em um primeiro momento mas, logo depois, diminuí o volume da voz. – A gente nem sabe o que é.
– Nada vai me fazer mal e o Dean pode chegar a qualquer momento. Precisamos saber se não foi nada mesmo.
– Vai me deixar desprotegida aqui?
Castiel ponderou e deixou a pistola nas minhas mãos. Foi aí que eu perdi toda a linha de raciocínio e comecei a surtar.
– Não, não, não, não, não... Eu nem sei usar isso.
– É só mirar e atirar.
– E se não funcionar no que entrar?
– Eu vou estar fora, você nem vai precisar disso.
– Castiel!
Ele saiu pela porta mesmo sob o meu protesto. Eu olhava da arma para a porta, da porta para a janela, da janela para a arma de volta. Sentia a minha mão tremendo ao segurar o objeto. Mesmo tremendo, no entanto, eu precisava me proteger. Esperei por longos minutos, apontando a arma na direção da porta. Nada. Meu coração ainda parecia que ia sair pela boca.
De repente, houve outro som. Dessa vez, um estalo forte, que vinha da lateral da casa, ecoou pela sala e me botou em estado máximo de alerta. Ouvi outro estalo logo em seguida, parecia mais perto, e minha primeira reação foi correr para o quarto. Só havia um problema: minhas pernas. Alheio a isso, meu cérebro simplesmente planejou a ação como se não dependesse da minha consciência e, antes mesmo que eu percebesse, estava de pé. Depois de semanas, eu estava em pé, sustentada pelas minhas próprias pernas. Todo o pânico do momento foi substituído pela surpresa. Então parei tudo e forcei um passo. Um passo! Eu consegui dar um passo! Rindo sozinha, dei o segundo passo e, nesse momento, a porta se abriu, me dando um susto e me levando a apoiar meu corpo no aparador que ficava próximo da janela principal. Dean olhou para mim boquiaberto.
, o que...
– Cadê o Castiel? – Foi a primeira coisa que saiu da minha boca. – Nós ouvimos um som e...
– Era eu, ele tá colocando lenha na bolsa. Mas o que você tá fazendo em pé?
Olhei para o chão, meus pés sobre o piso de madeira estranhamento confortável. Endireitei meu corpo e, para isso, precisei de um curto passo. Finalmente, olhei de volta para Dean. Seu rosto estava em um misto de surpresa, felicidade e preocupação. Mas eu estava em pé, não estava? Sozinha, sem a ajuda dele. Que mal tinha naquilo?


Capítulo 11


Dean.

– Tá, e quando você volta?
– Não sei, Dean, acho melhor eu ficar por aqui um tempo. O bunker não pode ficar vazio. Tem pessoas que sabem que podem nos encontrar aqui. E se alguém precisar e não tiver ninguém pra receber?
– Ok, você me convenceu. Me liga se tiver alguma novidade.
– Toma cuidado aí. – Sam disse e desligou.
Toma cuidado aí. – Repeti e revirei os olhos. – Ele fala isso como se eu fosse uma criança.
– Dean...
– Nem vem, Cas.
– A gente precisa voltar logo. A tá sozinha em casa. Por mais que ela já esteja conseguindo dar uns passos, não sei se é o ideal.
– E o caso?
– A polícia dá um jeito.
– Cas, a gente tem que fazer alguma coisa.
Ele bufou.
– Delegacia ou mercearia primeiro?
Eu troquei de roupa e separei tudo para o disfarce de agente do FBI. Cheguei sem chamar muita atenção no escritório do xerife do condado de Spencer. Bem... Eu não chamei atenção. Já a minha baby...
– Bom dia. – Falei ao primeiro homem que encontrei ao cruzar a porta e tirei o distintivo falso do bolso interno do terno, checando se Castiel ia colocar o distintivo de cabeça para baixo de novo. – Agentes Smith e Carlton. Viemos falar com o xerife.
– O xerife Richard está fora, senhor, deve voltar à tarde.
– Precisamos vê-lo agora. – Insisti.
– Conforme informei, creio que...
– Nós realmente precisamos falar com o xerife agora. – Castiel entrou no meio da conversa.
Policial bom e policial mau? Eu e Castiel? Meu Deus... Era a confirmação mais pura e verdadeira do quanto eu estava fodido e me metendo em mais furada.
– Ok, vou ver se consigo entrar em contato.
E não é que funcionou?
– Precisamos ser rápidos. No que você tá pensando?
– Eu nem sei muita coisa, cara. Como que vou saber o que pode ser?
– Dean, a tá sozinha em casa.
– Eu sei, eu sei.
– O xerife está fazendo uma busca agora. – O homem voltou.
– Qual o endereço?
– Não posso informar.
– Isso é sério mesmo?
Eu tinha que segurar a vontade de rir, porque Castiel era muito ruim naquele jogo.
– É perto daqui. Siga na direção norte, vire à quarta esquerda e segunda direita. Vão ver onde ele está.
– Ótimo, muito obrigado pelos seus esforços.
Nós saímos para o endereço indicado. A casa estava cercada por quatro viaturas policiais, incluindo um carro para cadáveres. Havia fitas em volta da casa e um carro de civil perto da divisória. Nós dois saímos do nosso carro e fomos direto na direção da casa, passando por baixo da fita.
– Ei, agentes! – Uma mulher nos gritou. – Poderiam nos dar uma palavra, por favor?
– Como que sabe que somos agentes?
– As roupas. – Ela apontou para nós dois.
Eu olhei para Castiel e vi que fazia sentido.
– Bem, nós chegamos agora, não sabemos de nada. E mesmo que soubéssemos, não é função nossa função dentro do FBI dar essas informações pra imprensa.
– Por que o FBI está aqui?
– A senhorita deveria ver com o meu superior, eu só recebo ordens.
– É verdade que vocês suspeitam de um serial killer?
– Senhorita, que parte do ‘acabamos de chegar’ você se nega a entender? – Castiel perguntou.
Não era um bom dia para tirar o anjinho do sério, aparentemente.
– Da mesma forma que vocês só recebem ordens, eu também só recebo ordens.
– Moça, por favor, isso é uma cena de crime, não é local para uma jornalista estar, se é que você é jornalista mesmo ou se é uma daquelas blogueiras de fofoca que adoram escrever teorias absurdamente ridículas na internet. – Eu intervi.
– Ei!
– Se quiser respostas, se merecer respostas, entre em contato com o xerife e se afaste da faixa de isolamento ou iremos prendê-la.
– Os senhores não têm o direito de...
– Quer apostar? – Perguntei.
Ela fechou o semblante e foi para trás até entrar no carro. Ficamos olhando até que ela entrou e insistimos em ficar ali até que a garota finalmente desistiu e se mandou.
– Desde quando a imprensa vem pra um lugar tão pequeno pra se meter nessas besteiras? – Castiel perguntou.
– Não se fazem mais crianças como antigamente.
– A questão é saber até onde essa fofoca chegou.
– Viemos atrás do xerife ou não, Cas?
Entramos na casa, explicamos nossa situação com desculpas bem fajutas que sempre eram aceitas e ficamos para acompanhar a busca. Os detalhes eram simples, mas chamou a nossa atenção porque batia com a descrição de um outro caso de anos atrás, envolvendo um wendigo. A parte estranha era que aquela casa fazia parte da investigação, e não tinha motivo para uma casa fazer parte da investigação de um caso com wendigos como principais suspeitos. Eu respondi Castiel de qualquer jeito, mas é claro que eu tinha já as minhas suspeitas, o que foi por água abaixo quando um rapaz de vinte anos confessou na delegacia depois de acharem as provas que conectavam o caso.
– Desculpa. – O homem disse, aos prantos. – Era pra ter sido só um susto.
Olhei para Castiel sem graça e ele revirou os olhos, ajuntamos nossas coisas e fomos para a mercearia que havíamos visto no caminho.
– Eu falei pra deixar pra lá.
– Como eu ia saber que era um humano fazendo... Coisas de humano?
– Só pega o que pediu, Dean.
A lista havia sido escrita em um papel que não tinha mais de vinte centímetros quadrados e a letra era tão delicada que eu estranhava. Nem Jody ou Claire ou Donna tinham a letra tão bem desenhada daquele jeito. Era diferente de tudo o que eu vivia. Mas aí eu estava perdendo tempo analisando a letra de ao invés de correr contra o tempo para chegar de volta e não a deixar sozinha.
Entramos no carro com as compras feitas e pegamos a estrada. Não estava para conversas, então liguei o rádio. Mas estava fácil demais. Castiel desligou logo depois e se virou para mim. Lá vem...
– Eu sei de onde conheço o cara que apareceu lá dizendo que era noivo da .
– E você recebeu um insight agora? Do nada?
– Não, eu só... – Castiel fez uma pausa para reformular. – Lembra de quando eu entrei na mente dela sem a sua permissão? Você ficou irritado, parou de falar comigo...
– Lembro, lembro. O que tem?
tinha sonhos com ele.
– Então eles se conheciam.
– Ou não, não sei. É a única memória que ela tem dele. E parece que ela recuperou a memória, então por que ela lembraria de tudo e não lembraria dele?
– É a pergunta que nós temos nos feito já faz um tempo.
– O que me leva a outra teoria.
– Ai, meu Deus.
– Será que ele não tem ligação com Anael?
– Você encostou nele, Cas, você não viu problema.
– Meu radar pode ter falhado.
– Se for assim, não dá pra descartar nenhuma teoria. Tudo pode falhar.
– Eu sei, só to falando o que eu acho.
– Tudo bem. Então o que a gente faz, de acordo com o que você acha?
– Tentar descobrir mais sobre o cara é uma opção.
– Eu já tentei, até o Sam tentou. E você sabe que, se o Sam tenta achar alguma coisa na internet, ele consegue.
– Isso é outra coisa sobre a qual precisamos falar.
– Internet? – Perguntei.
– Não. Sam.
– O que tem com ele agora?
– Não vai me dizer que você não percebeu que ele tá diferente.
– Ah, Cas, ele tá preocupado com as consequências da gente estar lidando com a ainda. – Falei e virei à direita. – Mas não é como se eu tivesse escolha. Tudo tá muito estranho, a gente não tem notícia nenhuma sobre o Anael... O que eu deveria fazer? Deixar a menina por conta da sorte?
– Não to dizendo que você tá errado.
Castiel parou de falar subitamente e olhou para estrada. Eu olhei para ele e soube imediatamente que ele estava escondendo alguma coisa.
– O que é que você não tá falando?
Ele suspirou.
me pediu pra te dizer que você pode ir embora se quiser que ela não vai ficar chateada nem vai envolver a polícia.
– Quando ela te disse isso?
– Faz três dias.
– E por que ela te disse isso?
– Sua protegida se sente um fardo por causa do jeito que Sam vem agindo ultimamente.
– Mas o Sam nem vai mais voltar por esses dias, pelo que ele falou.
– Eu sei, Dean, mas não adianta te lembrar. E eu não tiro a razão do Sam também, os perigos são muitos pra vocês dois.
– Pra também, Cas.
– Eu sei.
Por sorte, demos nossa conversa por encerrada ali. Eu liguei de novo o rádio depois de um tempo e Castiel não fez nada. Isso me fez agradecer em silêncio. Seguimos, então, por um bom período de eu, minha baby e Scorpions no rádio do Impala, tocando Rock You Like a Hurricane em um volume não muito saudável. Cerca de vinte minutos depois, chegamos de volta na propriedade de .
– Falamos com ela sobre isso? – Castiel perguntou quando já estávamos para entrar.
– Sobre o quê?
– Sobre eu ter lembrado do cara, dele estar nos sonhos dela.
– Não sei, Cas. Acho melhor a gente pegar mais informações por enquanto.
– E nós vamos ficar por aqui até quando?
– Por mim, até quando a gente tiver uma resposta definitiva e verdadeira sobre o que aconteceu com Anael.
– Nós o matamos.
– Cadê os sinais clássicos que nós sempre achamos quando matamos um anjo, Cas? – Eu quase gritei. – Cadê as asas queimadas?
– Anael esteve com Miguel.
– Exatamente, e eu vi parte do que aconteceu. Não acredito nem que Miguel tenha morrido de vez, quem dirá Anael. Da última vez que a gente acreditou que Miguel estava fora do mapa, a merda foi grande.
– Você não está ficando neurótico?
– Não, Cas, é que...
Estranhei que não tinha nenhuma movimentação à vista, o que me deixou sem palavras. Chequei na cabana, não podia estar mais vazia. Puxei a arma e fiz sinal para que Castiel verificasse o entorno. Então fui descendo, a pé para a casa principal. Não sabia o que era pior, mas acabei escolhendo não gritar por .
Em silêncio e na ponta dos pés, fui chegando perto da porta de entrada, sem saber ainda se devia me preocupar. Pelo menos, tinha alguém em casa. Se era , aí eu não tinha como afirmar, mas eu podia ouvir o som de louças sendo usadas. O tamanho da minha surpresa, na verdade, foi tão grande quanto o tamanho da minha preocupação.
estava de costas para mim, o que me colocou a pensar como eu devia mostrar que estava ali sem assustá-la. O fogão estava ligado e o cheiro inconfundível de um peixe sendo frito estava ocupando o ar. Podia até dizer que estava cansado de comer peixe mas, se só o aroma já era bem diferente do que nós tínhamos feito, imaginava que o gosto seria bem melhor também. Tinha alguma coisa no forno além do peixe, mas não dava para saber o que era. Só que, enquanto eu imaginava, se virou e deu um pulo ao me ver, ainda apontando a arma.
– Puta merda! – Ela gritou.
– Desculpa, desculpa, desculpa, eu... – Respirei fundo e abaixei a arma. – Não era pra você estar se esforçando.
– Só estou fazendo a janta. Vocês passaram a manhã inteira fora, eu achei que pudesse fazer um agrado.
Meu instinto era brigar, mas ela pareceu ter sentimentos sinceros a respeito daquilo.
– Tudo bem, mas poderia ter me esperado. Eu te ajudaria.
– Vocês já me ajudaram muito. Não acha que tá na hora de eu devolver um pouco da ajuda?
Não levou nem dez minutos para ficar pronto e eu concluí uma coisa: era muito mais eficiente sozinha do que quando eu ajudava. O prato estava posto até mesmo para Castiel, que não falou nada e acabou comendo mesmo assim. Sobre o cheiro, eu estava certo. Aquele peixe era o mais delicioso do mundo, melhor até mesmo que o peixe da minha mãe. Inclusive minha mãe teria amado comer com a gente naquele dia. Era estranho, mas parecia família.
– Nada disso. – Eu protestei quando começou a retirar a mesa. – Você fez muito, deixa essa parte comigo.
– Ficou bom, pelo menos? – Ela perguntou ao sentar de volta.
– Se eu ter repetido três vezes não foi o suficiente pra te mostrar que eu gostei...
– Não sei, você sempre come como se fosse a sua última refeição.
– Sempre pode ser a última refeição, . Mas a comida estava muito boa mesmo. Foi uma baita surpresa.
Ela sorriu e se encolheu. Parecia tímida. A conversa terminou ali e eu fiz o que era minha obrigação, lavar a louca. Eba! Só que não.


Capítulo 12


Dean.

Fiquei esperando de longe até que o carro apareceu na entrada. Abri o o portão pelo controle remoto e Sam entrou.
– E aí? – Falei com meu irmão quando ele saiu do carro. – Você já escolheu máquinas melhores. Um Corolla?!
– Era o que tinha. – Ele deu de ombros.
– Como foi por lá?
– Nada demais. Um ninho de vampiros, menos seis deles entre nós. Com calma, vamos acabar com todos eles. Menos dois lobisomens, mas isso foi por conta do Garth. E por aqui?
– Esteve com o Garth? – Perguntei. – Faz tempo que não falo com ele.
– Ele me encontrou, na verdade.
Sam tomou um susto do nada e eu olhei para trás. saiu pela porta do chalé, então eu lembrei que todo o progresso dela com os primeiros passos até o progresso atualizado tinha ocorrido enquanto Sam não estava por perto e eu, como bom irmão que era, esqueci de comentar com ele durante as nossas poucas e curtas ligações. Tentei fugir do constrangimento dando de ombros.
– É, isso... Desculpa, esqueci de te contar.
– Não tem problema. Oi, . – Sam acenou à distância para ela. – E Castiel?
– Foi às compras.
Sam assentiu e abriu a porta de trás do carro, pegando uma bolsa de viagem pequena.
– O Bobby vai ficar no bunker por um tempo. Falei pra ele que tinha um caso importante pra resolver com você e que demoraria um tempo para voltar.
– E ele não perguntou sobre o que se tratava?
– Até perguntou, mas eu consegui enrolar.
– Você vai ficar então. – Concluí.
– Por uns dias. Precisamos acertar algumas coisas quanto a esse... Caso. Podemos conversar depois?
– Claro.
assentiu para Sam quando ele passou por ela e entrou no chalé. Ele aproveitou para comer um pouco do que restava do café da manhã e, depois, sentamos para ver televisão, os três em silêncio. Castiel chegou um pouco tarde e foi preparar o almoço para nós. Como já tinha sentido que tinha alguma coisa estranha no ar, fiz um sinal com a cabeça para Sam, indicando a porta para fora. Ele me seguiu até lá sem falar nada. Ainda quietos, nos afastamos na direção da ilha no lago. Era longe o suficiente para que ninguém nos ouvisse e aberto o suficiente para que víssemos se qualquer um tentasse se aproximar.
– Fala. – Pedi.
– Achei alguma coisa no tal do Henry.
– E então...
– O cara é muito limpo.
– Desde quando isso é ‘achar alguma coisa’?
– É justamente isso. Você já jogou o nome dele no Google, não jogou?
– Foi a primeira coisa que eu fiz.
– E o que apareceu?
– Nada.
– Me dá um nome qualquer. – Sam pediu, pegando o telefone na mão.
– Hm... John.
Ele revirou os olhos.
– Me dá um nome que não seja tão óbvio.
Pensei por alguns segundos.
– Josephine.
– Ok. – Sam falou e digitou no celular. – Agora um sobrenome.
Dei de ombros.
– Winchester.
Sam revirou os olhos de novo mas digitou.
– Agora um estado.
– Washington.
Segundos depois, virou o celular na minha direção.
– Não importa o nome que você pesquise no Google. Por mais aleatório que seja, nós vamos sempre achar alguma coisa. E por que não encontramos nada sobre Henry Carter, Lousiana?
– Onde você quer chegar com isso?
– Henry e Carter são nomes relativamente comuns. Achei alguns, claro, mas não tem um sequer que pareça com ele. Pesquisei famílias Carter que se estabeleceram no estado e nenhuma delas tem um homem sequer chamado Henry.
– Ele pode ser de fora do estado.
– Aí é que está. Lembra da firma de advocacia? – Sam perguntou e eu fiz que sim. – Liguei para eles. Falei com um dos responsáveis pela família da e ele disse desconhecer a existência dele, que o tal Henry só apareceu quando eles anunciaram pela segunda ou terceira vez, não lembro, o desaparecimento dela.
De repente, uma lâmpada acendeu sobre a minha cabeça.
– As câmeras!
– O quê?
– No dia que ele apareceu aqui, falou das câmeras, porque não sabíamos de quem se tratava e não queríamos botar a cara lá de primeira sem ter uma visão antes de quem era.
– As câmeras gravam? Quando ele veio aqui?
– Eu não sei, mas já faz quase um mês. Fica no monitor ao lado da televisão do chalé.
– Vou lá verificar. Se eu conseguir, tento encaixar as imagens em um software de reconhecimento facial.
– Vai em frente, nerd.
Sam olhou de cara feia para mim e eu segurei o riso.
– Sobre ... – Eu falei antes de ele se afastar. – Pega leve com ela.
– Já disse que não desgosto dela, só estou preocupado.
– Eu estava falando sobre ela ter voltado a andar, na verdade. É que ainda tem umas falhas de vez em quando, parece que ela ainda tá se acostumando.
Ele ficou pensando mais alguns segundos e acabou indo na direção do chalé sem dizer mais nada. Felizmente, a gravação de que precisávamos existia. O passo difícil era introduzir a imagem nos programas que Sam hackeava e manter escondido de . Castiel tinha sugerido que nós mantivéssemos omitido o fato de estarmos investigando aquele detalhe em especial e, por algum motivo que eu não saberia dizer qual era, eu sentia que deveria seguir o que ele estava falando. Isso tudo tornava o processo mais demorado, mas pouca coisa. Era necessário, no final das contas.
Na manhã do dia seguinte, acordei com alguém chamando o meu nome. Como era uma voz masculina, acho que meu corpo não se preocupou em dar urgência. Ia até ignorar, mas estava suando muito a ponto de me incomodar. Quando abri meus olhos, Sam estava pronto para me cutucar.
– O que foi, cacete?
– Falei com Castiel pra ficar de olho aqui enquanto nós dois conversamos sobre o que vamos fazer.
– O que vamos fazer sobre o quê? Eu não tenho como raciocinar a essa hora, use palavras fáceis.
– Henry Carter. – Sam respondeu, atraindo a minha atenção.
Sentei rápido e o mundo girou. Esfreguei os olhos, me espreguicei e, quando senti que o corpo tinha “esquentado”, levantei. Nós tomamos cuidado para não fazer barulho alto que pudesse acordar enquanto saíamos da casa. Fomos até a beira da piscina, onde tinha uma mesa de mármore com cadeiras em volta. Sam colocou o notebook em cima e abriu logo.
– Henry Carter consta no sistema de licenças de motorista de Idaho.
– Meio longe, não?
– A história fica melhor. Nós não estávamos procurando bem porque realmente não tinha como achar, com tantos desvios que esse cara tem. Agora... Lembra da quantidade de criaturas que Miguel matou enquanto tentava descobrir a fórmula perfeita pra melhorar os monstros e fazer deles o seu exército?
– Claro que lembro.
– Henry Carter estava entre os mortos.
– Como assim?
– O corpo dele foi encontrado na igreja onde Miguel ficou por um tempo, lembra?
– Sim, claro.
– Agora olha o laudo do legista.
Sam virou o notebook para mim. Havia uma expressão marcada quase engraçada: “arcada dentária com alterações nunca vistas antes”.
– Lobisomem ou vampiro?
– Sem anotações sobre as mãos? Acredito que seja um vampiro. – Sam falou. – Mas isso é o menor dos problemas, a ponta do iceberg.
– Você descobriu mais alguma coisa?
– Não, mas fiz algumas conclusões. Primeiro, o corpo dele não devia estar sendo usado.
– Isso faz sentido.
– E se Miguel não tinha morrido ainda naquela época...
– Você viu se a família cremou o cara?
– Não, não cremaram. Ele foi enterrado no jazigo da família no... – Sam puxou o notebook de volta para ele e digitou alguma coisa. – No Idaho City Pioneer Cemetery.
– Então quem de nós vai fazer uma viagem até Idaho?
– Podemos pensar em alternativas.
– Deus, essa vida já foi mais fácil.
– Papai resolveria em dois segundos se estivesse aqui. – Meu irmão sorriu, bem distante. – O que ele faria?
– Ele iria até Idaho. – Respondi de primeira.
Nós não notamos antes que teríamos companhia. se aproximou de nós e tanto eu quanto meu irmão estranhamos. O dia estava quente e ela estava, pela primeira vez desde que a conheci, usando um short. Aproximou-se de nós e colocou uma toalha sobre uma das espreguiçadeiras.
– Bom dia, meninos. – Ela sorriu para nós dois. – Vocês se importam se eu tomar um banho de piscina?
Sam pensou duas vezes e fez que não. , então, passou a blusa por cima dos braços e tirou o short. Meu primeiro instinto foi pensar em como ela havia arrumado um biquini, então lembrei que aquela era a casa dela e era mais que óbvio ter um biquini ali.
– E o que nós vamos fazer a respeito disso? – Sam sussurrou.
– Bem... – Eu cocei a cabeça, voltando para a conversa. – Nós podemos fazer algumas ligações, verificar coincidências com outros caçadores. Isso, é claro, sem especificar muita coisa.
– Somos caçadores, Dean, nós fazemos perguntas.
– E que outra opção nós temos? O Bobby não é o nosso Bobby, eu não sei até onde dá pra confiar nele.
– Não é o nosso Bobby mas é o Bobby, de um jeito ou de outro.
– O nosso Bobby não teria pegado a nossa mãe.
Sam parou no tempo e fez uma cara de assustado.
– É... – Ele murmurou.
– Tá, vamos voltar pro foco.
– Acho melhor você falar com ela. – Sam apontou para .
Daí para a frente, eu não escutei mais nada. mergulhou, indo de uma ponta para a outra da piscina, na parte mais distante de nós. Mas nem a distância me impediu de reparar quando ela empinou o quadril para fazer o movimento. Não era sem-vergonhisse minha nem nada do tipo. Qual é! Eu era homem! Como não notar? E o pior era eu estar me sentindo um idiota por nunca ter notado antes.
– Dean! – Sam gritou e eu despertei para a vida real de volta.
– Oi. O quê?
– Você escutou uma palavra do... – Meu irmão parou, prestou atenção no meu olhar e, a julgar pela reação dele, Sam entendeu tudo. – Sério, Dean?
– Desculpa, o que você tava falando? Eu me perdi.
– Ah, claro que se perdeu, né.
– Já pedi desculpa.
Sam revirou os olhos. Ia reclamar de alguma coisa, eu sabia, mas seu olhar se prendeu em . Olhei para ela imediatamente. Sua atenção estava fixa – com sinal de que não havia algo bom naquilo – em algum ponto da colina logo atrás do chalé onde costumávamos cozinhar. Quando segui a linha do seu olhar, vi uma sombra por entre as árvores no contorno perfeito de uma pessoa, mas as folhas estavam densas e concentradas, dificultando a luminosidade abaixo delas. Imediatamente, puxei a arma do cós da calça.
– Castiel! – Sam gritou e virou para mim em seguida. – Leva ela pra dentro agora.
Corri para onde as roupas de estavam e peguei a toalha, esticando de uma mão para a outra.
, vem! – Gritei mas ela não pareceu ouvir. – !
Ela estava sem reação. Sem tempo para decidir o que fazer ou esperar sair do transe, acabei deixando a toalha no chão e entrei na piscina de roupa e tudo. Agarrei pelos ombros, que tomou um susto quando percebeu que eu estava ali.
– Vou te levar pra dentro, tá?
fez que sim. Nós saímos da piscina, eu a embrulhei na toalha e, ainda segurando a arma, fui guiando na direção da casa. Castiel passou correndo, indo fazer companhia para Sam. Eu dei uma checada por cima do ombro, os dois estavam correndo para o que tínhamos visto.
Assim que colocamos os pés dentro da casa principal, ficou mole. Eu suportei seu corpo como pude na hora e levei até o sofá, colocando sentada.
– Respira. – Falei para ela, que estava extremamente pálida. – Você viu alguma coisa?
Ela abriu a boca para falar, mas não saiu nada.
– Você tá bem, ? – Insisti.
Mais uma vez, nada. Ela só respirou fundo. Foi quando notei que estava tremendo. Então segurei em suas mãos para tentar ajudá-la.
– Ei, calma, eu to aqui. Você tá a salvo.
Castiel e Sam entraram correndo pela porta, eu e nos assustamos.
– E aí?
– Foi embora.
– Miguel. – A única voz feminina entre nós falou, engoliu em seco. – Era Miguel.
– Como assim, ? – Perguntei.
– Era o seu rosto em o que quer que seja lá.
Ela olhava para mim, o rosto simplesmente aterrorizado.


Capítulo 13

.

Eu nunca tinha segurado uma arma na vida antes de conhecer os Winchester e Castiel. Nunca. Mesmo sendo moradora da Louisiana, um dos estados mais tranquilos quanto à possibilidade de adquirir uma arma, meus pais tinham tentado me afastar daquilo. Eu lembrava dos seguranças, lembrava de meu pai ter uma arma particular para ele próprio, mas eu mesma fui tão aterrorizada com as possibilidades do que aconteceria se eu chegasse perto de uma arma que nunca desejei estar com uma. Mas os anos se passaram e eu havia descoberto coisas totalmente fora do que eu considerava como lógico e real. E eu estava segurando uma pistola semiautomática calibre trinta e oito milímetros e mirando na direção de um papel pregado no tronco de uma árvore. O que diabos eu estava fazendo com a minha vida?
– Certo, . Agora você precisa alinhar a sua visão com aquela parte que eu te falei, ok? – Dean, atrás de mim, disse, posicionando meus braços com as mãos. – Primeiro, você respira fundo, se concentra, e aí, quando se sentir...
Eu disparei a arma sem querer. Dean gritou um palavrão atrás de mim e eu, no susto, deixei a arma cair no chão. Tentando assimilar o que estava se passando, vi que minhas mãos estavam tremendo.
– Ei, você tá bem? – Dean, de repente, estava na minha frente, segurando meu rosto entre suas mãos.
– Eu... Acho... – Respirei fundo e tentei, imediatamente, recuperar minha compostura. – Me desculpa, eu...
– Tudo bem. Você tem certeza de que quer continuar isso agora? Nós podemos voltar em outro momento.
– Não, eu tenho que conseguir. – Falei com firmeza.
– Tem certeza, ?
Apenas balancei a cabeça afirmativamente e voltei a posicionar os pés como Dean havia ordenado. Ele hesitou, mas voltou junto comigo segundos depois. Mais uma vez, ele ajeitou meus braços na posição que tinha me dito que daria mais estabilidade ao disparo. Então levou a mão até a minha e posicionou seu dedo indicador junto ao meu.
– Lembra do que eu te disse?
– Alinhar a visão, respirar fundo, prender a respiração e atirar quando sentir que eu vou acertar. – Repeti as regras que já tinha escutado mil vezes nos últimos trinta minutos.
– Deixa o meu dedo te guiar.
Eu tentei. Juro que tentei. Mas simplesmente não consegui. Depois daquela frase, eu parei tudo o que estava fazendo e comecei a gargalhar. Dean não estava entendendo nada.
– O que houve?
– Desculpa, a frase...
Dean pensou, pareceu repassar suas últimas palavras e, um tempo curto depois, notou o que havia acabado de falar e riu também.
– É, ficou bem estranho, me desculpa.
– Tudo bem. – Eu disse e dei de ombros, abaixando a cabeça em seguida.
– Vamos lá, mais uma tentativa. – Dean tentou me animar. – Se der errado de novo, eu desisto de você, mocinha.
– Não vai dar errado. – Falei, decidida.
Nós voltamos, pela última vez, àquela posição. Por instinto, quis rir novamente da frase de Dean quando seu indicador encostou no meu novamente, mas fiz o que ele ordenara. Alinhei a visão com a massa de mira, nome que o próprio Dean havia me contado antes, durante uma explicação teórica sobre armas que seria hilariante se não tratasse de um assunto extremamente sério. Respirei fundo três vezes, tentando aumentar o espaço de tempo entre as respirações e, consequentemente, diminuir a minha frequência cardíaca.
– Pronta? – Dean sussurrou perto demais, o que me causou um arrepio que pedi a Deus para que ele não notasse.
Apenas assenti. Um milésimo de segundo depois, Dean fez pressão sobre o meu dedo, que adentrou o guarda-mato – outro conceito que ele tinha me ensinado – e acionou o gatilho com tudo. O buraco da bala se tornou visível perfeitamente no papel rabiscado como um alvo temporário. Não era o que eu esperava, tinha rasgado a quina do papel. Ou melhor... Era mais do que eu esperava, porque eu nem achei que seria capaz de acertar o papel, para começo de conversa.
– Nada mal pro primeiro tiro. – Dean se afastou, comemorando de forma contida.
– Tive um bom professor. – Disse, tentando esconder um sorriso. – Vamos treinar mais?
– Claro mas, agora, você sozinha.
– Dean...
– Sem argumentos, você consegue. Vai lá.
Nós ficamos ali por mais cerca de vinte minutos, gastando munição por motivo nenhum por entre as árvores. O que os funcionários pensariam sobre eu ter decidido, repentinamente, treinar tiro ao alvo depois de ter passado um tempo sumida da forma mais estranha do mundo? Eu não tinha como saber. Mas, aos olhos da lei, eu estava usando uma arma que eu comprei legalmente, com munições que eu comprei também legalmente. Então não havia nada de errado no que eu estava fazendo. Deveria me preocupar com pensar dessa forma? Não sabia, mas não estava ligando também. Tinha um mundo totalmente novo e obscuro para desvendar à minha frente.
– Foi uma boa sessão. Acho que podemos treinar com a escopeta amanhã. – Dean dizia enquanto nós descíamos na direção da cabana.
– Escopeta?!
– Sim! É uma arma que, na teoria, parece um pouco com a espingarda. É pra tiro curto com precisão e...
– Dean, – Eu o interrompi. – eu sei o que é uma escopeta. Só não acho que estou pronta pra isso.
– Por quê não?
– Escopetas têm recuo.
– Pistolas também. – Ele argumentou e deu de ombros.
– Ah, nem se compara.
– Ei, vocês dois. – Sam surgiu ao lado da cabana. – O almoço tá pronto.
Nós comemos o macarrão com almôndegas que Sam havia preparado enquanto estávamos treinando. O assunto, por mais que pedisse cautela, tinha que ser tratado. Por mais que eu não estivesse exatamente confortável com Sam – por sentir, através do que podem chamar de ‘sexto sentido feminino’, que havia algo de errado com ele em relação a mim e que ele se sentia da mesma forma a meu respeito –, eu sabia que ele entendia do assunto e que deveria ter a opinião levada em conta. Mulheres, no entanto, ainda dentro da história do ‘sexto sentido feminino’, sabem quando estão escondendo algo delas, e eu sabia que tinha algo entre os dois que não havia chegado ao meu conhecimento.
Depois do almoço, Dean falou que eu deveria colocar uma roupa confortável para exercícios físicos porque Castiel ia me ensinar algo sobre lutar. Minha primeira reação foi rir, é claro. Castiel? Ensinar alguém a lutar?! Parecia absurdo, mas o ridículo ficou mais incongruente ainda quando eu caí no chão pela simples tentativa de acertar um tapa nele. Isso, é claro, depois de um lindo clichê “eu não vou bater em você por nada nesse mundo” seguido por uma das tentativas falhas mais humilhantes de toda a minha vida. Foi naquele segundo tombo que Dean percebeu que talvez fosse um pouco cedo para aquela parte.
– Sabe... Nós precisamos fortalecer sua musculatura.
– Fortalecer minha musculatura?! – Eu arqueei uma sobrancelha. – Você virou profissional de Educação Física agora?
– Eu posso ter um baita corpão hoje, baby, mas não nasci assim.
Não aguentei e, mais uma vez, comecei a rir. Pensei em várias respostas, mas deixei quieto. Dean estava rindo da própria piada também, mas não voltou no assunto.
– Vamos lá, quero ver se você consegue fazer flexões.
– É só me perguntar. E a resposta é não, eu não consigo.
– Você já tentou?
– Tem coisas que a gente nem precisa tentar porque é certo de falhar.
– Você dizia isso também sobre voltar a andar. – Dean argumentou e apontou para a grama. – Vamos, aproveita que o terreno é macio.
– É sério isso?!
– Claro que é.
Eu o encarei, esperando que Dean desistisse de alguma forma e também pensando em formular desculpas que ele não pudesse rebater. Quando percebi que ele não ia ceder, quis sumir.
– Ok então, senhor ‘baita corpão’. – Murmurei para mim mesma.
– O quê?
– Nada. – Respondi e me abaixei, ajoelhando no chão. – Você me paga por essa, Dean Winchester.
– Você é o menos perigoso dos seres que já me ameaçaram, Weir.
Olhei para ele de cara feia. Eu era filha única, mas tinha plena convicção de que aquilo era bem próximo da implicância entre irmãos que todos diziam ser comum. Abaixei a parte superior do meu corpo, apoiando o peso com as palmas das mãos na grama úmida. Sustentei meu torso no topo, mantendo meus braços esticados tanto quanto era possível. Ao menor sinal de relaxamento, meus músculos começaram a tremer muito e eu tive que realizar um movimento extremamente rápido para dar conta de trocar o apoio para um dos cotovelos e não dar de cara na grama – até porque já bastava o tombo no treinamento com Castiel. Levantei o olhar diretamente para Dean com uma bela expressão de “eu te avisei” estampada no meu rosto. Ele estava rindo de mim, mas levantou as mãos como se estivesse em rendição.
– Eu achei que você estava exagerando.
– Você sempre acha que eu estou exagerando. – Resmunguei.
– Acha que consegue fazer uma barra então? – Ele apontou com a cabeça para um galho, que parecia estrategicamente posicionado na árvore que nos fazia sombra, enquanto me dava a mão para me ajudar a levantar .
– Dean, sinceramente...
– Eu não sei por onde começar, !
– Pode começar por não pensar que eu preciso criar tanta massa muscular assim.
– Mas você precisa, e isso é pra sua própria proteção. – Ele começou a explicar. – Não tem como você ficar independente de nós se não puder se defender sozinha, e criar massa muscular, criar força faz parte disso. Nem que essa força seja só pra atrasar um pouco e dar tempo da gente chegar pra te socorrer em alguma situação. Mesmo assim, já seria útil.
– To começando a achar que tudo bem ficar dependente de vocês pra sempre.
– Para com isso. – Ele abriu um meio sorriso e deu alguns passos na direção do galho. – Vem cá, eu te ajudo.
Quando eu me aproximei, Dean ficou atrás de mim e, segundos depois, senti suas mãos nas laterais da minha cintura. Ele me levantou um pouco no ar até que eu conseguisse segurar no galho.
– Não vai quebrar, Dean? – Gritei, mantendo os olhos fechados para não sofrer com a vertigem que, mesmo em uma altura mínima, cismara de aparecer.
– Eu to te segurando, .
– E se eu não aguentar?
– Vou ir soltando o aperto aos poucos e você me fala se sentir qualquer problema.
– Tem certeza, Dean?
– Confia em mim! – Ele pediu.
Fiz força para levar meu corpo para cima enquanto Dean mantinha a mão. Não achei que ia conseguir subir um centímetro sequer, mas estava fazendo um bom esforço e já estava quase na metade do caminho.
– Vamos lá, dez dessas. – Dean me incentivou.
O próximo estava sempre mais difícil que o anterior porque meus braços estavam ficando cada vez mais cansados mas, enquanto eu estava ali, me pendurando em uma árvore – literalmente –, eu comecei a ponderar sobre o que Dean tinha dito e notei que fazia sentido. Eu precisava aprender a me virar. De repente, estava consumida por uma sede de vingança que eu nem sabia que existia em mim. Eu queria aprender a me virar. Queria aprender a atirar e arrebentar na mão todos os responsáveis diretos e indiretos pelo que eu tinha sofrido. Não percebi que, em certa altura do movimento, aquele sentimento dentro de mim ajudou a tornar o esforço menos sofrido.
Ao final das dez barras, Dean me desceu e, assim que eu firmei meus pés no chão, decidi me virar para ele. Não havia como negar. Eu era mulher. Os acontecimentos recentes não mudavam em nada os meus hormônios, as influências deles sobre minhas ações e reações ou como eu poderia me sentir a respeito de um homem. Dean tinha cara de homem, cheiro de homem, olhar de homem. Era como se o maldito fosse perfeitamente desenhado por alguém que queria fabricar um modelo e eu simplesmente não conseguia tirar meus olhos dos seus. Estava próxima demais do perigo. Daquele perigo. Eu senti a boca ficar úmida e o coração acelerar... Até que uma voz nos interrompeu e disfarçamos muito mal ao darmos passos para abrir distância entre nós dois.
– Ei, eu vou na rua. Vocês querem alguma coisa?
Não era a primeira vez que Castiel chegava, do nada, em um momento como aquele, e eu ousaria afirmar que aquela não seria a última vez em que aquilo aconteceria. Pensava até que poderia ser proposital da parte dele. Ciúmes de Dean? Talvez. Mas eu definitivamente estava confusa com aquilo tudo.


Capítulo 14


Dean.

Eu havia escutado no noticiário, durante a fala do cara do tempo, que a temperatura ia subir drasticamente no dia seguinte, mas não fazia ideia de que ele não estava exagerando. Os pais de haviam construído uma propriedade muito boa, com energia solar que dispensava outros gastos, e aproveitamento hídrico da água subterrânea ali perto. Mas ainda havia certo trabalho braçal a ser feito e, como havia dispensado uma boa parte dos funcionários para que ninguém soubesse de nós ali, muito sobrava para mim.
Uma parte de um dos balanços de madeira havia quebrado. mandou deixar para lá, que ia ser jogado fora e tudo bem. Mas ficou claro que ela queria aquilo consertado, então eu dei meu jeito de pegar o que era necessário em uma das saídas para compras e comecei a consertar enquanto ela estava fazendo o que seria a janta. Só estava correndo contra o tempo para que o sol não terminasse de sumir de vez e eu ficasse sem iluminação natural.
Disseram que a máxima seria de trinta e seis graus celsius, mas podia apostar que estava uns cinco graus mais quente. Isso porque o sol já tinha passado para trás da colina e não estava mais diretamente na minha cara. Eu evitei até o último segundo tirar a blusa por respeito a , mas acabei não conseguindo. Se eu continuasse de blusa, ia acabar passando mal.
– Precisa de ajuda aí? – Sam deu as caras quando eu já tinha posicionado as duas colunas e estava pronto para subir a parte do telhado de sapê.
– Pode pegar isso comigo? – Apontei com a cabeça para a peça.
Sam pegou em uma ponta, eu peguei na outra. Levantamos o telhado até o topo e encaixamos nas duas colunas.
– Virou engenheiro agora?
– Se eu não souber fazer isso, eu falhei na vida. – Falei e peguei o martelo e os pregos na caixa de papelão. – Alguma coisa sobre o Carter?
– Nada por enquanto. Passei a informação pra alguns conhecidos, agora é questão de esperar.
– Sobre que alegação?
– Surgiu numa investigação, preciso saber de mais detalhes porque não sei nada sobre o cara.
– Tudo bem então. – Acertei a conexão entre a coluna da direita e a viga única.
– Hm... Dean?
– Fala.
– Tem problema se eu passar uns dias foras de novo? Preciso ir no bunker, preciso ver outras coisas...
– Outras coisas?! – Levantei uma sobrancelha e olhei para ele depois de pregar a coluna e a viga juntas, já segurando o prego para a próxima. – O que houve?
– Eu posso investigar melhor o Carter de lá e acho que já tem gente demais aqui.
– Somos só eu, você e o Castiel.
– Um já é demais, Dean.
Enquanto pensava no que ele havia dito, preguei a outra coluna na viga também. Balancei a estrutura para ver se estava fixa no chão e se não estava balançando demais. Coloquei mais pregos nos pontos onde as colunas encontravam a viga, um par para cada coluna. Finalmente olhei para ele de volta e dei de ombros.
– Se você acha que isso vai ajudar...
– Eu te ligo quando chegar lá.
– Espera... Você vai agora?
– Vou, ué, não tem...
– Você vai chegar lá só amanhã de manhã. Isso se você aguentasse ir direto.
– Eu aguento. E não tem problema com o horário. É melhor ainda, na verdade. A estrada vai estar mais vazia. A chance de dar merda é menor.
– O Castiel devia ir com você e voltar depois.
– Não, não. As coisas estão sérias com a , qualquer proteção é necessária.
– Por isso mesmo que você não deveria ir.
– Descobrir mais sobre o Carter é uma outra forma de proteger a garota.
– “A garota”? – Zombei. – Quando eu falava assim antigamente, você queria me bater.
Sam não respondeu. Eu balancei a estrutura de novo e não pareceu que ia ceder fácil. Peguei o balanço, que estava por perto, arrastei e prendi a argola de uma das correntes de sustentação no gancho da viga.
– Tudo bem, Sam, não vou questionar você. Pode ir. Me avisa quando chegar e cuidado na estrada.
Ele não disse nada, acho que só assentiu e foi para o carro que ele tinha arrumado. Terminei o serviço e fui levar a caixa com as ferramentas e o resto dos materiais para a cabana. Sam provavelmente saiu nesse meio tempo. Estava começando a escurecer, então conferi se tudo estava trancado devidamente antes de descer para a casa principal. Quando terminei, só peguei a lanterna e fui prestando atenção pelo caminho. Depois do encontro acidental e inesperado com uma cottonmouth, estávamos mais atentos – não só a fenômenos sobrenaturais. Afinal de contas, uma cottonmouth era o menor dos nossos problemas se fossemos considerar outras cobras venenosas que podiam aparecer naquela área.
Entrei na casa sem fazer muito alarde. Castiel estava no horário de fazer a ronda de verificação no entorno da área. Eu escutei barulho de panelas e outros utensílios de cozinha, mas não olhei para lá imediatamente. Minha cabeça, na verdade, estava bem focada em ir tomar um banho urgente, porque eu estava pingando suor ainda e encharcando a blusa, que devia estar fedendo. Já tinha até formado o discurso na minha mente sobre “consertei o balanço, não precisa me agradecer, só vou tomar um banho porque estou um lixo”, mas outra coisa captou a minha atenção e eu parei no tempo.
estava dançando. Usava short jeans moderadamente curto e uma camiseta branca folgada. Tinha um aparelho no bolso de trás do short e fones de ouvido saindo de lá. Estava descalça mas, mesmo que estivesse de costas para mim, eu podia sentir que ela estava, no mínimo, com um sorriso no rosto. Dava para ouvir um som saindo da sua garganta, provavelmente estava cantarolando a música. Eu até tentei prestar atenção para descobrir qual música era, mas não tinha como não reparar em cada movimento que o quadril dela fazia. Sem nem perceber, eu estava lambendo meu lábio inferior. Então se virou, arrancando violentamente os fones do ouvido porque tinha se assustado comigo.
– Desculpa. – Eu falei primeiro. – Eu devia ter feito algum barulho mais alto.
– Acho que eu não ia escutar de qualquer jeito. – apontou para o fone.
– Qual era a música?
Runaway, do Bon Jovi.
– Pelo menos você tem bom gosto musical. – Eu brinquei.
Ela pareceu perder a atenção na comida e olhar para mim direito pela primeira vez desde que percebeu a minha presença.
– O que você andou fazendo?
Bingo, vamos brincar de ser bom moço.
– Ah, eu arrumei o balanço que caiu.
– O na beira do lado? – Ela perguntou e eu assenti. – Dean, não precisava.
– Não seria ideal que você chamasse alguém aqui pra consertar, não podemos confiar em ninguém.
– Mas era só jogar no lixo, não tinha problema.
– Bem, eu imaginei que você gostaria que fosse consertado, já que eu te vejo indo pra lá direto quando quer ficar sozinha.
Bem sutil, Dean, nem ficou parecendo um psicopata perseguidor.
– Eu... – Ela sorriu, olhou para o chão e ajeitou o cabelo, um gesto que parecia jovem demais para a idade que tinha, então voltou a olhar para mim. – Obrigada. Fico te devendo. Mais essa.
– Você não tá me devendo nada, , fica tranquila. Eu só...
– Gostaria de tomar um banho?
Eu ri quando ela completou a minha fala.
– É, seria ideal.
– Pode ir lá, eu estou bem aqui com a comida.
– Você sabe do Cas?
– Ele saiu já tem uns trinta minutos e ainda não voltou.
A primeira coisa que veio à minha mente foram os momentos inoportunos onde eu ficava cara a cara com do jeito mais humano possível e Castiel simplesmente aparecia do nada, interrompendo seja lá o que estivesse acontecendo e deixando tanto eu quanto ela constrangidos. Será que era um jeito diferente de chamar por ele? Será que funcionaria se eu tentasse? Bem, funcionando ou não, provavelmente ficaria assustada. Eu só ri com meus pensamentos rápidos, mas Castiel logo entrou pela porta.
– Aí tá ele!
– O que foi? – Ele perguntou, estranhando a atenção que estava recebendo naquele instante.
– Você pode ficar aqui por agora? Vou tomar banho.
– Posso sim, claro.
– Vou estar de volta em menos de dez minutos.
Peguei uma muda de roupa dentro da mala, escondida atrás do sofá onde eu estar dormindo para não bagunçar a casa que não era minha. Fui para o banheiro do térreo logo depois. A vantagem de usar a água do próprio lugar era que a temperatura dela era quase gelada, o que era muito bom com o calor que estava fazendo do lado de fora. Eu até poderia ter demorado mais debaixo do chuveiro mas, mesmo com todo o “sinta-se em casa” de , eu não ia abusar.
– Qual o menu de hoje? – Perguntei, tentando puxar assunto quando saí do banho, estava secando o cabelo.
– Arroz com brócolis e parmegiana de frango.
– Isso você nunca fez. Estamos comemorando alguma coisa especial?
– Na verdade, sim. – Ela respondeu e colocou dois pratos na ilha da cozinha. – É meu aniversário.
Meu queixo caiu e, provavelmente, o de Castiel também. Fiquei meia hora tentando pensar em algo para dizer que não parecesse resultado do meu retardo mental, mas a minha mente estava completamente vazia e inútil. “Feliz aniversário” parecia muito idiota. Então eu corri para pegar os talheres e ajudar a colocar a mesa para nós dois.
– Desculpa, eu não fazia ideia.
– Não tem problema, eu também não falei para ninguém.
– Você tá fazendo quantos anos?
Assim que eu perguntei, me senti um idiota. De novo. Não era uma pergunta que uma mulher iria gostar de responder.
– Trinta e um, se é verdade que estamos em dois mil e dezenove.
– Isso é verdade. – Eu ri. – Se eu soubesse, teria mandado o Cas comprar pizza.
– Eu ainda posso ir, se vocês quiserem. – Castiel se ofereceu.
– Tá tudo bem, Cas, a comida já tá quase pronta.
– Você podia ter pedido ajuda, era o mínimo que eu poderia fazer sendo o seu aniversário.
– Ah, mas você já consertou o balanço, foi um ótimo presente. Agora... – se abaixou, abriu o armário que ficava embaixo da pia e ergueu uma garrafa de vinho no ar. – Isso estava aqui há muito tempo sem ser usado. É pra gente. Você toma, Cas?
– A última vez que eu bebi não foi exatamente boa.
Eu ri com a lembrança. Nós terminamos de colocar a comida na mesa e fomos comer. Conversávamos sobre assuntos diversos. contava muito sobre sua infância, eu falava sobre alguns casos engraçados que vinham à minha memória, Castiel fazia comentários aleatórios sobre pontos divertidos desses casos – aqueles que ele tinha vivido com a gente. Parecia até que era realmente um aniversário qualquer.
Antes de todos deitarmos para dormir, Castiel foi fazer mais uma ronda enquanto eu ajudava a tirar a mesa. Em certa altura, nossas mãos se tocaram. O olhar durou tempo demais, provavelmente porque o vinho estava fazendo mais efeito do que devia.
– Acho que é melhor eu ir dormir logo. Amanhã, eu vejo o que fazer com a louça suja.
– Eu te levo até o seu quarto. – Falei a primeira coisa que veio na minha cabeça.
, em silêncio, se virou e caminhou corredor adentro. Enquanto eu seguia atrás dela, não conseguia tirar da cabeça os movimentos que vi quando entrei na casa depois de consertar o balanço. Tinha algo a mais ali, e não era só o vinho. Mas quando chegamos na porta da suíte que estava ocupando e ela se virou, eu simplesmente fiquei sem chão. Mil coisas passaram pela minha mente, mas eu não conseguia processar mais nada. Mais uma vez, nós dois ficamos nos olhando em um completo silêncio. E se eu fosse ser sincero, não saberia dizer o que estava sentindo naquele momento.
– Boa noite então. – Ela disse, parecia que estava sem jeito.
– Boa noite. – Eu respondi.
foi fechar a porta e eu coloquei a mão no caminho por puro reflexo. Nem sabia o motivo de estar fazendo aquilo. Eu só fui lá e interrompi o seu movimento. Ela ficou olhando para mim, esperando uma justificativa talvez. A questão era que eu não tinha justificativa. Nem eu sabia. E era estranho que Castiel ainda não tivesse aparecido para quebrar o clima.
– Feliz aniversário, .
Ela segurou a beira da porta, apoiou-se nela e sorriu para mim.
– Obrigada, Dean.




Capítulo 15

Castiel.

Nós preparamos duas bolsas, uma com armas e outra com comida. As duas seriam necessárias. Bem, não para mim, mas para os três humanos a quem eu faria companhia durante aquela viagem que julguei ser desnecessária, mas Dean insistiu e, quando Sam também concordou, vi que eu era voto vencido.
– Então... Você sabe dirigir mesmo, né?
– Se você me perguntar mais uma vez, eu juro que desisto disso tudo.
Dean estava confiando o Impala a . Eu não era digno, mas era. Talvez fosse por ela ser mulher, aí ele confiava mais nela do que eu mim – não pelos motivos certos. A questão era que tinha um caso por perto, parecia ser coisa boba, então eles quiseram levar para ver o que acontecia no mundo real. Como eu estava treinando suas habilidades de reflexo, avisei que não achava que o treinamento àquela altura já era suficiente e que aquilo podia representar riscos. Os dois irmãos estavam certos de que era suficiente e de que era melhor que ela se acostumasse o quanto antes com aquela realidade. , por si só, estava animada. Vejam só, animada...
– Dean, bifurcação. – alertou em certa altura do caminho, cerca de duas horas após sairmos da fazenda. – Por onde eu devo seguir?
– Direita.
– Sabe, chegaríamos mais rápido com o uso de um GPS.
– Não podemos usar GPS.
– Você é muito neurótico. – Ela resmungou.
– Se você não estivesse ouvindo essa porcaria que você chama de música, – Dean começou a reclamar. – não estaria perdida e desconcentrada.
– Eu estou dirigindo, eu escolho a música. Você é só o carona, então fica quieto.
Sam riu do meu lado, eu também ri. Dean foi o único que ficou indignado com a fala dela, mas tinha um quê dele mesmo naquelas palavras. Não muito tempo depois, nós estávamos chegando no endereço marcado. Não havia ninguém, aparentemente, por ali, mas eu e Sam havíamos sido incisivos quanto a Dean sempre orientar novamente, não importava se ele já havia dito aquelas mesmas palavras dezenas de outras vezes. Se queria, por conta própria, entrar naquela vida desgraçada, não tinha como eu impedir, mas ela precisaria prestar atenção em tudo o que fosse dito a ela.
– Você fica no carro. Se alguém aparecer aqui...
– Eu sou estagiária do FBI, não conheço vocês, é a primeira vez que me colocam nessa equipe e nesse tipo de caso e, por isso, eu só estou dirigindo, que é o que eu sei fazer que pode ajudar. – completou Dean.
– E se perguntarem o porquê do Impala?
– Digo que não sei, só segui ordens e entrei no carro que vocês mandaram.
– Qual o nome do seu supervisor?
– Dimitri Cornell.
– O que você deve fazer se perguntarem qualquer outra coisa?
– Responder que não sei de nada, que só vocês sabem responder.
– Ótimo. Agora fica no carro e, se houver qualquer problema, buzina e a gente volta em um instante.
Dean abriu a porta e nós dois atrás também. Ajeitei o sobretudo conforme caminhávamos na direção e chequei o crachá no meu bolso. Eu, pessoalmente, estava preocupado com deixar sozinha no carro. Não, não pela possibilidade de ela ser abordada por alguém, mas por algo. Confiávamos nela para manter nosso segredo, mas ela não estava pronta ainda e isso tornava difícil ficar tranquilo naquela situação, mesmo que ela estivesse estacionada na frente do escritório do xerife. Eu estava mais atento ao lado de fora do que ao que estava acontecendo na minha frente.
– Xerife Luke?
– Eu mesmo. – O homem atrás da maior mesa ali se levantou, respondendo a Sam. – Em que posso ajudar?
– Agentes Vaught, Bold e Teich. – Sam continuou a falar e deu a deixa para que levantássemos os distintivos falsos. – Viemos por causa do caso Atwell.
– Atwell? O garoto é problemático, os pais passaram sufoco com ele na adolescência. Já aconteceu antes, ele vai dar as caras eventualmente.
– Mesmo assim, nós gostaríamos de dar uma olhada mais a fundo.
O xerife hesitou mas deu de ombros.
– Tudo bem então, só quis poupar vocês de um trabalho desnecessário mas, se é assim que vocês preferem... Sigam-me.
Sam foi na frente, acompanhando o xerife, que estava indo para uma parte mais interna do escritório. Eu puxei Dean pelo braço antes que ele fosse junto também.
– Não to gostando da ideia de deixar a lá fora.
– A vai ficar bem, Cas, ela tá na frente da delegacia.
– Isso não significa nada e você sabe disso.
– Cas...
– Eu vou ficar com ela, diga ao xerife que eu precisei atender uma ligação se ele perguntar qualquer coisa.
Não esperei para ver ou ouvir uma resposta de Dean, só dei as costas e comecei a caminhar na direção da saída. olhou desconfiada para mim quando me viu passar pela porta sozinho e fechar antes que outra pessoa chegasse ali. Fui direto até o lado da janela dela, que estava aberta.
– Aconteceu alguma coisa?
– Nós achamos melhor não ficarmos em três lá dentro. – Disse uma verdade pela metade.
Abri a porta do banco exatamente atrás de e entrei.
– E então? O que você acha que é?
– O que eu acho que é o quê?
– O... Caso. Não é assim que vocês chamam? – Ela perguntou. – Dean falou que acha que é um metamorfo porque tem um caso conectado a esse em outro lugar, com as mesmas características, mas que foi atribuído a outra pessoa, e essa pessoa teoricamente tem contato com o investigado daqui.
– Sim, isso realmente faz sentido. E se você quer mesmo se tornar parte disso, tem que entender que é aí que tá a parte mais importante de ser um caçador.
– Como assim? – Ela se virou para olhar para mim.
– A pesquisa. – Respondi. – Faz toda a diferença quando a gente chega no lugar já com alguma ideia em mente, porque aí nós já usamos armas mais direcionadas, entende? Por exemplo, pra um metamorfo, precisamos de prata, então separamos munição de prata.
– Por que vocês não usam tudo de prata então?
– Porque a munição de prata é feita à mão, não tem como ir comprar munição de prata numa loja de material bélico, então não dá pra ter em quantidade. Mas aí temos as facas, que são de prata sim, já que são reaproveitáveis e não são perdidas como as balas.
– Então vocês só trazem prata se a suspeita de vocês for um monstro que se mata com prata? E se a suspeita de vocês estiver errada?
Não, acho que você entendeu errado. Sempre há prata disponível pra uso, nós só não saímos usando de qualquer jeito. Dean, por exemplo, sempre tem uma pistola carregada de balas de prata com ele, Sam também. Eles só abandonam essas armas no carro se já tiverem certeza absoluta do que é e de que a prata não faz diferença.
– Pra que tipo de monstro a prata não faz diferença?
– Changelings, wendigos, rakshasas...
– O que é esse último que você falou? – me interrompeu e perguntou.
– É um tipo de demônio, está ligado à mitologia hindu. Comem carne humana, especificamente de crianças. Têm alguns outros hábitos bem estranhos, mas são metamorfos também, o que significa que eles podem adotar diferentes formas. Além disso, eles podem se tornar invisíveis e não podem entrar em uma casa sem serem convidados, como no mito principal que criaram sobre vampiros.
– Como se mata um desses?
– Bronze.
– São coisas bem específicas... – observou. – Como ter todas elas ao alcance?
– No bunker, onde você esteve, temos espaço suficiente pra guardar um pouco de tudo.
Ela suspirou, olhou para o espaço vazio ao meu lado no banco e voltou a olhar para mim.
– Por que o Sam perde a paciência quando eu faço esse tipo de pergunta? Eu to aqui te enchendo o saco e você respondendo tudo com a maior paz...
– Você não está me enchendo o saco, . E o Sam é o Sam. Ele é mais amargurado que o irmão, embora nunca vá admitir, e certas coisas nele são bem difíceis de se entender. Dean é o único que consegue lidar perfeitamente com ele, ou o mais próximo do perfeito possível.
– Entendi. – Ela murmurou e virou de volta para a frente. – O que há de errado com o Dean?
– Do que você...
– Ela anda estranho. – me respondeu sem me deixar terminar.
– Pode definir sua concepção de ‘estranho’ para mim, por favor?
De repente, senti que aquela mulher confiava mais em mim do que nunca. Aquele era um grande objetivo alcançado, fazer com que ela entendesse que nem todos os anjos eram ruins. Eu queria ajudá-la e acreditava que, me mostrando alguém de confiança, seria extremamente útil. Pensei que dar corda àquela conversa era importante para aquilo. Enquanto eu pensava sobre isso, hesitava em me responder.
– Ele consertou o balanço na beira do lago, ajeito o sapê da ilha, andou regando aquelas flores perto da entrada da casa... – suspirou. – De repente, qualquer comentário que eu faça sobre “queria fazer isso” ou “seria legal se acontecesse aquilo”, ele vai lá e faz.
– Bem, Dean é assim. A casca dele é dura, como se precisasse reafirmar sua masculinidade em tudo, mas ele é mole e sentimental por dentro.
– Você acha que...
A pergunta que estava formulando foi interrompida pelo som da porta do escritório do xerife batendo. Sam e Dean andaram rapidamente até o carro, ligou imediatamente. Enquanto dava ré para manobrar, olhou para mim pelo retrovisor. Eu assenti e torci para que ela entendesse o que eu havia dito sem palavra alguma da mesma forma que eu a tinha entendido.
– É o seguinte... – Sam começou a explicar, com as folhas do caso nas mãos. – Disseram que fizeram uma busca na casa do cara e não encontraram nada. Só que o próprio xerife disse que ele já passa a perna na polícia há anos e sempre se safa de alguma forma. Eles podem ter desistido ou simplesmente não se esforçaram em procurar, já que o Atwell já sumiu antes.
– Mas ele nunca sumiu sem avisar a mãe que era pra ela não se preocupar.
– A polícia acha que ele esqueceu. – Sam deu de ombros e virou uma folha. – A conexão entre ele e Carter Bristol que é curiosa. Os dois, teoricamente, não tinham motivo para se conhecerem. Moram a dois estados de distância um do outro, têm gostos peculiares totalmente divergentes entre si... Não há registro nenhum de que os dois tenham se falado antes disso, então por que iriam acampar juntos?
– Metamorfos mudam de rosto, certo? – perguntou e Sam respondeu afirmativamente. – E se eles forem a mesma... Coisa?
– Faz sentido. – Dean disse.
– Mas aí a linha do tempo seria: Bristol sempre foi um e agora tomo o lugar de Atwell.
– Então onde o Atwell real estaria?
– É o que vamos descobrir. Não tem ninguém na casa dele, então devemos ter algum tempo de vantagem. – Sam concluiu. – , encosta na casa azul ali na frente, por favor.
Nós paramos e, dessa vez, saímos os três do carro novamente, deixando novas instruções para . Eu ainda estava preocupado, mas era uma pessoa “normal”. Digitais suas poderiam ser rastreadas, material genético também. Além disso, nós sabíamos bem como fazer uma busca e precisávamos ser rápidos, podia ser um atraso e eu podia ser um adianto. Estava certo de que tudo correria bem ao menos ali, parecia ser um caso de fácil resolução e do tipo que não tinha complicação no seu desenrolar.
Eu estava na cozinha, revirando algumas gavetas. Ouvi um barulho estranho vindo da porta da entrada, mas continuei fazendo o meu dever. De repente, ouvi um tiro. Nós três disparamos para o lado de fora da casa. estava apoiada no carro, a arma ainda na mão e com um corpo aos seus pés.
– Desculpa, desculpa, desculpa...
– Ei, você tá bem? – Dean se aproximou dela correndo.
– Vocês disseram que não tinha ninguém na casa, aí entrou um homem com uma cara e saiu no mesmo instante com outra, vocês explicaram o que era...
Dean deu uma boa olhada no corpo e depois se virou para mim e para o irmão. Por fim, voltou a olhar para .
– Parabéns, , você acaba de derrubar o seu primeiro vilão! – Ele disse em tom comemorativo para uma ainda assustada.


Capítulo 16

Sam.

– Ok. Chequei com todo mundo, não foi ninguém.
– Tem que ter sido alguém.
– Pode ter sido Miguel. – Dean disse. – Afinal de contas, o viu.
– Nós temos que considerar a possibilidade de ter sido uma alucinação dela.
– Sim, eu sei, mas...
Dean parou de falar e começou a olhar alguns dos livros espalhados em cima da mesa. Ele olhou pela janela, para o caminho por onde iria nos encontrar, porque certamente ali seria seu primeiro – e correto – palpite.
– Quando nós achamos que Miguel tinha finalmente me deixado em paz, eu tive alucinações também. E se isso significa que estamos errados nessa como estávamos no meu caso? E se isso significar que Anael não foi embora de vez?
– Então nós estamos considerando que isso, de fato, foi Anael quem fez? – Apontei para as fotos da notícia aberta no notebook, mostrando as dezenas de corpos com os olhos queimados em um supermercado não muito distante de nós.
– E o tal do Carter? – Castiel perguntou. – É outro ponto que eu acho que estamos ignorando aqui.
– De acordo com o sistema dos federais que eu acessei, o celular dele foi conectado a uma torre de sinal que fica na esquina da rua desse supermercado.
– Espera... O cara não existia. De repente, ele surge, alegando ser noivo de e procurar por ela.
– Só que, quando ele começou a procurar por ela, já estava teoricamente livre de Anael e com a gente, mas ela estava com Dean já havia semanas quando ele também estava sendo possuído por Miguel. Ou seja... Ela já estava desaparecida por um bom tempo. – Concluí.
– Merda! – Meu irmão deu um soco na mesa. – Nós deixamos o cara entrar!
– Dean, ele passou pela proteção, e eu teria visto se o cara tivesse um anjo dentro dele.
– Tem algum furo aí, Cas.
– Olha só, eu acho melhor a gente se acalmar um pouco. – Sugeri. – Eu vou tentar rodar a imagem dele por mais alguns programas de reconhecimento facial, nunca é demais. Mas se essa é a nossa suspeita, eu acho melhor a não ficar sozinha enquanto não solucionarmos esse problema.
– Eu vou lá. – Dean se apressou a dizer e saiu correndo pela porta da cabana.
Eu sentei na frente do notebook de novo e fiquei olhando para ele como se fosse me dar a solução. Havia muito a se fazer mas, ao mesmo tempo em que eu parecia ter mil teorias possíveis, sentia que não tinha nada.
– Você acha que ele é? – Castiel me perguntou.
– Que ele é o quê, Cas?
– Anael.
Coloquei os dois cotovelos na mesa, juntei as mãos e apoiei meu rosto nelas.
– Eu não sei, Cas. Temos que trabalhar com todas as possibilidades.
– Acho que eu poderia procurar melhor com informações menos vagas. Se você puder me enviar a foto do cara, eu posso ver se alguém reconhece.
– Vou enviar quando rodar nos outros programas de reconhecimento facial.
– Sam?
Eu conhecia aquele tom de voz. Castiel sempre adotava um tom de voz diferente quando ia dar um sermão em alguém. E aquele era definitivamente o tal tom de voz. Eu não estava com o menor humor para escutar Castiel falar sobre qualquer coisa, mas também sabia que isso não ia impedí-lo de continuar.
– Sei que você tem seus problemas com , não tiro sua razão em ter dúvidas a respeito do que seu irmão decidiu fazer sem hesitar. Mas isso é importante não só pra ela, Sam. Imagina quantas pessoas Anael não machucou usando a como marionete. Talvez mais do que Miguel quando usou seu irmão. Não é só sobre família, é sobre todas as outras pessoas que sofreram com o que aconteceu e sobre as que podem sofrer caso não resolvamos isso.
– Eu entendi, Cas, obrigado.
– Será que entendeu mesmo?
O tom de voz dele era desafiador e eu não gostava.
– Você tá tendo algum problema comigo?
– Não sei, deveria perguntar ao seu irmão.
– Estou perguntando pra você. – Insisti.
– Ah, você está falando sobre como anda sendo um babaca com Dean e com quando nenhum dos dois têm culpa de você estar sem humor pra lidar com a situação?
– Castiel...
– Se você não quer estar aqui, não esteja. – Ele não me deixou falar. – está mais forte do que nunca, e seu irmão é um ótimo caçador. Volta pro bunker, se é isso o que você tanto quer. Mas você aqui, com essa cara de quem comeu e não gostou, não está ajudando em nada, muito pelo contrário.
Irritado, Castiel saiu da cabana batendo pé. Eu fiquei ali alguns segundos ainda, com metade da mente tentando processar as palavras que ele tinha acabado de falar e a outra metade tentando apagar elas da minha memória. Sempre que Castiel ficava irritado, todo o resto ficava confuso. Então eu acordei do transe e comecei a tentar rodar os programas de reconhecimento facial do país inteiro, separando os de jurisdição estadual, como os departamentos de trânsito, e os federais, como o banco de dados dos criminosos fichados pelo FBI.
Deixei o notebook rodando um dos programas, que era pesado para as configurações do notebook e demandava mais tempo e paciência que os outros, e fui até a geladeira. Peguei uma garrafa de leite, juntei a um bom tanto de cereal que coloquei em um bowl e comecei a comer, encarando a tela do notebook à distância. Olhei pela porta para além do lago, na casa. Havia movimentação visível perto das janelas, mas eu só ignorei. O notebook emitiu um som, que eu logo fui checar. O programa não havia encontrado nenhum registro compatível com o que eu tinha, então coloquei outro para rodar, riscando o primeiro da lista que eu tinha feito manualmente em um bloco de notas pequeno que carregava comigo.
Parecia que eu tinha um anjinho e um diabinho, um em cada ombro meu. O anjinho mandava eu repassar as palavras de Castiel e procurar sentido nelas. O diabinho falava que eu tinha que desconfiar mais, que tinha muito ponto estranho naquela história toda e que podia ser algo que não imaginávamos. Nada tinha lógica. Tudo o que eu queria era conseguir parar, pensar e chegar a uma conclusão por conta própria que não parecesse parcial. Estava perdendo o que me fazia ser um bom caçador e não estava gostando nada daquilo.
– Bobby, eu preciso de ajuda. – Liguei para a única pessoa que eu achava que poderia me ajudar de verdade.
Fala. Do que você precisa?
– O caso em Camden. Você já tá sabendo?
Todo mundo tá sabendo, Sam, só falam nisso.
– Sabe se alguém foi atender? – Perguntei.
Aquele casal, Dale e Marjorie. Eles avisaram por aquele sistema que você ensinou. O que está havendo, Sam?
– Achamos que pode ter conexão com o problema que meu irmão tá tentando resolver. – Sentei de novo à frente do notebook. – O nome Henry Carter estala alguma coisa na sua cabeça?
Não, nada.
– Eu vou enviar uma foto e o nome para você, estou fazendo isso agora. Pode repassar para Dale e Marjorie e pedir que entrem em contato se cruzarem com qualquer informação que tenha a ver com os dados que eu vou enviar?
Claro, ficarei no aguardo.
Fiz o que tinha dito que faria e continuei rodando todos os possíveis programas de reconhecimento facial que havia listado enquanto pesquisava a existência de outros. Só havia um problema. Esses programas eram pesados e meu notebook não era tão bom. Perto da hora do almoço, eu estava distraído quando o notebook fez um barulho mais alto e simplesmente desligou. Comecei a tentar ligar novamente, mas não funcionava. Testei o carregador, mas ele já estava conectado antes e a bateria estava cheia. Mexi em tudo que podia em total estado de desespero. Foi assim que Dean me encontrou quando ele voltou à cabana.
– O que houve, cara?
– O notebook parou.
– Você tinha encontrado alguma coisa de útil antes, pelo menos?
– Não, nada. – Eu desisti. – Vou ter que ir no bunker.
– Não tem como esperar? Nós precisamos de uma ajuda sua.
– O quê?
– Compras. – Dean disse após me estender um pedaço de papel.
Bufei. Não estava no humor. Não havia progresso e eu tinha acabado de perder uma ferramenta importantíssima. Mas eu estava tentando ser neutro, imparcial, então só aceitei, peguei o carro e saí. Pelo menos, seria alguma coisa diferente para ocupar a minha cabeça. Se eu fosse uma chaminé, estaria saindo fumaça por todos os lugares possíveis, e a fumaça seria preta.
Quando voltei à fazenda, não encontrei ninguém na cabana, então desci para a casa. Dava para ver pela janela que Castiel não estava por lá e Dean estava ajudando , que certamente estava liderando o fim da preparação do almoço. Por um segundo, eu visualizei o que seria de Dean sem a vida de caçador que nosso pai praticamente impôs a nós dois. Eu me vi também. Lembrei de Jess e de tudo o que nós tínhamos planejados antes de ela ser brutalmente assassinada.
Por mais que o diabinho quisesse negar, aquela visão me trazia esperança, mesmo que fosse extremamente difícil imaginar Dean deixando aquela vida. Caçar era o que ele mais amava desde sempre. Quando eu tentei sair, ele me puxou de volta. Pensei se não tinha raiva reprimida dele por conta disso – e provavelmente tinha mesmo.
– O que você tá fazendo aí? – Castiel surgiu do nada ao meu lado e me deu um susto.
– Nada, só...
Castiel olhou para dentro da casa, pela mesma janela que eu estava usando. Eu esperei um discurso sobre espiar os outros ou algo sentimental sobre justamente o tema que estava na minha mente, mas Castiel só deu de ombros e seguiu na direção da porta de entrada. Castiel ser um pouco lerdo, às vezes, era uma benção.
Eu o segui e coloquei as sacolas de papel em cima da bancada quando entrei. A mesa de jantar estava já arrumada para o almoço, então não quis atrapalhar.
– Sammy, chegou na hora. – Dean me notou.
– Não tinha o chocolate da marca que você colocou na lista, eu trouxe outro.
– Sem problemas. – respondeu baixinho. – Dean, você pode colocar a panela na mesa?
Meu irmão prontamente atendeu ao pedido de . Eu me senti deslocado no cenário, como se fosse um mero observador e não estivesse ali, presente, fazendo parte da cena em si. Era bem claro que a minha presença ali não era tão importante quanto eu achava que era ou que deveria ser.
– Quer que eu guarde as compras? – Dean perguntou a .
– Não, pode deixar pra depois do almoço.
Nós sentamos para comer logo depois. Estava espiando o que tinha nas panelas quando o meu telefone tocou. tinha prazer por aquele costume, por sentar à mesa como se fosse uma família. Para mim – e para Dean, com certeza –, era estranho, simplesmente porque o significado de ‘família’ era um pouco deturpado para nós dois. Quando olhei o identificador de chamadas, entrei em estado de alerta.
Sam?
– Oi, Bobby. Sou eu, pode falar.
Dale acabou de me ligar. O seu cara é uma das vítimas.
– O quê? – Falei fino demais, o que chamou a atenção dos outros três, então comecei a me afastar porque ainda não tínhamos decidido sobre o tanto que saberia da nossa investigação. – Como assim? Isso não faz sentido!
Bem, eu não estou lá, então só estou repassando informações. O cara estava perto da porta de entrada, caído no chão.
– Então Henry Carter está morto. – Concluí.
Não, é aí que você se engana. – Bobby bufou do outro lado da ligação. – O nome dele não é Henry Carter, é Timonthy Bonner. Morador de Raymondville, no Texas. Era piloto de uma empresa de fretamento de jatos particulares. E tem uma coisa sobre ele... O legista disse que a única alteração diferente entre ele e as outras vítimas eram as órbitas oculares queimadas. Ele não tinha. Mas morreu ao mesmo tempo em que todos os outros e todas as outras alterações post mortem são compatíveis com as outras vítimas.
– O que seria explicado se ele estivesse sendo possuído por um anjo. – Murmurei.
É essa a sua hipótese?
Pensei, pensei e pensei. A minha cabeça estava uma confusão só.
– Bobby, eu te ligo depois. Mas obrigado pela informação.
Desliguei o telefone e corri de volta para onde Dean estava. Precisávamos conversar com urgência.


Capítulo 17

.

A pior coisa do mundo é escutar um ‘precisamos conversar’ e a tal conversa não ser na hora. Dean garantiu mil vezes que eu não estava encrencada nem havia feito alguma coisa errada, mas eu estava corroendo por dentro. Cheguei até a ficar com raiva dele, e era completamente justificável – ai de quem falasse o contrário. Afinal de contas, qual era a necessidade de falar um ‘precisamos conversar’ se nada vai ser dito naquele instante? Só faltava eu cuspir fogo, porque toda a raiva além disso estava certamente em mim. Dean se colocou na reta de tiro quando optou por fazer aquilo comigo.
Se eu estivesse observando a cena de fora, provavelmente iria rir porque sabia que estava fazendo tudo com raiva. Até ao respirar, eu estava sendo mais intensa e menos leve. Cada ação exigia mais de mim do que normalmente exigiria e não era de propósito. Coloquei as panelas em cima da bancada agredindo o mármore. Poderia ter quebrado o registro da torneira da cozinha se tivesse apertado mais na hora de abrir para lavar a mão. E nem considerei o quão forte eu acionei a alavanca da descarga do banheiro, ela não quebrar foi definitivamente o maior milagre daquele dia. Mas a melhor descrição para aquele dia era que eu estava travada e com raiva de todo mundo.
Sam surgir no meu campo de visão não facilitou as coisas. Eu estava tenho muitas dúvidas quanto a ele por conta de seu comportamento, que não parecia em nada com o Sam de quando eu estava acamada, e por conta de como ele agia claramente de forma diferente perto de mim quando eu chegava perto de onde ele estava com o irmão ou Castiel. Não queria saber o que ele tinha contra mim, para falar a verdade, só não queria que ele não ficasse por perto, mas isso parecia impossível. Com isso, eu só cavava mais ainda a minha cova.
Devia ser a TPM, só podia ser a TPM. Era a minha aposta. Estava finalizando o almoço com os olhos nas panelas mas a mente fazendo contas para saber quando eu iria ficar menstruada de novo, procurando por lógica no meio daquela loucura toda. A gota d’água foi misturar o frango com tanta força que parte do molho voou em mim. Por sorte, eu estava usando avental e a maior parte da sujeita foi contida por ele. De qualquer forma, senti que aquilo foi o meu limite. Segurei a beirada da bancada com força, respirei fundo algumas vezes e fiz uma promessa para mim mesma, alegando que não iria mandar ninguém ir à merda naquele dia. A julgar pelo meu humor bem peculiar, não era uma promessa tão fácil de ser cumprida.
– Castiel, você pode ir na horta pegar manjericão, por favor?
– Eu peguei bastante ontem quando você pediu. – Dean falou. – Você já usou tudo?!
– Já. – Respondi de costas, disfarçando para não notarem que eu estava bufando.
– Não tem problema, eu vou lá.
Assim que a porta bateu, eu me virei para Dean.
– O que você tem pra falar? – Fui direta.
– Sobre o quê?
– Como ‘sobre o quê’?! – Debochei. – Você falou ontem que precisava conversar comigo e, até agora, nada.
– Ah, isso...
– É, Dean, isso!
Ele sorriu por um momento mas, logo depois, o sorriso morreu em seu rosto. Ele olhou para a porta e, depois, para a janela.
– Foi pra isso que você dispensou o Castiel?
– Com ele aqui, eu não iria conseguir te encurralar. E Sam já deu uma saída de qualquer forma, então eu precisava aproveitar o momento.
– Ele pode saber do assunto. – Dean disse e encostou na bancada da ilha, perto de mim. – Na verdade, ele já sabe.
– Sam também?
– Sim.
– Então eu sou a mulher traída? A última a saber?
– Nós vivemos isso desde que éramos crianças, , você... – Dean fixou um ponto qualquer no teto antes de olhar para mim novamente, como se procurasse boas palavras. – Você pode ter sofrido muito, eu não nego, sou testemunha disso. Mas você, felizmente, não sabe de metade do que já vivemos.
– O que temos que conversar é sobre mim?
– É, definitivamente.
– Então não me importa o que você viveu ou deixou de viver com seu irmão. Se diz respeito a mim, é meu direito saber.
– Justo. – Ele deu de ombros e apoiou as mãos na bancada. – Lembra do homem que veio aqui alegando ser seu noivo antes de você desaparecer?
– Claro.
– Ele não era quem dizia ser e acreditamos que ele podia estar possuído por um anjo quando veio aqui.
– Por quê? – Perguntei após engolir em seco.
– Resumindo os detalhes pra você não saber mais do que precisa, o corpo foi encontrado, morto, com sinais de que havia sido possuído por um.
– Eu quero saber dos detalhes!
– Não quer, .
– Quem é você pra dizer o que eu quero ou não?
...
– Eu quero saber, Dean! – Protestei mais uma vez.
– Ok, ok. – Ele finalmente cedeu e respirou fundo. – Foi encontrado junto a dezenas de outras vítimas, o negócio foi feio. Mas como ele morreu... O anjo que estava dentro dele não foi morto também, e não temos poucos por aí nos dias atuais por causa de mil eventos que aconteceram de uns tempos pra cá. Castiel fez uma varredura, acreditamos que só pode ser...
– Anael. – Completei com a voz baixa, a garganta repentinamente seca e o corpo inteiro murchando. – Ele realmente ainda tá vivo.
, não vou deixar que nada de mal aconteça a você.
– O que eu posso fazer? – Respondi imediatamente, levantando o olhar até o dele.
Você, nada. Nós vamos cuidar disso.
– Eu tenho que poder fazer alguma coisa! – Discordei de Dean. – É a minha vida que tá em perigo. Se eu não puder fazer algo a respeito...
– Você pode, só não agora, ok? – Dean colocou uma mão no meu braço.
– Então quando?
– Guarda essa vontade de lutar pra depois, porque você vai precisar.
– Mas quanto mais cedo...
– Aqui, não trabalhamos com lógica. – Ele me interrompeu. – Não dá pra correr contra o tempo, nada faz sentido. Pode ser difícil pra você entender isso, e eu compreendo que você não entenda, mas preciso te fazer um pedido. Confia em mim, mais essa vez. Por favor.
Eu não respondi nada. Não quis levantar o olhar até o dele novamente porque sabia bem que tipo de olhar ia encontrar e não gostava do efeito que ele tinha em mim quando fazia aquilo. Fiz que sim com a cabeça e saí de perto dele no exato momento em que a porta foi aberta. Almoçamos em um silêncio sepulcral. Deixei claro que queria lavar a louça sozinha, ter um momento comigo mesma. Nesse ponto, não estava mentindo. Mas pouco tempo depois de terminar, eu senti que não estava mais sozinha. Estava tão frustrada ainda que não senti o menor medo.
– Ei, ...
– O que foi? – Respondi Dean, revirando os olhos e bufando pela milésima vez no dia.
– Você falou que queria ajudar... Tem como.
Eu sentei à mesa e, com o notebook que Dean havia passado para mim, comecei a fazer o que ele tinha orientado. Não sabia muito além do básico de pesquisas. Pensei nisso porque eles pareciam serem muito melhores que eu naquilo de cavar por informações. De qualquer forma, eu não podia ficar de fora, tinha que fazer alguma coisa a respeito, e sentar ali para ajudar nas pesquisar era no que eu mais podia ajudar naquele momento de acordo com eles, então era o que eu iria fazer.
Começar a procurar informações na minha própria cabeça era um bom começo, mas toda e qualquer memória que eu tentava resgatar do passado estava turva demais para que eu tirasse alguma coisa dela. Qualquer coisa. Eu nem estava sendo exigente demais, considerava lucro toda e qualquer coisa que viesse à tona como novidade, mas parecia que, quanto mais fundo eu tentava mergulhar na minha própria memória, menos visibilidade eu tinha.
Pesquisar meu próprio nome no Google era estranho. Primeiro, comecei por algo simples. Depois, fui adicionando termos. Descobri que a fazenda era bem mais próspera do que eu me lembrava, e isso explicava muita coisa que estava acontecendo desde que eu voltara para casa, como os caminhões que levavam o gado eventualmente e os negociadores que pediam minha conta bancária para depositar o pagamento referente à compra dos animais. Para tudo, eu apenas assentia. A verdade era que eu não estava entendendo nada e, quanto mais eu sabia, mais eu ficava perdida dentro da minha própria alma.
– Vocês querem água, refrigerante, cerveja...? – Sam perguntou ao se levantar algum tempo depois de começarmos nossa pesquisa em conjunto.
Eu me limitei a negar com a cabeça. Estava imersa na leitura interessante de uma matéria jornalística que tratava do relacionamento entre meu falecido pai e o antigo prefeito local. Não parecia ser nada interessante para o caso. Eu bufei, fechei a página e, por reflexo, olhei para Dean. Foi quando meu coração errou uma batida quase imperceptível, mas o suficiente para alimentar pensamentos que nada tinham a ver com o motivo pelo qual eu me encontrava ali, sentada – suficiente também para fazer toda a minha raiva passar repentinamente, sem a menor lógica, da mesma forma que ela se instaurou.
Quanto mais tempo eu passava com Dean, mais eu gostava de conhecer suas peculiaridades. Ele era, de fato, a pessoa mais diferente que eu já havia visto na vida, e tinha manias inacreditáveis. Eu me peguei sorrindo sozinha só de pensar no quanto tinha começado a reparar mais nele naqueles dias. Nos olhares, no carinho singular, em cada ação diferenciada que Dean vinha promovendo já havia um bom tempo. E mais uma vez, eu tinha que confessar: negar que Dean era um baita homem era algo que eu não era capaz de fazer – até porque era impossível.
Não era só pela memória falha, eu realmente sentia que ninguém jamais havia cuidado de mim tão bem quanto Dean. Podia ser muito estranho que eu me sentisse dessa forma a respeito de alguém que havia conhecido em condições tão particulares, e eu nem sabia exatamente como aquele sentimento começara a nascer, mas devia constatar sua existência. Dean se tornou parte de mim antes mesmo que eu me desse conta. Ele, com todo o seu carinho, tinha feito toda a diferença na minha vida.
De repente, senti que havia um par de olhos sobre mim. Sam não havia voltado, Castiel não estava por perto, só havia uma pessoa que podia ser dona daquele olhar. Conforme o tempo passava e eu continuava consciente de que era vítima de sua observação, sentia minhas bochechas ficarem cada vez mais quentes. E tão rápido quanto a sensação veio, ela foi embora e fez com que eu levantasse meu olhar até ele. Continha um sorriso com os lábios apertados e eu fiquei hipnotizada.
Não consegui desviar o olhar nem por um segundo e, lentamente, um sorriso começava a se formar em meu rosto. Dean, subitamente, levantou o olhar de novo e nós acabamos dando um encontrão no meio do caminho. Sorrimos um para o outro e eu apostaria a minha vida que tinha algo a mais naqueles sorrisos. E nem assim eu desviei. Nem eu, nem ele. Ficamos trocando um olhar tão intenso quanto as borboletas que estavam dando socos no meu estômago. Quando, por fim, desviei o olhar – fui a primeira a fazê-lo –, o sorriso não se dissipou. Irracionalmente, de alguma forma, eu esperava que Dean se sentisse da mesma forma que eu naquele instante.

Sam.

Eu observei a cena do batente da porta. Suspirei não por inveja. Mais uma vez, eu queria que meu irmão tivesse aquela vida. Mas fiquei ponderando sobre o que podia estar por trás daqueles sentimentos – e sobre quais eram de fato aqueles sentimentos. Eu queria o melhor para o meu irmão, mas temia por nós dois. Sabia que muita coisa ruim estava por vir, e sabia também que um romance era inadmissível àquela altura porque não podíamos ter distrações, fossem elas de qualquer natureza.
Decidi dar meia volta e demorar mais na cozinha. Eles pareciam que eram feitos um para o outro, não dava para esconder isso. Havia conexão, o que afastava algumas das minhas dúvidas quanto a . Mas então o problema era outro, fazer Dean estar com a cabeça totalmente focada em resolver o caso de uma vez por todas. Eu temi pela iminente necessidade de agir de forma drástica a respeito daquilo.
Então fiz a única e possível conclusão a respeito daquele assunto: Dean e não podiam existir como um casal.


Capítulo 18

Dean.

Eu andei pra um lado. Abri a boca, não falei nada. Andei de volta para o outro lado e ainda não conseguia montar uma resposta decente.
– Você vai fazer o quê a respeito disso?
– Eu não sei, Cas.
– Algo tem que ser feito.
– Sei disso.
– Então por que você não vai lá e faz?
– Porque não é assim, Castiel. – Eu quase briguei com ele. – Você não tem emoções humanas e, quando passou perto de ter... Meu Deus, nem gosto de lembrar.
Balancei a cabeça rápido para afastar a memória. Então eu andei para o outro lado de novo. A qualquer hora, iria acabar caindo no lago. Olhei para dentro da casa, de onde estava e vi pela janela. Meu coração acelerou um pouco no mesmo instante. Não dava para acreditar que eu estava com praticamente quarenta anos e passando por aquilo. A sensação era tão estranha que dava arrepios. Irônico, não?
– Você gosta dela.
– Eu só devo estar sem mulher faz tanto tempo que...
Quando olhei para Castiel de novo, ele tinha um sorriso tão estranho no rosto que eu perdi a fala. Eu podia certamente ter ficado com medo daquilo.
– Não posso gostar de ninguém, Cas.
– Mas se aconteceu o que você tá dizendo que aconteceu, é recíproco. E não é de hoje que eu noto que vocês dois se dão muito bem.
– Sabe o que meu pai diria se me visse numa situação dessa?
– Na verdade, não faço a mínima ideia, não conheci seu pai.
Bufei. Olhei para Castiel com vontade de socar a cara dele.
– É, idiota, eu sei.
– Mas o que ele diria então?
– Que eu sou um idiota e que to me metendo onde não devia.
– E você acha isso?
– Acho.
– Então dá um fora nela.
– Não posso, Cas.
– Por quê?
– Porque eu me importo com a , oras. – Resmunguei e sentei no banco de madeira perto da beira do lago. – Se a gente for embora, as chances não são boas pra ela.
– Eu sei.
– Você não tá ajudando.
– Bem, como você mesmo disse, é complicado eu entender, já que eu não sei exatamente nada sobre os tipos de sentimento que você está tendo agora.
– É distração, Cas.
– Eu posso não ter experiência amorosa, não saber nada sobre sentimentos, mas você ficar se atormentando por causa disso também é distração.
A fala dele foi tão profunda e tão verdadeira que eu me assustei. De novo.
– Ok, você me pegou.
– Se gosta dela, por que não fala? O que pode dar errado?
– Ah, Cas, muita coisa.
– A garota viveu maus bocados, duvido que qualquer coisa desse tipo possa ser prejudicial.
– Ela é quase dez anos mais nova que eu, essas coisas não são simples.
Castiel riu.
– Seu problema é a idade?
– Não.
– Ainda bem, porque você já viu tanto problema por aí que seria, no mínimo, engraçado você estar com medo disso. Mas espera... Você com medo disso. – Ele falou, debochando.
Esfreguei os olhos e respirei fundo.
– Acho melhor a gente entrar, ela pode precisar de ajuda com o almoço.
Fomos até a porta da casa, entramos sem bater. estava lavando alguma louça quando eu passei pela porta. Ela olhou para trás, sorriu rápido e voltou ao que estava fazendo. Sam continuava sentado no lugar onde estava, com o notebook no colo. Quando notou que eu estava de volta, tratou de desligar o aparelho.
– Dean, a gente pode conversar?
Lá vem. O tom de voz era estranho. Ficou um silêncio bem constrangedor no ar até que fechou a torneira da pia e limpou as mãos no pano de prato.
– Recado entendido, intrusa se retirando. – Ela disse e fingiu um sorriso. – Cas, você pode me ajudar lá na horta?
– Claro!
Os dois saíram pela porta. Eu sentei no outro sofá e fiquei esperando Sam falar o que queria. Ele ficou olhando para ver se os dois estavam mesmo afastando-se da casa.
– Que sutil, fazer a dona da casa se sentir uma intrusa...
– É assunto sério.
– Fala logo então.
– Eu estive pensando... Você acha que Miguel foi embora de vez de você, mas jura que viu você lá no meio do mato quando claramente você não tava lá.
– E...?
– Você ficou bem por um tempo quando Miguel te abandonou da primeira vez, depois teve alucinações. Nós concluímos que ela pode ter tido alucinações também e que não era Miguel lá, e sim Anael mexendo com a cabeça dela, certo?
– Onde você quer chegar, Sam?
Ele bufou e ajeitou a postura no sofá.
– São só teorias, ok? – Sam disse. – Você disse que Miguel estava construindo um exército com vários tipos diferentes de criaturas. Eu mesmo vi, com meus próprios olhos, parte disso. E Anael esteve com Miguel. Por que estamos descartando a possibilidade de Anael estar dando prosseguimento ao que Miguel começou a fazer?
– Ele precisaria de sangue de arcanjo pra isso, ele não é arcanjo.
– Como nós sabemos que Miguel não deixou uma reserva?
– Não sabemos. – Dei de ombros.
– Miguel queria criar o caos no mundo construindo essas supercriaturas, mas ele não dava a mínima pra ser ele ou não o responsável por isso. Ele gostava de estar no comando, mas o caos era a prioridade dele.
– Onde você quer chegar?
– E se ele deixou uma reserva, Dean? – Sam perguntou.
– É muita especulação, até mesmo pra gente.
– Não é isso o que fazemos? Especular até acertar? – Ele falou e eu fiquei pensando no que tinha acabado de escutar por uns instantes. – E se Anael tiver tomado a frente? Se ele estiver orquestrando tudo o que Miguel planejou? Nós precisamos nos preparar pro pior, Dean. As coisas não estão muito boas pro nosso lado, não sei se você já notou.
– Também não dá pra entrar em pânico.
– Vamos cruzar os braços e esperar então?
– Não, claro que não.
– Eu acho melhor a gente ir pro bunker, sentar com o Bobby, conversar melhor sobre isso... Ele vai entender, ele tem experiência. Pode ser benéfico.
– E a ?
– Castiel pode ficar aqui com ela. – Ele falou como se fosse óbvio.
– Um só protegendo a não é exatamente segurança, ainda mais se nosso palpite principal é que Anael ainda pode voltar.
– Posso estar errada, mas o cara da previsão do tempo bebeu todas quando disse que aqui ia fazer sol intenso o dia inteiro. – disse quando entrou na casa, vindo da horta com Castiel, encerrando o assunto entre eu e meu irmão na mesma hora.
– Como assim?
– Tem umas nuvens chegando, bem rápido até... O mundo vai acabar em chuva e nós vamos morrer afogados em questão de minutos.
A luz que acendeu sobre a minha cabeça foi a mesma que acendeu sobre a cabeça do meu irmão. Ele olhou para mim na mesma hora e eu soube que tinha algo de errado. Não fazia o mínimo sentido aquela virada de tempo repentina, ainda mais naquela época do ano, quando chuvas eram raríssimas na Louisiana. Já levantei pegando na arma. Nem nem Castiel notaram o que nós já estávamos raciocinando e tomaram um susto quando viraram na nossa direção.
– O que tá acontecendo? – gritou.
– Pega o que tiver de comida, vai pro abrigo contra furacão. – Eu disse, olhando pela janela e para as nuvens estranhamente escuras que realmente aproximavam-se muito rápido. – Vai!
– Dean, o quê...
Não pode entrar em pânico nunca hora dessas, caralho.
Eu reagi, porque alguém precisava. Abri as portas do armário, comecei a pegar todo tipo de comida pronta e consumível que pudesse encontrar. Fui entregando na mão de Castiel e de , que ainda estava estática mas não demorou a reagir. Sam foi pegar água com dois garrafões. Eu já fiz as contas e pensei em encher panelas também. Então Castiel voltou, ligando as luzes logo em seguida porque estava ficando muito escuro.
– Lá tem algumas coisas. Comida enlatada, algumas fora da validade mas outras não. E tem torneira.
– A gente não sabe de onde vem a água.
– Vem do chão. – voltou, estava quase transparente de tão pálida. – Do lençol freático que abastece tudo aqui.
– Pode ficar contaminada, a gente ainda não sabe o que tá acontecendo aqui. – Sam alertou.
– Ok, melhor levar água de qualquer forma. Sam, as armas.
– To indo pegar.
esperava que eu desse mais ordens enquanto Castiel olhava pela janela.
– O tempo tá curto.
– Quanto? – Perguntei.
– Minutos. Poucos.
– Demônios?
– Não, impossível.
– Então o que é?
– Boa pergunta. – Ele murmurou. – Onde tem tinta?
– Tinta? Pra quê?!
– Cadeados na porta.
– Sammy! – Gritei meu irmão e fomos todos para o abrigo.
Assim que passamos pela porta, Sam começou a preparar as armas enquanto eu, com a ajuda de um punhal, cavei um buraco pequeno na palma da minha mão. Não era a primeira vez, duvidava muito sobre a possibilidade de ser a última. Pintei, na porta de aço maciço, um símbolo para que demônios não entrassem e outro para anjos. Castiel ficaria protegido ali dentro também e, do lado de fora, poderia ser inútil, já que ele não passaria pela porta se precisasse voltar.
– Castiel, fica com ela e tranca a porta quando eu sair.
– Não! – gritou na mesma hora.
– Você precisa ficar aqui, não dá pra ir lá fora com você.
– Por que ele não vai e você fica? – Ela implorou, pegando no meu braço quando eu já estava para sair pela porta. – Por favor!
– A gente não tem tempo. Mas eu vou voltar, ok?
Tirei o braço da mão dela e saí, seguindo Sam. Tive que fazer, ia ser uma merda se eu ficasse enrolando mais tempo ali. A última coisa que eu ouvi antes de subir foi me gritando mais uma vez.
– Que merda que tá acontecendo, Sam?
– Também não sei.
As luzes todas se apagaram e a luz de emergência na sala de estar acendeu. Engoli em seco. De repente, silêncio incomum. O vento lá fora parou completamente, foi a confirmação de que era algo sobrenatural.
– Tem alguma coisa muito errada, Dean.
– To ciente. – Olhei em volta, dando uma checada no corredor atrás de mim.
Escutar a minha própria respiração, nessas situações, era assustador.
– Vou checar o andar de cima.
– Não tem necessidade. O problema vai vir de baixo.
– Por que você tem tanta certeza?
Não respondi com palavras. Apontei para o lado de fora, pela janela. Tudo estava muito escuro, mas os relâmpagos sem sentido iluminavam a área próxima à cabana do outro lado do lago. Dava para ver, de lá, a sombra de, pelo menos, vinte pessoas. “Pessoas”. Paradas. Ninguém em sã consciência ficaria exposto ao tempo daquele jeito. Eu engoli em seco.
– Demônios?
– O Cas acha que não.
– Não tem como ser anjo.
– A gente não sabe o que tá acontecendo, Sam.
– Vamos sair?
– O que você acha?
Ele respirou fundo.
– Não sei se talvez seria bom esperar no abrigo com os dois.
– Nós podemos precisar sair. Dependendo do que estiver lá fora, podem ficar aqui pra sempre, e a comida e a água vão acabar.
– Merda.
Aos poucos, o vento começou a soprar. A água que caía em forma de algum tipo de chuva batia com força no vidro das janelas e no telhado, fazia um barulho quase ensurdecedor. A luz de emergência ainda era tudo o que nós dois tínhamos. Eu peguei o punhal contra anjos do bolso. Anjos ou demônios, ia servir. Então algo estalou no andar de cima. Sam olhou para mim com deboche, pegando a lâmpada de emergência e desligando para que não fizesse sombra e denunciasse a nossa posição antes da hora. Eu fiquei na retaguarda, entre subir e descer. De repente, ele tremeu. A vontade de perguntar o que houve foi grande, mas o silêncio era prioridade.
Sam virou para trás e indicou que havia visto alguma coisa dentro do quarto onde ele estava ficando. Conseguíamos nos ver entre a iluminação dos relâmpagos. Meu irmão terminou de subir a escada e deu espaço para eu passar. Nós fomos juntos para a frente da porta. Tinha vento entrando por uma janela, era vento frio, totalmente anormal.
Comecei a ouvir um sussurro. Olhei para Sam entre um relâmpago e outro, sabia que ele estava ouvindo também. Demos um passo para a frente, o volume aumentou mas não muito. Ainda não dava para entender. Parecia latim, mas não fazia o menor sentido. Então eu tomei uma porrada e apaguei na mesma hora.


Continua...



Nota da autora: Confesso que até eu fiquei tensa com esse final haha o que será que vem aí?





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