Última atualização: 23/11/2017

Prólogo

Algo muito duro perfurou seu corpo, e apenas com o baque do impacto do objeto, não pode mais mover qualquer músculo, restando somente ficar estirada no chão. A dor que o projétil causava era intensa e necessária, e tinha acertado em um lugar planejado, para que fosse possível que ela nunca conseguisse retirar o corpo de metal estranho de seu corpo.
Seu coração batia mais rápido e muito mais forte, na falha tentativa de bombear o sangue para o resto de seu corpo, mas não conseguia nem lembrar como que o corpo humano funcionava. Suas vias respiratórias ardiam, ela arfava, enquanto ninguém tinha percebido que estava imóvel ao chão.
Algumas lágrimas escorriam de seus olhos, mas ela também não conseguia dizer se era pelo desespero ou pela dor. Poderia ser a mistura dos dois. Ela o viu novamente em pé, apontando o projétil em sua direção, com um sorriso de escárnio.
Ele gargalhava, como se estivesse amando ouvir e ver o desespero dela. Como se o corpo dela fosse apenas um brinquedo para ele, onde ela poderia muito bem “dançar da forma que quisesse.” Ele apontou a arma para ela, agora acertando seu ombro.
Mesmo se recuperando rapidamente, ela sentia toda dor do segundo projétil perfurando seu ombro, ficando preso em seu osso. Ela tentou gritar de dor, mas não conseguiu, afinal, ainda tentava continuar respirando pela garganta, já que seu nariz parecia não funcionar como precisava.
A dor em seu peito era incrivelmente forte, mas não era nada comparada à dor de sentir seu osso se recuperar com uma bala de prata dentro dela. Também já não sabia se o sabor de metal em sua boca era do sangue ou da prata que começara a circular pelo seu corpo. Mas conseguia sentir todas as tentativas que ele tinha para expulsar os dois corpos estranhos.
O homem ria, alucinado com a dor que ela sentia. Ele era mesquinho, fútil e adorava ver os outros sofrerem. Era óbvio que era ele quem estava por trás de tudo aquilo. Era o esquema perfeito, e, com ela morta, ninguém saberia o que tinha acontecido.
Para o golpe final o homem lambeu os lábios, sorrindo novamente. Ele falou com ela, mas tudo o que ela conseguia ouvir era o seu coração batendo , acelerado, assustado com o que estava acontecendo com ela. Ela se virou, enquanto sentiu uma dor agora em seu pescoço.
Pelo menos, era a única coisa que sentia, já que parecia não conseguir mover nenhum músculo, e mesmo com a recuperação, não moveria mais nada, pois o projétil estava acoplado no começo de sua espinha.
Ela sentiu lágrimas escorrerem de seus olhos, misturando com a terra suja de seu rosto, e caindo no chão. Sentiu um desespero em se mover, mas não conseguia fazer absolutamente nada. Só observar o homem escapar.
Conseguiu ouvir ao longe sirenes tocando. Pareciam desesperadas, mas ficavam abafadas quando ela ainda fazia de tudo para continuar respirando e fazendo seu coração bater. Ela também conseguia ouvir as pessoas entrando no prédio, mas era tudo tão longe que não fez nem esforço para tentar chamá-los.
Logo um homem muito peludo apareceu. Seus olhos eram amarelos, suas mãos eram garras e suas costas tinham uma corcunda. Sua camisa estava colada ao corpo e dava para perceber que eram uma mera formalidade para ele. Ele também parecia ter mais de dois metros, e rosnava. Rosnava muito alto. Era alto o suficiente para ela não escutar mais seu coração batendo e ouvir o rosnado dele.
Assim que ele a viu caída, ele voltou à sua forma realmente humana. A camisa ficou larga, os olhos brancos e as garras deram lugar às suas mãos. Ele correu para seu lado, tentando falar com ela, mas não tinha como respondê-lo.
Ela movia os olhos para os dois lados, como se negasse tudo o que ele falava. Seu desejo maior era ser morta ali. Não conseguiria viver mais dessa forma, não poderia viver mais daquela forma. De que adiantava ser uma fábula se ficaria presa em uma cama pelo resto da eternidade?
O homem olhou para os dois lados, confirmando que não tinha mais ninguém por perto. Então voltou seus olhos para ela com piedade. Ele tinha entendido o que tinha acontecido, e sabia que teria que sacrificá-la. Que matá-la seria melhor do que deixá-la presa em um hospital.
Os olhos dele se encheram de lágrimas enquanto suas duas mãos viravam garras novamente, segurando a cabeça dela firme o suficiente para um golpe só. Assim que a deslocou, a moça fechou os olhos, e ele então puxou seu corpo para si, deixando que as lágrimas tomassem conta dele.
Ele sentiu uma mão pousar em seu ombro, e quando olhou para a pessoa, encontrou Branca de Neve também abalada com toda a situação.
— Encontraram ele. — ela desviou o olhar do corpo que estava em seu colo. — Talvez seja melhor que você visse. — ela apontou para a direção, tentando olhar para o extremo oposto. — Eu fico olhando ela enquanto você vai. Não vou deixar ninguém levá-la sem antes saber para onde e quem está com ela.
Ele assentiu, deixando o corpo sem vida e se movendo na direção que sua amiga tinha mostrado. Sentiu um arrepio ao sair daquele primeiro ambiente e entrar nesse segundo, que era um apartamento. A música de fundo, aquele toque de elevador que o deixava irritado, a calmaria. Nem parecia que um tiroteio, sequestro e um assassinato tinha acabado de acontecer no subsolo do prédio.
Seguiu um rastro de sangue que cobria quase todo o chão do andar térreo. Aquela moça não tinha facilitado em nada para ele, o que fez com que Lobo sorrisse. Ao menos ele serviu de alguma ajuda para ela.
Encontrou um corpo estirado ao chão, com uma arma de fogo ao lado da cabeça e um tiro profundo bem ao seu meio. Seu estômago embrulhou ao ver aquilo, mas continuou, para ter certeza que não era um corpo com Glamour, e sim o mesmo homem que matara a moça.
Ao virar o corpo confirmou sua teoria, acionando uma segunda viatura, para que pudesse ser feita uma verdadeira análise, e, finalmente, fechar mais um caso. Não acreditava que tudo aquilo estava acontecendo novamente. Depois de tanto tempo calmo, o mundo parecia ter voltado à sua ordem natural ao caos.
Branca se juntou à ele em frente ao prédio. Ela não parecia nem um pouco bem ao ver tudo aquilo. Lobo a envolveu com um braço, a abraçando, mesmo que aquilo parecesse a coisa mais estranha que tinha feito desde sua mudança. Mas tinha visto em algum seriado que humanos, às vezes, só precisavam de contato com outro ser humano para se acalmarem. No seriado aquilo tinha funcionado, esperava que com a amiga também.
— Ela era tão jovem. — Branca começou a chorar. — E tão bela. Ela não mereceu isso.
— Ninguém merece o que ela teve. — ele quase sussurrou. — Coitada.
— Você sabe o verdadeiro nome dela?
— Anastácia.


Capítulo 1

Mudar de vida pode parecer mais difícil quando estamos dentro de um furacão. Para quem está apenas nos observando, pode ser que seja simples, fácil, e que não existe como aquele sentimento de perda aparecer. É uma mudança que devemos fazer. Mas seria mesmo tão necessária?
Assim, percebemos que a vida dentro dos livros sempre foi algo emocionante. Longe de princesas e seus castelos encantados, com seus príncipes perfeitos e vestidos que fariam qualquer menina mundana sentir inveja. Personagens psicopatas, loucos, insanos também são muito fáceis de encontrar em estantes em lojas. Assim como adolescentes depressivos ou com algum câncer.
Mas existe vida dentro dos livros, e é muito mais mágico do que um mundano pode imaginar. Afinal, nunca passou pela cabeça deles como era a vida daquela empregada do rei antes de aparecer como alguma citação em alguma história dos contos de fadas? E o cocheiro? Ele também não merece uma história?
Escutamos essas histórias desde pequenos, mas nunca paramos para pensar sobre o nome de um mordomo, ou de um grão duque. Seu título já faz entender quem é esse personagem e como ele agirá. Esquecem que as vezes, até pelo nome, percebemos se é mocinho ou vilão.
Essas histórias foram criadas para mostrar que vilões são pessoas malvadas, isentas de um bem. A Madrasta de Cinderela, a Rainha Má de Branca de Neve, Frollo de Corcunda de Notre Dame, todos eles são vilões, mas são realmente malvados? Ou essa é apenas um pedaço de uma história muito maior?
Também é preciso lembrar que essas histórias exercem uma dicotomia entre Bem e Mal que não encontramos em qualquer livro. Todos os personagens tem várias facetas, ou você acha que o príncipe sempre será bonzinho com a princesa, ou que um vilão não pode ter dó ou pena de alguém. Nada é preto e branco.
Nem entraremos na discussão entre os significados desses personagens nas vidas de heroínas e heróis. Esses personagens até sabem que seus nomes são referências à nomes de algumas doenças dos mundanos. Coitado do Peter Pan, Cinderela e Alice, que se tornaram nomes de referências médicas.
E o que acontece depois do felizes para sempre? Existem várias ideias e vários livros e seriados já tentaram abordar esse assunto. Porém muitas das histórias não possuem um final feliz, ou simplesmente um final. Existem personagens nas Fabulas que as histórias são tão curtas que seus nomes não são lembrados. Ela está nesse caso.
A história de foi uma das mais curtas, mais sem graça e mais esquecida dos Contos de Fadas. Imagine só, ser uma princesa sem nome que todos conhecem por uma história sobre não conseguir dormir bem. Antes ela fosse a Bela Adormecida, que adormecera e acordara com o beijo de seu amado.
O príncipe de sabe que ela tem sono leve. Para ele isso é o que a torna uma verdadeira princesa. Mas não foi isso que pensou quando conheceu uma moça muito mais delicada que ela. E assim, se sentiu livre pela primeira vez na vida.
E agora algumas fábulas estão desistindo da vida dos contos e se mudando para o conhecido “Mundo Real”, um lugar onde não existe magia, feitiços, e com princesas e príncipes que não são encantados. É um mundo tão sem graça que nem conseguem acreditar que as fábulas dividem essa mesma realidade, que consomem as mesmas coisas, poluindo as mesmas coisas e vivendo da mesma forma.
Criaram uma sociedade conhecida como Cidade das Fábulas, e ninguém pode sair desse bairro de Nova Iorque. Nenhum nova iorquino sabe da existência dessas pessoas, mas existem personagens fazendo faculdade, como é o caso de Chapeuzinho Vermelho e um dos três porquinhos. Existem personagens trabalhando fora da Cidade, como Anastácia, uma das irmãs de Ella. E esses personagens continuam da mesma forma que os mundanos, trabalhando para consumir e viver, como qualquer outro mundano comum.
— Preparada?
levanta de sua poltrona com o susto que aquela voz produz. O homem que está em sua frente nunca olhara diretamente em seus olhos para falar seja o que for. Tinha acontecido isso quando ela entrou no ônibus, e estava acontecendo naquele momento.
Ela olha pela janela e finalmente compreende que acabaram de chegar, alguns personagens já se levantam e se preparam para descer, mas aquele homem continuava ali, na poltrona que passou a viagem inteira sem que ninguém a ocupasse.
— Você conhece muito bem essa vida.
— É, mas agora estou sozinha, afinal, como você sabe, no final da minha história eu simplesmente me submeti a tudo aquilo.
Aquela frase fez com que esse homem passasse a olhar para seus próprios sapatos de couro marrom escuros encardidos. Moveu os dois pés e ficou em silêncio. o observava, a maneira como os ombros se retraíram, como ele procurou por algo no bolso. Ficou em dúvida se tinha feito com que ele lembrasse de algo que tinha movido para o fundo de suas lembranças. Mas a história dele era infinitamente diferente da história dela. Ele não se submeteu a nada do que aconteceu, ele fez acontecer, e agora parecia extremamente arrependido.
— Bem, aqui você precisa de um nome. — ele pigarreou. — Não podemos te chamar apenas de princesa por aqui. Afinal…
— Temos a Branca de Neve, certo?
bufou, cruzando seus braços. Branca é uma ótima princesa, mas nunca fora a dona do mundo das fábulas. Agora que os personagens estão saindo de lá, ela continua tentando ser a dona da moral e da verdade, de forma com que se torne a governante.
Branca, assim como , sofreu depois de conhecer seu príncipe encantado. Ele era lindo, mas queria uma mulher de aparências, e não conteúdo. Ela foi a primeira das grandes fábulas a se mudar para essa cidade, e com ela vieram milhares de outras. As mais simples ficaram na terra das fábulas, esquecidas.
Ela virou seu rosto para a janela do ônibus, podendo estudar ainda mais o rosto daquele homem. A barba estava grande e muito mal feita, os pelos dele denunciavam que ele não estava tomando as poções de Glamour, os dentes eram muito amarelados, e somados com o odor de nicotina que podia ser sentido há metros de distância, a moça julgava que era porque ele fumava uns três maços de cigarro por dia. Sua roupa era simples, como de qualquer detetive, e ela ainda estava um pouco assustada por ele pertencer ao grupo dos mocinhos agora.
— E então? — ele beirava a impaciência com a moça. — Como devo chamá-la?
Nequitia.
Ela tentou sorrir, mas ele não se convenceu. Levantou-se da poltrona, descendo do ônibus, fazendo agora uma contagem de quantos vieram nessa viagem. Ela fica encostada no motor, observando o homem, agora usando roupas de detetive, com aquele casaco enorme e uma atitude mais pomposa, até que ele se reaproxima dela.
— Vamos conhecer sua casa nova, então?

Eles atravessaram quase todo aquele complexo de casas, até chegar no único condomínio do bairro, que por fora parece ser um dos prédios mais velhos e caros de toda Nova Iorque. Ao entrar, já se deu conta de que era uma fachada. O hall de entrada estava empoeirado, o seguraça dormia em seu posto, recebendo um olhar de negação do homem peludo. Procuraram seus nomes, escrevendo o nome Nequitia em uma plaquinha e chamando o elevador para esse andar.
Dava para ler os nomes dos outros moradores. Bela e Adam, Aurora e Philipe, Ariel e Eric. Todos eles moravam nos últimos dois andares do prédio, os andares mais luxuosos. Depois de alguns segundos o elevador parou no quinto andar.
— Bem, Nequitia, espero que você não se incomode com seu novo lar. Qualquer coisa, bem, aqui está meu cartão. Sou a primeira pessoa a quem deve chamar.
tirou novamente um tempo para observar o personagem à sua frente. Ela cruzou os braços, tomando muito cuidado ao encostar em uma das paredes expostas de sua casa.
— Não sei se fico à vontade sabendo que terei que te chamar se acontecer algo comigo. Se não for uma fábula, você irá matá-lo? Ora, nem sei como o Colin divide o apartamento com você. Imagine viver com aquele que destruiu tudo o que tinha. E logo depois mandou um de seus irmãos para longe. — o rosto do homem se tomou de surpresa. Ela deu de ombros. — As notícias correm em Terra das Fábulas.
— Hector será o melhor arquiteto de todos ...— ele diz enquanto acende mais um cigarro.
— Claro, depois do que ele construiu. — ela solta um riso e ele a repreende. — Vai dizer que você não sente falta dos velhos tempos? Que não sente falta de perseguir eles? Nem de uma pobre velha. Você pode convencer a todos os outros que quer se redimir, mas você é, e sempre será o grande Lobo Mau.
Normalmente é comum ficar intimidado ao pensar que o grande protetor da Cidade das Fábulas é o Grande Lobo Mau. Sim, ele resolveu continuar com esse nome e não possuir um nome mais, comum. Colin? Bem, esse é o primeiro dos três porquinhos, o que construiu a casa de tijolos. Mas agora Lobo é um dos personagens que mudou de lado. Um daqueles que torce para que o bem vença, e que não devemos tomar por nossas ações algo violento. Ele realmente parece querer mudar, mas não há nada em seu favor.
— Bem, , essa é a minha hora. — ele olhava para o visor de seu celular, que piscava um número muito conhecido. — Não cause mais confusões, estou cansado de te salvar.
Com isso, ele se virou para ela, deixando-a com seu mais novo lar, entrando no elevador e sumindo em sua frente.


Capítulo 2

O apartamento não era algo tão luxuoso quando se via por dentro dele. O departamento de polícia ficava praticamente ao lado desse prédio, o que causava algum conforto para todos os casais de fábulas que possuíam algum dinheiro para morar nos andares acima do décimo.
A vontade de governar ainda falava alto, e cada um deles se dividiram com uma parte da Cidade das Fábulas. Certo casal cuidava da educação, outro da cultura, e assim vai. Eram um distrito dentro da grande Nova Iorque, e aquilo parecia funcionar para todos de forma igualitária. Bem, pelo menos para quem possuía grande parte dos bens financeiros.
O apartamento de ficava no quinto andar. Já era uma altura razoável, e as janelas não aguentavam ficar muito tempo abertas. O cheiro de mofo era insuportável, e o que mais precisava acontecer naquele lugar era uma reforma. O papel de parede listrado laranja já estava descascando em quase todas as paredes que ele aparecia, deixando com que grande parte dessas paredes fossem apenas de madeira e poeira. O carpete da sala era verde, mas não dava para saber se era sua cor original ou a cor do mofo que tinha tomado conta do lugar. Pias, privadas, o chão do banheiro também estavam todos verdes e engordurados. Era preciso trocar tudo.
Decidiu que começaria pela sala, já que o quarto não fedia tanto a mofo quanto os outros cômodos, vivendo apenas naquele cômodo e só saindo de lá quando fosse realmente necessário. Queria se livrar de tudo e ter aquele lugar do zero, apenas para ela, mas sem emprego ainda não sabia muito bem como faria isso, como teria dinheiro suficiente para começar a viver bem.
A cama não era tão confortável, mas ainda assim era bem melhor do que a antiga, cheia de coisas que não a deixavam dormir. Essa cama era macia, mesmo sentindo bolotas no travesseiro. O teto era metade preto de mofo e a outra metade branca, o que a fazia pensar a todo momento que precisava sair em busca de um trabalho.
Ela escuta alguém batendo na porta, mas não faz menção alguma de se levantar e atender a porta. Ficou sentada no chão do quarto, ainda limpando o necessário para conseguir não ficar doente ou com a alergia muito atacada.
?
A voz dele é apreensiva, e ele não queria parecer invasivo naquele ambiente. Deveria partir da moça a vontade dele entrar ou não em sua nova casa. Ficou parado, esperando que ela abrisse, batendo mais um vez na porta.
— Vamos, sou eu, Lobo…
A porta abriu de uma vez só, pegando o homem de surpresa. A moça riu de como ele reagiu, logo fazendo um sinal para que ele entrasse. Ele tentou se acomodar no sofá, mas o objeto era duro e não era nem um pouco confortável.
Percebeu que todo o carpete tinha sido retirado, dando lugar a um chão cimentado, e as paredes estavam lisas, peladas. Não tinha muito ali, além do grande básico que também tinha em seu apartamento. Quando olhou para ela, ela sorria para ele novamente.
— Posso te oferecer algo? Café? — ela se levanta, pegando o cigarro que está entre os dedos do Lobo. — Sinto muito, mas não permito fumar na minha casa. — ela jogou no lixo, fazendo com que Lobo guardasse o maço de cigarros. — Café então. Com um pedaço de bolo.
Ela surgiu da cozinha com uma fatia de bolo cortada e uma xícara de café. O que demonstrava que sabia por ser da realeza, já era perceptível que nada sabia da cozinha. Seu café era muito aguado, de forma que Lobo não conseguia engolir, e o bolo estava seco e mais amargo. Ele só comeu aquela comida para ser gentil com a moça, pois sabia que provavelmente isso fora a primeira coisa que ela cozinhou desde que deixou a vida de princesa.
— Vim te fazer uma proposta. — ele começa a falar quando ela finalmente se sente, segurando uma xícara de café em suas mãos, sentindo o calor da bebida. — Precisamos de alguém de confiança para trabalhar conosco. Mas não será um trabalho aqui na delegacia.
Ele fez essa pausa e olhou atentamente para ela, era a primeira vez que fazia isso. Ela estava muito mais bonita sem aquela vestimenta do mundo das fábulas. Agora, só com uma blusa de manga comprida e jeans, ela parecia muito mais com uma jovem que acabara de sair de casa, conseguiu um primeiro emprego e está começando a montar a vida dela. Ela estava quieta, atenta, pensando se valeria a pena aceitar trabalhar para Lobo, ou se ela se tornaria uma pessoa malvada apenas por ele ser seu chefe.
— Bem, conhecendo seus dons de fábula, julguei que você poderia me ajudar a controlar as fábulas por aqui.
sorriu, pensando em várias piadas que poderia fazer. Lobo olhou atentamente para a cozinha, vendo uma taça com algum líquido um pouco roxo dentro. Não sabia muito bem o que pensar disso, mas continuou a falar, já que a moça não tinha mostrado tanto interesse em perguntar o que que era.
— Precisamos de uma assistente social.
— O que isso faz?
— Ajuda as Fábulas.
— Meu dom de fábula é ajudar as pessoas? Tem certeza disso? — o riso dela era cínico.
— Bem, não exatamente. No momento precisamos catalogas todas as fábulas que estão aqui, onde elas moram, se elas moram com os mundanos, e se trabalham para eles. Precisamos saber de todas as condições deles e, principalmente, se estão tomando o Glamour.
— E o que você faz, exatamente?
— Eu sou o xerife. No momento eu tomo conta da polícia.
— Que se resume a você?
— Basicamente.
— Hm… Tudo bem.
estampou um sorriso no rosto, enquanto tirava o prato de bolo com a xícara de café. Ela insistiu que Lobo comesse mais um pedaço antes que saíssem de sua casa e fossem em direção da delegacia.
Obviamente, Lobo recusou da maneira mais educada possível, levantando da cadeira e esperando sair do apartamento para acender mais um cigarro. olhou com total reprovação, mas não podia reclamar, eles não estavam mais dentro dos limites que ela tinha estipulado.
Ela estava praticamente saltitando, enquanto ele a observava sério. Não dava para acreditar que essa moça tinha se tornado uma princesa e perdido tudo tão rápido. Nem dava para acreditar em sua história, mas se Lobo queria se afastar da imagem que era conhecido, teria que fazer a mesma coisa com ela.
— Sabe, lá no palácio a gente era acostumado a tomar no mínimo três taças de vinho por dia. — ela disse rindo. — Uma de manhã, outra à tarde e mais uma a noite. Quem disse que beber uma taça de vinho faz bem pra saúde nunca tomou três.
Com isso ela colocou o indicador nos lábios, rindo. Não se sentia alterada, mas parecia estar muito boba e tagarela. Ela encostou em Lobo, se pendurando em um braço dele. Não mostrou como ficou assustada em perceber o quão musculoso ele parecia ser, mas resolveu ficar mais um tempo pendurada em seu braço para poder sentir mais os músculos.
, você está bêbada?
— Bêbada, mas nem podemos ficar bêbados. Podemos? Quer dizer, nós nos curamos muito rápido, então por que teríamos uma resposta diferente para o álcool?
Ele não soube o que responder. Ficou quieto durante a última parte do trajeto conseguindo ponderar porque poderiam ficar bêbados sendo que seu pulmão estava intacto mesmo fumando quase três maços de cigarro por dia.


Capítulo 3

A delegacia era exatamente como imaginou. Branca de Neve tinha uma mesa próxima à entrada, onde parecia estar muito ocupada para perceber que Lobo entrou com mais alguém ali. Haviam mais duas mesas próximas à mesa dela, uma de Ichabod Crane, também conhecido como o Cavaleiro Sem Cabeça, que não parecia estar por ali.
se perguntava se Ichabod já teria perdido a cabeça ou não, se ele estaria usando uma abóbora no lugar, como tinha escutado muitas pessoas de seu vilarejo falarem. Todos comentavam sobre o homem que havia perdido a cabeça decepada e que a tinha trocado por uma abóbora no lugar, com aqueles olhos e boca típicos das decorações daquela festa dos mundanos, as abóboras de Halloween.
— Olá. — voltou seu foco para a mulher quando ouviu a voz suave dela chamando. — Sou Branca. E você é a…?
. — um sorriso e um grande aperto de mãos. — Branca de Neve. Ouvi muito a seu respeito.
— Espero que Lobo tenha falado só coisas boas. — ela piscou para ele, que continuou inerte. — Bem, pelo meu chute você é a nossa nova Assistente Social.
— Seja lá o que isso for. — ela soltou um riso. — Sou eu. Grande prazer em te conhecer. E não foi de Lobo que ouvi ao seu respeito, foi lá no palácio. Todos comentavam a história da moça que voltou dos mortos e se casou com… Como era o nome dele?
— Lucien. — Branca sorriu. — Esse é o nome de meu marido. E Prefeito da Cidade das Fábulas.
— Seja lá o que isso for. — ela riu novamente.
Branca sorriu novamente, mas os três foram interrompidos pelo Senhor Crane irritado, batendo a porta do ambiente, bufando, quase soltando fumaça por suas narinas, coisa que aconteceria se eles fossem uma animação.
Ichabod Crane já parecia estar um pouco velho para seu cargo, mesmo sendo conhecido como uma das pessoas mais justas que viera do outro mundo. Dava para notar que sua calvice começava a entrar em um estágio um pouco mais avançado, e suas roupas pareciam mais largas do que precisavam ser, já que seu corpo era muito seco e dava para notar todos os seus ossos salientes.
— O que vocês estão fazendo? Quem é essa moça? Por que vocês não estão na casa de Ella?
Branca de Neve sentiu um frio correr por sua espinha. Ela se assustou ao ouvir aquela pergunta, não imaginando nenhum motivo para que algo tenha acontecido com a Gata Borralheira.
— O que aconteceu com Ella?
— Bem, vocês precisam ir até lá para saber. — Ichabod parecia um velho resmungão aos olhos de . — O que estão fazendo aqui parados? Andem logo.

Eles chamaram o primeiro táxi que viram apenas para conseguirem ganhar todo o tempo possível para chegar no apartamento de Ella e Kit, que tinham resolvido morar quase que na divisa entre a Cidade das Fábulas e Nova Iorque. Era um prédio simples, de tijolos. Um deles em especial era amarelo, mas nenhum deles conseguiu se atentar a esse detalhe. Ao entrarem no ambiente só era possível ver uma coisa: sangue.
E estava por todo lado. Pelas paredes, pelo chão e até pelo teto. Se a pessoa que perdeu tudo isso de sangue não fosse uma fábula, já daria para considerar as grandes chances dela estar morta. Branca e se sentiram um pouco nauseadas ao imaginar que tudo aquilo era o sangue de Ella.
— Branca, você fica aqui e procura o fim dos rastros de sangue. , você sabe lutar, certo? — assentiu com a cabeça. — Então você sobe comigo e confere os outros andares, para termos certeza de que ninguém mais corre perigo.
Quando chegaram ao andar onde ficava o apartamento dos dois, foi possível notar a diferença de ambiente. Antes, assim que o elevador abria, era possível perceber corredores limpos e calmos, como se nada tivesse acontecido. Mas ao abrir suas portas, o elevador mostrou uma trilha de sangue que ia até a porta do casal, que estava aberta.
correu para lá por puro impulso, ignorando o que Lobo tinha mandado ela fazer. Ao abrir a porta encontrou Kit deitado no chão da sala, gemendo de dor e coberto de sangue. Ele parecia estar muito tonto.
o ajudou a se ajeitar, enquanto ele se recuperava do susto. Haviam facadas em seus braços e barriga. Ele não conseguia entender nem como tinha se recuperado tão rápido de tudo aquilo.
— Fique quieto. — ela ordenou. — E fique aqui.
percorreu todo o lugar, procurando por quem quer que tivesse feito tudo isso. Não era tão fácil assim nocautear um príncipe como Kit, que era conhecido por saber como se proteger. Até sentir que não havia mais ninguém além dos dois, ela voltou para sala, onde encontrou com o príncipe cambaleando.
— O que aconteceu, Kit?
— Não sei ao certo. — ele mal conseguia falar. — Estava deitado com Ella quando ouvimos um estouro, lá do quarto. Mandei ela se esconder, enquanto encontrava minha arma. Sei que nesse estado isso não é permitido, mas aprendi com muitas histórias que devemos sempre estar preparados. — deu de ombros com a constatação, então ele prosseguiu. — Um homem encapuzado apareceu, dando facadas certeiras em meu braço para que eu não conseguisse me mover. Depois bateu em Ella até ela ficar desacordada, e saiu daqui arrastando-a pelo chão. — ele suspirou, enquanto Lobo o ajudava a andar, servindo de apoio. — Isso é o que eu lembro agora. Mas me digam, vocês acham que Ella está bem?
ficou com medo de mover o homem e piorar toda a situação para ele. Continuou fazendo companhia a ele até a ajudar chegar, não deixando com que ele dormisse. Kit tentou recontar o que tinha acontecido várias vezes, mas não parecia se lembrar com tantos detalhes.

Branca de Neve não estava nada tranquila. Enquanto andava pelo hall de entrada do prédio de um lado para o outro, tentava solucionar outro problema que dominava a sua mente. Além de esperar a perícia para o que parecia ter sido um ataque à uma princesa, Branca ainda teria que encontrar uma solução para todas as fábulas conseguirem comprar as poções de Glamour.
Enquanto ela andava, numa vaga tentativa de passar o tempo, viu duas crianças mundanas passando por eles. As duas crianças corriam felizes, totalmente ignoradas pelo o que acontecia por debaixo daquele “véu” criado pelas próprias fábulas.
Lembrou-se que um de seus grandes problemas era conseguir Glamour para as crianças poderem participar da escola dos mundanos normalmente, porém já estava para fazer três dias que nenhuma dessas crianças tomava o feitiço, e seu poder sob o corpo delas estava passando. Aos poucos elas voltariam a parecer com o que sempre foram.
A parte boa de tudo isso era que todos os anões também vieram com ela, na grande mudança para o mundo dos mundanos. Ainda não tinha nem se acostumado a dizer “ Mundo dos Mundanos”, mas aos poucos ele se tornaria mais dela e se pareceria menos com algo completamente diferente. A grande maioria dos anões trabalhava na delegacia como policiais, e Zangado sempre acompanhava Branca, como um guarda-costas, a fim de não deixar com que nada acontecesse com ela novamente.
Ela precisava de todos eles, mas sabia que quem colocaria medo para que os pais dessas crianças voltassem a seguir as regras seria o Lobo Mau. Talvez se ele fosse com ela nesses lares, eles seriam capazes de fazer com que esses personagens voltassem a andar na linha, e reconhecessem que existiam regras a serem seguidas.
Branca só foi voltar a si quando foi interrompida pelo barulho da porta do elevador se abrindo, mostrando Lobo e sujos pelo sangue do local, acompanhando Kit em uma maca, sendo levado de ambulância para um hospital.
O príncipe tentou ao máximo sorrir, mas não parecia ter forças o suficiente para isso.


Capítulo 4

Branca e Lobo deram todo o parecer para Crane. Ainda não se sabia direito o que teria acontecido, mas deram entrada no caso do desaparecimento de Cinderela. Nunca tinha acontecido um ataque dessa forma a qualquer fábula desde que tinham se mudado, o que deixava todos os personagens ali muito aflitos. Qual seria o motivo de atacar justamente a Cinderela?
— Será que é a Madrasta novamente? — Lobo estava pensativo.
— Madame Tremaine? Ela veio para cá? — Crane buscava alguma ficha no meio de uma papelada extensa em sua mesa. — Vocês ainda não contrataram ninguém para refazer essas fichas e arquivá-las?
— Lobo contratou a .
— Então mandem a menina procurar Tremaine. Assim também não damos muita bandeira caso ela tenha mesmo sequestrado Ella. — Crane deixou escapar um suspiro. — Novamente. Vilões nunca se cansam, né? — Lobo desviou o olhar dele. — Bem, existem alguns que são a personificação do mal. — ele frisou a palavra alguns. —Não estou falando de você.
Branca de Neve resolveu recorrer ao espelho mágico da Rainha Má como forma de se afastar de Crane. Não concordava com o que ele falava, afinal, ela acreditava que existia bondade em todas as pessoas e fábulas, mas essas mesmas pessoas quem escolhiam se iriam demonstrar ou não essa bondade.
E Ichabod também tinha sua parcela de culpa, e recebeu aquilo que merecia. O Cavaleiro Sem Cabeça perseguiu todos aqueles que tinham feito com que ele sofresse, e Crane estava nessa lista de colonos babacas. Porém agora ele parecia outra pessoa, assim como Lobo, mas ele parecia ter se esquecido de que um dia já esteve do outro lado.
Lobo pigarreou, anunciando que então iria para casa de , e os dois seguiriam para a busca de Madame Tremaine o mais rápido possível, já que cada hora a mais que uma pessoa está desaparecida, maior a chance de estar morta.

Kit dormiu depois de três comprimidos que pediu para ele tomar. Os remédios fizeram os efeitos necessários, mas a moça tinha receio de que esse efeito passasse rápido e logo ele estaria acordado novamente.
Ela separou uma muda de roupas nova para ele, deixando ele em seu quarto e indo para sala, não conseguindo parar de se mover em círculos, tentando imaginar o que teria acontecido com Ella para acabar daquela forma.
estava muito chocada. Não parecia nada com o que tinha sido prometido para as fábulas que estavam desistindo e vindo para essa realidade. Talvez se sentiria mais segura se voltasse para o mundo das fábulas, porém agora já era muito tarde para isso. Não haveria volta se não fosse definitiva, e ainda não tinha conhecido esse outro mundo o suficiente para saber se valeria tanto a pena voltar para sua outra vida sem nome.
Ela se assustou com o barulho de alguém batendo na porta. Pegou uma faca na gaveta da cozinha e abriu a porta bem devagar, até notar que era Lobo e baixou sua guarda, deixando com que ele entrasse.
— Como ele está?
— Agora conseguiu descansar. Mas estou preocupada, quem faria isso com Ella?
— Bem, temos algumas suspeitas.
— A Madrasta? E suas filhas?
Lobo assentiu, puxando um cigarro de seu maço. tomou de suas mãos o maço, guardando em sua bolsa, repreendendo a atitude dele. Ele revirou os olhos, colocando suas mãos no bolso e encostando em uma das paredes mais próximas.
— Crane tem um plano. E você está incluída nele.
— Não posso deixar Kit sozinho. — soava preocupada. — Tem noção do que pode acontecer?
— Nós temos um alojamento especial para ele. Pode ficar tranquila. — ele depositou uma mão em seu ombro, tentando passar conforto para ela. — Zangado logo aparecerá por aqui para levar Kit, caso você aceite levar o plano para frente.
— Tá. Desenvolva.
Lobo então explicou detalhe por detalhe de como ela deveria agir, e de onde poderiam começar a procurar pela Madrasta de Ella. Era sabido que a mulher possuía uma boate, quase no centro de Nova Iorque, o que indicava que eles teriam que sair de Cidade das Fábulas para isso.
pediu um tempo para poder trocar de roupa, ficando um pouco menos casual para ir para uma festa e também para realizar parte de seu trabalho. Colocou uma camiseta com ombros caídos, arrumou seu cabelo para um lado só e passou um pouco de maquiagem. Ela parecia um pouco mais arrumada do que o normal, mas não estava tão arrumada ao ponto de acharem ruim uma Assistente Social em horário de trabalho ir para um lugar desses com uma micro saia.
Chamar um táxi era a melhor opção. Aventurar-se pelo mundo dos mundanos parecia ser muito mais confuso do que o esperado, então chamar alguém que pelo menos conhecia o lugar que eles precisavam ir parecia deixar tudo um pouco mais simples, sem uma preocupação a mais.
A casa de festas, se é que poderia ser chamada assim, era próxima ao Rockefeller Center, e era conhecido por abrigar diversas celebridades dos mundanos. Tremaine parecia muito feliz com seu sucesso próprio, mesmo que isso significasse embebedar pessoas para conseguir seu dinheiro. Pelo menos essa forma não era ilegal.

Lobo não sabia como se portar, o que fazia com que desse risada de nervoso a cada dois segundos cronometrados. Na fachada do prédio havia um pôster avisando que teria a apresentação de uma banda de garagem. Ele estudou o poster atentamente, com a breve impressão de que conhecia uma das pessoas daquela foto, mas desistiu quando notou que já era hora de entrar no local.
Luzes amarelas estavam acesas, o que implicava na visão de todos. Ninguém conseguia ver direito, mas era assim que deveria funcionar. Uma calma melodia tocava ao fundo. Os dois seguiram até o bar, sentando-se em uma cadeira.
— Um martini e uma cerveja.
tentou sua melhor impressão nos filmes que andou assistindo dos mundanos. Normalmente essas mulheres usavam um loiro tão falso que ela ficava se perguntando se elas se chamavam de loiras ou não. Talvez fosse só a impressão da personagem, e a atriz não fosse aquela megera.
Isso foi uma das coisas que aprendeu, as pessoas na televisão mentem o tempo todo e ela nunca sabe quando elas saíram de seus personagens. Mesmo que ainda não tivesse entendido o que seria sair do personagem.
Quando as bebidas chegaram, ela puxou a cerveja para ela, espiando para ver se Lobo reclamaria, porém ele pegou o copo e começou a beber, observando as pessoas no local.
Haviam garçonetes, algumas mulheres com pouca roupa passando por algumas mesas, dançando para alguns homens que estavam com olhos famintos. Também tinham alguns poucos homens trabalhando, e a maioria deles pareciam ser da equipe de segurança do local.
As luzes diminuíram ainda mais, dando espaço para uma música alta de festa, e logo a moça já tinha esquecido de sua bebida e estava dançando com um sorriso no rosto.
Ela deixava seus braços soltos e os balançava para todos os lados, mas logo foi aprendendo com outras moças que estavam dançando. Ela ainda estava com o corpo todo duro e achava maravilhoso a forma como aquelas outras pessoas dançavam. Logo aquele lugar estava lotado e ela nem tinha percebido.
Tentar se mover no meio daquelas pessoas dançando foi um pequeno pesadelo, mas logo Lobo tinha chego na porta dourada com um “Tremaine” escrito em dourado. Bateu algumas vezes, mas ninguém respondeu, então abriu a porta que estava destrancada.
Agora Tremaine tinha deixado os cabelos alaranjados por um cabelo cinza, ainda preso da mesma forma que costumava usar. Sua roupa ainda possuía aquele tom roxo que também era uma de suas marcas registradas. Porém tinha deixado os vestidos de época e deu lugar a uma calça social e uma camisa muito detalhada.
Ela o analisou da cabeça aos pés, levantando-se e fechando a porta. Um sorriso estampava em seu rosto, mas ele parecia ser tão falso quanto os quadros que ela tinha em sua parede. Voltou ao seu lugar, não tirando os olhos do computador enquanto pedia para Lobo se sentar.
— A que devo a sua ilustre presença, xerife? Tudo meu é regulamentado, principalmente os Glamour.
A mulher voltou a se sentar em sua cadeira, suspirando enquanto apontava para que Lobo sentasse na que estava em sua frente. Ele seguiu o movimento, sem conseguir tirar os olhos de Tremaine.
— Não é sobre isso que vim tratar com você Tremaine. E você sabe muito bem o que é.
— Sei? — um sorriso cínico brotou em sua boca. — Lobo, querido, eu saí daquele lugar porque não aguentava mais. Sei o que acontece com cada celebridade que passa por aqui. Com quem dormiram, com quem estão, que contrato assinaram, se estavam no Rockefeller… Agora eu não faço a menor ideia do que acontece com as fábulas.
Lobo via os olhos verde esmeralda correndo pela tela do computador na mesma velocidade que os dedos dela digitavam. O barulho das teclas sendo pressionadas era a única coisa que quebrava o silêncio mágico daquele lugar.
— Nem com Anastácia e Drizella?
— Anastácia agora trabalha para os mundanos e nunca mais falou comigo. Drizella deve estar por lá ainda. Não quis deixar os vestidos. — Tremaine bufou. — Você não faz ideia de quantas vezes tentei fazer Drizella mudar de ideia. Anastácia veio para cá muito antes. Eu nem sei se ela está viva.
— Isso eu posso confirmar.
— Que bom. — Tremaine parecia pensativa. — E Ella? Sabe, eu fui uma megera, mas a garota merece ter uma boa vida agora. Aquele príncipe, Kit, é uma pessoa muito boa. Espero que eles se deem bem agora. Ninguém quer viver com um cara que é apaixonado pelo seu pé. — então ela finalmente olhou para ele. — As histórias que circulam por aqui. Você nunca acreditaria.
— Tente.
— Bem, os meus fornecedores de Glamour estão dizendo que Ella foi sequestrada, e nem foi por um mundano. É algo da Cidade das Fábulas. Graças a Deus eu não moro mais por lá. Moro numa cobertura agora, do jeito que sempre quis viver. — ela descansou os braços, soltando um suspiro. — Também falam que o casal ternura do século vai se separar. — ela se deliciou com a careta que Lobo fez. — Branca de Neve e Lucien. Mas isso não passa de boatos. Mas como Ella está?
— Ainda não foi encontrada. — Tremaine se afastou da mesa com essa notícia. — Você tem alguma ideia de quem poderia fazer isso com ela? Ou com Kit?


Capítulo 5

continuava na pista de dança, curtindo aquele seu primeiro momento de liberdade completa. Não se preocupava com nada que não fosse aquele momento, mesmo que já soubesse que Lobo tinha colocado o plano em ação.
Já tinha se passado meia hora que nada acontecia, quando a música foi cortada e então a banda fora anunciada. Todos os integrantes usando casacos de couro preto, uma calça mais justa e muito laquê no cabelo. O vocalista, em especial, cantava muito bem, e a melodia das músicas eram deliciosas de se escutar.
não conhecia as músicas que eles cantavam, mas me movia ao som e ao embalo das pessoas ao seu redor. Algumas pessoas cantarolavam algumas músicas, outras dançavam, e outras só curtiam aquele momento de um jeito muito estranho, que fez com que a moça se afastasse.
O show já estava para terminar e Lobo ainda não tinha saído. Não tinha visto também nenhum sinal para poder ajudar o homem, então decidiu ir embora. Pagou vinte dólares para que uma das moças que dançavam muito sensualmente para os homens sentados nas mesas fosse até Lobo depois e avisasse que ela já tinha ido embora.
Mal tinha saído da casa e encontrou a banda também saindo. O vocalista estava parado, fumando, rindo com os colegas, e não conseguiu deixar de notar saindo do local.
Ele correu até ela, pensando em mil maneiras de abordá-la sem que a deixasse com ainda mais medo. Nunca se sabia o que esperar de homens que te abordam no meio da noite. Ele sabia disso. Mas precisava falar com ela.
— Gostou? — ele perguntou enquanto a alcançava. — Eu te vi dançando no fundo. Aliás, Jake.
Ele estendeu sua mão e estampou um sorriso no rosto. Era difícil não se encantar com o sorriso de Jake.
Ele era magro, e agora que estava perto dela que deu para perceber como ele era alto. Usava um sapato social que fazia parecer que tinha um pé enorme, ou que era um sapato de palhaço que estava usando. Agora algumas mechas de sua franja caiam em seu rosto ao invés de ficarem grudadas no topete gigantesco.
— Foi… interessante. — ela sorriu, voltando a caminhar. — Apenas isso.
Jake ouviu os amigos comentando atrás dele, achavam que a moça seria mais uma paquera, coisas que eles já se cansaram de ver acontecer. Mas não dava nenhuma abertura para ele.
— Lobo não vai sair de lá. — a voz dele ficou séria, e ele viu que isso chamou a atenção dela. — E você nunca veio me ver.
— Te ver? Eu nem sei quem você é. Quem é você?
— Jake. — ele sorriu. — Você não lembra de mim. — o sorriso desapareceu de seu rosto. — Achei que tudo isso foi um charme seu, mas você não lembra mesmo quem eu sou. Como você conseguiu me esquecer?
encarou o rapaz, tentando notar alguma semelhança com alguém que teria conhecido. Não fazia tanto tempo assim que tinha se mudado para o Mundo dos Mundanos, então deveria se lembrar de todos os rostos diferentes que tinha encontrado. Mas o cabelo dele tinha muito gel, ela se lembraria de alguém assim. O rosto estava muito fino, devido à magreza do rapaz, e ela não podia deixar de notar que as roupas dele eram dois números maiores.
— Você tá brincando, né? — ele riu de deboche. — Sou eu, Princesa.
A voz dele mudou. De melancólica ela voltou a ser alegre e expressiva, e naquele tom conseguia se lembrar vagamente de alguém que falava assim. Mas a voz não combinava com esse rosto, muito menos a fazia lembrar quem estava ali em sua frente.
— Tá, agora eu me sinto aquelas pessoas estranhas que falam pros outros “Nossa, mas eu te segurei quando você tinha três meses e agora que você tem trinta e dois e nunca mais me viu você vem dizer que não se lembra de mim?”
riu da imitação que o rapaz fez, afinando a voz e movendo suas mãos fazendo grandes movimentos. Jake sorriu ao vê-la rir, mas logo o sorriso se transformou em uma expressão que a garota começou a estranhar.
— O que foi? — ela finalmente falou.
— Eu estava com saudade de ouvir a sua risada.
sentiu um frio percorrer toda a sua espinha. Ela procurou olhar para os lados sem demonstrar que procurava uma rota para fuga. Não conseguia entender como Lobo poderia demorar tanto para sair da sala de Tremaine. Será que ela tinha feito alguma coisa com ele?
Ela começou a olhar para o prédio, procurando algum sinal de que poderia ter acontecido algo. Com as músicas e o show ficava difícil conseguir ouvir algo que não fosse praticamente berrado por alguém.
— Calma! — ele percebeu que ela ficou tensa, sorrindo, se dirigindo à van. — Te prometo que não farei nada. Eu achei que você sabia quem eu sou.
— Então por que você não fala logo? — ela cruzou os braços, começando a se irritar com o rapaz.
— E te deixar sem o doce sabor de se lembrar? — ele riu, os dentes brancos e perfeitamente alinhados. — Não sei se gosto dessa ideia. Sempre imaginei que nosso reencontro seria algo assim. Mas que você lembraria de mim, do meu nome, do meu rosto. Da minha voz, especialmente.
revirou os olhos e começou a caminhar para longe do rapaz. Não queria passar mais nenhum segundo perto de Jake, ou seja lá quem ele realmente era. Só pensava em como estaria confortável em sua casa, após um dia como aquele.
Ela deixou o rapaz falando sozinho, começando a olhar para as ruas, tentando se lembrar por onde tinha vindo, sem muito sucesso. Todas as ruas eram parecidas, todos os prédios eram parecidos, e, até os mundanos, que pareciam todos singulares, faziam parte de uma pluralidade muito maior, tornando-os iguais aos olhos dela.
Não podia deixar de observar casais que pareciam muito entretidos com aquele pequeno aparelho mágico que continha o mundo nas palmas das mãos. Alguns mostravam a tela animados, enquanto outros, assim como a moça, observavam o movimento da avenida.
Andar sem rumo não parecia ser algo tão ruim quanto esperava. Era calmo, quieto, a deixava mais à vontade naquele novo universo que se expandia e se implodia a cada dia que passava, cada vez demonstrando mais uma genialidade e brutalidade entre eles.
A graça de viver à margem dessa sociedade era justamente poder acompanhar esse comportamento bizarro que eles possuem, agora que a tecnologia estava tão ampliada ao ponto de pessoas conseguirem ver em tempo real o que acontecia em Marte pelas telas de seus celulares.
Ela sentiu alguém colocando a mão em seu ombro, a forçando parar, fazendo com que seu sangue ficasse ainda mais quente. Ao se virar, encontrou o mesmo sorriso branco de antes, o mesmo cabelo com topete e gel, e nunca teve tanta vontade de esfregar o rosto de alguém no asfalto como sentia naquele momento.
— Eu sou Jake aqui. — ele arfava. — Lá, eu não era ninguém. Quer dizer, eu era, literalmente, um príncipe sem nome. — ele segurou suas mãos, enquanto apenas julgava qual seria a melhor forma de fugir dele. — Você precisa se lembrar de mim. Não é possível que com esse topete eu fique tão diferente. — ele sorriu para ela, e, pela primeira vez, não era um sorriso sedutor e sim um sorriso delicado. — Se me permite dizer, você continua linda, Princesa. Quase não te reconheci com esse novo corte de cabelo. Mas você está maravilhosa.
Ela sentiu as bochechas queimarem, mesmo que o que mais precisava fazer no momento era sair de perto dele. desviou o olhar, dando alguns passos para trás, procurando a parede do lugar para se encostar.
Precisava sumir da frente desse louco. Dava para ver que Jake estava delirando a respeito dela, enquanto nenhuma pessoa aparecia para ajudá-la. Sentiu suas pernas tremerem, mas não foi o suficiente para a fazer desistir de correr.
Ela se lembrou dos poucos filmes que tinham luta que viu nesse tempo que estava morando com os mundanos. Algo como chutar e socar, coisas que ela nunca tinha nem pensado em fazer antes. Mas quando percebeu, já tinha dado uma joelhada no rapaz, e estava correndo como se fosse um tal de Bolt, até chegar em seu apartamento.


Capítulo 6

A delegacia parecia muito calma para o gosto de . A garota sentia que estava muito próximo de acontecer alguma coisa muito ruim, já que sempre vira a vida assim: uma tempestade depois da calmaria.
Nem mesmo Crane parecia estar por perto, ou algum dos anões de Branca de Neve. Era apenas ela e a grande imensidão de livros e arquivos que tinham no lugar em um silêncio ensurdecedor, que tiravam toda a atenção da garota.
Resolveu começar a organizar seus arquivos dos personagens que viviam em Fabletown, já que os outros pareciam estar demorando. Nunca entendeu a forma como a delegacia era organizada, mas, tinha uma noção de como deveria ser, pelos seriados policiais dos mundanos que assistia.
Ela estava sentada no chão, com vários arquivos abertos, lendo e organizando tudo o que tinha escrito sobre cada pessoa que tinha conhecido. Algumas vezes sorria, ao lembrar de como a pessoa tinha sido carinhosa com ela, outras vezes queria passar o mais rápido possível os arquivos, para não ter que ler sobre um personagem grosso.
— Onde você estava? — foi a primeira coisa que a voz falou com ela. — Te procurei por todo lado feito um idiota!
Ela percebeu, finalmente, que quem falava com ela era Lobo, que parecia muito estressado, já que suas mãos estavam em formato de garras e ele parecia muito mais peludo do que o normal. Ele tinha um cigarro entre os dentes e suas sobrancelhas demonstravam como estava bravo com o sumiço dela.
— Eu te esperei mas você não saía de lá. Decidi voltar sozinha.
— Como dupla, você não pode me deixar sozinho.
— Nós somos uma dupla? — sorriu. — Tipo Mulder e Scully? Eu quero ser a Scully.
Ele não conseguiu compreender muito bem o que a garota falava, mas a deixou continuar. Ao contrário de , ele não ligava muito para nada dos mundanos, e muito menos conseguia entendê-los.
Toda aquela história com celulares e televisões, coisas que ele não conseguia ver a importância para aquela outra parte da população, aquilo o deixava maluco. Parecia que aqueles aparelhos viraram uma extensão do corpo dos mundanos, e eles só se sentiriam plenos caso estivessem olhando para um desses dois.
— Enfim… O que aconteceu? — ela encostou na parede, esperando que ele começasse a falar.
— Aconteceu que enquanto vocês dois saíram, mais uma princesa foi pega. — Branca adentrou a sala, com um olhar preocupado. — Atacaram Eric e Ariel. A mesma coisa de Ella.
Era engraçado como o tempo passava rápido e a vida parecia correr diante os olhos de todos os que estavam naquela sala, naquele momento. Duas princesas estavam desaparecidas. Dois príncipes estavam desesperados. Uma princesa estava presa por uma corda no pescoço, e um lobo, que, pela primeira vez em sua vida, se sentia como um cordeiro, preso como uma presa que não conseguia compreender o que poderia acontecer com ele a qualquer segundo. Sem conseguir ver quem era o seu predador.
Lobo fechou os punhos e, junto com Branca, foi em direção ao Espelho Mágico, para tentar procurar algumas respostas, enquanto continuava vendo os documentos que estava arrumando. De nada adiantaria ficar perto de Lobo, se nem ao menos pudesse participar procurando alguns personagens que poderiam ser suspeitos.
Esse era o maior problema, eles nunca poderiam apontar o dedo apra alguém, mas o dedo sempre estava apontado para eles. A cada dia que se passava mais se tornava verídica a história de que Ella foi morta, e que Ariel seria a próxima. Mas estavam com dois assassinatos e nenhum suspeito, dificultando em duzentos por cento.
Entre o tempo de Lobo voltar para a delegacia e a visita a Tremaine, fez uma lista de possíveis personagens suspeitos para esses desaparecimentos. Claro que a grande maioria que colocou foram os vilões dos contos, mas, entre eles, encontrou uma pessoa que nem acreditava que estava vivendo perto: seu ex-noivo.
Não que ele fosse um suspeito dos sequestros mas poderia ser um dos capangas desse novo grupo. O rapaz não teria motivo algum para ser a principal cabeça entre esses vilões. Só também não era muito confiável depois de tudo o que fez com em seu conto.
Talvez o problema fosse focar apenas nas fábulas que por lá viviam. Será que mundanos encontraram eles e agora estavam começando a promover esse tipo de acontecimento? Será que eram pessoas que realmente conhecessem as princesas e estavam atacando os monarcas dos contos de fábulas?
Lobo, vez ou outra, socava a prateleira mais próxima, frustrado por não conseguir pensar em alguma solução ou plano de ação. Mas também, como ele teria tanto conhecimento das novas fábulas? Todo dia era um novo caso de vizinhos brigando, pessoas pedindo ajuda para se adaptarem a esse novo mundo, e quase todos reclamando pelo preço de Glamour. Também não conseguia confiar em ninguém, muito menos naquelas pessoas mais próximas a ele.
— Bem, eu preciso falar com Merlin. — quebrou o silêncio da sala. — As vezes ele pode nos ajudar também.
— Merlin nunca nos ajudou em nada, querida. — Branca de Neve cruzou os braços, fazendo uma careta ao falar o nome do feiticeiro. — Merlin só ajuda Arthur, e olhe lá. — ela bufou, olhando para o seu espelho. — Mas vocês poderiam fazer uma visita à ele. Se isso atrapalhar o queridinho dele, talvez ele nos dê uma pista do que está acontecendo.
A moça segurou a ficha do feiticeiro, relendo tudo aquilo que já tinham escrito sobre ele. Merlin lembrava um bruxo comum, mesmo sendo conhecido como o maior e mais poderoso feiticeiro da Idade Média. Mas ainda era idoso e parecia ter saído daquela animação da Disney.
Ele morava em uma das áreas verdes que os nova iorquinos tinham a capacidade de chamar de floresta. Parecia muito mais recluso do que antes, além de estar muito mais fechado do que qualquer outra representação que os mundanos tentaram fazer sobre ele.
Além do caso principal das princesas, Branca e Lobo precisavam cuidar de mais um assunto, que eram as então esquecidas poções Glamour, que serviam para que personagens humanoides se completassem, com características físicas que os mundanos não percebessem.
Precisavam de mais magos para a produção dessa poção, já que, até aquele momento, Elphaba era a única que ajudava, mas sozinha o custo de produção subia muito e ficava cada vez menos acessível para aqueles que realmente precisavam.
Pegaram um táxi até o lugar demarcado no mapa, que levava no máximo vinte minutos de onde estavam. A paisagem entre a parte da cidade que moravam e a parte que estavam indo eram opostas. FableTown parecia escura, sem sol e abafada por tanta fumaça. Aquela parte era clara, com um céu azul e um sol que queimava a pele. O ar não parecia tão pesado para respirar, e até se sentia um pouco melhor ali.
— Ainda não sei se é uma boa ideia tentar convencer Merlin a nos ajudar. — Lobo dizia enquanto observava o movimento da rua pela janela do táxi. — Vai ser complicado.
— Merlin? Tipo o mago? — o taxista perguntou, rindo. — Quem dá um nome desse para o filho?
— Bem, pelo o que ele me contou, os pais eram muito fãs de RPG. — sorriu para o taxista pelo retrovisor. — Daí já sabe como que é, né?
Lobo olhava para a garota com uma grande interrogação pintada no meio de seu rosto. Em muito pouco tempo já tinha compreendido muita parte da cultura dos mundanos, e, a cada dia que passava, parecia estar mais apta a viver entre eles.
Depois que desceram no que parecia ser uma entrada de parque, logo encontraram a marcação de que, ao adentrar aquela florestinha, mundanos estavam protegidos por alguma mágica para não encontrarem a casa de Merlin.
— Bem, não temos noção de como o seu poder está. — Lobo voltou a falar, mas parecia mais como uma reclamação.
— Talvez se formos educado, ele aceite nos ajudar. — sorriu.
— É. Tomara que ele aja da mesma forma que Elphaba. Ela foi tão compreensiva conosco que aceitou nos ajudar de bom grado. — Ele já conseguia ver a casinha do feiticeiro, cheia de raízes para fora da terra e com cipós grudados em suas paredes. — , fique mais próxima, você está se tornando um alvo fácil.
Lobo puxou a garota para perto pelo o pulso, tentando se projetar um pouco mais a frente, como forma de escudo. Alguém poderia atacar por todos os lados, e até percebia que o cenário parecia ter mudado de algo claro para algo mais macabro.
— Bem, se vocês conseguiram convencer a Bruxa Má do Oeste a se juntar ao lado bom da força, não tem porque eu estar aqui. Você devia me liberar para voltar com meus outros deveres. — Ela sussurrava enquanto tentava acompanhar os passos do lobo.
— Não. Eu preciso de você aqui do meu lado. — Ele mais rosnou do que falou, parando para se virar para a garota, reprovando sua atitude. — Eu… Não sou muito bom em lidar com as pessoas. Então… — ele limpou a garganta, voltando a olhar para frente. — Você fica. Por favor.
As últimas duas palavras que ele falou eram muito duras para que conseguisse falar em um tom entendível. Ele sentiu uma das mãos de encostar em um de seus braços, numa tentativa de mostrar que ela ficaria. Não se deixou olhar para trás novamente, transformando suas orelhas em orelhas lupinas, tentando movê-las para encontrar algum barulho estranho.
Ele sentiu a mão de apertar seu braço assim que pararam em frente à porta da casa do feiticeiro. Agora era possível notar que a casa era feita de pedras, com musgos entre algumas delas, de tão úmido que aquele lugar era.
Por fora, parecia ser uma toca de Hobbit, de acordo com . A porta era redonda, e logo a garota perdeu o medo que tinha de estar naquele lugar. Ela encostou na porta, parando para observar Lobo analisando cada canto da fachada da casa. Pensar que um grande mago vivia ali dava calafrios nela. Era verdade que a magia ainda era muito presente naquele ambiente, mesmo que não vivessem mais dentro de contos de fadas, e que nos mundanos, ela fosse fraca para a imensa maioria.
Para os mundanos, a magia era algo mais fácil de manusear, mas era muito mais escassa. Tudo era resumido à elementos e energias cósmicas, quando, na realidade , era muito mais do que eles conseguiam imaginar. Mas Merlin podia controlar tudo aquilo com muita maestria, e, naquele novo lugar, poderia ser tanto alguém do lado dos vilôes quanto dos mocinhos.
— Lobo, ainda não sei qual seria a melhor forma de falar com ele sobre o outro assunto. — ela olhou para os pés, mas logo sentiu que seu encosto tinha saído do lugar. — Estamos…
— Atrasados! — uma voz um pouco mais rouca e de idade assustou o casal. — Vocês estão atrasados! Ande Lobo, entre logo e ajude sua amiga a levantar. Temos muito o que conversar enquanto tomamos chá.


Capítulo 6

A casa de Merlin era, de fato, maior por dentro, o que fazia com que se sentisse dentro de um seriado dos anos sessenta que todas as pessoas achavam incrível como algo tão pequeno por fora poderia ser tão grande por dentro.
A garota ficou admirada pelo lugar que estava. Nunca tivera muito contato com magia, mas a sensação de estar naquele lugar era muito boa e reconfortante. Uma vassoura varria o chão, enquanto a louça saia do armário e voava para a mesa que Merlin estava apontando. O bule de chá ainda estava no fogão, mas já era possível ouvir o som que a fumaça fazia ao sair do bocal. Tudo parecia uma grande bagunça organizada.
Tanto Lobo quanto trocavam olhares de momentos em momentos, quando algo inanimado não chamava a sua atenção para o que estava fazendo. Os dois continuavam em pé, enquanto o feiticeiro se aproximava de sua mesa para tomar seu chá
— Eu sei o que vocês querem comigo. — ele disse assim que separou as ervas para o chá. — Mas preciso informar vocês que minha magia não está a venda! Eu sempre ajudo aqueles de bom coração que me procuram. — então ele se virou para . — E parece que alguém aqui se encaixa nessas condições. — ela só conseguiu sorrir de volta para ele.
Os dois se sentiam um pouco intimidados pelo feiticeiro. Ele parecia aqueles personagens de livros de fantasia que sabiam de tudo e de todos, assim como provavelmente sabiam o que você estava pensando. Merlin continuou.
— Vejam crianças, eu não entrarei nessa onda de polícia, ou política, mas não temos como negar que vocês precisam urgentemente da minha ajuda. E eu tenho minha resposta bem ali. — ele apontou para um caldeirão já um pouco enferrujado. — Mas antes de falarmos sobre isso, vamos tomar chá.
Merlin fez um movimento com as mãos e todos os objetos da casa começaram a se mover em direção à mesa. As cadeiras se encaixaram nas pernas de Lobo e , os forçando a sentar e flutuar até o local indicado pelo mago. As xícaras voavam da prateleira em cima da pia até a frente deles, sendo seguidas por um pote de biscoitos e uma jarra com creme.
via graça em tudo aquilo. Quando morava no reino ela ouviu falar de feiticeiros poderosos, que sequestravam princesas, ou ajudavam algumas rainhas à engravidar, tomando tudo aquilo que essas mulheres tinham após o nascimento da criança. Alguns desses feiticeiros eram poderosos ao ponto de colocar um reino todo em um sono eterno de cem anos. Tudo aquilo arrepiava a espinha da garota.
Mas ali naquele casebre era diferente. Ao contrário do que imaginava, também existia luz na magia, e era tão poderosa quanto as trevas que dominavam alguns corações. Todos aqueles objetos inanimados praticamente dançando ao seu redor apenas com o movimento de uma mão de Merlin era encantador e magnífico.
— Odeio usar meu caldeirão antes de tomar chá. — ele disse enquanto puxava o bule com água fervendo para perto de sua xícara. — Sabem o que diziam lá no reino? Chá era magia em sua pura forma, apenas porque era só água quente esquentada com algumas folhas. Aqui eu encontrei uma grande variedade de sabores, aromas. É tudo tão delicioso. Nunca mais voltarei para a Terra das Fábulas.
sorriu, provando seu chá. Tinha sabor de maçã com canela, e o aroma dele era magnífico. Ela passou alguns segundos hipnotizada pelas sensações que esse sabor a trazia na memória, até voltar para a conversa.
— Então, sobre o caso do Glamour… — Merlin limpou a garganta. — Minha magia não está a venda. Principalmente porque aqui ela é diminuída a quase nada, então tenho que saber muito bem como utilizá-la. Mas posso ensinar alguma pessoa não mágica, mas do reino das fábulas, como fazer poções e sintetizar Glamour.
— A gente pode ver quem é o mais apto então. — sorriu. — E você teria um novo aprendiz.
— Não sei se é uma boa ideia, Merlin. — Lobo disse, finalmente tocando em sua xícara. — Aqui não é como lá na Terra das Fábulas onde existem personagens inteiramente bons e puros. Não se pode confiar em ninguém em Fabletown.
— Bem, vamos deixar essa opção em aberto e discutir melhor lá na prefeitura. — sorriu, chutando Lobo por debaixo da mesa. — Você tem alguém em mente para ser seu aprendiz?
O mago olhou para a sua janela, tomando um demorado gole do conteúdo de sua xícara. tinha respirado fundo, olhando atentamente para Merlin enquanto esperava a resposta. Seus olhos brilhavam em expectativa, não deixando de observar cada momento do homem.
— Ela seria uma boa aprendiz. — Merlin disse, sorrindo para Lobo. — Sei que você é contra, então procurem por Arthur. Ele sabe muito bem o que faz, graças à mim. Ou alguma fada que veio para cá.
— É, não seria uma boa ideia mesmo. — Lobo cruzou os braços. — Então vamos procurar por alguém que preencha essa vaga. E depois conversamos sobre o resto.
— Hora de usar o caldeirão.
Merlin sorriu, levantando com um pulo de sua cadeira, fazendo outro movimento para poder lavar e guardar a louça suja. Juntou alguns potes coloridos e andou em direção à um grande caldeirão que já possuía um pouco de ferrugem, jogando o conteúdo dos vidros.
Dentro do caldeirão a água começou a brilhar um pouco mais forte do que o normal, hora rosa, hora azul, hora verde, laranja, amarelo… Merlin movimentou as mãos o suficiente para que a água respondesse ao seu comando. Então tudo ficou claro.
Em vez de uma água colorida, era possível ver uma rua parecida com as ruas dali. Um apartamento de tijolos à vista ficou em foco, com a imagem indo da fachada do prédio para os fundos, onde um homem de casaco bege e boina verde parecia arrombar o portão para poder entrar pelas escadas de emergência.
— Quem é esse? — Lobo perguntou a Merlin.
— Ei, isso é um caldeirão. Não o Mapa dos Marotos.
Lobo balançou a cabeça para o mago, enquanto ria do mesmo ter feito uma referência à uma história que ele era citado. Como diriam os mundanos, era uma referência dentro de uma referência.
— Mas não dá para saber quem é. — cruzou os braços, se aproximando mais da imagem. — Não dá para ver o rosto, nem para ter uma noção se ele toma Glamour. É bem inútil ver isso enquanto ele está invadindo. — ela tirou o celular do bolso. — E aqui não tem sinal, então nem dá para avisar a Branca.
— Aí que você se engana, moça. — Merlin sorriu. — Isso aqui ainda vai acontecer. Hoje. Daqui uma hora.— ele então suspirou, olhando para Lobo. — Minha magia não vai além disso, eu já tentei.
Alex deu mais uma olhada no prédio. Era muito similar à algum que ela já tinha visto. Os tijolos à vista laranja, com o grande portão de metal e a escada lateral. Tudo isso poderia parecer só mais um prédio dos arredores de Nova Iorque, mas sentia uma proximidade ainda maior.
— Lobo. Esse é o prédio da Rapunzel. — a voz dela era seca. — Eles vão atacá-la. Não podemos deixar isso acontecer.
— Então corram! — Merlin levantava os braços, como se tentasse acordar os dois. — Vocês não tem muito tempo e eu não posso mandar vocês para lá. Magia limitada, lembram?
Lobo juntou suas coisas e estava para abrir a porta quando Merlin continuou a falar. Sentiu a adrenalina correr por seu corpo, tentando se segurar para não se transformar em um enorme lupino ali na frente deles.
Ele nem conseguia entender o porquê de estar fazendo tudo aquilo, mas queria dar o máximo para chegar naquele prédio a tempo de parar o cara que estava sequestrando todas as princesas. Ninguém mais poderia ser sequestrada, ele não podia deixar isso continuar a acontecer.
Mas ao mesmo tempo que temos alguma coisa a nosso favor, sempre existe algo que não está em nosso poder, e no caso de Lobo era ter alguém que pudesse confiar e que estivesse do seu lado nesses momentos. Não poderia levar alguém como ou Branca de Neve numa perseguição como essa. Não podia usar da magia para conseguir interromper o plano do homem, um plano que nem sabia o porquê de estar acontecendo.
— Alex, vamos! Ainda consigo parar ele. — Lobo disse, pegando seu casaco e acenando para Merlin. — E você, mago, eu venho mais tarde para conversarmos em particular.
— Qualquer dia Lobo! — Merlin acenou de volta— Tome cuidado. E você mocinha…— ele parou , segurando suas mãos, sorrindo.— Faça o favor de não mentir para mais ninguém.
Eles começaram a correr, pulando as raízes que antes atrapalhavam a passagem para a casa. Nada parecia ser capaz de impedir Lobo de chegar novamente até a estrada. Ele estava mais ágil do que normalmente, e podia notar que ele não estava na sua forma totalmente humana. Suas garras estavam de fora, ele parecia mais alto e mais corcunda, e desviava do que estava na sua frente como se estivesse caçando algum animal.
Era incrível poder ver a capacidade que Lobo tinha, e existia tanta adrenalina em seu corpo que se deixou levar pelo momento, tentando apenas segui-lo. Seus pés já pediam descanso, assim como a sua perna, mas o sentimento de correr era tão delicioso que ela não queria parar simplesmente porque doíam, ela queria correr e sentir eles doerem ainda mais, até que não aguentasse com essa dor e parasse. Queria se forçar a fazer o máximo de esforço físico que podia, afinal não era todo dia que poderia fazer isso.
Não era todo dia que ela conseguia desvencilhar o que tinha acontecido quando foi com Lobo na boate de Madame Tremaine. Não era todo dia que conseguia esquecer que ele estava ali, e que agora estava disposto a ficar com ela. Não era todo dia que ela conseguia não pensar se foi uma boa escolha ter se separado dele.
O problema com o que aconteceu aquele dia foi o que ela mais temia. Não queria voltar a morar com alguém que tinha pedido anulação de um casamento por ela não ser nobre. Ela começou a desprezar alguém como ele. Mas agora ele parecia tão diferente, tão melhor do que quando o conheceu que, no fundo, tinha dúvidas se não queria mesmo voltar a ficar com ele.
Eles corriam na mata fechada, até que percebeu um barulho diferente. Não parecia vir de muito longe, afinal, Lobo estava no mínimo já na estrada. Ela continuou no ritmo, sentindo seus músculos queimarem pelo exercício físico, sentia seus pulmões pedindo por mais ar. De repente, escutou o barulho que parecia ser de uma arma, e aumentou ainda mais a sua velocidade. Alguém poderia ter atirado em Lobo. Ela precisava ajudá-lo. Se ele tivesse ido mais devagar. Então sua visão começou a ficar turva, e a última coisa que enxergou foi um borrão que se parecia com o Lobo.
Quando ele escutou o barulho sabia que tinha alguma coisa errada e voltou pelo mesmo caminho, até encontrar uma de pé, ainda correndo, mas toda ensanguentada. Ela parecia não saber que tinha sido atingida, e que metade da sua roupa já não possuía a cor original, e sim um vermelho forte. Ele segurou-a, voltando para a estrada.
Era esse o motivo para não querer levar as duas para essas perseguições. Ele não queria ser o responsável por pessoas serem atingidas, quando só ele deveria ser. Ninguém deveria ficar em perigo assim, e vendo perdendo sangue daquela forma, só o fazia repensar em tudo o que tinha acabado de fazer.
Ela parecia estar bem, mas se não a levasse para um médico a situação iria piorar. Como as fábulas cicatrizam muito mais rapidamente que pessoas normais, existia o perigo dela acabar ficando com uma suposta bala dentro do corpo.
Para não causar alarde em quem estava fora daquela floresta, ele tirou parte da blusa que usava, e colocou em torno do buraco que tinha se formado perto da costela da moça. Ele então começou a fazer uma pressão, tentando espremer a bala como se fosse uma espinha, mas não funcionou. Então envolveu-a em sua jaqueta, e a levou para fora da floresta.




Continua...



Nota da autora: Olá Pessoas <3 Espero que tenham gostado essa atualização. Agora nos meses de férias a att será mais rápida por motivos de férias. Lola





Outras Fanfics:
Pequenas Doses de Alegria | 06. I Wish | 10. Immortals | 09. Pushing Me Away | 07. Picture This | 11. Sweetest Devotion


comments powered by Disqus