Última atualização: 02/05/2019
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Prólogo

Não sei quantos dias havia se passado desde que eu vira pela última vez. Ele não bateu em minha porta, para ver se eu estava bem, como sempre fazia, e eu não escutava barulho algum feito por ele ou pelos outros. Havia tantas coisas que eu queria perguntar! Para começar, obtivemos sucesso em nossa missão? Precisaríamos, realmente, passar mais tempo dentro da Orion? Será que ele e Martin conseguiram reestabelecer contato com a NASA? E, principalmente, eu queria muito saber o que ele estava pensando de mim. Mas, fora isso, eu estava muito bem, obrigada, dentro de meu compartimento – ou quarto, como preferir.
Bom, talvez não tão bem assim, considerando que eu não parava de repetir mentalmente nossa última conversa.
finalmente abaixou sua guarda e me disse tudo que eu sempre quis ouvir sair de sua boca. Mas, ao invés de lhe dizer que eu sinto o mesmo, eu simplesmente lhe dei as costas e saí, vindo para meu compartimento, sem sair dali desde então. Eu ignorei todo o juramento que fiz como astronauta e deixei meus sentimentos atrapalharem minhas tarefas na missão. E eu sabia exatamente o porque de ter feito isso.
Eu era uma covarde.
Enquanto tinha se aberto e sido sincero comigo, expondo seus sentimentos, eu ainda escondia um segredo dele. Eu não tinha coragem de lhe olhar nos olhos e contar o que ninguém sabia, além de mim. Não tinha coragem de me abrir com ele sobre os motivos que me fizeram pedir transferência, logo após completar o meu treinamento na NASA, na época. Não sabia como lhe dizer que havia engravidado dele, anos antes. Não sabia como ele reagiria ao saber que escondi esse fato dele, e que, além de tudo, eu perdi nosso bebê.


01

– Alv, você só pode estar de brincadeira comigo! – exclamou, extremamente indignada, enquanto levantava-se da cadeira e batia sua mão direita na mesa de reuniões, fazendo com que os outros astronautas que estavam ali se sobressaltassem.
– Eu tenho cara de quem está brincando? – Alvin, supervisor da missão CR3-MA, falou a , enquanto observava a engenheira andar para lá e para cá dentro da sala.
O homem estava com sua caneta em mãos, apertando-a sem parar, fazendo um barulho insuportável. Ele nem se deu ao trabalho de levantar de sua cadeira, pois já estava familiarizado com os surtos de sua enteada, e sabia que não deveria ceder às suas reclamações. Oh, sim, era filha da esposa de Alvin, e ele era seu padrasto. Alvin e a mãe de , Joan, se casaram quando a menina ainda era adolescente. Ele o amava como sua filha, e o considerava tanto quanto um pai.
, seja menos histérica, por favor. Você está me dando dor de cabeça. – Martin, o astronauta comandante da missão, comentou e levou seus dedos até suas têmporas, massageando-as.
revirou os olhos para o loiro e continuou a esbravejar:
– Alvin, você, mais do que ninguém, sabe de meu passado com ele! E você também, Martin! – Apontou para os dois e continuou a andar de um lado para o outro, batendo os pés com força no chão, demonstrando sua revolta. – E agora eu devo simplesmente aceitar o fato de que terei que passar 300 dias com ele dentro da Orion3? E pare de apertar essa caneta, por Deus, Alv!
Martin e Ethan se entreolharam, segurando o riso. Os dois sabiam que, além disso, também estava irritada por ser a única mulher na missão. Não que fosse um problema conviver durante 300 dias com três homens que pareciam ter saído de um catálogo da Calvin Klein, mas, qual é? Nenhuma mulher? Sério? Ela enlouqueceria com tanta testosterona ao seu redor.
– Primeiro, eu só sei o que você contou a mim e a sua mãe, nada mais que isso. Não me parece tão difícil superar um casinho que você teve durante o treinamento. – Alvin levantou a mão e começou a enumerar os fatos com seus dedos, enquanto o olhava prestando atenção. – Segundo, não admito que use esse tom comigo aqui dentro, e você sabe disso. Terceiro, quem quis voltar para cá foi você, já trabalhava aqui, só estava afastado nos últimos meses. Quarto, você está preparada para essa missão e ponto final! Pode reclamar o quanto for, nada vai mudar o fato de que você e irão juntos para Marte!
A engenheira bufou, derrotada, e voltou a se sentar em sua cadeira, puxando-a sem delicadeza alguma para perto da mesa.
– Minha mãe vai te odiar por me designar para uma missão com duração de 300 dias. Você sabe disso, não sabe? – questionou.
Alvin sorriu sem mostrar os dentes e concordou com a cabeça. Ele iria ouvir muito de sua esposa assim que chegasse em casa. Porém, ele não podia fazer nada. O que seus superiores decidiam, ele concordava. O que lhe mandavam fazer, ele fazia. Simples assim.
Algumas batidas foram ouvidas e a porta se abriu, fazendo com o que os quatro ali presentes olhassem para a entrada da sala. colocou a cabeça para dentro e seu olhar caiu diretamente em . A princípio, ele não reconheceu a mulher, mas depois de alguns segundos encarando-a, ele finalmente a identificou.
Era ela, não era?
.
Depois de todo esse tempo, ela estava ali, em sua frente. A única mulher que ele havia amado em sua vida, mesmo não tendo dito isso para ela, na época em que estiveram juntos. sempre foi um garanhão. Quando começou a se relacionar com durante o treinamento, a garota se apaixonou por ele logo de cara. Mas , no início, não sentia nada mais que atração. Uma forte atração, mas era só isso. Durante os meses em que ficaram juntos, ele nunca quis assumir o que eles tinham, mesmo deixando claro que não queria ser só mais uma em sua vida.
E ela não foi, mas não sabe disso.
Ele saía e se divertia com seus amigos, ficava com outras mulheres. Não eram exclusivos um do outro. Isso estava claro para os dois, mas não estava satisfeita. só foi perceber que estava apaixonado por ela quando a garota sumiu, de repente, sem dar explicação alguma.
É aquela velha história, não é? Você só percebe que ama alguém quando essa pessoa vai embora.
Ele achou que ela havia se cansado de suas desculpas e simplesmente resolveu partir. se culpou por não ter entendido antes o que sentia por ela. Os dois nunca mais se encontraram. Ele não sabia para onde ela havia pedido transferência e não lhe passaram essa informação na época, então não teve como ir atrás da mulher. Mas agora, por coincidência do destino, ou não, eles iriam trabalhar juntos novamente. E uma chama de esperança, mesmo que pequena, se acendeu dentro de .
estava mais bonita do que era há alguns anos atrás. Seus cabelos loiros escuros, antes compridos, agora estavam mais curtos. Seus olhos tão expressivos continuavam iguais, se não mais intensos ainda. Sua boca... Será que sua boca ainda era macia como ele se lembrava? E seu corpo? Agora deveria ser mais curvilíneo do que antigamente, com certeza.
, por sua vez, perguntava-se se o tempo havia passado para . Cinco anos ser ver o homem e ele estava ainda mais bonito e gostoso desde a última vez que se viram. Era inacreditável. Seus olhos azuis ainda tinham aquele brilho único. Seu rosto estava coberto por uma barba rala, que lhe deixava mais atraente. A única diferença é que agora ele estava mais encorpado, musculoso.
Extremamente gostoso, para o azar de .
Ela sabia que todos os sentimentos que nutria por não se esvaíram. nunca o esqueceu, apenas o trancou a sete chaves no fundo do seu coração, junto com todas as lembranças boas que tinha do homem. Os motivos pelos quais pediu transferência logo após o treinamento terminar ainda a machucavam, e ela nunca os dividiu com ninguém. Guardou tudo para si. Ela gostaria de poder ignorá-lo, mas sabia que isso não seria possível. Então, optou por tratá-lo com indiferença. Em sua cabeça, isso seria o suficiente para impedir que seu amor por ele voltasse com tudo.
arriscou um sorriso em sua direção, mas continuou séria, encarando-o, olhando diretamente nos olhos azuis do médico. Os dois só pareceram se lembrar que havia mais pessoas na sala quando ouviram alguns pigarros. Ele ajeitou sua postura e finalmente quebrou o contato visual entre eles, virando-se para o supervisor ali presente.
– Com licença, Alvin. Me disseram que você estava à minha espera. – falou, enfim entrando na sala por completo e fechando a porta atrás de si.
– Sim, . Sente-se, por favor. – Indicou a cadeira ao lado de . – Acredito que já conheça minha enteada, . E os astronautas Ethan Draw e Martin Lewis.
Ah, Martin Lewis. Loiro, de olhos castanhos, completamente lindo. Tinha uma pinta de surfista. Mas era só a pinta, mesmo. Ele e eram melhores amigos há algum tempo, desde que se conheceram na faculdade de engenharia, quando a garota transferiu sua graduação.
Já Ethan Draw tinha olhos verdes, cabelos castanhos e pele negra. Um belo pedaço de mal caminho, arrancava suspiros por onde passava. Astronauta já há alguns anos, essa seria sua segunda grande missão.
deu alguns passos até a mesa.
– E aí, Lewis. Draw. – cumprimentou-os com um aperto de mão e então deu a volta na mesa de reuniões, indo até o lugar que lhe foi indicado. Ele afastou a cadeira e se sentou, bem ao lado de .
A mulher mantinha seu rosto virado para frente, com o olhar em qualquer lugar que não em .
– Fizemos o treinamento juntos. – O médico comentou, virando sua cabeça para olhar diretamente para .
Ao perceber que os olhos do homem estavam em si, teve que se esforçar para reagir de alguma maneira. Acabou esboçando um sorriso falso, sem abrir a boca e balançou a cabeça, concordando com ele. Martin e Ethan riram baixinho e receberam, cada um, um chute na canela.
– Já fazem o que, 3 anos? – questionou, ainda sem desviar seu olhar da loira.
– Quatro. – respondeu, apenas, e voltou seu olhar para Alvin, encarando-o, implorando para que ele começasse logo a falar sobre a CR3-MA.
balançou a cabeça em concordância e também se virou, olhando para o supervisor em sua frente. Os quatro astronautas, agora, tinham o olhar fixo em Alvin.
– Então, , como expliquei para eles anteriormente, vocês foram os astronautas designados para a missão CR3-MA. Todos já têm o treinamento necessário e estão prontos para isso. Acredito que já tenha recebido o comunicado, mas, preciso perguntar se você está de acordo e pretende aceitar a missão.
– Sim, Alvin, estou de acordo. E aceito a missão.
Alvin sorriu brevemente para e continuou:
– Vocês irão como tripulantes da Orion3, nossa mais nova espaçonave. Já realizamos testes em outras duas versões dela e tudo ocorreu maravilhosamente bem. Acredito que já tenham ouvido falar na Orion1 e 2, certo?
Todos balançaram a cabeça ao mesmo tempo, mostrando que sim, estavam familiarizados com as espaçonaves que ele citou.
– A princípio, a CR3-MA está programada para durar aproximadamente 300 dias. Martin será o comandante, Ethan irá como especialista de missão, e você e serão especialistas em carga útil. A missão consiste em pousar em Marte, e trocar e reparar os nossos satélites que existem no planeta, porque eles foram danificados devido a última tempestade que ocorreu. – Alvin fez uma pausa e deslizou pela mesa quatro pastas com o logotipo da NASA, com os nomes dos profissionais que ali estavam. – Aqui está o contrato de cada um, bem como todas as instruções de preparo para a missão. Mesmo vocês já estando habituados as nossas espaçonaves, a Orion3 é a mais moderna, portanto, é imprescindível que compareçam aos testes e leiam os manuais que acompanham as instruções.
Os astronautas assentiram para Alvin, enquanto abriam os materiais recém recebidos. folheou as páginas do contrato, passando os olhos rapidamente por elas antes de assiná-lo. Não era nada que ela já não tinha lido e se tivesse algo novo, Alvin a teria avisado. Mesmo tendo trabalhado durante os últimos anos em outra base da NASA, as burocracias eram as mesmas. , Ethan e Martin fizeram o mesmo e fecharam a pasta após assinarem o contrato.
– Se me permite perguntar, Alvin, não é necessário que um engenheiro vá também? As missões exigem, no mínimo, um médico e um engenheiro. Eu sou o médico, mas...
é engenheira, . – Alvin respondeu, e virou seu olhar para a mulher, erguendo as sobrancelhas, demonstrando sua surpresa.
– Eu não sabia que você chegou a finalizar o curso, . – O homem falou, fazendo com que ela o olhasse. – Achei que tivesse parado quando foi embora.
Óbvio que esse assunto surgiria, mesmo que nesse contexto, pensou . Antes de responder, ela respirou fundo e balançou a cabeça, negando.
– Transferi a faculdade, também. – contou, voltando sua atenção para Martin, olhando-o como se pedisse socorro.
– Ela se formou comigo. Terão dois engenheiros a bordo. – Martin comentou, esclarecendo as dúvidas de , que somente concordou com a cabeça.
Alvin soltou um riso baixo e se ajeitou em sua cadeira antes de falar:
– Bom, por hoje é só isso. Vocês partem em um mês. Estejam aqui na segunda-feira para iniciarmos os testes.
suspirou e se levantou rapidamente, agradecendo aos Deuses pela reunião ter chego ao fim. Estava difícil ficar ao lado de . Ela pegou sua pasta e foi até a porta.
– Até depois, Martin. E considere-se morto se não aparecer, Draw. – Cumprimentou o melhor amigo e intimou Ethan. Ela apenas acenou para os outros dois, e saiu logo em seguida, fechando a porta atrás de si.
Os homens trocaram um olhar significativo, por conta da pressa com que a mulher se retirou e deram de ombros.
– Bom, também já vou. Nos vemos a noite, Draw. Você ouviu a fera. – Martin disse para o amigo e se despediu do restante, saindo pela porta também.
Ethan apenas riu e concordou com a cabeça.
– Vocês se importam se eu for...? – perguntou, apontando para a porta por onde saiu momentos antes, deixando implícita a sua vontade de ir atrás da mulher.
– Vá, vá! Já deveria ter ido. – Alvin riu e balançou sua mão, dispensando o homem.
passou a mão por sua roupa, ajeitando-a, e se levantou, começando a andar em seguida, mas parou quando foi interrompido.
! O que vai fazer hoje a noite? – Ethan questionou.
– Sem planos. Por que? – Respondeu, um pouco surpreso pela pergunta.
– Apareça no Molly’s as 21h. – Convidou-o e se virou para conversar com Alvin.
concordou com a cabeça e enfim se dirigiu até a porta, saindo pela mesma. Olhou para os lados e não viu em lugar algum. Acabou resolvendo ir pelo lado direito, em direção ao estacionamento. Ele acelerou um pouco o passo, tendo que desviar de algumas pessoas pelo trajeto. Quando virou à esquerda para entrar em um corredor, esbarrou em alguém e apenas murmurou um pedido de desculpas rápido antes de continuar seu caminho. Contudo, algo o fez parar.
– Qual é o seu problema? – Ouviu a voz de perguntar.
se virou, encarando a mulher em sua frente. Ela se abaixou para pegar sua pasta que havia caído no chão e agora passava uma de suas mãos pelo cabelo, ajeitando-o.
– Meu problema? – questionou, dando alguns passos para se aproximar dela.
– Sim! O seu problema! – falou novamente, seu tom de voz impaciente, enquanto os olhos azuis de a encaravam.
– Eu estava... Eu só estava te procurando. Achei que já estivesse no estacionamento. – O homem respondeu, levando sua mão até seu cabelo, bagunçando-o.
acompanhou seus movimentos e mordeu seu lábio inferior por dentro. Teve que respirar fundo e se lembrar de que deveria tratá-lo com indiferença.
– Me procurando? – perguntou, um pouco surpresa. Ela se mexeu, apoiando o peso do corpo em sua perna esquerda.
– É. Eu gostaria de conversar. – deu mais alguns passos e parou bem próximo a astronauta.
, instintivamente, deu dois passos para trás. , ao perceber o movimento da mulher, completou:
– Se você quiser.
– Nós não temos nada para conversar. – afirmou a ele antes de desviar seu olhar e recomeçar a andar pelo corredor em que estavam.
a seguiu, acelerando o passo para acompanhar a mulher.
– Ah, qual é, ? Temos muito o que conversar. – Ele falou quando a alcançou, e agora os dois caminhavam lado a lado.
não queria ter essa conversa. Não agora. Na verdade, se pudesse, ela não teria essa conversa nunca. Contudo, ela sabia que isso seria impossível, ainda mais agora que o homem voltará a estar presente em sua vida.
A engenheira permaneceu em silêncio. , então, percebendo que não obteria resposta, resolveu ser direto:
– Por que você foi embora?
A mulher parou de supetão ao ouvi-lo e teve que inspirar e expirar o ar algumas vezes, antes de se virar e ficar frente a frente com .
– Eu não quero conversar. Nem hoje, nem amanhã e nem depois. – falou firmemente, tentando evitar o contato visual direto com ele.
O brilho que havia nos olhos do homem se apagou, mas ele logo tratou de piscar e balançar a cabeça para os lados. abriu um sorriso irônico para a mulher.
– Você não era assim, .
– Não me chame de ! – Ela levantou a voz, apontando o dedo indicador para ele.
Ao perceber que fez isso, ela tratou de abaixá-lo na hora. respirou fundo e balançou a cabeça.
– Não me chame de . – Repetiu, um pouco mais calma. – E eu não era como? Ainda sou a mesma.
abriu um sorriso melancólico.
– Ah, mas não é mesmo! Agora você está grossa. Irritada. Tão... – Maravilhosamente linda, pensou. – Indiferente. Você costumava ser mais calma. Era doce. O brilho de seus olhos era diferente.
se surpreendeu com as palavras de .
Era verdade. O que ele falou, era a mais pura verdade. Não que agora ela fosse alguém ruim. A de antigamente ainda estava nela, mas só existia para pouquíssimas pessoas. Sua mãe, com certeza. Alvin, quem sabe. Seu melhor amigo, Martin. E seu gato, Ronron, sem dúvida nenhuma. O fato era que, com o passar do tempo, construiu uma imagem para se proteger. Era mais fácil dessa maneira. Porém, se dissesse que não sentia falta de ser ela mesma o tempo todo, estaria mentindo.
Seu maior desejo era poder quebrar essa barreira que criou ao redor de si, mas ela não conseguia. E só havia uma pessoa no mundo que seria capaz disso, e ele estava parado em sua frente.
– Eu só gostaria de entend... – recomeçou a falar depois de alguns segundos de silêncio.
foi puxada de volta para a realidade quando o ouviu começar a falar e logo interrompeu:
– Não tem nada para entender, . Eu não sou mais a mesma de antigamente e duvido que você também seja. Nós tivemos algo, eu fui embora e hoje não temos mais nada. Entendeu ou vai precisar que eu ilustre para você?
ergueu as sobrancelhas, surpreso com a agressividade de . Ele levantou as duas mãos em sinal de rendição e deu alguns passos para trás, afastando-se dela.
– Uau! Não me lembro de você algum dia ter falado assim comigo. – passou as mãos pelo cabelo e deu uma risadinha incrédula, balançando a cabeça. – Você realmente mudou. Nem parece a mesma pessoa. Mas, tudo bem. Já entendi. Não precisa se dar ao trabalho de ilustrar nada. – Finalizou, fazendo aspas com os dedos quando pronunciou a palavra ilustrar.
lhe deu as costas e começou a se afastar imediatamente, andando em direção à saída. Será que ela havia pego pesado? Bom, não importava.
também retomou seu caminho, andando mais devagar para não alcançar o homem a sua frente. Temporariamente, havia se livrado de conversar com . Ela abriu um sorriso de lado ao constatar isso. alcançou a saída do prédio, e ao sair pela mesma, viu conversando com alguns homens. Acelerou seu passo e continuou a caminhar em direção ao seu carro. Porém, antes que se afastasse o suficiente, ela ouviu a voz de :
– Tchau, .

xxx

– Eu devo ter jogado pedra na cruz, não é possível! – exclamou assim que fechou a porta de seu apartamento.
A mulher largou sua bolsa de qualquer jeito em cima da mesa e foi até o sofá no meio da sala, jogando-se no mesmo em seguida. Ela respirou fundo e soltou o ar pela boca, bufando. Ainda não tinha engolido o fato de que teria a companhia de por 300 dias.
Uma bola de pelos laranja apareceu no sofá e se aproximou de sua dona. O gato foi até e subiu em seu colo, esticando sua cabeça e esfregando-a no rosto da mulher.
– Ronron, o que eu irei fazer com você? – questionou, afagando a cabeça do gato. – Como vou ficar mais de um ano sem ouvir seus miados?
Ronron miou para a dona, como se a estivesse respondendo, e deu uma pequena lambida na mão dela que estava em sua cabeça.
– Vou perguntar ao Alvin se você pode ser o primeiro gato a ir para o espaço! O que acha? Você gostaria, não é? – perguntou. Aquela possibilidade era tão absurda que a fez rir. – Ah, eu vou sentir tanto a sua falta, Ronron. – Completou, sem parar de fazer carinho no amontoado de pelos alaranjados.
O gato se esticou e deitou-se ao lado de .
– Você gosta de minha mãe e do Alv, não é? Provavelmente será com eles que você vai ficar enquanto eu estiver longe.
se aconchegou no sofá e puxou Ronron para o seu colo. Os dois acabaram caindo no sono juntos.

Um toque de celular foi o que a fez acordar, cerca de duas horas e meia depois. tateou o sofá, procurando o aparelho. Quando o achou, atendeu ainda meio sonolenta.
– Hm. – Resmungou.
– Você me disse que se eu não aparecesse eu seria um homem morto. Engraçado, porque aqui estou eu. Mas cadê você? – Ethan falou ao telefone, fazendo a mulher se sobressaltar ao perceber que horas eram.
– Porr...caria! – exclamou, levantando-se do sofá.
– Achei que te ouviria falar um palavrão pela primeira vez, . – Ethan brincou, fazendo-a rolar os olhos, como se ele pudesse vê-la.
– Cale a boca, Draw. Chego em 20 minutos. – E desligou.
correu para o banheiro e tomou uma ducha rápida. Como não teve tempo de lavar seu cabelo, o prendeu em um rabo de cavalo alto. Passou uma maquiagem simples no rosto, com um delineador e um batom nude. Decidiu por usar uma saia preta colada, que descia até um pouco acima de seu joelho, e uma regata de cetim vermelha soltinha. Colocou um sapato de salto baixo e após arrumar sua bolsa, despediu-se de Ronron e saiu de seu apartamento.
Como o Molly’s era ali perto, cerca de duas quadras, optou por ir a pé mesmo. Alguns minutos depois e já estava entrando pela porta. Ela olhou para os lados, procurando seus amigos, e quase não acreditou quando os encontrou.
– Ah, não. Só podem estar de brincadeira comigo! – Exclamou, pela segunda vez no dia.

Martin e Ethan estavam sentados em uma mesa bebendo cerveja. O problema era que estava com eles.
Lindo, como sempre. Novamente para o azar de .
Oh, Deus, por quê? Se isso for coisa de Martin, ele…
! – Ethan a chamou, acenando para ela e interrompendo seus pensamentos.
abandonou seus pensamentos e abriu um sorriso forçado na direção dos amigos. E então se pôs a andar até a mesa em que eles estavam.
– Você chegou em... – Martin fez uma pausa, olhando para seu relógio de pulso. – 25 minutos. Parabéns, temos um novo recorde!
A loira revirou os olhos para ele e puxou uma cadeira, sentando-se.
– Credo, quanto mau humor. Nem parece que hoje é seu aniversário. – Ethan falou.
– Você sabe que não gosto de comemorar meu aniversário. Então, virmos aqui hoje é só uma formalidade. E também porque Martin me encheu o saco.
– Ei, eu não... – Martin se defendeu, mas a amiga o cortou.
– Cale a boca. E me dê uma cerveja. – pediu, fazendo com que ele abrisse uma careta para ela.
– Parabéns, . – se pronunciou pela primeira vez, fazendo com que a mulher virasse o rosto em sua direção.
Ele realmente estava lindo, usando uma camisa de gola polo na cor azul. Seus braços musculosos pareciam estar ainda maiores. Ah, fazia tanto tempo desde que as mãos do homem tinham percorrido seu corpo...
– É, é. Que seja. Obrigada. – Agradeceu, dando um gole em sua cerveja logo em seguida.
– Ela odeia aniversários. – Martin comentou. – Desde que nos conhecemos, nunca a vi comemorar esse dia como pessoas normais comemoram.
– Obrigada por me chamar de anormal, querido. Também te amo. – disse ao amigo de maneira irônica e apertou as bochechas dele.
Martin afastou as mãos dela e os três homens riram, o que fez com que ela acabasse rindo também.
– O que acham de jogarmos sinuca? A mesa está vazia. – Ethan comentou e apontou para a mesa próxima a eles.
– Não cansou de perder para nós, Draw? – Martin questionou e ele e riram.
Todas as vezes em que iam ao Molly’s, Draw perdia na sinuca. Fosse contra ou contra Martin, o resultado era sempre o mesmo.
– Eu estava sempre em desvantagem. Hoje temos como jogar em duplas. – Ethan deu de ombros e bebeu um gole de sua cerveja.
– Acho que deveríamos mudar as duplas hoje. – Martin sugeriu.
– O que? Por quê? – perguntou, seu tom de voz um pouco acima do normal.
deveria escolher quem quer como sua dupla. É a primeira vez que ele sai com a gente. – O loiro respondeu, recebendo um olhar torto de .
– Por mim tudo bem. Quero a . – decidiu.
engasgou e cuspiu toda a cerveja que tinha em sua boca.
O quê?
Tudo bem que o assunto era sinuca, mas... Precisava ser assim, tão literal? E ainda usar o apelido que ela tanto odiava?
Ok. Ela não odiava.
Acontece que o único a chamá-la dessa maneira era .
E cada vez que ele se referia a ela com o apelido, algo dentro dela acendia, quase como uma chama de esperança. E isso não podia acontecer.
– Tudo bem? – Martin perguntou à engenheira e ela balançou a cabeça, concordando.
– Engasguei. – Explicou. – Vou ao banheiro. Comecem sem mim, já volto.
esvaziou seu copo de cerveja em um só gole e se afastou da mesa dos amigos. Contudo, ao invés de ir para ao banheiro como havia anunciado, a mulher foi para o bar.
Quando chegou lá, ela se sentou em um banco e ergueu a mão para chamar um garçom.
– Tequila. – Pediu.
Assim que a bebida chegou, ela a bebeu, virando de uma vez só. O garçom se aproximou e pediu outra.
– Noite ruim? – O homem que estava sentado ao lado dela perguntou, assim que a viu virar a terceira dose de tequila.
– Algo assim. – Respondeu, sem se dar ao trabalho de virar para ele.
– Bom, o que você acha de irmos para…
– Não. – Ela falou firmemente enquanto passava a ponta dos dedos pela borda de seu copo.
– Mas você nem olhou para mim! – Ele rebateu e se aproximou de , que nem se mexeu.
– E nem preciso. A resposta é não. – negou mais uma vez.
O homem bufou, irritado, e se levantou, ficando atrás dela. Ele colocou suas mãos na cintura da mulher, que, em um movimento rápido, se virou e agarrou o punho do homem, torcendo-o. Ele gemeu de dor.
– Eu falei que não. – esbravejou.
Ele ergueu sua mão livre em sinal de rendimento e ela afrouxou o aperto ao redor de seu punho, soltando-o. levantou seu rosto, olhando pela primeira vez para o rosto do babaca. Ele pareceu estremecer e finalmente se afastou da mulher.
Assim que se viu livre dele, ela soltou o ar que estava segurando em seus pulmões e respirou fundo algumas vezes. Odiava fazer isso. Odiava ter que usar o que aprendeu nas aulas de autodefesa. Odiava o modo como alguns homens costumavam se aproximar das mulheres, tratando-as como objetos. Odiava, mais ainda, pensar que não eram todas as mulheres que sabiam se defender como ela. Gostaria de poder defender todas, pensou.
Ao erguer seu olhar, encontrou um par de olhos azuis encarando-a com certa admiração. Assim que ele percebeu que ela o viu, resolveu se aproximar. deu alguns passos na direção da loira, que permaneceu parada onde estava.
– Bela defesa. – Elogiou quando parou em frente a ela. – Você disse que iria ao banheiro. Quando se passaram vinte minutos, resolvi te procurar. Cheguei no momento em que o cara se pôs atrás de você.
permaneceu com a feição séria, ainda em silêncio.
– Até pensei em me aproximar para te ajudar, mas você se virou bem sozinha. Foi uma cena linda de se ver.
Dessa vez ela riu baixinho e levantou sua cabeça, olhando-o diretamente nos olhos.
Ah, seus olhos...
– Entendi o que você quis dizer quando falou que não é mais a mesma. Você amadureceu. Está forte. Um pouco amarga, mas... – fez uma pausa e sorriu de lado para a mulher. Ela retribuiu o sorriso.
– Precisei aprender a me defender. Homens sabem ser verdadeiros babacas. – respondeu.
Talvez fossem as doses de tequila que ela tomou antes que estavam ajudando-a a falar normalmente com .
Sim, definitivamente foram as tequilas.
– Martin e Ethan...? – Ela questionou, quebrando o silêncio que havia se instalado entre os dois.
– Foram para casa. Algo sobre uma corrida amanhã cedo. – respondeu, dando de ombros.
– Ah, sim. É melhor eu ir também, então. – anunciou, ajeitando sua bolsa em seu ombro.
O homem assentiu e ela começou a caminhar em direção a saída do pub. Ele a seguiu.
– Quer carona? – ofereceu a ela quando já estavam do lado de fora. balançou sua cabeça em negação.
– Moro há duas quadras daqui. Vou a pé. – Respondeu.
– Tem certeza? – perguntou.
Claro que não. Óbvio que queria entrar em um carro com . Talvez se tivesse bebido mais algumas tequilas, a resposta teria sido outra. Mas ela ainda tinha consciência de seus atos, e lembrava-se muito bem quem era .
– Sim. Tchau. – afirmou mais uma vez e se despediu, começando a andar para longe dele.
– Até segunda-feira, . – falou um pouco alto para que ela ouvisse.
fez uma careta e decidiu ignorar o modo com que proferiu seu apelido, limitando-se a andar em direção a sua casa. Um vento frio passou por ela, fazendo com que ela encolhesse seu corpo de modo a se esquentar. Durante o curto percurso, teve a impressão de estar sendo seguida. Olhou para trás diversas vezes, mas não viu ninguém. Só havia um carro na rua, o que era normal julgando pelo horário. Contudo, assim que chegou em seu prédio, o mesmo automóvel parou do outro lado da rua. E mesmo de longe, os olhos azuis que a assombravam puderam ser vistos no banco do motorista.
De dentro do carro, estava aliviado pela mulher ter chego em casa em segurança. E então seguiu seu caminho para casa, pedindo silenciosamente para que segunda-feira não demorasse a chegar.


02

Eram perto das nove horas da manhã quando passou pelos portões da NASA. Provavelmente Martin, Ethan, e Alvin já estavam ali. Ela ainda fechava os botões do casaco da NASA que usava como uniforme quando entrou na sala em que todos estavam. A explicação que estava sendo feita cessou no mesmo instante, fazendo com que todos a olhassem. Como previra, seus colegas astronautas já estavam ali, junto de seu padrasto e de alguns técnicos responsáveis pela Orion3. O supervisor da missão lançou um olhar torto em direção à engenheira.
– Eu sei, eu sei. Me atrasei, blábláblá, aconteceu, me desculpem. – falou, gesticulando com as mãos.
Alvin manteve sua expressão séria e balançou a cabeça para a mulher. Ele fez um sinal para o técnico e indicou que ele poderia voltar a explicação que fazia antes de ser interrompido. se posicionou ao lado de Martin, que sorriu brevemente para a amiga. Ethan piscou para ela e então seu olhar parou em , e ele a encarava sem discrição alguma. esboçou um projeto de sorriso, mas a mulher desviou o olhar no mesmo instante e começou a prestar atenção no que era dito.
– Graças aos nossos engenheiros, a Orion3 não possui zero gravidade. Vocês poderão se locomover normalmente. Os únicos locais onde a gravidade é zero são nos compartimentos laterais e na escotilha traseira, onde, vocês sabem, é por onde conseguirão sair da espaçonave quando preciso. – O técnico falou. – Tem também a superfície de acoplamento, para que, se necessário, vocês possam parar na estação espacial internacional, mas isso é em último caso.
Os astronautas assentiram para o técnico.
– Não é luxuosa e não é muito grande, vocês sabem disso. Não tem como fazermos uma nave cinco estrelas. Mas, conseguimos separá-la em ambientes. Tem a cabine de controle – o homem apontou para um banner que continha uma planta da espaçonave, mostrando o local com o dedo –, e junto a ela, além das estações de trabalho, tem uma área comum para que possam passar o tempo. Aqui é a cozinha. E aqui temos quatro compartimentos, ou quartos, caso prefiram chamar assim. São equipados com uma cama, uma cômoda com gavetas e um pequeno armário. O banheiro é de uso comum e segue o mesmo mecanismo de todos. Não tem chuveiro, somente uma ducha, no estilo chuveirinho.
– Vocês tomarão o que chamamos de banho de gato. – Alvin comentou, dando uma risada baixinha.
– Isso. – O técnico confirmou. – Usarão shampoo seco, sabonete sem muita espuma e toalhas úmidas. O kit de primeiros socorros também fica no banheiro, caso precisem. Aqui, temos a academia – apontou novamente para o banner, indicando a área a que se referia -, e por último, na parte inferior, fica a central de energia, juntamente com os compartimentos laterais onde vocês encontrarão os trajes especiais e demais acessórios. Tem também uma espécie de depósito com tudo o que vocês precisam para os meses em que estarão realizando a missão. Alguma pergunta? – Perguntou.
– Antes de qualquer coisa, eu quero reforçar o fato de que vocês devem utilizar a academia no mínimo quatro vezes na semana. É obrigatório. Não queremos ninguém com problemas quando retornarem. – Alvin falou, sua expressão séria.
– Fique tranquilo, Alvin. Ninguém deixará de praticar exercícios. – Martin assegurou-o e os demais balançaram a cabeça, concordando com o comandante.
– Eu tenho uma pergunta. – anunciou, chamando a atenção de todos. – Como pousaremos em Marte? Digo, sabemos que o pouso no planeta é muito arriscado...
– Não se preocupem com isso. A Orion3 está equipada com uma nave especialmente feita para essa missão e dentro dela cabem três de vocês. Ela é pequena o suficiente para penetrar na atmosfera ao redor de marte e grande o suficiente para que não exploda. – O técnico explicou. – Foram feitos diversos testes. – Completou, ao ver a expressão preocupada no rosto dos astronautas.
– Quantos testes? – Ethan perguntou.
O técnico coçou a cabeça e continuou:
– Cinco. Só obtivemos sucesso no último. Porém – começou a justificar, ao ver que seria interrompido –, conseguimos identificar todos os problemas e tudo já está ajustado. Não há com o que se preocupar.
– Alvin? – chamou o padrasto, que se virou para ela e assentiu.
– Todos os cálculos foram corrigidos. A nave está adequada. Eu não mandaria vocês a uma missão sem ter certeza de que tudo está bem. – O supervisor assegurou, tranquilizando os astronautas.
– Bom, podemos entrar, então? – Martin perguntou e o técnico assentiu.
Em seguida, dirigiu-se para dentro da espaçonave, sendo seguido pelos demais técnicos e por Alvin. Os outros ali presentes também começaram a andar. e Martin estavam lado a lado, e Ethan e vinham logo atrás.
– Qual foi o motivo do atraso? – Martin perguntou para .
– Perdi a hora. Eu não encontrava Ronron em lugar nenhum do apartamento. – Respondeu, fazendo o amigo rir. – Fiquei preocupada, porque esqueci uma janela aberta. Ele nunca nem senta na janela, mas... – Comentou, erguendo os ombros. – O filho da puta estava dentro do cesto de roupa suja. Acredita nisso?
Martin gargalhou e o acompanhou, rindo também.
– Aposto que ele ainda teve a cara de pau de te olhar com desprezo como se você estivesse atrapalhando a vida dele. – O comandante falou e assentiu, concordando. Ela riu baixinho antes de falar:
– Óbvio que sim.
As risadas dos dois cessaram assim que entraram na Orion3 e então passaram a observar tudo ao redor. O interior da espaçonave era todo revestido na cor branca com alguns detalhes em cinza, e o logotipo da NASA aparecia em vários lugares. Como a entrada era pela parte traseira, era necessário passar por uma espécie de corredor.
Logo na entrada, havia uma espécie de portinhola no chão, que levava para a parte inferior da nave, onde ficava a central de energia, os compartimentos laterais e o depósito. No lado direito, estava a academia, equipada com uma esteira, uma bicicleta e um aparelho de musculação. No lado esquerdo, o banheiro de uso comum, com um vaso sanitário adaptado, um chuveirinho, uma pia e alguns armários. Um pouco mais a frente, estavam os quatro compartimentos em que cada um dormiria.
Por último, em uma área mais aberta, já fora do corredor, ficava a cozinha, a área comum e a cabine de controle. A cozinha possuía um micro-ondas, um armário para pratos, talheres e copos, e outro para as comidas que seriam postas ali, além de panos previamente úmidos para a higienização dos objetos. Na área comum, havia uma espécie de sofá oval adaptado com uma mesa no meio e algumas poltronas. Nas laterais, tinham quatro estações: comunicação, engenharia, tática e biológica, onde cada um dos astronautas trabalharia. A cabine de controle era tomada por botões, em todos os lados. Eles estavam no teto, nas paredes e até no chão. Duas cadeiras, uma para o piloto e outra para outro astronauta, ficavam no meio, bem na área frontal da espaçonave. O painel principal era equipado com várias telas e medidores. Havia dois computadores e um rádio para comunicação interna. Por fim, logo acima do painel, tinha um vidro que permitia uma visão periférica do que estivesse a frente da nave.
– Uau. – comentou, assim que todos chegaram a área comum.
– É impressionante. – Ethan pontuou, ainda observando tudo ao redor.
– É a primeira espaçonave com toda essa estrutura. – Alvin disse. – Pretendemos fazer todas assim daqui para frente.
– Acho que o melhor de tudo é o fato de não ter gravidade zero lá em cima. Como vocês fizeram isso, eu não sei. Mas é o máximo! – exclamou, animada e os outros concordaram com ela.
– Bom, fico feliz que tenham gostado. – O técnico falou, orgulhoso. – Trabalhamos duro junto com os engenheiros para deixar a Orion3 perfeita.
– Fizeram um ótimo trabalho. – Alvin elogiou e o homem agradeceu balançando a cabeça. – Então é isso, pessoal. Eu preciso ir. Vocês podem ficar por aqui, explorar mais um pouco a nave... E duas semanas antes da partida, já devem começar a trazer os seus pertences. Mas lembrem-se...
– Nada mais que o necessário. – Os quatro astronautas falaram ao mesmo tempo, completando a fala de Alvin.
O supervisor fechou a cara, mas logo caiu na gargalhada, sendo seguido pelos demais. Alvin e os técnicos se viraram e entraram no corredor, andando em direção a saída da espaçonave.
– Vou escolher meu quarto! – anunciou, ao mesmo tempo em que deu um pulinho animado e saiu em direção aos compartimentos individuais.
– Mas não são todos iguais? – perguntou.
– Sim. Mas vai falar isso para ela? – Martin disse, rindo logo em seguida.
ergueu os ombros e riu junto. Cada um deles foi em direção a sua estação. se dirigiu a estação biológica, Ethan foi para a estação tática e Martin foi para a cabine de controle. Somente alguns segundos depois, retornou, enquanto falava no celular.
– Não, mãe, só daqui a três ou quatro semanas. Sim. Sim. Já falei que sim. O quê? Por quê? – Exclamou, levantando um pouco a voz. – Não, mãe, por favor, a senhora sabe que não vou me sentir confort... – Soltou um suspiro, dando por vencida, e rolou os olhos, como se a mãe pudesse vê-la. – Está bem. Vou avisá-los. Também amo você. Tchau. – E desligou, guardando o aparelho em seu bolso.
Os três homens a encaravam com curiosidade. Ela se limitou a rolar os olhos na direção deles e foi até a estação de engenharia, ignorando-os. Eles se entreolharam e deram de ombros.
estava tão concentrada analisando tudo que tinha em sua estação, que não percebeu quando Martin se aproximou e parou ao seu lado.
– Ei. – O loiro falou, chamando a atenção da amiga, que deu um pulo e levou a mão ao peito.
– Porra! Que susto, Martin! – Exclamou, dando um soquinho no ombro dele em seguida.
Ele riu e deu a volta na mesa, ficando do outro lado de . A loira continuou compenetrada no que estava fazendo, e Martin continuou a segui-la com o olhar. Ela se mexia, ele se mexia. Ela dava a volta na mesa, ele fazia o mesmo. Ela se aproximava para ver algo mais de perto, ele também.
– Mas que saco! Por que você não vai para sua estação e sai do meu pé, carrapato? – perguntou, irritada.
– Porque eu não tenho uma estação. Minha área é a cabine de controle, e enquanto não ligarmos essa belezinha aqui, eu não tenho o que fazer por lá. Então...
– Então você resolveu me encher o saco. – Ela completou, bufando logo em seguida.
Martin abriu um sorriso angelical e balançou a cabeça, concordando. Ele se aproximou de e falou com a voz baixinha, como se confidenciasse um segredo para ela:
– E também estou curioso para saber sobre o que você e Joan falavam ao telefone.
– E quem disse que é da sua conta? – perguntou e arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços ao mesmo tempo.
Martin permaneceu com a mesma expressão, encarando-a.
– Desembucha. – Pediu.
Ela revirou os olhos.
– Odeio como você sempre sabe de tudo. – Falou e Martin abriu um sorriso convencido ao ouvi-la. – Ela quer fazer uma janta para nós quatro antes de embarcarmos.
– Eu ouvi bem? Comida da Sra. ? – Ethan perguntou sem esconder sua empolgação, aproximando-se dos dois.
– Quando? – Martin questionou, com um sorriso nos lábios.
– Sexta-feira. Não sei o horário, aviso depois. – Finalizou, voltando sua atenção para a estação, deixando claro que não queria mais conversar.
Claro que não adiantou.
Martin e Ethan permaneceram ali, olhando-a como se ela fosse maluca. Depois de alguns segundos em que eles não se moveram, ela finalmente se virou para os dois:
– O que é que foi agora, caramba?
Ethan riu e ergueu as mãos em frente ao corpo, em sinal de rendição, retirando-se dali logo em seguida. – Você não está esquecendo de algo, não? – Martin perguntou, aproximando-se. – Ou melhor, de alguém?
o encarou, confusa, mas logo sua mente clareou e ela contorceu seu rosto em uma careta desgostosa.
– Oh, não. Não. Eu não vou convidá-lo, você é quem vai! – Implorou, juntando as palmas de suas mãos em frente ao seu rosto, como quem faz um pedido. – Por favor, Marty, por favor!
O loiro balançou a cabeça em negação e deu um sorrisinho de lado.
– Não. Não adianta me chamar de Marty. Você convida. Aliás... Ethan! – Chamou, virando sua cabeça em direção ao amigo e fazendo uma careta esperta, torcendo para que ele entendesse. – Não temos que passar na sala do Alvin, não?
– O que... – Martin sinalizou e com seus olhos e Ethan finalmente entendeu. – Ah, sim! Sim, temos. Ele nos chamou. E nos disse para não demorarmos. Sim, precisamos ir. Agora. – Finalizou, começando a andar em direção a saída da espaçonave, de maneira nada discreta.
– Martin! – esbravejou, chamando a atenção dele para si novamente.
O amigo riu da reação de Ethan e então se aproximou de , dando um beijo estalado em sua bochecha.
– Foi mal, . Preciso ir! – Disse a ela, se afastando e seguindo o mesmo caminho que Ethan havia feito.
bufou e cruzou os braços, irritada com a situação que seu melhor amigo havia criado.
, que observava a cena um pouco confuso, não pode deixar de rir baixinho da expressão da mulher. Ela parecia uma criança emburrada que não ganhou o doce que queria.
– O que foi? – questionou ao ouvi-lo rir.
– Nada. – Respondeu, dando de ombros. – É só que você parece uma criança birrenta com os braços cruzados desse jeito.
Ela descruzou os braços e passou as mãos pelos cabelos, ajeitando-os. Se limitou a sorrir de maneira fechada para ele e se virou novamente para a sua estação, tentando encontrar qualquer coisa que lhe distraísse. Mas estava impossível. Repassava mentalmente diversas maneiras de convidar para o jantar na casa de sua mãe. Por que Joan teve que inventar isso? Sua mãe sabia de tudo que havia passado com . Tudo bem, talvez ela não soubesse de tudo, exatamente... Mas sabia o quanto a filha o amava na época. Bom, de qualquer maneira, podia dizer a ele a data errada. Não, muito infantil. E se ela passasse outro endereço, quem sabe?
? – ouviu a voz de chamá-la e se virou. – Eu já estou indo. Você desliga as luzes quando sair?
Ela se virou bruscamente em sua direção, irritando-se ao ouvi-lo chamá-la pelo apelido.
– Já disse para não me chamar assim! Qual é o seu problema? Está surdo ou algo do tipo? – Questionou, exaltada. O homem sorriu perante a irritação dela. – E sim, eu desligo as luzes. – Respondeu, voltando-se para a posição anterior.
– Bom, até amanhã, então. – Despediu-se e recomeçou a andar, entrando no corredor em seguida.
ignorou-o e apoiou seus braços na bancada da estação, abaixando a cabeça e respirando fundo. E então, ela sorriu. Sorriu porque já sabia como fazer com que não fosse ao jantar na sexta-feira.
Ele não seria convidado, pois ela não o faria.

xxx

– Mãe, o que eu faço com essas batatas? – perguntou a Joan, assim que terminou de descasca-las.
– Coloque aqui para mim, filha. – A mulher respondeu, entregando um prato fundo para ela. – Vou terminar de preparar.
fez o que sua mãe lhe disse e depois soltou o prato na bancada da cozinha e se encostou na mesma.
– Precisa de ajuda com mais alguma coisa? – Perguntou.
– Não, meu amor. Já está tudo pronto.
A campainha tocou nesse momento.
– Vá recepcionar seus amigos junto com Alvin, sim? – Joan sugeriu.
concordou com a cabeça e deu um beijo na bochecha da mãe, afastando-se e saindo da cozinha logo em seguida. Chegou na sala no mesmo momento em que Alvin abria a porta para Martin.
– Alvin. – Martin cumprimentou-o com um aperto de mão.
– Lewis. – Alvin respondeu. – Aceita uísque?
– Eu pego para ele, Alv. – falou, aproximando-se dos dois homens. – Oi, Marty.
O loiro se aproximou e depositou um beijo na bochecha dela, sorrindo logo em seguida.
– Oi, . Como você está? – Perguntou.
– Bem, mas você já sabe disso, porque nos vimos há menos de... – Olhou para o relógio na parede da sala – três horas atrás.
Martin rolou os olhos e riu. piscou para o amigo e se dirigiu até o bar no canto do cômodo. Pegou dois copos e serviu uma dose de uísque com gelo em cada um, entregando um a Martin e pegando outro para si em seguida. Os dois homens se sentaram no sofá, seguidos por e Joan que apareceu na sala.
– Martin, querido! – Disse, aproximando-se do astronauta e lhe dando um abraço quando este se levantou do sofá.
– Ei, Joan. Linda como sempre! – Martin respondeu, beijando a mão da mulher.
– Galanteador como sempre. – Ela disse, sorrindo para ele.
Em seguida, a campainha tocou. se levantou e seguiu caminho até a porta, abrindo-a, encontrando um buquê de tulipas flutuante.
As flores abaixaram e a cabeça de Ethan apareceu, sorridente.
– O que é isso? – questionou, levando suas mãos até o buquê.
– Sh. Tira a mão. – Ethan falou, dando um leve tapa na mão de . – Não é seu, metida.
Draw se aproximou e deu um beijo na bochecha de , que revirou os olhos. Andou para dentro da casa e parou perto do sofá, cumprimentando os que já estavam ali.
– Boa noite. Alvin, espero que não fique com ciúmes, pois...
– Ethan! – A voz de Joan chamou.
– Senhora . – O rapaz falou, aproximando-se e estendendo o buquê para ela. – São para a senhora, como forma de agradecimento por esse jantar que eu tenho certeza que será maravilhoso.
e Martin se entreolharam e tiveram que se segurar para não gargalharem do amigo.
– Oh, querido. Muito obrigada! É muita gentileza sua, não precisava. – Joan respondeu, pegando o buquê. – Vou coloca-las em um vaso, fique à vontade, sim?
Ethan assentiu para a mulher e se virou, indo se sentar junto com os demais.
– Se eu não te conhecesse, Ethan... – Alvin comentou, arrancando risadas de todos.
– Só quis ser gentil e agradecer pela comida. – Draw defendeu-se.
– Porque comida é a única coisa que importa para você. – disse, sendo seguida por Martin e Alvin, que concordaram.
– Ei! Isso não é verdade. – Ethan disse em sua defesa. – Tudo bem que quando penso nos quatrocentos dias que ficaremos no espaço, eu só consigo pensar em como vou sentir falta de comida de verdade, mas...
Os três riram do astronauta e atirou uma almofada no amigo, que gargalhou.
, querida, será que chegará logo? Já são quase nove horas, garanto que todos estão com fome. – Joan perguntou assim que voltou para a sala.
quase engasgou com o uísque. Engoliu rapidamente o líquido e sorriu disfarçadamente.
– Acredito que ele não irá demorar, mãe. – Respondeu, recebendo um olhar desconfiado de Martin.
– Bom, eu espero. Vamos conversar enquanto isso, sim? – Joan sugeriu, engatando uma conversa com todos ali presentes.
Eram 21:30 quando a Sra. decidiu servir o jantar, mesmo sem a presença de .
– Queridos, acho melhor comermos. Acredito que ele não virá. O que é uma pena. – Comentou, convidando-os para sentarem-se a mesa. – Vamos?
Eles se levantaram e seguiram para a mesa de jantar, sentando-se ao redor dela em seguida. A comida já estava posta e Joan realmente havia caprichado. Começaram a comer em meio a conversas animadas sobre os dotes culinários não existentes de . A mulher não puxou para a mãe, levando em conta que a única coisa que sabia cozinhar era um ovo, e mesmo assim, na maioria das vezes, ficava horroroso.
. – Martin chamou, atraindo a atenção da loira e de todos presentes na mesa. – confirmou com você que viria?
O garfo de caiu de sua mão e todos olharam para ela. A astronauta sorriu de maneira forçada, tentando disfarçar seu nervosismo.
Ela era péssima com mentiras.
– Você o convidou, não é? – Ethan perguntou, desconfiado.
Ela permaneceu em silêncio, olhando para qualquer lugar que não os olhos atentos em si mesma.
? – Alvin a chamou, fazendo com que ela olhasse para ela.
– Filha? – Joan perguntou.
Ela suspirou e negou com a cabeça, finalmente confessando:
não veio porque eu não o convidei.


03

– A ? – Ramona perguntou, incrédula. – A que sumiu e que te deixou com o coração na mão por não saber para onde ela foi?
– Sim. – respondeu.
– A única mulher que você amou, ?
– Já falei que sim. – Repetiu, impaciente.
– A que...
– Cara... Carambolas, Ramona, sim! – explodiu, irritado com a dificuldade da irmã em absorver a informação, tomando cuidado para não falar palavrão na frente de seu sobrinho.
Ramona o repreendeu com o olhar e suspirou, ajeitando-se no sofá. Adrian, que estava brincando no chão com seus carrinhos, olhou curioso para os dois adultos.
– Hm. E como você está se sentindo sobre isso? – Ramona questionou, analisando seu irmão.
– Não. – falou, levantando-se do sofá no momento seguinte. – Não, não e não. Você não vai me analisar como um de seus pacientes, Ramona! – Explodiu e começou a andar até o bar que havia na sala de sua casa.
A mulher bufou e rolou os olhos, levantando-se.
– Eu só quero saber como você está! Estou preocupada com meu irmão. – Explicou, enquanto ia até o irmão.
estava servindo duas doses de uísque, uma em cada copo. Entregou um para a irmã e bebeu um gole do seu.
– Eu estou bem. Ela não quer conversar, obviamente ainda tem mágoas do babaca que eu fui no passado. – Ele ergueu os ombros, dando-se por vencido. – Não posso julgá-la.
– Sim, não pode. E sim, você foi um babaca. – Ramona falou e recebeu um olhar torto de . – Mas, , ela nunca soube que você a amou... Você poderia contar e...
– Não. – Negou instantaneamente. – Não irei fazer isso só para que ela preste atenção no que eu tenho para falar. – Balançou a cabeça, ainda em negação.
Ramona suspirou e concordou com a cabeça.
– Vamos passar mais de 300 dias juntos, Mona. Em algum momento iremos conversar, mas agora ela já deixou claro que não. – falou e levou seu copo a boca, tomando mais um gole de seu uísque. Ramona fez o mesmo. – Ela nem parece a mesma pessoa.
– Como assim não parece a mesma pessoa? – Mona questionou, curiosa.
– Está mais fechada, mais grossa... – falou.
– Ah, , você não tem como saber o que aconteceu na vida dela durante esses anos, não tem como saber pelo que ela passou. – Ramona disse, virando-se em seguida para falar com seu filho que andava na direção dos dois.
– Tio ! – Adrian falou, chamando a atenção do tio.
largou seu copo em cima do bar e se virou para o sobrinho.
– Quando a gente vai poder ver os foguetes? – Perguntou, visivelmente animado.
– Hm... Amanhã de manhã, o que você acha? – perguntou e o menino balançou a cabeça freneticamente, concordando.
e Ramona riram da empolgação do menino.
– Vamos dormir, filho? – Mona perguntou e o garoto esfregou os olhos no mesmo momento. – Acho que isso foi um sim.
– O quarto de visitas está arrumado pra vocês, Mona. – avisou a irmã, que sorriu concordando.
– Boa noite, maninho. – Ramona deu um beijo na bochecha de e se afastou com Adrian em seu encalço.
Mais cedo, quando chegou em casa depois de passar o dia trabalhando na NASA, deu de cara com sua irmã e seu sobrinho sentados em seu sofá, assistindo a um programa qualquer que passava na televisão. Ele havia se esquecido completamente de que eles viriam visita-lo e sua irmã soube disso assim que viu a expressão surpresa no rosto de .
De qualquer maneira, ele não tinha nada planejado para aquela noite de sexta-feira, então passar o tempo com Ramona e Adrian foi divertido. Jantaram uma pizza, brincaram com Adrian e conversaram entre os dois. Mona contou que ela e o pai de Adrian estavam em processo de separação, pois as coisas entre eles não estavam mais dando certo. Depois disso, Ramona quis saber sobre a vida amorosa de . Foi quando ele lhe contou sobre .
seguiu caminho para o seu quarto, indo diretamente para o banheiro, onde tomou um banho rápido. Depois, deitou-se em sua cama e ligou a televisão, colocando no Discovery Channel. Estava entretido assistindo ao programa que passava, quando seu celular apitou, indicando uma nova notificação.
Ethan havia adicionado uma nova foto e nela estavam ele, Martin, , Alvin e uma mulher que deveria ser a mãe de , pois eram parecidíssimas. Na legenda, estava a seguinte frase:

"Jantar pré-missão com os melhores companheiros! Obrigado, Alvin e Sra. ."

franziu a testa. Eles realmente fizeram um jantar e não o convidaram? Não se lembrava de nada que havia feito para desagradá-los; pelo contrário, Ethan e Martin sempre lhe trataram muito bem, assim como Alvin. O problema deveria ser com , então. Ou será que não? Bom, ele decidiu não pensar nisso no momento e também não os questionaria sobre não ter sido convidado, não era de seu feitio tirar satisfações sobre esse tipo de coisa; se não o convidaram, era porque não o queriam lá, simples assim.
Com esse último acontecimento, decidiu dormir. Desligou a televisão e programou o despertador para as 8h. Se queria levar Adrian e Ramona para conhecer a NASA, deveria fazê-lo ainda pela manhã.

xxx

– Não se esqueça, Adrian, nada de correr. E você só pode tocar no que seu tio disser que pode! – Ramona avisou a seu filho enquanto andavam lado a lado em direção à porta de entrada da NASA.
– Eu já sei, mamãe. – O menino falou, rolando os olhos. Deveria ser a quinta vez que ouvia isso só essa manhã. – Você já disse isso várias vezes.
– Adrian! – Ela advertiu e o menino a olhou com um sorriso sapeca, como se pedisse desculpas por tê-la respondido.
riu ao observar a cena e não pode deixar de pensar no quanto sentiria falta dos dois enquanto estivesse fora. Ele e a irmã sempre foram muito próximos, desde pequenos. Seus pais faleceram em um acidente quando eles tinham 16 e 19 anos, respectivamente. Ramona ficou responsável pelo irmão até ele se tornar maior de idade. Eram melhores amigos, até hoje.
– Bom dia, Sr. . – Lily, uma das recepcionistas da NASA cumprimentou, assim que os três passaram pela porta.
– Bom dia, Lily. Essa é minha irmã e meu sobrinho. Vim mostrar alguns foguetes pro moleque aqui. – falou, bagunçando o cabelo de Adrian, que riu.
– Claro, fiquem à vontade. Acho que Alvin está por aí. – Lily disse, liberando a catraca de visitantes para que Ramona e Adrian passassem, enquanto entrava na outra com seu cartão de identificação.
Os três seguiram pelos corredores, com mostrando quadros e mais quadros pendurados pela parede. Alguns continham fotos do espaço, outros de foguetes e espaçonaves, e também havia os quadros com fotos de nomes importantes que já passaram por ali.
? – Uma voz chamou, fazendo com que os três se virassem para ver quem era. – O que faz aqui?
– Alvin. – O astronauta cumprimentou-o assim que ele se aproximou deles. – Essa é minha irmã, Ramona, e seu filho, Adrian.
– Ah, sim! Prazer, sou Alvin, supervisor de . – Ele estendeu a mão para a mulher e para o garoto, este último apertando-a desajeitadamente. – Vieram conhecer?
– Tio prometeu me mostrar foguetes! – Adrian contou, empolgado, fazendo os adultos rirem.
– Prometeu, é? E se eu te mostrar a espaçonave onde seu tio vai passar o próximo ano ao invés dos foguetes? Você iria gostar? – Alvin questionou e os olhos de Adrian brilharam em empolgação.
– Eu iria gostar muito, muito, muito! – Ele falou, batendo palmas, demonstrando sua animação. – Mas depois eu também quero ver os foguetes. – Completou, fazendo todos rirem.
– Veremos tudo que pudermos, Adrian. – falou, colocando a mão no ombro de seu sobrinho, guiando-o.
Depois de cinco minutos, eles finalmente chegaram ao local onde estava a Orion3. Por ser grande e por estar pronta para a missão, a espaçonave estava em um local mais afastado, praticamente em outro prédio. Adrian estava de boca aberta, sem acreditar que estava frente a frente com uma espaçonave de verdade.
– A gente pode entrar? – Ele pediu para Alvin e e depois virou-se para sua mãe. – Por favor, mamãe! Eu 'tô me comportando, você viu! – Implorou, juntando suas mãos em frente ao rosto.
– Você precisa perguntar a seu tio e a Alvin, meu amor. – Ramona respondeu e o garoto se virou para os dois homens imediatamente em questionamento.
– Claro que podemos. – Alvin respondeu e deu alguns passos, indo até a porta da Orion3 e abrindo-a.
Adrian passou por eles andando rapidamente, empolgado, mas Ramona segurou-o pela gola da blusa, arrancando risadas dos demais. Eles entraram na aeronave e seguiram pelo corredor até a área comum e a cabine de controle.
– Eu não aguentaria passar 300 dias aqui dentro. Cruzes. – Ramona disse e Alvin e riram.
– É por isso que fazemos treinamento. Não é pra qualquer um. – respondeu e Ramona fez uma careta para ele.
– Você está dizendo que sou qualquer uma, ? – Mona perguntou de cara fechada.
Alvin riu alto dos dois e balançou a cabeça.
– Bom, fiquem à vontade. Preciso resolver mais algumas coisas antes de ir pra casa. – Alvin disse. – Fecha tudo quando sair, ? – Perguntou.
– Pode deixar, Alv. – confirmou e acenou com a cabeça para o homem, que sorriu antes de acenar e se virar, andando em direção a saída da aeronave.
– Bom final de semana, Alvin. – Ramona desejou, despedindo-se.
– Você fica aqui, tio ? – Adrian perguntou, atraindo a atenção dos dois.
Ele estava sentado na cadeira do comandante, girando-se na mesma.
– Não. Aí é o lugar do comandante, eu fico naquele canto ali. – apontou para sua estação.
O garoto se levantou e foi até onde o tio indicou, olhando tudo com atenção.
– O que é isso aqui? – Perguntou, tocando no microscópio.
– O que eu falei sobre tocar nas coisas? – Ramona advertiu, aproximando-se do filho, que tirou a mão do aparelho no mesmo inte.
riu.
– Isso aqui serve pra eu conseguir ver e analisar melhor qualquer tipo de microrganismo que encontrarmos no espaço. – explicou e o menino abriu a boca, surpreso.
– Tipo um E.T.? – Questionou, empolgado.
Ramona e riram.
– Não, amor, não tipo um E.T. Algo como uma bactéria, entende? – Ramona explicou, passando a mão pelo cabelo do filho.
– Mas uma bactéria alienígena, né? – Adrian perguntou novamente e Ramona rolou os olhos, rindo em seguida.
O barulho de passos vindos do corredor da aeronave fez com que os três se virassem, curiosos. vinha andando, segurando algumas bolsas nas mãos. A mulher continuou andando até que chegasse em sua estação, só então percebendo a presença deles ali.
– Oh, me desculpem. – comentou, deixando as bolsas no chão e ajeitando seu cabelo em seguida. – Eu não sabia... Não sabia que tinha alguém aqui.
– Não tem problema, . – comentou, abrindo um sorriso para ela.
– Eu só vim deixar algumas coisas, de qualquer maneira. – Respondeu com certa pressa, parecendo desconfortável.
guardou as bolsas em seus armários e se virou para eles novamente, encontrando os três encarando-a com atenção. Quem era aquela mulher e aquela criança? Talvez uma namorada e seu filho? De qualquer maneira, por que ela estava se importando, mesmo?
– Já vou indo. – Anunciou, virando-se novamente. – Bom final de semana pra vocês. – Desejou e começou a andar em direção a saída, recebendo apenas alguns acenos como resposta.
– Era ela, não era? – Ramona perguntou assim que se virou para o irmão.
– Ela quem? – Adrian perguntou, curioso, também olhando para o tio.
suspirou e balançou a cabeça em confirmação.
– Uma antiga amiga minha. – Respondeu ao sobrinho, sorrindo para ele em seguida. – O que acha de irmos ver os foguetes agora?
Adrian abriu um sorriso enorme e pegou na mão de sua mãe e seu tio, puxando-os para fora da espaçonave com pressa, fazendo-os rirem.
Passaram o resto a manhã visitando a NASA, passando por cada setor onde era permitida a visitação; claro que conseguiu algumas regalias, como entrar em um dos foguetes, o que deixou Adrian maluco e o fez decidir que viraria astronauta quando crescesse.
Durante a tarde, visitaram o zoológico e também o aquário; típicos programas de turistas, mas que , por sorte, adorava. Quando chegou à noite, preferiram por ficar em casa e pedir algo para comer, já que ninguém estava afim de cozinhar. Ramona e ainda ficaram conversando até tarde, enquanto Adrian já dormia. Conversaram sobre a vida de Mona e como a separação dela e do pai de Adrian estava afetando o menor. Ramona confidenciou ter vontade de se mudar para Washington, e ofereceu seu apartamento para que os dois morassem enquanto ele estivesse em missão.
No domingo, no início do dia, levou sua irmã e seu sobrinho para o aeroporto, onde eles pegaram um avião de volta para casa. passou o dia em casa, organizando as coisas que levaria a bordo da Orion3. Separou roupas, objetos de higiene pessoal, alguns livros e um baralho para passar o tempo. Quando finalizou, foi dormir. O dia seguinte seria longo e ele teria que levar tudo para a NASA e organizar seus pertences na espaçonave, além de ter que encontrar seus colegas que não o chamaram para a confraternização em equipe.

xxx

Na manhã de segunda-feira, quando entrou na Orion3, encontrou seus colegas de missão já ali. Martin, Ethan e estavam cada um em seu local de trabalho, arrumando suas coisas.
– Bom dia. – Cumprimentou .
– E aí, . – Martin respondeu, tirando os olhos rapidamente da cabine de controle para cumprimenta-lo.
. – Ethan cumprimentou-o permanecendo com a cabeça praticamente enfiada dentro de um armário, organizando suas coisas.
foi a única que permaneceu em silêncio, apenas olhando-o e sorrindo rapidamente antes de voltar a fazer suas coisas. Diferente deles, preferiu ir até seu compartimento e começar a organização por lá. Começou a guardar suas roupas no armário, organizando-as nas prateleiras. Guardou seus objetos de higiene pessoal em uma das gavetas e, no canto que sobrou, guardou seus livros e seu baralho. Quando terminou, fechou a porta, satisfeito. Ao se virar, deu de cara com parada na porta de seu quarto. Ele arqueou as sobrancelhas, estranhando a presença dela. Há quanto tempo ela estava ali?
– Desculpe, eu... – começou, suspirando em seguida. – Preciso conversar com você e me desculpar.
Stran franziu o cenho e cruzou os braços, apoiando-se no armário.
– Pode falar. – Ele respondeu, estranhando a atitude da mulher.
– Muito bonita a sua namorada. – Comentou despretensiosamente, enquanto mexia nas pontas de seu cabelo.
– Namorada? Não estou namorando. – garantiu e franziu o cenho, confusa.
– Ah, bom... Achei que aquela mulher que estava com você aqui no sábado era sua namorada. E aquele garotinho...
gargalhou alto e balançou a cabeça em negação.
– Aquela é minha irmã, Ramona, e Adrian, meu sobrinho. – Esclareceu, vendo a cor sumir do rosto da mulher a sua frente.
– Nossa. Aquela é Ramona? – Ela perguntou surpresa e ele assentiu.
já tinha ouvido falar nela, sim, mas nunca a viu durante o tempo em que ela e ficaram juntos. Apenas sabia que ela era mais velha e já casada. riu baixo, divertindo-se ao pensar que a mulher poderia estar com ciúmes.
– O que foi? – questionou, estranhando o humor dele.
– Se eu não te conhecesse, poderia jurar que está com ciúmes. – disse.
arregalou os olhos com a afirmação dele e balançou a cabeça em negação várias vezes, incrédula.
– Ah, por favor. Em que universo eu teria ciúmes de você? – Respondeu indignada, cruzando os braços em seguida.
– Nesse aqui? – falou como se fosse óbvio, sem conter uma risada.
– Você é um idiota. – disse, empurrando-o levemente pelo ombro. – Céus! Até esqueci o motivo principal pelo qual eu vim aqui.
– Bom saber que eu ainda tenho esse efeito sobre você, .
Ela grunhiu, irritada, e bufou em seguida, revirando os olhos.
– Esquece, deixa pra lá. – A engenheira disse, virando-se para sair do quarto, mas segurou-a pelo braço.
– Para, vai. Você disse que precisava se desculpar. Pelo que, exatamente? – Perguntou, mesmo já imaginando o motivo.
ponderou por alguns segundos e mordeu o lábio nervosamente, o que fez com que baixasse seu olhar para a boca dela imediatamente.
– Sexta-feira teve um jantar em minha casa. – Ela começou, dando um passo para dentro do quarto e encodo-se na parede ao lado da porta. permaneceu quieto. – E era pra eu ter te convidado, mas...
– Você não o fez. – concluiu e confirmou, balançando a cabeça levemente. – Eu vi uma foto. A mulher arqueou as sobrancelhas e rolou os olhos em seguida.
– Me desculpe. – Pediu, cruzando seus braços. – A culpa foi minha. Eles quiseram me matar quando descobriram. – Confessou, mordendo seu lábio novamente, fazendo com o que desviasse o olhar e assentisse.
– Tudo bem. – Ele suspirou e respondeu simplesmente, virando-se e voltando a mexer nas outras bolsas que estavam em cima da cama.
franziu o cenho, incomodada. Era só isso? não estava chateado? Ele não a xingaria, não falaria mais nada? Não que ela quisesse isso, claro que não, só não esperava que ele agisse de maneira tão pacífica quando ela contasse que havia o deixado de fora da confraternização que sua mãe organizara para reunir os astronautas da missão.
– Você só vai falar isso? – Ela perguntou finalmente, atraindo a atenção dele novamente.
– Tudo bem não é o suficiente? – questionou, sem entender.
– Esperava que você, ao menos, me xingasse, afinal, estou sendo uma verdadeira babaca com você desde que nos reencontramos. – Explicou , fazendo rir baixo.
– Ah, sim, você realmente está. Mas não vou cair no seu jogo, . – Ele disse, virando-se completamente e dando um passo em direção a ela, que recuou.
– No meu jogo? – Ela repetiu em questionamento.
– Sim, no seu jogo. – frisou, cruzando os braços em frente a ela. – Você se faz de incomodada em minha presença, não me convida para o jantar porque certamente não me queria lá e agora vem pedir desculpas como se realmente estivesse arrependida? – Ele perguntou, fazendo com que ela erguesse as sobrancelhas, surpresa com a analise dele. – Sabe o que eu acho? Acho que tudo isso é só porque você precisa fingir pra si mesma que ainda não me esqueceu.
abriu a boca para retruca-lo, mas não conseguiu falar nada, porque no fundo ela sabia que era verdade. Bufou irritada fazendo com que risse baixinho ao saber que havia conseguido atingi-la.
– Cale a boca, . – Esbravejou, enfatizando o sobrenome dele. – Você é um completo idiota.
– Cuidado, , a qualquer momento você realmente vai me fazer acreditar que me odeia. – Avisou e se virou em seguida, voltando a mexer em suas coisas em cima da cama.
– Mas é verdade. – Ela confirmou sem titubear.
Ele riu e balançou a cabeça em negação, incrédulo. Desviou sua atenção de suas coisas e se aproximou da mulher, parando a alguns centímetros de distância da mesma. O olhar dos dois se encontrou e engoliu em seco.
– É mesmo? – questionou, intimidador.
– Sim. – A loira respondeu, de alguma maneira sua voz saiu firme.
Céus, seu perfume... quase havia esquecido o quanto era bom. A proximidade de seus corpos, por um momento, a fez esquecer de tudo que passou. Quando ela já estava achando que aquilo era demais, deu mais um passo em sua direção, praticamente prensando-a contra a parede. O médico levou uma de suas mãos até uma mecha de cabelo dela que caía por seu rosto, e a colocou atrás da orelha de sua orelha. Lentamente, ele aproximou seus lábios dos dela.
teve que se segurar para não tremer.
Não podia.
Ele não podia fazer isso assim, simplesmente.
Quem ele pensava que era?
Quando estava quase selando os lábios dos dois, ele seguiu caminho para a orelha dela e sussurrou baixinho:
– Tem certeza?
fechou os olhos e respirou fundo, arrependendo-se logo em seguida, pois inalou quantidade suficiente do cheiro dele. Provavelmente se lembraria disso por dias.
– Tenho. – Murmurou alguns segundos depois.
fez o caminho contrário com seus lábios, e, novamente, quando quase os encostou, ele se afastou e abriu um sorriso presunçoso.
– Então diz, . Diga que me odeia, com todas as letras. Eu quero ouvir você dizer. – Pediu, sem se afastar da engenheira.
– Eu... – falou e pigarreou, ajeitando sua postura logo em seguida. – Eu... – Por algum motivo, aquela palavra não saía de sua boca.
Ela simplesmente não conseguia pronunciá-la.
– Eu não gosto de você. – Sorriu, satisfeita.
deu um passo para o lado com a intenção de sair dali, mas foi mais rápido e colocou as duas mãos na parede, prendendo-a com ele.
– Não foi isso que eu te pedi, .
Ela revirou os olhos e mordeu o lábio, fazendo com que o olhar de descesse para eles imediatamente.
– Eu odeio você. – falou, aproveitando o momento de distração do homem.
Ele voltou seu olhar para os olhos dela e deu uma risada incrédula.
– É muito fácil dizer sem olhar em meus olhos, não é? – Perguntou, levando uma de suas mãos até o cabelo dela, brincando com as pontas do mesmo. – Vamos, . Estou esperando.
– Eu não consigo, está bem? – Soltou, sua voz um pouco acima do normal. – Eu não consigo! Está satisfeito? – Pediu, tentando sair dos braços do homem.
– Muito.
– Ótimo, agora me deixe em paz!
Ele sorriu convencido e se afastou dela no mesmo instante, dando alguns passos para o lado, liberando espaço para que ela passasse. não pensou duas vezes e saiu pela porta do quarto rapidamente, murmurando um "idiota", fazendo-o rir.
– Ah, só mais uma coisa... – falou, colocando a cabeça para fora do compartimento, chamando a atenção de .
Ela se virou e cruzou os braços, impaciente, esperando que ele falasse.
– Você realmente sabe ser grossa e me tratar com indiferença, mas eu sei fazer isso também. E eu me segurei até agora, mas começarei a lhe tratar como me trata. Ou até pior. – Sorriu de maneira doce, provocando-a. – Até amanhã, . – Ele disse e piscou, voltando para dentro do quarto em seguida, deixando surpresa enquanto absorvia as palavras de .
Por essa ela certamente não esperava.



04

– Não acredito que esse dia chegou. Parece que foi ontem que Alvin me contou que você ia nessa missão! – Sra. disse, enquanto observava sentada na cama da filha ela arrumar os últimos detalhes antes de embarcar.
fechou a mala e virou-se, sorrindo para a mãe. Se levantou e andou até ela, sentando ao lado da mulher. Ronron, que estava ali também, se mexeu e aninhou-se a sua dona, como se soubesse que era um momento de despedida.
– Vou sentir saudades, mãe. – confessou e sua mãe passou o braço pelos ombros da filha, abraçando-a lateralmente.
– Oh, querida. Imagina eu? – A mais velha perguntou, dando um beijo na cabeça de . – Mas vou ter Ronron pra me lembrar de você sempre!
– Você tem que cuidar dele como eu cuidaria, mãe. – pediu e a mãe sorriu, concordando.
– Prometo que vou, filha. – Joan disse. – Agora me conte... Como você está lidando com o fato de ter que ficar tão próxima a depois de tanto tempo? Eu não consigo entender o problema, já que ele é um pedaço de mal caminho e se vocês...
– Mãe! – a reprendeu e riu em seguida. – A senhora não tem jeito.
Joan riu, afastando-se da filha para olha-la.
– Eu sei que tem mais nessa história, , porque te conheço. – Comentou, fazendo a filha se encolher. – Mas respeito você não querer me contar. Só espero que ele não tenha feito nada contra você. Não foi isso, né?
balançou a cabeça em negação, tranquilizando a mãe.
– Não. – disse, com um sorriso triste. – Eu prometo que quando eu estiver pronta, eu conto...
– Tudo bem, querida. – Sra. disse, levantando da cama. – Agora vamos? Já são 10h e Alvin me pediu para estar na NASA com você até as 11h.
A loira assentiu e se levantou, olhando seu quarto pela última vez. Suspirou e abaixou-se, pegando Ronron no colo, aninhando-o contra seu peito, ouvindo-o ronronar.
– Oh, meu pedacinho de cenoura ambulante... – Disse, fechando seus olhos enquanto passava os dedos pelos pêlos macios do gato. – Eu vou sentir tanto a sua falta, mas tanto... – O gato levantou o rosto e esfregou-o na bochecha de sua dona; sua maneira de se despedir dela. – Volto assim que der. Incomode muito mamãe e Alvin por mim, por favor. – Ela afastou o gato de si e o olhou-o por alguns segundos, recebendo um miado como resposta, antes de finalmente se abaixar para coloca-lo dentro da caixa de transporte, suspirando alto assim que o fez.
Virou seu rosto para a mãe e sorriu, com os olhos cheios de lágrimas. Piscou algumas vezes e baixou seus ombros, caminhando até sua mala e segurando-a. Sra. pegou a caixinha de transporte de Ronron e estendeu sua mão para a filha, entrelaçando seus dedos. Juntas, as duas saíram do apartamento em direção à NASA, fechando a porta atrás de si.

xxx

Cerca de trinta minutos mais tarde, depois de deixar Ronron na casa da mais velha, elas passaram pelos portões da NASA. carregava sua mala e sua mãe a seguia pelos corredores, até que chegaram na sala de reuniões.
– Certo, mãe, te encontro daqui a pouco, né? – perguntou assim que se virou para a mãe, que sorriu em resposta e pegou a mala da garota.
– Até daqui a pouco. – Joan disse e seguiu caminho pelo corredor, indo em direção ao exterior do prédio onde estava Orion3.
respirou fundo e abriu a porta a sua frente, encontrando seus parceiros de missão já todos sentados, juntamente com Alvin e mais alguns técnicos da missão.
– Bom dia. – Cumprimentou e aproximou-se da mesa de reuniões, sentando-se na única cadeira livre: ao lado de .
. – Alvin cumprimentou a enteada, levantando-se. – Agora que já estamos todos aqui, vamos as últimas instruções. Acredito que todos leram os manuais, correto?
Os quatro astronautas assentiram.
– Ótimo. Essa reunião é só para ressaltar o que vocês já sabem. Com a nave acoplada a Orion3, vocês devem pousar em Marte, trocar e reparar os satélites e seguir viagem até a Estação Espacial Internacional para completar o estoque de vocês com tudo que precisarem, e depois retornar para a Terra. Alguma dúvida? – Alvin perguntou e todos negaram. – Certo, vocês devem levar cerca de 120 a 150 dias para chegar em Marte, 20 dias para realizar a missão no planeta, 50 dias para ir até a EEI e, estimando que devem ficar por lá cerca de 20 a 30 dias, totalizamos 80 dias. Por último, 150 para que retornem para cá, fechando os 300 dias programados para a missão.
– Chance de precisarmos prolongar a missão? – Martin se pronunciou pela primeira vez.
– Baixa, Martin. – Um dos técnicos respondeu.
– Novamente eu vou perguntar algo que sei que eu e meus colegas nos preocupamos. – disse, tomando a frente. – Quão segura é a nave que nos fará pousar em Marte?
– O suficiente, . – Alvin respondeu. – Entendo a preocupação de todos vocês, mas testes foram feitos e estamos confiantes de que tudo ocorrerá como planejado.
– Estamos confiantes? – questionou de maneira irônica, franzindo o cenho.
, você me conhece. Sabe que eu não mandaria vocês para uma missão sem saber que tudo ocorrerá bem.
Os quatro astronautas assentiram, finalmente concordando e acreditando nas palavras do supervisor.
– Certo. – Alvin levantou seu punho, checando o horário. – É isso. A nave já está completamente equipada e pronta para decolagem. Vamos?
Imediatamente todos levantaram e saíram da sala. Os quatro astronautas tomaram a frente, pois precisavam vestir-se adequadamente com seus uniformes antes de embarcarem. Poucos minutos depois, os quatro se encontraram na frente da porta que os levaria a área exterior, onde tudo estava preparado para o lançamento. Martin os aguardava.
– Devo lembra-los que a imprensa está aí fora e acompanhará o lançamento. – Os quatro fizeram uma careta ao ouvir Martin. – Fiquem tranquilos, já me assegurei de que vocês não farão entrevista alguma, somente eu. Ao sair por essa porta, vocês terão cinco minutos para se despedir dos familiares e quando os técnicos avisarem, deverão entrar na Orion3 e tomar seus postos imediatamente. – Ele disse, levando sua mão a maçaneta, pronto para abrir a pronta, mas hesitou e virou-se para os astronautas novamente. – Estou muito orgulhoso de vocês quatro. Não confiaria essa missão a nenhum outro astronauta.
foi a primeira a jogar seus braços ao redor do pescoço de Alvin, abraçando o padrasto. Ele retribuiu o abraço desajeitadamente e logo afastou-a de si.
– Cuida da minha mãe, por favor. – pediu ao homem. – E de Ronron. Se eu souber que você...
– Eu vou suportar o bichano, prometo. – Alvin disse e rolou os olhos. – Quanto à sua mãe, fique tranquila.
sorriu e deu um passo para trás, dando espaço para Martin cumprimentar Alvin, sendo seguido por Ethan e .
– Prontos? – Alvin perguntou, levando sua mão à maçaneta da porta novamente. Os astronautas assentiram e então ele abriu a porta, fazendo com que os 5 estreitassem os olhos por conta da claridade.
Um atrás do outro, eles saíram e depois caminharam lado a lado até a Orion 3, que estava na área de lançamento. Ao lado, os familiares de Martin, Ethan e estavam a postos, com exceção dos de , já que sua irmã não pôde vir novamente para a cidade. Ao redor da nave, em um perímetro definido e demarcado com uma grade, estava a imprensa e alguns olhos curiosos que assistiriam ao lançamento. Os astronautas se dirigiram até onde estavam suas famílias enquanto Alvin foi falar com a imprensa.
– Querida. – Sra. puxou a filha para um abraço assim que esta se aproximou, passando as mãos pelo cabelo dela.
– Mãe. – disse, retribuindo o abraço. – Antes que a gente perceba, eu vou estar de volta.
As duas se afastaram e sorriram uma para a outra.
– Sei disso. – Joan levou sua mão até o rosto da filha, acariciando-o. – Deus, como vou sentir sua falta. Nunca ficamos tanto tempo assim sem nos ver.
riu baixo, cruzando os braços.
– É verdade, mas...
– Ei, ! – Martin a chamou, aproximando-se com seus pais em seu encalço. – Meus velhos.
– Senhor e senhora Lewis! – A loira disse, correndo em direção aos dois, que a receberam de braços abertos. – Que saudade de vocês!
– Estamos muito orgulhosos de vocês dois, . – Sra. Lewis disse.
– Mais felizes ainda por irem juntos a essa missão. Quem sabe agora vocês não percebam que devem ficar juntos de uma vez e... – Sr. Lewis comentou, sendo interrompido pelo filho.
– Certo, pai. – Ele disse, abraçando o homem pelos ombros. – Já tivemos essa conversa e você tá cansado de saber que somos como irmãos. – O loiro disse e o pai revirou os olhos, contrariado. – E além do mais, o amor da vida da também tá na missão, então...
– Cala a porra da boca, Lewis. – esbravejou, irritada, fazendo o amigo gargalhar.
! – Joan a reprendeu por conta do palavrão e ela deu de ombros, rindo em seguida. Certas coisas nunca mudariam. – Aliás, porque está sozinho?
virou seu rosto e encontrou de braços cruzados, olhando para os lados de maneira um pouco desconfortável. Ela suspirou, abaixando os ombros.
– Os pais de faleceram e sua irmã veio semana passada, provavelmente não pôde vir hoje... – Ela explicou a mãe, que assentiu.
– Bom, então eu vou lá. – A mais velha disse, fazendo a filha arregalar os olhos. – O que? Vou me apresentar e me despedir dele, querida. Ele provavelmente sente falta dos pais, principalmente nesses momentos.
baixou os ombros, dando-se por vencida. A mãe estava certa. Ela mordeu o lábio ao ver a mãe dar passos em direção ao homem, mas permaneceu no local, até que um empurrão dado por Martin a fez andar, acompanhando sua mãe.
. – disse assim que as duas chegaram até ele.
. – Ele disse e ela não pode deixar de torcer a boca ao ouvi-lo chamar pelo sobrenome.
– Essa é minha mãe, Joan. – apresentou a mãe.
– Oi, querido. Era para termos nos conhecido há alguns dias, mas... – Joan olhou torto para a filha, que rolou os olhos e cruzou os braços. – É um prazer te conhecer agora.
sorriu de maneira sincera para a mulher a sua frente.
– O prazer é todo meu, Sra. . – Ele disse, sorrindo para ela.
comentou que sua irmã não pôde vir, então decidi vir lhe dar um abraço e desejar uma boa missão. – Joan disse, aproximando-se do homem de braços abertos. – Posso?
franziu o cenho por alguns segundos mas acabou balançando a cabeça em confirmação, sentindo a mulher abraça-lo em seguida. Ele permaneceu sem reação durante um tempo, até o encarar feio, fazendo com que ele retribuísse o abraço.
– Que cena mais linda, a sogrinha conhecendo o genro. – Ethan comentou ao lado de , fazendo-a dar um pulo de susto.
– Que cena mais linda, Ethan Draw levando uma surra de sua colega de missão, . – Rebateu, virando-se e dando um soco em seu ombro.
– Ouch! – O moreno disse, levando sua mão até o local atingido. – Seu senso de humor tá maravilhoso, hein?
A astronauta revirou os olhos e voltou seu olhara para sua mãe e , que já estavam separados e o homem sorria para algo que ela havia comentado.
– Astronautas! – Um dos técnicos gritou, chamando a atenção de todos. – Hora de embarcar!
deu um último abraço em sua mãe e seguiu para fazer o mesmo com os pais de Martin e depois com os de Ethan.
Finalizadas as despedidas, os quatro astronautas se dirigiram até a entrada da Orion3. Antes de entrarem, viraram-se e acenaram para as pessoas que estavam ali. A imprensa foi ao delírio, disparando vários flashes na direção deles. Assim que Alvin fez sinal para eles, eles acenaram uma última vez e se viraram, entrando na espaçonave. A porta foi fechada e os quatro se entreolharam.
– Bom, então é isso. – Martin disse e começou a andar a frente dos outros três, que o seguiram até o meio do corredor. O comandante apertou uma espécie de botão na parede, fazendo com que a área se projetasse para fora, revelando vários capacetes espaciais.
– Peguem seus capacetes e sigam para a cabine de comando. – Ordenou e os astronautas fizeram o que ele pediu imediatamente, colocando seus capacetes.
Cada um seguiu para sua cadeira. Martin sentou na cadeira de comandante e Ethan sentou ao seu lado. e sentaram na fileira de trás, lado a lado. A mulher passou o cinto por sua cintura, prendendo-o. Depois, desceu a proteção corporal e prendeu-a no cinto da cintura, certificando-se de que estava bem ajustada para que seu corpo não se mexesse. Olhou para o lado e encontrou já bem protegido.
– Todos em posição? – Martin questionou. Os três gritaram em confirmação. – Ótimo. Contagem regressiva iniciada: 10 minutos para lançamento.
Martin apertou alguns botões, fazendo com que as luzes da cabine diminuíssem. Apertando outro botão, a voz de Alvin fez-se ouvir.
– Comandante? – Chamou.
– Sim, Alvin?
– Todos os sistemas da Orion3 foram previamente checados pelos técnicos, portanto você só precisa preparar a sequência de lançamento e o restante nós fazemos. – Ele pediu e Martin o fez, apertando vários botões e entrando alguns códigos no computador a sua frente.
– Feito, senhor.
– Liberar tanques de combustível. – Alvin ordenou novamente e Martin apertou dois botões.
Em seguida, um barulho alto de peças se movendo foi ouvido, indicando que o comando tinha funcionado e os tanques estavam a postos.
– Certo. Agora é com vocês. Faltam 6 minutos para o lançamento. – Alvin fez uma pausa. – Quando lançarem, perderemos o contato por voz e só conseguiremos rastrear vocês por aqui. Nos falamos por e-mail. Relatórios de missão a cada 30 dias pelo computador principal, assim como pedidos de filmes e séries para que possam assistir no tempo livre.
– Teremos isso? – Ethan questionou, animado.
– Isso já existe há algum tempo, Ethan. A única novidade é que agora vocês conseguem falar por e-mail com a terra a qualquer momento, o que antes era limitado.
– Estou falando sobre as séries... – Ethan disse.
– Ah, sim... Antes os astronautas levavam à bordo o que queriam assistir, mas agora, com a comunicação pelo computador, conseguimos passar os arquivos pra vocês.
– Meu Deus, vou poder fazer maratona de Harry Potter! – exclamou, animada.
– Você ainda é viciada nisso? – perguntou.
– Ok, ok! Chega de papo furado. – Martin interrompeu-os, fazendo eles rirem. – Anotado, senhor. – Até daqui a 300 dias.
– Até daqui a 300 dias. – Os outros astronautas repetiram a fala do comandante.
– Até, astronautas. Tenham uma boa missão. – Alvin se despediu e o silêncio voltou a habitar a espaçonave.
– 5 minutos para lançamento. – Martin anunciou, quebrando o silêncio. – Todos com os cintos e proteção corporal devidamente colocados?
– Sim. – Os três responderam.
– Desligando luzes da cabine. – Martin disse e a cabine foi tomada por uma escuridão, sendo as luzes do painel de controle as únicas ligadas no momento. – Certo, nossa missão está apenas começando. Sei que estão prontos e que cada um de vocês é mais do que capacitado pra essa missão, mas não posso deixar de ressaltar que devemos sempre manter um bom relacionamento, por mais difícil que isso seja enquanto em missão. Vai chegar um momento que não vamos mais aguentar olhar pra cara um do outro e aí preciso que se lembrem do nosso objetivo.
– Já tenho dificuldade em olhar pra sua cara, imagina depois de 100 dias... – Ethan disse, arrancando risadas de e .
– Muito engraçado, Draw. – Martin disse, revirando os olhos. – Estamos entendidos? Teremos nossos momentos de lazer e descontração, até porque tenho certeza que todos trouxeram alguns jogos, mas não podemos esquecer da nossa principal missão. – Ele disse. – E por último, trabalho é trabalho e vida pessoa é vida pessoal. Espero que saibam dividir isso pra não deixar que atrapalhe a convivência e o relacionamento profissional. – Finalizou, virando sua cabeça levemente para o lado e olhando para e .
– Por que tá olhando pra mim? – perguntou.
– Da minha parte tá tranquilo, Martin. – respondeu.
– Ótimo. Me preocupo mais com mesmo. – Ele disse, arrancando uma risada de Ethan e .
– Vai se foder, Martin. – rebateu, revirando os olhos, fazendo o homem rir.
– 2 minutos para lançamento. – Ele disse, interrompendo o momento de descontração. – Colocar capacetes e travar as viseiras.
Depois de já devidamente paramentados, todos apertaram o botão no capacete que permitia a comunicação entre si, para ouvirem uns aos outros.
– 1 minuto para lançamento. – Martin anunciou. – Ativando sequência de lançamento. – Ele apertou alguns botões em sequência e então voltou a sua posição anterior, finalmente fechando sua própria proteção corporal e preparando-se para a decolagem.
Alguns ruídos começaram a ser ouvidos pelos astronautas, indicando que o lançamento estava próximo a acontecer.
– 30 segundos. Supressão de ruídos ativada.
Eles não podiam ver, mas nesse instante a plataforma de lançamento estava sendo inundada com milhares de litros água para que a pressão e os ruídos fossem diminuídos assim que a nave decolasse, evitando danos na espaçonave.
– Ativar motores principais. Tripulação, preparar para lançamento. – Martin anunciou e assim que apertou um botão grande e vermelho que ficava no centro do painel, fechou seus os olhos.

apertou os braços de seu assento com as mãos, se mexeu de maneira inquieta e Ethan respirou fundo, preparando-se. Um barulho alto constante começou a ser ouvido e a espaçonave começou a tremer e então um grande impulso tirou-os do chão, fazendo com que os corpos dos astronautas grudassem nos assentos enquanto eram lançados ao espaço.
– Lançamento da Orion3, dando início a uma nova era de espaçonaves da NASA. Início da missão CR3-MA. Boa viagem, astronautas. – Uma voz se fez ouvir de repente e, da mesma maneira que surgiu, sumiu.
A vibração continuou por mais tempo, enquanto a velocidade aumentava cada vez mais, sacudindo os tripulantes. Uma explosão se fez ouvir e logo em seguida veio outra, indicando que o foguete de propulsão e a coifa de proteção separaram-se da nave. Assim que a vibração diminuiu, Martin abriu seus olhos e esticou a mão para o painel a sua frente, entrando alguns comandos. O restante permaneceu de olhos fechados enquanto a espaçonave ganhava cada vez mais altitude e velocidade.
– Ethan, status. – Martin pediu e o astronauta rapidamente se moveu e apertou um botão, olhando para o painel em sua frente.
– 1000km/h. 20km de altitude e 2min de vôo. – O moreno relatou.
– Certo. Acompanhe e me avise quando chegarmos a 45km de altitude ou 4000km/h, por favor. – Martin ordenou e Ethan concordou.
Alguns segundos de silêncio se seguiram. permanecia na mesma posição de minutos atrás, ainda segurando com força os braços de sua cadeira. Seus olhos estavam fechados e seu rosto contorcido em uma careta. , virando o rosto lentamente para o lado, observou as feições da mulher.
. – Chamou, mas não obteve resposta. – ! – Falou um pouco mais alto e ela abriu os olhos, virando-se para ele. – Tudo bem?
– Tô enjoada. – Anunciou, voltando seu olhar para frente. – Se eu não vomitar agora vai ser um milagre.
– Pois se vomitar, mantenha o vômito dentro da boca. – Ele disse e a garota fez cara de nojo. – Você não vai querer vômito dentro do seu capacete, vai?
– Tá ajudando muito, . – disse, irônica. – Cala a boca, por favor.
O homem riu, voltando seu olhar para frente, ao mesmo tempo que Ethan voltou a falar.
– Atingindo 45 km de altitude e 4124km/h de velocidade.
– Descartando capsulas de combustível vazias. – Martin falou, puxando uma alavanca que ficava no meio dos dois bancos, liberando as cápsulas de oxigênio e querosene líquidos, que seriam resgatadas pela NASA assim que caíssem na Terra.
– Mais 20 minutos e entramos em órbita. Ethan, me avise novamente quando atingirmos 28.800km/h ou 150km de altitude.
– Certo. – Ethan disse, mantendo seus olhos fixos no visor a sua frente. Os números continuavam a aumentar, e não demoraram para atingir 150km de altitude. – 151km, Martin.
– Motores em modo de vôo. – Martin disse, puxando outra alavanca, dessa vez localizada em seu lado esquerdo. – Entrando em orbita em 3, 2, 1... Tanque principal ejetado e destino traçado para Marte, senhoras e senhores. Podem abrir os capacetes e tirar as prot...
Antes mesmo que Martin terminasse o que estava falando, se levantou e correu até o depósito de lixo mais próximo, praticamente afundando sua cabeça nele, vomitando imediatamente.
– Tô surpreso que ela conseguiu não vomitar no capacete. – comentou, fazendo os outros dois homens rirem.
, por sua vez, levantou sua mão e mostrou o dedo do meio para ele, enquanto limpava a boca com a outra mão. Com o pé, ela pisou na alavanca e descartou o lixo – ou melhor, seu vômito.
– Eu odeio decolagens. – disse e suspirou em seguida, abaixando seus ombros. – Achei que ia me acostumar, mas...
– Guardem seus capacetes, por favor. – Martin pediu, mudando o rumo da conversa. – Estamos em órbita e continuaremos assim por 130 dias, então, enquanto não recebermos instruções ou chegarmos em Marte, estamos praticamente de folga.
– Eu já quero começar a maratonar meus filmes. – comentou, batendo palmas animadas.
– Pode parar. Temos uma TV, isso aqui também não é hotel 5 estrelas, linda. – Ethan disse de maneira irônica. – Vamos assistir algo que todos gostem.
– Game Of Thrones? – perguntou de maneira esperançosa.
– Topo. – Martin disse.
– Pode ser. – Ethan falou.
– É, ok... – deu de ombros e cruzou os braços. – Mas temos 300 dias, vocês ainda assistirão Harry Potter comigo.
– Vai sonhando, , vai sonhando... – Martin disse, dando tapinhas nos ombros da amiga. – Vou solicitar Game Of Thrones, então. Deve demorar algum tempo até todas as temporadas chegarem, portanto... Todos pra academia. 2h de exercício, banho, comida e só depois começaremos a assistir.
– Mas já? – perguntou, revirando os olhos. – Não deu nem tempo do nosso corpo começar a sentir o efeito e...
– Diz a garota que acabou de vomitar. – respondeu e o olhou feio.
– Cala a boca, . Você tá me irritando e não é de agora. – Ela disse, apontando o dedo para ele, que levantou as mãos em rendição. – A esteira é minha. – Anunciou e saiu correndo para o seu quarto, provavelmente para trocar de roupa.
– Certo... – Ethan disse, rindo da pressa da amiga. – Ela não tinha reclamado sobre precisar se exercitar?
– Você ainda tenta entender a , Draw? – Martin questionou e o moreno deu de ombros. – Temos anos de amizade e eu já não tento há algum tempo...
Os três riram e seguiram o mesmo caminho que a mulher, rumo a seus quartos.

Alguns minutos depois, já estava fazendo um treino de corrida intercalada na esteira enquanto escutava música em seus fones de ouvido. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto e ela vestia um top e um shorts, ambos da cor azul escuro contendo o logotipo da NASA. passou a mão pela testa, secando o suor que já escorria por seu rosto.
– Mas já tá assim? – Ethan perguntou ao entrar na academia, vestindo apenas um calção e um tênis, deixando seu peitoral a mostra.
pausou a música e retirou seus fones ao ouvi-lo e não tentou impedir seus olhos de acompanharem o contorno dos músculos do rapaz, passando-os por seus ombros, braços e por último, mas não menos importante, o abdômen.
– Isso é jeito de vir treinar? – Ela perguntou assim que o homem se virou, encerrando seu momento de admiração ao corpo alheio.
– Te incomoda? Eu odeio treinar com camiseta, fica toda grudando. Se você se importar, eu posso colocar e... – Ele questionou, virando-se novamente para ela. revirou os olhos, diminuindo a velocidade da esteira e voltando a encarar o corpo de Ethan.
– Me incomodar? Eu? Ah, Ethan... – Ela disse, tombando a cabeça para o lado e abrindo um sorriso ladino.
, você tá me secando? – Draw perguntou, escondendo seu corpo com as mãos fingindo que estava constrangido, fazendo-a gargalhar.
– Qual a graça? – Martin perguntou assim que passou pela porta, com vindo logo atrás.
fechou a cara no mesmo instante e quase tropeçou na esteira, tendo que apertar o botão de emergência. Colocou rapidamente os dois pés nas laterais do aparelho e respirou fundo, olhando para os dois homens que chegaram. Martin e usavam calções iguais, também com o logotipo da Nasa. E sim, nenhum deles estava usando camiseta. Primeiro, ela olhou para o corpo de seu melhor amigo rapidamente, só para checar se estava tudo como sempre esteve. Depois, ela se pôs a observar seu ex-namorado, passando seu olhar por cada centímetro da pele exposta do astronauta. É importante ressaltar que ele estava gostoso. Muito gostoso. Mais gostoso do que se lembrava. Muito gostoso para seu próprio bem. Gostoso para caralho. Talvez o homem mais gostoso que ela já havia visto. Deus, como ela queria toca-lo e...
Algumas risadas a fizeram piscar os olhos, voltando para a realidade e encontrando os três encarando-a de maneira engraçada. Quando caiu em si, estava com o lábio inferior entre seus dentes e provavelmente – quase certeza – babava pelo canto da boca.
– Qual a porra do problema de vocês? – Questionou, retomando sua postura anterior e ignorando os olhares dos homens ali presentes.
– Nosso? Nenhum. – Martin questionou, aproximando-se de um dos aparelhos de musculação ali presentes.
– Já seu... – disse, abrindo um sorriso sugestivo para ela.
Ela bufou irritada e desceu da esteira, levando consigo sua garrafinha de água e sua toalha de rosto.
– Estão todos proibidos de frequentar a academia sem camiseta. – Ela disse quando passou andando por eles com certa pressa.
– Onde você vai? – Ethan perguntou.
– Tomar um banho gelado. – Respondeu quando já estava perto da porta e os três explodiram em gargalhadas, que ela ainda pôde ouvir quando estava praticamente na porta de seu quarto.
– Porcaria de testosterona em excesso. – Resmungou assim que entrou no cômodo. – Menos de um dia de missão e eu já fui submetida a um teste de auto-controle desses. – Fechou a porta atrás de si e soltou sua garrafa em cima da cômoda. – Filhos de uma puta! – Exclamou, um pouco exaltada. – Tenho certeza que combinaram. Essa porra dessa cena não vai mais sair da minha cabeça... – Disse, abaixando-se e deitando no chão. Colocou suas mãos embaixo de sua cabeça e permaneceu olhando para o teto. – Ah, mas vai ter volta... – Afirmou a si mesma já com uma ideia se formando em sua cabeça.

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Pouco mais de duas horas depois, e Draw já estavam no sofá da área comum, esparramados, cada um em um canto. tinha seus olhos fixos em um livro, enquanto Draw mexia em seu tablet.
morreu no banho? – Martin questionou assim que chegou, indo direto para a cozinha.
– Acho que ela ainda nem tomou banho. – Ethan disse. – A porta do quarto tá fechada desde que saímos da academia.
– E vocês já comeram? – O loiro perguntou novamente, abrindo três pacotes: um com uma carne, outro com arroz e outro com alguns legumes.
– Sim. – Os dois responderam ao mesmo tempo, sem levantar o olhar, fazendo Martin revirar os olhos.
Passos vindos do corredor foram ouvidos e então apareceu. Seus cabelos estavam presos em um coque e seu corpo estava envolvido somente por uma toalha de banho.
– Esquenta comida pra mim também? – pediu a Martin, que virou-se para olha-la e quase derrubou tudo que segurava, chamando a atenção de Ethan e .
Os dois largaram o que faziam e olharam para a mulher. Ethan começou a tossir imediatamente, engasgando-se com o ar que respirava e não conseguia pensar direito, seu olhar perdido nas pernas expostas de sua ex-namorada. Sua pele parecia tão macia e seu corpo mais torneado do que ele se lembrava. A toalha moldou perfeitamente as curvas dela e antes que percebesse ele já estava imaginando como seria bom arrancar a toalha de seu corpo e prensa-la na parede mais próxima, beijando-a como há tempos não fazia.
– Mas que p...? – Martin perguntou, colocando as mãos nos ombros da amiga e guiando-a para longe dos olhares dos outros dois. – Qual o seu problema, ?
– Nenhum? – Ela perguntou divertida, virando o rosto e acenando para os dois homens que a encaravam sem pudor algum.
– Já entendi que isso foi uma vingança. Vai se vestir, . – Martin disse, praticamente empurrando-a para dentro do quarto, ouvindo-a gargalhar.
– Não é muito bom provar do próprio veneno, né? – Ela questionou, levando suas mãos até a barra da toalha, ameaçando puxa-la. – Sai ou você vai ver mais do que gostaria... – Ela disse, abaixando a toalha lentamente, vendo Martin arregalar os olhos e se virar, batendo a porta atrás de si com certa pressa. – Touché. – comemorou, gargalhando em seguida, finalmente deixando a toalha cair e começando a se vestir.
– Quando eu falo que essa mulher tem um parafuso a menos, ninguém acredita. – Martin disse quando voltou para a área comum. – Onde já se viu... – Resmungou para si mesmo enquanto voltava a arrumar sua comida, ouvindo uma gargalhada de Ethan.
– Você precisa admitir que ela é...
– Não termine essa frase, Draw. – Martin disse, virando-se para ele assim que colocou sua comida no micro-ondas. – Qual seu problema?
– Você nem sabe o que eu ia falar! – O moreno se defendeu, rindo. – Eu ia dizer que ela é linda.
se mexeu desconfortável e revirou os olhos, abrindo seu livro e voltando a lê-lo.
– Claro que ia. – Martin respondeu. – Não esquece que te conheço e você não presta. Então fica longe dela. Aliás, achei que já tivéssemos conversado sobre isso...
– E por que o não ta ouvindo essa baboseira toda? – Ethan rebateu e levantou o olhar, olhando confuso para os dois.
– Porque ele não abriu a boca pra fazer comentários babacas. – Martin disse, retirando sua comida já aquecida do micro-ondas.
– Mas ele também encarou! – Ethan disse.
– Encarou quem? – questionou no momento em que apareceu na sala, agora devidamente vestida.
Ethan revirou os olhos e agradeceu mentalmente pela interrupção, voltando sua atenção para o livro novamente.
– Toma, esquentei pra você. – Martin mentiu, estendendo o prato em direção à , que sorriu para o amigo em forma de agradecimento e andou até a área da televisão, sentando na poltrona que ficava ao lado do sofá.
Martin pegou novamente as mesmas comidas que deu para a amiga e colocou em um prato, esquentando-as e sentando-se com o prato já quente na poltrona que sobrou.
– Já recebemos a série? – Martin perguntou entre garfadas.
– Sim, primeira temporada completa. – Ethan respondeu e largou seu tablet ao seu lado no sofá, pegando o controle da TV em seguida. – Posso começar?
– Por mim, sim. – disse, fechando seu livro e estendendo suas pernas, apoiando os pés na mesinha de centro.
balançou a cabeça em confirmação, já que sua boca estava cheia de comida. Alguns minutos depois, ela e Martin terminaram de comer e o loiro levou os dois pratos para a cozinha, deixando-os em cima da mesa para higienizar depois. Quando retornou, a abertura de Game of Thrones já passava na tela.
– Queria pipoca. – comentou, mordendo o canto de suas unhas. Não obteve resposta.
Revirou os olhos e voltou sua atenção para a série, tentando entender o que estava acontecendo.
– Quem é esse? – Perguntou, ficando novamente sem resposta.
Ela se remexeu de maneira inquieta na poltrona, virando-se e colocando suas pernas para cima. O episódio continuou, com cada vez mais perdida. Era normal não entender nada logo no primeiro episódio da série? Não devia ser assim, devia?
– Gente, isso fica mais legal? – Ela questionou novamente, recebendo uma encarada de Ethan, que ela entendeu como um ‘’cala a boca’’, afundando-se na poltrona novamente.
Algum tempo depois, quando o episódio já estava chegando ao fim, ela finalmente estava começando a entender algumas coisas. sobressaltou-se quando a próxima cena começou.
– ELES SÃO IRMÃOS? – Berrou, levantando-se da cadeira.
– Cala a boca, ! – Os três homens disseram ao mesmo tempo e ela se encolheu, sentando-se novamente.
É, seria uma longa maratona.


05

observava a cena a sua frente embasbacada. Os três homens a encaravam com o olhar transbordando luxúria e desejo. Martin estava praticamente nu, assim como e Ethan. A calcinha da mulher já se encontrava molhada e ainda não havia ocorrido nenhum contato direto. Ela cruzou as pernas desconfortavelmente, tentando aliviar a sensação de alguma maneira. Ah, mas ela sabia bem que de maneira ela queria que essa sensação fosse aliviada. Quem sabe com as mãos grandes e ágeis de Ethan? Ou com os lábios bem desenhados de ? Talvez até com os dedos de Martin...
Os homens, vendo que ela não esboçaria reação alguma além de encara-los com a mesma intensidade que eles lhe encaravam, resolveram se aproximar juntos, fazendo-a se encolher no meio da cama. foi o primeiro a toca-la, se posicionando atrás dela e afastando seu cabelo para encostar seus lábios no pescoço da astronauta. Imediatamente ela fechou os olhos, sentindo um arrepio percorrer seu corpo. Mal teve tempo de assimilar a sensação quando duas mãos começaram a tocar seu corpo. Uma delas entrou por baixo de sua camiseta e deslizava por seu abdômen em direção aos seus seios, enquanto a outra passava lentamente por suas coxas expostas pelo shorts curto que usava.
– Você quer que a gente pare? – perguntou sem afastar os lábios da pele dela. Imediatamente negou com a cabeça. – Que bom, porque nós também não queremos parar.
– Hoje a noite é sua, . – Ethan disse enquanto levantava a blusa da mulher.
Os homens se afastaram e deram espaço para que ela tirasse a blusa. se adiantou e retirou seu shorts também, ficando apenas de lingerie. Os três pares de olhos encararam seu corpo sem pudor algum. Ethan foi o primeiro a se aproximar, roçando seus lábios lentamente pelo ombro dela ao mesmo tempo que abaixava a alça de seu sutiã. As mãos de foram mais ágeis e desceram para o fecho da peça, a qual ele retirou com cuidado. Depois, aproximou uma de suas mãos do colo dela e envolveu um de seios com sua mão, apertando-o com certa força, fazendo a mulher soltar um gemido baixo.
Martin, por sua vez, manteve-se quieto enquanto deslizava seus dedos pelas coxas da amiga. Lentamente ele abriu as pernas dela e se posicionou no meio, aproximando seus dedos da área interna das coxas dela, fazendo com se arrepiasse e inclinasse um pouco o corpo para frente.
– Você gosta disso, não é? – Martin questionou, aproximando os dedos da virilha da mulher, roçando-os por ali.
murmurou algo como ‘’gosto’’, o que fez os três sorrirem em aprovação. Ethan, trocando de posição com , colocou-se sentado atrás dela, deixando o corpo de no meio de suas pernas de maneira com que as costas dela ficaram encostadas em seu peitoral. As mãos dele foram até o outro seio da mulher e ele envolveu seu mamilo com os dedos polegar e indicador, apertando-o levemente. permaneceu apertando o seio dela ao mesmo tempo que voltou a aproximar seus lábios do pescoço dela, beijando a área.
– Vocês estão me enlouquecendo... – falou, sua voz saindo baixa e sendo interrompida por um gemido logo no fim, quando Martin encostou seus dedos no clitóris da mulher por cima de sua calcinha.
– É a intenção, ... – murmurou perto do ouvido dela, pronunciando seu apelido de maneira provocativa, mordendo o lóbulo de sua orelha em seguida.
Os dedos de Martin continuaram se movimentar por cima do tecido, fazendo movimentos circulares no local mais sensível da intimidade de . A mulher, respondendo aos estímulos, jogou sua cabeça para trás enquanto soltava gemidos baixinhos. Ethan aproximou suas mãos da calcinha dela e Martin entendeu o que o amigo queria, ambos retirando a peça de roupa com certa facilidade. Martin voltou sua atenção para as coxas de , afastando suas pernas o máximo que conseguiu, sem deixa-la desconfortável.
observava a cena com os olhos abertos, com a certeza de que aquilo jamais sairia de sua mente. Com certa rapidez, Martin trocou de lugar com Ethan e passou a ocupar a posição no meio das pernas da mulher. Lentamente, ele aproximou suas mãos da intimidade dela e levou um de seus dedos até a entrada, ameaçando penetra-la a qualquer momento.
– Molhadinha... – murmurou e gemeu baixo em aprovação, ao mesmo tempo que os lábios quentes de Ethan encostaram em seu seio, chupando-o com vontade.
Martin permaneceu observando a cena, enquanto seus dedos percorriam o corpo dela, passando por seu pescoço, ombro, braços e subindo pela barriga até chegar em seus seios. , aproveitando o momento de distração de , penetrou-a com seu dedo, fazendo com que ela jogasse a cabeça para trás e mordesse seu lábio com certa força.
– Ah, você lembra disso, ? – Ele perguntou, seu dedo deslizando cada vez mais fundo para dentro dela. – Lembra de como eu te fazia gozar?
– Le-lembro... – Ela murmurou entre gemidos, recebendo um sorriso satisfeito do homem, que intensificou os movimentos no mesmo momento.
, que permaneceu sem se movimentar até agora, resolveu aproveitar um pouco da situação. Ela levou uma de suas mãos até o corpo de Ethan, que estava em seu lado direito. Passou as unhas pelo peitoral dele, vendo-o se encolher. Começou a descer sua mão até chegar na barra da boxer que ele usava. Seu olhar encontrou o do homem e então ela apertou levemente seu membro ereto por cima do tecido. Ele estava completamente duro, mas incrivelmente macio. Ela apertou com um pouco mais de força e o homem continuou a encara-la com desejo no olhar. Estranhando a falta de reação dele, intensificou o aperto e só então se deu conta de que o que estava em sua mão era um travesseiro.
Abriu seus olhos, agitada. Olhou para os lados e encontrou as paredes de seu compartimento na Orion3. Não podia ser. Era tudo muito real. Ela desceu sua mão para o meio de suas pernas, só para confirmar que estava extremamente excitada, encontrando sua calcinha completamente encharcada. Bufou, frustrada.
– Bom demais pra ser verdade... – Murmurou, deslizando seus dedos para dentro de sua calcinha, decidida a dar um jeito sozinha em sua excitação.
Não faria mal demorar um pouco mais para sair do quarto nessa manhã e, além do mais, um orgasmo com certeza a ajudaria a estar mais calma quando tivesse que olhar para a cara de seus três companheiros de missão e se esforçar para não lembrar do sonho erótico que teve com eles.

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Cerca de 40 minutos depois, após matar o que a estava matando e fazer sua higiene matinal, apertou o botão e a porta de seu quarto se abriu. Assim que deu um passo para fora, porém, seu corpo bateu de frente com o de e o perfume dele adentrou suas narinas, fazendo-a respirar fundo só para senti-lo mais uma vez. encarou a mulher, curioso com sua falta de reação. Como ela continuou em silêncio, ele pigarreou baixo, chamando sua atenção.
– Desculpa. – Ela pediu, ainda sem olhar para ele.
franziu o cenho, mas deu de ombros, dizendo que não tinha problema.
– Bom dia. – Ele desejou e seguiu seu caminho pelo corredor, indo em direção à área comum.
suspirou baixinho e rolou os olhos em seguida. Se fosse agir assim com os outros dois, estaria ferrada. Balançando a cabeça para espantar os pensamentos, ela retomou sua postura e se dirigiu à área comum com seu diário em mãos, pronta para passar seu sonho para o papel – coisa que fazia desde que tinha 15 anos de idade. Era sua maneira de manter seus sonhos vivos e tira-los de sua cabeça. Além do mais, quando mais nova, ela costumava acreditar que sonhos tinham significados. Hoje, mesmo tendo quase certeza que não, o hábito não se acabou.
Cumprimentou Martin – que era o único presente no local além de – apenas com um sorriso, temendo que se abrisse a boca algo sobre sua mais nova fantasia pudesse escapar por seus lábios. Deixou seu diário em cima da mesa em frente ao sofá e foi para a área da cozinha, decidida a tomar um café. Depois de preparar a bebida, voltou com uma caneca em mãos, pegou seu diário e foi se sentar em uma das cadeiras próximas as janelas da espaçonave. Observar a imensidão que era o espaço era excepcional. O céu agora estava escuro, mas não demoraria a clarear um pouco, uma vez que, quando se está no espaço sideral, é possível assistir o nascer do sol a cada 45 minutos. tomou um gole de seu café e soltou a caneca ao lado, apoiando seu diário em suas pernas e abrindo-o, começando a escrever o sonho que teve.
– Querido diário... – a voz de Ethan soou atrás de e ela fechou o caderno imediatamente, escondendo-o atrás das costas.
– Que porra, Draw! – Exclamou, torcendo para que o amigo não tenha lido nada.
Ethan gargalhou e sentou-se ao lado dela, pegando a caneca de café da mulher e tomando um gole.
– Isso é mesmo um diário? – Perguntou, tombando a cabeça para o lado, curioso. – Não interessa. – respondeu, cruzando as pernas e olhando para frente. – Eu gosto de passar meus pensamentos pro papel, só isso.
– E no que você tava pensando? – Ethan perguntou, sorrindo de maneira doce, tentando arrancar algo dela.
– Vai sonhando que vou te contar. – Vai sonhando mesmo, pensou. – Você nem ia gostar de saber. – Ah, como iria...
– Qual é, ? Pode conversar comigo. Você tava escrevendo sobre o , não tava? – Ele perguntou, aproximando-se dela no sofá e abaixando o tom de voz. – Se você quiser, eu posso ser seu confidente durante a missão. Você pode me contar tudo e...
– Ethan! Não vou te contar nada, já disse. E não era sobre ele. – Era sobre ele, sobre você, sobre Martin...
afastou-se um pouco do homem, temendo ficar muito próxima a ele, já que as memórias de seu sonho insistiam em voltar.
– Se não era sobre ele, por que não me conta? – Ethan questionou novamente e rolou os olhos.
– Draw, para de incomodar a e deixa ela escrever em paz no caderno de sonhos dela! – Martin disse alto e o xingou mentalmente.
Ethan a olhou com as sobrancelhas arqueadas em curiosidade. também voltou seu olhar para a mulher.
– Caderninho de sonhos? Então você escreve seus sonhos aí? – Ethan questionou, apoiando a cabeça nas mãos como uma garotinha curiosa.
– Sim, e como eu já disse, não é da sua conta. – respondeu simplesmente, cruzando seus braços e torcendo para que o assunto se encerrasse.
– Certeza que o sonho de hoje foi erótico. – Martin comentou, fazendo arregalar os olhos. – Uma vez eu a peguei escrevendo sobre um sonho q...
– Cala a boca, Martin! – gritou para o amigo, interrompendo-o e levantando-se logo depois.
– Ela teve um sonho erótico! – Ethan berrou, animado ao descobrir a verdade, julgando pela reação que ela teve.
– Não tive. – Ela disse, suas bochechas esquentando levemente enquanto se levantava e andava para longe.
e Martin observavam a cena, rindo dos dois astronautas, que mais pareciam dois adolescentes do que dois adultos formados.
– Ah, teve sim! – Ethan disse, levantando-se e indo atrás dela. – ! Com qual de nós três foi?
se virou e bateu no peito de Ethan com seu caderno, cruzando os braços em seguida.
– Que porra? O que te faz achar que eu teria um sonho erótico com algum de vocês três? – Questionou, querendo sumir da frente de Ethan e extravasar o que estava sentindo na academia.
– O banho gelado que você tomou depois de nos ver sem camiseta. – Ethan respondeu, abrindo um sorriso convencido que fez fechar a cara e suas bochechas avermelharem instantaneamente.
– Martin! Me ajuda aqui! – Pediu, apelando para o amigo, que gargalhou.
– Em outras circunstâncias eu ajudaria, mas também tô curioso pra saber. E te deixar envergonhada tá super engraçado. – O loiro disse, fazendo a amiga bufar.
– Não teve sonho nenhum! Muito menos com algum de vocês! – disse um pouco alto, batendo os pés no chão como uma criança. – E você é um baita amigo, Lewis!
– Foi mal, . Mas eu te conheço melhor que qualquer um aqui e sei quando você tá escondendo algo... – Ele disse, rindo da cara da amiga.
– Com certeza foi comigo. – se pronunciou pela primeira vez, recebendo um olhar raivoso de .
– Sabia que você era convencido, mas não tanto, . – Ela disse, encarando-o. – Você seria o último com quem que eu teria um sonho erótico. Era só o que me faltava...
franziu o cenho por um segundo e logo o desfez, abrindo um sorriso convencido. Deu alguns passos e se colocou entre Ethan e ela, aproximando-se da mulher que, instintivamente, deu alguns passos para trás. Martin e Ethan observavam a cena atentos.
– Ah, jura? – Ele perguntou, dando mais um passo na direção dela, fazendo com que ela encostasse o corpo na parede. aproximou o rosto do dela e afastou seu cabelo, colocando a boca em sua orelha. – Você costumava me dizer o contrário...
fechou os olhos ao sentir o hálito quente de bater em sua pele, arrepiando-se por completo. Ele apoiou sua mão na parede e grudou seu corpo no dela, ouvindo-a suspirar. Os dois acabaram esquecendo que não estavam sozinhos. Em outras circunstâncias, teria afastado , contudo, seu sonho ainda estava muito vivo em sua mente, e ter o homem sussurrando em seu ouvido daquela maneira a fez quase molhar a calcinha pela segunda vez no dia.
– Ei, ei. – Martin disse um pouco alto, chamando a atenção dos dois. – Acho que já deu, né? Deixem o remember pra quando voltarmos pra Terra, por favor.
pareceu acordar do transe em que estava e colocou seu caderno no peito de , empurrando-o para longe. O astronauta riu e se afastou, enquanto a mulher deu meia volta e saiu batendo os pés em direção ao seu compartimento, apertando freneticamente o botão para a porta se fechar assim que entrou. Os três homens se entreolharam e começaram a rir.
– Com certeza foi um sonho erótico. – Ethan disse, jogando-se no sofá em seguida.
– É, foi, foi... Mas pode levantar a bunda gorda do sofá porque você tem trabalho pra fazer! – Martin disse, e Ethan rolou os olhos, mas se levantou e seguiu para a sua estação.
– Eu vou testar algo. – anunciou, aproximando-se de sua estação com uma batata em mãos. – Quero tentar isso aqui, pra ver se cultivo algo mais que uma planta.
– Você realmente acha que tem como cultivar vegetais aqui em cima? – Martin questionou, aproximando-se da estação do colega.
– Se a planta cresce sem adubo, somente com o calor da estufa, já pensou no que pode acontecer se eu acrescentar adubo? – perguntou retoricamente.
– Que adubo você vai encontrar por aqui? – Martin perguntou, franzindo o cenho, enquanto observava o colega ajeitar as coisas em sua bancada.
– Fezes são um excelente adubo. – respondeu, fazendo Ethan rir alto e Martin arregalar os olhos.
– Isso parece nojento. – Martin disse, torcendo a boca.
– Na teoria, é pra funcionar. – comentou, abrindo a estufa e colocando a batata dentro dela. – Agora, se você não quiser ver a parte nojenta, sugiro que se afa...
– Já fui, já fui! – Martin disse, virando-se e andando para longe da estação de , que gargalhou da pressa do comandante.
– A batata não fica com gosto de merda, fica? – Ethan perguntou.
– Claro que não, Draw. – respondeu e abriu uma gaveta, tirando duas luvas e colocando-as nas mãos em seguida.
Draw suspirou em alívio e Martin riu da reação dele. O médico permaneceu com sua atenção voltada totalmente para a batata e as fezes em sua estação, enquanto Draw observava o universo e tirava algumas fotos para enviar à Alvin. Martin, por sua vez, permaneceu sentado no sofá, abrindo um livro qualquer que alguém havia esquecido por ali.
Alguns minutos depois, retornou ao ambiente, indo diretamente para a sua estação sem falar com nenhum dos três. desviou o olhar rapidamente para ela, notando a feição desanimada da mulher, franzindo o cenho por vê-la daquele jeito. Será que ela estava chateada por antes? Martin, ao ve-la se aproximar, resolveu ir conversar com a melhor amiga.
? – Chamou assim que chegou na estação de engenharia. – O que vai fazer?
– Checar os níveis de combustível, o nível de oxigênio na cabine e o funcionamento dos motores. – Respondeu, sem tirar os olhos da tela do computador que tinha em sua bancada.
Martin assentiu e puxou uma das cadeiras de rodinha que tinham por ali, sentando-se e deslizando para perto da amiga novamente.
– Você não ficou brava, ficou? – Martin perguntou, observando o rosto da amiga. Ela suspirou baixo e balançou a cabeça negativamente.
– Não ficaria brava por isso, você sabe. – Respondeu simplesmente, digitando algo rapidamente no computador. – Tá tudo bem.
Martin franziu o cenho. Conhecendo bem a amiga, sabia que não estava tudo bem.
– E chateada? – Ele questionou novamente, acompanhando os movimentos dela com os olhos.
– Um pouco. – respondeu, enquanto anotava algo em um bloco de folhas.
– Comigo? – Martin voltou a perguntar, preocupando-se. A mulher balançou a cabeça negativamente e ele ficou em silêncio alguns segundos, pensando. – Com a situação com ?
– Eu não quero falar sobre isso. – Ela respondeu, sua voz saindo mais baixa.
... – Martin a repreendeu, suspirando.
– Não quero. Vamos mudar de assunto, por favor? – Perguntou, sorrindo forçadamente para o amigo, que bufou.
– Você sempre se esquiva quando o assunto é seu passado com ele. Eu só sei o básico e te conheço, sei que tem muito mais por trás dessa tensão sexual quase palpável que paira sobre vocês dois quando estão no mesmo ambiente. E mesmo que você não admita, , dá pra ver nos seus olhos o quanto você ainda ama o cara. – Martin despejou as palavras e ela parou de fazer o que antes fazia, apoiando suas mãos na bancada e olhando para baixo. – Você não vai aguentar se fazer de forte o tempo todo, . Provavelmente você pensou que as coisas não seriam difíceis entre vocês aqui e que...
– Marty. – chamou, interrompendo-o. Levantou seu rosto para olhar para o amigo e seus olhos estavam brilhando. – Por favor.
Ele suspirou e balançou a cabeça em confirmação. Não insistiria mais. Martin sabia que eles eram ex-namorados e que não correspondia os sentimentos de à altura, na época em que se relacionaram. Porém, como ela sempre ficava na defensiva quando o assunto era esse, ele tinha plena convicção de que havia muito mais na história dos dois. Ele só não imaginava que era algo tão grande. Aliás, ninguém imaginava. Só sabia o que havia acontecido depois que deixou . Com plena certeza de que a amiga falaria com ele quando se sentisse confortável, ele levantou da cadeira e aproximou-se dela, dando um beijo em sua bochecha.
– Quando quiser falar, só me procurar. – Falou antes de se afastar e deixa-la sozinha com seus afazeres.
, que observava a cena de longe, não pode deixar de se perguntar se a mulher estava bem. A vontade que ele tinha era de puxa-la para um quarto e trancar a porta, abrindo-a somente quando os dois tivessem terminado de falar tudo o que tinham para dizer um para o outro. A história deles era um pouco conturbada, sim, mas não deixou de ser bonita enquanto durou. tinha certeza de que sua ainda estava ali, embaixo da armadura de durona que ela construiu. Saber que ela tinha um amigo como Martin o tranquilizava um pouco, mas ele tinha a impressão de que nem com ele ela se abria como precisava.
– Chegou e-mail do Alvin. – Martin anunciou, sentado em sua cadeira de comandante.
Os três astronautas se aproximaram dele. Com o tablet na mão, Martin leu o email.
– “Boa noite, astronautas. Informo que as capsulas de combustível, o foguete de propulsão e a coifa já foram resgatados pela NASA. Estamos rastreando vocês e aguardamos relatório no trigésimo dia de missão. Espero que esteja tudo bem e que vocês estejam se exercitando diariamente. No trigésimo dia também disponibilizaremos conexão suficiente para que vocês façam chamada de vídeo com seus familiares. Não hesitem em contatar-nos caso precisem de alguma coisa. Confio em vocês. Até mais, Alvin. Ps: , sua mãe mandou um beijo e disse que está com saudades.” – Finalizou a leitura e voltou seu olhar para seus colegas, fixando-se em , que sorriu para ele.
– Chamada de vídeo. – Ethan disse, animado. – Não vejo a hora de ver outro rosto que não seja o de vocês.
Os amigos rolaram os olhos, rindo em seguida.
– Vou voltar pra minha batata. – disse, arrancando risadas de Ethan e Martin. o olhou de maneira estranha e ele deu de ombros. – O quê? Tô tentando cultivar batata. – Explicou.
– Como é? – Ela riu, aproximando-se da estação dele para observar.
– Tô usando fezes como adubo. – Respondeu e ela franziu o cenho.
– Espero que sejam as suas. – disse e rolou os olhos.
– Tenho cara de quem mexe em merda alheia? – Perguntou. Ethan e Martin gargalharam ao ouvi-lo e permaneceu observando-o, sem reagir. – Você tá pensando demais. Cuidado com sua resposta.
Ela riu de maneira debochada para ele e voltou seu olhar para a bancada, observando a batata dentro da estufa.
– Quanto tempo pra cultivar? – Esticou sua mão, pronta para tocar na estufa, mas deu um tapa de leve em sua mão, afastando-a.
– Qualquer contato bacteriano pode atrapalhar o crescimento, então, nada de tocar. – explicou, pegando duas luvas na gaveta e colocando-a em suas mãos. – Na Terra, leva de 60 a 140 dias, dependendo do tipo de batata. Aqui, sem luz solar, só com luz artificial, é provável que demore mais. Mas o adubo deve ajudar.
assentiu e permaneceu acompanhando enquanto ele mexia nos diversos materiais em sua bancada. Lentamente ela subiu o olhar pelos braços dele, até chegar em seu rosto. Observou seus olhos, seu nariz, sua boca perfeitamente desenhada. Só conseguia pensar em como sentiu falta dele durante todos esses anos. Claro que ela se relacionou com outras pessoas, mas com nenhuma ela teve o mesmo sentimento que tinha por ele. Ela podia negar o quanto quisesse, mas ainda era total e completamente apaixonada por ele e, apesar de tudo, torcia para que o sentimento fosse recíproco.
Acabou se perdendo na imensidão azul que eram seus olhos e só se deu conta quando a feição do homem mudou e ele virou o rosto para ela com o cenho franzido, só então percebendo como os dois estavam próximos um do outro. O olhar de primeiro fixou-se nos olhos dela e depois desceu para seus lábios. acompanhou os movimentos do homem e fez o mesmo, encarando a boca dele. ameaçou levantar sua mão para toca-la, mas parou quando lembrou que estava de luvas. Os dois continuaram a se encarar, como se nada mais existisse ao redor deles e só voltaram para a realidade quando ouviram algo cair ao fundo, provavelmente Ethan ou Martin derrubando algo.
mordeu seu lábio rapidamente e se virou, afastando-se de em passos rápidos. permaneceu no mesmo local, encarando o vazio que antes era ocupado por ela. Ele balançou a cabeça para espantar os pensamentos e voltou sua atenção para sua batata.
A astronauta seguiu para seu quarto, apertando o botão para a porta se fechar assim que entrou. Ela sentou na cama e deixou seu corpo cair para trás, deitando-se no colchão. Deus, como ela e foram do ódio ao... seja lá o que for isso assim tão rápido? Foram extremamente civilizados um com o outro minutos atrás. Isso era perigoso. Era mais seguro se os dois continuassem com as implicâncias, porque assim ela não lembraria dos momentos bons que passaram juntos e não se sentiria culpada por ter escondido a gravidez dele. suspirou, um pouco frustrada. Precisava urgentemente se distrair e faria isso na academia.

xxx

Martin estava concentrado na tela à sua frente, checando dados e verificando onde estavam, quando Ethan apareceu cochichando ao seu lado.
– Aposto uma barra de chocolate que e se pegam antes de completarmos dois meses de missão.
O loiro revirou os olhos, mas acabou por rir.
– Puta merda, Ethan, você parece uma garotinha fofoqueira. – Martin disse, fazendo o amigo rir e dar de ombros. – Aposto duas barras que nem um mês eles aguentam.
– Duas barras? Tem certeza? Cada um de nós tem só 10... – Ethan disse.
– Duas barras, um mês. – Martin repetiu e Ethan sorriu, confiante.
– Fechad... – O moreno estendeu a mão para selar a aposta com o comandante, mas parou no meio do caminho quando um alarme alto soou.
Martin se levantou imediatamente, correndo para o monitor principal da nave. Ethan o seguiu e logo juntou-se aos dois. Martin tocou na tela e uma planta tridimensional de toda a espaçonave apareceu, indicando a área onde o alarme foi ativado.
– Porra, que barulho insup...
– Cadê a ? – Martin questionou, olhando para os lados.
– Faz um tempo que ela foi pro quarto. – respondeu, franzindo o cenho. – Por quê?
– O alarme tá soando na academia. – Martin respondeu e os três se entreolharam, preocupados.
Como o alarme que estava soando só é ativado manualmente em situações de emergência, no segundo seguinte, eles já corriam em direção à academia a procura da astronauta. O que quer estivesse acontecendo, só podia ter a ver com .


06

Ao chegarem na academia, os três astronautas buscaram com o olhar, encontrando-a no chão desacordada perto da esteira em que ela provavelmente corria antes do alarme começar a soar. O que quer que tivesse acontecido, a tinha machucado o suficiente para que a esteira se desligasse e acionasse o sistema de segurança, que havia sido implantado justamente para situações como essa.
? – Martin perguntou quando se abaixou perto da amiga, afastando o cabelo do rosto dela.
– Será que ela bateu a cabeça? – Ethan questionou, observando enquanto e Martin tentavam desperta-la.
– Deve ter caído da esteira, só precisamos descobrir se o desmaio foi por conta da queda ou se ela desmaiou enquanto corria. – Ponderou , analisando-a para ver se encontrava algum sinal visível do que pode ter acontecido. – Consegue elevar as pernas dela, Martin?
Prontamente o loiro assentiu, posicionando-se perto dos pés dela e levantando-os para apoiar as pernas de em cima das suas, mantendo-as elevadas sem muita dificuldade.
? – chamou, afastando lentamente os cabelos dela que estavam grudados em seu rosto. – ...
– Tô começando a ficar preocupado. – Ethan franziu o cenho, andando de um lado para o outro ao redor dos amigos.
Lentamente a engenheira começou a piscar, abrindo os olhos devagar e acostumando-se com a claridade ao seu redor.
– O que aconteceu? – Perguntou, visivelmente confusa.
– A gente espera que você saiba... Te encontramos assim. – Martin respondeu, seu olhar demonstrando muita preocupação.
– Você comeu algo hoje? – questionou, novamente afastando alguns fios de cabelo do rosto da ex-namorada.
– Eu tomei um café...
! – Esbravejou Martin. – Você sabe que tem hipoglicemia! Não pode vir fazer suas corridas sem se alimentar!
A loira encolheu os ombros, como se pedisse desculpas.
– Eu esqueci... Minha cabeça tá cheia desde que acordei, e a culpa é de vocês. – Explicou, levantando o tronco com a ajuda de para se sentar.
– Quem esquece de comer, por Deus? – Martin quase riu, levantando os braços, exaltando-se. – Pera aí, a culpa é nossa? Você que tem um sonho erótico e a culpa é nossa?
– É claro, quem ficou importunando minha vida até eu me irritar foram vocês. – Rebateu, dando de ombros.
– O que você quer comer? – Ethan quis saber, interrompendo a discussão dos dois, porque, mesmo sendo engraçado, ele estava preocupado e já pensava no que preparar para ela.
– Qualquer coisa. Sério, nem se preocupa, deixa que eu faço...
– Faz nada. Hoje você vai fazer o mínimo de esforço possível. – O moreno disse antes de se afastar para ir para a cozinha. – E nem reclame.
revirou os olhos, mas deu de ombros. Não iria reclamar, mesmo tendo sido só um desmaio e não algo sério, não seria nada ruim ter a ajuda dos colegas pelo resto do dia – até mesmo a de . Mentiria se dissesse que não estava gostando da preocupação um pouco excessiva vindo dos três.
– Você precisa se hidratar, . Lewis, consegue pegar um isotônico até que ela se alimente direito? – pediu logo recebendo uma resposta positiva do loiro antes de se retirar da academia. Voltou, então, sua atenção para a mulher em sua frente. – Você tá bem? Consegue levantar?
– Acho que sim. – Respondeu, logo apoiando-se em seus cotovelos para levantar e aceitando a mão que estendeu para ela. Segurou-se no ombro do astronauta, apoiando o peso de seu corpo nele para que pudessem andar até a área comum da espaçonave.
– Você quer tomar um soro? Acha que precisa? – O médico perguntou, ainda olhando para ela de maneira preocupada.
– Não precisa, quer dizer, eu já vou comer, né? Devo melhorar... – deu de ombros ao mesmo tempo em que passou seu braço pela cintura dela, mantendo-a junto a si para evitar que ela caísse novamente.
A situação era, no mínimo, estranha, e muito, muito desconcertante. Se conseguisse, sairia correndo e recusaria toda e qualquer ajuda do ex-namorado, mas, ela sabia que não teria forças pra chegar até a cozinha sozinha e, muito provavelmente, também não conseguiria se livrar de . Afinal, mesmo se conseguisse, ainda tinham Martin e Ethan. Por isso, resolveu aproveitar, de uma vez por todas, os benefícios que aquele dia a trariam.
Os dois começaram a andar, com o médico guiando-a por todo o caminho. Pelo fato de estarem tão próximos – praticamente abraçados. Cada vez que respirava, o perfume dele era inspirado tão profundamente que a deixava zonza. Era incrível que, mesmo depois de anos, ainda cheirasse tão bem. Dizem que o cheiro é uma das características mais difíceis de esquecer, né? Era verdade. poderia esquecer de muitas coisas, mas o cheiro de sempre estaria em sua memória.
– Tudo bem? – Ele perguntou após algum tempo em silêncio, quando os dois já estavam quase chegando à cozinha. – , se você achar que precisa d...
– Eu tô bem. – Assegurou, arriscando até um leve sorriso para o homem, que retribuiu um pouco sem jeito, talvez pela proximidade dos dois ou pelo simples fato de ela sorrir para ele. Duas coisas muito incomuns para um só dia.
– Certo. Vamos até o sofá e se você precisar de algo, me avisa. Não precisa repousar o dia inteiro, mas é interessante não fazer muito esforço. Sem mais academia por hoje, ouviu?
– Sim, senhor. – Ela quis rir, porque agora além de estranha, a situação estava um tanto quanto engraçada. Segurou o impulso e, ao invés disso, acabou fazendo uma careta. Ter tratando-a tão bem e com preocupação era bastante irônico.
– O que foi? – Questionou assim que chegaram até o sofá e ela se sentou.
– Nada.
– Também tô achando essa situação estranha, relaxa. Mas eu sou o único médico por aqui e, mesmo se não fosse, ainda assim estaria preocupado com você, afinal, é você e... – se interrompeu, coçando a cabeça um pouco sem jeito.
não ficou diferente, mas se conteve em apenas morder o lábio interiormente.
– Obrigada. – Agradeceu, ajeitando-se no sofá.
– Vou pedir pro Ethan não demorar muito com a sua comida, também não quero ter que te colocar no soro. – Ele sorriu de lado antes de começar a se afastar. – Se precisar de algo, estarei na minha bancada com a minha batata.
Dessa vez, apenas riu, limitando-se apenas a abrir um sorriso sincero para o astronauta, afundando-se no sofá no momento em que ele virou as costas. Suspirou pesadamente e mal teve tempo de relaxar quando Martin praticamente pulou ao seu lado no sofá e lhe estendeu uma garrafa de isotônico.
– É bom que você beba tudo, .
revirou os olhos e pegou a garrafa da mão do amigo, aproximando-a da boca e tomando alguns goles.
– O que você tem na cabeça? Você sabe que não pode ficar sem comer, fazia tempo que você não tinha hipoglicemia dessa maneira... – Martin perguntou, ainda encarando-a com preocupação no olhar.
– Nada, ué. Eu realmente só esqueci. – Deu de ombros enquanto tomava mais um pouco do isotônico e já sentia ele fazer efeito. – De verdade, minha cabeça realmente tava cheia. Ainda tá... – Suspirou, encolhendo-se no sofá.
– Quando é que você vai finalmente conversar comigo? Você nunca me esconde as coisas. – Martin cruzou os braços, observando a amiga. – A não ser no início da nossa amizade que você desenvolveu depr...
– Não tô escondendo nada, Marty. – cortou-o rapidamente, querendo encerrar o assunto. Não era hora de falar disso. Aliás, ela realmente gostaria que nunca houvesse um momento certo para falar sobre isso.
O amigo a encarou por mais alguns segundos, analisando-a, e por fim deu de ombros. Mesmo não convencido, respeitaria , como sempre fazia. Ele sabia que seria questão de tempo até ela resolver se abrir, afinal, não tinha com quem mais conversar a não ser ele, seu melhor amigo, ou um dos outros dois, o que ele duvidaria muito que acontecesse, levando em conta que um era uma matraca e o outro era seu ex-namorado.
– Certo. Eu vou ver se o Draw já tá terminando sua comida, tá? – Avisou, aproximando-se para dar um beijo na testa dela antes de se levantar. – Já volto.
– Obrigada. – agradeceu. – Hm, Marty? Você acha que posso ficar no meu quarto por hoje?
– Não vejo porque não, eu tomo conta das coisas por aqui, só come antes de ir pra lá. – O amigo sorriu antes de se afastar, mas logo parou e falou por cima do ombro. – Mas nada de trancar a porta, mocinha.
riu, mas concordou, levantando o polegar para que ele soubesse que ela faria o que ele pediu. Martin sorriu mais uma vez e se afastou, andando em direção a cozinha. A loira suspirou, tomando mais um gole de seu isotônico. Sentindo um olhar sobre si, ela desviou o olhar até a bancada de , que a encarava sem nem tentar disfarçar. Um pouco sem jeito, sorriu levemente para tentar amenizar o desconforto e levantou sua garrafa de isotônico, recebendo um sorriso e uma piscada em retorno. Os dois continuaram a se olhar por mais alguns segundos, parando somente porque Ethan apareceu com o prato de comida na frente de .
– Sua refeição, senhorita. – Anunciou, fazendo-a desviar o olhar de . – Desculpa atrapalhar o momento, mas, você precisa comer.
– Que momento, idiota? – Ela revirou os olhos, mas acabou rindo de leve e pegou o prato das mãos do amigo, apoiando-o em cima da almofada que estava em seu colo. – Muito obrigada, Ethan.
O moreno sorriu antes de fazer uma reverência exagerada, fazendo-a rir. então voltou sua atenção para o prato de comida em sua frente. Estava muito apetitoso, levando em conta as poucas variedades que eles tinham no espaço e o aspecto não muito apetitoso dos alimentos. Deu a primeira garfada e imediatamente já sentiu um alívio; ela sequer tinha notado que estava com tanta fome. Demorou poucos minutos para comer tudo e quando o fez, se levantou e levou o prato para a cozinha, colocando-o na máquina para higieniza-lo. Não estava afim de lavar a louça, alguém com certeza ligaria a lavadora mais tarde. Depois, resolveu ir para seu quarto, mas não sem antes avisar os três astronautas que permaneceriam trabalhando e estavam preocupados com ela.

xxx

Algumas horas mais tarde, quando já era praticamente hora de dormir – sim, porque não tinha muito como diferenciar o dia da noite edo no espaço sideral -, desligou as luzes de sua bancada, só então se dando conta de que seus colegas não estavam mais trabalhando e se encontravam jogados no sofá assistindo a um filme que ele não identificou. Antes de se juntar a eles, foi até a cozinha e preparou algo para beber, pois já havia jantado mais cedo. Voltou para sala e sentou em uma das poltronas vazias com uma caneca em mãos. Desviou seu olhar para a TV por alguns segundos, tempo suficiente para ter certeza de que o filme era uma bosta. Depois, olhou para os dois colegas: Ethan estava vidrado na televisão e Martin roía o canto das unhas, parecendo entediado.
– Minha batata tá querendo começar a mostrar seus brotinhos. – comentou, quebrando o silêncio no ambiente e chamando a atenção dos dois. Martin e Ethan olharam para ele, querendo rir. Essa situação toda com as batatas estava se tornando um tanto quanto engraçada. – O que foi? Só quis dividir o progresso com vocês. – deu de ombros, esticando suas pernas e apoiando os pés na mesinha de centro. – não apareceu mais?
– Não, mas fui lá agora pouco e ela tá bem, só queria descansar, mesmo. – Martin contou, ajeitando-se no sofá. – Que filme mais chato, Ethan, coloca outro. Alvin mandou uma infinidade de filmes.
– Eu tô gostando, ué. – Respondeu, sem tirar os olhos da televisão.
Marty e reviraram os olhos e desistiram de argumentar. O silêncio se instalou novamente, mas dessa vez, durou poucos segundos. tinha perguntas e provavelmente Martin conseguiria responde-las.
– Lewis? realmente tem sempre esses episódios de hipoglicemia? – quis saber, sua mente ainda não estava livre de preocupação.
– Sim. Mas ela costuma controlar bem, afinal, é só manter os níveis de açúcar no sangue, ultimamente vem acontecendo bem pouco... – Martin contou, ajeitando-se no sofá. – Começou um pouco depois que nos conhecemos na faculdade, ela teve alguns problemas... Bom, eu não vou entrar em detalhes porque ela provavelmente odiaria que eu contasse isso, mas, enfim, na época teve depressão por alguns motivos que eu até hoje desconheço e...
– Depressão? – estranhou, franzindo as sobrancelhas.
sempre foi tão alegre, animada, ativa... Enquanto estavam juntos, nunca havia notado nenhum sinal de que algo do tipo pudesse acontecer. Mas, também, a depressão geralmente não dava aviso prévio e muitas vezes não precisava de um motivo específico para se desenvolver. Ela simplesmente aparecia, transformando a vida da pessoa em uma tristeza sem fim.
– Sim, foi bastante pesado e ninguém sabe realmente o que desencadeou, nem mesmo a mãe dela. – Suspirou, cruzando os braços. – Aí ela acabava ficando muito sem se alimentar, por longos períodos e depois, quando melhorou, o corpo dela acabou não se acostumando direito, não sei, foi o que ela contou na época. Desde então ela controla bem, come em horários regrados e esses episódios costumam ser bem raros.
Ethan, que havia deixado o filme de lado e agora prestava atenção na conversa dos dois, resolveu se intrometer.
– Como eu não sabia disso? – Questionou, bastante surpreso.
– A gente te conheceu depois e não é um assunto que ela goste de falar, aliás, nem precisa ficar comentando, né? É por isso que vocês vão ficar de boca fechada, se isso sair daqui eu vou saber que vocês abriram o bico. – Martin pediu, olhando de um para o outro e recebendo movimentos de concordância com a cabeça.
, para falar a verdade, estava um pouco perdido em pensamentos. Pelo que ele sabia, Martin e se conheceram na faculdade, o que muito provavelmente ocorreu logo depois que ela foi embora. Ele não poderia ter sido o causador disso, né? Não, claro que não. Seria prepotência demais pensar isso e algo bem difícil de lidar. Decidiu, então, que tentaria investigar com o tempo, naturalmente. Quem sabe um dia ela resolvesse se abrir com ele novamente? Pensando nisso e chegando a conclusão de que precisava de um banho e uma boa noite de sono, se levantou e se despediu de seus dois colegas que ainda ficaram na sala.
– Bom, eu vou tomar um banho pra dormir. Nos vemos amanhã. – O médico avisou, afastando-se ainda a tempo de ouvir desejos de boa noite dos outros dois.
Ao andar pelo corredor, passou pelo quarto de , encontrando a porta entreaberta, assim como os amigos tinham pedido que ela fizesse mais cedo. Espiou rapidamente, só para checar se a engenheira estava bem. Ela dormia profundamente, com um caderno e uma caneta sobre suas pernas, as costas apoiadas na parede e o pescoço pendendo para o lado. Sem pensar duas vezes e com cuidado para não fazer barulho e acorda-la, abriu o restante da porta e adentrou o cômodo, aproximando-se da cama para ajeitar a posição em que ela dormia – que não era das melhores. Pegou o caderno e fechou-o, colocando-o juntamente com o lápis em cima do criado mudo ao lado da cama. Depois, lentamente ele passou o braço por trás das costas de , segurando seu tronco enquanto ajeitava o travesseiro na cama com a outra mão. Deitou-a devagar, observando enquanto sua cabeça afundava no travesseiro.
Não tinha como não sorrir ao vê-la dormir tão tranquilamente, como se não tivesse passado mal há algumas horas. Levou sua mão até o rosto de , afastando alguns fios de cabelo que insistiam em cair por ele. Sem nem perceber o que fazia, aproximou seu rosto do dela e depositou um leve beijo em sua testa. Quando se afastou, franziu o cenho, perguntando-se o porque de ter feito isso assim, tão de repente. Suspirou baixo e virou-se, pronto para sair do quarto, quando ouviu a voz dela chamar por ele:
?
– Desculpa, não queria te acordar. – Respondeu, virando-se novamente para olha-la. – Eu só... Te vi dormindo em uma posição péssima, por isso.
– Tá tudo bem. – respondeu, sua voz saindo um pouco embolada por conta do sono. – Muito obrigada por tudo hoje.
– Não foi nada. Só quero que você se cuide pra que isso não se repita. – Pediu, cruzando os braços.
– Sim, senhor. Vou cuidar. – arriscou um sorriso, encolhendo-se na cama e envolvendo seu corpo com as cobertas. – Boa noite, Stan.
– Boa noite, .
Pela primeira vez em anos, ela sorriu verdadeiramente ao ouvi-lo chama-la pelo apelido que tanto gostava.


07

– Caiu da cama, foi? – Martin perguntou a .
Pelo visto, a engenheira havia sido a primeira a acordar – o que era muito difícil de acontecer, visto que odiava acordar cedo. O astronauta a viu assim que chegou na área comum da nave, encontrando-a em sua bancada, concentrada em seu computador, já imersa em seu trabalho.
Estavam perto dos primeiros trinta dias de missão, o que significava que quase um quarto do tempo para chegarem até Marte já havia se passado.
– Algo assim. – respondeu sem nem tirar os olhos do que fazia.
– Tá tudo bem? – Ele perguntou ao se aproximar, escorando-se na lateral da mesa dela.
– Tô ótima. – Foi o que ela respondeu, fazendo-o erguer as sobrancelhas, desconfiado. Ao perceber que o amigo continuou a encara-la, suspirou e desviou seu olhar para ele. – O que é, Martin?
– Ah. – Ele sorriu nervosamente ao perceber o que estava acontecendo. – Estamos naquela época do mês, né?
confirmou com a cabeça e desviou seu olhar para seu computador novamente, digitando algo conforme checava os dados de suas anotações. Ele sabia muito bem que era melhor trocar poucas palavras com ela em situações assim. Mas entendia, até porque era algo que não tinha muito controle – e, acredite ou não, era melhor assim.
– Já tomou café? – Martin questionou e apenas apontou a caneca de café que estava em cima de sua mesa. – Certo.
O loiro suspirou e se afastou, andando até a cozinha para comer algo. sabia que ninguém tinha nada a ver com seu período menstrual, mas não conseguia evitar ficar mal-humorada dessa maneira, então, preferia se manter afastada, porque, afinal, ninguém merece receber patada de graça, né?
Pegou sua caneca ao lado do computador, tomando o último gole de seu café. Depois, abriu a gaveta e pegou seu ipod, ligando-o e colocando os fones de ouvido antes de voltar a fazer anotações, checando o funcionamento da aeronave, verificando o volume de combustível, a quantidade de comida e, principalmente, o suprimento de oxigênio. Depois de confirmar que estava tudo certo, começou a preencher a sua parte do primeiro relatório oficial que deveriam enviar para a Terra.
– Bom dia. – apareceu, cumprimentando os que já estavam ali.
O médico passou na cozinha apenas para pegar um café antes de seguir até sua bancada para checar o progresso de seu cultivo. Pouco depois, Ethan também apareceu, cumprimentando os amigos e jogando-se no sofá, como se não tivesse muitas coisas para fazer.
– Draw, nem fica confortável. – Martin avisou o amigo quando passou por ele, andando em direção à sua estação. – Hoje é dia de enviar relatório, cara.
Ethan se esticou, erguendo os braços e se espreguiçando, para só depois levantar e caminhar até o seu local de trabalho.
– Agora são... – Martin desviou o olhar para seu punho, checando seu relógio. – 9h. Até 12h, quero todos os relatórios na minha mesa. Ok?
Os dois homens murmuraram algo em concordância, mas permaneceu quieta. Provavelmente não tinha ouvido nada que o amigo falou por conta dos fones de ouvido que usava.
? – Ele chamou novamente, desistindo e se levantando para ir até a amiga. – ? – Só então ela se virou, tirando os fones de ouvido. – Preciso do relatório até 12h.
mexeu em alguns papéis na mesa e entregou alguns a Martin.
– Já terminei. Só escanear. – Explicou quando percebeu o olhar surpreso dele. – Eu realmente acordei cedo.
– Certo. Obrigado. – Ele agradeceu antes de se virar, voltando para a sua estação.
voltou a colocar os fones de ouvido e desligou a tela de seu computador antes de se levantar e se afastar, indo até a cozinha para comer algo, antes que tivesse outra crise de hipoglicemia.

xxx

Já era quase noite – a única maneira de saber quando era ‘’dia’’ ou ‘’noite’’ estando no espaço era com relógios, então eram objetos comuns dentro da nave, tendo um em cada ambiente.
estava em seu quarto, lendo um dos muitos livros que havia trazido a bordo. Já havia feito tudo que tinha para fazer: trabalhou, fez relatórios, se alimentou, foi a academia e tomou um banho. Era hora de relaxar um pouco.
Três batidas abafadas foram ouvidas na porta de e ela desviou os olhos do livro que lia, engolindo rapidamente o chocolate que tinha em sua boca antes de se levantar e abrir a porta, dando de cara com . o olhou, esperando que ele falasse algo, mas permaneceu encarando-a, desviando seu olhar para a boca da mulher.
? Perdeu algo aqui? – Ela perguntou, tirando-o do transe.
– Não, é que... – Ele sorriu nervoso. – Você tem... Tá suja de chocolate.
franziu o cenho, levando seus dedos até o canto de sua boca, passando-os pelo local para tirar o chocolate, mas, eles continuaram limpos. , que acompanhou os movimentos, aproximou sua mão da boca dela lentamente, se dando conta do que estava fazendo apenas quando seus dedos tocaram o canto certo da boca dela, limpando o chocolate que estava ali. Quando ele se afastou, tinha seus olhos fixos nos dele, e passou a língua pelos lábios. baixou seu olhar, acompanhando os movimentos da mulher, tendo que respirar fundo para se conter. Ela quis rir, mas cruzou os braços, escorando-se na porta. O médico piscou algumas vezes e pigarreou para disfarçar o momento.
– O Martin tá esperando na sala. – Ele avisou enquanto bagunçava seus cabelos nervosamente. – Parece que chegaram os vídeos das nossas famílias e tal.
– Ok. – Foi só o que respondeu, lançando um olhar cheio de significados que não conseguiu identificar antes de fechar a porta de seu quarto e sair andando na frente dele.
Talvez ele estivesse vendo coisas, devido ao que tinha acabado de acontecer, mas podia jurar que estava rebolando mais que o normal. Uma cena muito agradável de ser ver, por sinal. A tensão entre os dois aumentava mais a cada dia que passava. Em algum momento, nenhum dos dois aguentaria mais. Restava saber quem seria o primeiro a ceder.
Cerca de um minuto depois, os quatro já se encontravam sentados no sofá, encarando a televisão de maneira ansiosa. Martin configurou a tela e logo o primeiro vídeo começou a passar. Era dos pais de Ethan, que se emocionou ao vê-los. Falaram muito sobre como estavam orgulhosos do filho e que estava tudo bem com eles. Depois, os pais de Martin apareceram, juntamente com sua irmã. Lewis também se emocionou, principalmente por ver a irmã, já que não tinha conseguido se despedir dela antes da missão começar. Então foi a vez de Ramona e Adrian aparecerem na tela, a família de . O astronauta riu das palhaçadas que seu sobrinho fez e sentiu-se se saudoso por sua irmã. Por último, a mãe de , Joan, e seu gato, Ronron, apareceram. quase chorou de tanta falta que sentia da bola de pelos, mas sabia que sua mãe estava fazendo um ótimo trabalho cuidando dele.
Quando os vídeos dos familiares chegaram ao fim, Martin anunciou que havia mais um vídeo, de Alvin. O supervisor lhes passou algumas informações que não eram urgentes e também aproveitou para dizer que todos estavam satisfeitos com o trabalho que eles vinham realizando.
– Acabou. – Martin anunciou, desligando a televisão. – Daqui a uns 30 dias tem mais. – Ele sorriu saudoso, já ansioso pelos próximos. – Amanhã a gente grava vídeos nossos pra eles, ok? Todos os relatórios já estão na minha mesa?
– Sim. – Ethan e responderam ao mesmo tempo.
Como já tinha entregue o seu, ela permaneceu quieta, apenas observando os colegas.
– Certo, vou escanear e enviar. – Martin disse, afastando-se para ir até sua bancada.
– Eu vou pra academia. – Ethan avisou antes de se retirar.
– Vou também. – disse, seguindo o amigo.
suspirou, levantando-se rapidamente só para ir até seu quarto buscar o livro que estava lendo. Quando retornou, deitou-se no sofá e retomou sua leitura. Estava tão imersa no universo criado pela autora da obra que lia, que não percebeu quando Martin se aproximou, sentando-se na beirada do sofá.
– Tá melhor?
– Mesma coisa. – respondeu, um pouco indiferente, sem tirar os olhos do livro.
– Você ficou bem quieta o dia inteiro. – Martin pontuou, ainda olhando para a amiga.
– Você sabe como eu fico, Marty. Melhor assim, não quero dar patada em ninguém.
– Você já faz isso normalmente, ... – Martin riu baixo, recebendo um olhar feio da amiga. – Tá bem, vou ficar quieto.
A engenheira sorriu para o amigo, voltando sua atenção para o livro. O silêncio se seguiu por alguns segundos, Martin encarando , um pouco ansioso.
– Eu odeio quando você tá assim.
– Você não ia ficar quieto, por Deus? – Ela perguntou, fechando o livro e encarando o loiro.
Martin deu de ombros e riu, levantando-se. Ele foi até a amiga e aproximou seus lábios de sua testa, depositando um beijo antes de desejar boa noite e se afastar. sorriu, se perguntando se não tinha sido muito dura com ele.
– Marty? – Ela chamou. – Amo você.
– Eu também, . Eu também. – Ele piscou e se virou, andando em direção ao corredor para ir até seu quarto.
Agora sim poderia ler seu livro em paz.

xxx

entrou na área comum, estranhando ao encontrar as luzes acesas, já que aparentemente não havia ninguém ali. Foi até a cozinha, pegando uma fruta e um pouco de água para levar ao seu quarto. Já estava quase desligando as luzes quando, pelo canto do olho, viu deitada desajeitadamente no sofá. Ela dormia profundamente, sua feição tranquila. O livro que antes lia estava aberto sob seu corpo e uma de suas mãos ainda o segurava.
O astronauta sorriu ao se aproximar. Era certo dizer que parecia calma, imersa em algum sonho tranquilo. arriscava dizer que, deitada ali, daquela maneira, também parecia um pouco indefesa. Foi inevitável se lembrar das inúmeras noites em que dormiram juntos, acordando lado a lado na manhã seguinte. Ele sentia mais falta disso do que gostaria de admitir.
Ponderou se deveria acorda-la. Dormir no sofá não era o melhor jeito de passar a noite – ainda mais em um sofá duro como o que tinham na nave. Suspirou baixo e resolveu se aproximar. Soltou a fruta e o copo com água na mesa de centro antes de toca-la levemente no ombro. Como não obteve resposta, tocou-a novamente, dessa vez apertando um pouco a região.
se moveu, virando-se para o outro lado, o que fez com que seu livro caísse no chão. achou que ela acordaria com o barulho, mas não foi o que aconteceu. Ele suspirou mais uma vez, tocando seu ombro com um pouco mais de força. Sacudiu-a devagar e dessa vez, como resposta, a mão de agarrou seu punho, apertando-o.
– Ouch! – gemeu, encontrando os olhos dela bem abertos, encarando-o.
Quando ela percebeu que era , afrouxou o aperto, piscando algumas vezes e sentando-se no sofá. Odiava ser acordada. Quando percebeu o que acontecia, por um momento não se lembrou de onde estava, e foi isso que a fez agarrar o punho dele em defesa.
– O que você quer? – Perguntou, ajeitando seu cabelo em um coque mal feito, que se desfez segundos depois.
– Você acorda sempre assim? – Ele questionou, passando sua mão pelo local onde ela apertara.
– Só quando é você quem me acorda. – Retrucou, sorrindo de maneira debochada, fazendo-o revirar os olhos.
– Eu só achei que seria melhor e mais confortável você dormir no seu quarto. – deu de ombros.
– Achou errado. – Ela respondeu. Pegou seu livro do chão e fechou-o, levantando-se do sofá em seguida. – Boa noite.
balançou a cabeça, incrédulo. Ele acabou rindo baixo, um pouco frustrado, o que chamou a atenção de novamente.
– O que foi? – Ela questionou, aproximando-se novamente.
– Você é de lua. Nunca sei quando vai ou não ser grossa comigo. – Ele explicou, encolhendo os ombros. – Não entendo.
– Eu não sou de lua. – revirou os olhos. – Eu não tô num bom dia, só isso.
– E todas as outras vezes que você me tratou mal, você também não estava num bom dia?
respirou fundo ao ouvi-lo, desejando silenciosamente que ainda estivesse dormindo. Ela entendera o que ele queria dizer, mas hoje não era o dia pra ter essa discussão – ou qualquer outra. Poderia vir a falar coisas que não devia, e, pior, ela poderia chorar. Odiava essa época do mês. Odiava ficar tão vulnerável e sem muito controle de seus sentimentos.
, hoje não... – Ela suspirou pesadamente, tentando se conter.
– Quando, ? Porque eu tenho me mantido longe, mas eu ainda quero respostas.
– Eu não te devo respostas, . – Ela foi firme, mas não teve coragem de olha-lo nos olhos. Ouviu quando ele bufou, já impaciente.
– Você não me deve nada. – concordou, dando alguns passos para ficar mais próximo da mulher. – Mas acho que poderia me dizer, de boa vontade. Se coloca no meu lugar, .
– Não me chama assim. – Ela grunhiu, travando os dentes.
. – repetiu e cravou suas unhas na palma das mãos. Ele permaneceu encarando-a, atento as reações que sabia que o apelido causava dela.
– Você quer que eu me coloque no seu lugar, ? – Ela bufou, aproximando-se dele. – Por que você não se coloca no meu, hein? Você quer que eu fale sobre o que eu sentia por você enquanto estávamos juntos e você dormia com outras?
– Nós nunca firmamos comprom...
– Ah, não vem com essa, não. – Ela riu de maneira nervosa, interrompendo-o. – Você sempre soube o que eu sentia!
– E você ficou porque quis!
Ela abriu a boca para responder, mas não saiu nada. Manteve seu olhar fixo no dele e sentiu quando seus olhos começarem a arder devido ao esforço que estava fazendo para evitar que as lágrimas caíssem.
– Eu não... – Ele bagunçou seu cabelo, nervoso. – Desculpa.
– Você é inacreditável. – balançou a cabeça negativamente, sentando-se no sofá e fungando baixo em seguida.
a encarava, sem saber muito o que dizer. Ele já havia falado o que não devia, tinha medo de abrir a boca e piorar a situação. Sabia que não deveria ter dito que ela ficou porque quis. Ele sempre soube o que sentia na época, já que a mulher nunca fez questão de esconder. Se tinha um culpado nessa história, era somente ele. não tinha direito algum de jogar isso na cara dela.
– Me desculpa. – pediu. – Não só por agora, eu... Me desculpa, por tudo.
Ela manteve seu olhar baixo, sem olhar para ele. Estava muito concentrada em não chorar – o que se mostrou ser impossível, já que no segundo seguinte algumas lágrimas começaram a rolar por seu rosto.
, ao perceber que não obteria resposta da mulher, se aproximou dela, sentando-se ao seu lado no sofá, mas ainda mantendo uma distância que considerava segura.
– Por que você foi embora? – Ele repetiu a pergunta que lhe fez há alguns meses, quebrando o silêncio que havia se instaurado.
o encarou, piscando algumas vezes antes de levar as mãos ao rosto para secar as lágrimas. Respirou fundo antes de criar coragem para responder.
– Eu tive meus motivos. – Respondeu, cruzando seus braços. – E eu não tô pronta pra dividir eles com você. – E nem sei se um dia estarei, completou mentalmente.
Novamente o silêncio.
desviou o olhar, encarando um ponto qualquer a sua frente.
– E algum dia você vai me contar? – questionou depois de alguns segundos.
– Não sei. – confessou, fungando baixo. Ela sorriu saudosa e depois riu de maneira irônica. – Eu te amei muito, sabia? Não devia ter que te explicar nada depois de tudo que aconteceu, pelo contrário...
Aquelas palavras foram muito dolorosas para , principalmente pelo tempo verbal em que ela usou o verbo amar. Claro, ele sabia que as chances de ainda o amar eram baixas, mas ainda tinha esperanças.
– Eu não me orgulho de como agi na época, . – Confessou, suspirando baixo. – Pelo contrário, eu me arrependo, e muito... No início, realmente, era só atração da minha parte, mas depois... – balançou a cabeça, desviando seu olhar para ela, olhando-a nos olhos. – Depois, quando eu percebi o que eu sentia, já era tarde demais. E eu...
... – Ela o interrompeu, preocupada com o rumo que aquela conversa estava tomando.
– ...E eu só percebi quando você foi embora. Percebi tudo o que eu sentia, e...
, não. – foi direta, finalmente criando coragem para olha-lo nos olhos.
O médico foi capaz de ver toda a dor que o olhar dela carregava. Não era justo com nenhum dos dois reviver essa história, pelo menos não agora. Mas era necessário. Eles precisavam encerrar isso. achava que ao dizer tudo o que sentia por ela, tiraria um peso enorme de seus ombros e os dois poderiam decidir juntos qual seria o próximo passo: se ficariam juntos ou se seguiriam em frente. Ele só não sabia que também escondia algo.
– Eu preciso. – A voz dele saiu como uma súplica. – , eu preciso dizer.
– Por favor... – Ela fungou, cruzando seus braços de modo a confortar a si mesma.
Ela não aguentaria ouvi-lo dizer o que ela achava que ele diria. Não guardando o segredo que guardava. Como olharia para o homem que ainda amava depois de tanto tempo escondendo de todos o que tinha acontecido?
– Eu percebi que te amava. – Ele finalmente disse, abrindo um sorriso nervoso logo em seguida. – Na verdade, eu ainda t...
– Por favor, para. – soluçou baixo ao ouvi-lo, encolhendo-se no sofá, o que fez franzir o cenho.
Não era o que ela queria ouvir? Qual o problema? Se não o amava mais, era só dizer. A reação que ela teve, no entanto, o deixou mais confuso ainda.
, me deixa sozinha. – Ela pediu, passando as mãos por seu rosto em uma tentativa inútil de secar as lagrimas que agora rolavam sem parar.
– Mas eu... – até tentou argumentar, mas calou-se ao ver a expressão de súplica em seu rosto.
– Por favor. – Sua voz saiu em um sussurro, mas ele entendeu.
suspirou e levantou-se em seguida, afastando-se sem olhar para trás. Não entendia os motivos dela, mas respeitaria. Em um outro momento, quem sabe, ele falaria tudo o que queria. Mas, não hoje. O irônico era que, ao contrário do que esperava, finalmente conversar com ela não fez com o que o peso sob seus ombros diminuísse, pelo contrário. agora tinha mais perguntas do que antes. E ele sabia que era uma questão de tempo até obter as respostas que queria.
Ao ter certeza que não estava mais ali, ela se permitiu chorar como há tempos não fazia. Colocou suas pernas em cima do sofá, abraçando seus joelhos enquanto sentia as lágrimas quentes rolarem sem controle por seu rosto. Como ela poderia continuar guardando para si o que havia acontecido anos atrás agora que sabia dos sentimentos de ? Ele nunca a perdoaria. Ou perdoaria? Deus, ela ficaria maluca se ficasse se questionando dessa maneira. Sabia que precisava dividir seu segredo com alguém. Talvez com Ethan? O moreno era um bom confidente, ela achava. Não faria mal desabafar com ele, afinal, nunca tinha contado para ninguém, a não ser para sua psiquiatra, que na época, ficou sabendo de tudo. Mas era só ela. Nem sua mãe sabia, nem Martin, nem ninguém.
ouviu alguns passos, imediatamente esfregando seu rosto. Não era possível que ele tinha voltado.
, eu já pedi pra... – Começou a falar, mas foi interrompida.
? – Era Ethan. – Ainda acordada?
Ela suspirou aliviada, virando-se para olhar para o amigo.
– O que aconteceu? – Ele questionou ao notar a vermelhidão no rosto dela.
Ethan sentou-se no sofá, aproximando-se dela. Quando abriu a boca para falar, voltou a chorar. Definitivamente ela não estaria chorando dessa maneira se sua menstruação não estivesse próxima de vir. Ainda mais na frente de Ethan. De Martin, talvez, mas Ethan? Não.
– O que aconteceu? – O moreno repetiu, puxando-a para um abraço. Levou uma de suas mãos até as costas dela e a outra até o cabelo, acariciando-o devagar, mantendo-a junto a si. Ela se remexeu, aninhando-se ao amigo. – Você não quer falar?
balançou a cabeça em confirmação.
– Mas não agora. Não hoje. – Disse, levantando um pouco o olhar para encara-lo. Ethan assentiu, voltando a envolvê-la com seus braços. inspirou e expirou o ar algumas vezes, procurando se acalmar enquanto sentia o carinho de Ethan em seus cabelos. – Obrigada. – Ela murmurou depois de um ou dois minutos em silêncio, finalmente mais calma.
Os dois se afastaram um pouco e sorriu de maneira triste, seus olhos fixos nos dele.
– Não quer mesmo me contar? – Ethan questionou, levando sua mão até o rosto dela, secando ao redor de seus olhos. Ela balançou a cabeça em negação e ele sorriu em concordância, deslizando uma de suas mãos para o rosto dela, acariciando sua bochecha. – Quer fazer o que?
– Não quero ficar sozinha. Não tô controlando muito bem minhas emoções no momento, e não quero voltar a chorar. – Falou baixo, fazendo-o rir. – Deita aqui comigo?
Ethan estranhou o pedido, mas não negaria ajuda a ela. Deitou-se no sofá, puxando a amiga para deitar consigo, o que ela fez. ajeitou seu corpo, deitando a cabeça no peitoral de Ethan. Ele levou sua mão até o cabelo dela, acariciando-o, mantendo-a próxima de si. o abraçou, mantendo sua mão na barriga dele, dedilhando o local delicadamente.
Eles ficaram em silêncio, aproveitando o carinho um do outro. já estava mais calma, mas sabia que assim que ficasse sozinha, tudo voltaria e ela começaria a chorar de novo. E isso era tudo que ela não queria, pois não sabia quando conseguiria parar.
– Dormiu? – Ethan quebrou o silêncio e resmungou algo em negação.
Ele sorriu, deslizando sua mão, que antes estava no cabelo dela, até o pescoço da mulher, dedilhando por sua pele até que seus dedos tocaram o ombro dela por baixo da blusa que vestia. Ela se arrepiou ao sentir o toque dele, encolhendo um pouco seu corpo. Estava louca ou um clima estava começando a rolar entre os dois? Movida por essa dúvida, ela levou sua mão até a barra da camiseta de Ethan e levantou-a levemente, passando a tocar diretamente a barriga do amigo.
O carinho de Ethan foi se intensificando, assim como o de , que subia cada vez mais sua mão, levando a camiseta dele junto. Os dedos de Ethan deslizaram até encontrar a alça do sutiã que ela usava, brincando com a peça. Ela se remexeu, empurrando seu corpo contra o dele em um claro sinal de que não estava incomodada com o carinho dele, uma vez que ela mesma também estava retribuindo.
Ela definitivamente não estava louca.
Ao não ser interrompido por , Draw continuou a descer sua mão, parando somente quando sentiu o seio dela, apertando-o levemente. suspirou baixo ao sentir o toque e passou uma das pernas por cima do corpo dele, pressionando mais ainda seu corpo contra o do amigo, arrepiando-se ao senti-lo apertar seu seio com mais força, dessa vez por baixo do sutiã.
Talvez fossem os hormônios, talvez fosse a carência... Ela não sabia e nem queria saber. A única certeza que tinha era que, com esse mínimo toque, sua calcinha já estava encharcada. O fato de estarem na sala da nave, podendo ser pegos a qualquer momento, também ajudou. Nenhum dos dois tinha coragem para interromper o carinho que estavam dando e recebendo.
suspirou baixo, agora fazendo o caminho contrário em direção a calça que ele usava. Levou sua mão até a barra do tecido, brincando com ele enquanto sentia os carinhos de Ethan. Sua mão adentrou a calça e foi só então que ele se deu conta do que realmente estava acontecendo e de quem estava com ele.
Draw imediatamente tirou a mão de dentro da blusa dela, levantando a cabeça para olha-la, um pouco assustado.
, eu acho melhor não... – Ele começou, mas foi interrompido por .
Rapidamente ela se virou, colocando-se em cima dele. Empurrou seu quadril contra o dele, o que o fez fechar os olhos. Draw levou suas mãos até a cintura da amiga, apertando-a levemente. se inclinou sobre ele, não ousando quebrar o contato visual que mantinham.
– Ethan. – A voz dela saiu séria, sua respiração batendo diretamente nos lábios do moreno. – Eu preciso. Não me diz que não quer, porque eu sei que você quer.
– Eu quero, mas você não t...
– Eu tô bem. Então... – arqueou a sobrancelha e mordeu seus lábios, atraindo a atenção de Ethan.
Não foi preciso dizer mais nada. No segundo seguinte, os lábios quentes de Ethan envolveram os dela. Uma de suas mãos foi até a nuca de , entrelaçando os dedos em seus cabelos, enquanto a outra foi até as costas, onde ele passou a ponta dos dedos até levantar um pouco a blusa que ela vestia, levantando-a até tirar a peça por completo. Perdeu alguns segundos observando o tronco nu da amiga, mordendo os lábios interiormente. Deus, como ela era gostosa.
Juntou seus lábios novamente, beijando-a com veracidade. aproveitou o momento e levou suas duas mãos até a barra da calça de moletom que Ethan usava, desfazendo a amarração e tocando o membro dele por cima da cueca, apertando-o levemente. Ele ofegou contra a boca dela, separando-se só para olha-la nos olhos e perguntar pela última vez:
– Tem certeza?
Não foram necessárias palavras para responder. se afastou ao mesmo tempo em que abaixou a calça dele, deixando exposta a boxer preta que Draw vestia. Até o momento, ela não tinha desviado os olhos dele, mas precisou baixar o olhar para apreciar a imagem. O contorno do membro ereto de Ethan pelo tecido preto a fez quase gemer em antecipação.
Eu disse quase.
abriu um sorriso antes de abaixar a boxer e passou a língua nos lábios quando finalmente o viu. Tocou-o com a mão, apertando-o levemente antes de começar a masturba-lo devagar. Lentamente se aproximou e foi só quando estava quase encostando a boca no membro de Ethan, que ela o encarou.
Se ele ainda tinha alguma dúvida sobre o que estava acontecendo, todas elas se esvaíram no exato momento em que sentiu os lábios macios de encostarem em sua glande. Ela fazia movimentos circulares, e foi difícil para ele não deitar a cabeça para trás. O astronauta não queria perder nenhum segundo, não queria desviar seu olhar, porque observa-la chupar seu membro tornava tudo mais excitante ainda.
Aos poucos, a boca de foi tomando todo o membro dele. Enquanto chupava, sua mão livre passava pelo peito do moreno, arranhando-o devagar. Sua outra mão envolvia a base do pênis, o que a auxiliava nos movimentos. Com maestria, ela o envolveu por completo, até seu limite, fazendo Ethan gemer em resposta.
Ele a encarou, tentando manter o controle, mas era inútil. Nem em seus sonhos mais sórdidos chupava tão bem assim.
Quando ela engasgou, ele não aguentou mais e a avisou que já estava quase lá. não se importou, e continuou chupando-o, até Ethan atingir seu ápice. Ele gozou na boca dela e viu o exato momento em que ela levantou a cabeça e engoliu todo o líquido.
– Porra, . – Ofegou ao vê-la lamber os lábios, limpando sua boca.
Ela sorriu lateralmente, ajeitando seu cabelo. Fechou seus olhos por um segundo e não viu quando Ethan se aproximou, pegando-a pela cintura e deitando-a no sofá, trocando as posições. Imediatamente ele se pôs em cima da amiga, grudando seus lábios nos dela pela última vez antes de retribuir o prazer que ela havia lhe proporcionado há pouco.
Restava saber como eles lidariam com isso no dia seguinte.


08

acordou cedo naquela manhã. Não havia conseguido dormir bem durante a noite já que a conversa com não saiu de sua mente. A reação que ela teve o atormentou a noite inteira. Ele tentou, a todo custo, encontrar uma justificativa para ela ter agido da maneira que agiu, mas não conseguiu. Não queria ser chato e ficar insistindo no assunto, mas precisava encerrar essa conversa e estava decidido a tentar novamente em breve.
Agora ele estava na academia, o treino do dia já chegava ao fim. Desligou a esteira e tirou seus fones de ouvido, enrolando-os em seu ipod. Depois, tomou toda a água que tinha em sua garrafinha e saiu da academia, secando o suor de seu rosto e pescoço com a toalha que carregava. Já estava quase entrando no banheiro quando a porta do quarto de se abriu e Ethan saiu de lá, parecendo um pouco desnorteado. franziu o cenho.
– Bom dia. – Ele comentou, chamando a atenção do amigo.
Ethan o olhou, sua expressão parecendo até um pouco surpresa por vê-lo acordado aquela hora. O moreno apenas balançou a cabeça em resposta e entrou em seu quarto em seguida.
estranhou, mas deu de ombros e continuou a fazer o caminho até o banheiro. Não demorou muito no banho e logo já estava devidamente vestido, caminhando em direção a sala. Ao chegar lá, encontrou e Martin tomando café. Os dois estavam sentados à mesa, com xícaras de café em mãos. aparentava não ter dormido a noite inteira, assim como ele. Por um momento, pensou que a mulher poderia ter ficado tão confusa com a conversa dos dois quanto ele.
Depois de dar bom dia aos amigos, sentou-se no sofá com um livro em mãos, pronto para começar sua leitura. Não tinha nem terminado a primeira página do livro quando Ethan apareceu, dirigindo-se a cozinha. teve novamente a mesma sensação estranha ao olhá-lo.
– Bom dia. – Ele cumprimentou os astronautas.
Martin respondeu normalmente, mas se manteve quieta, encarando o recém-chegado. viu quando o olhar dos dois se encontrou, transmitindo algo que ele não conseguiu identificar.
– Dormiu na sala, Ethan? – Martin quis saber, encarando o amigo. – Fui ao banheiro no meio da noite e quando passei pelo seu quarto vi que tava vazio.
, que tomava seu café, se engasgou ao tomar líquido, começando a tossir imediatamente, chamando a atenção de todos ali.
O que estava acontecendo?
– Não, eu... – Ethan começou a falar.
– Sim, ele dormiu na sala. – o interrompeu rapidamente, recebendo olhares confusos de Martin e .
Ethan se encostou na bancada, revirando os olhos e passando as mãos em seu cabelo de maneira nervosa. Os astronautas estavam escondendo alguma coisa e a única pessoa que parecia notar isso era , já que Martin encarava os dois, totalmente confuso. O médico franziu o cenho, um pouco pensativo. Então, lembrou de quando viu Ethan mais cedo.
– Mas eu te vi saindo do quarto d... – começou a falar, dirigindo-se ao moreno, mas parou no momento seguinte, quando finalmente entendeu. – Ah.
suspirou alto e se levantou da mesa, empurrando a cadeira com mais força que o necessário. Ela se afastou e foi até sua bancada. Ethan, por sua vez, sentou-se e apoiou os cotovelos na mesa, de modo a segurar sua cabeça.
Não foi necessária uma confirmação para ter certeza do que havia acontecido. O olhar dos dois sanava todas as suas dúvidas.
Ethan e transaram.
Stan riu de maneira nasalada, incrédulo.
Enquanto ele estava preocupado com a situação com , ela havia passado a noite inteira tendo orgasmos provocados por Ethan.
se levantou e fechou o livro que lia, lançando um olhar extremamente machucado para antes de virar as costas e sair da sala.
– Ok. O que eu perdi? – Martin quis saber, olhando confuso para os dois amigos que ficaram na sala.
suspirou pesadamente e escondeu a cabeça entre as mãos.
Ela não estava arrependida da noite que passou com Ethan, mas, agora, tinha noção de que o timing foi péssimo. Tudo que não precisava era piorar a situação com , e ela não só tinha feito isso, como também o havia machucado, muito provavelmente.
– Nós dois... – Ethan começou e o encarou, como se perguntasse se ele tinha certeza que queria falar.
Ethan fez uma careta e deu de ombros, cruzando os braços. se levantou e se aproximou dos dois, parando ao lado de Martin.
– Nós transamos. – Ela respondeu, encolhendo os ombros.
– VOCÊS O QUÊ?! – Martin berrou, desviando seu olhar de para Ethan. – Que porra vocês têm na cabeça?
– Martin...
– Martin o caralho, ! – Ele se exaltou, fazendo a amiga dar um passo para trás. – O caralho! E qual o problema com ?
– Essa parte é culpa minha. – se encolheu, cruzando os braços. – Digamos que nós tivemos uma discussão antes, falamos muit...
– Eu não quero ouvir, . Não agora. – Martin pediu, encarando a amiga. – Vocês dois foram muito irresponsáveis.
– Ah, qual é? Nos deixamos levar pelo momento, sim, mas e daí? – Ethan perguntou, começando a se irritar com a reação do amigo. – Usamos camisinha e...
– Eu não preciso dos detalhes, pelo amor de Deus! – Marty disse, levando as mãos a cabeça, cobrindo os ouvidos. – O problema é que vocês dois...
– Martin, não. Nós dois somos amigos. Estávamos carentes. Eu não tava bem ontem, Ethan ficou comigo, e aí...
, a gente conversa depois. – Martin a cortou mais uma vez, voltando-se para o moreno. – E você, Ethan...
– Martin, chega! – falou alto e os dois se viraram para olhá-la, um pouco surpresos com a reação dela. – Não tem nexo você estar agindo desse jeito! Ethan, por favor, deixa eu falar com ele?
Draw deu de ombros e se afastou, seguindo o mesmo caminho de , deixando os dois sozinhos.
– Qual o seu problema? – perguntou, puxando a cadeira e se sentando à mesa. – Não tô entendendo!
Martin bufou e bagunçou seu cabelo, sentando-se ao lado da amiga. Ele a encarou, os olhos de atentos tentando encontrar algo em seu rosto que denunciasse o motivo pelo qual estava agindo daquela maneira.
– Eu tô preocupado, só isso. – Ele confessou de repente e olhou para ela. – Vocês dois são meus melhores amigos, você é como uma irmã pra mim. Já pensou na merda que isso vai dar? E ainda tem o ...
– Agradeço a preocupação, Marty, mas você não acha que já somos grandinhos o suficiente pra isso? Pelo amor de Deus, a gente só transou!
– Sim, vocês transaram, mas eu ainda sou o comandante da missão, . Preciso me certificar de que todos vocês estejam com a cabeça no lugar pra trabalhar direito.
– Quando foi que eu deixei algo pessoal atrapalhar meu trabalho, Martin? – quis saber, cruzando os braços. – Eu nunca fiz isso.
– Você tem razão. Foi mal. – Ele pediu, desviando o olhar. – Acho que fiquei um pouco puto por não ter conseguido enxergar algo que aconteceu bem de baixo do meu nariz, também.
riu e voltou seu olhar para frente, aproximando-se e deitando a cabeça no ombro do amigo. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, refletindo sobre o assunto.
– Eu fiz merda. – Ela confessou, suspirando baixo. – Eu não devia ter feito isso, não desse jeito.
– Estamos falando do ou do Ethan?
– Não me arrependo da noite com Ethan. Foi incrível e nós dois tiv...
– Não preciso saber, por favor. – Martin rolou os olhos e a amiga o olhou, divertida. – É sério, eu realmente não preciso.
Ela gargalhou e depois apoiou um dos braços na mesa, olhando atentamente para o amigo. Seu sorriso murchou ao se lembrar de .
– Nós tivemos uma discussão ontem. – contou, e Martin não precisou perguntar nada, pois sabia que agora ela falava de . – Ele falou coisas, eu também, e...
fez uma pausa, revirando os olhos de maneira nervosa. Depois, ela suspirou antes de finalmente falar:
– Ele ia falar que me ama e eu não deixei.
– Por que diabos você fez isso? – Martin a encarou, só então percebendo que os olhos da amiga estavam cheios de lágrimas.
– Eu demorei tanto, Martin... – Ela fungou baixo. – Demorei tanto pra tirar ele do meu coração e...
– Você nunca tirou do seu coração, , e você sabe disso. – Ele comentou, puxando a amiga para um abraço. – Qual foi o verdadeiro motivo?
levantou a cabeça, sustentando o olhar de Martin. Ponderava se deveria contar, afinal, seria bom dividir com alguém o segredo que guardou esses anos todos.
– Me conta, . O que é tão grave que você nunca conseguiu dividir comigo? – Marty voltou a perguntar e ela desviou o olhar, encarando qualquer ponto que não o amigo. – Tudo bem, não pr...
– Não. Eu quero falar. Eu preciso. – Ela disse, olhando novamente para o loiro. – Eu só... É muito difícil. – fez outra pausa.
Ela ajeitou seus cabelos, prendendo-os de qualquer jeito e depois, começou a batucar seus dedos na mesa, de maneira impaciente e nervosa. Martin então levou sua mão até a da amiga, segurando-a.
– Eu tô aqui. – Ele disse, tentando tranquilizá-la. Recebeu um sorriso pequeno como resposta, e depois ela finalmente contou.
– Eu perdi um bebê. O pai era o .
Martin demorou alguns segundos para assimilar a revelação e quando o fez, sua boca se abriu em espanto.
– Você... – Ele balançou a cabeça, ainda assimilando a informação. – O quê?!
– Eu descobri um pouco depois que fui embora. E perdi com cinco meses, quando já tava feliz com a ideia de ser mãe. Foi horrível, Marty… Horrível. – mordeu seu lábio interiormente, tentando conter a vontade súbita que sentiu de chorar. – Eu escondi muito bem, ninguém além da minha psiquiatra sabe, eu nunca quis contar…
– Realmente escondeu bem. Eu não fazia ideia. Nem sua mãe sabe?
– Nem ela. Por favor, não conta pra ela, nem pra ninguém…
– Fica tranquila. – Martin assegurou, ajeitando-se melhor na cadeira para ficar de frente para a amiga. – Por que você nunca me contou?
– Porque eu não sabia lidar com isso na época, Marty, na verdade, eu não sei lidar até hoje... Mas que droga! – exclamou, passando suas mãos seus olhos, esfregando-os.
– Isso foi na época da depressão. – Martin concluiu. – Você não precisava ter passado por isso sozinha.
– Eu não queria dividir com ninguém. Ser mãe não passava na minha cabeça na época, ainda mais de um bebê de , que não me dava a mínima! E quando eu finalmente me afeiçoei a ideia… O bebê morreu.
suspirou, sentindo algumas lágrimas escorrerem por seu rosto. Martin segurou o rosto da amiga, secando as lágrimas que ela havia derrubado.
– Mesmo assim, , não é o tipo de coisa que se passa sozinha... – Martin disse, puxando-a para si e envolvendo seu corpo com os braços.
deitou a cabeça no peitoral do amigo e se permitiu chorar baixo. Sentiu a mão do dele passar por seus cabelos, acariciando-os, tentando mantê-la calma.
– É muito difícil encarar escondendo tudo isso dele. – Ela confessou, quebrando o silêncio. – E ontem quando ele ia falar que me ama, eu... Eu não podia ouvir, não queria que ele falasse, Marty, porque a culpa que eu sinto é muito grande. Não sei lidar com isso.
– Mas um dia você vai ter que contar. Ele merece saber. – Martin se afastou, olhando nos olhos da amiga. – Aliás, vocês dois merecem esclarecer tudo, e você sabe disso. Isso inclui contar esse segredo.
– Eu sei disso. Mas eu não tô pronta... – cruzou os braços, suspirando baixo. – E além de tudo, agora eu piorei a situação.
– Realmente, transar com Ethan depois de ter ouvido tudo que ele te disse, não foi sua melhor ideia. – Martin riu baixo e a amiga revirou os olhos, dando um tapa em seu ombro. – Você precisa conversar com ele. Eu sei que você ainda o ama.
– Tá tão na cara assim?
– É quase palpável, . – Ele confirmou, sorrindo de lado. – Como melhor amigo, eu quero muito que vocês se resolvam, mas sem pressa, cada coisa no seu tempo. Conversem com calma, esclareçam o que precisa ser esclarecido, sem mais segredos.
– E como supervisor?
– Eu não quero ter que reportar essa situação a Alvin se isso afetar o desempenho de vocês nessa missão, e você sabe que eu faria isso.
– Não vai acontecer. – assegurou. – Prometo.
– Acho bom. – Ele sorriu, puxando-a para mais um abraço. – Eu tô aqui pra tudo, e você sabe disso. Mas vê se conserta essa situação, por favor.
– Vou falar com ele. Você acha que eu devo dizer que também sinto o m...?
– Sim. – Martin nem esperou ela terminar de falar para confirmar. – Com certeza sim.
– Eu tenho medo da reação dele quando eu contar. – confessou. – Eu acho que ele pode nunca mais olhar na minha cara.
– Eu entendo, mas não adia mais isso, por favor. – Martin pediu.
balançou a cabeça em confirmação, porém, no fundo, sabia que não seria fácil desse jeito. Se dependesse dela, esse segredo nunca seria exposto, muito menos na situação em que se encontravam agora.
Martin sorriu para a amiga e se levantou, dando um beijo na testa dela antes de se afastar para começar a trabalhar, coisa que todos eles já deveriam estar fazendo há algum tempo.

xxx

O banho de havia durado muito mais tempo que o necessário, aliás, tudo que precisou fazer durante o dia havia demorado mais que o normal, já que ela procurava, à todo custo, uma maneira de adiar a conversa que precisava ter com .
Assim que entrou na área comum, encontrou Ethan sentado no sofá lendo um livro qualquer. Martin provavelmente estava na academia e seu quarto. Ela suspirou baixo ao se dar conta de que provavelmente precisaria procurá-lo para conversar.
– Oi. – disse assim que chegou, indo até a cozinha. – Já jantou?
– Sim. – Ele sorriu e fechou o livro que lia, aproximando-se da engenheira. – Acho que precisamos conversar, né?
– Da minha parte, tá tudo certo, Ethan. – Ela assegurou enquanto separava sua comida e a colocava em um prato para esquentar.
– Tudo certo mesmo? – Draw perguntou, sentando-se em uma das cadeiras ao redor da mesa.
– Claro que sim. – riu, aproximando-se do amigo. – Foi muito bom, e vamos continuar sendo amigos. Né?
Ela olhou para ele, desconfiada. O moreno gargalhou e confirmou com a cabeça.
– Claro que sim. – Ele repetiu a fala dela. – Você tá melhor, né?
– Melhor...? – perguntou um pouco confusa.
– O motivo pelo qual você tava chorando ontem. – Ethan esclareceu.
– Ah. – pegou o seu prato do micro-ondas e se sentou na cadeira em frente ao amigo. – Sei lá. Não conversei com ainda... Acho que piorei a situação.
– A culpa foi minha, também. – Draw relaxou na cadeira, cruzando os braços. – Vou conversar com ele outra hora.
– Sinceramente, acho que você nem precisa se preocupar. – disse depois de engolir um pouco da comida. – Eu que tô na merda...
– Nah, vocês vão resolver as coisas. – Ethan assegurou a amiga e se levantou, pegando uma garrafa de isotônico. – Eu vou deitar. Que bom que tá tudo bem entre a gente.
– Não teria porque não estar, Ethan. Além do mais, não é como se tivesse sido ruim ou algo do tipo, pra ficar um clima estranho...
Ele gargalhou e balançou a cabeça, aproximando-se dela para deixar um beijo em sua testa.
– Foi ótimo mesmo. Você... Nossa. – Draw decidiu manter o comentário para si, fazendo a amiga rir convencida. – Fica bem, .
– Obrigada. – Ela sorriu ao vê-lo se afastar.
Depois, quando desviou o olhar, encontrou parado a observando. Ela arriscou sorrir para ele, e obteve como resposta um arquear de sobrancelhas apenas. Depois, se aproximou e começou a preparar algo para comer.
Um silêncio bastante desagradável se instalou no ambiente, conseguia ouvir perfeitamente o som de sua mastigação, começando a se irritar com o barulho. Encarou , que permaneceu de costas para ela, aguardando o micro-ondas apitar. soltou seus talheres e passou o guardanapo na boca, tomando um gole de sua água em seguida. Depois, se levantou e levou o prato até a máquina de higienização, assim como os talheres. Apoiou-se na bancada da cozinha e encarou .
Ele sentiu o olhar dela em suas costas, mas não se virou. Sabia que a engenheira queria conversar, mas não estava nem um pouco afim de ouvir o que ela tinha para dizer. Havia passado o dia inteiro evitando pensar no que aconteceu. tinha plena noção de que ele e não tinham nada, mas não conseguiu não ficar magoado com a situação. Ele demorou para se abrir e falar com ela e mesmo não tendo conseguido dizer que a amava, isso ficou subentendido.
pode não ter dito que ainda o amava, ou qualquer coisa do gênero, e antes de descobrir que ela havia transado com Ethan, ele achava que, no fundo do coração mulher ainda havia algum tipo de sentimento por ele. Afinal, por que ela reagiria do jeito que reagiu, por que choraria como chorou? Não fazia sentido, ele sabia que não.
Tirou sua comida já quente do micro-ondas e se sentou na mesa. o seguiu e fez o mesmo, sentando em sua frente. conteve um revirar de olhos e preferiu se manter quieto, agindo como se a mulher que ele amasse não estivesse ali, em sua frente, querendo conversar.
– Precisamos conversar. – A voz de finalmente quebrou o silêncio e ele balançou a cabeça em negação. – , por favor...
– Eu queria conversar ontem. – Ele disse, encarando seu prato. – Não hoje.
... – suspirou, encarando o ex-namorado.
? – Ele riu, finalmente levantando o olhar e olhando nos olhos dela pela primeira vez no dia. – Eu não quero conversar.
– Por favor. – pediu mais uma vez, seus olhos brilhando, transmitindo sinceridade a ele. balançou a cabeça e acabou se dando por vencido, fazendo sinal para que ela falasse. – Me desculpa por ter feito o que eu fiz.
– E o que você fez? – quis saber, apenas para ter certeza que os dois estavam falando da mesma coisa.
– Eu e Ethan, você sabe, nós... – Ela começou a dizer, mas ele riu, incrédulo.
– O problema não é esse, ! – soltou seus talheres na mesa, balançando a cabeça em negação. – O problema não é esse. Você não entende, não é?
A engenheira franziu o cenho. Ela realmente não entendia. Não era por isso que ele estava magoado?
– Não me importo com quem você transa, aliás, nós não temos nada pra eu te cobrar qualquer tipo de fidelidade. – Cuspiu as palavras, fazendo a mulher se encolher em sua cadeira devido a hostilidade presente no tom de voz dele. – O problema vai além disso.
– Eu não entendo...
– Claro que você não entende, isso ficou bem claro. – Ele revirou os olhos, um pouco impaciente. – O problema foi você ter feito isso logo depois que conversamos, !
O que o machucava não era o fato de ela ter dormido com Ethan. Como ele disse, era livre pra dormir com quem quisesse. O problema era ela ter feito isso justo depois da conversa que os dois tiveram.
Quando saiu da sala e a deixou sozinha, ele foi capaz de ver o quão machucada ela estava. Ele viu nos olhos dela o sofrimento e teve certeza de que não era o único a sentir algo. Sabia que escondia algumas coisas e esperaria que ela se sentisse confortável o suficiente para se abrir com ele, afinal, a reação que ela teve não foi de alguém que não sente mais nada e que já superou, pelo contrário. Para ele, havia ficado claro que sua ex-namorada ainda tinha sentimentos por ele.
Contudo, isso durou até descobrir o que ela fez no momento em que a deixou sozinha na sala. Depois de tudo que eles conversaram, de tudo que ele falou, as desculpas que pediu e de ter sido impedido por ela de dizer que a ama, teve a capacidade de transar com Ethan, quando, pouco tempo antes, chorava por ele.
Já não bastava o quanto se martirizava pelo jeito que tratou a mulher no passado, agora também teria que lidar com essa situação péssima que havia se instalado entre os dois.
– Você tem noção de quanto tempo eu esperei pra te falar tudo que eu disse ontem? Pra abrir meu coração pra você? – perguntou, mas não obteve resposta. – Falei várias coisas e também falei o que não devia, sei disso. Mas você me impediu de te dizer o que eu mais precisava dizer. – Balançou a cabeça e olhou para ela novamente, encarando-a. – Por mim, eu precisava. E ver você chorando daquele jeito, ...
Ele riu fraco, pensando na ironia do que estava prestes a dizer.
– Ver você chorando daquele jeito e depois descobrir que dormiu com Ethan... Não dá pra entender. – Explicou.
Depois, levantou da cadeira e levou seu prato até a higienizadora. Colocou-o ali e então se virou, encostando-se na bancada, encarando a mulher, esperando que ela falasse alguma coisa, e assim ela o fez.
– Eu não fiz por mal. – explicou, olhando para ele. – Eu não tava em um dia bom, lembra que te falei? Ethan me viu chorando, a gente conversou, uma coisa levou a outra... E foi isso. Não foi pra te atingir, . Eu juro que não, nem tinha pensado nisso, aliás, eu meio que não pensei em nada, nenhum de nós pensou...
desviou o olhar, encarando qualquer ponto da sala que não ela. Além de tudo, ainda tinha mais um fator que estava sendo difícil de engolir. Era muito doloroso saber que ela havia tido uma noite com Ethan, e que poderia ser ele em seu lugar.
– Eu tenho coisas pra te dizer. – Ao não receber resposta, retornou a falar. – Mas eu preciso de um tempo...
– Eu já esperei bastante, não acha? – Ele perguntou, levantando o olhar para ela. – Você sabe que pode falar.
– Por favor, . – pediu, suspirando em seguida. – É muito difícil pra mim.
– Por que é tão difícil pra você se abrir comigo, quando eu abri meu coração pra você? – quis saber, balançando a cabeça em negação. – Eu achei que você ainda sentia algo por mim, mas...
– Não! – se levantou, aproximando-se dele. – Não pensa isso. Eu sinto.
a encarou, um pouco descrente. Ele já não sabia mais se acreditava nela ou não.
se aproximou, parando na frente do astronauta. Ela arriscou levantar a mão para tocá-lo, mas parou quando viu o olhar dele. Suspirou baixo e fixou seu olhar nos olhos azuis que a encaravam. estava magoado, e a culpa era dela. precisava resolver essa situação, ou as coisas ficariam piores do que já estavam.
– Eu sinto. – Ela repetiu, dessa vez realmente levando sua mão até o rosto dele. Ele fechou os olhos ao sentir o toque da ex-namorada, respirando fundo. – Eu sinto, .
abriu os olhos, fixando o olhar em . Tê-la tão perto, depois de tantos anos, quase o fez esquecer de tudo que havia acontecido nas últimas horas. O perfume dela, tão característico, adentrou por suas narinas e ele quis, mais do que nunca, tomá-la para si, envolver seu corpo com os braços e beijá-la como há muitos anos não fazia.
Sentiu os dedos de passarem por seu rosto, acariciando sua bochecha de maneira leve. A outra mão dela tocou seu queixo e deslizou até a nuca de , onde fez um carinho lento nos cabelos dele. Lentamente ela se aproximou, diminuindo cada vez mais a distância entre eles, sentindo as mesmas urgências que sentia.
Ao sentir o corpo de grudar no seu, respirou fundo, tentando, pela última vez, conter seus impulsos. Porém, isso se mostrou impossível, já que no segundo seguinte, a mulher findou a distância entre os dois, roçando seus lábios no dele levemente, como se pedisse permissão para iniciar um beijo.
então levou uma de suas mãos até a nuca dela, embrenhando seus dedos nos cabelos de , puxando a cabeça dela para trás apenas para olhar em seus olhos antes de finalmente grudar seus lábios, pedindo passagem com a língua para iniciar um beijo.
Nenhum dos dois ousou quebrar o beijo, parando apenas para dar leves mordidas nos lábios do outro, que eram correspondidas antes de voltarem a se beijar novamente. Sem perceber, os corpos deles estavam colados, o corpo de grudado contra o peitoral musculoso de , que a segurava pela cintura, mantendo-a junto a si.
Era inacreditável a sensação de ter suas bocas unidas em um beijo depois de tantos anos. Era quase como se nunca tivessem passado todos esses anos longe um do outro, os mesmos sentimentos tomando conta dos dois. Porém, tão rápido quanto surgiu, essa sensação foi embora e lembrou do motivo pelo qual estavam ali.
As unhas de arranharam levemente a região da nuca e pescoço de , causando um arrepio que percorreu seu corpo inteiro. Foi isso que o fez finalmente se afastar, separando suas bocas. Ele encarou o olhar confuso de , mas não se importou. Afastou-a de maneira delicada e deu um passo para o lado.
Isso não deveria ter acontecido. Ele não poderia ter cedido dessa maneira. Desviou o olhar para o lado e suspirou pesadamente, passando as mãos por seus cabelos, bagunçando-os. Depois, voltou seus olhos para ela, encarando-a brevemente antes de se afastar e andar em direção ao seu quarto.
– Boa noite, .
Ela não sabia dizer o que havia doído mais.
O fato de ter saído dessa maneira ou de não ter chamado ela de .


09

ouviu algumas batidas em sua porta e se revirou na cama, puxando a coberta e cobrindo seu rosto. Não queria acordar, sair do quarto significava ter que encarar e ser ignorada, mais uma vez, por ele. O médico estava tratando-a com bastante indiferença desde que se beijaram. No início, ela ficou magoada, mas agora, que já havia se passado pouco mais de uma semana, estava começando a ficar bastante irritada. Qualquer coisa era melhor que esse silêncio, até as discussões constantes que costumavam acontecer entre eles. Mas, nem elas estavam acontecendo ultimamente.
Novamente as batidas se fizeram ouvir e ela suspirou, chutando a coberta para longe. Se sentou na cama e ajeitou seus cabelos antes de levantar e abrir a porta, encontrando Martin.
– Bom dia! – Ele desejou, entrando no quarto dela.
– Hm. – resmungou, voltando a se sentar na cama.
– Tive que vir te acordar, bela adormecida. – Martin disse, encarando a amiga. – Já tá quase na hora do almoço. Que sono é esse?
– Sei lá. Tô com preguiça hoje. – comentou se espreguiçando e se levantou, abrindo o armário para pegar uma roupa.
– Certo, preguiçosa, hoje é dia de checar os níveis de tudo na nave, e essa função é sua. – Ele explicou acompanhando a amiga andar para lá e para cá, pegando suas coisas. – Precisa entrar nos compartimentos laterais e...
– Verificar se tá tudo em ordem, como estão os níveis de tudo, nossos suprimentos, etc, etc. – Ela completou, ainda um pouco sonolenta. – Eu sei, Marty.
– Chata. – Martin brincou e fez uma careta para o melhor amigo. – Como você tá?
– Bem. Um pouco de saco cheio, pra ser sincera. – revirou os olhos e andou até a porta, parando um pouco antes de abrí-la.
? – Marty perguntou apenas para confirmar, mesmo que já tivesse quase certeza da resposta.
– Já faz mais de uma semana, Marty! – Ela choramingou. – Trocamos pouquíssimas palavras e só. Ele me beijou e agora isso! Nem discutindo e implicando um com o outro estamos.
– Tenta conversar com ele de novo... – Martin sugeriu. – VOCÊS SE BEIJARAM?
– Cala a porra da boca, Marty! – quase gritou, dando um tapa no ombro do amigo, que se encolheu e riu. – Sim, a gente se beijou.
– Que porra, , por que você não me contou?
– Eu esqueço que você gosta de fofocas. – deu de ombros e o loiro revirou os olhos. – Tá, desculpa. É porque eu sabia que você ia brigar comigo...
– Por que eu brigaria? – Martin estreitou os olhos. – Você não contou pra ele sobre a…?
– Não tô pronta pra isso. – mordeu o lábio, apreensiva.
– É, eu brigaria. – Lewis cruzou os braços, olhando para a amiga com repreensão.
– Eu vou contar, eu juro! Mas eu preciso de um tempo...
Martin balançou a cabeça em negação, mas acabou suspirando, pois sabia que não adiantava argumentar com ela.
– Você que sabe. – Ele deu de ombros. – Já dei minha opinião...
sorriu levemente para o amigo e abriu a porta. Os dois saíram do quarto e pararam mais uma vez para conversar.
– Vai tomar banho antes?
– Sim. Quando eu for entrar nos compartimentos eu te chamo pra me ajudar com o traje.
– Ok. – Ele sorriu para . – Vou deixar almoço pronto pra você.
– Obrigada, coisa linda. Não sei o que seria de mim sem você. – piscou para ele e Marty revirou os olhos, mas acabou rindo.
seguiu para o banheiro e Martin caminhou em direção a sala. Ao chegar lá, encontrou Ethan e trabalhando, cada um em sua bancada.
– Acordou a dorminhoca? – Ethan perguntou e Martin balançou a cabeça em confirmação.
– Foi tomar banho e já vai descer pra fazer a checagem. – Lewis seguiu até sua bancada e se sentou em frente ao computador. – ? Tudo certo por aí?
O médico, que até agora estava quieto em sua estação de trabalho, desviou o olhar para os colegas.
– Minhas batatas estão quase prontas. – Ele comentou, fazendo os amigos rirem. Os dois se aproximaram para observar. – Acho que dentro de quinze dias já podemos consumir.
– Isso realmente não vai ter gosto nem cheiro de bosta, né? – Ethan perguntou e Martin revirou os olhos, mas acabou rindo.
– Claro que não, Draw. – Ele respondeu, fechando a estufa em que as batatas se encontravam.
– Meu Deus, nem acredito que vamos poder comer algo fresco! – Martin comemorou ao se afastar e os dois amigos rirem.
Ao desviar sua atenção da estufa, viu o momento em que entrou no recinto. Ela arriscou sorrir para ele, mas ele permaneceu sério, sem desviar o olhar do dela. suspirou baixo e se voltou então para Martin.
– Tô pronta.
– Eu tô um pouco ocupado, . – Martin girou em sua cadeira, olhando despretensiosamente para a amiga. – , pode ajudar ela a colocar o traje de gravidade zero?
quis matar o amigo. Apertou suas unhas na palma da mão, estreitando os olhos para Martin antes de se virar para , que a encarava parecendo indiferente. Depois de alguns segundos em silêncio, o médico deu de ombros e tirou as luvas que usava, jogando-as no lixo mais próximo. Então se levantou e seguiu até a engenheira, passando reto por ela em direção ao fundo da espaçonave. Antes de ir atrás dele, ainda se virou, lançando um olhar raivoso para Martin, que deu de ombros e apenas riu, sendo acompanhado por Ethan.
Enquanto andava um pouco atrás de , ponderava se deveria aproveitar a chance e tentar conversar com ele mesmo sabendo que a chance de não conseguir era grande.
Em silêncio, abriu a portinhola que levava aos compartimentos laterais e fez sinal para que entrasse primeiro. Ela se abaixou e passou, com certa dificuldade, pelo espaço estreito, já sentindo a falta de gravidade fazer efeito em seu corpo. Segurou-se com cuidado nas paredes, sentindo seu corpo flutuar. logo fez o mesmo e passou praticamente deslizando por ela, sem olhar diretamente para , que revirou os olhos, um pouco irritada. Os dois se movimentaram até os trajes, quebrou o silêncio apenas para pedir que mostrasse qual era o seu. Depois de o fazer, ele pegou o traje especial e ela posicionou os pés no local adequado, prendendo-os com as amarrações para conseguir ficar parada.
se aproximou dela com certa dificuldade, encaixando o traje em seu peitoral, sem ousar encará-la. Cansada com a situação e postura dele, resolveu tenta.
. – chamou, mas o médico não respondeu. – ! – Tentou mais uma vez, novamente sendo ignorada. Não era possível que ele realmente faria esse joguinho de ignorá-la. – Mas que porra. ! – Ela gritou, e ele finalmente olhou para ela, ao mesmo tempo que terminou de prender a parte de cima da roupa na astronauta.
– O que é, ? – Perguntou ao pegar a parte de baixo do traje e se abaixar, com bastante dificuldade, para encaixá-lo nas pernas dela.
– A gente pode conversar?
– A gente não tem nada pra conversar.
– De novo isso, ?
– Você vai se abrir comigo? – Ele se afastou quando terminou de vestir o traje nela e se levantou, segurando-se nas paredes para que conseguisse encará-la sem se movimentar muito.
mordeu o lábio, encarando os olhos azuis do astronauta a sua frente. Percebendo que não receberia resposta alguma, ele balançou a cabeça em negação.
– Então, mantenho minha resposta. Não temos nada pra conversar. – Ele disse e se virou, movimentando-se até a escotilha, com a ajuda das barras nas paredes. – Precisa de ajuda com mais alguma coisa?
! – ignorou a pergunta dele e se abaixou, soltando seus pés. Permitiu que seu corpo flutuasse até ele, batendo algumas vezes nas paredes, porém, como agora já estava devidamente vestida, não houve problema. – Você não pode fingir que nada aconteceu, por favor...
Ele riu baixo, de maneira irônica. Depois, abriu a portinhola e se virou para ela.
– Ah, eu posso sim. Me observe. – Foi a única coisa que ele respondeu antes de se esgueirar e deixá-la sozinha.
grunhiu baixo, soltando as mãos das barras laterais, deixando seu corpo flutuar por algum tempo. Ela precisava de um pouco de tranquilidade, quem sabe assim conseguisse não pensar tanto em como vinha pensando desde o beijo que trocaram na última semana. Tudo que conseguia imaginar era como queria repetir aquilo, uma, duas, três vezes... Mas sabia que só teria chance de resolver as coisas com ele caso contasse o que vinha escondendo, quer dizer, pelo menos ela esperava que fosse assim.
A astronauta permaneceu daquele jeito por alguns segundos antes de finalmente se apoiar e ir até o fundo. Decidiu começar pelo compartimento lateral esquerdo, então abriu a porta e esgueirou-se para dentro. Prendeu a corda que a manteria no chão em seu traje e posicionou novamente os pés no local adequado, prendendo-os de maneira que ainda pudesse deslizá-los pela esteira que corria por todo o chão do compartimento. Pegou a prancheta de check-list e a caneta, prendendo os dois objetos em seus punhos para que, caso os soltasse sem querer, não flutuassem pelo ambiente.
Passou por todos os equipamentos, checando as quantidades, o estoque e verificando os níveis de tudo que era necessário para a sobrevivência deles no espaço e também para o funcionamento correto da espaçonave. Conforme ia checando, anotava e marcava tudo na prancheta, que deveria entregar a Martin assim que terminasse. Demorou cerca de uma hora para checar tudo no primeiro compartimento, só depois voltando para a escotilha para começar a checagem do compartimento lateral direito. E então, começou tudo novamente.

xxx

Estavam só Martin e Ethan na área comum, cada um trabalhando em sua bancada. havia saído do ambiente já fazia algum tempo, anunciando que iria para a academia fazer seu treino diário. Com isso, Martin aproveitou para, finalmente, fazer fofoca com o amigo.
– Eles se beijaram! – Martin contou de repente e Ethan arregalou os olhos, desviando o olhar de sua bancada para encarar o loiro, espantado.
O moreno guiou sua cadeira até a estação do amigo, ansioso para saber mais. Deus, como eles eram fofoqueiros.
– Você tá brincando? Ela te contou? Quero saber de detalhes, pelo amor de Deus! – Draw pediu e Martin gargalhou da reação exagerada do amigo.
Nem parecia que ele e dormiram juntos, já que ambos agiam como se nada tivesse acontecido, ainda mais com Draw querendo saber detalhes do beijo entre os dois astronautas, como se ele mesmo não tivesse beijado a engenheira há pouco mais de uma semana.
– Sim, parece que foi semana passada. – Lewis explicou, sem tirar a atenção do computador em sua frente.
– Alguém me deve duas barras de chocolate. – O moreno assobiou e Martin revirou os olhos, virando-se para ele com a sobrancelha arqueada. – O que foi?
– Me lembro muito bem que você mudou as condições para um mês e não dois meses. Já fazem quase dois meses que estamos aqui, Draw.
– Ah, nem vem! – Ethan riu, se defendendo. – Eu falei um mês a partir da data da aposta, portanto...
– Você é um filho da puta. – Martin empurrou o amigo, fazendo-o gargalhar. – Vou te dar chocolate nenhum.
– Uma barra, Lewis! – Ele tentou argumentar e o engenheiro voltou a olhá-lo, estreitando os olhos.
– Uma. E não se fala mais nisso.
Ethan ergueu as mãos, comemorando satisfeito por ter vencido a discussão.
– O que estão fazendo? – A voz de , que recém havia adentrado o local, interrompeu o momento de comemoração do moreno.
– Nada. – Ethan fechou a cara imediatamente e voltou para sua bancada.
encarou Martin com os olhos estreitados. Sabia que eles estavam mentindo.
– Ethan só veio me passar alguns dados. – Martin mentiu e revirou os olhos, aproximando-se do loiro. – Tudo certo?
– Sim. Aqui, os dois check-lists. – entregou as folhas a ele e cruzou os braços, apoiando o corpo na bancada dele. – Tudo certo, mas, alguns dos suprimentos estão no limite, então precisamos cuidar com isso, até porque nem chegamos em Marte ainda. Falta o que, um mês?
– Por aí. – Martin comentou, verificando os dados anotados. – Realmente... Não quero ter que, na volta, mudar o curso pra estação internacional. Não nos preparamos pra tudo isso.
– É só termos cuidado que não vamos precisar. – deu de ombros, encarando o melhor amigo. – Vai anexar no relatório de 60 dias?
– Sim, vou deixar pronto já, mas só precisamos mandar daqui a algum tempo. – Ele esclareceu e ela balançou a cabeça em confirmação. Ao perceber que ainda o encarava, Martin arqueou as sobrancelhas. – O que foi?
– Sobre o que vocês estavam falando? – Ela quis saber e ele balançou a cabeça em negação, dizendo que não falaria. – Qual é, Marty! – argumentou, abaixando um pouco o corpo para falar um pouco mais baixo. – Fala sério, era sobre a noite que eu e Ethan tivemos juntos?
– O quê? – Martin riu, balançando a cabeça em negação. – Claro que não! Eu o mataria se ele viesse me contar detalhes, tá maluca?
soltou um muxoxo baixo e bateu os pés no chão, cruzando os braços novamente, um pouco irritada.
– Me fala!
– Não era nada, . – Lewis riu da curiosidade da amiga e voltou sua atenção para o computador. – Você não tem nada melhor pra fazer não?
– Eu ia pra academia, mas quando passei por lá vi que estava treinando, então prefiro me manter longe. – revirou os olhos e o amigo riu, balançando a cabeça. – O quê?
– Você é muito idiota. – Ele disse e ela o olhou, espantada pelo xingamento repentino. – É tão simples resolver tudo isso, é só falar pra ele...
bufou e revirou os olhos, levantando-se.
– Eu não te contei pra que você fique me cobrando, Martin.
– Eu sou seu melhor amigo, te lembrar que você tá sendo idiota também é minha função.
– Você é um babaca. – xingou, levantando-se.
– Não sou eu que tô escondendo algo tão grande como uma gravidez do cara que eu amo, sou?
– Não, até porque, da última vez que chequei, você não é mulher e nem gay, portanto... – arqueou as sobrancelhas convencida
– Ah, vai à merda, vai. – O loiro revirou os olhos e virou-se em sua cadeira, voltando a prestar atenção em seu trabalho.
– Também te amo. – disse antes de se afastar e ouviu o amigo murmurar algo em resposta.

xxx

Já era início da noite, os quatro astronautas estavam reunidos na sala, esperando para comer. Martin estava preparando algo para todos, então ele era o único que estava em pé, sendo observado pelos outros três, que estavam sentados a mesa. estava inquieta, encarando , que mantinha seu olhar em qualquer lugar que não na ex-namorada. Ethan, por sua vez, encarava divertidamente os dois amigos, esperando pelo momento em que algum deles iria ceder e falar algo, o que não demorou nada a acontecer.
– Dá pra parar? – quebrou o silêncio, olhando diretamente para pela primeira vez desde que se sentara à mesa.
– Eu não tô fazendo nada! – Ela se defendeu, cruzando os braços.
– Você tá me encarando. Tá insuportável. – Ele argumentou, arqueando as sobrancelhas.
– Não sabia que não podia te olhar. – respondeu, debochada.
– Olhar é uma coisa, encarar é outra. – argumentou.
Ethan olhava de um para o outro, segurando o riso. Martin, por sua vez, estava prestando atenção na comida que preparava, apenas ouvindo a conversa dos amigos.
– Não tira pedaço, tira? – provocou, abrindo um sorriso convencido, o que fez com que revirasse os olhos.
– Com certeza não tira... – Ele sorriu de canto e balançou a cabeça. – Mas ajuda a te lembrar de que você nunca mais teve esse rostinho no meio das suas pernas.
A sequência de acontecimentos que veio a seguir foi extremamente cômica. arregalou os olhos, surpresa com a fala ousada do ex-namorado. Martin, por sua vez, derrubou o prato que segurava, fazendo a comida que era para ser o jantar dos astronautas, se espalhar pelo chão da cozinha. E Ethan não aguentou mais e gargalhou alto, cuspindo a água que tinha recém tomado, fazendo o líquido saltar em e , que ainda se encaravam.
– Ethan! – e gritaram ao mesmo tempo, reprendendo o amigo por ter lhes dado um banho.
Depois, o olhar dos dois se encontrou novamente. O rosto de ainda estava vermelho, já que havia ficado extremamente sem graça, e ainda mantinha um sorriso convencido em seus lábios.
– Filho da puta. – xingou, tentando, sem sucesso, secar um pouco da água que havia a atingido.
Ele riu de maneira convencida e cruzou seus braços, não ousando desviar o olhar dela.
– Você pediu, . – Respondeu, fazendo-a bufar, irritada.
– Quem disse que eu gostaria que você me chupasse, ? Você é um babaca prepotente!
– Ah, até parece, . – Ele riu descrente, espalmando as mãos na mesa. – Eu lembro muito bem de como você gem...
– Meu Deus. – Ethan comentou, sem acreditar que os dois estavam tendo aquela discussão ali, no meio da cozinha, na presença dos demais.
– Ok, já chega! – Martin disse um pouco alto, interrompendo a fala do médico. – Vocês estragaram o jantar. – Ele se abaixou para pegar o prato e a comida que havia derrubado, jogando tudo dentro do lixo. – Parecem dois adolescentes virgens, pelo amor de Deus, resolvam isso logo!
Os três astronautas encararam o loiro, surpresos pela atitude revoltada do engenheiro.
– Tô cansado disso! E tô falando principalmente com você, . – Ele apontou o dedo para a amiga, que se encolheu na cadeira que estava sentada. – É engraçadinho, é bonitinho, mas tô de saco cheio! Nenhum dos dois é criança pra ficar nessa implicância, não tratem isso como se fosse uma briguinha adolescente, porque não é! Tá na cara que os dois ainda tem sentimentos um pelo outro!
– Martin... – se levantou, aproximando-se do amigo. – Calma...
, eu tô falando sério! Vocês precisam se resolver, e isso tem que partir de v...
– Eu já entendi, mas, por favor, Marty, não f… – Ela falou um pouco alto, interrompendo-o.
– Eu não vou abrir o bico, fica tranquila. – Ele revirou os olhos e riu descrente. – Você sabe o que faz.
– Abrir o bico sobre o quê? – quis saber, curioso pela fala do loiro.
– Sobre nada. – respondeu e o melhor amigo a encarou, balançando a cabeça em negação.
– É, sobre nada. – Ele concluiu antes de se virar e se afastar, jogando-se no sofá com uma fruta em mãos.
cruzou os braços e desviou o olhar do amigo, encontrando a encarando de maneira curiosa, com a testa um pouco franzida. Ethan aproveitou a deixa e se levantou, sentando-se no sofá ao lado de Martin.
? O que Martin sabe que eu não sei? – quis saber.
A engenheira nada disse, apenas balançou a cabeça em negação antes de se virar e se retirar para seu quarto, bastante chateada com a situação que acabara de ocorrer.

xxx

?
Ela ouviu a voz de Martin chamar, mas não se virou na cama, mantendo o olhar fixo na parede.
– Eu vim me desculpar. – Ele disse assim que se sentou na cama ao lado dela. Tocou levemente o ombro da amiga e ela murmurou algo em resposta, mas ele não entendeu. – O que você disse?
– Que você não precisa se desculpar. – Repetiu, virando-se para encarar o amigo.
Os olhos da engenheira estavam vermelhos, deixando claro que ela havia chorado. Martin suspirou, ajeitando-se na cama e encostando as costas na parede. Depois, puxou a amiga para si, envolvendo-a com seus braços.
– Eu não tinha o direito, . A situação entre você e pode ter piorado e a culpa é minha. – Ele disse, fazendo um carinho leve nos ombros dela, enquanto a abraçava.
– Mas se isso chegou na situação em que está, Martin, é por minha causa. – Ela argumentou e o loiro a encarou. – Você sabe disso.
– Mesmo assim, eu não precisava ter comentado... Me desculpa por surtar.
– Achei até que você demorou, afinal, eu realmente tô sendo uma idiota. – suspirou e o loiro riu, balançando a cabeça em confirmação. – Não precisa confirmar, babaca.
– Desculpa. – Ele pediu mais uma vez e ela rolou os olhos, aconchegando-se ainda mais nos braços do amigo. – Te amo, mesmo você só fazendo merda.
– Obrigada por isso. E por não desistir de mim. – riu fraco, fechando os olhos. – Dorme aqui?
– Durmo. – Marty sorriu antes de dar um beijo na cabeça da amiga.
Os dois se deitaram na cama, se aconchegando no peitoral do amigo. Martin puxou a coberta para cima dos dois e cobriu seus corpos. Não demorou para que os dois já estivessem dormindo em um sono tranquilo, sabendo que, apesar dos apesares, a amizade deles sempre prevaleceria.


10

Cerca de quinze dias havia se passado, e antes mesmo que eles pudessem perceber, o aniversário de Martin havia chego, e, juntamente com ele, os sessenta dias de missão, o que significava que precisavam enviar mais um relatório para a Terra e que faltavam apenas 40 dias para chegarem em Marte.
O tempo estava, definitivamente, passando mais rápido do que eles esperavam.
A situação entre e agora havia se estabilizado, os dois se tratavam com educação, mantendo as boas maneiras, cumprimentavam-se e não mais implicavam um com o outro – pelo menos não com tanta frequência quanto antes. Dependendo do ponto de vista, isso era algo sério, já que desde sempre os dois se provocavam, porém, agora parecia que nenhum deles tinha vontade de fazê-lo. Na verdade, tinha decidido que só entraria em um diálogo com a mulher caso ela estivesse disposta a se abrir e contar a ele tudo o que escondia.
, por sua vez, se mantinha longe, pois ainda não se sentia pronta para se abrir, apesar de estar trabalhando para isso a cada dia que passava. Martin já havia desistido de argumentar com a amiga, sabia o quanto ela era cabeça dura e pressioná-la só tornaria a situação pior. Ethan era o mais alheio a situação, já que não sabia com detalhes de tudo que havia acontecido entre e , então, se mantinha afastado, sabendo apenas o que Martin contava a ele. Apesar disso, não se culpava por não conseguir se abrir. Havia aprendido, com o tempo, que não se deve forçar certas situações. Era preferível deixar que tudo acontecesse no momento que deveria acontecer. E ela não sentia que esse momento havia chegado, apesar de saber que estava cada vez mais próximo.
Fora isso, as coisas iam muito bem. Eles estavam economizando em alguns alimentos, assim como em outros suprimentos, para que não precisassem passar na Estação Internacional e reabastecer, porém, mesmo sendo cuidadosos, seria difícil, e Martin tinha cada vez mais certeza de que a parada na estação seria necessária.
colocou seu prato na mesa ao lado dos outros dois, sorrindo orgulhosa para sua preparação. Ela, e Ethan estavam reunidos na cozinha, organizando um jantar especial de aniversário para Martin, que havia ido tomar um banho há algum tempo e ainda não tinha aparecido – o que, querendo ou não, ajudou os astronautas, dando a eles um pouco mais de tempo para que pudessem finalizar a arrumação.
Os três prepararam um cardápio a base de batatas, já que, como planejara, elas estavam prontas para consumo. Ele ficara responsável por fazer o purê. O médico cozinhou as batatas no micro-ondas e misturou-as com leite, adicionando um pouco de sal. Já improvisou chips, cortando as batatas em fatias bem finas, colocando-as no micro-ondas por tempo suficiente para que ficassem crocantes. Ethan, por sua vez, fez uma espécie de escondidinho, montando um prato improvisado com batatas cozidas, carne moída congelada pré-cozida e com um pouco de queijo desidratado, além de alguns temperinhos. Nem se eles quisessem teriam como fazer um bolo, então, para sobremesa, pegaram quatro bolinhos individuais – estilo petit gatteau – que também estavam congelados e só era necessário colocá-los brevemente no micro-ondas para que pudessem comer.
Os três observaram a mesa, felizes com o resultado, ansiosos para provar as comidas. Depois, pegou quatro pratos e talheres, colocando-os sobre a mesa, e finalizando a arrumação com um guardanapo em cima de cada prato.
– O que vamos beber? – Ethan perguntou, virando-se para pegar alguns copos.
– Água, né. Ou suco de pacotinho. O que preferem? – respondeu, encolhendo os ombros.
– Não aguento mais tomar corante saborizado, pelo amor de Deus! – Ethan dramatizou, fazendo revirar os olhos e rir. – Água, por favor.
– Também prefiro água. – comentou.
Assim que Ethan colocou os copos na mesa, serviu água em todos. Depois ela se colocou em frente ao balcão, ao lado dos dois astronautas.
– Tudo bem que ele é o aniversariante, mas precisa demorar tanto? – Ethan revirou os olhos, impaciente.
– Eu vou lá ver. – avisou e começou a andar em direção ao corredor, mas parou ao ver a porta do quarto de Martin se abrir. – Aleluia!
– Foi mal. – Ele riu, bagunçando seu cabelo. – Jantar tá pronto?
Os três amigos sorriram orgulhosos e abriram espaço para que ele visse a mesa já posta por eles. As sobrancelhas de Martin se arquearam e ele logo abriu um sorriso, feliz pela pequena surpresa que prepararam para ele.
– Feliz aniversário! – desejou assim que o amigo parou ao lado dela, jogando os braços ao redor dele. – Desculpa, eu não trouxe um presente da Terra...
O loiro riu, balançando a cabeça em negação.
– Mais um ano que passamos juntos. – Marty sorriu ao se afastar e depositou um beijo no rosto de . – Eu cobro o presente quando voltarmos, relaxa.
riu e então foi a vez de e Draw abraçarem Martin e desejarem as felicitações de aniversário.
– Então, qual o cardápio? – Ele perguntou assim que voltou o olhar para a mesa, sentando-se em uma das cadeiras, sendo acompanhado pelos amigos.
– Batatas! – Os três responderam em uníssono e Martin arqueou as sobrancelhas.
– Purê, chips e escondidinho. – apontou cada prato, abrindo um sorriso orgulhoso.
– Jantar bem propício pro meu aniversário. – Martin riu, lambendo os lábios.
– Ele ama batatas. – olhou para os outros dois, erguendo as sobrancelhas.
– Eu amo batatas! – Marty comemorou empolgado. – Podemos comer?
Em meio a vários “sim”, eles começaram a comer, e o jantar seguiu acompanhado de conversas e piadas, com Martin e relembrando os aniversários passados do amigo, contando momentos engraçados que aconteceram enquanto comemoraram a data. Todos os pratos foram raspados, já que, apesar das limitações, as comidas estavam incrivelmente deliciosas e não sobrou absolutamente nada para que pudessem comer na próxima refeição.
– Tem bolo de batata também? – Martin perguntou risonho quando Ethan se levantou e foi até o armário para pegar os bolinhos. – Ah, bolinhos prontos. Tá ótimo!
– Não tem vela pra cantar parabéns. – fez um biquinho triste Marty riu, mas logo disse que não precisava. – Vamos cantar assim mesmo, óbvio.
O loiro revirou os olhos, mas logo abriu um sorriso ao ouvir os amigos cantarem parabéns, batendo palmas animadas, como se realmente estivessem em uma festa de aniversário. Ele riu ao receber mais felicitações e agradeceu quando Ethan foi até o micro-ondas e voltou com os bolinhos já aquecidos, servindo um para cada. Comeram em meio a risadas e comentários sobre como queriam que aquele pequeno bolinho fosse um bolo de chocolate com três ou quatro camadas de recheio. Depois de terminar de jantar, arrumaram rapidamente a cozinha e se reuniram na sala, sentando-se no sofá e nas poltronas.
– Quando é que vamos receber vídeos das famílias de novo? – Foi Ethan quem questionou. – Tô com saudade dos meus velhos.
– Em breve, afinal, já temos que enviar amanhã o relatório de 60 dias... – Martin disse, encolhendo os ombros.
– Estamos mais perto de Marte do que da Terra. – constatou, desviando o olhar para o grande vidro da espaçonave, observando a imensidão preta os rodeava.
– Sim, logo chegaremos no planeja vermelho... – Lewis sorriu, esticando as pernas e apoiando os pés na mesinha de centro. – Vocês também estão achando que o tempo tá passando rápido?
– Sim. – concordou, apoiando a cabeça no ombro do amigo. – Achei que ia ser mais difícil, confesso.
– Essa é sua primeira missão grande, né? – Ethan perguntou e a mulher balançou a cabeça em confirmação. – Acho que o ambiente e o clima entre nós ajudam um pouco, apesar dos apesares... – Ele indicou e com a cabeça, fazendo Martin rir.
fez uma careta e revirou os olhos, mas, no fundo, os dois concordavam com o moreno. Era de se esperar que o clima ficasse pesado – mais pesado que muitas vezes havia ficado – e o tempo passasse mais devagar, mas, não era isso que acontecia.
– Acho que deveríamos jogar algo. – Lewis disse, olhando em expectativa para os colegas.
– O que sugere? – questionou, cruzando os braços enquanto o olhava. – Eu trouxe baralho.
– Eu sou péssima com cartas. – confessou, encarando o ex-namorado. – Ninguém trouxe jogo de tabuleiro?
– E arriscar perder espaço pra trazer outras coisas? – Ethan riu, balançando a cabeça em negação. – E se jogarmos algo tipo, eu nunca?
– Draw, quantos anos você tem? – Martin revirou os olhos, jogando uma almofada no amigo.
– Qual é! Duvido que você não goste.
– Quando eu tinha 15 anos, talvez. – Lewis riu e o encarou, arqueando as sobrancelhas. – O quê?
– Eu nunca é sempre o primeiro jogo que você quer jogar quando tá bêbado. – Ela o lembrou e ele fez uma careta. – Não adianta negar!
– Pode até ser. – Novamente ele revirou os olhos. – Mas eu não tô bêbado agora, tô?
– E precisa estar bêbado pra jogar isso? – riu, recebendo um revirar de olhos como resposta. – Vai, eu começo.
No início, o jogo seguiu lento e sem muitas emoções, mas conforme os quatro foram se soltando, o rumo do jogo mudou e, de coisas engraçadas como “eu nunca tive diarreia no espaço” foi para “eu nunca tive um orgasmo no espaço” - essa última tendo recebido afirmativas dos quatro astronautas presentes, quando a maioria pensou que os únicos a confirmar seriam Ethan e . O jogo serviu para acalmá-los um pouco, tornando o clima mais amigável e leve, de maneira que auxiliou e muito a amenizar a situação estranha que pairava entre o casal de ex namorados, para o alívio de todos.

xxx

O mês passou voando e, antes que pudessem perceber, já estavam se aproximando de Marte. A missão estava finalmente para acontecer e, apesar de ansiosos, os astronautas também estavam bastante nervosos, afinal, o que precisavam fazer não era algo simples. O relatório havia sido enviado, juntamente com avaliações físicas de cada um deles – uma exigência da NASA para monitorar o estado de saúde de seus astronautas, algo de extrema importância, porque a gravidade afetava e muito o corpo humano.
A missão teria início em um ou dois dias, se tudo corresse conforme o planejado. Já estavam bem próximos do planeta, mas não o suficiente para parar Orion3 e utilizar a pequena espaçonave que fora construída especialmente para penetrar na superfície de Marte e aterrissar de maneira segura. Tudo o que os astronautas precisavam fazer era esperar até atingirem a aproximação necessária – e cada um estava fazendo isso de sua maneira.
A única acordada no momento era . Ela acordara extremamente cedo, sem um motivo específico. Já tinha ido para a academia e tomado banho. Agora, sentada no parapeito de uma das enormes janelas da espaçonave, ela encostou as costas na parede e deitou a cabeça para o lado, apoiando-a no vidro para observar o enorme planeta que ficava cada vez mais próximo.
A grandiosidade de Marte era indescritível e ela tinha certeza de que nunca havia visto algo tão bonito em toda a sua vida. Os tons terrosos misturados com tons de vermelho e laranja enchiam seus olhos, fazendo-a perder o fôlego. Nada a tinha preparado para esse momento, mesmo sabendo que ele chegaria. Nunca imaginou que estar tão perto do planeta vermelho a emocionaria tanto.
A astronauta soltou um suspiro baixo e abriu um sorriso pequeno, sentindo-se bastante feliz e realizada, além de extremamente abençoada por ser uma das poucas pessoas no mundo que tinha o privilégio de ver outro planeta tão de perto.
Um barulho ao longe a tirou de seus pensamentos, e ela levantou o braço para checar seu relógio, vendo que já estava perto do horário em que seus colegas costumavam acordar. Levantou-se então e seguiu em direção a cozinha para fazer café. Pegou tudo o que precisava e, depois de ferver a água, começou a preparar a bebida.
– Bom dia. – cumprimentou assim que apareceu, apoiando seu corpo na mesa da cozinha, ainda sonolento.
levantou o olhar para ele e abriu um sorriso pequeno ao observar a expressão de sono no rosto do romeno, seus olhos um pouco inchados e os cabelos completamente bagunçados.
– Bom dia. – Ela finalmente falou, dando alguns passos para pegar quatro canecas no armário. – Café?
– Por favor. Preciso. – Ele riu, passando as mãos pelo rosto. – Não dormi nada essa noite, o que é péssimo, já que a missão tá bem próxima.
– Toma algo antes de dormir. Temos... – Ela pensou por alguns segundos. – Dois dias até a missão realmente começar. Posso fazer um chá pra você hoje a noite, se quiser. – estendeu a caneca para ele e seguiu seu caminho, voltando para a janela.
foi atrás dela, estranhando um pouco a simpatia da mulher logo pela manhã, ainda mais com ele.
– Você tá estranha. – acusou, depois de tomar um gole de seu café.
riu e encolheu os ombros, sem tirar seus olhos do planeta a sua frente, ainda bastante extasiada com a paisagem.
– Preferia antes? Porque achei que tínhamos superado isso, já que... - começou a falar, mas foi interrompida por ele.
– Não. – Ele negou prontamente, também com o olhar fixo em Marte. – Tivemos uma boa evolução, mesmo que você ainda não tenha cont...
– Ah, não. – Resmungou, direcionando o olhar para ele em repreensão. – Não começa. – Ela pediu, revirando os olhos.
– Certo. Desculpa. – suspirou e deu de ombros, bebendo mais um gole de seu café em seguida. – Mas eu gosto disso. É quase como se...
– Se não tivéssemos um passado. – completou, abrindo um sorriso triste. – As vezes eu gostaria que fosse assim, sabia?
– Você gostaria de não ter me conhecido? – franziu as sobrancelhas, virando o rosto para encará-la.
– Não. – Ela encolheu os ombros, negando prontamente. – Não foi isso que eu quis dizer... Eu só não gostaria que nosso passado fosse tão pesado e cheio de...
– Segredos? – quase riu, mas se conteve, afinal, não queria mesmo estragar o clima entre eles. – É. Eu também.
uniu seus lábios em um sorriso triste e voltou o olhar para frente. Os dois permaneceram em silêncio, cada um imerso em seus pensamentos. A relação entre os dois não havia progresso, já que eles não haviam mais conversado sobre nada que envolvesse o passado dos dois, mas estavam se tratando como amigos. Não saberiam dizer o exato momento em que tudo mudou, mas agradeciam por ter acontecido. Ambos sabiam que a paz não duraria muito tempo, então era bom aproveitar enquanto ela estava reinando.
– Bom dia? – Martin falou em tom de pergunta ao entrar na área comum e observar os dois astronautas lado a lado. – O que eu perdi?
– A grandiosidade de Marte. – respondeu, abrindo um sorriso enorme. – Fiz café. Pega aí e vem aqui com a gente.
Martin franziu o cenho e trocou um olhar com , também estranhando o bom humor da melhor amiga. Recebeu apenas um balançar de ombros como resposta e então foi se servir de café. Ethan apareceu logo em seguida e também estranhou o bom humor da astronauta, mas, assim como Martin, não questionou, afinal, não era sempre que estava de bom humor.
– Certo, eu sei que observar o planeta é muito lindo, muito legal, mas temos outras coisas pra fazer. – Martin comentou depois de algum tempo, atraindo a atenção dos outros três. – A não ser que vocês prefiram deixar o vídeo das famílias pra depois...
Martin não precisou falar mais nada, já que no momento seguinte todos já estavam sentados no sofá em frente a televisão, ansiosos para rever os familiares, mesmo que de maneira rápida. Como sempre, o momento foi recheado de emoções e lágrimas, todos tendo derrubado algumas. foi a que mais chorou, principalmente quando sua mãe mostrou Ronron na câmera, e ela quase derreteu de tanta saudade que sentia do gato - claro que Joan não precisava ficar sabendo desse fato. Depois de todos os vídeos serem exibidos, foi a vez de Alvin mandar um recado para os astronautas.
– Estou muito satisfeito com os resultados e com os dados dos relatórios que vocês têm nos enviado regularmente, apesar de estar bastante preocupado com os suprimentos. Não hesitem em desviar o curso para a estação internacional na volta caso seja necessário, não quero que vocês passem nenhum aperto ou dificuldade. É uma missão grande, apesar de rotineira. Não deem motivos para eu me preocupar, por favor. – Ele pediu, gesticulando com as mãos. – Bom, pelos meus cálculos, vocês devem estar quase chegando em Marte. O que significa que a missão está cada vez mais próxima de ser realizada, e eu preciso da total atenção e dedicação de todos. Ouviu, ?
A loira franziu o cenho, estranhando o fato do diretor se dirigir especificamente a ela. Olhou para os lados, um pouco confusa, e então seu olhar se cruzou com o de Martin.
Ele realmente tinha contado a Alvin sobre os acontecimentos entre ela e ?
bufou, encarando o amigo, extremamente irritada com ele. Conteve-se até o momento em que o vídeo acabou e então se levantou, lançando um olhar furioso para Lewis antes de se afastar, fazendo sinal para que ele a seguisse. Os dois foram até a cozinha.
– Martin! – Ela esbravejou, falando baixo para que os Ethan e não escutassem. – Eu não acredito que você...
– Sim. – Ele confirmou, sem a deixar completar a frase. – Sou o comandante da missão, , e quando Alvin me perguntou diretamente como você e estavam, eu precisei contar...
– Você disse que não falaria nada, Martin! – Ela cruzou os braços, extremamente decepcionada com o melhor amigo. – Já pensou se ele reporta essa situação para os diretores da NASA? Como eu fico?
– É claro que Alvin não vai falar nada, . Até parece que você não conhece seu padrasto. – Ele revirou os olhos, começando a perder a paciência. – Tenho certeza que ele me perguntou por que estava preocupado com você, e não com o andamento da missão. Alvin confia em você, assim como eu.
– Justamente por isso você não devia ter falado nada, Martin. Se você confia em mim, não tinha necessidade alguma de reportar isso a ele. – argumentou, bufando em seguida. -
. – O loiro chamou, aproximando-se da amiga e tocando seus ombros. – Fica tranquila.
– Tô bem chateada. – Confessou, suspirando baixo. – Mas ainda te amo. – Ele sorriu para a amiga, que retribuiu. – O que foi que você falou pra ele?
– Ele só me perguntou como estavam as coisas entre você e o . – Marty contou, apoiando o corpo na bancada da cozinha. - E eu disse que vocês tinham discutido algumas vezes, mas que nada demais tinha acontecido.
– Só isso? – Ela quis saber, encarando-o com as sobrancelhas arqueadas.
– Só isso. – Assegurou, puxando a amiga para um abraço. – Você mudou de humor muito rápido.
– Eu ainda tô de bom humor, tá? Só fiquei puta com você por alguns minutos. – riu ao se afastar, sorrindo de maneira forçada para ele.
– Como estão as coisas entre você e ?
– Boas. – suspirou pesadamente. – O que me faz pensar que vem algo grande por aí, porque isso não é normal.
Martin riu, balançando a cabeça em negação.
– Que nada. – Ele opinou. – Quem sabe seja um sinal de que vocês realmente vão se ajeitar.
Dessa vez foi quem riu, apoiando uma das mãos no ombro do amigo enquanto gargalhava forçadamente.
– Até parece que vai ser tão fácil assim, Martin... Até parece.


Continua...



Nota da autora: Oi, meus amores! Primeiramente, mil desculpas pela demora! Os últimos meses foram muito corridos, mas tudo tá voltando ao normal, tá? Prometo que a próxima até vem em breve. Ah, estamos oficialmente entrando na segunda fase da história. A missão já começa no próximo capítulo! Por isso que esse é um pouco mais curto, tá?
Ansiosa pra ler os comentários de vocês!
Beijos e até a próxima!





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