Última atualização: 01/11/2017

Capítulo 1

A verdade é que eu tentei escrever essa história em terceira pessoa. Tentei presumir como as pessoas ao meu redor agiriam e o que pensariam de acordo com a minha visão de mundo e com a ideia que eu tenho sobre eles. Mas é muito difícil você querer contar uma história sobre pessoas sem criar e expor a ideia que você tem sobre essas pessoas.
Então vamos conversar, porque isso daqui é quase como uma catarse onde eu exponho todos os meus pensamentos de uma forma entendível, para que, assim, eu me entenda. E talvez você também me entenda. Porque eu preciso me entender.
Mas pra não deixar esse começo chato, vamos começar com o básico que você precisa saber para continuar a ler essa história. E a verdade é que eu não sei nem quando isso começou e eu não faço a menor ideia de quando isso vai terminar. É só uma constante que existe dentro de mim, e,por muito tempo, eu achava que era algo que eu deveria reprimir, e confesso que ainda faço isso hoje, me reprimo e reprimo minhas vontades. E não, não sou alguém depressiva, ou com alguma doença psicológica.
Mas não vou contar que isso começou quando eu ainda era criança. Porque a última coisa que eu pensava quando era criança era sobre isso. Eu pensava em ser astronauta. Ou professora. Ou bailarina. Ou uma fashionista, como a Cruella, mas sem a parte de querer a pele de cento e um dálmatas.
Mas tudo meio que começou a ficar mais evidente para mim quando eu tive que me mudar para fazer faculdade.
Meu quarto estava uma bagunça, com roupas, livros, sapatos, papéis e roupas de cama fazendo com que eu não pudesse ver o chão de madeira do meu quarto. Eu estava sentada em um mínimo espaço da minha cama, olhando para fotos e cartas, com os olhos marejados.
Alguma parte de mim sabia que eu sentiria a falta dali. Sentiria a falta das mesmas pessoas que nunca falaram comigo na escola, e também das pessoas que me olhavam torto. Mas sentiria ainda mais falta de meus melhores amigos, pessoas que passaram os últimos treze anos estudando comigo, fazendo cursos comigo, saindo depois da aula comigo.
Era estranho pensar que eu era a única do grupo que me mudaria de estado para fazer faculdade, mas agora era a minha chance de estudar aquilo que eu mais gostava no mundo sem que recebesse olhares das pessoas me julgando pelo o que eu gosto.
Eu gosto do que eu gosto. E amo gostar disso.
Mas ainda assim um sentimento lá no fundo do meu corpo me dizia que talvez eu não estivesse preparada para uma mudança tão drástica assim. Que eu devesse fazer a faculdade mais próxima e nunca tentar sair de perto da minha cidade. Lá no fundo de mim eu sentia que não iria durar um mês tão longe da minha família.
Pensar em cada lugar que marquei no mapa que devia parar para ter certeza que estávamos na rodovia certa, calcular quanto tempo levaria para chegar até Michigan, e depois como deixaria esse mesmo mapa para que meus pais pudessem voltar para casa em segurança, me deixava cada vez com a sensação maior de que eu estava fazendo algo errado.
? — uma voz conhecida quebrou minha linha de pensamento. — Precisa de ajuda?
Uma garota da minha altura, com o mesmo corte de cabelo mas com uma maquiagem preta que ia desde a sombra até o batom, entrou no meu quarto, se sentando ao meu lado.
Ela se sentou ao meu lado, esperando uma resposta minha, mas nada que eu pensava eu conseguia falar em voz alta. Claro que eu queria ajuda. Eu precisava de ajuda. Eu precisava de alguém segurando a minha mão me falando que eu fiz a escolha certa.
A garota olhou para o chão do meu quarto, torcendo o nariz e levando seu dedo indicador à altura de sua boca, dando pequenas batidinhas enquanto murmurava palavras inaudíveis. Ela pegou uma camiseta minha de quando eu tinha sete anos, com minha personagem favorita de uns quadrinhos italianos que eu amava ler, e, milagrosamente, mesmo eu tendo dezessete anos, agora com peitos razoáveis e outro corpo, ela ainda servia em mim.
— Você não vai levar isso, né? — ela torceu o nariz novamente. — Na real eu nem sei porque você tem isso guardado. É tããão velha.
— Mas eu amo ela. — resmunguei, tomando a camiseta das mãos dela.
— Qualé, você nem fala mais com quem te deu essa camiseta.
— Mas é da Cornélia.
— Isso é pior ainda. — , a garota que se parece comigo, reclamou. — Todos sabem que a melhor é a Hay Lin. — ela sorriu.
Eu odiava quando ela sorria porque era óbvio que éramos gêmeas. Era o mesmo sorriso. Os mesmos dentes tortos, a mesma gengiva saltada, os mesmos caninos que eram pontudos. Éramos tão parecidas que nem me considerava gêmea. Me considerava a cópia mais fiel da minha irmã.
Ela então bateu as palmas das mãos, esfregando-as umas nas outras, sorrindo e pegando ainda mais roupas da pilha que eu tinha formado e que tomava conta de mais da metade do meu quarto.
— Ok. Eu vou te ajudar porque eu te amo. Só por isso mesmo. Não é porque eu, por exemplo, queira muito que você deixe esse vestido preto que eu acho maravilhoso comigo.
— Pode ficar. — eu disse enquanto levantava do colchão. — Eu nem uso mais ele. É todo seu.
Barbra deu um beijo estalado na minha bochecha, correndo para o seu quarto. Eu sei que ela deixou o vestido jogado na pilha de roupas que ela iria lavar no dia seguinte, e em seguida veio saltitando até meu quarto. A última parte eu sei porque ouvi os pulinhos no corredor da casa.
Nós duas sentamos nos lugares que davam do meu quarto, e olhávamos tanto para o meu guarda roupa, que tinha ainda milhares de roupas penduradas, quanto para o chão do meu quarto. Eu ainda não acreditava que teria que encaixotar tudo aquilo.
— É impossível que você não tenha nada aqui que não queria ficar. — ela puxou outra camisa minha, uma rosa com detalhes de renda pretos. — Tem séculos que você não usa essa camisa maravilhosa.
Eu dei de ombros, e logo minha irmã jogou a peça de roupa na caixas de roupas que eu doaria. Que eu sei que ela primeiro daria uma conferida em algumas peças antes de realmente passar a caixa para meus pais levarem à uma igreja ou alguma ong que ajudasse adolescentes necessitados.
E não, eu não sou a pessoa mais altruísta que você já conheceu ou está conhecendo. É só que… são roupas em ótimo estado, que eu não vou mais usar. E eu não quero vender, porque só de pensar no trabalho que vai ser ter que ficar arrumando essas roupas para um brechó eu já desanimo. E eu sei que tem gente que não tem a mesma sorte que eu e que precisa de roupas para poder ir à escola, ou à uma entrevista. E essas roupas poderiam ser dessa pessoa.
— Esse conjuntinho você devia levar. — ela segurava um shorts preto de cintura alta com uma camiseta da mesma estampa. — Você fica maravilhosa nele e vai arrasar corações de homens babacas. Porque nessa você tem que concordar comigo: homens sempre serão babacas.
Eu a abracei forte, e talvez eu tenha a surpreendido com isso. Eu nunca fui uma pessoa de abraços. Ou de contato mesmo. Não me sentia à vontade fazendo isso nem com meus pais ou minha irmã. Mas eu senti que naquele momento eu precisava abraçá-la. Aproveitar enquanto ela ainda estava ali do meu lado.
— Eu vou sentir tanto a sua falta. — choraminguei.
— Eu também. — ela choramingou, jogando mais roupas minhas na caixa de doação. — Quem vai ficar reclamando comigo sobre os novos seriados da Disney enquanto a gente assiste religiosamente aos mesmos episódios todos os dias?
— Quem vai reclamar que o Zac Efron não tem uma voz tão melhor que a do Drew? E mesmo assim assistir High School Musical e Outro Conto da Nova Cinderela?
— A gente realmente gosta desse filme? — torceu seu nariz.
— A gente ama esse filme. — eu bufei. — Eu nem acredito…
— Ei, você vai viver o seu sonho. — ela sorriu. — Estou feliz por isso.
Eu sorri de volta, logo me virando e dobrando os lençóis que estiveram guardados por muito tempo no meu guarda roupa. estava ao meu lado, ainda separando minhas roupas, enquanto cantávamos New Classic, a música que Selena Gomez canta com Drew Sleely em O Outro Conto da Nova Cinderela.
Eu sei que o título desse filme é muito ruim, mas esse filme é maravilhoso e capta muito melhor a essência do conto de fadas do que A Nova Cinderela, com Hillary Duff e Chad Michael Murray.
E não, eu não sou viciada em cinderela. Mas é. vê as três animações da Disney todo mês. Todo final de semana que Barbra não via o namorado ela começava o dia vendo Cinderela, cantando Bibidi bobidi doo, e terminava a tarde com Cinderela 3: Uma Volta no Tempo, cantando que “Cindereli Cindereli, a nossa Cindereli” como os ratinhos faziam, para contar ao príncipe como ele e Cinderela se conheceram e deveriam se casar.
Quem vê a minha irmã, toda de preto, ouvindo screamo o dia todo no mp4, nunca iria imaginar que era a mesma menina que usava uma camiseta da Cinderela feita especialmente para ver esses filmes.
Eu sorri sozinha, fazendo resmungar “Estranha” enquanto continuava o trabalho de selecionar as minhas roupas. estava com uma camiseta toda rasgada, preta. Usava um shorts de couro, também preto, e meia calça arrastão, e eu duvido você acertar a cor. Mas se você pensou em preto, parabéns, você acertou!
— Você vai sair?
A expressão no rosto de se fechou, e ela se moveu até o colchão, afastando as fotos e as cartinhas para não amassar quando sentasse no local. Ela olhou para os pés por alguns segundos antes de olhar para mim.
— Eu ia. — ela deu de ombros. — Mas aí vi seu quarto parecendo que o Taz passou por aqui, e decidi ficar.
Eu só resmunguei e continuei a encaixotar. Eu odiava fazer com que minha irmã mudasse seus planos para ficar comigo, coisa que acontecia mais vezes do que eu gostaria. E mesmo que ela nunca tenha reclamado para mim, ou para ninguém, num geral, eu ainda me sinto péssima por fazê-la desistir de algo por mim.
— Eu fiquei esperando você sair desse quarto contente por ter encaixotado tudo para avisar que hoje também é a festa de despedida do Lucas, e ele queria que você também fosse. Mas você não saia. Então eu decidi te ajudar porque pensei “Poxa, estou muito adiantada, dá tempo de ajudar a e ainda chegaríamos cedo na festa.” Mas então abri a porta do seu quarto e era como se o Caos tivesse passado por aqui.
— Desculpa…
Nah, fazer isso foi muito mais legal do que ter passado tempo com a família do meu namorado choramingando porque ele vai morar a uma hora daqui. — ela então colocou uma das mãos na minha cintura, me puxando para perto e me abraçando novamente. — Eu só poderei te ver nos feriados grandes, e eu sei que você voltará sugada por aquela faculdade. — ela sorriu, mas os olhos delas brilhavam, e eu senti que os meus também. — Eu só… queria passar um tempinho com você antes de você ir embora.
Nós duas nos abraçamos mais forte ainda, o que me fez pensar que talvez eu devesse abraçar mais as pessoas. A sensação era maravilhosa. O abraço da minha irmã era meu porto seguro, e eu não estava acreditando que eu nunca aproveitei o suficiente dele.
— Agora vai logo ver esse namorado antes que ele venha até aqui me matar por estar te segurando. — eu movimentava minhas mãos, numa tentativa de enxotá-la do meu quarto. — Vai que eu sei que ele deve estar contando os segundos para você chegar.
Ela sorriu para mim, demorando para andar até a minha porta. Agora as tábuas de madeira estava a vista, e dava até mesmo para ver a mancha de tinta de parede que me fez ficar de castigo por dois meses.
— Certeza? — ela segurava no batente.
— Vai lá. Manda um abraço pra ele por mim. Divirta-se! — eu dizia, ela já um pouco longe da minha porta. Coloquei a cabeça para fora do quarto e gritei. — Não faça nada que eu faria!
Eu fiquei horas ainda encaixotando e escrevendo sobre o que era o conteúdo das caixas. Ao final da noite eu me sentia uma invasora em meu próprio quarto. Minhas paredes tinham ainda alguns pôsteres dos Jonas Brothers, High School Musical, Nine Inch Nails, que era uma banda que eu gostava muito de ouvir, apesar de fugir da minha curva de amar pop. Além, obviamente de alguns atores e garotos que viviam saindo naquelas revistas para adolescentes.
Mas todo o resto do meu quarto não parecia mais pertencer a mim. Era como se eu fosse uma intrusa na vida dessa pessoa, que estava saindo e dando lugar a uma nova. E eu sei que isso soa confuso, mas era como eu me sentia. Como se uma velha fosse ficar ali, eternamente com dezessete anos, enquanto a nova e melhorada de dezoito voltaria muito mais madura.
Meu estômago fazia barulhos estranhos e me deixava desconfortável para dormir. Nem mesmo água fazia com que ele se acalmasse, me causando náusea. Eu abri a janela do quarto, sentindo a brisa suave das noites de verão entrar em meu quarto e me acalmar. Mas ainda assim era difícil respirar.
Minha cabeça estava a mil, pensando em cada pequeno detalhe que poderia transformar o meu amanhã num inferno. Perder a entrada para Ann Arbor, se perder em qualquer parte da estrada até lá. Não conseguia confiar em mim segurando um mapa, mas era o que tínhamos para o momento.
As horas passavam devagar, e cada minuto meu desespero aumentava. Eu precisava dormir para estar descansada para a viagem mas não conseguia dormir porque ficava pensando que precisava dormir para estar descansada para a viagem. Quando senti que meu corpo desistiu de ficar acordado, ouvi meu celular tocar, me avisando que era hora de partir.


Capítulo 2

Vou te poupar de todo o sofrimento de contar todos os detalhes de como foi a viagem até Ann Arbor. Mas também, eu dormi assim que saímos da cidade e acordei quando estávamos chegando, com minha mãe animada para descobrir onde seria a minha nova casa.
Meu pai também sorria, e os dois discutiam sobre tudo o que poderia acontecer nesse semestre, e que eu viajaria sempre que desse até minha cidade, porque esse era meu dever como filha.
Em nenhum momento eles me falaram para ter cuidado com festas e rapazes. Sei que parte era porque eles tinham muito vergonha de falar sobre esse assunto comigo, mas parte porque a última vez que eu fui em uma festa foi nunca.
É, eu nunca fui a uma festa. Mas também não penso em mudar isso agora que estou na faculdade.
Eu sei que muita gente vê essa transição de escola para faculdade como a hora de se descobrir sozinha. Você finalmente tem um espaço todo seu para cuidar da forma como você mais quer. Você pode se moldar da forma que quiser, porque seus pais não vão mais te falar que você não pode usar um tipo de roupa, ou te proibir de sair com algum tipo de pessoa. Você se sente livre.
Mas eu me sentia assustada.
Quando chegamos ao centro eu percebi que Ann Arbor tinha uma população muito jovem. A cada rua que entrávamos eram mais e mais jovens com carros e pais parados nas frentes de casas abraçando os filhos, se despedindo. Achamos minha casa sem problema algum.
Ela ficava a dez minutos da faculdade e cinco minutos do mercado. Pra mim era um win/win scenario. Perto da faculdade e perto da comida.
Minha mãe estacionou o carro em frente à uma das milhares de casas brancas de quatro andares da rua. Até escada pelo lado de fora tinha, parecendo aqueles prédios pequenos e antigos. Algumas meninas estavam sentadas no jardim e na varanda, conversando, se abraçando, chorando até. Mas ainda via-se pais entrando com caixas e mais caixas.
Nós subimos até o terceiro andar e entramos no meu quarto minúsculo. Assim que eu colocasse todas as caixas, não seria mais possível caber todos nós lá dentro.
— Ah, ! Que quarto lindo! — minha mãe sorria de orelha á orelha. E sabe o sorriso? igualzinho ao meu e de . — Quando nós vamos fazer um tour pelo campus?
— Você tem que tomar cuidado com essa janela. — meu pai dizia, puxando a madeira da janela para cima e para baixo. — É fácil de quebrar isso. E cuidado, você está do lado da escada de emergência.
— Quem sabe o que pode acontecer se você deixar essa janela destrancada. — minha mãe parecia assustada.
— Gente. — eu exclamei. — Primeiro dia aqui. Vamos ficar felizes por um tempo? A mãe vai ter falta de ar daqui a pouco! — eu apontei para minha mãe, que riu junto com meu pai. — Vamos descobrir um lugar pra comer. Estou morrendo de fome. E depois…
— Tour pelo campus! — os dois disseram ao mesmo tempo, felizes.
A verdade é que meus pais demoraram para ter filhos. Eles se conheceram no ensino médio, mas só foram se casar quando meu pai conseguiu um emprego bom, uns três anos depois que minha mãe tinha terminado sua faculdade.
Então eles eram muito felizes em ter duas filhas, e sempre tentaram dar tudo o que nós queríamos. Eu sei que sou um pouco mimada, mas meus pais não faziam a menor ideia de como lidar com duas crianças ao mesmo tempo. Na verdade eles não sabiam muito bem como lidar com filhos, num geral.
Era o sonho deles ter filhos, mas então quando finalmente aconteceu eles ficaram perdidos. Isso porque meus avós maternos moram no Canadá, e meus avós paternos moram na Espanha. Meus pais estavam completamente sozinhos nos Estados Unidos. Eles tiveram que ser pais inexperientes sem apoio. O que resultou em minha irmã e eu.
Mas eles fizeram um bom trabalho. Eu estava indo estudar em uma faculdade enorme, para um curso que me daria uma estabilidade financeira. E já estava trabalhando, e iria fazer uma faculdade no período da noite na cidade.
Nós andamos por aproximadamente uma hora, até que encontramos um restaurante temático, onde várias famílias também estavam almoçando. Comi qualquer coisa que tinha no cardápio, assim como meus pais, e logo estávamos de volta à Universidade de Michigan, para o tão querido tour.
Passamos por todos os lugares que era importante conhecer, vimos todos os pontos que era importante eu saber. Então meus pais resolveram que era hora de ir embora, e me deixar descansar.
, — minha mãe começou. — prometa que você vai fazer amigos neste semestre.
— Mas eu tenho amigos…
— Hm, aquelas pessoas não contam. — ela pressionou os lábios, com uma expressão preocupada. — E nada de se trancar nesse quarto.
Os dois me deram um abraço demorado e desceram para o carro. Eu fiz eles me prometerem que me ligariam assim que chegassem na cidade. E então fiquei sozinha, com o silêncio do meu quarto, colocando tudo em seu devido lugar.
Mas silêncio mesmo era algo impossível de querer. Era o primeiro dia de faculdade, então estava acontecendo várias festas pelas ruas, até mesmo na universidade. A grande maioria dos alunos conversavam e contavam piadas, bebendo e se divertindo.
Comecei a colocar meus livros na estante do quarto novo. Ela não era enorme, mas era o suficiente para colocar todos os livros que eu precisava ler no semestre. Aqueles que eu já estava lendo, graças aos professores muito animados que mandaram uma lista de leitura no período das férias, eu deixei na minha escrivaninha. Mas ainda tinha muita coisa que eu estava com vontade de ler que levei para a UM.
Depois de umas três horas toda a minha mudança tinha sido feita. Quer dizer, o principal estava em seu devido lugar, mas ainda tinha umas coisas que eu teria que tirar, porém a preguiça falava muito mais alto.
Nessa casa, apartamento, sei lá como te explicar, nós dividíamos um banheiro por andar, uma sala de estar, uma sala de jantar e uma cozinha. Todas nós deveríamos cuidar do jardim e do quintal. Além de termos uma chave para a porta principal, apesar de que ela sempre ficava destrancada.
Desci para ver se poderia comer algo, ou teria que fazer compras. A nossa geladeira era grande até, afinal, estávamos em oito mulheres, então mesmo que todo mundo fizesse compras semanalmente, teríamos muita comida para guardar. E não é que não tivesse nada, mas toda comida e bebida que tinha estava com uma etiqueta e com o nome de uma das moradoras. Eu suspirei, derrotada. A fila no mercado estaria enorme hoje.
— Olá. — uma garota morena apareceu atrás de mim. — Sua primeira mudança?
— E, de longe, a mais difícil.— eu sorri e estendi minha mão. — .
A garota ignorou minha mão e me abraçou, dando um beijo em cada lado do meu rosto. O perfume dela era doce e muito forte, me fazendo segurar um espirro, enquanto ela voltava a ficar de frente para mim.
. — ela sorriu. — E em qual andar você ficou?
— Terceiro. — fiz uma careta.
— Mentira! — ela bateu palmas. — Eu também! Não acredito que seremos vizinhas de quarto! — e então seu tom ficou mais sério. — Se você fizer muito barulho de noite eu te mato!
se distanciou, indo ao encontro de um grupo de meninas vestidas com camisetas azul marinho e alguns dizeres sobre a universidade em cinza. Eu observei elas se afastarem, como se cada uma delas estrelasse o próprio filme adolescentes de ensino médio, bem ao estilo de Meninas Malvadas.
Eu até conseguia ouvir me dizendo “Nas terças usamos azul marinho.” e me passando uma camiseta da faculdade, escrita “ Go Blue! para que eu fosse às eliminatórias do time de futebol americano.
Fun Fact: o time de futebol americano da Universidade de Michigan era um dos times mais fortes, que chegou a ganhar o campeonato diversas vezes. E as pessoas realmente saíam com o rosto todo azul para assistir aos jogos e gritar a cada jogada.
Subi para o meu quarto, pensando seriamente se minha fome iria valer o esforço de ir até o mercado e fazer compras. Porque na manhã do dia seguinte era óbvio que eu estaria morrendo de fome e precisaria tomar café da manhã antes de ir para a aula e eu teria vários nada para comer.
Bufei, peguei minha chave e desci as escadas pela décima terceira vez naquele dia. Até a metade do ano eu teria emagrecido de tanto fazer exercício físico. Não que as escadas fossem enormes e demoradas, mas ainda assim é um exercício.
Algumas meninas estavam assistindo televisão enquanto contavam como tinham passado as férias. Umas tinham marcas de biquinis, outras mostravam álbuns de fotografias, ou estavam montando os álbuns com as amigas, contando as histórias de cada um daqueles momentos.
Uma delas levantou sorrindo, se aproximando de mim. Ela era um pouco mais alta e dava para perceber que ela tingia o cabelo de um loiro mais dourado.
, certo? — ela sorriu. — Eu sou a Julia. Nós não somos uma irmandade, nem nada do tipo, mas eu só queria dizer que se você precisar de ajuda é só me avisar. Eu estou no quarto andar agora. Qualquer coisa é só chamar. — Julia estendeu a mão para mim. — Ah, sim, não pense que irá me incomodar se tiver alguma dúvida de como funciona essa primeira semana.
— Obrigada. — Julia deu um passo em direção à sala, mas eu continuei. — Na verdade, onde que tem um mercadinho aqui por perto?
Julia me explicou quase onde ficava tudo. Por ser perto da faculdade, até um hospital comunitário tinha, e deveria estar lotado de jovens bêbados, já que o jogo estava para acabar. Era muito estranho saber que eu tinha tudo isso perto de mim. O centro era perto, a faculdade era perto, as festas eram próximas.
Coloquei meu Nokia azul no bolso e andei por dois quarteirões, seguindo todos os passos que Julia tinha me explicado. E o mercadinho não era tão pequeno quanto eu tinha imaginado. Na verdade, ele era um supermercado e tinha os mais variados produtos que você pode imaginar.
Vários grupos de universitários estavam fazendo compras, rindo alto e conversando, colocando ainda as conversas em dia. Uma coisa que minha geração tem é esse fascínio pelas mensagens de texto, mas ainda assim era difícil para manter um contato com as pessoas.
E e-mail é algo muito impessoal, porém óbvio que eu usava para conversar com as pessoas que não moravam mais próximas à mim. Carta já era algo muito antigo e demorado. Então esse momento era o momento que todo mundo falaria mais do que gosta, para contar todas as histórias de tudo o que fizeram nas férias. De todos as pessoas com quem ficaram, festas que foram, livros que leram, filmes que viram. Você entendeu.
Dentre vários grupos, me peguei prestando atenção num grupo de rapazes que pareciam estar fazendo as compras do mês. E não, não era porque eles eram bonitos. Até tinham uns que eu confesso que achei bonitos, mas eles pareciam radiantes, mesmo escolhendo carne, contando piadas uns para os outros.
O mais alto deles arqueava as sobrancelhas enquanto o segundo mais alto gesticulava explosões. Os outros rapazes riam muito da história, e Sam não conseguiu segurar o riso. Quando percebi que ria sozinha resolveu voltei ao que estava procurando, sendo hipnotizada por produtos que pareciam agredir menos o meio ambiente, e, principalmente, não possuem lactose.
Não que eu fosse intolerante à lactose, mas eu passava bem menos mal quando consumia esses produtos do que quando consumia leite comum ou desnatado. E me virei tão abruptamente que não percebi que tinha alguém ao meu lado, praticamente jogando a pessoa no chão.
— Desculpe! — falei, enquanto ajudava o rapaz de camisa xadrez a se levantar.
— Caraca, você não parecia ser tão forte assim. — ele riu. — Cuidado pra não machucar mais ninguém. — ele sorriu.
Ele pegara novamente o que precisava e voltou para o grupo que antes eu estava observando. Não foi por mal que me peguei olhando para eles, mas parecia ser incrível ter amigos assim.
Senti minhas bochechas queimarem quando percebi que eles riam do que tinha acabado de acontecer.
Fiquei aliviada quando vi o grupo andando para a direção oposta à que precisava ir. O mais embaraçoso para mim seria parecer que estava seguindo-o. Juntei tudo o que julgava necessário para os próximos dias, paguei e o plano era voltar para casa.
Mas assim que saí do supermercado eu vi um rapaz quase empurrando uma moça, que claramente não queria ser empurrada, mas parecia estar muito bêbada para conseguir fazer algum movimento contra ele.
Enrolei as sacolas no pulso, fechando o punho e dei passos pesados até se aproximar mais e perceber que era quem tentava se soltar de um cara enorme que não sabia o significado da palavra limite.
Ele segurava a moça com uma mão, e com a outra segurava os cabelos dela, sendo o mais nojento possível, enquanto se debatia para se soltar. Ele nem viu o que o acertou, e não consigo dizer se foi o meu punho ou a sacola de compras primeiro.
Usei uma latinha de conserva que tinha comprado para jogar nele, o assustando e, só assim, conseguindo fazer com que se soltasse dele. Deixei as sacolas de compras e puxei a garota correndo, até chegarmos em casa.
! — não parecia saber o que estava acontecendo. — Você foi a minha heroína! A mulher maravilha. — ela tentou fazer pose, mas não conseguiu.
— Vem , vamos tomar um banho e tirar essas roupas.
me seguiu até o banheiro, onde fez cerimônia para que eu não a visse tirar a roupa. Mas a fez prometer que pelo menos tomaria banho com a porta destrancada, já que se acontecesse alguma coisa no banheiro eu ainda seria capaz de ajudar.
Sentei ao lado de fora da porta enquanto escutava cantarolando feliz alguma música que eu não reconhecia. Não demorou muito para sair com os cabelos molhados caindo pelos ombros, um shorts de pano e uma camiseta larga, sorrindo para mim.
— Provavelmente eu não lembrarei de hoje. — falou enquanto me seguia pelo corredor. — E se eu lembrar, vai ser algo totalmente incrível. Então, bem, muito obrigada. Chris é um babaca.
Chris?
— Meu namorado.
— Eu bati no seu namorado?
— É. — sorriu. — Obrigada por bater nele. E desculpa ter te chamado de mimada. — abriu a porta do quarto, parando pela última vez. —Agora eu preciso dormir. Paz.
fechou a porta do quarto e resolvi fazer o mesmo. Perdi toda a minha compra naquela hora e agora não tinha nem o que comer antes de sair para a primeira aula. Eu iria torcer para minha barriga não roncar até a manhã e comer no refeitório da universidade mesmo.
Joguei as caixas que estavam em cima da minha cama no chão, liguei o rádio deixando na estação alternativa da faculdade, e escutei música enquanto ficava deitada, olhando para a janela e vendo a movimentação.
Pensei em lugar para no mínimo umas quinze vezes, mas minha irmã teve um dia cheio no serviço, e certeza que seria puxado para ela estudar e trabalhar, então resolvi a deixar descansar.
Encostei minha cabeça no travesseiro, deixando a leve melodia da música que tocava acalmar meus pensamentos. Senti meu corpo inteiro relaxar e consegui, depois de dois dias, descansar.




Continua...



Nota da autora:
Olá!
Espero que tenha gostado dessa att <3 Lembrando que eu fiz uma playlist com músicas sobre a fanfic, é só conferir o link do spotify!
Lola






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