Última atualização: 03/01/2018

Capítulo 1

A verdade é que eu tentei escrever essa história em terceira pessoa. Tentei presumir como as pessoas ao meu redor agiriam e o que pensariam de acordo com a minha visão de mundo e com a ideia que eu tenho sobre eles. Mas é muito difícil você querer contar uma história sobre pessoas sem criar e expor a ideia que você tem sobre essas pessoas.
Então vamos conversar, porque isso daqui é quase como uma catarse onde eu exponho todos os meus pensamentos de uma forma entendível, para que, assim, eu me entenda. E talvez você também me entenda. Porque eu preciso me entender.
Mas pra não deixar esse começo chato, vamos começar com o básico que você precisa saber para continuar a ler essa história. E a verdade é que eu não sei nem quando isso começou e eu não faço a menor ideia de quando isso vai terminar. É só uma constante que existe dentro de mim, e,por muito tempo, eu achava que era algo que eu deveria reprimir, e confesso que ainda faço isso hoje, me reprimo e reprimo minhas vontades. E não, não sou alguém depressiva, ou com alguma doença psicológica.
Mas não vou contar que isso começou quando eu ainda era criança. Porque a última coisa que eu pensava quando era criança era sobre isso. Eu pensava em ser astronauta. Ou professora. Ou bailarina. Ou uma fashionista, como a Cruella, mas sem a parte de querer a pele de cento e um dálmatas.
Mas tudo meio que começou a ficar mais evidente para mim quando eu tive que me mudar para fazer faculdade.
Meu quarto estava uma bagunça, com roupas, livros, sapatos, papéis e roupas de cama fazendo com que eu não pudesse ver o chão de madeira do meu quarto. Eu estava sentada em um mínimo espaço da minha cama, olhando para fotos e cartas, com os olhos marejados.
Alguma parte de mim sabia que eu sentiria a falta dali. Sentiria a falta das mesmas pessoas que nunca falaram comigo na escola, e também das pessoas que me olhavam torto. Mas sentiria ainda mais falta de meus melhores amigos, pessoas que passaram os últimos treze anos estudando comigo, fazendo cursos comigo, saindo depois da aula comigo.
Era estranho pensar que eu era a única do grupo que me mudaria de estado para fazer faculdade, mas agora era a minha chance de estudar aquilo que eu mais gostava no mundo sem que recebesse olhares das pessoas me julgando pelo o que eu gosto.
Eu gosto do que eu gosto. E amo gostar disso.
Mas ainda assim um sentimento lá no fundo do meu corpo me dizia que talvez eu não estivesse preparada para uma mudança tão drástica assim. Que eu devesse fazer a faculdade mais próxima e nunca tentar sair de perto da minha cidade. Lá no fundo de mim eu sentia que não iria durar um mês tão longe da minha família.
Pensar em cada lugar que marquei no mapa que devia parar para ter certeza que estávamos na rodovia certa, calcular quanto tempo levaria para chegar até Michigan, e depois como deixaria esse mesmo mapa para que meus pais pudessem voltar para casa em segurança, me deixava cada vez com a sensação maior de que eu estava fazendo algo errado.
? — uma voz conhecida quebrou minha linha de pensamento. — Precisa de ajuda?
Uma garota da minha altura, com o mesmo corte de cabelo mas com uma maquiagem preta que ia desde a sombra até o batom, entrou no meu quarto, se sentando ao meu lado.
Ela se sentou ao meu lado, esperando uma resposta minha, mas nada que eu pensava eu conseguia falar em voz alta. Claro que eu queria ajuda. Eu precisava de ajuda. Eu precisava de alguém segurando a minha mão me falando que eu fiz a escolha certa.
A garota olhou para o chão do meu quarto, torcendo o nariz e levando seu dedo indicador à altura de sua boca, dando pequenas batidinhas enquanto murmurava palavras inaudíveis. Ela pegou uma camiseta minha de quando eu tinha sete anos, com minha personagem favorita de uns quadrinhos italianos que eu amava ler, e, milagrosamente, mesmo eu tendo dezessete anos, agora com peitos razoáveis e outro corpo, ela ainda servia em mim.
— Você não vai levar isso, né? — ela torceu o nariz novamente. — Na real eu nem sei porque você tem isso guardado. É tããão velha.
— Mas eu amo ela. — resmunguei, tomando a camiseta das mãos dela.
— Qualé, você nem fala mais com quem te deu essa camiseta.
— Mas é da Cornélia.
— Isso é pior ainda. — , a garota que se parece comigo, reclamou. — Todos sabem que a melhor é a Hay Lin. — ela sorriu.
Eu odiava quando ela sorria porque era óbvio que éramos gêmeas. Era o mesmo sorriso. Os mesmos dentes tortos, a mesma gengiva saltada, os mesmos caninos que eram pontudos. Éramos tão parecidas que nem me considerava gêmea. Me considerava a cópia mais fiel da minha irmã.
Ela então bateu as palmas das mãos, esfregando-as umas nas outras, sorrindo e pegando ainda mais roupas da pilha que eu tinha formado e que tomava conta de mais da metade do meu quarto.
— Ok. Eu vou te ajudar porque eu te amo. Só por isso mesmo. Não é porque eu, por exemplo, queira muito que você deixe esse vestido preto que eu acho maravilhoso comigo.
— Pode ficar. — eu disse enquanto levantava do colchão. — Eu nem uso mais ele. É todo seu.
Barbra deu um beijo estalado na minha bochecha, correndo para o seu quarto. Eu sei que ela deixou o vestido jogado na pilha de roupas que ela iria lavar no dia seguinte, e em seguida veio saltitando até meu quarto. A última parte eu sei porque ouvi os pulinhos no corredor da casa.
Nós duas sentamos nos lugares que davam do meu quarto, e olhávamos tanto para o meu guarda roupa, que tinha ainda milhares de roupas penduradas, quanto para o chão do meu quarto. Eu ainda não acreditava que teria que encaixotar tudo aquilo.
— É impossível que você não tenha nada aqui que não queria ficar. — ela puxou outra camisa minha, uma rosa com detalhes de renda pretos. — Tem séculos que você não usa essa camisa maravilhosa.
Eu dei de ombros, e logo minha irmã jogou a peça de roupa na caixas de roupas que eu doaria. Que eu sei que ela primeiro daria uma conferida em algumas peças antes de realmente passar a caixa para meus pais levarem à uma igreja ou alguma ong que ajudasse adolescentes necessitados.
E não, eu não sou a pessoa mais altruísta que você já conheceu ou está conhecendo. É só que… são roupas em ótimo estado, que eu não vou mais usar. E eu não quero vender, porque só de pensar no trabalho que vai ser ter que ficar arrumando essas roupas para um brechó eu já desanimo. E eu sei que tem gente que não tem a mesma sorte que eu e que precisa de roupas para poder ir à escola, ou à uma entrevista. E essas roupas poderiam ser dessa pessoa.
— Esse conjuntinho você devia levar. — ela segurava um shorts preto de cintura alta com uma camiseta da mesma estampa. — Você fica maravilhosa nele e vai arrasar corações de homens babacas. Porque nessa você tem que concordar comigo: homens sempre serão babacas.
Eu a abracei forte, e talvez eu tenha a surpreendido com isso. Eu nunca fui uma pessoa de abraços. Ou de contato mesmo. Não me sentia à vontade fazendo isso nem com meus pais ou minha irmã. Mas eu senti que naquele momento eu precisava abraçá-la. Aproveitar enquanto ela ainda estava ali do meu lado.
— Eu vou sentir tanto a sua falta. — choraminguei.
— Eu também. — ela choramingou, jogando mais roupas minhas na caixa de doação. — Quem vai ficar reclamando comigo sobre os novos seriados da Disney enquanto a gente assiste religiosamente aos mesmos episódios todos os dias?
— Quem vai reclamar que o Zac Efron não tem uma voz tão melhor que a do Drew? E mesmo assim assistir High School Musical e Outro Conto da Nova Cinderela?
— A gente realmente gosta desse filme? — torceu seu nariz.
— A gente ama esse filme. — eu bufei. — Eu nem acredito…
— Ei, você vai viver o seu sonho. — ela sorriu. — Estou feliz por isso.
Eu sorri de volta, logo me virando e dobrando os lençóis que estiveram guardados por muito tempo no meu guarda roupa. estava ao meu lado, ainda separando minhas roupas, enquanto cantávamos New Classic, a música que Selena Gomez canta com Drew Sleely em O Outro Conto da Nova Cinderela.
Eu sei que o título desse filme é muito ruim, mas esse filme é maravilhoso e capta muito melhor a essência do conto de fadas do que A Nova Cinderela, com Hillary Duff e Chad Michael Murray.
E não, eu não sou viciada em cinderela. Mas é. vê as três animações da Disney todo mês. Todo final de semana que Barbra não via o namorado ela começava o dia vendo Cinderela, cantando Bibidi bobidi doo, e terminava a tarde com Cinderela 3: Uma Volta no Tempo, cantando que “Cindereli Cindereli, a nossa Cindereli” como os ratinhos faziam, para contar ao príncipe como ele e Cinderela se conheceram e deveriam se casar.
Quem vê a minha irmã, toda de preto, ouvindo screamo o dia todo no mp4, nunca iria imaginar que era a mesma menina que usava uma camiseta da Cinderela feita especialmente para ver esses filmes.
Eu sorri sozinha, fazendo resmungar “Estranha” enquanto continuava o trabalho de selecionar as minhas roupas. estava com uma camiseta toda rasgada, preta. Usava um shorts de couro, também preto, e meia calça arrastão, e eu duvido você acertar a cor. Mas se você pensou em preto, parabéns, você acertou!
— Você vai sair?
A expressão no rosto de se fechou, e ela se moveu até o colchão, afastando as fotos e as cartinhas para não amassar quando sentasse no local. Ela olhou para os pés por alguns segundos antes de olhar para mim.
— Eu ia. — ela deu de ombros. — Mas aí vi seu quarto parecendo que o Taz passou por aqui, e decidi ficar.
Eu só resmunguei e continuei a encaixotar. Eu odiava fazer com que minha irmã mudasse seus planos para ficar comigo, coisa que acontecia mais vezes do que eu gostaria. E mesmo que ela nunca tenha reclamado para mim, ou para ninguém, num geral, eu ainda me sinto péssima por fazê-la desistir de algo por mim.
— Eu fiquei esperando você sair desse quarto contente por ter encaixotado tudo para avisar que hoje também é a festa de despedida do Lucas, e ele queria que você também fosse. Mas você não saia. Então eu decidi te ajudar porque pensei “Poxa, estou muito adiantada, dá tempo de ajudar a e ainda chegaríamos cedo na festa.” Mas então abri a porta do seu quarto e era como se o Caos tivesse passado por aqui.
— Desculpa…
Nah, fazer isso foi muito mais legal do que ter passado tempo com a família do meu namorado choramingando porque ele vai morar a uma hora daqui. — ela então colocou uma das mãos na minha cintura, me puxando para perto e me abraçando novamente. — Eu só poderei te ver nos feriados grandes, e eu sei que você voltará sugada por aquela faculdade. — ela sorriu, mas os olhos delas brilhavam, e eu senti que os meus também. — Eu só… queria passar um tempinho com você antes de você ir embora.
Nós duas nos abraçamos mais forte ainda, o que me fez pensar que talvez eu devesse abraçar mais as pessoas. A sensação era maravilhosa. O abraço da minha irmã era meu porto seguro, e eu não estava acreditando que eu nunca aproveitei o suficiente dele.
— Agora vai logo ver esse namorado antes que ele venha até aqui me matar por estar te segurando. — eu movimentava minhas mãos, numa tentativa de enxotá-la do meu quarto. — Vai que eu sei que ele deve estar contando os segundos para você chegar.
Ela sorriu para mim, demorando para andar até a minha porta. Agora as tábuas de madeira estava a vista, e dava até mesmo para ver a mancha de tinta de parede que me fez ficar de castigo por dois meses.
— Certeza? — ela segurava no batente.
— Vai lá. Manda um abraço pra ele por mim. Divirta-se! — eu dizia, ela já um pouco longe da minha porta. Coloquei a cabeça para fora do quarto e gritei. — Não faça nada que eu faria!
Eu fiquei horas ainda encaixotando e escrevendo sobre o que era o conteúdo das caixas. Ao final da noite eu me sentia uma invasora em meu próprio quarto. Minhas paredes tinham ainda alguns pôsteres dos Jonas Brothers, High School Musical, Nine Inch Nails, que era uma banda que eu gostava muito de ouvir, apesar de fugir da minha curva de amar pop. Além, obviamente de alguns atores e garotos que viviam saindo naquelas revistas para adolescentes.
Mas todo o resto do meu quarto não parecia mais pertencer a mim. Era como se eu fosse uma intrusa na vida dessa pessoa, que estava saindo e dando lugar a uma nova. E eu sei que isso soa confuso, mas era como eu me sentia. Como se uma velha fosse ficar ali, eternamente com dezessete anos, enquanto a nova e melhorada de dezoito voltaria muito mais madura.
Meu estômago fazia barulhos estranhos e me deixava desconfortável para dormir. Nem mesmo água fazia com que ele se acalmasse, me causando náusea. Eu abri a janela do quarto, sentindo a brisa suave das noites de verão entrar em meu quarto e me acalmar. Mas ainda assim era difícil respirar.
Minha cabeça estava a mil, pensando em cada pequeno detalhe que poderia transformar o meu amanhã num inferno. Perder a entrada para Ann Arbor, se perder em qualquer parte da estrada até lá. Não conseguia confiar em mim segurando um mapa, mas era o que tínhamos para o momento.
As horas passavam devagar, e cada minuto meu desespero aumentava. Eu precisava dormir para estar descansada para a viagem mas não conseguia dormir porque ficava pensando que precisava dormir para estar descansada para a viagem. Quando senti que meu corpo desistiu de ficar acordado, ouvi meu celular tocar, me avisando que era hora de partir.


Capítulo 2

Vou te poupar de todo o sofrimento de contar todos os detalhes de como foi a viagem até Ann Arbor. Mas também, eu dormi assim que saímos da cidade e acordei quando estávamos chegando, com minha mãe animada para descobrir onde seria a minha nova casa.
Meu pai também sorria, e os dois discutiam sobre tudo o que poderia acontecer nesse semestre, e que eu viajaria sempre que desse até minha cidade, porque esse era meu dever como filha.
Em nenhum momento eles me falaram para ter cuidado com festas e rapazes. Sei que parte era porque eles tinham muito vergonha de falar sobre esse assunto comigo, mas parte porque a última vez que eu fui em uma festa foi nunca.
É, eu nunca fui a uma festa. Mas também não penso em mudar isso agora que estou na faculdade.
Eu sei que muita gente vê essa transição de escola para faculdade como a hora de se descobrir sozinha. Você finalmente tem um espaço todo seu para cuidar da forma como você mais quer. Você pode se moldar da forma que quiser, porque seus pais não vão mais te falar que você não pode usar um tipo de roupa, ou te proibir de sair com algum tipo de pessoa. Você se sente livre.
Mas eu me sentia assustada.
Quando chegamos ao centro eu percebi que Ann Arbor tinha uma população muito jovem. A cada rua que entrávamos eram mais e mais jovens com carros e pais parados nas frentes de casas abraçando os filhos, se despedindo. Achamos minha casa sem problema algum.
Ela ficava a dez minutos da faculdade e cinco minutos do mercado. Pra mim era um win/win scenario. Perto da faculdade e perto da comida.
Minha mãe estacionou o carro em frente à uma das milhares de casas brancas de quatro andares da rua. Até escada pelo lado de fora tinha, parecendo aqueles prédios pequenos e antigos. Algumas meninas estavam sentadas no jardim e na varanda, conversando, se abraçando, chorando até. Mas ainda via-se pais entrando com caixas e mais caixas.
Nós subimos até o terceiro andar e entramos no meu quarto minúsculo. Assim que eu colocasse todas as caixas, não seria mais possível caber todos nós lá dentro.
— Ah, ! Que quarto lindo! — minha mãe sorria de orelha á orelha. E sabe o sorriso? igualzinho ao meu e de . — Quando nós vamos fazer um tour pelo campus?
— Você tem que tomar cuidado com essa janela. — meu pai dizia, puxando a madeira da janela para cima e para baixo. — É fácil de quebrar isso. E cuidado, você está do lado da escada de emergência.
— Quem sabe o que pode acontecer se você deixar essa janela destrancada. — minha mãe parecia assustada.
— Gente. — eu exclamei. — Primeiro dia aqui. Vamos ficar felizes por um tempo? A mãe vai ter falta de ar daqui a pouco! — eu apontei para minha mãe, que riu junto com meu pai. — Vamos descobrir um lugar pra comer. Estou morrendo de fome. E depois…
— Tour pelo campus! — os dois disseram ao mesmo tempo, felizes.
A verdade é que meus pais demoraram para ter filhos. Eles se conheceram no ensino médio, mas só foram se casar quando meu pai conseguiu um emprego bom, uns três anos depois que minha mãe tinha terminado sua faculdade.
Então eles eram muito felizes em ter duas filhas, e sempre tentaram dar tudo o que nós queríamos. Eu sei que sou um pouco mimada, mas meus pais não faziam a menor ideia de como lidar com duas crianças ao mesmo tempo. Na verdade eles não sabiam muito bem como lidar com filhos, num geral.
Era o sonho deles ter filhos, mas então quando finalmente aconteceu eles ficaram perdidos. Isso porque meus avós maternos moram no Canadá, e meus avós paternos moram na Espanha. Meus pais estavam completamente sozinhos nos Estados Unidos. Eles tiveram que ser pais inexperientes sem apoio. O que resultou em minha irmã e eu.
Mas eles fizeram um bom trabalho. Eu estava indo estudar em uma faculdade enorme, para um curso que me daria uma estabilidade financeira. E já estava trabalhando, e iria fazer uma faculdade no período da noite na cidade.
Nós andamos por aproximadamente uma hora, até que encontramos um restaurante temático, onde várias famílias também estavam almoçando. Comi qualquer coisa que tinha no cardápio, assim como meus pais, e logo estávamos de volta à Universidade de Michigan, para o tão querido tour.
Passamos por todos os lugares que era importante conhecer, vimos todos os pontos que era importante eu saber. Então meus pais resolveram que era hora de ir embora, e me deixar descansar.
, — minha mãe começou. — prometa que você vai fazer amigos neste semestre.
— Mas eu tenho amigos…
— Hm, aquelas pessoas não contam. — ela pressionou os lábios, com uma expressão preocupada. — E nada de se trancar nesse quarto.
Os dois me deram um abraço demorado e desceram para o carro. Eu fiz eles me prometerem que me ligariam assim que chegassem na cidade. E então fiquei sozinha, com o silêncio do meu quarto, colocando tudo em seu devido lugar.
Mas silêncio mesmo era algo impossível de querer. Era o primeiro dia de faculdade, então estava acontecendo várias festas pelas ruas, até mesmo na universidade. A grande maioria dos alunos conversavam e contavam piadas, bebendo e se divertindo.
Comecei a colocar meus livros na estante do quarto novo. Ela não era enorme, mas era o suficiente para colocar todos os livros que eu precisava ler no semestre. Aqueles que eu já estava lendo, graças aos professores muito animados que mandaram uma lista de leitura no período das férias, eu deixei na minha escrivaninha. Mas ainda tinha muita coisa que eu estava com vontade de ler que levei para a UM.
Depois de umas três horas toda a minha mudança tinha sido feita. Quer dizer, o principal estava em seu devido lugar, mas ainda tinha umas coisas que eu teria que tirar, porém a preguiça falava muito mais alto.
Nessa casa, apartamento, sei lá como te explicar, nós dividíamos um banheiro por andar, uma sala de estar, uma sala de jantar e uma cozinha. Todas nós deveríamos cuidar do jardim e do quintal. Além de termos uma chave para a porta principal, apesar de que ela sempre ficava destrancada.
Desci para ver se poderia comer algo, ou teria que fazer compras. A nossa geladeira era grande até, afinal, estávamos em oito mulheres, então mesmo que todo mundo fizesse compras semanalmente, teríamos muita comida para guardar. E não é que não tivesse nada, mas toda comida e bebida que tinha estava com uma etiqueta e com o nome de uma das moradoras. Eu suspirei, derrotada. A fila no mercado estaria enorme hoje.
— Olá. — uma garota morena apareceu atrás de mim. — Sua primeira mudança?
— E, de longe, a mais difícil.— eu sorri e estendi minha mão. — .
A garota ignorou minha mão e me abraçou, dando um beijo em cada lado do meu rosto. O perfume dela era doce e muito forte, me fazendo segurar um espirro, enquanto ela voltava a ficar de frente para mim.
. — ela sorriu. — E em qual andar você ficou?
— Terceiro. — fiz uma careta.
— Mentira! — ela bateu palmas. — Eu também! Não acredito que seremos vizinhas de quarto! — e então seu tom ficou mais sério. — Se você fizer muito barulho de noite eu te mato!
se distanciou, indo ao encontro de um grupo de meninas vestidas com camisetas azul marinho e alguns dizeres sobre a universidade em cinza. Eu observei elas se afastarem, como se cada uma delas estrelasse o próprio filme adolescentes de ensino médio, bem ao estilo de Meninas Malvadas.
Eu até conseguia ouvir me dizendo “Nas terças usamos azul marinho.” e me passando uma camiseta da faculdade, escrita “ Go Blue! para que eu fosse às eliminatórias do time de futebol americano.
Fun Fact: o time de futebol americano da Universidade de Michigan era um dos times mais fortes, que chegou a ganhar o campeonato diversas vezes. E as pessoas realmente saíam com o rosto todo azul para assistir aos jogos e gritar a cada jogada.
Subi para o meu quarto, pensando seriamente se minha fome iria valer o esforço de ir até o mercado e fazer compras. Porque na manhã do dia seguinte era óbvio que eu estaria morrendo de fome e precisaria tomar café da manhã antes de ir para a aula e eu teria vários nada para comer.
Bufei, peguei minha chave e desci as escadas pela décima terceira vez naquele dia. Até a metade do ano eu teria emagrecido de tanto fazer exercício físico. Não que as escadas fossem enormes e demoradas, mas ainda assim é um exercício.
Algumas meninas estavam assistindo televisão enquanto contavam como tinham passado as férias. Umas tinham marcas de biquinis, outras mostravam álbuns de fotografias, ou estavam montando os álbuns com as amigas, contando as histórias de cada um daqueles momentos.
Uma delas levantou sorrindo, se aproximando de mim. Ela era um pouco mais alta e dava para perceber que ela tingia o cabelo de um loiro mais dourado.
, certo? — ela sorriu. — Eu sou a Julia. Nós não somos uma irmandade, nem nada do tipo, mas eu só queria dizer que se você precisar de ajuda é só me avisar. Eu estou no quarto andar agora. Qualquer coisa é só chamar. — Julia estendeu a mão para mim. — Ah, sim, não pense que irá me incomodar se tiver alguma dúvida de como funciona essa primeira semana.
— Obrigada. — Julia deu um passo em direção à sala, mas eu continuei. — Na verdade, onde que tem um mercadinho aqui por perto?
Julia me explicou quase onde ficava tudo. Por ser perto da faculdade, até um hospital comunitário tinha, e deveria estar lotado de jovens bêbados, já que o jogo estava para acabar. Era muito estranho saber que eu tinha tudo isso perto de mim. O centro era perto, a faculdade era perto, as festas eram próximas.
Coloquei meu Nokia azul no bolso e andei por dois quarteirões, seguindo todos os passos que Julia tinha me explicado. E o mercadinho não era tão pequeno quanto eu tinha imaginado. Na verdade, ele era um supermercado e tinha os mais variados produtos que você pode imaginar.
Vários grupos de universitários estavam fazendo compras, rindo alto e conversando, colocando ainda as conversas em dia. Uma coisa que minha geração tem é esse fascínio pelas mensagens de texto, mas ainda assim era difícil para manter um contato com as pessoas.
E e-mail é algo muito impessoal, porém óbvio que eu usava para conversar com as pessoas que não moravam mais próximas à mim. Carta já era algo muito antigo e demorado. Então esse momento era o momento que todo mundo falaria mais do que gosta, para contar todas as histórias de tudo o que fizeram nas férias. De todos as pessoas com quem ficaram, festas que foram, livros que leram, filmes que viram. Você entendeu.
Dentre vários grupos, me peguei prestando atenção num grupo de rapazes que pareciam estar fazendo as compras do mês. E não, não era porque eles eram bonitos. Até tinham uns que eu confesso que achei bonitos, mas eles pareciam radiantes, mesmo escolhendo carne, contando piadas uns para os outros.
O mais alto deles arqueava as sobrancelhas enquanto o segundo mais alto gesticulava explosões. Os outros rapazes riam muito da história, e Sam não conseguiu segurar o riso. Quando percebi que ria sozinha resolveu voltei ao que estava procurando, sendo hipnotizada por produtos que pareciam agredir menos o meio ambiente, e, principalmente, não possuem lactose.
Não que eu fosse intolerante à lactose, mas eu passava bem menos mal quando consumia esses produtos do que quando consumia leite comum ou desnatado. E me virei tão abruptamente que não percebi que tinha alguém ao meu lado, praticamente jogando a pessoa no chão.
— Desculpe! — falei, enquanto ajudava o rapaz de camisa xadrez a se levantar.
— Caraca, você não parecia ser tão forte assim. — ele riu. — Cuidado pra não machucar mais ninguém. — ele sorriu.
Ele pegara novamente o que precisava e voltou para o grupo que antes eu estava observando. Não foi por mal que me peguei olhando para eles, mas parecia ser incrível ter amigos assim.
Senti minhas bochechas queimarem quando percebi que eles riam do que tinha acabado de acontecer.
Fiquei aliviada quando vi o grupo andando para a direção oposta à que precisava ir. O mais embaraçoso para mim seria parecer que estava seguindo-o. Juntei tudo o que julgava necessário para os próximos dias, paguei e o plano era voltar para casa.
Mas assim que saí do supermercado eu vi um rapaz quase empurrando uma moça, que claramente não queria ser empurrada, mas parecia estar muito bêbada para conseguir fazer algum movimento contra ele.
Enrolei as sacolas no pulso, fechando o punho e dei passos pesados até se aproximar mais e perceber que era quem tentava se soltar de um cara enorme que não sabia o significado da palavra limite.
Ele segurava a moça com uma mão, e com a outra segurava os cabelos dela, sendo o mais nojento possível, enquanto se debatia para se soltar. Ele nem viu o que o acertou, e não consigo dizer se foi o meu punho ou a sacola de compras primeiro.
Usei uma latinha de conserva que tinha comprado para jogar nele, o assustando e, só assim, conseguindo fazer com que se soltasse dele. Deixei as sacolas de compras e puxei a garota correndo, até chegarmos em casa.
! — não parecia saber o que estava acontecendo. — Você foi a minha heroína! A mulher maravilha. — ela tentou fazer pose, mas não conseguiu.
— Vem , vamos tomar um banho e tirar essas roupas.
me seguiu até o banheiro, onde fez cerimônia para que eu não a visse tirar a roupa. Mas a fez prometer que pelo menos tomaria banho com a porta destrancada, já que se acontecesse alguma coisa no banheiro eu ainda seria capaz de ajudar.
Sentei ao lado de fora da porta enquanto escutava cantarolando feliz alguma música que eu não reconhecia. Não demorou muito para sair com os cabelos molhados caindo pelos ombros, um shorts de pano e uma camiseta larga, sorrindo para mim.
— Provavelmente eu não lembrarei de hoje. — falou enquanto me seguia pelo corredor. — E se eu lembrar, vai ser algo totalmente incrível. Então, bem, muito obrigada. Chris é um babaca.
Chris?
— Meu namorado.
— Eu bati no seu namorado?
— É. — sorriu. — Obrigada por bater nele. E desculpa ter te chamado de mimada. — abriu a porta do quarto, parando pela última vez. —Agora eu preciso dormir. Paz.
fechou a porta do quarto e resolvi fazer o mesmo. Perdi toda a minha compra naquela hora e agora não tinha nem o que comer antes de sair para a primeira aula. Eu iria torcer para minha barriga não roncar até a manhã e comer no refeitório da universidade mesmo.
Joguei as caixas que estavam em cima da minha cama no chão, liguei o rádio deixando na estação alternativa da faculdade, e escutei música enquanto ficava deitada, olhando para a janela e vendo a movimentação.
Pensei em lugar para no mínimo umas quinze vezes, mas minha irmã teve um dia cheio no serviço, e certeza que seria puxado para ela estudar e trabalhar, então resolvi a deixar descansar.
Encostei minha cabeça no travesseiro, deixando a leve melodia da música que tocava acalmar meus pensamentos. Senti meu corpo inteiro relaxar e consegui, depois de dois dias, descansar.


Capítulo 3

Meu Nokia azul não parava de apitar, e mesmo que eu jogasse ele contra a parede ele não pararia de tocar. Era muito mais provável que eu quebrasse a parede do meu quarto jogando o celular do que quebrar o celular. Então me coloquei de pé, mas não demorou três segundos para eu ouvir alguém batendo em minha porta.
— Bom dia, Roomie .
colocou só a cabeça para dentro do meu quarto, sorrindo. Ela já estava de roupa trocada e maquiada. Ela não parecia nem um pouco alterada ou de ressaca, mesmo que ela tenha demorado uma eternidade para dormir, julgando pelo barulho que veio do quarto durante a noite.
— Só existe uma tradição nesta casa. — disse, ficando séria. — Todo primeiro dia de aula, todas tomamos café da manhã juntas. Então troca de roupa logo pra gente descer e encontrar com as outras meninas.
Eu resmunguei alguma coisa enquanto ela fechava a porta do quarto. Peguei uma camiseta e vesti minha calça jeans favorita. Separei tudo o que precisava levar para a primeira aula e saí do quarto três minutos depois que tinha fechado a porta.
— Credo, que rápida. — ela disse assustada.
— Bem, quando se tem cinco irmãos você aprende que se não se arrumar rápido você perde a chance de usar o banheiro primeiro. E de tomar café da manhã. — eu sorri, começando a descer as escadas.
— Como assim você tem cinco irmãos? — ela estava de boca aberta e eu me segurava para rir. — Pelo o que eu vi ontem eu achei que você era aquela garota filha única mimada padrão que vem pra faculdade.
— Ah, é? — perguntei em um muxoxo. — Bem, na verdade eu só tenho mais uma irmã.
— Agora a vida voltou a fazer sentido. — riu. — Eu tenho uma família enorme, nem vale a pena te contar tudo. Mas tenho mais dois irmãos consanguíneos, três por parte de pai e quatro por parte da minha mãe. — eu exclamei, surpresa. — Te falei, família enormeee.
O cheiro de café que vinha da cozinha fez o meu estômago revirar de alegria. Me senti vazia, principalmente ao olhar para a mesa na sala de jantar cheia de pães, bolos, salgados assados, café, leite, chá, suco de laranja.
Duas garotas, uma de cabelos castanho bem claro, que usava um vestido delicado e ficava ainda mais delicada com o corte de cabelo que os faziam cair pelos seus ombros como uma cachoeira, e uma de cabelos ruivos, com vestes mais casuais como a minha, se sentaram na nossa frente, e não paravam de comentar sobre qualquer assunto que nem nem eu conseguimos entender.
Elas sorriram para nós, fazendo o café da manhã perfeito, enquanto ainda estavam nessa grande discussão que eu desisti de ouvir. As outras meninas falavam sobre casualidades, como a noite de sono, ou como o céu estava lindo, ou como estavam animadas para o novo semestre.
A gente ficou uns vinte minutos conversando e comendo, se conhecendo e trocando poucas histórias, até que deu o horário da primeira aula do dia e eu tive que sair correndo para o campus, junto com mais uma garota, que estava no último ano do curso.
E se você quer saber, as aulas foram um saco. Os professores falaram sobre várias coisas que estava literalmente na internet e era só você acessar o site da faculdade que você leria o mesmo texto que todos eles citaram. E nem era necessário ser aluno da universidade. Então vou poupar seu sofrimento de me ouvir falando como essas horas passaram. Eu só queria dizer que foi muito lentamente.
Já era fim de tarde quando eu voltei para o alojamento, joguei minha bolsa no chão do quarto e deitei na minha cama, felizmente ganhando minha paz. Mandei uma mensagem para Barbra, perguntando se estava tudo bem com ela e o que ela estava achando desse tempo que já estivemos longe. Mas não recebi resposta alguma.
Liguei a rádio alternativa, deixando o jazz dominar o espaço que antes abrigava o silêncio. Eu não queria ler nada, não queria responder os e-mais que eu precisava responder. Eu só queria ficar deitada e apreciar a melodia que me acalmava.
Ouvi alguém bater na minha porta e logo em seguida ela foi aberta, com toda sorridente, parada, olhando diretamente para mim.
— Primeiro dia e você já está querendo dormir? — ela conferiu o relógio de pulso dela. — São cinco da tarde.
Eu apenas resmunguei, e fiz um sinal para que ela entrasse no quarto. Esse pouco tempo, ela ficou parada na porta, como se não soubesse se poderia entrar ou não. Típico comportamento de um vampiro.
— Chris me conta que tem um grupo de estudantes de teatro que faz uns musicais muito bons. — ela comentou, puxando a cadeira da minha escrivaninha para se sentar. — E eles estão com um musical novo, uma paródia de Senhor dos Anéis. Você gosta né?
— Um pouco.
— Ótimo. — ela riu. — Ainda podemos ser amigas. Então, acontece que hoje vai ter uma pequena apresentação deles. Mas não é sobre LOTR. Você quer vir?
— Eu tenho escolha? — eu ri, me levantando e me arrastando até meu guarda roupas.
— Não. — ela sorriu para mim. — Te prometo que será legal.
— Você sabe que quando as pessoas falam isso, acaba não sendo tão legal assim. — eu olhei para ela mostrando a língua, enquanto ela me respondia, batendo os pés no chão. — Ok! Me dê alguns minutos pra eu me arrumar e tirar essa cara de cansada do rosto.
bateu palmas, saindo do meu quarto e fechando a porta. Nem tinha feito um dia que nós nos conhecemos e já estávamos muito próximas. Era até bizarro pensar que eu tinha criado um vínculo muito forte com uma pessoa em menos de vinte e quatro horas. A vida é doida.
Eu me arrumei e saí do quarto. Era só colocar uma camiseta que não fosse tão antiga, passar um pouco de corretivo para tentar disfarçar minha cara de sono e eu estava mais do que pronta para irmos.
Quando nós duas chegamos na sala, várias meninas estavam sentadas no sofá, todas arrumadas e conversando animadamente. Júlia veio na nossa direção, sorrindo. Eu achei que logo no primeiro dia já seria punida e descobriria o que seria esse trote de faculdade que todos falavam.
— Vocês já vão sair? — O sorriso sumiu de seu rosto. — Eu ia convidar vocês a ir conosco pro teatro. Um grupo de amigos meus vai apresentar….
— Ah, vocês vão pra lá também? A tá falando desse grupo já tem uns vinte minutos. — eu ri, fazendo Julia rir.
— Imaginei que ela estaria falando. Mas achei que ela não fosse. Sabe como é, né? O Chris é meio chato com essas coisas.
Eu balancei minha cabeça para os lados, negando. Eu nem tinha sido formalmente apresentada para Chris, e o pouco que conheci já me fazia crer que ele não era a melhor pessoa.
Fiz uma careta, e Julia me acompanhou. Talvez ele realmente não fosse uma pessoa muito boa.
— Você conhece o Chris? — perguntei bem baixo, enquanto estava afastada, conversando com outras meninas.
— Bem, não posso dizer que felizmente ele é amigo dos meus amigos. Mas ele é amigo dos meus amigos. — ela deu de ombros. — Vamos? Eu preciso chegar lá antes, pra ajudar as pessoas a organizar as filas.
Concordei com a cabeça, e então todas nós começamos a caminhar por uma parte que eu ainda não tinha visto.
Devo dizer que Ann Arbor é uma cidade pequena, mas como cidade universitária ela é ridiculamente enorme. A gente passou por uns três prédios da faculdade até chegar onde estava acontecendo o teatro.
Durante toda a caminhada contou como foi a experiência de visitar a Universidade de Michigan para ver o namorado, e o quanto ela já tinha visto o musical de Senhor do Anéis. Ela sabia todas as músicas, e cantou a música de abertura. Nós a aplaudimos, enquanto Julia reclamava que não aguentava mais ter que ouvir aquela música.


Capítulo 4

A fila podia ser vista de longe, o que parecia ser um bom sinal. Pelo tanto que falava, era bom saber que eles tinham um reconhecimento assim pelos próprios alunos da faculdade. Quando se gosta da parte artística da escola você sempre acaba sendo alvo de algumas piadas muito sem graças.
Nós passamos por todos esses alunos, que reclamavam sobre nós sermos preferência e estarmos furando fila. Algumas das meninas mostraram a língua, outras riram, mas eu não sabia como reagir. Encolhi meus ombros e abaixei a cabeça, torcendo para que ninguém gravasse meu rosto e depois ficasse de marcação comigo.
Entramos no camarim, e milhares de pessoas trocavam de roupas, colocando suas fantasias, maquiagens e sprays de cabelo. O ar estava muito quente, e quase não dava para ninguém ficar parado por ali.
logo encontrou Chris e foi para perto dele, enquanto as meninas se espalharam, algumas já indo para o auditório enquanto Julia parecia gritar com todos os atores para se arrumarem logo pois não poderiam atrasar.
Eu me senti sufocada ali. Eram muitas pessoas, muito barulho, muito cheiro diferente. Todos andavam de um lado para o outro, fazendo caretas, tirando fotos, gravando um pequeno vídeo. E cada vez que eu tentava respirar o ar parecia ficar mais pesado. Julia me seugrou pelo braço, me perguntando, sem precisar falar, se eu estava bem .
— Acho que eu vou ficar lá fora.
Eu tentei falar alto, mas duvido que consegui. Ela acenou para mim, e assim que saí daquele camarim já senti um ar mais gelado e limpo. Respirei fundo, antes de continuar andando até uns sofás no hall.
Tirei meu celular do bolso e enviei uma mensagem para , dizendo que, por algum milagre, eu tinha saído e não tinha arrumado uma desculpa para voltar para casa ainda. Mas ela deveria estar estudando, então nem esperei uma resposta dela.
Resolvi passar o tempo jogando o famoso jogo da cobrinha. Era realmente engraçado como eu ficava entretida jogando aquele jogo, tentando bater meu próprio recorde do celular. Então nem percebi que alguém sentou ao meu lado. Só quando pigarrearam.
— Acho que não fomos apresentados. — o rapaz sorriu, mesmo usando três quilos de pano só na cabeça, uma camiseta e uma calça social. Estávamos no final no verão. — Sou .
Ele me olhava, esperando alguma reação minha. Parecia muito animado, pois não parava de mexer uma perna, como se fosse um tique nervoso, ou estivesse tendo um derrame.
. — eu disse, voltando a olhar para o meu celular. — Me desculpe por ontem.
— O que mesmo aconteceu ontem?
O sorriso dele era tímido. Os dentes não era totalmente alinhados, mas eram tão brancos que não tinha como não perceber. A testa dele brilhava, um pouco por causa do suor, mas grande parte por causa da maquiagem que tinha passado no rosto. Algumas pessoas fantasiadas como ele passaram correndo, e ele se levantou.
— Espero que você entre logo. Seria uma pena perder uma apresentação tão legal.
Ele piscou para mim e saiu correndo atrás dos colegas. Eu voltei a olhar para o meu celular, vendo um ”perdeu” escrito na tela. Guardei ele no bolso e me pus em pé, me movendo rapidamente para dentro do auditório, esperando que lá não estivesse como no camarim.

***


Assim que a peça acabou Julia nos levou para um grande meeting com seus amigos. Se antes eu tinha visto aquelas pessoas colocando suas fantasias, agora era a hora que eles estavam se desmontando, agradecendo por tudo ter dado certo na primeira apresentação do semestre.
Eu estava encostada em uma parede, observando conversando muito animada com os atores. Ainda me sentia sufocada, mas menos do que a primeira vez que estive lá. Julia ria da minha amiga, que parecia uma criança em uma loja de doces, maravilhada com tudo aquilo.
Ouvi alguém parando do meu lado, encostando na parede junto comigo, mas não queria perder a chance de observar os olhos de brilhando com tudo o que estava acontecendo ali.
— Você não cansa? — perguntei, achando que era , mas dois segundos depois que comecei a pergunta eu o vi do outro lado do salão. — Olá! — eu sorri, enquanto me virava para a nova pessoa.
— Você tá bem? — ele me perguntou. Seu rosto tinham manchas de tinta branca. — Você não parece bem. — ele olhou para mim por mais dois segundos. — Mas, bem, é muito cansativo. Tudo isso. — e apontou para as pessoas. — Mas a gente gosta. — ele sorriu, e o rosto dele ficou iluminado. — A magia do teatro. — ele gesticulou um arco-íris. — Você está bem mesmo?
Eu confirmei com a cabeça, aceitando um pouco da água que ele tinha acabado de me oferecer. Ele me observou tomar um pouco da água, e quando agradeci ele sorriu novamente para mim. De orelha à orelha.
— Bem, se precisar de qualquer coisa, eu sou o .— ele continuou sorrindo, parecendo uma pessoa boba. — É só me procurar. — ele então começou a andar. — Me procure. — e piscou para mim.
Ele foi para perto de algumas pessoas, e minha atenção voltou a ser especialmente para Julia, já que tinha sumido da minha visão. Provavelmente estaria dando uns amassos com Chris em algum lugar. Mas depois de vários minutos de Julia gritando para os amigos deixarem tudo em ordem, Laura apareceu do meu lado, me puxando pelo braço.
— Nós vamos no Le Corner. — ela se enganchou em mim. — Então eu vim logo te chamar porque não vai demorar muito pra fechar lá.
Le Corner era uma cafeteria próxima à faculdade, em um estilo parisiense. Era muito frequentado pelos alunos, mas normalmente as pessoas preferiam lugares mais agitados e com bebidas. Ali as únicas opções seriam café ou chá.
A local tinha a fachada toda de tijolos vermelhos à vista, com mesas para fora, onde alguns grupos ocupavam as mesas com seus notebooks enormes e xícaras diferentes de café. A decoração me deixava um pouco incomodada, com luzes de natal brancas penduradas por toda a parede, junto com fotografias em preto e branco.
O balcão era limpo e claro, e mostrava uma variação absurda do que elas poderiam pedir para comer. Todas as pessoas se dividiram, ocupando praticamente todas as mesas que estavam disponíveis. Fiquei com dó dos atendentes, já que faltava tão pouco para o expediente deles acabar e agora chega uma leva de clientes.
— Bonito aqui, não é? — sorria enquanto bebericava seu café. — E bem quando eu achava que poderia ficar divertido… — segui seu olhar e encontrei Chris entrando na cafeteria e acenando para a namorada, abrindo passagem entre as pessoas para chegar até as duas. — Oi amor.
Eles deram um selinho, e então ele se sentou ao lado dela, passando um braço por cima de seu ombro, pegando o café de sua mão e bebericando também. Nós três ficamos em silêncio, ouvindo mais as conversas dos outros do que a própria conversa que montávamos em nossa mente.
— Olá! — puxou a cadeira, sentando ao seu lado. — Melhorou?
— Um pouco. — eu voltei a olhar para a minha xícara de chá.
— Espera um pouco. — Chris parecia rir de deboche. — Então vocês se conhecem? Como isso aconteceu?
Ele nos olhava como se estivesse criando milhares de teorias absurdas e estúpidas. Eu sentia como se ele estivesse tentando decifrar minha alma, e, assim, me julgando, sem ao menos ter trocado alguma palavra comigo.
pareceu ainda mais incomodado, olhando feio para o amigo, pigarreando.
—Vão jogar no sábado, Chris? — até mesmo em sua voz dava para notar o incômodo, mas Chris deve ter fingido que não percebeu. — Todos estão ansiosos para o primeiro jogo oficial dos Blues.
Chris sorriu para ele, então levantou subitamente, puxando para se levantar também, mas sem conseguir nada além de assustá-la. Ele estufou o peito, como se estivesse fazendo pose para Joe e eu. Só que, no máximo, ele pareceu estar incomodado com o comentário de Joe.
— Acho que já está na hora de ir. Não é mesmo, ?
Ela apenas concordou com a cabeça, deixando a xícara na mesa que estava na minha frente, olhando para mim com uma careta que no mínimo dizia desespero. Eu não consegui fazer nada além de observar os dois saindo, fazendo o mesmo caminho que ele tinha acabado de fazer.
— Como você consegue? — eu suspirei, enquanto claramente se mostrava desentendido do que eu estava falando. — Ser amigo dele.
— Do Chris? Mas ele é um ótimo cara.
— Mesmo?
, você nem conhece ele. — se ajeitou no sofá. — Chris é uma das melhores pessoas que eu já conheci.
— Se ele é uma das melhores pessoas, imagina uma das piores… — eu ri de deboche, recebendo uma careta como resposta.
— Bem, digamos que você é uma delas. — ele piscou para mim, sorrindo. Mas então ficou sério, me olhando nos olhos. — Aconteceu alguma coisa?
Desviei o olhar. Falar sobre os outros, sobre o relacionamento dos outros, é algo que constantemente ouvimos que não devemos fazer. “Não meter a colher em briga de marido e mulher”, mas mostrava claramente que alguma coisa acontecia entre Chris e ela. E não era coisas legais de namorados fazem com namoradas.
Eu tinha a impressão de que ninguém via Chris da mesma forma que eu o via. Todos tinham essa visão de que ele era uma boa pessoa, mas pessoas boas não deixam marcas no corpo de outras pessoas.
Sem contar que eu tinha acabado de conhecer Joe. Ele provavelmente não aceitaria o que quer que eu fosse falar sobre uma pessoa que eu só conheço por alguns dias.
? — a voz dele era preocupada. — Aconteceu alguma coisa?
— Ele estava forçando a . — engoli seco. — Segurando os braços e puxando o cabelo dela enquanto ela estava completamente bêbada. E eu sei que não tenho nada a ver com isso, a relação é deles! Mas ele estava machucando ela.
— Espera, você tem certeza disso?
Eu senti meu sangue subir, fazendo meu rosto queimar. Meus olhos começaram a arder também, mas decidi ignorar os sinais que meu corpo me dava para mostrar que eu estava nervosa. E chateada.
Não porque ninguém acreditaria em mim, mas porque ninguém via como aquilo estava errado. Como eles pareciam fechar os olhos para o que realmente estava acontecendo porque se recusava a falar algo.
Ou talvez eu tinha lido todos os sinais errados, e Chris era uma boa pessoa. Não era possível que só eu achasse o rapaz uma pessoa ruim. E se a maioria achava que ele era bom, eu provavelmente tinha entendido tudo errado.
— Quer saber? — disse. — Esquece que eu falei isso. — e bebi o resto do meu café. — Acho que estou paranoica. Desculpa, .
Eu sorri, deixando minha xícara onde estava e me enfiando entre as pessoas até conseguir encontrar a saída daquela cafeteria lotadíssima.
Eu senti meus olhos arderem ainda mais, e deixei que algumas lágrimas esquentassem meu rosto enquanto eu voltava à pé para casa.


Capítulo 5

Talvez, e só talvez, eu tenha entendido tudo errado. Chris era uma boa pessoa, já tinha feito tanto por . Quer dizer, só ouvi falar sobre as coisas maravilhosas que ele fez para ela.
Mas ele foi tão intrusivo e mandão no Le Corner, e no último dia de férias ainda teve todo aquele incidente. Talvez não fosse nada do que eu tinha imaginado. Foi só um dia ruim. Talvez eu ainda não tivesse conhecido o lado bom dele.
O que mais me machucava não era isso. Isso machucava , mas ela não falava para ninguém. O que me chateou foi terem duvidado de mim. Como se eu fosse mentir sobre um assunto como esse, ou que eu tivesse a coragem de criar um boato sobre uma pessoa que nem me conhecia direito.
A parte boa era que as ruas eram bem iluminadas, mesmo nesse horário, e não me senti tão amedrontada em ter que caminhar sozinha até o dormitório. O céu escuro era como o plano de fundo para pequenas luzes que flutuavam nele, tentando animá-lo. Era um pouco reconfortante, mesmo que eu estivesse me sentindo o oposto de tudo isso.
Abri a porta principal esperando encontrar a grande maioria das meninas, mas ninguém estava lá. O silêncio simplesmente me dominou e me forçou a tomar um banho e ir dormir.
Quando acordei resolvi checar se tinha dormido aqui. Me arrastei até a porta dela e tentei abrí-la, achando que encontraria alguma dificuldade, mas consegui abrir tão facilmente que quase caí no chão do quarto dela.
E tudo parecia exatamente como o meu quarto, mas tire os muitos livros e papéis que ficavam de decoração, aqui eram várias fórmulas diferentes que parecia não querer esquecer. Eram coisas muito confusas, que eu não entendia muito bem, mas pareciam bem a cara da .
Na estante dela tinham várias fotos de Chris e ela, sorrindo para a câmera. O sorriso de Chris era tão branco que parecia refletir, e não posso deixar de negar que ele é um cara bonito sim, mas eu ainda me sentia muito incomodada perto dele.
Deixei tudo no lugar que estava e resolvi me arrumar e ir para as minhas aulas. O máximo que aconteceu foi que dormiu com Chris e foi direto para as aulas dela, sem passar no dormitório. Então o melhor a fazer é o mesmo.
Arrumei meu cabelo para não ficar incomodada com ele enquanto arrumava minhas coisas e comecei a montar minha agenda semanal, com o que cada um dos professores passou para a próxima aula, quais textos deveriam ser lidos primeiro e quais horários eram as minhas aulas.
Esse era o lado bom de ter acostumado a acordar ridiculamente cedo em qualquer ocasião: eu preenchia meu tempo com esse tipo de atividade. Mas me organizar era algo que me ajudava muito a poupar meu tempo de estudo e otimizá-lo também.
De tempos em tempos eu olhava pela minha porta, pela primeira vez aberta desde que cheguei, esperando pelo momento que Laura subisse a escada e eu tivesse a chance de ver que ela estava bem. Algo me dizia que eu não devia me preocupar, mas eu sentia aquela pulga atrás da minha orelha falando que ”talvez não esteja bem.”
Ainda bem que nessa semana minha manhã estava livre, então eu tinha mais tempo para poder me organizar e organizar meus pensamentos. Eu podia me deixar distraída por e por toda a situação, ainda estávamos no começo do semestre, então não tinha muito com o que me preocupar.
Dava para ouvir os murmúrios entre as outras meninas do dormitório, num volume que faziam parecer que estavam falando de propósito para que as outras pessoas ouvissem. Mas eram trivialidades tão sem graça que resolvi voltar a escrever minha rotina semanal.
Óbviamente que chegaria o momento em que eu sentiria sede e fome, então desci até a cozinha, abrindo a enorme geladeira branca e pegando a jarra de água, enchendo minha garrafa e mais um copo.
Em frente à geladeira colocaram um quadro com as tarefas da casa e quem deveria fazer o que, assim como um bloco de notas com os celulares de todas as moradoras. Na hora meu rosto brilhou e quando vi já estava com o celular encostado na orelha escutando os tons de chamada.
não atendeu na primeira, nem na segunda, e ainda na terceira vez. Julguei que ela estava em aula e que retornaria para o meu número quando pudesse. E talvez ela tivesse perdido o celular. Vai saber.
? — uma voz familiar tirou minha atenção da telinha do meu celular. A moça sorria pra mim. — Será que eu posso falar com você por um minuto?
Apenas concordei com a cabeça e subi as escadas atrás dela, sem pensar muito no que Julia deveria querer falar comigo. Eu devo ter esquecido de fazer alguma coisa na casa. Era alguma coisa simples, certeza.
— Bem, existe uma tradição nesse dormitório que é que a pessoa mais nova a entrar na casa deve ajudar a pessoa mais velha. Esse é um dos momentos que eu gosto de falar que sou mais velha. — ela riu. — Mas você é a mais nova, e eu sempre recruto alguém pra me ajudar com os projetos da faculdade. Pelo lado bom, você nunca vai precisar entrar em algo idiota só para ter pontos de projetos. Pelo lado ruim, você vira uma secretária.
— Bem, e não tenho como fugir, né? — eu ri, mas no fundo eu queria mesmo fugir disso. A última coisa que eu queria era mais responsabilidade.
— Não. — ela respondeu sorrindo. — E eu já tenho um trabalho pra você. Eu tive o cuidado de olhar quais eram as suas eletivas desse semestre e montei um calendário especial para você com suas aulas e os dias de ensaio. — ela me entregou um caderninho de capa dura preta, que julguei ser a agenda. Logo em seguida ela tirou cabides do guarda roupa dela e me entregou. — A primeira tarefa sua é ir até esse dormitório entregar essa roupa para os atores. ‘Té mais.
Julia me empurrou para fora do quarto, fechando a porta logo em seguida. Eu não conseguia acreditar que num intervalo de quinze minutos eu tinha arrumado ainda mais coisa pra minha cabeça.
Quando as pessoas falam pra você que faculdade é ótimo porque você foca naquilo que realmente quer aprender, elas esquecem de te falar o quão difícil é você conseguir acompanhar a toda uma nova rotina completamente diferente da que você tinha no Ensino Médio.
O que me restava a fazer era olhar o endereço que Julia tinha me passado e andar até lá com esse monte de fantasia. A grande sorte era que era algo para ocupar a minha cabeça enquanto eu me desesperava por não ter uma resposta de . Talvez eu esteja paranóica.
Olhei o endereço no papel e resolvi ir logo para o dormitório. Não tinha muito o que fazer em um dia dedicado a ler tediosas e mais tediosas teorias que serão refutadas por todos os professores em sala de aula.
Foi a primeira vez que eu parei para prestar a atenção no dia maravilhoso que Ann Arbor estava me proporcionando. O céu estava num azul lindo e o sol brilhava forte, fazendo com que a minha pele ardesse um pouco, mas nada que me fizesse querer sair debaixo dele. A brisa era suave e tudo parecia tão convidativo para ficar sentada em um parque lendo que até cogitei voltar e fazer isso mesmo.
O dormitório era no final da rua. Tinha a mesma estrutura que o nosso, com a porta enorme e a fachada pintada de branco, uma garagem com três carros, a mesma quantidade de quartos e andares que o nosso. Mas no quintal já dava para encontrar bolas de futebol americano, baseball e algumas tralhas espalhadas.
A entrada do dormitório parecia estar dominada por trapos de roupas que foram esquecidas já tinha um bom tempo. Até mesmo a campainha não parecia funcionar e os moradores faziam um barulho absurdo. Duvido que tenham me ouvido.
Toquei mais duas vezes e ouvi um movimento na janela. Alguns segundos depois a porta se abriu e se virou para a escada, antes de sorrir para mim.
— Falei que a campainha tinha tocado! — ele gritou para a escada, enquanto segurava o meu braço e me puxava para dentro. — Oi !
Mesmo que eu tivesse total domínio sobre o meu corpo eu não conseguiria não corar com Joe falando comigo daquele modo. Lembrando que eu sou a pessoa que tem zero habilidades para romance e que nunca tinha namorado, eu me senti minúscula e com muita vergonha só de um oi.
Depois eu me pergunto por que eu nunca namorei.
Estendi meu braço livre com as roupas, mostrando para ele. O sorriso de Joe aumentou, indo de orelha à orelha, puxando os cabides que estavam na minha mão e jogando no sofá.
— Você é a nova secretária da Julia? ADOREI! — ele riu. — Você precisa conhecer a galera então.
segurou minha mão e foi me puxando pela escada até o último andar, onde tinham muitos caras espremidos sentados no chão, enquanto um deles sentava de frente para um teclado e outro deles estava numa cama segurando um violão.
— Galera, essa é a . — Joe disse apontando para eles. — , galera.
Todos eles falaram oi como se estivéssemos em uma intervenção. Eles riram e trocavam papéis que estavam em suas mãos enquanto Joe me arrumava um lugar para ficar ao seu lado.
— Estamos ensaiando para uma nova peça. — o rapaz sentado no teclado disse. — Você quer participar? Precisamos de uma voz feminina.
— Mas eu não sei cantar… — senti meu rosto queimar.
— Não tem problemas. — um rapaz sentado ao lado de Joe sorriu para mim. O sorriso ia de orelha à orelha também, mas o sorriso dele era extremamente fofo. Mentalmente eu me mandei calar a boca, enquanto ele continuou. — A gente tá mais brincando do que ensaiando de verdade. — então ele ficou sério. — Só que pra você continuar sendo amiga do Joe, e também poder pisar nessa casa você tem que responder a uma pergunta muito simples: O quanto que você gosta de Harry Potter? Pense bem, só há uma resposta certa.
Eu fiquei quieta, fingindo que estava pensando em uma boa resposta. Mas a verdade é que eu amava a saga mais que tudo na minha vida, eu amava a autora, amava todos os personagens, amava a história. Era até ridículo meu amor por Harry Potter. Mas seria muito ruim dizer isso.
— Eu amo os livros! — disse tentando parecer animada, mas eu estava com muita vergonha de ter tanta gente olhando para mim.
— E qual é o seu personagem favorito? — um rapaz que estava sentado de frente para mim perguntou.
— Hmm… Com certeza Draco Malfoy.
— ABSURDO! — disse um loiro que estava espremido perto do teclado. Os outros riram.
— Absurdo mesmo! — disse, tentando colocar as mãos na cintura e fingindo estar bravo. — Você tem que gostar do Lorde Voldemort!
— E qual o problema de gostar do Draco? Ai gente, antes eles do que o Harry, que é um chato que ganha tudo, todo mundo ama ele e ele nunca fez nada. — foi a minha vez de reclamar. E pela primeira vez eu me senti à vontade ali com eles.
Todos começaram a rir, até mesmo o cara com o violão, que colocou o óculos que é marca registrada do personagem que eu falei. As armações redondas, com uma faixa azul na cabeça. Ele chorava de tanto rir enquanto eu ficava sem entender.
O rapaz que tinha me perguntado se aproximou.
— Aquele é o Darren. Ele quem vai fazer o Harry Potter no novo musical.
Eu senti meu rosto queimar. Eu tinha acabado de falar mal do personagem de alguém que eu nem conhecia. Ótima forma de começar amizades, recomendo para todo mundo.
— No caso, eu serei o Quirrell, e o Joe aqui será o Voldemort.
Eu balancei a cabeça, agora entendendo o que ele tinha falado. Eles riram e Darren começou a cantar a música sobre como era ótimo voltar para Hogwarts. Logo olhava para mim esperando que eu cantasse a parte de Hermione e de Draco Malfoy. Foi muito mais divertido que eu imaginava, e quando percebi minha barriga estava roncando de fome.
Assim que me levantei para me despedir e voltar a viver a minha vida e não uma fanfic maluca, Joe se levantou comigo, e o Quirrell tomou o nosso lugar.
— Aliás, o Joe nem nos apresentou direito. Sou . — ele sorriu.
Um outro rapaz do outro lado do minúsculo cômodo comentou
— Eu também. — ele também sorriu. Qual é a mania desse povo de sorrir? — Mas pode me chamar de Holden.
— E eu sou . — o loiro disse. — Mas aqui eles me chamam de Moses.
— E eu sou y. Sim, tem um ‘i’ no final que não é pra confundir com o aqui.
— Senhor cristo é muito nome igual como vocês conseguem? — eu ri, mas estava um pouco nervosa por ter que gravar qual era a pessoa que eu queria falar. Apontei para o rapaz no teclado. — Vai me dizer que o seu nome é também.
— Não. — ele ria. — Eu sou Clark.
Balancei a cabeça pensando que esse pelo menos eu iria lembrar o nome. Então desci as escadas, com Joe me seguindo logo atrás.
— Ei, tá tudo bem? — ele levou uma das mãos à cabeça. — Espero que eu não tenha te constrangido. É que é sempre bom ver a nova secretária da Julia, e eu realmente fiquei feliz por ter sido você!
Eu sorri e alcancei a maçaneta da porta principal. Querendo ou não ficar ali gastou muito da minha energia, já que eu tenho um problema muito grande em ficar ao redor de muitas pessoas por muito tempo. Eu só queria poder voltar a ler.
, tá tudo bem mesmo?
— Claro que tá! Eu só estou cansada. É muita coisa pro pouco tempo que estou aqui.
então começou um pequeno discurso sobre como a primeira semana de faculdade dele foi um inferno, que ele se perdera para todas as aulas e trocou o horário de todas elas. Ele passou uns bons cinco minutos falando, o que não é algo muito longo, mas eu estava morrendo de fome, o que virou uma tortura de meia hora.
, eu preciso mesmo ir. — foi a minha vez de levar a mão à cabeça. — Mas, é…, obrigada por tudo. Foi divertido. — eu sorri ou tentei sorrir, não sei. — Até breve.
Voltei a andar pela rua, pensando em tudo o que tinha acabado de acontecer. Eu sei que nem foi nada, e que você também pode estar pensando que eu me senti a mulher mais linda do mundo rodeada por muitos homens mas na verdade eu me sentia tão pequena que eu só queria me esconder no meu quarto.
É muito difícil para mim falar com as pessoas ao meu redor, ao mesmo tempo que sei que parece que é bem fácil. Mas eu nunca comecei nenhuma conversa desde que cheguei à UM. Até agora as pessoas que falam comigo só falam comigo porque elas começaram alguma conversa. Ou foram ver se eu estava bem.
Fazer isso, ficar no meio de tantas pessoas me deixava muito nervosa, e até mesmo irritada. Eu nunca fui à uma festa por causa disso. São pessoas desconhecidas que eu nunca vi na minha vida que de repente estão olhando para mim esperando algo de volta.
Seja um sorriso, uma piada, uma resposta, um beijo. Eu nunca sei como responder à essas coisas. E depois eu repassava quinhentas vezes tudo na minha mente para ver cada erro e medo bobo que eu tive.
Eu ficava exausta.
A última coisa que eu fiz foi abrir novamente a porta do quarto de , mas já sabia que ela não estaria lá. Já nem olhava mais para o meu celular esperando uma resposta. Eu só queria descansar. Até mesmo fome eu já não sentia mais.




Continua...



Nota da autora:
Coucou!
Nem consigo acreditar que consegui atualizar a fanfic! Agora sim! Chega de apresentações e vamos logo para a história. Eu sei que tem trocentos personagens com nomes parecidos, mas, acreditem, é baseado em um grupo de teatro que começou da mesma forma e ELES REALMENTE TEM OS MESMOS NOMES É UM INFERNO FALAR SOBRE QUEM VOCÊ TÁ FALANDO.
Eu realmente espero que você tenha gostado da atualização, eu criei um cronograma que espero conseguir seguir pra sempre poder atualizar a fanfic.
Lola






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