FFOBS - Princess of GOD, por Pâms

Última atualização: 27/07/2018

Gênesis

"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra." - Gênesis 1:26

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Há sempre um propósito por detrás de cada ação de Deus em nossas vidas, mesmo que não possamos enxergar no momento em que as coisas acontecem, ao final de tudo o que importa é a perfeita e agradável vontade do Senhor. Porém, somos falhos humanos que sempre deseja saber o “porquê?” e não o “para que?”. E este questionamento se iniciou em minha vida, no exato momento em que meu pai após ser consagrado a pastor, foi enviado para pregar e ganhar vidas em uma nova cidade.

Eu havia acabado de completar 16 anos, quando meu pai chegou com essa notícia após o culto de domingo, senti uma leve frio na barriga que se transformou em receio, talvez porque nossa vida até o momento estava inteira instalada na grande São Paulo. Nosso destino foi incerto por alguns dias, só sabíamos da mudança e a direção estava nas mãos de Deus, segundo as palavras do Pastor Antônio, pastor presidente da igreja onde congregamos.

— Não está sentindo frio pai? — perguntei assim que descemos do ônibus de viagem.
— Ainda não. — ele sorriu ajeitando sua mochila nas costas — Ah, onde está o irmão¹ Zé.
— Ele sabia que chegaríamos agora pela manhã? — perguntei deixando minha mala entre as pernas.
— Sim, mandei uma mensagem para ele há duas horas. — confirmou meu pai pegando seu celular do bolso.
— Então a única opção é esperar. — comentei quase em sussurro, enquanto a atenção do meu pai estava no celular.

Desviei meus olhos para minha mala e deixei minha mochila em cima dela, só agora estava acordando para a realidade e percebendo que estávamos em outro estado, seria um recomeço para nossas vidas e para o ministério do papai. Por mais que mostrasse estar seguro e confiante por fora, eu conseguia notar sua ansiedade e medo de não alcançar as expectativas de Deus.

Confesso que nossa vida em Jundiaí era um pouco mais confortável e estável, daqui para frente seria realmente uma surpresa para nós e nossa dependência do Senhor era visível, mesmo papai tendo sua profissão de professor de história, ele havia deixado seu emprego para cumprir seu chamado.

— Pastor! — ouvimos uma voz ao longe, era o irmão Zé — Ai pastor, me desculpe a demora, estava fazendo uma entrega agora de manhã.
— Sem problema, o que importa é que está aqui agora. — meu pai sorriu — Agora respire fundo, parece um pouco sem fôlego.
— Nossa, tive que estacionar meu carro um pouco longe, vim correndo. — ele respirou fundo — Essa moça é sua filha?
— É sim, minha amada filha. — papai me olhou e sorriu — , este é o irmão Zé.
— Paz do Senhor. — disse o irmão Zé.
— Paz. — sorri de leve para ele, ajeitando a capa do violão nas costas.
— Ah, é levita? — ele desviou o olhar para o violão — Que benção.

Eu me encolhi um pouco, confesso que minha timidez não me deixava assumir alguns dons que visivelmente Deus havia me dado, porém a necessidade se faz e meu pai não me deixava ficar sem louvar quando ele pregava.

— Ela é um pouco tímida, mas sua voz é linda. — elogiou meu pai.
— Para a glória de Deus. — disse num tom baixo.
— Aleluia. — o irmão Zé soltou um grito fazendo algumas pessoas olharem para nós — Vamos estão pastor?
— Vamos. — meu pai assentiu pegando uma das malas.
— Eu ajudo vocês. — disse ele pegando uma mala que estava ao lado de papai. — Vocês trouxeram poucas coisas.
— Estamos na direção do Senhor. — explicou papai.

Sim, deixar a vida na direção de Deus requer muita coragem e confiança, não era fácil deixar uma história para trás, mas assim como Abraão, nossa confiança estava no nosso criador. O irmão Zé nos levou em sua kombi até nossa nova residência, que ficava no bairro Cristais na cidade de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte em Minas Gerais, um pequeno apartamento no quinto andar de dois quartos, que nem estava mobiliado direito.

— Que prova. — sussurrei ao entrarmos no apartamento e ver os raros móveis dentro — Te louvo Senhor, por tudo.
— 502, é um bom número. — comentou meu pai ao passar pela porta.
— Então, como foi tão repentino a ligação do pastor Antônio falando sobre você vir para Minas, que não consegui muita coisa. — o irmão Zé parecia um pouco sem graça pela simplicidade do lugar.
— Que isso irmão Zé, fique em paz. — meu pai colocou a mala dele ao lado da porta e se virou para a cozinha — Temos um fogão e uma geladeira, é o bastante.
— Tem certeza?
— Claro. — assentiu papai dando uns tapinhas nas costas dele — Pare de ficar preocupado, o que eu precisar comprar eu tenho minhas economias.
— Onde são os quartos? — perguntei.
— No corredor à direita. — respondeu ele.
— Pode ir na frente e escolher o seu querida. — meu pai sorriu como se quisesse agradecer-me por estar nessa empreitada com ele, já que eu tinha a opção de ficar em São Paulo com meus avós.
— Ok. — eu peguei minha mala e com a mochila e o violão na outra mão, segui para o corredor.

Ambos os quartos eram do mesmo tamanho, mas preferi ficar com o segundo por causa da direção da janela e da vista que proporcionava. Assim que entrei coloquei meu violão e a mochila ao lado da porta, que dava nos pés da velha cama e dando mais alguns passos ainda com a mala na outra mão, a deixei próximo ao armário que ficava na parede da porta. Fiquei curiosa para saber onde o irmão Zé tinha conseguido os móveis para aquele apartamento.

— Hum… — me espreguicei um pouco desviando meu olhar para a janela da fachada — Me ajuda Deus, sozinha eu não consigo.

Me voltei para o armário que estava na parede e respirando fundo, abri minha mala e comecei a colocar todas as minhas coisas no lugar. Comecei a analisar todo o espaço do quarto e pensar no que poderia fazer para deixá-lo mais confortável, teria que ser algo simples e barato, pois gastos já estavam mais do que proibidos por algum tempo em nossas vidas.

Felizmente o pouco de roupas que levei, couberam no pequeno armário sem muito esforço, porém o problema seria minha outra mala com meus livros e cadernos, onde colocaria tudo aquilo. Dei um suspiro cansado e senti um fundo no estômago, era a fome aparecendo para mim e nem sabia o que comeria, foi neste momento que papai bateu na porta e entrou.

— Princesa?!
— Sim?! — fechei a última gaveta no armário e o olhei.
— Está tudo bem por aqui? — perguntou ele.
— Por enquanto, sim, mas…
— Mas?!
— Estou com fome. — coloquei a mão na barriga — Muita fome.
— Imaginei. — ele riu — O irmão Zé nos convidou para almoçar na sua casa, já que acabamos de chegar.
Deus abençoe ele. — sorri de leve.
— Hum, você vai precisar de algo para deixar este quarto mais você?! — brincou ele adentrando um pouco mais — Sei que ainda falta muita coisa.
— Bem, enquanto guardava minhas coisas, fui pensando em algo que posso eu mesma fazer e não ficará caro. — respondi — Preciso de lugar para meus livros.
— Ah, sim, sua outra mala está na sala. — ele olhou para a janela da frente — Que tal colocar uma grade bancada suspensa ali, com prateleiras, acho que vai ficar bonito e você vai pode aproveitar a claridade do dia. — disse ele analisando o quarto.
— Desde quando o senhor tem essas ideias? Arquitetura era com a mamãe. — eu ri de leve.
— Anos de convivência gera aprendizado e conhecimento. — ele sorriu com satisfação.

Por um breve momento senti saudade da mamãe, seria bem mais fácil se ela estivesse aqui conosco, porém meu consolo é que ela estava em um lugar bem melhor do que nós, nos braços de Deus. Eu me voltei para a janela da frente e fiquei olhando para a parede, não era uma má ideia colocar uma bancada ali, eu teria espaço para estudar e praticar também.

Nós demoramos mais um pouco conversando e tenho várias ideias sustentáveis, para deixar nossa nova casa mais aconchegante. O irmão Zé veio nos buscar para darmos um passeio pelo bairro e conhecer os pontos principais, foi uma longa volta até chegarmos na rua onde morava, que coincidentemente era a rua onde ficava também a escola em que possivelmente estudaria.

— Chegamos, espero não ter cansado vocês. — o irmão Zé deu uma risada esquisita ao abrir o portão de sua casa.
— Que isso varão². — meu pai se espreguiçou um pouco — Foi bom ter conhecido o bairro e andar faz bem a saúde.
— Fale pelo senhor. — eu ri um pouco.
— Pare de ser sedentária. — papai me olhou e sorriu.

Eu desviei o olhar para a rua, vendo algumas pessoas passando.

— Ah, quantos anos tem sua essa jovem? — perguntou ele.
— Tenho 16. — respondi.
— Ah, a mesma idade do meu filho, você deve estudar nessa escola. — ele apontou para o largo muro — Essa escola é muito boa, conheço todos os professores de lá.
— Isso é bom, essa mocinha aqui ama estudar! — senti um certo orgulho em sua voz.

Como sempre eu não sabia lidar com elogios, principalmente quando saíam do meu pai, mas ficava feliz pela satisfação que causava nele ao ser uma boa aluna. Adentramos o lote a após passar a pequena entrada onde estava a velha kombi, chegamos na porta de entrada e logo uma senhora veio nos receber com toda animação.

— Pastor, seja bem-vindo em nome de Jesus. — ela deu um abraço respeitoso em meu pai e logo se voltou para mim e me deu um abraço apertado — E você também!
— Amém, obrigada. — disse retribuindo o abraço.
— E como foi a viagem para cá? — perguntou ela — Ah, que falta de educação a minha, eu sou a esposa do Zé, podem me chamar de irmã Kátia.
— É um prazer conhecê-la irmã Kátia. — meu pai olhou para mim — E ficamos agradecidos pelo convite do almoço.
— Sim. — confirmei.
— Ah, quando o Zé me disse que chegariam agora, pensei que seria trabalhoso para vocês terem que fazer algo para comer, além de colocar as coisas no lugar. — explicou ela — Para mim é uma honra recebê-los aqui.
— Onde está o Davi? — perguntou o irmão Zé.
— Na casa de um amigo, logo ele aparece para o almoço. — respondeu ela.
— Pastor, você vai gostar de conhecer meu filho, aquele garoto é uma benção, ele me ajudou a conseguir os móveis para seu apartamento. — comentou o irmão Zé.
— Que maravilha, que Deus aumente essa boa vontade dele. — disse meu pai — Ah, e por falar em apartamento, preciso conversar com você sobre o aluguel dele e o dia do pagamento.
— Ah, sim.
— Bem, nós vamos deixá-los. — a irmã Kátia pegou em meu braço de leve — Você me ajuda na cozinha?
— Claro. — assenti.

A irmã Kátia era bem humorada e muito tagarela a primeira vista, nem mesmo ela me conhecia direito e já começou a compartilhar receitas infalíveis na cozinha, o que me fez achar ela uma pessoa muito fofa e graciosa.

— Pelo seu rostinho não está muito animada com a nova casa. — comentou ela mexendo em suas panelas.
— Preciso de uns dias para me adaptar a nova vida. — expliquei — É tudo muito novo.
— Imagino que não esteja sendo fácil, servir a Deus não é fácil, imagino deixar tudo para trás e seguir para uma nova cidade. — ela parecia me entender melhor do que eu mesma nessa situação.
— É um pouco nesse nível, mas o que importa é que eu e meu pai estamos juntos. — confirmei.
— São só vocês dois? — perguntou ela.
— Sim. — respirei fundo — Minha mãe já está com o Senhor há cinco anos.
— Eu até poderia dizer que lamento, mas ela está em um lugar melhor que nós. — ela sorriu para mim — Não está!?
— Sim, minha mãe era uma mulher de muita oração. — confirmei  — Ainda é um pouco triste pela saudade, porém também somos alegres por saber que no final, vamos vê-la novamente.
— É assim que deve manter seus pensamentos. — sugeriu ela — A saudade é um sentimento perigoso que pode te levar pelos tortuosos caminhos da tristeza e solidão.
— Vou me lembrar disso. — sorri de leve.

Sim, a saudade havia me proporcionado uma tristeza muito grande, que durou cerca de seis meses e muita oração para ser superado, aquela época foi a mais conturbada da minha vida, quando comecei a questionar Deus por ter levado minha querida mãe. Felizmente o consolo veio de quem eu mais precisava: o Espírito Santo.

Ao longo da conversa a irmã Kátia me contou que tanto ela, quanto o irmão Zé haviam sido consagrados a diáconos recentemente, porém como saíram da igreja onde estavam, era um pouco difícil para eles exercerem a função. Esse foi um dos motivos para a nossa mudança, o irmão Zé conhecia um primo do pastor Antônio, que também morava em Nova Lima e sempre estava comentando sobre como a nossa igreja era uma benção.

— Finalmente, pensei que não iria almoçar garoto. — disse o irmão Zé assim que seu filho entrou em casa.
— Estávamos jogando FIFA. — explicou ele — Campeonato Europeu.
— Os europeus são os melhores. — disse meu pai que estava sentado no sofá, se levantando.
— Você joga? — o garoto olhou surpreso para meu pai.
— Claro, só não estou jogando tanto assim. — ele riu um pouco.
— Agora estou surpreso. — o irmão Zé riu — E o pastor joga futebol de verdade também?
— Ele ama futebol. — completei rindo.
— Ah, Davi este é o pastor Jonas e sua filha . — disse a irmã Kátia — Eles chegaram esta manhã.
— Paz do Senhor³. — disse o jovem — Sejam bem vindos.
— Agradecemos sempre a hospitalidade. — disse meu pai.
— Já que estamos todos aqui, vamos almoçar que a comida está quente. — anunciou a irmã Kátia.
— Já sinto o cheiro o cheiro daqui. — brincou o irmão Zé — Pastor, não existe comida melhor do que a da minha esposa.
— Pelo cheiro, parece mesmo muito saborosa. — disse meu pai o seguindo em direção a cozinha.

A comida da irmã Kátia era mesmo saborosa.

Após o almoço, eu fiquei na varanda da casa conversando com Davi, ele estava me contando como era a escola e a antiga igreja onde congregava.

— A irmã Kátia me contou sobre o problema que tiveram na outra igreja, lamento que tenham saído por essa forma. — disse me sentando no degrau da varanda — Mas, o que importa é que agora podem recomeçar também.
— Verdade. — ele ficou encostado no pilar ao lado — Mas, estamos em paz agora.
— Isso é o que vale.
— Estou curioso sobre algo. — observou ele.
— O que seria? — o olhei.
— Assim como o pastor, você também já iniciou o seu ministério4? — perguntou.
— Mais ou menos. — soltei um suspiro fraco — Eu ainda não sei exatamente qual é o meu chamado, apesar de reconhecer alguns dons.
— Você tem medo de exercer ou algo do tipo?!
— Não seria medo, mas acho que sou tímida demais para isso.
— Hum, os tímidos não herdarão o reino do céu. — brincou ele.
— Eu sei, tenho orado muito para melhorar isso. — desviei meu olhar para o portão — E você? Qual é o seu chamado?
— Já me falaram que sou levita5. — respondeu ele se afastando um pouco da parede de vindo sentar ao meu lado — Mas existem tantas definições para esse termo, que ainda não encontrei meu caminho também.
— Então posso dizer que estou na mesma situação que você. — ri baixo pensando sobre essas definições.
— Mas o que Deus mandar, tentarei dar o meu melhor. — continuou ele dando um suspiro fraco.
— Amém. — disse em concordância.

Davi era um jovem muito simpático e carismático, o que me deixava aliviada por conhecer pelo menos uma pessoa legal da escola onde estudaria. As horas foram se passando, com meu pai e o irmão Zé conversando sobre as duas células6 que iriam abrir para começar a evangelização no bairro.

Logo ao final da tarde, voltamos para o apartamento. Apesar de um breve momento de descontração e descanso na casa do irmão Zé, nossos próximos dias seriam de arrumação, já que papai tinha conseguido arrumar algumas madeiras que estavam na casa dele e a irmã Kátia tinha nos presenteado com elas. Assim que entramos no apartamento, corri para o banheiro, precisava de um banho quente e roupas quentinhas, estranhamente a noite estava fria.

— Está animado pastor Jonas. — brinquei ao adentrar a sala e vê-lo fazendo algumas anotações na sua agenda.
— Um pouco, mas também receoso. — ele parou de escrever e me olhou — Não quero decepcionar.
— Quem? As pessoas?
— Não…  As pessoas sempre vão se decepcionar conosco, principalmente se estamos à frente da obra. — ele respirou fundo e deu algumas batidinhas no sofá para que me sentasse ao seu lado — Eu não quero decepcionar Deus, afinal é Ele quem está me confiando isso.
— Verdade. — não tinha como não concordar, me sentei ao seu lado.
— Posso contar com você?! — ele sorriu de leve.
— Acho que sim, apesar de também ter medo de decepcionar, a Deus e ao senhor, papai.
— Minha princess, tão jovem… — ele esfregou de leve sua mão em meus cabelos os bagunçando — Ainda está preocupada com o seu chamado?
— Sim. — suspirei fraco — Tenho uma enorme vontade de trabalhar para o Senhor, mas sempre ouço que devemos ensinar o que sabemos e passar ao próximo o que temos, eu nem consigo confirmar que alcancei meu batismo7 com o Espírito Santo.
— Sei o quanto tem buscado por isso, tenho certeza que seu desejo em ser batizada segue em sincronia e na mesma intensidade do desejo do Espírito Santo em te batizar. — ele me abraçou com carinho, e começou a acariciar meus cabelos — E só o fato de sentir vontade de fazer a obra, já mostra sua disposição para Ele, além do mais quem nos capacita é Ele.
— O que devo fazer então? — sussurrei.
— Continue perseverante e deixe o Senhor te conduzir. — respondeu ele tranquilamente.

Aquele era um lado do meu pai que sempre me fazia sentir que precisava ainda mais ser intensa em minha busca, ele possuía uma sabedoria grande que transmitia em seus conselhos.

— Posso te fazer uma pergunta? — sussurrei novamente.
— Sim.
— Como o senhor descobriu qual era o seu chamado? — perguntei curiosa.
— Porque? Ainda está em dúvida com o seu? — ele me olhou confuso.
— Bem, hoje mais cedo o Davi falou algo, que me deixou pensativa. — expliquei o motivo.
— O que ele disse?
— Ele me contou que o chamado dele também é de levita, mas que existem algumas definições para esse termo e ele ainda não sabe qual se encaixa nele. — esclareci — Isso veio de encontro ao meu coração, pois mesmo tendo uma boa voz, não me sinto à vontade com o louvor, nem mesmo sei se realmente meu chamado é para o canto.
— Mas você concorda que cantar é um dom que Deus te deu, não é?
— Sim, mas… — fiquei em silêncio por um tempo.
— Talvez seu dom não esteja ligado ao altar de uma igreja. — ele respirou fundo — Só o Senhor sabe quantos caminhos existem para um mesmo dom, final é Ele quem escolhe a posição de cada pessoa.
— Verdade. — me aninhei um pouco mais em seu abraço.
— É normal estar confusa e receosa, eu também já estive assim. — ele sorriu de leve para mim — Quando me converti e aceitei Jesus, ou melhor, quando Jesus me aceitou, eu me vi neste mesmo dilema, sem saber qual era o meu chamado, apesar de já terem profetizado que eu seria um pregador.
— Mas existem vários caminhos para a pregação também. — ergui de leve minha face e o olhei.
— Sim. — ele riu baixo — E a minha resposta, assim como todas as respostas, eu encontrei na Palavra de Deus.
— Hum… E como fez para achar essa resposta?
— A encontrei através de uma pergunta que uma senhora me fez. — ele riu novamente como se estivesse se lembrando de algo — Foi um dia chuvoso em que estava no monte, clamando por uma resposta, quando uma senhorinha se aproximou de mim me dizendo que eu não precisava gritar, que o Espírito Santo estava ao meu lado e eu deveria ser mais educado.

Eu o olhei admirada. Até o momento nunca havia passado por uma situação em que algum profeta me fizesse alguma revelação de Deus, mas com o meu pai já havia acontecido várias vezes.

— Ela disse isso tudo?! — eu ri um pouco mais.
— Sim. — ele riu junto — Mas ao final me fez refletir com sua pergunta.
— E qual foi?
— Qual era o meu chamado de Gênesis a Apocalipse. — respondeu ele — Ela disse que se eu não soubesse qual era os chamados mais visíveis que estão descritos na Bíblia, eu jamais conseguiria entender o que Deus tinha para mim.
— E foi assim que descobriu que seu chamado era para ser um pastor?! — perguntei.
— Eu descobri que Deus me chamou para ser várias coisas ao longo da vida. — ele voltou seu olhar para a agenda que ainda estava no seu colo — E uma bastante necessária era ser um pastor.
— Hum… E você não pode me contar, ou é segredo?!

Eu o olhei imaginando como ele tinha descoberto e o que ele tinha descoberto.

— Não é segredo, mas você sabe que a palavra do Senhor se renova todos os dias, então o que eu descobri para mim, talvez não valerá para você. — papai voltou seu olhar para mim e sorriu — Mas, creio que posso contar o primeiro chamado que possa se estender para todas as pessoas, além de mim e você.
— Qual? — perguntei.
— Nosso chamado de Gênesis. — respondeu ele um pouco animado — O mais difícil de descobrir por ser o primeiro, porém o mais impactante.
— Mais difícil e mais impactante, de certo é uma passagem bíblica. — o que era óbvio.
— Sim, qual o primeiro versículo que vem em sua mente quando pensa no livro de Gêneses?! — perguntou ele.
— Hum, versículo específico não sei ao certo, mas sempre me pego impactada quando leio: “Façamos o homem a nossa imagem semelhança.” — respondi com convicção.
— E porque se sente assim? — insistiu ele.
— Porque saber que depois de fazer todo o universo com o poder da palavra, Deus fazer o homem com todo o capricho com as suas próprias mãos, me faz sentir ainda mais amada e querer não decepcioná-lo. — expliquei.
— Quando vemos a grandeza de Deus e depois percebemos o amor que ele tem por nós, sentimos essa necessidade de vê-lo feliz com nossas atitudes. — meu pai sorriu com carinho — Parabéns, você acabou de descobrir o seu chamado em Gênesis, com uma ajudinha é claro.
— Pai… — o olhei abismada.
— Só disse a verdade. — ele riu de leve — Mas sabe que não é somente isso que Gênesis nos ensina, e também não adianta saber a palavra e não praticá-la.
— Eu sei, acho que terei que ler um pouco antes de dormir. — sorri um pouco e me levantei do sofá — Vou dormir.
— Boa noite querida, se levantar no meio da noite com sono, comprei alguns biscoitos e deixei no armário. — avisou ele.
— Ok. — me espreguicei um pouco — Bom dia papai, bença!
Deus te abençoe princess, bom dia e bons sonhos.

Assim que entrei no quarto, retirei a manta que tinha ficado na mala e juntamente com o lençol, estendi na cama rapidamente. Ao ajoelhar na beirada da minha cama, abri a Bíblia exatamente no livro de Gênesis, confesso que até aquele momento não tinha lido a Bíblia por completo, mas já estava começando a sentir a necessidade de fazer isso, precisava realmente conhecer mais para descobrir quais eram os outros chamados.

— Qual o meu chamado de Gênesis a Apocalipse?! — me perguntei em um sussurro — Me ajude a descobrir Senhor!

"I am yours
Eu sou seu
Not because of who I am
Não por causa de quem eu sou
But because of what you've done
Mas por causa do que você fez
Not because of what I've done
Não por causa do que eu fiz
But because of who you are.
Mas por causa de quem você é."
- Who Am I / Siwon (Super Junior)

 

Dicionário:
1. Irmão/irmã: Forma de tratamento.
2. Varão: Homem.
3. Paz do Senhor: Forma de cumprimento cristão protestante.
4. Ministério/Chamado: Dom ou talento exercido pelo cristão e que se traduz em atividade ou ações específicas na congregação ou no meio onde vive.
5. Levita: Na tradição judaica, um levita é um membro da tribo de Levi, com atribuições acessórias ao culto, menos importantes do que as que cabiam aos sacerdotes levíticos da família de Aarão (os únicos a ter acesso ao altar); diácono. Atualmente tem se popularizado como a forma como são chamados especificamente os ministros de louvor e músicos evangélicos nas igrejas cristãs.
6. Célula: É a extenção da igreja, um momento de comunhão entre dos membros da igreja feito nas casas que se disponibilizam para isso, afim de levar ainda mais a palavra e a mensagem de Deus, uma forma de manter a união da igreja e de evangelizar também levando visitantes, ajudando assim no crescimento da igreja.
7. Batismo com Espírito Santo: É a experiência e privilégio de ser preenchido pelo Espírito Santo, tendo a plenitude de Deus em todas as áreas da sua vida, mediante a um ardente desejo de conhecer, sentir e servir melhor ao Senhor Jesus.


2. Êxodo

"Então falou Deus todas estas palavras, dizendo:
Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
Não terás outros deuses diante de mim.”
- Êxodo 20:1-3

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Não temo mais o mar, pois firme está minha fé... — continuei a dedilhar no violão, estava praticando um pouco — No meu barquinho está, Jesus de Nazaré...
?! — o som de dois toques soou na porta.
— Pai?! — parei de dedilhar e olhei para sua direção.
— Estou atrapalhando? — disse ele ao entrar um pouco mais.
— Não, só estava praticando um pouco. — coloquei o violão ao lado em cima da cama — Deseja alguma coisa?
— Fiquei um pouco preocupado com você. — disse ele se encostando na parede e me olhando com carinho — Mas vejo pelo seu olhar que está mais leve hoje.
— Sim. — assenti — Passei a noite em oração, não consegui dormir.
— Imaginei, passei para ir a cozinha e vi a luz do seu quarto acesa. — com as mãos no bolso da minha calça, desviou seu olhar para a janela — Pense que Gênesis foi somente o início,
— Que tal irmos a padaria tomar café?
— Tem certeza que podemos? Sei que suas economias não são muitas. — perguntei receosa.
— Claro que podemos. — ele sorriu — Apesar do nosso deserto8 está no início, vamos passar juntos e glorificando ao Senhor.
— Amém! — disse em concordância — Vou trocar de roupa então.

Papai se afastou da parede e saiu do quarto, apesar de toda a dificuldade que provavelmente viveríamos, era admirável a forma como ele agia, ainda mais admirável sua confiança em Deus, o que me fazia chegar ainda mais longe no meu nível de intimidade com o Senhor, afinal só confiamos em alguém que conhecemos e somos íntimos. Eu queria isso, queria ainda mais elevar o nível de busca e intensidade, para finalmente me aproximar do Espírito Santo e ter meu batismo no espírito.

Aquieta minh'alma, faz meu coração ouvir Tua voz… — comecei a cantarolar enquanto trocava de roupa — Me chama pra perto, só assim eu não me sinto só…

Ao olhar para a janela senti o vento entrar, estava um pouco frio aquele dia então me agasalharia bem, assim que coloquei minha identidade no bolso da calça, saí do quarto. Papai estava no celular conversando com alguém, fiquei encostada olhando ele conversando, parecia estar concentrado no assunto que tratava.

— Mais uma vez agradeço irmão Zé. — disse ele — Mas, ficaremos bem por um tempo, estamos na direção e provisão de Deus, não quero dar mais despesas a sua família.

Então era o irmão Zé, ele e sua família estavam sendo muito bons conosco, principalmente por nos convidar para almoçar com eles todos os dias até nossa situação estabilizar. Mesmo com toda a sua tranquilidade, lá no fundo eu sabia que meu pai estava preocupado com nossa situação, mas nunca deixaria se abalar pois sua fé no Senhor era mais forte, então ele faria o possível para não me deixar preocupada com nada, além dos meus estudos e da minha vida espiritual.

— Oh, princess. — ele me olhou após desligar o celular — Vamos?!
— Era o irmão Zé? — perguntei para confirmar.
— Sim. — assentiu — Ele estava nos convidando para o café, fico feliz com sua preocupação por nós, mas temos que caminhar por conta própria por enquanto.
— O senhor está pensando em arrumar um trabalho aqui também!? — desviei meu olhar para o jornal que estava em cima do sofá.
— Por enquanto, espero a resposta do Senhor Jesus, sei que toda provisão vem dEle. — ele pegou as chaves que estava no gancho da parede — E não iremos perecer no deserto.
— Amém. — concordei — Estou com fome.
— Vamos querida. — ele pegou em minha mão me dando o braço — Vou te alimentar com a benção de Deus.

Saímos rindo com alguns comentários do papai sobre minha fome, assim que chegamos na padaria, a dona estava presente e logo nos reconheceu papai por causa do irmão zé que tinha falado muito sobre nossa vinda para o bairro. Ela fez questão de não deixar que cobrassem pelo nosso café, o que me deixou um pouco impressionada, já que ainda nem nos conhecia e nunca tinha nos visto.

— Estou satisfeita. — disse recusando mais um pedaço de bolo que ela queria me dar — Muito obrigada pelo café.
— Ah, uma jovem cheia de saúde deveria comer bem mais. — disse ela.
— Oh não, se eu comer mais, será gula. — dei um sorriso sem graça.
— Estava tudo mesmo muito saboroso, sinto minhas forças renovadas. — disse papai assim que engoliu o resto do café que estava em sua xícara — Mais uma vez, agradeço a gentileza e não sei como posso retribuir por isso.
— Ah, pastor, não precisa agradecer, para mim é uma honra fazer isso por um servo do Senhor. — ela sorriu com graça — E também estou cumprindo Mateus 25:40.
— Hum… — meu pai logo entendeu o que ela quis dizer — Está escrito, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
— Isso mesmo. — concordou ela — E por falar no Pai, quando irá começar a célula na casa do irmão Zé?!
— Provavelmente semana que vem, estaremos fazendo evangelização pelo bairro para convidar as pessoas. — respondeu papai se levantando da banqueta — Ficarei feliz em ver a senhora e sua família lá.
— Ah, claro que vamos, sinto mesmo que preciso me aproximar mais de Deus, ando tão desanimada para tudo. — ela deu um suspiro cansado — Eu irei e levarei meu marido também.
— Leve a família toda, será um prazer para nós. — meu pai sorriu e voltou seu olhar para mim — Vamos querida?!
— Claro. — olhei para a senhora Muriel — E mais uma vez obrigada.

Ela sorriu de volta e se afastou indo para perto de uma das atendentes. Papai passou a mão no bolso de leve para ver se não tinha caído nada, ele tinha um leve defeito de sempre perder as chaves de casa, algo pelo qual estava sempre orando a Deus para mudar nele. Antes de voltarmos para casa, meu pai teve a ideia de passar no supermercado para comprarmos algumas coisas que faltavam nos armários da cozinha, não seria muita coisa, porém todas necessárias.

— O senhor realmente disse que não compraria muita coisa. — reclamei assim que entrei no apartamento carregando as sacolas pesadas.
— Tenho certeza que tudo que trouxemos é necessário. — explicou ele ao entrar e fechar a porta empurrando-a com o pé — Pare de reclamar e agradeça a Deus pela provisão.
— Desculpa, foi mais forte que eu. — disse colocando as sacolas na bancada da pia da cozinha — Obrigada Deus, pela provisão.
— Amém. — disse meu pai colocando as sacolas que estavam em sua mão ao lados das outras — Minhas costas sentiram o peso.
— Estou vendo. — ri da cara dele indo até o sofá e me sentando — Pai…
— Sim?! — ele se encostou na bancada.
— A célula vai mesmo ser na casa do irmão Zé?! — perguntei.
— Sim. — confirmou ele cruzando os braços — Nosso apartamento é pequenos e não tem muito lugar para sentar.
— Mas e se a célula não tiver muitas pessoas?! — indaguei.
— Garota de pouca fé. — ele me olhou sério — Que envia as pessoas é o Senhor, nosso dever é preparar o ambiente profético para que ele nos dê sua provisão.
— Verdade, sempre me esqueço disso. — ri baixo.
— Preciso que me ajude, tudo bem para você?! — perguntou ele.
— Estamos juntos nessa, apesar desse chamado ser o seu. — respondi jogando a indireta direta.
— Preciso do apoio da minha família que é você. — explicou ele tranquilamente se afastando da bancada e vindo se sentar ao meu lado — Você e eu, somos uma família.
— Ainda assim, não sou a auxiliadora adequada. — retruquei — Sou sua filha.
— Já falamos sobre isso. — ele sorriu de canto — Mudando de assunto, mas no mesmo contexto, vai me ajudar com o louvor da célula?!
— Por que será que eu já esperava por isso. — suspirei fraco — Pai, ainda não sei se louvor é mesmo meu chamado.
— Eu também sei, mas se o Senhor te deu o dom para cantar e tocar, não acha que não usar isso para a obra, seria o mesmo que enterrar seu dom?! — perguntou ele em seus momentos que adorava me fazer refletir — O que acha?!
— Posso ser sincera?!
— Deus ama  quando as pessoas são sinceras, principalmente se tratando da sua obra. — respondeu ele dando um sorriso gentil.
— Tenho medo.
— Medo? De que?
— Das pessoas falarem disso, já possuo o título de filha do pastor, se eu ficar responsável pelo louvor, certamente comentários por favoritismo aparecerão. — desabafei um pouco.

Era certo que não me via tocando e cantando no altar, mas queria contribuir da melhor forma para a obra de Deus, porém tinha muita insegurança sobre essas questões, além de não querer ser usada como motivos para as pessoas pecarem na língua. Já havia sido vítima de fofoca entre membros de igreja por conta desse mesmo assunto, não queria passar por essa luta novamente.

— Sabe de uma coisa. — meu pai me abraçou de lado, me fazendo deitar minha cabeça em seu ombro — Geralmente, pessoas que falam essas coisas, geralmente querem estar no seu lugar ou ter sua unção, mas não tem coragem de pagar o preço, não deve deixar que o medo te atrapalhe de fazer a obra do Senhor, afinal vocẽ jamais estará fazendo para o homem, tudo o que você fez até hoje e fará, dedique e ofereça somente para Jesus, que é o único que importa.
— Mas…
— E quanto as fofocas e comentários maldosos, deixe que façam. — completou ele como se soubesse o que eu diria — Afinal, quem nos justifica é o próprio Senhor Jesus, quando somos sinceros em sua presença.
— Farei isso.
— Então posso contar com você?!
— Sim. — assenti sentindo ele acariciar meus cabelos — Mas e se o louvor no altar não for realmente meu chamado? Davi me disse que um dom possui vários caminhos.
— Está escrito, buscai com zelo os melhores dons. — respondeu ele — Todos temos pelo menos um dom, para deixar a disposição do Senhor, para que Ele possa nos usar como instrumentos em sua mão… Talvez seu chamado não seja direcionado ao altar, mas tenha o louvor envolvido.
— Hum…
— Porém isso não quer dizer, que não possa louvar no altar. — ele riu baixo — Sei que tem orado muito para que o Pai retire a timidez de você, então nada melhor que conduzir o louvor na célula para praticar a ousadia.
— Ousadia… — suspirei fraco — Queria ter metade da sua pai.
— Que isso, você que não sabe o quanto eu era tímido quando mais novo. — ele riu um pouco mais alto — Foi sua mãe que se aproximou de mim na igreja, me lembro como se fosse ontem, eu era novo convertido e ela veio me chamar pra ir na célula na casa dela.
— Me lembro de algumas histórias de vocês dois que ela me contava. — a saudade apareceu um pouco naquele momento ao me lembrar do sorriso da mamãe — De como o vovô te fez provar que era o propósito de Deus na vida dela.
— Verdade. — ele riu — Esse era o lema do seu avô.
— Deus não une pessoas, ele une propósitos. — disse o lema que ele sempre dizia a mim quando criança.

Ficamos por um tempo em silêncio, com ele acariciando meus cabelos e cantarolando um pouco, a voz do meu pai não era boa para música, mas ele arriscava um pouco quando estávamos sozinhos.

— Preciso que me ajude em outra coisa. — disse ele interrompendo sua cantoria.
— O que seria?!
— Que jejue comigo para podermos consagrar a casa do irmão Zé. — disse ele — Como você é minha…
— Equipe de apoio. — completei — Já imaginava que me pediria para jejuar9.
— Obrigado.
— Quanto tempo?!
— Uma semana, disse ao irmão Zé para ele e sua fazerem o mesmo, e se manterem em oração, não podemos fazer isso de qualquer jeito né. — respondeu ele — Afinal, lá será uma casa que receberá pessoas e onde iniciaremos nosso bom trabalho.

Assenti e me afastei um pouco para me levantar do sofá.

— Vou aproveitar que só começarei a estudar na segunda, e começar a organizar meu quarto. — disse — Me ajuda?!
— Claro. — ele se levantou — Só irei pegar as madeiras de Davi ficou de conseguir para mim, deixaremos seu quarto como imaginou.

Ele sorriu para mim e caminhou até a porta, já que tinha o lembrado iria naquele momento mesmo buscar as madeiras e ferramentas emprestadas, enquanto isso eu voltei para a cozinha, tinha que guardar as compras que ainda estavam nas sacolas.

Os dias foram se passando, com o nosso revezamento entre evangelizar nas ruas convidando as pessoas para irem na célula, reformar o apartamento com nossas próprias mãos, seguindo as boas dicas de decoração sustentável que via em vídeos no youtube. Além de não perder nosso foco no jejum e nas orações de madrugada que meu pai havia decidido fazer.

A segunda-feira chegou e com ela meu primeiro dia na escola, felizmente com a graça de Deus, minhas notas da outra escola foram aceitas e eu não teria problema em seguir o bimestre nesta nova. Menos uma preocupação para mim que sempre me preocupava com meus estudos, afinal queria ter boas notas e me preparar bem para o Enem.

— Davi. — disse ao chegar na portaria do prédio e vê-lo na calçada me esperando — Você veio mesmo.
— Eu disse que viria. — ele riu — Não acreditou?!
— Bem, eu só não queria incomodar. — deu um sorriso meio sem graça — É que passei a semana indo na sua casa e você mora perto da escola, achei que não seria preciso.
— Claro que é. — ele balançou a cabeça negativamente — Vamos.
— Vamos. — seguimos para atravessar a rua.
— Estou pedindo a Deus para você ser da minha sala. — comentou ele — Assim terá alguém para conversar.
— Obrigada por pensar assim. — ri baixo — Ainda sou um pouco travada para fazer amizades.
— Eu acho que puxei meus pais, eles são muito falantes e conhecem todo mundo no bairro, não teria como eu não conhecer. — ele riu junto — Meu pai me disse que você está jejuando com o pastor também.
— Sim, sou a equipe de uma pessoa dele. — observei o trajeto que estávamos fazendo para decorar o caminho mais aquele caminho — Até que consiga mais pessoas para ajudarem.
— Tenho certeza que meus pais se juntarão, assim como eu. — garantiu ele.
— Isso me conforta muito, pessoas compromissadas, é disso que precisamos. — assegurei.
— E por falar em compromisso, o pastor me pediu para ficar responsável pela dinâmica da célula. — comentou ele.
— Sério? Que bom. — respirei aliviada — Pensei que isso ficaria a meu encargo também.
— Por que?!
— Em alguns momentos, meu pai sempre acha melhor pedir para mim do que pra outra pessoa, esse é o pior defeito dele. — suspirei frustrada.
— Ninguém é perfeito, só Deus. — ele riu — Mas você vai ficar com o louvor?
— Sim.
— Imaginei. — ele se espreguiçou enquanto ainda caminhávamos, estava quase perto da escola — Estou curioso para te ouvir cantar, o pastor disse que sua voz é linda.
— Espero não te decepcionar. — sorri de canto — É uma caminhada boa do apartamento a escola, nunca tinha percebido que sua casa era meio longe.
— Não é tanto assim, eu só moro no início da rua, o que deixa mais perto dependendo do caminho que usa. — explicou.
— Hum… — aquilo era novidade para mim.

Quando chegamos em frente a escola, o portão já estava aberto e aproveitamos para entrar de uma vez, Davi me acompanhou até a secretaria onde eu pegaria minha filha de horários junto com o número da sala, foi provisão de Deus mesmo eu cair na sala dele. Seguimos para a turma 201, alguns alunos estavam nos corredores e nas portas das salas, eu entrei depois dele e a primeira carteira que vi vazia já me sentei.

Davi riu da minha cara por isso e mudou sua mochila de lugar, o que me deixou espantada.

— Sério?! Você não senta aqui atrás de mim. — o olhei séria.
— Sou o representante da turma, posso mudar de lugar. — ele piscou — Então, sentarei aqui.

Assenti rindo dele e me sentei também. Logo o som do sinal tocando surgiu e os alunos entraram todos, juntamente com a professora de matemática substituta, de acordo com Davi já tinha uns seis meses que não mandavam um professor definitivo para a escola, pois nenhum queria trabalhar lá. Segundo ele, era por causa de alguns alunos que sempre ameaçavam os professores.

— Uau, estou chocada com essas histórias. — disse assim que saímos da sala no intervalo.
— Respeito é uma coisa rara nessa escola. — comentou ele desviando seu olhar para o pátio — Fique longe daquele grupinho.
— Hum?! — desviei meu olhar para a direção que ele olhava, tinha um grupo de garotos conversando, um deles estava deitado no chão mexendo no celular — O que tem eles?!
— Se denominam máfia, mas são os alunos que ameaçavam a última professora de matemática.
— Nossa. — respirei fundo — Pessoas assim estão em todos os lugares, e ainda devemos orar por elas.
— É o que a palavra nos instrui, mas é tão difícil. — ele deu um suspiro cansado.
— Como diria meu pai: Assim está escrito, amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem. — disse exatamente como meu pai diria.

Ele concordou balançando o rosto e voltou seu olhar para o lado, ficamos todo aquele tempo falando sobre como a escola estava um pouco cansativa e pesada, isso já acontecia a um tempo. Eu disse a ele que quem fazia a escola era os alunos, ou seja, se ele queria algo diferente, teria que tomar atitudes diferentes e olhar para todos com um olhar diferente, começando pela forma de tratamento, tratar a todos com o mesmo amor que Jesus nos trata. Foi difícil convencê-lo que a mudança começa dentro de nós, mas depois de um longo debate ao longo de toda a aula de educação física, o convenci.

— Glória a Deus, primeiro dia concluído com sucesso. — disse ao sairmos da escola.
— Eu trouxe alguns panfletos que fizemos para evangelizar, quer ir entregando agora na volta?! — sugeriu Davi.
— Pode ser, não poderei evangelizar à tarde, pois tenho outra coisa pra fazer. — aceitei — Se tivesse me dito isso antes, teríamos entregado no intervalo.
— Boa ideia, imagina se abrimos uma célula jovem também!? — observou ele.
— Eu amo a obra de Deus, mas não, agora não. — disse me retraindo.
— Por que não?! — ele me olhou assustado — Como o pastor falou ontem no almoço, a seara é grande e são poucos os trabalhadores.
— Mateus 9:37, eu sei, meu pai sempre fala isso comigo. — suspirei fraco começando a andar — Mas sei que se isso acontecer, ele vai me deixar a frente, confesso que não me sinto preparada mentalmente e espiritualmente para isso.
— Acho que te entendo. — ele começou a estralar os dedos — E pensando mais a fundo sobre isso, acho que o pastor me colocaria de ajudante, também não sei se estou pronto para tanta responsabilidade.
— Bem-vindo a minha realidade. — desviei o olhar para a rua — Já sinto que o louvor me deixa sobrecarregada, imagina cuidar de uma célula, jovens são difíceis.
— Você sabe que louvor é mais perseguido né? Porque leva a igreja a adorar a Deus.
— Eu sei. — voltei meu olhar para ele — Vamos falar sobre outro assunto, ou melhor, vamos evangelizar antes de chegar na sua casa, só estamos conversando.
— Verdade. — ele riu enquanto abria a mochila — Vamos lá.

Davi me deu um pouco dos panfletos da célula e começamos a entregar para as pessoas que encontrávamos pelo caminho, impressionante foi ver que todas realmente conheciam o irmão Zé, e foram gentis conosco. Assim que chegamos, curiosamente meu pai já estava lá, sentado no sofá conversando com o irmão Zé, que atentamente anotava algumas coisas em seu bloco de notas.

— Pai. — disse assim que ele me olhou — Benção.
— Jesus te abençoe querida. — ele sorriu de leve e piscou para mim como sempre fazia.
— Bença pai. — disse Davi — Bença, mãe.
— Deus te abençoe. — disse o irmão Zé continuando sentado.
— Deus te abençoe querido. — a irmã Kátia veio ao nosso encontro e nos abraçando — Como foi seu primeiro dia ?
— Foi bom, com a ajuda do Senhor, estou na mesma sala que Davi. — respondi.
— Ah, que maravilha. — disse ela — Estão com fome?! O almoço está quase pronto.
— Eu estou um pouco mãe. — respondeu Davi.

A irmã Kátia riu alto, brincando que ele sempre vivia com fome. Após o almoço, meu pai decidiu que passaríamos a tarde na casa deles, pois às seis horas da noite, faríamos a oração de consagração da casa, para que a célula pudesse ser inaugurada na quarta-feira como decidido. Quarta era um bom dia para todos! Assim que terminamos a consagração à noite, voltamos para o apartamento, eu tinha alguns deveres escolares para fazer, além dos meus estudos pessoais.

— Vou me recolher primeiro. — disse assim que entramos em casa — Tenho muitas coisas para fazer.
— Bons sonhos, princess. — papai sorriu para mim e logo fechou a porta a trancando — Tente descansar um pouco, hoje o dia foi cheio.
— Sim, vou descansar.

Ao entrar no quarto, coloquei a mochila em cima da bancada de estudos e corri para o banheiro, estava um pouco apertada e aproveitaria para tomar um banho também. Após colocar o pijama, sentei na cadeira e dali só sairia às dez horas para orar e dormir, já que as aulas seriam pela manhã, meu devocional10 teria que ser à noite. Não demorei muito para terminar de fazer os exercícios que tinham ficado faltando, até que para o primeiro dia de aula, havia sido tranquilo as matérias estudadas.

— Deus me ajuda, estou com sono e não posso dormir agora. — sussurrei olhando o relógio de celular, que já marcava nove da noite — Sempre consegui ficar até mais tarde acostada.

Olhei para a apostila já sentindo minhas pálpebras caindo, então fechei e levantei da cadeira.

— Ok, então vou orar e ler meu capítulo diário, se não fizer isso agora, durmo sentada. — disse indo pegar minha Bíblia na cabeceira da cama — Onde parei mesmo? Êxodo 5!

Sim, eu já estava em Êxodo em busca do meu chamado para aquele livro, mesmo sabendo que o mais certo e óbvio era o primeiro mandamento ordenado por Deus, primeiro e mais importante, eu sabia que assim como em Gênesis poderia aprender bem mais ao ler tudo. Era difícil de acreditar, mas aquela estava sendo minha segunda vez lendo toda a Bíblia novamente, porém desta vez era diferente, além de estar em busca do meu chamado, sabia que a palavra do Senhor iria tocar ainda mais meu coração.

- x -

— Primeiramente, gostaria de agradecer a todos por estarem presente aqui hoje, e também pelo irmão Zé e sua família que abriram as portas da sua casa para nossa primeira célula. — anunciou meu pai.
— Nós é que agradecemos a oportunidade e o privilégio do Senhor Jesus. — disse o irmão Zé, dava para ver a emoção no seu olhar.
— Após nossa oração de entrada e agradecimento, vamos ter um momento de louvor e a dinâmica, antes de entrarmos na palavra. — disse meu pai desviando seu olhar para mim.
— Paz igreja. — cumprimentei meio baixo.
— Paz. — disseram todos em coral.
— Estamos em um tempo reservado ao Senhor Jesus, sintam-se livres para glorificar o nome dEle, para se expressarem diante do pai da melhor forma possível. — comecei a ministrar pegando meu violão que estava ao lado — Convido a todos a levarem seus pensamentos a Deus e fechar seus olhos.

Olhei para Davi que estava perto da porta e já dei o sinal para apagar a luz, assim que tudo ficou escuro, comecei a dedilhar no violão até entrar na canção em si. Naquela primeira noite de célula, havia uma música que estava falando muito ao meu coração, assim como estava falando comigo, eu havia jejuado todo o dia em intercessão para que não fosse eu cantando, mas que todo o som que saísse de meus lábios, fosse a voz do Espírito Santo, falando aos corações deles.

Aquieta minh'alma, faz meu coração ouvir Tua voz… — iniciei a canção da forma mais suave possível que eu conseguiria — Me chama pra perto, só assim eu não me sinto só…

Por mais que eu estivesse louvando diante de várias pessoas, enquanto tocava estranhamente de olhos fechados e luzes apagadas, eu sentia que estava sozinha somente com o Senhor Jesus, como se estivesse fazendo uma serenata para ele. Sentia sua paz e amor me envolver de uma forma especial, que me fazia querer louvá-lo ainda mais.

Vai ser difícil, eu sei, largar tudo por Você, mas eu sei que quando eu pensar em desistir… — essa era a parte que mais me impactava naquela canção — Você estará ao meu lado, me segurando, me assegurando de que tudo vai ficar bem… Tudo vai ficar bem!

I see a generation
Eu vejo uma geração
Rising up to take their place
Erguendo-se para tomar seu lugar
With selfless faith, with selfless faith
Com uma fé não egoísta, com uma fé não egoísta

I see a near revival
Eu vejo um avivamento
Stirring as we pray and seek
Se aproximando ao orarmos e buscarmos
We're on our knees, we're on our knees
Estamos de joelhos, estamos de joelhos
Hosanna, Hosanna, Hosanna in the Highest
Hosana, Hosana, Hosana nas alturas.”
- Hosanna / Minzy (cover by Hillsong)



3. Levítico

"Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes,
Então eu vos darei as chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua colheita,
e a árvore do campo dará o seu fruto."
- Levítico 26:3-4

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“É melhor obedecer, do que sacrificar!”

Essa foi a frase de maior impacto na primeira ministração do meu pai na célula, e ainda permanecia forte e viva em meu pensamento, o que me levou de alguma forma estranha e surpreendente a encontrar meu chamado de Levítico: Obediência.

— Deus… Mais uma vez agradeço por mais um dia, pelos seus ensinamentos e tudo o que és para mim. — disse terminando minha oração — Amém! Glória a Deus, aleluia!

Me levantei da beirada da cama e fui trocar de roupa, mais um dia de lutas e vitórias se iniciava em minha vida. Ao passar pela sala, olhei na direção da cozinha e tinha um copo de vitamina me esperando na bancada da pia, certamente tinha sido preparado pelo papai, já que ele não gostava que eu fosse para a escola em jejum, a menos que estivesse em algum propósito com o Senhor.

Tomei a vitamina e ajeitando a mochila nas costas, segui para a rua onde Davi já estava me esperando, por algum motivo louco ele já havia se acostumado a dar a volta para me busca, por mais que eu dissesse que não precisava mais, ele insistia em fazer a gentileza de me acompanhar.

— Bom dia. — disse Davi ao me ver — Paz do Senhor.
— Bom dia, paz do Senhor. — o cumprimentei sorrindo de leve — Conseguiu acordar de madrugada para orar?
— Claro. — ele riu de imediato — Depois de pedir três vezes para minha mãe me acordar.
— Não acredito nisso. — eu ri junto — Você não consegue acordar sozinho?
— Acredite, eu não sei de onde sai tanto sono, mas não consigo. — ele se espreguiçou — Mas se for para jogar alguma coisa, passo a noite em claro sem nenhum problema.
— Vigia irmão. — brinquei com ele.
— Nossa… Nem acredito que já fez dois meses que a célula foi inaugurada. — comentou ele seguindo para atravessar a rua — O tempo está passando muito rápido mesmo.
— Está. — concordei o acompanhando — Mas as coisas parecem continuar as mesmas para nós.
— Hum… Deve ser complicado para vocês. — observou ele — Muita responsabilidade.
— Demais… Mas como meu pai diz, é Deus quem nos capacita.
— Isso é verdade. — ele deu um suspiro fraco — E por falar em capacitar, você estudou para prova de hoje?
— Que prova? A de matemática? — perguntei tentando me lembrar se tinha estudado a matéria correta.
— A própria, essa professora nem é a definitiva, mas adora esfolar os alunos. — reclamou ele.
— Pelo visto você não estudou. — ri baixo.
— E quem lá vai entender o que é hipotenusa?! — ele reclamou tentando se justificar — Onde na minha vida vou usar isso?!
— Em um triângulo retângulo a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. — respondi seu questionamento sobre a matéria rindo da sua cara — Se não gostou reclama com Pitágoras, foi ele quem inventou isso.

Davi me olhou por um momento como se quisesse me jogar de uma ponta, o que me fez rir ainda mais.

— Se não estudou para prova, vai ser difícil conseguir fazê-la. — comentei sua triste realidade.
— Que chateação, não posso nem pegar o caminho mais fácil. — reclamou de novo.
— Vigia varão. — o repreendi — Jesus está vendo seus pensamentos aí, nada de apelar pelo mais fácil e colar, deveria ter estudado.
— Juro que tentei estudar, mas meus neurônios simplesmente não absorvem essa informação. — explicou ele — Mas, eu não vou colar, fiz isso uma vez e me arrependi muito depois disso, pedi perdão ao Senhor.
— Que bom. — sorri de leve — Se quiser, no intervalo posso estudar com você.
— Sério?! — ele me olhou — Por que não se ofereceu antes?!
— E eu lá sabia que você precisava de ajuda?! — parei por um instante e cruzei os braços — O Espírito Santo nos revela as coisas, mas quando se precisa de ajuda deve pedir.
— Hum… Desculpa, é que você tem tantas coisas pra resolver com o pastor, que nem achei que tivesse tempo para estudar.
— Ata, e acha que minhas notas vem de onde?
— Você é muito inteligente. — respondeu ele com tranquilidade.
— Mesmo assim, tenho sempre que estudar para exercitar minha mente, e isso não é desculpa para você não estudar. — voltei a caminhar — Vamos que se chegarmos antes do portão abrir, dá pra ler um pouco sobre a matéria.
— Sim professora. — brincou ele.

Davi era mesmo um bobo piadista, mas era divertido conversar com ele pois sempre fazia algumas piadas no meu da conversa, principalmente sobre a escola e nossos estudos. Ao longo desses dois meses que estava frequentando aquela escola, pude perceber quão os alunos eram individualistas e egoístas uns com os outros, além de já ter presenciado muitas cenas no banheiro feminino, que gostaria de nem ter visto.

Como disse ao meu novo amigo a um tempo, eu queria fazer a diferença e começaria por mim, só não sabia como. Meu pai já havia dado a ideia de fazer uma mini célula na hora do intervalo, para somente adoração ao Senhor, porém aquele meu lado inseguro sempre me atormentava, fazendo-me desistir de qualquer ideia que pudesse me deixar em evidência. Porém, Deus com sua misericórdia por mim e pela minha vida, sempre trazia palavras de consolo e reflexão para mim através do meu pai, e agora através de Davi também.

— Agora sim, consegui entender um pouco, só um pouco. — disse ele assim que o expliquei pela quinta vez como se resolvia os cálculos.
— Glória a Deus. — disse aliviada — Já que terminamos, queria te pedir uma coisa.
— Você tem sempre créditos comigo, diga o que deseja. — assentiu ele.
— Sabe aquela ideia do meu pai que eu te contei?!
— Sim, o que tem?!
— Estava pensando em colocá-la em prática, precisamos levar o amor do Senhor as pessoas, a única forma que sei até o momento é pelo louvor, mas preciso de uma pessoa para me ajudar. — expliquei.
— Você sabe que minha voz é péssima. — ele me olhou de forma estranha.
— Eu sei, mas não estava falando de cantar. — expliquei melhor — Quero sua ajuda para tudo, para ser mais exata.
— Ah… Já entendi, quer dividir a responsabilidade. — ele parecia ter entendido o que eu queria dizer — Tudo bem, conte comigo! Em que posso ajudar?!
— Em oração primeiro. — respondi — Tudo o que fazemos para o Senhor Deus, deve ser com ordem e decência, então primeiro faremos sete dias de jejum e oração, pela direção e benção de Jesus.
— Faz sentido. — concordou ele.
— Depois, começamos a convidar as pessoas para participar com a gente. — completei.
— Podemos fazer toda segunda, quarta e sexta. — sugeriu ele — Por que sempre tem gente que deixa pra estudar no intervalo e vai querer participar com a gente.
— Boa ideia! — sorri espontaneamente — Conto com você para evangelizar esses jovens, já que é tão popular assim.
— Nossa, agora você está falando igual o pastor. — observou ele admirado.
— Anos de convivência. — eu ri um pouco.

Em instantes o sinal bateu, nos acomodamos em nossos lugares para esperar pela professora de matemática, que assim que entrou pela porta já anunciou que a prova já iria começar. Eu me mantive concentrada e fiz uma pequena oração antes de começar a fazer a prova, aconselhei Davi a fazer o mesmo, pois estava um pouco mais nervoso do que eu.

No final da aula, nos despedimos assim que passei pela porta da sua casa, não iria almoçar com eles naquele dia, meu pai havia conseguido vender algumas mobílias nossa que ainda estava na casa dos meus avós paternos. O que significa mais provisão de Deus, em nossas vidas! Por mais que fosse bom e aconchegante almoçar todos os dias com a família de Davi, pois nos tratavam como se fossemos da família também, em alguns momentos nossa caminhada deveria ser solitário, só eu e papai juntos com o Senhor.

— Bença pai, bom dia! — disse ao entrar no apartamento já fechando a porta.
— Jesus te abençoe princess, bom dia. — ele que estava lendo a Bíblia, parou e me olhou com carinho — Que olhar feliz, gosto de te ver assim.
— É olhar de quem está grata ao Senhor Jesus. — respondi indo até ele e me sentando ao seu lado, colocando a mochila em cima do sofá — Como foi seu dia?
— Foi tranquilo, paguei algumas contas para a glória do Senhor, estudei um pouco alguns esboços que tenho feito. — respondeu ele com seu olhar sereno de sempre — Estava pensando sobre o irmão Zé e sua família.
— Hum… No que exatamente?! — perguntei querendo detalhes.
— Eles estão se mostrando muito interessados e dispostos a fazer a obra do Senhor, consigo sentir o desejo sincero deles. — explicou papai — E juntamente com isso vejo o quanto a célula está crescendo, para a glória de Deus, algumas pessoas já começaram a perguntar se pode ter célula na casa delas também.
— Isso é bom, glória a Deus. — disse sentindo um pouco de felicidade pelo trabalho do meu pai estar dando frutos.
— Sim… E para termos mais células precisamos de líderes responsáveis e comprometidos com a obra. — concluiu ele onde queria chegar.
— E o senhor está pensando em levantar o irmão Zé como um líder de célula? — perguntei concluindo.
— Sim, não somente ele como também a irmã Kátia. — respondeu — Mas precisarei treiná-los e prepará-los, não pode ser de qualquer forma.
— Isso é verdade… — concordei me lembrando do jejum que faria com Davi — E por falar em preparação, pedi Davi para me ajudar com aquela ideia que o senhor me deu.
— De evangelizar na escola?!
— Sim. — deslizei meu corpo pelo sofá até deitar minha cabeça no seu colo — Vamos jejuar e orar por esse propósito.
— Fez muito bem chamá-lo para te ajudar, lidar com jovens não é fácil. — disse ele assentindo minha atitude — Tenho certeza que Deus vai te honrar, pois você está se dispondo para que ele te use como instrumento.
— Amém! — sorri de leve — Apesar de não me importar muito com honras nesse momento, meu único foco agora é meu batismo com o Espírito Santo.
— Ah, sim… Continue buscando com força e intensidade. — incentivou — E nunca se esqueça, assim está escrito, derramarei o meu Espírito sobre toda carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os idosos terão sonhos, os jovens ganharão visões!
— Joel 2:28, jamais me esqueço desse versículo. — assenti.

Aquela palavra era meu consolo e minha certeza de que alcançaria meu batismo com o Espírito Santo, pois toda a promessa escrita na palavra do Senhor, se cumpre na vida daqueles que creem.

— Pai, como foi o seu batismo?! — perguntei curiosa.
— Ah… É uma experiência difícil de se colocar em palavras. — ele ficou pensativo por um momento tentando entender como me explicava — Vai além de sentir paz no coração, eu senti uma leveza tão grande dentro de mim, a plenitude de Deus invadindo o meu ser… Definitivamente é difícil explicar, só quem sente sabe como é.
— Quero muito sentir isso.
— Tenho certeza que você irá conseguir… As pessoas que mais oram e buscam pelo batismo, quando recebem são as que mais valorizam. — comentou ele como se quisesse me consolar.

Ficamos algum tempo no sofá, quando meu pai se levantou me puxando junto para a cozinha, segundo ele precisava de uma auxiliar para ajudá-lo, então preparamos nosso almoço em meio aos louvores e muitas risadas, meu pai ainda era um desastrado na cozinha. No final, nosso almoço foi spaguetti ao molho sugo pois era a única coisa que conseguia cozinhar.

— Definitivamente, amanhã eu cozinho. — disse ao me sentar no chão, em frente a mesa de centro improvisada que ele tinha feito.
— Que isso, não está tão ruim assim. — ele me olhou com cara feia — Eu sou muito bom em minha especialidade.
— Bem, disso não posso discordar. — ri um pouco vendo ele se sentar em minha frente — Mas não podemos comer macarrão todos os dias no almoço, teremos uma overdose de carboidrato.
— Que exagero. — ele riu me fazendo rir junto — Então amanhã você faz o almoço, e no outro dia sou eu.
— Pai, nada de macarrão… — o repreendi — Sei que pode fazer bem mais na cozinha.
— Não sou tão talentoso assim, mas você… — ele deu um sorriso bobo — Vamos comer.

Assim fechamos os olhos para agradecer pelo alimento, a oração de hoje era minha. As horas se passaram comigo em meu quarto praticando um pouco no violão, após fazer meus afazeres diários dos estudos. Não era fácil estudar sozinha, mas já havia se completado dois anos que estava estudando inglês e japonês online em sites gratuitos, felizmente tinha os dicionários para me auxiliar.

Horas depois que escureceu, meu pai me chamou para o acompanhar a casa do irmão Zé, ele iria conversar sobre o início do treinamento de capacitação deles. Aproveitei para conversar com Davi sobre o trabalho de geografia sobre sustentabilidade, que teríamos que entregar em duas semanas, apesar dele não parecer nada animado com o assunto.

— Confesso que não gosto muito de geografia. — disse ele jogando seu corpo na sua cama — Não podemos deixar para depois?!
— Deixe de ser preguiçoso e se levante. — o repreendi mantendo meus braços cruzados, parada na porta — Depois não reclama quando suas notas não forem favoráveis.
— Não quero mesmo ir pra faculdade. — brincou ele.
— Levanta dessa cama em nome de Jesus. — disse num tom mais sério — E deixe de preguiça.
— Nossa. — ele ergueu seu corpo de imediato — Você está parecendo minha mãe.
— Não me diga?! — eu ri um pouco — Estou convivendo muito com a irmã Kátia.
— Também acho. — ele riu também se levantando — Tudo bem, vamos fazer o trabalho na varanda.

Ele pegou o caderno ainda emburrado por ter que estudar aquela hora da noite, mas eu não queria deixar mais aquele trabalho se acumular, pois tínhamos outros quatro para fazer e todos complexos e cansativos. Sentamos no chão da varanda e começamos a dividir quem iria pesquisar o que, como poderia ser impresso, Davi se ofereceu para digitar tudo e eu iria fazer a correção quando ele me enviasse, assim nenhum de nós ficaria sobrecarregado.

— Eu vou começar a pesquisar, amanhã e te envio para você opinar. — disse ele fechando o caderno.
— Tudo bem. — assenti terminando de anotar algumas coisas na agenda que tinha levado comigo.
— O pastor vai mesmo começar a treinar meus pais?! — perguntou ele aleatoriamente.
— Sim, foi pra isso que viemos, ele conversaria com eles hoje para iniciarem um jejum em prol disso, porque é muito sério ser um líder de célula. — respondi — E como eles ficaram sem congregar, então é como se tivessem começando tudo novamente.
— Entendi, será que eu posso também?! Para te ajudar, caso abra uma célula de jovens.
— Acho que sim, se você já for batizado nas águas11. — seria bom para ele também, já que estava tão entusiasmado a ajudar.
— Então vou querer fazer sim, eu batizei ano passado. — respondeu ele com uma ponta de brilho nos olhos — Sinto que preciso aprender mais, adquirir mais conhecimento.
— Conhecimento nunca é demais, principalmente porque a palavra do Senhor se renova a cada dia, então temos sempre que estar em constante aprendizado.
— E por falar em aprendizado… — ele me olhou por um tempo, parecia pensar em algo — Estou me lembrando agora de uma pessoa que tenho que te apresentar.
— Quem? — perguntei curiosa.
— Ela é uma líder de jovens que sempre reúne líderes de várias igrejas para fazer grandes eventos voltados para jovens cristãos. — explicou ainda pensativo — Conheci ela no ministério em que estava, num evento que fui, mas não consigo me lembrar do nome dela.
— Que bela memória. — brinquei rindo dele — Quando você lembrar me fala, mas não fique tão afoito assim, nem sei se serei mesmo líder de jovens.
— Ainda fugindo do chamado?! — brincou ele rindo.
— Não, mas não acho mesmo que meu chamado seja mexer com jovens, porém o que precisar fazer eu farei, com prazer. — expliquei — Mas, é que estou vendo que está muito afoito.
— Não estou afoito, só quero fazer a obra do Senhor. — explicou ele.
— Estou vendo. — sorri de leve — Fico muito feliz pela sua boa vontade, terei alguém para dividir as responsabilidades.
— Interesseira! — brincou ele rindo.
— Sou nada. — reclamei rindo junto.

Após o convite irrecusável da irmã Kátia, pois o cheiro de sua comida tinha invadido a casa toda, ficamos mais um pouco para o jantar. Quando chegamos em casa, comentei para meu pai o desejo de Davi para fazer também o treinamento junto com seus pais para ser um líder de célula, ele gostou de imediato e já foi logo me colocando para treinar o Davi.

— Mas pai?! — o olhei de forma cansada — Tem mesmo que ser eu, o senhor já vai dar o curso de capacitação para os dois, por que não pode dar para o Davi também?!
— Você já passou por ambos os cursos e sabe que célula adulto é de um jeito, jovem e adolescente é de outro e criança é de outro. — explicou ele — Por isso, não posso ensiná-lo também, divide comigo.
— Por que será que eu já esperava por isso?! — cruzei os braços.
— Não faça essa cara. — ele sorriu de leve para mim e veio me abraçar — Sei que parece muita coisa para uma pessoa só, mas logo Deus enviará mais ajudadores, só precisamos nos dispor para ele.
— Eu sei, preço para Ele renovar minhas forças todas as manhã. — deu um suspiro fraco.
— Então, posso contar com você para dar o curso de capacitação para ele?! — insistiu papai ainda com o sorriso no rosto — Você já é uma líder treinada e capacitada para isso, além de ensinar muito bem.
— Pode, vou treiná-lo como um líder de jovens, apesar de ainda não termos nenhuma célula assim. — assenti.
— Deus nos manda adquirir conhecimento e preparar um ambiente profético, não podemos multiplicar as células desordenadamente sem preparo. — assegurou ele com certeza do que dizia.

Como sempre papai estava certo, eu também jamais pegaria algo para fazer relaxadamente, sei que a obra de Deus é coisa séria e deve sempre ser feita com ordem e decência. Desejei bons sonhos a ele e caminhei me espreguiçando para o quarto, assim que cheguei, peguei meu pijama e fui para o banheiro tomar um banho quente, estava sentindo meu corpo pesado e cansado.

Quando voltei para o quarto, peguei meu celular e já tinha uma mensagem de Davi no whatsapp, falando que tinha lembrado do nome da líder de jovens.

“Você não vai dormir não?!” — enviei a mensagem rindo.
“Vou sim, kkkkkkkkkk”
“então, qual é o nome da moça?”
“Layla… me lembrei por causa de uma prima da minha mãe, que tem esse nome”
“hummm legal”
“acho que ainda tenho o número dela, mas se não tiver posso conseguir”
“fica em paz vaso12
“eu tô em paz kkkkkkkkkkkkkkk”
“então vai dormir kkkkkkkkkkkkkkk”
“estou sem sono”
“então vai ler a Bíblia”
“já li… estava meditando sobre algumas coisas”
“e?!”
“acabei lembrando o nome da líder e te mandei a mensagem”
“ahhhh…. eu acho que vou dormir agora, estou com sono”
“e a nossa oração? para o louvor na escola?”
“eu estou orando de madrugada, e você?”
“eu oro agora à noite, antes de dormir”
“ahhhh…. o que importa é que você está orando, não esqueça do jejum”
“jamais”
“bom dia.”
“não seria boa noite?”
“eu sempre falou bom dia kkkkkkkkkkKK”
“tenho que me acostumar com isso kkkkkkk”
“até manhã”

Fechei o aplicativo e desliguei a internet. Então peguei minha Bíblia e me ajoelhei na beirada da cama, abri no livro de Levíticos que estava lendo atualmente para tentar finalizá-lo aquela noite.

— Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes… — comecei a ler da parte em que tinha parado na noite anterior.

Senti meus olhos pesados pelo sono, mas continuei lendo até o final, então agradeci ao Senhor pelo privilégio de ter sua palavra acessível em minhas mãos e o louvando, iniciei minha oração. Naquele momento eu começaria mais um jejum, porém este seria bem mais intenso e doloroso, cortaria duas coisas que gostava em minha vida por um tempo, o chocolate e as séries da Netflix, em prol do meu batismo com o Espírito Santo que era meu foco e maior desejo.

Não seria fácil, pois as séries era meu único lazer atualmente, principalmente por vê-las legendadas, me ajudava com os estudos de inglês, sem mencionar meu amor por chocolate, mas o motivo era o mais lindo e sincero da vida. Eu queria meu batismo, ansiava ter o Espírito Santo me envolvendo em teus braços, queria ser completa por Ele de todas as formas possíveis, desejava a plenitude de Deus dentro de mim.

그가안에
Ele está em mim
내가안에거할
Quando eu habito nele
모든두려움사라져사랑안에자유하
Todo medo desapareceu, a liberdade está nesse amor.”
- Your Love Came Into Me / J-US

 

Dicionário:
8. deserto: forma ou expressão usada de referência a momentos de lutas e dificuldades.
9. jejuar/jejum:é a privação de comida ou outro coisa que gostamos, que dá prazer a nossa carne, durante um período para que nosso espírito se fortaleça em Cristo.
10. devocional: é um momento/tempo que tiramos ao longo do dia para orar e para a leitura da palavra.
11. batismo nas águas: é um ato de obediência e submissão ao Senhorio de Cristo e um testemunho público de nossa fé cristã.
12. vaso: jovem


Números

“Então Calebe fez o povo calar-se perante Moisés e disse:
“Subamos e tomemos posse da terra. É certo que venceremos!”
- Números 13:30

- x -

Uma semana se passou e finalmente eu e Davi entregamos nosso jejum, confesso que ainda estava relutante sobre ser uma líder de jovens, para mim somente bastava evangelizar, mas finalmente senti que Deus queria mais de mim. Então, após relutar muito e recusar internamente, assenti.

— Tenho certeza princess que você será uma sábia líder. — disse meu pai após terminarmos de orar, consagrando minha vida para essa nova jornada.
— Amém. — sorri de leve — Farei o meu melhor para não decepcionar o Espírito Santo.
— Já sabe como vai começar?! Será mesmo nos louvores da escola? — perguntou ele me abraçando carinhosamente.
— Sim, acho que esta é uma boa estratégia de evangelização. — concordei aceitando o abraço dele — Quem sabe com um pouco da presença de Deus, aquela escola fica mais tranquila.
— Hum… — ele se afastou um pouco de mim — Está mesmo preocupante lá?!
— Um pouco. — dei um suspiro fraco me sentando no sofá — Situações do cotidiano, só que um pouco pior, vejo muito egoísmo entre as pessoas.
— Mas isso é o normal do mundo, só que existem lugares onde é mais perceptível. — ele se sentou ao meu lado — Quer falar sobre algo que aconteceu lá?!
— Tem um garoto lá chamado Joseph, não é da minha sala mas vejo os alunos intimidados com a sua presença, sinto que há muita agressividade reunida dentro dele. — contei — Fico triste porque lá no fundo seu olhar não condiz com sua postura.
— Você sabe alguma coisa sobre ele?! — perguntou meu pai um pouco interessado — Sobre a família?!
— Não, ouço comentários sobre a mãe ter deixado ele quando era um bebê e o pai ser viciado em bebidas alcoólicas, ele parece ser sozinho, mesmo tendo alguns amigos ao redor. — expliquei.
— Procure saber mais, interceda por ele, se Deus está te incomodando, é porque tem um propósito do Senhor na vida deste jovem. — seu olhar estava sério e preocupado, sempre ficava assim quando se tratava da vida de alguém problemático — Além deste jovem, tem mais alguém que te preocupa?
— Preocupa não, mas ando observando uma garota na minha sala chamada Lira, outro dia no vestiário ouvi ela cantarolando uma música da Isadora Pompeo. — respondi tranquilamente deitando minha cabeça em seu ombro — Assim que ela me viu, se calou.
— E ela é cristã?!
— Hum, Davi disse que sua mãe foi diaconisa de um ministério, até ela sair por causa de fofocas dentro da igreja. — olhei para o celular que estava ao lado.
— Infelizmente isso vem matando muitas pessoas na fé. — comentou meu pai com um tom triste — Irmãos julgando irmãos, sendo que Jesus manda estender a mão e amar o próximo como a ti mesmo.
— Marcos 12:31. — assenti com a face…

Contei um pouco mais sobre a escola para ele, principalmente sobre a professora de matemática que está tirando o sono dos alunos. As horas se passaram com nossa conversa rendendo sobre algumas receitas que meu pai tirou para aprender no youtube, fiquei um pouco admirada no início com ele contando todo empolgado e até incentivei a escolher uma para o jantar.

— Hum… Que tal esse risoto de frango?! — disse ele enquanto fazia a busca pelo aplicativo do celular.
— Temos ingredientes para isso? — abri o armário vasculhando as prateleiras.
— Eu marquei esse vídeo ontem, não é difícil e não gasta muita coisa. — respondeu se virando para mim — Temos frango do almoço que pode ser reaproveitado.
— Que legal, papai está aprendendo bem com a internet. — brinquei rindo.
— Te juro que nem foi intencional, estava vendo uma pregação do pastor Márcio e depois que acabou, vi lá no final da lista um vídeo sobre receita de pão sírio. — seu olho brilho por um momento — Princess eu descobri um novo mundo.
— O senhor descobriu o mundo da gastronomia. — ri novamente dele — Me sinto até um pouco orgulhosa.
— Não vá achando que eu ficarei na cozinha sempre. — ele cruzou os braços tentando ficar sério.
— Um dia no youtube e já está se achando o Cake Boss. — fechei a porta do armário.
— Ainda irei te surpreender mocinha. — ele colocou o celular na bancada — Vamos para a nossa janta.

Foi fofo ver meu pai fazendo a receita passo a passo que estava sendo ensinada no vídeo, claro que tinha que ajudar ele com algumas coisas principalmente picar a cebola. No final para a minha surpresa a cozinha não estava tão bagunçada assim e o cheiro que havia rescindido na casa era de dar água na boca.

— Ficou mesmo gostoso. — elogiei ao dar a primeira garfada — Já pode ir para o MasterChef pai.
— Posso mesmo?! — ele me olhou surpreso.
— Melhor não, o senhor não se sai muito bem sobre pressão. — ri baixo — Mas ficou mesmo muito bom, o tempero está legal.
— Eu achei que ficou muito temperado por causa do frango. — observou ele.
— Sério?! Não estou reparando. — comi mais uma garfada para senti o sabor — Ah… Está mesmo mas nem dá para sentir tanto assim, para primeira vez e usando as sobras do almoço, pare de se exigir tanto.
— Sim, para primeira vez está mesmo bom, agradeço a minha voluntária por picar a cebola. — ele sorriu de leve.
— Só a cebola?! — o corrigi.
— Por me ajudar no conjunto completo da obra. — ele deu uma gargalhada.
— Ah bom. — ri da sua cara — Pai, estou aqui pensando, se formos abrir uma célula jovem, seria onde?
— Hum… Não sei, ainda não pensei nisso, mas por enquanto foque em fazer o momento de louvor na escola. — aconselhou ele — Um passo de cada vez, pois quem está à frente é Deus.
— Tem razão, não vou me deixar ficar ansiosa por isso, já estou com receio de não fazer direito. — disse um pouco preocupada.
— Tire isso da sua mente. — ele sorriu — Vamos somente saborear essa comida abençoada agora.

Assenti com a face sorrindo de volta.

Segunda-feira enfim chegou e com ela, o primeiro dia que eu e Davi iríamos iniciar nosso projeto na escola de evangelizar com o louvor, eu sabia que não seria fácil porém não desistiria também por causa das dificuldades. As semanas foram passando com somente eu e Davi no cantinho perto da biblioteca com nosso louvor, claro que era eu quem mais cantava enquanto tocava meu violão, mas ele ajudava fazendo alguns batuques na cadeira.

— Bom dia. — disse ao me aproximar de Lira no início da aula de quinta-feira.
— Bom dia. — ela me olhou acanhada.
— Tudo bem? — me sentei na carteira em sua frente.
— Sim. — ela puxou sua bolsinha de lápis mais para perto.
— Percebi que você não gosta muito de sair para o intervalo. — comentei.
— Prefiro ficar na sala.
— Posso te convidar a participar do nosso momento de louvor? — perguntei — Fazemos toda segunda, quarta e sexta, é bem legal e cantamos muita música da Isadora Pompeo.
— Você conhece as músicas dela?! — ela me olhou um pouco mais interessada, porém não deixando seu receio de lado.
— Claro, ouço bastante, O nome de Jesus é a música que mais gosto. — disse de forma espontânea tentando me aproximar mais — E você?!
— Minha morada, é a que eu mais gosto. — disse ela dando um sorriso tímido.
— Essa música também é muito boa…
— É sim. — concordou.
Olho para mim e vejo um pequeno mortal... Olho para dentro e penso: Não quero ser igual… — eu comecei a cantar um pequeno trecho e logo ela foi me acompanhando — Olho para minhas mãos, cansei do natural… Olho pro meu coração, eu busco o sobrenatural de Deus.
— Você canta bem. — elogiou ela.
— Obrigada, você também é bem afinada. — comentei.
— Agradeço, mas o louvor não é o meu chamado.
— Você já sabe qual é?! — perguntei curiosa.
— Com certeza não, mas desconfio. — respondeu um pouco mais à vontade.
— Você frequenta algum ministério?!
— Não, eu e minha mãe estamos um pouco afastadas da igreja. — confessou com um tom triste.
— Hum… É triste quando não estamos em comunhão, parece que falta algo dentro de nós. — disse de uma forma que ela pudesse entender que eu imaginava como era difícil para ela.
— Isso já aconteceu com você? — perguntou curiosa.
— Por um tempo após a morte da minha mãe, fiquei meio afastada de Deus, mas Ele me fez perceber que Ele jamais havia se afastado de mim e me queria de volta em seus braços. — respondi com toda a sinceridade, me lembrando do dia em que pedi perdão ao Senhor por ter me afastado dEle.
— Acho que é isso que eu venho sentindo. — ela desviou seu olhar triste para a mesa.

Respirei fundo tentando encontrar as palavras certas para continuar desenvolvendo aquela conversa com ela, porém o professor de Literatura entrou na sala já anunciando que passaria um super trabalho para entregar na próxima semana.

— Tenho que ir para meu lugar, mas não deixe de ir no intervalo participar do louvor com a gente. — sorri para ela com carinho e segui para minha carteira.
— Finalmente tomou coragem e foi falar com ela?! — Davi me olhou.
— Tinha que dar o primeiro passo, ela é uma garota bem tímida. — respondi — Mas foi bom, descobri que sua música preferida é da Isadora Pompeo.
— Eu também dei minhas voltas pela escola e convidei o pessoal do terceiro ano que se interessou. — avisou ele.
— Isso é legal, eu disse que você era um bom menino popular! — sorri me sentando na cadeira — Pronto para mais um dia de aula?!
— Não, vamos pular pra parte em que chegamos na formatura?!
— Deixe de ser preguiçoso, estudar é bom. — ri da careta que ele estava fazendo.
— Fale por você. — ele deu de ombros.

Me virei para frente e já retirei o caderno da mochila, o trabalho tão anunciado pelo professor era sobre os autores literários ingleses, teríamos que escolher um autor e uma obra dele para fazer uma resenha crítica. Minha escolha não seria outra, Orgulho e Preconceito de Jane Austen sempre seria minha primeira opção na literatura inglesa, a sutileza e autenticidade em suas histórias me deixavam fascinada.

— Lira. — a gritei pouco antes dela sair da sala.
— Hum. — ela se virou em minha direção e me olhou.
— Quer companhia para a volta?! — ofereci — Percebi que vamos para o mesmo caminho.
— Não sei, você já tem companhia. — ela se encolheu um pouco.
— O Davi?! Ele não se importa, toda companhia é bem-vinda. — sorri de leve me aproximando dela — E acho que hoje ele trabalha, então fará o caminho contrário, então podemos continuar aquele nosso assunto, se você quiser claro.
— Prefiro falar sobre outra coisa. — ela desviou o olhar para Davi que estava se aproximando de nós.
— Teremos outra companhia hoje?! — ele a olhou — Que legal.
— Não entendo sua animação, quando chegarmos ao portão você vai nos abandonar. — eu cruzei os braços e o olhei.
— Estou feliz porque você não vai sozinha. — explicou dando uma risada.

Como previsto Davi seguiu o caminho contrário, então continuei com Lira pensando como poderia me aproximar mais dela de forma sábia e sem tocar mais no assunto que a deixava desconfortável.

— Você vê filmes? — perguntei.
— Não muito, gosto mais de animações. — respondeu como se estivesse aliviada pela minha pergunta mais do que simples.
— Quais são suas preferidas? — me interessei um pouco, ao me lembrar vagamente de sempre fazer maratonas de animações com minha mãe quando criança.
— Gosto dos clássicos da Disney, mas meu favorito vem da Pixar, Ratatouille. — respondeu com certa animação — É tão fofo aquele ratinho cozinhando.
— Verdade. — concordei — Gosto muito dessa animação também, sempre me pego vendo às vezes, podemos assistir juntas algum dia.
— Ah, não sei. — ela se retraiu novamente — Não quero causar incômodo ao seu pai.
— Meu pai?! — achei meio estranho essa preocupação dela — Porque ele ficaria incomodado?!
— Geralmente isso acontece. — ela voltou o olhar para o outro lado da rua — Chegamos, acho que vou te deixar ir sozinha daqui.
— Você mora por aqui?! — perguntei.
— Sim, no início daquele beco. — ela apontou.
— Até amanhã na escola então, vai com Deus.
— Amém! — ela se afastou seguindo sua direção.

Por um momento fiquei intrigada com sua reação, afinal foi um simples convite para assistir um desenho. Senti um breve desconforto em meu coração ao observá-la atravessando a rua e entrando no beco, o que me fazia ter certeza que havia algo errado naquilo, ainda mais ela dizer que todos se incomodavam com sua presença.

- x -

— Agradeço a todos que vieram em mais um momento de louvor. — disse Davi na sexta após ter feito a oração de entrada, assim que nos reunimos ao lado da biblioteca como sempre no intervalo — Após três semanas somente eu e aqui, é bom saber que mais pessoas querem participar.

Eu avistei Lira descendo o último degrau da estava e acenei para que ela se aproximasse. Uma coisa era somente eu e Davi, outra coisa era nós dois e mais quatro pessoas junto, mesmo que não fosse tanta assim senti lá no fundo o peso da responsabilidade, mas não me deixaria fraquejar! Como prometido daria o meu melhor.

— Vou começar hoje com um louvor que gosto muito. — tomei fôlego ao começar a dedilhar o violão, equilibrando a entonação da minha voz — Em Teus braços, eu vou me entregar… Os meus medos, eu deixo aos pés do altar… Todos os planos meus, hoje eu entrego a Ti… Toma o Teu lugar, Tu és bem-vindo aqui…

Sempre que eu cantava, preferia manter meus olhos fechados, primeiro para me ajudar a concentrar e depois para lutar contra minha parte tímida que ainda insistia em me confrontar. Isso me dava um pouco mais de liberdade para expressar meus sentimentos ao Senhor, era como se tudo no mundo desaparecesse e estivesse somente eu e Ele ali, comigo fazendo aquela serenata em forma de louvor. Pelo menos para mim era como se fosse isso, uma linda serenata expressando todo o meu amor a Deus.

O som do céu, vamos ouvir… Sopra Teu vento suave hoje aqui… Eu vou declarar o único nome que salva… Jesus!!! — terminei a canção de forma ainda mais suave e abri os olhos.

Enquanto Davi tomou a palavra para ler um versículo que ele havia separado para o dia, voltei meu olhar para Lira que discretamente limpava algumas lágrimas, sabia que aquela canção iria em seu íntimo e falaria ao seu coração. Esperei até que Davi terminou de explicar o versículo e iniciei a próxima canção, fiquei muito feliz em ver como as pessoas que estavam ali se sentiram bem e em paz ao se juntar a nós.

— Bom dia pai. — disse assim que ele chegou em casa à noite.
— Bom dia querida! Como foi hoje? — perguntou ele fechando a porta.
— Foi bom, na graça de Deus. — respondi com um sorriso no rosto.
— Estou vendo pelo brilho nos seus olhos. — ele deixou sua maleta ao lado do sofá e se sentou — Quer me contar?!
— Hum. — permaneci sentada no chão e inclinei minhas costas encostando no sofá — Nosso momento de louvor hoje teve quatro pessoas. — sorriu novamente — Olha que lindo.
— Que benção. — meu pai sorriu também — Continue perseverante que Deus quem enviará as pessoas.
— Vou sim, isso me fez ficar muito animada, principalmente que a Lira também participou.
— Sério?! Aquela jovem parece ter um grande chamado, mas tem muitas coisas que a oprimem. — comentou — Pude perceber enquanto você falava sobre ela ontem, você precisará de muita sabedoria para saber lidar com ela.
— Me assusta quando diz essas coisas das pessoas, ainda mais quando nunca as viu. — voltei meu olhar para meu caderno que estava em cima da mesa de centro.
— Já lidei com muitas pessoas nessa vida, mesmo antes de ser pastor. — explicou ele — Existem pessoas que já foram tão machucadas pela vida que não conseguem se abrir, menos ainda permitem que alguém as ajude a cicatrizar as feridas.
— E como eu faço para me aproximar dela e conquistar sua confiança?! — o olhei um pouco confusa no que fazer.
— Faça como Jesus ensinou, transmita o amor de Deus que está em você para ela. — seu rosto estava mais sereno do que o normal — Você estará agindo como uma verdadeira cristã, estendendo a mão ao invés de apedrejar.
— É isso que eu quero pai, poder ser um referencial para ela e para todos que um dia acharam que fizeram o certo a isolando. — confirmei aceitando o conselho dele.
— Estou feliz por ter este pensamento, tenho certeza que dará certo. — ele esfregou de leve a mão na minha cabeça bagunçando meu cabelo — Que tal um lanche básico?!
— E a janta?!
— Hoje é sexta, sexta não é dia a janta. — ele se levantou do sofá — Que tal sessão pipoca?!
— Não estou vendo séries. — o lembrei me referindo ao meu jejum.
— Eu sei, mais ainda podemos ver filmes, é um momento de comunhão com a sua família, e Deus ordena a benção na comunhão. — explicou ele de imediato já vasculhando o armário para pegar a panela.
— Salmos 133. — concordei já fechando meu caderno — Então veremos um filme.
— Que tal Deus não está morto?! — sugeriu ele — Não me canso de ver esse filme.
— Pode ser, mas o próximo sou eu que escolho. — disse já pensando no que seria.
— Nada de Orgulho e Preconceito pela centésima vez. — protestou ele.
— É sério pai. — eu me virei para a cozinha e o olhei — Olha só quem protesta.
— Então desse jeito não vai dar certo, toda vez que nós fazemos a sessão pipoca são os mesmos filmes. — ele colocou a mão na cintura de forma engraçada.
— Por um momento o senhor ficou parecido com a mamãe. — eu ri o fazendo rir também.
— Hum… Boa ideia. — disse ele.
— Que ideia?! — perguntei curiosa.
— Já sei o que vamos ver. — respondeu dando um sorriso bobo.
— Um amor para recordar. — já sabia que era o filme favorito da mamãe.

Sempre que víamos chorávamos um pouco de saudade, mas era como se nossa união fosse fortalecida, sabia que algum dia no paraíso a veria novamente e isso me alegrava de certa forma. Nossa sessão pipoca não foi tão ruim assim, o segundo filme foi uma ação proporcionada por Transformers, porém não foi o suficiente para segurar meu pai acordado, foi fofo vê-lo dormindo, tanto que assim que o filme acabou o cobri com um cobertor.

Papai estava mesmo cansado, mesmo que não demonstrasse isso para mim, sua preocupação com nossas economias estavam tirando sua noite de sono, quanto mais ele orava, mais difícil as coisas pareciam estar. Aquele mês parecia não terminar e tudo só mostrava que nada melhoraria, mas uma coisa aprendi lendo meu chamado em Números, perseverança em Cristo era essencial para nossa vida.

Nada é igual ao Seu redor… Tudo se faz no Seu olhar… Todo o universo se formou no Seu falar. — comecei a cantarolar ao entrar no meu quarto, enquanto organizava algumas coisas em cima da bancada de estudos — Ou Big Bang pra disfarçar… Pode alguém até duvidar… Sei que há um Deus a me guardar.

Não demorou muito até que o sono chegou, me espreguicei um pouco antes de me ajoelhar em cima da cama mesmo e fazer minha oração para dormir. Os dias se passaram e com paciência e amor tentava me aproximar mais de Lira, em alguns momentos sentia que ela tentava se abrir mas logo afastava de novo, porém não iria desistir dela e da sua amizade. Davi também me ajudava com suas conversas aleatórias e histórias engraçadas do seu trabalho de meio período.

— Bom dia tia. — disse ao adentrar a casa do irmão Zé com Davi e Lira.
— Bença mãe.
— Bom dia meus queridos. — ela olhou para Lira e sorriu, Davi já havia contado sobre nossa aproximação — Seja bem-vinda Lira.
— Obrigada senhora. — ela se encolheu um pouco.
— Oh não, me chamar de senhora me deixa mais velha, pode me chamar de tia também. — ela se voltou para Davi — Deveria ter me dito que as meninas viriam, assim faria um almoço melhor.
— Tia Kátia, sua comida é maravilhosa. — disse a tranquilizando.
— Isso já me deixa mais aliviada, mas mesmo assim.
— Para ser sincero, elas vieram por causa de um trabalho de física que temos que fazer. — explicou Davi.
— Mesmo assim, não vou deixá-las de barriga vazia. — alertou ela com seu jeito materno de ser — Vão lavar as mãos, primeiro o almoço, depois os estudos.

Assentimos sem questionar, ela parecia empolgada por nossa presença ali o que deixou Lira aparentemente mais confortável. Definitivamente minha ideia de chamar ela para fazer grupo comigo e Davi foi muito boa, pois teríamos mais um motivo para estar mais perto dela e lhe fazer companhia.

"입술이주를높이며
Senhor, como os meus lábios amam Te exaltar
호흡이주를섬기
Senhor, como meu respirar está aqui servindo a Ti,
무엇이나를두렵게
O que pode me assustar? Oh, nada irá me assustar.
잠잠히나를비추
Senhor, como Você pacificamente brilha em mim,
가득히나를채우
Senhor, como Você preenche o meu tudo,
무엇도나를흔들지못하
Nada pode me abalar."
- Your Love Came Into Me / J-US Ministry



Deuteronômio

"Seja Ele o motivo do seu louvor, pois Ele é o seu Deus,
Que por vocês fez aquelas grandes e temíveis maravilhas
Que vocês viram com os próprios olhos."
- Deuteronômio 10:21

- x -

— A sua mãe é muito legal Davi. — elogiou Lira assim que chegamos próximo ao beco onde ficava sua casa.
— Ela é sim. — concordei controlando meu riso — Ainda mais quando tem pessoas novas visitando.
— Às vezes fico com um pouco de vergonha. — Davi fez uma careta esquisita e riu — Mas eu gosto desse lado engraçado dela.
— Bem, chegamos, obrigada por me acompanharem. — agradeceu ajeitando a mochila nas costas.
— Lira… — gritou uma senhora um pouco mais à frente — Você não está atrasada mocinha, sua mãe vai ficar sabendo disso.
— Minha mãe e a rua toda. — ouvi ela retrucar em um sussurro.
— Vai ficar tudo bem?! — perguntei me preocupando um pouco, pois o sorriso do seu rosto havia desmanchado.
— Sim, vai sim, é só minha avó. — ela suspirou fraco — Tenho que ir, mais uma vez obrigado.

Dei um sorriso leve e a abracei com carinho, então esperamos até que ela entrasse em sua casa para seguirmos.

— Uau, que velha chata. — comentou Davi já começando a caminhar.
— Não diga assim, ela devia estar preocupada com a Lira. — disfarcei um pouco e olhei para trás, a senhora ainda mantinha seu olhar em mim e no Davi — Ela ainda nos observa.
— Velha chata. — reforçou ele.
— Olhe o respeito aos mais velhos. — o repreende — Nem a conhecemos.
— Não seja tão inflexível, respeito é uma coisa, opinião é outra. — retrucou ele — A respeito por ser uma senhora, mas não deixa de ser verdade que ela parece ser uma velha chata.

Eu comecei a rir, contra aquele argumento não tinha forças, ou melhor, eu também concordava com cada palavra, principalmente a parte do velha chata.

— Mas estou feliz que a Lira se divertiu hoje. — disse mudando de assunto — Sua ideia de assistirmos aquele filme foi boa.
— Eu sempre tenho ideias boas. — ele deu uma piscada engraçada.
— Nem sempre. — discordei rindo — Mas essa foi boa.
— Chata. — ele fez careta — Mudando de assunto, já conversou com seu pai sobre a célula de jovens?
— Ainda não, só mencionei se teria algo do tipo, ele disse para começarmos devagar com os louvores no recreio da aula, quando começar a ter mais necessidade abriremos. — expliquei.
— Precisamos expandir mais nosso louvor. — ele ficou com uma cara de pensativo.
— E como seria isso? — perguntei curiosa.
— Não sei, não fazer somente de manhã, mas também no recreio do pessoal da tarde, o que acha? — sugeriu.
— Boa ideia, mas você está trabalhando lembra? — o olhei.
— E se eu te disser que tenho alguns contatos no turno da tarde? — ele sorriu com satisfação.
— Me diz quem você não conhece naquela escola? — boquiaberta eu estava.
— Hum, o Joseph, esse eu nunca cheguei perto. — respondeu — Nem pretendo.
— Porque? O sabe sobre ele além do que me contou? — agora estava mais curiosa.
— Ouvi a pedagoga da escola comentando com a tia da cantina sobre o pai dele, acho que muito da sua agressividade veio disso e agora a madrasta dele está doente, era ela quem colocava ele nos eixos. — respondeu — E já viu como são os amigos dele? Se acham os reis da escola só porque tem ele no grupo.
— Quanto rancor na voz, você deveria orar por eles, Mateus 5:44 nos ensina a amar nossos inimigos e orar por aqueles que nos perseguem. — o repreendi novamente.
— Eu sei, mas é tão complicado essa coisa de amar o próximo seja quem for. — ele suspirou fraco.
Deus nunca disse que seria fácil, estreita é a porta e difícil é o caminho, mas com Jesus sempre há vitória. — sorri de leve para ele.
— Só você para sempre achar motivação em tudo. — ele colocou as mãos nos bolsos da calça — Parece até que é mais fácil para você.
— Acredite, não está sendo nada fácil para mim. — respirei fundo — Desde que meu pai disse que viríamos para Minas está sendo complicado, principalmente na parte financeira.
— Meu pai comentou que o pastor estava preocupado.
— Sim, nossas economias estão acabando. — confirmei — Eu até sugeri de trabalhar meio período para ajudar nas contas, mas ele quer que eu foquei nos estudos, pelo menos este ano, já que ano que vem tem Enem e vestibular, ele me quer na faculdade.
— Ele se preocupa muito com você, é normal dos pais. — Davi deu uma risada baixa — Minha mãe quer que eu faça faculdade também, mas estou passando longe disso.
— Não tem nada que você goste? — o olhei.
— Gosto de informática e tecnologia. — disse ele —Queria mesmo ser um gamer profissional, mas se fizer isso meus pais me matam.

Eu soltei uma gargalhada da careta que ele fez.

— Você pode tentar engenharia ou ciência da computação. — sugeri — Tem que estudar muito? Tem! Mas no final é gratificante.
— Não posso ficar com algo mais criativo?
— Tem design gráfico, design de produto, artes gráficas, design de games.
— Hummmmm…. Gostei dessa de design de games.
— Sabia que iria gostar. — ri dele.
— Chegamos. — disse ele parando em frente ao meu prédio — Foi rápido.
— É sempre rápido quando conversamos. — olhei para o céu — Volte rápido, parece que vai chover.
— Vou correndo. — ele deu um passo para ir — Ah, antes que me esqueça, eu falei de você para a Layla.
— Como assim? Você disse que não tinha o telefone dela.
— Não tinha, mas acabei esbarrando no meu antigo líder de jovens e ele me passou o número dela. — explicou — Como eu disse, sou o cara dos contatos.
— Sei. — soltei uma risada rápida — E o que falou de mim para ela?
— Contei o básico sobre sua vinda com o pastor para Nova Lima e do nosso projeto na escola, ela gostou muito e quer te conhecer. — sua voz parecia animada.
— Nossa, que menino prestativo, mas para que ela quer me conhecer?
— Para nos ajudar com a evangelização, atualizar a gente com os congressos e eventos que ela organiza para os jovens. — ele piscou de leve — É bom ter aproximação com ela.
— Se você diz, toda ajuda é bem-vinda. — sorri e me voltei para o prédio — Agora bom dia e volte em segurança, eu vou estudar mais um pouco e dormir.
— Viciada em estudos. — brincou ele — Eu vou jogar antes de dormir.
— Gamer incontrolável. — eu ri — Até amanhã.
— Até!!

Eu entrei rindo dele, Davi e suas comemorações relacionadas aos seus jogos eram divertidas, cumprimentei o zelador que estava na portaria e mais alguns passos a frente, esbarrei na senhora do andar abaixo do meu cheia de sacolas. De imediato me ofereci para ajudá-la a levar tudo para seu apartamento.

— Chegamos. — disse ela recuperando o fôlego — Eu sempre fico exausta quando tenho que subir essas escadas, esse elevador vive estragando.
— É cansativo mesmo. — concordei.
— Pode colocar as sacolas aí na pia. — ela logo se sentou no sofá — Minha coluna não tem mais vinte anos.

Assenti com a face e segurando o riso coloquei as sacolas em cima da pia, quando me voltei para pegar as outras que estavam perto da porta, um rapaz entrou e as pegou primeiro. Levei um susto, mas me mantive calma e serena.

— Vovô, está incomodando as pessoas de novo? — ele passou por mim e levou as sacolas para pia também, voltando para mim sorriu gentilmente — Obrigado por ajudá-la.
— Disponha. — senti uma leve brisa passando pela minha barriga com aquele sorriso — Foi um prazer em ajudar.
— Esta menina é tão gentil que eu nem precisei pedir ajuda, ela já foi se oferecendo, não pude recusar. — ela retrucou se levantando — Acho que vou descansar melhor na minha cama, minha artrite está me matando.
— Melhor tomar um banho quente antes, assim seu corpo relaxa. — sugeriu ele pegando a bolsa dela e a seguindo pelo corredor.
— Tem razão, acho que vou ficar mais confortável assim. — mesmo longe sua voz continuava alta do corredor.

Fiquei por alguns instantes sozinha em pé no meio da sala, era um apartamento muito organizado, pequeno como o meu, porém tinha aspectos de casa de vó, passava uma sensação de conforto e aconchego.

— Mais uma vez obrigado por ajudá-la, minha avó sempre deixa para fazer suas compras quando eu não estou. — disse ele sorrindo novamente.
— Como eu disse, foi um prazer em ajudar. — sorri de volta meio tímida.
— Você é a filha do pastor, não é?!
— Sou sim. — ajeitei a mochila nas costas.
— É ?!
— Sim.
— Prazer, meu nome é William, mas pode me chamar de Will.
— Prazer Will, é você que tem um cachorro? — perguntei curiosa.
— Sim, porque? — ele me olhou confuso.
— Seu cachorro sempre late quando estou tocando violão.
— É você que toca todas as noites? — ele me olhou surpreso.
— Sim, geralmente sim, agora não muito por causa dos trabalhos da escola.
— Uau. — seu olho brilhou um pouco — Você toca bem…
— Agradeço, eu toco na célula se algum dia você e sua avó quiserem ir, é na casa do obreiro Zé.
— Zé… — ele parecia tentar reconhecer o nome — É um senhor que trabalha com uma kombi?
— Ele mesmo, acho que ele trabalha com carreto ou algo do tipo.
— Ah, conheço ele, a Kátia sua esposa já fez vários bolos de encomenda pra minha avó.
— Que legal, tia Kátia cozinha muito bem.
— Ela é sua tia?
— Não, de sangue não, mas ela já me adotou como sobrinha.
— Ah, isso é legal. — ele riu discretamente — Ela é muito gentil também.
— Bem, eu tenho que ir agora. — sorri — Bom dia.
— Dia? — ele me olhou confuso.

Eu comecei a rir.

— A história é longa, mas sempre dou bom dia, qualquer hora do dia. — ri mais um pouco.
?! — ouvi uma voz vindo de trás de mim — O que faz aqui?
— Pastor. — sussurrou Will.
— Pai! — me virei para ele e sorri — Chegou cedo hoje.
— Sim, mas… — ele olhou para Will.
— Ah, este é Will, eu estou aqui porque ajudei a avó dele com as sacolas, já estava voltando para casa. — expliquei diretamente.
— Hum… Prazer Will, venha na nossa célula qualquer dia, traga sua avó também. — convidou meu pai com aquele tom de desconfiança e superproteção que eu conhecia.
— Claro, já me convidou, irei sim. — assentiu Will.
— Toda quinta às 20hrs. — confirmou meu pai — Vamos querida?!
— Claro. — me voltei para Will — Mais uma vez prazer e esperamos por você na célula.
— Obrigado por ajudar minha avó e pelo convite. — ele sorriu novamente.

Nós seguimos para o nosso apartamento, meu pai parecia calado demais sobre aquilo.

— Foi realmente só uma ajuda que dei para a senhor. — reafirmei tentando tirar algo dele.
— Eu sei, o Espírito Santo já testificou em mim. — ele caminhou até a cozinha — Hoje é sexta, que tal sanduíches.
— Não vai falar mais nada? — voltei no assunto — Eu te conheço pai, nenhuma recomendação? Revelação?
— Não. — ele me olhou com tranquilidade — Confiamos em você.

Ele sorriu e se virou novamente para as sacolas que remexia. Eu sabia que sempre que meu pai falava assim enigmaticamente no plural, ele não fala somente de si, mas incluía toda a trindade no assunto, Pai, Filho e Espírito Santo. Fui para meu quarto em silêncio e pensativa no que ele queria dizer com “Confiamos em você”. Seria um alerta para o futuro ou algo assim?

— Ah Deus, eu sei que ninguém explica o Senhor, mas o meu pai o Senhor bem que poderia me explicar né?! — coloquei a mochila na cadeira e retirei minha bíblia de dentro que sempre carregava, então coloquei na cama — Will, ele me pareceu simpático e o sorriso era fofo, será que ele é cristão? Ah, , pare de ficar pensando nessas coisas, foco nos estudos.

As semanas passaram e a cada momento de louvor uma pessoa nova participava, Davi havia conversado com a pedagoga sobre ter estes momentos no recreio do turno da tarde, já que estava fazendo bem a escola e indiretamente as constantes brigas estavam diminuindo. Meu contato da tarde era a Yara, ela havia se convertido recentemente através de um louvor do cantor Fernandinho e estava muito empolgada com a ideia, ela sabia tocar violão também, já era um começo.

Com isso, conseguimos iniciar nosso momento de louvor no recreio da tarde, fiquei surpresa e admirada quando a receptividade, ao contrário de manhã que eu e Davi ficamos dias somente nós dois, logo no primeiro dia da tarde já haviam cinco pessoas além de nós duas, incluindo a própria diretora.

— Mais uma vez estamos aqui reunidos para adorar ao Senhor, espero que neste momento seus corações venham se encher do amor de Cristo. — disse Yara abrindo o nosso momento após ler o salmo 24.
Eu sei que não há nenhuma provação… Maior do que eu possa suportar… — comecei a dedilhar início da música — Mas estou cansado, Pai, preciso crer… Nas tuas promessas pra continuar...

- x -

— Bom dia. — disse ao abrir a porta do apartamento para Yara e Davi.
— Bom dia . — disse Davi já entrando como se fosse de casa e se sentando no sofá.
— Bom dia miga. — Yara entrou e passou o olhos pelo lugar discretamente — Estou tão empolgada!!! Quero muito contribuir com o crescimento da igreja, já saí espalhando pros meus primos todos que vai ter célula de jovem, convoquei todo mundo.
— Que menina proativa. — elogiou Davi se reclinando mais no sofá.
— Você deveria ser assim. — chutei de leve sua perna para me sentar na poltrona ao lado — Mas vamos com calma Yara, meu pai ainda não deu o aval para iniciarmos uma célula de jovem. — me sentei na poltrona e Yara se sentou no chão encostando no sofá.
— Então, o que viemos fazer aqui hoje? — perguntou — Porque tive que trazer caderno?
— Porque eu vou dar aulas para vocês dois. — respondi tranquilamente apontando para minhas apostilas, cadernos e bíblias em cima da mesa de centro.
— Uau. — ela olhou aquilo tudo admirada.
— Você tem muita bagagem… — concordou Davi.
— Fiz muitos seminários quando estava em São Paulo, virei líder kids na matriz quando tinha 14 anos, depois disso sempre fui estudando mais até passar para adolescente e líder em treinamento de jovens. — expliquei — É o que farei com vocês a partir de hoje, já que estão tão animados e empenhados a ajudar, temos que prepará-los corretamente.
— Tudo o que fazemos para Deus é com ordem e decência. — testificou Davi — Vamos lá professora.
— Sim sim, mas antes da primeira aula, quero muito agradecer os dois por me ajudarem com tudo, eu realmente pensei que faria tudo sozinha, mas… — sorri contente — Jesus levantou os dois para me ajudar, obrigado mesmo.
— Ohhhh…. Que fofa. — Yara sorriu.
— Nós que agradecemos a confiança. — completou Davi.
— Bem, continuando… — peguei minha agenda de anotações — Nosso momento de louvor está progredindo, graças a Deus e agora até o turno da noite pediu para termos, segundo a pedagoga.
— E vamos fazer? — perguntou Yara.
— Sim, a tia Kátia concordou em me acompanhar já que Davi estará no trabalho e você não poderá ir devido a idade, não quero problemas com sua mãe, já está ajudando muito à tarde quando não posso ir. — respondi olhando minhas anotações — Então, conversei com uma menina chamada Isa que estuda à noite, ela estava desviada da igreja, mas começou a ir na célula da casa do senhor Soares e se ofereceu para ajudar à noite.
— Isso é bom. — observou Davi — Ela poderia estar aqui não?!
— Como vamos começar ainda, é melhor ela se envolver novamente primeiro para depois pensar em colocá-la em algo. — expliquei — Meu pai disse que agora ela precisa se aproximar mais de Deus e se fortalecer para depois pensar em ajudar, por enquanto ela pode convidar as pessoas.
— Entendi. — Davi desviou o olhar para Yara — E ela, vai ficar com o jovens mesmo?
— Não. — Yara já respondeu — Até eu já sei disso, vou ser líder de adolescentes em treinamento.
— Nada como uma da espécie para conhecer os revoltados. — comentou ele num tom de brincadeira.
— Não somos revoltados. — protestou Yara.
— Pondere suas palavras Davi. — eu ri — Yara só tem 12 anos, ainda não tem idade para se revoltar com nada.
— Isso é verdade, quando chegar na nossa idade, você verá que ter 12 é fácil. — concordou ele — Pior ainda, nos 18 tem boletos para pagar.

Nós damos algumas gargalhadas.

— Verdade, eu vejo minha irmã reclamando do boleto da faculdade. — comentou Yara.
— Ela paga? — Davi a olhou surpreso.
— Só conseguiu meia bolsa no ProUni.
— O que ela faz? — perguntei.
— Biomedicina. — respondeu um pouco orgulhosa.
— Que legal. — fechei minha agenda, e peguei duas apostilas que havia feito e imprimido para eles — Bem, sem mais demoras, vamos começar.
— Não me diga que você fez essas apostilas?! — Davi pegou já folheando.
— Sim, reuni tudo o que tinha e fiz um resumo pra poder passar pra vocês, aí tive que fazer ela baseada naquela do meu pai, tem bastante coisa aí. — respondi pegando a minha.
— Uau, você é mesmo nerd. — comentou Yara.
— Você não viu nada. — Davi riu baixo.
— Quietos vocês dois. — segurei o riso — Vamos começar.

Como tudo que envolvida Davi era divertido e tinha comentários engraçados, nossa primeira aula foi entre risos e comentários irônicos sobre alguns assuntos da bíblia, principalmente na parte que estudamos sobre o povo hebreu no deserto após serem libertos do Egito.

Enfim, mais um dia de célula havia chegado…
Eu estava surpresa que Will havia aparecido novamente, desta vez acompanhado por sua avó, era sua quinta vez e sim, eu estava contando!

— Sejam bem-vindos. — disse ao me aproximar deles.
— Eu disse que viria, trouxe minha avó desta vez. — já adiantou ele sorrindo.
— Bom dia dona Ema. — a abracei com carinho — Como a senhora está?!
— Hoje bem, não senti nenhuma dor ainda. — ela retribuiu o abraço.
— Se Deus quiser não irá sentir. — eu me afastei um pouco.
— Amém!! — ela riu e adentrou mais um pouco indo em direção a tia Kátia.
— Fico feliz que tenha conseguido vir hoje. — eu me encolhi um pouco.
— Eu também. — ele manteve o sorriso no rosto — Quando me disseram que não haveria aula na faculdade, logo pensei em você.
— Nossa. — sussurrei sem reação.

Das outras vezes que ele havia visitado a célula, Will havia comentado comigo sobre suas experiências com o cristianismo, seus pais eram cristãos e antes de morrerem em um acidente de carro na estrada, levavam ele para a igreja aos domingos. Mas depois que faleceram, ele se afastou de Deus, o culpou de certa forma, o mesmo que quase fiz com a morte da minha mãe. Fiz questão de lhe contar sobre minha experiência e de como eu consegui entender que era propósito de Deus a morte dela, nada acontece sem a ordem do Senhor.

O conhecendo mais um pouco, descobri que ele tinha 20 anos e fazia faculdade de medicina na UFMG, não tão discretamente sua avó havia mencionado que ele tinha saído de um relacionamento a pouco tempo, se foi proposital ou não, não sabia, mas aquilo fez meu coração pulsar um pouco.

— Mais uma vez, agradeço a presença de todos, Deus se alegra quando nos despojamos para ouvir sua voz. — disse meu pai assim que o obreiro Zé fez a oração de entrada, então olhou para mim fazendo o sinal de que era minha vez.

Sem dizer nada inicialmente, comecei a dedilhar no violão e respirando fundo, fechei meus olhos para me concentrar.

I'd heard there was a secret chord… That David played and it pleased the Lord… But you don't really care for music, do ya? — desta vez traria uma canção diferenciada, mas que certamente a maioria reconheceria — Well, it goes like this… The fourth, the fifth, the minor fall, the major lift… The baffled king composing Hallelujah

Senti uma breve movimentação e abri os olhos, era minha amiga que havia chegado, no mesmo momento meu coração se encheu de alegria, após tanto tempo lhe convidando e orando por sua vida, Lira estava ali acompanhada de sua mãe. Não me contive em sorrir um pouco, mantendo meu foco na música, fechei meus olhos novamente e continuei.

Hallelujah, Hallelujah… Hallelujah, Hallelujah...

"백성이나를떠나돌아섰지
Meu povo Me abandonou, viraram as costas para Mim
사랑이백성을포기못하
No entanto, Meu amor por eles não pode desistir deles
모든내어주고그들을얻으리라
Então, Eu vou dar a eles tudo de Mim e terei Meu povo de volta aos Meus braços.

여호와께돌아가자, 우린돌아서도그는변치
Vamos voltar para o Senhor, apesar de o trairmos, Deus nunca vai nos dar as costas
여호와께돌아가자, 우린넘어져도사랑영원하네!
Vamos voltar para o Senhor, apesar de falharmos com Ele, oh, Seu amor nunca falhará!"
- Love Never Fails / J-US Ministry



Josué

"Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não temas, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares."
- Josué 1:9

- x -

Passamos duas semanas de estudos e treinamento dos meus dois líderes em treinamento, além de jejum e oração… Meu pai estava orgulhoso do nosso desempenho e comprometimento, os momentos de louvor no intervalo das aulas também estava tendo um bom rendimento, os turnos da manhã e tarde já contavam com quinze alunos, a cada dia uma pessoa nova se aproximava da nossa de louvor. Aquilo deixava meu coração ainda mais animado e alegre por estar dando certo, me fazia querer me empenhar ainda mais.

— A ti entrego tudo o que sou e tudo o que tenho, obrigado Jesus. — ao terminar minha oração em meu quarto, fechei a Bíblia que estava em cima da minha cama e me levantei.
— Princess… — meu pai deu dois toques na porta e abriu — A Kátia já está aqui.
— Diga a ela que já estou indo. — peguei minha Bíblia e caminhei até a escrivaninha.

Ouvi de leve o barulho da porta se fechando, coloquei a Bíblia na capa do violão e o ajeitei nas costas, verifiquei se minha identidade estava devidamente no bolso da calça e saí do quarto. Ao chegar na sala, vi meu pai e tia Kátia rindo e logo fiquei curiosa sobre a causa.

— Espero que não estejam rindo de mim. — disse me aproximando dela e lhe abraçando.
— Ah minha querida. — ela retribuiu o abraço me apertando um pouco — Estava contando a seu pai as aventuras do Zé com a kombi dele que sempre quebra.
— Imagino que desta vez tenha deixado ele na mão no pior momento. — segurei o riso, lembrando da última vez que Davi havia me contado sobre a kombi do pai.
— Nem me fale, estou rindo agora, mas eu chorei na hora. — ela deu outra risada — Vamos querida?
— Vamos sim, está logo na hora do intervalo. — desviei o olhar para o relógio que tinha na parede.

Me despedi do meu pai e segui com a tia Kátia em direção a escola, aquela seria o primeiro dia do momento de louvor no turno da noite, até a diretora estaria presente, o que me deixou mais temerosa em não decepcionar o Senhor. Assim que entramos, eu puxei uma cadeira e sentei esperando, enquanto tia Kátia ficou próxima a entrada da cozinha conversando com uma cantineira. Ao bater o sinal, logo a roda foi se formando onde eu estava.

— Animada para hoje? — perguntou Isla ao se sentar ao meu lado.
— Nervosa, mas animada também. — ri de leve retirando meu violão da capa — Você trouxe sua bíblia?
— Claro. — ela ergueu a Bíblia dela — Não ando mais sem ela.
— Faz muito bem. — concordei — Eu também sempre carrego a minha comigo, está aqui dentro da capa.
— E como começamos? — perguntou ela.
— Eu te pedi para separar um versículo né… Como você conhece melhor o pessoal da noite, pode iniciar lendo o versículo. — expliquei.
— Tudo bem. — ela abriu sua Bíblia e olhou para todos — Boa noite gente, primeiro quero agradecer a todos por estarem aqui, é um tempo que estamos reservando para Deus espero que todos possam ser edificados hoje… Que tal cumprimentarmos o irmão ao lado.

Todos se cumprimentaram entre sorrisos e animação, o que me deixou muito surpresa pela quantidade de pessoas que estavam ali, pelo turno da noite ter alunos mais velhos, pensei que a resistência seria ainda maior. Eu comecei a dedilhar e assenti com o olhar para que ela pudesse ler o versículo.

— Em Jeremias 29:13 diz assim. — Isla respirou fundo — E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração.
Quando todos os meus medos já não cabem mais em mim… Quando o céu está de bronze e parece que é o fim... — suavemente iniciei a canção, continuando a dedilhar com leveza — Quando o vento está revolto e o mar não quer se acalmar… Quando as horas do relógio se demoram a passar… — como sempre, fechei meus olhos para que minha concentração e atenção ficasse somente naquela canção — Muitas vezes os seus planos não consigo entender… Mas prefiro confiar sem compreender…

Não sei se a minha entrega naquele momento de louvor estava sendo em dobro, ou se o coração das pessoas que estavam ali estavam verdadeiramente abertos para sentir a presença. A cada canção sentia ainda mais as pessoas se rendendo ao amor de Jesus, estava tão forte que até mesmo eu em minha concentração comecei a lacrimejar

Pra onde iremos nós? Só Tu tens a vida eterna… Pra onde iremos nós? Só Tu tens a vida eterna… — abri meus olhos por alguns instantes, mantendo o ritmo da canção e avistei tia Kátia orando com a cantineira lá na porta da cozinha, então voltei a fechar — Tu és o Pão que desceu do Céu… Fonte de vida, Emanuel…

Encerrei o louvor agradecendo a Deus pela oportunidade e pelo mover Dele. Felizmente não havíamos passado do tempo e os alunos, mesmo com alguns ainda chorando, voltaram para as salas. Voltei meu olhar para a diretora e ela estava chorando também, eu deixei meu violão em cima da capa e fui até ela, então a abracei e comecei a ministrar outra canção. Mesmo não sabendo qual era meu chamado, sempre que uma pessoa estava chorando ao meu lado, a única forma que eu conseguia confortá-la ou interceder por ela, era através do louvor.

— Olho para mim e vejo um pequeno mortal… Olho para dentro e penso: Não quero ser igual… — quanto mais eu cantava a canção, mais ela chorava com a face sobre meu ombro, lá no fundo pude sentir que seu coração estava apertado — Olho para minhas mãos, cansei do natural… Olho pro meu coração, eu busco o sobrenatural de Deus…

Assim que terminei, me afastei um pouco dela e sorri de forma gentil.

— Obrigado. — ela limpou suas lágrimas — Eu realmente não me sentia assim a muito tempo.
— Assim como diretora? — a perguntei curiosa.
— Com vontade de deixar Deus no controle da minha vida. — ela sorriu — Acho que tenho que voltar para o Senhor.
— A senhora é cristã?!
— Sim. — assentiu — Mas, me afastei da igreja por motivos errados.
— Que bom que este momento pode te aproximar do nosso Pai. — a abracei novamente — Se sinta convidada a participar da nossa célula.
— Claro, Isla já me disse que abriram uma recentemente na casa da dona Muriel da padaria. — comentou desviando o olhar para os alunos que estavam passando.
— Sim esta é no sábado à tarde, você pode ir visitar lá, tem também na casa do sr. Soares e do obreiro Zé, ambas na quinta à noite. — afirmei explicando.
— Farei uma visita sim, acho que irei na do Soares, ele mora perto da minha casa. — ela parecia estar um pouco confusa — Vou ver se saio mais cedo da escola. Você vai estar lá?
— Sim, é o meu pai que está ministrando lá, então não posso deixar ele sozinho. — respondi rindo de leve — O obreiro Zé ministra na casa dele.
— Entendi. — ela sorriu de leve — Mais uma vez, obrigado.
— Vamos ?! — perguntou tia Kátia — Olá diretora.
— Boa noite Kátia, você ficou no cantinho, nem te vi.
— Estava dando uns conselhos para a Martha. — explicou desviando o olhar para mim.
— Diretora, antes de ir, só queria confirmar com a senhora. — pensei por uns instantes — Nosso momento de louvor à noite pode ser toda segunda então?
— Claro. — assentiu ela sem contestar — Começamos bem a semana.
— Que bom, então segunda será à noite, quarta será à tarde e na sexta continuamos com o turno da manhã. — confirmei.
— Isso mesmo, melhor assim, pois não quero prejudicar seus estudos. — avisou ela — Você é uma das melhores alunas que temos.
— Olha, Deus continue abençoando. — tia Kátia passou a mão no alto da minha cabeça — Só podia compartilhar a unção do estudo com o Davi.
— Ah, devemos conversar depois sobre algumas notas do Davi. — a diretora voltou o olhar para ela.
— Eu a prova dele de matemática.
— Em defesa do meu amigo, posso testificar que ele estudou para essa prova, mas ele é realmente ruim em teorema de Pitágoras. — o defendi — Não sei a causa disso.

Elas riram um pouco e nos despedimos, eu tinha mesmo que retornar para estudar um pouco de inglês. Entrando no apartamento recebi uma mensagem animada de Davi, dizendo que no sábado tínhamos um compromisso inadiável, o que me deixou um pouco curiosa sobre. O enchi de mensagens pedindo para me dizer o que era, porém meu querido amigo adorava fazer mistério sobre isso.

— Que tanto você digita aí?! — perguntou meu pai ao se aproximar do sofá com um caixa de creme de leite nas mãos — Mal entrou e nem me deu bom dia.
— Desculpa pai. — me afastei da porta e caminhei até ele, lhe dei um beijo no rosto — Bom dia pai! Benção!
— Deus te abençoe. — ele me olhou fazendo uma careta meio desconfiado.
— É que Davi disse que iremos a um lugar no sábado.
— Hum… Para onde?
— É o que estou tentando descobrir, ele não me fala nada. — voltei meu olhar para o celular, vendo que ele estava ignorando minha insistência.
— Só deixo se for pra ir no monte orar, estou de olho no Davi. — brincou ele se voltando para a cozinha.
— Davi é somente meu amigo. — ri dele — Além do mais, ele não faz meu estilo.
— Aé. — meu pai me olhou novamente — E posso saber qual é o seu tipo mocinha?
— Garotos com sorrisos fofos. — disse abertamente — E que não fiquem a madrugada jogando games.

Meu deu uma gargalhada maldosa e voltou sua atenção para a panela, parecia estar novamente em seus experimentos da gastronomia.

— Por que o interesse sobre o meu estilo ideal?! — perguntei curiosa me ajoelhando no sofá, observando seus movimentos.
— Sou o seu pai, preciso saber destas coisas para te ajudar em oração. — explicou ele rindo ao despejar o creme de leite na panela — Mas, na minha opinião, ainda está cedo para pensar nisso.
— Foi o senhor que disse para começar a orar desde cedo, só estou me preparando para quando meu príncipe chegar. — retruquei — E orar nunca é demais, se Jesus que é divino e ainda orava constantemente ainda escolheu Judas que o traiu, imagine se a gente não ora.
— Eu também já vi essa pregação. — ele riu alto — Está certa, mas além de orar, deve vigiar para não ser enganada pelos lobos em pele de cordeiro.
— Sei disso pai. — assenti — Porém, agora meu foco e atenção estão completos no meu batismo com o Espírito Santo, só Ele pode me completar de verdade.
— Meu coração se alegra ao ouvir isso. — ele se manteve concentrado na panela.
— Posso entender o que tanto cozinha aí?!
— Strogonoff de carne. — respondeu com satisfação, como se estivesse fazendo uma obra prima de jantar.
— De carne?! — fiz uma careta.
— O que tem? — ele me olhou decepcionado por minha reação.
— Pai, strogonoff é de frango. — expliquei — É clássico.
— Se reclamar demais, não te dou batata palha. — ele arqueou a sobrancelha segurando o riso.

Eu não aguentei ver a sua pose e comecei a rir dele, o fazendo rir junto.

— Da próxima vez vou querer de frango. — disse me levantando do sofá.
— Ah… Menina abusada, está vendo Deus, a filha reclamona que me deste… — ele fez um tom dramático — Eu aqui, todo preocupado preparando o jantar.
— Obrigada pelo jantar. — fui até ele e beijei sua bochecha, então peguei meu violão de segui para meu quarto.

Ao entrar já deixei o violão ao lado da porta e peguei minha toalha de banho, o chuveiro me aguardava e eu estava inclinada a ir a seu encontro, um banho quentinho e relaxante era tudo o que eu precisava. Antes de colocar a roupa senti meu estômago se revirar de fome, logo o cheiro da comida invadiu o banheiro, oprimindo o cheiro do sabonete.

— Precisamos conversar sobre a célula de jovens. — disse ele assim que terminamos de fazer a oração de agradecimento.
— Hum… Vamos adiar de novo? — o olhei preocupada.
— Não, Deus testificou em meu coração que está na hora. — ele deu um sorriso reconfortante — Vocês já definiram onde será?
— Pensamos em fazer na casa do Zé, mas já tem uma célula lá, então a Yara ofereceu a casa dela por enquanto, já que ela quer uma célula de adolescentes lá. — respondi indo dar a primeira garfada, meu pai estava mesmo se superando na cozinha — Está uma delícia pai, desta vez equilibrado no tempero.
— Eu disse que estava progredindo. — ele piscou de leve.
— Já pode casar de novo. — brinquei.
— Ah, não… Viverei como tio Paulo agora.
— Solteiros é bom que permaneçam solteiros… — eu ri um pouco então retruquei — O próprio Deus disse que não é bom que o homem viva só.
— Vamos voltar para o assunto da célula?! — ele desviou o olhar para o prato.

Eu ri baixo e voltei a comer também. Aquela era a dificuldade do meu pai, por mais que havia superado a morte da mamãe e seguido em frente cuidando de mim, ele havia se fechado sentimentalmente e decretado que não entraria em um novo relacionamento. Isso me deixava triste e preocupada, mesmo que fôssemos muito próximos, ele só tinha a mim e um dia eu iria embora também. Não queria que papai ficasse sozinho para sempre.

— Precisamos orar lá primeiro, consagrar a casa dessa jovem. — informou ele.
— Sim, ela já sabe disso, podemos fazer na quinta à tarde, já que sábado já será a primeira célula. — concordei.
— Mas e o tal passeio com Davi?!
— Ele disse que iremos depois da célula. — expliquei.
— Sei, e a célula vai ser que horas mesmo? — ele me olhou confuso.
— Está no quadro de avisos do seu quarto pai. — o olhei também — Será de 16 às 17hrs.
— Hum… Acho que me lembro de ter lido isso. — ele olhou para o teto parecendo estar vasculhando sua mente.
— Sei, queria saber o que seria do senhor se eu não atualizasse sua agenda a cada dois dias. — me mantive séria.
— Deus me deu uma filha linda e preciosa. — ele piscou novamente arrancando um sorriso de mim — Louvo ao Senhor por sua vida.
— Amém. — concordei voltando a comer.

A semana passou com tanta lentidão, só porque eu queria que chegasse logo o sábado, confesso que estava ansiosa por dois motivos, primeiro, nossa inauguração da tão esperada célula de jovens, segundo, pelo passeio que Davi havia programado para nós. Yara já estava me esperando no portão da sua casa quando virei a esquina com Davi, como era de jovens, meu pai resolveu não ir para não me deixar mais nervosa que eu estava. Um frio na barriga tomou conta de mim, mesmo Davi dizendo que era a mesma coisa que os momentos de louvor na escola, eu sabia que não era. A responsabilidades era maior ainda.

— Olhando para você, acho que está mais nervosa que eu. — disse Yara após entrarmos, ficaríamos no quintal da casa, pois era amplo e coberto com telha colonial.
— Sim, um pouco, acho que preciso de água. — disse olhando ao meu redor e vendo como ela havia organizado com capricho o espaço, todas as cadeiras em círculo e algumas Bíblias em cima de uma mesinha perto da porta.
— Vou buscar para você. — disse ela indo em direção a porta da sala.
— Você lembrou das Bíblias. — comentou Davi já indo se sentar.
— Sim, você disse que na dos adultos sempre aparecia pessoas sem, então eu fiz uma coleta de doação de Bíblias na minha família. — ela deu uma risada desaparecendo casa adentro.
— O que acha que estava fazendo? — olhei para ele — Trate de se levantar senhor popular e ficar no portão para recepcionar os jovens.
— Sério? — ele me olhou com cara de piedade.
— Davi, você disse que faria com excelência, então…
— Nem precisa terminar. — ele me interrompeu já se levantando — Vamos lá Jesus, receber seu povo.
— Não imaginava que conseguiria tantas. — disse Yara ao aparecer de repente com uma jarra de água e dois copos na mão.
— Uau, menina eficiente, trouxe a jarra de uma vez.
— Claro, não quero perder nenhum pedaço da sua ministração. — ela piscou de leve e me entregou um dos copos.
— Obrigada.

Quanto mais jovens foram chegando, mais meu coração acelerava, e pressão pela responsabilidade de dar o meu melhor para Deus aumentava ainda mais. Eu já havia ministrado antes na célula de jovens que participava em São Paulo, mas era somente uma líder em treinamento até então. Geralmente eu liderava células kids na igreja de lá. Era minha primeira vez liderando uma célula de jovens.

Após Davi nos abençoar fazendo a oração de entrada, eu já retirei meu violão da capa e comecei a introduzir o louvor.

Lembro quando te encontrei… Tudo novo você fez… Os abraços que senti… Me fizeram prosseguir… — não teria louvor melhor que esse, dizer a Deus que nos rendemos a Ele, então fechei os olhos e me rende aquele louvor — Várias vezes eu caí… E você me levantou… Eu achava estar bem… Mas me rendo… Eu me rendo… Eu me rendo… Eu me rendo a Ti...

Minha primeira ministração foi em um formato diferente, eu havia definido que assim como eu só conseguia abraçar e ministrar nas pessoas através da música, minhas pregações da palavra do Senhor também seriam através do louvor. Então faria uma exegese da música Liberta-me de mim, da Luma Elpídio, analisando cada trecho da música de acordo com a visão da Bíblia. Após dois dias em jejum e oração, pedindo a Deus para me direcionar, não só na escolha da música, mas também como eu iria passar o ensinamento dEle para os jovens, na sexta à noite, Ele me guiou até essa canção e os versículos da Bíblia que seria de base para mim.

— Que Jesus continue te usando com graça . — disse a mãe de Yara ao se aproximar de mim — Eu não iria participar, mas fiquei curiosa quando você disse que sua ministração seria através de uma análise de música, estou impactada agora.
— O glória é do Senhor Jesus. — sorriu gentilmente para ela — Ele que me direciona e instrui.
— Seu chamado é para o louvor não é?! — perguntou ela, quase afirmando.
— Vou ser sincera, eu não sei. — fiz uma cara de confusa — Eu amo música e tocar violão, gosto de cantar, mas não me vejo no altar louvando, por isso sempre me pego perguntando a Deus qual é o meu chamado.
— Sério?! — ela me olhou admirada — A maioria das pessoas do louvor que eu conheci, todos era fascinados por ministrar no altar.
— Eu sou extremamente o contrário, prefiro ficar longe do altar e nos bastidores, não me sinto confortável na frente de um monte de pessoas. — peguei meu violão e o guardei na capa — Mas na célula eu me sinto leve e em paz para louvar.
— Pois saiba, que quanto mais você querer se esconder, mais Deus vai querer te mostrar. — ela riu um pouco — Ele é assim, rebaixa os soberbos e exalta os humildes.

Sorri de leve e voltei meu olhar para Davi que já estava pegando os contatos dos jovens enquanto todos compartilhavam o momento do lanche. Talvez a dona Margarida estivesse certa, mas eu ainda não havia certamente sentido que louvor era meu real chamado, respirei fundo e ajeitei o violão nas costas. Dei algumas beliscadas nos pães de queijo que estavam recém-tirados do forno, aguardei até que Davi desconfiasse que tínhamos outro compromisso.

— Senti falta da Lira aqui. — comentei ao chegarmos perto do ponto de ônibus.
— Hum, também achei que ela viria. — concordou ele.
— Ela disse que viria, será que aconteceu alguma coisa com ela ou a mãe dela?! — perguntei em suposição.
— Não sei, soube que a mãe dela não gosta quando ela sai. — respondeu ele olhando a hora no relógio.
— Você sempre sabe de tudo. — o olhei desconfiada.
— Não me olhe assim, descobri ao passar pela rua dela, tenho um amigo que mora lá e acabou comentando comigo.
— Sei. — ajeitei novamente o violão em minhas costas — Você bem que poderia ter me deixado passar em casa para guardar meu bebê.
— Iríamos nos atrasar, e também para onde vamos será bem aproveitado.
— Para onde vamos?! — o olhei desconfiada novamente.
— Para o mirante do parque das Mangabeiras. — respondeu dando um sorrisinho bobo.
— O que vamos fazer lá?!
— Nos aproximar mais de Deus. — ele olhou para frente e deu sinal para o ônibus que vinha.

Eu detestava quando Davi arrumava de ser enigmático. Mas no caminho, acabei descobrindo que Layla havia nos convidado para uma vigília no mirante e teria somente líderes de jovens de diversos ministérios. Para minha não surpresa, Davi já tinha contado ao meu pai na quinta e pedido sigilo, ou seja, tinha um cúmplice em casa.

— Ah, que bom que chegaram. — disse uma garota de cabelos rosa cacheado, camisa xadrez, jeans e all star nos pés, ao se aproximar de nós — Pensei que vem viriam mais Davi.
— Felizmente chegamos inteiros, na graça de Deus, porque se depender do motorista. — ele riu retribuindo o abraço com respeito.
— E você deve ser a . — ela me abraçou com animação — Davi me falou tanto sobre você e como Deus te usa no louvor, estou ansiosa para te ver cantar.
— O que?! — eu olhei para meu amigo tentando retribuir o abraço dela, mas estava estática demais para isso.
— Ué, não contou a ela, Davi?! Não foi pra isso que ela trouxe o violão.
— Davi?! — intensifiquei meu olhar nele.

Meu amigo deu um sorriso de quem não tinha nada a ver com isso, mas tinha.

— Fica em paz, se não puder eu peço um amigo para isso.
— Não, tudo bem, eu só fiquei meio, fui pega de surpresa. — sorri pra ela, porém fechei minha face desviando o olhar para Davi.

Meu amigo não deixou de rir de mim é claro. Entramos no ônibus do parque que nos levaria ao mirante, assim que chegamos já tinha uma quantidade considerável de pessoas lá. Logo retirei meu celular e mandei uma mensagem ao meu pai, avisando que havíamos chegado e contando a travessura de Davi. Naquele momento me lembrei do que dona Margarida havia falado sobre Deus querer me mostrar.

— Vou ser sincera Senhor, eu não queria fazer isso. — sussurrei me afastando um pouco dos dois e me aproximando de uma árvore próxima onde o ônibus havia estacionado.

Davi com seu lado inteiramente popular já foi se enturmando com os outros. Fiquei observando por um tempo e ele já parecia um conhecido próximo de um grupo de garotos que estava com uma camisa escrita Exército de Cristo. Mais a frente no mirante, vi Layla se aproximar de mim menino extremamente diferente, não pelas roupas ou aparência, mas por seus traços distintos de um asiático.

— Vai ficar aí no cantinho? — perguntou Davi ao lembrar que eu existia e se aproximar novamente de mim.
— Primeiro, estou tentando pensar na música que eu vou louvar aqui, já que você nem me preparou para isso. — o olhei séria — Segundo, não gosto de chamar a atenção.
— Hum… — ele deu de ombros pela minha chateação — Desculpa inicialmente por te pegar de surpresa, mas se prepare é assim que Deus faz.

Ele riu, mas eu não achei graça nenhuma.

— Achei ofensivo. — cruzei os braços mantendo o olhar fulminante nele.
— Eu não queria te deixar mais nervosa ainda, mas temos um visitante internacional aqui. — comentou ele.
— O que?! Sério?! — agora eu estava nervosa de vez — Olha no que você me mete.
— Que isso… — ele riu um pouco — Fique tranquila, sua unção ninguém toca.
— Falou nada, só observo. — voltei meu olhar para um grupo de garotas que estavam se aproximando do garoto diferente.
— É ele mesmo o visitante.
— O que?! — fiquei confusa.
— O made in China é um missionário, a família da Layla está abrigando ele. — explicou Davi rindo baixo.
— Ele é da China?!
— Não sei, não lembro se os meninos da Assembleia falaram que era algo perto da China… — ele ficou pensando por um tempo — Ah, Coreia do Sul, acho que é isso, missionário , algo assim.

Voltei meu olhar para o garoto, ele parecia ser muito novo para já ser um missionário e viajar pelo mundo. Lá no fundo, senti uma certa inquietude, uma curiosidade espontânea não somente sobre ele, mas também em saber como era pregar a palavra do Senhor do outro lado do mundo.

"Lead me to the cross
Guia-me à Cruz
Where Your love poured out
Onde Teu amor foi derramado
Bring me to my knees
Traga-me de joelhos
Lord I lay me down
Senhor, eu me prostro
Rid me of myself
Livra-me de mim mesmo
I belong to You
Eu pertenço a Ti
Lead me, lead me to the cross.
Guia-me, guia-me à Cruz."
- Lead Me To The Cross / Hillsong United



Juízes

"Débora, uma profetisa, mulher de Lapidote, liderava Israel naquela época. Ela se sentava debaixo da tamareira de Débora, entre Ramá e Betel, nos montes de Efraim, e os israelitas a procuravam, para que ela decidisse as suas questões."
- Juízes 4:4-5

- x -

Eu havia aprendido com Josué ser forte e corajosa, principalmente quando somos pegas de surpresa como fui no mirante. Apesar de ter ficado estritamente chateada com Davi, por sua brincadeira em não te contar, nervosa por ministrar um louvor de surpresa pra vários líderes de jovens, tudo ocorreu segundo a vontade do Senhor. Tive que ouvir alguns comentários maldosos de Davi, sobre o fato de algumas garotas terem monopolizado a atenção do tal missionário coreano. Me fiz de desentendida e concentrei somente na oportunidade de estar ali, em ter meu momento com Deus.

Me afastei de todos após Layla fazer a leitura da palavra, que coincidentemente era Joel 2:28. Apoiei minhas mãos com segurança no guarda-corpo de madeira e voltei meu olhar para o céu, estava bem estrelado naquela noite, sem que um som saísse de minha boca, todo o meu clamor estava saindo inteiramente do meu coração. Foi um momento especial e bastante reflexivo para mim, me fez pensar em várias coisas em minha vida.

Aquela vigília se estendeu toda a madrugada. Layla deixou os líderes da sua igreja encarregados de levar o missionário coreano para casa, enquanto isso ela levou a mim e Davi para nossa casa. Assim que entrei no apartamento, encontrei meu pai jogado no sofá dormindo, segurei o riso e deixei meu violão com cuidado ao lado da porta e a fechei bem devagar.

— Ele sabia que eu chegaria a essa hora, porque ficou acordado até tarde? — sussurrei indo para a cozinha preparar o café.

Tentei fazer o mínimo de barulho possível sem sucesso, quando estava passando o café, meu pai resmungou alguma coisa do sofá. Olhei para trás e lá estava ele, com seu corpo erguido um olho aberto e outro fechado, tentando entender o que eu estava fazendo.

— Bom dia, flor do dia! — rindo da sua cara e me voltei para frente, despejando o resto da água no coador.
— O que está fazendo?! — sua voz baixa ecoou.
— O que mais poderia?! — ri novamente — A única coisa que consegue te manter acordado pela manhã, além do Espírito Santo claro.

Peguei o bule e despejei o café em uma xícara, me voltei para ele e estiquei a xícara.

— Café novinho e quentinho! — sorri de leve.
— Obrigado Senhor, pela filha que me deste. — ele pegou a xícara e logo foi provando, então fez uma careta — Está quente.
— Eu disse que estava quente pai. — ri dele caminhando até meu violão — Acho que vou tirar um cochilo, me acorda na hora do almoço?!
— Sim sim, senhorita. — ele se espreguiçou ao levantar do sofá.

Pisquei de leve para ele e segui para meu quarto.

— Jesus estou com sono. — disse ao entrar, após dar um longo bocejo.

Estava mesmo com sono e cansada, após passar uma semana acordando de madrugada para orar e dormindo tarde por causa dos estudos, meu corpo só queria minha cama e eu lhe daria isso. Nem tive coragem de perder tempo tomando banho e já fui logo trocando de roupa e me jogando em cima da colcha mesmo, só peguei uma manta para me cobrir e fechei meus olhos me rendendo ao sono.

Acordei sozinha ouvindo o som de música, após minha cabeça chegar no lugar e eu acordar direito, reconheci que eram do Jesus Culture, meu pai gostava muito de ouvir louvores internacionais. Me espreguicei levantando da cama e dobrei a manta, ainda era domingo e felizmente todos os meus deveres escolares estavam em dia, eu tentava ao máximo aproveitar a semana para sábado e domingo não ter que estudar, apesar de gostar muito, minha mente merecia momentos de folga.

There's nothing worth more… That will ever come close… Nothing can compare… — comecei a cantar junto com a música que tocava do lado de fora — You're our living hope… Your presence lord…

Me espreguicei novamente caminhando até a janela e olhei para fora por um tempo, avistei Will correndo pela calçada com seu cachorro labrador, achei fofo. Logo me lembrei sobre as especulações do meu pai, principalmente sobre saber qual era meu tipo ideal de garoto, então comecei a pontuar algumas coisas que Will aparentava ter. Só havia um ponto que considerava principal, se ele realmente era um homem temente a Deus.

— Acordou já?! — disse meu pai ao abrir a porta — Nem me esperou de chamar.
— Acordei com o som da música. — ri da cara de chateado que ele fez e voltei a cantar um trecho da música — And when the oceans rage...I don't have to be afraid… Because I know that you love me… Your love never fails!

Ele começou a dançar pelo quarto e pegando em minha mão me puxou dançar com ele.

Teu amor não falha. — cantou meu pai a versão brasileira — Tu fazes que tudo coopere para o meu bem.
You make all things work together for my good. — o acompanhei cantando a versão original.
— Essa música é muito boa. — disse ele ao parar de dançar, recuperando o fôlego.
— Que isso pai, nem dançou direito e já está cansado?! — o olhei rindo.
— Seu pai já está velho, me dê um desconto, minha coluna não é de vinte mais não.
— Nem chegou nos quarenta e já está assim?
— Tenho 38 com muito orgulho, mas a coluna está de cinquenta já. — ele soltou uma gargalhada estranha — Preciso pedi a Deus para renovar meus ossos também.
— Concordo. — ri junto com ele voltando meu olhar para a janela — O dia está lindo hoje, o que vamos fazer?
— Você eu não sei, já eu vou fazer uma visita com o irmão Zé. — respondeu ele se aproximando da porta.
— Não quer que eu vá? Milagre.
— É uma visita a um rapaz que acabou de se divorciar da esposa, então…
— Já entendi. Vá em paz, então.
— Ah, antes que eu me esqueça, a Kátia está a sua espera para almoçar lá hoje. — avisou ele.
— Sério?! — gostei da ideia.

Ele sorriu e saiu pelo corredor. Se eu havia sido convocada para o almoço com a tia Kátia, então só me restaria tomar banho e seguir para sua casa. Peguei minha toalha e ri indo em direção ao banheiro, comecei a imaginar que certamente Davi estaria dormindo e eu iria ter a honra de acordá-lo. Não me demorei muito, pois a fome já me marcava presença, já que não havia tomado café da manhã.

. — disse uma voz conhecida no corredor assim que desci a primeira lança de escadas.
— Oh, Will. — disso ao virar para trás — Bom dia.
— Bom dia. — disse ele meio confuso — Tenho que me acostumar com esse seu cumprimento.
— Quem é esse meninão?! — disse ao desviar meu olhar para seu cachorro.
— Ah, esse é o Thor. — respondeu ele esfregando a mão na cabeça do cachorro.
— Olha só, temos um fã de Marvel aqui. — disse me aproximando deles — Oi Thor.
— Você conhece?! — ele me olhou admirado.
— Claro, e por incrível que pareça, neste caso eu gosto mais do Loki, apesar de todo mundo falar que ele é um vilão, eu gosto dele. — mantive minha atenção no cachorro que já se aproximava de mim para cheirar minha roupa.
— O Loki não é um vilão. — concordou ele — Mas gostei de saber que curte Marvel.
— Eu já li alguns HQs online em inglês, são muito bons, prefiro mais do que a DC.
— Da DC eu gosto mais do Batman.
— Sério?! Eu também. — o olhei, por aquilo eu não esperava.

Havia descoberto mais um ponto em comum, além de cachorros...

— Realmente é chocante conhecer uma garota que gosta dessas coisas de nerd. — ele riu, mantendo seu olhar em mim, o que me deixou um pouco tímida no momento.
— Acreditaria se eu dissesse que sou uma nerd? — ri baixo.
— Não brinca?! Nunca vi uma nerd bonita como você. — soou de forma natural, mas senti que aquele elogio foi proposital.
— A sempre uma primeira vez. — tentei reagir como se não fosse comigo e desviei meu olhar para a escada, logo senti minha barriga se mexer fazendo um barulho — Que vergonha, você ouviu?!
— Parece que alguém está com fome. — ele riu — Eu ainda não almocei, a esta hora minha avó já está me esperando, se quiser nos acompanhar.
— Oh não, agradeço o convite, mas já vou almoçar em outro lugar. — sorri em agradecimento e ajeitei a bolsa transversal no ombro — Mas, espero que tenha um bom almoço.
— Bem, então fica em aberto meu convite. — disse ele fazendo um sinal para Thor se sentar.

Assenti com a face e me afastei dele, então voltei a descer as escadas precisamente para não me atrasar ainda mais. Assim que bati no portão, tia Kátia atendeu rapidamente e me deu um abraço apertado.

— Paz do Senhor minha linda! Demorou. — disse ela rindo.
— Desculpa. — retribui o abraço — Acabei esbarrando em um conhecido e conversamos um pouco.
— Conhecido?! — ela me olhou desconfiada, colocando a mão na cintura — Desde quando tem conhecidos mocinha?
— É um vizinho do prédio, recentemente fiz amizade com ele e seu cachorro. — expliquei.
— Sei, só vizinho. — ela riu se virando para a porta da cozinha.
— É sim tia. — confirmei fechando o portão e indo atrás dela — Não ando com meus pensamentos voltados para a área sentimental não.
— Olha, gostei disso, você está muito nova para pensar nessas coisas. — ela caminhou até o fogão e abriu lentamente a porta do forno.
— Ando focada em Deus somente, além dos meus estudos que consomem a outra parte do meu tempo.
— Queria que Davi tivesse metade da sua disposição para estudar. — ela suspirou fraco — Aquele menino.
— E por falar nele, onde está? Dormindo?
— Fala baixo senão ele acorda. — brincou ela.
— Vou lá acordá-lo então.
— Faça esse favor para mim. — assentiu ela.

Sai rindo em direção ao quarto dele, havia uma placa de stop de todo tamanho pregado na porta, aquilo era novo e me lembrava os filmes de adolescentes americanos. Dei dois toques e girei a maçaneta, ao entrar me deparei com ele sentado na frente do computador jogando. Fiquei boquiaberta com aquilo, não acreditava…

— Davi?! Davi!? — o chamei, porém ao me aproximar vi que ele estava com o headfone no ouvido, então retirei do ouvido dele — Bom dia varão.
— O que você está fazendo aqui? — ele me olhou assustado, depois voltou a atenção ao jogo — Peraí, tenho que matar esse cara.
— O que?! — coloquei a mão na cintura o olhando indignada — O que está fazendo jogando?
— Eu simplesmente não dormir. — ele parecia no automático movendo seus dedos com precisão no teclado do computador — Tinha um torneio online que estou terminando em 5…
4… 3… 2… 1… Ganhei. — gritou eufórico.
— Não entendo sua alegria depois de ter falado que ia matar alguém. — o olhei séria.
— É só um jogo, e meu time ganhou. — ele sorriu com satisfação.
— Se acabou por que continua digitando aí?!
— Estou falando para o pessoal que você está aqui. — respondeu ele concentrado no monitor.
— Você fala de mim para eles?!
— Claro, é a primeira vez que tenho uma garota de best friend. — brincou ele fechando a janela do jogo — Pronto, agora minha atenção é sua.
— Tem certeza?! — cruzei os braços.
— Você pareceu com minha mãe agora, estou ficando com medo. — ele fez uma careta.
— Tia Kátia é maravilhosa, então estou no lucro. — ri da cara dele — Nossa, você não foi dormi, sua cara está péssima.
— Virei zumbi? — ele se levantou da cadeira — Vou lá assustar minha mãe.
— Não faz isso. — disse tentando impedir, mas ele saiu correndo.

Balancei a cabeça negativamente e fui atrás dele, ao passar pela sala ouvi um grito da tia Kátia.

— Ah menino, vou te jogar dentro dessa panela. — disse ela com a mão no coração — Não se faz isso com sua mãe.
— Desculpa, mas a disse que eu estava com a cara de um zumbi, não pude perder a oportunidade. — ele continuou rindo dela — Perco a mãe, mas não perco a piada.
— Deus está vendo isso. — cruzei meus braços permanecendo da porta — Eu disse pra ele não fazer isso tia.
— Quando pegar esse menino e bater nele. — ela se voltou para o fogão checando se havia desligado o botão do forno.
— Não pode me bater, está no estatuto da criança. — retrucou ele.
— Estatuto lá saber das coisas, nem te dar roupa e calçado, paga suas contas. — ela virou para ele — Estou respaldada pela palavra, a vara da disciplina tira a loucura das crianças, você é uma criança louca.
— Isso eu concordo. — ri alto dele, que me olhou atravessado, mas não liguei.
— Estou com fome mãe.
— Pede para o estatuto da criança. — ela deu de ombros.
— Nossa de pessoa rancorosa. — disse ele fazendo uma voz dramática — Deus ensina a perdoar.

Ela respirou fundo e começou a rir da cara dele, nós dois começamos a rir também. Logo tia Kátia forrou a mesa da cozinha para comermos ali mesmo, ela havia feito uma travessa recheada de lasanha à bolonhesa. A aparência estava tão convidativa quanto o cheiro que rescindiu toda a cozinha, novamente minha barriga deu sinal de fome, enquanto eu olhava ela cortar e me servir.

— Obrigada tia Kátia. — disse já abaixando minha cabeça para orar antes de comer.

Assim que agradeci a Deus pelo alimento, ataquei a comida, parecia que eu não havia comido à dias, me lembrando bem, minha última refeição havia sido um sanduíche que Layla tinha preparado para todos que estavam no mirante, acho que aquilo tinha salvado minha noite de orações. Após o almoço eu me ofereci para lavar as vasilhas com a ajuda de Davi, claro que ele não gostou muito da ideia, mas acabou aceitando.

— Minha mãe me disse que tem gente pedindo uma célula kids. — comentou Davi ao se sentar ao meu lado, no meio fio em frente ao seu portão.
— Sim, uma moça chamada Esther, ela está cursando pedagogia na UEMG, se tornou membro da célula do sr. Soares. — confirmei explicando — Ela tem alguns sobrinhos e perguntou ao meu pai se não teríamos uma só para crianças.
— Hum… Aposto que você ficará à frente. — disse ele com segurança.
— Nem precisa, é bem óbvio. — voltei meu olhar para ele — E pode ir se preparando, pois logo irá liderar a dos jovens no meu lugar.
— Já?! — o olhar de surpresa dele veio logo — Tem certeza?!
— Ahhhh…. — eu ri — Agora está vendo o que eu passo.
— Vamos combinar que ser líder de célula é muita pressão e responsabilidade. — ele estava totalmente correto.
— Ando sentindo isso todos os dias. — suspirei fraco — Tenho em minha consciência que meu pai conta bastante comigo, então…
— Agora te entendo ainda mais, ser filha de pastor não deve ser fácil.
— Não é. — voltei meu olhar para a rua — Mas tem seu lado divertido.
— E como vai ficar?! As células? — perguntou confuso — Porque a Yara está treinando também.
— Sim, meu pai disse que mais algumas semanas vocês estarão prontos se continuarem a se dedicar, não só nos estudos absorvendo mais conhecimento, como também nas orações, a luta é grande quando se está à frente da obra. — respondi — Mas no final, é gratificante arrancar sorrisos do rosto de Deus.
— Darei o meu melhor para isso. — ele suspirou — Quero ser um líder de excelência.
— Amém todos nós. — concordei — Assim que terminar de treinar vocês, vamos mudar a célula dos jovens para a casa da Yasmin, ela já combinou isso com a Yara, então abrimos a célula de adolescentes na casa da Yara.
— Uau…
— O que?!
— Nem acredito que já tem quase cinco meses que vocês estão aqui. — comentou ele — Parece que foi ontem que saímos fazendo tour pelo bairro.
— Verdade, isso me lembra que logo estaremos de férias. — me espreguicei olhando o carro passar.
— Você chama quinze dias de férias? — ele me olhou contrariado — Isso está mais para suborno, só para não fazermos protesto.
— Ah, pare de reclamar, desde quando as férias de julho foram um mês exato?!
— Então não podem ser chamada de férias. — retrucou.
— Recesso escolar. — retruquei novamente — Satisfeito?
— Não, queria trinta dias.
—Reclame com o ministério da educação.
— Tá, se nem os professores eles pagam direito, vão dar mais dias aos alunos.

Era triste essa situação, felizmente nossa escola não havia entrado de greve, se não teria sido bem pior. Voltei para casa antes de escurecer, assim que chequei meu celular que tinha deixado no silencioso o dia todo, e meio a muitas mensagens no whatsapp, me atentei a uma em especial: de Lira.

“oi nalla… pode falar agora?”

Como meu pai não havia chegado ainda, verifiquei se a porta estava devidamente fechada e mantive todas as luzes apagadas para economizar energia. Então entrei no meu quarto, nem mesmo troquei de roupa, me ajeitei na cama de forma confortável e já comecei a digitar minha resposta. Lira estava online, o que significava que estava esperando eu aparecer.

“acabei de chegar em casa.”
...
“ah… estava fazendo visita com seu pai?”
“não, eu estava na casa do Davi.”
“hum…”
“o que deseja?”
“queria conversar, mas você deve estar cansada”
“não… pode falar”
“deixa pra depois.”
“Lira, você não é muito de puxar conversa, então sei que deve ser algo sério.
pode dizer.”
“é que…”

Passou alguns minutos comigo esperando sua resposta, mesmo demonstrando que queria desabafar, ela ainda parecia relutante.

“nalla, me sinto cansada.”
“fisicamente?”
“mentalmente, fisicamente, em todos os sentidos”
“aconteceu algo hoje?”
“todos os dias para ser exata, está sendo difícil pra mim e para minha mãe continuarmos aqui
as pessoas nos julgam muito e”
“e?”
“minha mãe não consegue um emprego fixo, é complicado”
“o que sua mãe faz?”
“ela se formou em direito bem depois que eu nasci, mas nunca exerceu”
“sério? direito?”
“sim, ela sempre diz que foi muito duro para ela continuar a faculdade grávida de mim e depois comigo pequena”
“nossa 16 anos e sua mãe nunca pensou em trabalhar na área?”
“sim, ela fez estágios por um tempo até que teve que largar por que eu sempre ficava doente”
“e o seu pai?”
“eles nunca se casaram, meu pai nunca foi presente, a única coisa que fez de decente foi não deixar morar no barracão que era dele”
“então, aquela senhora é mãe do seu pai?”
“sim, ela não gosta da minha mãe e nem de mim.”
“da sua mãe eu até entendo, mas você é a neta dela.”
“ela sempre diz que eu não sou filha do meu pai.”
“por que?”
“melhor eu não falar disso
minha mãe está chegando
tenho que ir”
“sua mãe trabalha domingo?”
“ela está ajudando uma amiga”

Eu fiquei um pouco paralisada com aquilo. Será que aquilo estava relacionado com seu receio de se aproximar das pessoas? Eu não sabia a fundo o que realmente estava acontecendo com Lira, mas havia uma coisa que eu podia fazer por ela, interceder. Deixei o celular em cima da cama com a conversa aberta e me ajoelhando na beirada, respirei fundo e comecei a orar. Em meu coração eu queria poder fazer bem mais do que isso, mas já seria o suficiente para alcançar minha nova amiga.

- x -

— Animada para a célula kids de amanhã?! — perguntou meu pai — ?!
— Hum?! — o olhei, estava distraída em meus pensamentos.
— O que houve?
— Estava pensando na conversa que tive no domingo passado com a Lira, fiquei preocupada com ela e passei essa semana toda querendo tocar no assunto, mas senti que ela estava evitando. — expliquei — Intercede por ela, mais ainda me sinto incomodada.
— Você já fez o máximo que podia fazer, é Deus quem vai resolver isso, apenas continue mostrando a ela que pode contar com você.
— Farei isso. — me levantei do sofá — Vou revisar minha ministração de amanhã.
— Mantenha seu coração em paz querida. — aconselhou ele.
— Obrigada pai. — lhe dei um beijo suave no rosto — Não me contou o motivo de ter ido na escola.
— A diretora queria falar comigo sobre um possível emprego de professor. — explicou ele indo abrir a geladeira.
— Sério?!
— Sim. — ele pegou a caixa de leite e colocou na pia, então fechou a porta — A escola onde a irmã dela é supervisora, está precisando de um professor de história substituto para o turno da manhã.
— Glória a Deus. — certamente o milagre pelo qual papai estava orando muito.

Nossa situação financeira não estava muito boa, suas economias estavam a um passo do fim, já estava começando a pensar o que poderia fazer para ajudar, mesmo ele querendo que eu foque só nos estudos.

— É aonde? Perguntei.
— No centro de BH. — respondeu ele despejando o leite no copo — Vou ter que sair muito cedo e correr para não chegar aqui muito tarde, porém valerá a pena.
— Tem certeza?!
— Sim, coloquei nossa situação financeira nas mãos de Deus e tenho confiado, orei muito sobre essa oferta, afinal meu ministério é mais importante. — explicou — Estou em paz, senti que devo aceitar.
— Lá é uma escola particular?
— Sim, e tanto o horário como o salário, são exatamente como pedi a Deus. — ele me olhou com tranquilidade — É ou não provisão divina?!
— Sempre foi provisão divina. — pisquei de leve me movendo para o corredor.
— Já vai dormir?
— Vou revisar meu esboço de amanhã, para a célula kids. — respondi num tom mais alto para que ouvisse.

Assim que entrei em meu quero, caminhei até minha escrivaninha e abri meu caderno de esboços, tinha escrito uma história na quarta-feira sobre a juíza Débora, a única mulher a ser juíza em Israel. Com ela eu havia aprendido que o nosso chamado em juízes é para ajudar as pessoas, seja qual situação, era isso que eu queria ensinar para as crianças, podemos ajudar nossos amigos até mesmo através de uma oração.

"'The wind is strong and the water's deep, but
O vento é forte e as águas são profundas
I'm not alone here in these open seas
Mas não estou sozinho nesse mar aberto
'Cause your love never fails
Porque seu amor nunca falha The chasm was far too wide
A fenda era muito grande
I never thought I'd reach the other side
Nunca pensei que chegaria do outro lado
'But your love never fails
Mas seu amor nunca falha"
- Your Love Never Fails / Jesus Culture



Rute

"Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus;"
- Rute 1:16

- x -

Logo na primeira semana de férias, já tinha minha tarefa extracurricular. Havia montado um grupo de intercessores, nossa reunião era toda terça às sete da noite na casa da dona Muriel. Além dela, Davi, Esther, Yasmin e o Justino da oficina também estavam participando, nossa missão era interceder pelas células, membros e visitantes. Meu pai andava meio preocupado, mesmo com o rápido crescimento das células. Felizmente, já se contava sete com um bom número de membros.

Era certo que tudo que fazemos para Deus temos que dar o nosso melhor, nesse caso a qualidade era tão importante quanto a quantidade.

— Chegamos. — disse assim que parei em frente meu prédio acompanhada de Davi.
— Agora que está entregue. — disse ele se espreguiçando e bocejando ao mesmo tempo.
— Nossa, deixa eu adivinhar… Não dormiu essa noite. — constatei olhando sua cara de sono.
— Tenho passado noites em claro nessas férias, férias não, recesso. — explicou ele.
— Deveria parar um pouco com esses jogos. — sugeri — Pode acabar se tornando vício, e isso não é legal.
— Fica tranquila, estou me regulando, decidi fazer um jejum quando voltar a estudar.
— Hum… Surpreenda-me. — o olhei séria — E vai durar quanto tempo?
— Até o final do ano. — disse ele.
— Nossa, imagino que o propósito deva ser grande. — brinquei.
— Quando eu conquistar, te conto a benção. — ele piscou de leve se afastando — Até quinta.
— Até. — ri baixo me movendo para entrar.

Assim que entrei no apartamento, meu pai estava na cozinha falando ao celular, deixei minha bolsa transversal no sofá e passei por ele indo para a cozinha. Ele passou de leve a mão no alto da minha cabeça sorrindo e caminhou até o corredor, certamente queria privacidade, o que me fez pensar que estaria dando aconselhamento para alguém. Havia alguns ingredientes na pia, possivelmente eram de mais um experimento culinário dele, ri dele voltando meu olhar para o lado e vendo um papel pregado na geladeira com uma receita escrita.

— Caldo de feijão com bacon e calabresa. — sussurrei ao ler o título da receita — Papai anda mesmo se especializando.
— Bom dia minha princess. — disse ele ao aparecer na entrada do corredor.
— Bom dia pai. — voltei meu olhar para ele — Mais uma receita para o diário de cozinha com o pastor Jonas?
— Que isso? Parece até nome de canal de youtube. — ele riu — Eu só vou testar mais uma, aproveitar aquele feijão que não comemos desde sábado.
— Verdade, não podemos desperdiçar. — concordei e brincando — Mas não seria uma má ideia o senhor virar youtuber.

Ele deu uma gargalhada.

— E o nome do canal seria esse? — ele me olhou segurando o riso agora.
— Sim, seria super engraçado. — eu ri também imaginando como sairia no vídeo, suas bagunças na cozinha.
— Melhor o não, o mundo não está preparando para me conhecer na cozinha. — ele riu de novo — Vejamos por onde eu começo.
— Acho que separando os ingredientes. — sugeri me encostando nas costas do sofá, o olhando todo perdido enquanto lia a receita.
— Tem razão. — ele coçou a cabeça — Mas acho que vai rolar só com a calabresa — Observou ele.
— Por que? Chefe Jonas a receita deve tem que estar completa. — cruzei os braços me fazendo de decepcionada.
— Me desculpe ajudante, mas nosso bacon acabou no bife a rolê, que fizemos no domingo. — explicou ele.
— O senhor tem que regular bem seus ingredientes.
— A culpa não é minha se ando animado demais com a gastronomia. — ele riu baixo — Mas, pelo menos agora que vou trabalhar pela manhã, teremos mais recursos.

Ele piscou de leve para mim.

— Mudando de assunto, estou curiosa. — comentei.
— Sobre?
— A pessoa que estava do outro lado da ligação. — expliquei.
— Ah… Era a senhorita Dalla, diretora da escola de BH. — respondeu.
— O que ela queria? — fiquei o observando, enquanto pegava o restante dos ingredientes.
— Me informar que sexta teremos uma reunião pela manhã, nosso semestre letivo começa na próxima semana. — explicou ele.
— Mas, ainda estamos de férias. — questionei sem entender.
— Sou professor, não aluno. — ele deu uma risada rápida — Vai me ajudar com a receita?
— Claro, se eu não tiver perto, o senhor suja todas as vasilhas do armário. — ri baixo me afastando do sofá.

Era sempre divertido cozinhar com o papai, quem o via pregando de forma séria porém com uma ponta de bom humor na célula, não imaginava que ele era ainda mais cômico em casa. Continuei alguns minutos na cozinha o ajudando, até que resolvi ir ao banheiro para tomar um banho relaxante. O caldo de feijão dele estava saboroso, tinha que admitir que a cada experimento, meu pai conseguia se superar e me surpreender, é claro que não ia enchê-lo de elogios, mas minha cara enquanto comia já denunciava.

Me ofereci para lavar a louça suja do jantar, depois fui para meu quarto, eu até poderia me atrever a ler alguma coisa, mas meu corpo estava pedindo minha cama. Estendi o cobertor e me deitei, permanecendo com minhas costas mais erguidas, encostada na cabeceira da cama.

— Obrigada Senhor, por mais um dia. — disse após um largo bocejo — Continue me sustentando, por favor, e me desculpe por não me ajoelhar em reverência hoje, não estou sentindo meus músculos...

Não estava mesmo, naquela manhã eu havia resolvido faxinar o apartamento sem a ajuda do meu pai, louca eu, mas fiz assim mesmo. Quando terminei, já estava quase na hora de me encontrar com Davi para ir a casa da dona Muriel, claro que meu pai me enviou uma mensagem de repreensão quando chegou em casa e a encontrou arrumada. Que pai em sã consciência repreende a filha por fazer tarefas de casa? O meu! Ele sempre achava mais divertido quando fazíamos isso juntos, além de não sobrecarregar ninguém, era mais um de nossos momentos de comunhão, segundo ele.

Essa minha peripécia da faxina, atrapalhou até mesmo minha oração, tanto que nem me lembro em que parte da conversa com o Espírito Santo eu parei, só me lembro de ter pedido ajuda para aproveitar bem as férias.

, posso ir aí?”

Foi com essa mensagem de Lira que finalmente consegui despertar meu sono, quando o alarme do celular tocou eu ainda estava sonolenta e pensativa se iria ou não acordar às oito em plenas férias. Então, quando liguei a internet para saber se tinha alguma mensagem de Davi, vi aquela de Lira que me interessou bastante.

“Claro, podemos tomar café juntas. Já tomou café?”
“ainda não.” - ela respondeu de imediato.
“te espero então.”

Devolvi o celular para a mesinha de cabeceira onde estava, então após um largo espreguiço, me levantei da cama e troquei de roupa. Quando saí do quarto, vi um bilhete do meu pai pregado na porta do quarto dele, naquele dia ele estava em consagração e não sairia do quarto para nada, além de ir ao banheiro quando necessário. Era raro as vezes que papai fazia esses propósitos de passar um dia inteiro em oração, mas quando fazia, era pedido direto do trono de Deus.

Olhei para o chão e lá estava o celular dele com outro bilhete, me pedindo para cuidar do aparelho e atender suas ligações. Foi eu mal pegá-lo do chão que tocou, era uma ligação do Enzo, segundo meu pai, ele passava por alguns problemas conjugais e estava se aconselhando com ele. Isso me fazia lembrar das palavras do chefe Jonas, que casamento era coisa séria e muito complicada, por isso o apóstolo Paulo nunca se casou.

— Foi o que te expliquei Enzo, quando o meu pai se tranca, só no dia seguinte, por isso ele deixou o celular comigo. — disse pela centésima vez para que me entendesse — Eu não tenho como te ajudar agora, mas só existe uma coisa que você pode fazer.
— O que? — sua voz do outro lado da linha estava ainda mais aflita.
— Orar. — sim, oração sempre deveria ser nossa primeira e única solução, mas sempre negligenciamos isso — Coloque nas mãos de Deus sua aflição, Ele está aí do seu lado, você possui livre acesso ao Pai, basta apenas conversar com Ele.
— Farei isso, obrigado. — ele encerrou a ligação.

Pelo menos parecia um pouco mais conformado.

— Ah… — suspirei fraco — Não posso colocar esse aparelho no silencioso não?!

Sugeri com um pouco de desânimo de ter que atender mais ligações como aquela. Logo um pensamento de repreensão passou pela minha mente, me fazendo sentir que era diretamente do Espírito Santo. Guardei o celular no bolso da calça e voltei para a cozinha, tinha um café da manhã para preparar e uma convidada que chegaria a qualquer momento.

— Ufa. — disse ao abrir a porta — Pensei que não viria mais, já são dez da manhã.
— Me desculpa, eu também achei que não viria mais. — ela entrou meio acanhada ainda, agarrada a sua mochila.
— Está tudo bem?! — eu sabia que não, mas…
— Digamos que minhas férias não esteja indo tão bem assim. — ela deu alguns passos até o sofá — Seu pai está em casa?
— Sim, mas não se preocupe, ele não vai sair do quarto tão cedo. — assegurei indo até ela e pegando sua mochila — Sinta-se em casa e seja bem-vinda!
— Obrigada. — ela sorriu com timidez — O que andou fazendo esses primeiros dias?!
— Hum, confesso que dormi no primeiro dia. — ri colocando sua bolsa em cima da poltrona do papai — Mas fiquei só praticando no violão e estudando mais japonês, andei meio desanimada.
— Ainda fico admirada por você estudar sozinha essas coisas. — ela me olhou.
— Por isso a parte do desanimada. — nós rimos, eu segui para a cozinha para pegar a bandeja com os biscoitos — Mas é legal se sentir produtiva na vida.
— Vou tentar seguir seu exemplo. — senti que ela, me acompanhou com o olhar.
— Você já pensou no que vai cursar quando formarmos? — perguntei retornando para a sala.
— Hum… Ainda não, gosto de área de biológicas, mas não me vejo sendo professora de biologia. — ela riu — Principalmente não como a nossa.
— Ah, a senhora Glória é um tanto peculiar em seu modo de ensinar sobre células e moléculas. — disse me lembrando da aula nojenta em que ela nos fez cuspir e analisar nossa saliva no microscópio que levou — Mas existem várias profissões nessa área.
— Verdade. — concordou se sentando no sofá.
— Você pode fazer farmácia, biomedicina, enfermagem, medicina… — voltei para a cozinha e peguei as duas xícaras e a caixa de leite, então entreguei a ela, para que colocasse na mesa de centro — As opções são muitas.

Ela assentiu com a face pegando as coisas da minha mão.

— Hum…
— O que?! — voltei para sala com o pote de achocolatado na mão.
— Eu queria perguntar uma coisa.
— Diga, se eu puder responder. — me sentei ao seu lado.
— É que, desde que eu participei da célula dos jovens na casa da Yasmin, eu me senti meio incomodada… — ela parecia com uma certa dificuldade para se expressar.
— Incomodada?!
— É que todo mundo está fazendo alguma coisa para contribuir, e eu… Desde que saímos da outra igreja, eu me senti meio vazia, gostava de ajudar lá…
— Fico feliz de certa forma que você queira ajudar a gente. — disse já entendendo — Eu notei a forma que você trata a filha da Karen, você gosta de criança né?
— Um pouco, sempre quis ter um irmão, mas, não rolou. — respondeu ela com certa tristeza — Meus pais nunca se casaram e minha mãe, bem…
— Hum… O que está fazendo sábado de manhã?
— Nada que eu me lembre.
— Gostaria de visitar nossa célula kids?! — eu já sentia a que ela queria mesmo fazer algo, mas sem preparo não daria certo, então teria que começar aos poucos.
— Seria legal, geralmente fico trancada no quarto sábado de manhã, minha mãe sempre trabalha esse horário. — aceitou.
— Tenho certeza que você vai se divertir. — assegurei — Está sendo na casa da Esther, você a conhece?
— Sim, conheço. — assentiu indo pegar uma das xícaras.
— Agora fiquei empolgada. — sorri de leve pegando a outra xícara — Agora podemos comer, eu quase caí em tentação em não te esperar.
— Me desculpa.
— Fica em paz.

Mesmo sendo às dez e meia da manhã, nosso café da manhã foi bom e divertido, coloquei alguns louvores para tocar no meu celular, assim o silêncio não reinaria, já que nossa boca estava trabalhando para nos manter nutridas. Ver alguns risos de Lira e seus comentários sobre ter vindo nesta manhã, me deixou ainda mais feliz, ver que um pouco de sua tristeza já estava se afastando dela.

— Eu realmente não quero incomodar mais. — disse ela se levantando do sofá — Já estou a muito tempo na sua casa.

Ela desviou seu olhar para o corredor, era meu pai que estava saindo do quarto e entrando no banheiro.

— Você jamais incomodaria, para ser honesta, está me fazendo a melhor companhia possível. — expliquei olhando na mesma direção que ela — Que tal prepararmos algo para comer?
— Você já está com fome?
— Claro. — me levantei do sofá.

Passar aquela tarde com Lira foi divertido.
Nós conversamos sobre vários assuntos aleatórios, por mais que estivesse preocupada com ela e querendo entender como realmente era sua convivência com a sua mãe, a família do seu pai e aquela velha senhora que parecia ser rabugenta demais, não podia invadir sua privacidade. Teria que continuar conquistando sua amizade e confiança, assim ela se sentiria segura para se abrir de verdade.

— E mais uma vez eu te peço Senhor, que Lira possa sentir Seu amor a envolvendo e preenchendo de forma sobrenatural. — disse encerrando minha oração — Amém!

Suspirei meio cansada, enquanto me levantava, limpei minha calça do pijama na região do joelho e caminhei até o violão, que ficava pendurado na parede ao lado da bancada de estudos. Puxei a cadeira para perto da janela, hoje estava inspirada a fazer serenata para Deus, olhando as estrelas, então comecei a dedilhar suavemente.

Não há outro como Tu… Soberano e fiel… Não há outro como Tu… Reina sobre a terra e céus… — mantive meu olhar no céu estrelado — És o Alfa e Ômega… Início e Fim… És o ar que eu respiro… Tudo pra mim… Tu és Jesus, Tu és Jesus…

Inegavelmente, sempre que eu tocava meu violão e começava a cantar para Deus, sentia uma enorme paz tomar conta de mim, além da minha mente se esvaziar de qualquer pensamento, meu coração se enchia de alegria. Passei um longo tempo ali, até que me dei conta que as palavras já não saíam mais dos meus lábios, minhas mãos continuavam tocando de forma automática, e meus olhos as lágrimas rolavam.

Naquele instante, me senti um pouco mais próxima de Deus, como se estivesse sentada aos seus pés, com minha cabeça pousada em seu colo.

- x -

— Bom dia meu pequeninos. — disse às crianças dando um sorriso largo — Hoje, teremos uma surpresa para vocês.
— EHHHHHHH!!! — eles gritaram eutróficos.

Aquela era a nossa primeira célula kids especial de férias, Esther tinha dado a ideia de fazermos sessão pipoca. O filme escolhido era o desenho O Príncipe do Egito, além de contar a história de Moisés, seria mais uma forma das crianças aprenderam sobre as histórias do antigo testamento.

— Vamos vamos, quero todo mundo sentando no tapete para poder ver o desenho. — disse Esther animada.

Era engraçado ver ela vestida com kigurumi13 de panda, tínhamos combinado que a cada célula kids, nossas roupas seriam diferentes para chamar mais atenção das crianças. Eu estava com um de canguru que ela havia me dado, era fofo, mas engraçado, a melhor parte é que as crianças tinham gostado. Aos poucos eles foram se acomodando e Lira nos ajudou a organizá-los, para que ninguém ficasse na frente de ninguém.

— Não imaginava que teria tanta criança. — comentou Lira quando fomos a cozinha para preparar a pipoca do lanche.
— Ah… Eu também me surpreendi. — concordei — Logo no primeiro dia teve umas sete crianças, graça a Deus e ao empenho da Esther, ela acabou de se formar em pedagogia e começou a trabalhar em uma escola aqui perto, a maioria dessas crianças são da escola.
— Ah, está explicado. — ela se aproximou e começou a me ajudar, colocando as pipocas prontas dentro do pacotinho de papel, para serem servidas.
— Mas, ainda não é o bastante, há muitas crianças no bairro e a maioria na região onde você vive. — completei — Queremos alcançar essas crianças também.
— Nossa.
— O que? — a olhei curiosa.
— É que, você faz tantas coisas, lidera as células e ainda estuda, fico impressionada. — disse ela me olhando — Como consegue?!
— Duas palavras, uma definição. — eu a olhei e sorri — Jesus Cristo.

Ela permaneceu em silêncio e sorriu de volta.

— Acredite, tem dias na minha vida que peço a Deus para virar pro canto e fingir que não estou viva. — confessei tranquilamente — Todo mundo tem seu dia mal, mas mesmo que tudo que eu faça de alguma forma me consome energia e me deixa esgotada, eu mantenho o pensamento de que tudo estou fazendo para Deus, então sempre vou me esforçar para dar o meu melhor.
— Quero conseguir fazer isso também. — disse ela num tom mais baixo — Dar o meu melhor.
— Tenho certeza que vai, só de estar aqui já é um começo. — pisquei de leve e sorri gentilmente para ela — Acho melhor terminarmos isso rápido, assim as crianças podem comer vendo o filme.
— Sim sim. — assentiu ela.

Realmente não era fácil assumir tantas responsabilidades de uma vez só, eu sabia que meu pai inicialmente só contaria comigo e meu comprometimento, mas já estava aos poucos sentindo o peso sobre minhas costas. Por mais que mantivesse o sorriso em minha face, para não preocupar meu pai, somente Deus mesmo poderia me manter de pé, diante de tantos problemas e adversidades da vida.

— Acho que algumas crianças adormeceram na metade do filme. — comentou Lira, me puxando para ver Esther pegando uma menina no colo.
— Já imaginava que aconteceria isso. — sussurrei — Mas no final, vamos fazer uma dinâmica sobre o filme, assim fixa melhor na memória das crianças o aprendizado que a história nos traz.
— Que legal. — Lira manteve seu olhar nas crianças, pude ver um certo brilho em seus olhos.

Se meu pai tivesse ali, diria com toda certeza que seu chamado é com o kids. Damos continuidade com a célula após o filme terminar, Esther me ajudou a acordar os dorminhocos e reanimar todos, enquanto isso, Lira ficou encarregada de ir juntando a bagunça deles sobre o tapete da sala. Como o planejado, nossa primeira célula de férias foi um sucesso, para a glória de Deus.

Nos despedimos de Esther assim que terminamos de organizar a bagunça que havia restado na cozinha, após os pais irem buscar as crianças. Acompanhei Lira até a metade do caminho, como sempre, ela não me deixou atravessar a rua e entrar no beco onde morava. Percebi que sua avó estava lá na porta, conversando com outra senhora de rolinhos no cabelo, aquilo me fez lembrar a dona Florinda do Chaves, nos dias de hoje não é mais frequente ver pessoas usando isso nos cabelos.

— Nos vemos mais tarde então. — disse ao abraçá-la — Você vai na célula de jovens, não é?
— Vou sim. — assegurou ela.

Por mais que aquilo não fosse totalmente uma certeza, já que provavelmente ela estava passando por vários problemas em casa.

— Estarei te esperando. — sorri de leve.

A segui com o olhar, até que entrou no beco e sumiu do meu campo de visão. Percebi que sua avó e a outra mulher continuava me encarando, disfarcei um pouco que havia notado isso e me virei para meu caminho. Assim que cheguei em casa, encontrei meu pai terminando o almoço, o que me fez sentir de imediato uma pequena fome.

— Olha só quem chegou, pensei que ficaria lá.
— Não, nós combinamos com os pais que buscariam eles antes do almoço. — expliquei colocando a mochila no sofá — Vim correndo para almoçar com o senhor!
— Nossa, que linda minha princess. — ele se voltou para mim e sorriu — E como foi? Teve muita bagunça?
— Foi divertido, mas crianças gostaram muito do filme e depois a Esther fez uma dinâmica com elas sobre o que aprenderam. — contei com um pouco de empolgação — A Lira também foi.
— Uau, isso bem, quanto mais ela se envolver com coisas assim, acho que será bom para ela. — disse ele ao provar novamente o arroz que tinha desligado.
— Sim, acabei percebendo que ela tem muita afinidade com crianças. — comentei.
— Você acha que esse seria o chamado da sua amiga? — ele me olhou curioso.
— Não sou tão boa quanto o senhor para deduzir essas coisas, mas tenho por mim que sim.
— Eu não deduzo nada, apenas ouço as afirmações do Espírito Santo. — retrucou ele e piscou de leve.
— Ainda chego nesse nível. — peguei minha mochila — Vou trocar de roupa e já volto para o almoço.

Eu realmente queria tirar um cochilo depois do almoço, meu corpo pedia, mas tinha que revisar a exegese da célula desde sábado. Fiquei enrolando um pouco enquanto trocava mensagens no whats com Davi, segundo ele, já tinha elaborado uma dinâmica impactante para a célula de hoje.

— Princess. — disse meu pai batendo na porta — Muito ocupada?
— Não. — coloquei o celular sobre a bancada — Estava trocando algumas mensagens com o Davi.
— Hum… — ele adentrou um pouco mais — Você disse que estava preocupada com nossa situação financeira...
— Sim, e o senhor disse que eu não deveria me preocupar com isso. — mantive meu olhar nele, percebi que estava com um papel na mão — O que tem?
— Acho que podemos entrar em um acordo. — disse ele esticando o papel para mim.
— O que seria isso?! — me levantei da cadeira e caminhei até ele, pegando o papel.
— A escola onde estou trabalhando, está contratando jovens aprendizes para dar aulas de monitoria e reforço. — explicou ele — O que acha?!
— Sério? Vai mesmo consenti? — o olhei um pouco animada.
— Digamos que você vai precisar estudar para ensinar, além de receber no final do mês, mesmo relutante, acho que será bom para você. Se é o que deseja. — seu olhar sereno estava lá, além do tom compreensível de sempre.
— Obrigada pai. — eu logo o abracei com empolgação e lhe dei um beijo no rosto — Glória a Deus.
— Isso me deixa preocupado. — ele ficou um pouco mais sério — Principalmente por tantas coisas que anda realizando.
— Não se preocupe pai, eu vou conseguir. — me virei para meu celular que estava tocando, era uma mensagem de Davi.

“Surpresa de última hora…
Layla mandou uma mensagem, disse que irá visitar nossa célula hoje e vai levar uma companhia”

Meu corpo gelou na mesma hora.

"There's nothing worth more
Não há nada que valha mais
That will ever come close
Que nunca vai chegar perto
Nothing can compare
Nenhuma coisa pode comparar
You're our living hope
Você é a nossa esperança viva
Your presence lord
A Sua presença"
- Holy Spirit / Jesus Culture



Continua...



Nota da autora:
Louvo e agradeço a Deus por você estar lendo a mais essa história, apesar de ser muito diferente de todas que já escrevi, estou muito empolgada e me divertindo bastante com todas as ideias que estou tendo, espero que você também se divirta e se emocione, que possa ser edificado com a mensagem de Princess of GOD!
Bjinhos...
By: Pâms!!!!
Jesus bless you!!!




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*links e outras fics vocês encontram na minha página da autora!!


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