Última atualização: 02/11/2018

Gênesis

"E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra." - Gênesis 1:26

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Há sempre um propósito por detrás de cada ação de Deus em nossas vidas, mesmo que não possamos enxergar no momento em que as coisas acontecem, ao final de tudo o que importa é a perfeita e agradável vontade do Senhor. Porém, somos falhos humanos que sempre deseja saber o “porquê?” e não o “para que?”. E este questionamento se iniciou em minha vida, no exato momento em que meu pai após ser consagrado a pastor, foi enviado para pregar e ganhar vidas em uma nova cidade.

Eu havia acabado de completar 16 anos, quando meu pai chegou com essa notícia após o culto de domingo, senti uma leve frio na barriga que se transformou em receio, talvez porque nossa vida até o momento estava inteira instalada na grande São Paulo. Nosso destino foi incerto por alguns dias, só sabíamos da mudança e a direção estava nas mãos de Deus, segundo as palavras do Pastor Antônio, pastor presidente da igreja onde congregamos.

— Não está sentindo frio pai? — perguntei assim que descemos do ônibus de viagem.
— Ainda não. — ele sorriu ajeitando sua mochila nas costas — Ah, onde está o irmão¹ Zé.
— Ele sabia que chegaríamos agora pela manhã? — perguntei deixando minha mala entre as pernas.
— Sim, mandei uma mensagem para ele há duas horas. — confirmou meu pai pegando seu celular do bolso.
— Então a única opção é esperar. — comentei quase em sussurro, enquanto a atenção do meu pai estava no celular.

Desviei meus olhos para minha mala e deixei minha mochila em cima dela, só agora estava acordando para a realidade e percebendo que estávamos em outro estado, seria um recomeço para nossas vidas e para o ministério do papai. Por mais que mostrasse estar seguro e confiante por fora, eu conseguia notar sua ansiedade e medo de não alcançar as expectativas de Deus.

Confesso que nossa vida em Jundiaí era um pouco mais confortável e estável, daqui para frente seria realmente uma surpresa para nós e nossa dependência do Senhor era visível, mesmo papai tendo sua profissão de professor de história, ele havia deixado seu emprego para cumprir seu chamado.

— Pastor! — ouvimos uma voz ao longe, era o irmão Zé — Ai pastor, me desculpe a demora, estava fazendo uma entrega agora de manhã.
— Sem problema, o que importa é que está aqui agora. — meu pai sorriu — Agora respire fundo, parece um pouco sem fôlego.
— Nossa, tive que estacionar meu carro um pouco longe, vim correndo. — ele respirou fundo — Essa moça é sua filha?
— É sim, minha amada filha. — papai me olhou e sorriu — , este é o irmão Zé.
— Paz do Senhor. — disse o irmão Zé.
— Paz. — sorri de leve para ele, ajeitando a capa do violão nas costas.
— Ah, é levita? — ele desviou o olhar para o violão — Que benção.

Eu me encolhi um pouco, confesso que minha timidez não me deixava assumir alguns dons que visivelmente Deus havia me dado, porém a necessidade se faz e meu pai não me deixava ficar sem louvar quando ele pregava.

— Ela é um pouco tímida, mas sua voz é linda. — elogiou meu pai.
— Para a glória de Deus. — disse num tom baixo.
— Aleluia. — o irmão Zé soltou um grito fazendo algumas pessoas olharem para nós — Vamos estão pastor?
— Vamos. — meu pai assentiu pegando uma das malas.
— Eu ajudo vocês. — disse ele pegando uma mala que estava ao lado de papai. — Vocês trouxeram poucas coisas.
— Estamos na direção do Senhor. — explicou papai.

Sim, deixar a vida na direção de Deus requer muita coragem e confiança, não era fácil deixar uma história para trás, mas assim como Abraão, nossa confiança estava no nosso criador. O irmão Zé nos levou em sua kombi até nossa nova residência, que ficava no bairro Cristais na cidade de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte em Minas Gerais, um pequeno apartamento no quinto andar de dois quartos, que nem estava mobiliado direito.

— Que prova. — sussurrei ao entrarmos no apartamento e ver os raros móveis dentro — Te louvo Senhor, por tudo.
— 502, é um bom número. — comentou meu pai ao passar pela porta.
— Então, como foi tão repentino a ligação do pastor Antônio falando sobre você vir para Minas, que não consegui muita coisa. — o irmão Zé parecia um pouco sem graça pela simplicidade do lugar.
— Que isso irmão Zé, fique em paz. — meu pai colocou a mala dele ao lado da porta e se virou para a cozinha — Temos um fogão e uma geladeira, é o bastante.
— Tem certeza?
— Claro. — assentiu papai dando uns tapinhas nas costas dele — Pare de ficar preocupado, o que eu precisar comprar eu tenho minhas economias.
— Onde são os quartos? — perguntei.
— No corredor à direita. — respondeu ele.
— Pode ir na frente e escolher o seu querida. — meu pai sorriu como se quisesse agradecer-me por estar nessa empreitada com ele, já que eu tinha a opção de ficar em São Paulo com meus avós.
— Ok. — eu peguei minha mala e com a mochila e o violão na outra mão, segui para o corredor.

Ambos os quartos eram do mesmo tamanho, mas preferi ficar com o segundo por causa da direção da janela e da vista que proporcionava. Assim que entrei coloquei meu violão e a mochila ao lado da porta, que dava nos pés da velha cama e dando mais alguns passos ainda com a mala na outra mão, a deixei próximo ao armário que ficava na parede da porta. Fiquei curiosa para saber onde o irmão Zé tinha conseguido os móveis para aquele apartamento.

— Hum… — me espreguicei um pouco desviando meu olhar para a janela da fachada — Me ajuda Deus, sozinha eu não consigo.

Me voltei para o armário que estava na parede e respirando fundo, abri minha mala e comecei a colocar todas as minhas coisas no lugar. Comecei a analisar todo o espaço do quarto e pensar no que poderia fazer para deixá-lo mais confortável, teria que ser algo simples e barato, pois gastos já estavam mais do que proibidos por algum tempo em nossas vidas.

Felizmente o pouco de roupas que levei, couberam no pequeno armário sem muito esforço, porém o problema seria minha outra mala com meus livros e cadernos, onde colocaria tudo aquilo. Dei um suspiro cansado e senti um fundo no estômago, era a fome aparecendo para mim e nem sabia o que comeria, foi neste momento que papai bateu na porta e entrou.

— Princesa?!
— Sim?! — fechei a última gaveta no armário e o olhei.
— Está tudo bem por aqui? — perguntou ele.
— Por enquanto, sim, mas…
— Mas?!
— Estou com fome. — coloquei a mão na barriga — Muita fome.
— Imaginei. — ele riu — O irmão Zé nos convidou para almoçar na sua casa, já que acabamos de chegar.
Deus abençoe ele. — sorri de leve.
— Hum, você vai precisar de algo para deixar este quarto mais você?! — brincou ele adentrando um pouco mais — Sei que ainda falta muita coisa.
— Bem, enquanto guardava minhas coisas, fui pensando em algo que posso eu mesma fazer e não ficará caro. — respondi — Preciso de lugar para meus livros.
— Ah, sim, sua outra mala está na sala. — ele olhou para a janela da frente — Que tal colocar uma grade bancada suspensa ali, com prateleiras, acho que vai ficar bonito e você vai pode aproveitar a claridade do dia. — disse ele analisando o quarto.
— Desde quando o senhor tem essas ideias? Arquitetura era com a mamãe. — eu ri de leve.
— Anos de convivência gera aprendizado e conhecimento. — ele sorriu com satisfação.

Por um breve momento senti saudade da mamãe, seria bem mais fácil se ela estivesse aqui conosco, porém meu consolo é que ela estava em um lugar bem melhor do que nós, nos braços de Deus. Eu me voltei para a janela da frente e fiquei olhando para a parede, não era uma má ideia colocar uma bancada ali, eu teria espaço para estudar e praticar também.

Nós demoramos mais um pouco conversando e tenho várias ideias sustentáveis, para deixar nossa nova casa mais aconchegante. O irmão Zé veio nos buscar para darmos um passeio pelo bairro e conhecer os pontos principais, foi uma longa volta até chegarmos na rua onde morava, que coincidentemente era a rua onde ficava também a escola em que possivelmente estudaria.

— Chegamos, espero não ter cansado vocês. — o irmão Zé deu uma risada esquisita ao abrir o portão de sua casa.
— Que isso varão². — meu pai se espreguiçou um pouco — Foi bom ter conhecido o bairro e andar faz bem a saúde.
— Fale pelo senhor. — eu ri um pouco.
— Pare de ser sedentária. — papai me olhou e sorriu.

Eu desviei o olhar para a rua, vendo algumas pessoas passando.

— Ah, quantos anos tem sua essa jovem? — perguntou ele.
— Tenho 16. — respondi.
— Ah, a mesma idade do meu filho, você deve estudar nessa escola. — ele apontou para o largo muro — Essa escola é muito boa, conheço todos os professores de lá.
— Isso é bom, essa mocinha aqui ama estudar! — senti um certo orgulho em sua voz.

Como sempre eu não sabia lidar com elogios, principalmente quando saíam do meu pai, mas ficava feliz pela satisfação que causava nele ao ser uma boa aluna. Adentramos o lote a após passar a pequena entrada onde estava a velha kombi, chegamos na porta de entrada e logo uma senhora veio nos receber com toda animação.

— Pastor, seja bem-vindo em nome de Jesus. — ela deu um abraço respeitoso em meu pai e logo se voltou para mim e me deu um abraço apertado — E você também!
— Amém, obrigada. — disse retribuindo o abraço.
— E como foi a viagem para cá? — perguntou ela — Ah, que falta de educação a minha, eu sou a esposa do Zé, podem me chamar de irmã Kátia.
— É um prazer conhecê-la irmã Kátia. — meu pai olhou para mim — E ficamos agradecidos pelo convite do almoço.
— Sim. — confirmei.
— Ah, quando o Zé me disse que chegariam agora, pensei que seria trabalhoso para vocês terem que fazer algo para comer, além de colocar as coisas no lugar. — explicou ela — Para mim é uma honra recebê-los aqui.
— Onde está o Davi? — perguntou o irmão Zé.
— Na casa de um amigo, logo ele aparece para o almoço. — respondeu ela.
— Pastor, você vai gostar de conhecer meu filho, aquele garoto é uma benção, ele me ajudou a conseguir os móveis para seu apartamento. — comentou o irmão Zé.
— Que maravilha, que Deus aumente essa boa vontade dele. — disse meu pai — Ah, e por falar em apartamento, preciso conversar com você sobre o aluguel dele e o dia do pagamento.
— Ah, sim.
— Bem, nós vamos deixá-los. — a irmã Kátia pegou em meu braço de leve — Você me ajuda na cozinha?
— Claro. — assenti.

A irmã Kátia era bem humorada e muito tagarela a primeira vista, nem mesmo ela me conhecia direito e já começou a compartilhar receitas infalíveis na cozinha, o que me fez achar ela uma pessoa muito fofa e graciosa.

— Pelo seu rostinho não está muito animada com a nova casa. — comentou ela mexendo em suas panelas.
— Preciso de uns dias para me adaptar a nova vida. — expliquei — É tudo muito novo.
— Imagino que não esteja sendo fácil, servir a Deus não é fácil, imagino deixar tudo para trás e seguir para uma nova cidade. — ela parecia me entender melhor do que eu mesma nessa situação.
— É um pouco nesse nível, mas o que importa é que eu e meu pai estamos juntos. — confirmei.
— São só vocês dois? — perguntou ela.
— Sim. — respirei fundo — Minha mãe já está com o Senhor há cinco anos.
— Eu até poderia dizer que lamento, mas ela está em um lugar melhor que nós. — ela sorriu para mim — Não está!?
— Sim, minha mãe era uma mulher de muita oração. — confirmei  — Ainda é um pouco triste pela saudade, porém também somos alegres por saber que no final, vamos vê-la novamente.
— É assim que deve manter seus pensamentos. — sugeriu ela — A saudade é um sentimento perigoso que pode te levar pelos tortuosos caminhos da tristeza e solidão.
— Vou me lembrar disso. — sorri de leve.

Sim, a saudade havia me proporcionado uma tristeza muito grande, que durou cerca de seis meses e muita oração para ser superado, aquela época foi a mais conturbada da minha vida, quando comecei a questionar Deus por ter levado minha querida mãe. Felizmente o consolo veio de quem eu mais precisava: o Espírito Santo.

Ao longo da conversa a irmã Kátia me contou que tanto ela, quanto o irmão Zé haviam sido consagrados a diáconos recentemente, porém como saíram da igreja onde estavam, era um pouco difícil para eles exercerem a função. Esse foi um dos motivos para a nossa mudança, o irmão Zé conhecia um primo do pastor Antônio, que também morava em Nova Lima e sempre estava comentando sobre como a nossa igreja era uma benção.

— Finalmente, pensei que não iria almoçar garoto. — disse o irmão Zé assim que seu filho entrou em casa.
— Estávamos jogando FIFA. — explicou ele — Campeonato Europeu.
— Os europeus são os melhores. — disse meu pai que estava sentado no sofá, se levantando.
— Você joga? — o garoto olhou surpreso para meu pai.
— Claro, só não estou jogando tanto assim. — ele riu um pouco.
— Agora estou surpreso. — o irmão Zé riu — E o pastor joga futebol de verdade também?
— Ele ama futebol. — completei rindo.
— Ah, Davi este é o pastor Jonas e sua filha . — disse a irmã Kátia — Eles chegaram esta manhã.
— Paz do Senhor³. — disse o jovem — Sejam bem vindos.
— Agradecemos sempre a hospitalidade. — disse meu pai.
— Já que estamos todos aqui, vamos almoçar que a comida está quente. — anunciou a irmã Kátia.
— Já sinto o cheiro o cheiro daqui. — brincou o irmão Zé — Pastor, não existe comida melhor do que a da minha esposa.
— Pelo cheiro, parece mesmo muito saborosa. — disse meu pai o seguindo em direção a cozinha.

A comida da irmã Kátia era mesmo saborosa.

Após o almoço, eu fiquei na varanda da casa conversando com Davi, ele estava me contando como era a escola e a antiga igreja onde congregava.

— A irmã Kátia me contou sobre o problema que tiveram na outra igreja, lamento que tenham saído por essa forma. — disse me sentando no degrau da varanda — Mas, o que importa é que agora podem recomeçar também.
— Verdade. — ele ficou encostado no pilar ao lado — Mas, estamos em paz agora.
— Isso é o que vale.
— Estou curioso sobre algo. — observou ele.
— O que seria? — o olhei.
— Assim como o pastor, você também já iniciou o seu ministério4? — perguntou.
— Mais ou menos. — soltei um suspiro fraco — Eu ainda não sei exatamente qual é o meu chamado, apesar de reconhecer alguns dons.
— Você tem medo de exercer ou algo do tipo?!
— Não seria medo, mas acho que sou tímida demais para isso.
— Hum, os tímidos não herdarão o reino do céu. — brincou ele.
— Eu sei, tenho orado muito para melhorar isso. — desviei meu olhar para o portão — E você? Qual é o seu chamado?
— Já me falaram que sou levita5. — respondeu ele se afastando um pouco da parede de vindo sentar ao meu lado — Mas existem tantas definições para esse termo, que ainda não encontrei meu caminho também.
— Então posso dizer que estou na mesma situação que você. — ri baixo pensando sobre essas definições.
— Mas o que Deus mandar, tentarei dar o meu melhor. — continuou ele dando um suspiro fraco.
— Amém. — disse em concordância.

Davi era um jovem muito simpático e carismático, o que me deixava aliviada por conhecer pelo menos uma pessoa legal da escola onde estudaria. As horas foram se passando, com meu pai e o irmão Zé conversando sobre as duas células6 que iriam abrir para começar a evangelização no bairro.

Logo ao final da tarde, voltamos para o apartamento. Apesar de um breve momento de descontração e descanso na casa do irmão Zé, nossos próximos dias seriam de arrumação, já que papai tinha conseguido arrumar algumas madeiras que estavam na casa dele e a irmã Kátia tinha nos presenteado com elas. Assim que entramos no apartamento, corri para o banheiro, precisava de um banho quente e roupas quentinhas, estranhamente a noite estava fria.

— Está animado pastor Jonas. — brinquei ao adentrar a sala e vê-lo fazendo algumas anotações na sua agenda.
— Um pouco, mas também receoso. — ele parou de escrever e me olhou — Não quero decepcionar.
— Quem? As pessoas?
— Não…  As pessoas sempre vão se decepcionar conosco, principalmente se estamos à frente da obra. — ele respirou fundo e deu algumas batidinhas no sofá para que me sentasse ao seu lado — Eu não quero decepcionar Deus, afinal é Ele quem está me confiando isso.
— Verdade. — não tinha como não concordar, me sentei ao seu lado.
— Posso contar com você?! — ele sorriu de leve.
— Acho que sim, apesar de também ter medo de decepcionar, a Deus e ao senhor, papai.
— Minha princess, tão jovem… — ele esfregou de leve sua mão em meus cabelos os bagunçando — Ainda está preocupada com o seu chamado?
— Sim. — suspirei fraco — Tenho uma enorme vontade de trabalhar para o Senhor, mas sempre ouço que devemos ensinar o que sabemos e passar ao próximo o que temos, eu nem consigo confirmar que alcancei meu batismo7 com o Espírito Santo.
— Sei o quanto tem buscado por isso, tenho certeza que seu desejo em ser batizada segue em sincronia e na mesma intensidade do desejo do Espírito Santo em te batizar. — ele me abraçou com carinho, e começou a acariciar meus cabelos — E só o fato de sentir vontade de fazer a obra, já mostra sua disposição para Ele, além do mais quem nos capacita é Ele.
— O que devo fazer então? — sussurrei.
— Continue perseverante e deixe o Senhor te conduzir. — respondeu ele tranquilamente.

Aquele era um lado do meu pai que sempre me fazia sentir que precisava ainda mais ser intensa em minha busca, ele possuía uma sabedoria grande que transmitia em seus conselhos.

— Posso te fazer uma pergunta? — sussurrei novamente.
— Sim.
— Como o senhor descobriu qual era o seu chamado? — perguntei curiosa.
— Porque? Ainda está em dúvida com o seu? — ele me olhou confuso.
— Bem, hoje mais cedo o Davi falou algo, que me deixou pensativa. — expliquei o motivo.
— O que ele disse?
— Ele me contou que o chamado dele também é de levita, mas que existem algumas definições para esse termo e ele ainda não sabe qual se encaixa nele. — esclareci — Isso veio de encontro ao meu coração, pois mesmo tendo uma boa voz, não me sinto à vontade com o louvor, nem mesmo sei se realmente meu chamado é para o canto.
— Mas você concorda que cantar é um dom que Deus te deu, não é?
— Sim, mas… — fiquei em silêncio por um tempo.
— Talvez seu dom não esteja ligado ao altar de uma igreja. — ele respirou fundo — Só o Senhor sabe quantos caminhos existem para um mesmo dom, final é Ele quem escolhe a posição de cada pessoa.
— Verdade. — me aninhei um pouco mais em seu abraço.
— É normal estar confusa e receosa, eu também já estive assim. — ele sorriu de leve para mim — Quando me converti e aceitei Jesus, ou melhor, quando Jesus me aceitou, eu me vi neste mesmo dilema, sem saber qual era o meu chamado, apesar de já terem profetizado que eu seria um pregador.
— Mas existem vários caminhos para a pregação também. — ergui de leve minha face e o olhei.
— Sim. — ele riu baixo — E a minha resposta, assim como todas as respostas, eu encontrei na Palavra de Deus.
— Hum… E como fez para achar essa resposta?
— A encontrei através de uma pergunta que uma senhora me fez. — ele riu novamente como se estivesse se lembrando de algo — Foi um dia chuvoso em que estava no monte, clamando por uma resposta, quando uma senhorinha se aproximou de mim me dizendo que eu não precisava gritar, que o Espírito Santo estava ao meu lado e eu deveria ser mais educado.

Eu o olhei admirada. Até o momento nunca havia passado por uma situação em que algum profeta me fizesse alguma revelação de Deus, mas com o meu pai já havia acontecido várias vezes.

— Ela disse isso tudo?! — eu ri um pouco mais.
— Sim. — ele riu junto — Mas ao final me fez refletir com sua pergunta.
— E qual foi?
— Qual era o meu chamado de Gênesis a Apocalipse. — respondeu ele — Ela disse que se eu não soubesse qual era os chamados mais visíveis que estão descritos na Bíblia, eu jamais conseguiria entender o que Deus tinha para mim.
— E foi assim que descobriu que seu chamado era para ser um pastor?! — perguntei.
— Eu descobri que Deus me chamou para ser várias coisas ao longo da vida. — ele voltou seu olhar para a agenda que ainda estava no seu colo — E uma bastante necessária era ser um pastor.
— Hum… E você não pode me contar, ou é segredo?!

Eu o olhei imaginando como ele tinha descoberto e o que ele tinha descoberto.

— Não é segredo, mas você sabe que a palavra do Senhor se renova todos os dias, então o que eu descobri para mim, talvez não valerá para você. — papai voltou seu olhar para mim e sorriu — Mas, creio que posso contar o primeiro chamado que possa se estender para todas as pessoas, além de mim e você.
— Qual? — perguntei.
— Nosso chamado de Gênesis. — respondeu ele um pouco animado — O mais difícil de descobrir por ser o primeiro, porém o mais impactante.
— Mais difícil e mais impactante, de certo é uma passagem bíblica. — o que era óbvio.
— Sim, qual o primeiro versículo que vem em sua mente quando pensa no livro de Gêneses?! — perguntou ele.
— Hum, versículo específico não sei ao certo, mas sempre me pego impactada quando leio: “Façamos o homem a nossa imagem semelhança.” — respondi com convicção.
— E porque se sente assim? — insistiu ele.
— Porque saber que depois de fazer todo o universo com o poder da palavra, Deus fazer o homem com todo o capricho com as suas próprias mãos, me faz sentir ainda mais amada e querer não decepcioná-lo. — expliquei.
— Quando vemos a grandeza de Deus e depois percebemos o amor que ele tem por nós, sentimos essa necessidade de vê-lo feliz com nossas atitudes. — meu pai sorriu com carinho — Parabéns, você acabou de descobrir o seu chamado em Gênesis, com uma ajudinha é claro.
— Pai… — o olhei abismada.
— Só disse a verdade. — ele riu de leve — Mas sabe que não é somente isso que Gênesis nos ensina, e também não adianta saber a palavra e não praticá-la.
— Eu sei, acho que terei que ler um pouco antes de dormir. — sorri um pouco e me levantei do sofá — Vou dormir.
— Boa noite querida, se levantar no meio da noite com sono, comprei alguns biscoitos e deixei no armário. — avisou ele.
— Ok. — me espreguicei um pouco — Bom dia papai, bença!
Deus te abençoe princess, bom dia e bons sonhos.

Assim que entrei no quarto, retirei a manta que tinha ficado na mala e juntamente com o lençol, estendi na cama rapidamente. Ao ajoelhar na beirada da minha cama, abri a Bíblia exatamente no livro de Gênesis, confesso que até aquele momento não tinha lido a Bíblia por completo, mas já estava começando a sentir a necessidade de fazer isso, precisava realmente conhecer mais para descobrir quais eram os outros chamados.

— Qual o meu chamado de Gênesis a Apocalipse?! — me perguntei em um sussurro — Me ajude a descobrir Senhor!

"I am yours
Eu sou seu
Not because of who I am
Não por causa de quem eu sou
But because of what you've done
Mas por causa do que você fez
Not because of what I've done
Não por causa do que eu fiz
But because of who you are.
Mas por causa de quem você é."
- Who Am I / Siwon (Super Junior)

 

Dicionário:
1. Irmão/irmã: Forma de tratamento.
2. Varão: Homem.
3. Paz do Senhor: Forma de cumprimento cristão protestante.
4. Ministério/Chamado: Dom ou talento exercido pelo cristão e que se traduz em atividade ou ações específicas na congregação ou no meio onde vive.
5. Levita: Na tradição judaica, um levita é um membro da tribo de Levi, com atribuições acessórias ao culto, menos importantes do que as que cabiam aos sacerdotes levíticos da família de Aarão (os únicos a ter acesso ao altar); diácono. Atualmente tem se popularizado como a forma como são chamados especificamente os ministros de louvor e músicos evangélicos nas igrejas cristãs.
6. Célula: É a extenção da igreja, um momento de comunhão entre dos membros da igreja feito nas casas que se disponibilizam para isso, afim de levar ainda mais a palavra e a mensagem de Deus, uma forma de manter a união da igreja e de evangelizar também levando visitantes, ajudando assim no crescimento da igreja.
7. Batismo com Espírito Santo: É a experiência e privilégio de ser preenchido pelo Espírito Santo, tendo a plenitude de Deus em todas as áreas da sua vida, mediante a um ardente desejo de conhecer, sentir e servir melhor ao Senhor Jesus.


2. Êxodo

"Então falou Deus todas estas palavras, dizendo:
Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
Não terás outros deuses diante de mim.”
- Êxodo 20:1-3

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Não temo mais o mar, pois firme está minha fé... — continuei a dedilhar no violão, estava praticando um pouco — No meu barquinho está, Jesus de Nazaré...
?! — o som de dois toques soou na porta.
— Pai?! — parei de dedilhar e olhei para sua direção.
— Estou atrapalhando? — disse ele ao entrar um pouco mais.
— Não, só estava praticando um pouco. — coloquei o violão ao lado em cima da cama — Deseja alguma coisa?
— Fiquei um pouco preocupado com você. — disse ele se encostando na parede e me olhando com carinho — Mas vejo pelo seu olhar que está mais leve hoje.
— Sim. — assenti — Passei a noite em oração, não consegui dormir.
— Imaginei, passei para ir a cozinha e vi a luz do seu quarto acesa. — com as mãos no bolso da minha calça, desviou seu olhar para a janela — Pense que Gênesis foi somente o início,
— Que tal irmos a padaria tomar café?
— Tem certeza que podemos? Sei que suas economias não são muitas. — perguntei receosa.
— Claro que podemos. — ele sorriu — Apesar do nosso deserto8 está no início, vamos passar juntos e glorificando ao Senhor.
— Amém! — disse em concordância — Vou trocar de roupa então.

Papai se afastou da parede e saiu do quarto, apesar de toda a dificuldade que provavelmente viveríamos, era admirável a forma como ele agia, ainda mais admirável sua confiança em Deus, o que me fazia chegar ainda mais longe no meu nível de intimidade com o Senhor, afinal só confiamos em alguém que conhecemos e somos íntimos. Eu queria isso, queria ainda mais elevar o nível de busca e intensidade, para finalmente me aproximar do Espírito Santo e ter meu batismo no espírito.

Aquieta minh'alma, faz meu coração ouvir Tua voz… — comecei a cantarolar enquanto trocava de roupa — Me chama pra perto, só assim eu não me sinto só…

Ao olhar para a janela senti o vento entrar, estava um pouco frio aquele dia então me agasalharia bem, assim que coloquei minha identidade no bolso da calça, saí do quarto. Papai estava no celular conversando com alguém, fiquei encostada olhando ele conversando, parecia estar concentrado no assunto que tratava.

— Mais uma vez agradeço irmão Zé. — disse ele — Mas, ficaremos bem por um tempo, estamos na direção e provisão de Deus, não quero dar mais despesas a sua família.

Então era o irmão Zé, ele e sua família estavam sendo muito bons conosco, principalmente por nos convidar para almoçar com eles todos os dias até nossa situação estabilizar. Mesmo com toda a sua tranquilidade, lá no fundo eu sabia que meu pai estava preocupado com nossa situação, mas nunca deixaria se abalar pois sua fé no Senhor era mais forte, então ele faria o possível para não me deixar preocupada com nada, além dos meus estudos e da minha vida espiritual.

— Oh, princess. — ele me olhou após desligar o celular — Vamos?!
— Era o irmão Zé? — perguntei para confirmar.
— Sim. — assentiu — Ele estava nos convidando para o café, fico feliz com sua preocupação por nós, mas temos que caminhar por conta própria por enquanto.
— O senhor está pensando em arrumar um trabalho aqui também!? — desviei meu olhar para o jornal que estava em cima do sofá.
— Por enquanto, espero a resposta do Senhor Jesus, sei que toda provisão vem dEle. — ele pegou as chaves que estava no gancho da parede — E não iremos perecer no deserto.
— Amém. — concordei — Estou com fome.
— Vamos querida. — ele pegou em minha mão me dando o braço — Vou te alimentar com a benção de Deus.

Saímos rindo com alguns comentários do papai sobre minha fome, assim que chegamos na padaria, a dona estava presente e logo nos reconheceu papai por causa do irmão zé que tinha falado muito sobre nossa vinda para o bairro. Ela fez questão de não deixar que cobrassem pelo nosso café, o que me deixou um pouco impressionada, já que ainda nem nos conhecia e nunca tinha nos visto.

— Estou satisfeita. — disse recusando mais um pedaço de bolo que ela queria me dar — Muito obrigada pelo café.
— Ah, uma jovem cheia de saúde deveria comer bem mais. — disse ela.
— Oh não, se eu comer mais, será gula. — dei um sorriso sem graça.
— Estava tudo mesmo muito saboroso, sinto minhas forças renovadas. — disse papai assim que engoliu o resto do café que estava em sua xícara — Mais uma vez, agradeço a gentileza e não sei como posso retribuir por isso.
— Ah, pastor, não precisa agradecer, para mim é uma honra fazer isso por um servo do Senhor. — ela sorriu com graça — E também estou cumprindo Mateus 25:40.
— Hum… — meu pai logo entendeu o que ela quis dizer — Está escrito, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
— Isso mesmo. — concordou ela — E por falar no Pai, quando irá começar a célula na casa do irmão Zé?!
— Provavelmente semana que vem, estaremos fazendo evangelização pelo bairro para convidar as pessoas. — respondeu papai se levantando da banqueta — Ficarei feliz em ver a senhora e sua família lá.
— Ah, claro que vamos, sinto mesmo que preciso me aproximar mais de Deus, ando tão desanimada para tudo. — ela deu um suspiro cansado — Eu irei e levarei meu marido também.
— Leve a família toda, será um prazer para nós. — meu pai sorriu e voltou seu olhar para mim — Vamos querida?!
— Claro. — olhei para a senhora Muriel — E mais uma vez obrigada.

Ela sorriu de volta e se afastou indo para perto de uma das atendentes. Papai passou a mão no bolso de leve para ver se não tinha caído nada, ele tinha um leve defeito de sempre perder as chaves de casa, algo pelo qual estava sempre orando a Deus para mudar nele. Antes de voltarmos para casa, meu pai teve a ideia de passar no supermercado para comprarmos algumas coisas que faltavam nos armários da cozinha, não seria muita coisa, porém todas necessárias.

— O senhor realmente disse que não compraria muita coisa. — reclamei assim que entrei no apartamento carregando as sacolas pesadas.
— Tenho certeza que tudo que trouxemos é necessário. — explicou ele ao entrar e fechar a porta empurrando-a com o pé — Pare de reclamar e agradeça a Deus pela provisão.
— Desculpa, foi mais forte que eu. — disse colocando as sacolas na bancada da pia da cozinha — Obrigada Deus, pela provisão.
— Amém. — disse meu pai colocando as sacolas que estavam em sua mão ao lados das outras — Minhas costas sentiram o peso.
— Estou vendo. — ri da cara dele indo até o sofá e me sentando — Pai…
— Sim?! — ele se encostou na bancada.
— A célula vai mesmo ser na casa do irmão Zé?! — perguntei.
— Sim. — confirmou ele cruzando os braços — Nosso apartamento é pequenos e não tem muito lugar para sentar.
— Mas e se a célula não tiver muitas pessoas?! — indaguei.
— Garota de pouca fé. — ele me olhou sério — Que envia as pessoas é o Senhor, nosso dever é preparar o ambiente profético para que ele nos dê sua provisão.
— Verdade, sempre me esqueço disso. — ri baixo.
— Preciso que me ajude, tudo bem para você?! — perguntou ele.
— Estamos juntos nessa, apesar desse chamado ser o seu. — respondi jogando a indireta direta.
— Preciso do apoio da minha família que é você. — explicou ele tranquilamente se afastando da bancada e vindo se sentar ao meu lado — Você e eu, somos uma família.
— Ainda assim, não sou a auxiliadora adequada. — retruquei — Sou sua filha.
— Já falamos sobre isso. — ele sorriu de canto — Mudando de assunto, mas no mesmo contexto, vai me ajudar com o louvor da célula?!
— Por que será que eu já esperava por isso. — suspirei fraco — Pai, ainda não sei se louvor é mesmo meu chamado.
— Eu também sei, mas se o Senhor te deu o dom para cantar e tocar, não acha que não usar isso para a obra, seria o mesmo que enterrar seu dom?! — perguntou ele em seus momentos que adorava me fazer refletir — O que acha?!
— Posso ser sincera?!
— Deus ama  quando as pessoas são sinceras, principalmente se tratando da sua obra. — respondeu ele dando um sorriso gentil.
— Tenho medo.
— Medo? De que?
— Das pessoas falarem disso, já possuo o título de filha do pastor, se eu ficar responsável pelo louvor, certamente comentários por favoritismo aparecerão. — desabafei um pouco.

Era certo que não me via tocando e cantando no altar, mas queria contribuir da melhor forma para a obra de Deus, porém tinha muita insegurança sobre essas questões, além de não querer ser usada como motivos para as pessoas pecarem na língua. Já havia sido vítima de fofoca entre membros de igreja por conta desse mesmo assunto, não queria passar por essa luta novamente.

— Sabe de uma coisa. — meu pai me abraçou de lado, me fazendo deitar minha cabeça em seu ombro — Geralmente, pessoas que falam essas coisas, geralmente querem estar no seu lugar ou ter sua unção, mas não tem coragem de pagar o preço, não deve deixar que o medo te atrapalhe de fazer a obra do Senhor, afinal vocẽ jamais estará fazendo para o homem, tudo o que você fez até hoje e fará, dedique e ofereça somente para Jesus, que é o único que importa.
— Mas…
— E quanto as fofocas e comentários maldosos, deixe que façam. — completou ele como se soubesse o que eu diria — Afinal, quem nos justifica é o próprio Senhor Jesus, quando somos sinceros em sua presença.
— Farei isso.
— Então posso contar com você?!
— Sim. — assenti sentindo ele acariciar meus cabelos — Mas e se o louvor no altar não for realmente meu chamado? Davi me disse que um dom possui vários caminhos.
— Está escrito, buscai com zelo os melhores dons. — respondeu ele — Todos temos pelo menos um dom, para deixar a disposição do Senhor, para que Ele possa nos usar como instrumentos em sua mão… Talvez seu chamado não seja direcionado ao altar, mas tenha o louvor envolvido.
— Hum…
— Porém isso não quer dizer, que não possa louvar no altar. — ele riu baixo — Sei que tem orado muito para que o Pai retire a timidez de você, então nada melhor que conduzir o louvor na célula para praticar a ousadia.
— Ousadia… — suspirei fraco — Queria ter metade da sua pai.
— Que isso, você que não sabe o quanto eu era tímido quando mais novo. — ele riu um pouco mais alto — Foi sua mãe que se aproximou de mim na igreja, me lembro como se fosse ontem, eu era novo convertido e ela veio me chamar pra ir na célula na casa dela.
— Me lembro de algumas histórias de vocês dois que ela me contava. — a saudade apareceu um pouco naquele momento ao me lembrar do sorriso da mamãe — De como o vovô te fez provar que era o propósito de Deus na vida dela.
— Verdade. — ele riu — Esse era o lema do seu avô.
— Deus não une pessoas, ele une propósitos. — disse o lema que ele sempre dizia a mim quando criança.

Ficamos por um tempo em silêncio, com ele acariciando meus cabelos e cantarolando um pouco, a voz do meu pai não era boa para música, mas ele arriscava um pouco quando estávamos sozinhos.

— Preciso que me ajude em outra coisa. — disse ele interrompendo sua cantoria.
— O que seria?!
— Que jejue comigo para podermos consagrar a casa do irmão Zé. — disse ele — Como você é minha…
— Equipe de apoio. — completei — Já imaginava que me pediria para jejuar9.
— Obrigado.
— Quanto tempo?!
— Uma semana, disse ao irmão Zé para ele e sua fazerem o mesmo, e se manterem em oração, não podemos fazer isso de qualquer jeito né. — respondeu ele — Afinal, lá será uma casa que receberá pessoas e onde iniciaremos nosso bom trabalho.

Assenti e me afastei um pouco para me levantar do sofá.

— Vou aproveitar que só começarei a estudar na segunda, e começar a organizar meu quarto. — disse — Me ajuda?!
— Claro. — ele se levantou — Só irei pegar as madeiras de Davi ficou de conseguir para mim, deixaremos seu quarto como imaginou.

Ele sorriu para mim e caminhou até a porta, já que tinha o lembrado iria naquele momento mesmo buscar as madeiras e ferramentas emprestadas, enquanto isso eu voltei para a cozinha, tinha que guardar as compras que ainda estavam nas sacolas.

Os dias foram se passando, com o nosso revezamento entre evangelizar nas ruas convidando as pessoas para irem na célula, reformar o apartamento com nossas próprias mãos, seguindo as boas dicas de decoração sustentável que via em vídeos no youtube. Além de não perder nosso foco no jejum e nas orações de madrugada que meu pai havia decidido fazer.

A segunda-feira chegou e com ela meu primeiro dia na escola, felizmente com a graça de Deus, minhas notas da outra escola foram aceitas e eu não teria problema em seguir o bimestre nesta nova. Menos uma preocupação para mim que sempre me preocupava com meus estudos, afinal queria ter boas notas e me preparar bem para o Enem.

— Davi. — disse ao chegar na portaria do prédio e vê-lo na calçada me esperando — Você veio mesmo.
— Eu disse que viria. — ele riu — Não acreditou?!
— Bem, eu só não queria incomodar. — deu um sorriso meio sem graça — É que passei a semana indo na sua casa e você mora perto da escola, achei que não seria preciso.
— Claro que é. — ele balançou a cabeça negativamente — Vamos.
— Vamos. — seguimos para atravessar a rua.
— Estou pedindo a Deus para você ser da minha sala. — comentou ele — Assim terá alguém para conversar.
— Obrigada por pensar assim. — ri baixo — Ainda sou um pouco travada para fazer amizades.
— Eu acho que puxei meus pais, eles são muito falantes e conhecem todo mundo no bairro, não teria como eu não conhecer. — ele riu junto — Meu pai me disse que você está jejuando com o pastor também.
— Sim, sou a equipe de uma pessoa dele. — observei o trajeto que estávamos fazendo para decorar o caminho mais aquele caminho — Até que consiga mais pessoas para ajudarem.
— Tenho certeza que meus pais se juntarão, assim como eu. — garantiu ele.
— Isso me conforta muito, pessoas compromissadas, é disso que precisamos. — assegurei.
— E por falar em compromisso, o pastor me pediu para ficar responsável pela dinâmica da célula. — comentou ele.
— Sério? Que bom. — respirei aliviada — Pensei que isso ficaria a meu encargo também.
— Por que?!
— Em alguns momentos, meu pai sempre acha melhor pedir para mim do que pra outra pessoa, esse é o pior defeito dele. — suspirei frustrada.
— Ninguém é perfeito, só Deus. — ele riu — Mas você vai ficar com o louvor?
— Sim.
— Imaginei. — ele se espreguiçou enquanto ainda caminhávamos, estava quase perto da escola — Estou curioso para te ouvir cantar, o pastor disse que sua voz é linda.
— Espero não te decepcionar. — sorri de canto — É uma caminhada boa do apartamento a escola, nunca tinha percebido que sua casa era meio longe.
— Não é tanto assim, eu só moro no início da rua, o que deixa mais perto dependendo do caminho que usa. — explicou.
— Hum… — aquilo era novidade para mim.

Quando chegamos em frente a escola, o portão já estava aberto e aproveitamos para entrar de uma vez, Davi me acompanhou até a secretaria onde eu pegaria minha filha de horários junto com o número da sala, foi provisão de Deus mesmo eu cair na sala dele. Seguimos para a turma 201, alguns alunos estavam nos corredores e nas portas das salas, eu entrei depois dele e a primeira carteira que vi vazia já me sentei.

Davi riu da minha cara por isso e mudou sua mochila de lugar, o que me deixou espantada.

— Sério?! Você não senta aqui atrás de mim. — o olhei séria.
— Sou o representante da turma, posso mudar de lugar. — ele piscou — Então, sentarei aqui.

Assenti rindo dele e me sentei também. Logo o som do sinal tocando surgiu e os alunos entraram todos, juntamente com a professora de matemática substituta, de acordo com Davi já tinha uns seis meses que não mandavam um professor definitivo para a escola, pois nenhum queria trabalhar lá. Segundo ele, era por causa de alguns alunos que sempre ameaçavam os professores.

— Uau, estou chocada com essas histórias. — disse assim que saímos da sala no intervalo.
— Respeito é uma coisa rara nessa escola. — comentou ele desviando seu olhar para o pátio — Fique longe daquele grupinho.
— Hum?! — desviei meu olhar para a direção que ele olhava, tinha um grupo de garotos conversando, um deles estava deitado no chão mexendo no celular — O que tem eles?!
— Se denominam máfia, mas são os alunos que ameaçavam a última professora de matemática.
— Nossa. — respirei fundo — Pessoas assim estão em todos os lugares, e ainda devemos orar por elas.
— É o que a palavra nos instrui, mas é tão difícil. — ele deu um suspiro cansado.
— Como diria meu pai: Assim está escrito, amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem. — disse exatamente como meu pai diria.

Ele concordou balançando o rosto e voltou seu olhar para o lado, ficamos todo aquele tempo falando sobre como a escola estava um pouco cansativa e pesada, isso já acontecia a um tempo. Eu disse a ele que quem fazia a escola era os alunos, ou seja, se ele queria algo diferente, teria que tomar atitudes diferentes e olhar para todos com um olhar diferente, começando pela forma de tratamento, tratar a todos com o mesmo amor que Jesus nos trata. Foi difícil convencê-lo que a mudança começa dentro de nós, mas depois de um longo debate ao longo de toda a aula de educação física, o convenci.

— Glória a Deus, primeiro dia concluído com sucesso. — disse ao sairmos da escola.
— Eu trouxe alguns panfletos que fizemos para evangelizar, quer ir entregando agora na volta?! — sugeriu Davi.
— Pode ser, não poderei evangelizar à tarde, pois tenho outra coisa pra fazer. — aceitei — Se tivesse me dito isso antes, teríamos entregado no intervalo.
— Boa ideia, imagina se abrimos uma célula jovem também!? — observou ele.
— Eu amo a obra de Deus, mas não, agora não. — disse me retraindo.
— Por que não?! — ele me olhou assustado — Como o pastor falou ontem no almoço, a seara é grande e são poucos os trabalhadores.
— Mateus 9:37, eu sei, meu pai sempre fala isso comigo. — suspirei fraco começando a andar — Mas sei que se isso acontecer, ele vai me deixar a frente, confesso que não me sinto preparada mentalmente e espiritualmente para isso.
— Acho que te entendo. — ele começou a estralar os dedos — E pensando mais a fundo sobre isso, acho que o pastor me colocaria de ajudante, também não sei se estou pronto para tanta responsabilidade.
— Bem-vindo a minha realidade. — desviei o olhar para a rua — Já sinto que o louvor me deixa sobrecarregada, imagina cuidar de uma célula, jovens são difíceis.
— Você sabe que louvor é mais perseguido né? Porque leva a igreja a adorar a Deus.
— Eu sei. — voltei meu olhar para ele — Vamos falar sobre outro assunto, ou melhor, vamos evangelizar antes de chegar na sua casa, só estamos conversando.
— Verdade. — ele riu enquanto abria a mochila — Vamos lá.

Davi me deu um pouco dos panfletos da célula e começamos a entregar para as pessoas que encontrávamos pelo caminho, impressionante foi ver que todas realmente conheciam o irmão Zé, e foram gentis conosco. Assim que chegamos, curiosamente meu pai já estava lá, sentado no sofá conversando com o irmão Zé, que atentamente anotava algumas coisas em seu bloco de notas.

— Pai. — disse assim que ele me olhou — Benção.
— Jesus te abençoe querida. — ele sorriu de leve e piscou para mim como sempre fazia.
— Bença pai. — disse Davi — Bença, mãe.
— Deus te abençoe. — disse o irmão Zé continuando sentado.
— Deus te abençoe querido. — a irmã Kátia veio ao nosso encontro e nos abraçando — Como foi seu primeiro dia ?
— Foi bom, com a ajuda do Senhor, estou na mesma sala que Davi. — respondi.
— Ah, que maravilha. — disse ela — Estão com fome?! O almoço está quase pronto.
— Eu estou um pouco mãe. — respondeu Davi.

A irmã Kátia riu alto, brincando que ele sempre vivia com fome. Após o almoço, meu pai decidiu que passaríamos a tarde na casa deles, pois às seis horas da noite, faríamos a oração de consagração da casa, para que a célula pudesse ser inaugurada na quarta-feira como decidido. Quarta era um bom dia para todos! Assim que terminamos a consagração à noite, voltamos para o apartamento, eu tinha alguns deveres escolares para fazer, além dos meus estudos pessoais.

— Vou me recolher primeiro. — disse assim que entramos em casa — Tenho muitas coisas para fazer.
— Bons sonhos, princess. — papai sorriu para mim e logo fechou a porta a trancando — Tente descansar um pouco, hoje o dia foi cheio.
— Sim, vou descansar.

Ao entrar no quarto, coloquei a mochila em cima da bancada de estudos e corri para o banheiro, estava um pouco apertada e aproveitaria para tomar um banho também. Após colocar o pijama, sentei na cadeira e dali só sairia às dez horas para orar e dormir, já que as aulas seriam pela manhã, meu devocional10 teria que ser à noite. Não demorei muito para terminar de fazer os exercícios que tinham ficado faltando, até que para o primeiro dia de aula, havia sido tranquilo as matérias estudadas.

— Deus me ajuda, estou com sono e não posso dormir agora. — sussurrei olhando o relógio de celular, que já marcava nove da noite — Sempre consegui ficar até mais tarde acostada.

Olhei para a apostila já sentindo minhas pálpebras caindo, então fechei e levantei da cadeira.

— Ok, então vou orar e ler meu capítulo diário, se não fizer isso agora, durmo sentada. — disse indo pegar minha Bíblia na cabeceira da cama — Onde parei mesmo? Êxodo 5!

Sim, eu já estava em Êxodo em busca do meu chamado para aquele livro, mesmo sabendo que o mais certo e óbvio era o primeiro mandamento ordenado por Deus, primeiro e mais importante, eu sabia que assim como em Gênesis poderia aprender bem mais ao ler tudo. Era difícil de acreditar, mas aquela estava sendo minha segunda vez lendo toda a Bíblia novamente, porém desta vez era diferente, além de estar em busca do meu chamado, sabia que a palavra do Senhor iria tocar ainda mais meu coração.

- x -

— Primeiramente, gostaria de agradecer a todos por estarem presente aqui hoje, e também pelo irmão Zé e sua família que abriram as portas da sua casa para nossa primeira célula. — anunciou meu pai.
— Nós é que agradecemos a oportunidade e o privilégio do Senhor Jesus. — disse o irmão Zé, dava para ver a emoção no seu olhar.
— Após nossa oração de entrada e agradecimento, vamos ter um momento de louvor e a dinâmica, antes de entrarmos na palavra. — disse meu pai desviando seu olhar para mim.
— Paz igreja. — cumprimentei meio baixo.
— Paz. — disseram todos em coral.
— Estamos em um tempo reservado ao Senhor Jesus, sintam-se livres para glorificar o nome dEle, para se expressarem diante do pai da melhor forma possível. — comecei a ministrar pegando meu violão que estava ao lado — Convido a todos a levarem seus pensamentos a Deus e fechar seus olhos.

Olhei para Davi que estava perto da porta e já dei o sinal para apagar a luz, assim que tudo ficou escuro, comecei a dedilhar no violão até entrar na canção em si. Naquela primeira noite de célula, havia uma música que estava falando muito ao meu coração, assim como estava falando comigo, eu havia jejuado todo o dia em intercessão para que não fosse eu cantando, mas que todo o som que saísse de meus lábios, fosse a voz do Espírito Santo, falando aos corações deles.

Aquieta minh'alma, faz meu coração ouvir Tua voz… — iniciei a canção da forma mais suave possível que eu conseguiria — Me chama pra perto, só assim eu não me sinto só…

Por mais que eu estivesse louvando diante de várias pessoas, enquanto tocava estranhamente de olhos fechados e luzes apagadas, eu sentia que estava sozinha somente com o Senhor Jesus, como se estivesse fazendo uma serenata para ele. Sentia sua paz e amor me envolver de uma forma especial, que me fazia querer louvá-lo ainda mais.

Vai ser difícil, eu sei, largar tudo por Você, mas eu sei que quando eu pensar em desistir… — essa era a parte que mais me impactava naquela canção — Você estará ao meu lado, me segurando, me assegurando de que tudo vai ficar bem… Tudo vai ficar bem!

I see a generation
Eu vejo uma geração
Rising up to take their place
Erguendo-se para tomar seu lugar
With selfless faith, with selfless faith
Com uma fé não egoísta, com uma fé não egoísta

I see a near revival
Eu vejo um avivamento
Stirring as we pray and seek
Se aproximando ao orarmos e buscarmos
We're on our knees, we're on our knees
Estamos de joelhos, estamos de joelhos
Hosanna, Hosanna, Hosanna in the Highest
Hosana, Hosana, Hosana nas alturas.”
- Hosanna / Minzy (cover by Hillsong)



3. Levítico

"Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes,
Então eu vos darei as chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua colheita,
e a árvore do campo dará o seu fruto."
- Levítico 26:3-4

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“É melhor obedecer, do que sacrificar!”

Essa foi a frase de maior impacto na primeira ministração do meu pai na célula, e ainda permanecia forte e viva em meu pensamento, o que me levou de alguma forma estranha e surpreendente a encontrar meu chamado de Levítico: Obediência.

— Deus… Mais uma vez agradeço por mais um dia, pelos seus ensinamentos e tudo o que és para mim. — disse terminando minha oração — Amém! Glória a Deus, aleluia!

Me levantei da beirada da cama e fui trocar de roupa, mais um dia de lutas e vitórias se iniciava em minha vida. Ao passar pela sala, olhei na direção da cozinha e tinha um copo de vitamina me esperando na bancada da pia, certamente tinha sido preparado pelo papai, já que ele não gostava que eu fosse para a escola em jejum, a menos que estivesse em algum propósito com o Senhor.

Tomei a vitamina e ajeitando a mochila nas costas, segui para a rua onde Davi já estava me esperando, por algum motivo louco ele já havia se acostumado a dar a volta para me busca, por mais que eu dissesse que não precisava mais, ele insistia em fazer a gentileza de me acompanhar.

— Bom dia. — disse Davi ao me ver — Paz do Senhor.
— Bom dia, paz do Senhor. — o cumprimentei sorrindo de leve — Conseguiu acordar de madrugada para orar?
— Claro. — ele riu de imediato — Depois de pedir três vezes para minha mãe me acordar.
— Não acredito nisso. — eu ri junto — Você não consegue acordar sozinho?
— Acredite, eu não sei de onde sai tanto sono, mas não consigo. — ele se espreguiçou — Mas se for para jogar alguma coisa, passo a noite em claro sem nenhum problema.
— Vigia irmão. — brinquei com ele.
— Nossa… Nem acredito que já fez dois meses que a célula foi inaugurada. — comentou ele seguindo para atravessar a rua — O tempo está passando muito rápido mesmo.
— Está. — concordei o acompanhando — Mas as coisas parecem continuar as mesmas para nós.
— Hum… Deve ser complicado para vocês. — observou ele — Muita responsabilidade.
— Demais… Mas como meu pai diz, é Deus quem nos capacita.
— Isso é verdade. — ele deu um suspiro fraco — E por falar em capacitar, você estudou para prova de hoje?
— Que prova? A de matemática? — perguntei tentando me lembrar se tinha estudado a matéria correta.
— A própria, essa professora nem é a definitiva, mas adora esfolar os alunos. — reclamou ele.
— Pelo visto você não estudou. — ri baixo.
— E quem lá vai entender o que é hipotenusa?! — ele reclamou tentando se justificar — Onde na minha vida vou usar isso?!
— Em um triângulo retângulo a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. — respondi seu questionamento sobre a matéria rindo da sua cara — Se não gostou reclama com Pitágoras, foi ele quem inventou isso.

Davi me olhou por um momento como se quisesse me jogar de uma ponta, o que me fez rir ainda mais.

— Se não estudou para prova, vai ser difícil conseguir fazê-la. — comentei sua triste realidade.
— Que chateação, não posso nem pegar o caminho mais fácil. — reclamou de novo.
— Vigia varão. — o repreendi — Jesus está vendo seus pensamentos aí, nada de apelar pelo mais fácil e colar, deveria ter estudado.
— Juro que tentei estudar, mas meus neurônios simplesmente não absorvem essa informação. — explicou ele — Mas, eu não vou colar, fiz isso uma vez e me arrependi muito depois disso, pedi perdão ao Senhor.
— Que bom. — sorri de leve — Se quiser, no intervalo posso estudar com você.
— Sério?! — ele me olhou — Por que não se ofereceu antes?!
— E eu lá sabia que você precisava de ajuda?! — parei por um instante e cruzei os braços — O Espírito Santo nos revela as coisas, mas quando se precisa de ajuda deve pedir.
— Hum… Desculpa, é que você tem tantas coisas pra resolver com o pastor, que nem achei que tivesse tempo para estudar.
— Ata, e acha que minhas notas vem de onde?
— Você é muito inteligente. — respondeu ele com tranquilidade.
— Mesmo assim, tenho sempre que estudar para exercitar minha mente, e isso não é desculpa para você não estudar. — voltei a caminhar — Vamos que se chegarmos antes do portão abrir, dá pra ler um pouco sobre a matéria.
— Sim professora. — brincou ele.

Davi era mesmo um bobo piadista, mas era divertido conversar com ele pois sempre fazia algumas piadas no meu da conversa, principalmente sobre a escola e nossos estudos. Ao longo desses dois meses que estava frequentando aquela escola, pude perceber quão os alunos eram individualistas e egoístas uns com os outros, além de já ter presenciado muitas cenas no banheiro feminino, que gostaria de nem ter visto.

Como disse ao meu novo amigo a um tempo, eu queria fazer a diferença e começaria por mim, só não sabia como. Meu pai já havia dado a ideia de fazer uma mini célula na hora do intervalo, para somente adoração ao Senhor, porém aquele meu lado inseguro sempre me atormentava, fazendo-me desistir de qualquer ideia que pudesse me deixar em evidência. Porém, Deus com sua misericórdia por mim e pela minha vida, sempre trazia palavras de consolo e reflexão para mim através do meu pai, e agora através de Davi também.

— Agora sim, consegui entender um pouco, só um pouco. — disse ele assim que o expliquei pela quinta vez como se resolvia os cálculos.
— Glória a Deus. — disse aliviada — Já que terminamos, queria te pedir uma coisa.
— Você tem sempre créditos comigo, diga o que deseja. — assentiu ele.
— Sabe aquela ideia do meu pai que eu te contei?!
— Sim, o que tem?!
— Estava pensando em colocá-la em prática, precisamos levar o amor do Senhor as pessoas, a única forma que sei até o momento é pelo louvor, mas preciso de uma pessoa para me ajudar. — expliquei.
— Você sabe que minha voz é péssima. — ele me olhou de forma estranha.
— Eu sei, mas não estava falando de cantar. — expliquei melhor — Quero sua ajuda para tudo, para ser mais exata.
— Ah… Já entendi, quer dividir a responsabilidade. — ele parecia ter entendido o que eu queria dizer — Tudo bem, conte comigo! Em que posso ajudar?!
— Em oração primeiro. — respondi — Tudo o que fazemos para o Senhor Deus, deve ser com ordem e decência, então primeiro faremos sete dias de jejum e oração, pela direção e benção de Jesus.
— Faz sentido. — concordou ele.
— Depois, começamos a convidar as pessoas para participar com a gente. — completei.
— Podemos fazer toda segunda, quarta e sexta. — sugeriu ele — Por que sempre tem gente que deixa pra estudar no intervalo e vai querer participar com a gente.
— Boa ideia! — sorri espontaneamente — Conto com você para evangelizar esses jovens, já que é tão popular assim.
— Nossa, agora você está falando igual o pastor. — observou ele admirado.
— Anos de convivência. — eu ri um pouco.

Em instantes o sinal bateu, nos acomodamos em nossos lugares para esperar pela professora de matemática, que assim que entrou pela porta já anunciou que a prova já iria começar. Eu me mantive concentrada e fiz uma pequena oração antes de começar a fazer a prova, aconselhei Davi a fazer o mesmo, pois estava um pouco mais nervoso do que eu.

No final da aula, nos despedimos assim que passei pela porta da sua casa, não iria almoçar com eles naquele dia, meu pai havia conseguido vender algumas mobílias nossa que ainda estava na casa dos meus avós paternos. O que significa mais provisão de Deus, em nossas vidas! Por mais que fosse bom e aconchegante almoçar todos os dias com a família de Davi, pois nos tratavam como se fossemos da família também, em alguns momentos nossa caminhada deveria ser solitário, só eu e papai juntos com o Senhor.

— Bença pai, bom dia! — disse ao entrar no apartamento já fechando a porta.
— Jesus te abençoe princess, bom dia. — ele que estava lendo a Bíblia, parou e me olhou com carinho — Que olhar feliz, gosto de te ver assim.
— É olhar de quem está grata ao Senhor Jesus. — respondi indo até ele e me sentando ao seu lado, colocando a mochila em cima do sofá — Como foi seu dia?
— Foi tranquilo, paguei algumas contas para a glória do Senhor, estudei um pouco alguns esboços que tenho feito. — respondeu ele com seu olhar sereno de sempre — Estava pensando sobre o irmão Zé e sua família.
— Hum… No que exatamente?! — perguntei querendo detalhes.
— Eles estão se mostrando muito interessados e dispostos a fazer a obra do Senhor, consigo sentir o desejo sincero deles. — explicou papai — E juntamente com isso vejo o quanto a célula está crescendo, para a glória de Deus, algumas pessoas já começaram a perguntar se pode ter célula na casa delas também.
— Isso é bom, glória a Deus. — disse sentindo um pouco de felicidade pelo trabalho do meu pai estar dando frutos.
— Sim… E para termos mais células precisamos de líderes responsáveis e comprometidos com a obra. — concluiu ele onde queria chegar.
— E o senhor está pensando em levantar o irmão Zé como um líder de célula? — perguntei concluindo.
— Sim, não somente ele como também a irmã Kátia. — respondeu — Mas precisarei treiná-los e prepará-los, não pode ser de qualquer forma.
— Isso é verdade… — concordei me lembrando do jejum que faria com Davi — E por falar em preparação, pedi Davi para me ajudar com aquela ideia que o senhor me deu.
— De evangelizar na escola?!
— Sim. — deslizei meu corpo pelo sofá até deitar minha cabeça no seu colo — Vamos jejuar e orar por esse propósito.
— Fez muito bem chamá-lo para te ajudar, lidar com jovens não é fácil. — disse ele assentindo minha atitude — Tenho certeza que Deus vai te honrar, pois você está se dispondo para que ele te use como instrumento.
— Amém! — sorri de leve — Apesar de não me importar muito com honras nesse momento, meu único foco agora é meu batismo com o Espírito Santo.
— Ah, sim… Continue buscando com força e intensidade. — incentivou — E nunca se esqueça, assim está escrito, derramarei o meu Espírito sobre toda carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os idosos terão sonhos, os jovens ganharão visões!
— Joel 2:28, jamais me esqueço desse versículo. — assenti.

Aquela palavra era meu consolo e minha certeza de que alcançaria meu batismo com o Espírito Santo, pois toda a promessa escrita na palavra do Senhor, se cumpre na vida daqueles que creem.

— Pai, como foi o seu batismo?! — perguntei curiosa.
— Ah… É uma experiência difícil de se colocar em palavras. — ele ficou pensativo por um momento tentando entender como me explicava — Vai além de sentir paz no coração, eu senti uma leveza tão grande dentro de mim, a plenitude de Deus invadindo o meu ser… Definitivamente é difícil explicar, só quem sente sabe como é.
— Quero muito sentir isso.
— Tenho certeza que você irá conseguir… As pessoas que mais oram e buscam pelo batismo, quando recebem são as que mais valorizam. — comentou ele como se quisesse me consolar.

Ficamos algum tempo no sofá, quando meu pai se levantou me puxando junto para a cozinha, segundo ele precisava de uma auxiliar para ajudá-lo, então preparamos nosso almoço em meio aos louvores e muitas risadas, meu pai ainda era um desastrado na cozinha. No final, nosso almoço foi spaguetti ao molho sugo pois era a única coisa que conseguia cozinhar.

— Definitivamente, amanhã eu cozinho. — disse ao me sentar no chão, em frente a mesa de centro improvisada que ele tinha feito.
— Que isso, não está tão ruim assim. — ele me olhou com cara feia — Eu sou muito bom em minha especialidade.
— Bem, disso não posso discordar. — ri um pouco vendo ele se sentar em minha frente — Mas não podemos comer macarrão todos os dias no almoço, teremos uma overdose de carboidrato.
— Que exagero. — ele riu me fazendo rir junto — Então amanhã você faz o almoço, e no outro dia sou eu.
— Pai, nada de macarrão… — o repreendi — Sei que pode fazer bem mais na cozinha.
— Não sou tão talentoso assim, mas você… — ele deu um sorriso bobo — Vamos comer.

Assim fechamos os olhos para agradecer pelo alimento, a oração de hoje era minha. As horas se passaram comigo em meu quarto praticando um pouco no violão, após fazer meus afazeres diários dos estudos. Não era fácil estudar sozinha, mas já havia se completado dois anos que estava estudando inglês e japonês online em sites gratuitos, felizmente tinha os dicionários para me auxiliar.

Horas depois que escureceu, meu pai me chamou para o acompanhar a casa do irmão Zé, ele iria conversar sobre o início do treinamento de capacitação deles. Aproveitei para conversar com Davi sobre o trabalho de geografia sobre sustentabilidade, que teríamos que entregar em duas semanas, apesar dele não parecer nada animado com o assunto.

— Confesso que não gosto muito de geografia. — disse ele jogando seu corpo na sua cama — Não podemos deixar para depois?!
— Deixe de ser preguiçoso e se levante. — o repreendi mantendo meus braços cruzados, parada na porta — Depois não reclama quando suas notas não forem favoráveis.
— Não quero mesmo ir pra faculdade. — brincou ele.
— Levanta dessa cama em nome de Jesus. — disse num tom mais sério — E deixe de preguiça.
— Nossa. — ele ergueu seu corpo de imediato — Você está parecendo minha mãe.
— Não me diga?! — eu ri um pouco — Estou convivendo muito com a irmã Kátia.
— Também acho. — ele riu também se levantando — Tudo bem, vamos fazer o trabalho na varanda.

Ele pegou o caderno ainda emburrado por ter que estudar aquela hora da noite, mas eu não queria deixar mais aquele trabalho se acumular, pois tínhamos outros quatro para fazer e todos complexos e cansativos. Sentamos no chão da varanda e começamos a dividir quem iria pesquisar o que, como poderia ser impresso, Davi se ofereceu para digitar tudo e eu iria fazer a correção quando ele me enviasse, assim nenhum de nós ficaria sobrecarregado.

— Eu vou começar a pesquisar, amanhã e te envio para você opinar. — disse ele fechando o caderno.
— Tudo bem. — assenti terminando de anotar algumas coisas na agenda que tinha levado comigo.
— O pastor vai mesmo começar a treinar meus pais?! — perguntou ele aleatoriamente.
— Sim, foi pra isso que viemos, ele conversaria com eles hoje para iniciarem um jejum em prol disso, porque é muito sério ser um líder de célula. — respondi — E como eles ficaram sem congregar, então é como se tivessem começando tudo novamente.
— Entendi, será que eu posso também?! Para te ajudar, caso abra uma célula de jovens.
— Acho que sim, se você já for batizado nas águas11. — seria bom para ele também, já que estava tão entusiasmado a ajudar.
— Então vou querer fazer sim, eu batizei ano passado. — respondeu ele com uma ponta de brilho nos olhos — Sinto que preciso aprender mais, adquirir mais conhecimento.
— Conhecimento nunca é demais, principalmente porque a palavra do Senhor se renova a cada dia, então temos sempre que estar em constante aprendizado.
— E por falar em aprendizado… — ele me olhou por um tempo, parecia pensar em algo — Estou me lembrando agora de uma pessoa que tenho que te apresentar.
— Quem? — perguntei curiosa.
— Ela é uma líder de jovens que sempre reúne líderes de várias igrejas para fazer grandes eventos voltados para jovens cristãos. — explicou ainda pensativo — Conheci ela no ministério em que estava, num evento que fui, mas não consigo me lembrar do nome dela.
— Que bela memória. — brinquei rindo dele — Quando você lembrar me fala, mas não fique tão afoito assim, nem sei se serei mesmo líder de jovens.
— Ainda fugindo do chamado?! — brincou ele rindo.
— Não, mas não acho mesmo que meu chamado seja mexer com jovens, porém o que precisar fazer eu farei, com prazer. — expliquei — Mas, é que estou vendo que está muito afoito.
— Não estou afoito, só quero fazer a obra do Senhor. — explicou ele.
— Estou vendo. — sorri de leve — Fico muito feliz pela sua boa vontade, terei alguém para dividir as responsabilidades.
— Interesseira! — brincou ele rindo.
— Sou nada. — reclamei rindo junto.

Após o convite irrecusável da irmã Kátia, pois o cheiro de sua comida tinha invadido a casa toda, ficamos mais um pouco para o jantar. Quando chegamos em casa, comentei para meu pai o desejo de Davi para fazer também o treinamento junto com seus pais para ser um líder de célula, ele gostou de imediato e já foi logo me colocando para treinar o Davi.

— Mas pai?! — o olhei de forma cansada — Tem mesmo que ser eu, o senhor já vai dar o curso de capacitação para os dois, por que não pode dar para o Davi também?!
— Você já passou por ambos os cursos e sabe que célula adulto é de um jeito, jovem e adolescente é de outro e criança é de outro. — explicou ele — Por isso, não posso ensiná-lo também, divide comigo.
— Por que será que eu já esperava por isso?! — cruzei os braços.
— Não faça essa cara. — ele sorriu de leve para mim e veio me abraçar — Sei que parece muita coisa para uma pessoa só, mas logo Deus enviará mais ajudadores, só precisamos nos dispor para ele.
— Eu sei, preço para Ele renovar minhas forças todas as manhã. — deu um suspiro fraco.
— Então, posso contar com você para dar o curso de capacitação para ele?! — insistiu papai ainda com o sorriso no rosto — Você já é uma líder treinada e capacitada para isso, além de ensinar muito bem.
— Pode, vou treiná-lo como um líder de jovens, apesar de ainda não termos nenhuma célula assim. — assenti.
— Deus nos manda adquirir conhecimento e preparar um ambiente profético, não podemos multiplicar as células desordenadamente sem preparo. — assegurou ele com certeza do que dizia.

Como sempre papai estava certo, eu também jamais pegaria algo para fazer relaxadamente, sei que a obra de Deus é coisa séria e deve sempre ser feita com ordem e decência. Desejei bons sonhos a ele e caminhei me espreguiçando para o quarto, assim que cheguei, peguei meu pijama e fui para o banheiro tomar um banho quente, estava sentindo meu corpo pesado e cansado.

Quando voltei para o quarto, peguei meu celular e já tinha uma mensagem de Davi no whatsapp, falando que tinha lembrado do nome da líder de jovens.

“Você não vai dormir não?!” — enviei a mensagem rindo.
“Vou sim, kkkkkkkkkk”
“então, qual é o nome da moça?”
“Layla… me lembrei por causa de uma prima da minha mãe, que tem esse nome”
“hummm legal”
“acho que ainda tenho o número dela, mas se não tiver posso conseguir”
“fica em paz vaso12
“eu tô em paz kkkkkkkkkkkkkkk”
“então vai dormir kkkkkkkkkkkkkkk”
“estou sem sono”
“então vai ler a Bíblia”
“já li… estava meditando sobre algumas coisas”
“e?!”
“acabei lembrando o nome da líder e te mandei a mensagem”
“ahhhh…. eu acho que vou dormir agora, estou com sono”
“e a nossa oração? para o louvor na escola?”
“eu estou orando de madrugada, e você?”
“eu oro agora à noite, antes de dormir”
“ahhhh…. o que importa é que você está orando, não esqueça do jejum”
“jamais”
“bom dia.”
“não seria boa noite?”
“eu sempre falou bom dia kkkkkkkkkkKK”
“tenho que me acostumar com isso kkkkkkk”
“até manhã”

Fechei o aplicativo e desliguei a internet. Então peguei minha Bíblia e me ajoelhei na beirada da cama, abri no livro de Levíticos que estava lendo atualmente para tentar finalizá-lo aquela noite.

— Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes… — comecei a ler da parte em que tinha parado na noite anterior.

Senti meus olhos pesados pelo sono, mas continuei lendo até o final, então agradeci ao Senhor pelo privilégio de ter sua palavra acessível em minhas mãos e o louvando, iniciei minha oração. Naquele momento eu começaria mais um jejum, porém este seria bem mais intenso e doloroso, cortaria duas coisas que gostava em minha vida por um tempo, o chocolate e as séries da Netflix, em prol do meu batismo com o Espírito Santo que era meu foco e maior desejo.

Não seria fácil, pois as séries era meu único lazer atualmente, principalmente por vê-las legendadas, me ajudava com os estudos de inglês, sem mencionar meu amor por chocolate, mas o motivo era o mais lindo e sincero da vida. Eu queria meu batismo, ansiava ter o Espírito Santo me envolvendo em teus braços, queria ser completa por Ele de todas as formas possíveis, desejava a plenitude de Deus dentro de mim.

그가안에
Ele está em mim
내가안에거할
Quando eu habito nele
모든두려움사라져사랑안에자유하
Todo medo desapareceu, a liberdade está nesse amor.”
- Your Love Came Into Me / J-US

 

Dicionário:
8. deserto: forma ou expressão usada de referência a momentos de lutas e dificuldades.
9. jejuar/jejum:é a privação de comida ou outro coisa que gostamos, que dá prazer a nossa carne, durante um período para que nosso espírito se fortaleça em Cristo.
10. devocional: é um momento/tempo que tiramos ao longo do dia para orar e para a leitura da palavra.
11. batismo nas águas: é um ato de obediência e submissão ao Senhorio de Cristo e um testemunho público de nossa fé cristã.
12. vaso: jovem


Números

“Então Calebe fez o povo calar-se perante Moisés e disse:
“Subamos e tomemos posse da terra. É certo que venceremos!”
- Números 13:30

- x -

Uma semana se passou e finalmente eu e Davi entregamos nosso jejum, confesso que ainda estava relutante sobre ser uma líder de jovens, para mim somente bastava evangelizar, mas finalmente senti que Deus queria mais de mim. Então, após relutar muito e recusar internamente, assenti.

— Tenho certeza princess que você será uma sábia líder. — disse meu pai após terminarmos de orar, consagrando minha vida para essa nova jornada.
— Amém. — sorri de leve — Farei o meu melhor para não decepcionar o Espírito Santo.
— Já sabe como vai começar?! Será mesmo nos louvores da escola? — perguntou ele me abraçando carinhosamente.
— Sim, acho que esta é uma boa estratégia de evangelização. — concordei aceitando o abraço dele — Quem sabe com um pouco da presença de Deus, aquela escola fica mais tranquila.
— Hum… — ele se afastou um pouco de mim — Está mesmo preocupante lá?!
— Um pouco. — dei um suspiro fraco me sentando no sofá — Situações do cotidiano, só que um pouco pior, vejo muito egoísmo entre as pessoas.
— Mas isso é o normal do mundo, só que existem lugares onde é mais perceptível. — ele se sentou ao meu lado — Quer falar sobre algo que aconteceu lá?!
— Tem um garoto lá chamado Joseph, não é da minha sala mas vejo os alunos intimidados com a sua presença, sinto que há muita agressividade reunida dentro dele. — contei — Fico triste porque lá no fundo seu olhar não condiz com sua postura.
— Você sabe alguma coisa sobre ele?! — perguntou meu pai um pouco interessado — Sobre a família?!
— Não, ouço comentários sobre a mãe ter deixado ele quando era um bebê e o pai ser viciado em bebidas alcoólicas, ele parece ser sozinho, mesmo tendo alguns amigos ao redor. — expliquei.
— Procure saber mais, interceda por ele, se Deus está te incomodando, é porque tem um propósito do Senhor na vida deste jovem. — seu olhar estava sério e preocupado, sempre ficava assim quando se tratava da vida de alguém problemático — Além deste jovem, tem mais alguém que te preocupa?
— Preocupa não, mas ando observando uma garota na minha sala chamada Lira, outro dia no vestiário ouvi ela cantarolando uma música da Isadora Pompeo. — respondi tranquilamente deitando minha cabeça em seu ombro — Assim que ela me viu, se calou.
— E ela é cristã?!
— Hum, Davi disse que sua mãe foi diaconisa de um ministério, até ela sair por causa de fofocas dentro da igreja. — olhei para o celular que estava ao lado.
— Infelizmente isso vem matando muitas pessoas na fé. — comentou meu pai com um tom triste — Irmãos julgando irmãos, sendo que Jesus manda estender a mão e amar o próximo como a ti mesmo.
— Marcos 12:31. — assenti com a face…

Contei um pouco mais sobre a escola para ele, principalmente sobre a professora de matemática que está tirando o sono dos alunos. As horas se passaram com nossa conversa rendendo sobre algumas receitas que meu pai tirou para aprender no youtube, fiquei um pouco admirada no início com ele contando todo empolgado e até incentivei a escolher uma para o jantar.

— Hum… Que tal esse risoto de frango?! — disse ele enquanto fazia a busca pelo aplicativo do celular.
— Temos ingredientes para isso? — abri o armário vasculhando as prateleiras.
— Eu marquei esse vídeo ontem, não é difícil e não gasta muita coisa. — respondeu se virando para mim — Temos frango do almoço que pode ser reaproveitado.
— Que legal, papai está aprendendo bem com a internet. — brinquei rindo.
— Te juro que nem foi intencional, estava vendo uma pregação do pastor Márcio e depois que acabou, vi lá no final da lista um vídeo sobre receita de pão sírio. — seu olho brilho por um momento — Princess eu descobri um novo mundo.
— O senhor descobriu o mundo da gastronomia. — ri novamente dele — Me sinto até um pouco orgulhosa.
— Não vá achando que eu ficarei na cozinha sempre. — ele cruzou os braços tentando ficar sério.
— Um dia no youtube e já está se achando o Cake Boss. — fechei a porta do armário.
— Ainda irei te surpreender mocinha. — ele colocou o celular na bancada — Vamos para a nossa janta.

Foi fofo ver meu pai fazendo a receita passo a passo que estava sendo ensinada no vídeo, claro que tinha que ajudar ele com algumas coisas principalmente picar a cebola. No final para a minha surpresa a cozinha não estava tão bagunçada assim e o cheiro que havia rescindido na casa era de dar água na boca.

— Ficou mesmo gostoso. — elogiei ao dar a primeira garfada — Já pode ir para o MasterChef pai.
— Posso mesmo?! — ele me olhou surpreso.
— Melhor não, o senhor não se sai muito bem sobre pressão. — ri baixo — Mas ficou mesmo muito bom, o tempero está legal.
— Eu achei que ficou muito temperado por causa do frango. — observou ele.
— Sério?! Não estou reparando. — comi mais uma garfada para senti o sabor — Ah… Está mesmo mas nem dá para sentir tanto assim, para primeira vez e usando as sobras do almoço, pare de se exigir tanto.
— Sim, para primeira vez está mesmo bom, agradeço a minha voluntária por picar a cebola. — ele sorriu de leve.
— Só a cebola?! — o corrigi.
— Por me ajudar no conjunto completo da obra. — ele deu uma gargalhada.
— Ah bom. — ri da sua cara — Pai, estou aqui pensando, se formos abrir uma célula jovem, seria onde?
— Hum… Não sei, ainda não pensei nisso, mas por enquanto foque em fazer o momento de louvor na escola. — aconselhou ele — Um passo de cada vez, pois quem está à frente é Deus.
— Tem razão, não vou me deixar ficar ansiosa por isso, já estou com receio de não fazer direito. — disse um pouco preocupada.
— Tire isso da sua mente. — ele sorriu — Vamos somente saborear essa comida abençoada agora.

Assenti com a face sorrindo de volta.

Segunda-feira enfim chegou e com ela, o primeiro dia que eu e Davi iríamos iniciar nosso projeto na escola de evangelizar com o louvor, eu sabia que não seria fácil porém não desistiria também por causa das dificuldades. As semanas foram passando com somente eu e Davi no cantinho perto da biblioteca com nosso louvor, claro que era eu quem mais cantava enquanto tocava meu violão, mas ele ajudava fazendo alguns batuques na cadeira.

— Bom dia. — disse ao me aproximar de Lira no início da aula de quinta-feira.
— Bom dia. — ela me olhou acanhada.
— Tudo bem? — me sentei na carteira em sua frente.
— Sim. — ela puxou sua bolsinha de lápis mais para perto.
— Percebi que você não gosta muito de sair para o intervalo. — comentei.
— Prefiro ficar na sala.
— Posso te convidar a participar do nosso momento de louvor? — perguntei — Fazemos toda segunda, quarta e sexta, é bem legal e cantamos muita música da Isadora Pompeo.
— Você conhece as músicas dela?! — ela me olhou um pouco mais interessada, porém não deixando seu receio de lado.
— Claro, ouço bastante, O nome de Jesus é a música que mais gosto. — disse de forma espontânea tentando me aproximar mais — E você?!
— Minha morada, é a que eu mais gosto. — disse ela dando um sorriso tímido.
— Essa música também é muito boa…
— É sim. — concordou.
Olho para mim e vejo um pequeno mortal... Olho para dentro e penso: Não quero ser igual… — eu comecei a cantar um pequeno trecho e logo ela foi me acompanhando — Olho para minhas mãos, cansei do natural… Olho pro meu coração, eu busco o sobrenatural de Deus.
— Você canta bem. — elogiou ela.
— Obrigada, você também é bem afinada. — comentei.
— Agradeço, mas o louvor não é o meu chamado.
— Você já sabe qual é?! — perguntei curiosa.
— Com certeza não, mas desconfio. — respondeu um pouco mais à vontade.
— Você frequenta algum ministério?!
— Não, eu e minha mãe estamos um pouco afastadas da igreja. — confessou com um tom triste.
— Hum… É triste quando não estamos em comunhão, parece que falta algo dentro de nós. — disse de uma forma que ela pudesse entender que eu imaginava como era difícil para ela.
— Isso já aconteceu com você? — perguntou curiosa.
— Por um tempo após a morte da minha mãe, fiquei meio afastada de Deus, mas Ele me fez perceber que Ele jamais havia se afastado de mim e me queria de volta em seus braços. — respondi com toda a sinceridade, me lembrando do dia em que pedi perdão ao Senhor por ter me afastado dEle.
— Acho que é isso que eu venho sentindo. — ela desviou seu olhar triste para a mesa.

Respirei fundo tentando encontrar as palavras certas para continuar desenvolvendo aquela conversa com ela, porém o professor de Literatura entrou na sala já anunciando que passaria um super trabalho para entregar na próxima semana.

— Tenho que ir para meu lugar, mas não deixe de ir no intervalo participar do louvor com a gente. — sorri para ela com carinho e segui para minha carteira.
— Finalmente tomou coragem e foi falar com ela?! — Davi me olhou.
— Tinha que dar o primeiro passo, ela é uma garota bem tímida. — respondi — Mas foi bom, descobri que sua música preferida é da Isadora Pompeo.
— Eu também dei minhas voltas pela escola e convidei o pessoal do terceiro ano que se interessou. — avisou ele.
— Isso é legal, eu disse que você era um bom menino popular! — sorri me sentando na cadeira — Pronto para mais um dia de aula?!
— Não, vamos pular pra parte em que chegamos na formatura?!
— Deixe de ser preguiçoso, estudar é bom. — ri da careta que ele estava fazendo.
— Fale por você. — ele deu de ombros.

Me virei para frente e já retirei o caderno da mochila, o trabalho tão anunciado pelo professor era sobre os autores literários ingleses, teríamos que escolher um autor e uma obra dele para fazer uma resenha crítica. Minha escolha não seria outra, Orgulho e Preconceito de Jane Austen sempre seria minha primeira opção na literatura inglesa, a sutileza e autenticidade em suas histórias me deixavam fascinada.

— Lira. — a gritei pouco antes dela sair da sala.
— Hum. — ela se virou em minha direção e me olhou.
— Quer companhia para a volta?! — ofereci — Percebi que vamos para o mesmo caminho.
— Não sei, você já tem companhia. — ela se encolheu um pouco.
— O Davi?! Ele não se importa, toda companhia é bem-vinda. — sorri de leve me aproximando dela — E acho que hoje ele trabalha, então fará o caminho contrário, então podemos continuar aquele nosso assunto, se você quiser claro.
— Prefiro falar sobre outra coisa. — ela desviou o olhar para Davi que estava se aproximando de nós.
— Teremos outra companhia hoje?! — ele a olhou — Que legal.
— Não entendo sua animação, quando chegarmos ao portão você vai nos abandonar. — eu cruzei os braços e o olhei.
— Estou feliz porque você não vai sozinha. — explicou dando uma risada.

Como previsto Davi seguiu o caminho contrário, então continuei com Lira pensando como poderia me aproximar mais dela de forma sábia e sem tocar mais no assunto que a deixava desconfortável.

— Você vê filmes? — perguntei.
— Não muito, gosto mais de animações. — respondeu como se estivesse aliviada pela minha pergunta mais do que simples.
— Quais são suas preferidas? — me interessei um pouco, ao me lembrar vagamente de sempre fazer maratonas de animações com minha mãe quando criança.
— Gosto dos clássicos da Disney, mas meu favorito vem da Pixar, Ratatouille. — respondeu com certa animação — É tão fofo aquele ratinho cozinhando.
— Verdade. — concordei — Gosto muito dessa animação também, sempre me pego vendo às vezes, podemos assistir juntas algum dia.
— Ah, não sei. — ela se retraiu novamente — Não quero causar incômodo ao seu pai.
— Meu pai?! — achei meio estranho essa preocupação dela — Porque ele ficaria incomodado?!
— Geralmente isso acontece. — ela voltou o olhar para o outro lado da rua — Chegamos, acho que vou te deixar ir sozinha daqui.
— Você mora por aqui?! — perguntei.
— Sim, no início daquele beco. — ela apontou.
— Até amanhã na escola então, vai com Deus.
— Amém! — ela se afastou seguindo sua direção.

Por um momento fiquei intrigada com sua reação, afinal foi um simples convite para assistir um desenho. Senti um breve desconforto em meu coração ao observá-la atravessando a rua e entrando no beco, o que me fazia ter certeza que havia algo errado naquilo, ainda mais ela dizer que todos se incomodavam com sua presença.

- x -

— Agradeço a todos que vieram em mais um momento de louvor. — disse Davi na sexta após ter feito a oração de entrada, assim que nos reunimos ao lado da biblioteca como sempre no intervalo — Após três semanas somente eu e aqui, é bom saber que mais pessoas querem participar.

Eu avistei Lira descendo o último degrau da estava e acenei para que ela se aproximasse. Uma coisa era somente eu e Davi, outra coisa era nós dois e mais quatro pessoas junto, mesmo que não fosse tanta assim senti lá no fundo o peso da responsabilidade, mas não me deixaria fraquejar! Como prometido daria o meu melhor.

— Vou começar hoje com um louvor que gosto muito. — tomei fôlego ao começar a dedilhar o violão, equilibrando a entonação da minha voz — Em Teus braços, eu vou me entregar… Os meus medos, eu deixo aos pés do altar… Todos os planos meus, hoje eu entrego a Ti… Toma o Teu lugar, Tu és bem-vindo aqui…

Sempre que eu cantava, preferia manter meus olhos fechados, primeiro para me ajudar a concentrar e depois para lutar contra minha parte tímida que ainda insistia em me confrontar. Isso me dava um pouco mais de liberdade para expressar meus sentimentos ao Senhor, era como se tudo no mundo desaparecesse e estivesse somente eu e Ele ali, comigo fazendo aquela serenata em forma de louvor. Pelo menos para mim era como se fosse isso, uma linda serenata expressando todo o meu amor a Deus.

O som do céu, vamos ouvir… Sopra Teu vento suave hoje aqui… Eu vou declarar o único nome que salva… Jesus!!! — terminei a canção de forma ainda mais suave e abri os olhos.

Enquanto Davi tomou a palavra para ler um versículo que ele havia separado para o dia, voltei meu olhar para Lira que discretamente limpava algumas lágrimas, sabia que aquela canção iria em seu íntimo e falaria ao seu coração. Esperei até que Davi terminou de explicar o versículo e iniciei a próxima canção, fiquei muito feliz em ver como as pessoas que estavam ali se sentiram bem e em paz ao se juntar a nós.

— Bom dia pai. — disse assim que ele chegou em casa à noite.
— Bom dia querida! Como foi hoje? — perguntou ele fechando a porta.
— Foi bom, na graça de Deus. — respondi com um sorriso no rosto.
— Estou vendo pelo brilho nos seus olhos. — ele deixou sua maleta ao lado do sofá e se sentou — Quer me contar?!
— Hum. — permaneci sentada no chão e inclinei minhas costas encostando no sofá — Nosso momento de louvor hoje teve quatro pessoas. — sorriu novamente — Olha que lindo.
— Que benção. — meu pai sorriu também — Continue perseverante que Deus quem enviará as pessoas.
— Vou sim, isso me fez ficar muito animada, principalmente que a Lira também participou.
— Sério?! Aquela jovem parece ter um grande chamado, mas tem muitas coisas que a oprimem. — comentou — Pude perceber enquanto você falava sobre ela ontem, você precisará de muita sabedoria para saber lidar com ela.
— Me assusta quando diz essas coisas das pessoas, ainda mais quando nunca as viu. — voltei meu olhar para meu caderno que estava em cima da mesa de centro.
— Já lidei com muitas pessoas nessa vida, mesmo antes de ser pastor. — explicou ele — Existem pessoas que já foram tão machucadas pela vida que não conseguem se abrir, menos ainda permitem que alguém as ajude a cicatrizar as feridas.
— E como eu faço para me aproximar dela e conquistar sua confiança?! — o olhei um pouco confusa no que fazer.
— Faça como Jesus ensinou, transmita o amor de Deus que está em você para ela. — seu rosto estava mais sereno do que o normal — Você estará agindo como uma verdadeira cristã, estendendo a mão ao invés de apedrejar.
— É isso que eu quero pai, poder ser um referencial para ela e para todos que um dia acharam que fizeram o certo a isolando. — confirmei aceitando o conselho dele.
— Estou feliz por ter este pensamento, tenho certeza que dará certo. — ele esfregou de leve a mão na minha cabeça bagunçando meu cabelo — Que tal um lanche básico?!
— E a janta?!
— Hoje é sexta, sexta não é dia a janta. — ele se levantou do sofá — Que tal sessão pipoca?!
— Não estou vendo séries. — o lembrei me referindo ao meu jejum.
— Eu sei, mais ainda podemos ver filmes, é um momento de comunhão com a sua família, e Deus ordena a benção na comunhão. — explicou ele de imediato já vasculhando o armário para pegar a panela.
— Salmos 133. — concordei já fechando meu caderno — Então veremos um filme.
— Que tal Deus não está morto?! — sugeriu ele — Não me canso de ver esse filme.
— Pode ser, mas o próximo sou eu que escolho. — disse já pensando no que seria.
— Nada de Orgulho e Preconceito pela centésima vez. — protestou ele.
— É sério pai. — eu me virei para a cozinha e o olhei — Olha só quem protesta.
— Então desse jeito não vai dar certo, toda vez que nós fazemos a sessão pipoca são os mesmos filmes. — ele colocou a mão na cintura de forma engraçada.
— Por um momento o senhor ficou parecido com a mamãe. — eu ri o fazendo rir também.
— Hum… Boa ideia. — disse ele.
— Que ideia?! — perguntei curiosa.
— Já sei o que vamos ver. — respondeu dando um sorriso bobo.
— Um amor para recordar. — já sabia que era o filme favorito da mamãe.

Sempre que víamos chorávamos um pouco de saudade, mas era como se nossa união fosse fortalecida, sabia que algum dia no paraíso a veria novamente e isso me alegrava de certa forma. Nossa sessão pipoca não foi tão ruim assim, o segundo filme foi uma ação proporcionada por Transformers, porém não foi o suficiente para segurar meu pai acordado, foi fofo vê-lo dormindo, tanto que assim que o filme acabou o cobri com um cobertor.

Papai estava mesmo cansado, mesmo que não demonstrasse isso para mim, sua preocupação com nossas economias estavam tirando sua noite de sono, quanto mais ele orava, mais difícil as coisas pareciam estar. Aquele mês parecia não terminar e tudo só mostrava que nada melhoraria, mas uma coisa aprendi lendo meu chamado em Números, perseverança em Cristo era essencial para nossa vida.

Nada é igual ao Seu redor… Tudo se faz no Seu olhar… Todo o universo se formou no Seu falar. — comecei a cantarolar ao entrar no meu quarto, enquanto organizava algumas coisas em cima da bancada de estudos — Ou Big Bang pra disfarçar… Pode alguém até duvidar… Sei que há um Deus a me guardar.

Não demorou muito até que o sono chegou, me espreguicei um pouco antes de me ajoelhar em cima da cama mesmo e fazer minha oração para dormir. Os dias se passaram e com paciência e amor tentava me aproximar mais de Lira, em alguns momentos sentia que ela tentava se abrir mas logo afastava de novo, porém não iria desistir dela e da sua amizade. Davi também me ajudava com suas conversas aleatórias e histórias engraçadas do seu trabalho de meio período.

— Bom dia tia. — disse ao adentrar a casa do irmão Zé com Davi e Lira.
— Bença mãe.
— Bom dia meus queridos. — ela olhou para Lira e sorriu, Davi já havia contado sobre nossa aproximação — Seja bem-vinda Lira.
— Obrigada senhora. — ela se encolheu um pouco.
— Oh não, me chamar de senhora me deixa mais velha, pode me chamar de tia também. — ela se voltou para Davi — Deveria ter me dito que as meninas viriam, assim faria um almoço melhor.
— Tia Kátia, sua comida é maravilhosa. — disse a tranquilizando.
— Isso já me deixa mais aliviada, mas mesmo assim.
— Para ser sincero, elas vieram por causa de um trabalho de física que temos que fazer. — explicou Davi.
— Mesmo assim, não vou deixá-las de barriga vazia. — alertou ela com seu jeito materno de ser — Vão lavar as mãos, primeiro o almoço, depois os estudos.

Assentimos sem questionar, ela parecia empolgada por nossa presença ali o que deixou Lira aparentemente mais confortável. Definitivamente minha ideia de chamar ela para fazer grupo comigo e Davi foi muito boa, pois teríamos mais um motivo para estar mais perto dela e lhe fazer companhia.

"입술이주를높이며
Senhor, como os meus lábios amam Te exaltar
호흡이주를섬기
Senhor, como meu respirar está aqui servindo a Ti,
무엇이나를두렵게
O que pode me assustar? Oh, nada irá me assustar.
잠잠히나를비추
Senhor, como Você pacificamente brilha em mim,
가득히나를채우
Senhor, como Você preenche o meu tudo,
무엇도나를흔들지못하
Nada pode me abalar."
- Your Love Came Into Me / J-US Ministry



Deuteronômio

"Seja Ele o motivo do seu louvor, pois Ele é o seu Deus,
Que por vocês fez aquelas grandes e temíveis maravilhas
Que vocês viram com os próprios olhos."
- Deuteronômio 10:21

- x -

— A sua mãe é muito legal Davi. — elogiou Lira assim que chegamos próximo ao beco onde ficava sua casa.
— Ela é sim. — concordei controlando meu riso — Ainda mais quando tem pessoas novas visitando.
— Às vezes fico com um pouco de vergonha. — Davi fez uma careta esquisita e riu — Mas eu gosto desse lado engraçado dela.
— Bem, chegamos, obrigada por me acompanharem. — agradeceu ajeitando a mochila nas costas.
— Lira… — gritou uma senhora um pouco mais à frente — Você não está atrasada mocinha, sua mãe vai ficar sabendo disso.
— Minha mãe e a rua toda. — ouvi ela retrucar em um sussurro.
— Vai ficar tudo bem?! — perguntei me preocupando um pouco, pois o sorriso do seu rosto havia desmanchado.
— Sim, vai sim, é só minha avó. — ela suspirou fraco — Tenho que ir, mais uma vez obrigado.

Dei um sorriso leve e a abracei com carinho, então esperamos até que ela entrasse em sua casa para seguirmos.

— Uau, que velha chata. — comentou Davi já começando a caminhar.
— Não diga assim, ela devia estar preocupada com a Lira. — disfarcei um pouco e olhei para trás, a senhora ainda mantinha seu olhar em mim e no Davi — Ela ainda nos observa.
— Velha chata. — reforçou ele.
— Olhe o respeito aos mais velhos. — o repreende — Nem a conhecemos.
— Não seja tão inflexível, respeito é uma coisa, opinião é outra. — retrucou ele — A respeito por ser uma senhora, mas não deixa de ser verdade que ela parece ser uma velha chata.

Eu comecei a rir, contra aquele argumento não tinha forças, ou melhor, eu também concordava com cada palavra, principalmente a parte do velha chata.

— Mas estou feliz que a Lira se divertiu hoje. — disse mudando de assunto — Sua ideia de assistirmos aquele filme foi boa.
— Eu sempre tenho ideias boas. — ele deu uma piscada engraçada.
— Nem sempre. — discordei rindo — Mas essa foi boa.
— Chata. — ele fez careta — Mudando de assunto, já conversou com seu pai sobre a célula de jovens?
— Ainda não, só mencionei se teria algo do tipo, ele disse para começarmos devagar com os louvores no recreio da aula, quando começar a ter mais necessidade abriremos. — expliquei.
— Precisamos expandir mais nosso louvor. — ele ficou com uma cara de pensativo.
— E como seria isso? — perguntei curiosa.
— Não sei, não fazer somente de manhã, mas também no recreio do pessoal da tarde, o que acha? — sugeriu.
— Boa ideia, mas você está trabalhando lembra? — o olhei.
— E se eu te disser que tenho alguns contatos no turno da tarde? — ele sorriu com satisfação.
— Me diz quem você não conhece naquela escola? — boquiaberta eu estava.
— Hum, o Joseph, esse eu nunca cheguei perto. — respondeu — Nem pretendo.
— Porque? O sabe sobre ele além do que me contou? — agora estava mais curiosa.
— Ouvi a pedagoga da escola comentando com a tia da cantina sobre o pai dele, acho que muito da sua agressividade veio disso e agora a madrasta dele está doente, era ela quem colocava ele nos eixos. — respondeu — E já viu como são os amigos dele? Se acham os reis da escola só porque tem ele no grupo.
— Quanto rancor na voz, você deveria orar por eles, Mateus 5:44 nos ensina a amar nossos inimigos e orar por aqueles que nos perseguem. — o repreendi novamente.
— Eu sei, mas é tão complicado essa coisa de amar o próximo seja quem for. — ele suspirou fraco.
Deus nunca disse que seria fácil, estreita é a porta e difícil é o caminho, mas com Jesus sempre há vitória. — sorri de leve para ele.
— Só você para sempre achar motivação em tudo. — ele colocou as mãos nos bolsos da calça — Parece até que é mais fácil para você.
— Acredite, não está sendo nada fácil para mim. — respirei fundo — Desde que meu pai disse que viríamos para Minas está sendo complicado, principalmente na parte financeira.
— Meu pai comentou que o pastor estava preocupado.
— Sim, nossas economias estão acabando. — confirmei — Eu até sugeri de trabalhar meio período para ajudar nas contas, mas ele quer que eu foquei nos estudos, pelo menos este ano, já que ano que vem tem Enem e vestibular, ele me quer na faculdade.
— Ele se preocupa muito com você, é normal dos pais. — Davi deu uma risada baixa — Minha mãe quer que eu faça faculdade também, mas estou passando longe disso.
— Não tem nada que você goste? — o olhei.
— Gosto de informática e tecnologia. — disse ele —Queria mesmo ser um gamer profissional, mas se fizer isso meus pais me matam.

Eu soltei uma gargalhada da careta que ele fez.

— Você pode tentar engenharia ou ciência da computação. — sugeri — Tem que estudar muito? Tem! Mas no final é gratificante.
— Não posso ficar com algo mais criativo?
— Tem design gráfico, design de produto, artes gráficas, design de games.
— Hummmmm…. Gostei dessa de design de games.
— Sabia que iria gostar. — ri dele.
— Chegamos. — disse ele parando em frente ao meu prédio — Foi rápido.
— É sempre rápido quando conversamos. — olhei para o céu — Volte rápido, parece que vai chover.
— Vou correndo. — ele deu um passo para ir — Ah, antes que me esqueça, eu falei de você para a Layla.
— Como assim? Você disse que não tinha o telefone dela.
— Não tinha, mas acabei esbarrando no meu antigo líder de jovens e ele me passou o número dela. — explicou — Como eu disse, sou o cara dos contatos.
— Sei. — soltei uma risada rápida — E o que falou de mim para ela?
— Contei o básico sobre sua vinda com o pastor para Nova Lima e do nosso projeto na escola, ela gostou muito e quer te conhecer. — sua voz parecia animada.
— Nossa, que menino prestativo, mas para que ela quer me conhecer?
— Para nos ajudar com a evangelização, atualizar a gente com os congressos e eventos que ela organiza para os jovens. — ele piscou de leve — É bom ter aproximação com ela.
— Se você diz, toda ajuda é bem-vinda. — sorri e me voltei para o prédio — Agora bom dia e volte em segurança, eu vou estudar mais um pouco e dormir.
— Viciada em estudos. — brincou ele — Eu vou jogar antes de dormir.
— Gamer incontrolável. — eu ri — Até amanhã.
— Até!!

Eu entrei rindo dele, Davi e suas comemorações relacionadas aos seus jogos eram divertidas, cumprimentei o zelador que estava na portaria e mais alguns passos a frente, esbarrei na senhora do andar abaixo do meu cheia de sacolas. De imediato me ofereci para ajudá-la a levar tudo para seu apartamento.

— Chegamos. — disse ela recuperando o fôlego — Eu sempre fico exausta quando tenho que subir essas escadas, esse elevador vive estragando.
— É cansativo mesmo. — concordei.
— Pode colocar as sacolas aí na pia. — ela logo se sentou no sofá — Minha coluna não tem mais vinte anos.

Assenti com a face e segurando o riso coloquei as sacolas em cima da pia, quando me voltei para pegar as outras que estavam perto da porta, um rapaz entrou e as pegou primeiro. Levei um susto, mas me mantive calma e serena.

— Vovô, está incomodando as pessoas de novo? — ele passou por mim e levou as sacolas para pia também, voltando para mim sorriu gentilmente — Obrigado por ajudá-la.
— Disponha. — senti uma leve brisa passando pela minha barriga com aquele sorriso — Foi um prazer em ajudar.
— Esta menina é tão gentil que eu nem precisei pedir ajuda, ela já foi se oferecendo, não pude recusar. — ela retrucou se levantando — Acho que vou descansar melhor na minha cama, minha artrite está me matando.
— Melhor tomar um banho quente antes, assim seu corpo relaxa. — sugeriu ele pegando a bolsa dela e a seguindo pelo corredor.
— Tem razão, acho que vou ficar mais confortável assim. — mesmo longe sua voz continuava alta do corredor.

Fiquei por alguns instantes sozinha em pé no meio da sala, era um apartamento muito organizado, pequeno como o meu, porém tinha aspectos de casa de vó, passava uma sensação de conforto e aconchego.

— Mais uma vez obrigado por ajudá-la, minha avó sempre deixa para fazer suas compras quando eu não estou. — disse ele sorrindo novamente.
— Como eu disse, foi um prazer em ajudar. — sorri de volta meio tímida.
— Você é a filha do pastor, não é?!
— Sou sim. — ajeitei a mochila nas costas.
— É ?!
— Sim.
— Prazer, meu nome é William, mas pode me chamar de Will.
— Prazer Will, é você que tem um cachorro? — perguntei curiosa.
— Sim, porque? — ele me olhou confuso.
— Seu cachorro sempre late quando estou tocando violão.
— É você que toca todas as noites? — ele me olhou surpreso.
— Sim, geralmente sim, agora não muito por causa dos trabalhos da escola.
— Uau. — seu olho brilhou um pouco — Você toca bem…
— Agradeço, eu toco na célula se algum dia você e sua avó quiserem ir, é na casa do obreiro Zé.
— Zé… — ele parecia tentar reconhecer o nome — É um senhor que trabalha com uma kombi?
— Ele mesmo, acho que ele trabalha com carreto ou algo do tipo.
— Ah, conheço ele, a Kátia sua esposa já fez vários bolos de encomenda pra minha avó.
— Que legal, tia Kátia cozinha muito bem.
— Ela é sua tia?
— Não, de sangue não, mas ela já me adotou como sobrinha.
— Ah, isso é legal. — ele riu discretamente — Ela é muito gentil também.
— Bem, eu tenho que ir agora. — sorri — Bom dia.
— Dia? — ele me olhou confuso.

Eu comecei a rir.

— A história é longa, mas sempre dou bom dia, qualquer hora do dia. — ri mais um pouco.
?! — ouvi uma voz vindo de trás de mim — O que faz aqui?
— Pastor. — sussurrou Will.
— Pai! — me virei para ele e sorri — Chegou cedo hoje.
— Sim, mas… — ele olhou para Will.
— Ah, este é Will, eu estou aqui porque ajudei a avó dele com as sacolas, já estava voltando para casa. — expliquei diretamente.
— Hum… Prazer Will, venha na nossa célula qualquer dia, traga sua avó também. — convidou meu pai com aquele tom de desconfiança e superproteção que eu conhecia.
— Claro, já me convidou, irei sim. — assentiu Will.
— Toda quinta às 20hrs. — confirmou meu pai — Vamos querida?!
— Claro. — me voltei para Will — Mais uma vez prazer e esperamos por você na célula.
— Obrigado por ajudar minha avó e pelo convite. — ele sorriu novamente.

Nós seguimos para o nosso apartamento, meu pai parecia calado demais sobre aquilo.

— Foi realmente só uma ajuda que dei para a senhor. — reafirmei tentando tirar algo dele.
— Eu sei, o Espírito Santo já testificou em mim. — ele caminhou até a cozinha — Hoje é sexta, que tal sanduíches.
— Não vai falar mais nada? — voltei no assunto — Eu te conheço pai, nenhuma recomendação? Revelação?
— Não. — ele me olhou com tranquilidade — Confiamos em você.

Ele sorriu e se virou novamente para as sacolas que remexia. Eu sabia que sempre que meu pai falava assim enigmaticamente no plural, ele não fala somente de si, mas incluía toda a trindade no assunto, Pai, Filho e Espírito Santo. Fui para meu quarto em silêncio e pensativa no que ele queria dizer com “Confiamos em você”. Seria um alerta para o futuro ou algo assim?

— Ah Deus, eu sei que ninguém explica o Senhor, mas o meu pai o Senhor bem que poderia me explicar né?! — coloquei a mochila na cadeira e retirei minha bíblia de dentro que sempre carregava, então coloquei na cama — Will, ele me pareceu simpático e o sorriso era fofo, será que ele é cristão? Ah, , pare de ficar pensando nessas coisas, foco nos estudos.

As semanas passaram e a cada momento de louvor uma pessoa nova participava, Davi havia conversado com a pedagoga sobre ter estes momentos no recreio do turno da tarde, já que estava fazendo bem a escola e indiretamente as constantes brigas estavam diminuindo. Meu contato da tarde era a Yara, ela havia se convertido recentemente através de um louvor do cantor Fernandinho e estava muito empolgada com a ideia, ela sabia tocar violão também, já era um começo.

Com isso, conseguimos iniciar nosso momento de louvor no recreio da tarde, fiquei surpresa e admirada quando a receptividade, ao contrário de manhã que eu e Davi ficamos dias somente nós dois, logo no primeiro dia da tarde já haviam cinco pessoas além de nós duas, incluindo a própria diretora.

— Mais uma vez estamos aqui reunidos para adorar ao Senhor, espero que neste momento seus corações venham se encher do amor de Cristo. — disse Yara abrindo o nosso momento após ler o salmo 24.
Eu sei que não há nenhuma provação… Maior do que eu possa suportar… — comecei a dedilhar início da música — Mas estou cansado, Pai, preciso crer… Nas tuas promessas pra continuar...

- x -

— Bom dia. — disse ao abrir a porta do apartamento para Yara e Davi.
— Bom dia . — disse Davi já entrando como se fosse de casa e se sentando no sofá.
— Bom dia miga. — Yara entrou e passou o olhos pelo lugar discretamente — Estou tão empolgada!!! Quero muito contribuir com o crescimento da igreja, já saí espalhando pros meus primos todos que vai ter célula de jovem, convoquei todo mundo.
— Que menina proativa. — elogiou Davi se reclinando mais no sofá.
— Você deveria ser assim. — chutei de leve sua perna para me sentar na poltrona ao lado — Mas vamos com calma Yara, meu pai ainda não deu o aval para iniciarmos uma célula de jovem. — me sentei na poltrona e Yara se sentou no chão encostando no sofá.
— Então, o que viemos fazer aqui hoje? — perguntou — Porque tive que trazer caderno?
— Porque eu vou dar aulas para vocês dois. — respondi tranquilamente apontando para minhas apostilas, cadernos e bíblias em cima da mesa de centro.
— Uau. — ela olhou aquilo tudo admirada.
— Você tem muita bagagem… — concordou Davi.
— Fiz muitos seminários quando estava em São Paulo, virei líder kids na matriz quando tinha 14 anos, depois disso sempre fui estudando mais até passar para adolescente e líder em treinamento de jovens. — expliquei — É o que farei com vocês a partir de hoje, já que estão tão animados e empenhados a ajudar, temos que prepará-los corretamente.
— Tudo o que fazemos para Deus é com ordem e decência. — testificou Davi — Vamos lá professora.
— Sim sim, mas antes da primeira aula, quero muito agradecer os dois por me ajudarem com tudo, eu realmente pensei que faria tudo sozinha, mas… — sorri contente — Jesus levantou os dois para me ajudar, obrigado mesmo.
— Ohhhh…. Que fofa. — Yara sorriu.
— Nós que agradecemos a confiança. — completou Davi.
— Bem, continuando… — peguei minha agenda de anotações — Nosso momento de louvor está progredindo, graças a Deus e agora até o turno da noite pediu para termos, segundo a pedagoga.
— E vamos fazer? — perguntou Yara.
— Sim, a tia Kátia concordou em me acompanhar já que Davi estará no trabalho e você não poderá ir devido a idade, não quero problemas com sua mãe, já está ajudando muito à tarde quando não posso ir. — respondi olhando minhas anotações — Então, conversei com uma menina chamada Isa que estuda à noite, ela estava desviada da igreja, mas começou a ir na célula da casa do senhor Soares e se ofereceu para ajudar à noite.
— Isso é bom. — observou Davi — Ela poderia estar aqui não?!
— Como vamos começar ainda, é melhor ela se envolver novamente primeiro para depois pensar em colocá-la em algo. — expliquei — Meu pai disse que agora ela precisa se aproximar mais de Deus e se fortalecer para depois pensar em ajudar, por enquanto ela pode convidar as pessoas.
— Entendi. — Davi desviou o olhar para Yara — E ela, vai ficar com o jovens mesmo?
— Não. — Yara já respondeu — Até eu já sei disso, vou ser líder de adolescentes em treinamento.
— Nada como uma da espécie para conhecer os revoltados. — comentou ele num tom de brincadeira.
— Não somos revoltados. — protestou Yara.
— Pondere suas palavras Davi. — eu ri — Yara só tem 12 anos, ainda não tem idade para se revoltar com nada.
— Isso é verdade, quando chegar na nossa idade, você verá que ter 12 é fácil. — concordou ele — Pior ainda, nos 18 tem boletos para pagar.

Nós damos algumas gargalhadas.

— Verdade, eu vejo minha irmã reclamando do boleto da faculdade. — comentou Yara.
— Ela paga? — Davi a olhou surpreso.
— Só conseguiu meia bolsa no ProUni.
— O que ela faz? — perguntei.
— Biomedicina. — respondeu um pouco orgulhosa.
— Que legal. — fechei minha agenda, e peguei duas apostilas que havia feito e imprimido para eles — Bem, sem mais demoras, vamos começar.
— Não me diga que você fez essas apostilas?! — Davi pegou já folheando.
— Sim, reuni tudo o que tinha e fiz um resumo pra poder passar pra vocês, aí tive que fazer ela baseada naquela do meu pai, tem bastante coisa aí. — respondi pegando a minha.
— Uau, você é mesmo nerd. — comentou Yara.
— Você não viu nada. — Davi riu baixo.
— Quietos vocês dois. — segurei o riso — Vamos começar.

Como tudo que envolvida Davi era divertido e tinha comentários engraçados, nossa primeira aula foi entre risos e comentários irônicos sobre alguns assuntos da bíblia, principalmente na parte que estudamos sobre o povo hebreu no deserto após serem libertos do Egito.

Enfim, mais um dia de célula havia chegado…
Eu estava surpresa que Will havia aparecido novamente, desta vez acompanhado por sua avó, era sua quinta vez e sim, eu estava contando!

— Sejam bem-vindos. — disse ao me aproximar deles.
— Eu disse que viria, trouxe minha avó desta vez. — já adiantou ele sorrindo.
— Bom dia dona Ema. — a abracei com carinho — Como a senhora está?!
— Hoje bem, não senti nenhuma dor ainda. — ela retribuiu o abraço.
— Se Deus quiser não irá sentir. — eu me afastei um pouco.
— Amém!! — ela riu e adentrou mais um pouco indo em direção a tia Kátia.
— Fico feliz que tenha conseguido vir hoje. — eu me encolhi um pouco.
— Eu também. — ele manteve o sorriso no rosto — Quando me disseram que não haveria aula na faculdade, logo pensei em você.
— Nossa. — sussurrei sem reação.

Das outras vezes que ele havia visitado a célula, Will havia comentado comigo sobre suas experiências com o cristianismo, seus pais eram cristãos e antes de morrerem em um acidente de carro na estrada, levavam ele para a igreja aos domingos. Mas depois que faleceram, ele se afastou de Deus, o culpou de certa forma, o mesmo que quase fiz com a morte da minha mãe. Fiz questão de lhe contar sobre minha experiência e de como eu consegui entender que era propósito de Deus a morte dela, nada acontece sem a ordem do Senhor.

O conhecendo mais um pouco, descobri que ele tinha 20 anos e fazia faculdade de medicina na UFMG, não tão discretamente sua avó havia mencionado que ele tinha saído de um relacionamento a pouco tempo, se foi proposital ou não, não sabia, mas aquilo fez meu coração pulsar um pouco.

— Mais uma vez, agradeço a presença de todos, Deus se alegra quando nos despojamos para ouvir sua voz. — disse meu pai assim que o obreiro Zé fez a oração de entrada, então olhou para mim fazendo o sinal de que era minha vez.

Sem dizer nada inicialmente, comecei a dedilhar no violão e respirando fundo, fechei meus olhos para me concentrar.

I'd heard there was a secret chord… That David played and it pleased the Lord… But you don't really care for music, do ya? — desta vez traria uma canção diferenciada, mas que certamente a maioria reconheceria — Well, it goes like this… The fourth, the fifth, the minor fall, the major lift… The baffled king composing Hallelujah

Senti uma breve movimentação e abri os olhos, era minha amiga que havia chegado, no mesmo momento meu coração se encheu de alegria, após tanto tempo lhe convidando e orando por sua vida, Lira estava ali acompanhada de sua mãe. Não me contive em sorrir um pouco, mantendo meu foco na música, fechei meus olhos novamente e continuei.

Hallelujah, Hallelujah… Hallelujah, Hallelujah...

"백성이나를떠나돌아섰지
Meu povo Me abandonou, viraram as costas para Mim
사랑이백성을포기못하
No entanto, Meu amor por eles não pode desistir deles
모든내어주고그들을얻으리라
Então, Eu vou dar a eles tudo de Mim e terei Meu povo de volta aos Meus braços.

여호와께돌아가자, 우린돌아서도그는변치
Vamos voltar para o Senhor, apesar de o trairmos, Deus nunca vai nos dar as costas
여호와께돌아가자, 우린넘어져도사랑영원하네!
Vamos voltar para o Senhor, apesar de falharmos com Ele, oh, Seu amor nunca falhará!"
- Love Never Fails / J-US Ministry



Josué

"Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não temas, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares."
- Josué 1:9

- x -

Passamos duas semanas de estudos e treinamento dos meus dois líderes em treinamento, além de jejum e oração… Meu pai estava orgulhoso do nosso desempenho e comprometimento, os momentos de louvor no intervalo das aulas também estava tendo um bom rendimento, os turnos da manhã e tarde já contavam com quinze alunos, a cada dia uma pessoa nova se aproximava da nossa de louvor. Aquilo deixava meu coração ainda mais animado e alegre por estar dando certo, me fazia querer me empenhar ainda mais.

— A ti entrego tudo o que sou e tudo o que tenho, obrigado Jesus. — ao terminar minha oração em meu quarto, fechei a Bíblia que estava em cima da minha cama e me levantei.
— Princess… — meu pai deu dois toques na porta e abriu — A Kátia já está aqui.
— Diga a ela que já estou indo. — peguei minha Bíblia e caminhei até a escrivaninha.

Ouvi de leve o barulho da porta se fechando, coloquei a Bíblia na capa do violão e o ajeitei nas costas, verifiquei se minha identidade estava devidamente no bolso da calça e saí do quarto. Ao chegar na sala, vi meu pai e tia Kátia rindo e logo fiquei curiosa sobre a causa.

— Espero que não estejam rindo de mim. — disse me aproximando dela e lhe abraçando.
— Ah minha querida. — ela retribuiu o abraço me apertando um pouco — Estava contando a seu pai as aventuras do Zé com a kombi dele que sempre quebra.
— Imagino que desta vez tenha deixado ele na mão no pior momento. — segurei o riso, lembrando da última vez que Davi havia me contado sobre a kombi do pai.
— Nem me fale, estou rindo agora, mas eu chorei na hora. — ela deu outra risada — Vamos querida?
— Vamos sim, está logo na hora do intervalo. — desviei o olhar para o relógio que tinha na parede.

Me despedi do meu pai e segui com a tia Kátia em direção a escola, aquela seria o primeiro dia do momento de louvor no turno da noite, até a diretora estaria presente, o que me deixou mais temerosa em não decepcionar o Senhor. Assim que entramos, eu puxei uma cadeira e sentei esperando, enquanto tia Kátia ficou próxima a entrada da cozinha conversando com uma cantineira. Ao bater o sinal, logo a roda foi se formando onde eu estava.

— Animada para hoje? — perguntou Isla ao se sentar ao meu lado.
— Nervosa, mas animada também. — ri de leve retirando meu violão da capa — Você trouxe sua bíblia?
— Claro. — ela ergueu a Bíblia dela — Não ando mais sem ela.
— Faz muito bem. — concordei — Eu também sempre carrego a minha comigo, está aqui dentro da capa.
— E como começamos? — perguntou ela.
— Eu te pedi para separar um versículo né… Como você conhece melhor o pessoal da noite, pode iniciar lendo o versículo. — expliquei.
— Tudo bem. — ela abriu sua Bíblia e olhou para todos — Boa noite gente, primeiro quero agradecer a todos por estarem aqui, é um tempo que estamos reservando para Deus espero que todos possam ser edificados hoje… Que tal cumprimentarmos o irmão ao lado.

Todos se cumprimentaram entre sorrisos e animação, o que me deixou muito surpresa pela quantidade de pessoas que estavam ali, pelo turno da noite ter alunos mais velhos, pensei que a resistência seria ainda maior. Eu comecei a dedilhar e assenti com o olhar para que ela pudesse ler o versículo.

— Em Jeremias 29:13 diz assim. — Isla respirou fundo — E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração.
Quando todos os meus medos já não cabem mais em mim… Quando o céu está de bronze e parece que é o fim... — suavemente iniciei a canção, continuando a dedilhar com leveza — Quando o vento está revolto e o mar não quer se acalmar… Quando as horas do relógio se demoram a passar… — como sempre, fechei meus olhos para que minha concentração e atenção ficasse somente naquela canção — Muitas vezes os seus planos não consigo entender… Mas prefiro confiar sem compreender…

Não sei se a minha entrega naquele momento de louvor estava sendo em dobro, ou se o coração das pessoas que estavam ali estavam verdadeiramente abertos para sentir a presença. A cada canção sentia ainda mais as pessoas se rendendo ao amor de Jesus, estava tão forte que até mesmo eu em minha concentração comecei a lacrimejar

Pra onde iremos nós? Só Tu tens a vida eterna… Pra onde iremos nós? Só Tu tens a vida eterna… — abri meus olhos por alguns instantes, mantendo o ritmo da canção e avistei tia Kátia orando com a cantineira lá na porta da cozinha, então voltei a fechar — Tu és o Pão que desceu do Céu… Fonte de vida, Emanuel…

Encerrei o louvor agradecendo a Deus pela oportunidade e pelo mover Dele. Felizmente não havíamos passado do tempo e os alunos, mesmo com alguns ainda chorando, voltaram para as salas. Voltei meu olhar para a diretora e ela estava chorando também, eu deixei meu violão em cima da capa e fui até ela, então a abracei e comecei a ministrar outra canção. Mesmo não sabendo qual era meu chamado, sempre que uma pessoa estava chorando ao meu lado, a única forma que eu conseguia confortá-la ou interceder por ela, era através do louvor.

— Olho para mim e vejo um pequeno mortal… Olho para dentro e penso: Não quero ser igual… — quanto mais eu cantava a canção, mais ela chorava com a face sobre meu ombro, lá no fundo pude sentir que seu coração estava apertado — Olho para minhas mãos, cansei do natural… Olho pro meu coração, eu busco o sobrenatural de Deus…

Assim que terminei, me afastei um pouco dela e sorri de forma gentil.

— Obrigado. — ela limpou suas lágrimas — Eu realmente não me sentia assim a muito tempo.
— Assim como diretora? — a perguntei curiosa.
— Com vontade de deixar Deus no controle da minha vida. — ela sorriu — Acho que tenho que voltar para o Senhor.
— A senhora é cristã?!
— Sim. — assentiu — Mas, me afastei da igreja por motivos errados.
— Que bom que este momento pode te aproximar do nosso Pai. — a abracei novamente — Se sinta convidada a participar da nossa célula.
— Claro, Isla já me disse que abriram uma recentemente na casa da dona Muriel da padaria. — comentou desviando o olhar para os alunos que estavam passando.
— Sim esta é no sábado à tarde, você pode ir visitar lá, tem também na casa do sr. Soares e do obreiro Zé, ambas na quinta à noite. — afirmei explicando.
— Farei uma visita sim, acho que irei na do Soares, ele mora perto da minha casa. — ela parecia estar um pouco confusa — Vou ver se saio mais cedo da escola. Você vai estar lá?
— Sim, é o meu pai que está ministrando lá, então não posso deixar ele sozinho. — respondi rindo de leve — O obreiro Zé ministra na casa dele.
— Entendi. — ela sorriu de leve — Mais uma vez, obrigado.
— Vamos ?! — perguntou tia Kátia — Olá diretora.
— Boa noite Kátia, você ficou no cantinho, nem te vi.
— Estava dando uns conselhos para a Martha. — explicou desviando o olhar para mim.
— Diretora, antes de ir, só queria confirmar com a senhora. — pensei por uns instantes — Nosso momento de louvor à noite pode ser toda segunda então?
— Claro. — assentiu ela sem contestar — Começamos bem a semana.
— Que bom, então segunda será à noite, quarta será à tarde e na sexta continuamos com o turno da manhã. — confirmei.
— Isso mesmo, melhor assim, pois não quero prejudicar seus estudos. — avisou ela — Você é uma das melhores alunas que temos.
— Olha, Deus continue abençoando. — tia Kátia passou a mão no alto da minha cabeça — Só podia compartilhar a unção do estudo com o Davi.
— Ah, devemos conversar depois sobre algumas notas do Davi. — a diretora voltou o olhar para ela.
— Eu a prova dele de matemática.
— Em defesa do meu amigo, posso testificar que ele estudou para essa prova, mas ele é realmente ruim em teorema de Pitágoras. — o defendi — Não sei a causa disso.

Elas riram um pouco e nos despedimos, eu tinha mesmo que retornar para estudar um pouco de inglês. Entrando no apartamento recebi uma mensagem animada de Davi, dizendo que no sábado tínhamos um compromisso inadiável, o que me deixou um pouco curiosa sobre. O enchi de mensagens pedindo para me dizer o que era, porém meu querido amigo adorava fazer mistério sobre isso.

— Que tanto você digita aí?! — perguntou meu pai ao se aproximar do sofá com um caixa de creme de leite nas mãos — Mal entrou e nem me deu bom dia.
— Desculpa pai. — me afastei da porta e caminhei até ele, lhe dei um beijo no rosto — Bom dia pai! Benção!
— Deus te abençoe. — ele me olhou fazendo uma careta meio desconfiado.
— É que Davi disse que iremos a um lugar no sábado.
— Hum… Para onde?
— É o que estou tentando descobrir, ele não me fala nada. — voltei meu olhar para o celular, vendo que ele estava ignorando minha insistência.
— Só deixo se for pra ir no monte orar, estou de olho no Davi. — brincou ele se voltando para a cozinha.
— Davi é somente meu amigo. — ri dele — Além do mais, ele não faz meu estilo.
— Aé. — meu pai me olhou novamente — E posso saber qual é o seu tipo mocinha?
— Garotos com sorrisos fofos. — disse abertamente — E que não fiquem a madrugada jogando games.

Meu deu uma gargalhada maldosa e voltou sua atenção para a panela, parecia estar novamente em seus experimentos da gastronomia.

— Por que o interesse sobre o meu estilo ideal?! — perguntei curiosa me ajoelhando no sofá, observando seus movimentos.
— Sou o seu pai, preciso saber destas coisas para te ajudar em oração. — explicou ele rindo ao despejar o creme de leite na panela — Mas, na minha opinião, ainda está cedo para pensar nisso.
— Foi o senhor que disse para começar a orar desde cedo, só estou me preparando para quando meu príncipe chegar. — retruquei — E orar nunca é demais, se Jesus que é divino e ainda orava constantemente ainda escolheu Judas que o traiu, imagine se a gente não ora.
— Eu também já vi essa pregação. — ele riu alto — Está certa, mas além de orar, deve vigiar para não ser enganada pelos lobos em pele de cordeiro.
— Sei disso pai. — assenti — Porém, agora meu foco e atenção estão completos no meu batismo com o Espírito Santo, só Ele pode me completar de verdade.
— Meu coração se alegra ao ouvir isso. — ele se manteve concentrado na panela.
— Posso entender o que tanto cozinha aí?!
— Strogonoff de carne. — respondeu com satisfação, como se estivesse fazendo uma obra prima de jantar.
— De carne?! — fiz uma careta.
— O que tem? — ele me olhou decepcionado por minha reação.
— Pai, strogonoff é de frango. — expliquei — É clássico.
— Se reclamar demais, não te dou batata palha. — ele arqueou a sobrancelha segurando o riso.

Eu não aguentei ver a sua pose e comecei a rir dele, o fazendo rir junto.

— Da próxima vez vou querer de frango. — disse me levantando do sofá.
— Ah… Menina abusada, está vendo Deus, a filha reclamona que me deste… — ele fez um tom dramático — Eu aqui, todo preocupado preparando o jantar.
— Obrigada pelo jantar. — fui até ele e beijei sua bochecha, então peguei meu violão de segui para meu quarto.

Ao entrar já deixei o violão ao lado da porta e peguei minha toalha de banho, o chuveiro me aguardava e eu estava inclinada a ir a seu encontro, um banho quentinho e relaxante era tudo o que eu precisava. Antes de colocar a roupa senti meu estômago se revirar de fome, logo o cheiro da comida invadiu o banheiro, oprimindo o cheiro do sabonete.

— Precisamos conversar sobre a célula de jovens. — disse ele assim que terminamos de fazer a oração de agradecimento.
— Hum… Vamos adiar de novo? — o olhei preocupada.
— Não, Deus testificou em meu coração que está na hora. — ele deu um sorriso reconfortante — Vocês já definiram onde será?
— Pensamos em fazer na casa do Zé, mas já tem uma célula lá, então a Yara ofereceu a casa dela por enquanto, já que ela quer uma célula de adolescentes lá. — respondi indo dar a primeira garfada, meu pai estava mesmo se superando na cozinha — Está uma delícia pai, desta vez equilibrado no tempero.
— Eu disse que estava progredindo. — ele piscou de leve.
— Já pode casar de novo. — brinquei.
— Ah, não… Viverei como tio Paulo agora.
— Solteiros é bom que permaneçam solteiros… — eu ri um pouco então retruquei — O próprio Deus disse que não é bom que o homem viva só.
— Vamos voltar para o assunto da célula?! — ele desviou o olhar para o prato.

Eu ri baixo e voltei a comer também. Aquela era a dificuldade do meu pai, por mais que havia superado a morte da mamãe e seguido em frente cuidando de mim, ele havia se fechado sentimentalmente e decretado que não entraria em um novo relacionamento. Isso me deixava triste e preocupada, mesmo que fôssemos muito próximos, ele só tinha a mim e um dia eu iria embora também. Não queria que papai ficasse sozinho para sempre.

— Precisamos orar lá primeiro, consagrar a casa dessa jovem. — informou ele.
— Sim, ela já sabe disso, podemos fazer na quinta à tarde, já que sábado já será a primeira célula. — concordei.
— Mas e o tal passeio com Davi?!
— Ele disse que iremos depois da célula. — expliquei.
— Sei, e a célula vai ser que horas mesmo? — ele me olhou confuso.
— Está no quadro de avisos do seu quarto pai. — o olhei também — Será de 16 às 17hrs.
— Hum… Acho que me lembro de ter lido isso. — ele olhou para o teto parecendo estar vasculhando sua mente.
— Sei, queria saber o que seria do senhor se eu não atualizasse sua agenda a cada dois dias. — me mantive séria.
— Deus me deu uma filha linda e preciosa. — ele piscou novamente arrancando um sorriso de mim — Louvo ao Senhor por sua vida.
— Amém. — concordei voltando a comer.

A semana passou com tanta lentidão, só porque eu queria que chegasse logo o sábado, confesso que estava ansiosa por dois motivos, primeiro, nossa inauguração da tão esperada célula de jovens, segundo, pelo passeio que Davi havia programado para nós. Yara já estava me esperando no portão da sua casa quando virei a esquina com Davi, como era de jovens, meu pai resolveu não ir para não me deixar mais nervosa que eu estava. Um frio na barriga tomou conta de mim, mesmo Davi dizendo que era a mesma coisa que os momentos de louvor na escola, eu sabia que não era. A responsabilidades era maior ainda.

— Olhando para você, acho que está mais nervosa que eu. — disse Yara após entrarmos, ficaríamos no quintal da casa, pois era amplo e coberto com telha colonial.
— Sim, um pouco, acho que preciso de água. — disse olhando ao meu redor e vendo como ela havia organizado com capricho o espaço, todas as cadeiras em círculo e algumas Bíblias em cima de uma mesinha perto da porta.
— Vou buscar para você. — disse ela indo em direção a porta da sala.
— Você lembrou das Bíblias. — comentou Davi já indo se sentar.
— Sim, você disse que na dos adultos sempre aparecia pessoas sem, então eu fiz uma coleta de doação de Bíblias na minha família. — ela deu uma risada desaparecendo casa adentro.
— O que acha que estava fazendo? — olhei para ele — Trate de se levantar senhor popular e ficar no portão para recepcionar os jovens.
— Sério? — ele me olhou com cara de piedade.
— Davi, você disse que faria com excelência, então…
— Nem precisa terminar. — ele me interrompeu já se levantando — Vamos lá Jesus, receber seu povo.
— Não imaginava que conseguiria tantas. — disse Yara ao aparecer de repente com uma jarra de água e dois copos na mão.
— Uau, menina eficiente, trouxe a jarra de uma vez.
— Claro, não quero perder nenhum pedaço da sua ministração. — ela piscou de leve e me entregou um dos copos.
— Obrigada.

Quanto mais jovens foram chegando, mais meu coração acelerava, e pressão pela responsabilidade de dar o meu melhor para Deus aumentava ainda mais. Eu já havia ministrado antes na célula de jovens que participava em São Paulo, mas era somente uma líder em treinamento até então. Geralmente eu liderava células kids na igreja de lá. Era minha primeira vez liderando uma célula de jovens.

Após Davi nos abençoar fazendo a oração de entrada, eu já retirei meu violão da capa e comecei a introduzir o louvor.

Lembro quando te encontrei… Tudo novo você fez… Os abraços que senti… Me fizeram prosseguir… — não teria louvor melhor que esse, dizer a Deus que nos rendemos a Ele, então fechei os olhos e me rende aquele louvor — Várias vezes eu caí… E você me levantou… Eu achava estar bem… Mas me rendo… Eu me rendo… Eu me rendo… Eu me rendo a Ti...

Minha primeira ministração foi em um formato diferente, eu havia definido que assim como eu só conseguia abraçar e ministrar nas pessoas através da música, minhas pregações da palavra do Senhor também seriam através do louvor. Então faria uma exegese da música Liberta-me de mim, da Luma Elpídio, analisando cada trecho da música de acordo com a visão da Bíblia. Após dois dias em jejum e oração, pedindo a Deus para me direcionar, não só na escolha da música, mas também como eu iria passar o ensinamento dEle para os jovens, na sexta à noite, Ele me guiou até essa canção e os versículos da Bíblia que seria de base para mim.

— Que Jesus continue te usando com graça . — disse a mãe de Yara ao se aproximar de mim — Eu não iria participar, mas fiquei curiosa quando você disse que sua ministração seria através de uma análise de música, estou impactada agora.
— O glória é do Senhor Jesus. — sorriu gentilmente para ela — Ele que me direciona e instrui.
— Seu chamado é para o louvor não é?! — perguntou ela, quase afirmando.
— Vou ser sincera, eu não sei. — fiz uma cara de confusa — Eu amo música e tocar violão, gosto de cantar, mas não me vejo no altar louvando, por isso sempre me pego perguntando a Deus qual é o meu chamado.
— Sério?! — ela me olhou admirada — A maioria das pessoas do louvor que eu conheci, todos era fascinados por ministrar no altar.
— Eu sou extremamente o contrário, prefiro ficar longe do altar e nos bastidores, não me sinto confortável na frente de um monte de pessoas. — peguei meu violão e o guardei na capa — Mas na célula eu me sinto leve e em paz para louvar.
— Pois saiba, que quanto mais você querer se esconder, mais Deus vai querer te mostrar. — ela riu um pouco — Ele é assim, rebaixa os soberbos e exalta os humildes.

Sorri de leve e voltei meu olhar para Davi que já estava pegando os contatos dos jovens enquanto todos compartilhavam o momento do lanche. Talvez a dona Margarida estivesse certa, mas eu ainda não havia certamente sentido que louvor era meu real chamado, respirei fundo e ajeitei o violão nas costas. Dei algumas beliscadas nos pães de queijo que estavam recém-tirados do forno, aguardei até que Davi desconfiasse que tínhamos outro compromisso.

— Senti falta da Lira aqui. — comentei ao chegarmos perto do ponto de ônibus.
— Hum, também achei que ela viria. — concordou ele.
— Ela disse que viria, será que aconteceu alguma coisa com ela ou a mãe dela?! — perguntei em suposição.
— Não sei, soube que a mãe dela não gosta quando ela sai. — respondeu ele olhando a hora no relógio.
— Você sempre sabe de tudo. — o olhei desconfiada.
— Não me olhe assim, descobri ao passar pela rua dela, tenho um amigo que mora lá e acabou comentando comigo.
— Sei. — ajeitei novamente o violão em minhas costas — Você bem que poderia ter me deixado passar em casa para guardar meu bebê.
— Iríamos nos atrasar, e também para onde vamos será bem aproveitado.
— Para onde vamos?! — o olhei desconfiada novamente.
— Para o mirante do parque das Mangabeiras. — respondeu dando um sorrisinho bobo.
— O que vamos fazer lá?!
— Nos aproximar mais de Deus. — ele olhou para frente e deu sinal para o ônibus que vinha.

Eu detestava quando Davi arrumava de ser enigmático. Mas no caminho, acabei descobrindo que Layla havia nos convidado para uma vigília no mirante e teria somente líderes de jovens de diversos ministérios. Para minha não surpresa, Davi já tinha contado ao meu pai na quinta e pedido sigilo, ou seja, tinha um cúmplice em casa.

— Ah, que bom que chegaram. — disse uma garota de cabelos rosa cacheado, camisa xadrez, jeans e all star nos pés, ao se aproximar de nós — Pensei que vem viriam mais Davi.
— Felizmente chegamos inteiros, na graça de Deus, porque se depender do motorista. — ele riu retribuindo o abraço com respeito.
— E você deve ser a . — ela me abraçou com animação — Davi me falou tanto sobre você e como Deus te usa no louvor, estou ansiosa para te ver cantar.
— O que?! — eu olhei para meu amigo tentando retribuir o abraço dela, mas estava estática demais para isso.
— Ué, não contou a ela, Davi?! Não foi pra isso que ela trouxe o violão.
— Davi?! — intensifiquei meu olhar nele.

Meu amigo deu um sorriso de quem não tinha nada a ver com isso, mas tinha.

— Fica em paz, se não puder eu peço um amigo para isso.
— Não, tudo bem, eu só fiquei meio, fui pega de surpresa. — sorri pra ela, porém fechei minha face desviando o olhar para Davi.

Meu amigo não deixou de rir de mim é claro. Entramos no ônibus do parque que nos levaria ao mirante, assim que chegamos já tinha uma quantidade considerável de pessoas lá. Logo retirei meu celular e mandei uma mensagem ao meu pai, avisando que havíamos chegado e contando a travessura de Davi. Naquele momento me lembrei do que dona Margarida havia falado sobre Deus querer me mostrar.

— Vou ser sincera Senhor, eu não queria fazer isso. — sussurrei me afastando um pouco dos dois e me aproximando de uma árvore próxima onde o ônibus havia estacionado.

Davi com seu lado inteiramente popular já foi se enturmando com os outros. Fiquei observando por um tempo e ele já parecia um conhecido próximo de um grupo de garotos que estava com uma camisa escrita Exército de Cristo. Mais a frente no mirante, vi Layla se aproximar de mim menino extremamente diferente, não pelas roupas ou aparência, mas por seus traços distintos de um asiático.

— Vai ficar aí no cantinho? — perguntou Davi ao lembrar que eu existia e se aproximar novamente de mim.
— Primeiro, estou tentando pensar na música que eu vou louvar aqui, já que você nem me preparou para isso. — o olhei séria — Segundo, não gosto de chamar a atenção.
— Hum… — ele deu de ombros pela minha chateação — Desculpa inicialmente por te pegar de surpresa, mas se prepare é assim que Deus faz.

Ele riu, mas eu não achei graça nenhuma.

— Achei ofensivo. — cruzei os braços mantendo o olhar fulminante nele.
— Eu não queria te deixar mais nervosa ainda, mas temos um visitante internacional aqui. — comentou ele.
— O que?! Sério?! — agora eu estava nervosa de vez — Olha no que você me mete.
— Que isso… — ele riu um pouco — Fique tranquila, sua unção ninguém toca.
— Falou nada, só observo. — voltei meu olhar para um grupo de garotas que estavam se aproximando do garoto diferente.
— É ele mesmo o visitante.
— O que?! — fiquei confusa.
— O made in China é um missionário, a família da Layla está abrigando ele. — explicou Davi rindo baixo.
— Ele é da China?!
— Não sei, não lembro se os meninos da Assembleia falaram que era algo perto da China… — ele ficou pensando por um tempo — Ah, Coreia do Sul, acho que é isso, missionário , algo assim.

Voltei meu olhar para o garoto, ele parecia ser muito novo para já ser um missionário e viajar pelo mundo. Lá no fundo, senti uma certa inquietude, uma curiosidade espontânea não somente sobre ele, mas também em saber como era pregar a palavra do Senhor do outro lado do mundo.

"Lead me to the cross
Guia-me à Cruz
Where Your love poured out
Onde Teu amor foi derramado
Bring me to my knees
Traga-me de joelhos
Lord I lay me down
Senhor, eu me prostro
Rid me of myself
Livra-me de mim mesmo
I belong to You
Eu pertenço a Ti
Lead me, lead me to the cross.
Guia-me, guia-me à Cruz."
- Lead Me To The Cross / Hillsong United



Juízes

"Débora, uma profetisa, mulher de Lapidote, liderava Israel naquela época. Ela se sentava debaixo da tamareira de Débora, entre Ramá e Betel, nos montes de Efraim, e os israelitas a procuravam, para que ela decidisse as suas questões."
- Juízes 4:4-5

- x -

Eu havia aprendido com Josué ser forte e corajosa, principalmente quando somos pegas de surpresa como fui no mirante. Apesar de ter ficado estritamente chateada com Davi, por sua brincadeira em não te contar, nervosa por ministrar um louvor de surpresa pra vários líderes de jovens, tudo ocorreu segundo a vontade do Senhor. Tive que ouvir alguns comentários maldosos de Davi, sobre o fato de algumas garotas terem monopolizado a atenção do tal missionário coreano. Me fiz de desentendida e concentrei somente na oportunidade de estar ali, em ter meu momento com Deus.

Me afastei de todos após Layla fazer a leitura da palavra, que coincidentemente era Joel 2:28. Apoiei minhas mãos com segurança no guarda-corpo de madeira e voltei meu olhar para o céu, estava bem estrelado naquela noite, sem que um som saísse de minha boca, todo o meu clamor estava saindo inteiramente do meu coração. Foi um momento especial e bastante reflexivo para mim, me fez pensar em várias coisas em minha vida.

Aquela vigília se estendeu toda a madrugada. Layla deixou os líderes da sua igreja encarregados de levar o missionário coreano para casa, enquanto isso ela levou a mim e Davi para nossa casa. Assim que entrei no apartamento, encontrei meu pai jogado no sofá dormindo, segurei o riso e deixei meu violão com cuidado ao lado da porta e a fechei bem devagar.

— Ele sabia que eu chegaria a essa hora, porque ficou acordado até tarde? — sussurrei indo para a cozinha preparar o café.

Tentei fazer o mínimo de barulho possível sem sucesso, quando estava passando o café, meu pai resmungou alguma coisa do sofá. Olhei para trás e lá estava ele, com seu corpo erguido um olho aberto e outro fechado, tentando entender o que eu estava fazendo.

— Bom dia, flor do dia! — rindo da sua cara e me voltei para frente, despejando o resto da água no coador.
— O que está fazendo?! — sua voz baixa ecoou.
— O que mais poderia?! — ri novamente — A única coisa que consegue te manter acordado pela manhã, além do Espírito Santo claro.

Peguei o bule e despejei o café em uma xícara, me voltei para ele e estiquei a xícara.

— Café novinho e quentinho! — sorri de leve.
— Obrigado Senhor, pela filha que me deste. — ele pegou a xícara e logo foi provando, então fez uma careta — Está quente.
— Eu disse que estava quente pai. — ri dele caminhando até meu violão — Acho que vou tirar um cochilo, me acorda na hora do almoço?!
— Sim sim, senhorita. — ele se espreguiçou ao levantar do sofá.

Pisquei de leve para ele e segui para meu quarto.

— Jesus estou com sono. — disse ao entrar, após dar um longo bocejo.

Estava mesmo com sono e cansada, após passar uma semana acordando de madrugada para orar e dormindo tarde por causa dos estudos, meu corpo só queria minha cama e eu lhe daria isso. Nem tive coragem de perder tempo tomando banho e já fui logo trocando de roupa e me jogando em cima da colcha mesmo, só peguei uma manta para me cobrir e fechei meus olhos me rendendo ao sono.

Acordei sozinha ouvindo o som de música, após minha cabeça chegar no lugar e eu acordar direito, reconheci que eram do Jesus Culture, meu pai gostava muito de ouvir louvores internacionais. Me espreguicei levantando da cama e dobrei a manta, ainda era domingo e felizmente todos os meus deveres escolares estavam em dia, eu tentava ao máximo aproveitar a semana para sábado e domingo não ter que estudar, apesar de gostar muito, minha mente merecia momentos de folga.

There's nothing worth more… That will ever come close… Nothing can compare… — comecei a cantar junto com a música que tocava do lado de fora — You're our living hope… Your presence lord…

Me espreguicei novamente caminhando até a janela e olhei para fora por um tempo, avistei Will correndo pela calçada com seu cachorro labrador, achei fofo. Logo me lembrei sobre as especulações do meu pai, principalmente sobre saber qual era meu tipo ideal de garoto, então comecei a pontuar algumas coisas que Will aparentava ter. Só havia um ponto que considerava principal, se ele realmente era um homem temente a Deus.

— Acordou já?! — disse meu pai ao abrir a porta — Nem me esperou de chamar.
— Acordei com o som da música. — ri da cara de chateado que ele fez e voltei a cantar um trecho da música — And when the oceans rage...I don't have to be afraid… Because I know that you love me… Your love never fails!

Ele começou a dançar pelo quarto e pegando em minha mão me puxou dançar com ele.

Teu amor não falha. — cantou meu pai a versão brasileira — Tu fazes que tudo coopere para o meu bem.
You make all things work together for my good. — o acompanhei cantando a versão original.
— Essa música é muito boa. — disse ele ao parar de dançar, recuperando o fôlego.
— Que isso pai, nem dançou direito e já está cansado?! — o olhei rindo.
— Seu pai já está velho, me dê um desconto, minha coluna não é de vinte mais não.
— Nem chegou nos quarenta e já está assim?
— Tenho 38 com muito orgulho, mas a coluna está de cinquenta já. — ele soltou uma gargalhada estranha — Preciso pedi a Deus para renovar meus ossos também.
— Concordo. — ri junto com ele voltando meu olhar para a janela — O dia está lindo hoje, o que vamos fazer?
— Você eu não sei, já eu vou fazer uma visita com o irmão Zé. — respondeu ele se aproximando da porta.
— Não quer que eu vá? Milagre.
— É uma visita a um rapaz que acabou de se divorciar da esposa, então…
— Já entendi. Vá em paz, então.
— Ah, antes que eu me esqueça, a Kátia está a sua espera para almoçar lá hoje. — avisou ele.
— Sério?! — gostei da ideia.

Ele sorriu e saiu pelo corredor. Se eu havia sido convocada para o almoço com a tia Kátia, então só me restaria tomar banho e seguir para sua casa. Peguei minha toalha e ri indo em direção ao banheiro, comecei a imaginar que certamente Davi estaria dormindo e eu iria ter a honra de acordá-lo. Não me demorei muito, pois a fome já me marcava presença, já que não havia tomado café da manhã.

. — disse uma voz conhecida no corredor assim que desci a primeira lança de escadas.
— Oh, Will. — disso ao virar para trás — Bom dia.
— Bom dia. — disse ele meio confuso — Tenho que me acostumar com esse seu cumprimento.
— Quem é esse meninão?! — disse ao desviar meu olhar para seu cachorro.
— Ah, esse é o Thor. — respondeu ele esfregando a mão na cabeça do cachorro.
— Olha só, temos um fã de Marvel aqui. — disse me aproximando deles — Oi Thor.
— Você conhece?! — ele me olhou admirado.
— Claro, e por incrível que pareça, neste caso eu gosto mais do Loki, apesar de todo mundo falar que ele é um vilão, eu gosto dele. — mantive minha atenção no cachorro que já se aproximava de mim para cheirar minha roupa.
— O Loki não é um vilão. — concordou ele — Mas gostei de saber que curte Marvel.
— Eu já li alguns HQs online em inglês, são muito bons, prefiro mais do que a DC.
— Da DC eu gosto mais do Batman.
— Sério?! Eu também. — o olhei, por aquilo eu não esperava.

Havia descoberto mais um ponto em comum, além de cachorros...

— Realmente é chocante conhecer uma garota que gosta dessas coisas de nerd. — ele riu, mantendo seu olhar em mim, o que me deixou um pouco tímida no momento.
— Acreditaria se eu dissesse que sou uma nerd? — ri baixo.
— Não brinca?! Nunca vi uma nerd bonita como você. — soou de forma natural, mas senti que aquele elogio foi proposital.
— A sempre uma primeira vez. — tentei reagir como se não fosse comigo e desviei meu olhar para a escada, logo senti minha barriga se mexer fazendo um barulho — Que vergonha, você ouviu?!
— Parece que alguém está com fome. — ele riu — Eu ainda não almocei, a esta hora minha avó já está me esperando, se quiser nos acompanhar.
— Oh não, agradeço o convite, mas já vou almoçar em outro lugar. — sorri em agradecimento e ajeitei a bolsa transversal no ombro — Mas, espero que tenha um bom almoço.
— Bem, então fica em aberto meu convite. — disse ele fazendo um sinal para Thor se sentar.

Assenti com a face e me afastei dele, então voltei a descer as escadas precisamente para não me atrasar ainda mais. Assim que bati no portão, tia Kátia atendeu rapidamente e me deu um abraço apertado.

— Paz do Senhor minha linda! Demorou. — disse ela rindo.
— Desculpa. — retribui o abraço — Acabei esbarrando em um conhecido e conversamos um pouco.
— Conhecido?! — ela me olhou desconfiada, colocando a mão na cintura — Desde quando tem conhecidos mocinha?
— É um vizinho do prédio, recentemente fiz amizade com ele e seu cachorro. — expliquei.
— Sei, só vizinho. — ela riu se virando para a porta da cozinha.
— É sim tia. — confirmei fechando o portão e indo atrás dela — Não ando com meus pensamentos voltados para a área sentimental não.
— Olha, gostei disso, você está muito nova para pensar nessas coisas. — ela caminhou até o fogão e abriu lentamente a porta do forno.
— Ando focada em Deus somente, além dos meus estudos que consomem a outra parte do meu tempo.
— Queria que Davi tivesse metade da sua disposição para estudar. — ela suspirou fraco — Aquele menino.
— E por falar nele, onde está? Dormindo?
— Fala baixo senão ele acorda. — brincou ela.
— Vou lá acordá-lo então.
— Faça esse favor para mim. — assentiu ela.

Sai rindo em direção ao quarto dele, havia uma placa de stop de todo tamanho pregado na porta, aquilo era novo e me lembrava os filmes de adolescentes americanos. Dei dois toques e girei a maçaneta, ao entrar me deparei com ele sentado na frente do computador jogando. Fiquei boquiaberta com aquilo, não acreditava…

— Davi?! Davi!? — o chamei, porém ao me aproximar vi que ele estava com o headfone no ouvido, então retirei do ouvido dele — Bom dia varão.
— O que você está fazendo aqui? — ele me olhou assustado, depois voltou a atenção ao jogo — Peraí, tenho que matar esse cara.
— O que?! — coloquei a mão na cintura o olhando indignada — O que está fazendo jogando?
— Eu simplesmente não dormir. — ele parecia no automático movendo seus dedos com precisão no teclado do computador — Tinha um torneio online que estou terminando em 5…
4… 3… 2… 1… Ganhei. — gritou eufórico.
— Não entendo sua alegria depois de ter falado que ia matar alguém. — o olhei séria.
— É só um jogo, e meu time ganhou. — ele sorriu com satisfação.
— Se acabou por que continua digitando aí?!
— Estou falando para o pessoal que você está aqui. — respondeu ele concentrado no monitor.
— Você fala de mim para eles?!
— Claro, é a primeira vez que tenho uma garota de best friend. — brincou ele fechando a janela do jogo — Pronto, agora minha atenção é sua.
— Tem certeza?! — cruzei os braços.
— Você pareceu com minha mãe agora, estou ficando com medo. — ele fez uma careta.
— Tia Kátia é maravilhosa, então estou no lucro. — ri da cara dele — Nossa, você não foi dormi, sua cara está péssima.
— Virei zumbi? — ele se levantou da cadeira — Vou lá assustar minha mãe.
— Não faz isso. — disse tentando impedir, mas ele saiu correndo.

Balancei a cabeça negativamente e fui atrás dele, ao passar pela sala ouvi um grito da tia Kátia.

— Ah menino, vou te jogar dentro dessa panela. — disse ela com a mão no coração — Não se faz isso com sua mãe.
— Desculpa, mas a disse que eu estava com a cara de um zumbi, não pude perder a oportunidade. — ele continuou rindo dela — Perco a mãe, mas não perco a piada.
— Deus está vendo isso. — cruzei meus braços permanecendo da porta — Eu disse pra ele não fazer isso tia.
— Quando pegar esse menino e bater nele. — ela se voltou para o fogão checando se havia desligado o botão do forno.
— Não pode me bater, está no estatuto da criança. — retrucou ele.
— Estatuto lá saber das coisas, nem te dar roupa e calçado, paga suas contas. — ela virou para ele — Estou respaldada pela palavra, a vara da disciplina tira a loucura das crianças, você é uma criança louca.
— Isso eu concordo. — ri alto dele, que me olhou atravessado, mas não liguei.
— Estou com fome mãe.
— Pede para o estatuto da criança. — ela deu de ombros.
— Nossa de pessoa rancorosa. — disse ele fazendo uma voz dramática — Deus ensina a perdoar.

Ela respirou fundo e começou a rir da cara dele, nós dois começamos a rir também. Logo tia Kátia forrou a mesa da cozinha para comermos ali mesmo, ela havia feito uma travessa recheada de lasanha à bolonhesa. A aparência estava tão convidativa quanto o cheiro que rescindiu toda a cozinha, novamente minha barriga deu sinal de fome, enquanto eu olhava ela cortar e me servir.

— Obrigada tia Kátia. — disse já abaixando minha cabeça para orar antes de comer.

Assim que agradeci a Deus pelo alimento, ataquei a comida, parecia que eu não havia comido à dias, me lembrando bem, minha última refeição havia sido um sanduíche que Layla tinha preparado para todos que estavam no mirante, acho que aquilo tinha salvado minha noite de orações. Após o almoço eu me ofereci para lavar as vasilhas com a ajuda de Davi, claro que ele não gostou muito da ideia, mas acabou aceitando.

— Minha mãe me disse que tem gente pedindo uma célula kids. — comentou Davi ao se sentar ao meu lado, no meio fio em frente ao seu portão.
— Sim, uma moça chamada Esther, ela está cursando pedagogia na UEMG, se tornou membro da célula do sr. Soares. — confirmei explicando — Ela tem alguns sobrinhos e perguntou ao meu pai se não teríamos uma só para crianças.
— Hum… Aposto que você ficará à frente. — disse ele com segurança.
— Nem precisa, é bem óbvio. — voltei meu olhar para ele — E pode ir se preparando, pois logo irá liderar a dos jovens no meu lugar.
— Já?! — o olhar de surpresa dele veio logo — Tem certeza?!
— Ahhhh…. — eu ri — Agora está vendo o que eu passo.
— Vamos combinar que ser líder de célula é muita pressão e responsabilidade. — ele estava totalmente correto.
— Ando sentindo isso todos os dias. — suspirei fraco — Tenho em minha consciência que meu pai conta bastante comigo, então…
— Agora te entendo ainda mais, ser filha de pastor não deve ser fácil.
— Não é. — voltei meu olhar para a rua — Mas tem seu lado divertido.
— E como vai ficar?! As células? — perguntou confuso — Porque a Yara está treinando também.
— Sim, meu pai disse que mais algumas semanas vocês estarão prontos se continuarem a se dedicar, não só nos estudos absorvendo mais conhecimento, como também nas orações, a luta é grande quando se está à frente da obra. — respondi — Mas no final, é gratificante arrancar sorrisos do rosto de Deus.
— Darei o meu melhor para isso. — ele suspirou — Quero ser um líder de excelência.
— Amém todos nós. — concordei — Assim que terminar de treinar vocês, vamos mudar a célula dos jovens para a casa da Yasmin, ela já combinou isso com a Yara, então abrimos a célula de adolescentes na casa da Yara.
— Uau…
— O que?!
— Nem acredito que já tem quase cinco meses que vocês estão aqui. — comentou ele — Parece que foi ontem que saímos fazendo tour pelo bairro.
— Verdade, isso me lembra que logo estaremos de férias. — me espreguicei olhando o carro passar.
— Você chama quinze dias de férias? — ele me olhou contrariado — Isso está mais para suborno, só para não fazermos protesto.
— Ah, pare de reclamar, desde quando as férias de julho foram um mês exato?!
— Então não podem ser chamada de férias. — retrucou.
— Recesso escolar. — retruquei novamente — Satisfeito?
— Não, queria trinta dias.
—Reclame com o ministério da educação.
— Tá, se nem os professores eles pagam direito, vão dar mais dias aos alunos.

Era triste essa situação, felizmente nossa escola não havia entrado de greve, se não teria sido bem pior. Voltei para casa antes de escurecer, assim que chequei meu celular que tinha deixado no silencioso o dia todo, e meio a muitas mensagens no whatsapp, me atentei a uma em especial: de Lira.

“oi nalla… pode falar agora?”

Como meu pai não havia chegado ainda, verifiquei se a porta estava devidamente fechada e mantive todas as luzes apagadas para economizar energia. Então entrei no meu quarto, nem mesmo troquei de roupa, me ajeitei na cama de forma confortável e já comecei a digitar minha resposta. Lira estava online, o que significava que estava esperando eu aparecer.

“acabei de chegar em casa.”
...
“ah… estava fazendo visita com seu pai?”
“não, eu estava na casa do Davi.”
“hum…”
“o que deseja?”
“queria conversar, mas você deve estar cansada”
“não… pode falar”
“deixa pra depois.”
“Lira, você não é muito de puxar conversa, então sei que deve ser algo sério.
pode dizer.”
“é que…”

Passou alguns minutos comigo esperando sua resposta, mesmo demonstrando que queria desabafar, ela ainda parecia relutante.

“nalla, me sinto cansada.”
“fisicamente?”
“mentalmente, fisicamente, em todos os sentidos”
“aconteceu algo hoje?”
“todos os dias para ser exata, está sendo difícil pra mim e para minha mãe continuarmos aqui
as pessoas nos julgam muito e”
“e?”
“minha mãe não consegue um emprego fixo, é complicado”
“o que sua mãe faz?”
“ela se formou em direito bem depois que eu nasci, mas nunca exerceu”
“sério? direito?”
“sim, ela sempre diz que foi muito duro para ela continuar a faculdade grávida de mim e depois comigo pequena”
“nossa 16 anos e sua mãe nunca pensou em trabalhar na área?”
“sim, ela fez estágios por um tempo até que teve que largar por que eu sempre ficava doente”
“e o seu pai?”
“eles nunca se casaram, meu pai nunca foi presente, a única coisa que fez de decente foi não deixar morar no barracão que era dele”
“então, aquela senhora é mãe do seu pai?”
“sim, ela não gosta da minha mãe e nem de mim.”
“da sua mãe eu até entendo, mas você é a neta dela.”
“ela sempre diz que eu não sou filha do meu pai.”
“por que?”
“melhor eu não falar disso
minha mãe está chegando
tenho que ir”
“sua mãe trabalha domingo?”
“ela está ajudando uma amiga”

Eu fiquei um pouco paralisada com aquilo. Será que aquilo estava relacionado com seu receio de se aproximar das pessoas? Eu não sabia a fundo o que realmente estava acontecendo com Lira, mas havia uma coisa que eu podia fazer por ela, interceder. Deixei o celular em cima da cama com a conversa aberta e me ajoelhando na beirada, respirei fundo e comecei a orar. Em meu coração eu queria poder fazer bem mais do que isso, mas já seria o suficiente para alcançar minha nova amiga.

- x -

— Animada para a célula kids de amanhã?! — perguntou meu pai — ?!
— Hum?! — o olhei, estava distraída em meus pensamentos.
— O que houve?
— Estava pensando na conversa que tive no domingo passado com a Lira, fiquei preocupada com ela e passei essa semana toda querendo tocar no assunto, mas senti que ela estava evitando. — expliquei — Intercede por ela, mais ainda me sinto incomodada.
— Você já fez o máximo que podia fazer, é Deus quem vai resolver isso, apenas continue mostrando a ela que pode contar com você.
— Farei isso. — me levantei do sofá — Vou revisar minha ministração de amanhã.
— Mantenha seu coração em paz querida. — aconselhou ele.
— Obrigada pai. — lhe dei um beijo suave no rosto — Não me contou o motivo de ter ido na escola.
— A diretora queria falar comigo sobre um possível emprego de professor. — explicou ele indo abrir a geladeira.
— Sério?!
— Sim. — ele pegou a caixa de leite e colocou na pia, então fechou a porta — A escola onde a irmã dela é supervisora, está precisando de um professor de história substituto para o turno da manhã.
— Glória a Deus. — certamente o milagre pelo qual papai estava orando muito.

Nossa situação financeira não estava muito boa, suas economias estavam a um passo do fim, já estava começando a pensar o que poderia fazer para ajudar, mesmo ele querendo que eu foque só nos estudos.

— É aonde? Perguntei.
— No centro de BH. — respondeu ele despejando o leite no copo — Vou ter que sair muito cedo e correr para não chegar aqui muito tarde, porém valerá a pena.
— Tem certeza?!
— Sim, coloquei nossa situação financeira nas mãos de Deus e tenho confiado, orei muito sobre essa oferta, afinal meu ministério é mais importante. — explicou — Estou em paz, senti que devo aceitar.
— Lá é uma escola particular?
— Sim, e tanto o horário como o salário, são exatamente como pedi a Deus. — ele me olhou com tranquilidade — É ou não provisão divina?!
— Sempre foi provisão divina. — pisquei de leve me movendo para o corredor.
— Já vai dormir?
— Vou revisar meu esboço de amanhã, para a célula kids. — respondi num tom mais alto para que ouvisse.

Assim que entrei em meu quero, caminhei até minha escrivaninha e abri meu caderno de esboços, tinha escrito uma história na quarta-feira sobre a juíza Débora, a única mulher a ser juíza em Israel. Com ela eu havia aprendido que o nosso chamado em juízes é para ajudar as pessoas, seja qual situação, era isso que eu queria ensinar para as crianças, podemos ajudar nossos amigos até mesmo através de uma oração.

"'The wind is strong and the water's deep, but
O vento é forte e as águas são profundas
I'm not alone here in these open seas
Mas não estou sozinho nesse mar aberto
'Cause your love never fails
Porque seu amor nunca falha The chasm was far too wide
A fenda era muito grande
I never thought I'd reach the other side
Nunca pensei que chegaria do outro lado
'But your love never fails
Mas seu amor nunca falha"
- Your Love Never Fails / Jesus Culture



Rute

"Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus;"
- Rute 1:16

- x -

Logo na primeira semana de férias, já tinha minha tarefa extracurricular. Havia montado um grupo de intercessores, nossa reunião era toda terça às sete da noite na casa da dona Muriel. Além dela, Davi, Esther, Yasmin e o Justino da oficina também estavam participando, nossa missão era interceder pelas células, membros e visitantes. Meu pai andava meio preocupado, mesmo com o rápido crescimento das células. Felizmente, já se contava sete com um bom número de membros.

Era certo que tudo que fazemos para Deus temos que dar o nosso melhor, nesse caso a qualidade era tão importante quanto a quantidade.

— Chegamos. — disse assim que parei em frente meu prédio acompanhada de Davi.
— Agora que está entregue. — disse ele se espreguiçando e bocejando ao mesmo tempo.
— Nossa, deixa eu adivinhar… Não dormiu essa noite. — constatei olhando sua cara de sono.
— Tenho passado noites em claro nessas férias, férias não, recesso. — explicou ele.
— Deveria parar um pouco com esses jogos. — sugeri — Pode acabar se tornando vício, e isso não é legal.
— Fica tranquila, estou me regulando, decidi fazer um jejum quando voltar a estudar.
— Hum… Surpreenda-me. — o olhei séria — E vai durar quanto tempo?
— Até o final do ano. — disse ele.
— Nossa, imagino que o propósito deva ser grande. — brinquei.
— Quando eu conquistar, te conto a benção. — ele piscou de leve se afastando — Até quinta.
— Até. — ri baixo me movendo para entrar.

Assim que entrei no apartamento, meu pai estava na cozinha falando ao celular, deixei minha bolsa transversal no sofá e passei por ele indo para a cozinha. Ele passou de leve a mão no alto da minha cabeça sorrindo e caminhou até o corredor, certamente queria privacidade, o que me fez pensar que estaria dando aconselhamento para alguém. Havia alguns ingredientes na pia, possivelmente eram de mais um experimento culinário dele, ri dele voltando meu olhar para o lado e vendo um papel pregado na geladeira com uma receita escrita.

— Caldo de feijão com bacon e calabresa. — sussurrei ao ler o título da receita — Papai anda mesmo se especializando.
— Bom dia minha princess. — disse ele ao aparecer na entrada do corredor.
— Bom dia pai. — voltei meu olhar para ele — Mais uma receita para o diário de cozinha com o pastor Jonas?
— Que isso? Parece até nome de canal de youtube. — ele riu — Eu só vou testar mais uma, aproveitar aquele feijão que não comemos desde sábado.
— Verdade, não podemos desperdiçar. — concordei e brincando — Mas não seria uma má ideia o senhor virar youtuber.

Ele deu uma gargalhada.

— E o nome do canal seria esse? — ele me olhou segurando o riso agora.
— Sim, seria super engraçado. — eu ri também imaginando como sairia no vídeo, suas bagunças na cozinha.
— Melhor o não, o mundo não está preparando para me conhecer na cozinha. — ele riu de novo — Vejamos por onde eu começo.
— Acho que separando os ingredientes. — sugeri me encostando nas costas do sofá, o olhando todo perdido enquanto lia a receita.
— Tem razão. — ele coçou a cabeça — Mas acho que vai rolar só com a calabresa — Observou ele.
— Por que? Chefe Jonas a receita deve tem que estar completa. — cruzei os braços me fazendo de decepcionada.
— Me desculpe ajudante, mas nosso bacon acabou no bife a rolê, que fizemos no domingo. — explicou ele.
— O senhor tem que regular bem seus ingredientes.
— A culpa não é minha se ando animado demais com a gastronomia. — ele riu baixo — Mas, pelo menos agora que vou trabalhar pela manhã, teremos mais recursos.

Ele piscou de leve para mim.

— Mudando de assunto, estou curiosa. — comentei.
— Sobre?
— A pessoa que estava do outro lado da ligação. — expliquei.
— Ah… Era a senhorita Dalla, diretora da escola de BH. — respondeu.
— O que ela queria? — fiquei o observando, enquanto pegava o restante dos ingredientes.
— Me informar que sexta teremos uma reunião pela manhã, nosso semestre letivo começa na próxima semana. — explicou ele.
— Mas, ainda estamos de férias. — questionei sem entender.
— Sou professor, não aluno. — ele deu uma risada rápida — Vai me ajudar com a receita?
— Claro, se eu não tiver perto, o senhor suja todas as vasilhas do armário. — ri baixo me afastando do sofá.

Era sempre divertido cozinhar com o papai, quem o via pregando de forma séria porém com uma ponta de bom humor na célula, não imaginava que ele era ainda mais cômico em casa. Continuei alguns minutos na cozinha o ajudando, até que resolvi ir ao banheiro para tomar um banho relaxante. O caldo de feijão dele estava saboroso, tinha que admitir que a cada experimento, meu pai conseguia se superar e me surpreender, é claro que não ia enchê-lo de elogios, mas minha cara enquanto comia já denunciava.

Me ofereci para lavar a louça suja do jantar, depois fui para meu quarto, eu até poderia me atrever a ler alguma coisa, mas meu corpo estava pedindo minha cama. Estendi o cobertor e me deitei, permanecendo com minhas costas mais erguidas, encostada na cabeceira da cama.

— Obrigada Senhor, por mais um dia. — disse após um largo bocejo — Continue me sustentando, por favor, e me desculpe por não me ajoelhar em reverência hoje, não estou sentindo meus músculos...

Não estava mesmo, naquela manhã eu havia resolvido faxinar o apartamento sem a ajuda do meu pai, louca eu, mas fiz assim mesmo. Quando terminei, já estava quase na hora de me encontrar com Davi para ir a casa da dona Muriel, claro que meu pai me enviou uma mensagem de repreensão quando chegou em casa e a encontrou arrumada. Que pai em sã consciência repreende a filha por fazer tarefas de casa? O meu! Ele sempre achava mais divertido quando fazíamos isso juntos, além de não sobrecarregar ninguém, era mais um de nossos momentos de comunhão, segundo ele.

Essa minha peripécia da faxina, atrapalhou até mesmo minha oração, tanto que nem me lembro em que parte da conversa com o Espírito Santo eu parei, só me lembro de ter pedido ajuda para aproveitar bem as férias.

, posso ir aí?”

Foi com essa mensagem de Lira que finalmente consegui despertar meu sono, quando o alarme do celular tocou eu ainda estava sonolenta e pensativa se iria ou não acordar às oito em plenas férias. Então, quando liguei a internet para saber se tinha alguma mensagem de Davi, vi aquela de Lira que me interessou bastante.

“Claro, podemos tomar café juntas. Já tomou café?”
“ainda não.” - ela respondeu de imediato.
“te espero então.”

Devolvi o celular para a mesinha de cabeceira onde estava, então após um largo espreguiço, me levantei da cama e troquei de roupa. Quando saí do quarto, vi um bilhete do meu pai pregado na porta do quarto dele, naquele dia ele estava em consagração e não sairia do quarto para nada, além de ir ao banheiro quando necessário. Era raro as vezes que papai fazia esses propósitos de passar um dia inteiro em oração, mas quando fazia, era pedido direto do trono de Deus.

Olhei para o chão e lá estava o celular dele com outro bilhete, me pedindo para cuidar do aparelho e atender suas ligações. Foi eu mal pegá-lo do chão que tocou, era uma ligação do Enzo, segundo meu pai, ele passava por alguns problemas conjugais e estava se aconselhando com ele. Isso me fazia lembrar das palavras do chefe Jonas, que casamento era coisa séria e muito complicada, por isso o apóstolo Paulo nunca se casou.

— Foi o que te expliquei Enzo, quando o meu pai se tranca, só no dia seguinte, por isso ele deixou o celular comigo. — disse pela centésima vez para que me entendesse — Eu não tenho como te ajudar agora, mas só existe uma coisa que você pode fazer.
— O que? — sua voz do outro lado da linha estava ainda mais aflita.
— Orar. — sim, oração sempre deveria ser nossa primeira e única solução, mas sempre negligenciamos isso — Coloque nas mãos de Deus sua aflição, Ele está aí do seu lado, você possui livre acesso ao Pai, basta apenas conversar com Ele.
— Farei isso, obrigado. — ele encerrou a ligação.

Pelo menos parecia um pouco mais conformado.

— Ah… — suspirei fraco — Não posso colocar esse aparelho no silencioso não?!

Sugeri com um pouco de desânimo de ter que atender mais ligações como aquela. Logo um pensamento de repreensão passou pela minha mente, me fazendo sentir que era diretamente do Espírito Santo. Guardei o celular no bolso da calça e voltei para a cozinha, tinha um café da manhã para preparar e uma convidada que chegaria a qualquer momento.

— Ufa. — disse ao abrir a porta — Pensei que não viria mais, já são dez da manhã.
— Me desculpa, eu também achei que não viria mais. — ela entrou meio acanhada ainda, agarrada a sua mochila.
— Está tudo bem?! — eu sabia que não, mas…
— Digamos que minhas férias não esteja indo tão bem assim. — ela deu alguns passos até o sofá — Seu pai está em casa?
— Sim, mas não se preocupe, ele não vai sair do quarto tão cedo. — assegurei indo até ela e pegando sua mochila — Sinta-se em casa e seja bem-vinda!
— Obrigada. — ela sorriu com timidez — O que andou fazendo esses primeiros dias?!
— Hum, confesso que dormi no primeiro dia. — ri colocando sua bolsa em cima da poltrona do papai — Mas fiquei só praticando no violão e estudando mais japonês, andei meio desanimada.
— Ainda fico admirada por você estudar sozinha essas coisas. — ela me olhou.
— Por isso a parte do desanimada. — nós rimos, eu segui para a cozinha para pegar a bandeja com os biscoitos — Mas é legal se sentir produtiva na vida.
— Vou tentar seguir seu exemplo. — senti que ela, me acompanhou com o olhar.
— Você já pensou no que vai cursar quando formarmos? — perguntei retornando para a sala.
— Hum… Ainda não, gosto de área de biológicas, mas não me vejo sendo professora de biologia. — ela riu — Principalmente não como a nossa.
— Ah, a senhora Glória é um tanto peculiar em seu modo de ensinar sobre células e moléculas. — disse me lembrando da aula nojenta em que ela nos fez cuspir e analisar nossa saliva no microscópio que levou — Mas existem várias profissões nessa área.
— Verdade. — concordou se sentando no sofá.
— Você pode fazer farmácia, biomedicina, enfermagem, medicina… — voltei para a cozinha e peguei as duas xícaras e a caixa de leite, então entreguei a ela, para que colocasse na mesa de centro — As opções são muitas.

Ela assentiu com a face pegando as coisas da minha mão.

— Hum…
— O que?! — voltei para sala com o pote de achocolatado na mão.
— Eu queria perguntar uma coisa.
— Diga, se eu puder responder. — me sentei ao seu lado.
— É que, desde que eu participei da célula dos jovens na casa da Yasmin, eu me senti meio incomodada… — ela parecia com uma certa dificuldade para se expressar.
— Incomodada?!
— É que todo mundo está fazendo alguma coisa para contribuir, e eu… Desde que saímos da outra igreja, eu me senti meio vazia, gostava de ajudar lá…
— Fico feliz de certa forma que você queira ajudar a gente. — disse já entendendo — Eu notei a forma que você trata a filha da Karen, você gosta de criança né?
— Um pouco, sempre quis ter um irmão, mas, não rolou. — respondeu ela com certa tristeza — Meus pais nunca se casaram e minha mãe, bem…
— Hum… O que está fazendo sábado de manhã?
— Nada que eu me lembre.
— Gostaria de visitar nossa célula kids?! — eu já sentia a que ela queria mesmo fazer algo, mas sem preparo não daria certo, então teria que começar aos poucos.
— Seria legal, geralmente fico trancada no quarto sábado de manhã, minha mãe sempre trabalha esse horário. — aceitou.
— Tenho certeza que você vai se divertir. — assegurei — Está sendo na casa da Esther, você a conhece?
— Sim, conheço. — assentiu indo pegar uma das xícaras.
— Agora fiquei empolgada. — sorri de leve pegando a outra xícara — Agora podemos comer, eu quase caí em tentação em não te esperar.
— Me desculpa.
— Fica em paz.

Mesmo sendo às dez e meia da manhã, nosso café da manhã foi bom e divertido, coloquei alguns louvores para tocar no meu celular, assim o silêncio não reinaria, já que nossa boca estava trabalhando para nos manter nutridas. Ver alguns risos de Lira e seus comentários sobre ter vindo nesta manhã, me deixou ainda mais feliz, ver que um pouco de sua tristeza já estava se afastando dela.

— Eu realmente não quero incomodar mais. — disse ela se levantando do sofá — Já estou a muito tempo na sua casa.

Ela desviou seu olhar para o corredor, era meu pai que estava saindo do quarto e entrando no banheiro.

— Você jamais incomodaria, para ser honesta, está me fazendo a melhor companhia possível. — expliquei olhando na mesma direção que ela — Que tal prepararmos algo para comer?
— Você já está com fome?
— Claro. — me levantei do sofá.

Passar aquela tarde com Lira foi divertido.
Nós conversamos sobre vários assuntos aleatórios, por mais que estivesse preocupada com ela e querendo entender como realmente era sua convivência com a sua mãe, a família do seu pai e aquela velha senhora que parecia ser rabugenta demais, não podia invadir sua privacidade. Teria que continuar conquistando sua amizade e confiança, assim ela se sentiria segura para se abrir de verdade.

— E mais uma vez eu te peço Senhor, que Lira possa sentir Seu amor a envolvendo e preenchendo de forma sobrenatural. — disse encerrando minha oração — Amém!

Suspirei meio cansada, enquanto me levantava, limpei minha calça do pijama na região do joelho e caminhei até o violão, que ficava pendurado na parede ao lado da bancada de estudos. Puxei a cadeira para perto da janela, hoje estava inspirada a fazer serenata para Deus, olhando as estrelas, então comecei a dedilhar suavemente.

Não há outro como Tu… Soberano e fiel… Não há outro como Tu… Reina sobre a terra e céus… — mantive meu olhar no céu estrelado — És o Alfa e Ômega… Início e Fim… És o ar que eu respiro… Tudo pra mim… Tu és Jesus, Tu és Jesus…

Inegavelmente, sempre que eu tocava meu violão e começava a cantar para Deus, sentia uma enorme paz tomar conta de mim, além da minha mente se esvaziar de qualquer pensamento, meu coração se enchia de alegria. Passei um longo tempo ali, até que me dei conta que as palavras já não saíam mais dos meus lábios, minhas mãos continuavam tocando de forma automática, e meus olhos as lágrimas rolavam.

Naquele instante, me senti um pouco mais próxima de Deus, como se estivesse sentada aos seus pés, com minha cabeça pousada em seu colo.

- x -

— Bom dia meu pequeninos. — disse às crianças dando um sorriso largo — Hoje, teremos uma surpresa para vocês.
— EHHHHHHH!!! — eles gritaram eutróficos.

Aquela era a nossa primeira célula kids especial de férias, Esther tinha dado a ideia de fazermos sessão pipoca. O filme escolhido era o desenho O Príncipe do Egito, além de contar a história de Moisés, seria mais uma forma das crianças aprenderam sobre as histórias do antigo testamento.

— Vamos vamos, quero todo mundo sentando no tapete para poder ver o desenho. — disse Esther animada.

Era engraçado ver ela vestida com kigurumi13 de panda, tínhamos combinado que a cada célula kids, nossas roupas seriam diferentes para chamar mais atenção das crianças. Eu estava com um de canguru que ela havia me dado, era fofo, mas engraçado, a melhor parte é que as crianças tinham gostado. Aos poucos eles foram se acomodando e Lira nos ajudou a organizá-los, para que ninguém ficasse na frente de ninguém.

— Não imaginava que teria tanta criança. — comentou Lira quando fomos a cozinha para preparar a pipoca do lanche.
— Ah… Eu também me surpreendi. — concordei — Logo no primeiro dia teve umas sete crianças, graça a Deus e ao empenho da Esther, ela acabou de se formar em pedagogia e começou a trabalhar em uma escola aqui perto, a maioria dessas crianças são da escola.
— Ah, está explicado. — ela se aproximou e começou a me ajudar, colocando as pipocas prontas dentro do pacotinho de papel, para serem servidas.
— Mas, ainda não é o bastante, há muitas crianças no bairro e a maioria na região onde você vive. — completei — Queremos alcançar essas crianças também.
— Nossa.
— O que? — a olhei curiosa.
— É que, você faz tantas coisas, lidera as células e ainda estuda, fico impressionada. — disse ela me olhando — Como consegue?!
— Duas palavras, uma definição. — eu a olhei e sorri — Jesus Cristo.

Ela permaneceu em silêncio e sorriu de volta.

— Acredite, tem dias na minha vida que peço a Deus para virar pro canto e fingir que não estou viva. — confessei tranquilamente — Todo mundo tem seu dia mal, mas mesmo que tudo que eu faça de alguma forma me consome energia e me deixa esgotada, eu mantenho o pensamento de que tudo estou fazendo para Deus, então sempre vou me esforçar para dar o meu melhor.
— Quero conseguir fazer isso também. — disse ela num tom mais baixo — Dar o meu melhor.
— Tenho certeza que vai, só de estar aqui já é um começo. — pisquei de leve e sorri gentilmente para ela — Acho melhor terminarmos isso rápido, assim as crianças podem comer vendo o filme.
— Sim sim. — assentiu ela.

Realmente não era fácil assumir tantas responsabilidades de uma vez só, eu sabia que meu pai inicialmente só contaria comigo e meu comprometimento, mas já estava aos poucos sentindo o peso sobre minhas costas. Por mais que mantivesse o sorriso em minha face, para não preocupar meu pai, somente Deus mesmo poderia me manter de pé, diante de tantos problemas e adversidades da vida.

— Acho que algumas crianças adormeceram na metade do filme. — comentou Lira, me puxando para ver Esther pegando uma menina no colo.
— Já imaginava que aconteceria isso. — sussurrei — Mas no final, vamos fazer uma dinâmica sobre o filme, assim fixa melhor na memória das crianças o aprendizado que a história nos traz.
— Que legal. — Lira manteve seu olhar nas crianças, pude ver um certo brilho em seus olhos.

Se meu pai tivesse ali, diria com toda certeza que seu chamado é com o kids. Damos continuidade com a célula após o filme terminar, Esther me ajudou a acordar os dorminhocos e reanimar todos, enquanto isso, Lira ficou encarregada de ir juntando a bagunça deles sobre o tapete da sala. Como o planejado, nossa primeira célula de férias foi um sucesso, para a glória de Deus.

Nos despedimos de Esther assim que terminamos de organizar a bagunça que havia restado na cozinha, após os pais irem buscar as crianças. Acompanhei Lira até a metade do caminho, como sempre, ela não me deixou atravessar a rua e entrar no beco onde morava. Percebi que sua avó estava lá na porta, conversando com outra senhora de rolinhos no cabelo, aquilo me fez lembrar a dona Florinda do Chaves, nos dias de hoje não é mais frequente ver pessoas usando isso nos cabelos.

— Nos vemos mais tarde então. — disse ao abraçá-la — Você vai na célula de jovens, não é?
— Vou sim. — assegurou ela.

Por mais que aquilo não fosse totalmente uma certeza, já que provavelmente ela estava passando por vários problemas em casa.

— Estarei te esperando. — sorri de leve.

A segui com o olhar, até que entrou no beco e sumiu do meu campo de visão. Percebi que sua avó e a outra mulher continuava me encarando, disfarcei um pouco que havia notado isso e me virei para meu caminho. Assim que cheguei em casa, encontrei meu pai terminando o almoço, o que me fez sentir de imediato uma pequena fome.

— Olha só quem chegou, pensei que ficaria lá.
— Não, nós combinamos com os pais que buscariam eles antes do almoço. — expliquei colocando a mochila no sofá — Vim correndo para almoçar com o senhor!
— Nossa, que linda minha princess. — ele se voltou para mim e sorriu — E como foi? Teve muita bagunça?
— Foi divertido, mas crianças gostaram muito do filme e depois a Esther fez uma dinâmica com elas sobre o que aprenderam. — contei com um pouco de empolgação — A Lira também foi.
— Uau, isso bem, quanto mais ela se envolver com coisas assim, acho que será bom para ela. — disse ele ao provar novamente o arroz que tinha desligado.
— Sim, acabei percebendo que ela tem muita afinidade com crianças. — comentei.
— Você acha que esse seria o chamado da sua amiga? — ele me olhou curioso.
— Não sou tão boa quanto o senhor para deduzir essas coisas, mas tenho por mim que sim.
— Eu não deduzo nada, apenas ouço as afirmações do Espírito Santo. — retrucou ele e piscou de leve.
— Ainda chego nesse nível. — peguei minha mochila — Vou trocar de roupa e já volto para o almoço.

Eu realmente queria tirar um cochilo depois do almoço, meu corpo pedia, mas tinha que revisar a exegese da célula desde sábado. Fiquei enrolando um pouco enquanto trocava mensagens no whats com Davi, segundo ele, já tinha elaborado uma dinâmica impactante para a célula de hoje.

— Princess. — disse meu pai batendo na porta — Muito ocupada?
— Não. — coloquei o celular sobre a bancada — Estava trocando algumas mensagens com o Davi.
— Hum… — ele adentrou um pouco mais — Você disse que estava preocupada com nossa situação financeira...
— Sim, e o senhor disse que eu não deveria me preocupar com isso. — mantive meu olhar nele, percebi que estava com um papel na mão — O que tem?
— Acho que podemos entrar em um acordo. — disse ele esticando o papel para mim.
— O que seria isso?! — me levantei da cadeira e caminhei até ele, pegando o papel.
— A escola onde estou trabalhando, está contratando jovens aprendizes para dar aulas de monitoria e reforço. — explicou ele — O que acha?!
— Sério? Vai mesmo consenti? — o olhei um pouco animada.
— Digamos que você vai precisar estudar para ensinar, além de receber no final do mês, mesmo relutante, acho que será bom para você. Se é o que deseja. — seu olhar sereno estava lá, além do tom compreensível de sempre.
— Obrigada pai. — eu logo o abracei com empolgação e lhe dei um beijo no rosto — Glória a Deus.
— Isso me deixa preocupado. — ele ficou um pouco mais sério — Principalmente por tantas coisas que anda realizando.
— Não se preocupe pai, eu vou conseguir. — me virei para meu celular que estava tocando, era uma mensagem de Davi.

“Surpresa de última hora…
Layla mandou uma mensagem, disse que irá visitar nossa célula hoje e vai levar uma companhia”

Meu corpo gelou na mesma hora.

"There's nothing worth more
Não há nada que valha mais
That will ever come close
Que nunca vai chegar perto
Nothing can compare
Nenhuma coisa pode comparar
You're our living hope
Você é a nossa esperança viva
Your presence lord
A Sua presença"
- Holy Spirit / Jesus Culture



I Samuel

"Samuel então apanhou o chifre cheio de óleo e o ungiu na presença de seus irmãos, e a partir daquele dia o Espírito do Senhor apoderou-se de Davi.
E Samuel voltou para Ramá."
- I Samuel 16:13

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Confesso que estava um pouco, ou melhor, estava extremamente nervosa com a presença da Layla ali, uma sensação de que estava sendo avaliada a cada gesto meu tomou conta de mim. Mas tinha que me concentrar e dar o meu melhor naquela tarde, assim como pela manhã com as crianças, agora levaria a palavra do senhora da forma mais descontraída possível para aqueles jovens.

There's nothing worth more… That will ever come close… Nothing can compare… You're our living hope... Your presence lord... — comecei a louvar enquanto tocava o violão — I've tasted and seen… Of the sweetest of love… Where my heart becomes free… And my shame is undone… Your presence lord…

Minha ministração daquela tarde, seria exatamente da música Holy Spirit da banda Jesus Culture, mostrando o quanto o Espírito Santo era importante em nossa vida, que a busca pelo batismo e intimidade com o Senhor, estava diretamente ligada a nossa salvação.

— Quanto mais o conhecemos, mais queremos conhecer, assim como a palavra do Senhor de renova a cada dia… — disse encerrando minha ministração — Devemos continuar atraindo sua presença em nossos corações. Amém!!
— Amém! — todos disseram em coral.
— Alguém tem mais alguma coisa para comentar? — perguntou Davi, era ele quem estava na direção da célula neste sábado.
— Eu gostaria de falar. — disse Layla com seu jeito extrovertido, em poucos dias que nos vemos, ela já estava com seu cabelo verde — Eu achei muito importante ter mencionado Joel 2:28, e gostaria de ler novamente.

Ela abriu sua bíblia, sua capa era de tecido e tinha uma estampa do exército, com um crucifixo vazado bordado com linha prateada, achei lindo.

E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, — iniciou ela lendo o versículo — E vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. — ela fechou a Bíblia e olhou para nós — É isso que o Espírito Santo mais quer, ele anseia em nos ter com mais intensidade ainda, que nós ansiamos em tê-lo, e quanto mais nos colocamos abertos para que Ele possa trabalhar em nossos corações, mais da Tua doce presença vamos receber. Glória a Deus.

Davi começou a aplaudir, sendo acompanhado por todo mundo. Suas palavras vieram profundamente de encontro ao meu coração, me fazendo refletir um pouco mais, daquele momento, acho que entrei no automático e nem prestei mais atenção no que estava acontecendo em minha volta. Apenas comecei a pensar, por mais que eu tivesse fazendo tantas coisas para Deus, eu estava mesmo me entregando totalmente para o Espírito Santo? Não somente em minhas orações, mas em tudo, se Ele era uma pessoa que fica ao meu lado o dia todo, eu estava agindo assim com ele?

— Não vão embora correndo, nosso momento de comunhão ainda não terminou gente. — disse Davi após Layla fazer as honras da oração final — A Yasmin fez um delicioso lanche para gente.
— Isso mesmo, quem for embora vai levar um cocão depois. — brincou Yasmin indo para a cozinha.
— Eu gostei bastante do jeito que você ministra a palavra. — disse Layla ao vir se sentar ao meu lado — Fiquei impressionada, como uma canção pode falar tanto com a gente.
— Sim. — concordei — A primeira vez que fiz isso, também fiquei dias meditando no que havia aprendido.
— Imagino, é tão emocionante quando eu faço meus esboços de pregações, nossa eu surto a cada coisa que aprendo com Deus. — ela riu me fazendo rir junto, então olhou para a garota que havia levado junto e a chamou acenando com a mão — Nossa, chegamos atrasadas e nem pude te apresentar ela direito.
— Que isso, imagina. — olhei para a garota, que tinha um rosto de boneca de porcelana de tão fofa.
— Essa é a Sunny, irmã mais nova do missionário . — apresentou Layla — Sabe aquele coreano que estava no monte daquela vez.
— Ah sim, me lembro dele. — me lembrava mais ainda dos comentários de Davi sobre as meninas estarem monopolizando ele — Prazer Sunny, seja bem-vinda em nome de Jesus!
— Prazer. — deu para notar que ela, tinha um sotaque meio forte — Fiquei empolgada quando Layla me disse que viríamos.
— E você gostou?! — perguntei curiosa.
— Amei! — ela sorriu se sentando na cadeira ao lado da Layla.
— Que bom. — sorri de volta olhando para toda aquela fofura em pessoa.
— Me desculpe intrometer na conversa, mas você vai amar mais ainda o nosso lanche. — disse Yasmin servindo os mini sanduíches com patê de frango que tinha feito.
— Nossa isso está com uma cara boa. — elogiou Layla — Posso pegar logo dois, nem almocei hoje.
— À vontade. — disse Yasmin rindo dela.
— Fechou. — Layla pegou dois para ela e instigou Sunny fazer o mesmo, que acabou pegando entre risos.

Eu ri junto pegando dois também, assim Sunny não ficaria acanhada.

— Eu gosto é dessas. — disse Yasmin se afastando.
— Davi. — gritou Layla — Chega mais que eu quero falar com você. — ela se levantou — Já volto meninas.
— Ok. — disse seguindo ela com o olhar, então desviei para Sunny — Você quer suco ou refri?
— Pode ser suco.

Eu me levantei e peguei dois copos de suco, um por vez, pois ainda estava tentando segurar com meus sanduíches.

— Obrigado. — disse ela ao pegar o copo — São todos bem animados aqui também.
— Fala dos jovens?! — indaguei.
— Sim, lá na coreia também somos assim elétricos nos cultos, principalmente nos de adoração e louvor. — disse ela num tom animado.
— Fiquei curiosa para ver isso agora. — a olhei admirada.
— Eu já disse a Layla que as portas da nossa casa em Seoul estão sempre abertas para missionários brasileiros. — assegurou ela — Se um dia puder ir.
— Quem sabe, se for da vontade de Deus, não sei se meu chamado é para missões. — disse tranquilamente.
— Você não sabe ainda? Seu chamado? — perguntou ela me olhando surpresa.
— Não, eu sei que está relacionado ao louvor, mas…
— Nossa, pensei que fosse exatamente cantar no louvor. — comentou ela — A forma que você ministra a música é diferente.
— Diferente como? — a olhei confusa.
— Não sei explicar, começando por ficar de olhos fechados, não sei como consegue. — ela riu — Eu para conseguir tocar teclado filho maluca e perdida nas teclas, imagino se fechasse os olhos.
— Eu me sinto mais conectada com Deus quando fecho os olhos, como se cantasse só para Ele. — expliquei a ela, levando o copo a boca para tomar o suco.
— Isso é profundo, você faz como o meu irmão então. — ela voltou o olhar para o sanduíche — Nossa, está mesmo gostoso.
— Como o seu irmão faz? — perguntei curiosa.
— Ah, o oppa, também fecha os olhos enquanto toca, engraçado que ele disse a mesma coisa que você, se sente mais conectado assim, com Deus.

Aquilo era surpreendente. Não imaginava que alguém do outro lado do mundo tinha o mesmo pensamento que eu sobre isso.

— O que seria oppa? — perguntei.
— É uma expressão usada somente por meninas, para chamar meninos mais velhos e bem próximos. — explicou — Os garotos usam hyung para chamar os meninos e noona para chamar as meninas, sempre mais velhos e próximos.
— E como você me chamaria?
— Unnie. — respondeu — Ou sunbae, mas sunbae é usado por todos, para pessoas em grau superior a nós, acadêmico ou não.
— Ah… — o que? pensei comigo.
— E você? Também é missionária, como seu irmão? — a olhei curiosa.
— Não. — ela riu — Não me vejo viajando pelo mundo e tudo mais, apesar de ler legal dependendo do lugar que vai.
— Hum…
— Eu sou do ministério de dança e teatro. — continuou — Gosto muito.
— Que legal, tem que ter dom e talento para artes cênicas. — comentei.
— Eu amo interpretação, quero ser atriz quando crescer. — sua voz soou de forma tão esperançosa.
— Deus permita que sim, se for da vontade dEle. — disse.
— É o que minha omma sempre fala.
— Omma?
— Mãe em coreano.
— Ah… — estava começando a pensar que deveria pelo menos pesquisar palavras básicas em coreano, assim não perguntaria tanto da próxima vez.

Foi empolgante conversar com Sunny, ela me contou muito sobre a igreja que seu pai era pastor, de como eram as reuniões e pregações dele, além de várias fotos dela com seu irmão aqui no Brasil. Ele já havia retornado para Coreia antes dela, e como era férias de verão em seu país, Sunny pediu aos pais para ficar mais uma semana aqui.

— Vejo que monopolizou a irmã do made in asian. — brincou Davi ao se aproximar de mim, assim que todos foram embora.

Como sempre, ficamos nós dois para ajudar Yasmin a limpar tudo e deixar a casa do jeito que estava, assim sua mãe não implicaria. Layla até queria ficar mais um pouco, porém tinha uma reunião com os líderes na igreja onde congregava.

— Do que está falando?! — parei de varrer o chão e o olhei.
— Da garota saída de um mangá. — explicou ele ainda em enigmas.
— O nome dela é Sunny. — corrigi ele.
— Foi o que eu disse. — ele riu — Monopolizou a garota, assim que se faz, primeiro conquista a cunhada, depois o crush… Que esperta.
— Ai Davi, é sério isso?! — bati de leve nele com o cabo da vassoura — Deixa de bobagens, não estou conquistando ninguém e ninguém é meu crush.
— Sei. — ele me olhou desconfiado.
— Não vou me dar o trabalho de te repreender mais. — voltei a varrer e ele começou a rir de mim.

De onde ele havia tirado isso?! Eu interessada em uma pessoa que nem tinha visto direito, só meu amigo para pensar nessas coisas. Atualmente nem estava pensando em coisas do tipo, minha vida sentimental era o último assunto do qual eu queria tratar com Deus, meu foco estava sendo meu batismo, ainda mais depois da ministração que havia feito hoje.

— A Lira não veio. — comentou Davi assim que chegamos em frente ao meu prédio.
— É. — concordei — Estou preocupada com ela, parece estar passando por muitas lutas na família, como não se abre, não sei como ajudar.
— Ore por ela. — disse ele olhando o relógio do pulso.
— Já estou fazendo isso, mas sabe aquela sensação que diz que ainda é pouco? — desviei o olhar para o céu.
— Fica em paz . — ele se afastou um pouco — Até mais.
— Até, não se esqueça que segunda à noite, tem reunião com meu pai aqui em casa, para todos os líderes e em treinamento.
— Sim sim, senhorita bom dia. — confirmou ele brincando.

Eu me virei para entrar e trombei em alguém.

— Me desculpa. — sussurrei de leve — Oh, Will.
— Estava distraída. — ele riu baixo — Tudo bem?
— Sim, e você? — perguntei — Não foi mais a célula, só estou vendo a sua avó.
— Ah, verdade, é que estou trabalhando a noite agora, fazendo estágio em um restaurante e tive que parar.
— Por um lado é bom, você está trabalhando, o estágio é da faculdade?
— Sim, eu faço gastronomia. — respondeu ele.
— Que legal. — tentei não demonstrar muita empolgação, mas tinha gostado muito de saber aquilo — Você conhece o Justino? — perguntei.
— Sim, o da oficina.
— Ele mesmo, está tendo uma célula na oficina toda cesta à tarde, se quiser ir, é só para homens. — disse.
— Legal, vou tentar ir lá. — ele sorriu — Eu estou atrasado para o estágio agora, nos vemos depois?
— Claro, bom trabalho. — disse me afastando um pouco mais dele.
— Obrigado. — ele se virou e caminhou em direção a sua moto que estava estacionada na calçada.

Eu entrei no prédio e chequei a caixa de correspondências, mais contas para pagar, como sempre. Quando entrei no apartamento, para variar, meu pai estava sentado no chão frente a mesa de centro escrevendo em seu inseparável caderno de esboços. Fechei a porta e me aproximei dele, lhe dando um beijo no rosto de surpresa.

— Bom dia, pai. — disse empolgada.
— Nossa, que animação. — ele voltou o olhar para mim — A que se deve isso.
— A benção de Deus na célula Josué! — disse me referindo a célula dos jovens.
— Olha, e foi esse o nome que deram a célula? — perguntou.
— Sim, porque somos fortes e corajosos. — expliquei.
— Glória a Deus. — ele sorriu — Sua amiga foi?
— Não, isso me deixou preocupada. — assim como eu, papai também intercedia pela vida dela e se preocupava.
— Deus está no controle querida, por ela ter ido pela manhã já foi uma vitória. — meu pai sempre tinha palavras de ânimo e positividade.
— Está certo. — me sentei ao seu lado — Sabe quem eu encontrei na portaria?
— Não… — ele voltou o olhar para o caderno — Quem?
— O Will do andar de baixo. — fiquei atenta a reação dele, que para minha surpresa foi apática.
— E? — naquele tom desinteressado de raras vezes.
— Ele disse que está fazendo estágio à noite, por causa da sua faculdade de gastronomia. — completei.
— Eu deveria achar isso legal?! — ele começou a escrever alguma coisa no caderno.
— Claro, chefe Jonas é gastronomia. — disse em meu argumento óbvio.
— E esse fato deveria me fazer começar a gostar dele? — ele retirou o óculos que estava em seus olhos e virou seu olhar sereno para mim.
— Xeque-mate. — disse em um tom alto — Você não gosta dele.
— Não foi isso que eu disse. — retrucou, arqueando a sobrancelha direita.
— Mas foi isso que deu a entender. — retruquei de volta.
— Aonde quer chegar mocinha?! — ele tombou a cabeça de leve.
— Só queria saber por que não gosta dele. — expliquei.
— Não é que eu não goste, este rapaz só não me passa confiança.
— O senhor nem dá uma chance pra isso.
— Por que quer tanto que eu dê? — seu olhar de desconfiança apareceu — Está interessada no rapaz? Sabe que…
— Eu sei pai, corte só com 17 anos no mínimo. — o interrompi — Seu muito bem das regras, e concordo com todas elas, não quero aprender com meus erros, os dos outros já é suficiente.
— Por isso é uma filha de ouro. — ele piscou e voltou sua atenção para o caderno.
— Mas isso não quer dizer que não vou me interessar por ninguém. — me levantei depressa — Vou para meu quarto.

Ele permaneceu em silêncio, mas parecia pensativo no que havia dito, era certo que não estava mesmo pensando em ter uma corte ou um namorado, nem tinha tempo para isso, mas se fosse para escolher, acho que Will poderia estar na lista de possibilidades.

— Eu coloquei minha vida sentimental em suas mãos Deus… — sussurrei ao entrar no quarto — Senhor das suas mãos eu não quero tirar, se não vai dar ruim.

Claro que daria, afinal, o ser humano sempre fazer besteiras na vida.

Os dias se passaram e a reunião que era para ser na segunda, acabou sendo remarcada na terça, pois eu e papai tivemos que fazer um atendimento de urgência. Uma jovem, sobrinha do marido da dona Muriel, havia tentado suicídio, mas felizmente conseguiram socorrer ela às pressas e levá-la ao hospital. Meu pai me pediu para ir junto com ele, já que a jovem não queria conversar com ninguém, talvez outra pessoa de sua idade e que não a conhecia, poderia deixá-la menos intimidada que a família.

Ela estava instalada em uma das macas na enfermaria, somente uma pessoa poderia entrar. Eu não sabia se era capaz realmente de ajudar, havia passado todo o caminho até o hospital em oração constante, tinha até levado meu violão que vou barrado na portaria. Não custava nada tentar. Assim que entrei, a enfermeira me guiou até a maca onde ela estava, ligada a alguns aparelhos e com uma agulha em seu braço levando o soro para seu organismo. Era uma jovem bonita, cabelos cacheados com mechas vermelhas e traços um pouco delicados, certamente com um futuro lindo, que quase foi interrompido.

— Bom dia Mia. — disse a chamando pelo apelido.
— Quem é você? — perguntou ela.
— Sou , filha do pastor Jonas, da célula na casa da dona Muriel. — expliquei me aproximando um pouco mais.
— Ah… Veio fazer o que aqui? Me repreender pelo que fiz, como eles? — disse ela num tom amargo.
— Não. — sorri para ela gentilmente — Vim para saber como realmente está, internamente.
— Não preciso de ajuda, ninguém pode me ajudar. — ela virou sua face para o outro lado.
— Tem razão. — eu me sentei de leve na beirada da sua cama — Ninguém pode te ajudar, ninguém aqui na terra… Mas existe uma pessoa no céu, que te ajudou há 2018 anos atrás, que não permitiu que sua vida se encerra-se, essa pessoa jamais desistiria de você.
— Está falando de quem? Deus? — ela voltou seu olhar para mim, senti uma certa mágoa naquela expressão de sua face — Certamente ele nem lembra que existo, se lembrasse, eu não viveria a vida que vivo.
— Posso dizer que está enganada? — perguntei, mais afirmando.
— O que?! — ela ficou confusa.
— Quando Cristo morreu, ele não disse que morreria por todos exceto pela Mia. — aquele argumenta era bom — Não é isso que está na Bíblia.
— E o que está nessa bíblia? — perguntou ela.
— Em João 16:33, diz “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” — expliquei — Às vezes, quando estamos passando por tempos difíceis, achamos mesmo que estamos sozinhos e desamparados, sentimos que até o ar que respiramos nos oprime… Mas existe um amor tão forte e profundo, que é capaz de superar todas as dificuldades e te envolver de uma forma que você se sente segura de tudo que possa te atingir.
— Eu não acredito em religiões. — disse ela relutante.
— Não vi pregar nenhuma religião, eu vim com o meu amigo para apresentá-lo a você. — respondi com confiança.
— Quem é o seu amigo moça? — perguntou a senhora que estava na maca ao lado, percebi que ela estava atenta a cada palavra minha.
— Espírito Santo. — respondi — Ele é o nosso consolador, nosso fôlego de vida, nosso amigo enviado por Jesus para nos acompanhar em todos os momentos de nossa vida.
— Eu posso conhecer ele também?! — continuou ela.
— Claro. — sorri de leve — Você também quer conhecê-lo Mia?!
— Não sei, eu fiz tantas coisas erradas…
— Seu passado não importa para Deus, Ele está esperando para fazer um presente e futuro novo e alegre com você. — respondi.
— Hum… Pode ser então.
— Estou sem meu violão, mas vai dar certo.

Eu respirei fundo e fechei meus olhos. O louvor era a melhor forma que eu tinha de ministrar o amor de Deus, então faria o meu melhor.

Em Teus braços, eu vou me entregar… Os meus medos, eu deixo aos pés do altar… Todos os planos meus, hoje eu entrego a Ti… Toma o Teu lugar, Tu és bem-vindo aqui... — comecei a cantar, mantendo minha voz suave e numa altura mediana — Vem sobre nós, manda Tua chuva nesse lugar… Em Tua presença, vou me derramar… E declarar que és Santo, Deus… O som do céu, vamos ouvir… Sopra Teu vento suave hoje aqui… Vou declarar o único nome que salva...Jesus

Sim, Jesus é o único.
Fiquei mais um bom tempo conversando com Mia, tendo algumas interrupções da senhora ao lado que acabou pedindo sua filha para pegar meu telefone. Eu não queria entrar no assunto que levou Mia a fazer aquilo, senti que era algo bem particular que não deveria ser lembrado naquele momento. Fiquei feliz, pois havia arrancado pelo menos um sorriso de seu rosto, algo que me deixou aliviada e feliz também. Mesmo sabendo dos problemas que ainda a aguardavam fora do hospital, Mia agora sabia que não estava sozinha, Deus estaria sempre ao seu lado. Além de mim é claro. Ela perguntou se poderia me ligar caso precisasse, disse sim, sem hesitar.

Em meio àquela conversa, percebi que Mia assim como muitas pessoas não precisavam de dedos apontando para ela, ela precisava somente de uma mão estendida que fosse capaz de ajudá-la verdadeiramente. Além de um abraço reconfortante e acolhedor.

— Obrigado querida. — disse meu pai dentro do ônibus.
— Pelo que?! — o olhei.
— Por ajudar a Mia. — disse ele.
— Eu não fiz nada, só fui instrumento nas mãos do Senhor, foi o Espírito Santo que fez tudo. — disse entregando toda a glória a Deus, pois era mesmo dEle somente.
— Isso me deixa ainda mais feliz filha. — ele me olhou e sorriu — Ver como Deus te usa de forma sutil e serena.
— Também estou feliz, sinto que a Mia terá uma boa noite de sono hoje. — assegurei — Ela aceitou conhecer Jesus.
— Que bom, espero que essa jovem possa conhecê-lo e ver o quão grande é o amor dEle por ela. — concordou ele — E quanto a senhora ao lado, ouvi a enfermeira dizendo sobre isso.
— Aquela senhora disse que assim que sair do hospital, vai visitar a célula na casa da dona Muriel. — comentei — Gostei de tê-la conhecido, seu nome é Isabel, ela também disse que queria conhecer Jesus.
— Como Deus nos surpreende…
— Demais.
— Hum… Estava aqui pensando.
— No que?! — o olhei novamente.
— Quer ir comigo ao mirante orar hoje? — perguntou com um olhar de entusiasmo.
— Sério?!
— Sim, me bateu uma vontade de fazer isso.

Assentiu com o rosto e voltei meu olhar para a janela do ônibus. Meu pai ligou para o obreiro Zé, convidando ele e a família, porém só Davi aceitou ir. Nos encontramos com ele na porta do parque Mangabeiras, ficamos esperando enquanto meu pai conversava com um dos guardas. Como ele já conhecia a Layla e alguns pastores que também iam lá à noite para orar, o guarda consentiu nossa subida e avisou que já tinha um grupo de pessoas no mirante.

Subimos no ônibus especial do parque, quando chegamos, vimos um grupos de cinco pessoas já deixando o lugar e outro grupo de sete ainda orando espalhadas. Meu pai sugeriu que fizéssemos uma oração conjunta de entrada, depois cada um foi para seu canto. Fiquei próximo à escada, com as mãos apoiadas no guarda-corpo de madeira, elevei meu olhar para o céu estrelado.

— Obrigado Senhor. — sussurrei — Pelo dia de hoje, pelo que o Senhor fez através da minha vida, obrigada por cada oportunidade que me dá de ser usada como um instrumento em suas mãos.

Senti as lágrimas se formarem no canto dos meus olhos.

— Que eu possa sempre, ser um referencial de uma verdadeira cristã para as pessoas em minha volta. — continuei — Que através de mim, todos possam sentir cada vez mais seu indestrutível e incondicional amor.

A primeira lágrima caiu de meus olhos, logo meu coração se acelerou sem explicação. Uma leve brisa passou por mim, me fazendo sentir como se alguém estivesse me abraçando, então fechei os olhos e comecei a cantarolar… Até que a canção exata que Jesus queria, surgiu em minha boca.

Não há nada igual… Não há nada melhor… A que se compara à esperança viva… Tua presença… — comecei num tom baixo e suave, não iria me limitar, deixaria meu corpo e minha oração totalmente no controle de Deus — Eu provei e vi… O mais doce amor… Que liberta o meu ser… E a vergonha desfaz… Tua presença… — mais e mais meu coração foi sentindo uma sensação de conforto e aconchego, uma paz que me envolvia de uma forma inexplicável e surpreendente — Santo Espírito, és bem-vindo aqui… Vem inundar, encher esse lugar… É o desejo do meu coração… Sermos inundados por Tua glória, Senhor…

De repente, todo o barulho externo desapareceu e um silêncio pairou sobre mim, internamente meu coração continuava acelerado com aquela brisa passando por meu corpo. Se aquele momento era a minha chance de agarrar o Espírito Santo e finalmente ser batizada por ele, me entregaria totalmente sem reservas ao Senhor.

"Holy spirit you are welcome here
Espírito Santo és bem-vindo aqui
Come flood this place and fill the atmosphere
Vem inundar este lugar e encher a atmosfera
Your glory God is what our hearts long for
Sua glória, Deus, é o que nossos corações anseiam
To be overcome by your presence lord
Sermos dominados pela sua presença, Senhor"
- Holy Spirit / Jesus Culture



II Samuel

"Este é o Deus cujo caminho é perfeito; a palavra do Senhor é comprovadamente genuína. Ele é escudo para todos os que nele se refugiam."
- 2 Samuel 22:31

- x -

Em I Samuel, descobri que quando nos entregamos totalmente a Deus, Ele derrama seu amor e sua presença sobre nós sem reservas também. Segundo meu pai, a noite anterior no mirante eu havia finalmente recebido o batismo com o Espírito Santo, ele conseguia sentir a intensidade da presença de Deus em mim só de chegar perto. Eu não consegui sentir nada de imediato, mas sabia que meu pai estava sendo sincero comigo, lá no fundo a certeza que havia algo diferente em mim estava lá. Até Davi afirmou que havia me ouvido orar em línguas, algo que me deixou ainda mais extasiada.

— Bom dia Espírito Santo! — disse ao acordar me espreguiçando — Eu dormi maravilhosamente bem, e o Senhor?

Mantive meus braços abertos e abracei meu próprio corpo. Segundo meu pai, como nosso corpo é templo do Espírito Santo e Ele vive em nós, sempre que nos abraçamos a nós mesmo, estamos abraçando o próprio Deus. Então, comecei a fazer isso todas as manhãs ao acordar, assim teria mais um momento de intimidade com o Pai.

Intimidade.
Essa era minha nova jornada, não adiantaria receber o batismo não buscar pela intimidade, um era ligado ao outro. Me virei ficando ajoelhada na cama e comecei a fazer minha oração matinal, finalmente entreguei meu jejum pois o propósito de ser batizada já havia sido respondido. Porém, por um pedido direto de Deus, iniciei um novo jejum, onde passaria 71 dias sem comer carne vermelha, em busca da minha intimidade com o Senhor.

— Bom dia pai. — disse ao sair do quarto e vê-lo mexendo no celular no corredor, ainda estava meio sonolenta.
— Bom dia princess. — respondeu ele mantendo sua atenção no aparelho — Acordou cedo hoje.
— Que horas são? — perguntei.
— Oito ainda, porque? Vai voltar a dormir?
— Não, eu vou a casa da Lira, não consigo falar com ela desde sábado, continuo preocupada com ela. — respondi.
— Hum… A dona Muriel me ligou esta manhã, disse que a Mia está mesmo bem melhor. — me informou, virando seu olhar para mim — Mande uma mensagem a ela depois.
— Vou sim! Vou convidá-la para visitar a célula de jovens. — assenti girando a maçaneta do banheiro.
— Quer café?
— Aceitaria se fizesse. — entrei no banheiro rindo.

Somente um café da manhã reforçado para me acordar. Aquele era um daqueles dias que a gente acorda com uma vontade infinita de não sair da cama, já havia alguns dias que estava sentindo um enorme cansaço físico e mental. Quanto mais eu orava pedindo forças, parecia que mais coisas para fazer iam surgindo pelo caminho, sugando minhas energias.

— Revigorante. — sussurrei ao tomar o primeiro gole, da minha mistura de café, com leite e achocolatado.
— Não sei como consegue beber isso. — meu pai me olhou fazendo careta, enquanto segurava sua xícara de café puro.
— Do mesmo jeito que consegue tomar café sem açúcar. — respondi tranquilamente — Cada um com seu gosto.

Ele continuou fazendo careta e riu.

— Não esqueça que mais tarde teremos reunião com os líderes. — disse ele — Li no quadro de avisos do meu quarto.
— Se eu não tivesse colocado lá, teria esquecido. — constatei.
— Seu pai já está ficando velho demais para se lembrar das coisas, sabia?! — ele me olhou.
— Pede a Deus para renovar sua memória então. — retruquei.
— Ah garota. — ele tomou outro gole.
— Eu não vou demorar, só quero mesmo saber se Lira está bem.
— Qualquer coisa, me liga.
— Sim, chefe Jonas. — bati continência brincando — Teremos algo especial para o almoço?
— Então, aprendi com uma senhora que estava na recepção do hospital, a fazer torta cremosa de cebola. — contou com satisfação.
— Ah, e deu tempo pra isso?! — o olhei admirada.
— Acredite, a gente estava conversando sobre Rute e Noemi, quando ela contou que tinha feito um desafio com Deus, através dessa torta. — explicou ele — Fiquei impressionado, tanto com a história dela, quanto com a receita que é super fácil.
— Ata, legal. — eu ri — Vou pegar minha bolsa e ir.

Terminei de tomar o último gole da xícara e voltei para o quarto. Conferi se minha identidade estava na carteira que havia colocado dentro da bolsa, ajeitando-a no ombro saí. Fui caminhando devagar mesmo, o sol estava bem quente, então catei todas as sombras que encontrei pelo caminho. Finalmente cheguei em frente ao beco que sempre me separava de minha amiga, atravessei aquela rua pela primeira vez até chegar lá.

— Bom dia senhora. — disse ao me aproximar da avó de Lira, que como sempre, estava na rua — Poderia me dizer onde a Lira mora?
— O que você quer com ela?!

Não era exatamente essa resposta que esperava.

— Eu sou a amiga dela, estudamos juntas, só quero saber onde ela mora. — expliquei.
?! O que faz aqui? — aquela sim era a voz que que queria ouvir.
— Oi Lira, bom dia. — voltei meu olhar para o lado, vendo minha amiga com uma sacola na mão — Podemos conversar?!
— Não vá levar estranhos para dentro de casa menina. — gritou a velha senhora ao meu lado, agindo como se eu nem estivesse ali.

Desagradável.

— Espera só um instante. — disse Lira, seu olhar pude notar que ela não tinha nem forças para retrucar as palavras da avó.

Eu me afastei daquela senhora e quando me virei para sair do beco, trombei em alguém.

— Me desculpe. — tentando me desviar, torci de leve o pé, quase caindo, então senti a mão da pessoa me segurar — Obrigado.

Levantei minha face e reconheci aquele rosto, era de Joseph.

— Tenha cuidado. — foram suas únicas palavras, antes de soltar meu braço e seguir adentro.

Fiquei um pouco paralisada até Lira me fazer voltar a realidade.

— Está tudo bem? — perguntou ela.
— Hum?! — a olhei ainda em transe — O que?
— Perguntei se está tudo bem. — repetiu.
— Eu é que pergunto. — disse num tom mais elevado, me despertando.
— Fale mais baixo. — ela me deu o braço e me arrastou para fora do beco — Não quero conversar com você perto dela.
— Ah… — disse entendendo — Me desculpa.

Nos afastamos o máximo que conseguimos e sentamos no meio fio da rua.

— Por que você sumiu? Fiquei preocupada. — disse de imediato.
— Tivemos alguns problemas. — respondeu ela num tom desanimado.
— E minhas mensagens? Não respondeu nenhuma.
— Tive que vender meu celular. — explicou — Acho que vai demorar um pouco para ter outro.
— Estão passando por problemas financeiros também?! — perguntei.
— Sempre passamos. — seu olhar triste se desviou para a rua — O que mais me deixa chateada são os comentários da minha avó sobre a mamãe.
— Quer falar sobre isso?
— Não, prefiro esquecer. — mais uma vez ela guardava seu sofrimento para si.

Gostaria que Lira se abrisse comigo, pelo menos para desabafar.

— Eu tenho que voltar. — disse ela se levantando.
— Meu pai vai fazer mais algumas mudanças nas células, eu te falei que já mudamos a dos Jovens da casa da Yara para a casa da Yasmin. Não é?
— Falou sim.
— Vamos abrir outra na casa da Madu, na sexta à noite. — comentei — Já que sábado está sendo difícil pra você, pode ir na sexta então.
— Não sei, acho que só poderei ir com a minha mãe se ela for em alguma. — disse ela — Nós falamos sobre isso depois.
— Depois?! Quando?!
— Depois. — Lira se afastou de mim sem mais explicações indo em direção ao beco.

Naquele momento, senti uma certa raiva da avó dela, pois certamente era a causa de toda aquela confusão e demais problemas. Voltei para casa meio contrariada, queria entender o que estava acontecendo com a minha amiga, eu sabia que o único que poderia resolver isso, era Deus. Então, assim que cheguei no apartamento, me tranquei em meu quarto e fui orar, estava revoltada demais e tinha que colocar isso para fora, nada melhor do que conversar com Jesus e expor minhas frustrações e questionamentos.

- x -

— Paz do Senhor a todos. — disse meu pai, assim que a última pessoa chegou em nosso apartamento — Me desculpe pela falta de espaço, mas vai dar certo.
— Fica em paz pastor. — disse Zé despreocupado.
— Os reuni aqui, pois temos que começar nosso discipulado14, já mencionei a vocês sobre o que seria, mas explicarei melhor daqui a pouco. — iniciou ele permanecendo de pé, perto da porta — Primeiramente, vamos orar e entregar a direção de tudo nas mãos de Deus.

Formamos um círculo e logo papai pediu para que o obreiro Zé fizesse a oração de início. Meu pai começou agradecendo a todos, por terem se colocado disponíveis para fazer a obra e pela dedicação que vem demonstrando. Depois tirou algumas dúvidas que surgiram sobre a abertura da igreja, segundo ele, o Senhor ainda não havia dado sinal positivo para isso, nossa missão era continuar comprometidos a fazer um bom trabalho nas células.

— Nós somos a verdadeira igreja… — disse ele baseado na palavra — Chegará o dia em que as igrejas físicas serão fechadas, mas as portas das casas das pessoas não podem ser fechadas, por isso a célula é importante para o crescimento da igreja, faz parte também da história. — continuou — Quando os discípulos eram perseguidos, eles pregavam a palavra nas casas das pessoas, foi assim que o amor de Cristo pode ser levado a quem necessitava.

Felizmente, nossas células tinham qualidade e quantidade, até mesmo os louvores no intervalo das aulas na escola, estavam progredindo. Com a mudança da célula de jovens para casa da Yasmin, no sábado à tarde, tanto ela como Isla seriam levantadas como líderes em treinamento. O treinamento que fiz com Davi e Yara já havia terminado, e meu pai consentiu a abertura da célula de adolescentes na casa da Yara e outra célula de jovens liderada por Davi, sexta à noite na casa da Madu, sobrinha da dona Muriel e irmã da Mia.

A célula de quinta na casa do obreiro Zé e do senhor Soares continuaria normalmente, assim como no sábado à tarde na casa da dona Muriel. O Justino já estava sendo treinado pelo Zé, em sua célula para homens na oficina, assim como a Mira estava sendo treinada pela tia Kátia na célula que abriram na quinta de manhã no seu salão de beleza. Contando com a célula kids de sábado na casa da Esther, que também já estava sendo treinada por mim, tínhamos um total de nove células agora, com a possibilidade de abrir mais três assim que os líderes em treinamento se graduarem.

— Você vai na inauguração da minha célula né? — perguntou Yara ao se aproximar de mim, após meu pai fazer a oração final.
— Claro que vou, Davi vai ministrar no meu lugar na célula da Yasmin. — respondi — Você se lembra disso né Davi?
— Claro que lembro. — disse ele encostado na parede do meu lado, mexendo no celular.
— O que tanto ele mexe ali? — perguntou Yara curiosa.
— Jogando com certeza. — respondi rindo.
— Desta vez não. — ele colocou o aparelho no bolso — A Layla me enviou uma mensagem, estava lendo.
— E podemos saber? — perguntei curiosa.
— Claro, vai ter um congresso só para líderes de jovens e adolescentes, ela nos convidou! — respondeu ele com empolgação.
— Uau, vai ter que pagar algo? — perguntou Yara.
— Não, para convidados é grátis! — respondeu ele.
— Eu ouvi congresso?! — perguntou Yasmin ao se aproximar de nós — Coloca meu nome na lista.

Nós rimos dela.

— Fomos convidados sim, para um congresso de líderes de jovens. — confirmei.
— Glória a Deus. — disse Yasmin, se apoiando no ombro de Davi — E vai ser quando?
— Sexta, sábado e domingo da última semana de julho, bem no final das férias. — respondeu ele.
— Hum… Isso é bom. — disse Isla com um pedaço de torta na mão, ao se aproximar.
— De onde essa menina saiu? — perguntou Yara ao se assustar com a chegada repentina dela.
— A pergunta certa é, de onde essa torta saiu? — disse Yasmin como se começasse a salivar — Eu também quero.
— Foi a tia Kátia que trouxe. — respondeu Isla tranquilamente.
— É, minha mãe disse que reunião de crente sem comida não é reunião de crente. — confirmou Davi rindo.
— Ah, eu vou pegar um pedaço pra mim, eu amo torta de frango. — Yasmin de afastou indo em direção a cozinha.
— Pega um pedaço pra mim também. — gritou Yara.
— Vem pegar sua folgada. — Yasmin riu dela.
— Egoísta. — retrucou Yara, nos fazendo rir também.
— Quando o assunto é comida, com a Yasmin é cada um por si. — brincou Davi.
— E você não vai pegar não?! — perguntei.
— Acha mesmo que ela não deixou alguns pedaços guardados no forno lá em casa? A janta está garantida. — ele piscou e riu — E você?
— Estou sem fome agora.
— Não sabe o que está perdendo. — disse Isla — Essa torta é de Deus, tia Kátia cozinha muito bem.
— Isso eu concordo. — disse desviando o olhar para a sala.

Estávamos meio apertados conversando na porta do corredor, mas como os adultos tinham monopolizado o sofá da sala e a pequena cozinha, só restou para nós aquele lugar do apartamento.

— Como comer é bom. — disse Yasmin ao se aproximar, já indo morder novamente seu pedaço de torta.
— E o meu? — perguntou Yara.
— Nem deveria ter trago. — Yasmin esticou a outra mão, mostrando o pedaço que tinha pego para ela.
— Vigia irmã. — disse Yara — Deus manda repartir o pão.
— Isso mesmo, Ele disse o pão e não a torta de frango. — retrucou Yasmin, nos fazendo rir.
— Nossa, se vocês duas fossem irmãs, não implicam tanto uma com a outra.
— Mas a Yasmin é minha irmã em Cristo. — Yara piscou de leve — Ela já me adotou como irmã mais nova dela.
— Fazer o que, Deus viu que a minha vida estava muito tranquila sendo filha única, aí me mandou a Yara pra dar uma girada no manto. — brincou ela.
— Nossa, deve ser um máximo ser filho único. — comentou Isla — Eu tenho um irmão mais velho e um mais novo, sou a única garota, é cansativo.
— Eu tenho minha irmã mais velha e ela é meio individualista. — reclamou Yara.
— Eu gostaria de ter uma irmã, mas meu pai decidiu que não quer se casar de novo. — comentei de forma espontânea.
— Sua mãe não quis ter mais filhos quando estava viva?!
— A saúde dela não permitia nem me ter na época que nasci. — expliquei — Mas aprendi que ser solitária não é tão chato assim, além do mais, eu tenho o Davi agora.
— É, eu adotei ela como irmã mais nova. — concordou Davi.
— Sério?! — Isla nos olhos surpresa — Gente, eu já estava até shippando vocês dois.
— Não. — eu e Davi falamos juntos.
— Como não?! — Yasmin nos olhou assustada.
— Eu e Davi não temos nada a ver. — ri meio sem graça pelo comentário delas — Ele é realmente como um irmão chato que nunca tive.
— Obrigado pela sinceridade do chato. — ele me olhou fazendo drama.
— É, realmente, vocês não tem nada a ver. — concordou Yara — Eu vejo o Davi com aquela meninas que não gostam de piadas sabe, muito sérias e duronas.
— Misericórdia de mim. — ele fez uma careta engraçada.
— Às vezes os opostos se atraem, vi isso numa pregação do pastor Cláudio Duarte. — comentou Isla.
— As pregações dele são maravilhosas, teve um dia que eu quase passei mal de tanto rir. — concordou Yasmin — Você já viram uma que ele conta a história do cachorro da esposa dele?
— Eu já vi essa. — disse de imediato — É muito boa essa, no final o cachorro voltou pra esposa dele.
— Eu acho que já vi umas cinco pregações diferentes dele com essa história do cachorro, mas todas tinham um link que encaixava bem. — comentou Isla — Como que ele fala? Em briga de marido e mulher, o homem não participa.
— Eu estou guardando essa filosofia para vida. — comentou Davi pegando novamente no celular — Tenho tantas frases de efeito dele anotadas aqui.
— Eu vejo mais as pregações do pastor Lucinho Barreto. — disse Yara ao terminar de comer seu pedaço de torta — Eu riu demais com ele também.
— Eu já vi uma ao vivo, fui no Confra Jovem do ano passado. — Isla pegou o celular — Ainda tenho algumas fotos aqui, só não sei onde enfiei.
— Estou curiosa gente, o pastor Jonas disse que no próximo discipulado ele iria falar sobre a corte. — Yara lançou seu olhar curioso para mim — Adianta para gente o que é isso?!
— Ai gente, não posso passar por cima do meu pai, se ele vai falar com vocês. — tentei dar uma desculpa, mas todos me olhavam intrigados.
— Não precisa explicar tudo, só adianta. — insistiu Isla.
— Então, a corte é uma visão de namoro cristão que a nossa igreja de São Paulo tem. — expliquei vagamente — Onde o casal se compromete a fazer uma corte no estilo de antigamente, nada de beijos e amassos, somente aperto de mão e no máximo um abraço respeitoso.
— Hum… Igual a corte de a pastora Sarah Sheeva falou no canal dela um dia. — comentou Yasmin — Vejo muito os vídeos dela também, tem um que ela fala que cristão deve namorar assim para não dar vazão aos desejos da carne.
— É realmente difícil ter um relacionamento baseado inteiramente na Bíblia nos dias de hoje. — concordou Isla.
— Essa é a visão da corte, ajudar a ter um namoro cristão em que Deus esteja inteiramente no controle. — conclui — Não é fácil, mas também não é impossível, vi vários casais de líderes que fizeram corte até o casamento e conseguiram.
— O legal é que, quando não envolve atração física, sobra espaço pra gente conhecer mais a outra pessoa. — afirmou Isla — Eu tive um namorado uma vez, que só fui descobrir que ele não tinha pai, quando terminamos.
— Credo. — Yara a olhou — Como assim? Essa geralmente é a primeira coisa que eu perguntaria, iria querer conhecer a família toda.
— Digamos que nosso relacionamento era realmente só atração. — confessou Isla — Mas isso foi antes de eu converter, depois descobri que tinha que me valorizar mais, porque eu não era fácil não.

Nós a olhamos admirados.

— Voltando ao que interessa... — Yara voltando ao assunto — A corte tem tempo determinado?
— Hum, depende, eu acho. — disse — Na outra igreja, só para começar a fazer a corte, o pastor pedia três meses de oração e jejum.
— Nossa. — Yasmin me olhou boquiaberta.
— Pois é, aí depois o pastor dá a benção para iniciar a corte, geralmente estipula de seis meses a um ano, pra ver se realmente o casal é compatível com tudo, se conheceram, sabe os defeitos um do outro. — fui explicando — Aí se quiserem continuar, você podem optar por continuar fazendo a corte tradicional, sem contato físico só de mãos dadas, ou ir pro namoro tradicional com beijos moderados.
— Hum… Eu acho que iria fazer a corte até o fim, só pra ver se consigo. — Yasmin riu de leve — E você Isla?!
— Depois de cada traste que passou pela minha vida, se a corte é garantia de que vou fazer a coisa certa, faria até o casamento. — respondeu ela segura — Até porque, não quero me casar com uma pessoa sem saber seus defeitos, imagina que surpresa desagradável se após a lua de mel eu descobrisse algum defeito dele que eu não suporte.
—Verdade. — concordou Yasmin — Eu vi uma pregação do pastor Cláudio Duarte, que ele fala que a gente pode casar com uma pessoa que tem 99 defeitos que a gente tolera, mas se a gente casa com uma pessoa que tem 1 defeito que mata a gente de raiva, é luta atrás de luta.
— Eu vi essa pregação, tanto que ele fala que odeia quando uma mulher assobia, por isso ele pediu a Deus pra casar com uma mulher que não soubesse assobiar. — concordei me lembrando da pregação — Eu fiquei admirada.
— Eu não tiro a razão dele, eu não me casaria com um homem que não gosta de cachorros. — observou Isla — Gente eu amo cachorros, tenho três, quando eu tiver minha casa, vou querer ter mais que isso, imagina.
— Benefícios da corte. — argumentei — Você poderá conhecer a pessoa melhor, e se o rapaz mentir, Deus faz ele cair em contradição.
— Eu acho que não me casaria com uma pessoa que me critica o tempo todo. — disse Davi com sua atenção voltada para o celular — Menos ainda que me proíba de jogar meus games.
— Olha Davi, você ainda está vivo. — brincou Yara.

Ele lançou um olhar atravessado para ela, que nos fez rir.

— Estou ouvindo toda a conversa de vocês, acho que preciso treinar mais um varão, assim não fico louco no meio de tanta garota faladeira.
— Como se você não fosse comunicativo também. — retrucou Isla.
— Mas o que ele disse tem fundamento. — me pronunciei — É chato conviver com alguém que te critica por tudo que você faz.
— Isso é verdade. — Yara concordou — O namorado da Karla faz isso com ela, sempre que vejo os dois junto, aquele chato está criticando alguma coisa que ela esteja fazendo.
— Nossa que tristeza. — Isla fez uma careta — Eu já tinha despachado ele.
— E o pior é que os dois estão na mesma turma da faculdade. — Yara suspirou fraco — Nem dá pra fugir muito.
— Hum… Se eu for olhar por esse ângulo… — Yasmin ficou pensando um pouco — Acho que eu não me casaria com um homem religioso.
— Como assim? — perguntou Isla.
— Sabe aquela pessoa que fica baseando a vida dela em doutrinas e mais doutrinas, esquece que o centro de tudo é Cristo, que nosso foco é Jesus, tipo aquele fariseu, da parábola do fariseu e o publicano, no livro de Lucas. — explicou ela mais detalhadamente — Tenho horror de gente assim, acha todo mundo pecador e ele é o santo.
— Essa foi forte… — disse Yara — Eu acho que pra mim…
— Pra você nada. — Davi a cortou de imediato — Adolescentes não devem pensar em corte, você está na idade de estudar.
— Virou meu pai? — Yara o encarou.
— Sim. — brincou ele.
— Apesar do Davi está certo, é bom que você comece a orar por sua vida sentimental desde agora. — a defendi em partes.
— Tem idade certa para corte? — perguntou Yasmin.
— Sim, lá em São Paulo era a partir dos 17 anos, acho que meu pai vai continuar com essa visão. — respondi de acordo com o que eu sabia.
— Vou poder fazer corte então! — Yasmin fez uma dancinha de animação.
— E você já tem um varão em mente? — perguntou Isla.
— Também estou curiosa. — disse.
— Sabe o Pietro que vai na célula da casa do senhor Soares? — respondeu ela — Ele está indo na nossa célula de jovens agora, temos conversado um pouco nos momentos de comunhão.
— Ohhhhhh. — dissemos em coral.
— Se for ter mesmo essa coisa de corte, vou perguntar se ele aceitaria. — completou Yasmin com um sorriso largo.

Nós brincamos um pouco com ela, pois certamente seriam o primeiro casal a fazer corte sobre a cobertura do meu pai. Tivemos um bom momento de comunhão aquela noite, os últimos a irem embora, foi a família do Zé, tia Kátia fez questão de ajudar a arrumar tudo antes de saírem.

— Estou satisfeito por hoje. — disse meu pai se sentando no sofá, assim que fechou a porta a trancando.
— Confesso que pensei que não caberia todo mundo aqui. — tomei o último gole de água e deixei o copo na pia — Mas foi legal.
— Gostei de você ter dado a ideia dos jovens sentarem no chão. — comentou ele se espreguiçando no sofá.
— O que importa é que todos se acomodaram bem e estavam animados também. — voltei para sala e me sentei ao seu lado.
— Deus sempre promete o que cumpre. — disse ele do seu jeito engraçado.
— Cumpre o que promete. — o corrigi rindo.
— Foi o que falei. — ele riu junto.
— Fala do que? — indaguei curiosa.
— Lembra daquele dia que te falei sobre mudarmos pra cá?! — iniciou.
— Lembro, como se fosse hoje. — inclinei minha cabeça sobre seu ombro.
— Quando voltamos da igreja para casa, aquela senhora parou em nossa frente e disse para não ficarmos com medo e seguir para onde Deus mandou, porque ele iria levantar pessoas para nos ajudar. — completou ele — Eu só agradeço a Ele, por jamais me deixar duvidar.

Permaneci em silêncio pensando sobre aquilo. Não que eu tivesse duvidado, só não me sentia preparada para passar por tudo aquilo que passamos esses seis meses, desde quando descobrimos da mudança. Era confortável nossa rotina em São Paulo, mas uma mudança drástica como aquela, serviu para aumentar ainda mais a amizade e cumplicidade que tinha com meu pai.

Toc toc

Um barulho batendo na porta soou, deixando nós dois intrigados. Meu pai se levantou e foi abri, eu me levantei junto e fiquei pouco mais atrás observando, assim que a porta abriu, o rosto triste e inchado de lágrimas de Lira apareceu. Comecei a me perguntar o que ela estaria fazendo àquela hora da noite.

— Lira. — disse surpresa.
— Posso entrar?! — perguntou ela num tom super baixo, se encolhendo.
— Claro. — meu pai abriu mais a porta e me olhou.

Aquele olhar já dizia tudo. Lira seria de inteira responsabilidade minha, já que certamente ela não iria se sentir confortável conversando com ele.

— Aconteceu alguma coisa?! — perguntei segurando sua mão e a puxando mais pra dentro, para não ficar encolhida do lado da porta.
— Eu não quero mais ficar lá. — disse ela começando a lacrimejar novamente — Não quero mais morar com aquela velha.

Eu olhei para meu pai, que já demonstrou preocupação em seu rosto, certamente estava notando a angústia que Lira transmitia.

— Pai, poderia fazer um chá pra gente?! — perguntei.
— Claro. — disse se prontificando.
— Vamos para meu quarto, assim podemos ficar mais confortáveis.

Continuei segurando em sua mão e a guiei até meu quarto.

— O que aconteceu realmente?! — perguntei assim que sentamos em minha cama.
— Minha avó brigou novamente com a minha mãe, e claro que um dos motivos era eu. — a primeira lágrima já caiu de seu rosto — Eu não sei porque ela me odeia tanto assim, eu nunca fiz nada, sempre sigo suas regras e ainda assim ela implica comigo e com a mamãe.
— A relação da sua avó sempre foi assim com vocês? Me lembro de vocês ter mencionado isso uma vez. — comecei a tentar me aprofundar ainda mais naquela caixinha de mistérios.

Já que Lira havia ido até a minha casa naquela hora, é por que estava disposta a pedir ajuda, então estava na hora de fazer ela desabafar, por mais que isso a fizesse chorar e que doesse.

— Sim, ela nunca gostou da mamãe e sempre saiu contando para todos que eu era uma bastarda, que não era filha do meu pai. — confirmou ela deixando as lágrimas saírem — Minha mãe sempre tentou agradar ela, mesmo não estando mais junto com meu pai, somos obrigadas a morar lá, porque não temos dinheiro para pagar outro lugar… Minha mãe sempre trabalha demais como faxineira, porque por minha causa deixou passar todas as oportunidades que teve na vida… Eu me sinto tão mal por isso.
— Não se sinta assim… Tenho certeza que sua mãe não se arrepende de nada que faça por você, mães são assim, sempre pensam nos filhos. — disse mantendo minha voz suave — Pelo menos a maioria das mães são assim, a sua mãe é assim.
— Mas não adianta… — ela me olhou com tristeza — Por que a vida tem que ser assim? Por que tudo tem que ser injusto?

Eu não tinha uma resposta para lhe dar, mas conhecia o autor de todas as respostas.

— Sabe, existe um versículo que podem até falar que é clichê, mas desde que me entendo por gente, ouço meu pai dizer ele. — iniciei — Em João 16:33, diz “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” Deus jamais nos deixa passar por algo, se não houver propósito nisso, esse momento pelo qual está passando, tem um propósito, só ainda não sabe qual.
— Eu não aguento mais, sinto que já não tenho forças. — ela limpou de leve uma lágrima que caiu.
— Então, vamos pedir para Aquele que é a nossa força. — disse me levantando da cama e a puxando — Somente Jesus, pode te fortalecer.
— Você me ajuda?! Já tem muito tempo que não falou com Ele. — perguntou ela se posicionando em minha frente.
— Posso te contar uma coisa?!
— Sim.
— Jesus está ansioso para ouvir sua voz chamá-lo. — sorri com carinho para ela, arrancando um sorriso de sua face.

Eu pedi para que ela fechasse seus olhos, nossa oração começaria da forma mais intensa possível, com um sincero louvor que expressaria tudo que Lira estivesse sentindo naquele momento.

Aquieta minh'alma… Faz meu coração ouvir Tua voz… Me chama pra perto… Só assim eu não me sinto só… — comecei a cantar baixinho, aumentando meu tom aos poucos — Porque, na verdade, eu descobri que tudo o que eu preciso está em Ti… Mas meu coração é teimoso demais pra admitir… Sei que depender é como viver perigosamente… Mas eu preciso acreditar e confiar no que Você me diz...

 

"So I shout out Your name
Então eu grito Seu nome,
From the rooftops I proclaim
Dos telhados eu proclamo
That I am Yours
Que eu sou Teu,
I am yours.
Eu sou Teu."
- Rooftops / Jesus Culture



11. I Reis

"Dá, pois, ao teu servo um coração cheio de discernimento para governar o teu povo e capaz de distinguir entre o bem e o mal. Pois quem pode governar este teu grande povo?"
- 1 Reis 3:9

- x -

Como previsto Lira dormiu em minha casa aquela noite, papai havia conseguido um colchão emprestado com o zelador, seu Chico. Assim que a acomodamos, percebi que meu pai havia saído, certamente tinha ido a sua casa contar para sua mãe que ela estava conosco. Eu e Lira passamos a madrugada conversando, sobre várias coisas que haviam acontecido em sua vida, o que me fez ficar surpresa em saber que ela já havia recebido o batismo com o Espírito Santo, aos 12 anos de idade, a época que ela e sua mãe estavam mais firmes na presença do Senhor.

Descobri também algumas outras coisas sobre sua família. Sua mãe, Mônica havia se envolvido com seu pai, Igor, aos 18 anos e engravidado dele nessa época, pouco depois de entrar na faculdade. Sua mãe teve que se esforçar muito para não desistir do curso, algo que sempre passava pela sua mente nas vezes em que Lira ficava doente, mas felizmente conseguiu seu diploma. A parte ruim, é que nas três vezes que conseguiu juntar dinheiro para pagar a prova da OAB, uma teve que usar em remédios para filha, a outra para comprar alimentos pois estava desempregada no momento.

Já a última e única vez que realmente fez a prova, não conseguiu passar devido a muita pressão e responsabilidade que tinha com uma criança pequena, além de ter que lidar com a mãe de Igor e suas provocações. Fiquei um pouco impressionada de como Lira conseguiu passar por tudo aquilo, muitas pessoas já teriam enlouquecido, mas em toda a história que me contou, em cada parte, eu conseguia enxergar o cuidado de Deus com as duas, mãe e filha.

— Hum… — ao sairmos do quarto logo pela manhã, peguei o bilhete que papai tinha deixado em cima da pia e li.
— O seu pai saiu? — perguntou Lira.
— Sim. — assenti ao terminar de ler e guardar no bolso da calça de moletom que vestia — Ele disse que nosso café está no forno, só não disse para onde ia.
— Será que ele foi na minha casa? — perguntou ela com um olhar preocupado.
— Ele fez isso ontem, depois que nos trouxe o chá. — respondi tranquilamente seguindo até o forno.
— Sério?!
— Papai não deixaria sua mãe ficar preocupada com você. — abri o forno e lá estava nosso café da manhã, um bolo de cenoura com calda de chocolate — Desta vez o chefe Jonas se superou.

Ri baixo.

— Chefe Jonas?!
— É uma brincadeira, meu pai arrumou um novo hobbie na vida, a gastronomia. — ri um pouco mais — Estamos descobrindo o talento escondido dele.
— Que legal. — ela se encolheu um pouco, seu olhar triste retornou.
— O que foi?! — perguntei.
— É que, nunca convivi com meu pai, então…

Eu não sabia o que dizer ela, então somente sorri e levei o bolo para sala. Tomamos café tranquilamente, até que papai mandou uma mensagem no celular, dizendo que estava conversando com a mãe de Lira na casa do obreiro Zé. Não demorou muito até que tocou no interfone, era Davi para nos fazer companhia.

— Agora estou curiosa para saber o que está fazendo aqui. — disse ao abrir a porta para ele.
— Me expulsaram de casa. — disse ele entrando — Bom dia, Lira.
— Bom dia. — disse ela o olhando surpresa.
— Como assim te expulsaram de casa? — perguntei assim que fechei a porta.
— Ah, é que estão lá conversando com a mãe dela, aí minha mãe disse pra eu vir fazer companhia para vocês. — explicou ele — Eu disse que não queria, e ficaria no meu quarto jogando, mas ela me jogou pra fora de casa.

Eu e Lira rimos automaticamente dele.

— O que eles estão conversando com a minha mãe?
— Não sei. — Davi se sentou no chão ao lado de Lira — E aí, o que estavam fazendo?
— Terminamos de tomar café não tem muito tempo. — respondi — Você quer? Meu pai fez bolo de cenoura com calda de chocolate.
— Seu pai cozinha?! — ele olhou boquiaberta.
— Pois é. — ri baixo — Vai querer experimentar?
— Não, já tomei café. — ele se espreguiçou — O que vamos fazer agora?!
— Não sei, para ser sincera, nem imaginava que você viria. — ri desviando o olhar para Lira — Alguma sugestão Li?!
— Nenhuma, nessas férias estou passando a manhã toda lendo livros.
— Nossa que tristeza. — Davi a olhou fazendo uma careta estranha — Você não vive não?!
— Davi?! — o repreendi, se ele soubesse o que Lira passava em casa.
— O que? — ele me olhou se fazendo de inocente.
— Você não tem nenhum direito de falar isso, pelo menos ela exercita a mente lendo, e você que vira um zumbi na frente do computador?!
— Olha aqui irmãzinha. — ele colocou a mão na cintura de forma engraçada — Eu estou aproveitando meus últimos minutos de vida em jogo, ok? ok!

Eu ri da sua cara de protesto.

— Ok. — continuei rindo — Nós podemos jogar alguma coisa, ou dar uma volta pela rua.
— Eu não queria sair de casa. — disse Lira.
— Filme, eu acho que topo ver um filme.
— Hum… que filme seria? — perguntei.
— Você pode mesmo ver filmes? — ele me olhou surpreso.
— Eu só não estava vendo séries. — pisquei de leve — Tem alguma sugestão Lira.
— Hum… Eu gosto muito de Ratatouille. — ela deu um sorriso espontâneo.
— Vamos de Ratatouille. — disse Davi desviando o olhar para mim, como se já entendesse meus pensamentos, ele parecia mesmo o irmão gêmeo que eu nunca tive.
— Fechou. — eu ri pegando o controle para ligar a televisão.
— Mas vou querer pipoca. —reivindicou ele.
— Você acabou de dizer que tomou café.
— Ah, mas eu vou ver filme. — ele cruzou os braços me olhando indignado — Filme sem pipoca não é filme.
— Lira?! Me ajuda.
— Eu não sei de nada, o irmão é seu. — ela riu.

Não teve jeito, tive que fazer a pipoca para ele. Nossa sessão pipoca estendeu até a hora do almoço, quando tia Kátia ligou para ele, nos chamando para almoçar em sua casa. Davi ficou nos esperando na portaria do prédio, enquanto isso trocamos de roupa, eu emprestei um vestido florido meu para ela, que a deixou ainda mais bonita. Estava contente em ver minha amiga sorrindo de forma espontânea, certamente era assim que Deus a queria ver também, feliz e alegre.

— Que demora. — disse Davi ao chegarmos na portaria.
— Deixa de ser chato, garota geralmente demoram quando vão se arrumar. — retruquei ficando de braço dado com Lira.
— Verdade. — ela riu.
— Isso é desculpa, acho que todo mundo deveria ser pontual. — reclamou novamente — Estou com fome.
— Sério? Depois daquele balde de pipoca?! — Lira o olhou confusa.
— Esse é o meu segredo Lira, estou sempre com fome. — disse Davi brincando.
— Pare de imitar o Hulk. — ri da cara dele.
. — disse Will ao adentrar no prédio.
— Oi Will. — sorri de leve para ele.
— Quem é?! — perguntou Lira.
— Ah… Davi e Lira, esse é meu vizinho do andar de baixo Will, ele já foi na célula na do Davi. — olhei para Will — Bem, esses são meus amigos.
— Prazer. — ele sorriu novamente.
— Bom dia. — disse Lira.
— Oi. — Davi o olhou meio desinteressado.
, eu posso… — Will desviou um pouco o olhar — Falar com você?!
— Claro. — me afastei um pouco de Lira — Vocês podem ir na frente?

Lira e Davi assentiu, bem, meu irmão não estava com uma cara muito convencida assim, mas fez o que pedi.

— Está tudo bem?! Com você e sua avó? O Thor? — perguntei.
— Sim, estamos todos bem. — disse ele tranquilamente — Eu conversei com seu pai.
— O que? — como? onde? quando?
— É. — ele deu um sorriso um pouco vergonhoso — Ele é bem autêntico.
— O chefe Jonas consegue ser durão quando quer, mas tem um coração bem mole. — ri um pouco — Mas, quando conversaram?
— Hoje pela manhã. — respondeu — Fiz hora extra no restaurante e cheguei às seis da manhã em casa.
— Nossa, você deve estar super cansado. — comentei.
— Já estou acostumado, a parte boa é que hoje é minha folga e estou de férias da faculdade. — explicou ele.
— Hum… Sobre o que vocês conversaram? — perguntei cheia de curiosidade.
— Não é óbvio? — ele riu baixo.
— Eu?!

Ele riu espontaneamente.

— Seu pai foi bem direto sobre você só ter idade para relacionamentos com 17 anos, além de me explicar bem sobre a corte. — continuou ele.
— Sério? Que vergonha. — escondi o rosto por alguns instantes com a mão — Como se você estivesse interessado em mim.
— E se eu estiver?! — ele me olhou com serenidade.
— O que?! — por aquilo eu não esperava.

Tentei manter minha respiração estável.

— Por essa eu não esperava. — desviei o olhar para o chão.
— Eu sei que vou ter que esperar por alguns meses, mas gostaria de ser seu amigo até lá. — disse ele tocando de leve em minha mão e a segurando.
— Eu não sei o que dizer. — sussurrei.

Logo senti meu celular vibrando no bolso, me fazendo lembrar do almoço.

— Eu preciso ir agora Will. — disse me afastando um pouco dele.
— Pode me passar seu número antes? Assim podemos conversar mais.
— Claro. — assenti dando um sorriso.

Assim que ele anotou meu número, segui diretamente para a casa de Davi. Tanto ele como Lira, estava no portão me esperando, e cheios de curiosidade me fazendo várias perguntas sobre o Will. Entramos entre alguns risos e várias brincadeiras bobas dele, a mãe de Lira também estava lá, com meu pai e os pais de Davi nos esperando, ficamos um pouco surpresos com os olhares deles.

— Já adianto que demoramos por causa da . — disse Davi de imediato.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou meu pai.
— Eu encontrei o Will na portaria. — respondi sem rodeios.
— Entendi. — ele desviou o olhar para Kátia — Acho que já podemos almoçar então.

Lira me pegou pela mão e me puxou para perto da sua mãe.

— Mãe, quero te apresentar a , oficialmente. — disse ela meio acanhada ainda, parecia sem graça por ter fugido de casa na noite passada.
— Prazer . — Mônica sorriu de leve para mim, notei que seus olhos estavam meio inchadas e avermelhados, certamente de chorar.
— O prazer é meu, a senhora é muito bonita. — a elogiei.
— Por favor, não me chame de senhora. — disse ela.

Lembro de minha conversa com Lira, sempre me dizendo que sua mãe de alguns tempos para cá chorava muito, triste pela vida que tinham e por não conseguir mudar de situação. Senti uma forte sensação de que tudo iria mudar na vida de ambas, principalmente porque notei que os olhos dela haviam brilhado quando viu Lira entrando pelo portão, mesmo não tendo um pai presente, minha amiga tinha uma mãe que a amava muito.

— Vamos comer. — disse tia Kátia mostrando uma travessa de lasanha de batata que estava em suas mãos.
— Isso é música para meus ouvidos. — disse Davi como se estivesse salivando.
— Não sei como ele consegue, deve ter um buraco negro ali dentro. — comentou Lira.
— Ali, a comida só perde para os games. — comentei rindo.

Nos reunimos em uma grande mesa de madeira que o obreiro Zé tinha ganhado recentemente, o dia estava bonito e em meio aquela comunhão, todos estavam alegres e sorridentes. Por mais que tentasse me focar nas conversas que rolavam à mesa, não conseguia parar de pensar em Will e na possível conversa que tenha rolado entre ele e meu pai.

Conhecendo o chef Jonas como conheço, ele não mudaria de opinião sobre uma pessoa do dia para noite, a menos que seja algo diretamente de Deus. O que me deixou ainda mais pensativa sobre o assunto, eu não estava mesmo focada na minha vida sentimental, em raros momentos conversava com o Senhor sobre isso, mas preferia manter esse assunto para depois que me formasse no ensino médio.

— Você está mais silenciosa do que eu agora. — comentou Lira ao sentar ao meu lado na varanda.
— Ah. — mantive meu olhar no portão — Estou meio pensativa.
— Percebi, ficou assim o tempo todo que ficamos comendo na mesa. — concordou — É sobre aquele rapaz do seu prédio?
— Também. — assenti.
— Ele pediu pra fazer corte com você?! — perguntou ela.
— Ainda não, Will sabe que só posso no ano que vem. — respondi.
— Se minha opinião vale, eu não gostei dele. — disse Davi ao se aproximar — Ele não combina com você.
— Deixa de ser chato Davi. — o olhei séria — Você sempre julga as pessoas sem as conhecer primeiro.
— E geralmente sempre estou certo em minhas primeiras intenções. — ele escorou na parede me olhando — Tem alguma coisa nele que não me desce.
— Você também não gostava muito do Justino, agora são amigos. — comentou Lira.
— O Justino é diferente, tivemos um mal entendido. — ele tentou argumentar.
— Não importa. — disse — Eu e o Will seremos somente amigos, é legal saber que uma pessoa está interessada em mim, mas isso não significa que vamos fazer corte. Até o meu aniversário no ano que vem, muita coisa pode mudar.
— Você pode entrar para a família made in ásia. — brincou Davi.
— Pare de bobagens, cismou com isso. — cruzei os braços o olhando.
— Que história é essa?! — Lira me olhou intrigada.
— Lira querida, você perdeu muitas tretas. — Davi riu.
— Quem é a família made in ásia?!
— É uma família de missionários coreanos. — expliquei para ela — Sabe a Layla, que te contei.
— Sei.
— Ela sempre abriga essa família quando eles vêm ao Brasil. — continuei — Só porque fiquei amiga de uma garota fofa, ele está de zoação comigo.
— Se for pra eu shippar você com alguém, seria com ele. — Davi parecia um pouco sincero nas palavras.
— Por que? Agora fiquei curiosa. — estava mesmo — Você nem ficou perto dele naquela noite, reclamou o tempo inteiro que ele estava sendo monopolizado.
— O cara estava sendo rodeado por um monte de pessoas, e mesmo assim ele não tirava os olhos da bíblia. — explicou ele — Sério, conheço muitos do meio cristão que iria tirar proveito da fama.
— Como você? — perguntou Lira de forma natural.
— Não, eu não sou assim, posso até ser popular, mas não gosto de pessoas me bajulando por ter algo especial em mim. — mais um tom de sinceridade — Esse cara ganhou meu respeito, mesmo sem eu conhecê-lo.

Meu amigo/irmão era um bobo, mas também muito sincero. Porém, estava sentindo um certo interesse por Will lá no fundo, o que me levou a perceber que deveria conversar com Deus sobre esse assunto. Passamos a tarde na casa de Davi, até que a noite chegou e meu pai pediu para que Davi levasse eu e Lira para nosso apartamento. Fiquei intrigada a princípio, será que conversaríamos com a Mônica agora pela noite?

— O que será que vai acontecer? — perguntou Lira ao entrarmos no apartamento.
— Não sei. — respondi fechando a porta — Adulto quando querem sabem fazer silêncio.
— Minha mãe estava alegre hoje. — comentou ela — E sorridente.
— Quando convivemos com pessoas que nos fazem bem, é assim que nos sentimos. — expliquei de forma meio racional — Sorrisos atraem mais sorrisos.
— Obrigado. — ela me abraçou de repente.
— Pelo que? — retribui o abraço sem entender.
— Por ser minha amiga. — explicou ela — E não desistir disso.
— Não precisa agradecer. — me afastei um pouco dela sorrindo — Sua amizade é muito especial para mim.
— Isso me deixa feliz. — ela suspirou fraco — Só gostaria que as coisas melhorassem para nós, está tudo muito bem, mas os problemas não sumiram ainda.
— Não se preocupe, Jesus sempre estará no controle. — pisquei de leve para ela — Ele te conheceu mesmo antes de você nascer.
— Verdade. — ela sorriu — .
— Diga.
— Eu, queria continuar participando da célula kids. — disse abertamente.
— Sério? — um sentimento de empolgação queria tomar conta de mim, porém me controlei — Isso é maravilhoso.
— Que bom, eu gosto muito de crianças, essa semana comecei a ler alguns livros sobre o assunto e me bateu uma enorme vontade de ajudar assim. — explicou ela — Eu li na bíblia aquela passagem que diz que Deus nos amou primeiro, por isso amamos Ele…
— 1 João 4:19. — disse confirmando onde está o versículo.
— Isso mesmo, eu fiquei pensando sobre isso… Quero retribuir esse amor ainda mais, sei que nada que eu fizer vai ser o bastante, mas…
— Jesus já está feliz pela sinceridade no seu coração. — eu peguei sua mão, um pouco emocionada — E eu estou empolgada!

A abracei novamente, estava ainda mais feliz por ver minha amiga assim, animada e alegre querendo fazer coisas para Deus! Assim que meu pai chegou, estava com uma mochila de Lira na mão, ele havia convencido Mônica a deixá-la passar o final das férias no nosso apartamento, até que tudo se acalmasse onde moravam. Claro que para mim e Lira foi sensacional passar a última semana de férias juntas, já que meu pai estava saindo cedo para ir a escola onde trabalharia e à tarde fazia algumas visitas com o obreiro Zé e a tia Kátia.

Lira saiu do apartamento, pois sua mãe lhe esperava na portaria para terem uma conversa de mãe e filha, meu pai havia oferecido nosso apartamento, mas Mônica rejeitou, estava com receio de invadir nossa privacidade.

— Então pai?! O que aconteceu?! — perguntei me sentando ao seu lado.
— Está perguntando sobre a Mônica?!
— Sim.
— Digamos que foi bom para ela, desabafar com pessoa que não jogariam mais pedras. — ele suspirou fraco — Estamos lidando com dois corações que estão feridos e muito magoados, as duas só precisam ser abraçadas e acolhidas agora.
— Lira me contou algumas coisas sobre a mãe. — comentei — Sobre a Mônica ter se desviado a igreja e envolvido com um homem casado…
— Não iremos mais comentar sobre isso, Mônica se arrependeu verdadeiramente do que fez, Jesus já queimou o passado dela e jogou no mar do esquecimento. — disse ele me interrompendo — A partir de hoje é uma nova vida para as duas, você me ajuda com isso?!
— Claro que ajudo, o Espírito Santo me pediu já. — sorri para ele.
— E quanto ao vizinho do andar de baixo?
— Vamos orar papai?! — eu ri de leve — O senhor sabe que não estou preocupada com isso, mas confesso que meu coração acelerou um pouco.
— Você sabe sobre jugo desigual, não é?!
— Ele é cristão, pelo menos é o que parece. — disse — Mas, não se preocupe, jamais vou tomar uma decisão sem jejuar e orar antes!
— Não é só disso que estou falando. — ele me olhou de forma séria e se levantou — Está com fome?
— Ainda não, mas logo ficarei. — dei um sorriso fraco, não iria insistir, já que ele quis mudar de assunto.

Porém, continuei remoendo aquilo na minha mente, o que me levou a entender que papai ainda não confiava em Will. Só queria entender o motivo.

- x -

— Pai?! — disse caminhando até a sala.
— Sim, querida.
— Ainda acordado? — desviei o olhar para o relógio da parede — Não vai dormir?
— Agora não, acordei às três para orar e perdi o sono. — ele desviou o olhar para mim — Estou fazendo algumas contas.
— Diz uma novidade. — ri baixo — Posso orar no seu quarto?!
— Não conseguiu dormir também?
— Não, eu até dormir, é que acordei sentindo uma enorme vontade de entrar no privado. — expliquei — Antes de dormir fiz uma oração junto com a Lira, mas…
— Fala a sós com Deus é totalmente diferente. — completou ele, entendendo o que eu queria dizer.
— Isso mesmo.
— Vai lá querida, eu não vou dormir agora mesmo.

Assenti com a face e voltei para o corredor, então entrei em seu quarto e fechei a porta. Providencial ou não, sua bíblia estava em cima da mesa de cabeceira, já aberta no livro de I Reis.

"Dá, pois, ao teu servo um coração cheio de discernimento para governar o teu povo e capaz de distinguir entre o bem e o mal. Pois quem pode governar este teu grande povo?" — sussurrei ao ler o versículo 9 do capítulo 3 — Realmente papai, é preciso sabedoria para ser um bom pastor.

Sabedoria! Foi a única coisa que Salomão pediu a Deus, o que lhe ajudou a ser um bom rei, o que me levou a descobrir meu chamado daquele livro. Logo me pus de joelhos, eu poderia cantar vários louvores naquele momento, mas havia um em especial. Jesus é a fonte de toda a sabedoria, e o conhecendo, aprenderia realmente a praticar a sabedoria dEle que já estava em mim.

— O meu orgulho me tirou do jardim… Tua humildade colocou o jardim em mim… E se eu vendesse tudo o que tenho em troca do amor, eu falharia… — fechei meus olhos como sempre — Pois o amor não se compra, nem se merece… O amor se ganha, de graça o recebe… E eu quero conhecer Jesus...

Naquele momento, assim como o rei, a sabedoria que precisava, principalmente para saber tomar as decisões certas em minha vida, somente Ele poderia me dar. Eu buscaria com mais intensidade ainda.

"You call me out upon the waters
Tu me chama ás águas
The great unknown where feet may fail
Para o temeroso desconhecido onde os pés podem falhar
And there I find You in the mystery
E lá Te encontro no mistério
In oceans deep, my faith will stand.
Em oceanos profundos, minha fé vai prevalecer."
- Oceans (Where Feet May Fail) / Hillsong United



12. II Reis

"Volte e diga a Ezequias, líder do meu povo: Assim diz o Senhor, Deus de Davi, seu predecessor: 'Ouvi sua oração e vi suas lágrimas; eu o curarei. Daqui a três dias você subirá ao templo do Senhor. Acrescentarei quinze anos à sua vida. E livrarei você e esta cidade das mãos do rei da Assíria. Defenderei esta cidade por causa de mim mesmo e do meu servo Davi'. ".
- II Reis 20:5-6

- x -

— Então?! O que achou Lira? — perguntou meu pai, após ela dar a primeira garfada.
— Nossa… — ela começou a rir — Agora entendi realmente o motivo da te chamar de chefe Jonas.
— Isso é algo bom? — ele fez uma careta confusa.
— Sim. — assentiu ela — Está muito gostoso.
— Ai que alívio. — ele bateu palma e me olhou com um largo sorriso.

Eu ri da euforia dele.

— Depois da sexta tentativa, na sétima tinha que ficar bom. — disse indo me servir.
— Ahhh, basta dizer que eu fiz um bom trabalho. — reclamou ele.
— Certamente pai, você fez um bom trabalho. — pisquei de leve para ele — Esse rocambole de carne está mesmo como a cara e o cheiro bom.
— Faz juz ao gosto. — comentou Lira — O senhor sabe mesmo cozinhar.
— Acredite, há alguns meses atrás eu era uma negação, só sabia fazer macarrão. — ele riu, parecia impressionado com a própria evolução — Queimava até a água do café.
— Meu pai fez uma descoberta. — brinquei segurando o riso — Se chama youtube.
— Deus está vendo essa zoação com seu pai. — ele riu sendo acompanhado por Lira, me fazendo rir também.
— Hoje é nosso último dia de férias, vou sentir saudade da sua comida. — disse Lira meio acanhada — Obrigada por me acolherem.
— Nós que agradecemos por se sentir acolhida. — disse meu pai dando um sorriso reconfortante para ela — E você pode vir almoçar aqui sempre que quiser.
— Ah… Deixa eu ver se entendi, então só vai sentir falta da comida?! — coloquei a mão na cintura, segurando meu prato com a outra — E eu?!
— Eu vou te ver todos os dias na escola . — ela riu — Já a comida do chefe Jonas.
— Oh, que absurdo, chefe Jonas. v eu comecei a rir — Vou deixar você chamá-lo assim, só por que somos amigas.
— Ok. — concordou rindo também.
— Vamos comer meninas. — disse papai controlando o riso.

Eu também sentiria saudades de passar a noite conversando com ela, ser filha única me fazia ser solitária em vários momentos, fiquei feliz em poder viver alguns momentos em que poderia sentir como seria minha vida se tivesse uma irmã ou irmão. Logo após o almoço, eu e Lira nos juntamos para lavar a louça suja e seguimos para o quarto, nossa missão seria arrumar as malas para o repentino Congresso de Jovens. Só Layla para nos encaixar, de última hora, em um evento que está sendo preparado há mais de quatro meses.

— Aqui. — disse entregando para ela o vestido que havia usado na segunda no almoço.
— É o seu vestido. — disse ela pegando sem entender.
— Estou te dando, ficou mais bonito em você do que em mim. — expliquei — Se quiser, é claro.
— Aceito sim. — ela seu olhar emocionado se voltou para o vestido em suas mãos — Obrigada, é a primeira vez que ganho algo de outra pessoa, que não seja minha mãe.

Meu coração se rasgou com aquelas palavras. Paralisada eu estava, sem saber como reagir aquilo, Lira certamente passou por muito mais coisas que eu poderia imaginar. Ela se virou e colocou o vestido, de forma cuidadosa dentro da sua mochila.

— Será que vai fazer frio lá?! — perguntou ela receosa.
— Hum?! — a olhei ainda paralisada.
— Está tudo bem ?!
— Ah, sim, está sim. — respirei fundo — Qual foi a pergunta?
— Será que vai fazer frio lá?
— Ah, segundo a Layla, o lugar é bastante fresco por causa das árvores, mas não faz frio não, mesmo estando no inverno.
— Hum… Nem entendo o por quê de quatro estações, no Brasil é sempre verão. — comentou.
— Concordo. — me voltei para minha mala de mão, havia comprado pouco antes de vir para Belo Horizonte.
— Quem mais vai ir? Além da gente?
— O Davi, claro, a Yara, a Yasmin, a Isla e o Pietro. — respondi.
— Não conheço esse Pietro. — disse ela.
— É um jovem que vai na célula do Justino, há dois meses, meu pai viu o interesse dele pra ajudar na célula de jovens da casa da Madu, que vamos inaugurar na sexta que vem, o Davi já começou a treinar ele.
— Legal. Fico feliz que várias pessoas tem se disponibilizado a ajudar no ministério. — comentou.
— Sim, a obra é do Senhor, quem convoca os trabalhadores é Ele. — concordei — Mas, admito que no início, fiquei com medo de tudo ficar somente em nossas mãos e ficarmos sobrecarregados.
— Não deve ser fácil, percebi que mesmo com esse tanto de gente ajudando, o pastor sempre conta com você primeiro.
— Sim, depois que a mamãe morreu, tivemos que formar nossa dupla inseparável. — assenti.
— Sempre foi assim comigo e a mamãe. — afirmou ela — Nós duas contra o mundo.
— Bem, agora vocês se juntaram a nós, nessa grande família de Cristo. — disse com segurança.
— Sim. — ela sorriu, o brilho no seu olhar estava lá.

Davi passou no meu prédio, pouco antes de dar cinco da tarde, o obreiro Zé nos levaria em sua velha kombi acompanhado do meu pai. Yara, Yasmin e Isla, já estavam dentro do carro, já Pietro iria direto do trabalho dele de meio período. Infelizmente, Mônica não chegaria a tempo de ver Lira naquele dia, o que me fez notar o olhar triste de minha amiga, então, perguntei se ela queria ligar para a mãe do meu celular.

Como esperado, o trânsito na hora de pico estava intenso, com a graça de Deus, não chegamos atrasados em frente a igreja onde Layla congregava. Não demorou muito até vermos aqueles cabelos verdes de um lado para o outro resolvendo coisas, Davi a gritou e acenou mostrando que havíamos chegado. Logo ela se voltou e disse a um rapaz para nos direcionar. Tive alguns segundo para me despedir do meu pai e seguir o nosso guia provisório.

— Boa noite, eu sou o Charles, auxiliar da Layla. — disse ele com um tom animado — Sejam bem-vindos, em nome de Jesus.
— Obrigado. — dissemos quase em coral.
— Como a Layla disse que viriam de última hora, o crachá de identificação de vocês, ainda não ficou pronto, então não poderão ir no ônibus com o pessoal, mas vão na van comigo. — anunciou ele, nos guiando até sua van — Podem colocar as malas no porta-malas, está aberto. — ele se virou para Davi — Você é o Davi?
— Sim.
— Aqui está a chave, fecha pra mim o porta-malas depois.
— Sem problemas. — Davi pegou a chave das mãos dele.
— Me esperem só um minutinho aqui, vou ver se os crachás estão prontos. — ele se afastou caminhando em direção a porta lateral da igreja.

Enquanto isso fomos guardando as malas, felizmente couberam sem precisar de muito esforço para encaixar. Permanecemos alguns minutos esperando ele retornar.

— Estou animada. — disse Yara — É minha primeira vez indo a um Congresso.
— Sério? — Lira a olhou admirada.
— Sim. E você?
— É minha segunda vez. — respondeu Lira.
— Você já esteve em outro ministério? — perguntou Yasmin.
— Sim, mas eu e minha mãe afastamos um pouco. — explicou rapidamente.
— Lira agora está caminhando com a gente. — intervi — Comecei a treinar ela para ficar no kids, mas achamos legal ela participar desse Congresso.
— Isso é bom. — Yasmin deu o braço para Lira e sorriu — Vamos nos divertir muito e ser edificadas!
— Certamente sim. — concordou Lira.
— Será que o Pietro vai conseguir chegar a tempo? — perguntei preocupada.
— Ele está vindo de moto. — respondeu Davi — Me mandou uma mensagem há dez minutos dizendo que estava saindo da oficina.
— Hum… Ele trabalha na oficina do Justino?
— Sim, ele é sobrinho do Justino. — confirmou Davi mantendo sua atenção no celular que tanto digitava.
— Com quem está conversando aí? — perguntou Yara curiosa.
— Estou jogando.
— Nada de novo sob o sol. — brincou Isla, que estava lendo um livro.
— E você? O que tanto lê aí? — perguntou Yara.
— Estou lendo Orgulho e Preconceito. — respondeu.
— Sèrio?! — a olhei de imediato — Eu amo esse livro, essa história…
— O senhor Darci. — Isla, completou a minha fala, eu assenti e ela riu — Já imaginava.
— Senhor Darci é lindo e fofo. — completei.
— E vi o filme, mas o livro, não tive coragem de ler, detesto ler. — comentou Yara — Leio a Bíblia, porque é meu pão diário.
— Deveria dar uma chance, Jane Austen é maravilhosa. — assegurei.
— Você parece gostar muito. — Isla me olhou agora impressionada.
— Demais. — ri de leve — O livro de Razão e Sensibilidade também é maravilhoso, recomendo todos dela.
— Quem diria que a filha do pastor gosta de romance do século XIX. — Davi desviou o olhar para mim.
— Como você sabe que é do século XIX?! — o olhei admirada.
— Nos meus tempos desviado, eu fiquei com uma garota que gostava disso, ela vivia falando de um tal de Dorian Gray. — ele fez uma careta engraçada.
— Dorian Gray é muito pesado. — Isla comentou — Já li o livro dele.
— Pesado como? — perguntou Yara curiosa.
— Menina inocente, permaneça inocente. — brincou Isla — Isso não é literatura para você.
— Para Isla, eu já vi o filme. — retrucou ela.
— Eu não recomendo — Isla lançou um olhar desinteressado — Prefiro O Conde de Monte Cristo, aquele protagonista de mata.
— Que isso. — eu ri da cara dela.
— Ele é tão fofo quanto o Darci, porém sofre muito mais. — explicou ela dando um suspiro final — Se pudesse casar com personagens, acho que ficaria sem saber com quem me casaria.

Nós rimos da cara dela.

— Hum… Eu acho que me casaria com o personagem do Orlando Bloom no Piratas do Caribe. — comentou Yasmin — Aquele personagem me conquistou.
— Nossa, eu escolheria o senhor Darci. — ri de imediato.
— Eu não saberia escolher entre o senhor Darci e Edmond Dantès, de O Conde de Monte Cristo. — Isla fechou o livro.
— Sé é para escolher, acho que ficaria com o Oikawa de Haikyuu. — disse Yara.
— Você vê animes? — a olhei boquiaberta, achava que ela fosse daquela que via sitcoms americanas de adolescentes.
— Você conhece Haikyuu?! — ela também parecia impressionada.
— Claro, morei em Sampa lembra? Quando morei no bairro Liberdade, tinha um menino no meu prédio que era japonês e viramos amigos, ele me mostrou o universo dos animes. — expliquei — Meus favoritos são o Kageyama e o Tsukishima.
— Estou me sentindo totalmente por fora desta conversa. — comentou Yasmin com cara de perdida.
— Eu também não entendo muito de animes, o único que vi até hoje foi Paradise Kiss, porque era de moda. — disse Isla tentando consolá-la.
— De animes eu entendo. — Davi finalmente saiu do jogo e colocou o celular no bolso — Já assistiram Capitain Tsubasa? É anime de futebol.
— Já ouvi falar. — Yara logo respondeu — O namorado da minha irmã é chato, mas já me indicou uns animes legais, esse estava na lista.
— Assista, é bom. — incentivou Davi.
— Como você arruma tempo pros animes com esse tanto de games que joga?! — perguntei desacreditada.
— Sou um ninja. — ele piscou de leve, nos fazendo rir.

Em instantes Charles apareceu novamente e se aproximou de nós, por sorte Pietro também já estava estacionando sua moto, do outro lado da rua. Nós assinamos a lista de presença e pegamos nossos crachás, então entramos na van, Pietro pegou algumas instruções com Charles, já que ele iria na sua moto nos seguindo. Assim que deu a partida no carro, Davi que estava no banco da frente, ao lado do motorista, ligou o pen drive dele e colocou alguns louvores para tocar.

Já iríamos entrar no clima do Congresso no caminho. Felizmente o trânsito havia melhorado naquela hora da noite, conseguimos chegar rápido ao sítio onde seria realizado. Assim que chegamos, outra moça acompanhada de dois rapazes veio nos receber, para pegar nossas malas e nos acompanhar até o grande salão que ficava no terceiro andar do prédio principal.

Deixamos nossas coisas no térreo, pois os organizadores levariam para os quartos depois, então seguimos de escadas para o salão. Já havia bastante gente quando chegamos, segundo Davi, Layla havia dito que iriam em torno de 400 pessoas naquele congresso, era muito líder de jovens espalhado por muitas igrejas em Minas Gerais. O que me deixou impressionada e um pouco empolgada de certa forma.

Tinha alguns grupinhos formados, com as pessoas conversando, outras paradas aleatoriamente pelo grande salão, lá na frente um grupo de pessoas montavam de improviso os aparelhos de som. Demorou um pouquinho, até que Layla apareceu com uma prancheta na mão indo em direção ao tablado improvisado, após alguns testes no microfone, ela começou a se pronunciar.

— PAZ IGREJAAA!!! — gritou com aquele seu jeito espontâneo de ser — Quero todo mundo prestando a atenção em mim agora.

Aos poucos, as pessoas foram se dirigindo mais lá pra frente, eu e o meu grupo fizemos as mesmas coisas.

— Antes de iniciarmos, tenho alguns avisos para passar a vocês, sei que todo mundo aqui é adulto, e vai respeitar o que for dito, exceto o Charles que é a nossa criança… — brincou ela fazendo todos rirem.
— Valeu mamãe. — gritou ele de volta, estava escorado na porta que dava para as escadas.
— Então, continuando… — ela controlou o riso e olhou novamente para a prancheta, devia estar conferindo suas anotações para o aviso — Primeiro, nada de comer nos quartos, segundo, para não sobrecarregar as tias maravilhosas que vão nos alimentar, cada um vai lavar seu prato…

Neste instante, houve alguns comentários entre o povo.

— E quem não fizer isso, vai ter que acertar com o Espírito Santo, tá? — frisou Layla — Vamos também tentar manter os banheiros limpos, chegar pontualmente na hora das reuniões aqui no salão, vamos espalhar placas com os horários assim todo mundo pode ficar de olho no relógio. — continuou ela — Outra coisa, esse ano vamos fazer um acordo, toda vez que tocar…

Ela olhou para o lado e acenou, então o som do shofar ecoou pelo salão, então ela acenou novamente e parou.

— O som do shofar será tocado durante um minuto, toda vez que tocar, vocês vão parar o que estão fazendo para orar, vão orar por esse congresso, pela vida dos jovens que vocês estão liderando e pela vida dos jovens de todo o país. — explicou ela — Mais uma coisa, todos ficarão aqui, pois agora terá o culto de abertura, após será o jantar e depois estão liberados para irem dormir ou o que quiserem, amanhã bem cedo teremos uma ministração, então sejam sábios. É isso!

Ela se virou para uma garota que estava junto com o pessoal do louvor e entregou o microfone para ela, ficou certa de alguns instantes passando algum direcionamento, então desceu do tablado. Logo a garota começou a ministrar, os instrumentos começaram a ser tocados lentamente introduzindo a primeira canção.

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— Foi legal eles terem nos deixado no mesmo quarto. — comentou Yasmin ao entrarmos no último quarto do corredor da direita.
— Verdade, mas chato que deixaram as mulheres no terceiro andar, teremos que subir mais lances de escada. — reclamou Yara — Gente, sou jovem, mas sou sedentária.

Nós rimos dela.

— Pare de reclamar menina. — repreendeu Isla indo em direção a beliche que estava sua mala, certamente ela dormiria na cama de cima, já que a de baixo estava sem colchão.
— Nem começou direito e já estou animada com tudo aqui. — comentou Lira.
— Todas nós. — concordei — Estou achando tudo muito organizado aqui.
— Assim que é bom, ordem e decência. — disse Isla se espreguiçando.
— Como será que os meninos vão ficar?! — perguntou Yara.
— Melhor que nós, garanto. — respondi — Davi é super popular e Pietro é aprendiz dele, devem ter feito várias amizades no andar de baixo.
— Isso eu concordo. — Yasmin riu — Não entendo como uma pessoa pode conhecer tanta gente como ele.
— Nem eu. — disse rindo de forma espontânea.
— Vamos dormir?! — sugeriu Isla — Se me dão licença, vou trocar de roupa e me jogar nessa cama.
— Vou fazer o mesmo. — concordei com ela.

Foi engraçado e vergonhoso ao mesmo tempo trocamos de roupas uma na frente da outra, mas todas ficamos de costas uma para outra, assim ninguém ficaria constrangida ou algo do tipo. Mas sempre entre risos baixos e comentários aleatórios por parte de Isla, que nos fazia rir ainda mais. Pouco antes de Yasmin apagar a luz para dormirmos, o shofar tocou pela primeira vez, en correndo demos um pulo da cama para poder fazer o primeiro momento de intercessão.

As horas foram passando, no sábado tivemos duas ministração pela manhã, uma antes e outra após o café da manhã, todas voltadas sobre como fazer o jovens se aproximar do corpo da igreja e se sentir acolhido e amparado pelo líder. Após nos liberarem para o almoço, o shofar tocou mais uma vez, foi bonito de ver as pessoas parando e dando as mãos para orar juntas.

Assim que nos sentamos em uma mesa aos fundos, voltei meu olhar para porta e reconheci dois rostos entrando acompanhados pela Layla. Um era de Sunny e o outro era do seu irmão, o missionário , fiquei surpresa, não imaginava vê-los ali já que estávamos nos últimos dias das férias, porém como não entendia nada do calendário escolar coreano… Voltei meu olhar para frente e logo vi Davi me olhando de forma sugestiva, o repreendi com o olhar também o fazendo rir.

— Está acontecendo alguma coisa entre vocês dois? — perguntou Yasmin curiosa — Davi não para de te olhar e rir.
— É porque ele é um bobo. — respondi.

Lira me olhou como se soubesse do assunto que eu não queria mencionar, então ficou em silêncio segurando o riso, talvez por Davi ainda estar rindo e ela saber o motivo.

A noite chegou, o culto noturno seria de louvor e adoração para dar uma avivada nos líderes e renovada nas forças. E finalmente entendi o motivo de e Sunny estarem ali, eles estariam à frente da ministração da noite. encaixou a alça do seu violão com cuidado no ombro e olhou para a irmã que estava se sentando em frente ao teclado, logo ela ajustou um pouco o microfone que usaria.

— Ela canta também?! — sussurrei surpresa.
— Boa noite a todos… — cumprimentou , sua voz era um pouco grossa e meio rouca lá no fundo, mas tinha uma entonação confortável aos ouvidos, passava segurança e firmeza — Em meu país, falamos Annyeonghaseyo…

Ele começou a dedilhar seu violão, sendo acompanhado por sua irmã no teclado, iniciando o arranjo junto com ele.

— Vocês não estão aqui por acaso, então aproveitem cada momento deste final de semana para alcançar e agarrar todas as bênçãos que o Senhor está derramando neste Congresso. — continuou ele — Entreguem tudo a Ele, mergulhem no Seu Espírito e se afoguem em Seu amor…

As notas da música foram se intensificando ainda mais.

You call me out upon the waters… The great unknown where feet may fail… And there I find You in the mystery… In oceans deep, my faith will stand... — ele começou a cantar suavemente, sua voz era tão doce, logo notei que ele havia fechado os olhos assim como eu, do jeito que Sunny havia comentado — And I will call upon Your name… And keep my eyes above the waves… When oceans rise my soul will rest in Your embrace… I am Yours and You are mine…

Eu também fechei meus olhos, respirando fundo, fui me entregando aquela melodia, como se estivesse cantando para o Senhor, frente a frente com o pai, sem ninguém ao meu redor e comecei a cantar, juntamente com as notas do violão dele.

"Spirit lead me where my trust is without borders
Espírito leve-me até onde minha confiança não tem limites
Let me walk upon the waters
Me deixe andar sobre as águas
Wherever You would call me
Onde quer que Tu me chames
Take me deeper than my feet could ever wander
Me leve mais fundo do que os meus pés pudessem um dia chegar
And my faith will be made stronger
E minha fé será feita mais forte
In the presence of my Savior.
Na presença do meu Salvador."
- Oceans (Where Feet May Fail) / Hillsong United



13 . I Crônicas

"Rendam graças ao Senhor, pois ele é bom; o seu amor dura para sempre."
- 1 Crônicas 16:34

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Por um propósito do Senhor, todo aquele Congresso havia sido ministrado sob os ensinamentos do livro de I Crônicas, e logo na pregação da palavra de , eu havia encontrado meu chamado deste livro: gratidão a Deus. Sim, em meio a tantas lutas e alguns desânimos, o cansaço não nos deixa ver o que Deus já fez por nós e ainda faz, aprendi com o cântico do rei Davi, a estar sempre grata ao Senhor!

— Então, o que está achando do Congresso? — perguntou Layla ao se aproximar de repente de mim.

Eu a olhei, ainda debruçada a sacada do andar dos quartos das mulheres, então me afastei um pouco e virei meu corpo em sua direção.

— Estou sendo pouco a pouco renovada. — respondi precisamente — Sinto isso.
— Que bom, este congresso é pra isso mesmo, renovar as forças de todo mundo. — assegurou ela se mostrando satisfeita por minha resposta.
— E você? Como arranja tanta energia? Não parece estar cansada nem um pouco. — a olhei admirada por toda aquela agitação o dia todo.
— Ah, menina, se eu parar eu entro em coma de tão cansada que estou. — ela deu uma gargalhada — Mas é Deus quem me sustenta assim de pé, só das pessoas estarem sendo edificadas, já vale todo o esforço.
— Amém!! — sorriu ao ver o brilho em seus olhos.
— Já peço desculpas de antemão, por não estar dando muita atenção a você e o pessoal. — disse ela parecendo estar decepcionada por não dar conta de tudo.
— Pare com isso Layla, estamos sendo muito bem recepcionados, então não se preocupe.
— Que bom, não consigo olhar tudo e todo mundo. — ela deu um suspiro fraco — E a ministração do ontem? Você gostou?

Minha mente parou por alguns instantes.

— Hum… Foi impactante, aprendi muito. — confessei — Ele canta muito bem também.
— Sim, ele é líder vocal de um grupo de kpop cristão, bem conhecido no país dele. — explicou ela — é como você, talento natural.
— Ah não, eu não, não acho que tenha esse talento todo para a música. — neguei meio envergonhada — Só consigo ser afinada.
— Não aguento esse povo com falsa modéstia. — ela colocou a mão na cintura — Menina, você tem talento, tem unção, negligência não, Deus está de olho em você.

Recebi aquilo como uma chamada de atenção direta do trono de Deus.

— Layla. — disse uma voz vinda da direção das escadas, o timbre que eu havia guardado bem na minha mente.
— Ah, , estava mesmo te procurando. — disse Layla.

Ele desviou seu olhar para mim, o que me fez ficar tímida de repente, algo estranho de acontecer.

, o dever me chama. — brincou Layla — Te vejo daqui a pouco no culto de encerramento.
— Vai lá. — assenti com um sorriso, tentando não olhar de novo para .

Voltei meu olhar para frente e olhei na direção da piscina, ainda tinha pessoas curtindo o momento de tempo livre após o almoço, Davi e meus amigos estavam lá, jogando peteca perto da piscina. Me espreguicei e senti uma breve vibração no bolso, era uma mensagem do meu pai no celular, havia enviado a foto de uma lasanha vegetariana experimental, e convidado o obreiro Zé, a tia Kátia e Mônica para experimentarem seus feitos na cozinha, com direito a pudim de leite como sobremesa.

— Ah que lindo, inventa de fazer pudim só no dia em que não estou em casa. — sussurrei olhando para foto.
— Falando sozinha? — perguntou Sunny ao se aproximar de mim.
— Não. — guardei o celular no bolso e a olhei — Ou melhor, sim, estava vendo a mensagem do meu pai.

Ela me abraçou de forma espontânea e depois se afastou.

— Que bom que veio. — disse ela com um largo sorriso no rosto.
— Pois é, a Layla me convidou. — concordei sorrindo também — Está sendo muito bom, fiquei surpresa em te ver aqui.
— É, felizmente nossas aulas retornam daqui uma semana, então decidimos ficar um pouco mais, meu irmão e meu pai vieram me buscar. — explicou ela tranquilamente, parecia feliz por ter ficado mais aqui no Brasil — Então, aqui estou.
— Seu pai não veio ao Congresso? — perguntei curiosa.
— Não, ele não pode vir, ficou para ministrar em outra igreja, foi convidado. — respondeu.
— Você canta muito bem, pensei que só dançava e atuava. — a olhei admirada.
— Eu consigo enganar bem, depois de uma semana de ensaios. — ela riu de si mesma — Fiquei morrendo de medo de não trocar as notas do teclado ontem.
— Você foi muito bem.
— Agradeço a sinceridade, fico mais aliviada. — ela sorriu novamente — Apesar do meu irmão chamar toda a atenção para ele.
— Confesso que seu irmão realmente… A unção que ele tem, é só dele. — concordei meio entre linhas.
— Verdade, além de ser bonito. — disse como se fosse uma indireta.

Eu fiquei em silêncio e desviei o olhar meio sem graça, estava evitando um pouco de reparar tanto no irmão dela, ainda mais depois das brincadeiras de Davi.

— Já aproveitou a piscina? — perguntei desviando totalmente o assunto.
— Já, ontem à noite depois do culto, me joguei lá dentro. — respondeu ela empolgada, aquele seu sotaque a deixava mais fofa.
— Legal, eu não gosto muito, mas entrei um pouco antes do almoço, só pra não dizerem que não sei aproveitar. — ri um pouco, me lembrando de Davi me ameaçando me jogar na piscina se eu não entrasse com eles.

Que irmão mais malvado, eu arrumei.

— Você vai jantar na casa da Layla mais tarde? Depois que voltarmos? — perguntou ela.
— Eu não sei. — na verdade não havia sido convidada.
— Seria legal se você fosse, eu poderia te apresentar meu pai. — disse ela.
— Sunny, aí está você. — Layla apareceu da escada — , que bom te ver de novo.
— Diga. — a olhei meio curiosa.
— Vai ter um jantar na minha casa depois da reunião de recepção lá na minha igreja, já quero você lá, já liguei para seu pai convidando ele e os pais do Davi.
— Ela vai sim. — confirmou Sunny por mim.
— Que bom. — Layla sorriu — Sunny preciso de você agora, siga-me.
— Sim senhora. — ela bateu continência brincando e saiu atrás de Layla.

Estática eu estava, estática eu fiquei, até que Lira me despertou. Já estava quase na hora de todos se arrumarem para voltar para casa, então ela pensou em ir tomar banho mais cedo, assim não teria que disputar o banheiro. Achei legal sua ideia e a segui naquilo, logo as outras meninas surgiram para fazer o mesmo, foi divertido nossa organização, principalmente pelo fato de Yasmin ter brevemente perdido seu óculos que misteriosamente apareceu em sua cabeça. Alguns minutos depois que virarmos o quarto procurando.

— Valiosa a ideia que tive de não trazer salto. — comentou Isla ao colocar seu all star nos pés.
— Quem em sã consciência carrega salto para um congresso?! — Yasmin a olhou confusa.
— Eu já fiz isso. — Yara comentou ao fechar sua mala — Me arrependi.
— Você já usa salto? Tão nova? — Isla a olhou.
— Eu tinha uma melissa anabela. — explicou — Levei ela pra um acampamento de jovens que fui, ela voltou arrebentada.
— Por isso eu carrego tênis sempre, ou sapatilha. — Yasmin se sentou na cama dela, dobrando sua toalha.
— Eu ainda prefiro tênis. — adimiti sem medo.
— Eu também. — concordou Lira.
— Eu aprendi da pior forma isso, agora só tênis também. — Yara se levantou e pegou o pente para passar em seus cabelos — Nossa, não deveria ter lavado isso.
— Ah menina, você ficou na piscina, tinha que lavar. — a repreendeu Yasmin.
— Ah mana linda, eu não gosto do meu cabelo molhado, ele fica estranho. — reclamou ela.

Yasmin era uma ruiva fofa, de sardas no rosto que sempre reclamava dos seus cabelos avermelhados, algo que fazia Yasmin querer bater nela sempre, motivo de risos entre nós meninas. Voltamos a nos concentrar na arrumação, ouvindo o desespero de algumas meninas do lado de fora, que ainda nem tinham tomado banho.

As horas se passaram, até que enfim deixamos aquele lugar maravilhoso e abençoado para voltar pra casa. Sem dúvidas foi um bom final de semana que tivemos, chegamos fazendo festa na igreja da Layla, sem deixar ninguém ficar parado, e ela mesmo com seu olhar cansado ainda tinha energia para pular com todo mundo na frente do altar. Por um breve momento olhei na direção de Lira, vi ela entre sorrisos com Yara, um brilho em seu olhar e tranquilidade em sua face, o que encheu meu coração de mais alegria ainda.

- x -

— A todos que vieram, sejam bem-vindos em minha casa. — disse Layla a frente dos seus “poucos” convidados — É uma honra tê-los aqui.

Sua casa não era grande, porém tinha um bom espaço para receber as pessoas, a varanda espaçosa e o jardim muito bem cuidado, tinha uma mesa posta ao lado da porta de entrada para sala, cheia de guloseimas e petiscos, além dos espaços que certamente seria para os pratos que serviriam no jantar. Charles obviamente também estava lá, a ajudando com a recepção e preparativos, Davi havia descoberto e nos contado que eles estavam fazendo corte há três anos. O que nos deixou admirados!

— Eu ainda não acredito que os dois estão fazendo corte há três anos. — comentou Yasmin ao retornar para o nosso cantinho de conversa com um copo de suco nas mão.
— Layla e Charles?! — Yara a olhou — Eles formam um casal bem cômico, ela é toda animada e ele zoa o tempo todo.
— Verdade. — concordei.
— Onde está o Pietro e a Isla? — perguntou Lira.
— Bem observado. — comentei.
— A Isla trabalha amanhã cedo, então o Pietro se ofereceu para levar ela, e ele também tem compromisso amanhã de manhã. — explicou Davi.
— Mas, a gente também estuda amanhã de manhã. — questionei não entendendo.
— É, mas não acordamos 4:30 da manhã pra pegar ônibus. — explicou ele o real motivo.
— Agora tá explicado. — disse.
, acho que o pastor Jonas está te chamando. — disse Yasmin.

Virei para trás e lá estava ele acenando para mim, ri de leve e me afastei dos meus amigos indo em direção a ele.

— Diga papai. — o abracei com carinho e dei um largo sorriso — O que deseja? Além de matar a saudade?
— Então. — ele segurou o riso — Estava conversando com a Layla, ela quer nos apresentar para algumas pessoas.
— Hum… E quem seria?
— Não sei, acho que um missionário coreano. — disse ele.

Tentei reagir naturalmente, não conseguia entender o motivo de toda vez ouvir mencionarem coreano eu ficar assim, tímida e retraída, principalmente se o coreano em questão fosse o .

— Ah, aqui estão vocês. — Layla chegou repentinamente e me pegou pela mão — Venha, que agora sim eu estou desafogada e poderei te apresentar formalmente a eles.

Ela guiou a mim e meu pai e nos apresentou formalmente para , Sunny e seu pai, o missionário Han. Eu fiquei ainda mais tímida com a presença do pai deles, me mantive mais em silêncio do que tudo, enquanto meu pai e o senhor Han desenvolviam uma conversa super natural como se conhecessem há anos. Percebi que continuava com seu olhar para mim, como se tentasse ler meus pensamentos.

— Então, eu acho que Layla unnie está me chamando. — disse Sunny se afastando de propósito.

Mantive meu olhar direcionado para a porta ao lado, não conseguindo nem identificar qual era o assunto da conversa de nossos pais. Mas conseguia sentir o olhar de em mim, o que me fazia respirar fundo e não entender o motivo de minha reação anormal. Ele começou a rir de forma natural e espontânea, o que me fez ficar curiosa e segurar o riso.

— Do que está rindo?! — perguntei.
— Nada… — ele tentou se conter — É que… Você é a primeira pessoa que fica em silêncio perto de mim. Isso está me deixando meio intrigado e curioso.
— Ah… — eu respirei fundo, não queria agir como uma estranha, mesmo sem saber o motivo disso — Desculpe.
— Não, não peça, está tudo bem. — disse ele — Geralmente as pessoas fazem os mesmos tipo de pergunta, os mesmos comentários, só estou surpreso por desta vez ser um longo silêncio.
— É que… Eu não sei o que dizer. — me encolhi um pouco — Pela primeira vez.
— Hum… Minha irmã me falou que você canta e toca também. — comentou ele, tentando deixar o ambiente mais leve e espontâneo.
— A Sunny falou de mim? — por essa eu não esperava.
— Falou muito… — ele riu — Principalmente de como ministra o louvor.

Seu olhar para mim transmitiu certa curiosidade vindo dele, porém permanecia suave.

— Não sou o único a fechar os olhos e fazer serenata pra Deus. — completou ele.
— Pois é, agora eu me sinto menos estranha. — brinquei — Agradeço por fazer isso também.

Ele riu de novo.

— Sua voz é linda. — elogiou ele repentinamente.
— Minha voz?!
— É, eu fiquei prestando atenção em você naquele dia no mirante. — explicou ele.
— Você estava ouvindo? — surpresa novamente? claro que sim.

Ele assentiu com a face.
Ficamos nos olhando por mais alguns minutos, até que Charles entrou na sala e arrastou com ele para conhecer não sei quem. Voltei meu olhar para meu pai que já estava sentado no sofá da casa da Layla, conversando com missionário Han, ambos com a Bíblia aberta. Pareciam estar concentrados em seus assuntos bíblicos.

Voltei para a varanda e segui em direção a tia Kátia, ela conversava com Lira e sua mãe, que também tinha ido, estavam planejando sair à francesa e ir para casa descansar. Não demorou muito até que conseguimos finalmente nos organizar para voltar para casa, Layla nos acompanhou até a kombi do obreiro Zé, junto com Charles.

— Mais uma vez, obrigada mesmo por ter vindo. — disse ela ao me abraçar — Gostei demais da sua presença.
— Eu que agradeço Layla, agora trate de descansar, você não é de ferro. — a aconselhei — Preciso de você para ministrar na minha célula no próximo sábado.
— Gente, que manto é esse?! — ela me olhou — Sério?
— Sim, está devidamente convidada para ministrar na célula Josué no sábado que vem. — formalizei o convite que queria fazer há muito tempo.
— Oh glória!! Aceito demais. — ela riu — Vai ser benção pura.
— Não tenho dúvida.
— Assim, não vai ter uma exegese sabe, porque Deus não me deu essa unção toda…
— Ah, deixa de ser boba. — comecei a rir meio envergonhada dela — Tenho certeza que vai nos edificar muito.
— Isso vai sim, vou começar a fazer jejum por isso desde agora.
— Layla… — a repreendi — Cuidado com a saúde e seu corpo.
— Não se preocupe, faço tudo com vigilância. — ela sorriu.

Nos despedimos mais uma vez e eu entrei na kombi. Primeiro levamos Lira e Mônica para casa, depois o obreiro Zé nos levou para o nosso apartamento, para assim seguir com sua família para casa. Entrei já me espreguiçando, meu corpo estava sentindo falta da cama, já era quase meia noite e eu iria acordar cedo de novo, depois de todos esses dias em casa. Meu pai me deu minha mala e fechou a porta, a trancando, então eu segui para meu quarto, estava com tanto sono e sentindo meu corpo tão pesado, que quase não consegui me ajoelhar para orar. Porém, firmemente me ajoelhei em cima da cama mesmo e comecei a orar, depois li um capítulo do livro de II Crônicas que havia me deixado curiosa para saber meu chamado desse livro também.

As aulas voltaram, e com elas também toda aquela rotina pesada de estudos, no meu caso ficaria ainda mais pesada, pois havia me inscrito na seleção da escola do meu pai, para ser monitora de estudos e dar aula de reforços. Inicialmente, ficaria encarregada das matérias de matemática e história, extremos opostos, porém as matérias que eu mais amava.

— Bom dia, o aluno de monitoria já chegou? — disse ao adentrar a biblioteca do colégio em que agora trabalhava de monitora.
— Está ali. — apontou a bibliotecária.

Assenti e logo me aproximei da mesa em que a garota estava sentada.

— Bom dia, tudo bem? — perguntei me sentando na cadeira de frente para ela.
— Não seria boa tarde? — ela me olhou estranhando.
— Eu sempre falo bom dia. — ri um pouco — Eu sou a , sua monitora de história.
— Prazer, eu sou a Carol, estou com dificuldades em história. — disse ela fazendo uma cara de desanimada — Nada entra na minha cabeça.
— Hum… Isso é preocupante, mas vamos trabalhar duro para conseguir aprender tudo. — assegurei organizando os livros que tinha levado comigo em cima da mesa — Vamos começar pela matérias que mais tem dificuldade. Qual seria?
— História do Brasil, é muito cansativa. — respondeu ela.
— Então, vamos torná-la divertida. — sorri para ela e voltei meu olhar para o livro de história geral do Brasil.

Com algumas histórias inventadas aleatoriamente, Carol se animou de tentar finalmente entender as bagunças da formação do nosso país. Meu emprego de meio período seria no horário da aula da tarde, já que pela manhã era o horário da minha aula, eu daria monitoria para 4 anos por dia durante uma hora. A primeira seria a Carol com história, depois o Rodnei, o Carl e a Ludmilla com matemática.

Ao final da tarde, recebi uma mensagem repentina de Mia, dizendo que já estava em casa e gostaria que eu lhe fizesse uma visita. Fiquei feliz por ela ter pedido isso, estava mesmo querendo conversar mais com ela, incentivá-la a participar da célula de adolescentes na casa da Yara, já que não queria participar da que estava sendo feita em sua casa para o jovens. Mais ainda, seria uma boa oportunidade de nos aproximarmos ainda mais dela, eu e o Espírito Santo.

"Beautiful Lord, King of my heart
Lindo Jesus, Rei do meu coração
How I love your ways
Como eu amo os Teus caminhos
Beautiful Son, Bright and Morning Star
Lindo Jesus, Estrela da manhã
I will sing You praise
Eu cantarei a Ti
What I can say for all you are
O que posso te dizer por tudo o que Tu és
Cause you've opened my grave and You heal my heart
Porque você abriu meu túmulo e Você curou meu coração
You are good, all the time you're good...
Tu és bom, em todo o tempo és bom..."
- You Are Good-Tu És Bom / Jason Lee Jones feat. Fred Arrais



14 . II Crônicas

"Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra."
- 2 Crônicas 7:14

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A semana passou tão rapidamente que quase não consegui raciocinar, o cronograma de tarefas que havia feito para mim não tinha dado certo e meus horários estavam totalmente bagunçados. Até mesmo meus estudos de inglês e japonês foram ameaçados, ainda tinha meus compromissos com as células, o grupo dos intercessores e ajudar meu pai a não esquecer os seus compromissos. “Deus, me ajuda!”

As aulas nem haviam começado direito e eu já estava sentindo o peso da responsabilidade novamente. Era um alívio estar treinando Lira e Esther ao mesmo tempo agora, para serem líderes kids, assim não iria me sobrecarregar mais, além de liderar os jovens, também estava sendo supervisora de todas as células. Muitas responsabilidades que geravam preocupações, se conseguiria dar conta.

Felizmente meu pai já estava treinando o obreiro Zé para ser supervisor também, assim dividiria as funções comigo, ele e tia Kátia já estavam responsáveis por aconselhamentos de casais. Como meu pai estava trabalhando no período da manhã agora, até ele estava sentindo que deveria delegar algumas coisas para outras pessoas de confiança. Segundo ele, estava chegando o momento de abrirmos a igreja física, sua preocupação em obedecer a palavra do Senhor, que diz que devemos congregar, estava lhe tirando o sono.

— Não acredito que estou atrasada. — desci correndo as escadas do edifício, enquanto conferia as coisas dentro da mochila, com um descuido deixei minha bolsinha de lápis cair — Ops.
— Aqui. — disse Will ao pegar, parecia estar chegando do trabalho.
— Will. — o olhei surpresa, então peguei a bolsinha de sua mão — Obrigada?!
— Está atrasada. — comentou ele rindo.
— Eu sei, não ouvi o despertador direito. — ri ao me lembrar do meu pai indo me chamar.
— Quer uma carona?! — ofereceu ele.
— Oh não, está chegando do estágio e parece cansado. — recusei inicialmente, jogando a bolsinha na mochila e fechando — Não quero incomodar.
— Não vai, você está atrasada, me deixe te levar. — insistiu ele.

Pensei por um instante, porém, por mais que eu quisesse, rejeitaria.

— Não precisa mesmo, meu amigo está me esperando, ele sempre passa aqui para irmos juntos, não seria justo com ele me esperar e no final eu ir com você. — expliquei — Muito obrigada.
— Que pena… Mas, te desejo uma boa aula. — disse ele dando um sorriso gentil.

Assim que saí do prédio avistei Davi do outro lado da rua, sabia que ele estava me esperando, como sempre com os olhos fixos no celular, certamente jogando. Me aproximei em silêncio dele e o assustei.

— Ai, menina, assim você me mata do coração. — disse ele colocando a mão no peito.
— Deixe de ser fracote. — ri da sua cara — O que está jogando desta vez?
— Não estava jogando. — respondeu ele.
— Uahhh, que milagre é esse? — o olhei boquiaberta.
— Às vezes acontece. — ele deu um suspiro desanimado — O nome disso é jejum.
— Anime-se e sorria, você não está morrendo por não jogar. — ri novamente — Agora vamos, que estamos atrasados.
— Pois é… — concordou ele seguindo comigo — Estou admirado pelo horário mocinha, o que aconteceu com você?
— Estou dormindo tarde e orando de madrugada, meu sono está desregulado. — expliquei.
— Uau, não imaginava que isso aconteceria logo com você, a garota cronograma. — ele se espreguiçou enquanto caminhava — Por que está dormindo tarde.
— Esqueceu que agora trabalho? Estou dando monitoria na escola que meu pai trabalha. — respondi.
— Verdade. — ele me olhou — Deve estar sendo muito puxado pra você.
— Sim, meus trabalhos de escola e exercícios tenho que fazer à noite e nos finais de semana, e você sabe quantas coisas tenho pra fazer relacionados ao ministério do papai. — soltei um suspiro cansado — É o Espírito Santo que me mantém de pé.
— Por que temos que crescer, a vida é tão mais fácil sem boletos para pagar. — reclamou ele.
— Bem-vindo a vida adulta. — comecei a rir da sua cara — E nem chegamos aos 18.
— Pior ainda. — ele riu junto comigo.

No meio do caminho encontramos Lira, que curiosamente também estava atrasada assim como nós. Corremos até a escola, felizmente faltava dois minutos para os portões fecharem quando chegamos. Em plena sexta-feira, as horas pareciam não passar, senti que cada aula rendia o dobro do que deveria, talvez pela minha preocupação sobre ministrar na célula de Davi na casa da Madu, ou ansiedade por ter Layla ministrando na célula da casa da Yasmin. Não sabia ao certo o que estava sentindo, mas meu pensamento principal era a visita que faria na casa de Mia ao final da tarde.

— Com isso terminamos nossa monitoria de hoje. — disse juntando os livros e fechando meu caderno — Te aconselho a fazer esses exercícios hoje enquanto está fresco a explicação em sua mente, e não estude no domingo, não resolve estudar um dia antes da prova.
— Ok, professora. — brincou Rodnei — Mais uma vez obrigado por salvar minhas notas.
— Eu não estou fazendo nada, é você quem está se esforçando para melhorar. — guardei meu caderno na mochila e me levantei da cadeira — Ah, o convite para ir na célula ainda está de pé, te espero no sábado.
— Se a minha mãe não me levar, vou de ônibus desta vez. — assegurou ele — Estou muito curioso para saber como é uma célula de jovens.
— É um pouco barulhenta, mas bem legal. — eu ri baixo — Você vai gostar.
— O pessoal é receptivo? — perguntou ele receoso.
— Claro, basta você chegar já se enturmando. — ajeitei a mochila nas costas — Me desculpe minha pressa hoje, mas tenho uma visita pra fazer agora.
— No problem, teacher. — ele bateu continência brincando — Até amanhã.
— Até, 17hrs, te espero lá, já te enviei o endereço pelo whatsapp. — disse me afastando dele e seguindo para porta.
— Ok.

Da biblioteca onde fazíamos nossa monitoria, passei rapidamente na secretaria para assinar minha folha de presença e corri para o ponto de ônibus. Felizmente não demorou muito para passar, cheguei na casa de Mia pontualmente como programei, uma conquista após uma semana chegando atrasada em quase todos os lugares que estava indo. A casa onde morava era no segundo pavimento, em cima da casa de sua avó paterna, o quintal era muito bonito e cheio de plantas espalhadas pelos vasos de barro.

. — a senhora Liana me abraçou, assim que entrei pelo portão — Fiquei tão feliz quando a Madu disse que viria hoje, mas chegou cedo.
— Que bom. — retribui o abraço — Eu vim mais cedo para conversar com a Mia, ela já chegou da aula?
— Já sim, está no quarto como sempre. — senti um olhar preocupado vindo dela — Mas tenho certeza que vai gostar da sua visita.
— Que bom, já tem alguns dias que quero vir, mas essa primeira semana pós-férias foi tão corrida, que aproveitei que iria ministrar a palavra aqui hoje para vir mais cedo e conversar com ela.

Ela me guiou até a escada e me levou até o quarto de Mia. Eu ainda não tinha tido a oportunidade de ir até sua casa, desde que Davi começou a liderar uma célula lá, meu pai havia comparecido na célula inaugural, mas eu não pude ir pois tinha que preparar uma ministração para a célula kids.

— Bom dia Mia. — disse ao aparecer da porta do quarto dela, que estava entre aberta.
. — ela me olhou com um certo brilho nos olhos e sorriu — Entrar.
— Como está mocinha?! — perguntei ao entrar em seu quarto rosa, como de uma princesa e encostei a porta.
— Estou meio estranha hoje. — disse ela diretamente, sua face ficou séria novamente e um pouco tristonha — Uma sensação chata de querer chorar o dia todo, melancolismo.
— Hum… Já conversou com seu novo amigo hoje, sobre isso? — perguntei me aproximando de sua cama.

Ela estava sentada com as costas sobre a almofada no encosto da cama, com as pernas cruzadas.

— Eu ainda tenho uma certa dificuldade em conversar com ele, nunca sei quando está realmente me ouvindo, fico com medo dele me rejeitar. — ela desviou seu olhar para cama.
— Saiba que assim como o amor de Cristo é infinito, Ele jamais nos rejeita, pelo contrário, Ele quer se aproximar ainda mais de você. — disse com segurança para ela — Em João 14:16, Ele diz: “E eu pedirei ao Pai, e Ele dará a vocês outro Conselheiro para estar com vocês para sempre.” Ou seja, o Espírito Santo está aí ao seu lado, te ouvindo e intercedendo por você, basta apenas conversar com Ele, como seu amigo.
— Mas eu não sei orar, não sei fazer isso. — sussurrou ela num tom tímido.
— Oração é uma conversa, assim como você conversa comigo, com seus pais, pode conversar com Ele. — mantive meu olhar nela — Quer fazer isso agora?!
— Quero. — ela de um sorriso fraco.

Eu respirei fundo, pedindo a Deus mentalmente para me ajudar, então segurei em sua mão.

Espírito Santo, ore por mim… Leve pra Deus tudo aquilo que eu preciso… Espírito Santo, use as palavras… Que eu necessito usar, mas não consigo… — comecei a cantar de forma suave fechando meus olhos — Me ajude nas minhas fraquezas… Não sei como devo pedir… Espírito Santo, vem interceder por mim…

Continue a canção e aos poucos ela começou a falar com Deus bem baixinho, pedindo-o para ajudá-la a conversar com o Espírito Santo. Eu continuei cantando mais alguns louvores, enquanto ela permanecia orando, dentro de mim uma sensação de paz começou a crescer, como se estivesse sendo abraçada por Deus. Quando terminamos, abri meus olhos e Mia estava secando suas lágrimas.

— Melhor agora?! — perguntei dando um sorriso singelo.
— Sim, me sinto mais leve. — disse ela sorrindo junto — Não imaginava que seria tão bom desabafar com Deus.
— Além de nosso amigo, Ele é nosso pai e nos quer bem, por isso sempre que se sentir assim triste e aflita, converse com Ele. — olhei para o lado e vi uma Bíblia rosa em cima da mesinha de canto — É sua?!
— Sim, a Madu me deu. — respondeu pegando a Bíblia — Ela disse que era um incentivo para participar da célula de hoje.
— Hum… Você não se sente confortável? — perguntei.
— Não. — ela continuou segurando e moveu seu olhar para a Bíblia.
— Por que não experimenta ir na célula na casa da Yara, acho que vai gostar, é todo sábado às 14hrs. — incentivei dando outra opção — É uma célula direcionada para adolescentes, tem muitas pessoas da sua idade.
— Eu não sou muito boa em fazer amigos. — retrucou ela.
— Sabe de um segredo?! Eu também não sou, é difícil de acreditar, mas sou tímida também.
— E como consegue ter tantos? Ser tão comunicativa?
— Jesus, é Ele quem me ajuda. — respondi com segurança.
— É por isso que canta de olhos fechados?
— Inicialmente sim, mas depois percebi que quando estava de olhos fechados me concentrava mais, sentia como se estivesse somente eu e Deus. — expliquei.
— Que legal. — ela me olhou impressionada.
— Então, como está sendo voltar às aulas? — perguntei mudando de assunto — Soube que vai voltar a fazer ballet.
— Sim, meu psicólogo me aconselhou a fazer atividades físicas ou algo do tipo, para ocupar a minha mente. — respondeu animada —  Estou pensando em fazer jazz também.
— Isso é bom. — sorri contente por ela está — Vejo que você gosta de dançar.
— Amo dançar. — afirmou — Quero ser professora de dança quando crescer.
— Que lindo, que Deus abençoe esse seu sonho. — a olhei com carinho, estava feliz por ela estar sonhando novamente.

Ficamos mais um tempo conversando sobre algumas histórias da Bíblia que a deixou curiosa, então, quando deu o horário eu fui para sala a puxando junto comigo. Davi já tinha chegado e estava conversando com Pietro, me afastei um pouco de Mia e fui até ele.

— Quando chegou?! — perguntei — Bom dia Pietro.
— Bom dia. — respondeu Pietro rindo.
— Oi querido irmão, bom dia… — disse Davi com ar de ofendido.
— Oi querido irmão, bom dia. — disse rindo da cara dele — Quando chegou?!
— Agora pouco. — ele me olhou atravessado, fingindo estar bravo — E você, de onde saiu?
— Vim mais cedo para conversar com a Mia. — expliquei.
— Está preparada para a ministração? — ele piscou de leve.
— Sim, desde quarta.
— E o que vai ser hoje?
Exegese de Aquieta Minh’ Alma. — respondi logo levando a mão na boca, dando um largo bocejo.
— Cuidado para não dormir, quando estiver ministrando. — brincou ele rindo de mim.
— Não vou dormir. — desviei meu olhar para o relógio que tinha na parede — Acho que já podemos iniciar, pra não demorar muito, ainda tem o momento de comunhão.
— Sim, já deu 19hrs, vamos começar. — assentiu Davi.

Desta vez a direção da célula ficaria por conta de Pietro, o novo líder em treinamento de Davi, vindo direto da célula do Justino. O louvor foi trago por Madu, sua voz e afinação me surpreendeu bastante, assim que Davi terminou a dinâmica do sal, comecei a minha ministração sobre a música. Me alegrou ver que todos estavam atentos ao que eu dizia, principalmente Mia que fez questão de se sentar ao meu lado.

- x -

— Bom dia pai. — disse ao chegar na sala no sábado de manhã, já estava de roupa trocada e só tomaria o café antes de sair.
— Bom dia princesa. — ele sorriu para mim, estava sentado no sofá com uma xícara de café na mesa de centro e três bíblias abertas acompanhada de algumas apostilas e seu caderno de esboços.
— Não me diga que passou a noite em claro. — perguntei indo para a cozinha e abrindo a geladeira — Admito que em nosso estado, 8 horas de sono não é permitido, mas nosso corpo é templo do Espírito Santo, cuidar dele também é um dever.
— Não precisa me exortar logo cedo. — ele me olhou com cara de sono — Eu não passei a noite em claro, só dormi pouco.
— O senhor precisa tirar um dia de folga, trabalha de manhã e cuida das coisas do ministério o resto do dia. — comentei voltando minha atenção em preparar meu café da manhã.
— Confesso que estou dormindo quatro horas por dia, mas vai melhorar. — assegurou ele — Ando meio preocupado com a abertura da igreja.
— O pastor Antônio deu alguma direção?! — perguntei.
— Sim, ele me direcionou a ficar na cobertura do pastor James, que cuida da regional da nossa igreja aqui em Minas. — explicou ele — Acho que conversei com ele umas três vezes, nas suas visitas em São Paulo, e teremos também o apoio da igreja da Layla, fiz uma cativante amizade com o pastor Marx.
— Isso é bom, pai. — tomei um gole do leite com chocolate que havia preparado — Mas ainda sinto que está preocupado.
— É algo muito sério estar na frente de uma igreja. — sua voz se manteve firme, mas dava para perceber sua preocupação — Uma responsabilidade muito grande levar a palavra do Senhor para as pessoas, assim como também ser exemplo para elas, quero ser um bom instrumento nas mãos de Deus.
— O senhor já está sendo. — assegurei com confiança, meu pai era muito dedicado em tudo que fazia, principalmente relacionado a Deus.

Demorei mais um pouco para terminar de saborear o biscoito assado que ele havia feito para testar uma receita, que tinha aprendido com a dona Muriel, meu pai estava mesmo se saindo bem na cozinha. A manhã passou rápido na célula kids, mesmo com as crianças muito agitadas, foi satisfatório ver o desempenho de Lira ao lidar com elas, minha amiga tinha mesmo jeito com crianças. À tarde eu visitei a célula de adolescente na casa da Yara, fiquei feliz em ver que Mia havia ido, e claro não consegui fugir do pedido de Yara para que eu ministrasse um louvor.

Logo à noite, como prometido Layla compareceu a célula de Jovens na casa da Yasmin, além de alguns visitantes também, entre eles meus alunos da monitoria Rodnei, que arrastou Carl junto. Eu deixei o tema livre para Layla, sua ministração foi sobre a sabedoria e obediência de Ester, enfatizando que quando colocamos algo nas mãos de Deus, Ele nos surpreende.

— Mais uma vez, muito obrigada por ter vindo e ministrado, aprendi muito com essa palavra. — agradeci mais uma vez abraçada a ela.

Antes mesmo de chegar neste livro, através da ministração de Layla, eu havia descoberto meu chamado de Ester.

— Eu que agradeço o convite, para mim é uma honra e um privilégio ministrar a palavra do Senhor. — ela sorriu — E já quero ir na sua célula Davi.
— Está mais do que convocada. — disse ele ao pegar outro pedaço de torta de frango que a mãe da Yasmin havia preparado para o lanche.
— Adoro convocações. — ela soltou uma gargalhada engraçada — Da próxima vez eu arrasto o Charles.
— Por que ele não veio? — perguntei.
— Ele foi convidado para tocar em um culto de jovens de outra igreja, aí não deu. — explicou ela — Mas da próxima ele vem.
— Ainda não acredito nos três anos de corte de vocês. — disse Isla ao se aproximar — Miga como consegue?
— Jejum e oração. — respondeu segurando o riso — Só Jesus pra ajudar, porque hormônio não converte.
— Que isso. — Isla a olhou assustada, enquanto eu e Davi rimos.
— Quando eu crescer quero ser como você. — disse.
— Eu também. — brincou Layla.

Antes de ir embora, ela me passou o contato da Sunny e do , me mostrou um aplicativo coreano chamado kakaotalk, bem parecido com o whatsapp, por onde eu conseguiria conversar com eles se quisesse. Certamente eu conversaria com a Sunny, havíamos criado uma amizade fofa e divertida, principalmente quando ela falava empolgada que eu deveria visitar eles no seu país. Isso me levou a lembrar de como meu pai e o missionário Han se tornaram amigos de infância em menos de duas horas.

Princess: “Bom dia.” - digitei na janela de conversa do aplicativo para Sunny.
Sun: “Unnie?!”
Princess: “sou eu, direto do brasil.”
Sun: “unnieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee *-*
estou com saudade”
Princess: “eu também sua fofa, já voltou a estudar?”
Sun:“já, e quero férias de novo”
Princess: “nossa, eu já ouvi falar sobre o ensino coreano, é mesmo tão tenso assim?”
Sun: “é… estudamos mais de 15 horas por dia”
Princess: “uau”
Sun: “e você? como está?”
Princess: “cheia de ocupações na vida, mas muito feliz”
Sun: “feliz?!”
Princess: “sim, arrumei um emprego de meio período, vou poder ajudar meu pai nas despesas”
Sun: “eu trabalhei de meio período uma vez, mas foi pra comprar um casaco que queria muito e minha mão não quis me dar kkkkkk”
Princess: “ah menina”
Sun: “teve a vez que trabalhei pra comprar um presente pra uma amiga que estava doente, gostei de ter feito isso”
Princess: “que bom, Deus fala que é melhor dar do que receber”
Sun: “verdade…. ah, me irmão acabou de chegar, manda oi pra ele”
Princess: “oi kkkkkkkkkkkk”
Sun: “ele respondeu: oi”

Ela mandou algumas figurinhas fofas de ursinhos se abraçando, dizendo que era nós duas, o que me fez rir um pouco.

Os dias foram se passando, Yasmin teve uma ideia de fazer uma festa do pijama no feriado de 7 de setembro, teríamos de sexta a domingo em casa. Todas as garotas gostaram e rolou até um convite para Layla participar, porém ela havia sido convocada para uma conferência, então teve que recusar nosso convite. Nosso ponto de encontro seria na casa da própria Yasmin. Eu, Lira, Isla, Yara, Madu e Mia, nos encontramos na frente da minha casa para irmos juntas, ao chegar a mãe de Yasmin nos recebeu eufórica por ser a primeira vez que a filha faz esse tipo de evento em casa.

— Obrigado por receber esse bando de loucas senhora Judy. — disse assim que ela veio me abraçar.
— Ah não, não agradeça, estou amando essa festa do pijama. — ela sorriu — E não me chame de senhora, pode ser só Judy mesmo, ou você.
— Tudo bem. — assenti.
— Meninas fiquem à vontade, eu terei plantão no hospital hoje, mas tem comida na geladeira e nos armários, mantenham a porta trancada. — anunciou ela ao pegar sua bolsa e o jaleco — Eu já pedi a dona Carmen para dar uma vigiada em vocês.
— Ah… Você não vai mesmo poder ficar?! — Yara a olhou triste.
— Que coisa mais linda essa minha filha adotiva. — ela riu — Isso é a vida adulta, um dia você chega nela.
— Tenha uma boa noite de trabalho. — disse a ela.
— Amém e se comportem. — ela piscou de leve e saiu pela porta.

Judy era uma competente enfermeira chefe, mãe solteira inteiramente focada no trabalho e em dar bons estudos para filha. Yasmin já havia me contado que quando a mãe engravidou dela, não aceitou se casar com o pai dela só pela gravidez, então decidiu criar a filha permanecendo solteira mesmo com toda a pressão da família dela.

— O que vamos fazer? — perguntou Lira se sentando no sofá — Vocês programaram algo?
— Eu pensei em sequestrar vocês hoje e amanhã o dia todo. — respondeu Yasmin rindo baixo — Mas Davi já reclamou dizendo que vem almoçar com a gente amanhã.
— Verdade, ele se sentiu excluído por causa da nossa festa do pijama. — concordei.
— Gente, ainda é quinta à noite, temos muito tempo para aproveitar! — Isla se sentou no chão pegando uma almofada do sofá e a abraçando.
— Podemos jogar. — sugeriu Yara se sentando ao lado de Lira, puxando Mia consigo.
— Por favor, gente vamos fazer algo produtivo. — disse Madu sentando no chão também — Nada de verdade e consequência.
— Se rolasse verdade ou consequência, a consequência seria falar um versículo da bíblia de cor. — anunciei.
— Nossa, estou olhando para o pastor Jonas. — Isla brincou ao voltar seu olhar para mim, rindo — Ele vive falando que os jovens sabe o nome dos personagens de série de cor, mas nome dos apóstolos ninguém sabe.
— Verdade. — concordou Madu — É vergonhoso, mas falo por mim, eu só lembro do pessoal do evangelho.
— Você sabe que Lucas não era discípulo de Jesus, né?! — a olhei — Ele era discípulo de Paulo.
— Como assim? — Yara me olhou surpresa.
— Pera aí, já sei o que a gente vai fazer, aula intensiva de teologia básica. — eu ri da cara delas.
— Não nos julgue, tem muita coisa da Bíblia que eu não sei. — Yara cruzou os braços meio emburrada.
— Mas isso eu também, a palavra do Senhor se renova todos os dias miga. — disse apaziguando — É como aquela ministração sobre o Rei Davi no congresso, que o pastor disse que ele era bastardo, de onde que eu ia ter discernimento de pensar isso.
— Nem me fala, fiquei chocada também. — comentou Isla — Eu tinha uma certa resistência a gostar dele, mas depois daquela ministração…
— Ainda assim, acho que te todos os homens da Bíblia, o que eu mais gosto é o Zé do Egito. — confessa Yasmin — Mano, o cara resistiu a mulher do Potifar, gente… Ele venceu os hormônios.
— Verdade, mas eu ainda fico com o tio Daniel. — Isla deu sua opinião — Ele foi pra cova e saiu de lá dando glória a Deus, foi com ele que eu aprendi a orar três vezes ao dia.
— Você consegue? — Yara a olhou admirada — Eu mal consigo de manhã quando acordo.
— Eu também oro três vezes. — disse a ela — Agora estou orando quatro, porque acordo de madrugada pra orar pelas células.
— O que? — Madu me olhou — Sério?!
— Sim, é complicado acordar às três da manhã, mas estou acordando, eu e o Davi. — aformei.
— Não brinca?! — Isla riu — O Davi, o nosso Davi? Acordando de madrugada?
— Já tem um tempo que estamos fazendo isso, o primeiro que acorda liga pro outro. — assenti.
— E depois não quer que a gente shippa. — Yasmin me olhou revoltada.
— Davi é meu irmão, pare de pensar besteiras. — repreendi ela.
— E por falar em shippar… — Madu voltou o olhar para Isla — O que rola entre você e o Pietro?
— Nada. — Isla fez uma cara estranha — Por que rolaria algo?
— Vocês estão muito amiguinhos. — observou Madu segurando o riso.
— Ele mora perto da minha casa, meu interesse é puramente na carona que ele me fornece. — explicou Isla — Nada além disso.
— A gente tem reunido muitos jovens… — comentou Yasmin — Estou ansiosa para ver como vai ser quando a igreja abrir.
— O que vai ter de corte rolando. — Yara riu.
— Aquieta-te aí menina Yara, você está muito nova para falar sobre corte. — repreendeu isla.
— Hum… — Yara deu de ombros.
— Tem idade para corte? — perguntou Mia — Eu ouvi o pastor Jonas falando sobre isso na primeira célula lá em casa.
— Na igreja de São Paulo, onde é nossa cobertura atual, a corte era liberada oficialmente acima de 18 anos, casos raros de 17. — respondi — Meu pai achou melhor deixar 17 anos, porque assim, dá oportunidade do jovem já começar a criar mais responsabilidade.
— Ou seja, ano que vem já é nossa vez! — Yasmin se remexeu no sofá em comemoração.
— Eu já posso fazer, mas nem estou preocupada. — Isla deu de ombros — Atualmente estou me focando nos estudos, depois de duas bombas na vida, tenho que pensar no meu futuro.
— Nem me fale de futuro. — Yasmin soltou um suspiro — Ano que vem já tem ENEM.
— Nossa, verdade. — concordou Madu — Que cansativo esse negócio.
— Eu nem sei que curso quero fazer, imagine pensar no ENEM. — comentou Lira.
— Que bom que falta muito pra nós. — Yara riu — Não é Mia.
— Sim. — assentiu Mia.
— Eu vou fazer esse ano. — disse — Já estou estudando para isso.
— Menina como consegue fazer tanta coisa? — perguntou Yasmin.
, onde vive, o que come, como arranja tempo para fazer tudo, hoje no globo repórter. — brincou Yara fazendo todos rirem.
— Vocês são muito bobas. — eu continuei rindo — É o Espírito Santo que me ajuda, confesso que depois que comecei a dar monitoria na escola que meu pai trabalha, meus horários ficaram todos bagunçados.
— Isso eu sou testemunha, ela está chegando atrasada todos os dias. — concordou Lira — Até os professores se preocuparam.
— Deve ser pesado, ter tantas coisas pra fazer. — Mia me olhou impressionada.
— Tudo que faço, faço com amor, para Deus. — expliquei — Então, mesmo que no final do dia seja cansativo, é gratificante.

Passamos a noite conversando sobre diversos assuntos aleatórios, fiquei feliz por Mia conseguir se enturmar. Estava grata por Yara me ajudar com isso, já que ambas eram praticamente da mesma idade. Fomos dormir bem tarde da noite, pois fizemos uma pequena sessão pipoca com o filme Deus não está morto, já de madrugada, acordei para fazer minha oração diária.

Quando todos os meus medos já não cabem mais em mim… Quando o céu está de bronze e parece que é o fim… Quando o vento está revolto e o mar não quer se acalmar… Quando as horas do relógio se demoram a passar… — eu estava ajoelhada no chão da sala, preferi ficar lá assim não incomodaria as meninas no quarto — Muitas vezes os seus planos não consigo compreender… Mas prefiro confiar sem entender… Eu creio em Ti… Eu creio em Ti… Eu olho pra Ti… E espero em Ti.

Passei mais alguns minutos a mais, quando estava indo para o quarto, meu celular vibrou. Surpreendente, era uma mensagem de .

: “Bom dia.”

Passei alguns instante pensando se responderia àquela hora ou não, sem entender, quando me dei por mim, já estava digitando.

Princess: “Bom dia.”
: “Não deveria estar dormindo, a essa hora?!”
Princess: “Estava orando.”
: “ah, isso é legal.”
Princess: “e você?”
: “estou na universidade agora.”
Princess: “faz curso de que?”
: “arquitetura, comecei esse ano.”
Princess: “uau, que incrível, acho fascinante”
: “eu também, gosto muito”
Princess: “precisa saber desenhar?”
: “um pouco”
Princess: “hum… por que me mandou a mensagem?”
: “ahhhhh… eu queria te convidar a participar de um grupo de ministros de louvor”
Princess:“sério?”
: “sim, sempre que eu viajo para os lugares eu acabo fazendo amizades com pessoas do louvor, criei esse grupo para gente trocar experiências e técnicas vocais, essas coisas”
Princess: “que legal, aceito sim”
: “que bom, vou te adicionar lá então”
Princess: , eu tenho que ir dormir agora.”
: “ohh, então é melhor ir, eu vou continuar na minha aula”

Curiosamente eu fiquei empolgada com o convite de sobre seu grupo de amigos, pela primeira vez tinha conseguido conversar com ele de forma espontânea. Aquele fim de semana havia sido divertido e engraçado, principalmente no almoço de sexta na casa da tia Kátia.

Os dias foram se passando, assim como os preparativos para a abertura de nossa igreja, meu pai havia tido várias reuniões com o pastor James, que seria nossa cobertura. Seria o início de um novo desafio, novas responsabilidades e mais trabalho, entretanto, tudo seria feito sob a direção do Espírito Santo.

"Então liberta-me de mim,
Eu quero ser a sua casa,
Se você estiver aqui,
Eu sei, eu venço o pecado,

Então enche-me de Ti,
Até que não haja mais espaço,
Pois quando estou em Tua presença,
O meu viver é transformado."
- Liberta-me de Mim / Luma Elpidio



Continua...



Nota da autora:
Louvo e agradeço a Deus por você estar lendo a mais essa história, apesar de ser muito diferente de todas que já escrevi, estou muito empolgada e me divertindo bastante com todas as ideias que estou tendo, espero que você também se divirta e se emocione, que possa ser edificado com a mensagem de Princess of GOD!
Bjinhos...
By: Pâms!!!!
Jesus bless you!!!




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*links e outras fics vocês encontram na minha página da autora!!


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