Questão de Tempo

Última atualização: 30/11/2017

Capítulo 1

O Baile de Máscaras da Saint German Academy se tornou uma das festas universitárias mais conhecidas, em Londres. Tudo começou há pouco mais de cinco anos com uma comemoração organizada pela atlética do curso de Artes Visuais, com apoio de Design, e nada mais era do que um punhado de estudantes dos respectivos cursos dançando em uma das quadras da universidade, de madrugada, com máscaras tampando seus rostos e copos de bebidas em mãos. Era a forma que os veteranos tinham encontrado para recepcionar seus calouros, onde os responsáveis pelas máscaras mais diferentes ganhariam algum privilégio ao longo do semestre letivo.

As coisas começaram a ganhar novas proporções um tempo depois. era aluno do segundo ano de Artes Cênicas, na época, e via naquele baile um potencial para algo mais grandioso e divertido.

“E se houvesse um tipo de competição durante a festa?”, sugeriu para as presidentes das atléticas no dia em que pediu para se reunir com elas. As duas garotas franziram as sobrancelhas, confusas, e alargou ainda mais o sorriso presunçoso que já tinha brotado em seu rosto. “Uma busca pelo seu par!”, o garoto exclamou, deixando as presidentes ainda mais cheias de interrogações. Por sorte, era o tipo de pessoa que amava explicar suas ideias, principalmente quando elas envolviam algum tipo de diversão.

“Imaginem o seguinte: quando forem comprar os convites da festa, aqueles que forem em casal automaticamente preenchem uma ficha de inscrição. Só que eles não poderiam ir juntos, já que o objetivo é que se encontrem dentro do evento, usando as perucas e as máscaras que a organização do evento vai fornecer logo na entrada do local. Celulares não são permitidos dentro da festa, justamente para que um não mande um whats pro outro informando como ele está caracterizado. Os casais que se encontrarem antes das duas da manhã, ganham um prêmio!” jamais admitiria que teve aquela ideia enquanto assistia ao baile organizado por Blair Waldorf, em Gossip Girl.

As garotas se entreolharam. A ideia era boa, é verdade, mas um tanto excludente também.

“A diversão seria proporcionada apenas para os casais, ”, Louise, a representante de Artes Visuais, apontou. “Mas não deixa de ser uma ideia bacana que pode receber alguns ajustes para ser aplicada.”

“Concordo com Louise. Enquanto você falava, até tive alguns insights de como poderíamos colocar isso em prática.”

“Bem, espero que façam bom uso da minha sugestão”, seu sorriso não era mais assim tão largo. A verdade é que estava esperando mais elogios por uma ideia tão boa quanto aquela, quem sabe, ou até o convite para que participasse da organização ao lado delas. Ele era aluno de Artes Cênicas, sonhava com os palcos do teatro, mas isso não deveria servir como impedimento para participar daquilo. Ainda que tenham demonstrado interesse em partes do que tinha dito mesmo que ele não soubesse quais sentiu-se ligeiramente desanimado, como se as meninas tivessem lhe dado um banho de água fria.

“Faremos”, Louise afirmou, levantando-se. Estava se preparando para ir embora, dando aquela pseudo-reunião como encerrada, mesmo sem dizer nada. “Obrigada por compartilhar suas ideias com a gente!”

Para a alegria de , porém, Louise e Clare realmente não transformaram aquela tarde em uma grande perda de tempo. As coisas não aconteceriam exatamente como o futuro ator idealizou oferecer máscaras e perucas ia exigir um orçamento muito mais alto e isso tiraria um pouco da essência da festa, que evidenciava quem se esforçava para fazer máscaras originais e diferentes , mas uma caça ao seu par realmente começou a acontecer na edição do baile do ano seguinte.

Os casais não ganhariam nada em troca além da pura e plena diversão, até porque uma premiação não seria justa com os solteiros, mas a ideia de ter que encontrar seu ficante/namorado em meio a um grupo de pessoas parcialmente fantasiada parecia excitante. Uma pulseirinha vermelha indicaria as pessoas que estavam participando da brincadeira, para que os alheios a essa programação não fossem abordados e, consequentemente, incomodados, quando queriam apenas dançar e beber durante a noite.

E por mais simples e até falha que fosse essa ideia, foi o suficiente para chamar a atenção de outras atléticas, que se mostraram dispostas a participar da organização com auxílio financeiro mais bebidas para um possível open bar, quem sabe, além de contatos para que a comemoração acontecesse em um local mais espaçoso e seguro.

Em dois anos o Baile de Máscaras não tinha mais aquela mesma proposta de recepcionar calouros, mas com certeza era um dos eventos mais aguardados do ano, quando o semestre letivo estava prestes a começar.

***

28 de janeiro de 2017, sábado

nunca foi em nenhuma das edições do Baile de Máscaras em seus quatro anos como estudante de Física. O rapaz não tinha inclinação para festas do tipo. Qual era a diversão em sair pra ficar no meio de um punhado de pessoas visivelmente alteradas, com uma música alta tocando e causando-lhe dor de cabeça? Gostava de beber. Ah, gostava, essa parte ele não negava, mas preferida fazer isso em um bar na companhia de três ou quatro pessoas, fosse depois de uma aula cansativa no final do dia ou até durante a tarde de um sábado ou domingo.

Só que, veja, lá estava o garoto às portas do salão onde o Baile aconteceria na noite do dia 28. Independente do que pensava a respeito da festa organizada pelas atléticas, talvez as coisas pudessem ser diferentes naquele ano.

Ou será que não?

olhava para os lados, deslocado. Não usava máscara, tampouco fantasia era todo jeans e camisa social branca que sequer se deu o trabalho de passar. A verdade é que não estava ali com a intenção de entrar. Seus olhos apenas buscavam a cabeleira castanha de em meio às pessoas que aguardavam na fila — que não era bem uma fila, considerando a extrema falta de organização. A única coisa que sabia enquanto perambulava sem rumo, é que, diferente de alguns que ali estavam, a amiga não usava peruca. Sentia-se cada vez mais frustrado por não encontrá-la entre aqueles que estavam ao seu redor.

‘Porra, !’, pensou, certo de que a Hughes já deveria estar se descabelando ao som do que quer que estivesse tocando dentro do salão, conhecendo-a como conhecia. Por que ela tinha que ter esquecido o celular em seu dormitório? precisaria do aparelho para solicitar um carro quando tivesse que ir embora, ou — e principalmente! responder às mensagens da senhora Hughes, que com certeza seriam enviadas durante a madrugada. Bagunçou os cabelos, incomodado. Ele se preocupava, caramba.

Considerou ir embora. Não queria — não sem antes entregar a porcaria do iPhone — e no fundo sabia que não iria de verdade, mas poxa vida, a entrada sem máscara não era permitida no evento e ele sequer tinha comprado um convite torrar dinheiro com algo como aquilo? Não, o dispensava. A última opção ao alcance era esperar a garota sair quando o dia estivesse amanhecendo, e ele não estava disposto a passar a madrugada inteira naquele gramado cercado por pessoas que tinham enchido a cara.

Mas talvez existisse uma outra saída. Bastava continuar andando na direção que estava, sem olhar pra baixo.

“Ai, caralho”, soltou assim que sentiu seu pé afundar em uma superfície mais macia do que a grama, um grunhido de dor acompanhando o xingamento que soltara. Ali, sob seus tênis, encontrava-se um rapaz semiconsciente, cheiro de álcool — e, urgh, vômito — se despregando das roupas que vestia. A expressão de nojo não passou despercebida no rosto de diante do odor. Desagrados à parte, aquilo ao lado do corpo que balbuciava coisas sem sentido era uma máscara e um ingresso?

Não era ele um rapaz desonesto, entenda, mas não tinha o costume de deixar oportunidades passarem — não quando elas lhe eram favoráveis. Duvidava que aquele Ninguém iria usar o que estava jogado no gramado. Apostava todas as fichas de que o desconhecido dormiria naquele chão, todo e completamente bêbado. Pensou na mãe de que, além de paranoica, tinha problemas cardíacos. Sabia que a tia — ele teria 101 anos de idade e continuaria chamando Elizabeth Hughes de tia, mesmo não sendo de sangue — iria mandar mensagens para saber o que estava acontecendo e talvez até chegaria ao ponto de telefonar para a filha. Se não tivesse seu contato atendido, as coisas poderiam ficar feias. Nem por um segundo pensou que seria de mal tom usar das coisas alheias para entrar na festa. Suas intenções condiziam com o bem-estar de duas outras pessoas.

Fora que se ele não pegasse, outro com objetivos muito menos nobres faria.

“Ninguém mandou exagerar no esquenta, amigão”, foi o que sussurrou para o rapaz fedorento que começava a cantarolar algo em outro idioma, pegando a máscara de Zorro e o pedaço de papel que havia custado quase 10 libras. Um verdadeiro roubo, e não estava se referindo à própria atitude ao pensar isso.

Para , o interior do salão era ainda pior do que o lado de fora, muito barulhento e escuro. Para quem gosta de festas, não poderia ser melhor. O investimento das outras atléticas possibilitava uma decoração muito mais trabalhada, que com o bom gosto de Artes e Design tornava o ambiente um dos mais convidativos, considerando o padrão de festas universitárias. A luz negra fazia com que as cores em neon ficassem mais evidentes e dali de onde estava, enxergava máscaras brilhando nos mais diversos tons berrantes Ai meus olhos, pensou, rabugento , além das pulseiras vermelhas praticamente piscando nos pulsos alheios. A música era alta tão alta que as paredes até tremiam um bocado e ele desejou fortemente que houvesse mais espaço, assim não enfrentaria tanto trompa-trompa enquanto continuava procurando por , o celular da amiga protegido em um de seus bolsos.

acreditou que sua altura contribuiria naquela missão. Era alto, o rapaz. No auge de seus 22 anos, media 1,89cm, e isso fazia dele um dos homens mais altos no local justo ele, que não gostava muito de chamar a atenção e aquilo sendo um chamariz para olhares. Infelizmente, para , nem mesmo seus quase dois metros ajudaram a encontrar a amiga. São tantas pessoas castanhas, porcaria! Soltou o ar pesado pelas narinas, incomodado com a proximidade de tantas pessoas desconhecidas. Caminhou na direção daquilo que pensava ser o bar, torcendo para que houvesse um banco no qual pudesse se sentar e pensar melhor.

sempre foi um rapaz muito chato.

***

 

não tinha o costume de frequentar festas universitárias, principalmente aquelas organizadas por atléticas, como o Baile de Máscaras. “Não acho que sejam seguras”, ela dizia todas as vezes em que a questionavam, o dar de ombros característico de sua personalidade vindo em seguida, como se aquilo bastasse pra encerrar a conversa. E bastava.

Seus motivos iam além da segurança, porém. não gostava de frequentar locais onde sabia que encontraria rostos conhecidos, mesmo que fossem de pessoas com quem não tivesse proximidade e mais da metade dos acadêmicos da Saint German iam para o Baile e eventos semelhantes.

Ela gostava de sair à noite, com certeza. Baladas passaram a ser um programa até que comum nos seus finais de semana depois que se tornou estudante de Letras, mas sua preferência ficava com as boates LGBT que e lhe apresentavam. Não precisava se preocupar com sua integridade nesses locais. Podia beber copos de vodka com energético nem sempre respeitando o que sua saúde e bolso permitiam , sem sentir medo de ser abordada por algum rapaz inconveniente e não ter como se defender. Podia perder o controle, se quisesse, e não teriam olhos conhecidos julgando sua mudança de comportamento, também. Nada de “nossa, aquela é mesmo a ?”, caso alguém a notasse dançando até o chão, tão diferente da postura séria que adotava todos os dias nos corredores da faculdade.

podia até dizer que não, mas a verdade é que se importava com o que pensavam ao seu respeito, e a sua vontade era a de que continuassem enxergando apenas mulher feita de seriedade e cumprimento de regras, como sempre se mostrou ser e que de fato era, porém não se resumia apenas àquilo.

Mas ela iria no Baile de Máscaras de 2017.

é pessoa que cumpre com sua palavra. A partir do momento em que fez uma aposta com , um de seus amigos de longa data, e perdeu, sabia que teria de arrumar uma máscara para a noite do dia 28 de janeiro.

“Você não deveria ter me desafiado, ”, o acadêmico de Artes Cênicas disse, passando o braço pelo ombro da loira enquanto caminhavam lado a lado pelo corredor central do departamento de Letras. “Eu sabia que você iria perder”, comentou, arrancando uma risada descrente da amiga, que envolveu o braço na cintura do outro. “Não, sério. Eu realmente sabia. Acontece que, sabendo, eu poderia ter apostado algo muito mais pesado, mas eu quero de verdade que você conheça o Baile de Máscaras”, pode ser uma pessoa banhada em ironia na maior parte do tempo, mas dessa vez estava sendo sincero, sem atuações. “É inadmissível que você esteja no seu último ano da faculdade e nunca tenha ido em uma edição!”

“Você apostou isso porque é a única festa em que pode entrar sem pagar, ”, disse, rolando os olhos. Foi a vez de rir. Desde que suas ideias tinham sido adaptadas pela organização do evento, ele não precisava comprar um ingresso para aproveitar o que quer que a festa tivesse para oferecer.

“Também!”, admitiu, divertido. “Mas quero que você aproveite.”

E lá estava a jovem diante do espelho, toda e completamente insatisfeita com a máscara que lhe cobria parte do rosto. Era dourada e cheia de glitter, dando espaço apenas para os olhos e a parte de baixo do nariz. quem tinha providenciado.

“Por que isso é tão necessário?”, perguntou, impaciente. Queria arrancar não só a máscara, mas também o vestido que a amiga encontrara em uma arara de brechó na tarde do dia anterior. Preto, marcava-lhe a cintura e escorria pelas coxas, parando nos joelhos. Tinha movimento, mas não respirava com conforto dentro dele.

, melhor amiga e colega de dormitório, ria.

“Não tem graça!”, exclamou, mais incomodada ainda. “Você ri porque teve a opção de escolher não ir.”

“Vai ser menos pior se você não ficar tão irritada, sabe disso.”

“Eu não vou poder beber”, apontou. Sabia que quando ingeria um gole, ia querer outro e outro, e naquela noite ela não podia não ia! perder o controle. “Eu não vou conseguir dançar com esse vestido me apertando a cintura e sequer vou poder ficar com alguém, já que só tem gente conhecida nessa porcaria.”

“Você é tão boba”, mantinha o ar de diversão. Era leve, a garota, e nunca tinha entendido a preocupação da amiga em não se deixar levar em ambientes onde haviam pessoas parcialmente conhecidas. Eles não dariam a mínima para o que fizesse ou deixasse de fazer. Todos estariam afetados demais pelo efeito do álcool e de qualquer outra coisa que consumissem —, e ninguém daria a menor atenção pra ela. Mesmo que dessem, eles não pagavam a sua mensalidade na universidade, muito menos a bolsa que ela receberia pelo projeto de extensão no qual participaria no semestre que estava prestes a começar. “Você pode fazer o que bem entender lá, . E se vai, Sebastien também vai estar lá também. Você sempre quis dar uns pegas nele”, piscou, maliciosa.

Dessa vez o travesseiro voou na direção de .

“Quieta!”, exclamou uma ruborizada. Maldito o dia em que bebeu mais do que deveria e deixou escapar sobre a crush que nutria por Sebastien Prier.

O mau humor não tinha deixado a garota quando já estava dentro do salão. Encontrava-se sentada em uma das banquetas próximas ao balcão do bar, as costas apoiadas no tampo de madeira o que era desconfortável e um copo de água com limão nas mãos nem o barman acreditou quando identificou o pedido da loira em meio à música alta. Não deu bola para e estava certa, Sebastien estava lá, mas de onde estava sentada ela não dava a mínima. Só estava lá para cumprir uma aposta. Dali uma hora ou até menos, iria embora.

Bebericou a água, os olhos percorrendo o espaço sem realmente dar grandes atenções para o que via, não até encontrar um rapaz muito alto e muito magro sentado ao seu lado. Diferente dela, ele estava de frente para os barmans com os cotovelos apoiados no balcão do bar. Uma mão digitava alguma mensagem no celular freneticamente e a outra segurava uma garrafa de vidro verde. Cerveja.

Estreitou os olhos. Ele era familiar.

Não desviou o olhar. Não dava a mínima. O próprio rapaz não parecia ter notado que estava sendo observado, a atenção focada demais no celular que segurava a mãe de estava mesmo mandando mensagens, exatamente como imaginou que faria, e enquanto não encontrava a amiga não tinha outra escolha além de fazer de conta que era ela para não preocupar a senhora Hughes.

não sabia esses detalhes, nem tinha como. Ela só observava os dedos passeando ligeiros pela tela do celular e em como tinha a sensação de que o conhecia, o cabelo cortado baixo e bagunçado de uma maneira que não parecia intencional. Ele tinha desfeito o penteado por algum motivo, ela imaginava e céus, foco: quem é que fica no celular em uma festa dessa?! Ok, ela tinha alguns palpites. Conheceu pessoas daquele nível ao longo das duas décadas de existência ela própria era alguém assim. Com certeza estaria rolando o feed do instagram naquele momento se tivesse levado o celular consigo, enquanto pensava que qualquer pessoa estivesse se divertindo mais do que ela naquele momento, até mesmo aquelas que estavam dormindo.

Elvis, um garoto que tinha entrado para Letras no mesmo ano que ela, com certeza seria capaz de fazer aquilo. Elvis só não era muito alto, nem muito magro, e tinha abandonado o curso no final do primeiro ano. As chances de estar lá eram mínimas. Catherine, uma de suas melhores amigas, também apresentaria aquele comportamento. Catherine era mulher e ainda não tinha retornado das férias chegaria no dia seguinte. Tinha também o Daniel, namorado de Catherine, mas assim como Elvis, Daniel não era muito alto, só muito magro. E, bem- tinha ele.

Mas- não

Não poderia ser possível. Ele estudava da Saint German, sabia desde o início ingressaram juntos , só nunca se esbarraram em qualquer parte do campus ao longo de todos aqueles anos. Ele era exatas, ela era humanas. Os departamentos eram distantes e eles não tinham qualquer razão para se encontrar propositalmente.

Só que lá estava aquele rapaz muito alto e muito magro até mais alto do que se lembrava! , o corte de cabelo semelhante ao do garoto que ela havia conhecido anos antes e que parecia estar nem aí para a festa. A camisa amassada vinha por cima do jeans, e no instante em que ele se voltou na sua direção de maneira despretensiosa, a mensagem finalmente enviada no whatsapp, ela sentiu seus próprios olhos crescerem. A máscara preta que mais parecia uma tira de tecido com dois buracos no lugar dos olhos mal cobria o rosto.

Agora ele mantinha uma barba rala e o maxilar estava mais evidente do que no passado, mas os olhos continuavam vazios, opacos, e a expressão de poucos amigos permanecia praticamente igual, só com traços mais maduros. Era compreensível. Cinco anos tinham se passado.

Ele não a notou. Os olhos passaram pela mulher sem que a enxergassem, exatamente como ela estava fazendo com a festa até então. Ela o viu, porém, e o reconheceu. Isso foi suficiente para que engolisse em seco.

Não deixaria a oportunidade passar. Não depois de todo aquele tempo. Ele não usava a pulseira vermelha e estavam em uma festa. Todos os tipos de coisas acontecem em ambientes como aquele.

“Quer dizer então que agora você bebe?”, perguntou, vendo-o virar a Heineken. O garoto que ela tinha conhecido não chegava perto de álcool, era chato demais pra isso. Aquele que estava ao seu lado, no entanto, não só bebia como também contraiu o rosto ao escutá-la. falou próximo o suficiente para que ele entendesse cada palavra da pergunta.

“Eu te conheço?”, rebateu, confuso, percebendo sua presença finalmente.

Seu rosto estava bem escondido atrás da máscara e seus lábios vinham vestidos de vermelho escuro, quase rubro. Ele nunca a viu maquiada. Os cabelos loiros eram longos e lisos, exatamente como os da adolescente sem graça que ela tinha sido um dia, só que ali, naquele dia, mantinha os fios amarelos presos em um coque e se ele abaixasse o olhar para o seu corpo, encontraria formas e proporções diferentes daquelas que a garota pequena e magrela de dezessete anos. Desinibida pela certeza de que não seria reconhecida tão facilmente, abriu um sorriso zombeteiro, bebericando mais uma vez a água antes de falar.

“E quem é que não se conhece nessa faculdade, ?”, devolveu. e estavam certos. Ela poderia se divertir, se quisesse.

arqueou as sobrancelhas por trás da máscara, interessado. Não era feito de muitos amigos, seu círculo social se resumia a e Evans vez ou outra também contava com a companhia de colegas de curso em botecos próximos à faculdade, com muita cerveja envolvida. Como aquela garota poderia saber seu nome? Curioso. Queria saber mais.

“Acho que não vamos ter uma conversa produtiva aqui”, falou alto demais. “Muito barulho.” Para , aquele era um convite para saírem dali não do salão, afinal ele deixara o dormitório para encontrar e não pretendia ir embora até que entregasse o celular para a amiga, mas ir para um local mais calmo, sem grandes balburdias, seria bom. Tinha interesse em saber quem era aquela desconhecida.

Para , no entanto, a sugestão de foi mais um motivo para alargar o sorriso emoldurado pelo batom vermelho. Fez um gesto para que chegasse mais perto, ela própria não seria capaz de se esticar até o ouvido do rapaz. Ele era alto demais para a pouca altura dela. Entendendo e achando que receberia um sinal de concordância, o rapaz se aproximou, o ouvido ficando próximo o suficiente dos lábios da loira para que somente ele escutasse o que ela tinha a dizer.

“Quem disse que eu quero conversar?”, sussurrou, o hálito quente fazendo com que a pele de se arrepiasse. Segurou o queixo do estudante de Física com a ponta dos dedos, virando o rosto dele em direção ao seu. Viu a pupila dilatar quando os azuis dele encontraram os dela, e antes de dar abertura para que ele pudesse reconhecê-la, colou os lábios. Um impulso que deu certo, descontrole momentâneo.

O que a de dezessete anos acharia se soubesse que aquilo estava acontecendo, tantos anos depois? Reprovaria. Com toda a certeza do mundo, a do passado condenaria aquela atitude com todas as forças existentes em seu coração — prestar-se ao papel de beijar um cara que, indiretamente, a tinha rejeitado? Jamais!

Mas aquela era uma das coisas que a garota que ela foi um dia queria ter feito. Mesmo que fosse errado dada as circunstâncias que viviam, ela queria. Havia desejo e agora ela estava ali, em uma festa para a qual nem queria ter ido, com os lábios pregados ao de alguém que não via há anos, o calor se alastrando pelo peito. Sentia sabor de triunfo, coisa que dificilmente admitiria até para si própria.

Aquilo também não acontecia todos os dias na vida de . Correspondeu o beijo, ainda que embasbacado demais para conseguir aprofundar o que quer aquilo fosse nada que não tenha trabalhado para mudar, naqueles poucos segundos , permitindo que a desconhecida também lhe tocasse a bochecha. Apoiou as mãos na cintura dela por puro gesto automático e piscou repetidas vezes quando ela decidiu que era hora daquilo terminar, enfim. Respirou fundo, uma fragrância de ameixa e outras frutas vermelhas lhe invadindo o nariz perfume que vinha dela.

Era bom.

Era realmente bom.

“Bom te ver”, foram as últimas palavras que ele ouviu antes que a desconhecida deixasse o copo vazio sobre o balcão e se levantasse, sumindo em meio ao mundo de pessoas que dançavam na pista antes que ele tivesse tempo de segurar o braço e exigir que dissesse quem era. Ela não estava bêbada. Se estivesse, não teria sido tão rápida.

Não, naquela noite não se embebedou.

Isso não significa que não tenha perdido o controle.

***

O sol brilhava no céu quando os olhos de se abriram na manhã seguinte. Enquanto a morena se espreguiçava nos lençóis bagunçados, preguiçosa, mantinha as costas apoiadas na cabeceira de sua própria cama no dormitório que dividiam. Encarava o nada, tampouco pregou os olhos depois que voltara do Baile.

“E aí, como foi a festa?”, perguntou a outra, entre bocejos.

“Você se lembra do ?” questionou sem pensar duas vezes, seus olhos ainda presos em lugar nenhum. A amiga franziu as sobrancelhas, confusa. Não estava esperando uma pergunta como aquela.

“Hmmm, o nome não me é estranho”, comentou, ressabiada. Lá no fundo da memória ela se lembrava de ter escutado aquele nome várias vezes, no passado. , . ? “É aquele garoto que você tentou enfiar no nosso grupo, na escola?”, franziu a sobrancelha, interrompendo a última espreguiçada. Viu assentir, em concordância. “O que tem ele?”

“Nos beijamos na festa”, falou sem rodeios. ‘Nos beijamos’ é forçar a barra e a loira sabe disso, mas não estava lá e, portanto, poderia ficar livre de maiores detalhes. O importante, naquele momento, é que assistiu os olhos da amiga ficarem esbugalhados conforme processava a informação que lhe foi entregue.

compreendia a reação.





Continua...



Nota da autora: Há um tempo o desejo de voltar a escrever fanfics voltou a pulsar no meu coração. Depois de ler algumas (muito boas) aqui no FFOBS, coloquei como meta para 2017 transformar todas as minhas ideias em palavras e publicar no site o que quer que saísse disso. Tô tão feliz por ter conseguido concretizar esse plano *-* Quero fazer três agradecimentos especiais nessa primeira nota. Vamos lá! Lau, eu posso citar muitas e muitas coisas pra senhorita, mas por ora vou me limitar ao fato de que você me ensinou a fazer o script da QdT. Graças a sua pessoa eu consegui me tornar autora independente (o que acabou riscando outra meta da minha lista), então muito obrigada <3 Administração do FFOBS, vocês foram incríveis e absurdamente pacientes comigo pelo e-mail. Muito, muito, muito obrigada por toda a atenção que me deram com cada dúvida! E também quero agradecer a você que leu o início desse meu projeto *--* Espero que tenha gostado e que volte para conferir as próximas atualizações hahahah <3 Até o capítulo 2, pessoal!





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