Questão de Tempo

Última atualização: 12/01/2018

Capítulo 1

O Baile de Máscaras da Saint German Academy se tornou uma das festas universitárias mais conhecidas, em Londres. Tudo começou há pouco mais de cinco anos com uma comemoração organizada pela atlética do curso de Artes Visuais, com apoio de Design, e nada mais era do que um punhado de estudantes dos respectivos cursos dançando em uma das quadras da universidade, de madrugada, com máscaras tampando seus rostos e copos de bebidas em mãos. Era a forma que os veteranos tinham encontrado para recepcionar seus calouros, onde os responsáveis pelas máscaras mais diferentes ganhariam algum privilégio ao longo do semestre letivo.

 

As coisas começaram a ganhar novas proporções um tempo depois. era aluno do segundo ano de Artes Cênicas, na época, e via naquele baile um potencial para algo mais grandioso e divertido.

 

“E se houvesse um tipo de competição durante a festa?”, sugeriu para as presidentes das atléticas no dia em que pediu para se reunir com elas. As duas garotas franziram as sobrancelhas, confusas, e alargou ainda mais o sorriso presunçoso que já tinha brotado em seu rosto. “Uma busca pelo seu par!”, o garoto exclamou, deixando as presidentes ainda mais cheias de interrogações. Por sorte, era o tipo de pessoa que amava explicar suas ideias, principalmente quando elas envolviam algum tipo de diversão.

 

“Imaginem o seguinte: quando forem comprar os convites da festa, aqueles que forem em casal automaticamente preenchem uma ficha de inscrição. Só que eles não poderiam ir juntos, já que o objetivo é que se encontrem dentro do evento, usando as perucas e as máscaras que a organização do evento vai fornecer logo na entrada do local. Celulares não são permitidos dentro da festa, justamente para que um não mande um whats pro outro informando como ele está caracterizado. Os casais que se encontrarem antes das duas da manhã, ganham um prêmio!” jamais admitiria que teve aquela ideia enquanto assistia ao baile organizado por Blair Waldorf, em Gossip Girl.

 

As garotas se entreolharam. A ideia era boa, é verdade, mas um tanto excludente também.

 

“A diversão seria proporcionada apenas para os casais, ”, Louise, a representante de Artes Visuais, apontou. “Mas não deixa de ser uma ideia bacana que pode receber alguns ajustes para ser aplicada.”

 

“Concordo com Louise. Enquanto você falava, até tive alguns insights de como poderíamos colocar isso em prática.”

 

“Bem, espero que façam bom uso da minha sugestão”, seu sorriso não era mais assim tão largo. A verdade é que estava esperando mais — elogios por uma ideia tão boa quanto aquela, quem sabe, ou até o convite para que participasse da organização ao lado delas. Ele era aluno de Artes Cênicas, sonhava com os palcos do teatro, mas isso não deveria servir como impedimento para participar daquilo. Ainda que tenham demonstrado interesse em partes do que tinha dito — mesmo que ele não soubesse quais — sentiu-se ligeiramente desanimado, como se as meninas tivessem lhe dado um banho de água fria.

 

“Faremos”, Louise afirmou, levantando-se. Estava se preparando para ir embora, dando aquela pseudo-reunião como encerrada, mesmo sem dizer nada. “Obrigada por compartilhar suas ideias com a gente!”

 

Para a alegria de , porém, Louise e Clare realmente não transformaram aquela tarde em uma grande perda de tempo. As coisas não aconteceriam exatamente como o futuro ator idealizou — oferecer máscaras e perucas ia exigir um orçamento muito mais alto e isso tiraria um pouco da essência da festa, que evidenciava quem se esforçava para fazer máscaras originais e diferentes —, mas uma caça ao seu par realmente começou a acontecer na edição do baile do ano seguinte.

 

Os casais não ganhariam nada em troca além da pura e plena diversão, até porque uma premiação não seria justa com os solteiros, mas a ideia de ter que encontrar seu ficante/namorado em meio a um grupo de pessoas parcialmente fantasiada parecia excitante. Uma pulseirinha vermelha indicaria as pessoas que estavam participando da brincadeira, para que os alheios a essa programação não fossem abordados e, consequentemente, incomodados, quando queriam apenas dançar e beber durante a noite.

 

E por mais simples — e até falha — que fosse essa ideia, foi o suficiente para chamar a atenção de outras atléticas, que se mostraram dispostas a participar da organização com auxílio financeiro — mais bebidas para um possível open bar, quem sabe, além de contatos para que a comemoração acontecesse em um local mais espaçoso e seguro.

 

Em dois anos o Baile de Máscaras não tinha mais aquela mesma proposta de recepcionar calouros, mas com certeza era um dos eventos mais aguardados do ano, quando o semestre letivo estava prestes a começar.

 

***

 

26 de agosto de 2017, sábado

 

nunca foi em nenhuma das edições do Baile de Máscaras em seus quatro anos como estudante de Física. O rapaz não tinha inclinação para festas do tipo. Qual era a diversão em sair pra ficar no meio de um punhado de pessoas visivelmente alteradas, com uma música alta tocando e causando-lhe dor de cabeça? Gostava de beber. Ah, gostava, essa parte ele não negava, mas preferida fazer isso em um bar na companhia de três ou quatro pessoas, fosse depois de uma aula cansativa no final do dia ou até durante a tarde de um sábado ou domingo.

 

Só que, veja, lá estava o garoto às portas do salão onde o Baile aconteceria na noite do dia 28. Independente do que pensava a respeito da festa organizada pelas atléticas, talvez as coisas pudessem ser diferentes naquele ano.

 

Ou será que não?

 

olhava para os lados, deslocado. Não usava máscara, tampouco fantasia — era todo jeans e camisa social branca que sequer se deu o trabalho de passar. A verdade é que não estava ali com a intenção de entrar. Seus olhos apenas buscavam a cabeleira castanha de em meio às pessoas que aguardavam na fila — que não era bem uma fila, considerando a extrema falta de organização. A única coisa que sabia enquanto perambulava sem rumo, é que, diferente de alguns que ali estavam, a amiga não usava peruca. Sentia-se cada vez mais frustrado por não encontrá-la entre aqueles que estavam ao seu redor.

 

‘Porra, !’, pensou, certo de que a Hughes já deveria estar se descabelando ao som do que quer que estivesse tocando dentro do salão, conhecendo-a como conhecia. Por que ela tinha que ter esquecido o celular em seu dormitório? precisaria do aparelho para solicitar um carro quando tivesse que ir embora, ou — e principalmente! — responder às mensagens da senhora Hughes, que com certeza seriam enviadas durante a madrugada. Bagunçou os cabelos, incomodado. Ele se preocupava, caramba.

 

Considerou ir embora. Não queria — não sem antes entregar a porcaria do iPhone — e no fundo sabia que não iria de verdade, mas poxa vida, a entrada sem máscara não era permitida no evento e ele sequer tinha comprado um convite — torrar dinheiro com algo como aquilo? Não, o dispensava. A última opção ao alcance era esperar a garota sair quando o dia estivesse amanhecendo, e ele não estava disposto a passar a madrugada inteira naquele gramado cercado por pessoas que tinham enchido a cara.

 

Mas talvez existisse uma outra saída. Bastava continuar andando na direção que estava, sem olhar pra baixo.

 

“Ai, caralho”, soltou assim que sentiu seu pé afundar em uma superfície mais macia do que a grama, um grunhido de dor acompanhando o xingamento que soltara. Ali, sob seus tênis, encontrava-se um rapaz semiconsciente, cheiro de álcool — e, urgh, vômito — se despregando das roupas que vestia. A expressão de nojo não passou despercebida no rosto de diante do odor. Desagrados à parte, aquilo ao lado do corpo que balbuciava coisas sem sentido era uma máscara e um ingresso?

 

Não era ele um rapaz desonesto, entenda, mas não tinha o costume de deixar oportunidades passarem — não quando elas lhe eram favoráveis. Duvidava que aquele Ninguém iria usar o que estava jogado no gramado. Apostava todas as fichas de que o desconhecido dormiria naquele chão, todo e completamente bêbado. Pensou na mãe de que, além de paranoica, tinha problemas cardíacos. Sabia que a tia — ele teria 101 anos de idade e continuaria chamando Elizabeth Hughes de tia, mesmo não sendo de sangue — iria mandar mensagens para saber o que estava acontecendo e talvez até chegaria ao ponto de telefonar para a filha. Se não tivesse seu contato atendido, as coisas poderiam ficar feias. Nem por um segundo pensou que seria de mal tom usar das coisas alheias para entrar na festa. Suas intenções condiziam com o bem-estar de duas outras pessoas.

 

Fora que se ele não pegasse, outro com objetivos muito menos nobres faria.

 

“Ninguém mandou exagerar no esquenta, amigão”, foi o que sussurrou para o rapaz fedorento que começava a cantarolar algo em outro idioma, pegando a máscara de Zorro e o pedaço de papel que havia custado quase 10 libras. Um verdadeiro roubo, e não estava se referindo à própria atitude ao pensar isso.

 

Para , o interior do salão era ainda pior do que o lado de fora, muito barulhento e escuro. Para quem gosta de festas, não poderia ser melhor. O investimento das outras atléticas possibilitava uma decoração muito mais trabalhada, que com o bom gosto de Artes e Design tornava o ambiente um dos mais convidativos, considerando o padrão de festas universitárias. A luz negra fazia com que as cores em neon ficassem mais evidentes e dali de onde estava, enxergava máscaras brilhando nos mais diversos tons berrantes — Ai meus olhos, pensou, rabugento —, além das pulseiras vermelhas praticamente piscando nos pulsos alheios. A música era alta — tão alta que as paredes até tremiam um bocado — e ele desejou fortemente que houvesse mais espaço, assim não enfrentaria tanto trompa-trompa enquanto continuava procurando por , o celular da amiga protegido em um de seus bolsos.

 

acreditou que sua altura contribuiria naquela missão. Era alto, o rapaz. No auge de seus 22 anos, media 1,89cm, e isso fazia dele um dos homens mais altos no local — justo ele, que não gostava muito de chamar a atenção e aquilo sendo um chamariz para olhares. Infelizmente, para , nem mesmo seus quase dois metros ajudaram a encontrar a amiga. São tantas pessoas castanhas, porcaria! Soltou o ar pesado pelas narinas, incomodado com a proximidade de tantas pessoas desconhecidas. Caminhou na direção daquilo que pensava ser o bar, torcendo para que houvesse um banco no qual pudesse se sentar e pensar melhor.

 

sempre foi um rapaz muito chato.

 

***

 

não tinha o costume de frequentar festas universitárias, principalmente aquelas organizadas por atléticas, como o Baile de Máscaras. “Não acho que sejam seguras”, ela dizia todas as vezes em que a questionavam, o dar de ombros característico de sua personalidade vindo em seguida, como se aquilo bastasse pra encerrar a conversa. E bastava.

 

Seus motivos iam além da segurança, porém. não gostava de frequentar locais onde sabia que encontraria rostos conhecidos, mesmo que fossem de pessoas com quem não tivesse proximidade — e mais da metade dos acadêmicos da Saint German iam para o Baile e eventos semelhantes.

 

Ela gostava de sair à noite, com certeza. Baladas passaram a ser um programa até que comum nos seus finais de semana depois que se tornou estudante de Letras, mas sua preferência ficava com as boates LGBT que e lhe apresentavam. Não precisava se preocupar com sua integridade nesses locais. Podia beber copos de vodka com energético — nem sempre respeitando o que sua saúde e bolso permitiam —, sem sentir medo de ser abordada por algum rapaz inconveniente e não ter como se defender. Podia perder o controle, se quisesse, e não teriam olhos conhecidos julgando sua mudança de comportamento, também. Nada de “nossa, aquela é mesmo a ?”, caso alguém a notasse dançando até o chão, tão diferente da postura séria que adotava todos os dias nos corredores da faculdade.

 

podia até dizer que não, mas a verdade é que se importava com o que pensavam ao seu respeito, e a sua vontade era a de que continuassem enxergando apenas mulher feita de seriedade e cumprimento de regras, como sempre se mostrou ser — e que de fato era, porém não se resumia apenas àquilo.

 

Mas ela iria no Baile de Máscaras de 2017.

 

é pessoa que cumpre com sua palavra. A partir do momento em que fez uma aposta com , um de seus amigos de longa data, e perdeu, sabia que teria de arrumar uma máscara para a noite do dia 26 de agosto.

 

“Você não deveria ter me desafiado, ”, o acadêmico de Artes Cênicas disse, passando o braço pelo ombro da loira enquanto caminhavam lado a lado pelo corredor central do departamento de Letras. “Eu sabia que você iria perder”, comentou, arrancando uma risada descrente da amiga, que envolveu o braço na cintura do outro. “Não, sério. Eu realmente sabia. Acontece que, sabendo, eu poderia ter apostado algo muito mais pesado, mas eu quero de verdade que você conheça o Baile de Máscaras”, pode ser uma pessoa banhada em ironia na maior parte do tempo, mas dessa vez estava sendo sincero, sem atuações. “É inadmissível que você esteja no seu último ano da faculdade e nunca tenha ido em uma edição!”

 

“Você apostou isso porque é a única festa em que pode entrar sem pagar, ”, disse, rolando os olhos. Foi a vez de rir. Desde que suas ideias tinham sido adaptadas pela organização do evento, ele não precisava comprar um ingresso para aproveitar o que quer que a festa tivesse para oferecer.

 

“Também!”, admitiu, divertido. “Mas quero que você aproveite.”

 

E lá estava a jovem diante do espelho, toda e completamente insatisfeita com a máscara que lhe cobria parte do rosto. Era dourada e cheia de glitter, dando espaço apenas para os olhos e a parte de baixo do nariz. quem tinha providenciado.

 

“Por que isso é tão necessário?”, perguntou, impaciente. Queria arrancar não só a máscara, mas também o vestido que a amiga encontrara em uma arara de brechó na tarde do dia anterior. Preto, marcava-lhe a cintura e escorria pelas coxas, parando nos joelhos. Tinha movimento, mas não respirava com conforto dentro dele.

 

, melhor amiga e colega de dormitório, ria.

 

“Não tem graça!”, exclamou, mais incomodada ainda. “Você ri porque teve a opção de escolher não ir.”

 

“Vai ser menos pior se você não ficar tão irritada, sabe disso.”

 

“Eu não vou poder beber”, apontou. Sabia que quando ingeria um gole, ia querer outro e outro, e naquela noite ela não podia — não ia! — perder o controle. “Eu não vou conseguir dançar com esse vestido me apertando a cintura e sequer vou poder ficar com alguém, já que só tem gente conhecida nessa porcaria.”

 

“Você é tão boba”, mantinha o ar de diversão. Era leve, a garota, e nunca tinha entendido a preocupação da amiga em não se deixar levar em ambientes onde haviam pessoas parcialmente conhecidas. Eles não dariam a mínima para o que fizesse ou deixasse de fazer. Todos estariam afetados demais pelo efeito do álcool — e de qualquer outra coisa que consumissem —, e ninguém daria a menor atenção pra ela. Mesmo que dessem, eles não pagavam a sua mensalidade na universidade, muito menos a bolsa que ela receberia pelo projeto de extensão no qual participaria no semestre que estava prestes a começar. “Você pode fazer o que bem entender lá, . E se vai, Sebastien também vai estar lá também. Você sempre quis dar uns pegas nele”, piscou, maliciosa.

 

Dessa vez o travesseiro voou na direção de .

 

“Quieta!”, exclamou uma ruborizada. Maldito o dia em que bebeu mais do que deveria e deixou escapar sobre a crush que nutria por Sebastien Prier.

 

O mau humor não tinha deixado a garota quando já estava dentro do salão. Encontrava-se sentada em uma das banquetas próximas ao balcão do bar, as costas apoiadas no tampo de madeira — o que era desconfortável — e um copo de água com limão nas mãos — nem o barman acreditou quando identificou o pedido da loira em meio à música alta. Não deu bola para e estava certa, Sebastien estava lá, mas de onde estava sentada ela não dava a mínima. Só estava lá para cumprir uma aposta. Dali uma hora ou até menos, iria embora.

 

Bebericou a água, os olhos percorrendo o espaço sem realmente dar grandes atenções para o que via, não até encontrar um rapaz muito alto e muito magro sentado ao seu lado. Diferente dela, ele estava de frente para os barmans com os cotovelos apoiados no balcão do bar. Uma mão digitava alguma mensagem no celular freneticamente e a outra segurava uma garrafa de vidro verde. Cerveja.

 

Estreitou os olhos. Ele era familiar.

 

Não desviou o olhar. Não dava a mínima. O próprio rapaz não parecia ter notado que estava sendo observado, a atenção focada demais no celular que segurava — a mãe de estava mesmo mandando mensagens, exatamente como imaginou que faria, e enquanto não encontrava a amiga não tinha outra escolha além de fazer de conta que era ela para não preocupar a senhora Hughes.

 

não sabia esses detalhes, nem tinha como. Ela só observava os dedos passeando ligeiros pela tela do celular e em como tinha a sensação de que o conhecia, o cabelo cortado baixo e bagunçado de uma maneira que não parecia intencional. Ele tinha desfeito o penteado por algum motivo, ela imaginava — e céus, foco: quem é que fica no celular em uma festa dessa?! Ok, ela tinha alguns palpites. Conheceu pessoas daquele nível ao longo das duas décadas de existência — ela própria era alguém assim. Com certeza estaria rolando o feed do instagram naquele momento se tivesse levado o celular consigo, enquanto pensava que qualquer pessoa estivesse se divertindo mais do que ela naquele momento, até mesmo aquelas que estavam dormindo.

 

Elvis, um garoto que tinha entrado para Letras no mesmo ano que ela, com certeza seria capaz de fazer aquilo. Elvis só não era muito alto, nem muito magro, e tinha abandonado o curso no final do primeiro ano. As chances de estar lá eram mínimas. Catrin, uma de suas melhores amigas, também apresentaria aquele comportamento. Catrin era mulher e ainda não tinha retornado das férias — chegaria no dia seguinte. Tinha também o Damon, namorado de Catrin, mas assim como Elvis, Damon não era muito alto, só muito magro. E, bem- tinha ele.

 

Mas- não

 

Não poderia ser possível. Ele estudava da Saint German, sabia desde o início — ingressaram juntos —, só nunca se esbarraram em qualquer parte do campus ao longo de todos aqueles anos. Ele era exatas, ela era humanas. Os departamentos eram distantes e eles não tinham qualquer razão para se encontrar propositalmente.

 

Só que lá estava aquele rapaz muito alto e muito magro — até mais alto do que se lembrava! —, o corte de cabelo semelhante ao do garoto que ela havia conhecido anos antes e que parecia estar nem aí para a festa. A camisa amassada vinha por cima do jeans, e no instante em que ele se voltou na sua direção de maneira despretensiosa, a mensagem finalmente enviada no whatsapp, ela sentiu seus próprios olhos crescerem. A máscara preta que mais parecia uma tira de tecido com dois buracos no lugar dos olhos mal cobria o rosto.

 

Agora ele mantinha uma barba rala e o maxilar estava mais evidente do que no passado, mas os olhos continuavam vazios, opacos, e a expressão de poucos amigos permanecia praticamente igual, só com traços mais maduros. Era compreensível. Cinco anos tinham se passado.

 

Ele não a notou. Os olhos passaram pela mulher sem que a enxergassem, exatamente como ela estava fazendo com a festa até então. Ela o viu, porém, e o reconheceu. Isso foi suficiente para que engolisse em seco.

 

Não deixaria a oportunidade passar. Não depois de todo aquele tempo. Ele não usava a pulseira vermelha e estavam em uma festa. Todos os tipos de coisas acontecem em ambientes como aquele.

 

“Quer dizer então que agora você bebe?”, perguntou, vendo-o virar a Heineken. O garoto que ela tinha conhecido não chegava perto de álcool, era chato demais pra isso. Aquele que estava ao seu lado, no entanto, não só bebia como também contraiu o rosto ao escutá-la. falou próximo o suficiente para que ele entendesse cada palavra da pergunta.

 

“Eu te conheço?”, rebateu, confuso, percebendo sua presença finalmente.

 

Seu rosto estava bem escondido atrás da máscara e seus lábios vinham vestidos de vermelho escuro, quase rubro. Ele nunca a viu maquiada. Os cabelos loiros eram longos e lisos, exatamente como os da adolescente sem graça que ela tinha sido um dia, só que ali, naquele dia, mantinha os fios amarelos presos em um coque e se ele abaixasse o olhar para o seu corpo, encontraria formas e proporções diferentes daquelas que a garota pequena e magrela de dezessete anos que ela foi um dia tinha. Desinibida pela certeza de que não seria reconhecida tão facilmente, abriu um sorriso zombeteiro, bebericando mais uma vez a água antes de falar.

 

“E quem é que não se conhece nessa faculdade, ?”, devolveu. e estavam certos. Ela poderia se divertir, se quisesse.

 

arqueou as sobrancelhas por trás da máscara, interessado. Não era feito de muitos amigos, seu círculo social se resumia a e Evans — vez ou outra também contava com a companhia de colegas de curso em botecos próximos à faculdade, com muita cerveja envolvida. Como aquela garota poderia saber seu nome? Curioso. Queria saber mais.

 

“Acho que não vamos ter uma conversa produtiva aqui”, falou alto demais. “Muito barulho.” Para , aquele era um convite para saírem dali — não do salão, afinal ele deixara o dormitório para encontrar e não pretendia ir embora até que entregasse o celular para a amiga, mas ir para um local mais calmo, sem grandes balburdias, seria bom. Tinha interesse em saber quem era aquela desconhecida.

 

Para , no entanto, a sugestão de foi mais um motivo para alargar o sorriso emoldurado pelo batom vermelho. Fez um gesto para que chegasse mais perto, ela própria não seria capaz de se esticar até o ouvido do rapaz. Ele era alto demais para a pouca altura dela. Entendendo e achando que receberia um sinal de concordância, o rapaz se aproximou, o ouvido ficando próximo o suficiente dos lábios da loira para que somente ele escutasse o que ela tinha a dizer.

 

“Quem disse que eu quero conversar?”, sussurrou, o hálito quente fazendo com que a pele de se arrepiasse. Segurou o queixo do estudante de Física com a ponta dos dedos, virando o rosto dele em direção ao seu. Viu a pupila dilatar quando os azuis dele encontraram os dela, e antes de dar abertura para que ele pudesse reconhecê-la, colou os lábios. Um impulso que deu certo, descontrole momentâneo.

 

O que a de dezessete anos acharia se soubesse que aquilo estava acontecendo, tantos anos depois? Reprovaria. Com toda a certeza do mundo, a do passado condenaria aquela atitude com todas as forças existentes em seu coração — prestar-se ao papel de beijar um cara que, indiretamente, a tinha rejeitado? Jamais!

 

Mas aquela era uma das coisas que a garota que ela foi um dia queria ter feito. Mesmo que fosse errado dada as circunstâncias que viviam, ela queria. Havia desejo e agora ela estava ali, em uma festa para a qual nem queria ter ido, com os lábios pregados ao de alguém que não via há anos, o calor se alastrando pelo peito. Sentia sabor de triunfo, coisa que dificilmente admitiria até para si própria.

 

Aquilo também não acontecia todos os dias na vida de . Correspondeu o beijo, ainda que embasbacado demais para conseguir aprofundar o que quer aquilo fosse — nada que não tenha trabalhado para mudar, naqueles poucos segundos —, permitindo que a desconhecida também lhe tocasse a bochecha. Apoiou as mãos na cintura dela por puro gesto automático e piscou repetidas vezes quando ela decidiu que era hora daquilo terminar, enfim. Respirou fundo, uma fragrância de ameixa e outras frutas vermelhas lhe invadindo o nariz — perfume que vinha dela.

 

Era bom.

 

Era realmente bom.

 

“Gostei de te ver”, foram as últimas palavras que ele ouviu antes que a desconhecida deixasse o copo vazio sobre o balcão e se levantasse, sumindo em meio ao mundo de pessoas que dançavam na pista antes que ele tivesse tempo de segurar o braço e exigir que dissesse quem era. Ela não estava bêbada. Se estivesse, não teria sido tão rápida.

 

Não, naquela noite não se embebedou.

 

Isso não significa que não tenha perdido o controle.

 

***

 

O sol brilhava no céu quando os olhos de se abriram na manhã seguinte. Enquanto a morena se espreguiçava nos lençóis bagunçados, preguiçosa, mantinha as costas apoiadas na cabeceira de sua própria cama no dormitório que dividiam. Encarava o nada, tampouco pregou os olhos depois que voltara do Baile.

 

“E aí, como foi a festa?”, perguntou a outra, entre bocejos.

 

“Você se lembra do ?” questionou sem pensar duas vezes, seus olhos ainda presos em lugar nenhum. A amiga franziu as sobrancelhas, confusa. Não estava esperando uma pergunta como aquela.

 

“Hmmm, o nome não me é estranho”, comentou, ressabiada. Lá no fundo da memória ela se lembrava de ter escutado aquele nome várias vezes, no passado. , . ? “É aquele garoto que você tentou enfiar no nosso grupo, na escola?”, franziu a sobrancelha, interrompendo a última espreguiçada. Viu assentir, em concordância. “O que tem ele?”

 

“Nos beijamos na festa”, falou sem rodeios. ‘Nos beijamos’ é forçar a barra e a loira sabe disso, mas não estava lá e, portanto, poderia ficar livre de maiores detalhes. O importante, naquele momento, é que assistiu os olhos da amiga ficarem esbugalhados conforme processava a informação que lhe foi entregue.

 

compreendia a reação.



Capítulo 2

17 de setembro de 2012, segunda-feira

 

sentia um arrepio percorrer a espinha todas as vezes em que os professores anunciavam que os trabalhos do dia seriam em dupla. Não achava a proposta de todo ruim, só acreditava que seria muito mais proveitoso se eles, os alunos, pudessem escolher com quem iriam fazer a tarefa. Não era o caso. O colégio Lady Margareth School acreditava que seus estudantes seriam contratados por grandes empresas, no futuro, e por isso estavam ali para treiná-los para aquela realidade.

 

Em uma empresa o funcionário não escolhe quem vai ser seu colega nas atividades. Não seria ali que escolheriam, então.

 

A garota Langlie acreditava que aquilo era mais prejudicial para o aprendizado do que o contrário. Eles eram alunos, não funcionários. Tinham que viver experiências de alunos. Desenvolver o espírito de equipe possibilitando que os adolescentes pudessem organizar seus próprios times parecia muito mais produtivo — fazer trabalhos na companhia do amigo era muito mais legal do que com aquele zé que senta do outro lado da sala, e que você nem presta atenção na existência.

 

Porque, sim, também tinha essa. Não bastava tirarem a autonomia dos alunos em escolher a própria dupla, os professores também organizavam as listas de uma forma que fazia os colegas trabalharem com quem não tinham muita proximidade, tudo visando a interação entre cada um. Um saco, era a opinião de . Um grande e belo saco. Sabia que não ficaria com , muito menos com — até incluiria nessa lista, mas por incrível que pareça, tinham sido unidas pelos professores em anos anteriores. A despeito do carinho que já nutriam uma pela outra, descobriram naquele dia que não funcionavam juntas em trabalhos em dupla. A amizade quase acabou.

 

Pelo menos o dever daquela manhã era da disciplina de Inglês. não era a favor de fazer trabalhos sozinha e permitir que a dupla levasse nota às suas custas — Sebastien Prier sabia disso muito bem. Ele jamais esqueceria o zero em História, já que tirou seu nome do relatório alegando falta de contribuição do colega —, mas naquele dia, se fosse obrigada a compartilhar conhecimento com alguém lento — ou burro — demais, ela estava disposta a fazer tudo por conta própria e dar a nota máxima pra quem quer que fosse, de lambuja. Era sua matéria preferida, ela estava até que bem humorada e, principalmente, queria se ver livre daquilo logo.

 

Não soube ao certo o que pensar quando viu seu nome ser escrito ao lado do de , no quadro negro. Olhou discretamente para o lado, encontrando a silhueta alta e magricela sentada há duas cadeiras de distância. De perfil e com o queixo apoiado na palma da mão, parecia tão empolgado quanto ela e o restante da sala inteira.

 

Ele era bom. Não que tivesse acesso ao seu histórico, nunca teve, mas os professores também tinham o péssimo hábito de organizar a entrega dos testes por ordem de nota: as primeiras folhas entregues eram as de quem tinham tirado as notas mais baixas, enquantos os últimos representavam os donos das maiores pontuações — uma brincadeira com o ditado “os últimos serão os primeiros”. Ela, e costumavam ser os últimos, na maioria das vezes.

 

Nunca tinha nem escutado a voz de , porém.

 

Tudo bem, “nunca” é uma palavra um tanto forte e até errada. Volta e meia eram os primeiros a chegar na sala de aula, de manhã, soltando um “bom dia” um para o outro quando o humor era bom o suficiente para desejar algo do tipo a alguém com quem não tinha o hábito de bater papo — ou seja, pouquíssimas vezes. Não pertenciam ao mesmo círculo de amizades apesar de ficarem separados apenas por duas carteiras durante as aulas, quase todos os dias. Tudo o que sabia sobre o garoto era nome, sobrenome e que suas notas deveriam ser tão altas quanto as dela, informações colhidas ao longo dos quase dois anos sendo colegas de classe.

 

O que não significava que isso faria dele um bom parceiro. Vamos descobrir daqui a pouco, pensou, levantando-se da carteira para pegar com a professora o texto que teriam que analisar juntos. Enquanto fazia isso, puxava sua própria cadeira para junto da mesa de . Se ela pegava o texto, ele mudaria de lugar. Cada um com seus pequenos esforços, considerou o garoto.

 

Ponto pra ele.

 

“Não parece ser nada complicado”, foi a primeira coisa que disse quando retornou. Passou os olhos pelo texto de duas páginas enquanto voltava pra carteira e percebeu que era uma leitura bastante simples, um artigo feito por algum autor aleatório. Eles teriam de encontrar erros na escrita, reescrevendo na forma correta. Básico. Básico até demais para quem estava no terceiro ano, convenhamos.

 

“Melhor ainda. Vamos terminar mais rápido.” Pegou as folhas que a garota lhe estendeu e se surpreendeu com o que encontrou ao olhá-lo nos olhos. Duas bolotas azuis e opacas, quase como se ali não houvesse muita vida. “O que você acha de eu ir marcando as partes erradas, encontramos a forma certa juntos e você reescreve?” Ele chamou a atenção da colega, que piscou ao ouvi-lo. “Minha letra não é das mais bonitas.”

 

“Tranquilo. Pode ser.” Ombro a ombro — ou o mais próximo disso, já que tinham uma diferença de altura considerável — percorreram os olhos pelas linhas do artigo, lendo, as observações sendo feitas por ambos ao longo da leitura. “Isso é tão absurdo”, soltou enquanto grifava uma frase com erro de concordância. “Nós deveríamos estar fazendo algo condizente com o terceiro ano, não isso.” Ah, amava criticar aquilo que não achava que era correto, mesmo que o ‘aquilo’ fosse passado por alguém com muito mais conteúdo do que ela, como era o caso dos professores.

 

“Você acha mesmo que o objetivo dessa atividade é avaliar apenas o nosso conhecimento?”, ele interrompeu o que estava fazendo para observá-la. Olhava-a a de cima e mesmo sabendo que isso só acontecia por conta dos centímetros que tinha a mais, não gostou da sensação. Arrumou a postura, como se isso a tornasse maior. não percebeu suas intenções — e se notasse, não daria importância. A intenção dele não era diminui-la, mas a forma como ela o interpretava não fazia diferença. “Nós estudamos na Lady Margareth, Langlie. Eles adoram fazer de conta que esse lugar é um protótipo de multinacional. O que gerentes e diretores costumam fazer com funcionários que estão abaixo deles, nesses lugares?”

 

desviou os olhos para a professora, que ao invés de estar lendo ou corrigindo o que quer que fosse, como sempre fazia durante atividades como aquela, passeava os olhos por toda a sala com um sorriso leve no rosto. A expressão da mulher não mudava mesmo quando via duplas conversando ao invés de focar na tarefa. Sequer repreendia aqueles que falavam mais alto do que o aceitável. A avaliação não se resumia à folha que eles entregariam quando terminassem a análise.

 

“Observam rendimento, atitudes e a maneira como lidam diante dos afazeres do dia-a-dia, dentro da empresa”, respondeu, ainda encarando a professora. Parou de olhar apenas quando os olhos da mulher pousaram na mesa que ela estava dividindo com , o sentimento de incômodo por estar sendo avaliada daquela forma crescendo dentro do peito. Qual a necessidade?

 

assentiu. “Vamos terminar isso logo. Eu tô com fome”, disse simplesmente, e seguiram em silêncio, um indicando os erros com a ponta do lápis e o outro concordando com um aceno da cabeça, constatando que, realmente, aquilo estava errado. reescrevia depois que entravam em um acordo sobre a forma certa, de acordo com o combinado.

 

Foram a primeira dupla a terminar. Enquanto deixava a sala, sentiu uma mão segurar seu pulso antes de alcançar a porta. Parou para ouvir o que , seu namorado, queria.

 

“Me espera perto da cantina?”, o menino pediu, esforçando-se para falar baixo. sabia que, para , fazer aquilo não era fácil. Não era de sua natureza usar tom de voz naquele volume, não com ele sendo um garoto espalhafatoso e descontraído demais, um pequeno projeto de pavão em forma de gente.

 

Sentiu as pontas dos lábios subirem, achando aquele esforço uma gracinha. não se importava quando os professores chamavam sua atenção por comportamento inadequado em sala, mas sabia que, como ela também corria o risco de levar uma bronca naquela situação, ele se esforçava para que a professora nem notasse o que estavam fazendo — o fato de que a turma estava meio fora de controle ajudava a camuflá-los.

 

“Espero”, respondeu, ainda satisfeita com a atitude.

 

Saiu da sala a tempo de ver virar à direita, no corredor. Para quem estava com fome, ele não parecia estar a caminho da cantina.

 

***

 

19 de setembro de 2012, quarta-feira

 

É verdade que amava estudar, mas estaria mentindo se dissesse que preferia as aulas aos momentos de intervalo entre uma disciplina e outra. Tinham quinze minutos de descanso no final de cada matéria — vinte, contando com os cinco que usavam pra correr até a próxima sala —, então ela e os amigos aproveitavam a breve folga pra sentar em um dos muitos lances de escadas que havia no prédio, todos juntos, conjunto de boquinhas prontas para matraquear o máximo possível.

 

“É impressão minha ou os professores andam meio misteriosos?”, Joseph perguntou assim que todos os amigos se aproximaram. Não estavam todos presentes naquele intervalo, o que era uma pena. e Daniel teriam treino de futebol durante toda a manhã — faltava menos de uma semana para a primeira partida do campeonato entre as escolas e os professores de Educação Física não daria paz para o time até lá —, mas todos os outros se acomodavam, cada qual ocupando seu espaço nos degraus. vinha sentada no meio de e , enquanto Joseph se ajeitava abaixo do trio, as costas apoiadas na parede. e Elizabeth gostavam de ter uma visão geral de todos, então preferiam ficar de pé.

 

“Ah, O’Donell, ficar puxando conversa sobre professor na hora do intervalo é sacanagem”, reclamou, cruzando os braços. “Nós já estudamos em uma escola esquisita. Ter professores esquisitos só faz parte do pacote.”

 

“Mas o que O’Donell acaba de falar faz sentido”, defendeu a fala do amigo, se impondo. “Vocês não repararam na atitude que a professora teve na atividade de antes de ontem?” O comportamento da professora não tinha saído de sua cabeça desde que observou a forma como analisava a sala, sem se importar com as conversas paralelas. Eles sempre eram repreendidos quando falavam demais ao invés de fazer a lição. Tinha compartilhado seus pensamentos apenas com e mais cedo, mas agora a fala de Joseph permitia que abrisse seu ponto de vista para todos os outros.

 

“Achei foi ótimo”, comentou mais uma vez, agora sem ares de reclamação. Ainda com os braços cruzados, abriu um sorriso no canto dos lábios, o olhar indo parar no rosto de . “E aposto que não fui o único a gostar de não tomar pito por ficar conversando.” Piscou para o garoto de cabelos castanhos com quem tinha feito dupla na aula em questão, fazendo com que as bochechas do amigo ficassem mais avermelhadas do que o normal. Apenas os dois tinham conhecimento do que conversaram durante a aula de Inglês e era provocativo, ah, como era! Não perderia a oportunidade de deixar o amigo sem graça ao fazer comentários como aquele.

 

“Foi estranho”, Elizabeth concordou, ignorando as provocações silenciosoas entre e . Estava focada no assunto principal da conversa. De fato, o que aconteceu na aula de Inglês não era comum. Cíntia Jobes poderia ser uma das professoras mais tranquilas que tinham, mas ainda era alguém que dava advertências por comportamentos fora da linha.

 

“Foi”, acrescentou, o olhar indo de para antes de se voltar para Elizabeth. “Ela só observava todo mundo, fosse aqueles que estavam fazendo a atividade de verdade ou os que estavam conversando.”

 

“Vou contar pra vocês uma coisa que ouvi esses tempos”, Joseph retornou ao diálogo, falando mais baixo dessa vez. “Eu tava passando pela frente da sala da nossa  coordenadora quando vi que a diretora tava lá dentro.” Aqueles que estavam sentados se aproximaram mais de Joseph e até mesmo e Elizabeth resolveram se sentar, pra escutar o amigo melhor. Cinco criaturinhas curiosas, isso é o que eles eram. “Não sei exatamente pra quê, mas elas diziam que os professores estavam no processo de observação pra saber quais alunos se encaixam ‘no projeto’”, fez aspas com os dedos ao falar as últimas palavras, indicando que tinha falado exatamente como tinha escutado.

 

“Que projeto?”, perguntou, confuso.

 

“Ai brother, eu não sei! Só repeti o que escutei. Considerando que a gente estuda em um colégio bizarro, pode ser qualquer coisa, até programa de estágio em alguma empresa grande”, supôs.

 

Todos se encararam naquele momento, um analisando a expressão do outro. Processavam aquela informação quase que ao mesmo tempo. Se aquilo fosse verdade, seria uma bela de uma oportunidade para eles, que eram tão novos.

 

O único que não participou da troca de olhares entre os amigos foi . Apoiando a cabeça no ombro de , o menino só conseguia pensar no quanto não se importava com oportunidades de emprego. Pelo amor de Deus, temos apenas dezessete anos, ele considerou falar, mas preferiu apenas fechar os olhos. Ainda não estava em tempo de pensar naquele tipo de coisa — não sabia nem o que faria na faculdade, e ela estava mais próxima do que o mercado de trabalho em si. Os amigos estavam loucos em pensar naquela possibilidade com ar desejoso.

 

“Isso seria incrível”, soltou, sem se conter. “Imagina ter algo do tipo no currículo sendo tão jovem? É um passo e tanto...”, deixou as palavras no ar. Se Joseph estivesse certo, e ela queria que estivesse, continuaria dando ainda mais de si em sala de aula para que seus pontos com os professores aumentassem. Caso a aula de Inglês tenha sido um teste, é possível que tivesse ido bem. Foi a primeira a terminar, na companhia do garoto . Tinha chances.

 

“Com licença”, ouviram uma voz rouca, típica de garoto que estava passando pela puberdade. Olharam para o menino. Deveria estar no sétimo ano, no máximo. “Qual de vocês duas é a Langlie?”

 

franziu o cenho, chamando a atenção para si. “Sou eu, por quê?”

 

“O senhor Roberts está te chamando no laboratório de informática.”

 

conferiu o relógio. Faltavam sete minutos para a próxima aula.

 

“Cuidado, Langlie”, provocou. “Chegar atrasada na aula pode cair seu mérito na disputa” e riu, debochado. se levantou, soltando um muxoxo por não ter mais ombro para se encostar. Mais um pouco e tiraria um cochilo.

 

“E ainda vou ter mais chances do que você.” arqueou as sobrancelhas, enquanto Joseph soltou um assobio, achando graça do corte e não segurou uma risadinha. poderia tacar fogo na escola e ainda teria mais pontos do que no que quer que fosse, tratando-se de conceito com os professores.

 

A menina se afastou do grupo, rumo ao laboratório de informática.

 

***

 

As perguntas de Timoty Roberts não pareciam fazer o menor sentido para .

 

O garoto apenas caminhava sozinho pelo corredor quando a careca do professor despontou através da janela do laboratório de informática, um sorriso brilhante brotando no rosto redondo do mestre. “Oh, rapaz, terá o universo conspirado ao meu favor trazendo-o até aqui?”, Roberts comemorou. “Queria mesmo falar com o senhor. Vamos, entre, quero tratar sobre o trabalho que sua turma fez ontem.”

 

arqueou as sobrancelhas, as mãos escondidas nos bolsos do moletom. “Hm, senhor Roberts, eu estou a caminho da minha próxima aula. Será que poderíamos conversar em outro momento?”

 

Ah, não se importava com a aula, tampouco em chegar atrasado — chegava no horário todos os dias apenas por puro hábito, não por se sentir obrigado —, mas o jeito daquele professor era no mínimo irritante, para ele. Animado demais. Empolgado demais. Estranho demais. Não estava disposto a ficar sozinho em uma sala na companhia de Timoty — já tinha que estar na presença do homem duas vezes por semana. Era o suficiente.

 

Uma pena que o professor não estivesse disposto a dispensá-lo, mesmo que tivesse esbarrado no aluno por puro acaso.

 

“Oh, jovem rapaz, não se preocupe com isso”, Roberts respondeu, abanando o ar. “Qualquer coisa eu escrevo um bilhete para o professor da sua próxima aula explicando o ocorrido. Agora vamos, entre, o assunto que tenho pra tratar é importante.”

 

Não era. Definitivamente não era. Quanto mais o professor de informática falava a respeito do trabalho, mais se remexia, inquieto, enquanto se via sentado em frente a um dos computadores do laboratório. Em suma, Roberts queria saber porque o adolescente colocou aquelas respostas em seu teste online.

 

“Senhor Roberts, eu acredito que tudo tá bem explicado no relatório e caso contrário, o senhor deveria fazer essas perguntas durante a sua aula”, comentou, incomodado, torcendo para não ter se expressado com grosseria. Tato não era uma das suas melhores qualidades, mas estava diante de um professor e por mais absurda que aquela situação fosse, queria falar com jeito. Sentia-se indignado, porém. Aquilo não deveria ser certo, conhecendo as diretrizes do colégio. Os alunos só tinham acesso aos seus testes depois que eles eram devidamente corrigidos e, principalmente, nunca em uma situação como aquela.

 

“E eu acredito que o senhor não está entendendo onde quero chegar, , mas não se preocupe! Vou pedir para que chamem outra pessoa de sua turma aqui — creio que a senhorita Langlie seja uma boa opção. Vai ser ótimo conversar com vocês dois por alguns minutinhos!” Ele falava já seguindo para a porta.

 

O que é que tá acontecendo aqui?!, pensou, chocado. Repassou os últimos minutos na cabeça, tentando entender onde ele havia errado. Em um momento estava apenas seguindo para a próxima aula. No outro se viu capturado por um professor aleatório — e irritante, no seu julgamento —, colocado de frente a um computador e tendo todo o seu último trabalho daquela matéria questionado. Agora teria que partilhar aquele momento com outra pessoa. Quê?!

 

Não fazia o menor sentido.

 

Roberts retornou para o laboratório sozinho. Langlie, porém, não demorou para aparecer, o semblante da loira sendo uma mistura perfeita de surpresa e curiosidade. Quis avisar a colega que o professor estava avariado das ideias. Queria poder falar que aquilo era cilada, que ela tinha mais é que sair correndo, mas independente das condições psicológicas duvidosas de Timoty Roberts, ele ainda era professor e falar qualquer uma daquelas coisas na presença do homem seria, no mínimo, falta de respeito. Roberts poderia ter perdido o juízo, mas ele, , ainda estava bem.

 

Manteve-se calado e presenciou o professor fazer os mesmos questionamentos para a menina enquanto abria o teste dela em outro computador. Sentiu vontade de rir quando viu a descrença aparecer nos traços de .

 

“O senhor me chamou aqui pra isso?”, ela perguntou, chocada, o tom levemente rude. disfarçou a risada com uma tosse. “Quero dizer- creio que isso poderia ser revisto durante a aula, não?”, reformulou o pensamento, agora com mais delicadeza.

 

“Oh, a senhorita disse basicamente a mesma coisa que o senhor aqui”, comentou, coçando a barbicha. arqueou as sobrancelhas para . Não tinha notado sua presença. “Talvez vocês tenham razão, jovens” o velho concordou, assentindo com a cabeça. “Talvez possamos tratar sobre este assunto durante a aula mesmo.” Roberts não parecia incomodado, apesar de tudo. Seguia para sua mesa, a maior de todas dentre aquelas que compunham o laboratório. “Estão dispensados. Vou escrever um bilhete para vocês entregarem ao próximo professor, justificando o atraso.”

 

Descrença, choque, confusão. Existem muitas palavras que podem descrever os sentimentos dos dois estudantes que só ousaram manifestar a indignação quando estavam longe o suficiente dos ouvidos de Timoty.

 

“Essa escola é estranha e isso que acabou de acontecer foi mais estranho ainda”, soltou, caminhando ao lado da colega. Teriam a mesma aula na sequência. “Eu só estava andando, cara. Só andando e o homem praticamente me puxou pra dentro daquele laboratório, tudo pra fazer perguntas que já tinham sido respondidas no relatório!”

 

“Eu e meus amigos estamos achando que a escola está preparando indicações para um possível programa de estágio”, compartilhou um pouco do que tinha conversado com seu grupo, mais cedo. Agora, mais do que nunca, queria acreditar as suposições de Joseph estavam certas. Primeiro a aula de Inglês, agora isso. Os fatos tinham que ter alguma relação com o que o amigo escutara. “Lembra da aula da Jobes? Do que ela fez? Acho que estamos sendo colocados em situações estranhas meio que de propósito. Uma forma de avaliação, como você mesmo me disse durante a tarefa.”

 

“Isso é ridículo”, comentou após alguns segundos de silêncio, rindo sem graça. Programa de estágio com eles tendo apenas dezessete anos e sendo apenas estudantes de ensino médio sem qualquer formação especializada? Ele pensava que Langlie fosse mais inteligente. “Primeiro que não temos idade pra trabalhar legalmente, segundo que a escola não tem nada a ver com nossa vida profissional inexistente, terceiro que se uma coisa dessas fosse verdade, o correto seria a escola divulgar a proposta, abrir inscrições e aí sim selecionar quem é competente pro cargo ou não”, explicou. “Não faz o menor sentido nos colocar em situações bizarras, Langlie. Não faz sentido nenhum.”

 

mordeu o interior das bochechas, incomodada. Não gostava da maneira como o outro falava — ou será que não aprovava ter suas ideias ridicularizadas, especialmente quando os contrapontos eram coerentes? não era ninguém pra fazer com que ela se sentisse uma idiota.

 

Encarou-o, a expressão séria. Queria rebater. Queria mostrar que tinha sim sentido naquilo que ela dissera — existem programas de estágio em todos os lugares, afinal. Algo semelhante para estudantes do ensino médio poderia ser inovador, o que combinava com o propósito de onde estudavam. Ela inclusive queria que fosse verdade.

 

Mas não estava mais disposta a trocar ideias com aquele garoto. Ele soava petulante demais para o seu gosto — já tinha se sentido pequena durante a aula de inglês com ele olhando-a de cima e sentiu-se novamente naquele momento. Era o bastante.

 

Deu de ombros, demonstrando desinteresse na fala de . “Pense como quiser”, foi a última coisa que dirigiu ao conhecido antes de dar uma leve batida na porta da sala de aula para entrar.

 

Estavam quase dez minutos atrasados.

 

***

 

1 de outubro de 2012, segunda-feira

 

Aquela quinta-feira começou de uma forma um tanto inusitada para os alunos do ensino médio da Lady Margareth School. Ao invés de terem suas primeiras aulas do dia, cada estudante foi informado ainda na portaria do colégio que deveriam se dirigir para a quadra de esportes para um pronunciamento que a diretora faria às 8 horas da manhã, pontualmente.

 

O ginásio não demorou para ser ocupado por todos do primeiro, segundo e terceiro ano. Os burburinhos corriam soltos pelas arquibancadas de madeira, muitos sons curiosos e intrigados que tentavam ser contidos mas acabavam se transformando em um zumzumzum semelhante ao que as abelhas costumam fazer quando estão reunidas em grande número.

 

Era mais ou menos aquilo que eles representavam, abelhas, e ali, dentro da colmeia, aguardavam pelo discurso que a rainha faria dentro de poucos minutos. Não imaginavam o que ela tinha a dizer — só que deveria ser de extrema importância para gerar aquela comoção toda.

 

“Testando”, escutaram a voz da diretora tomar conta de todo o espaço, amplificada por um microfone. Não era um teste, sabiam. Era apenas uma forma de fazer com que todos se calassem para ouvi-la, e foi exatamente o que a mulher que comandava aquela escola conseguiu naquele momento. Silêncio absoluto.

 

“Bom dia a todas e todos”, a diretora cumprimentou, posicionada em um pequeno palco improvisado embaixo de uma das cestas de basquete que haviam na quadra. O relógio marcava exatamente 8 horas. “Não é todo dia que algo assim acontece, mas também não é todo dia que o corpo docente da Lady Margareth tem uma novidade tão importante para comunicar a vocês.”

 

“Estou aqui em nome de todos os nossos professores, mas antes de explicarmos para o que viemos, devo dizer que essa ideia começou a ser trabalhada no final do ano letivo anterior”, começou as devidas explicações apenas aumentando o mistério que os cercava. Alguns reviraram os olhos de onde estavam, e sendo dois nomes que podem ser citados. Pra quê enrolação, dona? Vá logo ao que interessa!

 

“Sabemos que vocês são mais do que m estudantes. São seres humanos. São pessoas dotadas de extrema inteligência e outras tantas qualidades louváveis, e nós, enquanto educadores, gostaríamos que essas características individuais fossem trabalhadas de maneira saudável dentro da escola. Mais do que isso, ficaríamos honrados em falar sobre essas peculiaridades em seus históricos, levando todos os pontos positivos sobre quem vocês são a conhecimento das futuras universidades nas quais vocês vão ingressar.”

 

prendeu a respiração. Aquela reunião surpresa deveria estar relacionada com os episódios estranhos aos quais foram submetidos desde o início das aulas. Segurou a mão de com força, seus dedos envolvendo os do namorado. “O que quer que essa mulher vá falar agora, eu tenho certeza de que você vai se dar bem”, sussurrou no ouvido da menina, acariciando o dorso da mão dela com o polegar. sorriu, ansiosa.

 

“Para tanto, decidimos criar um projeto chamado ‘monitoria escolar’”, prosseguiu a diretora. “Trata-se de um programa onde alguns de vocês vão ocupar o cargo de monitores. Os monitores teriam um elo mais próximo com os professores. É uma equipe que vai receber a função de lecionar mini-aulas de reforço nas disciplinas em que mais tem afinidade, tudo no período da tarde, e passariam para o corpo docente todas as necessidades e dificuldades dos colegas em geral, para que melhorias sejam feitas no nosso sistema de ensino.”

 

Não era um programa de estágio em uma empresa, como tinham suposto. É melhor, pensou a Langlie, o coração dançando frenético dentro do peito.

 

“É um cargo de extrema confiança e responsabilidade que vai se tornar, no futuro, uma ótima forma de recomendação para as faculdades que vocês escolherem, no final do ensino médio. Seria um prazer enorme poder proporcionar essa oportunidade para todas e todos, meus queridos, mas infelizmente as vagas são limitadas e vocês são muitos, então uma peneira foi realizada durante o mês de setembro.”

 

apertou a mão de com mais força. Agora além de acariciar o dorso da mão da namorada, o garoto também lhe dava tapinhas de conforto em seu ombro com a mão livre — se aquela era uma tentativa de acalma-la ou sinalizar que estava apertando-o com muita força, jamais saberemos.

 

Ao lado de , também começava a demonstrar sinais de nervosismo. Mãos geladas, buraco no estômago. Conseguir algo daquele porte seria tão incrível, meu Deus! Sentir-se reconhecido entre os professores seria um prêmio e tanto para todos os seus anos se esforçando dentro da escola — esforços que triplicaram desde a conversa que tiveram na escada, com Joseph contando o que escutou. Ele queria aquilo antes mesmo de saber ao certo do que se tratava. Queria com todas as forças de seu coração.

 

“Os alunos do primeiro e segundo ano foram excluídos logo no início” e essa observação fez com que muitos “aaah!” se alastrassem pelas arquibancadas. “Acalmem-se”, pediu a educadora. “Vocês terão suas chances quando chegarem ao terceiro ano. Terão uma vantagem ainda maior do que os terceiranistas atuais. Vamos começar a observá-los com outros olhos ainda mais cedo!”, avisou.

 

“Então, sim, as vagas são apenas para alunos do terceiro ano. Começamos a observar seus comportamentos logo no primeiro dia de aula, e ao longo das semanas estipulamos os mais diversos tipos de situação para saber quem estaria apto para cumprir com aquilo que estávamos dispostos a aplicar. Não consideramos apenas as suas notas, então estes que estão murmurando ‘só os CDFs vão conseguir’ estão cometendo um grande equívoco”, alertou. “As notas foram levadas em consideração, com certeza, mas não são os fatores principais. Nós observamos disciplina, responsabilidade, desenvoltura nos trabalhos em equipe e o cumprimento daquilo que é certo dentro do nosso regulamento.”

 

“Sabemos que em dado momento vocês perceberam que algo estava acontecendo — as atitudes de alguns professores não correspondiam com o esperado —, mas preferimos não avisar quais eram os nossos planos para que vocês não mudassem sua forma natural de agir. Queríamos ver como vocês são realmente, e não como podem mudar quando motivados pela possibilidade de um prêmio, no final das contas.”

 

se viu procurando pelo rosto de entre os demais. Queria que ele visse em seu rosto a satisfação por saber que ela estava certa, afinal. Amava estar com a razão.

 

“Agora, sem mais delongas, vou anunciar os nomes escolhidos. Antes, porém, queremos deixar claro que nenhum dos seis alunos são obrigados a aceitar — caso rejeitem a indicação, outros estudantes serão selecionados. E sim, como tudo o que acontece nessa escola, a monitoria será feita em dupla”, limpou a garganta com um pigarro, abrindo a pasta que continha os nomes. Três meninos, três meninas, três duplas. “Catherine Abney e Stuart Evans. Langlie e . Rosie Carver e Joseph O’Donell.”

 

Se antes o coração de Langlie batia mais acelerado do que o normal, nada se comparava a como estava depois de escutar seu nome sendo pronunciado pela diretora. Ela havia sido uma das escolhidas! Sequer se importou com o nome que acompanhou o seu — Ela. Havia. Sido. Uma. Das. Escolhidas. “Eu disse que você se daria bem!”, o namorado exclamou em meio às reações dentro do ginásio.

 

Se viu abraçando , um dos maiores sorrisos que abrira naquele ano se formando no rosto. Vacilou apenas quando observou a expressão de , que encarava o nada. Aquilo brilhando nos olhos do melhor amigo eram lágrimas?

 

“Certo, certo”, a diretora tentou acalmar os ânimos inflamados. “Eu vou pedir para que esses seis jovens sigam para o meu departamento imediatamente. Estejam lá até às 8 e meia, por favor. Precisamos conversar. Todos os outros devem seguir para suas respectivas aulas. A primeira também vai começar dentro de dez minutos” Informou antes de se retirar. Era 8h20.

 

-“, segurou o pulso do amigo assim que se soltou do abraço de . apenas balançou a cabeça em sinal de negação, levantando-se.

 

“Eu vou conversar com ele”, assegurou, assistindo o outro se afastar. “Você, ele e sempre tiveram as notas mais altas e dentre os três, ele foi o único a não ser chamado — até O’Donell foi...” compreendia aquilo, o que não diminuía o aperto que estava começando a tomar seu peito. Lembrava do quanto tinha ficado animado com aquela possibilidade — tanto quanto ela, a verdade era aquela. Tinham passado horas durante a noite e madrugada conversando no whatsapp, ambos empolgados com a possibilidade de trabalharem cedo sob a indicação de uma escola renomada. Não queria ver decepcionado consigo mesmo. “Vou tentar abrandar os nervos dele e a senhorita vai pra sala da diretora. Não se atrase na sua primeira reunião como monitora”, pediu, aproximando o rosto do da namorada. “Eu estou muito, muito orgulhoso”, sussurrou, beijando-lhe a testa.

 

“Obrigada”, agradeceu no mesmo tom, as mãos apertando — sem a mesma força de antes — as dele. Não era a favor de demonstrações públicas de afeto, nunca tinha sido, mas aquela era uma situação extraordinária e, em verdade, ela estava grata por todo o apoio que recebia daquele menino — o quanto ele acreditava nela. “Obrigada por tudo.”

 

***

não encontrou entre os estudantes sentados na arquibancada quando procurou por seu rosto para se mostrar vitoriosa. Tinha olhado para as fileiras abaixo daquela em que estava e até ousou uma olhadela para os lados, mas esqueceu-se de olhar por cima do ombro. Teria encontrado o rapaz se o tivesse feito, ele estando sentado pouco atrás de onde ela estava.

 

via a cena entre o casal sentindo um quê de vergonha alheia despontando no peito.

 

Que desnecessário.



Capítulo 3

27 de agosto de 2017, domingo

 

Indigo’s Pub costumava lotar nas tardes de domingo. O bar inaugurado por Irina no ano de 1923 era um dos poucos localizados nas proximidades da Saint German Academy e dentre todos os estabelecimentos da região, era o único que vendia bebidas alcoolicas naquele dia da semana. Não era surpresa passar pela frente do local e encontrar inúmeros jovens adultos sentados nas mesas de madeira ou junto ao balcão, todos jogando conversa fora enquanto bebiam cerveja direto do gargalo e beliscavam porções de batata frita.

 

Dava para contar nos dedos quantas foram as vezes em que foi até aquele bar. Não, senhores, sua falta de preferência pelo espaço não estava ligada ao fato de que não queria que a vissem bebendo algo com álcool só não era uma das maiores fãs de cerveja e, para seu azar, aquela era a única bebida oferecida no cardápio, além de água, claro — “E água eu bebo em casa”, é a resposta que ela tem na ponta da língua. A garota ia apenas nos dias em que insistia muito, e sabia que, para a amiga pedir por sua companhia, é porque nenhum outro contato de sua lista estava disponível para beber ao seu lado.

 

O domingo que sucedeu o Baile de Máscaras foi um desses raros dias.

 

Depois que acordaram e conversaram sobre tudo o que tinha acontecido na noite anterior — bem. Quase tudo. não pretendia contar a forma exata como o beijo se concretizou —, Clarke não parou de reclamar que sentia a garganta seca. “Eu preciso de uma cervejinha, ”, a morena insistia. “O pessoal da minha turma ainda não voltou de férias, está incomunicável — nós imaginamos o porque — e Catrin só vai dar as caras hoje à noite. Vem comigo. Por favoooor!!”

 

revirou os olhos, brincando. “Você paga a batata frita”, impôs. “E vamos chamar também.”

 

“Feito!”, a outra comemorou.

 

Assim, lá estava o trio ocupando uma das mesas de Indigo’s Pub às 15 horas, a porção de batatas ocupando o centro. segurava uma longneck de Stella, enquanto e dividiam água com gás — o jovem também não era nenhum simpatizante de álcool. “Muito amargo” ou “Parece que tô bebendo perfume?” são coisas que ele sempre diz quando lhe oferecem algo.

 

O ambiente era agradável. A falação entre os jovens era alta, as risadas vindo acompanhadas de batidas empolgadas nos tampos de madeira e gente pra todos os lados. Isso que o semestre letivo nem tinha começado de verdade. Era justamente sobre isso que os três amigos conversavam, inclusive. Como seria aquele semestre?

 

“O coordenador do curso não responde os meus e-mails”, contava. “Eu preciso fazer Cinesiologia esse semestre e minha matrícula não foi confirmada pelo sistema.”

 

foi uma das estudantes que se destacou no futebol feminino da Lady Margareth, durante o Ensino Médio. Assumiu a capitania no segundo ano e tanto em 2011 quanto 2012, trouxe medalhas de ouro para a escola junto com o restante da equipe. Sonhava em seguir carreira profissional enquanto jogadora, e até apostou nesse futuro quando finalizou o ensino regular, mas depois de entrar para a reserva do Arsenal Football Club concluiu que não fazia parte daquele mundo. Não naquele setor, como atacante.

 

O futebol era, para ela, um hobby, aquele tipo de atividade que fazia com prazer e vontade, sem pesos envolvidos. A partir do momento em que se viu diante do compromisso de cumprir horários rigorosos, se desgastar com treinos incessantes e ouvir gritos de um treinador pouco paciente — essa com certeza era a pior parte —, temeu que aquela vida lhe tirasse todo o sentimento bom que nutria pelo esporte.

 

Nem de longe era como na escola. Precisava seguir horários e treinos puxados enquanto atuava como capitã de um time, com certeza, mas na Lady Margareth não havia nervosismo, muito menos estresse. Ela não jogava para passar por aquilo. Era o oposto. Chutava a bola branca e preta na direção do gol para liberar a energia que acumulava em seu corpo. Deitava no gramado no final de cada partida e inalava o cheiro do verde, aquele sendo um costume que a deixava calma instantaneamente. Não sentia aquilo no Arsenal. Não era um ambiente que lhe fazia bem.

 

Desistiu.

 

Não abriu mão de uma carreira no esporte, no entanto. Em 2014, iniciou seus estudos como acadêmica de Fisioterapia na Saint German Academy e estava focada em entrar para equipe médica de algum time de futebol feminino — contanto que não fosse o Arsenal. Não estaria em campo, mas nos bastidores ajudaria cada jogadora a se recuperar de possíveis lesões.

 

Para isso, precisava cursar Cinesiologia e aparentemente o professor não estava disposto a confirmar sua matrícula na disciplina. Ah, esses doutores de faculdade… Eles não eram fáceis.

 

“Bem-vinda ao meu mundo”, resmungou após engolir algumas batatas. As coisas não eram muito diferentes na Medicina. O garoto, porém, apenas fingia se importar com a falta de atenção dos professores. Se dependesse dele, não concluiria a faculdade tão cedo.

 

Era um rapaz esforçado. Foi um dos nomes mais bem colocados na turma de calouros de 2013 e mantinha suas médias em um padrão invejável, mas questionava-se com frequência sobre o que faria da sua vida quando tudo aquilo acabasse. Quando não seriam mais provas escritas, atividades em laboratório e apresentações de artigos em congressos. Quando tivesse que iniciar sua residência e, por fim, decidir qual especialização escolheria para si.

 

Não se enxergava em nada.

 

O leque de áreas proporcionadas pela Medicina era enorme e quanto mais analisava cada uma delas, menos desejava estar ali. Pensou em largar mão. Todas as vezes em que considerava a desistência, porém, lembrava-se da emoção que a mãe demonstrou quando viu ‘ ’ na lista dos aprovados naquele curso e, principalmente, caía no mesmo abismo de sempre: o que faria se desistisse?

 

Da mesma forma como não se encaixava na Medicina, sentia que não fazia parte de nenhum outro lugar. Queria ser como as amigas. tentou sua grande paixão e mesmo que não tenha dado certo, acabou se encontrando no plano B e - ah. sempre foi uma garota decidida. Por mais que a amiga tenha pensado em se tornar médica um dia, descobriu ainda no Ensino Médio que tinha nascido para ser professora, e era exatamente este o caminho que estava seguindo — ainda mais agora que começaria a lecionar, graças ao projeto de pesquisa em que fora aprovada.

 

odiava admitir, mas invejava aquele mundo de certezas quando ele se sentia todo e completamente perdido.

 

“Mas vamos falar sobre as coisas que já estão certas?!”, o rapaz exclamou, olhando agora para a loira. “Como que a sua bolsa de estudos vai funcionar, hein?” Ele já tinha uma ideia de como o programa aconteceria. Era apenas a sua vontade de mudar de assunto falando mais alto; não queria cair na tentação de começar a se lamuriar para as garotas. Estavam lá para espairecer.

 

“Amanhã será a nossa primeira reunião. Como estamos cursando licenciatura, vamos direto para as salas de aula de algumas escolas públicas — começaremos como auxiliares de turma e no segundo semestre provavelmente assumiremos os postos de professores, ainda que como estagiários.” explicava tudo com tranquilidade. Não estava nervosa, tampouco ansiosa. Lecionar era o que queria pra si. Não haviam motivos para inseguranças.

 

“Sabe o que isso me lembra?”, disse, mordiscando uma batatinha. Prosseguiu antes que algum dos outros dois se manifestasse. “Aquela monitoria da Lady Margareth.” riu. Imaginava que a amiga diria aquilo. Ela própria tinha passado a madrugada desenterrando todas as recordações que envolviam aqueles episódios do passado, mesmo que seus resgates não estivessem relacionados ao fato de que iria entrar em uma sala de aula de verdade na próxima semana.

 

Reencontrar o antigo parceiro daquela tal monitoria, na noite anterior, tinha mexido com seus pensamentos antes do nascer do sol daquele domingo.

 

“Ai, aquilo foi tão ridículo!”, ela exclamou, ainda rindo. “Não a monitoria em si, claro que não — foi graças àquela ideia doida da diretora que eu descobri que gostava de ensinar —, mas as nossas reações quando começamos a suspeitar que a escola estava aprontando alguma coisa... nós fomos péssimos.” Era uma observação que valia tanto para ela, quanto para . Lembrava-se do quanto os dois tinham certeza absoluta de que a escola estava trabalhando em um sistema de estágio. Estavam tão empolgados com aquela suposição que sequer se questionaram sobre a possibilidade de não ser exatamente aquilo — pior, ela ainda sentia vontade de bater o pé quando alguém ia contra àquele pensamento.

 

Odiou no dia em que compartilhou a ideia e ele praticamente riu na sua cara, mesmo que uma risada sem graça. Hoje ela concordava que estágio para estudantes do Ensino Médio era, de fato, algo pouco provável.

 

“Mas aquela monitoria foi mesmo uma coisa de doido.” sempre criticaria a ideia da Lady Margareth por não tê-lo escolhido no início, mesmo que tivesse aceitado entrar para a equipe nos últimos meses do terceiro ano, quando um dos participantes desistiu de sua vaga. “Ainda bem que dessa vez você tá participando de algo baseado na ética, que solicitou inscrição e analisou os alunos que realmente queriam participar.” Cinco anos haviam se passado e ele ainda guardava mágoas.

 

“Realmente”, concordou. “E dessa vez nós ficamos sabendo porque fomos selecionados por meio de um sistema de pontuação, e não sentados no departamento da diretora com os professores justificando as atitudes inadequadas...”

 

Aquelas lembranças também faziam encarar determinadas partes do passado com um sorriso no rosto, mesmo que, no instante em que aconteceram, tenham sido motivos de tensão.

 

***

1 de outubro de 2012, segunda-feira

            Os seis estudantes que tiveram seus nomes anunciados no ginásio estavam reunidos na sala da diretora às 8h30, pontualmente. Eles, bem como os professores que não dariam aula naquele horário, encontravam-se sentados nas cadeiras às quais foram designados. Os — futuros — monitores vinham posicionados lado a lado, de frente para a mesa da mulher que ditava as regras, enquanto quatro professores apareciam posicionados paralelamente aos alunos, dois em cada lado da diretora, que ficou no meio dos funcionários. Jobes e Roberts eram uma das duplas que vinham para representar o corpo docente.

            “Certo, antes de mais nada quero dizer que é um prazer tê-los aqui em meu gabinete, especialmente para tratar dos assuntos que estamos prestes a conversar.” Mais discurso. precisou ser forte para não revirar os olhos diante de outro lenga-lenga — ele não estava mais sentado na arquibancada, camuflado. Não passaria despercebido, dessa vez. Percebeu Stuart Evans se remexer na cadeira ao lado da sua e pôde jurar que o amigo estava se controlando muito para não rir. Ele próprio abriu um meio sorriso ante à visão do outro contorcendo-se pra não falar alguma bobagem engraçadinha. Foi com a imagem do que o que o amigo deveria estar sentindo que ficou confortável o suficiente para prestar atenção na diretora.  “Hoje demos início a um projeto que vem sendo planejado com muito cuidado há meses — um projeto carregado de responsabilidade. Quero que isso fique claro — e vocês foram os seis nomes selecionados para fazer com que tudo aconteça.”

            Evans encarava a diretora, atento, expressão que refletia a maneira como seus cinco companheiros de jornada também estavam. Diferente dos outros, porém, o garoto de cabelos cor de palha era o único que aguardava ansioso pelo momento em que ela entregaria pistolas, espadas, escudos, varinhas e machados — o que quer que fosse — e diria que agora eles defenderiam a Lady Margareth School das forças do mal, porque só uma missão desse nível justificava aquela introdução toda. Queria muito rir.

            “Tal qual foi dito no ginásio, o corpo da monitoria vai ser o elo de ligação entre alunos e professores. O que isso significa? Vocês serão os porta-vozes dos seus colegas. Se o conteúdo não está sendo bem ensinado, se a conduta de algum professor não é condizente com o que se espera de nossos educadores, enfim, se o colégio está atendendo as expectativas.” Analisou os seis estudantes sentados à sua frente por cima dos óculos que vinham apoiados quase que na ponta do nariz.

            “Outro ponto que pretendemos inserir no programa, e que também foi comentado agora a pouco, é que vocês serão responsáveis por ministrar mini-aulas de reforço para seus colegas.” Embora tenham mesmo escutado essa parte ser dita no ginásio, a reação do sexteto foi de completa descrença. Escutar não é sinônimo de assimilar. Estavam eufóricos, surpresos e ansiosos demais diante do anúncio que estava sendo feito — todas as outras informações entraram por um ouvido e saíram pelo outro.

Antes que os protestos começassem — ela imaginava que isso poderia acontecer —, apressou-se. “Não se desesperem. Saibam que foram escolhidos à dedo por acharmos que são capazes de cumprir com essa parte do plano. A senhorita Jobes vai explicar melhor.”

Jobes aprumou-se na cadeira, como se estivesse seguindo uma espécie de roteiro pré-combinado. A escola e seus professores eram realmente estranhos.

“Nossa intenção é incluir nos vossos históricos as atividades que os senhores desempenharam enquanto alunos da Lady Margareth. Queremos enaltecer vossas habilidades. É de conhecimento geral que as universidades — as conceituadas, pelo menos, como Saint German — levam esses detalhes em consideração antes de mandar a carta de aprovação para os futuros acadêmicos”, explicou. “Caso aceitem a proposta da monitoria, todos vocês vão receber uma carta de recomendação indicando a colaboração dentro do programa.”

“As mini-aulas de reforço podem ser descritas como tira dúvidas. Vocês seis tem destaque em pelo menos uma das disciplinas ofertadas, e esse foi um dos motivos para terem sido escolhidos”, na sequência, seu olhar não ficou focado apenas no todo, mas passeou por cada um dos rostos de seus alunos. “ e Abney são muito bons com números, especialmente física e química. Senhorita é ótima em inglês, literatura e biologia. O’Donell se encaixa perfeitamente com história, Carver em geografia e convenhamos, senhor Evans, há tempos não encontrávamos um estudante tão familiarizado com máquinas e softwares”, viram o professor Timoty, de informática, abrir um sorriso satisfeito com a última parte. Evans sentiu as bochechas esquentarem.

“Mas não observamos apenas as afinidades com as disciplinas”, Timoty Roberts se intrometeu. “Não basta ter conhecimento, tem que ter didática, e os senhores não só mostraram domínio no conteúdo, como também explicaram tudo de maneira simples e de fácil compreensão nos relatórios que passamos durante o mês.”

“Exato”, Jobes concordou. “Sim, senhorita ?”, perguntou quando a mão da loira se ergueu, indicando que queria falar também.

“Quais foram os critérios para a escolha das duplas?” Essa era uma coisa que sempre a intrigou na escola. Sabia que a escola incentivava a interação entre estudantes que não pareciam ser tão próximos, mas depois de ouvir o que a professora de Inglês disse, ficou confusa porque foi colocada junto com . Já que ele e Abney tinham domínios semelhantes, não deveria ser ela a dupla dele?

“Observamos a forma como vocês trabalharam uns com os outros ao longo de setembro”, disse a professora. “Evans e Abney foram unidos através da avaliação dos professores Johnson e Abbot. O’Donell e Carver foram escolhas de Peterson e Foller. Infelizmente os quatro estão em aula no momento, então se houver a curiosidade de saber os motivos deles, senhores, podem perguntar diretamente a cada um.”

“Já a senhorita e o senhor foram avaliados por mim e por Roberts. Podemos responder, caso queiram.” e se entreolharam antes de assentir para a professora. Sim, os dois queriam saber.

“Vocês demonstraram uma interação invejável na minha aula”, começou a Jobes com um sorriso doce no rosto. “Naquele dia as duplas foram organizadas de maneira aleatória e a avaliação do comportamento era individual, mas fiquei impressionada com a organização que vocês dois tiveram, ambos concentrados no papel. Deu pra ver que nenhum dos dois tava carregando o outro nas costas. Os dois estavam trabalhando e terminaram rápido, primeira dupla a finalizar. Conseguiram a nota máxima, também.”

“Eu tomei a vez de fazer o segundo teste depois que a senhorita Jobes compartilhou as impressões conosco”, o professor de informática tomou a palavra novamente. “Não era o planejado fazer isso naquele dia, muito menos da forma como aconteceu, mas como o destino colocou o senhor na minha frente no intervalo, acabei aproveitando. Mais do que um relatório impecável, vocês mostraram que são alunos que seguem as normas do colégio. Poderiam ter se aproveitado do fato de terem visto seus testes antes, mas não só não fizeram isso como ambos chamaram a minha atenção por estar agindo de um jeito errado. Fiquei orgulhoso!” O professor exclamou.

observou pelo canto dos olhos, ele estando sentado do seu lado direito. Em partes, Jobes estava certa. Fazer dupla com naquela aula foi uma das coisas mais fáceis que ela fez em sala, naquele início de ano. Além de absurdamente simples, eles tinham feito mesmo um trabalho em equipe, juntos.

“Como as duplas vão funcionar, no caso da monitoria?” Foi a vez de Catherine perguntar assim que a palavra lhe foi concedida, graças ao seu erguer de mão.

“Nós temos um plantão de dúvidas todas as tardes”, a professora de geografia disse à aluna. “São duas matérias por dia. Os professores dão uma revisão nos assuntos e depois passam exercícios. A tarefa da dupla, nessa situação, é ficar na sala para tirar possíveis dúvidas que surjam em algum exercício. Se for algo que nem mesmo vocês saibam responder, vão até os professores, que vão continuar disponíveis. Mas se estiver dentro da segurança dos senhores, vocês podem ajudar seus colegas sozinhos. Essa será a função.”

“Mais alguma dúvida?”, a diretora perguntou, encarando-os. Silêncio. “Vocês aceitam ser os nossos monitores?”

“Com certeza”, foi a primeira a se pronunciar. Ela queria aquela recomendação. Entrar para Medicina na Saint German não seria fácil. Estava disposta a fazer tudo que pudesse enriquecer ainda mais o seu histórico, mesmo que isso significasse morar dentro da escola durante aquele ano.

“Eu também”, Catherine e Rosie responderam em uníssono. Uma olhou para a outra, sorrindo, dado o fato de terem usado as mesmas palavras ao mesmo tempo.

Evans marcou sua presença com um “Tô dentro!”, enquanto Joseph e concordaram com a cabeça.

A equipe da monitoria estava formada, bem como suas duplas. Não lutariam contra monstros, tampouco precisariam de armas — para a infelicidade da imaginação de Evans —, mas aquele seria um longo ano...

***

27 de agosto de 2017, domingo

 

pagou por sua cerveja e estava prestes a quitar a porção de batata frita também quando pousou a mão sobre a da amiga, as duas em pé diante do caixa. “Eu tava brincando lá no quarto, bobona”, disse, colocando no balcão as cinco libras referentes ao petisco e às águas consumidas por ela e . Não se importava em pagar nada para os outros, a , mas não gostava quando alguém quitava sua conta se não fosse seu aniversário.

“Te compenso no próximo dia 10, então”, garantiu, lançando uma piscadela para a loira.

Depois de passarem parte da tarde conversando e relembrando episódios do passado, , e seguiram para o carro da morena, um Focus vermelho adquirido a preço de banana em uma feira de veículos usados. comemorava o fato de estar tocando uma de suas músicas preferidas na rádio, olhava para a rua com atenção — para a Clarke, pior do que encontrar uma vaga e estacionar, era tirar o carro do lugar quando tinha um veículo estacionado à sua frente e outro atrás, como naquele momento — e deslizava o dedo na tela do celular, os olhos passeando pelo feed do instagram.

O médico em formação sentiu o estômago congelar quando seus olhos pararam em uma das fotos mais recentes. Um com pulseira vermelha presa ao braço, sorriso afetado pela bebida e pele suada pelo tanto que já deveria ter dançado vinha abraçado à — a menina usava máscara dourada e vestido preto, fantasiada, sim, mas era . Ele sempre reconheceria .

Quando deu por si, o comentário já estava saindo por sua boca, cada palavra vindo carregada de ressentimento.

“Aproveitou bastante o Baile de Máscaras com o , ?”

As mãos de congelaram no volante e os olhos de se arregalaram instantaneamente. Tinham conversado sobre várias coisas no tempo em que estiveram juntos, naquele domingo, mas certamente o Baile de Máscaras não entrou em nenhuma das pautas — nem nada que pudesse envolver o nome de .

se arrependeu por não conseguir se conter assim que sentiu o clima pesar dentro do carro. Não era agradável, o rapaz tinha consciência, mas a verdade é que atitudes como aquela acabavam sendo mais fortes do que ele. A amiga tinha o direito de conversar e sair com quem ela quisesse mas- logo ? Perdia as estribeiras quando se tratava daquele cara.

“Como-“, gaguejou, esticando-se para olhar no banco traseiro. Encontrou o celular nas mãos do amigo. “O que foi que essa peste postou?” Sua pergunta soou quase como o sibilar de uma cobra enfurecida.

“Nada demais”, respondeu prontamente, frio. “Só tem uma foto no instagram. Nada demais mesmo. Fica tranquila.”

voltou-se para a frente, sua próxima missão sendo a de encontrar seu próprio celular dentro da bolsa. Pediu para não publicar nada, em respeito à sua amizade com . Não queria que ele soubesse sobre o Baile. Não queria que ele a visse ao lado de .

Mas era , não é mesmo?

Talvez tenha sido ingênua demais em acreditar na palavra do estudante de Artes Cênicas. Ele era um ator, afinal.

***

“Aaaaai, mas nós somos muito sortudos!”, Stuart Evans comemorou dando tapinhas no volante do carro. Passava das cinco da tarde e naquele horário, no domingo, seria praticamente impossível encontrar uma vaga em frente ao Indigo’s Pub. Mas veja só!, um carro vermelho acabava de liberar espaço.

“Será que a gente cabe aí, chu?” vinha sentada no banco do carona. Percebeu os olhos da amiga espichados na vaga que o Focus deixou para trás.

“A gente faz caber, mô”

Era pequena, realmente, mas ora ora, ele era Stuart Evans, um verdadeiro az como motorista — ao menos era assim que ele se considerava. Claro que ele conseguiria encaixar o carro ali.

, acorda.” cutucou o amigo que vinha jogado no banco de trás. A essa altura a cabeça do rapaz estava escorada no vidro traseiro, a boca entre aberta e os olhos fechados. Uma verdade sobre : tinha uma facilidade enorme em dormir nos locais mais improváveis. “Acorda, filhote de cruz credo!!” Outra verdade: acordá-lo não é uma tarefa tão fácil quanto se imagina. Foi apenas na quarta cutucada de que o estudante de Física começou a abrir os olhos, confuso pelo alarde dentro do veículo.

“Se babar no meu carro vai pagar a lavagem!” Evans exclamou assim que terminou de estacionar. Era brincadeira. Não aceitou que bancasse o lava-jato nem quando ele batizou o estofado depois de uma longa noite de bebedeira.

esfregou os olhos, vendo-se obrigado a sair do carro e encarar o movimento do pub. Encontraram vaga, mas será que teria uma mesa para três?

“Fiquei sabendo que a festa foi boa ontem, hein” Evans provocou o amigo às portas do pub, passando o braço pela cintura do outro.

“Ô se foi!” concordou usando o mesmo tom provocativo. “Você precisava ver, Evans. Quando olhei pro lado, lá tava o nosso menino no maior beijão com a garota.”

semicerrou os olhos para a amiga. Linguaruda.

“Fofoqueira”, resmungou, ainda sonolento. Passou parte da noite em busca de . No final, quem o encontrou foi ela logo após a abordagem da mascarada misteriosa. “Da próxima vez não saio do meu quarto pra entregar a porcaria de celular nenhum.” riu. Divertia-se com o lado rabugento de mais do que qualquer outra pessoa no mundo.

“Mas você realmente não sabe quem era, cara?” Evans tava doido pra interrogar desde que Hughes contou toda a história, no carro, enquanto o mais velho dos três dormia.

“Não tenho a menor ideia.” Era verdade. Passou o restante da festa matutando com seus botões sobre qual poderia ser a identidade da menina e não chegou a nenhuma conclusão.

“Comentei com a sobre a possibilidade de ter sido aquela japonesinha da nossa sala. Ela arrasta maior asa pra você”, o amigo sugeriu.

“Pensei na Naoko, mas- nah”, abanou o ar, como se o gesto afastasse o pensamento. “Ela não olha na minha cara desde que recusei a oferta de termos algo sério.” não entendia a necessidade que as pessoas sentiam em entrar em um relacionamento sério — não quando não havia sentimentos profundos envolvidos, o que era o caso do que ele teve com a colega de Cálculo III.

“Nunca entendi porque você rejeitou a menina, mas entendo você acreditar que não era ela”, Hughes comentou, sentando-se em uma mesa para quatro assim que viu alguns estudantes irem em direção ao caixa. “Eu não olharia mais na sua cara também.”

“Mô, eu conheço há oito anos e até hoje só o vi interessado em namorar uma garota.” intercalou seu olhar de Evans para , confuso. Não estavam falando sobre o Baile? Se era para mudar para aquele tipo de assunto, preferia voltar a conversar sobre a festa ou até sobre a papelada da bolsa que conseguiu para aquele semestre, que era uma pauta tão empolgante quanto o Baile, para ele.

“Dou meu rim em troca da oportunidade de conhecer a tal um dia.”

Sim. Eles realmente iam falar sobre aquilo.

“Vou pegar as cervejas” anunciou, levantando-se.

não estava presente na vida deles no Ensino Médio. Não acompanhou o desenrolar da história; seu conhecimento sobre tudo envolvia apenas aquilo que os rapazes haviam lhe contado. Assim, conseguia entender a curiosidade da amiga. Mas, céus, Evans estava! Evans viu! Sabia o quanto aquele assunto o incomodava e mesmo assim insistia em fazer referência a eles nos momentos mais aleatórios.

Sentiu-se aliviado quando voltou para a mesa e percebeu que agora a dupla falava sobre o show ao qual pretendiam ir no final de outubro.

Foi com prazer que colocou as duas garrafas de cerveja em cima da mesa. Enfim aproveitaria seu último dia de férias conversando sobre coisas agradáveis com os amigos, sem remexer em nada do passado.





Continua...



Nota da autora: Primeeeeeira atualização de 2018! YAY!! Antes de tudo, quero agradecer imenso por todas as leitoras que chegaram no segundo capítulo! *-* Sejam muito bem-vindas à Questão de Tempo, minhas lindas. Espero que vocês gostem e continuem acompanhando a trajetória dessas criaturinhas <3

Agora, vamos ao capítulo! Hoje vocês conheceram um pouquinho mais dos melhores amigos dos nossos PPs *-* Tá permitidíssimo dizer o que acharam deles, beleza?! HAHAHAH Outra coisa que quero dizer a vocês também é que agora eu tenho um grupo no Facebook pra divulgar as minhas fics (sim, plural. Logo a QdT vai deixar de ser filha única hahahah), mas, mais do que isso, o grupo também é um espaço para que vocês, leitoras-autoras, também falem sobre as suas fics aqui no FFOBS! SIM! Eu também quero acompanhar os vossos trabalhos <3 Então, meninas, sintam-se convidadas a clicar no iconezinho do FB ali embaixo e entrar no grupo, beleza?!

No mais, muuuuuuito obrigada a todas que estão lendo minha criação e espero ver todo mundo aqui na próxima att, hein!!



Leio e recomendo:
02. Something in the way you move (Finalizada) | 9/11 (Finalizada) | A Place to Call Home (Em andamento) | Dylan (Em andamento) | If Tomorrow Comes (Finalizada) | One More Dream (Em andamento) | Outer Spaces (Em andamento) | Ride or Die (Em andamento) | SNUFF (Em andamento) | Two is better than one (Finalizada)


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