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Última atualização: 26/09/2020

Capítulo Um – O acordo

Segunda-feira, 04 de maio de 2020

Quando eu vi a notificação da mensagem dele, já sabia o que era.

, preciso da sua ajuda”


Não foi nem competente o suficiente para me mandar por WhatsApp. Não, não. Parecia até que não tinha o meu número. Resolveu ir no direct do Instagram.
Sabia do seu status de boy lixo, logo vestia-o como sua armadura.

“Que foi, ?”


Terminei de passar o meu café e coloquei um podcast para ouvir enquanto lavava o resto da louça de ontem. Tentava desde algumas semanas tornar minhas manhãs uma rotina que se encerrava comigo na minha escrivaninha, café em mãos e notebook no modo produtivo.
Às vezes dava certo, às vezes não. Como era freelancer, conseguia montar meus horários como funcionava para mim, seguindo os prazos que o cliente me mandava. Mesmo não tendo mudado meu ritmo diário e como passava meu tempo em casa, a quarentena tinha afetado e muito meu relacionamento com notícias diárias.
Ultimamente, só estava conseguindo ouvir o podcast Café da Manhã, da Folha, e apenas isso. Se fosse atrás da informação constantemente, como tinha feito no início, os óbitos e os casos confirmados martelariam incessantemente na minha cabeça.
Minha mente buscava pequenas distrações para não desabar.
, aparentemente, queria ser uma delas.

“Posso te ligar?”


Lá vinha.
Respondi que sim e agilizei a louça para não deixar nada e poder prestar atenção ao que o indivíduo iria me dizer.
Não demorou muito para a chamada chegar. Pausei o podcast antes de atender.
… — a voz dele estava manhosa, como se fosse uma criança pidonha.
— Fala, . — Consegui ouvir a minha irritação.
— Antes de mais nada, como você ‘tá?
Ah, uma pergunta empática. Que desenvolvimento de personagem você quer demonstrar, ?
— Bem, na medida do possível. Minha mãe parou de teimar de sair de casa, o que foi ótimo, e agora vem pedindo coisas do mercado e da farmácia por delivery. — Achei melhor parar por aí nos detalhes. — E você?
— Minha avó ‘tá internada, você sabe. A gente só ‘tá preocupado de ela pegar o coronavírus lá dentro e piorar ainda mais a situação.
Arregalei os olhos.
, meu Deus, eu nem tinha me tocado disso. Espero que isso não aconteça. — Tentei formular mais alguma outra frase, porque sabia o quanto aquele assunto era doloroso para ele. Só o que saiu foi: — Fica bem.
Quase me dei um tapa na testa.
— Obrigado, . Mesmo. — Ele deu um longo suspiro e continuou, agora mudando o tom. — Mas então, vamos ao assunto em questão.
— Você fala como se eu soubesse do que se trata.
Eu sabia exatamente do que se tratava. Porém, preferia bancar a sonsa com ele, dando a chance para não falar algo extremamente inoportuno.
— Preciso que você finja ser minha namorada de novo.
A chance eu sempre oferecia. Não quer dizer que ele a aproveitava.
Respirei fundo antes de respondê-lo.
, você e eu sabemos que quando isso aconteceu da última vez, quando tínhamos 17 anos, não foi pouco errado que deu. — Um arrepio de pânico passou pelo meu corpo quando algumas memórias vieram à tona. — Não vou fazer isso de novo não.
— Eu sei. Te pedi aquilo naquela época pelos motivos errados, por não ter coragem de chegar na Pietra, que nem merecia um pingo de atenção. Ela foi uma estúpida. Nunca vou me perdoar por você ter ouvido as merdas que ela disse. — A tristeza e o rancor no jeito com que se lembrava daquela situação eram perceptíveis em sua voz. — Me desculpa, .
— Você já me pediu desculpas o suficiente por algo que nem foi você que falou, . — A culpa nem tinha sido dele necessariamente, mas, desde aquela época, ele sempre se colocava como o maior culpado. — Mas aí você vem e quer me pedir pra ser sua namorada falsa de novo?
Comecei a andar para a sala, procurando a minha gata.
— Não. — Sua resposta foi firme. — Dessa vez, é diferente e por outros motivos. Não sei se você vai achar uma boa ideia, mas eu, pelo menos, acho.
Não confiava muito na moralidade de para tão cegamente concordar.
Encontrei Matilda deitada em cima do sofá, dormindo tranquilamente. Me sentei ao seu lado e comecei a fazer carinho na cabeça dela. Ela deu um miado fofo em resposta.
— Tô esperando você começar seu discurso pra me convencer. — respondi.
— Ok, então, você sabe que meu canal ‘tá crescendo bastante nesses últimos tempos e que, ainda mais agora na quarentena, é importante um constante fluxo de conteúdo pra alcançar mais gente.
, sendo a bolinha social que era, tinha começado um canal no YouTube há dois anos fazendo divulgação científica e mostrando o dia a dia da produção acadêmica dentro da universidade. Tinha vezes que os vídeos dele tinham um tom mais profissional, quando explicava algum tópico didaticamente, e outros que era mais íntimo, pessoal, principalmente quando ele gravava como era seu dia desde acordar, ir fazer sua pesquisa no laboratório da faculdade e, depois, o retorno para casa.
Essa alternância entre vídeo informativo e pessoal fez com que, até onde eu via, o canal dele fizesse mais sucesso do que outros similares. É claro que as visualizações sempre variaram pontualmente dependendo do tipo de vídeo que era, mas eu achava que o que ele vinha fazendo era importante para aumentar de uma maneira mais democrática o acesso ao que, de fato, era produzido nas universidades brasileiras.
E ele tinha começado o canal sozinho, na verdade. Me mostrou, no início, o que ele pretendia, como queria gravar, algumas ideias de vídeo. Não éramos exatamente melhores amigos, não desde o ensino médio e as brigas ocorridas naqueles tempos, mas, de vez em quando, falávamos sobre como estava a nossa vida, alguma notícia boa que aconteceu, relacionamentos que estavam dando certo (normalmente os meus) até dar errado (normalmente os dele), e ele gostava de ouvir minha opinião sobre algum projeto.
Apesar disso, nunca pedia minha ajuda para nada.
Só uma única vez, há oito anos.
E aqui estava ele fazendo isso mais uma vez.
— E aí…? — Depois de algum tempo de silêncio da parte dele, achei melhor dar algum gancho para que continuasse.
— Desculpa — ele falou, gaguejando um pouco. —, é que eu tô nervoso do que você vai pensar. Eu sei que só a ideia de relacionamento falso já te traz coisas ruins.
— Calma, . ‘Tá tudo bem. — Abri um sorriso, mesmo sabendo que ele não iria ver. — Não precisa se preocupar comigo. Fala aí.
— Ok, ok. Lembra que eu te disse que queria fazer vídeos mais no formato de discussões de tópicos relevantes da internet? — ele perguntou, com mais confiança na voz. — Colocando minha opinião, fazendo comentários, mas tudo com fontes e pesquisa por trás?
— Sim. — E eu tinha achado uma ótima ideia.
Matilda virou de barriga para cima e me controlei para não soltar um barulho inumano de felicidade pela cena meiga.
— Consigo pensar em mais de um exemplo de youtubers gringos que fingiram um relacionamento só pra engajar público, ou que permaneceram em um pelo mesmo motivo. Teve até casamento falso agora, só pra atrair mais público e ganhar mais dinheiro. — Ri porque sabia de que casamento ele estava falando. — É, esse mesmo aí que você pensou. E você lembra que teve uma tendência ano passado de influenciadores fingindo fazer viagem ou estar em um evento só com edição de foto, fazer os fãs acreditarem e depois gravarem um vídeo a respeito, não é?
— Lembro sim. — Juntei as peças do que ele estava dizendo e continuei: — Então você quer fingir um relacionamento propositalmente, fazer quem te segue acreditar, engajar mais pessoas pra, no final, você revelar que era tudo mentira?
— Isso!
Contemplei a ideia por alguns segundos.
— Você não acha que não faz o menor sentido com o que o seu canal tem se proposto a ser? — questionei, com um sorriso de lado. — Ou que quem te segue não vai gostar de ser enganado, considerando que você tem essa imagem de pessoa sincera mesclado com universitário fodido?
Ouvi a risada de pelo outro lado da linha.
Era uma risada de nervoso.
— Não, calma, . O meu ponto com esse vídeo é demonstrar uma coisa.
Se não estivesse ocupada com Matilda, teria usado a minha mão para criar alguma expressão de incredulidade.
— Seu ponto é fazer o discurso “não acredite em tudo que vê na internet”? Porque se for, você ‘tá falando coisa que todo mundo já ‘tá cansado de saber.
— Não é isso. — ele respondeu, com voz de quem sabia que precisava me convencer de que não estava fazendo algo fora do seu personagem. — Eu sei o quanto esse tipo de vídeo, envolvendo relacionamento, faz com que o público assista e interaja mais com o canal. Saber da vida pessoal alheia literalmente move montanhas, tanto pro lado ruim quanto pro bom. A questão é que o meu canal é voltado pra divulgação universitária, e isso é um conteúdo positivo por diversos motivos, mas “chato” por outros. Quero testar a hipótese de que o meu público, sendo quem é, que minimamente se importa com produção científica, ainda assim vai assistir mais vídeos, se engajar mais e trazer mais gente pro canal se eu inserir um drama de relacionamento no meio.
— E aí teria lição de moral?
Matilda espreguiçou-se do meu lado e pulou do sofá, indo atrás do seu pote de ração. Abri um sorriso com a cena e me lembrei do café pronto me esperando na cozinha.
— Não exatamente lição de moral. Se o algoritmo do Youtube é produtor de relevância ao mesmo tempo que é alimentado pelo o que as pessoas entendem como relevante, eu quero mostrar como algo tão importante quanto divulgação científica é ignorado pelo algoritmo em detrimento de vídeos sobre relações pessoais, principalmente românticas, porque não gera tanto engajamento das pessoas.
Peguei minha xícara favorita e, enquanto derramava o café dentro dela, falei com tom irônico:
— “Em detrimento”? Isso aqui virou palestra, ? ‘Tá vindo com sua autoridade acadêmica pra cima de mim?
— Tô encarando isso como uma justificativa de projeto de pesquisa. Me dá um tempo, garota. — respondeu, mas riu da minha provocação. — O que eu pensei foi elaborar nos mínimos detalhes esse início de relacionamento, depois o que faríamos pra se relacionar à distância, isso tudo intercalando com vídeos que costumo produzir. Quando tiver os resultados das diferenças entre as visualizações dos vídeos, aumento ou diminuição de inscritos no Youtube e seguidores nas minhas outras redes sociais, como o Instagram, faria um vídeo dizendo que era tudo mentira, mas mostrando esses dados e começando uma discussão sobre como o algoritmo do Youtube funciona, mas também como as pessoas consomem conteúdos na internet.
— Hmm, ousado. — Caminhei até o quarto para me sentar na minha escrivaninha. — Bastante ousado, eu diria. Então você ‘tá almejando uma matéria sobre isso no Buzzfeed.
— Isso foi um elogio ou uma crítica? — indagou. — Te conhecendo, acho que um pouco dos dois.
— Um pouco dos dois, sim. — Coloquei o celular no viva-voz e abri meu notebook, já indo para a aba do meu e-mail profissional. — Se você quer elaborar nos mínimos detalhes, como faríamos isso?
— Pera, então você topa?
Consegui ouvir a ansiedade em seu tom de voz.
— Eu não disse isso, querido. — Dei um gole no café enquanto abria o primeiro e-mail não lido. Era um cliente pedindo adiantamento de prazo. Ah, não. — Tô considerando, se isso te deixa mais contente.
Tentei ler o e-mail por cima, ainda atenta à conversa com . Aparentemente o chefe do cliente queria acelerar a postagem que encomendou de mim sobre o coronavírus pela relevância do assunto para a empresa.
Mas eu receberia a mais pelo adiantamento, amado?
Coisas que normalmente são ignoradas ao trabalhar com freelancer explorado pelo capital.
— Só de você não descartar a ideia logo de cara, já ganhei meu dia. — respondeu, ainda com aquele tom animado.
— Você se contenta com pouco, então.
— São das migalhas de atenção que se vive o homem. — Soltei uma risada com aquilo, voltando minha total atenção para o celular.
— Pensei que fosse de receber tapa de mulher bonita.
— Isso também.
Ele estava se esforçando muito para escapar da armadura de boy lixo.
Cuidado, . Pode cair em uma outra alternativa da categoria.
— Não sei se você acha que ser engraçadinho vai me convencer a aceitar ser sua namorada de mentira, mas–
— Vai me dizer que não ‘tá funcionando, ? — Rolei os olhos para a provocação. — Claramente convencida.
— Você nem me respondeu ainda como vai planejar isso detalhadamente!
Ouvi-o pigarrear, prestes a dar continuidade para o seu TEDxTalk.
Céus, eu sabia referências acadêmicas demais.
— Então, eu pensei da gente fazer como se fossem reuniões por Skype–
Reuniões? — Cortei-o, completamente assustada. — Cara, gatilho demais. Que isso. Eu já tenho que lidar toda semana com tentativa de aula online do meu curso de inglês, reunião da instituição que faço parte como freela, cursinhos que me enfiei pra fazer fingindo que vou aprender algo novo na quarentena… — Queria continuar enumerando para dar mais ênfase ao meu desespero, mas não conseguia pensar em mais nada. Ah, e claro: — Isso tudo enquanto organizo, ou melhor, tento organizar meu cronograma de redatora de conteúdo pra sites de empresas que fingem que se importam com os funcionários e as políticas de segurança para o coronavírus, quando na verdade só querem saber de lucro enfiado no cu deles!
Precisei respirar fundo para recuperar o folêgo. Praticamente despejei todas as minhas frustrações do momento no colo de , que não tinha nada a ver com aquilo.
Houve alguns segundos de silêncio do outro lado da linha. Cogitei a possibilidade de ele não saber o que responder.
— Você quer a resposta engraçada ou a séria? — questionou, me provando estar errada.
Ora, ora. Interessante.
— A séria, por favor. Já cansei de você querendo fazer graça, .
Vi Matilda entrando no quarto e se deitando na ponta da cama, o mais perto possível da onde eu estava sentada. Retornei a fazer carinho na sua cabeça.
— ‘Tá tudo bem mesmo? — Ah, era o desenvolvimento de personagem de novo. — Você parece estar sobrecarregada de coisas pra pensar e fazer.
Aquilo soou até… empático. Haveria ele uma... alma?
Ok, eu deveria parar de ser tão crítica com o rapaz. Ele já tinha melhorado muito desde quando éramos adolescentes. E não é como se eu não tivesse cometido vários erros no passado também.
Resolvi que iria dar uma folga e parar de pensar tão negativamente a respeito dele por enquanto. Afinal, era uma forma bem infantil de interagir com um amigo que eu me importava.
— Na verdade… — Suspirei, sentindo o peso nos ombros que carregava havia já semanas. Iria, de fato, desabafar com ele? Parecia que sim. — Não acho que seja algo único, só meu. Acho que todo mundo ‘tá se sentindo assim, frustrado, com medo, não sabendo direito como lidar com a situação toda. Tem dias mais leves que outros, dias que eu acordo melhor, mas durmo pior, e vice-versa. Eu monto meus cronogramas e tento seguir direitinho, mas tem vezes que só quero ficar na cama o dia inteiro, assistindo alguma série boba. E não é como se eu estivesse sendo diretamente afetada pelo o que ‘tá acontecendo. Eu sou extremamente privilegiada por poder ficar em casa, pedir as coisas do mercado por entrega e interagir o mínimo socialmente. Também não é como se meu habitual ritmo de trabalho tivesse mudado. Desde que me graduei, comecei a fazer home office. É algo usual pra mim. Então, assim, eu tô na melhor das situações. Não acho que é certo eu estar me sentindo tão mal, sendo que tem gente que ‘tá passando por algo muito, muito pior.
— Mas, , não é só porque você já tava acostumada a trabalhar de casa que a situação não mudou. Antes, você não era bombardeada com um número cada vez mais alarmante e assustador de mortes por um vírus sem cura, com um desespero de falta de governo decente, que leve a situação a sério. Você escolhia trabalhar de casa, podia sair pra comprar o que precisasse, podia ir ao cinema quando quisesse se divertir. — se interrompeu, como se estivesse repensando o que disse. — Quer dizer, parece saudosista falar em ir ao cinema, como se realmente fôssemos frequentemente, sendo que os ingressos tavam sempre muito caros. Nossa memória é seletiva demais.
Soltei um riso genuíno, concordando com ele. Apesar do comentário, ele continuou em um tom de seriedade.
— Enfim. Ainda por cima, você vive naquele pânico: será que peguei e nem sabia? Fui assintomático? Passei pra alguém? Será que algum parente meu pode pegar? No nosso caso, felizmente ninguém próximo teve, mas podia ter acontecido. Aí imagina o medo das pessoas e das famílias de quem passou por toda a experiência de se recuperar, mas quem também não se recuperou? Como lidar com a dor da perda de pessoas queridas? É complicado, cara. — Senti o meu corpo enrijecer ao ouvir as palavras de . Não que ele estivesse dizendo algo diferente do que eu já pensava todos os dias, mas acho que escutar isso de outra pessoa trazia um misto de alívio, pelo reconhecimento do sentimento, e angústia, por, justamente, não podermos fazer nada. — Acho que é muita carga emocional pra gente lidar mesmo e não dá pra aguentar tudo sozinho. E não é só porque outras pessoas estão em uma situação pior que essas sensações não são válidas. , você sabe… — Ele deu uma pausa, parecendo ponderar o que diria a seguir. — Já ‘tá meio batido a esse ponto falar isso, mas você sabe que eu tô aqui, não é? Pra qualquer coisa.
Aquela conversa tinha ido para um caminho que não pensei que fosse chegar. Era uma surpresa positiva? Talvez. Eu sabia que, apesar da nossa amizade nunca ter voltado a ser como antes, ainda mantinha um senso de afeto por mim.
Eu também tinha por ele, é claro. Queria vê-lo bem, fazendo algo que gostasse, feliz com sua vida. Às vezes, o caminho até essa “felicidade”, que nunca seria plena e para sempre, não era nem um pouco linear. E era importante, nos altos e baixos, poder contar com pessoas que você sabia que estariam ali por perto.
E era uma delas.
— Eu sei, querido. E digo o mesmo. Pra qualquer coisa. — Ao ouvir aquelas palavras saindo da minha boca, percebi que já tinha tomado uma decisão. — Até pra ser uma namorada de mentira.
— Não acredito! — exclamou, surpreso. — Jura, ? Você faz isso por mim? Não vai ter problema?
— Já te falei que não precisa se preocupar comigo, garoto. Mesmo se tiver problema, não é culpa sua. É coisa minha.
— Pera lá, também não é assim. — Dei uma bebericada no café enquanto escutava , percebendo que estava começando a ficar morno. — Se você simplesmente quiser desistir a qualquer momento, pode me falar. A gente só vai fazer o que você se sentir confortável.
— No momento, eu acho que não vou ter problema com nada. Só queria saber como é que você ‘tá pensando em desenvolver esse relacionamento durante uma quarentena. Como que você contaria de uma maneira não forçada pro seu público que você começou a namorar? E, aliás, como começaríamos a namorar?
— Ótimas perguntas, . Todas elas serão respondidas nas reun– encontros por Skype que faremos. — respondeu, me fazendo sorrir.
— Grata pela correção. Minha sanidade mental agradece.
— Sempre, querida. Então, que dia e horário seriam melhores pra você?
Diante daquele questionamento, dei a resposta que faz qualquer um se sentir muito adulto.
— Vou olhar na minha agenda, um instante. — Abri uma nova aba no navegador atrás da agenda do Google.
— Profissional faz assim, né!
— ‘Tá pensando o quê? Que aqui é bagunça? — Se hoje, segunda, eu tinha já enchido de coisa de freela, terça à tarde tinha a aula de inglês, quarta tinham duas aulas de cursinhos fingindo-proatividade-alheia e quinta era a infernal reunião da instituição, que podia durar algumas boas horas, então… — , acho que o melhor dia seria sexta. Qualquer hora.
— Posso falar que você vai sextar comigo?
— Não. — respondi enfaticamente. — Nunca mais repita essa palavra.
— Mas não já tínhamos nos apropriado do “sextou”?
— Não sei vocês, bissexuais, se já se apropriaram. Mas eu não apoio a utilização de forma alguma.
Ouvi suspirar alto. Acredito que se deu por vencido.
— Quem sou eu pra iniciar a apropriação, não é mesmo. — afirmou. — Nos vemos sexta, então?
— Por mim, sim. — Dei uma rápida olhada para o relógio do notebook e vi que a ligação já tinha se estendido mais do que o ideal para que eu conseguisse terminar meus trabalhos no tempo que pretendia. — No dia, a gente vê o melhor horário.
— Ok então, . Muito obrigado. Acho que vai dar certo.
— Também acho, . Nos falamos na sexta pra eu entender melhor o que você ‘tá pensando.
— Show! Até lá.
Quando pareceu que ele ia desligar, percebi que precisava saber de mais uma coisa.
, espera.
— Que houve? — ele questionou, atento para o que eu ia dizer.
— Qual era a resposta engraçada?
Sua gargalhada preencheu os meus ouvidos. A pergunta pareceu tomá-lo de surpresa.
, você não disse que não queria mais que eu fizesse graça?
— Disse. — respondi prontamente. — Mas fiquei curiosa, me diz aí.
— Ok, a resposta engraçada era por causa da última coisa que você falou, sobre os donos das empresas querendo só enfiar lucro no cu.
— Hmm, e aí? — indaguei, me aproximando mais no telefone. — Qual era a grande sacada?
— Ia falar descansa, mil–
— Ah, não! — exclamei enquanto deduzia o resto da palavra na minha cabeça. — , por favor, sem “descansa, militante”. ‘Tá chato isso já. Desqualifica o que é militância e invalida o discurso de quem defende algo perfeitamente válido.
— Não é só porque a resposta é engraçada que ela ‘tá certa, né. — afirmou. Apesar de dizer o mínimo, parecia que o garoto tinha alguma prudência em seu ser. — Mas eu concordo com você. Só ia falar pra te irritar mesmo, querida.
A prudência de ser ridículo.
— Palhaço. — Balancei a cabeça em reprovação. — Curiosidade sanada e constatação de que você não presta reafirmada, falo contigo na sexta.
— Sextou, ! — E desligou rápido o suficiente para não ouvir a minha indignação.
Com dez e-mails não lidos, contas para pagar e surtos sobre a quarentena para controlar, me questionei onde foi que eu tinha me enfiado.
Matilda miou para mim, querendo minha atenção. Deixei o celular em cima da escrivaninha e me deitei rapidamente na cama do lado dela, de bruços. Fiz mais um afago nela, na barriga, algo que, ao contrário da maioria dos gatos, ela gostava.
— Matilda, quando eu for rechaçada nas redes por ter estado em um namoro falso, você ainda vai me amar?
Ela olhou para mim como se entendesse o que eu tinha dito e lambeu as costas da minha mão, se esfregando logo em seguida.
— Ô, meu neném. — Uma sensação de conforto e calmaria encheu meu peito. — Também te amo.
Fiquei alguns minutos aproveitando o aconchego dela até criar coragem para me levantar. Foi após esquentar meu café e colocar as vozes de Rodrigo Vizeu e Magê Flores para tocar de novo que me dei conta de que tinha me esquecido de duas panelas sujas no fogão.
Maldita louça que não acaba.


Continua...



Nota da autora: Olá, pessoal! Espero que vocês tenham gostado.
Finalmente vou tentar começar e finalizar uma longfic com uma temática que eu adoro: uma pitada de relacionamento falso com amor/ódio, mas só um pouquinho mesmo.
Beijos no core iluminado de vocês,
Caroline.





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