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Última atualização: 10/10/2020

Prólogo

Cada passo era dado com incerteza. Os sons que ecoavam pelo corredor que levava ao vestiário não eram nada agradáveis. Já não seriam para o ouvido de qualquer um, mas eram menos ainda para . Ninguém deveria estar ali naquele horário. Era sexta, iriam todos para suas casas com a maior pressa do mundo. Mas a mãe de já dizia que ela não era como todos.
Queria que fosse mentira, queria que não fosse Harry. Com os dedos cruzados, torcia para que os boatos que escutara fossem apenas isso: boatos. Mas todo e qualquer mínimo detalhe sobre Harry Judd não lhe escapava. O nome dele seria facilmente mencionado por uma besteira? Sim. Mas o capitão do time de críquete da escola não deixaria que desrespeitassem sua pessoa de qualquer forma. Então acreditou haver verdade naquelas historinhas mal contadas durante o intervalo para almoço.
Sentia o coração querendo pular do peito quanto mais perto chegava da porta. Pensava consigo mesma que não era tarde demais para desistir. Mesmo que fosse verdade, preferia ser enganada. Estava finalmente vendo alguma razão em sua existência quando pensou que Harry Judd, logo ele, havia se interessado por ela. ainda repetia em sua mente que não deveria estar surpresa, que já sabia que Harry era areia demais para seu pobre caminhão.
Antes que percebesse, distraída por conta de seu conflito interno, estava de cara para a porta que levava aos chuveiros masculinos. Os sons, altos demais, estavam enfim inconfundíveis. Harry Judd estava fodendo uma qualquer no vestiário masculino, isso já era certo. Engolindo a raiva, irrompeu pela porta. Ao menos, faria com que ele passasse vergonha.
A garota, nua sob o corpo do atleta, parou de gemer repentinamente enquanto Judd ainda investia contra ela. Confuso, ele parou aos poucos enquanto tentava decifrar a expressão facial no rosto de Amy Black.
– O que houve? Desistiu?
Ela engoliu em seco. Logo, Harry acompanhou o olhar de sua companheira. Encontrou de braços cruzados. Queria chorar mas não daria aquele gosto a Harry de forma alguma. Não disse nada, não precisava dizer nada. Os dois que se escondiam ali estavam completamente sem reação. Era aquilo que podia fazer, era o máximo de humilhação que podia proporcionar aos dois. Ao ver que tinha surtido efeito, decidiu que iria sair dali e seguir em frente com sua vida, não importasse o quanto custasse fingir que Harry Judd jamais havia posto os olhos nela.
, espera! – Judd ainda pediu e ela não entendia como poderia importar, já que ele não estava dando a mínima para o compromisso que tinham assumido em conjunto. – !
– Você é o mesmo merda que seu pai. – Ela murmurou entredentes.
, eu...
– Vá se foder, Judd.
não pedia por muito. Enquanto eram namorados, ela apenas pediu por amor. Naquela situação, aquilo não era nada, era praticamente obrigação de Harry, mas ele se achava legal demais e ignorou-a quando deveria ter idolatrado a menina que estava ao seu lado. Mas não importava, porque Harry Judd tinha tudo o que qualquer garoto de sua idade sonhava, mas não teria nunca mais. Nunca deveria ter possuído a chance de tê-la para si, porque ela era muito mais do que ele mereceria em toda a sua desprezível existência.


Capítulo 01

Os passos ecoavam pelo diner que, àquela hora do dia, ainda estava vazio, aguardando pelo movimento certo do fim da tarde. De cabeça baixa e indisposta, se sentou em um dos boxes próximos à janela. Tirou o livro de dentro da mochila que levava consigo e colocou sobre a mesa, abrindo-o na página marcada. Estava pronta para imergir no universo de Alexandre Dumas quando ouviu os risinhos femininos vindos do box à sua frente. Dentre eles, reconheceu uma risada baixa contra a sua vontade. Quando levantou o olhar, encontrou uma das líderes de torcida olhando por cima do assento, disfarçando muito mal quando flagrada. Típico, pensou.
não era inocente. Não mais. Em poucas semanas, foi ao céu e ao inferno por conta de Harry Judd, capitão do time de críquete da escola. Pensou ser a escolhida. Afinal de contas, Judd tinha todas aos seus pés, não havia motivos para que ele tivesse olhos para , a retraída menina que mal era notada nos corredores do colégio. Um encontro e pronto, julgou estar apaixonada. Era tratada, de fato, como uma rainha. Até que o falatório começou.
Quem é aquela com quem Judd está saindo?”, “Judd está fazendo caridade esse ano?”, “Ele está enlouquecendo de vez?”, “Qual o sentido em os dois estarem juntos?”, “Será que é uma aposta e não sabemos?”, “Por que pensa ser melhor que as outras?”, “O que aquela garota tem que eu não tenho?”. Essas últimas perguntas eram as que consolavam temporariamente, porque o teor delas fazia com que entendesse que aquilo era apenas ciúme da chance que estava tendo. Besteira, descobriu depois.
Harry foi o primeiro namorado dela e tentou ser o último, tamanho o estrago que fez no coração da pobre . Em um dia, tratava-a como uma rainha, fazia se sentir a pessoa mais importante de sua vida. No outro, foi um completo estúpido por tantos motivos inumeráveis que nem gostava de lembrar. Ao menos, não tentou dar uma de ‘não é o que você está pensando’, ponderou por um instante ao recordar a cena de poucos dias atrás, eu deveria ter socado a cara dele.
– É verdade, Harry? – Ouviu uma delas falar.
– Seríssimo! – O capitão respondeu. – Quero dizer... Se uma mulher não sabe nem fazer isso, ela nem deveria ser considerada mulher.
– Uau, isso é tão ridículo... – Outra complementou.
– Eu sei. Por isso que eu terminei com ela, sabe? Eu não posso ficar em um relacionamento assim. Sou homem, capitão do time, tenho minhas necessidades fisiológicas que...
A partir desse momento, o sangue de parecia ferver dentro de si. Era quase como se estivesse em um vulcão entrando em erupção. Podia apostar, inclusive, que saía fumaça de dentro de suas narinas. Respirou fundo uma, duas, três vezes. Nem mesmo as aulas de yoga em que havia acompanhado a mãe estavam surtindo algum efeito. Estava pronta para desistir da refeição, iria terminar o turno no serviço com fome mesmo e daria um jeito de esperar até em casa, mas algo entrou em seu caminho. Ou melhor, alguém.
– Oi, .
– Oi, Doug. – Ela sorriu um pouco para o rapaz. – Tudo certo por aqui?
– Tudo certo sim. E com o doutor Graham? – Dougie olhou para o pequeno escritório do principal advogado da área, do outro lado da rua e visível através da vidraça que cobria toda a parede do diner, dividindo o ambiente interno do externo.
– Estamos nos dando bem, eu acho. Ele está em audiência hoje e eu estou ajeitando alguns papéis pro resto da semana, devo ficar até tarde e achei que seria melhor comer um pouco pra aguentar até mais tarde.
– Veio ao lugar certo. – Ele riu um pouco mas riu de si mesmo, pois pensou imediatamente que aquela fora uma das coisas mais idiotas que havia dito em toda a sua vida. – O que você vai querer?
– Pode me ver panquecas com calda de caramelo, por favor? E um milkshake de chocolate.
– Claro. – Ele anotou em seu bloco de notas. – Se precisar de alguma coisa, é só fazer um sinal que eu venho, ok?
assentiu. Pegou, na bolsa, o protetor auricular que usava no escritório quando a rua estava muito movimentada e o som dos carros atrapalhava o seu rendimento com a leitura. Se perguntassem, diria que era para não ouvir a música que tocava em volume ambiente no diner, o que seria uma mentira pois adorava Bon Jovi e, mesmo que a banda tivesse acabado de lançar-se na indústria musical, já podia prever que seriam um sucesso por muitos e muitos anos. Não, não era por causa do Bon Jovi. Era simplesmente para não ouvir as gracinhas do box à sua frente.
Edmond Danté havia começado a última etapa de sua fuga do Chateau d’If. Por mais que já tivesse relido o romance diversas vezes só naquele ano, encontrava-se tensa. Tinha a respiração pesada, segurava o livro com mais firmeza e corria os olhos pelas letras com pressa para chegar logo à parte em que Danté encontrava o tesouro. Estava imersa na escrita quando sentiu um par de olhos sobre si.
Ignorou tanto quanto pôde ao espiar, pelo canto do olho, que Dougie estava junto ao balcão. Se não era ele levando o seu pedido, não havia quem mais ser. Mas ainda sentia que estava sendo observada e aquilo estava incomodando-a tanto que levantou os olhos para descobrir de quem era alvo. A garota no box da frente virou-se imediatamente, disfarçando muito mal. Nem o protetor auricular conteve o som dos risinhos que foram propagados logo após sua espectadora voltar ao seu lugar.
Decidiu que não adiantava tentar disfarçar, não conseguiria ler. Precisava ter calma em sua cabeça para tal, e calma era o que menos havia ali. Não haveria calma enquanto Harry Judd estivesse por perto. O ódio em si era tão grande que atrapalhava até o maior prazer que via na vida. Também não era para menos. Cada vez que lembrava de tudo – desde o flagra no vestiário, passando por toda a tentativa patética de Judd se redimir e indo até as mentiras que ele espalhara sobre ela no colégio quando o colocou para correr de uma vez por todas –, só conseguia pensar que aquela desilusão amorosa havia sido, na verdade, um livramento.
Antes que tomasse qualquer decisão a respeito, viu Dougie se aproximar com a bandeja em que provavelmente levava seu pedido, já que a imagem era compatível com os itens solicitados. Respirou fundo, ao menos não perderia o prazer em comer. Ele deixou a refeição sobre a mesa com um sorriso meramente educado. De repente, estava tenso e ficou receoso de continuar, então optou apenas fazer um sinal com a cabeça, indicando o box de Harry quando deixou o guardanapo dobrado em cima da mesa de .
Dougie deu de ombros, como se dissesse que sentia muito, e realmente sentia. Ele se afastou enquanto desdobrava o guardanapo, torcendo para que não fosse nada muito ruim. Não queria ser mal educado com Judd porque ele sempre ia ali com os colegas do time, o que dava muito dinheiro para seus pais, mas também não queria chatear . A questão era que era apenas uma e Judd era escalável. Se seus pais soubessem que ele havia destratado um dos principais clientes do diner, Dougie ia escutar um sermão de horas que apenas serviria para fazê-lo sentir mais raiva daquela cidadezinha.

Quando eu terminar aqui,
posso cuidar de você.

A raiva subiu à cabeça de ao ler o bilhete com a inconfundível e péssima caligrafia de Judd, e ela levantou de supetão. Deu os três passos do caminho até onde Harry estava cercado pelas garotas e socou o tampo da mesa. Harry pulou de susto no assento, junto com todas as outras meninas. Queria provocá-la, é claro, mas não pensou que chegaria àquele ponto. Ele, em si, não tinha medo. Era outro sentimento, aliado à vergonha que tinha de ter feito mal a . Sim, ele tinha vergonha, mas jamais admitiria para não correr o risco de parecer fraco para qualquer outro. Prezava, sobretudo, por sua imagem de durão para todos do colégio. Mas o fato era que Harry Judd tinha irritado , mais uma vez, e ela era uma das únicas coisas que colocavam Judd em uma posição de extrema vulnerabilidade.
– Que merda você tem na sua cabeça, Judd?
– Ui, olha que boca suja. – Mary, uma das meninas, falou.
– Ao menos tá suja de palavras e não de um pinto qualquer que você chupou atrás da arquibancada enquanto tava matando aula. – rosnou para a garota, que encolheu-se com as palavras proferidas. – E você, Judd, já passou da hora de crescer, não acha? Se eu quisesse você, ainda estava do seu lado como uma perfeita otária, igual a essas vagabundas aí.
– Vagabunda é a sua mãe!
– Não estou falando com você, Carlton, estou falando com ele. – Ela brigou com a garota. – Porque eu não quis transar com você, eu não te amo, eu não penso no seu bem, eu não quero um futuro pra gente. Ótimo, que seja. Você tá cheio de mulher em cima de você, que tanto você tem que continuar se metendo comigo?
Harry não disse nada, só fez sinal para que elas abrissem caminho para ele. Então Judd se levantou e ficou de frente para , encarando-a de bem perto. Abriu um sorriso debochado. não fazia ideia de que a atuação estava custando muito caro para o psicológico de Harry, mas também não dava a mínima.
– Quem disse que eu continuo me metendo com você, ?
– Você não ouse começar com seus escárnios, Judd.
– Isso foi uma ameaça, gatinha?
não pensou duas vezes e disparou a palma da mão, completamente aberta, na direção da bochecha esquerda dele. Não sabia se tinha surtido o efeito que queria, mas sua mão ardia com o impacto. Segurou a respiração e não demonstrou reação alguma, era inadmissível demostrar qualquer tipo de fraqueza frente a ele. Nisso, os dois tinham muito em comum.
– Se você falar comigo desse jeito de novo, eu juro que vou dar um jeito de quebrar seus dentes.
... – Ele tentou sussurrar, fazendo uma careta que indicava que não queria conversar sobre o que tinha que conversar naquele lugar.
– É senhorita pra você. Daqui pra frente, não ouse fazer uso do meu apelido, Judd, e eu estou falando sério.
– Claro que está falando sério, eu...
Ela lhe direcionou um olhar tão carregado de ódio que calou Harry de uma vez por todas. Estava decidido a não falar mais nada, a continuar tentando conversar com para tentar retratar-se. Mal sabia ele que nunca aceitaria nada vindo de alguém que prezava mais pela imagem do que pelo que as pessoas sentiam em consequência de suas ações. E ele também não sabia que jamais deixaria aquilo barato. Já que ele havia espalhado boatos sobre ela, podia também jogar o mesmo jogo.
– Já contou pra elas que você tem sífilis? – Disse em alto e bom tom.
estava mentindo. Harry sabia, é claro, mas as garotas que estavam grudadas no pescoço dele segundos atrás não sabiam, então elas logo deram alguns largos passos para o lado, aterrorizadas. queria rir da situação, mas estava tão irritada que não podia. Então Dougie passou atrás, tentando ignorar a cena, com uma bandeja para servir a mesa próxima da ponta do diner, quando se virou e pegou um dos refrigerantes que ele carregava. Com os olhos transbordando ódio, derrubou o refrigerante todo em cima de Harry. Dougie, paralisado, acabou ficando por ali mesmo.
Ela foi de volta para sua mesa, colocou o livro de volta na mochila, pegou uma nota grande na carteira e deixou com Dougie. De repente, não havia mais raiva em e os dois trocaram um olhar triste.
– Pra pagar o que eu ia comer, o refrigerante que eu joguei fora e o trabalho com a limpeza. Peça desculpas a seus pais por mim, por favor. – A garota disse com sinceridade.
, a gente pode tirar o Harry daqui, você não precisa ir...
– Não, Dougie, quê isso. Não tem necessidade de trazer problema pra você e pros seus pais, de verdade.
Sorrindo tristemente para o pobre rapaz, saiu do diner quase correndo. Afinal de contas, ia voltar à ideia que devia ter seguido desde o começo: segurar a fome e comer apenas em casa.


Capítulo 02

Na segunda-feira, aquele era o assunto entre os corredores no colégio. , a garota sem destaque nenhum, tinha sido rude com Harry Judd, o herói capitão do time de críquete. Provavelmente, ela foi para a cama com ele e quis algo mais sério, agora está se lamentando, as más mentes pensavam. Harry também não ajudou com os boatos que criou sobre , que já estava cansada de desmentí-lo a cada dez minutos passados ali dentro.
sabia que estava sendo minuciosamente observada em cada movimento que fazia enquanto arrumava o armário para a próxima semana de aulas, mas sentiu quando não era qualquer pessoa que estava encarando-a. Virou para confirmar de quem se tratava e ficou presa ali. Harry não tinha vergonha alguma, queria que os rumores espalhassem-se por conta própria. Então um borrão atrapalhou sua visão e, em um segundo, Dougie estava à sua frente.
– Ei, tá tudo bem?
– Oi! É... Tá tudo bem sim.
O rapaz se encostou em um dos armários vizinhos ao seu e abraçou os livros que carregava na frente do próprio corpo.
– O que você fez ontem... – Dougie começou a dizer e suspirou. – Ele merecia.
– Eu sei. – deixou escapar um sorriso de canto.
– Você precisa de alguma ajuda com ele?
– Não, Dougie, tá tudo bem. Mas obrigada por se oferecer.
– Sei que não sou a melhor pessoa pra isso, mas pode conversar comigo, se for o caso de precisar conversar com alguém. Eu acredito em você, sei que não fez as coisas que ele diz que você fez.
– Obrigada. – sorriu para o rapaz. – De verdade, obrigada mesmo.
– Que aula você tem agora? – Ele tentou puxar assunto repentinamente.
– Literatura inglesa.
– Dunbar? – Dougie perguntou e ela assentiu em resposta. – Boa sorte, é uma aula chata.
– Eu gosto.
– Da aula?!
– Não, da matéria. A senhora Dunbar é... – Ela procurou por uma palavra que tivesse mais precisão em demonstrar o que queria dizer. – ... peculiar.
– Eu tenho uns livros legais que ela recomenda. Quer que eu te empreste?
– Podemos ver isso qualquer dia desses.
Ele ajeitou o cabelo comprido.
– Meus pais mandaram dizer que, da próxima vez, você pode falar comigo ou com um deles, quem estiver mais perto. Se o Harry te perturbar de novo, a gente tira o babaca de lá.
– Não, Dougie, isso... – Ela suspirou e virou-se para ele, apoiando parte do corpo no armário atrás de si. – Harry leva o time de críquete inteiro lá, várias vezes no mês. Vai toda hora com uma ou mais garotas, e até amigos que não têm nada a ver com o colégio. No fim das contas, Harry é um bom cliente pros seus pais e eu não posso nem devo me meter nos negócios deles. Não é justo.
– Nós somos pessoas decentes, , não vamos deixar que você sofra injustamente dentro do nosso próprio estabelecimento.
– E eu também não vou deixar que vocês percam dinheiro por minha culpa.
– Você não é culpada por nada, ele que é.
Continuou arrumando suas coisas enquanto sentia que Dougie não parava de encará-la nem por um segundo sequer. Estava começando a ficar incomodada com aquilo quando virou-se para ele novamente.
– Você quer falar alguma coisa, Poynter?
– Quer ir ao baile comigo?
– O quê?! – Ela se surpreendeu com o convite repentino.
– Bem... Quer dizer... Eu não sei se você sabe, mas a minha banda vai ser a atração principal da noite durante o baile de formatura.
– Não estava sabendo. – pendurou a mochila finalmente em seus ombros. – O que tem a banda?
– Acho que você vai gostar muito.
ponderou sozinha com seus pensamentos por um instante, balançando a cabeça conforme pensava. Dougie, ao seu lado, estava com a garganta seca de ansiedade.
– E então?
Não é uma pergunta tão difícil de se responder, Dougie pensou consigo mesmo.
– Posso pensar?
– Claro. – Ele deu de ombros.
– Te dou uma resposta até o final de semana. – sorriu para Dougie e o alarme do colégio tocou, indicando o início das aulas. – Preciso ir, mas eu te procuro.
Dougie ficou parado ali, contendo um leve sorriso, enquanto assistia a garota mais incomum da escola se afastar pelo corredor à sua frente. Nem mesmo preocupou-se com o horário de sua própria aula. Gostou da visão, correria o risco do inspetor flagrá-lo ali porque valia a pena para ele.
– Ei, Poynter, vai se atrasar pra Biologia.
– To ciente, Jones. – Resmungou para o colega de classe.
Dali, seguiu para a sala de aula quase sonhando. Podia sentir os passarinhos animados voando em volta de sua cabeça e quase afastou-os porque não queria sentir-se afetado daquele jeito por – ao menos, achava que não queria.
– Você sabe que a é a menina mais incomum desse colégio, não sabe?
– To ciente, Jones. – Dougie respondeu a resposta que tinha dado ao amigo poucos minutos antes. – To ciente de muitas coisas, na verdade. O que você quer dizer com isso?
– Poynter e Jones, sem conversa paralela, por favor! – O professor, senhor Harbin, gritou na frente da turma.
Os dois disfarçaram enquanto a explicação sobre botânica seguia a pleno vapor. Dougie, no entanto, não teve paz por muito tempo. Sentiu, logo, o amigo lhe cutucar o ombro.
– Você tá afim dela?
– Fiz o convite.
– Pro baile? – Ele ficou surpreso quando Dougie respondeu com uma ligeira e quase imperceptível afirmação. – Você é corajoso. Eu acho que ela não vai aceitar.
– Por quê?
– A não é exatamente a pessoa mais sociável desse colégio. Talvez ela nem queira ir.
– Não é o sonho de toda garota? – Dougie sussurrou, perguntando sem tirar os olhos do quadro onde o professor fazia anotações sobre o assunto da aula para não ficar tão óbvio que não estava prestando atenção.
– Sei lá, é diferente.
Ele ficou em silêncio após aquela fala. Dougie pegou um marcador permanente na mochila que estava no chão, ao pé de sua carteira escolar, e anotou em letras garrafais no topo da primeira página sobre o assunto do dia “ler tudo de novo/procurar tutoria”. Pensava no que o amigo havia acabado de dizer e sabia que, provavelmente, não conseguiria focar em mais nada além daquilo durante o dia.
– Você sabe se é verdade o que o Judd falou sobre ela?
– Se o Judd foi quem falou, já é um passo pra desconfiar fortemente, você não acha?
– Acho, claro que acho... – Ele deu de ombros. – Mas não sei, também foi estranho os dois terem se envolvido.
não faria aquilo e o Judd tem sido um grande babaca com ela ultimamente.
?!
– O que tem?
– Você tá apaixonado mesmo, hein, Poynter! Que merda... – Deu dois tapinhas no ombro de Dougie como quem dizia que sentia muito por algum acontecimento e voltou sua atenção completamente para aula, de onde seu foco nunca deveria ter desviado.
Três salas de aula de distância dali, era a aluna sentada na primeira cadeira da classe de literatura inglesa. Não tinha dificuldade com aprendizado, muito pelo contrário. O assunto daquela aula era um de seus preferidos, mas toda e qualquer precaução era pouca em seu planejamento de vida. Notas baixas eram inadmissíveis para , e não era no sentido de puramente ter um bom desempenho escolar. Ela não queria, de forma alguma, sujeitar-se a qualquer tipo de prolongamento, mesmo que mínimo, do que já era um martírio naquela escola.
Sentia os murmúrios atrás de si e o tanto de vezes em que a senhora Dunbar chamou a atenção dos alunos não lhe ajudava em nada, só relembrava mais ainda o que estava acontecendo naqueles dias, especialmente naquela segunda-feira. Olhou para Carey, a única amiga que tinha naquele colégio porque era a única que também era segregada de todos os grupinhos em que os alunos se dividiam. Ela fez cara de quem sugeria que deveria deixar para lá.
era separada por ser novata, filha de mãe solteira, que não frequentava as festinhas e amiga de Carey. Esta, por sua vez, era separada de todos simplesmente por ser negra. Uma achava o motivo pelo qual a outra era segregada um absurdo, mas não tinha nada que pudessem fazer a respeito daquilo. As pessoas estavam sendo idiotas com elas, de fato, mas ambas precisavam seguir em frente como se nada tivesse acontecido ou aquilo só teria piores efeitos em suas vidas.
Na saída, após o fim das longuíssimas horas ali dentro, tanto quanto Carey ficaram olhando o ônibus escolar partir. Mais uma vez, preferiam ter o trabalho de caminhar uma longa distância do que estar dentro de um veículo lotado de gente que não as respeitava.
– Então... Você e o Poynter... – Carey começou a murmurar, segurando nas alças da mochila enquanto colocavam o pé na calçada que levaria as duas para casa.
– Eu e o Poynter?!
– É... – Ela disfarçou. – Vi vocês dois no corredor antes do começo das aulas... Pareciam íntimos.
– Só impressão sua.
– O que ele queria?
– Eu acho que ele me convidou pro baile.
– Acha?! – Carey riu.
– É... Ele perguntou se eu queria ir com ele, depois falou alguma coisa sobre a banda... Enfim, não ficou exatamente claro o que ele queria.
– E você disse sim?
– Eu disse que ia pensar.
– O Poynter é legal. – A amiga deu de ombros. – Não que eu tenha muito contato com ele mas, só de ele não ser um total idiota comigo, já é um bom começo. Você devia dar uma chance a ele.
– Você tá falando sobre o que eu acho que tá falando? – olhou a amiga de soslaio, que riu em resposta.
– O que você acha?!
– Não, nem vem. – Ela balançou a cabeça, rindo também. – Faltam poucas semanas e, em breve, eu vou estar tão longe dessa cidade que nem vou me lembrar mais da existência dela.
Após soltar a frase, notou que sua acompanhante murchara. Logo, tratou de abraçá-la por cima dos ombros e apertou-a um pouco.
– Ei, não estou falando de você.
– Eu sei que não. – Carey balbuciou. – Mas ele é bonitinho, você tem que assumir.
– Quem? Poynter?!
– É!
– Chega de homens por essa cidade, Carey, eu já me ferrei demais com o primeiro.
– O Judd foi um babaca com você, mas isso não quer dizer que todos sejam babacas.
– Bem, já tá extremamente claro que os amigos dele são, o que já é boa parte da cidade.
– É... Nisso, você tá certa. – Carey deu razão à amiga. – Ainda assim, você deveria dizer ‘sim’ ao Dougie.
– Nem sei se foi um convite de fato, Carey.
– Eu tenho certeza de que foi.
– Você sempre sabe tudo? – Perguntou, rindo.
– Sim, sempre. – Ela deu de ombros. – Você não disse que, se fosse ao baile, só queria alguém para dançar com você?
– Disse. Por quê?
– Dougie parece ser o tipo de cara que faria isso bem.
riu. Andaram mais alguns passos em silêncio enquanto as falas da amiga ecoavam na mente de , que devaneava pelas mais diversas possibilidades.
– Você vai trabalhar hoje?
– Vou sim.
– Que horas você sai? Podíamos tomar um milkshake lá no Poynter...
– Eu acho que não tenho horário hoje. – respondeu. – Podemos marcar pra amanhã? Eu vou estar de folga.
– Claro.
As duas seguiram o trajeto conversando sobre o professor de matemática e o tanto que ele parecia não entender sobre o que estava explicando durante a aula daquela manhã. Em certo ponto, tiveram que dividir-se, pois as casas ficam em sentidos opostos do mesmo bairro. terminou a caminhada sozinha, entretida com os próprios pensamentos. Às vezes, estar dentro de si mesma era divertido. Às vezes, nem tanto. Naquele dia, estava mais para o segundo caso.
– Deu tudo certo colégio, filha? – A senhora perguntou assim que ouviu a filha passar pela porta de casa. – Como foram as aulas de hoje?
– Boas. – respondeu com a indiferença de sempre.
Não foi até a cozinha falar com a mãe. Deixou a mochila no chão, perto da porta de entrada, e seguiu escada acima, em direção a seu quarto. Queria ficar sozinha.
– Vou deixar seu almoço em cima do fogão e voltar para o trabalho! – Ouviu a mãe gritar quando já estava no segundo andar.
não se preocupou com responder. Só queria uma única coisa: enfiar a cara no travesseiro e gritar para dispersar seus demônios interiores. Não aguentava mais aquele cidade, aquele colégio, aquela década, aquela vida... Mal podia esperar pelo fim do curso, que aproximava-se lentamente – de seu ponto de vista.


Capítulo 03

– Certo. O senhor tem mais algum pedido?
– Eu precisava de um grande favor, que você transcrevesse o depoimento do Cletus Dubose.
– Já fiz isso, deixei na sua mesa mais cedo.
– Sério? – O doutor Graham encarou curioso. – Como você sabia que eu ia te pedir isso?
– O senhor sempre pede transcrição de depoimentos quando os casos envolvem risco de prisão perpétua como sequência.
O advogado estava surpreso, de forma boa.
– Se continuar assim, vai ser uma ótima advogada no futuro. Aliás, sua carta de recomendação está pronta, pegue-a antes de ir embora comigo.
sorriu. Aquilo era tudo o que precisava para ir a Yale no dia que havia marcado para visitar o campus e realizar sua inscrição. Mal podia esperar pelo dia em que veria-se longe daquela cidade de uma vez por todas. Era de Yale para o mundo. não colocaria mais os pés naquele lugar por nada, ainda mais se conseguisse a tão sonhada bolsa de estudos que seu chefe estava tentando ajudá-la a conquistar. Tinha planos perfeitos e ficava extremamente feliz com aquilo.
Dali para a frente, seu expediente foi tranquilo. O doutor Graham recebeu dois clientes e as reuniões ocorreram sem complicações. Ela se manteve firme em suas funções, reorganizou a agenda do chefe para a semana seguinte, confirmou alguns compromissos e aproveitou o tempo livre que restou para estudar um pouco de Álgebra, matéria da qual teria prova na outra manhã.
– Terminou, ?
– Sim, senhor. – Ela respondeu prontamente o chefe quando este dispensou o último cliente do dia.
– Pode ir embora então, eu fecho o escritório.
– O senhor tem certeza?
– Claro, vá descansar. – Ele disse, com o semblante tranquilo porém sério. – Vá descansar, nos vemos amanhã.
Com um sorriso educado, assentiu e recolheu suas coisas. Colocou tudo de forma organizada dentro da grande bolsa que levava consigo e saiu do escritório. Olhou para os dois lados da rua e, certificando-se de que não havia nenhum carro vindo, atravessou na direção do diner da família Poynter.
O som do sino acima da porta anunciou sua entrada. não viu, mas Dougie sorriu ao percebê-la ali. Cortou a conversa que estava tendo com duas garçonetes no balcão e foi até ela quase aos pulos. Não foi surpresa – nem para Dougie nem para – a escolha da mesa. Sempre que ia ali, escolhia o box na exata metade do salão, junto à vidraça que dividia o ambiente interior da calçada. gostava de observar os transeuntes e, por motivo nenhum, o escritório onde passava as tardes trabalhando.
– Oi, . – O tom de voz de Dougie era mais feliz naquele dia do que no último encontro dos dois ali, e isso não passou despercebido pela garota. – O de sempre?
– O de sempre, Doug. – Ela sorriu.
Sentiu-se imediatamente mal por sequer mencionar uma possível resposta a seu convite. A verdade era que ainda estava confusa, não sabia em qual sentido aquele convite havia sido feito. Dougie, por sua vez, não queria falar nada para não pressioná-la. Os dois estavam tirando conclusões precipitadas sobre o outro.
– Você tá caidinho nela. – James, seu primo, lavava pratos quando ele chegou com o novo pedido.
– Cala a boca, cara.
– Gente... Pedido da . Acelera aí, por favor.
– Vai demorar um pouco, Dougie. – A cozinheira, Patricia, avisou. – Tinha um ovo podre na última leva, to limpando tudo aqui pra voltar a usar essa parte da cozinha.
– Ok, adianta quando puder, por favor.
Ela assentiu e Dougie voltou ao salão. Entregou alguns pedidos, orientou as garçonetes a fazerem atendimentos. O sino tocou e ele prestou atenção. Sua mãe, Samantha, entrava alegre. Só pela postura dela, todos os presentes concluíram que ela havia acabado de sair do salão de beleza. Passou por Dougie, apertou sua bochecha com um sorriso forçado no rosto e foi até a caixa registradora. Abriu a gaveta e tirou três notas de vinte dólares de lá.
– Eu anoto essa retirada depois.
– Não, mãe, você vai anotar agora. – Dougie disse à mais velha.
– O quê?!
– Da última vez, você esqueceu e uma pessoa quase foi demitida injustamente. – Ele resmunou e, depois, baixou a voz para si mesmo. – Ou fingiu que esqueceu que retirou, né...
– O que você disse, mocinho?
– Mãe, só faz a anotação no caderno de controle, não leva nem meio minuto.
Samantha Poynter estava pronta para rosnar um belo sermão ao filho em alto e bom tom, sem se importar com os clientes do diner – e ele estava igualmente disposto a devolver o argumento na mesma voz –, quando a filha do prefeito entrou pela porta. De uma hora para outra, a senhora Poynter estava mudada. Dougie revirou os olhos e seguiu com o seu serviço, pegando outro pedido que havia ficado pronto, o que foi anunciado pela campainha da janela entre a cozinha e o balcão.
Mais uma vez, o sino da porta tocou. O ambiente foi tomado por vozes com volume mais alto. Alguns dos clientes ficaram visivelmente incomodados. Dessa vez, para a infelicidade de Dougie – e de também –, o sino da porta não trazia boas notícias. Entre as risadas e palavras sem nexo, a voz de Harry Judd era perfeitamente identificável.
Ninguém sabia que Harry também tinha um lugar fixo favorito no diner por conta de . Era ela quem sempre escolhia onde eles se sentavam quando frequentavam o lugar como um casal. Para Dougie, era, de certo, motivo de alívio vê-los separados, mas não queria que aquilo tivesse causado dor em de forma alguma. Só queria a chance de desvendá-la mas, quanto mais perto parecia estar, mais inalcançável ele sentia que ela era.
– Courtney, pelo amor de Deus, vai atender o Judd. Se eu for...
– Pode deixar, Doug.
assistiu, à distância, a mão da garçonete pousar com delicadeza no braço do colega. Não soube dizer de onde veio a pequena e quase imperceptível pontada de ciúmes, mas soube constatá-la. De qualquer forma, não importava. Pegou o livro da vez em sua bolsa, o refúgio de sempre que adorava ter.
O escolhido era Os Miseráveis. não tentava esconder sua predileção pela literatura francesa, embora detestasse o idioma. De qualquer forma, aquela seria a sua primeira vez mergulhando nos mistérios da escrita de Victor Hugo. Estava feliz por experimentar mais um autor, achava que seria uma ótima distração para afastar sua mente da presença de Harry ali.
Por sorte, não foi notada. Mas os comentários maldosos ainda persistiam entre Harry e as líderes de torcida, praticamente carrapatos sugando o seu sangue. Os comentários, no entanto, não eram apenas sobre . Eram sobre outras colegas, algumas até mesmo de quem meninas ali diziam-se amigas.
Ela não colocou os protetores auriculares de forma correta propositalmente. Queria saber se Harry estaria espalhando um novo boato e preparar sua defesa se esse fosse o caso. Disfarçou isso com o cabelo. Todos ali a conheciam, esperavam que ela não estivesse ouvindo nada nem ninguém. , a garota que sempre vivia no mundo da lua... Com isso, ela não se ofendia.
Viu Dougie se aproximar da mesa colada à dela com uma bandeja lotada na mão. Respirou fundo, conteve-se... Eram só refrigerantes, o pedido dela certamente estava sendo feito naquele exato momento, o que significava que estaria fresquíssimo na hora de comer. Pensamentos positivos, , a garota disse a si mesma mentalmente. Mas, de repente, viu o olhar pesaroso no colega e sentiu que havia algo errado prestes a acontecer. Arrancou os protetores auriculares de qualquer jeito e começou a processar a sentença no meio dela.
– ... você não tem objetivo de vida, né, Poynter? – A voz que tanto odiava conhecer proferiu.
– Harry, por favor, eu não quero problemas.
– Ah, coitadinho do Poynter... – O mais velho debochou e a vontade de entrar no meio foi até a garganta de e voltou. – Você nunca vai agir como um homem de verdade, não é mesmo? Por isso que você é virgem até hoje.
– Harry, é sério. Se você tiver algum problema pessoal comigo, podemos resolver, mas fora do estabelecimento dos meus pais. Só diga o lugar e a hora, eu estarei lá.
– Não tenho problema nenhum com você, Poynter. To até deixando você ficar com o restinho do prato onde eu comi. volta pra mim num piscar de olhos se eu pedir, e ela nunca mais vai olhar no seu rosto, pivete. – colocou os protetores auriculares para valer nessa altura, não ia suportar escutar as ofensas de baixo calão que Judd certamente direcionaria a Dougie. – Quando ela se cansar de você, vai voltar rapidinho pra mim. E sabe como eu sei disso? Porque você não é nem dez por cento do homem que eu sou, Poynter.
– Tudo bem, você tá certo, mas eu posso servir os refrigerantes?
– Vai em frente, lacaio.
Dougie bufou mas fez seu serviço. Estava realmente em seu limite, mas queria o mínimo de estresse possível. Depois de Courtney reclamar que tinha sido assediada por Harry deliberadamente, restava a ele fazer o serviço da mesa onde ele estava com as líderes de torcida de sempre. Quando botou o último copo de refrigerante sobre a mesa, Harry teve o atrevimento de derrubar o copo em cima de Jackie, uma de suas acompanhantes. Fez a melhor cara fingida de deboche para Dougie.
– Vai lá pegar material pra limpar os meus pés, lacaio.
O apelido era o de menos para Dougie. De tudo, aquela era a parte mais fácil de aturar. Mas o chão precisava ser limpo de qualquer forma porque, se o refrigerante secasse, ia ficar um nojo, e era bem capaz de Harry Judd e seu exército irem passear pelo diner só para espalhar a sujeira pelo chão. Mas foi só andar na direção de uma mesa mais à frente que sentiu uma mão puxar seu braço e o coração pulou uma batida.
ouviu o suficiente. Harry estava incomodado com a proximidade entre os dois, isso ficou evidente no pouco que aguentou escutar da conversa. Não havia melhor momento para fingir que não havia notado sua presença. Mas até mesmo , que estava tentando afastar de sua mente a ideia de estar com um homem novamente tão cedo, sentiu as faíscas quando as duas peles fizeram contato. Levantou o olhar e encontrou um Dougie curioso, no mínimo – e outras coisas mais.
– Doug, – Ela começou a falar e percebeu que sua voz estava ligeiramente fraca, então empenhou-se em melhorá-la pois queria propositalmente que Harry ouvisse ao mesmo tempo que ficasse como verdade para todos que ela ainda não sabia de sua presença no estabelecimento. – desculpa ter demorado tanto pra responder... O convite ainda está de pé?
– Pro baile? – Os olhos do rapaz brilharam e um sorriso iluminou o rosto que, poucos segundos atrás, estava completamente derrotado.
– Sim.
– C-claro que tá. – Dougie gaguejou. – Por quê?
– Eu adoraria ir com você.
Só então que os dois notaram que ainda estavam fisicamente conectados. Dougie ruborizou, também. Harry ouviu o diálogo da mesa, obviamente reconheceu a voz e viu o sorriso aumentar significativamente no rosto de seu adversário. A raiva e o ciúme lhe corroeram o estômago.
– Harry, tá tudo bem? – Julie, a que estava mais próxima dele, perguntou, colocando a mão em seu peito.
Judd desvencilhou-se da garota e saiu da mesa às pressas, indo na direção do banheiro com passos firmes. A porta do banheiro bateu com força, assustando alguns dos clientes. Outros já esperavam o som pois acompanharam o tempestuoso capitão do time de rugby do colégio desde o momento em que ele se levantou. Nem Dougie nem notaram. As faíscas ainda estavam ali e, por algum motivo, nenhum dos dois queria que aquele momento acabasse.
– Doug, pedido da assistente do Graham tá pronto! – Gritaram o rapaz da bancada.
– Eu vou lá pegar e trazer pra você. – Ele falou baixinho e ainda hesitou em soltar seu braço.
No banheiro, Harry bufava contra o espelho. Olhava o próprio reflexo, perguntava-se o que poderia fazer para pegar de volta para si – porque sim, Harry a enxergava como uma propriedade – e o que fazer para tirar Dougie Poynter do seu caminho de uma vez por todas. Pobre Judd, não sabia que o destino já tinha dado as cartas.


Continua...



Nota da autora: O que vai sair daí? Fiquem de olho, prometo que vão amar!





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