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Última atualização: 30/06/2021

Parte I

A passos impacientes que deixariam qualquer um tonto, David Hawthorne caminhava pelo local que se recusava a admitir que era agora a sua sala. Um olhar nervoso ao seu redor comprovou que por mais que almejasse um cargo alto como aquele no FBI, jamais aceitaria as circunstâncias nas quais seu maior sonho fora concedido. Por mais que a realidade gritasse em sua cara todos os acontecimentos recentes, ele se recusava a acreditar e enquanto aquele fio de esperança estivesse presente ali, não deixaria de acreditar no impossível.
Os outros agentes passavam por ele e o achavam incrivelmente tolo por se agarrar a toda aquela expectativa, como se ele fosse alguma espécie de criança tola que ainda acreditava em Papai Noel e Coelho da Páscoa. Todas as evidências apontavam que aquela situação não tinha volta, principalmente porque já estavam há dias sem sequer um sinal do agente, mas eles também sabiam da admiração e apreço que David tinha por , por isso, o compreendiam de certa forma, aceitando sem questionar as ordens que lhe eram dadas quanto à nova investigação relacionada ao caso do Estripador de Baltimore.
— Hawthorne? — Seus pensamentos foram interrompidos pela agente . Ela adentrou a sala de David assim que ele assentiu em concordância, trazendo consigo alguns papéis que segurava com a mão livre de luvas, enquanto mantinha a outra no bolso do casaco. Hawthorne lhe lançou um olhar rápido, examinando os cabelos negros presos em um coque desajeitado, mas não se ateve a isso porque sua atenção imediatamente foi para os papéis.
— Estão prontos? — ele questionou, mesmo sabendo que aquilo era bem óbvio, pois, do contrário, ela não o interromperia em sua sala.
— Sim, talvez queira dar uma olhada, agente Hawthorne — ela murmurou, parecendo chateada com o que David veria, mas tentando mascarar com um sorriso um tanto aberto demais. Ao notar isso, ela se xingou mentalmente porque era patético de sua parte agir como uma adolescente apaixonada. David não tinha olhos para ela, não quando todos sabiam do caso dele com a bela jornalista, Cadence Norton. Pensar naquilo fez a moça engolir em seco, pigarreando em seguida para disfarçar o nó formado em sua garganta.
— E então? — Hawthorne lhe despertou dos pensamentos e ela, num sobressalto, se aproximou do rapaz e lhe mostrou os papéis, indicando o resultado da análise do DNA das manchas de sangue presentes na mais nova cena do crime. Segundo as comparações realizadas com o banco de dados, o sangue presente no chão da orquestra sinfônica local pertencia a...
— a voz de ecoou, trazendo consigo um silêncio mórbido ao local onde se encontravam.
Um tiro teria lhe doído menos, foi o pensamento de Hawthorne. O que diabos aquilo significava? teria descoberto o Estripador de Baltimore, tentado salvar a vida da vítima e sido levado como refém? Ou ele estaria morto e seu corpo seria descoberto dias depois, da mesma forma que havia acontecido com Soren Lamartine?
Talvez você nunca descubra.
Aquele pensamento lhe torturava a todo instante.
Hawthorne sabia tudo que estava em jogo a partir daquele momento. Sabia que sua cabeça estava a prêmio e que cada um dos agentes daquele local estava questionando sua experiência, ou nesse caso a falta dela. Ele era relativamente novo no FBI, se comparado aos outros, e até mesmo não depositava sua confiança, muito menos acreditava em seu potencial, disso David também sabia. E era por isso que o desafio era ainda maior. Por isso o peso em suas costas aumentava drasticamente. Ele tinha mais do que um assassino em série de altíssima periculosidade para capturar, ele tinha sua própria honra e um reconhecimento sem precedentes em jogo. Ele tinha que vingar também a morte de dois colegas de trabalho — se realmente estivesse morto — e tinha que restaurar a credibilidade do FBI.
As mãos do agente tremeram quando ele tocou os papéis nas mãos de , olhando os dados que compunham o laudo com um buraco enorme aberto em seu estômago.
— Hawthorne? — Ele ouviu a voz de sua colega soar de forma um tanto distante por ainda estar submerso em pensamentos. — Hawthorne? Está tudo bem?
Não, não estava tudo bem. Ele sentia suas pernas amolecerem e o ar ao seu redor ficar escasso enquanto tudo girava numa velocidade estúpida. Ele não podia se render. O quão patético iria parecer se desmaiasse em sua sala em seu primeiro dia como o agente comandante da investigação?
Sentiu um toque delicado em suas costas e lentamente se voltou para o olhar preocupado de , deixando-se levar, em meio à tontura, pelo tom escuro dos olhos da moça. Nunca havia parado para reparar no quanto eram atraentes, eles tinham uma linha fina e azulada contornando o castanho e, por mais que fossem um pouco bloqueados pelas lentes dos óculos de grau, fizeram-no ficar vidrado, questionando algumas coisas para si mesmo.
percebeu a confusão do rapaz, o quanto estava perdido e, por mais que lutasse para esconder, assustado com toda aquela situação. Mas ela sabia também que ele não cederia, não daria o braço a torcer e não admitiria os conflitos sentidos. Ela só conhecera uma pessoa mais teimosa que David Hawthorne, e este era .
— E a causa da morte do maestro? — questionou, soando um tanto seco após pigarrear e desviar seu olhar dos olhos da agente.
— Foi confirmada, David. Hemorragia interna causada por uma lesão cardíaca, possivelmente feita com um instrumento cortante que atingiu a vítima na região do tórax. O formato indica que a incisão foi realizada por uma faca e a morte ocorreu antes de o maestro ter seu corpo transformado em violoncelo. A arma do crime não foi localizada e também não foram encontradas impressões digitais nas partes do instrumento musical, a não ser... — A voz da mulher morreu, então ela engoliu a seco, não tendo certeza se conseguiria dizer em voz alta aquele outro resultado.
— A não ser o quê? — David se exaltou, encarando com impaciência. Ele não podia perder tempo com nenhum tipo de frescura.
— A não ser pelo arco do violoncelo, onde encontramos sangue e impressões digitais do agente — ela completou, vendo a expressão do agente se transformar numa careta frustrada.
— Alguma evidência que nos leve ao paradeiro dele? — questionou, respirando fundo para acalmar o nervosismo.
— Nenhuma, senhor. Temos apenas o rastro do sangue de , indicando uma possível direção, além do bilhete com aquele convite.
David passou as costas da mão direita pela testa, secando o suor causado por todo aquele nervosismo. E foi com esse ato que ele percebeu o quanto tremia, fazendo-o ponderar por alguns segundos se não estaria tendo um ataque de nervos.
Aquele maldito bilhete.
Conseguia lembrar nitidamente do momento no qual um dos agentes lhe chamou a atenção, da mesma forma que ele mesmo havia feito quando investigava a cena de crime onde constataram a morte de Soren Lamartine. Ele havia se aproximando da mesma forma que havia feito com ele e pegado o papel em suas mãos. A caligrafia era a mesma, elegante e digitada, e as palavras que encontrou lhe fizeram arquear uma sobrancelha enquanto seu estômago se embrulhou.

“É com este espetáculo em minha homenagem que ofereço aos meus amigos do FBI um esplendoroso banquete, onde, finalmente, todos conhecerão minha verdadeira identidade.
A próxima trilha de corpos indicará a data, a hora e o local.
Com muito apreço pelos senhores,
Estripador de Baltimore.”


Hawthorne mal podia acreditar na petulância do sujeito. E por mais que o fascínio pelo estudo dos assassinos em série tenha lhe trazido até aquele emprego, ele os odiava profundamente. Odiava a crueldade, a capacidade de espalhar dor e sofrimento às famílias das vítimas. Odiava toda aquela prepotência e a constante insistência em se considerar como Deus ou o próprio Diabo. Tendo questões psicológicas envolvidas ou não, todos eles mereciam a pena de morte.
Este em especial estava lhe causando ainda mais ódio porque, além de se considerar o próprio Deus, ele havia deixado claro que sua verdadeira identidade estava bem debaixo de seus narizes e o FBI só descobriria quem ele era de fato porque assim o Estripador desejava.
— Precisamos ser mais rápidos — ele murmurou, deixando seus pensamentos se externarem, fazendo tomar um pequeno susto, já que também estava envolta em seus próprios pensamentos.
— Como? — ela murmurou, ainda atordoada, voltando a erguer seu olhar até o de Hawthorne.
— Temos que pegar esse desgraçado antes que ele se entregue. Você sabe o que vai acontecer se ele o fizer, certo? Seremos motivo de chacota, , e eu não posso me dar esse luxo. Eu preciso... Preciso fazer com que a morte de não tenha sido em vão e, caso ele esteja vivo, preciso arrumar um jeito de salvá-lo. Esse cara não pode vencer! — David disparou a falar, mal percebendo o momento no qual havia recomeçado a andar de um lado para o outro na sala, completamente impaciente e agoniado.
— David... — começou, suspirando pesadamente antes de soltar as palavras as quais sabia que Hawthorne cuspiria de volta em sua cara. — Como você tem tanta certeza de que é completamente isento de culpa? Pense bem, ele era a pessoa mais próxima da Soren. Todo mundo sabia sobre o caso dos dois e ele sempre foi um obcecado por pinturas famosas. O sangue e as impressões digitais dele foram encontrados no arco do violoncelo. Eu sei que é difícil de aceitar, mas o laudo não mente. Foram feitas prova e contraprova e depois disso eu só consigo pensar que o agente não é completamente inocente nessa história.
A expressão nos olhos de David fez estremecer e se arrepender amargamente por sua sinceridade. Ele a encarou com profunda frieza, caminhando até a poltrona de seu escritório e largando os papéis em cima da mesa antes de pigarrear e soltar, soando seco e indiferente a ela.
— Se tem alguma culpa, por que tem uma quantidade de sangue dele na cena de crime digna de um filme de terror? — questionou, arqueando uma sobrancelha com uma expressão arrogante.
— E as impressões no arco? Há um desgaste nas pregas vocais do maestro e fragmentos de tecido muscular, além do sangue do . Vendo por esse ângulo, ele pode ter sido pego em flagrante e sido atacado em seguida, o que o tornaria o possível imitador do Estripador de Baltimore. Só não entendo por que as impressões estão apenas no arco e não no corpo do maestro e...
— Não preciso mais de seus serviços, agente . Seus relatórios já foram entregues e agora, se me dá licença, tenho muito trabalho a fazer. Volte ao seu posto — David a interrompeu, não querendo mais ouvir uma palavra do que a mulher teorizava. Se recusava a sequer cogitar aquele absurdo. Não quando se tratava de , o agente que havia sido sua inspiração desde o início de seu treinamento no FBI.
Desconcertada, respirou fundo, engolindo mais uma vez o nó na garganta e caminhando a passos apressados até a porta, se retirando sem olhar para trás e deixando um suspiro baixo escapar de seus lábios enquanto seus olhos marejavam.
Ela sabia que David estava fora de si, mas havia doído ver o cara por quem ela tinha interesse genuíno desde que o viu pela primeira vez tratá-la daquela forma, como se não fosse ninguém.
Respirou fundo, passando a mão pela bochecha e se recompondo antes de entrar em seu laboratório, prometendo a si mesma que dali para frente agiria mais como Soren Lamartine. Ela estava bem farta de ser vista como alguém iludida, amargurada e sonhadora, assim como estava cansada de ser subestimada.

🍷


Um sorriso estava estampado nos lábios do Estripador de Baltimore. Estava mais do que satisfeito, estava radiante.
Era incrível o quanto o FBI estava em suas mãos. Não importava quais estratégias buscassem ou quem colocassem na frente da investigação de seu caso, derrubaria todos, e um alguém em especial seria o desfecho de seu espetáculo.
Era por isso que mantinha uma expressão divertida em seu rosto enquanto a nona sinfonia de Beethoven ecoava em seu carro. Os olhos atentos buscavam as direções conhecidas que o levariam a mais uma de suas vítimas e seus lábios cantarolavam o ritmo da música. Era um grande apreciador dos clássicos e por isso não pôde deixar de se sentir lisonjeado pelo presente recebido de seu admirador.
Quando parava para pensar sobre , o Estripador sentia uma emoção estranha, algo que fazia seu peito se aquecer enquanto uma vontade súbita de sorrir quase rasgava suas bochechas para que o fizesse. E conforme aprendia com ele, caso após caso, era moldado à sua imagem e semelhança. Ele não poderia estar mais orgulhoso de seu cordeiro, por mais que no final de tudo a semelhança estivesse roubando o holofote que sempre pertenceria ao Estripador.
Assim como o presenteou com belas representações artísticas, no entanto, ele também lhe homenagearia. Quer algo melhor do que receber uma celebração pelo sangue derramado do cordeiro?
As gargalhadas incessantes ecoaram pelo veículo, parecendo um tanto mecânicas e sem emoção, por mais que por dentro estivesse genuinamente achando a situação cômica. O Estripador nunca havia sido o tipo que deixava suas emoções transparecem, não poderia de maneira alguma demonstrar vulnerabilidade.
Seu alvo então entrou em seu campo de visão, abrindo a porta dos fundos do pequeno sobrado para levar o lixo até a rua e regar as plantas, já que aquele era o único horário em que poderia fazê-lo. Era por volta das dez da noite e a potencial vítima passava o dia inteiro trabalhando na gráfica local.
O Estripador tratou de estacionar o carro de forma silenciosa e se apressou em sair do veículo, caminhando rapidamente até os fundos da casa e tentando fazer a menor quantidade de barulho possível, se esgueirando para dentro da residência enquanto a moça de longos cabelos loiros molhava suas plantas, cantarolando uma música a qual ele não conseguiu identificar.
Encontrou exatamente o local esperado para render seu alvo e assim que ela entrou em seu campo de visão, o Estripador não hesitou em acertar o martelo em sua cabeça, escutando o baque surdo do corpo indo de encontro ao chão.
Com a faca de cozinha da própria vítima, ele usou a mão direita dela para cortar a mão esquerda, como se a mulher tivesse decepado a própria mão, colocando-a na pia estrategicamente e novamente usando a mão da vítima para implantar um pequeno bilhete, onde deixava a primeira coordenada de onde seria a celebração de seu banquete. Então ele segurou as pernas da moça logo depois para arrastá-la para a porta da casa, fazendo-o sem a menor pressa e permitindo que o sangue proveniente do toco onde antes era a mão da vítima deixasse um longo rastro pelo piso branco. O contraste era incrivelmente agradável aos seus olhos.
Não havia ninguém na rua que pudesse identificá-lo e o carro utilizado estava estrategicamente estacionado próximo aos fundos da casa, então, novamente, ele estava muito longe de ser pego.
Depois de colocar a vítima no porta-malas, devidamente amordaçada, ele entrou no carro e deu partida, ouvindo mais uma vez o som da sinfonia de Beethoven, encarando seu reflexo no retrovisor e esbanjando seu triunfo. A garota confinada no porta-malas de seu carro trabalhava como assistente pessoal em um dos principais jornais locais, mais precisamente com uma velha conhecida sua, sempre dedicada a espalhar diversas calúnias contra o Estripador.
Aquilo daria um belo susto em Cadence Norton e depois daquela noite ela teria um pequeno vislumbre das consequências que a aguardavam ao continuar provocando o Estripador de Baltimore.

🍷


soltou o ar com dificuldade assim que adentrou seu laboratório, encarando seu reflexo na geladeira espelhada e piscando os olhos rapidamente, bufando em seguida ao sentir novamente o nó em sua garganta. Abaixou a cabeça e retirou os óculos para limpar as lentes molhadas pelas lágrimas e, tremendo, se encostou na bancada. Droga, ela precisava se acalmar! David não fazia ideia de como ela se sentia em relação a ele e a forma grosseira como a tratou certamente se devia ao fato da pressão que estava sob os ombros do rapaz. Ela não conseguia nem imaginar como se sentiria se estivesse no lugar dele, comandando uma investigação que colecionava fracassos.
Inspirou fundo, contando três segundos e expirando, repetindo o processo até que realmente se acalmasse e pudesse colocar seus pensamentos em ordem. Ajudar David a solucionar aquele caso seria muito melhor do que ficar pelos cantos se lamentando.
Olhou para o computador, onde estava aberto o arquivo com o laudo recém impresso e entregue a Hawthorne, e passou a refletir sobre o que aqueles resultados poderiam implicar.
Havia sangue de e do maestro por toda a cena de crime. Levando em conta que a Orquestra Sinfônica era um local público e, portanto, contaminado por outros perfis genéticos, não seria impossível que um terceiro indivíduo estivesse presente e mascarado pela multidão. Certamente ele teria até mesmo visitado o local antes para garantir o sucesso de seus planos.
— Pense, . Pense… — murmurou, estalando as juntas de seus dedos, numa espécie de tique nervoso. — Se considerarmos o modus operandi do Estripador, ele é mestre em cobrir os próprios rastros. Não houve uma cena onde foi encontrado material biológico que pudesse levar a um dos suspeitos ou a qualquer perfil no CODIS. O assassino sempre se portou de modo meticuloso, mostrando apenas o que deseja ser visto pelo FBI.
se perguntou então se conseguiria ir além.
Por algum motivo, outra vez ela pensou em . Ele parecia ser o único que conseguia pensar fora da bolha e trazer observações precisas, como se extraísse os pensamentos do próprio criminoso. Havia sido assim em todos os casos solucionados por ele. também sempre mostrou um grande interesse em desvendar a mente de psicopatas.
Teria aquele interesse chegado ao ponto de ele se tornar fã de um assassino e, pior ainda, imitá-lo?
Não podia ser. Por mais reservado que fosse, ela sentia que o conhecia bem.
Gênio ou insano?
Assassino ou vítima?
Vivo ou morto?
Sentiu o peso do último questionamento afundar seu estômago e deixá-la enjoada.
A quantidade de sangue encontrado do agente denunciava que ele havia sofrido uma hemorragia. Se ele tivesse fugido do local ou algo do tipo, não teria ido muito longe.
As manchas demonstravam que ele podia ter sido arrastado, mas e as impressões e o sangue no arco?
O que diabos aquilo significava?
Era tão absurda assim a teoria de que ele tinha matado o maestro e sido atacado pelo Estripador? Mas como ele tinha escapado depois de perder tanto sangue?
Alguém o havia levado?
Todas as possibilidades eram terríveis aos olhos de . Pensar em refém ou morto em algum lugar era doloroso, mas imaginá-lo como o imitador era ainda pior.
Não podia ser. Não fazia sentido algum.
Talvez David estivesse certo em tratá-la daquela forma grosseira. Ela estava tirando conclusões completamente fora do comum sobre alguém que considerava um amigo e por quem não podia negar também ter tido algum sentimento.
Mordeu a boca, voltando seus pensamentos para , deixando lembranças tomarem conta de si.


Naquela tarde, haviam recebido uma grande apreensão de drogas, interligadas a uma gangue internacional. Com provas o suficiente, conseguiriam conectá-las a Antony Paslov, que eles suspeitavam ser o chefe da organização criminosa.
era a responsável pelas análises químicas das substâncias encontradas e havia se disposto a ajudá-la. Nada fora do normal, porque aquele era .
Os dois se conheciam desde os tempos do colégio, quando moravam em Salt Lake City. , mesmo sendo um aluno bastante quieto, que não fazia muita questão de se enturmar, sempre tratava a garota de forma cordial e eles estabeleceram um certo companheirismo quando a professora determinou que fizessem dupla para um trabalho.
era a única pessoa com quem conversava, mas ela não ligava, gostava daquilo e por isso o sumiço repentino do garoto no meio do ano letivo deixou-a mais chateada do que era capaz de admitir.
Anos se passaram, desenvolveu uma paixão pela perícia forense e como seu histórico escolar era impecável, não foi difícil para a garota alcançar o maior de seus sonhos: trabalhar para o FBI.
Qual foi a surpresa dela em descobrir que seu velho amigo voltaria a ser seu colega?
questionou sobre o passado, não conseguia se conter, e a resposta de lhe deixou completamente sem chão.
Os pais do garoto haviam sido assassinados e presenciara tudo. O até então garoto precisou se mudar às pressas para a casa de sua tia, que ficava ali em Baltimore. Ela ouvira falar do caso na época e se sentiu um tanto idiota por não ter ligado uma coisa a outra, mas procurou não questionar o colega novamente. Notou que o assunto afetava , por mais que ele tentasse esconder.
— Vou preparar o cromatógrafo — assentiu, prosseguindo com as etapas de preparação das amostras, agradecendo-o mentalmente por aquilo.
Qualquer pensamento de , no entanto, foi interrompido quando David Hawthorne entrou no laboratório.
, a agente Lamartine pediu para você ir até a sala dela assim que possível. Surgiu uma possível testemunha ou algo desse tipo — o rapaz se atrapalhou quando o encarou.
— Algo desse tipo? — questionou, negando com a cabeça. Se o conhecia bem, estava achando cômica a demonstração de nervosismo de Hawthorne. Ela, no entanto, achava aquilo um tanto adorável.
— Ela não me deu detalhes. Apenas requer sua presença. — Deu de ombros.
— E por que você mencionou uma testemunha então? — David abriu a boca para responder, mas foi interrompido. — Deixe para lá. Diga a Soren que estarei lá daqui a alguns minutos. — Então virou-se novamente para a tela do computador e voltou a digitar como se o rapaz não estivesse mais ali.
Hawthorne engoliu em seco, lançando um olhar nervoso na direção de , que sorriu de leve e deu de ombros, declarando de forma muda que aquele era o jeito de . O rapaz então assentiu e se retirou, deixando a moça um tanto boba porque ele havia retribuído seu sorriso.
Era errado demais ela querer tanto um colega de trabalho? David mexia tanto com ela.
— Você merece coisa melhor — a voz de tirou de seus pensamentos e ela o encarou assustada ao se dar conta de que não estava sendo sútil como imaginava. sequer estava a olhando, permanecia com sua atenção voltada para o computador, onde continuava o trabalho de informar à máquina quais seriam os parâmetros de suas análises.
sentia-se impressionada com a capacidade de seu colega e amigo em observar as coisas mesmo quando ele parecia entretido em algo diferente. Isso e a maneira sempre tranquila como o homem se portava, não importava a situação. Nada parecia abalar .
não sabia como responder ao comentário. Sentia que suas bochechas estavam aquecidas pelo constrangimento, como se ele acabasse de pegá-la cometendo algum delito, mas ao mesmo tempo havia algo a mais ali. Algo que fazia ela se sentir agitada com aquela declaração dele sobre o outro agente.
— Não há nada de errado, . Só que eu realmente acho que você merece muito melhor do que David Hawthorne. — Parecendo ouvir seus pensamentos, se virou para ela, erguendo uma das sobrancelhas e moldando um meio sorriso. o encarou por alguns segundos, então abaixou a cabeça, sentindo a vergonha triplicar e o coração acelerar.
— Não sei como você faz isso, — murmurou, rindo nervosa.
— Isso o quê? — questionou, fazendo-a encará-lo novamente.
— Perceber as coisas até quando não parece estar prestando atenção nelas — externou seus pensamentos.
sorriu um pouco mais.
— Sou apenas um bom observador.
— Então me diga, senhor observador, por que acha que David não é bom o suficiente para mim? — ergueu uma sobrancelha. Embora ainda estivesse um pouco envergonhada, aos poucos ficava mais à vontade. Esse era o poder que exercia sobre ela. Desconfiava, no entanto, que ela não era a única afetada por ele daquela maneira. Era como se o homem tivesse o dom de cativar as pessoas por onde fosse.
— Você é inteligente, , e tem a capacidade de ser extraordinária. David, não. Ele é apenas um cara inútil e preguiçoso, o tipo de pessoa que precisa roubar a estrela dos outros para alcançar o que almeja.
se espantou ao ouvir aquilo. Hawthorne nunca pareceu o tipo de pessoa sedenta por poder a ponto de sabotar os outros para isso.
— começou um tanto receosa. — Tem certeza de que estamos falando da mesma pessoa?
— Tão certo quanto essa amostra é cocaína da pior qualidade — observou de um jeito quase risonho. — Não se deixe enganar pela pose de bom moço atrapalhado e ansioso em agradar os superiores. Dê-lhe um pouco de poder e você verá a verdadeira face dele.
— Você não está fazendo muito sentido, — retrucou, se recusando a acreditar que aquelas palavras fossem verdadeiras. implicava com David desde o primeiro dia do rapaz no departamento. Talvez aquilo tudo não passasse disso, implicância. Ela não entendia o porquê, mas por hora não iria questionar.
— Talvez não. Só não deixe que sua paixão platônica anuvie sua percepção aguçada, . Você já ouviu a história do lobo em pele de cordeiro?


Cada vez que parava para pensar naquela conversa, sentia-se mais e mais confusa. O que queria dizer com aquele papo de lobos e cordeiros? Ele sabia alguma coisa sobre David e por isso o odiava tanto?
Não teve mais tempo para pensar sobre o assunto, porque o recente alvo de seus questionamentos bateu à porta do laboratório.
, prepare o kit forense. Ele atacou novamente.


Parte II

A residência havia sido devidamente isolada. Logo na entrada, via-se outro rastro de sangue, fazendo com que os agentes rapidamente lembrassem de seu colega de trabalho.
lançou um olhar rápido na direção de Hawthorne, porém as feições do homem estavam impassíveis, exalando toda a determinação que o agente tinha.
Ele não podia se dar o luxo de distrações e por mais que sentisse a colega observá-lo, optou por ignorá-la completamente e fotografar o rastro de sangue, esperando a mulher coletar a amostra do material para seguirem para dentro da residência.
David estava incomodado com a presença de . Não a afastou do caso apenas porque sabia do apreço que tinha por ela, mas estava bem difícil de suportá-la depois de ouvir as insinuações dela de que tinha alguma culpa naquele caso.
Ele simplesmente não podia aceitar aquele tipo de desconfiança. era o melhor agente que a corporação já teve. Aquilo era um ultraje e David faria questão de fazer o homem saber disso assim que o encontrassem.
Sim, ele ainda tinha esperanças. poderia, sim, estar vivo.
Soltando um suspiro baixo e deixando de lado o fato de que havia percebido a careta de desprezo disfarçada por Hawthorne , deu prosseguimento à análise da cena de crime. Optou por uma abordagem em espiral, assim conseguiriam cobrir o perímetro de forma satisfatória, e se atentou ao máximo de detalhes possível.
Dentro da residência, havia mais algumas manchas de sangue, apresentando um certo padrão e indicando que a vítima possivelmente foi arrastada até a porta. Não encontrou sinais de arrombamento, tampouco de luta corporal, então, tirando o rastro de sangue, não se imaginaria que um crime teria ocorrido naquele ambiente.
e Hawthorne seguiram tirando fotos e fazendo anotações até chegarem ao possível ponto de origem do rastro, identificando a ilha da cozinha, onde foi impossível não arregalar os olhos em surpresa, mesmo já tendo um relatório preliminar do que os aguardava.
Não havia um cadáver inteiro, tampouco encenação, como era costume do Estripador de Baltimore, apenas uma mão decepada em cima do balcão da cozinha em uma posição como se há pouco estivesse segurando o bilhete elegante posto ao seu lado, já que a palma se encontrava virada para cima, com os dedos indicador e polegar parcialmente unidos.
David sentiu suas mãos tremerem com aquilo e se aproximou com uma expressão mesclando dor e irritação. Parecia que o agente sentia as palavras ali escritas antes mesmo de poder vê-las.

Quanto mais você procurar, menos irá encontrar.


Que porcaria era aquela? O que aquilo significava?
— Hawthorne… — se colocou ao lado do homem após coletar a enorme faca de cozinha também posta sobre a bancada e seu cenho se franziu enquanto ela o analisava, procurando uma resposta para aquela reação dele.
David nem precisava que dissessem nada, conseguia sentir seu rosto pegando fogo conforme a irritação se fazia presente.
Ele precisou respirar fundo para responder sem descontar tudo na agente.
— Foi ele mesmo, . O Estripador atacou novamente. — Indicou o bilhete em mãos, então o entregou a ela para que lesse.
segurou o papel e demorou poucos segundos para arquear uma sobrancelha.
— Ele está zombando de nós — David sentenciou.
— Ou talvez esteja dando dicas de onde encontrá-lo. Não foi o que ele disse que faria? — a agente rebateu, fazendo-o olhá-la um tanto atordoado.
— Dando dicas? Mas que porcaria de dica é essa, ? — A irritação ficou evidente em sua voz.
— Vamos analisar a cena racionalmente, Hawthorne. — A mulher tornou a se virar, trocando as luvas de látex para poder tocar na mão decepada sem contaminá-la. — Temos uma mão decepada no balcão de uma cozinha, com a arma do crime posta há poucos centímetros de distância. Ela está em claro estágio de rigidez cadavérica, indicando que a violência foi recente — pontuou, enquanto passava a focar no que realmente importava e não na expressão do colega.
David estava claramente atordoado pelas próprias emoções, mas sabia agir com frieza quando era necessário.
— Palma virada para cima, dois dedos unidos. Uma posição que claramente poderia sugerir ter segurado o mais novo recado do Estripador, mas seria apenas isso? Precisamos processar o DNA para descobrir a quem pertencia essa mão e arrisco dizer não ser ao porque me parece uma mão feminina. Quem sabe, é da dona da casa?
teria se irritado com o silêncio dele, mas estava entretida demais com seu raciocínio.
— Há algum relato dos vizinhos? — questionou, olhando para algum ponto logo atrás de Hawthorne, fazendo com que o homem se virasse com uma expressão perdida.
— Ninguém ouviu nada e foi exatamente isso que os alertou, agente — o policial local respondeu, parado na porta da residência, do lado de fora.
— Certo. É bem provável nossa vítima ter sido surpreendida — concluiu, lançando um olhar breve para as manchas de sangue. — Ela foi arrastada para fora da casa, mas a mão foi decepada exatamente aqui.
Voltou então a focar seus olhos em cima da bancada, estreitando-os ao focar na posição na qual os dedos se encontravam.
Alguma coisa lhe dizia que o propósito não era apenas encenar que segurava o bilhete, havia mais ali.
virou de costas, de forma que pudesse focar numa possível direção para onde os dedos apontavam e seus olhos se arregalaram levemente ao ver o painel do microondas, que indicava três números e estava com uma fresta da porta aberta.
7:00.
Poderia ser algo além de uma simples medida de tempo?
Ou aquilo era coincidência demais, ou uma pista valiosa deixada pelo Estripador.
— Sete zero zero — murmurou, fazendo David erguer o olhar para encará-la num misto de confusão e ainda irritação.
… — Atraiu a atenção da mulher, que o olhou sem realmente vê-lo e fez um sinal para ele se calar.
— Sete zero zero — repetiu, enquanto raciocinava. — O que poderia ser… Uma coordenada? Uma rua? O nome de algum lugar? Um horário?
— Está dizendo que o Estripador deixou pistas no painel do microondas? — Tardiamente, Hawthorne entendeu do que aquilo tudo se tratava, mas estava cético quanto àquela informação.
Ele não deixa rastro nenhum, agente Hawthorne. Com toda a certeza, ali não encontraremos nenhum traço de DNA suspeito.
seguiu na direção do eletrodoméstico, estreitando seus olhos e tirando algumas fotografias ao chegar bem perto, analisando tudo o que podia.
Do outro lado do ambiente, David permanecia cético.
, no entanto, não precisou fazer muito, porque no exato momento em que se viu próxima o suficiente, ela também notou um segundo pedaço de papel dentro do microondas.
Ofegou exasperada, sem conseguir se conter, então trocou um olhar rápido com David antes de abrir a porta do objeto e pegar o papel em mãos.

Sua perspicácia poderá ser a sua ruína, detetive.
Ou quem sabe a redenção.
O número marca o local.


— O número marca o local — leu a última parte em voz alta, fazendo Hawthorne vencer o restante da distância com pressa.
— Quê? — questionou em um tom apressado, subitamente se sentindo irritado com aquilo tudo.
Por que não ia direto ao ponto?
— É o que está escrito no segundo bilhete. — Estendeu a mão para o homem, lhe entregando o papel.
— O número marca o local… Eu já falei o quanto esse cara me irrita com esses enigmas? — David bufou.
— Como sabe que é um cara, Hawthorne? — arqueou uma sobrancelha.
— Dedução — respondeu apenas.
A mulher fixou seu olhar em David com uma expressão tão gélida que fez o agente se arrepiar e ficar levemente desconcertado.
— Acha que é uma mulher? — levantou a questão não porque havia pensado naquilo, mas sim por ficar subitamente curioso com o que pensava quando não tecia acusações a .
— Acho que, em um caso como esse, ninguém deve ser subestimado, agente Hawthorne — manteve um tom sério.
David ficou um tanto incomodado ao não conseguir identificar o que havia passado pelos olhos de .
Então ele se deu conta de uma coisa a qual não havia dado atenção até aquele momento.
não usava óculos de grau?
— Seus óculos — falou de repente, atraindo uma expressão confusa da agente.
— O que tem, Hawthorne?
— Você não tinha que usá-los? — O questionamento lhe pareceu tolo, mas já era tarde demais.
— Troquei por lentes de contato. — Ela achou graça da observação repentina, sem ficar realmente surpresa com o fato de ele só ter reparado naquilo naquele momento.
As memórias recentes haviam trazido a uma perspectiva nova sobre David Hawthorne.
E por mais que não fosse possível arrancar os sentimentos por ele como num passe de mágica, as palavras de aos poucos ganhavam mais sentido.
— Vamos etiquetar mais isso para processar no laboratório. — Pegou o saquinho de vestígios para que pudesse colocar o segundo bilhete dentro dele. — Vou coletar mais algumas impressões digitais do microondas e imagino que isso seja tudo, Hawthorne… A menos que tenha notado mais alguma coisa.
— Não. Você sabe muito bem o que está fazendo — David respondeu de imediato.
Enquanto a mulher voltava a fazer seu trabalho, o agente continuou a observando atentamente, como se a qualquer momento algo estranho fosse acontecer.
Hawthorne decidiu então focar seus pensamentos no processamento daquela cena de crime, percebendo o quão maluco ele soava mesmo que não pudesse evitar. A morte de uma agente e o desaparecimento — e possível morte também — de outro eram demais para a sua saúde mental.
não tornou a falar nada muito relevante ao detetive, estava concentrada demais em executar seu trabalho com excelência.
Não demorou muito para que finalizassem a ocorrência, então ambos trataram logo de voltar para a sede do FBI, onde a mulher poderia entregar as amostras para as devidas análises e o homem começaria a redigir o laudo.
Os resultados demorariam alguns dias a ficarem prontos. Mesmo assim, sentia uma dose acentuada de ansiedade tomar conta de si.
Aquilo não era incomum se tratando da agente . No entanto, nunca ansiou por algo com aquela intensidade.
Assim que saiu do laboratório de vestígios biológicos, a mulher cruzou os corredores completamente imersa em seus próprios pensamentos.
Não havia um minuto em que ela não pensasse naquele caso, tentando juntar as informações de uma forma favorável e que de preferência indicasse a ela um suspeito.
! — Parou de caminhar assim que passou pela sala de David, ao ouvi-lo chamá-la.
— Hawthorne? — Se aproximou, adentrando a sala dele. — Licença.
— Tudo certo por lá? — estreitou os olhos, percebendo que o homem estava agindo de uma maneira completamente estranha para ela. Quer dizer, não… Completamente estranha já era exagero.
Ela já havia visto David Hawthorne ficar completamente sem jeito, mas fazia meses que o homem não se comportava mais daquela forma.
— Tudo sob controle. Stoner me garantiu que vai tentar conseguir o perfil genético o mais rápido possível.
— Ótimo. Quanto antes identificarmos se aquela mão pertence à dona daquela casa ou não, melhor — David assentiu, satisfeito.
— Assim que tivermos o resultado, você será o primeiro a receber — assegurou, fazendo menção de se retirar e retomar o caminho anterior.
— Espera, .
Ela precisou se segurar para não arquear uma sobrancelha enquanto voltava a encará-lo.
David Hawthorne raramente a chamava pelo primeiro nome.
— Sim?
— Olha, eu sinto muito pela forma como vim te tratando nos últimos tempos. — Uma careta moldou as feições do agente e franziu o cenho num misto de surpresa e confusão. Ela podia jurar que David ainda desconfiava dela ou se sentia ultrajado pelas suspeitas quanto a .
Aquela atitude a pegou totalmente desprevenida.
— Tudo bem, Hawthorne. Estamos em tempos sombrios mesmo. — Deu de ombros, esboçando um sorriso para o homem.
— Nada justifica me comportar feito um cavalo. — Aquele comentário a fez rir baixinho e David entortou a boca, sorrindo também.
— Não se preocupe com isso. Já passou, Hawthorne — ela dispensou mesmo assim. — De verdade.
— Acho que nós dois já nos conhecemos o suficiente para você me chamar de David, sabe?
Dessa vez, não conteve a erguida de sobrancelha.
— Ok, já entendi que está arrependido de verdade — brincou.
— Eu estou mesmo. Me pergunto se existe alguma maneira de me redimir com você. — A expressão dele adquiriu algo diferente, mas não soube distinguir o que era.
— Daí você vai ter que contar com a criatividade, David — frisou o nome dele, sem mudar o tom de leveza.
— Hmm… O que acha de um jantar? É um bom começo? — A expressão do homem era pensativa, mas algo dizia a que aquilo já havia sido planejado antes.
Se antes a agente estava surpresa, naquele momento talvez não estivesse nem conseguindo controlar suas reações.
podia jurar que seu queixo estava no chão.
O coração deu uma leve guinada, agitando-se enquanto alguma coisa em sua mente sussurrava que ali estava a oportunidade que ela queria desde o dia no qual pousou seus olhos em David Hawthorne.
abriu a boca para respondê-lo, quase se deixando levar completamente por suas emoções.

Lembra da história do lobo em pele de cordeiro?

Fechou a boca, engolindo a seco quando aquela lembrança a atingiu como uma avalanche.
De fato, era muito estranho David vir com desculpas e chamá-la para sair subitamente. Há poucas horas, quando estavam analisando a cena de crime, o homem havia lançado a ela vários olhares de desprezo e desconfiança.
O que tinha mudado?
Como tinha mudado?
Hawthorne… — começou sua fala, dessa vez frisando o sobrenome dele em um sinal claro de que deviam retornar à formalidade. — Não acho que isso seja uma boa ideia.
O sorriso nos lábios de David se desfez quase instantaneamente. Parecia que o homem havia levado um soco no estômago e ele engoliu a seco para conseguir pronunciar algo inteligível.
— Por que não? — Foi o que escapou de seus lábios e o agente se praguejou mentalmente por isso.
— Porque estamos investigando um dos casos mais importantes da nossa carreira. Nem eu e nem você podemos nos distrair com qualquer coisa que seja.
Sim, aquilo era verdade. Obviamente era uma desculpa rápida que ocorreu na mente de , mas ela sabia que fazia todo o sentido e pela expressão um tanto amenizada de David, o agente concordava.
— Entendo — murmurou ainda desconcertado. — Mas acho que eu e você merecemos um pouco de ar para nossas cabeças. Prometo que não farei nada que você não queira. Podemos ficar só na amizade se você preferir — disparou em argumentos para convencê-la.
suspirou pensativa.
— Te dou a resposta mais tarde, Hawthorne — resolveu deixar no ar. — Agora eu preciso mesmo voltar à minha sala.
Abriu outro sorriso pequeno para David e se afastou sem esperar pela resposta dele. Sabia que se o agente insistisse mais um pouco, ela não conseguiria resistir e precisava disso.
Infelizmente, uma pulga atrás de sua orelha continuava repetindo que não devia confiar plenamente no colega de trabalho.


🍷


O barulho incessante do teclado trabalhava desde o momento em que Candace Norton se sentou à escrivaninha. A mulher nunca tinha problemas para escrever quando era necessário, mas à noite, no conforto de sua residência, era sempre seu momento de maior produtividade, algo que não dispensava de maneira nenhuma.
Ela estava empolgada com o arquivo que digitava, embora soubesse o quanto aquela palavra soava errada perante as atrocidades redigidas naquele exato momento.
Candace não conseguia parar de pensar no que teria acontecido ao grande agente . O desaparecimento dele havia feito várias teorias virem aos seus pensamentos e a incompetência da equipe atual em desvendar aquele mistério era algo que ela precisava deixar bastante claro aos seus leitores assíduos.
Parou de digitar para pegar a caneca de chá fumegante colocada a alguns centímetros do teclado, resolvendo levantar para esticar um pouco as pernas e se espreguiçar antes de voltar ao trabalho.
Seus passos foram traçados de um lado para o outro naquela casa que muitas pessoas diziam ser pequena demais, porém para ela era exatamente o que precisava.
Bebericou o chá, fechando os olhos em uma expressão de prazer porque ele estava na temperatura perfeita e a erva-doce produzia simplesmente o melhor sabor de todos em sua opinião.
Voltou a segurar a xícara com as duas mãos e mais conjecturas vieram aos seus pensamentos.
Candace não duvidava que o cadáver de apareceria de alguma forma dramática e chocante porque o Estripador de Baltimore jamais dispensaria a oportunidade de um bom espetáculo.
A ideia de ver aquilo a deixava perturbada de uma forma que ela não desejava estar.
era um filho da puta irritante porque sempre implicava com o trabalho dela, mas Norton jamais desejaria sua morte, muito pelo contrário. Na verdade, ela até sentia falta da vitalidade dele.
Riu de si mesma.
Como podia pensar naquilo em um momento como aquele?
Mas como também poderia esquecer da forma como havia a fodido naquele banheiro? Só o resquício daquela lembrança já fazia suas pernas tremerem e o tesão ensopar sua calcinha.
Ótimo, agora estava fantasiando com um homem morto.
Bebeu uma quantidade maior de chá e, quando se deu conta, já havia virado todo o líquido, se sentindo culpada por ter acabado com aquele momento de prazer de maneira tão súbita.
Suspirou.
Ela precisava voltar ao trabalho de qualquer forma. A ideia era terminar aquela matéria para publicá-la no primeiro horário da manhã. Depois disso, Candace seguiria até a sede do FBI para conseguir o máximo de informações que podia, caçando qual seria o próximo furo daquela equipe.
A mulher havia acabado de colocar sua bunda de volta à cadeira quando o barulho da campainha soou mais alto do que ela gostaria.
Pulando de susto, Norton se levantou mais uma vez e seguiu em direção à porta, ponderando quem apareceria em sua casa às onze e trinta e três da noite, mas seria muito pior se demorasse demais ao ponto de a pessoa tocar a campainha novamente.
A jornalista odiava aquele som e toda vez que se dava conta disso, fazia uma nota mental para trocá-lo por um menos estridente.
Outro suspiro escapou de seus lábios quando ela parou e posicionou-se para espiar o olho mágico.
Franziu o cenho.
Não havia ninguém.
Deveria abrir a porta?
Com um Estripador à solta? Estripador esse que ela adorava insultar?
Bom, covardia nunca havia combinado com ela.
Deu de ombros e abriu a porta, dando de cara com o nada e franzindo o cenho mais uma vez.
Foi na menção de se virar para dentro de casa que Candace viu o presente deixado no chão, em cima de seu tapete de boas-vindas.
— Um presente? — Arqueou a sobrancelha.
Não era exatamente algo inusitado, ela recebia presentes o tempo todo de seus fãs, mas ela ficou curiosa com o fato de a pessoa não esperar para se identificar.
— Alguém tímido apenas? — murmurou consigo mesma, cogitando logo em seguida se aquilo não seria algo suspeito.
Podia ser uma bomba.
Mas, de novo, Candace não tinha medo.
Recolheu o embrulho do chão, notando também que havia um bilhete preso por um pedaço do laço de fita e ficou pensando em qual poderia ser o seu conteúdo.
A curiosidade com o que havia no pacote de presente era mais urgente, então ela fechou a porta e praticamente correu até o meio da sala, abrindo-o de forma um tanto afoita demais, mas não havia ninguém ali para zombar dela por causa disso.
Quando finalmente se desfez do laço e seus olhos encontraram o conteúdo da caixa, no entanto, Candace Norton desejou que tivesse lido o cartão primeiro. Talvez isso teria a prevenido e o medo descomunal que sentiu não fosse tão devastador.
Um grito ecoou dos lábios da mulher com o pavor estampado em cada oitava e suas mãos afrouxaram o aperto no embrulho, deixando-o se espatifar no tapete da sala.
O corpo inteiro de Candace tremia, a náusea veio com força e o reflexo do vômito foi quase inevitável.
Não soube de onde conseguiu forças para se abaixar e pegar o bilhete que havia caído a alguns centímetros da caixa. Ela abriu o envelope febrilmente e seus olhos se arregalaram com as palavras ali escritas.
No fim das contas, não importava a ordem dos acontecimentos, o pavor estava ali e não deixaria a mulher em paz enquanto o Estripador de Baltimore não fosse capturado.

O ditado sempre foi muito claro, senhorita Norton, mas aqui se faz necessária uma pequena alteração.
Quem fala o que quer... Acaba perdendo a língua.


Candace deixou um soluço escapar de seus lábios, lançando mais um olhar para a caixa.
De fato, o que havia dentro dela era uma língua e Norton tinha certeza de que era humana.


🍷


Um sorriso satisfeito se formou nos lábios do Estripador de Baltimore. Exatamente como havia imaginado, algumas horas depois o seu feito mais recente estava espalhado por toda a mídia.
Candice Norton era absolutamente previsível.
Nem precisaria ler a matéria completa para saber que tipo de coisas a mulher teria escrito ali, no entanto, cada linha que seus olhos percorriam o fazia sentir mais vontade de rir.
Uma coisa tinha que admitir: aquela mulher tinha um nível de audácia bastante louvável. Não chegava aos pés do seu, obviamente, mas ainda assim não havia questionamentos sobre isso.
Sua integridade física e emocional foram ameaçadas e mesmo assim seus dedos venenosos teceram diversos insultos ao assassino e à equipe responsável por sua captura.
Aquela atitude deveria irritá-lo, mas em vez disso o divertia. Talvez porque ela se achava importante demais quando na verdade não fazia parte da coleção particular do Estripador e nunca faria, não importava o quanto tentasse.
Assim como Candace, o FBI também era previsível, também assumia coisas que jamais se tornariam verdade.
Tanto um quanto o outro estavam totalmente à mercê dele, muito mais do que imaginavam.
E possuir essa certeza de que os tinha em suas mãos era deliciosamente excitante. Seu corpo reagia de forma quase automática a essa sensação. O Estripador podia até mesmo se tocar apenas com o frenesi que aquilo o causava até se derramar em deleite, mas, em vez disso, resolveu comemorar de uma outra forma, aquela que também apreciava em demasia: degustando um bom vinho.
Buscou uma taça como se tivesse todo o tempo do mundo e caminhou até a adega, onde escolheu uma garrafa de tinto seco. Voltou satisfeito com sua escolha e se recostou à bancada de sua cozinha enquanto enchia a taça com uma quantidade generosa da bebida.
Largando a garrafa perto de si, levou o vinho até próximo de suas narinas, movendo o líquido gentilmente para que pudesse inalar o odor gostoso exalado, deixando evidentes várias notas que o agradavam imensamente.
Aquele era um de seus vinhos favoritos e ele não tardou a bebericar um gole, fechando os olhos e suspirando satisfeito. Só havia uma sensação melhor do que ser agraciado com uma boa taça de vinho. A de poder escolher como e quando alguém morreria.
Seu olhar então se voltou para o forno ligado a duzentos graus, a temperatura perfeita para que seu assado ficasse magnífico. O cheiro impregnado no ambiente fazia com que sua boca se enchesse de saliva.
Mal podia esperar pela hora do jantar.
Tomou mais dois pequenos goles do vinho, então mais uma vez um sorriso se formou em seus lábios quando uma ideia interessante surgiu em seus pensamentos.
A de que seria delicioso informar mais alguém que o Estripador de Baltimore havia escolhido todas as circunstâncias de sua morte.
Dessa vez, seguiu com uma certa empolgação em direção à sala, onde sua mesa de trabalho aguardava. Largou a taça pela metade em cima do objeto e não teve dificuldade alguma em começar seu próximo bilhete infame.
Enquanto as palavras perfeitamente calculadas eram colocadas no papel, seu semblante exalava a excitação de fazer aquilo. Escancarar o quanto as outras pessoas eram ínfimas comparadas ao Estripador de Baltimore era outro de seus grandes prazeres.
Satisfeito com o resultado, inseriu-o em um envelope elegante e colocou o nome de seu destinatário, deixando mais um sorriso rasgar sua face.
Mal podia aguardar pelas consequências daquele ato.


🍷


Os dias que decorreram foram extremamente estressantes. A cada minuto, o desejo do FBI de obter a identificação das últimas vítimas do Estripador era mais evidente e a pressão de capturar o assassino ainda maior.
se via a ponto de arrancar os próprios cabelos a qualquer momento. Uma pontada insuportável em sua nuca fazia com que sua cabeça parecesse a ponto de explodir e suas bochechas estavam permanentemente aquecidas. sabia que provavelmente era a sua pressão arterial lá nas alturas, mas não conseguia simplesmente se desligar de tudo.
Aquele caso estava a consumindo da mesma forma que havia feito com Soren Lamartine e , e isso devia ser um grande alerta sobre o que poderia acontecer a ela em um futuro não tão distante.
Sendo bastante honesta consigo mesma, não ligava muito para seu próprio destino. Tudo o que queria era fazer justiça por seus amigos e colegas de trabalho.
A agente perdeu a noção de há quantas horas estava na pequena salinha de seu laboratório, com vários documentos espalhados em cima da mesa, analisando cada conteúdo, cada evidência, histórico e testemunho que foram coletados.
já havia feito aquilo milhares de vezes, até mesmo antes, quando Soren comandava o caso. Ela tinha esperanças de alguma resposta ter passado despercebida aos seus olhos. Não importava o quanto o Estripador fosse cuidadoso, todo crime deixava vestígios e foi acreditando nisso que a mulher permaneceu fazendo suas análises, anotando alguns detalhes a serem melhor analisados em sua humilde opinião.
O andar onde seu laboratório ficava estava extremamente silencioso, o que permitia a ela se concentrar totalmente, porém não contava com o cansaço acabando por vencê-la a uma certa altura.
Sem realmente se dar conta disso, porque seus olhos pesavam de maneira absurda, a agente se debruçou sobre a mesa, suspirando longamente e se embalando cada vez mais nos pensamentos que a ocorriam.
De início, continuou revivendo os últimos acontecimentos, conjecturando quais seriam os sinais que havia ignorado sem fazer ideia disso. Mas, com o passar dos minutos, de repente já não estava mais debatendo consigo mesma o caso do Estripador de Baltimore.
foi transportada para uns dois anos antes, quando já estava se sentindo encantada demais por David Hawthorne, mas ainda assim não podia negar, alguma coisa despertava dentro dela toda vez que via sorrir.
Talvez gostasse demais da amizade do homem. Definitivamente era isso.
sentia falta de .
Acordou assustada, praguejando a si mesma por ter se rendido ao sono enquanto um aperto em seu peito fez seus olhos se encherem de lágrimas.
Sim, ela sentia mesmo falta de .
E a ideia de que as buscas já não eram mais por alguém vivo e sim pelo cadáver dele trazia à tona sentimentos aos quais não deveria dar atenção naquele momento.
Seus lábios tremeram, mas a mulher engoliu a seco, espantando o choro e voltando a fixar seu olhar nas pastas, obrigando-se a voltar ao trabalho.
No momento em que seu celular tocou, ela quase havia conseguido.
deixou uma careta se formar em seu rosto ao se voltar para o aparelho, o pegando para verificar quem estava ligando para ela em plenas duas horas da manhã.
Número restrito.
De repente, ela se sentou ereta na cadeira, seu coração disparou e um terrível frio na espinha levou embora todo o resquício de sono ainda contido em .
A agente permaneceu encarando o celular, congelada, entre as ações de atender ou não. Sua intuição a fazia quase ter certeza de qual voz ouviria e ela não sabia se estava preparada para aquilo.
Soren não havia recebido uma ligação pouco antes de morrer?
Sentiu-se brevemente aliviada quando o aparelho parou de tocar, mas, em uma questão de segundos depois, o número restrito entrava em contato com ela novamente.
Engolindo a seco, forçando uma dose de coragem pela garganta, atendeu a ligação, levando o celular ao ouvido esquerdo.
— Alô? — Sua voz ecoou menos trêmula do que esperava.
— Agente , é um enorme prazer conversar com a senhorita. — As feições de endureceram quando o pavor arrepiou sua espinha novamente, somando-se a uma dose insana de raiva borbulhando em seu sangue.
— Não posso dizer o mesmo de você, assassino. — Aquilo talvez fosse um tiro no pé. O incidente com Candace Norton havia deixado bem claro o quanto o Estripador detestava que o provocassem.
Uma risada ecoou do outro lado da linha.
— Talvez queira olhar o recado deixado em cima de sua mesa. Você estava tão compenetrada me estudando que me senti na obrigação de lhe deixar um presente.
Os olhos de se arregalaram em choque. Desesperada, a agente olhou de um lado para o outro como se esperasse encontrar o Estripador parado ali dentro do laboratório.
— Fique tranquila. Não é hoje que nos encontraremos.
Desejou xingá-lo, desejou gritar por socorro, mas naquele momento a voz de parecia ter desaparecido enquanto sua garganta se fechava, dificultando sua respiração.
— Até logo, agente .
E a ligação foi finalizada.
continuou segurando o celular encostado em sua orelha, sentindo o ar cada vez mais escasso enquanto conseguia ouvir claramente as batidas aceleradas de seu coração.
O Estripador de Baltimore estivera ali com ela enquanto dormia. Ele podia tê-la levado como havia feito com o agente . Podia tê-la matado e feito mais um teatrinho para todo o FBI ficar ciente de que a caçada por ele apenas terminaria quando o Estripador desejasse.
Deixou a mão cair ao lado do corpo, quase derrubando o aparelho, então seus olhos focaram algo que ela não havia percebido antes porque estava atordoada demais pelo sono, depois pelo medo.
Sim, havia um pequeno envelope sob uma das pastas. A mesma caligrafia elegante e digitada dizia que seu destinatário era .
Horrorizou-se com aquilo, então o resquício de racionalidade ainda presente a alertou a pegar um par de luvas de látex em sua gaveta, o que ela fez rapidamente para enfim abrir e ler o conteúdo que o Estripador estava tão ansioso para os olhos dela encontrarem.

O painel e a inicial marcam o local de nosso encontro.
Decifrem-me ou os devoro.


Continua...



Nota da autora: Eu to berrando com essa atualização, e vocês? Teorias? ME CONTEM!
Me sigam no instagram e entrem nos grupos do whatsapp e facebook para receber spoilers, avisos de att e interagir comigo.
Beijos e até a próxima!
Ste.



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