Última atualização:22/10/2017

Capítulo I

Eu devia ter ouvido minha mãe, eu devia ter obedecido. Minha respiração estava completamente descompassada e minhas lágrimas corriam e corriam bochecha abaixo. Meu Deus, o que será de mim? Eu tentava me soltar das amarras em minhas mãos, mas o espaço dentro do porta malas do carro que ele havia me jogado era pequeno demais para eu me mexer e eu não conseguia ver nada. Sim, eu estava sendo levada por um estranho, eu estava sendo levada para o desconhecido. O que ele faria comigo? Me mataria? Estupraria? Solucei com o pensamento e o desespero que inundava meu corpo. Por favor, alguém me salve. Eu implorava em meus pensamentos, mas a sensação de abandono vinha esmurrar meu pensamento logo em seguida. Já fazia algumas horas que ele dirigia, eu nem havia visto o seu rosto. Não sabia se havia mais de um. Eu só lembro de estar tarde e eu estar sozinha na rua quando alguém veio por trás e colocou a mão em minha boca, não tive tempo de gritar, nem de fugir. O carro então parou e meu coração batia tão rápido que eu temia ter algum ataque cardíaco. Eu ouvi ele bater à porta do carro e seus passos vindo em direção ao porta malas que abriu der repente e eu fui cegada por uma luz branca clara que me impedia de ver qualquer coisa claramente.
- Vem. – A voz dele disse seca e ele me puxou do espaço apertado, caí no chão e me levantei rapidamente tentando olhar em volta e memorizar qualquer coisa. Era um galpão enorme, industrial haviam máquinas que pareciam estar paradas a muitos anos, terra e poeira para todos os cantos e as lâmpadas brancas fortes penduradas no teto. Olhei para trás e observei o carro em que ele havia me jogado, um carro preto e velho, tentei olhar para o rosto de meu captor, mas ele virou minha cabeça com força para frente me fazendo reclamar de dor. Andamos até chegar a uma porta de metal que parecia pesada.
- Empurra. – Sua voz seca disse.
Empurrei e porta e entramos em uma sala grande com o teto baixo, as paredes eram todas de cimento e a luz era branca porém fraca, ele foi me empurrando através do cômodo, havia uma mesa grande com vários monitores que eu não conseguia ver o que mostrava, um sofá com um cobertor jogado por cima e uma cozinha pequena, ao lado da cozinha havia outra porta pesada e de metal, paramos em frente a ela e ele tirou uma chave de dentro do bolso, colocando-a na fechadura, mas antes de abrir ele tira também do bolso uma faca. Minhas lágrimas continuavam a descer descontroladamente de meus olhos e meu corpo agora parecia dar sinais de falha. Meus músculos doíam e meu pulmão apertava em meu peito. O som da faca sendo aberta me fez apertar os olhos e eu solucei baixo tentando controlar minhas emoções sem sucesso.
- Cala a boca. – Ele falou num tom ríspido com a boca quase colada em meu ouvido e então cortou a corda que amarrava meus punhos e abriu a porta me jogando para dentro do quarto. Caí no chão apoiando-me em minhas mãos e olhando em volta, era um quarto com uma cama de solteiro uma mesa de metal, uma cadeira de metal, um banheiro sem porta que eu só conseguia ver a pia e por fim, pequenas janelas retangulares que ficavam no topo da parede dando a volta toda. Me ajeitei no chão e olhei para porta, e finalmente vi seu rosto.
Ele estava parado na porta, um sorriso maligno em seus lábios, ele era jovem, aproximadamente a mesma idade que eu, olhos penetrantes e assustadores que eram mais acentuados com a leve vermelhidão em volta.
- Porque está fazendo isso comigo? – Perguntei com a vós trêmula e sem ar.
Ele foi agachando lentamente sem tirar os olhos de mim, o sorriso nunca abandonando seu olhar, ficou ali estático, me observando, cada detalhe, cada centímetro, o divertimento nos olhos dele vinha acompanhado de desgosto.
- Vamos nos divertir muito, . – Ele disse antes de levantar e fechar a porta, trancando-a.
Eu corri para tentar impedi-lo, mas meu corpo se chocou contra a porta gelada de metal.
- Espere! Por favor! Não me deixe aqui. – Eu chorava sem controle.
O que estava acontecendo? Porque estava acontecendo isso comigo? Por que? Era só o que eu conseguia me perguntar enquanto meu corpo deslizava contra o material gelado.
Permaneci ali por bastante tempo até sentir meu corpo desistir de continuar batendo contra o material. Virei de costas para a porta e observei novamente o quarto. A cama era grande e eu podia observar que a roupa de cama era de alta costura, lençóis em algodão egípcio, o travesseiro parecia fofo e meu sono já estava me dominando. Levantei lentamente e fui até o banheiro, havia um pano de cortina que me permitia ter privacidade dentro do banheiro, uma privada, um chuveiro e uma banheira que fechava com uma porta de acrílico. Observei a pia, uma escova de dente de metal com cerdas removíveis que tinha uma corrente e se prendia à pia de metal, a mesma coisa com a pasta. Voltei ao quarto e em cima da mesa havia uma garrafa térmica escrito “Café”, uma xícara também de metal e uma garrada de água. Minha boca ardeu, só então percebi quanta sede eu estava sentindo e logo peguei a garrafa tomando todo o conteúdo de uma só vez. Coloquei a garrafa de volta na mesa e olhei para cima. Luz Branca, duto de ventilação e quase imperceptível uma câmera que acompanhava cada passo que eu dava. A luz então se apagou bruscamente e eu fiquei no breu. Tateei meu caminho até a cama e me encolhi num canto tremendo. Eu tinha que acordar desse pesadelo, só podia ser isso, fechei os olhos com força e só reparei que não era um pesadelo quando ouvi a porta de metal abrindo algumas horas depois.



Capítulo II

Abri os olhos em desespero, movendo-me rapidamente e encolhendo-me no canto da parede com a cama, ele estava lá, parado na porta, me olhando com seu olhar aterrorizante e as olheiras escuras e fundas. Seu cabelo escuro estava bagunçado, e ele usava um moletom listrado, preto e cinza. Ele tencionou o maxilar, que era marcado e mantinha um sorriso malicioso nos lábios.
- Levante. – Ele disse e meu corpo que tremia se exaltou pelo susto. Não me movi, minhas lágrimas já rolavam sem controle bochecha abaixo sem emitir som algum.
- Eu disse, levante! – Ele gritou. Assustei-me e levantei encostando a parte de trás de minhas pernas na cama como quem queria se fundir a ela. - Sente. – Andei até a cadeira metálica e sentei-me olhando para a mesa, com medo demais para encarar seus olhos malignos.
Ele entrou na sala, puxando uma cadeira de metal com ele, que fazia um barulho ensurdecedor e assustador, sentou-se em minha frente e ficou calado me olhando, observando cada pequeno movimento que meu corpo fazia.
- Vou te fazer algumas perguntas e quero que você me responda. – Ele falou num tom baixo e sem sentimento.
- Quem é você? – Perguntei com a voz trêmula e fraca. Ele apenas me encarou e esperou que eu olhasse em seus olhos.
- Sabe porque está aqui?
- Não. – Respondi levantando o olhar rapidamente.
Ele respirou fundo e pegou a xícara de metal, servindo-me o café gelado que havia na garrafa térmica.
- Beba. – Ele disse arrastando o copo com força contra a mesa. Ele parecia instável.
- Eu não quero. – Falei evitando seu olhar.
- Beba! – Ele berrou novamente, fazendo-me pegar a xícara rapidamente e encostar meus lábios na superfície gelada. O café estava horrível, mas era a única coisa que eu havia bebido desde a garrafa de água. - Por favor... eu tenho dinheiro, me deixe ir embora, eu peço para eles te darem. – Tentei a barganha por minha vida.
Ele riu, uma risada irônica, uma risada maldosa.
- Você realmente não sabe por que está aqui. – Ele apoiou os cotovelos na mesa e esfregou o rosto cansado com as mãos.
- Não. – Falei quase em um sussurro e ele me olhou novamente.
- Seu pai é uma pessoa muito gananciosa, . – Ele falou meu nome com desgosto.
- Meu pai pode te dar dinheiro. – Falei pensando na fortuna que meu pai tinha pela empresa de mineração que ele era dono. Meu pai era um senhor muito poderoso, envolvido com políticos e muito dinheiro.
- Exatamente. – Ele disse e um certo alívio tomou conta de mim.
- Posso ligar para ele agora e pedir, é só me dar um telefone. – Tentei a negociação.
- Seu pai mexeu com as pessoas erradas, roubou as pessoas erradas e você é a garantia de que ele fará a coisa certa. – Sem entender. Fitei-o com o olhar de dúvida.
- Você realmente não sabe. – Ele afirmou em divertimento batendo as duas mãos contra a mesa e assustando-me. Ele levantou junto com a ação e rangeu os dentes.
- Papai não pode roubar as pessoas mais poderosas do mundo e achar que sairá ileso. – Ele disse olhando-me furiosamente.
Todos os pensamentos possíveis passaram pela minha cabeça, “Você tem a garota errada, meu pai não faria isso”, foi uma delas, mas conhecendo o pouco que conheço do homem que me gerou, ele poderia ter feito algo assim.
Não tínhamos uma relação, eu havia visto meu pai poucas vezes, vezes que davam para contar em uma mão. E ainda assim ele era meu pai e mandava muito dinheiro para minha mãe manter-se calada por todos esses anos.
- E se ele não fizer... A coisa certa. – Perguntei temendo a resposta.
Em pé ele caminhou lentamente até minha cadeira e parou atrás de mim, eu mantive-me imóvel, meu corpo todo estremeceu quando ele agarrou meu cabelo com força e forçou seu rosto contra meus cabelos, fungando forte como quem estivesse saboreando o cheiro. Soltei um grito apavorado.
- Eu farei o que eu faço de melhor. – Ele disse e eu soltei um soluço.
- Não, não, não. – Ele disse virando meu rosto para ele enquanto apertava meu maxilar com certa força. – Se chorar vai estragar a brincadeira toda.... E você é meu brinquedo favorito até agora.
Levantei da cadeira, deixando-a cair atrás de mim, escorando-me na parede eu chorava. Meu pai me salvaria. Meu pai pagaria o que tinha roubado.
- Você não pode me matar... – Falei em tom agressivo. – Se fizer isso... Ele nunca pagará.
Ele riu, alto, uma risada forçada e exagerada. Caminhou lentamente até mim e colocou uma mão de cada lado de minha cabeça, aproximando seu rosto de maneira que eu conseguia sentir sua respiração contra minha bochecha. Seu hálito cheirava a bebida e cigarro. Ele estava bêbado.
- O que te faz achar que eu vou te matar, boneca? – Falou num tom baixo, quase sussurrado enquanto seu rosto aproximava cada vez mais do meu. Virei o rosto, não queria que ele encostasse em mim. Ele encostou o nariz na minha bochecha e novamente fungou. Meu corpo todo tremeu com medo. Ele encostou a boca em meu ouvido.
- Eu... vou... Te.... Quebrar... inteira. – Ele disse pausadamente e depois afastou-se.
Meu corpo deslizou pela parede até meus joelhos chocarem-se com o chão e meu olhar estava estático.
- Anime-se. – Ele falou andando até a porta. – Temos um dia inteiro pela frente. – Ele falou antes de puxar a cadeira bruscamente com ele e a porta de metal se fechar com força.



Capítulo III

Já fazia ao menos quarenta minutos que ele havia deixado a sala e eu ainda estava no chão tentando entender o que estava acontecendo comigo.
Meu pai havia roubado pessoas poderosas e perigosas e eles me sequestraram como garantia de que ele pagaria o que havia roubado. E se ele não pagar... Ele me... Mata.
Levantei lentamente e olhei em volta novamente, observando coisas que eu estava alterada demais para observar na noite anterior. Ao lado da porta havia uma portinha quadrada com uma pequena lâmpada de LED ao seu lado apagada. No canto direito do quarto, do outro lado da porta, havia um pequeno armário, como aqueles de vestiário de colégio. Abri o armário e dentro haviam duas toalhas brancas e o que pareciam roupas cinzas. Puxei o tecido cinza de dentro do armário e era um vestido cinza, com o tecido leve e gostoso, abri o vestido e ele era soltinho, como um vestido de verão, porém bastante sofisticado, rapidamente olhei a etiqueta, “Chanel”. Larguei a roupa no chão e puxei as outras todas da mesma cor, porém modelos e tecidos diferentes. “Victor Hugo”, “Valentino”, “Gucci”, “Versace”. Eram todas roupas de marcas de luxo. Olhei para a cama com os lençóis de algodão Egípcio e tentei fazer sentido de tudo aquilo. Ele estava brincando com minha mente.
Ouvi um barulho vindo do pequeno quadrado ao lado da porta e então o LED acendeu, verde.
Caminhei até lá e puxei a pequena maçaneta que tinha, havia um prato com ovos mexidos, bacon, uma salada de frutas em um pote de porcelana e um suco de laranja gelado numa taça de cristal. O cheiro estava maravilhoso, e eu estava com fome.
Puxei a bandeja com a comida e sentei na mesa com ela, pegando os talheres de pura prata e comendo como se eu não visse comida a muito tempo. Comi tão rápido que senti uma leve tontura e então a ideia de que ele poderia ter colocado algo na comida surgiu em minha cabeça, deixando-me enjoada. Corri para o banheiro e antes que eu pudesse segurar, a comida e o café estavam na privada, flutuando na água.
- Não está envenenada. – Ouvi uma voz dizer. Ele não estava no quarto, levantei procurando de onde vinha o som e uma risada ecoou no quarto. Procurei a fonte do som e vi as pequenas saídas de som nos quatro cantos inferiores do quarto. Ele não apenas podia me ver, mas falar comigo quando bem entendesse.
- Porque confiaria na sua palavra? – Perguntei olhando para cima, com quem falava com o além.
- Porque sou o único aqui, boneca. – Ele disse em tom de divertimento.
- Pare de me torturar! – Gritei girando meu corpo.
Ele ria pelos altos falantes, sua risada aveludada e cruel.
- Eu nem comecei. – Ele falou e a microfonia rasgou meus tímpanos fazendo-me tampar meus ouvidos com força.
Deitei no chão ouvindo o eco de sua risada pelos alto falantes e me encolhi. Eu precisava sair daqui, eu precisava me salvar.
Algumas horas se passaram e eu estava olhando para o teto onde a luz do sol agora estava amarela, iluminando parcialmente o quarto. Era quase como uma solitária e eu estava aprisionada. Comecei a cantarolar uma música da minha infância, com a voz falha e rouca de tanto chorar. Olhando fixamente para o teto onde havia a luz apagada. Eu parecia calma, quase conformada com a situação. Eu sabia que meu pai era um homem ganancioso como ele havia dito, mas ele não era ruim... Era? Ele pagaria para me tirar daqui. Ele se importava comigo, não se importava?
A luz foi indo embora, deixando o ambiente cada vez mais escuro, o silêncio era perturbador, mas nesse momento, reconfortante. Eu tentava fazer sentido de tudo enquanto cantarolava a música, sentindo o ar frio. Assoprei vendo a fumaça sair de minha boca, eu não havia reparado que a temperatura havia caído tanto. Arrastei-me até a cama e puxei o edredom pesado de cima dela, enrolando-me no tecido. Ele era gostoso e macio, e estava mantendo meu corpo aquecido da temperatura que agora parecia cair ainda mais.
- Moço... – Tentei falar sentindo meu corpo querer falhar, talvez pelo frio, talvez pelo cansaço ou falta de sono. – Moço... – O som saiu chiado. – Está muito frio. – Meus olhos pesavam, enquanto eu piscava duro. Assim que minha consciência foi se perdendo a porta de metal se escancarou e antes de meus olhos se fecharem por completo eu o vi correndo em minha direção e então, apenas o breu.



Capítulo IV

- Acorde! – Ouvi alguém gritar e uma ardência na minha bochecha. Eu estava molhada e na banheira. A água que descia pelo chuveiro era morna, e esquentava meu corpo. Coloquei a mão onde ele havia acabado de acertar e encarei seus olhos tossindo como quem tivesse se afogando.
Ele suspirou aliviado, como quem tivesse tirado um peso de suas costas, mas seus olhos permaneciam arregalados. Ajeitei-me na banheira, sem vontade de levantar pelo cansaço e exaustão que dominavam meu corpo. Meus olhos ameaçaram fechar novamente e ele levantou minha cabeça com as mãos.
- Não, não... você tem que ficar acordada. – Ele disse.
Forcei meus olhos para ficarem abertos, mas meu corpo ainda tremia. Eu não conseguia sentir minhas extremidades e meus lábios estavam formigando. Percebendo a falha, ele suspirou entre dentes e levantou tirando a camisa e os sapatos. Arregalei meus olhos, assustada com sua ação, mas sem conseguir me mexer. Ele entrou na banheira, empurrando meu corpo para cima e sentando atrás de mim de modo que meu corpo ficasse entre suas pernas. Com sua calça completamente ensopada ele puxou minha blusa branca para cima, deixando-me apenas de sutiã e me encostou contra seu peito abraçando meu colo. Ele estava tentando me aquecer.
Ainda assustada com sua reação, eu pude sentir meu corpo se acalmando, e a agua subindo na banheira. Porque ele estava fazendo aquilo? Porque estava tentando me aquecer? “Porque você não pode morrer, .” Minha consciência me respondeu.
- Parece que meu.... Colega exagerou um pouco na temperatura do quarto.
Colega? Ele estava quente e meu corpo ainda tremia levemente com o frio exagerado que ele havia enfrentado. Ele não estava sozinho. Tinha outra pessoa com ele. Eu fiquei em silêncio e pude perceber que ele estava claramente desconfortável.
- Já está quente, eu devia ir. – Ele falou inseguro.
Segurei seus braços atravessados em meu peito, se ele levantasse eu voltaria a tremer.
- Seu nome... – Minha voz tremia. – Qual é seu nome? – Perguntei.
Ele ficou em silêncio, seus músculos todos tensionados. Eu não conseguia ver seu rosto, mas eu podia imaginar sua feição de choque. Ele respirou fundo a agua se mexendo embaixo de nós.
- ... – Ele disse de uma vez. Sem intenção.
, um nome tão comum para alguém tão cruel. Larguei meus braços na água morna e tentei levantar virando minha cabeça em sua direção. Ele não parecia o mesmo de antes, seus olhos agora mais claros, sem olheiras, sem vermelhidão. Seu maxilar estava tensionado, ele estava inseguro.
- Quem é você? – Perguntei estranhado a mudança de personalidade tão brusca.
Ele me olhava com profundidade, sem responder, então levantou. Fiquei sentada na banheira e olhei para cima, encarando seu rosto que ainda me fitava sem emoção. Ele levantou o braço e com as costas da mão, me acertou em cheio no rosto, fazendo minha mão escorregar e meu rosto se afundar na água, levantei vendo alguns pingos de sangue atingir a banheira.
Ele agarrou meu cabelo e me puxou para fora da banheira, fazendo me gritar de dor. Ele me arrastava contra o piso de cimento e então ele me levantou pelos braços e me jogou na cama.
Ele foi até o armário e pegou uma toalha e o vestido que estava embolado logo embaixo.
- Se vista. – Ele falou jogando-os em minha direção.
Peguei a toalha e o vestido e olhei para ele, que estava molhado, pingando no chão de cimento, sem camisa. Seu corpo era definido, com os braços fortes e a pele branca. Observei o caminho de seu braço e vi hematomas por todo extensão com marcas de picadas de agulha.
- Você é viciado. – Falei sem pensar.
Num acesso de fúria ele gritou caminhando até mim e me puxando novamente para o chão. Ele me deitou no cimento puxando meu cabelo com força e então abaixou ajoelhando no chão, uma perna de cada lado do meu corpo. Ele aproximou o rosto do meu, meu corpo voltou a tremer, dessa vez não de frio.
- Desculpe. – Falei num tom de desespero.
Ele continuou me encarando, sua respiração fora de controle, a água pingando em meu rosto e corpo.
- Se você abrir a boca para falar qualquer coisa diretamente para mim, sobre mim a partir de agora, eu vou entrar e quebrar um osso de seu corpo frágil e pequeno, está me entendendo? – Ele perguntou puxando meu cabelo com mais força. A raiva em sua voz era alta e clara. Gritei com a dor e concordei com a cabeça sentindo minhas lágrimas se fundirem com a água da banheira que ainda estava em meu corpo. Ele largou meu cabelo fazendo minha cabeça se chocar com o chão. A dor era forte e acompanhada de um som agudo.
- Se vista, eu vou pegar sua comida e dessa vez quero que coma tudo. Se vomitar vou entrar aqui e te fazer comer o que estiver na privada. – Ele falou com o corpo virado de lado, olhando para mim jogado no chão. Assenti novamente com a cabeça e ele saiu do quarto batendo a porta com força atrás de si. Levantei e peguei a toalha em cima da cama, secando meu corpo. Passei a toalha nos cabelos sentindo uma dor aguda na minha sobrancelha, onde ele havia batido. Passei a toalha e o sangue a manchou. Ele era completamente louco. Eu não podia falar com ele como se ele fosse alguém comum. Eles não haviam o contratado por qualquer motivo se não a evidente loucura dele. Caminhei até o banheiro e tirei toda minha roupa, colocando-a dentro da banheira, agora vazia. Peguei o vestido de antes e vesti, sem antes olhar no espelho para observar o machucado que ele havia feito.

Duas semanas haviam se passado e eu havia criado uma rotina desde o dia da banheira. Quando o sol entrasse pela janela, eu levantava, tomava o café que ele deixava na garrafa térmica, escovava meus dentes, alongava ao lado da cama, esperava o almoço, depois deitava na cama e tentava meditar. Em alguns momentos eu conseguia sentir a temperatura do quarto mudar. Eu imediatamente ligava a banheira na temperatura mais quente, ou fria e esperava até encher para ficar lá até a hora de temperatura mudar o que durava quarenta minutos. Ele apagava a luz três horas depois do sol se pôr e assim que a luz desligava eu tomava um banho e vestia mais uma roupa diferente que tinha no armário para então voltar para a cama e sentar esperando meu corpo pedir clemência.
Eu estava ficando perturbada. Duas semanas sem ver ninguém, sem ouvir uma voz ou fazer alguma coisa. No tempo livre entre o almoço e a hora que ele mudava a temperatura eu simplesmente revivia momentos importante da minha vida. Meu trabalho na editora de revista, meu namorado de curta data, minha mãe e meus amigos. Perguntava-me se eles estavam sentindo minha falta, se tinham feito de tudo para me encontrar. Minha mãe devia estar desesperada. Será que a polícia já tinha suspeitos, será que meu pai já havia negociado minha soltura? Duas semanas. Que pareciam dois meses.
Eu estava deitada no centro do quarto como fazia, cantarolando minha música de infância e esperando ele iniciar a mudança de temperatura quando ouvi o barulho da caixa. Não era hora de comer. Levantei rapidamente e parei em sua frente esperando a luz acender. Assim que ficou verde eu abri.
Fiquei encarando o objeto que estava dentro da caixa. Um foto. Peguei a foto e observei, meus olhos vasculhando cada detalhe, cada centímetro da imagem. Meu pai. Ele estava sentado em um bar Club, daqueles caro que os homens ricos da cidade iam para fumar seus charutos cubanos ilegais e beber seu whisky caro. Ele estava lá, charuto na mão, copo na outra. Rindo... A data da foto... Hoje. De tarde. Ele estava rindo e eu estava presa. Coloquei a mão na boca, chorando. Ele não viria por mim?
- ... – Chamei baixo a caixa ainda aberta. Gritei por ela. – ! Por favor... – Chamei novamente. Ele abriu o outro lado da porta e eu pude ver seu rosto na sala por onde tínhamos passado. Os monitores a sua direita, no fundo a mais ou menos dez metros a porta por onde tínhamos entrado.
- O que que isso significa? – Perguntei em desespero.
Ele sorriu, aquele mesmo sorriso maligno de antes. A olheira e vermelhidão havia voltado. Ele estava drogado.
- Quanto tempo.... Quanto tempo eles o deram? – Perguntei.
Ele estava se divertindo com meu desespero, e eu não podia dar o prazer a ele. Controlei minhas emoções e fiquei série. Ele pareceu gostar da minha mudança de humor e fechou o compartimento abrindo a porta em seguida. Ele aproximou-se de mim e encostou na parede ao lado da caixa.
- O deadline era hoje. – Ele falou com um imenso sorriso no rosto.
- Você irá me matar? – Perguntei, séria.
Ele riu jogando a cabeça pra trás.
- Ai, .... Quanta obsessão pela morte... porque não podemos apenas nos divertir um pouco? – Ele falou diminuindo o espaço entre nossos corpos, ele havia deixado a porta aberta, era minha chance.
- Nos divertir como? – Perguntei em uma voz baixa, fingindo interesse... Ele levantou as sobrancelhas em divertimento, adorando minha reação.
- Posso te fazer sentir tantas coisas diferentes, que você imploraria por mais. – Ele disse com algo transbordando na voz, colocando a mão entre meus cabelos e puxando-os para trás.
- Coisas como? – Perguntei fechando os olhos e abrindo a boca. Eu queria dar trela para que ele achasse que eu estava jogando seu jogo.
- Dor.... Muita dor.... – Ele falou mordiscando meu pescoço. – Desespero... – Ele subia a boca por meu pescoço e sua respiração forte me deixava arrepiada.
– Prazer. – Ele finalizou com o nariz encostado no meu.
- Você vai querer me ouvir implorando por mais? – Perguntei com a boca entreaberta. Sua sobrancelha franziu e ele soltou um leve gemido com o prazer de minhas palavras.
– Por favor... – Falei num tom safado. – Mais .... Por favor.
Ele fechou os olhos com força como quem ouvisse a coisa mais prazerosa do mundo. Ele juntou nossas bocas num choque, invadindo meus lábios sem permissão, eu o acompanhei com os olhos fechados forçadamente, coloquei a mão em seu cabelo, puxando levemente e assim que tive a chance, bati sua cabeça na quina do compartimento e o fechei com força. Ele caiu no chão desnorteado e reclamando de dor. Corri o mais rápido que pude, em direção a porta por onde tínhamos entrado, olhei para trás, vendo de joelhos com a mão na cabeça e um sorriso no rosto. Olhei novamente para frente e cheguei à porta, virei a maçaneta, mas nada aconteceu. Ela estava trancada. Tentei forçar a porta e comecei a bater nela, e então senti os braços de em volta da minha cintura, me levantando do chão.
- Você não vai a lugar nenhum, Boneca. – Ele disse me segurando com força.
Eu debatia em seus braços enquanto ele me levava de volta ao quarto.
- Por favor! Alguém me ajude! – Eu gritava em esperança de alguém me ouvir. – Me solte! – gritei.
- Grite mais alto! Não estou te ouvindo! – Ele gritou junto com a voz de riso.
Ele me jogou no chão de cimento e parou na porta, encarei-o com a respiração acelerada. Sua cabeça estava sangrando, ele colocou a mão no ferimento e observou o sangue em seus dedos, balançando a cabeça em negação.
- Muito... Muito... Má. – Ele disse.
Ele virou as costas deixando a porta aberta e saiu de meu campo de visão. Engatinhei para trás até encostar-me a cama. Ele voltou para porta com cordas na mão e então se aproximou de mim.
- Não! Não chegue perto de mim! – Eu gritei enquanto ele puxava meu cabelo e me jogava na cama. Ele amarrou meus pés, meu colo e depois minhas mãos. Eu gritava de desespero. O que ele faria comigo?
- O que vai fazer? – Perguntei enquanto ele caminhava lentamente em volta da cama observando meu corpo amarrado. Ele pegou algo em seu bolso... A faca.
Ele iria me matar?
- Acabe logo com isso! – Falei entre dentes, com raiva.
Ele sorriu, ele estava adorando.
Ele colocou a faca em meu pescoço e eu fechei os olhos. Meu coração acelerou, eu não queria morrer.
- Você é muito mais divertida do que eu imaginava, . – Ele falou brincando com o objeto afiado em minha pele.
Ele agarrou o tecido do vestido cinza na altura de meu pescoço e começou a cortar até a base, deixando-me apenas de roupas íntimas.
- Que bela visão. – Ele disse guardando a faca em seu bolso e afastando o tecido para ter um melhor vislumbre.
- Pervertido. – Falei com nojo.
- Não se preocupe, boneca, não gosto de sexo forçado. Eu prefiro quando a garota implora por mais. – Ele falou apenas virando os olhos para mim.
- E gosta de bater em mulher. – Falei olhando para o teto.
Ele riu, uma risada curta, sem graça.
- Eu gosto de bater em qualquer coisa. Por um acaso meus clientes escolherem uma mulher. – Ele disse sentando na beira da cama.
- É isso então? – Falei. – Você é um cachorro pago para matar as pessoas?
- Eu sou um cachorro pago para fazer o que mais gosto.... Destruir as pessoas. – O sorriso não abandonava seu rosto.
- Você não passa de uma farsa. – Falei, ríspida levantando a cabeça e encarando-o.
Ele ficou em silêncio, me olhando com curiosidade.
- Você quer me torturar? Mudando a temperatura do quarto? É isso? – Eu ri alto e sarcástica. – Depois tenta me esquentar se arrependendo.
- Eu disse que não fui eu. – Ele falou, mudando seu tom de voz.
- É? Quem foi então? – Levantei a cabeça. – Você está sozinho. Você é sozinho.... Por isso se droga todo dia... Para que ele seja mais fácil de lidar. Essa vidinha medíocre que você tem....
Ele levantou rapidamente e subiu em cima de mim, colocando uma mão de cada lado do meu rosto.
- Você acha que conhece as pessoas? – Ele perguntou. – Você não quer conhecer os meus amigos.
Fiquei em silêncio e cuspi em sua cara.
- , . – Ele disse limpando o conteúdo e enxugando no travesseiro. Ele encostou a boca na minha e tentou forçar um beijo, mordi seu lábio e ele puxou o rosto.
- O que foi? Você pareceu gostar àquela hora. – Ele se divertia, colocando a mão no local mordido.
- Me deixe em paz. – Falei e ele levantou.
- Muito bem. – Ele disse e virou as costas saindo do quarto e fechando a porta.
Ainda amarrada tentei me mexer, sem sucesso.
A luz se apagou e eu permaneci seminua e amarrada na cama.



Capítulo V

Abri os olhos e estava tudo escuro, a luz da noite entrava pelas pequenas janelas no final da parede. A lua talvez, que eu não via a muito tempo. Meu braços e pernas ainda estavam amarrados e inclinando a cabeça eu conseguia ver as gotículas de suor no meu corpo. Estava quente, mas não era resultado de nenhuma alteração de temperatura.
- . - Chamei baixo, observando a luz, ela desenhava uma forma geométrica. - . - Chamei novamente.
- Porque está acordada? - A voz surgiu do autofalante. Sua voz estava diferente, talvez ele estivesse sóbrio.
- Não sei. - Respondi sem tirar meus olhos do teto.
- Volte a dormir.
Respirei fundo, eu sentia fios de cabelo grudados na minha testa, estava muito calor.
- Você pode me desamarrar? - Perguntei.
Silêncio. Eu sentia que ele estava relutando consigo mesmo, afinal, quando estava sóbrio algo mudava nele.
- Por favor. - Pedi.
Alguns minutos se passaram e a porta se abriu, virei o rosto e eu conseguia vê-lo nas sombras. A criatura obscura que me vigiava a cada segundo. Ele foi aproximando-se de mim lentamente e finalmente consegui ver seu rosto. Os olhos cansados, porém, profundos e escuros. O maxilar tenso como quem estava travando uma batalha consigo mesmo. Eu não consegui temer essa versão dele, mas ao mesmo tempo nada poderia me garantir que ele não mudaria a qualquer instante.
Ele colocou a mão no bolso e eu pude ver o reflexo do metal. Ele logo cortou as cordas que amarravam minhas extremidades. Sentei-me na cama, passando a mão onde antes estavam as cordas, sentindo uma pequena dor. virou as costas e começou a caminhar em direção a porta.
- Meu pai não me ama. - Falei e parou de andar, virando para mim e me encarando. - Não sei porque as pessoas que te contrataram acham que ele irá pagar. Eu me conformei com o fato de que ele não vai. - Eu não estava mentindo para mim mesma. Eu estava falando a verdade. Eu sabia que meu pai não pagaria, então, eu deveria falar logo independente de qual seria meu fim, ao menos terminaria logo.
aproximou-se novamente da cama e sentou-se olhando para o chão.
- Se seu pai não pagar, meus contratantes não me pagam. - Ele falou com voz de cansado.
Fiquei em silêncio, o estranho conforto que eu estava sentindo com o costume de estar nessa situação partia meu coração.
- O que vai fazer? - Perguntei sem medo da resposta.
apenas me olhou, algo diferente em seu olhar.
- Vou fazê-lo pagar.
Assenti com a cabeça, fitando o edredom caro.
- Posso te fazer uma pergunta? - jogou a cabeça para trás como quem havia ficado irritado. - Calma, não vou fazer nenhuma pergunta que possa te incomodar... Eu acho.
- Você acha? - Ele falou com divertimento na voz.
Arregalei os olhos com a reação dele. Não sabia que alguém tão ruim era capaz de uma expressão tão inocente... tão normal.
- Eu só queria saber porque comprou as coisas mais caras. - Peguei no edredom, a macies confortando minha mão machucada pelas cordas. - As roupas, a comida. Tudo bem fazer essa pergunta? - Falei um pouco nervosa.
ficou quieto observou o armário com as roupas fechado e respirou fundo.
- Quando me passaram suas informações eu te observei por quase quatro meses. Todos os dias, dia e noite. A maneira como você sorria para o porteiro quando saia de manhã para o trabalho, ou como tomava o café rápido para não se atrasar na porta do escritório. Uma pessoa tão frágil, tão fácil de quebrar, destruir. - Ele virou o rosto para mim, um sorriso brincando nos lábios. - Estudei cada pedaço da sua vida, eu sabia que não era próxima de seu pai, mas não imaginava o descaso. Mas eu queria que seus padrões de vida não se alterassem, queria torturar você a acreditar que tinha que estar aqui, as roupas a comida... O esforço que tive com cada detalhe da sua... Estadia. - Ele falou brincando com os dedos. - Não imaginava que você teria tanta faísca, ao menos não é o que eu esperava observando você por tanto tempo. Você nunca deu nenhum sinal.
Olhei para o rosto de . O psicopata que me mantém em cativeiro. O demônio que aterroriza meus dias, mas algo nele despertava um interesse que eu não sabia explicar. A diferença das personalidades, como ele mudava da água para o vinho. Eu queria descobrir como funcionava a cabeça daquele que me mantinha presa.
- Eu não posso mentir, uma parte de mim queria te agradar, igual dar doce para uma criança e tirar bem quando chegar a parte boa. - Ele disse com sinceridade. Assenti com a cabeça olhando para o edredom novamente.
- Sabe o que eu queria fazer agora? - Falei olhando para a porta.
- Não diga ir embora. - Ele falou olhando também.
- Eu não preciso dizer que quero ir embora, mas eu sei que não sairei daqui tão cedo... se... Eu sair. - Falei com um nó na voz. Eu iria chorar. - Mas eu queria algo tão bobo. -
Falei agora sentindo as lagrimas escorrendo por meu rosto.
- Não chore. - Ele falou seco, em desconforto.
Eu sorri, envergonhada. Era como se naquele momento eu havia sido tirada de toda essa escuridão e estava apenas sonhando com toda a situação. Uma conversa quase normal com alguém completamente louco.
- Eu queria assistir televisão. - Falei e comecei a rir sem entender o motivo. Parecia o pedido mais fora do normal que eu poderia fazer. Mas algo tão bobo que eu estava sentindo muita falta.
- Eu queria entrar numa rede social e perder meia hora vendo vídeos de gatos fazendo coisas engraçadas ou de bebês rindo. - As lagrimas caíam junto com minha voz trêmula e cômica.
- De todas as coisas que você poderia pedir, essa era a última coisa que eu imaginaria. - , o lado quase bom dele sorriu. - Vou ver o que posso fazer.
Arregalei os olhos e coloquei a mão na boca.
- É sério? - Não consegui evitar, mas pulei sobre e abracei seus ombros.
Todos os músculos de seu corpo tencionaram, e então eu parei. Fiquei muda com os olhos abertos olhando para o tecido de sua blusa. Rapidamente soltei meus braços e olhei para baixo.
- Me desculpe. - Falei baixo olhando para a cama e esperando o pior. - Eu... não sei porque fiz isso. Me desculpe.
levantou e sem olhar para trás caminhou até a porta e fechou-a atrás dele. O som alto da porta batendo me fez pular e eu coloquei a mão na boca sem entender minha reação.
No dia seguinte eu entendi o porquê de tanta sensibilidade de minha parte, o choro sem motivo a demonstração completamente inapropriada de afeto.

Eu estava de TPM. Acordei com a dor absurda na área abdominal e corri para o banheiro procurar o que eu estava precisando. Claro que não encontrei o que eu precisava.
- O que está fazendo? - A voz de veio nos autofalantes percebendo minha urgência.
Caminhei até a porta e encostei a testa, gemendo de dor.
- preciso de algo. - Falei desencostando a cabeça da parede constrangida com a situação.
abriu o compartimento ao lado da porta e eu caminhei até lá olhando-o.
- O que? - Ele falou com irritação na voz. O outro lado de havia aparecido durante a noite. Mudei minha postura e levantei a mão.
- Porque sua mão está cheia de sangue? - Ele perguntou com a testa franzida.
- ... Eu estou menstruada. - Falei irritada.
Ele levantou uma sobrancelha e deu de ombros.
- Se vira, troca de roupa. - Falou começando a fechar o lado dele do compartimento.
Aproximei-me na urgência.
- , se não comprar ao menos absorventes todas as roupas ficarão machadas incluindo a cama.
bufou me encarando.
- Não pode se lavar? - Ele perguntou sem paciência.
- Não é assim que funciona. - Falei sem paciência.
pensou um pouco e respirou fundo. Ele saiu do meu campo de visão e então eu ouvi a porta se abrir. encostou-se no batente da porta e cruzou os braços.
- Como sei que não está falando isso só para me tirar daqui? - Ele perguntou.
Levantei a camisola e apontei para a calcinha que estava manchada de sangue.
arregalou os olhos e piscou algumas vezes.
- Entendi. Troque-se. - Ele falou fechando a porta. - Já volto.
Peguei uma toalha e caminhei em direção ao banheiro e uma roupa limpa.
Quando saí do banho enrolei papel higiênico na mão para servir de absorvente enquanto ele não voltava.
- Está pronta? - Ouvi sua voz quando saí do banheiro.
Ele estava encostado ao batente novamente me olhando.
- Sim. Já comprou? - Perguntei dobrando a toalha e colocando-a em cima da cama.
- Não, você virá comigo.
Fiquei muda. Minha respiração ficou pesada. Eu sairei daqui?
- Se tentar qualquer coisa, eu te tranco no outro cativeiro e aí não terá o mínimo de saneamento básico.
Assenti com a cabeça.
- Venha.
Caminhamos em direção a porta que eu havia tentado abrir no dia anterior e a destrancou, antes que eu pudesse pisar para o lado de fora ele me segurou pelo braço e levantou a blusa mostrando-me que estava armado.
- Estamos claros? - Ele perguntou.
Assenti com a cabeça novamente.
Pisei porta afora e a luz quase me cegou. A temperatura estava fria, e eu podia sentir o cheiro da chuva que caía do lado de fora do galpão.
Caminhamos em direção ao carro e eu pude ver com mais clareza o que me cercava.
Parecia uma fábrica abandonada, o cheiro de chuva misturada a carvão e o que parecia grama seca no chão. Olhei para cima, o teto tão alto de forma circular me lembrou o teto da mansão em que meu pai morava.
- Entre no carro. - abriu a porta do passageiro e eu sentei colocando o cinto de segurança. Ele fechou a porta e deu a volta na frente do carro para entrar no motorista.
- Essas são as regras. Você irá fechar os olhos e só abrirá quando eu mandar se abrir os olhos damos meia volta e te garanto que irá se arrepender. Quando chegarmos você irá agir normalmente, se fizerem alguma pergunta sobre nós você dirá que somos noivos e estamos de passagem. Se tentar gritar, correr ou dar qualquer sinal do que está acontecendo aqui eu mato todo mundo que estiver lá. Entendeu?
- Sim.
deu partida no carro e olhou para mim aguardando. Fechei os olhos firmemente e respirei fundo.
O som do carro correndo no asfalto me trouxe uma sensação boa de liberdade mesmo esta não sendo minha situação, ao menos quarenta minutos se passaram quando me deu permissão para abrir os olhos. A luz era forte mesmo o céu estando nublado e eu não pude deixar de sorrir abertamente vendo as montanhas e as árvores nas laterais da estrada.
olhava para frente concentrado. Abri o vidro atraindo o olhar meticuloso de e senti o vento contra meu rosto. Eu não fazia ideia de onde eu estava, não conseguia fazer sentido de que direção eu estava indo ou que dia era, mas eu estava feliz que eu podia sentir o vento no meu rosto, ver a luz do dia e senti o cheiro de mato e terra que acompanhavam a estrada.
Mais uns quinze minutos se passaram e então chegamos no posto com conveniência. Não havia ninguém do lado de fora e esperei que saísse do carro para eu fazer o mesmo. Fechei a porta atrás de mim e olhei em volta. Algo se moveu dentro de mim, uma sensação de que talvez essa viagem havia sido algo mais do que uma simples compra de produtos femininos.
- . - Chamei e ele olhou para mim.
- Está tudo bem, certo? - Perguntei.
Ele não disse nada, seu rosto permaneceu o mesmo, sem mudanças sem absolutamente nada.
Ele estendeu a mão pra mim, fiquei sem entender.
- Somos um casal, lembra? - Estiquei a mão e peguei na sua sentindo-o encaixar nossos dedos de forma que qualquer casal faria e sorrir. O sorriso era de mentira, mas enganaria qualquer um. Quase enganou a mim. Entramos na loja ouvindo o sino da porta fazer barulho assim que abriu e o cara do caixa levantou os olhos da revista que lia para nos olhar. sorriu para o mesmo e apertou minha mão, fiz o mesmo e olhei para .
- Pegue o que precisa. - falou baixo passando as mãos em meus ombros de maneira carinhosa para validar a farsa. Senti minha respiração falhar um pouco com a demonstração de afeto e segui em direção a ala de produtos de higiene pessoal, pegando uma cestinha no caminho.
Parei de frente para os absorventes e levantei o olhar para o moço do caixa. Ele olhava para . Voltei o olhar para ele que caminhava entre as alas observando meu cada movimento. Eu tentei analisar qualquer chance de fuga, mas eu não sabia onde estava, nem poderia arriscar matando o cara do caixa ou qualquer outra pessoa.
Ouvi o sino da porta e virei o rosto rapidamente vendo dois oficiais da polícia entrar conversando na lojinha. aproximou-se de mim. Todos os meus músculos ficaram tensionados. Será que o cara do caixa havia me reconhecido de alguma reportagem? Será que a polícia estava aqui para me resgatar. Não pude deixar de imaginar a cena deles jogando no chão e algemando-o na minha frente.
- Mantenha a postura. - sussurrou pressionando o corpo contra o meu para que eu pudesse sentir a arma em sua cintura.
Os policiais foram até o caixa e começaram a bater papo com o o moço. Peguei dois pacotes de absorventes e me puxou para que fossemos logo.
- Espere. - Falei. - Preciso pegar remédio.
- Vamos logo. - falou entredentes.
- Eu só vou pegar remédio.
- Está tudo bem aí? - Um dos policiais perguntou ao perceber nosso cochicho.
Fiquei quieta, eu não sabia se estava visivelmente nervosa ou se estava disfarçando bem o suficiente para não iniciar um tiroteio no meio do nada.
- Está sim senhor. - falou com um sorriso inocente no rosto.
- Senhorita? - Ele perguntou olhando-me.
Eu sorri sem jeito, eu sabia que estava entregando a situação. O policial desencostou-se na bancada e colocou a mão na cintura pronto para retaliar caso o policial tentasse algo.
Minha respiração ficou fora de controle, mataria os dois policiais e o moço do caixa se eles não parassem de fazer perguntas.
- Senhorita? - O policial deu um passo em nossa direção com a mão em cima de sua arma.
Agarrei o rosto de e encostei meus lábios no dele, fechei os olhos, beijando-o lentamente tentando o melhor que eu podia fingir intimidade. sem pensar retribuiu o beijo, lentamente passando a língua nos meus lábios. Segurei a mão que estava em cima da arma e puxei para que ele segurasse minha cintura. Abracei seu pescoço subindo a mão para seu rosto e acariciando seu cabelo. Não consigo dizer quanto tempo o beijo durou, não podia analisar do porque eu não queria parar, mas a verdade era que o beijo de era bom. Era calmo e confortante, muito diferente do que a personalidade dele me mostrava. Afastei nossas bocas os olhos de ainda estavam fechados e nossas bocas tão próximas que eu conseguia sentir seu hálito contra meus lábios. abriu um pouco os olhos encarando meus lábios, ele mordiscou o lábio inferior e soltou trazendo-me uma sensação de formigamento entre as pernas.
Virei o rosto para o policial que estava ainda nos olhando.
- O que perguntou?
- Nada não. - O policial virou as costas e se despediu do moço do caixa antes de sair da loja e voltar para sua viatura.
sorriu para eles ao saírem e voltou o olhar para mim.
- Bom trabalho.
- Vou pegar o remédio. - Falei virando as costas para ele.
Voltamos para o carro com as coisas e fiquei muda tentando entender o porquê de meus lábios estarem reclamando da falta dos dele. Seria possível que eu estivesse enlouquecendo a ponto de sofrer uma reação contrária do que se era esperado entre captor e refém?
- Feche os olhos. - disse quando já fazia alguns minutos que estávamos na estrada.
- Isso é realmente necessário? - Perguntei um pouco decepcionada.
- Não me teste. - falou seco.
Fechei os olhos sem conseguir tirar a sensação de meus lábios. Beijar havia sido diferente da primeira vez. Era quase como se eu quisesse ter feito aquilo, e quase como se ele tivesse gostado.


Capítulo VI

Quando chegamos, permitiu que eu abrisse os olhos. Já estávamos no galpão e a sensação de ter que voltar para o quarto me deixou desanimada, triste. Peguei o saco com as coisas e esperei sair do carro.
- Vem. - falou de maneira seca pegando-me pelo braço com força.
- Calma. - Falei quase tropeçando.
- Calma? Calma? - me soltou e virou falando de maneira grosseira comigo. - Você esqueceu onde está? Esqueceu qual é a sua situação? Eu roubei você da sociedade, você pertence a mim até o dinheiro cair na minha conta e qualquer coisa que acontece com você nesse meio tempo sou eu que vou infligir, está me entendendo?
estava visivelmente abalado, não conseguia ler o que passava em sua cabeça. Mas seus olhos estavam perdidos.
- Cale a boca! - Ele gritou colocando as mãos na cabeça com força não entendi porque ele estava me mandando calar a boca se eu não havia dito nada. - Cale a boca! - aproximou-se de mim e colocou a mão em meu pescoço apertando com força.
- Saia da minha cabeça. - Ele falou sussurrando enquanto seus dedos pressionavam minha garganta, eu já conseguia sentir minhas veias pulsando em meu rosto enquanto a falta de ar ia deixando minha visão turva. Seus olhos arregalados, tão cheios de dor e ódio que me faziam tremer, mas as lágrimas sem sentido que agora começavam a acumular me mostrarem que ele estava fora de si.
- ... - Tentei chamar seu nome. - Pare... - A escuridão quase tomou conta de mim, antes de me soltar e eu cair no chão tossindo. Fiquei ali por um tempo tentando recuperar meu ar e apenas ficou parado me olhando. Olhei para cima para encarar os olhos de ódio de . Eu não sabia decifrar o porquê ele mudava tão de repente, mas algo me dizia que nem mesmo ele sabia.
- Levante. - disse sem emoção na voz. Levantei rápido pegando meus produtos de higiene no chão com pressa e com medo de ele surtar novamente e caminhei em direção a porta, vindo logo atrás.
Entramos na sala com os monitores e eu caminhei mais lentamente tentando adiar minha chegada ao quarto. abriu a porta e eu entrei colocando as coisas em cima da cama. Passei a mão por volta de meu pescoço sentindo a dor que ele havia me causado, mas fui tirada de meus pensamentos com uma risada vindo da porta. Virei e o vi encostado na porta, sua risada era macabra e doentia. Uma risada carregada de escuridão, virei meu corpo completamente e comecei a tremer. Seus olhos estavam completamente vermelhos, sua pele mais branca que o normal. Era o lado mais sombrio de , o lado que me fazia temer cada segundo do meu dia.
- Parece que vocês se divertiram. - Ele disse me deixando sem entender.
- ... - Falei baixo.
- Não, não... -Ele respondeu caminhando lentamente em minha direção. - foi... Descansar.
Meu coração pulou dentro de mim, o que ele queria dizer com isso? Não era ali? Se não era ele, quem era?
- Quem é você? - Perguntei com a voz trêmula, me encolhendo lentamente enquanto ele se aproximava mais de mim.
- Não lembra de mim, boneca? - Ele perguntou quando ficou em minha frente. Eu estava encolhida, abraçando meus joelhos no chão com minhas costas encostada na cama. Eu conseguia sentir a maldade vindo dele. Esse não era , esse era uma pessoa completamente diferente da pessoa de hoje cedo, de ontem a noite. Mas eu o conhecia sim.
- Você me deu um beijo interessante outro dia, não lembra? - Ele falou puxando um dos meus braços para cima.
Tudo estava fazendo sentido agora. Os momentos em que ele mudava repentinamente de humor, a maneira como ele havia dito que tinha "um colega", a reação dele quando chegamos. Ele havia mandado alguém calar a boca, alguém sair da cabeça dele. Ele estava se referindo a esse . O vazio, o sem emoção, que era a maldade e crueldade em pessoa. Ele era Void.
- pediu que eu lhe fizesse uma visita para te dar um recadinho. - disse puxando meu braço e arrastando meu corpo pelo piso até o lado de fora do quarto. Ele me largou no meio do ambiente, que estava escuro e apenas um abajur branco iluminava o lugar. Por mais que a luz fosse direta eu não conseguia enxergar meus arredores. Senti-me completamente perdida e abandonada, então senti uma dor aguda e forte em minhas costas e soltei um grito de dor. Olhei para trás e vi uma a faca em sua mão e um corte raso em minhas costas, um pouco mais atrás estava , o Void encarando-me e com seu sorriso macabro brincando nos lábios.
- Ele até pode hesitar em tirar a sua vida e te causar sofrimento, mas no final quem ganha sou eu, e eu não pensarei duas vezes antes de te ver gritando de dor. - Ele disse baixo e sombrio.
Ele aproximou-se mais de mim e passou a faca em meu braço me fazendo gritar de dor, eu havia começado a ficar tonta e então ele puxou meu cabelo para trás e passou a faca lentamente em meu colo, deixando um corte raso, porém doloroso no lugar.
- Isso é para você se lembrar que... Ele até pode ser fraco, mas ele também ama o cheiro de sangue.
guardou a faca e me puxou de volta para o quarto, fazendo-me ralar o corpo no cimento.
- Agora vamos para minha parte favorita. - Ele disse.
- Não, por favor... - Eu supliquei. E senti seu punho atingir meu rosto fazendo minha cabeça se chocar contra o chão. Um som agudo tomou conta de mim, juntamente com a dor e a tontura.
Minhas costas estavam ardendo e pulsando onde ele havia me cortado e eu estava me sentindo fraca a ponte de apenas desistir. Supliquei pela morte em pensamento enquanto proferia tapas e socos contra meu rosto, as vezes acariciando meu rosto ensanguentado.
- Você fica ainda mais linda assim. - Ele disse com prazer soltando uma risada macabra logo em seguida. Ele levantou o punho para me atingir uma vez mais, mas parou. Sua feição mudou completamente e eu já não sabia se era real ou não, devido minha tontura.
- ? - Chamei quase sem fala.
Ele ficou quieto, eu podia ver em seus olhos que já não era mais Void. Era ele novamente.
- Me ajude. - Falei baixo, as lagrimas se fundindo com o sangue em meu rosto, e o pavor atravessado em meus olhos.
pegou-me no colo e deitou me na cama, eu estava fraca demais para falar ou protestar.
Se realmente fosse o , talvez eu não sofresse mais por hoje. Ele levantou e foi para o lado de fora, quando voltou ele tinha uma caixa na mão e uma cadeira na outra. Ele colocou a cadeira na frente da cama e o medo se espalhou pelo meu corpo novamente.
- Por favor... Chega... eu não aguento mais. - Falei entre soluços e dor.
tirou uma seringa de dentro da caixa e com a pouca força que eu tinha eu tentei impedi-lo de usar aquilo.
- Calma... - Ele disse seco levantando os olhos para mim. Eu olhei em seus olhos, mesmo com a visão turva e percebi que a vermelhidão não estava mais lá. Os olhos haviam voltado a ser o que eram hoje no carro.
injetou o liquido da seringa em mim e eu comecei a ficar com sono. Talvez fosse minha hora de morrer, talvez essa fosse a maneira que havia encontrado de tirar minha vida.
Adormeci sem sentir dor.

Acorde.

Abri os olhos vendo a luz do dia iluminar o quarto, eu estava limpa, com outra roupa e curativos. Meus músculos doíam e minha cabeça reclamava enquanto pulsava. Tentei levantar e gemi de dor.
- Você devia ir com calma. - A voz de me chamou atenção.
Virei o rosto e ele estava ali, com olheiras fundas de quem não havia dormido a noite toda. Muito diferente do olhar de Void, muito diferente do olhar daquele que havia me torturado.
- Eu acho que... Está na hora de eu te dizer o que ha de errado comigo.
Fiquei quieta apenas olhando para ele.
- Não estou sozinho aqui dentro. - Ele falou com insegurança na voz.
- Eu sei. - Falei com a voz rouca.
levantou o olhar pra mim, algo diferente brincando em seus olhos. Algo como... Tristeza.
- Eu não sou uma boa pessoa. Nunca fui... Nunca serei, fiz coisas por mim mesmo muito piores do que ele fez e não me arrependo, mas as vezes quando é demais pra mim... Ele... Toma conta. Quando eu estou em algum estado de conflito ele vem e age, e eu não tenho controle. Ele se alimenta disso... Do caos, da dor. Ele vive por isso. - Os olhos de estavam vidrados e não de uma forma boa. - Mas não se engane... Ele não é a mesma pessoa que eu, e nenhum dos dois tem total controle, mas eu não sou uma pessoa boa. - Ele levantou os olhos pra mim. - Eu permito muita coisa, eu fecho os olhos e finjo que ele não está fazendo nada, porque sem ele eu não consigo sobreviver e sem mim ele não sobrevive.
Fiquei quieta, observando o monstro de duas faces que se explicava para mim. Ele era bom, de certa forma e Void não tinha arrependimento nele.
- Void. - Falei interrompendo-o.
levantou o olhar pra mim e ficou quieto. Era o que ele era, o vazio absoluto.
- Porque deixou que ele fizesse isso comigo? - Perguntei sentindo dor.
Ele desviou os olhos, e apertou as mãos com força.
- Porque não soube lidar com a maneira que você me fez sentir.
Sua voz saiu linear, quase que jogada.
- Como te fiz sentir? - Perguntei.
Ele levantou os olhos novamente, mordeu o lábio inferior e soltou.
- Você fez com que eu te quisesse.
Um frio desceu por minhas pernas e minha boca se entre abriu.
- E... Isso é algo... Ruim? - Perguntei.
- Sim. - Ele disse simplesmente.
- Porque? - Minha pergunta foi manhosa.
- Porque eu estou aqui pra te torturar, possivelmente te matar... - Ele não parecia seguro ao usar as palavras o que me mostrava a clara diferença entre os dois.
Fechei a boca e fechei os olhos com força.
- ... Por favor... Deixe-me ir.
- Não. - Ele disse sem emoção.
- O que preciso fazer pra você me deixar ir embora?
Ele me olhou por um tempo, pensando. Ele passou os olhos por meu rosto, observando cada detalhe como se fosse a última vez que ele me veria. Desceu os olhos para meu corpo semicoberto e depois para minha mão, onde ele a pegou e segurou. Pude sentir seus dedos gelados e como ela tremia.
- Você precisa garantir que seu pai pagará o que deve. - Sua voz estava trêmula. - Eu... Eu não posso mais te machucar... Mas ele quer. Quer muito. - Ele esticou uma mão e passou em meu rosto com sede nos olhos, como quem tivesse dividido.
Senti minha pele arrepiar com o toque. Eu não estava em meu melhor estado psicológico, mas vê-lo vulnerável, mesmo que por um segundo, e com o prazer nos olhos quase me fez querer que ele me machucasse. Tentei me mexer e então meu corpo todo doeu me trazendo de volta a realidade.
desceu os dedos me tocando apenas com a ponta, e parou em meu pescoço, desencostando e puxando a mão de volta com rapidez. Ele colocou as mãos no rosto e ele estava nitidamente inquieto.
- ... O que foi? - Perguntei.
Ele tirou a mão do rosto e olhou pro meu corpo.
- Quero te tocar. - Ele falou como um viciado falando de heroína. Inquieto, manhoso e com a voz carregada.
- Como? - Perguntei com a voz falha.
- Como você nunca foi tocada antes. - Sua voz transparecia uma vontade insaciável.
- Porque? - Eu já podia sentir meu coração batendo contra meu peito.
- Por que eu preciso, porque eu quero... Porque eu não sei como controlar essa vontade e eu nunca passei por isso antes...
- Ter vontade de algo? - Falei erguendo o corpo para ficar sentada na cama.
- Não... Não conseguir controlar um desejo... E pior que isso, não ter o que eu quero. - Meu rosto estava bem próximo ao dele.
- Porque não pode ter o que quer? - Eu já conseguir ver seus olhos encarando meus lábios e sua mão desapareceu por baixo do cobertor.
- Porque não sou o único que quer. E pra ele você perderá a graça. - Ele falou subindo a outra mão por entre meu cabelo e olhando em meus olhos.
- Como sabe que não ele não irá gostar? - Minha voz já saía num sussurro. puxou meu cabelo forte, porém devagar, inclinando minha cabeça pra trás e passando a boca em meu pescoço.
- Eu não sei... Não gosto de não saber das coisas. - Ele sussurrava contra meu pescoço, fazendo-me arrepiar inteira, soltei um gemido baixo fazer todos os seus músculos tencionarem, fechou os olhos com força, como quem havia ouvido algo muito prazeroso.
- ... - Chamei seu nome entre o gemido. - Eu quero você.
Ele soltou meu cabelo e parou tudo o que estava fazendo para me olhar nos olhos, ficamos nos encarando ofegantes por alguns segundos. Esse , o verdadeiro , por algum motivo eu o queria.
- Desta vez... De verdade. - Falei baixo.
Num movimento rápido, me puxou para a beira da cama e se encaixou entre minhas pernas, me levantando e encostando-me na parede suspensa em seus braços.
Nossas bocas se chocaram e agarrei seus cabelos encostando minha língua em seus lábios.
Eu olhei em seus olhos, agora entendendo claramente meu captor. Meus captores.
E os dois estavam ali.


Capítulo VII

O beijo foi longo e quente, eu sentia o coração de bater forte contra mim. Ele agarrou minha cintura e me levantou, agarrei a cintura dele com meus pés e senti minhas costas baterem contra a parede, a dor do meu corpo estava agonizante. interrompeu o beijo e puxou minha blusa para cima lentamente olhando em meus olhos. Ele desviou para observar meus seios, eles estavam cheios de hematomas, e arranhões, mas isso não o impediu de beijá-los, lentamente e suavemente. Fechei os olhos, jogando a cabeça para trás, eu não sabia porque estava me entregando a ele desta maneira, mas estava bom. Ouvi os gemidos de baixos e prazerosos enquanto ele se deliciava com meu peito. Puxei sua blusa pelas costas e e joguei-a longe. colou seus lábios nos meus mais um vez deitando-me na cama e ficando em pé em minha frente.
levantou e eu pude observar seu corpo. Ele era forte, definido, porém branco e repleto de cicatrizes, a beleza que eu vi nas coisas mais feias de só me provavam a cada dia que eu estava enlouquecendo. Mas eu não tinha mais nada a não ser isso. Levantei e fiquei de frente para ele, puxei a calcinha que eu estava vestida para baixo e deixei ele observar meu corpo machucado. Como uma obra de arte ele ficou me observando, analisando cada detalhe do meu frágil corpo como se ele estivesse vendo a coisa mais valiosa da vida dele.
se aproximou de mim e ajoelhou lentamente passando a mão em minha pele. Senti meus pelos arrepiarem, talvez com o toque, talvez com quanto tempo eu não havia sido tocada daquela maneira. Eu nem estava mais contando. beijou minha barriga fazendo-me soltar um gemido baixo, quase um soluço e me empurrou para que eu sentasse na cama. Ele era delicado quando o assunto era sexo, não o monstro selvagem que me atacou ontem. Quando seus lábios foram descendo pela parte de dentro de minha coxa eu sabia o que ele iria fazer, e eu estava louca para ver a sensação.
Um grito.
Foi o que saiu de dentro de mim quando seus lábios encontraram minha intimidade. Um beijo suave, meu corpo tremeu. Ele por sua vez soltou um gemido baixo ao saborear minha virtude. Meu corpo estava dolorido e imerso em prazer, eu não sabia se isso era bom ou ruim, mas isso permitia que a sensação viesse com força e eu sentia ela cada vez mais forte vindo de encontro com meu epicentro.
- Ainda não. - Ele sussurrou levantando e tirando seu cinto. Sentei-me na cama e ajudei-o com a calça. Coloquei a mão na boca claramente nervosa, parou o que estava fazendo e me olhou.
- Você está bem? - Perguntou com uma quantidade mínima de preocupação. Eu apenas assenti com a cabeça, sabendo que ele estava em conflito dentro da cabeça dele. Talvez pra decidir qual dos dois iria assumir, ou talvez porque Void estivesse enfurecido.
terminou de tirar as calças e observei a forma que seu corpo reagia a mim, era a primeira vez desde que ele havia me capturado que eu me sentia atraente.
me deitou na cama e se encaixou em cima de mim colando nossos lábios. Eu estava ansiosa pra senti-lo e com medo ao mesmo tempo. O que isso significaria afinal? O nosso beijo era forte, porém lento, repleto de desejo um pelo outro e quando senti ele em mim, minha boca se abriu num gemido enquanto eu jogava minha cabeça para trás e arqueava levemente as costas. Coloquei uma mão em seu pescoço e a outra em suas costas enquanto sentia sua respiração contra meu pescoço. Ele gemia baixo enquanto seus movimentos faziam uma dança sobre mim. A cada investida eu sentia minha intimidade arder, pulsar, era um prazer que eu jamais havia sentido e a cada gemido que eu soltava parecia salivar em prazer.
- ... - Chamei em um gemido.
- Não faz isso. - Ele suplicou ouvindo seu nome.
- ... - Chamei novamente sem controle seu nome em um gemido mais alto.
- , por favor... Se continuar fazendo isso, falando meu nome, eu não vou aguentar.
- Eu vou... - Minha falta foi interrompida por uma sensação pulsante e forte que dominava meu corpo todo fazendo me tremer sob , fechei os olhos com força e um gemido agudo saiu de minha garganta enquanto eu agarrava a cama com força contraindo embaixo de .
A sensação foi tão intensa que eu pude sentir minhas veias da cabeça pulsando e fechou os olhos ao encontro do meu prazer e não muito depois ele se retirou de mim encostando a cabeça em minha barriga segurando o que ele havia expelido em sua mão.
Respiração era só o que se ouvir. Eu havia transado com meu captor. E eu havia tido um dos melhores orgasmos da minha vida. ainda estava ofegante com a testa encostada em mim, eu pude observar seu corpo levemente suado, levemente meu.
levantou alguns minutos depois e foi até o banheiro. Eu não conseguia observá-lo, mas ouvi a torneira ligar e ele lavando a mão. Ajeitei-me na cama esperando agora qual seria a reação dele. Será que ele ficaria furioso, ou será que ele simplesmente me ignoraria?
- ? - Chamei baixo insegura.
Ele não me respondeu. Peguei minha calcinha e vesti, pegando minha blusa em seguida e vestindo também. Caminhei lentamente até a porta do banheiro.
estava apoiado na pia com a cabeça baixa e os olhos fechados. Fiquei quieta apenas observando-o. Ele estava em conflito.
- ... - Chamei baixo novamente.
Ele virou os olhos pra mim, outros olhos, não era mais ele.
- Você deu pra ele. - Sua voz era de indignação, quase como se ele estivesse machucado.
- Void? - Perguntei.
- Void... Está me dando nomes igual um cachorro agora? - Ele parecia bravo, porém calmo.
Fiquei muda, sem saber o que dizer, qualquer coisa que o deixasse irritado poderia resultar em ele me batendo novamente.
- Tenho vontade de te destruir. - Ele disse entre dentes.
- Porque? - Perguntei.
- Por que ele? - Ele perguntou seco virando o corpo nu para mim. Ele estava com ciúmes?
Eu abri a boca, mas não sabia o que dizer.
- Eu sou o mais forte, o mais poderoso. Eu tenho o controle quando eu quero. - Ele estava frustrado. - Em pensar que eu só te quero também por causa dele. Ele me corrompe.
Void estava se sentindo traído. Eu poderia perceber.
- Eu não escolhi isso. - Ele disse com a voz mais alta se aproximando. Dei um passo para trás com medo dele. - Era pra te pegar, fazer seu pai pagar e acabou. Não isso, não sexo ou desejos.
Ele virou de costas e colocou as duas mãos na cabeça. Fiquei estática. O que ele estava querendo dizer?
- Ele foi bom? - Ele perguntou com a voz baixa e séria.
virou pra mim e se aproximou lentamente vendo minha boca fechada.
- Esse sexo de baunilha que vocês fazem, te satisfaz? - Ele pegou em uma mecha do meu cabelo com um sorriso malicioso nos lábios.
- Void... Não. - Falei abaixando a mão dele lentamente.
Ele ficou quieto me observando sem tirar aquele sorriso dos lábios.
- Eu vou fazer com que você me queira mais do que ele. Vou fazer você gostar do perigo, da dor... Do caos... Tanto quanto você gosta da fragilidade falsa dele.
Ele soltou um riso solo em inconformidade.
passou por mim e caminhou até suas coisas pegando sua calça, vestindo-a. Fiquei parada na porta do banheiro sem nada a dizer.
Void parou na porta e olhou pra mim por alguns segundos, com a blusa na mão ele abriu a boca e disse. - Ele está arrependido... Aqui dentro... Só pra você saber. - Void falou caminhando pela porta de metal e depois fechando-a.
Dei um pulo ao som do metal se chocando e fiquei quieta, abraçando meu corpo na porta do banheiro. ... Void... O monstro, um suposto herói e eu no meio, mas tudo que eu conseguia pensar no momento era que... Eu havia transado com meu sequestrador. Ao menos um deles. E eu estava me apaixonando por ele.

Eu estava perdendo a cabeça.


Capítulo VIII

abriu a porta rapidamente e entrou no quarto, eu estava no banheiro, trocando meu absorvente. Eu estava com vergonha, e medo. Vergonha por ter transado menstruada, e medo por ter transado com ele. Ele esperou que eu saísse do banheiro e virou a cabeça pra mim.
- ? - Perguntei.
- Não. - Ele respondeu simplesmente. - E sim. - Depois sorriu.
- Void. - Eu disse. - A que devo essa visita?
- Você anda abusada, Boneca. - Ele disse e eu caminhei até a cama tentando me manter firme. Ele me dava medo, mas eu precisava manter minha força.
- Eu não preciso aceitar seu terror psicológico, me espanque o quanto quiser, uma hora eu me acostumo. - Falei com frieza na voz.
Ele colocou as mãos no bolso da calça jeans escura que usava. Eu estava reparando nele mais agora, a calça escura, o tênis preto a camisa branca e a jaqueta preta. Ele se vestia como uma pessoa normal para um monstro sem piedade.
- Olha só, a presa finalmente tomando coragem de entrar na toca do leão. - Ele riu.
Abaixei o olhar, o sorriso doentio dele me dando uma leve pontada no começo da barriga. E não, não era repulsa.
- Vim ver como se recuperou daquela pouca vergonha de ontem. - Ele falou, uma certa raiva brincando na voz.
- Porque, ficou com ciúmes? - Falei. Eu realmente estava ficando abusada. Talvez a intimidade havia me causado isso.
O rosto de Void se fechou e seus olhos ficaram nublados como se uma maldade incabível havia se instalado ali. Eu não sabia porque estava o provocando. Eu sabia que ele era louco. Os dois eram.
- Vou aceitar suas provocações como elogio, . - Void falou agora encostando as costas na parede ao lado da porta.
- O que quer? - Perguntei enquanto pegava uma escova de cima da cama e começava a pentear meus cabelos. Eu havia tomado a decisão de não me render mais ao medo.
Void apenas ficou me encarando. Algo estava errado, ele normalmente era direto, não pensava muito no que ia falar, diferente de .
- Void, o que está acontecendo? - Comecei a ficar inquieta, será que meu pai havia finalmente pagado meu "resgate", ou será que ele havia decidido de fato não pagar e agora eu teria de morrer? As dúvidas começavam a se amontoar em meus pensamentos e eu senti meu corpo começar a tremer. - Void... - Chamei enquanto seus olhos ainda me encaravam sem transparecer nada, apenas dúvida. E isso era algo incomum para ele.
- Nós... - Ele começou a falar e abaixou o olhar. Levantei da cama e fiquei de pé, largando a escova. - Nós temos que te levar.
Minha respiração falhou.
- Me levar onde? - Perguntei, um nó se formando em minha garganta. Era agora., mas antes que eu pudesse ceder ao meu desespero, eu vi Void fechar os olhos, seu rosto tensionado, seus olhos fortemente fechados, sua testa franzida e o maxilar tensionado, numa questão de segundos ele relaxou e quando abriu os olhos, eu vi outro olhar.
- Vocês trocaram. - Afirmei, não tendo dúvida. Eu nunca havia visto a mudança de forma tão clara, a troca de forma tão sútil.
- ... - disse. - Nós temos que te levar para um lugar, e não será uma visita boa. - me avisou. Talvez Void achasse que a melhor pessoa para me dar essa notícia fosse . Abaixei o olhar, eu ainda estava com vergonha, e com medo. Agora um medo novo.
Para onde eles tinham que me levar?
- Só me diga onde... E se eu vou morrer? - Pedi com a voz fraca.
se aproximou de mim hesitante, como quem não sabia mais como agir.
- Nosso contratante quer te conhecer... E eu não sei. - Ele disse e eu arregalei os olhos.


Void.

O quarto. O quarto escuro e a cadeira. Eu odiava ficar no canto do quarto porque significava que ele podia tomar conta, e isso nunca era uma boa ideia levando em conta o quão incompetente e fraco ele era. Ah... As vezes ele me dava nojo. Um nojo que eu sentia que podia vomitar infinitamente, pois era repulsante. Fraco, burro, lento, frágil. Mas de alguma forma ela queria ele e não eu. Isso não fazia o menor sentido. O desgosto que eu havia sentido quando eles ficaram juntos, eu estava bem ali, ouvindo, vendo e até de certa forma, sentindo tudo, mas de relance, escanteio, jogado e escorado. Que ódio. Agora ele estava ali, falando com ela, o jeito que o olhar dela mudava quando ele tomava conta, a postura. Era ultrajante. Minha vontade era de matá-la por esses pequenos abusos, ver o sangue escorrer de sua boca e seus olhos viraram para trás. Um empurrão forte me atingiu. Ele estava bravo com meus pensamentos. Afinal, compartilhávamos tudo. Ele podia estar em controle, mas como eu me sentia era divido com ele, assim como ele se sentia era dividido comigo. Eu lembro do dia em que ela desmaiou do frio, ele já havia ficado interessado nela desde que a vigiávamos e ele achava errado torturá-la daquela maneira, eu o empurrei com a força que minha mente permitiria, já que os pensamentos dele estavam me incomodando. O interesse, a pena tudo aquilo me influenciando de alguma forma, eu não podia permitir algo assim. Então eu simplesmente o empurrei para o canto mais escuro da minha mente onde ele ficaria em silêncio. A raiva me dominando assim que ele ficou quieto, eu coloquei a temperatura no máximo que eu pude e ela chamou por nós, ele veio como uma pedra contra mim, dessa vez me tirando da posse da mente que dividíamos e assim como agora eu me escondia na escuridão, enquanto ele a acalmava.
Não pense que ele é um herói, ele não é. Todas as vezes que ele havia surtado ele havia me dado permissão para tomar conta, ele havia suplicado por aquilo. Ele havia me pedido para fazer o que ele não conseguia, e eu não hesitava, fazia o meu trabalho..., Mas agora, quem havia pedido era eu, eu havia pedido que ele tomasse conta por hoje, por agora. Eu não conseguia raciocinar direito com os pensamentos dele me dividindo. Nós tínhamos que levá-la para o lugar que até eu odiava e tinha receio. Eles poderiam sim decidir que era hora de ela morrer, já que o velho, gordo burguês não havia dado sinal de que pagaria algum resgate e nós perderíamos a garantia de liberdade. A garantia de não sermos servos de ninguém. Eu odiava admitir, mas o medo nos olhos dela no momento em que ele havia dado a notícia me quebrou, ela dizia tantas coisas, se colocava como forte em alguns momentos, mas era uma garota que não queria morrer.
Ah... O que estou dizendo? Nós sabíamos que isso iria acontecer uma hora ou outra.
Nós não vamos deixá-la morrer. Ele sussurrou pra mim.
Tive vontade de tomar conta, mas não consegui.
Acho que eu também não queria que ela morresse. Que merda... Eu não queria que ela morresse.


.

ainda me encarava enquanto eu digeria a informação de que eu teria de sair para um lugar e que talvez eu não voltasse.
Por um momento eu não tive vontade de abandonar meu cativeiro, olhei para as coisas no quarto e me despedi delas, com uma certeza que me assombrava.
- Vamos. - Ele disse, sem coragem de me olhar mais. Acho que até ele tinha certeza.
Coloquei meus sapatos e me deu passagem, caminhamos pela sala que eu havia visto apenas duas vezes em direção a porta.
- Não preciso dizer que é melhor você não tentar nada, né? - pigarreou antes de dizer.
Apenas neguei com a cabeça, eu não tinha coragem de me mexer.
- Muito bem... Então vamos.
O dia estava frio, o céu nublado. Uma chuva fina caía sobre o chão do lado de fora do galpão e o cheiro de terra invadiu minhas narinas.
Entrei no carro e entrou logo em seguida. Esperando ele me vendar eu fechei os olhos pensando em minha mãe e meus amigos.
Amigos... Será que eles haviam desistido já de mim? Meu namorado, Gustavo, só estávamos juntos a duas semanas, eu nem sabia se o amava ou não, não tive tempo de descobrir antes disso tudo acontecer.
não me vendou, apenas deu partida no carro e saíamos em silêncio.
Eu olhava as paisagens pela janela e não reconhecia nada, e também estava com medo demais para tentar memorizar qualquer detalhe que fosse.
- Precisamos conversar sobre ontem. - disse, seus olhos vidrados na estrada e seu rosto tenso quase como Void, mas o olhar sereno e levemente calmo.
Mexi as mãos nervosamente na minha blusa e respirei fundo.
- O que precisamos conversar? - Perguntei receosa e envergonhada.
- Como você está? - Ele perguntou olhando rapidamente pra mim depois novamente para a estrada.
Pensei em sua pergunta. Como eu estava afinal? Eu não sabia. Eu havia gostado do que tinha acontecido? Odiado? Eu estava me odiando por tudo que aconteceu?
- Eu não sei, acho que estou perdendo a cabeça. - Falei olhando para frente.
apertou o volante de forma intensa, como quem estava sendo esmagado por algo.
Olhei pra ele, observando os sinais que ele me passava. Ele estava... Arrependido.
- Como você está? - Perguntei.
levantou as sobrancelhas, surpreso com a minha pergunta. Ele abriu a boca para falar, mas nada saiu, fechando-a logo em seguida.
- Você está arrependido. - Afirmei com a voz baixa, olhando para meu colo.
- Acredite... Não estou arrependido de ter feito nada, só... Arrependido de ter feito isso na situação que você está. Não quero me aproveitar de você. - Ele falou sem emoção.
- Aproveitar de mim? - Perguntei com uma ponta de indignação na voz. - Eu sou completamente capaz de tomar decisões por mim mesma e se eu não quisesse que aquilo acontecesse, eu não teria permitido. - Falei brava.
riu. Uma risada debochada, como quem dizia coitada .
- Você acha que está no controle, mas não está. Você cedeu porque criou um laço imaginário comigo que acha que existe. Chama-se Síndrome de Estocolmo.
Virei abruptamente para ele.
- Você está louco? - Perguntei e me olhou em descrença. - Eu não estou com síndrome alguma! Você fala de laços imaginários, mas você me deu sinais, me deu aberturas. Eu sou um ser humano e independente de qualquer loucura eminente na cabeça de vocês, vocês também são e me quiserem tanto quando eu os quis. Mas não seja precipitado, , não sou uma garotinha fraca que cedeu aos charmes dos meus sequestradores, eu estava com tesão e dei.. Ponto final.
ficou mudo, olhando pra estrada em choque.
- Vocês. - Ele disse.
- O que? - Perguntei ainda irritada.
- Você disse vocês e não você. - Ele disse ainda sem me olhar.
Abri a boca. Eu havia dito vocês. E eu não estava me corrigindo.
me olhou esperando uma explicação, mas eu estava chocada demais comigo mesma pra falar e não gostou disso. Ele parou o carro abruptamente e fechou os olhos, eu sabia o que ele estava fazendo.
- Não! - Eu gritei. - Não fuja!
- Boneca, boneca, quantas revelações. - Void disse tomando conta.
- Traga-o de volta. - Pedi entre dentes.
- Eu acho que você está muito mal-acostumada. - O sorriso de lado demonstrando superioridade.
- , volte. - Pedi olhando pra ele.
- Ele não quer falar com você. - Ele falou dando partida no carro e rindo.
Virei a cabeça para a janela frustrada. Eu realmente havia dito no plural, porque? Talvez fosse o costume agora de me referir a eles, mas minha mente não permitiu essa desculpa. Eu era sexualmente atraída por Void, assim como era por , era confuso demais separar os dois, e haviam características do Void que não tinha e vice-versa.
Tentei empurrar a discussão mental que eu estava tendo comigo mesma e pensar em outra coisa e o tempo passou mais rápido com o silêncio dentro do carro.
- Chegamos. - Void disse, entrando em uma estradinha de terra e dirigindo mais uns dois quilômetros. Ele parou o carro em frente a um pequeno prédio, que parecia mais uma fábrica abandonada pela maneira que estava malconservada do lado e fora.
- Preste atenção. - Void disse e eu olhei pra ele. - Você vai ficar quieta, não vai abrir o bico. Vai responder o que te for perguntado e se tentar qualquer coisa eu vou ser o último que você vai ver, está me entendendo?
Concordei com a cabeça e saímos do carro, Void algemou minhas mãos e me levou até a porta da fábrica. A porta era de metal pesado e havia uma câmera logo acima. Void abriu um sorriso e acenou para a câmera e a porta fez um barulho de tranca e abriu.
O lado de dentro da fábrica não condizia com o lado de fora. Por dentro o piso era frio, de um mármore branco e haviam pilastras romanas que formavam um corredor. Quadros famosos que custariam uma fortuna decoravam a parede e lustres caríssimos pendurados nos tetos. No final do corredor havia uma moça que aparentava ter a minha idade sentada no que parecia uma recepção. Ela tinha o cabelo preso em um coque chique, óculos de grau estiloso e vestia um terninho creme que continham botões dourados.
- Senhor , o Sr Kangjoun está a sua espera, me acompanhe por favor.
A moça levantou e caminhou para a direita em direção a uma grande porta dourada, ela empurrou a porta e entramos em um grande quarto com várias homens orientais fortemente armados, alguns levantaram o rosto para nos olhar, e outros apenas nos ignoravam. Dentre meu medo eu mal pude perceber o quão tenso Void estava., ele segurava meu pulso com força e seu maxilar estava bastante tensionado, ele estava observando tudo ao nosso redor, cada rosto e cada arma.
- Por aqui, por favor. - A moça parou no final do quarto onde havia mais uma porta e nos indicou para entrar.
Void empurrou a porta revelando uma sala clara, com paredes brancas e o piso do mesmo mármore da entrada. Haviam quadros nas paredes e um tapete vermelho que seguia até uma mesa grande de vidro sobre um tronco de madeira esculpido na forma de dois tigres. Haviam dois homens grandes parados um de cada lado da mesa com armas nas mãos e no meio, sentado em uma cadeira de couro um homem, igualmente oriental escrevendo algumas coisas em um papel.
- Senhor , bem na hora. - Ele falou, sem sotaque e sem levantar a cabeça.
- Como sempre. - Void respondeu seco e sem emoção. Ele parecia cauteloso.
O homem levantou os olhos para mim e sorriu, um sorriso quase reconfortante.
- Essa deve ser a Senhorita . - Ele afirmou levantando de sua cadeira e dando a volta na mesa lentamente me olhando. Meus olhos o acompanharam e Void me soltou.
- Muito prazer senhorita, eu sou Ryu Kangjoun, sinto muito por te colocar nessa situação.
Ele dizia sem tirar o sorriso da cara.
Fiquei quieta olhando pra ele e depois para Void que havia se afastado um pouco.
- Como está te tratando? Espero que bem... Nós não somos selvagens, afinal. Espero que seus aposentos sejam adequados. - Ele perguntou e eu olhei novamente para que assentiu com a cabeça.
- Afinal, ... Vai me dizer onde está ficando dessa vez? - Ele perguntou soltando uma risada no final.
- Não é o nosso acordo. - Ele respondeu simplesmente.
- Está bem, está bem. - Ryu levantou as duas mãos como quem estava na defensiva e olhou para mim.
- A Senhorita não respondeu minha pergunta. - Ele disse e eu abri a boca.
- Está... Está tudo bem. - Respondi no impulso.
- Que ótimo. - Ele disse ainda me olhando e então voltou para seu lugar atrás da mesa.
- Por favor, sentem-se. - Ele indicou as duas cadeiras um pouco mais encostada na mesa.
Sentei-me e Void sentou ao meu lado.
- Acho que sabe porque pedi que o trouxesse aqui hoje.
Engoli em seco, meus olhos fraquejando.
- Para me matar? - Perguntei quase tendo certeza.
- Não seja tola... Você é nossa última garantia. - Ryu deu uma risada exagerada. Os dois homens que estavam parados de cada lado da mesa permaneceram quietos.
- Seu pai não está colaborando. - O homem falou em tom de decepção falso. - Eu preciso de alguma garantia.
- Se falar com a minha mãe, ela pode tentar convencê-lo, ela tem contato com ele e... - O homem olhou para e depois para mim. Parei de falar imediatamente. ficou tenso na cadeira e evitou meu olhar.
- Oh querida, querida. Nós já tentamos isso.. E devo dizer que sua mãe não colaborou também. - Ele fez um bico. - Sinto muito pela sua perda.
Minha respiração começou a acelerar, meus olhos encheram de lágrimas, meu coração quebrando como nunca. Não.
- Não. - Falei baixo entre as lágrimas que escoriam sem dó por meus olhos bochecha abaixo. Ryu sorriu, quase rindo. Ele era um monstro.
- Agora, temos que ter algumas garantias... Você vai gravar um vídeo para seu pai e fazer sua melhor cara de coitada para que ele pare de ser um pau no cu e pague logo o que ele me deve! - Ele foi elevando o tom de voz a cada palavra até finalmente gritar. Tremi em meu assento sem conseguir controlar o soluço, a fraqueza.
- Levante. - Ele ordenou e eu não consegui me mexer.
O home olhou para um de seus guardas e ordenou com as mãos que ele me levantasse. Void interveio e me pegou pelo braço.
- , você precisa levantar. - Eu não o respondi nem o olhei. - Levante. - Ele sussurrou. Enquanto o guardo nos encarava.
- Ande logo com isso! - Gritou Ryu o guarda tentou novamente me alcançar, porém Void não deixou. Ele abaixou novamente na minha altura e fechou os olhos deixando voltar.
- ... Levante. - pegou em minha mão sem que ninguém visse e eu olhei em seus olhos. Ele estava lá, a irritação havia ido embora dando lugar a algo novo em seu olhar. - Levante, por favor. - Ele suplicou e eu assenti em meio ao choro.
Levantei e então o segurança nos levou até o canto da sala onde havia uma câmera virada para a parede branca, uma luz e uma cadeira que eu não havia visto. Ryu nos acompanhou e sentou na cadeira que ali estava, como um diretor de cinema macabro.
- Ela está muito saudável pra quem foi sequestrada, dá um jeito nela. - Olhei para que foi empurrado para o lado pelo segurança e ele arregalou os olhos.
- Que foi , virou amigiuinho da vagabunda? - Ele perguntou rindo debochado e apenas abaixou a cabeça. Olhando em desespero para , seu olhar era de perdão, desespero também e em seguida senti meu rosto arder e o gosto metálico do sangue em minha boca.
- Muito bem... Ação queridinha. - Ryu disse baixo.


Capítulo IX

Fiquei muda sentindo a dor em minha bochecha. O som baixo dando lugar a um chiado agudo. Ryu olhou para o segurança novamente e dessa vez ele me deu um soco. Caí no chão com tudo e tossi, cuspindo o sangue e manchando o chão branco.
- Agora, Vagabunda! - Ryu gritou.
- Pai... - Sussurrei tentando falar alguma coisa. Eu não conseguia enxergar porque meu rosto começava a inchar. - Pai, me ajude. - Falei dessa vez tentando olhar para a câmera.
Virei os olhos para , ele olhava fixamente para mim com nada em seu olhar. Covarde. Eu pensei, mas se ele fizesse algo, eu poderia perder muito mais do que sangue. Ryu foi para frente da câmera enquanto o segurança me dava mais um soco, minha cabeça quicou no chão, me fazendo apagar por um breve segundo.
- Minhas ameaças não são vazias, Sr . Se não me pagar em quinze dias, não só mataremos sua filha, como deixaremos uma carta escrita a punho por ela dizendo que o culpado é você. - Ele sorriu e então um chute em minha barriga.
- ... - Chamei sem ar. Ele me olhou e fechou os olhos com força. Ele estava trocando? Ele realmente era covarde.
- Para cada dia que você deixar de me dar um parecer, você receberá uma lembrança da sua filha. Um dente, um dedo. Então, colabore Senhor .
Então mais um chute, dessa vez na cabeça.
- Já chega. - Ouvi a voz de ou Void, não conseguia distinguir, de longe. Uma voz fria, uma voz carregada de raiva.
Eu não conseguia ver muito bem devido ao inchaço, porém eu ouvia fragmentos do que eles falavam.
- Chega? Você não dá as ordens . - Ryu falou com desprezo na voz.
- Nós temos um combinado, enquanto ele não pagar, ela é minha. - Ele falava com posse na voz.- Não a quero se ela estiver deformada.
Ryu deu risada. Tentei me apoiar nos braços, mas estava tonta demais para isso.
- Tudo bem, terei dignidade. Mas não esquece que você é meu enquanto ele não pagar. Você me deve isso. - Ryu falou pegando a câmera em mãos e caminhando até sua mesa juntamente com o segurança. Olhei para meu captor, sem saber quem estava ali, ele estava vulnerável de alguma forma, mas com uma raiva que eu conhecia.
Ele agachou em minha frente e me ajudou a levantar, meus olhos agora conseguindo focar melhor no monstro atrás da mesa. Ele ria enquanto via e revia o vídeo meu implorando por ajuda a um homem que nunca me amou.
- Vamos. - Ouvi ele dizer enquanto me levava até a porta.
- ... - Ryu chamou, mas ele apenas parou, sem virar a cabeça. - Se estregar isso, vou destruir você, não seja tolo de se apegue a vagabunda.
Seus olhos viraram para mim, como quem dizia "Tarde demais" e apenas saímos da sala sendo acompanhados pelos olhares de todos que estavam lá.
Eu estava fraca demais para andar sozinha e quando atingimos a sala da recepção, me pegou no colo e fechei os olhos cedendo ao cansaço, tontura, dor e fraqueza.


- ... - Eu ouvia uma voz longe, abafada, eu estava tonta e não conseguia manter meus olhos abertos. - Puta merda! ! - Ele chamou novamente.
Estávamos no carro, e ele dirigia em alta velocidade. Alguns flashes apareciam quando eu tentava abrir os olhos, e eu finalmente vi quem estava ali... Void.
Ele estava mais branco que o normal, a vermelhidão em volta dos olhos clara e ele suava muito.
- Não! Você fugiu! Agora me deixe aqui com ela, deixe eu salvá-la. - Ele gritava com ele mesmo.
- Void... - Tentei chamar.
- , abra os olhos. Tente não dormir. - Ele falou com calma, uma calma que eu não conhecia nele, uma calma diferente da de .
Eu ouvia o motor do carro ranger embaixo de mim e os pneus cantando.
Não fui forte o suficiente para me manter acordada, mas /Void me deu uns tapinhas na cara para me manter assim, ele parou o carro der repente e saiu, correndo para meu lado e me pegando no colo correndo para dentro do galpão.
Eu mal conseguia me mexer e agora eu estava sentindo muito sono, eu poderia dormir. Eu queria dormir.
- Não durma, . - Ele falou me deitando no sofá da sala onde ele ficava.
correu até uma caixa que havia ali perto e pegou uma seringa, me olhando para garantir que eu não havia pegado no sono.
- ... - Chamei começando a perder noção.
Ele correu de volta para mim e injetou algo em meu braço.
Não tive tempo para questionar ou até mesmo reagir, a sensação de euforia veio bombardeando dentro de mim e eu arregalei os olhos e puxei o ar com foça sentindo meu coração palpitar como nunca antes.
sentou no chão e colocou as mãos na cabeça finalmente soltando todo o ar.
- O que você fez? - Perguntei, preocupada com o conteúdo que agora corria em minhas veias. Ele levantou a cabeça para mim e respirou fundo.
- Adrenalina. - Ele disse, vendo o desespero em meu olhar. - É apenas isso.
Suspirei em alivio, mas a vontade de quebrar algo, de correr ou de gritar não me abandonava e a sensação era muito boa e muito ruim ao mesmo tempo.
- Quanto tempo dura? - Perguntei já querendo que a sensação passasse.
- Tempo suficiente para eu fazer curativos e te medicar.
levantou e eu me senti mais calma, porém ainda desperta.
Eu estava sem dor, e não conseguia me concentrar.
voltou com uma caixa e começou a limpar minhas feridas.
Um corte na sobrancelha, outro embaixo do olho, um na boca outros dois na cabeça. Os cortes do dia anterior agora estavam abertos e o sangue pingava lentamente em meu colo.
- Não sei mais quem está aí. - Falei enquanto ele limpava os cortes de minha cabeça.
Ele ficou quieto, e estava concentrado.
- Quem você queria que estivesse? - Perguntou de forma seca.
Pensei na resposta, eu havia visto que eles haviam trocado, mas agora eu já não sabia mais quem era.
- Void. - Falei e ele assentiu com a cabeça.
- É seu dia de sorte, boneca. - Ele falou ainda sem emoção.
O silencio reinou enquanto Void fazia meus curativos. Eu não entendi porque ele estava me tratando daquela maneira. Talvez fosse um plano para me manipular.
- Porque está agindo assim? - Perguntei apos um tempo em silêncio.
Ele não respondeu.
- Pra que colocar curativos se eventualmente você irá perder a cabeça e me espancar novamente? - Eu ri com raiva em ironia.
Void parou jogando as gazes sujas de sangue ao meu lado.
- Você é extremamente ingrata, sabia? - A irritação clara em sua voz.
- E vocês são loucos. - Falei, sem medo. Talvez fosse a adrenalina, talvez não.
- Vocês. - Ele disse e uma sensação de dejavú passou por mim. - Não é a primeira vez que usa o plural hoje, boneca.
- Não quero falar sobre isso. - Desviei os olhos dele.
- Tudo bem, eu entendo. - Ele falou com sarcasmo na voz. - As vezes você não quer sentir algo, mas tem um lado seu que insiste em certos sentimentos. Eu te entendo perfeitamente.
- É por isso que está cuidando de mim? - Perguntei com ódio.
- Ah não, estou cuidando de você porque se você morrer eu perco meu emprego, boneca.
- Mentiroso. - Falei e ele pegou fortemente em meu pulso.
- Cale a boca. - Falou entre dentes.
- Não.- Falei e ele bufou sem paciência.
- Eu ouvi você. - Falei soltando meu braço. - "Me deixe salvá-la" ou algo assim. O quê? Quer bancar o herói agora? Esqueça. - Falei cuspindo as palavras.
- Porque está sendo tão difícil, você prefere que eu seja o monstro? Prefere que eu seja o vilão para que vocês dois trepem com o sexo de baunilha de vocês enquanto eu assisto de canto?
- Eu não quero nada dele, ele fugiu. - Falei agora sentindo tristeza.
- Sim, , ele fugiu, está se escondendo no canto mais silencioso de nossa cabeça sem coragem de te olhar nos olhos, eu vim ao resgate e eu sou só o que te restou por agora, então contente-se! - Ele pegou em meu punho novamente agora passando uma pomada em um hematoma que havia aparecido por ali.
Ficamos em silêncio novamente. Eu queria sentir mais raiva dele, mas algo me impedia.
- Porque quer me salvar? - Perguntei agora mais baixo.
- Porque faz tantas perguntas? - Ele falou sem me olhar bufando.
- Estou inquieta por causa da adrenalina. - Falei igual uma criança.
Void respirou fundo.
- Tudo o que ele sente eu sinto, então infelizmente uma parcela de mim não quer que você morra. - Ele disse agora me olhando. - Mas ainda existe a outra que quer te enforcar até ver seus olhos saltarem da cara. - Eu observei seu rosto, ele suava ainda e estava com a respiração levemente ofegante.
- Você está em abstinência.
Ele olhou pra mim, como quem dizia "Jura?"
Revirei os olhos, ele era um babaca.
- Porque não deixa ele viver em paz? - Perguntei.
- O quê? - Ele parou o que estava fazendo com dúvida no olhar.
- Porque apareceu na cabeça dele, porque não some no canto sei lá da mente e deixa ele viver em paz? - Perguntei novamente.
deu um sorriso indignado virando a cabeça para o lado pegando bandagem.
- O que te faz achar que eu não sou o primeiro? - Ele falou controlando sua raiva enquanto passava a bandagem em meu pulso e depois aplicando mais alguma coisa em minhas veias.
- Ninguém é tão ruim assim naturalmente. - Eu afirmei franzindo a testa ao sentir uma leve dor com a agulha.
Void ficou quieto, levantando e colocando a caixa de volta no lugar. Eu estava começando a ficar com sono.
- Foi você que matou minha mãe? - Void parou e ficou rígido. Sua reação já dizia tudo.
As lágrimas começaram a cair novamente, sem freio, sem piedade. Um choro de criança. Eu soluçava e sentia o cansaço tomar conta de mim. - Porquê? - Perguntei entre o choro. - Seu monstro. - Eu coloquei as mãos no rosto e senti vontade de atacá-lo.
Levantei e corri até ele, batendo em seu peito e gritando. - Porque? - Void segurou meus braços, impedindo que eu continuasse a bater.
- Porquê?! - Gritei sentindo minhas pernas fraquejarem. - Eu odeio você.
Void me segurou enquanto eu caía de joelhos, ele segurou meu corpo, impedindo-me de debater mais e atingi-lo.
- Eu não sabia que ela era sua mãe. - Ele disse baixo enquanto eu chorava sem controle contra seu peito.
- Mentiroso! - Eu gritei, agora sentindo a adrenalina abandonar meu corpo por total.
- Eu juro que não sabia. - Ele falou com embargo na voz.
- Eu nunca vou te perdoar por isso. - Falei o choro cessando, o sono tomando conta.
Void ficou em silêncio garantindo que eu não fosse me mexer.
- Eu sei.
Foi a última coisa que eu ouvi antes de apagar completamente.


.

Eu não tinha coragem de olhar mais para ela. Não havia sido Void que matara sua mãe, e sim eu. Eu havia a questionado, havia a obrigado a fazer a ligação e visto seu olhar de medo quando o velho gordo havia respondido "Não minta para mim, vadia, se quer mais dinheiro, se vire” desligando. Sem sucesso em convencer o velho, quando recebi a ordem, eu havia atirado em sua cabeça sem hesitar. Eu não era bom em torturas doentias ou em espancar ninguém, mas em seguir ordens e manipular eu era bom. E eu até gostava, mas a reação de ao descobrir a morte de sua mãe havia me destruído. Eu não tinha coragem de nem ao menos admitir isso pra ela, e quando ele disse que havia sido ele, aquilo me surpreendeu. Ele não era de ter piedade, pena, ou qualquer coisa que fosse parecido. Talvez o meu lado da maneira como nós nos sentíamos com relação a ela estivesse tomando conta dele. Eu não sabia até que ponto aquilo era bom ou ruim. Com ele mais sensível a ela, eu poderia colocar nossa liberdade em perigo. E ele já havia sacrificado demais por mim.
Agora ela estava ali, dormindo em seus braços e eu sabia o que ele estava sentindo. Conforto. Algo que não sentíamos a décadas. Algo que ele só havia sentido uma vez. E ele estava me odiando pôr o fazer sentir aquilo.
Olha o que você fez. Ele disse em voz alta, como havia discutido comigo no carro quando achei melhor a levarmos para um hospital.
- Sinto muito. - Sussurrei no canto escuro.
Desde a primeira vez que eu havia me interessado por ela, ele havia me repreendido. Perguntando o que havia de errado comigo e o que tinha de tão especial nessa garota que me fazia ter interesse.
Era a cara que ela fazia quando estava pensando. A maneira como ela discutia com ela mesma, quase como se tivesse duas dela lá dentro, assim como nós. E desde a primeira vez que a vi fazendo isso, algo havia despertado em mim... Em nós. Sinto muito. Falei novamente. Porque isso colocava tudo em risco. Até mesmo ela. Se Ryu descobrisse nosso interesse por ela, ele teria algo contra nós, e essa não seria a última vez que nós seríamos obrigados a trabalhar pra ele.
Ele pegou-a no colo, colocando-a no sofá. Ele não estava bem, estava em abstinência e a forma como aquilo corroía ele, me fazia sufocar no canto escuro. Eu não conseguia tentar impedi-lo já que quando ele usava, eu também era atormentado pelos efeitos da abstinência, então quando ele pegou o pequeno kit dentro da caixa de medicamentos eu apenas disse para que ele se sentasse.
Ele sentou ao lado dela, no resto de espaço que havia sobrado entre sua cabeça e o braço do sofá, ele olhou pra ela e hesitou antes de apertar a borracha em seu antebraço e saciar sua vontade. O espaço me sufocando cada vez mais, cada vez mais escuro.
- O que foi? - Perguntei, eu sabia o que ele estava pensando, mas ele estava tentando bloquear.
Não quero mais que ela me odeie. . O forcei empurrando a sugestão contra a escuridão e ele injetou a agulha em nossa veia, nos dando o alívio que precisávamos.
Eu havia fodido tudo.


Capítulo X

>



Abri os olhos devagar, sentindo cada centímetro do meu corpo doer, tentando ajustar minha visão franzi o cenho tentando lembrar onde eu estava. Eu ainda estava na sala de , tentei me mexer, mas meu corpo reclamou, eu ainda estava muito fraca e com bandagens e curativos pelo rosto e corpo. Olhei para cima e percebi que eu estava deitada no colo de , que estava dormindo com a cabeça no encosto do sofá, levantei lentamente, apoiando-me nos cotovelos tentando não acordar e então percebi o que ele tinha nas mãos. Seu braço estava esticado em sua coxa, a borracha solta em seu antebraço, na outra mão uma seringa vazia quase caindo de seus dedos. Consegui me levantar sem que ele acordasse e observei o lugar com mais cautela. A esquerda no canto da ponta de onde eu estava sentada estava a porta de meu cativeiro, ao lado de sofá que estava encostado na parede havia um armário de ferro que se estendia quase até a porta e do outro lado da porta o compartimento por onde ele me dava comida. Em frente ao sofá virado de lado estava um computador com duas telas que mostravam imagens das câmeras que filmavam lá dentro, as portas de entrada e o início da estrada de terra que dava até o galpão. A mesa era de ferro também, e haviam maços de cigarro, garrafas de bebidas baratas, alguns papeias amassados e embalagens de lanches prontos. Do outro lado do sofá, do lado direito havia outro armário de ferro que separava essa parte da sala de uma cozinha pequena com balcões brancos e armários numa cor mostarda. A cozinha estava arrumada, mas parecia suja devido a iluminação branca esverdeada que as lâmpadas fracas davam ao ambiente. Ao lado da cozinha, do lado oposto a porta do meu cativeiro, a outra porta... A saída. Caminhei até lá observando a todo instante e tentei virar a maçaneta devagar, estava trancada. Respirei fundo e caminhei até a mesa dele procurando uma chave. Nada. Talvez eu devesse matá-lo. Isso! Eu preciso matá-lo. Fui até a cozinha e abri as gavetas devagar procurando uma faca, e de primeira achei. Caminhei até devagar com a faca na mão e levantei a mão me preparando para atacá-lo. Ele merecia morrer, ele havia matado minha mãe. Não importa que ele havia dito que não sabia, ele merecia morrer por ter me sequestrado, não merecia? Abaixei, ficando mais próxima dele, tentando agir, porém meu corpo não permitia. Minha mente queria que ele morresse, desaparecesse, mas eu não conseguia. Fechei os olhos com força, tentando entender minhas ações. Vai, , apenas faça, você poderá ficar livre, poderá fugir. Mas se eu fugisse, o que me garantiria que eles não viriam atrás de mim com outra pessoa. Pare de se dar desculpas Falei comigo mesma. Encostei a faca no pescoço de , ela era afiada suficiente para abrir um pequeno corte ali. Eu só precisava fazer um pouco mais de força e acabou. Ele estava morto.
- Vá em frente. - Ouvi a voz de . Levantei os olhos carregados de raiva pra ele e rangi os dentes. estava fraco, a boca rachada, os olhos vermelhos e a pele pálida.
- O que está esperando? - Ele perguntou com a voz rouca e os olhos levemente abertos, que me trouxe um arrepio. esperou eu fazer algo, mas eu simplesmente não conseguia matá-lo.
rapidamente pegou no braço que eu segurava contra seu pescoço com força, e afastou a faca, fazendo com que eu a derrubasse no chão sem tirar os olhos dos meus. Observei como a veia de sua testa aparecia quando ele fazia força, como o maxilar tencionava, um leve arrepio me acompanhou até eu levantar completamente e me soltar dele.
Não podia acreditar que eu estava sentindo algo por ele, nem que fosse pelo lado menos pior dele. Eu só podia estar com a tal síndrome mesmo, ou ficando louca igual ele. Virei de costas para , ainda era Void ali. Eu não queria admitir que sentia algo por esse lado, mesmo eu já dizendo isso no carro ontem, sem querer. Mas agora era diferente, aquilo estava me impedindo de ser racional. Eu apenas tinha que tê-lo matado, assim eu poderia ficar livre e ir embora, mas eu não conseguia. Nem mesmo matar Void.
Senti uma mão de me puxar pela cintura e a outra afastar o cabelo de meu pescoço. O que ele estava fazendo?
- Você não quer me matar. - Ele sussurrou em meu pescoço antes de depositar uma mordida leve ali. - Você não consegue. - Ele apertou minha cintura com força me fazendo gemer baixo de dor. Eu queria fazê-lo parar, mas meu corpo não permitia. Uma parte de mim, queria saber como esse era.
me virou e me encarou, a sede transbordando em seus olhos, uma sede que parecia insaciável. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, os lábios ásperos dele estavam contra os meus puxando meu cabelo e segurando em meu maxilar. O beijo forte, intenso e descontrolado me tomou por inteira e eu cedi enfiando meus dedos por entre seus cabelos enquanto ele me empurrava até a parede. Sua língua entrou em contato com a minha sem carinho, sem piedade. A sensação de descontrole que ele carregava com ele me dava um senso de liberdade. Bati com as costas na parede com força, me fazendo reclamar de dor.
- Que som delicioso. - Ele disse entre o beijo e começou a descer a mão por minha cintura até alcançar a barra do vestido, sem delicadeza ou lentidão, ele passou a mão por minha intimidade, fazendo com que eu desse um leve pulo com o susto e com a sensação, levantou uma de minhas pernas a altura de sua cintura, segurando-a com força para facilitar seu trabalho.
- Você gosta disso, boneca? - Ele sorriu com safadeza entre o beijo e então começou a massagear meu ponto mais sensível com a ponta do dedo por cima de minha calcinha, ele deslizou minha calcinha para o lado e desceu o dedo para baixo até brincar com minha entrada, sem enfiar o dedo, então abriu um pouco a boca em espanto.
- Você está tão molhada. - Ele falou com a voz transbordando em safadeza e tesão. E eu gostava daquilo. Ele empurrou seu quadril contra mim, permitindo-me sentir o quão duro ele estava.
- Queria muito sentir seu gosto de verdade. - Ele falou agora com os lábios roçando nos meus enquanto brincava com meu ponto mais sensível com seus dedos úmidos. A ideias daqueles lábios impiedosos em mim fazia meu corpo tremer. Eu gemi fechando os olhos, aquilo estava bom demais. - Mas você está gostando tanto que não sei se devo parar para satisfazer minha vontade. - Ele falou franzido a teste e se deliciando com minha reação, então ele provocou minha entrada com o dedão, adentrando apenas um pouco e movimentando ele para dentro e para fora, me fazendo ficar ainda mais molhada.
- Como você é safada. - Ele falou com os lábios roçando nos meus enquanto meu coração palpitava em alto e bom som e eu gemia baixo, numa tortura incansável que ele infringia contra mim. Eu só conseguia apertar seus ombros e jogar a cabeça para trás enquanto os lábios dele se jogavam em meu pescoço, depositando mordidas leves e outros fortes, eu odiava a maneira como ele estava me fazendo perder a razão e o controle, mas naquele momento, tudo que eu queria era sentir ele inteiro em mim.
- Goza pra mim, safada. - Ele disse mordendo o lábio inferior e eu fechei os olhos com força, sua voz era baixa e rouca, com uma malícia que eu não conhecia, mas que apreciava. Tudo que saía de seus lábios me parecia safado e sujo. Ele puxou meu lábio inferior, me fazendo gemer mais alto e o ouvir falar novamente, agora mais baixo. - Goza pra mim, safada, vai... Goza. - Meu corpo decidiu obedecer seu comando quase que de imediato e então a sensação forte subiu por minhas pernas e se depositou na altura de meu quadril e eu desmanchei entre ele a parede, contraindo fortemente em seu dedo enquanto minha respiração saía ofegante e descompassada. gemeu junto comigo, em satisfação por eu ter o obedecido. Ele era um maníaco por controle, ao menos esse lado... Void era.
- Bom dia pra você também, boneca. - Ele sorriu, um sorriso safado, divertido, porém fraco. Ele estava fraco demais. Abaixei minha perna ajeitando minha calcinha em seguida, os lábios de ainda estavam em meu pescoço. Ele franziu a testa, como quem estava frustrado, lutando com o outro lado de seu cérebro. deu dois passos para trás e então se virou em direção ao sofá e deitou sem falar nada.
Fiquei quieta, encostada na parede. Eu ainda estava me recuperando. Fiquei com vergonha por um segundo, ele havia me feito gozar logo depois de eu ter tentado o matar, talvez Void fosse assim, violência o excitava. E talvez a violência dele me excitava. Afastei os pensamentos e olhei para ele, que agora havia afastado a seringa e a borracha, colocando-os do lado do sofá. Eu vi que a calça dele estava justa, e ele tentava se ajeitar claramente desconfortável.
Talvez ele não quisesse fazer nada por causa de . Mas levando em conta o que ele havia me dito na noite anterior, acho que não era uma de suas preocupações.
Talvez ele também achasse que ele estava aproveitando-se de mim.
Esse pensamento me deu raiva e então eu caminhei até ele, pronta para perguntar porque ele não havia feito mais nada.
- Vai tentar me matar de novo? - Ele perguntou com os olhos fechados antes que eu pudesse me aproximar completamente.
- N-Não. - Respondi na defensiva, eu não estava mentindo.
- Ótimo. - Ele falou e fechou os olhos.
- E ? - Perguntei preocupada com a reação do outro.
Ele abriu os olhos e virou a cabeça para mim.
- Está furioso. - Ele sorriu vitorioso.
Filha da puta, ele havia me dado um dos melhores orgasmos da minha vida apenas com o dedo e mesmo assim eu queria que ele morresse mesmo sem ter coragem de matá-lo eu mesma.
- Se estiver com fome, tem comida na geladeira e algumas outras opções de coisas que você pode preparar.
- Void, vai apenas me deixar aqui? Não vai me colocar lá dentro? - Ele não me respondeu.
Talvez ele havia finalmente assumido o lado de fazendo com que ele fosse menos horrível, como se fosse possível. Mas também, podia ser o fato de ele estar sob efeito de drogas e visivelmente alterado. Não estivesse pensando claramente.
Respirei fundo quando percebi que ele não falaria mais nada e então caminhei até a cozinha, abrindo a geladeira e observando a comida que tinha. Restos. Restos de Risotos caros, de pasta italiana da alta gastronomia, vieira defumada, cordeiro selado, ovo pochê. Restos gelados de alta gastronomia. Olhei para que mantinha os olhos fechados e uma respiração lenta, eu nunca havia o visto dormir, nessas duas semanas e pouco que eu estava aqui, essa era a primeira vez que eu me sentira sem medo, assistindo-o dormir.
Peguei o resto de comida e esquentei no micro-ondas, sentando na cadeira dele observando os monitores. Porque eu ainda estava ali? Porque não estava procurando uma maneira de fugir, ou até mesmo de me defender, me comunicar com a polícia? Comi devagar tentando segurar o choro que por algum motivo, insistia em dar as caras. Olhei novamente para a raiva surgindo em meu peito, ele era um monstro, mas eu não tinha capacidade de negar a atração por ele. Por eles. Terminei de comer e andei de um lado para o outro, estava me manipulando, não estava? Por isso eu não conseguia o matar, ter minha liberdade. Mas eu o odiava, como odiava. Mesmo com a atração que eu sabia que era puramente física, eu odiava cada centímetro daquele homem. Levantei a caminhei até meu cativeiro puxando a porta com força até ela travar. Eu queria ficar sozinha e tentar entender minha mente confusa. Com certeza havia acordado com o barulho, mas eu não o daria tempo de questionar. Eu estava tão confusa que o soluço veio sem eu perceber, o choro, o desespero. O que havia de errado comigo? Liguei o chuveiro e entrei embaixo da água com roupa mesmo, me limpando daquele monstro que havia me tocado a algumas horas atrás. Nojo, arrependimento, vontade. Era uma mistura de sentimentos que eu não conseguia fazer sentido. Tirei peça por peça, enquanto meu choro infantil se misturava a água do chuveiro e eu jogava as roupas no chão. Eu não tinha para onde ir, tinha? Qualquer coisa seria melhor do que presa contra minha vontade. Mas.. Eu estava ali contra minha vontade. Uma parcela minha queria estar ali, e essa pensamento me destruía. Eu senti um par de olhos em mim, mas eu não queria me virar para encarar Void. Ou mesmo que fosse , aquele covarde. Apenas terminei de tirar minha roupa e sentei na banheira abraçando minhas pernas e chorando sem previsão de cessar. Eu me odiava. Odiava ele.
- ... - Ele me chamou.
- Me mate, por favor. - Pedi entre o choro. Talvez morrer fosse a melhor solução para tudo isso. Para essa mistura de emoções, de vontades.
Era normal você odiar tanto uma pessoa, mas querer que ela tire sua roupa no momento em que põe os olhos em você? Era normal você querer matar uma pessoa, mas não ter coragem por medo de perder o único homem que já conseguiu verdadeiramente te satisfazer ou até mesmo sentir algo tão intenso na vida? Coloquei as mãos na cara.
- Eu não sei o que há de errado comigo. Me mate, por favor. - Void não disse nada, e mesmo que eu não pudesse vê-lo. Eu sabia que ele estava estático, com os músculos tentos e uma raiva estampada no olhar. Talvez não raiva de mim, mas sim dele mesmo. Mas seria fantasia demais um monstro como ele, sentir raiva de si mesmo por quase quebrar uma garota como eu. Era isso que ele queria, não era? Afinal, o trabalho dele era esse.Mas o trabalho dele não era limpar seus ferimentos e tentar de salvar, minha mente diabólica tentou justificar o monstro. Ele apenas quer você viva para satisfazer as vontades sexuais e psicopatas dele. O anjinho da minha mente tentou debater. Ouvi a porta de metal se fechar e trancar. Terminei o banho demorado, limpando meus ferimentos e colocando novas bandagens que havia deixado em cima da cama. Vesti-me e deitei na cama, me preparando para dormir, mas eu não estava com sono. Eu estava cansada, me forcei a dormir, mas nada então sentei na cama, a luz já estava apagada e eu sabia que estava me assistindo. - ... Eu havia me esquecido que esse era seu sobrenome. - Falei e ouvi a microfonia baixa das caixas. - Não fale nada... Por favor.
Void obedeceu e desligou o microfone.
- Algo mudou entre nós, não sei se isso faz parte do seu jogo de me destruir, manipular, quebrar, como havia me dito quando cheguei aqui, mesmo eu não entendendo o porquê, mas mudou. - Eu conversava com o breu, me sentindo louca, mesmo sabendo que ele estava me ouvindo.
- Vocês dois são seres ruins, até o lado que eu achava ser melhor é ruim, ele mesmo me admitiu. - Levantei, aproximando-me da porta. - Não sei porque vocês são assim, não sei se você conseguiu o que queria, mas o que eu sei é que você não me quer morta, por culpa dele. - Uma pontada atingiu meu peito. - Void, ... Me ajudem. - Pedi com a voz fraca. - Se não querem que eu morra... Apenas me ajudem. - Eu tinha que tentar.
A porta se abriu e a luz branca de fora invadiu o quarto. Void estava parado ali olhando em meus olhos, um olhar perdido, um olhar vazio e sozinho.
- Por favor. - Pedi e ele virou as costas caminhando em direção a porta na outra extremidade e abrindo-a. Uma corrente de vento me atingiu, um vento gelado da noite. Caminhei descalça até ele, hesitante, ele estava me deixando ir. Olhei para ele assim que alcancei a porta. Ele não conseguiu me olhar nos olhos. Coloquei o pé para fora e caminhei até o carro com certo receio. Para onde eu iria? Eu não tinha mais mãe, não tinha dinheiro, já que minha mãe estava morta.
Mas eu estaria livre, não estaria? Olhei para trás encarando , o mesmo olhar de antes, quebrado, a testa levemente franzida, esperando algo. Void fechou a porta e a luz da lua era a única coisa que iluminava meu caminho, e então eu corri, seguindo o caminho que ele havia feito com o caro e de alguma maneira eu havia memorizado, corri até chegar na rodovia e respirei fundo. A sensação de estar sozinha era libertadora, comecei a rir nervosamente acompanhada de um choro de felicidade misturada a tristeza. Que me deixava confusa. Caminhei com o corpo dolorido e cambaleando descalça no acostamento da rodovia por horas, eu já estava cansada, suja e meus pés estavam ralados. Eu só conseguia pensar em minha mãe, em meu trabalho, mas agora estava pensando em . Comecei a me arrepender de ter deixado meu cativeiro e então avistei um carro de polícia, o primeiro carro que havia aparecido em todo esse tempo vindo no sentido contrário. Um sorriso invadiu meus lábios enquanto eu balançava os braços tentando chamar atenção da viatura desesperadamente, gritando e pulando. A viatura parou, um homem saiu do motorista acompanhado de outro policial que pegava o rádio para comunicar o encontro estranho. Corri até eles vendo o policial jovem, alguns anos mais velho que eu e entre lágrimas e sorrisos eu apenas sussurrei.
- Me ajude, por favor.


Capítulo XI



Void

Eu não fazia ideia do que o desgraçado havia feito com meu bom julgamento, mas o que eu estava sentindo me fazia querer sumir. A maneira como ela me olhou quando eu a coloquei contra a parede, o desejo por mim, eu queria mais. Porém a dor em sua voz, ao nos pedir ajuda. Ele havia me influenciado tanto que eu senti dor quando ela pediu nossa ajuda. Deixe-a ir. Ele sussurrou para mim, tentei empurra-lo, mas abri a porta e seu olhar foi o suficiente para me convencer. Eu não queria matar aquela garota, eu não queria machucar ela. Que merda! Merda! O que havia de errado comigo? Se acalme. Ele falou e eu respirei fundo. Quando ela pisou pra fora, tudo que eu mais desejava no mundo era que ela desistisse, mas eu não conseguia falar, reagir ou ir atrás dela. Esse era meu trabalho, mantê-la aqui até que o velho gordo pagasse, e por culpa dele eu nem isso conseguia mais fazer. Ela me olhou uma última vez, e eu percebi que ela não iria ficar, e como se uma faca havia sido enfiada em mim, eu apenas fechei a porta e fugi, como ele fazia. Eu fugi para o canto mais escuro de nossa cabeça, com a imagem de seu olhar de liberdade me assombrando. Ela iria embora. Eu não a veria mais. Eu não queria respirar, viver ou falar. Apenas me esconder no escuro e abafar essa dor. Eu simplesmente não queria mais viver. Ela havia me mostrado o conforte e tirado de mim. Eu estava completamente quebrado.




A delegacia era pequena, fazendo jus a cidade pequena em que estávamos. O policial explicava agora para o xerife/delegado a história que eu havia contado a ele. Eu havia ocultado os detalhes do meu paradeiro e ocultado a existência de . O anjo em minha cabeça havia achado um absurdo e o demônio havia achado emocional demais. Mas eu... Eu apenas não queria vê-lo preso. Mesmo sem saber o motivo, eu apenas queria dar a chance de ele fugir, assim como ele havia me dado essa chance.
Era surreal demais pra mim estar livre depois de quase três semanas, parece pouco, mas... Pra mim havia sido uma eternidade. E estar aqui com um copo de refrigerante que o policial havia me dado em mãos olhando estática para a sala do xerife enquanto ele olhava do policial para mim e de mim para o policial, era de fato surreal. A cena parecia acontecer em câmera lenta aos meus olhos, em flashes, o delegado pegando o telefone e eu via o rosto de me olhando antes de fechar a porta, o delegado me olhando com descrença no olhar, afastando o olhar de mim e fechando a porta. O delegado desligou o telefone e abriu a porta de sua sala, caminhando até mim, eu estava feliz, e vazia ao mesmo tempo. O que aconteceria comigo agora?
- Nós vamos te levar para casa, senhorita . - O delegado disse abaixando para ficar na altura de meus olhos.
Concordei com a cabeça em um sorriso simples e cansado. Levantei junto com ele e caminhamos até a porta da delegacia. A sensação de tudo estar em câmera lenta sem me abandonar, nada parecia real, era como se eu estivesse me assistindo a distância. Entrei no carro, o delegado na frente junto com o outro policial que havia me socorrido e ele saiu da delegacia que ficava na beira da estrada a dez quilômetros de onde eu havia sido encontrada. A viatura entrou na rodovia e o som do carro me acalmou, fechei os olhos e vi o rosto contorcido de novamente. Porque eu estava pensando nele? Eu nunca mais o veria, e eu devia estar feliz com isso.
- Ninguém do FBI vai acreditar quando chegarmos com essa história na capital... Ruy Kangjoun você disse, você tem certeza, não tem? - Ele perguntou me olhando pelo espelho do carro.
- Sim. - Respondi simplesmente.
- Isso é grande Loyd. - O delegado disse ao policial. - Isso é muito grande.
E de um segundo para o outro uma luz forte invadiu meus olhos, fazendo com que eu colocasse a mão para proteger minha visão, o carro parou lentamente.
- O que está acontecendo? - Perguntei enquanto o policial parava o carro para ver uma caminhonete grande parada no meio da rodovia virado para nós com os faróis altos acesos.
- Fique no carro, vou ver o que é isso. - O Delegado saiu do carro e o policial tirou o cinto virando para trás.
- Está tudo bem, deve ser apenas algum fazendeiro com problemas. - E então dois barulhos altos, um seguido do outro. O policial se abaixou emburrando minha cabeça para que eu ficasse abaixada também e com urgência tentou alcançar o rádio da viatura. Ele pegou no rádio e antes que pudesse falar alguma coisa, mais um barulho alto, o vidro quebrando o sangue espalhou por meu rosto e minha roupa, o policial largou minha cabeça e pendeu para o lado do motorista, sem vida. O choque, o sangue que manchava meu rosto, o desespero. Eram tiros, minha ficha caiu, mesmo demorando. Tentei alcançar a arma do policial, mas a porta do passageiro foi aberta, alguém puxou o policial morto para o lado de fora antes que eu pudesse alcançar a arma para me defender. Eu sabia que não era , eu sentia que era algo pior, muito pior. A porta do meu lado abriu e eu senti dois braços fortes me puxarem para fora.
- Não! Me largue! - Eu gritei enquanto um homem alto, forte e oriental me arrastava até a caminhonete pelo asfalto. Me debatendo e gritando, eu tentei me desvincular do armário que me segurava, sem sucesso. Avistei o delegado caído no chão, sua cabeça aberta e seus olhos arregalados, o sangue e seus resto espalhados pelo asfalto, um grito de terror invadiu minhas cordas vocais enquanto o homem me jogava para dentro do carro me algemando e colocando uma fita sob minha boca. Outro homem igualmente grande caminhou até o corpo do delegado e o levantou colocando o corpo na caçamba juntamente com o outro policial. Tentei gritar, mas a fita apenas abafava meus gritos e me debati no meio dos dois homens que agora davam ré e dirigiam para o lado oposto.
- Cale a boca. - O home que havia me tirado do carro disse e eu apenas gritei mais, irritando-o o suficiente para dar com a parte de trás da arma em minha cabeça me apagando de vez.

A sensação era de que eu havia apenas piscado, mas meu corpo dava sinal de que eu estava inconsciente a bastante tempo, me mexi um pouco tomando consciência e fui desperta totalmente com água gelada sendo jogada em mim em uma sala escura, tentei me mover com dificuldade, mas minhas mãos estavam acorrentadas a parede, uma de cada lado do meu corpo, tentei gritar, mas a fita ainda estava ali e minha voz estava falha, rouca. Havia alguém na sala comigo.
- Você é uma guerreira e tanto, senhorita , esperamos três dias para que você acordasse. - Ouvi a voz do monstro. Três dias? Eu estava aqui a três dias. Ele acendeu uma lâmpada que ficava pendurada no teto e sorriu, o mesmo sorriso cruel do dia em que eu havia o conhecido. Ryu era um homem assustador, pior que . Ele se aproximou de mim e eu tentei me encolher mais a parede, com ele era diferente de . Esse homem não tinha um pingo de qualquer emoção. Ele puxou a fita da minha boca lentamente, fazendo com que a cola que já estava ali a dias puxasse os pelos do meu rosto, queimando minha pele.
- deve estar furioso. - Ele disse soltando uma risada de desgosto. - Ao menos que ele a tenha deixado ir, o que seria muito, muito ruim para ambos. - Ele falou levantando e limpando as mãos em um pano que o homem forte que havia me apagado o deu. - Ele parecia surpreso quando ligamos para ele hoje e dissemos que havíamos a encontrado a três dias atrás em uma delegacia. Ele está vindo pra cá agora. - Ele esperou minha reação, acho que ele esperava que eu estivesse com medo, afinal, se eu tivesse fugido, estaria.
- Eu fugi. - Menti.
O homem parecia curioso, talvez soubesse que estava mentindo.
- E como fez isso? - Ele me perguntou. Eu não sabia o que dizer, mas precisava dizer algo. Respirei fundo, a raiva me invadindo, deixando meu medo e minha fragilidade de lado.
- Eu esperei ele se drogar, - Minha voz saiu falha e rouca, pigarreei tentando normalizá-la. - O chamei e quando vi que ele estava fora de si, peguei uma faca e o ameacei. - Falei pensando no corte que eu havia feito em seu pescoço de manhã, eu estava tremendo. - Eu o nocauteei e então fugi. Talvez minha mentira fosse boa o suficiente para ele acreditar, ele não conhecia o cativeiro não tinha como duvidar de mim, algo que eu só saberia depois.
- Você é engenhosa, não é mesmo? - Sua voz era delicada, aveludada, nojenta. - Uma garota tão inocente e cheia de bondade ameaçar alguém... Com uma faca?- Ele negou com a cabeça e respirou fundo. - Achei que tínhamos um acordo, , eu falei que precisava de você... E eu não gosto quando as pessoas me negam algo. - Ele virou de costas para mim, esticou a mão para o outro homem que agora passava uma bandagem por sua mão como se enfaixasse.
- Eu não tenho combinado algum com você. - Falei e então cuspi em sua direção em sinal de desgosto, meu corpo estava travado devido à falta de movimento, mas ainda sim consegui demonstrar minha amargura.
Ryu virou para mim com o olhar sereno de quem não estava preocupado ou abalado. - Eu disse ao teu pai que mandaria uma lembrança sua para ele a cada dia que ele me ignorasse, dia três já acabou. - Ele disse aproximando-se de mim e então puxou meu cabelo para trás proferindo um murro em minha direção com a mão enfaixada. - Era para isso então - Gritei de dor, contraindo meus músculos para aguentar, mas eu estava fraca demais.
- Pode filmar, Caiam. - Ele disse calmamente antes de me dar mais um soco, fazendo minha cabeça bater contra a parede e meus cortes se abrirem ainda mais, fiquei tonta, tentando manter minha cabeça em pé. O homem que havia me apagado, Caiam, levantou uma câmera em nossa direção.
- Você tem apenas doze dias, Senhor . - Ele virou e então, mais um soco. Minha cabeça pendeu sobre meu corpo. - Acho que por hoje, um pouco de sangue será o suficiente, amanhã nós mandaremos um dedo. - Ele falou dando o último soco em mim e se afastando. Caiam que estava filmando desligou a câmera e a entregou a Ryu. Cuspi o sangue de minha boca, eu estava ficando calejada de tanto apanhar.
- Tenha bons sonhos, senhorita . - E então ele saiu, juntamente com o homem que ele havia chamado de Caiam, me deixando a mercê na escuridão de um lugar que eu não conhecia. Meu corpo não aguentou muito tempo, a perda de sangue, a fraqueza e tontura. Eu perdi consciência, não sabia se estava alucinando ou sonhando, mas tive algo parecido com um sonho.
estava nele, ele era diferente, normal, não era dividido. Ele sorria, algo que eu nunca havia visto ele fazer antes, e estávamos jantando com minha mãe que sorria para ele enquanto perguntava algo sobre seu trabalho. Eu não conseguia me ver no sonho, eu era apenas uma espectadora e eu estava fantasiando com uma vida normal onde se encaixava nela, onde minha mãe estava viva. Só podia ser um sonho mesmo, sonho do qual fui desperta depois de horas ouvindo os gritos de um dos protagonistas.
- Onde está essa vagabunda? - Sua voz estava alterada, enquanto se aproximava de onde eu estava sendo mantida.
A porte se abriu com tudo, deixando a luz fraca do lado de fora entrar, me cegando por alguns segundos e então entrou acompanhado de Ryu e os dois homens grandes que tentavam o alcançar.
aproximou-se de mim, claramente alterado, os olhos preocupados e arregalados, postura tensa e preparada, olhei-o nos olhos.
- Sua vagabunda. - Ele disse antes de acertar meu rosto com as costas das mãos.
Eu não entendi porque estava fazendo isso. Ele abaixou na minha altura, fingindo pegar em meu cabelo com força e sussurrou baixo e rápido antes que os dois chegassem perto. - Você está bem? Eles fizerem alguma coisa? - Olhei nos olhos de e não era Void. - Vou te tirar daqui. - Ele disse e então levantou, meu corpo estranhou a preocupação dele, porém, depois que ele havia me deixado ir embora, eu acreditava agora que existia ao menos uma simpatia dele por mim, além claro, de tesão.
- Solte ela para que eu a leve de volta. - Ele demandou, fingindo raiva novamente.
Agora eu havia entendido a jogada de , ele estava fingindo que eu realmente havia fugido para eu conseguir sair daqui com ele.
- Senhor tenha calma. - Ryu disse ao entrar na sala com os dois seguranças ofegantes por tentar correr atrás de . - Aqui, sente-se. - Ryu disse indicando uma cadeira de alumínio que se encontrava um pouco mais a frente virada para mim. hesitou, sem entender direito as ações de Ryu, mas sentou-se olhando para mim, observando meu rosto ensanguentado.
- ... Eu estou profundamente decepcionado. - Ryu falou puxando uma segunda cadeira e sentando de frente para ele, bloqueando parcialmente o nosso contato visual.
Eu estava aliviada em ver , ele estava ali para me "salvar", ao menos me tirar das mãos do monstro que sentava a sua frente. E como eu havia afirmado no dia que em ele me deixara ir, algo estava de fato diferente entre nós. A maneira como ele me olhava dizia algo que eu ainda não entendia, mas me dava segurança.
- Você não é de cometer erros... Alias... Eu acho que essa é a primeira vez que algo assim acontece. - Ele falou com curiosidade na voz. - O que me é estranho, , porque... Você já lidou com homens o dobro da sua força e nunca, nenhum conseguiu simplesmente fugir de seu alcance... - Ele pausou para olhar para ele com a testa levemente franzida e a boca entreaberta. - Me explica como uma garota que nunca lutou na vida... Conseguiu? - Ele perguntou. Meu coração acelerou, se contasse uma história diferente da minha, Ryu perceberia, o que nos colocaria em um perigo ainda maior.
- Se eu fosse pensar melhor sobre o ocorrido, eu diria que você a deixou sair, o que não seria algo bom, já que você pertence a mim até o final desse trabalho e se ele não se concluir... Você não ficaria livre, não é mesmo? - estava mudo... Ele estava pensando meticulosamente no que dizer, estava tenso e preocupado, eu via em seu olhar.
- Agora me diz, o que realmente aconteceu? - Ele perguntou. permaneceu mudo.
- Se você a deixou ir... Isso significa que você me traiu, e se ela fugiu, isso significa que você é incompetente. - A respiração de era audível, um claro nervosismo. Ryu não tirava os olhos do homem, um sorriso macabro brincando em seus lábios enquanto os dois seguranças estavam parados à porta. decidiu falar.
- Apenas deixe eu levá-la de volta ao cativeiro, farei questão que isso não aconteça novamente. - Ele barganhou de forma mecânica.
- Responda minha pergunta, !- Ele gritou.
nem piscou, apenas mordeu o lábio em sinal de frustração.
Ele estava debatendo, sabia que se dissesse que eu fugi eles fariam algo comigo e não me deixariam voltar com ele, porém se ele dissesse que me deixou ir, eles provavelmente o matariam ou algo a ver com a liberdade dele, o que eu ainda não sabia o que significava. olhou pra mim, atravessando o olhar de Ryu o ignorando. Eu sabia o que ele ia fazer, ele estava abrindo mão da "liberdade" dele para me proteger, uma reação que eu nunca esperara do homem que me dava medo a três semanas atrás. Ele não podia escolher agora para se redimir, ele colocaria tudo a perder, então arregalei os olhos e balancei a cabeça negativamente sibilando "não".
- Eu a deixei ir. - Ele disse sem olhar para Ryu. Seu olhar penetrado em mim. Não! Eu soltei a cabeça, derrotada e esperando o pior.
Ryu relaxou na cadeira, soltando uma risada curta e irônica.
- E porque faria algo assim, ? - Ele perguntou em curiosidade e irritação na voz.
- Porque estou apaixonado por ela. - Ele disse sem tirar os olhos de mim.


Minha respiração falhou.


Eu olhava nos olhos de e não sabia como reagir, apenas senti o tempo parar. Não era simpatia, era algo além - Não era parte do plano, não era isso que queríamos, mas agora é inevitável. Não é manipulação ou jogo, é algo real... Confuso, porém real.
Ele falava olhando pra mim, como uma resposta as coisas que eu havia dito para ele antes de ele deixar eu ir embora.
Mas ele havia escolhido o pior momento para declarar seus sentimentos a mim, porque em seguida Ryu socou forte o suficiente para ele cair no chão, os dois homens caminharam até ele, um segurou por trás e o outro socou meu captor sem dó. Fechei os olhos, evitando olhar. era forte, e provocativo. A cada soco que davam nele, ele voltava a cabeça para a posição inicial e olhava nos olhos de Caiam, o provocando com um sorriso nos lábios. Após vários socos, foi ficando fraco e seu rosto estava cada vez mais inchado, eu podia ver que o homem iria matá-lo se continuasse.
- Por favor, pare! - Eu gritei. Ryu apenas me olhou, um sorriso macabro e inconformado nos lábios. - Pare, eu... - Eu precisava pensar rápido. - Eu sei onde meu pai está. - Menti. Na verdade, não era uma completa mentira, havia me mostrado a foto dele no Cigar Bar que eu já conhecia a algum tempo e isso era algo que eu poderia usar. Ryu olhou para os dois homens, Caiam parou de bater em e limpou a mão no terno preto que usava, já o outro homem, largou , que caiu no chão sem se mover. Ryu apenas me olhou, esperando uma informação relevante.
- Meu pai frequenta um bar... Ele frequenta desde que eu era criança. Chama-se Fuente Don Arturo, eu... - Falei olhando de para Ryu, ele não estava se mexendo. - Eu não sei onde fica, mas sei que ele vai lá todas as noites. É um bar recluso, apenas as pessoas mais ricas da cidade podem entrar, não qualquer um. - Falei e ele riu.
- Eu não sou qualquer um, querida... - Ele aproximou-se de mim. - Eu sou o homem mais rico da Coreia do Sul. - Ele terminou dizendo com um sorriso na cara. - Prendam o garoto, vamos... Precisamos confirmar essa informação.
Os dois homens colocaram na mesma parede que eu, a mais ou menos dois metros de distância, prendendo seus braços, mas ele estava desacordado.
Ryu saiu da sala e os dois homens saíram logo em seguia, fechando a porta, deixando a única iluminação que vinha da lâmpada iluminando parcialmente o rosto de .
- , acorde... - Chamei... - ...
Ele se mexeu um pouco, abrindo levemente os olhos e despertando assustado. Ele olhou em volta, lembrando de onde estava, mesmo que apagado por só alguns minutos.
- ... - Ele me chamou.
- Estou aqui. - Falei e ele virou o rosto pra mim.
- Você está bem? - Ele perguntou tentando puxar as mãos das correntes sem sucesso.
- Sim... Eu... Eu acho que sim. - Falei olhando pra ele. Ele suspirou, avaliando nossa situação. Alguns minutos de silêncio se passaram, e ele finalmente falou.
- Sinto muito por isso. - Ele disse, com a voz derrotada, algo que eu nunca ouvira dele antes.
Absorvi seu perdão, sem saber como responder à aquilo, então apenas fiquei quieta.
também não falou nada, uma clara tensão no ar devido as declarações que ele havia feito há pouco. Eu também estava pensando no que ele havia dito, mas sem coragem de tocar no assunto.
- O que Ryu quis dizer com "você não ficaria livre"? O que ele tem contra você? - Perguntei tentando evitar o assunto que nos assombrava. mordeu a boca, debatendo consigo mesmo se responderia ou não, até que decidiu fazê-lo suspirando.
- Eu cometi um erro... Nós cometemos um erro. - Ele começou a me contar. - Eu estava em um trabalho em Xangai, na China. Algo simples, eu tinha que interceder um caminhão que carregava armamento e levar esse armamento até uma doca, onde meu cliente da época havia marcado comigo. A grana era alta, e eu achei o trabalho fácil, o que eu não sabia era que o carregamento já era do cliente e ele estava fingindo um "assalto" para não ter de pagar uma dívida que tinha com outro empresário.
- Ryu... - Falei e ele concordou com a cabeça.
- Quando entreguei o armamento para o cliente, ele disse que me pagaria dentro de alguns dias, o que era comum com esses tipos de trabalho, mas ele não o fez... - tentou mais uma vez puxar os braços, sem sucesso. - O que me deixou furioso já que eu tinha planos, então eu decidi ir atrás do cliente. Não foi fácil de localizá-lo e todos os meus informantes me diziam que ele havia sumido do mapa devido a esse empresário que ele devia. - se ajeitou contra a parede. - Quando descobri o esquema que ele havia feito do armamento eu fiquei furioso, isso poderia prejudicar o meu trabalho, e a reputação de Ryu não era das melhores já que todos os contratos que tinham na rede tinham medo de trabalhar para ele, então eu tive a ideia imbecil de matar o cliente, e com ele se foi a localização de onde estavam as "armas". Só depois de matá-lo e ser pego por Ryu que eu havia descoberto que as balas eram feitas de ouro e havia aproximadamente 188 bilhões de dólares em ouro naquele carregamento.
Respirei fundo, e engoli em seco.
- Ryu me deu as seguintes opções... Encontrar o carregamento ou trabalhar para ele até a dívida ser paga e eu não encontrei o carregamento.
- Mas isso significa que você trabalha para ela a anos. - Falei inconformada.
- Oito anos. - suspirou. - Eu tinha apenas dezesseis anos de idade naquela época, abandonado pelos meus pais aos três anos de idade porque eu era "defeituoso", vivi na rua por muito tempo, mas eu nunca estava sozinho. - Ele sorriu, provavelmente se referindo a Void. Eu nunca havia o visto sorrindo genuinamente, apenas em meu sonho. - Aos nove anos de idade eu estava na Rússia, não sei como e alguns homens perdidos na vida me usavam para distrair policiais, potenciais vítimas, as vezes furtar coisas aqui e ali. Aos dez... eu matei pela primeira vez... - Seu olhar vagou, em transe com a lembrança. - Um dos criminosos havia roubado do resto do grupo e o então líder queria me ensinar uma lição do que acontecia com traidores e me deu uma arma.
Fechei os olhos imaginando a criança de dez anos que era, com uma arma na mão e depois puxando o gatilho, senti pena.
- Eu adorei a sensação. - Os olhos dele brilharam e a pena foi embora. - A sensação de poder que tirar a vida de alguém te dava, você tendo o controla da situação. Eu gostava de uma arma em minhas mãos, ele preferia a violência física e a tortura psicológica. Eu sempre fui mais sutil... Mais... Humano talvez. - Eu via o humano nele agora, enquanto ele me contava um pouco de sua história. pigarreou, como quem estava perdendo o objetivo. - Esse era meu último trabalho, eu completaria o valor que havia perdido com o dinheiro que seu pai pagasse e estaria livre pra voltar pra minha vida. Ou... O que restou dela. - Ele concluiu parecendo se lembrar de alguma coisa.
- Mas... - Engoli em seco. - Mas você acabou se... - Tentei falar, sem sucesso, aquilo me parecia um absurdo. Ele não era capaz de sentimentos, era? Ainda mais com a breve história que ele havia me contado.
- Não precisa dizer. - Ele se referia a "Paixão". - Mas sim... Isso mudou as coisas.
- Porquê? - Perguntei. Que diferença faria se ele estava ou não... Eu não consegui nem dizer... Sei lá por mim. Se meu pai pagasse, ficaria tudo bem, certo?
- ... Ryu não vai te deixar viver... Mesmo que seu pai pague, você sabe demais e pode colocar o negócio dele em risco. O FBI só está procurando provas o suficiente para prendê-lo. - Ele falou em derrota. - Ao menos comigo aqui, você tem uma chance de sair viva disso e desaparecer.
- Desaparecer? - Perguntei, mas eu já sabia o porquê. Ryu nunca me deixaria em paz, sempre me procuraria até eu estar morta.
- Sim, desaparecer. - Ele concluiu e não disse mais nada. - Mas antes, precisamos sair daqui.
- Como? - Perguntei, tentando puxar as mãos, sem sucesso.
- Precisamos dele. - Ele falou, se referindo a Void.
- Então troquem.
- Não dá. - Ele disse agora com receio. - Ele desapareceu.
Meu coração acelerou e minha boca ficou um pouco seca, porque eu estava reagindo assim? Void havia desaparecido, como? Porquê? Olhei para , minha respiração fora do normal.
- Trocamos no dia em que você foi embora, assim que fechou a porta e eu não escuto ele a dias. - admitiu com tristeza na voz.
- Porquê? - Perguntei com um leve toque de desespero na voz. Não era porque me incomodava o fato de Void ter desaparecido e sim porque nós precisávamos da sua ajuda, apenas isso, eu acho.
- Ele sente o que eu sinto, , esse sentimento é tão dele quanto meu, porém a maneira como ele reagiu a você indo embora foi diferente de mim. Ele é o intenso, o louco, o sem limites. Como eu disse, eu sou o mais humano, pra mim, a melhor coisa foi você ter ido embora, pra ele... Você o destruiu.

Eu só conseguia pensar nisso, se havia dito qualquer outra coisa eu não ouvira, porque tudo que eu conseguia pensar era em Void, e nas palavras de Pra ele, você o destruiu. eu havia feito com ele, o que ele queria ter feito comigo antes de tudo acontecer.


Capítulo XII


ATENÇÃO AVISO DE GATILHO: TENTATIVA DE ESTUPRO.
- Ele desapareceu pra sempre? - Perguntei depois de sair de meus pensamentos, isso significava que Void estava morto?
- Não... Ele está aqui, consigo senti-lo, mas não o escuto... Ele nunca fez isso antes, e isso me preocupa. - mantinha um olhar vago, mas eu percebi que ele estava procurando.
- Se vocês compartilham os mesmos pensamentos, o que possivelmente ele poderia fazer pra nos tirar daqui que você não poderia fazer? - Perguntei em confusão a desconforto, depois de saber como Void havia se sentido eu estava profundamente em debate comigo mesma.
- Não é assim que funciona... - Ele disse respirando fundo.
- Então me explique , porque eu estou tendo dificuldade em entender. - Falei irritada, talvez por Void ter sumido, talvez por saber que eu havia o machucado, ou até mesmo porque eu queria apenas sair dali e garantir minha vida.
- Nós compartilhamos sentimentos fortes, sim, como raiva, dor, tristeza... amor. - Ele falou evitando me olhar. - Mas nós temos segredos e aspectos de conhecimento, gostos e personalidade que não compartilhamos, por exemplo, eu odeio banana, já ele, gosta. - falou com preguiça.
- Então você está dizendo que... Você pode ter total conhecimento do que aconteceu na segunda guerra mundial com todos os detalhes de um professor de história, mas ele não? - Perguntei.
- Sim. - Ele afirmou.
- Por ele ser mais impulsivo, sua capacidade de improviso é mais aguçada. - Ele disse parecendo um pouco irritado com o fato.
Isso significava que Void sabia como nos tirar daqui de alguma forma. Mas com ele desaparecido, isso era difícil, e eu não sabia como o fazer voltar.
- O que vamos fazer? - Perguntei, balançou a cabeça, ele realmente não sabia e pareia zonzo, do meu ponto de vista.
- Eu estou muito cansado. - Ele falou, seu rosto todo ensanguentado, cortes abertos, seus olhos e bochecha inchados.
- não durma, por favor. - Pedi e ele arregalou os olhos, tentando mantê-los abertos.
- Eu não consigo... - Ele falou, os olhos dele levemente pesados.
- Fale comigo, ... Aqui... - Chamei-o, tentando mantê-lo acordado. Ele havia batido a cabeça com força, se dormisse poderia não acordar tão cedo, ou não acordar de jeito algum. - Porque estava bravo comigo aquele dia no carro, ? - Perguntei, eu não queria falar sobre o assunto, mas era a única maneira de mantê-lo acordado. franziu o cenho, em dúvida e irritação.
- Você havia dito "vocês", e isso me irritou. - Ele afirmou agora mais desperto. - Parece infantil, mas... Eu não aguento mais dividir as coisas com ele... E eu tinha você só pra mim... - Ele colocou um sorriso malicioso em seus lábios Ele me tinha? Nunca! Ou tinha? - Pelo menos seu interesse... Ele era só direcionado a mim, eu achava.
Fiquei muda, igual no dia do carro, eu não sabia como me explicar... Porque não havia uma explicação, eu realmente tinha interesse em ambos.
- Não é justo... Porque ele só se sente assim porque eu havia me interessado primeiro, o sentimento não é dele, é meu, e pra ser honesto, ele havia repudiado o sentimento nos primeiros dias.
Eu havia ficado irritada, e não sabia porquê.
- Em que momento ele decidiu dar abertura? - Perguntei mais por curiosidade do que interesse... Eu acho.
revirou em seus pensamentos, com raiva de si mesmo.
- No dia do posto, quando você me beijou. - Ele falou. - Ele estava quieto, puto na verdade porque eu estava a levando para fora, mas quando você me beijou ele ficou em silêncio... Ele queria trocar... Eu não deixei.
- Se ele havia gostado tanto, porque me bateu daquela forma quando voltamos? - Perguntei irritada.
- Você precisa entender que nós nunca sentimos nada, nunca nos interessamos assim por ninguém, e sentir algo assim para alguém com a cabeça dele pode ser bem confuso, ele não sabe retribuir da mesma forma, ele age com violência diante à confusão. - Ele defendia o companheiro de consciência.
- Não vou cair nessa ladainha de nunca se interessou por ninguém, . Vai me dizer que vocês eram virgens e nunca haviam beijado uma garota? - Eu estava fazendo de tudo para colocá-lo como vilão na história, eu não queria aceitar uma justificativa para a violência dele, porque não tinha.
- Não seja tola... Nós já sentimos atração sexual por diversas mulheres, e acredite muitas que tinham muito mais a ver com a gente do que você. - Ele disse provocativo um sorriso nos lábios como quem lembrava de alguém. Bufei em silêncio, quase como se eu tivesse ficado ofendida... com... Ciúmes. Mas é claro que não.
- Já até achei que havíamos nos interessado assim antes... Mas não... Nada foi igual a isso, eu achei que a gente era incapaz de sentir algo assim. Que não merecíamos.
- Chega. - Eu falei. Eu não queria ir mais a fundo e ouvir se declarando novamente para mim, eu me recusava, mas de alguma forma eu precisava mantê-lo acordado. - Ele te tocou. - Ele falou com o maxilar tenso, os dentes rangendo um contra o outro. Sim, ele havia me tocado, mas de que forma ele se referia? - Eu tentei o impedir, sabia? Na hora que você virou de costas e ele sentiu vontade de te tocar, eu tentei impedi-lo, mas ele não deixou, me empurrando mais a fundo no canto da nossa cabeça. - Ele se referia a essa forma.
- Não é como se você não tivesse feito a mesma coisa com ele. - Falei em minha defesa e defesa de Void, meu corpo estava cansado, já começando a dar sinais de fraqueza novamente.
- Ele me fez assistir, sentir... Me fez sentir como você desabou sobre ele de forma mais intensa que comigo, de forma mais entregue que comigo... Eu queria matá-lo. - Ele admitiu a raiva em seu tom de voz, amargura.
Fiquei com vergonha, eu realmente havia me entregue a Void de maneira mais crua. Talvez fosse a maneira que ele falava comigo, o jeito sujo que eu nunca soube que gostava. Eu estava começando a ficar cansada também a esse ponto.
- ... Não vou conseguir te manter acordado. - Falei sentindo meu corpo vacilar.
- Não se preocupe... Eu dou um jeito. - Ele falou com a voz fraca a amargura ainda dançando em seu tom de voz.
Ambos fracos e derrotados. Eu apenas apaguei, com sede, fome e dor e com a incerteza se iria acordar ou não.

- Acorde! - Ouvi a voz de Caiam e logo em seguida um balde de água fria em mim. Água! Eu precisava de água.
- Bom dia, senhorita, espero que tenha descansado. - Ryu falou enquanto eu recuperava meu fôlego.
- Eu preciso de água. - Falei entre as respiradas por ar.
- Caiam, dê água a garota, não queremos que ela morra. - Ele indicou enquanto o segundo homem que o acompanhava fazia o mesmo que Caiam havia feito comigo, com .
despertou imediatamente, dando-me um alívio temporário, agora tínhamos que dar um jeito de sair daqui antes que Ryu tomasse alguma decisão que nos custasse nossas vidas.
Caiam pegou outro balde de água que estava ali e molhou um pano limpo na água colocando em minha boca. Suguei o líquido de pano, sentindo minha garganta arder, mas se aliviar. Caiam fez o percurso até o balde novamente e voltou dando-me mais água. Seu olhar para mim era de desprezo, pensei nos dois policiais que ele havia matado, o que ele havia feito com o corpo deles? Senti ódio do homem. Se eu pudesse matar alguém um dia, seria ele.
- Senhorita , parece que sua informação sobre o Cigar Bar era verdadeira e isso me deixa verdadeiramente feliz.- Ele sorriu com seu trocadilho. - Porém seu pai decidiu tirar umas férias pelo que disseram alguns sócios que frequentam o mesmo lugar, e eu acredito que você saiba onde ele está, não sabe?
Caiam afastou-se de mim, e eu olhei para Ryu, eu não sabia do que ele estava falando.
- Onde ele está? - Ele me perguntou, arregalou os olhos ele sabendo que eu não tinha essa informação.
- E-eu não sei. - Falei temendo.
Caiam venho em minha direção e gritou sem pensar.
- Não encoste dela! - estava irado, seus olhos focados em Caiam e Ryu que nos encarava em divertimento com a defesa do seu contratado.
- Ora, ora... Essa paixão toda vai me deixar emocionado. - Ryu falou com falsidade na voz e depois começou a rir, uma risada maléfica.
- Ela disse que não sabe... - Ele falou agora mais baixo, olhando para Ryu. O coreano caminhou em direção a e abaixou em sua frente.
- Eu acho que está na hora de te dar uma lição por ter deixado nossa convidada fugir... Não acha Caiam? - Ele disse e virou para o segurança que não respondeu.
- Pode me bater o quando quiser, Ryu. - falou em tom provocativo. Ryu levantou, olhando de cima para com irritação no olhar.
- Caiam, pegue a garota, faça-o assistir. - Ryu falou com desgosto e virou de costas, saindo da sala. Meu corpo tremeu, enquanto Caiam e o outro homem pegaram , que se debatia. Eles o tiraram de suas correntes e o colocaram na cadeira, de frente para mim, amarraram seus braços e colocaram uma fita em sua boca.
berrava com a fita na boca, talvez por raiva, ou talvez porque agora o outro homem segurava sua cabeça para que pudesse assistir enquanto Caiam andava em minha direção colocando um soco inglês. Precisávamos de uma fuga daquele lugar, agora!
- Void. - Chamei antes de Caiam me dar um tapa no rosto, meu rosto virou-se com força, as mãos do homem eram grandes.
- Eu vou me divertir com você antes. - Caiam disse tirando seu paletó.
- Caiam... - O outro homem chamou, quase que o repreendendo enquanto segurava a cabeça de que esperneava na cadeira com força, ele tremia de raiva igual louco.
- Cale a boca, Alfonse. - E então ele prosseguiu, primeiro ele tocou meus cabelos. Eu olhava para que transparecia raiva no olhar, depois ele desce a mão por meus ombros e agarrou meu seio.
- Tire a mão de mim! - Gritei empurrando o homem com meus pés. Caiam deu um soco um meu rosto com o soco Inglês deixando-me desnorteada.
- Void... - Chamei com a voz mais fraca e embolada.
fechou os olhos, com medo de assistir o que iria acontecer em seguida.
- Cale a boca, vadia. - Caiam falou, passando a mão em minha barriga, puxando meu vestido para cima, deixando-o preso nas correntes. A esse ponto meus olhos já enchiam de lágrimas e o medo de ser violada não me permitia mais mexer. Eu estava apenas de roupas íntimas, vulnerável e exposta quando subiu as mãos por minha coxa chegando perto da minha parte mais íntima. Alfonse largou a cabeça de e virou de costas, aparentemente enojado com a atitude do colega. deixou a cabeça pender para baixo com os olhos fechados, preso a cadeira. Numa última tentativa eu tomei toda coragem que ainda que restava em mim e chamei por Void.
- Void... Eu preciso de você. - Caiam não gostou de minha audácia e levantou o punho mais uma vez para me bater, olhei para e então ele levantou o olhar. Um olhar doentio e maligno. Um olhar preenchido e transbordado de raiva. O olhar que faria qualquer mulher sair correndo e qualquer homem se acovardar. O olhar mais horrível e maravilhoso que eu já havia visto em toda minha vida. Era Void.
Void se jogou para trás, quebrando a cadeira de alumínio e assustando Alfonse que agora havia se virado e olhava chocado para ele. Ele se desvinculou das cordas que amarravam suas mãos com facilidade e rapidez e antes que Alfonse pudesse reagir ele lhe deu um soco, o nocauteando imediatamente. O home caiu no chão, estatelado e sem consciência.
Caiam levantou surpreso com a ação de e correu em direção a ele com o soco Inglês, mas Void apenas abaixou e pegou um pedaço do alumínio com calma e a raiva e malignidade transbordando em seu olhar. Assim que Caiam chegou perto, ele lançou um golpe contra meu captor, que apenas se desviou com suavidade em seus movimentos. Caiam parecia irritado, e então se jogou contra o rapaz. Em um movimento rápido, Void atravessou o material contra a garganta do segurança, que largou o soco inglês e tateou o objeto que estava atrelado a sua anatomia algumas vezes, tentando respirar e cambaleando. Caiam caiu para trás, se arrastando até chegar a parede. Void caminhou lentamente até ele e abaixou para ficar na altura de seus olhos. O homem esperneando e se debatendo por ar. Eu nunca havia visto um olhar tão mortal, tão sanguinário quando o dele antes de dizer:
- Nunca mais toque nela, seu desgraçado. - Ele então pegou no pedaço de alumínio empalado no homem e puxou com força deixando o fluxo de sangue agora fluir, fazendo com que o homem colocasse a mão onde estava antes o furo e tentar estancar, sem sucesso. A vida de Caiam foi se esvaindo e colocou a mão em seus bolsos, pegando uma chave e caminhando até mim. Ele me libertou das correntes e me ajudou a levantar enquanto eu arrumava o vestido de volta sobre meu corpo. - Precisamos ir. - Eu apenas concordei com a cabeça. Virei para Caiam, que contraía enquanto ele perdia consciência e cuspi o nojo e desgosto de ter sido tocada por ele.
Void me puxou pela mão porta afora, estávamos em um corredor pequeno, com espaço suficiente para ele ir na frente e eu atrás. O corredor era quente e com grades com uma meia luz, que fazia parecer mais a saída de emergência de um esgoto. A umidade e temperatura incomodavam e de alguma forma, Void sabia para onde estava indo. Fui sendo puxada por ele, sempre olhando para trás com medo de alguém aparecer e nos pegar.
Void parou no final do corredor, empurrando uma porta que parecia uma saída de emergência e assim que a luz entrou pela porta, o barulho de carros, buzinas e pessoas invadiu meus arredores. Nós estávamos na cidade, na minha cidade. Olhei em volta reconhecendo as ruas cheias e os postes amarelos acesos, estávamos em um bairro mais afastado próximo a linha do trem, talvez por isso a umidade e temperatura no corredor. Void atravessou a pequena multidão que estava aglomerada em frente ao bar, vestindo camisetas de time de futebol americano, eu estava um pouco tonta, estar num lugar com muita gente depois de tanto tempo estava me deixando em pânico. Void continuava me puxando por entre os becos e ruazinhas escuras que nos aproximava até chegarmos num carro. Ele olhou em volta se certificando que não havia ninguém na rua e em um golpe certeiro com o cotovelo quebrou o vidro do motorista, abrindo o carro e destravando pra mim.
Eu estava tonta e sem ar, a sensação era de que tudo girava e depois voltava girando para o outro lado, meu captor havia ligado o carro, com a fiação e em questão de segundos, estávamos rapidamente numa rodovia. O silêncio e o som dos pneus do asfalto não pareciam me acalmar, ao contrário eu estava ofegante, o ar cada vez mais difícil de entrar em meus pulmões.
- Ei, ei, ei... - Void me olhou, ele também claramente ofegante. - O que está acontecendo?
Eu coloquei as mãos na cabeça, agora mais tonta do que nunca.
- Eu acho que estou tendo um ataque de pânico. - Falei com a voz aguda.
Ele apertou os lábios sem paciência.
- , não temos tempo pra isso agora... Eu acabei de fugir com a única garantia de pagamento de um dos homens mais poderosos e perigosos do mundo, então... Tente aguentar! - Ele falava enquanto dirigia o mais rápido que podia.
Eu tentei fazer o que Void havia me pedido, mas eu simplesmente não conseguia. Eu estava exausta, confusa, machucada, dolorida e pior de tudo, eu ainda estava fugindo.
Com esse pensamento, minha situação pareceu piorar e Void foi obrigado a parar no acostamento e pegar em meu rosto para me obrigar a olhar para ele. Ele estava com os olhos duros, levemente avermelhados ao redor, o olhar de quem havia passado por tudo e mais um pouco, que nunca havia conhecido piedade ou bondade na vida, Void me encarou profundamente e ditou.
- Aquele homem mandou eu matar sua mãe, aquele homem pediu que eu tirasse sua liberdade, te torturasse e destruísse, o que isso faz você sentir? - Ele perguntou uma malignidade brincando em seu tom.
- Raiva - Eu falei enquanto tentava respirar.
- Então pegue toda essa raiva e foque nela, foque apenas nisso e em nada mais, porque se você quiser viver, boneca, é só com ela que você poderá contar. - E então ele soltou meu rosto voltando o olhar agora completamente para estrada e partindo.
De uma forma que eu não conseguia entender, aquilo havia me ajudado. Toda a raiva que eu sentia por aquele homem agora cegavam minha visão, cegava forte o suficiente para eu apenas respirar fundo e começar a planejar aquilo que eu nunca imaginei pensar um dia: minha vingança.



Capítulo XIII


Devíamos estar a mais de vinte e quatro horas na estrada, a parte ruim de parecia concentrado e quieto, até demais. Me perguntava se isso se devia ao fato de eu ter partido, mas conhecendo o gênio do meu captor menos humano, eu preferia não tocar no assunto tão cedo. Eu não sabia para onde estávamos indo, mas não me importava, de alguma forma eu sentia que estava me levando para um lugar onde eu poderia ficar segura, longe de Ryu e de toda essa confusão. Talvez ele fosse embora depois de garantir minha segurança, e eu ficaria... sozinha. Sozinha para começar uma vida nova, do zero. Disse meu lado otimista e ético. Sozinha para ser achada por Ryu e morrer se for embora, isso sim. Meu lado diabólico e negativo debateu. Se fosse embora, eu poderia sim começar do zero, mesmo contra minha vontade, porém também eu me sentia menos segura sem o monstro assassino, cruel e psicopata que havia se declarado para mim ao meu lado. Virei os olhos rapidamente para meu monstro, o olhar focado e sem emoção, tão severamente sério que me dava a sensação de que ele estava em modo automático, o maxilar marcado e tensionado, como sempre e a boca fechada em uma linha reta. Esse era ele. O monstro que tinha sentimentos por mim, como foi que tudo isso aconteceu? Virei para a frente, nada fazia mais sentido. Era como seu eu estivesse vivendo um filme, nada parecia real. Em menos de um mês eu havia sido tirada da sociedade por um psicopata, torturada por ele, beijada e satisfeita por ele, liberta por ele e por fim... Salva por ele. A quantidade de contradições que me cercavam trazia novamente à tona a ideia de que talvez eu estivesse traumatizada. Como alguém poderia estar bem com tudo isso? Eu estava bem? Respirei fundo e foi o suficiente para me olhar.
- Está tudo bem? - Ele perguntou, repetindo as palavras que eu havia acabado de me perguntar e voltando o olhar para a estrada. Sua voz estava calma demais, série demais... Fria demais.
- Sim. - Respondi apenas. Eu não queria perguntar do porquê daquela reação. Ele estava batalhando seus próprios demônios naquele momento e eu não queria interferir. Como eu havia dito antes de ele me libertar, nossa relação agora era diferente, mas mesmo assim Void era descontrolado e imprevisível. - Para onde estamos indo? - Resolvi por fim perguntar.
Void respirou fundo como quem estava esperando outro tipo de pergunta, mas logo se recompôs para responder.
- Tem uma cidade aqui perto, conheço algumas pessoas lá que podem nos ajudar por agora... - Ele falou no mesmo tom de antes. conhecia pessoas que poderiam ajudar... isso significava que ele tinha amigos? Essa ideia era tão surreal para mim quanto a ideia de que ele tinha sentimentos por mim. Olhei para ele novamente na espera de uma continuidade, ao menos uma explicação sobre essas "pessoas que podem ajudar". apenas me olhou com curiosidade.
- O que foi? - Ele perguntou com irritação na voz, fazendo-me mudar minha postura.
- Só estou curiosa para saber quem são. - Falei num tom baixo, demonstrando meu desconforto.
balançou a cabeça negativamente, talvez tivesse irritado com o fato de que eu estava exigindo satisfação mesmo depois de tê-lo "abandonado".
- Não posso lidar com isso agora. Fale com seu namorado. - E numa questão de segundos ele se escondeu atrás do humano sem nem me dar a chance de protestar.
- O que há de errado com vocês? - Perguntei claramente irritada.
- Ele está perguntando a mesma coisa sobre você. - O lado humano do monstro tomou seu lugar.
A mudança de postura era visível, tudo com era mais leve, diferente de Void. Até mesmo a suavidade na voz mudava.
- Não tem nada de errado comigo, se ele realmente acha que a escolha certa a se fazer quando se está em 'catividade' é ficar em cativeiro ele está profundamente em necessidade de uma aula. - Bufei silenciosamente e cruzei os braços.
- Você parece uma criança. - falou com um sorriso divertido no rosto, virei bruscamente na iniciativa de soltar ofensas pra cima dele, mas fui abruptamente interrompida pela visão de seu sorriso.
Era um sorriso divertido, inocente... Normal. Mordi o lábio inferior admirando abertamente o sorriso, pareceu não perceber e continuou com o sorriso brincando nos lábios.
Não pude deixar de imaginar uma vida normal para o homem. Ele acordando de manhã para ir ao trabalho, talvez até mesmo jogando algum esporte. Mas não... Esse homem de sorriso espetacular era um homem marcado por cicatrizes, traumas, mortes, violência e dor. Quando finalmente percebeu que eu o encarava ele desmanchou o sorriso para vestir o uniforme de soldado de guerra sem sentimentos. Afastei os pensamentos e voltei a perguntar.
- Já que ele está sem paciência pra me responder, ao menos pode me dizer quem são as pessoas da qual ele se referia? - Me ajeitei em meu banco ao dizer.
- Alguns conhecidos ao longo da vida... São como nós, Assassinos de Aluguel, Mercenários, Ladrões, pessoas em quem podemos confiar.
Não pude deixar de ouvir meu coração palpitando em meu peito. Ele estava me levando para um lugar onde havia outros iguais a ele, loucos, psicopatas e assassinos. E principalmente essa ideia de que eles podiam confiar nelas.
- E porque ele está dizendo que você é meu namorado, ele está com ciúmes ou algo assim? - Perguntei ainda irritada. - Quero deixar bem claro que não temos nada, sim... Transamos e outras coisas aconteceram, mas... Só, não vai acontecer novamente. - Falei duvidando de minhas próprias palavras.
- Eu acho uma ótima ideia. - falou simplesmente, chamando minha atenção. - O quê? Você parece decepcionada. - Ele falou rindo em divertimento.
Eu me sentia decepcionada. Uma coisa era eu declarar que não podíamos ter nenhum tipo de relação que fosse, mas tenho que admitir que feria meu ego pensar que agora eles também não queriam.
- Então ótimo. - Falei simplesmente.
O silêncio se instalou entre nós até que chegássemos a nosso destino. E nada me prepararia pro que eu estava prestes a conhecer.


Fim do mundo. Era o que passava pela minha cabeça enquanto estacionávamos o carro em frente a uma lanchonete de estrada no meio do nada. Era isso... Uma lanchonete pequena e acesa com o nome de "Freddie's". Haviam alguns carros parados na frente, a maioria carros antigos, alguns quebrados e motos, muitas motos, mas pela vidraça do estabelecimento não se via ninguém e não parecia o tipo de lanchonete onde os personagens monstruosos que havia citado frequentariam. Descemos do carro e sussurrou um "Fique perto" enquanto passávamos pela porta de entrada onde se podia ouvir um sino soar. O lugar tinha uma temática de anos cinquenta e estava completamente vazio se não pelo senhor em um avental branco e chapéu de cowboy sentado em uma banqueta no caixa. Caminhamos até o senhor, der repente pegou em minha mão, assegurando que eu não fosse a lugar algum.
- Como posso te ajudar esta noite? - O senhor perguntou em um sotaque sulista carregado enquanto brincava com um palito de dente entre os lábios.
- Gostaria de um milkshake de morango com flocos extras, por favor. - Ele falou simplesmente. Eu não estava entendendo nada, estávamos aqui para tomar milkshake? O senhor olhou pra mim e de volta para .
- E a senhorita? - Ele perguntou com desconfiança na voz.
- Ela vai querer batatas. - Ele falou seguro.
O homem respirou fundo e inclinou sob o caixa.
- Forma de pagamento? - Ele perguntou.
- Serial número 0522. - Olhei para em confusão e o homem digitou algo em seu caixa que fez um barulho agudo e emitiu um cartão. O homem entregou o cartão para ele e respirou fundo.
- Aqui está senhor , vou emitir o aviso de censura lá embaixo, mas fique de olho nela, não queremos uma confusão. - O homem então voltou a sua posição inicial e me puxou pelo braço.
Andamos até o final do corredor, onde se encontravam os banheiros e entramos no banheiro de deficiente, colocou seu cartão encostado ao espelho cumprido que ia do teto ao chão e uma luz verde acendeu. O espelho então se mostrou ser uma porta que ao abrir revelou o barulho de pessoas falando alto e rindo, nada de música. Quando o espelho se moveu completamente para o lado descemos por uma escada na escuridão, olhei para trás vendo o espelho fechar e quando me dei por mim, eu estava no que parecia o submundo.
Aquele lugar era gigante, uma vasta sala com cadeiras, poltronas, mesas de jogos, sofás e um bar gigante com vários baristas servindo pessoas enquanto garçons passavam nas mesas servindo comida e entregando bebidas. O piso era de concreto queimado, liso e limpo, as paredes de um estofado vermelho e lustres pequenos e dourados penduravam do teto. Parecia um lobby de hotel gigante.
- Que lugar é esse? - Perguntei enquanto caminhávamos entre as pessoas.
- Esse é o Freddie's, - Ele falou simplesmente procurando por alguém com os olhos.
Observei as pessoas ao nosso redor. Elas claramente não eram pessoas comuns, diversos homens com cicatrizes e tatuagens e mulheres que tinham cara de que me matariam com um tapa, haviam armas em todos os lugares, em cima das mesas, nas mãos e cintura das pessoas, todos vestidos de forma casual e outras formais. Olhei para o bar, todos os baristas uniformizados e arrumados. A seleção vasta e diversificada de bebidas decorava a parte de trás do bar e logo acima havia um telão com as palavras 'Aviso de censura' escrito. O mesmo que o senhor havia dito lá em cima. A luz do lugar era baixa e amarelada, e o lugar cheirava a pólvora, álcool e - estranhamente - baunilha envelhecida. Fui tirada de meus pensamentos quando alguém gritou.
- Mas você é muito cara de pau mesmo! - Um homem gritou e caminhou até nós, soltou minha mão a tempo do homem empurrá-lo para a parede com força e apontar uma arma para sua cabeça.
- ! - Gritei e o lugar todo caiu no silêncio.
- ... - O homem balançou a cabeça negativamente enquanto pressionava o cano do revólver na testa do meu captor. estava estranhamente calmo, mas com seus músculos tensionados enquanto ele olhava para mim.
- Ah, Randy... Não tinha te visto, quanto tempo. - falou em tom provocativo fazendo o homem apertar mais a gola que segurava na mão. Todos ao nosso redor estavam tensos observando o confronto em absoluto silêncio.
- Me dê um bom motivo para não enfiar uma bala em sua cabeça aqui mesmo depois do que você me fez? - O tal do Randy perguntou entre dentes.
- Primeiramente, tenho a melhor das ofertas pra te fazer... Segundo... O aviso de censura está ativado, você não vai querer irritar o Freddie.
- Eu quero que se dane esse aviso de censura. - Ele falou ameaçou apertar o gatilho, todos os baristas e garçons do lugar rapidamente sacaram suas armas e apontaram-as para o estranho que ameaçava . Eram todos os tipos de armas, dozes, revólveres, semiautomáticas. Randy olhou em volta e depois de uma discussão interna ele largou e guardou a arma, fazendo com que todos os garçons e baristas guardassem as suas e voltassem a suas atividades normais. Numa questão de segundos, todos do lugar estavam conversando novamente como se nada tivesse acontecido.
- É melhor isso ser bom. - Randy falou, claramente irritado.
- Senti sua falta também Randy. - sorriu e o homem o observou raivosamente por alguns segundos antes de retribuir o sorriso, pegando o garoto pelo ombro e mudando completamente sua postura.
- Quem é a batata frita? - Ele perguntou olhando em volta até me avistar.
Randy era um homem mais velho, na casa dos trinte e poucos anos. Sua barba estava perfeitamente aparada e ele vestia um smoking preto perfeitamente feito sob medida, seus cabelos loiros faziam uma dança para trás trazendo elegância e sofisticação ao seu look.
Pisquei algumas vezes e finalmente falei.
- , prazer. - Estiquei a mão.
Randy observou minha mão esticada e começou a rir.
- Ela é uma batata frita mesmo... Vem, vamos sentar, a Aiden não vai acreditar que você está aqui.
Puxei minha mão de volta me sentindo levemente envergonhada após ser ignorada e voltou a pegar na minha mão, me puxando com ele.
Eu estava claramente tensa, a cena que havia acabado de acontecer parecia nunca ter existido pela maneira como os dois estavam se tratando agora. Observei tudo ao meu redor ainda mais, aquele cenário parecia irreal, todos os tipos de pessoas estavam aqui, havia o que parecia uma cabine que vendia balas e facas e ao fundo podia se ver um vidro que separava a área comum de um estande de tiro.
- Ora, ora, ora... Se não é o senhor em pessoa. - Ouvi uma voz feminina e então encontrei sua dona. Ela era ruiva, de cabelos cumpridos, os olhos mais azuis que eu já havia visto em toda minha vida, um rosto delicado e que parecia ter sido tirado de um catálogo de modelos de roupas íntimas de tão angelical. Ela vestia um vestido longo e tão elegante que tirava meu fôlego e em volta de seu pescoço um colar de diamantes grossos que a vestia perfeitamente.
- Aiden... Você está... - parecia engasgado pelo vislumbre da garota.
- Fabulosa? - Ela sorriu e levantou o braço em um gesto de exagero típico de uma estrela de cinema.
- O que você disser. - retribuiu. - Porque estão vestidos assim? - Ele então perguntou e um alívio passou por mim, por um momento eu havia começado a cogitar a ideia de que criminosos se vestiam elegantemente o tempo todo.
- Nós tivemos um trabalho a algumas horas em uma exposição em Seattle, agora precisamos ficar escondidos por uns dias para que não peguem essa lindeza de volta. - Ela disse passando as mãos no colar em volta de seu pescoço. se sentou e sentei ao seu lado, sentindo-me invisível. Randy sentou ao lado da mulher ornando perfeitamente com ela.
- Quem é a garota? - Ela me olhou de cima a baixo sem abaixar o queixo. Havia um ar de superioridade que exalava dela de forma exagerada.
- Essa é ... - E antes que pudesse completar Aiden o interrompeu.
- ? - Ela perguntou. respirou fundo e assentiu com a cabeça.
Aiden balançou a cabeça negativamente e sua postura de mulher elegante se transformou em criminosa sem piedade.
- Você é mesmo muito idiota, . - Ela confirmou. - Ryu vai te matar dessa vez, bom, espero que ele te coloque na rede antes, assim eu posso ganhar um pouco de dinheiro. - ela cariciava a joia em seu pescoço, claramente fascinada pelo objeto.
- Eu faço de graça. - Randy disse torcendo os lábios.
Franzi a testa em confusão.
- Sim garota, todos nós já sabemos do pequeno roubo que orquestrou. A Rede toda sabe, mas aparentemente você é valiosa demais pra morrer, se não... - Ela sorriu de forma ameaçadora pra mim.
- Vocês podem calar a boca por um segundo? - falou irritado.
Os dois ficaram quietos se ajeitando em seus lugares, Aiden cruzou os braços e olhou pra mim.
- Eu tenho uma proposta pra fazer pra vocês. - começou. - Precisamos pagar o restante do dinheiro que eu devo pra Ryu...
- Nem pensar. Você realmente acha que ele vai deixar isso pra trás? O cara é o diabo em pessoa, tem algo a ver com as tradições orientais dele, sei lá... Mas ele não vai deixar isso passar... Ele vai querer matá-lo. - Aiden disse com convicção. respirou fundo, ele parecia saber que o que ela estava falando era verdade, mas pensava em uma solução, em cada saída provável.
- O que Ryu vai ou não fazer comigo é problema meu, eu sei lidar com ele, mas preciso de ajuda com . - Ele falou fazendo com que eu olhasse pra ele. Talvez eu estivesse com razão no carro, provavelmente me faria sumir do mapa, dando-me uma nova vida e depois eu nunca mais o veria e essa ideia me assombrava.
- ... - Aiden o chamou de forma carinhosa me dando um leve desconforto. - Você parece que não sabe com quem está lidando. - Ela parecia agora preocupada. - Estamos falando de Ryu Kangjoun, um dos homens mais poderosos da coreia... Um dos homens mais poderosos do mundo, realmente acha que pode esconder essa garota pra sempre? - Aiden perguntou olhando agora pra mim. respondeu algumas coisas pra mulher, algo como "Temos que tentar", mas eu estava submersa demais em meus próprios pensamentos para prestar atenção. Eu estava focada no que havia me dito no carro no dia anterior enquanto eu estava claramente fora de mim. A raiva que eu sentia de Ryu era tão avassaladora que corroía meu interior e tudo que eu pensava era que queria matá-lo. Independente dos motivos que ele tinha para mandar me sequestrar, ele havia mandado a morte de minha mãe, minha tortura e provavelmente me mataria depois que meu pai pagasse. Eu precisava focar nesse ódio, eu precisava dele simplesmente porque eu não queria mais fugir, eu queria matá-lo.
- Vamos matá-lo. - Falei interrompendo a discussão que se estendia pela mesa.
Todos viraram os olhos pra mim, parecia surpreso e Aiden desacreditada.
- E como pretende fazer isso? - Foi a vez de Randy perguntar.
- Eu não sei, mas o que eu tenho certeza é que ele tem que morrer... Pelo meu bem e pelo bem da sociedade.
Eu estava certa em minha decisão, nada poderia tirar isso de mim.
- Minha querida, - Aiden falou com voz de desdém. - Você parece nunca ter matado uma mosca, acho que dificilmente seria capas de matar Ryu e as outras centenas de pessoas que for enfrentar no processo. - Randy riu debochadamente.
- Vocês vão me ensinar. - Eu falei séria.
Aiden e Randy olharam para surpresos, mas claramente intrigados.
- Onde achou essa garota? - Randy perguntou entre risadas.
- E o que ganhamos em troca, queridinha? - Aiden perguntou em seu tom de superioridade.
- Meu pai tem uma fortuna estimada em 23 bilhões, e eu odeio aquele desgraçado. - Falei entredentes. - Me treinem, matamos meu pai e vocês ficam com o dinheiro.
arregalou os olhos em surpresa, ele não estava esperando esse tipo de proposta vinda de mim, e eu devo admitir que eu também não estava acreditando no que estava dizendo.
- Garota, você tinha meu interesse... Agora você tem minha atenção. - Randy falou com um sorriso lateral no rosto.
- Espere, - virou a cabeça pra mim ficando estranhamente próximo e falou mais baixo. - O que está fazendo? - Ele perguntou, claramente contra minha proposta.
- Estou tomando uma decisão, não quero mais fugir. - Falei sentindo todos os meus nervos pulsarem, eu estava apavorada com minha decisão.
- , não fale besteira, esqueça isso... Nós vamos fazer o que tínhamos planejado... Te tirar do mapa.
Olhei para , seus olhos duros e protetores, os sentimentos dele por mim estavam bloqueando seu jeito de homem cruel e impiedoso e isso me incomodava profundamente.
- Se você não vai me ajudar, eu quero falar com Void. - Exigi.
- Void? - Aiden perguntou de forma curiosa e sedutora.
não respondeu e então eu observei a luta interna dos dois, franziu a testa parecendo brigar internamente com seu lado monstruoso pela posição, mas eu sabia que Void era mais forte nesse aspecto e logo meu monstro tomou seu lugar em minha frente, abrindo os olhos e sorrindo de forma maligna pra mim, seu rosto a centímetros do meu.
- Não sabia que você tinha isso dentro de você, boneca. - Ele falou com a voz baixa e rouca, fazendo meus pelos se arrepiarem.
Void voltou a posição que estava e olhou para os dois em sua frente.
- Meu favorito. - Disse Aiden com uma sobrancelha levantada.
- A vadia mais sem coração da cidade. - Void disse com um sorriso safado nos lábios.
Senti uma pontada em minha barriga, um desconforto incomum. Eu estava com ciúmes? Não, claro que não, era apenas nervosismo mesmo.
- Void? - Ela perguntou novamente, dessa vez sem sedução.
- É apenas uma maneira de ela distinguir nós dois. - Ele explicou tirando um maço de cigarros do bolso enquanto Randy estendia uma zipo acesa. Void acendeu o cigarro e tragou profundamente.
- É bem a sua cara. - Aiden disse passando a língua pelo lábio superior. - Mas não sabia que agora estava se referindo como dois e não um. - Ela revelou de forma pretensiosa.
- Nós sempre nos referimos como dois, vocês que só nos tratam como um. - Void falou de forma tediosa. - Randy, bom te ver, como está Marta? - Void provocou com um sorriso debochado nos lábios.
Randy tencionou o maxilar e olhou para o bar, vendo o aviso novamente.
- Garoto, você tem sorte que aquele aviso está ali.
- Talvez você tenha sorte que aquele aviso está ali, Randy, não se esqueça com quem está falando. - Randy rapidamente retornou a sua postura e respirou fundo.
- De qualquer forma senhoras e senhores, eu acho a proposta da boneca aqui tentadora, tudo que eu mais quero é ver aquele oriental desgraçado nadar no próprio sangue. - Void falou sem emoção e me tirou do meu silêncio.
- Nós vamos matá-lo então? - perguntei de forma inocente.
Void olhou pra mim e depois para Aiden e Randy.
- Se eles toparem o trabalho, sim, eu preciso de ajuda. - Ele falou e virou os olhos novamente para os criminosos em sua frente.
Aiden mordeu o interior da boca e Randy apenas olhou para a garota que parecia ser a manda chuva da dupla.
- Tudo bem, nós ajudaremos, mas ficaremos com noventa por cento do lucro do papai. - Ela disse e cruzou os braços, Void abriu a boca para negociar, mas o interrompi.
- Fechado. - Falei recebendo um olhar diabólico de Void.
- Sarita! - Aiden chamou, levantando a mão e uma garçonete latina de cabelos negros perfeitamente lisos amarrados em um rabo de cavalo alto veio até a mesa. - Nos sirva um 'Binding Agreement Drink'*, por favor.
- Todos da mesa de acordo? - Sarita, a garçonete perguntou.
Olhei para Void sem entender.
- É como fechamos negócios no submundo querida, apenas diga sim. - Aiden respondeu antes que Void pudesse.
Assenti com a cabeça e a garçonete saiu do nosso lado.
- Precisamos ensinar muitas coisas a ela. - Randy disse rindo.
A garçonete voltou com quatro copos de shots com um líquido roxo dentro e serviu para todos.
- Declaro em nome da Rede que os contratos números, 7441, 8397, 0522 e novo contrato aberto hoje número 0410 fecham entre si um acordo discutido entre os contratos e de obrigação plena de cumprimento, todos estão de acordo?
Todos responderam sim e eu apenas assenti seguindo as ações dos que estavam na mesa e virando o conteúdo garganta abaixo.
O gosto era magnífico, mas forte. Fechei os olhos e assoprei o álcool que exalava de minha boca.
- O que ela disse? Sobre contrato novo? - Perguntei, sentindo uma leve tontura devido ao efeito rápido do líquido.
Randy e Aiden começaram a rir, Void apenas tragou seu cigarro, sem muita emoção.
- Significa que você é uma de nós agora. - Randy disse, virando agora o Whisky que estava em sua frente todo esse tempo.
- Bem-vinda à Rede, querida. - Aiden falou com um sorriso de garota malvada nos lábios.


*Binding Agreement Drink Tradução é Drink de Acordo Vinculatório.


Capítulo XIV


- Espera aí, o que? - Perguntei claramente confusa e levemente bêbada. Nossa, essa bebida era realmente muito forte.
- Depois eu explico querida, agora venha, me acompanhe até o banheiro das damas. - Aiden levantou puxando-me pela mão para segui-la, olhei para trás a tempo de ver Void ignorar meu olhar. Ele ainda estava irritado comigo.
Aiden me puxou para dentro do banheiro e me analisou mais uma vez, eu não me sentia segura perto dela, e eu não me referia a integridade física. Ela apenas me observou por mais alguns instantes e balançou a cabeça virando de costas e caminhado até o espelho com sua bolsa de mão.
- Ele realmente está sob seu feitiço. - Ela disse, pegando um batom vermelho de dentro da bolsa e abrindo de forma dramática. Ajeitei meu vestido sujo e caminhei até seu lado, sem dizer nada. Claro, era perceptível que tinha um interesse por mim, caso contrário, porque estaria me ajudando, não é mesmo? Liguei uma das torneiras observando as marcas de sangue em todo meu rosto, nem acreditava que eu havia passado tantas horas dessa forma até agora. Aiden observou meu silêncio e sorriu de forma triunfante.
- Você gosta dele. - Ela falou de forma empolgada, parecendo uma garota de colégio descobrindo os segredos da amiga.
- Não gosto. - Respondi série. - E não sou como você de qualquer forma. parece preferir mulheres como você. - Falei sentindo a pontada em meu estômago atacar novamente.
- Ah querida... Eu e temos muito em comum mesmo... - Ela sorriu de forma divertida. - Nós dois gostamos de matar, de torturar e para sua surpresa... nós dois gostamos de mulheres. - Ela disse aproximando-se de mim de forma sensual.
Fiquei em silêncio, Aiden era lésbica? Soltei um riso em descrença sentindo-me boba pelo ciúme ou o que quer que fosse que eu estava sentindo.
- Eu pensei que... - Comecei a falar me afastando lentamente.
- Ah... você não pensou errado, eu já estive com antes, mas foi parte de um experimento particular meu, nada com muito significado. - Ela voltou o corpo para a pia, ligando a torneira e lavando as mãos.
Então ela havia sim saído com , mas gostava de mulheres. Ou talvez gostasse dos dois? Eu não tinha coragem de perguntar, ela me intimidava demais.
- Mas não se preocupa querida, aparentemente só tem olhos para você... - Ela enxugou as mãos na toalha que estava pendurada do lado de sua torneira. - Nenhum homem vai contra Ryu Kangjoun por qualquer motivo. Ele deve estar caído aos seus pés. - Ela falava em divertimento.
- Não interessa... nós não temos mais nada, já discutimos isso. - Falei tentando controlar a decepção em minha voz.
- Me diga... - Ela virou novamente para mim, apoiando a mão na pia, seu vestido preto encaixado perfeitamente em seu corpo escultural. - Como é ter aos seus pés, os dois... aparentemente. - Ela falou o último com confusão na voz.
- Não quero falar sobre isso... - Ignorei a pergunta cruzando os braços.
- Tudo bem, uma hora dessas você vai conhecer o poder e terá prazer em me contar. - Ela caminhou por mim e virou a cabeça para trás.
- Mas cuidado, querida... ser um monstro é realmente viciante. - Ela concluiu antes de me deixar sozinha no banheiro. Observei meu reflexo no espelho mais uma vez. Os cortes na cara, a roxidão pintando a lateral do meu rosto, o sangue manchando o vestido e o corpo. Eu precisava tomar banho, trocar de roupa, comer.
Lavei o rosto mais uma vez, tentando me livrar dos restos de sangue e evitando esfregar meus machucados e caminhei de volta a mesa, pegando de relance algo que perguntava.
- Vocês acham que ela aceitaria ajudar?
- Levando em consideração as circunstâncias, sim, mas não pode falar sobre a garota. - Aiden respondeu, já em seu lugar e com uma bebida vermelha na mão.
- Ah, querida, que bom que voltou. - Aiden disse com um sorriso falso nos lábios.
As tendências dramáticas de Aiden era um aspecto verdadeiramente confusos e irritantes de sua personalidade.
- Void... - Chamei sem me sentar e ele levantou os olhos cansados pra mim. - Posso falar com você?
Void revirou os olhos apagando o que seria talvez seu terceiro cigarro e levantou, caminhando até mim.
- Eu preciso comer, e um banho e roupas novas seria bom. - Falei insegura.
Void me olhou, observando cada detalhe meu como se fosse a primeira vez, senti-me insegura e feia, eu não queria continuar o que havíamos começado, mas... Não queria que Void ou homem algum me visse nesse estado.
- Nós vamos pegar um quarto e te levo ao arsenal para roupas novas, chame Sarita e peça o cardápio, fala que é no contrato 0522. - Ele disse de forma mecânica. - Eu preciso conversar com Fred sobre seu contrato, e eu volto em mais ou menos meia hora. - Ele terminou e caminhou por mim.
- Void, espere... - Falei e segurei seu braço. Ele tencionou o corpo todo com meu contato e eu o larguei impulsivamente, ele virou o rosto pra mim, com esperança nos olhos, abri a boca pra falar, mas o que eu realmente queria dizer não saiu, então apenas constatei outra verdade. - Eu estou com medo.
Void virou a cabeça para o lado de forma assustadora, porém carregando um olhar de poder.
- Raiva, Boneca, foque na raiva.
Assenti com a cabeça e o perdi de vista, voltando para a mesa para pedir algo para comer. A garçonete passou por nós e eu a chamei pedindo o cardápio. Pedi um hambúrguer de queijo, um refrigerante e batatas enquanto Aiden e Randy conversavam entre si.
- Porque me chamou de batata frita quando cheguei? - Perguntei ao Randy.
- Batata Frita significa civil, pessoa comum essas coisas normais aí. - Randy disse sem paciência. - Quando Raramente temos civis aqui Freddie aciona a Censura e ninguém pode matar ninguém pelas próximas vinte e quatro horas.
- Mas agora você faz parte da Rede, não é mais uma civil. - Aiden disse tomando um gole de seu drink.
- E o que isso significa? - Perguntei.
- Significa que você tem um contrato aberto, agora se alguém quiser seus serviços, você aparece no catálogo para a contratação. - Uma voz diferente das que estavam na mesa falou. Olhei para trás e vi um homem jovem, aparentemente a mesma idade que , ele tinha os cabelos na altura do ombro, bagunçados. Vestia uma blusa branca e uma jaqueta de couro por cima e vestia uma calça justa e sapatos sociais. Olhei para Aiden e Randy que viraram os olhos entediados.
- Permita-me me apresentar, eu sou Viktor, meu trabalho é responder todas suas perguntas sobre a Rede.
- Viktor, estamos fazendo um ótimo trabalho aqui, volte para sua mesa. - Aiden disse sem paciência.
- Qual o problema Aiden?! Quando você entrou estava mais do que feliz em receber minhas boas-vindas. - Ele disse de forma simplória.
- Isso foi antes de te conhecer, babaca. - Ela falou de forma severa.
- Acho que a escolha é da Senhorita aqui, não é mesmo? - Ele perguntou e olhou pra mim.
Olhei para Aiden e Randy que balançaram a cabeça negativamente como quem dissesse "Não aceite" e então respondi ao homem charmoso que estava em minha frente.
- Agradeço sua oferta senhor Viktor, mas eu estou bem. - Falei baixo e insegura.
- Muito bem então, se precisar de mim, estou logo ali. - Ele disse antes de se afastar.
Voltei o olhar para meus companheiros de mesa.
- Argh, ele sempre vem com o discurso roteirizado "A rede é uma plataforma de alta bla, bla, bla" - Ela falou, imitando uma voz caricata do moço. - Nem mesmo pra dar umas variadas na interpretação. - Ela reclamou.
- O que é a Rede? - Perguntei.
Aiden bufou se vendo na obrigação de explicar o que Viktor tentou explicar.
- Tudo que você precisa saber é que a Rede é o que vai te manter viva, até seu nome ser colocado lá. - Ela falou colocando seu copo na mesa. - Por enquanto você não tem pontos, então acho difícil alguém ativar seu contrato, mas como existem olheiros em todos os pontos da Rede no mundo, eles vão te observar e te avaliar. Conforme sua avaliação você entre num ranking que ditará o quanto vale seu contrato e daí pra frente você é contratada ou não para fazer serviços.
- Serviços como? - Perguntei curiosa.
- Matar pessoas, roubar coisas, torturar pessoas, sequestrar pessoas, sumir com corpos, evidências... já me chamaram para levar culpa em um assassinato, o pagamento era alto, e eu seria liberta em um ano, mas... nem que me paguem eu como comida de presídio, minha pele não fica impecável com uma alimentação qualquer. - Ela falou pegando seu copo novamente.
Sarita havia aparecido com minha comida e Aiden e Randy continuavam a me explicar no que eu havia me metido enquanto eu comia.
- Se você recusar um serviço, você recebe um ponto negativo, se você não completar um serviço você é zerado, agora se você prejudicar o contratante, ele tem a permissão de colocar seu nome na rede. - Randy explicou dessa vez.
- O que significa que ele irá estipular um valor por sua cabeça e quem o matar primeiro recebe essa quantia.
- E como ele saberá que a pessoa que disse matar realmente foi quem matou? - Perguntei, agora na metade de meu lanche.
- Você tem que apresentar o cartão e exitem outras provas que a própria Rede nos fornece. - Randy disse retirando o dele e me mostrando. Era o mesmo cartão que o senhor lá da frente havia dado para , porém continha o número de contrato de Randy.
- Tá, mas como você consegue pontos? - Perguntei comendo uma batata frita, ironicamente.
- Treinando, todos os pontos da Rede têm centros de treinamento, claro que você consegue pontos quando faz pedidos das páginas rosas, mas tenho uma preguiça das páginas rosas... - Aiden disse com cara de nojo enquanto eu comia a comida cheia de gordura do meu prato.
- O que são páginas rosas? - Perguntei com a boca cheia.
- São pedidos menores, com pagamentos mínimos, normalmente é roubar coisas menos valiosas ou ameaçar alguém que está incomodando o contratante, nada muito interessante, mas dá os melhores pontos, então tem gente que faz. - Respondeu Randy.
- Vocês já fizeram? - Perguntei curiosa.
- Deu me livre! Eu entrei na rede com meus cem pontos estabelecidos. - Respondeu Aiden.
- Eu entrei com metade, então peguei trabalhos maiores que me rendeu pontuação suficiente pra chegar no ranking. - Foi a vez de Randy.
- E ? - Perguntei agora sem olhar para os dois. Não queria mostrar meu claro interesse na vida criminosa do meu captor.
- não tem pontuação. - Aiden respondeu.
- Ele está zerado? - Perguntei.
- Não... Ele não tem abertura pra pontuação. - Ela respondeu se divertindo com minha curiosidade. Ela já estava começando a me irritar. - Ai, querida... Tem tanta coisa que ainda precisa aprender sobre .. Não sei se sua vida inocente e mundana seria capaz de aguentar alguém como em sua vida.
- Apenas me diga. - Falei sem paciência.
- é parte da rede, não como nós... Que somos contratos. não está na rede por escolha, ele é... como posso explicar... Funcionário? - Aiden finalizou com dúvida.
- Já chega. - Ouvi a voz de atrás de mim. Virei a cabeça e encontrei o rapaz com feições sérias, seu rosto claramente irritado ao nos encontrar conversando sobre sua vida. - , vamos. Nosso quarto está pronto.
Ele disse antes de caminhar por nós indo em direção ao final do corredor que estávamos. Quarto? Haviam quartos aqui? O que era esse lugar afinal?
Peguei meu refrigerante e dei uma corrida para alcançar , sem me despedir do casal que estava sentado na mesa.
Caminhei em silêncio com e passamos pelo vidro onde havia o estande de tiro e entramos em outro corredor que continha um elevador.
entrou no recinto e apertou -7. Aparentemente haviam mais andares para baixo. Quando a porta do elevador se abriu, este revelou um corredor longo com várias portas. Era algo como um hotel, porém subsolo. Acompanhei até uma das portas, ele parecia apressado e então encostou seu cartão à porta que destrancou revelando um quarto grande com dois ambientes. Entrei observando o luxo do quarto. No primeiro cômodo, havia uma sala com duas poltronas feitas de madeira pintadas de dourado com o estofado em creme, e uma mesa de centro com uma carta branca em pé. As paredes eram todas brancas, com alguns quadros pendurados e no meio da sala um lustre pendurado iluminando o local, uma porta de correr separava a sala do quarto, que era de um carpete creme, havia uma cama King Size no centro com duas cômodas, uma de cada lado da cama, e nelas pequenos abajures de porcelana. Na parede em frente à cama, havia uma televisão de plasma de aparentemente cinquenta polegadas e um pouco à direita um corredor menor, com duas portas.
Caminhei até lá ignorando e abri uma das portas, revelando um banheiro inteiro branco, uma pia dupla com as torneiras em ouro e uma banheira grande ao lado. Abri a outra porta e meu queixo caiu, era um closet, mas ele estava cheio de roupas. Femininas de um lado e masculinas do outro, passei a mão pelas roupas, todas de alta costura a marcas caras, mas dessa vez, não apenas cinzas. No alto, em uma prateleira, sapatos de todos os tipos, botas, saltos, tênis e sandálias que pareciam todos do meu tamanho, e no centro do closet havia uma ilha com várias gavetas e em cima um porta joias com tampão de vidro. Só me dei conta que estava na porta me observando quando o ouvi tirar os sapatos. Observei o homem, ele então tirou a blusa revelando seu peitoral definido e marcado pela crueldade. Engoli em seco, sentindo um formigamento na parte inferior do meu quadril.
- Pode escolher uma roupa, são todas do seu tamanho. Nas gavetas de cima tem roupas íntimas e nas de baixo roupas de dormir. - Ele falou sem entusiasmo.
- Como sabiam meu tamanho? - Perguntei evitando olhar para o homem que agora estava seminu em minha frente.
- Eu lhes disse.. - Observei Void, que parecia não querer me encarar, ele estava claramente puto comigo. - Eles têm um arsenal de roupas nos andares de serviços, pedi que fizessem uma seleção e preparasse pra você, vamos ficar aqui por um tempo. - Ele tirou seu cinco me obrigando a olhá-lo involuntariamente. Acabei soltando um suspiro, levantou os olhos pra mim percebendo minha reação. Eu estava com a boca seca, ver dessa forma em minha frente mexia com meu julgamento. Eu não queria nada com ele, porém meu corpo queria senti-lo me tocar como ele havia me tocado da última vez. Não pude deixar de notar o canto do lábio de subir, ele estava se divertindo com minha reação.
- Como está pagando por tudo isso? - Perguntei sem saber o que falar para me distrair. Ele levantou a cabeça agora por completo, abrindo o botão de sua calça e caminhando em minha direção. O que ele estava fazendo?
- Boneca... Eu posso ser um mal caráter, sem sentimentos e cruel, mas eu sou mais rico do que você imagina. - Franzi a testa, sem entender.
- Se você é rico, porque ainda faz esses trabalhos? - Perguntei agora esquecendo sua semi nudez.
- Eu trabalho pra Ryu porque o devo. Minha fortuna não é nem dez por cento do quanto eu ou até mesmo seu pai deve a Ryu, mas entre trabalhos pra ele eu faço meus próprios, e isso me fornece renda. - Ele respondeu ainda caminhando até mim lentamente, seus pés descalços no carpete macio. - Sem contar, que eu não faço pelo dinheiro... - Ele se aproximou por completo, fazendo-me encostar as costas na ilha do centro do closet, ficando entre ele e o material. Eu conseguia sentir o calor que emanava de seu corpo - Eu faço pelo poder. - Ele terminou em sua voz baixa e rouca que tanto mexia comigo. Senti meus pelos se arrepiaram, ele estava tão próximo, eu consegui sentir sua respiração em meus lábios. E Void olhava diretamente pra eles com a boca entre aberta.
- Não quero você gastando seu dinheiro comigo, não quero dever nada a você. - Falei em irritação. Eu odiava o poder que ele tinha sobre mim.
- Eu vou lhe pagar de volta por tudo isso.
levantou as sobrancelhas, em divertimento, colocando um braço de cada lado do meu corpo e os apoiando na parte de cima do gaveteiro, senti seu quadril encostar no meu, e uma sensação de formigamento tomou conta do interior das minhas coxas.
- E como pretende me pagar? - Ele perguntou em curiosidade numa voz sussurrada.
- Com serviços, vou colocar meu contrato no Ranking e pegar trabalhos, e com o dinheiro que eu pegar, eu te pago. - Tentei controlar minha respiração que a essa altura já estava escassa ao falar.
parou em seu lugar, sua postura deu uma leve mudada, mas ele não saiu. Ele parecia em conflito com seu lado humano, ele parecia estar discutindo com ele mesmo.
- Não sabia que existia um monstro dentro de você também. - Ele falou de forma fria.
- Parece que você não me conhece tão bem, afinal. - Rebati.
- Parece mesmo. - Ele falou com a voz baixa, agora a apenas centímetros dos meus lábios. Toda essa tensão entre nós causava faísca e eu sentia uma necessidade bruta de ser tocada por ele. Ele foi aproximando mais seu corpo do meu, eu já sentia a temperatura de sua pele clara contra a minha. Quando pensei que fosse ceder aos seus desejos, tão claros quanto os meus, ele apenas se afastou caminhando até o seu lado das roupas e pegando uma camisa preta e uma calça de moletom cinza.
Fiquei atônita, respirando de forma descompassada e alta, parada em meu lugar, frustrada pela ausência do seu tão esperado toque.
pegou as roupas e caminhou até a porta do closet, virando pra mim rapidamente.
- Não vou te tocar novamente até você me pedir, . - E então ele virou as costas e entrou no banheiro, fechando a porta atrás de si. Fiquei estática, encostada no gaveteiro.
Ele era um desgraçado, agora estava jogando comigo? Quem você quer enganar? Ele sempre esteve jogando. Falou o meu lado racional. Joga também, você sabe que quer. Falou meu lado diabólico. Independente dos conflitos internos que eu estava tendo, eu estava determinada a não cair na manipulação sexual de e então eu apenas separei uma roupa e esperei que ele terminasse seu banho.
Caminhei até a sala onde haviam as poltronas e peguei a carta que estava na mesa, a carta era de papel cartão e na frente em letra de máquina de escrever em cor dourada estava escrito "A Rede", na empolgação e curiosidade abri a carta para ler seu conteúdo.

"Senhor , contrato número 0522, pontuação xxx. Bem-vindo de volta, espero que seus aposentos estejam de acordo, nós da Rede estamos contentes em tê-lo de volta. O encontro com o Black Smith está marcado para amanhã às onze horas, no meio tempo, espero que aproveite a seleção que deixamos reservada em seu arsenal. Atenciosamente, Freddie."

Coloquei a carta de volta em cima da mesa e caminhei até a cama, só então me dei conta de que só havia uma cama, onde iria dormir? Sim, a cama era bem grande, mas... Ele não dormiria comigo, dormiria? Fui tirada dos meus pensamentos quando a porta do banheiro se abriu e um molhado com a toalha amarrada em sua cintura apareceu em meu campo de visão. Ele me olhou sem emoção, se não estivesse claro pra mim antes, agora estava mais claro que o dia que ele estava querendo me provocar.
- Porque está fazendo isso? - Perguntei.
- Não sei do que está falando. - Ele se fez de desentendido enquanto colocava as roupas que havia pego em cima da cama.
Eu estava com raiva, como ele poderia brincar comigo dessa forma? Uma hora ele me tocava, ou quase, e na outra dizia que só iria me tocar se eu pedisse pra simplesmente aparecer completamente molhado e privado de roupa.
- Dois podem jogar esse jogo, Void. - Puxei meu vestido pra cima, revelando a roupa íntima branca, suja e manchada de sangue. Minha calcinha estava um pouco rasgada devido a tentativa de Caiam no dia anterior e meu sutiã estava com uma de suas alças caídas, quando joguei o tecido no chão levantei para ver Void me encarar diretamente nos olhos, a sede que eu conhecia brilhando em sua pupila. Ele estava sedento por mim, eu sabia que estava, mas ao mesmo tempo transtornado de raiva.
Eu queria provocá-lo, queria jogar com ele como ele estava fazendo comigo, mas acima de tudo, eu queria deixar ele louco até não se aguentar.
- O que foi? Parece que nunca viu meu corpo antes. - Falei dando alguns passos pra frente. - Ou talvez essa cara seja porquê você nunca me comeu antes, só .
Seu maxilar tencionou e seus olhos ficaram duros. Na mosca.
- O que foi, Void? - Aproximei-me mais dele, vendo claramente a inquietação de seus olhos. - O que quer fazer comigo?
Ele desceu os olhos por todo meu corpo, a boca levemente aberta.
- Quero que cale a boca. - Ele falou, com raiva e tesão transbordando em sua voz.
- Não quer rasgar o que resta dessa calcinha? - Perguntei agora a apenas alguns passos dele, passando o dedo pela costura do tecido que me impedia de ficar nua.
- Eu disse pra calar a boca. - Ele franziu a testa, sua voz perdendo força, enquanto eu brincava com minha roupa íntima.
- Não quer ao menos ver? Ver com seus olhos invés dos olhos dele? - Eu não sabia de onde estava tirando tanta coragem para fazer e falar essas coisas, mas eu estava tão irritada e tão frustrada que eu precisava de ao menos um pouco de glória.
Vi assentir com a cabeça sem encarar meus olhos, nossos corpos estavam tão perto um do outro que bastava inclinar que eu podia sentir seu corpo nu no meu. em um movimento rápido colocou uma mão na parte de trás de meu sutiã e num estalo desfez os ganchos, me fazendo dar um leve pulo. Deslizei a outra alça pelo braço deixando o sutiã cair ao nosso lado e revelar meu colo. Passei a mão entre meus seios de forma delicada e sensual, eu não me sentia insegura com meu corpo, eu estava com a postura mais segura do mundo, mas por dentro eu estava tremendo de medo e excitação do que Void podia fazer comigo.
Os olhos agora famintos de Void passeavam sobre meus seios, mas ele ainda não me tocava, ele estava claramente utilizando toda sua força de vontade para seguir com o que havia dito, eu sentia que ele iria quebrar a qualquer instante e eu teria o prazer de dizer que venci, faltava apenas mais um passo. Eu finalmente colei meu corpo no dele, colocando minhas mãos em seus ombros e cambaleou pra trás, se segurando em minha cintura. O toque de suas mãos ásperas em minha pele me causava a melhor sensação, eu queria que ele passasse aquelas mãos por todo meu corpo. Eu podia ver o peito de subir e descer, e os pelos de seu corpo arrepiados com a sensação da minha pele na dele. Senti meus mamilos endurecidos, em seu peitoral e isso me fez quase ceder aos meus desejos e esquecer meu objetivo.
- Rasgue pra mim. - Pedi em uma voz safada, sussurrada em seu ouvido.
- Puta merda. - O ouvi xingar baixo com a cabeça encostada em meu ombro. Ele estava começando a perder a linha.
Em um movimento brusco, Void puxou a parte rasgada de minha calcinha, fazendo com que ela caísse por uma perna, com seus movimentos lentos e tentando ao máximo se controlar, ele empurrou o outro lado até que ele caísse aos meus pés me deixando completamente nua.
- Cede. - Pedi com a boca colada em sua bochecha.
- Não. - Ele respondeu em um sussurro, passando as pontas dos dedos pela curva de minha cintura. Eu já podia sentir a umidade entre minhas pernas e a esse ponto eu só queria que ele cedesse.
- Void... Cede... Por favor. - Supliquei jogando a cabeça pra trás enquanto seus lábios encostavam em meu pescoço delicadamente. Eu conseguia sentir sua ereção pela toalha, roçando em minha barriga e eu queria urgentemente senti-lo dentro de mim.
Eu já não estava me aguentando, eu sentia meu corpo latejar, eu precisava dele.
- Diga... - Ele falou, a sensação de sua voz em meu pescoço meu causando leves espasmos. Ele apertou minha cintura de leve e mordiscou meu pescoço, me dando leves choques por todo o corpo. - Diga... - Ele pediu novamente.
- Void... - Eu decidi ignorar por completo meu objetivo. - Me fode.
puxou a toalha de sua cintura, jogando-a para o lado, levantando sua mão para minha nuca e puxando meu cabelo, ele colou nossas bocas em uma fúria descontrolada, sua língua era apressada, descontrolada, imprevisível, porém em perfeita sincronia com a minha.
Void levantou meu corpo e me deitou na cama, ficando entre minhas pernas e colando sua ereção em mim. Eu sentia seu membro pulsante colado em minha intimidade e deixei escapar um gemido de apreensão. Senti seus músculos contraírem com o som, e ele levantou a cabeça para me olhar, seus olhos estavam escuros, malignos, cheios de um desejo que eu desconhecia, me peguei tremendo de leve.
- Pede mais uma vez. - Ele falou em uma voz baixa e fria. Encarando meus olhos de forma imposta. Senti uma das mãos dele descer por minha barriga, meus lábios tremiam de tanta ânsia por seu prazer. - Pede, safada. - Ele continuou finalmente alcançando meu ponto mais sensível, fechei os olhos com força, tentando segurar o descontrole que se instalava por meu corpo enquanto ele mexia o dedo lentamente e torturante. Minhas costas se arquearem levemente, eu não queria terminar assim, eu precisava de mais. - Pede... - Ele falou uma última vez, com autoridade na voz e eu não iria ousar o desobedecer.
- Me fode, Void. - Pedi e ele entrou em mim com força.
Todos meus músculos se contraíram e eu abri a boca para soltar um gemido agudo e dolorido. Meus olhos estavam entre abertos eu conseguia ver pouco, mas conseguir ver a cara de prazer de Void, ele estava saboreando cada sensação que era estar dentro de mim de forma dolorosa.
- Você está tão quente. - Ele disse entre a respiração descompassada e urgente.
Parado e completamente dentro de mim, ele me olhou novamente, ele não precisava falar pra eu saber o que ele queria.
- De novo. - Eu pedi, e ele puxou pra fora apenas para investir novamente com a mesma força de antes. Eu sentia meu interior latejar, eu queria que ele continuasse. Void apertou minha coxa com força.
- Quer saber, foda-se. - Ele falou e saiu de mim, me pegando no colo e me pressionando contra a parede. Ele dava investidas violentas, uma atrás da outra enquanto eu sentia meu corpo contrair.. Ele segurava minhas pernas com força e estava com a cabeça enterrada em meu pescoço enquanto sussurrava xingamentos. Eu não conseguia controlar o volume dos meus gemidos, e nem estava tentando. A sensação de ter Void dentro de mim era preenchedora, e a violência dele era libertadora.
Void passou o braço por minhas costas, segurando meu corpo e com a outra mão, ele puxou meu cabelo tendo total controle de minha cabeça. Ele puxou com um pouco mais de força, fazendo-me soltar um gemido de dor. E então voltou sua boca pro meu ouvido.
- Goza. - Ele ordenou, e mesmo que eu já não estivesse quase lá, eu teria obedecido.
Meu corpo contraiu com força, fazendo-me enfincar minhas unhas em suas costas e jogar a cabeça pra trás. Minha intimidade contraiu em volta de seu membro, e ele franziu a testa tentando segurar seu orgasmo. A sensação de euforia e prazer passou por todo meu corpo como uma onda e levou consigo toda minha força. Void me segurou enquanto eu jogava meus braços em volta de seu pescoço para não cair e ele voltou para cama, deitando-me.
- Só mais um pouco, boneca. - Ele disse ao se encaixar em mim novamente, dessa vez adentrando com suavidade. A lentidão em seus movimentos aguçou todas as sensações, causando uma maior sensibilidade em minha área íntima. Eu conseguia ver que ele estava aproveitando cada segundo dentro de mim, estava demorando mais para sair e entrando lentamente. Quando senti a sensação começar a subir pelo interior do meu corpo, chamei seu nome.
- Void. - Falei em um gemido.
Ele mordeu a boca e balançou a cabeça negativamente.
- Adoro quando você me chama assim. - Ele falou num sussurro. - Fale de novo, gostosa.
- Void... - Gemi mais alto, em sincronia com o orgasmo que subia por meu epicentro. - Void, eu vou gozar.
- Segure mais um pouco... - Ele pediu, sua voz falha enquanto ele ouvia o nome que eu havia o dado.
E quando meu corpo não aguentava mais, eu deixei a sensação tomar conta de mim. Ela foi dez vezes mais intensa, dez vezes mais prazerosa, e tirou de mim todo resto de foça que eu tinha. As contrações que minha intimidade dava em volta de Void foi o suficiente pra ele apertar os lábios e sair. Ele deixou todo conteúdo expelir em sua mão e encostou a cabeça na cama, sua respiração descontrolada.
Fiquei alguns segundos apreciando o som de nossas respirações e senti vontade de dormir, mas fui desperta ao sentir se mexer, ele pegou sua calça e caminhou até o banheiro, ligando a torneira. Continuei deitada, a sensação de dejavú passando por mim. Da última vez que eu havia transado com meu captor, Void havia aparecido. Ele não estava feliz com o que tínhamos feito e eu lembro bem de suas palavras "Vou fazer com que você me queira mais do que ele" e então uma sensação de traição me invadiu, fazendo-me levantar da cama e pegar a toalha que estava no chão, cobrindo meu corpo e entrando no banheiro. Void estava com a calça, secando suas mãos na toalha de rosto que havia no banheiro. Eu fiquei parada na porta observando-o, qual seria a reação dele? Eu sabia que Void não era do tipo romântico, mas eu esperava ao menos alguma coisa.
Ao invés disso ele apenas me olhou pelo espelho, seu rosto levemente molhado e um pouco rosado pelo trabalho físico.
- Eu tenho umas coisas pra resolver, tome banho e tente descansar, temos um dia longo amanhã. - Ele disse agora evitando meu olhar.
- É só isso que dirá? Vai agir igual o e fingir que nada aconteceu? - Perguntei sentindo a frustração voltar com tudo.
Void virou o corpo pra mim, suas feições sérias e sem emoção.
- Não vou fingir nada, boneca. - Ele se aproximou de mim. - Nós transamos, transamos porque os dois queriam, foi bom, e eu tenho coisas pra fazer. - Ele finalizou parando em minha frente.
- Está me castigando? - Perguntei, lembrando-me de sua cara no dia em que fui embora.
Ele desviou o olhar, claramente afetado por minhas palavras, mas orgulhoso demais para admitir.
- Você ainda não me viu castigar você. - Ele falou em tom ameaçador.
- Se está machucado porque fui embora, não lhe devo perdão. - Ataquei de volta.
- Você não me deve nada... E eu também não lhe devo nada. - E então ele saiu do banheiro, deixando-me sozinha encarando as lajotas brancas frustrada e irritada.
Entrei no banheiro e fechei a porta tentando ignorar a raiva que invadia meu corpo. Eu não conseguia acreditar que pela terceira vez eu havia me entregue a esse monstro. Entrei no chuveiro debatendo o que eu havia decido no carro, eu não era mais uma garota inocente. Minha vida havia virado de cabeça para baixo e agora eu fazia parte de algo maior... Perigoso, porém era tudo que eu tinha. De agora em diante eu trataria da maneira que eu devia ter tratado desde que chegara aqui e decidido matar Ryu.
De forma profissional.


Capítulo XV


Acordei no meio da noite sentindo um peso na cama. Minha pergunta de mais cedo havia sido respondida, ele iria dormir comigo. Fingi continuar dormindo, mas havia muito entalado em minha garganta. Eu me ajeitei na cama, olhando pra cima, estava escuro e eu não conseguia ver nada, ainda mais levando em conta que não haviam janelas no quarto então apenas decidi falar.
- Eu não sei o que é que temos... - Comecei. - Essa atração física incomum me deixa louca, me faz sentir culpada. Principalmente por que eu devia lhes odiar... Eu odeio, mas não tanto quando eu deveria e isso acaba comigo. Não sei porque minha vida virou de ponta cabeça dessa forma, mas você é um dos culpados e eu sinto que levando em consideração os sentimentos que você, ao menos , diz ter por mim, vocês têm que me ajudar. Vocês me devem isso! - Continuei. - Mas esses jogos, essas escapadas... Elas não podem mais acontecer. Porra... Eu tenho namorado. - Soltei uma risada amargurada. - Então... Eu decidi que nossa relação será estritamente profissional daqui em diante... Dois... contratos. - Engoli em seco. - E se você se mostrar alguém que eu posso confiar, talvez possamos ser amigos, mas nada além disso.
Eu conseguia ouvir sua respiração, não havia nenhuma mudança, será que ele havia dormido?
- Void? - Chamei, mas não obtive resposta. Ele não podia dormir agora, virei pra ele e coloquei a mão tateando até encontrar seu corpo, levantei a mão para achar seu rosto e ver se ele estava dormindo, mas quando meus dedos tocaram a superfície, tudo que eu senti foi um tecido grosso de lã e conforme desci a mão senti um buraco e um lábio. Imediatamente afastei minha mão, não era ali. Minha respiração ficou pesada e eu senti minha boca tremer, me movi lentamente até a outra ponta da cama, meus olhos estavam arregalados e eu conseguia ouvir a respiração do sujeito. Porque ele estava parado? Rapidamente me levantei e corri em direção ao outro cômodo, mas fui parada por um par de mãos igualmente cobertos por tecido. Eram luvas.
- ! - Gritei chamando por meu captor. O homem me puxava de volta para o quarto tentando tapar minha boca, mas eu me debatia em seus braços tentando me desvincular. No improviso eu agarrei um dos dedos do homem com os dentes e mordi com toda minha força até sentir o gosto metálico de seu sangue invadir minha boca. O homem gritou de dor, me soltando no chão. Caí de joelhos e engatinhei até a outra sala enquanto o homem reclamava de dor. Estava escuro demais e eu não conseguia ver direito onde eu estava no cômodo, porém fui tateando meu caminho enquanto eu tremia.
Quando percebi que eu não conseguia ver a saída eu decidi me esconder atrás de uma das poltronas da sala que eu esbarrei no caminho, eu conseguia ouvir todos os movimentos do estranho e eu tentava ao máximo não fazer nenhum som, mesmo que a tremedeira de meu corpo dificultasse.
- Cadê você, sua vadia? - O homem perguntou, ele carregava um sotaque que eu não conhecia, mas que revelava que ele claramente não era dali. Dei uma suspirada com o susto, mas tapei minha boca. Quem era esse homem? Ele estava com Ryu? Ryu havia me encontrado? Se não estava aqui... Isso significava que ele estava morto? Todos os pensamentos possíveis passam por minha cabeça, mas o mais importante de todos era "Como eu iria me defender?" Tentei me acalmar e tentar encontrar meu caminho até a saída, fui devagar, engatinhando até a outra poltrona que eu sabia que estava mais próxima da porta, minha respiração estava alta demais e isso poderia me entregar.
- Eu consigo te ouvir. - Ele falou em uma voz baixa e assustadora, parei em meu lugar apavorada. Com meus olhos arregalados eu consegui ouvir o homem se aproximar de onde eu estava. - E agora eu consigo te ver. - Minha visão finalmente se acostumou com o escuro e eu pude ver a figura em minha frente, uma máscara preta, casaco de couro pesado, calça jeans escura e duas botas pesadas.
Ouvi um som metálico de uma arma e então o som dele destravando-a.
- Diga adeus, vadia. - Ele disse com a arma apontada pra mim, caí pra trás me empurrando até chegar à parede e gritei.
- !
O som da porta sendo chutada me assustou, e logo em seguida dois tiros. Eu gritei colocando as mãos em frente ao meu rosto pra me proteger e então a luz se acendeu e o estranho estava no chão, com seu sangue manchando o carpete. Ele estava morto.

Void

Uma horas antes

Saí do quarto frustrado. Que merda! Tudo que eu mais queria era senti-la daquela forma, mesmo o imbecil aqui dentro ficando puto. Ela pediu. retruquei. Mas eu sabia que ele estava se sentindo traído. Você só está fazendo isso pra me atingir. Ele debateu. E por mais que eu desejasse que isso fosse verdade, não era. Eu a queria. Queria tanto que parecia que não fazia parte de mim, e de certa forma, não fazia. Era culpa dele, e ele não podia me culpar por isso. Tentei afastar os pensamentos do corpo nu de embaixo do meu, o som de seu gemido e o toque de sua pele. Eu poderia fodê-la pro resto da vida, mas odiava a maneira fraca que ela me fazia sentir, sensível e querendo mais. Eu nunca queria mais, talvez duas ou três, mas pra sempre... Nunca. E isso era uma merda.
Cheguei ao lugar que eu havia marcado com Fred para discutirmos os procedimentos de treinamento de , eu era a favor dela aprender a se defender, talvez assim poderíamos seguir nosso caminho e acabar com essa paixão platônica que ele estava sentindo por ela. Nós. Ele corrigiu.
- Cale a boca. - Falei em voz alta antes de abrir a porta.
Na sala estava Randy e Fred conversando sobre qualquer coisa aleatória enquanto esperavam minha chegada. Fred era um homem sofisticado, sua pele negra era impecável e ele nunca parecia envelhecer. Ele estava vestindo uma camisa social branca com a gravata levemente solta, sua calça social cinza era feita sob medida e seus sapatos pareciam que acabaram de ser engraxados.
- Senhores. - Falei aproximando-me da mesa de reunião da sala.
Os dois me cumprimentaram e começamos a acertar os detalhes.
- Como você me pediu mais cedo, aqui está o cartão da Senhorita . - Fred me entregou o cartão de contrato de , todo branco com seu serial 0410.
- E o nome? - Perguntei.
- Como pedido, estamos usando um pseudônimo e em consideração aos serviços que você já prestou para nós iniciamos o contrato com trinta pontos.
- Ótimo, dessa forma Ryu não vai desconfiar que seja . - Falei colocando o cartão no bolso.
- E também a transferência foi realizada, quatro milhões, como pedido. - Fred concluiu.
Eu sabia que iria ficar puta comigo por transferir dinheiro para seu contrato, mas também caso alguma coisa acontecesse eu precisava garantir que ela poderia sobreviver sem mim por enquanto.
Senti uma leve pontada em meu estômago, minha pele esfriou e eu podia sentir o suor começar a acumular em minhas palmas. Merda, agora não.. A ansiedade que começava a brincar em todo meu corpo fazia minhas mãos tremerem e eu sentia que podia vomitar a qualquer momento. Eu precisava usar. Me deixe tomar conta. Ele pediu. Não precisei responder, em questão de segundos eu estava encolhido no canto escuro da nossa mente, me preparando para os sintomas da abstinência. Apesar de dividirmos um corpo, em mim era muito pior do que nele. Ele sentia sim, mas em menor escala. Fechei os olhos querendo gritar, mas somente apertei minhas palmas metafóricas uma contra a outra.


.

Tomei meu lugar e olhei para Fred e Randy, que pareceram não perceber a troca, porém Fred nos conhecia bem o suficiente para diferenciar os dois.
- Então as salas de treinamento dois e quatro ficarão reservadas para o uso exclusivo de vocês, Randy sua estadia também está resolvida, a senhorita Aiden irá acompanhá-lo, ou ficará num quarto individual? - Fred perguntou.
- Obrigado Freddie, mas acho que Aiden mal consegue trabalhar comigo sem querer me matar, não consigo imaginar o que dividir um quarto faria com ela.
Freddie deu risada e depois voltou o olhar pra mim percebendo a mudança de comportamento.
- Se seu irmão precisar se aliviar, basta me avisar. Temos fornecedores aqui. - Fred me olhou com seriedade, falava sobre o assunto como se falasse de um negócio a fechar.
- Estamos bem. - Respondi sem emoção.
- Muito bem então. Acredito que o desconto feito para a estadia foi do agrado dos três? - Freddie perguntou e ambos assentimos com a cabeça.
- Quando poderei conhecer a mulher que fez se apaixonar? - Freddie perguntou, com verdadeira curiosidade na voz.
Pigarreei, claramente desconfortável com a informação que Freddie tinha. Ele inclinou o rosto e levantou uma sobrancelha.
- Você realmente acha que ninguém percebe? - Freddie perguntou. - Do momento em que te vi nas câmeras entrando na lanchonete eu percebi que não se tratava apenas de uma 'boa ação', e vamos combinar, , você não faz boas ações.
- Prefiro não falar sobre o assunto. - Respondi tentando evitar qualquer tipo de confronto em relação aos meus sentimentos sobre ela.
- Mas você não está negando. - Ele afirmou.
Ficamos em silêncio, olhando um para o outro. Eu não conseguia negar. Eu estava apaixonado por e mesmo que ela estivesse nesse triângulo amoroso comigo e com ele, eu não conseguia parar de pensar nela nem por um segundo. Eu não conseguia deixar de admirar cada sensação que ela transparecia, cada feição. era uma mulher forte, uma mulher inteligente e corajosa e eu a queria, era simples assim.
Fred continuou me olhando, esperando alguma reação negativa, nem que fosse eu reclamando de sua insistência em informações sobre minha vida particular, ele balançou a cabeça negativamente.
- Sal não vai gostar disso, . - Ele falou agora desviando o olhar para a mesa.
- Você conseguiu falar com ela? - Perguntei, ignorando o que ele havia dito.
Fred respirou fundo e voltou a me olhar. Randy apenas observava nossa conversa.
- Sim. Ela ficou furiosa ao saber que você reapareceu, perguntou até se era possível colocar seu nome na Rede. - Fred falou dando risada. - Mas no final aceitou nos encontrar... Ela deve chegar amanhã por volta das oito horas da noite.
- Vou precisar da ajuda dela. - Falei cruzando os braços.
Fred e Randy apenas me olhavam como quem esperava que eu falasse algo.
- O quê? - Perguntei, sem entender.
- Você sabe que não pode contar a ela, não sabe? - Randy disse.
Revirei os olhos. Não era possível que estávamos entrando em um debate sobre reação de mulheres.
- , Randy tem razão, se contar a Sal sobre ela irá matar os dois. - Freddie acrescentou.
- Porque ela faria isso? - Perguntei, mas eu já sabia a resposta.
- A garota se declara pra você a anos, desde que éramos adolescentes e você sempre disse que era incapaz de sentir qualquer coisa por alguém, mas mesmo assim alimentava os sentimentos dela indo pra cama com ela, agora você surge com uma missão suicida pedindo ajuda a ela, tudo pra proteger uma garota que mal conhece porque está apaixonado. - Disse Randy. - Você realmente acha que ela reagirá bem?
- Sal é adulta, ela sabe se controlar. - Falei sem emoção, porém não acreditava muito no que eu havia dito.
- Então estamos falando de pessoas diferentes. - Randy continuou. - Porque a Sal que eu conheço vai querer asfixiar você.
- Podemos não falar disso agora? - Perguntei, ficando irritado. - Fred, o armário do meu arsenal não está abrindo, preciso ver algumas armas antes de ir ao Black Smith amanhã.
- Podemos dar uma passada no seu quarto e eu tento abrir pra você. - Fred ofereceu. - Aí talvez eu possa conhecer a donzela em perigo. - Ele concluiu caindo na risada com Randy.
- Vocês dois não param nunca. - Falei sem paciência.
- , você não pode nos culpar, eu te conheço desde que éramos crianças, lá na Rússia eu nunca te vi nem dizer que estava interessado em alguém, muito menos trazer uma civil pra dentro da rede somente para protegê-la. - Randy disse.
- Eu sou um homem reservado, Randy. - Falei encostando na cadeira. Já estava na hora de eu voltar, eu conseguia sentir a abstinência dele começar a me afetar.
- O que quer que seja, então. - Fred concluiu nossa conversa. - Vamos indo, eu ainda tenho alguns contratos para deletar do arquivo.
Levantamos e caminhamos em direção ao elevador. Minha respiração estava falha e meus olhos pesados. A coceira nos braços era quase impossível de controlar, mas eu respirei fundo. Aguente mais um pouco. pedi enquanto chegávamos ao meu andar.
Randy e Fred estavam conversando sobre algo que eu não conseguia entender devido ao zumbido que se iniciava em meus ouvidos.
"Eu consigo te ouvir".
Ouvi uma voz que eu não conhecia vinda do meu quarto.
- Randy, me dê sua arma. - Demandei.
Randy e Fred pararam logo atrás de mim, Randy não hesitou em me entregar sua arma e eu caminhei o resto do caminho até a porta do quarto. Fred tirou sua arma e me acompanhou.
- ! - Ouvi o grito de e sem pensar, chutei a porta com toda minha força e atirei na figura toda vestida de preto que estava bem à minha frente, um em sua mão... E o outro na cabeça. A arma foi atirada para longe e o homem caiu no chão, seu sangue começando a escorrer pelo buraco recém feito em seu crânio.
A sensação de abstinência me abandonou, dando lugar à adrenalina. Meus pelos se arrepiaram ao sentir o cheiro da pólvora, como eu amava esse cheiro e eu entrei no quarto assim que Fred acendeu a luz, aproximei-me para observar o sangue manchando o carpete enquanto fazia o desenho perfeito da morte somente para ser trazido de volta a realidade por , que estava escorada à parede, seu rosto vermelho e molhado e ela tremia como quem estivesse no meio do Alasca sem roupas. Todos os meus sentidos voltaram e eu corri até ela, largando a arma de Randy não chão ao nosso lado. pulou em meu pescoço, abraçando-me forte.
- ... Graças a Deus. - Ela falava entre o choro e os soluços.
E era isso. Era essa sensação que me fazia perder todo o sentido. A sensação dela em meus braços, do conforto em tê-la ali. O poder em protegê-la. Eu não só queria... Eu precisava. Era quase primitivo e instintivo. Eu precisava proteger essa mulher a qualquer custo. Senti meu lado maligno querer tomar conta, ele também, em sua própria maneira, estava preocupado. Mas eu queria esse momento para mim, ele poderia assistir de camarote.



Agarrei o pescoço de e decidi que não soltaria tão cedo. Eu soluçava fortemente com o rosto enterrado em seu pescoço. Eu achei que fosse morrer, de todas as vezes essa eu achei que fosse ser minha última. envolveu os braços em minhas costas e apertou, eu conseguia perceber que Void não estava mais aqui, ele nunca demonstraria o mínimo de afeto, e mesmo que isso fosse algo incomum vindo de ambos, eu sabia que o mais provável era .
- Você está bem? - Ele me soltou colocando a mão na lateral de meu rosto e afastando os cabelos de minha cara. Olhei em seus olhos confirmando a troca, ele estava preocupado.
Eu apenas assenti, não tinha muita coragem de falar.
Um homem negro que eu não conhecia aproximou-se do agressor e retirou sua máscara. O homem que tentou me matar tinha a pele manchada de sol e a barba malfeita, seus cabelos eram tingidos por alguns pelos brancos e seus olhos abertos eram castanhos. Ele parecia ter trinta e poucos anos e tinha uma grande cicatriz que ia do pescoço até atrás da orelha. O homem mexeu nos bolsos do morto e pegou algo em seu bolso, um cartão como o de e inseriu em um aparelho que tirou do bolso. O aparelho apitou e ele balançou a cabeça.
- Aqui diz que seu nome é Ramon Fender, mas essa informação está incorreta. Ramon foi executado a três meses atrás, e provavelmente seu ponto de cadastro ainda não havia deletado seu contrato, esse cartão é roubado. - Ele disse guardando o equipamento e olhando em volta.
Randy então apareceu, entrou no quarto e deu uma boa olhada na cara do sujeito. levantou, deixando-me para aproximar-se dele.
- Você acha que ele é um dos caras de Ryu? - Randy perguntou.
apenas observou o homem morto por alguns segundos e negou.
- Ryu é um homem de tradições, ele não emprega ocidentais. Ele faz questão de dizer que foi ele.
- Então, quem é esse cara? - Perguntou Randy.
- Eu não sei, mas vou descobrir. - respondeu.
Eu ainda estava tremendo no canto sem entender metade do que estava acontecendo quando o homem que eu não conhecia aproximou-se de mim.
- Venha. - Ele sugeriu em uma voz calma, pegando em minhas mãos e me ajudando a levantar. - Deixe eu me apresentar... Meu nome é Freddie Behiti, vou pedir que lhe tragam um chá. - Ele disse enquanto me levava até a cama.
O homem andou até o telefone na mesa de centro e discou um ramal, ele falou alguma coisa, mas minha audição estava abafada por meus pensamentos. Se o homem não era enviado de Ryu, então quem era ele? E porque ele queria me matar?
- Fred, não existe alguma maneira de o identificarmos? - perguntou me trazendo de volta de meus pensamentos.
- Posso perguntar para meus contratos, mas ao menos que tenhamos uma equipe forense, eu acho que não tão cedo, .
- Bom, precisamos retirar o corpo dele daqui. - solicitou e Freddie voltou ao telefone.
aproximou-se de mim novamente, eu estava tremendo menos. Eu sentia que se estivesse perto, por todo seu conhecimento e treino eu estava ao menos mais segura.
- Ele te machucou? - perguntou e eu neguei com a cabeça.
parecia confuso, talvez até tão confuso quanto eu. apenas sentou-se ao meu lado sem falar nada, talvez ele estivesse procurando palavras para me confortar, mas eu sabia que ele não diria algo.
- Eu preciso aprender a me defender. - Eu falei com a voz ainda trêmula.
Ele somente virou a cabeça pra mim e assentiu, mesmo que esse lado dele não concordasse, agora mais do que nunca, ele tinha que aceitar.
- Já está tudo certo, amanhã começaremos. - Ele falou, a voz levemente falha.
Void estava em abstinência, e eu sabia porque estava levemente trêmulo e a palma de suas mãos suavam.
- Como ele está? - Perguntei.
Ele apenas me olhou, sabendo de quem eu estava falando. respirou fundo, e fechou os olhos tentando controlar os sintomas que também invadiam seu corpo.
- Mal. - Ele respondeu simplesmente olhando pra mim com desespero no olhar.



Capítulo XVI


Sarita, a mesma moça de mais cedo entrou no quarto acompanhada de mais cinco pessoas. Ela trazia com si uma bandeja com uma xícara e alguns biscoitos que logo foi entregue a mim. Os homens colocaram um saco plástico preto ao lado do corpo e o colocaram em cima do mesmo, cobrindo logo em seguida. Enquanto dois homens levantavam o corpo e o retirava do quarto os outros dois homens cortavam o pedaço de carpete machado de sangue. Eles agiam de forma rápida como se aquilo acontecesse com frequência, e levando em conta que estávamos em um hotel/bar/ponto e mais sei lá o que de criminosos, eu não duvidava.
Tomei o chá devagar para não queimar minha língua e estava inquieto.
- Fred, talvez eu tenha que aceitar aquela sua oferta. - Ele falou baixo, evitando que os outros ouvissem.
Fred lançou lhe um olhar de compreensão e chamou Sarita de canto.
levantou e caminhou até Randy, falando algumas coisas e o acompanhando até a porta, então Fred virou para mim.
- Que vida traumatizante a sua. - Ele falou. - Não consigo imaginar o que se passa em sua cabeça agora, ter sua vida toda tirada de você der repente, ver sua vida quase se perder mais de uma vez e agora fazer parte desse mundo.
Não falei nada, apenas dei mais um gole do chá que me foi entregue.
- Sabe, ... - Ele pausou. - Posso te chamar assim? ? - Assenti com a cabeça. - A maioria de nós não entrou nesse mundo muito tarde, muito nasceram em famílias criminosas e só continuaram o negócio da família. - Ele colocou a mão no peito, indicando que esse era seu caso. - Alguns entraram quando eram muito jovens, as vezes pelo dinheiro ou pela adrenalina, outros simplesmente porque são o diabo em pessoa, vindo pra ceifar sua alma para o inferno. - Ele não precisava dizer, mas eu sabia que ele se referia a . - Mas não você, você é como um gato domesticado e limpo que foi abandonado no meio da vida e agora está sujo e andando com os gatos vagabundos da rua e brigando por comida. - Ele soltou uma risada enquanto olhava encantado pra mim. - Será um prazer ver sua evolução.
Coloquei meu chá no criado mudo ao lado da cama.
- Obrigada senhor Behiti, mas - Apertei meus dedos. - eu não quero fazer parte desse mundo, não quero ser criminosa ou matar por dinheiro, eu quero matar por vingança.
Fred assentiu com a cabeça.
- Depois que eu o matar, eu vou começar do zero e fingir que nada disso existe. - Falei abaixando os olhos para meu colo.
- Nem mesmo ? - Ele perguntou intrigado.
Pensei em sua pergunta. Eu iria seguir em frente e esquecer para sempre? Ou eu iria seguir com ele ao meu lado? Será que ele me queria ao seu lado, ou ele iria seguir seu caminho sem mim? Independente das respostas reais a essa pergunta, eu apenas respondi a coisa certa a se dizer.
- Sim. Nem mesmo .
Fred manteve seu olhar de dúvida, eu acredito que ele conseguia ver diretamente por mim, e meus segredos todos eram revelados mesmo sem querer.
- Eu acredito ser um pouco como você. Não coloco minha mão no fogo por ninguém. - Ele dizia enquanto cruzava as pernas de forma educada.
- Não somos nada parecidos. - Falei atirando meu olhar em sua direção.
- Claro que somos, estamos no crime, porém não investimos na morte, bem no seu caso sim, mas eu não mato as pessoas, apenas gerencio uma parcela de quem quer.
- Eu não matarei depois de Ryu. - Falei seca. Talvez fosse o trauma dos acontecimentos anteriores, mas eu não queria papo com ninguém. Ele levantou uma sobrancelha me olhando com desdém, como quem dizia "Me conta outra".
- Porque está ajudando a sustentar seu vício? - Perguntei, incomodada com a maneira que ele me olhava e tentando deixá-lo desconfortável como ele me deixava.
- Contando que ele esteja pagando por seu vício, eu apenas vejo isso tudo como negócios. - Fred respondeu de forma pretensiosa.
- Então não diga que não sustenta a morte, você fornece armas, refúgio, drogas para pessoas matarem ou se matarem... Você é tão assassino quanto eles. - Ataquei.
Fred sorriu de lado irritado, mas ao mesmo tempo impressionado com minha ousadia.
- Como eu disse, Senhorita , será um prazer ver sua evolução. - Ele concluiu levantando-se e caminhando em direção à porta.
Não fiquei sozinha por nem alguns segundos e uma onde de terror passou por mim, era oficial, quando não estava por perto, eu me sentia completamente à mercê do mal, mesmo ele sendo meu monstro particular.
voltou ao quarto com um pacote preto em mãos. Ele parou na ponta da cama e respirou fundo, olhando para baixo. Ele estava envergonhado, mesmo o vício não sendo dele, ele não queria ter que falar, avisar ou fazer qualquer coisa relacionada a seu uso em minha frente.
- Vou trazê-lo de volta. - Ele falou esperando que eu concordasse.
Era claro a minha desaprovação com relação ao seu vício, mas eu não era nada deles para exigir um esforço. Ele poderia ter sentimentos por mim, mas nossa relação havia começado da pior maneira possível, de captor e capturada, e eu precisava vê-lo apenas dessa maneira.
Assenti com a cabeça, eu não queria que ele usasse, eu não queria que ele se matasse bem ali na minha frente aos poucos, não dessa forma. Eu preferia que ele simplesmente pegasse uma arma e atirasse em sua própria cabeça do que fazer o que ele tanto precisava fazer. Senti minha garganta arder, o nó se acumulando nela. Eu queria chorar. Eu vi de forma tão anormal, eu via ele como um monstro sem piedade e indestrutível, mas ele era quebrado, tão quebrado que eu temia nunca o ver recuperado.
Ele fechou os olhos, dando lugar a meu pior inimigo. O lado que eu mais odiava e queria. O lado que me fazia querer quebrar cada osso de seu corpo. Eu queria os dois, mas eu os queria de formas diferentes, esse lado só me trazia angústia. Angústia em nunca saber o que se passava em sua cabeça, em nunca saber qual seria sua próxima reação. Eu odiava o imprevisível, eu odiava a quantidade de raiva que ele tinha acumulado dentro dele, mas eu havia visto seu olhar no dia em que ele havia me deixado partir, eu havia o quebrado, mais do que eu havia quebrado , eu havia visto o ódio em seu olhar ao matar Caiam, e a maneira como ele usou tudo de si para me defender, para me curar de minhas feridas. Eu lembro de suas palavras claramente, "Foque na raiva", ele estava me dizendo para fazer o que ele faz, ele foca apenas na raiva, eles nunca sentiram amor, nunca sentiram alguém se importar, eles nunca tiveram alguém que proteger... Mas eu não queria ser protegida. Eu queria me defender. E no final das contas... Eu era igual aquela conteúdo dentro do saco para ele... Eu era uma droga. Um vício irracional. Algo que ele não queria usar, mas precisava.
O olhar do meu monstro estava escuro, sem vida. A vermelhidão em volta de seus olhos era viva. Eu podia ver seu corpo tremer, seus lábios tremerem.
- Void. - Chamei, e ele levantou o olhar apenas um pouco. Eu via que ele tentava falar, mas seu fôlego era limitado.
Será que era possível substituir uma droga pela outra? Será que eu faria mais mal a eles do que essa droga? Apenas amigos. Me lembrei do discurso que dei ao agressor enquanto eu achava que era . Eu realmente queria isso... Ser apenas amigos? Ou... Nada?
Engatinhei na cama até aproximar-me completamente dele, ficando de joelhos.
Eu não podia deixar ele assim, como essa droga deixava. Se ele ia se recuperar do vício que tinha por mim, ele tinha que ficar em abstinência.
- Não podemos mais fazer o que fizemos hoje. - Falei sem querer ser explícita.
Ele, em meio a seu descontrole tencionou o maxilar, os olhos levemente marejados pela agonia da abstinência.
- Eu sei. - Ele disse e então caminhou até o banheiro e se trancou.
Esperei sentada na cama até o sono começar a tomar conta de mim, eu queria esperá-lo sair do banheiro, mas ele estava demorando demais.
Deitei no travesseiro finalmente e fechei os olhos, deixando a escuridão de meu dia invadir minha mente.


Void.

Assim que eu havia me aliviado, me tranquei em nossa mente. Havia chegado ao limite pra mim, as drogas, a confusão e . Ela havia pedido e depois havia novamente me deixado para trás, em uma escolha egoísta. Ela não conseguia ver que a culpa não era minha? Que eu nem queria me sentir dessa forma? Então eu havia tomado a decisão de ir embora, de me isolar no mesmo quarto metafórico do dia em que ela havia partido, sem olhar para trás, sem hesitar. Não havia o que debater, ela nem me via como humano. Ela me via como um vazio absoluto, como ela me chamava. Ele nem me chamava por nosso nome. Por ele, de alguma forma ela sentia confiança, segurança, conforto. E ele queria fazer a coisa certa e deixar que ela fizesse suas próprias escolhas. Eu apenas queria tê-la... Sem pensar em consequências, sem questionar sentimentos. O simples fato de saber que ela me queria era o que me mantivera ativo. Mas como ela poderia querer alguém como eu? Alguém com o prazer pela dor, pelo sangue e pela glória. Alguém que se alimentava de ver a vida fugindo de um olhar, de um grito de pavor? Como? Era fantasia demais, normal demais de minha parte achar que ela poderia considerar, mas de certa forma, eu estava conformado com sua decisão. Ao menos eu poderia trabalhar esse sentimento e tentar separá-lo de mim, deixar que ele sentisse sozinho e voltar a quem eu era, o que eu gostava de ser. Eu não me importava de ficar aqui pelo tempo que fosse até isso acontecer. Eu ficaria aqui até esse sentimento inútil e sufocante me deixasse por completo. Eu evitaria assistir nossas interações, eu evitaria prestar atenção no som de sua voz. Eu evitaria até mesmo ter de salvá-la se for necessário pra que essa praga me abandone.
Ficamos sentados no chão do banheiro por algumas horas, ele estava quieto, sabia o que eu estava fazendo. Espere até ela dormir. Pedi. Eu não queria ter nenhuma interação com ela essa noite, não dessa forma vulnerável e sentimental que me causava a abstinência. "Você não quer ao menos ver?" Lembrei de suas palavras pra me provocar. Eu não queria apenas ver, eu queria tudo e um pouco mais. Eu queria não só ter comido ela uma vez, eu queria ter continuado até ela dizer que não conseguia mais, ver em seu rosto que eu havia a satisfeito de uma forma que ninguém mais no mundo poderia superar. Ninguém além do vazio. Ninguém além de mim.
Depois que ele teve certeza que ela dormiu, nós fomos até o quarto, assim que nossos olhos a encontraram, eu desviei minha atenção para o breu de nossa mente. Dê uma última olhada. Ele sugeriu em total acordo com minha decisão. Abri os olhos imaginários e a observei de canto. Ela dormia em paz, como eu sabia que não dormia a muito tempo. Eu não conseguia perdoa-la por ter ido embora, por ter dito que precisava de mim somente para dizer que não precisava mais. Eu servi meu propósito, e agora eu iria para a reabilitação mental, me recuperar dela.


Capítulo XVII




Flashback

Eu estava em pé na estação de trem, o céu era nublado e chovia uma garoa fina, que ao molhar minha pele, me congelava. Eu olhava em volta, procurando meus pais... Eles estavam aqui a segundos atrás, porque não estavam mais? Corri nos trilhos tentando lembrar o caminho até por onde viemos, mas minha mente pequena e infantil era muito limitada. Gritei, esperneei como qualquer criança faria, mas nada... Eu estava sozinho. Completamente sozinho. Me encolhi nos escombros da estação abandonada e lá fiquei.
- Eu não quero ficar sozinho. - Choraminguei em minha voz infantil.
Você não está sozinho. A voz veio com calma. Esperei, na esperança que a voz voltasse.
- Não me deixa. - Choraminguei, sentindo o choro querer voltar.
Eu não vou embora se você não quiser. Ela sugeriu, de forma brincalhona.
Limpei minhas lágrimas com minha mão minúscula e funguei.
- Você pode ficar pra sempre, se quiser. - Eu sugeri de volta, tímido. - Não precisa ir embora como normalmente faz.
A voz ficou em silêncio, eu acho que ela estava pensando.
Tá bom, eu fico se você for meu amigo.
- Eu sou seu amigo. - Retruquei de forma teimosa.
Levantei e caminhei nos trilhos, o choro havia ido embora, o medo também.
- Pra onde a gente devia ir? - Perguntei, vendo uma cidade ao longe.
A gente podia ir pra lá. Fiz um bico, eu estava com preguiça de andar.
- Ah, mas tá muito longe. - Resmunguei.
Eu posso ir por você. Ele falou.
- Como? - Perguntei com minha inocência.
Você tem que vir aqui pra sala da cadeira. Me concentrei. Mas eu não conseguia ver nenhuma sala da cadeira. Fechei os olhos com força. Vou te ajudar.
- Espera! - Gritei abrindo os olhos. - Qual é o seu nome? - Perguntei, curioso.
. Ele respondeu, franzi minha pequena testa.
- Mas esse é o meu nome. - Reclamei.
Esse é o nosso nome.
E então fechei os olhos com força novamente, vendo a cadeira no meio da sala escura, com a lâmpada pendurada na frente.

End Flashback.



Esse sonho não era meu. Essa lembrança não era minha. Era tudo dele, e talvez o conflito que ele esteja enfrentando em seu retiro mental esteja afetando os meus sonhos. Não falávamos sobre o dia em que eu apareci, eu só sei que parecia que eu estava dormindo e vez ou outra eu acordava e falava com ele, mas aquele dia eu lembro de despertar na sala e sentir que eu estava finalmente vivo. Para ele, eu nunca fui apenas uma voz em nossa cabeça, ele havia assumido que eu era uma parte dele que ele não conseguia ser. A parte que compensava por seus atos monstruosos. Ele nem sempre foi ruim... Eu ainda lembro quando estávamos pegando o jeito de trocar com mais facilidade e eu conseguia ver de fato todos os seus pensamentos e vontades... Ele já foi puro. E eu também... Se eu pudesse escolher não ter aparecido, eu negaria. Eu sei que precisávamos um do outro e talvez ele não tivesse sobrevivido todo esse tempo sozinho com tantos demônios em sua cabeça.
Me ajeitei na poltrona dura, olhei o relógio e vi que já eram sete horas da manhã. Sentei na poltrona e apoiei os cotovelos nas pernas, passando a mão em meu rosto para espantar a noite mal dormida. Por que ele estava tendo esses sonhos? Logo agora? Eu não conseguia senti-lo e minha mente parecia fria... Mas era bom ter um pouco de privacidade de vez em quando, e eu sabia o quão mal esse sentimento que eu tinha por o deixava.
Peguei o telefone na mesa de centro e pedi dois cafés grandes. Estava na hora de acordar . Olhei em direção à cama, ela estava dormindo pesado, o que havíamos feito com ela nas três primeiras semanas havia quebrado seu espírito, e disso eu me arrependia profundamente, mas não tinha mais o que fazer, agora eu tinha que ajudá-la a todo custo. Caminhei até a cama e observei seu rosto machucado, que ódio que eu sentia dele por ter feito isso com ela. Não havia sido apenas ele, claro, mas eu lembro dele torturando ela mentalmente, fisicamente... Era assim que ele reagia diante de um conflito... Violência. E ao longo dos anos, eu havia aprendido a gostar também.
- ... Acorde. - Falei baixo, esperando que ela acordasse com facilidade, mas ela nem se mexeu.
- . - Falei mais alto.
Ela abriu os olhos e piscou algumas vezes antes de olhar pra mim.
- Void. - Ela falou em uma voz rouca. - Você está bem? Está melhor? - Ela perguntou com sinceridade na voz.
- Ele não está aqui, . - Respondi sem ânimo.
- Ah, ... Desculpe, eu não percebi que era você. - Ela disse esfregando os olhos e sentando na cama. - Ele está melhor?
Ela voltou a perguntar. O sono claro em seus olhos e voz. Eu não sabia se era a hora certa de contar a ela que ele havia se fechado.
- Sim. Está se recuperando. - Aquela era uma verdade mentirosa, pois pra ela a recuperação era referente à droga, mas eu sabia que ele estava tentando se recuperar dela.
- Eu pedi café, hoje é o primeiro dia de treinamento, Aiden está te esperando na sala. - Avisei, caminhando até o armário.
- Aiden? Achei que você me treinaria. - Ela revelou.
Escolhi uma blusa preta lisa e uma calça cinza, peguei um tênis no topo do closet e caminhei de volta ao quarto.
- Eu vou... - Respondi passando uma mão no pescoço sentindo ele doer. - Em outro momento.
- Onde você dormiu? - Ela perguntou olhando o outro lado da cama que estava ainda arrumado.
Tirei minha blusa, e joguei em cima da poltrona.
- Ahn... Aqui. - Apontei para a poltrona pegando a outra blusa e vestindo.
- Você pode dormir na cama se quiser. - Ela sugeriu em uma voz baixa, tímida.
Virei o rosto para , ela estava de pé agora coçando a parte de trás da cabeça, ela não me olhava nos olhos.
- A cama é bem grande, então... Você não vai me atrapalhar... Podemos manter as coisas profissionais. - Ela concluiu indo em direção ao banheiro.
Quando a perdi de vista, fiquei um tempo encarando o lugar onde ela estava. Profissionais. Ela estava levando essa história de contrato a sério demais... Eu não queria que ela se afundasse nisso. Respirei fundo e terminei de me vestir, não demorou muito tempo para se arrumar e logo apareceu com uma calça de ginástica preta que acentuava suas curvas e um top da mesma cor que revelava um pouco de sua barriga. Quando ela apareceu em minha frente eu fiquei alguns segundos sem reação. Será que era assim viver normalmente? Ver a mulher que você gosta se vestir para ir à academia e morrer de medo de alguém mexer com ela no caminho? Ao menos eu sabia que aqui, ninguém tentaria nada do gênero... Não enquanto eu estivesse aqui.
- Vamos? - Ela perguntou e eu apenas pigarreei e virei em direção a porta. Se eu soubesse o quanto esse treino mexeria comigo, eu teria ficado no quarto.




Quando chegamos até a sala de treinamento que ficava no terceiro andar subsolo, eu comecei a pensar no quão grande era aquele lugar, e só de imaginar que esse era apenas um dos pontos da Rede, eu tremia. Como é que o crime organizado havia virado algo tão de fato... Organizado? Tão grande?
A sala era grande, o piso era de tatame cinza e as paredes brancas. Haviam três sacos de pancadas enfileirado nas duas extremidades da sala, no centro estava um boneco de treino e ao seu lado, Aiden, com seus cabelos ruivos presos num rabo de cavalo alto e um conjunto vermelho, saia-shorts e top. Devo dizer que ela estava... De tirar o fôlego em roupas de ginástica?
- Bom dia, aprendiz.- Ela falou em um tom feliz e teatral. - Vejo que veio vestida a caráter, muito bem, assim podemos começar.
Aiden não esperou uma resposta e logo começou a me guiar em alongamentos. Eu não era muito estranha aos alongamentos, por ter feito balé até o final de minha adolescência, eu diria até que no quesito elasticidade e abertura, eu era bem avançada e isso pareceu irritar um pouco ela.
- Ok, vamos ao primeiro passo. - Ela começou uma explicação de como me movimentar se eu for atacada por trás, dizendo que existiam algumas formas de me defender caso isso acontecesse.
- Por que lado o Russo te atacou ontem? - Ela perguntou com uma mão na cintura.
- Russo? - Ouvi a voz de .
Vi Aiden revirar os olhos como se fosse a pergunta mais idiota que ela já ouvira.
- Ele tinha tatuagens, uma estrela em cada ombro, faça sua lição de casa e não atrapalhe. - Ela voltou pra mim. - Então?
Pisquei algumas vezes e afastei a visão de pensativo.
- Por trás. - Falei.
- Muito bem, se ele vier por trás a primei opção é virar completamente seu corpo em direção a ele e com o joelho violentamente deixa-lo estéril. - Ela explicou e então pediu que ajudasse na demonstração. Ele bufou, claramente intrigado com a notícia de que o invasor de ontem à noite era Russo, mas então aproximou-se.
- Vem com tudo . - Ela pediu.
- Já te ouvi dizer isso antes, Aiden White. - Ele falou com um sorriso lateral sacana.
Senti meu estômago virar, a pontada chata se mostrando presente novamente. Apenas cruzei os braços e descansei o quadril pro lado, como uma adolescente enciumada.
então prosseguiu para tentar pegar Aiden por trás, ela então rapidamente girou por dentro de seus braços ficando frente a frente e levantou o joelho, chutando as genitais de sem piedade, o mesmo rapidamente se encolhei e reclamou de dor e então ela segurou em sua cabeça e levantou o joelho novamente para seu nariz.
caiu para trás, com uma mão em sua intimidade e a outra no nariz.
- Desgraçada! - Ela xingou baixo, enquanto reclamava de dor.
- Você mereceu. - Ela retrucou.
rapidamente se recuperou e então levantou, fazendo uma cara de dor.
- Vem, sua vez. - Ela disse e olhou para .
Ele arregalou levemente os olhos como quem não estava pronto para outra.
- Posso ao menos colocar um protetor antes de voltarmos a essa tortura? - Ele pediu.
Aiden apontou para o canto da sala onde estavam os protetores e logo os vestiu, voltando para onde estávamos, eu fiquei de costas para ele, apenas esperando.
- Muito bem, ... Ataque ela. - Ela falou e então eu senti os braços expostos e quentes de me envolver. Por alguns segundos, eu esqueci o que eu tinha que fazer e então, como uma boa bailarina, girei em meu lugar, ficando cara a cara com ele. Quando virei, ele olhou profundamente em meus olhos, senti o ar ficar preso em meus pulmões. Aqueles olhos não eram daqui, olhos duros e tão profundos que eu me perderia nas histórias que eles tinham para contar.
Quando voltei a mim, rapidamente levantei o joelho, batendo-o contra o protetor e então empurrei para trás virando a cara. Eu não conseguia olhá-lo nesse momento, não queria que ele visse o que a proximidade dele fazia comigo.
- Foi... Quase bom. Você deu uma leve dispersada, mas acho que estamos chegando lá. - Ela constatou parecendo uma líder de torcida.
Tentamos mais algumas vezes até eu estar completamente familiarizada com o movimento, e cada vez que eu sentia a pele de contra a minha, ou olhava em seus olhos, eu sentia um frio subir por minha espinha, depois de me dispersar algumas vezes, Aiden finalmente se irritou.
- Ok, senhor Romeu, você pode voltar pra lá porque aparentemente sua presença não está ajudando. - Ela apontou para o banco que ficava ao lado da porta.
Aiden me mostrou mais alguns movimentos para quando alguém me atacar de frente, pegando em meu pescoço, pra quando alguém me puxar pelo braço com força e quando chegamos ao quarto ataque, eu comecei a me sentir levemente desconfortável.
- Muito bem, deite. - Ela pediu. Deitei no chão macio e então ela sentou em meu colo, uma perna de cada lado do meu quadril.
Senti minhas bochechas ficarem vermelhas, eu não era sexualmente atraída por mulheres, mas Aiden era uma mulher extremamente atraente e estava em uma posição um tanto quanto sexual em cima de mim.
- Quando o agressor te atacar por cima, ele vai ter algumas formas de te de imobilizar. - Então Ainden encostou seu colo no meu e ficamos com os rostos colados, seu nariz encostado no meu. Virei meus olhos para , que encarava a cena como um adolescente na puberdade. Ele estava com o lábio inferior entre os dentes e a teste levemente franzida.
- Nesse caso, se ele estiver dessa forma e segurando suas mãos, você tem que usar a cabeça, e eu me refiro à forma literal. - Ela complementou. - Vem, vamos inverter.
Ela saiu de cima de mim e deitou esperando que eu sentasse da mesma maneira que ela estava sentada, mas eu não conseguia evitar olhar para no canto da sala, agora ele estava com o cotovelo encostado no joelho e a mão na boca, encarando claramente abismado.
Sentei no colo de Aiden e ela olhou de para mim.
- Você quer provocá-lo? - Ela perguntou, levantando a lateral da boca.
Arregalei os olhos e pisquei algumas vezes.
- Não! - Exclamei. - Ele está encarando. - Falei mais baixo.
- Deixe ele olhar, homens normalmente só são bons pra isso. - Ela falou de forma sensual e deu uma piscadela pra mim.
Ignorei a atitude da garota e continuei com o treinamento que durou mais algumas horas. Aiden era perfeccionista, e queria que eu estivesse completamente familiarizada com todos os movimentos, ela pediu que entrasse em seu lugar já que sua força era maior.
Quando Parou atrás de mim, falei as mesmas palavras que Aiden, porém com determinação.
Eu precisava focar nesse treinamento se eu quisesse chegar à Ryu.
- Vem com tudo, .
não fez nenhuma piada sacana, ou comentário engraçado. Ele apenas seguiu minhas ordens e iniciou o ataque, eu rapidamente virei e iniciei a defesa, empurrando-o pra trás. não se abalou com minha defesa e logo partiu pra cima de mim, pegando em meu pescoço com força. Coloquei meus braços pro lado e levantei-os, logo em seguida, descendo-os em cima de seus braços, que caíram pra baixo largando meu pescoço. Como o pé, eu atingi o peito de , que não hesitou em pega-lo, eu não estava preparada para aquele movimento e então ele me derrubou no chão, se jogando pra cima de mim pegando meus braços e segurando-os ao lado do meu rosto. Em um movimento rápido eu tentei levantar o joelho, mas suas pernas me impediam, deitei dar um golpe com minha cabeça, mas ele se esquivou. Aiden não havia me ensinado mais nada além disso, o que eu tinha que fazer agora?
Me debatendo embaixo do corpo do meu captor, eu tomei a iniciativa de improvisar, e estiquei meus braços no chão, fazendo com que seu corpo abaixasse mais e o movimento de sua cabeça ficasse limitado o suficiente pra ele não conseguir desviar, e então o golpeei e virei para o lado, invertendo nossas posições e ficando em cima dele.
Minha respiração estava pesada, e a de também. Ele fazia uma leve feição de dor e outra que eu conhecia bem... Tortura. Estar em cima dele mexia com ele tanto quanto mexia comigo e então eu levantei rapidamente assim que comecei a sentir algo embaixo de meu quadril.
levantou rapidamente e disfarçou.
- Muito bem, essa foi sua última lição... Improviso. As vezes as coisas não acontecem da maneira que treinamos e temos que improvisar.
Eu sentia que meu rosto estava levemente avermelhado por conta do esforço físico e minha pele estava úmida.
- Acho que por hoje está bom, podemos continuar amanhã. Acredito que vocês têm algo marcado. - Ela se referia ao encontro com Black Smith, que eu ainda não sabia quem era.
- Sim... ... - chamou, agora completamente recuperado. - Vamos. - Ele virou de costas caminhando pela porta.
Olhei para Aiden que tinha uma sobrancelha levantada, um sorriso sacana e então ela me jogou uma toalha de rosto.
- Até quando você irá fingir que ele não te afeta? - Ela perguntou.
Sequei o suor em minha testa e respirei fundo.
- Ele não me afeta. - Falei, menti.
- Querida, a garota das artes dramáticas aqui sou eu, sua atuação não é convincente. - Ela brincou, aproximando-se de mim.
- Eu não preciso convencer ninguém. - Retruquei.
Ela levantou as duas sobrancelhas e depois franziu cruzando os braços.
- Ele não te contou ainda. - Ela concluiu.
- Contou o que? - Perguntei.
- Sobre Sal. - Ela respondeu.
- Quem é Sal?
Aiden apenas balançou a cabeça negativamente e virou de costas pra mim.
- Não é minha pergunta para responder.
E então ela caminhou em direção a porta.
Fiquei um tempo parada no meu lugar, ainda sem muito fôlego. Quem era Sal? E por que eu teria que convencê-la que não me afetava?
Saí da sala de treinamento e encontrei e Aiden cochichando.
- Você precisa contar pra ela hoje... Ela vai chegar daqui algumas horas. - Quando Aiden me viu, ela parou de falar e saiu andando.
Decidi que talvez aquele não era o melhor momento para tocar no assunto, então decidir apenas ignorar.
e eu voltamos ao quarto, eu fui direto para o banheiro tirar o suor do corpo e ficou esperando na sala.
Quando saí, eu já estava vestida. mexia em algo na sala, e quando meus olhos o encontraram, eles encontraram também algo que poderia ter sido muito útil para mim na noite anterior.
A parede era uma espécie de cofre gigante, e dentro havia uma seleção generosa de armas de fogo. Pistolas de todos os tipos, algumas armas de fogo pesado, facas e balas. Esse era o tal "Arsenal" que a carta se referia.
- Ah, você está pronta, não temos muito tempo. - Ele pegou uma das armas e colocou na parte de trás de sua calça, encostando seu cartão na lateral do cofre que fechava, deixando a impressão de que nunca havia um cofre ali, apenas uma parede.
- Quem é Black Smith? - Perguntei enquanto saímos pela porta.
- É o que, e não quem. - Ele respondeu, deixando-me confusa. - Black Smith era um nome usado antigamente para pessoas que forjavam objetos, normalmente espadas e escudos com metal, aqui dentro nós também damos o nome de Black Smith para o Senhor Jenkins, que nos fornece nosso armamento. - Ele retirou a pistola das costas e me mostrou ela, parando no corredor.
- Percebe que essa arma não tem registo, marca, serial, nada? - Ele perguntou e eu assenti. Ele então abriu a pistola tirando de lá uma bala, gravada na mesma estava 0522, o serial de Daniel. - Essa é uma forma de identificar quem da rede está matando quem, claro que apenas isso não é o suficiente. caso for uma questão de execução eu precisaria do cartão do contrato.
- Alias, quando receberei meu cartão? - Perguntei.
- Falaremos disso quando chegarmos lá. - Ele respondeu seco.
Parecia que havia um muro entre nós cada vez que conversávamos. Como se estivesse se afastando de mim cada vez mais, e mesmo isso me deixando incomodada, eu sabia que era o que eu havia pedido. Respirei fundo e vesti a mesma máscara de frieza que ele e Void vestiam e começava a me perguntar porque o lado obscuro do meu monstro ainda não havia aparecido.
Quando chegamos ao tal do Black Smith, me senti um pouco decepcionada. A sala era do tamanho de uma sala de aula, e as paredes todas eram de um metal claro. No centro havia uma pequena mesa, com uma cadeira de cada lado e sentado em uma delas, um senhor baixo, com um bigode branco e cabelos igualmente brancos.
- Ah, senhor . - Ele cumprimentou em seu sotaque inglês, levantando da cadeira e estendendo a mão para . - É sempre um prazer receber o senhor.
- Não precisa de formalidades Jenkins, quero te apresentar . - Ele virou pra mim depois de apertar a mão do senhorzinho.
Dei um sorriso tímido e apertei a mão do senhor que acenou com a cabeça.
- Vamos começar. - Ele disse indo até a mesa e pegando um controle. - Que tipo de peça o senhor procura hoje? - Ele apertou um botão e igual o arsenal do quarto, as paredes de metal viraram, revelando paredes repletas de armas. Minha decepção logo foi embora.
- Quero algo para ela, algo que seja perfeita para a mão dela. - falava como um bom comprador.
Um lado sério e negociador dele que eu nunca havia visto antes.
- Talvez algo sob medida? - O senhor Jenkins virou para com um olhar de intriga.
- Sim, mas podemos começar com algo que já exista, pra que ela possa treinar. - respondeu.
O Senhor Jenkins olhou em volta com o dedo no queixo, em dúvida. Depois caminhou até uma das paredes e pegou uma pistola prateada, o mesmo caminhou até mim e me entregou.
Fiquei olhando para , eu não sabia o que fazer com aquilo.
- Sinta ela em sua mão, veja se encaixa. - Ele sugeriu, vendo minha dúvida.
O Senhor Jenkins apertou mais um botão no tal controle e uma das paredes virou revelando alvos, três enfileirados, como o centro vermelho.
Receosa, eu segurei a arma em minha mão desleixadamente e apontei para o alvo. A arma era um tanto quanto leve, a armação encaixava em minha mão, mas ainda era um pouco grande. Respirei fundo, eu estava com medo de puxar o gatilho, mas porque eu nunca havia atirado uma arma em toda minha vida. Com o braço esticado e segurando a arma insegura, eu senti alguém atrás de mim. parou com o corpo colado no meu.
- Respire fundo, nós ainda vamos treinar isso. - Ele falou baixo, próximo a meu ouvido. - Mas eu posso te ensinar algumas coisas agora.
esticou a mão, colocando a dele sobre a minha, levantando a arma um pouco.
- A altura da arma tem que ser a altura do seu coração; - Ele falou baixo, sua respiração batendo em meu ouvido. Os pelos da minha nuca arrepiaram e eu respirei fundo, piscando algumas vezes e tentando manter meu foco. Porque era tão difícil me concentrar perto dele?
- Agora dobre os joelhos um pouco e vire o corpo sutilmente. - Ele colocou as mãos em minha cintura, virando meu corpo. A sensação de seus dedos em minha pele me dava choques. - Destrave a arma. - Ele pediu, ainda mais baixo. Parecia que ele sabia dos efeitos que tinha sobre mim e que estava fazendo aquilo de propósito. Puxei o pino de segurança pra baixo, concentrando-me à mira.
- Respire fundo. - Suas mãos ainda estavam em minha cintura. - E atire.
Olhando fixamente para o alvo, senti meus pulmões se encherem e eu quase conseguia ver o rosto de Ryu naquele alvo e então eu puxei o gatilho. O impulso foi forte, porém com o posicionamento que havia me dado, me mantive firme em meu lugar.
A som ecoou pela sala de metal, trazendo-me uma leve sensação de zumbido no ouvido e então eu vi onde minha bala havia acertado.
No centro da mira.
- Parece que nossas aulas de tiro serão fáceis. - brincou, ainda com a voz baixa em meu ouvido, antes de sair e falar com o senhor Jenkins.
A adrenalina, o som, a sensação de meu coração batendo contra meu peito e o cheiro de pólvora havia me drogado. Ver aquele furo no centro do alvo havia me deixado entorpecida, a sensação era como uma droga altamente viciante e talvez o melhor, ou o pior de tudo... Era que eu havia gostado.


Capítulo XVIII



Depois do encontro com o Black Smith, me deu meu cartão de contrato, me explicando seu funcionamento.
O cartão não era apenas minha forma de identificação, mas também minha forma de pagamento por todo e qualquer serviço oferecido pela rede e qualquer dinheiro que eu recebesse por serviços era transferido diretamente para meu cartão. também me explicou que eu não podia deixar qualquer ponto da Rede com o cartão, já que se ele fosse descoberto por algum civil, podia denunciar todo o esquema, então cada vez que eu aparecesse em algum ponto da rede, eles me dariam um cartão novo com meu número de contrato gravado.
- E como recebo os serviços, vejo minha posição no ranking, transferências e todo o resto? - Perguntei.
- Para isso você ganhará um desses. - Ele disse tirando um celular do bolso.
Parecia um celular velho, daqueles que tínhamos nos anos 2000, mas me mostrou seu funcionamento.
Não era um celular comum. Não havia cor, o fundo era preto e as letras brancas, parecia mais arquivos criptografados para alguém de fora, mas com me explicando, eu conseguia facilmente identificar tudo que estava escrito. Quando havia um serviço novo, ele aparecia como uma mensagem de texto. O nome do alvo o valor e a quantidade de pontos. Se você e mais de uma pessoa aceitar, quem fizer aquele serviço primeiro irá receber o dinheiro e a autenticidade disso era assegurado pelos olheiros da Rede.
Serviços em aberto ficavam em uma aba, com as datas de postagem, os valores e os pontos. Eu me perguntava porquê demorava tanto tempo para alguém pegar serviços grandes como aqueles, mas havia me explicado que normalmente os cinco primeiros colocados do Ranking eram os únicos aptos a serviços como aqueles, já que eles tinham mais experiência e pontos. Algumas vezes, os olheiros interferiam na tentativa de alguns iniciantes pelo medo de eles serem pegos ou atrapalharem a "Boa Imagem" da Rede. As páginas rosas ficavam em outra aba e era atualizada quase que por minuto, já que eram os serviços mais fáceis. Porém, diferente do que Randy havia dito, a pontuação não subia mais que três pontos.
- De três em três pontos, você chega a algum lugar. - Disse , num tom monótono.
O Ranking era a página que eu estava mais ansiosa para ver, e claro que Aiden e Randy estavam nela. Aiden estava em quarto lugar, e Randy estava em sétimo.
- Hum, Aiden é melhor que Randy... isso faz sentido. - Falei pra mim mesma, num tom de ironia.
- E ela matou mais. - acrescentou de forma natural.
Em primeiro lugar estava um nome familiar e em segundo outro.
Sal em primeiro e em segundo Viktor, o homem que queria me explicar o funcionamento da Rede. Lembrei de Aiden mais cedo, falando sobre a tal da Sal e olhei para , minha garganta coçando para perguntar quem era a sujeita, mas apenas ressaltei outro acontecimento.
- Eu conheço esse Viktor. - Comentei e virou os olhos pra mim em desaprovação.
- Fique longe dele. - Ele mandou, controlador.
Soltei uma risada debochada.
- Fique longe dele? Porquê? Ele é perigoso? - Revirei os olhos.
- Sim. - Ele respondeu.
- ... Você é perigoso. Aiden é, Randy... Tudo isso aqui é perigoso, e logo eu me tornarei perigosa. - Falei com a voz dura.
- Achei que não me via dessa forma mais. - Ele desviou os olhos de mim, com decepção na voz.
- Pra mim você sempre será perigoso, ... Essa é a verdade. - Eu não queria machucar ele, mas eu não podia deixar que ele achasse que eu o via de forma normal agora. Ele ainda era um homem cruel, impiedoso e monstruoso aos meus olhos, e mesmo que esse lado bom dele seja mais acessível, ele ainda compactuava com a violência do lado maligno.
tencionou o maxilar e levantou, caminhando até a porta.
- Preciso resolver algumas coisas, se quiser comer, vá até a recepção. - Ele informou sem emoção na voz e então saiu do quarto.
Bufei e levantei, andando de um lado para o outro.
Será que tratá-lo dessa maneira era a forma certa de afastar os sentimentos dele por mim? Ou, sendo verdadeira comigo mesma... O meu interesse por ele? Eu só sabia que precisava ficar o mais longe emocionalmente dele possível se eu quisesse sobreviver nesse mundo.
Depois algumas horas, resolvi seguir o conselho de e fui até a recepção, o lugar onde eu havia conhecido Aiden e Randy, eu estava faminta e entediada, mas principalmente, eu não estava aguentando ficar sozinha.
Olhei em volta, procurando algum rosto familiar, mas o único que encontrei foi o mesmo que havia me pedido para ficar longe, Viktor. Eu não queria ser infantil, mas minha vontade de contrariar qualquer ordem dada por era forte o suficiente para eu me aproximar do estranho. Ao chegar na mesa, ele levantou os olhos pra mim, ele tinha um copo de Whisky na mão e um sorriso lateral invadiu seus lábios. Se eu fosse uma adolescente hormonal, eu teria suspirado pois ele era extremamente charmoso.
- ... - Ele falou meu nome de forma sedutora, me causando uma sensação de frio na barriga. - Quer se sentar? - Ele perguntou. Eu estava relutante em sentar com Viktor, havia me dito que ele era perigoso, mas minha curiosidade falava mais alto.
- Se não for incomodar. - Falei em um tom baixo, completamente insegura.
- De forma alguma... Sua companhia irá fazer de minha noite mais especial. - O charme sempre acompanhando suas falas.
Sentei-me em frente a Viktor e logo uma garçonete apareceu.
- Posso lhe pagar uma bebida? - Viktor perguntou, levando o copo aos seus lábios que ainda mantinham aquele sorriso lateral charmoso.
- Claro... - Respondi tentando manter minha pose. - Contanto que me conte algumas coisas.
Viktor soltou uma risada sarcástica.
- Quem diria... Já está pegando o jeito. - Ele deu uma piscada e pediu duas doses de Whisky, a garçonete se afastou, deixando-nos sozinhos.
- Então... Como posso te ajudar? - Ele perguntou, apontado os braços na mesa redonda entre nós.
- Você me disse que se eu tivesse qualquer pergunta sobre a Rede eu poderia falar com você. - Ressaltei, deixando claro que meu interesse era apenas... Educacional.
- Muito bem. - Ele encostou na cadeira de forma largada, os olhos azuis me fitando de forma provocativa.
- Quero saber porque não está no Ranking ou tem pontos. - Pedi a informação de forma clara e direta.
O sorriso de Viktor desapareceu, dando lugar a um olhar de irritação. Aparentemente a maioria das pessoas tinham algum problema com , e Viktor também era um deles.
- Ele não pode mais receber pontos. - Ele levantou as sobrancelhas, agora tomando o lugar de funcionário da Rede. - é um contrato permanente, independente dos serviços que faça, ele nunca será um contrato normal. O serviço dele é obrigatório até que ele cumpra os anos.
- Mas, porquê? - Perguntei franzindo a testa.
- vendeu sua alma ao diabo, por assim dizer. - Ele falou com divertimento na voz. - Ele começou na rede quando ainda era criança e fez muitos inimigos e amigos. - Ele enfatizou o 'inimigos'. - Logo, muitos o queriam morto, mas ninguém tinha coragem de colocar seu nome na Rede.
A Garçonete chegou com nossos drinks e eu peguei o copo dando um gole. O sabor amargo do líquido me fez querer cuspir, mas mantendo minha pose eu apenas engoli o conteúdo que desceu rasgando minha garganta.
- Quando ele tinha treze anos de idade um nome surgiu na Rede e imediatamente o reconheceu. - Viktor contava como se estivesse lá, e eu não duvido que estava. - Aparentemente era seu pai... Um vendedor de drogas contratado de um cartel irlandês, um homem burro, sem educação, violento e impulsivo.
Quer dizer então que sabia quem era seu pai? Ele havia o matado?
- Todos nós sabíamos das coisas horríveis que Lewis havia feito ao longo da vida. Ele era um viciado e bêbado. Escória da sociedade. - Viktor falou com desgosto na voz. - E ele havia fudido com o negócio do cartel, pegou toda droga que tinha que vender e usou, criando uma dívida monstruosa. Os chefes do cartel não queriam sujar suas mãos, já que estavam na mira da Policia Federal Irlandesa então eles colocaram o nome da barata na Rede. - Ele continuou, dando um gole da bebida.
- Ah... Mas nosso querido não queria seu amado pai morto, mesmo depois de toda tormenta que ele havia causado na vida do garoto. - Ele falava com angústia na voz. - E se dispôs a pagar a dívida do pai. - Então não queria seu pai morto? Porque? Eu sabia que seus pais haviam o abandonado, mas porque se intrometeria em algo assim, depois do que ele havia feito. - Mas o Cartel não queria alguém não confiável vivo, ainda mais com as investigações que rolavam, então eles não aceitaram a proposta de .
Viktor terminou de virar o Whisky como se fosse água e eu o acompanhei, torcendo o nariz logo depois.
- Vá com calma garotinha, não queremos que seu protetor fique bravo. - Viktor provocou.
- Ele não é meu protetor e eu não sou uma garotinha. - Cuspi de volta.
Viktor sorriu, um sorriso sacana como quem gostava da minha atitude e eu sorri de volta, sentindo-me mais leve.
- E então o que aconteceu? - Perguntei, sentindo a bebida me deixar mais desinibida.
- Ele conseguiu fazer um acordo com a Rede... Naquela Idade, já estava em primeiro lugar a três anos e ele era apenas uma criança. A Rede não é burra e ter alguém como trabalhando eternamente para eles era algo de fácil acordo. - Ele respondeu de forma simples. - Então virou um contrato vitalício por assim dizer... E o pior de tudo é que seu pai morreu de overdose alguns meses depois. - Ele soltou uma risada debochada.
- Então, será pra sempre um contrato? - Perguntei.
Viktor chamou a garçonete e pediu mais duas doses.
- Sempre. Sem pontos, sem Ranking. Apenas um funcionário. - Ele concluiu.
- O que acontece se ele decidir parar? - Perguntei enquanto os copos eram novamente colocados na mesa.
- Eu serei um homem rico. - Ele falou sorrindo.
Fiquei quieta. Todos queriam matar , mas eu sabia que a maioria temia ele. Eu não sabia se era pelo fato de ele ser dois ou se era porquê era de fato o mais perigoso ali.
- Quantas pessoas já matou? - Perguntei temendo a resposta.
Viktor riu balançando a cabeça negativamente.
- Tem certeza que quer saber? - Ele perguntou. - Estamos falando de Homens, Mulheres... Crianças.
- Crianças? - perguntei chocada.
- Sim... Eu já lhe disse, entrou nesse mundo cedo demais. - Ele respondeu.
- Tenho. - Falei firme. - Quero saber quantos ele matou.
Viktor apenas me olhou e respirou fundo com aquele sorriso charmoso brincando nos lábios.
- Desde que ele entrou na Rede, seu contrato tem acumulado 1485 serviços... Isso inclui seu tempo trabalhando para Ryu.
Engasguei, e não era por culpa do Whisky. havia matado 1485 pessoas ao longo do seu tempo com a Rede. Eram 1485 vidas perdidas por causa de , por dinheiro... por poder. Coloquei a mão na boca, enjoada.
- Respire fundo. - Viktor falou. - A maioria fica assim quando descobre, pra Rede ele é uma... peça rara.
- Meu Deus... - Exclamei, ainda completamente chocada com essa informação.
- Mas por favor... Não vamos continuar falando do nosso menino de ouro.
Virei todo o conteúdo do copo novamente. Era muita informação pra absorver.
era fixo da rede, nunca poderia ser livre. Ele havia matado muitas pessoas. Incluindo minha mãe.
Tive vontade de chorar... Minha mãe agora era estatística para os dotes criminais de segundo a Rede e minha raiva dele agora só aumentava.
- Me fala mais sobre você... - Viktor pediu, tirando-me do meu estado caótico.
Respirei fundo, me recuperando do choque.
- Eu... - Comecei, mas parei.
O que tinha pra falar de mim? Minha vida antes disso tudo era monótona, sem graça e normal.
- Eu não tenho histórias impressionantes ou corajosas para contar... Minha vida era normal. - Respondi desanimada.
- Histórias normais são relíquias aqui dentro ... Tudo que um homem como eu poderia sonhar. - Ele disse afastando seu copo dos lábios, sua voz mais baixa e encantadora.
- Bem... Eu era jornalista... - Comecei. - Morava a algumas quadras da casa de minha mãe em Tacoma. - Senti o nós começar a se formar em minha garganta ao lembrar-me de minha vida.
- Eu havia acabado de me formar e estava em um relacionamento com um cara que nem sabia se gostava, mas que estava me divertindo. - Sorri angustiada. - Eu tinha duas amigas, Clair e Katy, elas eram o estereótipo perfeito da garota americana e eu me encaixava perfeitamente em tudo aquilo. Aos domingos eu almoçava com minha mãe ou eu ia a um jogo de Basebol com meu namorado, era uma vida pacata... Eu tinha tudo. - Falei me perdendo nas lembranças. - Eu tinha um apartamento que eu amava, um carro do qual eu tinha orgulho o emprego dos sonhos...
- E ele tirou tudo de você. - Viktor acrescentou, fazendo-me levantar os olhos em sua direção. Havia pena em seu olhar e isso me deu vergonha. Eu não queria ninguém sentindo pena de mim.
- Sim. - Afastei o olhar para um ponto fixo na mesa. - Ele tirou.
- É uma pena... - Ele pressionou os lábios um contra o outro. - Acho que precisamos de mais uma dose. - Ele disse sinalizando para a garçonete.
Eu não imaginava o quão grande era o estrago que Ryu havia feito em minha vida... Que havia feito. Ele estava apenas seguindo ordens, mas... Se ele não tivesse se apaixonado por mim, eu teria virado apenas mais uma estatística... Não teria?
- Não quero te deixar deprimida, . - Ele falou com compaixão. - Podemos falar sobre outra coisa se quiser.
- Não, está tudo bem... Não tem mais o que contar de qualquer forma... Como eu disse, minha vida era normal, sem muitas surpresas. - Respondi evitando o assunto.
- Porque quis entrar pra Rede? - Ele perguntou com uma clara dúvida na voz.
Eu tinha minhas próprias dúvidas para a pergunta. Porque eu havia tomado a decisão de me vingar se eu nem sabia se teria coragem de fazer o que faz? Cocei a cabeça, eu já estava um pouco bêbada e a àquela altura minha cabeça se enchia de dúvida.
- Eu quero vingança. - Respondi.
- A única coisa capaz de fazer de uma garota mundana uma assassina, eu gosto disso. - Ele tomou um gole da bebida que eu nem havia percebido que havia chegado.
- Não sou uma assassina, não ainda. - Retruquei.
- Me ligue quando for... Adoro uma garota corrompida. - Ele mordeu o lábio inferior com a voz sedutora.
Talvez fosse a bebida ou o charme incorrigível de Viktor, mas eu queria beijá-lo. A maneira como ele sorria de forma sacana e ele soltava algumas indiretas me deixava interessada até demais nele.
- Não gosta de corromper? - Perguntei, de forma safada. Meu deus, o que havia de errado comigo?
- Não... Esse é o fetiche de ... Eu prefiro minhas mulheres decididas. - Ele balançou a cabeça com um sorriso provocante nos lábios.
Franzi a testa sorrindo para o homem, o que ele queria dizer com isso?
- Ah... - Ele levantou as sobrancelhas, vendo minha dúvida. - Você não é a primeira que traz a esse mundo. - Ele virou seu copo, agora mostrando sinais de estar um pouco bêbado.
- Como assim? - Perguntei, rindo sem motivo.
Viktor riu de volta e começou a me falar.
- Aos quinze... conheceu uma garota na África do Sul, Annelize Salmoneli, mais conhecida como Sal. - Ele começou a contar. - Aparentemente a garota era filha de um dos trabalhos e por algum motivo que eu desconheço ele não a matou e trouxe ela de volta com ele, treinou-a, ajudou-a com seu primeiro serviço, eles eram inseparáveis.
Sal! A garota que Aiden havia me contado.
- A garota vinha de uma vida normal como você e a corrompeu. - Ele colocou as mãos no cabelo, bagunçando-os ainda mais e me deixando mais atraída por ele. Eu realmente estava bêbada. - Ela fazia de tudo pra impressionar ele... Treinava dia e noite, era quase tão boa quanto , mas claro que essa obsessão pela aprovação dele era muito mais do que amizade. Ela era... Aliás ainda é... Completamente louca por .
Claro que o incômodo adolescente de ciúmes veio cutucar meu estômago novamente.
- ainda tentou retribuir os sentimentos da garota, mas no final ele não via nada nela além de coleguismo - Viktor falava em divertimento.
- Então porque ele a trouxe para a Rede? - Perguntei confusa.
- Ninguém sabe... E ele nunca contou nem mesmo à ela. - Viktor deu de ombros. - Nós só imaginávamos que fosse piedade, mas vamos combinar que o menino de ouro não é o melhor exemplo disso.
Então havia algo em que ninguém, nem mesmo eu conhecia. Algo que havia feito ele trazer Sal para a Rede e talvez... Até eu.
- Mas devo dizer... Que nunca fiquei tão encantado por uma cobaia de .- Ele afirmou me olhando nos olhos.
Estalei a língua, incomodada por ser chamada de cobaia.
- Não me chame assim. - Reclamei.
- Isso te irrita? - Ele perguntou de forma sensual inclinando a cabeça para o lado.
- Sim. - Falei com irritação.
- Faça algo a respeito. - Ele retrucou, desafiador.
Fiquei quieta... Meu corpo reagindo a provocação de Viktor... Meu deus, meus hormônios estavam fora de controle.
- Eu preciso ir ao banheiro. - Falei evitando seu olhar penetrante.
- Quer que eu te mostre o caminho? - Ele perguntou de forma sugestiva.
Sorri, agora claramente entendendo suas intenções.
- Claro... E talvez possa me mostrar um pouco mais. - Provoquei. Era oficial, eu não podia com Whisky.
Viktor levantou e estendeu a mão que eu peguei com as piores das intenções. Quando viramos no corredor que dava para os elevadores colei Viktor à parede e sorri, completamente fora de mim. As mãos de Viktor começaram a subir por minha cintura me dando leves arrepios pelo corpo.
- Gosto do seu estilo, . - Ele falou com a voz baixa, entorpecido por mim. - Talvez você possa me mostrar que tipo de garota é. - Ele sugeriu.
Mordi o lábio inferior e colei minha boca à dele, Viktor logo apertou minha cintura pedindo permissão com a língua e eu logo dei.
O Beijo era desleixado, claramente por dois bêbados, eu mal conhecia o sujeito, mas eu queria urgentemente saciar essa vontade que eu tinha desde o dia em que eu havia decidido manter as coisas apenas profissionais entre eu e . O beijo não era ruim, mas Viktor não tinha o quê de urgência que eu encontrava nos beijos de e isso me decepcionou. Quando as coisas estavam ficando quentes demais eu senti uma mão em meu braço me puxar bruscamente e logo em seguida Viktor estava no chão com a mão no rosto.
- E então surge o menino de ouro. - Viktor falou de forma provocativa e embriagado enquanto observava o sangue em suas mãos que saía de seu nariz.
olhava furioso para Viktor seu peito subindo e descendo completamente fora de controle.
- Se chegar perto dela novamente eu irei te matar. - ameaçou com a voz mais maligna que eu já ouvira.
- Ah... Eu esperarei ansiosamente pelo dia que tentar, . - Ele disse, não parecendo abalado pela ameaça do meu captor, ainda não chão. Eu não duvidava que Dylan o mataria, não depois do que eu apredi hoje
Só faltava sair fumaça do nariz de , mas ele se conteve e olhou pra mim de cima, abaixo. Seu olhar era aterrorizante e ele apenas me puxou para o banheiro feminino sem ceder as provocações de Viktor .
Tentei me desvencilhar de , mas ele era forte demais e apertava meu braço com força.
- Me largue, está me machucando! - Reclamei assim que entramos no banheiro. me soltou e eu cambaleei para trás, me segurando à pia.
- Eu devia te machucar. - Ele falou entre dentes. - Eu disse para ficar longe dele. - Ele estava claramente transtornado.
- Ah... Porque ele é perigoso? - Falei com irritação na voz. - Acho que é mais seguro ficar perto de Viktor do que ao seu lado, afinal... Ele não matou 1485 pessoas! - Gritei, descontrolada pela bebida e pela raiva.
me encarou, seu corpo levemente virado para o lado, ele estava surpreso.
- Ah sim ... Eu sei... Sei de muita coisa. - Minha voz saía um pouco enrolada. - Sei sobre seu pai, sobre seu contrato vitalício com a Rede... Parabéns pelo trabalho excepcional. - Falei de forma irônica atacando meu captor.
- O que quer que eu diga? Eim? - perguntou irritado. - Que é mentira? Que eu me arrependo? - Ele continuava na discussão. - Você não sabe metade da minha vida, não sabe meus porquês, não venha me julgar sendo que você está buscando vingança, não somos tão diferentes. - Ele respondia agressivamente.
- Nós somos completamente diferentes, . - Eu me aproximei dele. - Você têm desculpas para o que faz... Eu tenho motivos. - Cuspi com raiva.
- Você conhece um grão da criminalidade e sabe tudo agora? Não finja que conhece esse mundo! - Ele se exaltou novamente, seus olhos cheios de raiva.
- Não! - Gritei. - Eu não conheço! E nem era pra eu ter conhecido! Era para eu se ruma jornalista que não conhece nada disso! - Empurrei seu corpo pra trás. - Mas é disso que você gosta, não é? De cobaias para fazer seu pequeno experimento social... De garota comum à psicopata. - Acusei, tombando levemente para o lado.
- Do que está falando? - Ele perguntou, com a testa franzida. - Você está bêbada! Vou te levar para o quarto. - Ele me puxou pelo braço novamente contra minha vontade.
Saímos pela porta da frente caminhando em direção aos elevadores.
- Não se faça de idiota. - Falei mais baixo. - Eu sei sobre Sal, sei o que fez com ela... Está fazendo a mesma coisa comigo! - Forcei meu braço e finalmente me livrei de sua mão, parando no corredor de frente à recepção. - Então? Quando vou conhecer a Cobaia número um? - Perguntei provocando-o.
Se fosse combinado não teria acontecido. Quase imediatamente depois que fiz a pergunta, uma voz interrompeu nossa discussão.
- Se estiver falando de mim, é melhor torcer essa língua garota... - Olhei para o lado, onde estavam as mesas da recepção, Viktor estava ao longe com uma toalha no nariz, Aiden estava de cabeça baixa ao lado da dona da voz e Randy e Fred um pouco mais atrás com os olhares preocupados.
- Porque meu nome é Sal. - A garota estava de frente para e eu um pouco afastada.
olhava inconformado para ela.
Se era pra disfarçar qualquer coisa... Agora era tarde mais.


Capítulo XIX



Eu olhava estática pra figura à minha frente. Morena de cabelos cumpridos e os olhos cor de mel, ela vestia uma calça preta e uma regata branca segurando sua jaqueta de couro pelo ombro e na outra mão tinha uma pistola, mas a coisa mais marcante em Sal era a cicatriz na lateral de seu rosto que ia do começo da testa até o início de seu maxilar. Sal prontamente apontou a pistola pra mim, fechando um olho enquanto mastigava um chiclete tranquilamente.
- Só falar , eu tiro essa vaca de sua miséria. - Ela falou para .
Tremi em meu lugar, ela não parecia hesitante em tirar minha vida caso permitisse, e logo o meu captor falou.
- Abaixa a arma, Sal... É por ela que te chamei aqui... Temos um trabalho. - Ele falou e Sal apenas moveu sua mão em direção à .
- Trabalho? - Ela disse soltando uma risada sola logo em seguida. - O que te faz achar que vou querer qualquer tipo de trabalho vindo de você?
Aparentemente a obsessão dela por havia passado.
- Pare de agir igual uma criança e abaixa a porcaria da arma antes que eu a tire de você. - ameaçou, com irritação na voz.
Sal abaixou a arma, mastigando aquele chiclete de forma violenta e então fez uma bolha, estourando-a em sua boca.
- Uau... Você está incrivelmente sério ... Achei que estivesse com saudades. - Ela brincou, guardando a arma em seu coldre na perna.
não respondeu e eu finalmente olhei para o homem. Ele estava relaxado, sem esboçar emoção alguma. Esse lado frio dele me deixava agoniada, mas aparentemente todos estavam acostumados com isso.
- Onde está o Lobo Mal? - Ela perguntou, aproximando-se de nós e fazendo um gesto de medo com as mãos de forma brincalhona.
- Ocupado. - respondeu simplesmente.
Ela devia estar se referindo a Void, que estranhamente ainda não havia aparecido.
- Troque, quero dar oi. - Ela demandou.
ficou inquieto, senti que ele engoliu em seco e evitava meu olhar.
- Depois. Precisamos conversar sobre o trabalho. - desconversou. Franzi a testa em estranhamento, do pouco que eu conhecia de Void, ele era egocêntrico o suficiente para querer aparecer quando alguém o queria. Ignorei minha dúvida e continuei prestando atenção no diálogo dos dois.
- Você está claramente de mal humor, ok... Vamos conversar. - Ela disse. - Mas antes... Quem é a garota? - Ela olhou pra mim.
- Essa é.. - começou a falar, mas eu logo o interrompi.
- Meu nome é ... Contrato número 0410 e eu não sei por que está aqui. - Falei virando a cabeça para . Eu realmente não sabia porque Sal estava ali. Não estava combinado de mais uma pessoa participar do trabalho e eu não havia concordado com isso.
- Eu vou explicar, podemos ir para a sala de reuniões, por favor? - pediu, e Fred interveio.
- Sim, acho que estamos causando uma comoção aqui na recepção e eu não acho que gostariam que outros contratos soubessem dos detalhes dessa operação.
Todos concordaram e silenciosamente caminharam em direção ao elevador. Eu apenas segui todos, sem saber para onde ir, lado a lado com .
- Você vai contar a verdade sobre mim? - Perguntei baixo à quando a porta do elevador se fechou.
- Conversamos sobre isso depois. - Ele falou ríspido.
Respirei fundo tentando controlar minha raiva. estava de fato ajudando muito no processo de nos manter apenas colegas, já que minha tolerância a ele naquele momento era igual à zero.
Quando chegamos a sala de Reunião, todos sentaram à mesa silenciosamente. Parecia que a presença de Sal e na mesma sala era como uma bomba relógio que poderia explodir a qualquer momento.
- Então... Do que estamos falando aqui? Quem precisamos matar e por quanto? - Sal perguntou, indo direto ao assunto.
- Você não precisará matar ninguém. - respondeu. - Nosso alvo é Gregório , empresário bilionário.
- Ok... E por que precisam de mim? - Sal perguntou claramente confusa.
esperou alguns segundos lançando um olhar duvidoso para Fred.
- Você está aqui para treinar . - respondeu, olhando receoso para a garota.
Eu logo entendi o porquê do receio.
Sal olhou para por alguns segundos, sua boca abriu levemente e seus olhos se tornaram escuros, rapidamente sal pulou da cadeira e por cima da mesa atacando .
- Seu desgraçado! - Ela gritou enquanto proferia socos e tapas em cima de .
Levantei em meu lugar, assustada com a reação da garota que logo parou de agredir e virou o rosto pra mim, caminhando rapidamente em minha direção. Eu apenas caminhei para trás, encostando na parede enquanto levantava rapidamente tentando evitar que ela chegasse até mim.
- E o que você fez? Ahn? - Ela perguntou com desgosto na voz. - Deu uma de donzela em apuros pra ele te salvar? Eim? - Ela perguntou. - Não se engane querida, seu interesse pra ele não vale nada! - Ela cuspia as palavras em cima de mim sem conhecimento.
- Sal! - Aiden gritou e todos olharam para ela. Ela parecia relutante, mas com o olhar complacente ela apenas diminuiu o tom de voz.
- É o contrário.
A respiração de Sal era alta, ela arregalou levemente os olhos, olhando para que evitou seu olhar, dando a confirmação que ela precisava e depois ela olhou pra mim.
- Você? - Ela perguntou, me medindo e em seguida começou a rir me soltando, fazendo com que todos da sala relaxassem um pouco.
- Você é um imprestável, . - Ela rosnou pra antes de se sentar novamente em sua cadeira. - Muito bem... Eu treino a princesa. - Ela falou com deboche na voz. - Mas o que eu ganho com isso? - Ela perguntou logo em seguida, eu não sabia o que iria oferecer.
- Sessenta. - respondeu, ainda em pé.
- Tudo isso pra treinar a princesa? Qual é a jogada? - Ela perguntou, claramente desconfiada.
- Não há jogada... Você treina ela e receberá sessenta milhões. - respondeu. - Sairá do meu bolso.
- ! - Protestei. Eu não queria que ele ajudasse.
- Você treinará ela todos os dias até que eu ache que ela está preparada e não haverá discussão. - Ele concluiu olhando pra mim, eu estava enraivecida, como que achava que poderia simplesmente patrocinar minha vingança? Eu não queria nada dele, ainda mais no estado em que eu estava.
Sal olhou com desgosto para , saber o quanto estava fazendo por mim a deixava furiosa, mas ela não negou o negócio, já que era dinheiro fácil.
- Muito bem, Fred? - Sal chamou e Fred logo começou a proclamar.
- Declaro em nome da Rede que os contratos números, 0410, 0522 e 1736 fecham entre si um acordo discutido entre os contratos e de obrigação plena de cumprimento. - Fred finalizou o negócio.
- Será um prazer te torturar, princesa. - Sal provocou levantando e saindo do recinto.
Marchei para fora da sala indo na direção contrária de Sal, e veio logo atrás de mim.
- Onde está indo? - Ele perguntou.
- Para o mais longe de você possível! - Eu estava com tanta raiva que poderia matá-lo.
- , volte aqui! - Ele exclamou, tentando me alcançar. Virei para caminhando em sua direção.
- A partir de agora nós nos veremos apenas quando for hora de você me treinar e depois somente no dia em que formos fazer nosso trabalho, qualquer momento fora disso eu não quero que me dirija a palavra, não quero que olhe para mim ou ache que tem o direito de exigir qualquer coisa de mim! - Falei entre dentes e voltei a caminhar em direção aos elevadores, apertando o botão da recepção.
não veio atrás de mim, e se veio eu não prestei atenção. Quando cheguei à recepção procurei pelo rosto familiar de mais cedo e não demorou muito para que eu o encontrasse.
- Parece que o príncipe encantado te deixou sair da torre. - Viktor falou com deboche.
- Cale a boca. - Retruquei. - Eu preciso de um lugar para dormir, mas não tenho dinheiro. - Admiti, sem ao certo saber o que eu o estava pedindo.
- Pode ficar comigo, se quiser. - Ele ofereceu.
Pensei por alguns minutos, e se tivesse razão e Viktor não fosse a melhor pessoa para me aliar? Independente dos avisos de , eu não queria mais olhá-lo, então apenas respirei fundo e aceitei a oferta.
- Muito bem... Colega de quarto. - Ele falou, seu rosto estava um pouco inchado pelo soco que havia dado nele, mas ele continuava charmoso. - Tem algo mais que eu possa fazer por você? - Ele perguntou.
- Na verdade sim. - Eu sabia que já ficaria irritado com o fato de eu dormir no quarto de Viktor, mas ele ficaria ainda mais irritado com a proposta que eu iria fazer ao garoto. - Você pode ajudar a me treinar? - Pedi e ele apenas sorriu.
- Será mais um prazer, . - Ele sorria aquele sorriso malicioso.




A tensão ao meu redor era tão palpável, eu estava tão furioso como eu não ficava a anos. Ela me tirava do sério e nesse momento eu agradecia que meu outro lado estivesse em seu retiro mental, porque ele não teria o mesmo autocontrole que eu. Fiquei parado no corredor por alguns segundos debatendo se iria atrás de ou não, então apenas a deixei ir para ir atrás de outra mulher que provavelmente não queria olhar pra mim.
Não foi difícil encontrá-la. Eu a conhecia bem o suficiente pra saber que quando ela estava irritada, ela ia treinar... Principalmente porquê queria bater em algo.
Encostei à porta da sala de treinamento e observei Sal socando o boneco de treino sem piedade. Ela estava concentrada e não parecia notar minha presença. Engano meu.
- O que quer, ? Nosso acordo já está fechado. - Ela falou levantando a perna para um chute certeiro no maxilar do boneco.
- Vim ver como você está. - Dei alguns passos pra dentro da sala. Sal riu, completamente amargurada.
- Como se você se importasse.
Abaixei a cabeça, eu estava um pouco envergonhado por colocá-la nessa situação... Mas eu sabia que não havia ninguém melhor que ela para treinar no quesito manipulação. E eu realmente precisava da ajuda dela. Sal finalmente virou o corpo pra mim, passando a mão na testa para enxugar a pequena quantidade de suor que havia.
- Porquê está fazendo isso? - Ela perguntou.
- Eu preciso matar Ryu. - Falei e ela balançou a cabeça negativamente.
- Não... Eu me refiro a treinar a garota. Não precisa dela para ir atrás de Ryu. - Ela constatou.
- Ela que fechou o acordo... Ela que quer ser treinada, por mim... Ela estaria em algum lugar bem longe daqui com outro nome.
- Porquê concordou? - Ela perguntou irritada.
- Não fui eu que concordei. - Olhei para o chão.
Sal ficou olhando para mim em dúvida por alguns segundos antes de entender.
- Ele concordou com isso? - Ela perguntava desconcertada, mas logo seu olhar se tornou mais compreensivo. - Ele também está apaixonado por ela. - Ela concluiu.
Não disse nada. Mas meu silêncio respondeu por mim. Eu sabia que era difícil para Sal, ainda mais levando em conta que um dos maiores fatores por nós não termos ficado juntos era porque ele não sentia o mesmo que eu. Eu não sabia porquê dessa vez havia sido diferente.
- Uau. - Ela sorriu angustiada e sentou-se no chão, com os joelhos levantados e os braços apoiados nos mesmos. - Ele está apaixonado... Isso é novo.
- Acredite, é novo para nós também. - Acrescentei, sentando-me em frente a ela. - Eu apenas me interessei por ela, e der repente eu estava dividindo sentimentos com ele... Ele estava agindo mais fora de controle do que o normal e... Era torturante vê-lo daquela forma.
- Porquê está se referindo a ele no passado? - Ela perguntou franzindo a testa.
Levantei os olhos pra ela, eu sabia que se ele estivesse aqui, seria contra eu dizer qualquer coisa referente a ele, mas eu estava sozinho já fazia um dia todo... E eu não estava acostumado com o silêncio.
- Ele se escondeu. - Revelei e ela franziu ainda mais a testa. - O sentimento parece ser mais intenso nele, mais bruto... Eu conseguia sentir a sensação de dor que ele tinha no peito ao pensar nela, falar dela... Ele estava em conflito e... Acho que foi demais pra ele, então ele apenas se escondeu. - Expliquei.
- Ela não os quer? - Ela perguntou, com os olhos baixos, claramente incomodada com minhas palavras.
- Eu não sei. - Respondi verdadeiramente. - Eu acho que todas as vezes em que estivemos com ela... Ela não fez porque quis verdadeiramente e sim porquê ela vê em nós uma figura autoritária... Nós... A torturamos. - Pressionei os lábios, relutante em contar essa parte da história. - E de certa forma... Eu acho que ela pensa que não merece mais do que nós.
Sal riu e eu levantei os olhos a ela, claramente confuso. Ela apoiou o corpo nos braços, olhando com divertimento para mim. Eu havia sentido falta de conversar com ela.
- Não seja idiota, . - Ela começou. - Eu sei que você é o lado racional e tudo mais, quer fazer a coisa certa, mas ela não continuaria a dormir com você depois de tê-la liberado se não tivesse interesse em vocês.
- Mas... - Eu comecei, mas fui interrompido.
- Mas nada... Eu olhei para aquela garota, eu olhei em seus olhos. - Ela me repreendeu. - Ela não é uma garota frágil com uma mente fraca, assim como eu não era quando te conheci. - Eu respirei fundo. - Ela tem sim interesse em vocês, mas com toda certeza quer negar a si mesma. - Ela relaxou, voltando a posição de antes.
- Não importa mais de qualquer forma... Ela disse que era para mantermos as coisas profissionais. - Eu disse, pendendo a cabeça para trás e encarando o teto.
- Eu gosto dessa garota. - Ela riu. - Ela parece gostar de torturar vocês tanto quanto eu.
Soltei uma risada fraca, desanimada, mas verdadeira. Eu não me sentia relaxado assim a muito tempo. Olhei para o rosto da garota que um dia eu havia nutrido sentimentos e senti-me mal.
- Desculpe te colocar nessa situação. - Falei.
Sal virou pra mim, ela havia amadurecido tanto. Já não era a garota loucamente apaixonada por mim que faria de tudo para me ter só pra ela.
- Não se desculpe ... Meus sentimentos por você já estão resolvidos comigo mesma a muito tempo... - Ela disse. - Só não faça com ela o que fez comigo, se está dizendo que este trabalho é único... Quando acabar, deixe-a ir embora.
Assenti com a cabeça. Eu não cometeria o mesmo erro duas vezes. Não faria com o que havia feito com Sal. Ouvi meu telefone tocar, tirando-me de meus pensamentos e vi uma mensagem.
Não era um contrato, um trabalho... Era apenas um sms de Fred, comum, informativo. E a raiva subiu por mim borbulhando como água que ferve em uma panela, tirando qualquer sensação de relaxamaneto de mim... Eu mataria aquele desgraçado.

"Meus contratos me informaram que e Viktor estarão dividindo um quarto de agora em diante."

Eu com certeza mataria aquele desgraçado.



Continua.



Nota da autora : Eita! Eu adoro fazer esses punch lines de filme de ação. HAHAHA Eu sei, é um pouco clichê, mas eu sempre fui fraca pelos clássicos! Enfim, mais uma att pra vocês! Eu to que to eim? Vamos continuar a Hashtag #TeamVoid, #TeamHumano ou #TeamPP e no final descobrir quem vai ganhar o coração da nossa PP. Não deixem de comentar! Os comentários de vocês são o que me motiva para continuar escrevendo com tatna frequêcia e entre no grupo dá Fanfic, lá eu tiro dúvidas, aviso quando eu enviar as Atts para o site e avisos em geral. Claro, não deixem de ler minhas outras fics aqui do site e até a próxima Att. Um beijo e um queijo!





Outras Fanfics:
Desejo Proibido e Armads e Perigosas


comments powered by Disqus