Tá na Mira!

Última atualização: 06/12/2017

Capítulo 1

"Girls get loose when they hear this song ..."


— E aí, já está pronta gata?
— Quase! Falta só o meu sapato! Já está chegando?
— Já saí de casa. Te encontro na segunda passarela?
— Isso! Eu já vou pedir um “Uber” e te mando as informações dele. Estou saindo agora.


Depois de vinte minutos Fernanda e Malu chegaram à baladinha querida, de toda semana. As amigas saíam quase todas as semanas, se não todas.
Fernanda é promoter de eventos e por causa deste, como diria ela: penoso trabalho, a garota está sempre curtindo aos finais de semana, regada de boas músicas, bebidas e diversão. Sempre acompanhada da amiga Malu. Fê, chamada assim por alguns dos muitos amigos, cursa produção cultural e ainda faltam alguns dois anos para ela se formar. Ou algo do tipo. Maria Luísa– vulgo Malu para os amigos – cursa jornalismo, e ainda vão faltar aí uns bons três anos para a formatura, uma vez que, ela está no curso há bem pouco tempo.
Assim que desceram do carro à porta da balada, elas observaram os rapazes no local e se entreolharam cúmplices. E como amigas de longa data que eram, já sabiam exatamente o quê, o olhar uma da outra significava.
Fernanda ama o que faz, e ama ainda mais o poder que sente toda vez que chega na porta de uma balada e apresenta seu voucher de promoter. Como ela mesma diz: “é como ser a dona da festa”. E tecnicamente, ela até é.

— Ei Nanda! – um rapaz absolutamente lindo gritou para ela assim que a viu.

Fernanda estava acostumada a estar rodeada de pessoas bonitas. A aparência em seu meio de trabalho era algo preocupantemente importante. Malu, por sua vez, nunca fora ligada a rótulos. Vaidosa, e comedida ela fazia questão de estar apresentável, mas, não se tornava escrava da aparência como às vezes julgava à sua melhor amiga.
Ele foi em direção às duas moças, acompanhado de outro rapaz tão charmoso quanto ele. Fê puxou Malu pela mão de encontro aos garotos. Entre alguns cumprimentos e acenos no caminho, chegaram até eles.

— Jhony! Que bom que veio!
— E você não poderia não vir, não é mesmo?

Eles se cumprimentaram enquanto Malu e o outro rapaz aguardavam as apresentações gerais.

— Amiga! Este é o Jhony, meu amigo da faculdade e quem vem me ajudando com os eventos.
— Ah sim! Tudo bem Jhony? Eu sou a Maria Luísa, prazer.
— Tudo bem sim! É um prazer!

Ele respondeu dando um beijo no rosto de Malu, e virou para o amigo ao seu lado apresentando-o às duas:

— Este é o Matheus, meninas.

Os quatro ficaram juntos a noite toda. Malu percebeu que Jhony e Fê eram muito amigos, e que ela estava flertando com ele durante a maior parte do tempo, mas aparentemente não estava obtendo muito sucesso. Ficou atenta ao tipo de cara que o Jhony se mostrava ser, porque com certeza, impetuosa como era, Malu não deixaria a Fê ser feita de idiota. Se distraiu enquanto observava de uma forma crítica e analítica, Fernanda e Jhony dançando quando Matheus a perguntou se ela queria sair do barzinho da balada para ir dançar também. E ela aceitou.
Foi uma noite divertida como muitas outras, nas quais Fê e Malu estavam acostumadas. Os meninos além de pessoas positivas e engraçadas, eram divertidos. Eles inventaram desde jogos etílicos até apostas malucas entre os quatro.
Ao final da festa, estavam todos na saída do clube se despedindo, e completamente bêbados.

— Ei meninas! Como vocês vão embora? – perguntou Jhony.
— De uber! Lógico! Vai Malu, chama o carro!
— Calma Fê! Ei, cadê meu Iphone?

Jhony olhava em seus bolsos, Fê e Malu tateavam os próprios corpos, como se elas tivessem algum bolso nos vestidos para guardar qualquer coisa, e não encontrando nada, Fê olhou em sua bolsa. Matheus sorria da cena e olhava para Malu de um modo bem pervertido.

— Matheus, para de rir! – por efeito do álcool, a garota começou a resmungar, um pouco descontrolada — Eu quero o meu celular!
— Serve este aqui? – ele disse, puxando o aparelho do seu decote e rindo de canto.
— Ei! Você colocou a mão nos seios da minha amiga! – reprovava a outra amiga, bêbada.
— Fê, quieta! – Malu dizia rindo sem desfazer o contato visual com Matheus.
— Eu já chamei os carros gente. Malu, pode guardar de volta o seu celular… Ou o Matheus pode fazer isso. – Jhony disse debochando abraçado à Fê.
— Não precisa. Muito obrigada. – agradeceu Malu, guardando o celular entre os seios novamente.

Os carros chegaram. As meninas foram em um, e os meninos no outro. Fê decidiu dormir na casa da amiga. No caminho, o whatsapp dela vibrou com uma mensagem de Jhony:

“Barzinho amanhã, nós quatro de novo?”


Ela não respondeu. E ao chegarem, Malu custou acordá-la no carro, para que entrassem em casa. Ao subir, Fernanda se jogou no sofá da sala, sem aguardar que a melhor amiga preparasse uma cama. Malu, decidiu então, ir em direção ao seu quarto, se jogando em sua cama.


Capítulo 2

"I feel it coming..."



Na manhã seguinte, Malu acordou como se fosse um sábado. Se espreguiçou longamente, sacudiu seus cabelos e sorriu aproveitando o conforto da cama por mais alguns minutinhos. Somente após seu ritual matutino de, despedida da cama e higiene bucal, que ela decidiu abrir as cortinas do quarto. E o Sol irradiava! Talvez, fosse uma manhã maravilhosa para praia. Sua cabeça? Estava ótima, nada de ressaca. E glorioso seja, o santo Engov. Enquanto ela atravessava o quarto para abrir as janelas notou seu celular, no criado-mudo denunciando algumas notificações.

“Garota! Cadê você?! Quer reprovar a matéria por falta?”


Camila, pelo whatsapp, recordou a ela que ainda era sexta – maravilhosa – feira. E o relógio denunciava às nove horas da manhã. Enviou uma mensagem de volta à sua colega de curso e foi tomar banho, para aproveitar o seu “matar aula” na praia.

“Péssimo! Eu cheguei tarde ontem, apaguei. E acordei agora achando que era sábado. Então já é sábado. Dia lindo para uma praia não? Te vejo mais tarde! Me avise se rolar alguma catástrofe na aula. Beijos.”

“Só porque você é excelente na disciplina, não está isenta das faltas, garota! Sem juízo! Te vejo daqui a pouco, no posto oito. A aula está no final.”

“Eu não vou reprovar por falta. E você sabe disso. Como assim? Não vai ter mais aulas hoje? Depois eu que sou sem juízo.”

“Acontece que hoje, esta é a minha única aula, baby!”


Estava pronta para sair de casa, quando ao passar pela sala notou a figura da falta de dignidade: Fê, roncando e de boca aberta, como se tivesse sido atropelada jogada ao sofá. E a sala exalava vodca.
Abriu as janelas da sala, e tentou acordar aquela figura de ser humano. Não deu certo. Então apenas deixou um bilhete avisando onde estaria.
No andar de Malu, precisamente no apartamento 405, reside o seu vizinho Daniel. O perfeito. Há alguns anos, antes dele começar a namorar e assim que havia se mudado para o prédio, ambos não podiam se esbarrar pelos corredores que atacavam um ao outro. Naquela época, Malu achava que sairiam daquele “come come” de elevador, direto para um “come come” oficial timbrado na sociedade. Mas não. Ele conheceu a Laura e estão juntos até hoje. A Laura nem sonha com o que acontecia entre Malu e Dan. Do contrário, ela não mostraria aquele sorriso brilhante para a garota toda vez que se encontravam por acaso, nunca. E ouso dizer até, que ela simpatiza muito com Malu.
O mais bacana dessa “fucking friend” com o Daniel é que os dois tinham um respeito, um pelo outro, que Malu jamais tinha visto em outras relações. Era uma foda vez ou outra, um amasso no elevador, se eles se esbarravam ocasionalmente no corredor se beijavam, e despediam em seguida. Mas quando um precisava do outro, como amigo mesmo, era só bater à porta pedindo um pouco de açúcar. Alguém coava um café, e havia o desabafo, livre de segundas intenções. Essa amizade não convencional se estendeu por seis meses. E veio a Laura. Depois disso, sem que notassem haviam se afastado, até mesmo com as xícaras de café.
A morena trancou a porta do seu apartamento e ao se virar deu de encontro com Daniel. Ele sorriu e segurou o elevador à sua espera.

— Bom dia, Malu. Tudo bem?
— Bom dia Dan! Tudo sim, e com você?
— Tranquilo. Indo à praia, suponho. – ele disse apontando os trajes dela.
— Digamos que, alguém perdeu a hora do curso e já emendou o fim de semana.

Sorriram e o elevador abriu no terceiro andar. A senhora Lurdes – que os pegou em situações desastrosas no elevador algumas vezes – adentrou o ambiente, os encarando com desprezo. Eles sorriram cúmplices um para o outro, afinal, já lidavam com a dona Lurdes há algum tempo.

— E você, pelo visto está indo ao trabalho… – ela puxou novo assunto.
— Infelizmente… Estou num processo de mudança, e preciso trabalhar bastante para deixar tudo arrumado quando eu sair.
— Oh. Você vai se mudar do prédio? – dona Lurdes sorriu ao ouvir aquilo.
— Triste?
— Um pouco. O prédio não seria igual, sem você. – ela sorriu de canto, e Dan olhou para a senhora chata e antiquada.
— Não seria mesmo. Por isso não vou embora.

Malu esboçou seu largo sorriso ao ouvir aquilo, e dona Lurdes saiu do elevador que chegara ao térreo tempestuosa com a notícia. De fato, os dois vizinhos divertiam-se com ela, afinal há muito tempo que Dan e Malu estavam afastados, mas na cabeça dela nada haveria mudado.

— Fico feliz com isso, Dan. Apesar do tempo que não nos falamos, eu gosto muito de você. – pararam na porta do prédio.
— E eu também gosto muito de você, Malu. E desculpe por… Você sabe. As coisas foram acontecendo.
— Não precisa se desculpar. Só você continuar no prédio e tudo certo. Eu prefiro mil vizinhos como você, em vez de vizinhos como a dona Lurdes.
— Ah! Com certeza eu também preferiria mil Malus… – se entreolharam tímidos e sorriram novamente — Bem Malu, eu me referia à mudanças no trabalho. Pode ficar tranquila, que o 405 continuará ocupado por um bom tempo.
— Maravilhoso! – sorriu para ele — Não vou mais tomar seu tempo, bom trabalho.

Malu disse dando um beijo em seu rosto, e recebendo um abraço de volta.

— Não tomou tempo algum. Tenha uma praia proveitosa.
— Obrigada. Mande abraços à Laura.

A garota se virava para atravessar a rua, quando ele disse:

— Não estamos mais juntos.

Assim que Dan disse aquilo, o táxi chegou e ele entrou acenando e se despedindo. Malu ficou risonha ali por um tempo – até conseguir atravessar – e, relembrando as loucuras refletindo sobre aquela manhã, andou mais alguns passos até a areia.

— Ei Malu! Água geladinha?
— Quero sim Marcão! O coco mais cheio hein!
— Mas é óbvio!
— Leva para mim, lá na areia, por favor?
— Pode ir estendendo sua canga, aproveitando o Sol mocinha. Levo sim!
— Valeu, Marcão!

Estendeu a canga na areia, passou seu protetor. O ajudante do Marcão logo chegou com o guarda-sol e cadeira. Agradeceu, colocou seus óculos de sol e aguardou a água de coco. Não demorou muito, ela ouviu passos na areia se aproximando. Era Marcão rindo alto e ao lado dele, uma mulher que era a sombra da própria misericórdia.

— Eu já te trago uma geladinha para curar essa ressaca!
— Ain Marcão, valeu mesmo! – dizia Fê, com voz arrastada e cara enjoada.

Ele entregou o coco gelado de Malu, e Fê sentou-se na cadeira abaixo do guarda-sol. Seus óculos eram tão enormes que podiam cobrir parte de seu rosto.

— Se você tivesse uma vida mais saudável como a minha, estas bebedeiras nossas não te deixariam tão de porre! – disse sorrindo e encarando a amiga.
— Ah… Você sabe que eu não consigo acompanhar seu ritmo! Pensa bem, você mal acordou e veio para a praia! Qual o seu problema?

Malu ria divertidamente e o Marcão chegou com a cerveja gelada da Fê. Ele saiu sorrindo e sacudindo negativamente a cabeça.

— A praia está vazia né, Malu?
— Ainda é sexta-feira de manhã. As pessoas trabalham.
— Garota! Sua ridícula! Por que não me avisou que era dia de semana ainda!?
— Como se você fosse há algum lugar… – sorriram.
— Verdade. Um brinde a esta linda manhã cheia de ressaca! – ela estendeu seu copo ao coco da amiga.
— Fê! Você não sabe da maior!
— E nem você!
— O que aconteceu?
— Eu acordei hoje, com a plena convicção de que eu estou absolutamente tarada pelo Jhony.
— Não me conte como você chegou a esta conclusão, por favor.

Malu fez uma cara de nojo para Fê.

— Idiota! Não é nada disso! Depois que você bateu a porta do apartamento… – Fê interrompeu sua fala ainda um pouco irritada pela provocação da amiga — Garota babaca!
— Desculpe! - Malu gargalhava.
— Eu acordei, e fiquei um tempo tentando lembrar de ontem. Não lembro muita coisa, mas vieram uns flashes, do Jhony e eu dançando… E cara! Eu quero ficar com aquele homem!
— Sério? Nossa! Eu nem imaginava! – a amiga debochava irônica.
— Para! Estava tão na cara assim?
— Eu só não sei dizer se ele sente o mesmo. Mas hoje é uma boa para você tirar isso a limpo.
— Por que?
— Ele te mandou uma mensagem ontem, quando estávamos vindo embora.

Fê pegou o telefone e abriu a mensagem.

— E aí, você topa?
— Podíamos ir no Bukowski Bar. Sabe que eu adoro aquele lugar.
— Ai Malu, lá é muito cult!
— Ok. Então vamos no Beluga. É sua segunda casa mesmo.
— O Beluga é ótimo! Sempre tem gente badalada e alegre!
— E bêbadas!
— Para de reclamar senhorita patricinha! Eu vou respondê-lo.

Ela digitou a mensagem toda animadinha e ficou um tempinho conversando com Jhony.

— Mas o que você acha, Malu?
— Ai Fê, sei lá… Cara você está parecendo aquelas garotinhas de colegial…
— É que o Jhony e eu rola uma química boa sabe…?
— E como você sabe? Já ficaram?
— Não. Ainda… Mas eu percebo… Tipo você e o Matheus ontem!
— Você não disse que não lembrava de nada?
— Então rolou uma química mesmo? – ela perguntou surpresa.
— Não sua idiota. Ele é legal. Mas não tivemos nenhum momento ontem.
— Talvez tenham hoje.
— Ele vai?
— O Jhony disse que seríamos nós quatro.
— Fernanda! Você e o Jhony não estão de rolo tentando empurrar o Matheus e eu, um para o outro não né?
— Claro que não. Na verdade nem tínhamos pensado nisso… Mas agora que você comentou, deixa eu perguntar a ele, qual é a desse Matheus.
— Acho ótimo que não estejam de armações mesmo! Até porque esta manhã eu tive excelentes notícias.
— Ah é! O que você tinha para contar?
— Lembra do Dan? – Malu animou-se tirando os óculos, para encarar Fê.
— Seu vizinho do 405? Como esquecer o Dan? Ai Dan…
— Menos Fernanda. Enfim… Ele e a Laura terminaram! – ela disse voltando a encarar o sol com seus óculos.
— COMO ASSIM? Me conta tudo!
— Não tenho muito o que contar. Eu e ele descemos juntos hoje, e enquanto conversávamos ele me contou que não estão mais juntos. Logo o táxi dele chegou e nos despedimos.
— Táxi? O que houve com o carro dele? Ele deu para a Laura em troca de liberdade? – rimos.
— Não sei, nós não tivemos muito tempo para conversar. Mas o que importa é que ele está livre.
— E você pretende voltar a agarrar ele pelos corredores?
— Não. Eu realmente fiquei pensando em como nos sentíamos na época e lembrei que eu pretendia propor a ele, um passo a mais.
— Sério? Mas o proibido era tão mais divertido…
— É, mas chega de amasso no elevador. A dona Lurdes fará um abaixo-assinado para nosso despejo.
— Ai, ela é uma senhora mal comida, só. Não liga para ela.
— Fernanda! Que coisa horrível de se dizer! E machista esse papo de “mal comida”.
— Ih! Não começa Malu! Por favor, hein!
— Você quem começou e…
— Ih, coisa chata! Tchau! Vou dar um mergulho.

A melhor tática para dispersar a Fê é começar a falar de discussões políticas, conversas inteligentes, culturas e etc. Não que ela não saiba discutir ou apreciar sobre, mas sabe-se lá por quê, a Fê gosta de vestir um personagem bem diferente do que ela é. Não que ela finja o tempo todo, mas ela esconde seu potencial. E se conforma em ser só a “Fê das boates”. No entanto, quem é seu amigo de verdade e a conhece profundamente se surpreende com a mulher inteligente e moderna que ela esconde.
As amigas passaram a manhã na praia, Camila chegou um pouco depois da Fê voltar do mar. Almoçaram juntas, as três, no quiosque do Marcão e subiram ao apartamento para descansar. Na verdade, a Fê voltou a dormir um pouco, e a Camila voltou para casa. Malu pegou sua bicicleta para dar uma volta pelo bairro. Parou na sorveteria da esquina do seu prédio, comprou seu pote extra-gigante de sorvete e voltou para casa. Já marcavam umas cinco horas da tarde quando adentrou o apartamento, encontrando Fê curiosa e apressada.

— Aonde você foi?
— Ao contrário de você que só sabe dormir, eu fui evaporar o restante de álcool de ontem. Por que?
— Estou indo para casa, tomar um banho e trocar de roupa, daqui uma hora os meninos nos esperam no Beluga.
— Ah, tinha me esquecido.
— Você vai né?
— Vou.
— Até daqui a pouco.

Fê fechou a porta da sala se despedindo, e Malu foi logo atrás trancar a fechadura, mesmo a amiga tendo uma cópia da chave de sua casa. Foi ao seu quarto se arrumar. Ao sair do banho, enquanto se vestia, a campainha tocou.

— Oi Malu!
— Dan? Oi!
— Estou atrapalhando?
— Não! Na verdade eu só estava me vestindo para sair.
— Eu queria te fazer um convite…
— Claro!
— Você ainda curte o Bukowski Bar?
— Como não curtir?
— Então, amanhã à noite, pode ser?
— Perfeito, vai ser a noite do indie.
— Eu não sabia disso… – ele disse com uma cara espantada e divertida que a fez rir.
— Qual é? Vai ser legal! Diferente do que você está habituado, mas prometo que vamos nos divertir!
— Bato aqui às dez, tudo bem?
— Estarei pronta!

Se despediram com beijinhos no rosto. Malu voltou para o quarto, calçou seus tênis, terminou a maquiagem básica. Pegou seu celular e notou que havia sido adicionada a um novo grupo no whatsapp: “os quatro mosqueteiros”, criado pela Fê. E os integrantes? Jhony, Fê, Matheus e ela. Algo a dizia, que aquele quarteto se transformaria numa máfia. Enviou uma mensagem ao grupo, e já pronta pegou sua bolsa e saiu trancando o apartamento.

“Estou a caminho! Não comecem sem mim!”


Capítulo 3

"She asked me if I do this every day, I said "Often". Asked how many times she rode the wave, not so often..."


Ao chegar no Beluga, o ambiente estava como sempre: muito falatório, as pessoas ainda chegavam, mas os playboy’s e patricinhas do bairro já se reuniam com seus pequenos baldes de bebida. Para chegar até a mesa onde estavam os “mosqueteiros”, a luta de sempre: “com licença, por favor”, “ah desculpe, com licença”, “oi, tudo bem?”, “tchau idiota…”

— Puta merda hein Fê! Porque eu ainda frequento este lugar com você? – ela disse assim que chegou inteira à mesa.
— Cadê sua educação, sua revoltadinha?
— Oi meninos! – sorriu largamente para ambos – Inteiros depois de ontem?
— O Jhony passou o dia agarrado à garrafa de água.
— E o Matheus dormindo. Como sempre.
— Nossa, parecem até a Malu e eu. Só que eu seria o Matheus e a Malu, o Jhony.
— Eu não fiquei de porre! Eu fui à praia assim que acordei, bebi água de coco, almocei bem, andei de bike, e aqui estou. Sem dar um cochilo!
— Porra, que pique!
— Você não viu nada Matheus, a Malu é a rainha do pique!
— E o que vocês vão beber meninas? – Jhony perguntou chamando o garçom.

Assim que o garçom veio à mesa as garotas reconheceram o colega, que sorriu bem largo, ao ver a Fê.

— Hey meninas! O que vão pedir?
— Oi Beto! Eu vou querer aquela soda geladinha que o Beluga sempre esconde no fundo do freezer – Malu disse piscando para ele — E depois você pode me trazer o drinque de sempre.
— Só para começar, né? – ele anotou sorrindo — E você Nanda?
— Betinho, hoje eu quero que você me surpreenda! Eu acho que já bebi todos os drinques do Beluga, então invente algo novo!
— Como quiser! – ele disse piscando e sorrindo bem flertante, para a Fê.
— E os rapazes?
— Uma dose de vodca com energético – disse Matheus.
— Duas. – em seguida confirmou Jhony.

Assim que o Beto saiu com os pedidos, Malu olhou atrevida para Fê. Matheus olhava para as duas com uma sobrancelha arqueada e trocou olhares com o Jhony. Esse por sua vez encarava, à Fernanda.

— Vocês são praticamente cria da casa não é?
— Culpa da Fê. Eu sou mais cria do Bukowski.
— Faz mais o seu estilo mesmo. – afirmou Matheus para a garota.
— É impressão minha, ou este garçom estava flertando com você Nanda? – disse Jhony ignorando o diálogo anterior de Malu com Matheus.
— Querido, entenda: agora que vocês andam com nós duas terão de lidar com os inúmeros flertes que recebemos!

Todos riam na mesa. E os meninos concordaram dizendo que eles também eram cobiçados, e que elas também teriam que lidar com toda a mulherada aos seus pés.

— Ah com certeza! Percebi bem ontem! – Malu disse irônica para eles.
— Você sabe que é verdade Malu! – retrucou Jhony.
— A única mulher com quem você ficou agarrado a noite toda foi a Fê!
— E você com o Matheus! – ele respondeu.
— Não é verdade! Eu e Matheus não passamos a balada toda juntos, não foi? – ela disse perguntando ao moreno à sua frente, que já bebia seu drinque.
— Eu não me lembro de muita coisa de ontem, a não ser dos seus seios no final da festa.

Jhony e Fê riram gargalhantes, enquanto Malu encarava Matheus nada amigável.
Continuaram conversando sobre coisas aleatórias durante a noite. Pediram uns petiscos e Fê não demorou muito para dar uma “sumida”.

— Eu vou procurar a Nanda.

Jhony disse se retirando da mesa e deixando Matheus e Malu a sós. A menina já estava pensando se aquilo seria uma armação. Ambos demoraram muito para voltar, e enquanto aguardavam, Matheus e ela falavam sobre muitas coisas. Alguns caras passavam pela mesa e lançavam uns olhares atrevidos em direção à garota. Ela teve vontade de sair dali algumas vezes, mas como o mesmo ocorria com Matheus e ele não correspondia, ela não sabia se era uma gentileza dele para não a deixar desacompanhada, ou se de fato ele não estava afim.
Quando Jhony chegou à mesa, disse que não encontrara Fernanda e perguntou se era habitual ela sumir assim.

— Relaxa Jhony. Fê conhece muita gente! Provavelmente ela está em alguma mesa, por aí, fazendo uma social.
— Espero… – ele sussurrou.

Matheus e Malu se entreolharam curiosos.

— Jhony… Você e a Fê se conhecem há quanto tempo?
— Ela nunca falou de mim, para você?
— Não. Ela deveria?

Ele sorriu como se tivesse falado besteira.

— Nós trabalhamos juntos desde o começo do curso. Sempre fizemos tudo juntos.
— Entendi… É então eu deveria ter te conhecido antes, eu acho…
— Mas não tem muito tempo que vocês duas se conheceram, tem?
— Claro que tem! Somos amigas desde antes da faculdade! Só que ela começou primeiro.

Ele fez que sim com a cabeça.

— Então ela não queria que nós nos conhecêssemos mesmo. Porque eu também nunca havia ouvido falar em você até ontem.
— É… Você sabe o que isso significa?
— O que?
— Que ela queria ter certeza de que daria certo nós três antes de nos apresentar.

Ele refletiu sobre o que ela disse, e foi a vez de Matheus tirar suas dúvidas.

— Cara… Você e a Fê, já ficaram?
— Er… O que ela te disse Malu? – Jhony perguntou desviando a resposta para Malu.
— Nada. Eu nem sabia que você existia, lembra?
— Hum. É Matheus, nós não ficamos. Ainda.

Deram uns risinhos e Malu e Matheus tiraram sarro da cara de Jhony, que agora, sabia Malu que também estava afim da Fê. Não demorou muito depois disso, para que ela chegasse.

— Vem cá! Vocês não vão ficar com nenhuma garota não? – ela chegou perguntando aos meninos.
— Já estamos com duas. – Jhony disse apontando para elas.
— Qual é! – ela respondeu.
— Você por acaso nos traiu? Estava com algum cara?
— Eu estava com vários caras, Jhony! Todos amigos meus, sentados numa mesa com suas namoradas. Jogamos bons papos pro ar.
— Er… Fê, vou ao banheiro. Cuida dos meninos. – Malu disse levantando.
— Vai pegar alguém? – a amiga a perguntou.
— Não. Por que? Eu disse que ia ao banheiro!
— Então eu vou com você, espera.

Malu revirou os olhos e os meninos riram. Assim que se afastaram da mesa, Malu observou os dois cochichando.

— E então, qual é o lance entre você e o Jhony, amiga? Quando vai ficar com ele?
— Tá maluca Malu? Não teria essa coragem de ser direta com ele.
— Você? ‘Tá brincando com a minha cara né Fernanda!?
— Não Malu… Sério, nós trabalhamos juntos também. Não é bacana misturar as coisas.
— Sei. Por que em vez de inventar uma desculpa, você não fala comigo o que realmente está acontecendo? Eu te conheço Fê!

A garota entrou ao reservado do banheiro, enquanto sua amiga ficava em silêncio do outro lado. Assim que saíram e se dirigiam à pia, silenciosas, Malu fez menção de dizer algo. Mas Fê a interrompeu respondendo sua pergunta:

— Amiga, é estranho… Eu não sei se seria legal investir em algo mais sério com o Jhony.
— Do jeito que falou esta manhã, achei que o interesse era apenas físico. Tem algum sentimento nisto né? E como assim “algo mais sério”? Então vocês estão ficando mesmo.

Malu se apoiava à pia enquanto aguardava as respostas de Fê. A amiga mantinha um semblante meio pesado. E Malu entendia que com certeza, algo já estava rolando nesta história com Jhony.

— Não queria apresentar vocês até ter certeza que se dariam bem. Mas o fato de apresentar só agora, deu ao Jhony outras perspectivas.
— Nós chegamos a estranhar mesmo, que nenhum sabia nada sobre o outro.
— Era só algo tipo o que você e o Dan tinham. Mas eu comecei a me envolver de verdade. Só não demonstro pra ele.
— Não entendo o motivo. Ele me parece bastante interessado.
— O problema é esse. Eu acho que ele corresponde meus sentimentos, e amiga… Você sabe que não dá certo isso de relacionamento sério! Ainda mais para uma mulher com uma profissão como a minha.
— Cara, para! Eu não acredito no que estou escutando!

Malu colocou suas duas mãos sobre as têmporas, arregalando os olhos e encarando incrédula a amiga. Fernanda por sua vez, já imaginando o discurso da melhor amiga revirou os olhos e concentrou-se em passar seu batom.

— Sério Fê?
— Você não entende! – Fê falou um pouco mais irritada.
— Ei, olha pra mim! – Malu puxou a mão da amiga para que ela virasse-se em sua direção — Ele está interessado, deixou isso bem claro ali na mesa pelas ações dele. Você está interessada. Vocês trabalham juntos, no mesmo emprego e são um sucesso de parceria. Se conhecem há bastante tempo, e tem uma química boa. Então não tem motivos para esta sua insegurança, mana! Olha só, esse papo de “meu trabalho…”. Cara, inaceitável. Sendo ele do mesmo ramo que o teu, ou o mais puritano dos caras, eles tem que aceitar o seu trabalho. E dane-se! Você é promoter e não tem nada indigno nisso! É você que reforça os estereótipos com esta sua atitude. E porque esse medo de relacionamento sério?
— Malu, pode até ser que você tenha razão no papo feminista e tal…
— Eu tenho e você sabe disso!

Outras garotas rindo alto entraram no banheiro, cumprimentaram as duas e foram retocar suas maquiagens. Malu ficou aguardando Fê voltar ao assunto. Fê notou que ela não esperaria as garotas saírem para continuar o papo, então mesmo com as moças estranhas no ambiente, ela continuou:

— Eu não estou entendendo a sua insegurança, juro! Você é linda, e sempre foi “de boa” com seus crushes. Estou vendo que tem muito sentimento aí né.
— Claro que tem, porra! Eu e Jhony estamos juntos desde o início da faculdade, entre uma saída e outra. Nós somos perfeitos juntos! É surreal estar com ele. E agora vem essa pressão de todos os lados para nós nos assumirmos.

Fernanda estava um pouco desconfortável com aquela conversa e por isso começara a falar um pouco mais alto. Como era seu costume, toda vez que estava encurralada. As estranhas no banheiro olharam para ela e em seguida para Malu.

— Ok. Escuta. Você está problematizando a situação. O problema não é assumir e ficar com o Jhony sério. É óbvio que é, o que você quer. Então, qual é o seu medo Fê?
— Malu, eu não quero me apegar mais do que já estou apegada para depois ele me trair com outra mulher mais peituda do que eu, ok?

Malu e as meninas estranhas, que agora observavam de perto o diálogo riram baixo, o que deixou Fê ainda mais desconfortável.

— Olha, desculpe! A gente não pode deixar de ouvir. Gata, escuta a sua amiga. Não tem motivos para isso. Não sei quem é o boy, mas se o interesse é mútuo não tem porque ser pessimista assim.
— É e seja lá quem for o idiota que te magoou antes, você não pode criar expectativas negativas para todos os outros caras. E tem uma porção de garotas legais atrás de um cara legal também, não seja estúpida.

As estranhas disseram, fazendo Malu sorrir para a amiga arqueando uma sobrancelha. Fê não podia acreditar na vergonha que estava passando.

— Prazer, nós somos Luana e Bia. – uma das meninas disse apontando para elas próprias.
— Prazer meninas, e obrigada por me ajudar a fazer esta bobona abrir os olhos. – disse Malu.
— Imagina, nós temos mais é que nos ajudar! Tem muito cara babaca lá fora, mas você aparentemente deu sorte de encontrar o cara certo. Então se joga, gata! – disse Bia tocando amigavelmente o ombro de Fê.
— A gente já vai. Boa sorte! – a Luana se despediu também.

Malu e Fê sorriram para elas, e acenaram enquanto as meninas saíam do banheiro.

— E aí, o que você vai fazer?
— Vou conversar melhor sobre isso com Jhony depois, agora vamos. Capaz de nem encontrarmos mais eles na mesa.
— Verdade, você tem que marcar território. – Malu disse brincalhona para Fê que não gostou muito da piada.

As meninas saíram segundos depois das, estranhas novas colegas de banheiro. E ao chegarem próximo à mesa viram duas meninas parecidas com elas se aproximando dos rapazes.

— Cara eu juro que estava brincando, mas acho que você tem mesmo que marcar território.
— Malu, acho que são as meninas do banheiro.

Ambas chegaram à mesa e retornaram aos seus lugares e deram de cara com as mesmas garotas do banheiro. Bia, olhou assustada para Fê logo que ela chegou. As três, Luana, Bia e Fê ficaram bastante sem graça com a situação e se despediram sorrindo fraco.

— Se cuida Jhony… Tchau meninas… – Bia falou e saindo sem esperar resposta foi acompanhada por Luana.

Jhony e Matheus acharam aquilo estranho, e Fê fuzilou Malu com os olhos. Visivelmente impaciente.

— O que Fernanda? Vai dizer que a culpa é minha?
— O que exatamente aconteceu no banheiro? – disse Matheus curioso com o clima entre as duas.
— Tudo bem Fê? – Jhony perguntou segurando sua mão.
— Sim. – ela respondeu soltando a mão dele e saindo da mesa.
— Ok. Malu? – perguntou Jhony para ela sem entender nada enquanto observava Fernanda sair pisando fundo.
— Você pegou a Bia né? – perguntou Malu.
— O QUÊ?
— Cara, só responde. – disse Matheus sorrindo.
— É… Há muito tempo! Não hoje!
— Então melhor ir falar com ela. Elas se conheceram no banheiro enquanto eu aconselhava a Fê sobre esse relacionamento “fucking friend” de vocês dois. E a Bia e a Luana se meteram no assunto. Foi legal da parte delas, até a gente ver vocês dois de sorrisinho na mesa. Fernanda deve estar muito irada.
— Eu juro que não sei o que uma coisa tem a ver com a outra. – Jhony se levantava da mesa olhando incrédulo para os dois amigos.
— Só vai cara, mulher né… – Matheus disse arrancando olhares fuzilantes de Malu.

Os amigos se entreolharam, enquanto Jhony foi atrás de Fernanda, Matheus tratou de ir se desculpando com Malu:

— Ok. Comentário machista.
— Ainda bem que você sabe… – Malu riu fraco com uma cara intimidadora para Matheus.
— Não me olha assim, não é como se eu fosse machista…
— Eu não vou discutir isto com você porque eu tenho certeza que me sobrarão argumentos.
— Posso saber por que tanta certeza disso?
— Eu observo bem as pessoas Matheus. E você é o típico cara que diz “eu não sou machista”, mas vai para lugares como este procurar garotas fragilizadas e fáceis de atrair para depois nem ligar no dia seguinte.
— Oi? Do que você está falando? Se eu fosse esse tipo de cara, eu não estaria aqui fazendo companhia a você a noite toda não é mesmo?
— Ok. Desculpe, não tenho direito de te julgar assim.
— Obrigada!

Os dois sorriram, quando um cara aproximou-se da mesa e sentando-se ao lado de Malu começou a cochichar em seu ouvido, irritando-a profundamente. Matheus observou a cena sem entender nada.

— Sai daqui Bruno! Deixa de ser babaca, quem você pensa que é?
— Porque você tem sempre que se fazer de difícil? – o garoto visivelmente bêbado abraçou-a depositando beijos em seu rosto.
— Seu idiota, tire as mãos de cima de mim! – Malu empurrou o rapaz e se levantou.
— Sério Malu, chega de joguinhos! Vamos!

O rapaz puxou Malu pela cintura tentando beijá-la, em seguida sentiu um puxão de camisa pelas costas. Era Matheus visivelmente irritado e impaciente, afastando o bêbado da garota.

— Cara você tem que entender quando uma garota não quer nada com você!
— E quem o idiota pensa que é para se meter?
— Eu posso te mostrar quem eu sou, em vez de falar. – e assim que terminou de falar Matheus deu um soco no rosto do outro cara.

Malu que odiava violência de qualquer tipo ficou tremendamente nervosa com aquela situação e segurando o braço de Matheus disse para ele esquecer aquilo. As pessoas já formavam uma roda ao redor deles. Bruno levantou cambaleante e jogou Matheus em cima da mesa, quebrando os copos e partindo para mais socos e golpes em cima um do outro. Logo o dono do bar, Beluga, apareceu afastando os dois, somado a outros garçons.

— Beluga, aqui, se isso não reparar os consertos me avisa depois. – Matheus disse estendendo ao senhor uma quantia de cento e cinquenta reais.
— Bruno, toda semana você arruma confusão no meu bar! Eu não vou mais permitir sua entrada aqui! E você já me deve duzentos reais com essa confusão!

Bruno saiu do bar xingando o dono, acompanhado de dois outros amigos. Malu se aproximou de Matheus que limpava o sangue que escorria do canto da boca.
— Cara, você não precisava ter feito isso!
— E deixar aquele estúpido se aproveitar de você?
— Qual foi Matheus… Olha como você ficou. Era só a gente sair de perto, não precisava partir pra cima dele.
— Malu, você está defendendo ele, ou é impressão minha?
— Não. Só estou dizendo que você não estaria machucado agora se tivéssemos apenas saído de perto.
— Qual é, isso não foi nada. O olho roxo dele vai doer bem mais!

Após recolher a bagunça junto com os garçons, Beluga se aproximou dos dois jovens.

— Vocês estão bem?
— Sim, obrigada. Desculpa aí pela bagunça Beluga. Se faltar dinheiro, aqui meu telefone.
— Não se preocupe com isso. Aquele arruaceiro já me deve uma grana por aqui. E eu conheço meus clientes.
— Beluga… Quanto deu a nossa conta? – Malu perguntou impaciente para ir embora logo.
— Já vou trazer Malu. Posso tirar o valor da quantia que você me entregou? – ele perguntou ao Matheus.
— Não, aquilo é para os reparos. Pode cobrar separado.
— De forma alguma, como eu disse eu conheço meus clientes. Foram só umas louças quebradas, não passa de cinquenta reais. Seria picareta da minha parte te cobrar mais do que o justo.
— Bem sendo assim, pode cobrar na quantia sim.

Malu olhava de um lado para outro impaciente, enquanto Beluga se afastava.

— O que foi Malu?
— Não consigo falar com a Fê e nem com o Jhony. Onde eles se meteram? Queria avisar que a gente está indo.
— Relaxa, eles vão ver a mensagem logo. Devem estar ocupados. – Matheus riu fraco.
— É… Quanto deu a conta?
— Esquece isso.
— Claro que não, eu vou pagar minha parte.
— Ei garota empoderamento, deixe eu ser cavalheiro.
— Você já foi. – Malu sorriu para Matheus que a olhou descontente — Ok. Pode pagar.

Ele sorriu satisfeito. Beluga voltou com o troco e os dois se retiraram do lugar. Iam caminhando pela calçada. Malu não morava tão longe do bar, e logo eles chegariam no apartamento dela.

— Você está bem mesmo? – Matheus perguntou olhando para ela preocupado.
— Não é a primeira vez que um babaca mexe comigo daquele jeito. Relaxa. Eu vou ficar bem.

Continuaram o caminho um pouco calados, na maior parte. Malu conseguiu telefonar para Fê e explicou o que havia ocorrido. Despediu-se da amiga, que já estava em seu apartamento.

— Você tinha razão. Eles já estão em casa. – Malu disse rindo — Espero que tenham se acertado de vez.
— Então realmente ela gosta dele?
— Ela nega, mas está bem estampado que sim. E ele, te falou alguma coisa?
— Ele está louco por ela faz tempo. Relaxa, sua amiga não vai se magoar com Jhony. Ele é um cara muito legal.
— É vocês são. — ela olhou para Matheus que sorriu convencido — Retiro o que eu disse.
— É aqui? – Matheus perguntou assim que Malu parou em frente ao prédio.
— É sim. Vamos, eu tenho umas paradas para limpar estes machucados lá em cima.
— Não precisa Malu, está tranquilo.
— Relaxa Matheus, não vou te morder. – ela riu revirando os olhos e abrindo o portão principal dando passagem ao rapaz — Vamos, é minha vez de ser educada.

Ambos subiram silenciosos pelo elevador até entrarem no apartamento.

— Muito bonito seu apartamento.
— Obrigada! – Malu sorriu de orelha a orelha, adorava quando elogiavam sua decoração — Vou lá dentro buscar as coisas. O banheiro é ao corredor, terceira porta à direita. Pode pegar alguma coisa pra comer ou beber na cozinha se quiser. Enfim, fique à vontade.

Ela se retirou e ao entrar em seu quarto jogou sua bolsa sobre a cadeira. E indo para o banheiro de seu quarto pegou alguns primeiros socorros, e saiu em direção à sala. Encontrou Matheus observando a vista na sacada.

— Bonita não é?
— Cara, maravilhoso! Meu apartamento não tem vista para o mar.
— Pode vir aqui namorar o mar da minha sacada quando quiser. Agora sente-se aqui.
— Não me lembro de você dizer que era médica.
— Eu não vou te matar, relaxa. – ambos sorriram.

Enquanto limpava os cortes na sobrancelha e no canto inferior dos lábios de Matheus, Malu pensava em como tinha sido grosseira em julgá-lo e chamá-lo de machista. Matheus se mantinha calado. E ao acabar os curativos ela sorriu dizendo:

— Pronto. Inteiro de novo. Matheus, desculpa mesmo pelos comentários grosseiros na mesa.
— Esquece isso. A sua reação é compreensível. Não deve ser fácil para você ter que lidar com caras como aquele durante o dia a dia, não é?
— É… Mas tem horas que eu acabo generalizando sem analisar a situação primeiro. E hoje você foi muito gentil.
— Bate aqui. – Matheus ergueu a mão no ar para que a amiga tocasse. — Bom, eu vou indo. Obrigada por tudo.

Beijou a testa de Malu e se levantou indo em direção à porta. Ela colocou as coisas que estavam em seu colo sobre a mesinha do centro da sala e se levantou encarando o rapaz.

— Você vai embora a pé?
— Sim, algum problema?
— Bruno tem uns amigos idiotas, e eles ainda devem estar por aí.
— Fica tranquila, não vai acontecer nada.
— Marca um dez aqui e depois você vai, se quiser.
— Eu vou ficar bem Malu, assim que chegar em casa te aviso.
— Não Matheus, sério. Fica mais um pouco, pode dormir aqui se quiser.

Matheus a encarou curioso. Não sabia se era apenas preocupação ou se era algum interesse diferente de Malu, que ele ficasse. Achava má ideia ficar, mas ir embora não era o que ele realmente queria.

— Ok. Enquanto isso o que tem para fazer aqui, além de apreciar a vista da sua sacada? – ele sorriu.
— Eu vou tomar uma ducha, escolhe um filme. Tem DVDs, canais na televisão, Netflix… Enfim escolhe alguma coisa. A pipoca está no armário. – ela falou se retirando sorrindo — E vê se não queima, odeio pipoca queimada!
— Folgada! Eu que sou a visita! – ele gritou em direção ao corredor onde ela havia se direcionado.
— Hey! Acostume-se se quiser ser meu amigo. – ela falou com a cabeça para fora da porta de seu quarto.

Matheus sorriu largamente, indo em direção à cozinha. Revirou a cozinha de Malu, preparou suco, pipoca e brigadeiro. Ela sabia que toda garota – ou a maioria – gostava de brigadeiro, e Malu não deveria ser diferente. Organizou a cozinha, quando ela chegou à sala, com um moletom maior do que ela, e travesseiros e cobertores de sobra.

— Meu Deus, você quer ajuda? – ele disse rindo da cena.
— Sim, segura aqui para mim. – ela entregou as roupas de cama para ele e foi abrir o seu sofá da sala — É cheiro de brigadeiro?
— Você gosta?
— Que tipo de pergunta é esta?
— Vou considerar um sim.
— Eu amo. Obrigada!
— Sabe que a última colherada é minha né?
— Ok, não vou brigar por isso. Você quer algum casaco, ou calça mais confortável?
— É, de ver seus moletons te engolindo certamente eles caberiam em mim. Mas não precisa se preocupar.
— Idiota, eu tenho umas roupas masculinas aí!
— São do seu irmão?
— Digamos que… São roupas que foram ficando… – ela sorriu maliciosa.
— Ah! Entendi! Dos seus machos. – ele riu — Então você faz os caras saírem nus pela janela ou o quê?
— Não! – ela sorria divertidamente – Sabe quando você vai deixando uma peça, aí depois deixa outra e etc.? Digamos que eu não deixei virem buscar de volta.
— Fiquei curioso para saber a rotatividade de roupas agora…

Malu levou Matheus até o quarto de hóspedes e ao abrir o armário o rapaz gargalhou divertido.

— Nossa, deixaram malas de roupas pela casa, e não peças né?
— Eu vou esclarecer: eram do meu ex-namorado. Depois que terminamos ele não quis voltar pra pegar nada, e eu não fiz questão de devolver. Ele saiu do país e as peças ficaram.
— Entendi… São lembranças…

Ele olhou para Malu como se ela fosse frágil e não tivesse superado. A garota fez uma cara óbvia e gargalhou afirmando:

— Lembranças? Não! São só roupas, Matheus. Pode parecer que não, mas não é como se eu não conseguisse me desfazer delas. É indiferente. Mas vem muito a calhar quando recebo um amigo e ele não tem como se trocar.

Ela o olhou convencida. Matheus balançou a cabeça negativamente. Malu estendeu a ele uma toalha e disse:

— Vai, toma um banho para se agasalhar, que agora à noite esfriou muito. Ou você não usa roupas de outro homem? – olhou desafiadora para o amigo.
— Eu não uso a cueca de outro homem.
— Relaxa, tem um pacote de cuecas novas aí, que o Bryan nem chegou a usar. E ninguém mais usou. Se quiser fica à vontade.
— Tem quanto tempo que terminaram?
— Um ano e meio.

Ela disse e deixou o rapaz no quarto, saindo em direção a sala.


Continua...



Nota da autora: Primeiramente, obrigada por estar aqui. Aguardo os comentários de vocês. Esta história é restrita, porque há cerca de um ano, eu conversava com uma amiga escritora sobre literatura erótica. E chegamos ao consenso – mais ela do que eu, afinal, eu não tinha nem o hábito de ler ou escrever – do quão é necessário cuidado no manejo deste gênero. Pelas questões linguísticas, onde a narrativa se torna muito vulgar e desconfortável, ou por questões mais aprofundadas como a mensagem passada. É muito comum romatizar o sexo vulgar, as atitudes machistas durante uma relação em literatura do tipo. Então, buscando ler algumas fanfics me atentei perceptivelmente a: como há sadomasoquismo, violência e abuso, e inferiorização da mulher nas fanfics restritas. E muito, gente. E para piorar, as leitoras pedem por "fanfics onde o boy é possessivo, violento, enciumado e etc" e mal notam o reforço negativo que fazem com leituras assim. Eu não curtia escrever fanfic restrita, por justamente achar que restritas deviam seguir este padrão. Então percebi que na verdade não é assim. Me aventurei nesta restrita! O meu foco se tornou, a partir disso: contar uma história onde eu tenha espaço para explorar a sexualidade, mas, mostrando à vocês uma sexualidade real. Que é do instinto humano, mas acima de tudo, que demonstre o respeito pelo corpo próprio e do outro, como deve ser. Espero conseguir alcançar este objetivo, e conto com vocês para saber como estou me saindo.





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