Última atualização: 29/05/2018

Prólogo

23 de Maio de 2018 – 17h08min

“I had all and then most of you, some and now none of you”


O rosto de não demonstrava alegria, tampouco tristeza; na verdade, era tudo uma questão de tédio, muito tédio. Emoções não eram necessárias quando tudo que ele podia fazer era assistir a sua irmã postiça, , comer. Ok, talvez alguém que estivesse recém conhecendo-a poderia ficar impressionado com a quantidade de comida que cabia naquele corpo pequeno, mas ele já estava muito mais do que acostumado.
― O que houve, ? ― ela perguntou com preocupação, confundindo sua expressão de fúria pela sua de tédio, como muitos faziam, afinal aquele garoto era uma incógnita.
― Nada, por quê? ― ele questionou de volta, ainda com a cabeça apoiada em sua própria mão.
― Você parece estar meio de cara, mas posso estar errada. ― deu de ombros e continuou comendo sua batata frita como se nada mais no mundo fosse importante.
― Só estou meio entediado. ― admitiu. ― Te ver comendo costumava ser uma fonte de entretenimento até alguns anos atrás, mas agora não há nada que eu já não tenha visto mil vezes antes.
revirou os olhos e continuou comendo feito um porco que não recebia alimento há dias.
― Nós temos muitos motivos para celebrarmos, Zangado! ― apenas era capaz de falar alto e referenciar Os Sete Anões enquanto colocava metade de um hambúrguer em sua boca. ― Estamos de férias, iremos para o nosso penúltimo semestre e daqui um ano estaremos formados. Agora mude essa sua cara de paisagem, quero te ver feliz!
Não conseguindo aguentar todo aquele entusiasmo da irmã, revirou os olhos e abriu um sorriso extremamente forçado, fazendo a garota suspirar e encolher os ombros enquanto balançava a cabeça em desaprovação.
― Você não tem jeito. ― disse.
O garoto deu de ombros e seguiu de braços cruzados até que terminasse de comer e pagasse pela comida, como prometeu, em troca do irmão sair com ela e carregar suas sacolas de compras.
O peso em sacolas já estava ultrapassando o peso de quando, enquanto esperava finalizar sua compra de alguns itens de maquiagem, alguém muito familiar entrou na loja. O cabelo castanho ondulado, o vestidinho rosa de verão e os olhos cor de mel que demonstravam surpresa fizeram o garoto permanecer intacto e mudo.
Lá estava , fazendo com a mesma coisa que seu ex-namorado tinha feito com ela três anos atrás; de mãos dadas com o único homem que ele odiava na vida.
Aquilo levou e a terem sérios flashbacks, e desejar que eles fossem capaz de serem adentrados e alterados, porque ah, eles mudariam tanta coisa no relacionamento complicado que tiveram; sua amizade, seu namoro e, sobretudo, a noite em que se conheceram, pois apenas assim eles recuperariam o espaço nos seus corações em que um buraco foi deixado no lugar.

20 de Maio de 2015 – 19h17min


As ruas de Bristol estavam extremamente alagadas e, para “melhorar” a situação, o guarda-chuva de estava emperrando enquanto ela saía da sua loja de roupas favoritas. Ótimo, ela pensou, vou chegar em casa com roupas novas e uma pneumonia. A morena se estressou tanto com o objeto que, quando viu que o partiu ao meio, rosnou alto no meio da calçada e o jogou em um lixo com toda a violência possível.
Em qualquer dia normal, ela teria encarado isso bem, com um sorriso e tentando pensar em coisas positivas. Entretanto, os últimos dias estavam sendo muito estressantes para depois que seu namorado, Jason, terminou com ela no dia da formatura. Será que ele conseguia ser mais babaca?
Ah, conseguia. Se conseguia.
Por todo caos que a garota estava passando, ela decidiu premiar a si mesma com um muffin de banana com gotas de chocolate ― o seu sabor favorito, que só de pensar já fazia seus lábios rosados molharem de tanto que ela lambia. Para isso, foi até a White Rose Café, uma das melhores da cidade. Por já conhecer a dona há muitos anos, não se importou em chegar lá com o seu cabelo ensopado e arruinado, e seu casaco verde-escuro largo, sua blusa do Led Zeppelin e sua boyfriend jeans pingarem água dentro do estabelecimento.
Ela abriu a porta que tocou uma campainha e foi direto para o balcão, onde se encontravam inúmeros bolos e tortas que eram com certeza muito deliciosas. Assim que a atendente, Ronnie, apareceu, a menina não demorou em pedir um café muito quente e seu desejado muffin.
Assim que Ronnie entregou o pedido, os deixou em uma mesa junto com suas bolsas de compras e foi direto ao banheiro para tentar se secar. Não obteve muito sucesso, mas conseguiu fazer pelo menos o seu cabelo ficar apenas úmido e não jogasse água no piso branco perfeitamente encerado.
voltou para a mesa um pouco rápido demais; sempre que ela ia para a White Rose, sempre parava um pouco para admirar o charme da cafeteria, que tinha um estilo que era despojado e clássico ao mesmo tempo, com pequenas rosas brancas em cada mesa e, ao invés de cadeiras, haviam bancos altos de plástico preto e branco. O lugar inteiro parecia que um adolescente dos anos 40, um dos anos 20 e um dessa década tinham vomitado ali, mas aquela era surpreendentemente uma ótima combinação. Ela aproveitou para observar isso quando sentou e consumiu seu pedido quietamente, enquanto olhava em volta do estabelecimento.
Quando virou seu corpo a quase 180º, ela encarou a cena mais chocante da sua vida até aquele momento; seu ex-namorado estava lá, sussurrando coisas no ouvido de Danielle Valkin, a garota mais odiosa do mundo inteiro ― pelo menos nos olhos de .
A história das duas era complicada. Quando elas tinham quatorze anos, Danielle morava na casa ao lado da morena. As duas não eram amigas, mas tinham uma relação muito civilizada e cordial, bem pacífica. Mas, em um dia, tudo mudou.
Os pais de eram divorciados e ela morava com a mãe, que era uma advogada muito ocupada e que coincidentemente trabalhava na mesma firma que o pai de Danielle. Um dia, as garotas foram juntas ao trabalho dos dois, pegando carona com a mãe da Valkin ― porque precisava entregar algumas correspondências para a mãe e Danielle porque o pai tinha prometido levá-la no shopping depois da escola. As três se separaram, cada uma indo para a sala de seus respectivos criadores e marido. Entretanto, não encontrou a mãe na própria sala, então foi atrás de Danielle para ver se ela, a mãe ou o pai tinham alguma ideia de onde ela estava.
Ela caminhou por todo aquele andar frio de paredes com cores sóbrias até a sala de Stan Valkin, apenas para encontrar uma Danielle perplexa e os adultos vestindo suas roupas rapidamente, enquanto Henrietta, a mãe de Danielle, chorava desconsoladamente. Victoria, a mãe de , pegou a filha pela mão e foi embora com ela o mais rápido possível.
Danielle, pelo resto do Ensino Médio, fez a vida de um inferno na Terra pela mãe da garota ter destruído sua família. Não, ela não descontou no pai, ou em Victoria, ela descontou em , que não tinha nada a ver com a história e era tão inocente quanto ela, mas Danielle não se importou. Ela sabotou suas amizades, seus relacionamentos, sua vaga nas líderes de torcida e até sua relação com alguns professores, além de ter espalhado rumores sem cabimento nenhum sobre .
Jason, o ex-namorado dela, sabia de tudo isso. Eles se conheciam desde crianças, ele viu Danielle atazanando a vida da ex-namorada, e mesmo assim ele estava ali, beijando ela como se não fosse grande coisa.
Sem nem terminar seu muffin e seu café, foi até o caixa, pagou pela comida e saiu rapidamente, pois sabia que se ficasse ali por mais tempo causaria uma cena, ou até vomitaria de tanta raiva que passou assistindo aquilo. Desesperada e com suas lágrimas sendo disfarçadas pelos pingos de chuva, ela sabia exatamente onde ir.



Capítulo 1

7 de Junho de 2015; 9h28min
“So tell me what you want, what you really really want
I’ll tell you what I want, what I really really want”

A icônica e atemporal música Wannabe das Spice Girls estourava nos fones de ouvido de , que fazia sua corrida matinal no parque para esvaziar sua mente de outras coisas. Praticar exercícios sempre fez os nervos da garota acalmarem, desde que ela criança, toda vez que ela passava por uma situação triste ou estressante ela procurava suas roupas esportivas para correr, dançar, caminhar, ou até fazer aula experimental em alguma academia. Vários donos desses estabelecimentos já a baniram, por falar nisso.
Embora já completava duas semanas que ela viu aquela cena mortificante entre o ex e seu maior pesadelo, seu sangue ainda fervia como se seus olhos tivessem os visto uma hora atrás, e era por isso que ela corria em companhia com o vento, sem nem olhar para os lados ou para a frente; ela apenas se concentrava na sua respiração e nos seus tênis roxo neon.
Sem nem conseguir evitar, toda sua distração fez com que pechasse com outro corpo e, mesmo sendo totalmente culpa dela e ela tendo feito o empurrão, quem sofreu a consequência foi ela; a garota caiu de bunda no chão, enquanto o estranho apenas deu alguns passos para trás.
Ela tirou os fones de ouvido imediatamente e percebeu uma mão em sua frente, logo agarrando-a para pode se levantar.
― Ai. Meu. Deus. Eu sinto muito! ― exclamou antes de se encontrar com um par de olhos âmbar.
― Está tudo bem, . ― o garoto falou sem muitas expressões, e ela não demorou em reconhecê-lo.
― Ah, oi ! ― ela cumprimentou o homem que conheceu na noite mais desastrosa de sua vida. ― É , certo? ― franziu o cenho e apontou o dedo indicador para ele.
― Sim, é, mas pode me chamar de apenas . ― ele deu de ombros enquanto observava a garota limpar as partes de sua legging preta que estavam sujas.
― Ok. ― ela assentiu e sorriu. ― Me desculpa pela distração que fez eu te empurrar, “apenas ”.
Por algum motivo, até sorriu depois de ouvir aquelas palavras saírem da boca dela. Ele gostou da brincadeira e de como o seu nome soou na voz dela.
― Bem, não fui eu que caí no chão. ― o garoto ergueu uma sobrancelha e semicerrou os olhos. ― Você está bem? Não se machucou?
acenou a cabeça negativamente.
― Que bom. ― ele deu um sorrisinho de canto.
Por vários minutos, eles ficaram calados e tudo que ouviram foi o canto dos pássaros, crianças chorando e o vento batendo nas folhas das árvores. A situação se tornou um tanto quanto desconfortável; parecia que queriam falar algo, mas não sabiam o quê. já estava prestes a ir embora e chegou a virar de costas, até que a ouviu novamente.
― Você está se adaptando? ― perguntou.
― A o quê? ― ele questionou de volta e olhou para , notando que o sol começou a atingir seu rosto, fazendo com que ela quase fechasse os olhos castanhos que ficaram ainda mais brilhantes com o reflexo dos raios.
― Bristol. ― ela completou a própria pergunta. ― Você está gostando daqui?
fez um gesto com a cabeça para que eles andassem lado a lado, não sentindo muita vontade de ficar parada, e passou a segui-la.
― Ainda é cedo para ter certeza, mas... Sim, estou gostando. Tem mais coisas para fazer do que em Cardiff, pelo menos das que eu gosto. ― respondeu e começou a olhar para ela da cabeça aos pés. ― Mas e aí, o que estava fazendo correndo como louca por aqui?
Nem o próprio conseguia acreditar que ele estava puxando assunto com uma garota que mal conhecia. Não era típico dele, mas tinha algo sobre , algo que ele não conseguia descobrir o que era, mas que o interessava mais do que tudo.
― Justamente isso, correndo. ― riu baixinho. ― Eu gosto de praticar exercícios, não apenas por me deixarem saudável, mas eles me relaxam, aliviam o meu estresse.
― Uau, naquela noite em que nos conhecemos nunca que eu pensaria que você fosse alguém que se exercitava. ― ele fez uma expressão pensativa e logo deu de ombros. ― Então acho que se você está aqui para aliviar o estresse, não está se sentindo muito melhor em relação à última vez que nos vimos.
― Um passo de cada vez. ― ela entortou os lábios e voltou a observá-lo, com seu estilo único vestindo uma jaqueta de couro que era 2x maior que ele por cima de uma camisa do Sex Pistols e um jeans preto. E nossa, isso a atraiu. ― E você, o que está fazendo aqui?
― Eu só queria ir para um lugar quieto para pensar e Charles me recomendou esse lugar. ― olhou em volta do parque e suas enormes árvores, brinquedos, variedade de animais e logo seu olhar pousou em , que não tirava os olhos dele, fazendo-o sorrir. ― E eu consigo ver o porquê.
― Por que precisava pensar? ― perguntou, com toda a sua curiosidade à mostra, inclinando a cabeça para o lado como um cachorrinho confuso.
― Isso é um assunto para outro dia. ― ele se inclinou para sussurrar no ouvido da garota e, quando se afastou, abriu um sorrisinho misterioso e foi checar a hora no celular. ― Bem, tenho que ir. Tenha uma bom dia, .
― Você também, . ― ela desejou e o assistiu ir embora até que saísse de seu campo de visão.
Enquanto aquilo acontecia, passou a revisar toda a conversa; aquele ar de suspense no final atiçou seu modo fofoqueira curiosa de bairro, além de ter a atraído demais; não em um sentido amoroso ou sexual, afinal ainda não estava recuperada da situação com o ex-namorado, mas num sentido em ter se sentido atraída a conhecer melhor; e ela faria daquilo a sua missão.

7 de Outubro de 2015 – 20h39min


não sabia como lidar com toda a barulheira ocorrendo pela casa; aproveitando a viagem de negócios de Charles, fez uma junção com seus novos amigos da faculdade e seus velhos amigos da escola, e aquilo irritou tanto o garoto. Embora não fosse do tipo nerd, ele tinha alguns trabalhos bem importantes e não conseguia se concentrar por causa da música e das risadas escandalosas.
Ele desistiu de tentar finalizar suas tarefas e deixou o notebook de lado, deixando seu quarto para pegar pelo menos uma água e voltar para seu lugar de origem. Mal esperava ele que seria encurralado.
Tentando se esconder, fez discretamente seu caminho até a cozinha e pegou um copo do armário, logo colocando-o embaixo do filtro, pressionando o botão para que a água caísse. Entretanto, assim que terminou, quase derrubou o copo quando percebeu que estava parada ali com um sorriso bem assustador.
Deixando o susto de lado, ele se impressionou com a sua beleza que foi ainda mais relevada; seu cabelo castanho, que ela geralmente deixava liso, caía com cachos hipnotizantes, além do lápis preto ao redor dos olhos e o batom vermelho em sua boca. Também usava um suéter com as mangas um pouco maiores que seus braços, um short preto curto, uma meia-calça e botas coturno.
― Oi, sumido. ― ela o cumprimentou, apoiando o cotovelo no ombro do garoto, que sentiu o forte bafo de álcool enquanto falava. ― Como vai?
― Estou bem, . ― ele respondeu com poucas emoções.
― Que bom. ― ela sorriu e tentou fazer seu caminho até a geladeira, mas tropeçou no processo e caiu diretamente nos braços do garoto.
― Cuidado. ― riu levemente do quanto a menina era desastrada, mesmo já sabendo daquilo há alguns meses, já que eles estavam lentamente construindo uma amizade. ― O que queria pegar na geladeira?
― Mais daquela vodka com limão, lá. ― respondeu com a fala tão enrolada que o garoto quase não entendeu o que ela disse.
― Bem, já dá pra ver que você não vai ganhar isso, não. ― ele ergueu uma sobrancelha.
― Mas por quê? ― fez um biquinho e cruzou os braços, falando com uma voz muito fina, parecendo criança mimada.
― Porque... ― aproximou-se da garota e sussurrou algo muito simples. ― Você está bêbada.
― Não estou, não! ― ela praticamente gritou, ainda com a voz próxima a de um personagem de “Alvin e Os Esquilos”, fazendo os ouvidos de vibrarem.
― Sim, você está. ― ele assentiu de uma maneira que, mesmo bêbada, achou extremamente fofa. Mesmo assim, ele não pareceu sentir medo de seus gritos ou seu jeito mimado e mandão, fazendo a morena bufar.
― Tudo bem, me dá uma água então...
foi até a geladeira prateada e abriu, pegando uma das únicas garrafas de água entre as milhares de cerveja e vodka. Ele a jogou para com certo estilo, antes de se virar para voltar a sua ― quase ― paz.
― Onde você está indo? ― ela questionou, indo atrás dele enquanto cambaleava.
― Para o meu quarto... ― ele apontou com o polegar para a porta perto dele e fez uma expressão de obviedade.
― Não! Fique para a festa! ― ela insistiu quando conseguiu alcançá-lo e se apoiou em seu ombro.
― Não é a minha praia, ... ― o apelido saiu repentinamente, assustando tanto ele quanto a garota, mas ela gostou do jeito que soou. De outro lado, olhou nos olhos castanhos persistentes da menina, que fazia biquinho e uma expressão fofa para tentar convencer ele a ficar.
― Ah, qual é, ! Você vai se divertir, eu prometo. ― ela continuou encarando direto em sua alma, suplicando. ― Por favor, por favor, por favor.
respirou fundo e fechou os olhos. Droga, era difícil negar algo a ela.
― Ok. ― foi tudo que ele disse.
comemorou ao bater palmas e dar pulinhos, mas para não abusar de seu tempo, ela não demorou em pegar a mão de ― que sentiu algo muito estranho com o gesto ― e o puxou até uma roda de pessoas que estavam sentados na volta de uma garrafa. Ah, não! Ele odiava esses jogos.
― Ah é, esqueci de mencionar, estamos jogando verdade ou desafio. ― piscou sensualmente e abriu um sorriso cheio de malícias e intenções, intrigando . ― Pessoal, deixem-me apresentar , o irmão da .
Todos disseram “olá” em uníssono, enquanto o garoto apenas ficou ali, parado e em pé, dando apenas um aceno como retribuição.
― Uau, muito monossilábico. ― falou baixinho e sentou no tapete marrom, levando o garoto com ela. ― Bem, vamos começar.
Um sorteio foi feito para ver quem giraria a garrafa primeiro, e quem ganhou foi um desconhecido para , que girou e caiu em outra desconhecida, que falou algo vergonhoso sobre ter mijado em sua cama até os quinze anos, girou a garrafa e caiu em mais um desconhecido. suspirou. Aquela seria uma longa noite.
Após várias e várias rodadas de verdades embaraçosas e desafios que testavam a dignidade de qualquer um, conseguiu se livrar de todas as giradas. Até que, depois de ter tomado vodka enquanto plantava bananeira, ela girou a garrafa e ela apontou logo nele, que estava quieto e despercebido no jogo, mas a menina pareceu gostar muito daquilo.
― Uuuh, gostei disso. Boa garrafinha. ― fez graça enquanto acariciava a garrafa de vidro central do jogo. ― E aí, ? Verdade ou desafio?
pensou muito antes de responder. Ele odiava que se metessem na sua vida pessoal, então não queria responder “verdade”, mas com sendo um caso perdido e estando bêbada, ele sinceramente tinha muito medo do desafio que ela concederia a ele, então ele pensou que, já que se conheciam há pouco tempo, não teria muitos podres para perguntar a ele.
― Verdade. ― ele respondeu, decidido, e aquilo pareceu ser justamente o que a garota queria, pois ela ergueu as sobrancelhas e sorriu de um jeito sapeca.
― Ok, então. ― posou o dedo indicador no bochecha, fingindo uma expressão pensativa. Assim que pensou em algo, ela se inclinou para a frente dele e jogou um olhar ferino. ― Você já teve uma namorada?
A pergunta, embora simples e muito melhor do que ele esperava, intrigou o garoto. Por que ela queria saber aquilo?
― Não. ― ele admitiu, curto e grosso.
― Por quê? ― ela perguntou novamente, ainda parecendo muito interessada.
― Sei lá, nunca me interessei o suficiente para me envolver. Tive alguns casos de vez em quando, mas nada que se concretizou e tornou-se sério. ― complementou, falando mais do que achava que deveria, mas os olhares que ela lançava o prenderam.
Satisfeita com a resposta, voltou a sua postura de antes e continuou com o jogo como se nada tivesse acontecido. girou a garrafa, que caiu em um cara bem aéreo, provavelmente como efeito de toda a maconha que ele fumava. Ele perguntou, o garoto quis “verdade”, perguntou algo aleatório e recebeu uma resposta mais aleatória ainda; o jogo seguiu-se, e a garrafa, para a sorte de , nunca mais apontou para ele.
Depois de muitas e muitas horas, a festa acabou. Algumas pessoas foram embora, outras dormiram na sala de estar, mas o garoto ficou ali para ajudar e com a limpeza. Quando terminaram, pegou no pulso de antes que ela fosse dormir no quarto de hóspedes, para sanar a dúvida que o corroeu durante a festa inteira.
― Por que quis saber se eu já namorei? ― questionou, e , em tom brincalhão e sorriso sedutor, deu a resposta que achava que ele merecia.
― Isso é um assunto para outro dia. ― ela piscou apenas um olho e se largou da mão dele. ― Tenha uma boa noite de sono, .

20 de Maio de 2015 – 19h01min


se remexia no banco do trem, já se preparando para desembarcar na estação ferroviária de Bristol que parecia estar muito próxima. Com o aviso da chegada, ele pegou sua mochila que continha as únicas coisas que trouxera de Cardiff para sua repentina mudança, junto com a capa de seu violão.
Ele se despediu do homem que compartilhou a cabine com ele, com quem trocou apenas cumprimentos e não sabia sequer o nome. O garoto odiava bate-papo e conversa fiada, então fez o máximo para assim evitá-las. Ele pôs a mochila em apenas um ombro e saiu perdido pela estação, tentando encontrar Davies no meio daquela multidão desagradável.
Quando viu uma garota baixinha, de pele e cabelos escuros segurando um pedaço de papel escrito “ , meu irmão idiota”, ele até chegou a esboçar um sorriso. Em apenas alguns segundos, ele sentiu o peso do corpo de , que se jogou nele.
― Estava com tanta saudades! ― ela apertou o abraço, e retribuiu. Honestamente, ela era a única que conseguia fazer com que abraçasse alguém, então isso significava que ele gostava muito dela.
e , agora com dezoito anos, mesmo falando um com o outro todos os dias pelas redes sociais, não se viam desde os treze. A mãe do garoto e o pai da garota foram casados por cinco anos, até que se divorciaram e e o pai saíram de Cardiff para morarem em Bristol. A mãe dele já tinha se envolvido em vários e vários relacionamentos, mas Charles Davies foi o único padrasto a quem se apegou de verdade, quase como o pai que ele nunca teve.
Aurora, progenitora do garoto, conheceu um australiano babaca, e decidiu mudar de continente para ficar junto ao namorado. , recém-formado no Ensino Médio, já havia se inscrito apenas em universidades inglesas e ficou atônito com a decisão da mãe de simplesmente deixá-lo. Ela era uma fonte de decepção constante para o garoto, mas mesmo assim ele nunca esperaria algo assim por parte dela, principalmente pois o seu pai já tinha o abandonado anteriormente. Entretanto, como era de costume, ele apenas demonstrou sua frustração, mas nunca deixaria sua tristeza com o acontecimento ser botada para fora.
reportou a notícia para , que não demorou em falar tudo para o pai, que solidarizou-se com a situação do ex-enteado e o convidou para morar junto com eles em Bristol logo depois que o garoto recebeu a notícia que havia sido aceito na universidade da cidade. Esse dia foi o primeiro dia em que sorriu em muito tempo.
― É só isso que você trouxe? ― a garota perguntou, apontando para a mochila verde musgo e a capa de violão do irmão postiço.
― Sim. ― ele respondeu diretamente, com apenas um aceno de cabeça acompanhando.
― Mas a Aurora vai mandar o resto das suas coisas, certo? ― ela questionou novamente e o garoto negou ao acenar a cabeça de novo.
― Aqui está meu notebook, meu celular, minhas roupas, meu violão e meus livros. É tudo que preciso, já que você disse que você e Charles montaram todo um quarto para mim. ― explicou. ― O que nem era preciso, por falar nisso, eu poderia muito bem dormir no sofá até ir para a faculdade e conseguir um dormitório.
― Bobagem, . E a Universidade de Bristol fica muito perto de onde moramos, então você vai continuar morando com a gente. ― enfatizou e sorriu, logo pegando as chaves de seu carro e mostrando para ele. ― Vamos?
O garoto assentiu e seguiu a garota até a rua onde estava estacionado o veículo, guardando sua mochila e sua capa de violão no porta-malas e contornando o caminho para a porta do carona. Foi um longo caminho em que eles ouviram o álbum do The Kooks e conversaram bastante ― pelo menos na medida do possível, afinal o garoto não era lá muito conversador ―, com visivelmente tentando evitar o assunto “meu irmão foi abandonado de novo”, sabendo que fecharia sua torneira e não deixaria nenhuma emoção vazar.
A garota, como ótima motorista que era, demorou pelo menos cinco minutos para conseguir fazer uma baliza na frente da própria casa.
― Lar doce lar. ― ela disse, sorrindo para o irmão enquanto se livrava do cinto de segurança.
saiu do carro e foi pegar as suas coisas no porta-malas quando ouviu gritar de susto, e parou tudo para ver se ela estava bem. Entretanto, praticamente se arrependeu quando viu que era apenas uma garota sentada na escadaria na frente da casa de tijolos vermelhos de .
― Você veio no tempo certo! ― ela abraçou a desconhecida com toda a felicidade do mundo e fez a garota se virar de frente para . ― , esse é o meu famoso irmão postiço, o . , essa é a , a minha melhor amiga.


Capítulo 2

7 de Setembro de 2015; 7h20min


, e encararam o prédio enorme e histórico do campus da Universidade de Bristol. Os corações do trio batiam na mesma alta frequência, nervosos pelo primeiro dia de aula na faculdade.
― Então... ― começou.
― Vamos entrar ou...? ― olhou para as duas garotas, que pareciam um tanto quanto assustadas.
― Bem, uma hora ou outra teremos que fazer isso, certo? ― deu de ombros, mas ainda não tirou a expressão de agonia estampada em seu rosto.
― Qual é a aula de vocês? ― perguntou.
― Cálculo I no prédio Tudor. ― respondeu primeiro, olhando no papel que tirou de seu bolso.
― Literatura Inglesa I no prédio Hillsen. ― também tinha um papel com todas as suas matérias e horários.
― História Greco-romana I no prédio Hillsen. ― o garoto suspirou e olhou para a . ― Pelo menos temos nossas primeiras aulas no mesmo prédio.
― Verdade. ― a garota sorriu e até pareceu mais tranquilizada quando percebeu isso.
― Odeio ser excluída. ― bufou e recebeu um abraço da melhor amiga.
― Nos veremos no almoço, pelo menos. ― ela tentou a consolar.
― É, na pior das hipóteses seu cérebro explode de tanta matemática que você escolheu fazer nesse semestre, você morre e nunca nos vê novamente. ― deu de ombros e estava com o rosto completamente neutro, como se estivesse falando a coisa mais séria e nada importante do universo.
― Uau, você é um irmão tão apoiador. ― revirou os olhos. ― Eu tenho que fazer matemática se quiser seguir no caminho da Engenharia, duh.
― Isso não me impede de ainda te achar louca. ― beijou o topo da cabeça de e se virou para . ― Quer ir até Hillsen comigo?
assentiu e se despediu da amiga antes de seguir o garoto. No centro do campus havia um mapa enorme enquadrado para que os alunos se localizassem, e foi o que eles dois tentaram fazer, se atrapalhando como nunca enquanto tentavam entender os caminhos.
― Acho que temos que ir à leste. ― disse.
― Claro que não, , temos que claramente ir à oeste! ― apontou para o mapa com certa empolgação, querendo estar certa.
― Não, , olhe! ― ele também apontou. ― Estamos no centro, o prédio Hillson fica à norte, mas de acordo com o mapa o caminho mais curto é à leste.
― É à oeste, ! ― o encarou cheia de desdém, mas aquilo tampouco irritou o garoto; ele achou que ela ficava muito linda daquele jeito, então apenas riu fraco, revirou os olhos e bufou, cedendo ao convencimento dela.
― Ok, se você insiste, vamos à oeste, então. ― assentiu lentamente e olhou para os seus olhos brilhantes, com um sorriso tolo, que fez corar.
― Obrigada. ― ela gentilmente agradeceu, enquanto pressionava seus lábios um contra o outro e sentia suas bochechas queimarem, tentando desviar-se do olhar carinhoso do garoto.
Eles tiveram que caminhar pelo campus por pelo menos dez minutos até achar o prédio, e mesmo assim ainda não era a hora do começo do primeiro período. Caminharam e caminharam pelos corredores, até acharem um centro acadêmico para descanso e lazer.
Como qualquer calouro, eles ficaram encantados; nenhum dos dois teve uma sala daquele jeito nas suas escolas. Era um centro moderno, com mesas de sinuca, ping pong e hockey de mesa aparentemente novas, cheia de prateleiras, puffs e uma pintura colorida, além de uma jukebox que se apaixonou na hora.
― Deus, eu quero morar aqui! ― ele exclamou, animado e hipnotizado, surpreendendo que nunca o viu daquele jeito.
― Uau, isso é uma primeira vez, muito alegre acerca de algo. ― ela brincou com ele, rindo.
― Ah, eu sou alegre com muitas coisas, mas esse lugar tem uma jukebox, ! Uma jukebox! ― ele repetiu com muito fogo nos olhos, parecendo uma criança na manhã de Natal. ― Eu sempre sonhei em ter uma.
andou até lá para ver as músicas disponíveis, ficando cada vez mais feliz à medida que navegava por ela, e ele até chegou a fazer carinho nela de tão encantado que estava.
― Tem quase todo o “Is This It” do The Strokes! ― ele se virou para , que estava sentada em um puff rosa comendo um snack que pegou numa máquina automática. Ela achou aquela animação do garoto surpreendentemente fofa.
procurou e procurou, até achar uma moeda para inserir na jukebox, escolhendo o álbum que tinha falado sobre antes, começando a cantar a música-título quando começou a tocar.
Can’t you see I’m trying? I don’t even like it, I just lied to get to your apartment... lentamente foi até o puff onde estava e se atirou ao lado dela, fazendo-a gargalhar depois de quase pular para fora dali com o peso do garoto.
― Meu Deus, você realmente está feliz que descobrimos essa sala, não está? ― ela olhou para ele e notou quão bonito o seu sorriso em momentos de felicidade plena era lindo. Naquele momento, ele estava deitado no puff enquanto ela estava sentada, e a visão do rosto dele naquele ângulo era tão... indescritível. Tão indescritível, que não conseguiu segurar a vontade automática de acariciar o cabelo preto dele.
― Sim, estou. ― fechou os olhos com o toque carinhoso que recebia, fazendo-o até arrepiar. ― Vamos matar aula e ficar aqui para sempre, por favor.
― No primeiro dia de aula? Acho que dessa vez não, . ― riu fraco e, quando percebeu o que estava realmente fazendo, arrumou a parte do cabelo do garoto que havia desarrumado e tirou sua mão dali, pigarreado e ajeitando sua postura logo após, desamassando seu macaquinho branco. ― Então, temos que ir, está quase na hora.
Triste pelo cafuné ter acabado e pelas palavras que ela acabara de dizer, decidiu apenas aceitar, suspirando e se apoiando no puff para se levantar, depois ajudando-a a fazer o mesmo ao pegar sua mãe e a puxar.
― Nos vemos no almoço? ― ela perguntou, e assentiu.
― Claro. ― ele concordou. ― Tenha uma boa aula, .
― Você também, .
Desajeitadamente, após a interação um tanto quanto carinhosa e pessoal, eles se despediram e seguiram caminhos diferentes, mas sem esquecer aquele momento de ternura e felicidade por nenhum segundo.
As aulas de todos foram tranquilas; serviram mais para introduções entre professores e alunos do que matérias em si, afinal seus cadernos ficaram com meia folha preenchida em uma manhã inteira de aula, mas aquilo provavelmente mudaria no turno da tarde. A maioria dos calouros se perderam no caminho para o refeitório, mas a sorte é que o almoço tinha um tempo bem estendido.
Enquanto tagarelava sobre suas aulas e comia que nem louca, falando que “nunca imaginou que a comida da faculdade fosse tão boa”, enquanto e só conseguiam olhar rapidamente um para o outro, sentindo o clima estranho que pairava sobre eles desde a interação no centro acadêmico. Ela não estranhou o garoto não falar nada, mas estranhou não ter ligado para a conversa.
― Ok, digam-me, tem algo acontecendo? ― colocou seus talheres no prato, o que fez um barulho ensurdecedor e cruzou os braços, apoiando-os na mesma.
― Não, nada. ― e falaram em uníssono, novamente trocando olhares, balançando as cabeças negativamente e fazendo uma careta leve.
― Ah, qual é! Está tudo bem você não falar nada, afinal é quase uma múmia. ― ela apontou para o irmão, que nem se sentiu ofendido por isso, já que ele mesmo sabia que era verdade. ― Mas a ? Além das expressões estranhas e as tensões que até o Papa Francisco que está lá no Vaticano conseguiu sentir!
suspirou e novamente acenou negativamente.
― Não é nada, , sério. ― ela disse sem ao menos olhar para a melhor amiga; ao invés disso, ficou mexendo na sua comida com o garfo, mas sem pegar algo.
olhou seriamente para os dois, juntando as sobrancelhas e analisando a linguagem corporal deles.
― Vocês se beijaram. ― ela sugeriu, fazendo quase engasgar e levemente cuspir seu refrigerante.
― Não! Você está louca?! ― ele exclamou com indignação, se limpando com o guardanapo.
― Foi só um chute. ― deu de ombros, sem ligar para o tom agressivo do irmão. ― Mas sério, me contem o que aconteceu.
― Nós já dissemos que nada aconteceu, ! ― aumentou um pouco o tom de voz, fazendo tanto quanto arregalarem os olhos de surpresa. A garota pegou a bandeja e levantou da cadeira, ainda parecendo furiosa com a outra presente. ― Mas que saco, deixa de ser insistente.
― Ok, desculpa, foi só uma dúvida, calma! ― , embora tenha estranhado o ataque da melhor amiga e tenha se desculpado, não se retraiu.
, no meio do tiroteio, não soube fazer nada; apenas ficar ali, quietinho, apenas observando as duas garotas se atacarem enquanto comia seu filé à milanesa, sem nem ligar o jeito que encarou a sugestão de beijo entre eles, como se fosse uma ofensa. Sabia que o clima entre ele e estava pesado e que um momento certamente rolou quando eles estavam no centro acadêmico, mas provavelmente não passaria daquilo.
Indo colocar a bandeja e os pratos vazios num balcão, parecia estressada mas foi para quem ela lançou um olhar atravessado, fazendo ele ficar mais confuso do que nunca. Aquela garota era tão complicada! Como ele foi virar amigo de alguém daquele jeito?

18 de Julho de 2015; 16h19min


e Charles chegaram com um bolo enorme, aparentemente de chocolate com Kit Kats e um laço azul em volta, com seu topo coberto em velas acesas e o colocaram na mesma onde estava sentado, lendo sua Rolling Stone.
― Feliz aniversário! ― os dois desejaram em uníssono com muito mais alegria do que o próprio aniversariante, que pôs sua revista no outro lado da mesa quando os ouviu.
― Gente, vocês não precisavam ter feito isso. ― riu fraco, sabendo que eles tinham conhecimento o quanto ele odiava aniversários desde que era criança; e esse, principalmente, não seria fácil.
― Claro que precisávamos! ― o abraçou e beijou sua bochecha, depois apoiou a cabeça no ombro do irmão. ― O dia em que você nasceu é muito importante para a sociedade, senhor .
― E aliás, eu gastei dinheiro demais nesse bolo, então você vai comê-lo querendo ou não. ― Charles brincou com o enteado, dando um tapinha nas costas dele para cumprimentá-lo pelo aniversário.
― Tudo bem... ― fechou os olhos e fingiu fazer um pedido antes de assoprar as velas. ― Podemos comer ele agora?
― Sim, vamos! ― pareceu muito animada com a pergunta de , comilona que era. Mas a culpa era do bolo, que parecia tão delicioso fazendo com que ela ficasse com vontade de devorá-lo desde que o pegou na doçaria.
O pai da garota foi pegar os pratos de sobremesa e os talheres e colocou-os na mesa para que cada um se servisse. Ficaram em silêncio por um tempo, até que ele olhou para a filha para que ela perguntasse ao garoto algo que eles já estavam planejando há algum tempo.
― Então, ... ― tomou cuidado e falou num tom que o irmão entenderia. ― Papai e eu queremos te levar para jantar mais tarde, você topa?
Fazendo uma expressão pensativa, surpreendeu ao concordar sem nem pestanejar ou falar “ah, não precisava, blábláblá”. Ele provavelmente já estava pegando o espírito de tudo e parando de recusar os favores que sua família adotiva lhe concedia.
― E... podemos convidar mais alguém? ― ela voltou a perguntar, mas dessa vez o garoto protestou ao invés de concordar caladamente.
― Não vai ser uma festa, né? ― ele olhou ameaçadoramente para a irmã.
― Não! Mas eu queria convidar alguns amigos... ― disse delicadamente. ― Mas apenas os que você gosta!
suspirou.
― Eu não gosto de nenhum dos seus amigos, . ― ele pressionou os lábios e fez a garota cruzar os braços e pensar em nomes.
― Você não gosta do Augustus? ― perguntou, e o garoto balançou a cabeça negativamente, fazendo-a voltar a fazer sua mente trabalhar. ― Ah, mas da você gosta! Sempre que saio com ela e você está junto, vocês conversam mais do que papagaios.
analisou a situação meticulosamente enquanto ainda dava garfadas no seu bolo de aniversário, pensando na garota que tinha visto algumas vezes e respirou fundo. E não é que ela era realmente, até agora, a única pessoa na nova cidade, fora e Charles, que não fazia-o querer arrancar os próprios cabelos de tão irritante?
― Tudo bem, a pode ir. ― revirou os olhos quando a irmã gritou “YAY” e bateu palmas, mas ficou curioso com o porquê de gostar da amiga de . Ela era como qualquer outra garota da época que ele morava em Cardiff, mas tinha algo diferente. Algo... interessante.
― Mas não me levem para um lugar muito caro! ― ele voltou a falar e apontou o garfo para o pai e irmã postiços, que riram do que ele falou e concordaram.
À medida que o tempo passava, mais checava seu celular por certos motivos. Todos os anos, no aniversário dele, a mãe do garoto cozinhava sua comida favorita no almoço, levava-o na sua sorveteria favorita de tarde e para seu restaurante favorito na janta e, no fim da noite, o levava em um dos maiores prédios de Cardiff ― coincidentemente, o prédio onde ela trabalhava em uma empresa como secretária ―, subindo às escadas de emergência até o telhado, para ter uma vista da cidade inteira enquanto comiam cupcakes que ela comprava na saída do restaurante. Essa data era um dos únicos dias em que Aurora agia como uma boa mãe. E, agora, tudo que queria era uma ligação em que ela apenas dissesse um “parabéns”.
Contudo, ele teve que deixar isso para trás por um momento, enquanto se arrumava para sair com e Charles. Pôs uma camisa cinza-claro por baixo de um blazer preto, calça jeans também preta e um tênis social. Escovou seus cabelos negros que na maioria dos dias insistiam em rebeldia, mas que dessa vez ficaram bem arrumados sem precisar de um produto extra. Deu uma última checada no espelho do guarda-roupa antes de ir, arrumando o blazer e dando uma ajeitada final no cabelo, sem saber o porquê de estar fazendo aquilo sendo que não era alguém lá muito vaidoso.
ficou um tempo na sala de estar assistindo televisão com Charles enquanto esperavam se aprontar, mas por sorte ela não demorou tanto ― nota-se a ironia, pois ela foi ficar pronta apenas perto da dez horas da noite, com os homens quase dormindo no sofá de tanta demora.
― Ok, estou pronta. ― chegou na sala de estar enquanto colocava os brincos.
― Finalmente! ― os dois exclamaram em uníssono e saíram do sofá quase que imediatamente.
― Você falou com a ? ― perguntou, assim que fecharam a porta da frente.
― Sim, ela vai nos encontrar no restaurante. ― respondeu sem tirar os olhos do celular até entrar no carro.
Quando chegaram no lugar, respirou fundo e balançou a cabeça em desaprovação, porque só pela aparência o garoto já sabia que o estabelecimento não era dos mais baratos. A parte da entrada possuía só uma tribuna, alguns sofás e o caixa, com uma grande cortina que provavelmente continha o resto do restaurante por trás.
― Sério, Charles? ― ele olhou para o ex-padrasto com um pouco de indignação. ― Eu disse que não queria que me levassem num lugar muito caro.
― Garoto, você sabe que nunca ouvimos você. ― Charles brincou e colocou uma mão no ombro dele. ― Aliás, você merece isso.
chegou a sentir-se grato pelas últimas palavras do homem ao seu lado, como sempre sentiu desde criança. Charles é o mais próximo de um pai que já teve desde que o próprio o abandonou quando o garoto tinha apenas três anos de idade. Ele ensinou ao ex-enteado tudo que um menino precisava saber, o aconselhava e ajudou Aurora ao máximo com a criação dele. Os anos em que ele fora casado com ela foram os anos mais felizes da vida de , sem dúvidas, afinal foram nesses anos que ele sentiu como se tivesse uma família.
Deixando isso de lado, Charles foi até a funcionária parada no pódio e anunciou a reserva que tinha feito para quatro pessoas, anunciando que a chegada da quarta seria em breve, e a moça os conduziu até a mesa solicitada.
olhou em volta daquela parte do restaurante que era muito melhor do que ele pensava. Pela parte da frente, o garoto jurava que seria um daqueles lugares clichês, como aqueles restaurantes de pessoas ricas que aparecem em filmes de agentes secretos, com grandes lustres e toalhas de mesa em cor creme, mas era longe daquilo; as paredes alternavam em um vermelho e preto e haviam discos de vinil pendurados junto com alguns pôsteres de bandas de rock e celebridades clássicas da cultura pop. No cardápio, cada prato, bebida, aperitivo, tudo tinha nome de alguma música muito famosa ― por exemplo: “I Don’t Wanna Miss a Thing” era um hambúrguer de carne bovina, pão australiano, alface, tomate, cheddar, bacon, maionese caseira e picles de cebola roxa.
― Ok, tenho que admitir que esse lugar é incrível. ― disse, agora envergonhado por ter tido um pré-julgamento sobre o restaurante.
― Ah é, eu concordo. ― antes que Charles ou poderiam falar algo, fez uma aparição triunfal com essa fala e com suas mãos apoiadas em sua cintura, coberta pelo tecido vermelho e azul de seu vestido curto que revelava detalhes maravilhosos de seu corpo.
, oi! ― o aniversariante levantou-se da cadeira e a cumprimentou, sem deixar de admirar a aparência da garota, que por pouco não o fez babar.
― Oi, ! ― ela sorriu e o abraçou, dando um beijo em sua bochecha e lhe entregando um pequeno presente após. ― Feliz aniversário.
― Obrigado, mas não precisava disso. ― ele expressou, segurando o presente mas sem deixar de esboçar um pequeno sorrisinho.
― Bobagem, é claro que precisava. ― sentou-se na cadeira ao seu lado, se ajeitando. ― Você faz aniversário, você ganha um presente. É a regra, meu bem.
― Ah, mas você sabe que eu sou um quebrador de regras. ― também voltou a se sentar e disse aquilo com uma voz misteriosa e uma sobrancelha erguida, fazendo a garota ao seu lado quase se perder naquela imagem e voltar a sua atenção para o cardápio. O garoto sorriu de canto com aquilo, divertindo-se.
Os segundos, minutos e horas foram passando e cada vez mais ficava disperso em seu celular ao invés de conversar com as pessoas em sua volta. Os três notaram, mas com Charles e já sabendo exatamente o porquê ― afinal Aurora fazia aquelas celebrações quando era casada com Charles, então eles tinham noção de que provavelmente era por causa daquilo que ele parecia frustrado ―, foi quem ficou mais intrigada e até um pouquinho indignada, pois não sabia do que aquilo se tratava.
Os garçons trouxeram um mini bolo, que parecia delicioso por sinal, com aquelas velas com muitas faíscas, cantando parabéns e fazendo o resto do restaurante cantar também. disfarçou a sua vontade de estar ali muito bem, assoprou as velas, agradeceu aos ali presentes, mas assim que tudo aquilo acabou e o relógio marcou meia-noite, ele decidiu ir para fora e fumar um pouco, com a desculpa que “precisava tomar um ar”.
Encostado na parede com o cigarro acendido em seus lábios, as mãos em seus bolsos e as lágrimas em seus olhos que ele tentava conter, mesmo depois do seu dia acabando, o garoto continuava a encarar a tela de bloqueio do seu celular e pegou a si mesmo perguntando-se por que? O que ele tinha feito de tão errado para tanto seu pai, quanto sua mãe irem embora em livre e espontânea vontade? Ele não era bom o suficiente? Ele tinha falhado como filho? Ele deveria ter largado sua vida na Inglaterra para ir morar com a mãe na Austrália?
Tentando afastar esses pensamentos, sacudiu a cabeça. Não, aquilo não poderia ser culpa dele. Por que ele estava pensando naquilo, de qualquer jeito? Ele não era assim de ficar triste por nada, de sentir pena de si mesmo, mas droga, ele não conseguia evitar.
― Se importa se eu me juntar a você? ― foi surpreendido pela voz doce e cuidadosa de , que caminhou até ele com o soar de seus saltos, mas não recebeu resposta alguma a não ser um aceno de cabeça.
A garota ficou parada ali por um bom tempo, sendo atingida pela brisa fria da noite e observando tragar seu cigarro silenciosamente, até que ela notou seus olhos marejados e sua expressão mais fechada do que o normal.
― Ei, você está bem? ― perguntou, colocando a mão no ombro dele, que logo foi retirada dali.
― Estou bem, . ― ele respondeu secamente depois de soltar a fumaça, sem deixar de notar o quanto a garota ficava linda em meio a ela, com uma expressão preocupada e os braços cruzados.
― Bem, você não parece bem. ― ela fez a observação e virou o pescoço, tentando fazer com que o garoto cabisbaixo a olhasse no olhos.
― Eu já disse que estou bem, ! ― alterou-se. ― Só me deixa em paz, droga!
A garota não aceitou aquela cena e bateu o pé de volta.
― Eu só estou tentando te ajudar, ! ― exclamou.
― Bem, eu não preciso de ajuda. ― ele deu de ombros e voltou a tragar o cigarro.
― Sim, precisa. Você claramente está incomodado com algo, com todas aquelas checadas no celular, as poucas palavras e o seu claro fingimento na hora do parabéns, além de que você está aqui fora fumando, algo que eu vi você fazer bem pouco nesses últimos dois meses. ― , como era comum, gesticulava bastante enquanto falava e apontava os fatos que tinha observado anteriormente.
― Por que está tão interessada em me ajudar? Para fofocar para suas outras amigas? ― rudemente, perguntou, e não seria mentira dizer que até chegou a se ofender um pouco.
― Claro que não! Eu pensei que éramos amigos e... ― ela interrompeu a si mesma e passou a mão no cabelo. ― Deus, se soubesse que você seria tão babaca assim eu nem teria vindo aqui falar com você.
A garota respirou fundo e olhou para ele com certa confusão, considerando que ele ficou novamente cabisbaixo após ouvir as palavras dela e calou-se. Sem ouvir algo sair da boca dele por alguns minutos, decidiu apenas cruzar os braços e voltar para dentro, mas quando contornou seu caminho ele chamou a sua atenção novamente.
― Desculpa, , eu sou tão idiota, é só que... ― suspirou, tentando juntar forças para desabafar, algo que ele não era muito acostumado em fazer. ― É a minha mãe, ela não ligou. E é sempre difícil falar sobre ela, mas sobretudo hoje, que era um dos únicos dias que eu me sentia como um filho. Sinto muito se joguei tudo para cima de você, não era a minha intenção.
voltou a olhar para ele e não conseguiu evitar ficar triste por ele. Se a sua mãe ou seu pai esquecessem do seu aniversário, ela literalmente choraria o dia inteiro e ficaria chateada por muito tempo. Compadeceu também com as desculpas do garoto, conseguindo ver o quão arrependido ele se mostrava. Por mim, ela o surpreendeu e o chocou quando ele pôde sentir os braços dela em volta de seu corpo, abraçando-o.
― Está tudo bem, . ― ela sussurrou e fazia carinho nas suas costas. ― E sinto muito por ter insistido tanto para você falar, não fazia ideia da situação que você está passando.
Sem nem saber, ao sentir o calor do corpo dela e a compaixão em sua voz, sentiu como se precisasse daquilo e que, na verdade, estava precisando há mais tempo do que poderia imaginar. Um consolo, um abraço e palavras de conforto. De repente, ele começou a sentir a necessidade de falar mais para ela, de falar tudo que estava entalado na sua garganta desde que soube o que problemas eram, mas tinha a noção de que não poderia fazer isso. Então, ele disse a única coisa apropriada naquele momento.
― Muito obrigado, . Eu precisava disso, então... obrigado por insistir. ― o garoto agradeceu assim que eles se separaram do abraço, olhando profundamente em seus olhos castanhos. , quase petrificada pelo olhar dele, abriu um sorriso inocente, porém longo, enquanto não desviava.
― De nada, .
Enquanto ainda se olhavam, à medida que o tempo passava mais sem graça ficavam, mas não conseguiam parar. pressionou os lábios um contra o outro e pôs uma mecha do próprio cabelo atrás da orelha, até que ela mesma quebrou o gelo, pigarreando.
― Então... vamos entrar? ― ela sugeriu, apontando para o restaurante com um gesto de cabeça.
― Ah! É, é, claro. ― saiu da transe anterior e se atrapalhou um pouco antes de captar o que realmente disse mas, quando conseguiu, automaticamente passou o braço pelos ombros e pousou a mão no que era contrário ao dele, a conduzindo até a entrada do restaurante.
E, mesmo eles tendo suas saídas e conversas anteriormente, foi bem ali, naquela noite, que sua amizade realmente nasceu. Uma amizade que se resumiria em apoio mútuo, brincadeiras e muitas conversas até o meio da madrugada. Mas mal sabiam eles que logo desejariam por algo a mais.

20 de Maio de 2015 – 19h30min


Consciente da casa da melhor amiga sendo muito perto da cafeteria, mentalizou o caminho que fez por muitos anos desde que tinha treze. era a única pessoa capaz de acalmá-la, consolá-la e de confortá-la num momento terrível e asqueroso como aquele, sendo assim desde o dia em que as garotas se conheceram no primeiro dia de aula de na Saint Morgan Comprehensive School. Ela sabia absolutamente tudo sobre , acompanhou a sua trajetória de inimizade com Danielle, seus dois namorados durante o Ensino Fundamental e Médio, e as duas ultrapassaram as dificuldades de encaixarem-se na última fase; afinal, quando tinham uma a outra, popularidade nunca foi algo necessário. Ela seria a única que entenderia a raiva e a frustração de naquele momento.
Parando em frente à casa de tijolos vermelhos com três degraus de escadas com corrimão estilo clássico antes da porta da frente, ela tocou a campainha e esperou para que atendesse, sabendo que seu pai ainda estava em horário de trabalho. Primeiro toque, nada. Segundo, nada. Terceiro, novamente nada. bufou. Não desistiria daquilo, e ficaria ali até que voltasse pois precisava dela agora mais do que nunca, então sentou-se em um dos degraus.
Em poucos minutos, a chuva que a devastava parou, porém o vento congelante não, mas por sorte ela pôde avistar um Ford Focus preto chegando cada vez mais perto, sabendo que era o de e que já entraria no calor de seu lar. Curiosa, também viu um garoto desconhecido ao lado dela, semicerrando os olhos para tentar ver melhor quem era. Ele parecia familiar...
Enquanto estranhamente eles tiravam as malas do carro, que pareciam pertencer ao menino, continuou esperando a melhor amiga notar a sua presença, algo que não demorou a acontecer. Assim que seus olhos castanhos pousaram em , deu um grito de surpresa e de alegria ao mesmo tempo, considerando que não a via desde a formatura e que a garota apareceu sem avisar.
― Você veio no tempo certo! ― ela a abraçou com força e rapidez, logo segurando os ombros da garota para que ela olhasse para o menino desconhecido. ― , esse é o meu famoso irmão postiço, o . , essa é a , a minha melhor amiga.
A mente de pareceu clarear depois daquela apresentação. falava tanto sobre o tal irmão que não era de sangue, com quem morou durante a infância pois seus pais eram casados, etc etc. Ele era uma das pessoas mais importantes na vida de , sempre sendo a quem ela recorria quando precisava de algo, juntamente com .
Quando estendeu a mão para que ela o cumprimentasse, ela não deixou de notar o estilo dele. O cabelo preto, um tanto cacheado e bagunçado, os olhos castanho-esverdeados, a camisa cinza com uma frase de uma música do Foo Fighters e seu perfume forte chamaram sua atenção, mesmo que no momento ela estivesse triste por causa de outro membro do sexo oposto.
Um pouco lerda, demorou um pouco para notar que a amiga estava com seus cabelos e roupas ensopados diante todo aquele frio, mas quando notou, a pegou pela mão e se desculpou.
― Meu Deus, , você deve estar congelando! ― observou. ― Sinto muito por não ter notado antes.
― Ah, está tudo bem. ― riu fraco e passou a se explicar. ― Eu e meu guarda-chuva tivemos um desentendimento, sabe como é. Aí fui para a White Rose, vi uma imagem chocante e precisei vir aqui para te falar.
― Uh oh, pela sua cara coisa boa é que não foi. ― juntou as sobrancelhas e imaginou em mil possibilidades do que aquela conversa poderia se tratar.
Ela já voltaria a falar, mas quando pousou seu olhar no garoto com as malas na mão e cara de paisagem, já imaginou que estaria incomodando.
― Eu posso voltar depois... ― sugeriu, mas gesticulou em negação.
― Claro que não, fique! Na verdade podemos receber uma ajudinha extra para fazer com que o se adapte aqui. ― disse, logo olhando para o irmão. ― Certo, ?
O menino deu de ombros.
― É, tanto faz. ― respondeu com indiferença.
Uau, esse garoto é bem quieto, pensou, mas ainda desesperada pela situação que passou anteriormente, não recusou a proposta da amiga. Assim, entrou na casa com ela e com o tal , dando início a uma noite que, querendo ou não, ela não esqueceria.


Capítulo 3

10 de Janeiro de 2016; 13h25min

“I am not the only traveller
Who has not repaid his debt”


“O avião pousou, mas devo reforçar que devem permanecer em seus assentos até que a luz se acenda nos seus painéis. Repito, devem permanecer em seus assentos.”
A voz grave do comandante do avião foi a única coisa capaz de fazer acordar de seu sono profundo depois de horas e horas de viagem de Seattle até Londres, se não ela teria dormido até algum funcionário da empresa a acordá-la a força e expulsá-la dali. A garota bocejou e se espreguiçou enquanto esperava pelo acendimento da tal luz, o que aconteceu não muito tempo depois. Estando na janela, teve que esperar a mulher que estava ao seu lado levantar-se e pegar sua bagagem de mão do compartimento para que ela mesma pudesse fazer isso após.
fez todo o trajeto tedioso de ir até o salão de desembarque, esperar pela sua mala, pegar a sua mala, comprar algo para comer no trem que pegaria até Bristol, esperar por um táxi, chamar um táxi e ir até a estação de trem. Durante todo aquele tempo, além de se preocupar com as coisas que devia se preocupar naquela situação, não pôde evitar refletir sobre a viagem que fez em Seattle para visitar seu pai. Ela amou passar o Natal e o Ano Novo com ele, considerando que fazia muito tempo que não o via pessoalmente, conhecer sua nova madrasta em potencial e rever sua meia-irmã de cinco aninhos, mas ficou pensando como seria se tivesse ficado em Bristol depois do que aconteceu antes de sua viagem.
Uma certa cena a incomodava e não saía de sua mente. A despedida. O choque. A mudança. Por mais que tenha tentado aproveitar os Estados Unidos, sua própria cabeça a manipulava e a levava para lugares que ela não queria chegar, mas era inevitável.
E tudo por causa dele.

19 de Dezembro de 2015; 17h47min


, e pareciam ser os únicos alunos restantes perambulando no campus da Universidade de Bristol. A primeira acabara sua última prova de Física e chamou o irmão e a melhor amiga para comemorarem com ela quando saísse da sala de aula, mesmo que esses já tinham terminado suas provas finais no dia anterior. caminhava desajeitadamente com os braços erguidos, consumida pela sensação de liberdade após um mês horrível preenchido por provas.
― O inferno acabou! ― ela gritou no meio do corredor, abraçando as duas pessoas ao seu lado. ― Eu estou tão feliz. Mais do que feliz, eu me sinto... magnífica.
― Sério? Não percebemos isso nas últimas sete vezes que você falou sobre isso. ― falou com ironia, mesmo sorrindo e sentindo a felicidade da irmã.
― Duas semanas sem enxergar apenas números, ! Isso já é muito para mim. Deus, eu amo férias. ― a garota pôs as mãos no meio do peito.
― Olha, ‘tô achando que você deveria largar de fazer Engenharia se você está tão cansada de matemática. ― mesmo em um leve tom de brincadeira, sugeriu.
― Nah, eu e a matemática estamos apenas em uma época do nosso relacionamento em que preciso de um tempinho longe do seu grude, nada demais. Continuo a amando incondicionalmente. ― respondeu, fazendo seus dois companheiros rirem.
― Então, que tal celebrarmos as nossas férias? ― sugeriu, erguendo as sobrancelhas de forma marota enquanto encarava os dois amigos. ― Viajo para Seattle só amanhã à noite, então tenho bastante tempo para passar com meus amores que não verei por vinte dias.
ficou em ainda maior euforia ao ouvir a amiga oferecendo uma celebração e , como sempre, não foi muito expressivo, mesmo com o tom de afeição da garota. Apenas deu de ombros e abriu um sorriso muito pequeno.
― Desde que só nós três façamos parte dessa celebração... ― disse, causando a revirada de olhos de e .
― Claro, vovô ranzinza. Esse já era meu plano, mas só para você parar de ser chato nós vamos para um bar cheio de motoqueiros suados e prostitutas, com seringas jogadas no chão que nos passarão hepatite. ― com sua língua afiada, respondeu o garoto de uma maneira que não o fez ficar ofendido, muito pelo contrário. Todas as jogadas sarcásticas da garota só faziam a atração de por ela aumentar.
O garoto passou o braço pelo pescoço da , abraçando-a de certa maneira, e aquele toque fez sentir arrepios pelo corpo inteiro, como estava acontecendo nos últimos meses. Deus, ela amava e odiava aquilo ao mesmo tempo.
― Só aceito irmos para esse bar com hepatite livre se você ficar no mesmo quarto de hospital comigo, . ― falou com os lábios perigosamente perto da orelha e uma preenchida mecha de cabelo de , sentindo o doce cheiro de chocolate do shampoo dela.
― Ah, para você me importunar pelo resto das nossas vidas? ― ela entrou no seu jogo, sempre perspicaz e nunca perdendo para ele.
― Você sabe que é o meu sonho. ― continuou provocando, e estava prontíssima para responder, mas seu momento de flerte escancarado foi interrompido por .
― Embora eu esteja adorando ficar de vela para vocês dois, prefiro não ter um acesso de vômitos. ― proferiu, deixando os amigos um tanto quanto envergonhados por ela achar, com um fundo de razão, que estava “de vela” para eles.
― Ok, podemos nos encontrar na minha casa às 20h? ― tentou mudar o assunto mais rápido do que um raio, ainda acanhada pelas palavras da amiga. ― Tragam bastante comida e bebida.
― Claro, parece bom. ― também falou quase atropelando, visivelmente constrangido, para o maior divertimento da irmã.
― É, nos encontramos esse horário, então. ― deixou combinado, mas olhando estreitamente para o irmão e a melhor amiga de forma suspeita.

(...)


O nervosismo de era ridículo, pensava. Eles já se conheciam há meses e o normal é que você perca o nervosismo com o passar do tempo, não que ele aumente, mas era isso que parecia estar acontecendo com o garoto. Suas mãos, que seguravam fardos de cerveja estavam até tremendo, causando a ter um pânico terrível pela possibilidade de aquilo cair e espalhafatar no chão e, além de tudo, ele bufava como um cachorro com falta de ar, coisa que fazia apenas quando estava diante de uma situação que o deixava aflito.
Ela estava tão curiosa para saber o que estava acontecendo entre ele e sua melhor amiga, mas depois de vários episódios na faculdade em que eles ficaram bravos com ela por perguntar, nunca mais tentou se meter. Entretanto, aquilo parecia ficar cada vez mais interessante, atiçando o radar de novidades da garota.
Quando a porta foi aberta pós tocar a campainha, ela sentiu que estava prestes a presenciar a primeira fonte de baba humana. parecia em choque com a garota em sua frente, que usava uma boyfriend jeans, uma blusa apertada e um enorme casaco de couro. Contudo, ele não foi o único; também pareceu ficar sem fôlego, e os dois completamente ignoraram a presença da irmã e melhor amiga ali.
― Ei, se vocês quiserem alugar um quarto de motel e me deixar aqui, tudo bem, desde que não façam nada na minha frente. ― brincou, mesmo que essa provocação tivesse um fundo de verdade.
― Bobagem, podem entrar. ― revirou os olhos e puxou o braço da amiga como se estivesse prestes a arrancá-lo.
― Oi. ― disse, ainda um tanto quanto em transe.
― Oi. ― o cumprimentou de volta com um sorriso que era difícil de decifrar.
A próxima cena foi engraçada de assistir; , desajeitadamente, entrou na casa e beijou a bochecha de de uma maneira muito estranha e, mesmo assim, ela pareceu gostar. Foi muito difícil para segurar a risada.
Poucos segundos depois, parecia que um furacão tinha passado por ali, mas era apenas a mãe de apressada e atrasada, como sempre.
― Ok, então vou para a Josie para bebermos um pouco de vinho, dormir lá e ter aquelas conversas entre garotas que não temos há um tempo, mas amanhã o dia é todo nosso, certo? ― perguntou para a filha, um xerox extremamente fiel dela, sem notar a presença dos convidados.
― Certo. ― confirmou, sorrindo e assentindo, mas logo apontou para as pessoas ali, mas a mãe botou os olhos principalmente no garoto que desconhecia.
― Ah, quem é você? ― questionou, fascinada com o fato de que havia um amigo que ela não conhecia.
― Sou ... ― sem saber como se comportar naquele momento, estava mais atrapalhado do que nunca, algo nada comum. ― madame.
Tanto quanto tiveram que fazer o mais esforço para não caírem na gargalhada após aquele “madame”, mas ao contrário delas, a mãe pareceu gostar.
― Ah, que educado! Eu sou Victoria , prazer em te conhecer. ― ela o elogiou, até se tocar e ver quem ele realmente era. ― Mas então você que é o famoso ! Meu Deus, a nunca para de falar sobre você, estava doida para saber se você era uma pessoa real ou fruto da imaginação dela.
― Sou definitivamente real. ― soltou uma risada nervosa. ― Mas eu mesmo não subestimo a imaginação fértil de .
Enquanto a mãe de riu do que disse, apenas lançou um olhar virado para ele, que apenas sorriu gentilmente para ela.
― Bem, estou indo agora. ― Victoria beijou a testa da filha e acenou para e . ― Se divirtam.
― Tchau, mãe. ― se despediu e assistiu a mãe sair pela porta, logo virando para os amigos e suspirando. ― Então, o que vamos fazer?
― “a nunca para de falar sobre você...” ― citou a adulta antes presente com tom de deboche, na intenção de provocar a amiga. mostrou a língua e jogou uma almofada que anteriormente estava no sofá com força em direção a ele. ― Ei, não seja agressiva, . Sempre soube que você era apaixonada por mim.
― Muito fofo, , mas apenas em seus sonhos. ― deu de ombros e jogou o cabelo. ― Ok, vocês querem assistir um filme, comer todas as besteiras que compramos ou os dois ao mesmo tempo?
― Eu voto pelos dois! ― ergueu a mão completamente animada, fazendo e rirem.
― Então será os dois! ― proclamou.
Sem perder tempo, o trio foi tirando os salgadinhos das sacolas e abrindo-os, pegando as cervejas dos fardos e os abridores, além de escolhendo pizzarias para pedirem o delivery. Seria uma noite de estômagos e fígados cheios; o tipo de noite favorita deles.
e se sentaram no sofá grande de frente para a televisão, enquanto escolheu ficar deitada no sofá menor que era de lado para o aparelho, mas que ainda assim fazia possível assisti-la direitinho. Quando ficaram confortáveis e espalharam todas as comidas e bebidas pela mesa de centro, começaram a maratona de Star Wars.
A noite se resumiu em fazendo graça dos efeitos nos filmes antigos, criticando as prequels e tentando “traduzir” o que Chewbacca dizia, tentando fazê-los rir. No fim do episódio 3, o último a ser assistido, dois fardos de cerveja já tinham sido consumidos, duas caixas de pizza estavam vazias, um pote grande de sorvete e todos os pacotes de salgadinho também. chorava, tentava se segurar, e estava praticamente morta no sofá ao lado.
― Ugh, não acredito que vou ter que assistir The Force Awakens em Seattle. ― fez uma expressão de nojo e depois virou o pescoço para o sofá ao lado, notando a melhor amiga dormindo como um bebê. ― Como ela consegue dormir em uma das cenas mais tristes dessa saga?
― Sei lá, acho que deve ser por causa da prova. ― riu baixinho observando a irmã dormir como uma pedra, enquanto estava com os braços em volta dos ombros de . ― Não sei como vou levar ela para casa.
― Vocês podiam ficar aqui. ― a sugeriu. ― Ela parece confortável, é só eu trazer alguns cobertores e acho que vai ficar tudo bem.
― E eu? ― perguntou, erguendo as sobrancelhas e olhando para o rosto dela que estava tão perto do seu.
― Você pode dormir no chão, bobão. ― parecia super séria, mas não demorou em começar a rir. ― Brincadeira. Você pode dormir no meu quarto e eu durmo no da minha mãe.
― Não quero abusar da estadia, . ― parecia um tanto quanto tímido, assim como era quando eles se conheceram, estranhando .
― Bobagem, . Nós somos amigos há tempo o suficiente. ― ela disse. ― Mas só deixo você dormir na minha cama linda e confortável se me ajudar a limpar tudo isso.
― Pode deixar. ― ele sorriu e tirou os braços que estavam envoltos no corpo dela e se levantou do sofá, começando a recolher as coisas.
ficou encarregado de jogar todas as coisas no lixo e logo a secar a louça que estava lavando, tudo feito com a maior delicadeza para não assustar , o que foi um sucesso ao mesmo tempo que não foi uma surpresa, considerando que a Davis tinha o sono pesadíssimo.
― Então, como estão as coisas com o Jason? ― quis puxar conversa enquanto secava um prato, mesmo sendo um assunto delicado para os dois.
― Ah... acho que não vai acontecer. ― respondeu, um tanto quanto hesitante e fazendo um barulho enorme sem querer quando colocou um prato de inox em cima de um de vidro.
― Sério? ― tentou fazer uma voz de pena, mas só conseguiu relevar sua felicidade que ele não queria relevada. ― Por quê?
― Ah, você sabe, só aconteceu naquela festa, ele quis mais, mas eu não. ― deu de ombros e pressionou os lábios enquanto olhava para o amigo. ― Não importa o quanto eu estava bêbada naquela noite, nenhuma quantidade de álcool poderia ser capaz de fazer eu voltar para ele.
ouviu e assimilou tudo, assentindo lentamente enquanto as palavras adentravam em seu cérebro. Por mais que tenha tentado se segurar, não conseguiu evitar o seu típico sorrisinho torto.
― Bem, se quer a minha opinião, ele não é bom o suficiente para você. ― disse, colocando a mão no ombro dela e olhando em seus olhos castanhos.
― É, eu também acho isso. ― ela concordou, não conseguindo desviar do olhar penetrante de .
Por vários e vários segundos, eles ficaram daquele jeito; um olhando para o outro, sem saber o que fazer. A energia naquela cozinha era mais clara do que nunca, e parecia que cada átomo do universo insistia que eles avançassem. não conseguia mais resistir aos lábios de , que o chamavam e insistiam por ele cada dia mais, além de todas as feições no rosto da garota, que combinavam perfeitamente com sua personalidade doce e selvagem. não conseguia mais resistir ao olhar magnético de , muito menos à sua voz e o seu jeito que a atraía cada vez mais, com todo aquele ar de mistério mesmo ela o conhecendo há meses e meses. Ela queria mais e ele também.
Então, dessa vez, eles não lutaram.
No momento em que suas bocas se encontraram, o mundo na volta deles apenas desapareceu. Ambos ficaram um tanto quanto tontos; talvez fosse o excesso de cerveja, talvez fosse o calor do momento, talvez fosse os dois itens anteriores, mas nenhuma ilusão mental era capaz de lhes tirar dali.
afastou alguns itens que estavam em cima do balcão atrás dela e, quando notou, não demorou em pegá-la no colo e colocá-la bem ali. As pernas dela couberam direitinho na volta do quadril dele, enquanto as mãos dele pareciam que pertenciam sobre a cintura dela. Tudo naquele momento encaixou.
Naquela noite, eles não se importaram se tudo iria mudar a partir daquele simples ― mas quente ― beijo. Eles só se importaram com eles mesmos e o sentimento que os trouxe ali. Não é preciso dizer que nunca chegou a ir para o quarto da mãe dela e, ao invés disso, adormeceu e acordou nos braços de quem ela lutou tanto contra.
Por sorte, eles acordaram antes de , que não teve a chance de flagrá-los em um momento tão íntimo. Por horas, eles evitaram o assunto; mesmo que a noite tivesse sido incrível e todos os tipos de arrepios foram sentidos nela, era algo complicado demais. Podia prejudicar a amizade de ambos com , a amizade entre eles dois mesmo e muitas coisas poderiam dar errado. Além disso, estava prestes a ir para Seattle, então eles concordaram ― pelo menos mentalmente ― em deixar esse assunto para depois da viagem.
Eles se despediram de um modo estranho; apenas beijou a bochecha dela de uma maneira completamente desajeitada e murmurou um “boa viagem”, assim como aconteceu quando eles se cumprimentaram no dia anterior quando ele chegou na casa da garota. É claro, não esperava que ele fosse lhe tascar um beijo de cinema na frente da irmã dele e da mãe dela, mas sentia que merecia uma despedida descente.
Ela esperou o dia inteiro, que passou com Victoria, por uma mensagem ou um sinal de vida dele. Entretanto, todas as checadas no celular foram em vão; nenhuma notificação com o nome de surgiu. Então, mais tarde, ela embarcou no avião totalmente sozinha e sentindo-se chocada com o que tinha feito na noite anterior.
Tudo na vida de mudaria; e tudo por causa de uma droga de impulsividade momentânea.

10 de Janeiro de 2016; 18h34min


dava colheradas inúteis em seu iogurte, enquanto assistia um filme triste qualquer num desses canais por assinatura. Ela não acreditava que, se pudesse voltar no tempo para quando estava em Seattle, ela faria isso. Bristol a deprimia agora, com a garota sem saber que rumo tomar.
Então, a decidiu que não iria deixar se abalar. Aquela não era ela, nunca levava desaforo para casa. Estava cansada de pensar em e como ele nunca entrou em contato desde a noite que eles passaram juntos, estava cansada de se sentir usava por mais um garoto que se fingia de coitadinho quando na verdade era apenas mais um idiota como todos os outros. levantou-se daquele sofá patético, jogou o pote de iogurte fora, pegou um casaco e avisou a mãe que sairia por algum tempo, mas que tentaria voltar antes de jantar.
E, novamente, lá estava ela, caminhando pelas ruas frias e escuras de Bristol, encarando furiosamente aquela selva de pedra até encontrar a casa que estava procurando.
tocou a campainha e esperou alguém entender. Se fosse , explicaria tudo para a amiga; se fosse Charles, não entraria em detalhes e só pediria para falar com quem queria falar; se fosse ... bem, aí ela parou. O que diria para ele?
Tarde demais. Charles já estava na porta aberta, sorrindo para a melhor amiga da filha.
, você voltou! Como foi Seattle? ― ele cordialmente perguntou. ― não está aqui no momento, ela foi jogar boliche com alguns amigos.
― Oi, senhor Davis, Seattle foi boa. ― ela respondeu com um sorriso simpático. ― Ah, tudo bem, mas você pode chamar o , por favor? Preciso falar com ele.
― Claro. ― Charles assentiu e foi procurar pelo ex-enteado. tremia a perna de nervoso e tentava lutar contra sua vontade de roer as unhas e, por sorte (ou não), apareceu antes que ela pudesse fazer isso.
― L-, oi. ― a cumprimentou, mas estava tão branco quanto papel, parecendo que passaria mal a qualquer minuto.
― Ei, . Podemos conversar, por favor? ― mesmo que seu pedido tivesse sido gentil, o sorriso cínico de era capaz de atingir qualquer um. concordou, saindo para fora da casa e fechando a porta atrás dele.
― Claro, o que quer conversar? ― questionou, fazendo revirar os olhos e bufar.
― Não se faça de burro, , porque eu sei que você não é. ― ela pediu, cruzando os braços.
― Do que você está falando, ?
― Da nossa noite antes de eu ir para Seattle! ― a garota quase gritou para o quarteirão inteiro ouvir. ― Ou, talvez, do fato de que você não ligou, não mandou mensagem ou sinal de fumaça para eu saber que você estava vivo!
― Ah, isso. ― suspirou e ficou cabisbaixo, mas não parecia arrependido ou triste.
― Sim, isso. ― ela disse grosseiramente.
― Me diga, , você me ligou? ― ele perguntou, fazendo a garota franzir o cenho.
― Não. ― respondeu, confusa.
― Você me mandou mensagem? Me mandou seu número americano, considerando que seu chip daqui não funciona lá? ― questionou novamente, olhando fixamente para ela.
― Não.
― Então estamos resolvidos. ― deu de ombros, mas aquilo só enfureceu .
― Não estamos resolvidos, não, ! ― ela voltou com o tom alto. ― Me poupe! Você poderia ter me mandado uma mensagem no facebook, ou no instagram, que são aplicativos que não dependem do número. Se você quisesse, teria falado comigo. E, tirando nosso beijo e nossa noite, que eu achei que tivessem sido bons, não consigo achar um motivo pelo qual meu melhor amigo não fale comigo!
― Não sei como fazer isso, ! ― exclamou. ― E por que tinha que ser eu a te chamar? Por que você nunca fez isso?
― Porque, porque... ― tentava achar a resposta, mas não conseguia, e aquilo só a frustrou ainda mais.
― E aliás, com todo esse papo de ficar te ligando e te mandando mensagem, fez eu lembrar de quando você me disse naquela festa que não estava interessada em um relacionamento sério! ― ele a relembrou.
― Eu não estou interessada, ! Eu só... ― fechou os olhos e suspirou, sentindo uma enorme dor no coração com aquela discussão. ― Eu só queria a certeza que tudo estava bem, mesmo com o que tinha acontecido.
― Bem, não estava tudo bem, . ― já mais calmo, respirou fundo. ― As coisas ficaram estranhas e eu... eu geralmente não lido com esse tipo de coisa. Quando fica difícil, eu fujo. Não é certo, eu sei, mas... não levo jeito para essas coisas. Nunca fiquei com uma garota com quem eu me importei tanto quanto eu me importo com você.
Assim que conseguiu descansar a voz e parar de sentir aquela dor de cabeça e tensão, ela olhou nos olhos castanhos-esverdeado do menino e o compreendeu. Eles eram diferentes: ele nunca teve um relacionamento sério, mas ela teve vários. Não que ela quisesse que isso fosse sério, mas ela sabia como lidar com garotos, especialmente em situações complicadas. Ele não sabia. E aquilo poderia ser útil.
― Olha, eu sei que isso é difícil para você, já que você nunca passou por isso antes, mas... é difícil para mim, também. ― confessou e concordou, acenando a cabeça.
― Então... ― ele subiu uns dos degraus antes da porta e a abriu, fazendo um gesto para que ela entrasse. ― Que tal resolvermos isso?
sorriu e assentiu, passando por aqueles degraus e sabendo, no fundo, que no momento em que entrasse naquela casa, estaria ferrada, mas entrou do mesmo jeito.



Continua...



Nota da autora: OI AMOREEEEEES! Tudo bom com vocês? Eu tô ótima, considerando que consegui atualizar TNWM! Agora, como autora independente eeeee com a novíssima capa linda que a Ju Reis fez! O que acharam desse capítulo? Que festa que os pps falaram sobre (que incluiu o Jason, o ex da pp)? O que eles vão fazer sobre essa nova fase? Podem começar as teorias do que vai acontecer rsrs. Ah, eu não coloquei um flashback da noite em que eles se conheceram porque senti que seria informação demais, então deixei para o próximo capítulo. Espero que tenham gostado dessa att e lembrem-se que qualquer erro nela é só me mandarem um e-mail, inbox, comentário, mensagem, sinal de fumaça etc etc. Espero vocês na próxima! <3





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