Última atualização: 01/09/2020

Capítulo único

O clima estava tranquilo entre os centauros naquele dia. acordou cedo, pegou seu arco e foi para o campo de treinamento. O campo consistia em algumas árvores que a muito tempo alguém desenhou alvos em diferentes alturas. A centauro balançou seu rabo e mordeu a boca, estava um pouco cansada de treinar sempre no mesmo lugar. Conhecia cada árvore de olhos fechados e queria um desafio maior.
— Se você pensasse menos e atirasse mais, já teria acertado todos os alvos — Firenze se aproximou sorrindo — Qual o problema?
— Deixou de ser desafiador a muito tempo — deu de ombros.
— É você quem cria seus próprios desafios. Apenas deixará de ser desafiador se você quiser que deixe de ser.
A mulher revirou os olhos.
— É, palavras muito bonitas. Parabéns. Eu acerto cada um desses alvos de olhos fechados.
— E isso é o mais desafiador que consegue pensar?
— Como assim?
— Vem cá — o centauro parou em sua frente e tirou o arco de suas mãos — Vire de costas — pediu.
obedeceu.
— Apoie o arco nos ombros, virado para o alvo — apoiou o arco em seu ombro esquerdo, virado para a primeira árvore pintada que viu as costas da mulher — Atire!
— Você tá literalmente me pedindo para atirar de costas? — ela gargalhou.
— Você quem estava reclamando que o arco tinha ficado chato.
A centauro assentiu. Primeiro bateu as pernas traseiras para se ajeitar, mordeu o canto da boca e fechou os olhos imaginando a floresta ao seu redor. Sabia exatamente onde estava a árvore e a altura que o alvo estava pintado. Puxou a corda desconfortavelmente, sentindo seu braço tremer pela primeira vez em anos. Quando soltou a flecha, sabia que tinha errado. Se virou para conferir, a encontrando cravada em uma outra árvore, a três metros da primeira. Suspirou frustrada, fazia muito tempo que não sabia o que era errar desse jeito.
— Parece que você tem muito o que treinar — Firenze gargalhou — O desafio foi proposto.
O centauro não ficou muito tempo por perto, para a tristeza da mulher, mas ela treinou pelo resto da tarde até conseguir acertar uma sequência de três árvores seguidas. Quando começou a anoitecer, recolheu todas as flechas que estavam espalhadas e voltou para casa.
— Isso não são horas de chegar — Magoriano estava próximo a mesa de jantar, olhando para a mulher — Deixou que sua mãe fizesse todo o trabalho de casa sozinha?
— Me mande para a guerra mas não me mande lavar a louça — bufou — Que inclusive, eu fiz antes de sair. Se você não quer que ela arrume a casa sozinha, porque o senhor mesmo não ajuda?
— Isso não é jeito de falar com seu pai, querida — sua mãe respondeu.
reparou em como a mulher parecia cansada e seu coração pesou, pensando que deveria ter feito mais para ajudar. Mas não era justo estar fadada a cuidar da casa pelo resto da vida só por não ter nascido homem, não se submeteria a isso.
— E você sabe muito bem que eu tenho minhas obrigações — Magoriano respondeu irritado — Não é dever de um homem cuidar da casa, eu já cuido do rebanho.
— Você tem razão — a centauro sorriu sarcástica — Esqueci que aqui a função do homem é sentar em uma clareira o dia inteiro enquanto a mulher cozinha pra você. Pelo menos agradeceu a mamãe hoje?
eu estou cansado, não vamos discutir hoje.
— Não vamos mesmo — deu de ombros — Porque eu tô saindo. Não to com estômago para bancar a filha boazinha do chefe.
A centauro se dirigiu até seu quarto e guardou seu arco e aljava, para então retornar a cozinha.
— Mãe, eu vou dar uma volta e apareço mais tarde, tudo bem? — caminhou até a porta, antes de se virar e sorrir — E pai, você podia ajudar cuidando da louça, viu?

Continuou sorrindo até entrar mais fundo na floresta e a vila dos centauros desaparecer de vista, onde pode finalmente bufar e bater as pernas dianteiras, deixando sair parte de sua frustração. Não achava justo que as mulheres tinham que passar o dia inteiro dentro de casa sendo que os homens não faziam absolutamente nada além de conversar sobre supostos problemas que na verdade não passavam de drama.
Caminhou até uma clareira que gostava de desde criança e se sentou, olhando para as estrelas que pouco a pouco surgiam no céu. Estava distraída, observando como mudaram de posição em relação a noite passada, quando Firenze se sentou ao seu lado.
— Não acredito que brigou com seu pai de novo — ele riu fraco, olhando para a mulher — O que foi dessa vez? Ele reclamou do arco? — Ele reclamou que eu não ajudei em casa, como se ele tivesse ajudado em qualquer coisa — bufou — É tão injusto!
Firenze balançou a cabeça concordando.
— Como você sabe que nós brigamos de novo? — o olhou, curiosa.
— Você não ficou cinco minutos lá dentro.
— Então agora você está me espionando? — empurrou de leve o ombro do centauro, que riu.
— Não é espionagem se eu estava por perto e te vi entrar e sair.
— Mas então você me seguiu? — gargalhou.
— Não se eu sabia exatamente para onde você estava indo — sorriu satisfeito.
concordou e voltou a olhar para o céu estrelado.
— Eu estava pensando em outra coisa antes de você chegar — comentou.
— Pode me falar, se quiser.
— É que é estranho, não é? — a centauro desviou seu olhar das estrelas e olhou para Firenze ao seu lado — Nós sabemos tanto, se ao menos chegássemos para os bruxos e contássemos algumas coisas.
— Você sabe que não podemos interferir em seus destinos — ele respondeu — O futuro já é incerto sem nenhuma interferência.
— Você salvou o menino bruxo, aquela vez — apontou — Quando sabia que o bruxo das trevas o mataria. Mais do que isso, você sabe o que teria acontecido se ele o tivesse matado aquela noite.
— E Agouro não aprovou minha interferência.
— Agouro é um velho preconceituoso. Não precisamos de líderes como ele. Precisamos de mentes jovens e fortes.
— Você é uma sonhadora, .
Ela sorriu.
— E não somos todos?
— Às vezes não adianta sonhar com coisas sem solução — o homem falou se levantando e andando para fora da clareira.
— Ei Firenze, qual o seu prazer em sempre falar alguma coisa misteriosa e ir embora?
O centauro, que estava de costas, abaixou a cabeça e sorriu. Respondeu baixo, mas ainda com a certeza de que ouviria suas palavras.
— Te fazer pensar em mim, é claro — sua voz desaparecendo junto ao som de cascos batendo floresta adentro.

deu uma última olhada para o céu antes de se levantar e caminhar até em casa. Tinha alguma coisa estranha com as constelações, ela acreditava que uma grande mudança estava por vir nos próximos dias.
Passou a semana seguinte o mais longe possível de casa, treinando com seu arco a maior parte do dia. No final da semana, já acertava os alvos com facilidade, sentindo pouco desconforto ao puxar o braço no sentido contrário. Acreditava que tinha evoluído rápido graças a prática que tinha com a arma, mas estava muito satisfeita de estar conseguindo atirar de costas. Gargalhou alto, nunca tinha imaginado uma coisa dessas.

— Precisamos conversar — foi a primeira coisa que ouviu quando abriu a porta de casa, Magoriano estava mais sério do que o normal — Sua mãe e eu estávamos discutindo seu futuro.
A centauro segurou a vontade de revirar os olhos, claro que ele iria “decidir” seu futuro.
— Pois bem — cruzou os braços — Diga.
— Você vai se casar com o filho do Agouro e irão morar juntos nos fundos de sua casa. Tudo o mais breve possível.
gargalhou, sentindo um nervoso repentino.
— Você só pode estar brincando!
— É o seu dever como minha filha.
A garota olhou desesperada para a mãe, a fim de obter apoio, mas ela apenas abaixou a cabeça. Bateu as patas nervosa.
— Eu não vou fazer isso.
— Sabe que está destinada a se casar com o filho do Agouro desde que nasceu.
— Para! — gritou — O nome dele é Nessus, não filho do Agouro. E ele é meu primo! Eu não vou me casar com meu primo só porque você quer.
Magoriano bufou, parecia cansado.
— É seu destino se casar com o filho de um dos líderes para manter a sucessão no conselho.
— Se eu me casar com Nessus, serei líder do conselho ao seu lado?
O centauro riu.
— Que pergunta mais estúpida. Isso é inadmissível.
— Inadmissível é você achar que eu vou casar com meu primo para manter o status de um grupo do qual não farei parte.
— Nós não vamos discutir isso.
— Não, não vamos — a centauro galopou para dentro de seu quarto e bateu a porta.

Não conseguiu dormir. Na manhã seguinte, saiu o mais cedo possível para encontrar Nessus. Chegou pelos fundos da casa do tio e bateu três vezes na janela do quarto do primo, que foi aberta em seguida.
— Ficou sabendo da novidade? — riu de nervoso, a ideia era absurda demais até para se imaginar.
— Então já conversaram com você? — seu primo deu uma risada idêntica, o que encheu o peito da mulher de alívio — Meu pai falou comigo ontem a noite.
— Então o que vamos fazer, noivo?
Nessus galopou pelo quarto e voltou a fixar os olhos na janela.
— Consegue entrar pela janela? — perguntou.
— Deixei de conseguir aos sete anos — ela gargalhou — E eu não quero encontrar com o seu pai.
Nessus riu concordando.
— Te encontro aí fora.
Saíram para caminhar pela floresta, longe de tudo o que tinha a ver com os outros centauros. Andaram um tempo em silêncio tentando colocar os pensamentos em ordem, até que chegaram em uma pequena cachoeira no centro da floresta.
— Eu amo esse lugar — comentou — Nós poderíamos fugir e morar aqui, eu caço e você cuida da casa.
Nessus riu.
— Você não precisa me lembrar o tempo todo de que é uma caçadora melhor do que eu.
— Mas não sou capaz de fazer uma torta de maçã como a sua — ela bateu em seu ombro.
Ele deu de ombros.
— Cozinha realmente nunca foi seu ponto forte.
A mulher prendeu seu cabelo em um rabo de cavalo e entrou no rio, torcendo para que todos seus problemas corressem água abaixo.
— Ness — começou — O que nós vamos fazer?
O centauro passou a mão no cabelo, pensando.
— Não é nada pessoal, mas eu não vou me casar com você.
Ela gargalhou.
— Pois saiba que sou um ótimo partido, mas também não estou interessada.
— Você não sabe o que está perdendo!
suspirou.
— Eles não vão parar até conseguirem, sabe disso.
Nessus entrou na água para chegar mais perto de sua prima. Segurou sua mão tentando passar o máximo de confiança possível.
— Nós somos um time, ta? Podemos enfrentá-los. Não vamos fazer nada que não quisermos. Na pior das hipóteses nós podemos nos mudar para perto da cachoeira.
olhou em volta admirando a paisagem.
— Me parece uma ótima ideia.

Barulhos de passos surgiram pela floresta.
— Eu te procurei por todos os lugares, preciso falar com você — Firenze apareceu galopando por entre as árvores, correndo até — Ah, Nessus. Não tinha te visto.
O centauro riu, olhando curiosamente da prima para o outro centauro.
— Eu já estava de saída, acho — Nessus gargalhou — Resolvemos aquele assunto mais tarde, sim?
assentiu, abraçando o primo. O centauro cumprimentou Firenze e saiu floresta adentro.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— Aconteceu — Firenze se sentou sobre a pedra mais próxima — Mas sobre que assunto seu primo estava falando? — perguntou curioso.
— Ah, nós estamos noivos — deu de ombros.
Firenze agradeceu por estar sentado, pois sentiu que poderia cair.
— Como?
— Um acordo entre Magoriano e Agouro. Nada que vamos levar a sério. Mas o que foi?
— Ah, claro — passou a mão pelos cabelos — Parece que houve algum problema com a professora de adivinhação em Hogwarts e Dumbledore me chamou para lecionar.
— Isso é incrível! — a centauro estava muito feliz — Era exatamente o que eu estava falando sobre contar para eles tudo o que nós sabemos.
— Não sei se os humanos são capazes de entender a verdadeira adivinhação — comentou preocupado — Não é o que eles esperam.
andou até o centauro e sentou ao seu lado. Pensou se deveria ou não investir em algum contato físico, optando por segurar suas mãos.
— Sei que será capaz de ensiná-los. Vão entender que é preciso ter paciência e treinar por anos para ser bom em alguma coisa, não olhar para aquelas bolas de vidro que eles acham que prevê o futuro. E vai poder reencontrar o garoto Potter.
Firenze cerrou os olhos para a garota, que gargalhou.
— Vai dizer que não está tão curioso quanto eu para saber o que ele se tornou?
— Eu não consigo mesmo esconder nada de você, não é?
Ela sorriu.
— Não pode mais voltar para a vila — falou triste — Já pegou suas coisas?
— Não tive a oportunidade. Mas sei que Dumbledore não deixará me faltar nada.
A centauro considerou por um momento.
— Fique perto da cabana do Hagrid, mas ainda dentro da floresta. Pegarei suas coisas e te encontro lá em uma hora.
Os dois assentiram e cada um correu para um lado da floresta.

entrou na casa de Firenze pelos fundos e juntou rapidamente todas as coisas que acreditou serem necessárias. Alguns livros para que ele pudesse se distrair, seus cadernos de anotações e um porta retrato que continha uma pintura dos dois treinando arco e flecha. Parou por um instante para analisar como pareciam jovens e felizes, se lembrava de como era bom poder treinar quando criança e o quanto ficava triste por ver as outras centauros da sua idade aprendendo a cozinhar e fazer cestas. Agradecia todos os dias por seu pai permitir que andasse com Nessus e Firenze quando pequena, ou ela seria mais uma das garotas da cozinha. No final das contas, Magoriano não era de todo ruim.
Correu para o ponto de encontro, mas o que viu fez seu peito apertar. Firenze estava deitado no chão, o peito com marcas de cascos, enquanto Hagrid estava valentemente parado em frente a Agouro o impedindo de continuar. Sabia que o homem não seguraria os centauros por muito tempo, principalmente porque todo o conselho estava parado as costas de seu tio, esperando por uma palavra para intervir.
Tanto quanto Firenze sabiam que se ele voltasse para a vila, algo parecido aconteceria, que os outros centauros o matariam por traição. Mas jamais imaginaria que o conselho o procuraria para aplicar alguma punição estúpida como essa. Correu para o lado de Hagrid colocando a mão em seu ombro. Sentia que o homem tremia, mas que não demonstraria fraqueza perante os outros centauros. A mulher quase sorriu, pensando em como alguns humanos eram admiráveis. Mas o rosto de Agouro a sua frente a fez sentir uma fúria até então inimaginável.
— O que vocês pensam que estão fazendo? — ela tentou não deixar sua voz tremer, mesmo que de raiva. Precisaria que eles a respeitassem se queria salvar seu amigo.
— Firenze nos traiu, ele será executado.
— Firenze não nos traiu. A única traição que eu vejo é você tentando matar um da sua espécie.
— Como você ousa — Agouro se aproximou, fazendo estufar o peito e erguer ainda mais a cabeça, o encarando nos olhos — Ele está conspirando com os humanos.
— Isso se chama ensinar. Ele está fazendo um favor a Dumbledore.
Hagrid aproveitou toda a bravura da mulher para se abaixar e analisar os ferimentos do centauro, que encarava atônito toda a cena. Tentou se levantar, mas não conseguiu. Precisava impedir que fosse morta por ele.
— Não importa quem é o humano. Não podemos nos permitir sermos escravos desses seres desprezíveis.
— Eu conheço muitos seres desprezíveis — ergueu as sobrancelhas — Dumbledore não é um deles.
Agouro fez novamente menção de se aproximar, mas ergueu as patas dianteiras, o fazendo recuar.
— Para trás. Você não vai chegar perto do Firenze.
Magoriano se aproximou de Agouro, sussurrando algo em seu ouvido. O centauro negou.
— Regras são regras. Não vou descumpri-las por causa de uma criança que acha que sabe a diferença entre o certo e o errado. Eu te disse que deixar sua filha andar com esse garoto a daria ideias perigosas.
— Você tem medo de que as pessoas percebam o quão miserável você é — constatou. As suas costas, Firenze se encolheu ao som de suas palavras — Você tem medo de tantas coisas, Agouro. Medo de perder o cargo que herdou sem ter o mínimo de condições de liderar, portanto usa de regras antiquadas para se manter no poder. Tem medo dos humanos? Eu tenho mais de dois metros de altura e nem sou das mais altas da nossa espécie. Esmago Hagrid com uma pata — a garota se virou para o meio gigante — Com todo respeito, é claro — sorriu, se virando para seu tio — Você é fraco. E quando os outros perceberem você estará perdido.
Um burburinho correu pelo conselho, deixando Agouro nervoso.
— Saia da frente — gritou — Vou terminar o que comecei.
— Você não vai encostar uma pata suja no Firenze. Terá de passar por mim.
— Isso não vai ser problema.
cruzou os braços.
— SAIA DA MINHA FRENTE — o líder tinha visivelmente se descontrolado — Garota se você não sair eu vou te…
— VAI — dessa vez que gritou — Me mata. Faz o que você está com tanta vontade de fazer.
Firenze tentou novamente se levantar, sentindo uma dor absurda em suas costelas.
, não… — sussurrou.
— Garota insolente — Agouro levantou as patas dianteiras, quase acertando . Mas ela não se mexeu.
— Me mata, tio — colocou ênfase na última palavra — Mas depois encare seu irmão — apontou com a cabeça para Magoriano, que batia as patas em nervosismo — Tenho certeza que ele vai adorar assistir enquanto você mata sua filha. Nessus também ficará muito satisfeito ao saber das novidades.
— Já chega vocês dois — Magoriano interviu, se colocando entre os dois centauros — Agouro, nada disso é realmente necessário.
— Magoriano, você não pode — Agouro rangeu os dentes.
— Eu tenho tanta autoridade quanto você. Firenze, você está permanentemente banido da floresta. Não poderá mais ter contato com nenhum de nós e se algum dia deixar o castelo, deverá encontrar outro rebanho.
— Pai, não — pediu.
Vendo a tristeza da mulher, Agouro pareceu gostar mais da ideia.
— Que assim seja, então. Garota, se você continuar a defendê-lo, terá que ir embora com ele — Agouro cruzou os braços olhando para a mulher.
— Então eu irei.
— Não — Firenze se arrastou e segurou sua mão, a fazendo olhar pra ele — Fique. Eu posso morar no castelo, Dumbledore não colocará nenhuma oposição.
se abaixou e colocou a mão sobre seu ombro.
— Não.
Firenze então segurou em seu pescoço, a puxando para perto.
— Fique e realize seus sonhos, torne o rebanho melhor.
— Eu não vou deixá-lo — a centauro balançou o rabo em protesto.
— Os lidere — ele sussurrou em seu ouvido — Seja a líder forte e jovem que tanto desejou para nós. Sei que vai dar um jeito, é a garota mais esperta que conheço.
Uma chama ardeu em seu peito, a dando um pouco de esperança. Se tomasse o rebanho, Firenze poderia voltar e Agouro nunca mais colocaria nenhum inocente em perigo novamente. Usou a força repentina para se levantar e encarar o resto do conselho.
— Acho que vocês não tem mais nada para fazer aqui.
Alguns centauros assentiram e se retiraram, sobrando apenas Magoriano e Agouro. Esse último parecia extremamente relutante em sair e deixar Firenze impune, mas depois de muita insistência, acabou acompanhando seu irmão de volta para casa.
Sozinhos na floresta, e Hagrid arrastaram Firenze para a cabana, para cuidar de seus ferimentos. Não demorou para que adormecesse, exausto com todos os acontecimentos do dia.
— Foi uma discussão e tanto — Hagrid quebrou o silêncio, observando acariciar o rosto adormecido do centauro.
— Ah Hagrid — ela se aproximou, ficando ao seu lado — Fiquei tão preocupada que me esqueci completamente de agradecê-lo. Você salvou sua vida e eu jamais poderei recompensá-lo por isso.
— Na verdade, você salvou nossas vidas — o homem riu, a fazendo sorrir.
— Mas eu não chegaria a tempo se não fosse por você.
O homem assentiu e voltou a mexer em seu caldeirão. O cheiro não parecia muito bom, mas estava feliz só de finalmente fazer uma refeição junto a alguém agradável. Não se lembrava da última vez que conversou durante o jantar.
— Como vai ser agora que você desafiou seu tio dessa maneira?
Ela considerou.
— Não vai mudar muita coisa. Eles querem que eu me case com Nessus, então ficarei bem. Mas sei que vou pensar em alguma coisa muito boa para resolver as coisas. Firenze poderá voltar para a floresta quando desejar. Só preciso de tempo.

No dia seguinte acordou com um cheiro estranho no ar. Abriu os olhos lentamente, vendo Hagrid mexer em alguma coisa no caldeirão. Riu fraco, ele sempre tinha as melhores intenções, embora não cozinhasse as melhores coisas. Pensou se em algum momento sua família o ensinou tudo o que precisava saber, ou se ele teve que aprender a sobreviver junto com a vida. Se levantou, percebendo que tinha dormido no chão, ao lado de Firenze. Não se lembrava de ter adormecido, mas fazia sentido ter sido ao seu lado. Devia estar tão preocupada que se recusou a sair de perto do centauro. É, isso fazia sentido.
— Bom dia, Hagrid — sorriu — Precisa de ajuda com alguma coisa?
— Oh, bom dia . Está tudo sobre controle! Estou fazendo um mingau para o café da manhã.
A centauro conteve a vontade de torcer o nariz.
— Parece ótimo…
— Você poderia acordar Firenze? Os ferimentos parecem bem melhores e ele precisa comer alguma coisa antes de ir pro castelo.
O coração de apertou. Depois que ele fosse para o castelo, não poderia voltar para a floresta. Tudo se tornaria real no momento em que eles saíssem da cabana.
— Ele precisa mesmo ir? Eu posso ajudar! Eu posso caçar, eu trago mais comida, prometo.

— Eu cuido da casa. Limpo tudo, prometo. Até cozinho para você — só ela sabia o quanto aquelas palavras doíam. Estava prometendo fazer tudo o que lutava contra. Mas valeria a pena se não precisasse se separar de seu amigo.
Hagrid sorriu, mas parecia triste. Se aproximou de e segurou suas mãos.
— Querida, eu adoraria manter vocês dois aqui. E não pediria nenhuma ajuda. Mas Firenze vai querer seguir seu caminho o quanto antes. Acho que sabe disso melhor do que ninguém.
Ela assentiu.
— Pois bem, eu sei que vai dar um jeito de continuar a vê-lo. Existem lugares que não são nem floresta e nem castelo, não é mesmo?

Os dias passaram devagar desde que Firenze foi banido do bando. Não tinha mais visto o homem e nem ao menos sabia como ele estava depois de toda a confusão. Esperava que Hogwarts tivesse bons curandeiros e que seus ferimentos já estivessem se cicatrizado, mas nunca gostou muito de esperar as coisas, precisava se certificar de que tudo estava certo.
Por isso perto da meia noite, depois que seu pai finalmente tinha ido se deitar, a centauro saiu escondida pela janela de seu quarto galopando rapidamente até a cabana de Hagrid. Não queria acordar o homem, mas também não sabia mais o que poderia ser feito. Bateu três vezes na porta, poucos segundos depois Rúbeo apareceu com algum tipo de arma humana apontada para o seu peito.
— Acho que você não vai querer atirar em mim — ela riu para o homem que parecia surpreso em vê-la. Ao perceber que ainda apontava para o peito da garota, ele abaixou a arma.
— Aconteceu alguma coisa, ?
— Aconteceu — ela bateu as patas no chão, visivelmente nervosa — Desde que Firenze foi para a escola nós perdemos o contato. Não sei como ele está. Se está bem ou ainda está machucado, se está gostando de dar aula, se… — ela parou suspirando, sua voz virando um breve sussurro — se ele sente minha falta tanto quanto sinto falta dele.
O homem sorriu solidário. Talvez em qualquer outra época não entenderia a garota, mas no ano anterior tinha conhecido uma gigante adorável e se perguntava todos os dias a mesma coisa que a garota, principalmente quando as correspondências pararam de chegar.
— E bom — a garota continuou quando percebeu que o homem ao invés de respondê-la, tinha se perdido em seus próprios pensamentos — Você tinha dito que sabia de um lugar onde poderíamos nos ver, não?
— Sim — ele concordou — Na cabana. Teoricamente não faz parte nem de Hogwarts e nem da floresta, nenhum dos dois quebraria nenhuma das regras — ele fez uma pausa para segurar o riso — Embora eu não acredite que quebrar as regras seja um problema para você.
Ela assentiu sorrindo, antes do homem terminar de falar.
— Mas também não acredito que queira acordar Firenze uma hora dessas, então amanhã eu falo com ele durante o café da manhã e você vem aqui a tarde, ao invés de treinar, para conversarem. Pode ser?
— Querer eu não quero, mas e se for necessidade? — Eu te garanto que ele permanecerá inteiro até amanhã. Você sabe que ele não faria nada perigoso principalmente sabendo que teria que se ver com você depois.
— Sinto saudades.
— Eu sei.
Por algum motivo ela abraçou o homem à sua frente se sentindo imediatamente reconfortada. Hagrid, surpreso, demorou a retribuir o abraço. Em todos seus anos estudando criaturas mágicas, nunca tinha visto um centauro demonstrar afeto por outra criatura, nem mesmo um dos seus.
— Obrigada por tudo, te vejo amanhã — falou antes de galopar floresta a dentro.

Como era de se esperar, não conseguiu dormir. Então começou a arquitetar um jeito de trazer Firenze de volta para o bando. O atual conselho nunca aceitaria uma coisa dessas, então o conselho precisaria ser trocado. Era uma loucura pensar em substituir aqueles que sempre lideraram o bando, mas ela sabia que não o faziam de forma justa e que isso precisaria mudar. As palavras que Firenze dissera quando estava a ponto de desistir de tudo por ele, voltaram a sua mente. “Os lidere. Seja a líder forte e jovem que tanto desejou para nós”. O que antes pareceu tão absurdo, agora plantava uma pequena ideia em sua mente. E se ela, de fato, liderasse o bando? Conseguisse o apoio dos outros centauros e assumisse o conselho de forma legítima, de um jeito que nem seu casamento poderia proporcionar.
Quando o sol apareceu, se levantou sorrindo. Tinha passado tanto tempo planejando cada mínimo detalhe que a noite acabou mais rápido do que desejava. Por um segundo esqueceu a saudade que sentia de Firenze, sentindo o peito explodir em alegria quando lembrou que o veria a tarde. As coisas finalmente estavam começando a se ajeitar.
A centauro então galopou o mais rápido que conseguia até a casa de Nessus e bateu levemente na janela. O primo não acordou, então ela precisou tomar uma decisão um pouco mais drástica. Deu meia volta, respirou fundo e bateu na porta da frente.
— O que foi? — Agouro perguntou desconfiado, ao ver a garota tão cedo em sua porta. Ainda estava irritado pelo desrespeito em frente ao conselho e principalmente do jeito que foi ameaçado.
— Vim ver o Nessus.
— E posso saber o porque? — o homem cerrou os olhos coçando o queixo.
Cruzou os braços e respirou fundo para manter a pose, mas para o homem à sua frente pareceria apenas um gesto de arrogância. Sorriu ao perceber que isso o deixaria incomodado.
— Porque se vocês vão nos obrigar a manter o casamento, vai ser do nosso jeito. Nosso lugar, nossas decorações.
— Então vocês aceitaram manter o casamento?
— E desde quando nós temos escolha? Meu pai não gostou nada da minha performance na floresta e abre aspas — fez aspas com os dedos — as coisas precisam mudar. Então eu estou aqui!
Ele pareceu considerar. Demorou alguns segundos até recuar para que ela pudesse entrar. Não precisaria a acompanhar até o quarto, ela conhecia muito bem o caminho. E que mal poderia ter? Eles já estavam noivos mesmo. Mas Agouro seguiu a garota com o olhar até que ela entrasse no quarto, então só pode suspirar aliviada quando fechou a porta atrás de si.
— O que você ta fazendo aqui? — Nessus se levantou assustado coçando os olhos. Mesmo com a visão desfocada sabia quem estava à sua frente — E por onde você entrou?
— Quantas perguntas, não acredito que esqueceu — falou alto desconfiando que Agouro ainda estivesse ouvindo — Vim te buscar para começarmos a planejar o casamento!
— O que? — ele coçou a cabeça tentando entender. Casamento? Não tinham concordado que era uma loucura que não fariam? Ele tinha perdido alguma coisa?
A centauro colocou a mão na boca, indicando silêncio e formou as letras “A-G-O-U-R-O” com os lábios, sem emitir som algum. Seu primo conteve a vontade de gargalhar ao finalmente entender o que estava acontecendo, se contentando a balançar a cabeça e pensar em como a garota que estava a sua frente era maluca.
— Ah, o casamento — falou devagar, ainda suprimindo a vontade de rir — Temos que decidir o…
“L-O-C-A-L”
— Onde vai ser — completou sentindo as lágrimas atingirem os olhos.
— Não é hora para dar risada, precisamos sair daqui — sussurrou brava — Eu tenho um bom plano e não preciso que você o estrague. Além do que eu não tenho o dia todo, tenho planos para hoje a tarde.
— E aí está a que eu conheço.

Saíram de braços dados e andaram floresta adentro até chegarem na cachoeira que tinham encontrado dias atrás. se sentou em uma pedra grande e Nessus na grama a sua frente. O centauro colocou os braços para trás e olhou para o céu, sentindo a brisa bater em seu rosto.
— Sabe? Aqui é um bom lugar para casarmos…
Mas pareceu não prestar atenção. Mordia o canto da boca sem pensar em como começar a falar. Agora que colocaria as palavras ao vento, a ideia tinha voltado a parecer absurda.
? O que aconteceu?
Ela respirou fundo e falou de uma vez, antes que mudasse de ideia.
— Nós vamos liderar o bando. Não daqui sessenta ou oitenta anos, mas logo. Nós vamos tirar nossos pais e o resto do conselho do poder, encontrar um conselho novo e fazer as coisas do nosso jeito, de uma maneira mais justa.
Nessus gargalhou balançando a cabeça. Quando percebeu que a prima ainda a olhava séria, abriu a boca chocado.
— Tá falando sério? Não podemos.
— E porque não? Porque nunca foi feito antes? Porque somos muito novos ou porque eu sou uma garota?
— Eu…
— Eu não consigo sem você. Fora que o casamento é a desculpa perfeita. Eu só falei isso pro seu pai não falar nada, mas fingir que estamos de acordo com isso e elaborar tudo uns dias antes é a coisa mais inteligente a ser feita. O conselho vai precisar se reunir antes do casamento, todos vão estar lá.
— E todos os outros centauros também vão estar mais disponíveis — considerou — Porque vão estar ocupados com os preparativos. Então podemos falar com todos sem causar suspeita.
— Exatamente.
— Então, . No que estava pensando?

Correu o mais rápido que podia para a cabana de Hagrid. Graças a todos os planos tinha esquecido de almoçar, mas esse era o menor de seus problemas. Queria chegar primeiro pois não queria deixar o amigo esperando ou que ele pensasse que ela não iria. Mas esqueceu de todos seus pensamentos ao bater na porta da cabana e encontrá-lo sorrindo para ela.
Não pensou duas vezes antes de jogar em seus braços e apertá-lo com todas as forças. Não conseguiria colocar em palavras o quanto sentiu falta em ter seu amigo ao seu lado. E por isso, por mais que tinha muito a dizer, não conseguiu.
— E como estão as coisas no rebanho? — ele perguntou depois de finalmente se separarem.
abriu a boca para falar sobre seu plano com Nessus, mas fechou novamente. Tinha muita coisa que poderia dar errado e sabia que Firenze acreditava nela, não queria decepcioná-lo. Era melhor ele achar que ela nunca tinha tentado do que ficar sabendo que falhou e definitivamente não queria que isso acontecesse.
— Tudo na mesma — deu de ombros — Um saco depois que você foi embora.
Ele riu.
— Você vai sobreviver.
— E você? Como estão as coisas em Hogwarts?
— Estão muito boas. Dumbledore encantou a minha sala de modo com que eu ficasse mais confortável para lecionar. Colocou uma árvore e tudo — o centauro riu negando com a cabeça — Até pensei que me atrasaria para chegar aqui. Queria ter vindo assim que Hagrid me avisou no café da manhã, mas precisava ir para a aula. E depois me atrasei porque precisei separar um aluno da lufa lufa e uma garota da grifinória no corredor. Na verdade foi bem engraçado, uma menina corvina estava totalmente constrangida encostada na parede e eu resolvi olhar o que estava acontecendo atrás de uma das estátuas.
gargalhou maravilhada, os humanos eram tão fascinantes quanto ela imaginava.
— Me conta mais!
— Claro — ele também gargalhou, feliz em entretê-la. Começou a contar detalhadamente tudo o que se lembrava dos últimos dias.

— Então precisamos falar com o Morlas, o Lormiel e o Amca para ver se eles aceitam fazer parte desse novo conselho — Nessus anotava todos os nomes em um papel, onde deveria estar fazendo a lista de guardiões do casamento.
— Eu discordo — negou com a cabeça — Primeiro que aí só tem homem, segundo nenhum dos três é confiável, terceiro só estaríamos adiantando uma coisa que já ia acontecer e quatro eles são exatamente iguais a seus pais, não estaríamos mudando o conselho de verdade.
— É, você tem muitos pontos — o centauro começou a riscar os nomes presentes nos papéis — Nada dos filhos dos atuais chefes. Mas então quem vamos chamar?
— Eu proponho aumentar o número em seis e deixar com números iguais entre homens e mulheres.
— Mas precisa ser ímpar para não gerar empate. Sabemos que a opinião do Magoriano e do Agouro vale mais no atual conselho, mas não queremos isso para o nosso.
— Você tem razão. Que tal tirarmos na sorte? Se você atirar a pedra para mais longe entra um homem, se for eu, uma mulher.
— Isso não é sorte, sabe que é mais forte que eu.
Ela riu, culpada.
— É, eu sei. Que tal tirarmos no graveto? Quem tirar o graveto menor ganha.
— Eu aceito, mas eu pego os gravetos para você não acabar roubando de mim.
— Fiquei quase ofendida com o seu comentário.
No final, decidiram que teria uma mulher a mais. E jura que não roubou do primo dessa vez. Convidariam Belnor como integrante masculino e Amith e Elnim como as integrantes femininas. Tinham crescido com eles e por mais que o assunto nunca tinha sido discutido, ambos sabiam que não estavam satisfeitos com o sistema atual. E acima de tudo, eram confiáveis. Decidiram também que as decisões mais importantes do rebanho não seriam tomadas diretamente pelo conselho, mas em uma votação conjunta por todos os centauros. Só iriam intervir se fosse questão de extrema necessidade, por exemplo se todos resolvessem matar outro centauro novamente. Não deixariam nada do tipo acontecer.
O resto do ano passou rápido. ficou entre se reunir com Nessus todas as manhãs para “planejar o casamento” e as tardes divididas entre treinar com seu arco e visitar Firenze na cabana de Hagrid. A essa altura, já conseguia atirar de costas perfeitamente e desejava mais do que nunca o amigo por perto para desafiá-la como costumava fazer.
Firenze tinha aprendido muito em Hogwarts, passava todas as tardes que não estava junto de descobrindo coisas incríveis na biblioteca bruxa. Tinha se tornado seu lugar favorito do castelo. Também tinha feito amizade com alguns alunos e gostava de notar o amadurecimento do garoto Potter, por mais que ele parecesse cada dia mais perturbado. Sentia muito pelas coisas que o garoto tinha que passar e principalmente pelo o que sabia que aconteceria mas que mesmo assim não podia dizer.
A alta inquisidora tinha desaparecido e desconfiavam que os centauros tinham alguma coisa a ver com aquilo. não estava no rebanho no dia pois estava caminhando com Firenze no campo de quadribol. “Vai ser uma linda noite para observar as estrelas” ele tinha dito. E assim resolveram passar aquela noite como faziam nos velhos tempos quando a garota saia escondida pela janela de madrugada para encontrá-lo na clareira. Mas quando ela chegou em casa o mais silenciosamente possível para não alertar que não estava no quarto, podia jurar que tinha ouvido seu tio comentar algo com seu pai. E ambos praguejavam Dumbledore por interferência nos assuntos do rebanho. Cada dia que passava ela odiava mais esses assuntos.

— Eu nem acredito que tudo está caminhando tão bem — Nessus disse algum dia meses depois — O novo conselho é perfeito! Todos nós concordamos em como o rebanho deve ser conduzido e que as regras precisam ser modificadas.
— Agora só precisamos convencer o resto do rebanho que mudar é a coisa certa e que eles não devem contar isso para o atual conselho — riu de nervoso — A parte mais “fácil”.
— Vai dar certo — seu primo se aproximou a abraçando — Já chegamos até aqui, nós vamos conseguir terminar.
— Que bom que está ao meu lado — ela o abraçou de volta — Não sei o que eu faria sem você.
— E nunca vai precisar saber, sempre vou estar ao seu lado.
— Que bom que disse isso — ela se afastou um pouco, rindo — E espero que não tenha compromissos a tarde porque eu marquei uma reunião com o novo conselho para discutirmos táticas de abordagem com os outros centauros.
, você não deveria se encontrar com o Firenze?
— Infelizmente, acho que não vou ter tempo pra isso tão cedo. Eu pedi para o Hagrid avisar que vou estar meio ocupada nos próximos dias e aviso no próximo encontro.
Nessus balançou a cabeça, sem saber exatamente o que dizer.
— Bom, se você acha.

As reuniões com o novo conselho se mostraram muito promissoras, visto que ao contrário do que os primos pensavam, todos tinham muitas ideias para contribuir. Não entenda mal, não é que eles não tivessem fé nos outros, mas era uma coisa nova começar algo assim e não imaginavam que não teriam trabalho em estimulá-los a pensar. Sinceramente era um alívio e tanto.
Os outros centauros tinham tantas ideias que começaram a fazer reuniões diárias e isso acabou com todo o tempo que a menina ainda tinha. Às vezes deixava de dormir para treinar, pois não era uma coisa que podia abrir mão, mas não via Firenze a meses e não conseguia deixar de pensar se ele estava bem e se ao menos sentia sua falta tanto quanto ela. Também não conseguia tirar da cabeça uma conversa que tinha tido com Nessus naquele mesmo dia.

— Você não vai ver o Firenze de novo? Fazem meses que vocês não se veem!
— Você sabe que eu estou sem tempo pra isso.
— Você sempre teve tempo pra ele.
— E eu estou fazendo isso por ele. Gastando cada segundo do meu dia tentando trazê-lo de volta para o bando e acabar com esse exilamento ridículo.
Nessus riu fraco encostando na árvore mais próxima. Sempre desconfiou que ela fazia isso pelo centauro mas ouvir de sua boca era algo diferente. Infelizmente, achava que não percebia que toda essa loucura a estava distanciando daquilo que ela lutava desesperadamente para manter por perto.
— Você ao menos contou para ele o que estamos fazendo?
— Não pude. Se der errado é melhor que ele não saiba.
— Ele não vai te achar menos competente por falhar em algo.
A centauro bateu os cascos nervosamente no chão.
— Sei que não vai. Mas eu vou e não vou conseguir lidar com isso se ele souber.

Suspirou frustrada se jogando na cama. Dormiria por algumas horas e acordaria mais cedo para treinar. No resto do dia, resolveria as coisas que faltavam para acabar com aquilo o mais rápido possível.
Enquanto isso no castelo, Firenze estava começando a ficar desesperado com o sumiço da garota. E se ela tivesse falado algo que não devia e os outros centauros fizeram alguma coisa? Sempre imaginou que a garota teria toda a proteção possível por ser filha de Magoriano, mas depois de Agouro querer voar em sua garganta por defendê-lo ele não sabia mais o que imaginar. Já fazia quase um ano que não a via e da última vez Hagrid tinha avisado que ela disse que estava ocupada. Mas o que a deixaria tão ocupada a ponto de esquecer dele? Definitivamente não queria pensar nisso.
Resolveu então que as coisas não poderiam mais ficar assim. Suspirou frustrado pensando em como estava sendo patético, mas deixaria para revisar suas ações em outra hora. Ela entenderia sua necessidade em vê-la, talvez até sentisse a mesma coisa. Ou talvez não sentisse e não entendesse porque ele estava lá. E como explicaria se nem ele sabia direito o que estava fazendo?
— Estou pensando demais — falou para si mesmo — É só a e eu só estou tentando descobrir se ela está bem — e se sente a minha falta, completou mentalmente.
Saiu do castelo antes que mudasse de ideia, galopando o mais rápido que podia na direção da floresta proibida.
Estava para entrar na floresta quando algo surgiu a sua frente o fazendo parar. Cerrou os olhos para ajustar a visão e se deparou com Hagrid, com uma cara não muito amigável e uma besta apontada para seu peito.
— Onde você pensa que vai? — o meio gigante perguntou de maneira nada amigável.
— Eu vou… hã — já tinha perdido a deixa para dar uma desculpa convincente, então se limitou a respirar fundo — Não vejo a tem algum tempo.
Hagrid abaixou a arma, mas não completamente. Tinha visto o centauro assim que atingiu o topo do morro perto de sua casa e correu para pegar a besta. Não tinha nenhuma chance de detê-lo sem ela e se ele entrasse na floresta assim como ele desconfiava, definitivamente seria morto.
— Eu sei disso — Rúbeo falou — Mas ir atrás dela é assinar sua sentença de morte. Por mais silencioso que fosse, chamaria atenção. Sabe disso.
— Mas eu preciso — bateu as patas dianteiras nervoso — Eu estou preocupado com ela.
— Ela está bem. Só deve estar ocupada com os preparativos do casamento.
Firenze sentiu o sangue deixar seu rosto e a visão ficar levemente turva. Quando falou, tentou não gaguejar, mas sem muito sucesso.
— Casamento? Que casamento?
— Com o Nessus. Você não sabia?
— Eles comentaram brevemente, mas já faz tanto tempo. E ainda comentou que não levariam a sério, era só coisa do Magoriano com o Agouro.
Hagrid abriu e fechou a boca sem saber o que dizer. Esperava que ele soubesse, ou teria sido mais delicado ao mencionar o evento. tinha comentado com tanta naturalidade que imaginou ser algo que estava certo a muito tempo.
— Hagrid?
— Hm?
— O que mais ela disse?
— Não muito. Ela apareceu aqui aquela vez e disse que não poderia encontrá-lo pois os preparativos para o casamento estavam demandando mais tempo do que imaginava. E que assim que conseguisse um tempo me avisaria.
— E isso já vai fazer um ano… Hagrid?
O homem olhou para ele, indicando que continuasse com um aceno.
— Você acha que ela se esqueceu de mim? E por isso resolveu casar e todo o resto?
— Não acho que seria possível ela se esquecer de você.
— Eu tinha mais certeza disso quando ela estava por perto.
— Tenho certeza de que ela está bem, saberíamos se não estivesse.

É difícil ficar tanto tempo sem ver alguém essencial em sua vida, principalmente se esse alguém está o tempo todo ao seu lado. Não entenda mal, claro que os dois sabiam que ia ser difícil ver Firenze fora do bando, mas às vezes só se entende a falta que uma pessoa faz quando ela não está mais presente em sua vida.
Para o alívio dos dois, embora o centauro não soubesse, o tempo de distância estava acabando. Finalmente tinha chegado o dia do casamento.
— Seu centauro surtaria se soubesse que hoje é o grande dia — Nessus provocou — Acho que ele nunca imaginou que você iria se casar com outra pessoa.
— Eu não… Eu não acho que ele se interesse na minha vida amorosa — deu de ombros, um pouco triste.
— Eu acho incrível que os melhores guerreiros sejam os menos espertos — o primo sussurrou, mas a garota não ouviu.
De fato era engraçado como nenhum dos dois percebeu o que acontecia entre eles. Talvez Firenze tivesse percebido, pela expressão que esboçou anos antes quando a garota lhe contara do casamento, mas Nessus não tinha presenciado a cena para dar um toque na prima sobre os sentimentos do homem. É, realmente não era nada sem o primo.
— Nós conseguimos, né? — a centauro bateu os cascos no chão, visivelmente nervosa — A maior parte do rebanho está do nosso lado e pronta para nos apoiar.
— Fizemos um bom trabalho ao longo dos anos, prima. Cada reunião, noite sem dormir, tudo valeu a pena. Não seria possível convencer ninguém sem você ao nosso lado.
— Vamos ficar bem — falou mais para si mesma do que para Nessus.
— Vamos ficar bem — ele respondeu.
— Onde estão Amith e Elnin?
— Organizando todo o rebanho para nos encontrar junto ao conselho.
— E Belnor?
— Observando o conselho para nos chamar na hora certa. Pegou seu arco?
A centauro bateu nas costas para indicar a arma e andou impaciente pela floresta. O momento estava cada vez mais próximo e a garota tentava impedir suas mãos de suar. Precisava parecer forte, imponente e precisa. Qualquer escorregada e todo seu trabalho de anos seria jogado fora. Não poderia recuperar o tempo que tinha perdido arquitetando tudo, então teria que fazê-lo valer a pena. E acima de tudo, teria que trazer Firenze para casa.
A ideia era devanear um pouco mais ou falar qualquer coisa que pudesse tirar de suas cabeças o pensamento de que qualquer erro colocaria tudo a perder, mas antes que Nessus pudesse abrir a boca para tranquilizá-los, Belnor chegou correndo afobado na direção da dupla.
— É agora — ele anunciou — O conselho já está todo reunido e começando a debater a parte legal do casamento. Vocês precisam ir.
respirou fundo e olhou para Nessus, que subitamente adquiriu uma onda de coragem.
— Pronto?
— Pronto. Pronta?
— Sim.
— Não posso negar — ele riu fraco — Preferia enfrentar um exército de gigantes do que os nossos pais.
A mulher riu fraco balançando a cabeça. Realmente não parecia tão terrível quanto o que teriam que enfrentar.
— Belnor, chame Amith e Elnin e peça para que organizem todos entre as árvores. Vamos tomar o que é nosso.

Antes dos filhos dos líderes do rebanho se casarem, era essencial que o conselho se reunisse. Ninguém entendia muito bem o conceito já que tudo vinha sendo debatido a anos, mas era a oportunidade perfeita para fazer o que precisava ser feito.
O casal se aproximou lentamente até ficar de frente para os homens reunidos, que apresentavam confusão em seus semblantes.
— Não deveriam estar se arrumando? — Magoriano perguntou, estranhando o arco nas costas da filha — Treinou até agora?
— Pode se dizer que sim — deu de ombros — Mas mudança de planos…
— O casamento está cancelado — Nessus completou.
— O que? — Agouro se levantou, aumentando seu tom de voz — Não podem fazer isso.
— Podemos e estamos fazendo.
, isso tem sérias consequências — Magoriano falou, tentando manter a calma — Vocês podem até ser banidos do rebanho.
— Ah, mas nós não vamos ser — Nessus sorriu de lado.
— Se o conselho decidir…
— O conselho não vai decidir, porque agora nós somos o conselho.
— Vocês o que?
— Ora seu garoto insolente…
Agouro se levantou, buscando qualquer coisa a sua frente para ameaçar os dois jovens rebeldes. Encontrou uma faca de caça em cima de uma árvore cortada que usavam de mesa, levando a mão para pegá-la. riu desacreditada com a atitude do tio. Por pior que ele fosse, jamais imaginaria que ele colocaria a vida do filho em risco dessa maneira, mesmo depois que dele ter se mostrado bem violento. Antes que alcançasse a arma, a centauro sacou seu arco e lançou uma flecha, que parou exatamente entre a faca e os dedos do homem.
— Nem mais um movimento — a garota respondeu, virando sua mira para o peito do tio — Você não vai querer testar a minha pontaria.
— Ridículo, isso é ridículo — Agouro gritava — Vocês simplesmente decidiram se rebelar? Não é assim que isso funciona.
Os outros membros do conselho pareciam tentar entender se eles estavam falando sério ou não, e qual participação deveriam fazer na discussão. Mas Magoriano conhecia bem a cara de determinação estampada no rosto da filha e também sabia que se quisesse ter alguma chance, deveria cortá-los agora.
— Muito bem, agora chega . Ótima apresentação, muito divertida. Vá se aprontar para o seu casamento.
— Não é brincadeira, tio — Nessus respondeu — E agora nos dê licença que vocês estão no nosso lugar.
— Eu falei que você não poderia deixar essa garota ter as próprias ideias — Agouro cuspiu para o irmão — Agora se essas duas crianças acham que podem vir aqui nos desafiar e sair como se nada tivesse acontecido eles estão muito enganados.
— Eu to perdendo a paciência — revirou os olhos — É o seguinte, vocês têm duas opções. Ou saem da nossa frente agora e desistem do conselho ou vão lutar. Já que sempre gostaram tanto de violência, vamos ver como vocês se saem — a garota sussurrou, plantando uma flecha ao lado das pernas do tio, que pulou em um sobressalto — Mas eu não me desafiaria.
— Vocês nunca vão conseguir liderar o bando.
— Já temos o bando do nosso lado.
Nessus acenou para Belnor, que saiu de trás das árvores, incentivando os outros centauros a saírem também. Aos poucos, todos o rebanho apareceu atrás da dupla, principalmente mulheres e crianças.
— Eles não vão seguir uma mulher — Agouro gritou, apontando para .
— Não, eles não vão seguir uma mulher — ela respondeu orgulhosa — Vão seguir três.
— Isso só pode ser brincadeira. Se você acha que eu vou me submeter a vocês… — Agouro ralhava.
— Então vai embora. Encontra outro rebanho, quero ver se alguém vai te receber. Você queria matar o Firenze, mas nós não somos assim, você vai ter que conviver com a sua vida miserável.
— Então é por isso? Você está fazendo isso por causa do seu namoradinho?
— Alguém faria algo por você, pai? — Nessus respondeu — Mamãe faria? Porque ela não pensou duas vezes em me apoiar.
— Se rebelar contra seu próprio pai… Eu vou acabar com você!
Agouro galopou na direção de seu filho, apertando seu pescoço. No susto, Nessus não reagiu imediatamente, deixando ainda mais difícil se livrar dos braços do homem. soltou duas flechas nas costas do homem, que gritou de dor e a olhou com raiva, como quem dissesse que ainda não estava acabado e correu floresta a dentro. Magoriano olhou uma última vez para a filha e correu atrás do irmão.
Os membros restantes olhavam amedrontados para , que estava preocupada demais com o primo para falar qualquer coisa. A centauro foi para junto de Nessus e o abraçou, olhando para o mesmo ponto que ele.
— Eles vão voltar — ela sussurrou, bagunçando seus cabelos — Só precisam digerir tudo isso.
— Talvez não fosse tão ruim se não voltassem — respondeu para a prima, sorrindo fraco. Então se dirigiu aos outros antigos membros do conselho, que ainda não tinham saído do lugar — Se vocês quiserem ficar, são bem vindos. Agora vamos fazer nossa primeira reunião.

Alguns membros do rebanho tinham seguido Magoriano e Agouro, mas a maior parte estava bem ansiosa com a nova gestão. O novo conselho esperou todos se acomodarem confortavelmente antes de dar início ao primeiro de muitos encontros.
— Bom, sejam todos bem vindos a nova gestão. As coisas agora serão bem diferentes do que tem sido nos últimos anos. Vocês podem esquecer a maior parte das nossas leis. Violência não será tolerada sobre qualquer circunstância. Mulheres não são mais obrigadas a fazer o serviço de casa e todos os que quiserem lutar serão muito bem vindos, independente de ser homem ou mulher. A partir de hoje ministrarei aulas de arco para as mulheres que desejarem aprender as técnicas, mesmo que por hobby. É só me procurar depois da reunião.
— As reuniões do conselho permanecerão semanais, mas será aberta para todos — Nessus continuou — Quem quiser debater qualquer coisa, dar sua opinião, reclamar que as coisas não estão acontecendo do jeito que gostaria, estamos totalmente abertos. O que nós queremos que vocês entendam é que fazem parte do rebanho e tem o direito de decidir qualquer coisa tanto quanto nós. O nosso papel como conselho será selecionar quais as pautas mais importantes para vocês votarem. Criaremos novas leis para o melhor funcionamento do rebanho e só iremos intervir se o debate se tornar injusto ou violento.
— E acima de tudo, nada é permanente! Podemos deixar o conselho e ser substituídos quando der vontade! — Elnin respondeu — Nossos filhos não entrarão no conselho por hierarquia e vocês que vão escolher quem serão os próximos membros. Só tenham cuidado com quem irão escolher para não acabar colocando um conselho como o anterior.
— E como agora as mulheres serão ativas em nossa sociedade — Belnor tomou a palavra — É obrigatório ter pelo menos duas no conselho. A socialização com humanos não só vai ser permitida como incentivada, conversaremos com Hagrid para promover encontros com os estudantes. E não precisam se preocupar, eles não vão nos fazer mal.
— Por último, mas não menos importante — Amith riu — Quem não se sentir confortável com esse novo sistema pode ir embora, mas estamos abertos para quando quiserem voltar!

Seguiram a reunião com todos os apontamentos novos, enquanto Amith ia anotando tudo o que estava sendo decidido para todos se lembrarem depois. não poderia estar mais feliz e com o sentimento de dever cumprido. Se alguém falasse para ela quatro anos atrás que isso aconteceria, ela iria rir tanto quanto riu quando Firenze sugeriu. Ah, o homem ia adorar a novidade. Mas se antes a centauro achava que assim que pegasse o conselho poderia correr ao encontro do homem, estava muito enganada. Tinham milhares de coisas para resolver, dúvidas dos membros dos rebanhos e ainda o fato de que uma parte considerável dos homens os tinha deixado. Para evitar qualquer contratempo desagradável, começou a treinar imediatamente as mulheres que se interessaram, deixando o treino das crianças para quando as coisas estivessem mais sossegadas.

Nessus frisava todos os dias o quanto a prima deveria ver Firenze, e ela sabia disso, mas até mesmo ele precisava admitir que ela estava sem tempo. A cada cinco minutos alguém a interrompia para fazer alguma pergunta e entre o conselho e as aulas intensivas de arco ela mal conseguia dormir. Mas vinha acompanhando o movimento das estrelas, sabia que uma grande guerra estava próxima e que precisavam se preparar.

E então chegou o dia onde finalmente voltaria a ver Firenze. Não achou que seria um problema simplesmente aparecer no castelo, então foi sem avisar. Ao passar pela cabana de Hagrid a encontrou completamente vazia e franziu o cenho estranhando. Nunca tinha visto o lugar tão quieto. Foi com cuidado até Hogwarts, quando avistou algo que fez seu coração apertar. A escola estava sob uma redoma de magia, que estava prestes a se desfazer. Do lado de fora, centenas de bruxos tentavam invadir a propriedade a todo custo. E então a centauro soube que a grande guerra que estava prevendo tinha acabado de chegar. Antes de ser vista, correu de volta para o rebanho para encontrar guerreiros e lutar pela escola. Precisavam se envolver.
— Quem não se sentir à vontade não precisa vir — gritava enquanto pegava seu arco — Mas precisamos do maior número possível de candidatos. Hogwarts precisa.
Ao contrário do que se poderia imaginar, a maior parte das mulheres que estavam treinando se voluntariaram para lutar, enquanto as restantes ficaram para proteger as crianças caso as coisas saíssem do controle. Os homens também se dividiram, Nessus ficou responsável por cuidar de tudo enquanto não voltavam. Deu um abraço apertado em sua prima, a desejando sorte. E assim, partiu com um pequeno exército, deixando tudo para trás.
Quando avistou Hogwarts novamente, já estava parcialmente destruída, o que facilitou que abrissem caminho e entrassem no castelo. Chegaram facilmente no pátio e a cena era terrível. Vários estudantes duelando com bruxos bem mais velhos e entre eles dezenas de corpos espalhados pelo chão. Humanos jovens demais para estarem lutando contra suas vidas daquele jeito.
Entre os corpos, um se destacava. Mas para o alívio da garota ele também se mexia. Firenze se contorcia no chão segurando uma de suas pernas que parecia visivelmente fraturada. sentiu seus olhos encherem de lágrimas e se esqueceu de tudo ao redor, correndo para o lado do homem que tanto amava. Naquele momento se deu conta que faria qualquer coisa para nunca mais sair do seu lado, mas decidiu que não era um momento apropriado para dizer isso.
— Você está bem? — perguntou se ajoelhando e colocando a mão sobre sua perna machucada.
O homem pulou em um solavanco, se assustando com a voz tão familiar e a tanto tempo não ouvida. Ver a centauro depois de tanto tempo acabou com todas as incertezas que o rondavam desde que ela desapareceu. Puxou a mulher contra seu peito, a abraçando apertado. Não queria saber de mais nada que não fosse tê-la em seus braços.
O abraço lhe deu a coragem que faltava para liderar seu rebanho em uma guerra onde não sabia se queriam sua ajuda ou não. Olhou ao redor encontrando McGonagall os observando com uma expressão engraçada no rosto.
— Minerva — a mulher gritou — Vai uma mãozinha aí? Estamos com você.
A professora assentiu, surpresa. Não estava esperando que os centauros aparecessem para ajudar.
— Centauros! Formação — gritou — Arqueiros tomem suas posições! Curandeiros resgatem os alunos que estiverem feridos! Os demais peguem suas lanças e tomem a linha de frente! Protejam a escola e o maior número de estudantes que conseguirem!
Todos assentiram e tomaram suas posições na batalha. Belnor perguntou se ela precisava de ajuda com o amigo, mas a centauro sabia que ele seria mais útil na linha de frente, então o dispensou.
— E você vem comigo — apontou para o Firenze — Vai ter que me ajudar a te carregar, ok?
Levantou o homem, o apoiou e arrastou o mais rápido que conseguiu até a enfermaria improvisada que fizeram no grande salão. A situação lá estava mais feia do que no resto do castelo. Várias pessoas choravam ao redor de algum corpo no chão e a mulher desviou o olhar para focar no que realmente era importante: evitar que mais pessoas fossem mortas. Se ficasse mais alguns minutos ali dentro, definitivamente desmoronaria. Por isso, deixou o homem na primeira maca improvisada que viu e correu para fora. Chutar a bunda de alguns comensais a deixaria mais satisfeita.
Lutou até estar tão dolorida e cheia de sangue que não saberia mais dizer o que era seu e o que não era. Até que todos os sobreviventes começaram a gritar, felizes, que Harry Potter tinha derrotado Voldemort. Ah sim, naquela altura todos começaram a chamá-lo pelo nome. Teve duas baixas e chorou pelas duas. Eram centauros talentosos que tinham dado a vida para salvar outras e teriam o devido respeito depois de sua morte. prometeu que quando voltassem, plantariam duas árvores em suas homenagens. Seria um bom ritual para o rebanho, um cemitério de árvores.
Madame Pomfrey tinha induzido Firenze a dormir enquanto se recuperava, então ela se ocupou a ajudar com os corpos enquanto o homem não acordava. Pouco depois os elfos domésticos prepararam uma sopa para todos os presentes se recuperarem e ela ajudou a distribuir as refeições.
Estava comendo sua própria tigela de sopa quando foram lhe avisar que Firenze tinha acordado, a fazendo correr imediatamente para a enfermaria. O homem parecia muito melhor e sua perna já estava no lugar. Embora parecesse abatido, continha um sorriso no rosto.
— Eu perdi toda a ação, não foi? — brincou.
— Você sempre deixou o trabalho duro pra mim — ela riu.
Só então o centauro percebeu parecer a quantidade de sangue presente no corpo da mulher, arregalando os olhos.
— Você está ferida? Se machucou? Eu… Madame Pomfrey — gritou.
— Eu estou bem — o tranquilizou — Acho que a maior parte não é meu. Meu ego não permitiria. Ah como é bom te ter de volta — sussurrou passando seus braços pelo pescoço do loiro.
— Pensei que tivesse se esquecido de mim — confessou respirando fundo o cheiro da centauro.
— Pensei em você todas as noites — ela se separou o suficiente para poder passar a mão pela sua bochecha — Não tem como te esquecer.
— E por que não voltou? Como convenceu os centauros a lutar? E por que tinham mulheres sabendo atirar?
gargalhou em meio a todas as perguntas, por um segundo tinha se esquecido que não tinha contado algumas coisas para ele.
— Essa é uma história engraçada — tentou conter o riso, realmente cada vez que falava em voz alta parecia absurdo — Aquele dia que você me mandou tomar o rebanho, eu posso ter levado a sério.
Contou detalhadamente tudo o que tinha acontecido nos últimos anos, recebendo como resposta reações de espanto e gargalhadas desacreditadas.
— Você é incrível! — ele riu novamente — Não existe outra pessoa no mundo que seria capaz de fazer algo assim.
— E agora você está de volta ao bando — respondeu orgulhosa de si mesma.
Mas a expressão de felicidade no rosto do loiro foi rapidamente substituída por tristeza.
— Não precisa deixar Hogwarts — ela se apressou a dizer — Pelo contrário, gostaria de conversar com Hagrid e envolver todos nós em algumas aulas. As crianças vão adorar.
— Não é isso — o homem negou abaixando a cabeça, a insegurança se apoderando dele novamente. Odiava o sentimento mas não conseguia deixá-lo de lado — Por que não me contou? Não confiou em mim o suficiente?
riu, até perceber que ele estava falando realmente sério.
— Pelo contrário — respondeu, erguendo seu rosto delicadamente — Confio em você mais do que qualquer coisa no mundo. Eu não confiei em mim… Se tudo desse errado eu não gostaria que você soubesse que falhei.
O centauro não pensou em mais nada, só fez aquilo que seu coração ardia em vontade de fazer. Puxou em sua direção e colou seus lábios. Assim que a mulher se recuperou do choque, segurou o cabelo do loiro, puxando-os, enquanto aprofundava o beijo. Não sabia que sentia tanta necessidade de beijá-lo até que finalmente o fez. Firenze, desesperado para tê-la cada vez mais, tentou trazê-la o máximo possível para junto dele, enquanto ela decidia que tinha se cansado de seus cabelos e colocava sua atenção em arranhar as costas descobertas do homem.
Pararam ao ouvir McGonagall pigarrear as suas costas.
— Ah, claro — o homem sorriu sem graça — Nos desculpe, diretora.
A mulher assentiu e se retirou, fazendo os dois gargalharem.
— Continuamos isso mais tarde — piscou, o fazendo corar — Enquanto isso vamos arrumar algumas coisas.

Ajudaram os professores com tudo o que podia ser feito em um primeiro momento. cedeu os curandeiros para cuidar dos feridos e cada um dos outros centauros foi fazendo o que podia para as coisas voltarem um pouco ao normal.
Ao amanhecer, quando enfim voltaram para o rebanho, Firenze foi recebido com aplausos e tapinhas nas costas, o que o deixou muito feliz. Embora morasse ali desde sempre, era a primeira vez que sentia que estava em casa no rebanho. Pela tarde, o conselho se reuniu e todos os centauros do rebanho participaram da cerimônia de plantio para os companheiros mortos na guerra.
Tudo estava exatamente como as estrelas previam.



Fim



Nota da autora: Eu me diverti muito escrevendo Under! Queria fazer algo diferente e de certa forma, inspirador. Você pode fazer o que quiser, mesmo que ninguém tenha feito antes. Não se cale diante das injustiças!





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