Última atualização:19/09/2020

Prólogo


27 de setembro de 2005.

O homem de cabelos loiros, bem penteados e cheios de gel bateu na porta de carvalho duas vezes, esperando que a abrissem. Olhava para os lados ansioso, vendo as pessoas que passavam pelo corredor, sem nem mesmo parecerem notá-lo parado ali, esperando.
Todos pareciam ocupados demais com seus próprios afazeres para se importarem com o bruxo “desconhecido”.
Aguardou alguns segundos até levantar o braço para bater mais uma vez, porém não foi necessário.
Harry Potter abriu a porta de seu escritório e encarou o visitante com o cenho franzido, a confusão e surpresa visíveis em seus olhos verdes.
O loiro reparou na pasta laranja que cobria parte do rosto de Potter, o qual parecia cansado, com grandes olheiras e bolsas embaixo dos olhos, a roupa amarrotada e a barba por fazer, o cabelo mais comprido do que o usual.
— Malfoy?
— Preciso falar com você, é urgente.
Draco entrou na sala sem esperar convite, olhando a decoração ao redor; livros e mais livros espalhados pelas estantes e chão, com títulos variados, embora a maior parte, ele notou, fosse voltada para proteção e ataque a criaturas das trevas.
Guias básicos para qualquer Auror.
A sala parecia um tanto empoeirada, com latas de bebidas e pacotes de comida vazias por todos os lados. Malfoy reparou no travesseiro e na coberta no canto, em cima do sofá de três lugares, cartazes de bruxos foragidos estavam pendurados pelas paredes, e fotos antigas espalhadas pelo escritório: em grande maioria, Potter estava junto com .
— Do que precisa?
Potter encostou-se de costas no tampo de sua mesa, cruzando os braços enquanto encarava o visitante que, no momento, segurava um porta-retratos que Harry havia deixado em cima do sofá antes de abrir à porta; na foto em preto e branco, já gasta do tempo, ele e estavam rindo, de braços dados com seus copos de cerveja amanteigada em frente ao Três Vassouras. A garota estava com o rosto sujo com a espuma da bebida e, o Harry da foto, ria enquanto tentava limpá-la, o que a fazia rir mais alto.
O Auror tinha visto tantas e tantas vezes aquela imagem, que parecia tê-la gravado em sua mente, reparava em cada detalhe da foto, querendo voltar no tempo.
Potter lembrava-se com perfeição daquele dia, desejava que pudesse revivê-lo, voltar para aquela época, dizer para ela que já a amava há tanto tempo, e fazer as coisas diferentes. Queria ter aproveitado melhor os anos que tiveram juntos.
Suspirou, chamando a atenção de Malfoy.
Não o via desde o enterro, sete anos antes, mas soube através de Hermione que Draco tinha virado um importante médibruxo do St. Mungus, e que tinha se casado com a namorada que conheceu depois de Hogwarts, uma das enfermeiras do hospital.
— Talvez… — O loiro passou a língua pelos lábios secos, parecia agitado demais, sem conseguir concentrar-se por muito tempo. Mantinha o olhar preso na foto em sua mão, virando-se para encarar Harry vez ou outra. — Acho…
— Precisa dos meus serviços ou não? — Perguntou, cansado — Ainda tenho trabalho a fazer, Malfoy, então…
— Acho que você pode mudar tudo.
— O que? — Perguntou confuso, após alguns instantes — Do que está falando?
Draco suspirou, passando a mão pelos cabelos bem alinhados, antes de tornar a olhar para o homem com a cicatriz em forma de raio.
— Talvez… Você possa voltar… Talvez… Você possa trazê-la de volta, Potter…
— O que…? Quem?
.
Potter colocou-se em pé no mesmo instante, a dor da perda ainda parecia tão recente, ainda estava tão presente em sua vida, que a simples menção do nome dela fazia seu coração apertar.
— O que você quer dizer com isso, Malfoy?
Draco deixou o porta-retratos no sofá, dando passos precisos até o homem de cabelos escuros, encarando-o com certa apreensão.
— O que você quer dizer? Como eu poderia...? — Harry questionou desconfiado, parte de si desesperada por respostas, queria saber se aquilo era mesmo possível, tê-la novamente, mas outra parte de si estava incerta, descrente. Como poderia?
— Eu... — Draco pigarreou antes de continuar, olhando ao redor — Talvez, digamos, que eu tenha escutado alguns rumores...
— Que tipo de rumores? — Questionou-o sério.
Malfoy encarou-o nos olhos por um minuto inteiro, antes de respondê-lo.
— Um Vira-Tempo que ainda não foi destruído.
Harry abriu a boca, negando em seguida.
— Impossível, eu mesmo os vi serem destruídos...
— Estou lhe dizendo, Potter. Tenho quase certeza que é real.
— Quase? Que rumores são esses? Quem o teria?
Draco olhou para baixo por alguns segundos.
— Eu não teria vindo até aqui se não achasse que é uma causa válida, Potter. A pessoa que me contou, não teria motivos para ter mentido.
Potter tornou a cruzar os braços, encostando-se novamente em sua mesa.
— E quem foi que lhe passou essa informação, Malfoy?
— E isso importa? Estou lhe dizendo, Potter. Se for real, você pode trazê-la de volta. Imagino que você queira investigar, não?
Harry passou a língua pelos lábios finos, olhando desconfiado para o outro.
Estava em uma briga interna, queria acreditar em Malfoy, queria que aquela informação fosse real. Precisava que fosse. A simples ideia de poder vê-la mais uma vez fazia seu coração aquecer, era como se ela já estivesse ao seu lado.
Entretanto, tinha a possibilidade de Draco estar armando alguma coisa.
Não sabia se aguentaria outra desilusão como aquela, seria quase como perdê-la novamente.
— Quem foi que lhe deu essa informação, Malfoy?
O loiro suspirou, colocando a mão no bolso da calça social que usava;
— Meu pai, antes de morrer.


1.

Assim que Malfoy deixou sua sala, Potter passou incontáveis horas sentado na mesma posição em sua cadeira de couro; o corpo inclinado para frente, o cotovelo sobre a mesa de mogno, o queixo apoiado na mão fechada em punho. O braço direito esticado, em cima de papéis e recortes de notícias recentes do Profeta Diário, os dedos ainda machucados da última missão, batucando vez ou outra.
O único som que podia ser escutado na sala, já escura devida ao horário, era provido do relógio preso na parede.
O Auror suspirou cansado, tornando a sentar-se direito, sentindo o corpo estalar conforme se mexia. Esticou as pernas, tentando relaxar de alguma forma, as mãos cruzadas sobre sua barriga, enquanto pendia a cabeça para trás, o olhar perdido no teto escuro de seu escritório no Ministério. Deixou um bocejo passar por sua boca e levou a mão até o rosto, coçando os olhos verdes por baixo dos óculos de aros pretos, sentindo a pasta alaranjada que sempre esquecia-se de estar presente em seu rosto, queimado há quase uma semana.
Potter precisava de respostas para suas perguntas.
Precisava saber se Draco Malfoy falava sério.
Seria possível? Talvez…
Suspirou frustrado, limpando a mão suja em um pedaço de guardanapo que encontrou na gaveta.
Não tinha ideia do que deveria fazer.
Ou melhor, não sabia se tinha coragem para fazê-lo;
Seu cérebro o mandava averiguar a história, descobrir se o boato era real.
Ao mesmo tempo em que sua mente o alertava que, se a história fosse verdadeira, um sinal vermelho apitava;
Mesmo sendo real, Potter não deveria mexer com o tempo!
Não poderia usar o Vira-Tempo para trazer alguém de volta.
Aquilo era perigoso e errado.
Não sabia quais poderiam ser as consequências de seus atos, mas tinha certeza que seriam grandes.
Não era sobre voltar apenas algumas horas, era voltar sete anos no tempo…
Tanto tinha mudado durante aqueles anos…
Quantos iriam sofrer se ele realmente fizesse aquilo que seu coração mandava?
Harry pensou com cuidado no número de pessoas que estavam diretamente envolvidas com aquilo;
Ele, Hermione, Rony, Draco, Andrômeda e o pequeno Teddy (que já sofria com um padrinho pouco presente). Essas eram as pessoas mais próximas de , e seriam as mais afetadas caso ele fizesse alguma coisa.
Mas, ao mesmo tempo, tinha certeza que todas concordariam.
Com exceção de Mione, que embora sentisse falta da amiga, jamais aceitaria participar daquilo.
Andrômeda continuava a sofrer por ter perdido Dora e na mesma noite, Harry sabia, percebia todas as vezes que passava para buscar o afilhado.
Andy ficaria feliz se estivesse ali… Mas a mulher não sabia que tinha sido a sobrinha a responsável por matar sua filha…
Potter respirou fundo, tornando a curvar-se sobre a mesa, encostando os cotovelos na mesma e passando as mãos no rosto, espalhando a pasta gosmenta até seus cabelos.
Retirou os óculos deixando-os de lado, estava cansado.
Extremamente esgotado, e não apenas pelo trabalho.
Não era um cansaço físico, era emocional.

O homem sabia que deveria deixar aquela história de lado, mesmo que o Vira-Tempo existisse. O máximo que deveria fazer, o que era certo a se fazer, seria recuperar o objeto para que não caísse em mãos erradas.
Era sua obrigação como Chefe da Seção dos Aurores.
Se Quim Schacklebolt descobrisse que Potter tinha essa informação e não fez nada a respeito, o Auror estaria com sérios problemas, e o Ministro já tinha o ajudado vezes demais nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, Harry achava que as mãos erradas poderiam ser as dele.
Por menor que fosse a possibilidade de conseguir, sentia seu coração apertar com a simples ideia de poder vê-la novamente.
Não sabia se conseguiria destruir o objeto se o recuperasse.
Potter não deveria mexer com o tempo, aquilo acabaria prejudicando alguém, talvez machucando ou matando uma pessoa inocente, mas ao mesmo tempo que tentava pensar racionalmente, sua frustração aumentava e o coração pesava.
Por que ele sempre tinha que pensar no bem-estar dos outros, quando ninguém parecia fazer o mesmo por ele?
Todos estavam muito bem.
Rony e Mione estavam casados, planejando aumentar a família.
Draco tinha uma carreira ótima no St. Mungus, embora ainda fosse julgado pelos erros dos pais e os dele próprio.
Andy sofria, mas tinha Ted ao seu lado, o qual também sentia a ausência dos pais, mas era feliz vivendo com sua avó, e passando algum tempo com o padrinho nos finais de semana.

Sua mente parecia vagar por todos os rostos conhecidos e, rapidamente, o lembrando do quão bem todos pareciam estar. Todos menos ele.
Sentia como se sempre fosse sua obrigação ter que se sacrificar para o bem dos outros.
Quantas pessoas tinha perdido em seus vinte e cinco anos de vida?
Seus pais.
Seu padrinho.
Seus amigos.
Sua garota.
Por que tinha a sensação de que só ele não deveria ser feliz?
Seu coração pesava sempre que lembrava que todos conseguiram seguir em frente, menos ele.
Sabia o quanto soava egoísta ao pensar naquilo, mas naquele momento não conseguia evitar;
Só ele deveria permanecer sozinho, arriscando-se para o bem de outras pessoas, quando ele próprio estava se afundando em suas memórias e luto?
Um luto que já durava sete anos e simplesmente não passava.
Não conseguia esquecer-se, e só ele sabia o quanto havia tentado.

Potter queria seguir em frente, sair com outras pessoas, divertir-se, mas estava preso nas lembranças. Preso em sua própria mente, com sua ideia de felicidade, a qual ele nunca alcançou.
Potter era o único que permaneceu sozinho, solitário.
Dedicou-se única e exclusivamente a sua carreira como Auror com o passar dos anos, achando um meio de esquecer-se dos problemas, mesmo que momentaneamente.
A adrenalina de cada missão era o suficiente para fazer-lhe esquecer de tudo o que tinha perdido na Batalha de Hogwarts, mas não o ajudava quando deitava-se a noite.
Não importava o quanto estava cansado ou machucado, ficava horas acordado, imaginando o que podia ter feito de diferente, o que teria mudado em sua vida se não tivesse morrido.
Tentou por meses imaginar que as coisas não dariam certo entre eles, que mesmo se tivesse sobrevivido, Potter e Black não estariam juntos.
Algo aconteceria e eles estariam separados.
Seguiriam caminhos diferentes, conheceriam pessoas aleatórias.
Contudo, nem imaginar que nunca mais se falariam era suficiente, porque sabia que isso não aconteceria.
não era apenas a mulher que ele amava com todo seu coração, ela também era sua melhor amiga, foi a melhor que ele teve em sua vida. E Potter sabia que, mesmo que não estivessem juntos, casados como Rony e Hermione, eles continuariam sendo amigos.
Porque mesmo no quarto ano, quando ela estava com Cedrico, ele ainda a queria por perto. Mesmo que estivesse com ciúmes de Diggory, ainda priorizava a felicidade dela e a amizade que tinham.
E ele também sentia muita falta daquilo.
Sentia falta de ter a garota ao seu lado, escutando-o e o aconselhando.
Sentia falta das brincadeiras, dos abraços e até das brigas.
Potter queria tê-la novamente ao seu lado de alguma forma, não importava como.
E foi enquanto olhava para o porta-retratos em cima de sua mesa, com uma fotos dos dois com seus uniformes da Grifinória, comemorando a vitória da Taça de Quadribol, que Harry Potter tomou sua decisão;
Ele descobriria se o Vira-Tempo existia, ele descobriria se o boato era real.
Não importavam as consequências, Potter teria ela de volta.

2.

02 de outubro de 2005.

Draco Malfoy já retirava seu jaleco branco, pendurando-o no gancho atrás da porta de seu consultório no St. Mungus, quando ouviu uma leve batida na janela. Ao olhar para o local, viu uma coruja parda pousando no parapeito. Com o cenho franzido em confusão, Malfoy andou até a mesma, ninguém lhe mandava corujas no hospital, mas poderia ser importante. Abriu a janela em tempo de ver a ave esticar a pata, para que o bruxo soltasse o pergaminho amassado. A letra corrida e as poucas palavras ali escritas, fizeram-no notar a urgência do bilhete;

“The Cock Tavern. Mare Street, Hackney. 7h30pm.
H.P.”

Draco olhou para o relógio em sua mesa, tinha apenas dez minutos para chegar ao local, no horário marcado. Pegou sua maleta preta e seu casaco marrom, saindo de seu consultório logo depois. Despediu-se de Frank, o segurança, e parou em frente a saída para o mundo trouxa, sentindo o vento gelado atingir seu rosto, despenteando-o levemente. Fechou os olhos e pensou, por um breve segundo, no endereço que deveria ir, antes de sentir o ar faltar momentaneamente em seus pulmões...
Ao abrir os olhos, Malfoy notou que estava numa região residencial, lotada de Trouxas indo e vindo pelas ruas londrinas, conversando com aparelhos pequenos, próximos ao ouvido, falando com outros Trouxas ou, em vários casos Draco pode perceber, com pequenos fios presos em suas orelhas. Ignoravam a movimentação ao redor, ocupados demais com seus problemas para notarem o homem de cabelos loiros e bem alinhados, que tinha acabado de aparatar na calçada.
Suspirou ao notar que o lugar que Potter tinha marcado se tratava de um pub trouxa, extremamente cheio pelo happy hour.
Um tanto frustrado pela escolha do outro, Draco girou nos calcanhares, andando até a entrada do estabelecimento, respirou fundo quando abriu a porta e escutou as vozes altas, alegres.
Não pode deixar de fazer uma careta quando um trouxa de terno esbarrou em seu ombro, derrubando um pouco de sua bebida no chão de madeira. Rolou os olhos tentando andar pelo lugar cheio, virando a cabeça vez ou outra para os lados, tentando encontrar o Auror.
Harry Potter estava sentado em um banco junto do balcão de atendimento, do lado mais afastado do estabelecimento, próximo à entrada da cozinha, na qual os garçons entravam e saíam com os aperitivos que serviam.
— De todos os lugares, precisava ser aqui? — Foi a primeira coisa que Harry ouviu quando o loiro se aproximou, sentando na banqueta ao seu lado, deixando a maleta no chão próximo a seus pés.
— É seguro, — Potter explicou, dando de ombros — e não é um bar ruim.
Draco suspirou, só então reparando no copo que o homem tinha em mãos, com uma bebida de cor escura. Harry chamou a atenção do barman próximo a eles, fazendo um sinal com a mão e pedindo a mesma coisa para o recém-chegado, sendo atendido menos de um minuto depois. Malfoy encarou com certo desprezo a bebida que lhe foi entregue, fazendo Potter revirar os olhos, entediado.
— Experimente, não é tão forte quanto Uísque de Fogo, mas é bom…
Draco sentiu a garganta arder assim que o líquido desceu por ela, não era de todo ruim, mas Harry estava certo, não era tão forte quanto a bebida bruxa.
Permaneceram em silêncio por alguns minutos, enquanto ambos terminavam a dose que tinham em seus copos, e o Auror pediu mais duas para o barman, junto com um aperitivo qualquer.
Malfoy notou que ele parecia mais nervoso e estressado do que se lembrava dos anos em Hogwarts, e tão cansado quanto no dia que o procurou no Ministério, mas não tinha mais as marcas e as manchas laranjas de pomada em seu rosto, entretanto, agora tinha uma atadura na mão direita, com uma pequena mancha de sangue seco. Se sentiu levemente curioso sobre o que teria acontecido, e chegou a pegar fôlego para perguntar, desistindo logo depois; Potter não era seu amigo, era apenas um conhecido de uma época da qual, em grande parte, Draco tentava se esquecer.
Seus anos em Hogwarts não foram bons, embora tivesse certo apreço pela Escola.
Diferente de Potter, Draco não teve bons amigos durante aqueles anos, nem tinha agora.
Não eram muitos os momentos os quais Malfoy considerava memoráveis durante seus anos de estudo.
— Eu estive pensando… — Potter começou com a voz baixa, fazendo Draco deixar de pensar nos próprios problemas, prestando atenção no que o outro dizia — Se o que você disse é verdade… — passou a língua pelos lábios, escolhendo com cuidado as palavras — Quem mais sabe sobre o Vira-Tempo? — Encarou-o de lado.
Malfoy deu de ombros, sentindo-se cansado pelo dia agitado que teve no hospital.
— Não muitos, imagino. Nott não seria burro de sair dizendo essas coisas para qualquer um… E pelo o que me lembro, Theodore era bem distante nos tempos de Escola, não socializava com ninguém… Estava sempre em um canto, lendo ou estudando… Julgando todos os outros…
Harry chegou a abrir a boca para replicar aquele último comentário, mas não quis se indispor com Draco no momento, era o único que poderia ajudá-lo.
— Por que? Achei que ele seria do seu grupo, não? Na época… O pai dele era um Comensal, voltou para o lado de Voldemort quando ele retornou…
— Você quer mesmo falar disso, aqui?
Potter abanou a mão com a bandagem no ar.
— É por isso que eu digo que aqui é seguro, os Trouxas não estão nem aí para nossa conversa, — mas, apenas por garantia, Harry colocou a mão no bolso interno do casaco que usava, retirando sua varinha e sussurrando abaffiato, voltando à posição anterior no instante seguinte, virando o whisky que restava em seu copo. — Pronto, agora eles definitivamente não vão ouvir nada! — assegurou-lhe, cruzando os braços no balcão e tornando a encarar o loiro — Continuando… Por que ele estava sempre tão distante?
— E eu sei? — Malfoy respondeu friamente, olhando para o conteúdo em seu copo — Não existia um grupo “Filhos de Comensais” para conversarmos sobre Voldemort ou qualquer outra coisa, não era próximo da maioria deles.
Harry concordou com um aceno, ao mesmo tempo que mexia a língua contra seu dente, tirando um pequeno pedaço de amendoim que estava preso. Esfregou uma mão na outra, limpando-as do sal enquanto se endireitava em seu banco.
— Tudo bem, desculpe — pediu ao notar o desconforto de Draco— , de qualquer forma… Como seu pai soube disso?
— Não faço ideia. — Respondeu simplesmente, dando de ombros e virando sua bebida, sinalizou para o barman, pedindo por mais uma rodada. Potter estava certo, não era tão ruim. — Ele me disse no hospital, estava delirando sobre algumas coisas — comentou sério, continuando apenas quando receberam suas bebidas. Harry permaneceu em silêncio, olhando-o de canto enquanto o homem parecia desabafar — falando coisas desconexas… contando alguns segredos… Parecia arrependido… — suspirou levando o copo até os lábios, porém sem virá-lo — Pedia desculpas o tempo todo… — Draco virou o copo, tomando o conteúdo de uma só vez — Foi quando ele falou que Nott tinha um Vira-Tempo, e que eu sabia o que isso significava.
Potter franziu o cenho, encarando-o em seguida.
— Como assim?
Draco passou a mão pela boca, limpando os resíduos da bebida, antes de inclinar-se ligeiramente, virando-se para o outro.
— Eu não era como você, Potter, eu não tinha três amigos ao meu redor, me protegendo o tempo todo, ou me ajudando…
— Crabbe e Goy…
Malfoy negou com um aceno.
— Não era assim que funcionava, andávamos juntos e isso é tudo. Você tinha Granger, Weasley e Black. — Os dois se encararam por alguns instantes, antes de Draco concluir seu raciocínio — Você sabia que nós éramos amigos antes de Hogwarts? e eu?
Harry abriu a boca surpreso, negando com a cabeça.
— Eu sabia que vocês se conheciam, ela até mencionou algo sobre terem se visto quando eram novos, mas sempre achei que era por serem da mesma família.
Draco concordou com um aceno, sorrindo triste.
— Não durou muito, foi apenas um verão. Nos encontramos em um parque, não sabíamos nossos sobrenomes na época… Éramos apenas duas crianças brincando nas férias… Ela foi a primeira criança bruxa que eu conheci que não tinha qualquer relação com os Comensais amigos dos meus pais…
— O que foi que aconteceu? — Perguntou interessado, quando o loiro tornou a olhar para frente, encarando alguns Trouxas que conversavam em voz alta, do outro lado do balcão.
— Eventualmente eles descobriram, é claro, meus pais, Andrômeda e Ted. Minha mãe parou de me levar naquele parque, para que eu não a encontrasse mais… — Draco suspirou, lembrando-se do acontecido — Não deu muito certo, continuamos mandando corujas por algum tempo, até meus pais descobrirem…

O pequeno Draco olhava emburrado para seus pais, os braços cruzados e os cabelos loiros sobre os olhos, sentado em sua cama, ignorando o que lhe falavam. Recusava-se a sair de seu quarto.
— Não vou comer, não vou fazer nada! Eu quero ir brincar com ela!
— Draco, você está proibido. Se eu ou sua mãe encontrarmos outra coruja….
— Não é minha culpa se vocês brigaram. Ela é legal! — protestou irritado, o rosto pálido estava vermelho de raiva.
— Ela está no lado errado da família, Draco…
— Não me importa, ela é minha prima, ela é minha amiga!
— Eu estou avisando, Draco, e por via das dúvidas, você está de castigo! — Lúcio avisou-lhe, antes de dar as costas e sair do quarto do filho, não reparando nas lágrimas que caiam pelo rosto magro do garoto.


— Se vocês não queriam deixar de conversar… Como chegaram ao ponto de quase se odiarem em Hogwarts? — O Auror questionou confuso, nunca tinha lhe contado sobre qualquer interação amigável com Draco, sempre que falava sobre o primo, era com raiva e certo desprezo, a mesma forma que Malfoy se referia a garota quando se encontravam pelos corredores.
O loiro riu baixo, parecendo triste.
— Nós dois descobrimos o que aconteceu, não é? Logo depois minha mãe me contou o motivo de não falar mais com Andrômeda, e também ficou sabendo... Não acho que ela sabia que os pais estavam em Azkaban na época… De qualquer forma, nos encontramos meses depois no Beco Diagonal… — Draco sorriu tristemente, lembrava-se com exatidão daquele dia — Você deve ter reparado no olhar de desprezo que ela tinha, não? — Virou-se para Harry, com a sobrancelha arqueada.
Potter concordou em meio a um suspiro, lembrava-se das semanas que passaram sem se falar durante o terceiro ano e a forma como ela o encarava, sabia muito bem ao que Draco se referia.
— Parece ser algo que ela puxou de Sirius… — Comentou em voz baixa, antes de pedir mais uma bebida.
— Talvez… Não o conheci… — Deu de ombros, não se importando muito com a comparação.
— Enfim, — Harry tornou a olhar para Draco, momentaneamente confuso com o rumo da conversa —, vocês começaram a se detestar por causa dos problemas familiares, okay. Mas o que isso tem a ver com ela ser minha amiga, com o Vira-Tempo e com o que seu pai disse?
Draco arqueou as sobrancelhas, irônico.
Amiga, Potter?
O Auror o olhou por alguns segundos, dando de ombros.
— Você me entendeu…
Draco riu levemente, tomando mais um gole de seu whisky.
— Bem, você sempre teve alguém te dando apoio, não é? Eu não tive isso na Escola, nem em qualquer outro momento… — Comentou em voz baixa — Mas… Nos reaproximamos durante os meses em que ela esteve na minha casa…
— Por isso você a ajudou com as lembranças…
— Exato. — Malfoy parecia desconfortável com o que estava dizendo, parecia discutir com ele mesmo sobre o que dizia, se era necessário, por fim, com um longo suspiro, terminou sua frase — Digamos que… Por duas vezes, ela foi o mais próximo que eu tive de um amigo…
Harry fez um barulho com a boca, inclinando-se sobre o balcão, cruzando os braços e os apoiando na madeira escura. Não sabia direito o que dizer naquele momento, em sua mente, a conversa que teria com Draco era toda focada no Vira-Tempo e em como poderia recuperá-lo, não imaginou, nem por um instante, que Malfoy compartilharia com ele coisas tão pessoais.
— E você quer ajudá-la… — Completou em voz baixa, tão desconfortável quanto o outro.
O loiro apenas concordou com um aceno, não respondendo nada além disso, perdido nos próprios pensamentos.

Harry coçou a barba rala com a mão esquerda, apoiando o queixo na mesma pouco depois. Potter queria dizer mais alguma coisa, mas não se sentia confortável o suficiente para isso, não sabia o que poderia falar para tentar amenizar um pouco do clima que se instalou entre eles.
Lembrava-se de trocar poucas palavras com o outro no enterro, Draco parecia genuinamente triste aquele dia. Antes de ir embora, Malfoy aproximou-se de Harry, apertando-lhe a mão e dizendo que sentia muito.
Aquela foi a última vez que se viram durante anos, Potter sabia o mínimo de Malfoy por dois motivos; primeiro porque Draco não era alguém próximo, e segundo, porque Harry dedicou tempo demais na carreira, para conseguir a vaga de Auror no Ministério.
Passou os dois primeiros anos tendo o mínimo de contato com as pessoas que conhecia, o único que viu com frequência foi Rony, somente porque o amigo também estava tentando uma vaga, e passou pelos mesmos treinamentos que Potter.
A única pessoa que Harry enviou cartas durante aqueles anos foi Andrômeda, para saber se estava tudo bem com ela e o pequeno Ted.
Depois de entrar no Ministério e voltar a socializar, Hermione ficou dias sem querer vê-lo, com raiva por seu comportamento. Harry nunca a culpou por isso, sabia que ela estava certa.
Draco, embora Potter não soubesse, também teve vários problemas para lidar, principalmente por suas atitudes de antes e durante a Segunda Guerra, e pela Marca Negra que carregava no braço;
Malfoy ignorava os rumores e os comentários, mas sempre carregava aquilo consigo, independente do lugar que estava. Contudo, diferente de Potter, Draco conseguiu encontrar alguém que o fazia feliz, que se importava com ele e não dava atenção ao falatório: Astoria Greengrass, uma corvina que esteve em Hogwarts durante o mesmo tempo que Draco.
Malfoy não se lembrava da namorada nos tempos de Escola, nem mesmo lembrava-se de tê-la visto no Castelo, embora Astoria se lembrasse dele. A mulher ainda fazia piadas sobre o jeito arrogante que o namorado tinha durante aquele tempo, e era a única pessoa que não o incomodava com o assunto.

Draco então virou-se para Potter, aprumando-se no banco, arrumando a postura para o assunto que começaria;
— O que pretende fazer?
O assunto anterior estava encerrado, Harry notou a seriedade do outro, era quase como se não tivessem passado os últimos minutos relembrando coisas do passado, problemas que Draco tinha e Potter não sabia. Deu de ombros, segurando o copo com sua mão enfaixada;
— Não faço ideia. Parte de mim quer invadir a casa de Nott e recuperar o Vira-Tempo, usá-lo para voltar e salvar , e, sendo sincero, é a parte que eu quero seguir. Porém,… — Suspirou olhando para as próprias mãos. — São sete anos, Malfoy. Sete anos em que muita coisa mudou.
— Nem tanto para você, pelo que posso ver…
— O que quer dizer?
— Você continua sendo um tanto patético, não? — Virou-se para encarar os olhos verdes do Auror, vendo-o arquear as sobrancelhas — Acho que era uma das coisas que mais me irritava em você… Sempre esse ar de bom moço, o herói. Sempre fazendo o que era certo para os outros. — Draco tornou a olhar para frente, embora notasse a atenção que Potter lhe dava. — Te contei sobre o Vira-Tempo porque achei que você faria algo sobre isso, que a traria de volta, pelo visto só perdi meu tempo, não?
— Eu quero. — Harry ignorou boa parte dos comentários de Draco, atentando-se apenas a frase final — Mas eu também tenho noção do que pode acontecer se…
— Acontecer com os outros? — Malfoy replicou, sério — Pelo o que eu vi no seu escritório, você só não está desempregado porque deve ser um bom Auror e, principalmente, por ser o grande Harry Potter, O Eleito, Aquele que Venceu o Lorde das Trevas, ou qualquer outra coisa que te chamem hoje em dia… — rolou os olhos, entediado — Não vejo você fazendo muito por si mesmo, huh? Posso não ser a melhor pessoa para te dizer isso, Potter, mas você está um lixo.
— Obrigado. — Respondeu ironicamente, embora concordasse com o que ele falava.
— Estou falando sério, só precisei te ver duas vezes para ter certeza que você está acabado, e pelo o que estou vendo, a tendência é só piorar, não é?
Harry permaneceu em silêncio, fingindo ignorar o que o outro dizia.
— E vai fazer o que a respeito? Tentar salvar sua “amiga” e tentar recuperar um pouco da vida que você nunca teve, ou vai deixar tudo como está, porque você é covarde?
Draco reparou quando Potter fechou a mão em punho, provavelmente com raiva do que ele tinha dito, sorriu de lado.
— Você não sabe o que está dizendo…
— Não? Desculpe, devo ter interpretado errado todas aquelas garrafas de hidromel e Uísque de Fogo vazias em seu escritório, ou talvez tenha sido o fato de você dormir lá, ao invés de ir para sua casa… Ou quem sabe ter dezenas de fotos da espalhadas pelo lugar?
Potter bateu com força no balcão, ficando em pé no instante seguinte, a raiva o atingindo em cheio.
Quando tornou a olhar para Draco, que não parecia nem um pouco abalado com o movimento repentino, notou que a raiva que sentia não era do bruxo, ou do que ele tinha dito, mas saber que era verdade.
Harry Potter passou a última semana na certeza de que recuperaria o Vira-Tempo e o usaria, que a teria de volta, durante a missão que estava, (para capturar um grupo de bruxos que estavam começando a mexer com força das trevas e matando trouxas), ficou imaginando como seria se já estivesse com ele.
Pensou tanto no assunto, e surpreendeu-se quando notou que não sabia o que a mulher faria; talvez ela virasse Auror, assim como ele, Harry achava que sim, mas não sabia.
Nunca conversaram sobre isso nos anos que estiveram juntos. Talvez eles estivessem casados, como Rony e Hermione, no fundo Potter desejava que sim. Que, apesar da mulher trabalhar no Ministério ou em qualquer outro lugar, ela estaria em casa, esperando-o quando retornasse de uma missão. E, se eles trabalhassem juntos… Bem, Harry não tinha tanta certeza se gostaria de saber que ela estaria em perigo em todas as missões, mas ele estaria ao seu lado para garantir que ela estivesse a salvo, embora achasse que era muito provável que ela o salvasse vez ou outra.
Potter queria tê-la ao seu lado, era o que mais desejava, queria tê-la em sua vida novamente, mas ao mesmo tempo tinha medo. Draco estava certo, Harry era covarde.
Tinha medo do que aconteceria se voltasse no tempo, se a salvasse.
Em parte pensando nos outros, porém isso não era tudo…
— Está errado, não é por pensar nos outros…
Malfoy arqueou a sobrancelha, confuso.
— Talvez, em partes, seja, mas… — Harry respirou fundo, voltando a se sentar — O que aconteceria com ela, Draco? — Passou a mão pelo rosto, cansado — Como ela reagiria quando soubesse?
— Você pensa em contar? — O médico questionou surpreso.
— É o correto… Além do mais… Ela vai ficar confusa, as memórias dela…
— Potter, se você voltar no tempo, vai mudar tudo. Não vai precisar recriar memórias, vai acontecer naturalmente, porque vai mudar eventos desses sete anos. Ela não vai saber que morreu e que você voltou, nem nada disso, porque não vai acontecer. Ninguém mais além de nós dois vai saber disso. Você vai mudar o rumo das coisas.
Harry concordou, sabendo de tudo isso.
— Eu me refiro as memórias de quando ela esteve com Voldemort. Draco, ela matou a Ninfadora, Andrômeda não sabe disso, eu nunca contei…
Malfoy ficou em silêncio por alguns instantes, aos poucos compreendendo ao que ele se referia, por fim deu de ombros, tornando a olhar para o homem com a cicatriz na testa.
— Você tem que escolher Potter; passar o resto da vida pensando em algo que não vai acontecer, porque ela não está aqui, ou voltar no tempo e lidar com as consequências que poderão acontecer com isso. Eu, honestamente, não acho que vá mudar muita coisa. Talvez Andrômeda descubra que matou Ninfadora, mas… Ela vai perdoar com o tempo, não? Quer dizer, a garota estava confusa. Não fez intencionalmente. — Lembrou-o — De qualquer jeito, já fiz minha parte te contando o que eu sei, agora é você quem decide o próximo passo, Potter. — Levantou-se, pegando a maleta no chão, acenou com a cabeça antes de virar-se, pronto para deixar o lugar.
— Eu não posso ir sozinho.
Draco parou, tornando a fitá-lo.
— Eu preciso formalizar uma missão, não posso simplesmente roubar o Vira-Tempo. Precisarei de alguns dias para recuperá-lo.
Malfoy encarou os olhos verdes de Harry, a expressão séria do Auror, determinada.
— Parece que você vai conseguir sua namorada de volta, Potter… — sorriu levemente antes de esticar o braço para o outro, Harry o encarou por um segundo, antes de retribuir o aperto de mão. — Eu posso te ajudar nisso.

3.

15 de outubro de 2005.
Potter apontou a varinha para a fechadura, ouvindo um pequeno clique em seguida. Sinalizou para os bruxos próximos a ele, antes de colocar a mão na maçaneta, abrindo a porta devagar. A casa estava em completa escuridão, e a única fonte de luz vinha das pontas das varinhas dos seis Aurores que seguiram Harry Potter pelo local. Após o mesmo sinalizar com a cabeça, os bruxos invadiram a casa procurando por Theodore Nott em cada cômodo, em cada possível esconderijo, mas nada encontraram.
— Muito bem, vamos virar essa casa para baixo, mas não sairemos daqui sem aquele Vira-Tempo! — Potter ordenou, olhando para cada membro de seu grupo, antes de seguir escada acima para procurar ele mesmo. Os Aurores separaram-se, dois subiram para o segundo andar junto com Harry, entrando em um quarto, enquanto o líder entrava no quarto de Nott.
O lugar estava extremamente organizado, mas não foi necessário muito tempo para Potter revirá-lo, após tentar convocar o objeto com o Accio, o qual ele teve certeza que não funcionaria, Harry começou a puxar gavetas, jogando tudo para os lados, não se importando com a bagunça que estava fazendo.
Trinta minutos depois todos tornaram a encontrar-se na sala no primeiro andar, todos parecendo decepcionados ao não encontrarem o objeto que precisavam, principalmente ao notarem o desespero estampado no rosto do Chefe.
— Nada? — Pediu com a voz quase falha, seu coração batendo acelerado — Okay. Encontrem Nott, custe o que custar, quero Theodore na minha sala até o final da semana. Entendidos?
— Sim, senhor!
— Dispensar.
Logo os bruxos saíram da casa, aparatando para qualquer outro lugar. Potter olhou uma última vez em cada cômodo, com medo que tivessem deixado algo escapar, ao constatar que não tinha nada ali, saiu da casa, não se importando com a bagunça que tinha deixado.

Hermione abriu a porta sorridente, mas logo o cenho franziu em confusão ao ver quem estava parado ao lado de Harry.
— Malfoy?
— Boa noite. — Disseram os dois, entrando na casa assim que Granger deu-lhes espaço.
— Desculpe, mas, estou confusa, desde quando vocês são amigos?
— Não somos! — Tornaram mais uma vez em uníssono.
— Draco está me ajudando com alguns assuntos, lembrei-me de última hora do jantar… Desculpe…
Granger concordou com um aceno, aceitando a garrafa de Uísque de Fogo que Potter lhe estendeu.
— Podem ir sentando-se, vou colocar mais um lugar na mesa… O assado está quase pronto, não sei se está muito bom, a receita é da Molly, mas… Bem… — Deu de ombros, parecendo levemente nervosa.
Malfoy reparou que Hermione não tinha a mesma pose mandona de quando estava em Hogwarts, ou como das poucas vezes que a encontrou quando precisou ir ao Ministério para resolver algum assunto. Tentava de alguma forma agir como uma pessoa comum, apenas cuidar de casa e o que fosse necessário.
A residência estava muito bem arrumada, era grande e espaçosa, os móveis não pareciam ser dos mais caros, mas bonitos.
Draco acompanhou Potter até a sala de jantar, sentando-se em um dos lugares vagos na mesa de seis lugares.
— E o Rony? — Harry perguntou ao sentar-se, não vendo o ruivo em lugar algum da casa.
— Já deve estar chegando, precisou fazer alguma coisa na loja! — Gritou a mulher da cozinha.
— Nunca entendi o motivo dele ter largado o cargo de Auror, depois de precisarem de tanto tempo para entrar… — Draco comentou displicente, ainda olhando a decoração do lugar.
Potter deu de ombros, não parecendo importar-se.
— É difícil entrar, mas é ainda mais difícil permanecer. — contou, vendo Hermione voltar com a garrafa e três taças em mãos.
— Não achei que os Aurores teriam tanto trabalho… Quer dizer, depois de um ou dois anos… — Malfoy comento aceitando a taça que Hermione lhe oferecia.
— Para ser sincera eu também não esperava, achei que seria uma profissão praticamente extinta, a maioria dos Comensais ou morreram na Batalha de Hogwarts ou estão em Azkaban… — Mione concordou, sentando-se de frente para os dois.
— Sempre aparece algum seguidor ou algum outro bruxo querendo assumir o posto de Lorde das Trevas. — Harry deu de ombros antes de tomar um gole de sua bebida — Rony deixou seu cargo para ajudar Jorge com a loja, e, ainda acho que teve algo a ver com Hermione! — Potter acusou, olhando-a brevemente. A mulher rolou os olhos.
— Eu não disse nada. Rony acordava no meio da noite, suando e gritando, tendo pesadelos com coisas que não dizia o que eram… — respondeu mal-humorada — Nunca disse para ele largar o emprego, mas também não nego que fiquei bastante satisfeita quando ele pediu demissão.
Harry sorriu de lado, tomando mais um gole da bebida que Mione serviu, Draco não pareceu se importar muito.
Logo puxaram outro assunto aleatório, enquanto Rony não aparecia para o jantar.
Quando o ruivo finalmente apareceu, embora tentasse parecer okay com a presença de Malfoy, não conseguiu fingir muito bem a surpresa ao encontrá-lo em sua casa.
Não sabia o que mais o incomodava no momento na presença do loiro: Lembrar-se dos tempos de Hogwarts, no qual Malfoy sempre foi um tipo de pesadelo em sua vida, ou o loiro estar com seu melhor amigo, e Rony não ter a mínima ideia do motivo.
Jantaram em silêncio por algum tempo, vez ou outra os homens elogiavam a comida, o que deixava a bruxa agradecida.
Foi só ao terminarem de comer, quando todos espalharam-se entre o sofá grande e as poltronas na sala de estar, que Hermione puxou o assunto que realmente interessava;
O que vocês estão fazendo juntos?
Harry e Draco se olharam por breves segundos, antes do Auror começar a responder;
— Draco… Veio ao meu escritório há algumas semanas, com… Uma notícia, interessante… — virou-se para a amiga — Ouviu falar sobre um último Vira-Tempo, não?
A mulher concordou com um aceno, subitamente interessada no assunto.
— Bem… Fiz uma busca hoje com os Aurores, até o momento não encontramos nada… — Suspirou cansado, retirando os óculos para limpá-los na camisa branca que usava por baixo do colete preto.
— Não entendi… — Rony começou — Quer dizer, é legal recuperar o Vira-Tempo, claro, mas o que tem de importante nisso? Era essa a notícia que Malfoy deu?
Draco mexeu-se desconfortável em seu lugar, passando a língua pelos lábios finos antes de começar a respondê-lo;
— Digamos que… Se Potter recuperar o Vira-Tempo… Talvez…
Nenhum dos dois completou a frase, Weasley continuou sem entender o que acontecia, olhando de um para o outro, mas Granger chegou mais rápido do que os dois esperavam na resposta.
— Vocês… Não! Harry, você não pode!
Potter a olhou por longos segundos.
— O que ele não pode? — Rony tornou intrigado.
— Harry quer voltar no tempo, — começou a esposa, ainda mantendo contato visual com o amigo — você não pode Harry… Sabe as consequências!
Voltar para quê?
Malfoy rolou os olhos, impaciente com a lerdeza do ruivo.
— Vamos trazer de volta.
Weasley abriu a boca, olhando surpreso para Draco, e então virando-se para Potter. O choque logo deu espaço para uma pontada de ciúmes; Harry estava pensando em voltar no tempo e não tinha o chamado para isso? Iria com Draco Malfoy? Por que?
— Vocês não podem! — Hermione exasperou-se, levantando-se nervosa — É uma ideia idiota, Harry, sabe disso.
Potter também levantou-se nervoso, começando a falar mais alto.
— E o que você sugere que eu faça? Continue vivendo essa merda de vida que eu levo desde sempre? Porque, eu não sei se você percebeu Mione, mas eu sou o único que continua na mesma merda de anos atrás. Continuo tão mal quanto na época que morava com os Dursley!
Hermione abriu a boca para responder-lhe, mas o Auror não deixou que ela falasse.
— Você está muito bem não é? Casou com o Rony, tem um cargo bom no Ministério, vai ter uma família. Todos os seus sonhos se realizando, não? E os meus, Hermione? E a minha vida? E a minha família? Eu sou o único que pode sempre perder tudo? Eu sou o único que pode ficar sozinho e tudo bem? O importante são os outros estarem bem, não é? Estarem felizes?
— Eu não quis… Harry…
— O que? Você não sabia? Não percebeu? Achou que eu estava feliz nos últimos anos? Que estou bem? Contente com a vida que eu tenho?
Rony levantou-se também, embora não soubesse o que fazer, apenas não gostava da ideia de Harry gritando com Hermione. Draco continuou sentado, o queixo apoiado na mão sobre o braço da poltrona, achando minimamente divertido ver aquela briga. Nunca imaginou ver Potter estourar daquele jeito, ainda mais com Hermione.
— Se me permite… — começou o loiro, atraindo o olhar dos três — Não que eu me importe muito, mas Potter está bem perto de ser, ou talvez até já seja, um alcoólatra. Ou eu sou o único que reparou na quantidade de álcool que ele bebe? E eu só passei algumas horas com ele…
Harry rolou os olhos, ignorando o que o loiro havia tido, voltando sua atenção para Hermione, a qual parecia prestes a chorar, mas naquele instante não se importou com isso. Realmente parecia fácil para a amiga o criticar por sua decisão quando ela estava feliz com a vida que tinha, mas aquilo não parecia justo.
— Já disse que deveria parar com a bebida, vai te fazer mal. É por isso que você tem tantos problemas, por isso que não consegue superar… Porque…
— Como é? Você acha que é por isso? Você acha que eu não tentei seguir em frente? Sair com outras mulheres? Você acha mesmo que eu levo essa merda de vida porque eu gosto? Por Dumbledore, Hermione. Você já foi mais inteligente do que isso!
— Não fale nesse tom comigo! — Reclamou irritada, segurando a vontade de chorar. — Ela era minha amiga, Harry. Minha melhor amiga. Não tem um dia que eu não sinta falta dela, mas…
— Mas você casou Hermione, você tem sua vida e está muito feliz com ela. Fico muito feliz que as coisas tenham dado certo para você, mas não me parece justo eu ser o único sofrendo com isso tudo. Me diga quem mais perdeu tudo? Aliás, eu nem cheguei a perder, não é mesmo? — Tornou a gritar, sentindo o sangue bombear com força em suas veias, o rosto vermelho — Nunca tive a chance de ter alguma coisa, porque eu não sei se você lembra, mas no dia que era para eu começar alguma coisa, ela morreu. Olha só que ironia, não? — Harry começou a andar pela sala, sem olhar para ninguém, a raiva o consumindo — Na hora que eu pensei que finalmente tudo tinha acabado, Voldemort já era, eu perco a única pessoa que queria ter ao meu lado. E você, Hermione, o que foi que você perdeu? — Virou-se para ela — Seus pais? Não. Seu padrinho? Não. Pessoas que te ajudaram? Não. O amor da sua vida? Com certeza não. Me diga agora, o que foi que você perdeu? Ein? Sua amiga? Woa, realmente, sinto muito.
Granger o encarou com os olhos cheios de lágrimas, mas não derrubou nenhuma, respirou fundo e então virou-se em direção as escadas, parando no primeiro degrau.
— Imaginei que, como Chefe dos Aurores, você fosse mais responsável do que nos tempos de Hogwarts, e tivesse um mínimo de ideia do que está fazendo. Mas se é assim que você se sente, imagino que nada do que eu possa dizer vai mudar alguma coisa para você. — Virou-se para encará-lo uma última vez — Apenas lembre-se de uma coisa, Harry Potter, ao fazer isso, você pode mudar a vida de todo mundo e, principalmente, da . Como você acha que ela vai se sentir ao saber o que você fez?
— Ela não vai saber. — Ele respondeu rapidamente — Ninguém mais vai.
Os dois olharam-se por mais alguns instantes, Hermione fez menção de dizer mais alguma coisa, Harry sabia que a amiga devia ter milhares de coisas para falar, mas ao invés, ela apenas suspirou e voltou a subir as escadas.
Os três permaneceram em silêncio por alguns instantes após ouvirem a porta bater com força no andar de cima. Rony virou-se para Harry, o cenho franzido.
— Você vai mesmo…?
— Você não vai me convencer do contrário. — Replicou rapidamente.
— Não achei que fosse… — deu de ombros — Entretanto, Mione também está certa, Harry. E eu sei… — falou antes de ser interrompido — Eu... Imagino, como você se sente. Talvez eu quisesse fazer a mesma coisa se tivesse sido Hermione… — suspirou olhando para as escadas por alguns instantes — Só… Pensa direito no que está fazendo, ela tem razão, pode mudar muita coisa…
— Você acha mesmo? — O olhou suplicante, queria que pelo menos Rony estivesse ao seu lado — Ela não precisa saber o que aconteceu e, não vai interferir tanto assim, foi depois que tudo acabou, não tem o que interferir!
Rony deu de ombros, sem saber o que responder.
— Espero que você esteja certo, mas ela ainda vai lembrar de ter matado Ninfadora, não é? E tudo o mais… Você deveria saber melhor do que eu, Harry… Ela não vai ficar bem com isso…
— Eu vou me preocupar com isso depois que a tiver de volta!
— Vocês só estão esquecendo de uma coisa, não é? — Draco começou a falar, atraindo novamente atenção para si. — Ainda não temos o Vira-Tempo.

4.


26 de dezembro de 2005, 09h32.

Por mais que tenha sido convidado pelos Weasley e por Andrômeda a jantarem juntos durante o Natal, Harry optou por passar o final de semana sozinho, apenas dando uma rápida passada na casa de Andy para ver o afilhado e deixar seu presente com o garoto.
Sempre sentia-se bem ao passar algum tempo com Teddy, principalmente em dias que estava extremamente triste ou desolado, o que parecia um sentimento mais acentuado em datas festivas como aquela;
Natal era uma das datas favoritas de , e mesmo sem querer, Potter simplesmente não conseguia ignorar esse fato, e muito menos o número de memórias que vinham a sua mente ao pensar nela durante aquela época.
Passou parte do feriado dividido entre três atividades; beber, dormir e criar planos para recuperar aquele maldito Vira-Tempo, o qual já procuravam há dois meses sem sucesso.
A bebida ainda devia estar presente em seu sangue, pois sentia-se mais lento do que o normal, sua cabeça doía devido a quantidade de Uísque de Fogo e Hidromel que tinha bebido no dia anterior, e sentia-se levemente enjoado, não tendo comido nada desde que saiu da casa de Andrômeda no sábado.
Suspirou cansado, passando a mão pelos cabelos enquanto esperava o elevador parar no nível dois; Departamento de Execução das Leis da Magia.
Assim que a porta abriu, Harry saiu cambaleante em direção ao corredor que o levaria para sua sala, encontrando poucos bruxos no caminho, visto que era muito cedo para o horário de trabalho. Ao abrir seu escritório com um toque da varinha, deixou seu casaco no cabide ao lado, junto com seu cachecol preto e andou até sua mesa, jogando-se contra a cadeira. Fechou os olhos por alguns instantes, respirando fundo.
O sonho que teve duas noites antes parecia mais vívido sempre que fechava os olhos, era quase como se escutasse a voz da mulher e os gritos animados do filho, e por isso não se permitiu dormir mais do que poucas horas na noite anterior, tomando uma poção para garantir que não sonhasse.
Levantou-se após alguns minutos andando até a estante com vários livros, procurando algum que pudesse lhe ajudar, embora achasse difícil se concentrar. Ao olhar para o pequeno espelho grudado na parede, próximo a estante, assustou-se com seu próprio reflexo;
As olheiras maiores e mais escuras do que o costume, o cabelo mais comprido, assim como a barba que ele não fazia há várias semanas. A expressão cansada o fazia parecer alguns bons anos mais velho, e, misturado com suas roupas amassadas, quem não o conhecesse, poderia julgá-lo como algum sem-teto, desempregado e desleixado. Pelo menos não estava fedendo, pensou derrotado, ignorando o espelho e voltando à sua procura.
Enquanto passava os olhos pelos títulos dos livros, escutou passos apressados vindos do corredor do lado de fora de sua sala, não demorando para ouvir batidas rápidas e urgentes na porta.
— Entre — Disse, já se virando curioso para o visitante.
Andrew McGuire passou pela porta afobado, já usando seu uniforme preto, por baixo da grande capa marrom. O Auror era dois anos mais velho que Potter; além de ser seu braço direito desde que assumiu como Chefe do departamento, mantinham uma boa amizade que sempre rendia alguns drinks no Cabeça de Javali depois do expediente.
O loiro sorriu animado, ajeitando a postura antes de encarar o chefe;
— O que aconteceu? — Perguntou curioso, estranhando o homem chegar tão cedo.
— Eu o encontrei. — Disse simplesmente, tentando esconder o sorriso orgulhoso. — Nott.
Potter abriu a boca, não produzindo nenhum som por alguns segundos enquanto seu cérebro processava a informação, mais devagar do que gostaria.
Aos poucos, McGuire notou o sorriso começar a abrir-se no rosto de Potter, a expressão cansada dando espaço para uma mais determinada.
— Onde? — O bruxo perguntou, a respiração começando a acelerar, assim como as batidas de seu coração.
— Hawkshead, para os lados de Manchester.
Harry virou-se rapidamente para sua mesa, procurando em meio aos papéis um mapa da Inglaterra, enquanto Andrew aproximava-se, apontando logo depois para o ponto com o nome da pequena cidade. Potter o olhou por alguns segundos, um sorriso no cantos dos lábios.
— Chame o pessoal, temos um bruxo para caçar.

26 de dezembro de 2005, 10h42
Quando Andrew deixou sua sala, Harry começou a procurar mapas e relatórios sobre a pequena cidade; quase não se tinham bruxos no local, o que tornaria tudo mais complicado, pois precisavam ser ainda mais discretos para não chamar atenção dos Trouxas.
Ouviu uma batida na porta minutos depois, permitindo a entrada do novo visitante, sem nem mesmo tirar os olhos dos livros e anotações que fazia no momento; precisava de uma boa estratégia para não ter erros.
— Potter. — A voz grave de Quim Shacklebolt chamou sua atenção, fazendo com que o Auror largasse a pena e o pergaminho em sua mesa, levantando-se no mesmo instante para cumprimentar o homem.
— Ministro! — Atravessou sua sala, esticando o braço para Quim, que apertou-lhe a mão com calma, analisando-o com os olhos castanhos. — Ao que devo a honra?
Shacklebolt virou-se, caminhando pela sala, analisando com calma a decoração do lugar, bem diferente de quando ele própria a usava. Notou o travesseiro e a coberta jogados no sofá ao canto, e o excesso de garrafas quase vazias, além dos livros fora de lugar e cartazes de bruxos procurados empilhados em um canto e, claro, os vários cartazes presos em um grande quadro na parede, sendo Theodore Nott um dos primeiros.
— Esperei você vir até meu gabinete, mas como não aconteceu… — suspirou, virando-se com as mãos nas costas, olhando-o por alguns instantes. Notou o olhar levemente confuso do Auror — Nott e o Vira-Tempo, Potter.
Harry abriu a boca, concordando com um aceno antes de apontar para sua mesa.
— Estava aguardando ter alguma notícia mais concreta senhor, até o momento Nott estava fora do nosso radar, estamos procurando-o há semanas sem sucesso. McGuire acabou de me avisar que o encontrou, em uma cidade próxima a Manchester. — virou o mapa em direção ao Ministro, mostrando a área circulada — Não é um local grande, temos poucos bruxos na região, estou trabalhando em uma maneira discreta de prendermos Nott e…
— E o Vira-Tempo, Potter?
Harry virou-se para encarar Quim, tentando manter-se o mais centrado possível, colocou as mãos levemente trêmulas nos bolsos, para evitar que o mais velho notasse.
— Assim que capturarmos Nott conseguiremos o objeto, senhor.
— E você o trará imediatamente para o Ministério, imagino.
Potter passou a língua pelos lábios, concordando com um aceno no momento seguinte.
Quim o encarou por um minuto inteiro antes de voltar a pronunciar-se, reparando no quão ansioso o Auror parecia.
Shacklebolt não o via com tanta frequência, apenas quando precisavam tratar de assuntos sérios, mas as últimas vezes que o viu, Harry sempre parecia cansado demais, os olhos verdes pareciam vazios, sem vida. A barba crescida e os maus cuidados o deixavam sempre com uma aparência mais velha, sofrida.
Se Quim não o conhecesse, jamais diria que Potter tinha apenas vinte e cinco anos, poderia passar por trinta e alguns facilmente.
Entretanto, naquele momento, olhando-o com atenção, conseguia ver não apenas ansiedade e nervosismo, mas certa expectativa, seus olhos pareciam ansiar por alguma coisa, sua expressão embora nervosa parecia mais tranquila e relaxada do que nas últimas vezes que se viram. Potter tinha algo de diferente em sua postura, e isso só fez com que o Ministro aumentasse as próprias suspeitas.
— Se eu sequer imaginar que você tem outros planos, Potter…
— Outros planos? — Perguntou confuso, o cenho franzido.
Quim o encarou significativamente por alguns instantes, Harry fingiu surpresa.
— Acha que eu vou usar o Vira-Tempo, Ministro?
— Imaginei que existisse essa possibilidade…
— E por que eu o usaria, senhor? — Harry cruzou os braços.
Shacklebolt continuou parando, os braços atrás das costas, encarando-o com cuidado, analisando seus movimentos, voltando a andar pelo escritório, contornando a mesa do Auror e sentando-se em sua cadeira.
— Você sabe que eu gosto de você, Harry. — Começou o olhando com cuidado — Estivemos juntos na Ordem e lutamos juntos na Batalha de Hogwarts. — Harry concordou com a cabeça, mantendo a mesma posição — Confiei todos esses anos em você, Potter. Treinei-o pessoalmente para ocupar o meu lugar quando me ofereceram o cargo de Ministro, aceitei você mesmo sem ter terminado os estudos, porque eu sabia da sua capacidade e porque eu confio em você.
Harry tornou a concordar, não fazendo nenhum comentário, apenas olhando para o Ministro, que continuava encarando-o como se soubesse de algo.
— Eu sei o quanto você perdeu na Batalha, e mesmo antes disso, Potter, e por isso tenho feito vista grossa sobre seu comportamento nos últimos anos…
O Auror arqueou a sobrancelha;
— Imagino que meu desempenho tenha sido satisfatório, caso contrário não estaria ocupando seu antigo escritório, senhor.
Quim cruzou as mãos, inclinando-se sobre a mesa, o olhar sério e ao mesmo tempo calmo.
— E é apenas por isso que você continua sendo o Chefe dos Aurores, Potter. Até o momento seus problemas pessoais não se mostraram um empecilho para suas ações no Ministério. E também é por isso que nunca o questionei, nem seus métodos de trabalho, e nem quis interferir na forma que você tenta lidar com suas perdas… — O mais novo baixou a cabeça por alguns instantes. — Não acho certo o que você vem fazendo consigo mesmo Harry, não é saudável — suspirou —, mas eu posso entender seus motivos.
O Auror tornou a olhar para o Ministro, embora ainda um tanto nervoso.
— O que eu não posso permitir, Potter, é que você quebre a confiança que venho depositando em você. — Quim tornou a levantar-se, colocando as duas mãos sobre a mesa, em cima dos papéis espalhados, e encarando seriamente o homem à sua frente — Você e seus Aurores vão capturar Nott e trazê-lo para o Ministério, assim como o Vira-Tempo, o qual será destruído.
Potter abriu a boca, fechando-a em seguida, apenas concordando com um aceno.
— Se eu descobrir que você tem um plano diferente para o Vira-Tempo, Harry, você não só deixará de ser um Auror, como vai responder por seus atos em Azkaban. — Os dois se encararam por alguns instantes, era claro que Shacklebolt não estava contente em precisar ameaçar o outro daquela forma, mas ele era o Ministro, era seu dever manter a ordem, e nem mesmo Harry Potter poderia interferir, principalmente mexendo com o tempo. — Estamos conversados?
— Sim, senhor, Ministro. — Assentiu com um aceno, tornando a abaixar o olhar.
Quim parou ao seu lado, tornando a apertar-lhe a mão.
— Mantenha-me informado sobre as buscas.

26 de dezembro de 2005, 13h05.
Potter bateu uma única vez na porta antes de entrar pela sala, sem nem mesmo esperar por uma resposta. Hermione estava em pé, com uma pasta grande em mãos, tentando colocar os documentos em ordem na estante.
— O que…? Harry? — Falou afobada, quando seus olhos focalizaram o amigo. — Algum problema? — Perguntou formal, tornando a olhar para os papéis em suas mãos.
— Você falou com o Quim?
— Hoje? Não, por quê? — Virou-se olhando-o por sobre o ombro.
— Ele veio na minha sala perguntar o que eu faria com o Vira-Tempo, como será que ele pensou nisso? — Cruzou os braços, soando irônico. Granger respirou fundo, deixando o restante dos papéis sobre a estante e virando-se para o outro.
— Eu não fiz nenhuma fofoca, se é isso que está insinuando, Harry. — Arqueou a sobrancelha — Caso não tenha reparado, estou bem ocupada por aqui. E depois da nossa conversa, eu não tenho mais nada para lhe dizer sobre o assunto. — Tornou a virar-se para suas coisas, ignorando a resposta de Potter — Além do mais, Quim é o Ministro. É inteligente e já foi um Auror, só é necessário fazer uma conta simples para entender seu novo e repentino interesse em achar Nott, que, tirando ter um Vira-Tempo, não cometeu nenhum crime.
Harry olhou para o lado por alguns instantes, respirando fundo. Não queria continuar naquele clima estranho com Hermione, entendia as razões da amiga por estar tão nervosa com o que ele estava prestes a fazer, mas queria que ela entendesse seus motivos. Não achava que ela o ajudaria, nem mesmo queria isso, mas gostaria que Granger estivesse ao seu lado mais uma vez.
— Hermione… — começou olhando para baixo por alguns instantes — Eu… Sinto muito.
A mulher respirou fundo, segurando o ar por alguns instantes, antes de virar-se na direção de Harry, dando alguns passos para aproximar-se do Auror.
— Você exagerou.
— Um pouco… — a olhou com um sorriso triste. — Sinto muito.
— Eu entendo o que você quer fazer Harry, eu realmente entendo… — colocou uma mão sobre o ombro do homem, apertando-o gentilmente — Mas você sabe que isso é errado. Eu não posso te ajudar nisso.
— Eu não quero sua ajuda, Mione… Mas eu preciso fazer isso. Eu não posso seguir em frente sem tentar…
— Harry, esse é o problema. — Cruzou os braços, negando com a cabeça — Você não vai tentar, o que quer que você faça, vai mudar tudo. Você está querendo mexer com o tempo, achei que tivesse aprendido o quão errado é isso no terceiro ano.
Potter acenou positivamente, colocando as mãos nos bolsos e olhando para os pés.
— Eu sei disso, e acredite, eu pensei muito sobre o assunto. Você me conhece, não faria isso se eu tivesse outro jeito…
— Harry… Por mais que me doa dizer isso, ela se foi. Você precisa superar.
Potter a olhou por alguns instantes.
— Eu não consigo, ok? Eu tentei. De verdade, se tem uma coisa que eu tentei nos últimos sete anos foi esquecer dela. Esquecer de tudo. Mas eu não consigo. — Sua voz saiu falha conforme as lágrimas chegaram a seus olhos, e um nó se formou em sua garganta, pigarreou duas vezes antes de voltar a falar, mas sua voz continuou fraca. — Eu não consigo Hermione, quanto mais eu tento, mais parece que eu só tenho isso na minha cabeça.
— Você já considerou que talvez não tivesse dado certo? — Perguntou lentamente, olhando-o com pesar — Harry, você criou uma imagem bonita na sua cabeça, mas talvez não tivesse sido assim. Tem tanta coisa que poderia dar errado… Pra começar, nós dois sabíamos que ela só começou a olhar para você diferente depois da morte de Cedrico, caso contrário isso nunca teria acontecido.
Potter fungou baixo, passando as costas da mão no nariz, antes de tornar a encarar a mulher;
— Sei que sim, mas eu preciso fazer isso, Mione. Eu não vou conseguir viver sem nem mesmo tentar.
Ouviram uma batida forte na porta, Granger caminhou até a mesma, enquanto Harry respirou fundo, passando as mãos pelo rosto, recuperando-se do choro repentino.
— McGuire?! — Deixou-o entrar, os dois viraram-se para Potter.
— Senhor, estamos prontos. — Avisou assim que o Auror o encarou.
Harry acenou com a cabeça, despedindo-se rapidamente de Hermione, seguindo com o loiro pelos corredores do Ministério. O grupo de Aurores os esperava do lado de fora da cabine telefônica, na saída para o centro de Londres, todos com seus casacos marrons por cima do uniforme preto, as varinhas em punho, apenas aguardando Potter.
— Senhores, temos um bruxo para capturar e não vamos sair de Hawkshead sem Nott ou o Vira-Tempo.

*Para entender melhor o sonho de Harry sobre o Natal, você pode ler o especial de UNH II nos links ao final da fic.

5.

26 de dezembro de 2005, 16h53.
Nott estava em um pub trouxa, tomando uma cerveja (o que deixava de ser tão ruim depois do terceiro copo), enquanto assistia o esporte favorito dos Trouxas; futebol. Não via graça nenhuma, mas era bom para passar o tempo. Estava em seu quinto copo quando notou a neve caindo do lado de fora, a luz piscou duas vezes antes de apagar-se por completo. Os homens que ali estavam começaram a gritar, a maioria bêbado demais para pensar em fazer algo ou realmente importar-se, pareciam até divertidos, embora os que assistissem ao jogo reclamassem da interrupção. Theodore continuou em seu lugar, comendo o peixe frito em seu prato, vendo apenas sombras e vultos ao seu redor.
Olhou pela janela, as ruas vazias com suas luzes apagadas, tornou a olhar para o local do aparelho que antes passava o jogo, lambendo os próprios dedos quando sua comida acabou, esfregando as mãos na calça antes de virar o restante do conteúdo de seu copo. Já estava se levantando quando um barulho chamou sua atenção. Olhou ao redor, vendo alguns dos vultos caindo ao chão com algum estrondo, enquanto outros estavam em pé.
Nott levantou-se apressado tirando a varinha de dentro da capa, enquanto andava cambaleante em direção à porta, no momento em que seis varinhas foram apontadas em sua direção com uma luz fraca vindo da ponta de cada uma. Parou no instante seguinte, quando notou que alguém entrava;
Virou-se para trás, vendo Harry Potter passar a mão esquerda pelo ombro direito, retirando alguns flocos de neve de seu casaco escuro, antes de olhar na direção do bruxo.

O grupo de Potter tinha uma aprovação de noventa e sete por cento em suas missões, e ninguém questionava seus métodos, porque os resultados eram muito além do satisfatório para o Ministério.
Foi Harry quem os reuniu, tendo feito o curso junto com parte dos colegas.
Quando assumiu o cargo de Chefe do Departamento, Potter prezou por ter um grupo forte e hábil. Cada um de seus Aurores tinha uma habilidade específica, as quais combinadas faziam aquele grupo um dos melhores que o Ministério já teve;
Andrew McGuire estava sempre da primeira fileira, era o homem de guarda. Encorpado e extremamente forte, Andrew além de ágil era muito bom para interrogatórios. Não se importava nem um pouco em sujar as mãos para obter as informações que precisava e essa, por vezes, era uma das atitudes que precisavam explicar após as missões, afinal alguns bruxos do Conselho não eram a favor da violência exagerada.
Natalia McDonald era extremamente habilidosa com feitiços da mente, principalmente em legilimência e oclumência, sendo a responsável por apagar os rastros sempre que tinham uma situação envolvendo Trouxas.
Robert Toods era o homem dos disfarces, sendo um metamorfo, podia passar-se facilmente por qualquer bruxo ou bruxa, o que era sempre muito útil quando tinham missões nas quais precisavam de informações vindas de pessoas diferentes.
Elena Robins tinha grande conhecimento em medicina e ervas, sendo a responsável por garantir que os companheiros sobrevivessem até conseguirem um tratamento adequado no hospital, após o término das missões.
Gregory Evans era inteligente e perspicaz, sempre percebia detalhes que passavam despercebidos pelos demais, nas palavras de Harry, Evans era quase uma versão de Hermione, o que sempre se mostrava muito útil.
A última adição da equipe foi Evie Darling, uma bruxa inteligente que havia feito seu treinamento junto a MACUSA, com aptidão para vigilância e rastreamento e grande conhecimento de venenos e antídotos.
Potter, além de ser o líder do grupo, era o responsável por treiná-los para batalha, ensinar novos feitiços e garantir a segurança de todos.
Para as missões serem bem-sucedidas não adiantava apenas um bom plano, precisava de todos focados para conseguir com êxito seus objetivos; fossem para prender alguém ou recuperar algum objeto amaldiçoado. Todos tinham a mesma importância no grupo, e mesmo Potter levando o título de líder, sempre abria espaço para os outros darem suas opiniões e ideias, nunca os colocando em demasiado risco sem ser necessário. E quando preciso, não se importava em ceder seu lugar de líder para um dos colegas com mais habilidade em determinada situação. E era principalmente por isso que os seis o respeitavam e confiavam em suas escolhas; Não apenas por ser Harry Potter, o bruxo que derrotou Lorde Voldemort, mas por ser Auror inteligente e confiante o suficiente para saber pedir ajuda quando preciso, sem perder sua autoridade.
Embora não gostasse muito de ser contrariado, Harry não se importava em mudar suas estratégias para o bem geral do grupo, e sempre que tinha uma decisão importante para tomar, deixava que todos soubessem e dessem suas opiniões, mesmo que a palavra final fosse dele.
O grupo era forte e unido, e Nott sabia disso, assim como todos os ex-Comensais da Morte e quaisquer outros bruxos que tentavam, de alguma forma, dominar as Artes das Trevas.

— Boa noite, Theodore. — A voz do Auror era grave, autoritária, diferente de quando era o garoto irritante que Nott conheceu anos antes em Hogwarts — Podemos fazer isso do jeito fácil no qual você não se machuca, ou podemos fazer do jeito difícil, que é a preferida dos senhores atrás de você. A escolha é sua.
Theodore manteve a varinha erguida em direção a Potter, embora não soubesse qual era sua melhor rota de fuga. Não esperava ser encontrado naquele vilarejo trouxa, ainda mais por todo o grupo de Aurores. Olhou por sobre o ombro, vendo as mulheres e os homens parados no mesmo lugar, bloqueando suas possíveis saídas.
Talvez, se fosse rápido o suficiente, conseguisse aparatar antes de ser pego, mas ao mesmo tempo era arriscado, se Potter ou qualquer um dos outros conseguissem segurá-lo, poderia estrunchar. Se começasse uma luta, as chances de perder eram enormes, não poderia competir contra sete bruxos altamente treinados em combate.
— O tempo está passando, Nott. O que vai ser? — Potter tornou a perguntar, a sobrancelha levantada, a varinha em sua mão não apontava para o bruxo, mas Theodore conhecia a nova fama do Auror; Potter era melhor do que Quim em combate.
Theodore suspirou, abaixando levemente a varinha, planejando a melhor opção para o momento;
— Eu nunca vou entregar o Vira-Tempo, e você nunca vai conseguir encontrá-lo.
Harry engoliu em seco, sua expressão se fechando para uma mais séria e pouco amigável.
— Isso é o que veremos. McGuire!
O homem de cabelos claros e compridos, deu um passo à frente, mantendo a varinha erguida, enquanto via Nott relaxar a postura. Quando Andrew tocou em seu ombro, pronto para fazer a prisão do bruxo, os demais colegas baixaram a guarda por um instante, já que Nott não parecia burro o suficiente para reagir. No momento em que McGuire esticou a mão para tirar-lhe a varinha, Theodore sorriu para Potter, que demorou um segundo para entender o que aconteceria.
Nott lançou McGuire para o lado, antes de jogar-se contra o balcão do bar, protegendo-se dos seis feitiços que vieram em sua direção, os quais quebraram boa parte das garrafas e copos próximos.
Theodore protegeu a própria cabeça dos estilhaços, antes de apontar a varinha para os dois barmen apagados ao seu lado, fazendo os Trouxas investirem contra os Aurores, que tiveram que sair da frente dos homens, tentando não matá-los enquanto buscavam desmanchar o feitiço do bruxo.
Potter correu para o lado no qual Nott se escondia, desviando de um raio azul que o bruxo lançou, antes de atacá-lo, mas o bruxo desviou-se com rapidez. Theodore tornou a agitar a varinha contra uma das Aurores que se aproximou para desarmá-lo, conseguindo um corte profundo em Robins, que se jogou no chão abandonando a própria varinha, com as mãos no pescoço, tentando parar o sangramento.
Darling logo lançou um feitiço de proteção, correndo para o lado da colega, tentando auxiliá-la como podia no sangramento, lançando uma série de contrafeitiços, tentando evitar o pior.
Nott conseguiu acertar mais dois trouxas que estavam desacordados nas banquetas do balcão, de forma que os dois pescadores também jogaram-se contra os Aurores. Toods e McDonald empenharam-se em desfazer os feitiços nos Trouxas, deixando Nott para os outros.
Potter lançou um feitiço de proteção nos homens que estavam em uma mesa próxima, antes que Nott conseguisse enfeitiçá-los também. Ainda teve tempo de tornar a lançar um novo feitiço contra Nott, antes do bruxo virar-se para novamente atacar o grupo que estava ocupado com os barmen. Theodore sentiu um corte atingir-lhe nas pernas, queimando seus músculos e fazendo-o cair de joelhos no chão, quando o feitiço de Potter o atingiu em cheio. Virou-se com a varinha em mãos para Harry, mas ao invés de atacá-lo mirou seu feitiço em Andrew, desacordado no canto do bar.
Sectumsempra!
Potter perdeu um pouco da razão ao ver o colega começar a sangrar daquela forma, logo sendo auxiliado por Evans, e não perdeu tempo em contra-atacar lançando cadeiras e garrafas contra o bruxo, que usava a varinha para se defender, não percebendo a aproximação súbita do Auror.
Nott jamais imaginaria que Harry Potter largaria sua varinha para atingi-lo com um soco no rosto. O moreno acertou-lhe duas vezes, antes de pegar a varinha do bruxo, a apontando para o próprio dono, queimando sua pele pouco abaixo do queixo;
— Se está vivo agora, é porque preciso daquele Vira-Tempo. — Vociferou, cuspindo as palavras contra o rosto do homem caído. — Mas a próxima vez que você tentar matar um dos meus homens, você não vai nem mesmo saber o que te atingiu.
— Senhor! — Evans gritou por ajuda, notando a quantidade de sangue que Andrew ainda perdia.
Potter estuporou Nott antes de lançar-lhe um novo feitiço, amarrando-o por completo e não dando chances dele fugir. Levantou-se rapidamente, pegando sua própria varinha e aproximando-se de Andrew que, mesmo desacordado, tremia como se estivesse tendo uma convulsão, conforme os cortes aumentavam, sangrando em excesso.
Potter abriu a capa do Auror, ajoelhando-se na frente do mesmo, começando a murmurar rapidamente os contra-feitiços para parar o sangramento, enquanto apontava a varinha para o corpo do loiro. Aos poucos o sangue foi voltando para dentro dos cortes, os quais se fechavam com lentidão.
Nesse meio tempo, Darling já fazia um curativo improvisado em Robins, que respirava com certa dificuldade, enquanto Evans, Toods e McDonald, cuidavam dos Trouxas enfeitiçados, tanto nos cortes que os mesmos acabaram sofrendo, quanto nas memórias.
Após certificar-se que a colega estava bem, Darling levantou-se, apontando a varinha para o balcão; as garrafas de bebida voltaram aos seus devidos lugares, assim como os copos e demais objetos que tinham sido quebrados.
Nott continuava desacordado no chão atrás do balcão, até Robert Toods puxá-lo pelas pernas, não lamentando quando o homem bateu com a cabeça.
— Procure o Vira-Tempo. — Potter falou, ainda ocupado em fechar os ferimentos de Andrew.
— Nem sinal, senhor. — O homem avisou após vasculhar as roupas que Theodore usava.
Harry respirou fundo, levantando-se após sentir o joelho doer pela posição incômoda.
— A memória de todos já foi apagada? — Perguntou virando-se para McDonald, a bruxa confirmou com um aceno rápido. — Muito bem, precisamos levar McGuire e Robins para o hospital.
— Já me sinto melhor, senhor. — A mulher avisou, embora a voz saísse mais fraca do que gostaria. Harry negou com um aceno.
— Toods e Darling, podem levá-los? — Os dois acenaram positivamente. — Ótimo. Mantenha-me informado da condição dos dois. Evans e McDonald, vamos bater um papo com Nott, ainda precisamos do Vira-Tempo.
Os dois concordaram com um aceno satisfeito, após toda aquela confusão, nada melhor do que um interrogatório com o prisioneiro, antes de largá-lo em Azkaban.
— Senhor, e se…
— Robins, você vai para o hospital. Não adianta nada você estar aqui se mal consegue falar.
Respondeu encarando-a com seriedade, de forma que a mulher apenas concordou com a cabeça, mesmo que um pouco contrariada.
Ela virou-se para olhar Andrew, que continuava desacordado, era sua obrigação ter cuidado do colega, mas nem mesmo conseguiu cuidar do próprio ferimento sem ajuda, como poderia ajudar McGuire ou qualquer um?

Demorou mais alguns minutos para que McGuire recobrasse os sentidos, quando já estava razoavelmente bem para aparatar, apoiou-se nos ombros de Toods para fazer a viagem.
— Eu vou querer um tempo com Nott mais tarde… — Andrew falou com a voz baixa, apontando com a cabeça para o bruxo desacordado.
O Auror estava mais pálido que o normal, mas arrancou pequenas risadas dos colegas.
— Muito bem, todos em posições, vamos sair daqui e encontrar aquele Vira-Tempo de uma vez por todas. — Potter olhou para os dois bruxos que o acompanhariam, vendo Evans puxar Nott pelas vestes. — E vocês dois, melhorem logo, não quero desculpas para férias antecipadas — Sorriu de lado, vendo McGuire fazer careta e Robins rir em concordância.
No instante seguinte um grande estampido, e os sete bruxos tinham desaparatado, dois minutos depois os Trouxas que estavam no bar acordaram desnorteados, olhando para os lados, confusos, enquanto as luzes voltavam a piscar.

26 de dezembro de 2005, 21h20.
Potter esperava de braços cruzados encostado na janela do quarto, encarando a cena com a expressão fechada, aguardando o resultado final. Evans permanecia próximo à porta, parecendo animado em ver a colega trabalhando com o prisioneiro.
Natalia estava concentrada, sentada de frente para Nott, a varinha apontada para ele, enquanto mantinha o contato visual com o homem à sua frente. Estava sendo mais demorado que o esperado, Theodore era muito bom com oclumência, o que dificultava seu progresso, mas o bruxo não era melhor do que a Auror, e ambos sabiam disso.
Após pouco mais de três horas McDonald sorriu de lado, desviando o olhar para o chefe.
A mulher sentia-se extremamente cansada, não apenas física, mas mentalmente.
Gostaria de pedir alguns minutos para descansar, contudo, tinha noção do quanto aquilo era importante para Harry, e não o deixaria esperando, mesmo que suspeitasse das intenções do Auror com o Vira-Tempo.
— Já temos a localização, senhor.
Potter não escondeu a animação, relaxando o corpo momentaneamente.
— Próximo?
A mulher negou com a cabeça.
— Hogwarts.

6.

26 de dezembro de 2005, 23h25.
Assim que o grupo, desfalcado por quatro membros, retornou para Londres poucas horas depois do interrogatório, Harry foi ao encontro de Quim, enquanto os dois aurores encaminharam Theodore Nott para Azkaban, para aguardar o julgamento que aconteceria em poucas semanas.
Após sua rápida reunião, Harry aguardou o grupo de aurores voltarem ao Ministério para poderem agir. Assim que Toods e Darling voltaram do hospital, avisando que os companheiros já estavam bem, o grupo aparatou em Hogsmeade.
Já era tarde da noite e o vilarejo estava em silêncio, de forma que o estalo de cinco aparatações ecoou por alguns quarteirões, acordando alguns moradores.
Ignorando as luzes que começaram a se acender em algumas janelas próximas, o grupo seguiu em direção a estrada que levava para o Castelo, Harry guiando-os mais à frente. Todos tinham suas varinhas em mãos, mesmo que não esperassem nenhum confronto, iluminando precariamente o caminho coberto pela neve que caía incessante.
Potter respirou fundo ao sentir o vento gelado contra seu rosto, bagunçando seus cabelos, como aconteceu tantas vezes anos antes. Era quase impossível para o Auror não se lembrar das vezes que fez aquele mesmo caminho cercado pelos amigos, rindo enquanto voltava com uma sacola de doces da Dedos de Mel ou de logros da Zonko’s.

Flashback

Tinham acabado de sair do Três Vassouras, após quase quarenta minutos de atraso, para encontrar com Hermione na biblioteca. O vento frio e o excesso de neve tinham sido as principais razões para a demora, não tinham coragem de sair do lugar quente e acolhedor em que estavam para enfrentar o frio congelante do lado de fora.
Quando finalmente decidiram por voltar ao Castelo, arrependeram-se quase no mesmo instante em que passaram pela porta, assim que o vento bateu contra seus rostos, bagunçando seus cabelos. Harry virou-se, fazendo careta, pronto para sugerir que esperassem mais um pouco, quando notou rindo, com as duas mãos segurando os cabelos loiros que voavam conforme a direção do vento. Fazia tantos meses que a garota não ria, que Harry quase tinha se esquecido de como gostava de seu sorriso, era daquele tipo contagiante. Assim como sua risada, alta e alegre.
tinha mudado tanto nos últimos dois anos, que era difícil acreditar que era a mesma garota alegre e animada que ele conheceu anos antes, já considerava um milagre tê-la convencido de ir à Hogsmeade aquele final de semana.
Ela já havia mudado muito desde à morte de Diggory, mas depois de Sirius, a loira parecia uma nova pessoa. simplesmente evitava passar boa parte do tempo livre com os amigos, preferindo ficar sozinha. Potter nunca entendeu o motivo. Era óbvio que ela estava triste, mas Black nunca tinha sido do tipo que se isolava, já começava a considerar que a conhecia menos do que imaginava. Talvez ela tivesse isso em comum com Sirius, que também preferia ficar sozinho quando sabia que seria deixado para trás.
O que, é claro, não seria o caso dela, Harry nunca a deixaria.
Esperava que ela soubesse daquilo.
— Potter? — A garota chamou, alguns passos de distância — Congelou?
Harry sorriu, ajeitando o cachecol em volta do pescoço e a seguindo, com as mãos nos bolsos do casaco. Os dois caminhavam lado a lado, em silêncio, os rostos baixos, tentando evitar o vento gelado. Potter tinha certeza que em algum momento escutou a risada de Rony, mas não pode olhar para o lado para confirmar, o ruivo estava ocupado com Lilá, e, se fosse novamente sincero consigo mesmo, Harry preferia que não o encontrassem. A garota até era legal, mas era insuportável permanecer ao lado dos dois, não passavam muitos minutos sem começar a se agarrar, ignorando totalmente se tinha alguém junto com eles. E foi apenas porque Potter disse que iria sozinho à Hogsmeade que concordou em acompanhá-lo, ao invés de ficar com Mione estudando.
Era bom para ela sair um pouco, distrair-se, e Harry sempre era uma boa companhia.
Potter sentiu uma rajada de vento mais forte bater em seu rosto, bagunçando por completo seus cabelos pretos, a neve que batia em seus óculos atrapalhava um pouco de sua visão e, quando passou pelos grandes portões de metal da Escola, sentiu algo gelado bater entre seu pescoço e orelha. Virou-se assustado para o lado, recebendo em seguida uma bola de neve no peito.
— O que… ? — Sorriu de lado quando viu agachando-se, para fazer mais um montinho. — Você não ousaria fazer isso de n… Black!
O som da gargalhada da loira logo chegou aos seus ouvidos fazendo-o rir baixo, negando com a cabeça, antes de agachar-se preparando ele mesmo um montinho, pronto para jogar de volta na outra.
era boa em guerras de neve, talvez fosse por ser artilheira do time de Quadribol, mas sua mira era excelente, muito melhor que a de Harry.
Potter era rápido, ágil, mas sua mira não era tão certeira quanto a dela.
Não demorou muito para várias bolinhas de neve o atingirem, até que ele se levantou carregado, jogando todas na direção da loira, que tentava desviar-se, mas devido ao acesso de risadas, ficou no mesmo lugar, levantando as mãos para tentar proteger-se, inutilmente.
Harry foi aproximando-se passo a passo para jogar mais neve, parando por alguns instantes para deixá-la respirar direito. parou de rir após alguns minutos, sentando-se no chão gelado sem importar-se. Potter a encarou, a garota estava com as pernas cruzadas, o cabelo loiro com vários flocos de neve, e o rosto avermelhado da brincadeira recente.
Harry sentou-se ao seu lado, puxando as pernas e as abraçando, encostando a testa em seus joelhos, tentando também normalizar sua respiração.
— Obrigada. — Escutou a voz baixa de , após alguns segundos de silêncio. Potter a encarou de lado, notando o sorriso pequeno em seus lábios — Foi uma tarde ótima.
O rapaz sorriu para ela, concordando com a cabeça.
— Quando você quiser, marcamos uma revanche.
Os dois logo voltaram a ficar em silêncio, antes de levantarem-se e voltarem a caminhar em direção ao Castelo, começando a sentir o resultado da brincadeira fora de hora. Potter notou que a garota ao seu lado tremia levemente, e não demorou para passar o braço sobre seus ombros, caminhando juntos até as escadas.
— Eu sinto sua falta. — Potter disse de uma vez, após passar os últimos minutos pensando se era uma boa ideia.
Os olhos castanhos dela o encararam por alguns instantes, antes de responder calmamente.
— Também sinto sua falta, Harry.
— Então… Por que...?
— Sinceramente? — Sorriu triste — Eu não sei, só não me parece muito certo, não depois de tudo.
— Você vai mesmo continuar se isolando desse jeito?
— Eu só não sei se eu consigo, Harry… — Olhou para baixo por algum tempo, cruzando os braços. — Parece errado, sabe?
— Querer se divertir um pouco? — Perguntou confuso, colocando a mão sobre o ombro dela, esperando que tornasse a olhar em seus olhos. A garota respirou fundo, olhando-o pouco depois, os olhos castanhos transmitindo toda a confusão de sentimentos que ela tinha dentro de si.
— Eu não sei se é certo sentir o que eu sinto quando estou com você, Harry. Porque eu sei que não era assim antes, e só mudou porque eu perdi o Ced.
Potter franziu o cenho por alguns segundos, abrindo a boca ligeiramente, seu coração começou a acelerar e o ar pareceu faltar em seus pulmões, à medida que seu cérebro confirmava o que ela tinha dito. Repassou aquela simples frase algumas vezes, pensando em todos os possíveis significados, não querendo cometer o erro de imaginar algo diferente do que ela dizia.
entendeu aquele silêncio de forma contrária, entendeu como a falta de interesse do amigo; Não era recíproco, mas Harry não queria magoá-la. Não sabia o que dizer.
Por isso apenas sorriu de lado, antes de dar-lhe as costas. Não se virou quando ele a chamou, apenas voltou a subir as escadas em direção à Torre da Grifinória, ignorando completamente o compromisso com Hermione.
Potter passou a mão pelos cabelos úmidos, frustrado consigo mesmo por não ter tido uma resposta mais rápida, uma reação melhor. Embora, talvez, se Black tivesse reparado melhor no rapaz, teria notado que a falta de resposta, acompanhado no rosto vermelho e as mãos trêmulas, significasse outra coisa.

End Flashback

Potter virou-se quando ouviu seu nome ser chamado, encontrando Minerva McGonagall os esperando próximo aos portões de metal da Escola, um sorriso pequeno no rosto. A mulher parecia exatamente igual com o que Harry lembrava, embora fizessem meses que não a via, talvez com mais alguns fios brancos no cabelo, mas nada além disso.
— Professora, — acenou com a cabeça para a mais velha, quando ela abriu os portões para os aurores. — boa noite.
— Acho que não temos mais motivos para você me chamar de professora, Potter. — A mulher comentou, antes de sorrir ligeiramente. — Façam o que precisam, mas tentem não explodir nada na propriedade. — Pediu antes de começar a andar em direção ao Castelo, sendo seguida pelo grupo.
— Não se preocupe, não devemos ter nenhum problema. Imagino que seja algo rápido.
— Talvez nem tanto, senhor. — McDonald lembrou-o — Não sabemos a localização exata, apenas que está na Floresta.
Minerva virou-se para olhá-los, tinha recebido a notícia que o grupo estava vindo, precisando fazer uma busca na propriedade, com urgência, mas não sabia exatamente do que se tratava, embora tivesse uma boa ideia. Escutou comentários a respeito, e o quanto Potter estava interessado em recuperar esse objeto, o que só confirmava se tratar de um Vira-Tempo, por mais que não a tivessem dito.
— Podemos trocar duas palavras, Potter? — Pediu, enquanto o restante do grupo seguia em direção à Floresta — Tentem não aborrecer os Centauros, eles passam semanas reclamando quando alguém invade o território deles. — Alertou-os, antes de se afastarem por completo.
Harry permaneceu ao seu lado, as mãos nos bolsos do casaco grosso e grande que usava, Minerva esperou mais alguns segundos, até ter certeza que os aurores se afastaram o suficiente.
— Algum problema? — Questionou, tentando ignorar o frio que começava a sentir.
McGonagall o encarou por longos segundos, a expressão fechada. Potter sentiu como se estivesse de volta aos tempos de escola, e tivesse sido pego fazendo algo errado, como aconteceu tantas e tantas vezes.
— Você sabe o que está fazendo, não sabe, Harry?
O homem arqueou a sobrancelha, levemente perdido no significado daquela frase, antes de respirar fundo, encarando-a com um sorriso, embora sem qualquer vestígio de bom humor.
— Por que todos me perguntam isso? — Comentou cruzando os braços. — Você já sabe que viemos procurar o Vira-Tempo, imagino.
A Professora confirmou com um aceno.
— Ouvi alguns rumores, — explicou, analisando a postura do ex-aluno — e se é verdade, assim como o seu interesse em encontrá-lo, você sabe que a primeira coisa que vem à cabeça de todos é que você irá usá-lo, não é?
Harry a encarou nos olhos por alguns segundos, não vacilando por nem um instante.
— Sei, e também sei o que isso significaria. — Respirou fundo — Admito que isso me passou pela cabeça, mais de uma vez, mas não seria certo. — Passou a mão pelos cabelos, olhando para baixo — Sinto falta dela, mas não acho que gostaria disso. — Finalizou, passando a língua pelos lábios secos.
Minerva o olhou por mais algum tempo, notando os olhos verdes marejados do Auror quando ele levantou o rosto olhando para o lado, respirando fundo e tentando não chorar.
Sentiu um aperto no peito, sensibilizada.
Sabia o quanto Potter gostava de Black, conviveu com os dois por longos anos para saber o tipo de relacionamento que eles tinham, a cumplicidade, lealdade e, principalmente, amizade. A mulher esticou o braço, colocando uma mão sobre o ombro do homem, apertando-lhe gentilmente.
— Eu sei que é difícil, Potter, mas essa realmente não seria a melhor solução. — O homem confirmou com a cabeça, sem nada responder. — Depois de tudo o que aconteceu, não dá para saber como ela reagiria, não é? estava diferente, mesmo antes de tudo o que aconteceu com Voldemort, você mais do que ninguém deve ter percebido…
Harry a encarou por algum tempo, confirmando com um aceno, a mandíbula travada, antes de passar a mão pelo rosto, por baixo dos óculos.
— Se me dá licença, Professora, tenho um grupo para liderar.
— Chamem o Hagrid se precisarem de ajuda com os Centauros, eu comentei que vocês estariam vindo. — Sorriu levemente.
— Obrigado. Boa noite, Professora.

Potter mal conseguia disfarçar o nervosismo e a ansiedade, mas reparou que, depois que começou a procurar o local em que o objeto estava escondido, não ficou realmente sozinho. Sempre tinha alguém do grupo próximo a ele, o que não o incomodaria se fosse em qualquer outra missão, mas naquele dia parecia que estavam ali apenas para vigiá-lo. Suspeitando de algo. Não era como se pudesse culpá-los, mas sentiu-se levemente irritado com Quim, que deveria ser quem deu a ordem para não o deixarem sozinho, aparentemente, o Ministro e ex-Auror, confiava menos do que admitia em Potter.
Viu Darling andando próximo a ele, notando que vez ou outra ela o olhava por sobre o ombro, desconfiada. Evie Darling era muito boa com feitiços e várias outras coisas, mas nem tão sutil em alguns pontos. Harry irritou-se ao notar que ela realmente observava todos os seus passos, virando-se com as mãos na cintura;
— Algum problema, Darling?
— Fora o frio, nenhum, senhor. — Respondeu, ainda olhando ao redor, procurando por algum sinal da árvore falsa. Potter aproximou-se da loira sem que os outros colegas percebessem, parando a menos de um metro de distância.
— Quim os mandou me vigiarem, não foi? — Disse cruzando os braços, entediado.
Evie o respirou fundo, jogando os cabelos compridos para trás antes de encarar o moreno;
— Mandou, sim. E não foi o único. O Conselho também não está confiando muito que você entregará o Vira-Tempo assim que o encontrarmos. — Disse, analisando com cuidado as expressões do outro.
Harry suspirou, passando a mão pelos cabelos, olhando ao redor.
— Não está surpreso, não é? — Tornou, encarando-o com a sobrancelha arqueada — Seria estúpido se não nos mandassem ficar de olho.
Potter virou-se para a mulher, passando a língua pelos lábios, com sua melhor expressão de inocência;
— Achei que após todos esses anos lutando contra Voldemort e Comensais da Morte, as pessoas confiassem um pouco mais em minhas ações.
— Talvez seja exatamente por isso que não confiem. — Respondeu.
Darling parecia fazer um grande esforço para não dizer mais coisas, e Harry a conhecia o suficiente para saber que não demoraria muito para a mulher explodir.
— O que quer dizer? — Insistiu, aproximando-se mais um passo.
Evie mexeu-se inquieta, olhando para o lado, parecendo considerar se deveria, ou não, dizer o que pensava.
— Todos sabemos o quanto você perdeu, senhor — dizia, tentando manter a calma em sua voz — e que, mesmo após todo esse tempo, ainda sofre com todas essas perdas. Algumas mais do que outras.
Darling o encarou por alguns instantes, esperando que ele entendesse sua indireta.
— Se está falando de ...
— É claro que, sim! — Frustrou-se, batendo o pé, irritada — Todos sabemos que você ainda não superou, e o mais irônico de tudo isso é que nunca nem tiveram nada, não romanticamente.
Potter travou a mandíbula, respirando fundo para não perder o controle com o que escutava.
— Nunca tiveram um relacionamento, todos sabem que ela gostava de Cedrico Diggory. Se as coisas não tivessem acontecido como aconteceram, ela nunca te olharia de outra forma que não como um amigo. — Respondeu ácida, sentindo o peito aquecer.
— Você não a conhecia. — Harry respondeu com a voz rouca, encarando-a com certa raiva. — Você nem mesmo me conhecia. Não sabia nada sobre nós. Não ache que porque trabalhamos juntos nos últimos anos você me conhece.
— Oh, eu jamais teria essa ideia — replicou debochada —, você nunca deixa ninguém se aproximar o suficiente para te conhecer, não é? Prefere viver do passado. De um passado que só existiu na sua cabeça.
Potter fechou as mãos em punho, mantendo a distância de poucos centímetros entre eles;
— Sinto muito que você não tenha superado o que aconteceu entre nós, Darling — disse grosseiro — mas isso não te dá nenhum direito de falar sobre a minha vida dessa forma. Menos ainda durante uma missão.
Evie sentiu o rosto esquentar, tamanha a raiva que sentiu. Precisando respirar fundo para evitar de sacar a varinha e azará-lo;
— Não se preocupe, senhor. — Começou irônica — Eu sim sei separar a vida real de fantasias. Diferente de outras pessoas.
Virou-se não dando tempo de Potter respondê-la, antes de sair a passos duros para o outro lado.
— Alguém achou alguma coisa? — Gritou, irritado com a demora e com as palavras de Darling.
A neve cobria boa parte do chão, o que dificultava ainda mais à busca; segundo a informação de Natalia, o Vira-Tempo estava escondido no tronco oco de uma árvore no meio da Floresta, a qual tinha um sinal da Marca Negra gravado.
Harry tinha se iludindo, achando que seria fácil encontrar o objeto, como tinha sido idiota. Era claro que não seria fácil, árvore velha, próxima à uma pedra grande e pontuda, essa foi a definição do local. O que resumia boa parte daquela Floresta. Era uma área enorme para procurar, e tinham muitos feitiços escondendo o objeto, não seria tão fácil de encontrar algum sinal;
Um Feitiço Convocatório não resolveu o problema, o que já era de se esperar, mas nem por isso menos frustrante.
— Não, senhor. — Harry escutou as vozes vindas de cantos diferentes.

Passaram horas procurando algum sinal, parecia impossível que Nott tivesse se embrenhado mais ao fundo da Floresta, correndo o risco de esbarrar com os Centauros, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Começava a amanhecer, não que o grupo reparasse, já que as copas das árvores iam alto o suficiente para impedir a visão do céu, mas todos sabiam que a busca estava sendo longa, tediosa e frustrante.
— Senhor… — Toods aproximou-se do chefe, Harry o olhou, notando a expressão cansada do homem, e, ao reparar melhor, notou que os outros também não estavam em seu melhor estado. — Precisamos de mais informações, é inútil. Precisamos de alguma outra forma de…
— Tronquilhos! — Gregory gritou de algum ponto à esquerda de Potter, logo começando a rir, andando até o restante do grupo que se reunia perto de Harry. — Como ninguém lembrou dos Tronquilhos?
— Você encontrou um Tronquilho? Uau. — McDonald rolou os olhos, cruzando os braços.
Evans negou com a cabeça, ainda rindo de sua própria estupidez.
— Você lembra o que são essas criaturas, não?
Potter e Toods se entreolharam, já sabendo o que viria a seguir, era sempre igual; Gregory fazia algum comentário (importante ou aleatório), e Natalia respondia de mau humor, pois sempre se irritava com o jeito sabe-tudo do outro, desde os tempos de escola.
Evans e McDonald tinham estudados juntos em Hogwarts, ele era da Corvinal enquanto ela estava na Sonserina.
— Sabemos que eles defendem às árvores e atacam quando se sentem ameaçados, embora não sejam perigosos. — Robert interrompeu antes que começassem uma discussão desnecessária, sem qualquer vestígio de paciência para aquilo no momento.
— Eu não sei bem sobre essa parte de não serem perigosos… Você ouviu sobre aquele Trouxa que entrou em uma floresta na Alemanha e foi atacado por uma família de Tronquilhos? — Gregory contrapôs — O pobre homem acabou cego!
— Entendemos seu ponto, Evans — Harry concordou, levemente surpreso pela história, até então desconhecida por ele. Achava que era como uma lenda-urbana, nunca soube de ninguém que tivesse sido atacado e ferido gravemente por uma daquelas criaturas. — Mas o que isso tem a ver?
Gregory sorriu para o chefe, um sorriso animado junto de um brilho nos olhos, que Potter logo identificou como um bom sinal; Sempre que Gregory Evans chegava com aquela expressão, ele solucionava algum problema.
— Tronquilhos conhecem árvores melhor do que qualquer outra criatura descrita por Newt Scamander, e eles se lembram delas. — Ao notar que nenhum dos outros entendeu ao que ele se referia, o bruxo sorriu de lado, terminando seu raciocínio — Vocês não acham que eles perceberiam uma com o tronco oco e falso? *
Harry começou a abrir um sorriso ao entender o que ele dizia, aproximando-se e apertando-lhe a mão.
— Brilhante, Evans, brilhante!
— Finalmente! — Toods comemorou.
— Pois é, seria ainda melhor se a gente tivesse um Tronquilho, não é? Ou vai me dizer que você tem um deles no bolso? — McDonald alfinetou, mas o bruxo não se deixou abalar, mantendo o sorriso nos lábios e dando de ombros.
— Se eu não me engano, da última vez que encontrei com Hagrid no Caldeirão Furado, ele me disse que estava com uma pequena família de Tronquilhos que tinham sido contrabandeados.

27 de dezembro de 2005, 05h15.
Rúbeo Hagrid levantou-se assim que escutou o cachorro latindo, um tanto confuso e perdido no horário, o céu começava a clarear, mas ainda parecia cedo demais para estar se levantando. Surpreendeu-se ao ver Harry Potter parado na entrada, com seu uniforme de Auror, e mais quatro de seu grupo mais ao fundo.
— Harry! — Sorriu adiantando-se para um abraço rápido — Achei que não precisariam mais de mim, esperei um pouco, mas depois que vocês todos entraram na Floresta…
— Pois é… — Potter concordou com um aceno — Tentamos, mas ninguém conhece o lugar melhor do que você, não é? Nem mesmo os Centauros.
Hagrid sorriu, animado pelo pequeno elogio.
— Querem uma xícara de chá?
— Talvez mais tarde, como pode ver, esse pessoal está querendo terminar logo a missão para podermos descansar um pouco… — Apontou para o grupo.
— É claro, claro. Gregory, como vai? — Saudou, vendo-o ergueu a mão em um cumprimento animado. Sempre que se encontravam no Caldeirão Furado ou no Três Vassouras, passavam várias horas conversando sobre criaturas mágicas, Evans era tão fascinado por elas quando o Guarda-Caças, havia sido seu melhor aluno durante as aulas de Trato de Criaturas.
— Tudo bem, Hagrid? — Adiantou-se para a cabana, as mãos nos bolsos, tentando protegê-las do frio. — Escuta, lembra que você me disse sobre aquela família de Tronquilhos que estava cuidando? Você ainda está com eles?
— Claro que sim, — concordou animado, dando espaço para entrarem em sua pequena cabana — estão muito bem cuidados agora, tem sua própria árvore, demoraram alguns dias, mas finalmente escolheram uma.
Gregory sorriu animado, pronto para começar a questionar sobre as pequenas criaturas, quando Harry interrompeu a conversa;
— Precisamos de um deles, Hagrid. Por pouco tempo, provavelmente só alguns minutos. Eles já estão domesticados?
Rúbeo concordou com a cabeça, embora parecesse desconfiado.
— No que eles podem ajudar? O Ministério não mudou de ramo, vocês não querem madeira para varinhas…
Gregory negou, rindo.
— Acho que eles podem nos ajudar a encontrar uma árvore com o fundo oco. Talvez eles já a tenham visto…?
O meio gigante concordou com um aceno, embora continuasse com a expressão confusa, curiosa.
— Eu só preciso do meu casaco!
Era uma situação até engraçada de se ver, o Guarda-Caça, com seus mais de dois metros de altura, segurando um pequeno Tronquilho em suas mãos grandes, tratando-o com cuidado, enquanto pedia ajuda para encontrar a árvore que eles precisavam, antes de soltá-lo no chão e se deixar ser guiado por ele.
— Sabem, depois que se adapta ao ser humano, quando sabe que podemos coexistir, eles são muito úteis, não conseguem conversar como eu e você, é claro, mas podem entender o que dizemos.
— Scamander tinha seu próprio Tronquilho, não tinha? — Gregory comentou, andando ao lado de Hagrid.
— Ah sim, mas Newt era diferente, um outro nível… — Concordou com um aceno, enquanto os seis seguiam a pequena criatura, que corria pelo chão coberto de neve, em direção ao local que queriam. — Tem muito mais jeito com os animais do que nós, comprei a nova edição de seu livro, com as novas descobertas e classificações…
— Você viu que encontraram mais duas espécies de Gig…
— Falta muito? — Natalia perguntou em voz alta, um tanto impaciente e cansada.
— Não dá para saber, ele continua andando — Hagrid apontou para o bicho, o qual era similar a um graveto.
Pouco menos de vinte minutos depois, o Tronquilho parou, encarando uma árvore grande e velha, a única que não estava cercada com neve, e tinha uma marca incrustada em seu tronco. Harry aproximou-se com a varinha em mãos, logo notando o desenho de uma caveira com uma cobra enrolada, a Marca Negra de Voldemort.
— E a gente achando que não teria muita magia… — Evans comentou distraído, olhando ao redor do tronco, um círculo exato em volta da árvore, sem nada de neve.
— Bom trabalho, Steve. — Hagrid elogiou ao abaixar-se para pegar o Tronquilho com as mãos, a criatura correu para sentar-se em seu ombro.
— Você acha que é uma boa ideia…? — Toods começou, ao ver Harry aproximar-se mais, esticando a mão para o tronco.
— Não temos muitas opções, temos? — Questionou, embora também se sentisse desconfiado.
Por garantia, Harry murmurou uma série de contrafeitiços, e mais alguns que aprendeu junto a Quim nos seus primeiros anos de treinamento, tentando quebrar qualquer tipo de encanto que pudesse ter ali.
Cerca de dez minutos depois tornou a esticar o braço; era como uma miragem, Potter tinha a mão esticada na área que seria o tronco, no pequeno buraco na madeira, lugar que animais normalmente faziam seus ninhos. Não parecia ter nada ali, nem mesmo a madeira. Era como se ele estivesse tentando pegar o ar, mas surpreendeu-se quando seus dedos tocaram em algo duro, pequeno.
Passou os dedos pelo objeto puxando-o em instantes, quando abriu a mão, virou-se para o grupo sorridente, mostrando uma espécie de relógio de bolso dourado e com os ponteiros parados.
— Senhores, senhoritas, — começou, levantando o Vira-Tempo para que pudessem vê-lo —, missão concluída!
Assim que se despediram da Hagrid, os aurores voltaram pela caminho até a saída da Escola, passando pelos portões de metal e seguindo para Hogsmeade.
— Muito bem, finalmente poderemos descansar. Vou levar isso para Quim, e, bem, imagino que ele não vá se importar de termos o dia de folga, após passarmos frio a noite inteira, não é? — Sorriu encarando os colegas, notando as expressões conflitantes em seus rostos — O que foi?
— Sinto muito senhor, mas… — Robert começou, após olhar para os outros, suspirando antes de concluir o pensamento — O Ministro pediu para irmos com o senhor, ele pede para que o senhor não fique sozinho com o objeto.
Harry o olhou demonstrando o máximo de surpresa que conseguia, torcendo para parecer convincente.
— Ele continua achando que eu vou usar… — Suspirou, passando a mão pelos cabelos curtos, ouviu Darling soltar um muxoxo de seu canto, rolando os olhos.
— Ninguém o culpa se o senhor realmente tiver cogitado, — Gregory começou, parecendo sem graça — entendemos que a vida não tem sido fácil para o senhor, mas… Bem…
— Ordens são ordens?! — Cruzou os braços, frustrado.
— Foi como o senhor nos ensinou. — Evans concordou com um aceno, ainda um tanto sem graça, por enfrentar seu chefe.
— Muito bem então, para o Ministério!

Como esperado, o Ministério da Magia encontrava-se em sua maioria, vazio.
Quase não tinham bruxos ou bruxas naquele horário, eram pouco mais de sete da manhã quando o grupo chegou, cansado e, ao mesmo tempo, tenso.
Era difícil para os eles escoltarem Harry daquela forma, como se ele fosse um fugitivo ou algo do tipo, mas tinham recebido ordens do Ministro em pessoa. Evie, diferente dos outros, não parecia muito convencida de que Potter não tentaria nada, então era a única que não se importava com a vigia.
Seguiram pelo elevador até o andar do escritório, andando pelos corredores escuros e silenciosos até a sala de Quim, a qual estava desocupada.
Harry suspirou alto, retirando os óculos do rosto e limpando-os em sua camisa.
— Muito bem, vamos voltar para o escritório até que o Ministro chegue.
Continuava, poucos, mas importantes passos à frente do grupo, sendo o primeiro a entrar na divisão que pertencia aos Aurores. Seguindo para o fundo, para a sala grande que o pertencia.
— Já que vamos esperar, será que alguém pode providenciar alguma comida e bebida? Estou faminto! — Pediu por sobre o ombro, vendo Natalie concordar com um aceno, antes de virar o corredor em direção a copa, sentindo o próprio estômago roncar.
Só faltavam três.
— Gregory, vou precisar de um relatório mais detalhado sobre a parte do Tronquilho na missão, mas não se preocupe — avisou ao abrir sua porta, notando uma sombra mais ao canto — não precisa ser hoje, embora seja provável que Quim queira o mais rápido possível. — Evans concordou com a cabeça, jogando-se em sua cadeira e fechando os olhos por alguns instantes, exausto. — Darling, você fica encarregada de deixar um anúncio proibindo qualquer um de fazer barulho nessa divisão. Até Quim chegar pretendo dormir no meu escritório, já que não posso ir para casa. Aproveitem e façam o mesmo.
— Sim, senhor. — Responderam em uníssono, mesmo Evie, que ainda parecia desconfiada.
Harry acenou com a cabeça, deixando um pequeno embrulho em cima da mesa de Toods;
— Não o perca, sim? Não depois de todo o trabalho que tivemos. — Avisou, antes de virar-se e entrar em seu escritório.


Draco o esperava, parecendo entediado e sonolento, deitado desconfortavelmente no sofá ao canto da sala.
Abaffiato. — Potter sussurrou, antes de aproximar-se do loiro.
— Finalmente, conseguiu? — Questionou ao sentar-se, arrumando os cabelos levemente desalinhados. Harry puxou um cordão dourado, preso ao Vira-Tempo. — É menor do que eu imaginava… — Comentou surpreso, franzindo o cenho em seguida — O que você entregou para Toods?
— Uma pedra pequena. — Avisou, respirando fundo.
Somente naquele instante permitiu-se encarar o objeto, depois de tantos meses procurando, finalmente estava com ele em mãos.
Agora era só uma questão de tempo para que ela também estivesse com ele.
— Já calculou tudo? — Perguntou tornando a encarar o loiro, o qual levantou-se com a varinha em mãos, aproximando-se de Harry.
— É óbvio que sim, Potter. — Respondeu, entediado.
— Precisamos ser rápidos, não sei quanto tempo vai demorar para Robert perceber a troca…
Malfoy sorriu de lado, a varinha sobre o pequeno objeto reluzente.
— Pronto para rever sua namorada, Potter?

*As informações sobre os Tronquilhos foram alteradas para fazerem sentido na história.

7.

Toods acabou de enviar um memorando para o Ministro e se virou para sua mesa, dando a volta e jogando-se contra a cadeira estofada. Fechou os olhos por alguns instantes, respirando fundo e relaxando.
Ao olhar para o lado, viu Gregory com o corpo inclinado sobre a mesa empilhada de papéis, com os braços cruzados e a cabeça apoiada, os olhos fechados em um sono profundo. Riu de leve antes de espreguiçar-se, estalando os dedos e virando o pescoço de um lado para o outro, ouvindo os pequenos barulhos pelo movimento, por mais que tivessem terminado a missão, sentia-se mais tenso que o normal. Respirou fundo, olhando o pequeno objeto no canto de sua mesa, em cima de uma pilha de relatórios que ele ainda precisava finalizar.
Era um tanto surreal, em sua opinião, imaginar que depois de tudo o que aconteceu, Harry Potter, seu chefe, o Menino-Que-Sobreviveu e quase morreu para deter Voldemort, se arriscaria a mexer com o tempo. Assim como todos os outros colegas, sabia que o homem estava sempre um tanto triste e mal-humorado quando não estava em missão, e é óbvio que sabia que era por causa de sua namorada nos tempos de Escola, embora não a tivesse conhecido, já tinha ouvido falar muito sobre a garota, filha de Sirius Black. Mas nunca, nem em um milhão de anos, acharia que Potter se arriscaria tanto para salvá-la.
Era praticamente impossível, nem mesmo acreditava que o Ministro tinha considerado aquela ideia, era absurdo demais. Havia entrado em uma pequena discussão com Darling ao longo dos meses, defendendo Harry das acusações da loira que, ele sabia, ainda mantinha sentimentos para o homem e, até por isso, ele achava que ela parecia tão irritada; Harry e Evie saíram juntos poucas vezes e, embora a mulher fosse apaixonada pelo Auror, terminaram por ele continuar com a cabeça longe.
Assim como Andrew e Gregory, Robert também achava absurdo cogitarem que Potter mexeria com o tempo, embora entendesse o lado do moreno se ele realmente tivesse considerado aquilo; o cara tinha perdido tudo!
A família, vários amigos, o padrinho e a namorada.
Era um peso enorme para se carregar, mas por pior que estivesse, Potter não se arriscaria daquela forma. Estava sempre bebendo, era verdade, e não eram raras as noites que permanecia em seu escritório, ao invés de ir para sua casa, mas Harry não faria aquilo.
Robert Toods colocaria sua mão no fogo pelo chefe, o homem nunca faria nada tão estúpido. Sempre se preocupava com o bem-estar de todos na equipe, assim como Trouxas e outros bruxos “civis”, quando acabavam envolvidos de alguma forma nas missões, era impensável que esse homem pegaria aquele Vira-Tempo e arriscaria a vida de tantas pessoas, apenas para recuperar a namoradinha de escola.
O negro esticou o braço sobre a mesa, pegando o pequeno objeto na mão, queria dar uma olhada naquilo que tinha sido a obsessão de seu chefe por tantas semanas.
— Com fome? — Natalie perguntou ao entrar na sala, carregando uma bandeja com alguns sanduíches que encontrou na copa, uma jarra de suco gelado flutuava ao seu lado, junto com alguns copos de vidro.
— Aceito — sorriu, segurando o objeto entre os dedos —, você já viu? — Questionou enquanto a mulher se aproximava, após deixar as coisas na mesa desocupada, mais ao canto do escritório.
— Só em fotos e, mais cedo, na mão de Harry, é incrível como uma coisinha tão pequena possa ser tão perigosa, não é?
O homem concordou com um aceno, desembrulhando com cuidado o relógio, mas sua expressão curiosa transformou-se rapidamente em surpresa, passando por confusão, antes de seu cérebro processar o que tinha acontecido. Levantou-se rapidamente, pegando a varinha que tinha deixado ao lado, e andando apressado para a sala de Harry Potter.
— O que…? — McDonald começou, então reparando em uma pedra escura sobre o pano cinza. — Não!


Potter e Malfoy ouviram batidas fortes na porta, enquanto os aurores tentavam entrar na sala, tentando arrombar à porta.
— Rápido!
— Não se apressa a perfeição, Potter. — O loiro respondeu, concentrado no encantamento que fazia, vendo o Vira-Tempo girar em sua mão, parando pouco depois e então voltando a girar rapidamente.
Harry foi rápido o bastante para segurar no braço de Draco, antes do objeto começar a voltar, e logo a sensação de enjoo o atingiu ao notar que voltavam no tempo; viu-se reunindo-se com parte da equipe no escritório, e antes disso com Quim. A bruxa da limpeza passando, assim como outras pessoas com quem tinha se reunido naquela semana.
As coisas pareciam voltar mais rápido ainda, em um piscar de olhos não era mais sua sala, era a de Quim, e era ele quem estava sentado na mesa principal. Visualizou por breves segundo Rony ao seu lado, no dia que se inscreveram para o curso de aurores, anos antes. Continuaram voltando até o relógio parar, o lugar estava vazio e o silêncio dentro da sala era absoluto.

02 de maio de 1998, 07h01.


— Conseguimos? — Perguntou em tom baixo, olhando para Draco, que guardava o Vira-Tempo no bolso da capa escura que usava.
— Acredito que sim. — Respondeu olhando para a decoração antiga, aproximando-se de um quadro de avisos — Está vendo isso? — Apontou para uma das fotos — Bellatrix Lestrange. Estamos na época certa!
— Excelente, agora vamos, não devemos ter muito tempo!
Seguiram apressados para à lareira no fundo da sala, Potter pegou o pó de Flu que estava em um pote ao lado, jogando no fogo que se tornou verde.
— Hogwarts!
Bateu com a cabeça ao sair da lareira, xingando em voz alta enquanto ajeitava os óculos em seu rosto, Draco logo apareceu arrumando os cabelos loiros, tirando a poeira que se acumulou nos mesmos, e em suas vestes.
— Eu simplesmente odeio isso.
— Sinceramente, prefiro pó de Flu a aparatar, até hoje sinto que vou vomitar a qualquer momento. — Contou, olhando ao redor, a sala de Dumbledore estava vazia e intacta, exatamente como se lembrava da época do diretor.
— Se quer saber, bala ajuda. — Malfoy aconselhou, puxando a varinha de suas vestes, Harry o olhou confuso — Estar mastigando alguma coisa, eu normalmente uso uma bala, tira aquela sensação de enjoo.
— Vou me lembrar disso da próxima vez — Agradeceu com um aceno, antes de puxar a própria varinha, em seguida, os dois usaram feitiços desilusórios antes de encaminhar-se para a saída da sala. Tinham cogitado a possibilidade de usarem a Capa de Invisibilidade de Potter, mas a chance de serem vistos era muito maior, não sabiam exatamente o tipo de ação que seria necessária, e estar os dois espremidos não ajudaria em nada, a Capa tinha se tornado pequena para Harry, ele nem mesmo conseguia imaginar como a dividiria com Malfoy.
Desceram os lances de escadas o mais rápido que conseguiram, notando as paredes quebradas, estátuas despedaçadas e vários degraus faltando, tendo que pular vez ou outra, mas no mais a Escola estava em silêncio. Não escutavam gritos nem explosões, a batalha principal já tinha terminado;
— Que horas são? — Harry perguntou quando chegaram no último lance de escadas.
— Não faço ideia. — Informou após conferir seu relógio de pulso, que estava parado. — Voltamos no tempo, aparentemente meu relógio não funciona aqui.
Aproximaram-se em silêncio do Salão Principal, notando vários corpos deitados, imóveis, e vários outros movendo-se com certa dificuldade, enquanto eram tratados. Pequenos grupos sentados separadamente, conversando e ajudando-se como podiam, Draco olhou para um canto, vendo a si mesmo e aos pais, conversando isolados do restante. Sorriu de lado ao ver aquilo, lembrava-se muito bem daquele sentimento de paz que reinou em seu corpo por alguns minutos, após Potter derrotar Voldemort.
— Lestrange ainda está aqui. — Harry comentou em voz baixa, olhando para o Comensal amarrado do outro lado do Salão.
— Não estou vendo ... — Malfoy estranhou ao olhar ao redor, viu Hermione e os Weasley, mas nem sinal da prima.
Harry sorriu de lado, Draco o encarou desconfiado.
— Ela estava com você, não é?
O homem confirmou com a cabeça, mantendo o sorriso em seus lábios.
— Na Torre da Grifinória, mas se você quer mesmo saber, a melhor parte aconteceu bem ali! — Apontou com o dedo para o canto próximo às escadas, apenas alguns passos do lugar em que estavam.
— Agora não tenho certeza se quero permanecer aqui, não estou interessando em ver vocês dois se beijando. — Draco resmungou, rolando os olhos.
Harry riu baixo, mas afastou-se alguns passos, junto com o loiro, os dois andaram para perto da escadaria, permanecendo sentados logo abaixo, enquanto esperavam.
Não demorou nem dois minutos para ouvirem passos, e logo Potter pode ver o seu eu de dezessete anos junto de , descendo as escadas de mãos dadas e parando alguns metros mais à frente, antes de entrarem no salão.
Era como se estivesse em um de seus sonhos, revivendo tudo aquilo, mas era ainda melhor, porque, de alguma forma, era real. Por mais que tivesse acontecido há tantos anos, lá estava ele, vendo o sorriso da loira antes de beijar-lhe os lábios e passar vários minutos daquele jeito.
— Não querendo atrapalhar — pigarreou Draco, sussurrando ao seu lado, ao olhar para o homem, Harry notou que Malfoy encarava os próprios sapatos —, mas acho melhor vocês apressarem as coisas, antes que nosso tempo acabe.
— Eu não posso controlar… — Deu de ombros, no fundo sentindo um aperto ao saber o que logo aconteceria, principalmente porque Draco estava certo, não sabia quanto tempo ainda tinham, mas não poderia ser muito.
Por mais estranho que parecesse para Harry, o tempo que seu eu mais novo esteve com foi mais curto do que imaginou. Talvez uns cinco minutos, ou menos. Logo o casal estava sorrindo e caminhando em direção ao Salão Principal, Harry ainda teve tempo de se ver segurando a mão da Black, antes de passarem pelo portal.
— Qualquer momento, agora! — Potter falou com a voz grave, sentindo o nervosismo começando a agitá-lo, enquanto levantava-se junto de Draco, dando alguns passos para frente, ficando ambos parados ao pé da escada.
Não demorou mais de um minuto para ouvirem uma movimentação vinda do Salão, e uma gritaria iniciou-se;
Os dois deram passos para trás ao verem Rodolfo Lestrange correndo na direção em que estavam, escorregando no chão sujo e quase caindo, enquanto voltava a equilibrar-se e correr para o gramado. Levantaram suas varinhas, posicionando-se e logo o jovem Harry Potter seguiu correndo, junto com Quim, Carlinhos, Arthur e .
O plano era simples; não poderia ficar no caminho do jato verde que o Comensal iria disparar, não importava o que fariam, ela simplesmente não poderia estar na direção; Aconteceu tudo muito rápido, o grupo correu atrás de Lestrange, que começou a atirar feitiços para todos os lados, sem realmente procurar um alvo. Esquivava-se e lançava feitiços de volta e, em um momento, Harry notou com um segundo de atraso o que acontecia, mas por sorte Draco estava atento a situação.
Potter piscou duas vezes, entendendo finalmente o que tinha acontecido; Não era quem estava na direção da Maldição da Morte, era Arthur Weasley.
Black tinha empurrado o mais velho, desviando-o da Maldição, e colocando-se na direção da mesma.
tinha morrido salvando Arthur Weasley, e foi por isso que os dois estavam caídos aquele dia. Era por isso que Arthur estava chorando, curvado sobre o corpo da garota.
Ela tinha salvo sua vida.
Ignorando por completo o estado de choque de Potter, Malfoy respirou fundo ao constatar que tinha funcionado; O loiro tinha lançado um Impedimenta na hora certa, e antes que a prima estivesse na direção da luz verde, acabou sendo lançada para o lado, batendo com força na parede oposta. Talvez tivesse quebrado uma costela, mas estava viva.
Harry, Quim e Carlinhos gritaram quando conseguiram derrubar Rodolfo segundos depois, e, antes de realmente notarem o que estava diferente, Malfoy sentiu o Vira-Tempo esquentando em seu bolso, mal teve tempo de segurar Potter pelo braço, quando tudo começar a girar.
O tempo parou por um segundo, e então começou a rodar rapidamente, voltando para o futuro; vislumbraram a agitação que se seguiu; vários vultos apareceram para ver o que tinha acontecido, e então os anos passaram, as paredes foram reformadas e os alunos iam e vinham pelo corredor.

27 de dezembro de 2005, 17h55.

Harry finalmente respirou fundo, piscando rapidamente ao notar tudo em silêncio. Já estava escuro e apenas as velas iluminavam fracamente o corredor.
— Deu certo? — Draco perguntou em voz baixa, ao seu lado.
— Não faço ideia… Mas acho melhor sair daqui, antes que nos encontrem. — Avisou, e logo tornaram a usar as varinhas para um novo feitiço de desilusão, enquanto caminhavam apressados em direção ao escritório ocupado por Minerva, na intenção de usar o pó de Flu novamente.
Seguiram em silêncio, esperando por alguns minutos quando Pirraça passou flutuando um lance de escadas acima, até finalmente chegarem na sala. Não precisaram de muito esforço para descobrirem a senha; depois de tantos anos trabalhando como Auror, Potter tinha ficado bom nisso.
— É melhor voltarmos para o Ministério primeiro, não? — Malfoy perguntou, pegando um pouco de pó de Flu na mão. Harry concordou com um aceno, e no instante seguinte o loiro já estava na lareira, gritando Ministério da Magia, Departamento de Execução das Leis da Magia, Sessão dos Aurores.
Era uma frase grande e um tanto cansativa, mas específica o bastante para terminar na lareira da sala de Harry, o que significava um pouco de privacidade até eles saberem o que estava acontecendo, o quão alterada as coisas tinham sido.
Draco ainda limpava a roupa da fuligem, enquanto andava pelo escritório de Potter, parando no quadro de avisos; os cartazes de procurados continuavam os mesmos de antes. Ainda olhava ao redor, quando viu Potter saindo da lareira, ajeitando os óculos de aros redondos no rosto.
— E então? — Perguntou ansioso, Draco deu de ombros.
— O escritório é seu, você quem deveria saber se tem algo diferente.
Potter rolou os olhos, mas a primeira coisa que notou foi a falta do travesseiro e do cobertor no sofá de canto. E a mesa ao lado estava organizada, apenas com uma pilha de pastas, que provavelmente seriam do trabalho. Passou a língua pelos lábios secos, caminhando pela sala, olhando para os lados, não tinha nem sinal das garrafas vazias, apenas uma garrafa de hidromel e dois copos em uma mesinha de canto, mas para sua surpresa, a garrafa estava cheia, nem mesmo parecia ter sido aberta.
— Eu diria que as coisas estão funcionando muito bem para você, Potter.
Ouviu a voz de Draco, parado próximo à sua mesa, com um porta-retratos em mãos.
Harry andou lentamente até ele, logo notando o sorriso de lado que o loiro tinha, antes de estender a mão, entregando-lhe o objeto.
Potter olhou todos os detalhes daquela foto sentindo, aos poucos, um sorriso enorme tomar conta de seu rosto; se mexia rindo na imagem, o cabelo loiro comprido, preso em um penteado bonito, usava um vestido branco e segurava uma taça de bebida em uma das mãos, levantando-a como em um brinde. Estava de braços dados com Harry, que usava um traje à rigor preto, os cabelos bem penteados e o sorriso enorme em seu rosto, hora tomava um gole do líquido em sua própria taça, hora sorria, virando-se para beijar-lhe a bochecha. Atrás da imagem, ainda era possível ver uma mesa enfeitada, com um bolo de dois andares.
— Quem diria que vocês se casariam tão rápido, hm? — Malfoy comentou rindo, com as mãos nos bolsos na calça. Harry o olhou por alguns segundos, incapaz de dizer alguma coisa, apenas rindo de volta. Então deixou seu olhar cair na mão esquerda, notando um anel dourado em seu dedo, o qual não tinha reparado mais cedo;
Estava casado, Harry Potter tinha se casado com Black.
O que poderia ser melhor do que aquilo?
— Potter?
— Hm? — Respondeu ainda olhando para o anel em sua mão.
— Está esperando o quê para ir para sua casa encontrar com ela?
Harry o olhou finalmente, Draco estava certo.
Por que ainda estava perdendo seu tempo, ao invés de ir para casa encontrar com ?
— Nos falamos amanhã, ok? — Disse colocando o porta-retratos na mesa, encaminhando-se para à porta. — E, Draco? — Chamou-o, antes de sair da sala. — Obrigado.

Harry aparatou na calçada, respirou fundo e passou a mão pelos cabelos escuros, andando aqueles poucos metros até à porta. Sentiu a mão tremer levemente antes de girar a maçaneta, entrando em sua casa dois segundos depois.
Estava tudo quieto, mas as luzes em boa parte acesas, assim que passou pela sala notou a diferença; tudo bem arrumado e muito bem decorado. A parede principal, atrás do sofá, pintada de uma cor escura, enquanto as demais eram brancas, contrastando bem com a decoração. Fotos espalhadas pela casa, do casal junto ou com amigos.
Em cima da soleira da lareira, mais ao canto, Harry pegou um porta-retratos maior, o qual tinha uma foto de Sirius, James, Lily e Victoria, todos sorriam, os dois bebês sentados nos colos dos pais. Sorriu para a imagem, sentindo o coração pesar.
— Harry? — Potter fechou os olhos com força, o ar pareceu faltar em seus pulmões e o coração parar uma batida. — Está tudo bem, amor?
O Auror virou-se para a escada, vendo a mulher o encarando com o semblante confuso, preocupado. Os cabelos loiros estavam soltos, descendo até metade das costas, usava uma calça jeans escura e uma camisa de Quadribol velha, com o símbolo da Grifinória e o número 7, o nome Potter.
Harry sorriu ao notar aquilo, era seu uniforme do time nos tempos de Hogwarts.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou novamente, dando alguns passos em sua direção. O homem não disse nada por alguns instantes, ocupado demais em gravar aquela imagem em sua memória. Ela estava ali, finalmente. — Pelas barbas de Merlin, Potter, não vai falar nada? — colocou as mãos na cintura, começando a ficar incomodada com todo aquele silêncio.
Harry riu, negando com a cabeça, enquanto dava alguns passos, acabando com a pouca distância que os separava.
Ainda sem dizer nada, colocou as mãos no rosto da mulher, aproximando seus lábios dos dela, beijando-a com toda a saudade que tinha em seu peito;
— Senti sua falta!

8.

Harry a abraçou com força, apertando-a conforme a saudade parecia aumentar, seu sangue bombeando rapidamente e seu cérebro processando aquela informação, aos poucos. Acariciou seus cabelos compridos, sentindo o cheiro de shampoo, misturados com o perfume que a mulher usava. o abraçou de volta, levando as mãos até seus ombros, acariciando-lhe os cabelos curtos.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou em tom baixo e, então, Harry percebeu que já estava há bons minutos a abraçando daquela forma.
Fungou baixo ao notar que seus olhos verdes enchiam-se de lágrimas, ela estava com ele.
— Harry? Está tudo bem? — afastou-se levemente, encarando-o com o cenho franzido, pareceu um tanto confusa ao notar as lágrimas em seus olhos, levando as mãos ao rosto do marido — O que foi?
— Só senti sua falta. — sorriu pequeno, segurando as mãos da mulher com as suas, e levando-as aos lábios beijando-lhes antes de voltar a sorrir e a encarar .
— Nos vimos tem menos de três horas, — olhou-o desconfiada, vendo-o dar de ombros em seguida — aliás, isso me lembra! — afastou-se dele, colocando as mãos na cintura — Posso saber o que estava fazendo na rua até essa hora? O jantar esfriou e eu me recuso a esquentar. Se vira!
Potter riu, concordando com a cabeça.
— Sinto muito, acabei me distraindo enquanto conversava com Draco… — respondeu a primeira coisa que veio à cabeça, logo pensando que talvez não fosse uma boa ideia. Não sabia como estava sua nova vida, se faria algum sentido estar conversando com Malfoy e…
— Depois você não sabe o porquê do Rony ter ciúmes, — rolou os olhos, virando-se e andando em direção a cozinha — é a terceira vez essa semana que sai com Draco, não sei o que tanto fofocam! — Harry a seguiu pelo corredor, ainda sorrindo ao vê-la pela casa, fazendo coisas banais como abrir a geladeira. — Para dois ex-inimigos, vocês estão passando muito tempo juntos.
— Rony continua sendo meu melhor amigo, — deu de ombros, encostando-se na bancada da pia, cruzando os braços e olhando para a loira, que colocava algumas coisas em cima da mesa da cozinha. — falando nisso, como ele e Hermione estão indo?
franziu o cenho, encarando-o confusa.
— O que quer dizer?
— Ah, você sabe… — deu de ombros. continuou o encarando por alguns instantes.
— Bem, acredito. — respondeu simplesmente, colocando um prato e talheres na mesa. — Convidei Hermione para jantar amanhã, ok? Achei que um jantar de casais seria legal…
— Claro!
— Já fiz mais do que eu disse que faria. — a mulher começou, olhando para a mesa e então para Potter — Agora se vire para esquentar o jantar!
Harry permaneceu de braços cruzados, o sorriso leve nos lábios finos, antes de aproximar-se passo a passo. não pareceu notar em um primeiro momento, estando de costas para ele e encarando a mesa, certificando-se que não faltava nada; ao mesmo tempo que não queria servir-lhe, ficava preocupada com a má alimentação do marido, principalmente quando vivia sumindo por dias em missões arriscadas.
Então sentiu quando os braços dele envolveram sua cintura, apertando-a gentilmente antes de encostar o queixo em seu ombro, soprando contra seu ouvido;
— Eu acho que o jantar poderia esperar mais um pouco, não concorda? — beijou-lhe a orelha, vendo-a arrepiar-se e suspirar. Harry a virou em sua direção, logo notando o sorriso de canto em seus lábios, antes da loira inclinar-se e beijar-lhe.
Parecia que estava de volta aos tempos de escola, e como se fosse a primeira vez que a beijava, seu coração batia acelerado, suas mãos pareciam agitadas e trêmulas, o ar faltando em seus pulmões, e seu cérebro tentava guardar aquela memória. Mas, diferente de anos atrás, tinha um algo a mais naquele beijo, um desejo maior.
Não demorou para que ambos andassem cambaleantes pela cozinha, retornando ao corredor, a primeira ideia que veio à cabeça de Potter era de irem até o quarto, mas ele pareceu agitado demais para seguir esse plano. Ao invés, quando deu por si, suas mãos vagavam pelo corpo da mulher em seus braços, enquanto ela lhe puxava a camisa escura, perdendo alguns segundos abrindo os botões, antes de atirar a peça de roupa em algum canto. Potter poderia ter dado alguns passos e seguido para a escada, mas escolheu o caminho mais curto, andando até o sofá, e logo esbarrando com as pernas no mesmo, ainda ocupado demais beijando a esposa, para prestar atenção nos detalhes, ou na mesinha ao lado, a qual tinha um porta-retratos e um vaso de flores pequeno, os quais eles derrubaram.
riu entre o beijo, não parecendo realmente incomodada com a bagunça, antes de sentir Harry a puxar para o sofá, caindo por cima dele pouco tempo depois. Aos poucos foram ajeitando-se para ficarem mais confortáveis no local, enquanto Harry retirava a camiseta da mulher, beijando cada pedaço de pele descoberto, antes de voltar a embrenhar os dedos nos cabelos loiros e compridos, puxando-a para outro beijo urgente.
As peças de roupa foram, uma a uma, deixando de ser um empecilho, e em poucos minutos, Harry estava deitado sobre a mulher, beijando-lhe enquanto envolvia as pernas no quadril do homem, que gemeu baixo quando ela chamou seu nome.

Passaram longos minutos em silêncio, Harry a envolvia com os braços, mantendo-a próxima de seu corpo. Com as roupas espalhadas pela sala, Potter esticou o braço, alcançando a varinha que estava largada ao lado, e a apontou em direção da lareira. Logo o fogo acendeu-se, e poucos minutos depois, a sala já parecia aquecida.
O Auror respirou fundo, acompanhando a respiração calma da mulher, que dormia em seus braços.
Sorria sozinho, mal acreditando que aquilo estava mesmo acontecendo.
Sentia seus olhos pesarem, estava cansado, exausto, mas tinha medo de fechá-los, medo de dormir. Não queria acordar e descobrir que era tudo mentira, que era apenas mais um sonho, real demais para suportar. Aos poucos, porém, foi vencido pelo sono.

Harry virou-se desconfortável e, ao mexer os braços, notou que não tinha mais nenhum peso sobre ele, o pequeno espaço ao lado estava vazio.
Abriu os olhos assustado, sentando-se apressadamente e olhando ao redor; a fogueira continuava acesa, e era a única luz no cômodo. Ele encontrava-se nu, tendo apenas uma coberta sobre si, uma coberta que ele não lembrava de ter pego. Poucos instantes depois, enquanto levantava-se afoito, ouviu passos vindo da escada, e ao virar-se, viu descendo com dois travesseiros em mãos, e mais uma coberta grossa.
— Ah, você está acordado! — sorriu ao perceber o homem em pé. — Achei que seria mais fácil montar uma cama no tapete do que conseguir te fazer levantar e ir até o quarto, mas muito melhor se você já levantou! — explicou-se, pronta para dar meia volta e subir as escadas.
Harry notou que ela estava novamente com sua camiseta de Quadribol, e apenas com aquela peça de roupa, um pouco grande demais para a mulher, de modo que a barra da camiseta chegava um pouco abaixo de sua bunda. Potter sorriu novamente.
— Já estamos aqui, , vamos ficar por aqui hoje… — pediu com a voz rouca, ela parou no terceiro degrau, ponderando sobre as opções.
Deu de ombros em seguida, aproximando-se com a coberta e os travesseiros.
Harry afastou a mesa do centro, esticando o cobertor grosso no chão, enquanto a mulher colocava os travesseiros, e depois a coberta que já estava no sofá. Não demoraram a voltar a enroscar-se por ali, trocando carinhos até voltarem a pegar no sono.

Potter acordou bem-humorado, embora sentisse as costas doerem. Permaneceu em silêncio por alguns instantes, ao notar que a mulher ainda dormia tranquila sobre seu braço direito, o qual estava um tanto dormente, mas ele não se incomodou naquele instante. Ficou em silêncio, encarando-a enquanto dormia;
Os cabelos loiros mais compridos e um pouco mais escuros estavam bagunçados, seu rosto, agora mais velho e um pouco mais amadurecido, tinham pequenas rugas ao lado dos olhos, assim como na testa.
parecia bem, foi só quando a mulher mexeu-se, apoiando o braço esquerdo contra o peito de Harry, que o bruxo reparou em algo que não tinha visto anteriormente; A Marca Negra, parecia desbotada, desgastada, mas ainda estava lá.
Mordeu o lábio, fechando os olhos por alguns instantes, queria saber o que tinha acontecido durante aqueles sete anos que tinham sido alterados, mas ao mesmo tempo sentia-se tenso, nervoso. Não queria descobrir que tinha estragado as coisas, feito algo ruim acontecer. Harry apenas queria sua garota de volta, e tinha conseguido. Mas não queria machucar outras pessoas, estragar suas “linhas do tempo”.
Pensou se seria uma boa ideia perguntar para , mas a mulher era esperta, talvez desconfiasse de alguma coisa. Rony parecia a melhor opção, aproveitaria que o ruivo jantaria em sua casa aquela noite, para perguntar-lhe algumas coisas, até lá, podia aproveitar o tempo com a mulher. Pelo menos foi o que ele pensou, até ela acordar;
— Bom dia. — sorriu, levou a mão aos olhos, coçando-os enquanto mexia-se na cama improvisada, virando-se ao poucos e bocejando.
— Bom… Que horas são?
— Não faço ideia… — comentou espreguiçando-se, enquanto a esposa sentava-se, olhando ao redor.
— Por Merlin, Harry! — assustou-se ao olhar o horário no relógio preso à parede — Você está atrasado! Não tinha uma reunião com o Quim hoje?
— Eu… O que? — questionou confuso, sentando-se em tempo de vê-la correr escadas acima.
— Eu tenho que terminar os relatórios… — a voz foi sumindo, até que Harry não compreendeu mais o que ela dizia, mas parecia urgente.
Deu-se por vencido ao notar que não voltaria, e seguiu para o segundo andar, pronto para tomar um banho antes de ir para o trabalho.
Despediram-se assim que cruzaram os corredores do Ministério da Magia, Harry foi em direção ao elevador, enquanto parou para conversar com uma bruxa ruiva, com vários relatórios em mãos. Não teve tempo de ver o que a mulher falava, pois logo o elevador estava lotado de outros funcionários, parando em a cada andar, até chegar no qual o Auror precisava descer.
Surpreendeu-se ao notar que não fazia ideia de qual era o setor em que trabalhava, não tendo tido coragem de perguntar durante a rápida conversa que tiveram enquanto se arrumavam, comentou algo sobre “relatórios”, “provas” e “entrevista”.
Presumiu que ela estava envolvida com o setor de julgamento de Leis da Magia, o que parecia um tanto surpreendente, sempre imaginou tentando carreira com Quadribol e, que pelo o que Harry sabia, era uma área um tanto entediante. Não era algo que imaginava envolvida, mas se a mulher estava feliz com o trabalho, era o suficiente para ele.
Potter atravessou o corredor, passando pela sala com seu grupo de Aurores, que viraram-se para olhá-lo, desejando bom dia à todos.
— Hm, chefe? — Andrew chamou-o, quando passou por sua mesa, Harry virou-se para olhá-lo. — O Ministro está na sua sala…
— Temos uma reunião e eu estou atrasado, mas não imaginei que ele viria até aqui... — deu de ombros, antes de continuar seu caminho.
Abriu à porta, vendo Quim sentado em sua cadeira, folheando alguns papéis em cima da mesa.
— Será que ele vai continuar de bom humor depois que souber? — conseguiu escutar a voz de Gregory, antes de fechar a porta.
— Potter, precisamos conversar.
A voz grossa e calma de Quim foi a primeira coisa que escutou ao entrar em sua sala. Harry apenas concordou com a cabeça, retirando o casaco grosso do uniforme e sentando-se na cadeira em frente, uma pequena parte de si reclamava por isso. Por mais que fosse o Ministro, era quase humilhante ter que sentar-se em outra cadeira, como se fosse qualquer outra pessoa que não o Chefe dos Aurores, mas era Quim afinal, e Potter devia-lhe respeito.
— O que seria?
O negro demorou alguns segundos para responder, deixando seu olhar vagar pelos objetos na mesa, parando no porta-retratos ao lado, com a foto do casamento de Harry.
— É uma ótima foto, não? — comentou tranquilo, Harry concordou com a cabeça, levemente confuso;
O Ministro não estava ali para conversar sobre poses fotogênicas, disso ele tinha certeza.
— Obrigado. — disse simplesmente, aguardando o mais velho continuar.
Passaram-se alguns segundos, no qual o homem acabou levantando-se e andando pela sala, como se estivesse interessado na decoração, parando alguns instantes para observar mais de perto um objeto ou outro.
— Senhor? Algum problema…?
Shacklebolt colocou as mãos para trás, enquanto encarava o quadro com anúncios e fotos dos procurados.
— Como sabe, estamos dando continuidade à casos mais antigos, e agora que Nott foi capturado, temos algumas novas informações para julgamentos, relacionados a outros Comensais…
Harry concordou com a cabeça, sem fazer ideia do que o outro dizia. Nott tinha sido considerado um Comensal?
— Claro…
— Theodore, acabou soltando alguns nomes durante a entrevista.
— Entrevista?
Quim o encarou.
— Sim, a qual Evans e McGuire foram convocados para auxiliar…?
— Hm… Claro, claro. Qual o problema?
O Ministro encolheu os ombros, respirando fundo antes de dar a volta na mesa e tornar a sentar-se na cadeira principal.
— O problema, Harry, é que Nott disse alguns nomes que, se forem confirmados, será um novo abalo no Ministério…
— E o senhor quer que eu investigue se eles realmente tem relação com Voldemort?
Quim negou com a cabeça, parecendo mais cansado que o normal.
— A questão é que um dos nomes, é da sua esposa, Harry. irá a julgamento.
Potter passou o resto do dia em sua sala, não saindo para nada, nem mesmo almoçar.
Ignorou os documentos que precisava assinar e os relatórios que precisava preencher.
Assim como ignorou às vezes que seus Aurores bateram na porta, chamando-o para resolver algum problema.
Após Quim Shacklebolt sair de sua sala, horas antes, Harry trancou-se e ficou sentado em sua cadeira, pensando sobre o assunto.
Tentava, aos poucos, entender tudo o que tinha mudado.
Até o momento sabia que tinha se casado com e continuava a ser Chefe dos Aurores, infelizmente a mulher continuava com o mesmo passado e a Marca Negra gravada em seu braço esquerdo, e essa era a principal prova contra Black;
Ela tinha sido uma Comensal da Morte por quase um ano, e todos sabiam.
Harry procurou por alguns arquivos na sua sala, e logo encontrou vários referentes a Batalha de Hogwarts e todos os Comensais envolvidos. Não demorou a encontrar a pasta com os documentos de , o que foi uma pequena surpresa, pois não esperava que existisse uma dessas com o nome da mulher.
A pasta grossa e de cor preta carregava vários recortes, fotos e pedaços de pergaminho com informações sobre ela.
Seu histórico em Hogwarts estava junto, assim como alguns pergaminhos longos, com declarações de professores e colegas testemunhando a seu favor. E foi aí que Harry percebeu que já tinha passado por vários interrogatórios a respeito de seus meses ao lado de Voldemort.
Harry leu todos, duas vezes cada pergaminho, com calma e concentração, para não deixar passar nenhum detalhe significativo;
Ela tinha sido inocentada por falta de provas, ninguém podia culpá-la pelo o que aconteceu, a mulher nem mesmo se lembrava de parte das coisas pelas quais era acusada.
Ao ser comprovado, com teste do St. Mungus, que as memórias da mulher tinham sido alteradas, foi inocentada de todas as acusações e estava livre para continuar sua vida.
Mas, agora que Theodore Nott tinha sido capturado, segundo Quim, o homem havia passado detalhes sobre algumas ações da mulher, a qual, supostamente, estava consciente do que fazia.
Potter queria ir direto à Azkaban, esclarecer tudo aquilo, não era possível que Nott tivesse algo contra , o homem nem mesmo era um Comensal! E só por garantia, queria dar uma boa surra em Nott, não era possível que, novamente, existisse alguma chance de perder a mulher, logo agora que tinha a recuperado.

Harry só saiu de sua sala quando o horário do expediente tinha acabado, e a primeira coisa que pensou em fazer foi procurar Draco, talvez o loiro soubesse de algo que poderia ajudar, sem contar que Malfoy era o único com quem poderia conversar abertamente, ninguém mais sabia daquela nova realidade. Se perguntasse demais, poderia levantar suspeitas, ou, ao menos, perguntas que não teria uma resposta rápida.
Encontrou com alguns bruxos e no elevador, sorrindo para a mulher e beijando-lhe rapidamente;
— Preciso falar com o Draco antes de ir pra casa, ok?
A mulher fez uma expressão confusa, o cenho levemente enrugado.
— Draco vai jantar lá em casa, esqueceu? Não pode esperar alguns minutos?
Potter estranhou por alguns instantes, mordendo o lábio inferior antes de concordar com a cabeça;
— Achei que você tinha dito que era um jantar de casais…
riu baixo, negando com a cabeça;
— Harry, meu amor, casal significa duas pessoas, com quem você acha que Hermione iria se não com o Draco?
— Rony, talvez? — questionou como se fosse óbvio.
o encarou descrente, no momento em que a porta do elevador se abriu e os demais bruxos saíram.
— Harry, você sabe que Rony e Draco continuam sem se entender, não tem como convidar os três para o mesmo programa!
Potter passou alguns segundos a encarando confuso, até a mulher virar-se para sair do elevador e puxá-lo levemente, segurando em sua mão enquanto caminhavam pelo corredor, até que uma luz pareceu acender em sua cabeça;
— Hermione está namorando com Draco?!
A loira tornou a olhá-lo, cada segundo mais confusa;
— Hermione está casada com Draco, eles vão ter um filho!

9.

Potter levantou-se do sofá quando escutou a campainha tocar, apressado para conversar com Draco, assim que abriu à porta, enquanto descia as escadas sorridente. A primeira coisa que notou foi a barriga de Hermione, não conseguindo ter outra reação que não abrir a boca, completamente chocado.
— Boa noite pra você também, Harry! — a mulher rolou os olhos, rindo baixinho.
— Oi, Mione! — sorriu amarelo, olhando rapidamente para Draco, vendo-o encarar os próprios sapatos.
Assim que o casal entrou, cumprimentando , Potter esperou as duas mulheres afastarem-se, antes de se virar para Malfoy;
— Nem me pergunte. — o outro falou em voz baixa, o olhar preso no corredor no qual as duas tinham sumido — Cheguei em casa e ela estava lá, me esperando, falando sobre o jantar de hoje e perguntando do meu trabalho, falando que o bebê estava mexendo muito… — negou com a cabeça, parecendo um tanto surpreso com tudo aquilo, virando-se para Potter em seguida — Como foi que isso aconteceu? Cadê o Weasley? Encontrei com Astoria no hospital hoje e ela apenas me disse bom dia. O que está acontecendo, Potter?
Harry passou a mão pelos cabelos, mais curtos do que estava acostumado, e então colocou as mãos nos bolsos da calça.
disse que você e Rony continuam sem se entender, e, parece, que ele e Mione quase não se falam… Mas não faço ideia de como isso tudo aconteceu. Faz sentido sua namorada… Ou ex-namorada, não sei… Bem, faz sentido vocês não estarem próximos, mas… Quer dizer, você e Hermione… Como…?
Draco respirou fundo, cruzando os braços.
— Eu vou ser pai de um filho de Hermione Granger. Você pode me explicar o que a estar aqui tem a ver com isso? Porque, se me lembro bem, durante a batalha Hermione estava com o Weasley. Como a volta dela tem qualquer influência sobre isso? — cochichou, não querendo que as duas os escutassem. — Em que momento eles terminaram e eu apareci?
— Não faço ideia… Vocês se odiavam… Como… — Potter notou quando Draco desviou o olhar, deixando-o curioso — O que foi?
Malfoy mordeu o lábio inferior, virando-se pensativo;
— Você poderia perguntar para se, por acaso, ela tem algo a ver com isso?
— Por que acha isso? — questionou desconfiado.
Draco suspirou.
— Ela era a única pessoa que sabia como eu me sentia sobre Hermione. Acha que talvez…?
Potter o encarou incrédulo.
— Você gostava da Hermione?
— Como assim gostava? — questionou com a sobrancelha arqueada, parada próxima a entrada da sala. Virou-se para o primo, o dedo apontado em sua direção, baixando o tom de voz — Draco Lucius Malfoy, se eu sequer desconfiar que você está pensando em deixar a Mione…
— O que? — questionou com a voz mais aguda. — Por Merlin, não é nada disso… — esticou as mãos, negando com as mesmas e com a cabeça.
Harry o encarou com a sobrancelha arqueada, achando a cena um tanto cômica.
cruzou os braços, olhando de um para o outro, aguardando uma explicação.
Os dois homens se entreolharam, e então Harry sorriu de lado, aproximando-se dela.
— Até parece que Draco seria louco, você já imaginou o que a Hermione faria com ele?
O casal riu baixinho, e então a loira pareceu relaxar um instante;
— Não faça com que eu me arrependa de ter juntado vocês dois, Draco. — avisou rindo, antes de voltar a andar pelo corredor — Ah, o jantar está servido!
— Foi ela! — Draco apontou para a prima quando ela sumiu pelo casa — Eu sabia! Só podia ser! Mas como…?
— E o Rony? — Harry tornou confuso, pensando rapidamente enquanto os dois andavam até a sala de jantar — Eu vou falar com ele amanhã, descobrir o que aconteceu…
O jantar ocorreu normalmente, embora Draco e Harry parecessem um pouco aéreos em alguns momentos, por não saberem exatamente do que conversavam.
Em determinados momentos Harry percebeu o quão feliz Draco parecia, mesmo que tentasse disfarçar, vendo-o sorrir por coisas pequenas e, vez ou outra, flagrou-o sorrindo para Granger, da mesma forma que o próprio Harry sorria para Black.
Draco Malfoy estava feliz com sua nova vida.
O jantar também serviu para Potter confirmar que estava trabalhando com as Leis da Magia, — e essa parte teve que agradecer a Draco, por falar que o trabalho dela soava tão chato, que ele nem mesmo se lembrava do que se tratava— , a bruxa estava no setor voltado para crimes e julgamentos para bruxos presos em Azkaban, o que o fez questionar-se internamente se isso teria relação com Sirius, que passou tantos anos preso sem ter tido um julgamento. Sentiu-se orgulhoso e contente ao notar o quão interessada e feliz parecia com seu trabalho, mas então lembrou-se do processo que seria iniciado, e a investigação que seria feita, o que acabou deixando-o preocupado e quieto pelo resto da noite.

Quando Draco e Hermione foram embora, Harry continuou sentado no sofá por alguns minutos, em silêncio, pensativo. Notando a súbita mudança de comportamento dele, o encarou de longe por alguns instantes, conhecia-o bem demais para saber que tinha algo errado; Potter estava agindo estranho desde a noite anterior.
Talvez fosse algo sobre o trabalho, mas sempre que algo relacionado com suas missões acontecia, Harry contava: às vezes pedia algum conselho, algum tipo de ajuda, ou apenas para desabafar.
deu a volta no sofá, parando atrás de Harry, mexendo em seus cabelos curtos, notou quando ele suspirou, fechando os olhos por alguns instantes, relaxando momentaneamente.
— O que aconteceu? — perguntou em tom baixo, vendo-o negar com um aceno. — Harry…?
— Coisas do trabalho. — sorriu de leve, quando a mulher sentou-se ao seu lado no sofá.
— Mesmo depois de todos esses anos, você ainda não aprendeu a mentir muito bem, sabia?
Ele riu baixo, negando novamente.
— Isso não é verdade, se eu não mentisse bem não seria Chefe dos Aurores.
— Continua não conseguindo me enganar, o que aconteceu? — tornou encarando-o séria.
Potter fechou os olhos, curvando-se para frente, apoiando os braços nas pernas. Esfregou as mãos no rosto, passando-as pelos cabelos pretos, antes de soprar em voz baixa;
— Quim me disse que o interrogatório com Nott teve alguns resultados… complicados. Surgiram alguns nomes de pessoas que trabalham dentro do Ministério.
franziu o cenho por um instante:
— Ainda não entendi uma coisa, como foi que Theodore foi preso por ser um Comensal? Pelo que me lembro, ele nunca se envolveu com nada, era mais omisso do que Draco.
Harry a olhou, passando a língua pelos lábios secos.
— Não sei, não estou por dentro de todo o assunto, vou ver se descubro mais alguma coisa amanhã… — o bruxo levou a mão ao pescoço, enquanto tentava relaxar, sentia-se tão tenso quanto as semanas que passou procurando o Vira-Tempo.
— Ele falou o meu nome, não foi? — perguntou, analisando as reações do marido; Harry engoliu em seco, demorando alguns instantes para acenar positivamente com a cabeça — Bem, não é como se essa fosse a primeira vez. Era de se esperar… Mas não vai ser muito diferente da última vez, não é? Quer dizer, eles não tem nenhuma prova, eu estou sendo monitorada há anos…
— Você o que? — questionou perplexo.
— Os interrogatórios… Relatórios… — respondeu confusa com a pergunta — Você sabe…?!
— Claro, claro. — concordou rapidamente, tornando a olhar para as próprias mãos.
respirou fundo, aproximando-se de Harry, encostando sua cabeça em seu ombro, enquanto colocava sua mão sobre as dele, apertando-as gentilmente.
— Vai dar tudo certo, Harry, como sempre. — sussurrou sorrindo, mas ele notou o brilho triste em seus olhos castanhos, cansados. Era óbvio que não era a primeira, e provavelmente nem a última vez que aquilo acontecia, Potter pensou no quanto aquilo deveria ser cansativo, exaustivo. — Draco também será chamado? — tornou a perguntar curiosa.
— Não sei, Quim só me disse sobre você, não me deu muitas informações… Mas eu vou tirar isso a limpo amanhã, ok?
sorriu novamente, beijando-lhe a bochecha.
— Vamos dormir?

Draco tomava um gole de sua bebida quando a porta do escritório foi aberta, Hermione cruzou os braços, encarando-o por alguns instantes, até que o mesmo se desse conta de sua presença.
— Não vem para a cama? — perguntou aproximando-se.
Draco sorriu sem jeito, confirmando com um aceno.
— Um instante, só estou… — apontou para sua mesa, um punhado de papel sobre o objeto. — Terminando algumas coisas do trabalho, quinze minutos.
Granger concordou, parando no instante seguinte, o cenho franzido e uma leve expressão de dor, antes de respirar fundo, voltando à posição normal.
— O que foi? Está tudo bem? Você está bem? — levantou-se, apressado e preocupado.
— Foi só o bebê chutando, não se preocupe. Só mais alguns dias, não é? — sorriu para o loiro, que concordou com um leve sorriso, ainda nervoso com tudo aquilo, embora parte de si parecesse se acalmar sempre que Hermione estava por perto. — Não demore muito, já está tarde!
Draco novamente confirmou com um aceno, surpreendendo-se quando a mulher inclinou-se encostando seus lábios nos dele, em um selinho. Era estranho, mas parecia já acostumado. Assustou-se de verdade quando Hermione tinha feito aquilo na noite anterior, quando entrou em casa, mas aparentemente era algo comum entre eles. Pois ela tinha repetido a ação pela manhã quando Draco saiu para o trabalho, e na sua volta para casa, enquanto ela contava sobre como tinha sido seu dia, e o tanto de coisas que já estavam prontas para a chegada do bebê.
Draco seria pai de um filho de Hermione Granger. Como aquilo tinha acontecido?
Ao chegar no hospital, mais cedo naquele dia, encontrou Astória no corredor, a mulher lhe deu um bom dia educado antes de sumir em um dos quartos, cuidando dos pacientes. Ela parecia bem, Draco não precisou de muito tempo para saber que nunca tinha tido nada com a enfermeira. Que mal conversavam durante o trabalho, apenas o necessário para o ambiente profissional.
Era estranho pensar na mulher como uma desconhecida, havia passado anos com ela, quatro bons anos. No momento sentia-se confuso com tudo aquilo, nem mesmo sabia quais eram seus verdadeiros sentimentos; Será que ele amava Hermione?
Era claro que sim, estavam casados, teriam um filho, mas isso tinha sido antes.
Como poderia afirmar que ainda a amava, se sabia que era uma realidade diferente? Sabia que na vida real, Hermione tinha escolhido Rony.
Era tudo extremamente confuso. Bom? Sim, mas confuso.
Malfoy achava que poderia viver daquela forma, parte de si concordava com aquilo, mas a outra parte continuava a bombardeá-lo com perguntas, as quais ele não sabia se tinha resposta.
Queria saber como foi que tinha aproximado os dois, em que ponto Hermione decidiu deixar Weasley para sair com Draco? Mas como poderia responder seus questionamentos, se as duas pessoas que poderiam lhe dar aquelas respostas, eram justamente duas das quais ele não poderia perguntar? Seria muito suspeito se Draco começasse a questionar como tinha acabado casado com Granger.
Depois de mais alguns minutos, os quais não teve nenhuma resposta que pudesse ajudá-lo, o sono começou a incomodá-lo, e Draco resolveu ir dormir. Teria tempo para tentar descobrir essas coisas mais tarde.

10.

Harry chegou cedo no Ministério, alegando que precisava resolver alguns problemas antes de uma reunião com os Aurores. Não era de todo mentira. Trancou-se em seu escritório e, novamente, tornou a olhar todos os documentos sobre que tinha. Todos os interrogatórios, todas as investigações. Nada ali apontava que ela poderia estar com problemas. Na verdade, doía relembrar tudo aquilo, principalmente por pensar que ela era quem mais deveria sofrer com tudo, precisando relembrar vezes e mais vezes tudo o que tinha acontecido, tudo o que havia feito.
Leu detalhes que nem mesmo sabia, ou pelo menos não se lembrava dela tê-lo contado, sobre como matou alguns Trouxas e outros bruxos, incluindo Ninfadora Tonks (embora essa parte estivesse classificada como confidencial).
Respirou fundo pensando em como poderia resolver aquela situação.
Precisaria ir à Azkaban, precisava falar com Nott, saber do que ele a acusava, saber quais as possíveis provas que ele teria contra .
Podia não ser nada, mas algo dentro de si dizia para não arriscar-se, podia não dar em nada, mas ele não sabia o que tinha alterado no tempo, e se Nott realmente tivesse algo contra ela?

tinha acabado de terminar o último relatório que estava parado em cima de sua mesa, e então espreguiçou-se antes de levantar para o almoço, tinha cinco minutos para não estar atrasada, e se tinha uma coisa que Andrômeda detestava, eram atrasos.
Era seu dia de ficar com o pequeno Ted, enquanto Andy passaria a tarde fazendo outras coisas, desde compras à um chá com algumas amigas.
Teddy Tonks Lupin não sabia como os pais tinham morrido, e, no fundo, se fosse sincera, esperava que ele nunca soubesse, o que seria quase impossível.
Em algum momento de sua vida ele descobriria que tinha sido ela quem tinha lançado a maldição que tirou a vida de Dora. Logo, aquele brilho no olhar que ele tinha sempre que a via, sumiria. Em determinado ponto, Ted começaria a odiar a mulher, e esse era um de seus maiores medos.
Andy continuava a tratando bem, mas sabia que em seu coração, por mais que a bruxa tivesse consciência que a sobrinha não tinha feito de propósito, no fundo Andrômeda nunca a perdoaria por ter matado seu marido e filha. Nem ela mesmo se perdoava por aquilo.
Sempre que entrava naquela casa as lembranças vinham com rapidez à sua memória, era quase como se revivesse as duas cenas em um loop infinito.
Tinha passado o primeiro ano todo afastada dos dois, lidando com julgamentos, prestando declarações tentando provar sua inocência, que em partes não era tão grande quanto gostaria. Andy pareceu feliz quando a viu sair inocente de todas as acusações, mas também sabia que ela queria justiça. Parte de si ignorava o fato daquela ser sua sobrinha, que tinha crescido em sua casa, junto de sua família, da mesma forma que a garota tinha se esquecido de Dora e Ted por quase um ano.
Nada do que fizesse poderia compensar o que tinha acontecido, e ela sabia disso, mas agradecia por ainda ter a chance de conviver com Ted, era uma forma tola de tentar desculpar-se com Dora e Remo. Não tinha apontado a varinha para Lupin, mas tinha sido responsável por sua morte.
Tocou a campainha da casa, logo ouvindo passos apressados e gritos animados, sorriu assim que o garotinho de cabelos vermelhos abriu a porta;
— Tia! — abraçou-a na altura da cintura, agachou-se pegando-o no colo.
— Você está cada dia maior, daqui à pouco não vou conseguir te levantar!
— Eu tô grandão! — confirmou acenando sorridente.
Entraram, fechando a porta e caminhando pelo corredor, em direção a sala. Ted falava rápido sobre sua manhã agitada, e os planos para o resto da tarde. Andy desceu às escadas, carregando sua bolsa, sorriu leve quando viu a mulher sentada junto ao mais novo;
— Oi, .
— Olá!
— Ted você ainda não terminou de arrumar seus brinquedos!
— Eu faço isso depois vó…
— Nada disso, pode arrumar seu quarto antes de sair, rapazinho!
Ted cruzou os braços, fazendo a melhor expressão de tristeza que podia.
— Vai lá, Ted, temos tempo até tio Harry chegar em casa!
— Eu vou poder brincar com a firebolt? — pediu juntando as mãos, os olhos piscando ansiosos.
— Talvez no final de semana, agora vai arrumar suas coisas!
O garoto correu em direção às escadas, saltando de dois em dois degraus.
As duas mulheres se entreolharam, sorrindo sem graça. Era sempre assim quando ficavam sozinhas, o clima já não era o mesmo de quando era adolescente, tinha mudado radicalmente depois que revelou para Andy que tinha matado Dora e Ted.
— Se quiser podemos ficar com ele durante o final de semana… — sugeriu vendo-a terminar de se arrumar.
Andy pensou por algum tempo, pronta para negar, suspirando em seguida e confirmando com um aceno. Sabia o quanto o neto gostava do casal e sentia a falta nos dias que não se viam, embora a sobrinha tentasse vê-lo o máximo possível. Ela sorriu, agradecendo.
— Vou ajudá-lo a arrumar a mala para os dias extras! — levantou-se, dando passos calmos para o segundo andar.
…?
A mulher virou-se ainda no primeiro degrau.
— Eu recebi uma coruja do Ministério, — começou, olhando-a incerta — estão me chamando para um novo interrogatório. Você vai ser julgada outra vez, não é?
Suspirou, concordando com um aceno, voltando para perto da mais velha.
— Nott foi preso, parece que falou meu nome. Reabriram meu caso para investigação, acredito que será o de sempre.
Andy concordou com um aceno, notando o olhar pesaroso da outra, sentia um aperto no peito pela situação da sobrinha, mesmo que parte de si a culpasse por tudo.
— Então você não tem com o que se preocupar! — sorriu amigável.
— Terminei! — Ted gritou do topo da escada, puxando sua pequena mochila.
— Espera aí, você vai passar o final de semana lá em casa, o que acha?
— Eu vou pegar meu bicuço! — avisou animado, correndo novamente para seu quarto, em busca do hipogrifo de pelúcia.

McGuire negou com um aceno, os braços cruzados, olhando para o lado, certificando-se que mais ninguém os veria.
— Eu sinto muito, senhor, mas tenho ordens diretas do Ministro, não posso deixar ninguém falar com o prisioneiro, principalmente o senhor.
Potter bufou frustrado, passando a mão pelos cabelos.
— Eu sei, eu sei, mas você entende minha situação, não é? Preciso saber o que ele diz ter contra minha mulher.
— Eu também não sei, contaria se soubesse, — respondeu em voz baixa — fiz isso das outras vezes, não foi?
Harry concordou, mesmo sem saber se era de fato verdade, confiava em Andrew.
— Sinceramente, não acho que seja nada diferente das outras vezes, ninguém nunca conseguiu provar nada, não é? — incentivou, um sorriso amigável nos lábios.
— Certo… — virou-se, olhando as rochas ao redor, as ondas quebrando sobre as mesmas. — Se souber de algo…
— Eu vou contar!
Potter apertou-lhe a mão, agradecendo brevemente antes de aparatar na rua próxima ao Ministério. Andava de volta até sua sala, ignorando praticamente todos as saudações que ouvia, ninguém estranhou, sabiam o quão nervoso o Auror ficava quando Black estava sob investigação, e, novamente, aquilo não era novidade para ninguém;
Já estava estampado na primeira página do Profeta Diário, em uma matéria que fez o bruxo questionar-se o motivo de Skeeter ainda não estar em Azkaban, não era possível que mesmo após todos aqueles anos ela continuasse a trabalhar no jornal, e ainda tivesse a mesma influência.
Pensou o que aconteceria se o que sabia sobre ela vazasse, tinha certeza que se investigassem um pouco mais afundo a vida da repórter, descobririam informações o suficiente para que ela fosse presa. Infelizmente não tinha tempo para pensar naquilo.
— Profeta Diário, senhor? — um dos rapazes que vendia o jornal no saguão do Ministério ofereceu, arrependendo-se no mesmo instante que reconheceu Potter, com cara de poucos amigos. — Desculpe… — pediu em tom baixo, abaixando rapidamente o exemplar que segurava; Black em julgamento! Novas provas podem a mandar para Azkaban, oito anos após a Batalha de Hogwarts”.
Jogou-se sobre o sofá de sua sala assim que entrou no lugar, conjurando a garrafa de hidromel e um copo, ninguém poderia condená-lo por um copo em um dia como aquele, além do mais, ainda tinha memórias de sua outra realidade, na qual era praticamente um alcoólatra. Essa nova fase na qual ele parecia não ter muitos motivos para beber até desmaiar parecia estranha, e, pelo o que tinha notado, as coisas nem sempre eram tão calmas quanto pensou em um primeiro momento.
Tinha virado o copo quando seu olhar tornou a cair no jornal na mesa de centro, uma foto dele e de estampada, seguida pela legenda; “Será que dessa vez a influência de Potter será suficiente para livrá-la da prisão?”
Potter releu a notícia, passando a língua pelos lábios secos, antes de começar a folhear toda a papelada relacionada às investigações e julgamentos que a mulher tinha passado.
Ouviu uma batida na porta, e logo Gregory apareceu, carregando um pergaminho aberto e uma pena;
— Senhor, eu… — parou ao olhar a situação do chefe, a expressão nervosa em seu rosto avermelhado e a garrafa de hidromel ao lado, com um copo pela metade. — Eu sei que vai dizer não, mas está tudo bem?
Harry negou com um aceno, deixando os papéis e recostando-se no sofá, passando as mãos pelos cabelos, bagunçando-os.
— Do que você precisa, Evans?
— Posso resolver sozinho, só achei que era melhor passar pelo senhor, chefe... — deu de ombros, sentando-se na frente do bruxo — Posso ajudar?
O bruxo bufou novamente, concordando com um aceno, cansado demais para ser orgulhoso e recusar ajuda.
— Nott diz ter alguma prova contra , apenas Quim sabe o que é. Ela vai a julgamento novamente, estou tentando me certificar de que não deixei nada passar durante esses anos.
Gregory pareceu pensativo por alguns instantes, coçando a nuca, quase constrangido.
— O que foi?
— Senhor… O julgamento será quarta-feira, não acho que o senhor vai descobrir o que Theodore sabe olhando esses papéis. Se é algo novo, não teremos registrado, correto?
— Eu sei… — concordou ainda pensativo — Eu só… Eu costumava ser bom nisso, sabe? Era como se minha mente me desse todas as respostas que eu precisava só de olhar alguma coisa…
— Na minha opinião continua sendo assim, por isso é o chefe, não? — sorriu amigável — Tenho certeza de que não importa o que ele diga, sua esposa vai continuar livre. A menos que ele prove que ela está tentando trazer Voldemort de volta à vida! — riu com a piada.
— Não, isso não… — negou com um aceno, sorrindo levemente. Talvez estivesse mesmo se preocupando mais do que o necessário, se aquilo já tinha acontecido outras vezes e não tinha resultado em nada… — Vida não, mas e se ele tiver algo sobre as pessoas que morreram?
Evans franziu o cenho, negando levemente.
— Já provaram que ela não tinha consciência do que estava fazendo quando matou aqueles trouxas e os Tonks, e o testemunho do senhor, Malfoy, Weasley e Granger contam muito. Tanto quanto de Andrômeda, não?
— Claro… Claro..
— É sério, chefe, fica tranquilo, ninguém vai conseguir mandar para Azkaban, não conseguiram até hoje!
Potter chegou em casa às sete da noite, e assim que passou pela porta sentiu um cheiro gostoso de chocolate, ao tempo que ouviu um grito animado e então dois pares de braço o agarrarem pela cintura. Olhou para baixo, vendo o afilhado com os cabelos coloridos agarrado a ele, sorriu para o garoto passando a mão por sua cabeça;
— Como vai, Teddy?
— Bem, bem, muito bem! Vou dormir aqui, podemos jogar Quadribol?
— Você vai dormir aqui? — Perguntou com o cenho levemente franzido, deixando-se empurrar em direção à cozinha, na qual terminava de decorar um bolo. — Parece bom! — Elogiou, antes de sorrir, aproximando-se para um beijo rápido.
— Eca.
— Ei, você vem dormir aqui, comer da minha comida, jogar Quadribol no meu quintal e ainda reclama? — Cruzou os braços, vendo-o rir.
— Lave as mãos se quiser raspar a tigela! — avisou vendo-o correr em direção ao banheiro. — Acho que Andy ficou um pouco sensibilizada por eu ir a julgamento, deixou ele ficar o final de semana.
Harry a encarou confuso por alguns instantes, não querendo fazer a pergunta que subitamente chegou à sua mente; não sabia como estava sendo o relacionamento da esposa com Andrômeda, mas pelo suspiro que a mulher deixou passar, imaginou que não fosse dos melhores. Passou uma mão por seus ombros, beijando-lhe o topo da cabeça;
— Vai terminar tudo bem.
— Eu sei. — Concordou com um sorriso tranquilo — Ela foi chamada para depor, sabia?
— O que?
— Falei com Hermione, — cruzou os braços — ela e Draco também receberam corujas, assim como Rony e os Weasley. Vão todos para o julgamento.
— Por que eles vão depor? O que eles têm a ver com a suposta prova que Nott têm?
— Não faço ideia.
Potter cruzou os braços, negando com a cabeça.
— Tem algo errado, não faz sentido. Fui à Azkaban, mas não me deixaram falar com Theodore. Conversei com Evans, não tem jeito do Nott saber de algo, ou ter alguma prova, impossível. Seja o que for só Quim têm a informação, nem McGuire ou Toods sabem do que se trata, e eles participaram do interrogatório...
— Harry, se acalma. Não vai ser nada demais. — Pediu, tocando-lhe os ombros. — A propósito, Rony avisou que conversa com você após o julgamento, parece que está ocupado demais com a loja para ter tempo de sair com você. Na minha opinião, ele está com ciúmes por você passar tanto tempo com o Draco, ainda mais com o filho da Mione quase nascendo…
Harry abriu a boca para puxar papo sobre Rony e Hermione, mas achava melhor conversar sobre isso após toda a história de julgamento passar, já tinha coisa demais na cabeça para começar a fazer perguntas que o comprometessem tanto.
Ao invés, a abraçou, concordando em voz baixa, queria acreditar na confiança que ela demonstrava, mas seu instinto lhe dizia que não estava tudo tão fácil, em seu interior ele sabia que algo estava muito errado e, pela primeira vez em muitos anos, ele não fazia ideia do que poderia ser.

Por três dias Potter finalmente teve uma noção de como era sua vida com , e como era ter uma família. Deixou-se distrair pela presença de Teddy e as risadas altas da criança, tentando deixar toda a preocupação com o trabalho e o julgamento para mais tarde, principalmente depois de conversar com Hermione no sábado à tarde, quando a encontraram sentada em um banco tomando um pouco de sol, aproveitando as últimas semanas de gravidez, enquanto Draco fazia plantão no hospital. No momento em que se afastou para brincar um pouco com o afilhado, Potter conseguiu expor em voz alta suas dúvidas;
— Alguma coisa me diz que tem algo errado, Mione, mas eu não sei o que fazer. Eu não sei o que está errado.
— Harry, eu sinceramente duvido que Nott tenha algo relevante, mas… — suspirou, vendo-o a encarar — Se chamaram a Andrômeda para depor, é possível que ele fale sobre os Tonks, não? Queira dar algum detalhe de como… Bem... Você sabe…
— Mas ela foi inocentada das acusações.
— Certo, por isso eu acho que não deve ser nada demais. Provavelmente Quim vai precisar fazer esse julgamento só para o Profeta parar de tentar acusá-lo de favoritismo, por ser sua esposa e você… Harry Potter! E eu sei que Quim está tentando fazer a coisa certa com ela, — apontou com a cabeça para a amiga, que corria atrás da criança — por tudo o que aconteceu com Sirius. Ele não teve chance de se defender e passou anos preso por um crime que não cometeu, o Ministro não quer cometer o mesmo erro com a herdeira dos Black, não é? Não depois de tudo.
Harry concordou com um aceno, não tendo pensado nessas possibilidades antes, sentiu-se muito mais aliviado ao ouvir Hermione dizer que era só algum tipo de protocolo a ser seguido.
— Obrigado. — Sorriu para a mulher.
— Você e Draco estão estranhos, sabia?
— Por que?
— Eu não sei, mas parece que estão diferentes. Vez ou outra eu o pego me encarando de longe, perdido em pensamentos. Quando eu pergunto o que foi ele muda de assunto. E tem coisas que ele demora a lembrar, coisas simples.
Harry sorriu de lado, negando com a cabeça;
— Ele provavelmente está nervoso com o trabalho ou até mesmo com o bebê que está para nascer, não é? O que mais poderia ser?
Hermione concordou, embora não parecesse realmente convencida.
— Posso perguntar uma coisa? — Questionou de repente, sem nem mesmo pensar no que estava prestes a fazer — Você acha que teria dado certo com o Rony?
Granger pareceu engasgar com a própria saliva, antes de começar a rir e negar com a cabeça;
— Não deixe Draco te ouvir falando isso, sabe que ele continua não gostando do Rony!
— Claro, claro — Sorriu amarelo.
— Talvez se as coisas tivessem sido diferentes depois da Batalha de Hogwarts a gente ainda estivesse junto, mas não teria como dar certo quando ele continuava com a mesma ideia absurda, não é? Se até você que é o melhor amigo dele parou de conversar por meses com o Rony, como eu continuaria como se nada tivesse acontecido? E, num contexto geral, eu teria muito mais motivos para desconfiar da do que ele, concorda? E mesmo assim achei absurdo ele a culpar pela morte do Arthur.
Potter a olhou assustado, levantando-se do banco desajeitadamente, quase tropeçando nos próprios pés, ao mudar de uma pose tão relaxada para uma tão desesperada.
— O que foi? — Mione perguntou confusa, assustada com a reação do amigo.
— Eu… Eu… Lembrei de uma coisa no trabalho… Importante…
— Harry, se você sair em um sábado para trabalhar, vai surtar. Senta aí e sossega! — Puxou-o pela camisa.
O Auror concordou aos poucos, ainda parecendo atônito demais para voltar a relaxar;
Arthur Weasley tinha morrido por causa do que ele fez ao mexer com o Vira-Tempo.
tinha se sacrificado para salvar o homem, mas com Harry e Draco a tirando do caminho, Arthur ficou na mira da Maldição.
Nem por um instante aquilo tinha passado por sua cabeça.
E Rony, seu melhor amigo, culpava por aquilo.
Eles tinham ficado meses sem conversar, e Rony e Hermione terminaram pelo mesmo motivo. Provavelmente nesse meio tempo ela se aproximou de Draco.
Tinha certeza que após a Batalha de Hogwarts e Malfoy continuaram próximos, lembrava-se do quanto ela tinha se arriscado por ele durante a luta, assim como Draco por ela durante os meses que passou como Comensal de Voldemort.
Por isso tinha dito que foi por causa dela que os dois estavam juntos, talvez ela tivesse feito algo mais direto para juntá-los, talvez tivesse percebido que poderia ter algo entre eles.
Rony, por outro lado, Harry não sabia quase nada, apenas que não tinha se casado com Hermione. E, agora, que talvez ainda culpasse sua esposa pela morte do pai.
Ou não, Hermione tinha dito que os dois voltaram a ser amigos, Harry não continuaria a amizade se o Weasley não tivesse deixado isso de lado.
Ele não seria amigo de uma pessoa que acusava de ter matado alguém por vontade própria.
— Falando do Rony, — recomeçou, pigarreando — vocês têm conversado?
— Pouco, sei mais pela Gina. Parece que as coisas entre ele e Padma estão sérias. Quem diria, não é?
— Padma Patil? — Estranhou.
— Sim, você não sabia que eles voltaram? Por Merlin, Potter. Em que mundo você vive?
— Eu… Faz alguns dias que não conversamos, muito trabalho…
— Bem, o que Gina me contou foi isso, ele e Padma estão bem, e as coisas estão ótimas nas Gemialidades Weasley.
— Quem diria, não é? — Concordou — E no Baile de Inverno ele não quis nem mesmo convidá-la para uma dança…
— Também não é como se você tivesse feito um grande Baile com a Parvati, huh?
— Em minha defesa — ergueu as mãos —, minha garota estava dançando com outro cara. E eu dancei com a Parvati.
— Você dançou mais com a que estava com o Cedrico do que com o seu par, Harry! — Negou rindo — E se eu bem me lembro, “sua garota” aquele ano era a Cho Chang!
— Ei, não fala isso em voz alta! Quer causar uma separação? — Olhou-a assustado, vendo de longe. — E nós dois sabemos que não era nada sério com a Cho, igual você e o Vitor.
Granger ficou imediatamente vermelha, olhando para o lado, enquanto o bruxo ria levemente.
— Posso perguntar uma coisa sem você se ofender? Já que me perguntou do Rony, acho que é justo.
— O que quer saber? — Harry sorriu, olhando-a com a sobrancelha erguida;
— Você nunca se perguntou se ainda gostava do Diggory antes de vocês ficarem juntos? — Questionou baixo, vendo-o franzir o cenho e passar a língua pelos lábios — Pergunto, porque Draco demorou muito tempo para parar de pensar que eu ainda estava apaixonada por Rony, queria saber se foi o mesmo com vocês…
Potter coçou a nuca, sem saber exatamente o que responder, suspirando em seguida;
— Sinceramente, nunca pensei muito nisso. Sei o quando gostava dele e que sofreu muito quando ele morreu, mas nunca pensei muito sobre os sentimentos que ela ainda teria por ele. Imagino que ainda deva ficar triste por lembrar…
— E você não se importa dela continuar conversando com os Diggory? — Quis saber, curiosa. Harry a olhou por um instante, parecendo surpreso. — Que foi? Não me diga que não sabia!? Por Merlin!
— Sabia, claro que sabia — apressou-se a dizer, sentindo um aperto no peito —, só nunca pensei muito sobre nada disso… — Virou-se para olhar a mulher, que voltava de mãos dadas com o afilhado.
— O que aconteceu? — perguntou ao ver a expressão sem graça dos dois.
— Estávamos lembrando de algumas coisas do tempo em Hogwarts! — Harry sorriu.
— Eu quero ir pra Hogwarts! — Teddy riu animado — Eu vou pra Grifinória, igual meu papai!
— Daqui alguns anos, garoto! — O padrinho sorriu, passando as mãos pelo cabelo do menino.
— Sua mamãe e seu avô foram da Lufa-Lufa, então você poderia muito bem ir para essa Casa! — lembrou, vendo-o cruzar os braços.
— Mas vocês eram todos da Grifinória!
— Tio Draco era da Sonserina. — Hermione contou, vendo-o pensativo.
— Só a minha mamãe e meu vovô eram da Lufa-Lufa? — Questionou interessado, o cenho franzido.
— O ex-namorado da tia também era da Lufa-Lufa, Teddy, e um ótimo jogador de Quadribol! — Granger cantarolou, vendo Potter rolar os olhos antes de olhá-la com sua maior cara de tédio.
O garoto, no entanto, pareceu surpreso com aquela revelação;
— Tia teve outro namorado?
— Eu sabia que não era o único triste com isso! — Harry comentou em voz baixa, levando uma cotovelada da mulher.
— Tudo bem, Teddy, tio Harry também teve outra namorada, acontece! — relembrou, o Auror arqueou a sobrancelha.
— Eu saí duas vezes com ela, como isso foi um namoro?
— Vamos embora? — sugeriu rindo, olhando o relógio — Já está ficando tarde e esse garoto tem que tomar banho!
— Eu não acredito que você está mudando de assunto!
— Tia Mione, você também teve outro namorado?
O casal a encararou aguardando uma resposta, enquanto seguravam a risada.
Granger novamente ficou vermelha, levantando-se rapidamente;
— Eu também preciso ir, já está ficando tarde! Depois combinamos tudo para o jantar de Ano Novo, ok? Será só a gente mesmo?
— Andrômeda também. Narcisa e seus pais? — perguntou enquanto levantava-se.
— Sim, eles também!
Harry precisou morder a língua para não fazer comentários sobre aquilo, mal imaginando como seria um jantar entre Narcisa Malfoy e os pais de Hermione, a quem a mulher desprezou por anos.
No domingo de manhã, levaram Teddy para voar e brincar de Quadribol, embora fossem apenas ele e Harry; Potter lançava a goles e o garoto voava por alguns metros para pegá-la, usando, é claro, uma vassoura muito mais lenta do que a firebolt do padrinho, o que o fazia reclamar sem parar.
— Quando você tiver nesta altura você pode pegar a firebolt, ok? — avisou, acenando para a altura de seus próprios ombros. Lupin não pareceu muito feliz, mas pelo menos gostou quando Harry o levou para dar uma volta, sobrevoando Londres por alguns minutos, antes de voltarem para casa, onde almoçaram e passaram o resto do dia jogando jogos de tabuleiro, já que começou a chover depois das duas horas. À noite foram juntos para a casa dos Malfoy o que, para surpresa de Harry, foi bastante agradável.

3 de Janeiro de 2006

Na manhã do julgamento levantaram cedo, porque não conseguiu dormir direito já que estava ansiosa, assim como Harry, embora o Auror dissesse o tempo todo que daria certo, parte de si querendo convencer a si mesmo daquilo. Enquanto fazia o café-da-manhã, Harry pegou os exemplares de jornais que o correio-coruja trouxe; Como Chefe dos Aurores, Potter precisava sempre estar a par de todas as notícias, de forma que tinha assinatura com todos os jornais possíveis do mundo bruxo, e o Daily Mail dos Trouxas, o qual o carteiro sempre deixava na caixa de correio.
Enquanto a primeira página do jornal dos Trouxas era sobre algum escândalo envolvendo o Primeiro Ministro, no Profeta Diário, Profeta Vespertino e até mesmo o Transfiguração Hoje, que costumava ser um jornal científico do mundo bruxo, tinham a mesma manchete;

Black em julgamento!
Herdeira dos Black e esposa d’O Eleito enfrenta mais um julgamento sobre o ano que passou como Comensal da Morte.

Seguidos por uma foto antiga em preto e branco da mulher, em julgamentos anteriores. O único que continuava com uma capa diferente era O Pasquim; Rabo-Córneo-Húngaro e suas dez propriedades mágicas.
Suspirou, procurando rapidamente alguma notícia nova, mas ao notar que não tinha nada de diferente, apenas amassou os papéis e deixou-os de lado, não precisava que ficasse ainda mais nervosa do que já estava.
Saíram de casa poucos minutos depois, aparatando na rua lateral do Ministério, logo entrando pelo telefone público.
Separaram-se por pouco menos de uma hora, enquanto Potter seguia até seu escritório para assinar alguns documentos, e terminava alguns relatórios em seu departamento, embora estivesse estressada demais pensando no julgamento.
Às dez horas em ponto entraram de mãos dadas no andar no qual aconteceria o julgamento, Harry beijou-lhe a bochecha antes de se afastarem, seguindo até o meio da sala oval, abarrotada de bruxos, bruxas e jornalistas, todos esperando o julgamento começar.
Potter ficou em um dos primeiros bancos, próximo ao Ministro, enquanto Quim, que não parecia muito à vontade com toda a situação, chamava a primeira testemunha; Minerva McGonagall.
A bruxa, atual diretora de Hogwarts, começou respondendo algumas perguntas que eram feitas por um dos bruxos que acusava de estar inteiramente envolvida com Voldemort, e de continuar sendo uma fiel Comensal da Morte, mesmo após todos aqueles anos da queda do Lorde das Trevas. Minerva afirmou e reafirmou que durante os anos na Escola, Black sempre tinha sido uma boa aluna, embora aprontasse bastante junto com o grupo de amigos, mas que sempre defendeu seus ideais, amigos e Alvo Dumbledore, tendo se juntado a Armada de Dumbledore no quinto ano.
— E, é claro que teve alguns meses turbulentos quando Black foi capturada por Voldemort, mas no final, no dia da Batalha de Hogwarts, quando recuperou suas memórias, todos que estavam lá a vieram enfrentar Voldemort. Todos a vimos duelar ao lado de Potter. É absurdo que ainda estejamos passando por isso, depois de oito anos. Eu tenho certeza quando eu digo que Black nunca teria feito nada do que é acusada se tivesse consciência de seus atos. Ainda mais absurdo notar que parece que mesmo depois de tantos anos, as pessoas ainda têm certo preconceito com o sobrenome Black. Sirius passou anos preso por crimes que não cometeu, e agora querem fazer o mesmo com sua filha. Inacreditável.
Depois de McGonagall, quem subiu para declarações foi Draco Malfoy, tendo repetido as declarações que já tinha dado outras vezes, mesmo que não lembrasse;
— Depois de poucos dias na mansão, me pediu para apagar parte de suas memórias, quase o sexto ano inteiro, porque ela sabia que era uma questão de tempo até Voldemort tentar descobrir qual era o plano de Potter. Foi o único jeito que ela encontrou de tentar ajudá-lo. — Contava, quase irritado por estarem passando por aquilo — Eu a vi ser torturada inúmeras vezes, e sempre negar quando Voldemort a perguntava se queria ser uma Comensal. Depois de dias ele e Bellatrix Lestrange começaram a usar a Maldição Imperius. Mais de uma vez conseguiu recuperar o controle de sua mente, e novamente passava por dias de tortura, até tornarem a usar a Maldição, e depois Voldemort começou a alterar suas memórias. achava que tinha crescido comigo e meus pais, achava que era da Sonserina e que os pais tinham sido presos por apoiarem Voldemort. Depois tinha certeza que Dumbledore e Potter tinham matado Sirius e Cedrico Diggory. Todas as vezes que recuperou suas memórias durante aquele ano, ela tentou fugir ou tentou parar Voldemort e Bellatrix.
Harry sentia uma fisgada no peito sempre que comentavam dos meses que a mulher tinha estado como Comensal, todas as vezes que Draco comentou, em detalhes, das torturas que a mulher tinha sofrido, sentia a raiva apoderar-se de si. Se Voldemort ou Bellatrix estivessem em sua frente, ele os mataria com as próprias mãos.
Hermione então foi chamada, dizendo sobre os anos de amizade e de como a mulher sempre esteve ao seu lado, sempre a defendeu, assim como outras pessoas em Hogwarts, quando notava algum tipo de abuso por parte de outros alunos;
— Eu fui uma das pessoas que pensei que nunca mais teria minha melhor amiga de volta, estava completamente controlada por Voldemort, mas mesmo depois de recuperar suas memórias durante a Batalha, ela se arriscou porque sabia que era algo muito maior. Black se infiltrou entre os Comensais conforme nosso plano, na tentativa de destruir Voldemort. Todas as vezes que precisamos, se colocou ao nosso lado, para nos ajudar. Black não era uma Comensal porque queria, ela fez o que fez por ser controlada por Voldemort.
Quando Rony subiu para testemunhar, começou dizendo praticamente a mesma coisa que Hermione; que tinham sido amigos desde a primeira semana em Hogwarts, que a bruxa sempre tinha se arriscado pelos amigos, e, depois que foi capturada por Voldemort, tudo o que tinha feito foi por causa da Imperius e das falsas lembranças.
— Sr. Weasley, é do nosso conhecimento que, em alguns momentos, você chegou a acusá-la por ser responsável na morte de seu pai, Arthur Weasley, confirma?
Rony se mexeu desconfortável, concordando com um aceno após alguns instantes.
— E por que o senhor achava isso?
O ruivo respirou fundo, passando a mão pelos cabelos, antes de voltar a falar;
— Eu estava com raiva, ok? Meu pai tinha morrido e, pelo o que me disseram, durante a tentativa de fuga de Lestrange, e meu pai estavam próximos. De algum modo ela acabou caindo do outro lado do corredor e meu pai foi atingido por uma Maldição da Morte. Fiquei com raiva porque meu pai estava morto. Não que eu quisesse que ela tivesse morrido, mas na hora me pareceu que ela poderia ter feito algo para ajudá-lo.
Potter fechou os olhos com força, a boca seca. Queria dizer que aquilo tinha sido sua culpa, e não de . Que a mulher tinha tentado ajudar Arthur, mas como faria isso sem admitir que tinha mexido com o tempo?
Assim que Rony saiu, sentando-se ao lado das demais testemunhas, Andrômeda aproximou-se, vinda de uma sala lateral, e ficando no lugar antes ocupado pelo ruivo;
— Nós a criamos desde que Sirius e Victoria foram para Azkaban, a vimos crescer, dar os primeiros passos e dizer as primeiras palavras. e Ninfadora eram próximas como irmãs, — dizia com a voz embargada, enquanto ouvia o relato da tia não conseguiu segurar as lágrimas — dividiam tudo, de roupas a segredos. Eu sei o quanto as duas se amavam, foi por isso que Dora escolheu para ser madrinha quando engravidou. Mesmo que tivesse sido capturada por Voldemort, Ninfadora nunca perdeu a esperança de reencontrá-la. também era muito próxima de meu marido, Ted. Nós a criamos como uma filha e eu tenho certeza que ela nos via como sua única família, até descobrirmos que Sirius era inocente de tudo. Nesse dia voltou a ter um pai, mas continuávamos a ser sua família. Depois de tudo o que aconteceu ela continuava próxima. — Andrômeda secou o rosto, fungando baixo — Sofremos muito durante aquele ano, capturada por Voldemort, e meu marido foragido, com medo de ser pego pelos Comensais. Então começamos a ouvir boatos de que era uma Comensal. Nunca acreditamos, nós a vimos crescer, sabíamos que ela nunca faria mal a outra pessoa. Quando a Batalha acabou, quando chegou em minha casa depois que tudo acabou, — respirou fundo, a voz fraquejando conforme contava — eu sabia, assim que ela cruzou a porta sozinha, eu sabia que tinha acontecido alguma coisa com minha filha. me disse, ela mesma, que Dora tinha morrido, assim como Remo e Ted. me pediu perdão aquele dia, ajoelhou ao meu lado, contando que tinha matado Ted e Dora. Ela mesma me disse, chorando, pedindo perdão. Eu sabia que não tinha sido de propósito, eu sempre soube disso. — Andy virou-se para olhar a sobrinha, pela primeira vez desde que tinha começado o depoimento — Eu sempre soube que você era inocente. Eu sei que não foi sua culpa, mas meu marido e minha filha estão mortos. Eu não quero que você seja presa, porque eu sei o quanto você os amava e o quanto se sente culpada por isso, mas foi você quem os matou, . Eu não posso te perdoar por isso.
Harry encarou a esposa e melhor amiga, sentada no meio do tribunal, concordando em silêncio com as palavras que ouvia, as lágrimas caindo incessantes por seu rosto, a expressão destruída.
Naquele momento ele tinha certeza que, independentemente do que acontecesse no julgamento, Nott tinha conseguido acabar com sua mulher de uma forma que ele não conseguiria jamais resolver; Andrômeda tinha, finalmente, colocado para fora tudo o que tinha guardado durante todos aqueles anos.
Theodore Nott então foi chamado, entrou carregado por Evans e McGuire, após ser acorrentado na cadeira e na mesa, os dois Aurores continuarem parados próximos ao prisioneiro, a qualquer sinal, os dois o parariam, talvez até o matassem. Harry, no fundo, desejava que fosse a segunda opção.
Começaram com as acusações sobre Nott, desde pequenos crimes, até tortura e assassinato de Trouxas, embora ele não estivesse diretamente ligado a Voldemort e os Comensais da Morte, visto que suas ações foram após a queda do Lorde das Trevas. Logo depois foi lhe feito a oferta; se tivesse algo concreto, sua pena poderia ser reduzida;
— Como sabem, eu não fazia parte dos Comensais, mas meu pai sim. E ele contava em casa tudo o que acontecia, soube quando chegou à mansão dos Malfoy. Soube quando estava sendo torturada e, — sorriu de lado — soube quando ela escolheu o lado do Lorde das Trevas.
O burburinho começou assim que as palavras foram ditas, antes de Kingsley bater duas vezes na mesa, pedindo silêncio. Harry sentiu o sangue ferver e a vontade de matar o prisioneiro aumentou, principalmente ao ver a cara confusa de , claramente sem entender o que ele dizia;
— Acho engraçado que todos digam que ela é inocente, não sabia o que fazia, mas antes da Batalha, meses antes, ela já não estava sob efeito de nenhuma maldição. já sabia que era Comensal, tinha recuperado suas memórias, mas gostou do poder. O próprio Lorde das Trevas tinha decidido que ela seria sua herdeira. Substituiria Bellatrix e Victoria. Substituiria Snape. Substituiria todos os Comensais que estavam ao seu lado. seria sua principal Comensal, e ele a ensinou várias coisas, confiava nela o suficiente para tirar os feitiços. Black estava completamente consciente do que fazia quando matou aquela família de Trouxas e os Tonks. — Sorriu malicioso, adorando ouvir os sussurros ao redor. Os flashes vindos das câmeras e o olhar desesperado e confuso de Black. — E para finalizar, a maior prova de que ainda é uma Comensal, foi a morte de Arthur Weasley. O plano era para matar Harry Potter, infelizmente as coisas não saíram como o esperado e Lorde Voldemort acabou morto. O “plano B” era para ainda matarem Harry Potter, como vingança. Voldemort poderia estar morto, mas Potter também não deveria sobreviver. Todos sabiam que teriam Comensais mortos e outros capturados, e os que fossem capturados deveriam encenar uma fuga para conseguirem afastar Potter dos outros. Voldemort sabia como morreria, ele tinha tido uma previsão sobre isso. Era parte do plano “duelar” ao lado de Potter. Era tudo encenado. O Lorde tinha outro plano, Black deveria ajudá-lo a recuperar seus poderes após ser derrotado por Potter, mas deu errado; enquanto Lestrange encenava sua fuga, durante aqueles minutos, ele e Black deveriam ter matado Potter, como vingança, a Maldição da Morte era para Potter, mas, Lestrange percebeu que Black havia desistido. Que tinha mudado de lado quando o Lorde das Trevas havia sido derrotado, ele sabia que ela não queria ir para Azkaban junto aos outros. Rodolfo tentou matá-la, mas Black saiu do caminho, empurrando Arthur Weasley para que ele servisse de escudo. Black não é inocente, ela é inteligente, ninguém desconfiaria da mulher de Harry Potter, não é?
O tribunal ficou no mais completo silêncio por um minuto inteiro, todos parecendo chocados demais para dizerem qualquer coisa, apenas encarando do prisioneiro para a acusada, sem saberem como reagir. Os dois se encaravam, o sorriso malandro nos lábios de Nott, sentia o coração bater acelerado, queria negar tudo aquilo, dizer que eram mentiras, mas sua voz não saiu quando abriu a boca, e logo um grito fez-se presente, quase como um rugido, acompanhado de um jato vermelho vindo de uma varinha próxima;
— Você matou meu pai! Eu sabia!



Continua...



Nota da autora:
SERÁ QUE AGORA A GENTE FINALIZA ESSA FANFIC????
faltam mais ou menos 5 a 6 caps pra encerrar tudo, a maioria tá feita, mas são os 2 que faltam que estão me tirando a paz há meses!
MAS AGORA VAI!
xx




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