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Última atualização: 31/10/2020

Prólogo

Mansão dos Malfoy — Dias atuais

A atmosfera dentro da mansão dos Malfoy era sombria como todos os bruxos que estavam presentes naquele lugar. Reunidos em torno da extensa mesa de um carvalho antigo, estavam ao menos meia dúzia dos seguidores do Lorde das Trevas, aqueles que tinham o prazer de se sentarem juntos a ele sobre aquela mesa e, mais que isso, aqueles com o privilégio de ouvir seus planos em boa e primeira mão.
O anfitrião daquela agregação - que de longe era o dono da casa, Lúcio Malfoy -, andava inquietamente por toda a sala e o motivo daquilo era simples: a insistência de Harry Potter em permanecer ainda vivo.
Voldemort estava descontente com todos os últimos acontecimentos, afinal, fracasso não era algo facilmente tolerado pelo bruxo e aquilo era facilmente visível entre seus comensais, principalmente por uma certa família bruxa que, como se não bastasse ter a infelicidade do patriarca estar preso em Azkaban, mal sabiam dos planos futuros que seu milorde tinha para o mais novo deles, Draco Malfoy.
De qualquer maneira, não era apenas a frustração do erro que seus seguidores haviam cometido que estava deixando-o imerso em ansiedade e sim a falta da presença de uma certa bruxa em particular. Um trunfo ao qual ele apostaria suas fichas, levando em consideração todo o histórico familiar da garota.
— Parece que nossa convidada não teme atrasos — Voldemort soou irônico enquanto parava próximo a porta. — Afinal, onde está a garota? — a voz sibilosa direcionava-se a Bellatrix, que sentada ao lado de sua irmã, Narcisa, dava pouco caso à demora da sobrinha. Sabia que imprudência e rebeldia faziam parte da personalidade da jovem. Aos outros muitos que a conheciam, podiam facilmente dizer que, na verdade, a bruxa tinha o espírito livre e seguir regras não era nem de longe uma qualidade sua. Mas, apesar de conhecer o temperamento excêntrico da jovem Lestrange, Bella sentia que deveria tranquilizar seu mestre.
— A garota é um tanto quanto insolente, milorde, mas garanto que logo estará aqui — a cautela era nítida em sua voz, temia falar algo errado, pois sabia que Voldemort não tinha o costume de perdoar atrasos ou aceitá-los.
Porém, quando estava prestes a interceder sobre o comportamento da garota, uma movimentação próxima a uma das duas grandes janelas que iluminavam o recinto foi percebida e, com uma rajada de vento certamente forte, ela se abriu. A princípio, todos ficaram sem entender o repentino evento, porém, os questionamentos que certamente iriam vir sem delongas foram respondidos quando uma jovem moça de longos cabelos negros entrou pela janela.
Usava vestes negras como a maioria, contudo, aquilo nada combinava com o delicado rosto que ela possuía, tampouco com a aura resplandecente que ela transmitia. Se outrem a vissem, dificilmente diriam se tratar de uma comensal da morte e, ainda assim, mesmo que soubessem, a dúvida certamente permaneceria em suas cabeças.
Apesar disso, ela era o que era. E foi neste exato momento que um dos ocupantes da mesa percebeu o quanto as aparências podiam enganar.
— Olá! — disse, sorridente, enquanto Bella balançava a cabeça pensando se aquilo realmente havia sido uma boa ideia e Voldemort encarava-a surpreso. — Acho que vocês chegaram um pouco cedo, hum? Milorde — andou até o mestre, fazendo uma pequena reverência, e tornou a andar entre a sala, se sentando em uma cadeira vazia ao lado da tia. Explicações sobre o atraso? Não, ela não daria.
Sem delongas, ajeitou-se de forma que ficasse confortável sobre a cadeira e apesar de saber que todos os olhares estavam voltados sobre si — inclusive o de Voldemort, que certamente estava achando aquilo no mínimo interessante —, pouco se importou. Ainda assim, não tardou em se apresentar.
— Sei que todos devem estar se perguntando “quem, por Merlim, é essa garota” e conhecendo a minha amada tia, duvido muito que sequer tenha comentado algo sobre mim. Portanto, vamos lá. Me chamo Lovelorn Lestrange. - sorriu e foi naquele momento que percebeu o olhar fixo sobre si. Inclinou a cabeça sobre o ombro e com o olhar curioso sorriu. — Você eu conheço.
Voldemort olhou para Draco, e sem dar margem a mais conversa, sentou-se sobre a ponta da mesa com Nagini rastejando rapidamente para o seu lado.
— Ótimo, senhorita Lestrange. Creio que não há mais nada a acrescentar, certo? — piscou em afirmação. — Sendo assim, agora que estamos todos familiarizados, será que podemos começar? — massageava as têmporas, tentando amenizar sua irritação.
Daquela frase em diante, deu-se início a mais uma inquietante reunião entre comensais da morte e durante toda ela, Draco Lúcio Malfoy não parou de pensar na bruxa sentada quase em sua frente e, em sua cabeça, a incógnita do porquê que a garota chamava tanto sua atenção permanecia e apenas uma coisa era certa: cada parte do corpo de Lestrange exalava problema.

Hogsmeade - Uma semana antes:

O vento frio castigava as maçãs do rosto da garota, enquanto ela caminhava com uma certa tranquilidade pelas ruas de Hogsmeade. Mesmo usando luvas, vez ou outra se pegava esfregando as mãos uma na outra, numa tentativa de trazer um pouco mais de calor aos seus dedos, já que a lã não cumpria totalmente o seu papel. De onde vinha, ela estava acostumada com o frio, de uma certa forma, mas ainda assim não deixava de se sentir um tanto incomodada com aquela sensação. Imaginava como poderia haver pessoas que gostavam de se sentirem congeladas lentamente.
Abriu um leve sorriso de canto, sacudindo-se e dando um ou dois pulinhos antes de parar diante da atraente loja de doces, cogitando se não seria uma boa ideia entrar para dar uma olhada, mas uma vozinha chata em sua cabeça a alertou que assim acabaria se atrasando, como acontecia noventa e nove por cento do tempo.
— Melhor não — murmurou, consigo mesma, então retomou sua caminhada rumo ao bar que, por fugazes segundos, ela esqueceu do nome.
Arregalou seus olhos de susto, tentando buscar em sua mente qual era e até imaginando o rosto de sua tia, como se assim estimulasse alguma luz em seu cérebro. Quando nada veio, levou uma de suas mãos à boca, então respirou fundo, a fim de se tranquilizar. Num vilarejo como aquele, era pouco provável que existissem muitos bares.
Deu de ombros e, com seu olhar atento, foi em busca do primeiro que aparecesse.
Agradeceu mentalmente por sua procura não ser tão complicada assim e correu um pouquinho, de modo que conseguisse alcançar a porta antes que essa se fechasse, já que localizou o bar no exato momento em que um cliente saía de lá.
A primeira sensação que ela teve ao adentrar o local, foi a de que talvez ele fosse iluminado demais, em comparação às próprias casas de sua tia, mas quem era ela para julgar a excentricidade de alguém, certo? Já a segunda, foi a de ser abraçada por uma baforada de ar quente e aquilo era tudo o que desejava naquele momento.
Tirou o pesado casaco, já que não precisaria dele ali dentro, pendurando-o e varrendo o local com o olhar, buscando os únicos dois rostos que ela poderia conhecer entre as pessoas. Talvez aquele lugar estivesse até cheio demais, considerando os assuntos que iriam tratar.
Seguiu o caminho por entre as mesas até o balcão e soltou um suspiro impaciente ao perceber que Bella e Narcisa ainda não haviam chegado. Ela ainda tinha alguns minutos até a hora em que haviam marcado, então achou sensato tomar uma grande caneca de cerveja amanteigada enquanto esperava. Foi atendida por uma mulher bastante simpática e assim que tomou alguns goles da preciosa bebida, sentiu que ficava até um pouco mais leve.
Foi aí que o nome do bar brotou em sua mente.
— Cabeça de Javali! — exclamou, sorrindo por finalmente ter lembrado e, como a mulher já havia saído de perto dela para atender outras pessoas, olhou em volta, procurando quem poderia lhe dizer que estava no lugar certo mesmo que ela já tivesse quase certeza disso.
Percebeu dois bruxos entretidos em uma conversa enérgica e se perguntou como algumas pessoas conseguiam ser escandalosas às vezes. Riu de seu pensamento, então seu olhar foi atraído em direção a uma mesa, onde, diferente das outras pessoas, que estavam em grupos, havia um rapaz sozinho. Sua expressão facial não era exatamente das mais amigáveis, mas algo no jeito que ele encarava um ponto qualquer, absorto em seus próprios pensamentos, fez com que não conseguisse conter seus pés e seguisse até ele.
Contudo, antes que pudesse de fato dar início a uma conversa agradável, desastrada como só ela conseguia ser em alguns momentos, acabou tropeçando em seus próprios pés e esbarrando na quina da mesa onde seu alvo estava. Até ali, talvez não houvesse nada de preocupante. O problema foi ela derrubar cerveja amanteigada no rapaz como consequência.
— Esqueceu de como se olha pra frente, por acaso? — o garoto se levantou bruscamente e passou as mãos sobre o terno preto que usava, na tentativa inútil de limpar o estrago feito por . A garota, por sua vez, arqueou a sobrancelha ao tom exagerado de como a pessoa em sua frente havia falado mesmo que ela tivesse provocado o acidente e, por um momento, teve a certeza de que ele não estava tendo apenas um dia ruim e ao julgar pelo tom de arrogância em sua voz, soube que seu temperamento era tão irritante quanto ela podia imaginar. — O que é agora, vai ficar ai parada só me olhando ou vai buscar um pano pra tentar não perder o seu trabalho?
— O meu o quê? — cruzou os braços, desacreditando no que o rapaz acabara de falar.
— Ótimo, além de cega, agora é surda — revirou os olhos. — Madame Rosmerta precisa rever qual o tipinho de pessoa que contrata.
Naquele momento, não se segurou e o gargalhar escandaloso que carregava consigo a vida inteira saiu. Draco ao ver aquela cena, ficou mais furioso ainda e suas bochechas adquiriram um tom mais rosado que o de costume. Nunca se sentiu tão ultrajado.
— Eu não trabalho aqui, garoto — prendeu o riso novamente e balançou a cabeça.
— Mas é claro que não trabalha — Draco rolou os olhos. — Pelo jeito, duvido muito que alguém contrataria uma pessoa tão desastrada como você.
— Diz o garoto cheio de cerveja amanteigada, que ao invés de ir ao banheiro se limpar, permanece aqui, discutindo feito criança. Ou será que estou realmente cega e quem está na minha frente, de fato, é uma? — a Lestrange disse, pretensiosamente, e espremeu os olhos, chegando mais perto de Draco.
— Você só pode ser doente — Draco disse, se afastando. — Por acaso sabe com quem está falando?
— Um bruxo engomadinho, cheio de si e arrogante? — Draco ruborizou mais ainda e sua mão direita foi rapidamente para suas vestes, na tentativa de pegar sua varinha. Quem aquela garota pensava que era? Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Rosmerta se aproximou dos dois devido ao tumulto evidente que faziam.
— Sem briga de casais aqui dentro, por favor — falou, de forma calma e cansada, como se tivesse presenciado aquele tipo de cena mais vezes que o normal, e apontou para um plaquinha fixada atrás de Draco. Esse, por sua vez, desacreditou-se mais ainda do que estava acontecendo, sentindo certa repulsa por todos os eventos que o seguiam naquele dia. Ao começar pelo fato de ter sido excluído dos assuntos que sua mãe e tia iriam tratar com “um certo alguém em especial”. Como se não bastasse o fato de seu pai estar preso graças às interferências de Potter, agora ele teria que lidar com uma garota metida, cheia de si e que, ainda por cima, achavam que era alguma coisa dele.
— Não somos um casal — foi que respondeu primeiro, apesar de Draco estar prestes a proferir a mesma palavra, porém com uma ironia um tanto quanto maior. Mandame Rosmerta franziu o cenho, sem entender enfim o que se passava entre ambos e foi só então que percebeu a roupa molhada de Malfoy.
— Precisa de ajuda, querido? — perguntou, docemente.
— Quem sabe um sabão para limpar a boca suja? — sussurrou, baixinho, enquanto Draco a fuzilava.
— Como é, querida? — Rosmerta novamente agiu de forma atenciosa e foi nesse momento que soube que era a oportunidade que ela precisava.
— Hum, perguntei à senhora qual o nome dessa belíssimo e aconchegante bar? — perguntou, da forma mais doce e educada que conseguiu forjar e piscou algumas vezes, demonstrando curiosidade.
— Três Vassouras, meu bem — ao responder a pergunta, sabia que estava encrencada. Em um ato involuntário, bateu com a palma da mão sobre a testa e Draco franziu o cenho pelo repentino interesse sobre o nome do local. Então tirou alguns galeões do bolso, pondo-os sobre a mesa onde Draco estava sentado antes, correndo para a porta do bar em seguida.
O rapaz acompanhou com o olhar a saída intempestiva de e mal ouviu o que Madame Rosmerta resmungou ao seu lado. Alguma coisa naquela garota havia lhe deixado intrigado de uma forma que até lhe incomodava. Não ter certeza do que as coisas queriam dizer contribuía e muito para o seu mau humor.
No entanto, uma coisa havia ficado bastante clara para Draco Malfoy: aquela garota era definitivamente maluca.


Capítulo I — O início das missões

Naquele ano, a viagem até Hogwarts parecia ter um significado diferente para Draco Malfoy. Enquanto seu olhar estava fixo no cenário que passava pelas janelas, a sensação que tinha era a de que aquela seria a última vez que realizava aquele percurso. De certa forma, se sentia aliviado, afinal, não precisaria mais aturar alunos como o santo Potter, mas, ao mesmo tempo, a presença de um certo aperto em seu peito lhe deixava angustiado.
Revirou os olhos com aquele pensamento, talvez apenas estivesse cansado demais. Em seu futuro, lhe aguardavam grandes feitos, então por que ele sentiria falta de um lugar como aquela escola?
Seus pensamentos, automaticamente, foram para a reunião na mansão de sua família. O peso da missão que havia recebido parecia ter se alojado em seus ombros, no entanto, ele não tinha escolha a não ser cumprir o que lhe fora ordenado. Se fosse honesto consigo mesmo, admitiria também que estava apavorado com a ideia de levar aquilo até o fim.
Por algum motivo, de repente, a imagem da garota Lestrange surgiu em sua mente. Draco não poderia negar que havia admirado a audácia dela, embora a todo momento questionasse se aquilo realmente poderia ser chamado de audácia ou se era loucura. Se ele achava que sua tia, Bellatrix, era completamente maluca, aquela garota superava o conceito de insanidade. Sentiu que as maçãs de seu rosto esquentavam ao lembrar-se do sorriso ousado da garota, atribuindo aquela reação à irritação que Lovelorn Lestrange havia lhe provocado.
Uma pequena confusão despertou Malfoy de seus pensamentos, e quando ele focou seu olhar na origem daquilo, sentiu mais uma vez a vontade de rolar os olhos, ou até mesmo sacar sua varinha e azarar Blasio Zabini, assim talvez ele aprenderia como fechar a maldita porta da cabine.
— Que aconteceu com essa coisa? — Escutou o garoto resmungar, em um tom zangado, e Draco abriu a boca para responder, com o maior tom de acidez que possuía.
No entanto, foi interrompido quando a porta voltou a se abrir bruscamente e, em vez disso, ele arqueou uma sobrancelha, principalmente quando Zabini pulou para dentro da cabine e ele pôde jurar ter visto alguma coisa branca riscando o ar.
Não, aquilo não era possível.
Talvez a insanidade fosse contagiosa.
Draco negou com a cabeça, soltando uma risada para si mesmo e se esticando entre dois bancos. Não era surpresa para ele que Pansy Parkinson estivesse ali, e por mais que a garota também lhe irritasse uma boa parte do tempo, acabou deitando a cabeça no colo dela, permitindo que seus dedos finos alisassem os cabelos dele, simplesmente porque a sensação até que era boa.
— O que Slughorn queria? — questionou, se dirigindo a Blasio, como se realmente estivesse interessado naquele assunto, quando, na verdade, tentava distrair os pensamentos antes que ele voltassem àquela reunião e, consequentemente, à garota que tanto havia lhe intrigado.
— Puxar saco de gente bem relacionada — o colega lhe respondeu, o que não era bem uma novidade. Seu pai havia lhe contado tudo sobre o tal “Clube do Slugue” e para falar a verdade, por que ele se importaria mesmo em ser convidado para algo feito aquilo? Por mais que Lúcio também tivesse feito parte durante seus anos em Hogwarts, Draco tinha coisas muito mais importantes a serem feitas naquele ano, não poderia se distrair com algo banal como aquele clube.
Acabou fazendo uma careta de desprezo e questionou alguns nomes apenas para manter aquele assunto. Sabia que não faltava tanto tempo para que chegassem à Hogsmeade, no máximo uma meia hora até a estação.
— Acho que Slughorn não está interessado em Comensais da Morte. — Seu cérebro havia se desligado um pouco da conversa e Draco respondia a tudo de forma mecânica, até ouvir aquelas palavras ecoarem dos lábios do colega.
Sua expressão se fechou com aquilo e mais uma vez ele sentiu a onda de raiva que lhe deixou um tanto inquieto. Quem era aquele professor mesmo? Apenas mais um idiota.
— Que diferença faz se um velho gordo e decadente gosta de mim ou não? Talvez eu nem volte a Hogwarts ano que vem — soltou, em seu melhor tom de indiferença.
Ele deveria ter previsto a reação exagerada de Pansy antes mesmo de proferir aquelas palavras, ou até mesmo os questionamentos de Zabini, que pareciam duvidar da capacidade dele de servir ao Lorde das Trevas.
— Você acha que realmente tem as qualificações para fazer algo por ele? — o tom de voz do rapaz era sarcástico, o que fez com que a expressão de desprezo de Malfoy aumentasse ainda mais.
— Talvez isso não se trate de ter qualificações, Zabini. Talvez eu não precise disso para cumprir o que ele quer que eu faça — deixou as palavras no ar, sem revelar muito do que ele precisava fazer, já que aquilo não era da conta de Blasio.
Draco sentia que mais um pouco daquela conversa e ele não conseguiria conter mais sua irritação e quando avistou os primeiros sinais do castelo, se ergueu automaticamente, cortando o assunto.
— Estou vendo Hogwarts, é melhor trocarmos de roupa. — Levantou-se para pegar as vestes em seu malão, notando Crabbe imitar seu gesto.

ϟϟϟ


Draco desceu do trem com o humor um pouco melhor que antes, ajeitou suas vestes e foi de encontro aos portões da escola. Em nenhum momento, ficou preocupado com seu atraso e tampouco se importou com as reclamações que receberia por estar chegando apenas naquele momento. Afinal, não havia sequer algo mais prazeroso para o Malfoy do que atrapalhar a vida de Harry Potter, e só de pensar no estado em que o deixara dentro de um dos vagões do trem, ele sorria.
Porém, o sorriso de satisfação preso em rosto se desfez por completo quando viu quem estava ao lado do velho Filch. Aquilo havia virado um jogo de perseguição agora? Seus pés travaram por um momento e ele ficou parado no mesmo lugar, sem ouvir direito o que o velho dizia. Se questionava, o que deduziu ser a milésima vez, o que diabos a garota fazia ali e antes mesmo que pudesse questioná-la sobre aquilo, viu Snape aparecer e intervir no que quer que fosse o que Filch reclamara. Draco sabia que falavam dele, mas naquele momento tudo o que conseguia raciocinar era que não se livraria tão facilmente da maldita Lestrange.
— Já disse, Filch, deixe que eu cuido do garoto. — A voz de Snape voltou a ser clara aos ouvidos de Draco e somente naquele instante ele percebeu que havia ficado em silêncio, perdido em pensamentos por tempo demais e sequer entendeu o que se passava direito por ali. Quando ouviu que seu professor o defendia, apenas sorriu sem muito ânimo e percebeu Filch marchar de forma raivosa de volta para o castelo.
— Belo começo, Malfoy. — Foi a voz de que o fez olhar em sua direção e franzir o cenho. — Se fosse em outros tempos, eu diria que se atrasar justamente na chegada a Hogwarts seria um tanto quanto maneiro. Mas, no seu caso, a palavra apropriada é burrice mesmo. Merda, parece que você me dará mais trabalho do que o imaginado.
— Do que é que raios você está falando, Lestrange? — Não era inegável que as últimas palavras da garota o haviam surpreendido tanto quanto o fato de sua presença naquele local e ele não estava gostando nem um pouco daquilo, o que era perceptível a e a fazia sorrir marota por sua reação. O garoto, de fato, lhe daria trabalho, mas ninguém disse que aquilo não seria divertido. — Aliás, o que faz aqui?
— Creio que vocês dois precisam de menos papo e muito mais ação, principalmente o senhor, Malfoy — Snape interrompeu-os, usando de seu tom de rispidez conhecido e Draco viu Lestrange girar os olhos.
— Sempre acabando com a diversão. Você não tem mesmo jeito, tio Snape. I’ll be back, honey respondeu, soltando o ar dos pulmões e então agarrou Draco pelas vestes, que, sem muito o que fazer, foi arrastado para dentro do castelo.

Minutos depois, podia ser vista por Snape voltando até o seu encontro, e vindo da direção oposta dos portões recém trancados por ele, percebeu duas pessoas. Snape levantou seu lampião para melhorar a visão em sua frente e franziu o cenho por reconhecer Harry Potter e Ninfadora Tonks. percebeu o desapreço — claramente evidente — no olhar de seu novo mentor e, ao seguir aquele mesmo olhar, soube o motivo.
— Ora, ora, ora — debochou o professor, em posse da varinha, enquanto destravava os portões que se abriram em um desconfortável rangido. — Que prazer você ter aparecido, Potter, embora seja evidente que, em sua opinião, o uso do uniforme da escola desmerece a sua aparência.
— Não pude me trocar, não tinha o meu… — começou, mas parou no instante que percebeu uma garota, provavelmente mais velha que ele, ao lado de Snape. Nada nela lhe era familiar, mas, para a surpresa de Harry, para Tonks era.
— Como vai, camaleãozinho? — A garota piscou ao falar diretamente à auror que Harry conhecera. Tonks se prontificou a ficar na frente de Harry, como se estivesse fazendo um gesto protetor.
Lestrange, devo dizer que é uma surpresa ver você aqui — Tonks respondeu, sem muita gentileza, e Harry soube que existia alguma coisa estranha entre as duas assim que ouviu a forma e o sobrenome pelo o qual a auror chamou a garota.
— Não se preocupe, estou em uma missão de apenas transmitir diversão e paz para Hogwarts. — Lestrange sorriu e se voltou para Snape, que ao ver de Harry, sequer pareceu se surpreender à presença da garota. — Estou cansada, você sabe, e temos ainda toda aquela baboseira de apresentações... — disse, de forma manhosa, e voltou seu olhar para Harry e Tonks. — Será que você pode agilizar com esses dois aí?
— A petulância corre por suas veias, senhorita Lestrange. — Snape balançou a cabeça incomodado, e assim como , voltou seu olhar a Tonks e Harry. — Não precisa esperar, Ninfadora, Potter está bem… ah… seguro em minhas mãos.
— Enviei minha mensagem a Hagrid — Tonks ainda insistiu, enrugando a testa enquanto seu olhar permanecia fixo em , tentando entender a presença da garota ali ao mesmo tempo em que se recusava a deixar Harry seguir com eles.
— Hagrid se atrasou para o banquete inaugural, como Potter aqui, então eu a recebi — Snape retorquiu, com azedume, afastando-se para dar passagem a Harry, que hesitou por alguns segundos.
— Vamos logo, Potter. Já se deu conta de que estamos perdendo um banquete por sua causa? — não se conteve, erguendo uma sobrancelha para ele, que se deu por vencido e passou por Snape. — Por Merlim, obrigada! — ergueu as mãos para cima, em um gesto exagerado.
Quando Snape se virou com o lampião e eles estavam prestes a seguir para o castelo, no entanto, o garoto voltou a se direcionar à auror.
— Boa noite — gritou, por cima do ombro. — Obrigado… por tudo.
— Eu ainda acho que seu nariz ficou meio tortinho. Melhor dar uma conferida, hein? — implicou com Harry, vendo-o levar a mão automaticamente ao rosto, o que a fez soltar uma risadinha maldosa.
Snape permaneceu calado durante parte do trajeto, adquirindo uma expressão de tédio quando ouviu o comentário da Lestrange. Harry Potter também não parecia nada contente com a companhia do professor e se divertiu enquanto seu olhar oscilava entre um e outro.
— Cinquenta pontos a menos para a Grifinória pelo atraso, Potter — Snape quebrou o silêncio. — E, vejamos, mais vinte por sua roupa de trouxa. Sabe, creio que nunca houve uma casa com pontos negativos no início do trimestre, e ainda nem chegamos à sobremesa. Você talvez tenha estabelecido um recorde.
Gilliam percebeu, pelo olhar do garoto, que sua fúria havia aumentado ao ouvir as palavras do professor. Negou com a cabeça e deixando-se um pouco para trás para acompanhar Potter lado a lado, dirigiu-se a ele com seu melhor tom de ironia:
— Ele realmente gosta da sobremesa, sabe?

ϟϟϟ


sabia que receberia olhares curiosos quando atravessasse o salão principal, rumo à mesa dos professores, mas não se importava tanto com isso. Desde que não perdesse mais nada do banquete, nada lhe tiraria o bom humor. Nem mesmo os olhares carrancudos de Draco Malfoy.
Ao menos tinham conseguido chegar à tempo da sobremesa e mesmo que tivesse ouvido falar dos banquetes de Hogwarts, precisava admitir que tudo ali era ainda melhor. Por isso mesmo que a garota não fez nenhuma cerimônia assim que se sentou ao lado de seu mentor, Severo Snape. Sentiu até que ele lhe lançava um olhar de reprovação quando começou a comer, porém, novamente, não se importou.
Enquanto comia, conseguia identificar alguns trechos de conversas vindas dos alunos mais próximos e deixou um sorriso divertido brincar em seus lábios com a curiosidade da maioria deles. Não podia negar que estava até gostando daquela atenção toda.
Seus olhos varreram o salão principal, observando com curiosidade alguns rostos, mesmo que não conhece praticamente nenhum deles. Notou que, na mesa da Grifinória, os amigos de Potter lhe faziam milhares de perguntas, devido ao seu estado, mas não se interessou muito na cena, porque sentiu mais uma vez um olhar em especial.
Ergueu uma sobrancelha, mirando o garoto de cabelos loiros claros na mesa da Sonserina, como se questionasse de maneira muda o que ele tanto olhava. Será que havia perdido alguma coisa nela?
Recebeu uma expressão irritada em resposta, achando graça da facilidade que tinha em modificar o humor de Draco Malfoy. Bastava um olhar e até os punhos do rapaz se cerravam. Aquela temporada em Hogwarts com toda certeza seria muito mais divertida do que ela imaginava.
— Uma grande noite para todos! — Surpreendeu-se ao ouvir a voz risonha de Alvo Dumbledore, notando apenas naquele momento que o diretor havia se levantado, já que o banquete fora dado por encerrado. Achou curioso o gesto dele, que abriu os braços como se daquela forma pudesse abraçar a todos no salão, mas o que realmente chamou a atenção de foi sua mão direita, que estava escura e sem vida.
Aquela não era a primeira vez que via Alvo Dumbledore, obviamente, mas era a primeira vez que reparava naquele ferimento… Se era assim que poderia chamar. Sentiu-se um tanto intrigada, mas não teve a chance de pensar muito no assunto.
— Este ano, temos o prazer de dar as boas-vindas a dois novos membros em nosso corpo docente. O Professor Slughorn é um antigo colega meu, que aceitou retomar o cargo de mestre das Poções — anunciou, quando o bruxo ficou em pé e iniciou-se um burburinho, já que aquele costumava ser o cargo de Snape.
Poções? — A palavra parecia ecoar por todas as mesas.
— Por sua vez, o Professor Snape assumirá o cargo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, tendo como auxiliar e aprendiz a senhorita Lovelorn Lestrange. — colocou-se de pé, acompanhando seu mentor, e se antes já havia comentários, estes multiplicaram-se tanto em quantidade como em volume. adorou aquilo, não poderia negar.
— Lestrange?
— Ele disse mesmo Lestrange?
Ao ouvir seu sobrenome sendo repetido tantas vezes, foi praticamente impossível para a garota conter o sorrisinho que se formava em seus lábios. Ela conhecia bem o peso que ele tinha, em grande parte graças à sua adorada tia, então seria no mínimo interessante ver como cada um daqueles alunos reagiria à sua presença nas salas de aula. Colocar alunos para correr definitivamente seria hilário.
Na mesa da Sonserina, Draco não conseguia acreditar no que havia acabado de ouvir. Aquilo só podia ser algum tipo de pegadinha. Aquela garota? Aprendiz do Snape? Dando aulas a ele? Em que realidade aquilo era possível?
Talvez tudo não passasse de um sonho maluco, já que ele andava pensando demais na missão que havia sido dada a ele. Se continuasse repetindo aquilo para si mesmo, quem sabe acreditasse mesmo em suas palavras e despertasse novamente na manhã em que embarcaria no trem.
Mais uma vez, lançou um olhar emburrado na direção de . Algo na forma como ela sorria deixava muito claro que desde a primeira vez em que se viram a garota estava destinada a fazer de sua vida um inferno.
Dumbledore prosseguiu com os recados de início de ano letivo, mas nem e muito menos Draco Malfoy prestavam realmente atenção em suas palavras. Lhes parecia muito mais interessante prosseguir em uma espécie de discussão silenciosa em uma troca de olhares irônicos e fulminantes.

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observou o caminho que os alunos do primeiro ano faziam em direção às masmorras com auxílio de Draco, o qual descobriu se tratar de um dos monitores da casa. Logo em seguida, o restante dos integrantes da Sonserina faziam o mesmo e sem mais paciência para esperar o mentor, resolveu seguir o último grupinho que passava, novamente, Draco estava entre eles. Permanecia mais afastada dos demais, observando e memorizando aqueles que ela achava que seriam importantes durante sua estadia em Hogwarts e, dentre eles, estavam os amigos mais próximos de Draco.
O Malfoy, por sua vez, apesar da força de vontade, não conseguia não demonstrar seu desconforto ao saber da notícia de que permaneceria ali durante todo aquele ano letivo. Não sabia o que se passava nos planos e na cabeça do Lorde das Trevas ao infiltrar a menina daquela forma, para Draco, sua exposição era desnecessária e muito mais do que isso, ela era incômoda. E mesmo que não contasse aquilo para a garota, era muito boa em leitura corporal e sua carranca na forma de andar ao lado de alguns colegas o entregou por completo.
Ela sorriu maldosa, pensando em quantos tipos de provocações podia fazer ao garoto durante aquele ano, caso ele não andasse na linha. Chegou até cogitar se sua tia havia tido uma ideia boa ou extremamente insana ao enfiá-la nisso.
Mas bem, era inegável que as Lestranges gostavam de coisas insanas.
— Devo me preocupar em ter você por perto? — Foi a voz sussurrada de Snape que ela ouvira. sorriu, balançou a cabeça rindo em negação e voltou seu olhar ao velho conhecido. Poucos sabiam, mas entre aqueles dois existia um histórico tão longo quanto se pudesse imaginar ou até mesmo contar. E, por esse motivo, Severo conhecia muito bem o peculiar jeito da garota e seus tão obscuros segredos.
— Você já sabe a resposta, não sabe? — respondeu, travessa, quando ambos pararam em frente à entrada comunal da Sonserina. Nesse momento, todos os alunos já estavam dentro dela. Snape massageou as têmporas e disse a senha que abria a passagem entre as pedras e assim entraram, percebendo a ausência de alunos no local. riu, imaginando o motivo de todos terem ido direto para seus dormitórios e sentiu que pensavam poder facilmente ficar petrificados se a encarassem de perto.
— Vá em direção aos dormitórios e siga até o final do corredor à esquerda. Há um quarto vago e perfeitamente solitário para você — Snape proferiu, e concordou com a cabeça, estalando os dedos e fazendo sinal com as mãos para que seu mentor se dirigisse aos seus aposentos e não a incomodasse mais. — Já se deu conta do quanto você abusa da sorte?
— Já, mas acho que ainda não fiz o suficiente. — sorriu e Severo rolou os olhos, sumindo em direção ao seu aposento como sempre fazia, igual uma sombra.
A garota permaneceu por alguns minutos observando o local. Era mais bonito do que pensava e surpreendentemente estranho por não haver objetos de tortura medievais como ela imagina. Ela gargalhou com o pensamento e virou ao ouvir passos em sua direção.
— Loirinho, sabia que não ia ficar tanto tempo longe — provocou, cruzando os braços. Draco adquiriu uma expressão que oscilava entre surpresa por aquele comentário e a raiva que crescia toda vez que seus olhos encontravam Lestrange.
— Não foi bem eu que vim trabalhar na minha escola, não é, Lestrange? Pelo jeito é você quem não consegue ficar longe — ele retorquiu, com seu melhor tom presunçoso. — Além do mais, o que te faz pensar que eu quero uma maluca como você perto de mim? — lhe encarou de cima a baixo, com um certo desprezo, ou uma tentativa dele.
Sua escola, meu bem? — soltou uma risada alta, que teria atraído a atenção de outros alunos, se estes não tivessem corrido para os dormitórios. — Sinto muito destruir seus sonhos, Draquinho, mas você não está com essa bola toda não. Veja bem se sou eu chegando perto. — Malfoy nem havia reparado, mas ao observar a garota, havia dado alguns passos em sua direção, e quando se deu conta disso, a expressão carrancuda se intensificou em seu rosto. Ele retrocedeu alguns passos, como se assim anulasse alguma coisa.
percebeu a atitude do garoto. O sorriso divertido aumentou em suas feições e, com a intenção de provocá-lo, diminuiu a distância entre eles ainda mais, percebendo pela forma como Malfoy a encarava o quanto ele se sentia desconfortável com aquela proximidade. Queria rir da cara dele, mas preferiu conter por hora, mantendo uma expressão enigmática.
— O que está fazendo? — A voz de Draco havia se tornado falha por instantes e a cada passo que dava chegando mais perto dele, ele sentia algo se agitar dentro dele, algo que ele ainda não conseguia definir bem o que era, mas suas mãos suavam de um jeito completamente insano, tremendo como se ele estivesse controlando algum tipo de impulso. Mentalmente, ele desejou que fosse a vontade de sacar a varinha para lhe lançar alguma azaração. — Lestrange? — grunhiu o sobrenome dela, voltando a carregar sua voz com desprezo.
— Te deixando a par da situação — a garota falava, com um tom calmo, e estava tão próxima dele que Draco podia sentir o cheiro de hortelã vindo de seu hálito. — Talvez você não tenha entendido a situação ainda, loirinho. Mas deixarei você familiarizado com ela agora. — Seu desconforto ficou ainda maior quando ela o olhou nos olhos, minutos antes de chegar seus lábios próximos à sua orelha e sussurrar: — Você tem uma missão grandiosa em mãos e eu tenho uma também. Ela só não é apenas tão interessante quanto a sua. Mas, lembre-se disso, a partir de hoje, tudo que você faz, pensa e diz é minha responsabilidade. Não ouse me dar trabalho demais, ok?
Draco sentiu os pelos claros de sua pele se arrepiarem por completo a cada palavra proferida pela garota. Não sabia exatamente dizer ao certo o efeito em que ela tinha sobre ele, mas sabia que sua presença poderia ameaçar ou deixar todo aquele ano mais interessante do que nunca.
Viu a garota lhe dar as costas segundos depois de suas últimas palavras, e agora sozinho em sua sala comunal, pensou apenas admitir duas coisas: ele odiava Lestrange, mas também se interessava pela garota.


Capítulo II — Tarefas, DCAT e uma certa tendência a atrair problemas

Pontualidade certamente não era o forte de Lestrange. A garota, com tão pouca idade, já havia perdido as contas de quantas vezes em sua vida havia se atrasado para algum evento ou compromisso importante. Podia selecionar nos dedos as pouquíssimas vezes em que foi pontual de verdade e aquilo facilmente se assemelhava com raridade.
Foi pensando exatamente nisso que a Lestrange corria de forma desengonçada até o local onde Snape ministraria a primeira aula de Artes das Trevas — a qual ela já deveria estar presente — e muito longe de sua postura imponente habitual, naquele momento, estava envolta à enrolação que o atraso lhe trazia.
Em poucos minutos, desceu o que lhe pareceu ser um infinito lance de escadas, quando finalmente chegou à porta da sala de aula. ajeitou suas vestes, tendo a certeza de que todos os botões da camisa estavam devidamente fechados assim como a postura da capa que cobria todo o restante de seu corpo.
Deveria ser neutra em relação às cores e brasões que utilizaria — assim como todos os professores —, mas não conseguiu se conter naquele dia e resolveu que o verde lhe cairia esplendorosamente bem em sua gravata.
Sorriu, dando os últimos retoques, pronta para abrir a porta, se esta não tivesse sido aberta antes por...
— Engraçado, achei que tinha deixado explícito o horário das aulas na noite anterior, Senhorita Lestrange — Snape proferia, sarcasticamente, a , que rolava os olhos.
— Qual é, não é minha culpa se o fuso horário de Hogwarts foge dos meus padrões — resmungou, passando por Snape e adentrando finalmente a sala de aula.
Olhares curiosos caíram sobre si enquanto a garota seguia em direção à mesa que havia sido colocada ao lado da escrivaninha que pertencia ao professor. Era um misto de curiosidade, surpresa por ela ter chegado levemente atrasada a uma aula de Severo Snape e ainda assim ter sido aceita, além do receio que apenas o sobrenome Lestrange poderia trazer. Era como se esperassem que, a qualquer momento, a própria Bellatrix entraria pela mesma porta, seguida por uma horda de comensais da morte.
podia jurar, inclusive, que se ela se virasse na direção de um dos alunos e fizesse menção de lançar algum feitiço, este teria efeito apenas pelo medo que ela causava. Assim como qualquer outra palavra que ecoasse de seus lábios. Aquilo era engraçado, de uma certa forma, e ela se segurou para não o fazer. Só ela sabia do quanto estava precisando de algo realmente capaz de lhe divertir naquele castelo.
— Agora que a Senhorita Lestrange teve a decência de se juntar a nós, podemos dar seguimento à nossa aula — Snape se pronunciou, atraindo parte da atenção dos alunos de volta para ele, já que alguns ainda não conseguiam conter o espanto em ter mesmo aquela garota em sala de aula.
— De nada, tio Snape — deixou escapar, em um tom baixo, mas ainda assim audível pelo professor, que, por hora preferir ignorá-la, pigarreando para tomar a atenção completa da turma para si.
— As Artes das Trevas são muito variadas, inconstantes e eternas. Combatê-las é como combater um monstro de muitas cabeças, no qual, cada vez que cortamos uma cabeça, surge outra ainda mais feroz e inteligente do que a anterior. Vocês estão combatendo algo que é instável, mutável e indestrutível — fez uma pausa, observando cada um dos adolescentes presentes naquela sala. Gostava de notar o impacto que suas palavras causava em alguns deles.
Com uma expressão indecifrável, os olhos de Snape passaram por , que sustentou o olhar do mentor de forma firme ao mesmo tempo em que admirava as palavras ditas pelo homem. Não havia como negar que concordava com cada uma das definições que foram apresentadas, exceto que não tinha realmente interesse em se defender contra as Artes das Trevas. Já havia as abraçado como uma velha amiga. Se existiu algo que a garota realmente temeu antes, foi de um dia ser poderosa além da medida.
Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentosa ou incrível?
Bem, a verdade era, quem era ela para não ser tudo isso? Ela era Lovelorn Lestrange, uma bruxa poderosa, sim, e aquele tipo de medo não lhe servia de nada.
Voltou sua atenção para o discurso de Snape e conteve um sorriso travesso.
— Suas defesas, portanto, precisam ser flexíveis e inventivas como as Artes que vocês querem neutralizar. — Enquanto explicava, alguns passos eram dados em volta da sala, certificando-se de que todos prestavam a devida atenção. Discordava da presença de alguns ali, pois tinha certeza de que não eram competentes o suficiente, mas não havia muito que pudesse fazer, por hora. — Creio que os senhores são absolutamente novatos no uso de feitiços não-verbais. Qual seria a sua vantagem?
A atenção de se voltou prontamente para uma mão que se ergueu no ar, tão ávida que fazia parecer que a vida de quem a levantou dependia disso. Com curiosidade, a Lestrange analisou os traços ansiosos da menina, achando graça de seu desespero em responder.
Snape não lhe concedeu a palavra de imediato. Em vez disso, aguardou calmamente por algum sinal de que outro aluno responderia. não fazia muita ideia de quem era a menina dos cabelos cheios, mas lembrava de tê-la visto à mesa da Grifinória, junto a Harry Potter.
— Muito bem… Senhorita Granger? — a voz de seu mentor ecoou, secamente.
— O adversário não pode prever que tipo de feitiço a pessoa vai realizar, o que lhe dá uma fração de segundo de vantagem.
Involuntariamente, Lestrange sentiu seus lábios se curvarem em um sorriso. A menina estava absolutamente certa, claramente.
— Uma resposta decorada quase palavra por palavra, mas correta em sua essência — Snape comentou, em tom de menosprezo e quando uma risadinha debochada fez-se ouvir, o olhar de foi atraído para a presença de Draco Malfoy.
A expressão de quem tinha adorado aquela resposta do professor estava estampada nas feições do rapaz.
— Como se você fosse capaz de responder algo a altura, não é, Malfoy? — murmurou, mais para si mesma, controlando o ímpeto de dizer aquilo em voz alta e atrair os olhares de todos mais uma vez em sua direção.
Algo na expressão debochada de Draco lhe deixava agitada e tudo o que ela queria era poder desfazê-la.
Novamente, Severo Snape havia escutado o comentário da garota e dessa vez resolveu que iria puni-la pelo atraso em sua primeira aula, por mais que ela não fosse apenas uma aluna qualquer.
— Talvez queira compartilhar suas confabulações, senhorita Lestrange — chamou por ela, que o fuzilou com o olhar por alguns segundos, sem acreditar que Snape havia mesmo lhe cedido a palavra.
Pelo canto do olho, notou o sorrisinho de Malfoy aumentar. Abriu a boca para responder, mas acabou interrompida por seu mentor.
— Ou, ainda melhor, uma demonstração do que estou tentando dizer viria em perfeita hora. Vejam bem — se virou para os outros alunos, enquanto rolava os olhos e se colocava de pé — nem todos os bruxos conseguem executar feitiços não-verbais. Eles exigem uma concentração e poder mental que alguns não possuem. — Ali, a garota pôde jurar ter visto o olhar de Snape recair sobre Potter. — Lestrange. — Era a deixa para que ela prosseguisse.
— Snape — a garota retorquiu, virando-se para o professor, sentindo que sua punição não acabaria assim, de forma tão simples.
Severo Snape puxou sua varinha de uma forma rápida, que não teria sido notada por qualquer um dos alunos, já que um feitiço fora executado no mesmo instante. Lovelorn Lestrange, no entanto, havia sido tão veloz quanto, e em questão de segundos, não só havia bloqueado o ataque com um feitiço escudo, como lançou-lhe o feitiço estuporante, tudo isso com tanta graça que seus cabelos pareciam esvoaçar em um ritmo quase dançante. Seu mentor, obviamente, havia também bloqueado o ataque e o olhar desafiador dele se transformou em um de quem escondia o orgulho de sua aprendiz.
Naquele momento, os alunos novamente estavam com seus olhares fixados sobre a garota. Mas, dessa vez, a curiosidade e o receio haviam perdido o lugar para uma certa admiração e aquilo era para cada um deles — especialmente aos alunos da Grifinória — um sentimento estranho para se ter com um Lestrange.
Porém, teriam que admitir, ela era fascinante e, por uma fração de segundos, até mesmo Longbotton pensou que se adaptaria muito melhor a do que a Snape.
Embora a Lestrange esboçasse uma expressão benevolente ao terminar de conjurar o feitiço recém demonstrado por Snape, algo em sua postura indicava que uma travessura estava prestes a acontecer. Como se, a qualquer momento, fosse atacar novamente, e era exatamente esse o intuito daquele tipo de prática.
Malfoy fazia parte do grupo de alunos que não conseguia parar de olhar para Lestrange. Pelo jeito imponente da garota, os tons de arrogância e o fato de que ela havia sido treinada parcialmente por Bellatrix Lestrange, ele já tinha alguma ideia de que seria, no mínimo, brilhante. Ele só não imaginava que fosse gostar tanto disso e de assisti-la no ato.
Alguma parte dentro de si desejou, inclusive, vê-la executando feitiços mais vezes. Por mais que aquela prática exigisse concentração, a garota fazia parecer algo extremamente simples, passando uma confiança que acabou até mesmo refletindo nos outros alunos e, odiava admitir, nele mesmo.
Essa mesma confiança, no entanto, ruiu quando Snape ordenou que eles se separassem em duplas e passassem a praticar os feitiços mudos.
— Bons reflexos, Lestrange — o mentor murmurou, ao cruzar o caminho de .
— Tive bons tutores — Lovelorn admitiu, passando a imitar os gestos de Severo, passeando pela sala enquanto observava os alunos.
Estava claro que nenhum deles havia realizado aquele tipo de feitiço antes. Muitos iniciaram confiantes de que conseguiriam, mas então passaram a enrolar e até a murmurar os encantamentos em vez de dizê-los em voz alta.
Aos dez minutos da aula, Granger conseguiu repelir o Feitço das Pernas Bambas, que havia sido murmurado por Neville Longbottom, sem pronunciar uma só palavra, o que fez com que abrisse um sorriso em aprovação. Vendo, no entanto, que Snape a ignorou, a aprendiz deu alguns passos, chegando próxima à evidente sabe-tudo.
Normalmente, Lovelorn se irritava com aquele tipo de aluno. Em seus tempos de escola, tudo o que ela desejava era executar um feitiço silenciador permanente quando seu antigo colega respondia às perguntas feitas pelos seus professores. No entanto, por algum motivo, sentiu uma certa simpatia por aquela garota em especial.
— Muito bem, Granger — sussurrou o elogio, recebendo um olhar surpreso da menina, seguido por um sorriso.
— Obrigada — Hermione agradeceu, lhe lançou um aceno de cabeça e então continuou a circular pela sala.
Há alguns metros delas, Draco Malfoy praticava os feitiços com Pansy Parkinson, mas esta se afastou de prontidão quando viu que Lestrange se aproximava.
— O que foi agora? — o Malfoy questionou, em tom de impaciência ao ato da colega, até notar a proximidade de . Ignorou o máximo que pôde as reações que lhe foram causadas, sentia-se um completo idiota naquelas situações. — Ah, é você.
O tom de desprezo na voz dele fez Lovelorn sorrir.
— Sim, sou eu, linda e plena. Vou te dar uma oportunidade de ouro, Malfoy. O que acha de praticar comigo? — manteve o sorriso, o encarando daquele jeito travesso que fez com que o rapaz se sentisse incomodamente atraído.
— Por quê? Pansy é minha dupla — questionou, mesmo sabendo que a oferta da mulher não abria espaço para um não.
— Porque Parkinson é estupidamente inútil. Concentração não é o ponto forte dela e o poder mental também é questionável — respondeu, sem nem se importar com a presença da garota ou com o fato de ela estar ouvindo tudo.
— Ei! — a ouviu resmungar, então fez apenas um gesto com a mão que segurava sua varinha, assustando Pansy, que se calou imediatamente.
— Eu não quero praticar nada com você, Lestrange — Draco insistiu, fuzilando-a com o olhar.
— Vai ficar aí reclamando feito um garotinho, Malfoy? Ou vai me atacar de uma vez? — cortou o drama e, apontando sua varinha em um gesto rápido, lançou-lhe um feitiço para desarmar.
Draco se assustou ao ver a varinha voar de sua mão e tomou impulso para pegá-la de volta, conseguindo resgatá-la ainda no ar.
— Pelo jeito, andaram se enganando com você, Draquinho. Estou vendo que não é grande coisa, não — provocou, fazendo com que o rapaz apertasse as mãos com força.
Reunindo a maior quantidade de concentração que podia, ele encarou os olhos de , ignorando a sensação de que seu corpo estremecia com aquele eterno tom de quem aprontava alguma coisa. Então proferiu mentalmente o feitiço para desarmar o oponente.
Se lhe perguntassem segundos antes, Draco diria que não conseguiria realizar o feitiço não-verbal, não com Lestrange ali, lhe encarando em desafio. No entanto, o rapaz não se surpreendeu completamente quando conseguiu executar o feitiço com exatidão. Ele estava mais determinado do que nunca a derrotar aquela garota.
Lestrange foi rápida, conseguindo executar um feitiço protego sem muito esforço. Então, como havia feito com Snape, tentou contra-atacar Malfoy, que imaginando que ela repetiria o gesto, já estava pronto com outro feitiço defensivo.
— Você aprende rápido, Malfoy. Eu gosto disso, honey murmurou, de um jeito que deixou Draco levemente desconcertado.
— É a vontade de me livrar de você — respondeu, por pura birra e implicância.
— Então terá que tentar mais, meu bem. Porque eu não irei a lugar algum — piscou para Malfoy, que precisou se conter para não engolir em seco.
Aquela garota estava acabando com ele.

ϟϟϟ


Do outro lado da sala, Rony Weasley parecia prestes a explodir de tanto que encarava Potter, com seus lábios espremidos em concentração e o rosto tão vermelho a ponto de combinar com seus cabelos ruivos.
— Patético, Weasley — Snape comentou, ao chegar perto dos dois. — Deixe-me mostrar para você…
Rapidamente, ele virou a varinha para Harry, que entrou em estado de alerta e, completamente nervoso, gritou um feitiço de proteção tão forte que fez o professor se desequilibrar e bater em uma carteira.
Mais uma vez, a turma inteira focou seu olhar em um ponto só. Dessa vez, era em Snape, que se levantou com a cara amarrada, enquanto se empertigou de onde estava, preparando-se para agir, caso fosse necessário, afinal, Severo Snape era seu amigo e mentor. Como aprendiz, era seu dever lidar com situações como aquela.
— Você está lembrado que eu disse para praticar feitiços não-verbais, Potter? — a voz de Snape carregava, como sempre, todo o seu desprezo pelo garoto.
— Sim — Harry respondeu, inflexível.
— Sim, senhor — Snape frisou, e aquilo fez com que arqueasse uma sobrancelha ao observar a cena. Na verdade, todas as atividades haviam parado para aquilo.
— Não é preciso me chamar de “senhor”, professor.
Vários alunos ofegaram com aquela resposta, temendo o que aconteceria, mas não conseguiu se conter, soltando uma gargalhada.
— Mas que audácia, Potter — cutucou, se aproximando um pouco do garoto. — Assim vou querer andar com você no lanche.
— Detenção, sábado à noite, meu escritório — Snape sibilou, ignorando o comentário da Lestrange.
— Considere-se agraciado, porque merecia mais do que detenção — ela estreitou os olhos para o rapaz enquanto caminhava até algum ponto diante da turma.
sentou-se sobre a ponta da mesa de Snape, recebendo um olhar de desaprovação com tal ato, mas mesmo assim ela não ligou e permaneceu sentada no mesmo lugar. afastou uma madeixa presa em seu rosto, colocando-a para trás da orelha e seus olhos percorreram toda a extensão da sala quando o sinal que indicava o final da aula ressoou.
— Acredito que por hoje é só, não é mesmo, querido professor Snape? — falou, enquanto chacoalhava os pés. Os alunos olhavam do professor para a assistente, sem ainda entender como aquela audácia dela não era repreendida, mas foram despertados ao chamar de atenção da garota.
— Bem, a aula se encerra por hoje, jovens — disse, de maneira pouco formal, mas que ainda dava a entender que ela parecia mais velha do que os demais naquela sala, apesar de ter apenas dois anos a mais do que algum deles. — Sei que não vão se importar, mas é crucial que saibam... Vocês superaram as minhas expectativas. Fico feliz que ninguém tenha se machucado ou morrido. Bem, pelo menos, não hoje.
Sorriu travessa, piscando para Malfoy, que estava menos branco e mais rosado do que nunca.Os outros alunos nem mesmo o zoaram, pois estavam atordoados demais com aquela frase.
Definitivamente, estavam ferrados.


Capítulo III — Jogo de amor e amortentia

andava a passos largos com a expressão mais Lestrange possível de ser. A irritação era evidente em seu olhar e, mais que isso, se alguém fosse idiota demais para confrontá-la naquele momento, certamente receberia uma maldição imperdoável em questão de segundos.
E o motivo daquele mau humor era simples: limpar a sujeira do seu protegido era uma tarefa fácil, mas nada, NADA naquela missão era tão desagradável quanto ter que assistir uma aula de poções. teve certeza de que aquela determinação de Snape, era uma forma cruel de puni-la. A mais cruel de todas.
A garota não só odiava a matéria como não era nem um pouco fã do professor que a ministrava. Já não bastava ter que aturar a animação exagerada de Slughorn durante anos em Ilvermorny? Pelo jeito, não.
Antes que pudesse dar meia volta e ir azarar Snape, chegou à porta da masmorra aberta, vislumbrou Slughorn de costas a ela, lecionando aos poucos alunos dentro da sala de aula, e foi a voz feminina familiar que a fez permanecer no local e observar de forma curiosa.
— É Amortentia! — Granger falou de forma convicta e mesmo que não pudesse ver o rosto do professor, sabia que ele expressava admiração e certa alegria pela resposta.
— Realmente, é. Parece quase uma tolice perguntar — disse Slughorn, que parecia muito interessado como a Lestrange previu. — Mas eu acredito que você saiba o que ela faz?
E foi nesse momento, rolando os olhos, que resolveu mostrar sua presença na sala de aula.
— Essa pequena baboseira aí é só a poção do amor mais poderosa do mundo — respondeu atravessadamente enquanto permanecia escorada sobre o batente da porta, com os braços cruzados. Slughorn virou-se, dando de cara com a ex aluna.
— Oh, Lestrange querida! Entre, entre — o professor não poupou animação em sua voz. A turma, por outro lado, principalmente aqueles que ainda não haviam tido aula com a garota, em vez de animação, sentiam-se um tanto quanto amedrontados. — Pensei que não viria. Quando Severo avisou de sua visita hoje, não pude ficar mais feliz. Afinal, já faz algum tempo que não vejo uma de minhas alunas favoritas, não é? Vamos, sente-se onde quiser!
sorriu seco e se direcionou à mesa onde, para a surpresa de todos, Potter e Weasley estavam sentados. No meio do caminho, a Lestrange resolveu sorrir marota para Draco, fazendo-o ficar vermelho e irritado pela presença da garota, ou seria melhor dizer: por ela estar sentando em outro lugar que não fosse ao lado dele?
Ao ver a garota chegar mais perto de sua mesa, Rony engoliu em seco desconfortável e sorriu por ver que Harry não demonstrava medo pela aproximação. Atrevido, corajoso e com tendências a encontrar problemas. Ela gostava do garoto.
— Chega pra lá — falou, enfiando-se no meio de Harry e Rony, que entreolharam-se por um momento antes de ceder. Rony o fez por puro medo e Harry, ainda que se sentisse um pouco desconfortável, aceitou dando de ombros.
Não muito longe de onde eles estavam, Malfoy encarava a cena com incredulidade. Queria entender o que diabos a garota fazia ali e ao vê-la lançar um sorriso que lhe pareceu quase amigável na direção de Potter, sentiu-se inquieto a ponto de desejar questionar se ela estava de brincadeira com a cara dele ou algo do tipo. Justo Potter?
Com o gesto da garota, Rony pareceu relaxar um pouco, ainda que se sentisse meio desconfiado com a presença dela ali, e Harry ficou intrigado com quais seriam as intenções da Lestrange, mas aquilo seria conversa para um outro momento, já que Slughorn tornou a ministrar a aula.
— Certo, vamos continuar! Você a reconheceu, eu suponho, por seu distinto brilho de pérola, querida? — perguntou para Hermione, que balançou a cabeça em animação.
— E pela fumaça subindo em suas espirais características — confirmou entusiasmada. Mais uma vez, surpreendeu-se por não desejar lançar alguma azaração na garota. Em vez disso, continuou observando a cena com uma expressão divertida.
Aquilo talvez se desse ao fato, também, dela ter notado o olhar irritado de Malfoy em sua direção. Por mais que odiasse a aula de poções, seu humor estava até melhorando depois disso.
— Ela deve cheirar diferentemente para cada um, dependendo do que nos atrai. Por exemplo, eu posso sentir grama recentemente cortada, pergaminho novo e... — Granger prosseguia com sua explicação acalorada, então ficou levemente rosada e não completou a frase, o que fez com que arqueasse levemente a sobrancelha. Não que fosse fofoqueira ou algo nesse sentido, porque aquele tipo de coisa até a irritava, mas a reação da menina a deixou um tanto curiosa. Mal conhecia Hermione Granger, mas tinha a leve impressão de que não era fácil fazê-la se calar.
— Posso saber o seu nome, minha cara? — ouviu o professor questionar, ainda mais animado.
— Hermione Granger, senhor.
— Granger? Será que você seria parente de Hector Dagworth-Granger, que fundou a Mui Exraordinária Sociedade dos Preparadores de Poções? — Lestrange já até conseguia imaginar no que aquela interação resultaria. Não se surpreenderia nem um pouco se Slughorn a chamasse para seu Clube seleto ali mesmo, em frente aos outros alunos.
— Não. Eu acredito que não, senhor. Eu nasci Trouxa, sabe.
revirou os olhos ao ver Malfoy se aproximar de Nott e sussurrar algo que fez com que ambos rissem. Harry, ao seu lado, parecia ter percebido o mesmo e não conseguiu conter um sorriso mínimo ao ouvir o resmungo da garota.
— Babaca.
Slughorn, no entanto, não se importou com a informação de Granger. Ao contrário, abriu um sorriso e olhou de Hermione para Harry, sentado na bancada ao lado.
— Há! Uma das minhas melhores amigas é nascida trouxa e ela é a melhor do nosso ano! Acredito que esta seja a amiga da qual você me contou, Harry?
— Sim, senhor — confirmou Potter, em um tom que soou até orgulhoso aos ouvidos da Lestrange, porém ela não saberia dizer com certeza, já que não se lembrava de já ter provado do mesmo sentimento alguma vez.
— Bem, bem, você recebeu vinte pontos para a Grifinória, Senhorita Granger — disse Slughorn.
E expressão de Malfoy naquele momento era impagável. Parecia que havia levado um soco na cara, por mais que ele tentasse disfarçar.
Hermione se virou para Harry com uma expressão radiante e sussurrou:
— Você realmente lhe falou que eu era a melhor do ano? Oh, Harry!
— Ora, grande coisa! — se surpreendeu ao ouvir o cochicho de Rony, afinal, o garoto não havia se pronunciado desde o momento em que sentou ao seu lado. — Você é a melhor da série: eu teria dito isso se ele tivesse me perguntado.
Seu tom de aborrecimento deixava evidente ali algo que, aparentemente, nenhum dos três se dava conta e sentiu-se até à vontade junto a eles. Decidiu então que não seria nada ruim conhecê-los um pouco melhor.
Tinha uma missão, mas aquilo não significava que não poderia se misturar um pouco mais entre os alunos. Talvez isso até lhe ajudasse.
Draco não sabia o que achava mais absurdo naquela aula. Se era o fato de que uma Lestrange havia escolhido ficar entre um Potter e um Weasley ou se era a grande perda de tempo que era aquela aula. Poções do amor? Slughorn só podia estar de brincadeira e sobre isso Nott parecia concordar com ele.
Sentiu falta das aulas de Snape. Ele sim sabia que tipo de poções eles realmente precisavam aprender. Aquela baboseira de amor nunca lhe seria útil para nada.
— É sorte líquida — Malfoy nunca pensou que daria atenção a qualquer coisa que Granger dissesse, mas, pela primeira vez, ele ergueu seu olhar na direção da garota, aprumando-se interessado.
Sorte era tudo o que ele precisava, principalmente com a tarefa que o Lorde das Trevas havia lhe incubido de realizar. Conseguia até se imaginar concluindo-a com maestria e se livrando do peso que se alojou em seus ombros desde que ouviu o que deveria fazer.
Ele faria qualquer coisa por aquela poção, nem que fosse apenas uma gota dela.
Evidentemente, já havia ouvido falar da famosa Felix Felicis e até se sentiu um tanto entediada com a reação de todos os alunos. Quem não iria querer sorte engarrafada? Aquilo era tudo previsível até demais.
Observou com mais atenção a reação de Draco Malfoy. A forma como o garoto olhava para o pequeno caldeirão preto fazia parecer que ele dependia daquela poção para sobreviver. Talvez realmente esse fosse o caso, mas ela gostou do lampejo que viu passar pelos olhos cinza do rapaz. Continha tanta determinação que fez acreditar que Malfoy seria capaz de roubar um pouco do líquido assim que tivesse oportunidade.
Sorriu de forma travessa com isso. Ela adoraria ajudá-lo nessa tarefa também.
Mal pôde conter a expressão de surpresa quando Slughorn então a ofereceu como o prêmio daquela aula.
Todos os alunos imediatamente puxaram seus caldeirões para perto e a cena toda se tornou bastante divertida de assistir.
viu Malfoy abrir seu livro e folheá-lo de forma febril, o que deixou as coisas ainda mais interessantes para ela. Se antes havia pensado em ajudá-lo, naquele momento, observar seu desespero lhe soava muito melhor.
Pelo canto do olho, notou que o livro de Harry Potter estava repleto de anotações, franzindo o cenho por uns instantes, mas preferindo não dizer nada quanto a isso.
Durante os vários minutos seguintes, oscilava seu olhar entre os alunos, ouvindo apenas alguns dos comentários que Slughorn fazia e até rindo porque Rony, do seu outro lado, não estava tendo tanto sucesso assim no preparo de sua poção. Vez ou outra, Draco lhe lançava alguns olhares raivosos e ela apenas retribuía erguendo a sobrancelha.
— E acabou-se… o tempo! — Finalmente ouviu Slughorn anunciar. — Por favor, parem de mexer!
Slughorn caminhou lentamente enquanto observava os caldeirões, mexeu em alguns, cheirou outros e acenou positivamente ao passar pelo de Hermione. No entanto, ao passar pelo de Harry sua expressão se iluminou.
— Claramente o vencedor! — gritou sem esconder o entusiasmo. até se inclinou um pouco para o caldeirão dele, percebendo que o velho Slug tinha razão. A poção do garoto estava perfeita. — Excelente, excelente, Harry! Meu Deus, está claro que você herdou o talento da sua mãe. Ela tinha uma mão perfeita em Poções, a Lily! Tome aqui então o seu frasco de Felix Felicis… E use-o bem!
— Muito bem, Potter. Estou impressionada — Lovelorn disse, lançando um sorriso de canto para o garoto.
— Obrigado — um Harry sorridente lhe respondeu.
Hermione guardava uma expressão de desapontamento, já Malfoy, sentiu uma súbita vontade de afogar Harry Potter em um daqueles caldeirões.
Desde quando ele era bom em poções? Ou em qualquer outra coisa?
Talvez Draco estivesse tão ocupado com seu próprio trabalho que não percebeu ajudando o garoto.
Não, ela não seria maluca àquele ponto.
— Antes de irem, aproximem-se, meus caros! — O rapaz ergueu seu olhar ao ouvir o chamado de Slughorn e se levantou para atender ao pedido, já que aparentemente ele não tinha outra opção. — Já que a Amortentia foi a segunda poção que mais atraiu o interesse de vocês nesta aula, o que acham de descobrirem quais são os cheiros que ela possui para cada um de vocês?
O tom entusiasmado do professor sugeria que todos iriam adorar aquilo e realmente boa parte dos alunos havia gostado. Malfoy, no entanto, sentiu que havia perdido a oportunidade de se retirar antes daquele circo. Lestrange, a poucos metros do rapaz, não pensava muito diferente, mas não podia negar a curiosidade lá em seu íntimo em saber o que realmente despertava seu interesse e foi partindo disso que ambos de repente se viram cercados de outros alunos, em volta do caldeirão indicado pelo professor.
— Não sejam tímidos, vamos! - Slughorn fez sinal para que todos se aproximassem ainda mais e aos poucos, cada um presente inspirou próximo a poção.
— Algodão doce — percorreu com os olhos para saber a autora da voz e descobriu ser de Lila Brown, uma garota que reconhecera da aula de Defesa contra as Artes da Trevas. viu o sorriso bobo se formar ao rosto da garota e, no mesmo instante, a repreendeu mentalmente por aquela ato. O amor era tão bobo.
— Muito bem, senhorita Brown. Apesar de ainda ser comum, já que muitas pessoas sentem o cheiro de algo doce, ainda é fascinante, não é? — o professor estava entusiasmado, assim como mais da metade da sala. — Vamos, vamos, digam o próximo!
— Eu sinto cheiro de terra molhada... quando a chuva recém toca o chão — foi a vez de uma das gêmeas Patil falar.
— Muito interessante minha querida, interessante! — a animação na voz do professor começou a deixar enjoada e ela soube que a única maneira de sair dali o quanto antes era cheirar e dizer qual aroma aquela poção ridícula tinha. Respirou fundo e fechou os olhos antes de deixar o aroma da amortentia envolver suas narinas.
Cerveja amanteigada — ao mesmo tempo em que pensou, a voz de ressoou por todo o no local, mas, para sua surpresa, ela não havia pronunciado aquilo sozinha. Foi um uníssono perfeito e sincrônico dito pela Lestrange e pelo Malfoy.
Por Merlim, o que havia sido aquilo?
Naquela altura, não somente a dupla demonstrava surpresa, como também todo o restante da sala.

ϟϟϟ


A barriga de roncava como nunca. O dia havia sido arduamente cansativo, mesmo que esta não houvesse feito muita coisa após a última aula que viu no dia. A aula de poções foi mais divertida do que pensava, principalmente pelo fato de ver Draco Malfoy mais irritado do que nunca, ainda assim, a espera de seu tutor para ir até o jantar estava matando-a aos poucos.
— Sua cara está mais horrenda que o normal — Snape saía de sua sala de aula e ia em direção à garota sentada sobre a janela à sua frente.
— Ahá, estou morrendo de rir, engraçadinho. — respondeu, girando os olhos e levantando-se. — Se você fosse tão rápido em arrumar suas coisas quanto é para ser desaforado, eu iria gostar mais de você.
Snape riu.
— Não mentiram para mim, você fica bem mais interessante quando está com fome.
— Menos papo, mais passos, tio Snape. Por favor.
Quando chegaram ao Salão Principal, encarou a mesa dos professores, onde ela havia se sentado nas primeiras vezes, mas não estava nem um pouco afim de conversar sobre trabalho com os outros professores, muito menos de ficar em silêncio completo ao lado de seu mentor. Não fazia lá muito tempo que ela havia se formado em Ilvermony, mas, de certa forma, enquanto olhava os alunos conversando entre si, sentiu falta de conversar qualquer porcaria fútil enquanto se alimentava.
Não havia nenhuma regra que dizia que ela não podia sentar à alguma daquelas mesas, então lançou um olhar rápido por elas, ponderando qual seria a casa que ela iria agraciar com sua presença.
Seus olhos se fixaram por alguns segundos na mesa da Sonserina, notando que Malfoy conversava alguma coisa com Pansy Parkinson. Como se aquilo lhe chamasse, o garoto a encarou de volta e bufando Lestrange voltou-se para a mesa da Grifinória. Localizou Potter, sempre acompanhado por seus amigos fiéis, e resolveu que os faria companhia daquela vez.
Mais uma vez, Draco lançou um olhar incrédulo na direção de , vendo-a sentar-se ao lado de Hermione Granger.
Por Merlim, que diabos ela estava fazendo?
— Abre um espaço aí, Granger — A voz da garota atraiu a atenção do trio e, notando seus olhares de receio , arqueou uma sobrancelha. — Acreditem, se eu quisesse azarar qualquer um de vocês, não ficaria enrolando, não.
Sorriu de canto e segundos depois pôde ver Hermione relaxar sua postura e retribuir o sorriso minimamente. À sua frente, Harry e Rony se entreolharam e então deram de ombros.
— Desculpe. É que você é uma Lestrange — Rony gaguejou, enquanto seu rosto adquiria uma feição avermelhada.
sorriu para o garoto de um jeito quase gentil.
— Não sou louca como Bellatrix, podem ter certeza disso — afirmou, percebendo que aquela declaração os fez respirarem um pouco mais aliviados. — Eu sou pior.
Ao ver os olhares arregalados dos três, não pôde conter uma gargalhada. Em questão de segundos, havia um quarteto risonho até demais na mesa da Grifinória.
Malfoy sentia seu sangue ferver por causa disso. O que aquela garota planejava com aquilo tudo? A sensação que tinha era a de como se acabassem de lhe trair. O motivo disso? Ele não fazia ideia e isso o irritava demais, a ponto do garoto até mesmo estreitar os olhos na direção do grupo.
— Vocês são ótimos! — estava com as mãos na barriga, sentindo-a doer de tanto que riu.
— E você é… diferente — Harry respondeu, ficando sem jeito ao ver Lovelorn lhe erguer uma sobrancelha. — Sabe? Do que eu pensava.
A garota sorriu.
— Se isso é uma tentativa de elogio, Potter, muito obrigada, sabe? — o imitou ao final de suas palavras, fazendo com que os outros rissem mais um pouco.
— Você foi incrível naquela aula do Snape. Quem piscasse perderia muita coisa daquela demonstração — Rony comentou, em um tom empolgado e percebia-se que começava a se sentir mais à vontade com a presença de .
— De onde eu vim, o treinamento era bem rígido nesse aspecto — Explicou, despertando ainda mais o interesse deles. Até mesmo Longbottom havia se espichado um pouco para ouvir do que eles falavam.
— E de onde você é, senhorita Lestrange? — Ela se assustou ao ouvir a pergunta, um tanto quanto formal, vinda de Mione.
, por favor. Ou . Nada de senhorita e essas coisas cheias de frescura. — Tratou logo de dispensar aquele tipo de tratamento.
— Certo, . Agora conta de onde você é, porque imagino que não tenha estudado em Hogwarts — a menina insistiu, com uma observação absolutamente correta.
— Imaginou certo, meu bem. Você deve ter percebido que fico perdidinha nesse castelo enorme. — Hermione assentiu com um sorriso. — Eu me formei em Ilvermony há quase dois anos.
— E já veio lecionar em Hogwarts? Mas por que aqui? — mal havia terminado de falar e Granger já lhe lançava mais perguntas. — Quantos anos você tem, afinal? Me parece tão jovem…
— Acalme-se, Hermione querida. Temos todo o tempo do mundo para que eu responda às suas perguntas. — Sorriu largamente, ainda mais quando percebeu que Draco não conseguia tirar os olhos dela. — Bom, eu vim aprender a lecionar, na verdade. Eu tenho dezenove anos, então não sou mesmo tão velha assim e Hogwarts porque, bem… é Hogwarts. — Deu de ombros e a outra pareceu se dar por satisfeita.
— E o Malfoy? — A voz de Harry Potter fez com que mais uma briga silenciosa de olhares entre e Draco fosse interrompida.
— O que tem ele? — a garota perguntou, sem entender.
— Qual é a sua relação com ele? — Não foi muita surpresa para ela ouvi-lo questionar aquilo. Não era como se os dois escondessem tanto assim aquela relação de ódio mútuo.
— Temos uma tia em comum. Bellatrix — encontrou a saída perfeita para aquela pergunta. — Apesar de que eu não tenho nenhuma relação sanguínea com ela. Sou puramente uma Lestrange.
— Então você é sobrinha do marido dela? É isso? — Rony perguntou o óbvio e apenas assentiu.
— Sabe, , todo mundo estava com medo de você quando chegou aqui. Seu sobrenome tem um peso e você tem uma pose um tanto… intimidadora. Mas depois só conseguimos imaginar que você tem que ser muito corajosa para ser assistente do Snape — Neville se pronunciou, fazendo com que a garota gargalhasse pelo comentário.
— Snape não é tão ruim quanto parece. — Deu de ombros.
— Claro que não, ele é pior ainda, não é? — o garoto comentou, fazendo todos rirem um pouco mais.
Depois de vários minutos ali, rodeada por aqueles grifinórios, jogando conversa fora e descobrindo mais sobre eles, se deu conta de que estava se divertindo de uma maneira completamente inesperada.
Sentiu, pela milésima vez, o olhar de Malfoy queimando em sua direção, então o encarou de volta e estreitou os olhos para o garoto. Parecia que o julgamento dele por estar com aquelas pessoas vinha estapear sua cara, mas ela sabia muito bem como se defender e se mantinha firme, retrucando com as melhores expressões de deboche que conseguia. No entanto, não conseguiu deixar de notar que havia alguma outra coisa oculta ali, algo que mesmo que ela tentasse, não era capaz de evitar revidar.
Draco lhe instigava e ela estava adorando fazer o mesmo com ele.

ϟϟϟ


Uma das coisas que a Lestrange mais gostava em ser aprendiz era o fato de ter um quarto apenas para si nos dormitórios da Sonserina e que ainda continha um banheiro próprio acoplado. Estava acostumada a ficar sozinha, já não era de hoje e não se tratava apenas de privacidade e sim de algo muito característico a Lestrange: acostumou-se à solidão. O barulho vindo antes da sala comunal já havia cessado quando saiu do banheiro, que exalava cheirinho de ervas vindo de seus produtos femininos, após um banho revigorante. A garota deduziu que todos os alunos já deviam estar acomodados em seus dormitórios e, cantarolando a hino da escola que havia escutado e decorado alguns dias atrás, foi envolta em seu roupão de cetim na cor azul e cramberry, ganho em seu último ano em Ilvermorny, que viu percebeu o intruso sentado na ponta de sua cama.
— Mas o que raios faz aqui, Malfoy? — resmungou, fechando melhor seu roupão em um ato reflexo. Estava prestes a azarar o garoto, mas algo na forma como ele a encarava a fez congelar.
não era ingênua, longe disso. Havia percebido desde cedo como o Malfoy estava agindo diferente desde a aula de Poções. Percebeu o olhar sobre si e, mais que isso, percebeu que o joguinho inicial de cão e gato que tinham em se provocar há algumas semanas tomou lugar para algo muito diferente. — Você só pode estar ficando maluco em aparecer aqui assim.
tentava manter a postura de indiferença, por mais que a presença do garoto a houvesse pego de surpresa, ainda assim, percebeu que o comportamento bobo e ingênuo de Malfoy não era o mesmo. Pelo menos não naquele momento.
— Você tem razão. — A voz de Draco soava mansa e paciente, o que não era nada convencional a Lestrange. — Eu estou ficando maluco mesmo, Lestrange. — Draco disse, levantando-se calmamente, de forma que mantivesse seus olhos cinzentos fixos aos da garota em sua frente. Era inegável a atração que sentia e a verdade era que já estava suportando demais evitá-la. A quem ele queria enganar?
A simples pronúncia de seu sobrenome fez desviar o olhar de Draco. Talvez fosse a forma que ele havia dito, ou talvez fosse a aparição repentina, mas fosse o que fosse, sabia que aquilo não iria prestar.
— Bem, isso eu sempre soube — ironizou. — Ainda assim não me respondeu e, cá entre nós, duvido muito que você tenha incorporado a forma de anjo para vir até aqui e puxar o saco de sua quase professora.
Draco sorriu ao final da frase.
— Está certa de novo, Lestrange — seu olhos tinham o aspecto misto de sombriedade e diversão, algo que conhecia bem, já que fazia aquilo sempre. E, como se Malfoy desvendasse o que pensava, começou a se aproximar.
— Não sou nenhum anjo, passo longe disso e a verdade é que já não aguento mais permanecer fingindo que não me importo com você. — Avançou os passos ao mesmo tempo que andava para trás, na tentativa em vão de afastá-lo. — E apesar de odiar cada pedacinho seu, ainda sinto desejo. Agora, me diga, Lestrange, o que a garota rebelde e inconveniente fará quando eu te beijar?
Era tarde para recuar e talvez ela também não o quisesse fazer, foi o que pensou pelo menos quando Draco colou suas testas, fechando os olhos e colocando a mão direita em sua nuca, pronto para selar os seus lábios aos dela. Malfoy e Lestrange eram como água e óleo, não podiam se misturar, mas isso não impedia que não o fizessem ou tentassem. E era ali que estava o problema, sabia onde isso iria levar.
Quando olhou minuciosamente para a boca de Draco, percebeu que estava prestes a aplicar seu golpe contra si mesma e então respondeu a pergunta anterior do garoto da melhor forma que pode. Beijando-o.
Não fora um beijo calmo e ritmado, muito pelo contrário. Os lábios da Lestrange se chocaram contra os de Malfoy e, como se ele estivesse esperando por aquilo, mesmo que tivesse dito que tomaria a iniciativa, retribuiu de maneira afoita.
Draco soltou um grunhido baixo, puxando para mais perto, colando o corpo dela no seu quando suas línguas se tocaram, acariciando-se desesperadamente. O som atiçou ainda mais o desejo da garota, que levou suas mãos aos ombros do sonserino, apertando o local com força e fincando parcialmente suas unhas ali.
Afastaram suas bocas por alguns segundos, encarando-se enquanto o ar parecia extremamente escasso aos seus pulmões, então Malfoy voltou a unir sua boca com a de Lestrange, de forma que dessa vez seus lábios se encaixassem perfeitamente aos dela.
Aquele beijo estava gostoso, não conseguiria negar. Não quando sentia as mãos de Draco descerem de sua nuca, traçando um caminho lento por suas costas, roçando a ponta dos dedos e lhe espalhando uma onda de arrepios até chegar à sua cintura, onde ele segurou com firmeza. Lovelorn suspirou com aquilo e soltou uma pequena exclamação ao sentir suas costas se chocarem contra a parede de seu dormitório.
Com seus pensamentos completamente nublados pelo rapaz, tomou impulso para entrelaçar suas pernas na cintura de Draco, envolvendo-o enquanto parte de sua consciência gritava que ela vestia apenas aquele roupão. Essa parte desapareceu completamente quando ele pressionou seu corpo contra o de , friccionando de uma forma prazerosa que a fez gemer baixinho.
As mãos dele exploraram parte das coxas descobertas da Lestrange, subindo até sua bunda e a apertando sem pudor algum. A garota adorou aquele gesto, tanto que voltou a apertar os ombros de Malfoy, raspando suas unhas por ali e seguindo até a nuca do garoto. Embrenhou seus dedos nos cabelos de Draco e os puxou, fazendo-o romper o beijo para que ela pudesse encará-lo mais uma vez.
E foi olhando a expressão excitada de Malfoy que o lampejo de consciência gritou a merda que ela estava fazendo.
Que ideia estúpida havia sido aquela de beijá-lo?
— Me solta, Malfoy — antes mesmo de ela dizer as palavras em um tom raivoso, Draco percebeu a mudança em sua expressão. No entanto, isso não mudava o quão frustrante era aquela situação.
— O quê? — não conseguiu evitar que as palavras indignadas saíssem de sua boca.
— Eu mandei você me soltar — repetiu, com firmeza, descendo do colo dele quando sentiu os braços do garoto se afrouxarem ao seu redor. — Agora some daqui.
Sem entender o motivo da mudança tão repentina, absurdamente atordoado pela onda de sensações que havia experimentado com aquela garota, Draco hesitou.
— Some, Malfoy — alteou a voz, sentindo a raiva transbordar. — E a próxima vez que eu encontrá-lo sozinho no meu quarto, não há Lorde das Trevas e nem missão alguma que me impeça de acabar com você.


Capítulo IV — Uma visita inesperada

Na manhã seguinte, Draco não a viu. De imediato, não soube como agir. Não era como se esperasse algo dela quando a garota aparecesse e tampouco achou que se importaria com a presença de . No fim das contas, a Lestrange só demonstrou ser mais louca ainda ao enchutá-lo de seu quarto na noite anterior, maluca o suficiente para ter o rejeitado. Mas, ao contrário do que o Malfoy pensava até então, ele se importava com a insuportável garota e não vê-la naquela manhã foi decididamente estranho.
Porém, o que Draco achou ser apenas temporário ou mais um dos atrasos típicos de , se tornou mais complexo do que pensara. No dia seguinte, ela também não apareceu. E nas duas semanas que se seguiram também não. Será que aquilo fazia parte dos planos de Voldemort? Foi o que pensara, mas Draco achou aquilo irrelevante, visto que, por mais que não soubesse o propósito da garota em Hogwarts, certamente nem ela, tampouco o Lorde das Trevas, seriam tolos o suficiente para simplesmente fazer a garota sair de Hogwarts sem alguma explicação. Afinal, aquilo era muito comprometedor.
Nenhum dos professores, ou mesmo Dumbledore, sequer proferiram algo a respeito da ausência da garota. Quem observava de longe, poderia facilmente dizer que eles não se importavam com a ausência dela, mas aquele não era o pensamento de Draco, pelo contrário, achava que entre eles havia algum tipo segredo muito mais profundo. De todas as formas, não era apenas Draco que sentiu pela ausência de Lovelorn Lestrange. Até mesmo os alunos que ainda se amedrontavam com o seu sobrenome sentiam a sua falta nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas, especialmente por acharem que, desde sua “partida”, Snape estava ainda mais arrogante. Toda a graça e ingenuidade de DCAT haviam desaparecido assim como ela.
Enquanto isso, longe de Hogwarts, ao lado de Bellatrix Lestrange e outros comensais da morte, encontrava-se .

ϟϟϟ


— Seja mais rápida — Bellatrix dizia de forma severa após acabar de proferir a maldição Cruciatus na sobrinha.
— De novo — a voz da garota saiu de forma falha enquanto se levantava com certa dificuldade e se posicionava para um novo ataque. Era o quinto exercício do dia e por mais que sentisse que seu corpo fosse ceder a qualquer momento, tudo aquilo era necessário para ocupar sua mente.
— Como quiser — Bella sorriu e ambas Lestranges ergueram as varinhas.

Treinar. Encobrir. Não sentir e nunca saberão.

Eram palavras que ouvia desde sua infância e com elas havia o peso que carregavam. foi ensinada desde muito cedo o propósito daquelas palavras e aquilo não foi fácil, mas, com o tempo, foi suportável. A dor, assim como a solidão, se tornaram íntimas de e elas as abraçava sem questionar, por isso estava ali. Amenizando os golpes que a vida lhe dava — ou seria melhor dizer: que Draco lhe dava? — da melhor forma que conhecia. Sofrendo.
— Vai matar a garota dessa forma, Bella — a voz de Narcisa se fez presente no recinto.
A Malfoy andou alguns passos e ajoelhou-se ao lado da garota que conhecera tão jovem quanto essa pudesse se lembrar.
— Você não precisa se esforçar tanto, querida.
De olhos fechados, gargalhou. O que era aquilo, uma piada? Narcisa sabia tão bem quanto ela que, sim, ela precisava se esforçar, mais do que isso. Precisava ser perfeita e precisava esquecer novamente Draco Malfoy.
— Você não acha um pouco irônico utilizar essas palavras, Narcisa? — A Malfoy voltou seu olhar para a irmã, imaginando o que viria a seguir. Sabia que apesar das duas terem tomado a decisão daquele plano juntas, Bella nunca admitiria isso se algo desse errado. — Eu disse pra você que isso seria insanidade até para mim, maninha. Agora não adianta penar pela garota se nem mesmo ela faz isso.
soltou mais uma gargalhada e dessa vez a atenção foi toda para si.
— Eu não sei que tipo de brincadeira insensata vocês duas tinham em mente. — Riu, se esforçando para ficar em pé enquanto as outras duas permaneceram em seus lugares, apenas observando-a. — Me fazer protetora logo dele, é sério? Uma piada de mal gosto, eu diria. Melhor, diria que que a loucura realmente passa pelo sangue de vocês. Mas, apesar disso, eu escolhi continuar com esse plano e eu não preciso que sintam pena por mim. — Olhou diretamente para Narcisa. — Não se preocupe e nem sinta pena. Foi apenas um deslize e, se houver próxima vez, saberei lidar perfeitamente com seu tão precioso Draco Malfoy.
não esperou alguma resposta. Sacudiu suas vestes e por mais que sentisse seu corpo inteiro doer, saiu marchando até a porta do local, batendo-a logo em seguida que saiu por ela.

ϟϟϟ


Fazia quase um mês. Esse foi o tempo exato que levou para se recompor e voltar a Hogwarts.
— Se sente disposta? — Severo perguntou ao notar a silhueta que conhecia parada sobre a porta de sua sala, enquanto este preparava o conteúdo da sua próxima aula.
— Se você se está se referindo a “se eu me sinto bem o suficiente para não matar Draco Malfoy”, sim. Caso o contrário, não, eu não me sinto, pois estou morta de fome pela viagem e ainda fui capaz de perder o banquete de Hogwarts — soava manhosa e por mais que Snape conhecesse a garota e sua compulsão maluca por tudo que tinha a ver com comida, sabia, que no fundo, Lestrange não estava disposta. Ainda assim, preferiu não dizer nada e se limitou a apenas sinalizar com a cabeça para que entrasse em sua sala. — O que temos aqui?
— Roteiro para a próxima aula — Snape respondeu de forma simples e, em um movimento rápido, Lestrange puxou o pergaminho que o tutor segurava para si. Arregalou os olhos em seguida. — Faça isso de novo e eu mesmo mandarei você embora.
— Você não teria coragem e sabe por que, querido professor Snape? — sorriu sapeca, sentando-se sobre a mesa do professor, um gesto que Snape já havia desistido de repreender. A Lestrange não tinha limites — Porque isso daqui — apontou para pergaminho em sua posse — nunca ficará tão interessante sem a minha presença.
Lestrange havia ficado entusiasmada com o conteúdo do pergaminho, já que finalmente Snape faria algo interessante em suas aulas. Tinha certeza de que, durante sua ausência, o professor havia ministrado apenas o conteúdo de “feitiços não-verbais”. Não que aquilo não fosse importante, e ainda duvidava que os alunos estavam “aptos” o suficiente, mas mudar um pouco a cara da aula faria bem.
— É uma oferta tentadora, senhorita Lestrange — seu tom era sarcasmo puro. — Mas, apesar de eu achar que seria uma ótima punição para alguns alunos petulantes, ainda não estou louco ao ponto de deixá-la ministrar maldições imperdoáveis em sala de aula.
pendeu a cabeça para o lado.
— Que insulto — rebateu. — Não posso acreditar que meu próprio professor acha que seria capaz de tamanha...
— Tamanha insanidade? — Snape concluiu e gargalhou. — Com certeza, você. Mas não se trata de perigo. Na verdade, quero que você se ocupe com outra coisa no momento.
— E o que seria isso? Cuidado com as palavras, tio Snape, pois está lidando com uma garota esfomeada e ofendida por seu tutor estar definitivamente a banindo do planejando mais legal das aulas de DCAT.
Snape sorriu. E nada, nada vinha de bom de um sorriso daqueles.

ϟϟϟ


Era pessoal. Lestrange tinha certeza de que era isso. Oras, o que mais poderia ser, senão isso? sabia que estava fadada a ser o alvo direto dos castigos de Snape pelo resto de sua vida. O ódio exalava de todo o corpo da garota, que marchava até seu cômodo no salão comunal da Sonserina, agradecendo fielmente por nenhum aluno ainda ter a visto.
— “Hogsmeade”, ele dissera — resmungava sozinha. — HOGSMEADE! De tantas qualidades, de tantas vantagens, tantas ideias que eu tenho, ele vem do nada me colocar como babá de alunos em uma viagem?
Ao chegar ao quarto, abriu seu malão e retirou o primeiro agasalho que viu. Era metade de Outubro e por mais que naquele ano estivessem sendo mais rigorosos que os demais em questão da segurança, chegou a primeira visita à Hogsmeade, a visita a qual daria o ar de sua presença e também a qual ela “vigiaria” com a força do ódio. Ainda assim, por mais que estivesse ocupada pensando em qual azaração iria utilizar em Snape quando o visse, não pôde deixar de imaginar como seria seu retorno, em especial, para um certo alguém.
Por alguns segundos, seus pensamentos foram povoados por questionamentos como qual teria sido a reação do rapaz ao não ver sinal algum dela no castelo não apenas no dia seguinte, mas durante o mês todo que se seguiu. então praguejou baixinho, apertando suas mãos em punho, desejando árduamente que sua mente ficasse clara novamente e não anuviada por aquele tipo de confusão.
Não ajudou em nada olhar à volta de seu quarto, focando em um lugar em especial.
De repente, era como se ela sentisse novamente as mãos de Draco Malfoy a apertando contra si, espalhando aquela onda de sensações intoxicantes. Suas costas colidindo contra a parede enquanto seu corpo inteiro se arrepiava com a ausência de distância entre eles. O perfume de Malfoy era completamente diferente de qualquer outro, era algo tão característico dele que sabia que não conseguiria mais deixar de associar o cheiro à pessoa, assim como não conseguia evitar a lembrança de quão perfeitamente os lábios do rapaz se moldavam nos seus, ou como as mãos dele se encaixavam perfeitamente em cada uma das curvas dela.
Era como se apenas um toque dele fosse capaz de incendiá-la por completo, mas ela não podia se deixar levar novamente. Aquelas eram exatamente as sensações que ela precisava esquecer e, droga, o propósito todo de partir não havia sido aquele? Eliminar cada resquício de Draco Malfoy de seus pensamentos e anseios desesperados? precisava agir como uma Lestrange naquele momento.
Trocou suas roupas, engolindo a onda de irritação por simplesmente não conseguir apagar Draco de seus pensamentos da maneira que ela precisava. Talvez devesse mesmo azarar Snape, ou quem sabe ela o faria em alguns dos seus preciosos alunos. Ela bem que estava precisando mesmo de uma diversão que pudesse distraí-la de fato.
Soltou uma risada com aquele pensamento e quando estava finalmente pronta seguiu para fora do salão comunal, caminhando tranquilamente até os portões da escola, onde encontraria os alunos do sexto ano.
Obviamente, Severo Snape não facilitaria para ela e teve certeza disso quando avistou Filch, que carregava consigo um pergaminho e um sensor de segredos.
— Perfeito. Tudo o que eu precisava, além de ser babá de viagem, era perder horas preciosas do meu dia aguentando o rabugento do Filch fazendo inspeções de segurança — Lovelorn resmungou, aborrecida.
— Senhorita Lestrange — ele a cumprimentou assim que a garota se pôs ao seu lado e apenas acenou com a cabeça.
Alguns alunos começaram a se aproximar e enquanto a garota verificava no pergaminho os nomes daqueles que tinham permissão para visitar Hogsmeade, Filch se encarregou de passar o sensor.
não se surpreendeu com os olhares de espanto que a maioria deles expressava com sua presença ali porque aquilo já era de se esperar. Era como se estivesse vivendo seus primeiros dias em Hogwarts todos novamente, com a exceção de que o medo no olhar dos alunos já não se fazia mais presente, pelo menos não da mesma maneira de antes.
? — A garota olhou na direção da voz que a chamara, abrindo um sorriso de canto ao identificar Hermione, acompanhada de Harry e Rony.
— Em carne e osso, honey. — Piscou para os três, encontrando com facilidade seus nomes na lista.
— Por onde você andou? Não nos disseram muitas coisas, ficamos preocupados. — achou até engraçado o quão a garota realmente soava preocupada.
— Você tá sendo até razoável, Mione. Eles não disseram nada sobre sua ausência. Achamos até que havia sido expulsa ou alguma coisa do tipo — Rony disse, o que fez a Lestrange rir.
— Expulsa? Eles não seriam idiotas de fazerem isso, sabe, mas acho até bonitinho que tenham ficado preocupados. — Os olhou com uma expressão quase fofa.
Potter foi aprovado pela vistoria de Filch, então lançou um olhar sério para .
— Espero que esteja tudo bem com você, . As aulas do Snape estão insuportáveis sem uma certa assistente. — Abriu um pequeno sorriso, que foi retribuído pela garota.
Lovelorn abriu a boca, pronta para respondê-lo, quando sentiu que era observada de algum ponto mais distante, no final da fila de alunos que havia se formado.
Antes mesmo de olhar em sua direção, ela devia saber a quem pertenciam aqueles olhos, que lhe avaliavam minunciosamente e carregavam diversas perguntas que ela não queria responder. Precisava se manter longe.
Tarde demais, ela sentiu-se conectada ao olhar dele. Viu a careta de desprezo ser formada nas feições de Draco Malfoy, provavelmente por ela estar mais uma vez acompanhada pelo trio que ele tanto odiava.
— Que diferença faz se estamos contrabandeando objetos das Trevas para fora da escola? — Seu subconsciente captou a voz indignada de Rony enquanto ele passava pela inspeção. — Deviam era verificar o que trazemos para dentro, não?
Negou com a cabeça, rindo do que o garoto falara ao mesmo tempo em que quebrava o contato visual com Malfoy.
— Eu estou bem sim, Potter. Só precisei resolver umas coisinhas, mas agora está tudo sob controle. — Sorriu novamente para o garoto. — Pode ficar sossegado que sua assistente favorita já está de volta.
Observou os três se afastarem lutando contra o vento gélido e então se reunirem aos outros alunos que aguardavam o início da viagem.
, de repente, sentiu suas mãos tremerem um pouco, mas afastou quaisquer sentimentos que pudessem fazê-la se distrair ou cair como havia acontecido antes. Precisava ser Lovelorn Lestrange, a garota fria, coberta em audácia e deboche.
Quando Malfoy se aproximou, ela precisou lutar contra todos os protestos de seu corpo e mente, que pareciam puxá-la de forma quase arrebatadora. Odiava que ele tivesse aquele tipo de poder sobre ela.
Tentou evitar contato visual com ele tão próximo, mas isso acabou se tornando impossível quando ela ergueu seu olhar após ler o nome do rapaz na lista que segurava.
— Draco Malfoy. Pode passar. — se odiou por olhar justamente para os olhos dele ao dizer isso.
Conseguiu enxergar a mesma mistura de sentimentos confusos, perguntas não respondidas e diversas respostas que ela não queria ouvir ao mesmo tempo.
— Isso é sério, Lestrange? — ele sussurrou irritado, com toda certeza se referindo ao fato de Lovelorn agir como se nada tivesse acontecido.
— Não entendi, você não quer visitar Hogsmeade? — Se fez de desentendida e o garoto revirou os olhos.
— Você sabe que não era disso que eu estava falando.
Qualquer outra interação entre eles, no entanto, foi interrompida por um Filch quase gritando que o garoto fosse até ele passar pelo sensor.
Malfoy lhe lançou um último olhar antes de se afastar e naquele momento foi como se diversas coisas fossem ditas. Ele parecia irritado pela forma como ela estava lhe tratando, mas ao mesmo tempo parecia inquieto, como se fosse fazer algo importante.
se sentiu agitada. O que Draco estava planejando? E por que ele parecia até mal com isso?
Só havia um jeito de descobrir e ela não desistiria até que conseguisse.
Mesmo que pra isso tivesse que seguir Draco Malfoy.

ϟϟϟ


Desde aquele dia no quarto de Lestrange, tudo o que restava a Draco era uma sensação de vazio, que no fundo ele sabia muito bem o que era.
Ele sentia falta da garota, por mais que os dois mais trocassem olhares fulminantes e insultos do que qualquer outra coisa.
Não sabia como aquilo era possível, já que mal a conhecia, mas era o que sentia e ao mesmo tempo constatar isso lhe deixava irritado. Malfoy tinha outras coisas a fazer, coisas que demandavam muito mais da sua atenção e ele não podia perder tempo com sentimentos bobos e distrações.
Precisava esquecer Lestrange.
E daí se ela não voltasse? Era um favor que fazia a ele… Não era? Com certeza isso deveria facilitar e muito sua vida dali para frente. Então por que ele não conseguia se sentir aliviado?
Bufou, enquanto caminhava em direção aos portões da escola. Não andava exatamente com humor para passear por aí e ele sinceramente já não via muita graça em Hogsmeade, mas Draco tinha algo muito importante para fazer, algo que requeria sua presença.
Se tudo desse certo, ele cumpriria a tarefa que o Lorde das Trevas havia lhe dado muito antes do que todos imaginavam e o rapaz mal podia esperar por aquilo. Livrar-se daquele peso que carregava em seus ombros era tudo o que ele mais desejava.

O vento gelado castigou as maçãs de seu rosto quando finalmente ele alcançou o pátio do castelo, não dando muita importância às conversas entre Crabbe e Goyle logo atrás de si. Aqueles dois e dois trasgos eram a mesma coisa, mas ainda assim eram os amigos que Malfoy tinha.
— Mas que palhaçada é essa? — resmungou, de repente, vendo que havia uma fila considerável de alunos até os portões, onde Filch estava conferindo os nomes e fazendo verificações de segurança com alguém ao seu lado.
Então Draco a reconheceu. Não havia como não fazer isso, já que ela não saía de seus pensamentos, por mais que ele tentasse tirá-la deles.
.
Piscou os olhos lentamente, tentando de tudo para se certificar de que era realmente Lovelorn Lestrange ali, não algum devaneio insano, e Malfoy teve certeza de que não era imaginação quando seus olhos se encontraram com os dela.
Havia tantas coisas que ele queria dizer a , como, por exemplo, quem ela pensava que era para expulsá-lo e ainda enchê-lo de ameaças? Pior, quem era ela para bagunçar sua mente daquele jeito?
Depois ele queria saber onde, por Merlim, ela havia se metido, já que seu propósito ali era garantir que a missão dele fosse cumprida.
No entanto, quando estava próximo o suficiente de , Draco se sentiu mais uma vez vulnerável de uma forma que não lhe agradou. Então acabou jogando a culpa disso no peso do que ele precisava fazer durante aquela visita. Um pequeno erro na sequência poderia comprometer e muito tudo o que ele precisava fazer.
Seguiu então em direção à Hogsmeade, onde tomou o rumo do Três Vassouras sem pestanejar. Ali ele poderia dar continuidade ao seu plano.

ϟϟϟ


Assim que Lovelorn chegou a Hogsmeade, sentiu-se ainda mais alarmada a encontrar Draco. A pressa com que viu ele caminhando até o vilarejo só podia significar que ele estava aprontando alguma coisa e como guardiã do garoto era seu dever se manter a par do que ele estava fazendo.
Partir daquela forma talvez tivesse sido um erro, já que Malfoy parecia propenso a agir de forma precipitada, sem planejar as coisas o suficiente.
Tentou segui-lo sem que o rapaz percebesse. Não queria ter que trocar palavras com Draco naquele momento porque sabia que ele voltaria a lhe questionar o que havia acontecido, os motivos de ela tê-lo mandado embora e ainda sumido por todo aquele tempo.
Viu que o garoto seguia em direção ao Três Vassouras e apressou seus passos para que pudesse entrar também no estabelecimento e garantir um lugar de onde pudesse ficar de olho nele.
O ar dentro daquele ambiente estava quente de uma maneira irritantemente acolhedora, o que provavelmente fazia com que os clientes que passavam por ali desejassem voltar. A cerveja amanteigada, no entanto, era a única coisa da qual gostava naquele bar.
Notou que Malfoy seguiu na direção de um dos banheiros e antes que pudesse ir atrás dele, no entanto, sentiu que alguém trombava com ela quase como se fosse de propósito.
— Mas que diab… — ergueu uma sobrancelha ao dar de cara com Ninfadora Tonks e então estreitou seus olhos na direção da mulher.
— Vejo que Dumbledore ainda não recobrou o juízo e você continua em Hogwarts — o comentário soou em completo azedume.
, antes de mais nada, lançou um olhar de cima a baixo na garota, reparando em como seus cabelos pareciam completamente sem vida e arqueou uma sobrancelha.
— E eu vejo que você tem muito mais com o que se preocupar no lugar da minha presença em Hogwarts ou não, darling — retrucou, em seu melhor tom de ironia.
— Não sei o que foi que você fez para que todos estejam cegos, Lestrange, mas você não me engana. Como uma das responsáveis pela segurança de Hogwarts, digo que você é sim uma ameaça e eu só espero que Dumbledore não veja isso tarde demais. — Cada uma das palavras foi proferida com emoção e até mesmo uma certa ferocidade.
Lovelorn riu.
— Vocês são muito emocionais, credo! — Fez um gesto de pouco caso para as palavras dela. — Enquanto você questiona as decisões de Alvo Dumbledore, eu tenho mais o que fazer.
E sem deixar que a outra lhe respondesse, seguiu na direção dos banheiros também, sentindo-se ansiosa para encontrar Malfoy e descobrir o que ele estava fazendo de fato.
Quando Lestrange não o encontrou em lugar algum, sentiu que deveria ter azarado Ninfadora Tonks por ter se colocado em seu caminho e lhe atrapalhado completamente.
Mesmo frustrada, no entanto, a garota permaneceu dentro daquele pub, encarando cada pessoa com atenção, procurando qualquer pista que fosse daquele maldito garoto e fuzilando Tonks com o olhar quando ela voltava ao seu campo de visão.
Agradeceu a Merlim com todas as suas forças quando a metamorfomaga foi embora e pensou até mesmo em se juntar a Potter, Granger e Weasley quando os avistou em uma mesa não muito longe de onde ela mesma estava, porém no instante em que fez menção disso os três se levantaram e seguiram em direção à saída. Talvez estivessem seguindo para outro lugar de Hogsmeade.
ainda não conhecia outros lugares dali que não fossem o Três Vassouras e o Cabeça de Javali, o que tornava a tarefa que Snape lhe deu um tanto mais cruel. Precisava urgentemente arrumar um mapa daquele lugar ou algo do tipo.
Soltando um longo suspiro, Lovelorn estava entediada demais ali, então resolveu que poderia dar uma olhada no que havia de tão especial naquele vilarejo e quem sabe voltasse a encontrar Malfoy no processo.
Quase se arrependeu por isso quando o vento frio voltou a lhe atingir em cheio e mesmo com o casaco ela acabou se abraçando, esfregando os braços para se aquecer um pouco mais.
mal havia dado alguns passos fora do Três Vassouras quando um grito irrompeu o ambiente, antes apenas tomado pelos sons do vento.
Não era um grito qualquer, ele exprimia uma agonia e um pavor capaz de gelar os ossos. Lestrange estremeceu pensando naquilo, então correu na direção de onde vinha o grito, procurando alarmada por sua origem, afinal, a voz parecia ser de uma jovem, portanto aquilo era responsabilidade dela.
Encontrar quem havia emitido aquele grito não foi muito difícil e com horror em suas feições viu o exato momento em que o corpo da garota, que levitava a uns bons metros, lançou-se ao chão como se fosse uma boneca de pano.
Um calafrio percorreu todas as terminações nervosas de Lovelorn e por alguns segundos ela hesitou em se aproximar da garota, temendo que estivesse morta.
Mas antes que ela desse um passo sequer para se aproximar e tentar ajudá-la de alguma forma, outra coisa fez com que Lestrange paralisasse e seus batimentos fossem a mil por segundo.
O grito não havia atraído apenas ela, como algumas outras pessoas, dentre elas, o trio formado por Hermione, Harry e Rony e, a vários metros deles, mal podia acreditar que era ele.
Viktor Krum.
Merda.


Capítulo V — O búlgaro da minha vida

movia-se de um lado para o outro sobre a cama de seu quarto, que por incrível que pareça e pela primeira vez em sua vida, era o lugar mais desconfortável em que se encontrava. não sabia como reagiria em longo prazo com os acontecimentos daquele dia, mas, ainda assim, a Lestrange contava com uma boa noite de sono. Afinal, torcia que tendo um bom descanso, ajudaria a manter sua mente equilibrada.
Porém, já deveria estar acostumada com o fato de que “manter a mente equilibrada” para uma Lovelorn e Lestrange, era uma tarefa difícil de ser cumprida e dessa vez fracassou severamente nela. Quando percebeu que o sono não viria tão fácil e entendeu que universo estava certamente decidido a puni-la, vislumbrou que o único ponto positivo daquela noite era o fato de estar em um cantinho em que pudesse ficar sozinha, em seu próprio inferno pessoal e estando no seu próprio inferno teria tempo para digerir todo o ocorrido. Com um pouco sorte, saberia lidar com os demônios que a seguiam.
Sabia que não estava delirando quando viu a aluna ser arremessada de um lado para o outro no ar, mas, ainda pior que isso, custava acreditar no rumo que uma simples e até então entediante visita a Hogsmeade, havia tomado. Talvez seus olhos estavam lhe pregando uma peça? Torceu para que fosse aquilo, mas sabia que não era.
Naquele momento, duas coisas passaram pela cabeça da Lestrange: a primeira era que mataria Draco Malfoy por sua imprudência em amaldiçoar uma aluna em plena luz do dia e a segunda era que deveria amaldiçoar Viktor Krum por ser tão enxerido e querer sempre se meter onde não era chamado. Droga de espírito heroico.
Então, após o choque inicial de ver Viktor ter passado, quando o viu se aproximar da garota caída sobre o chão e por milímetros de distância não tocar no que julgou ser o objeto contaminado, soube que teria que agir o mais rápido possível.
Lestrange lutou contra o dever de agir e o anseio de recuar, porque, sim, seu corpo todo gritava para que ela não avançasse e continuasse onde estava. Mas, ainda que isso lhe parecesse mais atrativo, ainda se sentia no dever de proteger aqueles jovens. E foi o que fez.
Se aproximou com cautela da garota e focou seu olhar apenas nela, agradecendo ferozmente pelo guarda-caça da escola aparecer exatamente no momento em que mais precisava. Hagrid segurou a garota em seus braços sem pensar duas vezes e seguiu com Katie Bell para a ala hospitalar de Hogwarts, onde Madame Pomfrey faria tudo o que fosse possível para deixar a garota melhor com um contra feitiço. Agradeceu mais ainda pelo trio de ouro manter o búlgaro ocupado.
Em meio a isso, foi de encontro direto ao objeto amaldiçoado e surpreendeu-se ao reconhecer o objeto das trevas. O Colar de Opalas, famoso por ter levado a vida de mais de uma dúzia de bruxos, jazia ao chão gélido coberto por neve. Por Merlim, como o garoto havia conseguido aquilo? Seria uma pergunta para mais tarde. Por hora, deveria fazer vista grossa em Draco Malfoy, antes que ele matasse alguém que não fosse seu alvo ou até mesmo ele próprio.
Malfoy tinha mais sorte do que juízo por sua guardiã ser familiarizada com os objetos das trevas. Afinal, a escuridão profana circulava entre suas veias, não é?
Ainda assim, aquilo era uma grandíssima merda.
Viktor Krum em Hogsmeade era uma coisa, agora, Viktor Krum em uma estadia em Hogwarts, perto dela, era algo bem diferente. Será que Merlim não estava cansado de castigá-la? Com certeza não.
A barriga da Lestrange roncou e ela xingou por ter tido que evitar o jantar naquela noite. Tudo para fugir daquele olhar e de todo o questionamento que iria vir dele. E pensando na estratégia de como iria despistar o búlgaro nos dias seguintes, foi que ela finalmente conseguiu pegar no sono.

ϟϟϟ


Draco notou a silhueta conhecida se esgueirar entre os corredores e ir em direção à biblioteca de Hogwarts. Não tinha dúvida de quem se tratava, jamais deixaria de reconhecer a garota e mesmo que esta estivesse fantasiada Draco tinha certeza que a conheceria. Era algo em seu interior que acionava instantaneamente toda vez em que a via, porém, não era apenas aquela sensação que lhe parecia completamente estranha que o chamava a atenção, mas também o motivo pelo qual estava agindo mais esquisitamente que o normal no último mês.
Ainda assim, apesar de estar ciente de que todo o seu corpo clamava por saber no que a garota estava metida, ele não teria tempo para descobrir, já que precisava focar em seus planos e pensar em outra estratégia para cumprir com os planos de Lorde das trevas. Mais do que isso, o Malfoy não daria o gostinho à Lestrange de lhe perguntar o que estava acontecendo. Não depois que a garota resolveu simplesmente ignorar sua existência.
Com toda a certeza aquela sensação de embrulho no estômago à mera menção no nome de era a repulsa causada por sua rejeição. Ninguém o negava da forma que ela havia feito. Quem pensava que era?
Draco negou com a cabeça ao perceber que mais uma vez seus pensamentos haviam sido conduzidos até Lovelorn e se sentiu irritado consigo mesmo. Era um absurdo que tudo em sua cabeça sempre girasse em torno de Lestrange desde a primeira vez em que haviam se encontrado. Aquilo não estava certo, ele mal se reconhecia. Precisava pôr um fim naquela distração.
Seguiu a passos firmes em direção à sala de Severo Snape. Com um pouco de sorte, conseguiria se esgueirar até o estoque pessoal do professor e furtar o ingrediente que faltava para que desse seguimento aos seus planos. Precisava estar atento às oportunidades que lhe eram concedidas. Sua última tentativa havia sido uma completa tragédia, mas Draco não se permitiria pensar no que acontecera a Katie Bell naquele momento. Necessitava de foco.
No entanto, seus planos foram completamente frustrados quando Crabbe, Goyle e Zabini o avistaram, vindo imediatamente ao seu encontro.
Ele não poderia estar menos interessado em interagir com os três, por isso apenas fingiu estar prestando atenção na conversa e quando se dirigiam a ele respondia de maneira monossilábica.
— O que diz disso, Draco? Acha que estão tramando algo? — Escutou a voz de Goyle, então revirou os olhos porque mal havia entendido a pergunta.
— Digo do que, Goyle? — soltou, irritadiço, o que fez Zabini arquear uma sobrancelha, mas ele estava pouco se lixando para o que o outro pensava.
— Potter não tem ido às reuniões do Clube do Slug. O professor faz questão de reforçar isso em cada uma delas e… — Blasio repetiu o que provavelmente já havia dito antes, mas não terminou porque Draco o interrompeu.
— E desde quando o que Potter faz ou deixa de fazer me interessa? Vocês me entediam — bufou e sem esperar por respostas caminhou rapidamente até a sala de Defesa Contra as Artes das Trevas.
A chance de pegar o que desejava, no entanto, havia partido com a interrupção inapropriada de seus colegas, já que Snape recebeu o rapaz com uma expressão que mesclava preocupação e irritação.
Ignorando o olhar do professor, Malfoy se encaminhou até a mesa onde sempre ficava e sentou-se ali, puxando um dos livros para se distrair com qualquer coisa menos seus pensamentos traidores.
— Pensando no próximo passo descuidado, Malfoy?
Draco sabia o que ele faria. Mais uma vez, tentaria dissuadi-lo da execução de seus planos. Se colocar à disposição de fazê-los por ele e Malfoy não queria aquilo de maneira alguma. Sabia que sua família dependia do sucesso dele, principalmente seu pai em Azkaban.
— Não sei do que está falando, professor — carregou a última palavra com a maior quantidade de desprezo que pôde.
Snape se preparou para retrucar, mas foi interrompido pela mesma figura disfarçada que havia passado por Malfoy nos corredores.
— Algum problema, Severo? — A voz de fez com que Draco a olhasse imediatamente, mas a garota não o encarou de volta, permaneceu com seu olhar firme no professor e o rapaz sentiu um impulso de exigir que ela explicasse aquele comportamento.
Por tantas vezes ele desejou que Lovelorn lhe deixasse em paz e quando ela o fazia aquilo o incomodava. Era oficial, Malfoy estava maluco.
— Além de seus trajes? Nenhum, Lestrange. O senhor Malfoy apenas chegou um tanto adiantado para as aulas de hoje. Se não estiver distraída demais, tem algo que poderíamos discutir antes que esta comece.
— Então agora você precisa da minha ajuda, tio Snape? — o tom de voz debochado da Lestrange fez com que um sorriso mínimo surgisse no canto dos lábios de Draco e o rapaz se repreendeu mentalmente por isso, amarrando a cara.
Assistiu a garota seguir com o professor até a antessala e mesmo que tentasse não conseguiria ouvir a conversa tão importante que acontecia entre os dois.
Ir até aquela aula mais cedo havia sido uma péssima ideia. Mais uma para a conta de erros estúpidos que ele estava cometendo. No entanto, a única coisa que seu cérebro insistia em processar era qual seria o motivo da distração de Lestrange.
Passou as mãos no rosto, bufando alto já que estava praticamente sozinho e enterrou os dedos nos fios de seus cabelos, os puxando. Seus olhos se fecharam enquanto ele tentava focar os pensamentos em qualquer outra coisa que não tivesse a ver com a garota e quando conseguiu, ironicamente desejou voltar a pensar nela.
As lembranças do que havia acontecido com Katie Bell resolveram lhe atormentar mais uma vez. Pensar que por muito pouco não havia matado uma colega o afetava mais do que Draco gostaria de admitir. Formava um nó em sua garganta e fez com que o rapaz questionasse se a sensação seria melhor se o colar tivesse chegado de fato ao destinatário correto.
Algo lhe dizia que não. Que o nó seria sete vezes pior e não havia nada que pudesse fazer para mudar isso. Ninguém poderia ajudá-lo porque era necessário que ele o fizesse.
Sentiu que seus lábios tremeram e quando olhou para suas mãos, que havia retirado de seus cabelos, essas também tremiam sem controle. Tudo o que ele não precisava naquele momento era perder o controle. Não com Snape e Lestrange a poucos metros dele.
— Vocês acham que a vem hoje? — ouviu a voz de uma aluna da Lufa-Lufa e saber que não estava mais sozinho pareceu ajudar um pouco a conter a tensão.
Viu que o professor e Lovelorn voltaram para a sala e a garota continuou o ignorando como antes. Talvez devesse prestar atenção na aula, por mais que achasse inútil se defender contra as Artes das Trevas. Seria muito mais interessante para ele aprender sobre elas.
Conseguiu, de fato, se manter preso nas explicações que Snape fazia, embora seu olhar sempre o traísse, observando vez ou outra.
Novamente, ela parecia à vontade até demais entre Potter, Weasley e Granger, e se aquele era algum plano à parte que Lestrange tinha, a garota era de fato uma boa atriz. Era ridículo o quanto parecia se dar bem não só com eles como com todos os outros alunos. No entanto, havia alguma coisa a mais com ela naquela aula em especial. Lovelorn não parecia se importar muito com os acontecimentos da aula e nem ao menos se dispôs a explicar uma parte da aula como fez das outras vezes.
Era como se seus pensamentos estivessem com outro foco.
Quando Snape separou a turma em duplas para mais uma prática, Draco resolveu descontar todas as suas frustrações em Zabini, executando as azarações sem muita dificuldade e dando o seu máximo para ignorar Lestrange da mesma forma que a garota fingia que ele não existia.
— É impressão minha ou você anda um tanto desconcentrada, ? — a voz de Granger se destacou em meio às conversas paralelas e foi impossível para Malfoy conter a curiosidade em ouvir a resposta.
Antes mesmo que Lovelorn dissesse qualquer coisa, a voz de Snape retrucou.
— Não que seja da sua conta, senhorita Granger, mas a distração tem o nome do namoradinho da Lestrange, que resolveu perambular pelo castelo.
Draco paralisou, esquecendo completamente do que estava fazendo ao ouvir aquilo. De repente, era como se tudo ao redor dele também parasse de se mover e um gosto amargo subisse por sua garganta.
Namorado?
Lestrange tinha um namorado?
Quem era esse cara? E por que ele estava de volta ao castelo?
O momento de distração lhe custou caro. Zabini se aproveitou dele para atacar Malfoy, que ao ser atingido sentiu seu corpo ser lançado ao chão, a varinha escorregou de seus dedos e antes que caísse, ele a segurou com mais firmeza.
Sua queda chamou a atenção de alguns alunos e pela primeira vez o encarou. Por uma fração de segundos, Draco retribuiu o olhar dela, exigindo uma explicação que ele não receberia porque ela não tinha obrigação alguma com o garoto. Os dois não tinham nada além de uma relação forçada pelo Lorde das Trevas.
Pelo canto do olho, Malfoy viu Zabini se adiantar para ajudá-lo a se levantar e negou veementemente, apertando a varinha em punho.
— Não ouse tocar em mim. Não preciso da sua ajuda — rosnou, sentindo uma onda exagerada de raiva tomar conta de si. — Eu não preciso da ajuda de ninguém.

ϟϟϟ


A primeira partida de quadribol se aproximou rápido até demais, ou talvez estivesse realmente muito distraída tentando evitar a presença de um certo búlgaro na escola.
Viktor Krum definitivamente era uma das últimas pessoas que ela desejava encontrar ali. Na verdade, Lovelorn não suportava a ideia de vê-lo novamente e agora não bastasse isso, teria que conviver com ele diariamente.
Aparentemente, Madame Hooch havia arrumado um co-treinador de quadribol, o que para Lestrange era uma verdadeira desculpa. Conhecendo Viktor como ela certamente o fazia, ele estava apenas tentando protegê-la como sempre fez. Mas quem havia contado a ele sobre o seu papel em Hogwarts?
Desconfiava de que seu tutor — que conhecia sua vida até melhor que ela mesma — teria tido uma certa parcela de culpa no assunto, não havia dúvidas. Mas qual teria sido a motivação daquilo?
Snape a conhecia desde pequena, esteve presente em todas as etapas de sua vida e por mais que houvesse um pequeno desapreço inicial pela criança naquela época, ainda assim Severo foi cuidadoso o suficiente para tratar a garota. E era exatamente isso que deixava surpresa. Snape conhecia seus demônios e ainda assim trouxera Krum para Hogwarts.
O que pensava?
Que com Viktor ali seu coração amoleceria de vez?
Não.
Snape estava definitivamente errado quanto a isso. permaneceria intocável como por deveras vezes foi e nem mesmo Viktor Krum, a primeira pessoa que achou amar, mudaria isso. Só que a Lestrange teria que pensar naquilo mais tarde, porque, por hora, seu foco voltaria para a sua missão. Além disso, não queria perder a partida de estréia do quadribol de Hogwarts, dessa forma, não só ficaria de olhos bem fixos em um certo apanhador sonserino, como também assistiria em primeira mão o quadribol tão comentado em Ilvermorny.
Lestrange se olhou no espelho e, por uma fração de segundos, realmente achou que estava andando demais com o seu tutor e os outros professores de Hogwarts. As vestes negras que caíam sobre seu corpo lembravam as que Snape diariamente usava, além disso, seu cabelo preso em coque debaixo do chapéu de bruxo pontudo poderia facilmente ser confundido com o de Minerva. Ainda assim, estava perfeita. Perfeita para passar despercebida.

ϟϟϟ


O clima estava ameno e em condições propícias para uma boa partida de quadribol. Cabia a Sonserina e Grifinória o jogo de estréia e daquela vez, apesar de seu apreço maior ainda ser pela casa com símbolo de cobra, achou que se sairia muito melhor em seu disfarce se ela misturasse com os grifinórios. Ao pé da arquibancada, conseguiu avistar Granger alguns degraus acima ao lado de Longbotton e foi em direção a esses, ou pelo menos tentou.
— Sabe, você sempre foi péssima com disfarces — a voz sussurrada fez os pés da Lestrange travarem ao chão. não precisou se virar para identificar o dono daquela voz, só não sabia como ele estava ali. Ainda assim, teria duas opções: ou sairia correndo naquele instante e arriscaria um tombo épico entre os degraus da arquibancada ou encararia seu problema frente a frente, como deveria ter feito desde o início. optou pela segunda.
— Pensei que havia ficado melhor com o tempo. — se virou dando de ombros e Krum levantou uma sobrancelha. Não esperaria menos de . — Agora, me diga, o que foi que me denunciou, ou seria melhor começar com “o que você faz aqui”?
Viktor sorriu e começou a subir a arquibancada em direção a Granger. levantou as mãos para cima, sem entender.
— Ok, vai me deixar falando sozinha agora, Krum? — resmungou e fez o búlgaro se virar. — PENSEI QUE FOSSE MAIS GENTIL.
Krum desceu os poucos degraus que distanciavam os dois e, ao olhar para a expressão de incrédula da garota, soube na hora que sentia falta daquilo. Quando Viktor havia aceito o pedido para voltar a Hogwarts, tentou fracassadamente pensar que não tinha nada a ver com o fato da ex namorada estar no local. Mas era inútil fingir que não sentia a animação de ver a garota e até mesmo a saudade percorrer por entre suas veias. Já fazia um ano que não a via e estaria mentindo se falasse que aquele tempo sem a garota havia sido fácil, assim como o rompimento de seu relacionamento também não.
— Vamos lá, , sente comigo que talvez eu lhe conte tudo. — franziu o cenho ao ver o braço e mão do búlgaro esticados, gesticulando para que ela segurasse. O que estava pensando, que sentariam juntos e conversariam por horas sobre o passado como se aquilo fosse normal? Se fosse isso, Krum estaria bem errado. Ainda assim, a garota não conseguiu conter a curiosidade de saber o verdadeiro motivo dele estar em Hogwarts.
E acabando com todo o trabalho que teve nos últimos dias, segurou a mão do rapaz.
Era definitivo, Lestrange estava ficando tão maluca quanto a sua tia.
O percurso até Granger parecia ter ficado mais longo do que realmente era. permaneceu em silêncio e naquele momento não sabia distinguir o que chamava mais atenção: ela, Viktor ou os dois juntos. Quando a garota viu os dois se aproximaram, sorriu para os dois, acenando para que se sentassem com ela e Lestrange notou que ali havia uma certa familiaridade no olhar de Granger.
— Krum, , como vocês estão? — agora falou cordialmente, mas não deixou de demonstrar certa animação em sua voz. — Viktor, como não me falou antes que era a garota que você me contava nas cartas! — estava prestes a responder a garota, quando a interrupção fez a Lestrange ficar vermelha. Será que agora a escola inteira sabia da relação dela e de Krum? Gostaria de perguntar o que falavam sobre ela e de como se conheciam, arriscou um palpite, mas as palavras fugiram de sua boca antes mesmo de Krum concordar com a cabeça e abraçá-la pelo ombro. — Sabe, , Krum é um velho amigo. Nos conhecemos no meu quarto ano, durante o torneio quadribruxo.
— O senhor Krum foi um dos quatro campeões — Neville falou sem graça por ter atenção sobre si. — Quero dizer, Harry também foi um, você sabia, senhorita?
— Já lhe falei para me chamar apenas de . Por Merlim, tenho quase a mesma idade que vocês! — A garota bagunçou o cabelo do jovem, que ficou vermelho. Neville nunca havia pensado que ficaria tão à vontade com uma Lestrange, mas algo lhe dizia que , apesar de noventa por cento das vezes ser sombria, não era nem de longe igual a Bellatrix.
— Tudo bem, senhor... — falou sem graça. — Vocês querem se sentar conosco? Mione com certeza não se importaria, não é?
— Com certeza, não!
— Ótimo, porque estávamos prestes a fazer isso mesmo! — falou, enfiando-se entre os dois jovens. — Cheguem para lá, o búlgaro ali é bem grande. Aliás, não somos mais namorados.
Hermione ficou vermelha, percebendo o erro que cometeram.
— Oh, me perdoem — começou. — Quero dizer, quando o professor Snape... bem, eu...
— Tudo bem, Granger. Não precisa se desculpar. — Sorriu. — Apesar do grandão aqui ser maravilhoso, não damos muito bem juntos. Sabe, ele é muito bonzinho para a malvada aqui.
Lestrange piscou e Krum balançou a cabeça rindo.

Minutos seguintes, viu as arquibancadas se encherem e percebeu que até mesmo muitos alunos da Lufa-Lufa e da Corvinal tinham ido ver a partida também. Entre todos gritando e batendo palmas, o rugido do famoso chapéu de leão de Luna Lovegood podia ser ouvido distintamente. Aquilo definitivamente estava interessante.
Porém, quando o olhar de alcançou o campo e esse não avistou o apanhador que queria, seu instinto começou a aguçar. Onde, por Merlim, Draco Malfoy havia se enfiado?
— Por que raios Harper está no campo? — a pergunta saiu mais alta do que queria e Hermione se virou assustada.
— Você não sabe? — perguntou e não deixou de transparecer confusão. — Parece que Malfoy está doente e não poderá jogar, Harper está jogando no lugar dele.
— O quê? Malfoy não vai jogar? — parecendo ligeiramente afetada.
— Bem, sim...
— Mas o que esse... — começou, mas lembrou-se de ter cautela no que falar perto de Granger. A garota era esperta e não deixava nada passar em branco. então recuou o que estava falando e se voltou sorrindo para a garota. — É verdade, eu fiquei um pouco distraída nesses últimos dias e não consegui dar a atenção devida aos alunos, mas notei que Draco estava com a cara mais verde e feia que o normal nos últimos dias, só não pensei que tinha sido algo sério. Bem, acho que vou dar uma olhada nele — falou, se levantando e tirou o chapéu pontudo da cabeça, soltando o cabelo do coque. As madeixas caíram por seus ombros e Krum podia facilmente dizer que aquela cena era a mais bonita que vira até hoje em Hogwarts. Viu também a ex se aproximar, colocar o chapéu que usava em sua cabeça e sorrir. — Fica bem melhor em você. Conversamos mais tarde, ok?

ϟϟϟ


não sabia como acharia Draco, mas torcia que ele estivesse por perto. Sabia que nem de longe ele estava doente e que aquilo era uma desculpa esfarrapada para o garoto aprontar mais uma vez o único problema naquilo é que Draco estava afoito e isso fazia com que ele se arriscasse mais do que o necessário. A insensatez percorria seu sangue e que tipo de guardiã ela seria se deixasse ele continuar agindo por impulso daquela forma?
Draco Malfoy estava novamente lhe dando mais trabalho do que pensava.
A garota chegou ofegante até o salão comunal da sonserina, e do outro lado do salão ela viu o olhar cinzento do garoto sobre si e pôde jurar que tudo havia ficado em câmera lenta.
— O que está fazendo aqui, Lestrange? — A voz de Draco saiu rude e fez voltar a si.
— O que eu faço aqui, Malfoy? — Cruzou os braços. — Eu acho que eu deveria perguntar o que você faz aqui? — vociferou. — Será que você não tem um pouco de cérebro nessa sua cabeça e não percebe que está dando mole? Deveria estar no jogo!
— Pare de mandar em mim, Lestrange! — Draco gritou, se aproximando da garota. — Estou cansado de ser contrariado por você ou Snape e seja qual for a sua missão comigo, pare! Pare de me dizer o que fazer, pare de me seguir, pare de...
— Oh céus, será que você não entende? Você acha mesmo que eu gosto de estar servindo de babá pra você? Me faça mil favores, Malfoy! — Agora os dois estavam gritando. Tinham sorte por não haver nenhum outro aluno ali. — Preferia mil vezes a maldição da morte do que... do que ficar me punindo dessa forma!
— Ótimo, Lestrange, não se preocupe mais comigo! Por que então você não larga do meu pé e vai atrás de seu namoradinho? — recuou. Mas o que Merlim ele estava falando? Por que estava agindo daquela forma?
— Está falando de Viktor? — perguntou com cautela, algo no olhar de Draco lhe dizia para ter cuidado com as palavras.
— Viktor? VIKTOR KRUM? — Parecia que a cautela não havia funcionado. O que diabos era aquilo? Ciúmes? Merda, Draco definitivamente não podia sentir isso! — Mas é claro que seria o majestoso Viktor Krum! E eu achando que não era bom o suficiente para você. Mas como ser, não é mesmo? Quem é o louco que poderia competir com Krum?
— Draco... — tentou tocá-lo.
— O que é? Não me venha com a ladainha de dizer que você não sabe, Lestrange — estava paralisada, torcia para que ele não dissesse o que ela pensava que diria. — Não finja que não sabe mesmo que eu sinto algo por você! EU NÃO ESTOU MALUCO, , você sabe! Sabe que existe algo entre a gente e não me fale que me rejeitou por ser mais velha, ou ainda melhor, NÃO DIGA que não sente o mesmo!
— Eu, eu não... — não pôde se conter ao olhar para o rapaz. Era tarde demais, ela sabia que não teria mais jeito. Olhou para ele e viu o desespero em suas palavras. Ele sabia. Ele sentia e ela não poderia mais esconder. Draco estava mais descontrolado como ela nunca o vira. Em um impulso, a garota se aproximou com rapidez do Malfoy e, para a surpresa do rapaz, o envolveu em um abraço.
Draco levou alguns segundos para entender o que Lovelorn estava fazendo, mas assim que entendeu, aceitou. Ele afundou o rosto entre os cabelos da garota e sentiu os olhos marejarem. não estava melhor. Sentia o coração acelerado do garoto em seu peito disputar contra o seu e soube que a partir daquele momento faria de tudo para deixá-lo bem.
— Veja bem, Draco — começou o mais gentil que pôde. — Você não pode controlar seu coração, o problema é que isso… Isso é muito maior do que imagina e, por mais que eu concorde com você, não podemos ficar juntos.
— Do que é que está falando? — respirou fundo.
— Pergunte à sua mãe.


Capítulo VI — Por trás do Obliviate

A pequena Lestrange não conseguia esconder a empolgação que sentia. Finalmente, não estaria mais tão sozinha pelos cantos e só de pensar nisso ela dava alguns pulinhos de animação.
Não que fosse de todo ruim viver com os adultos, mas nenhum deles aceitava brincar com a garota quando essa pedia. Sempre estavam ocupados demais para voltar suas atenções para ela. O tal Lorde das Trevas era sempre mais importante e a menina até tinha uma certa curiosidade em saber o porquê.
Quando Narcisa Malfoy finalmente veio buscá-la naquela sala de aparência séria e um tanto sombria, precisou fingir uma postura comportada ou a mulher desistiria de levá-la até o andar de cima, onde conheceria finalmente sua mais nova companhia.
Não havia presente de aniversário melhor do que aquele, era o que Lovelorn pensava.
Subiu os degraus atrás da Malfoy, contendo a vontade de fazê-lo correndo porque a ansiedade percorria cada centímetro de seu corpo e assim que pararam diante do quarto, Narcisa virou-se para a menina, lhe lançando um olhar gelado que perturbaria qualquer outra criança de quatro anos, mas a Lestrange não se deixava abalar facilmente. Estava, de certa forma, acostumada com raras demonstrações de afeto e mesmo quando era ainda um bebê raramente chorava por alguma coisa. Talvez aquilo se devesse à sua herança sanguínea, mas ninguém saberia dizer com certeza.
— Tia Narcisa? — a garotinha disse, cruzando os braços e batendo os pezinhos no chão com impaciência.
— Não faça barulho, ele está dormindo — alertou, abrindo a porta devagar e dando passagem para que adentrasse o cômodo.
Deixando qualquer comportamento de lado, a empolgação a venceu, fazendo que uma corrida rápida vencesse os poucos metros que lhe restavam. colocou as mãozinhas sobre o encosto do berço, inclinando-se para ver quem estava ali e deparando-se com o garotinho de cabelos tão claros, quase brancos como os de Narcisa e Lúcio. Ao contrário do que a mulher dissera, o bebê já não estava mais dormindo. Ele havia se sentado e brincava com um brinquedo de borracha.
Imediatamente, o rosto da menina se iluminou em um largo sorriso.
— Oh, ele é tão fofinho! — exclamou, sentindo seus olhos até transbordarem a emoção de finalmente conhecê-lo.
, esse é o Draco — Narcisa apresentou, com a voz mais amigável ao ver aquela reação.
— Oi, Draco! — Acenou a Lestrange, como se aquele bebê de um ano e meio pudesse acenar para ela de volta. — Eu sou a , mas acho que você pode me chamar de . Nem acredito que finalmente estamos nos conhecendo, vamos poder brincar juntos e seremos melhores amigos! Sabia que hoje é meu aniversário?
A Malfoy mais velha acabou rindo um pouco da reação da garota, já que ela disparou a falar sem ao menos um segundo de pausa.
— Acalme-se, menina. Vocês dois terão todo o tempo do mundo para se conhecer e brincar juntos. — Tocou um dos ombros de , num pedido mudo para que desviasse seu olhar para encará-la.
— Acho que você já é um pouco grandinha e eu posso te pedir uma coisa, não é? — Abaixou um pouco o tom de voz, como se aquilo fosse algum tipo de segredo.
— Pode, tia Narcisa. Claro que pode! — Ela se animou com aquela ideia, mas vendo o gesto de censura da mais velha, mostrando que além de um pedido aquilo era algo secreto, a menina levou uma das mãos à boca e assentiu.
— A partir do dia de hoje, o Draco fará parte da sua vida para sempre, querida. Vocês terão uma ligação e quem melhor do que você para cuidar do nosso menino, certo? — sorriu de canto e mesmo que aquela expressão fosse meio estranha aos olhos de , ela gostou de ouvir as palavras da mulher, então assentiu freneticamente.
— Certo.
— Você promete para mim que sempre cuidará de Draco? — questionou, mesmo que já tivesse o consentimento dela.
— Prometo. Vou cuidar dele para sempre, como se fosse uma jóia preciosa que ninguém pode tocar — estendeu a mão pequena para Narcisa, como se assim estivesse selando um pacto e a Malfoy a segurou brevemente, encarando os olhos da menina como se ali visse coisas que a garotinha ainda não conseguiria compreender.


ϟϟϟ


O clima estava agradável durante a tarde em Wiltshire. Os poucos raios de sol aqueciam a grama fininha dos jardins da Mansão Malfoy enquanto o vento fresquinho pairava pelo ar e, naquele momento, um dos jardins abrigava a decoração simplista de uma segunda festa de aniversário. Era0 meados de junho e o garotinho Malfoy comemorava seu aniversário tardiamente com o que ele julgou ser um de seus melhores presentes.
A garotinha com tranças em marinha-chiquinha no cabelo comprido adentrava a portão da mansão na companhia do seu jovem tutor, Severo Snape, que não conseguia parar de se perguntar o quanto de energia aquelas duas crianças podiam ter, já que havia ficado a noite anterior inteira em claro ansiosa para o outro dia e, mesmo assim, estava super ativa naquele momento. Quanto à outra criança e mesmo que Narcisa não falasse ou admitisse, ele sabia que Draco também havia feito e sentia aquilo.
Mesmo sem saber quem chegara, quando o barulho de rangido do portão se abrindo foi escutado pelos bruxos da mansão, Draco sentiu-se extasiado, já sabendo de quem se tratava. Rapidamente, o jovem garotinho largou o suco de abóbora sobre a mesa preparada para os doces e, de forma rápida, foi de encontro certeiro aos novos convidados.
— ‘Vuxe’ tá atrasada, . — O garotinho de cabelos prateados parou em frente à dupla, cruzando os braços e à medida que seus olhos encaravam a menininha à sua frente, Snape observava a reação das duas crianças, as quais tinha certeza que ficariam juntas para sempre.
— Francamente, Draco. Já te disse uns zilhões de vezes que é “você” e não “vuxe” — a garotinha resmungou e Draco rolou os olhos. — E não é culpa minha. Foi tio Snape que demorou para se aprontar, que nem uma mulherzinha.
Snape olhou-a de relance e a Lestrange observou atenta. Já estava acostumada com a falta de amor do tutor. Acostumou-se mais ainda com a maneira rígida a qual ele a criava e também mal se importava com as regras bobas dele, pois podia cumprir quase todas mesmo se ele não pedisse. Mas era só “quase todas” mesmo, pois não podia prometer que não quebraria o outro braço de Crabbe, caso ele tentasse novamente aquilo.
, qual é o combinado? — A voz de Snape irrompeu e a garotinha mexeu na saia, mordendo o lábio.
— Que não posso usar palavras como mulherzinha...
— E? — Snape incentivou.
— Não posso bater no Crabbe por roubar o biscoito favorito do Draco.
— E? — incentivou mais uma vez e rolou os olhos, respirando fundo.
— E não posso, em hipótese alguma, enfeitiçar a comida para os adultos ficarem com dor de barriga.
— Cada vez mais esperta. Meus parabéns, pirralha — Snape proferiu e a garota soltou sua mão, pegando a de Draco.
— Podemos ir agora? — perguntaram em uníssono e Snape assentiu com a cabeça apenas a tempo de ver as duas crianças correrem, sumindo rapidamente de seu campo de visão.
Passaram pela matriarca sorrindo em cumprimento e esta, mesmo que não tivesse perguntado aonde iam, sabia exatamente que a dupla se direcionava ao outro lado da casa, onde era perfeitamente propício para brincadeiras de pique-pega. O clima, em perfeita sintonia entre calor e frio, era ótimo para que as duas crianças corressem para uma brincadeira de pique esconde, enquanto aguardavam a chegada de outros convidados.
E foi o que fizeram. Corriam já há alguns minutos, quando os cabelos da garota já não estavam mais perfeitamente presos e nem ela, nem Draco se importavam com a bagunça em que eles agora se encontravam, assim como também não se ligavam para o vermelhão que emanava da pele do rosto clarinho do menino e nem para os fios de cabelo platinados que grudaram nele.
Pararam por alguns segundos para recobrar a respiração, desabando sobre o chão com grama fofinha e, por mais que soubessem que levariam uma grande bronca por estarem deitados na grama com roupas novas, não levantaram. Pelo contrário, permaneceram daquela forma, deitados de barriga para cima, observando o formato curioso das nuvens.
— Veja , aquela ali parece uma ‘coluginha’. — Draco apontou para o céu. concordou com a cabeça e apontou para o outro lado.
— E aquela parece um biscoito — a menininha falou logo em seguida ao ouvir sua barriga roncar.
— ‘Vuxe’ só pensa em comida — Draco resmungou e a garota virou seu rosto, apertando os lábios e olhos para ele.
— Não posso fazer nada se é um péssimo anfitrião e não oferece comida para as visitas — reclamou e Draco saltou para se levantar, estendendo a mão para a menininha segurar, o que ela não fez.
— Consigo muito bem sozinha, obrigada — provocou, preparando-se para dar um pulinho, mas, quando o fez, cambaleou, caindo sobre os joelhos por tropeçar com a sapatilha, que havia saído de seu pé.
— Sapato maldito — resmungou, sentido uma leve sensação ardor sobre o joelho direito. Quando a garotinha se levantou, olhou para o joelho e viu que este sangrava levemente. Ela havia caído sobre um graveto de árvore pontudo.
— ‘Vuxe’ se machucou — Draco disse, se abaixando e vendo o joelho da menina, que começava a encher os olhos de lágrimas. — Não chora, já vou cuidar de você.
— Cuidado com o que vai fazer, está ardendo — a garota respondeu de forma manhosa e viu Draco rasgar um pedaço da manga de sua blusa com o auxílio do dente. Ela arregalou os olhos marejados, imaginando o quanto a mãe de Draco reclamaria por ele ter feito aquilo. — O que vai fazer?
A menininha viu ele enrolar o pedaço de pano em volta de joelho e sorriu.
— O que eu sempre faço. Proteger ‘vuxe’.
— É “você”, Draco.
— Eu sei — ele disse, colocando o braço na cintura da menininha para seguirem caminhando juntos.


ϟϟϟ


As risadas das crianças podiam ser ouvidas há quilômetros de distância. já não comemorava seus aniversários completamente rodeada por adultos, mas ainda assim apenas um dos convidados realmente lhe importava.
O lado bom de ter nascido perto do dia das bruxas, era que ela sempre teria uma festa a ideia de usar uma fantasia lhe deixava bastante empolgada, sem contar na quantidade enorme de doces que poderia comer sem ter ninguém lhe criticando por isso. Não que ela ligasse para as opiniões das pessoas, mas receber punições de Severo Snape por mau comportamento não era lá seu passatempo preferido.
A Lestrange ficou semanas planejando qual seria a roupa perfeita para sua festa temática. No início de seus planos, aquilo havia parecido uma tarefa fácil, mas de repente nada lhe parecia bom o suficiente e, para ser sincera, havia exceções para o negócio de não ligar para o que os outros pensavam. Principalmente, quando Draco Malfoy vinha para a sua festa. Ele era seu melhor amigo no mundo inteiro e por isso a única pessoa que, se gostasse da fantasia que escolheu, faria o seu dia perfeito.
Tio Snape não gostava desse tipo de coisa, então sem a ajuda dele, precisou recorrer à Tia Narcisa, pedindo e insistindo milhares de vezes para que ela guardasse segredo e não contasse ao filho o que elas haviam escolhido.
Depois de muito pensar, a fantasia de sereia havia sido escolhida e a garota de recém completados dez anos, andava de um lado para o outro, ansiosa pela chegada de Draco. Definitivamente, foi engraçada a forma esbaforida como a menina correu até a porta assim que ouviu a voz da Tia Narcisa, anunciando sua chegada.
A reação do garoto quando viu Lestrange naquele dia, fez com que todo o rosto da garota se iluminasse. Ela parou diante dos Malfoy, sem sequer olhar para Narcisa. Seus olhos procuraram de imediato os de Draco e ele parecia positivamente surpreso. Ele, por outro lado, também estava incrível aos olhos de , usando vestes de quadribol.
— Deixa eu adivinhar, você é um apanhador, não é? — a Lestrange soltou, com um sorriso esperto e bateu palminhas animadas quando Draco assentiu.
— E você é uma sereia. A mais bonita de todas — respondeu, sentindo que as bochechas esquentavam no mesmo instante. Certamente, seu rosto havia ficado todo vermelho.
— Obrigada — a voz de soou fraquinha e ela sorria um tantinho envergonhada. Então aproximou-se de Draco, segurando em sua mão e o puxando. — Vamos jogar alguma coisa? Cadê o pomo de outro? Eu aposto que consigo pegar ele mais rápido que você.
E assim as duas crianças correram para o pátio da casa, sem se importarem se as fantasias estavam se desmanchando, já haviam mostrado a quem desejavam mesmo.
Outros convidados, como Crabbe e Goyle, vez ou outra, se uniam a eles nas brincadeiras, mas isso acabava irritando e ela desejava mentalmente que aprendesse logo a usar magia para poder azarar todos eles. Ninguém era legal como Draco. No fundo, para ela bastava que somente ele tivesse vindo.
Pela milésima vez, os dois garotos haviam atraído a atenção de Malfoy com um tal jogo de bexigas, mas a Lestrange não queria brincar daquilo. Achava chato e por isso saiu emburrada, sentando-se na grama, abaixo de uma árvore e travando uma luta imaginária entre seus dedos indicadores. Ela sempre fazia isso quando estava entediada.
Cantarolou uma música baixinho, então soltou um suspiro, desejando poder explodir aqueles dois meninos naquele momento.
— Ei, o que você veio fazer aqui sozinha, sereia? — a voz conhecida imediatamente fez um sorriso aparecer nos lábios de , mas ela se lembrou de que estava chateada com Draco e fechou a cara novamente, virando o rosto para não encará-lo quando ele sentou-se ao seu lado.
— Não quero falar com você. Eu vim para o lado divertido da festa, onde não tem nenhum garoto chato — arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços e fazendo um bico.
— Draco resmungou, não gostando de ver a amiga chateada com ele.
— Volta para seus amiguinhos chatos, Draco. Eu vou ficar aqui nesse lugar mesmo — retrucou, se recusando a olhar para ele por mais que quisesse.
— Não volto coisa nenhuma. Você que é minha melhor amiga do mundo inteiro. Quero ficar com você — o garoto insistiu e a Lestrange sentiu o coração quentinho com o que ele disse.
— Quer ficar aqui comigo mesmo? Eu não tenho nenhuma bexiga. — Virou o rosto na direção de Draco e o viu sorrir.
— Eu nem gosto de bexigas. — Deu de ombros e quando desfez a cara emburrada e se aproximou mais do amigo ele a olhou nos olhos. — Você me perdoa, ?
— Claro que eu perdoo. Amigos perdoam — sorriu abertamente, vendo Draco retribuir e então não aguentou e o abraçou bem forte.
Os dois não costumavam se abraçar sempre, mas era sempre tão bom quando aquilo acontecia! Trazia uma sensação de segurança e coração acelerado ao mesmo tempo.
Quando eles se separaram, Draco ficou olhando para o rosto de por alguns segundos e sem controlar seus impulsos, aproximou-se novamente da menina e tocou os lábios dela com os seus.
Foi tudo muito rápido, embora o toque dele tenha sido gentil na boca macia da menina, que arregalou os olhos, surpresa pela atitude do Malfoy, embora sentisse que tudo dentro dela se agitava por aquele gesto. Aquilo a assustou e foi por isso que, no instante seguinte, se afastou e saiu correndo para dentro da casa.
! — ainda ouviu Draco gritar seu nome, mas não conseguia nem olhar para o amigo.
Não apenas as bochechas dela, mas todo o rosto havia se aquecido, seu coraçãozinho estava acelerado e parecia que no seu estômago tinha uma grande batalha entre borboletas.
Ao entrar correndo, a pequena Lovelorn acabou por esbarrar em seu tutor, Snape, que ergueu uma sobrancelha ao ver os olhos da menina cheios de lágrimas.
— O que houve? — a voz dele era sempre fria, mas já estava acostumada.
— Eu… — sentiu que o rosto voltava a pegar fogo, mas ela precisava falar sobre aquilo ou ficaria maluquinha. — O Draco… Ele… Ele me beijou.
Definitivamente, aquele não era o tipo de conversa que Snape desejaria ter com ninguém.
— E por isso está chorando?
— Ele é meu amigo, tio Snape. Meu melhor amigo, mas melhores amigos não fazem isso de… de se beijar. Namorados que se beijam, não é? — questionou, focando seus olhos em Severo e não notando o desconforto dele ao falar sobre aquele tipo de assunto.
— Sim. É isso que fazem — obrigou-se a responder.
— E se eu deixar Draco me beijar e a gente virar namorados, mas brigar depois? Eu não quero deixar de ser amiga dele. Brigas acabam com tudo!
— Vocês dois não tem idade para isso, . Deixe para pensar nisso depois.
Ela odiou aquela resposta, mas acabou assentindo, soltando um longo suspiro e saindo de volta para o pátio, onde tentaria falar com Draco porque o tio Snape estava certo. Eles eram novos demais pra namorar.
Com a saída de Lestrange, Severo Snape acabou por fazer sinal para que Narcisa se aproximasse.
— Draco a beijou — contou para a matriarca, fazendo-a abrir a boca em surpresa. — Isso não pode acontecer e temo que mais para frente esse tipo de coisa irá piorar.
Por mais que torcesse, a Malfoy sabia que com a adolescência deles chegando, isso poderia acontecer.
— O que sugere que a gente faça então, Severo? — questionou, notando pelo olhar dele que a resposta já estava ali.
— Vamos ter que separá-los, Narcisa. É a única maneira de mantê-los seguros, principalmente Draco.


ϟϟϟ


O vento gélido do início do outono passava pelas frestas da janela do quarto do garoto. O sono já havia lhe deixado fazia tempo e ele se pegava olhando incrédulo para a carta que roubara mais cedo do escritório de seu pai e que continha o nome de quem ele jurara nunca abandonar.
A aceitação vinha de Ilvermorny e por mais que ainda tivesse uma certa dificuldade para entender as palavras difíceis da carta, sabia que ela falava de e o pior, sabia que ela vinha de um lugar bem distante da Inglaterra. Naquela noite, ele havia batido o pé para que a garota ficasse e estudasse com ele em Hogwarts e quando não conseguiu, tentou inutilmente pedir aos pais que quando tivesse idade, o colocassem na mesma escola que a melhor amiga a quem ele juraria seu amor quando crescesse.
Quando a casa despertou naquela manhã, Draco já estava de pé, pronto com as roupas mais bonitas que ele havia achado em seu armário, disposto a aproveitar a oportunidade de se despedir da garota, para fazê-la ficar em Londres. Mas sua tentativa foi tão falha quanto o que havia pedido antes para os seus pais.
Tanto Snape quanto sua mãe não haviam mudado de ideia acerca da mudança da garota, o que deixou Draco irritado demais para aceitar e se despedir corretamente da Lestrange. A raiva só foi embora quando, no lugar dela, a tristeza tomou conta.
E da janela do trem, ao lado do seu tutor, compartilhava as mesmas lágrimas que o garotinho soltava entre os soluços, envolto nos braços de sua mãe. Mal sabiam eles que aquilo doía mil vezes mais a Narcisa do que pensara. Quando haviam tomado a decisão de separar as duas crianças, souberam de imediato que aquilo não seria nada fácil, então propuseram-se a fazer a coisa mais difícil de suas vidas. Fazer com que nenhuma das crianças se lembrasse.
Esqueceriam de uma vez que um existiu na vida do outro e, dessa forma, nenhum deles se machucaria. Pelo contrário, aquilo apenas os fortaleceria. Era o melhor para cada que fosse assim e quando nenhuma lembrança estivesse mais presa na mente dos dois, menos chances teria de se machucarem. Foi naquele momento que cada um dos dois adultos obliviou cada uma das crianças, fazendo com que qualquer vestígio de sua infância juntos sumisse por completo e, quem sabe, para sempre.


ϟϟϟ


Draco se encontrava paralisado no lugar. Sentia o suar escorrer pelo seu corpo inteiro enquanto suas mãos tremiam quase como uma doença. Não podia acreditar no que via, ou melhor, no que havia se lembrado. Olhou para a mulher na sua frente e se sentiu enojado que sua própria mãe houvesse feito algo tão terrível quanto aquilo e se perguntou o quanto mais ela sabia e escondia dele. Que direito eles tinham? O que diabos tinham na cabeça por interferir no seu primeiro amor?
Sentiu suas pernas fraquejarem e, por um momento, quase perdeu o equilíbrio. Narcisa se direcionou para ajudá-lo, mas a voz de Draco irrompeu.
— Fique longe, não ouse tocar em mim! — grunhiu e Narcisa recuou para trás. Sabia que o filho tinha todo o direito de estar furioso e, ao olhar para seus olhos cinzentos e confusos, soube que levaria tempo para perdoá-la, se isso sequer fosse possível. Havia sido assim com , quando ela e Bellatrix reverteram seu feitiço e, por saberem que eram tão iguais, Narcisa sabia que a reação de seu filho não seria nem de longe diferente da jovem Lestrange.
A única diferença é que a garota sabia o que estava em jogo e Narcisa tinha a ciência de que a Lovelorn jamais faria algo que implicasse em machucar o amor de sua vida. Não o colocaria em risco em hipótese alguma, afinal, sabia de seus demônios e se houvesse sido tão bem treinada quanto a mulher soube que foi, Narcisa sabia que jamais deixaria aquela revelação interferir nos seus atos. Bom, foi o que ela a pensou.
No fundo, mais cedo ou mais tarde, Narcisa sabia que eles voltariam a ficar juntos e foi naquele momento, perdida entre seus pensamento que a mulher viu o filho deixar o lugar, marchando para fora da mansão. Nada mais precisava ser dito, ela sabia perfeitamente para onde Draco ia e quem ele iria encontrar.


Continua...



Nota das autoras: Happy Halloween, bruxinhxs! Estamos aqui com um capítulo bem soft e cheio de revelações para vocês sobre o que dona Narcisa tava escondendo. O que vocês acharam? Esperavam por isso? Contem pra gente!
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