Finalizada em: Out/2023

bright lights, red eyes

O vagabundo da Baum Street passou pela porta da frente novamente.
O famoso estabelecimento Rick Shit estava lotado em cada metro cúbico do piso, fornecendo o calor necessário para que o ar frio do inverno russo não penetrasse nas frestas da janela. Todo aquele gelo, neve e brisas negativas eram muito capazes de matar alguém que se dispunha a passar mais do que 20 minutos do lado de fora. No entanto, aquele jovem na casa dos 20 anos nem se importou em tirar o sobretudo dos ombros na fornalha quente de pessoas e álcool barato, costurando a multidão até o outro lado e murmurando a mesma coisa com o barman:
“Preciso de mais.”
E, como sempre, o funcionário gordo e alto do outro lado do balcão revirava os olhos e andava para o interior do lugar, demorando-se por mais ou menos 10 minutos até retornar com uma caixa de madeira. Que sempre parecia estar muito pesada.
O rapaz agradecia, abria o que parecia ser um sorriso, tomava a caixa e se mandava pelo mesmo lugar que tinha entrado.
A essa altura, Cindy já estava criando mil teorias sobre quem era o vagabundo e o que ele buscava quase todas as noites, dia sim dia não, nas últimas 3 semanas em que ela e outras amigas da Universidade de Moscou passaram a conhecer e frequentar o Rick Shit, longe demais da casa de todas.
Para começar, ele não se parecia realmente com um vagabundo. A denominação dessa palavra soava grosseira demais para alguém que era bonito demais. Mas ele era o único jovem o bastante que entrava em um lugar onde jovens estavam sendo jovens e agia como… alguém que não se importava. Que, de alguma forma, era superior às escolhas de diversão de seus colegas. Colegas vagabundos de verdade, para constar. E se ele era o único não-delinquente no meio de tantos deles… automaticamente, se tornava o vagabundo da roda.
Era confuso, mas aquele cara esquisito também não ajudava para que pensassem diferente.
A beleza notória dele não mudava nada. Seja lá quem fosse, ninguém parecia digno de uma olhada um pouco mais longa, um cumprimento de cabeça, quanto mais com os lábios. Cindy só sabia que ele falava e que tinha uma voz muito bonita, aliás, porque estava sempre sentada ao balcão, há alguns metros do barman sem nome, que apenas escutava o que o garoto dizia e agia, igualmente sem emitir palavras.
Mesmo assim, ele parecia ser a única pessoa que poderia conhecer qualquer coisa sobre o cara.
Em uma dessas noites, Cindy apreciou a nova versão de dry martini da casa mais vezes do que deveria e se inclinou sobre a bancada para perguntar:
— Qual é o nome do carinha mesmo? — ela tentou sorrir com indiferença, mas já era tarde demais. Não dava pra fingir que não tinha nenhuma intenção quando ele tinha caído fora dali há menos de 10 minutos.
Como esperado, o barman revirou os olhos e empilhou alguns copos limpos no tampo de mármore.
— Por que não vai atrás dele e pergunta você mesma? — resmungou com grosseria inata. Cindy nem se sentiu ofendida; ele parecia falar daquele jeito com todos.
— Porque tenho medo de ele ser um psicopata — ela admitiu com denotação do óbvio, e se aproximou para falar mais baixo. — Mas eu duvido muito que você entregaria tanta bebida para um cara se ele fosse um psicopata.
— Não é bebida — a voz dele subiu três oitavas, e este sim não tentou esconder a ofensa — Ele não bebe.
— Ah, não? — Cindy se movimentou suavemente para mais perto, monopolizando a única área de entrada acessível ao cara que serviria drinks coloridos e bonitos — Então o que tem nas caixas?
— Preciso dizer que não é da sua conta? — o homem levantou uma sobrancelha, irredutível. Jogando um pano em um dos ombros, ele trespassou o pequeno espaço que ia do balcão para a cozinha, virando-se para uma prateleira de garrafas e mais garrafas de whiskey e vodkas variadas que terminariam de esquentar o corpo de todos os presentes.
Cindy bufou e contornou a parte de fora do balcão até apoiar os cotovelos na superfície ao lado do cara de novo.
— Tudo bem, acho que não simplifiquei a situação o suficiente — continuou ela, levantando um dedo indicador — Um nome. É só isso.
— Você devia estar procurando outra coisa pra fazer.
— Isso não é tudo que eu estou procurando — retorquiu ela, agora revirando os olhos — Reparei que ele vem aqui em dias alternados por todas essas semanas, mas não perguntei imediatamente. O que significa que não sou uma louca obcecada. Perguntei hoje por pura… curiosidade.
— Acabou de dizer que ele vem aqui há semanas e acha que não é obcecada?
— Então me diga o seu nome ao invés do dele — Cindy disse abruptamente, fazendo o homem finalmente desistir de verificar rótulos e se virar para ela com o cenho franzido. — Um ou outro. Você quer aferir se sou uma louca ou não?
Ele revirou os olhos mais uma vez, mas desta vez, pareceu uma atitude forçada. Como se, pelas normas da casa, ele devesse ignorar e afastar qualquer tentativa de flerte vinda de clientes, mas para aquele cara que estava acostumado a ser alvo de piadinhas de mulheres lindas e bêbadas, a ideia de receber um olhar daqueles, que brilhava de algum interesse sórdido, era praticamente impossível.
E, por mais que alguma coisa tenha vibrado dentro dele em expectativa com a ideia de se dar bem depois de vários anos sem sequer cogitar isso, o cara apenas desviou os olhos e coçou a garganta, preferindo o caminho mais fácil:
— É Ronan — respondeu, voltando a fitar as etiquetas — O nome dele. É Ronan.
Cindy sufocou um sorriso. Sim, tinha acabado de enganar um cara grosso e inseguro, que se acovardaria diante de uma mulher bonita com um interesse que não podia ser real – e não era mesmo.
— Viu? Por que fazer esse segredo todo? — ela revirou os olhos, mas sorriu minimamente — Onde ele mora?
O funcionário olhou sério para as madeixas quase imobilizadas da garota sob as luzes amareladas. Esperou que ela dissesse que estava brincando, mas Cindy não abriu a boca.
— Eu não faço a menor ideia — respondeu ele com o óbvio. Por Deus, só sabia realmente um nome, e um nome não dava em lugar nenhum — E não vou perguntar uma coisa dessas. Você pode descobrir, mas é o tipo de descoberta que pode se tornar perigosa.
— Por que perigosa?
— Não disse que ele pode ser um psicopata?
— Ele é bonito demais pra isso.
— Essa é uma isca perfeita, não?
A voz maculando a última frase foi mais baixa, grave e um tanto sarcástica demais quando soprou nas costas de Cindy, que tremeu os ombros até se virar e dar de cara com o vagabundo de quase 2 metros e uma feição dura como aquele piso de madeira engordurado e com restos de cerveja espalhando-se pelas solas.
A visão do rosto dele de tão perto revelou a ela duas coisas: que ele era realmente bonito, mas que também era realmente assustador.
— Tem alguma coisa que queira me perguntar? — disse ele, e deve ter sido a maior frase que já tenha emitido em 1 ano inteiro. Cindy abriu e fechou a boca várias vezes, até dizer:
— Não. — Era uma mentira descarada, porque parecia óbvio que o cara tinha escutado tudo ou grande parte de seu interrogatório ao funcionário. Mesmo assim, diante daquela pose intimidante e ao mesmo tempo atraente do cara, Cindy sentiu a necessidade de se esquivar. De agir como se não fosse uma admiradora secreta.
Ele a encarou pelo tempo exato de um minuto até inclinar o queixo para o barman e repetir:
— Preciso de outra.
O homem atrás do balcão estalou a língua, fitando aqueles olhos determinados com um pouco de tédio e aborrecimento.
— Ela ainda não está completa.
— Não tem problema, é a última vez.
Agora ele ergueu uma sobrancelha. Cindy olhou de um para outro, tentando captar o que estava sendo compartilhado ali, quais informações o barman sabia e que guardou para si mesmo, e quantos segredos aquele cara estranho e lindo carregava nos bolsos por aí.
Por fim, o outro suspirou e, ao invés de voltar-se para a o cômodo dos fundos e trazer mais uma caixa de madeira, o homem simplesmente se abaixou onde estava e puxou uma das arcas idênticas às outras, com a diferença de que esta estava mais leve.
— Então toma. Vai ficar sem aquele que a médium do parque disse que é bom. Ela só poderia trazer na semana que vem.
— Não tem problema. Ela não diria nada que eu já não sei.
Cindy tentou olhar para o pequeno caixote quando este foi passado por cima da superfície da bancada. Queria perguntar, em tom enérgico “O que tem aí dentro?”, mas um último olhar do cara bonitão para ela e para o funcionário revelou que ele tinha fechado a torneira do diálogo. Acabou ali, assim como sua presença, que começou a se retirar pelo mesmo caminho para fora, largando um silêncio paradoxal no meio de um clube com música e um pouco de aroma amadeirado para trás.
Cindy não pensou muito. Quando se levantou para segui-lo, provavelmente ouviu um grito aborrecido e repreensivo do barman logo atrás, denotando a idiotice de ir atrás de alguém que claramente não tinha demonstrado um pingo de interesse – nem ela, e nem por coisa alguma –, mas era mais forte do que ela. A maior parte de sua vida era feita de oportunidades passadas adiante. Coisas que não pareciam ter nenhum significado na hora, mas que a longo prazo, virariam uma lembrança ou ensinamento útil. Só que Cindy não gostava dessa coisa de adivinhações – o que poderia ter sido? Como eu seria se não tivesse aceitado entrar nessa faculdade apenas para garantir um emprego de merda no futuro?
Ela não gostava mais de sofrimentos do que poderiam ser. Preferia os arrependimentos do que realmente foram. Seria uma boa história para contar a si mesma depois.
Lá fora, o vento frio castigou suas pernas nuas sob a mini saia, e a neve tinha subido pelo menos 1 cm desde que tinha chegado, fazendo um barulho farfalhante quando suas botas com salto se afundaram em um andar rápido até a caminhonete estacionada bem na entrada do lugar, totalmente descompensada em relação aos outros veículos.
— Ei, cara — chamou ela, sem ter um discurso pronto na cabeça. Ele não se virou ou disse alguma coisa. Estava terminando de abrir o porta-malas quando ela andou mais rápido — Ei, Ronan.
Agora ele levantou a cabeça, olhando-a com o cenho franzido, não de dúvida sobre como ela tinha conhecimento de seu nome – afinal, estava com as orelhas bem empinadas quando pisou no pub pela segunda vez –, mas com uma advertência sobre ela tê-lo chamado de uma maneira tão… casual.
Subitamente, ela se aproximou o bastante dele para estar ao seu lado à frente da traseira do carro, onde ele não se incomodou em fechar o porta-malas para esconder o que havia ali.
Cindy não se aguentou. Olhou diretamente para o fundo escuro, enxergando um aglomerado de caixas idênticas e agora semi fechadas, como se ele conferisse cada uma antes de fechar o bagageiro e seguir viagem. Cindy observou que uma delas estava com a tampa totalmente aberta, e um pouco da luz fraca dos postes ao redor penetrava nas pequenas frestas expostas das demais, iluminando cores diversas e texturas características de papel em brochura.
Livros.
O cara estava entulhando seu porta-malas com livros.
Bem que Cindy havia percebido que havia algo diferente nele. Um vagabundo diferente.
— O que você quer? — A porta foi puxada para baixo em um estalo quase violento. Cindy tremeu os ombros como antes, mais pelo tom de voz rude do que necessariamente pelo barulho repentino, e se virou para o cara. Ela usava óculos de grau em armação de metal no dia-a-dia, quando não estava tentando ser tão sexy e baladeira, preferindo as sempre úteis lentes de contato, mas de repente pareceu que não estava conseguindo enxergá-lo direito. Ele era bem mais alto do que aparentava ser com um pouco mais de luz no rosto, e agora estava envolto por toda aquela névoa fina do frio, mas não parecia se incomodar com ela.
— Você… já vai? — perguntou ela, sentindo que toda a sua coragem de antes tinham ficado no batente do pub, ou simplesmente afogada em toda aquela neve.
— Já vou — ele se inclinou para trancar o bagageiro, sem achar a necessidade de olhar para ela. Cindy esperou algo além disso, mas o cara parecia totalmente decidido a não falar mais do que frases curtas. E isso era desesperador.
Cindy sempre se considerou como uma mulher discreta, capaz de agir e persuadir na hora certa, mas ele estava indo embora. Nem estava dando-a chances de tentar.
— Pra quê tantos livros? — ela tomou um impulso de coragem quando o viu chegar perto da porta do motorista. Pelo modo como demorou o olhar sobre a maçaneta, ele parecia muito inclinado a abri-la e deixar a garota sem resposta e sozinha na neve. Mas então, com um suspiro forte que expeliu uma fumaça branca e espessa da boca e nariz, Ronan virou a cabeça para ela e disse:
— Vou precisar de muitos para o lugar onde eu estou indo.
— E pra onde você está indo?
— Não sei. Todos — ele levantou os ombros ao dar uma constatação simples. Foi a vez de Cindy franzir o cenho — Cumprindo milhas e milhas por todos os continentes. A única coisa que carrego são os livros.
E talvez alguns rostos, Ronan teria dito se isso fizesse alguma diferença. Mas não fazia. Não teria relevância alguma dizer àquela garota que, na verdade, ele levaria seu rosto pelos primeiros quilômetros, talvez até mais do que isso, até o ponto em que encontrasse outro rosto bonito e interessante para preencher e afastar aquela face principal da qual ele não queria lembrar.
Ele sempre ficava por 3 semanas. Era tempo suficiente para se familiarizar a um nível de imaginação. Ficar em uma cidade por 21 dias te dava a sensação temporária de ser parte dela. Ronan gostava da sensação de ser parte de alguma coisa – mas a vontade de fugir era muito maior.
Na primeira semana, ele enxergou Cindy e seu jeito polidamente travado, preocupado com as opiniões alheias que diziam como uma mulher deveria se portar, bebendo drinks populares até que um cavalheiro se oferecesse para pagar um mais caro. Ela não costumava aceitar as ofertas; dava pra ver que era esperta o bastante para saber que o preço não seria apenas uma conversa. E ela não estava disposta a pagar mais do que isso.
Ela era bonita. Bem bonita. Daquelas que normalmente não se nota até que você preste realmente atenção. E muito curiosa, porque estava prestando bastante atenção nele.
O olhar dela sobre ele o fazia parecer ao mesmo tempo mais velho e mais sério do que realmente era, porque o contexto onde Ronan Villar se colocava sempre o traziam uma aura de deslocação evidente. Mas não havia o que fazer. Aquele era o único lugar onde existia Braddy, um homem que trabalhava de barman que e deixou seu número de contato em cartazes pequenos e esquecíveis em torno da cidade com o aviso de que estava doando livros de todos os tipos provenientes da antiga biblioteca de seu falecido patrão, um lugar que logo seria demolido e substituído pela ganância de seus filhos mesquinhos.
Ronan estava aproveitando isso para montar seu inventário. Ele tinha um longo caminho pela frente, em culturas e países que não entendia a língua e, portanto, não entenderia seus livros.
Ele ainda continuou parado no frio, olhando para a garota congelando que parecia confusa e um pouco envergonhada pela pergunta que fez – ou envergonhada pela resposta que tinha recebido. Talvez estivesse apenas confusa e tentasse formular uma pergunta de volta, mas Ronan não estava aberto a respondê-la. Pelo menos era o que a expressão dele no momento estava querendo dizer.
— E você vai voltar? — ela perguntou debilmente, sem fazer ideia da resposta. Ronan teve vontade de sorrir. Embora jamais fosse lhe confessar, ele teria gostado se ela tivesse tomado coragem antes. Na segunda semana. Na primeira, melhor ainda. Sabia que, no fundo, se interessava por garotas que eram levadas pelo vento. Que viviam plenamente quando não enxergavam o fim das coisas.
Ronan era o próprio fim das coisas. Ainda mais quando se via, novamente, atraído pelos mesmos atributos que o fariam desejar, mais cedo ou mais tarde, que tudo não tivesse um fim. Que o levaria novamente para aquela sequência de turbulência e traumas que o deixariam desesperado e afundado novamente, incapaz de fugir de algo que realmente merecia sua fuga.
Ele já estava fugindo. E ainda achava que o planeta Terra fosse pequeno demais para a distância que queria.
A distância dele para aqueles olhos vermelhos e luzes brilhantes. Para aquele rosto de beleza fácil que o tinha fisgado com tanta determinação e autonomia, e feito-o experimentar o inferno em primeira mão com todas as tentativas de overdose e palavras de amor que eram oportunistas e convincentes, atrasando seu processo de seguir em frente.
Cindy era bonita. Fazendo uma leitura de tudo que observou nas últimas semanas, Ronan apostava que também fosse inteligente e que seria bem-sucedida. Mas ah, que certeza tinha?
Que certeza?
Porque Cindy também estava com os olhos vermelhos. E, por mais que parecesse fechada, gostava das luzes brilhantes. Da batida, da multidão e das incertezas que envolviam um sábado à noite.
Então, não. Diferente dela, ele não queria mais se arrepender.
— Não vou voltar.
E antes que ela tivesse a chance de perguntar mais alguma coisa, ele abriu a porta com uma das mãos e se acomodou no banco do motorista, virando a chave na ignição sem se importar de dizer um adeus.
Cindy permaneceu parada no mesmo lugar enquanto via os dois faróis traseiros se afastarem até desaparecerem no horizonte escuro da rodovia, rindo consigo mesma até se tocar do que havia acontecido.
Ele era realmente um vagabundo diferente. Um por quem ela, talvez, cogitasse se tornar uma vagabunda também.
Mas ninguém pensaria nisso essa hora.
Com um suspiro, ela se embrulhou em um abraço e arrastou as botas de volta para dentro, planejando fumar mais um baseado até voltar ao balcão e pedir para que o barman inseguro dividisse mais informações sobre o carinha bonito que dissera que não voltaria.
Aquela não podia ser a última vez que o veria.


FIM.



N/A FIXA 📌: Obrigada por ter lido :)


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