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Finalizada em: 02/03/2021

Prólogo

A porta do apartamento ao lado tinha sido aberta exatamente quando criou coragem para arrancar o aviso de despejo colado no centro da sua porta.
Era um aviso infeliz – e se pensasse muito a fundo, diria que também era injusto –, que a fazia se sentir derrotada a cada minuto do dia. Sua mão tinha parado suspensa no ar quando ouviu o clique de outra porta abrindo, e quando se virou na direção, encontrou . Ele era um vizinho silencioso – em todos os sentidos possíveis. quase nunca dizia qualquer palavra. O clique da porta tinha sido o primeiro som em meses que chamava a atenção para ele. Raramente se encontravam pelos corredores, mas claro que a humilhação tinha que ser completa e ele precisava ver arrancando o aviso de despejo.
A garçonete não tinha sequer como disfarçar. As letras no aviso estavam todas maiúsculas, nos seguintes dizeres:

ISSO É UM AVISO DE DESPEJO. SEU ALUGUEL ESTÁ ATRASADO TRÊS MESES. VOCÊ TEM 72 HORAS PARA VAZAR.


É, humilhante. Para piorar, estava tudo em negrito, como se a pessoa em questão que escreveu aquele aviso, quisesse mesmo dramatizar.
Suspirando, deu as costas a , que por algum motivo, ainda estava parado de frente a sua própria porta. Ele usava um terno bastante justo e ela não pôde evitar pensar que com certeza aquele pedaço de pano valeria os seus três meses de aluguel atrasado. Finalmente, ela arrancou o aviso e amassou–o em uma bola muito bem amassada, descontando toda a sua frustração.
– Você parece cansada.
Ela estava prestes a abrir a porta e entrar, pronta para se acomodar no silêncio do apartamento, mas o homem a pegou de surpresa. descansou a mão sobre a maçaneta e virou apenas o rosto para ele. Os dois eram vizinhos, mas não eram estranhos um para o outro. Ela tinha ajudado–o uma vez que ele estava completamente bêbado e ficou horas no apartamento dele, jogando conversa fora. A garçonete não tinha ideia do que tinha acontecido naquele dia para que ele bebesse tanto, mas sequer questionou. Quando ele adormeceu no sofá e murmurou um obrigado bastante embolado, ela se sentiu satisfeita e foi embora.
No dia seguinte, ambos fingiram que nada daquilo tinha acontecido, mas uma faísca se escondia entre eles.
– Obrigada por apontar o óbvio, – ela murmurou, balançando a cabeça.
Sem dar brecha para uma resposta, abriu a porta e entrou, fechando–a em seguida. É claro que ela estava cansada. Ela estava cansada pra caralho.
Seu expediente tinha sido mais cansativo que o normal para uma noite bem agitada. Ser garçonete no período da noite era o que ela mais odiava, mas também era o que pagava mais.
não tinha exatamente uma escolha.
Não quando precisava pagar as contas e mandar uma parte do dinheiro para sua mãe cuidar do seu sobrinho.
A mulher jogou a bolsa em cima do sofá e acendeu somente a luz da sala. Ainda eram seis da manhã e ela não tinha condições de decidir o que deveria fazer: dormir, comer ou tomar um banho?
Sentindo as costas doerem um pouco, ela também se jogou no sofá, apoiando os pés no pequeno centro que ficava no meio da sala. Tirou o celular da bolsa, pegando também o envelope do dinheiro que tinha recebido naquela noite do trabalho no bar.
Ela sabia que deveria pagar o aluguel. Mas quando desbloqueou a tela do celular e uma mensagem da sua mãe surgiu, havia outro destino mais urgente para o dinheiro.

apertou o botão do elevador, mantendo–se em uma postura levemente séria e em silêncio, enquanto esperava. A mulher loira ao seu lado parecia agitada demais e ele sentia que a qualquer momento, ela abriria a boca para puxar algum assunto que ele não teria o menor interesse em manter. Ele não era um babaca. Talvez só reservado e quieto demais. Socializar não era exatamente o seu forte, e quando o homem tentou mudar aquela realidade de manhã cedo, só recebeu o bater da porta na sua cara.
podia ser um pouco rude, às vezes.
Tentando não expressar muito o seu alívio, ele não esperou nem mais um minuto e saiu exatamente quando as portas do elevador abriram. O homem ajeitou a gravata no pescoço, cumprimentando só aqueles que conhecia e andou direto para a sua sala.
Assim que abriu a porta, alguém já estava lá.
– Oi, tio – o cumprimento saiu azedo pela sua boca.
Ele adentrou a própria sala, fechando a porta atrás de si. Caminhou devagar até a sua cadeira, do outro lado da mesa. Não era comum que o seu tio estivesse ali tão cedo, mas não quis deixar transparecer que estava um pouco curioso pelo motivo da visita. O mais velho ergueu os olhos em direção ao sobrinho, girando a cadeira, de maneira que ficasse de frente para o mais novo, somente a mesa mantendo–os distantes.
– Você tem conhecimento que estou me aposentando, – ele foi direto.
O tio também era conhecido por não fazer rodeios quando queria algo. Ele ia simplesmente direto ao assunto, e talvez por isso fosse tão bom sendo advogado. Ele era o dono da firma, enquanto tinha apenas uma pequena porcentagem das ações.
Ele esperava, um dia, herdar a empresa.
Mas havia obstáculos no caminho.
– Sim – o mais novo concordou.
, eu vou ser sincero – continuou. – Você é meu único sobrinho, mas não é o único herdeiro. No momento, estou mais suscetível a passar o comando para Gabriel.
exalou surpresa. Odiou a si mesmo por aquele vacilo, mas estava mais preocupado com a informação que acabara de receber. Gabriel sequer fazia parte da família. Bom, não era exatamente verdade. Seu tio não tinha tido nenhum filho legítimo, mas era como se Gabriel fosse um. O fato de estar sendo trocado pelo enteado do tio parecia o ápice do absurdo para .
– O quê? – verbalizou.
O mais velho soltou um suspiro pesaroso.
, se há algo que eu prezo mais do que essa empresa e a minha profissão, é a família – ele explicou. – Gabriel está noivo e você sequer tem uma namorada.
– Isso não é verdade! – exclamou. – Nós estávamos tentando planejar o casamento, mas... – a mentira escorria sem culpa pelos lábios do mais novo. – Ela anda ocupada.
Ela nem existia.
O sr. pareceu desconfiado.
– Não está mentindo para mim, só para conseguir a empresa?
engoliu a seco. Se já tinha inventado a mentira, por que voltaria atrás agora?
– Claro que não, tio – respondeu, revirando os olhos, mostrando o quão ofensivo aquilo era para ele. – O senhor tem conhecimento que eu sou bastante discreto. Eu gosto de ser discreto.
– Mas a ponto de escondê–la de nós?
– Não estou escondendo ela – reforçou. – Só não achei necessário comunicar cada passo da minha vida. Eu estava planejando comunicar o casamento, quando ela decidisse sobre isso. E também... – ele pigarreou. – Queria ter certeza que ela era a mulher certa. Para mim.
sabia que aquilo tinha sido a coisa certa a falar. Seu tio pareceu interessado e um pouco mais acreditado na sua mentira. Céus, era ótimo em mentir.
– Então estou ansioso para conhecê–la no fim de semana – seu tio disse, levantando–se da cadeira. – Certamente, a família irá gostar da novidade.
sentiu como se a gravata estivesse sufocando–o. Faltavam apenas dois dias para o fim de semana.
– Como?
– O aniversário de Laura na fazenda, rapaz – Sr. lembrou. – Leve–a.
– Eu não sei se ela vai poder, e... – o mais novo tentou escapar.
– Sr. chamou. – Não há opção.
O advogado mais novo sorriu sem graça. Levantou–se também, ficando em pé para acompanhar o tio.
– É claro.
Seu tio assentiu, satisfeito. Estava bastante ansioso para conhecer uma namorada – e futura noiva – que nem existia, mas agora precisaria lidar com as consequências de sua própria mentira.
Mais do que isso, ele precisaria encontrar uma namorada disposta a mentir por ele.

Parte 1

Você o quê?
mordeu o lábio, admitindo que era uma boa hora para terminar de beber todo conteúdo alcoólico do seu copo, disposto no balcão bem à sua frente. Ele era tudo, mas não sabia que era corajoso o suficiente para adentrar o bar em que trabalhava, simplesmente convidando–a para fingir ser sua namorada–noiva como se isso não fosse nada demais.
Mas era.
Era tudo demais e ele não tinha pensado naquela parte. Não.
apenas tinha passado a tarde toda torrando os últimos neurônios, pensando em quem seria adequada e desesperada o suficiente para aceitar participar da sua mentira.
Primeiro, ele pensou na secretária do escritório. Mas ela acabaria com a farsa em menos de dois minutos, assim que abrisse a boca. Ela não era muito boa em guardar segredos e preferia não confiar sua vida a ela.
Depois, ele pensou no seu lance casual de meses atrás, até lembrar que ela terminou odiando–o. Jamais daria certo.
E então... ele pensou em .
Pensou em como ela estava com uma expressão infeliz de manhã, arrancando seu aviso de despejo nada delicado. Pensou que ele poderia oferecer algo em troca dela ajudá–lo. Por exatamente esse motivo, depois do expediente, tinha saído da empresa somente com um destino em mente: o Shot's Bar. O local onde ela trabalhava como garçonete a noite inteira.
O advogado achou que fosse ser fácil, mas o olhava com uma expressão que indicava que achava tudo uma loucura.
estava desesperada, claro, mas não achava que fosse ser tanto.
– Estou propondo que você seja a minha namorada, por tipo, algumas semanas – ele repetiu.
Ela pegou o copo vazio dele, colocando–o no devido lugar, mas sinalizou que ela podia encher com a mesma bebida de antes de novo. Ele reparou que o uniforme ficava meio justo demais nela e a cor não valorizava a sua pele.
– Isso eu entendi, seu idiota – respondeu, entregando o copo cheio a ele novamente. – Mas por que diabos você precisa de uma namorada de mentira?
Ela parecia bastante interessada, ele pensou, assim que a viu com as sobrancelhas arqueadas. O local estava cheio, mas não demonstrava estar com pressa de atender ninguém, principalmente se fossem homens bêbados.
– Bom, meu tio é um velho antiquado que valoriza a família antes de tudo – ele bebeu mais um gole do álcool, dando de ombros. – Ele vai se aposentar e eu deveria herdar o comando da empresa, mas ele colocou um obstáculo no meio do caminho. Só herdarei a empresa se eu me casar. Meu tio tem medo de que minha vida inteira seja só trabalho.
piscou os olhos. Em algum momento, prestando atenção na explicação dele, ela permitiu ter flashbacks da noite em que o ajudou. Naquele dia, parecia quase leve e seus olhos brilhavam.
Mas não brilhavam agora.
– Entendo – ela murmurou. Não disse mais nada, não porque não quis, mas porque precisou atender alguém um pouco mais distante de .
Ele esperou pacientemente. Aqueles minutos sozinho o fizera se sentir um idiota. Talvez fosse errado trazê–la para a sua mentira, mas ele jamais deixaria Gabriel herdar o comando da empresa. Se isso acontecesse, ele preferia urgentemente trabalhar para qualquer outra pessoa, que não fosse aquele idiota mimado.
– ela apareceu do outro lado de novo, soltando um suspiro cansado. O bar estava ficando cada vez mais cheio. – Nós somos só vizinhos. Nem nos conhecemos. E eu acho você uma pessoa desprovida de emoções. Como pretenderia fazer os outros acreditarem que está apaixonado por mim?
não era exatamente desprovido de emoções, como ela tinha apontado. Ele só era um pouco... mais difícil de demonstrar. Mas estava tudo ali. Tudo dentro dele.
– Bom... – ele sussurrou. – Posso não demonstrar minhas emoções verdadeiras tão abertamente, mas eu sou ótimo em fingir.
Ela sustentou o olhar no dele. Um arrepio correu por seu corpo inteiro, quando tocou a sua mão delicadamente, em cima do balcão. Um sorriso surgiu no canto dos lábios dele, enquanto seus dedos acariciavam a pele da mão dela. Pela sua expressão, parecia quase admirado por ela.
Se conseguia aquilo, não precisaria de muito esforço para fingir estar apaixonado.
– Mentir – ela soltou a mão da dele.
– O quê?
– Você é ótimo em mentir – corrigiu.
mordeu a parte interna da bochecha.
– Dá no mesmo – defendeu–se. – Um advogado precisa ter certas cartas na manga.
– Não estou interessada em saber sobre elas, porque a minha resposta é não – ela retrucou.
o deixou sozinho, sentado ali. A garçonete saiu de trás do balcão, andando pelo salão, para atender alguma mesa. pareceu despertar e levantou, deixando o copo de lado, e andou até ela.
– Espera aí – ele pediu, tocando levemente o braço dela, fazendo–a se virar. – Como assim "não"?
A jovem não respondeu imediatamente. Ela deu as costas para ele, por um momento, e atendeu um casal em uma mesa mais distante. Com o bloco de notas na mão, parou na frente do advogado.
– Não vou participar da sua farsa, . É isso que significa o meu "não" – explicou, dando ênfase na última palavra, reforçando a sua decisão. – Sinceramente, eu tenho preocupações maiores.
Ele esperava por aquilo. Estivera pronto para uma rejeição da parte dela, mas ele ainda não tinha utilizado sua melhor carta na manga para convencê–la a aceitar. Conforme ela ia andando de volta até o balcão, ele o acompanhou.
– Eu sei, eu vi o seu aviso de despejo – ele lembrou. lançou um olhar irritado para ele, que não se importou. – Sei que você tem menos de duas noites para sair do prédio.
– Isso só mostra que você está bem informado das humilhações diárias da minha vida – ela debochou, ainda irritada.
Voltou para trás do balcão, entregando um pedaço de papel do bloco de notas a um dos garotos ali.
encostou–se no balcão.
– Também – provocou. – Mas o que eu estou tentando dizer é que eu posso te ajudar.
Ele pegou uma pequena pasta que estava no banco ao seu lado. Entregou duas folhas juntas a ela, que não hesitou em pegar. estreitou os olhos, desconfiada, mas quando começou a ler, sua expressão se transformou em surpresa.
– Isso é... – as palavras escaparam de sua boca, mas não completas.
Era um contrato, firmando um acordo de relacionamento, se ela aceitasse.
– Você só precisa me dar algumas semanas da sua vida. E casar comigo. – ele explicou. – Eu pago todos seus aluguéis atrasados, compro até uma casa para você – continuou, quase implorando. – Qualquer coisa, mas, por favor... Aceite.
Ele deveria estar mesmo muito desesperado, ela pensou, para continuar insistindo que ela aceitasse. engoliu a seco, ainda passando os olhos por todas as palavras do contrato, mas sua atenção estava somente em uma coisa. estava disposto a pagar por sua participação na farsa. E era um dinheiro que ela jamais ganharia, mesmo trabalhando a sua vida inteira. Ela conseguiria concluir uma faculdade. Conseguiria manter um futuro para o seu sobrinho e dar uma vida confortável à sua mãe.
Céus, ela sequer precisaria voltar para a cidade natal e depender dos outros de novo. Poderia ter sua própria estabilidade financeira. Bastava simplesmente aceitar a loucura de .
Ei, gostosa! – alguém chamou, um pouco mais afastado do balcão. – Não vai nos atender? Nós temos um pedido bastante especial.
E, com certeza, não precisaria mais daquele emprego, e nem aturar os assédios de bêbados em silêncio.
– Então? – o advogado questionou.
devolveu o contrato a ele. Virou–se o suficiente para encontrar o seu supervisor andando para a cozinha.
– Ei, Brad! – ela chamou, recebendo a atenção do homem, que a olhou curioso. Ela retirou o avental do corpo.
– Eu me demito.
tomou aquela atitude como um sim.

– Bom, se vamos fazer isso, precisamos fazer do jeito certo.
estava sentada no sofá do apartamento de . Não tinha prestado muita atenção nas palavras dele, mas tinha uma ideia vaga do que ele tinha acabado de dizer. Ela mantinha as pernas cruzadas, passando os olhos por todo o local da sala. Nada estava diferente desde a única vez em que ela pisara ali. Talvez, só o fato que ele estava sóbrio.
– Se você tem dinheiro suficiente, por que diabos mora nesse prédio? – foi a primeira coisa que ela questionou.
Ele estava sentado de frente para ela, em cima da mesa de centro feita de madeira. parecia bastante à vontade, como se fossem amigos há décadas.
– Você tem curiosidades estranhas – ele observou. – Não gosto de conviver com tanto luxo. Isso aqui é suficiente para mim.
– Está brincando comigo?! – exclamou, em tom de pergunta e surpresa. – Quando eu era pequena, adorava passar pelos bairros ricos e ficar admirando todas as casas, imaginando que talvez um dia eu fosse dona de um deles. Agora, bem... – deu de ombros, uma expressão desgostosa ocupando o rosto. – A criança em mim chora com os três meses de aluguel atrasados.
riu. Normalmente, ele não ria tão abertamente, mas alguma coisa o fazia se sentir bastante confortável na presença dela. Flashbacks mal organizados invadiam-no todas as vezes, mas ele não conseguia entender nada.
– Com o dinheiro que irá receber, tenho certeza que agora pode realizar o seu sonho – disse.
expressou um sorriso sem graça. Ele estava certo, mas...
– Parece errado, sabe? – confessou, apertando os dedos um contra o outro. – Café? – ela levantou–se, oferecendo.
desfez o sorriso. Não sabia o que dizer quanto à confissão que ela tinha acabado de fazer, então só assentiu.
– Sem açúcar, por favor.
concordou, caminhando até a cozinha. Tudo era impecavelmente limpo em relação à . Não havia sequer um resquício de poeira na bancada e a garçonete se enfiou atrás do balcão para preparar um café. Ela não tinha ideia de que horas eram, mas sabia que devia ser tarde o suficiente para ir pra casa. A sorte dela era que seu apartamento era literalmente ao lado.
– Se você sentir que não pode seguir com isso, eu vou entender, sabe? – ele andou atrás dela, sentando–se no banco livre, depositando as mãos sob o balcão. – Enganar as outras pessoas não é uma tarefa simples.
As palavras soaram sinceras demais no tom de voz dele. não o olhava, mas escutava tudo com uma atenção genuína. Suas mãos moviam–se freneticamente, preparando o café com uma rapidez impressionante.
– Não vai ser esforço nenhum para mim – foi tudo o que ela respondeu, sem dar brecha para que ele não interpretasse sua frase de forma errada.
Porque havia diversas formas de entender o que ela havia falado. Não vai ser esforço enganar alguém? Não vai ser esforço nenhum fingir estar apaixonada por ele?
– Você disse antes que precisamos fazer isso do jeito certo – ela continuou, esperando que o café esquentasse. – O que quis dizer?
– Ah, isso – soltou. – Eu quis dizer que seria ótimo sabermos algumas coisas um do outro. Às vezes, meu tio consegue ser bem... detalhista.
não parecia preocupado com aquela questão especificamente, mas era muito melhor prevenir qualquer erro que colocasse o seu plano na linha do fracasso.
– Certo – ela concordou, encostando–se só um pouco contra o balcão. – Como nos conhecemos?
Eu estava bêbado, pensou, mas não respondeu. Ele não tinha certeza se se lembrava daquela noite específica, mas com certeza ela não sabia se ele lembrava.
– Podemos manter a premissa de que somos vizinhos? – sugeriu, dando de ombros.
A garçonete limitou–se apenas a dar um olhar, como se mostrasse que não tinha uma opinião exatamente certa quanto àquilo, então concordou, porque ao menos, era verdade. Os dois eram vizinhos. Com a lembrança de uma noite juntos em comum.
Uma noite onde nada e tudo aconteceu.
– E então, nos conhecemos e nos apaixonamos? – para dramatizar, ela enfatizou tudo com uma mão no peito.
– Você faz tudo parecer um clichê ruim de um livro ruim.
Ela soltou uma risada contagiante que quase o fez rir também, mas seus lábios se curvaram em um sorriso pequeno e contido. Era bom, percebeu, o som da risada dela.
– Estou fingindo um noivado com você – ela apontou o óbvio, revirando os olhos. – Quer mais clichê do que isso?
abriu a boca para responder, mas ela virou–se, começando a servir o café de ambos. O dele, sem açúcar. O dela, com açúcar e uma colher de leite.
Um balcão os separava, mas para , eles pareciam mais pertos do que nunca.
– Para todos os efeitos, estamos noivos há um tempo – começou, fazendo uma careta ao bebericar o café, entendendo o quão quente estava. – Vou anunciar o nosso noivado nesse fim de semana e nos casaremos em duas semanas.
Tinha sido informações demais para em menos de trinta segundos e ela quase se engasgou com o café. Arregalou os olhos e piscou–os logo em seguida, depositando o copo no balcão e encarou , esperando que estivesse parecendo tão séria quanto ela se sentia.
– Achei que teríamos mais tempo – admitiu.
– Eu te disse "algumas semanas" – ele respondeu.
– Quando você fala que vamos nos casar, você diz em um sentido figurado, não é? – indagou, percebendo só agora que não tinha se dado conta daquilo.
bebeu mais um gole do café e mordeu a parte interna da bochecha com a pergunta.
– Literal – ele explicou de maneira tão simples que a fez se sentir como uma idiota.
o encarou.
– Casamento, tipo, com padre, vestido, igreja...?
– Bem – ele lambeu o lábio, tentando não demonstrar o quanto estava se divertindo com a confusão dela. – Eu acho que é isso que se parece um casamento.
Houve um momento de silêncio. observou toda a linha de expressão do rosto dela se alterar e ela até largou a xícara de café de lado, deixando–o esfriar. Sem ao menos esperar, atingiu o peito de . Ele resmungou, observando que era um saco de sachê de vários sabores de chá que ele sequer sabia que estava ao alcance dela. A garçonete não se importou com o olhar irritado que ele lhe lançou.
– Posso mudar de ideia? – ela questionou.
abriu um sorriso ladino, como se fizesse isso tantas vezes que já estava mais do que acostumado. Mas ele mal sorria.
– Você assinou o contrato – explicou. – Pode mudar de ideia, mas isso significa pagar uma multa muito maior do que o seu aluguel.
– Isso foi cruel – admitiu, deixando os ombros caírem, derrotada. – Não podia ter me livrado da multa?
depositou o copo de café na bancada.
– Eu precisava de algumas garantias.
saiu do outro lado da bancada. Com a expressão mais suave agora, ela apontou um dedo em riste para ele.
– Eu me demiti – lembrou. – Acho bom isso dar certo.
O homem não teve tempo de responder nada. Ela simplesmente deu as costas e antes que pensasse em ir atrás dela, ouviu a porta bater, indicando que ela tinha ido embora.
Para seu próprio bem, ele também achava bom aquilo dar certo.

Parte 2

levou o copo de leite morno à boca, bebericando um gole considerável de líquido. Em cima da mesa, estava a pasta que tinha a feito assinar. Estava encarando aquelas folhas de papéis havia uns bons minutos, sua cabeça rodeando de pensamentos desorganizados, enquanto bebia o copo de leite, na tentativa de acalmar os nervos. Talvez um chá fizesse um efeito melhor, mas ela não tinha nenhum ali. Leite morno era melhor que nada e cafeína deixava ela muito agitada na parte da manhã.
Suspirou. Estava fazendo muito isso desde que tinha acordado. Sua assinatura estava ali, em todos os papéis, e ela sequer tinha lido todas as cláusulas. Nem conhecia o suficiente para ter confiado nele tão cegamente assim, mas sabia, de alguma forma, que ele jamais a prejudicaria, qualquer que fosse o motivo.
Uma multa... puff.
Ela mal tinha onde cair morta.
A campainha tocou e a garçonete colocou todas as folhas dentro da pasta de volta. Deixou o copo quase pela metade em cima da bancada apertada que dividia a cozinha. Não chegava a ser nem oito horas da manhã direito, quem diabos estaria incomodando–a àquela hora da manhã? levantou e andou até a porta. Quando abriu, um de terno, com os braços cruzados na altura do peito estava na frente da sua porta, a expressão serena. A mulher encarou–o de baixo a cima, erguendo uma sobrancelha na direção dele.
– Você já ouviu falar em roupa social? – questionou.
franziu o cenho, descruzando os braços e olhando para si mesmo. Estava acostumado a estar vestido sempre de terno por conta do trabalho.
– O quê? Eu estou muito bem.
deu um sorriso irônico.
, são oito horas da manhã de um sábado – ela avisou. – A não ser que você tenha um casamento para ir tão cedo ou um tribunal, não tem sentido nenhum você estar vestido assim. Então... roupa social?
não teve tempo nenhum de responder. Ela tinha fechado a porta atrás de si e entrou no apartamento dele sem permissão. Mas, bem, se estavam fingindo serem noivos, tinha certa permissão para tudo, não tinha?
Ele a seguiu, notando agora, em silêncio, o vestido que ela estava usando e o cabelo preso em uma coroa de trança. Estava descalça, mas isso não tirava sua beleza e parecia uma mania que ela tinha. Ela parecia bastante... casual. observou quando ela adentrou o seu quarto, indo direto até o guarda–roupa médio que ele tinha.
– Céus – ela murmurou. – Você não tem vida social?
Ele deu de ombros, embora ela estivesse de costas para ele e não pudesse ver. observou a fileira impecável de ternos e mais ternos que havia dentro do guarda–roupa. Ela fez uma careta para todos os tons de preto que os panos tinham.
– Quer saber? – ela se virou, desistindo de procurar. – Vamos para o shopping.
respondeu com uma careta descontente.
– Espera aí – ele pediu. – Eu tenho roupas sociais, só não fica aqui.
– Eu não ligo – respondeu. – Shopping.

– Você sabe que vamos passar esse fim de semana juntos, não sabe?
andava ao lado de pelo shopping. Ela parecia bastante decidida em fazê–lo mudar um pouco o próprio guarda–roupa e estava levando a tarefa a sério, analisando as lojas conforme caminhavam. Tinham chegado ali há cinco minutos e não adentraram nenhuma loja ainda.
– Mais um motivo para você fazer compras – foi tudo o que ela respondeu.
Mas tinha pensado sobre aquilo mais cedo. Sabia que teria que passar um fim de semana não só com , o que já era demais por si só, mas também com a família dele. Se ela conseguisse passar por tudo aquilo enganando um bom número de pessoas, podia considerar seriamente entrar para o teatro. Talvez levasse jeito em atuar.
– Você parece... mais calma do que ontem – ele disse, tomando cuidado com as palavras.
Parou ao lado dela quando ela ficou de frente a uma loja enorme cujo nome ele não sabia, mas tinha notado o suficiente para saber que era uma loja de roupa cara. Exatamente do que ele gostava.
– E você parece mais sociável – ela respondeu sem olhá–lo.
– Não posso fingir ser o seu noivo se não converso com você – apontou o óbvio.
Finalmente o encarou.
– Você devia parar de dizer a palavra "fingir" e começar a me tratar como se eu fosse sua noiva de verdade – ela apontou, revirando os olhos discretamente. – O primeiro passo para uma mentira ter sucesso é acreditar nela.
piscou os olhos. Não esperava ela dizer algo do tipo, mas não esboçou nenhuma emoção para ela.
– Eu nunca escolhi tão bem na minha vida – declarou.
Pela primeira vez no dia, sorriu. Não tinha sido um sorriso irônico, sarcástico ou debochado. Tinha sido... um sorriso. Um sorriso que ele podia roubar só para si.
A garçonete estendeu a mão. prontamente aceitou.
– Vamos renovar o seu guarda–roupa.
E meia hora depois, ela tinha conseguido encher as sacolas de roupas caras. Internamente, não se importava, nada estava saindo do seu bolso, mas a garçonete não podia negar que estava se divertindo com as caras carrancudas de , toda vez que ela o obrigava a experimentar uma peça nova.
– Eu não sabia que você gostava tanto de moda – ele murmurou, usando uma voz cansada de propósito.
Ele respirou fundo e parou a uma distância dela, de costas para o provador aberto.
– Nem eu – ela respondeu, fazendo um gesto com a mão, indicando que ele deveria dar uma voltinha. O homem revirou os olhos, mas obedeceu. – A calça valorizou a sua bunda.
– Nós já estamos assim? – indagou o advogado, abrindo um sorriso mínimo pela primeira vez desde que entrara na loja.
sentia que precisava guardar todos os sorrisos dele. não era o tipo de cara que sorria com facilidade e ela gostava de quando conseguia esse efeito nele.
– Leve a peça – foi tudo o que ela disse.
A garçonete levantou, andando pela loja devagar, esperando ele se trocar para que pudessem pagar o que ele ia levar. Agora ele tinha muito mais roupas sociais, não só ternos. Céus, quem diabos vivia só vestindo terno?
achava que ele era algum tipo de louco.
Ele saiu do provador logo em seguida, vestido pelo terno de novo e ela fez uma careta, mas não abriu a boca para dizer nada. Simplesmente andou até o lado dele, vendo–o terminar de pagar as suas compras e ambos saíram da loja com segurando diversas sacolas nas mãos.
– Preciso perguntar mais uma vez, só para garantir – iniciou, quebrando o silêncio, enquanto andavam lado a lado livremente pelo shopping. – Está tudo bem mesmo para você? Nós vamos passar o fim de semana com a minha família... Agora.
A garçonete virou o rosto para ele, umedecendo os lábios. Tinha pensado sobre aquilo a manhã inteira e os pensamentos se dissiparam quando ele apareceu na porta dela. acabara decidindo, por fim, que não tinha escolha senão seguir adiante com aquilo. Além do mais, não fazia seu tipo deixar alguém na mão depois de ter prometido ajudar.
Mesmo que a promessa fosse em contrato.
– Sim – ela respondeu. – Me fale sobre a sua mãe.
Mães a deixavam nervosa. Mesmo que fosse tudo uma farsa, ainda assim, para toda a família dele era verdade, incluindo a sua mãe. Eles continuaram passando por lojas de roupas caras, mas estava satisfeita em tê–lo feito gastar em uma loja só. ergueu os olhos para ela.
– Minha mãe é uma mulher justa – ele disse. – Ela vai ficar bastante surpresa quando eu te apresentar.
Ela riu.
– Você escondeu uma noiva – repreendeu de brincadeira. – Eu ficaria bastante surpresa se meu filho me escondesse alguém assim também.
– Não diga isso à ela – completou. – Não se preocupe, , ela vai gostar de você. Minha mãe gosta de todo mundo.
Ela percebeu quando ele revirou os olhos, mas também percebeu que ele se divertia. Havia um brilho mínimo nos olhos que foi embora rapidamente.
Ela abriu a boca para dizer algo, embora não soubesse exatamente o quê, quando ele a empurrou levemente pelo ombro, indicando que ela entrasse na loja à esquerda. A garçonete não viu o nome da loja, mas quando entrou, notou que era uma joalheria. Uma peça daquela loja custava mais do que seu salário inteiro em um mês.
– ela chamou, mas ele não respondeu.
o seguiu. Observou quando um rapaz jovem pegou todas as sacolas do advogado, retirando–se em seguida. falou algo com outro homem mais velho e virou–se para ela, com um sorriso bastante discreto e a puxou pela mão.
– Quero as melhores peças de anéis de noivados, por favor – ele disse ao homem, que assentiu, levando–os para uma sala.
Estava gelado ali dentro. Havia uma mesa de centro pequena e bonita, com dois sofás felpudos de cada lado. e sentaram um ao lado do outro, no sofá do lado direito.
– O que está fazendo? – ela questionou, mas era desperdício de fôlego. sabia muito bem o que ele estava fazendo.
a encarou com um ar de diversão e percebeu que ele ainda segurava a sua mão contra a dele. A consciência daquilo fez seu corpo inteiro se arrepiar e ela praguejou mentalmente, esperando que, se ele tivesse percebido, que deduzisse que fosse por causa do frio.
– Achei que fosse óbvio – ele disse. – Estou oficializando nosso noivado. Não posso te apresentar para a família se não tiver um anel.
Ela foi salva de responder, porque o mesmo homem tinha voltado. Na mão dele, havia uma espécie de vidro quadrado, com anéis exibidos em cima de algo felpudo. O homem entregou para , que pegou com cuidado e murmurou um agradecimento.
O advogado examinou todas as opções. tentou parecer desinteressada, mas manteve os olhos, inspecionando os anéis exibidos. Havia alguns mais simples e outros extravagantes demais.
– O que você acha? – indagou, sem olhá–la.
Ele não era exatamente bom naquilo e não conhecia o gosto dela.
– Acho que cabe a você escolher – ela respondeu, o tom de voz beirando a humor e desafio.
Ele piscou os olhos para ela. A jovem suavizou a expressão, deixando uma das sobrancelhas erguidas, como se dissesse "e então?"
– Muito bem – murmurou .
O homem observava o casal em silêncio, parado do outro lado da sala, esperando ser solicitado novamente. voltou os olhos para os anéis, analisando suas opções. Ele descartou os anéis que eram chamativos demais, com pedras muito grandes – não combinava com , na opinião dele. Havia três opções agradáveis. Um anel dourado, cujo diamante era quase invisível, se não fosse o brilho. O segundo era da mesma cor, mas no lugar do diamante, havia uma pedra branca igualmente linda. O terceiro era um ouro prateado, com um diamante azul claro em volta do que parecia ser o desenho de uma flor. Era lindo. não pensou duas vezes e o pegou, entregando o restante ao homem.
– Aqui – ele se virou para , exibindo o anel escolhido para ela. – Por favor.
engoliu a seco. Piscou os olhos, levantando a mão para que ele pudesse encaixar o anel em seu dedo. Ela não tinha percebido que prendera a respiração, até o momento em que a peça estava oficialmente na sua mão. Ela observou.
Estranhamente, parecia certo para ela.
– Você tem bom gosto – foi tudo o que ela disse.
Ele sorriu.
Olhou para o homem e acenou positivamente com a cabeça.
– Vamos levar.

não era o tipo de garota que não deixava o homem gastar. Ela mal se importava com isso.
Com os pés descansados em cima do painel do carro, ela encarou a sua mão novamente, buscando dentro de si alguma forma de se sentir mal por ter feito gastar um bom dinheiro com aquele anel, mas nada veio. Nem um pingo de remorso. Absolutamente nada. Ele tinha pedido a ajuda dela para fingir ser a sua noiva e não era novidade para ninguém que não tinha onde cair morta, então nada mais justo que ele pagasse o que quisesse.
Contanto que não saísse do seu bolso, ela poderia aproveitar.
– Eu não sabia que você ia gostar tanto – murmurou, chamando a atenção dela para si.
Ele mantinha os olhos na estrada, dirigindo o carro. Depois que saíram do shopping, voltaram para o apartamento e juntaram uma bolsa pequena, com algumas roupas e coisas essenciais, o suficiente para conseguirem passar o final de semana com parentes indesejados.
– Eu só estou pensando o que eu poderia ter com o valor disso aqui – a garçonete respondeu, alheia ao olhar dele.
Ela parou de encarar a mão e olhou através da janela, sentindo uma pequena brisa no vento contra o seu rosto. O nervosismo tinha passado. Podia não conhecer de sua vida inteira, mas conhecia o suficiente para se sentir segura com ele. O advogado não tinha nada de ruim pairando sobre si, mas era meio difícil acessar seus pensamentos e sentimentos.
nunca tinha conhecido uma pessoa tão... centrada.
– Posso listar, se quiser – o outro disse.
Ela olhou feio para ele, que riu.
Céus, estava se tornando um hábito fazê–lo rir, não estava? Quantas vezes aquilo tinha acontecido antes, quando se esbarravam sem querer pelos corredores?
Nenhuma, ela pensou. Mas uma noite mudava tudo.
– Me conte sobre a sua família – ela pediu.
Ajeitou a postura no banco, de maneira que pudesse ficar sentada de lado, para olhá–lo melhor. Ele continuava com os olhos na estrada, aumentando um pouco a velocidade.
– Eu já te falei.
– Você só me contou sobre a sua mãe – ela lembrou. – Quero saber de todo mundo que vai estar lá.
– Bem – ele fez uma careta desgostosa. – Essa vai ser uma lista imensa.
– Você é tão terrível, .
Ela levantou a mão no ar, socando o braço dele de brincadeira. O canto da boca dele se encurvou em um meio sorriso. Da mesma maneira que apareceu, sumiu.
– ele chamou.
Ela resmungou algo e continuou olhando para ele.
– Eles vão gostar de você – garantiu, tentando, de alguma forma, acalmar ela. – Bom, talvez Gabriel não goste tanto assim, mas...
expressou uma careta descontente.
– Parece que você tem um arqui–inimigo.
O advogado deixou escapar um suspiro resignado, mas sua expressão estava impassível. era uma mulher frustrada. Queria que fosse mais aberto na questão sentimentos e que fosse fácil adivinhar quais eram os pensamentos dele, mas ele só tornava tudo mais difícil.
E ela nunca foi boa em adivinhar mesmo.
– Estamos chegando – ele anunciou, cortando o assunto.
Falar de Gabriel não era seu passatempo favorito, exceto se fosse para xingar. Seu primo o irritava de diversas maneiras.
– Tudo bem – ela se deu por vencida. – Me fale sobre você então.
– O que você quer saber?
Ela pensou um pouco. Desviou os olhos dele para olhar a estrada, que estava vazia. Como o vento estava começando a ficar gelado, ela fechou a janela ao seu lado.
– Qual é a sua cor favorita? – questionou.
levantou uma sobrancelha.
– É isso que você quer saber sobre mim? – caçoou.
– Você pode parar de responder uma pergunta com outra? – ela reclamou, revirando os olhos indiscretamente. – Não dá para fingir ser sua noiva se não sei nada sobre você.
– Não é verdade – ele retrucou, diminuindo a velocidade. – Você sabe que eu sou...
– Advogado não vale.
Ele deu de ombros.
– Preto.
– Uau – ela fez uma falsa cara de surpresa. – Estou chocada.
Claro que era preto. Eram só ternos daquela cor que ele vestia, duvidava que ele conhecesse outras cores.
– Qual sua pior memória? – continuou.
estacionou o carro no jardim de uma enorme fazenda. olhou através da janela, encontrando a maior casa que ela já tinha visto em toda a sua vida.
– Eu não sabia que chegamos nesse nível de intimidade – ele respondeu, um pouco incomodado.
– Perguntar sobre sua posição sexual favorita é menos invasiva? – a garçonete corrigiu.
Ele lançou um sorriso meio debochado na direção dela, saindo do carro em seguida. Ela balançou a cabeça, suspirando e seguiu o mesmo passo que ele. Era uma fazenda linda. Mas só havia carros estacionados ali, nenhuma pessoa à vista.
– Estão do outro lado – avisou, parecendo ler os pensamentos dela.
assentiu. Ela olhou para si mesma mais uma vez, verificando se o vestido azul turquesa não estava muito amassado. Era um vestido simples, mas muito bonito, de alças finas e justo na cintura. Uma bota de cano baixo acompanhava o look e ela tinha o cabelo amarrado em um rabo de cavalo alto. insistiu em vir de terno, mas , com um poder persuasivo mínimo – e um pouco de chantagem –, convenceu–o a vestir uma das roupas sociais que ele comprara no shopping. Ele parecia mais... casual. Leve. Sem o ar sério da profissão. Até os fios de cabelo pareciam despenteados.
– Vamos – ele chamou. – Depois eu pego as nossas coisas.
Ela concordou e seguiu–o. Havia duas formas de chegar até o outro lado da casa, mas escolheu entrar por dentro da casa, passar pelos cômodos sob o olhar avaliativo de e sair pela porta dos fundos da cozinha.
E, de fato, estava todo mundo ali. Havia churrasqueiras, mesas espalhadas e muitas pessoas conversando uma com a outra.
fez menção de seguir andando, mas foi mais rápida e o segurou pelo braço, fazendo–o parar de andar.
– Você é meio lerdo no quesito fingir relacionamento, não é? – ela sussurrou para ele.
franziu o cenho, mas suavizou a expressão em entendimento quando ela entrelaçou a sua mão à dele. sorriu, esbanjando sarcasmo.
! – uma voz feminina chamou.
Os dois pararam de se encarar e viraram–se ao mesmo tempo na direção da voz. Era uma mulher de meia idade, mas que parecia bastante jovem. Estava vestida com um vestido caro demais e os fios grisalhos estavam soltos.
– Ah, querido, você finalmente veio! – exclamou, aproximando–se dele e o abraçando.
O advogado retribuiu o abraço, sem soltar a mão de . Quando se separaram, a mulher pareceu notar ela.
– Oi, tia Laura – murmurou – Essa é a . Minha noiva.
– Oh! – tia Laura exclamou, surpresa e extasiada. – Venha aqui, querida.
sorriu e abraçou a mulher, que parecia receptiva e simpática demais. Era quase como abraçar a própria mãe.
Assim que se afastaram, a garçonete percebeu que eles eram o alvo de atenção.
– Aqui vamos nós – sussurrou ao seu lado.

Duas horas depois, estava anunciado que era a noiva de . Todos os parabenizaram, exceto um casal. A garçonete sentiu os olhares do casal a uma distância segura, enquanto ela estava na mesa de bebida, ansiosa por um copo de água depois de ter passado quase duas horas falando sem parar com o restante dos parentes de . Eles não pareciam ruins, mas faziam perguntas demais e ainda não tinha acabado. A mãe de e seu tio não estavam ali. Laura tinha dito que eles foram ao centro da cidade resolver algo que ela não tinha conhecimento.
Pegou um copo de água, bebericando todo o restante do gole, satisfeita por matar a sua sede. Em seguida, resolveu beber um copo de suco, só para ter com o que se ocupar, quando se materializou ao lado dela. – Como você consegue fugir melhor do que eu? – ele perguntou.
– Anos de prática – sua falsa noiva respondeu. – Não suporto minha família.
deu de ombros, enquanto balançava a cabeça. Ele também pegou um copo de suco de maçã e bebeu um gole.
– Então – ela começou a dizer, tomando mais um gole do suco de manga. – Aquele é o Gabriel?
olhou rapidamente na direção que ela apontou com a cabeça e encarou–a de volta.
– Sim. E aquela é a Laysa. Sua noiva.
– Parece que não somos os únicos com novidades por aqui, afinal – ela disse. – Quer me explicar por que estão me encarando tanto e o fato de você dizer que ele não ia gostar de mim?
O advogado passou os dedos pelos fios despenteados. Céus, ele ficava muito bonito naquela pose despojada, ela pensou.
– Ele é meu primo. Bom, não exatamente. Ele é o enteado do meu tio – ele começou a responder. – Também trabalha na empresa com meu tio. Como eu disse antes, meu tio preza a família mais do que o trabalho. Gabriel estava bastante avançado em relação a mim quanto a construir uma família e meu tio está suscetível a passar o comando da empresa para ele.
– Resumindo, isso é uma disputa? – perguntou. – E você quer vencer?
– Eu já te disse que não poderia ter encontrado uma noiva melhor? – sorriu.
– Isso mesmo, aumente meu ego – ela aprovou com um meio sorriso. – Ele está vindo para cá.
Pensando que ela estava fazendo alguma brincadeira de muito mau gosto, olhou para trás, apenas para constatar que a Garçonete estava mesmo falando a verdade. Ele soltou um xingamento baixinho e andou para o lado de , que piscou os olhos com diversão.
– Seja simpático – ela provocou.
olhou feio na direção dela.
– Eu não... – tentou responder, mas seu primo chegou perto. – Oi, Gabriel.
O murmúrio saiu com uma voz rouca, mas alimentou um sorriso que parecia simpático.
– Gabriel retribuiu o cumprimento, balançando a cabeça. – Acredito que fomos os únicos que você ainda não apresentou sua noiva.
– Na verdade, ele apresentou sim – se adiantou em responder. – Mas acho que vocês estavam ocupados demais fingindo que não me viam. De qualquer forma, eu sou a . , ao seu lado, reprimiu uma risada. Ele não imaginava que ela fosse dar uma resposta tão afiada e nem que fosse responder qualquer provocação de Gabriel, mas lá estava ela.
Layla apertou a mão estendida de com um sorriso afetado no rosto. A garçonete bebeu mais um gole do suco e deixou o copo em cima da mesa.
– Não foi a nossa intenção – Gabriel defendeu. – É que parece meio difícil engolir uma noiva tão de repente.
abriu a boca para responder, toda linha de sua expressão irritada. , ao lado dele, segurou seu braço com delicadeza.
– Não gosto de exposição – ela disse. – queria me exibir aos quatro ventos, mas... Não sou um troféu.
Gabriel pareceu afetado. Layla desmanchou o sorriso. Não era exatamente a intenção de sugerir que Gabriel preferia expor a noiva como uma conquista, mas eles não gostaram nenhum pouco das palavras dela.
– Cuidado com a língua, garota – Gabriel avisou. – Eu não acho que você conheça meu primo tão bem, se está com ele.
– E devo presumir que você conhece?
– Vou descobrir o que está errado, – Gabriel continuou. – Você se tornar o herdeiro principal não é uma opção.
– Gabriel – Layla chamou, em vão.
remexeu–se ao lado de , mas ela não soltou o braço dele. encarou Gabriel, a expressão irritada.
– Vá embora – murmurou, controlado.
– Gabriel, venha. Agora – Layla insistiu.
Gabriel suspirou. Olhou uma última vez para o casal e deu as costas, seguindo sua noiva.
soltou a respiração e se afastou de , suavizando a expressão.
– Eu o odiei – ela comentou.
riu amargamente.
– Você é mais uma na fila – o advogado disse.
Mas estava tenso. Sua testa estava franzida e ela percebeu que ele estava duas vezes mais irritado do que ela.
– chamou, ao ver ele se abaixar, colocando as mãos contra os joelhos. – , olhe para mim.
Ele olhou. Ela mordeu o próprio lábio e o fez erguer o corpo novamente, se aproximando dele o suficiente.
– Não vale a pena se deixar afetar por qualquer coisa dele – continuou.
balançou a cabeça, incomodado.
– Não posso mudar uma coisa de uma vida inteira – respondeu. – E se ele descobrir? Sobre... nós?
Ela sorriu, tentando tranquilizá–lo.
– Não vai – garantiu. – Porque somos muito bons.
Ela segurou o rosto dele com as mãos. Tendo plena consciência de que estavam sendo observados, ela beijou as bochechas dele com carinho.
Desejou que ele não pudesse compreender as batidas rápidas de seu coração por estar tão perto dele.
relaxou.
– Acho que você tem um dom – ele brincou.
– Bem – a garçonete disse. – Meu dom vai sumir quando eu conhecer a sua mãe.
Ele apertou o braço dela levemente, se divertindo. se afastou dele.
– Você também é bem exagerada – disse.
Ela deu de ombros, pegou o copo de suco de volta e andou, deixando–o para trás.

Parte 3

.
Ele virou–se a tempo de observar bocejar. Já estava no fim da tarde e a viagem que ambos fizeram foi um pouco cansativa. Ter deixado a garçonete socializar com a sua família o tempo todo, na tentativa de convencê–los de que eram noivos de verdade, tinha sido uma tarefa chata.
O advogado achou que fosse ser um pouco complicado demais, mas ele se surpreendera com o quanto ela deixava as coisas parecerem fáceis e leves.
– Eu adoraria esperar sua mãe e seu tio, mas estou implorando por uma cama – ela continuou.
Ele assentiu. Pediu que ela esperasse um pouco e foi atrás da tia Laura. não tinha ideia de onde sua mãe e seu tio se meteram, mas já fazia horas e ele realmente queria descansar um pouco também. Estar no meio de parentes, respondendo perguntas demais, era estressante para ele.
Avisando a sua tia que estava um pouco cansada, ele voltou até onde a garçonete estava, conduzindo–a ao segundo andar, entrando em um dos quartos de hóspedes, para onde as coisas deles tinham sido levadas.
olhou ao redor. Tinha certeza que aquele quarto era maior que seu apartamento inteiro. Havia uma porta que levava ao banheiro, um sofá pequeno de um lugar só, outra porta para o closet e... uma cama de casal.
– Se lembra do que eu disse? – ela apontou para a cama, olhando para . – Clichê.
arqueou uma sobrancelha.
– Você está se divertindo, não está?
– Talvez um pouco – ela sorriu.
andou até a cama, sentando–se na ponta dela. Ele cruzou os braços.
– Não vai reclamar de ter que dividir a cama comigo?
– Não – respondeu. – Porque isso também seria clichê. Venha, vamos descansar um pouco. É uma cama bastante espaçosa.
Ela se livrou dos sapatos e deitou–se na cama, encarando o teto. Alguns segundos depois, deitou–se ao lado dela. Ele deixou as mãos descansarem na barriga, o silêncio se instalando entre eles. chegou a pensar que tinha finalmente dormido, mas quando virou a cabeça para o lado, ela ainda tinha os olhos abertos e a expressão serena.
– Você tem família, não tem? – indagou, curioso.
Ela não falava de ninguém. Não que ele fosse mais aberto quanto àquela questão, mas tinha respondido às perguntas dela sobre sua família.
– Sim – ela respondeu depois de alguns segundos. – Não tão grande como a sua, mas sim.
– Você não fala muito sobre eles.
virou o rosto, encarando o dele. Estavam bastante próximos um do outro.
– Eu te conheço, literalmente, há uns dois dias – lembrou.
mordeu a parte interna da bochecha.
– Isso não é verdade.
piscou os olhos. Sempre achara que só ela se lembrava daquela noite, mas bem, não tinha significado nada, não é? Tinha sido só isso. Uma noite.
– Você lembra? – ela sussurrou.
– De cada detalhe, disse.
A garçonete balançou a cabeça, respirando fundo. Desviou os olhos dele, sentindo a ausência do brilho.
– Por que não me mandou embora?
– Eu finalmente tinha conseguido a sua atenção – ele respondeu. – Por que eu faria isso?
Ela soltou uma risada fraca e empurrou–o com o ombro levemente. Teria que ser uma idiota para acreditar em uma remota ideia de existir algo de verdade entre ambos.
– Você não é esse tipo de cara, – ela comentou, a voz bastante certa.
– Que tipo de cara? – ele indagou, confuso.
Ela virou o rosto mais uma vez, estudando a expressão do outro.
– O tipo que se apaixona.
O advogado abriu a boca para responder, mas nada saiu. Talvez ele realmente não fizesse o tipo que se apaixonava, mas não estava isento de acontecer. controlava tanto as próprias emoções que acreditou nas palavras dela.
– Não achei que você fizesse o tipo cética.
Ela riu gostosamente.
– Gosto de pensar que eu sou realista.
– Sua família? – ele insistiu.
não conseguiu evitar soltar um suspiro cansado. Ela encarou os olhos dele mais uma vez, e quando viu determinação em suas íris, deu–se por vencida.
– É só a minha mãe e meu sobrinho – ela contou. – O resto eu não me importo.
– E a mãe do seu sobrinho?
encarou o teto novamente. Sua mente vagou por lembranças distantes e ela queria muito mudar de assunto, mas continuou falando.
– Minha irmã – respondeu. – Eu tinha uma vida razoavelmente melhor do que tenho agora. Eu estudava e tinha um ótimo trabalho de meio período. Minha irmã costumava se meter em encrencas e eu costumava salvá–la. O tempo todo.
percebeu a mudança de voz dela. Estava embargada e ele se arrependeu de ter tocado no assunto, mas ela continuou falando mesmo assim, antes que ele pudesse impedir.
– Ela tinha um namorado que eu não gostava e minha mãe não aprovava, mas Treena não ouvia ninguém – continuou, controlando a voz. – Ela engravidou. O cara sumiu e ela morreu no parto. Então, larguei tudo para ajudar minha mãe com o Ben. Cá estou.
não tinha percebido que estava chorando e se assustou quando sentiu os dedos em suas bochechas, limpando suas lágrimas. Por um momento, ela ficou constrangida em estar chorando na frente de , mas quando ela o olhou, havia um brilho mínimo em seus olhos e ele deu um sorriso pequeno e fechado para ela, em consolo.
– Quantos anos o Ben tem agora? – ele questionou.
– Quatro.
– Ele tem sorte de ter você – disse, soando sincero.
tirou a mão do rosto dela.
– Ele me chama de "mamãe", às vezes – ela contou. – Não me acostumo.
ficou aliviado em ver que ela tinha se acalmado. Não havia mais lágrimas nos olhos dela e sua voz tinha voltado ao tom normal, mas ele fez uma nota mental de não tocar no assunto mais. Percebeu que não gostava de vê–la no estado que ela estava há minutos antes.
– Tenho certeza de que ele é um garoto incrível.
sorriu, fechando os olhos.
– Obrigada, .

Os dois acordaram no dia seguinte, logo depois do café da manhã. O restante da casa já tinha levantado mais cedo e ninguém quisera atrapalhar o descanso do casal, o que permitiu que eles dormissem mais do que o normal. foi o primeiro a abrir os olhos, se acostumando com a claridade que entrava do outro lado da janela. Ele sentiu um peso contra o seu peito e quando olhou para baixo, encontrou o rosto de apoiado em seu corpo, os pés dela entrelaçados com os seus. Estavam juntos bem no meio da cama e não se lembrava de como tinham chegado até aquela posição. Ele olhou para o relógio, verificando que passava um pouco mais do meio do dia e resmungou algo inaudível. Precisavam se levantar para compensar a perda do café da manhã e seria o almoço de aniversário da tia Laura. Ele se sentiria horrível em fazer mais uma desfeita e seu tio com certeza não iria gostar. Nem um pouco.
? – ele murmurou, mal percebendo que tinha usado o apelido dela.
tentou se mexer o mais delicadamente possível, acariciando o braço dela na tentativa de fazê–la acordar. Felizmente, ela não tinha o sono tão pesado e logo abriu os olhos.
– Hm? – ela resmungou.
Aos poucos, ela parecia mais desperta. Afastou-se imediatamente de quando percebeu que estava muito próxima dele. Levantou da cama coçando os olhos.
– Precisamos nos preparar para o almoço – avisou.
o encarou, a expressão completa de confusão. Quando verificou o relógio, percebeu que tinha dormido demais.
– Ah, que droga – murmurou. – Não acho que passamos uma boa impressão assim. Eu pareço com alguém que ficou a noite inteira transando?
se levantou, rindo.
– Não – ele respondeu. – Parece com alguém que hibernou.
– Nada mais do que a verdade – deu de ombros, andando até o banheiro.
A garçonete tomou um banho rápido, esfregando o rosto com as mãos. Não gostava muito de maquiagem, mas naquela manhã achou melhor colocar um pouco de pó e rímel, para disfarçar a cara amassada de sono. Escolheu um vestido de alça grossa, verde claro e leve, calçando um sapato de salto pequeno. Optou por deixar o cabelo preso em um rabo de cavalo, enquanto esperava se arrumar.
– Estou pronto – ele anunciou.
Ela parou de encarar o anel no dedo e ergueu os olhos na direção dele. Ele vestia uma calça jeans, sapatos e uma camisa social cor vinho que ela tinha escolhido para ele. O cabelo estava arrumado demais e ela fez uma careta desgostosa.
– O quê? – ele indagou. – Não está bom?
Ela não respondeu. Ao invés disso, se aproximou dele e levantou a mão em direção ao cabelo dele, bagunçando um pouco os fios.
– Muito melhor – disse.
se olhou no espelho.
– Eu pareço um...
– Cara extrovertido – ela interrompeu, completando a frase com as próprias palavras. bufou. – Vamos logo.
E logo estavam na sala principal. Ninguém estava almoçando ainda e descobriu que o almoço seria no jardim, devido ao número de pessoas presentes.
Ela segurou a mão de , deixando que ele a guiasse dentro da casa, cumprimentando algumas pessoas que conversaram no dia anterior.
– Ali estão eles – o advogado disse.
Os dois se aproximaram de três pessoas. só reconheceu a tia Laura.
– Mãe – chamou.
A mulher virou. Ela era muito bonita e elegante, o cabelo preso em um coque alto e uma maquiagem leve, os lábios marcados de rosa claro. Tinha os mesmos olhos de .
– Nós esperamos por vocês ontem – ele continuou, se referindo ao tio também. – Mas se cansou e nos retiramos. Mãe, tio, essa é a minha noiva.
Sem querer, ela apertou a mão de com a sua. Ele fez uma careta, mas não disse nada. estava tão confiante que a farsa daria certo, mas por um momento, duvidou que fosse conseguir enganar aqueles dois. Mas então, ela sorriu, estendeu a mão primeiro para a mãe dele e depois para tio em um cumprimento educado.
– É um prazer finalmente conhecer vocês – ela disse, afrouxando o aperto na mão do seu noivo.
– Nós não sabíamos da sua existência, menina – Sr. disse. – Eu quem estou lisonjeado de finalmente conhecê–la.
Ela deu uma risada nervosa.
– É, eu sou um pouco... discreta demais – ela completou.
Odiou a si mesma por não pensar em uma desculpa melhor, mas o tio não pareceu questionar. soltou a mão dela e se virou para a tia.
– Tia Laura – ele chamou, segurando as duas mãos da mais velha, beijando–lhes as palmas. – Feliz aniversário.
– Ah, querido – ela puxou uma mão, dando uma batidinha no rosto dele carinhosamente com um sorriso. – Obrigada. Venha, Elliot, vamos deixá–los a sós.
Sr. concordou, mas olhou para antes.
– Por favor, venha visitar a empresa essa semana – ele convidou. – Vai ser um prazer recebê–la e você pode conhecer o ambiente de trabalho do .
– É claro – disse, tossindo um pouco, disfarçando com um sorriso.
E observou Laura e ele ir embora, para o jardim, provavelmente para começarem o almoço. torceu por isso, pois estava morrendo de fome, já que tinha perdido o café da manhã.
Finalmente, a Sra. virou–se para eles.
– Então, querida – ela disse, encarando com um sorriso divertido. – Quanto o meu filho está te pagando?
A garçonete começou a tossir de surpresa. arregalou os olhos, mas começou a rir.
– Mãe! – repreendeu. Olhou para em seguida. – Eu me esqueci de te contar essa parte sobre ela.
A noiva o olhou feio.
– Caramba, – reclamou, após se recuperar da crise de tosse. – Podia ter me poupado do mico de enganar a sua mãe!
– Não foi de propósito! – defendeu–se. – Tudo bem, talvez um pouco.
Ela abriu a boca para dizer algo, mas a Sra. riu.
– O não ia noivar sem me contar – ela explicou. – Qualquer um aqui é ingênuo por acreditar nisso.
– Não me sinto melhor – murmurou.
– Deixe de besteira, venha – a mais velha puxou pelo braço, caminhando para o jardim. – Quem sabe você não acabe virando noiva de verdade...
Dessa vez, quem tossiu. sorriu, mas achava muito difícil o desejo da falsa sogra se tornar realidade.

O fim de semana passou tão rápido quanto chegou.
Quando a garçonete chegou em casa, o aviso de despejo tinha desaparecido e ela descobriu que tinha pagado os três meses atrasados de aluguel e adiantado mais três meses.
Era uma terça–feira fria e nublada, sem muita chuva e ela não tinha falado com desde que tinha voltado da viagem. Sentia vontade de bater na porta dele, mas ao mesmo tempo não queria ser inconveniente e invadir o espaço do advogado, então desistiu, se jogando contra o sofá. Ele deveria estar no trabalho ainda, a julgar pela hora. Por estar desempregada, estava com bastante tempo livre e sem ideia nenhuma do que fazer, além de ficar esparramada no sofá, colocando todas as séries atrasadas em dia.
Ela suspirou e pegou o celular, discando o primeiro número que ficava no topo da discagem rápida e esperou chamar. No terceiro toque, uma voz infantil atendeu.
Mamãe? – Ben chamou.
O coração da mulher disparou. Ela não conseguia se acostumar com Ben vendo–a como uma figura materna sem se sentir uma farsa, como se estivesse tomando o lugar da irmã. Mas ao mesmo tempo, não podia repreender uma criança por ser inocente. Ela gostava, apesar de tudo, de ouvi–lo chamá–la daquele jeito, esbanjando amor no tom de voz.
– Oi, leãozinho – ela respondeu com um sorriso no rosto, usando o apelido que tinha dado para ele quando o cabelo dele começou a cachear e formar uma pequena juba. – Como você sabia que era eu?
Vovó colocou sua foto – ele disse. – Estou com saudades, mamãe.
sentiu os olhos lacrimejarem, mas se recusou a chorar.
– Eu também estou – disse. – Muito. Demais. Você está ajudando a vovó, como me prometeu?
Sim. Estamos fazendo bolo de ‘cholate.
Ela riu.
– É chocolate, Ben – ela corrigiu com carinho. – Pode chamar a vovó?
Amo você, mamãe.
– Eu te amo mais, leãozinho – devolveu, limpando as lágrimas dos olhos. – Oi, mãe.
Do outro lado da linha, sua mãe espirrou. Disse alguma coisa para Ben e então voltou a atenção para a ligação.
, querida – sua voz passava a sensação de lar. – Como você está?
– Estou bem – respondeu. – Você recebeu?
Sim. A escola do Ben está paga e consegui me livrar das contas do mês. Você mandou a mais, então sobrou.
– Pode levar o Ben no shopping – sugeriu. – Acho que ele está muito tempo dentro de casa.
Claro – sua mãe concordou. a sentiu mudando de tom. – Querida, ele sente a sua falta. Quando vem para cá? Faz muito tempo, , talvez...
– Não consigo – ela cortou. Engoliu a seco, quase se arrependendo de ter feito a ligação, mas respirou fundo. – Vou visitá–los, eu prometo. Leve Ben ao shopping, sim? Não se preocupe em gastar. Eu vou mandar mais.
Elas continuaram conversando por mais alguns minutos, até desligar. A ex–garçonete deixou o celular de lado no sofá e esfregou o rosto com as mãos. Precisava ir visitar a mãe e Ben, sabia disso, mas ela não conseguia evitar adiar sempre. O lugar fazia ela se lembrar de coisas demais e ela não gostava.
Encarou o teto, sendo interrompida por um som de notificação de mensagem do celular. Quando pegou o aparelho de volta, viu uma mensagem de .

: Será que você poderia dar um pulinho aqui na empresa? Meu tio não para de me cobrar o seu convite. Por favor, venha.
: Hmm, o que será que eu ganho com isso?
: Minha companhia?
: Acredito não ser recompensa o suficiente ;)
: Você gosta mesmo de testar minhas habilidades. Um almoço, então.
: Me passe o endereço.


Ela encerrou a conversa quando ele mandou o endereço. Como já tinha tomado banho, passou no quarto apenas para trocar de roupa e ajeitar o cabelo. Optou por uma calça jeans justa e uma blusa de manga curta, deixando o cabelo solto. Passou rímel e um pouco de gloss nos lábios, colocando o endereço no aplicativo do Uber.
Em menos de trinta minutos, estava parada no enorme prédio da empresa. Ela engoliu a seco e guardou o celular no bolso da calça, já que não trouxera bolsa nenhuma. Era só uma visita informal para não fazer desfeita com o tio do falso noivo. A jovem adentrou o prédio, andando até a recepção.
– Oi! – cumprimentou a mulher do outro lado do balcão. – Você pode me dizer qual é o andar de ?
A mulher ergueu os olhos para .
– Tem hora marcada? – questionou.
– Hã... Não.
– Então sinto muito, não posso passar a informação – declarou.
– Eu entendo, mas... – puxou o ar, abrindo um sorriso falso. – Ele pediu que eu viesse aqui.
A recepcionista a encarou, com uma expressão de descrença. Tudo bem que não estava vestindo roupas de marcas e nem esbanjava luxo, mas aquilo não era motivo para ser olhada com desprezo. Sem esperar uma resposta, a jovem se afastou do balcão e puxou o celular, ligando para pela primeira vez. Ele atendeu no primeiro toque.
– Será que você pode descer e vir me buscar, por favor? – havia irritação contida na voz dela, mas não percebeu. – Você precisa contratar recepcionistas melhores.
– Oi – apareceu dois minutos depois. – Desculpe pelo inconveniente.
– Para alguém que é a sua noiva, não estou sendo tratada como tal – comentou, uma ponta de humor na voz.
Ele estendeu a mão para ela, que aceitou.
– Da próxima vez, amor, arranjarei tapetes vermelhos para você – ele entrou na brincadeira, guiando–a até um elevador.
– Isso me parece bom – brincou.
apertou o botão do vigésimo andar. Houve um silêncio entre os dois, enquanto o elevador subia. O advogado estava vestido com o terno de costume e os fios do seu cabelo estavam bastante comportados. Quando o elevador abriu, ambos saíram de mãos dadas, um hábito que ainda não tinha virado costume para a mulher.
– Meu tio está em reunião agora, mas deve acabar em alguns minutos – ele avisou. – Você pode esperar comigo em meu escritório. Quer conhecer a empresa?
Ela assentiu. Ele andou por um corredor largo demais e parou em frente a um balcão pequeno, onde uma mulher vestida elegantemente estava sentada atrás.
– Claire – chamou. – Quero te apresentar minha noiva. , essa é a Claire, minha secretária.
abriu um sorriso na direção dela, estendendo a mão muito formalmente, quando foi surpreendida por um abraço de Claire. Ela olhou para com surpresa, mas o advogado deu de ombros, como se aquilo fosse uma coisa comum na sua secretária.
– Isso foi inesperado – a ex–garçonete comentou, soltando um riso.
– Desculpe – Claire pediu, mas a outra descartou o pedido de desculpa com um aceno de cabeça. – Chefe, nunca duvidei do seu bom gosto.
Ele expressou uma careta convencida.
– A reunião do meu tio está acabando?
– Sim – Claire respondeu. – Mas ele deixou avisado que, se tratando da sua noiva, você pode invadir um pouco.
Claire fez um sinal de pouco com a mão, deixando um espaço pequeno entre o indicador e o polegar. assentiu e puxou com ele na direção da sala de reunião, logo no fim do corredor, mas parou quando ouviu duas vozes distintas. Quando pediu silêncio a e se aproximou das vozes, percebeu que era Gabriel e um estagiário conversando.
– ... não está muito em cima? – indagou o estagiário.
Claro que não, Steven – Gabriel respondeu e podia vê–lo revirando os olhos só pelo tom de voz. – Não vou deixar essa empresa ser comandada pelo . Eu e Layla vamos nos casar em duas semanas. Não se esqueça de mandar os convites e...
parou de ouvir e puxou para continuar andando. A jovem também tinha ouvido a conversa, mas não disse nada. travou a mandíbula, um sinal que estava muito irritado, mas continuou andando até a porta de reunião. Ele respirou fundo, tomando uma decisão muito precipitada, principalmente sem consultar , e adentrou a sala de reunião.
Seu tio estava em pé no centro da mesa e pelo menos dez pessoas estavam sentadas ao redor.
– Desculpe atrapalhar – lamentou. – Trouxe uma convidada. E uma novidade.
– Não se preocupe – Sr. tranquilizou–o. – Nós terminamos a reunião há dois minutos e estávamos discutindo informalmente a respeito do futuro da empresa. , seja bem–vinda. Senhores, essa é a noiva do meu sobrinho.
Houve uma troca de cumprimentos.
– Então, , qual é a novidade? – seu tio questionou, verdadeiramente interessado.
apertou a mão dele. Também não tinha ideia de qual era a novidade e estava curiosa para descobrir. Um sorriso frio pintou os lábios dele.
e eu conversamos e decidimos a data do casamento – ele anunciou. – Vai ser em uma semana. Vocês todos estão convidados.

– Você não pode fazer isso!
andava de um lado para o outro na sala do escritório de , agora sozinhos. A porta estava trancada e ela esbravejava em alto e bom som, xingando por ele ter pegado–a de surpresa ao anunciar a data do casamento tão de repente para todo mundo.
Bem, não todo mundo. Mas uma vez que a novidade tinha sido anunciada, ela tinha certeza que toda a empresa já sabia, inclusive Gabriel.
, se acalme – ele pediu, sentando–se na cadeira.
Ela parou de andar, lançando um olhar furioso para ele.
– Me acalmar, seu idiota? – questionou. – Você me disse que eu tinha algumas semanas e agora preciso me casar com você em menos de uma?
– Nós não temos tempo – ele tentou se defender.
– Eu não ligo, ! – exclamou. – Não dá para organizar um casamento em menos de uma semana, mesmo que o casamento em questão seja falso!
– Dá para falar baixo?
– Ninguém vai me ouvir – ela não parecia mesmo muito preocupada com aquilo no momento. – Quer me contar como você vai conseguir uma igreja com uma data disponível e um padre?
Ele entrelaçou as mãos em cima da mesa, soltando um suspiro baixo.
– Não vou conseguir uma igreja – admitiu. – Mas um padre, sim. Você se importa se o casamento for na fazenda?
Ela deu de ombros.
– Ótimo, então – ele continuou. – Acho que você deveria ir atrás do vestido de noiva.
– Vai ser a pior semana da minha vida – ela declarou, massageando as têmporas.
– Ora – ele disse, levantando da cadeira e andando até a porta. – Tenho certeza que você vai se divertir. Claire?
Ele abriu a porta e chamou por sua secretária, que apareceu no instante seguinte.
– Pode ajudar com os preparativos do casamento?
– a ex–garçonete repreendeu. – Esse não é o trabalho dela.
– Ela não se importa, não é, Claire? – ele sorriu para a secretária, recebendo um revirar de olhos de . – Tire a semana de folga.
Claire hesitou.
– Senhor, tem certeza?
– Tenho – respondeu, voltando para a mesa. – Agora vão preparar um casamento.

Parte 4

Foi a pior semana da vida de , como ela mesma tinha dito.
Os preparativos tinham sido a pior parte, mas Claire teve a ideia de contratar uma empresa para se responsabilizar por aquilo, então ela não precisou resolver tudo. Tinha dito suas opiniões sobre comidas e decorações, mas sinceramente não se importava muito. Nem era um casamento de verdade.
só se importou em encontrar um vestido. se preocupou em comprar um terno caro e as alianças de ouro. Ele tinha conseguido um padre e até sua mãe estava se divertindo, participando da preparação do casamento falso. Ela tinha alguma esperança guardada dentro de si e lamentava profundamente não alimentar aquela esperança. Infelizmente para ambas, estava fora do seu alcance.
Seu vestido era simples. Longo, de manga também longa, branco, sem cauda. A saia não tinha volume. Seu cabelo estava penteado em um coque alto, com uma tiara de pétalas brancas, combinando com o seu vestido de noiva. A maquiagem estava leve e ela se olhou no espelho pelo que parecia ser a milésima vez. Sentia-se linda e desejou que sua mãe estivesse ali, mas a ex–garçonete não ia suportar enganar a mãe com um relacionamento falso.
suspirou.
Conseguia ouvir vozes distintas do lado de fora. Tinha sido deixada sozinha há alguns minutos, mas antes de todo mundo ir, tinha pedido para Claire trazer uma tela em branco e tintas. A jovem se sentia nervosa, mais do que tudo. Não tinha encontrado ainda e ninguém deixava, mesmo ela dizendo que não se importava com a superstição boba de casamento onde o noivo não podia ver a noiva antes, ou dava azar. E ela sentia saudades de pintar. Não praticava a arte desde que sua irmã tinha partido.
piscou os olhos, mordendo a pele do polegar e se sentou em um banquinho de frente para a tela em branco. Ela precisava ir, a cerimônia já ia começar, mas não conseguia sair. Não conseguia pôr os pés do lado de fora e seguir adiante, então esqueceu o mundo lá fora e pegou o pincel, molhado de tinta, pronta para fazer seu primeiro rabisco, desde muito tempo.

estava uma pilha de nervos. Ele mexia o tempo todo na gravata, como se isso, de alguma forma, fosse acalmá–lo. O advogado não entendia porque estava tão nervoso. Se aquela era a sua reação em um casamento falso, será que desmaiaria em um de verdade?
Ele olhou ao redor. Todo mundo estava ali. Até Gabriel, com a maior carranca que ele já tinha visto, mas sequer se importou. estava ao lado do padre, esperando entrar, mas a cada minuto que passava, ela não aparecia. Ele temia que ela tivesse desistido, mas ao mesmo tempo acreditava que ela não faria aquilo sem avisá–lo. Sem conseguir aguentar nem mais um minuto, ele andou até Claire, na primeira fileira.
– Onde ela está?
– A deixamos no quarto, senhor – ela murmurou em resposta.
assentiu e voltou o caminho todo do jardim, até entrar na casa da fazenda. Ele subiu as escadas, deixando os convidados para trás, esperando. O advogado abriu a porta sem delicadeza alguma e entrou, fechando–a atrás de si. Ele encontrou sentada em um banco, com a tela preenchida por cores quentes. Quando se aproximou, percebeu que ela estava chorando.
? – sussurrou.
Parecia certo usar o apelido dela agora.
levantou o olhar para ele e não tentou esconder o choro. Ela soltou o pincel ao lado das tintas e se levantou do banco, limpando as lágrimas, mas só sujou o rosto de tinta vermelha.
– Eu sei que não é um casamento de verdade, mas eu queria que ela estivesse aqui – desabafou. – Ela diria que eu sou louca por fazer isso.
Uma risada fraca e rouca ecoou dos lábios dela. sabia que ela não precisava explicar mais do que aquilo, porque sabia que ela estava falando da irmã falecida.
Ele tentou fazer com que ela convidasse sua mãe e Ben, mas não quis. E ele não insistiu mais.
– Sinto muito, – ele murmurou, de verdade. – Se você sentir que não pode fazer isso, eu...
, está tudo bem – ela garantiu. – Eu só precisava de um tempo. Atrasei a cerimônia?
Ele assentiu, um misto de careta e sorriso. Em seguida, apontou com a cabeça para o quadro. Havia duas crianças juntas e uma nuvem incompleta.
– Eu não sabia que você pintava.
– É – ela deu de ombros, engolindo o choro. – Isso me ajudava na faculdade de arquitetura.
O advogado aproximou–se dela. Sem dizer nada, abraçou–a. sentiu lágrimas solitárias descerem por suas bochechas e parou de chorar para não borrar tanto a maquiagem. Ficaram abraçados por longos segundos, quando ela se afastou.
– Obrigada – murmurou.
Ela tentou limpar as lágrimas, mas suas mãos ainda estavam sujas de tintas e riu.
– Você está fazendo uma arte e tanto – comentou, usando o próprio polegar para limpar a sujeira do rosto dela.
Houve uma súbita consciência de que eles estavam próximos demais. A respiração de falhou e os batimentos cardíacos de estavam acelerados.
– Eu quis te beijar naquela noite – ele confessou, em um sussurro. – Eu quis muito.
Ela não esperava se sentir tão afetada com a confissão.
– Eu quero muito te beijar agora – foi a vez dela confessar, alternando o olhar entre os olhos dele e os lábios. – Não um beijo falso. Um... verdadeiro.
não esperou nem mais um segundo. O advogado a puxou pela cintura e juntou seus lábios aos dela, iniciando um beijo calmo. Era a primeira vez que faziam isso e aproveitou a sensação de formigamento que causou nela quando explorou o lábio dele com o seu. Ela abriu um pouco a boca, intensificando o beijo que tinha começado. Os dois pareciam ter urgência naquilo, mas não apressaram a necessidade de explorar os lábios um do outro, de tocarem as línguas, de sentir o gosto. Era um beijo que se encaixava perfeitamente e percebeu, tarde demais, que se tornaria um vício.
Os dois se afastaram assustados com alguém batendo à porta.
A mãe de estava do outro lado, exclamando palavras que nenhum deles compreendia, mas entenderam o suficiente para saber que ela estava apressando a cerimônia.
terminou de limpar o rosto de e sorriu para ela.
Ela segurou na mão dele e apontou para a porta.
– Vamos tornar você um herdeiro.


algumas semanas depois

Não tinha sido necessário, mas eles tiveram uma lua de mel.
Sr. fizera questão de pagar duas passagens para o Havaí, a mãe de comprou duas para Paris também e eles visitaram a mãe e o sobrinho de . Ela o apresentou como amigo e Ben tinha ficado tão feliz com a presença dela que não se importou em demorar mais um pouco na cidade.
Eles aproveitaram as viagens de lua de mel como amigos. Bem... dois amigos que se beijavam às vezes, mas nunca passava disso. Dormiam no mesmo quarto, mas em camas separadas.
não tinha achado ruim fingir que estavam em lua de mel também. Bem que estava precisando de férias mesmo e aquelas vieram a calhar. dizia o tempo todo que quando eles voltassem, ela receberia a sua parte e ele entraria com o pedido de divórcio logo depois, já que não havia sentido em continuarem casados. Ele só precisava receber os documentos da empresa antes.
E era exatamente o que ele estava fazendo agora.
Era o último dia do seu tio na empresa. Sr. fizera a última reunião para comunicar as suas decisões e para passar o comando para o sobrinho – Gabriel não gostara nada daquilo e estava planejando mudar de empresa o mais rápido possível.
– Como está a sua esposa? – Sr. questionou, sentado de frente para , que estava do outro lado da mesa, como de costume.
– Bem – respondeu, ainda desacostumado com o "esposa".
Não era exatamente mentira. tinha voltado para seu apartamento e para o dele, exatamente como eles estavam antes de tudo acontecer. Não moravam juntos. Ele não sabia o que ela estava fazendo. Havia duas noites que não a via.
– chamou. – Estou orgulhoso de você.
O mais novo remexeu–se desconfortável na cadeira. Sentia–se péssimo por ter planejado toda aquela farsa e enganado o tio, mas não havia outra alternativa.
– Obrigado, tio.
Sr. assentiu. Tirou a pasta do colo e entregou ao sobrinho, que prontamente aceitou. Quando abriu a pasta, encontrou os documentos que passavam o comando da empresa para o seu nome e a aposentadoria do tio.
– Isso é...
– Sim – o tio completou. – Só precisa da sua assinatura e está feito.
exalou orgulho. Apesar de não ter conseguido aquilo honestamente, tinha conseguido de alguma forma, afinal. Ele sorriu, um sorriso lento e verdadeiro e seus pensamentos voaram até . Ele queria compartilhar a novidade com ela, queria contar que tinha conseguido, queria ouvi–la rir, queria... Céus. Queria estar com ela. Da maneira mais verdadeira possível, queria estar com .
O advogado se assustou com a intensidade do pensamento. Estava fazendo tudo errado.
Ela mesma tinha dito que ele não era o tipo de cara que se apaixonava e ele acreditava fielmente naquilo. Seu único foco era a empresa e a carreira, não tinha espaço para o amor. O amor não era nada para ele, não como a empresa e a carreira eram. O amor não tinha sido suficiente para fazer seu pai ficar, o que garantia que seria uma coisa boa entre ele e ?
odiaria sair machucado daquilo.
Pegando uma caneta, ele assinou os documentos. Agilizou as coisas o mais rápido que conseguiu com o tio e pediu que resolvesse o restante depois, pois precisava resolver outra coisa mais urgente. Abrindo a gaveta, pegou uma pasta de documentos e saiu da empresa, dirigindo até o seu apartamento, mas ele não entrou em casa.
Seu foco era o apartamento vizinho.
Criando coragem, bateu na porta.
abriu logo em seguida, com um sorriso no rosto e ele sentiu seu coração se despedaçar pelo que estava prestes a fazer. Recusava-se a estar apaixonado.
– Oi, posso entrar? – pediu, sentindo a garganta arranhar.
– Claro! – ela deu espaço para que ele entrasse e fechou a porta logo depois.
A ex–garçonete desfez o sorriso quando percebeu que ele estava tenso e a expressão do rosto estava fechada.
– Está tudo bem? – indagou, preocupada.
– Sim – ele assentiu. – Meu tio me passou o comando da empresa hoje. Acabei de assinar os documentos.
– Isso é ótimo, – ela soou sincera. – Fico feliz que tenha conseguido.
– É, não teria acontecido sem você – completou o advogado, dando um sorriso amargo. – , eu... Quero terminar. O que quer que tenhamos, quero terminar. Não podemos mais nos ver.
A jovem franziu o cenho, confusa. Soltou o ar pela boca, processando as palavras dele, mas cada vez que pensava, menos sentido fazia. Ela sabia que precisaria assinar o divórcio e acabar com aquela farsa do casamento, mas... Por que estava dispensando–a?
– Eu fiz alguma coisa? – indagou, mordendo o lábio inferior.
– Não.
– Bem, então... o que está acontecendo? – insistiu. – Achei que tínhamos algo, que podíamos ser amigos.
sentia como se tivesse algo escorregando por seus dedos e não houvesse nada que pudesse fazer para impedir de acontecer. Ela simplesmente era obrigada a assistir.
– Você estava errada e eu sinto muito ter alimentado uma ilusão – a voz dele quase falhou. sentia–se péssimo por fazer aquilo, mas ele não podia lidar. – Nós não somos amigos. Não podemos ter nada.
Ela o olhava como se ele fosse um estranho.
, se isso é por causa do seu pai... – ela tentou se aproximar dele, mas percebeu que era um erro. – O que ele fez não significa que você não mereça o amor.
Ele lançou um olhar irritado e estendeu uma pasta para ela. Os papéis do divórcio.
Toda farsa não tinha um fim?
– Assine a papelada – foi tudo o que ele disse, quando ela aceitou a pasta.
O advogado deu as costas para ela, indo em direção à porta.
– ela chamou, a voz baixa. – Eu poderia ter amado você.
Ele parou a mão na maçaneta, o coração despedaçado. O que disse a seguir fez ele se odiar por muito tempo depois.
– Não posso dizer o mesmo.

No dia seguinte, juntou as suas coisas.
Sem emprego, não havia mais nada que pudesse mantê–la ali. Com o dinheiro que ganhou da farsa de , ela podia ajudar a mãe e o sobrinho e se sustentar por um tempo, enquanto voltava a estudar. Pelo menos a faculdade ficava mais perto de casa e ela poderia aproveitar mais momentos com Ben, sem que ele reclamasse tanto da sua ausência.
Um suspiro escapou dos seus lábios. Fechou a última mala e chamou um uber, verificando que ele chegaria em quinze minutos para levá–la até o aeroporto.
Enquanto isso, pegou a pasta com a papelada do divórcio, sentindo seu coração apertado dentro de si. As coisas poderiam ter acabado de maneiras melhores, mas tinha escolhido a pior. Ela respirou fundo mais uma vez e abriu a porta do apartamento, andando até a porta de . Ela não bateu. Não chamou por ele e nem foi entrando como uma intrusa, como tinha feito tantas vezes.
Ela simplesmente encarou a porta fechada e a pasta na mão. Tinha assinado os papéis no mesmo momento em que ele saíra da sua casa no dia anterior.
Ela não tinha motivo nenhum para ficar ali mais, mas pensou que poderia ter tido. Fosse qual fosse o motivo por ele ter agido de maneira mais babaca possível, ela não estava mais interessada.
Abaixando–se o suficiente, ela deslizou a pasta por debaixo da porta dele.
E foi embora logo em seguida.

Epílogo

Algum tempo depois

.
bocejou. Ela olhou rapidamente todas as folhas espalhadas por sua cama. Ainda era de manhã cedo, mas por ter ficado a noite inteira estudando, não tinha dormido mais do que duas horas e sentia seu corpo inteiro pesado naquele momento. O período de provas estava matando–a, mas ela prometeu ir para casa no final de semana se terminasse todos os compromissos e odiava quebrar as promessas de Ben.
!
Uma bolinha de papel atingiu o rosto de e ela resmungou, olhando na direção da colega de quarto.
– Que droga, Aisha – resmungou.
– Estou te chamando há cinco minutos – Aisha reclamou. – Preciso de técnicas infalíveis para chamar a sua atenção, tipo jogar bolinha de papel.
afastou todas as folhas de estudo de seu colo, deixando–as de um lado da cama para não correr o risco de perder. Ela ainda precisava estudar mais.
– Meu sistema está lento – a estudante reclamou. – Por que você não está com o Daniel?
– Jogo de futebol – Aisha respondeu, dando de ombros. – É quase meio dia, podemos almoçar juntas?
procurou o relógio e quando viu que o ponteiro realmente estava apontando para o meio dia, bufou. Queria ter dormido a manhã inteira e não se enfiado em estudo e mais estudos de cálculos que ela odiava.
– Depende – disse, encarando a colega de quarto. – Qual é o assunto do dia?
Era uma coisa que Aisha gostava de fazer. Todo dia ela categorizava um tema para ser o assunto do dia inteiro. Não importava sobre o que falasse, desde que tivesse relação com o assunto, tudo era válido: filmes, séries, livros, jornais...
Aisha fingiu pensar, enquanto se levantava, arrumando os fios soltos do cabelo.
– Eu estava pensando em "reencontro" ou "amor não correspondido" – Aisha disse.
fez uma careta desgostosa na direção da colega.
– Não gosto de nenhum dos dois – apontou.
– Não me importo – Aisha deu de ombros. – No caminho até o restaurante, com certeza eu decido o tema.
– O tema pode ser silêncio?
– Por que você está tão rabugenta hoje? – Aisha reclamou, assistindo a outra trocar de roupa.
Aisha também levantou. Como já estava pronta, só pegou sua bolsa.
– Eu estou cansada – respondeu, defendendo–se.
A estudante vestiu um moletom por cima da camisa e pegou o celular e o dinheiro, guardando ambas as coisas no bolso da calça. Ela seguiu Aisha pelo corredor preguiçosamente, seu corpo inteiro implorando pela cama, do mesmo modo que a barriga estava reclamando por comida.
– Isso que dá ficar a noite inteira com a cabeça enfiada nos livros – Aisha observou.
empurrou–a com o ombro, levemente.
– Você devia fazer o mesmo, sua preguiçosa – comentou. – Talvez saísse do B para um A.
– Estou satisfeita, muito obrigada.
balançou a cabeça, sorrindo. Tinha dado sorte de ter pegado Aisha como colega de quarto. A maioria das meninas do curso era nova demais. estava recomeçando no curso alguns anos mais velha do que as outras e não tinha mais a mínima paciência de bagunça adolescentes pelo campus. Aisha tinha quase a sua idade.
As duas seguiram o fluxo de corredores até a saída, enquanto Aisha ainda tentava decidir qual seria o tema do dia. parou de prestar atenção e quase tropeçou nos degraus das escadas, se não tivesse segurado no braço da colega de quarto.
– Além de rabugenta, você também está desatenta? – Aisha implicou.
Mas não estava ouvindo. Seus olhos estavam fixos em alguém no fim da escada. Aisha, percebendo o estado da amiga, balançou a mão no ar, em frente ao rosto dela. não se moveu.
?
Ela começou a descer as escadas lentamente. Aisha ficou confusa, mas não impediu.
No fim das escadas que levava ao campus, estava , coberto de roupas de inverno, as bochechas coradas e os braços cruzados. Ele encarava com incerteza, mas um sorriso de canto estava desenhado no seu rosto.
– O que você está fazendo aqui? – ela questionou, com rispidez.
De repente, não estava com vontade de ser tão simpática mais. Ele tinha praticamente a expulsado da sua vida, dito que eles não podiam ser nada. Nada.
– Eu... vim implorar o seu perdão.
Ok. Aquilo era uma surpresa.
– Percebeu que a sua vida anda um pouco vazia sem mim? – ironizou.
– Talvez – ele sorriu minimamente. – , por favor, me perdoe. Eu posso explicar o que aconteceu.
– Estou ouvindo.
– Eu fiquei com medo – começou, confessando. – Sou um idiota e fiquei com medo. Você tinha razão quanto ao meu pai e eu não achava que fosse merecedor de um amor, muito menos do seu. Eu me apaixonei por você e me deixei levar por sentimentos negativos, quando eu deveria ter pedido que você me amasse. Que você... ficasse.
Ela engoliu a seco. Sua respiração também estava meio falha.
Não tinha esperado, nem sequer uma vez, que ele voltasse. Que ele estivesse ali, qualquer dia, por qualquer que fosse o motivo. tinha se conformado.
– Por que você voltou?
respirou fundo.
– Depois que você foi embora, um tempo depois, meu tio percebeu que tinha algo errado. Então contei toda a verdade – continuou, expressando uma careta descontente ao acessar uma lembrança – Ele não gostou nem um pouco, mas me surpreendeu quando disse que eu deveria te reconquistar. Ele disse que nunca me viu amar alguém como... Perdoe-me.
– O que você quer que eu faça agora? – a pergunta saiu em um sussurro, a voz quase cortante e não era devido ao frio.
descruzou os braços e abriu o sorriso mais lindo que já viu.
– Eu quero que você me mostre amor, .

There's a fire inside of me
(tem um fogo dentro de mim)
It means I'll fight for the things that are worth it
(Significa que eu vou lutar pelas coisas que valem a pena)
For a minute I thought the world was ours
(Por um minuto eu pensei que o mundo era nosso)
All you had to do was show me love
(Tudo o que você tinha que fazer era me mostrar amor)


FIM.



Nota da autora: Eu AMEI escrever esse ficstape! Talvez ele não tenha ficado exatamente como eu planejei e gostaria, mas fiz o possível. Infelizmente, estava passando por uma fase ruim que acabou me afetando na escrita, mas esse casal me salvou um pouco e espero que tenham gostado também. Fiquem de olho que talvez eu esteja planejando entregar mais dois ficstapes com eles, hein... Um contando da tal noite e outro depois do prólogo. Obrigada pela leitura e até a próxima!



Outras Fanfics:
In Dark [Criminal Minds - Em andamento]
Operação Bebê [Originais - Em andamento]
05. Break Free [Ficstape Perdidos #2 - Originais]
07. Since We're Alone [Ficstape Perdidos #3 - Originais]

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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