Finalizada em: 05/04/2022

Capítulo Único

De todos os verões que tive nos meus dezenove anos de vida, o verão de 2010 foi, de longe, o mais significativo para mim. Não diria que foi o pior, tampouco o melhor, ele foi… um divisor de águas, podemos dizer assim. Foi o verão que tudo mudou, o verão que finalmente iria me declarar para a garota que eu amava há… Bom, para ser sincero, eu não fazia ideia.
Acho que eu amo Jenkins desde o momento em que a conheci, aos 5 anos de idade. Na verdade, a gente se conheceu antes disso, mas minha primeira memória da foi aos cinco anos, ela tinha quatro, e estávamos correndo pelo jardim na frente da casa da minha família em Malibu, a pequena parte de grama entre a escada do deck e a praia.
corria animada, com os braços abertos, imitando um avião ‒ essa era a brincadeira, nós dois éramos aviões e imitávamos a voz do piloto enquanto corríamos um ao lado do outro, tomando cuidado para os “aviões” não se baterem – e com os cabelos presos em duas “maria-chiquinhas” e seu macacão jeans já estava todo sujo de terra. Em um momento de distração, tropeçou nos próprios pés e seus joelhos foram de encontro ao chão, e seu riso se tornou um choro alto e escandaloso. Eu lembro de entrar em choque e não saber o que fazer. Na minha cabeça, naquele momento, poderia morrer de tanto sangrar.
Nossas mães vieram correndo para ver o que aconteceu e cuidaram de . Ela só teve alguns arranhões bem leves, mas depois daquele dia, prometi a mim mesmo que nunca mais deixaria se machucar.
Para fazê-la rir de novo, eu disse que ela havia voado tão alto quando tropeçou, que parecia o próprio cometa . Era um exagero, é claro. Seus pés nem haviam saído do chão. Mas gargalhou tão alto que a impressão era de que aquela era a verdade mais absoluta que alguém já havia dito em todos os tempos. Desde então, eu a chamo de “cometa ”. O meu cometa .
e sua mãe, a Sra. Jenkins (Debora para os conhecidos, Debby para os mais íntimos, Sra. Jenkins para mim, que a respeitava mais que tudo), moravam em São Francisco, mas iam para nossa casa todo verão desde antes de nascermos. Nossos pais eram melhores amigos no ensino médio, e mesmo depois de o pai dela, o Sr. Jenkins (Thomas para os conhecidos, Tom para os íntimos e Sr. Jenkins para mim, que o respeito até hoje) falecer e a minha mãe, Grace, se separar do meu pai, elas continuaram vindo nos visitar. Além do fato de ser a única época do ano em que eu tinha certeza de que iria ver , meu pai e a Sra. Jenkins descobriram, no verão passado, que estavam apaixonados, o que apenas confirmava que elas não deixariam de ir para Malibu tão cedo. Os dois passaram o ano inteiro conversando, fazendo vários planos, tanto quanto eu e . Porém, nossas conversas eram mais… apropriadas, digamos assim, para dois amigos de infância. Falávamos da escola (dela, não minha, pois já me livrei dessa fase há alguns anos), das provas e da faculdade que ela entraria nesse ano. Falávamos de trabalho e o que iríamos fazer no verão seguinte, e quando ela chegava, nós já tínhamos uma lista enorme de afazeres, e nunca conseguimos chegar ao fim dela.

, você está com a cabeça nas nuvens de novo.

Desviei os olhos da tela do celular para encarar meu pai. Dei um sorriso amarelo para ele e pedi desculpas, guardando o aparelho do bolso da bermuda. Joel Woods não era um homem bravo, longe disso. Meu pai era um homem doce e carinhoso, mas quando ele ativava o modo chefe do quiosque, ficava um pouco mais rigoroso.

ainda não chegou e não responde minhas mensagens — falei, voltando a abastecer os confeitos. — Será que aconteceu alguma coisa?
— No máximo elas devem estar presas no trânsito, filho — ele respondeu, apertando meu ombro em consolo. — Sabe como é em viagens, ela deve ter pego no sono.

Tentei dar um sorriso mais convincente. Falhei. Meu pai balançou a cabeça e riu.

— Por que não sai mais cedo hoje e vai surfar? — ele sugeriu, e isso realmente fez eu me animar um pouco. — Vai fazer o tempo passar mais rápido.
— Ei! — Minha irmã mais nova, Lucy, apareceu de repente ao lado do meu pai e cruzou os braços, emburrada. Em momentos assim, eu esquecia que ela já tinha seus 15 anos, pois parecia ter muito menos. — Isso não é justo! Também estou ansiosa para ver a , posso sair mais cedo?

Eu e meu pai rimos e ele bagunçou os cabelos dela. Se aproximando da garota, ele sussurrou:

— Seu irmão está apaixonado, o caso dele é mais grave — brincou, o que me fez ficar vermelho de vergonha. Já Lucy odiou a resposta, me mostrou a língua e começou a fazer o trabalho que eu estava fazendo.

Tirei meu avental e joguei para o meu pai, correndo para fora do nosso quiosque. Gostaria de dizer que a ’s Place leva esse nome em minha homenagem, mas na verdade a homenagem é para o meu avô, que também se chamava e era o dono do quiosque antes de passar para o meu pai e, claro, um dia o estabelecimento seria meu. Mas eu não o queria.
Não que eu fosse ingrato, mas não queria passar o resto da minha vida trabalhando em uma sorveteria. Eu adorava o lugar, não me entenda mal. Durante o verão, o lugar ficava muito cheio, e mesmo em baixa temporada, a fama do quiosque e dos deliciosos sorvetes e picolés da minha família nos fazia ter uma vida boa. Mas eu tinha meus sonhos, tinha ambições diferentes das que meu pai queria para mim. A sorveteria era algo temporário na minha vida.
O surfe era a minha verdadeira paixão. Então não questionei duas vezes quando meu pai disse para eu surfar e ele sabia que eu não iria recusar, apesar de encarar o esporte apenas como meu hobby. Eu não discutia com ele, porque sabia que quando eu estava em minha prancha, sendo lavado pela água salgada, sentindo o cheiro da maresia enquanto manobrava nas ondas… Aquilo sim era o que eu queria fazer pelo resto da minha vida, de preferência com meu cometa ao meu lado.
era quem mais me apoiava nesse quesito. Foi ela quem, há 5 verões atrás, me inscreveu na minha primeira competição de surfe. Há dois anos, depois de trabalhar o verão inteiro no nosso quiosque, me deu uma prancha nova pois achava a minha feia e velha. Eu surfei minha vida toda, mas com pranchas pequenas e comuns. Minha primeira prancha profissional foi de segunda mão, então tinha toda a razão em dizer que era velha, pois de fato, ela era.
Foi a prancha de que peguei para surfar naquela tarde. O simples fato da minha melhor amiga me presentear com uma prancha nova em folha foi o que me fez ter mais certeza ainda de que a amava. Mas eu tinha quinze e ela catorze, e aquilo parecia ser absurdo demais para mim. Afinal, era minha melhor amiga, crescemos juntos, éramos como irmãos. Tentei me convencer de que eu estava confundindo as coisas, de que logo não sentiria mais nada por ela. E realmente, quando ia embora, dava algumas semanas e eu já não estava mais sob os efeitos que ela causava em mim. Contudo, eu passava o ano inteiro sentindo falta dela e quando finalmente o verão seguinte chegava, a paixão também voltava, cada vez mais forte. Parei de lutar contra, apenas aceitei, mas me dei um prazo para contar a ela. O prazo se encerrava no verão de 2010.
O dia estava muito bom em relação às ondas. O vento estava a meu favor, mas depois de horas no trabalho, meu corpo implorou por um descanso após quatro ondas.
Me sentei na prancha, uma perna de cada lado, e deixei o balanço da água me relaxar. Estreitando os olhos, observei com certa dificuldade a praia quase vazia. No meio da areia, com os cabelos voando por conta do vento, uma garota balançava o braço e acenava na minha direção, ao mesmo tempo que cobria os olhos com a mão, igualmente incomodada com o sol. Eu não precisava estar perto para saber quem era, meu cometa era único.
Deitei na prancha e dei braçadas rápidas até a parte rasa. Pulei da prancha e sai correndo com ela embaixo dos braços. Ao pisar na areia, a larguei de qualquer jeito e corri até , abraçando-a e girando-a no ar. Meu sorriso ia de orelha a orelha e gargalhava em meus braços, segurando-se firme em meus ombros para não cair. Quando a deixei no chão, ambos estávamos sem fôlego, mas minha vontade era puxá-la para mais um abraço.
observou suas roupas molhadas e fez uma careta.

— Um segundo ao seu lado e já estou coberta de água salgada e areia.
— E tem coisa melhor? — brinquei, entrelaçando nossas mãos. Ela negou, ainda sorrindo para mim. — Como foi a viagem?

deu de ombros, seu sorriso era travesso quando ela disse:

— Dormi o tempo todo.

Aquela era a garota por quem eu era apaixonado.
Antes de irmos para casa, nos sentamos na prancha e ficamos observando o mar enquanto conversávamos sobre tudo. era a tagarela, parecia querer compensar em minutos o ano inteiro sem poder falar pessoalmente. E eu amava ouvir.
Ela ainda não havia parado de falar quando peguei minha prancha, segurei sua mão e a conduzi de volta para minha casa. A Land Rover verde que eu tanto invejava da Sra. Jenkins estava estacionada perfeitamente ao lado da minivan do meu pai. Deixei a prancha na garagem e subimos juntos até o deck. Meu pai odiava areia dentro de casa, então tínhamos sempre que lavar os pés na torneira do lado de fora. Nesses momentos, eu me sentia o criança, limpando a areia depois de um dia inteiro na praia com e nossas famílias. Nossa família. Era ridículo não nos considerar uma só família.

, querido! — A Sra. Jenkins me recepcionou de braços abertos, e eu a abracei e a levantei como fiz com sua filha (só não a girei, é claro). — Céus, você e Lucy crescem mais a cada ano!
— Comem mais também — meu pai resmungou, se aproximando por trás. Ele lançou um olhar receoso para e decidiu não passar seu braço pelos ombros da Sra. Jenkins, mesmo que já estivesse no meio do caminho.

Me senti aliviado por não ter falado nada sobre nossos pais para , pois como eu suspeitava, ela ainda não sabia de nada. Entre nós dois, ela era a que menos aceitava o fato de sua mãe seguir em frente. Eu entendia o receio da Sra. Jenkins e não a julgava, mas senti pena do meu pai. Eu também o entendia, era insuportável não poder tocar a mulher que amava da forma como queria.

— E você está cada ano mais bonita, Sra. Jenkins.
— Pelo amor de Deus, já te mandei me chamar de Debby! — a mulher retrucou, indo para a cozinha e sendo seguida por todos nós. Debora na cozinha era um grande evento, então sempre nos reunimos em volta da ilha para observá-la fazer sua arte.
— Ele não pode evitar ser um grandíssimo cavaleiro — comentou, me lançando uma piscadela. Ignorei a arritmia em meu peito e mostrei a língua, fazendo-a rir.
!? Sra. Jenkins? — Ouvi minha irmã exclamar à distância.

Lucy desceu em disparada pela escada, levando uma bronca do meu pai. Isso não a impediu de continuar correndo até chegar em , lhe dando um abraço apertado e quase a derrubando para trás. Se eu não saísse da frente, eu seria o derrubado.
Sorri ao ver aquela cena. Duas das mulheres mais importantes da minha vida se adoravam e eu não podia ficar mais satisfeito com isso.
A Sra. Jenkins, ou melhor, Debora preparou macarrão ao molho à bolonhesa com almôndegas, a comida favorita do meu pai. Ele tinha um sorriso satisfeito no rosto e eu entendia perfeitamente o motivo, eu me sentia igual.
Antes de dormir, assistimos a um filme antigo que fez Lucy pegar no sono em questão de segundos. Eu fiquei responsável por levá-la para o quarto, carregando-a no colo, e assim eu confirmei o que a Sra. Jenkins falou mais cedo sobre estarmos crescendo. Cheguei ao final da escada sem fôlego algum.
me acompanhou e ajudou a acomodar Lucy na cama. Quando fechamos a porta com todo o cuidado, nós nos despedimos e ela se dirigiu para o quarto de hóspedes e eu para o meu, que ficava ao lado. Antes de entrar, porém, achei que havia reunido coragem o suficiente para dizer o que passei o último ano (ou os últimos, para ser bem sincero) ensaiando.

— chamei aos sussurros. Ela havia dado um passo para dentro do quarto, mas recuou imediatamente quando a chamei.

Congelei no mesmo segundo. Eu estava tranquilo com essa questão, não pensei que ficaria tão nervoso ao ponto de as palmas das minhas mãos começarem a suar e eu não saber o que dizer. Abri a boca diversas vezes, mas a coragem já havia deixado meu corpo há muito tempo. Por fim, eu apontei para a escada quando ouvi meu pai e Débora rindo juntos.

— É legal eles se darem tão bem, não é? — falei desconcertado.

deu de ombros.

— É, acho que sim. Não tem como ser diferente, eles são amigos desde sempre, igual a gente — ela sorriu e batucou os dedos no batente da porta. — Boa noite, Dy.
— Boa noite, .

Meus ombros despencaram depois que ela já havia fechado a porta. Medroso de merda, pensei ao me olhar no espelho.

🌊💫


Na manhã seguinte, acordei cedo como todos os dias para trabalhar, e pensei que seria o primeiro a acordar. Pude ouvir quando meu pai e a Sra. Jenkins subiram e eu sabia que ele não conseguiria acordar tão cedo, então eu teria que abrir o quiosque.
Mas, para minha surpresa, já estava de pé, comendo cereal de chocolate (seu favorito, fiz questão de comprar antes de ela chegar) na bancada que separava a cozinha da sala. Aquela garota não ficava feia mesmo sem maquiagem e com a cara inchada, resultado de uma noite muito bem dormida, como indicava o sorriso fácil e sincero em seu rosto. sempre dizia que suas melhores noites de sono eram na cama do quarto de hóspedes da minha casa e eu não conseguia entender, pois já tentei dormir naquele quarto para saber o que tinha de tão especial e preciso confessar que voltei para o meu no meio da noite, pois a cama parecia pequena demais.
Eu sorri de volta e lhe dei um beijo rápido na bochecha marcada pelo travesseiro antes de ir pegar uma tigela com açaí e granola, como a que vendemos no quiosque.

— Caiu da cama?

Mastigando, ela balançou a cabeça, negando.

— Desde que comecei a estudar pro vestibular, me acostumei a acordar cedo. — Ela enfiou mais uma colher de cereal na boca e continuou me observando, parecendo curiosa. Eu já estava começando a ficar vermelho de vergonha quando ele continuou: — E aí?

Levantei as sobrancelhas, esperando que continuasse, o que não aconteceu, apesar de parecer que ela queria falar algo.

— E aí? — retruquei, dando um sorriso torto e voltando a comer o açaí. Ela desviou os olhos para sua própria tigela e depois voltou a me olhar.
— Você vai fazer o que depois do trabalho? — ela perguntou, mexendo distraída no cereal.
— Tem o luau do solstício de verão, lembra? Eu te convidei.
— Ah, sim, claro — ela pareceu se animar com a lembrança, mas ainda estava receosa. — Vai ter muita gente?
— Malibu inteira — brinquei, e ela me chutou de leve, me mostrando a língua. — Só a galera de sempre, da vizinhança… Josh, Miranda, Noah, Kim Lee…

paralisou a colher de cereal no meio do caminho entre a tigela e sua boca, depois abaixou a colher e a deixou cair dentro do cereal com leite. Eu sabia o que estava por vir, mas não pensei antes de falar o nome…

— Kim Lee? A vaca da Kim Lee?
— Não a chame assim.
— Ah, pelo amor de Deus, ! Essa garota te traiu e espalhou pra todo mundo que você havia traído e você ainda a defende!?

Passei a mão na nuca, sem conseguir nenhum argumento. Aquilo era verdade. Eu e Kim Lee namoramos por alguns meses e ela nunca quis me assumir para ninguém (segundo , ela tinha vergonha de namorar alguém com menos dinheiro que ela), e quando me traiu, espalhou para seus amigos dizendo que eu a havia traído porque ela era rica demais e eu não dei conta do “quão gostosa” ela é. Aquilo era a maior mentira de todas, mas eu não fiz questão de tentar limpar minha barra. Não sou do tipo de cara que se mete em confusão e quando me metem em uma, eu simplesmente tento sair dela da melhor forma e o mais rápido possível.
Minha solução foi terminar com a Kim e simplesmente deixar que falassem, eu sabia a verdade e também, isso que importava.
Olhei para ela e dei de ombros.

— Não defendo, apenas ignoro. — Me defendi, mas não pareceu convencida. — O que eu posso fazer se ela está no mesmo ciclo de amigos que eu? Eles também são seus amigos.
— Só no verão — ela retrucou, cruzando os braços e recostando as costas no encosto do banco. — Muitos deles não me deram parabéns mês passado.

Segurei uma risada. O Aniversário era algo muito importante para e ela me mataria se eu não mandasse um texto enorme a meia noite do dia 5 de junho. Esse ano, entretanto, eu não fui o primeiro a dar parabéns pois estava no avião a caminho da cidade dela. Quando pousei, haviam dezenas de mensagens de extremamente brava por eu ter esquecido o aniversário dela, mas assim que cheguei em sua casa, parecia radiante, me implorou para que eu não olhasse as mensagens antes de ela deletar – e já era um pouco tarde. Eu não liguei, amava saber o quanto meu parabéns era importante para ela.
Me inclinei em sua direção e dei um sorriso torto.

— Eu também sou só seu amigo de verão?

Ela revirou os olhos, mas pude vê-la ruborizar. Meu sorriso se alargou.

— Claro que não, idiota. Você me deu parabéns. Caso contrário, não te sobraria nenhuma estação do ano.

Coloquei a mão no peito e fingi sentir dor enquanto a observava rir sem conseguir evitar. Depois de lavar minha louça – com tagarelando sobre qual roupa ela usaria de noite –, me despedi com a promessa de que a buscaria em seu quarto às sete.
Trabalhar naquele dia havia sido uma tortura. Eu estava ansioso demais para de noite, ansioso para ter um encontro de verdade com Hailey, que não envolvesse nossa família inteira. Ok, talvez “encontro de verdade” não seja bem o termo certo para descrever o que faríamos mais tarde – afinal, um encontro implica com um dos dois convidando o outro para sair, e no caso eu apenas disse “vai ter um luau quando vocês chegarem, eu vou, ‘tá afim?”. Por mensagem de texto.
Então, bem no fundo, eu sabia que Hailey provavelmente não estava tão ansiosa quanto eu para ter um momento a sós comigo. Para ela, era apenas mais uma festa legal com a galera da praia como todos os verões.
Para mim? Bom, para mim seria finalmente o momento em que eu iria dizer a ela que a amava. Nada demais, certo?

🌊💫


Me olhei uma última vez no espelho, ajeitando a porcaria do cabelo que parecia não querer ser arrumado de jeito nenhum, não importava se eu já tivesse passado um pote inteiro de gel. Bufei irritado para o meu reflexo no espelho. Ainda olhando para ele, vi meu pai colocar a cabeça para dentro do quarto e bater na porta já aberta. Ele assobiou ao me ver.

— Está gatão, filho.
Gatão, pai? Ninguém fala assim.
— O que os jovens falam hoje em dia? — ele me perguntou ao sentar na minha cama. Dei de ombros.
— Sei lá, acho que não falam.

Meu pai fez uma careta para mim e eu fiz uma careta para o espelho. Nunca me importei tanto com o que vestir, às vezes eu saía com meus amigos com o uniforme do nosso quiosque. Mas, de repente, todo o meu armário parecia um lixo e uma súbita vontade de ter algo da Gucci para usar essa noite me atingiu. Era uma noite importante, mesmo que fosse apenas um luau. Para mim, poderia ser a noite em que tudo mudaria, um divisor de águas.
O homem parou ao meu lado e passou a observar meu reflexo, pensativo.

— Estou horroroso.
— Não está não. Está melhor do que nunca — ele retrucou, ajeitando a camisa em meus pensamentos ombros. — Só estou me perguntando para que tudo isso?

Eu o olhei pelo espelho e suspirei, indo me sentar na cama e sendo acompanhado por ele.

— Vou dizer a que a amo. Hoje.

Ele assentiu, impressionado. Apertando meu ombro, ele diz:

— É um grande passo, filho. Tem certeza disso?
— Tenho, é agora ou nunca. Ela vai pra faculdade e vai esquecer de mim, ao menos saberá como me sinto.
não vai se esquecer de você — ele falou, me empurrando com o ombro. — Filho, ela te ama! Pode não ser a mesma forma de amor que a sua, mas ama. Ela jamais vai deixar de fazer parte da sua vida. Afinal, logo logo vocês serão quase irmãos…
— Ah, credo, pai! — reclamei ao me levantar da cama, voltando a me ajeitar no espelho. — Obrigada, estava um belo discurso até você estragar com ele.

Meu pai gargalhava, o que me fez perceber que a fala havia sido proposital. Entretanto, o que ele disse realmente me convenceu e me fez sair do quarto muito mais confiante.

🌊💫


A praia estava mais cheia do que eu imaginava, de forma que, quando chegamos, foi engolida pelas pessoas que também a conheciam e sentiram falta dela. E não voltou mais.
Eu também me misturei um pouco, comprimentei meus amigos, falei sobre surfe, desviei de flertes, mas uma hora de socialização já é demais para mim e acabei sentado em um tronco de árvore em frente a fogueira com um copo vermelho preenchido com cerveja já quente e sozinho.
Não era que o luau estava ruim, pelo contrário. A música estava ótima, nada de grave havia acontecido, mas aquela noite era para ser sobre eu e , e eu, apenas. E eu desisti de procurá-la há muitos minutos atrás, chateado por não achá-la, mas aliviado por não ter a chance de vê-la com outra pessoa que não eu.
Ainda em casa, quando desci para a sala, já me aguardava perto da porta. Ela usava uma regata bege e uma saia branca, um enfeite de flor decorava seus cabelo no melhor estilo praiano que uma garota da cidade poderia estar. Eu fiquei encarando-a feito um babaca, esperava não estar babando e sem conseguir dizer nada além de um “uau”, que lhe arrancou uma risada tímida. Ela estava espetacular, como sempre, então não a culpava se ela arranjasse um pobre coitado para enfeitiçar naquela noite – eu estava enfeitiçado há anos.
Mas então, saindo do meio de alguns jovens que dançavam freneticamente, andou cambaleando um pouco em minha direção com um sorriso tão largo que me impressionou suas bochechas estarem intactas. As mesmas também estavam coradas, como pude perceber quando ela se aproximou mais, e isso ligou um alerta em mim.

— Devo me preocupar com você? — perguntei quando se sentou ao meu lado. Ela balançou a cabeça, fazendo o perfume de seu shampoo de coco exalar conforme seus cabelos soltos se mexiam livres..
— Não, não estou bêbada, está tudo ótimo — ela alegou, dando de ombros.
— Você estava literalmente torcendo as pernas quando andou até aqui — falei a ela. — Ou está bêbada ou com muita vontade de mijar.

gargalhou alto antes de responder:

— Nenhum dos dois, ! — Ela então deu dois tapinhas em suas coxas. — Essas belezinhas só estão cansadas de tanto dançar. Fazia tempo que eu não me divertia assim. Inclusive, me desculpe por sumir…

Balancei a mão, interrompendo-a.

— Não se preocupe com isso, fico feliz que esteja curtindo. Além disso, temos o verão inteiro pela frente. Irei grudar tanto em você que você vai desejar mais festas como essa pra se perder de mim.

Pode ter sido impressão minha, mas mesmo falando isso em claro tom de brincadeira, o sorriso que deu pareceu triste. Ela segurou minha mão, apertando-a carinhosamente e sem fazer ideia como um ato tão simples fez meu coração disparar.
Retive a vontade de massagear meu peito e desejei que meu cérebro mandasse uma mensagem para meu coração e pedisse para que ele, por favor, desacelerasse imediatamente.

— Dy… Eu preciso falar sobre isso com você.
— O quê? Eu já estou te sufocando? — brinquei de novo, e tudo o que ela fez foi revirar os olhos, mas com um sorriso leve nos lábios.
— Não é nada disso, é só que eu… Filho da mãe!

Eu estava olhando fixamente para de forma que eu percebi no mesmo instante quando ela desviou os olhos para algo atrás de mim, então eu soube que ela não estava me xingando. Resisti a vontade de suspirar de frustração, engoli a curiosidade pelo o que ela iria me dizer e me virei também.
O filho da mãe em questão era o meu pai.
A muitos metros de distância, meu pai e a Sra. Jenkins estavam no calçadão da praia aos beijos e risos, os dois segurando deliciosas casquinhas de sorvete e aparecendo o casal mais feliz e apaixonado do livro de romance do momento. Filho da mãe! De todos os lugares de Malibu, ele tinha que levá-la para tomar um sorvete ali, naquela praia, na mesma hora do luau? Certo, nossa lanchonete ficava perto e eles provavelmente vieram de lá, mas mesmo assim.

— O seu pai está com a boca colada na boca da minha mãe, ! O SEU PAI E A MINHA MÃE! — exclamou furiosa.

Cocei a nuca, encabulado, antes de me virar de volta para ela. Eu não era um péssimo mentiroso, na verdade, eu era muito bom nisso. Mas havia apenas três pessoas no mundo que sabiam exatamente quando eu estava mentindo: uma estava em casa (a minha irmã), um estava no calçadão beijando uma mulher (meu pai) e a terceira estava bem na minha frente. Não adiantava mentir para , ela sabia exatamente quando eu estava escondendo algo.

— Acho que chamam isso de beijo — disse, rindo um pouco para descontrair. Péssima ideia.

estreitou os olhos para mim e acusou:

— Você já sabia.
— O quê!? Claro que não, , estou tão surpreso quanto você!

Claro que ela não comprou minha mentira, nem eu mesmo comprei. então começou a me estapear, o que não doeu nada, mas feriu meu orgulho.

— Você! Já! Sabia! — ela repetiu, me dando um tapa em cada palavra. — E não me contou nada, !
— Não era meu dever te contar! — Me defendi, segurando suas mãos. Ela olhava furiosa para mim, depois para onde nossos pais ainda estavam. — Eles sabiam que você não ia ficar feliz, queriam te contar quando tivessem certeza de que era sério.
— Ah, mas para você eles contaram! — ela exclamou, voltando a me estapear. — Eu não sou confiável? Você já é o favorito?
— Para, ! Não é nada disso! Olha, vamos pro quiosque, eu explico tudo lá.
— Claro, vamos sim, eu só preciso fazer uma coisinha antes — ela falou em tom irônico, aproximando o dedo indicador do polegar.

Levantando em um pulo, começou a caminhar em direção ao calçadão, mais especificamente no lugar onde nossos pais estavam. Ela pisava forte, mas suas pernas ainda eram menores que as minhas, portanto, não foi difícil alcançá-la em alguns passos largos, metendo-me na frente dela e a segurando pelos ombros.

, o que está tentando fazer? Eles estão felizes! Talvez como nunca estiveram antes! Você não quer isso para sua mãe? Que ela seja finalmente feliz?

não respondeu nada. Ela olhou para eles, que agora nos encaravam surpresos, depois olhou para mim. Vi seu queixo tremer um pouco e seus ombros, antes tensos, caírem. Sabia que ela estava prestes a chorar, então abri os braços, lhe oferecendo um abraço. Ela não aceitou, apenas balançou a cabeça e voltou a caminhar com passos firmes, dessa vez em direção ao nosso quiosque. Antes de segui-la, olhei para nossos pais e o meu pai apontou para , fazendo menção de segui-la também. Eu balancei a cabeça e levantei a mão, impedindo-o.
Eu sabia que ia acabar sobrando para mim a responsabilidade pelas consequências de quando descobrisse sobre os dois, então eu não estava surpreso, muito menos chateado. Mas pensei que as circunstâncias seriam diferentes, mais calmas, talvez. Não era o caso.
Quando alcancei , ela estava parada de braços cruzados ao lado da porta do quiosque, sua cara estava fechada em pura frustração. Sorri para ela de forma carinhosa e compreensiva.

— Esqueci que a chave estava com você — ela diz, emburrada.

Eu não retruquei, apenas abri a porta para que ela entrasse. Ainda no escuro, se sentou no balcão onde fazíamos os atendimentos (ela amava sentar ali) e eu permaneci de pé ao seu lado. Ela parecia pensativa, não me olhava, apenas encarava seus pés que balançavam inquietos.

— Parece tão… errado — ela disse, ainda pensativa. — Estranho… Sei lá, eles são amigos há tanto tempo! Sua mãe ainda está viva… e meu pai…

Ela não terminou seu raciocínio, mas eu entendi perfeitamente o que queria dizer. Todos esses anos, nossos pais não se envolveram com mais ninguém e nós dois sempre falamos sobre ser incapaz de substitui-los e em como era realmente bom não ter alguém do lugar deles (era ainda mais fácil para mim, pois minha mãe estava ali sempre que eu quisesse vê-la), e essa ideia já havia se instalado dentro da gente e era difícil tirar.
Contudo, se havia duas pessoas capazes de preencher o espaço um do outro, eram eles. Meu pai e a Sra. Jenkins eram tão perfeitos um para o outro quanto eram para seus pares originais e eu conseguia ver isso, diferente de .
Eu me aproximei, ficando de frente para ela e apoiando minhas mãos no balcão, ao lado do seu corpo. Ela levantou o olhar para mim, olhando fundo nos meus olhos como se me estudasse. Tentei ignorar a queimação em meu rosto, feliz pelo local estar parcialmente escuro. Era possível ouvir a música que tocava na festa, bem baixinho e distante, como se o quiosque fosse uma bolha impenetrável. Finalmente éramos só nós dois, mas queria que as circunstâncias fossem outras.

— Eu entendo perfeitamente como se sente, também me senti assim quando descobri. Mas depois eu percebi que, se há alguém nesse mundo que seja perfeito para o meu pai, esse alguém é a sua mãe. E, precisa admitir, meu pai é irado. Ele vai fazer a Sra. Jenkins muito feliz, como faz há anos, a única diferença é que antes era como amigo.

ainda me analisava, prestando atenção em cada palavra que eu dizia com curiosidade. Um sorriso torto se formou em seus lábios antes de ela abaixar a cabeça, encarando seus pés. Já eu não parei de observá-la. Era um tanto difícil me concentrar com a boca dela tão perto da minha, com seu perfume tropical que ela sempre adquire quando vinha para a praia – uma perfeita mistura de seu perfume floral com o shampoo de coco e protetor solar. Um dia na praia e já estava levemente bronzeada e suas sardas já se multiplicavam pelo seu rosto. era simplesmente hipnotizante, e mesmo com muitos anos de amizade, eu não me acostumava com tudo aquilo que ela era.

— Você falando assim, faz parecer normal — ela disse em voz baixa, quase um sussurro, ainda encarando seus pés.
— Porque é. Para eles, foi natural. E, de verdade, ninguém está substituindo ninguém. Você sabe que seu pai sempre estará com a gente, e minha mãe e meu pai não se odeiam, então ainda teremos ela também. Eles só estão… Reajustando o que sempre esteve ali.

finalmente levantou o rosto e riu, limpando uma lágrima que eu não percebi que escorregou por seu rosto.

— Quando foi que ficou tão esperto? — ela fala, ainda rindo.
— Está me chamando de burro? — perguntei brincando, fazendo-a rir de novo.

A risada a fez inclinar o corpo para frente, deixando-a mais perto ainda de mim. Eu congelei, sem reação. Já pareceu perceber a tensão, mas não se afastou nenhum centímetro. Limpei a garganta e me obriguei a me afastar apenas para sentar ao seu lado no balcão, balançando as pernas como ela fazia.

— Quando você convive por muito tempo com uma pessoa — eu continuo meu raciocínio, encarando minhas próprias mãos —, você simplesmente vê sentido em querer passar o resto da vida com ela. Também tem o medo de perdê-la. Depois de anos sonhando com aquela pessoa, a simples possibilidade de não a ter mais por perto te apavora, porque, de repente, estar com ela parece… absolutamente certo.

Quando levantei a cabeça, flagrei me encarando com a testa franzida em curiosidade. Ela inclinou a cabeça, novamente me estudando como a NASA estuda os aliens. Aquilo não me deixava encabulado, era bom ser o centro da atenção dela.

— Você não está mais falando dos nossos pais, não é?

Aquela pergunta me pegou de surpresa. Hesitei antes de assentir, envergonhado. imitou meu gesto, mas ela parecia um tanto chocada.

… A quanto tempo se sente assim em relação a gente?
— Acho que desde a primeira vez que te vi.
— Tínhamos dois anos de idade, Dy…

Dei de ombros, voltando a encarar meus pés balançando.

— Eu não me lembro de não me sentir assim. Foi a vida toda, eu acho.

Ficamos em silêncio por um longo e nada constrangedor tempo, apenas balançando nossas pernas, lado a lado, como fazíamos quando éramos crianças. Quando as coisas eram mais simples, quando a nossa única certeza era de que iríamos dominar o mundo depois da sobremesa. Agora eu estava ali, me declarando para minha melhor amiga quando deveria estar amenizando as coisas para nossos pais.
voltou a me olhar. Nas inúmeras vezes em que imaginei aquele momento na minha cabeça, eu sempre pensava nela surtando comigo, acabando com nossa amizade, chorando de raiva, chorando de alegria, gritando de raiva, gritando de alegria, pulando nos meus braços e me beijando ou me dando um tapa na cara. Porém, eu nunca iria imaginar que ouviria o que ela disse em seguida:

— Eu fui aceita na Universidade de Oxford. — Seus olhos pareciam culpados quando ela completou: — Vou me mudar para a Inglaterra.

Minha primeira reação foi rir. Gargalhei, na verdade. iria morar na Europa? A um oceano e a muitos países de distância? Aquilo só podia ser uma piada e das piores que ela já contou. Afinal, esse deveria ser o melhor verão de todos, deveria ir para uma faculdade em outro estado, não em outro continente, ela simplesmente não podia estar falando sério.
Mas estava. Minha risada só cessou quando percebi que ela não ria comigo, estava tão séria quanto no dia em que descobriu que a One Direction iria dar uma pausa.

— Você… Oxford? Mas quando… Você não… Mas e Yale? Yale é bom, Yale é perto!
… — ela falou doce, colocando sua mão em meu joelho.
— Não! — exclamei, descendo do balcão e me afastando de todo o seu charme. — , não! Você não pode fazer isso… Como você só me conta isso agora?

Ela encolheu os ombros, envergonhada.

— Eu sabia que iria reagir assim, estava com medo.
— E como você queria que eu reagisse?
— Ficasse feliz por mim, talvez?

Aquilo me quebrou, é claro. estava vulnerável na minha frente, parecendo de fato estar com medo. Medo de que? Dos meus gritos? Do meu surto? De me perder? Porque esse último era o que mais me causava dor naquele momento.

— Não é como se você não tivesse escondido isso de mim também — ela falou, apontando para mim. Com “isso” eu acredito que ela quis dizer meus sentimentos por ela. Culpado.
— “Eu sou apaixonado por você desde criança” não é nem de longe tão fácil de dizer quanto “eu vou para Oxford”.
— Justo — confessou, mordendo o lábio inferior.

Eu não resistia a aquela mania que ela tinha, eu sempre me derretia todo. Mas eu estava chateado e irritado, então naquele momento, sua mordida sexy de lábios apenas me deixou com vontade de gritar – o que obviamente eu não fiz.

— Quando foi que Oxford entrou nos seus planos? — disse, a incredulidade e a decepção eram visíveis em minha voz.
— Foi meio do nada. Minha coordenadora, a Sra. Thompson, me sugeriu. Ela disse que ouviu dizer que Oxford estava oferecendo bolsas para estrangeiros e que minha nota era boa o bastante para concorrer. Eu me inscrevi, mas não pensei que fosse ser aceita — ela respondeu em um só fôlego.

deu uma risada. O som que eu amava tanto era uma mistura de nervosismo com “dá para acreditar?”, algo que sempre dizia. Eu a encarei um tanto incrédulo, pensando no fato de que eu esperava o ano inteiro para ouvir o seu “bordão” de todas as formas possíveis – com raiva, quando a faziam se sentir assim; com surpresa, quando algo ou alguém lhe surpreendia; com ironia, quando o momento pedia.
O de agora era animação.

— Dá para acreditar?

Meus ombros despencaram. É claro que dava para acreditar, afinal, era a . Não digo isso por ser louco por ela, mas Jenkins era genial. Inteligente, proativa, carismática. O pacote completo.

— Seriam loucos se não te aceitassem.

O tom da minha voz saiu mais amargo do que eu gostaria. Eu não estava mentindo, eu achava aquilo, de verdade. Mas me olhou desapontada, e aquilo me deixou com mais raiva do que remorso. Ela estava partindo para outro país e se achava no direito de se chatear comigo? Naquele momento, o direito era somente meu.

— Você não achou grande coisa — apontou, descendo do balcão e se aproximando de mim.
— Você morar na Inglaterra por quatro anos!? Não, foi mal, não consigo achar grande coisa, na verdade não acho coisa alguma — respondi, balançando a cabeça e colocando as mãos na cintura. — Isso se você voltar depois de quatro anos!
— É claro que vou voltar! — ela irritou-se, cruzando os braços. — E você pode ir me visitar também.
— Você vai esquecer de mim assim que arranjar alguém com os cabelos do Harry Styles e a voz do Paul McCartney!
— Ou os cabelos da Kristen Stewart com a voz da Adele — brincou, mas percebeu, provavelmente pela minha cara, que eu não achei a mínima graça. — Desculpe, Dy... Escuta, eu não vou esquecer de você, está bem?

Eu não respondi nada, apenas a olhei com certa raiva.

— Pensei que ficaria feliz por mim, .
— Eu… — Parei de falar pois percebi que estava falando com a voz mais elevada do que gostaria. Respirei fundo antes de continuar: — Eu estou feliz por você, , é claro. Só não estou feliz com o fato de você ir para mais longe ainda de mim. Achei que viria para alguma faculdade na California…
— E eu ia — ela falou. — Mas é Oxford!

Revirei os olhos. Se ouvisse aquele nome mais uma vez, eu ia surtar. percebeu meu ato e isso pareceu irritá-la mais ainda. Ela já não era tão doce quando falou:

— Para de ser egoista!
Eu? Egoista? — Levantei as sobrancelhas e apontei para mim mesmo aos risos, e foi a vez dela de revirar os olhos. — Não fui eu quem queria atrapalhar nossos pais…
— Eu já mudei de ideia… — ela falou, mas eu a interrompi.
— E não sou eu que estou partindo depois de ter me declarado!

Parecendo surpresa, levou a mão aos lábios.

— Não diz isso, Dy…
— Sabe quanto tempo eu estive planejando isso? Sabe o tanto que sonhei com o dia em que eu diria como me sinto? — falei, um tanto ofegante. — E eu não espero que você corresponda, mesmo que fosse ótimo se correspondesse, mas também não esperava que você se mudasse para outro país.
— Fala como se fosse culpa minha — ela retruca, desviando o olhar.
— Me diz, por que não me contou antes?
— Teria feito alguma diferença?
— Claro que teria, ! — respondeu, elevando a voz. — Eu jamais teria cogitado Oxford, ou qualquer outra faculdade que não fosse perto de você! Porque você não era o único que sonhava com um futuro para nós dois, seu imbecil!

Paralisei imediatamente ao ouvir aquilo. Senti meu rosto formar uma feição de surpresa com encantamento. já havia cogitado um futuro… comigo?
Sua voz era mais suave, mas ainda dava para perceber o quão chateada ela estava com aquilo tudo quando falou:

— Acha mesmo que durante todos esses anos, depois de viver os melhores verões da minha vida ao seu lado, eu não ia cogitar viver o resto da minha vida com meu melhor amigo? — Ela deu um passo para frente, buscando meu olhar. — Eu entendo nossos pais… porque sinto que com a gente…
— É a mesma coisa — completei, e ela assentiu.

Meus ombros novamente caíram. Era como se todo o peso daquelas palavras – e de toda a conversa – tivesse caído sobre eles.

— Por que não disse antes? — perguntei em um sussurro ridículo e fraco, acidentalmente repetindo a frase dela.
— Faria diferença? — ela retrucou com um sorriso triste no rosto. Também havia imitado minha fala, mas não acidentalmente. — Você estava com a Kim Lee, depois com suas namoradas maravilhosas, não pensei que fosse se interessar pela sem graça da
— Você não é a “sem graça da ” — respondi, dando um longo suspiro. — Você é a minha . Meu cometa .

tinha lágrimas nos olhos quando segurei seu rosto com as duas mãos e a fiz me encarar.

— Eu largaria todas elas por você.

Ela engoliu o choro e fez o que mais partiu meu coração durante toda aquela conversa: tirou minhas mãos de seu rosto e de afastou um passo.

— Não espere que eu desista de Oxford — ela disse, passando as mãos em seus braços nus. Começava a esfriar e estávamos no pior lugar para nos aquecer. — Não vou desistir do meu futuro por algo incerto.

Eu a olhei, incrédulo.

— Incerto?
— Não tem como ter certeza, tem?
— Eu tenho — falei com firmeza e não era mentira. — Mas eu jamais faria isso com você, jamais te faria desistir de um futuro brilhante para ficar comigo. Até porque, ainda temos o verão inteiro pela frente.

Eu estava prestes a me aproximar dela e segurar seu rosto de novo quando ela fez uma careta e disse:

— Na verdade, eu vou para Londres em quatro dias. Vou voltar para São Francisco em dois dias, para pegar minhas coisas.
Dois dias? — exclamei irritada. — !
— Me desculpa! — ela pediu e realmente parecia se lamentar. — Eu juro que estou tentando te contar desde que cheguei, mas…
— Quer saber? Eu cansei dessa merda. Você poderia ter contado há semanas e não contou. Uma mensagem de texto, uma ligação, um e-mail, uma maldita carta! Nada!

Fui determinado até a porta do quiosque e a escancarei. me olhou com chateação evidente. Ela abaixou a cabeça ao passar por mim, mas buscou meu olhar antes de se afastar.


— Divirta-se na Inglaterra — falei sem encará-la. — Mande um olá para o McCartney.

Sem dizer mais nada, marchou para longe de mim, e eu esperei que ela se afastar o bastante para me sentar na areia da praia e chorar feito uma criança.

🌊💫


Fui um idiota. Poderia pedir desculpas a e aproveitar os dois últimos dias dela em Malibu. Ao invés disso, passei o primeiro dia inteiro trancado no quarto, chorando e me segurando para não esmurrar as paredes do meu quarto. No segundo dia, sai cedo para correr e só parei quando senti que meus pulmões iriam sair pela minha boca. Ao voltar para casa, quase duas horas depois de sair, encontrei sentava na varanda com as pernas balançando. Ela me olhou esperançosa, apesar de ainda estar chateada comigo, mas eu apenas murmurei um “bom dia” e não parei para falar com ela, assim como ela não veio atrás de mim.
Passamos o dia todo nos evitando, assim como e nossos pais evitavam tocar no assunto do relacionamento deles. O clima era pesado, triste, algo incomum nas nossas férias de verão. Ressalvando, é claro, no verão seguinte à morte do pai da .
Eu me lembro de encontrá-la sentada na escada enquanto a Sra. Jenkins e meus pais derramavam as cinzas do Sr. Jenkins na água. Ele amava aquela casa, amava aquela praia, então nada mais justo do que deixá-lo descansar em paz em um lugar em que ele foi muito feliz.
não quis participar da cerimônia e eu não a julguei por isso. Ela ficou sentada no degrau onde podia ver a praia da enorme janela da nossa casa, uma visão perfeita do que acontecia lá fora. Naquela tarde, eu sentei ao seu lado e ela apoiou a cabeça em meu ombro, chorando de soluçar.
Entretanto, na manhã em que ela e sua mãe partiam, eu estava sozinho na escada, e só não chorava como ela chorou porque estava fazendo muita força para me segurar. A Sra. Jenkins iria voltar, então não tinha problemas em não me despedir dela. Mas meu corpo todo doía ao pensar que não voltaria tão cedo. Da janela, eu a vi se virar para a casa e olhar diretamente para a escada. acenou tímida e eu fiz a mesma coisa, mas não me movi.
Sorrateira, Lucy entrou na casa e subiu até se sentar no mesmo degrau que o meu. Com sua mão magra, ela acariciou minhas costas como nossa mãe costumava fazer quando éramos crianças e foi aí que eu desabei, de novo, enquanto observava a SUV da Debora partir rumo a São Francisco.

🌊💫


Eu virei um vegetal, basicamente. Comia pouco, não saia de casa. Foram assim por dois dias inteiros e eu podia me ver passando todo o verão no sofá da nossa casa, assistindo Modern Family na ridícula esperança de dar alguma risada. De vez em quando, eu olhava meu celular e via mensagem dos meus amigos dizendo que as ondas estavam sensacionais. Nem isso me fazia levantar daquele sofá.
No terceiro dia, um dia antes de partir para a maldita Europa, meu pai chegou com meu boné em mãos e a Lucy parada ao seu lado. Ele jogou o boné em mim, chamando minha atenção.

— Levanta, vai escovar esses dentes e tomar um banho, nós precisamos ir.
— Onde? — murmurei com desânimo, me aconchegando mais no sofá. Lucy sentou na outra ponta, quase sentando em cima das minhas pernas.
— Corrigir a besteira que você fez, maninho.

Olhei confuso para os dois.

— Se estão falando da , esquece. Acabou antes de começar e foi melhor assim.

Meu pai e minha irmã se entreolharam e aquilo nunca queria dizer algo bom.

— Você está fedendo — Lucy falou, puxando a coberta de cima do meu corpo.
— Obrigada — falei com ironia, tentando me cobrir de novo, mas a garota continuou puxando-o para si. — Sai fora, Lucy!
— Filho — meu pai começou, sentando-se em sua fiel poltrona. Parei para prestar atenção nele. — Se eu não tivesse tido coragem de ir atrás da Debora e me declarar a ela, como você fez com , eu provavelmente estaria assim como você.
— Que bom que deu certo com você, para mim não deu, como pode perceber.
— E você vai desistir fácil assim? — ele argumentou, balançando a cabeça. — Primeiro que um Woods não é de desistir tão fácil, segundo que eu não sou tão bom em astrologia, mas eu sei que o cometa passa a cada 75 anos. Você vai esperar tudo isso para tê-la de volta?

Meu pai sempre me ganhava com seus argumentos. Mas o que realmente me convenceu a levantar, tomar um banho, entrar no carro e pegar a estrada rumo a São Francisco foi a possibilidade de me acertar com e vê-la uma última vez antes de ela partir. Eu não ficaria entre ela e Oxford, eu a deixaria ir. Contudo, algo em meu íntimo sabia que Jenkins iria voltar para mim, assim como o cometa voltava para a órbita da Terra a cada 75 anos.
Eu estaria esperando por ela de braços e coração aberto. Afinal, ele era todo dela.
Chegamos na casa da no meio da tarde. Passei todo o tempo da viagem pensando no que dizer para ela, mas quando estacionamos na garagem da casa da família Jenkins, minha boca secou e as palavras simplesmente desapareceram.

— Pronto? — perguntou meu pai, desligando o carro.
— Não — respondi, esfregando as mãos nos jeans para secar o suor.
— Ótimo, vamos lá — Lucy falou no banco de trás, abrindo a porta e saltando antes que pudéssemos dizer qualquer coisa.

A breve caminhada até a porta da casa foi a mais difícil de todas, mas minhas pernas bambas fizeram um ótimo trabalho me levando até lá. Já o trabalho de tocar a campainha ficou com meu pai, com toda a confiança que só o namorado da dona da casa poderia ter. Porém, depois de dois toques, percebemos que não tinha ninguém em casa. Demos a volta, olhamos pelas janelas, e nada das nossas mulheres.
Meu pai se afastou um pouco com o telefone no ouvido enquanto eu e Lucy nos sentamos nas escadas da varanda da casa. Observamos ele andar de um lado para o outro, passar a mão nos poucos cachos que ainda lhe restavam. Ele me olhou e assentiu para algo que ele ouvia no telefone. Ao desligar, ele caminhou até a gente com uma feição séria.

— Era a Debby — ele falou, e eu tentei não pensar no quão estranho era ouvi-lo dizer o apelido da Sra. Jenkins. — Elas estão no aeroporto?
— O quê!? Mas só viaja amanhã!
— Houve uma confusão com as passagens, não entendi bem — meu pai disse, gesticulando com as mãos. — O que interessa é que se a gente não entrar naquele carro e partir agora, perdemos nosso cometa.

Sorri ao ouvi-lo se referir a daquela forma. Eu sempre pensei nela como meu cometa, mas nós éramos uma família agora. também era do meu pai e de Lucy, e então eu finalmente percebi que não estávamos ali só por mim e sim por nós três.
Sendo assim, aceleramos até o Aeroporto Internacional de São Francisco. Eu nunca fui muito religioso, mas durante aqueles longos minutos até o aeroporto, pedi para todos os deuses existentes que atrasasse o voo da ou que, por algum milagre, ela ainda não tivesse embarcado. Quando chegamos, não esperei meu pai e Lucy saírem do carro, eu abri a porta do veículo e corri em disparada para a entrada do aeroporto. Não parei de correr até encontrar a área de embarque, olhando em volta enquanto tentava recuperar o ar. Os cabelos castanhos da Sra. Jenkins foram a primeira coisa familiar que eu encontrei. Corri até ela, ainda olhando em volta para tentar encontrar . A Sra. Jenkins me recebeu com um enorme sorriso.

— Ela está ali, querido.

Ela apontou para uma fila enorme onde pude finalmente ver a mulher que eu amava, abraçando firme o urso de pelúcia que ela tem desde pequena e com uma mochila enorme nas costas. Correspondi ao sorriso da Debora (acho que posso chamá-la assim agora) antes de seguir para onde ela apontou.
Ainda havia algumas pessoas na frente dela na fila, mesmo assim, gritei seu nome para não correr o risco de perdê-la de novo. se virou na mesma hora, seu rosto era um misto de surpresa e felicidade em me ver. Corri até ela, eu já estava ofegante quando comecei a falar.

— Eu fui… não, eu sou um idiota egoista e eu jamais ficarei entre você e o futuro maravilhoso que você tem pela frente, , mas eu amo você e eu não vou suportar não fazer parte dele.

hesitou alguns instantes, digerindo o que eu havia falado. No segundo seguinte, ela se jogou em meus braços aos prantos, me dando o melhor abraço de todos. Eu me derreti de alívio em seus braços.

— Você é mesmo um idiota — ela falou, se afastando o suficiente para olhar nos meus olhos com um sorriso lindo nos lábios. — Mas eu também sou. E eu também te amo, e também quero fazer parte do seu futuro. Eu nunca vou te esquecer, está bem? Eu sempre vou voltar para você.
— Como o cometa — falei.
— O seu cometa .

O beijo o qual sonhei por tanto tempo finalmente aconteceu. Os lábios de estavam nos meus no melhor beijo que já dei na vida, e naquele momento, eu sabia que falava a verdade: ela sempre voltaria para mim.

🌊💫


“Querido ,
A Inglaterra é fria para caramba, mas o chá aqui é muito melhor. No momento, estou tomando uma deliciosa xícara de chá no meu dormitório junto com minha colega de quarto, a Elizabeth. Dá para acreditar nisso? O nome inglês mais clichê de todos!
Tem sido difícil dormir nas últimas semanas. Você sabe que eu só consigo dormir na minha cama ou no quarto de hóspedes da sua casa. Mas um grande motivo é a saudade que sinto de vocês. Céus, eu penso em vocês o tempo todo! Bom, principalmente em você, . Estou ridiculamente apaixonada e não sei o que fazer em relação a isso. Maldito e todos os seus detalhes perfeitos que não saem da minha cabeça!
Aqui já são quase meia noite, o que quer dizer que aí deve ser quase quase três? Não sou muito boa com fuso horário… Enfim, espero te ver logo. Por favor, pegue logo a merda do avião e venha me ver. Eu te amo.
Com amor, seu cometa .”

Dobrei a carta com um sorriso largo no rosto e a guardei na mochila, aquela devia ser a décima vez que a relia. Mas dentro do avião estava um tédio e a ansiedade estava me matando. Olhei pela janela e o mar ainda dominava a paisagem, mas a tv do avião indicava que em meia hora chegaríamos em Londres, Inglaterra. Sorri mais largo ainda e puxei a carta novamente, relendo-a pela décima primeira vez. Minha vontade era respondê-la naquele instante. “Não se preocupe, . Estou chegando.”





Fim!



Nota da autora: “Oi, meus amores! ♥️ Espero que tenham gostado dessa história, ela tem um espacinho muito especial no meu coração.
Fiquei muito feliz em ter organizado essa ficstape e espero que tenham
gostado. Obrigada à todas as autoras que participaram, obrigada a Elena e a Thaís por terem betado e scriptado as histórias com tanto carinho.
Obrigada Ju Scairp pelas artes LINDAS, eu nunca me canso do seu talento. Por fim, obrigada a todos que leram! ♥️ Não esqueçam de deixar um comentário, tá? É muito importante!”




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