Finalizada em 30/07/2021

Prólogo

Você sabe a quem terá de recorrer, Cafrey.
O olhar de foi direcionado a Rick. Ela estava cética em sua fala e ele sabia que, se naquele momento a amiga estivesse com qualquer arma, de fogo ou não, em mãos, ele se tornaria um alvo fácil. Não existia nem no universo paralelo uma realidade em que a mulher estivesse relaxada ou não estressada o suficiente naquele momento para levar em conta os anos juntos e não fazer Richard se calar; talvez, se fosse a primeira vez em que ele tocava naquele ponto, consideraria ignorar como uma opção. Mas não, já era a terceira vez que, mesmo nas entrelinhas, era citado que ela iria precisar ele.
E não, em nenhum universo paralelo ou que fosse existente em qualquer mitologia ou ficção científica, Cafrey ligaria para seu ex e o pediria para cruzar o mundo e lhe ajudar com aquela situação.
– Me dê um motivo para não chamá-lo, ! – Rick insistiu.
respirou fundo e bateu na mesa com força, fazendo um barulho estrondoso e causando a queda das pecinhas que imitavam soldados – para eles, ilustrações das equipes policiais de Los Angeles.
– Porque nem morta eu vou pedir alguma coisa ao ! Nem dentro de um caixão eu vou dizer a qualquer um que preciso dele, Richard. Isso está fora de cogitação! – Vociferou com os braços abertos e as palmas apoiadas na mesa, o rosto a centímetros de distância do de Rick, que estava na mesma posição do outro lado.
– Mas não temos a quem confiar aqui na América, vai continuar arriscando? – Por mais que fosse um argumento válido, Rick disse sabendo que ela ainda resistiria. Então completou: – Ou você está apenas pensando em seu coração e deixando o orgulho por ter sido deixada anos atrás falar mais alto? Eu te conheço há dez anos, Cafrey. Você sempre foi profissional e não é à toa que tem o nome respeitado na maior potência mundial. Então não deixe isso atrapalhar os planos.
– Não existe nos meus planos, Richard! – Rebateu imediatamente, endireitando o corpo. – Vá pra casa e descanse, vou pensar em uma rota de fuga.
– Mas você assume que precisa de alguém como ele? – Mais uma vez a insistência, com o olhar incisivo direcionado à ela.
A mulher bufou irritada, virando-se para a mesa dos computadores e respirou fundo pensando em seu cenário atual. Suas opções estavam entre jogar tudo para o alto e se entregar de uma vez por todas, acabando com todo o trabalho de anos de sua família, ou pedir por ajuda para aquele que um dia quebrou seu coração frágil e ingênuo em milhões de pedacinhos. Em nenhuma das duas alternativas ela se via confortável, mas havia atingido um beco sem saída, não tinha mais sua cabeça estrategista para ajudar a bolar mais um plano e se sentiu péssima por isso, não só pela vida perdida de Brooke, mas também porque ela deveria ser menos prática e mais teórica para poder encontrar uma via de saída, como no caso atual, com a ausência de sua amiga recém falecida.
Recorrer à sagacidade de seria como admitir que ela fracassou e demonstrar fraqueza para ele não era uma opção.
– Nós não precisamos dele. – Disse por fim, começando a digitar algo no mapa aberto no computador.
– Então tudo bem, ficamos aqui mesmo e nos entregamos. – se virou para ele, séria e com o olhar fundo. – No final de semana irão interceptar nossa carga e nós não iremos fazer nada, a polícia virá atrás de nós e aqui estaremos esperando.
– Por que é tão difícil você confiar que eu posso pensar em algo?
– Porque nem você acredita nisso! – Rick foi quem bateu na mesa desta vez. – , escuta… – Respirou fundo. – É só um telefonema que separa a gente daquela carga e dos milhões dentro do banco!
– Pegue seu telefone e ligue, eu não vou fazer isso.
– Teimosa! É por essa sua teimosia que não temos mais-
Richard parou sem terminar sua fala e passou a mão no rosto fervorosamente; já estava exausto daquele assunto.
– Pode falar, é pela minha teimosia que a Brooke morreu. – Ela riu nasalado, virando-se para o computador novamente.
, por favor… nós não somos estrategistas o suficiente para conseguir sair dessa assim, fácil. Eu e você somos práticos e… não tem uma rota de fuga em que possamos sair ilesos usando de armas e luta corporal.
– Richard… – se levantou, parando de frente com ele e cruzando os braços.
– Tanto eu quanto você precisamos que isso dê certo, é uma encomenda de Washington! Mas com toda a nossa equipe fora do barco depois da morte de Brooke, só nos resta um único nome… – Ele dizia enquanto se aproximava. – Não deixe a de dezoito anos travar seu profissionalismo por birra.
– Não se trata de ser apenas uma birra, Richard. Você diria a algum inimigo seu que precisa dele?
Rick riu fraco, com um sorriso querendo se formar em seus lábios, e segurou nos ombros dela.
não é seu inimigo, vocês dois só não souberam dosar quem iria ter o controle de algo que… bem, não se tratava de controle. E agora os dois têm mentalidades diferentes, são adultos. Quem sabe não era pra ser assim e vocês se encontrarem de novo nessa época atual?
Cafrey murmurou um palavrão para ele e bufou mais uma vez, o empurrando e passando para o outro lado da sala, depois de dar a volta na mesa. Pegou sua bolsa em cima do sofá vermelho e foi até a porta. Ao parar com a mão na maçaneta, virou apenas o rosto para Richard.
– Descubra onde ele está. – Disse antes de sair e bater a porta com força, externando seu desgosto por toda aquela situação.
Estava desacreditada de que teria de ir atrás do seu primeiro amor para ajudar a resolver uma situação que ele mesmo havia previsto que daria errado. Se tivesse sorte – ou não, porque pelo tom de Rich eles realmente necessitavam dele –, já teria ido pro inferno.


Capítulo Único

O velocímetro estava quase estourando o limite e o ziguezague entre os carros na pista sequer a deixava tonta; já estava acostumada com aquela adrenalina e visão enquanto pilotava em alta velocidade. Há mais de catorze anos corria pelas pistas de Los Angeles, fosse em zona afastada ou na rodovia que cortava e dava acesso à cidade para quem viesse, fosse sul, norte, leste ou do oeste do país. Ela, inclusive, conhecia cada rota e cada curva da cidade – antes mesmo de ter sua licença para dirigir, ela já se arriscava nas corridas clandestinas, algo que ela, aos trinta anos, não se via sem.
A alta velocidade era como o oxigênio para Cafrey. Ainda aos oito anos, ela via seu irmão chegar a cada semana com um carro novo para manutenção na oficina da família, e não era qualquer carro popular, mas sim para corridas. Seus olhos brilhavam quando se deparava com latarias bem enceradas, decalques estilizados à personagem do dono e seu coração batia de forma acelerada ouvindo o ronco poderoso dos motores, tanto quando chegavam quanto quando iam embora. Aos oito anos, Cafrey sabia que sua maior paixão seria por carros.
Marcos, seu irmão, logo notou como ela gostava daquilo e, quando já sabia o mínimo sobre peças, a chamou para auxiliar na oficina que lhe foi deixada após o falecimento dos pais em um trágico acidente de carro. Por serem somente ele e a irmã bem mais nova, não se viu com outra saída a não ser seguir os passos do pai – também não tinha muitas, ser latino imigrante na Califórnia não fugia muito dos estereótipos, infelizmente. Fez de tudo para mantê-la bem e se tornou responsável pela criança deixada sob seus cuidados em consequência de uma perda que, por mais infeliz que fosse, ainda tinha o fundo de naturalidade; afinal, a morte acaba por ser a única certeza da vida.
Contudo, mesmo que ele tivesse tentado e se esforçado, a irmã não se esquivou desse cenário e acabou se apaixonando e crescendo no meio de corridas, se tornando até mesmo melhor que ele em inúmeros âmbitos voltados para isso. E, mesmo com tanto tempo passado, Marcos recluso e vivendo sua vida familiar em um bom bairro, casado com uma mulher incrível e seguindo a vida de bancário assim como sempre sonhou, ainda seguia essa vida no auge de seus trinta anos – e não só nesse ramo, mas também em outros mais profundos do mundo de crime.
Tudo para ela era como a adrenalina, acelerada igual o velocímetro de seu motor Ford V8 marcava conforme seu pé pressionava mais o acelerador enquanto trocava as marchas agilmente em nome de um único objetivo: chegar primeiro. Não importava dinheiro para , o prêmio principal era terminar sendo a primeira a cruzar a linha de chegada sinalizada como o fim da rota criada para aquela corrida clandestina. E ela era muito bem conhecida como dona de tal posição no pódio; poucos ousavam competir com a motorista mais rápida e ágil.
Mas tinha essa Ferrari nova, ilustrada e com requintes de uma boa elite, lhe dando trabalho. Ela ao menos conseguia saber quem era o motorista, uma vez que não se apresentaram um ao outro no início da corrida e ela mal conseguia enxergar algo dentro do carro por conta das janelas bem cobertas com uma película muito escura – o que conseguiu distinguir por cada olhada pelo retrovisor foi que ele usava um boné e capuz, fazendo sombra em seu rosto. Não se recordava de alguém que usasse um carro tão luxuoso para correr no meio underground com as gangues de L.A., a lataria parecia não ter noção do que era uma mão engordurada e as rodas nunca terem sido passadas em alguma rua com o pavimento prejudicado.
Talvez fosse algum filhinho de papai magnata querendo se aventurar com o importado automático, ela cogitou.
Um filhinho de papai que parecia conhecer muito bem cada movimento que aquela rodovia necessitava que fosse feito por entre os carros dos civis comuns e, se continuasse daquela forma, não seria surpresa ter que despistar policiais.
contou as saídas, já sabendo que deveria sair da última faixa à esquerda para poder cair na última da direita e entrar na via que daria entrada exata para o caminho do subúrbio ao qual retornaria. Quando notou a placa com o número de sua saída, engatou mais uma marcha e cortou dois carros, seguindo a ordem das faixas para cair exatamente na via que queria. Entretanto, seu feeling fora enganado e a Ferrari azul lhe cortou, entrando antes e a fazendo frear bruscamente e voltar para a primeira faixa à esquerda. Ela havia perdido a entrada mais curta para seu destino e estava furiosa, pois se não tivesse tido a sorte de nenhum carro estar na faixa em que voltou, mesmo com seu reflexo de diminuir a velocidade, não teria conseguido evitar um grave acidente.
– Filho da puta! – Praguejou, batendo a mão esquerda no volante e fechando-a em um aperto em volta dele, tão firme que sentiu a circulação sendo interrompida. A sua direita apertava o câmbio assim como o pé pressionava a embreagem com tamanha raiva que causou um tranco no carro pelo aumento ríspido da velocidade.
Entrou na via de saída da cidade, sendo contramão e o acesso mais próximo que teria, ou, caso contrário, seria a última chegar. Estava tão furiosa que não pensou em mais nada ao cair na primeira avenida, ignorando as buzinas e os faróis altos que recebeu, passando todos os sinais vermelhos e entrando na primeira viela estreita. caiu dentro do bairro e encontrou novamente o carro azul, pouco mais a frente, a quase trezentos metros de alcançar a entrada da rua sem saída que marcava o fim da rota. Sorrindo levianamente, levou a mão direita ao botão ao lado do banco, que acionava o óxido nitroso instalado em Genevieve, seu Jensen Interceptor.
O dedo não demorou a apertar o botão e o carro teve mais força devido à combustão interna, levando ao rápido desempenho para alcançar o veículo à frente; a ultrapassagem teria sido feita na curva para entrar na última rua, mas a velocidade do outro também se manteve equiparada à de e, naquela linha reta, passaram lado a lado pela sinalização da chegada. A Ferrari diminuiu a velocidade antes, logo ao passar pela moça que estava no meio da rua com a bandeirinha balançante em mãos, enquanto Genevieve apenas derrapou ao final da rua com a curva brusca que fez, puxando o freio de mão para parar suas rodas instantaneamente.
Ela desceu rápido, não fechando a porta e vendo o carro azul parar lentamente. Andou a passos curtos até o veículo e deu batidas na lataria da porta antes de puxar a maçaneta, cega e sem cogitar que poderia estar com a trava. A porta foi aberta com seu puxão, porém ela não esperou que o rapaz saísse e, enquanto eram os dois ovacionados pela multidão que estava os esperando, ela vociferou para ele.
– Você é algum tipo de louco que aprendeu a dirigir ontem? – Seu tom de voz era alto e o indicador direito estava erguido, enquanto a mão esquerda segurava no topo da porta. – Não sabe pisar no freio ao ver um carro entrar em sua frente? Comprou a licença pela internet, garoto?
O outro não respondeu ou demonstrou qualquer expressão, apenas desceu e, por ela não sair do lugar, ficaram a centímetros de distância. Com essa proximidade, o rosto dele pôde ser visto nitidamente e tremeu no lugar, deixando seus lábios entreabrirem algumas vezes, sem emitir qualquer palavra.
– Se você está frustrada porque vai ter que dividir seu prêmio, pode ficar com a maleta inteira, não me importo. – Ele respondeu, abaixando o capuz e tirando o boné, a mão passando pelos cabelos alinhados até demais.
– O que você está fazendo aqui? – ignorou o sorriso sacana dele, devolvendo mais uma pergunta, com sua mandíbula enrijecida.
– Bom… O mesmo que você? Me divertindo.
– Não, . Estou falando de Los Angeles. O que está fazendo em Los Angeles? – Os braços dela se cruzaram, demonstrando com seu corpo o nervosismo.
– O que sempre fiz… morar? – Riu, olhando em volta. – E lá vem a sua maleta, Cafrey. Parabéns pelo prêmio.
puxou a porta, fechando-a assim que se sentou no banco do motorista, deixando uma atônita para trás, o vendo sair da rua em marcha ré enquanto estava queimando por dentro em completa raiva. Mais um minuto que ele ficasse na frente dela com aqueles olhos iluminados em deboche e o sorriso cafajeste teria sido o suficiente para ela erguer a mão e lhe esbofetear como há dez anos gostaria de ter feito. Ele tinha que ser sempre assim, dono daquele sorriso imperturbável e com a movimentação corporal de um ser que não se importava em como o mundo poderia estar caindo em cima de seus ombros, o combo que, na fase adolescente de , a perturbava e causava formigamentos, mas que na atual de sua vida só lhe dava mais raiva.
E vendo-o sair com o carro e se distanciar, ela não conseguia controlar o próprio corpo que estava em uma reação adversa da qual queria sentir naquele instante, tendo a sensação de que suas pernas poderiam vacilar a qualquer segundo e derrubá-la. Praguejou até a milésima geração de por ainda ter nela o mesmo efeito e, mesmo com toda aquela aquela raiva por vê-lo, sentir vontade de ir atrás daquela Ferrari azul extremamente bem cuidada.
– Merda. Mil vezes merda! – Resmungou soltando os braços e se virou para o homem que trazia sua maleta com dez mil dólares.
, ! Posso tirar uma foto em Genevieve? – Olhou para baixo, encontrando a dona da voz infantil. Uma menina loira e de pele bronzeada sorria para ela, animada.
– Outro dia. – Tentou não soar tão rude, pegando a maleta da mão do homem. – Eu volto outro dia. Tome, o prêmio é seu. – Entregou para a menina os dez mil e saiu da roda formada em sua volta, indo em direção ao seu carro.
Saiu daquela rua cantando os pneus, completamente absorta na frase de .
“O que sempre fiz.. morar?”, era o que a voz dele ecoava em sua mente sem parar.
– Ele só pode estar de brincadeira… – Resmungou rindo fraco, desacreditada de que em todos os anos que passaram, ele ainda estava nos Estados Unidos e não na Coreia do Sul, como ela sempre acreditou.


O céu estrelado e escuro finalmente tinha caído sobre Los Angeles e parou sua Bugatti vinho na frente do Scalibour, boate de uma amiga de infância em Santa Mônica. Não se deu o trabalho de ouvir ou reparar no que o manobrista do vallet a disse, apenas caminhou em passos decididos até a porta da entrada VIP. Estava sem humor para cumprimentar qualquer um e ser simpática, o fim de sua tarde tinha sido catastrófico do seu ponto de vista orgulhoso e necessitava de uma boa bebida, tão forte que sentiria seu corpo em implosão com tanto nível alcoólico por litro de sangue. E sabia que Rick estava ali, ele sempre ia para a casa noturna às quartas-feiras; era a única coisa religiosa que ele seguia, inclusive.
Subiu direto ao mezanino vip, agraciada por ainda não estar tão cheio e também por não ver nenhum rosto “inimigo” no meio da multidão – se sentia extremamente patética por ter que passar por tal pensamento; aos trinta anos, ela se deparava pela primeira vez com um grau de risco em cima de sua hierarquia no trabalho e isso estava a perturbando. Precisava saber logo quem estava ousando querer tomar um espaço em seu trono. Não sabia se era inadmissível viver com aquele receio de sua segurança e respeito por entre os outros ameaçados ou se alguém querendo furar seus negócios; de qualquer forma uma coisa levava à outra.
Quando terminou o último degrau da escada, viu Richard sentado na última mesa, na parte estofada, conversando com Phoebe, a dona do estabelecimento. Os dois a viram chegar, já que sua presença era sempre tão grande e luxuosa, atraindo todos os olhares e comentários, embora ela quisesse ter entrado despercebida. Phoebe foi a primeira a se levantar e Rick bebeu o último gole de seu copo antes de fazer o mesmo, ambos sorrindo de alguma forma para receber a recém chegada, mesmo que a feição dela estivesse mais fechada que um cinto de castidade.
– Eu não aceito você entrar na minha casa com essa cara fechada, Cafrey! – Phoebe ergueu o indicador, não contendo uma grosseria. Já eram conhecidas o suficiente para uma entender o tom uma da outra.
– Então você vai ter que fechar as portas e me tirar daqui à força. – respondeu, deixando a pequena bolsa de mão no sofá lateral e virando-se para cumprimentar a amiga com dois beijos.
– Vai ser interessante alguém tentando fazer algo à força contra você.
– Apesar de gostar da ideia de um bom entretenimento, hoje é uma noite de apenas curtição. – Phoebe respondeu ao comentário de Rick, vendo virar o líquido todo de um copo na mesa. Ela apenas resolveu ignorar o que aquele comentário significava.
– De quem era isso aqui? – Perguntou, encarando os dois com tédio. – Agora é meu. – Deu de ombros, virando-se para chamar um garçom.
Phoebe e Rick se encararam, sabendo que aquilo era o grau de perturbação da outra. De qualquer forma, mesmo que soubessem sobre o que se tratava, iriam esperar que ela iniciasse o assunto. Então, sentaram-se novamente e a observaram receber uma taça de margarita, não demorando a virar metade dele.
– Uau. Eu ia dizer para curtir na conta da casa, mas estou com medo do prejuízo. – Phoebe brincou.
se jogou no sofá, finalmente.
– O filho da puta do quase me fez capotar Genevieve hoje!
Phoebe conhecia o tom de , sabia que ali carregava o mais puro ódio que um ser poderia encaixar em seu corpo. Não era somente sobre o acidente que ela poderia ter se envolvido, mas sim sobre toda a bagagem da história dos dois que fora mal terminada por uma decisão que ele tomou sozinho no passado. Tão bem quanto a conhecia, ela sabia sobre eles, desde o início e primeira vírgula, até o ponto final dado em uma sentença que Cafrey recusou-se a acreditar ter acabado. Também pudera, tinha sido seu primeiro em tudo e, ainda naquela época, ela era nova demais para compreender algumas coisas.
Não importa a passagem relativa do tempo, a mágoa fica, só se cura de forma totalmente pessoal e isso não teve a chance de fazer desde então. Se tratava de um coração partido, o que leva mais do que anos ou dias para se curar. poderia ter quarenta ou cinquenta anos, mas essa mancha de vinho em sua camisa branca não se curaria – não sem a oportunidade para isso.
Tentou evitar o sorriso ao ouvir o que a amiga disse, prevendo como terminaria toda a situação. Era uma matemática básica e, se ainda fosse o mesmo apaixonado pela mocinha em questão, eles poderiam acrescentar uma vírgula no ponto. E Phoebe ansiava por isso, a mentalidade de sua amiga agora era outra, mesmo que estivesse agindo como uma adolescente naquele momento, ela sabia melhor sobre si.
– Como assim? Ele não está em Seul? – Perguntou interessada, recebendo sua cerveja, como era de tempo em tempo. Ela não precisava pedir, a bebida vinha como via de regra.
– Não. – Revirou os olhos ao responder, mais uma vez entornando o líquido da taça. – Ele está em Los Angeles… apareceu hoje para a corrida dos irmãos Kyle.
– Espera, você foi de novo para uma corrida clandestina, ? – Richard perguntou, incrédulo. – Está louca?
– Precisava espairecer e pensar, Rick.
– Se colocando em perigo no subúrbio? – Ele respirou fundo, irritado. – Sua impulsividade vai te custar muito ainda.
– Já quase custou, não é mesmo? – Phoebe interveio entre os dois. – Mas termina de contar, como foi o lance até o fim?
– Que lance? Não teve lance.
– Quem ganhou? – Rick perguntou, imaginando que talvez tivesse perdido e por isso estava mais furiosa.
– Ninguém. Empatamos. – E o último gole foi para a garganta dela. – E o desgraçado ainda ficou com aquela cara de sonso cafajeste que ele tem quando eu fui confrontar a direção perigosa dele!
Phoebe riu anasalado, movendo a cabeça de um lado para o outro, desacreditada.
– E a corrida por si só já não é perigosa, Cafrey?
– Não. Existe uma coisa chamada jogo justo, ninguém coloca a si ou ao outro em perigo. – Ela respondeu a Rick, chamando novamente o garçom com um aceno de mão. – Mas tudo bem, não tem muito o que esperar de mesmo. Ele não possui nenhum carinho pelo próximo.
Sem ouvir ou esperar por respostas, se levantou. Ignorou o rapaz que chegou ao seu lado para anotar o pedido e foi direto ao bar, pedindo por uma dose dupla do uísque mais envelhecido que tinham. Com o copo na mão, desceu para a pista de dança. Se na corrida ela não conseguiu extravasar o que queria, então o momento seria li, dançando e bebendo como uma civil normal faria; se preocuparia depois com quem quer fosse que estivesse querendo se intrometer em seus negócios, sem poupar vidas ou bater de frente com ela. Só por aquela noite iria desligar-se de tudo, principalmente para esquecer momentaneamente o encontro repentino com ele – e ela queria muito que isso acontecesse.
No meio da pista de dança, se movimentava com a certeza de que ninguém chegaria nela desrespeitosamente e que não haveria nenhum incômodo por invadirem seu espaço pessoal. Ela gostava de se entregar na melodia eletrônica, não se prendendo quanto aos movimentos sensuais; tinha plena consciência da mulher livre e desligada do politicamente correto que era. Não devia nada a ninguém, então por que se importar com a opinião de quem não pagava suas contas? Seria totalmente sem sentido.
Os pensamentos que enchiam sua cabeça foram se dissipando, parecendo que ela nunca havia caído naquele mar de preocupações. A única coisa que não sumia era a falta que Brooke fazia, e isso estava a consumindo por completo, seu estado perdido dos últimos dias sendo a consequência. Ela era sua parceira para tudo, não só a mente pensante e calculista que bolava todos os atos de ações para que Richard e liderasse; não, era muito mais, como uma irmã. Se conheceram no último ano da escola, ela sendo a latina do subúrbio e Brooke parte de uma família muito tradicional dentro do padrão de sonho americano, mas nada disso fazendo cada uma andar por uma linha distante da outra, muito pelo contrário.
As coisas na oficina não estavam indo muito bem, queria ao máximo poder ajudar o irmão e acabava perdendo dias de aulas, tendo que recuperar toda a matéria em determinado momento para não repetir o ano. Mesmo que ela já tivesse seu desejo de continuar com a oficina e sem perspectiva de cursar alguma faculdade, se esforçou para que pelo menos terminasse o ensino médio, não causando mais preocupações a Marcos. Ele já tinha muito o que pensar: sua segurança, alimento na mesa, manter o dinheiro entrando, dentre muitas outras responsabilidades envolvendo sua criação. Além de, claro, manter-se atento porque ela, logo aos 17 anos, já era figurinha carimbada entre as gangues e nome marcado nas corridas clandestinas.
tinha muitos motivos para deixar seu irmão de cabelo em pé, mas apoiar-se em Brooke a fez enxergar que o mundo não acabaria em uma noite e que poderia dar para ele um mínimo de alívio. Além disso, a família de Brooke sempre demonstrou não entender o porquê de tanto preconceito com os dois imigrantes, sempre manifestando gostar deles e não diferenciá-los, chegando a adotar nos almoços, não impedindo a amizade que as duas criaram, vendo o bem que fazia para ambas.
Foi uma desconstrução, por assim dizer.
Infelizmente, mesmo sendo de uma família mais afortunada e respeitada por suas raízes, os pais de Brooke acabaram assassinados em meio a um conflito entre duas gangues que tentavam fazer seu espaço, tomando o lugar da que já era bem alocada ali. O apoio de à amiga acabou por fazê-las se tornarem mais cúmplices e, naquela época, Brooke já estava cursando o primeiro ano da faculdade em engenharia de software, enquanto a outra firmava-se no lugar do irmão, que decidiu mudar-se para o Texas com a mulher que havia conhecido.
Marcos merecia ser feliz e o garantiu que ficaria bem, e por muito tempo ela realmente ficou, pois tinha Brooke e logo Richard apareceu em sua vida. Mas ela não queria pensar sobre quando conheceu Rick, isso implicava em colocar um terceiro nome em sua mente e naquela noite ela queria tudo, menos remeter suas lembranças a .
Sentia extrema falta de Brooke, indo para sua primeira semana sem a amiga. Entretanto, sentia-se inútil por não poder agir para vingá-la e não deixar sua morte por aquilo mesmo. Estava sufocada com aquela sensação horrível da perda, de mãos atadas porque não tinha como fazer algo – e era péssimo. Se alguém soubesse que Cafrey tinha perdido toda sua equipe porque se sentiram ameaçados ao ter a cabeça de Brooke abatida, logo ela, então estaria ferrada. Precisava encontrar uma saída, um caminho para resolver tudo e acabar de uma vez por todas com aquela ameaça, mas só tinha Richard e, como ele pontuou corretamente: eram a dupla da ação, não tinham tanto tato para pensar e planejar detalhes.
E antes fosse somente por isso a falta que Brooke fazia. Se estivesse ali com ela, serviria de colo e ombro para dizer o que precisava ouvir quanto ao acontecimento recente; a colocaria de volta nos trilhos sobre os pensamentos referentes a e seu retorno inesperado. Se estivesse ali, talvez nada daquela bagunça fosse real e ela não estivesse estranhamente se sentindo fracassada, com a mesma quantia de sangue e álcool em seu corpo.
Não reparou e nem notou quando saiu pela boate, em direção à saída. Só teve os reflexos para esquivar-se de Rick e Phoebe, com alguém a seguindo até o lado de fora.
– Você não vai dirigir nesse estado, Cafrey. – A voz parecia tão suave, como uma melodia passada que ela amava ouvir.
Riu fraco, pegando em sua bolsa um cigarro e o isqueiro automático, ignorando sua própria ilusão. Estava bêbada demais para isso, a única coisa da qual ela ainda acreditava que faria bem naquele “estado”, como foi dito pelo ser que a seguia, era dirigir – e talvez sexo, mas não poderia citar isso porque bêbado não consente nada e muito menos tem noção exata para fazer, a perda da introversão e aumento deste oposto faz com que o individuo alcoolizado não pense racionalmente o que faz; o que é perigoso.
Estava impaciente com a demora do carro, mesmo que fizesse pouco tempo de sua espera. Na primeira tragada no cigarro, ainda com os sentidos fora do normal e bem longe de racionais, disse:
– Eu não vou embora com você, não te conheço. – Suas palavras saíram emboladas, ainda com a tentativa de ser firme.
– Não precisa ser comigo, eu te coloco num táxi. – A pessoa rebateu, mais próximo e ainda atrás dela.
– Tenho carro e licença para dirigir.
– Vai ser parada, é horário de blitz. – Pôde sentir que ele deu mais um passo, falando mais perto ainda e com o hálito batendo em sua nuca exposta.
– Ninguém me pára em Los Angeles. – rebateu entre outra tragada, jogando a fumaça para o ar.
Ele riu fraco, novamente o hálito batendo em sua nuca, quente.
– Você continua a mesma pessoa teimosa e impulsiva de sempre, Cafrey.
se virou, sentindo-se tonta pela rapidez em que girou sob os próprios calcanhares, e acabou por pender o corpo para frente, sendo obrigada a segurar-se nos ombros dele. O cigarro foi tirado de seus dedos pela mão fria do outro e, quando pensou que estava focando certamente quem era o homem em sua frente, sentiu a tontura aumentar, o perfume doce a deixando com ânsia.
– Senhorita, seu carro. – O motorista do vallet anunciou ao descer da Bugatti.
– Vem, eu levo você embora.
Não teve tempo para responder se queria ou não, sendo a última coisa que ouviu e o último flash de luz passar por seus olhos ao sentir-se ser carregada e, com o rosto na direção do céu, ver os letreiros brilhantes do Scalibour.
– Não, … Me deixa aqui. – Foram suas últimas palavras, enquanto rodeava o pescoço dele com seus braços e era levada para onde ela não sabia.



O colchão era macio, o lençol também, e o cheiro do amaciante era muito agradável. não queria abrir os olhos, sabia que no momento exato que fizesse isso, seria atingida pela dor excessiva em sua cabeça. Entretanto, ela precisava. Sabia também que estava em uma cama desconhecida e sentiu-se receosa de descobrir que não era a de Phoebe ou de Rick. Com quem mais poderia ter ido embora do Scalibour na noite anterior?
Totalmente a contragosto, ela abriu os olhos, encontrando o quarto levemente iluminado pela luz do dia que passava pelas cortinas fechadas e não muito escuras. Ergueu o corpo lentamente, ficando sentada e notando que estava vestida com uma camiseta branca e um shorts masculino tamanho mini. Olhou ao redor devagar, sentindo o pescoço pesado e sua cabeça do tamanho de uma bigorna, como se estivesse arrastando um caminhão com uma simples linha de costurar. Viu que na mesinha de cabeceira ao seu lado direito tinha um copo com suco e alguns comprimidos e franziu o cenho, se esticando dificultosamente para alcançar o papel embaixo de ambos.
“Bom dia… Talvez você acorde antes de eu chegar e, se ainda odeia conversas matinais, essa então é uma boa ideia! Deixei esses analgésicos para você tomar e um suco de laranja sem gelo e açúcar –

Pressionou os olhos ao terminar a leitura e, quando os abriu novamente, depois de um longo suspiro, sentiu-se um tanto mais aliviada – de forma contraditória – por estar na cama de e não de um completo estranho. Agora sabia que nada deveria ter acontecido e que o máximo poderia ter sido ele a dando um banho e vestindo suas roupas em seu corpo, uma coisa básica perto da intimidade que chegaram a ter.
Tomou o suco com os analgésicos e colocou o copo na mesinha, caindo com o corpo para trás novamente e encarando o teto. O quão louco estava sendo acordar naquela cama? Franziu o cenho ao notar que aquela mobília toda era familiar e se sentou outra vez, olhando de forma panorâmica todo o quarto, devagar recebendo os flashes da noite anterior, com nada que a deixasse se sentir péssima e irresponsável – talvez teria sido, caso não fosse impedida de dirigir para sua casa, no estado caótico em que estava de embriaguez.
Mordeu o lábio inferior enquanto tinha seu rosto para o lado direito, em direção à janela, conseguindo ver a imensidão do mar à frente, tampado apenas pelo creme do tecido das cortinas. Los Angeles era linda demais para que ousasse querer ir embora, assim como muitos em sua vida fizeram. Assim como um dia fez – ou não, porque ele estava ali, na mesma cobertura, os mesmos móveis formulados perfeitamente para aquela longa duração e que ela passou a reconhecer mais a cada vez que sua consciência parecia se firmar aos poucos.
– Ainda odeia conversas matinais?
Levou um susto ao ouvir a voz dele com o sotaque carregado, odiando sentir o corpo arrepiar-se com o grosso do timbre. Não seria possível que depois de tantos anos ele ainda tivesse o mesmo efeito nela.
Virou-se lentamente para ele, que vinha pela saída ao seu lado esquerdo. A parede quase infinita, coberta por uma madeira maciça marrom, era cortada apenas pela porta que ela se lembrava ser a entrada de um pequeno hall que daria em dois caminhos: o imenso banheiro luxuoso e o closet tão grande quanto o restante da suíte. Ele surgiu por ali vestido na sua paleta de cor mais comum de roupas, para seu alívio – ou não; de preto tinha vaga na sua mente para transitar livremente –, com os cabelos levemente molhados, denunciando que estava em um banho.
– Bem, o silêncio é mesmo uma resposta. – Ele riu, aproximando-se da mesinha de cabeceira do outro lado da cama, pegando seu Rolex. acompanhou tudo com o olhar, perdida nos próprios pensamentos. Imaginou que ele ainda fosse o mesmo viciado naquela marca de relógios tão cara. – Eu preciso sair, pode ficar à vontade… Você conhece toda a casa. Se precisar de alguma coisa, é só pegar.
Quando ergueu o rosto para ela, endireitando o corpo que estava curvado enquanto pegava os acessórios em cima da mesinha, seu coração trepidou. O olhar dele era o mesmo de sempre, profundo, direto e claro; ela se lembrava muito bem de todas as vezes em que ficou imersa naquela íris, de todos os momentos que desejou não perder aquela troca e de como se sentiu quando o último olhar dele direcionado a si foi em um tom frio de despedida. Uma despedida que ela não quis, inclusive.
E esse detalhe lhe serviu como um alerta.
Engoliu a seco, varrendo para longe as memórias e pensando no que diria, se tinha algo que quisesse dizer ou pudesse fazer sem ser a sua autodefesa da garota de dezenove anos que teve o coração quebrado. Muito tempo tinha se passado para que ela remoesse aquele passado de tal forma, agora era uma mulher adulta e com mais bagagem em sua vida. Ele poderia estar certo sobre sua impulsividade e teimosia; isso era algo de comentário geral, porém o que falavam por aí sobre agregar conhecimento e a vida ensinar, isso era real.
– Você está bem?
De forma inesperada, ele subiu na cama com parte de seu corpo, flexionando o joelho esquerdo no colchão e esticando o braço esquerdo para que o dorso de sua mão tocasse a testa dela, tentando sentir sua temperatura. Automaticamente, o olhar de seguiu para o pulso dele bem próximo, com o relógio de ouro fechado ali. O toque dele, porém, formigou , fazendo-a sentir a combustão de seu corpo todo. Ela manteve o olhar na mesma direção por alguns segundos, acabando por fixar-se no peito dele, marcado pela camisa social preta por baixo do blazer também da mesma cor.
Pressionar os olhos mais uma vez deu a ela uma sobrevida.
Não era mais a mesma jovem ingênua, não poderia se liberar daquela forma para a enxurrada de sentimentos que não alimentava mais – ou pelo menos acreditava não alimentar, até então.
– Estou. – disse, afastando a mão dele de sua pele. – Cadê minhas roupas? – Perguntou tirando o lençol de cima de seu corpo e já se levantando.
– No closet, estão lavadas e secas. – olhou o relógio em seu pulso e torceu os lábios. – Tome um banho, te espero lá embaixo para tomar um café, tenho tempo.
Ela riu, parada no lugar e o encarando incrédula.
– Você está brincando comigo, não é? – Levou as mãos até a cintura, apertando-se e esperando a resposta dele por poucos segundos, não ficando no lugar por tanto tempo e indo em direção ao closet buscar suas coisas.
ficou parado no mesmo lugar e, quando ela retornou com as roupas emboladas no braço, ele estava com o controle em mãos, observando as cortinas se abrirem. Ela sentiu um incômodo nos olhos pela claridade mais forte, mas ignorou aquilo, até mesmo a pontada na cabeça. O quanto deveria ter bebido na noite anterior para chegar neste nível?
– Cadê a chave do meu carro? – Perguntou com o tom firme.
– Está nele, na garagem… – Ele respondeu sem a encarar.
Não soube dizer o que a fez ficar parada olhando aquele perfil do homem entretido com a abertura das cortinas, mas ela ficou; foram segundos que duraram séculos. Ele ainda continuava com a mesma aparência e serenidade, o mesmo rosto delineado e olhos escuros, sempre focados. Os lábios ainda mantinham a mesma tonalidade rosada e de aparência saudável, se mantendo como seu charme comum. Houve uma época em que se via viciada em selar aquela boca com a sua e, por muito tempo, sentiu falta.
– Ah, merda. – bufou e xingou, a retirando do devaneio. Puxou o celular do bolso de sua calça social e iniciou a gravação de um áudio. – Morgana, preciso que peça a manutenção das corredeiras automáticas, estão travando. Preciso delas funcionando perfeitamente para… – Parou sua fala ao olhar na direção de , relaxando o braço. – Você está bem?
bufou, irritada.
– Para de perguntar se estou bem, inferno. – Reclamou, virando-se para sair.
O que estava pensava estar fazendo ao ficar parada encarando-o daquela forma?
Os passos largos que deu pelo corredor foram logo alcançados por ele.
, espera!
Mesmo que ela estivesse decidida em ir embora logo, ser chamada pelo apelido a fez parar no final do corredor, mas sem virar na direção dele.
– Eu quero saber mesmo se está bem… – Insistiu. – Você… você não deveria beber tanto assim se está grávida.
O choque de sua fala a fez mais uma vez girar sob os calcanhares, olhando-o confusa demais e querendo saber de qual mundo ele tinha tirado aquela ideia.
– Quem disse que estou grávida? – Perguntou.
– Você mal sentiu o cheiro do meu perfume e vomitou ontem, inclusive, a noite toda. – Ele gesticulava enquanto falava, parado à frente da porta do quarto.
– Ah, claro… – Riu, revirando os olhos. – Obrigada pela preocupação, . Eu e meu filho estamos bem. – Completou de forma sarcástica.
não o esperou e voltou a caminhar em direção à saída, furiosa e incrédula. Dentre todos os pensamentos e ideias que poderiam a assolar naquele momento, ficar presa na voz de dizendo que precisava de suas cortinas funcionando perfeitamente bem por algum motivo especial a deixou estressada. Não deveria sentir incômodo algum com as inúmeras possibilidades daquilo, muito menos ficar se remoendo em ideias descabidas sobre como foi a noite e todo o cuidado que ele teve com ela.
Odiava a lembrança marcante do homem que ele era, que ficou manchada pelo simples " indo embora” dele, sem muitas brechas para que ela expusesse os motivos pelos quais queria que ele ficasse. Mas era isso mesmo, era daquele jeito e, pôde notar, não mudou.
Contudo, pensou e repensou mil vezes durante todo seu trajeto, ainda vestida com as roupas dele, sobre a possibilidade de ter alguém em sua vida e por isso estar em L.A. E, se isso fosse a realidade, por que dormiram na mesma cama?
Aliás, ela tinha dividido cama com ele?


Não era comum ir para a oficina, ela ficava mais no escritório do que no estabelecimento, tanto que os olhares recebidos de todos os funcionários quando parou seu SUV branco em frente a calçada foram de confusão e alguns clientes que estavam aguardando seus veículos ficaram encantados e deslumbrados pela presença ilustre da famosa senhorita Cafrey, dona daquela franquia de oficinas para carros esportivos e importados em toda a Califórnia. tinha seu nome nesse ramo, obviamente.
Ela desceu do carro, vestida com seu conjunto de moletom e denunciando aos mais velhos de casa da Cafrey’s Off Road que era um dia em que ela colocaria a mão na massa, o que acontecia com mais frequência do que parecia. Não se deu ao trabalho de acionar o alarme, entrando a passos firmes no salão, sem deixar sua exigência de lado ao reparar bem no piso, para ter certeza de que mantinham o mesmo padrão luxuoso – e respirou aliviada ao garantir que ainda podia ver o próprio reflexo naquele chão limpo e brilhante; era um luxo do qual ela oferecia a seus clientes e também para si, coisa de ego.
Sorriu e cumprimentou os desconhecidos com um aceno de cabeça, mantendo sua caminhada em linha direta para a escada que levaria à sala de Richard, falaria com ele primeiro. Ao chegar no primeiro degrau, viu Rood arrumando uma prateleira. Ele era o novo estagiário de alguma coisa que ela não conseguia se lembrar, mas que notava o potencial, e jogou para ele sua chave.
– Preciso que troque o óleo e regule o som do meu carro, você está encarregado. – Ordenou com sua voz límpida e continuou o caminho, sem esperar por qualquer resposta.
O barulho novamente retornou quando ela passou pela porta, deixando o amigo, e também gerente de sua oficina, confuso com sua chegada repentina. Tirou o óculos preto ao se sentar na frente dele, tendo a mesa de modelo industrial separando os dois. Rick ainda estava na mesma posição de quando ela entrou na sala sem ser anunciada e em completo silêncio. Somente se moveu quando notou que ela não diria nada e que o ar de sua presença exalava o estresse de tom comum dos últimos dias; então, deixou de lado a caneta e a calculadora, tirando o óculos de grau, para dar total atenção à amiga.
– Vejo que a ressaca está pesada hoje. – Disse em tom ameno.
– Antes fosse só ressaca. – se ajeitou na cadeira de forma folgada, com as pernas abertas e a cabeça inclinada para trás, encarando o teto. – Como você me deixou ir embora com ? – Perguntou, ainda mirando o mesmo ponto.
Richard respirou fundo, mas era claro que o motivo da perturbação dela tinha esse nome.
– E desde quando você não queria que ele te levasse embora? – Devolveu, inibindo a vontade de sorrir em sarcasmo ou ironia.
fechou os olhos, levando as mãos ao rosto. Estava exausta e sentindo-se fracassada o suficiente para não rebater qualquer coisa, talvez começasse aceitar o que tanto falavam sobre seu jeito de agir perante a – estava realmente por um fio de organizar a própria situação, internamente, e olhar para aquela figura de uma forma diferente. Só não iria externar isso. Com certeza renderia comentários dos quais ela não saberia receber muito bem, era um assunto muito delicado e extremamente mal resolvido, ela sabia. E se perguntava como o outro passou os anos depois de ir embora e deixá-la sem muita hesitação, porque ela, bem, usou sua mágoa como palanque, esquecendo de em algum momento curá-la.
Era frustrante fazer o retrospecto de sua vida na última década, notar que estava com trinta anos e ainda tinha aquele coração quebrado, não deixando que ninguém se aproximasse pelo receio da mesma história se repetir, embora acreditasse fielmente que não tinha mais a mesma mentalidade da garota de quase vinte anos que o primeiro amor abandonou. Não tinha um contato em sua agenda para dizer que poderia engatar a rota comum de um interesse, um flerte; ela mal salvava o número dos caras com quem dividia a cama por uma noite e os que geralmente repetiam a dose eram menos interessados ainda em relações além das casuais. Típico cenário de magnatas solteiros, nada fora do clichê, mas ela não se importava muito com isso; estava indo bem do jeito que levava sua vida e não sentia falta de um relacionamento.
Pelo menos acreditava que não sentia, apesar da frustração do momento abater em si pela ideia da forma em que estava se analisando.
Era tudo um reflexo daquele peso em seus ombros, a contradição deixando-a inerte e perdida como nunca havia se sentido antes. Ela tinha construído muita coisa, não só material, mas também intelectual, mesmo que sua personalidade movida por impulsos e uma filtragem pouco menos eficaz, em comparação ao que se espera de uma mulher adulta, estivesse sempre ali presente em seus traços. Podia contar nos dedos quantas vezes, desde que bateu de frente com muita gente, que a diziam ser impossível sustentar a fortaleza que tanto queria erguer, foi colocada à prova como estava acontecendo no atual momento de sua vida. Queria que acabasse logo, chegando a cogitar se deveria sim aceitar sua derrota e entregar-se, deixar que o novo grupo, de fosse lá o que e de onde vinham, assumissem o controle e interceptações de caminhões cegonhas com carros importados – o que só ela fazia na Califórnia, tendo seu nome “respeitado” neste meio e bem falado no restante do país. Mas ainda se fazia orgulhosa demais para desistir, por mais exausta e sem saídas que estivesse.
Tinha dezessete anos quando foi chamada por Kyle, um dos motoristas de uma corrida clandestina que aconteceu dentro do centro de L.A., para participar de uma interceptação de um caminhão cegonha que estava trazendo caminhonetes 4X4 para a cidade. Sua primeira vez foi simples, tinha apenas a tarefa de pilotar para o cara que iria sair dirigindo a caminhonete, mas ainda assim era uma peça importante naquele quebra-cabeças. Kyle continuou a chamando até que, na quarta vez, teve problemas com um de seus parceiros e acabou por precisar que ela o ajudasse a levar uma Bugatti da cegonha. fez o que lhe foi designado e com muita excelência, até mesmo se atreveu a ajudar na troca de chassis; foi nesse dia que ela encontrou o que queria fazer.
Quando Marcos se casou e foi convencido por de que poderia deixá-la, ela decidiu continuar a oficina, suas perspectivas levando ao maior desejo de abrir franquias e fazer o nome Cafrey por aí, em grandes fachadas, brilhar e ser marcado.
E foi. Em dez anos, Kyle abandonou esse ramo e a deixou totalmente responsável, seguindo por si. Richard se juntou logo à antiga equipe com ela, ainda jovens, e a amizade e parceria só se fez crescer. Brooke continuou a faculdade, mas sempre ajudando a amiga e sendo a cabeça pensante para ela agir. não abandonava a prática, por mais rica que estivesse ficando, e continuava a participar, sentindo que a adrenalina em seu corpo de uma fuga, de mexer nos carros antes de transferi-los e receber seu dinheiro, era a fonte de prazer para a mover. Ela gostava disso, ainda mais pela velocidade. Nem mesmo os perigos que começaram a rodear seu nome impediram-na de continuar.
Agora estava ali, pensando em como Richard poderia estar certo e que ela deveria ir atrás de , pedindo por ajuda. Tinha noção de suas opções e seria menos humilhante dar as costas a tudo e aceitar sua derrota do que dizer a ele que precisava dele. Não, isso ela não faria, havia jurado para si mesma que nunca rastejaria até depois dele ter decidido por conta própria que terminariam o que tinham e ir embora para a Ásia. Ainda tinha sua palavra selada na promessa feita e, mesmo que fosse por um coração partido, não se importava; a ele, não pediria nada. Se iria rolar uma aproximação com o retorno repentino dele para Los Angeles, então seria pela outra parte porque, vindo de , o mundo inteiro morreria esperando.
– Vamos começar a separar por partes, Rick. – Iniciou, olhando para o amigo e curvando o corpo ao arrastar a cadeira com o impulso dos pés, com os cotovelos apoiados nas coxas e as mãos unidas. – Quer que eu assuma a mágoa? Eu assumo. Mas não vou me humilhar para . Isso aqui não se trata do meu coração e do que aconteceu há anos atrás.
– Você não precisa assumir a mágoa para mim, se trata do que sente, . – Rick sorriu genuinamente. – Ainda gosta dele e, de alguma forma, ele se importa com você, caso contrário não teria tomado a frente ontem.
ergueu a mão, voltando a encostar o tronco no encosto.
– Por partes, Richard, por partes. – Suspirou. – Não vamos falar mais sobre , excluí ele dessa sua ideia. Acho mais digno não interceptarmos nada.
O amigo endireitou o corpo, completamente assustado com a fala dela e surpreso por ouvi-la cogitar aquilo. Nem em seus sonhos mais estranhos Richard pensou que um dia isso seria possível, e deveria confessar que ficou, sim, chocado.
– Como eu disse, não se trata da minha vida amorosa. – continuou, vendo ele permanecer quieto. – Não iremos agir dessa vez e isso vai nos dar tempo para analisar e reconhecer nosso inimigo.
… é uma carga bilionária… – Ele piscou algumas vezes, ainda sem acreditar.
– Não temos ninguém, Rick. Então faremos isso, vamos fazer eles pensarem que tem o controle e podem assumir algo, enquanto analisamos antes de dar o bote. E isso nos dá tempo para reconstruir nossa equipe.
Ela se levantou da cadeira, observando na mesa um envelope bonito e elegante, lembrando-se do que se tratava assim que bateu o olho. Pegou o papel indo em direção ao mini bar que Richard mantinha em sua sala, dando tempo para que ele pudesse pensar e digerir o que tinha ouvido.
– Você vai? – Optou, porém, em perguntá-la sobre o que estava em sua mão, o coquetel do qual foram chamados para participar.
– O que? Nesse coquetel? – devolveu em uma rápida pergunta, servindo dois copos com uísque. Ele apenas murmurou algo. – Não sei, talvez eu vá e cure uma ressaca com outra. Os italianos são bons de negócios, isso pode render algo bom para a franquia. – Deu de ombros, retornando para o mesmo lugar.
Colocou em cima da mesa um dos copos e novamente tornou a olhar o papel que estava na sua mão, com o copo que manteve para si, puxando-o para ler melhor.
– Manfissoni. Não conheço ninguém nas redondezas com esse nome ou com algo disso. – Ergueu o olhar para Richard, o pegando em uma feição perdida ao encarar o líquido dentro de seu copo. Ele não respondeu com o passar dos segundos e nem saiu da mesma posição. – Ei! – Chamou alto, tendo sua atenção. – Se perdeu aí?
– Estava pensando se levo Phoebe ou não. Tínhamos planos antes desse convite surgir. – A justificativa dele saiu robotizada.
– Ela odeia esse tipo de coisa, mas é mais fácil sair de lá e encontrá-la no Scalibour depois. – disse, em seguida entornando o líquido todo.
Enquanto ela foi até o mini bar devolver o copo, Rick continuou na mesma feição e quieto mais uma vez. Ela estranhou, mas não deu importância; talvez fosse o lado apaixonado dele querendo algo.
– Bom, vou colocar a mão na massa um pouco. Nos vemos à noite, Rick. E vê se tenta sair desse mundinho apaixonado pelo resto do dia, tem muito trabalho a ser feito e ainda não são nem dez da manhã! – Sorriu para ele, recolocando o envelope na mesa e virando-se para a porta.
– Não use esse tom de chefe comigo, Cafrey! – Ele devolveu, vendo-a sair da sala.
Ela estava focada em desfocar por algumas horas e refletir um pouco sobre ter acordado na cama de depois de muitos anos.
Começaria organizando sua situação interna, a partir da pergunta que não saiu de sua cabeça desde que acordou naquele quarto: por que estava sentindo aquele afago no peito ao ver que ele esteve ali o tempo todo e somente ela não tinha visto?


entrou em seu apartamento com passos tranquilos, estava se sentindo leve naquela transição da tarde para noite depois das horas que passou naquilo que chamava de “retiro espiritual” – gastar horas com peças de carro era como uma boa terapia. Sentia-se mais alinhada e organizada, finalmente aceitando que deveria colocar em sua agenda do dia seguinte uma visita ao túmulo de Brooke, queria muito poder contá-la que não tomou nenhuma decisão por impulsividade e que, apesar do caos em que ficou durante os dias que se seguiram, estava conseguindo concentrar-se com o lado racional – por mais triste que soasse a existência de tal conduta, já que sua realidade se voltara a isso devido a perda de sua amiga e todo o seu contexto.
De certa forma, ela entendia que não tinha mais como voltar atrás e passar o tempo desligada de tudo naquele dia, até mesmo do pensamento assombroso dos encontros com , e isso a fez centralizar suas prioridades e saídas. Não tinha muito o que planejar e, por mais doloroso que fosse assumir a desistência dos bilhões que continham na carga prevista para chegar nos próximos dias, ela precisava. Infelizmente, quanto mais dinheiro e poder passava a deter, mais perigoso ficava e cada vez mais apareceriam pessoas querendo puxar todo seu tapete. Então, manteve-se decidida na palavra que deu a Rick; iriam ficar reclusos e esperar o momento certo para contra atacar, era somente uma pausa estratégica.
Conforme adentrou o apartamento, cantarolando uma música e repetindo o mesmo mantra de que isso seria por Brooke, imaginando que a amiga ficaria feliz por vê-la tão centrada nos próprios pés, cortando até mesmo o devaneio em , pôde ouvir o som de melodias profundas saírem do piano em sua sala. Quando se deu conta, não era Robert, seu mordomo, tocando, e ela sabia disso não por não vê-lo, mas porque melodias tão predominantes e marcantes como aquelas, só se lembrava de ter ouvido ele tocar.
Sentiu o frio na barriga ao fazer a curva do pequeno hall de saída do elevador privativo e parou imediatamente na entrada da enorme sala, o corpo de sentado à frente de seu piano, não tão relaxado, mas tão pouco rígido, a fazendo travar. Ele se destacava naquela paisagem que tinha a enorme janela de teto a teto, que compunha toda a volta de sua sala, com a visão do pôr do sol de Los Angeles ao fundo. Seus dedos se moviam sem nenhuma necessidade de premissas e o faziam entrar naquela aura tranquila, descoberta pela camada que o envolvia e não dava aberturas para quem fosse de fora o observar de verdade. Era ali em sua sala, tocando seu piano, como em uma cena nostálgica e cheia de significados; parecia uma repetição de um passado que ela queria esquecer do final, sugando-a para a imensidão dos sentimentos que finalmente tinha conseguido se esquivar durante a tarde.
Era o seu primeiro amor ali, sentado e tocando sua música favorita, as melodias que há dez anos ela não ouvia e se recusava a colocar em playlists.
A primeira vez que I Was Born To Love You foi dividida com ela, por ele, havia acabado de declarar seu amor como uma verdade absoluta. Uma noite chuvosa, o clichê de sair do carro furiosa porque não aguentava mais guardar o sentimento para si e movida pelo ciúmes de ter visto uma outra pessoa flertar com o homem o qual ela pensava em figurar um futuro ao seu lado, cuspir as palavras de forma ansiosa, esperando que não estivesse falando sozinha. Acabaram dentro do SUV que dirigia àquela hora da noite, suados e divididos no prazer daquele sentimento recíproco, com ela na certeza de que não tinha errado em sua decisão. Alguma coisa aconteceu e ela o ouviu dizer que a amava também, enquanto Freddie Mercury dizia em sua música que havia nascido para cuidar de alguém, do sujeito daquela letra.
, como uma crente nas mensagens destinadas pelo universo naquela época, acreditou que não fosse uma coincidência. Ela acreditou fielmente que era aquilo e ponto final; era como se sentia com ele: protegida, cuidada e respeitada. Entretanto, tudo caminhou para um rumo diferente.
Ele tinha ido embora de uma forma que ela não soube encontrar sentido. Muito menos continuou procurando.
E em sua mente já estava bem configurado assim, portanto, por mais bonita que fosse sua memória e o quão intensa parecia ser, existindo com aquele clima palpável entre eles ainda que anos tivessem se passado, não tinha o menor direito de invadir a vida dela assim novamente.
– O que você pretende com isso? – Limpou a garganta antes de dizer, engolindo o bolo que se formava.
Os dedos de pararam, não porque ela chamou sua atenção, mas devido ao fim da música. Endireitou os ombros, seu tronco assumindo uma postura completamente reta e de forma impecável como sempre. Ele usava roupa preta, obviamente, mas um modelo menos formal como o qual se vestiu naquela manhã. Passou as mãos nas pernas antes de se virar e, ainda sentado no banco, encará-la longe de si. tinha o olhar fixo nele, o corpo travado e a mandíbula seguindo o mesmo perfil tenso. De sua memória, ela continuava ainda a mesma pessoa que conseguia enxergá-lo com apenas aqueles olhos atentos.
– Não tivemos um reencontro agradável, então resolvi vir te fazer uma visita. Robert continua sendo um senhor adorável. – Ele disse depois de breves segundos, sem hesitar.
– O que você quer? – só conseguiu encontrar essa junção de palavras, falando de modo reativo.
– Saber se está bem.
Ela riu fraco, não deixando que a voz rouca e expressiva em sinceridade genuína a contaminasse. Não conseguia acreditar que ele realmente estava com a mais pura intenção.
– Você só pode estar brincando comigo! – Riu fraco, deixando a chave do carro em cima da mesinha logo ali na entrada e colocando as mãos nos bolsos do moletom.
– Sabe que eu não brinco com o bem estar das pessoas. – se levantou, mas permaneceu no mesmo lugar.
– Não, eu não sei. – Ela soltou os ombros, caminhando em direção à cozinha. Infelizmente, para seu orgulho, não tinha encontrado força para mandá-lo embora.
Foi seguida por ele, claro. Estava com a geladeira aberta, tirando uma garrafinha de água, quando entrou pela porta da cozinha, caminhando tranquilamente com as mãos nos bolsos.
– Você está bem? – Perguntou.
apertou a garrafa em sua mão com extrema força, colocando-a em cima da ilha no meio da cozinha, causando um barulho alto pelo choque do plástico com o granito. Encarou os olhos dele com os seus semicerrados, sentindo o peito apertar e a respiração se descompassar. O que ela poderia dizer? O que ele queria ouvir? Por que era tão insistente em saber se ela estava bem?
O que o faria ir embora e cessar toda aquela perturbação de revirar o passado?
Não bastava todo o cenário atual de sua vida, tinha que aparecer como um presente do universo para incrementar tantas preocupações?
– Se eu disser que estou, você vai embora? – Disse, por fim, porém tão baixo que mal se reconheceu.
– Não, porque você estará mentindo. – Ele deu mais dois passos, ficando colado na bancada do outro lado e em sua direção. – Eu te conheço, .
– Você não sabe nada sobre mim. – Murmurou, abrindo a garrafinha e a entornando. – Seja direto, , o que você está fazendo aqui? Primeiro invade minha corrida, depois me leva para sua casa sem eu ter consciência nenhuma e agora está aqui na minha sem ser convidado. O que você quer? Cansou de viver nas sombras depois de me deixar ao alento do seu aband-
Iria terminar, mas ouvindo a si mesma, percebeu o quão patética iria soar, então somente suspirou, esperando que ele dissesse algo depois de cessar sua fala abruptamente.
– Primeiro, eu realmente não sabia que você entraria na corrida. – Iniciou, debruçando-se no granito com os braços cruzados. – Segundo, não deixaria você ir embora para lugar algum no estado em que estava ontem. Nem mesmo Richard tinha condições de alguma coisa. E… talvez o mais importante, sei que te devo explicações.
– Me deve explicações? Você aparece dez anos depois de sumir no mapa e diz que me deve explicações agora? – aumentou um pouco mais o volume da voz. – Não, . Você deve explicações para a de vinte anos, mas infelizmente para sua redenção, se é isso o que veio buscar, ela não existe mais.
Mesmo que estivesse em sua casa e ele fosse o corpo estranho ali, fez o caminho para sua direita, a fim de sair pela sala de jantar, os passos eram firmes e se fosse possível teriam aberto buracos no chão. Sua fúria passava da imensidão que um dia fora qualquer sentimento afetuoso que teve por ele, até porque os dois sentimentos misturavam-se e ela estava decepcionada, mas não com , e sim consigo.
Em sua mente manipuladora de si, a fantasia criada era diferente e ele teria aparecido pouco tempo depois dizendo que se arrependia, não após dez anos – partindo do pressuposto de aceitação do que havia acontecido.
, espera.
Sentiu o solavanco e seu corpo ser puxado pela mão fechada dele em seu antebraço. Não foi violento ao puxá-la, porém, e ficaram a poucos centímetros, ela sendo obrigada a erguer o olhar, recusando-se a inclinar a cabeça para encará-lo.
– Você não entende… precisávamos disso. – disse, ainda com o tom de sempre, porém com um fundo de nervosismo.
– Não fale sobre mim se você não está em meu corpo e não sente o que eu sinto. – Vociferou, saindo do aperto da mão dele. – Você não faz ideia do que eu precisava naquela época, , e eu demorei anos para conseguir seguir em frente depois da sua partida. E nada do que eu passei foi para chegar aqui e agora, ouvindo você dizer uma besteira dessa como se soubesse sobre tudo.
– Eu fui embora porque estava sendo caçado, ! – Ele devolveu, aumentando o tom nervoso, dando um passo na direção dela, que fez o mesmo, porém para trás.
– Não me importa, estávamos juntos. Eu e você. Você e eu. Não era isso? – Contraiu os lábios, controlando a própria respiração, virando o rosto para outra direção. – Não coloque seu egoísmo na conta de uma situação.
– Egoísmo? Pensar na sua segurança não foi egoísmo, muito pelo contrário.
– Decidir sozinho foi!
A voz de aumentou mais, sua resposta foi quase gritada e ele sentiu a dor no tom dela, podendo encarar o olhar que lhe foi direcionado quando ela virou o rosto para sua direção.
Não foi uma despedida correta, longe disso. Iriam completar o primeiro ano com o relacionamento assumido, mas na época não tinha muitas opções. Sua ideia baseou-se apenas em mantê-la protegida e livre de riscos, sob a ameaça de que, se não deixasse o país imediatamente depois de um trabalho, iriam atrás dela. Não podia aceitar que qualquer coisa acontecesse com , então foi embora, não só por ela ser jovem e ter muito o que viver adiante, mas também porque era egoísta demais para perdê-la para sempre.
Em algo ela poderia estar certa, ele foi egoísta, mas pelos motivos contrários ao que ela acreditava.
era um mercenário e em seu histórico acumulava muitos trabalhos marcantes, este último em questão havia sido seu maior. Um assassinato de cinco irmãos italianos, uma máfia, que estavam se mudando e criando negócios no cenário americano, foi motivo de sua cabeça ser solicitada em caça. Pela primeira vez, se viu num beco sem saída, pressionado, com tanto poder e, ao mesmo tempo, sentindo-se frágil porque tinha no meio daquilo tudo e não poderia arriscar-se e colocá-la em perigo; e foi com isso que ele aprendeu o sentido de limite ser um tanto quanto fundamental até mesmo ao se tratar de sucesso.
Se tivesse sido teimoso e não reconhecido que até nos mais fortes dos reinos encontram rachaduras, teria perdido tudo, incluindo . Então, pareceu mais coerente aceitar o que já tinha e ir embora, sabendo que se contasse a ela, poderia colocar tudo a perder também. O jeito impulsivo de teria complicado tudo e tornado as coisas mais trágicas – pelo menos foi a leitura que ele teve na época, e mesmo que pudesse estar errado, não faria nada diferente. Acabou que, no fim, tudo foi como teria que ser e, se ele tivesse sorte, somente o sentimento não teria mudado e ele conseguiria fazer diferente na atualidade, deixando o passado como espelho para aprendizado.
Só contava com que não continuasse sendo extremamente teimosa, ou então seria difícil.
… – A reticências dele foi usada para os passos cuidadosos tomados para frente, e novamente os repetiu para trás, batendo o quadril contra a mesa. – Quando eu eliminei os Zianotti aqui nos Estados Unidos, a família encomendou a minha morte, direto da Itália. – Parou ainda um pouco distante, explicando calmamente. – Mais de uma máfia se juntou para isso e você sabe o que acontece quando algo assim ocorre e o poder que eles têm. O único patrimônio que eu tinha sem ser físico e material, que poderia de fato me afetar, era você.
– Eu não sou um objeto para ser considerado patrimônio, . – Disse baixo, contrariada e recusando-se a interpretar aquilo, ou se entregaria logo ali pela comparação. era uma molenga quando se tratava de seu sentimento e estava descobrindo que este ainda existia por ele, talvez até mais que antes devido a saudade acumulada.
Sim, confessou a si que estava com saudade.
– Você entendeu o que eu quis dizer. – finalizou a distância e pôde sentir o cheiro do cabelo dela invadir suas narinas. Ainda era a mesma fragrância. Ele inalou, inebriado, pressionando os olhos antes de erguer a mão direita para o rosto dela.
sentiu o toque lhe encaixar perfeitamente, fechando os olhos rapidamente, e quando as pálpebras subiram, revelaram a íris brilhante. Entretanto, notou que não era mais a mesma mulher que ele conheceu ainda jovem, embora seu coração tenha disparado ao ver a película dela cair. estava diferente, mas não distante de quem ele se apaixonou e ainda era apaixonado.
Umedeceu os lábios para continuar:
– Não te liguei ou te mandei qualquer coisa porque sabia que você viria atrás de mim e era fundamental manter sua segurança. Talvez esteja certa, , e eu seja mesmo egoísta, porque só o pensamento de algo lhe acontecendo me fez querer manter a distância. Te perder para sempre seria mais doloroso do que receber o seu olhar de decepção e a dificuldade da tentativa de te reconquistar, sem a certeza de que isso seja feito com êxito.
Ela manteve a boca entreaberta, hesitando em dizer algo. Queria dizer muitas coisas, também queria ficar em silêncio e só continuar a olhar para ele daquela forma tão próxima. Olhando em todos os seus detalhes, sentindo sua respiração bater contra seu rosto inclinado para cima, com o hálito de aroma tão agradável quanto o perfume que ele usava – aliás, era o mesmo do qual ela se lembrava e que ficou gravado em sua memória.
– Você não pode fazer isso comigo, aparecer aqui e achar que-
– Eu não acho nada. – a cortou, com a voz suave mesmo no tom grave. O polegar acariciou a bochecha dela, ficando mais próximo e com o rosto a poucos centímetros de distância. Sua mão cobria boa parte da lateral esquerda do rosto dela e se permitiu sentir aquilo. – Só quero que você acredite em mim quando digo que foi tentando o melhor para você que errei. Não espero que me perdoe, , mas se você me deixar mostrar que hoje tudo pode ser diferente, então eu irei tentar meu melhor.
Os olhos dela se perderam nos dele, sem nenhuma vontade ou resquício de que desviaria. Não sabia o que sentir pelas palavras que ele lhe disse, mas tinha a certeza de que estava com vontade de encerrar aquela distância, por mais curta que fosse, e assim o fez. Sua mão esquerda se ergueu, indo para a nuca dele e o puxando para aquele beijo. Não diria que seu corpo moveu-se por conta própria, de maneira alguma negaria aquele sentimento. Toda a camada reerguida durante o dia para se proteger daquela bagagem que chamava de sentimentos fora derrubada no instante em que os lábios se grudaram, com a sensação das borboletas em sua barriga fazendo uma festa digna do caos de Ibiza.
A saudade foi sendo saciada conforme aquele encontro acontecia; o beijo não parou em um selar demorado, não, continuou em um ritmo passional, com a sincronia de antes, porém muito melhor agora.
O passado foi sendo guardado em algum lugar dentro de si, bem fundo, enquanto continuavam ritmados. Quando se deu conta, estava sentada na mesa, posicionado entre suas pernas, e ela tinha suas mãos apertando os ombros dele. Mesmo que estivesse se esvaindo, ainda era muita saudade a ser queimada, curada e eliminada, o que alimentava a intensidade deles. Um braço dele rodeava a cintura dela, enquanto a outra mão se mantinha firme na curvatura de seu pescoço, alcançando uma parte da nuca. E o beijo se tornava mais quente, mais necessitado e profundo.
se lembrava muito bem do fôlego que tinha para beijos longos, o que a deixava louca, inclusive, e fez muita falta.
Sua mão direita desceu do ombro dele, pelo braço, apertando a pele exposta pela manga curta da camiseta, passando a unha levemente pelo caminho. Então, foi direto para a barra da camiseta e adentrou as mãos ali, sentindo a pele por baixo de seus dígitos, em temperatura quente. Faiscou, sentindo a respiração repuxada de durante o beijo; conforme ele se afastou, continuou subindo a mão para o peito dele, puxando o tecido para cima também. Os lábios úmidos dele estavam em seu pescoço e ela mordeu a bochecha por dentro, se controlando.
Quando ia puxar a camiseta dele, porém, ouviu o barulho de algo caindo. Se afastaram no mesmo instante e então puderam ver Robert tentando passar despercebido.
– Peço perdão, senhorita Cafrey. Mil perdões, senhor … a sacola rasgou. – O senhor disse, nervoso.
notou que no chão tinham algumas frutas, coisas de mercado que o mordomo havia ido comprar. Mordeu a boca, buscando se recompor, enquanto já estava se afastado o suficiente. O encarou rapidamente, parecendo sair do transe em que estava, e uma pontada em sua cabeça trouxe à superfície um pensamento do qual ela custou acreditar ou querer alimentar. Mas respirou fundo, acordando daquilo tudo; já estava atrasada e talvez a chegada de Robert tivesse sido um brinde do universo para que ela não se entregasse ali naquele momento.
Os anos tinham se passado, ela poderia sentir a mesma coisa, mas isso não significava que ainda era de fato. O que podia afirmar que conhecia de ?
– Tudo bem, Robert. – Disse por fim, descendo da mesa. – já estava de saída.
Não ficou esperando por alguma fala ou perguntas e rumou para seu quarto. Precisava se organizar novamente.


A Cafrey’s Off Road era muito respeitada pela qualidade entregue em seus trabalhos e, por mais duro que tenha sido manter o nome e erguer essa fortaleza, conseguiu. Não foi da noite pro dia, mas conseguiu, e de maneira alguma ela envolvia esse ramo profissional com o lado criminoso. A troca de registros e tudo o que pudesse entregar o roubo dos veículos em cargas interceptadas era feita em uma oficina que não tinha nenhuma ligação com a sua franquia, assim como a equipe. Quem fazia a interceptação também trabalhava nessa modificação.
Assim, nesse padrão, ela se sentia segura. Uma coisa era o que levava o registro de seu lado familiar e que ligava a seu irmão e a família dele, outra era o que ela gostava de fazer, por mais errado que fosse, e que pessoas como Marcos não tinham nenhuma responsabilidade sobre.
Talvez fosse isso que a fazia ainda ter uma empresa com saúde de ferro.
O convite recebido em nome de “irmãos Manfissoni” foi feito para um coquetel e ela não fez muitos questionamentos, até parar para analisar durante seu banho, as linhas que foram se sucedendo. Um grupo estranho e sem apresentação sondando seus planos de interceptações, Brooke morta durante uma das ações e sua equipe sumindo, abandonando-a. Neste meio tempo, retorna de uma forma misteriosa, a cercando, com papo de quem fez o que fez pensando nela. E, no meio disso tudo, italianos que ela nunca havia ouvido falar demonstraram interesse em tê-la num coquetel de negócios.
Só existia uma pessoa fora de sua equipe que sabia de todas as informações e seu método de trabalho, só existia um nome que tinha completa noção sobre o paradeiro de Brooke sem ser de sua equipe, e só existia uma pessoa com afinidade com italianos. era o nome.
Se negou a acreditar que qualquer um próximo de si teria sido capaz de agir e ser responsável pela morte de sua melhor amiga. Logo, se tornou suspeito e com sentido que fosse o detentor de tal ameaça – por mais doloroso que tenha sido seguir por essa linha de raciocínio, pois um dia ouviu dele que a amava, para agora estar quase certa de que esse amor havia se tornado um desejo por dinheiro; afinal, ele era um mercenário e poderia ter a morte de encomendada por aqueles que queriam possuir o poder que ela conquistou. E ela descobriria naquela noite.
Richard decidiu não ir, então teve de caminhar para a enorme mansão do endereço anotado sozinha. Pensou que seria de bom tom dar uma folga ao amigo e deixá-lo cumprir com seus planos envolvendo Phoebe; na verdade, os dois mereciam aquele ponto de paz. Poderia lidar por si só com o que quer que estivesse a esperando naquele coquetel.
Foi com sua usual Bugatti, dispensando a necessidade de um motorista; odiava esse perfil porque dirigir era sua paixão. Usando seu vestido mais colado e longo, com uma fenda na sua perna direita que se abria desde metade da coxa, desfilou pela entrada da casa, sendo recebida cordialmente, assim como os outros que chegavam. Seus passos precisos e confiantes escondiam perfeitamente que por baixo daquele tecido estava muito bem armada com um coldre, embora desejasse não precisar de violência, sendo mais uma medida de segurança para o extremo caso. Sabia que com não podia estar um passo atrás, ele fora extremamente temido por tempos, enquanto tinha seu nome visível, por suas habilidades e competências. E o sorriso cordial com a feição centrada não dava margem para desconfianças.
Parou na enorme sala de jantar, logo reconhecendo os cabelos sempre bem hidratados de Phoebe, e franziu o cenho quando a amiga se virou para sua direção, depois de despedir-se de um homem engravatado. Se ela estava ali, onde estaria Rick?
– Você está vestida para matar hoje. – Phoebe sorria sugestiva e disse enquanto dava dois beijos, um de cada lado do rosto de .
– Não gosto de violência.
– Mas não tem nada de pacífico nesse seu look desta noite. – A amiga continuou no mesmo tom malicioso, erguendo a taça na direção dela, fazendo-a notar que estava com a mão ocupada. – Por que Rick não veio?
– Eu ia te perguntar sobre ele agora… achei que estivesse o esperando. – manteve o cenho franzido, pegando uma taça na bandeja de um garçom que passou ao seu lado.
– Não falo com ele desde que saiu do Scalibour essa madrugada.
As duas se encararam com a dúvida estampada em seus rostos, porém Phoebe não se aguentou ao ver, por trás de , que estava parada de costas para a direção da entrada, entrando no local. Como em sua memória, ele permanecia o mesmo de sempre, um homem de presença e tamanha serenidade, que escondia de qualquer alheio as tramoias que ele tanto fez ou ainda devia fazer, ela não sabia.
– Já encontrei o seu alvo. – Disse levando a taça de volta aos lábios, com o sorriso ainda sugestivo estampando seu rosto. notou que o olhar dela saiu de cima de si e direcionou-se para atrás dela.
Foi como se ela estivesse se virando em câmera lenta. Para ambas as narrativas.
era cumprimentado por todos com extremo respeito, mas só olhava para uma direção, da qual também era encarado de volta. Enquanto ele queria continuar tentando chegar perto e derrubar todas aquelas camadas de , a mulher o encarava com o mesmo sentimento acumulado, a fúria. Para sua lógica, ele entrar por aquela porta deu total sentido ao que tinha formulado e só poderia mesmo ser ele sua ameaça.
Ela riu anasalado, entornando a taça e a entregando para Phoebe, antes de ir até ele. Flutuava sob os próprios pés naquela curta caminhada, encontrando-o no meio do caminho. O sorriso que ele carregava foi diminuindo e ela teve um de seus braços rodeando sua cintura, a puxando levemente para frente em um cumprimento irregular. A boca dele alcançou sua orelha esquerda e, com a voz rouca e firme, disse:
– Você não deveria ter vindo, Cafrey.
o empurrou sutilmente com a mão em seu peito, movimentando o rosto para a outra bochecha dele, fingindo o segundo beijo daquele falso cumprimento.
– Por que? Vai ser difícil manter sua aparência agora que estou aqui? – Disse antes de se afastar.
estranhou o comentário dela sem entender o que queria dizer. Entreabriu os lábios, mas foi cortado por Phoebe, que se aproximou dos dois sorrindo simpática e repetindo o cumprimento informal com ele.
– Não sabia que conhecia os Manfissoni, ! – Ela disse diretamente. – Mas agora faz um certo sentido, não eram eles quem patrocinavam suas regalias na época de corredor clandestino? – Riu com a lembrança. ergueu o olhar, não deixando que respondesse.
– E você conhece? – Questionou de cenho franzido.
– São colegas da minha época de vida europeia. Eles possuem lojas de artigos de corrida, talvez seja esse o interesse na senhorita oficina de importados, mas não tenho como afirmar nada, foram extremamente reservados quando me chamaram para vir. – Explicou nostálgica e alheia ao clima tenso entre o ex-casal, enquanto se sentiam perdidos em seus respectivos cenários internos. – Achei que tivesse feito a lição de casa, Cafrey. – Encerrou em tom repreensivo, trocando a taça vazia por outra cheia na bandeja que passou ao seu lado.
– E já a viu se atentar aos detalhes para evitar perigo? – respondeu, entrando no assunto.
– Não fale sobre mim como se ainda me conhecesse.
não aguardou pelos dois, saiu atrás do rapaz que passava com uma bandeja e pegou o copo de uísque em cima dela, indo em direção ao jardim, encontrando um caminho iluminado e, ao fundo, um lago. Precisava ligar os pontos novamente.
Ao menos se Richard estivesse ali, ela teria com quem pensar e traçar toda aquela confusão até encontrar o que daquilo tudo fazia sentido, porque recusava-se a acreditar que o universo tinha mandado para seu caminho novamente por saber que ela seria orgulhosa o suficiente para aceitar ter que pedir algo a ele. Não tinha como ele aparecer magicamente em Los Angeles, como se nunca tivesse ido embora e ainda com falas seguras de que ainda a conhecia muito bem.
Os anos tinham se passado a fio e não tinha como ele achar, e estar certo, sobre coisas em relação a personalidade dela; o tempo passa e como consequência vem a mudança, a evolução, e ela sabia que não era mais a mesma garotinha que ele havia deixado para trás. A dificuldade em se manter do lado dele por mais de alguns segundos de forma passiva vinha do sentimento guardado, não se tratando de idade e intelecto, porque era uma dor incubada; inclusive, se toda a sua linha de raciocínio estivesse mesmo errada e o que ele lhe disse em sua casa fosse mesmo verdade, era esperado que agora ela repensasse em tudo o que alimentou em sentimento negativo?
Virou todo o líquido do copo para dentro de sua garganta, incluindo o gelo, mastigando-o até derreter-se por inteiro e descer refrescando o quente do destilado em tom amadeirado, e se manteve ali, encarando a noite em seu mar de pensamentos. Demorou a se dar conta de que passou tempo demais do lado de fora e mal havia sequer cumprimentado os donos daquela cerimônia toda; se era a intenção que aquilo gerasse algum bom negócio entre eles, ela estava falhando. Então girou o corpo para retornar o caminho de ladrilhos no jardim, deixando o pequeno lago iluminado para trás, repetindo para si que não deveria misturar os dois mundos e que ali não tinha nada relativo ao que estava acontecendo no outro perfil que tinha.
Subiu os degraus da varanda, entregando o copo para o primeiro rapaz que viu, sem deixar de sorrir gentilmente e o agradecer. Continuou a caminhada, entrando por um lugar diferente do que tinha saído, sendo uma sala de jantar enorme. A mesa estava arrumada perfeitamente para receber o jantar depois do que quer que fosse o objetivo ali; ela notou toda a louça em ouro e a elegância no uso de etiquetas. Não ficou por muito tempo parada, se dirigiu para a divisória de saída, mas acabou se perdendo e saindo na cozinha.
Não tinha ninguém.
Ao retornar para o caminho que fez, viu entrar na sala de jantar, parecendo nervoso. Sem controlar-se, foi em direção a ele.
– Por que parece ter visto uma assombração? – Perguntou ao se aproximar, tomando sua atenção.
– Ah, você está aqui ainda! – Ele respondeu em um tom aliviado. – Precisa vir comigo, não é seguro ficar nesse lugar.
Ele caminhou até ela enquanto dizia e a pegou pela mão. Quando ia entrelaçar os dedos, puxou rispidamente.
– Eu não vou a lugar nenhum sem antes você me dizer o que está acontecendo e o que faz em Los Angeles. E talvez nem assim eu vá. – Vociferou.
ficou alguns segundos em silêncio, não sabia o que dizer e estava sem reação.
– O que é? De repente ficou sem fala? Ou está pensando em como empalar meu corpo como lhe foi pedido?
– O que? Claro que não! – Rebateu a acusação, dando novamente um passo para frente e olhando para trás, garantindo que ninguém os escutava. – … – Suspirou. – Quem matou Brooke foi Rick. Ele se uniu aos Manfissoni nesse plano retrógrado de assumir o seu negócio nas interceptações.
Ela riu, desacreditada.
– Estou falando a verdade. Eu estava na Itália esse tempo todo, eles me deram apoio naquela época, então quando soube que iriam entrar nesse ramo e que era o seu nome e rosto estampados como o alvo, vim junto.
– Então eu estou certa, você tem que levar minha cabeça. – Ela completou, rindo anasalado.
– Não! Eu vim para o contrário. E também para descobrir quem estava os ajudando diretamente daqui.
– Como você espera que eu confie na sua palavra e não na pessoa que esteve ao meu lado nos últimos anos?
não hesitou em manter seu olhar no dela, endireitando o corpo e sua postura, sustentando aquela troca sem piscar. Mais uma vez, estava se recusando a acreditar em algo. Apenas aquilo não poderia ser suficiente se ela mesma estava pensando anteriormente sobre como o tempo muda as pessoas. Só que tinha aquele porém; desde a tarde anterior quando ele desceu do carro a encarando serenamente enquanto ela despejava sua ira sobre si, sentiu que ainda era o mesmo. Aquela droga de olhar não tinha mudado e toda a segurança que ela sentia ao redor dele ainda existia, só estava com aquela camada de sentimentos decorrentes à decepção em sobreposição. Sentia-se mais confiante nele em sua frente, sendo dono daquela energia verdadeira, do que em Rick, que passara anos ao seu lado.
Com , tinha o pensamento da coincidência de seu aparecimento que, se somado à verdade inicial de sua partida, fazia sentido. Com Richard, ela não poderia dizer que estava certa de que tudo se mantinha normal; em um rápido retrospecto ela se deparou com aquela tarde, em como ele ficou estranho ao saber de sua intenção em dar passos para trás na interceptação, automaticamente abrindo espaço para que os ditos inimigos pudessem reinar; e tinha mais, Richard insistiu muito para que ela fosse atrás de ; em um mundo de uma milésima dimensão, talvez ela teria ido, mas quem a conhecia tão bem quanto o amigo sabia que ela não iria.
Aliás, poderia chamá-lo de amigo?
– Me dê uma chance de te provar que não estou mentindo e que não sou eu querendo a sua cabeça.
Engoliu em seco ouvindo a voz falhada de ao mencionar a última parte, relacionado ao desejo de alguém por sua morte.
– Eu prefiro viver longe de você por mais tempo, se for necessário, do que isso…
– Se você estiver errado, eu mesma vou garantir sua cabeça em cima da minha lareira. – ergueu o indicador, dizendo pausadamente.
Ele sorriu, evitando o formigamento de empolgação, e assentiu, finalizando a distância e colocando a mão direita na curva do pescoço dela com o polegar para cima, acariciando a bochecha. fechou os olhos por um instante, sentindo o choque elétrico em seu corpo.
– Você vai querer mais do que a minha cabeça e… não em cima da sua lareira.
Revirou os olhos para o flerte direto dele, quase sorrindo.
– Agora preciso que você confie em mim e me encontre na sua casa, vou te mostrar todas as provas que tenho.
– E por que não fez isso antes? – questionou em tom óbvio.
– Já disse, te conheço. Se eu chegasse diretamente apontando tudo, diria que manipulei.
– Faz sentido. – Ela maneou a cabeça para o lado.
– Também queria te ver antes…
– Então confessa que entrou na corrida de propósito? – Ergueu a sobrancelha, o olhando de forma estreita.
passou a língua pelos lábios, os comprimindo em sequência. Ao passar o braço livre pela cintura, indo de encontro com a boca dela, sentindo a ponta dos narizes se tocarem, um estrondo, seguido de estilhaços de vidro voando para cima dos dois, o obrigou a jogar o próprio corpo por cima de . Caíram no chão, ele estando por cima e entre suas pernas, sentindo um volume na altura da coxa dela batendo contra a sua que estava encaixada ali. Não pensou muito, indo com a mão pelo reflexo, pegando a arma que tateou ali. Por sorte era automática.
Com a outra mão, deu suporte para segurar o objeto, virando um pouco de seu tronco para a direção do carro que havia rompido a parede de vidro da sala de jantar e atirando de forma certeira no homem que desceu do veículo. Em seguida, ele garantiu que era somente um e voltou o olhar para .
– Você estava armada. – Fez sua constatação, ainda em cima dela e tão próximo.
– Claro que sim. – respondeu, nervosa. – Com um grupo maluco por aí querendo brincar de idade média e me tendo como alvo, eu seria louca em não estar preparada.
– Desde quando você usa armas? – Ele continuou, preocupado.
respirou fundo para responder, olhando para o teto antes de encará-lo novamente.
– E você acha que interceptações são feitas com flores e chocolates?
– Era por isso que eu não te queria nesse mundo… talvez eu não devesse ter ido embora.
, com ou sem você, eu seria a mesma que sou hoje. E se você não pode aceitar isso, talvez tenha sido mesmo fundamental sua partida. Não dariamos certo.
O silêncio entre eles durou segundos, da mesma forma que o recente acontecido, porém parecia já ter uma longa duração. Notando como ele estava preso em seu olhar e sem dar a menor chance dela notar que diria algo, umedeceu os lábios para dizer:
– Você está começando a ficar pesado.
Isso pareceu o tirar do devaneio em que estava e se levantar, puxando-a para cima.
– Vem, temos que sair daqui. Logo aparecem mais deles.
Em pé, se recompôs e a analisou por completo para ter certeza de que não havia se ferido. Jogar seu corpo contra o dela garantiu que nada a acontecesse, por fim. Quando ele a pegou pela mão novamente, preparado para puxá-la dali, se manteve no lugar, travada. a encarou, seu olhar agora carregava uma súplica para que ela derrubasse aquela hesitação.
… por favor, confie em mim pela última vez. – Pediu.
O peito dela subiu e desceu de forma pesada com o longo suspiro que deu. Esticou a mão vazia até a arma que ele estava carregando e, sem desviar daquela troca de olhar, pegou o objeto. não esboçou nenhuma reação adversa, se manteve da mesma forma, apertando mais seus dedos entrelaçados aos dela. Antes de finalmente intencionar o seu corpo a sair dali, ela disse:
– Eu aprendi a não contar com a sorte.
Se deixou ser levada por . Eles deram os passos pela lateral do carro, um modelo executivo, e seguiram para o caminho aberto pela destruição daquela entrada. Ao colocar parte de seu tronco para fora, notou a movimentação do lado externo, no gramado. Pôde contar a presença de pelo menos dez homens armados, dividindo-se na propriedade. Virou apenas o rosto para trás, tendo atenta a ele.
– Você acha que consegue ir até meu carro sem mim? – Perguntou baixo, dando dois passos com ela para trás. – É uma Bugatti igual a sua, ligue o motor e se esconda em algum lugar.
riu, soltando sua mão da dele e pegou a chave que lhe foi estendida.
– Eu consigo muitas coisas sem você. – Respondeu com o rosto sereno.
Ela deu as costas para ele, sem ouvir ou sequer esperar para saber o que tinha em mente. ficou plantado no lugar, a vendo desaparecer pela cozinha. Ajeitou o blazer que usava e saiu pela varanda que cortava toda a lateral da casa, chamando a atenção para si. Ao finalizar aquele caminho, chegando na ponta que fazia a curva para onde os carros estavam estacionados no pátio do lado direito da entrada da mansão, viu caminhar em passos tranquilos e atenta até os veículos estacionados. Se perguntou como ela teria feito para sair, mas focou no que iria fazer.
– O que vocês estão fazendo? – Perguntou ao se aproximar dos homens.
– Vamos demarcar todo o terreno e em volta para garantir que ela não escape. – Um deles respondeu. – A casa foi esvaziada.
– Não precisa. Eu sei onde ela está – Disse firme, olhando na direção do carro de cor vermelho vinho que era ligado.
A movimentação foi rápida, os homens saíram em direção ao pátio e ficou parado. Esperou que então começasse; a Bugatti saiu por entre os outros carros parados e, em sequência, outros foram atrás. iniciou seus passos ao sentir que era seguro e não demorou a se aproximar de onde tinha o modelo parado, olhando ao redor para encontrar , sentindo o peito apertar ao não notá-la e a demora para aparecer, cogitando em sua mente a hipótese dela ter entrado no carro que saiu dali.
Ao ver aparecer por entre os arbustos, suas pernas tremeram. Aquele não era o plano, o qual, inclusive, ela não esperou que ele terminasse de explicar.
– O que você está fazendo aqui? – Questionou o amigo que se fazia mais próximo. Seu peito começou a subir e descer rapidamente, de forma pesada. – Era pra você estar naquele carro, ! – Gesticulou nervoso, levando as mãos aos cabelos.
– Você não era escandaloso assim, Yoon.
Ouvir o apelido o fez se sentir como se aquele edifício que tinha se instalado em cima de si caísse, tendo forças para virar na direção de onde a voz estava vindo. O sorriso óbvio de nem mesmo o irritou, como normalmente aconteceria, e ele encarou saindo dos arbustos dali, um pouco desalinhada por ter se espremido entre os galhos.
estava no carro. – explicou enquanto os dois estavam se encarando. escondia sua vontade de sorrir, mordendo suas bochechas internamente, enquanto controlava a respiração. Percebendo que não diriam nada, ele se adiantou: – Eu não quero ser o chato nessa situação, mas vocês precisam ir. Não vai demorar muito para que descubram e voltem.
foi trazido de volta àquela realidade.
– Onde está o carro dela?
– Deixei na frente da casa. – respondeu, apontando. franziu o cenho, acompanhando a direção. – Não existe coquetel e não tem mais ninguém aqui, você ter ido ao jardim facilitou muito a vida deles.
– Garanta que ficará bem.
disse em tom de ordem e assentiu, então ele alcançou e a puxou pela mão, caminhando rápido para o carro. O barulho dos saltos dela batendo contra o asfalto era a única coisa a ser ouvida junto com os inúmeros questionamentos dela. Ao estarem mais próximos do veículo, o puxou, parando no lugar.
– Se você acha que vai dirigir o meu carro sem me contar o que mais está escondendo, então está muito enganado.
Furiosa, ela passou por ele, não demorando a bater a porta da Bugatti que já estava ligada. bufou, contrariado, e a alcançou, entrando a tempo dela arrancar com o carro. Não disse mais nada, não ousou perguntar; antes de qualquer coisa, precisava mostrar as provas. E a conhecia muito bem para saber que, estando no controle daquele volante, não era momento para nenhum estresse a mais. Apenas a orientou para que não fosse para o seu apartamento, pois era aquele destino que fora orientado para tomar.
Então deixou livre para que ela decidisse em que lugar iriam, não se surpreendendo com o caminho quando começou a reconhecê-lo. Era o mais fundo do subúrbio, o bairro em que ela morava quando se conheceram e o galpão que usava para praticar e se situar para seus trabalhos. Se sentiu nostálgico, lembrando-se que somente ele e iam ali – pensando se ela teria mantido o lugar para si. Podia dizer que era um lugar deles, afinal.
A porta foi se abrindo depois de apertar algum botão em um controle pequeno que surgiu em suas mãos, saindo de algum lugar que ele não notou onde, e não demorou para que subisse por completo e o carro cruzasse a entrada. Novamente, apertou o botão e a porta se fechou atrás do carro, deixando tudo ser iluminado apenas pelos faróis acesos, cortando a luz que entrava da rua. se manteve em silêncio e ela desligou o motor, também no mesmo estado, sem sair do lugar e relaxar o corpo. Ele pôde notar como ela estava tensa e parecia distante, então repuxou os próprios lábios, decidindo que deveria se manter mais transparente com ela e cessar toda aquela confusão de informações. Não podia ficar naquele método misterioso com por muito tempo e sabia que já estava durando, e muito, a paciência dela; embora ele quisesse a proteger de tudo, tinha que reconhecer o tempo que passou e aceitar que ela não era dependente dele. De fato, nunca fora.
– O plano era alienar Phoebe para que todos acabassem no Scalibour e, durante o caminho, alguém iria bater em seu carro acidentalmente, com a intenção de fazer tudo parecer o mais natural possível. Richard foi bem eficaz em encontrar a mansão em uma colina, afinal, quem resistiria a um capotamento numa ribanceira? – iniciou, respirando fundo em uma breve pausa antes de virar o rosto para ela. – Mas você foi para o jardim, ficou sumida e mudou o final para eles. Todos foram para o Scalibour e a notícia no dia seguinte seria de que eles estavam visados para um atentado, por você. Os detalhes,
virou o rosto para ele, com a pouca iluminação mostrando suas íris escuras, cobertas por uma camada que ele não se recordava ter tido acesso em nenhuma vez antes. Ela parecia tomada pelo mais puro ódio.
– Faria sentido, você os ter enxergado como ameaça e tentar contra eles. Contra mim. – desviou o olhar, sentindo-se queimar por dentro. – Mas eu não achei que iria, Richard disse que você estava com outros planos… Então eu só fui para manter as aparências.
– Isso é loucura… – A voz dela saiu em um sussurro. – Se você sabia de tudo, por que não salvou Brooke?
O olhar de era profundo agora, como se estivesse decepcionada ao encarar e vê-lo sem respostas para aquela pergunta, além de abaixar os ombros como se estivesse entregando sua falha, a fez sentir-se decepcionada. Ele soube ler isso muito bem. Teria feito qualquer coisa para voltar no passado e mudar o rumo das coisas, mas infelizmente não tinha como e poderia somente oferecer ajuda para o curso do que iria acontecer dali por diante.
– Não era para Richard a ter matado.
– Mas o tiro não veio dele! – rebateu, confusa.
– O tiro, não, mas ele não freou propositalmente e bateu no carro dela para que caísse na ribanceira. – Explicou com calma, vendo o rosto dela se contorcer e ela virar-se para frente.
– Isso tudo é uma loucura… Não era pra ser assim!
– Você não precisa decidir nada agora. – Por reflexo, levou sua mão até a coxa dela, exposta por conta da fenda do vestido, dizendo em um alento.
– Eu posso simplesmente desistir de tudo e sumir, mas se fizer isso, o que faço com o meu nome que batalhei tanto pra manter como é hoje? Porque de forma alguma eu posso apenas deixar esse lado e continuar com os negócios da minha franquia… Se eu for abrir mão de algo, tem que ser do todo!
Ele sabia que era uma pergunta sem resposta, além de que precisava tomar o tempo sozinha para pensar sobre aquilo; se dependesse de sua ideia, saía com ela do país naquele exato momento. Mas não podia tomar decisões sozinho, da última vez em que fizera isso, passou anos deitando em camas vazias, que externava como ele se sentia por dentro pela ausência da companhia de . O máximo que podia fazer era estar do seu lado e dar opções, ajudá-la a ajustar as próprias ideias e vontades, mas a palavra final seria dela. E independente do que escolhesse, estaria ao seu lado.
Apertou a mão levemente onde estava posicionada e ela se manteve na mesma direção. Aquele silêncio estava dando espaço para o ambiente falar mais alto e ele conseguia sentir a nostalgia o abatendo; podia ver, mesmo naquele escuro, todas as vezes em que estiveram juntos ali, a partir do primeiro dia.
Era uma tarde de sábado e estava mexendo em seu carro quando entrou, já que ele tinha deixado a porta do galpão aberta. Ela queria um pouco de combustível porque seu carro havia parado. Não fazia muito tempo que ele tinha chegado em Los Angeles e sabia que a vizinhança mantinha-se bem atenta ao que ele fazia ali, afinal era um estrangeiro bem diferente do que eles já tinham visto por lá. O bairro, em sua maioria, era habitado por latinos imigrantes e escolheu se alocar ali justamente por ser numa zona completamente afastada dentro da cidade e por saber que, apesar dos moradores se conhecerem entre si, não teria problemas com sua privacidade. Pelo menos ele achou isso, até ver aquela mulher entrar por sua porta, desinibida e pedindo por um pouco de gasolina.
A verdade era que não precisava de combustível, ela havia apostado com Brooke que conseguiria tirar algo do novo morador da rua. E ela conseguiu.
– Mesmo nesse escuro do lado de fora, eu consigo visualizar tudo. Você não mudou nada. – iniciou, movendo a mão lentamente em um afago ainda onde estava. – Me fez sentir saudade. – Se virou para encará-la, sendo correspondido. – De tudo.
sentiu o coração trepidar e desviou o olhar rapidamente para o painel do carro que estava iluminado pela parte elétrica; apesar daquilo, ali dentro tudo estava em uma cor só, em um único tom não só em paleta, mas em significados. Ela não queria pensar em nada naquele instante, além de como estavam os dois ali, sozinhos, e a mão dele tão genuína em seu corpo, no toque que mais se fazia ser um afago. A saudade era mútua. O encarou novamente, mas sem o olhar sombrio, devolvendo aquela chama para seus globos.
– Eu mantive tudo do mesmo jeito. – Ela disse, sentindo a nostalgia daquele ponto em que estavam. – Mas não só no galpão. – Desceu a mão direita para colocá-la em cima da dele, sentindo aquele choque tão comum. – Pensei sim em destruir tudo muitas vezes, porém nunca fez sentido, sempre algo me impediu.
Ele sentiu o tom e as entrelinhas, obviamente o cortando como facas afiadas. Yongi sabia que não deveria chorar pelo leite uma vez derramado, porque o único efeito que teria seria negativo. Entretanto, se pudesse, voltaria no passado apenas para poder ter dito a que a amava antes de ir embora, assim ela não teria ficado com sua despedida cruel e sem respostas.
– Não queria voltar nesse cenário… – Lamentou.
– E como você sabe que eu estaria te esperando em qualquer um que fosse? – devolveu, ainda sustentando aquela troca de olhares, sentindo-se cada vez mais hipnotizada pelos olhos dele totalmente delineados em seu formato natural e que não carregavam nenhuma hesitação, sempre passando total confiança.
– Mesmo que não estivesse. Mesmo que estivesse casada, com filhos e vivendo uma vida normal, eu estaria feliz por você e saberia que valeu a pena, porque é sobre sua felicidade e bem estar que eu fiz o que fiz.
A boca de se entreabriu e ela soltou o ar de forma leve e diferente das outras vezes quando se trata de seus sentimentos. Se negar a aceitar que ainda era o detentor de todos eles só a fez se amargar e se blindar de coisas que nem mesmo ela sabia se queria evitar. Ele falar sobre uma realidade em que voltaria e a veria com uma família formada fez com que seu peito se enchesse de uma falsa esperança, porque ela queria sim aquilo, figurou muitas vezes sim um futuro com filhos e uma casa enorme, com direito a quarto de brinquedo e na árvore no quintal, mas com ele ao seu lado.
Então seria isso, ela iria se entregar novamente, porém desta vez com a consciência totalmente organizada e mais ciente de que seria um amor para completar e não a fazer por inteira, como achava que era quando tinha seus dezoito anos e se viu apaixonada pelo homem quatro anos mais velho e que era cobiçado por todas as suas amigas. Se era uma outra chance que o universo estava oferecendo aos dois, então ela aceitaria isso e faria diferente, desde que ele também quisesse um novo cenário.
Sem dizer absolutamente nada, dedilhou seus dígitos pelo braço esticado de , por cima do tecido grosso do blazer que ele usava, tocando em seu ombro. Ele acompanhou com os olhos aquele caminho, passando a língua pelos lábios ao senti-la levar a mão para sua nuca. Voltou o olhar para ela, não tendo noção de como os rostos se aproximaram de repente, de uma forma não grotesca e sutil. Estavam a centímetros e, por conta da boca entreaberta dela, ele sentia sua respiração bater quente contra sua pele, o arrepiando por baixo de toda aquela roupa. se prendeu naqueles olhos que o encaravam, entendendo a mensagem de consentimento que o passavam, e ele se sentiu privilegiado por estar certo de que ainda conhecia a mulher que amava e que, de forma diferente, ela era a mesma.
Ela ainda era sua, não em objetificação, mas em sentimento.
Os lábios de estavam próximos demais dos seus e não demoraram a finalizar aquela distância. Diferente do beijo que tiveram na sala de jantar da casa dela, aquele não possuía choques de fúria emanados por ela ou os de necessidade por ele. A harmonia deste era de uma singularidade única, só existia entre eles; nem , nem , haviam tido o desprazer de se encontrarem em outros, o que o beijo que se iniciava só comprovou a cada passo que as línguas davam naquele ritmo. Não existia o que pudesse fazê-los parar ou retroceder, dali por diante nada seria fora daquela sintonia.
O tom passional se misturou àquela tensão que há muito existia e aflorou-se com o reencontro. A mão de apertava a nuca de e a dele, em sua perna, afagava-a, começando a senti-la mais à vontade. Ele era dono de um fôlego que ela desconhecia, mesmo sendo ciente que poderiam se beijar por um bom tempo sem que ele precisasse de pausa para um ar, e isso a deixava louca, entregue. Dentro da boca de , se encontrava, e longe dela, ela se perdia.
A saudade não a deixou durar muito tempo no banco, apenas o beijando, queria sentir o corpo dele colado ao seu, a ponto de não saber diferenciar qual era qual. Grata por não estar usando cinto de segurança, ela foi rápida em sair de seu lugar, sem dificuldades por conhecer muito bem a anatomia de seu carro, e sentar-se no colo de . Cada uma de suas pernas tomaram um lado do corpo dele e o vestido subiu por suas pernas; ela sequer se importava em como estava, afinal, o homem abaixo de si já tinha a visto de inúmeras formas. Poderia dizer, talvez, que conhecia mais de seu corpo do que ela mesma – mas seria mentira. A cada experiência que tiveram, pôde aprender mais sobre ela mesma e isso foi uma das melhores partes do relacionamento.
Os lábios se separaram por poucos segundos durante esse movimento, as mãos de foram para a mandíbula de , uma a cada lado de seu pescoço, e as dele estavam em sua cintura, por cima do vestido dela. Estando um pouco mais alta por estar sentada no colo dele, teve que se inclinar para a direção mais baixa, enquanto ele inclinou o rosto levemente. Não paravam de se beijar, se explorar, nem mesmo quando a primeira mão saiu da cintura dela e foi para a coxa totalmente exposta pela ausência do vestido, acariciando e apertando-a pela parte interna. arfou contra os lábios dele, não evitando a leve mordida, e ele continuou.
desceu as mãos, levando junto o blazer, e teria reclamado pela distância que os dedos dele tomaram de sua pele para poder tirar a peça de roupa se não fosse por aquele bom motivo. Em seguida, depois dele inclinar o tronco para frente, mordendo o lábio enquanto as bocas se afastavam, ele jogou a peça para o outro banco, tomando o rosto dela com as duas mãos espalmadas em sua bochecha, puxando-a para retornar o beijo. , por sua vez, levou as mãos ágeis para a camisa branca que ele usava, iniciando a abertura dos botões. Não foi pelo ar, mas ela partiu o beijo enquanto fazia aquilo, distribuindo beijos pelo rosto dele até alcançar a mandíbula e descer pelo pescoço. Quando ele estava com a camisa toda aberta, ela espalmou as mãos no peito dele, enquanto sugava a pele do pescoço e, movida pelo tesão crescente, começou suas primeiras reboladas sobre o quadril de .
A forma como ele fazia ao puxar o ar sempre causou em um tipo de incentivo para que ela continuasse o que estava fazendo, e isso não havia mudado. Pela posição, estava com o rosto na altura da orelha dela, fazendo com que sua respiração pela boca deixasse o ar ricochetear naquela região. A pele de se arrepiava a cada vez que ele inspirava e, vendo isso, os dedos dele alcançaram a alça do vestido dela, abaixando-o. endireitou o corpo, ajudando a peça a deixá-la nua até a cintura, com os seios completamente expostos para ele e então as mãos de cobriram um em cada, apertando levemente até alcançar uma força pouco maior, arrancando dela um gemido fraco, ao passo em que jogou a cabeça para trás, rebolando mais uma vez.
– Yoon… – O apelido saiu pelos lábios dela, o arrepiando e fazendo seu coração acelerar. – Eu não quero joguinhos… não agora e aqui. – endireitou o rosto na direção dele, mesmo que mais alta, para dizer, e ele compreendeu.
Abrir o cinto de sua calça social não foi difícil, foi rápido, mas as mãos de tomaram o controle. Ela virou o corpo em poucos graus para trás; com uma mão, tirava o membro dele da cueca por aquela abertura, enquanto a outra tateava o porta-luvas atrás de si, abrindo-o para pegar o preservativo. Virou-se para frente novamente, levando a mão direita para perto de seu rosto e lambendo toda sua palma, lambuzando-a para voltar ao pênis de , continuando a estimulá-lo. Ele não ficou parado por muito tempo, tateando pela perna dela até alcançar o tecido da calcinha, sentindo que era um modelo fio dental; apertou-a na altura do clitóris antes de colocar o tecido para o lado e sentir a lubrificação facilitar a entrada do dígito.
Não pensando se seria errado ou não, abriu o pacote de camisinha com o dente, estava cansada de esperar e seu corpo não aguentaria. Nunca havia tido tanta necessidade de pular etapas como estava se sentindo; posteriormente poderia gastar mais de uma hora recebendo um oral de em sua cama, mas, naquele momento, tudo o que ela precisava era ter sua boceta preenchida pelo pau dele. E sentia que não duraria muito; diferentemente de seu comum, a saudade estava servindo como estímulo e sabia que não iria precisar de muito para o orgasmo a atingir. Mal saberia dizer o que de fato estava a deixando tão excitada, porque não poderia ser apenas o homem ali dentro de seu carro o único responsável por isso.
Tirou o preservativo de dentro do pacote e usou as duas mãos para cobri-lo, sentindo o gosto metálico na boca enquanto sua boceta engolia os dedos de , até o momento em que ela ergueu levemente o quadril para se encaixar em cima de seu pau, com as duas mãos em sua cintura, a apertando. Então, ela desceu o corpo.
A sensação não era a mesma do passado, era melhor, maior, gigante. O seu prazer misturado ao de não teria comparações plausíveis, nem mesmo se tratando deles, cada uma era única e diferente da outra. Disso, ela sabia.
Cafrey poderia chegar a entender que mais dinheiro seria significado de mais problemas, mas o prazer, para ela, não; quanto mais tivesse, mais em órbita ela se sentiria. E não se tratando só do sexo, isso é apenas um adendo, porque ali, novamente se entregando ao ritmo daquela foda, divididindo aquela intimidade com , ela encontrou o sentimento do que era ser adorada, amada e protegida. Não precisava que ele fizesse tudo por si e a colocasse em uma redoma, mas que a desse a mão e a acompanhasse, assim como acompanhava em carne e essência.
Se queriam que ela fracassasse, era porque não a conheciam e não sabiam do seu tamanho.
Entre os gemidos, beijos, apertos e carícias, não parava de se movimentar, aumentava a velocidade e a diminuía, beijava e era beijada com todo o tesão envolto do lado passional ainda existente. Quando se deu conta, estava a ponto de desmanchar-se em cima de , pouco depois dele ter tomado esse rumo. Ele tinha uma de suas mãos no cabelo dela, com os dedos entrelaçados ali, e a outra em um dos seios, no momento em que ela ficou fraca e apenas desceu, sem subir, friccionando-se contra o corpo dele. Deitou a cabeça no ombro de , afundando-se ali e, inebriada pelo cheiro do perfume misturado ao suor da prática sexual, disse rouca:
– Quero sair disso pela porta da frente, mas não quero que Richard se dê bem.
ficou em um curto silêncio, organizando-se, enquanto fazia carinho nas costas de . Olhando para um ponto no fundo daquele clarão externo causado pelo farol alto, respirou fundo para dizer:
– Bom, com as provas que eu te trouxe, a polícia pode lidar muito bem com isso.
– Mas eu não, se tiver meu nome envolvido ali. – Ela suspirou. Tinha esperanças que ele dissesse que somente o nome de Richard aparecia.
– Tem uma alternativa.
tirou o rosto da curvatura do pescoço de e o encarou, pronta para ouvir qualquer plano que ele tivesse. Tirando o cabelo da frente do olho dela, ele sorriu, beijando-a.

Epílogo

A mão de estava firme no volante quando seu carro derrapou no asfalto daquela rua sem saída do galpão em que eram feitas as alterações nos veículos roubados. Desceu rápido, olhando a Bugatti ficar para trás. Ela precisava chegar antes de Richard, ou então tudo seria perdido.
, me responde! – A voz de gritou em seu ouvido.
– Acabei de chegar aqui, tive que passar por dentro da cidade e ele me seguiu, tenho certeza que não passou pelos pontos cegos… – Ela começou a responder, se esforçando para puxar a porta de correr para cima; estava enferrujada. – Não vai demorar muito para a polícia aparecer, . – Parou no lugar, tentando controlar a respiração e passando a mão na testa para limpar o sangue que escorria. – Eu não sei se consigo sair a tempo deles não me pegarem.
Você vai conseguir sim! – Ele disse firme. – Só tome cuidado…
– Fique tranquilo, Richard não irá encostar um dedo em mim.
Foi a última coisa que respondeu antes de tirar o ponto em seu ouvido e o jogar no chão, pisando em cima para estilhaça-lo. Ela precisava começar a se trocar.
Durante a interceptação da cegonha, aconteceu o que disse que aconteceria: os Manfissoni mandaram seu grupo atrapalhá-la, e ficou mais do que claro ser Rick o informante deles. A equipe que havia a ajudado fora se dividindo e, por cuidarem se sua retaguarda, intencionalmente foi a única a sobrar, assim como Richard do outro lado. Ganhou um tempo na fuga contra ele ao cortar a cidade e passar por pontos cegos nas ruas com câmeras, deixando-o para trás. Precisava se limpar e trocar suas roupas, deixar o máximo de provas possíveis espalhadas para que sua morte fosse bem forjada.
Se tivesse sorte, a polícia chegaria apenas quando ela estivesse longe dali com seu segundo carro. O que também não seria tão difícil, já que estavam dentro do extremo subúrbio e, até tomarem o devido interesse em ir até ali, poderia ser o tempo certo que ela precisava para colocar tudo ao chão e sumir.
Tirou o macacão que usava, deixando-o cair no piso meio úmido e foi em direção a mala deixada propositalmente com sua troca de roupas novas, oferecidas por Phoebe. Riu com o modelo de vestido colado, com saia rodada, e a bota de cano curto e saltos, acompanhada da meia de lã comprida, tudo na cor preta. Em seu corpo, tudo ficou uma perfeita harmonia do que era a amiga: uma adulta que se vestia como adolescente. Mas não tirou tempo para rir, logo ouviu o ronco do motor do carro de Richard. Tirou a arma do fundo da mala e a engatilhou, também pegando o isqueiro e o escondendo na palma fechada, indo para a lateral da porta de entrada.
Ao ver o perfil do homem entrando, lhe deu uma coronhada com a arma. Ele cambaleou para frente e ela puxou a porta para baixo, não reclamando pelo peso; a adrenalina estava cuidando de sua força naquele momento. Não demorou para se aproximar mais dele, lhe dando uma rasteira e o vendo cair. Notando que ele estava desarmado, ela se manteve mais certa em suas ações.
– Muita audácia sua me perseguir, Richard – Disse, mirando a arma para ele.
– Você está louca? O que é isso, Cafrey? – Ele perguntou, com a careta no rosto pela dor do golpe.
– Isso aqui é o nosso fim, Rick. – viu que ele ia se levantar e o chutou na altura do rosto. Richard ficou curvado para frente, com as mãos espalmadas no chão e a cabeça na altura de seus pés. – Você acha mesmo que vai se safar do que fez comigo? Com Brooke? – Continuava mirando a arma para ele enquanto dizia. – Pois achou errado. Eu sei do seu plano, entrar em minha cabeça e me instigar a fazer tudo isso sozinha, para ficar vulnerável, já que eu jamais pediria ajuda para . Era assim que você queria se tornar maior que eu, não era? Me eliminando de forma totalmente amadora...
– Não sei do que está falando… – Richard ergueu o rosto levemente e abaixou de novo ao vê-la colocar o dedo no gatilho.
– Não se mexa ou eu atiro! – Se manteve no lugar e continuou: – Você queria que fosse fácil de me eliminar na interceptação, assim como fez com Brooke. Mas não aconteceu, Rick. Eu jamais vou colocar em risco o que ganhei e conquistei, por qualquer bilhão que seja, porque não sou mesquinha como você.
… Escuta…
– Não! – Ela riu, abaixando a arma. – Não precisa dizer nada, eu não quero ouvir nada. Acabou. Nem Manfissoni e nem Cafrey, porque ninguém vai ficar com nada e muito menos você.
– Do que você está falando?
– Cortar a cidade não foi desespero para chegar até aqui. – sorriu e ele finalmente pôde a encarar. – Toda aquela equipe com a gente? Pessoas bem treinadas para confundir qualquer ótica. A intenção não era interceptar nada, Rick, mas sim atrair você até aqui. Aquela carga era falsa. O que me deixa extremamente desgostosa em ver que você não notou que eram carros que já roubamos dois meses atrás.
acendeu o isqueiro, deixando-o cair no chão e se juntar ao úmido da gasolina que tinha sido jogado ali. Richard arregalou os olhos ao ver as chamas que começaram a tomar forma, juntando forças para se levantar.
– Você só pode estar louca.
– Não. Eu nunca estive tão certa na minha vida. Quando digo que acabou, é porque acabou. – Novamente ela ergueu a arma, apontando para o peito dele. – Você deveria saber que quando se cria inimigos, deve manter-se em excelência. Se for seu dia de sorte, a polícia chega antes de Lúcifer. – Saiu da mira do peito dele e atirou na perna, o vendo cair no chão mais uma vez.
Enquanto Richard urrava com a dor, caminhava para a saída dos fundos. Olhou uma última vez para a estrutura que estava sendo cada vez mais tomada pelas chamas e que tinha a voz de Richard ecoando alto, chamando por ela. Não ficaria ali para detalhar tudo a ele, não tinha a obrigação, ele sabia muito bem o que havia feito e não era nenhuma criança que necessitava de explicações. Estranhamente, ela não sentiu nenhum incômodo ao ver o lugar de sua infância naquele meio de destruição e continuou a caminhada para a rua traseira, sem olhar mais para trás.
Quando alcançou a rua, viu Genevieve aparecer, com Phoebe ao volante, sorrindo e parando o carro para descer apressada.
– O que você está fazendo aqui? – perguntou com o cenho franzido.
– Vim trazer sua carruagem. – Phoebe manteve o sorriso. – Vai! Vai! Tem um lugar que você precisa estar. Que você quer estar. E não pode se atrasar! – Olhou brevemente para o relógio em seu pulso.
– E você?
– Eu vou ficar aqui para garantir o desfecho de longe. Não se preocupe, Cafrey, a Scalibour guarda muitos segredos oficiais… Ninguém fará nada comigo e acredito que demorem o tanto que precisamos para chegar. – A amiga piscou, cheia do tom presunçoso. – Agora, vai!
respirou fundo, assentindo rapidamente. Deu passos longos até o carro e entrou, arrancando dali pelas ruas estreitas e menos movimentadas, fazendo o caminho mais seguro para que chegasse aonde estava sem nenhum problema.
O plano havia dado certo até ali; a ideia era Richard acreditar que ela faria a interceptação normalmente e depois de eliminar a parte dos Manfissoni, o encurralar em algum lugar e, à sangue frio, atearia fogo em tudo, forjando sua morte e o deixando para trás. Infelizmente, ela tinha esse lado dramático e não queria simplesmente sair de cena, apenas indo embora; aquele homem a queria morta por algum motivo e havia matado sua melhor amiga, merecia o mínimo de sua atenção e ela usaria isso como aprendizado para desenvolver seu futuro. No entanto, se a polícia chegasse a tempo de o pegá-lo, sorte a dele, então; ela não se importava. A carga era falsa, havia conseguido que a segurança da original fosse avisada sobre um possível atentado e então mudaram a rota e data. Tudo isso em dois dias.
E, no final, poderia escolher se sairia do país com ele ou se ficaria e recomeçaria do zero. Mas Phoebe estava certa, tinha um lugar que ela queria estar.
Quando entrou no bairro do galpão de , não levando muito tempo pela curta distância, sentiu o coração acelerar. Queria dizer a ele que o amava e que não importava mais o passado, que poderiam tentar mais uma vez e fazer diferente. Queria externar que em nenhum cenário ela estaria casada e com filhos no retorno dele porque não era assim que deveria ser. O final deles não incluía caminhos diferentes.
Parou o carro bruscamente ao entrar na rua e ver o dele saindo. também freou e desceu, os dois se encontraram no meio fio.
– Você não me respondeu mais, eu achei que...
– Shhhh… – o calou com o indicador em seus lábios. – Não temos tempo, temos que sair daqui logo.
– O que? – questionou em confusão.
– Com ou sem você eu sempre vou ser a mesma… Mas agora eu quero passar pela porta da frente ao seu lado.
entendeu as entrelinhas e não demorou a rodear a cintura dela com seu braço, puxando-a para colarem os corpos e, na força que ele usou, se fosse possível teriam mesmo fundido-se ali. A necessidade de sentir cada centímetro de pele, de carne, do cheiro do cabelo e olhar nos olhos vivos dela, era compartilhada, porque também estava ali ofegante e descompassada nos desejos, por serem tantos. Ambos mal conseguiam ordenar direito o que e como dizer, ainda havia muito a ser dito, disso tinham certeza, e o fariam em um ambiente que aquela conversa pudesse se tratar deles e apenas deles, sem nenhum outro ponto sobre qualquer coisa trivial. Entretanto, naquele momento nenhuma palavra saiu, apenas o puxão forte de na nuca dela aconteceu, para que os lábios se encontrassem no meio do caminho em um choque de faíscas mais radiantes que os fogos de 4 de Julho. Era ali que queriam estar, um nos braços do outro, mesmo após tanto tempo.
E, no fim, foram realmente fundamentais todos os caminhos para chegar até ali, naquele momento, com outra mente, outra perspectiva sobre o que era de fato o poder, além daquela ideia sobre limite. apenas não se daria a chance de limitar-se novamente; se fosse pelo dinheiro, tudo bem, mas a forma como sentia em relação à Jamais.


FIM



Nota da autora: Primeiramente, muito obrigada por ler!
Segundo e importante tanto quanto, não esquece o comentário? Ele é, de fato, importante…
E vou ir embora dizendo que a mão coça de fazer uma longfic destes dois.
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