Finalizada em: 30/06/2021

Capítulo Único

11 de setembro de 2001

“Terrorismo declara guerra aos Estados Unidos”
— O Estadão

“Just before 10 a.m., a call comes through from the vice-president.”
“I could hear a noise on the phone. I’ve looked around and I could see the desk in front of me was shaking. We didn’t know what that was. People going under the desk. I heard the chief of the department yell: ‘The tower has come down, the tower has come down’. Looks like a nuclear cloud, it’s like a gray smoke is coming towards the building. Things flying through the street, things hitting the side of the building; that also became dark outside. It’s totally dark outside.”
“It collapsed. The top floors collapsed down and sort of blew up and then I ran like hell. Thank God I’m 69, but I can still run. It’s got to be fine to hum a trap back ditto”.
“When the chief said the tower came down, I didn’t think he meant the entire Twin Tower. There are big radio towers on the top, and I thought they had come down and hit our building.”
“The ten-second collapse instantly kills hundreds of civilians and emergency personnel.”
“It’s loud, this loud fan that we looked up in the top half of the building was actually coming down like dominos…”

— When the Towers Fell, by National Geographic



11 de outubro de 2001

“The attack took place on american soil, but it was an attack on the heart and soul of the civilized world. And the world has come together to fight a new and different war, the first, and we hope the only one, of the 21st century. A war against all those who seek to export terror, and a war against those governments that support or shelter them”.
— Presidente George W. Bush



Afeganistão, março de 2021

Já foram mais de três milhões e novecentas mil mortes pelo novo Coronavírus em todo o mundo, já aqui, foram cento e dezessete mil casos notificados e quase quatro mil e oitocentas mortes. Em quase duas décadas de conflito, na chamada Segunda Guerra do Afeganistão e iniciada pela “Guerra ao Terror”, em 2001, eles divulgaram os óbitos dos países ocidentais há quase um ano: mil novecentos e nove soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e vinte mil, setecentos e dezessete feridos da mesma instituição. Ainda mencionaram as baixas dos outros países: quatrocentos e cinquenta e quatro mortos do Reino Unido, cento e cinquenta e sete do Canadá e oitenta e nove da França. Procurei pelos levantamentos das nossas baixas, mas como mensurar vidas perdidas em um país completamente devastado? Talvez seja por esse motivo que não sofremos tanto com a pandemia: porque nosso povo já estava morrendo.
Hoje caminho pelo meu vilarejo e em cada casa vejo reflexos da guerra. À noite, ao recostar minha cabeça em meu travesseiro, penso na insignificância dos mortos ocidentais da guerra para mim. Pouco me importo com eles, porque a maioria não se importava conosco. Ela fora uma exceção, e ela era o único número que me doía saber estar nessa lista.


Herat, Afeganistão, 2006

Éramos conhecidos como Aliança do Norte, guerrilheiros e grupos de resistência que lutavam contra o governo Talibã desde que ele conquistara nossa capital em 1994 e que, agora, ressurgia com ainda mais violência contra o próprio povo e os exércitos estrangeiros. Então, em conjunto com tropas da OTAN, nossa missão era reconquistar a província de Herat, no noroeste do país. Aquele era um importante ponto de drenagem de recursos para o interior e para o sul, onde o Talibã tinha maior influência.
A OTAN alegava que o objetivo principal era começar uma Reconstrução Provincial sob a liderança de seus soldados ocidentais, e a chegada deles em determinadas províncias e cidades estratégicas foi o que culminou com o ressurgimento da violência.
Era um dia quente de verão quando um helicóptero pousou no heliporto improvisado, e dele saltaram alguns soldados escoltando o que parecia ser a nova equipe de saúde destinada ao nosso acampamento. Como responsável pela equipe de guerrilheiros, deixei as cartas sobre a caixa de madeira improvisando uma mesa, saindo do jogo e seguindo o grupo.
— Faruk, bem a tempo! — Johnny, o capitão da equipe de inteligência, falou assim que cruzei a entrada da tenda médica. — Quero que conheça nosso novo médico, Dr. Christopher Rice — um homem de meia idade, porte atlético e tão europeu quanto o capitão, postou-se à frente e estendeu-me a mão em cumprimento. — Nossa nova enfermeira, Jamila Stone — uma moça negra acenou com a cabeça, fazendo-me retribuir o gesto. — E esta é , psicóloga voluntária da Cruz Vermelha — a mulher de cabelos cor de fogo escapando sobre a burca negra mal colocada, como as ocidentais costumam usar, imitou o gesto da enfermeira.
— Sejam bem-vindos — comecei —, sou Faruk Al-Amari, chefe da equipe de resistência. Vocês podem ficar tranquilos que não terão problemas com meus homens.
— Eles não costumam se misturar com a gente — brincou Johnny, mas deixando claro a zombaria típica dos americanos sobre nós. — Bebidas, charutos e futebol são demais para eles.
— Assim como fé, sentimento de lutar pelo seu lar e resistência parece ser demais para você. — respondeu a psicóloga ruiva.
Olhei-a surpreso e tentei disfarçar um sorriso enquanto via o capitão ficar vermelho e mudo pela resposta ríspida.
— Se misturando ou não com a coligação, vocês também são de nossa responsabilidade — informou o médico, acabando com o clima constrangedor. — Então, se precisarem de qualquer coisa, não hesitem em nos procurar.


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— O que você tanto escreve nesse caderno? — perguntei, aproximando—me de .
Já era a segunda semana dela em nosso acampamento e pouco ela tinha visto da guerra, já que não tínhamos iniciado a operação para a reconquista da cidade. Esperávamos ansiosos pelos novos carregamentos de armas, munições, remédios e alimentos há dias, e só depois que os tivéssemos na base poderíamos atacar.
Com o passar dos dias, descobri que conhecia bem a cultura árabe, uma vez que, além de formada psicóloga, também tinha diploma em antropologia. Para ela, nos observar em nosso habitat parecia ser fascinante, já que ela passava horas do dia ao nosso redor, interagindo com meus homens, fazendo perguntas e buscando respostas. A princípio desconfiei que ela poderia ser algum tipo de agente secreto enviada para coletar informações, mas, aos poucos, a mulher de cabelos cor de fogo começou a ganhar minha confiança.
— Como os dias são aqui — respondeu, sem levantar os olhos do caderno apoiado sobre os joelhos dobrados.
— No momento, são sempre iguais — sentei-me ao seu lado, mas a uma distância segura para que não houvesse proximidade entre nossos corpos.
Larguei minha aldeia quando assassinaram nosso líder em 2001, poucos dias antes do atentado aos Estados Unidos, e juntei-me aos guerrilheiros acreditando que conseguiríamos fazer a diferença, de que conseguiríamos expulsar o Talibã de nosso país, e, por isso, saindo jovem de casa, não tinha para quem voltar. Eu só saí, deixando pais idosos e quatro irmãos mais novos, porque acreditava que o que fazia era o certo. Alguém precisava lutar, e, em minha mente, um homem só é homem de verdade quando luta por uma causa pela qual acredita.
observou meu movimento, mas não fez questão de se aproximar. Ela nos conhecia, conhecia nossos costumes. Homens não devem encostar em mulheres que não sejam suas esposas ou irmãs/mãe. Qualquer contato mais próximo deixaria claro uma intimidade que não tínhamos.
— Na verdade, eu os acho todos diferentes — respondeu, com um sorriso singelo. — Por exemplo, ontem vocês não caminharam pelas colinas, algo que vinham fazendo todos os dias. Quebraram o padrão, por quê?


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— Hoje seus homens interagiram com os soldados holandeses, mas não com os americanos — aproximou-se enquanto eu terminava de limpar um rifle, já passado da hora da última refeição noturna.
— Americanos são prepotentes — expliquei, sem olhá-la.
De repente, percebi que não sabia sua nacionalidade e que, por isso, sem querer, poderia tê-la ofendido.
— Sim, eles são — respondeu-me, recostando-se no poste de luz a dois metros. — Mas estou mais curiosa por saber por que você não se mistura com ninguém.
Enfim parei o que fazia e levantei os olhos para observá-la. Ela ainda usava a burca do mesmo jeito, mais em forma de respeito a nós do que por falta de intimidade com o resto do acampamento, já que faria quase um mês que ela estava entre nós. Seus olhos cor de âmbar analisavam-me com cuidado, e seus braços cruzados em frente ao peito sinalizavam que ela gostaria de uma resposta.
— É mais fácil ter poucos vínculos — falei, baixando a cabeça e remontando a arma. — Assim, quando eles se vão, as dores são menos intensas.
— Entendo o que quer dizer, mas criar uma parede impenetrável ao seu redor também não lhe trará nenhum conforto.
— Guerras não requerem conforto — repliquei.
Não sei quanto tempo mais permanecemos em silêncio, mas tinha consciência de que limpei alguns rifles a mais do que o que deveria, apenas para não encará-la. Por algum motivo, , a mulher ruiva de olhos repuxados e írises âmbares, parecia conseguir ruir todas as minhas defesas com apenas um sorriso doce, ou com uma palavra certa.
— Gostaria de um dia conhecê-lo sem toda essa armadura — ela disse, afastando-se e deixando-me sozinho, refletindo no verdadeiro significado de suas palavras.


Helmand, Afeganistão, 2007

Enfim uma força britânica, liderada pela Marinha Real Britânica, iniciou uma operação para atacarmos o sul da província de Helmand. O objetivo era limpar posições dos insurgentes, que não mais assassinavam somente os estrangeiros e os guerrilheiros da Aliança do Norte, mas também a população que não lhes fosse amigável.
Já fazia quase um ano da chegada de Christopher, Jamila e à nossa companhia, e nos habituamos conforme as situações permitiam. A psicóloga e eu mantínhamos conversas breves, mas profundas, com frases de duplos sentidos e significados ocultos – mas jamais havíamos passado de qualquer limite. Existia uma muralha entre nós, e não me referia à guerra.
, a mulher ocidental com as respostas rápidas e uma mente ainda mais afiada. Já eu, um mero guerrilheiro de uma vila muçulmana com costumes completamente opostos. A parede que nos separava ia muito além da distância física e dos países em que nascemos. Pensávamos diferente sobre diversas situações e convergíamos em poucas opiniões. Entretanto, no meio da multidão daquela nova operação, seus cabelos ruivos sob a burca eram tudo o que eu enxergava, porque ela sempre sabia o que me dizer independente da situação em que estávamos.
— Sairemos ao amanhecer — falei a ela, que me acompanhava na ronda noturna. — Aconselho a estar em um dos helicópteros de evacuação assim que a operação começar.
— Não vou abandonar vocês — respondeu, categórica.
— Não é um abandono — retruquei —, é a coisa certa a se fazer.
— Besteira — ela deu de ombros, com as mãos dentro do casaco de sarja. — Por que vocês devem lutar e nós devemos partir? Onde está escrito que isso é o certo?
— Essa luta não é de vocês.
— A luta contra o terrorismo pertence ao mundo inteiro.
— Sim, mas o que estamos fazendo aqui também não é um tipo de terrorismo?
— O que quer dizer?
— Desde quando tirar uma vida, mesmo que por uma causa justa, é um ato de paz?
— Então por que você luta?
— Para que meus filhos não tenham que lutar.
— Você tem filhos?!
Parei de andar e ela imitou meu gesto, virando o corpo em minha direção, de forma que ficássemos frente a frente, próximos de verdade pela primeira vez desde que nos conhecemos. Sua respiração misturava-se com a minha, mas, ao invés de beijá-la nos lábios, apenas encostei nossas testas. Ela arfou, entendendo o que aquele toque significava.
— Não, porque até um ano atrás não tinha encontrado a mulher para ser a mãe deles.
Ela respirou fundo antes de responder:
— Quando você voltar amanhã, diga-me que deixará sua parede de escudos ruir para mim.
— Sim — e era verdade. Era tudo o que eu mais desejava, independente das nossas diferenças. Ela já tinha meu coração, e eu só queria que ele fosse bem cuidado por ela.


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Mas a operação, apesar da vitória, foi um desastre. Enquanto atacávamos o vilarejo contra os insurgentes talibãs, um outro pelotão deles esgueirou-se pelo nosso acampamento. E , como já havia me dito, não entraria em um helicóptero. Então, quando retornamos à base, tudo o que encontramos foram corpos de conhecidos. Eu vi um cair durante o ataque à província, mas meus olhos captaram apenas uma silhueta entre tantas outras no chão do acampamento. Os cabelos vermelhos, soltos pela ausência da burca, misturavam-se com o sangue seco ao seu redor.
Aproximei-me de seu corpo inerte e, agachando-me sobre a poça de sangue, segurei seu tronco contra o meu, não conseguindo acreditar no que tinha acontecido. Eu havia lhe fornecido meu coração, e ela o tinha despedaçado sem ao menos ser culpada pela minha dor. Ela havia feito uma escolha errada, a de não estar na equipe de evacuação, e pagara com a vida por isso. Agora não havia mais uma parede entre nós, porque não havia mais nada, nem vida unindo nossos caminhos. Simplesmente não havia mais nada.


Fim



Nota da autora: Olá, meus amores! Preciso dizer que por mais que eu ame Kings of Leon, tive uma dificuldade tremenda em escrever essa ficstape, já que nada me parecia bom o suficiente para a letra de Walls. De qualquer forma, essa história foi o que consegui e espero não ter deixado a desejar. Então acho que era isso. Vejo vocês pelo site, não esqueçam de comentar e beijo grande! 🍀


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