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ALERTA GATILHO. Essa ficstape contém a descrição de eventos relacionados à abuso de substâncias, sintomas de transtorno de ansiedade generalizada e indução de vômito. A reprodução desses comportamentos não deve ser, de maneira nenhuma, incentivada ou romantizada. Se você se identifica com algum dos comportamentos descritos e acredita que a leitura pode desenvolver algum tipo de crise, não prossiga. Procure ajuda profissional, sinalize alguém de confiança. Você não precisa passar por nada sozinho/a. <3


Capítulo Único

SETEMBRO DE 2017

precisou se esforçar para não fazer uma careta ao observar o ambiente e expirou pelo nariz ao conter um gemido de insatisfação. Havia ganho essa habilidade com o passar dos anos na indústria – as palavras de sua empresária (que também acabava por ser a sua mãe, vez ou outra, mas na maior parte do tempo era sua empresária) ecoavam em sua consciência até mesmo nos piores dias: abra um sorriso, ajeite a postura e nunca os deixe saber, não importa o que seja. Nunca os deixe saber. E era o que ela fazia: sempre com um sorriso no rosto, sempre simpática, sempre quente e acolhedora. Normalmente conseguia ser, até mesmo gostava de ser, mas sempre era difícil demais. Como a atriz aclamada que havia se tornado ao ganhar notoriedade em papéis de personagens intensas e enigmáticas, aprendeu também a conter seus mínimos impulsos rebeldes de mandar todas aquelas câmeras insistentemente apontadas em sua direção à merda.
Os anos se passavam e o sucesso de Good Years aumentava. A série, que agora estava em sua segunda temporada, havia estourado ao representar de maneira ousada o cotidiano de um grupo de estudantes no clichê estadunidense de uma faculdade à medida em que eles exploravam seus relacionamentos em um mundo de sexo, drogas, traumas e relacionamentos duvidosos que pouquíssimas vezes derrapava pelo terreno do que já se era abordado. Good Years conseguiu manter o equilíbrio entre o drama jovem e a intensidade característica da fase com uma narrativa poética e uma estética capaz de transformar as cenas pesadas em pequenas obras de arte. E , a estrela da série que lhe rendeu um Emmy, mostrava-se cada vez mais distanciada de sua personagem drogada e problemática — bom, pelo menos era o que o resto mundo pensava. E segundo sua empresária, era o que eles pensavam que realmente importava.
No alto de seus vinte anos, era exatamente o que todas as outras jovens de sua idade gostariam de ser: bonita, rica, famosa, bem sucedida e...
Atual namorada de . A esta, que era a última de suas conquistas, estava demorando a se adaptar – ao observá-lo com a camisa social preta e ousada estampada com corações brancos e um blazer por cima, o maxilar demarcado e os olhos verdes, o cabelo puxado para trás e a língua que eventualmente passava pelos lábios ao entoar o sotaque britânico que secretamente mais fascinava do que irritava, ela fechou os olhos por dois segundos, tentando se lembrar do porquê realmente havia aceitado a proposta.
Ela não precisava dele. Ela não precisava disso. Ainda assim estava ali.
O casal favorito dos telespectadores de Good Years estava, finalmente, junto. Os flashes das câmeras estouravam, os tabloides aclamavam, os fãs enlouqueciam. E ?
abria um sorriso, ajeitava a postura e não os deixava saber. Sentiu a mão grande e larga do rapaz encontrar sua cintura e tomá-la para si e engoliu em seco com o contato e com a proximidade – com que parecia nunca se acostumar. Não que isso não tivesse acontecido antes; muito pelo contrário, não havia nada de novo ali; o casal era, inclusive, muito reconhecido pela química explosiva das cenas intimistas e abrasadoras que construíam juntos sem pudor no set de filmagem... Mas eles não estavam no set de filmagem.
— Mediano pra quem ganhou um Emmy — sussurrou lentamente no seu ouvido e quase se contorceu ao sentir os arrepios se espalharem pela pele desnuda de seu pescoço. A liberdade que ela ainda não tinha dado era roubada sem aparente remorso.
— Você nunca vai superar a minha indicação ao invés da sua, ? — rebateu prontamente e sabia que ele se contorcia por dentro, apesar do deboche explícito na cara lavada. – Não fique triste... Quem sabe esse ano você não consegue?
Piscou pra ele, que sorria com sarcasmo.
No entanto, o nome de também estava na boca do povo. Talvez até mais com o sucesso que fazia com o público, tanto feminino, quanto masculino. Era a aposta mundial para os próximos anos do Cinema, atual galã da indústria hollywoodiana. Ganhou o mundo inteiro desde o primeiro filme com a construção de um portfólio de trabalhos cinematográficos de tirar o fôlego que moldava uma carreira trilhada para o sucesso – e ele parecia saber muito bem disso ao se dispor a ser sempre tão arrogante. Um belo filho da puta, se quisesse saber da opinião de . Nunca fora dos mais simpáticos, pelo contrário: sempre agia como se fosse bom e inteligente demais pro resto do mundo, sempre com seus comentários sarcásticos e potencialmente polêmicos em entrevistas, sempre com a sobrancelha arqueada e o olhar entediado de quem nunca estava interessado o suficiente. Desde a primeira vez que se encontraram para a primeira leitura de mesa quase três anos antes, a sua intuição gritou que aquele rapaz lhe causaria problemas. E bom, a profecia se cumpriu: para recaiu a culpa de resolver seus problemas com relações interpessoais e ser seu chaveirinho da sorte, preenchendo com simpatia, doçura e bom humor as suas lacunas de interação e visibilidade – sem contar das vezes que fora flagrado portando uma quantidade absurda de drogas ilícitas que fingia jamais chegar perto... mas adorava, secretamente.
Só alguns meses, . Um ano. Você já teria que olhar pra cara dele quase todos os dias nas gravações. Você pode fazer isso sem querer se jogar da janela no fim do dia.
Estavam prestes a entrar no evento. As câmeras os procuravam. Sentariam lado a lado e passariam a noite juntos, sanando as dúvidas e alimentando as fofocas. Por pelo menos um ano aquela seria a sua vida e ela não poderia estar menos empolgada. De que adiantava ser tão absurdamente – indubitavelmente, inexplicavelmente – bonito se sempre soava como um grande babaca? Levando-a ao limite. Fazendo-a querer explodir em seus impulsos. Cutucando sua ferida. tinha um certo asco por , mas não era só por sua personalidade duvidosa. A presença de era um confronto a tudo que ela acreditava.
Em toda sua pompa estrelista parecia tranquilo, calmo, ao andar pelos cantos como se estivesse sempre de férias. E por isso apenas ignorou a provocação de que, com um meio sorriso, conteve o ímpeto de revirar os olhos. — Vamos lá, . Você sabe muito bem que nós podemos fazer melhor que isso.
, então, pegou o queixo dela com o indicador. Estavam frente a frente. Seus narizes quase se encostavam. O uso do apelido a irritava.
— Nós não precisamos fazer melhor que isso. É suficiente.
— A queridinha da América está dando pra trás? – provocou, arqueando uma sobrancelha com o sorriso em desafio que precisou torcer o lábio para não espelhar. Olhavam nos olhos um do outro como se procurassem por alguma coisa.
— A queridinha da América está entediada com a sua presença, amor — respondeu. Abaixou os olhos com um sorriso apaixonado de quem não consegue se conter, como se o diálogo fosse excitante, como se as faíscas do início explodissem entre eles. virou o rosto para o lado, controverso, saindo de seu próprio personagem. Parecia incrédulo. As habilidades teatrais de eram sempre algo a se perceber. O menor de seus movimentos era carregado de significados.
Ela dizia tudo com os olhos, com a feição, com o toque de seus dedos, com o modo de inclinar o rosto. A sua linguagem corporal gritava que estava completamente rendida – suas palavras não precisavam concordar quando ninguém estava ouvindo.
— É bom se acostumar, linda — puxou-a ainda mais para perto com força pela cintura e seus corpos grudaram um no outro. A tensão que se construiu com o momento poderia sufoca-la. O sarcasmo no apelido era explícito. O jeito que direcionava os olhos para os seus lábios quase a enganava. — Eu não vou a lugar nenhum.
O evento de estreia da segunda temporada de Good Years era esperado por ser um dos maiores do ano na cena de streaming. A produção da série, em todo seu esplendor, não economizava em nenhum de seus artifícios e fazia questão de fazer desta uma festa pública, exposta, grande e elaborada – apesar do acesso restrito aos aderentes das listas vips e dos contatos intencionais em Los Angeles. E como a presença do casal do ano jamais passaria despercebida, as câmeras se voltaram para eles enquanto adentravam o espaço escandalosamente decorado e as expressões chocadas tomaram vida. personificou um perfeito gentleman ao andar pela passarela de entrada e parar ao seu lado no mural onde posariam para as fotos oficiais, ainda com a mão em sua cintura. Os fotógrafos gritavam por atenção, enquanto exalava a simpatia no sorriso e a encarava com uma devoção que parecia penetrá-la.
E de novo, a espontaneidade forjada do ator quase a enganou também. Deu um beijo em sua bochecha no caminho para a saída, e assentiu com a cabeça em contradição, tentando se acostumar com a ideia.
Já tinham dado outras pistas pra mídia durante as duas semanas anteriores. Toda aquela bobagem de aparecer comprando um Starbucks com uma camisa dele, os mínimos toques trocados em público, aparecer juntos conversando no fundo dos stories de algum colega de trabalho... Mas aquele momento em específico era o momento em que tudo mudaria.
Apenas suas respectivas empresárias, com quem assinaram o contrato, e dois de seus colegas de trabalho — o casal de amigos que compartilhavam, Alec e Cali — sabiam do que realmente se passava ali. E não via a hora de encontra-los e poder falar mal de para as únicas pessoas que poderiam ouvir.
— Viu? Não é tão difícil assim...
Andavam juntos, então, até os seus lugares de frente para a tela onde seria reproduzido o primeiro capítulo da temporada. deu de ombros, riu, e passou a mão pelo rosto dele com carinho.
— Algum dia eu ainda me livro de você, .
— Algum dia, — ele piscou e roubou-lhe um selinho com um sorriso largo. — Não hoje.


NOVEMBRO DE 2017

era mais observador do que gostaria. Notava as coisas que muitas vezes não queria notar, por mais que raramente demonstrasse ou trouxesse à vida qualquer espécie de reação. A memória fresca e vívida carregada de atenção pelo uso do Adderall poderia ajudá-lo a passar textos do roteiro com facilidade, mas algumas vezes, perceber poderia ser nocivo. Perceber era nocivo quando não queria se importar.
Nos primeiros dois anos, que incluíam todo o reconhecimento de plano, as leituras de mesa, discussões sobre os personagens, o início das gravações da primeira temporada da série, a vivência com era puramente profissional. Incomodava-o suficiente porque nunca comprou o papel de boa moça que ela exaustivamente propunha, esbanjando sorrisos e abraços pelos cantos como um político procura por votos mas, pelo menos, era só no estúdio e eventos de trabalho em que precisavam se comunicar. Porque, para ele, trabalhar com não era difícil.
Em segredo, se encantava com as habilidades artísticas da companheira de trabalho. As cenas com ela, por mais complexas e carregadas que fossem, pareciam flutuar. A naturalidade com que se tornava Lilith e sentia com ela tudo o que lhe cabia era realmente de tirar o fôlego, e reconhecia que não era só com essa personagem específica – se entregava a suas personagens com a coragem que ela não tinha de mostrar quem verdadeiramente era, tinha notado.
Jamais admitiria o quanto aprendeu com ela nos últimos anos, no entanto. Pelo contrário. Fazia questão de provocar, de discordar dela sempre que possível, pelo puro prazer de alcançar seus nervos e trazê-la a superfície de vez em quando. Penetrar as escamas. Encontrar a que ninguém parecia notar que não estava ali.
Conviver com , sim, era o verdadeiro teste de paciência. A simpatia que ela exportava para o mundo era sempre substituída por alfinetadas e cortes ao lado de . Estavam sendo obrigados a passar mais tempo juntos nos últimos meses, acompanhar um ao outro em eventos, aparecer juntos por aí casualmente. A presença dela era insistentemente notável, mais que o normal, mais que a percepção aguçada que já tinha de todas as outras coisas. O problema é que todas as outras coisas ele facilmente deixava de lado, negligenciava estímulos sem muitos esforços porque não se importava o suficiente para se dar ao trabalho – mas a inabilidade em ignorá-la o incomodou desde o primeiro momento. nunca foi dos mais interessados, mas os mínimos movimentos de pareciam saltar aos seus olhos despretensiosamente e encrustar por sua pele trazendo à tona as reações que ele não queria ter.
era a porra de um quebra cabeças que ele sempre parecia montar errado.
Por isso, fingiu não notar quando ela saiu do banheiro olhando ao redor e discretamente passando o dedo pelos cantos da boca como quem quer ter certeza de que não tem nada fora do lugar. Sentou-se ao seu lado com um sorriso e deu um beijo em sua bochecha. , ao conter o ímpeto de virar os olhos, passou o braço pelo encosto de sua cadeira e repousou a mão ao lado de seu ombro. Por um milagre tinham conseguido ficar sozinhos na mesa, mas ainda haviam pessoas ao redor que ele sabia que os observavam. Sempre os observavam.
Em plena sexta-feira à noite estavam num evento beneficente – e insuportável – da Gucci. Um leilão que arrecadaria fundos para instituições de caridade, vendendo peças clássicas da marca por preços absurdos por um motivo de comoção maior. O salão estava cheio, as pessoas estavam classudas e felizes, e não poderia estar mais entediado ao ouvir os produtos sendo apresentados.
— Estou entediado. — reproduziu seus pensamentos num tom representativo.
— É uma pena.
— Acho que essa é a pior coisa sobre ter que namorar com você.
se deixou virar os olhos com um sorriso contrariado. Estavam próximos e falava bem baixinho perto do ouvido. Sabia que ele estava falando sobre acompanha-la em eventos como este, que ele deveria comparecer, mas nunca havia feito questão de comparecer tão assiduamente antes.
Mas se ia, ele deveria ir também. Era por isso que estavam juntos, não era? Qualquer merda sobre melhorar a imagem e utilizar a influência para coisas importantes.
Não poderia negar que estava dando certo.
— Ah, é? — perguntou, mas mantinha os olhos no palco, desinteressada. — Pensei que fosse a minha personalidade superficial.
— É. Tem isso também. Mas acho que com o tempo eu fui aprendendo a te ignorar melhor, sabe?
Mentira. Tudo mentira. riu e ele quase acreditou que ela realmente o achasse engraçado – às vezes tinham esses momentos em que não se levavam a sério e o tom parecia mais piadista. Direcionou os olhos para ela, que não retribuiu: seu rosto estava empalidecido, os lábios secos e os olhos mais molhados que o normal. Alguma coisa havia acontecido no banheiro, mas não comentou nada.
Já houvera tido essa impressão outras vezes nos últimos meses, também. Mas nunca comentava nada. Sabia que ela não responderia.
— Bom, pelo menos eles estão fazendo alguma coisa — rebateu, dando de ombros. Ele também voltou a olhar para frente. Passou o nariz pelo maxilar de só para se aproveitar do cheiro gostoso que ela exalava.
Não que fosse admitir isso em voz alta.
— Eles só estão tentando fazer as pessoas pensarem que é ok explorar milhares de pessoas com trabalhos insalubres e salários desvalorizados porque eles fazem leilão uma vez no ano.
virou o rosto para ele dessa vez, desacreditada, mas parecia debochar discretamente. Os dedos de recostavam a pele de seu ombro, vez ou outra, enquanto ela parecia aconchegada com o braço dele ao seu redor. As demonstrações de afeto passaram a ser mais robóticas e confortáveis com o tempo. A proximidade dos corpos ainda o deixava em alerta, sim, mas não era mais tão desconfortável depois de alguns meses.
Pelo contrário. Era confortável.
— Você está literalmente me namorando por dinheiro. — Argumentou. riu pelo nariz, controverso.
— Só não acho que é assim que se faz caridade. Não pros outros verem. Tem que ser algo que você acredita.
— Então agora você é o senhor filantrópico?
— Tem muita coisa sobre mim que você não sabe, .
— Eu sei tudo que se pode saber sobre você, riu, encolhendo os ombros e deitando a cabeça no braço dele ao fazê-lo. Expirou a risada pelo nariz na curva de seu pescoço e ele sentiu a área se aquecer com o contato, engolindo em seco. As malditas reações. Sorriu, sarcástico, e negou com a cabeça. De novo, perigosamente perto. Ele a observou pelo canto do olho.
— E o que é que você tanto sabe?
— Você odeia vinho e manteiga de amendoim — começou, encarando-o, ainda com a cabeça recostada, e riu pelo nariz como quem sabe que está certa. espremeu os lábios, sem querer concordar. — Prefere chá do que café. Fica desconfortável antes das nossas cenas de romance porque você odeia até mesmo fingir que é apegado a mim — ela colocou uma das mãos no rosto e fechou os olhos, negando com a cabeça. Tirou logo depois. — Conseguiu tudo muito fácil na vida e não sabe o valor das coisas. Gosta de ficar chapadão pra fugir dos seus problemas e não dá a mínima pro que outras pessoas sentem porque você é tão cool!
Ela utilizou uma frequência sarcástica maior ao gesticular de maneira exagerada e caricata nas últimas duas frases e , pela primeira vez na noite, riu de verdade. Não se ofendeu com o que ela dizia – o que era raro, visto que tinha uma capacidade única de acessar seus instintos mais irritáveis. Dessa vez, dessa única vez, conseguiu o contrário. Algo remexeu dentro dele ao saber que ele não era o único que a observava. Aproximou-se ainda mais. Os rostos à centímetros um do outro. nem conseguiu conter o estranhamento. Provavelmente esperava alguma respostinha esperta de volta.
— Vamo embora? Vamo pra outro lugar?
— Você tá doido? A gente tem que ficar até o final. A gente é embaixador da marca, .
Sussurravam. Tão perto que podiam sentir a respiração um do outro.
— Você sabe que quer ir embora daqui tanto quanto eu.
Ela deu de ombros.
— Por que eu iria querer ir pra qualquer lugar com você?
— Eu posso apostar que a princesinha da América sabe muito bem se divertir. Eu vi você loucona de Xanax no outro dia.
revirou os olhos com um sorrisinho.
— Quantas vezes eu vou ter que te dizer que era o meu anticoncepcional?
riu pelo nariz da desculpa esfarrapada e descarada.
— Você nem transa.
— Eu não transo com você.
deu um sorriso convencido. A troca de olhares com as feições despertas dizia algo que nenhum dos dois admitiria.
— Você tá me traindo, ?
A frase era mais carregada de uma ironia provocativa do que de ciúme. Os narizes quase recostavam enquanto conversavam com respostas rápidas e os lábios se curvavam em meio sorrisos que exalavam a tensão construída pelo momento.
Ali, não fingiam. O mundo ao redor não existia.
— Claro que não, amor. Você sabe que eu sou tão apaixonada por você.
Aquela ali, especificamente, não respondeu, só continuou a observar os traços mínimos dentro de suas íris sem querer pensar muito em como responder. O silêncio durou alguns segundos que pareceram uma vida inteira. A mão de repousou-se no rosto dele quente e macia. poderia beijá-la, logo ali.
Em mais uma de suas incansáveis percepções, caiu na realidade de que observar havia se tornado muito mais que lampejos involuntários, mas um de seus passatempos preferidos, um hobbie, um hábito inconsciente. Se interessava pelo contorno do seu rosto, o formato das sobrancelhas, a pele cuidada, o desenho dos lábios, o tamanho do seu queixo, a cor dos olhos. Perdido em explorá-la, piscou algumas vezes num leve susto ao ouvir sua voz dizer:
— O Xanax deve ter afetado minha cabeça realmente pra estar aceitando essa proposta ridícula – e se levantou, sem avisar, mas virou o rosto para um surpreso depois dos primeiros passos. — Ué, vai ficar aí?


...

se agarrava ao braço de como se sua vida dependesse disso e olhava ao redor com os olhos arregalados e a cabeça baixa. Tinha muita gente ali, muita gente desconhecida. A música e o barulho podiam ser ouvidos de longe. Várias outras pessoas andando até a grande casa onde se direcionavam.
Nem ele mesmo sabia como haviam parado ali, teve a ideia enquanto passavam por Greenwich Village. Era sexta-feira à noite, afinal. Era óbvio que encontrariam alguma coisa pelas fraternidades da NYU.
olhou com o canto de olho e riu debochado, balançando com a cabeça em negação.
— Ninguém aqui vai te morder, , nem mesmo se você pedir. Eu não vou deixar ninguém morrer envenenado.
— Quer ir com calma? Meu salto fica furando a grama — resmungou, aplicando certa força ao puxa-lo pelo braço. — Como se você se importasse. Você pelo menos conhece alguém aqui?
— Nop.
— Eu não tô acreditando! — ela levantou os olhos pra ele, incrédula. — A gente vai ser barrado! Que vexame!
parou no meio do caminho e direcionou os olhos para ela, cético.
— Olha pra mim, — apontou para o próprio rosto numa arrogância cirúrgica. Continuava agarrada com o seu braço sem intenção nenhuma de largar. — Você acha que eu tenho cara de quem é barrado em festa?
Ela fez uma careta em resposta enquanto eles voltavam a andar até a casa.
, eu tô com vergonha.
— É só não pensar muito antes, . Não pensa. Só faz.
— Então você... Só faz? Vai pra festas de penetra? Aparece nos lugares sem ser convidado sendo que você poderia estar em várias sociais VIP de drogados etc?
— É divertido, você vai ver — ele deu de ombros, ignorando a alfinetada. — Não acredito que você nunca foi pra uma festa de fraternidade.
voltou os olhos pra ele de novo.
— Não acredito que você já veio pra uma festa de fraternidade. Não consigo te imaginar aqui — ele olhou pra ela com o canto do olho novamente, que riu, colocando a mão na boca e escondendo o rosto no braço dele por um momento. — Desculpa, é que você é insuportável demais e essas festas meio que te obrigam a socializar.
Ele se deixou rir pelo nariz.
— Te disse, . Tem muita coisa que você não sabe sobre mim.
— Pois é, , e eu estou morrendo para desvendar os seus mistérios...
E como ele garantiu, ao adentrarem o espaço da fraternidade que eles nem sabiam o nome, com uma ainda agarrada em seu braço portando um sorriso chocho e envergonhado enquanto despejava seu charme desinteressado, foram recebidos na festa com calor, aplausos e gritos na casa já abarrotada de gente com um som alto e bebidas inacabáveis espalhadas pelos cantos.
Estavam arrumados demais para a situação. Ambos de Gucci, usava um terno florido e uma calça de cintura alta na mesma estampa com um top cropped preto, os lábios que ela havia pintado de um vermelho vivo logo antes de chegar. a acompanhava com uma calça de linho e uma espécie de camisa social azul semiaberta que deixava seu colar e tatuagens à mostra, enquanto o resto das pessoas usavam shorts, biquínis e andavam por aí sem camisa.
É claro que não conseguiria deixar de rir, abraçar, tirar fotos e aparecer em stories de todo mundo que chegava perto dela sem se cansar. Com cinco minutos de festa ele mal podia contar a quantidade de pessoas — bêbadas em sua maioria — que ela tinha conhecido, conversado, feito amizade, e ainda por cima, lembrava o nome de todas elas. ainda se esforçou um pouco pra fazer social, conversou com uma pessoa ou outra – até sorriu! –, mas ficava um pouco mais distante só observando. , certamente, tinha um dom para interagir com as pessoas – e elas não pareciam mais tão interessadas nele assim ao notar a acessibilidade e simpatia que ofertava, enquanto suas interações se baseavam muito mais num assentir de cabeça, meios sorrisos e respostas breves ao ouvir as pessoas tagarelando ao seu redor. Pegou dois copos vermelhos, um para si e um para , com vodca e suco.
Entregou pra ela assim que as pessoas pareceram se acostumar com a sua presença. Ela aceitou com um sorriso. Parecia animada, até tomar um gole do conteúdo no copo e fazer uma careta exagerada com a língua pra fora.
— Isso é vodca? — ela perguntou e ele assentiu. Fez uma careta. — Será que vão pensar que a gente tá se aproveitando deles? A gente não devia ter trazido, sei lá, uma garrafa de Gin pra contribuir?
deu uma risadinha.
— A gente pode pedir umas bebidas por delivery, se você quiser. Mas pode ter certeza que eles não se incomodam, a quantidade de bebida nessas festas é absurda. Você não tá vendo?
— Eles foram muito legais com a gente. Calorosos — comentou, bebendo mais um pouco, sem deixar de fazer careta. Estavam recostados num canto da parede observando o ambiente enquanto as pessoas dançavam e curtiam a festa com o som alto. — As pessoas aqui não ligam muito pra nada. Por exemplo, olha essa menina, de sutiã no meio de todo mundo! Maravilhosa!
E aí, fez uma coisa que realmente não estava esperando: ela virou o resto da bebida do seu copo, balançou a cabeça e foi até a menina que dançava de olhos fechados no meio da sala usando um short curto e o sutiã, como se estivesse sozinha em seu próprio mundo. Sussurrou alguma coisa no ouvido dela, que riu, elas fizeram uns passinhos de dança pra comemorar. Logo depois ela voltou, rindo. — Eu amo festas de fraternidade!
— O que raios você falou pra essa desconhecida?
— Que ela é uma gata! — disse e piscou para ele.
— Você realmente gosta de pessoas, né? — ele perguntou. O comentário foi mais retórico do que investigativo. Não que sentisse uma distância social entre pessoas famosas e não famosas, ele só não fazia tanta questão assim de conversar com as pessoas em geral, fazer média com gente desconhecida. Era difícil ser um famoso introvertido: era cobrado por interações sociais que sugavam toda a sua energia o tempo todo. Gostava das festas de fraternidade porque sempre quis a experiência de estudar numa faculdade como uma pessoa comum e elas o passavam a parte boa dessa sensação. As pessoas eventualmente esqueciam que ele era um ator reconhecido com o passar da noite e curtiam a festa como se ele não estivesse ali, enquanto ele ficava bêbado, eventualmente mais simpático, se perdia de Alec, se atracava com alguma desconhecida e voltava pra casa de manhã sem fazer ideia do que havia acontecido na noite anterior. As saídas acabaram por ter de se tornar bem mais discretas depois que começaram com essa história toda de relacionamento por contrato que odiava – nenhum dos dois se importava que o outro se encontrasse com outras pessoas desde que o fizessem com cuidado, o que vinha tentado cumprir para evitar problemas. deu de ombros, pegando o copo dele e bebendo um gole, riu e limpou o canto da boca depois.
O clima entre eles estava mais ameno. Talvez ao aceitar a proposta também tivesse concordado com uma trégua silenciosa. A necessidade de alfinetar um ao outro não parecia mais tão sufocante assim.
— Não posso evitar — encolheu os ombros. — Já parou pra pensar que cada pessoa aqui está tendo uma experiência diferente com a festa?
observou o ambiente com as sobrancelhas arqueadas. Virou-se para ela. Falavam muito perto do ouvido um do outro para que conseguissem se ouvir.
— Definitivamente não. Minhas percepções normalmente não são tão profundas assim.
Ela pegou o copo da sua mão de novo, dando mais um gole longo e ele tentou tomar puxar o copo de sua mão. — Ei, esse é o meu copo!
— Larga de ser chato — ela puxou o recipiente para si uma última vez e ele deixou que ela tomasse, controverso, enquanto dava um sorriso de triunfo por ter ganho a pequena batalha. — Pois deveriam ser, . As pessoas são profundas.
— Me conte algo profundo, então.
— Você quer algo profundo mesmo?
o encarava com o lábio torcido e a sobrancelha arqueada, como se guardasse para si o código para um mistério insolúvel.
— Bem profundo. Um segredo feio.
— Tudo bem. Lembre-se que foi você quem pediu.
Ela levantou os braços, como quem lava as mãos.
— Fala, !
— Eu nunca tomei cerveja.
, instantaneamente, riu da expressão incrédula de um desespero exagerado que ele fez ao afastar o rosto para encará-la logo após ouvir a sentença.
— Impossível!
— Eu juro. Nem um gole. Não faço ideia do gosto.
, isso é uma tremenda falta de respeito — ele tirou o copo da mão dela, virou o resto e deixou na bancada ao lado. — Nós temos uma missão hoje.
, pera aí...
Mas ele estava determinado. Envolveu sua cintura com o braço enquanto passavam pelas pessoas até o lado de fora, a área da piscina, e encontrou com um grupo de pessoas ao redor de um barril de cerveja. A timidez que apresentava antes de adentrar a casa já havia evaporado e ela cumprimentava todas pessoas por quem passava como uma antiga conhecida das pessoas na festa, que pareciam adorá-la.
O grupo os recebeu animadamente e conversaram um pouco, antes que chegasse ao lado de Ed, o mais próximo, e dissesse: Vocês acreditam que a aqui nunca tomou cerveja?
O que foi o suficiente para que um furdunço fosse eclodido no grupo. De repente, todo aquele clichê de filme americano se concretizou quando as pessoas começavam a gritar para que ela experimentasse com o verbo que se repetia num grito aclamado. De início abaixou a cabeça, meio envergonhada, meio pressionada, meio com medo de acabar fazendo besteira no meio de um bando de desconhecidos, mas o sorrisinho no canto do lábio dela entregava o quanto ela queria se render as vontades do povo.
— Ok, ok, eu vou!
— Como manda a tradição? — algum dos rapazes, mais distante, perguntou e ele fez uma careta. Aquilo, definitivamente, estava saindo do controle.
Puta merda. Diana o mataria, tinha certeza.
— Como manda a tradição! — Ela concordou, feliz e estridente, e arregalou os olhos. — Ei, me ajuda aqui, cara.
Piscou algumas vezes. tirou os sapatos de salto, o terno da Gucci e os amarrou na cintura, ficando só de top e calça. Essa foi a segunda coisa da noite que não esperava que ela fizesse.
De repente, viu uns três caras pegando pelas pernas antes mesmo que ele pudesse protestar enquanto ela apoiava as mãos no barril, ficando de ponta a cabeça. Essa foi a terceira coisa. O tal Ed ajudou, segurando-a pelo outro lado — no qual observava cautelosa e discretamente pelo canto do olho. Ele tinha certeza de que aquela não seria uma boa ideia algum tempo depois, mas parecia tão feliz e livre que ele nem se deixou intervir. Que lidassem com as consequências depois. Uma das meninas colocou o tubinho na boca dela, e então, as pessoas voltaram a gritar. começou a beber.
A preocupação foi se esvaindo aos poucos ao ver que ela estava passando muito mais tempo na posição do que ele esperava, e então, ele começou a rir muito, surpreso, meio espantado, meio encantado, enquanto as pessoas gravavam e gritavam, mas nenhum deles parecia se importar. O som da risada dele pareceu surtir algum efeito em que, depois de alguns segundos, começou a debater as pernas, pedindo para descer. Quando a colocaram no chão, se apoiou nele, respirou fundo e passou as costas da mão nos lábios. Estava ofegante, sorridente e com o rosto vermelho.
— E aí? O que achou?
Ela riu antes de gritar:
Eu odiei! — ela gritou, animada, com um sorriso largo e levantando os braços. As pessoas que prestavam atenção riram antes de voltar a curtir a festa.
Logo depois do caos, fez a quarta coisa que não esperava na noite: pulou em seus braços. Ela gargalhava ao entrelaçar as pernas no seu torso e enfiar a cabeça no seu pescoço, ali, no meio de todas aquelas pessoas desconhecidas que mal podiam imaginar que aquele não era um movimento natural dos dois – apesar de ter sido.
Ainda sim, foi ali a primeira expressão de carinho espontânea, verdadeira e involuntária entre e . Naquele momento, ele sabia que não estava fingindo. Se assustou um pouco e até cambaleou pra trás, mas a sustentou pelas pernas com o sorrisinho no rosto que deixou escapar. — Eu tô me divertindo tanto!
— Eu tô vendo — ele riu também, se deixando ser abraçado por ela. entrelaçou os dedos no seu cabelo e se afastou um pouco para trás com um sorriso. Mordeu o lábio.
Ao olhar para trás, pensa que foi nesse momento em que tudo mudou. Nesse momento, realizou estava fodido.
não piscava ao deixar o rosto próximo ao seu. O peito subia e descia com a respiração. A música tocava alto ao redor, as pessoas gritavam, se jogavam na piscina, corriam, bebiam, as luzes piscavam, as bebidas jorravam, mas nenhum dos dois pareceu se importar por aqueles segundos. Os pouquíssimos segundos em que tentavam encontrar no olho um do outro a resposta para uma pergunta que eles jamais admitiriam já ter passado por sua mente.
— Você... pode me pôr no chão agora.
balançou um pouco a cabeça, saindo do transe, e deixou que as pernas dela deslizassem por seu tronco enquanto ainda mantinham os rostos próximos e o olhar um no outro antes de dizer:
— Claro.
...

— Eu queria morar num lugar onde o céu tivesse estrela.
Estavam deitados um ao lado do outro no jardim, meio bêbados, bem cansados, lá pelas três e pouca ou quatro da manhã, logo depois de realmente terem pedido algumas — muitas — garrafas de destilado diferentes por delivery e deixado na fraternidade. No céu de Nova Iorque, só algumas nuvens e o tom de um azul bem escuro. Conversavam aleatoriedades já fazia algum tempo, despreocupados, sentindo que a noite passava num piscar de olhos. O som da festa ainda tocava meio distante e eles podiam ouvir de onde estavam.
— Eu queria água. — comentou, fechando os olhos. — Minha cabeça tá girando...
Falou a última palavra da frase cantada e riu, enérgica. Fez menção em se levantar.
— Eu posso ir lá pegar.
— Que? Não, , deita aí, fica de boa — ele abriu os olhos subitamente, virando-se para ela em espanto e colocou o braço sobre a barriga dela numa tentativa de impedi-la. — Não precisa ir até a casa.
— Mas eu posso ir. Não tem problema.
— Por que você está sendo tão legal?
— Eu sempre sou legal, , só não com você... Mas hoje você tá merecendo.
— Com quem você aprendeu a ser assim? — Perguntou. — Sem ofensas, mas sua mãe é um monstro.
deu de ombros. Estavam tendo que conviver mais com a súbita aproximação e as reuniões com Avery, a empresária de . Era certo que Diana era uma péssima mãe, de fato, mas uma empresária competente. Não fazia questão de maquiar a personalidade forte e objetividade. O braço dele ainda estava estirado sobre o corpo dela quando ele voltou a fechar os olhos. continuou olhando pro céu.
— Meu pai é um cara bem legal. Eu nunca pude vê-lo tanto quanto gostaria, mas eu tenho muitas lembranças boas de quando ele e Diana ainda estavam juntos... Algumas poucas mais recentes. Ele parava em cada esquina pra ouvir todo mundo que estava tocando alguma coisa na rua e assistia comigo todos os filmes da Disney.
— Por que você não pode vê-lo?
— Diana não gostava. Eu me sentia mal em passar alguma comemoração com ele e deixa-la sozinha. Agora ele mora em Salt Lake com a família, então... Ah, sei lá. Nem lembro quantos anos faz que não o vejo.
Mas se lembrava. Já eram seis anos que não se viam. As ligações eram raras e desconfortáveis. não queria ter que contar das vezes que Diana a colocou contra o pai ou das vezes que mentiu para ela sobre coisas que ele tinha feito. Do quanto sentia que a sua relação com ele jamais seria a mesma depois do tempo perdido quando ela finalmente realizou a alienação.
— Você deveria tentar.
— Ele está feliz sem mim, . Não quero atrapalhar isso.
— Tenho certeza que ele seria muito mais feliz com você.
ainda tinha os olhos fechados quando direcionou o olhar pra ele, sentindo seu coração se aquecer com as palavras de conforto que ela jamais imaginaria ouvir sair daquela boca. Como mesmo chegaram naquele assunto? Desde quando compartilhava aquelas coisas com ?
— Eu acho que tenho um pouco medo de me decepcionar com a reação dele... Eu acho.
— Não pensa, . Lembra? — abriu os olhos e virou o rosto para ela também. — Só faz.
Ela assentiu com um sorriso. Uma pontada de esperança preencheu seu coração ao pensar na possibilidade, mas decidiu que estava bom de sentimentalismo pela noite.
— E você? Com quem aprendeu a ser chato assim?
— Prefiro o termo “incompreendido”. É o preço que se paga por pensar à frente do seu tempo, .
riu. abriu um dos olhos e a olhou com o canto de olho. Retirou o braço do torso dela, finalmente, e cruzou as mãos por cima de seu próprio tronco, dando de ombros.
— Não entendi a risada.
— Nada, que é isso, é uma honra pra mim conviver com você. Obrigada por toda sabedoria compartilhada. Sinto muito não poder retribuir.
— Eu sempre quis trabalhar contigo, na verdade. — E abriu os olhos abruptamente ao notar o que havia dito sem querer.
Dessa vez, gargalhou. revirou os olhos com um sorrisinho de lado de quem sabia que havia perdido a batalha.
— O que? — levantou o rosto, apoiando-se no cotovelo para poder encará-lo melhor. — Repete, por favor, me dá só esse gostinho. Eu preciso tanto te embriagar mais vezes!
— Eu falei sem pensar. Já me arrependi.
— Só por que você é secretamente o meu maior fã? — cutucou seu abdômen, rindo, e ele se contorceu de lado, balançando a cabeça em negação. — Só por que você realizou seu sonho de trabalhar comigo?
— Qual é, . Você realmente é uma atriz foda, completamente acima do padrão, isso eu nunca deixei de admitir. Enquanto eu estava brincando com o Barney você estava trabalhando com o Besson.
. É o fucking Barney! Mais respeito, por favor.
— Você só diz isso porque não tem “Barney” no seu currículo.
E continuaram conversando pelo resto da noite, sem ao menos questionar a identificação que estavam sentindo um pelo outro por aquelas horas de conversas intermináveis e cheias de significado. Voltaram para a fraternidade onde a festa já estava no fim, despediram-se de algumas pessoas por insistência de e andaram até o ponto de Táxi mais próximo.
No meio do caminho, comprou uma garrafa de água para .

...

— Você poderia me explicar o que é isso? — ouviu Diana perguntar e fechou os olhos com força, cobrindo metade do rosto com sua xícara de café.
Eram apenas onze da manhã, havia dormido quatro horas no máximo. Diana havia batido a porta com tanta força ao adentrar na sua cobertura que pensou ter acontecido dentro de sua própria cabeça com a pontada que recebeu em resposta. A testa latejava e sentia seu corpo letárgico e pesado pelo álcool. Não estava afim de ouvir nada, precisava do mais absoluto silêncio. Diana mostrou a foto amadora que circulava nas redes sociais em que bebia cerveja de ponta cabeça e ela quase riu, lembrando-se da noite anterior. — O que foi isso, ? Você deveria estar no evento beneficente da Gucci!
— Eu fui no evento – explicou sem muito interesse. — Isso aí foi depois.
— “Conheça o segredo de — ela começou a ler a notícia que continha a foto. — “Na sexta feira anterior (14) a estrela da HBO, , conhecida por protagonizar a série Good Years, apareceu bêbada numa festa de fraternidade da Universidade de Nova Iorque numa visita à cidade. Junto com seu atual namorado, , companheiro de elenco, mostrou um lado seu que ainda não conhecíamos: a humanidade. é gente como a gente. Vai a festas, se diverte, e claramente não se importa com o status quo tanto quanto nos faz acreditar.”
sorriu, surpresa com o fim da notícia. Encolheu os ombros.
— Ué. Foi uma boa notícia. Do que você tá reclamando?
— Você representa uma das maiores marcas do mundo, , inclusive, está usando uma de suas peças na foto! — Diana revirou os olhos. — Essa não é a imagem que construímos. Depois de tudo que sacrifiquei por você, não acredito que vai jogar todo o trabalho de anos se bandeando para esse tipo de irresponsabilidade! Uma festa de fraternidade? Bêbada, com maquiagem borrada pelas redes sociais? Tenha um pouco de respeito próprio, .
revirou os olhos levemente.
— Foi só uma noite, Diana. Não é o fim do mundo. E se quer saber, estou bem, estou feliz, foi uma ótima noite. Me diverti como nunca.
Confrontou, num pico de coragem, e Diana parecia chocada. Não se importava com o fato de que nunca a chamava de mãe, principalmente quando estavam discutindo assuntos referentes à trabalho – o que acontecia, pelo menos, noventa e nove por cento do tempo em que estavam juntas. A mulher, com os cabelos pintados de loiro, os colares de ouro fino no pescoço, a bolsa Chanel no braço e o vestido composto que envolvia seu corpo plastificado de uma belíssima Cougar, arqueava uma das sobrancelhas em puro descontentamento.
— Você pode se divertir no momento certo, no lugar certo, . Não assim. Não depois de todo o meu trabalho nos últimos dez anos.
colocou a xícara de café na mesa atrás de si, com força, e encarou-a.
Seu trabalho? — perguntou, mas a resposta era óbvia. — Eu mal sei o que é um final de semana, nem me lembro a última vez que tirei férias. Se alguém se sacrificou aqui, esse alguém sou eu!
— Sim, fazendo o que ama! Depois de eu ter conseguido as audições pra você! Sabe com quantos diretores eu tive que sair?
Esse era o pior dos argumentos. sentia seus olhos lacrimejarem todas as vezes que ela repetia essa frase, como se seu talento não fosse suficiente, como se seu trabalho não tivesse valor. Havia sido indicada para o Oscar, havia ganho um Emmy, era a atriz mais cotada para as principais séries da HBO e disputada pelas redes de streaming.
Mas tinha que ouvir da própria mãe que o fruto de seu reconhecimento era o fato de que Diana havia conseguido uma de suas primeiras audições ao sair com um dos diretores. Porque ela quis, quando tinha apenas treze anos e nem fazia ideia do que estava acontecendo. Era só um papel coadjuvante numa série aleatória que ninguém ao menos lembrava que ela tinha feito parte.
sabia o quão boa era. sabia que merecia o reconhecimento que vinha tendo. Mas o fato de Diana achar que tinha qualquer coisa a ver com isso a irritava profundamente.
— Se eu estivesse fazendo o que amo, Diana, o que eu sempre quis, você sabe muito bem que nós nem mesmo estaríamos tendo essa conversa.
— Quando você vai deixar essa ideia ridícula de Teatro de lado? — Diana bufou. — Você não nasceu pra isso. Você nasceu para os holofotes, ! Entenda que eu só quero o melhor pra você!
Expirou fundo. Fechou os olhos com força e massageou as têmporas. Se não se controlasse, acabariam brigando. Estava cansada demais para brigar. Abriu os olhos e encarou a empresária por alguns segundos ao tentar disfarçar a mágoa enraizada com olhos céticos, seu peito apertou e a garganta fechou. Diana sabia da paixão que nutria pelo teatro. Diana sabia que sonhava acordada com o dia em que poderia se apresentar na Broadway. E ainda assim repetia a frase que a apunhalava as costas como quem diz palavras de amor.
— Tem mais alguma coisa a dizer? — perguntou, o tom de voz quase falho. — Se não, por favor, eu estou no meu dia de folga. Gostaria de não debater mais assuntos relacionados a trabalho por hoje.
— Que isso não se repita. Você sabe que estou falando sério. Não meço esforços para que as coisas aconteçam como eu planejei.
Diana andou até a cadeira em que estava sentada e parou ao seu lado com uma expressão compassiva. Olhou para ela de cima, colocou a mão em seu rosto, levantando-o e assentiu. olhou para o outro lado, esforçando-se para não afastá-la, enquanto só esperava ansiosamente que o contato se desfizesse – o toque era repulsivo. Diana abaixou-se e deu um beijo demorado em sua outra bochecha. , enquanto não podia ser vista, deixava claro o seu desgosto com a proximidade – encarava o chão como se este pudesse ouvir seu grito silencioso de socorro.
— Eu faço isso porque amo você, — disse. — Confio em você para melhorar a imagem do e não o contrário. Tudo que faço é pensando na sua carreira. Lembre-se que os homens sempre são perdoados. Nós, mulheres, já nascemos sem direito a perdão.
E se distanciou. acompanhou-a até a porta, despediu-se, e correu para o banheiro de sua suíte. O ritual era sempre o mesmo. Mal podia conter o impulso em regurgitar todas as vezes que encontrava com Diana.
Encarou seu próprio reflexo no espelho e analisou cada detalhe de sua estrutura. Pontuou cada mínimo defeito, repassou mentalmente os motivos de seu desprezo para com o reflexo. Os olhos refletidos no espelho a encaravam com mágoa. Perguntou-se se algum dia gostaria do que via.
Não precisou forçar muito. Pensou em tudo que sentia por Diana, tudo que sentia por seu próprio reflexo e, com os olhos molhados, encarou-se pelo espelho ao enfiar os dedos uma vez antes de sentir o conteúdo emergir de sua garganta e colocá-lo para fora, junto com todos os seus não ditos.
Amassou duas pílulas de Xanax, fez delas uma linha, cheirou e esperou que o efeito de pleno relaxamento e torpor lhe arrebatassem por completo enquanto deitada em sua banheira.


JANEIRO DE 2018
Lilith e Jack formavam uma dupla controversa. Começaram a série como amigos, os melhores amigos do mundo, ao entrar juntos na Universidade. Imersos em suas próprias mazelas familiares e disfunções traumáticas, em seus próprios relacionamentos intensos e eventos desgastantes, pareciam não perceber que um no outro tinham um lugar seguro que conseguia ser maior que apenas uma amizade duradoura. A química polvorosa era explícita numa mínima troca de olhares, uma dinâmica muitas vezes crua e misturada, sentimentos confusos que se perdiam entre os acontecimentos, sempre nutrindo a obsessão dos fãs por um casal que talvez nunca acontecesse de verdade. Um amor que amadurecia num desenvolvimento que queimava lentamente – e que acabou se confundindo com uma faísca puramente sexual e enlouquecedora que os sugava para uma paixão que os consumia.
Agora, na segunda temporada da série, entravam para uma nova fase: Lilith, quebrada demais para cogitar a possibilidade de se apaixonar por alguém, e Jack, orgulhoso demais para assumir um amor não recíproco, acharam que era uma boa ideia usar o sexo descompromissado e divertido como uma válvula de escape para os problemas da vida.
As demarcações entre Lilith e eram óbvias. Enquanto a primeira se permitia entregar aos prazeres da juventude e justificava seus impulsos com desculpas esfarrapadas, a segunda subvertia seus desejos mais profundos e se agarrava ao peso de suas escolhas num martírio doloroso que não consentia erros.
As semelhanças entre uma e outra eram tão palpáveis quanto, no entanto. De alguma forma, a atriz se misturou à personagem naquela tarde – e mesmo que tentasse com toda a sua força de vontade se enganar ao dizer que era Jack quem mexia com Lilith naquela cena, algo dentro dela sussurrava que era mentira.
Tocava a tensão com o corpo. A pressão sufocava suas vias respiratórias. Naquele momento, não existiam câmeras, não existia produção, não existia personagem. Ali, no set adornado de cozinha, com contra a bancada, os rostos estavam próximos; os narizes quase se encontravam. Ele mantinha um braço em cada lado de seu corpo sem que se tocassem. Um passo e se encostariam – era tudo o que ela fingia não querer. A respiração de estava ofegante enquanto, num silêncio torturante, encaravam-se na iminência do que poderia acontecer ou não. O seu coração batia acelerado enquanto abria levemente os lábios e expirava fundo, fazendo com que seu peito subisse e descesse devagar. Os olhos grudados que não ousavam desviar. Ele umedeceu os lábios num movimento que parecia se passar em câmera lenta. Inclinou-se para frente leve e perspicaz. Em sua expressão, o segredo se expunha: Deus, como queria beijá-lo. Poderia beijá-lo naquele momento.
Mas ouviu a diretora dizer “corta” ao invés disso, e ao sair de seu transe pessoal, piscou várias vezes ao ver o sorriso de se alargar num triunfo orgulhoso que ele não fazia questão de esconder.
Ele sabia.
...

foi tomada em completa surpresa ao entrar no seu trailer logo após aquela gravação. Num movimento rápido, — que ela, distraída, nem ao menos sabia que estava por perto — puxou-a pela cintura e fechou a porta atrás de si.
Engoliu em seco quando o braço firme envolveu seu torso e grudou seus corpos.
— O que você está fazendo, ?
Havia algo de selvagem nos seus olhos. Era confrontador, obsceno e intrínseco. Passeava as íris livremente pelo lábio de enquanto esta tentava conter a respiração já desregulada e se obrigava a recuperar o domínio de suas ações. os virou, colocando-a contra a porta e trancando a fechadura com a mão livre. Um som despercebido passou por sua garganta com o impacto de suas costas contra a estrutura fria. Cacete, pensou ao vê-lo sorrir de novo.
O sorriso debochado e convencido que ela sonhava em arrancar do seu rosto.
— Sanando a sua curiosidade — respondeu. E num ato da mais pura audácia, desceu os polegares pelas linhas do seu rosto, deslizou as mãos pelo pescoço e até a clavícula, acompanhando com os olhos seu próprio deslizar. Desenhou-a até o ombro, passou a mão por seu braço e encontrou a sua cintura com firmeza ao empurrá-la contra a porta. A coluna de se curvou ao sentir a trilha que ardia em sua pele finalmente estacionar no quadril ao ofegar. Levantou os olhos para ele.
— Nós estamos no trailer, — alertou, mas foi traída por sua própria voz. afastou o cabelo do seu pescoço, depositando um beijo ali – e o beijo era molhado e subia. Os arrepios correram livres pelo corpo de , o contato dos lábios macios com o maxilar em seu rosto inclinado. O corpo quente, próximo e novo ascendia em expectativa. beijou, então, o canto de sua boca. Colocou-se mais para frente, pressionando o quadril, grudando-a com a porta num mínimo estrondo. Podia sentir a respiração dele em seu rosto enquanto se observavam. — E eu não estou curiosa. — Tentou recobrar o mínimo de autocontrole ao continuar.
riu em pleno deboche. A risada contra seus lábios recostados que nem ao menos conseguia afastar. O que estava acontecendo?
Seus pensamentos fluíam a mil. Pensava sobre o quão errado aquilo era — trabalhavam juntos, tinham um relacionamento contratual, estavam no meio do ambiente de trabalho, qualquer pessoa que passasse por perto poderia ouvir. E era , pelo amor de Deus!
Era , pelo amor de Deus... e os seus ombros largos, braços longos e mãos firmes que a pressionavam contra parede. e os lábios rosados e delineados que sempre tentava se aproveitar dos mínimos momentos de contato e ela fingia não perceber. e a mandíbula demarcada, o olhar perspicaz e o torso aquecido que a envolvia. A voz rouca, o sotaque forte... Engoliu em seco novamente. Estava ficando nervosa.
— Tem certeza, ? — desceu a mão do quadril até a bunda, puxando a sua perna para envolvê-lo. Apertou-a com força, fazendo com que se inclinasse para frente num grunhido sôfrego e espontâneo. — Seu corpo parece me dizer outra coisa.
— Você só é orgulhoso demais pra admitir que é você que está se mordendo de curiosidade.
— Vai dizer que não ficou se perguntando como seria se eu te tocasse aqui? — e desceu a mão por todo seu braço até o seu seio, apalpando-o com força enquanto secretamente se deliciava com o toque, ao ouvi-lo sussurrar as palavras bem no canto do seu ouvido. A mão dela, automaticamente, recaiu sobre pescoço de enquanto seu tronco se contorcia com o contato. — Que você nunca imaginou como seria se eu te pegasse assim?
subiu a mão até o pescoço de e apertou levemente, numa sufocadinha deliciosa que fez a mulher arfar. E não conseguiu reprimir um gemido baixinho quando ele friccionou o volume latente que saltava em sua calça jeans por cima do tecido fino de seu vestido. Com a perna levantada ao redor, a posição era perfeita: o roçar dos dois corpos parecia ser pouco pro que realmente desejava. — Eu posso te foder, . Aqui e agora.
A voz dele entrecortada. Não se importava mais, estava ensandecida. Um calor devastador e inebriante se espalhava por suas veias quando sentia o olhar de por seu corpo com tanta volúpia e cobiça. Céus, já estava molhada. Enfiou as mãos pelos cabelos dele e arranhou levemente a sua nuca ao remexer o quadril com força numa busca incessante por uma fricção mais forte. Sentiu quando a pressionou ainda mais contra a porta gelada que entrava em contraste com sua estrutura quente e seus corpos poderiam fundir-se ali. Naquele momento, frustrada e paralisada, desistiu de seu controle: estava pronta para beijá-lo.
afastou o rosto minimamente e soprou bem nos lábios de . — Você só tem que dizer o que você quer.
Uma de suas mãos deslizou levemente do quadril até o interior da coxa. Mete a mão, pensou, mas não esboçou. Revirou os olhos. Estava perdendo a paciência com toda aquela demora.
— Você fala demais, — aproximou-o pelo cós da calça com uma das mãos. Com a outra, puxou seu cabelo com força, colocando o lábio próximo ao seu ouvido: — Quem muito fala pouco faz.
O sorriso debochado voltou para o seu rosto enquanto ele deslizava a mão pelo interior de suas pernas num movimento tortuoso que a fazia perder cada resquício de sanidade.
queria fechar os olhos. queria que ele arrancasse sua calcinha. Puta merda, que ele o fizesse logo e que todo o resto fosse ao inferno. Ela só precisava foder com ele uma vez. Ela só precisava tirá-lo do seu sistema. Uma vez, apenas, e estaria livre da curiosidade que, infelizmente, nutria sobre .
— O que você quer que eu faça, ?
— Eu quero que você me foda logo.
Respondeu, enérgica e pontual, sem querer mais se prolongar – já ele, parecia divertir-se com o joguinho de provocação. sabia que ele estava adorando vê-la assim, entregue, mas mal podia se importar.
Parecendo surpreso com a escolha de palavras, arregalou os olhos minimamente, divertido.
— Aqui? No Trailer? Não seria errado?
Ela umedeceu os lábios expondo o sarcasmo em sua expressão. Falavam sem desviar os olhos. Próximos e em expectativa. Uma das mãos ainda no cós da calça brincava com a barra da boxer e desenhava uma das entradas com as unhas.
— É você, . É errado em qualquer lugar do mundo.
— Achei que seria mais difícil te fazer admitir.
— Só uma foda, . Não precisa emocionar. — deu de ombros, puxando-o para perto de vez e, finalmente, selando seus lábios no beijo tão esperado.
Era diferente. Aquele momento estava sendo, definitivamente, diferente de tudo que já havia sentido antes. Ao encontrar-se com , ela sentia que algo crescia na boca do seu estômago; era um desconforto gradual e impossível de ignorar, mas era excitante. Era gostoso. Era desesperado, voraz, intencional. Parecia acender todas as outras partes do seu corpo, da menor a maior, como se expulsasse cada resquício de apatia – precisava replicar, sentia-se convocada a vivenciar, corresponder. Estava inebriada pela mistura de sensações adormecidas respondiam à troca: os dedos que se emaranhavam no cabelo macio, as mãos inquietas que passeavam por seu corpo e conquistavam cada pedaço com posse, os lábios quentes e a língua lenta que deslizava por sua boca com destreza e atenção. O cheiro que ele emanava e os arrepios que se espalhavam. Ela suspirou ao ser imprensada contra a parede e sentiu os lábios de moldarem um sorriso.
se segurava para não gemer em satisfação. As mãos espertas de sabiam exatamente o que fazer: apertava o seu seio, moldava a sua cintura, apalpava sua bunda e trazia seu corpo para perto. Ao minimamente separar o beijo numa busca por fôlego, decidiu que era o momento de tirar sua camiseta: desabotoou cada um dos botões da camisa rosa semiaberta de bolinhas com atenção no tronco imponente e bem dividido que se mostrava. Arranhou o peitoral e o abdômen e mordeu o lábio enquanto sentia deixar beijos molhados por seu pescoço. Chupou ali, bem na curvatura, e remexeu a cintura, sentindo a calcinha manchar e fez uma expressão de desistência, com raiva de seu corpo traidor que parecia obedecer prontamente aos mínimos estímulos que provocava. Espremendo um pouco as pernas para tentar se desfazer do incômodo, deixou que ele retirasse a camiseta de vez e jogasse em qualquer lugar do trailer. Sem querer ficar por baixo, num movimento rápido, ele pegou o vestido vinho de tecido fino que ela usava – ainda caracterizada de Lilith – e puxou-o para cima.
E quando o fez, tudo parou. Como se nunca a tivesse visto de lingerie. Como se fosse a primeira vez. parou tudo o que estava fazendo e, apenas, explorou com os olhos cheios de devoção e orgulho cada minúcia do corpo de como quem encontra um tesouro. Os seus olhos saltados observavam o sutiã de renda preto que envolvia os seios eriçados da mulher e a calcinha também rendada minúscula e transparente que cobria a sua parte íntima. Naquele momento, se sentiu adorada; cultuada, venerada. Admirada. A maneira com que a desejava e demonstrava isso sem vergonha ardia em sua pélvis com um tesão que ela nunca havia sentido antes. Com uma mão, fez a linha entre o vale de seus seios até o umbigo, deixando também beijos lentos por toda a extensão ao se ajoelhar frente a mulher, que se esparramou na porta ao manter os olhos fixos nos dele quando retribuiu o olhar. Ele parecia ter toda paciência do mundo enquanto ela tinha muita pressa. Queria senti-lo dentro de si.
Abaixou a calcinha preta pelas laterais com cuidado e ajudou-a a tirar. Expirou fundo, soprando bem ali quando se deixou abrir um pouco mais as pernas. levantou os olhos com um sorriso depravado ao observar o quão molhada ela estava e revirou os olhos, posicionando as mãos no cabelo dele em expectativa.
— Vai logo, .
Ele riu com o tom de voz quase irritadiço que ela usou, passando o dedo polegar pelo clítoris e os lábios com olhos desejosos em um fascínio explícito.
— Toda molhada... Você tá pingando pra mim, quase sussurrou, a voz branda e rouca, e sentia pontadas bem específicas que a faziam sentir vontade de meter a própria mão no seu grelo começar a se masturbar ali mesmo – mas decidiu esperar. Ele passou dois dedos por toda a extensão de seus grandes lábios e, quando ela menos esperou, ele os enfiou com força. se curvou e quase começou a rebolar ali mesmo enquanto ele estocava algumas vezes, lentamente, mas reclamou com um grunhido quando ele tirou os dedos tão rápido quanto colocou. E então, envolveu os lábios rosados ao redor, chupando-os com uma diligência admirável. Soltou um gemido de satisfação. — Deliciosa, . Eu tô fissurado pelo seu gosto.
... — reclamou, fechando os olhos, e ele finalmente atendeu. Quando passou os dedos pelos cabelos de e puxou-os com força, ele enfiou a língua na sua boceta como quem sabe exatamente o que fazer. E sabia. Enquanto explorava suas coxas com as mãos e fazia toda a sua pele se aquecer em toques abrasadores, brincava com a língua lentamente nos pequenos lábios e chupou o seu clítoris inchado com exatidão e entrega. Era, com certeza, o melhor oral que já tinha recebido na vida. Sentia as pulsações crescerem nas terminações nervosas. Ela poderia gozar ali mesmo enquanto sua respiração descompassava e seu corpo se arqueava involuntariamente para frente em resposta ao estímulo. A língua quente passeava molhada e imponente, ganhando pressão e consistência de maneira gradual – à medida que se contorcia, à medida que respondia, intensificava com os movimentos ao redor, só pra diminuir depois, quando estava quase lá. E aumentava de novo, crescia de novo, os minutos se passavam e ela estava a ponto de enlouquecer. Mordia o lábio, tentando guardar seus últimos resquícios de dignidade ao reprimir um grito esganiçado com a tortura mais prazerosa que já havia experimentado. Puta merda, puta merda, puta merda. Seu coração se acelerava enquanto apertava a carne de sua bunda com afinco e chupava sua boceta com dedicação. Apertou os dedos contra seus cabelos como forma de aliviar um pouco da tensão, e quando estava prestes a gozar, deu um último beijo na extensão dos lábios ao se levantar.
quis reclamar. quis gritar. quis espernear. Que grande filho da puta. O corpo suado e exposto que clamava para que a língua de voltasse exatamente para o lugar onde estava tentava recobrar a respiração quando ele tirava a calça e a boxer rapidamente, expondo a sua ereção alta e monumental. sentiu a boca salivar em desejo enquanto esperava que ele colocasse o preservativo. Olhava-o em expectativa.
Espremeu as pernas com a boceta molhada uma na outra pouco antes de sentir as mãos de puxá-la pela cintura novamente para um beijo. Tinha o equilíbrio perfeito entre brutalidade e delicadeza, força e cuidado. O calor que se espalhava por seu corpo a deixava quente – o jeito com que guiava os movimentos tinha um ritmo frenético e excruciante.
tinha certeza. Estava viciada. Ali, naquele momento, ele a fazia alucinar com apenas um beijo. Com um tapa ardido em sua bunda que a fez morder o lábio e ficar ainda mais molhada ao se curvar para frente, suspendeu o corpo de com os braços, levando-a até a bancada de maquiagem, apoiando-a ali. A sua respiração era ofegante. Ele ainda a observava com cobiça e tesão todas as vezes que abria os olhos. Distraída em retribuir a troca de olhares, não viu quando derrubou um produto de cabelo no chão e deu uma risada que , sorrindo esperto, logo abafou com a mão.
— Shh. Cuidado, .
— Você que é muito barulhento — ela reclamou por cima da mão, antes de mordê-lo, que tirou a mão rapidamente com uma careta engraçada. aproveitou o momento de mínima pausa para desabotoar o sutiã e umedeceu os lábios enquanto observava os peitos de saltarem com os mamilos empinados de excitação. — E lento.
Fechou os olhos ao sentir a mão de massagear o seu seio com destreza.
— Vou ter que te beijar pra ver se você cala essa boquinha esperta.
— Deve ser por isso mesmo...
E se beijaram novamente, entre risadas abafadas e gemidos contidos. Antes que pudesse esperar, colocou só a cabecinha do seu pau duro na sua entrada, aberta na bancada, que se remexia com a provocação. Foi colocando sem pressa e com cuidado, mas já estava dilatada – e percebendo isso, afundou dentro dela numa estocada forte que os uniu num grunhido baixo e abafado. Com uma mão dava suporte através da cintura, e com a outra, apertava sua nuca e prendia os dedos entre os seus fios de cabelo, puxando-os com força pra trás, vez ou outra. , com as costas inclinadas, sentia que poderia explodir a qualquer momento ao perceber o quão espaçoso era dentro de si. A boceta pulsava quando ela se colocava para frente, afim de ajuda-lo com os movimentos – enquanto metia, beijava o seu pescoço, seu maxilar, até chegar em sua boca. Aumentou a velocidade num ritmo intenso e, ao roçar com seu clítoris, fincava as unhas em seus ombros com força. Queria gritar. Mordia o lábio ao tentar conter-se.
— Porra, . Gostosa demais...
Um tapa ardido em sua coxa. Gemeu baixinho quando a voz dele soou no pé do seu ouvido. A voz rouca que a fazia entrar em êxtase. Ter dentro de si enquanto sussurrava as obscenidades certas no seu ouvido e distribuía os toques firmes por todo seu corpo era arrebatador. Avassalador. De olhos fechados, completamente entregue, o prazer se espalhava pelo corpo de em ondas crescentes e destruidoras. Contraiu a musculatura pélvica ao seu redor e rebolou bem na glande, o que fez com que apertasse a mão com força em sua cintura e metesse mais rápido. Com mais força. A mesa balançava. As respirações se misturavam. Tentavam conter os mínimos sons que saíam de suas bocas. E, sem conseguir mais se segurar, os pequenos lábios de pulsaram ao redor do membro ainda ereto que a penetrava numa invasão enlouquecedora. Nesse momento, ela abriu os olhos, direcionando-os para os dele, que a observavam com luxúria e fascinação. Com os olhos um no outro, a expressão de puro prazer, o seu coração acelerado, a endorfina liberada pelo corpo com o orgasmo que corria por suas veias, a boceta que pulsava involuntariamente, as mãos de que ardiam em choque... sentia que iria morrer.
Beijou-o ao tentar conter um gritinho baixo.
... Eu... ... — Gemeu, ensandecida, enlouquecida, alucinada. não se lembrava da última vez que seu corpo recebeu tanta atenção, tanta intenção, os toques que eram tão certeiros e o tanto que se doava para que aquele momento fosse dela primeiro. E foi.
fechou os olhos ao gozar um orgasmo lento, devasso e arruinador. E depois de mais algumas investidas, também gozou, perdendo a força nas pernas e apoiando os braços na bancada.
Respiravam fundo, ainda abraçados, suados, sem querer se desgrudar.
— Você é menos irritante quando está me chupando, devo admitir — disse, entrecortada, com a cabeça apoiada no ombro dele. riu levemente.
— Esse é o seu jeito de dizer que quer mais, ?
Deu de ombros, finalizando o momento com um selinho e empurrou-o pra trás, desvencilhando-se dele. Deu de ombros ao desfilar pelada pelo trailer em busca de suas roupas.


MARÇO DE 2018

queria saltar de nervoso. Poderia sair correndo por aí pra expelir um pouco da adrenalina que corria por seu corpo. Seu calcanhar batia no chão freneticamente enquanto tentava fazer alguns daqueles exercícios de respiração que não pareciam surtir efeito nenhum. Quase virou o pé para trás e foi embora, se não estivesse um pouquinho atrás do seu corpo esperando-a apertar a campainha.
Estavam – finalmente – em Salt Lake City, em Utah, na frente da casa de Robert, o seu pai. O seu pai que ela não via por seis anos inteiros. Era uma casa comum de família estadunidense, tinha um jardim, um caminho de cimento e uma cerquinha em volta, uma garagem ao lado. Um banquinho de balanço de madeira na sacada.
estava ansiosa.
, aperta logo — sussurrou, impaciente.
— Shhhh! Eles vão te ouvir! — ela repreendeu, torcendo o rosto numa expressão irritada.
Diana não sabia que estavam ali. inventou qualquer coisa sobre ir com para uma casa de praia só para que não houvesse nenhuma possibilidade de estragar seus planos, o que ela sempre fazia quando estes fugiam de seus próprios – ela achou estranho, mas não questionou muito. e haviam, realmente, se aproximado nos últimos meses.
Depois da conversa que tiveram no jardim da fraternidade, mal conseguia tirar Robert da cabeça. Algumas semanas mais tarde, num lapso de coragem, ligou para ele — que primeiramente pareceu um pouco desconfortável, mas ao ouvir o tom reconciliador e o discurso diplomático da filha, demonstrou uma alegria que não se lembrava de receber nas últimas vezes que tentou contato. Depois de um convite acolhedor diretamente da terra do grande lago salgado, e conseguiram organizar os seus horários com a produção de maneira que ficassem liberados por um final de semana e lá estavam.
Alguma coisa havia mudado entre eles nos últimos meses. Não que agora realmente fossem um casal mesmo, mas em algum momento, desde aquela festa para cá, estar com havia deixado de ser uma obrigação e se tornado parte da sua rotina. Não tinham nada muito definido, não conversavam muito sobre o que estava acontecendo — teoricamente já teriam que fazê-lo de todo jeito então que bom que pelo menos podiam tirar um proveito de toda a situação ao se dar bem. A relação deles não era algo que se podia explicar. Como amigos com benefícios que não eram tão amigos assim mas que acabavam sendo nos momentos necessários. Aquele era um momento necessário.
Nem a própria acreditava que havia mesmo embarcado nessa viagem com ela, se for pra ser honesto, mas ele mesmo quem se prontificou em uma de suas inúmeras crises de desistência. Foi a primeira pessoa pra quem contou sobre o que havia acontecido – sentia que devia isso a ele por tê-la incentivado, desde o início, e agradecia mentalmente por tê-lo feito. Por algum motivo, de algum jeito maluco, sabia exatamente como confortá-la nos picos de tensão.
— Só faz.
— Você parece um garoto propaganda da Nike — resmungou, mas apertou a campainha, e torceu o lábio para não rir.
Os segundos se passaram lentamente enquanto seu coração batia rápido demais. apertou a mão de com tanta força que quase fincou suas unhas na palma quando um homem de meia idade com cabelos e barbas grisalhas e um porte enxuto abriu a porta com um sorriso aquecedor.
Os olhos de arderam. Os de Robert também. Ele parecia confuso, feliz, surpreso, emocionado, tudo ao mesmo tempo. Abriu um pouco os lábios enquanto encarava uma em completo choque à sua frente. Quem é, Robbie? Ela chegou?, pode ouvir uma voz ao fundo que a despertou de seu pequeno lapso.
— Sim, Norah. Minha filha chegou. — Ele respondeu, mas a voz falhou. Robert puxou-a para um abraço apertado de olhos fechados enquanto se esforçava para não chorar. Rapidamente os convidou para dentro. — Entrem, por favor. Você deve ser o .
— Sim, eu sou o . É um prazer conhecê-los — cumprimentou com um sorriso, educado, logo depois que entraram na casa.
— A Lily estava nervosa pra conhecer vocês. Ela ama Good Years!
— Mãe...
Sentaram-se no sofá ao esperar o almoço ficar pronto. sentiu-se acolhida quando Norah, a recém esposa de Robert, apresentou Lilian, a adolescente de uns quinze anos com mechas rosa no cabelo como sua irmã. Inicialmente, nervosa, não sabia muito bem o que dizer — acreditem, esses momentos eram raros —, mas conduziu a conversa com Robert de maneira tão cordial e amistosa que quase quis ficar quieta apenas para observá-lo. Ela nem sabia que ele tinha a habilidade de ser tão político assim.
— Mas como foi que vocês começaram a namorar?
Os dois se entreolharam com um sorriso discreto depois da pergunta de Lily. mantinha a mão apoiada na perna de despreocupadamente enquanto sentavam no sofá.
— A deu em cima de mim desde o primeiro dia, sabe, Lily? Depois de alguns anos de muita insistência, eu resolvi dar uma chance.
Robert e Norah riram, enquanto Lilian parecia mais fascinada a cada palavra que dizia. revirou os olhos com um sorrisinho debochado.
— Larga de ser mentiroso, ! Ele que vivia atrás de mim depois das cenas dizendo que “a vida podia imitar a arte”!
Com o tempo e com o passar da tarde, ao sentarem-se juntos à mesa, foi se sentindo mais e mais confortável. Norah era ótima, receptiva, e parecia estar disposta a conhecê-la, já Lilian, por vezes falava bastante, por vezes observava a interação. Quando Norah e pareceram engatar um papo aleatório sobre o ano novo na Times Square, viu a oportunidade de ter um momento a sós com seu pai enquanto lavavam os pratos.
Foi até a cozinha e se colocou ao lado dele com um sorriso tímido.
— Obrigada por ter me convidado.
— Eu estou feliz que está aqui, . Você fez falta. — Robert sorriu. Decidiu abandonar os pratos, enxugar as mãos e voltar-se diretamente para a filha. — Eu... não sabia mais como conseguir me aproximar de você. Não quero colocá-la contra sua mãe e você demonstrava não querer contato... Não podia te obrigar a fazer algo que não queria.
— Eu... entendo o que aconteceu agora — respirou fundo, tentando não se lembrar de todas as coisas que Diana lhe dizia. O seu pai te abandonou, , ele não quer saber de você. Me disse que estava feliz com a nova família. Ele te vê como um fardo, mas eu sou sua mãe, eu estou aqui. Eu amo você. — Eu só ficava muito confusa... Não queria incomodar. Mas ultimamente tenho notado que Diana tem muita influência sobre mim, então decidi conversar com você e descobrir por mim mesma.
, eu não sei o que você costumava pensar, mas as coisas podem ser diferentes agora. Você tem casa e família aqui em Salt Lake. Pode nos visitar quando quiser.
Abraçaram-se mais uma vez, um abraço quente e reconfortante, conversaram por mais alguns minutos e depois voltaram para a sala para encontrar Lily fazendo um milhão de perguntas para sobre o mundo dos famosos, que respondia tudo com piadinhas bobas e um sorriso no rosto. ria com a paciência que ela nunca havia o visto ter.
O dia se passou leve, tranquilo e caloroso enquanto conversavam, riam, jogavam baralho, colocavam os papos em dia, falavam dos planos para o futuro e planejavam a volta do casal para uma visita. , de vez em quando, parava para observar o quanto havia sorrido mais que o normal naquele dia. O comportamento mais carinhoso que estavam tendo um com o outro foi suficiente para que soassem como um casal de verdade — e talvez, realmente, já fossem. Só não haviam admitido isso ainda. Ele deixava o braço pendido sobre o seu ombro, a puxava para perto, a abraçava pela cintura, mexia no seu cabelo e entrelaçava seus dedos sempre que via uma oportunidade.
Depois de algum tempo em que ele foi até o banquinho na sacada atender uma ligação de Avery, lá pelo meio da noite, sentou-se ao seu lado com um sorriso, que levantou os olhos do celular para ela ao vê-la se aproximar.
— Eu já estava voltando. A Avery tá enchendo o saco com mil e uma alterações de agenda.
— Não, não se preocupa. Você foi tão incrível hoje que tem passe livre pra ser chato por um mês inteiro.
riu levemente e passou um braço pelo ombro de , que se virava completamente para ele. balançava o banco levemente com os pés no chão.
— Você tá feliz?
— Eu tô tão feliz que eu acho que vou chorar — disse, rindo. Colocou as duas mãos no rosto. — Eu não sei nem o que dizer, . Obrigada por ter vindo.
— Foi você que fez tudo, . Eu só te acompanhei.
— Eles gostaram muito de você — compartilhou com um sorriso largo e batendo palminhas. — Acho que gostaram de mim também, né?
— Eu não posso te dar tanta certeza assim... Sou bem mais charmoso que você.
bateu de lado com o cotovelo e cruzou os braços. Ele a puxou mais pra perto com uma risada.
— Nem vou reclamar porque sua simpatia até que durou.
— É claro que eles gostaram de você, . Seu pai não te largou um minuto o dia todo. Você tinha razão, ele realmente é um cara bem legal.
— Eles até organizaram um quarto! Tem noção disso? Um quarto, pra mim, na casa deles? — soava impressionada. Seus olhos brilhavam. — Quer dizer, pra gente, né. Você tá aqui também, ia ser estranho se a gente não dormisse junto. E eu entendo, a gente não precisa ficar, o hotel é bem mais confortável e eu só tô contando porque eu fiquei feliz que...
— A gente fica aqui, . Não tem problema nenhum.
— É sério? — levantou o rosto para perguntá-lo, surpresa. Mal conseguia conter o sorriso que se alargava. — Você tá falando sério?
, pelo amor de Deus, não é nada demais...
Mas nem mesmo conseguiu completar a frase. Foi tomado pelos lábios surpreendentes, enérgicos e intensos de , que o beijou. Inesperadamente. Sem ninguém por perto. Beijou sem nenhum motivo. Beijou com toda vontade e fôlego e euforia que o momento pedia, com uma mão em sua nuca e lábios firmes e intencionais. O beijo mais puro e espontâneo que já havia dado — sem nenhum resquício da volúpia conhecida ou nada tão sexual assim.
beijou porque não havia nenhuma outra pessoa com quem gostaria de compartilhar aquele momento. beijou porque seu coração batia acelerado e uma alegria que poucas vezes sentiu na vida inundava seu peito em ondas graduais que aumentavam exponencialmente até atingi-la em cheio e arrebata-la de vez. beijou porque queria beijá-lo.
beijou . E ao realizar o significado que ambos sabiam que o momento guardava, afastou-se.
— Nossa, que loucura, né? Foi mal, , eu...
Mas ele não se importou. Só revirou os olhos com um sorrisinho debochado e beijou-a de novo. E de novo, e de novo, e de novo, e várias outras vezes por aquele fim de semana.


ABRIL DE 2018

sempre quis voar de asa delta. Era uma daquelas coisas que a gente pensa “quando eu tiver dinheiro o suficiente” ou “quando eu tiver tempo o suficiente” ou “quando eu tiver coragem o suficiente”. O problema de não era dinheiro, tempo ou coragem. O problema era que sempre se esquecia que queria voar de asa delta. Na atenção que dava pro trabalho, pros eventos, pros amigos, pros fãs, pra . poderia dizer “hoje não posso, hoje eu vou voar de asa delta”. Mas ela nunca dizia. Acabou se acostumando, com o tempo e com a vida, a fazer o que deveria fazer, não o que queria.
Não pôde ir ao seu baile de formatura no colégio. Não pôde namorar com o seu primeiro amor. Não interviu quando sua empresária sugeriu que colocasse silicone.
Às vezes, estar com lhe dava essa sensação que tanto queria. Não pensava muito no que fazer, no que dizer, se era certo, se era errado, se causaria problemas, se a postura estava correta, se as pessoas saberiam. Como sua própria carta de alforria.
O ambiente estava todo escuro. Só se podiam ver as inúmeras e incontáveis e brilhantes estrelas no teto milimetricamente projetado pelo planetário – e estava encantada com os detalhes tão minuciosos e realísticos. Ali, deitados nos cobertores e olhando pra cima, nem conseguia processar direito que havia preparado tudo aquilo para ela em surpresa.
. Para . Umas garrafas de vinho pra ela, umas cervejas pra ele, uns petiscos e mais ninguém. Era só o que precisavam. Virou o rosto de lado, encarando-o com um sorrisinho bobo e disfarçado. Transar com numa sala de museu alugada era uma daquelas cenas da vida que parecem de filme — e o pior de tudo é que não precisou atuar em nenhum momento. Parecia um filme, mas era real. Eles estavam ali, juntos, o seu coração saltava no peito com a proximidade, a perna dela entrelaçava com a dele e o pé que subia e descia por sua panturrilha, a mão quente que fazia um desenho gostoso por sua cintura e descia sagaz para sua bunda vez ou outra, o calor que o corpo dele emanava ao seu por debaixo do lençol, o cheiro do seu pescoço... Tudo parecia surreal.
— Eu não acredito que você alugou o planetário só pra gente.
voltou os olhos para ela com um sorriso sapeca.
— Você queria companhia, é? Não sabia que você fazia a linha exibicionista, .
virou os olhos com um sorrisinho, ajustando o corpo para que pudesse manter o contato visual.
— Para, você sabe. É só... Fofo. Nunca pensei que você fosse ser...
— Ser...?
quase teve medo de dizer a palavra:
— Romântico.
— O que é que eu não faço pelo amor da minha vida? — a frase soou irônica, como sempre soava todas as vezes que usavam a palavra “amor” para referir-se um ao outro, e soube que ele só estava tentando manter a conversa num plano salvo. Talvez não precisassem de linguagem, realmente. Talvez aquele era o jeito dele de mostrar como se sentia.
não queria ser muito específica também com as palavras também. Ainda estava tendo dificuldades para elaborar todas as coisas que vinham emergindo dentro do seu peito nas últimas semanas. A proximidade, que antes havia tomado um lado sexual, agora parecia mais íntima, mais... estável. Por mais absurda que a frase parecesse, realmente se sentia confortável perto dele. Confortável o suficiente para não sorrir quando não queria sorrir e não falar quando queria ficar quieta. Confortável o suficiente para ficar sem maquiagem — e , que sempre se esforçou tanto para agradar todas as pessoas, para estar sempre bonita e apresentável, para conquistar cada uma das atenções ao seu redor, em sua trajetória para desagradá-lo, acabou encontrando um lugar seguro para apenas ser quem era. Sem pensar antes de falar, sem medir as palavras, cabelos com fios frizzados e algumas olheiras de manhã quando tinha dificuldade para dormir. A presença, que antes era pesada e tensional, então, tornou-se leve. Leve porque não precisava mais fingir.
fingiu se apaixonar por todos os seus namorados. fingia gostar de todos os seus colegas de trabalho, e por mais que realmente gostasse da maior parte deles, as pessoas não conseguiam notar a diferença entre um e outro. fingia amar trabalhar com streaming, quando, na verdade, odiava o formato, mesmo que tenha trabalhado com isso por anos a fio.
nunca precisou fingir ao lado de , por mais que tivesse tentado de início. Sempre foi a única pessoa para quem deixava claro suas verdadeiras intenções e sentimentos em relação a ele. Sempre foi a única pessoa que conheceu o pior lado de . — E o que você pensava de mim, então?
— Você sabe: babaca, insuportável, arrogante, inconsequente... – Ele riu pelo nariz e umedeceu os lábios, contrariado, mas não ofendido. — E você? O que pensou quando me viu pela primeira vez?
— “Porra, eles não estão me pagando suficiente!” – ele entoou, sonoramente desapontado e teatral, e tentou se desprender dele em vingança – mas foi mais rápido e apertou os braços contra sua cintura abruptamente, girando seus corpos e ficando por cima, apesar dos protestos risonhos de . Passou a mão por um de seus lados, enquanto, com a outra, apoiava o corpo.
A ponta dos dedos deslizava sobre a lateral do tronco de e delineava a curvatura dos seus seios até a polpa da bunda deixando uma trilha de arrepios e eletrizações por onde passava, enquanto os cílios quase recostavam com a mínima distância. Ela até contorceu um pouco o quadril e expirou com força bem no lábio dele em resposta ao contato. Inclinou-se para cima num selinho intencional e derreteu-se ao sentir o encontro novamente. Fechou os olhos.
beijou e ela sentiu que estava voando de asa delta. O beijo era lento, profundo, quente e tinha gosto de cerveja. A mão dele trazia sua coxa pra perto com firmeza quando ele se encaixou entre suas pernas. , que tinha os dedos entrelaçando o cabelo que passava da nuca, arranhou a pele com suas unhas para exalar um pouco da tensão. Estava perdida.
Tudo que conseguia pensar era no contato que estabelecia com : tudo que conseguia pensar era no seu toque mal intencionado, na boca que a beijava com uma vontade escancarada, nas costas largas que passava os dedos, na fragrância de perfume do seu pescoço, no cheiro de sexo que o ambiente exalava. Tudo que conseguia pensar era nos sentidos à flor da pele e nos olhos que encontraria ao abrir as pálpebras. Ali, nada mais no mundo importava. Ele terminou o beijo com um selinho e quis reclamar.
Estava excitada de novo. Queria dentro dela de novo.
— Você sabe que adora namorar comigo. Na série e na vida real.
— Mas a gente não namora na vida real, .
— Os boatos dizem outra coisa... – ele se deixou recostar metade do seu corpo sobre , entrelaçados. O sorrisinho de deboche que ela espelhou. Voltou a passar as mãos pelo cabelo dele, que parecia satisfeito com o contato ao repousar a cabeça entre seus seios e fechar os olhos. — Eu nunca fiz isso antes, .
— O que?
— Ser romântico.
Ela não soube o que responder e arregalou os olhos levemente, engolindo em seco. Mas sorriu levemente.
— Deve ser porque eu sou mesmo o amor da sua vida — brincou. Os lábios dele penderam para o lado, alastrando-se levemente pelo rosto. Depois de algum tempo em um silêncio gostoso, ele a chamou:
?
— Oi.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
— Por que você tá fazendo isso?
— Isso o que?
— Namoro por contrato. Você não precisa da grana, você não precisa de mídia, você não precisa de mim, na verdade. Por que?
Então, ele levantou o rosto novamente, ficando de frente para ela, que não soube o que responder mais uma vez. Levantou os olhos até o Céu projetado como se ali tivesse a resposta e deu de ombros. O tom de voz que ele colocou no questionamento fez com que sentisse um friozinho na boca do estômago.
— Porque Avery e Diana acordaram que seria o melhor. Porque é produtivo...
Ele interrompeu.
— O melhor pra mim. Você nunca a questionou? É uma série de privações e você não tem ganho nenhum que você já não tivesse antes. Fora a parte que era comigo.
— Por que isso é importante agora? Oito meses depois? Quando a gente finalmente tá se dando bem?
abriu a boca para dizer algo, quase deixou as palavras saírem, mas fechou logo depois. Desviou o olhar.
Ele estava certo, no entanto. nunca havia questionado a decisão que sua empresária havia tomado simplesmente porque não tinha esse hábito com ela – e suas previsões estavam corretas, no fim das contas. As pessoas amavam e juntos, suspiravam por eles, acreditavam e compravam o amor que eles vendiam. e a indústria midiática nunca foram tão amigos antes. E estava... bem.
Na verdade, estava até feliz que isso tinha acontecido, feliz que puderam se aproximar, mesmo que dessa maneira meio desastrosa. Feliz porque conhecer o verdadeiro e deixar que ele conhecesse a verdadeira estava sendo uma aventura e tanto.
Mas não diria isso em voz alta.
— Eu só... Não entendo. Queria entender. Queria saber.
— Não tem que entender, . Foi uma escolha minha, não só sua.
— Não foi sua também.
arqueou a sobrancelha e quase o repreendeu com o olhar, mas não podia rebater, ele estava certo. A frase cortante a atingiu em cheio e fez com que ela se sentisse desconfortável de repente. Não gostava de pensar que não tinha as rédeas da própria vida, mesmo sendo independente financeiramente e tendo atingido seus objetivos. Mas quem queria enganar, afinal? Realmente não tinha. Quem tinha eram todas as outras pessoas a qual se adaptava. Respirou fundo, tentando afastar o pensamento. Poderia dizer muitas coisas e não disse. Poderia conta-lo muitas coisas e não o fez.
Naquele momento, engoliu a saliva e respirou fundo, mas queria mesmo ir num banheiro e colocar dois dedos na garganta. Pelo menos, daquele jeito, colocaria alguma coisa para fora. Suspirou.
— Você... — ele puxou seu queixo com o indicador de modo que os rostos ficassem frente a frente. — é boa demais pra esse mundo, . A gente não te merece.
Não pode deixar de dar um mínimo sorriso tímido ao primeiro elogio real e espontâneo que a fazia tão puramente. Assentiu, novamente sem palavras.
— E você tá ficando bom nessa coisa de se apaixonar por mim — virou os olhos e riu pelo nariz, sarcástico. — Algum dia, talvez, seja de verdade.
— É, . Algum dia.


JULHO DE 2018

deslizava os dedos num movimento intencional e específico, desde o pé de às panturrilhas, até onde seu braço alcançava. Tinha a perna molhada estirada ao seu lado. Ela, com os cabelos presos num coque com alguns fios molhados, estava completamente nua de frente para ele, com metade do corpo submerso na água da banheira com pouca espuma. Ela o encarava com um sorriso pendido no lábio e sobrancelhas juntas. a observava, meio sério, e cuidadosamente pegou seu pé, dando devida atenção em cada terminação – massageou a sola, o calcanhar, de cada dedo até o tornozelo. fechou os olhos e relaxou os ombros, deixando que seu pescoço recaísse sobre a quina da banheira e expirou fundo em satisfação.
Achava que ali, naquele momento, não tinha como ficar mais bonita. Perguntava-se como qualquer pessoa poderia ser tão bonita assim, na verdade. O rosto naturalmente corado, limpo, os cabelos presos, as gotículas que caíam lentamente, os cílios molhados e a completa abstração de todas as outras coisas. Não pensava antes de falar. Não pensava antes de agir. Não pensava antes de gemer.
podia, finalmente, ser. E ali, despidos, ele notou que amava cada pequena coisa sobre quem realmente era. Amava o sorriso sempre aberto, o cuidado com as pessoas ao seu redor, o carinho que tinha com seus fãs, amava as personagens que criava, amava a sua entrega na hora de atuar, a profundidade com que falava sobre as coisas. Amava as conversas, os silêncios, o posicionamento político coerente, sua paixão por arte. Amava a provocação, a ironia, o beijo, o toque, o encontro, o orgasmo. Amava cada centímetro do corpo de : amava seu pé, sua perna, seu torso, seu braço, colo, pescoço, o desenho do seu rosto, o nariz, a testa, o queixo e os olhos. Os olhos que, pouco a pouco, vinha aprendendo a ler. Ouviu gemer levemente e mais uma vez em contentamento enquanto alternava os movimentos no pé molhado e macio. Sua boca, seus dentes, a língua. A voz. Amava a sua voz.
E de todas as coisas que pensava e poderia ter dito, as resumiu numa só frase:
— Eu gosto do seu pé.
— Quer um pack com fotos? — ela debochou, ainda de olhos fechados, um sorrisinho no rosto. Ele deslizou novamente a mão por sua perna esticada e, por fim, inclinou-se para frente, puxando-a para perto pela cintura. — Eu posso te cobrar baratinho... Ei! Eu falei que ia cobrar barato!
Reclamou ao ser puxada, mas abraçou-o com uma perna em cada lado. passou os dedos polegares pelas maçãs de e repousou a mão no seu pescoço. Reclinou-o para um lado, afastou as mechas de cabelo molhado e depositou um beijo demorado ali. Deu suporte para o corpo dela ao passar os braços ao redor da sua cintura logo depois.
sorria com ternura ao resvalar a ponta do dedo pelo rosto de desenhando o caminho da testa até a ponta do nariz e colocar o cabelo para trás. Ele, que sorria minimamente de volta para , fechou os olhos, querendo memorizar cada mínima sensação ao contato. Sentiu um calorzinho aquecer seu peito em tê-la ali, com ele. Como, finalmente, encontrar seu lugar no mundo.
A busca agonizante e solitária parecia ter, por fim, acabado. E não era a busca por um amor, não era a busca por uma pessoa, era mais a falta inconsciente de um conforto específico, algo que ele não sabia o que era, que ele não tinha nomeado ainda.
Algo que ele encontrou em .
Ela prosseguia em seu desvendar curioso pelas minúcias que descobria por seu rosto e ombros, passeando com a ponta dos dedos pelo maxilar até o trapézio. abriu os olhos de novo e puxou-a mais pra perto ainda. Estavam, então, grudados. deu uma risadinha com o susto, mas envolveu seu pescoço com os braços. Juntaram as testas e a ponta dos narizes.
O silêncio entre eles parecia gritar tudo o que não diziam. O carinho nos dedos, a admiração nos olhos, o calor no contato, as pernas que o envolviam, os braços que a envolviam, a proximidade dos sexos... nunca havia sentido nada parecido antes. Ele tentava conter, mas parecia saltar peito à fora.
Suas relações eram permeadas por sexo e interesse. Sempre. Nunca havia tido uma namorada se quer, nenhuma mulher com quem houvesse mantido um relacionamento consistente – secretamente, pensava estar quebrado, danificado, com defeito ou qualquer coisa assim. Enquanto todos estavam por aí, se apaixonando e desapaixonando, vivendo histórias de amor planejando um futuro, sempre estava sozinho. E tentava não ver problema nisso. Exceto por alguma voz ali no background do seu inconsciente que dizia que ele era um monstro, um robô, um experimento científico, incapaz de sentir, impassível de receber amor.
E no seu mais profundo e reprimido medo de terminar sozinho, ele se esforçou, vez ou outra. Deu tudo que podia. Queria se apaixonar. Queria sentir todas aquelas coisas que as pessoas diziam sentir, todas aquelas coisas que seus personagens deveriam sentir, todas aquelas coisas que ele nem ao menos conseguia dar linguagem. Não deu certo. E, entediado, desistia na primeira semana, na segunda semana com sorte.
Provavelmente tinha alguma coisa a ver com os seus pais e a negligência mascarada de ortodoxia e conservadorismo com que eles moldavam a relação com o filho, visto que jamais aceitariam um com uma vida pública, principalmente para se tornar o símbolo sexual que acabou assumindo sem querer. As visitas eram raras, esquisitas e hostis, como o próprio casamento deles era. se mudou cedo com sua tia, Rory, para os Estados Unidos – essa por quem ele sempre nutriria um enorme carinho e profunda admiração.
A parte mais engraçada era que, com , era como se tudo fosse o completo oposto: se esforçava para não sentir, tentava não se importar, fazia de tudo para manter-se longe... sem sucesso. A mínima noção da presença de o fazia despertar, seus impulsos eclodirem, seus sentidos mais aguçados. O desejo pelo contato que efervescia de dentro pra fora.
Ali, com as testas recostadas, os corpos entrelaçados, os sorrisos trocados, não estava sozinho. Ele estava com . Ele a tinha. E o mais importante: ele a amava. Amava como nunca pensou ser capaz. E talvez não conseguisse dizer com palavras naquele momento, talvez não estivesse preparado, mas tentava deixar pistas de seus sentimentos por onde passava e nas pequenas coisas que fazia.
, então, soltou uma risada, do nada. afastou um pouco o corpo, recostando-se no apoio da banheira novamente enquanto a encarava, esperando pela resposta. Automaticamente, desenlaçou seu corpo, deixando as pernas em cada um de seus lados. Levantou-se, com o corpo molhado e espumado – para o qual rapidamente direcionou os olhos porque realmente era uma figura monumental – apenas para poder sentar de novo no seu colo, mas dessa vez com a posição invertida: seus corpos seguiam para a mesma direção.
— Do que você tá rindo? — perguntou. Fez uma careta quando mordeu levemente o seu maxilar. Virava o rosto pra ele de forma que pudessem se olhar.
— Da gente. Você não acha engraçado?
— Não.
riu. Ele riu também, com a língua pra fora, só pelo prazer de ser chato.
— É só... eu nunca me imaginei assim com você. Achava que tudo isso ia ser uma eterna tortura e...
— E...
— Você me surpreendeu. — deu de ombros. — Não está sendo a pior coisa do mundo, afinal de contas.
— Então você finalmente admite que eu sou o amor da sua vida? Que tudo isso é na verdade um plano louco de um ser superior pra gente terminar junto?
revirou os olhos e respondeu-lhe apenas com um selinho.
— Não duvido, não.
— Talvez você seja mesmo o amor da minha vida, .
Mas ele não tinha ironia na voz dessa vez.


FEVEREIRO DE 2019

não dormia por dias e dias a fio. Os sonhos eram conturbados, possuíam cores vívidas e por vezes até se confundia com a realidade de tão palpáveis. Estava estressado, cansado, sua mente parecia entrar em combustão. Precisava descansar. Mas como escapar de quando ela estava sempre ali, na sua cabeça, nos seus pensamentos, nos seus sonhos? Como se fosse cármico, era absurdo o modo como sempre se fazia presente. Não o deixava em paz.
O copo de whisky o acompanhava naquelas semanas em especial em que a cerveja acabou se tornando fraca demais. Contava com ele para deixar suas emoções para lá – sabia que estava abusando de seu fígado com o álcool desgarrado, o Adderall, gastando seu cérebro com maconha e sintéticos porque ficar sóbrio era perceber que não valia a pena. Sem , não valia a pena. As semanas passavam, os meses passavam, os dias eram longos e pareciam se misturar com seus pesadelos: estava sozinho como sabia que ficaria. Estava sozinho como ela disse que ele terminaria. Não tinha ninguém. E havia deixado a única pessoa que chegou a amar nesta vida acreditar que nunca a havia amado – mas era egoísta pedir que ela ficasse quando não o suportava mais. Pela primeira vez em sua vida, não se colocava em primeiro lugar.
A dor de perdê-la era massacrante. Excruciante. Esmagadora. Corroía seu peito e queimava em sua garganta cada minuto do dia. Estirado no sofá de casa, desmarcou todos os compromissos da noite e que todo o resto se fodesse. Não queria ver pessoas. Não queria ir para premiações. Não queria fingir que estava bem.
Só queria vê-la. Deus, precisava tocá-la. Seus olhos ardiam e ele encarava o teto, bêbado, quando seu telefone vibrou ao seu lado. Desesperado, esperançoso, olhou o visor do celular com o coração acelerado.
Não era ela.
— Eu não vou — respondeu, curto e grosso. — Pode avisar aí.
— Que porra, , você tá bêbado? — Alec reclamou, irritado. — A Lia acabou de me avisar que você desmarcou.
— Eu não tô bêbado. Vai se foder.
— São quatro da tarde, caralho. A gente tem que estar lá em algumas horas, pelo amor de Deus, pare de ser um babaca e vá tomar um banho. Eu vou pedir um Uber pra Lia ir aí te maquiar e dar um jeito na porra do seu cabelo, ouviu?
— Eu não quero a Lia. Eu quero a .
Ouviu a risada de Alec soar irônica pelo telefone.
— Você é um filho da puta.
E desligou o telefone.


OUTUBRO DE 2018

— Só não dá pra acreditar que você fez isso. – confessou, meio irritado, meio desapontado, passando a mão pelo rosto.
estava sentada no sofá e olhava para o chão. Estava mais letárgica que o normal naquele dia em especial. Os efeitos do uso prolongado do Alprazolam se mostrando cada vez mais evidentes: sonolência, boca seca, dificuldade em se articular, certas alterações de memória. Seus cabelos num coque frouxo e as roupas confortáveis que pareciam entrar em contraste com seu estado de espírito.
E apesar de tudo, simplesmente não conseguia deixar de se sentir preocupado com todo o panorama que não conseguia enxergar. Às vezes tinha vontade de pegar o remédio e esconder, às vezes tinha vontade de brigar com ela toda vez que a via tomando... Mas se era política e benevolente com todas as outras coisas no mundo, que não tocassem no seu Xanax.
— Você quer brigar de novo, ? — ela expirou com força, recostando-se no sofá e cruzando as mãos no colo. — Ok. Então vamos brigar.
— O que você espera que eu faça, ? Você estava querendo desmanchar o contrato sem me avisar! Que porra é essa? — perguntou, confuso. Sentia-se traído. Não fazia sentido para ele.
As coisas estavam muito estranhas para e já faziam algumas semanas, isso ele tinha que admitir. Estavam se desentendendo com muita frequência. Enquanto ficava chateada por coisas pequenas e não queria conversar, estava sempre pronto para uma discussão que ela tentava evitar.
Apesar disso, não conseguiam ficar longe um do outro — estavam sempre juntos, tentavam manter as questões o mais longe do estúdio possível e eventualmente deixavam as brigas para lá, voltavam a se derreter um pelo outro, faziam piada, transavam...
Voltavam a brigar. E brigavam com afinco.
— Eu não estava tentando desmanchar o contrato, eu já te expliquei isso! Eu só queria me informar corretamente dos danos, é só isso. Você tá fazendo tempestade em copo d’água!
— Não foi isso que a Diana conversou com a Avery. Foi foda, . Eu tive que descobrir por outra pessoa! Eu achava que a gente já tinha passado dessa fase! — entoou, magoado, incrédulo, e a observava com os olhos que pediam por uma explicação. — Faltam só duas semanas pro contrato acabar. Por que isso?
levantou os olhos, provavelmente frustrada que a história havia eclodido. Era óbvio que Diana contaria, por mais que pensasse que não — não era interessante para ela que eles terminassem antes do tempo. Primeiro por causa da multa, segundo porque a rentabilidade com e juntos era maior.
— Porque eu odeio pensar que esse é o motivo pra você ainda estar comigo, , foi só por isso! Eu não queria te contar porque eu sabia que você ficaria exatamente assim. Foi só pela informação, eu.. Eu...
se levantou também, dessa vez, com dois dedos em cada têmpora. Começou a andar de um lado pro outro na sala sem conseguir terminar a frase.
, se coloca no meu lugar. O que você espera que eu pense? Por que você não me disse isso antes? Por que é que você nunca comentou nada?
— Porque eu não sei como dizer, ! Eu não sei como contar essas coisas! Eu tinha medo de ouvir a resposta! Medo de você ficar com raiva de mim e ir embora!
conteve o ímpeto de bufar. A confusão de permeava os limites da conversa chegava até ele. Uma hora está tentando terminar o contrato, outra hora tem medo que ele fosse embora. E ao mesmo tempo que aquele contrato não significava mais porra nenhuma pra ele, era difícil saber que agia por suas costas. Era difícil sempre ter que prova-la que poderia confiar nele.
A verdade é que, desde que passaram a se aproximar, nem mesmo se lembrava que havia um contrato para início de conversa. Estavam bem, gostavam de passar tempo juntos, cuidavam um do outro e estavam lá. Era fácil para ele diferenciar as coisas. Não tinha como adivinhar que, para , era o completo oposto quando ela fingia estar tudo bem.
— Então eu tenho que ficar ok com o fato de que você mentiu pra mim? — ele perguntou, abrindo as mãos incisivamente e as levando para cima. — O que é que você realmente pensa de mim? Eu não te mostrei suficiente que me importo com você ainda?
Era cansativo pra caralho. Desgastante ter que se provar o tempo todo.
— Eu não menti, ! Eu só conversei com a Diana sobre as possibilidades, foi só isso! Eu não quero que a gente termine! Pelo amor de Deus, vamo deixar isso pra lá... Eu só quero ficar deitada com você. Por favor, só um pouco... Eu... Eu não tô me sentindo bem...
Ela parou de andar e deu um passo à frente, passando a mão nos olhos que já chegavam a lacrimejar e a cabeça baixa. O coração dele falhou por um momento. Era doloroso vê-la daquele jeito, o seu peito apertava por dentro e chegava a sufocar. Respirou fundo, tentando encontrar uma resposta para quando as coisas chegaram àquele ponto. Por que é que as coisas tinham que ser tão complicadas? Por que é que elas não poderiam ser simples de novo?
Quando tudo começou, tinha plena noção de que estava segurando uma bomba relógio — só havia deduzido errado o principal motivo para a sua explosão: pensava que acabariam se matando eventualmente.
Mas foi justamente o contrário. e haviam se apaixonado demais. E talvez...
Talvez esse houvesse sido o seu erro.
, ultimamente, você nunca tá bem. A gente precisa dessa conversa.
respirou fundo, balançou as mãos e o rosto e assentiu. Umedeceu os lábios, ainda assentindo. Estava prestes a chorar de novo. E despencou por dentro mais uma vez. Fechou os olhos com força e engoliu em seco. Ela balançou a cabeça em negação levantando os olhos para , e ele direcionou os para ela de volta tentando desvendá-la, tentando abrir suas cortinas – precisava saber o que estava se passando ali. Queria poder acalmar cada pensamento ruim e cada desentendimento bobo, queria fazê-la entender que se importava sim, Deus, como se importava, que estava tão grato por tê-la perto... Ele a tinha. tinha e era isso. Era só o que precisava. Era só o que importava. Queria dizer isso. Queria conseguir dizer.
Mas o tirava as palavras. Toda vez. Toda vez que olhava para ela, tão linda, caralho, ela era tão linda e tão viva, tão frágil e tão corajosa, tão alegre e tão intensa, a pessoa mais forte que já tinha conhecido – mas quando se dispunha a sentir a tristeza e o furor que a vida trazia, não se limitava. Algo crescia e despertava dentro dela e tudo que desejava era conseguir arrancar. Limpar, amar até sair. Amar não como escolha, não como sentimento, mas como verbo. Como ação. Amar até curar.
Doía saber que, por mais que tentasse, ele não conseguia – e não entendia, ainda, que jamais conseguiria. Não tinha o que era necessário para salvá-la.
poderia fazer isso.
— Eu não quero que você fique bravo comigo... Por favor... Só fica comigo um pouco.
— Você escondeu uma coisa importante de mim, ! E não é a primeira vez. Você diz que tá num lugar e tá noutro, às vezes você some...
O tom de alterou automaticamente.
— A gente não precisa saber tudo um do outro, . Eu paro de responder por um tempo e você fica me mandando mensagens o tempo todo perguntando se eu tô bem! Me sufoca, me irrita!
— Só quando você some, ! Porque toda vez que você some eu fico achando que vou te encontrar dopada em casa de Xanax que nem foi da última vez que você faltou gravação e nem avisou a ninguém! Você deixou de trabalhar, ! Você toma esse negócio como se fosse água e acha que isso não tá te fazendo mal!
– Eu não preciso que você me salve! gritou, com os braços abertos. — É a única coisa que controla a minha ansiedade, , o que você quer que eu faça? Eu não posso parar de tomar o remédio assim!
— Que você, pelo menos, se consulte com um psiquiatra pra fazer isso ao invés de comprar receita todo mês! — contra argumentou. Virou de costas e foi andando até a cozinha com em seu encalço enquanto procurava por um copo de água. Precisava acalmá-la. Precisava se acalmar. — Não dá pra te entender, . Uma hora você diz que me quer por perto, depois você me afasta...
Abriu a geladeira enquanto continuava a falar:
— Como se você não saísse bebendo e usando droga por aí pra compensar frustração. É diferente? É diferente, ? É diferente do seu Adderall só por que é mais forte? Do seu whisky? Do seu sintético?
Virou-se para ela, com a garrafa de água na mão e fechou a porta da geladeira.
, é completamente diferente! Eu não uso essas coisas todo dia, é recreativo — ele argumentou. — Você não pode me culpar por ficar preocupado depois do estado que eu te encontrei!
Ele levantou os braços como se falasse com obviedade. Alguns segundos em que os dois se encaravam sem saber o que dizer. Os olhos de estavam vermelhos, cheios de mágoa e culpa. Os de , confusos, desesperados.
Aquele, possivelmente, foi o dia mais assustador de sua vida. Havia acontecido algumas semanas antes. Em todos os anos que trabalharam juntos, nunca havia faltado um dia se quer de gravação, e quando precisava fazê-lo, avisava com antecedência. havia passado alguns dias em Nova Iorque para uma propaganda e foi direto pro estúdio assim que chegou — sem nenhuma notícia de . Inúmeras ligações e uma tarde inteira de uma sensação ruim no peito de que algo havia acontecido.
No fim do expediente, abriu a porta da casa de com a digital e deu de cara com uma cena desastrosa e aterrorizante: cambaleava até a cozinha, se escorando nas paredes, sem conseguir manter um raciocínio coerente. Na sua cama, a caixinha de remédios aberta com poucas pílulas. Resquícios de vômito na privada.
foi tomado por um desespero profundo, o medo de que algo acontecesse com era petrificante. Não sabia muito bem como intervir, não sabia muito bem o que fazer sem que isso afastasse completamente. Ajudou-a a tomar um banho frio rápido e levou-a para um hospital afim de que pudesse se desintoxicar da substância. Depois disso, prometeu-lhe que iria buscar tratamento para diminuir as doses até que, eventualmente, parasse com o remédio. Não o fez, apesar de o evento não ter se repetido tão gravemente. E o afastava toda vez que mencionava algo sobre.
pediu que não comentasse nada com Diana e ele assim o fez. Ela nem mesmo sabia que usava o remédio e ele não confiava que Diana fosse tomar uma atitude responsável quanto a isso.
Ela apoiou as mãos na bancada com rancor e encarou-o, parecendo sentir-se traída.
— Eu fico ansiosa, ! É o que você queria ouvir? Eu fico ansiosa pra porra! Ansiosa de pensar que você só tá comigo por causa do contrato, ansiosa com essa série idiota que a gente faz parte porque parece que a cada temporada eu me sinto mais sugada, ansiosa porque eu tenho um mundo inteiro de gente pra dar explicação e suprir expectativa! Eu fico ansiosa pra caralho só de lembrar que a Diana existe! Eu fico ansiosa de te falar algo e você ficar preocupado! Eu fico ansiosa porque eu tenho medo de fazer alguma coisa de errado e você ir embora!
colocou dois copos de água e entregou um para . Assentiu para que ela tomasse um gole enquanto as lágrimas passavam a correr por seu rosto enrubescido, as mãos dela tremiam ao segurar o recipiente de vidro e leva-lo a boca, desviando os olhos para o lado.
...
— Pare de me chamar de , você me chama de ! — ela gritou ao colocar o copo na bancada com força. — Tá vendo? É disso que eu tô falando!
... Não dá pra continuar assim. A gente tem que dar um jeito de resolver isso. — ele suspirou, olhando pra baixo. — A gente... Tá demais. A gente tá junto demais, a gente briga o tempo todo...
— Tá vendo? Eu te disse! Eu te disse! Eu te disse que se eu falasse você ia me deixar! — Desesperada, colocou as mãos no rosto.
Voltou a andar de um lado pro outro, nervosa. Parecia tentar controlar a própria respiração. Ele não sabia mais como resolver a situação.
Não conseguiam ficar juntos. Não conseguiam ficar separados. Não conseguia dizer o que sentia – e o que conseguia dizer, era entendido da maneira errada. Estava cansado, exausto.
, a gente precisa se resolver! Não dá pra continuar com isso desse jeito, olha pra gente! — respirou fundo, apontando de um pro outro, com as duas sobrancelhas arqueadas numa expressão de completa angústia. — Para de andar, por favor. Olha pra mim.
— Eu não sei mais o que você quer de mim! — entoou, por fim. — Eu tô tentando... O que você quer que eu faça? Me diga, por favor, me diga o que você quer que eu faça!
— É a sua vida , não é o caralho de um personagem! Você não tem que fazer o que eu quero! Você não tem que fingir!
, então, tomou uma expressão irritada. Fechou as mãos em punho. Seu peito subia e descia enquanto encarava com raiva.
— Você deveria ter pensado nisso antes de ficar sendo um puta babaca por aí, porque pelo menos eu não era obrigada a ter que assumir esse personagem pra consertar sua merda!
Obrigada? perguntou, profundamente magoado dessa vez.
E aquela havia sido a gota d’água para ele também. – Eu nunca quis que você consertasse nada! Inclusive, realmente, você tá certa mesmo, se eu só tô com você desse jeito até hoje deve ser porque eu assinei a porra de um contrato!
A ironia era palpável no seu tom de voz, a mágoa, o ressentimento, o tom minimamente mais elevado que o que usava antes. Para ele, era óbvio que não falava sério.
Mas ao olhar nos olhos de , estagnada em completo choque ao ouvir aquelas palavras, soube que disse a coisa errada. Abriu levemente os lábios e piscou algumas vezes antes de dizer:
— Bom, então é isso, aqui está a sua liberdade. Pode ir embora! Eu te libero dessa tortura!
— Que porra você tá falando, ? Eu obviamente estava...
Mas foi interrompido.
— Eu tô falando que eu tô pouco me fudendo pro dinheiro, . Eu pago o que for necessário pra ficar o mais longe possível de você!
... Calma. Vamo conversar.
— Não tem conversa, . Vai embora, por favor. Vai embora daqui.

NOVEMBRO DE 2018

estava mais nervoso do que gostaria. Ele, que sempre fora o louco dos horários, até se deixou atrasar para o aniversário de Alec por pura procrastinação. Passou o dedo pelo nariz ao tentar conter os estímulos de desconforto na área interna que sempre emergiam depois de cheirar e adentrou a área do bar no salão em que a festa ocorria. Jamais encararia a noite sem um calmante.
Era a primeira vez em um mês inteiro que via , visto que o término aconteceu pouquíssimo antes de as gravações de Good Years entrarem em recesso – e voltariam logo, o que também o preocupava. Mas o preocupava secretamente, afinal, jamais teria conversado com qualquer pessoa sobre... vez ou outra, Cali tentava arrancar algo do amigo, mas não tinha muito sucesso. Descontava toda a sua frustração em whisky, droga e desconhecidas aleatórias. Um ano depois, estava exatamente no mesmo lugar, só que pior: agora, depois de tê-la, ele estava descobrindo o que era a vida sem . E era uma vida desgraçada.
Nunca pensou que o término real de um relacionamento fajuto pudesse afetá-lo tanto. Não conseguia decidir se o recesso havia chegado num bom ou mal momento, porque não sabia o que teria feito se tivesse que lidar com o Fator depois de terminados. Em contrapartida, não vê-la era, com certeza, o pior dos castigos que alguém poderia receber. E estava de volta à estaca de “ator renomado, pessoa fodida que ninguém aguenta”.
Voltaram a se estapear. Os cortes e alfinetadas aconteciam sempre que possível e pouco mediam as palavras desde então. fez questão de pagar a multa e espalhar para o mundo que haviam, sim, terminado, e que ela estava muito bem, obrigada. Nas poucas vezes que tiveram que gravar juntos no mês pós término, mantiveram o profissionalismo do mesmo jeito que antes – mas a habilidade que possuía em ignorá-lo era desastrosa, enquanto ele, ressentido, amargurado e com o orgulho ferido, fazia questão de buscar os seus estímulos mais escuros com palavras duras. as retribuía sem dó.
Os últimos meses haviam sido difíceis, definitivamente. Mas difícil não chegava nem perto da sensação de ver de novo... Encontrar ali, sentada no bar, com aqueles cabelos presos que deixavam sua nuca a mostra e o batom vermelho (maldito batom vermelho, malditos lábios grossos delineados de vermelho), a taça de vinho sempre presente na mão... Puta merda. Não havia nada mais humilhante que a forma com que conseguia afetá-lo com a sua existência distante.
Precisava tanto de uma bebida. Dane-se qualquer outra coisa. E foi com esse intuito que se aproximou do bar. De jeito nenhum estava procurando uma desculpa para abordá-la.
?
Usou o apelido, é claro, não poderia perder a oportunidade de provocá-la, e sabia o quanto ela odiava quando ele usava o apelido se eles não estivessem em bons termos. Observou-a tensionar os ombros, ainda de costas.
— Não esperava te ver por aqui — continuou, bem no pé do ouvido, antes de apoiar o cotovelo na bancada ao seu lado. Encarou-a com um sorriso sarcástico no rosto. — Resolveu ter consideração por alguém?
As palavras saíam como se tivessem vida própria. Ele sabia que deveria se controlar, mas não conseguia. Nem estava pensando.
De todo jeito, ao vê-la ali, bem na sua frente, depois de tanto tempo sem notícias, era impossível evitar. Não parecia de verdade. Queria tocá-la. Estava tão perto... Mal podia decidir se era um sonho ou um pesadelo. Definitivamente não podia ser real.
Afinal, aquele rosto delicado e fino ainda o atormentava enquanto ele tentava dormir...
— Pelo Alec? Sempre tive – ela respondeu, prontamente, dando um gole de sua taça e uma piscadela para o rapaz. – Esse tipo de coisa não se força, você sabe.
— E o namoradinho? Não quer assumir?
se surpreendeu com a própria escolha de palavras, mas agora já era tarde demais e já havia dito mesmo – precisava descontar a própria frustração de algum jeito e ali estava. Precisava continuar ouvindo sua voz e precisava encontrar em alguma de suas palavras a dor que ele sentia, porque não era possível que só ele estivesse sentindo. havia virado de frente pra ele. Encarou-o entediada, como quem não se afeta, mas ele gostava de pensar que ela bufava por dentro. Talvez no modo em que ela mordia o lábio com força... Revirou os olhos, inclinando o rosto para cima, já que era mais alto.
— Parece muito preocupado com a minha vida amorosa, . Não me superou ainda? Mas já fazem tantos meses!
encolheu os ombros com uma expressão ironicamente compassiva e o rapaz sentiu algo dentro dele revirar. A boca do seu estômago queimava. Sentiu seus lábios mais secos que o normal. O opioide já não era mais capaz de acalmá-lo.
Odiava o quão ela era rápida para respondê-lo, não importa o que ele dissesse. Odiava sentir que demonstrava o desconforto que ela não parecia sentir.
— Pelo visto, cansou de você, assim como eu.
— Por que não vai se drogar por aí e xingar alguns repórteres pra tentar me esquecer? Só assim que você consegue, aparentemente.
olhou para ele com olhos que pareciam queimá-lo, levantando-se – dessa vez, sem postergar nenhuma expressão de estresse. ouviu quando ela pisou com os saltos no chão. Claque, claque. Próximos demais. Cruzou os braços. Torceu os beiços marcados de vermelho. Arqueou uma sobrancelha.
— Não é minha culpa se ninguém suporta passar muito tempo com você, . E é exatamente por isso que você sempre termina sozinho.
Dez segundos de completo e doloroso silêncio. sentiu seu corpo fraquejar e seus olhos arderam pela primeira vez na frente de .
Uma eternidade. Foi o tempo em que seus olhos ficaram presos um no outro. Uma eternidade inteira. , com os cílios grandes e olhos medianos bem demarcados, pareceu sentir um lapso de arrependimento por um segundo. De braços cruzados, com seu queixo levantado, pronta não só para uma batalha mas para uma guerra inteira, esperou por uma resposta que parecia não vir. Um, dois, três, quatro. Os segundos se passavam lentamente enquanto eles mal conseguiam desgrudar os olhos um do outro.
queria sair, queria correr, queria apenas ir embora. Ir embora como nunca conseguiu.
Então, piscou os olhos algumas vezes. Alguma coisa prendia seus pés ali, ao lado dela. Alguma coisa prendia seus olhos aos dela. Alguma coisa prendia seus ouvidos ao que ela iria dizer, mas nem havia dito ainda.
Cinco, seis, sete e então, fez menção em virar-se, mas não estava disposto a deixá-la ganhar assim tão fácil. Portanto, num movimento rápido demais, segurou-a pelo braço, o que fez com que ela voltasse para perto por impulso. Oito, nove, dez. Olhos que ainda estavam ali, presos.
Até que ouviu a voz rouca e grave entoar:
— Eu não preciso esquecer alguém que eu nunca cheguei a amar, .
E deu as costas, deixando para trás uma com coração partido, enquanto engolia a ardente e assombrosa dor que assolava seu peito ao pensar que aquelas seriam as últimas palavras que lhe teria dito por algum tempo.
E havia um mundo inteiro de mentiras em cada uma delas.


DEZEMBRO DE 2018


O efeito do Xanax havia passado. queria mais. Precisava de mais. As doses estavam aumentando com o passar dos meses. Enquanto Dustin, por cima, penetrava rápida e descuidadamente, ofegante e de olhos fechados ao aproveitar o seu próprio momento, só conseguia pensar que queria outro Alprazolam. Encarava o teto e emitia sons eventuais que pareciam surtir efeito sobre o rapaz, pois sempre fazia com que penetrasse com mais força. Talvez, se ainda estivesse sob efeito da pílula, o sexo com Dustin parecesse melhor. Nunca era. Dustin se esforçava, sim, e reconhecia isso. Mas estava sempre desesperado, com pressa, expondo um tesão imaturo que o fazia render poucos minutos. Não a tocava nos lugares certos. Na verdade, sempre parecia tocá-la nos lugares especificamente errados. Lembrou-se de .
Aquele grande babaca que fodia tão bem... O ritmo que iniciava lento, os dedos intencionais, o pau que a preenchia por completo... Suspirou ao lembrar.
Conheceu Dustin aleatoriamente na Starbucks. Ele era legal, simpático, carinhoso, sorridente e o melhor de tudo: low profile. Completamente desconhecido. Sua conta no Instagram era fechada e tinha uns trezentos seguidores no máximo. Ninguém sabia quem ele era, seus amigos não o conheciam, encontravam-se escondidos em seu apartamento pequeno e arejado em Van Nuys. A cama fazia barulho enquanto se movimentavam. A melhor parte sobre o sexo com Dustin era que ele não falava nada: o único som que se podia ouvir eram as respirações trocadas e os gemidos robóticos de . Bem que ele podia terminar logo.
Mais algumas estocadas. Encarou a bolsa jogada no chão com o Xanax dentro. Dustin buscou a sua boca para um beijo que ela correspondeu e, finalmente, gozou na camisinha, caindo por cima dela. Respirava alto e o imitou.
Esperou alguns minutos para que ele se recuperasse, tivessem a famosa conversa de como o sexo havia sido maravilhoso e, quando pareceu educado, pegou sua bolsa no chão e deu a desculpa de que precisava usar o banheiro – Dustin não pareceu se importar. Completamente nua, de frente para o espelho, suada e com olhos borrados, desprezou a imagem que encarava com repugnância, sentindo-se suja. Odiava o que olhava.
Odiava lembrar-se das palavras de que ecoavam em sua mente. Eu não preciso esquecer alguém que nunca cheguei a amar, . Mentiroso. Filho da puta.
Como não a havia amado? Como? Quando foi a primeira vez na vida em toda sua vida em que se sentiu amada?
Odiava, principalmente, não ter coragem de dizer que não queria mais transar com Dustin. Odiava o silicone que não tinha colocado por vontade própria, sentia falta de seus antigos seios. Odiava a sensação que seu corpo não lhe pertencia, que sua mente não lhe pertencia, que seu tempo não lhe pertencia. Odiava os traços do seu rosto, odiava sua voz, odiava seus sentimentos, as palavras que dizia. Odiava habitar em sua mente, odiava estar presa em seu corpo. pensava odiar as escolhas que tinha feito, mas na verdade, odiava as que não tinha. E culpava-se por isso.
Encarava seu corpo nu em silêncio, com as maçãs coradas e os olhos que ardiam em rancor e repulsa. As lágrimas passaram a descer por seu rosto. Respirou fundo, inclinando-se sobre a pia e enfiando os dois dedos na garganta, forçando-os até sentir o líquido ácido emergir por sua boca – o que trouxe uma ardência para o seu estômago que entendia como alívio. A saliva escorria pelo seu queixo quando repetiu o ato. Respirou fundo, ofegante.
Passou um pouco de água no rosto e na nuca, escovou os dentes e engoliu a pílula de Xanax – e com isso, engolia a loucura porque ela a alucinava calmamente.¹
Usou a água da duchinha para fazer a pressão certa no clítoris e gozou em pouquíssimos minutos. Sorriu para Dustin logo depois de abrir a porta.

¹: frase retirada de uma colagem feita por Iasmin Rio.

FEVEREIRO DE 2019

... Ei, boboca. Acorda.
ouvia uma voz distante. Era uma voz conhecida, uma voz doce e suave. Não parecia real. Não queria abrir os olhos.
, por favor... Acorda logo. — E depois, um suspiro. Alguns cutucões no ombro.
Ele reconhecia aquele toque muito bem. A eletricidade que percorria com o contato era impossível de não ser reconhecida.
Mas não poderia estar ali. Provavelmente era só mais um dos sonhos reais demais que vinha tendo nas últimas semanas — e como sempre fazia, toda vez que sonhava com ela, fechou os olhos com mais força, recusando-se a acordar. Queria a voz dela perto de novo, a sensação do seu corpo perto de novo, queria guardar esses momentos como se eles fossem verdadeiros.
Era o mais próximo que chegaria.
Teve a sensação de que alguém sentava ao seu lado, na beirinha do sofá. Deveria estar enlouquecendo, mas não se importava.
— Eu vou ter que jogar água na sua cara? — perguntou, impaciente. Sentiu seu corpo ser esmagado contra o encosto do sofá e, por fim, abriu lentamente os olhos, para dar de cara com uma que o empurrava para trás com as costas. — ...
? — perguntou, arregalando os olhos. Levantou-se rapidamente com uma dor de cabeça inenarrável e ficando com o rosto bem próximo ao dela. o encarava com curiosidade e um pouco de vergonha. Piscou algumas vezes antes de colocar a mão no seu rosto. Ela abaixou os olhos imediatamente e pigarreou, sem reação. — Você... Você tá aqui? De verdade?
Sentiu sua respiração descompassar um pouco. Havia enlouquecido de vez? Estava alucinando? Seu coração acelerado procurava a resposta.
O formato do seu rosto parecia tão real e tão bonito... O cheiro característico, a maciez da sua pele, o modo que seus sentidos pareciam saltar de repente...
— Eu tô louco?
deu uma risada leve pelo nariz, ainda parecendo um pouco sem jeito.
— Não. Você não tá louco. Eu tô aqui — ela deu de ombros, colocando a mão por cima da dele. Levou a mão dele até seu próprio coração, também acelerado. — Viu?
olhou para onde as mãos repousavam juntas. Logo depois, pro rosto próximo de . Um sentimento pouco familiar se apossou do seu peito.
Esperança.
Não pensou duas vezes. Envolveu seu corpo num abraço apertado que trazia o conforto que ele tanto precisava. Com o nariz nos seus cabelos, os braços ao redor de seu tronco, as reações químicas que a presença de trazia ao seu corpo, ele não queria sair dali.
Queria estar onde ainda poderia envolve-la. Queria estar onde ainda estivesse em seus braços.
, você... — e tão rápido como chegou, também se foi.
, com pesar, separou-os. Respirou fundo e levantou os olhos pra ele novamente.
A saudade era, com certeza, um veneno que o oxidava por dentro. Alguns meses antes poderia apenas se encaixar ali, ao seu lado, abraçá-la e deixar o nariz no seu pescoço, sentindo o cheirinho gostoso que ela sempre emanava. Poderia beijá-la, poderia tirar a sua roupa como tanto queria e ser um só com ela de novo. Era só o que queria. Havia algo dentro dele gritava para fazê-lo.
Mas não podia, por mais que quisesse. Por mais que ansiasse.
— Você precisava de mim, , então eu tô aqui. — deu de ombros. — É o que a gente faz.
— O Alec te ligou?
— Sim. Que história é essa de não ir? Você foi indicado pro Globo de Ouro!
Ele mal conseguia prestar atenção no que ela falava porque nada mais no mundo parecia ser tão importante assim. só conseguia pensar que ela estava ali. Não conseguia processar. estava ali.
Era difícil demais saber que ela estava naquele apartamento de novo depois de tanto tempo. Era injusto, mais que isso, era desonesto tê-la tão perto e não poder tocá-la como gostaria. Era incoerente que um mísero olhar o despertasse por completo. Colocou uma mecha do seu cabelo atrás da orelha, sem conseguir resistir. — ...
expirou fundo, direcionando os olhos pra ele de novo enquanto ele retirava a mão. Expirou e desviou os olhos para a parede.
— Eu não quero ir sem você.
— Você tem que ir.
Foi pego de surpresa quando segurou seu queixo pelo indicador e levou-o em sua direção. Os lábios se encontraram num misto de sensações diferentes – os seus beiços queimaram, seu peito ofegava, o seu rosto adormeceu e os seus olhos se fecharam automaticamente. O gosto que a boca de o permitia sentir parecia explodir em suas papilas. A proximidade que trazia ansiedade, admiração, alegria, confusão, desejo, espanto, nostalgia e... Tristeza. Beijar , ali, naquele momento, carregava uma tristeza imensurável. Uma tristeza que ele não se lembrava de ter sentido antes na vida.
De alguma forma, esperava que ela pudesse entender tudo o que ele não lhe dizia.
— O que a gente tá fazendo, ? — , então, os separou novamente, colocando uma das mãos no rosto. — O que a gente fez um com o outro?
— Eu... eu não sei. — respondeu, honesto, porque realmente não sabia.
Não tinha nenhuma resposta.
— Você tava certo... Não dava pra continuar daquele jeito. Olha pra você, . São cinco da tarde e você tá assim. Olha pra mim...
O coração dele batia forte contra o peito. Ele sabia onde essa conversa iria parar. nunca se viu muito como uma daquelas pessoas que sofriam por amor, que não conseguiam superar, mas o havia feito pagar a língua de tantas maneiras diferentes... Ele nem mesmo conseguia descrever o que se passava dentro dele naquele momento. Pensava em um turbilhão de coisas que não conseguia processar em linguagem. Sua parte racional concordava, uma pequena parte racional acreditava que haviam tomado a decisão certa.
Mas todas as outras partes de seu corpo gritavam por . Gritavam para que a beijasse de novo, não importava o que acontecesse, não importava o quanto doesse. E que continuasse doendo por todos os seus dias, ele não ligava – com certeza doía menos do que perder . Doía menos do que não tê-la por perto. Doía menos do que estar a centímetros de e ouvir sua voz dizer que não podiam estar juntos.
Talvez... Talvez fosse melhor que ele estivesse alucinando. Pelo menos não precisaria passar por aquilo de novo.
Havia algo dentro dele que não conseguia discernir. Algo que o dilacerava por dentro quando pensava na possibilidade de nunca mais voltarem. Não fazia sentido que não estivessem juntos agora, mas estava tudo bem, tudo bem contanto que voltassem a estar eventualmente. Estava tudo bem contanto que no final, ainda o amasse como ele sabia que amava, mesmo que ela não tivesse dito. De alguma forma, ele sabia.
Queria que ela soubesse que a amava também.
, não é sua culpa. — Foi o que conseguiu responder diante de todos os estímulos que lhe saltavam.
— A gente se estragou, . Eu estraguei tudo... Eu devia ter te escutado...
— Não é assim.
— Você sabe que é verdade. — engoliu o choro, mesmo com os olhos molhados. — A gente tinha prazo de validade.
— Não diz isso, ...
— Olha o que a gente fez um com o outro. Isso não pode ser normal, . — expirou forte.
E quando piscou, as lágrimas passaram a cair rápidas por seu rosto. Ela abaixou o rosto e umedeceu os lábios quando ele as limpou. — Eu preciso me cuidar. Eu preciso começar uma terapia, eu preciso parar de tomar tantos remédios... Você estava certo.
— Eu não aguento mais ficar sem você. Parece que tá tudo errado...
— É porque você precisa se cuidar também, . E aí, quem sabe, a gente pode ter uma chance... — ela recostou a cabeça no seu ombro. A melancolia era pesarosa em sua voz. O que me diz?
— Do que?
Algum dia?
deu uma risada melancólica ao ouvir as palavras já conhecidas.
— Algum dia. — Assegurou ao responder. Deu um beijo demorado em sua testa antes de continuar: — Eu não quero ir sem você.
— Não pensa, lindo — tinha um sorrisinho irônico no rosto. — Só faz.
— Você parece uma garota propaganda da Nike.

...

Depois de ter tomado um banho frio, se alimentado e tomado um copo de café, estava sentado numa cadeira com a cabeça recostada na parede enquanto tentava dar um jeito no seu rosto. Por sorte, em todos os anos de indústria e em sua busca incessável por estar sempre perfeita, acabou se interessando por maquiagem o suficiente para dominar a técnica – e, com isso, pôde substituir Lia. Estavam num silêncio confortável já fazia algum tempo.
queria aproveitar cada segundo em que podia tê-lo por perto. Pedia aos céus que o tempo passasse mais devagar, que os minutos se arrastassem, só para que ela pudesse se agarrar à presença dele por mais um pouco. A vontade de tê-lo por perto que nunca passava – o ardor que ela tinha que conviver todos os dias. Desde que terminaram, acordava, abria os olhos, e se perguntava se aquele dia seria mais fácil. Nunca era. A sensação de que algo faltava estava sempre lá – e não era uma falta silenciosa. Era uma falta que convocava. Esbravejava. Ensurdecia.
Encontrava-o em todos os lugares. Algo perfurava seu peito apenas na menção do seu nome. Estava completamente fissurada: pensar sobre era o seu mais novo – ou antigo? – vício. O dia inteiro. Rebobinava os momentos e reassistia as cenas, perguntando-se o que poderia ter dito, o que poderia ter feito para que as coisas estivessem diferentes. Contorcia-se em rancor e vergonha de seus próprios erros. Culpava-o pelas palavras que tinha dito e as que não tinha. Mas, acima de tudo, culpava a si mesma em toda sua bagunça.
Pelo menos, em suas memórias, ainda o tinha. E o guardaria consigo.
A tortura se prolongava nos dias de gravação em que tentava ser profissional, em que tentava fingir que a imponência de sua figura não mais a afetava – por sorte, depois de tantos anos de desentendimentos, havia desenvolvido um mecanismo de defesa que lhe fazia passar pelas cenas com . Continuava sendo difícil demais. Estava acabando com a pouca saúde mental a qual tão desesperadamente se agarrava. Em que mundo seria justo que seus toques fossem técnicos? Internamente, ela se aproveitava desses momentos. Usava a justificativa de que, talvez, ele também o fizesse.
Todos os dias fantasiava em abandonar a série. Todos os dias fantasiava com o momento em que poderia declarar para seus sentimentos mais profundos.
Todos os dias desistia de ambos. Sorria, ajeitava a postura e não os deixava saber.
Imprimia o pincelar do produto com carinho na pele dele enquanto sentia os olhos de fincados sobre seu rosto ao desenhar o contorno.
— Pare de me olhar assim.
— Por que você tá aqui? — perguntou. parou por alguns segundos em que mordeu o lábio para depois responder:
— Eu já te disse.
Odiava as perguntas ambíguas que ele fazia. Eram sempre carregadas do significado das coisas que ela não lhe poderia dizer.
— Você sabe do que eu tô falando.
— Não é óbvio, ? — respondeu, a voz que estremeceu um pouco. Continuava a se dedicar à construção do seu rosto como uma forma de manter-se sã mediante ao diálogo.
Porque, para , era sim, óbvio. Em cada um de seus gestos, em cada uma de suas falas, em cada um de seus olhares. Era óbvio que o amava. Era lógico. Era coerente.
Mas o amava o suficiente para descobrir que não amava a si mesma. Não sabia como se amar. Não sabia como não se arruinar.
E o medo de arruiná-lo no processo era maior egoísmo que ardia em seu peito dizendo que o queria por perto de novo.
— Eu quero ouvir você dizer.
— Eu não posso dizer.
— Por que não?
— Porque vai ser ainda mais difícil de sair pela porta depois, .
— Isso aqui não está sendo fácil, também.
Os olhos dele, então, ganharam um desconsolo palpável. Um desconsolo que também sentia queimar. fingiu procurar qualquer outra coisa na maleta para que pudesse desviar os olhos.
— Eu não sei mais o que você espera que eu faça.
— Eu amo você, — ele disse, então. Pela primeira vez.
O coração de apertou e dilatou. Ela imediatamente parou o que estava fazendo voltou a direcionar os olhos para os dele. O significado nas íris enquanto reproduzia as palavras que sempre quis ouvir de sua boca a fizeram flutuar em seu próprio lugar. Mais uma vez, se sentiu amada por . Um calor se apossou de seu corpo. — Eu amei você desde o início.
abriu a boca para respondê-lo, mas o choque era tão paralisante que ela não conseguiu emitir nenhum som. , então, continuou:
— Eu queria ter te amado menos, . Talvez assim a gente ainda estivesse juntos.

MAIO DE 2019

sempre chamava atenção quando passava na rua. Estava acostumada. Sorria para desconhecidos com frequência, estava sempre de óculos escuros para que não notassem as olheiras e, nos momentos de maior letargia pelo uso do remédio, usava poucas palavras e tentava ser breve.
Naquele dia em especial, sentia-se motivada; havia começado o tratamento psicoterápico e psiquiátrico já faziam algumas semanas. Mais especificamente, logo depois de se encontrado com .
Acreditava que, quanto mais rápido pudesse se curar, mais rápido poderiam ficar juntos. Estava num processo lento e gradual de retirada do remédio, em que as doses eram pouco a pouco reduzidas – vivia as semanas mais difíceis de toda sua vida, com certeza, era um processo trabalhoso e massacrante, mas tentava se ocupar o máximo que podia; estava sempre trabalhando, tentando passar tempo com Alec e outros amigos, sua relação com estava em bons termos – por mais que não estivessem juntos – e a tranquilizava o fato de que podia contar com ele. Não estava sozinha. Também tinha Robert, com quem mantinha um contato carinhoso, íntimo e consistente desde aquela primeira visita – e quem vinha visitando sempre que podia. Tomou coragem e contou para ele dos problemas que vinha vivenciando, e foi acolhida com muito apoio e carinho.
Mas Diana não sabia. Diana jamais poderia saber. De nada. E surpreendia-se o fato de que estava conseguindo mantê-la distante desta outra parte de sua vida por tanto tempo.
Também havia, num surto de coragem e responsabilidade afetiva, terminado com o tal Dustin recentemente. Não por nada, mas em uma de suas sessões de terapia – a qual frequentava duas vezes na semana – descobriu em uma de suas reflexões que, se você não quer transar com alguém e se sente na obrigação de continuar transando, algo estava profundamente errado. Mas esse era só o começo do tratamento, sabia. Na maior parte dos dias, odiava profundamente o processo – mas naquele dia em especial, se sentia melhor. Estava disposta. Ansiava pela recuperação.
E por isso, naquela manhã de folga, tentou ignorar o fato de que as pessoas da cafeteria estavam sendo mais indiscretas que o normal sobre sua presença. Ouvia os cochichos, sentia os olhares e sentia-se exposta ao tomar o seu café. Uma sensação ruim lhe acometia o peito.
Sorriu levemente para a atendente depois de pegar o seu pedido e, antes de sair, ouviu risadas altas e escandalosas; virou por reflexo os olhos para onde os um grupo de rapazes se encontrava bem no momento em que eles faziam sinais obscenos e balbuciavam palavras sujas sobre seus seios. Tentou conter uma careta, estranhou, mas só revirou os olhos ao sair. Não havia muito o que fazer. Não tinha como esperar muita coisa de adolescentes estadunidenses brancos e muito provavelmente heterossexuais.
Não conseguia tirar o evento da cabeça, no entanto. Já havia sido assediada outras vezes, sim, mas não de maneira tão bruta e exposta no meio de uma cafeteria. E com isso, logo depois de entrar em casa e colocar as coisas que havia comprado em cima da mesa, pegou seu celular.
Queria não tê-lo pego. Queria não tê-lo visto.
Um milhão de mensagens e ligações de Diana e mais outro milhão de mensagens de mais de um milhão de pessoas que tentavam contatá-la naquela manhã em que ela evitava o celular para não alimentar a ansiedade com as redes sociais. Seu coração acelerou sem querer ver o conteúdo. Não queria entender o que estava acontecendo, queria sumir, queria fugir.
Era sempre o mesmo motivo. Uma fofoca tinha surgido. As pessoas estavam falando sobre ela. Não queria saber o porquê, era melhor que não soubesse. Respirou fundo. Um, dois, três, quatro.
. Vinte e dois anos. Nascida e criada na California. Atriz. 43, Beverly Hills. . Vinte e dois anos. Nascida e criada na California. Atriz. 43, Beverly Hills.
Repetia para si mesmo como um mantra um dos exercícios que a sua terapeuta a havia ensinado para conseguir manter-se em controle nos momentos de pico de ansiedade. A palpitação aumentava, a angústia apertava, suas mãos passaram a suar. Estava começando.
Com os dedos trêmulos, desbloqueou o celular. Digitou seu próprio nome no google.

Nude de , protagonista da série Good Years, é vazada e redes sociais vão à loucura. A atriz, que possivelmente teve sua conta iCloud hackeada, ainda não se posicionou sobre o assunto.

No fim da matéria, três fotos suas com tarja. Todas eram fotos pessoais que havia mandado para meses antes – afinal, não confiaria em mais ninguém no mundo para fazê-lo. E a possibilidade de que ele pudesse ter vazado qualquer uma daquelas fotos nem ao menos lhe passou pela cabeça.
sentiu as coisas girarem ao seu redor. Com toda certeza as fotos circulavam sem a tarja pelas redes sociais. Em todas, seus seios e rosto estavam expostos – em uma delas, todo o seu corpo, de frente para um espelho.
As lágrimas já corriam pelo rosto de quando a leitura da matéria foi interrompida por mais uma ligação de Diana. A palpitação se intensificou e ela rapidamente bloqueou o celular, sem conseguir dizer uma palavra. Era isso. Tudo o que havia construído por tanto tempo, tudo que fez e o que deixou de fazer, todos os anos de tortura, todo o tempo investido, tudo por água a baixo. A vontade de sumir do mundo nunca antes tão impregnada em suas vísceras.
A vulnerabilidade e a exposição eram corrosivas. A sensação de que qualquer pessoa tinha acesso, agora, à única parte de si mesma que costumava ser sua: a sua mais profunda intimidade. não tinha mais domínio algum sobre seu corpo. Estava ali, escancarada, arreganhada, aberta, pra quem quisesse ver; como ser violada pelo mundo inteiro. O seu abuso era um tópico recorrente e as pessoas faziam questão de comentá-lo e opinar sobre. Colocou as mãos no cabelo os puxou com força ao correr até o banheiro e vomitar, sem ao menos precisar colocar os dedos na garganta dessa vez. Chorava e soluçava sem conseguir levantar os olhos ao espelho: a vergonha parecia se espalhar pelo seu corpo como um veneno injetado e arranhava suas entranhas. Abraçou-se e sentou no chão do banheiro. Chorou. chorava e chorava e chorava e urrava batendo com os pés e os punhos fechados no piso de porcelanato. Contorcia e espremia seu corpo em agonia ao realizar que estava presa em sua própria pele. O seu pior castigo era carregar a si mesma por todos os dias de sua vida.
Estaria lá. Para sempre, estaria lá. Toda vez que alguém pesquisasse seu nome no Google. Toda vez que alguém mencionasse seu nome numa roda de conversa. Toda vez que fizesse audição para um novo papel. A Broadway jamais a aceitaria...
E ao pensar nisso, com os olhos vermelhos e molhados, as mãos trêmulas e um bolo na garganta, esticou seu braço até a gaveta da penteadeira do banheiro e pegou a caixinha laranja de Xanax. Amassou uma pílula, fez dela uma linha, pegou uma nota no bolso e cheirou para que a absorção fosse mais rápida. Se fosse em qualquer outro momento, teria tomado duas ou três pílulas – mas apesar da recaída, tudo que ela queria era sumir por algumas horas. Desligar-se por algumas horas. Dormir um pouco. Lidar com tudo depois.
Mais do que morrer, quis nunca ter existido, nunca ter nascido. Sonhava e fantasiava com a completa abstração – ser completamente esquecida. Desaparecer. Desconfigurar.
Quis que ninguém soubesse o seu nome, que ninguém tivesse visto seu corpo, que ninguém lembrasse de seu legado. Abraçava-se contra suas pernas como se, dessa forma, pudesse se proteger dos olhares e das opiniões. Sentia-os dentro de sua própria casa, assombrando-a, sussurrando em seu ouvido. Não havia mais lugar nenhum onde estivesse segura.
Decidiu, por fim, abrir o bloco de notas do celular e escrever tudo que lhe passava pela cabeça naquele momento, como sua terapeuta havia aconselhado. Com os dedos trêmulos e os soluços que saltavam por sua boca, começou a digitar:

“Eu queria encontrar o lirismo e a métrica de mil poemas para ver se o que eu sinto se torna bonito para alguém.
Queria conseguir organizar o caos de um fluxo de pensamentos ansiosos em uma sequência de palavras rebuscadas e tácitas afim de que alguém encontre significado em meio ao meu desespero mascarado de arte.
Queria ter a coragem de quem se mostra ao mundo sem medo de ser exatamente o que se é – a impetuosa satisfação de gozar a paz que encontra todo aquele que se entrega a si mesmo e abraça a aventura instigante que deve ser não sentir a ardente e constante urgência em desligar-se de cada pedaço de sua própria mente. A audácia de ser quem se é sem o paralisante horror de não ser amada de volta.
Eu queria não me afastar e eu queria não afastar as pessoas também quando as coisas ficam muito confusas e solitárias e intensas aqui dentro – ter a habilidade de me destravar do pânico de que alguém conheça a verdade sombria por trás do sorriso sempre aberto. Queria poder ficar e não ir embora. Queria saber fazer com que as pessoas ficassem e não fossem embora (porque eu acho que não sei mais como).
Eu apenas gostaria de saber como amar alguém sem anular a mim mesma no caminho. Como não absorver coisas ditas e deduzidas que me arruínam e me queimam de dentro pra fora e transformá-las em verdades absolutas sobre mim e sobre o mundo e deixá-las rondar meus pensamentos como quem tortura si mesmo o tempo todo. Como não me autossabotar em momentos de pressão só pra ter o gosto amargo da culpa no fundo da garganta e poder assumi-la, porque ela é minha – e eu não tenho mais nada, apesar de ter tudo – e assim poder usar isso como prova pra mim mesma em todas as minhas paranoias.
Eu gostaria de aprender a amar alguém sem anular o outro. Como tocar sem danificar permanentemente. Um deslizar de dedos que não arranhe, um escarro que não assuste. Beijos e abraços e cafunés que não confundam e que não sufoquem e não desgastem e não contaminem. Mas estraguei tudo que amei e também assisti de fora enquanto eu mesma me estragava.
, se algum dia você chegar a ler isso, saiba que eu também amo você.
Sinto muito por não ter dito isso quando tive oportunidade.”

Por fim, foi tomada por uma forte sonolência e cansaço. E quando fechou os olhos, exausta, a morte era só um pensamento.

...

acordou com o barulho ensurdecedor de sua porta sendo espancada. Com os olhos apertados e uma dor de cabeça filha da puta pela ressaca, ao dar espaço para o melhor amigo entrar, Alec falava mil coisas ao mesmo tempo.
— (...) Por que você não atende a porra do telefone? São quase duas da tarde!
Alexander parecia nervoso e esbravejava com a voz rude e grossa. Andava de um lado pro outro enquanto as palavras corriam rápidas e embaralhadas num gesticular intenso. fechou os olhos, sem conseguir acompanhá-lo, e o interrompeu:
— Puta merda, para de gritar! O que foi? O que você quer?
— Você não sabe, ? — Alec, então, pareceu engolir em seco. — Fica calmo. Ok? A gente vai dar um jeito nisso.
Seu coração apertou. O nome de lhe passou pela cabeça. Por favor, que não fosse nada com ela. Por favor, por favor, por favor...
— O que aconteceu, Alexander? Fala logo.
— Vazaram uma nude da ontem de madrugada — ele começou. Os olhos de se arregalaram instantaneamente e uma angústia inenarrável tomou conta de seu peito quando ele colocou as mãos no rosto. — A Diana achou os Xanax dela...
— Cadê a , Alec? Onde é que ela tá? A tá fazendo o tratamento certinho, ela tá melhorando...
— Não adianta agora, . A Diana já internou a .


Fim



Nota da autora: NASCEEEEU!!! Eu nem acredito que nasceu depois de um mês inteiro. O meu primeiro ficstape, minha primeira história terminada! E aí? O que me dizem? O que acharam de e ? Eu devo admitir que esse ganhou meu coração. Será que terminou aí? Será que vai ter continuação? Será que foi justa a internação da ? Comentem, me falem o que acharam, o que sentiram, pelo amor de Deus, ninguém tem noção do que eu passei pra essa história sair! HAHAHAHAHAH. Se você leu até aqui, muito obrigada. Não sei como agradecer. Essa história se tornou um pedacinho muito bonito de mim e tá doendo me despedir dela. Espero que vocês gostem também <3



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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