Enviado em: 10/01/2021

Capítulo Único

Era sabido por toda a equipe que, quanto maior o movimento do tráfego, mais cheio o pub ficaria. Fosse terça-feira ou sexta-feira, a regra funcionava da mesma forma. Enquanto arrumavam o salão para mais uma noite de trabalho, observar a avenida era um passatempo cultivado pelos funcionários. , entretanto, pouco se importava. Já havia percebido que ganhava belas dores no pescoço quando tentava olhar a rua, que ficava meio nível acima do piso do pub, na altura da grande janela lateral. Ainda assim, naquela semana, tinha resolvido que valia a pena.
era um artista. Apesar da grande facilidade com que se desdobrava entre as diversas formas de arte, qualquer um que conhecesse o garoto podia dizer que seu grande talento era a pintura. Com certa frequência, observava as figuras deveras peculiares que encontrava no caminho da escola de artes em que estudava e o pub: a parede da sua sala de estar emoldurava a imagem do grupo de drag queens ensopadas durante um temporal, saindo de um sarau num café próximo. Descobrir esses cenários criados espontaneamente era um passatempo muito mais interessante do que assistir carros na hora do rush.
No início daquela semana, no entanto, enquanto servia uma mesa próxima à janela, reparou numa criatura um tanto quanto caricata esperando, amuada que só, para atravessar a rua. pôde distinguir as calças cáqui e a pasta, mas as luzes vermelhas dos faróis dos carros ofuscaram o garçom antes que ele pudesse ver o rosto do sujeito. Desde então, sempre que podia, corria para a janela, esperando descobrir a feição do protagonista de seu próximo quadro.

Naquele momento, tudo o que queria era entrar num avião e voltar para a Alemanha. Estar de volta em Atlanta já seria desconfortável por vários motivos, mas seu chefe conseguia fazer com que estivesse sendo ainda pior do que imaginara. As catástrofes da volta foram muito além das que ele tinha se programado psicologicamente para enfrentar durante os dois anos e meio que passara fora. Cinco dias haviam se passado desde que chegara e, já que não podia se isolar com seus fósseis e amostras, o pesquisador sentia que precisava encher a cara. Era inacreditável, principalmente para ele mesmo, mas, em plena quarta-feira, saía do trabalho à procura de um bar.
Era algo normal, não era? Apesar de ser meio de semana, quartas-feiras datavam alguns dos happy hours mais agitados de Atlanta. , entretanto, era o melhor exemplo de “bom moço”: tinha se graduado com as melhores notas, conseguido o emprego dos sonhos, tinha um relacionamento feliz e estável, três gatos gordos bem cuidados e uma conduta impecável. Mas o término e a repentina, porém justificável, falta de paciência com o chefe começavam a pôr à prova os limites do rapaz.
Depois de raciocinar um pouco e voltar (ou quase) ao seu estado normal, pré-determinou algumas regras: precisava se distrair, e não encher a cara. Se deu o limite de cinco cervejas, num lugar bacana, de preferência com música ao vivo e uns bons petiscos; em hipótese alguma poderia faltar ao trabalho no dia seguinte, então deveria estar em casa, no máximo, 1h30 da manhã; e – a regra mais importante – precisaria encontrar, perto de casa, algum lugar que não tivesse frequentado com o ex-namorado. Enquanto repassava as regras na cabeça, já a caminho do apartamento em que morava, notou um movimento incomum onde costumava ser uma lojinha de discos antigos, e resolveu que o lugar era exatamente o que procurava.

Uma das vantagens de ter poucos clientes no pub era que um garçom a menos não faria falta. Em dias assim, o gerente colocava os holofotes sobre , que assumia o pequeno palco do bar com o violão surrado. Gostava de servir as mesas e conversar com os clientes, se enchendo de inspiração com as histórias mirabolantes, mas também adorava poder tocar. Ficou um pouco menos feliz quando se sentou na frente do microfone e percebeu que mal podia ver a janela, mas se conformou. Já havia decidido pintar o quadro exatamente da forma como tinha visto a cena, que, por sinal, lhe parecia bastante poética.

escolheu uma mesa bem aconchegada num cantinho do pub e se sentou, ajeitando a pasta de couro sintético na cadeira ao lado. Chamou um garçom, pediu uma cerveja artesanal bastante maltada e uma porção de alguma coisa que parecia bonita na foto. Pensou em pegar um livro ou um caderno de anotações, mas desistiu quando ouviu a aparelhagem de som sendo ligada. Não que fosse de remoer o passado, mas estando ali, se lembrou de quantas vezes quis ir a lugares mais agradáveis do que os enjoativos bares de esportes que o ex-namorado tanto amava. Respirou fundo por alguns segundos, não permitindo que as emoções acumuladas tomassem conta de si.
Por mais que tudo parecesse bem, o casal chegou num ponto decisivo em que os caminhos não se cruzavam mais, e decidiram que seria melhor para ambos se seguissem separados. A viagem a trabalho para a Alemanha tinha vindo no melhor momento possível: havia anos que queria conhecer o sítio arqueológico de Solnhofen, e, logo após o rompimento, sair de Atlanta para arejar a cabeça era tudo o que ele precisava. Foi lá que percebera que não sentia mais nada pelo antigo parceiro, mas não estava disposto a voltar à rotina e reencontrar as pessoas e lugares que marcaram os tantos anos que passaram juntos.
As primeiras notas do violão trouxeram de volta para o presente. Por um tempo, ficou de olhos fechados, relaxando das discussões quase incessantes no trabalho durante aquela semana. Poucas coisas eram mais confortáveis do que uma boa comida, acompanhada de voz e violão na meia luz, e o rapaz queria aproveitar ao máximo. O jazz suave e embalado ganhou a sua atenção, e, ao focar o olhar no músico, percebeu que os planos de chegar cedo em casa e não faltar no trabalho foram por água abaixo. não sairia dali enquanto aquele garoto tocasse.

Quase no meio do expediente, já sabia que o moço do casaco de tweed o observava. Normalmente, era uma sensação desagradável que se tornava irritante com o tempo, mas algo naquele sujeito não o incomodava. Era uma imagem familiar, mas o garçom não tinha tempo, entre uma música e outra, de vasculhar na memória e sanar a dúvida. De todo modo, o mistério era divertido e instigante, e gostava daquilo.
Quando não aguentava mais a fome e a vontade louca de ir ao banheiro, anunciou um intervalo e desceu no palco, e o CD de música ambiente voltou a tocar baixinho. Enquanto comia, tentou analisar aquela figura cativante no canto do pub: de tão icônica que era, não foi difícil associar ao moço de calças cáqui na esquina. Se perdeu um pouquinho na própria criatividade e imaginou o rapaz andando por estantes intermináveis de livros, com óculos redondos sem armação, estabanado e afobado com alguma coisa nova que estava descobrindo. Depois olhou de novo, com mais calma, e resolveu que até os óculos redondos ficariam bem naquele rosto tão belo.

Entre a meia noite e as duas da manhã, e brincaram com a atenção um do outro. mandava, vez ou outra, uma cerveja para , que retribuía com cara e bocas em deleite a cada música que começava. Riam sozinhos e se sentiam dois adolescentes, amadurecidos em sentimento e boemia. fechou a conta enquanto desmontava os aparelhos. Quando levantou os olhos, não viu mais o casaco estranho de tweed, e não pôde deixar de ficar chateado. Sorriu de novo, porém, quando lhe trouxeram o bilhete que foi entregue junto com o cartão de crédito: “Me encontre lá fora”.

Meet me outside above ground
I see you on your way
I'll be with you someday, someday ♪♫


Fim



Nota da autora: Oiê!!
Obrigada por terem lido até aqui.

Above Ground é parte de um projeto de cinco fanfics curtinhas com os membros do grupo de kpop EXO, baseadas em músicas homônimas da cantora Norah Jones.
Um salve para as SuLay shippers por ai hahahah essa fanfic é um retrato de como eu vejo esses dois, e eu amo ela de paixão!
O Projeto Norah Jones é um xodozinho meu, e eu espero de coração que vocês tenham gostado ♥





Se quiserem ler mais produtos da minha imaginação destrambelhada, essas são minhas outras fanfics no site:

Outras fanfics do Projeto Norah Jones:
Sunrise: KPOP - EXO - Shortfics
She’s 22: KPOP - EXO - Shortfics
Don’t Know Why: KPOP - EXO - Shortfics
Good Morning: KPOP - EXO - Shortfics

Outras publicações:
Be the Light: Originais - Finalizadas
01. SOS: Ficstape #175 - Jonas Brothers: Jonas Brothers
03. Royals: Ficstape #158 - Lorde: Pure Heroine



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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