After the Moment


Última atualização: 22/05/2021

Prólogo

A vida de não era nada incomum. Morava na periferia de São Paulo, Zona Sul, com a mãe. Estava no último ano do curso de História e não conseguia estágio nem em escola particular de bairro. O seu plano de carreira era entrar no mestrado e torcer para virar divulgadora científica celebridade. Por sorte aquela noite tinha conseguido pegar o trem no horário certo e conseguiu um lugar na janela. Estava sonolenta, mas alerta — desceria na próxima estação.
Estação Primavera-Interlagos — disse a voz metálica. —Desembarque pelo lado esquerdo do trem.
— Licença — murmurou à senhora que estava sentada ao seu lado e levantou em direção às portas do trem que estavam prestes a se abrir. Estava exausta, os pés pareciam estar em carne viva dentro do tênis, mas mesmo assim preferiu descer às escadas comum em vez da rolante. Nos fones de ouvido um podcast sobre geopolítica lhe tomava a atenção. Ao passar das catracas foi tomada pela pequena multidão que ocupava as calçadas da estação da CPTM: ambulantes vendendo fones de ouvido, chocolates e salgadinhos, uma senhora vendendo milho com manteiga e um grupo de testemunhas de Jeová. Atravessou a avenida em direção à travessa onde morava, já imaginando o banho quente que tomaria. Sua mochila estava pesada, bem como sua cabeça. Nos últimos dias tinha estado numa espécie de episódio depressivo: todo o esforço para passar no vestibular da FUVEST não parecia ter valido a pena, afinal, estava longe de ter um emprego, que dirá ser uma historiadora. E estava solteira desde a formatura no ensino médio — quatro anos atrás. Beijava alguém eventualmente, mas era um tanto difícil conhecer alguém legal sendo heterossexual no lugar com mais esquerdomachos por metro quadrado em São Paulo. A jovem foi tirada de seu devaneio com a vibração do celular no bolso: pela barra de notificações notou que se tratava de um e-mail de seu orientador de pesquisa. era também monitora da disciplina de História Moderna II, ministrada por Hideo Mizushima, uma espécie de mentor para a garota. Era um dos maiores pesquisadores na área de História da Ciência na América Latina e, se tudo saísse como planejado, seguiria com sua pesquisa na pós-graduação. Ao menos era isso que pretendia, passando dias e dias na biblioteca produzindo seu projeto de mestrado. No e-mail, seu professor enviava a correção da primeira parte do projeto e lhe pedia para enviar aos alunos a avaliação de História Moderna. Ela apressou o passo quando sentiu pesadas gotas de chuva em seus braços e cabelos e rapidamente avistou sua casa e já com as chaves em mãos abriu o portão, conseguindo por fim fugir da chuva. Fortes trovões ressoavam quando ela entrou dentro de casa, encontrando a televisão ligada no SPTV e sua mãe na cozinha.
— Boa noite — saudou ela, chamando atenção da mãe. — Chegou cedo.
— Você que chegou tarde, — disse a mãe. — Como foi na faculdade?
— Ah, o mesmo de sempre… Escrevendo o projeto, respondendo e-mails de alunos… E no escritório?
— Mais um episódio de The Office — brincou a mais velha. — Você acredita que a Patrícia ligou dizendo que ia faltar porque estava doente e era mentira? Ela esqueceu de bloquear os stories no Instagram e postou foto na praia.
— E o que o João falou disso?
— Ficou furioso, claro, mas duvido que vá demiti-la. Capaz de só tirar um dia de folga dela — riu a mãe enquanto ralava cenouras. — Vá tomar um banho que logo a janta estará pronta.
nem respondeu. Foi em direção ao seu quarto já se livrando de tudo. Jogou a bolsa na cadeira, tirou as botas e os jeans. De camiseta e calcinha foi até o banheiro onde se livrou de todas as roupas para finalmente tomar uma ducha. A água morna parecia acariciar seu corpo cansado, mas jamais relaxá-la: no auge dos seus 22 anos via seus amigos - e antigos colegas de turma do ensino médio - iniciarem suas carreiras e vidas adultas, enquanto a única expectativa que ela parecia ter é que com certeza seria o próprio Tuco da sua Grande Família.
Era seu sonho seguir a carreira acadêmica, mas sabia que esse não era um sonho rentável, sobretudo para aqueles que, como ela, não são herdeiros. É claro, tem um quê de subversão insistir na academia sendo pobre, mas como tudo que é contrário à ordem, era inseguro e causava ansiedade. Ela esfregou seus cabelos com o shampoo com cheiro de frutas vermelhas enquanto pensava em seu futuro. Ao mesmo tempo que se via como uma bem-sucedida funcionária pública, professora universitária bebendo vinho na França, sabia que as chances de ser desempregada dependente da aposentadoria da mãe eram muito maiores.
Antes que enlouquecesse, a jovem resolveu sair do banho, respirou fundo e voltou ao quarto onde pegou uma camiseta de dormir e vestiu, enrolando a toalha no cabelo e rumando à cozinha. Ao menos tinha mandioca frita e salada de palmito. era vegetariana.
— Hum, estava com vontade de comer palmito — disse a menina, enchendo o prato com a salada. Antes que a jovem pudesse falar mais alguma coisa, a cozinha se iluminou com o brilho de um raio e logo em seguida o barulho ensurdecedor de um trovão fez parecer que a terra tremera. — Capaz de cair a energia.
— Nem fala uma coisa dessas, . Ainda preciso colocar roupa na máquina — disse Cristina para a filha. Os raios continuavam a iluminar a casa seguidos pelos pesados trovões enquanto a jovem lia o e-mail enviado pelo professor Mizushima ao mesmo tempo que comia um pedaço de mandioca frita.
— Eu só tenho mais um mês para terminar o projeto até a faculdade abrir o processo seletivo do mestrado — reclamou a mais nova. — Desse jeito não vou conseguir.
— Não fala isso, filhoca — disse a mais velha. — Você não conseguiu entrar na USP quase sem estudar?
— Ah, mas agora é outro esquema, mãe. Agora é sobre continuar na USP… A régua é bem diferente para medir os pesquisadores.
— Mas se não fosse o caso, o seu professor não apostaria tanto em você, .
— Mãe, você precisa parar de agir como se eu fosse melhor que os outros — disse a filha, rindo. — Assim vou me tornar uma arrogante.
— Não é mentira, é? Olha seus coleguinhas do ensino fundamental, ! Nenhum passou em universidade pública…
— Mas isso não diz muito, mãe! — riu.
— A única forma de ser bem-sucedido nesse país, ao meu ver, é estudar em universidade pública ou vencer no BBB. Não é o caso de nenhuma daquelas suas amiguinhas da escola, né?
— Bem, meus amigos do ensino médio também estudam na USP, mãe…
— Sim, não estava falando deles. Vocês todos são os melhores, sem discussão.
sorriu, feliz pela confiança da mãe. A jovem não compartilhava suas inseguranças com Cristina, não depois de ter batido o pé aos dezoito anos afirmando que iria cursar História. Achava melhor que a mãe pensasse que a vida acadêmica era garantia de chegar aos 30 ganhando vinte mil por mês, ou então era capaz de começar um problema muito maior. Caso conseguisse uma bolsa estadual iria tentar dividir um apartamento por aí, talvez para dar o pontapé inicial e quem sabe começar sua vida fora da asa da mãe. Crescer era horrível e complicado, ainda mais nessas condições. Tinha vinte e poucos anos e nenhuma perspectiva de futuro como cerca de 98% dos jovens que conhecia. Tentava não pensar nisso com frequência ou entraria em colapso.
— Bem, nesse caso, se eu não conseguir entrar no mestrado, tentarei entrar no Big Brother.

*

Naquela noite os sonhos de foram insanos. Os trovões faziam as vezes de trilha sonora e a garota transpirava de tanto mover-se. Na sua mente, um emaranhado de vidas que ela jamais viveu, pessoas que jamais conheceu e sentimentos que jamais sentiu. Parecia presa em um delírio febril, incapaz de acordar. A tempestade ressoava no telhado e nas janelas, seria uma daquelas que lembra os paulistanos do porquê não é uma boa ideia impermeabilizar uma cidade inteira. Foi no momento que o trovão ressoou que acordou, em desespero, toda suada. Seu coração batia acelerado, ela estava cansada como se tivesse corrido uma maratona. Chuvas assim eram assustadoras mesmo para alguém da sua idade, pensou ela. Quando acendeu a lanterna do celular percebeu que os lençóis úmidos e cobertores jaziam no chão do quarto e decidiu que talvez fosse uma boa levantar para arrumar tudo e lavar o rosto, mesmo que fosse tirar parte do skincare noturno. Ela acendeu poucas luzes para não acordar a mãe, então a ida no banheiro foi iluminada apenas pelos ocasionais raios que faziam a espinha de arrepiar, mesmo sendo uma cética convicta. Molhou o rosto e olhou-se no espelho rapidamente. O cabelo ondulado estava bagunçado e a expressão, cansada. Secou a face na toalha do lavabo e voltou ao quarto, fechando a porta atrás de si. Jogou o cobertor bordô e os travesseiros em cima da escrivaninha enquanto esticava novamente os lençóis na cama de solteiro. Seu coração ainda estava acelerado depois de tantas imagens aleatórias em seus sonhos e a chuva ainda caía lá fora. Decidiu por fim fazer um chá calmante, ou então não dormiria. Foi até a cozinha, onde as janelas eram maiores e viu a magnitude da tempestade. Amanhã a cidade estará um caos. Enquanto via a caneca rodar dentro do micro-ondas, pegou a caixinha azul de chá e pegou um sachê, o qual colocou em sua caneca favorita estampada com uma América Latina invertida de Torres García. Tomou um susto com o alerta que os dois minutos e meio já haviam passado. Colocou o sachê de chá na caneca e se dirigiu ao quarto, apoiando a xícara fumegante em cima de sua mesa de cabeceira enquanto terminava de arrumar a cama. Por fim acendeu novamente a lanterna do celular antes de ir correndo apagar a luz do quarto, mas isso não foi necessário: mais um relâmpago e antes mesmo do trovão a luz se apagou sozinha, indicando que a energia tinha caído. Clássico.
Ela desligou a lanterna do celular para salvar bateria e sentou na cama para tomar seu chá no escuro. O quarto estava um breu, não conseguia enxergar nem a xícara em sua mão e por isso tratou de finalizar a bebida, devolvendo a xícara à mesinha ao lado da cama e se enfiou embaixo do cobertor vermelho escuro para dormir. O sono a envolveu rapidamente, agora sem sonhos. Por isso ela só acordou com o bipe do despertador e o cheiro de café. Levantou e estava rodeada por um macio edredon cinza. O quarto estava claro e só quando esfregou os olhos foi que percebeu que não estava em sua casa.



Capítulo 1: Let’s get lost

caiu de novo na cama de olhos fechados, pois só poderia ser mais um sonho insano. Quando levantou novamente, no entanto, tudo parecia igual. O barulho de avenida vinha das enormes janelas na parede à frente, havia barulho na cozinha e um cheiro gostoso de café. Ela estava numa cama de casal que certamente dividia com alguém, um gigante cobertor cinza a cobria. A decoração do local era minimalista, nada de postais na parede como costumava haver no seu quarto. Ela levantou da cama e notou o chão de taco brilhoso. Lá fora não havia sinal da grande tempestade de ontem, o Sol brilhava e uma dezena de outros prédios compunham a paisagem de sua janela. Só podia ser um daqueles sonhos lúcidos.
— Bom dia, amor — disse uma voz conhecida. Quando ela se virou, encontrou um sem camisa segurando duas canecas. Não era uma visão ruim, mas não poderia de forma alguma ser real. era um de seus amigos de ensino médio e apesar de ela ter sim uma queda por ele, nunca rolou. Nunca teve coragem de flertar, que dirá acordar com um “bom dia, amor” vindo dele.
? O que você está fazendo aqui? — Perguntou ela, falando pela primeira vez. Não sabia como acordar.
— Hoje trabalho de casa, amor — explicou ele, estendendo a caneca azul para ela. — Dormiu bem?
— Não, na verdade não. Aquela chuva toda me fez ter uns sonhos loucos — admitiu .
— As janelas grandes têm suas desvantagens — ele deu de ombros. — Você não está atrasada para o trabalho?
— Eu… não tenho aula hoje — disse ela. Precisava acordar. Acorda, acorda, acorda, repetia em sua mente. Nada acontecia.
— Aula? — disse ele, confuso. — Tá fazendo algum curso?
— ‘Tô terminando a faculdade, ! — disse ela, desesperada. Para melhorar a situação, o seu amigo começou a rir.
— Ok, já entendi que você está de mau humor hoje! Desculpa, meu dengo — disse ele, dando um beijo na testa dela. — Vou fazer um café da manhã para ti, tá bem?
— Obrigada — sussurrou ela, pegando o celular que jazia na mesa de cabeceira em que acordou. O sensor reconheceu sua digital e desbloqueou o aparelho. Ela abriu a galeria encontrando uma série de fotos dela com , fotos que ela jamais tirou. Fotos beijando-o, fotos em restaurantes chiques. Fotos em viagens. Fotos de momentos que ela nunca tinha vivido. Novas mensagens pipocavam na barra de notificações do telefone. Ela abriu o aplicativo de conversas e, para sua surpresa, nada do grupo de orientandos do professor Mizushima, nada de suas conversas com , sua melhor amiga. No lugar disso, um grupo chamado “devs” tinha dezoito mensagens não lidas. Cerca de sete delas mencionavam . Ela bloqueou o celular e se jogou na cama novamente na tentativa de acordar em seu quarto. Mas nada acontecia.
, você tá bem? — perguntou , genuinamente preocupado. Ele trazia consigo um prato com pães de queijo quentinhos.
— Não — admitiu ela. — O que aconteceu? Por que você está aqui? Como eu vim parar aqui?
— Já disse, meu amor, hoje trabalho de casa. Mas você não parece bem para ir trampar hoje, pelo visto. Avisa que não vai hoje, tenta fazer de casa.
Ela se distraiu com o café da manhã sob um olhar atento de um ainda sem camisa.
— Como a gente começou, você lembra? — Perguntou ela, tentando entender o que acontecia.
— No dia da formatura na ETEC você contou que tinha sido você quem tinha enviado o correio elegante naquela festa junina. Eu não conseguia acreditar. Era meu sonho virando realidade, então fui com calma e te chamei para irmos ao cinema. E fomos! Estudamos juntos para FUVEST por um ano, passamos juntos. Nem te dei a chance de conhecer os caras da faculdade, te pedi em namoro no dia da matrícula, lembra? Estava me matriculando no seu coração e torcendo pra ter vaga — ele riu. — Eu me apaixonei por você naquelas tardes de estudo, sabe? Você não tem ideia do quanto eu estudei Química só para te ajudar.
— E na faculdade… — começou e antes de dizer qualquer coisa ele pareceu entender.
— Você fazendo curso e faculdade ao mesmo tempo, eu estagiando e na faculdade… Quase não nos víamos. Foi quando eu resolvi que precisávamos morar juntos. Eu precisava te ter comigo antes de dormir e ao acordar.
— Isso tudo parece bom demais para ser verdade — admitiu a moça.
— Mas é real. Acho que somos o 1% da nossa geração que tem emprego e uma vida. E eu sou grato demais por dividir a minha com você, amor.
— Eu… Preciso ir na USP — falou e franziu o cenho. — Preciso ver algo lá, um documento.
— Pensei que não usasse seu diploma — disse ele, confuso. —Você está pensando em voltar pra História?
— Não… Não é isso, só preciso desse documento mesmo — mentiu ela. Talvez se vivesse seu dia normal conseguisse voltar à sua vida. — E eu também precisava falar com a .
— Com a ? Vocês voltaram a se falar?
— Não? — perguntou , confusa. — Talvez seja a hora, não acha?
— É, acho que seria bom para vocês. Desde que brigaram a dinâmica do grupo ficou um pouco estranha. É ruim nos vermos tão pouco só porque vocês decidiram brigar por algo tão infantil.
— É, talvez seja hora de consertar isso — murmurou , pensando o que teria acontecido. Em sua vida, nunca havia brigado com , nenhuma vez! Elas eram melhores amigas desde o primeiro ano do ensino médio e dividiam alegrias e frustrações. Mas, pensando bem, seria até injusto que a deste mundo tivesse um puta emprego, um namorado perfeito e uma melhor amiga incrível. E fosse financeiramente independente!
a observava com uma certa curiosidade, sem entender o que se passava com a namorada. era normalmente mais organizada que ele, acordava antes do despertador, corria e fazia yoga antes de se preparar para o trabalho, enquanto hoje estava sonolenta e confusa, como se estivesse perdida em devaneios. Não queria ser desesperado, mas ficou levemente preocupado. Sua era o tipo de mulher que tem o que quer. Ela conquistava tudo com sua teimosia e planejamento, era absurdo. Era uma das pessoas que mais admirava na vida e com quem tinha a sorte de viver sua vida, ainda com o plus de ter sua vida organizada pela namorada. Ele odiava vê-la perdida assim — já tinham passado por um momento destes quando ambos estavam no terceiro ano da graduação: percebera que a vida acadêmica não era o mar de rosas que pensava e acabou por desistir. Até se encontrar na programação foram meses de ansiedade e medo do futuro. Sentimentos que vivera quase como se fossem seus, tamanha a proximidade entre ele e a namorada. Sentia a moça assim novamente, como se estivesse de volta àquele limbo.
, ‘cê sabe que pode contar comigo pro que for, não sabe? Eu te conheço, você parece meio… perdida. Não vou forçar, sei que você gosta de ficar quietinha quando tá assim. Mas eu ‘tô com você, sempre. — disse com um sorriso tão genuíno que fez sentir inveja de si mesma. Imagina só, ser amada daquele jeito por aquele homem. Ela quis dizer que não era a dele, mas não conseguiu. Daria um jeito naquilo o quanto antes.
— Obrigada, amor — murmurou ela, torcendo para a daquele mundo também curtir apelidos clichê.
— Te amo, linda — disse ele, dando um beijo na bochecha dela e abraçando-a em seguida.
— Eu também, lindo… Desde o primeiro dia de aula no ensino médio, eu acho — disse , de forma tão natural que a assustou. Ele deu uma risada deliciosa e saiu do quarto, deixando-a sozinha com seus pensamentos e um celular cheio de notificações. Primeiro, ela decidiu avisar no grupo - que só poderia ser do trabalho - que não iria poder ir hoje. Inventou uma doença (inofensiva) e cortou o assunto. Depois, buscou o número de e percebeu que definitivamente havia algo de errado com a daquele universo: não havia uma conversa das duas no WhatsApp. Elas aparentemente só se falavam pessoalmente nos raros encontros do grupo do ensino médio. respirou fundo e digitou a mensagem:

Oi. Preciso de sua ajuda.

A mensagem foi visualizada quase que instantaneamente e a amiga digitou várias vezes sem jamais enviar. Por fim, o “online” embaixo de seu nome sumiu. bloqueou o celular e se arrastou até o banheiro. cantarolava baixinho enquanto arrumava sua mesa de trabalho na sala. sorriu de leve, desejando que aquela fosse a sua vida.

*

Quando saiu do banho, teve uma série de surpresas. Seu guarda-roupas nesse universo não era o de um figurino de série adolescente da Netflix. Aquela se vestia de forma despojada e adulta, ao mesmo tempo. Gostava de vestidos, cores primárias e cardigãs. Depois de buscar uma combinação que fizesse sentido, pegou uma bolsa que parecia estar em uso ( adulta não usava mochilas e as ecobags eram apenas para mercado, aparentemente) e conferiu se lá estava tudo que precisava para sair. Aparentemente sua versão bem-sucedida também não dirigia - o que foi um alívio -, já que na bolsa estava um Bilhete Único e um guarda-chuva: o kit para paulistanos de transporte público. Quando pegou o celular na mesa de cabeceira, tinha respondido, finalmente:

Óbvio que vc me chamaria pra pedir ajuda. Pq eu não me surpreendo?

revirou os olhos e digitou uma resposta

É sério. Podemos almoçar juntas hoje? Pessoalmente te explico tudo.

visualizou na hora e logo respondeu.

Espero n me arrepender.
12h15 no Farofa.

não tinha ideia de onde era o Farofa, mas descobriria.

Obrigada! Até mais :)

A amiga não respondeu nada. suspirou e fechou a porta do quarto, chamando atenção de , que tirou os olhos da tela do notebook e sorriu.
— Vou ver aquele documento na USP e de lá vou encontrar a . Vamos almoçar juntas, me deseje sorte! —disse ela, desejando mesmo que tivesse sorte.
— Uau, isso que é avanço! Espero que dê tudo certo, . Depois me conte como foi, qualquer coisa vou lá te encontrar.
— Muito obrigada, meu bem — disse ela, sorrindo. Ele se levantou e a puxou para um abraço deliciosamente confortável. Na sua vida havia abraçado poucas vezes, então não tinha parâmetro, mas ali parecia casa. A outra tinha sorte.
— Te amo — sussurrou ele, arrancando um sorriso dela. Ela poderia se acostumar com aquela visão.
— Também te amo. — disse ela, saindo do abraço lentamente e pegando na mão dele antes de finalmente sair. Quando fechou a porta do apartamento (de número 96), descobriu que estavam no nono andar de um prédio relativamente antigo, porém com elevador. Apesar disso, ela preferiu pegar as escadas de emergência para descer, de tão agitada que estava. Antes de chegar ao sétimo andar já estava chorando copiosamente, sem saber exatamente porquê. Seu peito apertava por estar vivendo aquela vida que muito provavelmente era uma fantasia. Chorava porque aquilo tudo estava errado e mesmo estando consciente disso, sentiria a dor de perder aquilo quando voltasse para sua vida e percebesse que não tinha nada. Chorava porque se sentia perdida e sabia que ninguém acreditaria nela. Chorava porque tinha medo de fazer algo que estragasse a vida daquela outra que muito provavelmente estava tendo que lidar com fichamentos de História Moderna e um projeto de mestrado.
No quinto andar, não tinha mais fôlego — graças ao sedentarismo e ao choro — então pegou o elevador, que estava vazio, e assim permaneceu até o térreo. Ela pegou o celular e abriu no Mapa, pois não tinha ideia de onde morava. Descobriu que estava em Pinheiros - claro, tudo fazia sentido agora: o piso de taco, as janelas grandes e as roupas no seu guarda-roupas, e que o caminho até a Universidade seria tranquilo. A primeira vitória do dia é que conhecia boa parte daqueles ônibus com traseira laranja da Zona Oeste e não se perderia. Atravessou a avenida até chegar na parada de ônibus (típica das regiões mais centrais, que estava no meio da avenida e não na calçada) até ver o primeiro letreiro que indicava a Estação Butantã. Entrou no veículo e conseguiu sentar (segunda vitória) e prestou atenção ao caminho: morava numa avenida, tinha uma série de coisas por perto e bem localizada em termos de transporte público. Via as estações da linha amarela passarem lá fora, o ônibus atravessou um viaduto e estavam na Avenida Vital Brasil. deu sinal, se sentindo confortável porque pela primeira vez naquele dia sentia que sabia onde estava, e desceu no terminal Butantã, indo até o ponto final do Circular 3. O motorista mencionou que ela poderia entrar no ônibus parado e assim ela fez. Era quase como se ela estivesse vivendo um dia normal da sua vida, se não fosse pelo fato de não estar na sua vida.

*

A segunda parada do 8032 era na Biblioteca Brasiliana, onde descia todos os dias. Era confortável estar dentro da Cidade Universitária, lá não tinha como ser diferente. Era como uma casa. Ela desceu do ônibus e atravessou a avenida, subindo as escadas até chegar ao estacionamento da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Por todos os cantos haviam rodinhas de amigos, pessoas que ela não conhecia, mas que poderia conhecer. O senhor que vendia livros antigos na calçada, amigos sentados no morrinho comendo cachorro-quente e bebendo refrigerante. E o Vão: o prédio da História e Geografia, sua segunda casa nos últimos cinco anos. Os krafts pendurados do mezanino, os times da atlética conversando, a fila da xerox. Ela se sentiu nostálgica mesmo tendo estado ali menos de vinte e quatro horas antes, reconheceu pessoas da sua vida “normal”, mas evitou qualquer diálogo. Subiu a rampa em direção às salas dos professores, precisava falar com seu orientador, precisava ver o quão diferente era aquela vida. A sala do professor Mizushima era a última de todas e o corredor estava vazio. Quando chegou, encontrou Stela, a outra monitora de História Moderna e sua colega de pesquisa.
— Stela! —chamou ela, sorrindo. — Oi!
— Oi — respondeu a moça, estranhando aquela interação. — Algum problema?
— Eu preciso falar com o Mizushima — disse , e a outra moça franziu o cenho.
— Você marcou com ele? — perguntou Stela. — Você é a… Mariana, né? Que desistiu da História e virou programadora?
Claro. A daquele universo não era monitora de História Moderna ou pesquisadora de História da Ciência. Ela não passava as tardes discutindo textos com Stela. Ela era uma mera colega de curso que tinha se desviado do caminho da turma.
! Mas é, sou… Eu estava pensando em começar um mestrado — falou, sendo sincera, Quase deu risada.
— Mas ‘cê pretende voltar para História? — perguntou Stela, trancando a porta da sala do professor e se encaminhando para uma das mesas que tinha ali por perto. a seguiu.
— Não sei… Só pensei nisso hoje e pensei em passar aqui.
— Deve ser foda — disse a moça, espalhando uma série de trabalhos de alunos na mesa. — Programar. Às vezes me arrependo de ter escolhido o caminho pela afinidade, acho que nem em cinco anos estarei ganhando o que você ganha.
— Provavelmente estará ganhando mais! Funcionária pública e tal — brincou . Stela deu de ombros, não acreditando naquilo. entendia bem sua frustração, afinal não era programadora, era graduanda em História e sem nenhuma perspectiva de ter um emprego ruim, que dirá ser funcionária pública.
— Bem, tente marcar com o professor por e-mail, ele é meio chato com agenda e afins — sabia bem disso: sua expectativa é que ela ainda fosse monitora de Moderna, o que não parecia ser o caso. — E eu teria um pré-projeto antes de pedir orientação, ou ele pode não aceitar.
assentiu, mas sabia que não ia fazer nada daquilo.
— Escuta, Stela, você sabe onde fica o restaurante Farofa? — perguntou a moça, mudando de assunto. Não queria pensar mais naquilo, pelo menos não agora. Talvez a ajudasse — como sempre fazia — e ela conseguisse voltar à sua vida normal.
—Acho que fica perto da Fradique — pensou Stela, pegando o celular e abrindo no Mapa. —Isso mesmo, fica bem do lado da estação Fradique Coutinho. Um encontro?
— Sim, com uma amiga da época da escola. Estamos tentando fazer as pazes.
— Espero que dê tudo certo, — disse Stela, sentando à mesa e ligando seu notebook. — Eu adoraria poder conversar mais, mas essas atividades não irão se corrigir sozinhas! Olha, qualquer coisa me manda uma mensagem, posso te ajudar com o projeto.
— Claro, claro. Eu adoraria — disse , passando em seguida seu telefone para a antiga colega. Era bizarro, para dizer o mínimo, conversar com Stela como se não a conhecesse. Ela se despediu da colega e também da faculdade e todos seus sons. Se sentia em casa ali, mas sabia que não era mais o lugar da que ela interpretava agora. Aquela não se vestia como o pessoal de lá, não se identificava com o pessoal de lá. Os estudantes que preenchiam o Vão da História e Geografia a encaravam, quase como se soubessem que ela não pertencia àquele lugar. questionou-se se voltaria a se encaixar.
Foi andando até o ponto de ônibus onde passava todos os dias. Estava vazio, afinal, as aulas de boa parte dos cursos da FFLCH só eram ministradas nos períodos vespertino e noturno. O Circular não demorou a chegar e entrou, quase se despedindo da Universidade de São Paulo. Não conhecia as memórias que essa tinha da faculdade, então pensou em tudo que viveu nos últimos anos lá dentro. Os altos e baixos, as aprovações e reprovações, os sims e os nãos, os curtíssimos romances, os corações partidos e as paqueras jamais desenvolvidas. Toda a sua jornada de pesquisadora. Ela observava os prédios por onde o ônibus passava, lembrando de todas as outras centenas de vezes que passara por esses mesmos edifícios sem olhar. Gostaria de saber o que tinha levado a que ela incorporava a desistir de tudo isso. Sabia quais motivos, mas queria entender o que poderia tê-la feito jogar tudo pro alto. Algo teria acontecido ou ela simplesmente acordou e percebeu que não pertencia mais àquele lugar? Teria uma história ou fora algo repentino? Ela gostaria de poder conversar com essa , conhecer sua história e suas motivações. Mas não era possível, então teria que vivê-la. E talvez a desse universo pudesse ajudá-la.
O ônibus parou no terminal e desceu, indo em direção às escadas rolantes que levavam à estação Butantã da Linha 4. Sentiu seu celular vibrar e viu mensagens de na notificação:

Boa sorte com a :)
Qualquer coisa me avisa que vou te buscar (tá um saco no trabalho, mesmo)
Te amo

E uma figurinha de gatinho. sorriu e passou na catraca, descendo até a plataforma em seguida. Era estranho estar numa vida que não era a sua - perguntava-se se a programadora estava corrigindo atividades de História Moderna em outro universo ou se essa outra sequer existia. Ela sempre gostou dos livros de realismo mágico e agora parecia estar vivendo em um: era assustador e apesar de tudo, gostaria de voltar para casa, afinal, não sabia o que ia acontecer em seguida. Não que em sua vida normal ela tivesse muita ideia do futuro, mas a partir do momento em que estava vivendo uma vida que não era a sua, o futuro estava muito além do seu controle. Ela suspirou e notou que o trem estava chegando na plataforma e deu uma corridinha até a primeira porta automática que viu. O trem estava relativamente cheio, jovens de uniforme sobretudo, e entrou, encostando-se na porta oposta, o coração acelerado para ver a melhor amiga. Se perguntava o que tinha acontecido e se seria capaz de consertar, porque não conseguia se imaginar sem a ajuda e o apoio de . O trem anunciou a estação com o mesmo saxofone da sua vida normal, e desceu, caminhando devagar até a escada rolante, em que parou no lado direito. Respondeu a mensagem do namorado.

Vou te avisar, não se preocupe, seu fofoqueiro
Até mais <3

E em seguida abriu a conversa com a amiga.

Já estou na Fradique.
Te encontro onde?

visualizou na mesma hora e respondeu

Já cheguei e tô na mesa.

apressou o passo e por fim saiu da estação, encontrando uma calçada lotada. Grupos de escritórios com suas camisas sociais azuis e crachás no pescoço, mulheres vestidas de social e uns jovens com cara de estagiário. Logo viu a entrada do restaurante, tomado pelos funcionários de escritórios da Faria Lima e, um pouco perdida, buscou pela amiga na multidão. Tamanha foi a surpresa ao encontrar uma adulta. Em seu mundo, se vestia como quando era adolescente, com camisetas de filmes da Marvel e cabelo colorido, mas não essa: essa tinha o cabelo rente à cabeça e se vestia básica, com jeans e camiseta. Nenhum acessório, unhas curtas e sem esmalte.
— Oi — cumprimentou , tirando o foco da amiga do telefone. — Gostei do seu cabelo.
— Muito obrigada — respondeu ela, passando a mão na cabeça de forma involuntária. — Há quanto tempo.
— Acho que nunca nos conhecemos — disse , deixando a outra confusa.
— É isso que você pensa da nossa amizade? Se tiver vindo aqui para brigar, , me avisa, porque eu tenho mais o que fazer.
… Eu não sou a que você conhece. Por isso te pedi ajuda. Eu acordei nessa vida que não é a minha e eu não sei o que fazer.
— Puta merda, você acha que eu sou idiota? Você me chamou aqui para reclamar da vida? Depois de anos sem nos falarmos? — disse , rindo de nervoso. — Isso só pode ser brincadeira.
— Eu ‘tô falando sério, . Você me conhece, acha que eu te procuraria nesse desespero todo se não fosse urgente? Eu nunca briguei com você! Eu não sou a com quem você brigou! Ontem eu fui dormir no meu quarto na casa da minha mãe, sem emprego e sem perspectiva, escrevendo um projeto de mestrado e torcendo para conseguir um emprego como historiadora! No meu mundo, você tem cabelo roxo e é ilustradora, nós nunca brigamos! No meu mundo eu nunca me declarei para o , mas aqui estamos nós! Eu acordei nessa vida e não sei o que fazer. — disse , externalizando seus sentimentos pela primeira vez aquele dia. A outra a observava, atônita, sem saber o que dizer. Parecia uma grande piada de mal gosto, é claro, mas a que ela conhecia não seria criativa para pensar em tudo aquilo.
— Então você tá me dizendo que viajou no tempo-espaço? Que veio de outro universo? — disse , rindo.
Antes que pudesse responder, um garçom chegou à mesa, desejando boa tarde e perguntando os pedidos. pediu um suco de maracujá e a salada à moda da casa, enquanto escolheu um refrigerante e filé com batata frita. Algumas coisas não deviam mudar, mesmo em universos diferentes. O garçom se retirou com os pedidos e pensou que sim, parecia absurdo quando falava em voz alta, mas era o que tinha acontecido.
— Sim, é isso que estou dizendo — disse, séria. — Eu fui dormir e acabou a energia. Quando acordei, estava na casa do e com um emprego de programadora. Eu nem sei o que faz um programador, .
— Olha, , eu adoraria acreditar nisso e embarcar numa grande aventura meio sci-fi, mas não consigo acreditar nisso. Você devia procurar um terapeuta.
, você acha que eu já não pensei que estivesse louca? Mas não estou! Foi isso que aconteceu e você me pareceu a única pessoa crédula o bastante para me ajudar. Eu não sei o que aconteceu entre você e a sua , mas eu não tenho nada a ver com isso! Eu só preciso de ajuda para sair dessa insanidade.
— Cara, eu realmente queria acreditar nisso, mas é maluquice demais — suspirou . — Mas fico feliz que tenha inventado essa maluquice para gente voltar a conversar.
bufou, não era invenção, antes fosse. Mas não insistiria nisso ou então era capaz de a levar direto para um sanatório. Ou até mesmo contar para .
— Como tá sua vida? — perguntou , derrotada. Pelo menos conseguiria ter a amiga próxima, mesmo que ela não acreditasse na história.
— Bem, tenho uma cirurgia logo mais! As três, por isso marquei cedo — explicou . Era médica? Isso explicava a ausência de acessórios. — E você? Quando você e o vão se casar?
— Não sei — disse , rindo. Estava torcendo para que a amiga não perguntasse nada que não soubesse responder.
— Até hoje é inacreditável ver você trabalhando com programação… Lembro da Marcela comentar uma vez sobre, rimos um pouco, você sempre foi toda multitask, é bizarro como você é boa em quase tudo que se propõe, menos em conversar, é claro. — disse , rindo.
— Ninguém é perfeito, nem eu — deu de ombros, fazendo a amiga rir. O garçom voltou com os pratos e as duas passaram os próximos trinta minutos rindo de uma série de coisas. tomava cuidado com a fofoca, é claro, afinal já sabia bem que as coisas da sua outra vida não tinham necessariamente acontecido nesta vida. Estava mais ouvindo que falando, tentava apreender o máximo possível de informações.
— Lembro de um dos últimos churrascos com o pessoal que o Otávio estava completamente bêbado e se declarou para garota que ele era afim na época, só porque era o primeiro rolê que você e iam de casal oficialmente. — disse . — Acho que por mais que eu acredite em quase todos os relacionamentos, o de vocês é incomparável. É como se vocês tivessem sido feitos um pro outro.
— Ah, que é isso. Acho que só nos conectamos bem, estamos na mesma frequência. — respondeu , pensando no namorado que não era seu.
— Nem vem, vocês são perfeitos. Eu não sou de amar casais heterossexuais, e vocês são a única exceção! Você sabe que, apesar desse tempo distante, eu sempre ficava feliz de ver vocês felizes.
sorriu, triste, e torceu para que não percebesse. Era estranho estar se passando por ela mesma, fingindo que tinha vivido todos esses momentos. Apesar de ter suas próprias lembranças incríveis da sua outra vida, ela se sentia estranhamente nostálgica, quase triste, por não conhecer aquelas memórias de uma outra vida. Continuou comendo com a amiga e pensou que a original ia odiar saber que se transformou em uma adulta comum.



Capítulo 2: A mask of my own face

Quando voltou para casa, descobriu que e ela eram cheios de hábitos e rotinas bem marcadas. Passara boa parte da tarde passeando pelo Shopping Eldorado, enquanto tomava um sundae de caramelo com o dinheiro de sua versão bem-sucedida, tentando evitar viver sua realidade. Adentrando o apartamento, encontrou um vestido com calça de flanela e uma camiseta estampada com “BIXO ECONOMIA FEA-USP” nas costas. Ele parecia estar cozinhando.
— Oi, cheguei — disse ela, animada. Cara! Era muito fácil se acostumar com essa vida.
— Oi, meu dengo — disse ele, tirando a panela do fogo e indo abraçá-la. — Como foram as coisas com a ?
— Foram bem, acho que somos amigas de novo — disse , genuinamente feliz. Claro que ainda lhe era estranho ter que voltar a ser amiga de , mas por ora estava tentando arrumar a bagunça dessa antes de pensar em sua situação. — E como foi o seu dia?
— O mesmo de sempre… Trabalho de corno para mim, mil reuniões online… Pelo menos consegui terminar tudo cedo para te fazer uma pizza. De brócolis, cogumelos e gorgonzola, mesmo que não faça sentido.
Então eles eram do tipo de gente que comia queijo gorgonzola em dias comuns? Provavelmente o vinho barato deles não era Cantinho do Vale.
— Uau, mal posso esperar! - disse a jovem, certa de que se acostumaria fácil com aquela vida. E consciente de que não deveria.
Depois dos vinte, a vida de tinha começado a ser pautada, em grande parte, pela ansiedade. Estava começando aquela fase da vida em que os colegas de escola estão casando e tendo filhos ou sendo enviados para o exterior por conta do emprego ou só sendo super bem-sucedidos em pelo menos um âmbito de suas existências. E havia . Sua última grande conquista fora ser aprovada no super concorrido vestibular da Universidade de São Paulo - o que, na vida adulta, não tem o mesmo significado que no cursinho pré-vestibular. Ela não tivera um relacionamento sério, não fez um mochilão na Europa e sequer teve um emprego. Vivia de bolsas de pesquisa e da própria faculdade e fingia que no futuro as coisas seriam melhores. Mas o futuro chegava a cada dia e nada de perspectivas mais animadoras.
— Eu vou tomar um banho antes do jantar, amor — anunciou a garota, sem esperar uma resposta. Foi até o quarto, onde deixou sua bolsa e seguiu até o banheiro ainda totalmente vestida. Só queria chorar sem que visse, para evitar mentiras. Viver aquela vida era mais torturante que viver um sonho, precisava se lembrar o tempo todo que não sabia o motivo de estar ali, se ficaria lá para sempre, se sequer estava viva! Era como na infância, quando ia passar o final de semana com o pai no condomínio de classe média com piscina, playground e casas bonitas, para depois voltar para a periferia onde morava com a mãe, sem piscina, playground ou casas bonitas. Ela crescera achando que se estudasse bastante viveria uma vida diferente e agora, por algum erro bizarro na matrix estava vivendo uma vida que lhe parecia ideal e sabia que voltar para a realidade seria ainda pior que voltar para casa domingo à noite.
No banheiro, sentou-se no vaso e finalmente soltou todo o choro que segurava desde a manhã. Durante toda a sua adolescência como leitora de fantasia e autora de fanfics nunca pensou que viveria algo assim. Nas histórias que lia, sempre pensava que as preocupações dos protagonistas eram infundadas - “eu jamais gostaria de voltar para minha vida normal se eu me tornasse heroína de uma fantasia” pensava. Hoje, era exatamente isso que estava acontecendo e tudo que ela queria era voltar para sua casa antes que essa vida nova se solidificasse o bastante para lhe fazer falta.

*

Quando abriu a porta do banheiro, o apartamento todo cheirava a comida. deu uma última olhada no espelho para conferir se ainda estava com o rosto inchado de chorar (não estava) e por fim saiu. não estava à vista e ela foi correndo até o quarto, onde buscou algo confortável no guarda-roupa. Estava evitando o celular para não precisar olhar ou responder mensagens, mas ao mesmo tempo queria stalkear a si mesma para descobrir novas informações. Sentia-se terrivelmente sozinha e enquanto passava o delicioso (e caro) perfume cuja marca era francesa, decidiu contar a o que estava acontecendo. Não era justo enganá-lo e trair a si mesma. Por isso respirou fundo e por fim saiu do quarto. O apartamento não era minúsculo e, além disso, eles não tinham uma sala de estar propriamente dita: por isso, cabia uma pequena mesa de jantar próxima à mesa de trabalho de . Um sofá pequeno e um tapete azul compunham o ambiente. Na mesa, uma garrafa de vinho - que, definitivamente não era Cantinho do Vale - e uma forma de pizza simples se combinava ao vinho caro e às taças bonitas. voltou da cozinha com pratos e sorriu para .
— Eu diria que dessa vez me superei! — disse ele, com as covinhas ressaltadas pelo sorriso. quase se derreteu e à sua mente veio uma lembrança que sequer lembrava de ter.

Oito anos atrás, no mundo original

sempre foi uma pessoa pontual, adiantada, até. Odiava chegar em cima da hora nos lugares e, por isso, estava na escola quase sempre às 7h, mesmo que as aulas só começassem às 7h30. Nesse intervalo gostava de tomar um chocolate quente, ler um livro ou fofocar com as amigas. Quando ela chegou na sala de aula esta parecia vazia. Estava acostumada a ficar sozinha lá, só com mochilas aleatórias. Sentou-se na penúltima carteira da fileira da janela enquanto esperava o chocolate esfriar, e aproveitou para tirar os cadernos e o estojo da mochila. Enquanto organizava seus materiais, vozes masculinas lhe chamaram a atenção. Saldanha e Otávio Marins comentavam algo sobre testar slides do seminário. A primeira aula seria de Filosofia.
— Bom dia, — disse Otávio, como dizia todos os dias. Ele também chegava cedo.
— Bom dia, Otávio — respondeu ela, animada. — Oi, .
deixou sua mochila em seu lugar e foi até a mesa de , cumprimentando-a com um beijo no rosto.
— Oi, — disse ele, lindo. Desde o primeiro dia de aula o achava o cara mais bonito da turma, além de ser engraçado (na maioria das vezes) e adoravelmente simpático. Ela temeu que ele percebesse as batidas desenfreadas de seu coração, que retumbavam em seus ouvidos.
— Vão apresentar trabalho? — perguntou ela, como se não soubesse a ordem dos seminários de cor.
— Vamos, infelizmente — respondeu Otávio, já sentado à frente do computador da mesa do professor. — Sobre Foucalt. Qual o seu tema?
— Existencialismo, Sartre… Essas coisas. — murmurou , lembrando-se que na próxima semana sua vez de ganhar uma nota máxima ou ir direto para a recuperação, de acordo com o humor instável de Orlando, o professor de Filosofia.
— Foda — respondeu Otávio, enquanto sacava da mochila um pen-drive. — Vai logo, , antes que o Orlando chegue.
— Calma, porra — disse , rindo. — Olha seus modos perto da .
— A é brother, duvido que ela se importe. — disse Otávio. — Né, ?
— Tudo tranquilo aqui — respondeu ela, rindo. Antes que eles pudessem respondê-la, entrou na sala. Os cabelos pretos estavam com mechas roxas, os olhos com muita maquiagem.
— Você tá parecendo uma Monster High — observou . A amiga jogou a mochila no chão e sorriu, abraçando .
— Era a intenção — disse ela. — Eu quero um salgado. Alguém vai comigo na cantina? Otávio?
— Beleza — respondeu Otávio, saindo do lugar do professor e recebendo um abraço apertado de . Eles dois saíram da sala, deixando e sozinhos. “Quanta sutileza.” pensou , se concentrando no seu chocolate quente (ou melhor: chocolate morno).
— Vai dar tudo certo — disse ela, por fim. — Torcerei para o Orlando estar bem humorado.
— Ah, obrigado — disse , novamente com aquele sorriso maravilhoso. O sorriso de acabaria com guerras. — Não gosto de contar com a sorte, mas vou confiar em você.
Eles sorriram um pro outro e nada mais foi dito. era totalmente contra a cultura de que só o homem podia tomar iniciativa, mas toda vez que conversava com Saldanha seu cérebro parecia virar geleia. Muito açúcar e zero consistência. E ela não tinha certeza se ele tinha vontade de falar com ela, então não se esforçava para puxar assunto. No que pareceram horas, os dois ficaram num silêncio confortável, sendo a digitação eventual de o único ruído na sala. Quando o sinal estava perto de tocar os demais alunos começaram a adentrar a sala, preenchendo-a com conversas animadas, ao mesmo tempo que o professor, que tinha em seu rosto uma expressão indecifrável.
— Bom dia, pessoal — cumprimentou ele. — Hoje a apresentação vai ser comandada por quem?
— Por nós — disse Otávio, sendo seguido pelos outros membros do grupo. Eles todos eram amigos inseparáveis, sempre juntos falando de jogos e outras mil coisas que não entendia. — Vamos falar sobre Foucalt.
estava sentado à mesa do professor cuidando dos slides e estava observando-o em sua expressão séria. Ouviam-se eventuais burburinhos, algumas piadas sem graça, enquanto Otávio, Andrei e Matheus apresentavam. estava perdida em pensamentos quando percebeu que Saldanha havia deixado a mesa e começava a apresentar sua parte, com uma voz calma, as mãos gesticulando levemente. Ele era incrível e adoraria poder beijá-lo e sentir seu cheiro e…
— A apresentação deve estar muito boa mesmo — resmungou Orlando, levantando-se da carteira onde estava sentado. — Tão boa que a mocinha ali tá em outro mundo.
sentiu um cutucão de e logo recuperou sua compostura, sentando ereta e desviando o olhar de .
— Está ótima, professor — murmurou ela, fazendo com que cuspisse uma risada.
— Então você pode resumir o que foi falado? — Perguntou Orlando, ansioso pelo erro de . Para a infelicidade dele, ela tinha o irritante hábito de ler sobre Filosofia, porque aos dezesseis todo adolescente quer ser culto.
— Para Foucalt, as instituições são meios para a sociedade abusar do seu poder. Escolas, por exemplo, seriam formas de domesticar as crianças aos moldes do que se considera correto. — respondeu e deixou outros alunos decepcionados, já que esperavam a clássica humilhação semanal promovida por Orlando.
O professor não falou nada, apenas deu a ordem que os meninos prosseguissem. pode jurar que viu um sorriso de antes dele continuar seu seminário.

*

, tá ouvindo? — acenou , rindo. De repente, estava de volta à sala do apartamento. O cheiro da pizza invadiu seu olfato e seu estômago se mexeu. servia vinho nas taças.
— Desculpa — disse ela, envergonhada. — Lembrei de um negócio. Uma apresentação de seminário na escola, um dia que quase morri só com seu sorriso.
Ele riu ainda mais, o que deixou as pernas dela mais bambas. Eles eram amigos e estava acostumada às conversas e brincadeiras de , mas não estava nem um pouco pronta para o flerte descarado dele.
— Eu sei bem disso, Cortez. Eu passei boa parte do terceirão bobo com sua beleza. Lembro quando você pintou o cabelo de loiro e mesmo assim você estava linda, ainda mais quando fazia aquelas duas tranças.
de fato fora loira e usava tranças. Se perguntou se o de seu mundo pensava o mesmo. E foi esse pensamento que trouxe as seguintes palavras a sua boca:
, precisamos conversar.
parou, em pé ao lado da mesa, com a garrafa de vinho na mão. Ele fez para que sentasse e após ela o fazer, também sentou. Ele serviu pizza para ela e empurrou a taça em sua direção.
— Fale — disse ele. estava paralisado. Desde cedo a namorada estava estranha: faltou ao trabalho e passou o dia fora. Estavam juntos há quase oito anos e já tiveram conversas sérias, mas nunca ela tinha estado tão estranha. virou a taça de vinho de uma vez.
— Eu não sou sua namorada — disse ela. Ele não se moveu. — Quer dizer, eu não pertenço à essa vida. Ontem eu fui dormir e estava no último ano do curso de História, você e eu éramos apenas amigos. Hoje eu acordei e… tudo isso aconteceu. Eu não sei como, mas eu vim de outro mundo.
ficou parado pelo que pareceu uma eternidade encarando . Foi o tempo dela se servir de mais uma taça de vinho - que, inclusive, era sensacional - e bebê-la inteira. Só então explodiu numa risada.
— Cara, essa foi boa demais — disse ele, ainda rindo. — Sério, essa quase me pegou. Admito que ‘tô surpreso com a organização, desde cedo você tá trabalhando para eu te achar estranha. Foi braba demais. Vou precisar de muito esforço pra superar.
… Não é uma brincadeira — disse ela, séria. Deu uma mordida na pizza - que também estava sensacional -, afinal, estava faminta. — Eu realmente não sei como vim parar aqui.
— Não, claro, eu entendo. Isso faz todo o sentido, na real — falou , sério. respirou fundo, aliviada por alguém tê-la levado a sério. — Você realmente não deve fazer parte desse mundo… Gostosa desse jeito, não tem mesmo como você pertencer ao “mundo normal”.
sorriu, derrotada, enquanto ria de si mesmo. É claro que ele levaria na piada. Ele sempre gostou de rir.

*

Assim como Gregor Samsa em A Metamorfose, de Kafka, Cortez havia acordado num corpo que não era o seu. Felizmente não tinha virado uma barata gigante, mas algo também bastante traumático: uma versão super bem-sucedida de si mesma. Fora dormir na noite anterior esperando que acordasse novamente em seu quarto de paredes cobertas de fotos e pôsteres, mas na manhã de sábado foi despertada por um cheio de energia.
— Amor, você não vai levantar não? Logo o sol vai estar forte demais para correr — disse ele, já vestido em roupas esportivas. era incapaz de dizer não, então levantou-se e foi direto ao banheiro, onde lavou o rosto e, enquanto fazia xixi, escovava os dentes, pensando no tanto de coisas que não sabia sobre si mesma. Desde quando ela levantava cedo, em pleno sábado, para correr? Tirando seu maior problema atual: seu emprego. Como ela iria trabalhar se não sabia nem baixar uma série em Torrent (ou seria pelo Torrent? Ou do Torrent?)
Por fim, saiu do banheiro e voltou ao quarto, onde pegou no guarda-roupas uma camiseta e um short, calçou meias e um tênis esportivo que parecia caro. Não tinha ideia de como iria correr com , já que só sabia correr para conseguir um lugar no trem quando este parava na Estação Pinheiros, mas desejou que ao menos o Universo lhe concedesse o mínimo de condicionamento físico para não desmaiar no meio da cidade. Na cozinha, enchia uma garrafa de água e separara um cacho de uvas para , que se perguntava como ele poderia ser exatamente o que ela sonhava.
Quando finalmente os dois saíram, percebeu que estava em muita desvantagem. corria de forma contínua, não veloz como um profissional, mas rápido o bastante para deixar a garota cansada. Ele riu e diminuiu o ritmo.
— Ué, o que deu em você? Vai me deixar vencer? — riu ele. sorriu sem graça.
— Fiquei sedentária do dia para noite — disse ela, rindo da veracidade da própria piada. não entendeu totalmente, mas também riu. Após respirar fundo numa pausa, apoiada nos joelhos, eles finalmente encontraram um ritmo confortável para ela e seguiram pelas ruas menos movimentadas do bairro. Pessoas passeando com cães ou praticando exercícios ocupavam as calçadas e constantemente lhes cumprimentavam com “bom dia”. Até então, exercícios físicos sábado às 6h da manhã pareciam ótimos, mas não sabia dizer se era o efeito da endorfina do esporte ou o “efeito ”, que em cerca de 24h já havia conquistado-a.
— Estava pensando nas suas férias — disse . — De irmos para a casa da minha avó em Minas. O que acha?
— Bem… Eu acho incrível, ia amar! — disse , sinceramente e sem saber se de fato iria a tal viagem.
— Eu imaginei — disse ele, sorrindo. Claro, vamos esperar um tempo até agosto, mas eu não ia conseguir ficar sem contar. Até porque, depois de sete anos juntos, isso nem é algo tão grande, né? Você já conhece a família e já conquistou todo mundo.
sorriu de desespero, afinal, não conhecia a família e não tinha conquistado ninguém! Mas, novamente, preferiu pensar que era um problema da do Futuro e que logo sua situação dimensional estaria resolvida.
— Bem, já estou ansiosa por isso! — disse ela. sorriu e apertou a mão da namorada. Ela só conseguia se arrepender de nunca ter falado com ele quando ainda estava na sua vida.

Oito anos atrás, no mundo original.

As festas juninas eram as únicas festas permitidas na escola desde que um aluno de outra turma, menor de idade, havia entrado em coma alcoólico numa festa que, em tese, a bebida mais forte seria energético barato. Dessa forma, esse era o evento mais esperado por todos, já que era na festa junina que as paqueras se desenrolavam, que gente estranha aparecia na escola onde todos se conheciam e claro, que os alunos desempenhavam cerca de 90% das tarefas. estava vestindo seus jeans rasgados, um par de All Stars vermelhos, camiseta do Joy Division e jaqueta de couro. Apesar de ela nunca admitir isso, adorava que pensassem nela como hipster. E era ela, a garota de jaqueta de couro, que estava vendendo refrigerante na barraca de bebidas, eventualmente supervisionada pela professora Lu, de matemática.
! Foco aqui! — dizia a professora. — Não quero troco errado, hein!
— Beleza, professora — murmurava ela, enquanto observava ele.
Saldanha, com camisa xadrez e um moletom de zíper por cima. Muito provavelmente falando de algum jogo online. Era bizarro como a cabeça dela conseguia fazer tudo parecer um filme brega, com um zoom absurdo no rosto dele, o som ambiente substituído pelo instrumental de Careless Whisper, os movimentos dele em câmera lenta e…
— Oi! ! Eu quero uma água! — exclamava , enfatizando cada uma das palavras irritantemente. Nesse momento, exatamente como aconteceria num filme, toda a cena se desfez e a garota percebeu que uma pequena fila se formou na barraca.
— Quem é o monstro que toma água em festa? — Questionou — São dois reais a garrafa. Mas sei lá, você sabe que pode ir no bebedouro, né? O governo de São Paulo ainda não tirou a água das escolas estaduais.
— Usar o bebedouro é tipo beijar todo mundo da escola, só que sem a parte do beijo, só com as bactérias e saliva. — Explicou , séria. — E, com “beijar todo mundo da escola” eu quero dizer beijar todos os homens da escola também! O que seria horrível demais para mim.
riu e entregou a garrafa para a amiga, que sentou no banquinho onde deveria haver um professor supervisionando a festa. continuou atendendo todos os alunos, amigos e eventuais pais que estavam na mini-fila.
— Seguindo sua lógica, é quase como se eu tivesse beijado o , né? — refletiu . quase engasgou ao rir com a boca cheia de água.
— Cara, você tem dezessete anos! Sei que gostava de ler esses livros água com açúcar, mas tipo… Por que você não manda um correio elegante para ele? Posso pagar por dez minutos para prender vocês dois na cadeia!
A cadeia, claro, era o lugar para pegação. Muito provavelmente, os professores concordaram que seria melhor que isso acontecesse em um lugar “monitorado”.
— Não! — disse . — Eu vou mandar um correio elegante para ele. Deixa só acabar meu turno.
O último da fila era Otávio, um dos grandes amigos de . ergueu as sobrancelhas rapidamente quando o viu.
— E aí, Otávio? — disse .
— Oi, , oi, . Tem sprite? - perguntou ele. No que fez que sim com a cabeça, ele já deixou o dinheiro certinho na caixa de madeira que estava aberta. — Você devia fechar isso, dá para roubar muito facilmente enquanto vocês conversam. Não acho que a Lu ia ficar feliz com isso.
— É, ‘cê tem razão — disse , fechando a caixa logo antes de entregar a latinha verde para ele.
— Ei, Otávio — chamou . — O tem algum par na festa? Ou tá afim de alguém?
Otávio olhou para o amigo - acompanhado por - antes de responder.
— Acompanhado não, mas acho que ele tá afim de alguém. Só não sei quem, o puto não fala. — disse ele, rindo. — Depois colem lá, trouxemos Uno.
— Beleza — responderam elas, juntas. desanimou visivelmente e percebeu.
— Eu não vou falar nada — declarou, sem olhar para a amiga. Não precisava ser um expert em para saber que ela estava querendo chorar — Eu já tenho o não e não preciso da humilhação.
— Cara, você nem sabe se é sério! Às vezes ele só inventou isso pros caras não encherem ele. E claro, ele pode gostar de você também, sabe… — disse ela.
— Sim, claro! — disse — Gosta tanto que nem fala comigo direito! Não é como se ele nunca tivesse tido a oportunidade de falar “e aí, , sou afim de você!”!
— Você teve as mesmas oportunidades e não falou nada! — rebateu , com o brilho da razão. — Ele pode não ter ideia de que você gosta dele porque veja bem, você nunca falou nada! Vocês héteros são patéticos.
— Desculpa se eu não sou como você, que nunca leva um fora! — disse , já com a voz embargada. Antes que a amiga pudesse falar qualquer coisa, uma voz a interrompeu.
— Chega de conversa paralela, vocês duas! — disse Lu. — , eu me certifiquei que você não estaria numa barraca próxima da justamente para evitar distração!
— Eu já estava indo, pro. Só vim pegar uma água - disse a moça, saindo e deixando sozinha com a professora. Aproveitando que não havia ninguém para ser servido e que a professora estava conferindo o caixa, pegou seu celular e com a péssima internet portátil disponível, abriu o Twitter pelo navegador e publicou:
“QUE ÓDIO!!! Eu odeio a minha vida :(“

*

Como eram um casal muito equilibrado, após o treino, sugeriu que passassem na feira e comprassem pastéis e caldo de cana, ideia que foi acatada com muita felicidade por . Enquanto caminhavam para casa de mãos dadas e com as sacolinhas cor-de-rosa transparentes com pastéis e garrafinhas de caldo de cana, percebeu que estava confortável. Apesar de querer saber o que tinha acontecido, ela não tinha certeza se seria mais feliz se voltasse para sua vida. Naquele momento, é como se estivesse num roleplay, ou vivendo uma fanfic antes de dormir. E por mais assustador que tudo isso parecesse, havia momentos em que ela quase esquecia que não era essa , bem-sucedida, feliz e que morava num bairro onde brunchs eram comuns. Viver essa vida a lembrava de seu primeiro ano na USP, quando se sentia livre para ser uma nova pessoa, viver uma nova narrativa. E era desse jeito que se sentia: num lugar novo, um infinito de possibilidades a serem exploradas. Apesar de, racionalmente, saber que deveria pensar em formas de voltar para a sua vida, o sorriso de e a sua vida dos sonhos eram inebriantes demais para serem ignorados. , vez ou outra, imaginava como seria sua vida se voltasse no tempo e enviasse o tal correio elegante para . E o Universo tinha, gentilmente, permitido que ela tivesse um vislumbre de como seria se tivesse feito escolhas diferentes. Ela só não sabia o preço de tamanha gentileza.





Continua...



Nota da autora: Oi, gente! Esqueci de deixar uma nota no último capítulo, acho que é falta de costume :) sempre gostei de me imaginar em universos paralelos e, em um ano de quarentena, tive essa ideia. After the moment veio quase completa na minha mente e resolvi escrever. Tem muitos elementos baseados na minha vida (minha faculdade, por exemplo, pra deixar tudo mais real) e um monte de maluquices da minha mente. Inclusive, cada capítulo corresponde à uma música. espero que gostem dessa aventura <3
Playlist: after the moment - craft spells
lets get lost - beck, bat for lashes
a mask of my own face - lemon demon

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Nota da beta: Eu acho que rolava sim um sentimento do por ela, a forma como ele teve cuidado com ela lá na sala de aula deu para perceber. Aiii, e eles são muito maravilhosos juntos. Gostei do paralelo passado/presente para explicar algumas coisinhas. Enfim, estou ansiosa pelo próximo, amando muito.
Ps: não acreditando nela foi tudo kkkkk, coitada.

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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