Última atualização: 05/06/2021

Prólogo


Europa, 2021.

Ela sabia que já fazia quinze minutos que estava encarando seu laptop e tamborilando os dedos no teclado. Uma última vez, respirou fundo e fechou os olhos para se concentrar. Quando os abriu novamente, suas mãos já se moviam sozinhas. Então, ela escreveu.

"Por muito tempo, eu não soube exatamente onde minha história havia começado. Talvez em algum momento da infância, enquanto eu e meu tio vibrávamos com o futebol na TV. Ou quando fui pela primeira vez em um museu, iniciando ali meu amor pela Arte. Ou será que foi quando iniciei a faculdade de Jornalismo, mesmo sabendo que dividia o coração com a História? Por muito tempo, acreditei que aquilo tudo havia começado no meu último dia no Brasil, enquanto eu me despedia da minha mãe torcendo para que meu pai aparecesse no aeroporto de Guarulhos para me dar um abraço. Mas ele não apareceu. Demorei para acreditar, mas ele falava sério quando dizia que, se eu fosse para a França com uma ideia ‘boba’ daquelas, poderia esquecer que ele existia. Depois de muito tempo, finalmente descobri quando foi que minha história começou. Foi no exato momento em que pousei a França, no exato segundo em que prometi a mim mesma que enquanto estivesse em Paris tentaria aproveitar ao máximo tudo que a vida me oferecesse, ao invés de focar só no trabalho. Eu havia me dedicado e sacrificado muito para realizar aquele sonho, e enquanto o Aéroport Paris - Charles de Gaulle me recebia de braços abertos e sorrisos simpáticos, eu soube que aquele era meu momento de aproveitar a vida e receber do universo tudo de bom que eu havia plantado."

— Quando você vai falar de mim? — perguntou de repente, fazendo a garota dar um pulo.
— O quê? — questionou distraída, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha e tentando fazer com que sua concentração não sumisse por completo.
— Você já escreveu várias coisas e ainda não falou de mim. — ele explicou. Mesmo que estivesse de costas, ela sabia que ele estava se aproximando. Pelo barulho que fazia ao se mexer na cama, é claro, mas também por sentir toda aquela eletricidade que percorria seu corpo toda vez que ele se aproximava, mesmo depois de tanto tempo. Sorriu quando apoiou a cabeça em seu ombro, abraçando-a levemente pela cintura.
— Como você sabe o que eu escrevi? Você nem estava aqui.
— Você fala escrevendo, amor. Você leu cada palavra que digitou. Mas não foge da minha pergunta. — mesmo sem vê-lo, ela que sabia que o jogador estava emburrado. — Quando vou aparecer na história?
, eu acabei de começar. Ainda tem muito tempo pra você aparecer.
— Mas o livro é sobre nós dois! — ele protestou, fazendo-a rir.
— Eu sei, mi amor, mas eu preciso contar sobre tudo. Eu nem sempre estive com você, e essa parte da história é importante também.
— Hum. Tudo bem. Entendi. — apesar de ouvi-lo concordando, o conhecia bem o suficiente para saber que ainda não estava satisfeito. — Mas e quando vou aparecer? Vai demorar? — ele indagou, baixinho, depois de alguns segundos em silêncio. Ela gargalhou, sabendo que estivera certa.
Lentamente, ela esticou a mão para trás e o jogou para o lado. Ela sabia que tinha muita força, então apenas pegando-o desprevenido para ganhar dele no corpo-a-corpo.
, se você não me deixar escrever, não vai aparecer nunca na história. Agora da licença, dá. Vai jogar aquele joguinho no celular.
— Certo — ele resmungou, se jogando na cama. — Vou dormir.

Ele permaneceu alguns minutos em silêncio, enquanto a garota tentava recuperar a concentração e as palavras rápidas e sinceras que com ela vinham.

— Será que quando eu acordar já vou ter aparecido? — indagou de repente, desconcentrando mais uma vez, fazendo-a jogar um travesseiro em sua direção.
— Vamos lá, . — a garota sussurrou. — É só escrever com o coração. E ignorar o fato de que milhares de pessoas vão conhecer detalhes super íntimos da sua vida. — a risadinha debochada e solidária de seu namorado foi a última coisa que ouviu antes de embarcar novamente em suas próprias lembranças.


Capítulo 1


Musée Cognacq-Jay, Paris. 14 de fevereiro de 2020.

Excusez moi, — disse timidamente, levantando a mão. — acho que essa informação está errada. — Pronto, pausa dramática. Ela odiava aquela pausa, momento em que todos desviam o olhar das esculturas apenas para encará-la. E quase nunca de maneira encorajadora.
Pardon? — a jovem guia do museu sussurrou, com um sorriso amarelo estampado em seu rosto. Lá vamos nós.

Era quinta-feira. Fazia quatro semanas que estava em Paris e, naquela manhã especificamente muito fria, a garota estava em seu museu favorito vendo uma de suas exposições favoritas.
Tudo ia bem até eu abrir minha bendita boca, a garota pensou. Respirou fundo, ciente de que todos a encaravam curiosamente, e apontou lentamente para a obra em questão.

— Este vaso — ela disse, mostrando uma das esculturas que havia visto inúmeras vezes naquele mês. — Você disse que é de 1943. Ele, na verdade, é de 1957.
— Receio que você é quem esteja enganada — a guia murmurou, parecendo desconcertada. Ela claramente sabia que não estava certa, e, de repente, sentiu-se por mal por tê-la questionado. Ela estava apenas tentando fazer seu trabalho. A garota estava prestes a inventar uma desculpa qualquer e ir para outra parte do museu quando foi interrompida.

Angelle Leblanc, que encarava a cena, não pôde deixar de olhar com admiração para a jovem claramente turista. Obviamente, a Arte a interessava.

— Na verdade, essa jovem está certa. — Angelle declarou de repente, fazendo todos virarem em sua direção. Ela adorava esses momentos. Notou alguns olhares surpresos e alguns comentários de reconhecimento, mas a jovem turista não esboçou reação. — Eu apenas gostaria de saber como é que você sabe a data de criação dessa obra e a proclama com tanta certeza.

encarou com curiosidade aquela mulher loira que, de tão elegante, parecia fazer parte do próprio museu. Já havia reparado nela ao entrar na saleta; ela conversava com um homem de terno em voz baixa, e tanto sua pose quanto suas vestes impecáveis deixavam claro que ela era alguém importante, apesar de não parecer muito mais velha que a garota. respirou fundo mais uma vez, ciente de que todos ainda a encaravam e, por fim, respondeu:

— Eu fiz um curso de especialização em obras parisienses. Lembro-me perfeitamente das obras desse museu e, além disso, tenho facilidade em recordar datas.
— Perfeito. — a mulher loira sussurrou. notou que seus olhos brilhavam. — Seu sotaque é muito carregado. — ela disse, de repente. A garota ouviu algumas pessoas murmurando e, pega de surpresa, foi incapaz disfarçar a expressão não muito satisfeita. — Não há necessidade dessa carinha desgostosa. Você é bonita. Não feche a expressão assim, vai ficar com rugas cedo demais. — Angelle comentou, abanando a mão no rosto de , como se estivesse limpando algo. — Além do mais, gosto do sotaque. Soa natural. De onde você é?
— Sou brasileira. Estou em Paris há um mês, madame.
— Ótimo! — a loira parecia repentinamente satisfeita e chegou a esboçar um leve sorriso, o que apenas serviu para deixar mais intrigada. — Como é seu nome? O que você fazia no Brasil?
— Me chamo . — respondeu, pausadamente. — Eu terminei a faculdade. — sabia que poderia se esforçar um pouco para ser simpática, mas não entendia o motivo de estar sendo interrogada e também não conseguia esquecer dos pelo menos vinte pares de olhos que a encaravam. — Sou formada em Jornalismo e, no meu último ano na faculdade, trabalhei na redação de um jornal em minha cidade.
Mon Dieu, mas isso é perfeito! — Angelle definitivamente estava sorrindo. Ela se orgulhava de ser uma das mulheres mais centradas que conhecia, com a postura sempre impecável. Mas naquele momento, em que o seu pedido parecia estar sendo atendido pelos céus... Ela se daria ao momento de distribuir mais sorrisos do que o usual. — Esse curso sobre obras parisienses que você disse que fez, foi apenas um?

balançou negativamente a cabeça, ainda desconfortável.

— Já participei de muitos cursos sobre a Arte e História francesa, alguns aqui em Paris, inclusive. Também sou formada em Fotografia Fine Art. — esclareceu.
— Brilhante. Brilhante. Você conseguiria juntar todas essas informações em um résumé? Eu apenas precisaria saber um pouco sobre você e suas qualificações profissionais.
Pardon, — a garota disse, ajeitando uma mecha teimosa de cabelo atrás da orelha. — não estou entendendo. O que está acontecendo?

Angelle encarou a garota brasileira por alguns segundos, arqueando a sobrancelha. A garota não sabia se a intenção da mulher era intimidá-la, mas ela estava quase conseguindo.

— Você não sabe quem eu sou.

Não soou como uma pergunta, mas resolveu responder.

— Não, madame. Desculpe-me, mas não sei.

Para a surpresa de todos, a elegante loira riu, batendo palmas.

— Oh, mas isso é perfeito. Você é perfeita! Sincera! Não se deixa intimidar! Você é genuína! — ela riu graciosamente, esticando uma mão impecavelmente enluvada até tocar o rosto de . — Não vou perder essa oportunidade, , e você também não deveria! — ela rapidamente tirou um cartão de sua enorme bolsa, entregando-o a garota logo em seguida. — Aqui está meu contato. Quero que você junte toda a informação que achar relevante a seu respeito e me encontre nesse endereço, na segunda-feira às nove.

assentiu, sem saber como agir. O nome no cartão não era conhecido, mas as reações surpresas de algumas pessoas no museu deixavam claro que ela deveria saber quem era aquela mulher.

— Não faça pesquisas a meu respeito, chéri. As coisas serão muito mais divertidas assim. — ela tocou levemente o rosto de antes de virar as costas e sair da saleta, com os saltos caríssimos ecoando no chão lustroso do museu.

⚜︎


Rue Leneveux, Paris. 11 de março de 2020.

piscou lentamente os olhos, incomodada com a escuridão. Apesar de estar recém acordada, ela sabia que aquilo não era um sonho. E não entendia o motivo, mas toda vez que dormia um flashback daquela manhã de quinta-feira, exatamente um mês antes, rodava em sua cabeça.
Muita coisa havia mudado.
Ela sabia que a mulher elegante, estranha e levemente arrogante do museu se chamava Angelle Leblanc. Também sabia que ela era redatora da seção cultural do jornal Le Monde, um dos jornais mais importantes de Paris e de toda a França. A única coisa que ainda não sabia sobre aquela mulher é se deveria amá-la ou odiá-la.
‘Amá-la seria a melhor opção, acredito.’
Sem Angelle, ela teria apenas mais um mês em Paris, que passaria num piscar de olhos.
Sem Angelle, ela ainda seria apenas uma turista na Cidade do Amor, e não estaria empregada no Le Monde, prestes a começar no novo emprego. Num jornal! Em Paris!
Sem Angelle, ela não dividiria um apartamento incrível com seus dois novos amigos e colegas de trabalho.
Entretanto... Sem Angelle, ela ainda teria absolutamente todos os fios de cabelo na cabeça, suas horas necessárias de sono estariam em dia e ela não teria emagrecido quase 3kg em duas semanas.

— Você deveria ligar pra ele. — Larry murmurou de repente, fazendo-a abrir os olhos, assustada.
— Bom dia para você também. — resmungou, virando-se na cama. Ela sabia que o amigo estaria sentado na poltrona no canto do quarto, lendo qualquer livro. Moravam juntos há três semanas, mas já tinham uma rotina fixa. Simone saía para correr todas as manhãs, Larry lia e ... Dormia.

Nos primeiros dias havia sido um pouco incômodo o fato de acordar e ver um inglês de vinte e quatro anos que ela conhecia apenas há alguns dias lendo calmamente na poltrona, no quarto dela, mas com o tempo percebeu que Larry apenas detestava ficar sozinho.

— Bom dia, chéri. — ele respondeu calmamente, fechando o livro. — Não fuja do assunto. Você estava sonhando com seu pai novamente, chamou-o várias vezes. Deveria ligar pra ele.
— Você sabe que não adianta. — a garota resmungou, jogando as cobertas para o lado e rolando na cama imensa até chegar na beirada. A cama era tão alta – e grande e aconchegante – que precisava dar um pulinho toda vez que queria sair dela. Motivos para amar Angelle, certamente. — Ele não me atende. Não importa quantas vezes eu ligue ou quantos recados minha mãe passe.
— Não consigo entender. — Larry suspirou. — O que você fez para deixá-lo tão bravo?
— Você sabe, Lar. Vim parar na França e isso foi o suficiente para meu pai decidir que me odeia. — calçou as pantufas enquanto falava, impaciente. Ela, Larry e Simone já haviam tido aquela conversa várias vezes.
— Você não deveria aceitar isso, ! Você não fez nada de errado! Estava apenas tentando realizar seu sonho! E tem mais, quando você veio, pretendia voltar para a casa, darling. Não havia motivo para seu pai parar de falar com você desde a primeira vez e...
— Lar, respira. — a garota cortou, sorrindo docemente. Toda vez que Larry ficava bravo ou agitado ele falava muito rápido, o que fazia seu sotaque britânico se misturar às palavras francesas, e e Simone acabavam não entendendo nada. — Está tudo bem. Você sabe que eu sempre sonho com ele. Isso não me abala mais. — mentiu. — Não quero falar sobre isso. A próxima semana é muito importante para nós e não vou deixar nada me estressar.

Larry sacudiu negativamente a cabeça, dando-se por vencido. Mas não satisfeito, jamais. Ele abriu novamente o livro, cruzando as pernas, e aproveitou a brecha para correr para o banho, sabendo que quando voltasse o amigo continuaria ali, com mil assuntos para debater.
A garota sentiu a água quente do chuveiro aquecendo-a lentamente e tentou organizar os pensamentos. A situação com seu pai a incomodava mais do que ela deixava transparecer totalmente, desde o primeiro dia como turista na França. Se antes existia alguma chance de ele voltar a falar normalmente com a filha, sabia que essa chance havia acabado no dia em que ligou pra casa contando a novidade. Havia conseguido um emprego e precisaria ficar em Paris, sem ir ao Brasil, por pelo menos mais seis meses.
Sacudiu a cabeça, repreendendo a si mesma por deixar a cabeça vagar por aqueles pensamentos. Aquilo a incomodava, sim, mas não estava ao seu alcance resolver a situação e havia a muito tempo aprendido a aceitar o que não cabe a ela mudar. Aliás, ela realmente tinha que manter a calma e a cabeça leve para a semana que teria pela frente.
Finalmente começaria a coluna no jornal. Sorriu de olhos fechados embaixo do chuveiro, e riu sozinha ao perceber que aquela era sua reação toda vez que pensava sobre o que estava acontecendo em sua vida. Por mais planos que tivesse para sua vida profissional, nunca imaginou que teria tantas realizações como tinha naquele momento.
Angelle, sua chefe, comandava a seção cultural do Le Monde, e havia a contratado como colunista de Arte Parisiense. Larry ficara com Música e Simone com Moda. Sabia que a parte de Gastronomia havia ficado com Luna, uma chef de cozinha famosa em Paris. Ela era argentina, casada e tinha dois filhinhos lindos - razão mais do que aceitável para não dividir um apartamento com uma brasileira, um inglês e uma parisiense aleatórios.
No último mês, havia feito todo tipo de treinamento possível. Angelle havia a matriculado em todos os muitos cursos sobre arte que existiam naquela cidade, e, para cada um deles, ela havia escrito uma matéria que passara por toda a redação do Le Monde. Sua nota final no treinamento havia sido 9,9 e ela se sentia plenamente capaz de executar seu trabalho.
Aquele seria o último final de semana antes de começar oficialmente no jornal e, Larry, Simone e haviam decidido relaxar e aproveitar os momentos de paz. Foi com aquele pensamento que a garota saiu do banho enrolada em uma toalha fofinha, decidida a passar um dia tranquilo com os amigos.
O celular de tocou assim que a garota entrou no quarto e ela fez sinal para que Larry o pegasse enquanto fechava a porta do banheiro atrás de si.

— É a Simone no FaceTime — ele disse, revirando os olhos. O fato de que a amiga achava que todo momento era válido para uma chamada de vídeo incomodava os dois. pediu que Larry atendesse o telefone e foi vestir um roupão.
Bonjour, meus queridos! — Simone exclamou em seu bom humor usual.
— Ela está dentro de um carro — Larry murmurou e riu da maneira que o amigo encarava o celular. — Mone, você está dentro de um carro!
— Sim, Lar, estou em um carro. Qual o problema? — ela riu e, mesmo sem vê-la, soube que a amiga estava revirando os olhos. — Onde está ? Tenho um recado para vocês!
— Estou aqui! — gritou, finalmente fechando o roupão e jogando-se na poltrona com Larry.
— Ótimo — Simone sorriu largamente e, ao vê-la, entendeu a surpresa de Larry. Ela estava em uma limousine?! — Queridos, tenho um recado. — ela repetiu, dramática, balançando a mão da mesma forma que Angelle fazia. — Não vou aparecer em casa pelo resto do dia. — Mone deu uma risadinha e e Larry se entreolharam, já sabendo o que aquilo significava. — No entanto... Passo aí à noite para buscá-los. Vamos a uma festa e vocês precisam estar muito lindos.
— Festa, Mone? — protestou, levando a mão à testa de maneira dramática. — Achei que iríamos relaxar nesse final de semana.
— Sim, , uma festa. — ela suspirou, quase ofendida. — Hoje é quinta! Teremos a sexta, o sábado e o domingo para relaxar! Por favor! Vocês sabem que não gosto de ouvir não!

Ponto. Os dois já conheciam Simone bem o suficiente para saber que ela realmente não aceitava ‘nãos’ como resposta. Por isso os dois assentiram, já sabendo que a noite que os aguardava seria muito longa. As festas de Simone, apesar de boas, sempre envolviam muita loucura.

— Ótimo! — ela exclamou, realizada. — Vejo vocês à noite! Agora preciso ir! — a tela ficou preta no exato instante em que um rapaz apareceu na imagem ao lado de Simone enquanto ela dava mais uma de suas risadinhas.
— Aquele era... — a voz de Larry morreu, enquanto ele deixava seu livro e o celular de caírem no chão.
— Sim. — a garota murmurou, sentindo a expressão de choque que se formava em seu rosto. — Aquele com Simone era Mbappé, jogador do Paris Saint-Germain.


Capítulo 2


Após um saboroso almoço – segundo e Larry, comida comprada e nada saudável que faria Angelle infartar, os dois amigos passaram boa parte da tarde organizando a cozinha do apartamento. Ambos tinham as mesmas manias de organização, o que facilitava muito o convívio. Ao fim do dia, caminhou silenciosamente até seu quarto, fechando com cuidado a porta atrás de si. Gostava muito da companhia do amigo, mas às vezes precisava ficar sozinha com seus próprios pensamentos.
Depois de organizar o quarto, buscou em meu gigantesco guarda-roupa a caixa que havia providenciado para guardar todos os produtos que Simone costumava chamar de segredinhos brasileiros. A garota escolheu a dedo alguns cremes naturais e fez uma mistura para hidratar o cabelo cacheado enquanto cantava alegremente as músicas de uma playlist aleatória. Depois, resolveu pintar as unhas enquanto deixava a mistura hidratante agir e os pensamentos voarem longe.
Mesmo com a sombra da péssima relação com pai sempre presente, todos os dias na França estavam sendo ótimos. carregava sempre consigo a sensação de dever cumprido, de merecimento por tudo que havia conquistado. Mas naquele dia específico, algo estava diferente. Ela sentia quase como se estivesse flutuando, sendo direcionada a algo muito bom que a aguardava. Ela costumava brincar que eram os sopros do Universo a carregando, mas Simone e Larry nunca entendiam suas teorias sobre energias existenciais. sorriu, pensando nos dois amigos e em como haviam se dado bem em tão pouco tempo, mesmo tendo personalidades, vivências e culturas tão diferentes.
Depois de pintar as unhas com um esmalte laranja neon que ela sabia estar super na moda, resolveu dormir um pouco, sabendo que precisaria de muita energia para aguentar a noite que teria. Lembrar do sorriso malicioso de Simone dentro de um carro com um jogador famoso a fez rir. A garota enrolou cuidadosamente a touca em seu cabelo e se jogou na cama cheia de travesseiros fofos, sem nem se preocupar em colocar o celular para despertar – ela sabia que, mais cedo do que gostaria, Larry estaria ali para acordá-la.

⚜︎


— Você está absolutamente incrível! — Simone exclamou mais uma vez, batendo palmas. — Extraordinaire!

riu, atirando um beijo na direção da amiga. Ela estava parada em frente ao enorme espelho que ocupava metade de uma das paredes de seu quarto e estava realmente encantada. Tinha que concordar com Simone, ela estava extraordinaire!
Sorte a minha que sempre me interessei por moda, pensou, sentindo um sorriso travesso brincar em seus lábios. Caso contrário, a convivência com Simone seria insuportável. teria pena de Kate, namorada de Larry, quando ela resolvesse pisar naquele apartamento. Cada vez que Lar mostrava alguma foto da namorada, Mone tinha alguma crítica construtiva a fazer.
Quanto a ela... Até aquele momento, estava aprovada na escala de moda Simone Delyon, que vivia elogiando a pele “naturalmente bronzeada” da amiga que, supostamente, combinava com qualquer cor. Naquela noite em especial, optou pelo vermelho vivo, um tom vibrante que estava em perfeita harmonia com seu humor. Escolheu um vestido colado ao corpo, que ia até a metade de suas coxas; com alças finas e uma fenda generosa na lateral esquerda. O tecido, cetim, reluzia a cada passo que ela dava. Sorrindo, admirou-se no espelho mais uma vez. Sentia-se brillant.
Ela calçava uma sandália de salto fino na mesma cor do vestido, e para suportar os 11 graus que insistiam em permanecer em Paris – em março! –, vestia um sobretudo preto.
Simone havia aberto uma garrafa de champagne enquanto se arrumavam – apenas para as duas, já que Larry seria o motorista da noite. Em torno das 11h da noite, após muito champagne e muitas risadas, os amigos saíram em direção à tal boate que Mone se recusava a revelar. Era uma agradável noite de primavera, apesar do frio, e a lua estava incrivelmente linda.
Quando percebeu o local que o GPS no celular de Simone estava indicando, Larry sentiu seu coração acelerar.

— Mone! — ele exclamou, apontando para o visor do aparelho, chamando a atenção de . Naquele momento, Larry virou a esquina da Rue Saint-Benoît, e, mesmo a duas quadras da boate, ficou chocado ao ver o tamanho da fila. — Mas essa é a Montana! — Larry apontou para o discreto prédio, sem acreditar.
— Surpresa! — Simone exclamou, rindo.

aproximou-se do vidro, admirada. Ela sabia que realizar o sonho de visitar – e morar! – na França traria novas oportunidades. Ela sabia que a vida em Paris seria mais glamourosa do que a que estava acostumada a levar no interior de São Paulo, mas, nunca, em vinte e dois anos, boa parte deles sonhando com aquela cidade, imaginou que numa quinta-feira à noite estaria prestes a entrar em uma das baladas mais chiques e exclusivas da noite parisiense.

— Não estou acreditando! Estamos mesmo na Montana! — Larry ofegou enquanto estacionava o carro. Eles ainda estavam um pouco afastados do prédio e teriam que caminhar uma quadra até a boate, mas aquele era o máximo de espaço permitido para o estacionamento. — Vão ter famosos aqui!
— Você esqueceu com quem ela estava essa manhã? — provocou lembrando que Simone havia se recusado a contar qualquer detalhe sobre seu encontro com Kylian Mbappé.
— Você disse que não viria com ele! — Larry acusou Simone, enquanto atravessavam a rua até a boate.
— Eu disse que não viria com ele. — ela revidou, rapidamente. — Não disse que não éramos convidados dele.
E assim, sem mais nem menos, ela os deixou ali boquiabertos enquanto caminhava até o segurança. Depois de falar algo em seu ouvido, ela aguardou enquanto ele conferia uma lista e então Simone puxou os amigos pela frente da gigantesca fila. Num piscar de olhos, estavam dentro da Balada Montana.

⚜︎


Bastou um único olhar para a imensidão do bar que os aguardava para Larry decidir que o carro estava estacionado num lugar seguro o suficiente para que esperasse ali até o outro dia. Iriam embora de táxi, assim, todos poderiam experimentar as bebidas coloridas que chamavam a atenção de longe. Tomaram o primeiro shot juntos, para comemorar a jornada que iniciariam logo em seguida.

— Se vocês encontrarem algum jogador, não fiquem falando sobre futebol. — Simone orientou, repentinamente séria. — Kylian me disse que nem sempre esse é o assunto favorito deles.
— Kylian? — indagou, arqueando a sobrancelha. — Com essa intimidade toda? A coisa está mais séria do que imaginei.
Bête! — Simone revidou, dando um tapinha no braço da amiga. — Não seja boba. Tenho facilidade em criar intimidade com as pessoas.
— Ah, tem mesmo — foi a vez de Larry provocá-la. — A quantidade de hóspedes que já recebemos naquele apartamento confirma isso.

Simone gargalhou, procurando um argumento válido para sua defesa. Enquanto os dois embarcavam em mais uma versão da mesma discussão, resolveu observar o ambiente. O interior da boate era surpreendentemente pequeno, mas ela estava lotada. Homens e mulheres com roupas elegantes e perfumes fortes desfilavam para lá e para cá, carregando copos com bebidas coloridas nas mãos. Todos se moviam graciosamente ao som da música eletrônica que tocava, e por um mísero segundo, ela sentiu que talvez estivesse deslocada naquele local. Estava prestes a comentar sobre isso com os amigos, mas, rápido demais, percebeu que estava sozinha.
Larry sempre sumia quando iam juntos a festas. Ele fazia amizades com muita naturalidade. Já Simone sempre saía com algum cara, o que fazia acabar a noite com algum francês. Mas naquela noite, não. Decidiu apenas aproveitar sua própria companhia, enquanto Simone provavelmente procurava Mbappé. Riu sozinha ao pensar naquilo. O amor pelo futebol havia sido muito presente em sua família, desde sempre. Ela havia crescido dentro de um estádio, sempre acompanhada de seu tio e, apesar de todas as críticas de seu pai ao futebol europeu, a garota era completamente apaixonada pelos times do continente. Somado ao amor que sentia pela França desde que conseguia se lembrar, o Paris Saint-Germain era o time pelo qual nutria imenso carinho. Se não estivesse ali, dentro da Balada Montana por causa dele, ela jamais acreditaria que Kylian Mbappé estava assim tão próximo de sua realidade. Ainda rindo, pediu à barwoman mais uma dose da bebida rosa pink que havia esquecido o nome e se sentou em um banco alto da ponta esquerda do bar.
As pessoas falavam muito alto, a música estava muito alta e os aromas naquele local também eram fortes demais. Misturando isso ao que já havia bebido, estava se sentindo um pouco tonta. Por isso, quase não viu. Quase. Mas acabou vendo. Um dos jogadores que mais admirava, Ángel Di Maria, estava parado bem ali, apenas a algumas pessoas de distância.

Ai, meu Deus. Ai, Deus. Meu Deus. Caralho. — ela sussurrou, apoiando-se no balcão. — Porra, é o Di Maria!
Sim, é o Di Maria. — uma voz respondeu, mas estava tão chocada com a cena em sua frente que nem se deu ao trabalho de virar para o lado.

Foi nesse momento que viu que logo atrás de Di Maria estava sua esposa, Jorgelina. já acompanhava o trabalho do jogador há mais de dez anos. Consequentemente, também acompanhava sua vida pessoal e tinha total admiração pela família do jogador.

Caralho, a Jorgelina também! Meu Deus, ela é maravilhosa. Puta que pariu.
Por que você não vai falar com eles? A Jor é super gente boa. — a voz disse novamente, fazendo com que se incomodasse com a intromissão em seu momento de fã. Ela estava falando sozinha, poxa! Estava prestes a se afastar sem nem olhar para trás quando finalmente raciocinou. Ela nem havia percebido que estava falando em português, e só naquele momento percebeu que a voz também havia respondido em português. Virou-se lentamente, sentindo os batimentos recém normalizados acelerarem mais uma vez.
Puta que pariu! — ela tinha plena consciência de que havia gritado, mas não pôde se conter. — Marquinhos! Caralho!
Sallut — ele disse em francês, rindo. — É sério, eles são legais. Pode ir falar com eles.

Foi inevitável que lembrasse de Angelle ao perceber o sotaque carregado do camisa cinco do Paris Saint-Germain.

— É claro que eu não vou falar com eles! — ofegou, sentando-se novamente no banco. — Eu surtaria!
— Por quê? — Marquinhos riu. — Você quase nem está surtando agora! — O jogador brincou, encarando a garota. Ele já havia assistido a muitas pessoas vendo seu ídolo pela primeira vez, mas aquilo nunca perdia a graça.

o encarou de volta, sem acreditar que ele realmente estava parado ali, falando com ela, rindo dela. Era difícil acreditar que o cara que ela já tinha visto tantas vezes na TV estava realmente ali, em sua frente. Ela estava tentando formular uma resposta que fizesse sentido quando Marquinhos se mexeu no banco, dando a total visão da pessoa que estava sentada atrás dele. E ali, pela terceira vez, a garota sentiu seus batimentos acelerarem numa frequência absurda até quase parar.
estava sentado ali, também com um copo de bebida rosa pink nas mãos.
virou-se lentamente no banco, ouvindo o amigo conversar com a garota bonita de vestido vermelho que havia chamado sua atenção momentos antes. Ele sorriu ao ver a expressão surpresa no rosto dela e acabou rindo enquanto ela agarrava o braço de Marquinhos, apertando-o involuntariamente e sem nem perceber o que estava fazendo. estava acostumado com esse tipo de reação e acabou achando a garota engraçada, até mesmo fofa, mas foi apenas quando seus olhares se encontraram que ele sentiu algo diferente. Sentiu uma... Conexão.
Ele estava acostumado a receber diversos tipos de olhares, que iam do desejo e luxúria à ganância e até à raiva, mas... Aquilo, um olhar tão expressivo... Nunca havia acontecido. Naqueles breves segundos em que se encararam, ele pôde enxergar uma agradável surpresa, admiração e... carinho. Ternura.
sentiu seu coração errar mais uma batida antes de normalizar. Então, rapidamente, tornou-se consciente de várias coisas. Marquinhos a encarava com um sorriso leve no rosto e sobrancelhas arqueadas enquanto ela ainda estava agarrada a seu braço. a encarava de forma curiosa, com a cabeça levemente inclinada para o lado, também com um sorriso discreto em seus lábios.

— É, melhor você não ir falar com a Jor agora — riu, acenando com a cabeça. — Acho que você vai surtar um pouquinho mais.

Só então conseguiu relaxar, saindo de seu transe. Sua primeira reação foi soltar o braço de Marquinhos e levar a mão ao rosto, constrangida. Ela não sabia se deveria rir com eles, pedir desculpas ou apenas sair correndo.

Bon Dieu, que vergonha — ela murmurou. — Desculpe, Marquinhos, eu... Fiquei um pouco empolgada.

Os jogadores gargalharam novamente e, ao perceber que eles estavam rindo com ela e não dela, se sentiu um pouco mais relaxada.

— Fica tranquila — ele sorriu, abanando a mão. — Por incrível que pareça, isso é normal. As pessoas pulam, nos abraçam... Acontece. — Marquinhos explicou, compreensivo e a garota assentiu, tentando apenas recuperar um pouco da segurança para agir normalmente. — Quando vimos você falando sozinha por causa do Ángel, eu e comentamos sobre qual seria a sua reação caso nos visse aqui.
— Ah, ótimo — murmurou. — Então meu surto realmente foi observado desde o começo?
Oui! Com certeza, foi sim. E a sua reação ao ver o com certeza foi a melhor de todas.
— Pelo menos você não me xingou — disse, dando de ombros. — De onde eu venho, os brasileiros não costumam gostar muito de nós. — ele gargalhou ao levar um soco leve de Marquinhos no braço. — E sim, eu sei que você é brasileira. Você falou uma lista de palavrões em português, e esses eu conheço muito bem.

Foi a vez de gargalhar, realizada. Por mais que aqueles dois estivessem em sua frente, conversando com ela e agindo de uma maneira normal, a garota não conseguia deixar de pensar que aquele era um encontro impossível.

— Eu só posso pedir desculpas novamente — ela disse, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Isso é inacreditável! Sempre acompanhei o Paris, sempre acompanhei vocês em suas seleções, ontem comemorei aquela vitória e agora... Estão aqui! Não acredito que sejam de verdade!

Marquinhos estava prestes a dizer algo quando repentinamente beliscou seu braço, dando de ombros em seguida.

— Parece de verdade pra mim — ele brincou, levando um tapa do amigo em resposta. só conseguia sorrir, maravilhada com tudo aquilo.
— Eu sei que vocês não devem mais aguentar esse tipo de situação, mas... Será que podemos tirar uma foto? — questionou, sem saber exatamente como pedir aquilo. — Vou guardar com carinho!
— É claro! — Marquinhos disse. — Será um prazer! E olha, você não precisa se preocupar. Como eu disse, estamos acostumados com isso.
— E mais, posso ser sincero? — apoiou o copo no balcão, virando-se no banco até ficar completamente de frente para a garota. — Por mais clichê que possa parecer, o carinho e reconhecimento dos torcedores é o que mais nos motiva.

sorriu, pensando em esfregar na cara de Simone que elas podiam sim falar sobre futebol com os jogadores. Ela estava prestes a pegar o celular quando um movimento chamou a atenção de Marquinhos.

— Opa, preciso ir — ele disse, dando um pulo do banco. — Esperem aqui! Eu volto para a foto.

E rapidamente saiu caminhando, abrindo espaço entre as pessoas que dançavam e conversaram.

— Viu, é mais normal do que você imaginou — disse de repente, apontando para o terceiro grupo de pessoas que interceptou Marquinhos.
— Realmente, mas você vê alguma dessas pessoas apertando o braço dele ou quase caindo do banco? — brincou.

O jogador encarou-a de canto, admirando seus traços bonitos e delicados. Passada a surpresa inicial, a garota parecia totalmente confortável em sua presença, o que o fez questionar se toda aquela admiração em seu olhar também seria passageira. Buscou rapidamente os olhos dela e sorriu satisfeito ao constatar que aquele brilho fascinante ainda estava ali.

Oui, você tem razão. Achei que você fosse realmente cair do banco. — o jogador brincou e apenas balançou a cabeça, tomando um gole da bebida pink que já estava quente. — Mas, e aí, vamos tirar a foto ou você quer esperar o Marquinhos voltar?
— Eu gostaria muito de uma foto com você. Você se importa? — ela questionou. O jogador a encarou por alguns segundos e jurou ter sentido uma corrente elétrica atravessar seu corpo enquanto aqueles olhos atentos a analisavam.
— Não, não me importo — ele sorriu, esticando o braço.

observou a garota sorrir e esperou pacientemente enquanto ela pegava o celular e desbloqueava o aparelho, abrindo a câmera. Ela rapidamente passou pelo banco que antes era ocupado por Marquinhos, ficando no pequeno espeço entre o assento branco e o braço do jogador que a aguardava, ainda esticado. delicadamente abraçou a cintura da garota, sem entender bem por que estava contendo tanto seus movimentos.

— Não gosto do meu cabelo pra esse lado — disse sem pensar, bufando. Ela jogou o cabelo comprido para o outro lado, deixando seu rosto e pescoço à mostra. respirou fundo, sentindo o cheiro maravilhoso que ela exalava.
— Mesmo estando na terra dos perfumes, o seu se destaca — ele murmurou no momento em que a garota bateu a foto. bloqueou o celular rapidamente, se perguntando se ele também havia percebido como a face dela estava corada na imagem. — Qual é o seu nome? — indagou, relutando em tirar o braço da cintura dela.
. . Obrigada pela foto. — ela disse docemente, sentando-se no banco.
— ele repetiu. sorriu ao ouvir seu nome sendo pronunciado por aquela voz bonita, numa mistura de sotaques. — Faz tempo que você mora na França? Ou está apenas passeando?
— Faz pouco mais de dois meses, na verdade. Eu vim a passeio, mas acabei conseguindo uma vaga de emprego repentinamente, em algo que eu sempre sonhei, e agora vou morar aqui.
— Sério? Isso é muito legal! E com uma história incrível dessas você ainda age como se conhecer um jogador de futebol fosse algo surpreendente? — ele brincou.
— Sabe que às vezes nem eu acredito nisso tudo? Cada vez que falo disso pra alguém fico boba ao pensar no quanto as coisas deram certo pra mim. Mesmo que no fundo eu saiba que isso tudo apenas é fruto do que plantei.
— Gosto desse pensamento. Acredito em sorte, é claro, acredito que as coisas acontecem porque tem que acontecer, mas tenho plena consciência de que muitas coisas, principalmente as conquistas, são apenas fruto do nosso esforço.

apenas sorriu, assentindo. Era surreal pensar que estava tendo uma conversa daquelas com . Pensou em quantas vezes há havia visto-o na televisão, em tantos jogos pela Seleção, no Boca Juniors e, principalmente no Paris Saint-Germain. Inclusive no dia anterior.

— Parabéns pelo jogo de ontem — ela murmurou, timidamente. Ainda não havia decidido se futebol era um assunto proibido ou não.
— Obrigado — ele sorriu gentilmente. — Eu estava muito nervoso para esse jogo, especificamente. Sei que às vezes, para vocês que nos acompanham, algumas partidas podem parecer apenas jogos de tabela, sabe? Mas para nós, todo jogo é super decisivo. Você nunca sabe o que pode acontecer. — ele desviou o olhar, suspirando, e soube que ali sim estava um assunto proibido. — Mas, e aí, qual é a desse trabalho dos sonhos que você amou tanto a ponto de ficar morando em outro continente?
— Eu sou jornalista e sempre gostei de estudar sobre Arte e História. — a garota explicou sorrindo. Adorava falar sobre sua carreira profissional, e se ele soubesse o erro que estava cometendo ao abrir aquela brecha, jamais teria feito aquela pergunta. Ele, no entanto, apenas sorriu, parecendo admirado. Parecia querer encorajá-la a falar. — Fui convidada a trabalhar no jornal Le Monde, para falar sobre a Arte Parisiense.
Carajo! — ele exclamou e riu, pega de surpresa pelo palavrão espanhol. — Isso é incrível! Dá pra perceber por que que você fica toda feliz ao falar disso. E esse seu orgulho é contagiante, sabe? Espero que dê tudo certo para você no jornal!
— Obrigada — ela disse, verdadeiramente agradecida. Coisas complicadas para se dizer de quem a gente não conhece, mas as palavras de pareciam ser completamente genuínas e aquilo a deixou feliz. — Espero que dê tudo certo para você no restante da temporada! — desejou e estendeu o copo, propondo um brinde.

Ele entrou na onda e ambos tomaram um gole do drink quente.

— Essa bebida já está péssima, de verdade. — ele comentou, rindo. Ficaram alguns segundos em silêncio, completamente alheios à festa a sua volta. Até que, para trazê-los de volta a realidade, alguém apareceu acenando no meio das pessoas. — Opa, eu preciso ir. — ele se levantou do banco, sorrindo, e assentiu, observando-o. — O Marquinhos já deve ter se perdido por aí, então não vou te dizer pra esperar por ele. Mas logo vocês se cruzam.
— Certo. Obrigada pela foto, .
— Eu é que agradeço. — ele sorriu e a analisou mais uma vez daquela forma... Intensa. sentiu-se presa naquele olhar e agradeceu por estar sentada. — A gente se vê por aí, .

acenou e abriu caminho lentamente entre as pessoas, de cabeça baixa. Não havia dado dez passos quando sentiu a necessidade de olhar para trás. Precisava tirar a dúvida. Virou o pescoço, repentinamente nervoso. Enfim, sentiu uma onda de alívio ao perceber que ela também estava olhando para ele.

⚜︎


foi ao banheiro conferir a maquiagem e, na saída, encontrou Veronica e Marcelle. As duas também trabalhavam no Le Monde e haviam estado presentes em boa parte do treinamento da brasileira. Veronica era uma pessoa maravilhosa e a havia ajudado com dicas valiosas. Já Marcelle era o tipo de pessoa que não precisava nem se esforçar para ser desagradável.

! — Veronica exclamou, abraçando a colega pelos ombros. — Que maravilha te encontrar por aqui!
— Parece que você já descobriu como usar as credenciais do jornal a seu favor, não é? — Marcelle arqueou a sobrancelha ironicamente, acenando de longe. sorriu internamente, se perguntando o que ela pensaria se soubesse como havia entrado naquela festa. Porém afastou imediatamente esse pensamento, percebendo que Marcelle conseguiria estragar aquilo também.
— Ah, Marcelle! Não seja chata! — Veron ralhou, balançando a mão muito perto do rosto da amiga. Convivência com Angelle, certamente. — Então, , está gostando da festa?
— Estou adorando! — respondeu, sincera. — Acho que de todas as festas que já fui aqui em Paris, essa é sem dúvidas a melhor.
— Óbvio que essa é a melhor, chéri. — Marcelle se intrometeu. — Olhe onde você está! — ela fez uma de suas melhores expressões de bruxa do mal e teve que se controlar muito para não revirar os olhos. Marcelle então puxou o casaco de Veron, animada. — Amiga, olha, é aquele cara que nós vimos na outra festa! Vem! — e assim saiu puxando a colega, que apenas teve tempo de atirar um beijo na direção de . A garota riu e de ombros, vendo que algumas pessoas próximas riam da situação.

Sozinha novamente, decidiu procurar Larry e Simone, já que não os via há um bom tempo. Saiu caminhando pela boate, explorando espaços que ainda não conhecia. Fez amizade com algumas pessoas, encontrou alguns conhecidos de outras festas e outros colegas do jornal, mas nem sinal de seus amigos.
Voltou ao bar e encostou-se novamente no balcão. Ela já havia feito amizade com a barwoman, , que a recepcionou com mais um drink pink. era natural de Lille e havia se mudado para Paris para fazer faculdade, apesar de ter nascido em um dos maiores polos universitários do país. Ninguém resistia ao charme da Cidade Luz, afinal.
estava em pé em frente ao bar, apoiada no balcão, tentando mais uma vez adivinhar qual era o curso de quando sentiu alguém cutucar suas costas.
Virou-se rapidamente, distraída, e logo em seguida sentiu o coração disparar.
Jorgelina Cardoso estava parada à sua frente, seguida de perto por Ángel Di Maria.
E pela segunda vez na noite, agiu antes de pensar.

AI MEU DEUS DO CÉU — ela berrou, novamente em português, pulando no pescoço da mulher. Jorgelina riu e a abraçou de volta, de maneira muito mais delicada e graciosa. — Jorgelina, eu te admiro muito, de verdade! — tentou dizer, misturando português e francês. — Sei que isso é estranho, mas eu sempre gostei muito de você e.... — desistiu das palavras, apenas se concentrando em abraçar a mulher.
— Sempre dizem que os brasileiros são muito adeptos ao contato físico — Di Maria disse, se aproximando. — e acabei de confirmar que isso é verdade.

gargalhou, soltando Jorgelina apenas para abraçar o jogador também.

— Ah, estou muito feliz! — foi tudo que a garota conseguiu dizer, ainda abraçada nele e segurando a mão dela. — Conhecer vocês é um sonho que tenho há quase onze anos, e simplesmente não consigo acreditar que isso aconteceu!
— Obrigada pelo carinho, querida! Você é adorável! — Jorgelina disse, passando levemente a mão no rosto da garota. Marquinhos e tinham razão, aquela garota realmente nutria um carinho genuíno por eles.

teve vontade de chorar ao sentir o carinho em seu rosto. Todos estavam sendo muito acolhedores na França, mas aquele gesto foi o mais próximo de um carinho familiar, conhecido, que a garota havia tido em mais de dois meses. O resto do mundo realmente tinha muito a aprender com os sul-americanos.

Muchísimas gracias, chéri — Di Maria disse, sentando-se no banco. mais uma vez riu ao ouvir a mistura de idiomas. — É sempre bom receber carinho de quem nos acompanha, principalmente quando é estendido também à minha família. — ele sorriu docemente para Jorgelina, o que as fez sorrir também.

estava prestes a responder algo — e a perguntar por que eles haviam decidido falar com ela quando olhou para trás de Ángel e viu encostado no balcão, um pouco mais adiante. Ele observava atentamente a cena e sorriu para ela, balançando o copo com o drink rosa na mão. Mais um brinde. se perguntou se deveria chamá-lo, mas Di Maria foi mais rápido. Provavelmente seguindo seu olhar, o jogador acenou para o amigo, pedindo a que se juntasse ao grupo.

— Espero que tenha gostado da surpresa — comentou ao se aproximar.
— Eu adorei — respondeu e riu ao notar o quão estridente estava sua voz. A garota fingiu não perceber que ainda segurava a mão de Jorgelina e resolveu apenas curtir o momento, já que a mulher também não havia soltado. — Muito obrigada.
— Ela conheceu Mbappé, Marquinhos, e eu no mesmo dia, — Di Maria disse, coçando a cabeça — mas é com a Jorgelina que ela surta. Vai entender.

A mulher riu, dando um tapa leve no marido, puxando para mais um abraço caloroso.

— Em minha defesa, não conheci o Mbappé — protestou.
— Ah, sério? — indagou. — Achei que tivesse conhecido. Ele estava com a sua amiga.
— Na verdade, não vejo Simone desde que chegamos — deu de ombros. — E como você sabe que ela é minha amiga?
— Ela estava te procurando — foi Ángel quem respondeu.
— Ela bebeu demais. Estava passando mal. — Jorgelina completou.
— Oh, não acredito! Preciso achá-la! — pegou sua bolsa em cima do balcão e estava prestes a sair correndo quando segurou delicadamente seu abraço.
— Espera, ela já foi embora. Está tudo bem!
— Ela fez o quê?
— Ela estava realmente passando mal. Mbappé a levou embora. Ela já tinha passado o endereço de vocês.

notou que todos deveriam ter percebido sua expressão horrorizada, pois Jorgelina fez questão de explicar.

— Está tudo bem, querida. Kylian é muito responsável! Ele ia apenas deixá-la em casa. Não faz muito tempo que eles saíram daqui, mas se você quiser podemos ligar para perguntar onde estão.
— Não, está tudo bem. Obrigada. — a garota sorriu, encostando-se novamente no balcão. Ela mataria Simone naquela noite. Os três começaram a tentar acalmá-la, e a garota se sentiu envergonhada por estar mais uma vez surtando na frente de pessoas famosas. — Pessoal, está tudo bem. Não quero atrapalhar a festa de vocês — murmurou, constrangida.
— Eu gostei da companhia — Jorgelina disse, sentando-se no último banco. — Voto em ficarmos aqui. — os jogadores assentiram, animados, sentando cada um e um banco. Di Maria escolheu o banco ao lado da esposa e optou por ficar na outra ponta, ao lado de . Sentia-se cada vez mais atraído pela beleza da garota.

E assim, acabaram os quatro ali sentados, conversando com e experimentando drinks coloridos.
As duas mulheres se divertiram tirando muitas fotos no celular de Jorgelina, já que o de estava praticamente sem bateria e, depois do que pareceram muitas horas conversando sobre Brasil, Argentina e França, Marquinhos apareceu e o casal resolveu ir embora. Jorgelina salvou o número de e prometeu que enviaria as fotos à garota. temeu que aquilo nunca acontecesse e ela não tivesse nada além de suas lembranças para garantir que aquela noite havia realmente acontecido. Sorriu ao lembrar que a única foto em seu celular era a com .
Depois de se despedir de por aproximadamente quinze vezes e também passar seu número de celular a ela, decidiu procurar Larry, seguida de perto por e Marquinhos.
Quando o encontraram, ele estava conversando com um grupo de garotas sobre a diferença dos estilos musicais na França e na Inglaterra. Ele é, claro, já havia conhecido Marquinhos e , assim como Neymar, Mbappé e Icardi. Ah, também notou que o amigo estava super bêbado. Nem parecia o mesmo cara que não conseguia passar quinze minutos sozinho na sala do apartamento. Depois de muita insistência, conseguiu convencer Larry de que era hora de ir embora.
Quando descobriu que iriam embora de táxi, Marquinhos começou a insistir em oferecer carona, com a justificativa de que qualquer táxi seria muito caro àquela hora e que até os próprios motoristas deveriam ter bebido.
tentou negar várias vezes, mas Larry já estava praticamente dentro do carro. assistia a cena em silêncio e um sorriso brincava em seus lábios ao observar cada movimento da garota. Ela agia naturalmente perto deles, às vezes parecia esquecer quem eram e, quando se dava conta novamente, voltava a agir daquele modo acanhado que havia achado tão... fofo. Estava encostado no carro, observando e admirando o quanto ela se preocupava com os amigos quando o olhar da garota pousou no dele, pegando-o desprevenido. sorriu discretamente e virou o rosto em direção aos homens que conversavam já dentro do carro.

— Você não bebe nunca? — Larry perguntou a Marquinhos, enquanto o jogador o ajudava a afivelar o cinto.
— Bebo uma vez por mês, e esse dia não é hoje.
— Ele só bebe quando faz gol — se intrometeu. — Ou seja, nunca.
— Eu não preciso fazer gols, imbecil. — Marquinhos revidou, dando um tapa no amigo. — Preciso evitar que o outro time faça, principalmente quando vocês não cumprem essa parte.

E assim eles embarcaram numa discussão acalorada, carregada de palavrões em suas línguas maternas, para depois terminarem gargalhando com Larry.
penas encostou a cabeça no vidro, morrendo de sono, esforçando-se para permanecer acordada. Primeiro porque precisaria chegar em seu prédio, passar pelo porteiro, carregar Larry pelo elevador, conferir se estava tudo bem com Simone e deixar um bilhete lembrando-os de que precisavam buscar o carro no outro dia.
Segundo, porque estava com medo de dormir e perceber que aquela noite incrível não havia passado de um sonho.

Capítulo 3


Rue Leneveux, Paris. 15 de março de 2020.

Apesar do apartamento ter sido escolhido para ela e não por ela, amava o lugar. Adorava tomar banho todas as manhãs naquele banheiro claro e espaçoso, que já estava decorado com algumas plantinhas que ela havia feito questão de comprar na semana em que se mudou. Quando assinou o contrato com o jornal e iniciou todo o processo para a emissão do visto de moradia, ela já sabia que não continuaria vivendo em um hotel – por mais chique que ele fosse. Mas ela também não imaginou que, depois de três dias da entrevista com Angelle, estaria se mudando – com mais duas pessoas – para o quarto andar de um lindo prédio de arquitetura clássica no final da Rue Leneveux. Era um local tranquilo com uma vizinhança agradável, ficava perto do jornal e, segundo Angelle, era perto de tudo o que os jovens precisavam para viver. sabia que sua chefe era apenas uns quatro ou cinco anos mais velha, mas na maioria das vezes ela se comportava como se já houvesse, há muito tempo, passado dos cinquenta anos.
Enquanto massageava os cabelos com o condicionador, podia sentir o cheiro do café passado que Simone preparava todas as manhãs. Ela ouvia a risada de amiga e a voz alta de Larry e sabia que ele também estava na cozinha, providenciando o suco natural de laranja que era obrigatoriedade na manhã dos que não gostavam de café. revirou os olhos, notando que não eram nem oito da manhã e todos já pareciam completamente despertos. Se estivesse no Brasil, ainda teria algumas longas horas de sono. Bendita síndrome do colchão desconfortável que os europeus têm, pensou. Ela ouvia a moça do apartamento ao lado conversando com alguém na varanda, as crianças brincando lá embaixo, no térreo, e também os carros passando na rua logo cedo, mesmo no domingo. Ainda pensando em alguns costumes franceses que já havia notado, embarcou numa cantoria enquanto enxaguava seu cabelo comprido e ondulado. Ela estava se agarrando fortemente a pequenos detalhes para se distrair, porque, por mais que detestasse admitir, o nervosismo por começar no jornal no dia seguinte havia a atingido, finalmente.
E ela havia realmente conseguido se distrair, por isso, deu um pulo ao ouvir alguém bater à porta.

, seu celular está tocando — foi Larry quem disse.
— Pode atender, por favor — ela respondeu, desligando o chuveiro. Por ser domingo de manhã, tão cedo, não esperaria uma ligação de ninguém além da mãe, que costumava ir dormir de madrugada, sempre muito tarde. Balançou a cabeça, deduzindo que ela ainda não havia aceitado o fato de que agora cinco horas de diferença separavam seus horários.
— Você sabe que eu não sei muito bem como responder a sua mãe — ele protestou. — Só sei falar algumas palavras e ela faz perguntas demais.
— Eu sei, eu sei. Dona Marta adora fazer perguntas — riu. — Mas você sabe que ela vai surtar se eu não atender. Só tente sinalizar algo parecido com banho, por favor. Já estou saindo.
— Espera — a voz de Simone disse. revirou os olhos ao perceber que ela também estava em seu quarto. Alô, privacidade. — Não é a sua mãe. O contato não está salvo, mas é um número daqui.
— Não é Angelle? — indagou, enrolando a toalha no cabelo.
— Acredito que não.

ouvia os amigos resmungando enquanto vestia seu roupão fofinho, mas não foi capaz de entender o que diziam. Deveria ser alguém do Jornal ou a própria Angelle. Ninguém mais na França tinha seu número e ela tinha certeza que ainda não havia feito nenhuma conta para receber cobranças. Simone puxou a porta do banheiro, de repente, fazendo com que desse um pulo pela segunda vez em cinco minutos.

— Você precisa atender — ela murmurou, cobrindo o celular com as mãos. Simone tinha um sorriso cínico em seus lábios, o que atiçou ainda mais a curiosidade de . Resolveu discutir pela invasão de privacidade mais tarde e, em silêncio, esticou a mão para pegar o aparelho.
Allo? — respondeu, fazendo sinal para que Simone e Larry saíssem da porta do banheiro. Nenhum deles se mexeu.
Bonjour, — um homem respondeu. A voz e o sotaque eram familiares, o que fez arquear as sobrancelhas. Simone a encarava ansiosamente, deixando-a desconfortável. Ela permaneceu em silêncio, aguardando. — É o .
?! — indagou, surpresa, segurando a risada ao ver Simone dar pulinhos. Sentiu seu coração acelerar levemente e encostou-se à pia do banheiro, tentando não deixar transparecer o nervosismo. — Ah... Salut, . . Oi.
Desculpe por te ligar assim, mas... Eu... A Jorgelina acabou me passando seu número e... Você está bem, ?
— Não precisa se desculpar. Não tem problema. — respondeu, tentando assimilar as coisas enquanto Larry desenhava pontos de interrogação no ar. Jorgelina tinha seu número, é claro, ela havia esquecido. A argentina nem sequer havia enviado as fotos, como prometera, mas havia dado o número dela a ?! E por qual motivo ele queria o número dela?! — Sim, , estou bem. E você, como está?
Ah, que ótimo! Estou bem também. E os seus amigos, melhoraram depois da festa?
— Ah, sim, melhoraram sim, obrigada por perguntar! — ela riu, sabendo que depois de ouvir aquilo os dois com certeza não perderiam um segundo sequer da conversa. Por isso, saiu do banheiro e caminhou até sua cama, com Simone e Larry em seu encalço. — Os dois estão acostumados, sempre dão aquele tipo de show.

deu uma piscadinha para os amigos enquanto ouvia gargalhar.

Ótimo. Fico feliz por saber quem estão bem. Escute, será que você não gostaria de sair para tomar um café? Tenho o dia livre hoje e... achei que seria divertido te apresentar alguma padaria que você ainda não conheça.
— Ah, ah... Eu... Obrigada pelo convite! — disse, surpresa. Afastou-se rapidamente de Simone, que parecia prestes a puxar o celular. — Te agradeço muito, mas eu já tomei café da manhã. — respondeu sem pensar, arrependendo-se imediatamente.
— Ah, oui — ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, deixando nervosa. A garota lembrou da expressão leve e sorridente do jogador na festa e mal pode acreditar que ele havia acabado de convidá-la para sair. E ela tinha recusado. — E quanto a um almoço? Não acredito que vocês, brasileiros, almocem assim tão cedo.
— Na verdade, temos um horário normal de almoço. — riu, tentando não parecer tão idiota. E nervosa. — , eu novamente te agradeço, mas, você sabe, eu começo no trabalho amanhã. Preciso ficar em total concentração hoje. — enquanto falava, bateu levemente em sua própria testa, não acreditando que estava negando um convite de com aquela desculpa. Ou melhor, negando dois convites.
— É claro, eu te entendo. — ouviu-o suspirar e pôde imaginar o jogador passando as mãos pelos cabelos. — Não vou atrapalhar sua concentração, sei o quanto isso é importante. Quem sabe outro dia, então. Mais uma vez, desculpe-me por ter ligado assim, . Boa sorte no trabalho amanhã! Au revoir.
Au revoir — foi tudo o que ela conseguiu responder. Jogou-se na cama, ouvindo apenas o “tu, tu, tu”, sem acreditar que aquilo havia acabado de acontecer.
— O que você fez?! — Simone indagou, jogando-se ao lado da amiga.
— Eu não sei. — murmurou, cobrindo o rosto com as mãos. — É muito cedo para estar arrependida?
— Espera, não estou entendendo. — Larry as interrompeu, sentando-se na poltrona em frente à janela. — O que aconteceu? O que ela fez?
a convidou para sair. E ela recusou.
— Duas vezes — choramingou.
— Não acredito que você fez isso, — Simone ralhou. No entanto, ela estendeu os braços para a amiga, rindo. — Na verdade, acredito sim. Até eu ficaria nervosa com um convite repentino desses.
— Continuo sem entender — Larry comentou, pulando para a cama. — Como você sabe que ele a convidou para sair? E , por que você está arrependida?
— Você é idiota? — Simone indagou, incrédula, fazendo a amiga rir. — Sei que ele a convidou para sair pois ouvi acabei de ouvir a conversa! A mesma que você ouviu, aliás! Aparentemente, as aulas de interpretação na Inglaterra não são assim tão eficientes.
— Ridícula — ele murmurou, revirando os olhos. — , então você queria sair com ele? E por que recusou?
— É claro que eu queria — choramingou novamente. — Quem não quer sair com ? E ele só me chamou para tomar um café, não seria nada demais. Recusei porque mal o conheço! E também porque fiquei um pouquinho nervosa.
— Você mal o conhece? — Lar indagou, arqueando a sobrancelha. — Não tem essa de conhecer ou não! O cara é famoso! — ele ficou em silêncio por alguns segundos, enquanto e Simone apenas o encaravam. — Ah, entendi.
Chéri, ouça — Simone disse — Não faz diferença você o conhecer super bem ou não. Não foi você quem disse que preferiria encontros casuais, que não tomassem muito tempo ou tirassem seu foco do trabalho? Aí está a oportunidade perfeita para um lance casual.
— Não quero um lance casual que acabe virando manchete de jornal! — protestou.
— Pensa pelo lado positivo! — Larry disse. — A reportagem seria super bem feita! Sabemos que Angelle só contrata pessoas competentes.

Simone mandou-o calar a boca, com um palavrão tão elaborado e tão francês que mal conseguiu entender.

, meu bem — ela disse. — Você não pode se privar por esse tipo de coisa! É quem está te chamando para sair, não o cara da esquina! Se você quer, deveria aceitar.
— Preferiria sair com o cara da esquina — resmungou. Ela nem sequer entendia a razão para estar tão frustrada. Havia negado o convite, afinal.
— Espera, quem é o cara da esquina? — Larry indagou, de repente.
— Saia. Saia daqui! — Simone ralhou, apontando para a porta.
— Ei, estou apenas brincando. Mas, assim... , porque você não liga de volta, sei lá, e diz que quer sim tomar um café?

Larry nem teve tempo de olhar para trás. Apenas saiu correndo do quarto enquanto duas almofadas voavam em sua direção.
Simone ainda passou algum tempo tentando convencer a amiga a falar com – de uma maneira mais sutil, é claro, mas achou melhor esquecer aquele assunto.

Ele era lindo, é claro. Educado, simpático e, no âmbito profissional, ele era incrível. Em questão de minutos, havia se perdido completamente no olhar e sorriso do jogador. Parecia um sonho que ela o tivesse conhecido e, parecia mais ilusório ainda que ele tivesse se oferecido para lhe apresentar padarias em Paris. No fundo, ela sabia que não havia nada errado em aceitar aquele convite. Ele havia a convidado para tomar um café, não para aparecer de pijama na varanda de seu apartamento. suspirou. De qualquer forma, sua primeira reação, ainda que impulsiva, havia sido o não. E como tudo acontece por um motivo, decidiu acreditar que havia agido da maneira correta.

⚜︎


A parte boa de se ter um espelho que ocupa metade de uma parede é o fato de não precisar fazer acrobacias quando você quer analisar cada centímetro da sua roupa, pensou, observando-se no gigantesco espelho em seu quarto.
Simone era quem estava destinada a trabalhar com Moda, mas também sentia que deveria estar impecável. Foi por isso que bateu humildemente à porta do quarto da amiga às cinco e meia de uma manhã de segunda-feira. Ela já tinha um look em mente, mas precisava da aprovação da senhorita Delyon.
Juntas, haviam combinado uma saia justa em xadrez preto e branco, uma blusa preta de gola alta, ankle boots de couro preto e um sobretudo cinza. Sentia-se linda, adulta e jornalística. E o melhor de tudo, sabia que Angelle certamente aprovaria a escolha.

— Como você está? — Simone indagou ao entrar no quarto enquanto tirava uma foto em frente ao espelho. Queria registrar aquele dia.
— Nervosa. — disse. — E você?
— Muito nervosa.
— É, eu também. — Larry concordou, encostando-se na porta. — Nervoso pra caralho.

Os três riram juntos e tentaram, sem muito resultado, acalmar uns aos outros antes de sair – não sem antes tirar muitas fotos no quarto de . Ficar com o mais espelho tinha suas desvantagens, afinal.
O trânsito em Paris estava muito movimentado naquela segunda-feira, por isso o trajeto até o prédio do jornal acabaria demorando mais do que o normal. Larry cantava sua playlist favorita, Simone falava com alguém não identificado ao telefone e estava selecionando as melhores fotos para enviar à mãe. Acabou selecionando fotos demais e se deparou com a que havia tirado com na Montana. Analisou a foto por alguns instantes, sem saber o que pensar. Apesar de toda a timidez que ela lembrava muito bem de ter sentido naquele momento, ela estava muito bonita. Sorria, feliz, com o rosto de quase colado ao dela. Ela lembrava muito bem da sensação que a mão do jogador em sua cintura havia causado em sua pele, mesmo que o toque tivesse acontecido apenas através dos tecidos. Ela também se lembrava perfeitamente do comentário dele sobre seu perfume e da forma como a voz dele pronunciava seu nome, naquela mistura de sotaques que ela achava perfeitamente atraente. Bloqueou a tela do celular, suspirando. A verdade é que desde a bendita ligação no dia anterior, ela não havia parado de pensar naquilo. Não havia parado de pensar nele, que havia se tornado um assunto proibido no apartamento da Rue Leneveux. Tudo porque ela não queria admitir que talvez tivesse se precipitado, que talvez não houvesse nada errado em ir tomar um café com ele e que com certeza aquilo não acabaria na capa do caderno de esportes do Le Monde.
decidiu que daria um jeito de falar com ele. Ele teria algum tempo livre durante a semana, não? Um jogador do Paris Saint-Germain, com tempo livre durante a semana, no meio da temporada? Claro que não.
É, ela havia sim se precipitado. Merda.
Voltou a mexer no celular, tentando se distrair para esquecer de e do nervosismo com o trabalho. Passeando pelo Instagram, viu uma atualização de stories da equipe do PSG. Pulou aquilo automaticamente, caindo direto nos stories de Angelle. revirou os olhos, jogando o celular longe.
Distraidamente olhou pela janela e, finalmente, ela estava ali. Depois de poucos minutos, o prédio do Jornal Le Monde se agigantava em sua frente. Ela sabia que ali dentro haviam centenas de pessoas elegantes que passavam apressadas de um lado para o outro, como em um filme estadunidense, daqueles em você entra em um prédio imenso, amplo e claro, com uma recepcionista linda e simpática, onde tem tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que você nem sabe para onde olhar. Era daquela forma que se sentia, com a diferença de que aquilo tudo não era um filme e sim a sua mais nova realidade.
Ela havia estado ali diversas vezes durante o mês de treinamento, mas aquela era a primeira vez que pisava no local oficialmente como funcionária. Sorrindo, pegou o elevador com Simone, Larry e algumas outras pessoas, indo em direção ao sexto andar.
Angelle já os esperava, pronta para recepcionar a todos de maneira alegre e totalmente profissional. já a achava brilhante num contexto geral, mas ali dentro, como redatora de um dos maiores jornais de toda a Europa, pôde perceber facilmente o motivo pelo qual ela era tão respeitada mesmo sendo tão nova. se perguntou se algum dia alcançaria aquela excelência profissional.
Angelle recepcionou formalmente todos os recém chegados – , Simone, Larry e Luna – e os apresentou aos demais funcionários daquele andar. Depois, encaminhou os novatos às suas respectivas salas. A sala de Simone era a primeira no corredor, portanto, se despediram primeiro. e Larry ficariam na outra ponta, sendo que a última sala era a da garota. Larry estaria na antepenúltima e a sala que os separava era ocupada por Marcelle. Argh.
achou que morreria ali mesmo, ao encarar a porta de vidro imensa, com uma plaquinha prateada e delicada que dizia ‘ — Art’ em letras pretas reluzentes. Angelle entrou na sala, acompanhando-a, deu algumas orientações e, para a total surpresa de , a abraçou.
E então, dois segundos depois, a garota estava ali. Sozinha. Pronta para trabalhar.
Passou boa parte da manhã rindo sozinha, enviando fotos para a mãe e organizando algumas planilhas. Ela publicaria suas matérias sempre às quintas e domingos e já havia planejado o que fazer naquela semana, portanto, tirou a segunda-feira apenas para pôr tudo em ordem.
Ela havia passado um mês inteiro pensando na responsabilidade que aquele cargo traria. A França é conhecida por toda a sua história artística e algumas pessoas, inclusive, consideram Paris como a própria capital da Arte, e precisaria transmitir àquilo aos leitores do jornal. Como apresentar às pessoas algo que elas já haviam visto centenas de vezes, sem que parecesse só mais uma? Como inovar sem que achassem que ela não nutria respeito por todo o contexto histórico das obras já conhecidas? Depois de muitas madrugadas olhando para o teto, entendeu o que precisava e queria fazer. Ela não iria reproduzir a interpretação de todos os que passaram naquele cargo antes dela – todos franceses e mais velhos que ela, inclusive. Mas também não sairia desbravando Paris em busca de quadros e esculturas que ninguém conhecia. Ela mostraria aos franceses tudo que o estava bem ali à frente deles, e faria isso a partir de seus próprios olhos.
Mais cedo do que ela estaria esperando, Mone e Veronica apareceram acenando sua porta, convidando-a para o almoço. Larry não as acompanharia pois estava concentrado em sua matéria que sairia no dia seguinte. Veronica aproveitou para apresentar às colegas alguns dos restaurantes mais próximos e dar excelentes dicas.
De volta ao jornal, comunicou a Angelle o que havia escolhido para sua primeira matéria, buscando a aprovação da chefe. Com a benção de uma das mulheres mais incríveis que já havia conhecido, voltou praticamente saltitando para sua sala. Ela havia decidido começar com algo leve, então, no meio da tarde, fez as ligações necessárias para confirmar sua visita ao Jardim de Luxemburgo, que seria feita no dia seguinte.
No fim do dia, ao sair do prédio, estava feliz, realizada e completamente orgulhosa.
Larry ficaria trabalhando até mais tarde e Simone havia ido embora com alguém, então colocou seus fones de ouvido e caminhou lentamente até o metrô, curtindo o início da noite parisiense.

— Mone? — a garota chamou ao entrar no apartamento, estranhando a escuridão. A amiga havia dito que iria direto para casa e sua bolsa estava da mesinha de entrada, mas não havia sinal dela no apartamento. — Simone?

revirou os olhos ao notar a luz do corredor que dava acesso aos quartos acesa. Ela provavelmente estava dormindo. Jogou sua bolsa em cima de uma das banquetas da cozinha e se abaixou em frente à geladeira, procurando o pote de lasanha caseira que ela sabia que havia guardado. Pretendia colocar a lasanha no forno e tomar um banho quente para relaxar. Ao se levantar, foi obrigada a conter um grito – o pote de lasanha, porém, se espatifou no chão.

Pardon — ele disse, rindo. — Não queria assustá-la. Simone está no banho e eu achei que tivesse escutado algum barulho, então vim ver e... — ele parou de falar e coçou a cabeça, repentinamente sem graça. observou que ele não era tão alto quanto ela achou que seria, mas mesmo assim, parecia enorme. Sua pele negra reluzia com muitas gotinhas de água e aquilo foi o suficiente para ela confirmar que ele estava no banho com Simone. Aquilo e a toalha branca enrolada em sua cintura, é claro. — Você deve ser a , né?
— Sou, sim. — murmurou, envergonhada. — E você é o Mbappé. — ela constatou e ele assentiu, sorrindo de maneira simpática. De repente se tornou muito consciente de que estava parada no meio da cozinha, à meia luz, secando Kylian Mbappé, que estava de toalha. Ah, e suas botas caríssimas estavam cobertas de lasanha. — Melhor eu limpar isso aqui. — resmungou, envergonhada, ao se abaixar para juntar os pedaços do pote quebrado.

Ele apenas assentiu e saiu caminhando, tão silenciosamente quanto viera.
balançou a cabeça, sem acreditar. Que situação!
Teria que conversar seriamente com Simone a respeito daquilo. Imagine se ela chegasse em casa e encontrasse andando em nosso apartamento de toalha na cintura?, pensou. Mordeu os lábios e sorriu, imaginando a cena, mas rapidamente se obrigou a focar apenas na sujeira aos seus pés.

⚜︎


Jardim de Luxemburgo, Paris. 17 de março de 2020.

chegou atrasada no jornal logo no seu segundo dia.
Ela havia passado a noite anterior se revirando na cama, sem conseguir dormir. A segunda-feira tinha sido um dia muito tranquilo, sem cansaço o suficiente para que conseguisse dormir sem ser incomodada pelo nervosismo.
Estava preocupada com a sua primeira matéria e, inevitavelmente, se crucificando por não ter lidado da melhor maneira com certas oportunidades que haviam lhe aparecido.
Ela já sabia que estava completamente arrependida por não ter aceitado o convite de para um café. E ela nem estava pensando em vê-lo de toalha caminhando pelo seu apartamento, e muito menos encararia aquilo como um encontro. Apenas havia se sentido confortável o suficiente conversando com ele, mesmo sendo quem era, e estava disposta a deixar as neuras de lado em prol daquela amizade. A noite em claro havia servido para uma decisão: assim que sua matéria estivesse pronta, procuraria . Não deveria ser difícil de encontrar.
No dia anterior, a garota havia optado por deixar sua câmera e todo seu material fotográfico no jornal, afinal, não pretendia se atrasar e teria tempo de sobra para pegar tudo e se organizar para ir de metrô ao Jardim de Luxemburgo. Na realidade, teve que entrar voando no prédio do Le Monde, pegar suas coisas e usar o carro que ela sabia estar a sua disposição para chegar até os jardins. Ela havia dirigido pouquíssimas vezes em Paris e o carro de Larry era completamente diferente do veículo que o jornal havia cedido para cada um dos funcionários, então ela estava completamente aterrorizada.
Se tivesse ido de metrô, chegaria bastante atrasada, mas suas chances de sobreviver seriam maiores do que as que tinha naquele momento. Depois de quase vinte minutos, muitas buzinas e uma quase entrada na contramão, parou o carro no estacionamento privado dos jardins e finalmente desceu, sem ter certeza de que conseguiria dar um passo, devido ao tremor em suas pernas.
Todo o susto passou ao contemplar a imensidão e a beleza do Jardim de Luxemburgo. Aquele lugar existia desde 1615, passando por várias mudanças e adaptações até chegar em seu máximo, que era como ela o encarava naquele momento. Era um lugar muito popular entre os parisienses, as visitas ali eram frequentes em todos os momentos do dia, para os mais diversos fins. E apesar de saber que os parisienses passavam por ali todos os dias, não achava que eles realmente enxergavam os jardins ou prestavam a merecida atenção. Escolheu o Jardim de Luxemburgo para sua primeira matéria porque ali ela poderia explicar muito do que pensava. As pessoas achavam a arte bonita, mas não sabiam apreciá-la como ela merecia.
Por ver aquele lugar todos os dias, eles apenas estavam acostumados. Já haviam se esquecido de que os jardins não haviam simplesmente começado a existir ali de uma hora para outra, eles tinham uma história – assim como tudo e todas as pessoas, e ela acreditava fielmente que todas as histórias mereciam e precisavam ser contadas. Sorriu ao pensar naquilo enquanto caminhava para encontrar o atual responsável pelos jardins. Já tinha o título para sua primeira matéria.

⚜︎


acabou passando mais tempo do que havia planejado naquele lugar mágico e encantador. Almoçou em um restaurante próximo, ao qual pôde ir a pé, pois jurou não dirigir novamente a menos que fosse extremamente necessário. Depois do almoço, retornou e se sentou no gramado, apenas analisando o palácio, tentando enxergar um pouco como Maria de Médicis em 1612.
Ao final do dia, ela já tinha todas as fotos que precisava, de todos os ângulos que a agradavam. Do céu, do gramado, das flores, do palácio, dos visitantes – turistas e parisienses, porque, sim, era muito fácil separar. Tinha fotos até do cachorro que dormia calmamente abaixo de uma placa que vetava a presença de cães na área das flores. Também tinha vários depoimentos. Do gerente do local, do segurança dos jardins, de alguns turistas, algumas das palavras de Maria de Médicis que ainda se encontravam gravadas pelo local e, é claro, o seu próprio depoimento. Já estava anoitecendo quando foi embora do Jardim, se despedindo alegremente de todas as pessoas que havia conhecido naquele dia. Estava realizada e, finalmente, cansada. Sabia que uma boa noite de sono a aguardaria.
Dirigiu rapidamente até o jornal, pois precisava devolver o carro e organizar todos os arquivos daquele dia. agradeceu aos céus por encontrar um trânsito menos caótico do que o das sete da manhã.
Larry e Simone já haviam ido para casa e, no quarto andar, as únicas pessoas ainda presentes eram Veron, Luna e Angelle.
estava transferindo as fotos da câmera para o computador quando sua chefe apareceu em frente à porta de vidro, pedindo licença. Mostrou a ela tudo o que tinha produzido naquele dia, contando por cima sua ideia para a matéria. A garota respirou aliviada ao perceber o quanto Angelle pse mostrou satisfeita. Ela mal conseguiu tirar o sorriso do rosto enquanto transcrevia todas as gravações que havia feito em seu celular.
Foi para a casa de metrô, é claro, e ao entrar em seu apartamento, encontrou Larry e Simone sentados na sala, da maneira que seus pais pararam de fazer quando ela parou de voltar para casa após as festas.

— O que rolou? — indagou, jogando sua bolsa no sofá da sala e deitando-se logo em seguida.
— O que rolou? — Simone repetiu, brava. — , são quase dez da noite! Você não foi para o jornal conosco, sumiu o dia inteiro, não atendeu o telefone e aparece só agora em casa?
— Desculpe — resmungou. — Sai atrasada, passei no jornal só para pegar minhas coisas e passei o dia no Jardim de Luxemburgo. Eu avisei que faria isso.
— Não, você não avisou. — Larry reclamou. — E eu não acredito que você veio sozinha para casa a essa hora da noite, ! Por que não me pediu para buscá-la? Também não acredito que você passou o dia andando de metrô para lá e para cá. Nós combinamos que todos poderíamos usar o carro e...
— Lar, está tudo bem, sério. — a garota suspirou, sentando-se. — Eu avisei sim a vocês que esse seria meu dia hoje. Você estava nervoso com sua matéria, Lar. E você estava ocupada fazendo sexo, Simone. — acusou, mas os dois apenas riram. — E de qualquer forma, acabei pegando o carro do jornal para ir ao jardim. E quanto a voltar sozinha... Eu nem reparei no horário e... — foi interrompida por seu próprio celular, que começou a tocar no bolso do casaco. — É um número daqui. — ela disse, encarando o visor.
— Ah, eu sabia! — Simone gritou, pulando no sofá. — Eu sabia que ele ligaria de novo! Eu sabia!
Allo? atendeu, fazendo sinal para que a amiga calasse a boca. Simone só ficou quieta quando Larry tampou a boca dela.
Oi, ! — uma voz feminina respondeu, animada. — Aqui é a , da Montana! Você lembra de mim?
— Oi, ! — respondeu, revirando os olhos para a amiga que encenava uma morte trágica e muito dramática. — Claro, me lembro sim! Como você está?

pegou sua bolsa no sofá e caminhou até seu quarto, ouvindo explicar que ela havia passado o código de área invertido para a barwoman, que passou dias tentando descobrir como contatá-la. As duas acabaram combinando de almoçar no dia seguinte. Como já estava com tudo da matéria bem adiantado, decidiu que seria bom ter uma distração.

— Bonito, né, — Simone resmungou, abrindo a porta do quarto da amiga assim que ela desligou o telefone. — Legal! Ótimo! O convite do você não podia aceitar, né? — ela bateu a porta e saiu resmungando algo sobre não entender e suas convicções brasileiras.
— Tudo bem, Mone. Tudo bem. — murmurou para si mesma enquanto entrava no banho, rindo. — Tá tudo bem. Nem eu me entendo.

⚜︎


Parc des Princes, Paris. 18 de março de 2020.

— Você tem certeza de que não vai? — Neymar indagou, desfilando pelo vestiário com a toalha na cintura.
— Passo. — murmurou, sentado no chão. Estava tentando mediar seu humor, decidir entre estar frustrado ou satisfeito. Ele havia contribuído para os dois gols, com belíssimas assistências, mas o peso de ter errado um gol praticamente feito parecia ser maior. Ninguém o estava pressionando, a não ser ele mesmo. Na verdade, ninguém o estava pressionando com palavras, mas o silêncio se pronunciava perfeitamente: ele sabia que esperavam mais dele. Estava no PSG. Seus chefes haviam plantado as sementes e esperavam colher o resultado. Hora ou outra, precisaria acontecer. Era assim que acontecia no futebol. Ou rendia em campo ou assistia ao jogo do banco. E do banco, o caminho para o esquecimento não parecia ser tão longo.

Balançou a cabeça, irritado consigo mesmo. Estava exagerando, se cobrando demais, como sempre fazia, e a cada vez que sua cabeça vagava por esses lugares rudes e sombrios, ficava mais difícil tirá-la de lá.

— Não entra nessa, — Di Maria comentou, observando o amigo.

se limitou a assentir, pensativo. Permaneceu em silêncio até que Kylian adentrou o espaço, fazendo, como sempre, muito barulho.

— Vocês não sabem o que aconteceu ontem — o francês disse, já rindo. — Eu estava lá no apartamento da Simone, estávamos tomando banho — ele deu uma piscadinha para os companheiros, gargalhando — e eu ouvi um barulho. Resolvi sair para ver, vestido desse jeito aí, ó, — apontou para Neymar, que ainda estava apenas de toalha na cintura — e dei de cara com a brasileira.
? — indagou imediatamente, arrependendo-se ao ouvir a risada baixa de Marquinhos.
— A própria.
— Hum. — resmungou, fazendo Di Maria rir também.
— E o que ela fez? — Neymar quis saber.
— Nada! Estava mais interessada no pote de comida do que na beldade francesa aqui. — Kylian declarou, fingindo decepção.

Foi nesse momento que levantou, sorrindo satisfeito, e se dirigiu ao chuveiro. Ele não queria sair para jantar com Neymar e algumas modelos, então precisava fugir do amigo antes que ele voltasse a insistir. Ele normalmente teria aceitado o convite, mas ultimamente, a única mulher que ele queria levar para jantar não era modelo, era jornalista.

⚜︎


Jornal Le Monde, Paris.

— Ótimo. Está tudo bem. Eu sou uma ótima escritora, ótima jornalista e está tudo bem. Dei o meu melhor e as pessoas vão gostar. — dizia em voz alta, sozinha em sua sala, como um mantra.

Já passavam das sete da noite de uma quarta-feira que praticamente voou. A garota havia ido para o jornal logo cedo, de metrô, para a total infelicidade de Larry. Passou a manhã inteira montando a matéria, teve um almoço agradável com e passou o restante do dia alternando entre surtar e finalizar a matéria. Naquele momento, a matéria já estava pronta, então ela só tinha a opção de surtar. Ela baixou a tela do laptop, que recém havia sido usado para enviar o arquivo para a impressão e respirou fundo, ainda sentindo o perfume de Veronica em sua sala. Ela havia chamado Veron para ajudá-la a dar um toque final em tudo, já que ela, Simone e Larry decidiram não pedir ajuda uns aos outros em sua primeira matéria, afinal, todos estavam passando pela mesma pressão.

, nós já estamos indo — Larry disse de repente, assustando-a. Estava tão distraída que nem sequer percebeu os amigos abrindo a porta. — Você quer carona?
— Podemos te esperar ou ajudar no que ainda precisa organizar, chéri — Simone declarou.
— Não precisa, gente. Está tudo bem, obrigada. — respondeu, sorrindo ao sentar em sua cadeira de couro escuro. — Vou ficar por aqui até que eu me acalme, depois vou embora de metrô. Eu gosto de andar de metrô — frisou, notando o olhar do amigo.
— Certo. Só não demore, tudo bem? — Simone pediu, dando-lhe um sorriso carinhoso.
— E se achar que está tarde e precisar de carona... Me ligue — foi a vez de Larry sorrir.

acenou, atirando beijos aos dois enquanto saíam. Ela poderia tranquilamente dizer que já amava aqueles dois. Sentiu-se culpada por não ter sido tão solícita quanto eles estavam sendo, mas a verdade é que nenhum dos dois havia surtado daquela maneira com suas primeiras matérias. Não que ela não confiasse em seu potencial. Era só que... Aquela era absolutamente a oportunidade de sua vida, e não conseguia nem projetar pensamentos para um futuro caso aquilo não desse certo. Era algo tão grande que ela estaria mentindo se dissesse que já havia sequer sonhado com aquilo. Precisava fazer dar certo.
Ela estava quase totalmente calma quando sentiu uma vontade desesperadora de reler a matéria, coisa que ela sabia que acabaria com sua tranquilidade recém adquirida. Numa tentativa de se distrair, pegou o celular para dar uma conferida nas redes sociais. A primeira coisa que viu ao desbloquear o aparelho foi a notícia da vitória do Paris Saint-Germain sobre o Olympique de Marseille, por 2 a 1.
Não pode deixar de sorrir ao pensar em seus novos conhecidos comemorando aquilo. Sentiu a vontade de falar com apertar e resolveu mandar uma mensagem. Abriu o Instagram, pensando em enviar um simples “parabéns pelas assistências”, mas se conteve. Será que os jogadores se sentiam ofendidos por receber parabenizações por uma assistência e não pelo gol? Ele havia colaborado e muito para o gol, mas não sabia se, na linguagem dos atletas, aquilo era o suficiente. Bateu os dedos na mesa, impaciente. Não sabia bem o que falar.
Agindo rapidamente, antes que se arrependesse, abriu o perfil de e clicou no ícone das mensagens.
Salut”, ela digitou, enviou e rapidamente bloqueou o celular. Se arrependeu no mesmo instante.
Idiota, ele nunca vai ver. Ele deveria receber milhões de mensagem todos os dias. apertou os lábios, frustrada. Ele nunca veria a mensagem e ela nunca teria coragem de entrar em contato novamente. Ela desbloqueou mais uma vez o aparelho e agindo novamente de maneira rápida, apagou a mensagem que tinha enviado. Respirou aliviada, levantando da cadeira.
Mas...
Mas e se ele visse?
Ele recebia muitas mensagens, é claro. Mas e se ele visse aquela? Sim, a dela. Não parecia tão impossível, dadas as circunstâncias. Será que ela deveria enviar outra mensagem? Não, claro que não. Não aguentaria esperar e acabaria apagando-a novamente.

— Covarde — murmurou para si mesma enquanto organizava as coisas em sua bolsa para ir embora. Já havia até esquecido de seu nervosismo anterior. paralisou ao ouvir o celular tocar. Virou-se rapidamente para o aparelho que estava em cima da grande mesa de vidro, respirando fundo antes de ter o nome no visor.

Ela nem sequer lembrava de ter salvo o contato depois do fiasco da ligação no domingo. Respirou fundo, ajeitou a usual mecha de cabelo atrás da orelha e respirou fundo antes de atender.

— Oi, .
! Como você está?
— Estou bem! Ótima. E você?
Fico feliz. Estou bem também. — ele suspirou. — Sabe, ... É muito raro que eu consiga ver as mensagens que alguém me manda, e é mais raro ainda que essa mensagem seja apagada antes que eu consiga responder.

A garota sentiu seu rosto corar enquanto ouvia rir. Acompanhou suas risadas, por fim.

— Ah, ... Me desculpe! Eu só queria te parabenizar pelo jogo hoje, mas não sabia muito bem como falar e achei que você nunca veria a mensagem e...
Então quando você suspeita que uma pessoa não vai ver uma mensagem a melhor opção é apagá-la? Ah, sim. Entendi. Você é estranha, . — ele riu novamente.
— Ei, eu estava tentando ser legal! — ela se defendeu. — Parabéns pela vitória hoje. As assistências foram ótimas.
Elas foram incríveis, né? — ele respondeu, parecendo feliz, e sentiu apenas alívio por ter dito a coisa certa. — Obrigado, ! No fim das contas, foi um bom jogo. E você, como estão as coisas no jornal?

No fim das contas?, ela mordeu o lábio, se perguntando. Algo não parecia certo.

— Hoje foi um bom dia também. — respondeu. — Finalizei minha primeira matéria e, apesar de estar bem nervosa, estou muito satisfeita.
Ah, isso é incrível! E o nervosismo é super normal. Você se acostuma. Ei, ... Já que tivemos um dia bom, o que você acha de comemorarmos?

A jornalista quase pôde percebê-lo ansioso do outro lado da linha. Afastou o aparelho do rosto para respirar fundo, controlando sua própria ansiedade.

— Um café fora de hora? — disse. — Aceito.
Um café às nove da noite de uma quarta-feira? Ótimo. — ele riu. — Os franceses vão nos odiar, você sabe. Pego você em casa ou no jornal?
— Acho que os franceses precisam se adaptar à novos costumes. Estou no jornal. Te encontro lá embaixo.
Certo. Já estou indo, .

⚜︎


O jogador tamborilava os dedos no volante no mesmo ritmo em que chacoalhava o pé. Estava nervoso, de um jeito bom.

, preciso te contar uma coisa. — ele disse de repente, enquanto estacionava o carro em frente à Le Serail Patisserie. A garota sentiu seu estômago contrair, analisando . Ele parecia repentinamente muito sério.
— Certo. — suspirou. — Manda.
— Eu não tomo café.
— O quê?
— Café, sabe, a bebida. Eu não tomo. Te convidei para um café, mas não tomo café. — ele riu, apoiando a mão na testa. notou que era muito fácil rir com ele.
— Bom, ... Eu também preciso te contar uma coisa. — não foi capaz de conter o sorriso quando ele a encarou de maneira curiosa. — Vim o caminho inteiro torcendo para ter suco de laranja natural ou qualquer outra coisa adulta. Eu também não gosto de café.
— Não sei qual dos dois é pior, sabe? O que convida sem gostar ou a que aceita sem gostar. — ele gargalhou, saindo do carro. Antes que pudesse se mover, ele já estava em sua porta, abrindo-a educadamente. — Mas eu gosto daqui, sabe? Não é muito movimentado, fica aberto até tarde e tem coisas muito boas. E sim, eles têm suco de laranja natural.

escolheu alguns bolos e pães muito bonitos no balcão e insistiu que só sairia dali após provar todas as suas indicações. Ele apontou para uma mesa no canto e caminhou até lá com a cesta de comida enquanto levava os dois copos de suco. A garota notou que o dono do estabelecimento, um senhor muito simpático, já devia estar habituado a – ou nem o conhecia, pois os tratou com total naturalidade.

— Então, me conte — ele disse ao se sentar. — Posso saber sobre o que é a sua matéria?
— É claro que não — ela respondeu, de pronto.
— Não? — ele arqueou a sobrancelha, surpreso.
— Não. Regra de jornalista — deu de ombros. — Se você quiser saber, vai precisar ler o Le Monde de amanhã.
— Eu não costumo ler jornais — ele disse, fazendo uma careta. — Alguns são maldosos. Não acredito que você vai me fazer comprar um jornal por sua causa. — o atleta resmungou, fazendo rir baixo. Ela estava prestes a defender as manchetes quando ficou sério de repente, encarando-a da mesma forma que havia feito na festa. Ele era absolutamente lindo, e a cada vez que mudava de expressão, apresentando novos traços em seu rosto, se sentia mais hipnotizada. — Eu quero te perguntar uma coisa — ele comentou calmamente enquanto partia um pedaço de pão de nozes com amendoim e o colocava no prato da garota. — Na verdade, quero te perguntar isso desde que nos conhecemos.
— Diga. — ela respondeu simplesmente. a encarava de forma tão intensa que chegou a se perguntar se ela não era a única presa naquele olhar.
— Quem é você, ? — ele indagou de maneira calma. sentiu o sorriso se expandir completamente em seu rosto, deliciada com a forma que ele havia demonstrado o interesse em saber mais sobre ela. — Tão... Intrigante. Fiquei querendo saber mais sobre você.

baixou os olhos, brincando distraidamente com o pedaço de pão artesanal em seu prato. Se continuasse e fitar os olhos do jogador, não conseguiria pensar com clareza.

— Eu acho que sou... — ela suspirou, procurando as palavras certas. — Às vezes acho que sou a pessoa mais criativa que conheço, e gosto bastante desse fato. Sempre gostei de criar coisas, de externar o que está em minha cabeça, de diversas formas. Também acho que sou uma pessoa muito amorosa. Gosto de conversar, amo, na verdade, e também gosto de ser o ombro amigo e estar sempre presente quando alguém precisa. — ela deu de ombros, se perguntando se havia falado demais. Quando encontrou os olhos de , no entanto, eles estavam concentrados nela e transbordavam aquele interesse que tanto a cativava. — Acho que nasci jornalista, por isso falo tanto. — ela comentou, baixinho, arrancando um sorriso do jogador. — Sempre fui apaixonada pela França e sempre acreditei que tenho muito a oferecer para o mundo, assim como tenho a receber... Por isso estou aqui. E o resto da história você já sabe. Argh, essa é uma pergunta difícil.
— Você sente saudades de casa? — ele indagou, ignorando seu comentário final.
— Ainda não estou sentindo — respondeu involuntariamente. O interesse do jogador a impelia a falar naturalmente, sem filtrar as coisas como gostaria. — Minha relação com meu pai sempre foi conturbada, e isso já estava afetando a minha mãe, que sempre tentou mediar tudo. Apesar de ter saído bem cedo de casa, assim que comecei a faculdade, sempre me senti muito presa. Agora me sinto livre, sabe? Finalmente posso pensar e agir como quero. — perdeu-se em pensamentos, tomando um gole de seu suco de laranja natural. — E as coisas por aqui estão ótimas, sabe? Está tudo tão bom que mal tenho tempo para pensar em sentir saudades do Brasil. Além do mais, todas as pessoas que conheci na França foram muito simpáticas, receptivas e...
— Todas? — ele a interrompeu, arqueando a sobrancelha grossa.
— Sim, todas. — respondeu, tomando mais um gole de suco.
— Kylian comentou que conheceu você.
— Ah. Sim. É. — foi tudo que conseguiu dizer depois de engasgar com a bebida. Sentiu sua face ruborizar ao lembrar da cena que havia protagonizado com Mbappé. — Conheci sim.

soltou uma risadinha que ela não soube identificar, e um silêncio, que parecia não ter lugar ali, se instalou entre os dois.

— Mas e aí... Me conta. — ela disse, depois de alguns instantes. — Sua vez de me contar quem é .
— Ah, isso não vale! Não sei falar como você. Você é jornalista, sabe conduzir as palavras de uma forma que eu não sei. Não vale usar minha pergunta contra mim.

Ela riu, tentando argumentar, mas foi interrompida novamente.

— E de qualquer forma, você já deve saber quem é . Você vive no meio dos jornais.
— E é justamente por viver no meio dos jornais que eu sei que não devemos acreditar em tudo o que sai naquelas páginas. — ela explicou, piscando. Pela expressão dele, soube que estava a levando a sério. — E tem mais... — eu disse sentindo-me repentinamente nervosa. — Quero conhecer através de .

Ela notou algo no olhar do jogador mudar. Percebeu também o sorriso que se formou no canto dos lábios dele. Tinha algo diferente ali também, e ela poderia jurar que o mesmo sorriso estava refletido em seu próprio rosto.
Eles não estavam flertando. Eles estavam flertando?

— Ah, então você quer saber mais sobre mim? Além do que vê nos jornais?

Ele estava flertando.

— Sim, eu quero. Como é que você disse? Tão intrigante, fiquei querendo saber mais sobre você.

Ela estava flertando.
não conseguia decidir se prestava atenção nos olhos claros que haviam a cativado desde o primeiro momento ou no sorriso travesso naqueles lábios tão convidativos.
Se não fosse seu coração batendo em seu próprio peito, ele não acreditaria os batimentos cardíacos de alguém poderiam se acelerar tanto só por uma troca boba de palavras. Ele se perguntava se tinha consciência da forma que o encarava. Tudo o que ele queria fazer era estender o braço e tomar o rosto dela nas mãos.
Então, o celular tocou.
Droga, pensou .
Droga, pensou .
viu o horário antes de ler o nome no visor. Já passavam das onze da noite. Deslizou o ícone para atender a ligação e pegou rapidamente o aparelho.

— Já estou indo. — respondeu e encerrou a ligação.
— Aconteceu algo? — indagou, a encarando uma maneira curiosa.
— Você lembra que eu disse que aqui posso fazer o que quero sem dar satisfações a ninguém? — ela perguntou e ele assentiu, atencioso. — Pois é. Simone e Larry fazem muito bem o papel de pai e mãe durões.

Ele riu, compreensivo. Na verdade, estava agradecido pela ligação, apesar de querer passar mais tempo com a garota. Precisava pensar com muita clareza até para falar com . Gostou de ver o rumo que a conversa estava tomando, mas sabia que não era o momento par aquilo. Ainda não. Não poderia correr o risco de se precipitar e acabar com tudo rápido demais.

— Está ficando tarde mesmo. Tenho treino cedo. Vou levar você embora. — ele a analisou por alguns segundos — Posso?
— Obrigada, , mas não precisa. Vou pedir a Larry para vir me buscar.
— Não esquenta, . Eu levo você. Não quero criar problemas com seus pais — ele debochou, fazendo-a revirar os olhos.

o acompanhou até o balcão, abrindo sua bolsa. Ele tocou levemente o braço dela, interrompendo-a.

— Deixa que eu pago, .
— Não esquenta, , faço questão. — ela sorriu.
— Eu vou pagar, chéri. Fui eu quem convidou você. — ele piscou. — Se você faz tanta questão de pagar, se adiante da próxima vez e me convide primeiro.

⚜︎


abriu os olhos, sem acreditar. A claridade invadia seu quarto, mas estava tudo silencioso. Devia ser muito cedo. Ela dormiu tão bem que nem precisou do despertador para acordar. Apenas abriu os olhos e estava ali, pronta. Ao pensar no dia anterior, sentiu o rosto ainda preguiçoso se exercitar, abrindo um enorme sorriso. O café sem café com ainda estava fresco em sua memória.
Ela havia contado tudo para Larry ao chegar na noite anterior, mas deixara Simone de fora, vingando-se da amiga por esconder todos os detalhes de seus passeios com Mbappé.
Mas naquele momento, curtindo o raro silêncio de uma manhã parisiense, outra coisa veio ocupar os pensamentos de e ampliar seu sorriso: sua matéria.
Pulou da cama, vestiu um casaco de moletom do por cima do pijama, calçou as pantufas, escondeu os cabelos dentro do capuz, pegou o celular e suas chaves em cima do balcão e desceu rapidamente pela escada do prédio, incapaz de esperar pelo elevador.
Ela sabia que aquela edição do jornal seria entregue no apartamento apenas uma hora depois. Sabia que poderia lê-la digitalmente e que teria acesso a milhares de cópias daquilo, mas ela simplesmente precisava comprar uma edição do jornal que continha sua primeira matéria. Ela merecia. Antes de chegar à banca no final da rua, sentiu seu celular vibrar no bolso do casaco e sentiu também o coração acelerar conforme lia a mensagem recebida no Instagram.

"bonjour, . sim, eu comprei um jornal. não sei há quantos anos não fazia isso. a parte boa é que nunca mais vou ver o Jardim de Luxemburgo da mesma maneira. acho que nosso próximo café sem café já tem um local definido."


Capítulo 4

Rue Leneveux, Paris. 20 de março de 2020.

Larry tamborilava os dedos na mesa da cozinha enquanto observava a conversa das amigas, levemente impaciente. Simone já estava insistindo naquilo há um bom tempo, e a julgar pela relutância de em aceitar o convite, logo Simone resolveria importuná-lo também. E ele certamente não aceitaria aquilo. Porque... Bom, ele sabia bem o motivo. E Simone também.

— Por favor, por favor, por favor! — ela exclamou, abraçando .
— Não, Mone, não vou. — suspirou. — Sinto muito. Preciso me organizar e estar bem disposta para cobrir a exposição amanhã, amiga. Não vai rolar. Desculpe.
— Mas, ! Por favor! Eu preciso de você! — ela tentou mais uma vez. Larry revirou os olhos, saindo da cozinha, e quis poder fazer o mesmo. Era sexta feira de manhã, os três amigos estavam tomando café antes de ir para o jornal e Simone estava infernizando a amiga para acompanhá-la em uma festa naquela noite. — Preciso descobrir se ele está me dando um gelo e não posso fazer isso sozinha! — ela choramingou.

Simone havia decidido, desde a noite anterior, que Mbappé não estava mais interessado em sair com ela. Ele havia ido dormir em seu próprio apartamento e, aparentemente, aquilo significava o fim da linha para a rainha dos relacionamentos casuais.

— Amiga, ele não está te dando um gelo. — a brasileira suspirou novamente. — Ele não está te evitando, Simone. Foi ele quem te convidou para essa festa, mulher!
— E por que ele não dormiu aqui? — ela indagou, deixando que uma expressão emburrada e levemente infantil tomasse conta de seu rosto. — Achei que ele iria ficar sempre aqui.
— Você está se ouvindo, Simone? — questionou, arqueando a sobrancelha. Estava totalmente focada em sua xícara de chá. Não achou que seria uma boa ideia olhar para Simone com a expressão chocada que ela sabia estar em seu rosto. — Estamos falando de Kylian Mbappé aqui. Kylian e você, que vive dizendo não querer nada sério. Vocês estão saindo há uma semana, se veem todos os dias, mas... É você quem vive dizendo que isso não vai virar um compromisso... — a brasileira fez uma pausa, arriscando um olhar para a amiga, e percebeu que Simone a encarava atentamente. — Aliás, sei que Larry e eu somos incrivelmente legais, mas seu queridinho ainda deve fazer questão de um pouco de privacidade, não? Acho que quando te chamou pra sair ele não estava realmente considerando se mudar para um apartamento com três pessoas em tão pouco tempo. — provocou e a amiga suspirou, rindo. — Vá à festa, Mone. Curta o que vocês têm para curtir. Se, ao final da noite você ainda se sentir incomodada, converse com ele. Ele é um cara legal. É Kylian Mbappé, sim, mas ele não é alguém inalcançável e o fato de estarmos tendo essa conversa só comprova isso.

Simone assentiu, séria, antes de pular no pescoço da amiga para um abraço apertado.

— Obrigada, ! Você é um anjo. Fico muito feliz por te ter em minha vida.

E assim saiu saltitando da cozinha, em direção a seu quarto – provavelmente para trocar o look preto luto por algo mais animado.

— Você realmente acha que isso pode dar em algo? — Larry indagou de repente, de volta à cozinha.
— Isso o quê, meu bem? — questionou, levando sua xícara de chá até a pia.
— Simone e esse cara. Mbappé. — ele coçou a cabeça, pensativo. — Você realmente acha que isso pode se tornar algo sério?
— Não saberia te dizer. Não sei nem se é isso que os dois querem, oui? A Simone está bem empolgada, é claro, mas pelo pouco que pude conhecer dela nesse tempo... Não acho que ela conscientemente escolheria se envolver nisso de maneira mais séria. Mas eles realmente se dão muito bem e ele realmente está dormindo aqui há uma semana... — a brasileira deu de ombros, aproximando-se de Larry para arrumar a gola de sua camisa branca. — Quem sabe?
— É... — ele suspirou. — Quem sabe. E você e , hein? Já têm o próximo date marcado?
— Não foi um date — ela respondeu, corada, fechando o último botão da camisa do amigo. — Foi só um café. E não, não temos nada marcado. E também, tenho a exposição amanhã. Não tenho tempo para pensar em dates ou em jogadores famosos — suspirou, revirando os olhos.
— Ah, você não tem tempo? — ele riu, debochado. — Então ontem à noite você arranjou uma lacuna temporal para atender a ligação de um certo jogador famoso, foi?
— Idiota — respondeu, dando um leve tapa na testa dele. — Vocês precisam para de bisbilhotar minha vida.
— As paredes do apartamento são muito finas — Larry deu de ombros, gargalhando.
— São muito finas, mesmo. Simone e seus convidados podem confirmar isso — a garota brincou e Larry saiu imediatamente da cozinha, não sem antes deixar uma expressão séria voltar a seu rosto.

permaneceu na cozinha preparando seu lanche para o dia enquanto seus amigos terminavam de se aprontar. Involuntariamente, começou a pensar na conversa que Larry havia escutado. Na manhã anterior, havia mandado uma mensagem, parabenizando-a pela primeira matéria e, depois disso, passaram o dia conversando no Instagram. À noite, para total surpresa de , ele ligou. Ele simplesmente me ligou para contar como foi seu dia, a garota pensou, sorrindo. Conversaram sobre o Jardim de Luxemburgo, sobre os treinos dele naquele dia, sobre o nervosismo que antecedia estreias em jornais famosos e em campeonatos importantes... A conversa fluía facilmente e os dois passaram quase uma hora no telefone, até que alguém chegou ao apartamento de . Aparentemente, Neymar e alguns jogos de videogame. se despediu avisando que o treino daquela sexta-feira exigiria muito deles, portanto, era grande a possibilidade de que ele sumisse por algumas horas. Ele não parecia estar dando satisfações, constatou. Só parecia... Parecia que ele realmente queria que ela estivesse ciente do que acontecia. Queria que ela... Participasse. E também percebeu que ela tinha a mesma intenção quando contava ao jogador sobre sua vida. Cedo, muito cedo, a voz na cabeça de soou, como em um alarme. Sabia que não deveria apressar nada, e, no entanto...
Ela permaneceu alguns segundos se perguntando o que aquilo tudo significava, até que Simone entrou na cozinha dizendo que estavam atrasados. Mecanicamente, perdida em pensamentos, desceu para o estacionamento e se manteve em silêncio até chegarem ao Le Monde.
Não era cedo, afinal. Já era tarde.

⚜︎


Avenue du Président John Fitzgerald Kennedy, Saint-Germain-en-Laye.

dirigia animadamente pela longa avenida que o levaria ao centro de treinamento.
Isso porque ele realmente estava animado. Ansioso, é claro, mas animado. Aos vinte e cinco anos, vivia o sonho de muitos jovens, principalmente os que amavam o futebol. Mesmo com toda a pressão, com o perigo das lesões batendo sempre à porta e o medo de falhar que insistia em rondar todos os atletas, ser um dos jogadores mais importantes do maior time da França e poder honrar seu país através de sua seleção, era uma realização e tanto. Mesmo assim, fazia algum tempo que não se sentia tanto como o... Antigo . Aquele que sentia, que se divertia, que apreciava também os momentos fora dos gramados.
Ele já tinha experimentado muitos sentimentos. Várias vezes já havia se apaixonado, coisa que acontecia com uma facilidade maior do que ele gostaria de admitir, e acreditava também já ter amado. Já havia tido vários relacionamentos, alguns bastante intensos, com juras e promessas que naquele momento já não faziam o mínimo sentido. Em contraste com o intenso e apaixonado que se dedicava aos relacionamentos, também havia aquele que sabia muito bem como aproveitar a vida de jogador famoso e... desejado, principalmente tendo colegas que gostavam tanto dessa parte da carreira. Já havia também acreditado que alguma de suas ex-namoradas poderia, finalmente, ser a mulher da sua vida. Mas, até aquele momento, não havia se sentido daquela forma.
Jamais havia se sentido tão conectado ao olhar de uma pessoa, que era o que acontecia toda vez que ele olhava para .
Toda vez, ele pensou, balançando a cabeça. Parecia conhecer há anos e às vezes era difícil acreditar que fazia apenas uma semana que a garota havia chamado sua atenção na Montana. tinha tantos detalhes da brasileira gravados em sua mente que parecia impossível o fato de que eles só haviam se visto duas vezes. O jogador riu sozinho, lembrando das expressões sinceras e intrigantes que fazia.

— Presta atenção na estrada — Marquinhos resmungou de repente. arriscou uma olhada para o amigo e percebeu que o camisa cinco do PSG estava, como todos os dias, jogado no banco do carona, de olhos fechados, ouvindo música.
— Preciso prestar atenção mesmo, até porque você é uma ótima companhia para a estrada — respondeu, revirando os olhos.

Marquinhos nem se deu ao trabalho de responder, apenas esboçou um sorriso debochado que os amigos já conheciam bem. Eles sempre iam para os treinos juntos, acompanhados de Di Maria e, às vezes, Herrera e Icardi ou Kylian e Neymar. Naquela sexta-feira, os outros haviam ido mais cedo para o Camp des Loges, para iniciar algumas sessões rápidas de massagens fisioterápicas. suspirou, preocupado. Já haviam passado da metade da temporada e se encaminhavam para o final, empenhados entre a Ligue 1 e a Champions League, e as lesões começavam a aparecer. Por enquanto, eram apenas torções simples, mas apenas os jogadores entendiam qual era a aflição de ver um companheiro caído em campo – se perguntando se era algo sério e se eles seriam os próximos. rapidamente afastou esses pensamentos, aumentando o volume do rádio. Começou a cantar alto, disposto a incomodar Marquinhos. Sua mente não estava totalmente amigável naquela manhã, portanto, precisava da companhia do amigo nos doze quilômetros que ainda faltavam até o centro de treinamento.
No entanto, o defensor brasileiro só pareceu acordar completamente quando abriu a porta do carro, já no estacionamento do Camp des Loges.

— Como foi a fisioterapia? — perguntou a Di Maria assim que adentrou o vestiário.
— Novinho em folha — o meia do Paris Saint-Germain respondeu sorrindo, enquanto dobrava e esticava a perna direita, que havia começado a apresentar leve desconforto muscular. — , a Jor quer saber se você vai para o jantar hoje.
— Ei, ei, ei, nada de jantar — Kylian interrompeu a conversa entre os colegas, tocando o braço de Di Maria. — Hoje temos uma festinha na Montana. — ele esclareceu, como se os amigos tivessem esquecido de alguma coisa muito óbvia.
— Alguém falou em festinha? — Neymar indagou, juntando-se ao grupo.
— Na Montana? — Herrera completou.

balançou a cabeça, rindo, ao perceber que os amigos tinham mobilizado a maior parte do grupo com a tal festa na Montana e que não demoraria muito até que Marquinhos e Silva intervissem. Contou exatos vinte e dois segundos até que o capitão se aproximou, sério.

— Espero que vocês estejam combinando uma festa para domingo, após o jogo — Thiago comentou.
— A festa é hoje, ami — Neymar respondeu, acentuando o francês. — Amanhã estaremos todos no treino, intactos, e domingo ganharemos o jogo. E aí, quem sabe, depois disso você arraste esse seu corpo preguiçoso para uma festa conosco.

Os dois brasileiros embarcaram em mais um debate sobre Thiago nunca acompanhar os colegas e aproveitou o momento de distração para fazer a pergunta que queria.

— Kylian... — ele chamou, discretamente, suspirando quando o amigo lhe encarou. — Quem você vai levar à essa festa?

Tudo o que queria era saber se estaria lá. Ele mesmo poderia tê-la convidado, mas sabia que começaria a perder as esperanças se a garota recusasse mais algum de seus convites. O café sem café não havia sido o ideal, já que ela precisou ir embora depois de terem passado apenas quarenta minutos juntos. Não foi tempo o suficiente e... queria mais.

— Convidei Simone — Mbappé respondeu, arqueando a sobrancelha. — Você quer saber da brasileira, né?

E de repente tornou-se consciente de que todos, todos no vestiário o encaravam com sorrisos presunçosos no rosto.

Oui... Sí, sí, yo.... — ele se interrompeu, percebendo que estava misturando idiomas, o que só acontecia quando estava desconfortável. — Sim. — suspirou. — Eu gostaria de saber se ela estará lá.
— E você já pensou em, sei lá... Perguntar a ela? — Neymar indagou, levantando as mãos.
— Ela já recusou alguns convites dele. — foi Marquinhos quem respondeu, balançando os ombros.
— Ah, então você está com medo de levar mais um fora da — Kylian considerou, assentindo.
? — indagou. Ele sabia que o amigo já tinha visto , e sabia também que ele estava vestindo apenas uma toalha na ocasião. Ele já tinha reparado na forma como todas as mulheres encaravam Kylian Mbappé e se perguntou se faria o mesmo. Não, ele pensou. Eu já vi como ela olha para mim.
— Ei, a Simone nós já conhecemos — Ander Herrera comentou, interrompendo os pensamentos de . — E a , quando vamos conhecê-la?
— Quem sabe quando esse babaca a convidar para vir em um jogo — Neymar respondeu e deu de ombros, pegando uma garrafa de água na geladeira imensa e se dirigindo à saída do vestiário. Então, ele parou. — Espera, é isso! Convida ela pro jogo de domingo, !
— É uma boa — Mbappé concordou, enquanto todos assentiam. — Convide-a para domingo. A gente até deixa você fazer um gol.

mais uma vez perdeu-se em pensamentos ao pegar também uma garrafa de água e acompanhar os amigos até o campo. Ele não queria ter compartilhado aquela situação em uma assembleia geral dos jogadores do Paris Saint-Germain, mas não podia negar que os amigos haviam tido uma boa ideia. Naquela noite, quando encontrasse na Montana, a convidaria para o jogo.

⚜︎


Rue Leneveux, Paris.

Simone não conseguia decidir qual cor de batom usar. Qualquer uma das opções ficaria linda, é claro, mas ela estava em dúvida. Na verdade, a jornalista parisiense andava tendo dúvidas sobre muitas coisas. De um lado da balança, Kylian Mbappé, que ela havia conhecido em um editorial da Nike. Mbappé que era, obviamente, um sonho – além de ser completamente famoso. Ele a divertia, ela o divertia, ambos estavam satisfeitos e pronto. Simone poderia tranquilamente continuar com aquilo. Sabia que gostavam da companhia um do outro, mas não o suficiente para que quisessem levar as coisas mais a sério, e aquilo era perfeitamente confortável. Ou, pelo menos, seria, se Simone não tivesse, do outro lado da balança, aquele sentimento que a fazia flutuar, que a deixava nervosa, que consumia seus pensamentos e visitava seus sonhos; aquela pessoa que a fazia esquecer de todos os outros caras, até mesmo Kylian. Aquele sentimento que era irrevogavelmente proibido. Talvez não fosse tão proibido se... Um barulho que pareceu explodir dentro da cabeça de Simone a fez dar um pulo e voltar a realidade.

— A campainha está tocando. — resmungou, sonolenta.
— A gente não tem campainha em casa — Larry retrucou, revirando-se no sofá.
— Será que alguém pode atender a campainha? — Simone reclamou enquanto terminava de se arrumar em frente ao espelho da sala. — Porque, sim, nós temos uma em casa.
— Não. — e Larry responderam juntos, cada um jogado em um sofá da sala enquanto algum filme aleatório passava na TV.
— Gente! Por favor — Simone reclamou. — Estou ocupada! E atrasada!
— É você quem está esperando visitas. — Larry retrucou. — Abra você.
— Além do mais, a porta está destrancada. — completou. — Mande-o entrar, ele já passou pela portaria.
— Não é Kylian — Simone suspirou, dirigindo-se até o outro lado da sala. — Vocês sabem que ele não gosta de ser reconhecido nessas situações. E além do mais — ela imitou a amiga, irritada — não é porque alguém já passou pela portaria que devemos simplesmente mandar entrar.

Ela resmungou algumas coisas tão em francês que os amigos não seriam capazes de compreender nem se estivessem totalmente despertos. Deu uma olhada rápida para Larry, que sorria enquanto cochilava. A garota adorava observar as covinhas que se formavam no rosto do amigo toda vez que ele ficava com aquela expressão serena. Simone revirou os olhos ao perceber que estava observando Larry mais uma vez e caminhou apressada em direção à porta. Já estava quase quarenta minutos atrasada e ainda teria que parar para dar atenção a sabe-se lá quem é que estava ali. Suspirou, sabendo que nem mesmo Mbappé era garantia de que ela entraria na Montana caso se atrasasse demais. A loira puxou a grande porta de madeira escura, suspirando mais uma vez. Então, arregalou os olhos, sem acreditar.

— Oi — a garota morena e baixinha parada à porta disse, encarando Simone. — Eu sou a Kate.
Kate? — Larry resmungou do sofá, sem acordar totalmente.
Kate? — Simone emendou, arqueando a sobrancelha. Ela sabia bem quem era a garota. Sem motivo nenhum, sentiu uma irritação crescer.
— Sim, Kate. K-a-t-e. — ela soletrou pausadamente, sorrindo. — Sou a namorada do Larry.
— Sim. Oui. Sim. — Simone suspirou. — Eu sei quem você é. Bom... Entre. — ela se afastou da porta, dando passagem para a garota, sem saber bem como agir. Ela claramente estava ali de surpresa, já que Larry não havia mencionado nada e continuava dormindo, completamente alheio à presença da namorada. Simone observou Kate puxar uma mala para dentro do apartamento e se sentar delicadamente na ponta do sofá, ao lado do rosto de Larry. Revirou os olhos ao ver a garota tocar levemente o rosto do namorado, numa tentativa carinhosa de acordá-lo e, de repente, Simone sentiu-se irritantemente claustrofóbica. Decidiu que poderia simplesmente passar o batom no táxi e correu até seu quarto para buscar a bolsa. Estava atrasada. Precisava sair dali.



Balada Montana, Paris.

— Certo. — Di Maria disse ao levantar do banco, espreguiçando-se. Sorriu ao reparar que Marquinhos estava praticamente cochilando. — Acho que vou embora. — ele tocou levemente o braço da esposa, que conversava com Isabel, Carol e Neymar sobre os prós e contras de ter um cachorro.

Se estavam no meio de uma festa na Montana e Neymar estava sentado conversando sobre cachorros, era definitivamente hora de ir embora. Passava das três da manhã. Kylian ainda estava com Simone em algum lugar da festa, Marquinhos continuava a cochilar, Neymar estava decidindo com qual dos amigos pegaria carona e e Ander Herrera estavam conversando na ponta do balcão, como haviam feito à noite inteira. Aquele canto específico do bar era o lugar da Montana mais frequentado por eles. Não era incomum encontrá-lo vazio, sempre à espera dos jogadores do Paris Saint-Germain. Di Maria lembrou-se da semana anterior, quando os amigos contaram que , a garota brasileira, distraidamente ocupou o banco dos jogadores sem nem perceber quem estava a seu lado.

— Ela não veio mesmo, hein? — Angel disse a , posicionando-se entre ele e Ander Herrera. — Que azar.
— É — resmungou, parecendo pensativo. — Amanhã vou ligar pra ela. Você acha que se eu usar a Jorgelina no convite pro jogo ela aceita?
— Eu gostaria que você não fizesse isso — Di Maria riu, arqueando a sobrancelha. — É você quem quer sair com ela, e não a minha esposa.
— Que frescura, — Herrera comentou — É só ligar, fazer o convite para o jogo e pronto. Não é como se fosse a primeira garota em Paris a receber um convite seu — o espanhol provocou, dando um chute leve no amigo.
— Eu sei, eu sei... — levou às mãos ao cabelo, demonstrando frustração. — Eu só não sei bem como agir. Ela parece... Diferente.
— Ah, não. Esse papo de diferente não, amigo — Neymar se intrometeu, pulando no meio dos companheiros. — Você nem conhece ela direito, cara. Pelo que vocês falaram ela parece ser gata e gente boa, mas é isso. Diferente não. — o atacante brasileiro disse pausadamente, como se estivesse explicando algo à uma criança.
— Eu acho que está tudo bem ele achar ela diferente — Jorgelina interviu. — É uma coisa positiva.
— Também acho. — Marquinhos concordou, repentinamente desperto.
— Quem é que estamos achando diferente? — Carol questionou, se aproximando.
— O está apaixonado. — Neymar retrucou. — Por uma garota que ele nem conhece direito, na verdade.
— Acho que foi amor à primeira vista — Marquinhos esclareceu, sorrindo para a esposa.
— Ah, isso é tão bonito! — Isabel exclamou, tocando o braço de .
— Eu não estou apaixonado. — o jogador retrucou simplesmente, sentindo-se desconfortável. — Vocês já pararam pra pensar que isso tudo é invenção da cabeça desse cara? — ele apontou para Neymar, suspirando. — A é só... Só uma garota atraente que eu conheci. Não tem nada demais nisso. — teria dito “uma garota atraente como qualquer outra”, mas percebeu que não seria capaz de falar aquilo. Principalmente sabendo que não era o que ele pensava de verdade.
— Tudo bem, então. — Neymar disse, levantando as mãos na altura dos ombros. — Não está apaixonado. Ótimo.
— De qualquer forma, eu ainda gostaria de conhecê-la — Herrera comentou, abraçando a cintura da mulher.
— Ah, vocês vão amar conhecê-la! — comentou, antes que pudesse se conter. —Ela é linda! E muito simpática. E interessante pra caralho. Na verdade, acho que é a mulher mais... — controlou as palavras assim que percebeu a forma como os amigos o encaravam. Foi ali que notou que havia perdido no próprio joguinho. — Certo. — ele murmurou, por fim, arrancando gargalhadas de todos ao seu redor.
— Não vou dizer que você está apaixonado... — Jorgelina constatou. — Vou dizer apenas que você está bastante interessado nela e está tudo bem — a argentina olhou para Neymar de forma autoritária, fazendo o jogador revirar os olhos.
— Sim, está tudo bem. — Marquinhos concordou. — Você só precisa parar de frescura e convidá-la para o jogo. Ou para fazer qualquer coisa. Argh, parece que já tivemos essa conversa hoje, não parece?
— É porque nós já tivemos essa conversa hoje — Herrera deu de ombros. — E o nosso garoto apaixonado continua sem saber como agir.

nem se deu ao trabalho de abrir a boca para esclarecer, mais uma vez, que não estava apaixonado.

— Acho que a melhor opção é levá-la ao jogo, mesmo. — Neymar concluiu. Ele incentivava e questionava a situação na mesma intensidade, e aquilo estava irritando . — Sabe, ... Não tenho nada contra você estar apaixonado. — ele comentou, como se soubesse o que o amigo estava pensando. — Só acho complicado agir dessa forma quando não conhecemos bem uma pessoa, sabe? Você tende a gostar das pessoas muito fácil, oui? E isso nem sempre termina bem...
— Ótimo. — bufou. — Eu realmente fico muito feliz toda vez que reunimos uma assembleia pra debater esse assunto.
— Ué, só estamos tentando ajudar. — Neymar deu de ombros. — Até eu concordo que você só vai saber se tentar. Não adianta ficar chorando pelos cantos sem fazer nada.
— Eu não estou chorando pelos cantos — disse entredentes, levantando-se do banco.
— E também não está fazendo nada — Neymar retrucou, acompanhando a risadinha dos amigos.



Simone encarava o espelho do banheiro, frustrada. Ela estava linda. Sabia que dificilmente encontraria mulheres tão bonitas quanto ela naquela noite. Estava em boas companhias, curtindo a noite do jeito que mais gostava e, mesmo assim, sentia-se frustrada. Ela sabia que estava cometendo um erro e não conseguia fazer nada além de se deixar consumir por aquela sensação. Jogou água no rosto, sem borrar a maquiagem, para tentar se acalmar. Mas não adiantou. Antes que a ânsia de vômito voltasse, Simone se preparou para deixar o banheiro da balada. Kylian Mbappé a esperava na porta, mas a cabeça de Simone continuava presa na imagem do amigo abraçando a namorada, no sofá do apartamento que também era dela. A garota segurou a mão do jogador, respirou fundo e, em mais uma vez das milhares que tinham acontecido no último mês, se obrigou a parar de pensar em Larry.



Parc des Princes, Paris. 21 de março de 2020.

Às vezes, tudo o que podia fazer era questionar sua inteligência. Ele reclamava sempre que os amigos davam palpites demais naquela situação; no entanto, lá estava ele esperando que atendesse a ligação enquanto Di Maria, Marquinhos, Neymar, Kylian, Ander Herrera e Icardi o encaravam.

Allo? — ele ouviu a voz doce de dizer. Precisou de todo seu foco para conter um sorriso.
Salut, saudou.
Ah, oi, ! — ela exclamou, parecendo surpresa. Havia muito barulho no fundo e, de repente, tudo ficou bem mais silencioso. — Tudo bem?
— Tudo bem sim, estou ótimo! E você, como está? — indagou. Ele raramente se sentia nervoso ao tratar com alguma mulher, mas mesmo que todos insistissem em pensar o contrário, ele sabia que havia, sim, algo diferente em . E estar sendo assistido durante a conversa não ajudava em nada.
Fico feliz! Estou ótima, também! Agora, estou trabalhando em um museu, cobrindo uma exposição para o jornal.
— Ah, que ótimo! Então... Não vou atrapalhá-la. Queria apenas te fazer um convite. Você quer vir ao jogo amanhã? Kylian também vai convidar Simone e... — se interrompeu ao ver todos sinalizando para que ele ficasse quieto. — Enfim... O jogo é às onze horas, você pode ficar no camarote ou, se preferir, se misturar com a torcida mesmo. Topa?

Desviou o olhar dos amigos que o encaravam de cara feia, aguardando ansiosamente a resposta da garota.

Amei o convite! exclamou e ambos riram ao notar o quanto a voz da garota estava estridente. — Eu adoraria ir, !
— Ótimo! Se você quiser, posso combinar com a Jorgelina para que te busque — o jogador comentou, ignorando Di Maria, que o encarava com a sobrancelha arqueada.
Seria ótimo! Ah, droga, , agora estou super ansiosa e ainda tenho uma matéria para terminar!

riu, satisfeito com a felicidade de .

— Vá terminar sua matéria, então — ele disse. — Falo com você mais tarde para combinarmos tudo, . E... te vejo amanhã.

encerrou a ligação, sorridente, e sem esperar qualquer palavra dos colegas, apenas virou as costas e saiu rapidamente do vestiário.



Rue Leneveux, Paris. 22 de março de 2020.

andava de um lado para outro, nervosa. No dia anterior, ela havia saído do museu direto para a Paris Saint-Germain Boutique, a loja oficial do time na cidade, antes mesmo de ir ao jornal finalizar sua matéria. Ela já tinha uma camiseta, é claro, assim como a de vários outros times europeus, mas a garota sentiu que precisaria de uma camiseta especial para aquela ocasião... especial. Optou pela que era branca, com gola polo azul marinho e as clássicas listras azul e vermelho no peito.
Ela estava em seu quarto, alternando olhares ansiosos entre a tela do celular e o espelho gigante na parede. vestia sua camiseta do Paris novíssima em folha, uma calça flare em um jeans claro e seu tênis All Star branco com plataforma. Queria parecer só um pouquinho mais alta. O cabelo estava solto e caía em ondas por suas costas. já havia recebido aprovação de Simone pelo look, portanto, tudo o que precisava fazer era esperar a ligação de Jorgelina para irem ao Parc des Princes.

— Respira, garota. Respira. Sério. — repetia para si mesma como se fosse um mantra, dando risada sozinha dentro do quarto. Estava totalmente nervosa. E ainda teria que enfrentar aquilo apenas na companhia de Jorgelina. Simone estava se sentindo indisposta e ficaria em casa para trabalhar em algumas fotos para a matéria da semana. Já Larry, apesar de estar morrendo de vontade de ir ao jogo, precisava fazer companhia à Kate, que simplesmente detestava futebol.

, tem um carro absolutamente muito chique parado aí na frente, então acho que ela chegou — Larry gritou da sacada, no instante em que o celular de começou a tocar. Ela revirou os olhos, sabendo que Jorgelina provavelmente teria escutado o amigo. Despediu-se de todos no apartamento e desceu, respirando fundo. Ao sair do prédio, percebeu que Larry tinha razão. Era um carro muito chique.
Bonjour! exclamou, abrindo a porta do carona. — Obrigada por me acompanhar, Jorgelina!
Bonjour, ! — a argentina exclamou, sorridente. — Te devo um pedido de desculpas por não ter entrado em contato com você antes, a questão é que... — Jorgenlina se perdeu na fala ao ver que encarava suas filhas no banco de trás, radiante. — Essas são Mia e Pia. Cumprimentem a tia , meninas!
— Oi, tia ! — as duas pequenas responderam, animadas, enquanto afivelava o cinto. A garota já "conhecia" as filhas do casal Di Maria, é claro, mas elas eram ainda mais adoráveis pessoalmente. Enquanto Jorgelina dirigia pelas ruas de Paris numa calma manhã de domingo, elas conversavam sobre a adaptação das crianças na França, sobre a rotina agitada de Mia com as aulas de dança e sobre o primeiro ano de Pia na escolinha — com relatos das próprias. e Jorgelina se deram tão bem, mais uma vez, que quase não percebeu quando o Parc des Princes apareceu em sua frente, agigantando-se e fazendo seu coração bater mais forte.

⚜︎


Capítulo 5

Stade Le Parc des Princes, Paris.

, você vai querer ficar no camarote conosco ou prefere se juntar à torcida geral? — Jorgelina indagou ao descer do carro, já no estacionamento.
— No camarote — prontamente respondeu, ansiosa. Ela queria ter a oportunidade de conhecer cada cantinho do Parc des Princes, e começar pelo camarote, em uma companhia daquelas... Nada mal. Então, enquanto ajudava Jorgelina a tirar as meninas do carro, ela se deu conta de uma coisa. — Mas Jor, você acha que me liberariam para o camarote assim, tão fácil?
— Ele já cuidou de tudo. — a argentina sorriu, dando uma piscadinha. — Você vai ser muito bem recebida.

sentiu o coração acelerar só de imaginar que havia dado instruções para que ela não só tivesse acesso ao camarote, mas também que fosse muito bem recebida. Tentou disfarçar para que Jorgelina não visse a expressão em seu rosto, mas a julgar pelo sorrisinho da argentina, percebeu que não adiantaria tentar esconder as coisas da nova amiga.
As duas mulheres, acompanhadas das crianças – que usavam camisetas personalizadas com seus nomes e o número do pai, notou, contornaram o estacionamento lateral do estádio, enquanto se admirava com a quantidade de pessoas que transitavam por ali, mesmo que ainda fosse muito antes do jogo. Jorgelina orientou que fossem direto para o camarote, justamente para evitar toda a aglomeração que haveria ali muito em breve.

— Em outro dia você pode vir aqui com mais tempo, para conhecer tudo — a argentina comentou, distraída, enquanto cumprimentava um segurança que estava parado em frente à uma porta de vidro que guardava uma escadaria branca. — Se o não puder te acompanhar, será um prazer para nós te apresentarmos esse lugar maravilhoso. — Jorgelina sorriu, acompanhada das filhas.
— É claro. Eu adoraria! — exclamou, animada, e segurou a mão de Mia enquanto subiam mais um lance de escadas.
— Se você seguir por aquele corredor, — Jorgelina explicou, apontando — chegará ao lado leste das arquibancadas. E por aquele, ao lado oeste. E é aqui que nós vamos — ela apontou na direção de mais uma porta de vidro, com uma faixa branca com a palavra "VIP" escrita diversas vezes em letras azuis e vermelhas. Dois seguranças de terno esperavam à porta. Um deles sorriu para Jorgelina e liberou a passagem da mulher com as filhas, enquanto o outro parou à frente de , cumprimentando-a em um francês elegante. Ele quis saber seu nome, e a garota hesitou por apenas um segundo antes de responder.
. .
Oui. — ele assentiu, conferindo algo em uma espécie de tablet. — , certain.

sentiu novamente aquele formigamento agradável percorrer seu corpo, o que acontecia cada vez que ela pensava em , ou, naquele caso específico, ao perceber que ele havia pensado nela.

— Vamos? — Jorgelina questionou, de repente. percebeu que a amiga a encarava de mãos na cintura, sobrancelha arqueada e um sorriso brincalhão no rosto. Mais uma vez, soube que sua reação ao jogador não havia passado despercebida. Felizmente, Jorgelina ainda estava poupando as piadinhas. — Esse setor do estádio é dividido em pequenas áreas. — ela explicou, enquanto observava várias cabines com porta de vidro por toda a extensão do corredor, que ela sabia ter um formato oval. — Aqui ficam a imprensa e os camarotes reservados à diretoria do clube. Lá, os camarotes destinados à torcida visitante e os que há muito tempo já foram comprados pelas famílias mais tradicionais de Paris. E logo ali, — ela apontou para seis cabines grandes, uma ao lado da outra, separadas por paredes finas — é onde nós ficamos. Os camarotes são divididos entre os jogadores, para que não fiquem muito cheios.
— Com quem o nosso é dividido? — perguntou imediatamente, sentindo seu rosto esquentar pelo uso da palavra "nosso".
— Hum, deixe-me lembrar... — Jorgelina murmurou, sem parecer perceber o deslize da amiga. — Temos Angel, , Neymar, Kylian, Marquinhos, Herrera, Thiago Silva e, às vezes, o Icardi.
Meu Deus. sentiu seus olhos se arregalarem ao pensar que estaria num lugar com os convidados de todos aqueles jogadores, principalmente suas famílias. Ela só percebeu que havia falado em português ao notar o olhar curioso das duas pequenas. De repente, sentiu-se nervosa. Jorgelina já havia comentado que, por ser domingo, provavelmente todos os convidados estariam presentes.

encarou a grande porta de vidro à sua frente, percebendo que não dava mais tempo de fugir. Notou, fixado à parede, o mesmo tipo de tablet que estava na mão do segurança. Ali ela pôde ler uma lista com vários nomes, inclusive o seu. Jorgelina puxou a porta de correr e entrou com as filhas, sorrindo em seguida para a amiga. mal havia dado um passo para dentro do espaço quando olhou para a frente, para o imenso vidro direcionado ao interior do estádio e suspirou, contemplando a imensidão do gramado do Parc des Princes.

⚜︎


suspirou, fechando os olhos. Estavam no gramado, se aquecendo. Faltava pouco mais de meia hora para a partida. Naquele dia, o jogador estava tenso.
Eles estavam em terceiro lugar na tabela do campeonato. Era bom, mas não o suficiente. Sabia que precisavam sempre ser os melhores e, naquele momento, aquela não era exatamente a realidade. Durante o café da manhã, o técnico Tuchel havia retomado várias vezes o discurso de que gostaria muito de contar com cada um do grupo pelo tempo que lhe fosse permitido. Aquilo sempre causava nervosismo nos jogadores. Em alguns, mais do que em outros. Toda vez que o treinador ou algum outro dirigente surgia com aquele discurso, a certeza era sempre a mesma: alguém estava de saída.
A relação entre empresários e jogadores nem sempre era tão transparente quanto deveria ser, e não era incomum que alguns descobrissem pistas sobre seu futuro através das fofocas de jornais e revistas. Jornais, pensou, sorrindo. Ah, como ele odiava os jornais. Ele, que odiava ver seu nome estampado em notícias maldosas. Ele, que havia convidado uma jornalista para o camarote. sorriu de canto, virando a cabeça na direção em que os camarotes ficavam. Ele sabia que estaria ali. Será que ela também estaria pensando nele?

— Nossa, mas você tá muito apaixonado — Neymar surgiu de repente, dando um tapa na cabeça do amigo.
— Otário — resmungou, revidando o tapa. Ele riu, constrangido. — Tenho que parar de ser pego no flagra. — deu de ombros.
— Mas você fica sempre babando, aí fica difícil — Neymar gargalhou, fazendo um gesto como se estivesse limpando algo na boca. — , se liga. Já te avisei sobre isso. Não cai nessa de se apaixonar, nessa de diferente e....
— Isso não é hora. — Thiago Silva interviu, assumindo a pose de capitão. Ele também fez questão de interromper por não aguentar mais ouvir Neymar importunando o amigo com aquele assunto. — Agora, foco. Depois pensamos nisso.

Neymar saiu coçando a cabeça e assentiu, sério. Ele precisava daquele foco. Era um bom jogador, mas sabia que ainda não havia provado seu lugar em Paris. Ele não queria ir embora, de jeito nenhum, então estava na hora de se mostrar uma peça necessária no elenco. Tiraria da cabeça e se concentraria apenas no jogo.
Tirar da cabeça? Impossível, o jogador pensou, rindo, ao dar a última volta de aquecimento no campo. Deu uma última olhada na direção do camarote antes de sair do gramado e se dirigir ao vestiário, sabendo que a presença da garota era apenas um incentivo a mais.

⚜︎


Intervalo do jogo. Estavam empatados em 0 a 0 e, apesar de ter sentido o formigamento (ao qual já estava se acostumando) ao ver entrar em campo, a presença do jogador não havia se destacado o suficiente para que tivesse outras reações. Ela se agitava cada vez que ele tocava na bola e, em todas as situações, sem exceção, ela sentia os olhos de Jorgelina observando-a. sentiu seu rosto corar ao perceber que estava espelhando a reação de todas as esposas a cada vez que seus maridos tocavam na bola ou acertavam algum passe.
estava apoiada na enorme mesa de vidro que continha iguarias típicas do café da manhã francês, conversando com Carol, esposa de Marquinhos, sobre a temperatura em Paris. Ambas brasileiras, não se sentiam plenamente confortáveis em uma cidade que fazia dez graus em março. Já Isabelle, também brasileira e esposa do capitão do time, que já morava há muito mais tempo em Paris, tentava convencer a todas de que o clima parisiense era perfeitamente agradável. Havia apenas mulheres no camarote e já havia conversado com todas, inclusive as três convidadas de Neymar. A conversa e a comilança se dispersaram rapidamente quando o jogo recomeçou e todas retornaram à janela, ansiosas pelo segundo tempo. Tudo o que importava eram os onze pontinhos azul marinho que elas enxergavam.
Trinta e nove minutos. O jogo continuava 0 a 0. A tensão tomava conta do espaço e parecia refletir em campo. Todos sabiam o quanto aquela vitória era importante, principalmente para o time que queria alcançar a liderança. Os atacantes do Olympique de Marseille já não investiam tanto contra a zaga do Paris Saint-Germain e em meio ao cansaço e a frustração pelo empate, as duas equipes começavam a se perder. E foi justamente em uma dessas jogadas que tudo mudou. O lateral-esquerdo do time oponente errou um passe, para a felicidade de Marquinhos, que o aguardava ansiosamente. Era o que todos esperavam. De maneira rápida, o brasileiro chutou a bola aos pés de Kylian que, por sua vez, encontrou em frente ao gol, sem marcação nenhuma.
Ao receber a bola, não pensou, apenas agiu. Prático, forte, certeiro. Sentiu o vento ao seu redor parar e o coração disparar ao ouvir o estádio explodir em comemoração.
berrou, sentindo o coração bater mais forte. Antes que pudesse perceber, sentiu algumas lágrimas emocionadas caindo por seu rosto enquanto o camarote todo explodia em comemoração. Todas se abraçaram e os gritinhos animados das crianças presentes animaram ainda mais o ambiente.
Só mais tarde percebeu que havia recebido tapinhas nas costas e abraços apertados depois do gol.
Elas associaram o gol de a mim, a brasileira pensou, encarando seu reflexo no vidro do camarote.

⚜︎


ainda se sentia extasiada ao descer as escadas de volta para o estacionamento. Como boa amante do futebol, sabia que aquele momento jamais seria esquecido.

, eu preciso passar em um lugar, rapidamente. — Jorgelina anunciou, tocando o braço da jornalista. — Você pode me acompanhar ou aguardar no carro, mas já te aviso que caso você não desça, as meninas vão querer ficar com você. — ela sorriu de canto, observando as duas filhas que seguravam, cada uma, uma mão de .
— Ah, Jor, se você preferir que eu te acompanhe para ajudar com as meninas, eu vou. Mas se não for esse o caso, não precisa se preocupar! Eu vou embora de metrô!
— Você não vai almoçar conosco?!
— Almoçar? — a garota indagou, confusa.
— Ah, ele não te falou? — a argentina questionou, enquanto abria a porta do carro para as filhas. negou com a cabeça, ajudando-a com as meninas. — Nós todos sempre almoçamos ou jantamos juntos depois dos jogos aqui — Jorgelina explicou. — Quer dizer, a maior parte de nós. Os rapazes nem sempre ficam todos juntos, mas você já deve ter percebido quais são os que não desgrudam nunca. Enfim, hoje o almoço é lá em casa, e claro, você já estava convidada.
— Ahn, não sei exatamente se fui convidada... — coçou a cabeça, constrangida. Ela se lembraria do convite, com certeza, e tudo o que não queria era ser inconveniente.
— Você foi, sim. — Jorgelina assentiu, séria, rindo em seguida. — O convite só não foi repassado a você. É sério, , ele só deve ter esquecido de te falar. estava bem preocupado com esse jogo e deve ter deixado passar, mas ele atormentou a todos nós falando inúmeras vezes sobre convidar você, para o jogo e para o almoço. Com certeza alguém vai te falar sobre isso, então é melhor eu já te deixar avisada.
— Ele... Ele falou disso?
— Ah, ... fala bastante em você. — Jorgelina sorriu, simpática. Às vezes ela concordava com Neymar quando o garoto dizia que poderia estar acelerando um pouco as coisas, afinal, ele mal conhecia e estava claramente encantado. Mas Jorgelina gostava de ver o amigo feliz e sonhador daquela forma, finalmente se abrindo para novas possibilidades depois do último relacionamento, extremamente conturbado. Por isso estava fazendo questão de tentar descobrir se corresponderia o interesse. A garota parecia deslumbrada com toda a situação, é claro, mas Jorgelina já havia notado que a mínima menção de , era ternura que tomava conta do olhar de . Era algo diferente, que ela dirigia exclusivamente à .
— Que... bom. — ela murmurou, sorrindo docemente. — Eu não falo muito, mas... Tenho pensado bastante nele. Mas... Ele é famoso e eu mal o conheço, afinal de contas. Será que... Será que isso é um erro?
— Claro que não, cariño — a argentina comentou, tocando os braços de . Gostou de ver que ela parecia corresponder o interesse de , ao mesmo tempo que encarava a situação de forma racional. Foi naquele momento que Jorgelina decidiu usar seus dedinhos mágicos para fazer com que os dois, pelo menos, se conhecessem melhor. — Vem, , vamos pra casa almoçar. De qualquer forma, as meninas não vão te deixar escapar — ela sussurrou, gargalhando.

⚜︎


aguardou no carro enquanto Jorgelina desceu para buscar a imensa torta de chocolate que havia encomendado. Mia questionou se poderia ensinar a ela alguns passos de dança e Pia apenas queria que brincassem no quartinho das bonecas. O trajeto demorou bem mais do que o tempo que levaram do apartamento de até o estádio. Jorgelina explicou que eles moravam num condomínio em Puteaux, cidade que ficava imediatamente fora de Paris. sabia que as pequenas cidades emancipadas da capital eram conhecidas como communes, e acabavam sendo tidas como extensões dos grandes bairros parisienses. Não precisou andar duas quadras para que percebesse que estava em uma das mais nobres comunas daquela região. ouvia atentamente a cada palavra da argentina, que nomeou os demais jogadores que também moravam naquele condomínio e explicou que, enquanto eles haviam optado por uma grande casa com um quintal escolhido a dedo pelas meninas, morava do outro lado da rua, em um prédio que fazia parte do complexo Ville de Puteax.
Ao notar que o condomínio simplesmente ficava ao lado do Rio Sena, ofegou, fazendo Jorgelina rir. Ainda rindo, a argentina passou pela portaria do condomínio, mostrando a o Bâtiment Amellie, edíficio de . Sexto andar, ela especificou. O andar inteiro. sentiu sua face corar e concentrou toda a sua atenção no painel do carro, decidida a nem sequer olhar na direção do prédio. Jorgelina ria tanto que até as meninas a acompanharam, mesmo sem saber o motivo. não resistiu e acabou caindo na risada, enquanto a argentina estacionava o carro em frente à maior casa que já havia visto na vida. A garota entrou na casa com Mia e Pia no colo, enquanto Jorgelina carregava a torta.

— Você pode distrair as meninas enquanto eu guardo a sobremesa? Não queremos ninguém atacando a torta de chocolate antes da hora.

assentiu rindo, e, dando uma piscadinha para a amiga, deixou que as pequenas à guiassem por um corredor rosa claro que levava ao quartinho delas. Enquanto brincava de tomar chá, pôde ouvir Jogerlina conversando alegremente com as pessoas que trabalhavam na casa e logo começou a sentir um cheiro delicioso de comida.
Quando ouviu a campainha tocar, decidiu que a sobremesa já deveria estar segura e levou as garotas de volta pelo corredor rosa. Encontrou-se novamente com Carol e Isabelle, juntamente com Isabel e Wanda, esposas de Ander Herrera e Icardi, respectivamente. Apenas as convidadas de Neymar e Kylian não viriam para o almoço. As mulheres sentaram-se na sala, em grandes poltronas, acompanhadas de champagne, aperitivos e muitas risadas. já estava em sua segunda taça quando ouviram o portão da garagem se abrindo e vários carros chegando.
Todas as crianças explodiram em gritos de papai, num bom português e papa – similares em francês e espanhol, e saíram correndo pela sala. Vendo que as mulheres continuavam sentadas conversando, ela permaneceu também sentada, sentindo-se nervosa. Seu coração bateu pesadamente enquanto ouvia os homens entrando na casa. Então, ansiosa, ela se virou e o viu. vinha caminhando no meio dos amigos, logo atrás de Herrera. Ele era o único que vestia o calção do time e ainda estava de chuteiras. Para conter o frio, ele vestia a camiseta de treino do Paris Saint-Germain, que era de mangas compridas. E também era branca, assim como a que usava. Os olhos da garota continuaram sua inspeção, chegando finalmente ao rosto do jogador. Seu cabelo estava bagunçado, os olhos claros estavam animados e o sorriso, radiante. Ela não pôde deixar de sorrir ao vê-lo. virou em sua direção e seu sorriso se alargou ainda mais. Pelo canto do olho, ela percebeu que cada jogador caminhava em direção à sua companheira e ficou nervosa, sem saber como agir. Antes que pudesse pensar, no entanto, braços fortes seguraram sua cintura, levantando-a da poltrona. praticamente girou com ela no colo e a abraçou fortemente.

— Parabéns pelo gol — sussurrou em seu ouvido, jogando os braços ao redor do pescoço do jogador e fazendo com que cada terminação de seus corpos desse sinal de vida.

⚜︎


— Eu ainda não acredito que você não tomou banho para vir pra cá — Ander Herrera comentou, olhando feio para . O espanhol estava deitado no chão, com a cabeça no colo da esposa, que, por sua vez, estava sentada em uma grande almofada.

resmungou alguma coisa em sua língua materna, fazendo todos rirem. Estavam na área externa da casa e, apesar do vento frio, estavam todos jogados no chão ou encostados em almofadas. As crianças brincavam juntas no mini playground. estava deitado próximo à piscina, ao lado de Di Maria. Os dois estavam da mesma forma, com os braços cruzados em cima do rosto.

— Esses dois nunca desgrudam, né — Isabel comentou, rindo.
— É um caso sério — Jorgelina resmungou, revirando os olhos. — Já perguntei várias vezes se eles querem construir um quarto anexo ao nosso para o ficar.

Os dois riram, e pôde constatar que todos estavam atentos à conversa.

— Talvez agora ele fique um pouco mais em casa, hein — Wanda comentou enquanto batia com o ombro na lateral do corpo de . Ela percebeu a movimentação dos jogadores com a piadinha e, sentindo-se completamente desconfortável, sorriu sem graça para Wanda, pediu licença em voz baixa e praticamente correu para o banheiro.

Que porra está acontecendo?, foi o primeiro pensamento de , ao se encarar no imenso espelho do banheiro. Ela vinha apenas tentando viver o momento, sem parar para pensar. Sabia que quando aquilo acontecesse, teria que se ater à realidade e a todos os questionamentos que ela fingia não existir. Aparentemente, o momento de encarar seus próprios pensamentos estava ali.
Ela havia acabado de assistir a uma vitória do Paris Saint-Germain, no camarote do estádio. E, naquele momento, estava esperando o almoço na casa do jogador que era um dos seus maiores ídolos. Convidada, mesmo que indiretamente, pelo cara que tinha o par de olhos mais lindos que ela já havia visto. Pelo cara que a fazia sentir um choque cada vez que seus olhares se encontravam, pelo cara que, em um único abraço apertado, havia feito seu coração bater de uma maneira quase dolorida de tão forte. O cara que, aparentemente, falava dela para as amigas e para os companheiros de equipe. E que, ela arriscaria dizer, queria a companhia dela tanto quanto ela queria a dele.
Puta que pariu. sentiu o coração acelerar, de uma maneira desagradável. Droga. O que aquilo tudo significava? Ela sabia muito bem que estava se interessando por e sabia que não teria coragem sequer de admitir aquilo em voz alta, de tão absurda que era a ideia. sentiu suas mãos pegajosas, sentiu o suor brotar em sua nuca e de repente achou que o imenso banheiro era pequeno e fechado demais. Lavou as mãos e o rosto rapidamente, nervosa, e saiu do banheiro, indo em direção à sacada.
Sabendo que estava afastada de todos, apoiou as mãos na grade dourada e se concentrou no som da risada das crianças, que vinha do outro lado da casa. fechou os olhos por um instante e quando conseguiu normalizar sua respiração, ouviu passos.
Ela sentiu o perfume, acompanhado pelo formigamento que aquela presença causava em seu corpo. Então ela apenas aguardou, ainda de olhos fechados.

— Oi. — murmurou, apoiando-se na grade ao seu lado.

abriu os olhos lentamente, sabendo que quando o encarasse sentiria seu coração despencar novamente. Ela encarou seus olhos que sempre pareciam transparentes e, ao mesmo tempo, cheios, convidativos, atentos e carinhosos, que sempre transmitiam diversas emoções. Naquele momento, a preocupação fluía em seu olhar. O vinco em sua testa confirmava aquilo; estava tenso.

— Oi. — respondeu e tentou sorrir da forma mais natural que conseguiu, apesar de ainda se sentir extremamente nervosa. A nuvem de preocupação se dissipou minimamente.
— Desculpa por aquilo, . A Wanda não falou por mal. Ela estava apenas brincando. Todos brincam assim, mas eu jamais quis que você se ofendesse ou magoasse e...
— Eu apenas fiquei... nervosa. — interrompeu e ele assentiu, atencioso. — De repente me tornei muito consciente de que estava aqui, com você, convidada e...
— Eu sei. — foi a vez de interromper, quando a garota se perdeu. — E... Eu nunca convido ninguém para esses almoços e jantares. Por isso eles acharam que estava tudo bem brincar, sabe? Mas novamente te peço desculpas.
— Por que você me convidou? — questionou, antes que pudesse controlar. Se se abalou com a pergunta, não deixou transparecer.
— Te convidei porque gosto da sua companhia. Queria ter você aqui e, sabendo o quanto você gosta do Angel e da Jor, achei que você também gostaria de estar aqui. Um jeito bom de incrementar o convite para o jogo, oui?
— Entendi. — ela assentiu, pensativa. Seu nervosismo já havia passado, mas ela nem sequer havia reparado nisso. — Os convites para o café fora de hora, o convite para o jogo, o convite não feito para o almoço... — ela sorriu e ele a imitou. — As ligações e mensagens... Isso... Tem algum motivo?

suspirou, bagunçando ainda mais o cabelo. Em seguida, ele fechou os olhos e respirou fundo, sorrindo. observava cada movimento do jogador, encantada.

— Sim, tem um motivo... — ele abriu os olhos e a encarou, repentinamente sério. — E acho que você sabe qual é o motivo. Eu não quero me precipitar, até porque o Neymar me mataria se eu fizesse isso... — ele riu, achando graça quando a garota arqueou a sobrancelha. — Mas... Apesar de não querer apressar nada, eu tenho me sentido atraído por você, . E realmente quero poder te conhecer melhor. E já que você aceita meus convites, atende as minhas ligações, se pergunta o que está acontecendo, se dá bem com meus amigos e ainda não saiu correndo... Eu acho que você também quer isso.

Caralho, que vontade de beijar esse cara. Respira, , respira.
Ela sabia que estava encarando fixamente os lábios do jogador, que brincavam em um sorriso leve, no canto da boca. Mas simplesmente não conseguia desviar o olhar. Não resistia.
Caralho, que vontade de beijar essa mulher. Respira, , respira.

— Você... Você tem razão. — ela disse, buscando os olhos dele. — Eu também me sinto atraída por você. E também quero te conhecer melhor. Já te disse isso uma vez. Mas... — ela não queria ter usado aquela palavra, e observou o rosto de se retesar enquanto ela pensava em como falar. — Mas isso me assusta um pouco sabe? Eu também não quero agir de forma precipitada, mas parece que... Parece que já estou me precipitando. As coisas acontecem sem que eu perceba. Apenas quando deito a cabeça no travesseiro é que cai a ficha, oui?

Ele pareceu aliviado e não pôde deixar de sorrir.

— Está tudo bem. — ele movimentou a mão pela grade, aproximando-a de , que ficou se perguntando se aquele contato realmente aconteceria. — Ninguém quer apressar nada, então temos todo o tempo que quisermos. Com calma.

Então ele estendeu a mão até tocar a de , que sorriu, entrelaçando seus dedos.

— Na verdade, não temos tanto tempo assim. — disse depois de alguns segundos, puxando para um abraço apertado. — A Jor vai nos matar se a gente atrasar o almoço.

Ele arriscou um beijo na testa de enquanto a garota gargalhava, apertando os braços em sua cintura.

⚜︎


— Vocês, brasileiros, tem uns costumes estranhos quando se trata de horário para as refeições, né? — falou alto enquanto entrava na cozinha.
— Pode até ser, mas nós também temos o costume de tomar banho antes das refeições — revidou, seguindo de perto o jogador. Todos os presentes na cozinha riram, continuando a provocar por não ter tomado banho depois do jogo. O atleta e a jornalista trocaram um olhar cúmplice ao perceber que o plano havia dado certo e a brincadeira havia ajudado a dissipar o clima desagradável que havia se instalado no ambiente.

Wanda era a única que continuava com a expressão levemente apreensiva. contornou a enorme mesa de madeira, caminhando até a mulher e tocando discretamente seu braço.

— Me desculpe por ter saído daquela forma. — falou, em voz baixa.
— Oh, querida, eu é que peço desculpas! — Wanda exclamou, segurando a mão de . — Você já parecia tão enturmada e eu já vi os rapazes falando de você algumas vezes, então achei que algo estava acontecendo... Não deveria ter falado nada. Desculpe-me por deixá-la constrangida.
— Está tudo bem. — respondeu, sorrindo para a mulher. — Eu só fiquei... Um pouco nervosa. Mas já passou.

As duas trocaram mais algumas palavras tranquilizantes e Jorgelina, observando a expressão serena no rosto de e o sorriso animado nos lábios de , constatou que a situação já estava resolvida e que podiam, finalmente, almoçar.
As mulheres, incluindo , ajudaram a acomodar as crianças na mesa branca infantil que ficava ao lado da mesa de jantar, enquanto os rapazes buscavam as travessas na cozinha. O cheiro estava bom, mas ao sentar-se à mesa não reconheceu nenhum dos pratos, o que fez com que todos rissem de sua expressão apreensiva. Estavam Jorgelina e Di Maria, e , Carol e Marquinhos, Isabel e Ander, Isabelle e Thiago e Wanda e Icardi dispostos em volta da enorme mesa redonda, cada um com sua taça de champagne.

— Thiago Silva disse de repente, enquanto servia boeuf bourguignon em seu prato. — Pra qual time você torce no Brasil?
— Apesar de ser de São Paulo, torço para o Internacional de Porto Alegre — ela respondeu, animada. observou as mulheres revirarem os olhos enquanto os rapazes listavam todos os jogadores do Inter que podiam se lembrar.
— Eles sempre fazem isso — Isabel comentou, cortando um pãozinho de nozes com as mãos. — Ainda não entendi muito bem, mas acho que é uma competição pra ver qual país ganha em número de jogadores nos times, sabe?
— Daqui a pouco eles brigam — Carol murmurou, observando Di Maria insistir com Marquinhos que os jogadores argentinos, no Inter, eram melhores que os brasileiros. Ela riu, dando de ombros. — E você está morando em Paris, ? Ou apenas nos visitando?
— Estou morando aqui, sim. Há bem pouco tempo, na verdade. Vim apenas com a intenção de visitar, mas acabei recebendo uma proposta de trabalho irrecusável.
— No que você trabalha? — Isabelle indagou.
— Sou colunista do Jornal Le Monde.

E pronto. Foi a vez de todos os homens na mesa revirarem os olhos, enquanto as mulheres gargalhavam.

— Você trabalha em um jornal? — Ander Herrera indagou, estreitando os olhos. — Você é espiã?
— Não sou espiã — respondeu, ainda rindo. — Sou colunista no caderno cultural, na seção de Arte. Então... A não ser que vocês resolvam jogar uma partida dentro de algum museu, dificilmente sairão em alguma matéria minha.
— Mesmo assim... — Di Maria disse — Se um dia surgir a oportunidade... Não fale mal da gente, certo?
— Não me deem motivo para falar mal — ela desafiou, rindo, enquanto as mulheres batiam palma.
— Uh, afiada — Marquinhos riu, coçando a cabeça. — Você se daria muito bem com o Neymar, .

A garota imediatamente fez biquinho, fazendo com que mais risadas estourassem.

— Ela ainda não o conhece — explicou para Herrera, que encarava a garota de sobrancelha arqueada.
— Ah, é verdade... Agora faz sentido quando ele fala que ela não...
— Mas ele deve aparecer por aqui mais tarde — Di Maria interrompeu o espanhol, que estava prestes a criar mais uma situação desconfortável. Ninguém, além dos que já sabiam, precisava saber que Neymar tentava sempre fazer com que não pensasse em de forma tão... especial.
— Com certeza ele vem — Jorgelina concordou, revirando os olhos. — Ele e Kylian sempre correm pra cá quando cansam de ficar sozinhos. Mas se quiser conhecê-lo, , você precisa se apresentar antes que ele sente à frente do videogame. Depois disso, ninguém mais tira.

Conversaram mais um pouco sobre Neymar, sobre o vício dos rapazes no videogame e sobre a jornalista ameaçadora sentada à mesa. aconselhou à que mostrasse aos amigos sua matéria sobre o Jardim de Luxemburgo, para provar que era inofensiva.
Orgulhosa e aproveitando a oportunidade para mostrar o que mais amava fazer, rapidamente abriu o aplicativo do Le Monde, mostrando sua primeira matéria publicada.

— Ah, , eu amei! — Isabel exclamou, acessando a matéria em seu próprio celular. — E essa exposição no museu também, está ótima!
— Muito! — Carol concordou, assentindo. — Fiquei até entusiasmada para visitar um museu.
— Podemos marcar! — exclamou, empolgada. — Conheço todos de Paris, saleta por saleta. — ela comentou.
— Um programa muito parisiense — Wanda concordou. — E muito chique, também.
— Ah, ótimo. — Icardi lamentou, empurrando o prato na mesa. — Ótimo. Um museu. Era tudo o que precisávamos.
— E quem disse que vocês estão convidados? — Jorgelina indagou, arqueando a sobrancelha.
Obrigado, Pai, eu sei que tu me sondas — Marquinhos murmurou em português, fazendo os brasileiros presentes gargalharem.
— Qual é o seu Instagram, ? — Isabelle indagou. — Vou seguir você.

Todas as mulheres pegaram o celular, assentindo em concordância. Elas então trocaram follows e estava rindo até olhar incrédula para uma das notificações em seu celular.

— Como assim você não me seguia, seu otário? — ela questionou a , apontando um dedo na direção do jogador. Enquanto todos riam, Jorgelina foi a única a perceber o olhar encantado do amigo ao contemplar a expressão brincalhona da garota.

⚜︎


Capítulo 6


Jornal Le Monde, Paris. 23 de março de 2020.

Ao entrar em sua sala na segunda feira de manhã, a primeira coisa que viu foi um bilhete, posto cuidadosamente sob a grande mesa de vidro. Desdobrou o papel de carta grosso apenas para se deparar com a caligrafia bem elaborada de Angelle. Ela sorriu levemente, constatando que sua chefe era a mulher mais elegante que já havia conhecido. E era também a pessoa que estava solicitando sua presença, urgente. A garota respirou fundo antes de se dirigir a sala da redatora, se perguntando se havia feito algo errado.

— Bom dia, Angelle — sorriu largamente ao bater à porta.
, querida — a francesa respondeu, movendo brevemente os olhos da tela do computador. — Exatamente quem eu estava esperando! Venha, sente-se junto a mim! Não há necessidade de toda essa formalidade! — ela disse, apontando a cadeira em frente à mesa. precisou conter a vontade de revirar os olhos; a rainha master das formalidades, dispensando-as? Certo. Antes que pudesse falar qualquer coisa, Angelle continuou, empolgada. — Tenho uma pergunta para você, chéri.

assentiu, aguardando. Sua chefe estava estranhamente agitada enquanto se preparava para falar e a garota não achou que seria uma boa ideia interrompê-la.

— Você sabe o que acontecerá a partir de amanhã em Lille? — indagou com a sobrancelha arqueada, quase em desafio.
— Sim, sei. — respondeu prontamente, sentindo um sorriso carinhoso crescer em seus lábios. — Como não saberia? Há anos espero ansiosamente por cada edição do Festival da Arte Contemporânea, mesmo que não conseguisse acompanhá-las na íntegra. — Angelle assentiu, incentivando-a a falar. — Não há nenhum tipo de cobertura oficial para o Brasil, você sabe, então pelos últimos quatro ou cinco anos eu acompanhei o Festival através de reportagens e notícias nas redes sociais. — deu de ombros, esforçando-se para não se sentir incomodada com o olhar estranho de sua chefe. Angelle assentiu mais uma vez, desviando o olhar para encarar suas unhas compridas. Começando a ficar nervosa, ainda que empolgada, continuou a falar, sem se conter. — A verdade é que eu amo o Festival. Quantas obras e artistas incríveis não são descobertos nesse período, ano após ano? É a oportunidade da vida deles!
— Assim como você foi descoberta e está tendo a oportunidade da sua vida aqui, conosco. — Angelle proferiu tão baixo, de forma tão suave, que quase não ouviu. — Eu ainda tinha mais algumas perguntas técnicas a fazer, mas como sempre... — a francesa suspirou com um sorriso leve brincando em seus lábios. — Como sempre, é a sua forma passional e genuína de agir que vai me fazer tomar a decisão. — seu sorriso tornou-se divertido. — A única coisa que preciso saber, é: você tem disponibilidade para trabalhar fora de Paris por alguns dias, ?

A garota estava tão encantada com os elogios elaborados de Angelle, forçando sua mente para que se os guardasse bem, que não entendeu de primeira o que a mulher havia perguntado.

— Sim, é claro! Tenho total disponibilidade para... — se perdeu em palavras quando finalmente entendeu. As mãos que gesticulavam em cima da mesa, agitadas, caíram em seu colo quando ela sentiu o coração disparar. — Não acredito.

Com um sorriso maior do que seu rosto magro parecia poder conter, Angelle abriu a gaveta de sua mesa, tirando de lá uma caixinha preta. Parecia ser feita de algum tipo de papel cartão e, quando entregou a caixa a , a garota imediatamente reconheceu o brasão da cidade de Lille em uma das laterais. Não acredito, murmurou novamente. Ela retirou a delicada tampa e se deparou com uma credencial. Era um cartão plástico branco, simples e elegante. Em cima, dizia “Festival de Arte Contemporânea” em letras bonitas. No meio, uma foto sua, a mesma que ela havia tirado para os arquivos do jornal. E por último, as letras maiores, que fizeram sentir vontade de chorar: Journal Le Monde. A credencial repousava em um tecido branco, dentro da caixinha, e nem sequer teve coragem de tirá-la de lá. Ela reparou que do cartão pendia uma cordinha de cetim preta e elegante. Ainda encantada, subiu os olhos para Angelle quando ela recomeçou a falar.

— Geralmente sou eu quem cobre o Festival. — ela explicou. — E eu jamais delegaria essa tarefa a outro profissional, principalmente um que está conosco há tão pouco tempo, se não tivesse total confiança em seu trabalho. Não nos decepcione, . Confio em você.
— Obrigada. — respondeu, lutando para conter as lágrimas animadas. Não sabia se a segunda semana oficial de trabalho já era tempo o suficiente para mostrar a sua chefe que era uma chorona nata. — Obrigada por tudo, Angelle. Mal sei expressar a gratidão que sinto ao vê-la, mais uma vez, depositar tanta confiança em mim.
— É bom vê-la verbalizar isso, — Angelle assentiu, sorrindo. — mas, espero que você tenha consciência de que vê-la trabalhando com tanta dedicação já serve como agradecimento pela oportunidade que lhe proporcionei.

E então a lágrima caiu. A redatora do Le Monde estava estranhamente carinhosa naquele dia, e decididamente não estava esperando por aquilo. Ela secou a lágrima teimosa, recolocando a tampa na caixinha, que segurou firmemente em suas mãos. Aquilo era algo que esperava alcançar em alguns anos de trabalho, mal podia acreditar que, mais uma vez, a vida estava sendo tão incrível com ela.

— Vá para casa, . Arrume tudo o que precisa. Você voará para Lille amanhã de manhã. — Angelle comunicou, pensativa, passando os dedos longos pelo queixo fino. — A menos que prefira viajar hoje, de carro. Poderá se instalar melhor no hotel e terá o próprio carro a disposição.
— Não. Não. Não, obrigada, — respondeu prontamente enquanto se levantava, nervosa.
— Qual o problema? — Angelle arqueou a sobrancelha.
— Tenho medo de dirigir na França. Muito. Demais, mesmo. — confidenciou, rindo.
— Oh, querida, não seja boba! O trânsito aqui é o mais tranquilo de todo o continente! Quem sabe um dia eu possa lhe dar algumas aulas... — ela espalmou as mãos sob o tampo da mesa de vidro, animada.
— Ah, claro! Seria ótimo — forçou os lábios em um sorriso e saiu correndo da sala de sua chefe, apavorada com a ideia.

Esperou até estar segura dentro de sua própria sala, com a porta de vidro devidamente fechada, para soltar o sonoro “puta que pariu” que lhe preenchia. Depois, jogou-se na cadeira e se permitiu sorrir, entre as lágrimas, e agradecer à vida por tudo aquilo.

⚜︎


atendeu no terceiro toque. estava jogada no tapete fofinho no chão de seu quarto, encarando a mala de roupas que havia organizado, percebendo que nem sequer sabia quando retornaria de Lille. A hora do almoço se aproximava, e ela estava apenas aguardando que Larry e Simone chegassem em casa para contar-lhes a novidade.

Bonjour, proferiu, sabendo que se falasse “bonjour” àquela hora da manhã para qualquer outra pessoa nascida na França, apanharia.
Oi, ! respondeu, como sempre, animada. Apesar de terem se visto apenas algumas vezes – a festa na Montana, um almoço e alguns chás da tarde, já nutria grande carinho pela garota e seu bom humor usual. — Como você está?
— Estou ótima. E você?
Perfeitamente bem. E como estão as coisas no jornal?
— É exatamente por isso que estou te ligando. — explicou, ansiosa. — Viajo amanhã para um trabalho em Lille e como não conheço absolutamente nada na cidade, gostaria de saber se você tem algumas dicas para me dar. — a garota sabia que não teria exatamente tempo de passear em Lille, mas ela queria, pelo menos, aproveitar o mínimo da oportunidade. Sem falar que precisaria de lugares para comer...
Ah, mas isso é incrível! berrou do outro lado, fazendo os pensamentos de retornarem à ligação. — Sabe o que estou fazendo nesse exato momento? Isso mesmo, arrumando minhas malas! Também estou indo para Lille! Minha sobrinha vai nascer!
— Ótimo! — riu, se perguntando se a amiga tinha noção do quanto sua voz estava estridente e, em seguida, sentiu o alívio crescer em seu peito. Saber que poderia contar com a companhia de na cidade desconhecida era, de fato, ótimo. — Quando você vai?
Eu estava pensando em comprar a passagem de trem para essa noite, mas se você vai amanhã, posso aguardar e vamos juntas, o que você acha?
— Seria ótimo, mas, minha chefe já me comunicou que vou amanhã cedo, de avião. Você acha que ainda conseguimos passagem para o mesmo voo?
Acho difícil, e se conseguirmos, será por um preço que não quero pagar... — riu. — Mas não tem problema. Vou essa madrugada, de trem, e te encontro lá amanhã. Você já sabe em qual hotel vai ficar? Eu... Anh... — aguardou pacientemente enquanto parecia buscar algumas palavras. — Eu não me dou exatamente bem com meus pais e já não fico na casa deles há um bom tempo, e não quero ficar na casa da minha irmã agora com a bebê então acredito que...
— Eu entendo perfeitamente. — cortou, poupando a amiga da explicação. Ela não conseguia nem imaginar voltar a São Paulo e precisar ficar na casa dos pais. — Confesso que não faço ideia de qual será o hotel e nem mesmo em qual horário chegarei na cidade, mas preciso voltar ao jornal daqui a pouco, então, assim que descobrir os detalhes com Angelle, te retorno e combinamos tudo.
Fechado. Argh, eu já estava ansiosa por ir, agora estou mais ainda! — exclamou, rindo.
— Sei bem como você se sente. — riu também.

Conversaram mais alguns minutos sobre a sobrinha de que estava prestes a vir ao mundo, e percebeu que a amiga sempre falava em um volume muito alto, assim como Simone. Seria mania das francesas? Não, certamente não. Ela não conseguia imaginar Angelle falando naquele tom.
Assim que desligou o telefone, ouviu Larry e Simone chegando, por isso correu pelo apartamento, animada. No corredor, deu de cara com Kate, séria como sempre. Às vezes até esquecia que a garota estava no apartamento. Kate apenas olhou em sua direção e balançou a cabeça, o que considerou ser um cumprimento e devolveu com um sorriso doce.

— Eu vou viajar! — ela berrou, em direção à porta que Larry havia acabado de abrir.
— O quê? Viajar? — ele disse, surpreso. — O que aconteceu? Você não está voltando ao Brasil, está?
— Você realmente acha que eu estaria nesse estado se precisasse largar o jornal e voltar ao Brasil? — riu e revirou os olhos, balançando a cabeça.
— Então você vai viajar com . — Simone concluiu. — E não me venha com essa resposta boba, você estaria sim nesse estado se fosse viajar com aquele delícia.
— O quê? Não, é claro que não vou viajar com ele. — respondeu, constrangida. — E não o chame assim. Ele não é delícia nenhuma e... — se interrompeu, perdendo-se em pensamentos. Não precisava olhar para os amigos para saber o que estava escrito em sua testa – e na de Simone também. era, definitivamente, uma delícia. Do que é que eu estava falando antes, mesmo?, a garota se perguntou. Ah, claro. — Enfim... Se agora vocês me permitirem contar a novidade sem me interromper com maiores especulações... — Ela abriu a caixinha preta que estava em suas mãos, mostrando aos amigos a credencial do Festival. — Vou cobrir o Festival de Arte Contemporânea, em Lille. Angelle me disse hoje de manhã.
— Ah, , isso é maravilhoso! Fico muito feliz por você, amiga! — Simone foi a primeira a exclamar, atirando-se ao pescoço de .
— Uau, , esse Festival é muito incrível, mesmo. — Larry concordou. — Marcelle estava comentando sobre ele hoje de manhã. Parabéns, darling! Você merece e...

Ele se interrompeu ao perceber que as duas amigas estavam o encarando fixamente.

— Por que você estava falando com Marcelle? — Simone quis saber. — Ela é uma chata!
— Eu não estava falando com ela. — ele deu de ombros. — Cheguei cedo ao jornal hoje, apenas ela estava lá, acho que o corredor estava silencioso... Apenas a ouvi falando sobre isso.
— Por que você tem ido tão cedo para o jornal, de qualquer forma? — perguntou, curiosa, e não pôde deixar de notar o longo olhar que Larry e Simone trocaram enquanto ele balançava os ombros.
— Nada específico. Eu só... Nada. Vou ver Kate.

E ele saiu rapidamente da sala, deixando sem entender nada. Só então ela notou que Kate havia voltado para o quarto e não estava com eles na sala. entendia bem por que era tão fácil esquecer a presença da garota.

— O que está acontecendo? — indagou a Simone.
— Falo de Moda, não de fofoca. — a parisiense deu de ombros e também deixou a sala, fazendo com que ficasse ainda mais confusa.
— Certo. — murmurou para si mesma, decidindo prestar atenção no celular que vibrava em suas mãos, indicando a chegada de novas mensagens.

Era , dando bom dia, às onze e cinquenta da manhã. A outra única pessoa na França que tinha coragem de falar “bonjour” àquele horário. Finalmente ele havia aparecido. estava ansiosa para lhe contar as novidades.

⚜︎


Ville de Puteaux; Bâtiment Amellie, Puteaux.

Já passava das quatro da tarde quando acordou. Havia dormido no sofá da sala, com a janela imensa aberta e apenas uma toalha branca enrolada na cintura.
Ops.
O jogador pulou do sofá, resolvendo tomar outro banho, dessa vez para despertar. Se continuasse dormindo daquela maneira passaria outra noite em claro e, consequentemente, também seria um zumbi no dia seguinte. Havia resolvido aproveitar a semana de folga para regular o sono, já que aparentemente não teria mais nada para fazer. Naquela semana algumas seleções teriam seus amistosos, por isso estavam de folga. Quer dizer, mais ou menos de folga, pensou, levemente irritado. Treinariam pela manhã, todos os dias, fato que pegou todos os jogadores de surpresa.
Ele havia planejado viajar para visitar os pais, mas não poderia simplesmente faltar aos treinos. Decidiu então que tentaria conciliar seu tempo livre com o tempo livre de , afinal, por mais que o almoço com os amigos no dia anterior tivesse sido ótimo, ele ansiava por mais momentos sozinho com a garota. Essa vontade, no entanto, durou poucas horas; apenas até ele descobrir que estaria fora durante a semana inteira.
Decidiu então que dormiria a semana inteira.
Talvez devesse comprar um cachorro.
Fez um lanche rápido após sair do banho e, entediado, apoiou-se à grade da sacada para apreciar o sol se pondo no Sena. Ou como diriam os franceses, La Seine. nunca se cansaria daquela vista.
Sentia-se extremamente infantil por admitir aquilo, mas estava se sentindo sozinho dentro daquele apartamento imenso. Pensou em ir à casa dos Di Maria, mas desistiu. Assim como desistiu de visitar Marquinhos, Herrera e Icardi. Todos deveriam estar aproveitando a tarde com suas esposas, enquanto as crianças estavam na escola. Neymar estava com as modelos que eles precisariam encontrar para jantar na noite seguinte e Kylian estava com a seleção. bufou, sentindo-se o primo mais novo e chato que era sempre deixado de fora. Decidiu comprar um cachorro.
Perguntou-se o que estaria fazendo. Queria vê-la antes da viagem, queria refrescar a imagem daquele sorriso que ele passaria a semana inteira sem ver. Sorriu, sentindo-se idiota. Eles nem sequer se viam naquela frequência toda! estava mais uma vez aumentando as coisas, como todos diziam. Antes que se desse conta do que estava fazendo, o celular já estava chamando. Ela atendeu rapidamente.

Oi. — ela respondeu. sabia que estaria sorrindo.
— Deixa eu te levar no aeroporto amanhã. — ele pediu, direto. Será que ela o acharia tão desesperado quanto ele se sentia?
Oh. Obrigada, mesmo, mas não precisa. Larry pode me levar e...
— Eu quero, . — ele cortou. — Por favor. Quero vê-la.
Bom, se não for incômodo...
— Eu faço questão. — ele suspirou, estranhando o modo da garota falar. Talvez estivesse no trabalho.
Então, nesse caso... Sim, , eu deixo. — ela riu, contida. — Mais tarde combinamos o horário. Te vejo amanhã, tá?

despediu-se e encerrou a ligação, irritando-se com o sorriso tão grande que fazia seus músculos doerem.
Fechou a sacada, calçou um par de tênis, e decidiu sair para uma corrida noturna, para evitar que seus pensamentos voltassem ao mesmo lugar.

⚜︎


Journal Le Monde, Paris.

— Então... — Angelle murmurou.

ainda não tinha tido coragem de falar uma palavra sequer. Depois de encerrar a ligação permaneceu em silêncio, encarando suas unhas, torcendo para que Angelle desaparecesse ou que ela pudesse se tele transportar para outro lugar.

— Então... — repetiu, sem coragem de erguer os olhos.
— Você estava dizendo que queria levar um acompanhante para Lille.
Uma acompanhante — enfatizou, constrangida. Quando finalmente levantou os olhos, foi apenas para se deparar com uma expressão divertida no rosto de Angelle. — Não tem nada a ver com essa ligação, e não quero levar ninguém; ela já estará lá, eu gostaria apenas que ficássemos no mesmo hotel.
— É claro. — Angelle assentiu. — Sem problemas, chéri. Vou providenciar para que fiquem em uma suíte dupla. Você e sua amiga.

Angelle conteve o sorriso, vendo que não arrancaria de nenhuma informação sobre a ligação.

⚜︎


Ville de Puteaux; Bâtiment Amellie, Puteaux. 24 de março de 2020.

desceu as escadas, correndo. Estava atrasado. E deveria estar muito brava.
Ele não havia comprado cachorro nenhum na noite anterior, o que, no fim das contas, devia ser uma coisa boa. Ele não era exatamente alguém responsável o suficiente para ser pai. De um cachorro. Ainda. Entrou em seu carro, vestiu o agasalho do Paris Saint-Germain que estava no banco do carona e saiu apressado da garagem, em direção ao apartamento de .
Quando chegou, ela já estava o esperando na porta do prédio, com uma mala vermelha, uma linda expressão sonolenta e um adorável sorriso nos lábios. Ele pretendia descer, pegar a mala e abrir a porta para ela, mas se perdeu admirando a garota e, rápido demais, já estava dentro do carro. Um perfeito cavalheiro.

— Bom dia, murmurou, sorrindo.

sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao notar o quanto a voz do jogador estava rouca.

— Bom dia — ela respondeu simplesmente, não confiando totalmente em sua própria voz. Não queria que percebesse que ela estava, mais uma vez, se derretendo por causa dele.

No caminho até o aeroporto conversaram sobre o Festival, sobre o frio que fazia naquele dia, sobre o caminho que fazia todos os dias até o Camp des Loges e sobre o jantar do qual ele participaria naquela noite. Em dado momento percebeu que o perfume de havia tomado conta do carro e agradeceu mentalmente por aquilo. Chegaram ao aeroporto e ela o encarou surpresa quando ele desceu do carro.

— Acho melhor eu ir sozinha. — ela comentou, pegando a mala vermelha. não disse nada; questionou tudo o que precisava com o arquear de sobrancelhas que lhe era típico. — no aeroporto às seis da manhã? — ela pontuou. — Você não acha que isso vai chamar atenção?
— O aeroporto deve estar vazio a essa hora. — ele deu de ombros. Ela o encarou, levemente autoritária, e precisou resistir fortemente à vontade de morder os lábios. — Vim até aqui com você e quero acompanhá-la, . — ele concluiu, colocando o capuz do agasalho. — Se tiver movimento, eu volto, prometo.

sorriu de lado, assentindo. Observou em silêncio enquanto pegava sua mala e sentiu seu coração disparar quando o jogador espalmou delicadamente a mão em suas costas. Ela precisava parar de ter aquele tipo de reação cada vez que ele se aproximava; seu coração batia desordenadamente em protesto.
Ele estava certo, o movimento no aeroporto era pouquíssimo. a acompanhou até a área de embarque, onde foi obrigado a se despedir. Trocaram um abraço tímido e, quando apertou seus braços ao redor do pescoço dele, não hesitou em depositar um beijo na testa da garota.

— Boa viagem — ele sussurrou, vendo-a se afastar com um sorriso doce nos lábios. Lábios aqueles que não via a hora de provar.

No momento certo, ele pensou enquanto voltava a seu carro.

⚜︎


Arembault Appart Hôtel, Lille.

estava simplesmente jogada na imensa cama do hotel enquanto tomava banho.
A brasileira estava, por falta de expressão melhor, cansada pra caralho.
Havia pousado em Lille perto do meio-dia, depois de um voo cheio de turbulências que não a deixaram nem sequer fechar os olhos. Teve apenas tempo de encontrar , que havia passado a noite na casa da irmã, fazer o chek-in no hotel, almoçar, tomar o banho mais rápido da história e correr para o Palais des Beaux-Arts, para então assistir à palestra de quatro horas que deu início ao Festival de Arte Contemporânea. Felizmente o hotel escolhido por Angelle – caríssimo e luxuoso, digno das cinco estrelas que detinha, ficava muito perto do Palácio de Belas Artes, o que facilitou totalmente a vida de . A garota estava apenas esperando para decidir o que comeriam naquela noite. Não via a hora de dormir, sabendo que o dia seguinte seria ainda mais agitado. Apesar do cansaço físico, era outro o motivo que atazanava a mente de , e ela estava se sentindo absolutamente culpada por aquilo.

Psicopata — ela murmurou em voz baixa, rolando na cama. Riu sozinha ao constatar que todas as suas atitudes impulsivas, por menores que fossem, vinham acompanhadas por palavras em português. E suspirou, deixando que a cabeça, novamente, vagasse até . O jogador havia sumido naquele dia. Ele era sempre tão interessado em tudo, suas conversas eram sempre recheadas de perguntas sobre como havia sido o dia dela e, justamente, quando ela estava ansiosa para lhe contar tudo sobre Lille, ele havia sumido.

Justamente no dia em que ele comentou que acompanharia Neymar em um jantar chique de algum patrocinador. Justamente no dia em que ela havia acabado de ver uma foto em que aparecia com os braços ao redor de uma morena absolutamente linda. Sem se conter, voltou ao perfil de Neymar no Instagram, analisando a foto. Ela reconheceu Ander Herrera e Isabel no canto direito, algumas mulheres desconhecidas e Neymar no meio e, no canto esquerdo, e uma mulher muito alta, quase tão alta quanto o próprio . Seu cabelo preto era liso e comprido, com um corte que Simone chamaria simplesmente de “escorrido”. Ela usava um vestido preto que desenhava perfeitamente seu corpo. Em seus lábios, um dos sorrisos mais bonitos que já havia visto, apesar de não parecer simpático. E os olhos... Até mesmo podia dizer que aqueles olhos verdes esbanjavam sensualidade. Sem se conter, a garota se sentiu irritada ao constatar, mais uma vez, que aquele rosto lindo estava inclinado na direção de .
Felizmente ou não, abriu a porta do banheiro naquele momento, encarando a amiga.

— Que cara de quem comeu e não gostou é essa? — indagou, desenrolando a toalha em sua cabeça.
— Não sabia que vocês usavam essa expressão aqui — retrucou, surpresa com a adaptação em francês.
— O quê?
— Nada.
— O que foi, ?
— Nada, . Estou apenas cansada. E com fome.
— Certo. Não vou cair nessa, . Tenho certeza de que você não é o tipo de pessoa que fica ranzinza quando está com fome. Você é... meiguinha demais pra esse tipo de comportamento. Conta logo, o que aconteceu?

riu, suspirando em seguida. Sentiu que podia contar o motivo de sua irritação à , por mais idiota que fosse.

— Digamos que... — suspirou mais uma vez, enrolando um cacho do cabelo na ponta dos dedos. — Digamos que eu esteja irritada comigo mesma por estar com... Ciúmes.

olhou para o teto, incomodada com a forma a qual a palavra saiu de seus lábios e ecoou em seus pensamentos.
Ciúmes.

— Ciúmes? — indagou, fazendo o eco do eco. Se não estivesse tão frustrada, teria achado graça. Encarou por alguns segundos, se perguntando o quanto a amiga a julgaria por aquilo. Preferiu mostrar a foto a invés de precisar verbalizar mais alguma coisa sobre aquela situação. desbloqueou o celular e apenas estendeu o aparelho para , que analisou a foto por alguns instantes. — Oh, é claro. Eu entendo.
— Você... Entende? — indagou, confusa. Elas haviam conversado sobre no chá do dia anterior, mas a brasileira estranhou a forma como as palavras de soaram...
— Sim, , eu entendo. Essa é a Talia, afinal de contas. — sorriu delicadamente, sentando-se na cama aos pés de . — Mas acho que não deve ser nada. Ele parece bem interessado em você.
— Talia? — indagou, sentindo seus olhos se estreitarem.
— Sim, Talia, a ex-namor... Ah. — se perdeu na frase, assentindo. — Você não sabia. Estava com ciúmes apenas por estarem juntos na foto, oui? Bom, amiga, prepare-se para esse sentimento aumentar.
— Ex-namorada? — indagou, repetindo a única coisa da frase que foi capaz de captar.
— Sim, ... Ex-namorada. Mas como eu disse, não deve ser nada demais. Como eu também disse, ele parece super interessado em você. Você comentou que ele teria um jantar com patrocinadores, sim? Deve ser isso. A Talia é modelo, provavelmente é só mais um desses eventos em que eles recebem muita grana por cada foto tirada.
— Ela é modelo. — concluiu. — Ela é modelo?!
— E lá vamos nós... — suspirou, deitando-se ao lado da amiga. — Essa aí é a Talia não sei do quê, ela é uma modelo italiana bastante famosa por aqui e namorou o por uns meses, muito antes de você aparecer.
— Como você sabe disso tudo? — indagou, curiosa. A declaração de a surpreendeu, e ela aproveitou o gancho para tentar não pensar que além de ter sumido naquele dia, estava em um jantar com a ex-namorada, participação que ele havia esquecido de mencionar quando comentou sobre os planos para a noite. A garota queria se obrigar a não pensar naquilo por quê, afinal de contas, ela não tinha nada a ver com o fazia ou com quem fazia.
— Acho que às vezes você esquece que eu trabalho lá, no cantinho dos jogadores. Já faz um tempo, sabe? Às vezes capto alguma coisa, e é inevitável não acompanhar notícias sobre os astros da França. E caso você esteja se perguntando, sim, Talia frequentava a Montana com , mas já faz muito tempo.
— Cantinho dos jogadores? — questionou, sentando-se na cama para encarar de frente.
, você está captando apenas um terço de tudo o que eu digo — revirou os olhos. — Mas tudo bem, vou atribuir isso ao seu cansaço, e não ao fato de que uma crise de ciúmes está estourando aí dentro de você bem agora. Mas, sim, cantinho dos jogadores. É assim que nós na Montana chamamos aquele canto do bar onde os jogadores sempre ficam. Aquele em que você apareceu na primeira vez, inclusive. Acho que por isso chamou tanto a atenção deles. Você claramente não sabia onde estava e quem frequentava o lugar, e foi bem engraçado de se ver, na verdade.
— Você está dizendo que os jogadores têm um canto reservado para eles, no bar da Montana?
— Não é bem reservado, mas sim. Aquele é o lugar em que eles ficam, eles, as esposas e... convidadas, todas as semanas.
— E todo mundo sabe disso?
— Todo mundo sabe disso.
— Menos eu?

gargalhou.

— Sim, , menos você.
— Achei que aquela noite não tivesse como ficar mais vergonhosa. — ela murmurou, revirando os olhos. — Você podia ter me avisado.
— Ah, claro. — riu novamente. — , esquece isso. Não foi nada demais. Na verdade, foi uma coisa boa! Você acabou os conhecendo, fez amizade com todos, se aproximou de e, de quebra, ainda me conheceu!
— É. — suspirou. — Você tem razão. Não foi nada demais.
— Isso. — assentiu, sorrindo. — E essa foto com a Talia também não tem nada demais. Com certeza deve ser algo profissional, é só você ver que quem postou foi o Neymar, e não ele.

assentiu automaticamente. Sabia que a amiga tinha razão. Sabia também que não deveria estar se importando com aquilo. Mas, infelizmente, ela se importava. Era a primeira vez em muito tempo que sentia ciúmes daquela forma e não estava sabendo administrar a situação muito bem. Se obrigou a esquecer aquele sentimento absolutamente irracional e injustificado e pulou da cama, convidando para o restaurante do hotel.
No outro dia, antes de ir para o Palais des Beaux-Arts, fez questão de conferir o Instagram, esperançosa, mas não havia uma única mensagem de .

⚜︎


Ville de Puteaux; Bâtiment Amellie, Puteaux.

Pra variar, estava ganhando de Neymar. Os dois estavam na vigésima partida de FIFA, depois de voltarem daquele jantar que parecia ter durado uma eternidade.

— Só pra avisar, quero conhecê-la logo. — Neymar disse de repente. Há muito tempo o ambiente era preenchido apenas pelos sons do videogame, e ouvir a voz do amigo fez dar um pulo no tapete. Ele demorou alguns segundos para raciocinar.
— Conhecer quem?
. A brasileijira.

O bonequinho de no videogame imediatamente perdeu a bola. Só de ouvir o nome de já sentia aquelas reações idiotas, mas não podia deixar transparecer nada daquilo, principalmente estando perto do maior crítico daquela situação. Repreendeu-se, sabendo que se Neymar tivesse a mínima ideia do que passava por sua cabeça naquele momento, o brasileiro teria uma enorme lista de adjetivos para ele, começando com os que ele nunca traduzia para o francês e fazia questão de bradar em português: emocionado e burro. já havia recorrido a Marquinhos para entender o que ambos queriam dizer e por fim decidiu que já que se sentir bem perto de significava que ele era um emocionado...
Bom, ele era um emocionado e tanto.

— Se você não fosse tão chato, já teria a conhecido. — retrucou. — Mas por que isso agora?
— Você tá brincando?! — Neymar riu. Foi sua vez de perder a bola. — Passei meses vendo você choramingar e tentar voltar com a Talia, e hoje que ela estava praticamente entrando dentro da sua boca você não deu a mínima! E olha que ela está ainda mais bonita! Isso só pode ser o efeito .

agradeceu por estar de costas para o amigo, pois não foi capaz de controlar o sorriso bobo que surgiu em seus lábios. A verdade é que já achava ter superado Talia há um tempo. Uma pessoa que agia da forma que ela havia feito não merecia o sofrimento e muito menos o amor de alguém. Mas sabia que precisava concordar com Neymar: tinha grande participação naquilo. Depois de sentir o carinho com que a garota o tratava, não vinha sentindo necessidade de buscar aquilo em outra mulher.

— Você vai gostar de conhecê-la. — disse, por fim. — Ela é demais.

Ela é demais e não falou comigo o dia inteiro, nem sequer para avisar que chegou bem, pensou, enquanto fazia um gol em Neymar no último segundo e ganhava a partida.

⚜︎


Capítulo 7


Arembault Appart Hôtel, Lille. 25 de março de 2020.

acordou muito antes do previsto, ansiosa para o dia em que finalmente começariam as exposições no Festival. Decidiu não acordar tão cedo, sabendo que a amiga provavelmente passaria aquele dia no hospital e precisaria estar descansada. Ela então tomou um banho quentinho naquele banheiro magnífico que competia acirradamente com o do seu apartamento, vestiu uma calça jeans de lavagem clara, uma regata preta e um blazer branco por cima. Calçou seu tênis All Star branco com plataforma e resolveu deixar o cabelo secar naturalmente. Sabia que era um look aceitável e que a deixaria confortável. Depois de conferir seu celular pela milésima vez – suspirando ao ver que a notificação que tanto esperava não estava ali, checou se carregava na bolsa tudo o que precisaria para aquela manhã e desceu para o restaurante do hotel.
Só depois de encarar o buffet por alguns minutos decidindo o que servir, servir todo o seu café da manhã, esperar por um chocolate quente no balcão e procurar uma mesa perto do enorme vitrô desenhado, foi que teve certeza absoluta de que estava sendo observada. Olhou discretamente para todos os cantos do restaurante, procurando a fonte do olhar que ela sentia cravado em si. E logo o encontrou, vindo de enormes olhos azuis que a encaravam sem discrição nenhuma. Era um rapaz loiro que não aparentava ser muito mais velho que ela. Cabelos espetados, barba levemente por fazer e um sorriso bonito e aparentemente simpático no rosto, direcionado a ela. retorceu o rosto em sua própria tentativa de sorriso, apesar de estar um pouco desconfortável. Notou que ele usava uma credencial igual à dela pendurada no pescoço, e também reconheceu um crachá completamente chamativo, do Le Figaro, jornal que também tinha sede em Paris.
Concorrência, pensou inocentemente antes de desviar o olhar, percebendo que o rapaz não parecia disposto a deixar de encará-la. Ela recebeu algumas ligações de Angelle durante o café da manhã, repassando as mil recomendações que já havia recebido. Por fim ligou para casa, na intenção de dar uma conferida em Larry e Simone. Quando estava prestes a deixar o restaurante, sentiu o peso de uma mão em sua cadeira. Olhou discretamente para frente antes de se levantar, apenas para constatar que o rapaz loiro não estava mais em sua mesa.

Bonjour — ele disse quando finalmente o encarou.
Bonjour sorriu, afastando a cadeira. Reparou que ele era ainda mais bonito de perto. Seus olhos azuis pareciam se destacar ainda mais quando ele estava usando óculos. Pela proximidade, a garota pôde ler o nome em seu crachá: Lohan. Lohan Poulin.
— Bom, vamos? — ele indagou, apontando para a porta. não se conteve e acabou o encarando de sobrancelha arqueada. — Acredito que estamos indo para o mesmo lugar, não? — Lohan concluiu, dando de ombros.

Antes que pudesse responder, se distraiu com a notificação de uma mensagem de Simone e depois de alguns segundos percebeu que Lohan ainda encarava, batendo impacientemente o pé esquerdo no chão.

— Vamos, ? — ele repetiu, abrindo um grande sorriso.

Excêntrico, no mínimo. Sem saber muito bem como agir, apenas assentiu, saindo do restaurante e do hotel, indo em direção ao Palaux,
As poucas quadras de distância até o Palácio foram acompanhadas de um silêncio desconfortável. Aquela era, de longe, a abordagem mais estranha que já havia visto. E presenciado. E recebido. A situação não mudou quando chegaram ao local do Festival. Lohan apenas apressou o passo, entrando sozinho. deu de ombros e deixou a estranheza acompanhar o rapaz. Precisava focar em coisas mais importantes.
A jornalista brasileira já havia decidido, em acordo com Angelle, que selecionaria apenas uma história para ser contada na matéria de quinta feira. Depois, reuniria as obras que lhe chamassem a atenção para publicar no domingo. Essa era a parte fácil. O difícil seria que decidisse, no meio de tantas coisas incríveis, o que é que merecia uma página exclusiva no caderno cultural do Le Monde. A garota passou a manhã inteira procurando por algo que lhe emocionasse. Algo que lhe causasse aquela sensação, que lhe despertasse o interesse de mostrar ao mundo que aquela obra existia. Ela viu quadros, vasos e esculturas, ouviu músicas e assistiu a curtas amadores; viu ressignificações de obras já mundialmente conhecidas e se deparou com algumas totalmente inovadoras. também ouviu poemas, leu livros e assistiu a peças de teatro. Foi só após o almoço, depois de tomar um comprimido para a dor de cabeça que lhe incomodava e procurar uma sala vazia para descansar a mente, que encontrou o que procurava – mesmo sem saber.
Ela ouviu a música de longe. Era uma melodia bonita, convidativa e muito, muito triste. seguiu o som até uma saleta que se abria pelo lado esquerdo do salão principal. Havia algumas pessoas ali, assistindo à apresentação. A maioria dos espectadores era jornalista, mas nenhum deles estava ali em busca de uma matéria. Ao olhar as crianças que se apresentavam, imediatamente soube o porquê.
Eram doze meninas mais novas, em torno dos oito e dez anos de idade, que coreografavam algo que identificou, sem muita certeza, como ballet clássico. Elas eram guiadas por uma moça mais velha, próxima a idade de , que, enquanto realizava lindos movimentos, tocava o violino cujo som provavelmente havia atraído a atenção de todos ali.
Todas tinham algo em comum. A pele acinzentada, o cabelo preto, liso e muito comprido; narizes largos e olhos grandes de um castanho profundo que pareciam carregar, em sua maioria, muita tristeza. Eram imigrantes. Romenas, arriscaria dizer. Por um segundo se obrigou a desviar a atenção da dança linda e melancólica, perguntando-se como um grupo de jovens imigrantes havia conseguido a oportunidade de mostrar seu trabalho em um dos maiores festivais de arte da França. Justo na França... Só então notou, no canto da sala, em frente a um grande espelho, uma mulher alta, loira e elegante. Poderia ser Angelle, Simone, Veronica e até . Era, claramente, francesa e rica. percebeu que ela chorava, apesar de ter um sorriso contido nos lábios, e constatou que aquela mulher deveria ser a conexão entre as romenas e o festival. Enquanto assistia ao final da apresentação, buscou mais alguns detalhes na cena. A violinista usava um vestido longo, solto e em preto absoluto. Já as meninas bailarinas usavam peças totalmente coloridas, apesar de seguirem o mesmo padrão de roupas longas e soltas. A jornalista notou que as vestes não eram idênticas: tecidos e costuras diferentes, assim como várias remendas, estavam dispostas pelas peças. Os pés pisavam diretamente no chão. Nos braços, muitas pulseiras.
São crianças ciganas, constatou.
Por um breve instante, se perguntou o que deveria fazer. Havia, com certeza absoluta, encontrado a história que queria contar; a obra que queria mostrar ao mundo. Mas... A que custo? Ela sabia, apesar da plena certeza de que isso nunca lhe seria dito, principalmente dentro do Le Monde, que ela tinha sorte de ter sido contratada. Ela sabia muito bem que na França, a linha entre o patriotismo e a intolerância a outras culturas era muito tênue. Ela sabia que aquele era um país racista e xenofóbico, apesar de não ter presenciado ou se envolvido em nenhuma situação de preconceito. Bem, ainda, ela pensou, ciente de que atrairia justamente aquele tipo de pessoa se optasse por contar a história das romenas. suspirou, observando que com o fim da apresentação, a grande maioria dos jornalistas já havia deixado a saleta. Ela devia fazer o mesmo.
Sentindo um peso estranho se formar em seu peito, a jornalista brasileira também se dirigiu à porta. Antes de alcançá-la, no entanto, ela parou.
Ela não seria se fizesse aquilo. Ela estaria indo contra tudo o que acreditava, anularia toda a sua luta naqueles vinte e dois anos se se dobrasse à intolerância naquele momento. Poderia ser a sua última matéria no Le Monde, mas seria muito bem aproveitada.
Enquanto caminhava rapidamente até o grupo de bailarinas, sentiu aquela estranha sensação em seu peito se dissipar.

— Com licença — disse, tocando o braço da garota mais velha, que ainda segurava seu violino. — Qual o seu nome, querida?
— Sorina. Me chamo Sorina. — ela respondeu prontamente. Seu sotaque era diferente de qualquer outro que já havia escutado.
— É um bonito nome, Sorina. — a jornalista sorriu, percebendo que todas as bailarinas, assim como a elegante loira, a encaravam atentamente. — Será que você aceitaria responder algumas perguntas sobre essa linda apresentação? Sou jornalista e gostaria muito de contar a história de vocês.

E naquele momento, vendo as lágrimas que imediatamente tomaram conta dos olhos da garota, soube que estava fazendo a coisa certa.

⚜︎


Era quase noite em Lille. A luz que entrava pelo gigantesco vitrô colorido do salão principal do Palais des Beaux-Arts apenas deixava o ambiente ainda mais artístico.
estava, assim como vários outros jornalistas, sentada à mesa que lhe havia sido reservada, trabalhando em sua matéria. Depois de duas horas escrevendo, ela estava apenas dando os últimos toques antes de encaminhar o arquivo à edição do Le Monde. Passou mais uma vez as mãos pelo rosto cansado, sentindo os olhos ainda úmidos das lágrimas que a estiveram acompanhando naquele processo. Alongando os ombros e encostando-se confortavelmente na cadeira, iniciou a revisão da matéria.

A arte expressa os sentimentos, as experiências, a vida. E ambas as coisas seguem a mesma regra: não há regras. Nossos sentimentos não têm um único ponto de partida; nossa vida não têm uma única origem. E não precisam ter. A arte, também não. Há diversas culturas; consequentemente, diversas formas de expressar aquilo em que cremos e aquilo que vivemos; diversas formas de dar vida ao artista que há em cada um de nós. [...] O nome Sorina deriva da palavra romena soare, que significa "sol". Em seu sentido mais íntimo, esse nome carrega as definições de calor, vitalidade, amor, arte e fé. Na Romênia, há muito se acredita que ao escolher o nome para batizar uma criança, estarão sendo escolhidas também as palavras regentes de sua vida. E foi exatamente isso que esse nome tão poderoso causou na vida de Sorina Radu, uma jovem refugiada de vinte anos que, através da música e da dança, através da arte, tenta levar calor, vitalidade, amor e fé às crianças romenas e ciganas que, assim como milhões de imigrantes, mantém diariamente a esperança de uma vida melhor. [...] Conhecedoras das mais diversas obras que possamos imaginar, as crianças romenas nos deixam uma única lição: a Arte é do mundo. Ela vem de todos os lugares e há espaço para todas as manifestações artísticas, nós só precisamos aprender a observar. E geralmente, assistir com o coração.

estava analisando as fotos da matéria e o relato de Margareth, a loira elegante que ela descobriu ser uma espécie de tutora para Sorina, quando foi interrompida.

— Oi. — uma voz amigável soou perto demais, fazendo dar um pulo da cadeira.

Ela levantou os olhos apenas para dar de cara com Lohan e uma outra jornalista que havia visto diversas vezes ao decorrer do dia.

— Olá — respondeu, sorridente. A garota sorriu em resposta e Lohan apoiou os braços em sua mesa, esticando a cabeça em direção ao laptop.
— Sobre o que está escrevendo? — ele indagou.
— Estou apenas finalizando minha matéria. — explicou, afastando o laptop do olhar curioso de Lohan.
— E sobre o que ela é?
— Lohan! Não seja inconveniente! — a outra jornalista repreendeu, revirando os olhos. procurou por seu nome, mas ela já havia retirado o crachá. Usava, no entanto, uma camiseta do Le Figaro, o que indicou a que a mulher trabalhava com Lohan. — Me chamo Susanne. — ela disse, sorrindo.
— É um prazer conhecê-la, Susanne. E quanto à minha matéria, Lohan... Ela será publicada amanhã de manhã. Receio que precisará ler o Le Monde de amanhã para sanar sua curiosidade — comentou e riu, lembrando que havia dito a mesma coisa a .
— Não costumamos ler a concorrência — ele deu de ombros, pondo-se em pé novamente.
— Fale por você — Susanne novamente cortou o colega, fazendo rir.
— De qualquer forma... — Lohan suspirou, deixando um sorriso leve brincar em seus lábios. — Nós viemos convidar você para um karaokê. Um pessoal do Le Parisien reservou um espaço em um restaurante...
— Ah, que divertido! — exclamou, animada. — Eu adoraria!
— Ótimo! — Susanne exclamou. Ela parecia legal. Bem mais legal que Lohan, inclusive. — Pronta para irmos?
— Preciso enviar esse arquivo e passar no hotel para tomar um banho. — pontuou, balançando a cabeça. — Mas é só me passar o endereço e eu encontro vocês lá.
— Prefiro que você nos acompanhe. — Lohan respondeu.
— E eu prefiro ir quando eu estiver livre para ir. — retrucou, contendo o sorriso irônico que apareceu em seus lábios. — Você pode me passar o endereço, Susanne?

A jornalista do Le Figaro assentiu rapidamente, anotando o endereço do restaurante no bloquinho de papel sob a mesa de . Lohan se afastou com uma expressão séria, sem proferir uma única palavra, e Susanne foi atrás do colega, revirando os olhos. riu e finalmente encaminhou o arquivo da matéria para o jornal. Organizou suas coisas na grande bolsa e ao ver que estava realmente escuro, resolveu chamar um táxi para o hotel. Só ao destrancar a porta de seu quarto ela leu o e-mail de Angelle.

, querida
Li sua matéria. Uma escolha arriscada, eu diria. Muito, muito arriscada. Porém... Impecável, como sempre. A descoberta é a oportunidade de uma vida, oui? Obrigada por pensar e escrever com o coração. Félicitations.”

⚜︎


Ville de Puteaux; Bâtiment Amellie, Puteaux.

O cheiro do bolo de chocolate queimado tomava conta do apartamento. torceu o nariz, sacudindo um guardanapo em uma tentativa de diminuir a fumaça. Ótimo.
O dia estava sendo absurdamente frustrante. Marqui estava fora por duas semanas devido a uma torção no tornozelo e Kylian e Neymar à beira de uma suspensão por indisciplina. estava incomodado com a postura dos colegas e irritado com a situação num todo, por isso, achou que o melhor naquele dia seria o isolamento. Era a segunda tentativa falha de fazer um bolo e estava prestes a ligar para sua mãe e pedir uma receita que funcionasse. Desistiu ao ver a foto da mãe no aparelho celular. Mama certamente perceberia o mau humor do filho, e ela não gostava nada daquele lado sombrio de . Nem ele próprio gostava.
Jogou a segunda receita no lixo e resolveu pedir um bolo de chocolate em algum restaurante que tivesse opção delivery. Aquilo teria que servir. Depois de limpar a cozinha, se jogou novamente no sofá da sala, percebendo que ainda era muito cedo e ele não teria nada para fazer durante o resto do dia.

— Deve ter algo interessante nessa cidade — ele resmungou, ligando a televisão.

Antes que pudesse escolher algum canal aleatório – com um jogo de futebol para assistir, o celular de tocou, atraindo sua atenção. Revirou os olhos, vendo que não tinha aquele contato salvo e, portanto, aquela não era a ligação que esperava.

Allo? — ele atendeu, já adaptado ao francês.
Ciao, — a voz definitivamente melosa respondeu. novamente revirou os olhos. Aquela certamente era a ligação que ele não esperava. — Como você está?
— Estou bem, Talia, e você? — o jogador se obrigou a ser educado. Há um bom tempo já não sentia a mínima vontade nem de lembrar que Talia existia.
Estou bem, mas ficaria muito melhor se você me encontrasse para jantar hoje. O que acha?

afastou o rosto do celular para poder suspirar em paz. Detestava o comportamento de Talia. E também a detestava por achar que poderia aparecer daquela forma, como se nada tivesse acontecido, mesmo depois de tudo o que fez.

— Agradeço o convite, Talia, mas vou recusá-lo — ele disse simplesmente, de olhos fechados. Sentia seu humor, que já não estava dos melhores, piorando a cada segundo.
Ah, , não faça isso. — ela suspirou. Certamente já estava preparada para uma primeira negativa. — Sinto saudades. Quero conversar com você, quero vê-lo... Gostaria muito que pudéssemos nos acertar, tesoro.
— Talia, veja bem... Não há nada para ser acertado. Não quero vê-la, não quero conversar com você... E é isso. Tudo o que aconteceu entre nós dois já é passado.
Não ache que vou desistir assim tão fácil, . — Talia proferiu. Sua voz ainda tinha aquele tom doce e aquilo estava irritando ainda mais o jogador. — Sei bem que você também não desistiu de mim.

Antes que pudesse responder qualquer coisa e garantir a ela q já havia sim deixado tudo aquilo para trás, a modelo desligou o telefone.
decidiu que estava na hora de sair de casa. Não costumava correr no fim do dia, mas simplesmente não conseguiria continuar fechado naquele apartamento. O dia estava difícil. E por mais que ele detestasse admitir, o silêncio de , desde o dia anterior, estava contribuindo com toda aquela irritação. O que teria acontecido? achou que talvez ela estivesse sem tempo até para pegar o celular, mas ele já tinha conferido as redes sociais da garota e ela estava atualizando tudo regularmente. Ele sabia que poderia simplesmente acabar com toda aquela frescura e mandar ele mesmo uma mensagem, mas o fato de que a garota não havia nem respondido sua mensagem no dia anterior, desejando boa viagem... Que ela não havia avisado que estava bem ao chegar... se frustrou um pouco com aquilo. E se não queria falar com ele, o jogador respeitaria o espaço dela.
Bufou quando o celular tocou, perguntando-se se Talia seria tão insistente.

— Allo? — ele atendeu sem olhar.
Achei alguém mais desanimado que eu — Di Maria riu, debochado. Ouvir a voz do amigo aliviou um pouco a irritação de . — A Jor saiu com a Carol e as crianças. Marqui está aqui. Vem jogar.

não pôde deixar de perceber que aquilo não era um convite, era quase uma solicitação.

— Estou indo — desligou o celular e rapidamente vestiu uma camiseta. Em poucos minutos atravessou o condomínio em direção à casa dos Di Maria, finalmente sorrindo.

⚜︎


Camden Bar, Lille.

— Você veio! — Susanne exclamou, assim que viu adentrar o bar.
— Eu disse que viria — a jornalista brasileira respondeu, sorrindo. Esperava encontrar um bar com karaokê típico dos filmes americanos, mas aquele lugar era muito mais chique do que ela teria imaginado. Agradeceu aos céus por ter um senso de moda tão parisiense quanto Simone; sem a intervenção da amiga, ela teria saído de calça jeans e All Star. Mas naquele momento, usando uma saia de couro, um casaco comprido e ankle boots, ela parecia estar seguindo o padrão de... Bem, de todas as outras mulheres presentes.

cumprimentou a todos os outros sete jornalistas que estavam sentados em bancos altos ao redor de uma mesa redonda. Sentou-se entre Susanne e Lohan e, antes que pudesse perceber, já estava tomando seu primeiro drink.

— Vocês já finalizaram suas matérias? — Louise perguntou. Ela trabalhava em alguma revista de Lille, mas não conseguiu se lembrar qual.
— Ah, nem vem! — Cameron, do Le Parisien, respondeu. — Combinamos de não falar sobre o Festival — ele revirou os olhos, tomando um longo gole de sua taça.
— É verdade, é verdade — Louise gargalhou, assentindo. — Mas e aí, vocês já conheceram alguém famoso através da profissão? — a garota indagou, com um sorriso travesso.
— Eu já entrevistei a Lady Gaga — Cameron comentou, orgulhoso.
— Você está falando sério? — Susanne indagou, quase pulando em cima do rapaz.
— Não, é claro que não — ele gargalhou. — Na época da entrevista, eu era apenas um editor. Tudo o que fiz foi alinhar as linhas para a matéria.
— A trabalha com a Angelle Leblanc — Lohan disse, de repente. sentiu-se brevemente desconfortável com a declaração inesperada, que soou quase como uma acusação. Rapidamente, seu desconforto se voltou para os cinco pares de olhos que a encaravam. Até os jornalistas mais quietos, que ainda não haviam se pronunciado estavam a encarando.
— Uh, Le Monde — Louise murmurou, admirada. — Acho que é o sonho de todos — ela assentiu, sorrindo.
— Nada contra o Le Figaro, é claro, — Cameron acrescentou, piscando para Lohan e Susanne — mas o Le Monde... Uau.
— E você realmente é brasileira? — um dos outros indagou. nem sequer sabia seu nome então apenas assentiu, sorrindo.
— E como é trabalhar no Le Monde sendo brasileira? — Cameron quis saber.
— Não, essa pergunta é chata — Louise abanou a mão na frente do rapaz e sorriu em gratidão a ela. Não queria responder àquela pergunta, definitivamente não. Não gostou do tom que a palavra brasileira estava sendo dita por ali. — E então, voltemos a pergunta inicial: você já conheceu alguém famoso?

estava prestes a negar, mas foi incapaz de conter um largo sorriso ao pensar em e nos amigos, e todos perceberam. Até mesmo Lohan pareia genuinamente curioso. Ela havia conhecido os jogadores na Montana, através de Simone, que conhecera através do Le Monde, então considerou que podia, sim, dizer que os conheceu através do trabalho.

— Conheci alguns jogadores do Paris Saint-Germain — ela respondeu, sorrindo. — E... Bem, fiz amizade com alguns deles e suas esposas.
— Você está falando sério?! — foi Cameron quem perguntou, é claro. — Você fez amizade?
— Sim, fiz amizade. — assentiu, evitando pensar em . Não queria sorrir daquele jeito que sorria toda vez que pensava nele. — Eles são bem legais.
— Você é amiga do Neymar? — o outro desconhecido indagou, de olhos arregalados. Dois pesos e duas medidas para os brasileiros, pôde perceber.
— Ainda não o conheci — ela admitiu, fazendo esforço para não deixar a expressão emburrada tomar seu rosto. Só entendia aquilo.
— E o Mbappé? — Susanne indagou. — Ele é tão gato quanto parece na TV?
— Sim, o Kylian eu conheço — gargalhou ao ver as três garotas na mesa arregalarem os olhos quando ela chamou o jogador pelo nome. — Ele é bem legal. E sim, ele é tão bonito quanto parece na TV.

Riu novamente ao ver as jornalistas suspirando e se perguntou como elas agiriam caso também tivessem visto Kylian Mbappé de toalha na cintura. A julgar pela cara dos homens na mesa, aquele não seria um assunto bem visto. tratou rapidamente de mudar o tópico.
No fim, acabaram nem participando do karaokê. Apenas beberam, conversaram e experimentaram alguns pratos típicos de Lille. Mesmo com o silêncio do dos outros jornalistas e os olhares invasivos de Lohan, foi uma noite agradável.
Quando voltou ao hotel, com Susanne e Lohan, já estava dormindo, então apenas tomou um banho quentinho e se jogou na cama. Aproveitou a desculpa de que não queria incomodar a amiga com o barulho para adiar um pouco mais o que ela precisava fazer. Precisava?
Foi com aquele questionamento que adormeceu.



Palais des Beaux-Arts, Lille. 26 de março de 2020.

se surpreendeu ao notar que no segundo dia de exposições, o Festival já contava com um público bem menor. Passou a manhã fotografando e sintetizando tudo o que podia para a matéria do final de semana. Já havia combinado tudo com Angelle: terminaria a matéria no sábado pela manhã e, à tarde, voltaria a Paris. Na semana seguinte, voltaria a Lille na terça-feira, para a segunda semana do Festival.
Naquela quinta-feira, almoçou sozinha, em um restaurante próximo ao Palácio de Belas Artes. estava no hospital, curtindo a sobrinha que nascera naquela manhã. adorava a comida do hotel e teria voltado até lá, mas precisava admitir que estava fugindo de Susanne e Lohan. Susanne era ótima e apreciava sua companhia, mas ela estava sempre acompanhada de Lohan e ele era... too much, como Larry teria dito. Lohan era um exagero e naquele dia, não estava disposta a aguentá-lo.
À tarde, mais fotos. Relatos dos artistas, dos organizadores e do público. recebeu ligações de alguns colegas do Le Monde a parabenizando pela matéria sobre as crianças ciganas, uma chamada de vídeo com Larry e Simone – com uma Kate emburrada ao fundo – demonstrando seu orgulho e uma mensagem de Jorgelina, dizendo que ela, Isabel “e todas as meninas” ficaram muito emocionadas com o relato. Mais uma vez, soube que havia escolhido o tópico certo para falar a respeito.
Foi só no fim do dia, enquanto voltava a pé para o hotel, que teve coragem de fazer o que queria ter feito desde que o avião pousara em Lille.
Enquanto procurava o nome dele na lista de contatos, ela se perguntou se estaria fazendo a coisa certa. Ele havia realmente sumido naqueles três dias. E se não quisesse falar com ela? E se tivesse reatado com a ex-namorada? Percebeu que estava sendo boba. Eles eram apenas amigos. Pronto.
sentia-se tão nervosa que seria capaz de encerrar a ligação caso ele não atendesse imediatamente. Mas ele atendeu, é claro.

Oi, disse com a voz rouca, quase como se estivesse sonolento. sentiu seu pescoço arrepiar ao ouvir chamando-a pelo apelido naquele tom.
— Te acordei? — ela indagou.
Na verdade, sim. — ele riu. — Mas não tem problema. Eu nem deveria estar dormindo agora.
— Está tudo bem? — quis saber, apreensiva. Ela sabia que eles não teriam jogos naquela semana, mas mesmo assim, estranhou o fato de uma atleta tão ativo estar dormindo às sete da noite de uma quinta-feira.
Sim, sim, tudo bem. Eu tenho dormindo bastante. Não tenho muita coisa para fazer, então durmo — ele deu uma risada leve e teve certeza de que ele estava coçando a cabeça.
— Ah, sim, entendi. Achei que talvez você estivesse muito ocupado, por isso não entrei em contato. Não quis atrapalhá-lo. — fechou os olhos enquanto caminhava na calçada do hotel. Achei que talvez você estivesse muito ocupado com sua ex-namorada.
Oui. Também não quis incomodá-la. Vi que você também estava ocupada. Aquele parecia ser um bar legal. concluiu e sentiu um leve sorriso surgir em seus lábios. Seria possível que os dois fossem idiotas a ponto de estarem pensando a mesma coisa?
— Ah, sim, era bem legal. Você também foi há um restaurante legal nessa semana, sim? — ela provocou, testando-o.

Para sua surpresa, gargalhou.

Será possível que nós evitamos falar um com o outro pelo mesmo motivo, e no fim nada estava acontecendo? — ele indagou.
— Acho que sim. — concordou, rindo. — Somos meio idiotas.
Sou obrigado a concordar. riu, suspirando. — Mas eu preciso confessar que... Fiquei um pouco frustrado por você não ter me respondido quando chegou aí. Então achei que não queria falar comigo e resolvi deixar para lá.
— Oui, eu entendo. As coisas foram muito corridas quando cheguei, mal tive tempo de pegar o celular naquela manhã. E depois comecei a alimentar a ideia de que você estava ocupado e não queria falar comigo...
Eu sempre quero falar com você, . Sempre, desde que te conheci, há um mês? Sim, sempre riu. Ele parecia bem mais desperto, e lamentou brevemente que a rouquidão tivesse abandonado sua voz.
— Bom saber disso. — ela sorriu, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Era uma mania boba que ela tinha toda vez que falava com . — Também sempre quero falar com você, . — ela segurou uma risada, nervosa. Parecia uma adolescente se declarando na escola. — Sabe... Gosto muito disso. Gosto da forma como conseguimos conversar e acertar as coisas.
Exato! exclamou, animado. — Agimos como idiotas por alguns dias? Sim, mas conseguimos esclarecer tudo. As coisas são muito leves com você, .
— As coisas são muito leves com você também, . — sorriu, olhando ao redor. Não queria que ninguém que estivesse entrando no hotel ouvisse aquele nome. — Na verdade... Acho que as coisas são muito leves entre a gente.
Você não sabe o quanto é bom ouvir isso. — proferiu e agradeceu por estar longe dele. Com o rosto corado, definitivamente parecia uma adolescente apaixonada. Apaixonada. Quando você volta, ? a distraiu e agradeceu por isso.
— Volto no sábado à tarde. E na semana que vem, retorno à Lille.
Ah, então você vai estar aqui no sábado à noite. Ótimo. — deu uma risada travessa que não passou despercebida aos ouvidos de .
— O que foi?
Nada, cariño. — ele riu novamente. — Te vejo no sábado, . Tenho uma surpresa para você. Não é nada demais, mas acho que você vai gostar.
— Ah, ! Você sabe que sou curiosa! Isso é injusto! Agora vou ficar ansiosa.
Use sua ansiedade para fazer o sábado chegar mais rápido. — ele riu. Ao ouvir uma voz no fundo, teve uma breve ideia do que poderia ser a surpresa. Ou melhor, quem poderia ser a surpresa. — Preciso ir, . Um campeonato de FIFA está a minha espera.
— Tudo bem. — ela suspirou. — Compre um cachorro. Assim você não vai dormir tanto. Até mais, .



Hôpital Jeanne de Flandres, Lille. 27 de março de 2020.

e corriam pelas escadas do hospital, segurando a risada e ignorando os olhares críticos. A jornalista havia prometido à amiga que visitaria sua sobrinha no hospital em seu horário de almoço, mas fora interceptada por Lohan ao tentar sair do Palácio de Belas Artes, o que tomou grande parte de seu tempo. Mas o encontro precisava ser naquele momento, pois durante a tarde, a irmã de e sua sobrinha receberiam alta do hospital e então iriam para o interior, passar os primeiros meses com a família do pai da bebê.

— Estamos quase chegando — ofegou.
— Tem certeza de que sua irmã não vai achar essa visita um absurdo? — quis saber, pela terceira vez. — Principalmente se chegarmos correndo.
— Não, ela vai adorar essa visita. Eu já lhe disso isso. Ela quer conhecê-la, . Nas palavras de Sophi, ela precisa conhecer a amiga que arrastou a irmã dela de volta para Lille. Meu mérito por decidir vir conhecer minha sobrinha me foi tirado, .

parou abruptamente de correr e abriu delicadamente uma porta de vidro, enquanto se apoiava nos joelhos para respirar. Assim que entrou no quarto, viu-se apaixonada por aquela criança.
A pequena Madelleine dormia tranquilamente no colo da mãe, com seus lindos fios dourados espalhando-se delicadamente por sua testa.

— Ela é linda — comentou, enquanto se aproximava da cama. Depois de se apresentar a Sophi e garantir que estava se comportando bem em Paris, deixou a insegurança de lado para carregar um pouco a bebê no colo. Tinha primos mais novos, mas nunca havia os acompanhado desde o nascimento, e estava perdidamente encantada com a criaturinha em seus braços.

Depois de não ter mais como enrolar no hospital, de despediu de , Sophi e Madelleine e chamou um táxi de volta ao Palácio, para a última tarde de Festival naquela semana.
fotografou as exposições do dia e, depois de não ter mais nada novo para ver, deu início a construção de sua matéria. Só levantou de sua cadeira às sete da noite, quando a exposição se deu por encerrada naquela sexta-feira. Sua matéria estava praticamente pronta e estava orgulhosa por conseguir sintetizar vinte e sete tópicos e criar espaço para falar de cada um deles. Músicas, quadros, poemas, esculturas... Naquele domingo, sua coluna no jornal estaria recheada de muitas obras.
De volta ao hotel, tomou um banho e aguardou para que pudessem jantar. Enquanto estava preguiçosamente jogada em sua cama, ouviu o celular tocar e se esticou para pegar o aparelho. Franziu o cenho ao constatar que o número não estava salvo e ponderou por alguns instantes antes de atender.

Allo?
, querida, aqui é a Wanda!
— Oh, oi, Wanda! — exclamou enquanto jogava as pernas para o alto e continha um grito animado. Wanda! Wanda Icardi! Como se ter Jorgelina Cardoso na lista de contatos já não fosse incrível o suficiente.
Querida, preciso falar rápido. — Wanda parecia agitada e notou que ela falava com várias pessoas ao mesmo tempo. — Você estará em Paris no sábado à noite?
— Sim, estarei. Volto ao fim do dia.
Ótimo! Tenho um convite especial. Haverá um evento na Montana, uma comemoração da loja a qual sou sócia, e eu gostaria muito que você estivesse lá. As meninas todas estarão presentes.
— Obrigada pelo convite, Wanda! — o coração de batia tão forte que ela achou que fosse, a qualquer momento, soltar uma risada histérica. — Se chegar à tempo em Paris, certamente estarei presente!
Perfeito. Por favor, faça o possível para chegar a tempo. Amanhã é um dia muito especial para mim e... — ela se interrompeu quando outras vozes surgiram do outro lado da linha.. — , preciso desligar. tem todas as informações sobre o jantar. Nos vemos amanhã! Au revoir!

Ótimo. Ela havia realmente escutado aquilo? Wanda Icardi estava realmente presumindo que ela falaria com sobre o jantar?
sorriu ao se levantar da cama. Quem ela estava querendo enganar?
Decidiu que finalizaria os detalhes da matéria durante a madrugada e, em uma conversa rápida com Angelle, conseguiu que seu voo – agora com a acompanhando, fosse antecipado para a manhã do dia seguinte, não tendo que esperar até as quatro da tarde.
No sábado, por volta do meio dia, já estava de volta a seu apartamento.



Capítulo 8


Ville de Puteaux; Bâtiment Amellie, Puteaux, 28 de março de 2020.

estava ansioso.
Suspirou enquanto ajeitava a gravata borboleta preta, distraído. Aguardou pacientemente que Wanda convidasse para o jantar, para que ele então pudesse fazer seu próprio convite. Os dois estariam no mesmo evento, mas não era daquela forma que queria. Sua intenção, na verdade, é que fossem juntos. Que o acompanhasse. Que ela estivesse lá por Wanda, sim, mas com ele.
Temeu, por alguns segundos, que a garota fosse recusar o convite, mas ela prontamente aceitou. sabia que, no fundo, ela deveria estar nervosa. Mas ela tinha aceitado e já era um ótimo começo. Sabia que pessoas inconvenientes estariam sempre dispostas a estragar tudo, mas acreditava que com a presença de boa parte do time e suas companheiras na Montana naquela noite, acabaria não chamando tanta atenção, principalmente em meio a todas as outras pessoas importantes efamosas que estariam presentes no local.
Estava sentindo saudades da garota.
Torcia para que nada desse errado naquela noite.
Consultou o horário no relógio ao ver o carro de Di Maria passar em frente a seu prédio. Suspirou, levemente nervoso, sabendo que estava na hora de ir buscar . Aquela seria uma noite elegante na Montana, por isso, seguindo ordens de Wanda, ele usava um blazer preto e sem botões por cima da camiseta branca. Uma calça preta e um par de tênis brancos e impecáveis complementavam as vestes de para a ocasião. Sabia que Wanda o mataria, mas ele não deixaria seus tênis para trás. desceu rapidamente à garagem do edifício, colocou uma música animada para tocar no carro e dirigiu tranquilamente até a Rue Leneveux.
Chegando ao prédio de , desejou que pudesse descer, tocar a campainha e esperá-la na porta do apartamento, mas tinha plena consciência de que aquilo não seria o ideal. Então apenas estacionou o carro em frente ao prédio e mandou uma mensagem à garota, avisando-a que já estava ali. Uma buzina discreta, acompanhada de uma risada conhecida, o informou que no carro do outro lado da rua estava Kylian, esperando por Simone. A loira rapidamente apareceu e, acenando discretamente para , entrou no carro do francês, que arrancou em seguida. Não demorou também para que Larry saísse do prédio, acompanhando de perto por uma garota baixinha. Larry cumprimentou de maneira animada ao entrar em seu carro, enquanto a garota apenas olhou em sua direção e revirou os olhos. Antes que ele pudesse pensar a respeito, sua atenção foi novamente atraída para a entrada do prédio, e dessa vez, seu coração acelerou. se obrigou a descer do carro para recebê-la.
estava absolutamente linda.
observou que seu cabelo longo e cacheado estava preso em um coque, com alguns fios soltos ao redor do rosto. Ela usava um vestido preto, longo e justo, com uma abertura que dava ao jogador a visão perfeita de uma de suas coxas. Pelas alças e decote do vestido, pode observar que tinha uma tatuagem na clavícula, que ele ainda não conhecia. Se imaginou tocando a pele delicada da garota, buscando por outras tatuagens escondidas que ela pudesse ter. Antes que seus pensamentos o traíssem, se obrigou a voltar sua atenção para o rosto de , e então foi seu coração que o traiu. O sorriso que ela lhe dirigia era iluminador.
Por mais idiota que aquilo fosse, sentiu-se feliz por saber que ela estava sorrindo daquela forma para ele.

— Você está incrível — elogiou, dando os últimos passos até o carro.
— E você está... Maravilhosa. — o jogador estendeu o braço para segurar a mão da jornalista. Os dois riram ao sentir a corrente elétrica já conhecida, que sempre fazia parte de seus toques. Quando ela estava perto o suficiente, a tomou nos braços, apoiando as duas mãos em sua cintura. Ao respirar fundo, sentiu-se mais uma vez hipnotizado pelo cheiro da garota. — Você está usando o mesmo perfume da noite em que nos conhecemos. — constatou, sorrindo.
— Eu sabia que você ia lembrar — retrucou, com um sorriso travesso brincando em seus lábios. Quando ela se aproximou ainda mais, apoiando sua mão no peito do jogador, soube que poderia enlouquecer.

encarou os olhos de , que faiscavam em sua direção. Ele estava, desde o momento em que os vira, apaixonado por aqueles olhos. Baixou o olhar até a boca de , perfeitamente desenhada pelo batom vermelho, e precisou conter o impulso de morder seus próprios lábios. Ele sorriu ao perceber que também encarava sua boca, e quando o fez, ela intensificou o aperto em sua camiseta, cravando as unhas compridas em seu peito. subiu uma mão de seu quadril, surpreendendo-se ao notar que o vestido de era completamente aberto nas costas. Ele desceu delicadamente a mão, até apoiá-la na bunda de , deixando um sorriso cínico preencher seus lábios. Quando ela arqueou o pescoço e gargalhou, precisou de todo seu autocontrole para não depositar um beijo em sua pele macia ali mesmo, no meio da calçada.
O jogador travava uma briga interna, tentando decidir o que acharia de ser beijada ali, daquela forma, com certa exposição. Como em um sinal do universo, um carro dobrou a esquina, iluminando a rua e o casal abraçado. sorriu timidamente, diminuindo o aperto na camisa de até que fosse apenas carinhoso. Ela arregalou os olhos quando subiu rapidamente a mão de sua bunda até sua cintura e gargalhou em seguida, apoiando o rosto no ombro do jogador.
E foi ali que soube.

⚜︎


Balada Montana, Paris.

O local estava muito cheio. Era uma noite chique, em celebração ao aniversário de um ano de uma loja a qual nem sequer havia tido tempo de se informar a respeito.
O espaço que geralmente era usado como pista de dança estava tomado por grandes mesas redondas e bem decoradas. Os bancos do bar, onde os jogadores geralmente ficavam, haviam sido removidos. Naquela noite, todos precisavam sentar-se às grandes mesas. observava a tudo atentamente enquanto a direcionava até uma mesa lateral, com a mão espalmada em suas costas. A jornalista se surpreendeu ao ver seu nome posto em uma plaquinha sob a mesa, ao lado dos nomes já conhecidos. Di Maria, Jorgelina, Marquinhos, Carol, Kylian e Simone já estavam presentes. leu as plaquinhas que faltavam: Ander Herrera, Isabel, Wanda e Mauro.

— Essa é a mesa da Wanda — sussurrou no ouvido de , apontando para uma garrafa no centro da mesa. observou ali uma plaquinha maior, na ponta da garrafa, onde ela podia ler “Icardi” em letras desenhadas. — Consequentemente, a nossa mesa. Ela é sócia da loja, que até onde sei, é uma boutique muito chique. Isso quer dizer que nessa noite, somos muito chiques. — ele sorriu, divertido.

assentiu enquanto se sentava e cumprimentava a todos os presentes. A jornalista estava levemente nervosa com toda a elegância da situação, por isso sentiu-se totalmente aliviada por sentar entre e Simone, à frente de Jorgelina. Tinha certeza de que os três a ajudariam com o que fosse necessário.

— Esse é um evento fechado — continuou a explicação. — E tem algumas pessoas do seu jornal por aí.

arqueou a sobrancelha, surpresa. Notou que Larry e Kate haviam saído, mas ela estava tão envolta em seu nervosismo que nem sequer imaginou que estavam todos indo ao mesmo lugar. Olhou ao redor, procurando por rostos conhecidos e os encontrou a algumas mesas de distância. Larry e Kate estavam com Veronica e o namorado, Luna e seu marido, Jeffrey da redação e sua esposa e, com certa antipatia, notou, Marcelle. Torceu para que a colega não a enxergasse ali. Não queria ter que lidar com comentários maldosos. Não naquela noite.

— Eu queria que o Larry ficasse aqui — Simone murmurou, acompanhando o olhar de . — Mas a Wanda nem o conhece, então não teve jeito. — ela deu de ombros, tomando um gole de champagne de sua taça. — Na verdade, ela não conhece nem a mim. Eu estaria na mesa do jornal também, mas Kylian me convidou. Você é a única convidadinha da Wanda — ela sussurrou no ouvido da amiga, rindo. apenas beliscou sua coxa, torcendo para que ninguém a ouvisse. Aquele tipo de piada já havia gerado uma situação desconfortável, com a qual não estava afim de lidar novamente. E também... se perguntou se teria convidado outra pessoa para lhe acompanhar, se Wanda não tivesse feito questão da presença dela. Será que o jogador estava apenas unindo o útil ao agradável?

Não, ela sabia que não. Por isso, sorriu delicadamente para ele antes de se virar em direção à Simone.

— Você sabe se a Angelle vem?

Simone negou com a cabeça.

— Ela está viajando. Esqueci que você passou a semana fora. Ela precisou ir visitar os pais.

assentiu, decidindo qual das bebidas à sua frente deveria tomar primeiro. Optou pela água com limão.

— Água com limão? — Marquinhos indagou, arqueando a sobrancelha.

Em uma rápida olhada ao redor da mesa, constatou que todos, menos ela e , já haviam optado por algo alcoólico.

— Sou fraca para bebidas — ela deu de ombros, rindo. — Prefiro começar devagar.
— Se você está com medo de fazer fiasco um evento elegante, não se preocupe — Di Maria comentou, apontando sua taça em direção a . — Tenho certeza que Kylian terminará a noite em cima de uma das mesas.

E então os jogadores entraram em uma discussão sobre quem era o pior bêbado. riu, notando que eles sempre discutiam por tudo.

— E como foi sua estadia em Lille, ? — Jorgelina quis saber, sorrindo para a amiga. — Vi algumas fotos muito bonitas que você postou.
— Ah, foi tudo incrível! Realizei um grande sonho e foi ainda melhor do que eu poderia ter imaginado!
— Ficamos todos felizes em saber. — Carol pontuou, propondo um brinde. — Você está nos incentivando a ler mais jornais, — ela riu.

Todos brindaram e conversaram por alguns instantes sobre a próxima semana do Festival, sobre o jantar e sobre como as crianças estariam se portando caso estivessem ali. Não demorou para que Herrera e Isabel chegassem e, quando Wanda e Mauro se sentaram à mesa, Chloé, proprietária da loja, fez seu discurso de agradecimento.
Enquanto o jantar era servido, Simone e Isabel especulavam sobre haver ou não atores famosos por ali. Di Maria e Kylian conversavam sobre as bebidas e Marquinhos e Jorgelina trocavam indicações de massagens para dores abdominais. apenas tentava conter o sorriso enquanto insistia em entrelaçar seus dedos por baixo da mesa.
Logo após o jantar, Chloé chamou Wanda e os demais sócios a frente das mesas e propôs que todos os presentes se levantassem para um brinde. No instante que se pôs de pé, sentiu que alguém a encarava fixamente e, olhando discretamente ao redor, notou que Marcelle mantinha os olhos e um sorriso cínico em sua direção.

— Ignore-a — Simone murmurou para que apenas ouvisse. — Ela é uma vaca.
— Não gosto nem de pensar no que está passando por aquela cabecinha maldosa — suspirou, desviando o olhar.
— Se você não quiser que ela saiba que você veio acompanhando o bonitão aí, podemos dizer que você veio comigo. — a loira deu de ombros. — Kylian e eu não somos novidade para ninguém.

assentiu, pensativa. Não gostaria, realmente, que as pessoas soubessem da amizade dela com , mas também não via motivos racionais para esconder aquilo Se soubessem, ótimo. Se não soubessem, melhor ainda. A jornalista tentou olhar discretamente na direção do jogador, buscando qualquer indício de que ele tivesse escutado a conversa entre ela e Simone, e estranhou ao se deparar com uma expressão desconfortável no rosto de .

— Aconteceu algo? — indagou, curiosa.
— Nada, cariño — ele respondeu distraidamente e lançou um sorriso em sua direção antes de apoiar delicadamente a mão na cintura da garota. Ótimo. Todos saberiam.

tentou prestar atenção ao discurso e brinde de Chloé e seus sócios, principalmente na parte de Wanda, mas algo a estava distraindo completamente. De repente, a jornalista sentiu-se incomodada sem nem saber o motivo.
Após o brinde, Isabel e Carol pediram licença para ir ao banheiro e, aproveitando a brecha para respirar fundo, decidiu que as acompanharia. Ao passar perto do bar, avistou e notou que a amiga parecia estar sinalizando algo que ela não foi capaz de entender. No banheiro, retocaram a maquiagem, certificaram-se de que os vestidos continuavam impecáveis e tiraram algumas fotos – que foram direto para o Instagram da esposa de Marquinhos, não pôde deixar de notar. Assim que voltaram à mesa, Wanda estava convidando a todos para uma foto em frente ao painel da boutique. Enquanto se dirigia ao local indicado, acompanhada das amigas e seguida de perto pelos jogadores, sentiu-se incomodada novamente. Ao tentar se aproximar de Simone para perguntar se a amiga também estava com certa sensação desconfortável, levantou os olhos e percebeu o que estava errado. Parada a algumas mesas de distância, ao lado de Marcelle, estava Talia.
Ela, a modelo e ex-namorada de . a reconhecera por todas as fotos que havia visto durante aquela semana, mas o olhar que ela dirigia a não abria margem para qualquer dúvida. A jornalista tentou ler a situação da maneira mais discreta que conseguiu e, ao notar que que ainda se mostrava desconfortável e se esforçava para olhar em qualquer outra direção, soube que algo estava errado e sentiu-se completamente deslocada.
Após a foto, esperou que todos se distraíssem e se dirigiu novamente ao banheiro, dessa vez sozinha. Precisava esclarecer os pensamentos. Mandou uma mensagem para , pedindo socorro, mas a mensagem nem sequer foi entregue. Não pediria ajuda à Simone; ela não era nada discreta e alguém certamente acabaria lendo a mensagem. Ao sair do banheiro, notou que durante as fotos, as mesas haviam sido movidas para os cantos do bar e o ambiente se tornara o que parecia ser uma grande pista de dança com um palco e uma mesa de DJ no canto. Todos já haviam retornado às mesas e lamentou por ter que caminhar sozinha por toda a extensão da Balada Montana, atraindo centenas de olhares. Ao se aproximar de sua mesa, notou que os amigos estavam todos ao redor dela, em pé, conversando. Notou também que havia outra pessoa ali. não precisou de mais do que alguns segundos para entender que aquela era Talia. Apesar de não ter nenhum motivo racional para evitar aquele encontro, soube que não queria conhecer Talia. Não ainda. Era difícil admitir, mas sentia-se intimidada pela modelo. Em uma olhada rápida para o bar, percebeu que Veronica, Luna e Larry conversavam animadamente no balcão. caminhou até os amigos em passos decididos.

! Perfeito! — Veronica exclamou assim que a avistou, animada. — Você chegou bem na hora! Luna está prometendo nos convidar para um jantar.
— Mas o cardápio será inteiramente decidido por mim — a chef argentina pontuou, rindo. — Vocês irão apenas sentar e degustar.
— Ótimo. É tudo que eu preciso. — Larry murmurou. Em seguida, fechou os olhos e levou as mãos ao coração, arrancando uma risada alta das colegas.

insistiu que Luna deveria apresentar um cardápio sul-americano e os amigos passaram algum tempo decidindo detalhes para um possível jantar – enquanto Luna vetava todas as opções.
Enquanto corria os olhos por toda a extensão do bar, à procura de , sentiu uma mão tocar sua cintura. Distraída, quase não identificou aquele toque... Elétrico. Quase.

— Você sumiu — foi o que disse, fazendo com que sorrisse antes mesmo de se virar.
— Eu estava bem aqui — a jornalista balançou levemente os ombros, deixando que seu sorriso aumentasse enquanto ela encarava o jogador.

discretamente respirou fundo por alguns segundos. Precisava manter o foco.
era linda, mas, naquele dia específico, ela estava deslumbrante e, por isso, brincava perigosamente com os pensamentos de . O jogador admirava seus lábios, pois sabia que se a encarasse nos olhos... Aqueles olhos que o atraiam tanto.
Ciente de que ainda estava segurando pela cintura, que ambos estavam presos naquela conexão que era só deles e que algumas pessoas os encaravam de maneira curiosa, sorriu discretamente, finalmente se permitindo analisar o rosto de por completo.

— Acho que estamos sendo observados — ela riu, tocando levemente o braço do jogador.
— Bom para você. — brincou. — Primeiro na frente de seu prédio, agora aqui... — ele olhou ao redor, suspirando. — É a segunda vez que uma plateia te salva hoje, .
— Não vejo a hora de não termos plateia, então — a jornalista disse em voz baixa e sorriu largamente antes de se virar para os colegas. E então continuou a falar, em voz alta. — Luna, Veron... Esse é , um amigo.

As duas imediatamente puseram uma expressão de surpresa contida no rosto, e precisou segurar o riso enquanto todos se cumprimentavam.

— Ah, e quanto a mim? — Larry indagou, empurrando as colegas para que pudesse chegar a . — Não serei apresentado?

riu, abrindo os braços para o inglês. Qualquer pessoa teria pensado duas vezes sobre aquilo, mas Larry apenas se jogou no abraço do jogador.
Em uma olhada rápida para sua mesa, constatou que Talia não estava mais lá e, disposta a livrar de Larry, convidou o jogador para que voltassem a seu lugar.
Dois segundos depois, ela se arrependeu. Se atravessar a Montana sozinha atrairia alguns olhares, qual seria a consequência de atravessar o espaço acompanhada de ? O jogador parecia saber o que estava passando na cabeça dela, pois conversava animadamente com a jornalista, ainda que de maneira discreta. E apesar do grande esforço requirido, mantinha as mãos longe da cintura de . Ao analisar a garota, notou que uma expressão concentrada havia tomado conta de seu rosto.

— O que foi?

abanou a mão, pedindo um segundo. Algo familiar... Alguma lembrança havia sido ativada, e ela não entendia o quê. Depois de alguns instantes, percebeu que era a música que estava ouvindo.

— Mas essa música... — arqueou a sobrancelha, surpresa. — Isso é pagode?!

Foi a vez de arquear as sobrancelhas, contendo um sorriso.

— E qual o problema?
— Porque é que alguém tocaria pagode em uma ocasião tão chique, em Paris?
— Por quê? — indagou. — Ou por quem?

E ao ver uma pessoa assumindo o microfone no palco improvisado, soube que estava prestes a conhecer Neymar.
estava tão concentrado em achar na graça na reação de que nem sequer notou o olhar amargo que sua ex-namorada lhe dirigia.

⚜︎


e voltaram para a mesa e aguardaram pacientemente até que o atacante brasileiro aparecesse. Ele tinha um rolo com Chloe, por isso estava sentado em outra mesa, com os amigos da empresária. Não demorou para que ele descesse do palco e fosse na direção dos companheiros de time.
Ao olhar na direção de , abriu um grande sorriso e temeu, por breves segundos, que ele pudesse fazer algum comentário idiota.

— É um prazer finalmente te conhecer, . — Neymar disse, estendendo a mão para a jornalista.
— É um prazer te conhecer também! — ela exclamou, radiante. gostou de vê-la feliz daquela forma. E não pôde deixar de sorrir ao constatar, mais uma vez, que o carinho que dirigia a ele era diferente da forma a qual ela tratava os outros jogadores.
— Ouço tanto sobre você que parece até que já nos conhecemos, mas... Tenho uma dúvida, , e você é a única pessoa que pode me esclarecer — Neymar comentou, coçando a cabeça, enquanto se apoiava na cadeira.
— Diga — sorriu docemente, mas não deixou de notar que ela estava apreensiva. Todos estavam. Por alguns segundos, o jogador se perguntou se Marquinhos, que estava ao lado de Neymar, estaria pronto para acertá-lo com chute discreto caso ele falasse alguma besteira.

Neymar respirou fundo, se divertindo com a reação dos colegas.

— Então, ... Minha pergunta para você é bem simples. — ele suspirou, sério. — Qual o melhor jogador do Paris Saint-Germain? ? Ótimo. Justifique sua resposta. — Neymar fez uma pausa dramática e continuou, antes que alguém pudesse falar qualquer coisa. — Por que ele é lindo? Certo, acho que é uma resposta aceitável.

Para o alívio de , entrou na brincadeira e todos passaram bons minutos justificando quais seriam os melhores jogadores do time, com os motivos mais absurdos. se limitou a assistir a brincadeira, ficando cada vez mais encantado pelo som da risada de .

⚜︎


O relógio marcava três horas e vinte e dois minutos quando voltou do banheiro, atordoado. Ele a evitara a noite inteira, mas aquele breve encontro com Talia havia sido o suficiente para arrancar dele todo o seu bom humor e ele decidiu que estava na hora de levar para casa. A festa ainda estava rolando, mas a jornalista não dormia desde o dia anterior, e esse fato, acumulado ao cansaço da viagem, fazia com que ela mal conseguisse manter os olhos abertos. Larry e Kate também já haviam ido embora e insistira em ir com eles, mas garantiu que a levaria em casa. Ela também disse que poderia muito bem chamar um táxi, mas simplesmente... Fazia questão. A jornalista se despediu de Jorgelina com um beijo no rosto, prometendo que a avisaria assim que acordasse no dia seguinte, para decidirem os últimos detalhes do piquenique que haviam combinado. E enquanto saía da balada Montana acompanhada de , sentindo a mão do jogador firme em sua cintura, não se sentiu desconfortável. Ela sabia que estava se apaixonando por ele e, pela primeira vez, tal pensamento não a incomodou. virou o rosto em direção ao jogador e sorriu ao notar que ele a analisava atentamente. Então, sem se importar com quem pudesse ver aquilo, a jornalista deitou a cabeça no ombro de e se permitiu não se preocupar. Era hora de cumprir a promessa que havia feito e aproveitar o que a vida lhe oferecia.
dirigia em silêncio. Primeiro, porque estava quase dormindo e ele não queria incomodá-la, portanto, a música baixa que tocava no rádio era o suficiente para preencher o ambiente. Segundo, porque precisava controlar sua mente. Estava se sentindo sufocado e com medo de estragar tudo. Os últimos acontecimentos da noite haviam trazido lembranças dolorosas e ele não sabia bem como lidar com elas. A presença dela... Delas, no mesmo lugar. Era puro contraste. Eram muito diferentes, mas ele ainda era o mesmo.

— Sei que estou sendo uma péssima companhia — murmurou, rindo baixo.
— Não tem problema. Pode dormir se quiser, o trânsito está um pouco complicado. — suspirou, tirando a mão do volante para apoiá-la delicadamente na coxa da jornalista. — Descanse, . Te acordo quando chegarmos ao seu apartamento.

se aninhou no banco, virando-se de lado, segurou a mão de ainda sob suas pernas e entrelaçou seus dedos; então a garota fechou os olhos e abriu um leve sorriso.
Quando sentiu o mesmo sorriso tomando conta de seus lábios, soube, pela segunda vez naquela noite. Aquilo já não era mais uma mera atração. Talvez nunca tivesse sido. O sorriso sumiu rapidamente de seus lábios.
Ele sabia que estava se apaixonando por ela e, pela primeira vez, tal pensamento o incomodou.
E se não quisesse que aquilo acontecesse, precisaria parar de vê-la. Logo.


Capítulo 9


Camp des Loges, Paris. 29 de março de 2020.

Um apito, um grito.

— Presta atenção, , porra!

Todos os colegas já haviam gritado com pelo menos uma vez naquele treino, e aquela era a voz de Marquinhos, de novo, dando início a segunda rodada.

! — a voz do técnico Tuchel soou por todo o centro de treinamento. — Quarenta voltas, agora!

respirou fundo antes de sair do local do campo onde estavam treinando cobrança de faltas. Não diria uma palavra sequer ao técnico. Estava perigosamente irritado.
Eles teriam um jogo importante naquela semana e simplesmente não conseguia se concentrar. Ao finalizar sua primeira volta no enorme campo, sua cabeça já estava de volta ao que havia lhe tirado o sono: a noite anterior.
Sabia que estava sendo injusto com , mesmo que ela não tivesse percebido sua mudança de comportamento. Mas no fim das contas, estava sendo injusto com ele mesmo!
Não fazia o mínimo sentido, mas ele sentia que ter estado com e Talia no mesmo lugar havia exposto toda a sua vulnerabilidade. Um único pensamento rondava sua mente: elas eram diferentes, mas ele era a mesma pessoa.
E se todos estivessem certos? E se ele realmente se abrisse para as pessoas rápido demais e aquilo fosse um problema? E se ele sofresse com tudo o que havia sofrido com Talia?
Não porque a jornalista era uma pessoa ruim, mas porque ele esperava demais. Se dava demais, tinha expectativas demais. À época, Talia o magoou muito e ele acabou superando. Mas ele não aguentaria passar por aquilo mais uma vez, principalmente se fosse com .
Ah, ...
Lembrar de seu sorriso fazia sorrir.
Doze voltas.
O jogador não queria se afastar dela, de jeito nenhum. Queria continuar dando abertura para tudo o que estava sentindo, queria que tudo aquilo fluísse, queria ser correspondido por .
E ele sabia que ela o correspondia. Ela não era como Talia.
Ela não o usaria.
Dezoito voltas.
era forte, independente e decidida, havia conquistado seu próprio caminho até a França e certamente não estaria planejando usar um jogador de futebol para subir na vida.
Então porque é que ele sentia todo aquele... Medo?
A decepção muda muito as pessoas, bem sabia.
Queria poder conversar com alguém, expor tudo o que estava sentindo. Queria pedir conselhos e ajuda para entender o que estava acontecendo.
Vinte e cinco voltas.
Ele não poderia pedir ajuda aos amigos. Neymar seria o primeiro a sugerir que ele se afastasse, e o restante diria que ele estava sendo idiota e que tirasse aquilo da cabeça.
Uma pessoa ouviria . Uma pessoa o ajudaria a entender o que estava acontecendo e como lidar com aquilo. Mas não podia pedir ajuda àquela pessoa.
Ei, , não quero mais me envolver com você porque estou com medo de que algo dê errado, será que você pode me ajudar?
Trinta voltas.
O fato de estar tão distraído a ponto de precisar dar voltas no campo ao invés de treinar deixava completamente frustrado, e nem assim ele conseguia se concentrar. Querendo ou não, precisaria falar com .
Lembrou-se do piquenique que teriam naquela tarde e no mesmo instante seus pensamentos se iluminaram, só de imaginar estar perto da garota novamente.
Quando ele pensava em , era fácil se sentir... Apaixonado.
E quando ele se sentia apaixonado, era muito, muito fácil pensar em tudo que poderia dar errado. Era muito fácil lembrar de como ele havia sido magoado, de quantas vezes implorou para que Talia reatasse com ele, do quanto pediu a Talia que o amasse de verdade.
Trinta e nove voltas.
não passaria por aquilo novamente.
Quarenta.

— Quarenta voltas. — ele disse simplesmente, parando a frente de Tuchel.
— Amanhã quero você aqui duas horas antes do treino. — o técnico respondeu, sem tirar os olhos do grupo que treinava no campo. — Por hoje, está liberado.
— Liberado?
— Parece que você tem visitas.
— Visitas? — arqueou a sobrancelha, sem entender. Tuchel apontou discretamente para o prédio que ali ficava, sério. — Ah, não. Não. — o jogador resmungou, sem acreditar. Não achou que algo pudesse piorar naquela manhã.

Em frente ao grande prédio administrativo do centro de treinamento, bem à porta, estava Manoel Kruges, agente de .
Por mais controverso que fosse, aquela visita nunca era um bom sinal.
O jogador caminhou lentamente até o prédio, buscando se acalmar a cada passo.

. — Kruges cumprimentou, balançando a cabeça sem olhar para . O fato de ninguém o encarar nos olhos naquele dia só impulsionava seu mau humor.
— A que devo a honra dessa visita? — indagou.
— Vamos conversar aqui dentro. — Kruges disse simplesmente, abrindo a porta de vidro. — Direto ao ponto, , direto ao ponto. Não estão felizes com você. Muitos eventos, pouco futebol.
— Mas foi você quem me mandou naquele jantar! — protestou.
— O jantar no Bourbon sim, e aquilo foi muito bem visto. — Kruges deu de ombros. — Mas ontem você saiu por conta própria e se deixou ser visto com um novo affair.
— Ela não é um affair. Não fale assim dela. — respondeu entredentes, sentindo seus músculos se retesarem. — Não sou nenhuma celebridade, não sou ninguém da mídia. Não deveria ter que ser interrompido no treino por ser visto ou não com alguém. Compareci ao jantar de ontem para prestigiar Wanda, assim como metade do time também foi, e não estou vendo ninguém encher o saco deles por isso.
— Seus companheiros têm mantido seu rendimento dentro do esperado, por isso ninguém os incomoda. — Kruges disse simplesmente e sentiu vontade de gritar. Sabia que não estava sendo eleito o melhor do elenco, mas seu rendimento também não estava abaixo do esperado. Aquilo era injusto. — Quero saber o quanto aquela garota tem a ver com isso. Você não pode perder a cabeça cada vez que conhecer uma mulher nova. Se essa está distraindo você, passe para a próxima. Precisamos resolver esses contratempos.
— Ela não é um contratempo e ela não tem nada a ver com isso. E de qualquer forma, minha vida pessoal não interessa a você, Kruges. — suspirou. — Eu sei do meu próprio rendimento, sei onde estão as minhas falhas e não preciso que você venha até aqui me dizer isso.
— Você precisa voltar a dar o seu melhor em campo, e não vou aceitar que você deixe qualquer uma no meio disso. E além do mais, precisa ser visto com as pessoas certas.
— Pessoas certas?
— Exatamente, . Contatos. Pessoas certas colocaram você aqui, mas as pessoas erradas podem fazer você ir embora. Você sabe que o pai de Talia tem grande influência na Federação Italiana e...
— Pare. — interrompeu. Precisou respirar fundo algumas vezes. Seu temperamento estava muito pior do que ele gostaria. — Ninguém me colocou aqui e você sabe bem disso. Ser titular desse time é mérito meu. Não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre isso, Kruges. Você sabe que meu último agente perdeu o emprego por causa disso. Você sabe que Talia me usou, você sabe que meu agente me usou e você sabe que não tenho o mínimo interesse de jogar na Itália. Não vou sair de Paris. Posso decidir onde vou jogar, posso decidir quem é a pessoa certa e também posso decidir quando nosso encontro vai acabar, e ele acaba agora. Obrigado por ter vindo até aqui, Manoel. Ouvi suas preocupações e vou lidar com elas da minha maneira.

E assim saiu, indo em direção ao vestiário.
Carajo.

⚜︎


Rue Leneveux, Paris.

Maldita claridade. Abrindo preguiçosamente os olhos, se arrependeu de não ter fechado as cortinas na noite anterior.
Conferiu o horário: onze da manhã. Cedo demais para acordar no Brasil, tarde demais para acordar na França. Levantou-se rapidamente e, enquanto estendia a cama, viu que tinha uma mensagem de Jorgelina.

!
Não sei se você esqueceu do nosso piquenique ou se ainda está dormindo, mas espero que seja a segunda opção. E espero que mantenha isso em segredo, caso contrário, os franceses irão te odiar.
Tudo combinado, cariño. Nos vemos no Jardim de Luxemburgo, às duas da tarde.

Achou que o mais educado, apesar do horário, seria ligar para Jorgelina e agradecer pelo recado. Foi Mia quem atendeu e precisou prometer que brincaria com elas naquela tarde. Depois de falar com Jorgelina e encerrar a ligação, decidiu que precisava de um banho para acordar completamente.
Estranhou o fato de não ter nenhuma mensagem de , mas eles haviam voltado tarde da Montana e ela sabia que o jogador tinha acordado cedo para o treino, portanto, não deveria ter tido tempo.
Na cozinha, Larry e Simone auxiliaram no preparo dos lanches que ela levaria para o piquenique, enquanto conversavam sobre a noite anterior. Em pouco tempo, tudo pronto: sanduíches de patê de frango com legumes e um bolo de chocolate com muita cobertura.

— Qual linha do metrô vocês acham que vai estar mais vazia? — indagou aos dois, pensativa. — Preciso levar uma forma de bolo e uma travessa de sanduíches e vagões lotados não me ajudarão em nada.
— Por que você não vai de carro? — Larry revirou os olhos ao dizer.
— Você sabe que eu não gosto de dirigir. E hoje é domingo, não vou usar seu carro logo hoje.
— Vai ser muito mais fácil se você for de carro, — Simone comentou. — Uma hora vai precisar se acostumar a dirigir por aqui, ou você não pretende comprar um carro nunca? E o Larry com certeza não vai usar o carro hoje. A Kate nunca quer sair de casa, mesmo.
— Simone! — repreendeu a amiga, olhando rapidamente para Larry, que apenas deu de ombros.
— Ela tem razão. Vá de carro, . Bem mais fácil. As chaves estão no balcão.

notou que, mais uma vez, Larry e Simone trocaram um longo olhar, cheio de significados. Deu de ombros e resolveu conferir tudo pela última vez. Para sua total alegria, fazia calor naquele domingo, então ela estava vestindo uma saia jeans clara, uma bata colorida e um par de tênis brancos. Deixou que o cabelo secasse naturalmente e passou uma maquiagem leve no rosto.
Combinava com a forma que ela estava se sentindo naquele dia. Leve.

⚜︎


Jardim de Luxemburgo, Paris.

achou que fosse desmaiar. O trânsito estava calmo e o trajeto até os jardins havia sido muito tranquilo, mas a vida havia reservado o pior para o final.
Jorgelina, Wanda, Isabel e Carol estavam sentadas, com as crianças, em uma grande toalha, muito perto de onde seus carros estavam estacionados. E a vaga que sobrava era muito pequena. Muito. Qualquer deslize seria visto de perto por elas.
Ela tinha duas opções:
fazer a volta, estacionar o carro do outro lado dos jardins e passar, no mínimo, por louca
ou
arriscar (sua vida, o carro de Larry e os dois carros caríssimos ao lado da vaga restante) e torcer para que depois daquilo ainda fosse convidada para aquele círculo de amizades.
respirou fundo, rindo por puro nervosismo, e decidiu encarar a situação. Conferiu se alguém estava a observando e, constatando que estavam todas concentradas nas crianças, manobrou cuidadosamente o carro e entrou na vaga com perfeição. Bateu as mãos no volante para comemorar e acabou tocando a buzina, sem querer.

— Nós sabíamos que você ia conseguir! — Carol gritou. — Só não queríamos te deixar nervosa.

A jornalista sentiu a face esquentar ao descer do veículo. Precisava parar de falar para todas as pessoas que tinha medo de dirigir.
Todas se levantaram para cumprimentar com um beijo, que depois saiu caçando cada uma das crianças para um mini abraço.

— Os rapazes já devem estar vindo — Jorgelina comentou, sentando-se de volta na toalha. — Todos estavam um pouco cansados e acho que o Tuchel não ficou muito feliz.
— Ele sempre estende o treino depois de uma festa — Carol explicou.
— E que festa! — Wanda sorriu. Ela estava radiante, notou. — Uma pena que vocês tenham ido embora tão cedo, !

Conversaram sobre a festa, sobre as crianças e sobre os lanches que cada uma havia trazido, até que a chegada de cinco carros as avisou que o restante dos convidados estava ali.
No almoço na casa dos Di Maria, quis fugir de nervosismo quando os jogadores chegaram. Ali, nos Jardins, a situação era outra. Ela não estava nervosa. Estava totalmente ansiosa para ver .
Por isso, estranhou ao não ver o carro do jogador.

⚜︎


respirou fundo antes de descer do carro de Ángel. Decidiu pegar carona com o amigo pois estava nervoso demais para dirigir. Na verdade, os amigos decidiram por ele.
No caminho, teve a oportunidade de conversar com Di Maria sobre o que tinha acontecido e estava mais calmo, tentando encontrar a melhor solução para aquilo tudo. Horas antes, estava tentando convencer a si mesmo que parar de se encontrar com seria a melhor opção para proteger seus sentimentos – mesmo que soubesse que não era verdade. Era um covarde. Quando Kruges insinuou que ele não deveria ser visto com , quando ele envolveu a garota naquele jogo sujo que tentavam fazer por trás do futebol, quis protegê-la e se perguntou, mais uma vez, se o afastamento seria a melhor opção.
Havia até cogitado a possibilidade de furar o piquenique e evitar qualquer encontro com a jornalista, mas aquilo não seria justo com ninguém. Ele só precisaria conversar com ela, esclarecer a situação e explicar que as coisas estavam indo longe demais. Só. Ele só precisaria dar um jeito de acreditar em suas próprias palavras antes de falar com a garota.
Mas quando a viu parada, com um sorriso contido nos lábios e o olhar ansioso fixo em sua direção... Ele soube que não conseguiria.

— Oi, — ele disse em voz baixa, antes de se sentar ao lado da garota. Sem que pudesse se conter, já estava inclinado na direção de , dando-lhe o carinhoso beijo na testa que já era comum entre eles. A atração era muito mais forte do que ele poderia admitir.
— Oi, — ela respondeu tranquilamente, abrindo o sorriso. — Está tudo bem? Você parece tenso.
— Estou... Estou com alguns problemas. — ele suspirou.
— Você quer conversar? Sou uma boa ouvinte, minha profissão confirma — ela riu baixo, mas pôde notar a preocupação tomando conta de seu olhar.
— Depois conversamos, . — ele respondeu simplesmente, sem saber se aquele já seria um bom momento para o que estava tentando fazer.

Desconfortável, sentiu alguns olhares sob si e percebeu que não estavam falando tão baixo quanto achou que estivessem, e, pela primeira vez desde a chegada dos atletas, notou que Marquinhos, Di Maria e Herrera tinham expressões quase tão preocupadas quanto a de .
Durante horas, a garota tentou deixar a sensação de que algo estava errado de lado. Tentou brincar com as crianças, tentou participar das brincadeiras de Kylian e Neymar, e conversar sobre tudo com as amigas, mas o clima estava pesado demais para que ela não sentisse. E o pior, ela sabia que tinha algo a ver com . Era a mesma sensação da noite anterior, quando viu Talia na festa. E então percebeu que estava agindo de maneira estranha desde aquele exato momento.
Será que ele ainda nutria sentimentos pela ex?
Será que ao ver as duas no mesmo ambiente, percebeu que queria Talia, e não ?
Será que estava decidido a voltar com ela?
Será que todos ali sabiam, menos ela?

? — chamou, estalando os dedos em frente ao rosto da garota. — Está aí?
— Sim. — ela sorriu. — Desculpe. Estava distraída.
— Vamos dar uma volta?

Ela assentiu e lentamente se levantou do chão. Quando Pia pulou atrás deles, querendo dar uma volta com a tia , Jorgelina segurou a mão da filha, dizendo que poderiam brincar em outro momento. Então teve certeza de duas coisas:
um: ela estava prestes a levar um fora, em algo que nem tinha começado oficialmente;
dois: todos ali sabiam.
contornou todos os carros estacionados e se dirigiu para a parte norte dos jardins, em direção à um banco vazio. o seguiu de perto, em silêncio.

, eu preciso te falar uma coisa. — ele suspirou, apoiando as costas no banco. — Na verdade, não quero te falar uma coisa, quero conversar com você.
— Estou ouvindo.
— Eu não sei se você sabe... A essa altura, é claro que deve saber. Talia Bianchi é minha ex-namorada. — ele bagunçou o cabelo distraidamente, e não pôde deixar de observar o quanto ele era lindo, mesmo naquele momento. — Nós não nos víamos há muito tempo, e estava tudo bem assim. Mas agora ela apareceu. Participamos de um jantar durante a semana e ela estava ontem na Montana. Nosso relacionamento não deu certo e...
— Está tudo bem. — o interrompeu, sem se conter. Ela sabia o que estava por vir, e talvez não precisar ouvi-lo dispensando-a tornasse as coisas mais fáceis. Logo quando ela havia decidido deixar que as coisas fluíssem entre eles... — Eu entendo. Não precisa terminar.
— Entende o quê? — indagou, olhando-a nos olhos pela primeira vez desde que chegaram ao banco.
— O relacionamento não deu certo, vocês se afastaram, ela voltou e querem tentar mais uma vez. Tudo certo.
— Eu não quero tentar nada com Talia, .
— Não?
— Eu mal suporto vê-la em minha frente. Reatar com Talia não é algo que passe em meus pensamentos, nem por um segundo sequer.
— Oh. Certo. Entendi. Desculpe. Pode continuar. Se quiser.
— A jornalista vai me deixar concluir? — pela primeira vez, deixou um sorriso tomar conta de seus lábios. Não quis pensar que estaria desistindo tão fácil, afinal, ele é quem estava abrindo mão daquilo.
— Desculpe. — ela sorriu. — Sem mais perguntas. Pode continuar. Prometo. Não sou mais jornalista, sou só a .

Só a , a mente de ecoou a ironia daquela frase.

— Meu relacionamento com Talia não deu certo e isso me fez muito, muito mal. — ele disse de uma vez, passando os dedos pela testa. — Demorei um bom tempo para superar e não achei que fosse me envolver com ninguém novamente. Até que... Até que te conheci. E imediatamente me envolvi.

Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, torcendo para que ela falasse algo, mas sabia que ela não falaria.

— Desde que te conheci tem sido muito fácil esquecer toda a mágoa e decepção de outros relacionamentos. É fácil esquecer o medo. — arriscou um breve olhar em sua direção e notou que os olhos de não brilhavam daquele jeito que o encantava. — Mas ontem... Ver Talia, estar no mesmo ambiente que Talia... Isso me trouxe muitas lembranças. Ruins. Coisas que passei, coisas que senti... Coisas que não quero mais em minha vida. Nunca mais. E isso trouxe o medo de volta.

suspirou e desviou o olhar. fez o mesmo. Por alguns instantes, ambos ficaram em silêncio, encarando o sol que se punha. Quando voltou a falar, a voz de estava baixa como nunca tinha ouvido antes.

— Eu acho que não estou pronto, . Oficialmente não tem nada rolando, eu sei disso, mas nós dois sabemos o que está acontecendo aqui.

E aconteceu. se esforçou para que não acontecesse, mas lá estava a mágoa nos olhos de .

— Você... — parou um instante para respirar fundo. — Não quer mais que isso aconteça?
— É claro que quero! Mas... — passou as duas mãos pelo cabelo, frustrado. Sabia que não conseguiria fazer aquilo. — Estou me apaixonando por você, . E eu não sei o que pode acontecer diante disso. Só não quero me magoar novamente.
, eu entendo, mas acho que você está se precipitando.
— Nós dois já nos precipitamos, . Vai ser difícil, mas acho que talvez devamos ser só amigos.
— Você tem certeza?

sentia seu coração bater rápido demais; não acreditava que aquilo estava acontecendo.

— Não posso mentir para você, . Eu não tenho certeza de nada. Não é isso que eu quero, de verdade, e acho que você sabe disso. Tenho certeza que sabe. — piscou rapidamente, sem acreditar que seus olhos estavam ardendo tanto. Estendeu a mão para afastar uma mecha de cabelo que voava sobre o rosto de , colocando-a atrás da orelha. E então, sem saber que efeito aquilo causaria, deu um beijo na testa da garota, fechando rapidamente os olhos. — Mas eu não sei o que fazer.

permaneceu em silêncio por alguns instantes, sentindo seu coração bater em uma rapidez incômoda. Imediatamente se arrependeu de tudo o que havia dito. Seus medos ainda estavam presentes, é claro, mas ele deveria ter encontrado outra forma de lidar com eles. Mal podia acreditar que perderia daquela forma.

... Escute. Olhe para mim. — pediu. não teve coragem de se virar. Estava envergonhado. Pensou tanto em fazer as coisas com calma e acabou agindo daquela maneira idiota e impulsiva. — Você só está se esquecendo de uma coisa. — finalmente, o jogador se virou para a garota, encarando-a nos olhos. sentiu seu coração bater de forma pesada quando percebeu que aquela conexão única ainda estava ali. — Sinto muito que você tenha passado pelo que passou, de verdade. Sinto muito que você tenha sido magoado, sinto muito que sinta medo, mas... , eu sou a . Eu não sou a Talia. Não me importa o que ela fez, não me importa o que aconteceu no relacionamento de vocês... Somos pessoas diferentes. Eu jamais iria querer te magoar, assim como jamais iria querer magoar outra pessoa, pelo menos intencionalmente. — suspirou enquanto o jogador apenas a observava. — Se estiver certo dessa decisão, tudo bem. Vá. Eu vou respeitar. Mas se não estiver... Por favor, vamos conversar. Você disse que queria conversar, mas só você falou. Pense bem. Eu não brinco com os sentimentos de ninguém, sejam eles quais forem, e não vou aceitar que ninguém faça isso comigo, nem mesmo você, .

E então a lágrima que estivera segurando caiu. imediatamente estendeu a mão para secá-la, aninhando o rosto da garota em suas mãos.

— Eu sei que você não é a Talia. — ele começou. — Eu sei que são pessoas diferentes. Sei que você é única. Mas eu sou a mesma pessoa, , e acho que esse é o problema.
— Você não é a mesma pessoa e não tem os mesmos sentimentos daquela época. Você mudou, , os sentimentos mudaram e amadureceram. Eu acredito que esse medo seja normal, é um mecanismo de defesa que todos temos, em alguns casos, piores que outros. — ela sorriu levemente e precisou segurar a vontade de abraçá-la e pedir desculpas por tudo aquilo. — Mas você só vai aprender a lidar com esse medo se enfrentá-lo.

Ela desviou o olhar, suspirando antes de continuar.

— No Brasil, tive vários namoradinhos. — ela sorriu. — Mas sempre foquei totalmente no profissional, em tudo o que eu queria conquistar. Isso foi o que sempre importou para mim. Houve apenas um relacionamento que levei mais a sério, mas como você pode ver... — ela balançou os ombros. — Eu estou aqui e ele está lá. Eu também tenho medo de me envolver. Tenho medo de me machucar, tenho medo de escolher uma pessoa e acabar me decepcionando com ela. Você tem medo pelas experiências que já passou. Eu tenho medo do desconhecido. Quando cheguei na França, quando desembarquei no aeroporto, prometi a mim mesma que me permitiria viver, aproveitaria as outras oportunidades que a vida me oferecesse, indo além do trabalho. Agora, imagine como foi chegar em Paris, conhecer e perceber que estava... Que estava me apaixonando por um jogador famoso? — a voz de quase sumiu na última frase, e ela nem sequer precisou olhar para para saber que ele estava sorrindo. — No almoço, na casa dos Di Maria... Eu quis sumir. A brincadeira da Wanda me fez perceber o quanto estava envolvida naquilo, o quanto eu estava envolvida com você, e eu fiquei extremamente nervosa. Tive uma crise, senti medo de estar me apressando, tive medo de estar fazendo a coisa errada... E você me acalmou. Me disse que se sentia da mesma forma, que também se sentia atraído por mim, que também queria me conhecer melhor. E principalmente, me disse que tínhamos tempo, que poderíamos fazer tudo com calma, sem apressar nada. Você me fez perceber que, apesar de todos os meus medos, apesar de ter que aprender a lidar com coisas que não posso controlar, as coisas podem valer à pena. Eu não sei como tudo isso vai acontecer. Foi você quem disse, nada oficial está rolando, mas eu sei como me sinto, e você também sabe. Mesmo que mais pra frente isso não dê em nada, naquele momento, quando você segurou minha mão e disse que poderíamos ir com calma, eu soube que a tentativa valeria a pena.

parou de falar apenas para tomar fôlego. Ela se virou no banco, ficando de frente para . Mal podia acreditar que estava tentando acalmar e conquistar , assim como ele havia feito com ela. Com um sorriso leve se formando em seus lábios, continuou, em voz baixa.

— Você tem medos, eu também tenho. E se nós quisermos pelo menos tentar, teremos que enfrentar a todos esses monstrinhos. — delicadamente, estendeu a mão até que tocasse a de . Ela cobriu a mão do jogador com a sua e a apertou levemente. — Mas eu preciso que você perceba que isso vale a pena.

E então ela prendeu a respiração, temendo a reação de . Não queria a rejeição.
Depois de alguns instantes em total silêncio, o jogador suspirou e virou o braço, fazendo com que ele segurasse a mão de na sua. Encarou a garota nos olhos enquanto entrelaçava seus dedos.

— Obrigado por me fazer perceber o quanto estava sendo idiota. — ele disse, ainda num tom de voz muito baixo. — É claro que eu sei que isso vale a pena. Sei que você vale a pena, . — sorriu quando sorriu. — Porra, não acredito que distorci tudo e criei essa situação toda. Me sinto com quinze anos. Não acredito que quase acabei com tudo por ser um covarde.
— Não acho que você quase acabou com tudo por ser covarde. — pontuou. Ela entendia o lado de , mas algo estava a incomodando e ela não poderia deixar aquilo passar. — Você precisou de coragem para tomar essa decisão, mas, na verdade, , acho que sua forma de agir acabou sendo covarde. — ela esperou por uma reação e, quando arqueou as sobrancelhas daquele jeito interessado, ela continuou. — Você tomou uma decisão, ou pelo menos tentou tomar, sobre algo que envolve a nós dois, e queria apenas me comunicar disso, sem nem me deixar participar? Essa sim foi uma atitude covarde. Tentar se proteger, não. Mas a forma como você fez isso, sim.
— Eu achei que seria mais fácil dessa forma.
— Talvez fosse para você, mas não seria para mim. Quando uma coisa envolve duas pessoas, ela precisa ser conversada entre as duas pessoas. — comentou e assentiu, ainda a encarando. — Ainda essa semana, nós comentamos sobre como nos entendemos bem... Sobre como conseguimos conversar e esclarecer as coisas, mas dessa vez, você fez exatamente o contrário.
— Certo. Fui um babaca egoísta e acabei de perceber isso. Eu realmente achei que estaria tornando as coisas mais fáceis, mas não pensei em como você se sentiria. Não deveria ter feito isso. Me desculpa por isso, ? Me desculpa por ter criado isso tudo na minha cabeça, por ter jogado isso em cima de você e por ter agido como agi...
— Da próxima vez que algo te incomodar, jogador, converse comigo. — concluiu, séria. — Onde está sua noção de trabalho em equipe?
— Falando nisso... — riu, bagunçando o cabelo com a mão livre. Não ousaria soltar a mão de tão rápido. — Tenho um problema para a equipe . Um outro fator contribuiu para eu pensar tudo isso e, apesar de fazer questão de resolver isso sozinho, quero deixar você ciente. Talvez meu agente tenha me ameaçado por aparecer em público com uma mulher que não foi escolhida a dedo por ele e talvez eu tenha acabado de entender, através da senhorita , que posso ter o controle sobre minha própria vida e talvez eu não esteja me importando com nada além de mostrar que sou eu quem manda e que posso sim equilibrar o bom futebol e uma brasileira linda em minha vida, mesmo que isso precise render mais algumas aparições em público. — ele disparou, emendando uma frase na outra a cada vez que parecia prestes a interrompê-lo. — O que você me diz?
— Você vai ter que me explicar essa história direito.
— O que você me diz? — repetiu, provocando-a. — Vai continuar querendo ser vista em público com , o futuro melhor jogador do Paris Saint-Germain?
— Conheço bons jornalistas que adorariam cobrir essa matéria — ela respondeu emburrada, cruzando os braços.

gargalhou, sem acreditar que quase tinha estragado tudo com aquela garota incrível. Ele também se virou no banco, ficando totalmente de frente para , e segurou as duas mãos dela.

, preciso te agradecer e te pedir desculpas. Agi como um idiota, tomei uma decisão egoísta e apressada e te magoei. Me desculpe por isso. Mas eu entendi. Entendi que só posso superar meus medos se enfrentá-los, entendi que você é diferente das outras pessoas com as quais me envolvi e entendi que o diálogo é a melhor solução. Obrigada por ter me mostrado isso com tanta paciência, mesmo que eu merecesse apenas um soco na cara. Você me dá outra chance, ?
— Se pisar na bola comigo de novo eu vou realmente te dar esse soco, .

sorriu antes de estender os braços e agarrar o pescoço do jogador da forma que ela adorava fazer.

⚜︎


— Ah, finalmente vocês voltaram! — Neymar exclamou assim que avistou e por trás do grande arbusto. — Será que agora alguém pode explicar o que está acontecendo?

Ninguém repreendeu Neymar. Todos apenas encararam e em silêncio, com expectativa e curiosidade no olhar. percebeu que não, ela não havia sido a última a saber.

— Vou resumir. Eu surtei, distorci algumas coisas, aumentei um problema que na verdade nem é um problema e fui um babaca. — disse ao se sentar, estendendo a mão para que se acomodasse na toalha também. — A nossa querida jornalista me mostrou o quanto eu estava sendo idiota e me desculpou. Tenho a sensação de que vou precisar me esforçar para voltar aonde estávamos, mas agora está tudo bem.
? — Herrera indagou, totalmente sério. — O que você tem a dizer?

A jornalista gargalhou, sem acreditar, enquanto Isabel dava um tapa no marido. já havia comentado que aquele era um grupo muito unido e curioso, que eles faziam questão de saber de cada detalhe daquele assunto em conversas que havia chamado de “assembleia”, mas ver aquilo acontecendo na prática era diferente.

— Confirmo essa versão da história — sorriu. — Houve um desentendimento, nós conversamos, nos acertamos e está tudo bem.
— Isso tem a ver com o Kruges ter aparecido no treino hoje? — Kylian questionou.

Antes de responder, lançou um rápido olhar a , que assentiu.

— Em partes, sim. — o jogador respondeu. — Kruges apareceu reclamando do meu desempenho e me questionando sobre ser visto com as pessoas certas. Ele queria que eu aparecesse com a Talia em público e sugeriu que talvez minha queda de rendimento tenha a ver com o que ele chamou de... “novo affair”.

encontrou uma formiga muito interessante para admirar na grama; precisou desviar o olhar quando todos a encararam, apreensivos.

— O que você fez? — Jorgelina indagou, estendendo a mão para tocar o braço do amigo.
— Disse que ele não tem nada a ver com isso. — ele deu de ombros. — Que não é um affair, que posso cuidar do meu próprio rendimento e escolher com quem vou aparecer em público. — , que estivera observando , se virou para os amigos antes de continuar. — Vocês sabem que já deixei um agente tomar todas as minhas decisões e controlar outras áreas da minha vida. Não vou deixar isso acontecer de novo. Vou me concentrar totalmente no jogo de quarta e vou com foco total para o campo, para que ninguém possa dar palpite sobre o que faço fora dele.
— Vamos te obrigar a manter a cabeça em ordem, nem que seja na porrada — Neymar comentou. — A precisa comemorar alguns gols seus, né, fala sério...

Todos gargalharam quando tentou acertar um tapa no amigo. estava mais tranquila com toda aquela exposição do que achou que estaria. Estava na cara que todos se importavam muito com e queriam apenas ajudá-lo.

— Deve ser difícil para você, querida — Isabel disse de repente, encarando-a. — Você se juntou a nós há tão pouco tempo e já está precisando lidar com situações desconfortáveis... Conte comigo para o que precisar, sí?
— Comigo também, . — Carol concordou. — As pessoas são intrometidas, você vai ver, mas com o tempo aprende a ignorá-las.
— Você vai ver que tudo parece um exagero — Jorgelina suspirou. — Parece que por aqui, entre nós — ela fez um círculo com a mão, envolvendo todos — tudo é mais intenso, tudo parece maior do que realmente é. Mas quando você aprende a dosar o que realmente importa, fica fácil.
— Só se preocupe com você, chéri. Não dê ouvidos para o que falarem por aí. Vamos blindar você se for preciso — Wanda concluiu, rindo.
— Obrigada, meninas.
— Espera aí — Neymar interrompeu a fala de . — Você tem todo o meu apoio, , é claro. Seja bem vinda ao grupo e tudo mais, mas porque estamos falando tudo isso? Já é oficial? Não acredito que eles finalmente se beijaram e ninguém me contou!

nunca sequer imaginou que aquilo poderia acontecer, mas tudo o que fez foi gargalhar enquanto engatinhava na toalha para tentar estapear Neymar. a segurou pela cintura enquanto o atacante brasileiro a provocava, também rindo. Quando Carol tomou as dores e bateu em Neymar por , Kylian deu um pulo para proteger o amigo e foi interceptado por Wanda. Em um instante, a brincadeira estava generalizada e todos tentavam atacar ou proteger. ainda tinha Neymar como alvo e quando estava prestes a acertá-lo pelas costas, a segurou novamente pela cintura, se desequilibrando e fazendo com que os dois caíssem no chão.
Ao rolar pela grama com , tentando se soltar do aperto do jogador enquanto encarava seu rosto contra o céu cada vez mais estrelado, só pôde agradecer por ter se aberto a novas possibilidades.


Capítulo 10

Ville de Puteaux, Bâtiment Amellie; Puteaux.
Às cinco da manhã, estava em pé. Na noite anterior, ouviu todos os conselhos de Jorgelina e tomou um chá, algo calmante, antes de dormir. Para seu total alívio, o chá surtiu efeito e pôde dormir a noite inteira. Depois de um banho rápido e do café da manhã de todos os dias, desceu até a garagem, pegou o carro e dirigiu até o Camp des Loges, sozinho. Os companheiros ainda teriam um bom tempo de sono.
Conversar com e os amigos no dia anterior serviu para que acalmasse um pouco a mente. Foi capaz de listar tudo o que estava o incomodando e poderia, dali pra frente, lidar com os problemas.
Seu desempenho em campo. era um ótimo jogador, com qualidade muito acima da média, e sabia bem disso. Qualquer um sabia. Ele só precisava de um pouco mais de foco e um banho de autoestima. Aquilo dependia só dele e ele estava totalmente disposto a ser o seu melhor.
Sua vida pessoal. Tinha medo e inseguranças, mais do que gostaria ou acharia normal, mas estava disposto a enfrentá-las. Também tinha o pequeno problema de deixar que outras pessoas decidissem as coisas por ele, afinal, já era grandinho o suficiente para saber o que queria para si. Não teria pressa em nada, apenas se permitiria viver um dia de cada vez, tomando, aos poucos, o controle de suas próprias decisões.
E por último, e certamente o mais importante... Seu temperamento. Ele sabia que aquilo estava diretamente ligado ao seu desempenho profissional e relações sociais. Como Marquinhos havia dito, da maneira mais sútil que conseguiu, estava um pouquinho estressado. Segundo Neymar, o termo certo era insuportável, chato pra caralho. Portanto, naquela manhã conversaria com Tuchel para que na quinta feira, ao voltarem de viagem, ele iniciasse algum tratamento com a psicóloga do time.
suspirou, descendo do carro ao chegar no centro de treinamento. Agora que já tinha as soluções para seus problemas bem encaminhadas, era fácil deixá-los momentaneamente de lado e focar no que era prioridade. No dia seguinte, viajariam até Pau, para disputar o jogo de volta das oitavas de final da Copa da França, com o Pau Football Club. O jogo de ida havia empatado em 0x0, e, apesar de ser um time com qualidade inferior ao Paris Saint-Germain, eles decidiriam em casa, e aquele era sempre um fator importante.
Uma eliminação não cairia bem para ninguém, então estava encarando aquele como o jogo da vida. Precisava daquilo, e a equipe também.

— Pontual. Gosto disso. — Tuchel disse de repente, entrando no vestiário. O treinador carregava um sorriso leve no rosto, e soube que estava desculpado pelo treino do dia anterior. Caminharam juntos em direção ao campo. — Eu não queria ter de fazer isso, , mas é necessário. Será bom para você. Treinaremos seu foco e disciplina. Começando por 45 voltas, com tempo e obstáculo. Foque apenas no que está fazendo, não quero você pensando em nada além do gramado, nem mesmo no jogo. Mantenha toda a sua concentração aqui.

assentiu. Em seguida se posicionou e aguardou o apito para dar início a primeira volta, pensando apenas em seu corpo, identificando todo o funcionamento muscular enquanto superava cada um dos obstáculos em campo. Lá pela sexta volta, nem precisava mais ouvir os comandos de Tuchel. Já estava perfeitamente programado.

⚜︎


Journal Le Monde, Paris.

— Com licença, Angelle, você me chamou? — questionou ao bater na porta de vidro, cautelosa. Ouviu pelo corredor que sua chefe estava extremamente irritada naquela tarde.
Oui, chamei. Entre, . Sente-se. Como você bem sabe, voltará a Lille amanhã pela manhã. Nessa semana ocorrerão as oficinas de Arte no Festival e você precisa se inscrever em alguma delas. Pintar um quadro, moldar um vaso, encenar, compor uma música... O que quiser. Lembre-se que dessa vez sua matéria será publicada apenas no domingo e ela precisa ser escrita através dessa experiência. Alguma dúvida?
— Qual o horário do voo? — tinha mil dúvidas, queria pedir conselhos e opiniões, mas mal teve coragem de abrir a boca.
— Onze horas. Eu já a havia informado. Em Lille, um carro estará esperando para levá-la ao hotel; mesmo hotel, mesmo quarto. Você retornará no domingo à tarde, tendo em vista que pela manhã participará de uma confraternização de encerramento. Ainda não sei o horário do retorno. Alguma dúvida?
— Não, nenhuma dúvida.
— Certo. Pode ir para seu apartamento arrumar o que for necessário para a viagem, está dispensada por hoje.
— Certo. — foi tudo o que pôde responder antes de se levantar e voltar à sua sala. Não que Angelle fosse a personificação da simpatia, coisa que de fato ela não era, mas nunca havia visto sua chefe daquela forma. Se perguntou o que poderia ser a causa daquele humor e torceu para que não estivesse envolvida. A jornalista reuniu todo o equipamento que levaria para a viagem, avisou aos amigos que estava indo embora e caminhou distraidamente até o metrô.

Chegando ao apartamento, encontrou Kate deitada no tapete da sala, com as mãos no peito, encarando o teto. Ela nem sequer respondeu quando a cumprimentou. Toda a estadia de Kate ali era estranha. Em mais de duas semanas, havia trocado pouquíssimas palavras com a namorada do amigo, e sabia que Simone estava na mesma situação. Kate não parecia ter uma boa relação nem com o próprio namorado. deu de ombros, indo em direção a seu quarto. Tinha muito o que resolver naquela tarde. Assim que abriu o guarda-roupa e pegou a mala que havia sido usada na semana anterior, seu celular vibrou.

Hey, gorgeous disse assim que ela atendeu. não pôde deixar de rir ao notar que o sotaque do jogador era ainda mais carregado no inglês do que em francês.
— Não sabia que você também fala inglês.
Sou uma caixinha de surpresas, cariño. — ele riu alto e pôde imaginá-lo passando as mãos pelo cabelo. — Acho que sei uma cantada diferente em cada idioma.
— Também não sabia que você é um galanteador, . — sentiu o sorriso abrir enquanto se apoiava na grande cômoda em seu quarto. Efeito . Sempre.
Como eu disse, sou uma caixinha de surpresas. O que você está fazendo, ?
— Tentando encontrar o ânimo para arrumar as malas. Não sei porque as desfiz.
Também preciso arrumar algumas coisas. — suspirou e soube que o jogador estava ansioso. — Vou às oito, e você?
— Onze. Você acha que a gente se consegue se ver antes disso? — indagou, mordendo levemente os lábios. Adorava aquela sensação, aquela ansiedade feliz que cada conversa causava.
Jantar nos Di Maria hoje. Eu, você, Angel e Jor. O que você me diz?
— Que horas você me busca?
Esteja pronta às sete.
— Mal posso esperar.

quase pôde ouvir o sorriso de do outro lado da linha. Argh. Se estivesse perto de qualquer outra pessoa, ela certamente tentaria esconder a expressão sonhadora que sabia estar estampando seu rosto, mas, sozinha em seu quarto, a jornalista se permitiu sorrir até sentir que estava forçando seus músculos faciais. Cada sorriso, cada batimento acelerado, cada vez que sentia vontade de fechar os olhos, levar a mão ao peito e suspirar de alegria... era capaz de perceber cada uma daquelas sensações aumentando gradualmente, e não tinha a mínima vontade de conter seus sentimentos.
O restante do dia passou voando. evitou o olhar sempre mal humorado de Kate, arrumou tudo o que precisava na mala, conferiu a bolsa com sua câmera, laptop e todos os equipamentos necessários, checou os documentos e mal teve tempo de se preparar para o jantar. Estava calçando os tênis e vestindo um casaco preto, leve e comprido quando ouviu Simone gritar algo sobre o príncipe encantado. Antes de enfiar a cabeça para fora do quarto e perguntar o que estava acontecendo, viu o visor do celular acender com uma ligação e percebeu que sim, o príncipe encantado era exatamente quem ela estivera pensando.

⚜︎


— Oi. — disse simplesmente quando abriu a porta do carro. Precisou se controlar pois a cada vez que sentia aquele perfume, tinha mais vontade de tomá-la em seus braços. O momento certo nunca parecia chegar e ansiava muito por ele.
— Tá frio pra caralho e eu não sabia disso — resmungou enquanto se sentava no banco do carona, apertando o casaco ao redor de seu corpo. O jogador achou graça, mas foi pego totalmente de surpresa quando ela simplesmente se estendeu em sua direção e lhe deu um beijo na bochecha. Estava acostumado aos cumprimentos frios da Europa, mas era diferente. Tudo nela era diferente e, mesmo assim, lhe causava familiaridade. Ela o lembrava muito de um jovem e sonhador, uma essência que ele jamais queria perder.
— Eu te ofereceria meu casaco, mas você está tão linda assim, com as bochechas vermelhas, que prefiro te deixar passando frio.
— Otário.
— Também adoro você.

Os dois se distraíram conversando amenidades enquanto dirigia pelas ruas de Paris. Achou que teria problemas para lidar com o humor naquela semana, mas não se sentia nervoso, irritado ou prestes a explodir, como vinha se sentindo. Estava equilibrado. Preocupado na medida do que era saudável, concentrado, focado. E feliz, ouvindo tagarelar sobre uma professora da faculdade que odiava Paris.

— O que você acha de me levar ao aeroporto amanhã? — o jogador perguntou de repente. O protocolo não exigia que a equipe fosse junta para o aeroporto, e ele queria aproveitar o máximo de tempo com , já que só a veria na segunda-feira seguinte.
— Como assim?
— Não gosto de pegar carona com ninguém para ir ao aeroporto, sempre rolam alguns momentos em família e eu me sinto um intruso. Nós dois precisamos ir ao aeroporto, e eu calculo que Larry e Simone estarão trabalhando, certo? — ele encarou pelo canto dos olhos, sem desviar a atenção do trânsito. Ela assentiu, mas parecia preocupada. — Você não tem carona, e eu também não. Eu busco você, vamos ao aeroporto, você fica com meu carro, volta ao seu apartamento e, por fim, volta ao aeroporto com meu carro...
— Você está louco?! — perguntou de uma vez, praticamente dando um pulo no banco ao interromper o jogador. Se não estivesse prestando atenção nela, teria tomado um susto.
— O que foi?
— Eu não vou ficar com seu carro. De jeito nenhum. Sem chance. Nananinanão.
— Qual o problema?
, você é louco? Eu não sei dirigir! Ainda mais o seu carro!
— Não sabe? Achei que você tivesse habilitação. E qual o problema com meu carro?
— Ter habilitação e saber dirigir são coisas diferentes, . — ela riu, nervosa. — E você é rico. Tem um carro de gente rica. Esse é o único problema. Eu poderia vender a minha família no Brasil e ainda assim não pagaria todos os estragos que causaria num carro desses.
— Você tem medo de dirigir, ?
— Não tenho medo. Apenas não tenho... Coragem.
— Acho que vamos ter algumas aulas de direção nos próximos meses.
— Ah, mas não vamos mesmo. resmungou e pôde jurar que ela estava contendo a vontade de cruzar os braços.

riu, balançando a cabeça. Ainda não conhecia aquele lado teimoso de e mesmo ele era fascinante.

⚜︎


— Você tem certeza, ? Posso te levar ao aeroporto, sem problema nenhum. — Jorgelina indagou pela quarta vez, quando estavam se despedindo. Tudo o que fez foi forçar um sorriso e fuzilar , que havia passado metade do jantar contando aos amigos que ela havia recusado seu carro para ir ao aeroporto.
— Obrigada, Jor, mas não será necessário. Angelle vai chamar um táxi. Ela provavelmente já está com tudo planejado.
— Você tem certeza, amiga? Não seria nenhum incômodo, e as meninas adoram qualquer oportunidade de ver a tia . Ou pelo menos aceite a proposta de , assim você pode se locomover melhor, cariño.
— Tenho certeza, Jor, obrigada. Não precisa esquentar a cabeça. E assim que voltar de Lille venho visitar essas duas princesas.

pretendia continuar convencendo a amiga de que não precisaria de carona, mas o celular dos dois jogadores tocou, distraindo a todos. Era o técnico Tuchel, solicitando que todo o elenco se reunisse no estádio três horas antes do voo, o que era, basicamente, no meio da madrugada. sorriu internamente ao ver o plano absurdo de ir por água abaixo.

— Parece que você realmente se livrou de mim — comentou ao estacionar o carro em frente ao prédio no final da Rue Leneveux.
— Não me livrei de você, — retrucou ao soltar o cinto de segurança e se inclinar na direção do jogador. — apenas nos livrei de qualquer estrago em seu carro.
— Nós vamos precisar dessas aulas de direção. — suspirou. — Como você pretende continuar indo ao Parc des Princes me ver jogar?
— Golpe baixo — a jornalista resmungou, rindo baixo. Abriu um sorriso leve ao perceber que o jogador a analisava atentamente e jogou seus braços ao redor dele. — Boa viagem. .
— Pra você também, . — a envolveu delicadamente pela cintura, sentindo o perfume de seus cabelos e resistindo fortemente a vontade de puxá-la para seu colo.
— Boa sorte no jogo, espero que dê tudo certo. E quero um gol seu. — pareceu corar no exato instante em que pronunciou aquelas palavras. — Não um gol para mim, nada disso. Só quero... Só quero que você faça um gol.
— Farei um gol para você. disse firmemente enquanto encaixava o rosto de em suas mãos. Faria quantos gols fossem necessários para ver aqueles lindos olhos brilhando daquela forma.

⚜︎


Arembault Appart Hôtel; Lille.


A dor de cabeça pós voo sempre havia sido presente na vida de . Ela planejava repousar alguns minutos antes de precisar estar no Palais, mas o hotel estava irritantemente barulhento naquela tarde. A jornalista colocou uma música baixa para superar o barulho que vinha do corredor e ajeitou um travesseiro sob os olhos. Dois minutos depois, alguém bateu em sua porta.

Pura que pariu. — resmungou antes de se levantar. — Lohan?!
— Oi. — ele respondeu simplesmente, com as mãos no bolso do paletó escuro. notou que seus olhos azuis pareciam olhar em qualquer direção, menos para ela. — Tudo bem?
— Tudo... Tudo bem, sim, e com você?
— Desculpe incomodar. Achei que você estaria pronta para ir ao Palais, não achei que estaria... São três da tarde... — ele apontou timidamente na direção de , que só naquele momento percebeu que usava um robe de seda preta que havia sido presente de Simone.
— Eu... Ah, claro. Acabei me perdendo no horário — a jornalista respondeu, apertando levemente o tecido macio ao redor de seu corpo. — Como você sabia que esse é o meu quarto?
— Estou ali na frente. — Lohan apontou para trás de si, para a porta que ficava perfeitamente na reta da porta de . — Vi quando você chegou.

conteve a vontade de suspirar. Ótimo.

— Eu vou... Vou tomar um banho e me arrumar. Te vejo mais tarde? No Palais.
— Certo. Te vejo mais tarde. — ele suspirou, assentindo levemente. — Você está bonita, .

E antes que a jornalista pudesse responder qualquer coisa, Lohan simplesmente virou as costas e saiu caminhando rapidamente pelo corredor do hotel. fechou a porta, suspirando, e depois de conferir rapidamente seu e-mail, começou a preparar um banho. Ela jamais se perdoaria por admitir aquilo, mas naquela semana, não estava nada interessada no Festival. O final de semana havia sido intenso e mal conseguia se concentrar em qualquer coisa. Qualquer segundo de distração a levava de volta à Paris, ao abraço de na noite anterior. Ela estava prestes a ligar o chuveiro quando uma batida insistente na porta do quarto a interrompeu. Enrolando-se no roupão do hotel – que não era preto e nem de seda, se dirigiu à porta, levemente irritada.

— Susanne! Que surpresa!
— Nem tão surpresa assim, sei que o Lohan já veio aqui incomodar você — a jornalista do Le Parisien riu, balançando a cabeça.
— Ele não me incomoda — murmurou, desviando o olhar. Lohan era um pouco estranho e levemente inconveniente, mas não chegava a ser um incômodo. E, de qualquer forma, ela nunca admitira aquilo a uma amiga dele.
— Ele é um cara legal, mas fica todo estranho quando está perto de você. Ele não sabe demonstrar o interesse em você de uma forma normal.
— Interesse? — sentiu suas sobrancelhas se arquearem em surpresa.
— Ah, sim. Ele não para de falar em você, desde que a viu no restaurante do hotel, na semana passada.
— Ah. — assentiu, processando a informação. Lembrou-se da estranheza do primeiro dia em que viu Lohan, quando ele simplesmente se aproximou como se já se conhecessem. — Susanne, eu preciso me arrumar, mas... Você quer entrar?

Ela rapidamente assentiu, entrando no quarto e conferindo cada item que estava a vista. deu de ombros, desconfiada. Susanne permaneceu sentada na poltrona ao lado da porta de correr enquanto tomava banho. Conversaram sobre Lohan, sobre o interesse dele em e como ele sempre se arrependia de agir de maneira estranha perto dela.

— Mas, e aí, — Susanne perguntou, de repente. — Você acha que rola?

suspirou enquanto enrolava a toalha nos cabelos molhados.

— Eu... Não acho que esteja disponível.
— Como assim você não acha que esteja disponível? — Susanne indagou, aparecendo no banheiro no mesmo instante.
— É... Complicado. Não é nada oficial, mas tem algo rolando. — sorriu levemente, sentindo aquele frio na barriga já conhecido ao se lembrar da conversa que teve com alguns dias antes.
— Ele é casado?
— O que? Claro que não!
— Então... Ele é muito velho? Muito novo? Ele é uma mulher!
— Não, Susanne, não é nada disso — riu, enxotando a colega para fora do banheiro. — É só que... Não aconteceu nada. Ainda.
— Ainda?
— É, Susanne. Ainda não.
— Mas vai acontecer?
— Espero que sim.
— E você vai me contar?
— Possivelmente não.

Susanne encarou por alguns segundos, analisando-a atentamente. permaneceu séria, tentando não deixar transparecer nada. Queria que Susanne se desse por satisfeita. Não queria entrar em detalhes.

— Ele é casado, sim. — ela disse depois de alguns instantes. — Você ficou totalmente na defensiva, então... Ou ele é casado ou ele é muito, muito feio.
— Vamos embora, Susanne. — riu, pegando a bolsa em cima da cama e tentando mudar de assunto. não era casado e definitivamente não era nada feio.

⚜︎


Hôtel Parc Beaumont; Pau.

— Cadê o ? — Marquinhos gritou de algum lugar do corredor.
— Onde você acha que ele está? Dentro do celular — foi Thiago Silva quem respondeu.
— Nós vamos jantar sem você, !
— Vem logo!
— Vocês sabem que ele não vai enquanto não falar com ela — Di Maria, que estava na cama ao lado, gritou, fazendo os colegas rirem no corredor. se limitou a jogar um travesseiro na direção do amigo, pois logo atendeu a chamada.
— Oi, .
! Como você está?
— Ansioso. — ele respondeu em voz baixa, rindo. Sentia o nervosismo para o dia seguinte o atacando com força.
Fique tranquilo. Vai dar tudo certo. Você precisa manter sua cabeça totalmente focada no jogo e, para fazer isso, precisa estar calmo.
— Você tem razão. E Lille, como está?
Tudo na mesma, por aqui. Confesso que hoje o dia foi bem sem graça — ela riu e não pôde deixar de sorrir ao ouvir aquela risada encantadora. — Também estou um pouco ansiosa.
, vamos logo! — Kylian gritou na porta do quarto. Di Maria riu, dando de ombros, e apenas balançou a cabeça.
Está tudo bem? quis saber.
— Tudo ótimo. Eles estão me esperando para jantar, mas eu quis ligar para você primeiro. Não quis que ficasse tarde e amanhã não terei tempo.
Obrigada por ligar. Não os deixe esperando. Você precisa se alimentar e descansar bem. Nos falamos quando você puder. Boa sorte amanhã, .
— Obrigado, . — o jogador suspirou, finalmente se levantando da cama. — Vou me esforçar para que você tenha seu gol.
— Prometendo gols, hein? — Di Maria comentou, indo em direção à porta do quarto. — Deixa o Ney ficar sabendo disso.

⚜︎


Na quarta-feira, abriu os olhos muito antes do despertador tocar. Estava ansioso, empolgado, nervoso, preocupado e confiante. O mais importante, sentia-se focado e motivado. O jogo de ida das oitavas de final da Copa da França, no Parc des Princes, havia terminado empatado em 0x0. Um único gol ali os separava da classificação. Não era tarefa difícil, todos sabiam que o Paris Saint-Germain tinha um elenco superior ao do Pau Football Club, mas no futebol tudo podia acontecer. Principalmente quando se estava decidindo na casa do adversário. nem sequer pegou o celular naquela manhã. Apenas jogou um travesseiro em Di Maria para que o amigo também acordasse e, já ouvindo movimentação no corredor do hotel, decidiu levantar e tomar um banho antes de descer para o café da manhã. Teriam um treino às nove, o último antes do jogo às sete da noite.
Quando encontrou Tuchel no restaurante do hotel, notou que o técnico parecia tranquilo, bem mais calmo do que havia estado nos dias anteriores. se perguntou se tinha algo a ver com aquilo. Ele notou certa diferença no comportamento dos amigos mais próximos, mas sabia que eles se preocupavam com ele. Será que seu temperamento afetava a todos, até mesmo o técnico? Claro que sim. Eram uma equipe. sentiu-se culpado por causar aquele transtorno, mas decidiu que aquele não era o momento para se lamentar. Tudo já estava se resolvendo.

. — Tuchel cumprimentou, estendendo uma xícara de chá na direção do jogador.
— Bom dia.
— Acredito que realmente será um bom dia. — o técnico Tuchel fez aquela careta estranha que os jogadores já identificavam como um sorriso. — Estou confiante. E confiando bastante em você.

Pela primeira vez em muitos dias, não se sentiu pressionado, apenas agradecido.

⚜︎


Arembault Appart Hôtel; Lille.

— Anda logo, Lohan! — gritou, batendo à porta do quatro 107 do hotel — Nós vamos nos atrasar!

Ela e Susanne estavam esperando no corredor há pelo menos quinze minutos. Eles haviam marcado de assistir ao jogo no Candem Bar, juntamente com os jornalistas companheiros da semana anterior.

— Já vou, já vou — Lohan resmungou ao abrir a porta. notou que ele vestia uma jaqueta de couro que combinava muito com ele, além de ter deixado os cabelos loiros desarrumados. Estava muito bonito. — Já chamaram o táxi?
— Sim! — praticamente gritou. Sua voz já estava esganiçada, do jeito que todos achavam engraçado. — Vamos, logo!
— Não sabia que você é tão fã de futebol assim, — Lohan comentou enquanto esperavam o elevador. A jornalista sorriu, encarando seu reflexo no grande espelho do corredor. Estava usando uma calça skinny clara, a camiseta branca do Paris Saint-Germain que ela havia comprado para ir ao estádio e uma jaqueta jeans. Nos pés, o tênis All Star plataforma que ela não tirava por nada.
— Você é amiga dos jogadores — Susanne comentou, de repente. Ela e Lohan tinham o dom de falar num tom acusatório que deixava desconcertada.
— Ah, é verdade. Você comentou no outro dia. — Lohan assentiu, entrando no elevador.
— É... Podemos dizer que sim. Mas de qualquer forma, sempre gostei do time — retrucou rapidamente, buscando encerrar o assunto. Não queria que ninguém reparasse em seu rosto corado.

Lohan esbarrou em ao entrarem no elevador e, diante da risadinha de Susanne, todos permaneceram num silêncio incômodo até alcançarem o térreo.
No táxi, um senhor de meia idade muito simpático que contou a eles tudo o que queriam saber sobre Lille. encarava a noite iluminada e chuvosa através do vidro, distraída.
Foi fácil encontrar os demais jornalistas ao chegarem no Candem Bar: um canto do bar, com várias das mesas altas de vidro, havia sido reservado a eles. riu ao lembrar do canto dos jogadores na Montana. Cameron, Louise e os outros já estavam sentados nas mesas, experimentando algumas bebidas especiais.

— Vocês chegaram! Demoraram tanto — Louise exclamou, assim que avistou os colegas. — Nós já bebemos tanto!
— Não são nem sete da noite — Lohan riu, puxando um banco para que se sentasse ao seu lado.
— Mas a semana está exaustiva — Cameron deu de ombros, pegando mais uma caneca. Todos assentiram, resmungando baixo. se sentiu aliviada ao saber que não era a única sem cabeça para o trabalho naquela semana.

Ela nem sequer lembrava o nome dos outros jornalistas presentes, os silenciosos da outra noite, então apenas os cumprimentou com um sorriso leve e um aceno de cabeça. Mesmo que ela não fosse admitir, não fazia questão de toda aquela interação. Tudo o que queria era arranjar um bom ângulo para assistir ao jogo.

— Vai começar — ela comentou, ansiosa.
— É um jogo decisivo? — algum dos jornalistas perguntou, no instante em que a câmera no estádio mostrava os jogadores enfileirados antes da partida. seria titular. mal pôde conter o sorriso no rosto.
—Sim, é. É o jogo de volta das oitavas da Copa da França. — Lohan respondeu.
— Não sabia que você gosta de futebol — comentou, arqueando a sobrancelha. Lohan riu, provavelmente percebendo que havia imitado seu comentário. A jornalista desviou o olhar da TV por alguns segundos ao ouvir a risada do colega e quando voltou os olhos para a tela, Marquinhos estava dando o primeiro toque na bola. — Seja o que Deus quiser — ela murmurou em português, ansiosa.

Os 60 minutos seguintes correram daquela maneira: tensa, nervosa, ansiosa. mal ouvia a conversa ao redor, muito menos interagia com alguém. Tentava apenas conter a irritação, mas não parecia estar tendo muito sucesso. Todos os colegas ainda conversavam animadamente na mesa, assim como os outros presentes no Camden Bar, totalmente alheios ao tempo de jogo que corria na tela na grande TV. estava tensa. Sabia que não seria fácil, afinal, o Paris Saint-Germain havia perdido o primeiro jogo em casa, e aquilo significava muito, mas também não estava esperando por um jogo tão difícil. A equipe adversária estava totalmente na retranca, o que dificultava completamente o trabalho do meio campo da equipe parisiense. Di Maria estava claramente frustrado, podia notar, e havia começado a errar alguns passes.
O relógio marcava setenta e dois minutos quando o argentino recebeu um passe de Marquinhos, logo após a linha que marcava a metade do campo. O meio-campista dominou a bola, considerando suas opções. Mbappé a sua frente e Neymar à direita, ambos fortemente marcados. Pelo canto do olho, Di Maria avistou à sua esquerda, livre. Ele estava um pouco longe do gol, mas se conseguisse bater num ângulo bom...
se inclinou no banco quando recebeu a bola, nervosa. Ele se virou em direção a Kylian e por alguns segundos a jornalista temeu que ele não tivesse visto o zagueiro que marcava o amigo. Tampouco pareceu perceber que o camisa 4 do time adversário se aproximava por trás dele, pronto para roubar aquela bola. Em menos de um segundo, pareceu ler o jogo todo. Rolou levemente a bola para a frente, apostando numa corrida controlada, deixando o zagueiro adversário para trás e distraindo também os que marcavam os companheiros. alcançou a bola novamente e, dominando-a com total habilidade, concentrou toda a força em sua perna esquerda e chutou em direção ao gol, fechando os olhos. Estava muito longe. Aquele ângulo seria de fácil alcance para o goleiro. Se pelo menos tivesse batido um pouco mais no meio...

GOL! berrou ao pular do banco. — Gol! Meu Deus, gol do ! Do !

Por alguns segundos a jornalista se esqueceu completamente de onde estava e continuou lá, pulando em frente à TV, enquanto todas as pessoas próximas a encaravam. Sentindo a cabeça girar, ela sorriu docemente ao ver abraçando os colegas, claramente emocionado. Todos mereciam aquilo, mas ... Ele precisava.

— Sempre fui muito fã dele — murmurou e deu de ombros enquanto caminhava em direção à mesa. Todos o encaravam de maneira curiosa e ela podia praticamente ler a pergunta nos olhos de Lohan.

Os minutos restantes do jogo transcorreram tranquilamente. O gol parecia ter restaurado a energia de todos, fazendo com que até mesmo Marquinhos tentasse mais um gol. Não aconteceu, mas o Pau também não ofereceu nenhum perigo ao gol do time parisiense. sentiu o alívio crescer em seu peito ao ouvir o apito final. Mal podia conter o sorriso. Apoiou o rosto na mão e ignorou Susanne deliberadamente enquanto prestava atenção nos jogadores que saíam de campo, felizes. Era o segundo gol de que via, sendo que o primeiro havia sido no estádio, literalmente de camarote, mas aquele era diferente... Seu olhar se iluminou quando apareceu em foco na TV, ao lado da repórter. Seu cabelo estava bagunçado de um jeito que achou simplesmente lindo; tinha os olhos vermelhos e inchados e um sorriso que parecia mal caber no rosto.

— Foi um jogo difícil, com poucas chances criadas — disse a repórter. — Na verdade, você converteu a primeira chance real de gol, classificando o time para a próxima fase da competição. Qual a sensação?
— Alívio. Alívio puro. — sorriu, passando as mãos pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais. — Nós precisávamos desse gol, dessa classificação... — ele suspirou. — E é uma honra poder fazer esse gol, ajudar a equipe dessa forma.,.
— Foi um gol muito bonito, além de ser importante e classificatório. — a repórter interviu quando pareceu se perder em palavras. se perguntou se estava paranoica ou se ela realmente parecia se inclinar na direção de enquanto sorria abertamente para ele.
— Confesso que achei que não o faria — riu, balançando a cabeça. — Mas arrisquei. Confiei e deu certo. E eu gostaria de dedicar esse gol a uma pessoa especial. — ele olhou diretamente para a câmera, deixando que o sorriso se abrisse um pouco mais. sentiu como se ele estivesse ali, à frente dela, prestes a tocar os lábios em sua testa como tinha costume de fazer.
— Uma pessoa especial, huh? — a repórter indagou, seu sotaque francês ainda mais acentuado. — Seus pais, talvez? Algum companheiro de time? Uma amiga?
— Ela sabe quem...
— É a nossa brasileira favorita! — Neymar interrompeu , enquanto apareceu pulando alegremente atrás do amigo.

O barulho na mesa pareceu se resumir a um zumbido suave. se obrigou a conter o sorriso – e os batimentos cardíacos – antes sequer de se mexer no banco. Respirou fundo ao se virar para os colegas, se perguntando se eles teriam percebido.

— Coincidência, não? — foi tudo o que ela murmurou ao notar vários pares de olhos e sobrancelhas arqueadas a encarando de forma curiosa.


Continua...



Nota da autora: oie, meninas! quanto tempo!
demoreiiii mas Paris acabou me chamando de volta hahaha
nesse tempo que fiquei sem atualizar a história recebi várias mensagens no insta (uma delas com um “oi, vc é a autora da fic do PSG?” que me fez ficar sorrindo um dia inteiro hahaha) que me deixaram muitooo feliz e super motivada pra voltar!
recebi carinho de uma forma que nunca imaginei, e queria agradecer muito por isso, de verdade. passei/estou passando por uma fase bastante difícil, e a gente acaba tirando forças de lugares muito inusitados, por exemplo, algumas leitoras simpáticas que não desistiram de mim e nem de ATPT, mesmo com toda a demora. isso tudo me fez muito bem.
espero que continuem gostando!
obrigada! merci! gracias!





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