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Última atualização: 09/06/2021

Prólogo

Curioso como as informações correm rápido com o simples mudar de uma estação, não é mesmo, leitor? Não que em outras estações o hábito de comentar sobre as famílias nobres e badaladas nos abandone, mas o vento que bate em nossos rostos com a chegada do início da temporada parece que nos instiga a comentar mais ainda sobre o que está acontecendo ao nosso redor e com quem está acontecendo.

Ah, falando sobre o vento do início da nossa tão esperada temporada, como me agrada esse ar primaveril, e pelo visto não só a mim! Ao que me vem aos ouvidos, teremos tantas presenças ilustres nesse período tão aclamado pela aristocracia que minhas orelhas quase expelem fumaça, tamanha empolgação.

Uma dessas presenças é a do nosso amado príncipe que retorna de seu misterioso curso na França. Parece que a vontade de expor seus interesses matrimoniais o alcançou e, com isso, sua volta parece justificada. Será que finalmente conheceremos a nossa princesa e futura rainha?

Outra presença marcante confirmada é a do tão belo, jovem e solteiro Duque de Norfolk. Até onde sabemos será uma breve passagem para uma visita amigável ao príncipe , mas precisa mais que isso para que o belo Norfolk nos chame a atenção?

Também a Marquesa de Bristol acompanhando seu belíssimo e solteiro filho, Sir Harrison Haylock, se fará presente, talvez, na procura de uma bela Lady para seu herdeiro. Mais uma vez sem nenhuma debutante, crê quem lhes escreve, já que a jovem Lady Marjorie recém adentra seus treze anos. Mas, pela ansiedade da última temporada, não iria apavorar se nossa simpática Marquesa Theodora aparecesse com alguma jovem para debutar. Qualquer senhorita que debutar com a Marquesa de Bristol como madrinha terá sua reputação elevada a níveis altíssimos, mesmo que seja uma criada. Seria uma honra ter uma Marquesa como apoio nessa época, ainda mais uma tão influente.

E quem achou que não estaríamos enaltecendo nossas presenças locais, se equivocou drasticamente. Uma fonte de informações tão grande quanto este panfleto que vos passa este humilde texto não deixaria de lembrar que, junto com nosso príncipe, quem entra na grande disputa que se resume à temporada é nossa jovem princesa . A doce moça agora finalmente alcança os dezoito anos e entra com toda sua beleza e inteligência bailes adentro, chamando mais ainda a atenção de todos. Sem dúvidas, chorarei quando a vir debutando. Ela se mostra o pequeno-grande orgulho de Londres até o momento. Dificilmente alguém terá coragem de encarar quem a rodeia, mas quem o fizer terá grande respeito.

Finalmente, para terminarmos os comentários sobre o início da temporada, talvez, depois de dois anos de uma perda tão sofrida, seja essa a temporada em que veremos Lord MacGyver arranjar seu primeiro casamento; apesar de que sua irmã, Senhorita MacGyver, será a grande atração e revelação da casa. Arrisco-me a dizer que talvez se iguale à maestria e educação de nosso diamante, a Princesa.

Me aquece o coração saber que terei muito o que falar sobre o quarteto que Londres tanto ama comentar. Ou não perceberam que o Príncipe , Sir Haylock, o Duque de Norfolk e Lord MacGyver finalmente estarão reunidos depois de anos distantes, para atormentar nos bares, bordéis e lutas de Londres novamente?

Oh meu deus, eu quase choro de alegria! Essa temporada nos promete tanto, são tantas opções juntas que presumo histórias quentes, segredos surpreendentes e casamentos que irão nos emocionar um a um. Sejamos cautelosos nas apostas e não esqueçam os convites para essa tão bem informada Lady.

Com muito sentimento positivo e promessa de retorno,

Att, Lady Spynformant.


1. O Grande Dia

"Londres, 1813.

Bom dia, querido leitor!

Talvez boa tarde, ou noite.

Enfim, estamos no grande dia, este que marca o início de uma época importantíssima, o tão esperado início da temporada. A abertura do mercado casamenteiro, o início das apostas, os olhares nervosos das nossas adoráveis — pelo menos a maioria — debutantes perante o julgamento da Rainha em suas apresentações formais à sociedade e também, a melhor parte na humilde opinião desta que vos escreve, os bailes luxuosos para inserção das senhoritas no grande campo minado que é a aristocracia inglesa…"


,
Palace, London.


— Sente-se como, querida? — ouviu sua ama perguntar enquanto terminava os últimos detalhes de seu penteado.

— Jane… — Suspirou e corrigiu sua postura. — Estou como sempre. Venho me preparando para este dia desde que mamãe me pôs no mundo. — Deu de ombros. — Estou segura, não tenho o que errar. É como se hoje fosse a apresentação de um teatro que sei todas as falas decor.

— Admiro sua confiança, majestade. Mas consigo sentir sua empolgação me contagiar. — Jane brincou e recebeu um sorriso da princesa sentada à sua frente.

— Eu só tenho um pouco de medo, eu acho. O que virá daqui pra frente? Sei que não terei surpresas no dia de hoje. Estou segura de que irei me sair bem, treino todos os dias para ser perfeito, mas e depois? Qual será meu objetivo? Treinarei para o que? — Pela primeira vez naquela conversa, encarou Jane com um olhar de dúvida.

— Talvez, princesa, sua vida de hoje em diante entre em uma fase que um treinamento não a preparará para as situações, mas sim a experiência. Terá que, simplesmente, viver. — A criada sorriu para o reflexo da jovem.

— Jane, seus conselhos são sempre os melhores, mas agora estou realmente ansiosa. — A expressão no rosto de mudou para algo mais radiante depois de começar a pensar no futuro.

"... E nesse emblemático dia que se torna memorável a tantas moças conseguimos sentir a emoção de cada uma pela transmissão que nos fazem ao olhar-nos.
Jovens que se preparam a vida toda para esse momento e estão seguras de si o suficiente para que o nervosismo não lhes ataque de maneira negativa. Também jovens que, apesar de preparadas durante toda a vida para esse momento, dependem de causar uma boa imagem para conquistar o tão sonhado objetivo, deixando assim os nervos tomarem conta de uma forma negativa.
Há também aquelas que, apesar de serem poucas, tiraram a sorte grande e estão aptas a entrar no mercado casamenteiro com pouquíssimo tempo de preparo. E são essas a quem, além de o nervosismo afetá-las negativamente, acabam dando algum tropeço crucial, na maioria das vezes..."


,
MacGyver's house, London.


— Meu Deus, quantos anos de curso precisamos para arrumarmos uma franja que se desalinhou? — Desirée, uma das irmãs mais novas de , perguntou com desdém enquanto esperava sentada no sofá da sala de estar da grande mansão dos MacGyver.

— O problema não é quantos dias precisa-se para arrumar um franja desalinhada, e sim em qual dia precisamos que ela esteja alinhada, filha! — Amélia, mãe da família, respondeu. — Logo chegará sua hora, e, quando acontecer, entenderá — completou encarando a mais nova com paciência enquanto a filha revirava os olhos.

— Pobre irmãzinha, herdou uma beleza única de família mas vai afastar todos que se interessariam com esse humor… ácido. — Dominick, irmão gêmeo de Desirée, debochou sentando ao lado da irmã.

— Pobre irmãozinho, nem sua rara beleza herdada da genética MacGyver é capaz de salvá-lo de virar um solteirão, já que prefere insultar uma dama a elevar sua autoestima. — Devolveu, estreitando o olhar em direção ao gêmeo.

— Já chega, onde está ? — , o irmão mais velho, interrompeu a troca de farpas dos caçulas ao adentrar o cômodo.

— Teve um imprevisto quando um fio de sua delicada franja fugiu do penteado. — Desirée dramatizou e viu o irmão acenar confirmando que havia entendido o atraso.

— E vocês dois? Prontos? — Perguntou encarando-os sentados no sofá e travando o olhar em Desirée.

— Oras, não vou debutar, não preciso vestir branco. Estou pronta, sim — respondeu com uma feição decidida.

— Claro, o rosa lhe cai bem. — O conde aproximou as sobrancelhas e desviou o olhar para sua mãe.

— É salmão. — Desirée sussurrou, revirando os olhos e bebericando o chá.

— Onde estava, ? — Foi a primeira pergunta feita.

— Sim, mamãe, vou muito bem. E a senhora? — Desconversou.



Quando Amélia começava alguma frase, foi interrompida por passos no topo da escada. estava, finalmente, pronta. Com seu longo vestido branco, penteado alinhado e postura impecável.

, você apareceu! — comemorou enquanto descia o mais rápido possível.

— Como assim? Não poderia perder o grande debute da minha irmãzinha em hipótese alguma. — Abraçou a irmã delicadamente. — E, por regras de etiqueta e para boas aparências, é essencial que eu lhe acompanhe. — Completou e notou a expressão de repreensão do rosto de ao terminarem o abraço. Logo riram em seguida.

— Precisamos nos apressar. Mas você está perfeita, minha filha! Sinto muito orgulho de você — Amélia alertou e, quando terminou, depositou um beijo na testa da filha.

E assim, a família partiu em direção à carruagem que os aguardava na porta da casa. respirava fundo e se mantinha em silêncio. Estava nervosa, sim e sabia que algo poderia dar errado, mas procurava não pensar nisso no momento.

,
Haylock's quarter, London.


— Vossa Graça, distante de minha intenção soar mal agradecida ou semelhante. — começou sua fala entre longos suspiros. — Mas esse espartilho, possivelmente, está esvaindo com meu ar. — Completou.

, já somos amigas, por favor, me chame de Dora. — A marquesa repreendeu a jovem, largando a xícara que estava em suas mãos. — E se possivelmente está esvaindo seu ar, ainda não está posto de maneira correta. — Deu de ombros voltando a atenção para a sua leitura. — Precisa com certeza esvair seu ar. Pode seguir, Denise. — Ordenou à sua criada, que a obedeceu.

As duas, junto de alguns contratados pela marquesa, estavam nos aposentos que Dora possuía em Londres. Desde que havia se tornado a chance perfeita de a Marquesa de Bristol debutar uma jovem na temporada, ela tinha feito de tudo para a menina estar impecável no dia de se apresentar à rainha. já havia experimentado todos os penteados e presilhas possíveis, também testado várias cores para que Theodora opinasse qual melhor ornaria com seu tom de pele. Em meio a isso tudo, estava se sentindo totalmente deslocada. Apesar de muito astuta e inteligente, nunca viveu com tanto luxo e também nunca se viu necessitada disso, era feliz com o que tinha e no seu universo. O que e onde estava vivendo lhe exigia muita maestria e etiqueta, e, por mais que tivesse sido treinada pelas melhores pessoas contratadas por Theodora, nunca se sentiria cem por cento segura de si. Tinha consciência de que tudo aquilo era necessário para arrumar um bom casamento, mas o fazia exclusivamente por uma causa maior.

— Está pronta, Vossa Graça! — Denise anunciou assim que o penteado de ficou pronto.

— Está perfeita! — Theodora soltou depois de alguns minutos em silêncio.

A jovem ainda se encarava no espelho, sem reação. Estava surpresa com sua própria aparência. Vestia um longo vestido branco com alguns detalhes em dourado, seus fios de cabelo delicadamente alinhados em um coque baixo para que o destaque permanecesse na brilhante tiara que possuía no topo da cabeça.

O rosto continha uma maquiagem leve que a deixava com a expressão mais natural possível.

Sentia-se bela, de uma forma que nunca sentira antes. Mas, infelizmente para ela, seu nervosismo era tão grande que poderia apalpá-lo, se quisesse.

"... Mesmo dentre tantos sentimentos, emoções e acontecimentos, acredito que cada uma arrumou seu jeito de surpreender a Rainha. Seja de maneira positiva ou negativa. Cada uma será lembrada de alguma forma no final da temporada, creio que essa geração é definida por senhoritas marcantes, e que sorte de nossos cavalheiros.
O modo que desfila até o trono, onde deixa suas mãos e até mesmo o ritmo que respira a cada passo pode ser notado ao ponto de despertar um motivo para ser lembrada.
Ah, tantos cuidados que temos para, no final, tudo ser como deveria ser.
Como é peculiar esse clima primaveril, afinal de contas..."


Debute
Salão Real, London.


Princesa , de Londres. Apresentada por sua mãe, sua majestade, Rainha Victoria. — O locutor anunciou os primeiros nomes daquele debute.

Como esperado, os primeiros passos dados no tapete vermelho naquele dia seriam da Princesa acompanhada e apresentada pela Rainha.

Sorria discretamente, andava a passos lentos e emitia poucos sons com o corpo. Se não fosse pelos sons do pequeno salto da sapatilha, todos achariam que estava flutuando. Desfilava como ninguém e a presença da Rainha atrás de si sequer chamava atenção. Mantinha o olhar nas pessoas à sua volta, sorrindo sempre alternando os lados e com muita discrição. Sua apresentação estava graciosamente perfeita.

Estonteante! — Ouviu o sussurro de sua mãe e a reverenciou quando notou que ela estava em sua frente.

Sentiu um beijo na testa e quando percebeu a Rainha sentar, se retirou e sentou atrás do trono, para que pudesse acompanhar o restante das jovens.

"... Ademais, creio que o que realmente amedronta nossas jovens em seu debute é unicamente o peso do olhar da Rainha perante o seu andar.
E, oras, quem não se amedrontaria perante isto? Tendo total certeza de que sua excelentíssima majestade acompanha cada passo seu com um olhar típico de quem tem certeza que você vai tropeçar nos próprios pés?
E não a julgo, afinal, quem sou eu para tal? Sua majestade apenas está exercendo seu papel de impor respeito aos súditos. E o faz muito bem, diga-se de passagem.
Mas no fundo, todos sabemos que ela é uma doce e, talvez, agradável mulher..."


— Céus, estou à beira de um colapso, Theodora! — choramingou baixinho enquanto percebia que não conseguia deixar firme o grande enfeite com penas altas na cabeça.

— Acalme-se, querida, confio em você! Irá se sair bem! — A marquesa tentou confortar a jovem esticando os braços para lhe ajudar.

Hm, com licença? — Uma jovem se aproximou aos poucos e pediu baixinho. — É só encaixar atrás da tiara! — Tomou o lugar da marquesa à frente de e arrumou o enfeite enquanto explicava. — Prontinho! — Sorriu meiga e teve o gesto retribuído. — Bom lhe ver, marquesa! Há tempos não aparece na capital! — Cumprimentou.

— Oh, ! Está encantadora! — Dora cumprimentou a moça com beijinhos à distância.— Não tive tempo algum para viagens nesse período que sucedeu à última temporada. — Justificou-se e viu um aceno positivo de com a cabeça enquanto sorria.

— Perdão, senhorita. Qual seu nome? — perguntou curiosa.

Senhorita MacGyver, apresentada pela mãe, a muito adorável viúva Condessa MacGyver. — Ouviram o anúncio antes que pudesse responder e suspirou.

— Este! — Respondeu brincalhona e recebeu sorrisos em troca. — Fique calma, ok? Vai se sair bem! — Tranquilizou mais uma vez e finalmente se retirou, acompanhada de sua mãe.

Uma ótima amizade para se ter! MacGyver é uma das jovens mais estonteantes de Londres. Começamos bem! — Theodora cochichou e piscou para , que sorriu tímida.

Enquanto isso, já havia dado início ao seu desfile de encontro com a Rainha. Em passos precisos e calmos, o que ia contra qualquer coisa que estava sentindo internamente. Era muito boa em disfarçar seus sentimentos verdadeiros. Por dentro, um cérebro em chamas e um coração saindo pela boca. Por fora, um sorriso estonteante e passos calmos.

A Rainha, que há tempos tinha perdido até o interesse no debute anual, começou a focar sua atenção na moça que chegava até si. Quando abaixou o tronco em intenção de reverenciar a Rainha, sentiu algo segurar-lhe o queixo e a erguer.

— Deslumbrante! — Elogiou a Rainha, encarando os detalhes do rosto de . Com isso e apenas um sorriso singelo, Victoria se afastou e voltou ao seu trono.

Junto de sua mãe, afastou-se do centro e direcionou-se para onde outras debutantes esperavam, acompanhadas de quem as apresentou, o final da cerimônia.

O que isso quis dizer? — Perguntou baixinho para a mãe, enquanto sorria nervosa.

Que você começou muito bem. — Sua mãe lhe respondeu no mesmo tom, sorrindo com ternura.

Senhorita Jones, apresentada pela madrinha, a muito adorável Marquesa de Bristol, Theodora. — As duas foram interrompidas por mais um anúncio e encarou as portas abrirem imediatamente.

Sabia quem a marquesa iria apresentar e queria, genuinamente, que a menina se saísse bem em sua apresentação.

Observou os passos de e conseguia notar o tamanho nervosismo da menina. Apesar disso, possuía uma postura perfeita e expressão facial simpática. No fim, com um ritmo um pouco mais rápido que o necessário, chegou à frente da Rainha e a reverenciou, acompanhada da Marquesa.

sorriu orgulhosa, havia gostado do jeito de . Sentia algo bom vindo dela.

A Rainha, entretanto, parecia surpresa. Sem levantar-se de seu trono, mudou a posição lateral que havia assumido para encarar frente à frente.

— Impressionante, minha jovem. — Victória soltou, com um sorriso mínimo, depois de um tempo encarando-a.

Com um aceno sorridente, agradeceu e junto da Marquesa, fez o mesmo trajeto de e Amélia.

Melhor do que eu esperava. Você foi incrível. — Theodora elogiou e finalmente soltou o ar que não havia notado que estava preso.

Impressionante foi um elogio? — perguntou discretamente e em tom baixo.

Sem dúvidas. — Theodora respondeu sorridente.

" … De qualquer forma, no final das contas, posso afirmar que jamais vamos saber o que esperar de uma estreia de temporada. Como meros telespectadores, a única coisa que podemos aceitar é que vamos nos surpreender. Não importa como, mas vamos.
E ao fim, nos conformarmos com seu resultado, afinal, como lutaremos contra a realidade, não é mesmo?
Portanto, caro leitor, viva o que lhe está sendo oferecido no agora. Não sabemos o que o amanhã nos trará.


Portanto lhes deixo com muito sentimento positivo e promessa de retorno,


Att, Lady Spynformant."



2. Reencontros

"London, 1813

Bom dia, querido leitor!

Talvez boa tarde, ou noite.

Contudo, espero que esteja lendo esse folheto sentado. Tenho alguns comentários, talvez ácidos, a respeito da estreia de nossa temporada.
Moças de todos os tipos apresentaram-se à sociedade em nossa última cerimônia e tivemos algumas surpresas, como já citado antes por mim, totalmente inesperadas.
Surpreendentemente até para quem lhes escreve, apesar de já ter previsto, a visita que estamos tendo da nossa virtuosa Marquesa de Bristol não é apenas uma simples passagem ou uma procura para Sir Harrison. E a surpresa se dá pelo fato de que ela realmente não conseguiu segurar a angústia de não ter uma jovem para debutar, adotando uma moça para tal.
Senhorita , em seus passos nervosos, chamou atenção não só de meu olhar, mas também o de vários solteiros que acompanhavam o evento. Uma menina peculiar que merece atenção por sua beleza, devo ressaltar. Senhorita Jones, de sobrenome comum, era o fortuito que precisávamos na temporada..."


Haylock's quarters, London.

— Qual o problema do meu sobrenome simples, afinal? — perguntou incomodada, tanto pelo texto que tinha acabado de ser lido quanto pelo espartilho que lhe apertava com força.

— Problema algum. — Theodora sorriu com gentileza. — Não dê ouvidos para a opinião de uma fofoqueira. Não é ela quem definirá sua reputação na temporada, mas sim seu comportamento! — Theodora incentivou-a a continuar andando com o livro em sua cabeça.

Uma tática antiga, mas muito eficaz, para arrumar a postura enquanto anda.

apenas riu baixinho, achando divertido a marquesa a ajudando com o caminhar. Estavam se divertindo, afinal. E o que achava que seria impossível estava se tornando perto de dar certo.

"... Sobre nosso diamante não tenho nada a acrescentar, realmente foi o que eu esperava e posso me mostrar orgulhosa. Seus passos com maestria e perfeição ao lado da mãe me deixaram apaixonada e ao mesmo tempo, curiosa.
Não, de forma alguma minha curiosidade é culpa de , mas, notando-se o beijinho mixuruca na testa seguido de um elogio genérico dado pela sua mãe, Vossa Alteza, após a grande perfeição que foi mostrada no debute, me pus a refletir sobre a rainha ser o tipo de mãe que muito cobra e pouco nota os filhos.
Bem, muitas coisas que saem do palácio são curiosas.
De qualquer forma, deixo os meus mais sinceros parabéns à nossa Princesa…"


Game's House, London.

— Uou, sua mãe deve estar furiosa. — ouviu a voz de após Harrison ler o parágrafo.

— Céus, eu me recuso sequer a entrar naquele palácio hoje. — O príncipe se jogou no encosto da confortável poltrona em que estava sentado.

— Confirmando o verdadeiro caos que deve ser o humor de Vossa Alteza. — , com as sobrancelhas levantadas e olhos levemente arregalados, soltou antes de virar o resto de whisky que tinha em seu copo.

— Por favor, não cite o humor de minha mãe na mesa de jogos. — pediu com um olhar debochado.

— Não fui eu quem trouxe um folheto escrito por uma fofoqueira que não possui uma coisa mais interessante à fazer do que bisbilhotar a vida alheia anonimamente. — dessa vez ergueu apenas uma sobrancelha e, enquanto servia-se mais bebida, olhou de soslaio para Harrison, que ainda lia o folheto.

— São informações que servem até no meio político, Sr Eu-Não-Fuxico-A-Vida-Alheia. — Harrison revirou os olhos e aproximou o copo em um gesto para que o servisse também. — E quem lhe garante que é uma mulher?

— Talvez sua irmã não tenha nem notado o pouco caso de sua mãe. — se pronunciou depois de um tempo calado, cortando a discussão mesquinha que se iniciava.

sempre sente a falta de atenção de Victoria, só não demonstra muito. Não adiantaria, de qualquer forma. — dá de ombros. — Durante anos na França só recebi cartas dela exigindo minha volta e xingando minhas decisões. Não é a pessoa mais amável do mundo, mas, no fundo, só tem muito com o que se preocupar e acaba sendo mais rainha do que mãe. — Engoliu em seco.

— Sinto muito. — Harrison soltou sem graça por, indiretamente, ter começado o assunto.

— Viemos para uma sessão de terapia grupal ou para uma jogatina despreocupada entre amigos? Nossos encontros já foram mais animados. — jogou as cartas na mesa e sorriu, enquanto Harrison revirou os olhos e apanhou o baralho. — A França lhe transformou em um almofadinha.

— Se você soubesse o que fiz em cima de algumas almofadinhas na França. — debochou.

— Um grande bundão, onde já se viu precisar de almofadinha para isso? Quem sabe fazer, faz no chão. — respondeu com uma careta.

— Onde está o seu cavalheirismo, Duque? — Harrison debochou.

— Perdão, esqueci que três damas me acompanhavam. — retrucou imediatamente, despertando negações e risos na mesa.

— E então? O que extraíram do baile de ontem a noite? — Harrison perguntou enquanto se iniciava a partida.

— Que baile? O que eu justifiquei minha falta para a rainha alegando estar muito cansado da viagem para conseguir dar a devida atenção às inexistentes belas jovens da temporada? — respondeu arrumando suas cartas.

— Imaginei que o porquê de eu não ter o encontrado durante a noite toda não se explicaria por você estar ocupado dançando com todas as moças do salão. — debochou mais uma vez, concentrado nas cartas enquanto o príncipe se limitou a sorrir satisfeito.

— E não reclame das jovens nessa temporada, deveria ter ido para tirar suas conclusões. A grande maioria é questionável, mas a pequena parcela de moças apresentáveis aumentou. — caçoou.

— Claro, a começar pelas belíssimas irmãs Frankemöller. À cada temporada mais velhas e mais… peculiares. — começou a partida. — Um dos meus principais motivos para visitar vocês todo início de temporada é ver quantas delas ainda restam ou se terão coragem de aparecer nos bailes mais um ano completamente coloridas e solteiras.

— Saritta não é tão deplorável. — Harrison defende.

— Com toda a certeza, sua simpatia a embeleza e, perto das irmãs com aura de megeras, se torna a mais impoluta das quatro. — completa.

— Aura de megera. — repete rindo alto. — Se Lord Frankemöller juntasse o dote de todas apenas em Saritta, teria o primeiro casamento arranjado rapidamente. É uma moça adorável, dadas as circunstâncias das parentes próximas.

— Lembram quando Lady Frankemöller, temporada passada, tentou um casamento entre e Angelitta? — Harrison lembrou e quase engasgou lembrando, logo após se permitindo rir.

— Por favor, de todas as moças que recusei, Angelitta foi a que menos senti remorso. Ela tentou me agarrar no jardim. — Lembrou apavorado e os amigos riram.

— Na temporada anterior a essa em que comentamos, essa caduca delirante queria que minha tia convencesse-me a casar com Carmelitta. — lembrou com uma careta de reprovação. — Nem condenado por Satanás, e meu maior problema nem era Carmelitta, e sim cogitar Lady Frankemöller como sogra.

— Frankemöller tenta casamento com todas as filhas, menos com a que teria chances. — Harrison dá de ombros.

— Sim, e falando sobre chances, quem é a jovem que veio com sua mãe? — desviou totalmente o assunto, dessa vez perguntando a Harrison.

? — Perguntou com a voz falhada e limpa a garganta. — Perdão, Senhorita Jones? — Corrigiu-se.

— Sim, ela mesma. Nunca tinha a visto antes, é sua parente? — perguntou. — Avise onde estão suas irmãs, caso ela tiver, preciso achar essa parte de sua família. — Sorriu malicioso.

— Fique quieto, Norfolk! — Harrison se exaltou. — é uma amiga da família. Não temos laços de sangue, mas mamãe a considera muito e queria vê-la debutar aqui. — Explicou e percebeu os amigos concordarem.

— Sem laços de sangue, hm. — repetiu e Harrison revirou os olhos.

O filho dos marqueses não era o tipo de rapaz devasso ou libertino. Era bem o oposto do resto do grupo mas gostava muito dos amigos para não andar com eles. Por consequência, não era o maior admirador desse tipo de brincadeira com as meninas.

— Vamos mudar de assunto, o nosso ilibado marquês não se agrada que falemos da Senhorita Jones, com quem terei imenso prazer em dançar a valsa essa noite. — comentou dando fim ao assunto.

— Curioso a forma como sua vontade de dançar em bailes surge. — O deboche habitual de voltou à tona.

Muitas coisas que saem do palácio são curiosas. — Repetiu o que o folheto de alguma fuxiqueira, como havia apontado o Duque, escreveu.

"... E não teria como não me recordar de citar honrosamente a adorável Senhorita MacGyver que, com toda sua gentileza, ainda trocou alguns cochichos com o fortuito de nossa temporada após seu debute.
Me apeteceria que uma amizade entre as duas nascesse durante os bailes, tendo em vista que são as mais raras belezas, juntamente da Princesa, nesta temporada.
A belíssima MacGyver puxou toda a maestria de sua progenitora, que chamava atenção de todos, tal como a filha mais velha. Exalando a mais virtuosa delicadeza e educação, não dançou sequer com um rapaz e permaneceu pouquíssimo tempo no baile de Madame Larsdotter.
Um bom mistério em sua estreia é sempre bem-vindo, admirável a forma sutil de deixar uma incógnita na cabeça de cada um..."


MacGyver's House, London

— Finalmente algo decente saiu das ideias de . — Desirée desdenhou depois de ler o parágrafo sobre a irmã, que tinha um sorriso enorme estampado nos lábios.

— Bom, hora ou outra ele começaria a agir como um conde. — levantou-se sorridente. — Você viu como Lady Spynformant me elogiou neste folheto? Isso é perfeito para minha imagem. — Ajoelhou-se em frente à irmã, apoiando os braços nas coxas de Desirée.

— Sim, percebi! Mas quem não elogiaria você? É tão perfeita que desafia a minha escassa paciência! — A mais nova retrucou com um misto de surpresa e nojo em sua feição.

— Oras, é sempre bom receber um elogio. — fingiu ofensa, pondo a mão no peito e se afastando para a frente do espelho onde sua ama começaria um penteado.

Estava arrumando-se para o segundo evento deste período, tal que seria oferecido no grande, colorido e muito bem cuidado jardim da casa Ashworth. Como de costume, a Viscondessa Ashworth não poderia deixar de marcar o início da temporada com seu baile floral muito bem decorado e com uma orquestra mediana, que, possivelmente, seria interrompida para uma pequena apresentação da filha do meio no piano. Enquanto isso, Visconde Ashworth estaria discutindo coisas do parlamento com alguns personagens chaves de suas propostas.

Nada seria diferente, esperava.

— Então, posso saber o curioso motivo de não estar calçando suas sapatilhas novas para comparecer ao baile, Desirée? — Perguntou depois de entrar em um acordo com sua ama sobre o penteado que usaria naquela noite.

— Claro, doce . Não estou as calçando pois não irei. — Sorriu usando todo cinismo que conseguiu reunir.

— Quem a deixou faltar? — perguntou assustada.

— Eu! Desirée já saboreou um pouco do que é estar em um baile com o de ontem e cuidar de minhas duas irmãzinhas me deixa atordoado demais em uma noite. Lhe dei folga, temos um acordo. — O irmão mais velho respondeu interrompendo a conversa.

— Só porque o senhor, aparentemente, é o Conde da casa, não significa que tem passe livre para invadir a conversa que bem desejar dentro dos cômodos da casa, sabia? — Desirée esclareceu, encarando-o desafiadoramente.

— Não acredito, milady, tem certeza do que fala? — fingiu surpresa e viu a mais nova revirar os olhos.

— Vou indo, não preciso aguentá-lo por essa noite. Um bom baile, com licença, milorde. — Reverencia ironicamente o irmão antes de se retirar.

e reprimem o riso e se encaram pelo espelho.

— Contente? Parece que a mais famosa fofoqueira da temporada lhe adora. — Perguntou à irmã, que sorriu abertamente.

— Ah irmão, quem não adoraria uma bela moça misteriosa? — sorriu abertamente, despertando um riso discreto até mesmo em sua ama.

"...E por falar em bailes, quanta falta me fizeram nesse período em que não pude comparecer, até porque não se comparece ao que não existe.
Todos sabemos o real propósito de um baile, mas uma das partes que mais me empolga a frequentá-los é a dança. Quem não se sente contente em poder aliviar um pouco de seu fatídico dia em alguns passos animados de dança ao lado de uma amizade ou com quem está cortejando?
A forma como esquecemos de nossos problemas por uma fração de segundo enquanto movemos nossos pés me encanta genuinamente.
Ah, como eu amo a magia da dança!...’’


Palace, London.

— Irmão! Que surpresa sua presença, não esperava que voltaria para me acompanhar. — sorriu de lado ao perceber o som dos passos de se aproximar.

Estava pronta para subir na carruagem que lhe levaria ao baile das flores quando parou e abraçou ao príncipe, que sorriu com o gesto de carinho da irmã.

— Jamais deixaria de acompanhá-la. Teria que ir de qualquer forma, melhor ainda se fosse com você. — Encarou-a com ternura. — Você está exuberante, ! Sem dúvidas a donzela que mais chamará atenção! — Elogiou.

— Sim, por ser a princesa que não recebe atenção da mãe. — Suspirou fundo, baixando o olhar simultaneamente.

— Oh, não ligue para um folheto bobo, qual a credibilidade que isso tem? — Respondeu-a com uma careta de reprovação a ajudando a subir na carruagem, entrando em seguida. Sentou no banco à frente e notou as portas se fechando.

— Muita credibilidade. Se tivesse ficado quinze minutos no palácio durante o dia, notaria os criados cochichando pelos cantos. Se não fosse por Jane, provavelmente eu teria sucumbido hoje. — Suspirou novamente.

— Por favor, ! Que a Rainha não era a pessoa mais acolhedora do reino nunca foi segredo, desanimar-se porque o grande mistério do palácio foi revelado não vale seu lindo sorriso. Se anime, hoje você irá dançar! Qual remédio é melhor que a dança? Tivemos os melhores professores! — piscou para a irmã, que sorriu sem mostrar os dentes.

Feliz por ter conseguido animar a irmã de alguma forma, engatou mais algum assunto banal enquanto não chegavam à grande mansão Ashworth, muito bem localizada na Berkeley Street, no bairro de Mayfair, e por ser uma rua próxima não demoraria tanto a chegar.

sentia-se aliviado por conseguir fazer com que aproveitasse sua noite. Sabia o quanto amava dançar e que fazê-lo com desânimo seria pior ainda. Conhecia-a o suficiente para saber o quanto odiava fazer as coisas imperfeitas, ainda mais algo que gostava muito, como dançar.
insistia na perfeição, sempre. Talvez fizesse isso, mesmo que inconscientemente, para chamar atenção da Rainha de alguma forma e se odiava por isso. Com sua saída do castelo, na época não percebeu, mas todas as expectativas e, consequentemente, as cobranças se voltaram para a irmã mais nova e despertou nela o sentimento que ele tinha de que se fizesse algo errado, tudo desmoronaria. E sua maior culpa é que não teria a opção de viajar para longe de todos seus problemas, porque ele mesmo já havia usado essa válvula e fugido das próprias responsabilidades.

Suspirou, balançando a cabeça para espantar seus pensamentos autodepreciativos e repetiu mentalmente os conselhos que deu à irmã para si.

"Não é o momento para sofrer, seu almofadinha."

Sorriu para quando ouviu a voz de quem os carregava anunciar que iriam descer.
Primeiramente, na carruagem à frente da que carregava os dois irmãos, ajudaram a mãe deles a sair de seu transporte. Logo após, quem desceu foi o Príncipe que ajudou a Princesa com seu pomposo vestido. Seguiram atrás para que a Rainha fosse a primeira a adentrar o baile.

Fique tranquila. Ninguém vai comentar sobre nada. Se distraia. — Cochichou para a irmã que estava com o braço enroscado no dele e recebeu um sorriso discreto como resposta.

"... Mas não posso deixar de admitir que minha real e maior atração nos bailes são as pessoas com quem vou encontrar. Amigos que vejo todos os dias, amigos que não vejo há muito tempo, parentes distantes dos quais a maioria nem me recordo os nomes , ou simplesmente alguém que vi uma vez, mas ainda sim, reencontrar me faz bem.
Oh, os reencontros!
Li uma vez em um livro que quando você encontra uma pessoa que lhe agrada a primeira conversa, a chance de encontrá-la novamente em algum lugar é muito grande. Algo em seu cérebro faz com que você frequente, inconscientemente, algum lugar que ache que essa pessoa estaria. Também começa a imaginar o lugar com ela ali, e há modernos que acreditam na força da atração. Quando você pensa, atrai, e logo acontece…"


Ashworth's House, London.

— Senhorita, me concederia sua primeira dança? — Harrison perguntou educadamente para , que sorriu lisonjeada.

— Agradecidamente aceito seu convite, Sir Haylock. — Tirou o cordão que prendia o cartão ao seu pulso e ofereceu ao cavalheiro.

— Vejo que já possui nomes! — Harrison apontou devolvendo-lhe o cartão depois de assiná-lo.

— Sua mãe possui muita influência, devo ressaltar. Assim que chegamos, me apresentou a alguns cavalheiros e, por sorte, alguns quiseram assinar meu cartão. — Manteve o sorriso discreto ao responder.

— Não seja modesta, querida! — Theodora se aproximou com uma bebida em mãos — Não foi por sorte, mas sim pelo seu charme. Está radiante! — Sorriu orgulhosa de si pela escolha de cores que iria usar.

agradeceu tímida.

— Esse tom de dourado lhe cai muito bem! — Harrison sorriu e percebeu ficar ainda mais ruborizada. — Oh, quase me esqueço, tenho alguém para lhe apresentar! — Arrumou alguma desculpa para mudar o assunto e deixá-la mais confortável.

Discretamente chamou que, acompanhado de e , se aproximou.

— Esses são meus amigos. Quando chamamos por um, os outros dois se materializam ao lado para acompanhar. — Debochou quando ainda não haviam chego.

— Lady Theodora! Que bom lhe rever! — se pronunciou ao se aproximar e deixou um beijo discreto na mão da marquesa.

Cumprimento este que se repetiu com os outros dois rapazes.

— Como vocês cresceram, estão virados em grandes homens! Um orgulho tê-los acompanhando crescer! — A marquesa sorriu genuinamente feliz e teve sorrisos grandiosos como resposta.

— Com certeza aprendemos muito com você, milady! — elogiou, deixando a mais velha inflada de orgulho.

— Senhorita Jones, quero lhes apresentar meus três fiéis escudeiros! Lord MacGyver, Duque Norfolk e Príncipe , à seu dispor! — Harrison finalmente os apresentou.

— Imenso prazer em conhecê-la, Senhorita. — é o primeiro a beijar-lhe à mão.

— Igualmente, Vossa Graça! — Sorriu pequeno para o rapaz.

— O mesmo, Senhorita Jones. — repetiu o gesto. — E por favor, chame-me por , me sinto menos velho. — Riu baixo sendo acompanhado por .

— Prazer, ! — Obedeceu e trocaram sorrisos amigáveis.

— Prazer em conhecê-la, Senhorita. — Por último, com um sorriso debochado, também beijou-lhe a mão.

Ironicamente, realizava o gesto pela primeira vez com mas não estava a conhecendo ali. Quando a moça cruzou o olhar com o rosto do rapaz, não evitou a surpresa, mas disfarçou imediatamente.

— O prazer é todo meu, Vossa Alteza. — Engoliu em seco, curvando-se em reverência e sorrindo em seguida.

— Oh, rapazes, vocês assinaram algum cartão? A primeira dança irá se iniciar! — Theodora apontou observando o mestre de cerimônia aproximar-se do palco.

— A Senhorita já tem par para a primeira dança? — O príncipe perguntou se dirigindo à , que afirma imediatamente. — Que pena! Ainda possui alguma dança vaga para seu humilde príncipe? — Perguntou sorridente e sentiu o estômago revirar em nervosismo, mas tenta disfarçar.

— Creio que sim, Alteza! — Puxou novamente o cordão e abriu o cartão de danças, esticando-o para .

Touché, a valsa estava vaga. Era a dança que mais gostava de dançar e estaria disposto a até mesmo doar grandes bens para dançá-la com naquela noite, embora não fosse preciso. Assinou o cartão e devolveu.

— Muito obrigada! — sorriu.

— Lhe encontro na valsa! — Sorriu de volta e seguiu à procura de .

Iniciaria o baile dançando com a irmã, que, com sorte, ainda não teria preenchido aquela dança.

"...Reencontros vem, reencontros vão e o que realmente importa é que no fim da noite estejamos com os pés ardendo de tanto aproveitarmos a noite. Só assim saberemos que realmente valeu arrumar-nos dos pés à cabeça e usar todo tipo de colônia possível.
Não importando se dançamos com quem não queríamos ou com quem queríamos, se aquela canção favorita tocou ou não, mas sim que a diversão foi garantida e as preocupações momentaneamente esquecidas.
Espero que tenham aproveitado este baile e que aproveitem dessa forma todos os eventos que essa temporada ainda nos proporcionará!

E mais uma vez lhes deixo com muito sentimento positivo e promessa de retorno,

Att, Lady Spynformant."


3. Primeira Impressão

“London, 1813

Bom dia, querido leitor!

Talvez boa tarde, ou noite.

Nos últimos dias esta que vos escreve encontrou-se refletindo sobre como a primeira impressão que temos de alguém pode ser determinante para o resto da relação que poderíamos ter com ela.
Veja bem, leitor, não estou soltando tolices ao vento, é algo que realmente precisamos pensar: que tipo de primeira impressão gostaríamos de causar? Como gostaríamos de nos ver de fora? E o mais importante, suponho eu: que impressão causada pelo outro nos agrada? Por que as impressões que nos agradam determinaram nosso círculo social e em qual círculo queremos estar?”


Algumas semanas atrás



St. Nicholas Market, Bristol.



Os passos apressados faziam os pequenos saltos das sapatilhas de emitirem um som mais alto que o comum, mas ainda assim imperceptível diante de todo o burburinho que existia no grande mercado aberto da cidade. Quem a notasse correndo entre a multidão poderia jurar que estava atrasada para o evento mais importante de sua vida, entretanto, a verdade é que a moça precisava, com urgência, fazer as compras para as refeições que seriam servidas na mansão do marquês naquele dia. Com a notícia que recebeu na noite anterior de que a doença do pai estava se alastrando mais rápido que o esperado, mal conseguiu fechar os olhos durante a madrugada. Não conseguia simplesmente deixar de lado a ideia de que, se não fizesse algo rapidamente, o pior aconteceria com o pai. E o que realmente lhe tirava o sono era não conseguir encontrar sequer uma solução plausível para o problema que crescia cada vez mais embaixo de seu nariz.

No fim, o resultado de ter sido vencida pelo sono apenas depois de o sol raiar foi despertar totalmente atrasada e com a mãe quase quebrando a frágil porta de seu quarto, exigindo as compras da manhã. Levantou-se assustada e correndo contra o tempo. Sua mãe afirmou que conseguiria servir um desjejum bom o suficiente, mas ela precisava estar ali antes das dez e meia com todas as compras em mãos. Agradeceu de todas as formas possíveis e saiu correndo em direção ao St. Nicholas Market¹. Também agradeceu aos céus pela mansão ser próxima ao grande estabelecimento e pela Marquesa sempre deixar o cachê das compras na cozinha na noite anterior. Saiu com uma maçã na boca depois de ouvir sua mãe mandá-la comer algo antes de "correr como uma desvairada pelas ruas", palavras da mais velha.

E no exato momento, passadas as nove e meia para ter algo próximo da exatidão, tinha tudo que estava na lista que havia sido dada a ela e direcionava-se para a saída do grandioso mercado. Pedia licença repetidamente enquanto caminhava, com certa dificuldade em encarar quem ou o que estava à sua frente. Carregava uma caixa nos braços que a impedia de ter uma visão melhor do que acontecia à sua frente, mas ou usava a caixa, ou iria ter de equilibrar tudo em mãos, o que estava fora de cogitação.

Finalmente quando chegava próxima a saída e conseguia ouvir o sons das carruagens na rua, sentiu o corpo chocar com algo e automaticamente, pela dor que sentiu ao ter as mãos pressionadas entre o que carregava e o que chocou contra, largou a caixa no chão e se arrependeu instantaneamente.

Abantesma!² — Exclamou assim que encarou a caixa que, para seu azar maior, havia caído de lado.

— O quê? — Ouviu uma voz perguntar e levantou o olhar, notando que não havia esbarrado em algo, mas sim alguém havia esbarrado em si.

Encarou o rapaz por alguns segundos, sem esboçar nenhuma reação. Não sabia muito bem reagir ao pequeno acidente que no momento havia se tornado uma grande catástrofe. Encararam-se por longos segundos e finalmente deu-se conta do que havia acontecido.

Por Deus! — Agachou-se rapidamente e começou a juntar as verduras para que ninguém pisasse sem querer.

Algumas piscadas depois, o rapaz abaixou-se junto de e começou a lhe ajudar.

— Perdão, senhorita! Não notei sua presença à minha frente, estava a ler um panfleto. — Justificou-se quando os dois já se encontravam de pé novamente.

— Não tem o porquê de pedir perdão, Vossa Graça. Cavalheiros com vosso padrão dificilmente se importam em notar tipos como o meu andando à sua volta. — Respondeu seriamente e surpreendeu-se consigo mesma. Nunca conseguia controlar a própria língua. Engoliu seco e pegou um tomate que lhe era oferecido depois de ter sido juntado por quem havia esbarrado nela.

Em contrapartida, o jovem rapaz cruzou os braços com um sorriso intrigante nos lábios. Havia ficado genuinamente surpreso com a ácida resposta que tinha recebido e, com certeza, dentre tantas respostas que imaginou, essa sequer havia sido cogitada. Talvez um “Não se preocupe, Vossa Graça” ou um “Perdão, Vossa Alteza”, mas o que havia recebido estava sendo a parte mais interessante da manhã.

— A senhorita permitiria que eu perguntasse qual seria “vosso padrão”? — Perguntou ainda com o sorriso nos lábios.

— Perdão o comentário, cavalheiro, mas vosso calçado possivelmente custa meu mês trabalhado. Provavelmente deves ter muito tempo para um bom assunto, diferente de mim. Caso eu leve mais dois minutos essa conversa adiante com vossa graça, perderei meu emprego e levarei junto vossa reputação. Com sua licença! — concluiu rapidamente, fez uma breve reverência como despedida e saiu às pressas com a caixa próxima da cintura para, dessa vez, não esbarrar em absolutamente nada.

, ainda sem conseguir absorver tudo o que lhe foi dito e totalmente extasiado com o tratamento áspero que teve, pôs as mãos em sua cintura e encarou as pessoas que andavam ao seu redor. A maioria o ignorando e alguns poucos o encarando com uma feição de dúvida, e ele sabia que estavam tentando confirmar se ele era realmente o príncipe. Juntou o folheto que lia do chão, já que havia o derrubado junto com as compras da donzela em que havia esbarrado, ajeitou sua cartola de modo que escondesse um pouco seu rosto e seguiu seu caminho, tentando distrair-se com a leitura. Sua mente não lhe deixava esquecer o fato de que, por ter ficado tão encantado com a forma que a expressão aborrecida da moça a deixava ainda mais interessante, havia esquecido de sequer questioná-la sobre seu nome.

Bufou decepcionado consigo mesmo e seguiu para onde estava hospedado, mais tarde visitaria Harrison para almoçar com o amigo e em seguida partiria para alguma cidade próxima e inventaria mais alguns amigos para prestigiar antes de finalmente ter que encarar a rainha após tantos anos fora.

, por outro lado, estava totalmente aborrecida com o que tinha acabado de acontecer. Derrubou todas as compras, machucou as mãos e ainda por cima teve de ouvir falsas desculpas de mais um nobre qualquer que havia esbarrado nela sem querer. Sequer duvidava que ele poderia ter feito aquilo apenas pelo gosto de vê-la juntando tudo do chão. Suspirava mais fundo só de pensar na cena mais uma vez. Odiava nobres que não fossem a família para a qual trabalhava, até porque, tratamento melhor do que recebia na mansão Bristol, impossível.

Sir Harrison, o filho mais velho do casal Haylock, a tratava como uma irmã e a pequena Lady Marjorie, de quem era babá, sempre afirmou orgulhosamente que era sua melhor amiga. O casal de marqueses não podia nem comentar, sempre foram bondosos com todos os funcionários e mereciam estar onde estavam. Contudo sabia que, junto com sua família, tinha sorte que trabalhava para nobres bondosos e poucos como eles existiam. Tinha muito receio por todos os tratamentos que já havia recebido em viagens acompanhando Lady Marjorie. Também não estava nem um pouco preocupada em ter tratado mal o cavalheiro por ter total consciência de que nunca esbarraria com ele novamente e tampouco casaria com alguém de seu círculo social.

Adentrou a cozinha pela porta lateral da mansão em passos pesados e largou a caixa com as compras em cima da mesa com certa pressa. Sentia suas falanges arderem e, ao encarar a parte interna de suas mãos, percebeu marcas da caixa e algumas farpas que haviam adentrado a pele, provavelmente pela pressão contra o rapaz no esbarrão.

— Está tudo bem? — Ouviu sua mãe questionar com tom de preocupação.

Suspirou fundo e sorriu.

— Sim! Uma agulha, pinça e álcool resolvem rapidamente. — Deixou um beijo na bochecha da mais velha e se afastou. — Preciso acordar Lady Marjorie para ajudá-la a estar pronta para o desjejum, se já estou dispensada…

— Totalmente! Obrigada pela ajuda, pode ir cumprir com suas obrigações agora, querida! — Sua mãe agradeceu secando as mãos em um pano e recebeu um sorriso, logo depois seguindo com o olhar a filha sair do cômodo.

“... Bem, leitor, caso sejas parte daquela minúscula parcela que busca um casamento pelo genuíno sentimento do amor e não por manter ou, quem sabe, melhorar seu status social, não lhe importa muito em qual círculo social esteja, e, se esse for vosso caso, devo lhe parabenizar. Talvez você salve próximas gerações das consequências de ter muita ambição e pouquíssimo sentimento.
Ah, e por falarmos de sentimentos, já pensastes sobre o que as pessoas sentem ao nos ver? Ou qual sentimento gostaríamos de sentir se estivéssemos nos vendo?
Eu, por exemplo, não gosto que as pessoas ao meu redor me temam. Esse é um dos motivos pelos quais me mantenho em total anonimato. O que você sentiria se soubesse que ao seu lado está alguém que sabe quase tudo sobre você? Exato, leitor, não lestes errado, o que eu, por acaso, não sei de você, irei descobrir…”


Harrison
Mansão Haylock, Bristol.


O príncipe soltou um suspiro aliviado quando finalmente sentiu seus pés tocarem no chão. Odiava viagens longas dentro de uma carruagem minúscula e sufocante. Inclinou a cabeça de um lado para o outro na intenção de alongar-se, depois agradeceu ao cocheiro que ainda estava atrás de si na espera de ordens para poder ir embora.

— Bem-vindo, vossa alteza. — Harrison o reverenciou de forma brincalhona e não conseguiu segurar o riso. — Estava quase ordenando que recolhessem a louça do almoço para o preparo de um chá. — Reclamou depois de se cumprimentarem ao som de risos dos dois.

— Tive alguns imprevistos, peço perdão. — Sorriu. — Não irá convidar sua majestade para adentrar sua nobre mansão? — Debochou.

— Claramente não. Libertinos não passam. — Devolveu no mesmo tom e algum tempo depois caíram no riso.

Foram em direção à entrada para que pudessem estar acomodados em um lugar mais privado que a fachada da mansão. Já tinha algumas horas desde o desjejum dos Haylock e o cheiro do almoço sendo preparado rondava o térreo do local. Antes de irem para o salão de visitas, Harrison e conseguiram contrabandear uma provinha do almoço graças à adorável cozinheira da família.

— Por motivos de educação, já que foi-me fornecida a informação, qual foi o contratempo que tivestes no caminho? Necessitas ajuda? — Harry perguntou com um grande tom de desinteresse, já prevendo os contratempos que o príncipe sempre tinha.
Ao encará-lo, teve a confirmação de que realmente não precisaria se preocupar levando em consideração o sorriso travesso nos lábios do amigo.

— Já o resolvi com ajuda específica.

— Sem mais detalhes, eu não preciso! — Exclamou sentando-se em uma das poltronas do local ouvindo o riso do outro. — E então, qual número na sua lista de “Pretextos para adiar o encontro com a Rainha” eu sou?

— Oras, essa lista não existe, estou só visitando alguns amigos. — Desconversou e Harry riu. — Talvez o quinto. — Admitiu após ouvi-lo.

— Nossa, falando de saudades, eu sou o amigo que você menos gosta. — Zombou.

— Não fale tolices, geograficamente falando, você é um dos mais próximos do que quero estar longe. — Respondeu rindo.

— Oh céus, príncipe , ninguém me avisou que viria! Olhe seu tamanho, estou realmente ultrapassada! — A voz da marquesa ecoou no salão.

— Marquesa de Bristol! Que alegria reencontrá-la! — cumprimentou Theodora amigavelmente.

Depois de alguns longos minutos em conversa com a marquesa, ela precisou se retirar em nome de alguns assuntos que precisava tratar antes do almoço e deixou claro para que sentisse-se em casa. Era ótimo para o rapaz tirar um tempo com os Haylock, levando em consideração que havia criado-se brincando com o filho mais velho do casal e conhecia a caçula desde o nascimento. Sem contar que o bondoso casal de marqueses eram de uma simpatia sem igual e o tratamento materno que recebia de Theodora o fazia querer morar ali mesmo.
Depois de muito conversar, finalmente foram ao almoço e depois seguiram para uma curta cavalgada pelo campo que havia atrás da mansão.

— Harry, você não me chamou para cavalgar! — Os dois cavalheiros ouviram uma voz infantil reclamar.

— Oras, mocinhas comportadas não devem montar ao lado de cavalheiros como nós! — Harrison respondeu abaixando a frente da irmã. — Onde está ? — Procurou olhando ao redor.

— Está em uma conversa sigilosa de ladies adultas com a mamãe! — Repetiu o que havia ouvido de Theodora alguns minutos atrás e ouviu a gargalhada de .

? O que aconteceu com Lady Wilson? Não me diga que…

— Não! Nem pense em algo assim, pobre senhora… — Harrison repreendeu — Não conseguia mais acompanhar Marjorie, mamãe achou melhor delegar outra função para Lady Wilson. está há menos de um ano com minha irmã, creio.
Hm… ponderou.

— Nem pergunte, não responderei. — Interrompeu qualquer pergunta que o amigo pudesse fazer sobre a nova babá da irmã e notou o revirar de olhos dele.

— Venha, Jorie, deixemos o almofadinha que é o seu irmão mais velho de lado e vamos montar! — Estendeu a mão para a menor que agarrou-a imediatamente.

— Ela nem está vestida para tal…

— Nós não nos importamos! — interrompeu quando já estava mais distante e Marjorie apenas concordou fazendo os cachos de seu cabelo balançarem.

Harrison negou com a cabeça e seguiu os dois enquanto ria. era uma criança, mas pelo menos com sua presença nunca ficava sem se divertir.

“... Mas antes de qualquer coisa, desejaria deixar claro para não ler como se fosse uma ameaça. Não se sinta mal por sua vida não ser tão secreta quanto pensava, leitor, essa que vos escreve que possui muitas informações, sim?
Digo, lembra-se quando questionei certo alguém em seu papel de mãe? Ainda que fosse só um palpite. Recentemente chegou aos meus ouvidos que até mesmo meus palpites são certeiros.
Parece-me que realmente vossa tão temida majestade, rainha Victória, se caracteriza no padrão de mães que pouco se atentam aos filhos, mas muito os cobram. Quem provou esse fato foi ninguém menos que o príncipe . Este mesmo que acaba de retornar às suas raízes.
O que posso informar, por hora, é que o clima, quando reunidos progenitora e primogênito no mesmo cômodo, desce a temperaturas glaciais dada tamanha indiferença de um para com outro.
Qual será o motivo para uma relação entre uma mãe e um filho ser dessa maneira?
Não sabemos… ainda.
Ainda assim, informações como essa nos fazem refletir se nascer com tanta responsabilidade, como ser o primogênito do casal real, é realmente ter sorte.
Oh, e falando de sorte…”



Lake of House Haylock


Com um suspiro pesado, finalmente ergueu a grande bacia de madeira com água dentro. Pensava seriamente na conversa que havia acabado de ter com a Marquesa. Mudaria sua vida em todos os aspectos aceitar tal proposta e sabia que não teria opção melhor e nem como agradecer Theodora por ajudar a tratar a doença do pai. Também precisava ser rápida a responder pois nem a saúde do seu pai tampouco o início da temporada a esperariam decidir o que seria melhor. Ainda precisaria de uma espécie de treinamento para que aprendesse o básico de boas maneiras para conseguir estar à altura de se jogar em meio a burguesia inglesa.

Bufou quando percebeu o longo caminho que precisaria completar até chegar onde iria largar a bacia que havia prometido levar para Senhora Downy. Quando chegou ao exterior da mansão, depois da conversa com a Marquesa, percebeu que a mais velha precisaria de ajuda e se ofereceu sem nem pensar na distância que enfrentaria já que o poço estava no dia de reparos.
Distraída com o peso que carregava e com os mil pensamentos que tentava interligar, só despertou deles quando ouviu o relinchar de um cavalo. A primeira coisa que fez, foi ter certeza de que estava em uma calçada e quando a teve, levantou o olhar novamente.

— Perdão, senhorita! Perdi o controle da carruagem. — O cocheiro se desculpou imediatamente com um tom nervoso.

agradeceu mentalmente a bacia não ter caído de suas mãos.

O senhor não deve descer, ouça meu conselho… ouviu alguém aconselhar e um rapaz interromper a fala enquanto descia da carruagem.

— Não posso simplesmente esperar sentado se minha carruagem para de andar após um som estrondoso de um animal que dependo para chegar até minha residência, Timothee! — Observou um jovem cavalheiro se aproximar.

Riu imediatamente.

O universo só poderia estar brincando.

se convenceu naquele momento que sua sorte estava arruinada.

— Não pode ser possível! — Exclamou rindo sem humor.

— Senhorita Legumes! — sorriu a encarando. — Que prazer reencontrá-la antes de partir. — Lhe cumprimentou tirando o chapéu da cabeça.

— Eu tenho um nome, cavalheiro! — Bufou, abaixando-se para apanhar a bacia o mais rápido possível.

Se precisava de um incentivo para andar mais rápido com aquela bacia, o havia encontrado.

— Pelos céus, não deseja que eu lhe ajude? — Ofereceu ao notar o tamanho do recipiente. — Assim teremos tempo para descobrirmos o nome um do outro. — Sorriu galante.

respondeu com uma careta espontânea de tédio.

— Muito grata pela oferta, Vossa Graça, mas julgo não ser muito interessante meu local de trabalho para seu entretenimento. — Respondeu depois de um suspiro. — Com sua licença… — Sugeriu querer passar enquanto não perdia o sorriso.

— Vossa Al… — O príncipe encarou seu conselheiro com a pior expressão que poderia fazer e Timothee travou a fala imediatamente. — Digo, Vossa Graça, chegaremos com um atraso muito maior. Precisamos partir.

— Não terá como acompanhar-me, de qualquer forma. Agradeço a genuína preocupação. — soltou a fala carregada de ironia e continuou seu trajeto para voltar à mansão que não estava tão longe.

, com aborrecimento no olhar, voltou para dentro da carruagem. Depois de ter tirado um bom tempo brincando com a Haylock caçula, foi surpreendido pela figura de Timothee chegando junto de quem comandava seu transporte. A rainha o havia enviado para que ele chegasse a tempo do início da temporada. Para sua sorte, conseguiu rapidamente ludibriar aquele que se apresentou como conselheiro e o convenceu a fazer mais algumas visitas a alguns amigos nas cidades ao redor, contanto que eles fossem embora de Bristol ainda naquele dia, chegaram a um acordo.

Bufou quando estava acomodado no assento e não conseguia acreditar que havia perdido duas oportunidades de descobrir o nome daquela senhorita em um só dia.

“… O que é a sorte, não é mesmo? Alguns relacionam a símbolos, outros a estudam e alguns simplesmente acreditam não ter. Pois eu sou do tipo que deixa acontecer e parece que não apenas a mim interessa deixá-la agir.
Conde MacGyver aparenta estar contando com a sorte para arranjar um bom casamento à irmã, visto que encontrou algum ponto negativo em todos os cavalheiros que ousaram pisar na residência MacGyver demonstrando interesse pela donzela mais velha da família. Uma pena, dada a tremenda raridade em modos e beleza que é . Torço para que a carranca do jovem conde não amedronte a todos, quem sabe Vossa Graça não sorria diferente para alguma senhorita nesta temporada e largue a mão da irmã por um momento? Dizem que os ventos primaveris são milagrosos!...
Por outro lado, nossa doce princesa segue sem muitos pretendentes, o que não é uma total surpresa. Quem se apresentaria para tal responsabilidade de tentar ser o grande amor de nosso diamante? Acho admirável e ainda muito curioso como a Princesa conseguiu convencer a família real a deixá-la encontrar alguém e não encontrar o “amor” por outros meios. Bem, eu descobrirei e não deixarei de compartilhar... ’’


Atualmente



Ashworth's House, London


A taça que continha o restante da limonada que bebia foi deixada na mesa com cuidado. Estava em uma conversa animada com desde o término da última dança. Sentia que a moça era sempre genuinamente simpática e gostava de desenvolver conversas junto à ela, já que concordavam muito nos assuntos que iniciavam.

Oh céus, não possuo danças com o príncipe e sequer tenho espaço no cartão para ele. Que não seja para mim. — reclamou disfarçadamente quando notou caminhando na direção das quatro. Theodora e Amélia conversavam próximo de onde as mais novas estavam. Também mentiu, levando em consideração o cartão vazio por conta de seu irmão. olhou-a divertida por isso.

Entretanto, minutos depois sentiu o corpo paralisar e arregalou os olhos. Bebeu um pouco mais de sua limonada. a encarou com compaixão.

— É com você? — Sorriu pequeno, soltando ar pelo nariz. — Não fique nervosa, é o príncipe, mas não fará nada demais. — se aproximou. — Na verdade, é um grande bobão. — Riu baixinho e se afastou rapidamente quando o viu chegando.

quase chorou ao se encarar sozinha no salão, mas, quando sentiu o cheiro do príncipe próximo de si, desejou estar sozinha novamente. Não sabia como o encararia e tampouco queria. De qualquer forma, não poderia fugir por muito tempo e decidiu encarar as consequências de seus atos e respostas de um dia ruim.

, por outro lado, sentia as consequências de um irmão com exigência em alto nível, que espantou inúmeros possíveis nomes marcados em seu cartão, e agora encontrava-se sem par na animada valsa que recém havia sido iniciada e ecoava pelo local. Sabia que estava sendo observada por sua mãe a alguns metros de onde estava e a única opção possível seria voltar ao seu encontro e da Marquesa.

Perto do trajeto de lady MacGyver, o Duque de Norfolk estava, de maneira falha, tentando alcançar a mesa de limonadas para que algo aliviasse o calor do ódio que já sentia correr por dentre suas veias ao ter decidido enfrentar um baile durante a temporada. Tinha, pelo menos, três mães ou tias apresentando uma donzela tímida a cada cinco passos e não conseguia mais criar qualquer desculpa. Para um cavalheiro de personalidade sarcástica e pensamentos criativos, estava se saindo muito mal em perder para um aglomerado de titias. Pelo menos era o que ele pensava.

— Duque Norfolk! Boa noite! Que grande surpresa encontrá-lo aqui, Senhor! — Lady Frankemöller entrou à sua frente, acompanhada da filha do meio, Carmelitta, quando estava a poucos metros da mesa com bebidas. fechou os olhos, unindo o pequeno resto de paciência que lhe restava e sorriu para as mulheres à sua frente.

— Lady Frankemöller… — Cumprimentou. — Imagino que folhetos com informações não convencionais sobre a burguesia inglesa não lhe apeteçam, por isso não sabia de minha vinda. — Continuou com o sorriso encarando-a e a mulher a sua frente sequer alterou sua expressão de ânimo.

— De fato, a ideia de inspecionar a vida alheia me dá calafrios. — Fingiu um desconforto — Vejo que ainda não teve a oportunidade de ser apresentado formalmente a uma de minhas lindas meninas! Apresento-lhe Carmelitta! — Puxou a moça pelo braço.

— Imenso prazer encontrá-la, senhorita! — Cumprimentou com a cabeça e foi correspondido por um sorriso um tanto peculiar. suspirou e olhou ao redor, observando uma donzela caminhando sozinha, voltando da mesa com limonadas. Não era uma estranha, mas se fosse conhecida não estaria forçando-se a lembrar de onde a conhecia.
— Pensava em perguntar por quanto tempo o Senhor ficará prestigiando a capital com sua presença. — Mais uma vez foi despertado pela voz da senhora a sua frente e engoliu seco.

— Milady, realmente me encanta nossa conversa, mas tenho uma dança para agora, preciso chegar até meu par. Obrigada por sua recepção, com licença, senhorita! — Se distanciou rapidamente.

Andou em passos rápidos ouvindo alguns resmungos da parte de Lady Frankemöller, mas não se importou nem um pouco, contava com que ela ficasse com uma grande má impressão de sua pessoa e nunca mais o parasse para ser apresentado a filha nenhuma dela.

— Mil perdões, milady, não tive a intenção! — desculpou-se depois de esbarrar propositalmente na dama que vira há pouco.

— Não há problemas, vossa graça! — Ouviu a voz suave ecoar em seus ouvidos. — Por sorte nenhum dos dois saiu machucado. — Sorriu olhando-o.

— Estás bem de certeza? — Perguntou mostrando preocupação.

— Tudo corre bem, minha filha? — Amélia perguntou aproximando-se.

— Sim, mamãe, apenas um esbarrão. — Sorriu para a mais velha que concordou ao responder.

— Lady MacGyver, boa noite! — Cumprimentou-a com um sorriso genuíno nos lábios. Ao longe preferia que a mãe de seu melhor amigo apresentasse sua filha do que a última Senhora com quem havia esbarrado.

A mãe de seu melhor amigo. Sua filha.

? — Perguntou mostrando surpresa.

— Sim, vossa graça, quanto tempo que não nos vemos! — sorriu.

— Tantos que sequer lhe reconheci. Peço perdão, senhorita. — Pediu mais pelo fato de ter pensado em ser apresentado com outras intenções para a irmã mais nova de seu melhor amigo. Balançou a cabeça espantando os pensamentos. apenas afirmou suavemente com a cabeça. — Não tens um par para dança? — Perguntou sem conseguir controlar a curiosidade.

A jovem encarou a mãe que incentivou-a com a cabeça, discretamente.

— Meu irmão está um tanto quanto exigente nessa temporada. Mamãe o espantou, aconselhando-o que fosse dançar com alguém, para que eu pudesse respirar. — Brincou e o Duque sorriu.

— Lorde MacGyver custará a aceitar o crescimento das irmãs, isso implicará notar que está cada vez mais próximo de arrumar alguém para si, também. — Brincou de volta e notou o sorriso crescer do rosto da menina.

Ao mesmo tempo em que achou linda a forma que ela sorria, lembrou-se de não encarar por muito tempo. Tinha noção das exigências de seu irmão, e também que não se encaixava na maioria.

Despediu-se momentos depois e saiu pensando no porque sequer considerou estar dentro das exigências de . Era , a inocente irmã de seu melhor amigo, o que ele estava pensando? O que quer que fosse, parou de fazê-lo no momento em que foi parado por mais uma mãe com uma filha sem jeito em seu encalço.

Não tão perto dali, dançava Lord MacGyver acompanhado da Senhorita Saritta Frankemöller. Depois de muita insistência por parte de sua mãe para que convidasse alguma donzela para uma dança e mais uma apresentação de Lady Frankemöller para ele, decidiu assinar o cartão de sua filha menos desagradavel e partir para uma dança de modo que parasse de ouvir queixas da irmã e da mãe, nesse baile, acompanhadas da Marquesa.

Em meio a uma conversa surpreendentemente agradável durante a dança com Saritta, MacGyver sentiu o corpo chocar contra o de alguém e virou-se imediatamente para desculpar-se.

— Desculpado, Lord MacGyver, tenho uma dança para seguir! — Princesa interrompeu qualquer tentativa de falar e Saritta riu discretamente da situação. Voltaram a dançar imediatamente.

— O erro não foi meu, apenas para constar. — Comentou ao encontrarem o ritmo novamente e donzela a sua frente concordou.

— Não duvido disso, milorde, és um bom dançarino. — Elogiou e arregalou os olhos.

— Esperava um nível maior que bom. — Admitiu.

— Nesse caso, melhore. — Saritta soltou e riu surpreso.

Assim que a dança acabou, devolveu a moça para a mãe e retornou para perto de sua família. estava retornando com no mesmo momento, ao lado da mãe e Theodora observando disfarçadamente a conversa de com o príncipe.

— Obrigado por sua companhia, milady. — agradeceu ao deixá-la próxima da marquesa.

— Eu que agradeço pela valsa, Vossa Alteza. — Sorriu em resposta. Depois da dança, realmente descobriu que o tipo do príncipe não era o que imaginava, mas ainda não daria o braço a torcer.

No fim, danças melhor que eu, Senhorita Legumes! — Sorriu depois de cochichar para e vê-la ruborizar.

Na verdade, sou uma dançarina mediana. Talvez precise treinar, Vossa Alteza. — Provocou despertando riso no cavalheiro.

O príncipe despediu-se das mulheres da roda e saiu acompanhado por , que havia terminado uma conversa com a irmã.

— Meu amigo, longe de meus interesses querer ditar seus métodos para a aprovação do noivo de sua irmã, mas se continuares assim, dificilmente terá alguém para aprovar. — Comentou quando já estavam distantes.

— Oras, sabes tanto quanto eu a grandiosidade de conhecer quem acompanhará aquela que cresceu ao seu lado e dentro de sua proteção pelo resto da vida. — respondeu.

— Estima-se que sim, meu lorde, no entanto, a Princesa que está sendo acompanhada pela rainha possui um cartão mais rabiscado que o de Lady . Ela merece, ao menos, divertir-se. — aconselhou e respirou fundo.

— Oh, o que você acharia se eu fosse convidar sua irmã a dançar? Gostaria que ela se divertisse? — perguntou desafiador e o príncipe o encarou sorrindo debochado, cruzando os braços.

— Por que não? És meu melhor amigo, confio em você. — Respondeu imediatamente. — E mesmo assim, ela diria não.

— Como sabes? — perguntou ofendido.

— Ah, Lord MacGyver, a dança de vossa alteza é muito superior à vossa! — soltou e arregalou os olhos. — Tente. — Propôs e semicerrou os olhos parando por um momento.

— Pois saiba que vou. — cismou. deu de ombros.

O Conde havia caído facilmente no truque do Príncipe. provavelmente aceitaria dançar com o amigo, tinha até suspeitas de que a irmã sentisse algo pelo cavalheiro. Enquanto isso, correria atrás de alguém para apresentar formalmente a e, quem sabe, fazer a menina sorrir com uma dança durante a noite.

, astuto, aproximou-se de que observava a filha dos Ashworth tocar alguma canção, como todo ano fazia. Estava acompanhada da Rainha, como de costume. Aproximou-se do grande número de guardas que rodeavam as duas e ficou no campo de visão da Rainha que não o deixaria passar despercebido.

— Oh, Conde MacGyver! — Alguns minutos passados e dito e feito. — Por favor, aproxime-se! — A rainha ordenou e assim o fez.

Alguns longos minutos de conversa durante a apresentação da filha da família anfitriã e finalmente achou uma brecha para pedir uma dança com a princesa que estendeu-lhe seu cartão sem problema algum.

Acredite, se eu pudesse lhe diria não. Tenho de ter precaução com meus dedos. Já quase me derrubou. cochichou quando os dois seguiram para o meio dos casais que já se arrumavam para o início da coreografia.

sorriu, se dando por vencido. Não teria respostas a altura e estava quase aceitando ser um dançarino medíocre.

“ … E entre tantos segredos reais e burgueses, chegamos ao fim de mais um baile de nossa amada temporada, que mesmo sendo o segundo, foi marcado por muitos primeiros encontros e, consequentemente primeiras impressões, boas e não tão boas. Cabe a cada cavalheiro e donzela decidir se elas permanecerão assim até o fim desse clima primaveril tão agradável. Ah, e não esqueçamos que ainda temos um longo período para causar impressões em inúmeras pessoas, portanto, tratem de decidir como querem ser vistos perante a alta sociedade.
Algo que me deixa em plena empolgação são os cortejos que ocorrerão no dia seguinte. Tudo começa a ficar mais evidente após o segundo baile. No entanto, nos resta aguardar.

E mais uma vez lhes deixo com muito sentimento positivo e promessa de retorno,

Att, Lady Spynformant."


¹ O mercado de São Nicolau é um mercado em Corn Street, Bristol, Inglaterra, no The Exchange, no centro da cidade de Bristol.
² Assombração, figura que assusta, espectro. Pessoa cuja presença causa desconforto, repugnância. Vem do grego phántasma.





Continua...



Nota da autora: Oi!!! Tudo bem gente? Peço desculpas pelo sumiço e venho justificar que o trabalho está me afogando em tarefas. A vida adulta não me permite sossego.
Aviso importante para bom entendimento do capítulo que vem: Todo folheto que é escrito no capítulo que vocês leem, só é ''lido'' pelo personagem no próximo capítulo.
Ex: O folheto do capitulo dois só foi comentado por algum personagem no capitulo três.

Muito obrigada por terem permitido a fic ter entrado no mais lidas no fim do mês passado, me deixou incrivelmente radiante! Vocês são demais!

Juro que vou atualizar mais!

Beijoooos!
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