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Última atualização: 17/06/2021

Prólogo

Largo Grimmauld, 1996.
Aquela sensação amedrontadora de que algo muito ruim estava para acontecer veio pela segunda vez depois de muitos anos. Desde aquela noite fatídica, eu aprendera a temer esse sentimento com todas as forças que me restaram, que não eram muitas.
Agora, quando as coisas pareciam estar tomando um rumo e tinha, finalmente, conseguido resgatar algumas pequenas partes da minha antiga vida mesmo com o retorno de Voldemort pairando nossas mentes, eu sentia mais medo do que nunca.
Snape acabara de avisar a Ordem da Fênix que os Comensais da Morte tinham, de alguma forma, atraído Harry e alguns amigos para o Ministério da Magia. Depois de receber a notícia, ninguém pensou duas vezes antes de partir direto para lá, Sirius estava desesperado, assim como eu.
Havíamos perdido muitas coisas: amigos, familiares, tempo e reputação. Nesse momento, todo o mundo bruxo acha que traímos os Potter, poucas pessoas sabem o que realmente aconteceu. Agora, tentando recuperar o que nos foi roubado, Sirius e eu nos concentrávamos nele, buscando deixar essa impotência que os dois sentiam ir embora, como se pudéssemos ter feito mais ou de maneira diferente.
Trocamos um olhar na sala do casarão dos Black, aquele mesmo que trocamos há muitos anos, quando nos vimos pela primeira vez no trem e, embora os dois demorassem muito para admitir, reconhecemos um ao outro de imediato, como se não fosse o primeiro encontro. Foi estranho para duas crianças de 11 anos, mas tinha sentido para os adultos de 35.
É claro que ao receber a informação, um cabeça dura como o Sirius não acreditou, mesmo tendo os lapsos de memória que eu tinha. Não duvidei nem por um segundo do que Dumbledore nos contou, o que eu não queria aceitar era que tinha que ser justo ele!
Sustentamos o olhar até que os outros estivessem prontos para partir, eles foram até a entrada da casa, querendo nos deixar sozinhos. Sirius se aproximou de mim, pegou nas minhas mãos e beijou minha testa suavemente.
- Vamos ficar bem, . - falou com a voz incerta, apertando suas mãos nas minhas, senti meus olhos lacrimejarem. - Vai dar tudo certo, eu prometo.
O problema era esse. Não podíamos prometer que tudo ficaria bem, já tinha terminado em tragédia uma vez, poderia muito bem acontecer de novo. Ainda mais se ela estivesse lá. Merlin, eu desejava com todo o meu coração que não estivesse, seria mais uma batalha perdida.
Depois desse breve momento, nós nos juntamos aos outros e partimos para o Ministério atrás de Harry, esperando que não fosse tarde demais, esperando que todos voltássemos para o Largo Grimmauld bem.


Capítulo 1 - A mais dolorosa memória de Phineas Black

Hogwarts, 1976
Era a quinta vez que brigava com Sirius Black naquela semana. E hoje ainda era quarta-feira.
Só que dessa vez, Flitwick e McGonagall decidiram nos levar até Dumbledore, já não era sem tempo, ao longo de todos esses seis anos em Hogwarts não houve uma semana na qual Sirius e eu não tivemos pelo menos um conflito. Mas dessa vez, foi um pouco mais exagerado.
Estava conversando com Sarah, minha melhor amiga e companheira de casa, e algumas meninas da Grifinória com quem eu havia feito amizade no trem ao vir para Hogwarts, não fomos selecionadas para a mesma casa, mas isso não nos impediu de prosseguir com o contato. Lily, Dorcas, Mary, Alice e Marlene eram meninas extremamente divertidas e Sarah acabou se juntando ao grupo quando passei a conhecê-la melhor.
Quando podíamos ter um tempo juntas, já que a grade de horários não era a mesma, bem como o salão comunal, ficávamos nos jardins, perto do lago. No entanto, nesse dia, outros quatro grifinórios decidiram passar um tempo lá também. O problema é que eu não me dava nada bem com um deles.
Aí já viu, não é? Começamos a discutir, era irresponsável para lá, certinha demais para cá, até que uns feitiços começaram a ser lançados e fomos parar dentro do lago. Agora, nós dois pingando pelo caminho todo até a sala do diretor, éramos conduzidos por Flitwick e McGonagall com faces um tanto severas, apesar do professor tentar inutilmente conter um risinho que despontava do canto da boca.
- Bombas de chocolate. - McGonagall falou em alto e bom som, até que uma escada começou a surgir, indicando o caminho até a sala diretor- Subam, por favor.
Foi mais um embate para entrar na sala, um querendo entrar primeiro que o outro. Conseguimos chegar até o interior do local sem nos matar, mas foi difícil.
Dumbledore nos aguardava sentado em sua cadeira, a sala era repleta de objetos e engenhocas mágicas extremamente interessantes, era um lugar pouquíssimo visitado e eu tinha muita curiosidade de ver tudo por lá, saber a função de cada coisa, mas isso, só o próprio Dumbledore tinha o privilégio de fazer.
- e Sirius... - disse ele, com uma voz calma e suave, quase como se tivesse se divertindo com a situação - Não é a primeira vez que os diretores de suas casas vêm reportar esse tipo de comportamento, penso que talvez tenha sido um tanto presunçoso ao imaginar que deveria esperar vocês se formarem para revelar uma informação que tive acesso quando me tornei diretor.
- Que informação poderia envolver nós dois? - questionei, Sirius e eu não tínhamos absolutamente nenhuma relação, meus pais eram trouxas e ele vinha de uma longa linhagem de bruxos “sangue puro” que prezavam muito por manter esse título, no entanto, ele não dava a mínima atenção a isso.
- Creio que, além das usuais brigas, seus diretores reportaram que vocês dois constantemente tenham tido o que podemos chamar de lapsos de memória, estou certo? - o professor falou, era algo que me tirava do sério, eu tentava arduamente entender o que era, mas nunca obtive uma explicação plausível, já questionei o professor Flitwick, chequei todos os livros que tinha acesso na biblioteca e tive uma longa conversa com a professora Slora, que dava aulas de Adivinhação em Hogwarts.
- Sim. - eu respondi.
- Não. - Sirius falou ao mesmo tempo e olhei para ele imediatamente como se dissesse “sério mesmo?”
- Não é possível que você vai mentir na frente do Dumbledore. - exclamei, cruzando os braços - Você mesmo me disse que tinha visto uma cena igual a mim enquanto brigávamos perto do campo de quadribol.
- Eu estava sonhando, . - desconversou ele, revirando os olhos - Aquilo é impossível de...
- Impossível é você estar “sonhando” completamente acordado e ter a mesma visão ao mesmo tempo que eu tive, Sirius. Dumbledore, eu já tive isso várias vezes, foi intensificando com o tempo, acontece principalmente em Hogwarts e eu me vejo, só que de um jeito muito diferente, não é a mesma época e nem pode ser o futuro. Também já vi o Sirius na mesma situação.
- Isso é impossível!
- Você consegue aparatar de um lugar para o outro e fazer objetos levitarem e ainda acha isso improvável? - falei, arregalando os olhos como sempre fazia em discussões com ele - Você é muito cabeça dura.
Antes que Sirius pudesse replicar, Dumbledore interveio para revelar a informação que mudaria completamente a vida daqueles envolvidos:
- A Srta. está certa, Sr. Black. - ele começou, lancei um sorriso convencido para o garoto ao meu lado - E eu sei que você só está fingindo que não viu nada porque é cético demais para esse tipo de coisa, mas sim, é real e tenho uma explicação.
- E qual seria? - perguntei, ansiosa, venho buscando isso há três anos, sem respostas, mal podia esperar!
- Vocês se conhecem de outras vidas. - disse ele, simplesmente, sem pestanejar, Sirius começou a gargalhar alto com o que o diretor dissera.
- Faz todo o sentido. - disse, pensando comigo mesma, já tinha lido alguns romances trouxas, bem bobinhos, sobre isso e fui pesquisar mais, não sei o porquê, mas não cogitei essa ideia, tinha certeza de que era algo relacionado à magia.
- Qual é, , você não está acreditando nisso! - murmurou ele, vermelho de tanto rir, Dumbledore permanecia sério, que cena constrangedora, Sirius era muito sem noção.
-Sirius, não estou brincando com vocês e nem tentando dar uma lição por todos os problemas que já causaram com suas brigas, estou sendo absolutamente sincero. - explicou Dumbledore, Sirius parou de rir na hora - Descobri isso porque o nosso antigo diretor, Armando Dippet, foi informado pelo diretor anterior e assim por diante, sobre algumas anotações de um ancestral seu, Sirius.
- Phineas Nigellus Black. - o garoto recitou, entediado - O que ele tem a ver com essa porcaria de vidas passadas?
- Phineas tinha um filho de mesmo nome e descobriu que ele e uma outra garota andavam tendo o mesmo tipo de visão que vocês dois têm hoje em dia e anotou em um pergaminho o que sabia sobre. - revelou ele, pegando um papel sobre sua mesa e mostrando de longe - O nome da garota era Brown, ela era nascida trouxa como a Srta. , da casa Corvinal, Phineas era da Sonserina.
- Dumbledore, você está querendo me dizer que eu tenho a alma desse meu parente aí e que a tem a da tal ? - Sirius repetiu, descrente em tudo o que o professor falava.
- Exatamente, e Phineas também haviam se encontrado em uma vida bem mais antiga, da época dos primeiros anos de Hogwarts e eram ainda mais diferentes do que vocês são hoje. - ele continuou, fazendo uma pausa rapidamente - Está é uma das poucas situações que nós bruxos sabemos tanto quanto os trouxas. É algo que vai muito além da magia, é bem mais que isso.
- Você quer dizer que essa é a terceira vez que estamos vivendo? - questionou Sirius, o jeito que ele falava deixava aquilo estranho.
- Sim, vocês foram evoluindo muito com o tempo porque se conheceram e mudaram um ao outro. – continuou - Phineas é completamente diferente do que foi antes, naquela primeira vida, assim como Sirius é bem distinto do que já foi, Sirius, você está na Grifinória porque teve a coragem de finalmente ir contra sua família anteriormente.
- E hoje em dia eles me odeiam e fui deserdado. - expôs ele, passando a mão nos cabelos encharcados - Tudo isso porque eu, sendo Phineas, fui contra minha família?
- Phineas disse abertamente aos familiares que era a favor dos direitos dos trouxas, mudou muitas opiniões porque conheceu Brown, além de tudo, eles se apaixonaram.
- O QUÊ? - e, por incrível que pareça, os dois disseram ao mesmo tempo.
- Vocês não só se conhecem de vidas passadas como também são amores de vidas passadas. - repetiu Dumbledore, fazendo meu queixo cair, tinha que ser justo ele, Merlin? - Foi por isso que são diferentes hoje em dia, vocês são pessoas melhores em vários quesitos, mas isto não quer dizer que outras almas mudaram, a história repete até que todos tenham aprendido as lições, pelo menos é essa a conclusão que os nossos diretores chegaram, eu acredito no mesmo.
- E quem foi que não aprendeu? - perguntei, um pouco assustada, nunca acabava bem nos livros - Aconteceu algo com a ou com Phineas no passado?
- Acho melhor que vocês vejam. - o diretor disse, ele levantou de sua mesa e foi até um dos lados da sala que não podíamos ver, voltando com um pequeno vidrinho com uma nuvem espessa dentro e uma Penseira que pairava no ar- Esta é uma Penseira, podemos ver memórias de outras pessoas, mesmo as mais antigas, bem aqui.
- E o que vamos ver? - Sirius perguntou, enquanto nos aproximávamos do objeto indicado por Dumbledore.
- Vocês verão uma das memórias mais pessoais de Phineas, creio que vão entender quando tudo terminar. - o diretor explicou, ao me aproximar, vi que era um objeto de pedra rasa, com runas entalhadas dos lados, dentro havia um fluído branco, lá, Dumbledore despejou o conteúdo do vidrinho - Mergulhem em seu interior e entendam o que aconteceu.
Sirius e eu ficamos um de frente para o outro, o objeto era bem largo para caber nós dois, trocamos um olhar nervoso, balançamos a cabeça um para o outro e mergulhamos no fluído.

Estávamos no meio de um campo com grama alta entre as montanhas, nunca havia estado naquele lugar, mas sentia que já tinha estado lá, normalmente, as visões que eu tinha eram em Hogwarts, então, aquela era inédita.
De longe, um casal de mãos dadas foi se aproximando, quando eles chegaram perto o bastante, nós vimos Sirius e eu um pouco mais velhos do que agora, mas éramos nós, não tinha como não ser.
- Você foi queimado da tapeçaria da sua família por ser normal? - disse , sorrindo para Phineas - Isso não faz sentido algum.
- Isso não é o normal para minha família, , você sabe. - respondeu ele, suspirando - Mas prefiro ser deserdado do que concordar com eles e não estar com você.
- Phineas, você mudou demais desde quando te conheci. - ela reconheceu, parando de andar para olhar no fundo dos olhos dele, como se estivesse tomando fôlego para dizer aquilo - Foi por isso que comecei a me interessar, você não era como eu imaginava, só não tinha coragem para tomar a decisão certa e sinto que te dei essa coragem, você me fez ver o mundo com outros olhos, a dar uma segunda chance, a acreditar mais nas coisas que parecem impossíveis, mas no fundo, não são. E eu amo você por isso e por muito mais.
Ouvimos um leve estampido, tão suave que os dois quase não notaram. estava em lágrimas naquele momento, eu sentia a angústia em mim, algo não daria certo. O casal olhou para o lado e uma mulher, vestida inteiramente de preto, olhava para os dois com uma cara de repulsa visível, ela tinha acabado de desaparatar lá.
- O que você está fazendo aqui, Belvina? - Phineas perguntou, os olhos cheios de raiva - Não fui excluído da família? Creio que tudo que faço daqui em diante não os interessem mais.
- Ah, meu irmão, isso é jeito de tratar alguém da família? - ela falou, dando um sorrisinho venenoso, para então olhar com nojo, eu senti aquele olhar, eu era ela também, já havia sentido isso- Não acredito que trocou tudo aquilo por essa sangue ruim, francamente, Phineas, achei que soubesse escolher melhor.
- Ele sabe escolher, Belvina, por isso não concorda com essa segregação horrível que sua família prega. - gritou em meio às lágrimas que escorriam sem parar por seu rosto.
- Ainda tem coragem de falar comigo desse jeito? - Belvina exclamou, dando um riso de escárnio - Acha mesmo que você é melhor do que eu? Eu tenho aversão a você, todos os bruxos deveriam ter e deveriam voltar a ser como antes. Só os puros merecem estudar naquela escola e receber educação mágica, vocês não passam de sangues ruins, filhos de trouxas e tão ignorantes quanto eles.
- Não fale assim com ela, Belvina. - Phineas disse, exasperado, os dois estavam lado a lado, de mãos dadas, como , eu sentia medo, medo de Belvina e do que ela poderia fazer - Vá embora, qualquer coisa que você fizer ou falar não vai me fazer mudar de ideia.
- Será mesmo, irmãozinho? - Belvina cantarolou, ela estava se divertindo com a situação, maldade pura emanava dela - Não queria atrapalhar o casal, mas você não me deixou outra opção, Phineas, foi você quem escolheu isso.
Antes que qualquer um dos dois pudesse pensar em puxar a varinha para se defender, Belvina ergueu a mão direita com a varinha em punho na direção de e murmurou:
- Avada Kedrava!
- NÃO! - gritou Phineas quando a luz verde despontou e atingiu , mas ele não poderia evitar, ninguém nunca sobreviveu à maldição da morte - Belvina, o que você fez?
Phineas caiu de joelhos na grama, segurando o corpo sem vida de nos braços, ela tinha os olhos vidrados, uma última lágrima escorria por seu rosto, eles ainda tinham as mãos unidas.
- Você achou mesmo que eu deixaria essa desonra perdurar por tanto tempo assim? - Belvina disse, com ódio nas palavras, balançando a cabeça negativamente para o corpo que jazia no chão - Ela recebeu o que merecia.
Com essa última frase, Belvina aparatou de volta para o lugar de onde veio, Phineas gritava inconsolado, abraçando o corpo de , eu tinha a visão do meu próprio corpo caído no chão, estava aterrorizada.
- Minha . - Phineas murmurou, chorando, os olhos já vermelhos, a dor que ele sentia era quase tocável - Não pude dizer, , mas eu amo você, sei que vamos nos encontrar de novo, duas vidas não são o suficiente para nós dois, nós sabemos disso mais do que ninguém.
Era um amor tão grande e profundo que sentia das palavras dos dois que não podia ser tão recente assim, não havia como duvidar de Dumbledore depois disso.

Nós estávamos de volta à sala de Dumbledore, de volta ao ano de 1976, assim que levantei o rosto, Sirius olhava assustado para mim. Dumbledore tinha sua face neutra, como sempre.
- Você morreu. - Sirius disse, exasperado - A Brown morreu e você é igualzinha a ela.
- Você se lembra de que estava lá também, não é? - lembrei-o, minha voz estava fraca, aquela memória tinha me abalado - Acredita agora?
- Depois disso, não tem como duvidar, eu estaria agindo como um burro.
- Dumbledore, isso quer dizer que tem alguém que quer me matar?
- Existe sim uma pessoa que possui a alma da antiga Belvina, mas creio que Sirius não tenha nenhuma irmã.
- O Régulo não pode ser, ele é meio apático com a situação toda, muito filhinho de papai para agir dessa forma.
- Como vamos saber quem é essa pessoa? Eu não quero morrer desse jeito de novo!
- Sinto em dizer, mas é muito difícil identificar se a pessoa não demonstrar sinais, fique atento, Sirius, ela muito provavelmente é da sua família.
- Que família de merda, viu? – o garoto exclamou irritado - Esse problema todo é porque nenhum deles age como um ser humano normal, querem insistir nessa coisa de pureza e odiar nascidos trouxas.
- Bom, acho que meu trabalho aqui terminou, , deve entender o porquê da minha demora agora, não é? - Dumbledore disse, concordei, pois jamais haveria uma hora certa para mostrar sua própria morte a alguém.


Capítulo 2 - As vantagens de ser abelhuda

Após a informação que Dumbledore havia dado a Sirius e eu, começamos a implicar bem menos um com o outro. E é claro que todos notaram.
- Vocês não brigam há duas semanas. - Sarah disse enquanto tomávamos café da manhã, eu tinha o jornal na mão e um copo de suco no outro - Coisa que só aconteceu naquela vez que ele e os amigos estavam muito diferentes e mal falaram, até os professores estão achando essa trégua estranha.
- Ah, Sarah, eu já expliquei a história toda para você. - exclamei, tirando os olhos da matéria que estava lendo - Sirius deve ter ficado com vergonha de sua família estar envolvida na minha... Quero dizer, na morte de Brown. E não brigamos nenhuma vez porque estamos nos ignorando mutuamente.
Havia contado tudo para Sarah e as meninas, claro que a primeira aceitou muito mais facilmente que as outras sendo a boa corvina que era. Eu tinha certeza que Sirius também disse algo aos seus amigos, James Potter, Remus Lupin e Peter Pettigrew. Os três vinham me olhando muito estranhamente, só poderia ser isso.
Era extremamente estranho ver Sirius com os mesmos olhos que eu via antes da revelação, claro que ainda o considerava um mal educado de alta escala, mas acabei adquirindo uma simpatia repentina. Mesmo assim, nenhuma palavra foi dita entre nós nas últimas semanas, quase não conseguíamos encarar um ao outro, sua íris parecia refletir a cena de Phineas segurando o corpo inerte de Brown, o meu corpo.
Apesar de tudo, a vida teria que ser vivida da mesma maneira que antes, não havia muito que eu pudesse fazer para tentar impedir a minha morte, ela aconteceria de uma maneira ou de outra porque não dependia de mim. A teoria das vidas passadas estava fortemente atrelada ao destino, as coisas eram para acontecer daquele jeito e, se o curso fosse interrompido, era porque a alma responsável por ceifar a minha repetidamente havia se curado, no entanto, observando a maneira como o próprio Sirius foi deserdado, a mudança estava longe de acontecer.
Com o passar do tempo, acabei decidindo por tentar viver meus dias intensamente, exatamente como se fossem os últimos, eu saberia que a velhice não chegaria, nada mais justo do que compensar anos perdidos com as horas que tinha agora. Demorei um tempo para aceitar isso já que cheguei à conclusão de que, para que alguém desejasse me matar, eu teria que ter algo com Sirius, teríamos que nos tornar um casal e cair de amores um pelo outro, algo que, apesar da minha mente aberta, eu não conseguia ver acontecendo.
Mas tive que relembrar minhas próprias palavras e aceitar que era um destino inevitável, se Dumbledore não nos tivesse mostrado aquilo, aconteceria do mesmo jeito.

Era um fim de tarde bonito em Hogwarts, era sexta-feira e teríamos um pequeno descanso da rotina agitada que levávamos na escola. O sol estava se pondo lentamente, colorindo a área externa do castelo de laranja, eu sempre vinha ali depois do último compromisso do dia, a semana só estava devidamente concluída se eu parasse ali para admirar a estrela dar lugar à lua.
Ouvi passos na grama que se aproximavam cada vez mais de mim, quando chegou perto o suficiente, reconheci Sirius Black, porém sem o olhar zombeteiro e o sorriso ladino de sempre, ele estava quase sério.
- Como você está? - perguntou ele, apoiando as costas no mesmo tronco que eu, olhando de esguelha para meu rosto. A primeira e única vez que tinha me feito essa pergunta foi quando fingi que havia me machucado durante uma briga nossa apenas para atingi-lo melhor, desde esse acontecimento, Sirius jurou nunca mais me perguntar isso.
- Achei que você tinha sido bem enfático com a sua promessa no segundo ano. - exclamei, virando meu rosto para o lado somente para encontrar as feições do garoto iluminadas pela cor laranja, a luz do sol lhe caía muito bem.
- As circunstâncias são outras, , acho até estranho a gente se tratar como inimigo depois daquela visão. - ele disse, abaixando a cabeça ligeiramente, colocando uma das mãos no bolso e passando a outra pelos cabelos pretos que iam até os ombros - Isso é difícil para mim, mas tenho que admitir que meus dias sem implicar com você são meio... Incompletos.
- Não tenho problemas em dizer isso para você, eu também acho. - concordei, sorrindo para ele, que sorriu de volta com o comentário.
- Sabe, eu estivesse pensando aqui, não queria estragar o clima, mas...
- Sabia que essa sua postura toda séria era boa demais para ser de verdade. - exclamei, balançando a cabeça ligeiramente em discordância - Tenho até medo de perguntar, mas no que você estava pensando?
- A gente podia testar, não é? - ele começou a explicação, o olhar zombeteiro despontando na sua face, já sabia o que vinha por aí - Você já entendeu, , eu acho que a gente devia se beijar para fazer um teste desse negócio de vidas passadas.
- Não posso acreditar que você está se aproveitando disso para tentar me incluir na sua lista. - exclamei, levemente irritada, é claro que ele viu as coisas dessa forma, não era ele que morria na memória de Phineas.
- Não, não, longe de mim, jamais faria isso. - Sirius tratou de ajeitar a situação rapidamente - Mas você não acha que faz sentido? Vai que nessa vida só vemos as coisas para pararmos de ser idiotas um com o outro e não por conta de todo o significado por trás. Vai ser uma boa se falhar, não vai?
- E como um beijo iria por isso em prova, Sirius? - questionei, franzindo a testa, não podia acreditar que estava sendo levada pelas loucuras de Sirius Black, as circunstâncias eram realmente outras.
- Ah, fiquei um tempão conversando com o James, aquele papo todo de amor dele, você sabe que ele é apaixonado na Lily. - ele disse e eu concordei com um aceno de cabeça, qualquer pessoa veria isso de longe, o James não cansava de tomar fora da ruiva - Ele acabou dizendo que a gente sente quando você beija alguém e tudo se encaixa naturalmente, entende?
- Está bem, não custa nada tentar, já ouvi a professora Slora dizer o mesmo e que foi assim com a esposa dela. - cedi, observando atentamente Sirius se aproximar mais do local onde estava e ficar frente a frente comigo.
Não houve muita cerimônia, ele colocou uma das mãos atrás dos meus cabelos, segurando minha nuca, e me beijou, suavemente de início, mas quando fui ter noção de alguma coisa, minhas mãos passeavam pelos fios de cabelo de Sirius, que apertava minha cintura com vigor. Era bom demais, nada parecido com um primeiro beijo onde você passa a conhecer o outro, nós dois parecíamos saber de cor cada pedacinho um do outro, não tinha outra definição que não fosse a de que o beijo tinha encaixado direitinho. Particularmente, detestei ter conhecimento disso.
Fomos afastados somente porque nosso fôlego tinha ido pelos ares, senti que Sirius tinha experimentado a mesma sensação que eu havia tido, mas resolvi dizer:
- Bom, acho que não funcionou.
- Com certeza, não funcionou nem um pouquinho, estamos imunes dessa vez. - concordou ele, mas olhava tão fixamente para minha boca enquanto proferia a frase que tive certeza de que ele estava fingindo também.
- Acho melhor você ir, a lua cheia acabou de despontar. - murmurei para ele, indicando com a cabeça, Sirius virou-se rapidamente para trás e voltou um olhar espantado para mim - Eu sei há algum tempo, Sirius, mas não contei para ninguém, nem para o Lupin.
- Eu realmente preciso ir, mas a gente tem que retomar essa conversa depois. - exclamou ele, confuso por não saber como eu tinha conhecimento da licantropia de Remus - Volte logo para o castelo, .
- Pode deixar, ande logo, ele já deve estar precisando de vocês. - apressei, Sirius deu um breve beijo na minha bochecha (coisa inédita) e saiu correndo em direção ao Salgueiro Lutador, que era como a árvore era chamada por todos. Peguei um caminho o mais afastado possível da região e voltei para o interior do castelo, em direção à torre da Corvinal.


- Sirius! - protestei pela quinta vez com o garoto que insistia em continuar beijando meu pescoço - Eu marquei de encontrar as meninas na biblioteca para estudarmos a matéria nova do professor Binns e a gente nem iniciou a conversa ainda.
Nós dois resolvemos deixar a mentira de lado e estávamos ficando de vez quando, relutei um pouco, mas acabei admitindo para mim mesma que queria isso há algum tempo e que tinha gostado muito na primeira vez.
- Estudar é melhor do que ficar aqui comigo? - questionou ele com o habitual sorriso ladino, finalmente voltando a focar os olhos no meu rosto - Você sabe que não precisa estudar nada de História da Magia, ratinha de biblioteca.
- Primeiramente, não preciso, mas as meninas não conseguem entender a matéria ou preferem dormir durante as aulas, então sempre me disponho a ajudar. - expliquei para Sirius conforme nos sentávamos no gramado que circundava a árvore - Segundo, ratinha de biblioteca é sua mãe, você quer entender como descobri tudo ou não?
- Não seja tola, você é bem mais inteligente que a minha mãe, . - respondeu, piscando para mim- Agora, explique essa história aí de uma vez.
- Bom, sempre achei Remus uma criança um tanto diferente, ele nunca perdia aquele ar sério mesmo quando vocês estavam se divertindo. - iniciei e Sirius concordou levemente com a cabeça - No mundo trouxa, eles possuem um grande fascínio por criaturas mágicas e outras coisas que eles mal sabem que são reais, como cresci nesse mundo e às vezes alguns movimentos estranhos aconteciam comigo, eu passava muito tempo lendo histórias com fadas, bruxas, magos, fadas, vampiros e lobisomens.
- E os trouxas acham que tudo isso aí é fantasia?
- Sim, eu também achava até baterem na minha porta e explicarem que eu era uma bruxa, Sirius. - expliquei, relembrando como as coisas esquisitas que eu conseguia fazer passaram a fazer sentido - Enfim, eu tinha um conhecimento prévio dessas coisas pela visão trouxa, porém, quando fui comprar meu material, eles estavam anunciando um livro repleto de informações sobre criaturas mágicas, não queria me sentir uma completa leiga no assunto e no mundo que estava me inserindo, acabei comprando também.
- E, curiosamente, o livro tinha algo sobre licantropia.
- Sim, era bem completo, na verdade, um pouco tendencioso por tratar os lobisomens como animais, mas ainda assim tinha muito material sobre. - continuei, o garoto continuava bastante atento às palavras - Ao entrarmos em Hogwarts, o Salgueiro Lutador estava lá e fomos avisados a não chegar perto por conta do perigo que a árvore oferecia, fiquei muito intrigada já que pensei que não faria sentido nenhum deixar uma planta mortal no meio dos campos se ela não tivesse utilidade alguma, mas depois, descobri que ela só foi plantada lá pouco antes do ano letivo começar, os alunos mais velhos me disseram.
- Beleza, você acha o Lupin estranho, sabia sobre licantropia e sobre o surgimento repentino do Salgueiro Lutador. - disse Sirius, franzindo a testa ao demonstrar confusão em suas feições - Como você juntou tudo isso e descobriu que o Remus era lobisomem?
- Aquele dia você me encontrou aqui vendo o pôr do sol, eu faço isso desde sempre e eis que, somente no segundo ano, eu voltava para o castelo quando vi um Remus Lupin muito ansioso e agitado fazendo um movimento com a varinha e entrando por uma passagem no próprio Salgueiro Lutador, era uma noite de lua cheia e, no dia seguinte, ele estava todo enfaixado e com arranhões no rosto.
- Óbvio que você prestou atenção nos dias seguintes e reparou que ele ficava cada vez mais esgotado até o momento que a lua mudou de fase.
- Isso mesmo, primeiramente era só uma teoria, depois, ela foi se confirmando. E você deve ter imaginado que eu também sei que James, Peter e você se tornaram animagos.
- Não consigo imaginar como raios você descobriu isso. - Sirius disse, com olhos arregalados de incredulidade.
- Ah, você sabe que todo mundo achou muito estranho quando o James e você ficaram um mês sem falar direito, eu ia arrumar confusão e, milagrosamente, você se esquivava.
- Como você sabia sobre o processo de transformação para animago, ?
- Acho que não deve saber, mas a professora Slora também é animaga oficializada pelo Ministério como a professora McGonagall.
- E ela te disse como virar uma? Isso não é ilegal?
- Bom, sem a ilegalidade você não teria virado um, Sirius, ela me disse, pois confia muito em mim, conversamos bastante.
- Então você sabe sobre a folha de mandrágora na boca durante um mês.
- Sei, penso que as circunstâncias me fizeram descobrir tudo, eu tive compreensão do processo uma semana antes de vocês tentarem de novo e finalmente obterem o sucesso na primeira etapa.
-Foi muito difícil no início, Peter precisou muito da ajuda de James e eu, ele se desconcentrava muito facilmente, é necessário força de vontade e concentração para passar por todas as etapas.
- Fiquei admirada quando percebi que vocês três tinham conseguido, você sabe que sou curiosa, depois que imaginei que estavam tentando virar animagos, prestei muita atenção nas condições climáticas ditas pela Slora.
- Prefiro chamar de abelhuda mesmo, você sempre está querendo saber mais do que pode, .
- O conhecimento nos liberta, é esse meu objetivo, ter uma sabedoria cada vez maior.
- Sabedoria sobre a vida dos outros, só se for.
- Cala a boca, Sirius, eu não sou fofoqueira.
- Não mesmo, se fosse, teria contado sobre nós quatro para todos, você só é abelhuda mesmo. - zombou ele, rindo da minha cara quando revirei os olhos em descrença - O Ranhoso também sabe.
-Eu sei, eu vi o dia que você quase matou o Snape tentando levar ele até a passagem, qual o seu problema?
- Ah, por isso você estava tão irritada comigo na semana seguinte, faz todo sentido agora, fui burrice, eu sei, mas o Ranhoso é insuportável.
- Não gosto dele também, não me passa boas energias, mas você ia deixar seu amigo matar ele, Sirius, Remus nunca se perdoaria, mesmo sendo o Snape.
- , eu entendi que foi errado, os caras brigaram muito comigo depois, tenho uma tendência a fazer as coisas sem pensar.
- Sei bem disso, agora tenho que ir ou vou me atrasar. - exclamei, meio contrariada, levantando e ajeitando as roupas meio amassadas pelo local onde estava acomodada - Até mais tarde.
- Não vai me dar nenhum beijo de despedida? - disse Sirius com seu clássico jeito zombeteiro.
- Não, já foram muitos hoje.
Subi apressadamente em direção ao castelo, deixando um Sirius Black gargalhando para trás.


Capítulo 3 - A Força, a Estrela e o Louco

Após deixar os jardins, fui correndo para a biblioteca temendo ter deixado todas esperando por muito tempo, porém, ao chegar lá, nenhuma delas parecia muito preocupada com isso.
Sentadas em uma das mesas direcionadas para estudo, as garotas seguram risadas, tentando mantê-las baixas para que não levassem uma bronca de Madame Pince, a rígida bibliotecária que não tolerava um assobio sequer no ambiente.
- Do que vocês estão rindo? - questionei ao sentar em uma das cadeiras vazias, repousando a mochila em cima da mesa circular.
- Fofocas, , somente fofocas. - Marlene respondeu ainda risonha com o assunto.
- Estávamos contando para Mary e Alice sobre o incidente com o Young da Lufa-Lufa que te falei ontem. - explicou Sarah, apontando para as garotas mencionadas - Elas quase não aguentaram ficar quietas.
- Realmente, é impressionante o quão desastrado esse daí consegue ser. - Dorcas exclamou enquanto brincava com a pena que utilizava para escrever.
- Há cada semana temos uma história nova com ele no meio, já virou rotina. - Alice concordou, enxugando pequenas lágrimas que tinham se formado nos cantos de seus olhos por rir demais.
- E onde você estava, srta. Morris? - Lily questionou com expressões maliciosas no rosto.
- Você ainda pergunta, Lily? É claro que era com o Black. - Mary disse, juntando as palmas e batendo os cílios repetidamente.
- O grande amor dela. - Sarah continuou com a gracinha.
- Há, três vidas, é importante lembrar. - concluiu Marlene, fazendo as outras rirem.
- Vocês são umas palhaças.- disse, balançando a cabeça negativamente - Agora, voltando ao que viemos fazer aqui, querem começar pela Revolta dos Duendes?
- Na verdade, lembrei de uma coisa que aconteceu na hora do almoço na nossa mesa. - Lily começou, voltando para o assunto fofocas para fugir do assunto matéria - Conhecem a Zara Grey? Ela é da nossa casa.
- Acho que já vimos por aí, não é, ? - afirmou Sarah, assenti em concordância e Lily prosseguiu.
- Bom, chegamos mais cedo e Zara estava conversando com a Jasmine Clearwater da Corvinal e ela estava basicamente surtando por ter descoberto que você estava ficando com ele também, ouvi uns xingamentos bem desnecessários vindos da parte dela.
- Ah, é verdade, quase me esqueci disso. - Marlene disse, revirando os olhos - Ela realmente estava surtando, francamente, estamos em 1976 e ela ainda agindo dessa maneira?
- Além disso, não faz sentido nenhum ela ficar preocupada com isso sendo que Sirius sempre agiu dessa maneira. - concordei com Marlene, afinal, era sim um pensamento muito antiquado - Não é nada muito diferente das outras vezes.
- É uma pena que ela, inteligente como é, veja as coisas desse jeito. - murmurou Sarah, decepcionada.
- , sobre o que você falou, não justificando o que a Jasmine disse, concordo plenamente com vocês. - Alice iniciou, apoiando o rosto em uma das mãos - Mas acho que ela está somente enxergando o que todos também enxergam.
- E o que seria? - falei, franzindo a testa em confusão.
- Que Sirius gosta de você, ué. - Mary completou com tom de obviedade.
Neste momento, não segurei a gargalhada que quis soltar quando as meninas concordaram com o comentário de Mary, tive que parar ao reparar a cabeça de Madame Pince virando em nossa direção.
- Ah, gente, sinceramente, vocês estão viajando muito. - discordei, achando graça do que foi dito.
- Bom, , eu sempre desconfiei. - Sarah confessou com plena sinceridade - Vocês têm uma implicância surreal, mas ao mesmo tempo acho bonitinho o jeito que ele observa admirado o seu lado sabe-tudo nas aulas que temos junto com a Grifinória.
- Claro que no começo era pura birra de criança, mas agora acho que fazem mais pela diversão de ficarem discutindo do que qualquer coisa. - Lily disse.
- Vocês têm características conflitantes, mas se dão bem de qualquer forma. - adicionou Dorcas.
- Acho que está pensando que falamos isso porque descobriu que vocês dois têm uma longa história por trás, só que acho seguro dizer que sempre vimos algo a mais vindo das duas partes. - opinou Marlene, praticamente adivinhando o que eu estive pensando ao longo dos dias.
- A informação dada por Dumbledore só foi um empurrão que Sirius precisava, , confie no que estamos dizendo. - Alice completou, segurando minha mão para demonstrar apoio.
- E nós vamos provar.

No fim, desistimos de estudar e deixamos para o dia seguinte, decidi subir até a sala da professora Slora e ter uma conversa com ela porque simplesmente possuía coisas demais na minha cabeça.
Primeiro, não conseguia crer plenamente nos comentários das meninas, tinha ressalvas com relação a isso, só conseguia ver no máximo uma atração física proveniente das duas partes. Segundo, com a grande quantidade de pesadelos que tivera em uma única noite relacionados a minha própria morte, eu possuía ainda mais restrições com relação ao desenvolvimento de algo além do que já acontecia. Sabia que as consultas e conversas com a professora me ajudavam, por isso resolvi ir até lá.
Assim que fiz menção de bater na porta fechada, ouvi a voz dela murmurar:
- Entre, , já estava te esperando.
Abri a porta e encontrei o ambiente místico que já estava acostumada a visitar. Havia velas acesas, bolas de cristal, vasos repletos de plantas e decorações na cor roxa, a favorita da professora Slora e que, segundo ela, reforçava os melhores sentimentos de sua aura.
Ela estava sentada em uma mesa para duas pessoas e me indicou a segunda cadeira, sentei e reparei que ela tinha algumas cartas dispostas em cima do móvel.
- O que te incomoda, querida? - perguntou a mulher, sorrindo para mim. Normalmente ela já sabia o que me incomodava antes que eu falasse, mas fazia questão de perguntar.
- Sendo franca, estou me achando muito boba por questionar isso, mas fico pensando se essa repentina aproximação com Sirius é originada do conhecimento sobre nossas vidas anteriores. - respondi, a professora já havia disposto cartas e apontou para o monte em um pedido mudo para que eu retirasse - E por esses dias eu decidi aceitar meu destino final, mas não há lógica em ficar sentada esperando minha morte chegar, eu não quero morrer tão jovem!
Retirei três cartas do monte e as depositei com a face virada para baixo na toalha de mesa roxa.
- As três vão te dar respostas sobre seus questionamentos anteriores, querida, posso virá-las?
Ao meu sinal positivo, a professora esticou suas mãos e virou carta por carta, parando algumas vezes para analisá-las e decidir o que diria posteriormente. Minhas três cartas eram a Força, a Estrela e o Louco
- Acho que podemos dizer que temos aqui o campo sentimental com simbolismo positivo, , com as duas perguntas feitas por você com relação ao garoto Black. - iniciou Slora, observando atentamente as figuras presentes nas cartas antes de prosseguir - A Força expressa vontade e coragem, sentimentalmente demonstra a consolidação procedida por revelação de sentimentos poderosos, vejo que uma das duas partes ainda demora a aceitar tais sensações, mas são inegáveis, querida.
Após a primeira leitura da professora, engoli em seco e dei um sorriso amarelo em sua direção, pelas negações e questionamentos que eu apresentava, parecia óbvio que a parte ainda descrente era minha.
- A Estrela é um amuleto no centro do Tarot, , costuma proteger o futuro e reunir as forças necessárias para que as coisas possam evoluir favoravelmente, simboliza aqui, no cenário proposto pela sua pergunta, união e harmonia entre o casal, o que só confirma a Força e reforça os sentimentos profundos que mencionei.
Em seguida, ela baixou repentinamente o olhar para a terceira e última carta do meu jogo antes de voltar seus olhos enigmáticos para mim, era, com toda certeza, a pergunta mais importante dentre as três realizadas.
- O Louco, sinto em te dizer, é uma carta imprevisível, nesse nosso último campo com simbolismo negativo, demonstra que um mar de incertezas ainda rondam seu último questionamento, . - a professora revelou, o resultado talvez tenha tirado um pouco, quase nada, do peso nas minhas costas, mas não era um alívio completo - Nem eu consigo ter uma visão clara do que pode vir a acontecer, o resultado final ainda depende muito da ordem dos fatos até o prazo final, querida.
- Chegamos à conclusão de que ainda é um mar de incertezas, professora, não consigo dizer se vou morrer ou não, se essa tal alma assassina está mesmo na família de Sirius, se resolveu vir com um pouquinho mais de piedade da minha nessa vida ou se ainda tem a maldade de Belvina presente nela.
- Apesar do clichê, a única coisa que podemos concluir deste último campo é que somente o tempo dirá.

No momento em que deixei a sala de Slora, já tinha tomado uma decisão: eu não ia morrer tão cedo, estava decidida.
E para isso, teria que retroceder com Sirius, não precisávamos voltar ao ponto de derrubar um ao outro no lago, mas de uma amizade (nada colorida) estava ótimo. Diria isso a ele na próxima vez que o visse.
Enquanto saía, passei bem perto da biblioteca e tive vontade de pegar mais uns dois ou três livros para ler, mesmo tendo outros quatro (dois emprestados e dois que havia ganhado de aniversário) não lidos. Estava prestes a entrar no local quando fui tomada por uma tontura que já conhecia muito bem.
Em seguida, visualizei Brown, com um uniforme bastante diferente do que utilizamos agora, entrando na biblioteca. Ela estava com os cabelos presos em um coque e equilibrava uma pilha de sete livros nos braços, parou na mesa da bibliotecária, que era exatamente igual à professora Slora, e foi recebida com um sorriso por ela.
- Deve haver um recorde, , e você o quebrou. - a bibliotecária disse, movimentando a varinha em cima da pilha e fazendo os livros flutuarem até suas respectivas prateleiras - Nunca vi ninguém ler tantos livros em tão pouco tempo.
- Nada me deixa mais feliz do que essas coisinhas aqui, Madame Carroll. - confirmou, com um sorriso gigante no rosto - Estou tentando atingir o objetivo de ler o máximo possível dessa biblioteca até me formar.
- Sei bem que não é só isso que a anda fazendo feliz ultimamente, querida. - a tal Madame Carroll, que mesmo em outra vida possuía os mesmos olhos enigmáticos da professora de Adivinhação, exclamou com um sorriso lateral, a frase deixou confusa, então, a bibliotecária prosseguiu - Tenho visto seus olhares e sorrisos com o sr. Black, , sei reconhecer algo do tipo quando vejo.
ficou bastante sem graça, suas bochechas coraram e quando ia responder, senti uma pontada nas costas e ouvi uma voz gritando:
- Que diabrete te mordeu?
- Que susto! - gritei ao mesmo tempo que saltei uns centímetros do lugar que estava parada, voltando aos dias atuais, virei o corpo e encontrei Sirius rindo da minha cara - Qual o seu problema?
- Vi você parada aí tendo mais uma daquelas visões e decidi te tirar disso antes que alguém te achasse e pensasse que tinha sido petrificada. - ele respondeu, acompanhando-me quando comecei a andar para o meu salão comunal, que ficava no andar debaixo.
- Precisava fazer isso me assustando? E se eu tivesse tendo uma visão importante?
- Essa raiva toda é saudades, ? - Sirius questionou, dando um de seus sorrisos maliciosos ao levantar o braço esquerdo para envolver meus ombros, o que foi impedido pelo tapa que dei - Ai! E o que foi que você viu que era tão importante?
- Nada demais, devolvendo vários livros para a professora Slora, que era uma bibliotecária chamada Madame Carroll, e corando quando ela perguntou sobre Phineas.
- Está aí uma coisa que não mudou, você corar de timidez. - Sirius zombou enquanto descíamos as escadas.
- Eu não coro de timidez. - respondi, indignada, o que fez Sirius rir alto.
- Ah, você cora sim, principalmente quando algum professor te elogia nas aulas. - ele apontou no momento em que dobramos a esquina no corredor vazio onde ficava a torre da sala da Corvinal - Na verdade, elogios no geral te deixam assim, se bem que pode ser perigoso corar tão facilmente em todos os momentos que alguém te elogiar, .
Sirius disse a última frase com um enorme sorriso malicioso, que só cresceu quando senti minhas bochechas esquentarem, decidi mudar de assunto antes que ele cantasse vitória.
- Falando sobre saudades, eu quer...
- A resposta para você é sempre sim, . - Sirius foi muito ágil quando me interrompeu e, logo em seguida, encostou suavemente minhas costas na parede e colocou suas mãos na minha cintura, bem quando estava se aproximando do meu rosto, coloquei minha palma esquerda na sua face e o afastei totalmente.
- Você não sabe dialogar? - perguntei.
- Há momentos em que palavras não são suficientes, . - Sirius respondeu, soltando um muxoxo de insatisfação pelo afastamento repentino com uma cara que só podia ser a quem queria me convencer a continuar o que ele tinha começado.
- Mas o que tenho para dizer precisa de diálogo, Sirius. - comecei e ele assentiu com cabeça - Esse tipo de relacionamento que nós iniciamos vai terminar hoje, antes que você pergunte os motivos, eu não quero morrer, tive um momento de irracionalidade ao aceitar um destino que não desejo ter e ficar como você somente me associa mais a esse final horrível.
- Merlin, você termina como se estivesse apresentando um trabalho. - Sirius zombou, colocando as mãos nos bolsos e olhando profundamente para os meus olhos - Não é o que eu quero, mas se você quer, por mim tudo bem, podemos ser amigos.
- Ótimo, então você pode começar a inves...
- Espera, você não vai reconsiderar sua decisão depois do que falei? - Sirius perguntou com a testa franzida em indignação.
- Por que eu reconsideraria a minha decisão se é o que eu quero?
- Normalmente elas desistem depois do que eu falo, mas eu nunca realmente quero isso.
- Você é um patife, Almofadinhas. - murmurei, utilizando o apelido pelo qual James, Remus e Peter o chamavam, suspeitava de que fosse relacionado a sua forma animaga, já que o de Remus era “Aluado”.
- Eu não sei nem o que essa palavra significa, .
- Você está me enrolando, isso sim. - concluí, saindo do ponto que tínhamos parado no corredor e andando até a porta de entrada da sala comunal com o grifinório atrás de mim - Aliás, qual seu formato animago?
- Um cachorro.
- Bom, informalmente, patife também pode significar cachorro, então, você realmente é um. - disse, rindo do animal que combinava tanto com o garoto, fazendo Sirius sorrir - Você tem pulgas?
- Tenho, .
Não pude deixar de gargalhar alto ao imaginar o garoto lidando com as pragas quando animago, James realmente deveria zombar muito da cara dele.
- Já acabou? - ele perguntou, com um tom entediado que não condizia nada com o sorriso zombeteiro que tinha no rosto.
- Não que eu vá te deixar em paz quanto a isso, mas por enquanto sim. - confirmei, subindo os degraus da escada em espiral que levava até uma porta sem maçaneta e com uma aldrava de bronze em forma de águia - Terminando o que eu estava dizendo antes de você me interromper, ajude sua amiga e comece a investigar naquela sua família de loucos quem tem potencial para assassino.
- Vai ser difícil achar um que não tenha. - foi a última coisa que ouvi dele antes de responder o enigma da águia e entrar na sala comunal.


Capítulo 4 - O primeiro encontro de e Phineas

- Então, confirma nossa saída no sábado, ? - Ethan Dawlish, aluno da Grifinória, goleiro do time e estudante do último ano, perguntou para mim em um dos momentos de intervalo. Ele havia me convidado há cerca de quatro dias para um encontro na próxima saída para Hogsmeade.
- Claro! Tudo certo, encontro você na praça principal?
- Perfeito, de lá, vamos até o local que vou te levar. - confirmou, com um sorriso que conquistava diversas pessoas em Hogwarts.
- Ok, até sábado!
Assim que ele saiu, tomei meu caminho para as estufas carregando o material que lá usaria, onde teria aula com a Grifinória, não demorando a ser acompanhada por Sirius.
- O que aquele patife queria? - o moreno questionou assim que me alcançou, sua face denunciava o quanto desgostava do outro bruxo.
- Você realmente incorporou essa palavra no seu vocabulário. - comentei, sorrindo ao perceber que ele a tinha usado, antes de responder propriamente - Ele estava confirmando nosso encontro neste sábado.
- Ah, não sabia que ia ter uma festa em Hogsmeade. - Sirius disse, despreocupadamente - Como eu não fui convidado?
- É porque é um encontro a dois, Sirius. - expliquei e tive que segurar o riso com a visão da feição impagável que surgiu no rosto do moreno ao meu lado.
- Você não pode sair com ele!
- Por que não? Ele parece legal.
- Não vou com a cara do Dawlish.
- Só porque ele é igualzinho a você. - provoquei, sabendo que Ethan e Sirius eram fortíssimos pretendentes nos corações de vários alunos e alunas de Hogwarts, era facílimo encontrar alguém os mencionando em joguinhos de verdade ou consequência quando a pergunta “quem você pegaria?” surgia.
- Ah, , por favor, agora você me ofendeu. - Sirius exclamou, abrindo os braços de forma exagerada- Eu sou muito mais bonito que ele.
- E umas 20 vezes mais humilde, tenho certeza. - ironizei, revirando os olhos - Bom, ainda assim não vejo motivos concretos que me façam desistir de sair com Ethan.
- Minhas palavras não bastam?
- Seus ciúmes não bastam.
- E quem disse que estou agindo motivado por um sentimento tão primitivo e dominador como esse? - ele respondeu com falsa indignação, Sirius era mesmo um cara de pau - Estou, humildemente, dando minha opinião como seu amigo, as meninas não fizeram o mesmo?
- Ah, claro que fizeram. - comecei, divertindo-me internamente com o leve desespero que sentia nas palavras do garoto - Inclusive, elas foram super a favor de aceitar o convite dele.
- Vocês são péssimas amigas. - Sirius disse às garotas quando adentramos a estufa, todas estavam juntas em uma das mesas com os marotos, tendo guardado dois lugares para nós.
- Não que sua opinião valha de alguma coisa, mas por quê? - Sarah perguntou, confusa, arrancando risos da mesa e o dedo do meio de Sirius levantado em direção a ela.
- Onde já se viu aprovar que nossa preciosa saia com um patife como o Ethan Dawlish?
- Você está andando demais com a , Almofadinhas. - James zombou, jogando um pouco de terra de um dos vasos da mesa no amigo, que desviou no mesmo instante.
- Não vejo motivos para não aprovar, Black. - Lily comentou, olhando para o moreno ao meu lado- Ethan é um gato e já ouvi dizer que ele tem um papo super legal.
- Não poderia concordar mais. - Mary disse, suspirando - Fora que ele defendendo os aros é tudo, certamente aflora a nossa imaginação.
- Mary, querida, você definitivamente está precisando de um encontro. - Alice disse, dando tapinhas leves no ombro da amiga, mas tendo a atenção voltada para um garoto moreno que estava sentado há algumas cadeiras de distância, Frank Longbottom.
Alice havia começado a sair com ele em janeiro, desde então, os dois têm andado com um brilho especial no olhar. Estavam, definitivamente, começando a se apaixonar.
- Nem todos têm a sorte de encontrar um Longbottom como você, Ali. - Sarah disse, suspirando e apoiando o queixo na mão direita, mal notando os olhares fulminantes, pela falta de atenção que a garota tinha com relação aos seus sentimentos, e encantados, pelo sentimento que nutria pela bruxa, que Marlene direcionava a ela, os quais eu tinha notado há pouco mais de um ano.
- Mas você vai sair com ele? - Dorcas perguntou.
- Vou sim, vamos ver se a fama condiz com o jeito dele.
- Impressionante como todos aqui conseguiram os N.O.M´s de Herbologia. - Lupin comentou aleatoriamente, como era de seu costume, girando o indicador para apontar todos nós- A única aula que temos com todos juntos.
- deu um aulão de Herbologia para a gente um pouco antes dos exames- Lily explicou, fazendo um coração com as mãos em minha direção - Se existe alguém mais perfeito que você, eu desconheço.
- Realmente não existe. - Marlene exclamou, vestindo as luvas que utilizamos para manusear as plantas na aula.
- Ela conseguiu O em todas as matérias que prestou. - Sarah disse, claramente orgulhosa por mim.
- Em todas? - James exclamou, boquiaberto - Caramba, a abelhuda é inteligente mesmo.
- James, você realmente vai aderir a esse apelido que o Sirius inventou? Ele não condiz nenhum pouco com a realidade. - falei, estreitando os olhos para o garoto de cabelo propositalmente bagunçado e óculos arredondados.
- Depois do que descobrimos, não existe outro nome para você, abelhuda. - James exclamou, rindo.
- O que vocês descobriram? - Dorcas perguntou, franzindo a testa. Ops… Alguém falou demais.
- Boa tarde, queridos, desculpem pelo atraso, tive um problema com a outra turma. - a professora Sprout chegou, interrompendo a conversa e salvando James de inventar alguma coisa que pudesse justificar o apelido.

- Esse cara é louco! - Dorcas disse, cheia de repulsa na voz.
- Definitivamente assustador para bruxas como nós.
- As notícias têm sido cada vez mais frequentes no Profeta Diário nos últimos meses, é muito preocupante. - concordei, lendo novamente a manchete do jornal que havia recebido no café com as garotas no jardim.
A notícia se tratava de um nome que já era bastante conhecido nos últimos tempos, ele se denominava “Lorde Voldemort”.
Era um bruxo das trevas que o Ministério tinha muitas dificuldades em conter, principalmente com tantos bruxos se aliando cada dia mais a ele.
O fator que mais assustava Lily e eu era um dos ideais mais prezados pelo tal Voldemort e seus seguidores: o da pureza de sangue.
O que significava que ele, assim como diversas famílias tradicionais, acreditava que nós não merecíamos receber a educação bruxa e nem participar ativamente da sociedade, eles nos queriam mortas porque éramos “sangues-ruins”.
Cada dia mais, conforme as notícias iam se tornando mais sérias, com o aumento dos ataques e dos sumiços, eu me sentia mais e mais amedrontada e insegura. Todas ali sentiam o cheiro de guerra pairando no ar, anunciando previamente o banho de sangue que estava por vir e não era nada agradável de se imaginar.
- Meus pais e irmãos estão em uma organização chamada Ordem da Fênix, eles realizam missões para tentar evitar novos ataques, combatê-los quando acontecem e descobrir informações dos aliados e da localização do Voldemort. - Marlene explicou, sussurrando para garantir que só nós ouvíssemos - É bem provável que sejamos recrutadas quando estivermos formadas na escola, eles precisam de aliados fiéis e fortes na luta, sei que até Dumbledore faz parte dela.
- Vai ser bom fugir um pouco da angústia e da sensação de impotência se pudermos ajudar a impedir esse maluco de conseguir concretizar esses planos completamente preconceituosos e sem fundamento. - exclamei, sendo apoiada por todas ali.
- Tenho certeza de que Severo está metido nisso. - Lily disse, suspirando, ela estava decepcionada havia muito tempo com ele.
- E tenho certeza de que aqueles amigos dele que se formaram estão no meio disso também. - Alice acrescentou rispidamente, ninguém ali gostava do garoto, principalmente desde o ocorrido do dia dos N.O.M´s, quando Lily foi defendê-lo do bullying diário que James e Sirius realizavam e recebeu um “saia daqui, sua sangue-ruim” de volta.
- Foi bom você ter se afastado, Lily, já havíamos tentado te alertar. - Mary a consolou, passando o braço direito ao redor do ombro da ruiva e a abraçando de lado.
- Você não perdeu, amiga, se livrou. - Sasa concordou, sorrindo carinhosamente para a outra.
- É bom ter vocês comigo. - Lily agradeceu, enxugando uma lágrima que tinha caído de um de seus olhos marejados, ela realmente tinha se conectado muito com Snape nos anos anteriores - Vocês me passam a segurança que às vezes falta em mim, sei que posso enfrentar o que vier se estiverem por perto.
- Isso foi tão fofo vindo de você que eu vou sugerir um abraço em grupo. - Dorcas disse, sorrindo e puxando todas nós para um abraço desajeitado em volta da ruiva.
- Sabe o que poderia aliviar essa tensão e dar uma colorida nas nossas vidas? - Lene disse, abrindo um sorriso gigantesco, sabíamos que uma ideia tinha passado pela sua cabeça - Uma festa de Halloween na torre da Grifinória.
- Por que não estou surpresa com essa sugestão vindo de você? - exclamei, rindo da cara de cachorrinho abandonado que Lene fez.
- Vai gente, por favor! Podemos conversar com a galera da nossa casa, chamar os Marotos para ajudarem com a organização, eles são os melhores quando o assunto é festa e temos quase um mês para ajeitar tudo. - a loira disse, tentando nos convencer - é incrivelmente boa com organização, Lily pode convencer a McGonagall com o Potter e o Lupin, Sarah e Dorcas podem convidar as pessoas mais legais para participar, Alice sabe convencer nossos amados elfos a nos fornecer umas comidinhas e Mary pode arrumar umas bebidas com o Sirius. Por favor! Por favor!
- Vamos ver o que nossos colegas de casa acham e aí podemos começar a cogitar essa ideia, Lene. - Alice disse, balançando a cabeça para a amiga, demonstrando que aquele comportamento era completamente normal vindo dela.


- Obrigada, Madame Pince, entrego em dois dias. - agradeci à bibliotecária, que me lançou um sorriso sincero. Apesar de ser bastante séria e carrancuda quando se tratava dos livros, Madame Pince era extremamente simpática, uma pena que poucos viam isso.
Carregando mais dois livros novos após, claro, ter entregado os últimos bem antes do prazo, eu segui meu caminho de volta à torre da Corvinal.
Estava bastante curiosa com aquelas leituras, pois havia descoberto através dos lapsos de memória do passado que eram os romances bruxos favoritos de Brown. E, como nunca havia lido, fiquei interessada em saber se o sentimento seria o mesmo e se novas memórias seriam desbloqueadas.
- Que diabrete te mordeu? - Sirius sussurrou extremamente perto de mim, mesmo não podendo enxergar ninguém ao meu lado.
- Saia dessa capa, Sirius. - falei após o meu leve sobressalto de surpresa - Você não sabe chegar normalmente sem me assustar?
- Como você sabe da capa? - ele disse, surpreso, abaixando a Capa da Invisibilidade e se revelando - Sinceramente, ainda acha que “abelhuda” é inadequado para você?
- James me contou faz uns dias, queria saber um jeito de fazer Lily finalmente aceitar sair com ele e falou que poderia usar o artefato de algum jeito. - expliquei, relembrando o conselho que havia lhe dado - Nesse caso, o apelido é inadequado porque recebi a informação da fonte.
- Você nos induz a dizer as coisas que quer saber, o que continua fazendo o apelido ser válido.
- Realmente, é por isso que as coisas que vocês aprontam dão tão certo, tendo a Capa da Invisibilidade original e aquele mapa incrível, não há como algo sair errado. - ignorei seu comentário e puxei outro assunto.
- Como você sabe do mapa? - Sirius quase gritou, indignado, me fazendo rir.
- Remus me pediu um conselho para um dos feitiços que vocês usaram no mapa, ele trouxe o que tinham feito até aquele momento, já era uma versão bastante impressionante.
- Quanto mais eu te conheço, mais surpreso eu fico, . - o bruxo disse, sorrindo largamente para mim - Por isso eu acho que, como auxiliar da criação do Mapa do Maroto, você deveria entrar debaixo dessa capa comigo e me acompanhar sem fazer perguntas até a torre de Astronomia, já que hoje nenhuma turma tem aula lá.
- Bom, por que não? - falei, dando de ombros, realmente não iria começar a leitura agora e nem tinha marcado nada com as meninas.
- Achei que seria difícil te convencer já que, daqui uns dez minutos, o toque de recolher começa.
- Eu não sou tão certinha assim, Sirius.
- Ah, você é sim, mas eu gosto disso.
- Nem parece que usava isso como ofensa nas nossas brigas. - sussurrei para Sirius enquanto ele pegava minha mão esquerda e me conduzia até um ponto vazio no caminho para a torre, cobrindo nossos corpos com a capa em seguida.
- E a gente brigava? Não lembro disso, não.
- Cara de pau.
- Bom, eu realmente era pouco eficiente em te ofender, já que nem eu mesmo considerava aquelas características ruins, só eram coisas que me faziam sentir ainda mais atração por você.
- Você é ótimo revertendo situações.
- E essa capa não vai ter utilidade nenhuma se continuarmos tagarelando.
Não pude deixar de rir baixinho com ele revertendo a situação novamente.
Felizmente, não encontramos Filch ou sua gata. Chegando à torre de Astronomia, Sirius fechou a porta e subimos as escadas que levavam até o pátio arredondado e amplo da torre. O local tinha uma pequena parte coberta, com vários armários repletos de telescópios e guias para acompanhamento durante as aulas e a maior parte descoberta, com um parapeito em volta para impedir quedas.
Bem nessa última parte, uma toalha típica de piquenique estava ocupando o chão, onde algumas tigelas, jarras, copos e pratos repousavam, perto do parapeito algumas velas acesas flutuavam, proporcionando um cheiro de baunilha no ar.
- Olha só, como será que tudo isso apareceu aqui? - Sirius disse, como se não tivesse feito aquilo.
- Você vai mesmo tentar me fazer acreditar que isso simplesmente surgiu inesperadamente aqui? - falei, levantando uma das sobrancelhas para o sorriso amarelo do garoto, estava presenciando um dos raros acontecimentos em que sua confiança inabalável tinha sido atingida.
- Bom, eu tive um daqueles momentos durante a última aula de Astronomia... - ele começou a explicar - O primeiro encontro da e do Phineas foi aqui, exatamente assim. Eu acho essas velas meio bregas, mas pensei que gostaria.
Ele definitivamente tinha feito uma coisa adorável, não consegui deixar de sorrir com o ato.
- Vou fingir que você não me chamou de brega e pedir que me acompanhe até esse piquenique ao luar, Sirius.
- Peguei algumas das suas comidas favoritas na cozinha- o moreno disse, sentando-se ao meu lado no pedaço vazio da toalha.
- E como exatamente você sabe quais são? Nunca tivemos essa conversa.
- Você sempre fica com os olhos brilhando quando colocam essa fruta de opção no café da manhã. - ele respondeu, pegando uma cereja e colocando na minha boca.
- E você come ou somente fica admirando enquanto faço isso no café da manhã? - questionei, mordendo a fruta que o bruxo me dera.
- Faço isso há tanto tempo que consigo tranquilamente fazer os dois. - respondeu ele, pegando uma cereja para si.
- Então admite que simplesmente implicava comigo sem motivo nenhum para chamar minha atenção.
- Meu eu de 11 anos sempre teve uma quedinha por você mesmo com as brigas sinceras, mas isso foi porque eu tinha sonhos com a e eu não fazia ideia de que existia uma garota igual a ela. - ele admitiu, dando de ombros- A partir do terceiro ano, só queria chamar sua atenção mesmo.
- Bom, eu não gostava muito de você inicialmente porque, além de ter esse seu jeito torto, você não era nem um pouco igual ao Phineas dos meus sonhos e lembranças repentinas, apesar de ser idêntico a ele fisicamente.
- E quando deixou de me achar tão idiota assim?
- Ano passado, mas você sempre foi um nome inconstante na lista mental de pessoas que eu gostava.
- Caramba, estou muito para trás mesmo, eu caidinho por você desde sempre e só recebendo desprezo.
- Não levo muito a sério esses seus comentários- disse, sinceramente, enquanto servia um pouco de suco para nós dois.
-Por quê?
- Ah, acho que você praticou a arte da conquista por tanto tempo que acabou abarcando isso naturalmente no seu jeito de ser.
- Que maneira poética de me chamar de galinha, . - Sirius exclamou, gargalhando com o comentário enquanto se servia de um sanduíche, entregando outro para mim - Já que estamos fazendo suposições, aposto que você é uma pessoa romântica.
- Bom, você não está errado. - falei, olhando em seus olhos - Meus pais liam bastante para mim e cresci em uma casa rodeada de livros, havia vários romances, minha mãe gosta muito, ela é professora de literatura em uma universidade.
- E você não nega os seus genes.
- Não mesmo. - confirmei, sorrindo - Como eu estava dizendo, ouvi e li muitos quando criança, cresci lendo outros, normalmente quem lê espera encontrar algo tão bonito e verdadeiro como o que vê nas páginas, mas sabe que não vai conseguir porque é somente ficção, não pode acontecer realmente, principalmente pela perfeição dos personagens.
- Você não pensa assim. - Sirius apontou, completamente focado no que eu dizia.
- Vendo meus pais, tão apaixonados um pelo outro como se estivessem em seu primeiro ano de namoro mesmo após tanto tempo, me faz acreditar que isso é possível sim. - respondi, sorridente, lembrando de várias cenas que acompanhei dos dois - A visão dos dois juntos me traz a sensação de que isso pode ocorrer além da ficção.
- O que é estar apaixonado para você? Não acho que minha família seja um exemplo muito válido disso.
- Para mim é a sensação de saber que, mesmo com tanta gente no mundo, é justamente aquela pessoa que te faz mais feliz e que você sente mais falta quando não está por perto, é aquela que te parece diferente de todos os outros que você poderia “ter” e “ter” a mesma por só alguns momentos não é suficiente. - expliquei, observando os olhos do garoto completamente presos aos meus, atento a cada palavra.
- Queria saber se só eu sinto que cada frase sua soa como poesia aos ouvidos. - Sirius disse, com um sorriso ladino, ele estava mudando de assunto sutilmente.
- Até quando eu te chamo de patife, sem educação e irresponsável?
- Especialmente quando você me xinga, .
- Você tem preferências exóticas.
- E você está fazendo um comentário repleto de segundas intenções para mim, estou adorando, continue.
- Engraçadinho. - falei, sem graça, jogando uma cereja na direção do rosto dele.
- Já disse como eu adoro o jeito que fica sem graça quando eu digo algo sobre segundas intenções? - ele falou, aproximando-se mais de mim e deixando um beijo perigosamente perto dos meus lábios e um carinho leve nos meus cabelos.
- Você está se esquecendo do nosso acordo mútuo.
- E estou me arrependendo de ter aceitado aquele acordo mútuo. - bufou ele, voltando o corpo para a posição anterior - Injusto Ethan ter a chance de te beijar e eu não.
- Ethan não tem uma família de loucos que saem matando por aí. - exclamei, meneando a cabeça- Eu espero né, vou colocar isso na lista de coisas para perguntar no nosso encontro.
- Certeza que não vai ser legal como esse encontro de amigos aqui, querida. - Sirius disse, dando uma piscadela.
- Ótima essa ideia que teve de me levar para um encontro antes do meu com Dawlish sem que eu soubesse, Sirius, você se superou.
- Quando você for comparar, vai voltar correndo para os braços do garanhão aqui. - o garoto zombou, apontando os polegares para si.
- Você não deveria usar “cachorrão”? Garanhão é para cavalos. - exclamei, sorrindo marotamente para a careta emburrada que o moreno fez.
- Nunca vai parar de me encher com isso, vai?
- Prometo a você que não, Sirius, estarei sempre disposta a jogar a bolinha longe para você pegar e te levar em um bom pet shop para aparar os pelos e comprar um tônico para as pulgas.
- Engraçadinha. - Sirius devolveu o comentário, sorrindo de lado - Se for para ser tratado como cachorro, vou querer os carinhos que ele recebe também, está disposta a isso?
- Você anda muito carente ultimamente, o que tem acontecido? - perguntei, estreitando momentaneamente os olhos e mudando de tópico, havia notado o apego maior que Sirius parecia ter com os amigos ultimamente e ele nunca foi de demonstrar carinho tão abertamente.
Percebendo que meu tom já não era mais de brincadeira, Sirius afastou os utensílios já vazios com um movimento da varinha e deitou a cabeça no meu colo suspirando audivelmente.
- Você, com certeza, deve ter visto as notícias relacionadas ao Voldemort- ele começou, olhou para cima e prosseguiu após minha confirmação- Minha família, como você já sabe, não é um exemplo de bondade, eles odeiam trouxas e tudo que provém deles, acreditam na pureza de sangue etc.
Concordei com um aceno de cabeça e dirigi uma das minhas mãos para os sedosos cabelos pretos de Sirius, fazendo um cafuné em sua cabeça.
- Com a ascensão desse Voldemort, eles estão mais insuportáveis do que nunca, já implicam comigo por ter entrado na Grifinória, por não escolher amigos que sejam somente ricos ou sangue puro, por desprezar tudo que eles mais valorizam e não ser como o Regulus, agora, estão se gabando todo dia de como Voldemort está certo, que a justiça será feita e os sangue-ruins e aqueles por trás deles serão mortos. - continuou, levando-me a estremecer com o pensamento de seus pais - Eu tenho certeza que estão metidos com esse daí, já, já Regulus vira Comensal da Morte, como eles andam chamando.
- Imagino que seja muito difícil para você.
- É por isso que eu quero sair de casa no próximo feriado, , os Potter com certeza me abrigariam, gostam muito de mim. - Sirius começou, meio incerto pela reação que eu teria, imaginei - Uma das poucas pessoas decentes que tenho na família, meu tio Alphard, já disse que me dá um dinheiro para ajudar com tudo, você acha que eu estaria sendo muito imprudente?
- Acho que você já aguentou demais e sei que eu não conseguiria. - falei, ainda acariciando seus cabelos - Você deve sentir muito a falta de apoio real por parte daqueles que você tem que chamar de familiares, deve ser por isso que te senti tão carente. Porém, já que você pode contar com pessoas tão gentis como os Potter, tendo um lugar para morar, apoio totalmente sua decisão, sua atual moradia não te faz bem.

- Fico feliz que tenha perguntado. - Sirius falou, dando um sorriso sincero, com olhos cansados se dirigindo aos meus atentos às confissões dele - Não sei como ainda não dormi com esse seu cafuné.
- Depois não venha reclamar que não te dei os carinhos de cachorro. - brinquei, sorrindo de volta - Você sabe que pode contar comigo sempre que precisar, não sabe?
- Agora eu tenho certeza disso.
Sorrimos um para o outro pela décima vez naquele dia, eu ainda não havia tido nenhum lapso de memória ou sonho do primeiro encontro de e Phineas, mas sentia que eles tinham uma forte concorrência depois daquela noite.


Capítulo 5 - A Abelha e o Pirata

Há cerca de 20 minutos, havia me despedido das meninas para esperar Ethan no local que havíamos marcado: o centro de Hogsmeade.
O pequeno vilarejo não nos apresentava muitas opções, mas o garoto não tinha me informado aonde iríamos e eu ainda não o conhecia o suficiente para adivinhar.
Poucos minutos depois, avistei o bruxo caminhando até o centro, sorri e acenei para que me identificasse e ele acenou de volta.
- Bom dia, você está realmente muito bonita. - Ethan exclamou ao me cumprimentar, esboçando um gigantesco sorriso - Precisa passar em algum lugar ou podemos ir?
Bem, eu realmente desejava dar uma passadinha na livraria falida que havia perto da Zonko´s. A dona era a Sra. Melchert, uma senhora viúva muito velha que não havia abandonado seu comércio por amor ao que tinha criado com o marido, eu era praticamente uma das únicas clientes. No entanto, não achei que ele teria muita paciência para os vários minutos que eu levaria escolhendo um livro novo e tomando chá com a Sra. Melchert.
- Não, podemos ir! - menti, sentindo a mão direita dele encontrar a metade das minhas costas para me direcionar até o caminho que nos levaria ao local escolhido.
Enquanto atravessamos o vilarejo, observo Sirius, que entrava na loja de logros, parar brevemente na porta somente para dar uma piscadela em minha direção enquanto sussurrava “eu já ganhei”. Balancei negativamente a cabeça para ele e continuei o caminhando, surpreendendo-me quando paramos em frente à casa de chá Madame Puddifoot, um local que, particularmente, não me agradava muito.
Ethan abriu a porta e um som melodioso, provavelmente vindo do sino na entrada, pode ser ouvido. Lá dentro, diversas mesinhas com duas cadeiras cada estavam espalhadas pelo pequeno ambiente cobertas com toalhas verde e rosa repletas de babados.
Apenas outros três casais estavam no local, todos muito encantados com seu próprio mundo para se importarem com quem havia chegado.
Ethan escolheu uma mesa perto do balcão e fomos rapidamente atendidos pela própria dona:
- Bom dia, queridos, o que posso oferecer para o casal hoje?
- Você gosta de chá preto, ? - Ethan me perguntou e eu assenti em confirmação, era um dos que mais gostava - Poderia nos trazer um bule de chá preto e dois cookies para mim?
- Claro, a srta. gostaria de algo para comer, querida? - Madame direcionou sua pergunta a mim.
- Você serve orange velvet? - perguntei, recebendo um aceno positivo da dona da casa - Vou querer uma fatia, por favor.
- Certo, já trago seus pedidos, queridos! - Madame Puddifoot disse, caminhando de volta ao balcão.
- Então, ansioso pelo início dos jogos? - perguntei a Ethan, iniciando um assunto que lhe era confortável.
- Demais, o Potter montou umas novas táticas muito boas e estamos treinando bastante. - Ethan respondeu animadamente - Ouvi dizer que a Corvinal é nossa maior concorrente.
- Minha amiga, Sarah Martin, é artilheira no time e disse que a capitã, Mariah Davies, está fazendo treinos pesados, ela quer muito ganhar a taça no seu último ano em Hogwarts.
- Vai ser uma competição acirrada com Davies, na Grifinória temos eu e mais dois prestes a se formar com sangue nos olhos pela última taça.
- Com licença, queridos - Madame Puddifoot disse ao se aproximar da mesa, dois pratos, um garfo, duas xícaras e um bule flutuavam ao seu redor, com um movimento de sua varinha, os objetos se posicionaram no topo da mesa, nós dois agradecemos - Bom apetite.
- E você pretende seguir a carreira de jogador? - continuei o assunto anterior enquanto Ethan servia um pouco de chá para nós dois.
- Com certeza, tenho um início de negociação com o Appleby Arrows e acho que entro no time assim que puder. - ele respondeu, pegando um dos cookies de seu prato - E você? Já tem alguma ideia de qual carreira você quer seguir?
- Tenho pensado bastante nisso nos últimos dois anos e nenhuma me agradou totalmente, mas com essa guerra permeando, o futuro é um tanto incerto, não acha?
- Bem, - ele ponderou por um momento, parecendo desconfortável com o assunto - realmente, muitas coisas podem mudar nos próximos anos, minha família anda um pouco preocupada com uma de minhas irmãs, ela é um aborto.
- Ah, certamente não é um grupo que agrada muito a Voldemort, sinto muito. - comentei, sinceramente - E o que sua irmã faz?
- Não acho que você vá saber o que é, é algo do mundo trouxa. - ele explicou, bebericando um pouco de chá - Mas meus pais trabalham no Ministério, e os seus?
- Tenho certeza de que conheço ao menos um pouco sobre o trabalho dela, meus pais são trouxas. - expliquei, olhando para baixo para pegar o último pedaço de bolo - Meu pai é diretor de arte, trabalha com cinema, um tanto difícil de explicar a você, não há nada parecido por aqui e minha mãe é professora de Literatura, que estuda textos de escritores trouxas, em uma universidade, é onde os trouxas aprendem ofícios que demandam mais estudo.
Ethan não continuou o assunto e, quando voltei a encará-lo, ele parecia três vezes mais desconfortável do que antes. É claro que entendi no mesmo segundo o porquê.
- Você é nascida-trouxa? - ele perguntou, bebendo todo o restante do chá em sua xícara.
- Sim, você não sabia?
- Ah, não, existe uma família bruxa e p-pensei que fizesse parte dela… - ele explicou, quase gaguejando, sem olhar diretamente para os meus olhos - , desculpe, lembrei que um amigo do time queria ajuda para comprar p-penas novas e acho que ainda tenho um tempinho antes do horário acabar, d-desculpe mesmo.
Então, Ethan Dawlish saiu da casa de chá praticamente correndo, subestimando minha inteligência com aquela desculpa esfarrapada.
- Patético. - murmurei, terminando meu chá e pedindo a conta logo em seguida.

- Estávamos esperando por você, . - Sasa disse quando voltei à rua principal de Hogsmeade, onde todas as meninas, com algumas sacolas nas mãos, me esperavam.
- Como foi o encontro com o Dawlish? - Mary perguntou, tirando um feijãozinho do pacote em suas mãos.
- Ele me levou ao Madame Puddifoot.
- Já começou mal. - ouvi a voz de Sirius atrás de mim, virei a cabeça e observei os marotos se aproximarem, completando nosso grupo.
- O que tem de errado com o Madame Puddifoot? - Lily perguntou, franzindo a testa.
- Não haveria nada de errado com o lugar se fosse você a convidada, Lily, o problema é que o Madame Puddifoot não tem nada a ver com a . - Alice explicou, recebendo acenos de concordância das outras meninas - Se bem que, para um primeiro encontro onde os dois não se conhecem muito, é perdoável.
- Concordo com você, Alice, além disso, o que aconteceu durante o encontro deixou a escolha aceitável. - continuei, recebendo dez olhares curiosos de volta.
- Qual foi a burrada que o Dawlish fez para deixar uma ida ao Puddifoot aceitável? - Marlene perguntou.
- Se vocês estiverem voltando para o castelo, posso contar enquanto subimos. - disse, recebendo diversos acenos positivos enquanto caminhávamos em direção à Hogwarts.

- Você está brincando! - Dorcas disse, extremamente chocada - Não acredito que o Dawlish é mais um preconceituoso!
- Ele pagou a conta? - Pettigrew perguntou ao passo que entrávamos no castelo enquanto mastigava uma das varinhas de alcaçuz que pegou de Dorcas.
- Não, mas não me importo com isso.
- Definitivamente não é a pior parte. - Lily exclamou, o rosto alvo da bruxa tinha adquirido um tom vermelho há alguns minutos de tão irritada que ela ficou, ela era a única que me entendia quando o assunto era ser nascida-trouxa.
- Agora eu tenho um motivo completamente plausível para azarar o Dawlish. - Sirius disse, torcendo as articulações das mãos.
- Podemos também dar um chute nos países baixos. - Lene acrescentou, fazendo um high-five com Sirius.
- Esse tipo de violência eu apoio! - Sasa disse, sorrindo para os dois.
- Vocês não vão azarar e nem chutar ninguém. - decretei, cortando o sorriso dos três - Não quero que peguem alguma punição por alguém que não vale nem um terço do esforço que vocês farão na detenção.
- O que é um terço? - Peter perguntou, recebendo um tapa na cabeça de Potter.
- está certa. - Lupin concordou - Além disso, temos algo bem melhor para concentrar nossa energia a partir de agora.
- Ah sim, quase nos esquecemos de contar! - Lily disse, bem mais animada do que há alguns minutos - Enquanto vocês olhavam aqueles novos rolos de pergaminho, Potter, Lupin e eu fomos até o Três Vassouras conversar com a prof. McGonagall.
- E o que ela disse? - Mary questionou.
- Fiquei realmente impressionado com o quão rápido ela foi convencida, nem precisei usar meu charme. - James zombou, recebendo um revirar de olhos de Lily.
- Só apresentamos a ideia inicial, mencionei que a ia organizar e que nós nos responsabilizamos por tudo. - Lupin explicou.
- Então ela disse que poderíamos usar a sala comunal da Grifinória e que iria conversar com os outros diretores para informar sobre o evento - Lily concluiu.
- Simples assim? - Alice disse com a testa franzida em descrença.
- Simples assim.
- Caramba, eu nem acredito! - Lene exclamou, dando pulinhos de felicidade - Eu sugeri achando que receberíamos um não.
- Bem, McGonagall sabe a tensão que está no ar com as notícias nos jornais, ela deve pensar que merecemos um pouquinho de diversão.
- E para celebrar a cultura trouxa nesse momento horrível, por que não uma festa de Halloween como as que eles têm? Ou seja, todos devem ir fantasiados! - Lily sugeriu e a ideia foi totalmente aprovada pelo comitê.
- Assim, quem tem alguma coisa contra, nem pisa no salão comunal.
- Então isso quer dizer que posso preparar minha prancheta de tarefas? - perguntei, sorrindo para os bruxos ao meu redor.
- A tão temida prancheta de tarefas voltou! - Sasa disse, fingindo sentir arrepios
- Tenho pesadelos só de lembrar dela nos N.O.M´s! - Marlene concordou.
- Deixem de ser dramáticas, dessa vez é por pura diversão. - falei, rindo da reação delas.
- Ah, abelhuda, alguns socos e azarações podem ser meio óbvios. - James começou, dando uma piscadela para mim - Mas quem sabe ser rebaixado para o banco de reserva pelo resto da temporada não faça o Dawlish pensar um pouquinho?


No mesmo dia, comecei a dividir as tarefas de cada um baseado no que eles faziam de melhor e considerando que alguns já tinham dado o passo inicial de perguntar à severa McGonagall se o evento poderia ser realizado.
No dia seguinte, os diretores já tinham sido consultados e aprovado a ideia, portanto, passei as tarefas separadamente.
Sarah e Dorcas ficariam responsáveis por montar a lista de convidados das outras casas, já que a Grifinória, como sediará a festa, poderia participar inteiramente.
Marlene ficaria responsável por escolher os objetos de decoração do salão comunal e Lily, James, Remus e Peter a ajudariam com essa parte.
Alice tinha muita amizade com os elfos que ficavam na cozinha e saberia conseguir a melhor seleção de comidas para a festa. Por fim, Sirius e Mary ficariam responsáveis por escolher e comprar as bebidas (incluindo as alcoólicas), que não eram muito bem-vistas por McGonagall, em Hogsmeade.
Como seria a única omissão que faríamos, o transporte precisaria ser secreto e eu havia montado um esquema baseado em uma informação dada pela sra. Melchert. Mary já havia sido informada há alguns minutos e eu procurava Sirius por todo o lugar, mas não o encontrava.
Decidi dar uma olhada na Torre de Astronomia, quase sempre vazia durante a tarde, e encontrei o bruxo encostado à coluna que dividia a parte coberta da parte aberta da torre, ele encarava fixamente o céu nublado e o vasto jardim da propriedade.
- Que diabrete te mordeu? - sussurrei bem próximo ao seu ouvido, o que fez Sirius acordar do transe com um sobressalto - Qual era a visão dessa vez?
- estava prestes a cantar para Phineas uma música que a lembrava dele, mas a senhorita interrompeu antes. - Sirius disse, sorrindo.
- Peço desculpas pela interrupção. - falei, colocando a mão que não segurava a prancheta roxa ao redor de seu ombro - Se serve de consolo, posso cantar um trechinho de uma música trouxa que eu gosto muito e me lembra de você.
- Eu adoraria ouvir, .
- If you change your mind, I´m the first in line.* - comecei, deixando a prancheta em uma prateleira próxima e girando Sirius como em uma dança, arrancando gargalhadas dele - Honey I'm still free, take a chance on me.*
- Achei a escolha apropriada. - o moreno exclamou, conduzindo-me em uma dança desajeitada.
- If you need me, let me know, gonna be around, if you´ve got no place to go when you're feeling down, if you´re all alone when the pretty birds have flown.*- continuei com os primeiros versos da música, ainda girando-o pelo centro da torre - Honey I´m still free, take a chance on me, gonna do my very best and it ain´t no lie, if you put me to the test, if you let me try, take a chance on me!*
- Take a chance on me!* - Sirius terminou, quase nos derrubando no chão ao fazer um movimento final na dança - Quem diria que os trouxas saberiam definir tão bem em uma música o que eu gostaria de dizer a você?
- Tenho certeza de que você se identificaria com diversas outras músicas trouxas que estão fazendo sucesso atualmente, posso te mostrar quando estivermos de férias. - sugeri, ajeitando os fios que haviam saído do lugar, em Hogwarts os aparelhos trouxas que reproduzem músicas não funcionavam, quando havia algum evento, os instrumentos bruxos eram tocados/encantados.
- Você está me chamando para um encontro ou eu fiquei excessivamente tonto com essa dança? - o garoto me perguntou, exibindo seu típico sorriso ladino.
- Entenda como quiser, Sirius. - respondi enquanto pegava a prancheta novamente - Agora vamos ao trabalho.
- Estava bom demais para ser de graça!
- Relaxa, eu dividi as tarefas de acordo com o que cada pessoa gostaria mais de fazer. - expliquei, mostrando as anotações no pergaminho que estava preso na prancheta - Mary e você ficaram responsáveis pelas bebidas, conversei com ela mais cedo e Mary já sabe de tudo e acha melhor comprar no Três Vassouras, concorda?
- Sim, eles têm as melhores, vou conversar com a Macdonald mais tarde para escolhermos juntos.
- Certo, você sabe que McGonagall não aprovaria nem um pouco a quantidade de bebidas que são comuns em festas, por isso precisamos fazer o transporte escondido.
- O ideal seria uma passagem mais próxima possível da torre da Grifinória, mas as que não são vigiadas pelo Filch são muito distantes do sétimo andar, acho que seria muito trabalho para esconder na capa do James.
- Bem, eu sei de uma passagem que não está no Mapa do Maroto, acho que nem Filch conhece, observei por uns dias e ele nunca fica próximo dela.
- É claro que você conhece, abelhuda, onde fica?
- Eu vou te contar, mas você tem que me prometer que os marotos não colocarão no mapa! - pedi, algo me dizia que quanto menos pessoas soubessem dela, melhor.
- Tudo bem, não colocaremos, mas por quê?
- Intuição.
- Confio em você, ela não estará no mapa. - o garoto concordou.
- Certo, sabe aquela estátua da bruxa da lua no sétimo andar que foi colocada há dois anos, substituindo a estátua horrenda daquele bruxo das trevas que Salazar insistiu em manter durante a construção do castelo? - expliquei, recebendo uma afirmação positiva dele logo em seguida - Se desenharmos uma meia lua com a varinha no pedestal dela enquanto proferimos “decrescentem lunam lucet”, uma abertura aparecerá, ela leva até aquela livraria ao lado da Zonko´s.
- Então ela é recente?
- Não, as palavras e o desenho eram outros, porém Dumbledore fez questão de mudar quando trocou a estátua.
- E aquela velha da livraria te contou isso durante uma de suas visitas?
- O nome dela é Amy Melchert, Sirius, ela me recomendou que contasse só para quem eu confiasse, mas que eu poderia usar sempre que quisesse.
- Certo, Mary e eu pediremos para entregarem as bebidas na livraria e pegamos com a velha Melchert no dia da festa.
- Pare de chamar ela de velha, Sirius, é deselegante! E você vai me encontrar na livraria depois de fazer a encomenda para conversarmos com ela e pedir sua autorização.
- A velha não disse que você poderia usar sempre que quisesse?
- Imaginei que ela estivesse falando de um motivo mais nobre, como fuga ou algo parecido, preciso conversar com ela antes.
- Se você insiste, assim que a compra for feita eu te encontro lá.


Há cerca 30 trinta minutos eu havia entrado na livraria e achado a sra. Melchert sentada em um sofá tão antigo quanto a loja, a bruxa me esperava com um completo chá da tarde tipicamente inglês na mesa de centro.
O balcão de vendas estava vazio, bem como as dependências da livraria. A sra. Melchert negociava livros antigos para aqueles que tinham interesse em colecionar e vendia, de vez em quando, alguns exemplares novos para os moradores de Hogsmeade, no entanto, sua cliente mais assídua era eu, grande parte da coleção de livros que mantinha em casa eram composto por edições vindas de lá.
- Pelo menos ele estragou tudo no primeiro encontro, querida. - exclamou a sra. Melchert, levando a xícara até os lábios - Se ele tem um desvio de caráter desses, com certeza tem outras qualidades não tão admiráveis.
- Além de ser preconceituoso, ele questionou minha inteligência com aquela desculpa!
- Covardia, minha querida! Nem sempre a coragem dos leões está presente em sua totalidade. - a bruxa disse, deixando a xícara e o pires na mesa de centro. - Pensando bem, o garoto Black não estava errado, o encontro de vocês foi o melhor, achei uma gracinha, lembrou-me das surpresas que meu querido Alex costumava fazer!
- A história de vocês é tão linda!
Nesse momento, o sino da porta de entrada soou para anunciar a chegada de Sirius.
- Com licença, sra. Melchert. -o garoto disse, com uma polidez que normalmente não lhe era comum - Sou Sirius Black, amigo da , ela pediu que eu a encontrasse aqui.
- Ah, querido, não precisa dessa educação toda. - a dona da livraria gargalhou - já me contou incontáveis histórias sobre você, é quase como se já o conhecesse! Sente-se e tome uma xícara de chá conosco.
- Imagino o nível das histórias para a sra. falar que eu estava sendo educado demais. - Sirius zombou, sentando-se ao meu lado no segundo sofá que Amy havia colocado para nós no centro do estabelecimento e pegando a xícara de chá que estava flutuando ao seu lado.
- Nada além da realidade, Sirius.
- Não se preocupe, querido, você parece um bom menino! Achava-o ideal para mesmo antes de saber que são amores de vidas passadas, diga-se de passagem.
- Eu também acho, mas a não quer saber de mim.
- Você me odiava, Sirius.
- Era só para manter a pose, implicância pura, você sabe!
- Sempre disse isso para ela, mas nunca acreditou! - disse a bruxa.
- Enfim, as coisas mudaram de qualquer forma.
- Agora nos beijamos quando ela quer saber de mim e eu peço todas as noites a Merlin que no dia seguinte ela queira.
O comentário fez a dona da livraria gargalhar com gosto, com certeza lembrando de algum momento que passou com seu falecido marido Alex Melchert, morto pela explosão de um chifre de Erumpente durante uma viagem de expedição com amigos.
- Você é adorável, Sirius, venha mais vezes com ou sem , será sempre bem-vindo!
- Claro! Quem sabe a sra. não me passa umas dicas de conquista para eu usar com essa corvina complicada aqui? - Sirius zombou, cutucando delicadamente minha costela com seu cotovelo.
- Devo me sentir honrada com o “maior conquistador do nosso ano e quiçá de todos” querendo dicas de conquista?
- Eu não acredito que você disse isso para ela! - o garoto exclamou, gargalhando gostosamente.
- Bem, eu disse “conquistador barato”, mas Amy cortou essa parte porque você já virou protegido dela com cinco minutos de conversa.
- Eu sei que ela é a garota certa quando todas as outras me acham o maior gostosão e acha o meu papo “barato”, sra. Melchert.
- Você sabe disso porque tem visões de uma vida passada comigo, Sirius!
- Ela tem um bom argumento, querido.
- Por que você não foca na parte bonita que é "a garota certa”?
- Porque precisa implicar com você, Sirius, já virou costume, ela só não admite.
- Amy!
- Sra. Melchert, eu te amo, mesmo a conhecendo há poucos dias! - Sirius disse, levantando-se somente para beijar a mão enrugada da bruxa, arrancando risadas de nós duas.
- Acho que já está quase na hora de vocês dois voltarem para o castelo. - a velha bruxa disse - A visita me deixou muito contente, obrigada!
- Quase esqueci de uma coisa, Amy! - disse, relembrando o motivo da presença de Sirius - Lembra que você me contou sobre a passagem que há aqui na loja? Espero que não se importe de eu ter contado a ele!
- Claro que não! Vocês vão precisar dela?
- Vamos dar uma festa no Halloween e queremos transportar através dela umas bebidas que encomendei no Três Vassouras, a sra. permite?
- Só se eu puder pegar uma garrafa de hidromel como recompensa!
- Pegue quantas quiser, Amy! Muito obrigada! - agradeci, recebendo um sorriso da dona da livraria.
- Deixei avisado para que entregassem aqui à tarde com o meu nome, venho buscar à noite, muito obrigado.
- Fico agraciada em permitir a felicidade de vocês, queridos, voltem mais vezes!
- Não se preocupe, agora virei aqui sempre que vier.
Vesti novamente meu casaco e nos despedimos de Amy Melchert, saindo da loja e seguindo calmamente o caminho de volta à Hogwarts, sem nenhum de nossos amigos à vista.
- Estou com frio. - disse para Sirius enquanto enroscava um dos meus braços ao dele - Ela é uma graça, não é?
- Adorei conhecê-la, a velha é muito simpática. - o garoto respondeu, sorrindo - Já sabe que fantasia vai usar?
- Tive algumas ideias, ajudei as meninas a pensarem e acho que vou pedir para meu pai enviar uns materiais e maquiagem que eles usam nos filmes para produzir a galera.
- Eu fugi de casa nas férias e fui ao tal do cinema assistir um desses e achei incrível, fiquei impressionado com o que eles conseguem fazer sem magia.
- Mesmo sabendo que magia existe, eu ainda acho o cinema mágico, adoro ouvir meu pai falando sobre o trabalho dele.
- E que tipo de material você vai pedir?
- Um sangue falso pronto, massa para prótese simples, roupas das lojas de figurino que ele conhece, essas coisas, sou ótima com disfarces!
- Será que o sr. Dylan pode arrumar uma fantasia de pirata para mim? O filme era sobre isso e achei que combinaria comigo.
- Claro que pode, inclusive é a sua cara! Vou incluir na lista de coisas para pedir a ele por correio. -coruja.
- Quem sabe nas férias, além de ouvir músicas trouxas, a gente não sai para ver uns filmes?
- E vai conseguir fugir de casa de novo depois dessa última vez?
- Até lá eu estarei definitivamente queimado da tapeçaria da família.
- Acho esse negócio de tapeçaria pomposo demais.
- Está mais para palhaçada, metade dela é composta por gente da própria família.
- Você está brincando!
- Pior que não, os Black se casam uns com os outros para manter o sangue puro, jurava que minha mãe ia me casar com a prima Narcisa, mas ela arrumou um namorado antes.
- Cada dia eu gosto menos da sua família.
- Você odiaria um jantar com todos reunidos lá em casa.
- Se eu pisar os meus pezinhos nascidos-trouxas lá, adeus , passo!
- Fico feliz de não pensar igual a maioria deles, morar naquela casa é uma luta diária contra tudo que eu sou, mesmo que por pouco tempo, não consigo mais ficar lá.
- Sinto muito, Sirius, você merece um lar feliz- o consolei, acariciando sua mão com a ponta dos meus dedos.
- Eu tenho um aqui, não se preocupe. - ele respondeu, sorrindo sinceramente.

No quarto que dividia com Sarah e mais outras duas alunas, que já haviam terminado de se arrumar e saído para a festa, dávamos os últimos toques em nossas fantasias.
Sasa havia decidido usar a roupa mais marcante que Audrey Hepburn usou em Bonequinha de Luxo, um filme que meus pais e eu havíamos apresentado para ela em uma de suas visitas a minha casa.
- Pronto, coloquei um feitiço e ele vai ficar no lugar. - falei após terminar de ajeitar o enfeite que ficava em seu coque - Pode encantar as asas para mim?
- Você está tão linda. - Sasa disse, pegando a varinha em sua cama e sorrindo para mim do espelho.
- Obrigada, mas você está mais!
Eu havia escolhido uma fantasia de abelha, como os marotos passaram a me chamar de “abelhuda” na frente das meninas constantemente, tiveram de explicar a elas o motivo do apelido.
Óbvio que eles esconderam a parte da animagia e da licantropia, revelando somente o necessário para elas concordarem que eu era o mais próximo de fofoqueira: abelhuda.
Com o feitiço que Sasa fizera, as asas amarelas nas minhas costas balançavam suavemente sozinhas, para completar a regata e a meia pretas, a saia de vários tules amarela e as botas médias de salto com as recém colocadas asas, vesti uma tiara com antenas pretas no topo da cabeça.
- Podemos ir, Sasa? - perguntei mais alto para que ela me escutasse do banheiro, guardando a varinha na bota.
- Podemos!
Então, deixamos o corredor de dormitórios para encontrar um enorme fluxo de corvinos saindo do salão comunal em direção à torre da Grifinória, todos com fantasias que remetiam a ambos os mundos.
- Qual é a senha, queridos? - a mulher do quadro responsável pela proteção do salão perguntou.
- Grifinória é a melhor. - todos disseram, à contragosto, em uníssono.
- Tinha que ser ideia do Potter. - Sasa disse, revirando os olhos.
Assim que conseguimos entrar, observei a sala apinhada de alunos, alguns próximos à mesa repleta de comidas, outros enchendo seus copos na mesa de bebidas no lado oposto, os que não estavam familiarizados com a decoração trouxa, comentavam sobre os objetos que enfeitavam as paredes, as mesas de estudo tinham sido juntadas e eram palco da versão bruxa do beer pong. Os sofás e poltronas do centro tinham sido retirados e uma pista de dança foi formada para aqueles que quisessem se divertir ao som da sinfonia animada que os instrumentos cedidos por alunos tocavam (havia lançado um feitiço mais cedo para que eles tocassem sozinhos).
A maioria parecia realmente estar se divertindo.

- Eles estão ali! - Sasa apontou para o canto perto da mesa de bebidas onde alguns membros do nosso grupo estavam.
- Parada! - Lene gritou, surgindo de supetão na frente de Sasa, assustando-a ao apontar a arma de brinquedo em sua direção - Você está presa pelo crime de roubar meu coração com tanta beleza.
- Que brega, Lene! - Sasa disse, abraçando a loira lateralmente, eu esperava mesmo que essas duas dessem o primeiro passo nessa noite.
Ao chegar perto do grupo, vi que James, Sirius, Peter e Alice não estavam por perto.
- Lupin! Eu não acredito! - Sasa gritou ao observar o garoto vestido de Dumbledore, com barba falsa e oclinhos de meia lua.
- Desculpe, srta. Martin, mas acho que não está em total controle de suas faculdades mentais, sou o seu diretor, Alvo Dumbledore. - Remus disse, imitando direitinho o jeito que o diretor falava- E o que a srta. Martin seria?
- Holly Golightly em Bonequinha de Luxo, uma personagem memorável de um filme que me mostrou!
- tem bom gosto para tudo, desde que ela me mostrou as HQ 's da Mulher-Maravilha, fiquei apaixonada! - Dorcas exclamou, justificando a fantasia da heroína que havia escolhido e pedido que eu a encomendasse com meu pai.
- E o que é a sua, Lily? - Sasa perguntou, encarando a ruiva com vestes roxas.
- É uma personagem de um desenho trouxa chamado Scooby Doo! Daphne investiga crimes com os outros membros da equipe. - Lily disse, admirando as roupas idênticas que conseguira - Confesso que você se superou com a fantasia da Mary, , a maquiagem a deixou parecendo que acaba de ser decapitada!
- Bem, eu entendi que você é um membro da realeza, Mary, mas é alguém específico? -Lupin perguntou, interessado.
- Sou a rainha Mary Stuart da Escócia após a execução recebida por ser acusada de traição. - Mary respondeu, recebendo algumas reverências ao informar o seu “título”.
- E você não poderia ter escolhido uma fantasia melhor, . - Lene exclamou, sorrindo - Nosso pirata vai adorar…
- Inclusive, onde estão os outros marotos e a noiva assassinada? - perguntei para o grupo, tinha procurado com os olhos e nada de vê-los.
- A noiva assassinada estava dando uma fugidinha com o noivo assassinado, abelhuda! - Alice, em um vestido branco totalmente manchado de sangue falso, apareceu, de braços dados com Frank Longbottom, que usava um terno igualmente maculado como a roupa da namorada.
- Obrigado pela ajuda, , ficou incrível! - Frank agradeceu, sorrindo.
- Vocês estão lindos! - Sasa disse, admirando o efeito que a maquiagem tinha conseguido.
- Cara, definitivamente a minha fantasia é a pior. - Peter surgiu, com orelhas, rabo e bico, segurando um copo vermelho na mão direita, fazendo Sasa gargalhar- Todo mundo começa a rir igual a Martin está fazendo!
- Bem, hipogrifo foi uma escolha complicada, Peter. - Dorcas concordou, escondendo a risada com as mãos.
- O barão sangrento já está voltando com o pirata, , assim eles podem contar o que estavam fazendo. - Lupin disse, apontando a cabeça para os dois garotos que acabavam de descer as escadas da torre dos dormitórios e andavam em zigue-zague, desviando dos outros alunos, até nós.
- Tudo certo, Almofadinhas? - Lupin perguntou.
- O que aconteceu? - questionei ao mesmo tempo.
- Briguei com aquele desgraçado do Regulus antes da festa começar. - Sirius respondeu, seu tom de voz denunciava que ele ainda não estava totalmente calmo, era quase possível ver fumaça saindo por suas orelhas - Ele ouviu Pontas e eu conversando sobre minha família e veio me encher.
- Só não deu briga porque o Slughorn chegou bem na hora e mandou o irmão do Sirius voltar para as masmorras. - James contou, puxando a varinha do bolso e trazendo alguns copos cheios de cerveja amanteigada até as mãos vazias na roda.
- Que sorte o Slughorn ter chegado. - Alice disse, bebericando a bebida, ainda agarrada ao braço do namorado.
- Sorte nada, já faz meses que eu ando querendo acabar com aquele mimado. - Sirius discordou, virando o copo de bebida de uma vez.
- Tenta esquecer isso hoje, Sirius, organizamos a festa justamente para fingir que os problemas não existem, sei que sou a maior defensora de planejamentos, mas daqui uns meses vamos desejar ter tido mais momentos como esse. - o consolei, acariciando levemente seu braço com a mão livre, dando o meu melhor sorriso.
- está certa, quero fingir que aquelas notícias do jornal não me assustam e sequer que elas existem! - Lily concordou, virando seu copo logo em seguida.
- Você está linda, abelhinha. - Sirius disse e, com seu sorriso ladino, piscou um de seus olhos para mim- E cheirando a… - ele interrompeu sua fala para cheirar rapidamente meu cabelo - Mel?
- Eu sabia que tinha sentido esse cheiro! - Mary gritou, fazendo todos rirem da espontaneidade com que o comentário saiu.
- E aí, comitê organizador! - disse Jasmine Clearwater, fantasiada de anjo, aproximando-se da roda e colocando suas mãos ao redor dos ombros de Sirius - Será que tem como trocar a música para algo mais romântico? Tem uns casais por aqui que estão só esperando uma dança coladinha para acontecerem…
- Por que você não canta uma, ? - Sasa sugeriu - Sua voz é tão linda.
- Realmente, a mais bonita que eu já ouvi. - Sirius concordou, sorrindo.
- Já que a abelhinha vai cantar, vem dançar comigo, pirata! - Jasmine exclamou, puxando Sirius pela mão até a pista de dança.
- Que audácia! - Lily comentou, olhando para mim - Você viu o jeito que ela falou “abelhinha”?
- Ela está insistindo nessa rivalidade ainda? - Lene perguntou, revirando os olhos.
- Ela só diz bom dia para mim quando nos vê juntas. - Sasa diz, dando de ombros.
- Eu não me importo, gente, de verdade, só acho uma pena, ela sempre foi tão simpática comigo. - falei, com um sorriso triste.
- Você é boazinha demais, !
- Enfim, quero ver essa voz bonita que vocês disseram, vai cantar, abelhuda? - James perguntou, sinalizando em direção a Lily para que eu entendesse que ele queria um momento mais íntimo com a ruiva.
- O professor Flitwick me ensinou um feitiço mudo para encantar os instrumentos de acordo com o ritmo desejado, acho que consigo cantar também- expliquei, observando os instrumentos - Mas só se vocês forem para a pista também, arrumem seus pares!
- A policial me daria a honra? - Sasa disse, estendendo a mão para uma sorridente Marlene.
- Dança comigo, Lily? - James arriscou, como sempre fazia, e convidou a ruiva.
- Só para ouvirmos cantar. - ela mentiu, há alguns dias Lily nos confessou que, lentamente, estava vendo James com outros olhos, as minhas dicas serviram de alguma coisa, afinal, mesmo que ele desse uma escorregada de vez em quando.
Dorcas puxou Lupin sem nem perguntar nada, Alice e Frank, sempre juntinhos, foram, em meio a risinhos apaixonados, atrás.
Vendo que Mary encontrou o lufano com quem costumava ficar e Peter iniciou uma conversa com outra grifinória, fui até os instrumentos, utilizando sua área como palco.
- Sonoro. - murmurei, apontando a varinha retirada da bota para minha garganta - Boa noite, galera!
- Boa noite! - todos responderam animados após minha voz soar mais alta que o normal, olhando diretamente para mim.
- Ouvi dizer que alguns casais estão precisando de um empurrãozinho por aqui! - comentei, sorrindo e recebendo risadas do público - Por isso, já que estamos em uma comemoração no estilo dos trouxas, vou cantar uma canção trouxa para que vocês não tenham que dar uma desculpa para não terem chegado em alguém amanhã, hein?! Puxem seus pares agora, mesmo!
Rapidamente, aqueles que não estavam com seus pares se juntaram e foram até o centro da pista, ainda sim, algumas pessoas ficaram sozinhas, encostadas nas paredes.
Com um movimento da varinha, executei o feitiço que o professor havia me ensinado, adaptando o som dos instrumentos da música para aqueles que estavam na sala, guardei a varinha na bota e voltei-me ao público, que já iniciava uma dança com os acordes iniciais da música.
- I put a spell on you.*- comecei, observando meus amigos sorrindo e olhando diretamente para Sirius, que me encarava sob o ombro de Jasmine Clearwater, ao cantar o próximo verso - ‘Cause you’re mine…*
- You better stop the things you do.* - continuei, sorrindo brevemente com a reação provocada no pirata - I ain’t lying, no, I ain’t lying*.
- You know I can’t stand it, your running around, you know better, baby, I can’t stand it, ‘cause you put me down, yeah.*- prossegui, feliz em ver Lene e Sasa sorrindo uma para a outra e Lily rindo de algo dito por James - I put a spell on you… Because you’re mine, you’re mine, oh yeah.*
Antes que a parte instrumental acabasse, foquei meu olhar em Sirius novamente, surpresa por encontrá-lo exatamente do mesmo jeito: com os olhos colados em mim.
- I love you, I love you, I love you, I love you really high and wide, and I don’t care if you don’t want me, I’m yours right now.* - continuei, preparando-me para os últimos versos - You hear me, I put a spell on you, because you’re mine.*

Assim que a melodia conhecida terminou na minha mente, os instrumentos pararam, desfiz o feitiço que amplificava minha voz, ouvindo diversos aplausos dos casais que perceberam que a pequena apresentação tinha acabado (alguns estavam ocupados demais para notar).
Tornei a enfeitiçar os instrumentos e voltei a encontrar alguns de meus amigos no ponto anterior.
- Meu Merlin! Você se superou, ! - Sasa disse, notei que estava de mãos dadas com Marlene.
- Se eu não fosse tão caidinho pela ruiva aqui, eu estaria jogado aos seus pés, abelhuda. - James zombou, recebendo um cutucão afetivo de Lily.
- Bem, Alice, Peter e Mary estão ocupados demais para elogiar, mas você é incrível! - Dorcas comentou, apontando para os respectivos casais com um grande sorriso.
- Gosto da sua sutileza, abelhinha. - Lily sussurrou, piscando para mim.
- Gostaria de saber se você tem algum defeito, . - ouvi a voz de Sirius atrás de mim, sentindo seus lábios beijarem rapidamente o ponto que ligava meu ombro à nuca - Porque, sendo completamente sincero, eu não consigo encontrar nenhum.
- Achei que estava acompanhado, Black. - Marlene alfinetou.
- Ela acabou me dispensando quando percebeu que minha atenção toda estava focada na cantora.
Antes que eu pudesse responder, Sirius foi bruscamente jogado para frente, quase caindo no chão.
- E aí, Black, queria levar um papinho com você. - Ethan Dawlish, cambaleando por ter bebido demais, disse após empurrar Sirius.
- Cara, vamos para o dormitório, você vai se arrepender. - um amigo do garoto, que também fazia parte do time de quadribol da Grifinória, chamado Finnick Campbell, tentou convencê-lo a subir para o quarto, mas foi afastado.
- Não, não, antes eu quero saber o porquê desse otário pedir para o Potter me deixar na reserva. - Dawlish gritou, chamando atenção daqueles que não tinham percebido o empurrão - Foi por ter saído com a sangue-ruim, é?
A alegria que eu estava sentindo com os elogios se dissipou no exato momento que a palavra “sangue-ruim” saiu da boca dele.
- Repete o que você falou se você tem coragem. - Sirius, que estava louco para brigar com alguém que não gostava, disse, partindo para cima de Dawlish junto com Potter.
- É, repete o que você disse, Dawlish. - Potter falou.
- Esse daí saiu pior que a encomenda. - Lene disse, revirando os olhos, cheia de desgosto.
- Sangue-ruim. - Dawlish repetiu, com um sorriso presunçoso no rosto, percebi que os garotos estavam com tanto ódio que não notaram Dawlish puxando a varinha suavemente do bolso para atacá-los de surpresa.
Tirar a minha da bota seria o tempo em que o outro poderia lançar uma azaração nos dois marotos brigões, por isso, puxei a varinha de Sasa da mão dela e, apontando a mesma para o bolso de Ethan Dawlish gritei:
- Expelliarmus.
Em questão de segundos, a varinha foi parar na minha outra mão, interrompendo a briga que ia acontecer
- Wingardium leviosa. - murmurei novamente, levitando o grande recipiente com água e gelo de cima da mesa, soltando-o quando posicionado bem acima da cabeça de Dawlish.
- Eu poderia fazer um discurso ou qualquer outra coisa do tipo, mas não vale a pena, Dawlish. - disse quando a água, o gelo e o recipiente caíram. - Se acha que vai sair ileso pensando dessa forma, e até mesmo sendo um peão daqueles que se baseiam no mesmo pensamento que você acredita para cometerem atrocidades, sinto em te dizer que a vida vai cobrar, podem demorar anos, mas ela cobra, e quando a cobrança chegar, eu espero que tenha mais coragem de dizer abertamente o que fez sem precisar estar entupido de bebida para tal.
Sem dizer uma palavra, Ethan, molhado da cabeça aos pés, levantou com a ajuda de Campbell, para quem eu devolvi a varinha, e voltou para o seu dormitório sendo seguido por diversos olhares desaprovadores.
- Eu sei que eu disse “sem azarações”, mas ele passou de todos os limites! - murmurei, devolvendo a varinha de Sasa - Desculpe pelo susto.
- Água foi pouco, deveria ter jogado a mesa nele! - Marlene disse.
- Ele merecia coisa pior! - Sirius, cheio de ódio, disse.
- Você não sabe o prazer que eu senti com isso, , obrigada! - Lily disse, abraçando-me com os bonitos olhos marejados, quando “sangue-ruim” era usado, não doía só em um nascido-trouxa, doía em todos.
- Depois disso, eu faço questão de pedir para Minnie permitir que ele seja expulso do time. - James exclamou, dobrando as mangas bufantes da fantasia.
- Isso não vai te prejudicar? - Sasa perguntou.
- A McGonagall é muito justa, ela vai entender. - Lupin respondeu.
- Além disso, o rendimento dele no campo diminuiu muito, mais fala do que joga, o jogador que o substituiu merece uma chance. - James nos tranquilizou.

Há cerca de meia hora, Sirius tinha virado diversos copos com bebida até a borda e o resultado podia ser visto quando ele tropeçou no pé de uma das mesas e quase caiu em cima de dois garotos lufanos.
O restante da festa havia ocorrido bem, sem mais problemas que envolvessem nosso grupo. Voltei a cantar outras vezes, além de encantar os instrumentos para outros estudantes que decidiram fazer o mesmo.
Procurei os outros marotos com o olhar, Peter havia sumido, Remus jogava beer pong com Dorcas e eu não tinha coragem de atrapalhar o garoto, ele mal conseguia se divertir sem pensar em sua licantropia, merecia um descanso. Em um canto mal iluminado, Lily e James conversavam timidamente e, milagrosamente, não pareciam brigar, eu jamais atrapalharia aquela conversa.
É, Sirius, sou eu quem vai cuidar de você
Andei apressadamente até o ponto onde o bruxo estava, pedi desculpas ao casal e tirei o copo das mãos do bruxo, que só não protestou porque me reconheceu.
- A que devo a honra da atenção da abelhinha? - questionou ele, rindo em seguida.
- Vem comigo, chega de festa para você, Almofadinhas. - respondi, puxando-o do estofado em direção às escadas que levavam aos dormitórios.
- Com você eu vou para qualquer lugar. - Sirius disse, sorrindo de lado.
- Então você vai comigo para o seu banheiro. - informei, quase caindo da escada com o bruxo trocando os pés.
Entrando na área que levava ao corredor de dormitórios masculinos, passeei por lá até encontrar o nome de Sirius escrito com letras douradas em uma das portas, girei a maçaneta e encontrei um quarto extremamente bagunçado, onde somente a cama perto da janela estava perfeitamente arrumada.
- Como o Remus vive aqui?
- Ele se acostumou. - Sirius respondeu e, quando ia dar mais um sorriso ladino, seu rosto se fechou de repente - Acho que uma visita ao banheiro seria ótima agora.
Entendendo a mensagem, continuei com a mão agarrada ao seu pulso e o puxei em direção ao banheiro, abri a tampa do vaso sanitário enquanto o bruxo se agachava e despejava tudo lá dentro.
- Você extrapolou dessa vez, Sirius. - disse, colocando seus cabelos e a bandana para trás - Precisa urgentemente aprender a controlar sua impulsividade.
- Não era isso que eu estava imaginando para gente no banheiro. - Sirius balbuciou antes de voltar a vomitar, arrancando uma risada de mim. - E eu ainda estou enxergando pela metade.
Depois de uns cinco minutos, o garoto, que estava com a pele meio acinzentada agora, se sentia um pouco melhor.
- Agora você vai navegar nas águas do seu chuveiro, pirata. - falei para o bruxo, que havia dado descarga e sentado na tampa abaixada do vaso sanitário com uma cara sonolenta. - Assim, a tontura passa e você vai se sentir melhor.
- Água fria? - ele perguntou e eu assenti enquanto tirava sua bandana e o tapa-olho. - Por que eu estrago tudo?
- Como assim?
- Você é tão linda, de verdade, não existe bruxa mais linda que você.
- Então se você conhecer as trouxas muda de ideia? - brinquei, tirando seu colete marrom e rindo do tom de voz lento que Sirius tinha adquirido - E você não respondeu à pergunta que fiz.
- Não foi isso que eu quis dizer, você é mais bonita que todas elas, . - ele corrigiu, balançando a cabeça em negação - Você canta uma música daquelas olhando para mim e eu estrago tudo bebendo igual a um otário.
- Está tudo bem, Sirius, todo mundo já ficou assim.
- Você nunca ficou, você é controlada. - Sirius disse, soltando um muxoxo triste - Você está desabotoando minha camisa e não é na cama!
- Teremos outras oportunidades, Almofadinhas. - zombei, tirando sua camisa pelos braços.
- Pare de brincar com meu coração, , ele é fraco quando se trata de você. - ele falou, colocando a mão no lado esquerdo do peito, parecia que ia começar a chorar a qualquer momento - É sério, você não acredita em mim, mas eu quero casar com você!
- Amanhã, você vai se arrepender de ter dito isso, esqueceu que Sirius Black e casar na mesma frase não combinam? - disse, relembrando uma frase que a versão sóbria dele havia dito, não consegui não rir do jeito desesperado que ele levantou, quase tropeçando, e pegou minhas mãos.
- É sério, eu quero casar com você! - Sirius exclamou, de olhos arregalados, cambaleando para os lados por conta da tontura - A gente vai ter uma casa de dois andares com duas bibliotecas para você! E eu sumo com meus parentes e ninguém vai atrapalhar a gente!
- Claro que vamos, Sirius. - concordei com ele enquanto o bruxo beijava minhas mãos repetidamente- Agora, você prefere entrar no chuveiro com ou sem calças?
- Eu prefiro entrar com você, . - o garoto respondeu, tirando os sapatos desajeitadamente, quase caindo novamente.
- Nos seus sonhos, Sirius.
Empurrei o bruxo delicadamente debaixo do chuveiro e girei a torneira para liberar a água fria.
- Eu digo que quero casar e você faz isso comigo. - ele exclamou, balançando a cabeça como um cachorro e espalhando água para todo lado.
- Você não vai lembrar disso amanhã, bonitinho. - brinquei, observando a água escorrer pelo seu corpo com diversão - Se fosse outro caso, eu até consideraria seu pedido...
- Eu nunca mais vou beber, eu juro.
- Vou fingir que acredito.
Quando achei que ele estava mais desperto e menos inserido na categoria bêbado sincero e cambaleante, tirei a varinha da bota e usei o feitiço convocatório para trazer sua toalha e roupas limpas para que ele dormisse.
- Estou esperando lá fora. - disse, fechando a porta.
Poucos minutos depois, Sirius saiu do banheiro vestido e com os cabelos úmidos do banho, não estava mais cinza e tinha os passos um pouco mais firmes, porém ainda parecia estar em outro mundo.
- Está se sentindo melhor?
- Na medida do possível.
- É bom ficar preparado porque amanhã de manhã você vai estar pior e vai ter que dar uma passadinha na enfermaria. - zombei, levantando da cama dele - Até amanhã, pirata.
- Espera aí, . - Sirius pediu, segurando minha mão antes que eu pudesse sair do dormitório - Dorme aqui comigo, vai?
- Com certeza eu vou correr o risco de perder todos os pontos que conquistei nas aulas quando um professor vir uma corvina saindo do salão comunal da Grifinória.
- Os professores sabem que estamos dando essa festa, metade dos alunos de outras casas vão dormir no meio do salão comunal e só vão voltar para os seus de manhã e está tarde para ir até sua torre.
- A última motivação é péssima, não são nem cinco minutos daqui.
- Por favor! Eu não terei mais dignidade na sua frente quando acordar. - Sirius pediu, fazendo uma carinha de cachorro abandonado.
- Vou ficar aqui até você dormir ou até algum maroto chegar. - disse, recebendo um enorme sorriso, milagrosamente nem um pouco malicioso, peguei a varinha deixada no gaveteiro ao lado de sua cama e realizei um feitiço mudo para desencantar as asas amarelas de abelha das minhas costas, deixei os objetos no gaveteiro novamente.
Tirei as botas e deitei no lado vazio da cama, Sirius tentou me cobrir também, mas eu não pretendia dormir lá e recusei.
- Nox. -Sirius murmurou depois de pegar sua varinha debaixo do travesseiro.
- Boa noite, Sirius.
- Boa noite, . - o bruxo respondeu enquanto se aproximava e deixava um beijo na minha bochecha - Saiba que agora mesmo você está realizando um sonho meu.
Mais uma vez, ri de sua gracinha, sentindo Sirius se afastar minimamente e começar a acariciar meu cabelo, talvez tenha sido isso, ou talvez tenha sido o cansaço da festa, mas acabei dormindo poucos minutos depois.


*Música N° 1: Take a Chance On Me – ABBA
Tradução dos trechos mencionados:
Se você mudar de ideia, eu sou o primeiro da fila.
Querido, eu ainda estou livre, me dê uma chance.
Se você precisar de mim, me diga, estarei por perto.

Se você não tiver nenhum lugar para ir quando estiver se sentindo triste.
Se você estiver sozinho quando os pássaros bonitos tiverem voado.

Querido, eu ainda estou livre, me dê uma chance.
Se você me testar, se você me deixar tentar, farei o meu melhor e não é mentira.
Me dê uma chance. (2x)



*Música N°2: I Put a Spell On You - Nina Simone
Eu lancei um feitiço em você
Porque você é meu
É melhor você parar com o que tem feito
Não estou mentindo
Não, não estou mentindo.

Você sabe que não consigo suportar
Você circulando por aí
Você sabe bem, amor
Eu não posso suportar porque você

Eu lancei um feitiço em você
Porque você é meu
Você é meu.

Eu te amo (3x)
Eu te amo demais
E eu não ligo se você não me quiser
Eu sou sua agora.

Me escute
Eu lancei um feitiço em você
Porque você é meu.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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Outras Fanfics:
  • Bye, Dear Friend [Livros, Harry Potter]
  • Dragon Heart [Livros, Harry Potter]
  • Dancing with the Dark [Livros, Harry Potter]
  • Dancing with the Dark: Destined [Livros, Harry Potter]

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