Última atualização: 08/07/2021

Prólogo

A história que estou prestes a contar não envolve um grupo de adolescentes normais de uma cidade grande. Não se trata de uma análise profunda sobre os jovens nem explica como o mundo funciona. Essa é apenas parte da história de Greyson Hills. Estamos no Norte dos Estados Unidos, um dia antes do final das férias e como toda boa história, temos quatro meninas no Ensino Médio. Mas não se engane! Elas não são meras personagens a procura de um príncipe encantado. Estão a procura apenas do encantado. Acredite ou não, a magia existe e se esconde nos lugares mais inesperados. Como eu sei disso? Ah meus caros... Prazer, meu nome é Davina.


Capítulo 1

A rua Duncan estava completamente iluminada nessa noite.
A festa da fundação de Greyson Hills sempre envolvia barracas de comida, brinquedos e um palco com música ao vivo. Todos na cidade se reuniam para aproveitar o último dia de verão e as famílias dos fundadores trabalhavam, como de costume. No final da rua, onde estavam montadas barracas de brincadeiras, , , e olhavam para o céu a espera dos fogos de artifício.
— Não acredito que as férias já passaram. – suspirando, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Não acredito que o Ensino Médio já acabou. – completou.
O som de estouro vindo da floresta fez as quatro levantarem os olhares. Atrás das casas coloridas, luzes explodiam no ar, tocando o céu e rasgando a noite. Distante das meninas, as famílias brindavam com champanhe e as crianças gritavam de alegria, aquele era mais um ano de sucesso para a cidade. pegou sua câmera e tirou fotos da feira, dos sorrisos e das amigas olhando para cima.
— Não acredito que sobrevivemos todos esses anos... – ela guardou as polaroides. – Mal posso esperar para a formatura!
— Isso porque você já tem seu futuro todo planejado... – respirou fundo, sem tirar os olhos da lua. – Todas vocês têm e eu ainda estarei aqui... O que eu vou fazer sem vocês comigo?
— Você deveria tentar sair da zona de conforto, . – sorriu, abraçando a amiga. – A adolescência não dura para sempre e nós precisamos sobreviver no mundo de alguma forma. Faculdade é só uma porta, mas você não precisa escolhê-la agora. Tome tempo para entender quem você é e o que deseja ser...
— Mas não demore muito. – interrompeu. – Greyson Hills é um lugar de partida. Ficar aqui por muito tempo é o mesmo que não existir no mundo real.
Elas se entreolharam. O barulho dos fogos e dos risos no fundo não se comparava ao silêncio que se instalou entre as quatro. Faculdade, cidade grande e mudanças. Tudo isso e um pouco mais as aguardavam no fim daquele ano. abraçou as amigas e disse:
— Não sejam tolas. Temos tempo para pensar, viver e fazer todas as besteiras que nossa juventude precisa! Quando tudo estiver acabando, faremos a promessa de continuarmos unidas, mesmo estando em lugares diferentes. — Ela sabia que suas palavras não eram garantia. As outras também tinham noção disso. respirou fundo e decidiu não pensar no futuro, apenas viver.
— Acabamos por hoje?
— Acabamos. – saiu do abraço e foi apagar as lâmpadas da barraca. – Mudando totalmente de assunto, vocês não acham que a noite foi meio parada? Onde estão os casais à moda antiga que tentam ganhar pelúcias de presente para suas namoradas? E as crianças que disputam entre si pela melhor arma de água? O que está acontecendo com nossa cidade interiorana? – dramaticamente pegou os ursos que sobraram na tenda e jogou um para cada.
— Com essas pelúcias nem um bebê iria querer. – riu segurando seu urso deformado. – Além do mais, amor à moda antiga não existe. – colocou-o de volta na mesa.
— A meu ver, Brisbane parece ser a exceção... – a menina rapidamente encarou , os olhos cheios de fúria.
— Não mencione esse embuste em forma de Tom Brady com o cérebro de Steve Jobs.
— Isso foi um elogio ou um insulto? – sussurrou para , que apenas revirou os olhos.
— Ele está mais para presidente dos Estados Unidos do que jogador da NFL. Mas isso não importa, o que nós realmente temos que lembrar é que todos estão na festa de Melanie e Cassidy. – bufou. – Menos nós.
As festas de Melanie Perales e Cassidy Chang eram as mais agitadas da cidade. Sempre, no último dia de férias, as duas sediavam a festa de boas-vindas que seria assunto durante o primeiro semestre inteiro. Apenas os populares eram convidados. Às vezes o evento era aberto, mas nunca para as quatro. A verdade era que festas não faziam parte da vida das meninas, muito menos popularidade.
— Quem liga para isso? – balançou a cabeça. – Nós já temos nossa tradição. Não precisamos ser estereótipos de adolescente. — ela entrelaçou o braço no de e a puxou. e fizeram o mesmo e seguiram do lado.
Descendo a rua Duncan, as quatro observaram as casas vazias. Todos estavam aproveitando a noite, provavelmente reunidos na prefeitura para o grande jantar. Assim que passaram pela casa amarela, a última da sequência, não pode deixar de olhar para a janela no alto do canto esquerdo.
— Os Brooks ainda não voltaram? – seguindo o olhar, perguntou e recebeu um balançar de cabeça como resposta.
— Deveriam ter voltado a dois verões atrás.
deu de ombros e seguiu sem olhar para trás. As quatro costumavam caminhar pela cidade no silêncio, aproveitando a natureza calma que rodeava. Em eventos grandes, quando todos os moradores se reuniam, elas gostavam de ter as ruas só para elas. Era uma sensação inexplicável de liberdade. O caminho era simples: passaram pelo colégio fechado, atravessaram a estrada que ligava Greyson Hills até Virginia e chegaram no centro da cidade.
— Será que o Rei do Hambúrguer ainda está aberto? Queria tanto aquela batata frita gordurosa... – colocou a mão na barriga. Elas trabalharam o tempo todo e não tiveram tempo de jantar.
— Pelas horas eu duvido. – apontou para o relógio da praça principal marcando 23 horas. – Mas tem sempre o Lucy’s.
sabia que a amiga falaria isso e logo tratou de pegar a chave da lanchonete na mochila. Lucy’s era a única lanchonete da cidade que estava sempre aberta para as meninas.
— Vocês quem vão cozinhar dessa vez! – ela resmungou, liderando o caminho. costumava trabalhar lá nas férias e era amiga da dona, por isso tinha passe livre para usar o lugar.
Destrancando a porta, as quatro entraram sem delongas. acendeu as luzes e a decoração dos anos cinquenta se iluminou: chão com ladrilhos preto e branco, luzes fluorescentes rosas, bancos vermelhos estofados e é claro, o balcão azul esverdeado com a assinatura de todos os moradores da cidade. correu para a cozinha e jogou a mochila no balcão, colocando uma moeda no jukebox. Tudo normal como sempre... Exceto pela projeção violeta que atravessava a janela até os pés de . Brilhando do outro lado da rua, a placa de luz roxa atraiu a atenção da menina.
Clarividência, adivinhação e tarot.
Aquilo era novo, mas, em Greyson Hills, novo não era comum.
— Nunca tinha notado essa casa antes. – surgindo do lado de , franziu o cenho.
— Será que tem alguém lá? – se aproximou, analisando o carro na entrada da casa, um fusca marrom com placa de outra cidade. O sobrado era iluminado apenas pela placa na entrada e, nas janelas, cortinas pesadas escondiam o interior.
— Acho que nós deveríamos conhecer o lugar. – com um sanduíche na mão e a boca cheia, chegou suavemente. – Quero saber se vou virar capa de revista em Paris!
Todas sabiam que a cidade era famosa por seus mistérios envolvendo o sobrenatural, por isso tinham certo receio de se aventurar nesse mundo desconhecido. Apesar das brincadeiras, era a que mais acreditava nas histórias que rodeavam Greyson Hills, sua irmã sempre contava casos de dar arrepios. As meninas se entreolharam, estavam com pé atrás, mas compartilhavam a curiosidade. Enquanto as quatro observavam a casa, uma luz na entrada se acendeu, como se estivesse convidando-as a entrar. Em Greyson Hills, as aventuras eram raras, mas quando apareciam, eram memoráveis.
— Vamos.
Do lado de fora tudo parecia normal. A rua estava deserta e a noite em seu ápice. A casa número nove se destacava apenas por sua placa neon. Na entrada, a porta de mogno tinha um olho mágico que reluzia, indicando que havia alguém na casa. As quatro meninas se colocaram lado a lado, pensamentos a mil. Tinham perguntas demais e coragem de menos. A primeira a ameaçar a tocar a campainha foi .
— Espera! – segurou o braço da amiga. – Nós temos certeza disso? Não sei se acredito nessas coisas de adivinhação, mas também não quero brincar com espíritos... Vocês sabem como os filmes sempre acabam e eu tenho certeza que eu não sairia dessa viva. Olhem para mim, sou a personificação da primeira a desaparecer!
colocou as mãos no rosto, dramática como gostava de ser. revirou os olhos, impaciente, e tocou a campainha.
— NÃO! — a mais nova gritou.
— Deixa de ser boba, — puxou os braços de para baixo. – duvido que seja de verdade. – Mentira, mas ela realmente era a mais cética das quatro. – Depois que essa besteira acabar temos que voltar correndo. Amanhã começam as aulas e quero ter uma boa noite de sono...
— Um segundo! – uma voz feminina cantarolou do outro lado da porta, fazendo se calar.
Sons de passos soaram na casa, pisadas secas no chão como se a mulher estivesse descalça. O silêncio da rua foi quebrado pelo tilintar das chaves e o rangido da porta se entreabrindo. Para a surpresa das meninas, uma mulher de uns trinta anos surgiu, revelando os pés descalços e os dedos pintados de esmalte azul. Os longos cabelos ruivos e o anel de serpente no dedo indicador eram apenas algumas partes que se destacavam na mulher e seu sorriso simpático estampado no rosto convidava as quatro a entrarem.
— Não esperava receber clientes tão cedo! – ela riu, balançando levemente a cabeça – Não cedo temporalmente já que está de noite, mas cedo no sentido de tão logo... Bem, vocês me entenderam. Certo?
Juntas, elas balançaram a cabeça.
— Entrem por favor! – a mulher adentrou a casa primeiro. – Sejam bem vindas ao meu santuário! — sentiu um frio na espinha, como se estivesse em um lugar errado. deu um passo a frente, querendo acabar com aquela experiência o mais cedo possível. – Me chamo Davina, com que posso ajudá-las?
— Minhas amigas e eu queríamos conhecer seu trabalho... – seguindo o caminho da mulher, disse sem fraquejar. A imagem das quatro refletia nos espelhos das mais diferentes molduras, pendurados no corredor que levava à sala principal da casa. – Isso seria possível?
As meninas se reuniram na sala de Davina enquanto ela se sentava em sua cadeira de veludo vermelho atrás da mesa redonda, coberta por uma toalha branca com desenhos bordados. A luz vinha de velas espalhadas pelo quarto e do lustre de cristal pendurado sobre as cinco. Pensativa, Davina brincava com um baralho enquanto olhava para as meninas a sua frente. A mulher analisou cada uma, percebendo logo suas personalidades distintas e algo a mais.
— Não acho que seja uma boa ideia. – sussurrou para que prontamente assentiu. As duas tinham a respiração pesada. A primeira por estar preenchida de medo e a segunda por não estar se sentindo confortável na situação. Davina, percebendo a insegurança das duas disse:
— Sentem-se, por favor. – espalhando o baralho na mesa com as faces para baixo, a mulher prendeu o cabelo – Quero que vocês estendam as mãos e sob as cartas sintam a energia delas. Selecione uma de sua preferência e direi o que os astros comunicam através delas.
As meninas se sentaram, , , e , nessa ordem, e fizeram o que a mulher aconselhou. estava determinada a acabar com a brincadeira logo e não demorou para pegar sua carta, escolheu a primeira que seus olhos avistaram. , nervosa, respirou fundo e pegou a carta no meio de um amontoado, virando uma das cartas para cima sem querer. A face descoberta atraiu atenção de todas. O desenho em aquarela revelava duas máscaras, uma branca e outra escura como a noite.
— Esse não é um tarot comum... – intrigada pela imagem, olhou desconfiada para Davina.
— Eu mesma confeccionei! – a mulher riu da expressão assustada de . – Não se preocupe querida, essa carta não lhe pertence, mas é um presságio. Tome cuidado com pessoas que invejam sua arte. Vamos lá, continuando!
, confiante, puxou a carta que repousava no topo de uma das pilhas no centro da mesa. , por sua vez, pensou antes de escolher a sua. Seus dedos estavam secos e quando passou a palma da mão por cima da carta mais distante das outras sentiu as pontas dos dedos formigarem. A mulher não tirava os olhos das cartas, cada movimento era analisado e estudado. Ela não precisava saber o nome das meninas, muito menos o motivo delas estarem ali, a única coisa que realmente importava é que elas estavam destinadas a viver esse momento e Davina seria responsável por introduzi-las nesse mundo. A mulher tinha certeza do que sentia nas meninas e aquele tipo de sensação só poderia significar uma coisa: magia pura.

Capítulo 2

— E então, o que acontece agora? – batucou os pés no chão de madeira, ansiosa pelo que estava por vir.
— Virem as cartas e deixem sob a mesa.
As quatro prontamente revelaram suas cartas, curiosamente, todas tinham um elemento da natureza desenhado em cores pastel. Davina sorriu ao vislumbrar aquela sequência inédita. As cartas nunca mentiam e aquela era a primeira vez que a mulher vira os elementos juntos em uma leitura.
— Isso é incrível... Quem são vocês? – ela levantou o olhar para as meninas, os olhos brilhando como as estrelas.
olhou a carta em tons verdes e notou que o desenho da árvore no centro lhe era familiar. O tronco retorcido e encravado com jóias, as folhas emaranhadas com flores brancas. Onde ela teria visto essa imagem antes?
— O brasão da família... – ela sussurrou quando a lembrança da mesma árvore no broche de sua vó saltou em sua memória. – Somos os Lockwood. – disse firmemente. — Esse símbolo, eu já o vi em nossa casa. O que está acontecendo? – a menina, assustada com a coincidência, encarou Davina.
A mulher se levantou e correu para a estante do outro lado do quarto. tocou no braço de , tirando-a do transe. As quatro trocaram olhares cúmplices, os símbolos nas cartas não eram mistério para elas. Cada carta tinha o brasão das famílias fundadoras, suas famílias. Lockwood e sua árvore milenar, Firestone e a chama flamejante, White com o furacão dentro de um vaso transparente e Marin com as ondas do oceano. Davina abriu um livro de bolso com capa de couro e começou a folhear rapidamente.
— Vocês vêm de uma linhagem muito antiga e rara... Achei! Lockwood, White, Firestone e Marin. Os cinco iniciadores. – animada, a mulher correu de volta para seu lugar e colocou o livro aberto em cima da mesa. – Eu sempre esperei por esse momento! — Será que dá pra explicar o que está acontecendo? – puxou o livro para perto e encarou os símbolos espalhados pelas folhas. Pareciam runas desenhadas a tinta. – Isso é um culto? chama o 911!
— Eu sabia que não devia ter entrado aqui. – se levantou, arranhando o chão com a cadeira.
— Esperem! – Davina se levantou e em um só movimento, todas as velas da casa se apagaram, deixando apenas o lustre iluminar a noite. prendeu a respiração e deixou um palavrão escapar. Aquilo não era normal. – Deixem eu explicar.
— Por favor. – passou a mão pelo rosto. – Nossas famílias não são apenas fundadoras dessa cidade, certo? – disse, começando a juntar os pontos.
— Não. – a mulher respirou e com um balanço das mãos, todas as velas do salão se acenderam. As quatro olharam perplexas. Se isso fosse um programa de televisão, definitivamente seria a hora dos apresentadores se entregarem, mas ninguém apareceu. – Suas famílias são fundadoras do convento de bruxas dos Estados Unidos. Vocês fazem parte da linhagem mais nobre de todas. Meninas, pelo que os astros me dizem, vocês têm o dom de seus familiares. Vocês são bruxas!
O tempo pareceu estagnar em um piscar de olhos. Nenhuma delas acreditava no que acabara de escutar. Como poderiam acreditar em uma história dessas? Greyson Hills não tinha bruxas. Era impossível, não era? se recostou na cadeira, reunindo todas as memórias que tinha para justificar o que acabara de ouvir. Ela não sabia muito sobre sua família e o único parente que tinha contato era sua prima. Talvez ela pudesse engolir aquela revelação. Mas as outras? Elas sempre tiveram laços fortes com suas famílias, se fosse verdade provavelmente teriam descoberto mais cedo. piscou três vezes, passou a mão pelo rosto duas e olhou para o horário em seu celular. Na tela bloqueada, a foto dela com seu irmão no jardim da casa fez seu coração apertar. “Nós não somos bruxos, somos normais”, pensou. apenas segurou a risada, sentindo uma alegria correr pelo corpo. Ela já sabia que essa possibilidade poderia ser real, sua irmã sempre lhe deu dicas e sua família não era exatamente comum. A revelação foi apenas uma confirmação de que ela era especial. E , ela estava indignada. Sua mãe teria de abrir o jogo se isso realmente fosse verdade. Ela não iria acreditar em uma mulher que conhecera a apenas alguns minutos, tinha de ouvir essas palavras saírem da boca de sua própria mãe. “Bruxas” a voz de Davina ressoou na cabeça das quatro.
— E como isso funciona? – quebrou o silêncio. – Temos poderes como nos filmes?
— Não exatamente. – Davina limpou a garganta – Nós fazemos parte do convento de magia branca, magia conectada ao universo. Os poderes que nós temos são simples, a natureza tem um padrão e nós conseguimos moldá-la da nossa maneira. Mas, como vocês são de linhagens especiais, seus poderes são específicos e concentrados nos elementos da natureza que cada família foi designada.
— E o que nós fazemos com isso? Não é como se fosse acontecer outra guerra mundial. – riu – Não existem bandidos em Greyson Hills.
— Os poderes são parte de vocês, o que acontecerá com eles é por conta de cada uma. Essa noite vocês devem conversar com suas famílias. Descobrir o que puderem e então começarem o treino. Se seus poderes ainda não se manifestaram é porque eles não fizeram sua iniciação.
— Isso tudo está parecendo muito doido. – balançou a cabeça. – Muito Hitchcock para meu gosto. Vocês já viram American Horror Story? – ela se virou para as amigas – ser bruxa só traz problemas. Eu não quero isso.
— O que você assiste é um exemplo de magia negra. – Davina riu, não pretendia contar tudo hoje, mas queria ter certeza de que elas se manteriam no caminho da luz. – O poder tem duas faces realmente, mas com a orientação correta vocês não serão corrompidas. Seu sangue não permitirá. Apenas um bruxo de sangue nobre se converteu para o lado negro, mas essa história não vem ao caso. O que importa é que vocês compreendam quem realmente são e o que acontecer depois depende de vocês.
Assim que Davina calou-se, um som ensurdecedor invadiu o quarto e todas as luzes se apagaram na casa.
— Que merda é essa? – gritou antes de sentir seu corpo pesar e seus olhos se fecharem.
— Nos vemos em breve garotas! — a imagem dos dentes de Davina alinhados em um sorriso seria a última coisa que as quatro lembrariam daquela noite.


Capítulo 3

No dia seguinte, acordou em seu quarto, o corpo pesando contra os lençóis gelados. Um raio fino de sol brilhava no chão e o seu despertador tocava, dizendo que mais um ano letivo iria iniciar. Do outro lado da porta fechada, o tilintar de panelas indicava que sua irmã acordara mais cedo para preparar o café. A menina tocou os pés descalços no chão de madeira e uma corrente percorreu seu corpo, junto com flashes da noite passada.
— Isso foi real?
passou as mãos no rosto e analisou seus braços, a procura de qualquer evidência que confirmasse a loucura que havia acontecido há algumas horas. Nada. Ela pegou seu celular e olhou as notificações – nem um sinal de suas amigas. Jogando o aparelho longe, ela se levantou correndo para a frente do espelho. Apesar dos cabelos bagunçados, nada de novo em seu reflexo. Se ela realmente tinha poderes e tudo fora revelado na noite anterior, por que parecia que nada havia mudado?
“Seus poderes são específicos e concentrados nos elementos da natureza que cada família foi designada...”, a voz de Davina ecoou em sua memória.
Talvez a mudança estivesse em sua relação com a natureza, mas, se sua família tinha uma conexão com o fogo, como ela iria testar seu dom sem se machucar? Vasculhando seu quarto por algo que pudesse experimentar, parou o olhar sob algumas velas dispostas sob sua mesa. A imagem de uma chama queimando o pavio lhe veio à cabeça, mas nem uma faísca brilhou na vela. Ela franziu o cenho e pensando em labaredas, ergueu sua mão imaginando que iria ajudar, mas em vão. Perdendo a paciência, trouxe a vela para perto de seus olhos, mas o estrondo de sua maçaneta se abrindo e batendo na parede a fez pular.
— Algum problema com a vela? – Ava, sua irmã, ergueu a sobrancelha perfeitamente desenhada
— Muitos. – A mais nova bufou, batendo com o objeto na mesa. – Queria testar meus poderes. – disse sem pensar.
Assim que terminou de falar, sua irmã arregalou os olhos por alguns milésimos de segundo. Estaria na hora delas terem a grande conversa? Ava afastou o pensamento e apenas sorriu, puxando para a cozinha.
— Vamos bruxinha, não quero que você se atrase para o melhor dia do ano!
— Bruxinha... – suspirou e afastou aquela ideia ridícula do pensamento.
Do outro lado da rua, no lar dos Lockwood, terminava de se olhar no espelho quando sua mãe entrou no quarto. Ambas se assemelhavam de aparência. Os cabelos longos, as maçãs do rosto bem definidas e o olhar determinado eram marca das mulheres da família. Tessa, em seu conjunto azul escuro e seu famoso colar de pérolas, vislumbrou o reflexo de sua filha com orgulho.
— Preparada para o último ano?
— Como nunca. – A menina respirou fundo e se virou para a mãe. – Antes, tenho que lhe perguntar algo.
— Pode ser no carro? Temos que chegar cedo, você sabe...
— O assunto é delicado demais para se tratar no caminho.
As duas se sentaram na beira da cama. não se lembrava como havia chegado em casa, nem tinha certeza se o que ouvira na noite passada poderia ser real, mas ela sentia-se no dever de perguntar. Naquela casa não haviam segredos, desde que seu pai fora embora, eram só as duas contra o mundo. Descobrir algo que sua mãe ainda não havia lhe contado através de uma desconhecida fazia seu estômago revirar. Tessa percebeu a inquietação de sua filha e o olhar inquisidor.
— Mãe, os Lockwood são mais do que fundadores de Greyson Hills, não são?
— São uma das primeiras famílias a colonizar o país. – A mulher se fez desentendida. – Assim como as de suas amigas.
— E quem eram nossos parentes antes de serem expulsos da Inglaterra?
— Não foram expulsos! Nossos familiares buscaram refúgio na esperança de encontrar terras onde seus descendentes poderiam viver em segurança. Pensei ter lhe ensinado isso desde pequena.
respirou fundo, se acalmando. O tom de voz de sua mãe dizia que ela não estava muito satisfeita com aquela insinuação. Desviando o olhar, a menina percebeu o brilho do anel no dedo anelar de Tessa, a árvore do brasão da família.
— Que é isso em seu anel? – ela indagou, apenas para ter base para sua próxima pergunta.
— O símbolo dos Lockwood. – Tessa falou sem dar importância e encarou seu relógio de pulso. – Olhe filha, vá logo ao ponto antes que nos atrasemos mais ainda.
A menina levantou o anel para a mãe e limpou a garganta:
— Por acaso eles queriam garantir a segurança da linhagem pura de bruxos?
Batendo a porta do carro de Kade, checou os bolsos de sua mochila para garantir se realmente havia perdido a chave de seu Jeep. Provavelmente deveria ter esquecido na lanchonete ou talvez na caminhada na noite anterior. Uma noite de horrores, de fato. Ela fez questão de não pensar sobre o que havia acontecido com Davina e com toda aquela história de magia. Ainda que fosse adepta às fantasias em livros, ser algo além de humana estava fora de cogitação!
— Obrigada por me dar carona. – falou, assim que o irmão se sentou ao seu lado, ligando o carro. – Não faço ideia de onde deixei as chaves.
— Tá brincando? – Kade riu e encarou a irmã incrédulo – Essa já é a terceira chave que você perde. Acho que é de propósito só para que eu te leve ao colégio e faça todas as meninas suspirarem por mim. Você quer ter a fama de irmã do galã da rua Duncan, não é?
— A única fama que eu quero é na peça anual da cidade, pena que seu sorriso não pode me dar isso. Vamos logo que eu já estou atrasada!
, para estrear na peça de fim de ano você precisa estar em um grupo de teatro. Quem está no comando da Companhia de Greyson High?
Seguindo a rua em direção ao único colégio da cidade, olhou para a janela triste ao lembrar de como era impossível entrar no grupo de teatro da escola. A Companhia era o clube mais disputado devido seu nível elevado e por constantemente se apresentar em outras cidades, inclusive na Broadway.
Fletcher, — revirou os olhos — quem mais poderia ser.
— O pequeno Fletcher! – Kade riu sozinho. – Joguei lacrosse com o irmão mais velho dele. Eu o conheço desde que tinha bochechas rosadas e cabelo de porco espinho!
— Sua animação contagiaria se não fosse pelo fato desse garoto ser o mais exigente de toda a cidade! Sem contar com a estrela que é a namorada dele, o que faz as coisas ficarem triplamente difíceis.
— Sabe, o segredo está na confiança. Enfrente os populares! Mostre o dedo para eles, ria na cara do perigo. Quando eles perdem a autoridade, são só mais um bando de jovens com espinhas, você vai ver.
— Kade, sabe que como responsável você não deveria dar conselhos desse tipo.
Chegando no prédio, Kade embicou o carro no meio fio, alguns metros distantes da entrada e, destrancando as portas, olhou para irmã. Ao dar um aperto na bochecha de , a tatuagem de furacão em seu antebraço fez a menina prender a respiração. Ela não conseguiria evitar a inquietação no fundo de sua mente para sempre.
— Quando você estiver na faculdade o papo vai ser outro. Te vejo no jantar!
Dentro do auditório, logo na primeira fileira, encarava impaciente a tela de seu celular. No reflexo do aparelho, ela observava seu reflexo cansado, consequências da noite anterior. Depois da sessão com Davina, ela acordou apoiada em uma das mesas do Lucy’s por volta da meia noite, sozinha. não sabia como, nem se o que havia acontecido era real, mas ela tinha certeza de que a casa do outro lado da lanchonete estava escura e sem o carro que antes estava estacionado.
— Pensei que seria a primeira a chegar. — falou ao seu lado, tirando-a de seus devaneios.
— Será que você pode me explicar o que houve ontem? – sussurrou para a amiga, conferindo se estava tudo certo com ela. – Como você chegou em casa? Voltou com as outras?
— Bom dia também. – A menina se acomodou na cadeira e arrumou a saia — Pelo que eu entendi, Davina nos levou para casa em seu fusca. Minha mãe me deixou em minha cama e imagino que com as outras foi o mesmo. Você também esteve inconsciente?
— Sim, acordei na lanchonete... Espera, você disse algo para sua mãe?
O palco, preenchido pelos professores, completou-se com a chegada de Tessa Lockwood, diretora do colégio. observou a mulher, elegante como sempre e aparentemente em seu estado natural.
— Quem disse o que?
A voz cortante de fez as duas se virarem. Ao seu lado, franziu o cenho e tombou levemente a cabeça:
— Já vamos começar com isso logo de manhã?
— Com um assunto bombástico desses, seria inevitável! Mas quero começar dizendo que eu tentei fazer a natureza ser minha subjugada e não deu certo. Nem uma faísca.
— Não é assim que funciona. – sussurrou, atraindo a atenção das três. – Nossos familiares precisam fazer a iniciação. Sem a transição ainda somos normais.
— E se eu não quiser ser anormal? – a voz fina de soou como uma confissão.
— É nossa obrigação. Depois da cerimônia temos uma aula vaga para a apresentação dos times e dos clubes na quadra externa, explico melhor assim que estivermos nas arquibancadas.
O som oco de duas batidas no microfone fez as meninas se calarem. Todo o auditório se silenciou para escutar as palavras de sua diretora e em seguida o hino nacional. Assim que ficou de pé, sentiu o bolso se sua calça jeans pesar. Discretamente ela colocou a mão e sentiu o pequeno volume de cartas. Quatro cartas para ser exato – a prova concreta de que o incidente da noite passada foi real.
Ao final da reunião, a maioria dos alunos saiu direto para as aulas, mas os do último ano se direcionaram à quadra externa. O sol começava a aparecer quando os chefes dos grupos da escola se posicionaram em frente das arquibancadas. Todo o time de futebol, sempre acompanhado das líderes de torcida, conversava e ria escandalosamente. As quatro subiam as escadas quando observou-os. Logo na ponta do banco, Melanie Perales e Cassidy Chang fofocavam sobre a festa da noite anterior, mas pararam ao perceber o olhar cortante de . , percebendo o que poderia acontecer, parou ao lado da amiga.
— Perdeu algo? – Melanie encarou de volta com mesma intensidade. – E você Lockwood, está se escondendo de mim? Soube que está relutante em relação ao debate para presidência do comitê estudantil.
— Não estou com medo, se é isso que quer saber. – cruzou os braços.
— E não é como se você fosse vencê-la. – completou, começando a ficar irritada.
— Meninas... – uma voz rouca soou atrás de .
Iluminado pelo sol, Connor St. Germain, um dos queridinhos do colégio, olhava diretamente para :
— Sem brigas, por favor. – Ele bagunçou os cabelos loiros – O dia nem começou!
— Jogue seu charme para cima dela longe de nós Connor! – Cassidy esbravejou.
— Com certeza. – O loiro piscou para e virou-se, caminhando em direção ao gramado, onde encarava-o intrigado.
— O que vocês ainda estão fazendo aqui?
Revirando os olhos, as duas subiram as escadas, ignorando o comentário de Melanie. e balançavam a cabeça em negação quando e se sentaram na fileira abaixo. A intriga entre as meninas e a dupla era antiga. Desde a infância, as meninas das famílias fundadoras sempre foram um grupo fechado, mas conhecidas em toda a cidade. Quando Melanie e Cassidy perceberam a atenção que era dada às quatro, a disputa entre os grupos se iniciou.
— Vocês não deveriam cair no jogo delas. – analisou o campo, notando que e Connor conversavam entre si enquanto olhavam para . – Isso só piora a situação.
— Eu pretendo ganhar esse ano. – Decidida, encarava o topo da cabeça de Melanie.
— Podemos falar sobre algo que realmente importa? – balançou a cabeça e se virou para as amigas, ficando de costas para o campo.
— Por favor. – Com a respiração pesada, encarou a amiga.
“ Em 1620, no ápice das Guerras de Religião e durante a perseguição que acontecia na Inglaterra, o navio Mayflower trouxe os primeiros colonos que procuravam liberdade para os Estados Unidos. Dentre os puritanos a bordo, cinco famílias entraram no navio com nomes falsos para sua proteção – nossas famílias. Assim que os colonos se estabeleceram na terra e criaram a colônia de Plymouth, as famílias precisavam desenvolver a sociedade, mas as condições eram difíceis, faltava alimento e infraestrutura. Os homens partiam em longas jornadas para explorar a terra, deixando as mulheres cuidando das casas e dos filhos. Durante uma noite quente de verão, uma das maiores tempestades atingiu o vilarejo. As casas estavam sendo destruídas quando as matriarcas de nossas famílias se reuniram e decidiram proteger a vila, sem se preocupar com as consequências que viriam ao expor seus dons.
Marin interrompeu a chuva pesada que caia, evitando que o rio alagasse a vila. Firestone cessou o incêndio nas casas, provocado pelos raios. White afastou as nuvens negras que se aproximavam no céu. Lockwood fez o solo absorver a água excedente, protegendo a plantação, única fonte de alimento da colônia.
Assim que a situação se estabilizou, as mulheres das famílias foram isoladas pelos outros colonos que tinham medo por não compreender o que havia ocorrido, enquanto a quinta família de bruxos que não se revelou no dia da tempestade fugiu, sem avisar as outras. Quando os homens que retornaram de mãos vazia souberam do ocorrido, os chefes da colônia se reuniram para decidir o que fazer com as quatro famílias de dons incomuns. Como os puritanos não tinham conhecimento dos dons dados pela natureza, determinaram que os hereges deveriam ser expulsos de Plymouth, mas poupados por salvarem os outros cidadãos. E foi assim que nossas famílias partiram em busca de outra terra, fundando mais tarde, Greyson Hills.
Sendo uma cidade fundada pelas linhagens puras de bruxos, outras famílias com dons se instalaram aqui ao desembarcarem no país. É por isso que histórias sobrenaturais sempre envolvem esse lugar. A magia que Greyson Hills abriga é uma das mais fortes e puras do mundo, porque partiu das mulheres mais poderosas de todas as gerações. Desde então, as famílias fundadoras fizeram a promessa de proteger o centro de magia. A cada geração, apenas um membro da família conserva os poderes de seu elemento, sendo atribuído o cargo de guardião. A magia possui duas faces, por isso os guardiões de Greyson Hills devem proteger a pureza que a cidade conserva desde sua fundação.”

— Quem é a quinta família? É dela que Davina se referiu na noite passada? – perguntou, tirando todas do transe.
— Onde fica o centro da magia? – acompanhou.
— E quando nós vamos assumir o papel de guardiãs? – perguntou por último.
— Eu ainda não tenho todas respostas. Minha mãe fez questão de contar o mínimo. Imagino que ela seja a guardiã da minha família, assim como Ava e Kade. – limpou a garganta. – Não tenho certeza quanto a sua família , mas imagino que seja sua prima, apesar dela ter saído da cidade.
— Sua mãe conhecia Davina? – com a mão na testa, indagou. – Como ela sabia onde cada uma mora?
— Minha mãe só sabe que ela é nova na cidade e que Davina controla o tempo, tem visões do futuro. Ela conhecia nossos endereços porque a cidade é pequena. – respirou fundo e deu de ombros. – Não precisamos nos preocupar ainda. Até que nossos familiares façam a iniciação não temos poderes.
— Mas do que precisamos proteger o centro de magia? – mordendo o lábio, voltou a olhar os outros alunos, todos agindo normalmente.
— Da magia negra.
As quatro se entreolharam aflitas. ia voltar a falar quando um grito a fez levar um susto:
— Lockwood! Tem algo mais interessante a compartilhar com o resto de nós?
As três meninas riram em silêncio da cara de , que se virou lentamente para o campo com todos os olhos em cima dela. A menina reconhecia perfeitamente aquela voz, o que a fez ficar mais irritada ainda. No meio da quadra estava Brisbane, encarando-a diretamente nos olhos apesar da distância. Ele era o capitão do time de lacrosse e do decatlo acadêmico, por isso fazia parte do elenco favorito da escola ao lado de , capitão do time de futebol.
— De maneira alguma. – respondeu cínica e cruzou os braços, ignorando o olhar falso de Melanie, também à frente dos outros alunos. – Pode continuar.
— Como eu ia dizendo, — assumindo a atenção, Fletcher, líder do grupo de teatro, falou – em nosso último ano, todos estão convidados a participar dos clubes extracurriculares. Para a Companhia, apenas uma vaga está livre. – O menino encarou sua namorada, Cassidy, com tristeza. — Testes começaram na próxima semana.
não podia acreditar no que acabara de escutar. Finalmente ela teria uma chance! Sabendo disso, abraçou-a de lado. Na primeira arquibancada, Cassidy observou a cena irritada. Ela não admitiria perder sua vaga para White.
— O mesmo vai para os Vikings. – assumiu o discurso. – Mas nada de novos quarterbacks! – arrancou a risada da maioria dos alunos.
— Para as Sirenas, somente as convidadas. – Melanie piscou para , claramente mostrando que a menina não seria uma delas. – E para o comitê estudantil, aceitaremos apenas aqueles com média acima de B.
— Ela fala como se fosse a rainha da escola. – revirou os olhos, apoiando os braços em seus joelhos dobrados. – Escutem minhas palavras meninas, esse ano eu vou assumir esse papel.
— Eu te ajudo. – manteve o olhar fulminante em direção a , que ria de algo que um dos meninos do time falou.
— Então eu vou conseguir a vaga da Companhia. – sorriu, evitando olhar diretamente para Cassidy.
— Desde quando o foco da nossa conversa voltou a ser dramas do Ensino Médio? – balançando a cabeça, respirou fundo. – Pelo visto eu vou ter que desvendar toda essa história de magia sozinha.
Assim que ela terminou de falar, o sinal tocou, indicando que o tempo livre havia acabado. Os grupos foram se direcionando de volta para o colégio, quando o som do escapamento de moto soou por todo o lugar. As quatro desceram rapidamente as arquibancadas e olharam o estacionamento. Desmontando da Harley Davidson preta, o garoto de capacete pegou a mochila e se virou para os alunos que ficaram na quadra. Ao retirar o capacete, as tatuagens de seu pescoço se revelaram, fazendo prender a respiração.
— Não é possível... – sussurrou ao seu lado.
— É ele. – acompanhou, segurando a mão da amiga.
— Os Brooks estão de volta? – estreitou os olhos em dúvida.
? – sussurrou, atraindo a atenção do menino da moto.


Capítulo 4

3 anos atrás

No jardim da casa amarela, e conversavam no balanço de madeira. A menina mexia seu corpo, tocando as pontas dos dedos na grama recém cortada, enquanto ele a olhava furtivamente, evitando pensar demais no que o burburinho em seu peito queria dizer. Era uma tarde morna de primavera, todas as flores inebriando o ar, quando o menino segurou a mão dela e a puxou para um beijo inocente e singelo.
2 anos atrás
Sentados no meio fio da Rua Duncan, segurava em seus braços pela última vez. Ela tentava desviar o olhar do carro lotado de malas e ele memorizava cada parte de sua namorada. passou a ponta do dedo sob a tatuagem recém feita de , uma rosa entrelaçada em uma adaga na lateral de seu pescoço, que segundo ele representava sensibilidade e força – tudo que eles precisavam para manter o relacionamento durante o tempo necessário, segundo a interpretação dela.


Hoje, o que menos esperava ver era de volta na cidade. O silêncio entre os dois era cortante, assim como as lembranças de sua história. Depois que os Brooks se mudaram para Nova Iorque, deixou de responder suas mensagens e nunca mais ligou para . Foram exatamente dois anos e cinco dias à espera, apesar de ele ter prometido que seria por apenas um verão.
Com o punho fortemente cerrado ao redor da alça da mochila, o menino caminhou em direção à quadra, onde todos o observavam. A cada passo dado, o pensamento dela acelerava. O tempo havia os distanciado demais, ela sentia que não deveria correr para abraçá-lo, por isso, apenas cruzou os braços tentando tranquilizar sua respiração e esperou que ele a alcançasse. Observando-o cuidadosamente, notou que estava muito diferente. Suas roupas mais escuras, o ar sério e novas tatuagens se revelavam a cada movimento. Aquele não parecia com o garoto que tinha se apaixonado e ele sabia disso.
— Sentiu minha falta? – disse irônico, observando-a dos pés a cabeça.
Em um ato reflexo, segurou o braço de . Ela engoliu em seco, sentindo as antigas feridas se reabrirem, e ele esperou.
— Não se faz isso com alguém que se ama. – Sussurrou, apenas para ele ouvir. sentiu um calafrio percorrer por seu corpo, realmente fazia tempo que não escutava essa voz. – Por que fez isso comigo? Onde você estava quando eu mais precisei?
— Você não vai gostar do que vai ouvir.
— Vai dizer que nunca me amou?
pronunciou essas palavras de maneira tão natural que se espantou.
— Sabe qual parte foi pior? – Ela precisava desabafar. – Foi imaginar. Criar milhares de motivos pelos quais você me deixou. A cabeça pode ser sua pior inimiga, sabia?
Os olhares trocados entre eles eram tão intensos que as pessoas ao redor começaram a se dispersar para deixá-los a sós. A menina respirou fundo e deu de ombros. Ela tinha feito uma lista de coisas a falar com quando o reencontrasse e não queria que ele assumisse o controle da situação ou fugisse dela, como sempre fazia.
— Eu pensei em desistir de você, . Mas quanto mais velha eu fico, mais entendo como é difícil viver em um mundo sem amor. Sozinha. Por isso eu vou continuar te esperando, mesmo quando você me afastar, eu estarei aqui, porque sei que você não é assim. Todo mundo merece amor, inclusive nós dois.
Assim que ela terminou, soltou a mão do menino. Antes que ela se afastasse demais, a puxou para perto, trazendo memórias antigas entre os dois.
— Pode ser que não seja isso que você queira ouvir, , mas eu voltei por você.
— Por que agora?
— Porque está na hora.
Em um piscar de olhos, revelou uma margarida branca em sua mão e a colocou na orelha de .
— Te vejo lá dentro.
Tomada pela surpresa, ela não sentia seu corpo e esperou a sombra de sumir para retomar o fôlego. A reação dele fora diferente do que imaginara. Caminhando para a piscina, onde poderia ter um momento sozinha para pensar, a menina balançou a cabeça e riu sozinha, pensando alto:
— E eu achei que sairia ilesa dos dramas.
— Vocês acham que foi uma boa ideia deixá-la sozinha? – abrindo o armário para retirar os livros, tamborilou os dedos na parede de metal. – Ainda mais com aquela versão gótica de ...
— Eles precisavam conversar. – deu de ombros.
— Não sei vocês, mas eu achei que ele ficou mais bonito, apesar daquelas tatuagens horríveis. – aprumou seu rabo de cavalo e olhou para o relógio no pulso, aguardando o sinal. – Nos encontramos no almoço e então vemos como está. Perfeito?
As outras duas assentiram e seguiu o caminho oposto de e . O colégio era consideravelmente grande para uma cidade como Greyson Hills, mas a pequena Lockwood tinha o mapa do local decorado desde a primeira vez em que pisara lá. Ela tinha o desejo de orgulhar sua mãe, por isso se empenhava em ser sempre a melhor. Sua meta era palpável, até ela conhecer .
Na entrada da sala de aula, e conversavam animados sobre os Vikings.
— Nós precisamos de você nessa temporada. Ninguém sabe jogar tanto na defesa quanto no ataque como você!
, eu já expliquei que é impossível treinar todos os dias com os Vikings e manter minha média nas matérias...
— Mas você é o melhor em tudo, cara. Deve ter alguma maneira de conciliar o esporte e os estudos.
Revirando os olhos, pigarreou, pedindo passagem. Atraindo a atenção dos meninos, ela ergueu a sobrancelha e não pode evitar soltar um comentário na conversa dos dois.
— Ele não é o melhor em tudo.
, envergonhada, passou a mão pelo rosto e seguiu reto, deixando a amiga confrontar os meninos.
— Desculpe, mas a conversa é entre nós. – apontou o dedo para e ele.
— Lockwood! – deu um tapinha nas costas do amigo. – Essa é a garota de quem tanto falo!
— Hm... – trocou olhares cúmplices com o outro. — Vou entrando então. – O menino desapareceu na sala.
— O que quis dizer antes? – apoiou o braço na parede, analisando a menina de braços cruzados a sua frente – Quer disputar pela vaga no time?
— Se isso fizer seu ego diminuir, sim.
arregalou os olhos surpreso e sorriu:
— Então, que os jogos comecem.
deu de ombros e entrou na sala a passos largos. Ela sentia o olhar do menino em suas costas, por isso, virou-se para encará-lo, desafiadora. ergueu as mãos em rendição e entrou em seguida, acomodando-se na primeira fileira. A maioria das bancadas estavam ocupadas. sentava-se no fundo e mordia o lábio como se pedisse desculpa. Ao seu lado, onde deveria ser seu lugar, Fletcher acenava para ela com um pequeno sorriso cínico. “Esses idiotas!”, pensou enquanto respirava fundo e jogava sua mochila no único lugar disponível na sala – bem ao lado de Brisbane.
— Que surpresa! – ele riu, apoiando a cabeça na mão direita e olhando diretamente para o rosto da menina. – Bom dia, dupla!
— Cala a boca.
, nós seremos parceiros durante o ano inteiro. Seria muito bom um pouco de educação mútua. Ou civilidade...
...
A menina não terminou sua frase ao notar que o professor entrou na sala. A mal gosto, ela se sentou na cadeira, puxando-a o mais longe possível dele. Poderia ser infantilidade sua, mas foi criada para ser a melhor e estava ali atrapalhando seus planos. Não tinha como eles se darem bem. Pelo menos não por parte dela.
— Quer parar de olhar para mim? – ela esbravejou, sem se virar para o menino.
— Desculpe, é que você é uma gracinha quando tenta me vencer... Você anota tudo o que o professor fala? – riu ao se aproximar do caderno de .
— Como eu faço para não matar esse ser humano com a minha caneta? – ela olhou para cima, arrancando uma risada silenciosa do menino.
No fundo da sala, estava prestes a virar a página de seu livro quando notou que alguém a observava de pé, ao lado da bancada. Erguendo o olhar percebeu que a encarava despreocupado. Com apenas o livro de Biologia na mão, ele apontou para a cadeira vazia ao seu lado.
— Posso?
A menina mal teve tempo de responder antes de perceber que aquilo não fora uma pergunta, mas sim uma constatação de que ele seria seu parceiro de laboratório. Seu rosto começou a esquentar ao ver que ainda estava fora da sala. Ela iria matá-la por não ter guardado lugar! fechou seu livro e mordeu o lábio, considerando se deveria iniciar uma conversa com ele. Para seu alívio, quebrou o silêncio.
— Você é a irmã de Kade... – ele não olhou para ela, provavelmente tentando lembrar seu nome
.
. – O menino se virou para ela e sorriu. – Vejo que gosta de poesia. – Analisou a capa.
— Honestamente, esse livro é horrível. – Os dois riram. – Kade me deu de Natal, mas não consigo passar da quinta página.
— E se eu disser que a autora é minha sogra?
Por um segundo, havia esquecido que e Cassidy eram um casal. De relance, a menina percebeu o sobrenome da autora – o mesmo de Cassidy – e sorriu desconfortável. Ela não podia acreditar que tinha falado isso.
— Desculpe.
— Não se preocupe. – acenou para , como havia prometido ao amigo, e prendeu a respiração ao perceber como a amiga estava irritada. – Tenho todas as cópias na minha casa e não li nenhuma delas. Não diga isso à Cassidy!
— Não há com que se preocupar. – Balançou a cabeça. — Não somos próximas.
— Eu sei. Tudo que Cassidy fala é sobre vocês. E não da melhor maneira...
— É o que eu digo para , não é saudável essa rixa, mas acaba sendo inevitável. – Suspirou, não acreditando que ela realmente estava conversando com .
— Marin, a ex-namorada de ? – se arrumando na cadeira, o menino se interessou pelo assunto. – É verdade que ele voltou?
— Você não o viu chegar?
— Não. Tive uma emergência maior. – Pigarreou, sinal de que não queria falar sobre isso.
— Suponho que você terá uma surpresa no almoço, então.
O menino se virou para frente, pensativo, e finalmente pode respirar. a encarava do outro lado da sala, como se quisesse entender o que estava acontecendo. Assim que a menina deu de ombros para a amiga, o professor chegou, atraindo a atenção dos alunos, exceto . Olhando de soslaio, ela percebeu que ele rabiscava algo na folha de seu livro. Em cima da bancada, seu celular piscava, indicando duas mensagens de Kade. Imeditamente, entendeu o que estava acontecendo. Não demorou para que o garoto ao seu lado rasgasse o pedaço de papel e passasse para ela.

“Sexta-feira, auditório, 18 horas”

— Antecipei seu teste por ser pedido especial. – Balançou o celular antes de guardá-lo no bolso.
— Você não precisava fazer isso. – Ela brincou com a caneta a sua frente. – Não quero favorecimento por termos um conhecido em comum.
— Quem disse isso? – levemente ofendido, sussurrou. – Eu sou o diretor, escolho quem eu quiser de acordo com o talento que estou buscando.
— Então porque me deu um horário diferente das audições abertas?
— A Companhia envia convites nas férias para os interessados dos anos anteriores, com audições em dias e horários diferentes, para que um não copie o outro. Como seu nome surgiu agora, tive que adaptar o procedimento. Geralmente os candidatos se preparam durante o ano para os testes.
— Tudo bem. – Ela engoliu em seco, sentindo a pressão aumentar sob suas costas. – Estarei lá.
encarou o papel a sua frente, envergonhada por seu irmão ter pedido ajuda à , mas guardou-o na agenda. Aquela seria sua única chance de mudar seu futuro. E ela não poderia desperdiçar essa oportunidade por nada. Principalmente agora que havia aberto uma exceção especialmente para ela.
Sentada na parte de trás das arquibancadas da quadra externa, observou o céu azulado. Sua ansiedade estava atacando, fazendo com que sua respiração saísse entrecortada. Apesar dela se mostrar forte para o mundo, muitos pensamentos costumavam fazê-la perder a cabeça. E o principal motivo agora era a sua ausência de poderes.
— Ei, quer companhia?
A menina fechou os olhos, soltando uma rajada de ar pela boca para tentar acalmar as batidas de seu coração. Ela nunca teve um ataque de pânico na escola, por isso não sabia como reagir. O menino, também com a respiração cansada, sentou-se ao lado de e colocou a mão em seu ombro.
— Está tudo bem?
Ela reconhecia aquela voz serena. Mordendo o interior da bochecha, a menina abriu os olhos, se deparando com um par azul bem a sua frente. Connor St. Germain a encarava preocupado, sem se importar com a gota de suor descendo em seu rosto.
— Se você conseguir me distrair dos problemas aqui, — apontou para sua cabeça. – ajudaria. – sorriu sem graça.
— Você tem o cara certo, então! – se ajeitando, Connor encostou-se na barra de metal ao lado da menina. – Tenho muitas histórias para contar, você prefere a do meu primeiro beijo ou da minha viagem para o acampamento no Maine?
— Primeiro beijo. – a menina percebeu que ele estava com a roupa de treino. – Não estou te interrompendo?
O loiro olhou para baixo e deu de ombros.
— Finalizo o treino depois. Está preparada para uma história mais trágica que Romeu e Julieta?
— Com certeza.
— Tudo começou quando tinha quatorze anos. Eu tinha marcado com uma menina, não direi o nome para manter a integridade dos envolvidos, de me encontrar no lago Pioty, na entrada da floresta de Greyson Hills. Perto das pedras, tem um lugar perfeito para se montar piquenique, por isso levei uma toalha, alguns salgadinhos e velas. – arregalou os olhos, imaginando como aquela história iria terminar. Connor sorriu, notando que ela estava se acalmando, e continuou. – A ideia original era só levar comida, mas eu tinha visto um filme romântico em que o homem colocou velas, então me convenci de que seria a melhor ideia! Tudo estava perfeito, ela estava caidinha por mim e eu encantado com o sorriso dela, quando chegou o momento. Eu me inclinei para beijá-la, mas acabei me atrapalhando e quando eu fui me apoiar melhor, acabei chutando uma das velas. O pior foi que eu joguei tudo no lago para apagar o fogo. Na toalha estava o celular da menina. Então, digamos que até hoje estou devendo uma toalha para minha mãe e um celular para ela... Mal comecei a trabalhar e já tenho dívidas em meu nome.
gargalhou, fazendo com que Connor a observasse aliviado. Ele sabia que essa história era a perfeita distração.
— Isso foi horrível!
— Ei, não teve graça na hora. – Ele mordeu o lábio e encarou-a. — Como você está? – perguntou mais sério.
— Bem melhor, obrigada. – Ela respirou fundo. – Achei que ninguém me encontraria aqui. Espero que isso fique só entre nós...
, esse é um dos lugares mais movimentados. – Ele apontou para as inscrições nas barras de metal, iniciais de casais do colégio. – Mas não se preocupe. Segredo nosso. – Piscou para a menina e se levantou. – Vem, eu te pago o almoço.
Sentindo uma onda de calor percorrer pelo corpo, ela segurou a mão de Connor e o deixou guia-la para fora. Os dois caminhavam em direção ao prédio principal quando escutaram um grito vindo da quadra, onde outros garotos treinavam.
— St. Germain! — observava com as sobrancelhas franzidas, pedindo explicação de seu sumiço.
— Pensei em terminar mais cedo. – Bagunçou os cabelos e soltou a mão de rapidamente. – Faço tempo extra no final da tarde!
Connor se virou para com um sorriso amigável e voltou a andar a seu lado. riu confuso, compreendendo que tinha flagrado os dois saindo de baixo das arquibancadas, e voltou a dar os comandos para o time. “Essa é uma informação interessante para ser estudada mais tarde”, pensou o capitão antes de voltar a arremessar as bolas para sua dupla.


Capítulo 5

Afundando o corpo na água fria da piscina, Lana fechou os olhos na tentativa de acalmar-se. Desde pequena, ela se sentia protegida perto da água, como se fizesse parte dela. Agora, ela sabia o real motivo da conexão. Liberando todo ar de seu pulmão, a menina esperou a sensação de queimação surgir, mas obteve algo diferente como resposta.
?
Um sussurro surgiu à distância, um som peculiar que parecia vir de dentro da água. A menina estreitou os olhos, conferindo se estava sozinha de baixo d’água. Não havia mais ninguém além dela.
, sou eu – o timbre feminino da voz de sua prima se fez mais próximo, como se viesse por trás de seus ouvidos. – Preciso que você preste atenção no que vou falar.
A menina não sabia ao certo no que pensar. Sua cabeça já estava ocupada com as memórias de e todas as revelações do dia. Ela aguentaria mais notícias, vindo de sua prima que um dia simplesmente desapareceu?
— Estou ouvindo – ela murmurou, incerta se aquela forma de comunicação realmente funcionava.
— Eu sei que está – a mulher respondeu com um tom divertido na voz. – Você deve estar se sentindo perdida nesse instante e eu sinto muito por não poder estar ao seu lado nesse momento. , eu não tenho muito tempo, então não conseguirei responder todas suas perguntas, por isso quero que apenas escute. No momento que deixei Greyson Hills, concedi os poderes de nossa família a você. Sua iniciação estará completa no momento em que você ler a epígrafe do livro dos Marin. Eu o deixei escondido no mármore de nossa lareira. Cuide muito bem desse livro, pois nele você encontrará tudo que precisa para aprender sobre o mundo da magia. A partir de hoje você deve ter muito cuidado com as pessoas ao seu redor, não confie piamente em todos. Há pessoas boas e más em todos os lugares, com ou sem magia. Seu papel como guardiã é evitar ao máximo cair na tentação do poder obscuro e sempre proteger suas amigas. Vocês quatro são as únicas responsáveis pelo equilíbrio da cidade e, indiretamente, do mundo como um todo. Sei que é complicado absorver tudo isso, mas, prima, todas as histórias são reais.
— Eu devo sentir medo? – mordendo o lábio, tentou não sentir saudade do abraço de sua prima e da proteção que ela lhe proporcionava quando moravam juntas.
— Não tema o desconhecido, tema apenas àqueles que o manipulam ao seu favor.
— Prima, — sentiu sua voz fraquejar – eu a verei novamente?
As águas ficaram silenciosas por alguns instantes e pensou que a conexão havia sido interrompida. Mas, antes que ela perdesse a esperança, o som se fez audível à distância:
— Se assim for o desejo das estrelas, sim, nos veremos novamente!
E então, a piscina ficou muda. fechou os olhos, absorvendo todas as informações e, assim que a última mensagem de sua prima foi guardada em sua memória, seu corpo tomou consciência e seus pulmões arranharam por ar. Impulsionando o corpo, ela se permitiu flutuar até a superfície, inspirando uma grande quantidade de ar. O dia mal começou e ela já estava planejando sair daquele lugar o mais cedo possível. Se havia algo escondido em sua casa que poderia ajuda-las a entender melhor o que aconteceria dali em diante ela não podia perder tempo. tinha que encontrar aquele livro, nem que isso significasse perder logo o seu primeiro dia de aula.
Correndo para o vestiário, ela pegou seu celular e enviou uma mensagem para as meninas. Enquanto secava seu corpo, a tela do aparelho acendeu, indicando uma notificação de um número desconhecido.

“Quer dar o fora daqui? — Brooks”

Seu estômago revirou ao ler o texto. Aquela mensagem era conveniente demais para um momento como esse, em que estava sem carro e precisava chegar em casa o mais rápido possível. Talvez a melhor solução para seus problemas seria subir na garupa de uma Harley, mas essa decisão também significaria passar o dia inteiro com o garoto que partiu seu coração. O que ela deveria escolher? agarrou o celular e saiu em direção ao estacionamento.
Parada ao lado da moto, a menina esperava impaciente. Assim que o sinal para o almoço tocou, a primeira pessoa a sair pela porta dos fundos foi . Andando a passos largos, ele abriu um sorriso presunçoso e balançou as chaves em seu dedo indicador.
— Olhe só para você! Nem parece aquela menina descontrolada que encontrei mais cedo! – riu sarcasticamente ao analisar os cabelos molhados e bagunçados de . – Você veio para a escola só para nadar?
— Eu vim porque achei que seria mais um dia normal – ela pegou o capacete que estendia e o colocou. – Mas por sua culpa tive que mudar os planos.
— Minha culpa? – o garoto se fez surpreso. – Se eu bem me lembro, essa cidade também é minha. Não preciso mandar um comunicado para cada cidadão dizendo que minha família e eu estamos de volta. – passou as pernas pela moto e ligou o motor.
— Poderia ter enviado um só para mim – sussurrou, subindo na moto, e segurou o menino pelos ombros.
— É sério? – ele se virou rindo e bateu no topo do capacete da menina. – Você diz que me ama de manhã e que sempre vai esperar por mim, mas não quer segurar em minha cintura algumas horas depois?
estreitou os olhos, sem cortar a conexão com . Seus olhos escuros desafiavam a menina. No passado, eles costumavam rir quando se encaravam por muito tempo, mas, hoje, isso não era possível — não quando os dois haviam mudado tanto.
— Eu vou segurar seu corpo, mas isso não significa nada – ela entrelaçou seus braços ao redor dele e então a moto começou a andar. – Só me leve para casa.
— Não quer ir para um lugar mais distante? – um tom de desapontamento soou em sua voz — Não é sempre que se tem uma Harley para andar.
— Minha casa .
O ronco do motor invadiu a rua. Algumas pessoas viraram as cabeças para ver quem estava dirigindo. Não demorou muito para a moto pegar velocidade e tudo ao redor virar um borrão na visão. Ao observar o retrovisor, analisou a expressão de . Ele estava concentrado na estrada, mas seus pensamentos pareciam estar em outro lugar. Ela direcionou seu olhar para o pescoço do menino, onde notou a tatuagem da adaga acompanhada de algumas marcas. Pareciam arranhões antigos, cicatrizados com o tempo.
— O que fizeram com você? – sem pensar duas vezes, ela perguntou, passando a ponta do dedo sobre as cicatrizes. se encolheu levemente, tanto por vergonha quanto por ter se esquecido de como era carinhosa em seu toque.
— Não interessa – seu lado rude retornou.
Ela engoliu em seco. Por mais que amasse e estivesse disposta a esperar por ele, sua vontade de ouvir desaforo era mínima, principalmente quando havia assuntos mais importantes para tomar sua atenção. Por isso, o restante do caminho para sua casa foi silencioso. Ao virar na última rua de Greyson Hills, o menino reduziu a velocidade e analisou a paisagem ao seu redor — a rua dos Marin era a mais tranquila de toda cidade, com casas menores e vista para o lago Pioty — era um de seus lugares favoritos no passado. Os dois costumavam ficar no deque na beira da água, jogando pedras na superfície e conversando sobre a vida. Ao parar em frente a casa azul, desceu da moto e tirou o capacete. O garoto relembrava cada detalhe da entrada da casa, abismado ao perceber que nada havia mudado.
— Quer entrar?
— Não sei se deveria.
— Só estou lhe convidando para o almoço, nada além disso – destrancou a porta. – Podemos conversar com calma, começando pelo motivo de você dizer que voltou para Greyson Hills por mim e por estar na hora – fez aspas com os dedos, repetindo a fala do menino no início do dia.
desligou a moto e bagunçou os cabelos. As explicações para todas dúvidas de estavam na ponta de sua língua, mas ele não tinha certeza de que ela estava pronta para ouvi-las.
— Espero que você tenha algumas cervejas na geladeira, porque vamos precisar.
não sabia dizer o que ela estava fazendo na mesa do time de futebol. Quando Connor havia dito que lhe pagaria o almoço, ela imaginava que se sentariam em uma mesa para dois, comendo um prato delicioso, não dividindo a bancada com uma caixa de som, batatas fritas perdidas e casacos dos Vikings. Vasculhando a cafeteria, ela não encontrou nem .
— Espero que não tenha demorado muito – chegando com duas bandejas, o loiro sorriu sem graça.
— Nem um pouco! – aliviada, deu espaço para que ele se sentasse ao seu lado.
— Como você está? – Connor perguntou enquanto abria a tampa de seu suco.
— Ficarei melhor quando der uma garfada nesse macarrão – a menina riu, enquanto girava o garfo. – De qualquer maneira, você não precisa se preocupar tanto.
— Claro que preciso, — ele fez uma careta, indignado – se pretendo ser um bom médico, devo me preocupar com todos.
— Não sabia que você queria seguir essa profissão.
— Imaginou que eu jogaria futebol para sempre? – ela sorriu envergonhada, enquanto ele balançava os ombros despreocupado — Escuto isso o tempo todo. Eu preciso do esporte para garantir minha bolsa de estudos para o próximo ano, mas não pretendo ir para a Liga como os outros.
— E para onde você pretende ir? Sei que sua família inteira estudou apenas na Ivy League, deve haver muita pressão em sua casa.
— Gostaria de aplicar para todas do grupo, mas minha principal é Harvard. Meus irmãos estudam lá, então não vejo motivos para não fazer o mesmo.
— Jogador de futebol semiprofissional e futuro aluno de Medicina em Harvard. Isso é o que eu chamo de ascensão. O sobrenome St. Germain não é fácil de se carregar! – a menina se arrumou na cadeira, aproximando-se do garoto.
— Não é apenas quem tem cérebro e habilidade na quadra! – ele fez o mesmo, tocando sua perna na de .
— Você tem uma vantagem sobre ele – ela susteve o olhar de Connor, flertando abertamente.
— Qual seria? – St. Germain sorriu, entretido.
— Você tem jeito com as garotas, — a menina mordeu o lábio, fazendo o loiro respirar fundo – agradeça às suas covinhas.
Connor gargalhou, fazendo algumas líderes de torcida revirarem os olhos. Ela ainda não acreditava que aquele garoto estava dando tanta atenção para ela. Tudo parecia perfeito demais, até que os dois lugares vazios a sua frente foram ocupados.
— Divida a piada conosco Connor! – Melanie apoiou a cabeça em sua mão esquerda, sem sequer olhar para . – Tenho certeza que sua companhia já é um grande motivo para rir!
— Bem que eu imaginei que vocês dois estariam começando um romance – falou em voz alta, segurando a risada.
— Aster me contou que viu você saindo das arquibancadas durante o treino. Desse jeito não vamos ganhar as nacionais St. Germain! – um garoto do time soltou do outro lado da mesa, arrancando risadas de todos presentes.
Respirando fundo, não baixou o olhar. O loiro a encarava, pensativo, e então a menina decidiu responder à altura:
— Se estamos juntos ou não é problema nosso, mas garanto que caso Connor tire a sorte grande comigo, ele vai se sair melhor nos jogos que qualquer um de vocês.
Melanie riu, descrente do que escutou, e o time inteiro ficou em silêncio. Ao seu lado, Connor sorriu grato e segurou sua mão por baixo da mesa. Ela não tinha paciência para as brincadeiras do time de futebol, mas queria estar ali para conversar com St. Germain. Assim que Melanie abriu a boca para soltar um comentário para , seu telefone começou a tocar, indicando que estava ligando. A menina soltou a mão de Connor e se retirou da cafeteria para conseguir ouvir sua amiga. Na mesa, o burburinho retornou aos poucos e, enquanto o loiro terminava seu almoço, o casal a frente sussurrava, jogando olhares desconfiados sobre o garoto.
— Soube que Brooks voltou – para quebrar o gelo, Connor falou.
— Eu o vi, — encarou o menino a sua frente – o garoto ganhou corpo. Poderia servir de Running Back nessa temporada.
Connor engoliu em seco. Melanie fulminava , enquanto o capitão fazia o mesmo com o menino a sua frente. Aster era o mais popular da escola, tanto amado quanto odiado. Ele e St. Germain se tornaram melhores amigos quando deixou a cidade, mas, mesmo sendo muito próximos, Connor não deixava de sentir-se como um criado – apenas com um olhar, impunha uma ordem, por isso, o loiro estava compreendendo aonde aquela conversa iria chegar.
— Essa é minha posição, Aster.
— Por enquanto sim, mas não se esqueça que era dele antes de você entrar para o time – dando uma mordida em sua maçã, o capitão sorriu para a namorada. – Mas podemos discutir melhor sobre isso mais tarde.
— Sim, capitão – cabisbaixo, Connor seguiu o olhar maldoso do casal em direção à , do lado de fora das paredes de vidro.
Ao desligar o telefone, a menina voltou para pegar suas coisas. Na mesa, Connor era o único restante. Diferentemente de quando tinha o deixado ali, o menino parecia desapontado. Ela sorriu para o loiro assim que os olhos azuis encontraram os seus e então ele se levantou:
— Eu gostei muito de te conhecer, — os dois caminharam para fora da cafeteria – por isso queria saber se você gostaria de sair comigo algum dia desses.
— Claro! – surpresa, ela conteve a onda de felicidade que percorreu por seu corpo e sorriu animada.
— Sábado a noite?
— Combinado!
Com um sorriso contido, mas que ainda revelava suas covinhas, o menino beijou o topo da cabeça de e saiu caminhando com as mãos nos bolsos. Ela precisou recuperar o fôlego antes de correr até seu carro. Estava tão feliz que mal se lembrava da ligação de sua amiga, só sabia que deveria encontrá-la antes do último período. Mordendo o lábio, a menina ligou o motor e colocou sua playlist favorita para tocar. Nada mais naquele dia poderia surpreendê-la a ponto de superar o convite de Connor.
Estacionando na frente da casa de azul, notou que a moto de estava na garagem. Sem compreender ao certo o que estava acontecendo, a menina desceu do carro e caminhou em direção à porta da frente. Movendo a maçaneta, ela entrou na casa silenciosa. Tudo parecia normal, a mesa estava com pratos recém utilizados e a televisão ligada. Ela escutou passos ocos em cima de sua cabeça, o que só poderia significar que os dois estavam no andar de cima. Subindo as escadas rapidamente, a menina encontrou todos os recintos abertos e então, ao virar para entrar no quarto de , esbarrou com o garoto alto.
— O que você está fazendo aqui? – ele esbravejou, atraindo a atenção de , sentada no chão do outro lado do quarto.
— Eu é quem te pergunto – com o mesmo tom, a menina cruzou os braços. – Desde quando você tem o direito de aparecer na cidade e ter frieza de provocar minha melhor amiga depois de todo o sofrimento que causou?
— Por que vocês acham que que devo satisfação a todos? – resmungou. — Não acredito que das três amigas, você convidou justamente a mais raivosa – se jogou na cama, ignorando o olhar de .
— Nós já tivemos essa conversa – se levantando para apaziguar a tensão, sorriu para a amiga, agradecendo o apoio. – Basicamente, foi para Nova York para tratar de negócios de família e no final, foi obrigado a estudar em um internato.
— Credo, que antiquado – a menina riu. – Apesar de eu me entreter com a história dramática de vocês, eu preciso saber o que nós estamos fazendo aqui.
Sem delongas, revelou um pequeno livro de couro escuro e mostrou para :
— Esse é o motivo para todos nós estarmos aqui.
Ao final do período, arrumou seu material rapidamente e correu para a bancada de . Durante a aula de Química, ela recebera uma mensagem de texto de sua mãe, dizendo que precisava conversar com as quatro imediatamente.
— Você acha que vai ser alguma notícia boa? – ajeitando os livros, se levantou e seguiu para fora da sala acompanhada da amiga.
— Imagino que esteja relacionado ao que aconteceu ontem – estava tão ansiosa que mal se lembrou das importunações de durante a aula. – Talvez ela nos explique como será a iniciação. Antes de chegarmos no colégio, ela havia me dito que o procedimento deveria ser feito o mais cedo possível agora que estamos cientes de nosso futuro.
— Como você consegue aceitar tudo isso tão facilmente? – a mais nova reduziu a velocidade de seus passos, observando os colegas andarem tranquilamente pelo corredor – Eu não entendo como tudo isso pode ser possível. Somos apenas adolescentes! A única preocupação que deveríamos ter é com o vestibular ou o baile de formatura – passou a sussurrar para que ninguém além de a escutasse. — Não vejo como quatro meninas podem ser a chave para a proteção do equilíbrio entre o bem e o mal!
, respira – a amiga enlaçou o braço na outra e a guiou para a sala da diretora. – Pense que tudo isso é uma grande aventura que nem todos têm o privilégio de viver!
— Mas você não considera as consequências que podem vir? É muita responsabilidade para nós.
— Uma hora nós temos que crescer. Não há como fugir dos planos do destino, mas nós podemos aprender maneiras de lidar com ele. Por isso quero entender completamente como tudo isso funciona — ela gesticulou aos ares.
Dando duas batidas na porta, se soltou de e girou a maçaneta. Para o espanto das duas, a sala estava mais cheia do que o esperado. Sentados no sofá, Kade e Ava conversavam, um tanto nervosos, enquanto Tessa terminava de fechar as persianas de suas janelas. Franzindo o cenho, encarou seu irmão que segurava um livro de couro – como o de Davina – e pigarreou:
— A senhora nos chamou?
— Sim , sente-se por favor – a diretora caminhou até a porta e a trancou. – e virão? – perguntou para sua filha.
— Não, mas podemos conversar com elas depois – acomodou-se ao lado da amiga.
— Eu sinto muito por vocês terem descoberto tudo isso desse modo – Ava balançou a cabeça. – Nós imaginávamos que demorariam alguns anos até que fosse necessário realizar a iniciação...
— Há uma idade específica para se tornar guardião? – a mais nova suspirou, desejando que tivesse mais tempo para viver tranquilamente.
— Comigo aconteceu aos vinte e dois anos – seu irmão respondeu, batucando o pé direito no chão de leve. – A tendência é acontecer nessa faixa etária. Quanto mais jovem for o guardião, mais poderes ele concentra.
As meninas se entreolharam surpresas. As quatro estavam prestes a completar dezoito anos, indicando que o quarteto era mais poderoso do que imaginavam.
— E é por esse motivo que estamos preocupados – dessa vez, Tessa se pronunciou. – Vocês quatro são uma combinação rara de guardiãs. Uma geração tão poderosa quanto à dos fundadores.
— As matriarcas... – sussurrou e recebeu balançar de cabeça de Ava.
– Isso significa que teremos algum problema com a magia negra? – concluiu.
— Infelizmente, cremos que sim – sua mãe continuou. – Atualmente, sabe-se que a magia negra é atraída pelo poder. É uma forma que se apossa dos praticantes de magia branca que ainda não têm total controle sobre seus dons. Vocês meninas, além de possuírem o dever de proteger o equilíbrio, terão de aprender a se fortalecer contra a obscuridade. Por isso queremos iniciá-las o quanto antes para poder começar o treinamento.
— Para isso, precisamos das quatro unidas e desses livros – Kade ergueu o objeto. – Estes cadernos são essenciais para qualquer bruxo. Nele, cada família escreve seus encantamentos e características específicas de práticas de acordo com seu elemento. O primeiro encantamento em todos os livros é o que permite a transferência de poderes.
— E o que acontece quando vocês concederem os poderes a nós? – a menina encarou seu irmão, preocupada.
— Nós detemos uma pequena parcela de poder, apenas o necessário para a vida cotidiana! – Ava mexeu os cabelos ruivos. – O trabalho durante esses anos foi simples, não há vilões como nas décadas passadas. Minha avó me contava histórias em que ela e os outros guardiões lutavam contra todos os tipos de seres sobrenaturais...
— Eu tenho uma dúvida – atraindo a atenção de todos, se pronunciou. – Na noite passada, Davina nos contou de um bruxo puro sangue que se converteu a magia negra. Ele seria membro da quinta família dos fundadores?
Abismado com a conclusão de sua irmã, Kade olhou para Tessa, esperando sua resposta. A mulher mais velha tirou os óculos do rosto e começou a limpá-lo, enquanto organizava as melhores palavras a serem ditas. A Firestone mais velha, pelo contrário, sorriu para as duas na tentativa de amenizar o clima e se prontificou a falar:
— Você está certa pequena White! A quinta família cujo sobrenome nos é desconhecido fugiu na noite do incêndio e permaneceu desaparecida durante séculos. Apenas há algumas gerações, um de seus bruxos ressurgiu em Greyson Hills, mas ele não era praticante da magia pura. Nenhum de nós sabe como ele se aliou ao lado negro, porém, segundo registros, o bruxo foi um dos piores seres a ser derrotado pelos guardiões da época.
— Ava – Tessa ergueu a sobrancelha, sondando-a. – Essa história ainda não vem ao caso. Primeiro precisamos que vocês pratiquem seus dons, depois podemos contar outras curiosidades sobre o mundo.
sentia medo. Sua imaginação não queria voar longe, muito menos ilustrar as supostas histórias que Ava havia revelado. Ela mal conseguia aceitar que era uma bruxa e já teria de começar seu treinamento. Kade, pelo contrário, parecia muito mais apto a esse trabalho. Seu irmão sempre fora destemido e confiante, ele era o White certo para proteger o mundo. , do outro lado, estava se acostumando com a ideia. Agora que sua mãe havia aberto o jogo, ela desejava desvendar todos os mistérios daquela cidade, começando pelo centro de magia que deveria proteger. Além disso, ela sabia que não havia orgulho maior do que herdar e dominar os poderes de sua família, por isso queria começar o quanto antes.
— Não se preocupem meninas, — Kade se levantou – por enquanto não há nada a temer. Faz anos que essa história aconteceu.
— Vocês só precisam permanecer unidas e se lembrar do lado em que estão. – Tessa completou, passando confiança para sua filha.
— Então estamos resolvidos! Podemos realizar a iniciação hoje a noite, no jardim dos White – Ava bateu palmas, animada. – Estejam prontas!
As duas meninas se entreolharam e então sentiram seus celulares vibrarem com uma mensagem de texto de :

“Tudo está começando.”


Capítulo 6

Reunidos na casa dos White, as quatro famílias se preparavam para a iniciação. Ao redor da fogueira no jardim, Tessa, Kade e Ava tilintaram suas taças de vinho e tornaram o último gole – uma celebração à última reunião em que teriam plenamente todos os poderes de seus elementos. Acompanhando as faíscas que crepitavam da madeira, a mais velha dos três ergueu o olhar para a janela do quarto da caçula dos White, onde as meninas se arrumavam. De frente para o pequeno espelho, todas observavam seus reflexos. As garotas usavam branco e encontravam-se descalças, como Ava havia pedido.
— Não sei o que o futuro nos guarda, — quebrou o silêncio – mas nós nascemos para isso. Teremos poderes e a oportunidade de utilizá-los para o bem. Independente de qualquer barreira que venha a aparecer em nossos caminhos, precisamos nos lembrar disso.
— Sem contar que a partir de agora estaremos mais unidas do que nunca! – completou, sorrindo mais tranquila.
— Estando juntas sei que tudo dará certo – abraçou as amigas.
— Sendo assim, que a nossa nova aventura comece! – entrelaçou seu braço no de e as outras duas fizeram o mesmo.
O tempo parecia desacelerar a cada passo dado pelas meninas e, quando as quatro chegaram na porta que separava a casa do jardim, o ponteiro do relógio finalmente pareceu congelar. Elas sentiam apenas os batimentos em seu peito e o frio na barriga, sintomas do medo de abandonar suas vidas antigas por uma nova totalmente desconhecida. , permitindo a curiosidade crescer em si, segurou o braço da amiga com firmeza e deu o primeiro passo em direção à noite escura. Ela sabia ser corajosa quando necessário e nesse momento coragem era ao que seu grupo mais precisava. Colocando-se ao redor da fogueira, as quatro se soltaram e logo em seguida seus familiares se colocaram ao lado de cada uma. , diferentemente das outras, tirou o livro dos Marin do bolso de sua jaqueta e esperou que os mais velhos lhe dissessem o que fazer, já que o caderno estava completamente escrito em latim — como havia presumido na manhã do mesmo dia.
Non timere ignis aqua terra caelum – Kade começou. Assim que ele tocou o ombro de sua irmã, subitamente sentiu uma corrente elétrica percorrer por suas veias.
— Do fogo não temerei, pela água me conhecerei, o céu tocarei e na terra florescerei – Ava levantou seu rosto para a irmã, revelando pela primeira vez seus olhos coloridos em tons alaranjados. Percebendo o fascínio da menina, a mais velha piscou para , reassegurando-a de que tudo estava bem.
Promitto Terra tuentur – Tessa girou suavemente os pulsos e fez uma flor branca se abrir em sua palma, colocando-a em seguida no rabo de cavalo de sua filha.
— Prometo proteger a magia e livrar o mundo da escuridão – recitou a única frase escrita a lápis e com a letra de sua prima no final da epígrafe.
Assim que seus lábios se fecharam, uma brisa morna percorreu toda extensão de seu corpo e seus pés pareciam flutuar. Tudo que conseguia fazer era olhar para as estrelas, brilhando no topo de sua cabeça como holofotes. Ela não fazia ideia do que estava acontecendo, mas dentro, no fundo de sua alma, parecia que as peças estavam se encaixando. Um clarão momentâneo em sua mente fez com que seu coração se acalmasse para que ela pudesse prestar atenção às cenas que desenrolavam diante de seus olhos. Na projeção, Marin podia enxergar uma versão de si mesma, reluzindo como a superfície da água em um dia ensolarado, caminhando em direção a outras três silhuetas brilhantes que remetiam a suas amigas. No momento em que as sombras se chocaram, outro clarão invadiu os olhos de e bastaram alguns instantes para que ela começasse a sentir seu corpo mais sensível e as pontas de seus dedos voltarem a tocar o chão. Instantaneamente, a menina mirou o olhar para suas amigas, presenciando algo que a ciência não poderia explicar.
Ao redor da fogueira, cada uma delas apresentava uma característica nova, como se tivessem renascido. tinha os olhos da cor do fogo e, ao estalar seus dedos, faíscas surgiram iluminando ainda mais seu sorriso. encarava a nova cor de seus cabelos, um loiro claro como as nuvens, que esvoaçavam com o redemoinho que formava ao seu redor. tinha em seus tornozelos ramos de flores brancas que se entrelaçavam como adornos, a medida que ela sentia seu corpo se preencher de energia uma nova flor desabrochava. Por último, a menina restante levantou os braços na altura dos olhos, encontrando em sua pele uma tatuagem cristalina em forma de coluna d’água que se enrolava em seus antebraços. O desenho parecia mover-se, como se a água realmente estivesse envolvendo-a. Assim que todos ficaram em silêncio, as labaredas no centro da fogueira começaram a se alastrar, atingindo uma altura impressionante. As chamas emanadas tomaram cores azuladas e subitamente partículas cintilantes e frias se expandiram no ar, caindo levemente sobre as quatro, como neve em um dia de inverno. Ao fundo, uma corrente de vento úmido passou pelo corpo de todos ali presentes e na grama, margaridas começaram a surgir por entre os dedos descobertos de cada uma delas. Ao redor daquela pequena cidade, todas as formas da natureza pareciam ter acordado com o surgimento da nova geração, confirmando que, em algum lugar no centro da floresta de Greyson Hills, o epicentro da magia se renovava. Apenas as quatro famílias puderam presenciar tal espetáculo. , , e encaravam abismadas a tudo aquilo que a natureza escondia dos olhos mortais e então elas se entreolharam, inspiradas e começando a sentir em seus próprios corpos a dança de todos aqueles elementos.
— Enfim, que as estrelas lhes protejam – os três antigos guardiões se curvaram e desfizeram o círculo.
— A iniciação está quase completa. Só resta o último desafio – a certa distância, Tessa enunciou com a voz clara. – As forças da natureza irão testá-las para se certificar de suas intenções. Cada uma terá um desafio e no final, se todas forem dignas de possuir a magia dos elementos, haverá o grande teste em que as quatro terão de trabalhar em harmonia.
— Quando estiverem prontas, sigam o caminho iluminado, logo na fronteira da floresta – Kade apontou para o feixe reluzente entre as árvores.
— Retirem os feitiços dos livros quando for preciso e sempre sejam verdadeiras consigo mesmas – Ava entregou o caderno de couro para , assim como fizeram os demais para e . – Não tenho dúvidas de que as quatro são dignas! Apenas sigam seus corações e tudo dará certo.
— Nós já temos poderes? – a caçula dos White perguntou.
— Sim, mas não em sua totalidade – seu irmão sorriu carinhosamente. – Não se preocupem, apenas mantenham-se unidas. Estaremos esperando-as.
— Nos vemos em breve meninas, — Tessa assentiu orgulhosa – nossas novas guardiãs.
Alinhadas de frente a entrada da floresta, as quatro respiravam pesadamente.
— Me contem tudo! – finalmente quebrou o silêncio, intrigada. – O que vocês viram e sentiram durante a cerimônia? E o mais importante, como são seus poderes?
— Eu vi figuras iguais a nós e logo em seguida uma onda elétrica invadiu meu corpo... – balançou a barra de seu vestido, lembrando-se dos pequenos choques em sua pele. – Não sei descrever, mas assim que a sensação me invadiu parece que estou mais...
— Viva? – completou, sabendo exatamente como a amiga se sentia.
— Mais do que isso, — a mais nova riu envergonhada. – Me senti forte, revigorada. Poderosa.
— Foi uma sensação incrível! – concordou. – É como se nós estivéssemos finalmente vivendo nossa história.
— Imaginem como será ao final dessa noite – produzindo uma chama na ponta de seu dedo para testar se tudo aquilo realmente era real, saltitou animada. – Podem ver como tudo será mais interessante? Nós temos poderes! Não vejo a hora de aprender mais e colocar em prova todas minhas habilidades pirotécnicas... Falando nisso, vocês estão maravilhosas com a aparência de super-heroínas!
— Para ser sincera, seus olhos estão me deixando um tanto quanto inquieta – Lockwood cutucou a amiga. – Como você vai esconder de todos? De Melanie principalmente.
— Todas precisaremos omitir nossas novas características – ergueu os braços, mostrando para as meninas o fio d’água que percorria seus pulsos.
— Somente a tirou a sorte grande – riu. – E eu sempre achei que o loiro de Kade era natural! Mal sabia que precisaria de magia para alcançar aquela cor.
— Não sejam bobas – bagunçou os fios claros. – Nós estamos carregando os poderes de nossas famílias, cada uma a sua maneira. Não há motivos para nos envergonharmos disso! Temos que ter orgulho de nossa aparência.
— Você tem razão – piscou para a amiga e então se virou para as demais. – Depois pensamos nisso. Agora, acho que algo mais importante nos aguarda... – apontou para o caminho iluminado.
— O que vocês acham que acontecerá? – colocou as mãos no bolso de trás de sua saia branca.
— Depois do que vi na cerimônia, não há imaginação alguma que possa se comparar ao que pode acontecer – White mordeu o lábio.
— Será que não passou na cabeça de nenhuma de vocês a possibilidade de uma de nós não ser “digna”? – com a voz trêmula, suspirou.
— Acho que nós devemos parar de supor e seguir logo aquele globo de luz – Lockwood soltou, surpreendendo as demais.
— Juntas? – Marin estendeu o braço para Firestone.
— Juntas! – as outras duas fizeram o mesmo.
Trilhando caminho adentro, as meninas seguiam a luz, sem perceber que cada vez mais a floresta se adensava. No céu, a lua cheia produzia sombras no chão, contribuindo para o aspecto místico do lugar. Quando as quatro alcançaram o globo de luz, se depararam com uma clareira desconhecida. Assim que elas se soltaram, a bola brilhante escorregou lentamente pelo ar até atingir o solo e desaparecer, deixando as meninas na penumbra. No local secreto, haviam flores selvagens no gramado e um fino riacho correndo ao fundo. Elas mal tiveram tempo de conversar quando outro globo esverdeado e brilhante surgiu na frente das quatro. Uma voz feminina ecoou em seus ouvidos, dando início a fase final da iniciação.
“Cinzas às cinzas, pó ao pó, da terra viemos e na terra partiremos”
— Acho que essa é sua sussurrou para a amiga e se colocou alguns passos para trás, unindo-se as outras.
“Se o legado que anseias deixar fosse construído sobre o de outros, ficarias satisfeita com tal conquista?”
engoliu a seco. Desde pequena sua ambição a guiara, mas nunca havia passado por sua cabeça que talvez tal princípio fosse prejudicial aos outros. Ela era uma menina com garra, destemida, certa de si e tais princípios lhe davam certeza de que ela alcançaria seus objetivos de maneira honesta e por mérito próprio. Logo a resposta a ser dada era clara e sincera:
— Não. Meu legado será construído pelo meu empenho e não pelo proveito das conquistas de outros.
O ponto de luz liberou ondas verdes por toda extensão do corpo de .
“Muito bem. Eis seu elemento, Lockwood”

A menina sentiu seu elemento florescer em seu interior e, para testar se o que sentia era real, ela fechou os punhos e os olhos e imaginou um campo coberto de papoulas vermelhas. Tão fácil como respirar, soube instantaneamente que sua magia fez tal desejo acontecer. Quando ela se virou para ver o campo florido, seu coração pulou de alegria.
— Deu certo!
! Isso é incrível! – abismada com a distância que as flores alcançavam, bateu palmas. – Espero ser a próxima!
A menina mal se calou e o globo verde tornou-se avermelhado.
“Em um confronto com teu maior inimigo, há uma espada e uma pena. Qual escolherias para enfrentá-lo?”
— Só pode ser brincadeira – cruzou os braços. – Você quer a resposta ética ou a imediata?
! Não sei se é uma boa confrontar o globo dessa forma... – repreendeu a amiga.
— Responda o que o seu coração diz, como sua irmã aconselhou – completou.
Revirando os olhos, Firestone respirou fundo. Sempre lhe caracterizaram como impulsiva, sem limites, mas a realidade é que ela não passa de uma garota forte com reações ao mesmo nível. não admitiria curvar-se para qualquer pessoa, por isso ela já sabia o que deveria responder:
— Espada, mas não a utilizaria a menos que fosse realmente necessário. De pena já basta a que eu tenho de meu inimigo.
A voz tardou a soar, como se estivesse analisando a fala da menina.
“Por sua honestidade, eis o elemento dos Firestone”
Feixes alaranjados reluziram sob o corpo de . Entorpecida de felicidade, a menina ergueu a palma da mão aos céus e instantaneamente sentiu o calor emanar de sua pele, gerando uma coluna de labaredas.
— Obrigada! – Animada, ela se juntou a .
e seguravam as mãos, uma dando confiança para a outra. A esfera brilhante tornou-se azul em um piscar de olhos e logo Marin entendeu que seria sua vez.
“Trilharias o caminho do autoconhecimento se a estrada fosse obscura e solitária?”
Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e encarou a floresta escura atrás do globo. O maior desejo de era saber seu passado, descobrir seu futuro e consolidar seu presente, podendo assim finalmente pertencer a algo ou alguém. Mas ela tinha medo. Medo de estar sozinha.
— Sim e não. Com toda certeza eu seguiria o caminho do autoconhecimento, mas não sei se o conseguiria sozinha. Pelo menos não por hora.
Instantaneamente a luz iluminou todo o corpo de , como se quisesse protege-la. Com um sorriso sincero em seu rosto, a menina agradeceu e colocou-se ao lado das amigas, sem sentir a necessidade de testar seus poderes. Enfim, se colocou a frente do globo.
“Para alcançar teus sonhos precisas tornar-te outra pessoa?”
O estômago de White se revirou quando ela automaticamente se imaginou em grandes peças de teatro, rodeada de jornalistas e artistas. Ser tímida era sua característica marcante, talvez não uma das melhores, mas era parte de si e se seu sonho dependesse de uma mudança de personalidade forçada então não, não valeria tal sacrifício.
— Sei que preciso encontrar um meio termo, impedir que minhas inseguranças tomem lugar da versão de mim mais confiante, mas creio que para isso é necessário um impulso natural e interior. Ninguém pode me forçar a ser alguém que não sou.
A luz emanou ondas brancas e suspirou aliviada. Assim que ela expirou, uma brisa bagunçou seus cabelos e arrancou um riso suave e satisfeito de White.
“Lockwood, Firestone, Marin e White. Saudamos nossas novas guardiãs.”
O globo de luz rapidamente se dissipou, liberando pequenas rajadas brilhantes no ar, como se as estrelas tivessem descido ao plano terrestre. Com os pés descalços na grama, as meninas sentiram em todo seu corpo um tremor distante, mas que tomava contornos cada vez mais fortes. fez uma fina chama aparecer por entre seus dedos para iluminar a floresta. Elas estavam completamente sozinhas, nem mesmo os insetos se faziam presentes no local. , abrindo o livro de sua família, procurou por algo que indicasse qual seria o desafio final. Apesar de seus esforços, ela ainda não sabia discernir os símbolos e escritos do caderno.
— Devemos esperar muito tempo pelo grande final? – Lockwood fechou a capa com força, ansiosa pelo desconhecido.
— Imagino que não muito – disse sem pensar duas vezes. Seu corpo estava captando algo no ar. Uma corrente elétrica, talvez.
— Eu acho que será épico – riu. – Vamos lutar com um grande monstro ou quem sabe a força da natureza nos fará ultrapassar nosso pequeno conhecimento sobre essa magia e ensinar outros modos de utilizar nossos poderes. Pode ser que...
— Espera um pouco – interrompeu o fluxo de pensamento da amiga. – Vocês estão vendo a mesma coisa que eu?
No canto iluminado pelo brilho lunar, as quatro arregalaram os olhos na tentativa de enxergar melhor. Tendo certeza do que via, soltou lentamente o ar pela boca.
— Estamos perdidas.


Capítulo 7

Lobos. São animais interessantes os lobos – silenciosos, observadores, por vezes solitários, mas nunca sozinhos. Durante nosso treinamento somos obrigados a escolher um animal, um com o qual nos identificamos. Por conveniência, meu grupo acolheu o mesmo representante. Em minha posição, tenho visão de toda floresta e nem mesmo um pássaro no alto das árvores poderia me localizar. Ao meu lado, alguns metros de distância, Alfa mirava a lente da câmera fotográfica para o centro da clareira, onde quatro sombras se moviam inquietas. Acima, com o dedo indicador no gatilho, Beta fazia cobertura para nós enquanto se equilibrava graciosamente nos galhos da árvore mais a frente. Em nossos anos de treinamento, aprendemos a não agir por conta própria e sempre estudar o inimigo antes do ataque. A maneira mais inteligente de combater o sobrenatural é ser paciente: somos mais fracos que eles, mas não menos astutos.
Em meu bolso, senti o detector de ondas eletromagnéticas vibrar com mais força, alertando uma mudança no meio. Nos últimos meses, o padrão de variação do campo magnético era constante, nada além do normal, mas, nesta semana, picos de energia indicavam que algo estava por mudar. E aquelas aberrações à minha frente eram exatamente o que o aparelho queria delatar. Erguendo meu olhar para Beta, vi em seu rosto a repugnância direcionada aquelas quatro figuras. Todos nós temos motivos para continuar nessa operação. Todos temos um legado a carregar. Somos caçadores e devemos manter Greyson Hills segura.
Pelo menos eu e Beta temos certeza disso.
— Você detectou outra forma de energia? – assim que Alfa se aproximou de mim, sussurrou em meu ouvido.
— Sim. Imagino que seja por elas estarem juntas.
— Não, Ômega – ele pareceu irritado e rapidamente mostrou a última foto que tirara com a câmera de visão noturna. – Temos um penetra. Trinta graus a leste.
Levantei meu olhar para onde a silhueta da foto estaria. Logo atrás das meninas, diametralmente oposto à nossa localização, uma sombra se destacava entre as folhas. A imagem não fazia questão de se esconder como nós, mas seu rosto tampouco era distinguível na escuridão. Beta notou nossa agitação e seguiu seu olhar para onde eu encarava. Bastaria apenas um aceno com a cabeça de Alfa e o alvo inesperado seria abatido.
— Vamos aguardar. Algo não está certo... – ele retirou seu bloco de notas e preencheu um formulário. – Temos que reportar aos outros na volta. As iniciações não costumam ser assim.
Permanecemos calados novamente. A cada segundo o detector vibrava, atingindo picos de energia nunca antes marcados. Algo estava errado na cidade e por isso nós deveríamos acabar com tudo isso. Começando por elas.



Rápida como uma avalanche, uma fumaça espessa atravessou a floresta em direção às quatro. Encobrindo-as da cabeça aos pés, a penumbra se dispersou após alguns segundos e revelou um vilarejo rústico no meio de uma tempestade.
— Isso é real? – tocou a parede de uma das casas, mas, assim que o fez, sentiu o material se dissipar por entre seus dedos como vapor d’água. – É, acho que não.
— Deve ser uma simulação – analisando o ambiente, notou que a proporcionalidade da vila equivalia à clareira em que elas se encontravam momentos antes. – Ainda estamos na floresta.
— Vocês acham que esse é o epicentro? – perguntou, sentindo um frio percorrer pela espinha.
— Talvez – chutou algumas pedrinhas que rolaram e perfuraram o portão de uma das casas, atravessando a camada de fumaça que logo se repôs na miragem como se nada tivesse acontecido. – Acho que estamos em uma lembrança, naquela história que você nos contou . De volta às origens, a história das matriarcas.
— Se você estiver certa, então logo teremos de agir – apontou para o céu, onde uma densa nuvem ameaçava atirar raios.
— Vamos criar um plano – Lockwood amarrou o cabelo, ansiosa. – Imagino que, assim como aconteceu com nossas ancestrais, devemos agir com seu respectivo elementos. Controlar o que for possível e se necessário juntas!
— Nós conseguimos – puxando as amigas para um abraço, respirou fundo assim que sentiu as primeiras gotas de chuva caírem em seu rosto.
Com a primeira trovoada, uma sucessiva cadeia de ações começou a se desenrolar. Na direção das casas, um forte incêndio dominou os telhados de palha. logo se posicionou à frente das chamas, erguendo suas mãos automaticamente, como se seu corpo soubesse exatamente o que fazer. Seus olhos brilhavam um laranja iridescente a medida que ela se esforçava para domar o fogo e ela sentia em suas palmas o estalar das fagulhas que se aproximavam. planejava converter as chamas em energia e absorvê-la. A menina nunca imaginara que algo assim aconteceria com ela, mas algo dentro de si comandava suas ações com maestria. Em questão de minutos todo o calor do fogo se concentrava nela e o incêndio se extinguiu. Enquanto isso, correu em direção a região onde as nuvens se formavam. Ela não sabia exatamente o que fazer, mas mentalmente imaginou que a massa de ar se transformava em uma leve brisa de verão. White somente fechou os olhos e imaginou a mudança. Seus cabelos balançavam com o vento e ela pode sentir seu corpo se elevar, como se estivesse na altura das nuvens. Assim que ela expirou, soltando o ar pela boca e com força, o clima mudou bruscamente. O som das folhas se movendo tranquilamente fez a mais nova se acalmar. Sua parte estava feita.
, pelo contrário, estava com dificuldade em salvar a plantação atrás das casas. A pequena horta começava a alagar com a forte chuva e ela tentava ao máximo copiar o que sua ancestral tinha feito no passado. Apesar dos esforços, parecia que seus poderes não estavam funcionando. Suspirando para conter sua raiva, passou a mão pelo rosto tentando compreender o motivo de seu elemento não estar a obedecendo. Ela não iria desistir, então decidiu ser mais direta possível. Lockwood se abaixou, tocando na grama com suas mãos e assim que o fez sentiu a força das raízes de baixo da terra. Em um piscar de olhos, a lâmina de água que repousava sobre a plantação desapareceu, sendo absorvida pelo solo e dando lugar a pequenas flores que começaram a nascer. A menina não pretendia fazer isso, mas pelo menos conseguiu realizar algo. Mais distante, exatamente de baixo da chuva, sentia seu corpo congelar a cada gota que caia sob sua pele. Diferentemente das amigas, ela pensou em procurar por algo em seu livro. Mais cedo naquele dia, havia lhe ajudado a traduzir do latim o conteúdo de uma folha solta que estava escondida no final do livro. Segundo ele, as frases se referiam à força da natureza e o poder que poderia ser invocado dela. Assim como a menina não fez perguntas ao garoto sobre suas cicatrizes e repentina mudança, não questionou o conteúdo do caderno. Marin balançou a cabeça, tornando sua atenção para a situação, e repetiu em voz alta as frases escritas a caneta. Ela precisou repetir algumas vezes para obter algum resultado. Ao contrário do que houve com as outras três meninas, sentiu seu corpo perder parte de sua energia, como se todos seus poderes estivessem indo embora com a chuva. “Seria isso normal?” pensou a menina assim que as últimas gotas de água molharam seu rosto.
— E então? Conseguimos? – arrumando os fios loiros, respirou fundo, cansada.
— Acho que sim! - saltitou animada – Isso foi incrível!
— Precisamos treinar, isso é uma certeza – levemente irritada, murmurou.
— Estudar... Precisamos... – sentindo as palavras escaparem de sua boca sem controle algum, se apoiou no ombro de . Sua cabeça estava girando e parecia que seu corpo perdia as forças. – Já estamos em casa?
O corpo de caiu pesadamente sobre a grama molhada, frio e pálido. Assustadas, as outras se colocaram ao redor da amiga, tentando acordá-la. A fumaça que simulava o vilarejo se dissipou e as quatro estavam de volta na floresta. Sem se importarem se a iniciação estava completa, e carregaram apressadamente o corpo de de volta para a casa dos White enquanto corria na frente para avisar os mais velhos.

Assistir o desespero delas não me tocou, mas ver a quarta guardiã caída inconsciente – alheia a tudo que a envolverá – acendeu algo dentro de mim. Um sentimento que eu não soube identificar. Assim que as meninas desapareceram do local, passei a observar aqueles três caçadores do outro lado da floresta. Eles sabiam que eu estava ali, assistindo a todos, e eu fiz questão de deixar claro que não iria me esconder. Não desses idiotas.
Somente quando o último deles saiu de seu esconderijo, correndo na direção oposta à das meninas, que eu decidi retomar aos planos originais. Nessa noite, eu deveria certificar de que toda a simulação ocorreria como esperado e que as quatro fossem iniciadas. Principalmente Marin. Estalando os dedos, criei bolas de fogo para iluminar o local e com o indicador esquerdo as ordenei em um círculo ao redor de meu corpo. No epicentro, a energia renovada recentemente era exatamente o que eu precisava. Cruzando minhas pernas, deixei meu corpo levitar no ar energizado e então peguei o livro da família.
— Aperi epicenter. Libertas imperium.
Realizar o inimaginável, esse era o meu dever. Tenho consciência que sou uma pequena peça de um grande quebra-cabeça, mas, a cada passo dado, construo com minhas próprias mãos um mundo onde posso viver fora das sombras. Me chame de idealista ou corrupto, para mim tanto faz. O que me importa é trazer justiça para pessoas como nós, “bruxos”, mesmo que isso exija uma guerra entre mundos — e um toque rebelde de magia negra.
Abrir os poderes do epicentro para que a magia negra possa se apropriar de sua força será um trabalho árduo e dependerá de uma peça chave, mas estou apenas começando.
— Aperi epicenter. Libertas imperium – falei, abrindo um sorriso ao sentir uma leve mudança no ar, o cheiro de folhas secas incendiando alguns metros abaixo do meu corpo.

Perdida entre realidade e delírio, cambaleou para fora da cama. Ela estava sozinha em um quarto que não era seu, vestindo uma roupa seca, diferente da que usava no início da noite. Pela fresta da porta, ela pode ver a luz amarela do corredor e escutar sussurros preocupados vindo do lado de fora:
— Eu não acho que localizar Helena seja a maior de nossas prioridades nesse exato momento – a voz aguda de Ava se tornou mais baixa ao enunciar o nome da prima de . – O que aconteceu na iniciação deve ser algum padrão na família dos Marin. Me lembro que na nossa época Helena também passou mal, não chegou a um estágio alarmante como a pequena passou, mas foi algo do tipo.
— Pode ser que a energia liberada foi forte demais – Kade auxiliou. – Elas são novas ainda e nós três sabemos que essa geração será especial. As quatro são as primeiras mulheres a deterem os poderes juntas desde a geração das matriarcas. Isso é inédito! Não é de estranhar que acontecimentos fora do padrão venham a acontecer.
— Vocês têm razão, — a voz terna de Tessa soou preocupada – posso estar cautelosa demais. Zelo de mãe – os três riram juntos levemente. – Devemos deixar que essa noite termine bem, afinal, nossas meninas se tornaram adultas! Vamos descer e comemorar com elas.
Após ter certeza que os mais velhos desceram, se afastou da porta. Na janela, a lua brilhava baixa, mostrando ser tarde na madrugada. Pensativa, a menina não sabia dizer se o que fizera na floresta foi a causa de seu mal-estar. Era uma escritura encontrada no livro de sua família, como isso seria prejudicial? Sua prima deveria ter utilizado tal feitiço antes já que ela o encontrou entre suas notas. Talvez fosse algo de família como Ava havia apontado. Respirando fundo, a menina afastou o olhar da floresta que repousava tranquila como se nada houvesse acontecido, e balançou a cabeça, convencida de que seria algo leviano. saiu do quarto, mais estabilizada, e foi em direção ao andar de baixo, onde suas amigas se encontravam.
Sentadas no sofá, as quatro meninas dividiam alegremente suas experiências na simulação e sobre como deveriam prosseguir nos próximos dias. tinha a ideia fixa delas se reunirem diariamente e treinarem em algum lugar distante. Em sua agenda lotada, a jovem Lockwood separou um período livre para procurar um local perfeito. Já mal podia esperar para usar no colégio seus poderes, apesar de ela saber que deveria mantê-los em segredo a menina ansiava por se beneficiar das pequenas coisas que poderiam ser feitas com magia. ouvia atentamente as amigas quando o celular vibrou em seu colo. A notificação de mensagem vinda de um número desconhecido fez sua barriga congelar.
“O Lago dos Cisnes, cena final. Espero você.

arregalou os olhos, perplexa de que tudo isso havia ocorrido em um único dia. Primeiro ela finalmente conversara com , conseguindo uma audição especial, em seguida ela se tornara uma guardiã e por último fora designada a uma peça de teatro para apresentar – uma das mais difíceis inclusive.
— Sei que não tivemos tempo de dividir notícias de nosso mundo cotidiano, mas tenho uma novidade – a mais nova respirou fundo, atraindo o olhar das amigas. Mostrando a tela de seu celular, sorriu animada – Talvez eu tenha chances esse ano!
— Espere um pouco! Como Fletcher conseguiu seu número? E como foi que vocês se conheceram? – se animou, arrancando o celular da mão da amiga – Lembro como se fosse ontem quando a pequena se derretia de amor por ele!
— Eu tinha sete anos! – sussurrando para que Kade não escutasse a conversa, a mais nova pegou seu celular de volta – Nós conversamos hoje de manhã. Fletcher será meu parceiro de laboratório pelo resto do ano letivo.
— Nem me lembre – esbravejou, imaginando o sorriso vitorioso de . – Por culpa desse garoto – apontou para o aparelho no colo da amiga — eu serei a dupla do idiota do Brisbane, vocês conseguem acreditar nisso?
— Impossível! – riu, trocando olhares divertidos com que silenciosamente gesticulava com as mãos, fingindo uma explosão – Quem dera eu estivesse nessa aula para presenciar a terceira guerra mundial!
— Eu não sei como as pessoas conseguem gostar desse garoto, sinceramente, eu o acho um exibido. – tomou um longo gole de seu suco de limão, limpando a garganta.
— Um par perfeito! – provocou, recebendo uma almofada no rosto – Mas ainda são um casal abaixo de mim e Connor St. Germain...
— Eu sabia que ele estava te encarando demais durante a reunião na quadra! – disse orgulhosa – Tenho certeza de que ele te convidou para um encontro!
— Se você não fosse a bruxa da água, diria que é das adivinhações – abraçando a amiga, sorriu animada. – Vamos sair no sábado.
— Eu estou tão feliz por nós! – saltitou – O ano mal começou e tudo parece estar caminhando na direção certa!
— Espero que seja verdade, — respirou fundo e se deitou, apoiando a cabeça no colo de – mas agora tudo que quero fazer é descansar.
Reunidos na cozinha, Ava, Kade e Tessa assistiam as quatro meninas. Orgulhosos, eles tinham certeza que a cidade estava em boas mãos e que toda magia seria preservada graças ao forte laço envolvendo aquelas guardiãs — tão diferentes, mas certamente inseparáveis.


Capítulo 8

Na manhã seguinte, acordou dividindo seu colchão com . Após uma longa noite de magia e acontecimentos incríveis, as amigas dormiram em sua casa, mais precisamente em colchões infláveis no meio de seu quarto. se levantou e abriu as cortinas, deixando a luz invadir o interior. Do lado de fora na rua Duncan, algumas crianças passavam de bicicleta indo em direção a escola primária de Greyson Hills. Com medo de estarem atrasadas, a menina achou melhor acordar as amigas, mas queria fazê-lo de uma maneira mais especial. Lembrando-se da noite passada, quando apenas com um sopro conseguiu afastar a tempestade, inspirou fundo e soltou levemente o ar pela boca. Sua intenção era criar uma corrente de vento que afastasse as cobertas das três garotas adormecidas, mas o que ela obteve foi algo muito maior.
— Ah merda...
Arregalando os olhos quando percebeu que criara um vendaval, tampou a boca assustada e sentiu seu corpo congelar sem saber o que fazer. Em questão de segundos, a corrente de vento empurrou para fora de sua cama, resultando em um baque oco e uma série de palavrões em seguida.
White, nem adianta se esconder. Eu sei que das quatro só você sabe fazer isso – com os olhos brilhando fogo, apontou para a corrente de ar que passava pelas estantes derrubando todos os livros.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo? – com os cabelos emaranhados pelo vento, passou a mão sobre os olhos – Será que é difícil abrir a janela e deixar o ar sair?
— Deixe comigo – abaixando-se para desviar do vendaval que se formava, abriu o trinco da janela permitindo a magia de sair e unir-se ao ar externo – Que belo início de dia! – a menina se virou para analisar a situação e riu ao perceber que a mais nova continuava congelada no canto do quarto.
— Desculpa... Acho que saiu um pouco do controle – deu um sorriso nervoso.
— Por falar em controle, — no batente da porta, a voz grossa de Kade fez as quatro se assustarem – temos que conversar sobre algumas coisas.
— Você viu tudo isso? – a menina perguntou ao seu irmão, com medo de levar uma bronca.
— Quando ouvi os xingamentos de percebi o que estava acontecendo – ele riu e se sentou na ponta da cama da irmã. – Vocês ainda não estão habituadas aos poderes, por isso precisam praticar antes de usá-los quando bem quiserem. Como todas gerações de guardiões, vocês devem treinar em um local distante da cidade e eu particularmente recomendo a casa abandonada no lado oeste da floresta.
— Casa abandonada? Nunca a vi antes – cruzou os braços – nem mesmo quando faço meu treino de corrida por lá.
— A casa só pode ser vista por pessoas como nós. Bem-vinda ao clube, Lockwood júnior! – Kade lançou uma chave antiga para .
— Como vamos achar a localização exata dessa casa? – a menina passou a chave em sua corrente, pendurando-a em seu pescoço para não perder.
— Acredite se quiser, mas será a casa quem irá encontrá-las.
Levantando-se, Kade respirou fundo:
— Eu acho vocês incríveis da maneira que são, por isso me custa dizer isso. A tradição entre os bruxos é disfarçar as mudanças externas recebidas após a iniciação. Como podem ver, eu sempre fui contra essa regra, – ele balançou o cabelo claro como o de — mas pelo bem de vocês, principalmente por serem uma geração especial, todo cuidado é pouco.
— Você tem razão – ergueu os braços, observando a coluna d’água se movendo tranquilamente ao redor de seus pulsos. – Por mais que sejam características únicas e incríveis, não podemos aparecer no colégio assim. Chamaria muita atenção e consequentemente atrairia muitas perguntas das quais não podemos responder.
— Isso não é justo – contestou, atraindo o olhar de todos. – Nós somos obrigadas a viver escondendo quem realmente somos? Para sempre?
— Enquanto o mundo humano desconhecer o sobrenatural, sim, somos – apoiou . – Além disso, se nós realmente somos uma geração inédita e poderosa, com certeza vamos atrair pessoas indesejadas. Quem sabe inimigos mais perigosos que Melanie Perales.
— Meninas, — Kade interrompeu, incerto se deveria continuar aquela conversa sem Ava e Tessa – o mundo mágico tem suas consequências, isso é inegável, mas não vamos tratar disso por enquanto. No momento, ninguém além de nós sabe que vocês foram iniciadas, por isso não há com que se preocupar. O máximo que peço a vocês é discrição e muita cautela no colégio. Ter poderes é sensacional, porém não sob os olhos de quem não os possui.
As quatro se entreolharam, concordando com o que Kade dissera. Nenhuma delas tinha ideia dos perigos reais existentes no mundo afora e o melhor seria disfarçar e agir como se nada houvesse mudado. passou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Sua mudança fora a mais normal e ela poderia justificar a cor de seus fios se alguém lhe perguntasse. Além disso, essa era a característica mais próxima entre seu irmão e ela, por isso decidiu não se esconder.
— Eu vou ficar com o que tenho – se pronunciou e recebeu um abraço de seu irmão.
— Não duvidei nem por um segundo, pequena!
— Acho que você merece sorriu orgulhosa – principalmente agora que será a estrela da Companhia!
— Nada como uma bela mudança para te inspirar a persistir em seus sonhos – falou.
— Vou ter que aceitar essa derrota, — se aproximou das amigas – mas eu poderia dizer que estou usando lentes de contato coloridas.
! – as três disseram em uníssono.
— Me passa logo o feitiço Kade – Firestone revirou os olhos alaranjados pela última vez.
Mutatio quae.
Mutatio quae. – Marin, Lockwood e Firestone repetiram em voz alta e assistiram fascinadas suas características desaparecerem em um piscar de olhos.
— Agora, vamos. Vocês têm aula hoje!
Após o café da manhã na casa dos White, lembrou-se de não ter a chave de seu Jeep. A menos que elas fossem a pé até o colégio, alguém deveria se voluntariar a dirigir em seu lugar. Como apenas morava perto, ela deveria ser esse alguém. As quatro meninas foram para a casa vizinha, do outro lado da rua Duncan. No lar dos Lockwood, pegou a chave de seu Prius e rapidamente desceu para a garagem, impaciente. Esperando o portão se abrir por completo, tamborilava os dedos freneticamente no volante, como se estivesse com uma única ideia na cabeça:
— Nós não vamos para Greyson High hoje.
Engasgando com o suco de laranja que levava em sua garrafa, riu embasbacada no banco de trás do carro. deu tapinhas nas costas de sua amiga enquanto esperava completar sua frase.
— Quero encontrar a casa o quanto antes – Lockwood ergueu a chave pendurada em seu colar e olhou para , sentada ao seu lado. – Ontem na simulação eu não estava dominando meu elemento. Sei que nossos poderes são recentes e temos muito a aprender, mas me senti impotente diante da situação, como se eu não fosse suficiente para vencer aquilo. Vocês me entendem?
— Claro que entendemos, colocou a mão no ombro da amiga. – Nós sabemos desde pequenas que você é o tipo de pessoa que gosta de ter tudo sob controle.
— Sempre servindo de exemplo – completou.
— Mas sabemos também que tudo isso é uma forma de você orgulhar sua mãe – disse .
— Falhar é humano e nem sempre as coisas ocorrem do modo que desejamos. Por isso estamos sempre ao seu lado, nas vitórias e derrotas – levantou o olhar para , escutando atentamente o que a amiga dizia. – Apesar de, na maioria das vezes, você nos trazer somente vitórias.
— Eu achava que vocês não sabiam disso – soltando a chave das mãos, Lockwood secou uma fina lágrima. – Ser a filha perfeita, só entregar o meu melhor e nada abaixo disso... Obrigada por entenderem.
— São essas características que te fazem especial, não somente seus poderes – sorriu. – Agora, vamos animar esse astral! Essa é a primeira vez que nossa pequena irá matar aula, precisamos de uma trilha sonora à altura!
— Deixa comigo, — conectou seu celular ao carro, selecionando uma música.
Antes de seguirem o caminho para a floresta, as meninas passaram em frente a casa dos Brooks. O sorriso de logo se murchou quando ela viu a Harley estacionada. No dia anterior, e passaram a tarde inteira juntos, como nos velhos tempos. Mas ao invés de conversarem sobre programas de televisão e o próximo show que iriam, o assunto era outro. Brooks voltara para a cidade para ajudar a descobrir mais sobre sua família. Eles não haviam conversado sobre o fato dela ter se tornado uma guardiã e ela nem imaginou contar algo do tipo a ele, mas nas entrelinhas parecia que já sabia sobre o mundo sobrenatural. E quando ele traduzira o escrito no livro dos Marin, algo não encaixava. “Qual internato de Nova York ensina latim em pleno século vinte e um?”, pensou a menina.
— Quando nós chegarmos lá, qual será o plano? Perambular até a casa decidir aparecer para nós? – perguntou .
— Acho que sim – deu de ombros. – Não tenho muita experiência com casas ambulantes.
— Vamos treinar hoje – pegou o livro de sua família e começou a folheá-lo. – Mal posso esperar para tentar esses feitiços! Será que um dia nós vamos conseguir fazer mais do que apenas magia com nossos elementos?
— Pelo que Davina nos contou, imagino que não – Lockwood respondeu. – Mas se somos uma geração especial, talvez as regras do jogo sejam outras.
— Primeiro vamos nos concentrar no que temos, depois estudamos mais sobre o que pode vir além disso – White olhou pela janela, vendo os troncos dos pinheiros passarem como um borrão. – Vocês acham que existem outros seres sobrenaturais em Greyson Hills? Porque se somos guardiãs e precisamos proteger a magia de alguém, algo me diz que o universo de possibilidades é extenso. Proteger somente de seres humanos? Eu duvido muito.
— Não podemos descartar nada, mas acho que sua teoria não está errada. Quando chegarmos na casa, vamos estudar os livros de nossas famílias e ver se encontramos algo sobre outros seres – Firestone suspirou. – O único problema será descobrir o que significam todos esses símbolos – ela passou o dedo pelo desenho feito a tinta em uma das páginas.
— Quem dera existisse uma biblioteca de magia! – riu, apertando com força o livro dos Marin contra sua perna como se isso pudesse conter sua vontade de descobrir mais sobre o encantamento em latim que utilizara na noite anterior.
Percorridos alguns quilômetros, logo na fronteira entre Greyson Hills e Lake Vista, uma cidade vizinha, o carro de reduziu até parar na beira da estrada pouco movimentada. Entre árvores imensas e raios de sol que escapavam das folhas, as quatro se encontravam na parte oeste da floresta.
— Quando voltarmos para a cidade, Kade e eu teremos uma conversa séria – bufou, batendo em sua perna onde um inseto tinha pousado. – Como um responsável pode mandar quatro garotas sozinhas para um lugar deserto como esse?
— Não exagera, disse enquanto seguia uma trilha aberta adentrando a floresta. – Podemos nos proteger e não estamos tão distantes da próxima cidade.
— Vamos focar em encontrar a casa – seguiu a amiga. – Ou deixá-la nos encontrar.
— Será que a casa irá cair do céu? – riu sozinha, imaginando a cena.
— Aposto cinco pratas que é uma casa na árvore – a mais nova parou de liderar o caminho, deixando ficar na frente.
— Eu acho que é uma caverna – Marin deu de ombros e esperou Lockwood entrar na brincadeira.
— E eu sei que não se passa de uma casa normal e caindo aos pedaços no meio de um campo aberto na direção oposta dessa trilha.
apontou para um borrão em formato de casa e sorriu vitoriosa. Andando confiante, Lockwood tirou a chave de seu pescoço e se adiantou para abrir a porta da frente. Ela estava mais ansiosa para descobrir o que havia dentro daquele local do que analisar o exterior. Diferente da primeira, as outras três pararam do lado de fora.
— Não tem graça apostar com suspirou levemente decepcionada com o que via a sua frente.
— O que não tem graça é essa casa! – cruzou os braços. – Depois de centenas de anos, nenhum guardião quis reformar esse lugar? Nem quero saber como é lá dentro.
— Pelo lado positivo, temos um campo enorme para treinar e aparentemente não teremos muitas visitas – analisou o espaço livre e distante da estrada e das duas cidades. – A casa nós podemos mudar mais tarde.
Assim que elas subiram a pequena varanda na entrada da casa e espiaram o interior através da porta aberta, as três ficaram chocadas. No ambiente, estantes de madeira escura com os mais variados livros de capa dura preenchiam as paredes, um enorme lustre de cristal iluminava o local e o chão de mármore branco encontrava-se impecavelmente limpo.
— Eu retiro o que disse – Firestone sorria animada.
A sala principal levava a dois outros quartos, um ao lado esquerdo e outro ao direito, e no centro havia uma enorme escada que conectava o segundo andar. seguiu para o lado esquerdo, encontrando uma decoração semelhante a uma cozinha industrial, espaçosa e com uma enorme bancada. No lugar de panelas e talheres, os armários guardavam potes com ervas e materiais orgânicos que a menina não sabia discernir. Nas gavetas, anotações em um papel antigo feitas a tinta preta indicavam métodos de se fazer desde poções comuns até o elixir da vida. No centro da bancada repousava um caldeirão de estanho, bem utilizado, mas ainda conservado. “Agora sim sou uma bruxa completa”, pensou . Enquanto isso, no lado direito da casa, analisava alguns artefatos espalhados por todos os cantos daquela sala. Em toda aquela miscelânea de objetos, White viu uma estante com diferentes cristais. De imediato sua atenção foi atraída pela pedra repousada no centro, brilhante e incrivelmente transparente. Envolvendo a pedra entre suas mãos, ela sentiu seus dedos formigarem e uma sensação inebriante invadir seu corpo.
— Quartzo branco, é o melhor cristal para restaurar as energias – a voz de soou de trás.
se virou e viu a amiga com um livro aberto e de capa dura, provavelmente retirado da estante na sala principal.
— Imagino que todos esses objetos sejam mágicos ou que possuam algum poder.
— Também acho — não tirou os olhos das páginas daquele dicionário de cristais. – Aqui diz que turmalina negra afasta energias negativas e é ótima para proteção... Acho que todas vamos precisar de uma dessas.
Assim que devolveu o cristal ao seu devido lugar, as duas escutaram um barulho oco vindo logo acima de suas cabeças. Percebendo o mesmo som, chamou as duas amigas para subirem juntas. No segundo andar da casa, haviam alguns quartos e um banheiro. estava deitada em uma das camas e com as mãos no peito, como se tivesse acabado de levar um susto. No chão, um globo de cristal rolava pelas tábuas de madeira. se agachou para recolher o objeto, mas quando sua pele tocou na esfera, seus olhos ficaram opacos e tudo que ela podia enxergar eram cenas desconexas e rápidas demais. ?”, uma voz ecoou na mente de Lockwood. Tão veloz quanto quando entrou no transe, a menina piscou os olhos e voltou a encarar os rostos das amigas.
— Você também viu? – sussurrou, ainda se recuperando das cenas que presenciara ao tocar no globo.
— Sim – engolindo em seco, colocou o objeto sob a cama.
— E então? Vão nos contar ou vamos ter que ver por conta própria? – batia o pé impaciente.
— Talvez devêssemos esperar por Kade, Ava ou Tessa – tinha os braços cruzados, como se tivesse medo. – Eles podem nos ajudar a entender tudo isso.
As quatro permaneceram em silêncio. e retomavam os movimentos aos poucos e ponderavam se compartilhariam a mensagem com e . As imagens vivas se repetiam na memória de ambas. Um sinal, uma profecia. “Seria melhor deixá-las de fora”, ponderou Firestone, “mas tanto quanto apareceram na visão, ambas envolvidas em situações horríveis. Como posso dizer o que vi sem que as duas se assustem?”.
— Vi lobos, sangue e senti algo terrível em minhas entranhas – quebrou o silêncio, uma fina lágrima percorrendo seu rosto. Ela não queria imaginar, muito menos dizer em voz alta, o que aquela sensação em seu peito significava.
, respirando fundo, continuou a fala da amiga.
— Nós enxergamos coisas terríveis em torno de vocês duas. Situações que serão decorrentes de traições.


Capítulo 9

Traição. Sete letras, como os sete pecados. Um sopro, forte suficiente para derrubar uma trilha perfeita de peças de dominó. Destruidor. Os dias passam rápido quando a única coisa que ocupa sua mente é a preocupação – a constante virada de pescoço para conferir se alguém está atrás de você. Seja na vida real ou na peça de teatro, todos tememos a traição.
Assim como Odette.
Era nela que meu corpo pensava enquanto se equilibrava nas pontas duras da sapatilha — dançando no palco vazio, com o som do violino ao fundo e a luz que vinha do alto, ofuscando a imagem de nas poltronas. Estaria ele me julgando? Apreciando minha dança? Minha atuação?
Odette foi traída na cena anterior e eu seria a próxima.
Passaram-se alguns dias desde a visão de e e até o momento nenhum mal aconteceu. Nem comigo nem com . Mas essa tensão, a espera pelo pior, estava me destruindo. Uma dor psicológica e física, como a sensação em meu corpo nesse exato momento. Minhas pernas queimavam a cada passo e meus braços estavam firmes no ar, realizando um movimento por vez. Talvez a música já houvesse terminado, mas meu corpo queria continuar, como se a dança fosse uma distração do mundo real. Uma válvula de escape. Ao sentir o frio que o rastro de suor deixou em minhas costas, voltei para realidade — durante a sequência final de passos, percebi que meus pés não estavam tocando totalmente o chão.
Estive dançando no ar esse tempo todo?


De pé e na fileira central do auditório, susteve os braços cruzados. foi fenomenal em sua audição e sua dança era perfeita para o papel. A menina tinha a leveza natural que Fletcher procurava há tempos.
— Isso é suficiente, White. Pode descansar – o menino limpou a garganta, tentando chamar sua atenção.
— Então? – com ambos pés fixos no chão, engoliu em seco, rezando para que estivesse distante suficiente para não ter notado o detalhe “extra” em sua apresentação.
— Temos muito a trabalhar ainda – ele mordeu o lábio, pensativo, enquanto caminhava em direção ao palco. – Mas acho que você será uma boa adição ao grupo. Todas terças-feiras temos ensaio após a aula. Nossa apresentação final será no centro da cidade e se tudo der certo vamos nos apresentar na Broadway. Alguma pergunta?
arregalou os olhos, o coração pulsando de alegria. Isso queria dizer que ela conseguiu o papel principal? E mais importante que isso, ela estava dentro do clube? De repente todas suas preocupações desapareceram e tudo que ela podia pensar era no pequeno sorriso que tentava esconder. Era orgulho o sentimento que ele expressava? A menina tinha tantas dúvidas, mas seu corpo estava extasiado demais para que seus pensamentos se organizassem. Fletcher ficou logo a frente de , alguns metros abaixo devido a diferença de altura do palco, e estendeu sua mão para ajudá-la descer. Ainda distraída, esqueceu das sapatilhas em seus pés e, ao dar o primeiro passo em direção ao menino, rapidamente perdeu seu equilíbrio. Sua reação instantânea foi fechar os olhos e esperar pela queda, mas um par de braços enlaçou seu corpo e a manteve no ar por alguns segundos, até que as pontas dos pés de tocassem o chão com delicadeza.
— Obrigada! – respirou fundo, nervosa. Ela não podia evitar as borboletas na barriga toda vez que olhava para e agora que eles estavam a centímetros um do outro, ela não sabia como reagir.
— Por eu ter aceitado você na Companhia ou por ter salvo seu rosto? – riu, ainda repousando suas mãos nas laterais da cintura de .
— Ambos – a menina riu e olhou para os dedos de Fletcher, pressionando contra sua blusa. Ela nunca havia reparado nos braços de e em sua força. Seu corpo era definido, mas não exageradamente, Era perfeito para um dançarino e ao mesmo tempo para um jogador de futebol. Ele era perfeito.
— É bom você se acostumar com meu toque, — percebendo o olhar da menina, provocou – a partir de hoje, seremos parceiros de dança e atuação.
— Por um momento esqueci que essa é uma história de amor. E que você será minha dupla – ela riu nervosa, ponderando se deveria continuar naquele momento com .
O coração de poderia sair de sua boca de tanta ansiedade. Ela não fazia ideia de onde aquela coragem estava vindo. Talvez fosse a adrenalina que ainda corria em suas veias. Ela se sentia confortável de estar na presença de pela primeira vez em anos e certamente não queria que aquele momento acabasse. Ela desejava que aquele flerte inocente significasse algo para ele também. E a verdade é que se encantou pela menina assim que ela começou a dançar. seria a escolha perfeita. A única escolha. Até mesmo Cassidy não era tão boa no palco quanto . White tinha uma sutileza nos movimentos e, mesmo em uma das cenas mais carregadas emocionalmente em Lago dos Cisnes, ela conseguiu transpirar tranquilidade no exterior e transtorno no interior, como a personagem deveria ser interpretada.
estava impressionado e isso raramente acontecia.
— Fletcher! – o faxineiro chamou, esperando o menino no alto do auditório – Preciso fechar o colégio, você finalizou tudo?
O menino rapidamente soltou , assustado, e se virou para ver quem o havia chamado. Podendo respirar novamente, a menina sentiu um gosto amargo na boca. Um misto de decepção e desejo. Ela caminhou lentamente em direção à porta dos fundos que dava para o estacionamento onde seu irmão a esperava e, antes que pudesse sair, deu uma última olhada para . O menino subia as escadas levemente abalado, como se várias ideias estivessem em sua cabeça. Ele não olhou para trás, então saiu, feliz por ter conseguido o que queria, apesar de seu coração dizer que faltava mais alguma coisa.
Enquanto White ia embora e Fletcher conversava com o faxineiro, na lateral do segundo andar do auditório, uma menina alta e de longos cabelos negros observava a cena. Cassidy Chang estava ali desde o início e seus olhos estreitos não deixaram um detalhe sequer escapar – especialmente a dança no ar de White. Impaciente, Cassidy fuzilava as costas do namorado, que mal tinha ideia de que ela estava ali, assistindo tudo. A menina não conseguia digerir o que tinha presenciado, principalmente a parte em que segurou no ar, exatamente como ele fazia com ela durante os primeiros meses de namoro. Cassidy sentiu sua garganta queimar. Ela precisava agir e rápido, antes que roubasse mais do que seu lugar na Companhia. Chang desceu as escadas, pisando com força no chão de madeira.
— Fraternizando com o inimigo? E melhor ainda, traindo sua namorada? – ela falou assim que o faxineiro sumiu de vista e se virou em direção a ela.
— O que? – surpreso, o menino franziu o cenho.
— Eu vi tudo, Fletcher. Nem adianta tentar se explicar. Essa menina, além de roubar meu lugar na peça ainda ousa tentar roubar meu namorado! Pior, meu namorado ainda retribui o flerte como se fosse brincadeira!
— Deixa de ser dramática, Cass. quase caiu do palco e eu disse aquelas coisas para quebrar o gelo. Foi só isso! – o garoto caminhou em direção a namorada, notando que ela estava enfurecida – Você não tem com o que se preocupar. Vem, eu te dou carona para casa.
— Eu sei o que vejo, amor. Assim como eu tenho certeza de que as solas das sapatilhas dela não estavam nem raspando no chão, sei que o brilho nos seus olhos significa algo a mais. – Cassidy percebeu que engoliu em seco, como se ela tivesse o informado de algo que nem ele havia compreendido.
— Que quer dizer com isso? – o menino respirou fundo e balançou a cabeça, incerto sobre a lembrança de dançando. Ele tinha certeza que nada de estranho havia acontecido durante a audição.
— Quem sabe sua amiguinha possa nos explicar qualquer dia desses... Se você não consegue pensar direito com seu coração, pelo menos tente usar sua cabeça. Ou já se esqueceu de quem você é?
– Nunca. Sei dos nossos deveres e nada vai mudar, Cass.
— Não, não vai. Eu vou me certificar disso.
Sentindo o celular vibrar em sua mão, a menina olhou a tela satisfeita. Se estava tendo uma mudança de sentimentos, então Cassidy seria a única entre eles que se manteria no jogo, custe o que custar.
— Cassidy, o que está acontecendo? – uma voz rouca soou do outro lado da linha.
— Eu preciso daquelas fotos, Brisbane. Agora.
Desligando a chamada, Cassidy percebeu que a encarava assustado, incerto do que sua namorada faria. Em um ímpeto, a menina se virou de costas e se direcionou a saída.
— Não me chamam de Ômega por qualquer motivo.

Na manhã de sábado, estava desesperada. Faltavam doze horas para seu encontro com Connor St. Germain e ela não fazia ideia do que fazer para acabar com sua ansiedade. Ela podia sentir o calor em sua pele e olhos brilhavam como fogo. precisava de sua irmã. Correndo em direção ao quarto no final do corredor, a menina escancarou a porta. Apesar de ser oito da manhã, a mais velha das irmãs Firestone estava acordada, fazendo yoga em um canto próximo a janela. Equilibrando-se em apenas uma perna, Ava nem precisou se virar para .
— Eu sei do que você precisa – a mais velha respirou fundo e exalou todo o ar de seus pulmões. – Paz interior.
— Muito engraçado – fez uma careta sarcástica. – Meu encontro com Connor é hoje e preciso lotar minha agenda para não passar o dia inteiro sofrendo até o horário de vê-lo.
— Você precisa relaxar – Ava mudou de posição, alongando sua coluna. – Prefere o conselho de irmã normal ou de irmã com poderes sobrenaturais?
— O que você acha? – a mais nova riu sarcasticamente, apontando para seus olhos brilhantes. – Combinei com as meninas de treinarmos amanhã na casa abandonada, mas preciso de um aquecimento. Além do mais, um treino com minha mentora pode tirar o nervosismo da cabeça.
— Me espera no carro. Vamos dar um passeio – Ava se levantou e sorriu para a mais nova. – Coloque uma roupa esportiva, você vai precisar.
— Te dou cinco minutos! — disse e correu para se trocar. Ela queria se distrair e não havia maneira melhor de fazer isso do que passar o dia com sua irmã e utilizando seus poderes.
No carro, Firestone tamborilava os dedos em suas coxas. Da janela, ela conseguia ver que Ava estava a levando para dentro da floresta de Greyson Hills, um caminho que ela nunca tinha feito antes. A estrada pouco usada levou o carro de Ava até uma pequena clareira, onde a mais velha estacionou. estava confusa, mas animada. Ela sabia que as duas teriam que estar longe da cidade para que pudesse treinar, mas ela não tinha ideia de onde estavam.
— Vamos andando a partir daqui – a mais velha entrelaçou seu braço no da irmã e a guiou pelo caminho. – Vou te levar até o epicentro da magia. Lá vamos testar o seu potencial – Ava piscou para .
— Mal posso esperar – ela sorriu. – E como você se sente sem os poderes da família?
— Sinto que tenho uma responsabilidade a menos, — Ava deu de ombros – sei que você será uma boa substituta.
— E agora que você tem um tempo livre, que tal dar convidar Kade para uma rodada no bar?
— Não acho uma má ideia – as duas se entreolharam, compartilhando o mesmo pensamento. – Contanto que vocês quatro não se metam em encrencas, acho que posso tirar um tempo para mim.
estava prestes a soltar uma frase ousada para sua irmã quando de repente seus olhos depararam o espaço a sua frente. O epicentro, totalmente destruído.
Os olhos de Ava se arregalaram em choque. A clareira onde o epicentro se encontrava estava completamente queimada. No chão, a terra exposta e preta como carvão tinha símbolos encravados, como se um ritual tivesse sido feito ali. Ao redor, as árvores estavam carbonizadas e suas folhas tinham se tornado pó. deu alguns passos para trás e analisou os desenhos. Ela percebeu que eles formavam quatro círculos que se entrelaçavam, formando um espaço central por onde um feixe translúcido saia da terra e tocava o céu.
— Essa é a nossa fonte de energia? – a mais nova não conseguia deixar de olhar para o feixe brilhante.
— Sim – Ava mordeu o lábio. – Em toda minha vida, nunca vi símbolos como esses – apontou para os círculos.
— Você precisa ligar para Kade, mas sem segundas intenções por enquanto.
, agora não é o melhor momento para brincadeiras – ela pegou o celular. – Não toque em nada... Alô? Tessa, temos uma emergência.
Ava se aproximou da cena, sem tocar nos símbolos, e deixou a irmã para trás. não sabia ao certo o que fazer. Ela sentia que aquilo era sua responsabilidade e precisava descobrir o que estava acontecendo. Quando Ava estava completamente de costas para , a menina foi até o círculo mais próximo e se abaixou até a altura do solo. A terra ainda estava úmida, o que indicava que o desenho era recente. Quanto mais ela encarava o símbolo, mais parecia que ele reluzia para ela, a atraindo. sentiu o calor em seu corpo aumentar, como se seus poderes tivessem acordado, e ela sentiu uma enorme vontade de tocar naquele relevo no chão. O brilho reluzia a cada centímetro reduzido entre o dedo da menina e o símbolo e assim que tocou o solo, seu coração deu um salto, como se sua pele tivesse tomado um choque. Por um momento, parecia que o tempo ao seu redor havia parado e que só ela estava ali. Ela e sua chama interior. olhou para a palma de suas mãos e encontrou um vapor emanando de sua pele, um mormaço azulado que se movia tranquilamente. Quando ela virou as mãos para analisar o dorso, o vapor logo se tornou uma rajada descontrolada, queimando algumas árvores a metros de distância e ricocheteando o corpo da menina para trás. Assustada, Ava derrubou o telefone e se virou lentamente para olhar a irmã. A mais nova estava sentada no chão, os olhos completamente negros.
? O que você fez?
A alguns metros dali, não distante do epicentro, uma mulher ruiva caminhava ao longo do curso do rio, cantarolando enquanto coletava flores que cresciam entre os cascalhos próximos da água. Davina imaginava que aquele dia seria comum como todos os outros e que logo voltaria para casa, para suas receitas de poções naturais. A mulher estava próxima de encontrar a medida perfeita para sua poção curativa e tudo que precisava era de margaridas fortes, nascidas na água das montanhas. Ela estava prestes a terminar, faltava apenas uma flor, quando um feixe azulado atingiu seu abdome.
Firme e gélido.
O corpo da mulher caiu contra o solo pedregoso. Inconsciente, seus fios vermelhos se misturavam com as flores amarelas, ambos dispersos no chão como uma trágica pintura. Ali, entre flores, a vida de Davina mudaria por completo. A bruxa não dedicaria mais seu tempo com poções curativas e leituras de tarot, ela passaria a ser algo que nunca imaginaria. Davina não seria mais ela mesma.
Nas últimas semanas de verão, na transição de estações, as tardes acabavam alguns minutos mais cedo. Aos finais de semana, gostava de ficar em casa, em seu pijama confortável e na companhia de um bom livro. De sua varanda, a menina tinha vista de toda paisagem – o céu colorido e a água refletindo sua beleza – e somente com isso ela se sentia completa, mesmo estando sozinha. Mas, desde que os Brooks retornaram para a cidade, seus dias começaram a perder o sentido e seu coração se lembrava do vazio na vida de . Sem prima, sem namorado e sem respostas sobre sua própria magia. precisava de ajuda, só não sabia exatamente onde procurar. Repousando em seu colo, o livro de encantamentos que a menina pegou da casa abandonada estava aberto. Ela brincava com sua xícara de chá enquanto tentava entender as frases nas páginas antigas.
— Raio de sol, calor de verão, faça dessa bebida um copo de vida.
bebericou o líquido para conferir se algo havia mudado. Segundo o livro que lia, todo encantamento simples deveria ser recitado de modo específico e direto para dar certo – a rima fácil foi um toque especial de . Quando seus lábios tocaram a bebida morna, prontamente seu corpo recebeu uma onda elétrica, como se ela tivesse acabado de tomar dois litros de café.
— Vou considerar que isso funcionou – risonha, a menina se sentiu orgulhosa e fez uma anotação na página do livro para que ela se lembrasse de como deveria realizar o encantamento no futuro.
O próximo encantamento era relacionado a levitação. Um encantamento simples que qualquer pessoa com magia poderia fazer. Mas ela queria mais. se sentia ousada e sabia que poderia fazer muito mais do que as instruções naquele livro. Repousando no topo de uma pilha de livros, o caderno dos Marin estava a chamando. Assim que a menina abriu a capa do caderno, as folhas começaram a se mover sozinhas e pararam em um capítulo especial, manuscrito com caligrafia de sua prima. No topo da página, dizia apenas que aquele encantamento chamava “Ira de Poseidon”.
— Grace e sua paixão por Percy Jackson – balançou a cabeça, lembrando-se de sua prima, não muito mais velha que ela. – Vamos ver do que seu encantamento é capaz, prima.
estalou os dedos e se arrumou na cadeira. O pequeno verso não tinha rima, mas certamente seria fácil de se lembrar.
— Eu respeito o poder dos sete mares. Do orvalho ao riacho, a água correndo em minhas veias.
A menina segurou o ar em seus pulmões quando notou que a coluna d`água em seus antebraços começou a se movimentar, como se estivesse acompanhando cada palavra que saia da boca de .
— A minha frente, no reflexo reluzente, me curvo ao elemento e vejo, sem ressentimento, o elemento se curvando para mim.
Erguendo os olhos do papel, viu a sua frente uma imensa coluna de água se erguendo lentamente no centro do lago Pioty. Como se estivesse se equilibrando, a coluna trêmula aguardava pelo comando da menina. Era incrivelmente alta, densa e bela, de tal forma que os últimos raios solares daquele dia davam a impressão de que a água brilhava. Maravilhada por ter conseguido realizar o encantamento, se levantou da cadeira e correu em direção ao lago, a poucos metros de distância de sua varanda. Com os pés descalços, a menina se aproximou da beira do lago e puxou levemente a barra de sua camisola para não molhar.
— Estamos conectadas! – risonha, a menina esticou o braço e no mesmo momento, a coluna começou a se mover em sua direção.
— Isso é sim é uma bela cena.
Assustada ao escutar uma voz rouca vindo de trás dela, se virou rapidamente, pronta para se defender, e como se quisesse protegê-la, a coluna d’água aceitou em cheio o menino e com tanta força que o derrubou a alguns metros de distância.
— Eu suspeitava que isso poderia acontecer se eu te surpreendesse, mas não imaginei que me bateria com tanta força assim – ainda deitado no chão, falou entre risos e gemidos de dor.
— Brooks, eu posso explicar! – correu em direção ao menino encharcado, ao mesmo tempo que ponderava se contaria a verdade para ele ou se inventaria uma desculpa.
— Eu sei que você me odeia, mas podia ter se expressado de outra forma – os olhos de miravam o céu lilás e assim que o rosto de apareceu em seu campo de visão, seu coração deu um pulo. Se ele imaginava que a visão de , perdida em seus pensamentos e com os pés na água, foi a cena mais linda que ele vira em sua vida, ele estava enganado.
— Não te odeio, esticou a mão para ajudar o garoto a se levantar, mas ele a puxou para baixo, aproximando seu corpo ao dele – Talvez só um pouco...
— É uma bela tarde de verão para se presenciar coisas inexplicáveis – ele sorriu ao perceber que a menina não estava desconfortável em seus braços e que ela pouco se importava em molhar o pijama. olhou para baixo e se deparou com os olhos curiosos de Marin.
— Você é muito complexo, sabia?
— Se eu não fosse assim, qual seria a graça? – ele retrucou.
respirou fundo e colocou a mão no peito de . Ela tinha se esquecido de esconder sua aparência de guardiã e a tatuagem ainda circundava seus pulsos. Mas Brooks parecia não ligar, como se tudo aquilo fosse normal para ele. E de alguma forma a menina sabia que era.
— Eu sei porque você voltou para Greyson Hills, . Você não se assusta com eventos inexplicáveis e por algum motivo você sabe ler uma língua morta – o corpo do menino se enrijeceu e reparou instantaneamente. – Você tem magia, não tem?
O menino umedeceu os lábios e voltou a olhar para o céu. “Estamos prontos para essa conversa?”, pensou o menino. ergueu seu corpo, apoiando-se de lado. Ao longe, qualquer um que visse a cena diria que aquele casal estava resolvendo problemas de relacionamento, mas na verdade aquela conversa seria muito mais do que isso.
— Talvez – foi tudo que ele respondeu. – Faça aquilo de novo. Com a água.
— Tudo bem – respondeu confusa, recitando as mesmas palavras de antes e rapidamente obtendo uma coluna de água.
— Agora, segure minha mão – se sentou atrás da menina, passando suas pernas ao redor do corpo de , e esticou o braço para que ela pudesse entrelaçar seus dedos nos dele. – Imagine qualquer coisa que queira fazer com a água. Se concentre na imagem.
sentiu sua camisola ficar úmida assim que seu corpo recostou no de . Ela podia sentir o coração dele pulsar tranquilamente, como se ele estivesse fazendo algo ordinário. O menino não tirava os olhos das formas que a coluna tomava diante deles – Brooks queria impressioná-la e sabia exatamente como. Segurando com sutileza a mão de , o garoto começou a erguer lentamente o braço, fazendo com que a água se projetasse em um globo e desgrudasse da superfície do lago. Formando um círculo perfeito, os dois se entreolharam maravilhados e a menina abriu um sorriso honesto, que não via há anos.
— Isso é incrível! Como conseguiu? – ela perguntou, girando a palma da mão para ver se o elemento a obedecia.
— Fizemos juntos – o garoto riu, vendo que se divertia ao ver o globo de água girar sob a luz do pôr do sol. – Uma das coisas que aprendi é concentrar poderes entre bruxos. Juntando a magia de linhagens diferentes, podemos fazer muito mais que isso.
— Você me ensina? – se virou para e tudo que ela pode ver foi os lábios do garoto, convidativos e ao mesmo tempo desafiadores.
— Foi justamente para isso que voltei, Marin.
Brooks notou que a menina ponderava algo e, para que eles não confundissem o que estava acontecendo ali, ele se levantou. No momento em que soltaram as mãos, o globo que levitava a alguns metros de altura se soltou em queda livre, aterrissando na superfície do lago com força, espirrando algumas gotas geladas no rosto de . E lá estava ela de volta para a realidade. Sem namorado nem melhor amigo. Os dois voltavam a ser desconhecidos.
Descanse um pouco, . Já está escurecendo e é melhor você ir entrando – bagunçou os cabelos e saiu andando em direção a sua moto. – Aliás, você deveria usar essa camisola mais vezes, é impressionantemente sexy e fofo ao mesmo tempo.
Levemente anestesiada, a menina se levantou e limpou o pijama. Quando ela abriu a boca para responder o garoto, ele já estava de capacete, com o motor ligado e o escapamento rosnando. revirou os olhos e acenou, sabendo que a olhava pelo espelho retrovisor.
— Abusado.
Se tinha uma coisa que Tessa Lockwood não era boa, era preparar o jantar. Desde que Tessa havia voltado do encontro com as irmãs Firestone, ela se encontrava perdida em seus pensamentos, considerando todas possibilidades que explicariam os desenhos encravados no solo do epicentro. Essa distração foi a principal culpada pelo cheiro de panela queimada que invadiu todos os cômodos da casa e acionou o alarme de incêndio. No andar de cima, não conseguia estudar com o apito do detector de incêndio em cima de sua cabeça e ela precisava se concentrar para o debate que teria na semana seguinte, em que disputaria pelo cargo de presidente do comitê estudantil.
— Mãe! O que você pensa que está fazendo? — irritada, a menina saiu do quarto e gritou no corredor.
— Minha intenção era fazer um grelhado com batatas, mas vamos ter que comer casca queimada... Como as folhas do epicentro... Elas estiveram em chamas por quanto tempo? — com uma toalha de mão pendurada no ombro, Tessa estava sentada na mesa, distante do fogão desligado.
— Se eu tivesse essa resposta, certamente te diria — a menina surgiu na cozinha.
Como se tivesse uma ideia, a mulher saiu de sua posição e correu para seu escritório, próximo dali.
— Sei que isso é angustiante para você, mas para mim, no momento, angústia é sinônimo de ver Melanie Perales ganhar o cargo no comitê. Meu cargo!
— Filha, será que você conseguiria fazer uma conexão com o ambiente do epicentro? Talvez pressentir quando foi que o ritual aconteceu através das árvores queimadas. As folhas podem transmitir sensações que poder ser facilmente captadas por você. O que acha?
— Acho que já está tarde para ir até aquele lado da cidade e que daqui a pouco nós precisamos jantar!
— Entendo — Tessa murmurou entre os sons de gavetas sendo abertas e fechadas — Vamos fazer o seguinte, jantamos no Lucy’s e depois passamos na casa dos Firestone para ver como se recuperou. Amanhã vamos todos ao epicentro ver o que podemos fazer.
— Combinado, daqui meia hora vamos para a lanchonete — subiu alguns degraus da escada, mas parou rapidamente. — E se possível, tente não incendiar nossa casa.
— Foi um pequeno deslize! — a mais velha riu e partiu de volta para a cozinha, segurando uma pequena folha com encantamentos para arrumar toda aquela bagunça em um piscar de olhos.
Esperando seu cheeseburger chegar, observava as pessoas que ocupavam as mesas ao seu redor. A maioria dos clientes da lanchonete nesse horário e dia eram alunos de Greyson High. Do outro lado do salão, na bancada, próximo à chapa, Melanie e dividiam um milkshake de morango. estranhou os dois estarem ali, sem seus amigos seguidores, em uma noite de sábado. Mas sua desconfiança não durou muito tempo, o tilintar do sino na porta indicava que Connor St. Germain havia chegado. O casal parecia saber que Connor estaria ali e os três se cumprimentaram a distância. Do lugar em que Melanie estava, ela podia observar a mesa de Connor se a necessidade de disfarçar. notou que o loiro parecia nervoso e estava mais arrumado do que o resto das pessoas naquele lugar.
— O encontro! — Lockwood sussurrou para si mesma, lembrando do encontro de .
— O que disse? — tirando os olhos do celular, Tessa mirou a filha, levemente confusa.
e St. Germain! Eles tinham um encontro essa noite — notou que Connor conferia a tela do celular a cada minuto, como se esperasse uma mensagem especial.
— Sinto muito, mas hoje sua amiga não vai ter encontro algum. Depois do que houve, você sabe — a mulher passou a falar mais baixo. — Foi uma cena e tanto para a pequena Firestone.
— Será que eu deveria avisá-lo?
— Se quiser, pode ir.
realmente estava inconsciente quando vocês a levaram de volta?
Tessa respondeu a filha com um aceno positivo de cabeça e voltou a responder seus e-mails. tomou um gole de sua água e se levantou, indo em direção à mesa de Connor. Assim que cruzou o salão, ela sentiu o olhar penetrante do casal na bancada. Ela sabia que estava sendo analisada, mas precisava acabar com a ansiedade de St. Germain.
— Oi, posso me sentar? — chamou a atenção de Connor e logo se deparou com seus olhos azuis.
— Claro — o menino respondeu levemente confuso. — Lockwood, certo?
— a menina sorriu amigavelmente. — Sou amiga de , então eu sei que vocês tinham um encontro marcado para essa noite.
— Tinham? — Connor respirou fundo e afrouxou a postura na cadeira, como se estivesse aliviado.
— Ela está passando mal, provavelmente estará de cama pelo resto do fim de semana. Mas vocês podem remarcar, sei que ela adoraria sair com você! — percebeu que tinha se levantado e caminhava até eles.
— St. Germain! Que bom te ver aqui, parceiro — puxou Connor antes que ele pudesse responder — Venha, jante comigo e com Melanie.
— Tudo bem — o loiro respirou fundo e sorriu para Lockwood. — Obrigado por me avisar. Nos vemos por aí.
A menina acenou para o loiro e se levantou, pronta para voltar pra sua mesa. Mas, antes que ela pudesse ignorar totalmente a existência de Perales, não pode evitar de escutar o sussurro de Aster para St. Germain.
— Sua posição no time e sua vaga para faculdade estão em jogo. Você realmente quer perder essa aposta?
Lockwood seguiu andando como se nada tivesse acontecido, pois sabia que estava sendo vigiada. Mas por dentro, ela estava paralisada. “Uma aposta envolvendo ?”, ponderou a menina.
— Mãe, precisamos visitar as Firestones agora.
— Mas nossos lanches...— Tessa parecia confusa com a súbita mudança de comportamento da filha.
— Leve para viagem, mãe.
Saindo apressada sob os olhares curiosos de Perales, Aster e St. Germain, mandou uma mensagem de texto para a . O trio se entreolhou e a boca rosada de Melanie foi a única a dizer:
— Ela sabe.
Sábado a noite era o período mais movimentado no Lucy’s e por isso servia como lugar perfeito para se encontrar com alguém de forma anônima. Em lugares cheios, poucas pessoas prestam atenção nos mínimos detalhes e era por isso que Brisbane e Cassidy Chang dividiam uma porção de batatas enquanto discutiam negócios.
— Eu não quero saber de burocracia, ! Eu estava lá com você, vi ao vivo e em cores o que aconteceu, não precisam vir com papelada para cima de mim. Eu sei como funciona a Sociedade e estou cansada de todo o sigilo que jogam para cima de nós.
— Mas, Cass, isso aqui vai além do que nós fomos treinados — o menino repousou a ponta do dedo indicador sobre o envelope pardo, colocado no centro da mesa. — Essa imagem vale mais do que nós. Nossos olhos não enxergaram perfeitamente as sombras daquela noite, mas o computador conseguiu e é por isso que se esse envelope cair nas mãos erradas, o estrago pode ser enorme.
— E você não confia em mim? — Chang ergueu a sobrancelha, esperando a resposta do amigo.
— Confio, em partes — ajeitando sua postura, o menino franziu o cenho. — Nós somos uma equipe desde sempre. Confio em seu trabalho e no de , mas tanto eu quanto a Sociedade tememos que ações precipitadas levem a fins trágicos. Tudo que aprendemos não serve mais. Isso aqui é novo e veio multiplicado por cinco. Temos que ser cautelosos, Chang. Precisamos executar tudo perfeitamente, caso contrário podemos acabar mortos.
— Sei disso, — a menina suspirou, ciente de que sua posição na equipe não lhe fornecia muito poder de fala na Sociedade. — Se pensa no pior, então porque você trouxe o que eu lhe pedi?
— Porque somos amigos de infância e eu te considero como igual, independente do codinome — sorriu fraternalmente. — Percebi que você estava inquieta quando te liguei, por isso precisava entender o que estava acontecendo. Se o que você presenciou no auditório for verdade, precisamos saber se a fotografia confere com seu relato.
— Falando sobre isso.
— Sobre ela — Brisbane corrigiu Cassidy de modo sério.
— Tenho certeza absoluta do que vi. Por isso preciso dessa fotografia. Quero mostrar para onde ele está se metendo.
— Entendo. Bom, os líderes não fazem ideia de que tenho esse envelope e prefiro que continuem assim, por isso não posso deixar que você leve a fotografia.
— Tudo bem, . Só me mostre essa maldita foto. Depois eu lido com .
retirou sua mão e deixou que Cassidy pegasse o envelope e o abrisse. Apressada, a menina abriu rapidamente o pacote por baixo da mesa, puxando discretamente duas fotografias coloridas. comia as batatas tranquilamente, como se nada de diferente estivesse acontecendo ali, mas para Cassidy, tudo havia mudado. Sua intuição estava certa e a lembrança de no palco não fora fruto de sua imaginação. Chang não conseguia acreditar que aquelas quatro garotas patéticas seriam a maior ameaça que Greyson Hills jamais presenciaria. Era simplesmente inacreditável.
— Você teve a chance de ver isso? — Cassidy não conseguia tirar os olhos dos rostos na fotografia, nítidos e facilmente distinguíveis.
— Sim. Honestamente, estou tão surpreso quanto você — o garoto deu um sorriso maroto, indicando o sarcasmo na fala. — Sempre soube que o repúdio de vinha de um poder sobrenatural. Só não sabia que seria literalmente um ódio natural...
— Sua paixonite por ela acaba agora, – engolindo em seco, Cassidy encarou o amigo. — Nós existimos para que coisas como elas não passem de mitos. E especialmente você não deve se esquecer disso. Até parece que essas quatro encantam os homens dessa cidade!
— Certo, já esqueci! Meu interesse por Lockwood é apenas profissional — ele riu e balançou a cabeça. –De qualquer forma, tentei analisar a quinta sombra, temos uma imagem exclusiva dela, mas mesmo com a análise fisionômica do computador central foi impossível achar um rosto corresponde no sistema.
— Ou seja, precisamos manter discrição até identificarmos a quinta sobra.
— Sim.
— Isso significa que eu não posso arrancar a cabeça dessa garota e que vou precisar assistir ela jogar encantamentos para cima de meu namorado — Cassidy fechou o punho com força.
— Sim — mordeu a bochecha, percebendo que aquela não era a resposta que a menina gostaria de ouvir. — Vou conversar com , tentar atualizá-lo sobre a situação. Por enquanto, o importante é estar atenta a tudo e não usar sua adaga favorita no pescoço de nenhuma delas. Caso descubram que somos caçadores, podemos ser pegos de surpresa.
— No jogo, tudo vale, . Nós contra elas. Quem estiver preparado antes ganha vantagem no primeiro tiro e convenhamos que eu sempre fui a melhor de pontaria.
Cassidy fechou o envelope e se levantou, pronta para sair. Brisbane sorriu orgulhoso e guardou o envelope em sua mochila. Os dois se despediram com um olhar e Chang foi a primeira a ir embora. Dentre os vinte minutos de conversa, ninguém na lanchonete notara que Cassidy e sabiam da existência da magia em Greyson Hills e ninguém além deles, nem mesmo Aster, Melanie Perales e Connor St. Germain que estavam do outro lado do salão, sabiam que , , e eram bruxas.


Capítulo 10

Dez anos atrás

Contornando as feridas abertas no dorso da mão, tentava ignorar as lágrimas que insistiam em deixar seus olhos. Ele treinava há alguns meses e ainda não tinha aprendido a lidar com a dor. Seus professores estavam começando a desistir dele, diziam que Brisbane não seria capaz de se tornar um caçador se não controlasse suas emoções. Mas Cassidy e ainda não haviam desistido dele.
— O segredo é não olhar para o machucado – com um rolo de gaze, Cassidy Chang enrolou várias camadas do material ao redor da mão do amigo até que as manchas de sangue não estivessem visíveis. – Foque na tarefa dada. Isso deve distrair sua mente e impedir que seu corpo sinta algo além da adrenalina.
— Sua força está toda aqui – cutucou o centro da testa do amigo, fazendo-o abrir um pequeno sorriso. – Se tem algo que eu e Chang concordamos é que nós três somos uma equipe e não vamos desistir do nosso irmão.
— Sem você, eu não conseguirei aguentar esse garoto por muito mais tempo! – a menina deu um soco no ombro de .
As três crianças se entreolharam e riram juntas. Um riso infantil e cheio de vida. Vidas que ainda teriam muito a aprender, mas que por hora só desejavam ser importantes. Desejavam ser caçadores para proteger suas famílias e sua cidade.
— Vamos treinar mais uma rodada. Ataque 305. – Sentindo-se inspirado, limpou suas lágrimas e agarrou o bastão de madeira. tirou a pequena faca do bolso e Cassidy apontou a arma de festim para o boneco de treinamento.


Hoje

Na sala de treinamento, praticava luta. Sua cabeça estava cheia de questionamentos, a maior parte deles envolvendo uma garota: . Na tarde da sexta-feira passada, a apresentação de White fora a mais impressionante que ele já havia presenciado. Isso, somado ao clima que surgiu ao final do dia, quando ele havia a segurado pela cintura para salvá-la de uma queda, ficando apenas a alguns centímetros de distância de sua boca. nunca havia pensado em outra garota além de Cassidy antes, nem sequer conhecia a irmã de Kade até o dia em que recebeu uma mensagem dele. Mas aquela dança, a atuação da menina e a sua timidez — ela tinha algo de especial e aquilo o atraiu.
— Precisa de um parceiro? — Do outro lado do tatame, chamou . Ali, eles eram Alfa e Beta, a dupla perfeita.
— Claro, manda a ver. — Fletcher respirou fundo e se virou para o amigo, esperando o primeiro ataque.
— Irmão, precisamos conversar — Brisbane se aproximou e rondou o amigo antes de lançar o primeiro ataque.
— Eu já tenho uma ideia do que se trata — se desviou rapidamente do gancho direto do amigo. Ele recuou levemente e esperou o golpe de perna, como sempre fazia. — Cassidy deixou claro ontem que estava infeliz comigo e sei que ela ligou para você.
— Ela me disse que viu a apresentação de não fez sua manobra com a perna, já que ele sabia que o amigo esperava por isso. No lugar, tentou outro gancho de direita e acertou em cheio o abdome de Fletcher. — Temos uma dançarina mágica, hein.
O garoto perdeu o ar, mas rapidamente se recompôs e tentou revidar o golpe em . Fletcher sabia onde essa conversa iria parar e algo no fundo de seu coração se recusava a continuar aquele diálogo. O punho de Fletcher roçou levemente a lateral do corpo do amigo.
— Não precisa vir com rodeios para cima de mim, diga logo o que veio me dizer.
— Tudo bem. — não pareceu afetado com o golpe de e logo em seguida agarrou o garoto por trás, dando um mata leão que jogou o corpo de ambos ao chão. — Tenho provas de que White e o restante das amigas estavam na floresta naquela noite. Elas são as novas bruxas do pedaço. A Sociedade ainda não decidiu o que vamos fazer com essa informação, mas precisamos tomar cuidado. Eu não quero que você se apaixone por uma delas, se não nosso trabalho será ainda mais complicado.
bateu a mão no tatame, pedindo por ar e Brisbane soltou o amigo. Inspirando pesadamente, Fletcher sentiu sua cabeça girar. Então era verdade, realmente era uma bruxa, um ser sobrenatural que ele deveria desprezar por natureza. sentiu nojo de si mesmo por ter pensado na menina e se levantou, aceitando a mão estendida de .
— Alfa, eu não vou estragar a missão. Trabalhamos duro para conseguir nossa posição na Sociedade e não vou deixar que nada tire isso de nós. — Fletcher olhou no fundo dos olhos de Brisbane. — Eu não sinto nada, nem irei sentir afeto por alguém como White. O que aconteceu foi que a arte dela me encantou. Apenas isso.
— Cassidy vai ficar feliz em ouvir isso. — o outro riu e passou o braço no ombro do amigo. Os dois caminharam juntos, saindo da sala de treinamento. — Vamos para a reunião. Precisamos saber os próximos passos a serem dados.
Depois de passar o fim de semana de repouso, finalmente pode sair de casa, mesmo sendo apenas para ir ao colégio. Após o incidente no epicentro, onde ela tocou no ritual de magia negra e acabou desmaiando, sua irmã Ava não a deixou sozinha nem por um segundo. Ainda que a menina não se lembrasse exatamente do que havia ocorrido, ainda podia sentir no fundo de suas vísceras a sensação refrescante como gelo que surgiu após o evento. Esse frio na barriga que ela estava sentindo não era ruim, muito pelo contrário, parecia que lhe dava mais energia.
— Como você está hoje? — perguntou e as outras meninas observavam.
— Apesar de eu possivelmente ter sido possuída por alguma energia maligna, estou relativamente bem. — respondeu sem muito entusiasmo e bebeu seu suco.
No refeitório, nada parecia fora do normal. sabia que suas amigas estavam cautelosas por conta do que Ava havia contado a elas. No sábado passado, quando a menina e sua irmã encontraram o epicentro destruído, Ava, Tessa e Kade se reuniram para discutir o que havia acontecido. Os três antigos guardiões estavam suspeitando de um ritual feito com magia negra, considerando o formato das marcas deixadas no chão do lugar. No domingo, Tessa levou até o epicentro para que ela utilizasse seus poderes e se conectasse com as árvores. Apesar de não conseguir muita coisa, devido ainda ser nova com seus poderes, conseguiu captar sensações que indicavam que aquilo era obra de um único bruxo muito poderoso e que a magia branca do epicentro estaria perdendo suas forças ao longo do tempo.
— Vocês acham que nós vamos conseguir reverter esse problema? — Marin perguntou. Ela ainda não teve tempo de contar às amigas sobre o que tinha conseguido fazer com na tarde de sábado, mas toda vez que se lembrava dos dois conectando sua magia para criar algo extraordinário com a água do lago, se arrepiava.
— Nós temos que conseguir — respondeu, balançando seus cabelos loiros. — É nossa tarefa.
— Podemos mudar de assunto só por um momento? — interrompeu, atraindo a atenção das amigas. — Preciso me sentir como uma adolescente normal depois desse fim de semana conturbado.
— Você já conversou com Connor? — perguntou, olhando ao redor.
— Falando nele… — recebeu um olhar penetrante de , o que a fez engolir em seco. Lockwood ainda não havia contado à amiga sobre o que tinha escutado de e Melanie no sábado a noite, enquanto estava na lanchonete com sua mãe. A aposta que envolvia Connor St. Germain chamando para sair não era o assunto mais importante daquele dia.
Antes que pudesse terminar de falar, o grupo mais amado do colégio passou ao lado da mesa das meninas. , , , Melanie e Cassidy cruzaram a lanchonete e, por escolha de Melanie, se sentaram na mesa mais próxima das quatro. Com sua roupa de líder de torcida, Perales começou a conversar com seus amigos em um tom alto e claro para que qualquer um pudesse ouvir.
— Como atual presidente do comitê estudantil, vou começar a arrecadação de fundos para o baile de Halloween ou para o baile de Outono. Queremos organizar uma festa no próximo mês e nós vamos fazer uma votação com os alunos para decidirmos entre os dois temas. — Melanie falava com Cassidy.
— Espero que Halloween ganhe, Greyson Hills tem tantos monstros à solta! Seria divertido reunir todos em um só lugar — Chang respondeu, olhando de soslaio para . pigarreou, percebendo o movimento da amiga. Cassidy deu de ombros e continuou a falar. — Além disso, mal posso esperar para usar minha fantasia de Cruella de Vil.
— Qual o motivo da sua escolha, Cass? — ergueu a sobrancelha.
— Muitos a consideram vilã, outros sabem que ela apenas segue a própria vontade. Eu acho que ela é uma personagem que nos faz pensar. — a menina deu de ombros.
— Eu prefiro usar algo mais interessante — Melanie olhou para , percebendo que a menina ouvia a conversa. — Prefiro fantasias de casal. Aliás, sei de uma pessoa que teria a fantasia de casal perfeita.
— Quem? Sei que não sou eu e Fletcher, já que ele prefere fantasias de clássicos, como Danny Zuko de Grease.— Cassidy implicou com o namorado. Ao seu lado, revirou os olhos, sem dar muita atenção à conversa.
— Connor St. Germain! — a voz de Melanie soou ainda mais alta, fazendo as quatro meninas olharem em sua direção. — Se ele for levar ao baile, com certeza ele pode dizer que seu par é um monstro.
Assim que escutou a frase de Melanie, ela sentiu todo seu corpo queimar de raiva. , que estava atenta à amiga, tentou segurar o ombro de Firestone para que ela continuasse sentada, mas, assim que sua mão tocou a pele da outra, ela sentiu um calor absurdo — como se tivesse encostado em água fervente. notou que os olhos de estavam desfocados, começando a brilhar em uma cor anormal, e que ela começou a tremer. Mal houve tempo de dizer algo para acalmar a amiga quando a lâmpada sob a cabeça do grupo rival estourou. Jorrando faíscas, a lâmpada começou a pegar fogo e logo tudo que se podia ouvir eram os gritos de Melanie, a voz de tentando afastar os amigos de baixo do fogo e a sirene de incêndio do colégio.
! — sem tocar na amiga, tentou tirá-la do transe. — Temos que sair daqui!
— Vamos, antes que os sprinklers comecem a jogar água em nós! — pegou a mochila de e com um estalo de dedos, fez o ar ao redor da amiga levantá-la da cadeira. Nenhum aluno notaria aquilo no meio do frenesi.
— As coisas não estão indo nada bem. — murmurou para si mesma, olhando a multidão de alunos correr para fora, sem entenderem o que estava acontecendo.
As quatro foram as últimas a evacuar do refeitório. Em seguida, dois funcionários entraram segurando extintores de incêndio e controlaram a situação. Junto dos outros alunos, as meninas aguardaram no pátio até que a diretora, Tessa Lockwood, surgiu. A mulher tentou acalmar os estudantes, mas ninguém parecia ouvir. Do outro lado do pátio, oposto às meninas, Cassidy sussurrava no ouvido de e encarava cada movimento vindo do quarteto, estudando qual das quatro havia causado aquele estrago. Melanie estava em meio a lágrimas, mais estressada do que o necessário, e acariciava suas costas, tentando acalmar a namorada. Com a consciência retomada, não estava mais em seu estado anterior, seus olhos voltaram ao tom normal e sua pele não passava dos trinta e seis graus.
— Eu não faço ideia do que aconteceu… — Firestone começou a falar em voz baixa. — Mas foi uma sensação incrível.
— O que você quer dizer com isso? — estava preocupada e com certo medo. — Você está se referindo a quase ter incendiado Melanie?
— Também — riu, parecendo lunática. — Mas não só isso. Quando eu fiz a lâmpada estourar, foi tão natural. Eu não precisei comandar nada, parece que a magia apenas fluiu de minha mente para meu corpo. Foi como se meus poderes tivessem lido meu pensamento e executado o que meu instinto pedia na hora. Não é como nossa magia normal, com a qual precisamos lidar e treinar antes de utilizá-la.
, você não percebeu como estava fora de si? — interveio no pensamento da amiga, tentando trazê-la ao juízo. — Sua pele estava pegando fogo e seu corpo parecia ter entrado em estado de choque. Você nem sequer nos ouvia!
tem razão, isso não está soando nada bem. A magia branca não funciona dessa forma. — ponderou. — Precisamos conversar com alguém.
— Não digam nada à minha irmã! Ela vai me trancar em casa pelo resto do mês se souber o que aconteceu. — Sentindo-se encurralada, implorou. — Eu não acho que isso seja resquício da magia negra. Não sei o que houve, mas eu juro que voltei ao normal!
— Pode ter sido um lapso dos nossos poderes. Talvez esteja relacionado com o dano que o epicentro sofreu… — ponderou, sentindo pena da amiga. — Imagino que poderia ter sido com qualquer uma de nós, só que teve o azar de Melanie tê-la provocado justo na hora errada.
— Talvez. — suspirou. — Vamos ver como você passa durante a semana, . Se acontecer mais uma vez, contamos à Ava e minha mãe.
As quatro concordaram e Firestone finalmente pode respirar. realmente se sentia normal, apesar do frio na barriga continuar. Ela não iria contar às amigas sobre a sensação de poder que crescia dentro dela. “Não há nenhum mal em guardar esse segredo”, pensou, divertindo-se ao lembrar do pânico de Melanie.
O resto do dia correu normalmente. Após o incidente no almoço, as quatro meninas se separaram para suas respectivas aulas — apesar de se sentir incomodada em deixar seguir sozinha para a aula de Geometria. seguiu para o auditório, onde teria a aula de Literatura e as outras duas foram para a aula de Biologia.
Ao chegar no auditório, onde passaria o filme de “O Grande Gatsby”, sentou-se na última fileira. Ela foi uma das primeiras a chegar, além do professor, por isso começou a folhear o livro de sua família enquanto a aula não começava. No pequeno caderno de couro que sua prima Helena Grace deixou, começou a traduzir alguns dos símbolos da primeira página. Ela havia estudado bastante o livro de runas no final de semana, quando não se distraía com a lembrança de , e recordava de vários significados dos desenhos.
Brooks, esse era um enorme enigma para a menina. Apesar dela ainda ter sentimentos por ele, sabia que era o maior suspeito em sua lista. A margarida que surgiu em sua palma no primeiro dia em que se viram, seu conhecimento de latim, a magia que compartilharam no lago e a destruição do epicentro, tudo isso aconteceu no momento em que Brooks retornou para Greyson Hills. Suspeito era o mínimo.
— Posso me sentar aqui? — A voz de veludo de soou.
— Claro. — fechou o livro e encarou o menino, que usava uma camiseta preta que não escondia nada sua tatuagem no pescoço. — Precisamos conversar, .
— Sobre Gatsby? Sempre achei que ele era um completo idiota, sediando festas em esperança que a mulher que amava aparecesse.
— Não tente me distrair. — A menina estreitou os olhos.
— Claro. — Brooks riu. — Sobre o que quer falar?
— Você tem magia, isso eu já tenho certeza. Agora, que tipo de magia você tem? — Marin falou em voz baixa. No mesmo minuto, ele deu um sorriso de escárnio.
— Você já sabe a resposta — Encarou os olhos de em forma de desafio. — Mas não está pronta para aceitar a verdade, não é mesmo?
A menina engoliu em seco quando um calafrio percorreu seu corpo. a encarava desafiador. Os alunos começaram a chegar, mas nenhum se sentou próximo dos dois, o que permitiu que eles continuassem a conversar.
— Foi você quem abriu o epicentro. — A voz de falhou e Brooks assentiu, confirmando a hipótese da menina. — Você tem me sabotado esse tempo todo?
— Não. Na verdade, eu te ajudei e você também me ajudou. Foi uma troca justa.
sentiu um soco no estômago e não parecia demonstrar remorso. Na frente do auditório, o professor iniciou a aula, comentando sobre o livro que os alunos leram nas férias e o filme que veriam, baseado na obra. Marin sentiu sua cabeça rodar, tentando entender como ela havia ajudado Brooks a abrir o epicentro usando magia negra. “Como é que o garoto que eu amava se tornou meu maior inimigo?”, ela pensou entristecida.
— Meu trabalho era te dar o feitiço de transferência de poderes. — As luzes do auditório se apagaram e o filme começou a projetar no telão assim que ele voltou a falar. As luzes do filme preto e branco refletiam no rosto de de um modo fantasmagórico. — No desafio final de sua iniciação, você usou o feitiço que eu traduzi em sua casa naquele mesmo dia. Você desmaiou porque transferiu seus poderes recém adquiridos para mim por algumas horas, tempo suficiente para eu iniciar meus planos.
— Você usou minha magia para um ritual de magia negra? — se afastou o máximo que pode do garoto, mas ele rapidamente a segurou pelo pulso. Uma onda de calor invadiu o corpo da menina, como se a magia dos dois tivesse se conectado através do toque.
— Sim, mas deixe eu me explicar, . — Os olhos de Brooks não desgrudaram dela. — Eu voltei porque tenho dois trabalhos a fazer. O primeiro está feito, que era abrir o epicentro, agora o segundo é um pouco mais complicado…
— Mais complicado do que roubar minha magia, corromper o epicentro mais valioso do país e me enganar? Vamos lá, essa vai ser boa! — A menina riu, incrédula.
— Meu segundo trabalho — continuou — é trazer você para o meu lado.
— Você só pode estar sonhando! — Se ela pudesse gritar, gritaria, mas como estavam sussurrando, expressou sua indignação com os olhos. — Eu nunca iria para o lado negro! Nem posso acreditar que você realmente imaginou que eu faria isso.
— Eu sei que parece impossível, mas pense bem. — passou a mão pelo pescoço, começando a perder a calma. — Com magia negra, nós podemos fazer muito mais e juntos! Lembra o que fizemos com a água do lago? Isso é só o começo. Se juntarmos nossa magia, podemos criar muitas coisas maravilhosas…
— Não, ! — soltou seu braço da mão do garoto. — Você deveria saber que eu não vou mudar de lado e se você planejava me manipular, por que está me contando tudo isso?
— Porque eu não quero te forçar a nada, você pode escolher por si mesma. — O menino sentiu seu coração acelerar. — Eu tenho grande respeito por você, . Você me deu sua magia naquele dia e agora eu é que quero te dar um pouco da minha. Quero que você tenha poder, mais do que apenas o seu elemento.
A menina observou Brooks por um tempo. Apesar da sala estar escura, ela podia notar as olheiras profundas abaixo dos olhos do garoto e percebeu que ele parecia mais apático que há alguns dias. Algo estranho estava acontecendo com .
— E por qual motivo você precisa de mim? Por que insiste tanto que eu tenha mais poderes? — indagou e percebeu que havia engolido em seco. Ela finalmente havia chegado no ponto que o garoto gostaria de evitar.
— Além de ser mais divertido? — Brooks sorriu, mas logo suspirou. — Porque eu preciso que você me salve.


Capítulo 11

— O que quer dizer com "preciso que você me salve"? — perguntou com a voz falha. Eles ainda estavam no meio do filme quando se levantou e a puxou pela mão, tirando-os da sala.
— Tenho que te mostrar algo. — Ele sussurrou, enquanto os dois saiam escondidos da aula.
ainda segurava a mão de quando os dois entraram no banheiro masculino. Antes que ele voltasse a falar, se abaixou para olhar as cabines e se certificar de que estavam sós.
— Promete que você não vai se assustar? — Brooks fechou os olhos, nervoso.
— Posso tentar. — Marin cruzou os braços e deu alguns passos para trás, se afastando do garoto.
— Todos esses anos você deve ter se perguntado por que minha família saiu de Greyson Hills, por que eu desapareci completamente de sua vida. — Ele começou a contar, ainda de olhos fechados. — Existe um motivo pelo qual eu fugi daqui e de você, .
O garoto sentiu seu corpo congelar. Ele nunca havia dito o que estava prestes a dizer para em voz alta antes. nunca havia assumido o que acontecera com ele até agora.
— Eu sou amaldiçoado desde o dia em que nasci. — Ele sentiu seu peito mais leve, como se tivesse se livrado de um enorme peso. — Eu nasci com a maldição da família Bones. É, esse é o meu verdadeiro sobrenome.
— Eu… eu não estou entendendo. — se encostou na parede do banheiro, ficando o mais distante possível do garoto que agora abrira os olhos, completamente negros. Essa deveria ser uma característica de bruxos da magia negra, ela supôs.
— Você deve ter escutado a história das famílias fundadoras. As cinco famílias fundadoras. Você nunca se perguntou quem era a quinta família? Nunca imaginou o motivo deles terem se recusado a ajudar a aldeia?
— Por egoísmo? Medo? — A menina engoliu em seco ao ver que se aproximava.
— Minha família preferiu fugir da situação porque foram eles quem a começaram. — parou na frente de , apenas a um passo de distância. — A matriarca dos Bones soube que os colonos suspeitavam das cinco famílias e que planejavam um motim contra elas. Para poder defender as cinco famílias com dons especiais, ela decidiu sacrificar sua magia branca para conseguir um poder maior e forte suficiente para poder acabar com todos os não mágicos da colônia.
— Ela se converteu para a magia negra. — tentou encarar os olhos escurecidos de , mas logo sentiu seu estômago revirar. — Ela iria matar todos humanos? Isso é insano!
— A matriarca dos Bones estava com medo! Ela sentiu que precisava proteger as cinco linhagens de magia, a linhagem mais poderosa de todos os tempos. — se sentiu ofendido. — Os humanos, eles não nos entendem! Nunca irão entender. Toda vez que eles encontram algo distinto eles tendem a destruí-lo e com nós não seria diferente. Minha família percebeu isso antes de todas as outras.
— Você está soando como se tivesse perdido a cabeça…
— E eu estou! — Ele riu, sarcástico. — Quando as outras quatro famílias descobriram que o que a minha fez, elas nos amaldiçoaram. Sua família me amaldiçoou e é por isso que preciso de você, .
prensou a garota contra a parede. desviou o olhar do rosto de Brooks, com medo, e então percebeu que o pescoço dele estava contornado por linhas escuras. Pareciam várias marcas de garra em sua pele.
— O-o que é isso? — Ela gaguejou.
— Marcas da maldição. — O garoto respirou fundo e se afastou de . — A maldição que sua família lançou sobre nós cairia sobre o Bones mais poderoso que nascesse e acontece que eu tirei o bilhete premiado.
fechou os olhos sem saber ao certo no que pensar. O garoto que ela amava, aquele inocente e cheio de sonhos, perdia sua vida aos poucos por algo que ele não tinha culpa. E era tudo graças à família dela. Mas, ao mesmo tempo, o garoto que ele havia se tornado era malicioso e cheio de planos que ela desconhecia. Como ela deveria se sentir agora?
— A maldição funciona como um bloqueador até o dia em que irá me matar. Cada vez que uso minha magia, seja ela em um simples encantamento ou em um ritual, a maldição rouba minhas energias. Eu estou morrendo e meu corpo ganha mais cicatrizes a cada dia.
— Isso é horrível, . — os olhos de começaram a marejar. Ela não conseguia nem imaginar como seria seu mundo sem ele. — E por que você continua a usar sua magia? Se ela está te matando, por que não para de usá-la?
— Porque isso não seria justo. — Ele passou as mãos pelo rosto e sussurrou um encantamento. Em seguida sua aparência voltou ao normal, sem nenhum traço obscuro. — Eu nasci com magia, assim como você. Não é justo que eu precise me abster por conta de uma maldição! E por algo que não fui eu quem fiz!
— Tem razão. — Marin se sentiu culpada e voltou a se aproximar dele. Ela ainda o amava e não conseguiria dizer não para ele. Ainda mais quando a vida de corria perigo. — Me desculpe por isso, pelo que meus ancestrais fizeram com você. Eu quero te ajudar, mas não sei como! Além disso, eu ainda não tenho domínio completo dos meus poderes, nem imagino como eu poderia quebrar uma maldição centenária como essa… A única certeza que tenho é que não vou utilizar magia negra.
— Tudo bem, eu entendo o seu medo da magia negra. — suspirou. — Comigo foi assim também, mas quando você sente o poder e o que pode fazer com magia que vai além de seu elemento, isso muda rapidamente.
...
cortou o garoto. Só de imaginar seus próprios olhos completamente pretos ela sentiu arrepios. Marin estava disposta a ajudar seu amigo e antigo amor, mas não iria deixar Brooks a convencer de se converter.
— Como vamos te manter vivo? — Ela preferiu mudar de assunto.
— Com o epicentro aberto, eu consigo repor a energia que me é roubada. Você vai me dizer que é um golpe baixo da minha parte, mas não tenho muitas escolhas.
— Falando sobre a destruição do epicentro, você tem planos maiores além de quebrar sua maldição, não tem? — voltou a cruzar os braços.
— Talvez. — sorriu misterioso. — Mas isso não importa agora. Apenas acredite em mim quando digo que abri o epicentro para poder ganhar mais algum tempo de vida.
— Hm. — A menina estreitou os olhos. — Você precisa manter o epicentro aberto para sobreviver e eu quero fechá-lo. A única forma de você sobreviver sem roubar a energia do epicentro é quebrando a maldição. Então como vamos quebrá-la? Por onde começamos?
— Primeiro, temos que executar um encantamento milenar. Eu o encontrei durante meu tempo em Nova Iorque, mas preciso de uma bruxa poderosa para me ajudar. O ideal seria você se converter para a magia negra para nós unirmos nossos poderes em seu máximo potencial, mas imagino que essa sua magia branca deve servir.
— Mais alguma coisa? — riu, ignorando o comentário cínico de .
— Sim. Temos que encontrar sua prima.
não podia acreditar que depois de toda a cena que houve no refeitório, ela teria que aturar o casal de ouro por mais duas horas. Quando a garota chegou na aula de Geometria, viu Melanie e sentados nas carteiras de trás.
— Por conta do incidente de hoje, a diretora decidiu suspender a última aula do dia para realizar uma inspeção da parte elétrica de todo o colégio. Por isso, unimos as turmas das duas eletivas de Exatas aqui. — A professora explicava, enquanto os alunos confusos entravam na sala.
Firestone se sentou na primeira fileira, desejando ficar o mais distante possível do casal. No almoço, quando ela perdeu seu controle e quase incendiou Melanie, só queria se defender. Não era sua intenção machucar ninguém.
— Ei! Você também está nessa aula? — ocupando a mesa a sua frente, Connor St. Germain chamou a atenção de .
— Minha aula eletiva é Geometria. Suponho que a sua é Estatística. — Connor assentiu e a menina sentiu alívio ao saber que o loiro seria sua companhia. — Sobre sábado, eu sinto muito mesmo. Minha irmã acabou se aventurando na cozinha e fez nosso almoço. O resultado foi uma grande intoxicação alimentar. — começou a contar a história que ela e sua irmã haviam combinado para encobrir o que realmente aconteceu com ela.
— Sua irmã acabou me contando, não se preocupe. — Connor tirou seu material e organizou em sua mesa. — Eu tentei te ligar no domingo para ver como você estava e ela atendeu seu celular.
— Senhores…
A professora começou a lecionar sua aula e sorriu para Connor, encerrando a conversa. Ela sentiu seu coração acelerar e a sensação de frio desaparecer — talvez os sintomas da magia negra estivessem saindo de seu corpo. Firestone tentou se concentrar na aula, mas algo chamou sua atenção. A sua frente, sobre a mesa, o celular de Connor não parava de vibrar. Como a tela estava virada para cima, conseguia ler as mensagens que estavam chegando para o garoto e todas vinham de .
"Leve sua namoradinha para assistir nosso treino hoje. Quem sabe ela aproveita e se candidata para o teste das Sirenas. Diga que Melanie a convidou."
Connor rapidamente virou a tela do celular, tentando disfarçar, mas era tarde demais. lera a mensagem e ela não conseguia nem imaginar o que aqueles dois poderiam estar tramando. Melanie nunca a convidaria para o teste de líder de torcida, nem mesmo se sua vida dependesse disso. Apesar de estar desconfiada, Firestone não podia ignorar a animação que surgiu com a ideia dela entrar no time das líderes de torcida e ser conhecida como namorada de Connor. se ajeitou e St. Germain ficou de lado na cadeira, com as costas apoiadas na parede, para conversar com ela.
— Você está livre nesta tarde? — ele sussurrou quando a professora se virou para escrever no quadro. — Eu queria te recompensar pelo encontro perdido.
— Hoje a tarde? — não precisou pensar duas vezes. Por mais que ela soubesse que talvez tudo fosse um plano maquiavélico do casal no fundo da sala, ela não poderia deixar de tentar. — Claro, por quê?
— Você gostaria de assistir o meu treino? Depois podemos estudar juntos no Lucy's. O que acha?
— Por mim tudo bem, mas eu vou ter que ficar sentada por duas horas assistindo você correr pela quadra? — A garota fingiu não saber do que estava por vir.
— Hoje é seu dia de sorte. — Connor se aproximou dela. — Melanie te convidou para um teste das Sirenas. Será no mesmo horário e no gramado ao lado da nossa quadra.
— Perfeito — Ela sorriu, sentindo-se inteiramente animada. — Mal posso esperar…
Connor se virou para frente quando a professora parou a aula e chamou sua atenção. Assim que a professora voltou a falar, se virou para olhar e Melanie. Perales estava anotando a aula em seu caderno, concentrada, mas Aster a encarava. sentiu uma corrente elétrica percorrer seu corpo quando abriu um pequeno sorriso para ela. "Que porra de sorriso é esse? Isso é sarcasmo ou inocência?", ela pensou e franziu o cenho para o garoto. Eles mantiveram o contato visual até que Melanie o chamou. Os dois nunca haviam interagido dessa forma antes e isso fez com que Firestone sentisse seu coração palpitar.
— Você escuta as besteiras que diz em voz alta ou nem isso você consegue fazer? — Pela milésima vez, respirou fundo, tentando se acalmar. — Não é possível que você realmente acredite que estudar a genética de plantas nos dará uma nota maior do que a genética humana!
Parados no meio do laboratório de Biologia, e eram os últimos ali — até mesmo o professor havia ido embora. O garoto estava com as mãos nos bolsos, esperando Lockwood se acalmar. sugeriu que o trabalho dos dois retratasse a modificação genética na agricultura, porque ele havia conversado sobre isso com o professor, que inclusive deu vários elogios à ideia, mas mesmo assim não aceitaria o tema de bom grado tão facilmente.
— Mulher, você precisa se acalmar. Eu só dei uma ideia… — engoliu em seco.
— Me acalmar? , nós dois competimos pelo primeiro lugar há quanto tempo?
— Dez anos, mais ou menos. — Ele respondeu e encostou as costas na bancada.
— Por dez anos eu precisei me esforçar além do que era esperado de mim para poder te alcançar.
— Isso não pode ser verdade… — O garoto se sentiu mal. — Eu prefiro acreditar que competimos como iguais.
— Não competimos como iguais, Brisbane. Você nunca precisou passar a noite estudando para uma prova ou trabalhando em um projeto para apresentar para todos no dia seguinte. , você só precisa chegar com todo seu charme e inteligência e os professores te dão um belo A. — se encostou na bancada oposta, ficando de frente para ele. — Comigo não funciona desse jeito. Todos os professores esperam que eu seja impecável por ser filha da diretora e é por isso que eu sofro mais pressão para atingir a perfeição do que você. É por isso que quando você chega nos professores com seu sorriso e recebe seu trabalho com a nota máxima eu perco a cabeça.
analisou por alguns minutos. Ele realmente não via as coisas como ela havia pontuado, mesmo após tanto tempo disputando pela atenção dos professores e pelas melhores notas. Para , isso não passava de uma brincadeira amistosa, satisfatória quando ele vencia, mas pelo visto a recíproca não era válida.
— Eu realmente não sabia que isso te afetava tanto assim. — Ele respondeu, notando que Lockwood estava com a respiração pesada.
— Você está bem?
se aproximou de e colocou uma mão sobre o ombro da menina. Lockwood suspirou e se aprumou, deixando a mão de Brisbane cair.
— Tudo sob controle. — Ela se virou para pegar sua mochila. — Nós podemos usar a sua ideia para o projeto, mas eu quero ficar com a parte experimental.
— Sem problemas. Eu gosto da parte escrita. — também pegou suas coisas e os dois caminharam em direção à saída. — Nos encontramos no final de semana para elaborar o projeto?
— Sim. Você pode vir na minha casa, tenho algumas plantas que podemos utilizar no estudo.
— Perfeito. — Brisbane sorriu, interessado. — Nos vemos por aí, então.
— Eu espero que não. — estreitou os olhos, fazendo-o rir.
— Como quiser. — deu de ombros. — Faça sua mágica nessas suas plantas. Precisamos de um A!
Antes que pudesse compreender as palavras de , o garoto pegou seu celular e saiu andando na direção oposta do corredor. Lockwood ficou parada, observando Brisbane.
— Faça sua mágica? — Ela sussurrou para si mesma. — O que isso quer dizer?
Os instintos de se aguçaram. "Será que Brisbane sabe de algo que não deveria?" ela raciocinou rapidamente. Sem pensar duas vezes, a garota seguiu os mesmos passos de Brisbane, mantendo uma distância razoável para que ele não percebesse que estava sendo seguido. O garoto caminhava com o celular no ouvido, mas não dizia nada. Ele provavelmente estava conversando com alguém, mas seria impossível para ouvir a conversa — a menos que ela pudesse usar algum de seus poderes.
saiu pela porta principal e caminhou em direção ao campo de lacrosse do colégio. , que se escondeu embaixo da arquibancada, olhou o relógio e viu que logo o treino do time iria começar. Como Brisbane era o capitão, ele havia chegado alguns minutos mais cedo, mas algo não parecia normal por ali. Ele parecia tenso e mais sério do que antes, quando os dois estavam discutindo sobre o trabalho de Biologia. Para a sorte de , o campo era de grama natural, o que daria a chance dela utilizar algum feitiço do livro dos Lockwood para espionar o garoto. Ela folheou rapidamente o pequeno caderno de couro até encontrar o que queria.
— Espionar não é errado, quando o culpado pisa em seu gramado. Uma flor irá brotar onde o segredo for se revelar.
recitou o feitiço e guardou o livro da família em sua mochila. Não demorou muito para um copo-de-leite amarelo florescer na grama, próximo ao pé do banco onde estava sentado. De súbito, a menina conseguiu escutar a voz de Brisbane, como se a flor estivesse captando e transmitindo o som diretamente para ela.
— Sim, fiz tudo o que pediram. Beta e eu estamos controlando a situação de perto… Ômega é um pouco mais emotiva, mas não vamos deixá-la agir por impulso… Entendido, vamos aguardar novas ordens.
De repente, tudo que ela pode ouvir foram vozes masculinas difusas e então notou que o restante do time havia chegado. Lockwood não compreendeu o que acabara de ouvir e como não conseguiria mais nada ali, decidiu ir embora. Ela iria para a casa abandonada, estudar alguns dos livros antigos de lá, e mandou uma mensagem avisando suas amigas.
Ao desligar o celular, se levantou e sentiu que havia pisado em algo frágil e macio. Quando ele ergueu o pé, encontrou o copo-de-leite amarelo, amassado pelo seu peso. O garoto franziu o cenho, tendo certeza absoluta de que esse tipo de flor não crescia no campo de lacrosse, mas não teve tempo de chegar a nenhuma conclusão, pois seu treino estava começando.
Na sala do grupo de teatro, lia pela décima vez o script da peça. Ela e mais alguns membros da Companhia chegaram mais cedo para repassar as falas e treinar alguns passos de dança, bem, na verdade todos os antigos membros da Companhia estudavam a peça entre si. treinava sozinha em uma mesa distante. White era uma das poucas adições do grupo neste ano, somente ela e um garoto foram aceitos.
— É difícil treinar sem um parceiro, não é? — O outro novato se aproximou dela e iniciou a conversa. — Sou Ty, você deve ser .
— Eu mesma! — disfarçando seu alívio por alguém finalmente a notar ali, a menina sorriu simpática. — Não sou muito boa com o "primeiro dia". Nunca sei como conversar com pessoas que nunca vi na vida, muito menos atores tão talentosos como eles. — Ela apontou para a aglomeração do outro lado da sala.
— Pode até ser verdade, mas você está conversando comigo. Será que conseguimos quebrar o padrão? — Ty sorriu e puxou uma cadeira para ficar de frente para .
— Talvez… — Ela mordeu o lábio, nervosa. — É que você parece ser legal e não me encarou dos pés a cabeça como se eu estivesse em um lugar onde não fui chamada.
— Você também recebeu um caloroso "bem-vindo" dos outros atores? — O garoto sussurrou e apontou para duas garotas idênticas que treinavam seus passos do balé. — Aquelas ali não me ajudaram a encontrar o script e praticamente me empurraram quando eu fui pegar um copo de água. Até parece que queriam estragar o melhor dia da minha vida!
Ty se recostou na cadeira, sorrindo de forma radiante, e não pode evitar de sorrir junto. Ela estava tão preocupada em conhecer o resto da equipe, decorar suas falas e rotinas de dança que nem se lembrou de que ela sonhava com esse dia desde que havia nascido. White respirou fundo e observou o lugar com outros olhos. Seu coração voltou a bater mais forte, mas não por nervosismo.
— Você tem razão, Ty. Nada poderia estragar esse dia! — White voltou a olhar para o menino.
As gêmeas que foram grosseiras com Ty agora olhavam para . As duas tinham olhos azuis penetrantes e pareciam congelar a alma de White.
— Pensando melhor, talvez elas possam… — sussurrou para o amigo.
— Ignore elas. — Ty falou alto e as gêmeas voltaram a se olhar no espelho. — As gêmeas idolatram Cassidy e como você assumiu o papel dela esse ano, as duas devem se sentir ameaçadas.
— Elas devem me odiar! — White passou a mão sobre o cabelo, voltando a ficar nervosa. — Ainda bem que Cassidy não está aqui para me ver sofrendo. A pressão para ser tão boa quanto ela está me matando!
— Respira! Se te escolheu a dedo é porque você tem talento! Fiquei sabendo que ele se encantou por sua atuação e dança.
— Como você soube disso? — de repente, ela se lembrou de sua audição, quando ela usou seus poderes de forma inconsciente e na frente de Fletcher. — Ele disse algo nos corredores? Tinha mais alguém no auditório me vendo?
— Calma, . Até parece que uma atrocidade aconteceu na sua audição! — Ty riu e a menina deu um sorriso amarelo. — O faxineiro me contou.
— Você conhece o faxineiro? — ela franziu o cenho.
— Pois é, acontece que ele é meu pai, então muitas fofocas que ele escuta por aí acabam vindo parar em meus ouvidos também. É bem vantajoso na verdade.
— Me conte tudo! O que disse sobre mim?
— Não lembro exatamente as palavras, mas meu pai disse que Fletcher estava emocionado. Não vemos isso todo dia, certo?
— Emocionado… — White sentiu borboletas no estômago e seu rosto esquentar. — Eu preciso saber mais, Ty. Quais outras fofocas você tem?
— Tenho outra e acho que vai te interessar bastante também. É sobre o motivo de Cassidy ter saído da Companhia…
prendeu a respiração, ansiosa para descobrir o segredo, mas antes que Ty pudesse explicar, surgiu na sala. Assim que ele entrou, todos se calaram e se sentaram nas mesas dispostas em um semicírculo.
— Desculpe, essa vai ter que ficar para outra hora. — Ty piscou para e puxou sua cadeira para a mesa que continha seu nome.
— Boa tarde a todos. Hoje é nosso primeiro dia e vamos começar com a leitura do script. O primeiro ato começa no castelo, durante o baile de aniversário do príncipe. — anunciou.
Um membro da Companhia começou a ler as passagens da peça e todos os atores recitavam suas falas conforme eram pedidos. corrigiu alguns erros durante a leitura dos atores, mas sempre encorajava seus companheiros. Com , porém, a situação foi diferente. O garoto a repreendeu na maioria de suas falas e vez ou outra a elogiava. White estava começando a se sentir mal, como se ela não fosse boa suficiente para estar ali entre os melhores, mas do outro lado da sala Ty gesticulava para ela se acalmar. "Ele deve estar implicando comigo por ser o primeiro dia", ela imaginou.
— Vamos para a dança agora. White, espero que você seja melhor nisso. — encarou a menina. Ele sabia que estava sendo duro com , mas era o que Cassidy havia pedido como namorada e decretado como caçadora. — Todos se alongando, por favor. White, você vem comigo.
esperou que a garota chegasse ao seu lado e os dois foram caminhando até uma barra de madeira. O garoto começou a alongar a perna, colocando-a sobre a barra, e ela fez o mesmo. Os dois ficaram de frente um para o outro, alguns metros separando-os.
— Isso é alguma tradição do teatro? — Juntando sua coragem, encarou .
— O que? — Ele ficou confuso e encarou a garota com a mesma intensidade.
— Ser cruel com os recém chegados. — Ela alterou a perna e voltou a se alongar.
— Você esperava um cartão de boas vindas? — Fletcher riu incrédulo e começou a alongar os braços.
— Uma crítica embasada era o mínimo que eu esperava, mas parece que hoje você acordou com o pé esquerdo e quis descontar em mim. — se virou de costas para e estendeu seus braços para trás, esperando que ele a ajudasse a alongá-los. — Sei que não sou sua namorada, mas pelo menos me dê uma chance! Não serei igual a ela, mas quem sabe isso seja bom para a Companhia. Um ar novo nunca fez mal a ninguém.
White se virou para olhar Fletcher e notou que ele parecia estar com a cabeça cheia de pensamentos. Ela sorriu para o diretor e voltou para a sala, onde o restante dos atores se alongavam.
não poderia se sentir mais ridícula, usando aquela roupa que as Sirenas deram para ela e as outras garotas que iriam fazer o teste. Ela se encarou no espelho encardido do banheiro do time feminino, mal se reconhecendo com a regata vermelha apertada e com o bordado de Greyson High.
— Firestone! Você é a primeira. — Uma das amigas loiras de Melanie entrou, segurando uma prancheta, e a chamou.
A menina se encarou pela última vez e saiu dali. No campo, as líderes de torcida aguardavam nas bancadas, esperando a apresentação de . Do outro lado, não muito distante, os Vikings treinavam, como Connor havia lhe contado. procurou por ele e não demorou para encontrá-lo, correndo ao redor da quadra ao lado de .
— Ei, o show é desse lado! — A voz aguda de Melanie soou nos ouvidos de . Automaticamente, as duas se encararam, fogo percorrendo nas veias de Firestone e gelo nas de Perales.
— O que eu preciso fazer? — caminhou em direção ao time, parando em frente às bancadas lotadas de garotas com o uniforme da escola.
— Eu vou te mostrar nossa dança, você assiste e em seguida repete a rotina. Fácil demais. — Perales sorriu amargamente.
Melanie ficou de frente para e esperou uma de suas amigas ligar a caixa de som. A música soou alta demais e seria impossível alguém não se virar para olhar Melanie. No campo ao lado, todos os garotos haviam parado o treino para assistir a dança. Firestone tentou ignorar o mundo ao seu redor e focou em Perales. A garota começou a dançar conforme a batida, não hesitando em executar algumas acrobacias que provavelmente não faziam parte da rotina básica que ela havia prometido, e finalizou com um passo de dança sensual. Assim que terminou, Melanie recebeu vários aplausos e assobios, exceto de , que tinha os braços cruzados e um sorriso mínimo.
, querida, boa sorte. — Melanie piscou de forma cínica.
Firestone respirou fundo e se virou para encarar os Vikings. Connor acenou para ela e desejou boa sorte em silêncio. a encarava, com um olhar enigmático, e em nenhum momento olhou para sua namorada. Melanie percebeu que e se encaravam e pigarreou, chamando a atenção da garota.
— Sei que não é algo simples para amadores como você, mas não temos o dia todo! Se puder começar logo…
— Tudo isso é desejo de me ver quebrando a sua cara? — Firestone se virou para Perales, desafiando-a com a mesma intensidade. — Se é fogo que você quer, é isso que terá.
piscou para Melanie e pediu para ligarem a música. Atrás de si, ela podia escutar o burburinho do time masculino. Ninguém ali acreditava que ela conseguiria dar saltos, seguir os passos corretos e impressionar ambos os times. Mas é motivada por desafios e nada tiraria dela a satisfação de vencer Melanie.
Ao ritmo da música, Firestone imitou os passos de Perales, mas de forma mais sensual — o que resultou em mais assobios e aplausos dos Vikings. Na parte em que deveria executar os saltos, improvisou e fez mais do que Melanie havia feito. Por fim, ela incorporou alguns passos tradicionais de líder de torcida e finalizou gritando um "Vamos Vikings!".
— Então, quando começo no time? — Em meio aos aplausos e comemorações, perguntou para Melanie, que a encarava incrédula.
Perales não respondeu. Na verdade, a garota não tirava os olhos de algo atrás de Firestone. se virou, segundo o olhar da outra, e então entendeu o que estava acontecendo. Do outro lado do campo, não era apenas Connor que torcia animado por ela.
— Sexta-feira temos um jogo de estreia. — Assim que encontrou os olhos de , ele falou alto, interrompendo o burburinho da comemoração ao seu redor. — Espero te ver no topo da pirâmide.
— Pode ter certeza que estarei lá. — Ela respondeu confiante.
Aster riu amigavelmente, roubando um pequeno sorriso de Firestone, e então se afastou, chamando o restante do time. mandou um beijo no ar para Connor, que a observava orgulhoso. Assim que os Vikings retomaram o treino, se virou para as Sirenas que estavam vindo em sua direção para parabenizá-la. Apenas uma Sirena tinha desaparecido silenciosamente.
Enquanto todos comemoravam a apresentação patética de , Melanie Perales marchava em direção ao seu carro. Ela deveria manter a compostura e terminar de avaliar as outras candidatas para as Sirenas, mas depois daquela humilhação toda, ela não aguentaria ficar mais nenhum segundo ali.
Assim que chegou em seu carro branco, Melanie se atrapalhou para achar a chave na bolsa. Enquanto tentava encontrar o chaveiro, escutou passos se aproximando. A menina ergueu a cabeça, assustada, e tentou encontrar a pessoa que se aproximava, mas não viu nada além de carros iluminados pelos últimos raios de sol daquela tarde. Melanie vasculhou sua bolsa mais uma vez, tentando desesperadamente sair dali, mas parecia que as chaves não estavam em lugar algum.
— Quem ela pensa que é para roubar seu time?
Uma voz melódica soou nos ouvidos de Melanie, fazendo os pelos de sua nuca eriçarem. A menina encostou suas costas no carro, tentando encontrar quem estava ali. Com o celular na mão, ela estava prestes a ligar para a polícia.
— Pior, quem ela pensa que é para atrair seu namorado? — Melanie se virou assustada, escutando a voz vir por trás de si.
— Quem é você? — Perales disse com a voz falha.
— Digamos que serei sua amiga. — Uma mulher parou na frente de Melanie, com metade do rosto iluminado e a outra coberta pela sombra. — Sabe, eu entendo o seu time se virar contra você, com todas aquelas garotas que sonham em roubar sua popularidade, essa demonstração não me surpreendeu. Mas nenhum bom namorado deveria comemorar por outra…
Melanie engoliu em seco. Seu coração estava congelado de medo. A mulher à sua frente era bonita e não parecia ameaçadora de forma alguma, mas a maneira como ela soava e seu olhar penetrante diziam o contrário.
— Se um dia você quiser dar uma lição em Firestone e nas suas amiguinhas petulantes, venha me ver. — A mulher sorriu, mostrando seus dentes perfeitamente alinhados.
— Mas eu nem te conheço… Como vou te encontrar?
A mulher virou levemente a cabeça, como se estudasse a garota à sua frente. Em um piscar de olhos, a mulher se aproximou de Melanie e segurou sua mão.
— Você saberá onde me encontrar.
A mulher sorriu para Melanie, que sentiu sua pele queimar com o toque da mulher. A garota queria gritar de dor, mas sua voz magicamente desapareceu. Assim que a mulher soltou sua mão, uma pequena marca em formato de lua surgiu em sua pele.
— Quem é você? — Melanie perguntou, limpando as lágrimas que escorriam do canto de seus olhos.
— Minha querida, eu me chamo Davina.

Capítulo 12

Sábado de manhã e já tinha terminado suas tarefas, organizado o material que ela e usariam para o projeto de Biologia e agora iria fazer sua corrida matinal. Ela ainda tinha três horas até se encontrar com Brisbane, por isso planejou passar no epicentro durante seu trajeto de corrida para conferir como estava o local. Assim que chegou no extremo da floresta, seguindo o caminho que sua mãe havia ensinado, ela se deparou com o epicentro. Apesar de estar aberto há algum tempo, o solo do local não continha mais as marcas do ritual que acontecera ali e as árvores começavam a recuperar suas folhas.
— Como vocês estão? — A menina sussurrou no ar, sentindo-se envolvida pela natureza. — Estou vendo que suas folhas estão nascendo novamente.
Lockwood tocou em um pinheiro chamuscado e logo ela sentiu a energia da árvore, fluindo verticalmente pelo tronco. Ainda que o epicentro estivesse sob ameaça, a magia pura daquele lugar era forte e parecia fazer questão de fornecer à tudo que podia. A menina fechou os olhos, sentindo-se completamente imersa na energia da natureza. Ao longe os pássaros cantavam, saudando a manhã, e uma brisa leve contornou a pele da menina, como se estivesse a abraçando.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu. Nunca imaginei que algo tão terrível pudesse acontecer em tão pouco tempo… Nem tivemos tempo para aprender a ser guardiãs!
escutou as folhas farfalhando nas árvores mais distantes da clareira. Ela podia jurar que escutou um sussurro dizendo "Não se culpe".
— Eu prometo que vamos dar um jeito nisso! — Ela abriu os olhos e encarou o feixe de luz que cortava o céu, o epicentro aberto. — Mas por hora, o mínimo que posso fazer é isso…
A menina se sentou e repousou as palmas das mãos na grama. recordou a imagem que tinha da clareira da primeira vez que esteve ali e se concentrou em cada detalhe. Ela podia sentir a terra se mover abaixo de seu corpo e escutava o farfalhar das folhas aumentar. Assim que ela sentiu a grama sob suas mãos crescer, abriu os olhos. O epicentro continuava aberto, porém a paisagem ao seu redor estava inteiramente recuperada. As árvores, antes carbonizadas, se erguiam tentando tocar o céu e seus galhos estavam recheados de folhas verdes. A grama da clareira havia crescido vários centímetros e nela haviam flores silvestres, espalhadas onde antes repousavam as marcas do ritual de magia negra. Algumas borboletas tornaram a aparecer, finalizando aquela pintura perfeita.
— Acho que assim está melhor — se levantou, sorrindo com orgulho. — Traduzir o livro dos Lockwood tem valido a pena!
A garota observou pela última vez o epicentro reconstruído e então tornou a correr de volta para a cidade — ela tinha meia hora para se encontrar com . Conforme a menina se afastava do epicentro e se aproximava de Greyson Hills, ela podia sentir a magia dentro de si reduzir. Ao chegar na rua Duncan, encontrou o garoto sentado nos degraus de sua casa — Brisbane havia chegado mais cedo do que combinado.
— Caiu da cama, ? — Observando as roupas de corrida e o leve rubor nas bochechas da garota, sorriu.
— Eu diria que quem caiu da cama foi você. Está quinze minutos adiantado. — A menina observou seu relógio de pulso e respirou fundo. Brisbane deu de ombros e então subiu as escadas da varanda, alcançando o tapete para pegar a chave.
— Se eu fosse você, não deixaria a chave de casa nesse esconderijo, se é que posso chamar isso de esconderijo.
— Por que? Está pensando em me roubar? — Ela revirou os olhos e abriu a porta, indicando para Brisbane entrar.
— Claro que não — ele riu, limpando a parte de trás da calça ao se levantar. — Foi só um conselho.
riu secamente e se virou para . O menino tinha uma mochila nas costas e observava encantado a casa, como se estivesse em um museu. Lockwood limpou a garganta e então Brisbane voltou a encará-la.
— Aceita alguma coisa? Água, café da manhã? — perguntou, sabendo que ainda eram nove e meia de um sábado.
— Claro — riu. — Acho que nós dois precisamos de água.
A menina sorriu timidamente ao lembrar que sua aparência não deveria estar das melhores e se virou para ir até a cozinha. Serviu dois copos com água gelada e ofereceu ao garoto, que se sentou à bancada. observou-o, sem saber o que fazer ou dizer à ele pela primeira vez. Era tão estranho vê-lo ali, na sua casa, como se os dois fossem amigos.
— Isso é estranho, não é? — quebrou o silêncio.
— Com certeza…
— Sua mãe está? — Ele se ajeitou na cadeira, subitamente lembrando quem era a mãe de .
— Não, ela está em uma reunião com os professores — uma onda quente invadiu o corpo da menina. — Hm, , eu preciso tomar banho, se você não se importa.
— Ah, claro! — Ele limpou a garganta, o rosto corando levemente.
notou a reação de e sem querer deixou um sorriso mínimo escapar. Ela apontou para a porta que levava para a varanda e voltou a falar.
— Vamos estudar ali. Já deixei a mesa preparada…
— Tudo bem, vou começar as anotações. — seguiu o caminho apontado por .
A menina olhou uma última vez para Brisbane, se certificando que ele ficaria ali e então ela subiu as escadas, em direção ao seu quarto. Assim que desapareceu, a audição de aguçou. Segundo seus cálculos, ele teria cerca de vinte minutos até que voltasse — o que era tempo suficiente para que ele pudesse fazer um reconhecimento do local e possivelmente encontrar informações valiosas para a Sociedade.
Assim que o som do chuveiro soou pela casa, se levantou e entrou na cozinha. Ele havia notado que no térreo, ao lado da porta de entrada, havia um escritório. não sabia exatamente o que deveria encontrar, sua única certeza era de que os Lockwoods escondiam segredos e fraquezas que seriam úteis para ele e sua equipe. O garoto manejou a tranca agilmente e a porta do escritório se abriu. entrou no escritório de Tessa Lockwood e então começou a escanear a sala. O ambiente parecia um lugar comum: tinha vários livros clássicos e registros escolares nas prateleiras, fotos da árvore genealógica da família pendurada na parede e um mapa de Greyson Hills. A mesa de Tessa era impecavelmente organizada e as gavetas continham apenas itens de papelaria e pastas com as finanças. Nada que interessasse a Brisbane. Mas, apesar dos itens ordinários perfeitamente expostos na mesa, para um observador mais astuto algo naquela escrivaninha não estava certo. Por isso, deu dois passos para trás e então notou que a mesa tinha um tampo falso. O garoto olhou para o relógio do outro lado da sala, se certificando que ainda tinha dez minutos, e escutou o som que vinha do andar de cima. continuava no banho, o que daria tempo para Brisbane olhar todos os pergaminhos que se escondiam na mesa secreta.
— Bingo — ele disse para si mesmo, assim que seus olhos encontraram um pergaminho surrado escrito "Feitiço de proteção: amuleto para vida eterna".
Brisbane tirou uma foto com o celular e devolveu o papel exatamente no lugar onde encontrou. No andar superior, o som do chuveiro cessou e o barulho de portas abrindo e fechando indicavam que estava quase pronta. se apressou em fechar a mesa com o tampo falso e saiu do escritório. O garoto voltou para a varanda e, com o coração acelerado, tornou a anotar algumas frases no caderno para que Lockwood não desconfiasse de nada. Antes que a menina aparecesse, enviou a foto do pergaminho para Cassidy e . Essa era a informação que os três precisavam para começar a agir. sabia que em pouco tempo sua equipe finalmente daria início à sua missão: matar as quatro bruxas de Greyson Hills.
Davina sempre foi uma pessoa da manhã, mas, desde o incidente na beira do rio, a mulher não ousava sair de casa enquanto o sol estivesse alto. Quando a bruxa foi atingida pelo raio de magia negra, lançado acidentalmente por , sua alma se dividiu em milhares de fragmentos. Fragmentos que, por algum motivo inexplicável, controlavam as ações e pensamentos de Davina, ansiando por poder, demandando vingança.
— Ainda está assustada, querida?
Aquela voz que a acompanhava desde do dia em que acordara sozinha na beira do rio soou, dentro da cabeça de Davina. A bruxa ergueu o rosto e observou sua imagem no espelho. O reflexo mostrava a mulher sentada à mesa de sua cozinha, miserável e com escuras olheiras.
— Uma casa repleta de espelhos… Isso não traz energias positivas, Davina…
A bruxa não se moveu. Estava exausta. Seu corpo parecia ter corrido uma maratona, mas seu cérebro estava enevoado — parecia impossível conseguir lembrar o que havia feito nos últimos dias.
— Se isolar do mundo não vai ajudar em nada, Davina — a voz feminina soou mais distante. — Eu controlo seu corpo.
De súbito, a imagem refletida no espelho mudou. Além de Davina, uma silhueta surgiu — com contornos femininos, rosto antiquado e vestimenta do século dezesseis, parecia que aquela sombra estava congelada no tempo.
— Os espelhos me ajudam a enxergar os sinais… — Davina sussurrou, o medo presente em sua voz.
— Clarividência é uma arte frágil, diferentemente do que nós praticamos.
— Nós? — a bruxa engoliu em seco, o olhar fixado na figura sombria que continuava parada atrás de seu reflexo.
— Você não deve me conhecer, Davina, mas eu estou presente em todos os lugares. Você mesma já contou minha história diversas vezes… Bem, parte dela. — A sombra começou a caminhar lentamente. — Me chamo Cecily Bones, sou uma das matriarcas das famílias fundadoras.
— Bones? — Davina franziu o cenho, lembrando-se da história. — Eu me lembro que cinco famílias fundaram o primeiro convento de magia nos Estados Unidos, mas em lugar algum estava escrito o nome da quinta família.
— Mas é claro… Claro que Lockwood, Marin, Firestone e White apagaram minha história — Cecily respondeu rispidamente, como se o sobrenome das outras famílias queimasse em sua boca. — Não bastou amaldiçoar minha linhagem, elas ainda ousaram apagar minha história!
A voz de Cecily soou alta dentro da cabeça de Davina e de repente os vários espelhos do corredor de entrada caíram da parede, fragmentando-se em milhares de pedaços. A raiva que Cecily emanava era tanta que Davina sentia seu sangue correr quente em suas veias. A bruxa sabia que o espírito de Cecily havia se impregnado em sua alma, mas Davina ainda não estava totalmente rendida ao fantasma. Durante o dia, Davina tinha completa lucidez e controle sobre seu corpo, por isso ela sabia que — se Cecily realmente era a matriarca da quinta família — ela estava perdida. Mas, enquanto pudesse, Davina iria manter o espírito de Cecily preso a qualquer custo.
— A senhora poderia me contar o seu lado da história — Davina respondeu, ainda encarando o rosto magro do fantasma. Ela imaginou que isso poderia distrair Cecily.
Houve um longo silêncio. E então, como se tivesse entendido as intenções de Davina, o fantasma riu sombriamente.
— O pensamento humano é algo incrível, não acha? Todo o fio de pensamento construído através da lógica, fixado pela memória e transmitido por sua voz interior. Isso mesmo, voz.
Davina estremeceu e Cecily sorriu no reflexo do espelho.
— Existe uma certa beleza em estar dentro da alma de outra pessoa, mesmo sendo em forma de um mero parasita — Os olhos do espírito se estreitaram. — Davina, não há um segredo que você possa esconder de mim. Eu estou ouvindo tudo o que sua voz interior está planejando. Você só consegue me manter "presa" durante o dia porque eu ainda não tenho forças para dominar todo seu corpo, mas quando eu o fizer você deixará de existir. Então, minha cara, podemos utilizar as últimas horas de vida que você tem da forma que quiser. Ainda deseja ouvir minha história?
— Imagino que não me resta mais nada além disso — Davina engoliu em seco e uma fina lágrima escorreu pelo seu rosto — Seja qual for o motivo para o seu retorno, Cecily, espero que você não seja bem sucedida.
— Ora, Davina! Isso não são modos para tratar uma Bones!
De repente, a sombra de Cecily desapareceu do espelho e uma rajada abafada de ar atravessou o corpo de Davina. A mulher sentiu seu estômago queimar e a cabeça girar e logo ela caiu de joelhos no chão.
— Bruxa petulante! Se não fosse por meu sangue, você não teria magia em suas veias — A voz de Cecily invadiu a mente de Davina. — Não pense que só porque não tenho um corpo sou menos poderosa.
Com o corpo pesado contra o chão, Davina não teve forças para se levantar. Ela ficaria ali até o sol se pôr e então seguiria para mais uma noite em que não lembraria de mais nada.
— … E então, quando esse garoto, o Ty, estava prestes a me contar o motivo de Cassidy ter sido expulsa da Companhia, entrou na sala e tivemos que parar de conversar.
— Mal consigo imaginar o que pode ter acontecido. Fletcher não tiraria a própria namorada da Companhia por qualquer besteira — levitando no meio da cozinha, respondeu , enquanto assistia a amiga treinando poções. — Falando em Chang, você tinha que ver a cara de Melanie quando eu fiz a audição para as Sirenas!
— Como foi que você dançou? Com certeza Perales exagerou na rotina, imaginando que você não conseguiria imitá-la. Por acaso você precisou dar um salto triplo? — riu, enquanto se esticava sobre a bancada para pegar quatro folhas de visco para sua poção contra venenos comuns.
— Pior… — arregalou os olhos e estalou os dedos, colocando seus pés no chão cozinha. — Eu precisei dançar na frente de todos os Vikings.
ergueu seus olhos para a amiga, que riu animada e refez os passos da dança. A boca de White se entreabriu assim que Firestone terminou.
teve a mesma reação que você — mordeu os lábios. — Por isso Melanie enlouqueceu e saiu das audições sem dizer nada.
— Você acha que seus poderes te ajudaram na audição? — White voltou a mexer a colher de madeira no caldeirão. — Eu acho que só consegui o papel em Lago dos Cisnes por conta dos poderes.
, não vou mentir, eu acho que os poderes nos deram certas vantagens — estalou os dedos, fazendo uma pequena chama brilhante flutuar à sua frente. — Quando eu estava dançando, meu corpo parecia ter vida própria, meu sangue parecia estar em chamas… Mas não acho que seja só por isso que ganhamos os papéis. Prefiro pensar que os poderes nos deram energia para realçar nossas habilidades naturais. Entende?
moveu seu dedo indicador e apontou para a boca do fogão, onde o caldeirão de estava. A chama obedeceu o comando e logo se uniu ao restante do fogo que aquecia a poção.
— Eu senti a mesma coisa quando dancei, mas diferentemente de você, não pude controlar essa energia e acabei quase expondo minhas habilidades para ! — a menina balançou a cabeça, levemente nervosa. — Nem quero imaginar como ele me veria se tivesse percebido que eu dançava sobre o ar… Ele me veria como uma aberração.
— Ou ele se apaixonaria pela fada que você é! — chegou perto de e a abraçou de lado. — Ou bruxa, na verdade.
As duas riram juntas e antes que Firestone pudesse elogiar a poção de White, a porta da frente da casa abandonada se escancarou e bateu contra a parede. surgiu, visivelmente ansiosa, e se surpreendeu ao encontrar as amigas na casa.
— O que vocês estão fazendo? — Marin perguntou, após retomar o fôlego.
— Praticando… E você? — franziu o cenho.
— Preciso de alguns livros — mal olhou para as amigas e logo focou sua atenção para as prateleiras recheadas de livros com lombadas de couro.
O silêncio se instalou na casa, apenas os pequenos burburinhos da poção de soavam ao fundo. alcançou dois livros grossos — nem nem enxergaram os títulos — e assim como chegou, Marin foi embora em um piscar de olhos.
— Isso foi estranho — voltou a mexer no líquido viscoso. — não está agindo normalmente desde que voltou para a cidade, certo?
— Pode me chamar do que quiser, mas não sei se confio nele e sei que pode ser facilmente manipulada por aquele ser com sorriso de escárnio e ar de rebelde sem causa.
— A verdade é que você nunca gostou de — White riu e Firestone revirou os olhos. — Sei que ele machucou nossa amiga inúmeras vezes, mas eles se amam. Às vezes o amor segue caminhos tortuosos, o que não significa que eles não pertencem um ao outro.
— Ainda bem que com Connor é tudo mais fácil — suspirou e pegou o celular, vendo que o garoto havia lhe mandado uma mensagem de "bom dia". — Ele é simpático, gosta de ouvir minhas histórias, consegue me acalmar quando eu preciso e tem um futuro inteiro planejado! O que poderia dar errado?
— Você se apaixonar e ele não corresponde? — sussurrou e arregalou os olhos chocada.
— Isso foi um desabafo ou você acabou de rogar uma praga para cima de mim? — Firestone riu incrédula — Credo, !
— É um desabafo! — a menina apagou o fogo e com uma concha transferiu sua poção para alguns frascos. — Desde o dia que você e viram aquela profecia na bola de cristal eu nunca mais consegui dormir tranquilamente.
— A profecia sobre a traição? , você sabe que eu não guardo segredos, então acredite em mim, aquela visão foi subjetiva. Eu vi lobos e senti um aperto no coração, vi que você e estavam lá. Talvez a traição esteja relacionada com e e o lobo seja o seu futuro. Lobos não podem ser ruins, certo?
— Não tenho certeza. Eu refleti muito sobre tudo isso, . Lembra no dia em que fomos na casa de Davina, quando tudo começou? Ela havia me dito para tomar cuidado com pessoas que invejam minha arte… E se isso estiver relacionado com a profecia? E se eu ter entrado na Companhia, pegado o lugar de Cassidy e ter conhecido ou até mesmo Ty sejam passos que eu tracei em direção a esse futuro previsto?
pegou um dos frascos com líquido amarronzado e fez uma careta. parecia assustada e se lembrava claramente da sensação que teve ao tocar na bola de cristal e ver a profecia sobre o futuro das amigas. Não havia sido nada bom, mas seria ainda pior lembrar disso todos os dias, então Firestone não queria que White continuasse a se preocupar tanto, por isso decidiu mudar de assunto.
— Esse negócio supostamente salva vidas? — ela balançou o frasco na frente do rosto da amiga.
— Se eu fiz tudo corretamente, sim. — percebeu o que estava fazendo, então ela apenas respirou fundo e continuou a tampar os frascos. — Fiz nós quatro. Essa poção cura praticamente todos venenos.
— Então me dê dois frascos — encheu os bolsos da calça jeans. — Você sabe como eu sou pouco cuidadosa e com Perales na minha cola, preciso de toda proteção possível.

A alguns quilômetros de distância, dirigia sua Chevy Silverado azul marinho. No banco de passageiro, Melanie olhava a paisagem. Os dois estavam saindo de Greyson Hills e indo em direção à cidade vizinha, Lake Vista, à pedido da garota. Melanie queria conversar seriamente com seu namorado longe de conhecidos, a fim de evitar fofocas a seu respeito. Os dois ainda não conversaram sobre o dia anterior, muito menos sobre como estava se comportando em relação à .
— O dia está bonito, não acha? — Aster olhou pela janela de Melanie.
— É sério isso? — ela se virou irritada, os olhos inchados. — Você quer conversar comigo sobre o tempo?
— Sobre o que mais nós falaríamos? — ele se fingiu de desentendido.
— Sobre , é óbvio! A única coisa que importa para você, aparentemente!
embicou o carro na lateral da estrada e puxou o freio de mão.
— É isso que você quer? Então tudo bem, vamos conversar. — se virou para a garota. — Você que começou com essa história de perseguir Firestone e esse tempo todo eu apenas obedeci, como um bom namorado. Eu forcei Connor a chamá-la para um encontro e fazê-la se apaixonar por ele… Tudo isso para que depois ele quebrasse o coração de . Você percebe quão errado é esse plano? Independente disso, eu fiz tudo que podia para satisfazer seu desejo insano de acabar com essa garota. O que mais você quer de mim, Melanie?
— Quero que você pare de olhar para ela como se estivesse se apaixonando! — Perales falou mais alto.
— Fala sério, Mel! — ele passou a mão pelo rosto, frustrado. — Parou para pensar que talvez eu esteja me arrependendo de todo esse plano maluco? Você parou para pensar que, de tanto perseguir essa garota, eu tenha percebido o quão forte e independente ela é? Que um plano idiota como esse não vai acabar com uma garota como ?
— Você se lembra de como ela e as amigas dela me fizeram sentir quando eu tinha cinco anos? Se lembra do que elas fizeram comigo e Cassidy? — Melanie ergueu a sobrancelha e assentiu. — E depois de tudo isso você ainda tem coragem de defender Firestone?
— Eu não disse isso… — o garoto suspirou. — Só estou dizendo que podemos acabar com todo esse plano antes que as coisas piorem.
— Mas, — Perales encarou o namorado, um olhar vazio. — agora virou pessoal. Nós duas estamos disputando pela popularidade, pelas Sirenas e, logo, por você também. Ela quer roubar tudo que eu construí nesses anos!
Perales contornou a cicatriz em sua mão, onde estava a marca que Davina havia deixado em sua pele.
— É pessoal, , e você é o prêmio final. Não posso deixar que ela te roube de mim.
— Ela não vai, eu prometo — beijou o topo da cabeça da namorada.
— Então pare de flertar com ela toda vez que vocês estiverem no mesmo recinto. Eu vejo seus olhares, Aster — a menina se afastou do namorado e voltou a olhar para a janela, tentando esconder as lágrimas.
respirou fundo e voltou a dirigir. Os dois ficaram em silêncio por um longo tempo e então ele decidiu dizer uma última coisa sobre o assunto.

— Vou conversar com St. Germain. Ele vai quebrar o coração de Firestone e depois disso você nunca mais terá de competir com ela por nada. Eu prometo.
não costumava mentir para as amigas, por isso decidiu que ao invés de mentiras, ela apenas não compartilharia a verdade. Iria se manter distante e quieta, assim não precisaria envolver as amigas em todos seus problemas com , maldições milenares e a busca de sua prima, Helena Grace.
— Conseguiu os livros? — aguardando na beira da floresta, onde Marin havia mandado ele ficar, estava de braços cruzados e apoiado em sua moto.
— Sim — deu de ombros e guardou os livros de necromancia na mochila da moto. Ela deixou o garoto esperando ali, pois não tinha certeza se confiava nele o suficiente para mostrar onde ficava a casa abandonada, que por centenas de anos permaneceu acessível apenas para sua família e das outras garotas. — Para onde vamos agora?
— Primeiro, temos que encontrar sua prima com um feitiço de localização e para isso precisamos de um objeto que era dela.
pegou o livro de sua família e arrancou a página inicial, onde sua prima havia escrito a epígrafe a lápis, e a entregou para . O garoto repousou a folha sobre a moto e ao lado abriu um mapa dos Estados Unidos.
— Posso segurar sua mão? — limpou a garganta. — Eu esgotaria o pouco de magia que tenho, mas não quero que você veja como eu fico em seguida.
— Eu vi ontem — colocou suas duas mãos ao redor da mão dele. — Pode usar o que precisar.
Um sorriso mínimo surgiu no rosto de Brooks por breves segundos e no momento seguinte, em um sussurro, ele recitou algumas palavras em latim. sentiu sua energia ser drenada de seu corpo, como havia acontecido no dia de sua iniciação, quando havia desmaiado. Assim que terminou o encantamento, soltou a mão da garota e lentamente uma linha brilhante serpenteou sobre o mapa.
— Grace esteve em vários lugares… — Brooks falou, pensativo. — Aparentemente ela deu a volta pelo país e o último lugar que esteve foi…
se aproximou do mapa e de repente seus olhos marejaram.
— Ela está aqui do lado, em Lake Vista!
guardou o mapa e subiu na moto. , ainda em choque, fez o mesmo. A ansiedade em achar sua única família era tanta que ela mal podia esperar para encontrar sua prima — havia tantas coisas a perguntar à Helena Grace.
Assim que os dois colocaram o capacete, ligou a moto e acelerou em direção à saída da cidade. No percurso, o vento batia tão forte contra seus corpos que os dois mal conseguiam conversar.
Mas, de repente, queria falar com mais do que nunca — a menina finalmente havia percebido que talvez cometera um enorme erro.
Quando eles encontrarem sua prima, o que fará em seguida?


Capítulo 13

Ao chegar em Lake Vista, reduziu a velocidade e passou a prestar mais atenção nas casas e pessoas ao seu redor. Observando atentamente o garoto pelo reflexo do espelho retrovisor, se segurava na cintura de Brooks.
— Eu sei que Lake Vista não é a maior cidade do estado de Pensilvânia, mas, se nossa busca continuar desse jeito, vamos levar mais do que um final de semana para encontrar Helena Grace.
— Você está vendo aquela torre? Com um enorme relógio? — o garoto ignorou completamente o que Marin havia dito e apontou para uma torre de tijolos brancos a distância. — Enxergou?
— O que tem? — bufou na nuca de .
— São onze da manhã. Eu pessoalmente acho esse horário confuso, será que tomamos café da manhã ou partimos logo para o almoço?
deu uma volta pela praça principal e, quando encontrou uma rua paralela vazia, estacionou sua moto na sombra.
— É relativo, tirou o capacete e assistiu o garoto fazer o mesmo. — Mas o que isso tem a ver com o motivo de nós estarmos aqui?
, temos o dia e a noite inteira nessa cidade. Relaxe um pouco!
— Não sou eu quem está morrendo aos poucos — a garota revirou os olhos, mas logo se arrependeu de ter dito aquelas palavras de forma tão banal. — Eu não quis dizer isso…
Brooks deu uma risada amarga e desligou o motor.
— Eu estou sentindo vontade de tomar um café bem forte — ele saiu da moto e se espreguiçou. — Venha, tem uma cafeteria logo ali.
Os dois caminharam em silêncio e saíram da rua lateral, caindo direto na avenida principal da cidade. Ao chegarem na pequena cafeteria, abriu a porta para que entrasse primeiro. Ela escolheu a mesa mais afastada dos outros clientes e esperou o garoto realizar seu pedido no balcão.
A menina estava ansiosa e seus dedos não paravam de tamborilar sobre a mesa. Havia tanto a se fazer e os dois estavam ali, desperdiçando uma manhã inteira para tomar café.
Do outro lado da cafeteria, parecia calmo, como se o dia estivesse apenas começando. notou que ele conversava com a balconista há intermináveis minutos e isso a deixou ainda mais irritada.
Ciúmes era um sentimento que não sentia há muito tempo e por isso, ao assistir aquela cena e perceber o rosto corado da funcionária em reação a algo que havia dito, ela sentiu seu controle desaparecer de uma única vez. Antes que Marin pudesse raciocinar direito, a jarra de água que a balconista segurava se partiu em milhões de pedaços, fazendo todo líquido cair em seus pés.
Instantaneamente, os olhos de miraram . Havia um misto de surpresa e diversão em seu olhar. Sem saber como se sentir, limpou a garganta e se ajeitou na cadeira. Ela não teve a intenção de causar tudo aquilo, mas ela sabia que Brooks iria rir da situação por um longo tempo.
— Você poderia ter me avisado que iria pregar aquela peça, eu poderia ter ficado alguns metros mais distante — secou uma gota que escorria em sua maçã do rosto e sorriu sarcasticamente. — Sentiu minha falta?
— Idiota — ela revirou os olhos.
Brooks puxou a cadeira e se sentou na frente da menina. Os dois se encararam por um tempo e então decidiu tocar no assunto que havia contornado desde o dia em que havia revelado a ela sobre sua maldição.
, eu preciso que você seja sincero comigo. Por que nós estamos aqui? Por que você precisa tanto da minha prima?
O garoto continuou encarando-a, imóvel. Foi somente quando a balconista se aproximou com o pedido que quebrou a conexão e passou a olhar para a mulher que distribuía os dois pratos com panquecas e as duas xícaras de café.
, esta é Amelia.
— Como vai? — a balconista observou e em seguida , claramente decepcionada ao ver os dois juntos.
— Antes de toda aquela bagunça na cozinha acontecer — as sobrancelhas de Brooks se ergueram rapidamente, de forma que apenas Marin pode sentir a provocação pessoal — Amelia estava me contando sobre uma festa que haverá esta noite. Uma festa que toda a cidade irá participar, inclusive pessoas de outras cidades, como Greyson Hills.
Marin passou a prestar mais atenção. Amelia sorriu simpaticamente para e começou a explicar.
— Temos essa tradição de comemorar a chegada da nova estação com uma grande festa na praça principal. Vocês tiveram sorte, hoje inicia o outono e essa costuma ser a melhor festa.
— Amelia disse que outra moradora de Greyson Hills passou por aqui na noite anterior, não foi isso?
— Sim… — de repente, a balconista analisou o rosto de Marin com maior cuidado — era uma mulher parecida com a sua namorada. Ela me fez algumas perguntas sobre a festa, é possível que ela esteja presente.
— Quem sabe nós a conhecemos? — se fez de surpreso e agradeceu Amelia. A mulher sorriu e se afastou, indo atender um novo cliente.
bebericou um gole de café e começou a comer suas panquecas como se a notícia não fosse nada demais. A menina sentiu seu coração palpitar. Ela estava sozinha há tanto tempo — saber que sua única família estava em algum lugar, mais próximo do que ela poderia imaginar, lhe dava uma sensação de alívio e nervosismo ao mesmo tempo. Helena Grace voltaria para Greyson Hills e tomaria conta de novamente? Ou ela se recusaria a cuidar de uma bruxa sem domínio algum de seus poderes? Sua prima havia a abandonado por ter se cansado da responsabilidade de cuidar de ou justamente para protegê-la de um risco maior?
— Ei — acenou na frente do rosto da menina. — Não se perca dentro da sua cabeça. Pode me contar o que está te atormentando.
— Nós temos uma grande chance de ver Grace esta noite. Mas eu não deixarei você trocar uma palavra com ela antes de entender o motivo de você querer encontrá-la. Então, por favor, , seja sincero comigo. Qual é seu plano?
Brooks mordeu o lábio e então ergueu o rosto.
— Existem duas maneiras de quebrar a minha maldição. A primeira e melhor forma para todos nós é utilizando o encantamento que eu encontrei em Nova Iorque. As chances desse feitiço funcionar são pequenas, mas, acredite em mim, você vai implorar para que dê certo.
franziu o cenho e continuou a explicar.
— Esse feitiço depende da minha magia, que no momento não é a mais forte de todas, e da sua. Se unirmos nossos poderes talvez seja suficiente para alterar a maldição.
— "Talvez" não é a melhor opção, .
— É justamente por isso que estamos aqui, . Eu sei que quebrar uma maldição centenária, feita pelas quatro maiores bruxas da história, não deve ser tão simples. Eu sei que apostar em um feitiço e na nossa magia não é a melhor garantia, mas para o bem de Greyson Hills e para o seu bem, é melhor que seja.
— O que você quer dizer com isso?
Agora parecia nervoso. notou que o garoto estava medindo suas palavras, como se não pudesse dizer o que realmente gostaria.
— A segunda forma de quebrar a maldição é muito mais elaborada. Depende de inúmeras variáveis e algumas delas eu não posso controlar.
Brooks fechou os punhos e soltou um longo suspiro. Automaticamente, repousou sua mão sobre a dele e esperou. O garoto fechou os olhos e voltou a falar.
— Quebrar uma maldição forte como essa depende de uma magia à altura, depende da força de uma linhagem inteira de bruxos.
— Você planeja entrar em contato com seus ancestrais? — sussurrou, indecisa se aquilo realmente era possível.
, você deve entender que eu preciso de toda magia possível para poder quebrar a maldição e sobreviver. Eu preciso convocar a magia de todos os Bones que já existiram e isso acaba incluindo a nossa matriarca.
A menina se afastou rapidamente, como se sua pele tivesse levado um choque. De repente, sua mente começou a processar rapidamente o que estava acontecendo.
— Você não pode fazer isso, ! As quatro matriarcas baniram a quinta matriarca por um bom motivo, trazê-la de volta seria um enorme erro!
— Eu sei — ele riu secamente. — É por isso que preciso de sua prima. Helena Grace sabe como convocar os ancestrais e talvez ela saiba como eu posso fazer isso sem incluir a matriarca dos Bones.
Os dois permaneceram em silêncio. não diria mais nada. Ele não aguentaria ver a reação de se ela soubesse que sua vida estaria em risco se a matriarca dos Bones retornasse. Já a menina estava pensativa.
— Por que não fizemos o feitiço antes de partir para o plano B? — Marin quebrou o silêncio.
— Você ficará fraca por alguns dias, . Eu queria que alguém estivesse cuidando de você, eu queria que você tivesse sua família ao seu lado.
O coração de parou. Um arrepio subiu por sua espinha. Ela não imaginava que o feitiço exigiria tanto dos dois.
— Bom, o que vamos fazer enquanto a festa não começa? — tentou espairecer o ar e com um sorriso tranquilizante, acariciou a mão de Marin. — Ei, deixe que eu me preocupo com os detalhes. Agora, coma essa panqueca, ou eu irei.

Kade não costumava ficar nervoso ao lado de Ava, mas, desde que os dois deixaram de ser guardiões, a possibilidade de existir algo entre eles era real. Ao seu lado, Ava brincava com o pingente de seu colar. Kade notou que ela parecia confortável ao seu lado e com pensamentos distantes.
— Entregar os amuletos a elas formaliza as coisas, não é? — ele quebrou o silêncio, sem tirar os olhos da estrada.
— Sei que parece estúpido, mas, desde a iniciação, eu senti que algo seria diferente — Ava soltou o pingente em forma de fogo e feito de citrino e se virou para o amigo. — E depois do que houve no epicentro… Kade, eu tenho medo de que algo aconteça a elas.
Ava engoliu em seco e o homem concordou.
Há muito tempo a vida de guardião era simples, mas desde que as quatro garotas se tornaram guardiãs, acontecimentos estranhos começaram a ocorrer. Era por isso que os dois estavam indo até a casa abandonada para conversar com as meninas. Kade sabia que e estavam treinando ali, por isso decidiu trazer Ava.
— Eu também tenho medo. Porém, sei que as quatro são mais poderosas do que imaginamos, elas só precisam da proteção que os amuletos podem fornecer — os olhos de Kade abaixaram para a tatuagem em seu antebraço. iria odiar o amuleto de sua família.
— Eu me preocupo com -Ava travou a mandíbula, tentando disfarçar seu desgosto pela antiga guardiã e amiga. — Helena Grace simplesmente desapareceu e, junto dela, o amuleto dos Marin.
Kade reduziu a velocidade até estacionar na clareira da floresta. Os dois saíram do carro e começaram a caminhar em direção à casa abandonada.
— Ava, eu confio em Grace. Não acho que ela deixaria a prima mais nova desamparada — o homem chutou algumas pedrinhas ao longo do caminho. — De qualquer forma, se três delas estiverem protegidas, isso já nos dá uma vantagem contra o que quer que esteja à espreita.
Ava sentiu um arrepio e em ato reflexo ela olhou aos arredores, para confirmar que os dois não estavam sendo observados. A Firestone mais velha costumava ser destemida — imprudente às vezes — mas agora que estava com seus poderes reduzidos, todo seu comportamento mudou. Ela deveria ser mais cautelosa, para o bem de sua irmã.
Assim que os mais velhos chegaram na casa abandonada, Ava deu duas batidas na porta e eles entraram sem delongas. Não demorou muito para que eles sentissem o odor característico da poção curativa e, instantaneamente, Kade e Ava se entreolharam orgulhosos.
? É você de novo? — a voz de soou, vindo da cozinha.
— Somos nós — Kade respondeu e foi em direção às meninas.
— Vejo que estão treinando cedo — Ava surgiu na cozinha e se apoiou no batente da porta. — Elas parecem nós, não acha?
— Como assim? — perguntou.
— Ava e eu costumávamos vir aqui nos fins de semana e treinávamos um pouco de tudo — o homem olhou para a mulher, o coração batendo mais rápido. — Uma vez sua irmã quase incendiou a casa.
— Culpada — a mulher ergueu as mãos para o alto. — Pelo visto vocês estão avançando rapidamente. Essa poção está praticamente perfeita!
sorriu e abraçou a amiga de lado. Elas passaram o dia inteiro treinando e pelo visto seus esforços haviam valido a pena.
— Meninas, temos um assunto mais urgente para tratar — Kade puxou uma cadeira e se sentou. — Precisamos que vocês realizem um feitiço de proteção.
— Estão vendo meu colar e a tatuagem de Kade? — Ava apontou e as duas meninas assentiram em resposta. — Esses são os amuletos das nossas famílias. Através do feitiço, vocês conseguem duplicar o amuleto para si e ele irá protegê-las de qualquer mal.
— Podemos escolher o objeto que servirá de amuleto? — não tirava os olhos da tatuagem do irmão. — Eu não posso ter uma tatuagem.
— Infelizmente não há escolha, irmã — Kade riu. — Você vai me agradecer um dia. Vamos lá fora, você precisa se concentrar para realizar esse feitiço da forma correta.
olhou para , pedindo ajuda, mas a amiga apenas balançou a cabeça e empurrou White para fora da casa, onde seu irmão estava indo.
Quando voltou para a cozinha, encarou a irmã, animada pelo desafio.
— Ainda bem que nossa família tem esse colar — a menina respirou aliviada.
— Segure minha mão e recite as mesmas palavras que eu — Ava sorriu para a irmã.

Ao final da tarde, e terminaram seu projeto. O dia correu tranquilamente e, milagrosamente, não houve troca de provocações nem brigas entre os dois.
— Até que não foi tão ruim trabalhar com você — estava de pé, encostada na parede e observando o garoto arrumar sua mochila.
— Posso dizer o mesmo — ele sorriu. — Eu sabia que seríamos uma boa equipe.
— Sabe de uma coisa, ? Acho que em um universo paralelo, nós seríamos amigos.
— É mesmo? — ele indagou.
— Sim. Nós dois temos os mesmos sonhos e, não importa os meios, sempre atingimos nossos objetivos. Isso nos torna inimigos mortais ou melhores amigos.
— Como isso poderia nos tornar melhores amigos? — riu, interessado na linha de pensamento da menina. — Para mim, isso parece impossível.
— Queremos as mesmas coisas, . Imagino que isso já nos aproxime, para o bem ou para o mal — deu de ombros. — Bem, nesse mundo, acho que somos inimigos. Mas em outro universo…
— E o que te faz pensar que não somos amigos aqui e agora? — ele cortou a garota.
Uma onda percorreu o corpo da menina.
— Ei, existe uma coisa pela qual não competimos. Acho que esse pode ser o início de nossa amizade.
— O que? — ela perguntou.
— O cargo de presidente do comitê estudantil.
arregalou os olhos. Tantos acontecimentos haviam tirado seu foco do debate que ela mal se lembrava que o evento ocorreria em dois dias.
— Tem algum motivo para você não estar na disputa? — Lockwood passou a mão pelo rosto, cansada.
— E enfrentar a ira de Melanie? Não obrigado.
Os dois riram juntos.
fechou o zíper de sua mochila e finalmente olhou para a menina à sua frente, perdendo o fôlego ao vê-la com o cabelo solto e a pele iluminada pelo sol de fim de tarde.
— Perdeu alguma coisa? — sorriu confusa, as bochechas corando levemente.
— Não, eu só estava pensando em como você mudou — limpou a garganta e se levantou, andando lentamente em direção à garota.
sabia que havia algo nas entrelinhas, mas ela decidiu ignorar o sentimento em seu peito e quebrou o clima.
— Sem querer abusar, mas eu posso te pedir um favor?
— Só se eu puder cobrar outro em troca mais tarde — ele respondeu, com um ar mais leve.
— Você é a única pessoa que eu consigo pensar no momento…
Brisbane arregalou os olhos e balançou a cabeça, finalizando sua fala rapidamente.
— A única pessoa que saberia me ajudar a revisar a História Americana e Ciências Políticas para o debate de segunda-feira.
Ao terminar de ouvir, riu aliviado. Pela primeira vez, a menina se sentiu envergonhada na frente de Brisbane. Ela sentiu um enorme desejo de abrir um buraco no chão e se enfiar nele — e ela realmente poderia fazer isso.
— Claro, o que seria melhor do que passar estudando em um sábado à noite?
— Te conhecendo, não sei dizer se isso foi uma tentativa de comentário sarcástico ou se você realmente concorda com isso.
— Ei, nossa amizade começou há cinco minutos. Não abuse, Lockwood.
voltou a se sentar na cadeira da varanda e estava prestes a abrir sua mochila quando teve uma ideia melhor.
— Já que somos amigos, podemos estudar em meu quarto.
O garoto não pode esconder sua reação de surpresa. Se soubesse o que ele havia aprontado naquela manhã, enquanto ela estava no banho, ela com certeza não o convidaria para sua casa novamente.
Mas estava feliz com aquele convite. Ele se sentia alegre com o fato de que, depois de tantos anos, os dois estavam se conhecendo melhor. Naquele momento, seu lado Alfa não existia. Eram apenas ele e .
— Sua mãe não vai se importar? — dentre os milhões de pensamentos, aquele foi o primeiro a sair da boca do garoto.
— Brisbane, não abuse da nossa recente amizade!
balançou a cabeça e entrou na casa, sendo acompanhada por .
No andar de cima, a garota acendeu as luzes e abriu a porta de seu quarto. observou abismado como o lugar era minimalista e organizado.
— Não era como você imaginava? — ela perguntou, percebendo o choque do amigo.
— Pensei que haveria livros espalhados por todas as partes, calendários nas paredes e talvez uma foto de Melanie pendurada no centro de um alvo, repleto de dardos em seu rosto.
— Você me enxerga como uma maníaca? — riu, puxando uma cadeira para .
— Enxergava — o garoto a corrigiu, sentando-se onde Lockwood apontou. — Agora que somos amigos, te vejo de outra forma.
De repente, um aperto na região do coração fez se calar. Seria o seu lado caçador se rebelando contra aquela cena?
— Bom saber — a menina estreitou os olhos, brincando. — Então, eu tenho esses flashcards e só preciso que você me faça as perguntas que estão escritas no papel.
— E se você errar eu te ajudo — lutando para manter seu lado caçador quieto, sorriu, pegando os cartões da mão de . — Por onde começamos?
— Pelas treze colônias — Lockwood se sentou na beirada da cama, de frente para Brisbane.
O garoto leu alguns cartões e selecionou o mais fácil, para começar.
— Em que ano as treze colônias se tornaram oficialmente independentes?
— 1776 — respondeu com firmeza.
— Correto — sorriu e leu outro cartão — Quais outros dois países participavam do comércio triangular?
— Antilhas e África.
— Na Guerra de Independência, os colonos receberam apoio militar francês. Por que a França decidiu se aliar aos colonos?
— Os franceses desejavam revanche, após perderem a Guerra dos Sete Anos contra a Inglaterra.
Enquanto lia os cartões, observou o garoto. Apesar daquela ser a primeira vez dele ali, Brisbane parecia confortável e ela se sentia da mesma forma.
— Sua família é francesa, certo? — perguntou, fazendo o garoto erguer o rosto.
— Sim — de repente a voz de se tornou mais áspera. — Minha família se instalou nos Estados Unidos justamente por conta da guerra. Não somos uma família fundadora, mas estamos aqui há um bom tempo.
A menina engoliu em seco, sentindo-se acuada. De repente, uma barreira se ergueu entre os dois.
não queria compartilhar a história dos Brisbane com . Se ela soubesse quem ele era de verdade, nunca mais olharia para ele — e esse pensamento assombrava a parte humana do garoto. Por outro lado, a parte caçadora de se alarmou, como se estivesse entrando em um campo minado, cada vez mais próxima de descobrir informações sobre ele.
Antes que um dos dois pudesse amenizar a situação, o som de chaves tilintando soou no andar de baixo. Tessa Lockwood havia chegado em casa. rapidamente se levantou da cama e , assustado, fez o mesmo, deixando os cartões em cima da cadeira onde estava sentado.
— Você vai me obrigar a fazer o que eu estou pensando? — o garoto sussurrou.
— Ela sabe que você viria, mas provavelmente não imagina que ainda está aqui! — ela sussurrou de volta, passando os dedos pelos cabelos, nervosa.
, isso com certeza é abusar da nossa amizade recente! — riu em silêncio, desacreditado.
— Eu vou ficar te devendo dois favores, tudo bem?
colocou a mochila nas costas e foi até a janela do quarto de , que dava diretamente para o jardim lateral da casa.
— Não é uma queda tão alta, você deve ter sofrido lesões piores no futebol — a menina deu um sorriso amarelo.
— Eu vou cobrar os favores, Lockwood.
passou as pernas para fora da janela e se arremessou no ar, pousando silenciosamente na grama. Brisbane olhou para cima, vendo , e sorriu, balançando a cabeça.
No momento seguinte, Tessa surgiu no quarto de .
— O que você está fazendo aí? — a voz da mulher soou, de uma forma tão audível que até pode ouvir.
— Estou mandando os vira-latas embora — a menina respondeu, mais para o garoto do que para sua mãe.
arregalou os olhos com a ousadia da garota, mas não demorou para sair dali. Ele com certeza não queria encontrar com a mãe de , pelo menos não dessa forma.

Em uma boutique em Lake Vista, Melanie experimentava vestidos enquanto a aguardava, sentado em um banquinho de madeira do lado de fora da loja.
Aster observava a multidão começando a se aglomerar na praça principal da cidade para a festa de Outono — pelo menos era o que os cartazes espalhados por todas as ruas anunciavam.
Ele não queria estar ali, parado, sem fazer nada.
estava tão tenso quanto sua namorada e talvez esse tenha sido o gatilho para a briga dos dois. Desde o início de seu namoro, Melanie havia pedido para que ele a ajudasse a acabar com a moral de e suas amigas e, por puro tédio, o garoto aceitou o pedido. Mas agora, dois anos haviam passado e ele estava preocupado com coisas mais importantes, como o jogo de estreia dos Vikings — o jogo que pode definir todo seu futuro.
A pedido do seu o treinador, alguns olheiros da universidade de Princeton virão na semana seguinte para Greyson Hills especialmente para assisti-lo. Porém, os Vikings não estão em sua melhor forma e a vitória não está garantida. Na temporada anterior, fazia parte do time e sua saída neste ano afetou toda a organização das jogadas. precisava de uma salvação de último instante se ele quisesse ter a partida garantida e isso estava consumindo seu tempo e pensamentos.
— Mel, vou comprar alguma coisa para comermos. Quando terminar, me encontre na festa do outro lado da rua — entrou na loja e falou alto o suficiente para a menina escutá-lo.
Aster recebeu um murmúrio como resposta e saiu dali, sem pensar duas vezes.
A intriga entre sua namorada e as outras garotas era antiga e não tinha interesse em fazer parte disso. Porém, ele decidiu manipular Connor St.Germain por puro egocentrismo. Ele gostava de se sentir poderoso, o rei de Greyson High.
Enquanto aguardava na fila da tenda que vendia lanches, ele pensou ter visto Brooks andando a esmo entre algumas pessoas. Aster ergueu o pescoço, tentando ter uma visão melhor do outro garoto, e conseguiu. Era e aparentemente ele havia visto também.
— Ei! Brooks! — gritou, acenando.
parecia desconfortável enquanto se aproximava do outro. Os dois não se cruzaram desde que Brooks havia chegado de Nova Iorque e, aparentemente, gostaria de manter a situação dessa forma.
— Tudo certo, Aster? — cumprimentou o outro garoto com um aperto de mão, mas o puxou para um abraço.
Para as pessoas ao redor, aquele abraço pode ter parecido normal, mas para os dois, foi um cumprimento frio e desajeitado considerando o passado.
Antes de mudar de cidade, os dois eram melhores amigos.
Brooks costumava jogar como Running Back — atual posição de Connor — e ele e eram inseparáveis. Aos doze anos, os dois costumavam jogar futebol no quintal dos Aster e enquanto treinavam dividiam segredos.
— O que você está fazendo por aqui? — perguntou Brooks, dando alguns passos para trás, distanciando-se de Aster.
— Melanie quis fazer compras para a festa de Halloween — limpou a garganta, percebendo que a proximidade dos dois não era mais a mesma. — E você? O que estava fazendo, andando como um cão perdido?
Brooks riu levemente e cruzou os braços sobre o peito.
— Estou procurando minha ex-namorada. Aparentemente ela quis me dar uma lição e desapareceu.
— Ela merecia a chance de se vingar — deu de ombros e assentiu.
— Ela merecia muito mais — Brooks sussurrou, mas o outro garoto pode ouvir claramente.
A fila se moveu e deu alguns passos para frente, sendo acompanhado do outro.
— Como foi em Nova Iorque? Escutei que você foi para um internato.
— Foi outra vida — respondeu sem emoção. — O internato era totalmente o oposto de Greyson High. Sem garotas, sem festas, sem liberdade para ir à Manhattan. A única coisa que tínhamos era lacrosse e futebol, acredita?
De repente, uma ideia surgiu na cabeça de .
— E como está a sua recepção?
— Não vai mal — franziu o cenho. — Por que?
— O que você acha de voltar para o time? Temos um jogo de estreia na semana que vem e nosso Running Back atual não é dos melhores.
Brooks ficou em silêncio. Ele não tinha vontade de voltar à sua vida anterior, ainda mais quando tantas coisas estavam ocorrendo no momento. Mas, conversar com e se lembrar do tempo em que sua única preocupação era marcar o máximo de touchdowns possíveis fez o peso em seus ombros desaparecer por alguns minutos.
estava na expectativa. costumava receber todos os lançamentos de Aster e se eles retomassem essa dinâmica até o jogo de estreia, as chances dos olheiros aprovarem seu desempenho seriam muito maiores.
— Talvez eu possa aparecer nos treinos desta semana — o garoto respondeu e logo em seguida recebeu um abraço apertado de .
— Esse é o Brooks que eu conheço.
No momento seguinte, a atendente chamou para que ele fizesse seu pedido. Enquanto isso, passava a mão pelo pescoço, levemente nervoso. O antigo Brooks estaria extasiado em jogar a partida de estreia da temporada, mas o novo Brooks tinha medo e junto dessa sensação uma pergunta rondava seus pensamentos: ele estaria vivo até lá?
Quando ergueu a cabeça, seu coração parou. Ele viu conversando com alguém, dirigindo um carro preto e de vidros escuros.
— Ei, , você quer algo? — chamou a atenção do amigo.
Brooks instantaneamente olhou para Aster e balançou a cabeça em negação. Quando voltou a olhar para o ponto onde estava, ele não acreditou. Marin e o carro haviam sumido.

secou o suor de suas palmas em sua calça jeans. Ela estava tão nervosa que nem sabia como iniciar a conversa com sua prima.
— Foi uma ótima ideia, — a voz tranquila de Helena Grace fez a menina se acalmar aos poucos. — Nunca teria pensado em utilizar o feitiço de espelho d'água como uma forma de contatar outros bruxos.
A menina sorriu, se lembrando de como havia conseguido despistar e fugido para um dos parques da cidade, por onde os dois haviam passado de moto quando chegaram em Lake Vista.
— Como você conseguiu criar um feitiço do zero? — a mulher de cabelos enrolados perguntou, sem tirar os olhos da estrada. O carro rodava suavemente a mais de cem quilômetros por hora.
— Não foi do zero, na verdade eu só fui criativa. Usei o lago do parque, retirei um pequeno volume de água e usei um dos feitiços do livro da família, com algumas palavras e intenções diferentes. Não sei explicar como, mas funcionou.
A garota puxou o livro encadernado e abriu em uma página marcada.
— Dentre todos os Marin, eu imaginava que eu seria a mais brilhante — a mais velha sorriu. — Mas vejo que você é muito mais esperta, . Tão esperta que pensou melhor antes de forçar um encontro entre mim e seu ex-namorado.
engoliu em seco, reduzindo seu sorriso. Durante o dia, ela pensou melhor sobre sua parceria com Brooks. A garota realmente queria ajudar seu antigo — ou atual — amor, mas diferentemente do passado ela não seria manipulada. Por isso, decidiu encontrar sua prima sozinha.
— Grace, ele me contou sobre a maldição que nossas famílias jogaram sobre os Bones — a menina observou a estrada. — Eu me senti obrigada a ajudá-lo.
Helena Grace ficou mais séria. A mulher sabia onde aquela conversa iria parar.
— A maldição caiu justamente sobre sussurrou.
— Eu nunca gostei dele e pelo visto isso confirma que meus sentidos são aguçados.
— Grace! — a menina se virou para a prima. — Eu não posso deixá-lo morrer!
, esse garoto pode ser o pior bruxo dos nossos tempos, temos que deixar a natureza tomar conta disso. Nossas ancestrais lançaram a maldição sobre os Bones por um bom motivo. Brooks não possui nada além de magia negra em suas veias e por isso você deve ficar longe dele!
Uma lágrima escorreu impetuosamente pelo rosto da menina.
— Ele tem um feitiço que pode quebrar a maldição e pediu minha ajuda para executá-lo — respirou fundo. — Grace, ele foi honesto comigo. me explicou as duas formas de quebrar a maldição e ele deseja que o feitiço funcione, pelo meu bem. Além disso, ele queria te encontrar para que você pudesse cuidar de mim depois que eu usasse meus poderes no feitiço. Isso não mostra como ele pode ser diferente do que você imagina?
— Talvez — a mais velha estava analisando a situação.
— Se ele sobreviver, quem sabe eu possa ensiná-lo a não usar a magia negra. Eu posso trazer o antigo de volta.
A mais velha suspirou pesadamente. Helena Grace sabia que esse dia chegaria, o dia em que sua prima mais nova faria qualquer coisa para salvar o amor de sua vida. Era por esse motivo que a mulher havia deixado Greyson Hills e percorrido todo o país em busca de uma resposta para .
— Você tem boas intenções, prima, mas você não pode salvá-lo. Essa maldição é muito forte e não será um pequeno feitiço que irá quebrá-la.
— Mas você sabe como quebrá-la de uma outra maneira, não sabe? É por isso que ele quer tanto a sua ajuda — assim que terminou de falar, ela notou que sua prima apertava com mais força o volante. — Brooks diz que você sabe como contatar ancestrais e ele imagina que você também saiba como selecionar os ancestrais a serem invocados.
, não posso te ajudar — Helena Grace cortou a prima. — Impedir que um ancestral se comunique com você quando o portal está aberto é muito difícil e exige uma força tão grande que nem a magia do epicentro pode fornecer.
— Então não há escapatória?
As duas permaneceram em silêncio. Então, a mais velha suspirou.
— Seu coração já sofreu muito e só irá machucá-la ainda mais. É melhor você se preparar para perdê-lo de uma vez por todas, prima.
— Como isso seria melhor do que quebrar a maldição? — secou as lágrimas. — Por favor, me explique por que a morte dele seria a melhor opção.
— Porque, para realmente quebrar a maldição, precisa receber a magia de seus ancestrais. Imagino que essa parte ele te contou — Grace esperou que a prima concordasse e continuou a explicar. — O que Brooks provavelmente omitiu de você é que, com isso, ele terá uma enorme fonte de poder para executar o feitiço que encontrou, mas em troca ele deve realizar um desejo de seus ancestrais. Ele terá uma dívida com a matriarca dos Bones e isso pode ser um grande perigo para todos nós.
A menina sentiu um arrepio correr pela espinha. Helena Grace reduziu a velocidade e mordeu o lábio.
, sendo sincera, não consegui juntar muitas informações sobre isso. A única certeza que tenho é que ele não pode trazer Cecily Bones de volta.
O silêncio se instalou novamente, mas assim que reconheceu o caminho em que estavam, ela se virou confusa.
— Pensei que você estava me levando para seu novo apartamento.
— Achei melhor te trazer de volta para casa, prima. Você estará mais segura aqui, com as outras guardiãs.
— E você ficará comigo?
— Claro, posso ficar por algum tempo.
Helena Grace piscou para e aumentou o som da rádio. Apesar de querer que sua prima ficasse, a menina sabia o verdadeiro motivo da decisão de Grace, ela queria se certificar de que e não fariam nada inconsequente.

Apesar de não querer admitir, a tatuagem não era tão horrível quanto ela imaginava que seria. Mais cedo naquele dia, ela havia implorado para que Kade a ensinasse algum feitiço que pudesse mudar o desenho do furacão — o brasão da família White — mas além do irmão rir do pedido, ele ainda havia decidido por onde ficaria o desenho.
Observando o reflexo de sua escápula pelo espelho, a menina não pode deixar de sorrir. A tatuagem tinha um tamanho razoável e era facilmente escondida por seu cabelo comprido.
sentia-se aliviada com seu amuleto de proteção. Finalmente, depois de tantos dias sem dormir por preocupação com a profecia, a menina se sentia mais leve.
Em seu pijama, a garota se jogou na cama, preparada para uma longa e merecida noite de sono. Porém, antes que ela fechasse os olhos, seu celular começou a vibrar na mesa de cabeceira.
estendeu seu braço e atendeu a ligação, sem saber quem era do outro lado da linha.
— Alô — a voz da menina soou mais rude do que ela gostaria.
? — uma voz masculina respondeu.
— Sou eu. Quem é que está falando? — a menina acendeu a luminária e se sentou na cama.
— É o Ty, lembra de mim?
— Claro. Aconteceu alguma coisa?
está dando uma festa para os membros da Companhia e pediu para que eu te chamasse.
De repente, perdeu completamente o sono.
— Onde será a festa? — a menina rapidamente correu para o armário, à procura de uma roupa.
— No apartamento de Fletcher. Te vejo lá!
O garoto desligou o telefone e saiu correndo de volta para o banheiro, pronta para se arrumar.
Eram onze da noite e a temperatura já estava baixa, mas a menina decidiu usar uma regata que pudesse mostrar sua nova tatuagem.
Assim que ela estava pronta, foi até o quarto do irmão.
— Kade, estou indo para a casa dos Fletcher. está dando uma festa para os membros da Companhia.
O homem estava lendo e ao ouvir o anúncio da irmã, fechou o livro e tirou os óculos.
— Não esqueça de trazer uma garrafa de vinho para mim. O irmão de está me devendo uma bebida desde nosso último ano do ensino médio.
riu, balançando a cabeça em negação, e se virou para ir embora.
— Tome cuidado, . Qualquer problema pode me ligar — Kade sorriu para a irmã. — Se divirta!
A menina acenou para o irmão e saiu de casa, pegando seu carro.
O apartamento de ficava a alguns quarteirões dali. Quando ela chegou no prédio de três andares, viu que havia um painel com os nomes dos moradores e interfonou no apartamento dos Fletchers.
— White! Pode subir! — a voz de soou pelo interfone, levemente embriagada.
No momento seguinte a porta principal se abriu e entrou no andar térreo do prédio. A menina subiu as escadas até o último andar e se deparou com o loft dos Fletchers, lotado de pessoas que ela não reconhecia.
White caminhou pelo lugar, à procura de Ty, mas quando ela estava indo em direção à cozinha seu corpo se chocou contra o de um garoto alto e forte.
— Me desculpe — imediatamente olhou para cima e se surpreendeu ao ver .
— Você tem uma tendência a ser desastrada, não tem? — ele riu.
— Só quando estou distraída — a menina sorriu. — Quem são essas pessoas? Imaginei que a festa seria apenas com os membros da Companhia.
— Inicialmente, era uma festa mais íntima, mas seu amigo pediu que eu chamasse os alunos de teatro de outros colégios.
— E você obedeceu o Ty? — cruzou os braços. — Pensei que vocês ignoravam novatos como eu e ele.
Fletcher deu de ombros, sem tirar o sorriso leve do rosto.
— Depois da nossa conversa, decidi mudar meus hábitos como diretor. Deixarei que você se expresse da maneira que quiser.
— Então, eu posso dizer que apesar de muito feliz com meu papel eu estou morrendo de medo de sua namorada.
— Sorte sua que ela não está aqui.
O garoto virou um longo gole de sua cerveja e então voltou a falar.
— Quando Cassidy soube que eu chamei os alunos do colégio de Lake Vista ela desistiu de vir. Quem diria que ela acataria as medidas restritivas…
De repente percebeu que falou mais do que deveria. fingiu não notar o peso da frase do garoto, mas ela não pode deixar de se surpreender com as duas palavras finais de Fletcher. Mais do que nunca, sua curiosidade estava aguçada e ela precisava encontrar Ty, para que ele explicasse o que Cassidy havia feito.
— Espero que aproveite a festa. Foi bom falar com você.
, espere. — o coração dela acelerou e o garoto aguardou, com certo receio. — Kade pediu para eu levar uma garrafa de bebida para ele. Disse que seu irmão estava lhe devendo uma.
Fletcher suspirou aliviado, percebendo que White não perguntaria sobre Cassidy. Então, o garoto foi até o armário ao lado da cozinha e voltou com uma garrafa de whisky.
— Se você ficar até o final da festa, pode levar essa garrafa para seu irmão.
— Feito — sorriu, se virando para procurar Ty novamente.
— Me encontre mais tarde — falou próximo do ouvido da menina, fazendo o ar quente arrepiar sua pele. — Aliás, gostei da tatuagem.
White virou seu rosto para poder enxergar o de Fletcher, mas ele já havia se afastado para conversar com outro convidado.
O coração de podia sair por sua boca. Ela nunca havia flertado com tão descaradamente, mas havia algo no ar que fizera os dois se comportarem dessa forma. Talvez o fato de Cassidy não estar por perto ou por Fletcher estar com álcool em seu organismo.
No centro da sala principal, enxergou Ty dançando alegremente. A garota foi em direção à ele, com o coração ainda palpitando. Assim que Ty viu a menina, ele a abraçou.
— Que bom que você veio! Essa festa está incrível e ninguém pegou no meu pé até agora. Temos que embriagar os membros da Companhia mais vezes, .
— Isso que você não sabe o que acabou de acontecer entre mim e Fletcher — a menina sussurrou no ouvido do amigo. — Ele acabou dizendo mais do que deveria e contou que Cassidy tem alguma forma de medida restritiva…
Ty parou de dançar e puxou para um canto mais afastado. A menina arregalou os olhos, confusa.
falou mais alguma coisa? — o garoto perguntou.
balançou a cabeça negativamente.
— Então vou te contar o que eu sei. No ano passado, alguns alunos do colégio de Lake Vista vieram assistir a peça anual da nossa cidade e de alguma maneira Cassidy entrou em uma briga com uma garota desse grupo. Aparentemente, ela era a estrela da Companhia de Lake Vista e após a briga ela ficou incapacitada de atuar…
— Espera um momento, quando você diz incapacitada, você quer dizer que Cassidy agrediu essa garota? — White arregalou os olhos, horrorizada.
— Foi exatamente isso que aconteceu. Chang não é só um rosto bonito, ela também sabe dar socos. Provavelmente nossa diretora recebeu a queixa do colégio de Lake Vista e precisou tomar certas medidas. Se não fosse por Tessa Lockwood, não afastaria a própria namorada da Companhia.
se sentiu tonta e precisou respirar fundo para se acalmar. Essa notícia só provava o que já sabia: Cassidy faria de sua vida um inferno.
— Você acha que ela faria isso comigo? — White engoliu em seco e encarou Ty. — Quero dizer, eu estou ocupando o seu lugar na Companhia. Isso deve ser uma declaração de guerra para Cassidy.
O garoto tinha o olhar fixo em algo atrás de .
, a guerra será declarada quando Cassidy perceber que está pensando, mais do que deveria, em você.
A menina seguiu o ponto para onde Ty estivera olhando momentos antes e lá estava Fletcher, rodeado de alguns amigos que conversavam com ele, mas com a atenção voltada para ela.
— Esse é um jogo perigoso, — o garoto riu, divertido.
— Confie em mim, não vai acontecer nada entre nós — White suspirou, quebrando o seu olhar com o de Fletcher. — Pelo menos não enquanto ele tiver uma namorada.
Ty estreitou os olhos, desconfiado, e os dois voltaram para o centro da sala.
Mais tarde, quando a festa já estava em seus momentos finais, saiu a procura de . Não havia muitas pessoas no loft e as que restaram eram alunos de Greyson High.
Segurando um enorme saco preto, estava na pequena varanda, recolhendo copos plásticos vazios. deu duas batidas na porta de vidro, anunciando sua presença, e recebeu um sorriso mínimo em resposta.
— Como prometido, fiquei até o final da festa — a menina falou.
Uma brisa gelada atravessou o corpo de e automaticamente ela cruzou os braços, tentando se aquecer.
— Espero que tenha aproveitado — Fletcher largou o saco de lixo no chão e retirou sua jaqueta. — Tome, pode usar para se aquecer.
— Tem certeza? — sua voz falhou. — Eu já estou voltando para casa...
— Por favor — se aproximou e colocou a jaqueta sobre os ombros da garota. — É o mínimo que posso fazer.
— Obrigada — o rosto de White começou a esquentar. — Então, onde está o whisky?
Fletcher riu e guiou a garota até o armário ao lado da cozinha. Ele abriu a dispensa e se esticou para pegar a garrafa.
— Sabe, estive pensando sobre o último treino que tivemos e sobre como eu te tratei. Eu queria me desculpar por isso. Sei que não é um motivo que justifique meu comportamento, mas eu tenho que me certificar de que você estará pronta a tempo para a peça.
— Eu entendo — pegou a garrafa e sem querer sua mão tocou na de . — Eu prometo que vou me esforçar.
De repente, a menina teve uma ideia.
— Que tal tentarmos algo diferente?
— O que você tem em mente? — ele perguntou.
— Podemos treinar em horários extra, nos finais de semana. Eu realmente preciso de ajuda em algumas transições da dança.
O garoto mordeu o lábio, pensativo.
— Não é uma má ideia. Começamos no próximo final de semana, então.
— Combinado! — sorriu, se preparando para ir embora. — Bem, vou indo. Obrigada pela bebida, Kade irá amar.
— Até logo, White.
A garota sorriu e se virou, saindo do apartamento extasiada. Talvez Ty estivesse certo, a relação entre ela e estava se aprofundando e ao mesmo tempo beirando o perigoso. Se um deles desse um passo errado, Cassidy revidaria com força.


Capítulo 14

Na segunda-feira à tarde, foi a primeira a chegar na sala do comitê estudantil. Ela estava mais do que ansiosa para aquele debate — Lockwood estava pronta para vencer.
Melanie Perales era a presidente do grupo desde o ensino fundamental e apesar dos outros alunos aprovarem sua gestão, sabia que poderia ser ainda melhor que a outra.
— Já está por aqui, ? — o professor de Ciências Políticas chegou, carregando uma caixa de madeira e vários pedaços de papel.
— Sempre prezo pela pontualidade, senhor Barnes.
O homem sorriu e se acomodou na cadeira, onde os outros alunos também ficariam durante o debate. se posicionou atrás da mesa no centro da sala e aguardou. Não demorou muito tempo para Melanie surgir, rindo e sendo acompanhada por outros membros do comitê.
— Senhor Barnes, como vai? , como é bom te ver aqui! — a voz da garota soou cínica, mas o professor não pareceu perceber.
— Melanie, podemos começar quando quiser — Barnes sorriu, distribuindo uma folha de papel para cada aluno que passava por ele. — Como todos sabem, hoje iniciamos a troca de gestão da presidência do comitê estudantil. O debate será uma forma de vocês, membros do comitê, decidirem qual das duas candidatas deve receber o cargo. Serão duas rodadas, a primeira de conhecimentos gerais e a segunda de planos para sua gestão. Aquela que acertar mais questões de conhecimentos gerais terá uma vantagem na disputa. Os membros devem escrever o nome da candidata de sua escolha, colocar nessa caixa e em seguida eu contarei os votos. Dúvidas?
As duas garotas negaram com a cabeça. olhou para o lado e Melanie a encarou friamente.
— Meninas, aquela que erguer a mão primeiro terá a oportunidade de responder a pergunta — o professor pegou seu celular e começou a ler as questões escritas em suas anotações.
respirou fundo e se ajeitou na ponta da cadeira, preparada.
— Na Guerra de Independência, os colonos receberam apoio militar francês. Qual motivo fez a França decidir se aliar aos colonos?
Lockwood nem precisou ouvir o final da pergunta, ela já tinha a resposta na ponta da língua e por isso sua mão ergueu no ar.
, a palavra é sua.
— Os franceses desejavam revanche, após perderem a Guerra dos Sete Anos contra a Inglaterra.
— Correto.
A menina sentiu a adrenalina percorrer por todo seu corpo. Ela nem conseguia acreditar que a primeira pergunta foi a mesma que ela e revisaram no fim de semana anterior. Se o debate continuasse dessa forma, ela com certeza venceria.

Se havia algo pelo qual ansiava era o treino das Sirenas ao final do dia. Surpreendentemente, ela se adaptou bem ao time, ainda mais por Melanie não estar tão presente como costumava. Nos últimos tempos, Perales não aparentava o seu melhor e muitas vezes nem comparecia aos treinos. Diversos rumores já se espalharam pelo colégio e Firestone estava cansada de ouvi-los.
— Dizem que Melanie foi vista na farmácia olhando a sessão de testes de gravidez.
— Que nada! Melanie foi vista em Lake Vista, com um outro garoto. Imagino que ela e não estão mais juntos.
fechou a porta de seu armário com força, fazendo as meninas se calarem. Esses eram os rumores mais absurdos que Firestone havia escutado até agora.
— Será que não é melhor vocês pararem de fofocar e começarem a se alongar? — a garota cruzou os braços e olhou para todas Sirenas no vestiário. — Sei que nem todas aqui gostam de Perales, então por que falam dela como se fosse a coisa mais importante de seus dias? Suas vidas não são conturbadas o suficiente? Vocês precisam se meter na dos outros?
Todas as garotas olhavam sem reação para . A menina revirou os olhos e saiu do vestiário, em direção ao campo. Ela nunca se imaginou defendendo sua inimiga, mas ouvir todas aquelas mentiras sendo contadas — pelas colegas de Melanie — a irritou profundamente.
No campo, quando começou a treinar algumas acrobacias, as duas garotas que estavam fofocando caminharam em sua direção.
— Ei, Firestone — a morena chamou. — Você tem razão. Não fizemos por mal, é que estamos preocupadas com o time.
— Nossa capitã está sumida e estamos perdidas — a ruiva completou.
— Vocês duas estão perdidas ou todo o time? — pousou as mãos na cintura.
— O time inteiro está desamparado, não temos uma rotina pronta e o próximo jogo é nesta semana. Precisamos de uma nova capitã, pelo menos até Melanie voltar, e concordamos que você é ideal para esse cargo.
— Você não tem medo de dizer o que pensa e sabe dar saltos fantásticos — a outra finalizou.
Firestone mordeu o lábio, pensativa. Inicialmente, ela havia entrado no time apenas para irritar Perales, mas acabou se apegando às pequenas coisas que envolviam ser uma Sirena. Porém, estava passando pouco tempo com suas amigas e mal se dedicou aos estudos da magia e feitiços nos últimos dias. Será que isso fazia dela uma péssima guardiã?
— Eu não sei — ela respondeu. — Não sei se tenho tempo para isso.
— É temporário, ! Quando Melanie souber que você assumiu o cargo de capitã, ela voltará correndo.
Firestone ergueu o olhar para o campo vizinho, onde os Vikings jogavam. Seus olhos foram diretamente para Connor, mas não ficaram nele por muito tempo, pois ao seu lado estava .
— Me deem um segundo.
correu em direção ao campo vizinho e pulou a pequena cerca que separava os dois espaços. Ao fazer isso, ela atraiu todos os olhares, incluindo o de .
— Perdeu alguma coisa? — ele perguntou, sarcástico.
— Quero falar com você, prometo ser breve — ela ignorou o tom de .
O garoto fez um último lançamento e então direcionou para o bebedouro.
— Pode falar — se curvou para tomar água.
— Como Melanie está?
Aster limpou a boca com o dorso da mão e se virou para Firestone, levemente confuso. Se ele bem lembrava, Melanie e não eram amigas, então não fazia sentido ela se interessar pela outra.
— Não vi Mel esses dias. Na última vez que nos encontramos, ela estava estressada com o debate contra sua amiga — de repente, o garoto entendeu o interesse por trás da pergunta. — Se tudo isso for sobre o que estão dizendo por aí, não, nós não terminamos.
respondeu rispidamente. Ele fez menção de voltar para o campo e acabar com a conversa, mas segurou sua mão, forçando-o a ficar.
— Então por que você está tão tenso?
— Você está consumindo meu tempo, Firestone.
— Vamos, Aster, o que te preocupa se o problema não é Melanie?
O garoto olhou de relance a mão dela, ainda segurando a sua, e em seguida ele sorriu intrigado.
— Você está interessada em mim, por isso perguntou se ainda estou namorando? Não está satisfeita com Connor?
— Claro que não — ela soltou sua mão da dele. — Quer dizer, St. Germain é ótimo.
arqueou a sobrancelha e deu de ombros.
— Ótimo? — ele riu.
— Só estava curiosa… — ignorou o comentário de . — Não que eu me importe.
— Sei — Aster sorriu. — Bem, no jogo de sexta-feira teremos alguns olheiros e é isso que está me deixando ansioso.
respirou fundo e a garota assentiu, compreensiva. Apesar de entender a pressão que Aster deveria estar sentindo, ela nem tentou consolá-lo. Havia uma forma mais interessante de distraí-lo.
— Na verdade, eu ligo para o que estão dizendo sobre vocês.
ergueu o rosto para , com ar de vitorioso. Firestone riu, pensando no quanto Aster era presunçoso, e continuou:
— Se você for terminar com Melanie, preciso que espere alguns dias.
Todo o ar presunçoso do garoto desapareceu assim que ele ouviu aquelas palavras.
— Como?
— As Sirenas querem que eu substitua sua namorada e assuma o papel de capitã, temporariamente.
— E…?
— Se eu aceitar, estou praticamente declarando guerra contra sua namorada. já a jogou de escanteio no comitê estudantil e eu estou prestes a tomar o cargo de capitã. Se você terminar com ela agora, Melanie perderá absolutamente tudo, assim como sua sanidade.
riu desacreditado e estreitou os olhos.
— Não estou brincando, Aster! Você mesmo deve saber como sua namorada é maluca. Tenho muitos problemas e não quero que Melanie seja o pior deles.
— Para ser completamente honesto, Melanie não está com a cabeça no lugar faz um tempo. Acho que se ela sair de alguns cargos isso pode ajudá-la.
— O que você quer dizer com "não está com a cabeça no lugar"? — a menina limpou a garganta, ponderando se deveria se preocupar.
— Ela está obcecada em destruir você e suas amigas. Nem parece a garota que conheci há alguns anos.
Ela arregalou os olhos e ele falou:
— Desculpe, não queria espantá-la.
— Eu, espantada? — Firestone sorriu nervosa. — Você quem deveria estar, namorando uma garota lunática como ela.
— Talvez eu termine com ela hoje mesmo — ele provocou, dando mais alguns passos em direção à Firestone. — É isso que você quer no fundo, não é?
— Não seja bobo, Aster.
percebeu que o clima entre os dois havia mudado, então ela decidiu encerrar o assunto.
— Bem, obrigada pela conversa. E não se atreva a terminar com ela antes de eu aceitar o cargo, está entendido?
— Sim, senhora — fez continência, arrancando um sorriso da garota.
— Nos vemos no dia do jogo?
— Não perderia sua apresentação por nada.
Firestone sentiu seu rosto esquentar, mas se virou para ir embora antes que ele notasse. Aster assistiu-a se afastar e balançou a cabeça, não acreditando que ele estava se interessando por uma garota como ela.


Aquele era a terceira vez que Melanie perdia seus compromissos para visitar Davina.
Desde sua briga com Aster, Perales havia decidido aceitar a ajuda da mulher misteriosa. Na verdade, Melanie se sentia atraída a ir até a casa de Davina, como se aquela lua cravada em sua pele a houvesse enfeitiçado.
— Preciso que você faça as quatro brigarem — a mulher disse tranquilamente, apesar de seu rosto demonstrar malícia. — Lição número um, minha pequena aprendiz. Dividir para conquistar.
Melanie se ajeitou na cadeira de veludo, quebrando o olhar fixo da mulher sobre ela. A garota já havia se acostumado com o fato de que estava na casa de uma bruxa, que sua cidade estava repleta de seres sobrenaturais e que Firestone, Marin, Lockwood e White tinham poderes, mas o frio na barriga era inevitável a cada vez que escutava a voz de Davina, sempre escondendo algo por trás de suas palavras.
— Algo de errado, Melanie?
— Não. Posso fazer isso, sem problemas.
— Estou contando com isso.
A mulher caminhou em direção ao armário da sala e tirou uma adaga pontiaguda, algumas ervas e um recipiente redondo.
— Sabe, estou começando a gostar de você — ela cantarolou enquanto repousava os objetos sobre a mesa. — Por isso deixarei você me fazer três perguntas.
Melanie arregalou os olhos, surpresa. Desde que elas se conheceram, a mulher nunca lhe revelara nada além dos segredos das famílias fundadoras.
— Quero entender seu papel em tudo isso — a garota cruzou os braços. — Qual seu motivo para querer o mal das quatro?
— Uma pergunta perspicaz — Davina se sentou novamente e começou a espalhar as ervas dentro do recipiente. — Digamos que as famílias fundadoras têm contas a prestar e estou aqui para garantir que elas terão o que merecem.
— O que você quer dizer com isso?
— Minha querida, a vingança nunca envelhece, sabia? Não importa quanto tempo passe, quem vive ou morre, se o desejo não se concretiza, ele nunca se vai.
Melanie engoliu em seco. Ela guardava rancor das quatro desde a infância, mas o que Davina sentia parecia muito maior do que isso. Seu desejo de vingança soava mais complexo, como se tivesse sido planejado por anos a fio.
— Quem você é de verdade?
A mulher ficou em silêncio e jogou um último ramo de acônito no recipiente. Em seguida, em um leve movimento dos dedos, fez fogo surgir, queimando lentamente as ervas.
— Meu nome é Cecily Bones, vivi nessa terra há muitos anos e fui expulsa dela injustamente.
Davina encarou Melanie com os olhos completamente pretos. A menina se afastou, assustada, e a mulher sussurrou algo que fez todas as portas e janelas se trancarem. Não havia escapatória.
— Eu me sacrifiquei para proteger as nossas linhagens e o que recebi em troca das outras matriarcas? Uma maldição!
Davina pegou a adaga e foi em direção a Melanie. A garota começou a bater na porta, gritando por ajuda, mas a bruxa lançou um feitiço que a imobilizou.
— Meu pobre descendente, , está sofrendo por conta dessa maldição. É uma pena que só posso ajudá-lo quando for invocada — a mulher pegou o braço da garota e levantou a manga de sua blusa, deixando a pele do antebraço exposta. — Inicialmente, imaginei que ele desejasse minha ajuda, já que, ao abrir o epicentro, permitiu que meu espírito reunisse forças suficientes para que eu entrasse no corpo de uma bruxa vulnerável. Mas ele está demorando demais para recorrer a mim, por isso decidi executar o que sempre desejei. E é aqui que você entra, Melanie.
A mulher pressionou a ponta da adaga contra a pele de Perales, criando uma pequena trilha de sangue. Apesar de estar paralisada, lágrimas de dor escorreram pelo rosto da menina. Em seguida, Davina a puxou de volta para a mesa e apagou o fogo do recipiente. Com os dedos, a mulher pegou uma fração das cinzas e a colocou sobre o corte de Melanie.
— Não tenha medo. Isso te dará alguns poderes especiais mais tarde — Davina sorriu, sombriamente. — Lição número dois. Sempre esteja à frente de seu inimigo.
A garota sentiu sua pele queimar, mas logo a sensação deixou de ser desagradável. Assim que ela olhou para seu corte, notou que as cinzas das ervas haviam sido completamente absorvidas. Com isso, Melanie voltou a sentir atração pela bruxa, como se ela precisasse servi-la. Davina sussurrou outro feitiço e Melanie voltou a sentir seu corpo.
— E o que vou fazer com esses poderes? — a menina secou as lágrimas, sentindo-se menos assustada.
— Vamos matar , , e .

Na quarta-feira à noite, Helena Grace, e estavam no porão da casa dos Marin, preparando-se para executar o feitiço que poderia quebrar a maldição dos Bones.
A contragosto da mais velha, os dois bruxos iriam unir seus poderes por alguns instantes para tentar remover a maldição. se preparou ao longo dos dias para esse momento, mas ver velas dispostas em um círculo e sentado, aguardando-a, no centro dele era uma cena muito mais assustadora do que ela imaginava que seria.
— Você realmente quer fazer isso? — a mulher sussurrou no ouvido de Marin.
— Sim — a menina respirou fundo e se sentou no centro do círculo, na frente de .
Helena Grace encarou Brooks e o garoto sustentou o olhar.
— Se você estiver aprontando algo, Brooks, é bom desistir agora, ou eu te mato sem pensar duas vezes. Está entendido?
— Se não acredita em mim, pelo menos confie em . Prometo que não vou machucá-la, Grace — o garoto respondeu sincero.
A mulher tremeu ao ouvi-lo chamar por seu apelido. respirou fundo e estendeu suas mãos para segurá-las.
— Você só precisa concentrar seus poderes em suas mãos. Eu faço o resto, tudo bem?
— Claro — a menina engoliu em seco. — .
O garoto ergueu o olhar para Marin. Os dois se encararam por alguns segundos e ambos entenderam o que um gostaria de dizer para o outro.
Em seguida, sorriu e continuou a falar:
— Vamos acabar logo com essa maldição.
assentiu e no momento seguinte as chamas das velas aumentaram em tamanho. O garoto começou a recitar as primeiras palavras do feitiço e sentiu as palmas formigarem.
, se você sentir algo anormal, me avise — Helena Grace caminhava ao redor do círculo, preocupada.
— Está tudo bem, Grace — a menina observava Brooks. — Acho que está funcionando…
continuava repetindo as mesmas palavras em latim. O garoto estava tão concentrado que a magia que disfarçava suas cicatrizes começou a desaparecer. De repente, e Helena Grace puderam ver todas as marcas sobre a pele do garoto.
A mais velha arregalou os olhos, perplexa. Ela sabia das marcas que o uso de magia obscura poderia deixar em um bruxo, e aquelas em definitivamente eram outras, aparentavam ser mil vezes mais dolorosas. Agora ela entendia o motivo de sua prima mais nova querer salvá-lo.
, eu preciso que você se concentre — Brooks falou, a voz levemente enfraquecida. — Chegamos na parte difícil. Eu consegui concentrar toda minha magia em suas mãos, e agora preciso que você tome controle do encantamento.
A menina assentiu, sentindo todo seu corpo formigar, como se uma corrente elétrica estivesse circulando por cada célula em seu corpo. começou a ler a segunda parte do feitiço e, como se a magia estivesse a ouvindo, ela sentiu seus poderes se intensificarem.
Subitamente, desmaiou, caindo pesadamente sobre o colo de . A menina sabia que aquilo fazia parte do encantamento, por isso não se assustou, nem quebrou o ritual. Marin deitou o corpo do garoto e então ela se ajoelhou, estendendo um braço sobre o coração e outro sobre a cabeça de .
Fractis nigris maledictionem. Posuit magicae purissimum.
Marin sentiu um baque ao terminar de recitar o feitiço e de repente um halo brilhante saiu de suas mãos, em direção ao garoto. O brilho era tão intenso que Helena Grace precisou esconder seus olhos por alguns segundos. sentiu êxtase ao lançar o feitiço e todo seu corpo estava leve.
No momento seguinte, a menina notou que seus sentidos estavam aguçados, e ela pode sentir os batimentos cardíacos do garoto, pulsando em ondas invisíveis, diretamente na palma de sua mão esquerda.
— Acho que funcionou! — a menina sorriu aliviada.
Já Helena Grace estava cética.
— Precisamos esperar ele acordar para decidir isso, prima.
A menina respirou fundo, cansada, quando de repente os batimentos de começaram a reduzir. Ele continuava de olhos fechados, imóvel, e sua pele começava a esfriar.
? — colocou as mãos sobre as bochechas azuladas do garoto. — Grace, eu acho que ele está morrendo!
A mais velha estava paralisada. Helena Grace não sabia se deveria fazer algo ou deixar que a natureza cuidasse do problema. Para ela, sua prima e Brooks não deveriam ter executado o feitiço em primeiro lugar. Talvez, deixar o garoto morrer seria a melhor opção.
— Desculpe, .
— Não! Grace! — a mais nova olhou para a prima, nervosa. — Deve haver algum jeito...
A cada segundo, os batimentos de Brooks ficavam mais fracos. levantou-se rapidamente, à procura do livro de necromancia que havia retirado da casa abandonada há alguns dias. Ela não sabia ao certo o que fazer — no momento, estava agindo por impulso.
Quando a mais velha viu o livro que sua prima havia pegado, ela entendeu o que planejava.
— Onde você encontrou isso? Por favor, não me diga que vai tentar trazê-lo de volta à vida! Isso é errado, .
No mesmo instante em que sua prima agarrou seu punho, deixou de sentir os batimentos de . A garota olhou desesperada para o corpo morto de Brooks e no segundo seguinte sentiu uma onda de raiva percorrer seu corpo.
— Me solte, Grace! é minha família também.
Uma forte coluna de ar empurrou a mulher para longe de e fez com que ela batesse a cabeça contra a parede, desmaiando imediatamente. A menina arregalou os olhos, assustada. Aquele não era seu poder, mas ela tinha certeza de que havia saído dela.
Não havia tempo para Marin compreender o que havia feito. Ela correu para o círculo e abriu o livro, exatamente no feitiço de ressurreição.
sabia que a necromancia é um ramo perigoso da magia, já que viola as leis da natureza, mas aquela era sua única solução. A menina segurou o rosto de e começou a recitar o encanto, evitando pensar demais sobre as consequências de seu ato.
Como se estivessem sob seu comando, as chamas das velas aumentaram e brilharam em tons esverdeados. Pela fresta da porta, uma forte corrente de ar invadiu o espaço e, logo, o chão começou a tremer.
Finalmente ela havia compreendido. estava controlando os quatro elementos porque ela estava com parte da magia de , e isso só podia significar que tinha também uma fração de magia negra dentro de si.
Marin continuou recitando o feitiço com maior intensidade. Apesar de sutil, ela percebeu a mudança se instalando dentro de si. Notou o súbito arrepio na espinha, o prazer em controlar os outros elementos e a vontade de ter ainda mais poder.
Porém, apesar de todos seus esforços, ainda não se movia.
— Ancestrais, me desculpem pelo que vou fazer, mas vocês precisam entender... Eu o amo. Se algum de vocês puder me ajudar, qualquer um!
, em ato de desespero, concentrou todo seu poder na pequena fração de magia obscura que tinha dentro de si e, apesar de inicialmente lutar contra isso, acabou convertendo todo seu poder para a magia negra.
A menina sentiu seu coração endurecer e sua pele queimar em chamas, mas não havia tempo para ela se preocupar com isso. concentrou seu poder em suas mãos e recitou o encantamento pela última vez. Em resposta, um brilho azul escuro saiu das mãos de Marin e atingiu o corpo do garoto. No segundo seguinte, sentiu seu corpo desmoronar, exausto. A última coisa que ela viu foi um vulto, um fantasma de uma mulher vestida com roupas antigas e com um sorriso diabólico.

Na noite de quinta-feira, acordou atordoada em seu quarto. Ao seu lado, Helena Grace assistia a televisão em silêncio, quando percebeu que sua prima havia acordado.
— Não se mova tão rápido — a mulher ajudou a garota a se sentar na cama. — Você realmente me assustou, . Pensei que nunca acordaria!
A menina piscou algumas vezes antes de seus olhos se focalizarem na televisão, que passava o noticiário.
— Eu fiquei inconsciente por muito tempo?
— Sim — Helena Grace estava cautelosa. — Você ficou em um estado pior do que . Pior do que eu, também.
De repente, a menina recordou da noite anterior em que executou o encantamento. Inclusive do momento em que ela havia machucado sua prima.
— Sinto muito, Grace.
— Águas passadas, prima. Mas eu preciso saber exatamente o que você fez depois que eu desmaiei.
— Espere, onde está ? A maldição foi quebrada?
— Brooks foi o primeiro a acordar. Ele nos trouxe para o seu quarto e foi embora. Não faço ideia de onde nem como ele está.
A mulher estava arrependida de ter deixado o garoto usar .
— Eu sabia que ele não manteria sua palavra — a mais velha continuou.
— Mas… Eu converti meus poderes por ele.
— Você fez o quê?

Finalmente, a tarde de sexta-feira havia chegado e com ela o grande jogo dos Vikings. O evento atraiu a cidade inteira e todos se reuniram nas arquibancadas do campo de futebol americano, prontos para assistir à partida de estreia.
Aguardando nos melhores lugares, e estavam ali para torcer pelo time de seu colégio — e para verem e jogando — já acompanhava as amigas apenas para não perder o grande evento do mês.
Lockwood estava começando a ficar entediada, quando ela avistou , procurando por um lugar para sentar.
— Brisbane! Pode se sentar conosco.
Marin e White se viraram para a amiga, como se ela estivesse fora de si. A menina apenas deu de ombros e acenou para o garoto. riu e veio na direção das três.
— Aparentemente, somos amigos agora.
— Como assim? Desde quando? — sussurrou, olhando por cima do ombro para se certificar de que ele ainda não havia chegado.
— Desde o fim de semana passado, quando fizemos o trabalho de Biologia.
riu, incrédula, e deixou um espaço entre ela e , para que o garoto se sentasse ali.
— Ei, tudo certo? — falou, olhando para as meninas. — Obrigado por me dar um lugar, não imaginava que estaria tão cheio assim!
— Sem problemas — White respondeu. — Essa deve ser a primeira vez em que você não está ali, na quadra jogando, certo?
— Exato. Não estou acostumado — sorriu, olhando para . — Essa deve ser sua primeira vez por aqui também. Nunca te vi em um jogo dos Vikings antes.
— Prefiro apoiar esportes menores. Vocês já têm suporte e amor suficiente — a menina deu um leve empurrão com seu ombro no de , provocando-o. — Além do mais, só estamos aqui para apoiar , certo?
se curvou e viu suas amigas concordarem desatentas, pois no momento seguinte os jogadores do colégio rival começaram a surgir no campo.
— Não tenho tanta certeza disso — riu e se virou para a menina em seu lado esquerdo. — Soube que vai jogar essa partida.
— Só acredito vendo — respondeu distraída.
Brisbane concordou e voltou a falar com Lockwood.
-Aliás, parabéns pela presidência no comitê estudantil! Como está se sentindo?
— Satisfeita — ela respondeu com os olhos brilhando. — Mal posso esperar para começar. A última decisão de Melanie será em relação à festa de Halloween, depois disso o cargo será oficialmente meu.
— Falando sobre a festa, você já tem um par? — perguntou sem hesitar, o que fez o coração de acelerar.
— Não imaginava que precisaria de um par para isso.
O garoto ergueu a sobrancelha, surpreso, e voltou a prestar atenção no campo. não sabia ao certo no que pensar, então também voltou a observar o time de futebol visitante.
— Mas, acho que podemos nos encontrar na festa — Lockwood deu de ombros, fingindo desinteresse.
sorriu discretamente.

No vestiário, cumpria todos os passos de seu ritual, na tentativa de trazer sorte para si e seus colegas de time. Após dar o terceiro nó no cadarço de seu tênis, ele se levantou, pronto para o discurso que sempre dava antes de uma partida importante.
— Vikings, essa noite é nossa. Estamos jogando em casa, treinamos mais que qualquer um e merecemos a vitória! Temos um de nossos antigos jogadores de volta e a torcida está aqui para nos apoiar. Não há nada que possa tirar essa conquista de nós. No três, Vikings.
Um, dois, três, família! — gritaram todos em uníssono.
< Os jogadores começaram a sair do vestiário, animados, em direção ao campo e e foram os últimos ali.
— Cara, você não está com uma aparência boa — Aster colocou a mão no ombro de Brooks. — Aconteceu alguma coisa?
engoliu em seco e ergueu o rosto, deixando suas olheiras visíveis para o amigo. Apesar do que havia acontecido na quarta-feira, o garoto já se sentia melhor. Ele não tinha certeza se o feitiço havia quebrado a maldição, mas, no momento, ele só se importava com o jogo.
— Muita coisa aconteceu, — ele respirou fundo e colocou o capacete. — Mas vou jogar. Preciso me distrair.
— Brooks, se você passar mal em campo saia imediatamente. Está me ouvindo? St. Germain pode substituí-lo.
— Tudo bem, capitão! — riu e deu um tapinha nas costas do amigo. — Vou receber alguns lançamentos seus e então sairei de campo. Só o necessário para os olheiros, pode ser?
— Combinado.
abraçou o amigo de lado, feliz por eles estarem se entendendo novamente, e então caminharam juntos em direção ao estádio.
No lado de fora, ergueu a mão, protegendo seus olhos das luzes fortes, e o incentivou a continuar.
— Hoje nós somos os astros, Brooks. Bem-vindo de volta.
Brooks sentiu uma onda de calor agradável, como ele não sentia há anos, e então ele entendeu o motivo daquela sensação: ele estava voltando para sua antiga vida e aquilo era algo pelo qual valia a pena lutar.

Antes da partida iniciar, e as Sirenas começaram sua rotina de dança. Firestone estava liderando o time, pois, como era de se esperar, Melanie estava ausente.
estava terminando sua dança quando viu um garoto loiro, vestindo uniforme dos Vikings, vindo em sua direção.
— Connor! — ela correu na direção do garoto e se jogou em seus braços.
— Vim pedir um beijo de boa sorte antes da partida começar — ele sorriu, girando a garota no ar.
— Você não precisa disso — ela riu, mas deu um beijo demorado na bochecha de Connor. — Se vencer a partida, pode vir me cobrar um beijo melhor que esse.
O garoto sorriu, colocando no chão.
— Cruze os dedos para Aster convencer o treinador para me colocar no jogo.
te pôs no banco? — a menina cruzou os braços. — Ele pode fazer isso?
— Por Brooks, ele faz qualquer coisa — Connor deu de ombros. — Nem parece que se lembra do quanto eu me sacrifiquei por ele e pelo time…
De repente, os olhos de St. Germain perderam o brilho e franziu o cenho, sem compreender.
— De qualquer forma, você está liderando bem as Sirenas. Espero que Melanie não se incomode muito com isso.
— Ah, ela vai — sorriu, maliciosa.
O garoto não reagiu da forma como Firestone imaginava e, antes que ela pudesse perguntar o motivo, ele voltou a falar:
— Se Perales aparecer e dizer besteiras, não acredite.
— E o que ela falaria, Connor?
— Não, sei… Mas do jeito que as coisas estão indo para Melanie, logo ela irá estourar.
Do outro lado da quadra, o treinador chamou por St. Germain e ele correu em direção ao time, sem dizer mais nada para Firestone.

Ao final da primeira metade do jogo, os Vikings estavam vencendo com uma vantagem de quinze pontos. Para a surpresa de todos, esteve jogando perfeitamente o jogo inteiro. fez lançamentos impecáveis e os olheiros estavam satisfeitos com o garoto. e trocavam olhares secretos quando o garoto saía de campo para descansar. continuava ansiosa, acompanhando Brooks a cada segundo, como se ele fosse desmaiar a qualquer momento. E e conversavam, mal prestando atenção no jogo.
já estava pronta para liderar as Sirenas para a segunda metade do jogo quando, a passos largos e confiantes, Melanie irrompeu no campo, vestindo o uniforme das líderes de torcida do colégio e com os olhos queimando em ira.
— O que você pensa que está fazendo, Firestone?
— Estou cobrindo sua ausência, Perales. O que mais você esperava?
— E quem te deu o direito? Eu sou a capitã das Sirenas! Eu construí esse time.
O estádio inteiro ficou em silêncio, todos os olhos sobre elas.
Firestone mordeu o lábio, tentando segurar sua raiva. Sua pele estava começando a esquentar, e ela sabia o que isso significava.
fez um ótimo trabalho, Mel — uma das líderes de torcida falou, tentando amenizar a situação.
— Vocês estão defendendo essa garota? — Melanie rugiu.
— E por que você se importa com isso? Não é como se você estivesse dando atenção para as Sirenas nas últimas semanas — respondeu. — Você mal se deu o trabalho de aparecer no jogo de estreia! Isso não parece algo que uma verdadeira capitã faria.
— É claro! — Perales riu, incrédula. — Eu já entendi o plano. Você e sua amiga querem tirar tudo o que eu tenho! Tudo que eu criei!
Melanie ergueu os olhos para , alguns metros acima na arquibancada.
— Meninas, acho que esse não é o melhor momento para se discutir… — falou, percebendo que os olhos da amiga estavam começando a brilhar na cor do fogo.
— Cale a boca, Marin! Você é a única que não odeio, não me faça mudar de ideia — Melanie cortou e voltou a apontar para . — Você e Lockwood querem roubar meu time, meu cargo como presidente do comitê estudantil e meu namorado.
— Pois é, me parece que você não tem mais nada a oferecer, Mel — Firestone sorriu e notou que Connor e estavam se aproximando.
— É aí que você se engana, . Eu tenho um segredo para te contar: seu "relacionamento" com Connor não passa de uma aposta. obrigou St. Germain te convidar para sair, do contrário ele perderia a posição no time.
Firestone encarou Connor e . St. Germain retirou o capacete e fez menção de dizer algo, mas virou o rosto, ignorando-o.
— Dói, não é mesmo? Mas sabe o pior? Sua amiga, , sabia disso e pelo visto esqueceu de te contar. Ops.
O queixo de caiu. Seus olhos começaram a marejar, não pela aposta feita pelo garoto pelo qual ela começou a se apaixonar, mas por sua melhor amiga ter omitido a informação dela.
— Como você pode? — fechou os punhos, tentando manter o controle de seus poderes. — ? É verdade?
Subitamente, fez algumas luzes estourarem sobre as arquibancadas, fazendo faíscas caírem sobre os espectadores. Gritos de horror soaram por todo o lugar e as pessoas começaram a sair de seus lugares, deixando também de prestar atenção nas garotas.
Lockwood se levantou e correu em direção à Firestone. Marin e White fizeram o mesmo.
, faça chover para que todos saiam daqui. Agora! — sussurrou para a amiga, conforme elas desciam as escadas.
Marin, discretamente, fez a chuva cair sobre o estádio. Apesar de ela estar utilizando sua magia pela primeira vez desde a noite em que se converteu, parecia ter pleno domínio de seus poderes originais. Era como se a magia negra estivesse dormente dentro dela.
A garota continuava atenta em seus poderes, quando de repente sentiu o frio na espinha — ela não poderia estar mais enganada sobre sua magia negra.
A chuva subitamente se tornou uma tempestade, tão forte que todos os jogadores e líderes de torcida correram para os vestiários e o público que ainda estava nos arredores buscou por abrigo. Raios atingiram os geradores e imensas chamas crepitavam no ar.
jogou um olhar repreendedor sobre e então ela atraiu uma enorme corrente de ar, na tentativa de apagar o fogo. White, habilmente, criou uma esfera de ar e a jogou sobre as chamas, extinguindo-as.
Restaram ali apenas as quatro garotas.
— Não chegue perto de mim, Lockwood — Firestone gritou irritada, fazendo as faíscas que saíam das luzes do estádio virarem chamas.
A chuva torrencial e o fogo crescente compunham o cenário apocalíptico. A trilha de fogo começou a aumentar conforme consumia os bancos da arquibancada já vazia e, ao chegar nos pés de , o fogo formou uma barreira entre ela e .
— Como você pode mentir sobre isso? — os olhos alaranjados de Firestone miravam , e . — Vocês também sabiam disso?
— Eu juro que não, estendeu as mãos, tentando direcionar a chuva para a barreira que as separavam. — Por que o fogo não está apagando com essa chuva?
Marin franziu o cenho, estranhando seus poderes não surtirem efeito sobre o fogo de .
— Você ainda está com magia negra daquele ritual? — perguntou, soprando um vento forte que, diferentemente do outro, não foi suficiente para extinguir as chamas.
— É claro que ela está usando magia negra. Ou pelo menos o que restou dela — bufou, nem um pouco admirada. — Eu sabia que você não estava bem, , por isso achei melhor não contar sobre Connor! Desde que você tocou naquele ritual, você não é mais a mesma.
— Posso não ser mais a mesma, mas isso não me torna uma pessoa fraca. Se ao menos você passasse mais tempo conosco, ao invés de viver com Brisbane, talvez você se lembraria de me contar sobre a aposta.
arregalou os olhos, sentindo a pontada em seu coração. Era verdade que as quatro não passavam tanto tempo juntas como antigamente, mas aquilo não era apenas por culpa dela.
— Isso não é justo! — Lockwood falou. — Você vive com St. Germain e as líderes de torcida, quando foi a última vez que esteve na casa abandonada?
— Não venha com essa, . Eu tenho dado mais atenção à função de guardiã do que você.
White notou que Lockwood se ofendeu profundamente com o comentário da amiga e por isso decidiu intervir:
— Ela não quer dizer isso. Deve ser a magia negra dominando.
— Não, . Eu entendi perfeitamente o que quis dizer. Mas se ela fosse tão boa guardiã como diz, não teria sido infectada pela magia do ritual que destruiu o epicentro.
Firestone odiava aquele olhar superior de Lockwood e, sem pensar duas vezes, lançou uma bola de fogo na direção das três. Por sorte, White estava atenta e fez um escudo de ar ao redor delas.
— Pare com isso! — gritou, impaciente.
— Não deixe que Melanie te manipule, ! — tentou acalmar a amiga.
Apesar dos esforços, Firestone continuou atacando-as com o fogo que se formava na palma de suas mãos. A barreira de começava a ceder quando bufou e pisou no chão com força.
— Chega! — Lockwood gritou enfurecida e no segundo seguinte o chão tremeu, como se um terremoto estivesse acontecendo
Uma enorme rachadura se formou onde estava e a menina caiu para trás, se salvando por pouco.
— Parem com isso! — olhou para os lados, desesperada. — Nós não podemos brigar, não aqui!
segurou os punhos de , acalmando a amiga, e aproveitou a distração de para atravessar a parede de fogo, já reduzida.
— Você não pode continuar a usar magia negra! Confie em mim — Marin falou.
— O que você quer dizer com isso? — Firestone se levantou, encarando-a.
— Eu sei como é a sensação de ter todo o poder do mundo. Mas também sei que é errado e você não pode arriscar tudo a troco desse tipo de magia. Não sem um bom motivo, pelo menos.
Agora era quem olhava como se não a reconhecesse.
— Você também usou magia negra?
— Esse não é o melhor momento… — engoliu em seco, com medo de contar para as amigas sobre o que ela havia feito para salvar . — Prometo que contarei tudo, mas não agora.
— Ótimo! Mais segredos — riu, cínica.
Irritada, Firestone foi embora, sem dizer mais nada. O fogo se apagou e no estádio restaram apenas as cinzas e as fissuras no gramado.
Lockwood, apesar da má vontade, fez um movimento com os dedos e no segundo seguinte o solo se fechou, como se a rachadura nunca tivesse existido. A garota marchou para longe dali, tentando esquecer que tudo aquilo havia acontecido.
Marin também achou melhor ir para casa. Ela teria muito a explicar no dia seguinte e ela tinha medo de sua magia negra voltar com mais força.
Por fim, White foi a única restante. A menina mal podia acreditar que haviam tantos segredos entre ela e suas melhores amigas. Em que momento tudo aquilo havia acontecido? O que fez com que elas guardassem tantos segredos entre si?
respirou fundo, cansada.
De repente, saindo do vestiário, como uma criança perdida, surgiu sozinho. O garoto parecia assustado, mas ao ver White, ele sorriu aliviado e caminhou em sua direção.
— Nossa, , você está encharcada!
No momento que passava por baixo de um poste de iluminação do estádio, o painel tremeu e no segundo seguinte desmoronou, caindo veloz em direção à cabeça do garoto.
! — ela gritou e o garoto olhou para cima, o medo preenchendo seu rosto.
não pensou duas vezes. Ela lançou uma corrente de ar, forte o suficiente para segurar o painel, evitando que ele caísse sobre Fletcher. Apesar da dificuldade, a menina manteve o painel flutuando a poucos centímetros da cabeça de e lançou o objeto para longe.
White colocou a mão sobre o peito, tentando se acalmar e continuou parado no mesmo lugar.
Nenhum dos dois sabia como reagir. White acabara de revelar seus poderes para ele, e isso havia salvado sua vida.
— O que foi que acabou de acontecer?


Capítulo 15

Uma tempestade de pensamentos tirou de seu torpor. Enquanto a encarava, parado no mesmo lugar há alguns minutos, White sentia um misto de alívio e culpa. Ela queria salvá-lo, mas agora que o havia feito, faltavam-lhe palavras para quebrar o silêncio.
Como explicar o que fizera com o painel sem revelar seu segredo? Seria tarde demais para mentir sobre seus poderes?
A menina engoliu em seco e deu alguns passos em direção à Fletcher.
, por favor não se assuste. Eu posso explicar.
O garoto olhou para o painel, jogado a metros de distância, e em seguida voltou a encarar White.
— Pode mesmo? — ele falou, a voz levemente trêmula. — Por que eu provavelmente deveria estar morto agora.
— Era isso que você desejava? — a menina continuava encurtando a distância entre eles.
— Não. — Fletcher respondeu, cauteloso. — Mas, em um mundo normal, era de se esperar isso.
parou à frente de . O coração da garota estava acelerado, batendo com força em seu peito. Já o dele estava contido, analisando a situação da forma que um caçador faria.
White observou cuidadosamente o rosto enigmático de Fletcher.
Ela havia se decidido. Apesar dos antigos guardiões aconselharem que seus poderes deveriam ser mantidos em segredo, ela confiava em .
— Acontece que não vivemos em um mundo "normal". — ela suspirou e estendeu a palma da mão direita. Fletcher deu um passo para trás, levando um susto, mas White continuou parada. — Não precisa ter medo de mim, eu prometo. Acabei de salvar sua vida, acho que isso é prova suficiente de minhas intenções.
engoliu em seco e se aproximou da menina, cauteloso. Seu estômago costumava embrulhar quando ele pensava nas bruxas da cidade, mas, com , a situação era diferente. Ele enxergava bondade nos olhos dela.
Fletcher cresceu ouvindo histórias de como a cidade corria perigo na presença de seres sobrenaturais, mas, se uma bruxa acabara de salvá-lo de uma morte terrível, será que ele poderia ser tão inflexível em relação a esses seres? Ou melhor, essas pessoas.
— Imagino que a única forma de explicar é mostrando… — a menina quebrou o silêncio.
fechou os olhos e no segundo seguinte um pequeno redemoinho surgiu em sua palma. se aproximou, fascinado. No dia da iniciação das quatro garotas, ele estava presente, mas não tão perto como agora — não havia visto como ficava linda ao usar sua magia.
A menina abriu os olhos e fechou a mão, encerrando a cena.
— Eu não sou uma garota comum. — engoliu em seco, porém, mais tranquila ao notar que o garoto tinha baixado a guarda. — Eu tenho poderes. Posso controlar o ar.
— Somente esse elemento? — ele indagou, interessado na informação. Os caçadores não sabiam ao certo como funcionavam os poderes das bruxas, por isso aquilo era novidade para ele.
— Sim, sou uma espécie diferente de bruxa. — White sorriu. — Aparentemente, sou de uma linhagem especial. Guardiã do elemento ar.
Fletcher ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Você realmente não é comum. Além de ter poderes, é da realeza.
riu, feliz por o garoto estar aceitando tudo com tranquilidade.
— É, podemos dizer que sim. — White suspirou e segurou a mão de Fletcher. — Como você está?
— Apesar do choque inicial? — o garoto riu, passando a outra mão pelo cabelo. — Imagino que estou bem.
Os dois se encararam, os rostos próximos. estava aliviada, ela sabia que saberia lidar com a situação. Já o garoto sentia gratidão por White, por ela ter se exposto, sem pensar duas vezes, só para salvá-lo. Em sua cabeça, a linha que separava sua opinião pessoal e de caçador havia sido cruzada. E não havia volta.
— Será que você pode me mostrar novamente? — limpou a garganta. — Seus poderes.
— Claro. — sorriu, afastando seu rosto do dele. — Vou te mostrar algo que aprendi a alguns dias.
A menina segurou as duas mãos do garoto e fechou os olhos novamente, concentrando-se. Ela recitou algumas palavras em latim, o que fez Fletcher encará-la, intrigado, e no momento seguinte ele pode sentir seus pés saírem do chão. , imediatamente, olhou para baixo e, em resposta, um sorriso surgiu em seu rosto. Eles estavam voando.
abriu os olhos e conferiu se seu encantamento havia dado certo. Seus corpos subiam, leves como pluma, e os dois observavam fascinados o colégio, diminuindo de tamanho a cada metro que seus corpos se elevavam.
— Espero que você não tenha medo de altura. — White riu, observando Fletcher, que sorria, encantado com o que estava acontecendo.
— Está brincando? Essa está sendo a melhor experiência da minha vida! — ele respondeu rapidamente, um leve rubor surgindo em suas bochechas. — Eu nunca imaginei que isso era possível.
soltou uma de suas mãos e esticou os dedos para poder tocar nas nuvens. sorriu, sentindo seu coração acelerar, e fez o mesmo. White havia aprendido a voar recentemente, mas não havia ido tão longe como hoje. Talvez fosse aquele lado de Fletcher, que ela nunca havia conhecido, que a encorajou a levá-los cada vez mais alto.
No meio das nuvens e com a lua cheia ao fundo, fez os dois pararem. Distante de Greyson Hills, os dois se sentiam livres para serem eles mesmos. Fletcher observou o rosto de White e a menina, envergonhada, colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. O garoto sorriu e repousou sua mão no rosto dela, acariciando sua pele gelada com o polegar.
— Obrigado por confiar em mim. — Fletcher mordeu o lábio, percebendo que seu coração batia acelerado. — E por salvar minha vida.
— É o que amigos fazem pelo outro. — White piscou, uma onda elétrica subindo a espinha.
— Amigos… — o garoto baixou o olhar para a boca de .
— É o que somos, não é? — ela sussurrou, também olhando os lábios corados de .
— Acho que, aqui, podemos ser algo além disso. — Fletcher encostou sua testa na da garota, que sorriu em resposta.
White fechou os olhos e então ela sentiu os lábios gelados de Fletcher tocando os seus. Ela colocou seus braços ao redor do pescoço de e ele a segurou pela cintura, aprofundando o beijo.

Alguns dias após o incidente no jogo de futebol, retornou ao colégio de cabeça erguida. Enquanto caminhava pelos corredores, em direção ao seu armário, ela podia escutar os murmúrios das pessoas falando sobre ela, Connor e Lockwood. Apesar dela e suas amigas ainda estarem brigadas, Firestone não ligava para as fofocas em relação à sua vida amorosa — sua única preocupação era se alguém havia ligado os pontos sobre o incêndio que ela havia causado.
Por sorte, Tessa Lockwood era a diretora do colégio e abafou o caso. Ela havia dito que o incêndio foi por conta do gerador que sobrecarregou o sistema. Todos acreditaram, porque, obviamente, o interesse de todos era outro.
— a voz de St. Germain soou, vindo por trás dela.
A menina umedeceu os lábios, preparando-se para aquela conversa. Ela não mudou o ritmo de seus passos, deixou que Connor corresse até ela.
— Eu sinto muito, — ele voltou a falar, caminhando ao seu lado. — Eu sei que errei, não espero que você me perdoe, mas pelo menos não desconte sua raiva em . Ela não tem culpa de nada.
— De repente você se importa comigo? — ela riu, sarcasticamente. — Decida-se de uma vez por todas, St. Germain.
— Eu juro que minhas intenções iniciais não eram ruins. Eu realmente gostava de você.
— Então o que aconteceu? — parou em seu armário e o abriu com raiva.
aconteceu. — Connor cuspiu o nome do outro garoto. — Ele e Melanie perceberam que você tinha interesse em mim e quiseram manipular nossa relação.
— Nossa, Aster e Perales manipulando as pessoas? Que novidade! — revirou os olhos. — Eu não ligo para o que eles fizeram, eu me importo com o fato de que você aceitou fazer parte da aposta absurda deles!
— Não foi uma aposta, foi chantagem — ele respondeu, levemente ofendido. — Aster iria me tirar do time e você sabe que eu preciso dos Vikings para entrar na faculdade.
— Eu sei, Connor. Mas de qualquer forma, você foi tão baixo quanto e Melanie — Firestone pegou seus livros e bateu a porta com força. — Aster não é tão poderoso como vocês o retratam. Ele é um idiota, só isso.
— Você não entenderia — St. Germain respirou pesadamente. — De qualquer forma, eu sinto muito.
— É eu sei — deu de ombros. — Meus parabéns, você continua no time e vai para uma das melhores faculdades do país. Espero que tenha valido a pena me humilhar na frente da cidade inteira para isso. Passar bem, St. Germain.
Firestone se virou e deixou o garoto para trás. Todos no corredor a encaravam, mas não a olhavam com pena. Seus colegas pareciam orgulhosos com a forma como ela resolveu a situação.
jogou os cabelos para trás e entrou na sala de aula. Seu sorriso vitorioso não durou muito tempo, pois logo ela encontrou e de pé, ao lado da mesa onde costumava sentar.
— O que estão fazendo aqui? — Firestone perguntou, jogando os livros sobre a mesa.
— Estamos realizando uma intervenção — respondeu, coletando os livros da amiga.
— Vamos para a casa abandonada, agora — segurou os ombros de e a direcionou para fora da sala.
— Não, não vamos — Firestone fixou os pés no chão, impedindo que a mais nova a arrastasse. — Eu não quero ver , se é isso que vocês duas estão planejando.
e se entreolharam. As quatro garotas já haviam brigado antes, mas nunca havia sido daquela magnitude. O que ocorreu no dia do jogo seria difícil de se superar, mas Marin e White estavam dispostas a consertar a situação.
— Nós imaginamos que você reagiria dessa forma. — respondeu e ajudou a outra a empurrar Firestone. — Mas você não tem escolha.

Ao chegarem na casa abandonada, as três encontraram , que aguardava, de braços cruzados, no primeiro degrau da escada que levava ao andar superior.
Automaticamente, a sobrancelha de Firestone se ergueu, desafiadora. estava decidida a se manter em silêncio, já que era a única ali que não tinha motivos para se explicar.
mordeu o lábio. Ela sabia que teria de ser a primeira a falar, pois nem nem dariam o braço a torcer. Elas odiavam admitir, mas ambas eram teimosas.
— Vocês podem me acompanhar para o escritório no andar de cima? — Marin começou a subir as escadas, planejando contar todos seus segredos no ambiente mais confortável possível da casa, a fim de acalmar os nervos das outras.
No escritório, cada uma se sentou em um canto diferente, ficando cara a cara com as outras.
, você se importa de acender a lareira? — , encolhida na poltrona mais distante da janela, pediu.
Firestone, sem olhar, fez um movimento com os dedos, criando uma forte chama no interior da lareira de tijolos. Quando o calor envolveu as quatro, começou:
— Primeiramente, eu gostaria de pedir perdão a vocês — a menina suspirou, organizando seus pensamentos. — Desde que Brooks voltou, não tive tempo para ser uma boa amiga e ajudá-las quando precisavam. Talvez, se eu estivesse mais presente, não estaríamos aqui em primeiro lugar.
, isso não tem nada a ver com você — interrompeu, voltando a encarar com mais intensidade.
— Em parte, tem sim. Das quatro, eu fui a primeira a deixar que segredos nos afastassem, mas isso acaba agora. — Marin respirou fundo, desfazendo o nó que se formava em sua garganta. — Nessas últimas semanas, eu estive ajudando Brooks a quebrar uma maldição. Pois é, é um bruxo, assim como nós.
Marin observou a reação das três amigas, que não foi muito diferente do que ela imaginava que seria. Todas estavam perplexas com a informação, sem saber ao certo o que aquilo significava.
— A história que Tessa contou a você, , não está totalmente correta. Na verdade, imagino que nem as antigas gerações de guardiões conhecem a verdade — Lockwood hesitou, desconfiada, mas Marin continuou, não deixando a amiga interrompê-la. — Todos sabemos que haviam cinco famílias fundadoras, sendo que uma delas desapareceu e que estava relacionada à magia negra. Mas o que ninguém sabia era o motivo deles terem desertado as outras famílias.
— Espere um pouco… Isso quer dizer que Brooks — arregalou os olhos e logo colocou a mão sobre a boca, assustada.
— Brooks, na verdade, é descendente da linhagem dos Bones, a quinta família fundadora. Na época, a matriarca, Cecily Bones, descobriu que os homens da colônia planejavam matar as famílias de bruxos e, para protegê-los, ela corrompeu seus poderes. Cecily planejava assassiná-los primeiro e, para isso, deu origem ao que hoje chamamos de magia negra. Nossas famílias descobriram os planos de Cecily e decidiram bani-la da colônia, jogando uma maldição sobre sua linhagem. A maldição foi uma forma que nossas matriarcas encontraram de conter a nova forma de magia, que se instalou na linhagem dos Bones, e ela recairia sobre o bruxo mais poderoso dessa família. Ou seja, em .
fez uma pausa para que as outras pudessem processar todas as informações. engoliu em seco, surpresa que sua amiga tivesse mantido tudo aquilo em segredo. White, na ponta da poltrona, perguntou:
— Como funciona a maldição?
— Para conter o caos que a magia negra pode causar, o bruxo amaldiçoado é gradualmente impedido de utilizar seus poderes. A cada feitiço, a vida de reduz — a menina engoliu em seco, recordando-se das cicatrizes escuras na pele do garoto. — Ele e sua família sabiam disso e, na busca de respostas, foram para Nova Iorque, onde encontraram apenas uma forma segura de se quebrar a maldição. Porém, eles encontraram um feitiço que exigia poderes além do que possuía...
— E foi por isso que ele voltou aqui, à sua procura — quebrou o silêncio, a voz carregada. Firestone sabia que as intenções de Brooks não eram boas desde o dia em que ela o encontrou na casa de , lendo, o que agora elas sabiam, o livro da família dos Marin.
— Os Brooks sabem que nossas famílias possuem magia e ele imaginou que eu seria iniciada em breve, por isso veio pedir minha ajuda.
— Foi ele quem abriu o epicentro, não foi? — indagou, compreendendo onde a história da amiga iria chegar. assentiu com a cabeça, envergonhada.
— No dia da iniciação, eu recitei um feitiço que ele havia traduzido, pois imaginei que seria um encantamento de minha família. Porém, plantou o feitiço em meu livro e, ao utilizá-lo, isso fez com que eu transferisse temporariamente meus poderes a ele, o que permitiu que abrisse o epicentro para sobreviver a partir de sua energia.
O sangue de borbulhava de raiva. Era por culpa daquele garoto que ela havia se infectado com a magia negra do ritual, perdido a consciência e, mais tarde, brigado com sua melhor amiga.
Do outro lado do quarto, parecia pensar da mesma forma que Firestone. Se Brooks nunca tivesse destruído o epicentro, não teria mudado seu comportamento e não teria se esquecido de contar a ela sobre a aposta entre Connor e . Lockwood trocou um olhar cúmplice com Firestone, ambas, finalmente, se entendendo.
— Nossa, respirou fundo, absorvendo tudo com calma. — Mal consigo imaginar como você lidou com tudo isso sozinha.
Marin deu um sorriso fraco. Ela ainda não havia contado a pior parte.
— Há alguns dias, nós dois realizamos o feitiço — um calafrio subiu a espinha da garota. — Inicialmente, eu imaginei que tinha dado certo, mas de repente o coração de parou e eu agi sem pensar, não aguentaria perdê-lo para sempre. Então, eu o trouxe de volta à vida, em troca da minha magia pura.
fechou os olhos, envergonhada, e quando os abriu novamente pôde ver suas amigas se aproximando, em um abraço reconfortante.
— O que eu fiz nem se compara com o que houve com — Marin falou, pesadamente. — Se você quer punir alguém, , esse alguém deve ser eu.
— Acho que você já sofreu o suficiente, — Lockwood apertou a amiga com mais força. — Como nós podemos te ajudar? Você não deveria passar por tudo isso sozinha.
tem me evitado, por isso ainda não sei se o feitiço funcionou. De qualquer forma, nós dois tínhamos um acordo e agora eu posso fechar o epicentro, para protegê-lo novamente. Para isso, vou precisar de todas vocês.
Todas concordaram, mas franziu o cenho.
— Você mencionou que os Brooks encontraram apenas uma forma segura de se quebrar a maldição… Então isso significa que existe outra forma de quebrá-la? — White indagou, se afastando do abraço.
— Sim, mas essa forma coloca todas nós em risco — limpou a garganta. — Se ainda estiver com a maldição, ele provavelmente irá utilizar seu segundo plano, que envolve invocar a magia de seus ancestrais, incluindo Cecily. Se ele seguir com isso, ele deverá um favor à sua matriarca e eu aposto que ela quer sangue.
— O nosso sangue… — com feição sombria, completou a frase. A menina se afastou, andando em círculos pelo recinto, pensativa. — Precisamos de um plano. E treino. Temos deixado nosso papel de guardiã de lado, mas agora não há tempo a perder.
Lockwood parou na frente de Firestone. Ela estava pronta para se desculpar também:
— Eu sinto muito, . O dia do jogo era para ser o seu dia de brilhar, mas eu atrapalhei sua noite e nossa briga tomou grandes proporções. Me desculpa.
— Eu também peço desculpas, — Firestone sorriu, sentindo um peso enorme sair de suas costas. — Será que podemos mudar de assunto? Todo esse papo de fantasmas buscando vingança e bruxos de magia obscura estão me deixando preocupada. Daqui a pouco minha ansiedade irá atacar!
Todas riram, apesar do clima pesado rondar as quatro. De repente, lembrando-se de algo que poderia tranquilizar as amigas por um curto momento, chamou a atenção das outras:
— Eu tenho uma novidade! — a menina suspirou, sentindo seu corpo esquentar com a memória daquela noite. — me beijou na noite do jogo!
Em uníssono, Marin, Lockwood e Firestone gritaram:
— O que?
White sorriu, as bochechas coradas, e balançou a cabeça, confirmando o que as amigas escutaram.
— Foi na mesma noite da guerra de vocês — a mais nova apontou para e . — Assim que todas foram embora, Fletcher surgiu e, quando ele vinha em minha direção, um painel de iluminação quase caiu sobre ele. Por sorte, eu pude usar minha magia para salvá-lo.
Ao perceber que um humano sabia que White tinha poderes, Lockwood protestou:
— Você se expôs para Fletcher?
— Era isso ou deixá-lo morrer na minha frente — se defendeu. — Mas ele foi compreensivo, ! Ele prometeu ficar calado.
— Acho que você o calou, colando sua boca na dele, ! — provocou e riu em silêncio.
— Será que ele irá terminar com Cassidy? — Marin perguntou, tocando no ponto em que White evitou pensar nos últimos dias.
— Isso é o mínimo que Fletcher deve fazer — Lockwood deu de ombros. — Nem mesmo uma garota perversa como Chang merece ser traída.
Como se a palavra tivesse desenterrado uma memória antiga, arregalou os olhos, ligando os pontos:
— É isso! A profecia da bola de cristal — White se levantou em um pulo. — A traição que me envolvia, só pode ser isso, certo?
As amigas arregalaram os olhos, como se o que a mais nova havia dito fizesse todo o sentido.
— Bem, aparentemente só falta a minha parte da profecia — riu, nervosa.
, que estava mais próxima da garota, a abraçou de lado, confortando-a. Para descontrair, mudou de assunto:
— Vocês conseguem acreditar que logo será o baile de Halloween? Já sabem quais fantasias irão usar?
— Claro! — animada, desbloqueou o celular, selecionando uma foto para mostrar à suas amigas. — Mal posso esperar para esse dia!

Na central da Sociedade, a alguns quilômetros fora de Greyson Hills, , e Cassidy recebiam as ordens de seus superiores.
— Agora que sabemos como essas bruxas sobrevivem às diversas investidas, podemos matá-las de uma vez por todas — um homem forte, de terno e gravata, tinha as mãos nas costas e o peito estufado. — Graças à informação de Brisbane sobre o "Feitiço de Proteção", obtido na residência dos Lockwood, sabemos que, ao destruir os amuletos das bruxas, temos uma chance considerável de lutar como iguais.
— Vocês já sabem os amuletos de White e Firestone — a mulher ao lado, fardada com o uniforme da polícia de Greyson Hills, falou confiante. Ela deslizou duas fotografias sobre a mesa, para que todos pudessem olhar a tatuagem de e o colar de . — O ideal seria ter a confirmação de que as quatro têm um amuleto de proteção, mas não temos tempo, e por isso vamos confiar na informação de que apenas duas delas os possuem.
— A missão de sua equipe, , é eliminar os alvos neste final de semana. Nossos sensores estão captando ondas de energia extremamente preocupantes, por isso precisamos acabar com elas o mais cedo possível, antes que uma catástrofe natural atinja Greyson Hills.
— Entendido, senhor — Brisbane assentiu e o resto de sua equipe fez o mesmo.
— Os senhores já descobriram informações sobre o quinto elemento, capturado nas fotos de Brisbane no dia da iniciação? — Cassidy deu um passo à frente, preocupada. — Devemos eliminá-lo caso decida aparecer durante nossa missão?
A menina manteve a postura, enquanto os dois superiores a analisavam, curiosos. Normalmente, havia uma hierarquia dentro da Sociedade e membros na posição de Chang não costumavam se dirigir aos diretores. A mulher, sorriu, mas respondeu seca:
— Não temos nada sobre a sombra. Porém, como sempre ensinamos, se for sobrenatural e ameaçar sua vida, atire para matar.
Cassidy assentiu, com um sorriso mínimo, então voltou ao seu lugar. Ao seu lado, sentiu o estômago revirar. Pela primeira vez, o garoto não queria estar ali, envolto de outros caçadores e recebendo uma missão. Desde a noite do jogo, Fletcher não conseguia parar de pensar em White e em como ela se abriu para ele — e agora, por ironia do destino, ele recebeu ordens para matar a garota para a qual devia sua vida.
Saindo da sala dos diretores, parecia tão transtornado quanto . Brisbane tampouco se sentia confortável com a ideia de eliminar Lockwood.
havia treinado a vida toda para matar seres sobrenaturais, mas nunca imaginou que seu mais importante alvo seria a garota com quem competia desde pequeno. A garota de olhar penetrante e sorriso confiante. A garota que ocupa seus pensamentos, dia e noite.
— Que caras são essas? — com um tom ácido na voz, Cassidy perguntou, trazendo os dois garotos de volta para a realidade. — Esperamos a vida toda por esse momento. Pensei que estaríamos comemorando.
— Vocês sabem o que há no fim de semana? — com os olhos escurecidos, falou.
— O baile de Halloween — , no mesmo clima do amigo, respondeu apático. — Você não está pensando em fazer isso lá, está?
Cassidy, com um sorriso perverso, deu de ombros:
— Há um cenário melhor para isso?

ajeitou os óculos de aro preto mais uma vez em seu rosto e olhou para o relógio de pulso, que marcava 20h em ponto. Ele odiava usar roupa social, mas Melanie havia insistido para que ele usasse uma fantasia de Clark Kent — com a camisa do Super-Homem por baixo da social branca desabotoada — mas, aparentemente ela havia o feito de bobo, pois a própria não estava presente na festa.
Aster bufou e foi em direção à mesa de bebidas. Apesar daquela ser uma festa do colégio, com professores vigiando os alunos, ele sabia que o vasilhame contendo o suco de frutas vermelhas já tinha sido batizado. Por isso, ele encheu seu copo e virou sem delongas, sentindo o sabor de álcool barato descer sua garganta.
— Devagar, amigo! A noite mal começou — a voz de soou, divertida. desviou o olhar de seu copo e logo se deparou com Brisbane, vestindo um sobretudo de lã marrom claro, com estampa quadriculada, cachimbo na boca, lupa no bolso e, é claro, um chapéu também quadriculado e com duas abas, uma na frente e outra atrás.
— Elementar, meu caro, Brisbane — Aster sorriu, impressionado com a fantasia de Sherlock Holmes do outro. — Está servido? — ele ofereceu o copo ao amigo.
— Hoje não — o mais alto sorriu, balançando a cabeça em negação. — Tenho planos para mais tarde.
percebeu que observava a multidão de alunos com afinco, como se estivesse procurando alguém em especial, então perguntou:
— E quem é a sortuda? — o garoto seguiu o olhar de Brisbane, mas não viu ninguém interessante.
— Lockwood — respondeu distraído, encontrando, no meio da pista de dança, e Cassidy. Os dois dançavam, mas conversavam, sérios, ao mesmo tempo.
— Provavelmente elas chegarão juntas — respondeu, dando mais um gole em sua bebida. Ele não diria em voz alta, mas mal podia esperar para ver em sua fantasia. — Será que Fletcher precisa da nossa ajuda? — ele apontou para o amigo, que parecia acuado na presença da namorada.
— Talvez — Brisbane riu, notando que Fletcher quebrou o olhar com Cassidy e começou a observar os arredores, pensando em uma forma de sair dali.
Quando encontrou e , Brisbane acenou, chamando o amigo.
Não levou muito tempo para Fletcher surgir ao lado dos outros dois. Ofegante, o garoto retirou a máscara que cobria metade de seu rosto, e então virou um longo gole do copo de .
— Fantasma da ópera? — Aster analisou as vestes do amigo. — Clássico.
— Decidi não usar uma fantasia de casal esse ano — se virou para os amigos, ficando de costas para onde Cassidy estava. — Vocês acabaram de me salvar de uma morte lenta e dolorosa.
voltou a analisar Cassidy, que estava parada no centro da pista de dança, de braços cruzados, fuzilando as costas de com o olhar. Chang usava um casaco de pelos branco, um vestido preto justo e luvas vermelhas. Seu cabelo metade preto e metade branco, completava a fantasia de Cruella de Vil.
— Não me diga que vocês terminaram, aqui e agora — perguntou e confirmou com um aceno de cabeça. Fazendo uma careta, Aster deu dois tapinhas nas costas do amigo. — Na noite da festa de Halloween? Cruel.
Fletcher deu um sorriso amarelado. Ele não poderia continuar em um relacionamento com Cassidy, sabendo que White e ele possuíam sentimentos pelo outro; ainda mais depois do beijo que tiveram.
— Espero que vocês tenham terminado em bons termos — cauteloso, frisou e tirou de seus pensamentos. Brisbane não poderia liderar uma equipe fragmentada naquela noite, não quando a missão era tão perigosa.
— Digamos que nosso término não irá afetar nossa convivência — respondeu sério, ignorando as piadas que soltava ao fundo. Brisbane assentiu, discretamente.
De repente, deu um grito alegre e se jogou em direção a um garoto que se aproximava. Vestido do pirata Jack Sparrow, riu, se desvencilhando do abraço.
— Aqui está o meu garoto de ouro! — bateu no peito de Brooks, levando-o até os outros garotos. — Quem diria, nosso antigo quarteto de volta!
e cumprimentaram o antigo amigo. sorriu, levemente desconfortável.
— Agora que estamos todos solteiros, cada um vai escolher uma das meninas do quarteto fantástico? — alegre por ver todos seus amigos juntos, bebericou novamente seu copo.
— Você está solteiro desde quando? — Confuso, Fletcher perguntou.
— Desde vinte minutos atrás — Aster riu, olhando seu relógio. — Melanie me obrigou a vir a essa festa e ela simplesmente desapareceu! Não responde às minhas mensagens nem ligações. E isso não é de hoje, ela está distante há semanas. Para mim, já deu.
Antes que qualquer um dos outros pudessem consolá-lo, ergueu o rosto, abismado, olhando diretamente para a entrada do ginásio, onde estava acontecendo a festa.
Os outros garotos acompanharam o olhar e logo compreenderam o encantamento do amigo.
Entrando lado a lado, as quatro garotas de quem eles falavam momentos antes chegaram na festa. Firestone, vestida de Mulher Maravilha, sorria confiante, o que atraiu a atenção de várias pessoas na pista de dança. Lockwood, usando o famoso uniforme de Hogwarts, encontrou imediatamente os olhos de Brisbane. White, surpreendendo tanto Fletcher quanto Cassidy, que a encarava enraivecida, estava vestida toda de preto como Sandy de Grease. , com um olhar perdido sobre a multidão, brincava com a barra de sua capa, que completava sua fantasia de Chapeuzinho Vermelho.
— Espero que não se importem, mas vou conversar com — Aster piscou para os amigos e abriu caminho entre as pessoas, para alcançar a garota.
Enquanto os outros três rapazes observavam atônitos, as quatro foram em direção às mesas para deixarem seus pertences. Não demorou para que surgisse, sorrindo para :
— Por acaso você está me copiando?
As outras meninas se entreolharam, decidindo silenciosamente se afastar dos dois, para que eles pudessem se resolver. Firestone respirou fundo e se virou, encontrando Aster apontando para sua fantasia. Ao encará-lo dos pés à cabeça, a menina compreendeu o que ele quis dizer.
— Todos sabem que a Mulher Maravilha é melhor que o Super-Homem — repousou as mãos na cintura, desafiadora. — Aliás, eu poderia te dar um soco agora mesmo, Aster, vindo com gracinha para cima de mim quando temos assuntos pendentes.
O sorriso do garoto reduziu e sua testa se enrugou, em puro nervosismo. Por um breve momento naquela noite, ele havia se esquecido dos erros de seu passado, que, aparentemente, não seriam apagados tão facilmente. Ele ainda não havia se explicado sobre a situação envolvendo St. Germain.
— Eu fui um completo idiota — ele observou o rosto da garota, parando nos olhos firmes da menina. — Na verdade, ainda sou e não espero que você me perdoe facilmente. Mas eu quero te provar que posso ser um cara legal.
— Você acha que eu quero sua penitência, Aster? — a sobrancelha delineada da garota se ergueu, em descrença. — Você sabia o que estava fazendo, tinha ciência de quem estava ferindo.
cruzou os braços e estreitou os olhos, voltando a falar:
— Mas, mesmo assim, concordou com o plano absurdo de Perales — ela umedeceu os lábios e abriu um sorriso cínico. — Eu acho que seu envolvimento no plano não tinha a ver comigo ou com Connor, mas estava relacionado com seu gigante e irritante ego.
— Você tem razão — a resposta de Aster surpreendeu a menina, que arregalou os olhos por um breve segundo, mas logo retomou a compostura. — Eu estava cego, não liguei para quem estava manipulando. Mas quando nos conhecemos melhor, isso foi mudando.
— Seu pedido de desculpas precisa ser melhor do que isso, — ela limpou a garganta, tentando ignorar qualquer sentimento positivo em relação a ele.
O garoto assentiu com a cabeça e, como se uma ideia brilhante tivesse surgido, ele saiu correndo em direção ao palco, onde estava o DJ e algumas caixas de som.
franziu o cenho e acompanhou o garoto com o olhar. No momento que tomou posse do microfone, fazendo um chiado soar por todo ginásio, ele atraiu a atenção de todos — especialmente de Firestone, que tinha a respiração entrecortada, incerta sobre o que aconteceria em seguida.
— Boa noite, Greyson High! Desculpe interromper a playlist adorável do professor Barnes — Aster virou meio corpo para trás, acenando para o homem que estava responsável pela música da festa. O professor sorriu desconfiado em resposta. — Eu gostaria de ter a atenção de todos por alguns minutos.
sentiu suas bochechas queimarem. Ela queria esganar Aster.
— Eu fui estúpido todos esses anos no colégio. Sempre agi como o rei, pisando em quem estivesse na minha frente, e eu gostaria que todos soubessem que eu admito que errei. Meu grande e irritante ego tomou conta das minhas escolhas — falava virado para . A menina deixou escapar um fino sorriso ao ouvi-lo repetir os adjetivos empregados por ela. — Mas meu maior erro foi ter, sabidamente, escolhido machucar um amigo — ele olhou de relance para Connor, que ouvia atentamente no canto do ginásio. — e . Por isso, eu sinto muito.
Todos as cabeças se viraram para Firestone, que não sabia ao certo como reagir. Como se ele soubesse disso, Aster voltou a falar:
— Eu gostaria de cantar uma música! — se aproximou do professor e sussurrou em seu ouvido.
De repente, a tensão reduziu e os outros alunos voltaram a conversar, criando um zumbido baixinho. suspirou aliviada e voltou a encarar o garoto no palco.
, espero que você aceite meu pedido de desculpas depois disso — falou sério, segurando o microfone com as duas mãos.
Vários celulares começaram a pairar no ar, gravando a cena, quando as primeiras batidas eletrônicas soaram pelas caixas de som:

"You gotta go and get angry at all of my honesty
You know I try but I don't do too well with apologies
I hope I don't run out of time, could someone call a referee?
Cause I just need one more shot at forgiveness"


Em meio aos gritos de apoio ao garoto, não conteve sua risada. Ela mal acreditava que estava no palco, cantando para ela uma música de Justin Bieber.
decidiu aceitar o pedido de desculpas, dançando descontraída. Afinal, realmente estava se esforçando e destruindo toda sua imagem assustadora de rei do colégio.

"Yeah, is it too late now to say sorry?
Cause I'm missing more than just your body
Is it too late now to say sorry?
Yeah I know that I let you down
Is it too late to say I'm sorry now?"


A menina decidiu subir no palco. Ela não ligava mais para o que os outros pensariam ou sobre o que Melanie faria a respeito. só queria agir de acordo com suas vontades, sem pensar nas consequências, pelo menos dessa vez.
O menino estava empolgado, já iniciando o próximo refrão, quando olhou para o lado e notou , ao seu lado no palco. afastou o microfone, o sorriso brincalhão, quando a menina colocou seus braços ao redor do pescoço dele, aproximando seus rostos até que seus lábios se tocassem.
Ao fundo, os alunos comemoraram em uníssono e Firestone podia jurar que ouviu um grito agudo, misturado com as vozes de e .
A menina sentiu a mão forte de envolver sua cintura, o que fez borboletas voarem em sua barriga. percebeu que o garoto sorriu, tão satisfeito quanto ela, e então, para finalizar aquela demonstração pública, Firestone mordeu de leve o lábio inferior de Aster, se afastando em seguida.
— Vamos sair daqui — falou, os olhos brilhando, e assentiu, seguindo a garota.

No final da noite, e decidiram ir ao banheiro feminino, retocar a maquiagem.
— Este baile está sendo mais divertido do que eu imaginei que seria — chutou alguns copos de plástico vazios, que rolaram pelo corredor escuro em que elas andavam.
Ao seu lado, parecia perdida em seus pensamentos.
— Claro, você e Aster ficaram juntos a noite inteira! — White respondeu secamente e recebeu uma cotovelada da amiga, que a repreendeu.
— O que você tem? , você deveria estar tão feliz quanto eu! Fletcher trocou vários olhares com você, eu percebi — Firestone disse com a voz melodiosa, abrindo a porta do banheiro feminino com um empurrão.
— É, mas ele não veio conversar comigo. Será que eu o assustei? Ele deve ter pensado melhor sobre o que aconteceu naquele dia.
— Tenho certeza que não é isso! Não seja boba, .
calou-se assim que notou que as luzes automáticas do banheiro não estavam funcionando, deixando o ambiente completamente escuro. Vindo em seguida, parou ao seu lado, sentindo seu estômago revirar.
, não estou gostando disso — a mais nova engoliu em seco, olhando para o corredor vazio e de volta para o banheiro escuro.
— Que isso, White! — rindo despreocupadamente, Firestone ergueu a palma da mão e prontamente criou uma bola de fogo que, aos poucos, flutuou, iluminando o banheiro. — Temos poderes, não precisamos ter medo.
Apesar da ideia da garota ser interessante, as chamas alaranjadas deixaram o ambiente em tons de sépia, dando ao lugar um ar ainda mais assombrado.
— Você tem certeza disso, Firestone? — a voz gélida e mortal de Cassidy Chang ecoou pelo banheiro.
e mal conseguiram enxergar Cassidy, quando escutaram o som abafado de duas balas deixando o cano de uma arma e sentiram uma forte dor no peito.

não estava acreditando que Cassidy havia agido por conta própria. Nunca, em dez anos treinando juntos, a garota havia desobedecido suas ordens — a equipe de Brisbane era a mais jovem e respeitada dentre as outras na Sociedade, justamente pelos três membros sempre se entenderem — mas dessa vez, Chang havia ido longe demais.
No dia que formaram seu grupo, os três caçadores haviam escolhido os lobos como o símbolo de sua equipe por um motivo: lobos respeitam a hierarquia.
— Tente entender, , apesar de irritado com a menina, sussurrava para o amigo, tentando apaziguar a situação. — Ela não deveria estar pensando direito.
— Não importa. O plano não era esse — o rapaz respondeu secamente, enquanto caminhavam apressados pelo corredor vazio do colégio, em direção ao estacionamento. — O que ela fez foi imprudente e agora temos que lidar com os fios soltos.
respirou fundo, secando uma gota de suor que escorria em seu rosto. Ele nunca imaginou qual seria o peso de um corpo morto, mas agora ele sabia. pesava em seus ombros, inconsciente graças à bala cravada em seu tórax, disparada por Cassidy.
Tanto Firestone quanto White estavam sendo carregadas por Brisbane e Fletcher, respectivamente. Se os amuletos com o "Feitiço de Proteção" das garotas funcionassem, elas retomariam os sentidos em algumas horas.
estava à procura de no momento que escutou os tiros serem disparados no banheiro feminino. O garoto correu, na tentativa de impedir qualquer problema, mas era tarde demais quando encontrou sua ex-namorada observando as duas garotas caídas no chão. Naquele momento, Fletcher teve a sensação de ter seu coração arrancado do peito. Ele mal pôde esconder sua reação de medo ao ver machucada, e isso foi suficiente para Cassidy compreender os sentimentos dele. Enquanto tentava estancar o sangramento da menina, Cassidy foi em busca de , para que os caçadores pudessem terminar sua missão, pelo menos parte dela.
— O que vamos fazer com as outras? — Dispersando a memória daquela cena terrível, a voz de falhou. Ele e Alfa estavam alcançando o final do corredor. — Não vai demorar para Lockwood e Marin notarem o desaparecimento das amigas.
— Eu não sei, Beta — resmungou. A poucos metros da saída, a camionete de Cassidy os aguardava, com o motor ligado, mas sem os faróis acesos. — A única coisa que precisamos fazer neste momento é dar o fora daqui, antes que…
— Antes que eu apareça? — ao fundo e ecoando pelo corredor, completou a frase de , com um toque de desgosto na voz. — O que vocês estão fazendo com nossas amigas?
Pegos de surpresa, os dois se viraram e deixaram e no chão, repousando contra os armários nas paredes. se alongou, prevendo que o conflito entre ele e Lockwood era iminente.
Frente a frente com os rapazes, tinha os braços cruzados e o rosto feroz, já observava minuciosamente Fletcher.
fez menção de alcançar sua arma no bolso, mas fez um sinal com a cabeça, impedindo-o.
— silenciosamente, Marin chamou e apontou para o chão, onde havia gotas de sangue, trilhando o mesmo caminho dos garotos.
As duas se entreolharam e no instante seguinte partiram para o ataque.
, aproveitando a proximidade de com a saída, fez um enorme jato de água atingir o corpo do garoto, que caiu de costas no asfalto do estacionamento. Ela recitou um feitiço, que fez com que o corpo de Fletcher pesasse contra o chão, impedindo-o de se mover. Ela prometeu a si mesma que aquele seria o único feitiço de magia negra que utilizaria naquela noite, já que acrescentar esse fator à briga seria ainda pior.
, deixe que eu cuido de murmurou para a amiga. — Procure , vamos precisar dele para cuidar das outras.
Marin assentiu e olhou desapontada para Brisbane, voltando em seguida para o ginásio.
Ainda no corredor, , enfurecida por ter confiado em Brisbane, caminhou em direção ao garoto, pisando forte contra o chão e fazendo todo o lugar tremer.
— Eu sempre soube que você não valia nada, Brisbane — Lockwood ficou cara a cara com o caçador, que ainda se mantinha parado. — Eu devia ter confiado em meus instintos, mas decidi dar uma chance para o seu papo de "vamos ser amigos".
, consumida por sua raiva, agarrou pelo pescoço e o prensou contra os armários frios. Brisbane não iria reagir, pois ele sabia que Lockwood tinha todo o direito de odiá-lo.
— Pelo menos diga o que você é! — com a outra mão fechada em punho, a menina se controlava para não socar o rosto do oponente.
— Eu realmente quero ser seu amigo, , mas nossas naturezas não permitem — ele respondeu pesaroso. — Sou a décima geração dos Brisbane, os notórios caçadores de bruxas.
Os olhos de Lockwood se arregalaram e então ela riu, descrente.
— Estou falando sério, Lockwood — ofendido, segurou o punho de e o torceu levemente, apenas para que ela parasse de enforcá-lo. Em reação, ela fez menção de socá-lo, mas ele previu seu movimento e bloqueou o gancho de direita da garota. — Seu desprezo por mim era natural, não era? Estar presente no mesmo lugar que eu costumava te deixar nervosa, não? Uma sensação de repulsa, o desejo de se afastar de mim, custe o que custasse, certo? Bem, provavelmente tudo isso tem a ver com o fato de nossas famílias serem inimigas há gerações. Está no seu sangue me odiar.
— Isso é estúpido! — ela se debateu, soltando-se das mãos de Brisbane.
Por mais que estivesse com raiva do garoto, no fundo, ela sabia que outro sentimento estava tentando retomar seu controle. Lockwood sabia que seu coração tentava falar mais alto:
— Eu não te odeio… Mas você consegue dizer o mesmo sobre mim?
soltou um longo suspiro. Ele não sabia ao certo como responder à pergunta da garota:
— Eu nasci aprendendo a te odiar. Mas recentemente descobri que você, pelo menos sua parte humana, é encantadora. Se ao menos eu conseguisse dissociar seu lado sobrenatural.
— Isso é impossível, Brisbane. — a garota não tentou disfarçar o desapontamento de sua voz. — Essa sou eu. Bruxa e humana.
Lockwood respirou fundo, encurtando a distância entre os dois.
, você me conheceu nesses últimos dias, isso não é suficiente para mudar seu ponto de vista sobre o que sou?
— Não — sem hesitar, ele respondeu.
ignorou a pontada que surgiu em seu coração:
— O que eu fiz para você que justifique sua tentativa de me machucar, ou pior, de me matar? E não me diga que é puramente por ser uma tradição em sua família!
Os olhos do garoto escureceram com a memória que assombrava suas noites. umedeceu os lábios e tirou de seu bolso uma pequena adaga. deu dois passos para trás, calculando seus próximos movimentos.
— O envolvimento de meus ancestrais com bruxas, como você, não é novidade — suspirou, rondando . — Meu avô costumava contar histórias de como mulheres com poderes sobrenaturais encantavam homens comuns, apenas para matá-los. Meu pai foi um deles.
Os olhos de se arregalaram em espanto. mordeu o lábio, impedindo que as lágrimas atrapalhassem sua visão.
— Uma bruxa que caçava caçadores, irônico, não é? — ele continuou a falar. — Matou meu pai a sangue frio, antes dele me ver nascer. Minha mãe nunca soube do mundo sobrenatural, mas meu avô, que foi quem cuidou de mim na maior parte do tempo, sempre me treinou para que eu carregasse o nosso legado.
, eu sinto muito… — engolindo em seco, tentou colocar sua mão no ombro do garoto, mas ele se afastou. Reflexo de caçador, ela imaginou. — Mas você não pode projetar seu rancor em mim e minhas amigas. Não temos culpa do que houve com seu pai.
O garoto levantou o olhar para Lockwood. Ele sabia disso, mas era inevitável voltar aos seus antigos hábitos. Ele cresceu ouvindo histórias terríveis envolvendo o sobrenatural e tinha vivido de perto esses horrores. Mas, desde que conheceu a verdadeira , seus ideais não pareciam mais tão sólidos.
— Eu tenho uma missão. — cravou a ponta de sua adaga na parede, próximo ao rosto da garota. Lockwood engoliu em seco, preparada para se defender se fosse necessário. — Devo proteger a cidade. Eliminar qualquer ser sobrenatural que põe todos nós em risco.
— Ah, é? — a menina ergueu a sobrancelha de forma convencida. — Pois esse é meu dever também, como guardiã. Será que estivemos do mesmo lado esse tempo todo?
A feição de suavizou, como se eles tivessem encontrado uma brecha que permitiria a convivência pacífica entre os dois.
— As mudanças que estão ocorrendo em Greyson Hills não foram causadas por vocês? — ele perguntou, incrédulo.
— O que você quer dizer por mudanças? — Intrigada, a menina sustentou o olhar de Brisbane.
— Abalos sísmicos imperceptíveis, porém frequentes, tempestades se formando na costa leste e que ameaçam nos atingir, focos de incêndio em pontos estratégicos e, por fim, animais mortos nos arredores de nossa cidade. É sério que vocês não notaram isso?
abaixou a adaga, aguardando processar as informações. Nada disso era obra dela ou de suas amigas. Poderia ser resultado do epicentro desprotegido, levando ao desequilíbrio da natureza. Ou, talvez, sinais de que algo muito pior estava por vir.
Antes que a menina pudesse concluir qualquer coisa, e surgiram na outra ponta do corredor. Em um estalo, tudo fez sentido para , que lançou um olhar mortal sobre o outro garoto, antes de falar:
— Brooks. Temos que conversar.




Continua...



Nota da autora: Se você me acompanha no Instagram e participou da enquete, espero que tenha gostado do capítulo! Se você não entendeu nada, vou explicar: eu fiz uma votação nos Stories do Insta para que as leitoras escolhessem o rumo deste capítulo, selecionando as fantasias das garotas, o casal que merecia uma cena especial e é claro, o confronto que haveria no fim do capítulo. Como a votação foi acirrada, fiz uma cena especial para Firestone e Aster, que ficaram em primeiro lugar, e para White e Fletcher, que ficaram em segundo! Espero que seus corações estejam quentinhos, Firestone e Whites!
Agora, vamos comentar sobre o capítulo 15, que foi o mais longo que escrevi até agora. Espero que tenham gostado de conhecer um pouco mais sobre os caçadores e sobre como eles estão aprendendo a mudar sua visão sobre as meninas. Ah! Me contem nos comentários se o pedido de desculpas do Aster foi suficiente e se vocês o perdoariam também. Por fim, quero saber o que acharam do confronto entre os caçadores e as meninas (metade delas pelo menos). Será que eles irão se unir?
Se você quiser saber quando as próximas atualizações entram no site, dar uma espiadinha nos próximos capítulos e ver alguns extras de BM, me siga lá no Instagram, é só clicar no ícone aqui embaixo! Vamos interagir! Queria agradecer todos os comentários positivos e dizer que, para quem gosta de escutar música enquanto lê, a playlist da história está aqui embaixo, no ícone do Spotify! Caso seu coração não aguente esperar pela próxima atualização, a página do Tumblr de Black Magic pode te entreter no meio tempo, minha dica é acessar pelo computador, é lá que a mágica se esconde! Muito obrigada por escolherem a história, nos vemos logo bruxinha!


Outras Fanfics:
Satellite (Outros – Shortfic)
04. Why Try (Ficstape Ariana Grande)
02. Spaghetti (Ficstape Emblem3)

Nota da Scripter: O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso você queira deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI.
Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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