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Última atualização: 14/06/2021


AVISO IMPORTANTE: A história a seguir é a continuação independente da fanfic “Buttercup”, já finalizada no site. Apesar de algumas referências à história anterior aqui e ali, é possível ler Bubbles sem ler Buttercup, pois o enredo gira em torno de um novo casal, antes secundário e em um novo período de tempo.


Prólogo


SEIS ANOS ATRÁS

AVISO DE GATILHO: o capítulo a seguir aborda temática sensível referente à abuso infantil físico e verbal por parte dos pais.


Alguma coisa estava errada.
tinha apenas doze anos, mas foi rapidamente capaz de reconhecer as misteriosas mudanças à sua volta. Ela não era tola, mesmo que a maioria das pessoas pensassem o contrário. Os olhares, os cochichos, o modo como Brandon, o mais velho de seus irmãos, a abraçava um pouco mais forte que o normal em suas visitas. Nada disso passou despercebido.
– Te vejo a próxima vez, princesinha – era o que antes ele sempre sussurrava.
– Tudo vai melhorar, eu prometo – foi o que passou a dizer.
Aquela troca de frases poderia ter sido ignorada em outra ocasião, se não fosse sempre acompanhada de sua mãe fazendo beicinho com olhos falsamente tristes e seu pai franzindo as sobrancelhas e cerrando os olhos de raiva. Suas reações acenderam um alerta dentro da cabeça dela, quase como se a aconselhassem a permanecer alerta e vigilante. Alguma coisa estava errada, mesmo que todos tentassem fingir que não.
Claro, não era como se tudo estivesse bem antes disso. O clima era palpavelmente tenso em sua casa desde que Daniel, o segundo mais velho, se formara no ensino médio um ano antes e fora morar com Brandon enquanto fazia faculdade. O pai deles nunca gostou da ideia de dar liberdade aos filhos e, por isso, ficou extremamente raivoso com a partida. Apesar de sempre temer suas reações, acreditou que seu mau-humor sumiria com o tempo, como geralmente acontecia.
Foi o que ocorreu em ritmo lento, conforme ele resmungava cada vez menos sobre como os dois haviam “abandonado a família” e apenas bufava de irritação quando Brandon e Daniel viravam tópico de conversa. O clima não melhorou totalmente, mas as discussões eram menores e menos intensas e ela até mesmo obteve permissão de ligar para eles com mais frequência.
Até que algo incompreensível e desconhecido aconteceu três meses atrás.
De uma hora para outra, todas as pessoas de sua vida pareceram ter sido raptadas durante a noite e substituídas por outras ao nascer do sol. E teve que lidar com uma realidade em que se sentia completamente aérea e perdida, observando os arredores como se estivesse escuro demais para enxergar, mas, mesmo assim, se visse obrigada a tentar.
Brandon passou a realizar mais visitas que o comum, observando a casa, os pais, e Caleb (seu último irmão mais velho), como um atento falcão de caça. Daniel agia da mesma forma, sempre fazendo centenas de perguntas, mas curiosamente apenas nos momentos em que estavam sozinhos. Como ela estava? Algo ruim aconteceu? Como o pai deles reagiu? O que a mãe deles fez?
Caleb começou a usar seu celular nas horas em que não tinha permissão. Nenhum dos quatro filhos, enquanto cresciam, tinham acesso a eletrônicos por mais de uma hora por dia, principalmente quando estavam em família. nem ao menos possuía algo como um aparelho telefônico. O pai dela costumava dizer que a internet não seria boa influência para uma “menininha cabeça-oca” como a filha.
Mas ela percebeu que Caleb parecia estar sempre com seu celular escondido no bolso, a mão pairando sobre o objeto principalmente quando seu pai ou sua mãe começavam a falar. Ela lhe perguntou sobre isso em um certo momento, mas ele rapidamente desviou o assunto.
– Não se preocupe com isso, – disse, certificando-se de que ninguém estivesse os escutando. – Não é nada, só uma coisinha que Brandon me pediu para fazer. Mas você não pode contar para ninguém, okay? Me prometa. Isso fica entre nós.
A mudança mais drástica e clara, contudo, foi a de seus pais. De repente, era como se eles tivessem batido com a cabeça e se esquecido de quem tinham sido em todos os doze anos de vida que vivera até então.
A mãe dela, sempre tão autocentrada e egocêntrica, subitamente passou a tratá-la como se fossem melhores amigas. , antes, vivia usando roupas que não lhe cabiam ou qualquer coisa que conseguia pegar emprestado de seus irmãos. Aquilo gerava inúmeras implicâncias e tirações de sarro das outras crianças e a fez perder o gosto pela escola. Na maioria dos dias, ela conseguia apenas engolir o choro antes de entrar no ônibus escolar, sabendo que seria alvo de zoações.
Agora, sua mãe dava-lhe inúmeros presentes, um atrás do outro. Brinquedos, sapatos, bijuterias, tantas peças de roupas que sentia que poderia se afogar nelas. Muitas não eram do seu tamanho (Alexandra continuava a insistir em tratar a filha como se ela fosse dez quilos mais magra), mas apenas o fato de estar gastando dinheiro com ela, ao invés de si mesma, era como se estivesse nevando no meio do Saara.
O pai dela, por sua vez, pareceu ter construído um tipo de autocontrole que nunca havia visto ou achado que era capaz de conseguir. Ele, que sempre foi um homem com a paciência ridiculamente curta e níveis de raiva absurdamente altos, de repente parou de gritar e jogar objetos em todos na casa, pelas mais simples razões.
Por três meses, ele respirou fundo e saiu da sala ao invés de berrar até que as veias de seu pescoço saltassem e explodisse em lágrimas assustadas. Nenhum dos vasos ou pratos foram quebrados em discussões, nenhum membro da família foi humilhado por palavras cruéis e nem um pouco apropriadas para crianças. Houve uma esquisita e nada habitual calmaria, que planou sobre eles como a névoa de uma ilusão que ela não conseguiu engolir.
Graças a isso, por três meses, andou na ponta dos pés em um novo e estranho clima de paz que não fazia nenhum sentido. Ela sabia que algo estava acontecendo, a vida não mudava tão drasticamente assim, sem mais nem menos. Mas todos apenas se desviavam de suas perguntas quando as fazia, então aprendeu a manter a boca fechada e esperou o tempo passar, com uma estranha sombra em seu peito, que sussurrava que aquilo não era duradouro.
A estranha sombra estava certa. Em algum momento, algo dentro da barreira de autocontrole de seu pai se rachou. Mais velha, avaliou a situação como o acúmulo dos meses em que ele não foi capaz de extravasar sua fúria na própria família, acumulando-a dentro de si até que não conseguisse mais aguentar.
Mas, naquela época, parecia fruto apenas de uma panela derrubada no chão.
e a mãe dela eram as encarregadas de todas as tarefas domésticas da casa, o que significava que era a encarregada de todas as tarefas domésticas da casa. Enquanto Alexandra fazia as unhas e falava com as amigas ao telefone, sua filha fazia faxina e cozinhava sozinha para toda a família.
Caleb tentava ajudá-la sempre que podia, lavando roupas ou a louça escondido, mas era constantemente repreendido pelo pai, que lhe dizia que aquilo não era tarefa de homem. Era mais fácil na época que Brandon ainda morava com eles, pois ele, sendo o mais velho, sempre bateu de frente com o patriarca da família. Com Daniel era a mesma coisa, mas não culpava Caleb por não se impor. Ele era apenas dois anos mais velho do que ela, não sete como Daniel ou dez como Brandon. Ela não poderia culpar um garoto de quatorze anos por não conseguir discutir com o pai, que tinha um histórico de violência com anos de duração.
Foi em um jantar, enquanto carregava a panela de molho quente até a mesa. O objeto estava muito pesado para seus braços, que tremiam pelo esforço e, em algum momento, o pano que a protegia escorregou e a lateral que sua mão tocou na borda do metal quente.
agiu por instinto. Ela gritou de dor, derrubando a panela no chão. O molho vazou por todo lado, voando pelas paredes e atingindo o pai dela nas calças.
Ninguém nunca o viu tão furioso.
Ele a chamou de todos os nomes que a muito tempo não ouvia. Putinha miserável, como ela pode ser tão burra? A cabeça dela era oca de tão sem cérebro que era. Maldita imbecil, ele sabia que ter mais um filho era uma péssima ideia. Ele nunca quis uma menina. Elas eram todas estúpidas como ela.
Caleb se levantou da mesa, gritando para que ele parasse, tentando entrar no meio da briga, mas sendo impedido pela mãe deles. Seu pai a agarrou pela nuca, com tanta força que gritou de dor novamente e a arrastou quase pelos cabelos até seu quarto, jogando-a com força para dentro e batendo a porta com tanta brutalidade que a madeira quase rachou.
Ela ficou no próprio quarto por horas, chorando contra o colchão até desmaiar de cansaço. Agulhas pontiagudas pareciam estar sendo cravadas atrás de seu pescoço, que permaneceu com a pele quente e inchada pela agressão. Não foi nada além do que já tivesse vivido ao longo dos anos com seu pai, mas isso não impediu seu coração de doer tanto que parecia estar se desfazendo em pó.
acordou algumas horas depois, no meio da noite, com a porta de seu quarto se abrindo levemente.
? – chamou Caleb baixinho, fechando a porta atrás de si e indo até a cama dela. – Você está bem? Desculpe não vir antes, papai só foi dormir agora.
Ela fungou, sentindo os braços dele a circularam. Chorou em seu ombro, sentindo-o acariciar seus cabelos enquanto tentava acalmá-la. Eles eram os mais próximos, graças a sua curta distância de idade e Caleb sempre tinha os melhores abraços de conforto.
– Vai ficar tudo bem, – sussurrou ele, enquanto dava-lhe um beijo na testa. – Eu falei com Brandon, ele está vindo nos buscar.
– O quê? – exclamou com a garganta arranhada. Ela se afastou levemente e Caleb secou suas lágrimas com os polegares.
– Brandon está tentando conseguir a nossa guarda há alguns meses – explicou e o queixo dela caiu de surpresa. – Eu venho tentando conseguir alguma prova de como o papai e a mamãe nos tratam, mas eles começaram a fingir que eram pessoas legais para que não saíssemos de casa. Consegui gravar o surto do papai hoje no jantar e enviei para Brandon. Ele nos mandou fazer as malas, disse que está vindo nos buscar agora messmo.
Não houve tempo para pensar. Em um estado de estupor, observou Caleb fazer suas malas com tudo de mais importante que possuía.
– Iremos recuperar o resto depois – ele disse, enquanto enfiava as blusas novas que a mãe deles lhe dera em uma mochila. – Quando estivermos seguros.
Era triste pensar que eles não estava seguros ali. As palavras dele, apesar de terem um tom reconfortante, trouxeram novas lágrimas aos olhos de . Não querendo preocupá-lo ainda mais, ela fingiu não estar chorando tanto que sua cabeça parecia prestes a explodir.
Trinta minutos depois, e Caleb saíram de fininho pela porta da frente, entrando correndo no carro de seu irmão mais velho. Daniel abraçou com força durante todo o caminho até o apartamento onde viviam e Brandon enviou uma mensagem para o pai deles mostrando as provas de abuso que possuía, enquanto afirmava que iria entrar na justiça pela guarda deles.
– Vai ficar tudo bem, – Daniel murmurou repetidamente em seu ouvido, enquanto a embalava em seu peito. – Nada nunca mais vai machucar você, eu prometo. Nunca mais vamos permitir que algo aconteça. Farei de tudo para que você fique segura.
Depois desse dia, ela nunca mais voltou a morar com os pais.

Capítulo 1 - ÀS QUARTAS USAMOS MINISSAIAS


ATUALMENTE

Havia muitas verdades universais e incontestáveis no mundo.
Algumas pessoas diriam que uma delas seria o fato de que o céu era azul. Outras que a água do mar era salgada. A terra era redonda e girava em torno do sol. A morte era inevitável. Lilás era o melhor tom de roxo.
A verdade que escolheria era que amava seus irmãos com todas as forças de seu ser.
(apesar de concordar profunda e plenamente com a questão do lilás).
Ela era grata todos os dias pela presença dos três em sua vida. Eles eram amorosos, engraçados e sempre estavam lá caso precisasse de um ombro para chorar (o que, levando-a em consideração, era quase constantemente). Além disso, eles a amavam incondicionalmente e praticamente salvaram a vida dela tantos anos atrás. Não os trocaria por nada neste mundo. Nem ao menos sabia onde estaria naquele momento se não fosse por eles.
Mas mesmo com toda essa verdade, mesmo com todo esse amor... Havia momentos, momentos como naquela manhã, que simplesmente desejava que os três desaparecessem da face da terra por um dia, um mês, um ano, apenas para que ela pudesse viver sem conflito pelo tempo que fosse.
Apenas. Por. Um. Maldito. Momento. De. Paz.
– Eu só estou dizendo que não acho sua saia apropriada – argumentou Caleb pela quinta vez em dez minutos. o respondeu apenas revirando os olhos e continuou tomando seu café da manhã como se ele fosse uma mosca irritante. A mesma ladainha de sempre.
Sua saia é muito curta , bla blá blá, seria melhor que você usasse algo mais apropriado, bla blá blá, você não pode fingir para sempre que não está me ouvindo, estou literalmente do seu lado, blá blá blá...
Ela ainda nem havia puxado a saia mais para cima, como costumava fazer quando finalmente estava longe dos olhos deles. Seu irmão estava reclamando de barriga cheia, apesar de não saber.
– E eu só estou dizendo que você pode achar o que quiser – devolveu, vendo-o franzir as sobrancelhas para ela. – Minha roupa está ótima e ainda está dentro do código de vestimenta do colégio.
– Não sei como... – murmurou ele enquanto enchia a boca de panquecas. o chutou por debaixo da mesa, fazendo-o engasgar e lhe lançar um olhar sujo.
– Toda a manhã você me enche o saco com isso – resmungou, cruzando os braços. – Você nunca vai me deixar em paz? Não tem nada melhor para fazer? E pare de falar com a boca cheia.
– Talvez eu fale isso todas as manhãs porque você usa saias curtas todas as manhãs – disse Caleb como se a resposta fosse óbvia. Ela torceu o nariz para a comida em sua boca. – E eu sou seu irmão. Só estou cuidando de você!
bufou e se levantou, levando seu prato vazio até a pia onde Brandon lavava a louça. Eles se encararam por um segundo, mas ela sabia que não encontraria muito apoio ali. O mais velho de seus irmãos poderia não ser tão vocal sobre suas roupas, mas sabia que ele também não era o maior fã do comprimento de suas saias.
– É sério! – chorou Caleb, afundando os dedos levemente em seus cabelos crespos e bagunçados pelo sono. Ela geralmente se ofereceria para trançá-los para o dia seguinte no estilo nagô que ele gostava, mas estava brava demais no momento. Ele que se virasse. – Só quero evitar que algum garoto mexa com você.
– Se um garoto for mexer comigo ele vai fazer isso de qualquer jeito. Não importa a roupa que eu estiver usando – argumentou ainda com os braços cruzados. – Em que século você vive? Use seu cérebro, Caleb, bem-vindo ao século XXI.
Brandon sufocou uma risada e Caleb jogou um guardanapo amassado em , que apenas riu dele e revirou os olhos novamente.
– Me prometa então que se alguém vier dar em cima de você pelo menos vai nos contar – disse ele recostando-se na cadeira. – Assim nós podemos dar um susto nele e-Ei!
Uma mão de palma aberta o acertou na lateral da cabeça com um tapa.
– Parem de discutir – Daniel murmurou roucamente, passando por eles e indo até a cafeteira. Seus cabelos crespos cortados em um black undercut estavam perfeitamente alinhados. – São sete e meia da manhã, pelo amor de Deus.
– Só estou dizendo o que você sempre diz, seu hipócrita – zombou Caleb, antes de se encolher e fugir de outro tapa que ele lhe tentou dar.
– Deixe de ser mentiroso, você não me vê perdendo o sono como você por causa das roupas que usa – disse Daniel. sorriu vitoriosa.
- Há! – zombou alegremente para Caleb, que mostrou o dedo do meio para ela em resposta. Daniel deu um gole lento em seu café, suspirando de prazer.
– O que eu a proíbo é de namorar – completou. – Contanto que ela permaneça solteira até os quarenta anos, pode usar o que quiser.
bufou de desgosto enquanto ouvia Caleb rir. Brandon não disse nada, mas ela pode ver que ele sorria de forma paternalista. Diferente dos irmãos, ele preferia manter os cabelos muito curtos ou raspados.
– O que te faz melhor onde exatamente, posso saber? – questionou revoltada, colocando as mãos na cintura. Daniel riu, aproximando-se e passando um braço por seus ombros.
, eu apenas acho que você é muito nova para essas coisas...
– Caleb é apenas dois anos mais velho e ele namora por ai há muito tempo! – argumentou.
– ...E todos os homens da sua idade são pequenos idiotas que só pensam com a cabeça de baixo e não respeitam as mulheres. – Daniel deu mais um gole em seu café e apontou para Caleb, abaixando a voz e fingindo descrição. – Caleb inclusive, por isso não dou a mínima para ele.
– Ei! Isso não é verdade! – defendeu-se Caleb enquanto continuava revirando os olhos. Ela acabaria tendo câimbra nas retinas se continuassem com aquela conversa. – Eu nunca desrespeitei nenhuma garota com quem eu saí.
Um bufo indignado saiu de seus lábios.
– Defina “desrespeito” – zombou ela, quase sendo acertada por outro guardanapo amassado.
– Que bom, se não iriamos acabar com a sua raça – respondeu Daniel, ignorando a briga dos dois. – Nós temos que dar o exemplo em casa, para que , em um futuro muito, muito, muito distante, arrume um cara como nós.
arregalou os olhos e soltou uma exclamação horrorizada.
– Deus me livre! – gritou, afastando-se de Daniel como se levasse um choque. Brandon gargalhou, enquanto secava as mãos em um pano de prato. – E ficar presa com alguém que me enche o saco pelo tamanho das minhas saias e quer saber cada passo que eu dou ao longo do dia? Nem morta! Prefiro morrer sozinha.
– Mas que ótima ideia! – brincou Daniel, rindo e terminando seu café. – Como não pensei nisso antes? Agora sim nós estamos na mesma página.
grunhiu, dando-lhe um tapa no braço. Ele fingiu estar ferido, enquanto Brandon suspirava.
– Chega dessa bobagem – disse, apesar de parecer estar se divertindo. Ele pegou as bolas de guardanapo espalhados no chão e os jogou em Caleb. – Pare de ficar desperdiçando isso. Além disso, não está na hora de ir? Você não quer se atrasar para sua aula, não é?
Caleb revirou os olhos e se levantou da mesa, suspirando pesadamente. sorriu com um leve sentimento de vingança, adorando vê-lo ter um gostinho do que era ser ela naquela família.
– Eu sei que tenho aula, não preciso que você me lembre todos os dias – grunhiu mal-humorado enquanto pegava as chaves de seu carro. – Ainda acho ridículo que você tenha decorado meus horários...
– Beleza então, Sr. Independente – zombou Daniel pegando o próprio casaco e chaves. – Vamos logo. Tem certeza de que não quer uma carona?
Ele deu um beijo na têmpora de enquanto Caleb reclamava.
– Eu tenho meu próprio carro! Não faz sentido você ter que me dar carona o tempo todo – disse, antes de dar um beijo na testa dela. Ela sorriu para os dois, usando a discussão deles para olhar discretamente para seu celular em cima da mesa.
Nada. Apenas a hora e a mensagem diária avisando que sua carona estava a caminho.
– Só não vejo sentido em você gastar gasolina todo dia sendo que a sua universidade fica a caminho do meu trabalho – explicou Daniel, sua voz se afastando enquanto andava pelo jardim.
Caleb gemeu profundamente de irritação e os dois saíram, ainda discutindo. A porta se fechou e a casa se encheu de silêncio. Ollie, o lindo Golden Retriever de Daniel, acordou de seu sono no carpete da sala há alguns metros e veio pedir carinho para , dentro da cozinha.
Ela acariciou suas orelhas enquanto ouvia Brandon rir e se aproximar de suas costas. Rapidamente, em um movimento tão familiar que era praticamente instintivo, guardou o celular no bolso da saia, tentando ser discreta.
– E a sua carona onde está? – ele questionou com um olhar censurador. – Você vai chegar tarde...
– Ela não está atrasada – devolveu com uma sobrancelha levantada. – E você sabe disso. Pare de tentar encontrar problemas para me fazer voltar a ir de carona com você.
Brandon deu seu melhor olhar inocente e ergueu as palmas das mãos.
– Não estou fazendo nada – disse, ambos sabendo que aquilo não era verdade. – Apenas fico apreensivo. Não faz tanto tempo desde que sua amiga tirou a habilitação. Talvez fosse melhor esperar alguns meses...
– Se dependesse de você, Brandon, eu andaria no seu carro até os cinquenta anos – alfinetou , colocando as mãos nos quadris. Ollie permaneceu no chão, abanando o rabo e olhando para os dois, esperando por mais carinho. – E nós dois sabemos que seu problema é quem dirige, não a quanto tempo está dirigindo.
Brandon cruzou os braços e encostou o ombro no batente da porta da cozinha, ocupando-a quase inteira. Ele tinha ombros largos como Daniel e havia puxado os genes da altura como , que era um pouco alta para os padrões das meninas de sua idade. Caleb era o mais franzino e baixinho, algo que ele absolutamente odiava.
Ela pegou sua mochila da cadeira onde tomou café-da-manhã e foi em direção a porta da frente, passando por ele.
– Não é que eu desgoste da sua amiga...
bufou e olhou para cima, pedindo paciência divina. Quase dezoito anos sendo a irmã dele e Brandon ainda achava que ela não o conhecia como a palma de sua mão.
– ...Eu apenas fico um pouco apreensivo com relação a... – Ele ficou um segundo de boca aberta, buscando as palavras certas. – ...Influência que ela pode ter sobre você.
Ela colocou as mãos nos quadris e cerrou os olhos, o censurando.
– Lisa tem as melhores notas da escola e é uma ótima amiga – argumentou. – Sua influência sobre mim é ótima.
– Ela tem a boca mais suja que a de um marinheiro e se mete em brigas – respondeu Brandon.
– Caleb também e eu não vejo você o censurando – rebateu com uma sobrancelha levantada. – Além disso, eu só a vi brigar de verdade uma vez.
– Oh, que alívio, agora sim não tem mais problema nenhum – zombou Brandon, levantando uma sobrancelha. – Ela se veste como se fosse quebrar vidraças de banco e desenhar pentagramas no chão.
– O que não significa que ela irá fazer isso – disse , fingindo não estar um pouco insegura. Ela meio que poderia imaginar a própria amiga fazendo alguma dessas coisas caso achasse que seria divertido.
– Ela provavelmente enche a cara, fuma e mata aula – terminou Brandon.
– Ela fazia isso, no passado, Brandon – argumentou , escondendo o fato que Lisa continuava fumando como uma chaminé. – Não achei que você fosse do tipo que não acreditasse em segundas chances.
Brandon bufou e sabia que foi algo bobo a se dizer. Se havia uma pessoa que não acreditava em mudanças e passava o resto da vida desconfiando de todo mundo, esse alguém era seu irmão mais velho.
Uma buzina soou do lado de fora da casa e sorriu vitoriosa, sabendo que sua carona não estava nem um minuto atrasada. Não parecia algo que Lisa faria, ser tão absurdamente pontual, mas tinha a sensação de que ela o fazia porque sabia que deixaria Brandon sem argumentos e adorava cada segundo.
Ele também deveria ter essa percepção, pois revirou os olhos e abandonou a discussão.
– Falando do diabo... – murmurou, enquanto , absurdamente sorridente, abriu a porta da frente.
– Bom dia! – acenou alegremente.
E Monalisa Coleman saiu de seu carro, sorrindo para ela com seus lábios pintados de preto carvão e acenando com sua mão coberta por uma luva de dedos abertos.
e Monalisa eram melhores amigas desde que se conheceram, no primeiro dia de aula do semestre anterior. Ambas eram alunas novas e perdidas e se juntaram graças a essa coincidência, descobrindo logo em seguida que possuíam muitas coisas em comum e se davam extremamente bem.
Qualquer um que as olhasse de fora provavelmente se perguntaria como diabos duas pessoas tão extremamente diferentes em aparência acabaram se tornando tão amigas. Mas, apesar dos estilos de roupa tão opostos, gostava de pensar que elas eram dois terços do melhor trio do mundo (que Julie, a outra melhor amiga delas, também fazia parte).
nunca tivera uma amiga gótica antes. O tipo de beleza que ela carregava era diferente de tudo que estava acostumada. Por toda a sua vida, aprendeu que a beleza deveria ser suave, colorida e feminina. Era assim que ela gostava de se vestir e assim que se sentia bonita: saias curtas, blusas de todas as cores e babados, acessórios brilhantes e adoráveis, maquiagem rosada e delicada.
Lisa era completamente o oposto. Ela era do tipo de beleza que te fazia questionar se você estava deslumbrado ou assustado. Como se fosse capaz de te pisar com suas enormes botas de motoqueiro e tudo que você poderia fazer depois era agradecer e perguntar o que mais poderia fazer por ela.
Mais da metade da escola a achava assustadora, Brandon a considerava má-companhia e Caleb dizia que não entendia como ela conseguia passar pelo código de vestimenta do colégio usando “calças que mais pareciam uma segunda pele de tão coladas”.
, por sua vez, a achava formidável.
– Bom dia, ! – gritou Monalisa, apoiando os quadris na lataria do carro e sorrindo como um gato. – E olá, Brandon.
Ele acenou e sorriu como se estivesse sendo forçado. O sorriso de Monalisa aumentou e sabia que ela adorava brincar com seu irmão, como um gato brincando com um rato. Apenas que, nesse caso, Brandon estava mais para um maldito jacaré do que um camundongo indefeso.
– Monalisa – Brandon cumprimentou, com um leve aceno de cabeça e sem dizer mais nada.
– Sempre tão simpático – brincou Monalisa de volta. – É por isso que eu adoro vir buscar , sabe? Essas nossas trocas fazem a minha manhã.
Brandon cerrou os olhos para ela e olhou para , escolhendo ignorar Monalisa como fazia todos os dias. fingiu não estar controlando uma risada.
– Nada de matar aula, fumar debaixo das arquibancadas ou namorar escondido – recitou ele, o discurso de todas as manhãs.
– Entendi, Brandon – suspirou , revirando os olhos. Blá blá blá...
– Se alguém mexer com você ou te oferecer algo ilícito você me liga – continuou. – E essa regra continua mesmo se a pessoa for Monalisa.
pode ouvir Lisa dar uma gargalhada de seu carro.
– Você sabe que isso não vai acontecer – gemeu fazendo beicinho. – Isso é mesmo necessário? Eu vou fazer dezoito anos em menos de dois meses...
– Preste atenção nas aulas e não se meta em encrencas. Se precisar de alguma coisa, me ligue – Brandon continuou, inabalável às suas reclamações. – E Caleb estava certo, sua saia está curta.
– Ah não, você também?! – ela exclamou cheia de ódio. Ele pareceu achar sua raiva engraçada.
– Apenas me prometa que elas vão permanecer assim ou mais para baixo, nada de puxá-las para cima – disse. usou o dedo para fazer um xis sobre o coração, com um sorriso doce nos lábios.
– Promessa de escoteira. – Uma promessa que ela não estava disposta a cumprir. – Posso ir agora? Assim vou me atrasar!
Brandon a olhou por um segundo e viu seus olhos suavizarem. Ele ergueu uma mão, puxando-a levemente pela nuca e deu-lhe um beijo amoroso e fraternal no topo de sua cabeça como fazia todos os dias.
– Eu te amo, princesinha – murmurou, dando-lhe um tapinha nos cabelos em seguida. – Te vejo mais tarde.
sorriu para ele e deu-lhe um último abraço.
– Eu te amo – murmurou. – Mesmo você sendo um mala.
Ele riu e a empurrou para fora da entrada da casa. correu até o carro e entrou, antes que outro sermão começasse.
– Tchauzinho, Brandon! – gritou Monalisa, que já havia sentado no banco do motorista. A voz dela abaixou de volume, embora seus lábios disfarçassem em um sorriso. – Deus, ele me odeia.
abafou uma risada e a empurrou levemente pelo ombro.
– Não odeia não – exclamou, antes de se virar para o banco de trás e sorrir. – Olá, Mike!
O irmão mais novo de Monalisa, de onze anos, sorriu abertamente e acenou para ela como fazia todas as manhãs. Ele era pequeno e magricela e possuía um interesse quase obsessivo em tudo que girava entorno do meio de ficção científica. Seu contraste com Lisa era quase tão maluco quanto o dela com , que achava isso extremamente divertido.
– Tenham um bom-dia! – Brandon gritou da porta.
– Nós teremos! – disse de volta, revirando os olhos e afivelando o cinto.
– E juízo! – tentou uma última vez. Monalisa voltou a parecer maliciosa.
– Isso já não podemos prometer! – brincou e viu os olhos de seu irmão cerrarem antes do carro começar a partir.
– Você também não me ajuda! – exclamou dando um tapa no braço dela. – Você sabe que isso só o deixa mal-humorado.
Ela riu brilhantemente enquanto dirigia.
– Ah fala sério, – respondeu sorridente. – Eu sei que seu irmão acha que vou te levar para o mal caminho e que um dia você vai aparecer em casa com a cabeça raspada e uma tatuagem no meio da testa. Pelo menos posso me divertir e irritá-lo um pouquinho.
revirou os olhos, mas sorriu levemente com carinho. Só faziam duas semanas que Monalisa estava sendo a carona dela para o colégio, mas era mil vezes melhor do que ir com Brandon, que repetia seu sermão a cada cinco minutos como se não o ouvisse há seis anos.
– E você, Mike? – chamou, virando-se para ele, que a olhou por cima de seu videogame portátil. – Como está a escola?
Ele encolheu os ombros, mas manteve os olhos nela. No começo, costumava ficar muito mais tímido ao seu redor, como qualquer criança perto dos amigos de seus irmãos, mas eles logo criaram uma leve relação de simpatia um pelo o outro. achava que o fato de o defender quando Monalisa pegava em seu pé também ajudou um pouco.
– Tudo certo – Mike respondeu. – Vamos receber as notas do meu teste de matemática hoje, mas não estou nervoso. É uma matéria fácil.
Nerd – caçoou Monalisa, gemendo a palavra profundamente como se lhe desse dor física. revirou os olhos com carinho, acostumada com essa troca entre eles e Mike mostrou a língua para a irmã, que o viu pelo espelho retrovisor e riu.
– Você também é nerd, suas notas são ótimas! – defendeu-se ele. Monalisa encolheu os ombros.
– Mas eu sou descolada – disse, como se fosse resposta suficiente.
– Eu acho você super descolado, Mike – sorriu .
– Obrigado! Você quer ser minha irmã mais velha? – perguntou ele, cruzando os braços. Monalisa soltou uma exclamação de horror fingida.
– Traição! – gritou, tirando uma das mãos no volante e beliscando as pernas de Michael no banco de trás. Ele riu, tentando fugir dela e os observou com alegria.
Aproveitando o momento de distração, tirou o celular do bolso e o checou novamente. Apenas o horário. Ela mordeu o lábio de desapontamento, mas logo sentiu que estava sendo boba. Ainda não eram nem mesmo oito horas da manhã.
sentiu um leve formigamento no pescoço e virou o rosto, vendo que Monalisa a encarava com um olhar malicioso. Tentando não corar, guardou o celular novamente e fingiu não ter sido pega no flagra.
– O quê? Só estou checando as horas – defendeu-se. Lisa apenas cantarolou em concordância, batucando os dedos no volante, mas sem tirar o sorriso de gato dos lábios.
resolveu ignorá-la, enquanto sentia as bochechas queimando. Mesmo que a observadora do trio fosse Julie, Monalisa podia ser muito esperta quando se tratava de ler as pessoas à sua volta.
Ela estacionou em frente ao colégio de Michael alguns minutos depois. Monalisa e não moravam perto uma da outra, mas a casa de ficava a uma distância mais curta da escola do irmão de Lisa, então sua amiga resolveu que iria começar a dar caronas para ela também.
tinha uma leve teoria de que ela o fazia porque sabia que ir de carona com Brandon era insuportável e isso só a fez amá-la ainda mais.
– Bem, chegamos – disse Lisa, enquanto Mike destravava seu cinto e saía do carro. Ele foi até a janela do motorista enquanto ajeitava a mochila nos ombros.
Monalisa, de repente, assumiu uma postura muito parecida com a de Brandon.
– Mate aula, use drogas e entre em brigas – disse ela e Michael e riram com gosto enquanto Lisa fingia estar séria. – Eu vou ficar muito desapontada se você se comportar direito hoje, rapazinho.
- Você é maluca da cabeça – ele respondeu, revirando os olhos, mas ainda sorrindo. – Eu vou contar para a minha mãe que você disse essas coisas.
Os olhos de Monalisa se arregalaram e ela colocou um braço para fora da janela, beliscando Mike na barriga.
– Se você fizer isso eu conto para ela que você anda passando do horário de dormir para ficar jogando – ameaçou sombriamente.
Dessa vez, foi Michael que pareceu aterrorizado.
– Como você sabe disso? – questionou em desespero. Lisa sorriu e olhou as próprias unhas. Diferente do esmalte impecável de , o dela estava aos pedaços.
– Eu tenho olhos em todos os lugares – disse, empurrando-o levemente em seguida. – Agora vai. O clube dos nerds precisa do seu líder.
Ele mostrou a língua para ela e acenou um adeus para , que acenou de volta. Afastou-se animadamente e Monalisa sorriu ao vê-lo ao longe.
– Eles crescem tão rápido – ela brincou, antes de ligar o rádio do carro, selecionar uma música em seu celular e aumentar o volume até o limite.
Uma música de heavy metal desconhecida explodiu nos alto-falantes e riu, cobrindo os ouvidos com as mãos como fazia todas as manhãs. Uma vez ela questionou Monalisa se não era muito cedo para ouvir canções que mais gritavam do que cantavam, mas ela disse que, se não conseguiria mais ter seu cigarro matinal, pelo menos poderia se divertir quebrando três leis estaduais diferentes sobre sonoridade no trânsito.
– Não conte a Julie – brincou daquela vez, dando-lhe uma piscadela que fez gargalhar. A amiga delas provavelmente teria um ataque de coceira se as visse se comportando assim atrás de um volante.
A viagem até o colégio delas durou apenas mais alguns minutos. Quando se deu por si, observava Monalisa estacionar, desligar a música e virar a chave do carro. Elas desceram e sua pele apreciou os raios da manhã, que viam sem impedimento no céu azul e sem nuvens. As duas foram em direção a porta de entrada e arrumou sua saia, puxando-a um pouco mais para cima das coxas e expondo mais as pernas com um sorriso vitorioso.
Depois de apenas alguns segundos na presença do corpo estudantil, Lisa riu.
– Você é realmente a miss simpatia – brincou baixinho, enquanto acenava simpaticamente para as pessoas que a cumprimentavam enquanto passavam.
– Não tenho culpa se todo mundo é tão legal – respondeu, sorrindo em seguida para alguns dos garotos do time de basquete. – Você também seria se sorrisse um pouco mais.
Monalisa fingiu estar ofendida.
– Eu tenho tantos amigos quanto preciso – defendeu-se. riu e cumprimentou uma das meninas de sua aula de história.
– Eu e Julie?
– O suficiente – afirmou Lisa. Ela parou por um momento, abrindo seu armário e tirando alguns livros de dentro. – E você se esqueceu de Ian.
– Você e Ian se beijam, não conta – brincou . O sorriso de Monalisa ficou malicioso.
– Oh, nós fazemos bem mais que isso... – murmurou. fingiu vomitar, rindo em seguida.
O primeiro sinal do dia soou, interrompendo suas brincadeiras. Monalisa arrumou a mochila preta sobre o ombro e a olhou com expectativa.
– Eu te vejo no almoço? – perguntou. concordou animadamente e elas se separaram. Ela caminhou levemente pelos corredores, acenando animadamente para todos que a cumprimentaram, até alcançar a sala em que sua aula de matemática aconteceria. Ao lado da porta, havia uma propaganda antifumo em formato de cartaz que a fez rir. Eles deveriam colar aquilo do lado das portas das aulas de Monalisa, não da dela.
Sentou-se na mesa que escolhera desde o começo do novo semestre, há um pouco mais de um mês, no começo de janeiro e esperou. Foi quando checava o celular novamente (nada), que uma voz conhecida a chamou.
– Bom dia, !
sorriu, guardando o aparelho no bolso e subindo os olhos para ver um sorriso de menino e cabelos cacheados compridos presos em um rabo de cavalo, cobertos por um boné vermelho.
– Bom dia, Adrien – sorriu animadamente, voltando-se em seguida para um outro par de olhos castanhos e cabelos crespos como os dela. – E bom dia, Joshua.
Adrien Rodriguez era uma nova amizade que havia adquirido desde o começo do ano. Ela o conhecera muitos meses atrás, no primeiro dia de aula de setembro do ano anterior, mas, apesar de achá-lo absurdamente divertido, não teve a real chance de criar laços com ele até que dividissem aulas juntos.
Adrien era o tipo de menino que fazia rir tanto que ela sentia dor nas costelas. Ele era muito bonito e charmoso, sempre flertando a torto e à direita com todos, mas seu bom-humor foi o que chamou a atenção dela desde o começo. Ele também era um ótimo amigo e tão popular quanto os meninos do time de futebol, apesar de sua popularidade vir das incríveis festas que sediava em sua casa e não de suas habilidades esportivas.
Além disso, ele era vizinho de Julie e os dois viviam brigando como cão e gato. tinha certeza de que Adrien tinha uma pequena paixão por sua amiga séria e tímida (mesmo que ele negasse isso com todas as suas forças).
Josh, por sua vez, veio para a vida dela quase como um brinde. Ele e Adrien eram melhores amigos desde pequenos e ela foi apresentada a ele assim que começaram a dividir aulas. Joshua também tinha o estilo de roupa skatista como o amigo, com as blusas e calças largas caindo nos quadris e era tão charmoso e engraçado quanto Adrien.
As manhãs eram muito divertidas às quartas-feiras, quando começava o dia na presença deles.
– Ora, bom dia, minha musa – Josh sorriu, dando-lhe sua piscadela diária. – Você está linda esta manhã.
– É um talento que eu tenho – brincou de volta, enquanto eles sorriam e se sentavam à frente dela, lado a lado. – Você também está muito elegante.
Ele passou os dedos por sua camiseta duas vezes maior que seu tamanho, depois para a calça jeans surrada e sorriu de forma paqueradora.
– O Dia dos Namorados é semana que vem, , você tem planos? – questionou, movendo as sobrancelhas para cima e para baixo como se fosse um personagem de desenho.
riu com gosto, já tendo ouvido aquela conversa antes.
– Não, por enquanto não tenho plano algum – respondeu, não conseguindo impedir os próprios pensamentos de irem em direção à certos olhos escuros que a perseguiam deliciosamente.
– Você ainda tem três irmãos enormes e assustadores? – questionou Josh. acenou com a cabeça. – Uh, querida, então acho que nosso romance terá que esperar.
– E o que será de mim sem você? – ela fingiu chorar, piscando os cílios. Adrien bufou.
– Uma mulher com paz de espírito, com certeza – zombou e Josh o socou no ombro enquanto ria.
– E você, Adrien, nenhum encontro para o Dia dos Namorados? – perguntou inocentemente. Ele encolheu os ombros.
– Nah, não planejei nada – respondeu. – Por quê?
bateu os cílios novamente.
– Bem, como Monalisa vai estar com Ian, eu e Julie estávamos pensando em ir comer alguma coisa fora. – A voz dela era inocente, mas seu sorriso não. – Quer vir?
Adrien encolheu os ombros, mas sua pele negra-clara não conseguiu disfarçar o salpicar vermelho em suas bochechas.
– Sei lá, pode ser – ele respondeu descontraidamente. – Se eu continuar sem nenhum plano eu te aviso.
e Josh trocaram olhares conspiratórios. Ele também acreditava que Adrien tinha sentimentos por Julie, mas era cego ou burro demais para notar.
A professora deles, Sra. Allen, escolheu aquele momento para aparecer. O barulho da sala se apagou rapidamente e ela os cumprimentou como fazia todas as manhãs.
– Bem, hoje eu irei reservar algum tempo para que vocês resolvam os exercícios desta lista – ela disse, distribuindo os papéis pela turma. – Isso será realizado em duplas, de preferência com pessoas que vocês geralmente não trabalham.
– Oh! – exclamou Adrien, virando para Josh como se não o conhecesse. – E aí, cara, beleza? Eu sou Adrien.
– É um prazer conhecê-lo, Adrien, eu sou Josh – respondeu ele, apertando-lhe a mão.
conseguiu rir deles, apesar de sentir um frio no estômago. Ela ia razoavelmente bem em matemática, mas buscava melhorar suas notas o máximo possível agora que estava na reta final para se candidatar às faculdades. Uma ansiedade enorme costumava crescer em seu peito sempre que pensava em pedir ajuda às pessoas das quais não era próxima.
A voz de seu pai surgiu em sua mente como uma assombração, se aproveitando da brecha que surgiu em sua autoconfiança quase inabalável.
Você é burra para caralho, não tem nada nessa sua cabecinha além de besteiras.
– Muito engraçado, Sr. Rodriguez – disse a Sra. Allen parecendo tentar não sorrir. – Mas você e o Sr. Johnson não me enganam. Podem ir se separando.
O aperto de insegurança no peito de se aliviou um pouco quando a turma se moveu e Catherine Peterson se sentou ao lado dela. As duas não eram muito próximas, além de dividirem algumas aulas, mas ela era uma garota gentil e prestativa, então sentiu-se mais confortável em compartilhar suas inseguranças acadêmicas com ela.
– Olá, ! – cumprimentou Catherine timidamente, colocando uma de suas tranças pretas para trás de sua orelha.
– Bom dia – sorriu , descendo os olhos para a linda saia hippie que a colega usava. – Gostei da sua saia.
– Oh! – exclamou Catherine um pouco surpresa, sorrindo timidamente em seguida. – Obrigada. Eu gosto muito da sua blusa. Você fica muito bonita nela.
sorriu abertamente, olhando para a pequena blusa azul-bebê com um arco-íris estampado no centro. Era uma de suas preferidas e o elogio foi bem-vindo.
As duas trabalharam juntas pelos próximos minutos, respondendo cada um dos exercícios. ficou feliz ao ver que foi capaz de encontrar a resposta para muitos deles, pedindo a ajuda de Catherine apenas nos mais complexos. Ela sempre foi uma aluna média nas exatas, preferindo tudo referente às artes, mas estava estudando muito desde o final do semestre anterior para melhorar suas notas.
Quando elas terminaram, Catherine se distraiu com as palhaçadas de Josh e Adrien, que pareciam estar em uma competição para ver quem conseguia equilibrar um lápis sobre o nariz por mais tempo. tirou aquele momento de distração para olhar seu celular e torceu os lábios ao ver que nada havia mudado.
Ela estava sendo boba, é claro. Não era incomum que suas respostas demorassem para aparecer, principalmente com a diferença de horários que tinham. Mas depois do que aconteceu há alguns dias, não podia impedir a si mesma de se sentir um pouco preocupada...
– Srta. ?
tirou os olhos de seu celular com um susto, encarando o rosto de sua professora. Uma das sobrancelhas da Sra. Allen estava levantada em reprovação, como se não fosse a primeira vez que a chamasse.
– A resposta da segunda questão, Srta. ? – perguntou ela e desceu os olhos para o caderno à sua frente.
– Duzentos e dezesseis... ? – respondeu, mais como uma pergunta do que como uma resposta. A Sra. Allen acenou, mostrando que estava correta, mas olhou com reprovação para onde sabia que o celular de estava escondido.
Ela questionou a resposta das próximas questões para outros alunos e suspirou aliviada. Com uma última olhada, jogou o celular dentro de sua mochila e obrigou a si mesma a ignorá-lo pelo resto da aula.
🤸🏾‍♀‍💕🏍️

O resto da manhã seguiu o ritmo de sempre. vagou de uma aula para outra, conversando com todos que se sentavam perto dela e fingindo não estar checando o celular sempre que tinha chance.
Quando o horário de almoço chegou, ela finalmente foi capaz de reencontrar as amigas que, infelizmente, não compartilhavam nenhuma aula com ela. Como ainda não era sexta-feira, pode almoçar com elas, sem precisar cumprir seu compromisso de se sentar com o resto da equipe de torcida.
– Finalmente – brincou Monalisa quando se aproximou, torcendo o nariz para a intragável opção vegetariana do refeitório. – Achei que tinha se esquecido de nós.
– Nunca – respondeu , sentando-se à frente delas. – Eu apenas acabei conversando muito tempo com Emily no corredor.
– Não se preocupe, , Lisa está sendo boba – disse Julie e sorriu para ela.
Se Monalisa e já eram uma dupla esquisita, Julie se encaixava para transformá-las no trio mais bizarro de todos. Diferente de Lisa, que usava botas de motoqueiro e colares com espinhos e de , que adorava tudo que era felpudo, colorido e brilhante, Julie seguia o estilo de roupas mais conservadora.
Ela geralmente preferia usar saias até um pouco acima dos joelhos, meias-calças e suéteres de cores neutras e avermelhadas. Combinava com sua personalidade, astuta, mas silenciosa, reservada e sem necessidade de chamar atenção. Tudo isso combinando com uma pele sardenta apenas levemente escura, cabelos lisos e compridos e óculos de aros cor-de-rosa e pronto, você tinha uma perfeita Julie Filmore.
– Onde está Ian? – questionou enquanto abria o almoço que preferira trazer de casa.
– O teste vocacional dele é hoje – explicou Monalisa. – Ele vai se atrasar.
Ela disse isso enquanto mexia com carinho no pequeno colar que o namorado lhe dera no Natal e sorriu. Era uma elegante corrente de prata, com um delicado pingente: uma mão, com o dedinho, o indicador e o dedão levantados, enquanto o dedo do meio e o anular estavam abaixados. Monalisa explicou para ela que aquela era a posição de mão que significava “eu amo você” em língua de sinais e achou aquilo tão romântico que ela chorou por quinze minutos sem parar.
Elas continuaram conversando por alguns minutos, reclamando dos enormes projetos que tinham que fazer para entregar em poucas semanas. Tanto Monalisa quanto Julie faziam parte das turmas honorárias, classes avançadas que apenas alunos muito acima da média participavam. , as vezes, sentia-se um pouco fora da conversa por causa disso, mas logo afastava os próprios pensamentos. Elas sempre faziam a questão de incluí-la.
– Ah é, esqueci de perguntar a vocês – disse Lisa de repente, enquanto engolia algumas mordidas de seu sanduíche. – Vocês estão livres depois de amanhã? Queria comprar algumas coisas para o meu aniversário na semana que vem.
Julie acenou animadamente, mas gemeu de tristeza.
– Não posso, eu tenho treino – disse fazendo beicinho. – Não tem como irmos amanhã?
– Não rola, eu tenho terapia com o meu pai – explicou Monalisa parecendo triste por ela não poder participar. – Mas não se preocupe, . Vou comprar muita purpurina e enfeites brilhantes em sua homenagem.
sorriu, sentindo-se um pouco melhor e a obrigou a enviar-lhe fotos para que ela pudesse aprovar as compras antes de tudo ser finalizado.
– Ainda não acredito que seu pai concordou em deixar você dar uma festa – comentou Julie. Monalisa encolheu os ombros.
– Ele está tentando compensar os últimos anos, eu acho – explicou Lisa suavemente. – Não estou reclamando. Michael vai dormir na casa de um amigo e meu pai e minha madrasta vão ficar fora até de madrugada. Eu só precisei prometer que a casa não seria destruída. Além disso, não é como se viessem muitas pessoas de qualquer jeito. Não sou a miss simpatia aqui.
Ela piscou para , que lhe mostrou a língua de brincadeira. Quando chegasse a vez dela de fazer uma festa de aniversário de dezoito anos, o condado inteiro seria convidado.
Monalisa encarou um ponto atrás de e seus olhos, de repente, ficaram suaves e brilhantes. Com um sorriso no rosto, ela não precisou se virar para saber quem estava se aproximando.
Ian Harrington era tudo de bom em um garoto só. Ele era educado, gentil e muito amigável com todos, mesmo com sua clara timidez. Apesar de possuir uma áurea tranquila e quieta como Julie, ele era extremamente simpático com quem o abordava. Para completar o pacote, Ian era tão bonito que conseguia ouvir os pescoços dos colegas ao redor virando-se para dar uma melhor olhada nele.
– Olha só como ele vem – brincou Monalisa, muito mais suave do que há dez segundos atrás. – Finalmente resolveu aparecer, bonitão?
Ian sorriu para ela com seu sorriso de um milhão de dólares e deu-lhe um beijo casto na bochecha antes de se sentar ao lado dela. Lisa não era uma grande fã de demonstrações públicas de afeto, então eles geralmente não era muito romanticamente abertos pelo colégio.
Ele respondeu a brincadeira dela falando pela língua de sinais. não sabia muito sobre o passado dele (não era da sua conta, afinal), além do suficiente: ele sofrera um acidente aos quatorze anos que danificou suas cordas vocais para sempre. Desde então, Ian não falava de forma vocalizada e sim através de ASL, a Língua Americana de Sinais.
Monalisa riu do que o namorado dissera e desejou entender os sinais como ela. Não era fluente – longe disso, na verdade –, mas desde que Ian passou a se relacionar com a amiga delas, e Julie buscaram aprender a língua para conseguirem se comunicar com ele propriamente. Tudo que sabia até agora, contudo, era muito básico.
– Bom dia – sinalizou Ian e e Julie sorriram para ele.
– Bom dia, Ian – respondeu Julie. – Foi tudo certo no teste vocacional?
Ele acenou sorridente e passou a sinalizar devagar e com os lábios em movimento, para que elas pudessem tentar acompanhá-lo. Monalisa ficou atenta, traduzindo qualquer sinal que as amigas não compreendessem e tirou aquele segundo para apreciar o casal que os dois eram.
Ian possuía a aparência completamente oposta de Monalisa, como todos da vida dela pareciam ter. Diferente da namorada gótica, Ian se vestia do que Monalisa gostava de chamar como “um filhotinho de empresário”. Graças a sua mãe controladora, ele usava constantemente camisas e calças sociais ridiculamente bem passadas, além de sapatos caríssimos e cabelos tão bem-penteados que nenhum fio estava fora do lugar.
Ele não era o tipo de garoto com quem imaginaria Monalisa em um primeiro momento. O estilo dela parecia se encaixar com outros tipos, com meninos fumantes como ela, usando jaquetas pretas, botas pesadas, dirigindo motos... Com lindos cabelos escuros e olhos quentes... E um sorriso matador como... Bem...
– Ei!
Dedos estalaram na frente de seus olhos, tirando para fora de seus devaneios. Ela notou que as próprias bochechas estavam quentes.
, você está ouvindo? – questionou Monalisa com olhos espertos.
– Desculpe, me distraí – murmurou em resposta, tentando não ser óbvia. – Estava pensando em... Hã... Na aula de artes que temos hoje à tarde. A Srta. Garcia disse que ia falar sobre o nosso projeto principal hoje, não é Ian?
Ele acenou em concordância, com um sorriso suave. Monalisa a encarou como se pudesse ver através dela, mas não disse nada, mudando de assunto em seguida.
O resto do almoço passou, com checando seu celular apenas mais duas vezes. Quando o sinal tocou, ela se levantou no mesmo segundo que Adrien apareceu, jogando um iogurte de morango fechado pelos ares, na direção de Julie.
– Ei, Filmore, pensa rápido!
Julie não foi ágil o suficiente. O pote de iogurte a acertou diretamente na testa, antes de cair em suas mãos, milagrosamente ainda fechado. Ela piscou rapidamente com uma careta muito desgostosa no rosto e trocou olhares com Josh, que se aproximava também, tentando não sorrir. Ao seu lado, ela pode ouvir Monalisa murmurar:
– Meu Deus, que idiota...
– Por que você sempre joga a sua sobremesa em mim? – questionou Julie, irritada e com as sobrancelhas franzidas. Sua postura sempre composta tinha uma pequena vulnerabilidade: o simples fato de Adrien estar respirando.
– Porque sempre sobra e eu tenho que largar em algum lugar – respondeu Adrien com um dar de ombros. Os olhos de Julie semicerraram.
– Não sou uma lata de lixo, sabia? Se quer se livrar da sua comida é só jogar lá fora, na saída – rosnou. Adrien fingiu uma expressão horrorizada.
– E desperdiçar comida? Meu Deus, Filmore! – ele riu, divertindo-se. – Não foi você que fez parte daquele projeto de reciclagem na quinta série? Que decepção!
As bochechas de Julie ficaram escuras pelo rubor e bufou uma risadinha.
– Você é um idiota – sua amiga murmurou, levantando-se e arrumando a mochila sobre o ombro. – Se não quer desperdiçar comida então pare de pegar mais de um iogurte toda maldita vez. Você só come um, para que pegar outro?
– Porque o mundo é uma batalha e essa merda acaba rápido – defendeu-se Adrien como se a resposta fosse óbvia. – Prefiro que sobre do que falte. Além do mais, tenho você como minha lixeira pessoal, então por que parar?
Ele ergueu a mão para apertar a bochecha dela e Julie bateu em sua mão, bufando e afastando-se furiosa. Ela não largou o iogurte.
Adrien a observou se afastar por alguns segundos.
– A amiga de vocês é muito mal-humorada – brincou ele com um sorriso travesso. Monalisa levantou as sobrancelhas.
– Só quando você está por perto – zombou com um sorriso malvado. – Que coincidência, não?
Ele mostrou o dedo do meio em resposta, antes de se afastar com Josh. os seguiu e Monalisa e Ian se despediram nas portas da cafeteira.
– Eu te vejo depois – sussurrou Lisa carinhosamente, plantando em seguida um beijo casto e demorado no canto da boca de Ian. Ele sorriu tão carinhosamente para ela que quase suspirou de emoção. Ela era uma romântica incurável.
– E você vai ficar bem? – questionou Monalisa. – Eu sei que você odeia ir de carona com seus irmãos.
– Está tudo bem – respondeu enquanto encolhia os ombros. – Não quero que você tenha que ficar esperando minha aula acabar. Daniel pode me buscar de qualquer maneira.
Monalisa foi embora com um último aceno e e Ian seguiram lado a lado para a aula de artes que compartilhavam desde o semestre anterior.
Se muitas pessoas acenavam na direção dela antes, com Ian ao seu lado o número parecia ter triplicado. gostava de pensar que havia muitas maneiras de uma pessoa ser popular: poderia ser como ela e o resto das meninas da torcida, populares por fazerem parte de um determinado grupo. Poderia ser como Adrien, popular por fazer todos rirem e dar as melhores festas do corpo estudantil.
Ou poderia ser como Ian, popular pelo simples fato de que não havia uma pessoa que não caísse em seu charme como insetos em uma armadilha de luz.
riu enquanto o observava acenar simpaticamente para a terceira pessoa em vinte segundos. Ele olhou para ela com um sorriso tímido e um encolher de ombros, como se não soubesse o que fizera para merecer aquela atenção.
Logo, eles chegaram até sua aula de artes e sentaram-se lado a lado, arrumando seus materiais. O intérprete de Ian também apareceu, acenando para eles e sentando-se perto como todas as semanas.
Quando a Srta. Garcia apareceu, estava com os dedos esticados para tirar seu celular da mochila.
– Bem, como eu havia dito para vocês no começo do semestre, gostaria de fazer algo diferente para seu projeto principal – sorriu a professora, quando todos se acalmaram para ouvi-la. – Todos nós ficamos familiarizados com desenhos, pinturas e confecções, por isso decidi que seguiríamos um novo ramo artístico dessa vez: a fotografia.
Ian e trocaram olhares nervosos, mas animados. Ele era um pintor e ela gostava da arte de confeccionar roupas e bijuterias. Fotografar era novo para ambos.
– A ideia é que vocês usem o que puderem. Câmeras profissionais, polaroides, o próprio celular de vocês, não importa. O que gostaria que vocês fizessem é uma coletânea de fotos que, para vocês, mostrem coisas fora da normalidade. Pessoas, eventos, paisagens que não sejam comuns, que fujam do rotineiro de vocês.
O resto da aula continuou sem maiores imprevistos. A mente de voou como fez ao longo da manhã e, quando percebeu, estava acenando um adeus para Ian e entrando no carro de Daniel.
– Quem era aquele garoto? – ele perguntou seriamente, com os olhos seguindo Ian até que ele entrasse na própria carona, como se quisesse derretê-lo com a força da mente.
revirou os olhos com força. Um dia eles realmente ainda a fariam estourar uma córnea ou então ela teria que começar a usar óculos. Anos revirando os olhos assim não deveria fazer bem para a sua visão.
– O namorado de Monalisa, idiota – murmurou e os ombros de Daniel relaxaram automaticamente.
– Ah é – sorriu, de repente mil vezes mais alegre. – Eu sempre esqueço que sua amiga vampira tem um namorado almofadinha. Que casal engraçado!
deu-lhe um soco no ombro e eles seguiram até a própria casa, conversando um pouco sobre como foram seus dias até ali. Enquanto Daniel tagarelava sobre uma moça bonita que acabara de ser contratada para trabalhar com sua equipe, o celular de vibrou.
Ela o tirou da mochila discretamente, distraída com sua história e sem pensar muito. Quando seus olhos caíram sobre o nome que ligava para seu telefone, contudo, não pode deixar de ofegar.
– Ai meu Deus! – gritou, antes de tampar a própria boca com a mão em desespero.
Daniel parou sua frase no meio e a olhou assustado. As bochechas dela estavam queimando e agradeceu a existência da melanina que escondia a maior parte de seu rubor.
– O quê?! – questionou preocupado. O celular, agora enfiado embaixo da coxa de , continuava a vibrar. – O que houve?!
Pensa rápido, pensa rápido, pensa rápido...
– Eu... Eu... Hã... – gaguejou, sentindo o rosto queimar. Oh não, agora não. Por que justa agora? Por que não cinco minutos antes ou cinco minutos depois?
Daniel a encarou, levantando uma sobrancelha como se ela tivesse duas cabeças no lugar de uma. Os olhos dele passaram a procurar por algo de errado e caíram para as pernas dela, onde o telefone se escondia.
Pensa, pensa, pensa, pensa, PENSA!
– Eu... – Uma ideia atravessou sua mente direto para sua boca. – Acabei de perceber que menstruei.
Silêncio.
O irmão dela a olhou pelo que pareceu uma eternidade, completamente sem palavras. sentiu o rosto inteiro pegar fogo enquanto rezava para que ele acreditasse em sua mentira improvisada. Ela foi, de repente, tomada por uma súbita vontade de abrir a porta do carro em movimento e pular para fora. Talvez morrer fosse melhor do que todo aquele constrangimento.
– ...Okay... – respondeu Daniel finalmente, voltando os olhos para a estrada. Ele parecia ridiculamente desconfortável, mas tentava forçar a si mesmo a ser maduro. – E... O que eu faço?
O celular ainda estava vibrando, mas sabia que não seria por muito tempo.
– Preciso que você chegue em casa o mais rápido que puder! – disse.
Daniel levou seu pedido a sério, provavelmente porque queria livrar-se dela e daquela situação tanto quanto ela. Em poucos minutos, eles estavam na rua da própria casa, vendo-a se aproximar e deixando muitas multas de limites de velocidade para trás.
O celular, infelizmente, havia parado de vibrar e quase fez um beicinho de decepção.
– Sabe, isso é bom... – murmurou Daniel, limpando a garganta em seguida. tirou o cinto antes mesmo do carro estacionar. – Menstruar é bom... Quer dizer, pelo menos você não está grávida, né...
bufou e agarrou sua mochila com raiva, saltando para fora do carro no momento que ele parou na calçada.
– Como se eu tivesse a chance de engravidar com você me empacando o tempo todo – murmurou para si mesma, correndo até a porta da frente com o celular preso no punho e entrando com brutalidade.
Brandon ainda não estava em casa, mas Caleb sim. Ele franziu as sobrancelhas e perguntou por que ela parecia com tanta pressa, mas o ignorou, correndo escada acima e se trancando rapidamente em seu quarto.
Com um suspiro de alívio, olhou para a tela de seu celular, observando a notificação de uma ligação perdida. O que deveria fazer agora? Ligar de volta? Mandar uma mensagem? Esperar? Ela iria enlouquecer.
Não precisou tomar uma decisão. Naquele momento, enquanto mordia as unhas de ansiedade, uma mensagem apareceu.
Posso te ligar de novo?”.
O coração de estourou em sua caixa torácica. Ela abafou um pequeno grito enquanto se jogava contra o colchão de sua cama, balançando os pés no ar.
Claro” respondeu com dedos trêmulos e uma nova ligação apareceu.
Ela respirou profundamente antes de atender.
– Alô?
– Bem, bom dia – respondeu uma voz masculina do outro lado, tão rouca que deliciosos arrepios desceram pelos braços de . Era como se ele tivesse acabado de acordar e a primeira coisa que pensou em fazer foi ligar para ela.
– Tecnicamente já é de tarde – riu baixinho. – Já passou das quinze horas.
Ela o ouviu rir e usou todo o autocontrole que possuía para não suspirar em voz alta.
– Para quem foi dormir as seis horas da manhã é bom dia – brincou ele de volta e sentiu a ansiedade, que a fizera ficar distraída durante todo dia, voltar.
– Foi tudo bem dessa vez? – questionou levemente apreensiva. – Depois da briga que você disse que aconteceu há alguns dias fiquei... Bem...
– Você está preocupada comigo? – ele perguntou e podia sentir o sorriso em sua voz. – Bem, não posso dizer que estou incomodado. É uma honra saber que estou na sua mente em algum momento do dia.
Mais para todos os momentos do dia...
– Pare de brincar comigo – flertou de voz, mordendo o lábio para conter o próprio sorriso. – Você passa a madrugada inteira trabalhando em um local propício a brigas. Qualquer um se preocuparia.
– Mas a ideia de que você está preocupada com meu bem-estar é o que me enche de alegria – a voz dele respondeu e sentiu o rosto inteiro queimar. – Não se preocupe comigo. O bar do meu padrasto é bem dirigido e os seguranças são treinados. As brigas não são comuns. E nós, pobres garçons, raramente acabamos sofrendo alguma coisa.
sentiu o aperto em seu peito se soltar e pode ouvi-lo se mexer entre os lençóis, do outro lado do telefone. Ela o imaginou deitado, com o rosto contra os travesseiros, os cabelos bagunçados e os olhos sonolentos...
Foi uma imagem deliciosa, mesmo que toda e qualquer racionalidade em seu cérebro gritasse que não deveria ser.
Péssima ideia, garota. Vocês são só amigos, lembra?!
– Fico feliz que você está bem – admitiu enquanto tentava controlar um sorriso. – E sobre todo o resto? Como está a Carolina do Norte?
Ele suspirou pesadamente do outro lado da linha.
– Como sempre – respondeu cansado. – Viver com meu padrasto e minha mãe não é um problema tão grande, mas não tenho laços por aqui além deles, então minha vida se resume em acordar, esperar dar o horário do meu turno, trabalhar, voltar para casa e dormir.
franziu as sobrancelhas de empatia por ele e se virou de barriga para cima, apreciando a maciez do próprio colchão. Ela se perguntou se o colchão dele seria tão macio quanto dela e ignorou a parte de si mesma que estava louca para descobrir.
– Pelo menos você está conseguindo guardar o dinheiro que queria – argumentou e teve quase certeza de que ele sorriu com suas palavras.
– Algo para recompensar todos esses meses longe – argumentou. – Nem posso acreditar que estou fora desde o Natal. Vai fazer dois meses daqui algumas semanas, dá para acreditar?
Parece uma vida..., uma parte traidora de seu cérebro sussurrou. Ela ignorou a si mesma mais uma vez. Há meses parecia que era tudo isso que era capaz de fazer, ignorar a si mesma.
– Você deve estar morrendo de saudades da sua irmã – sorriu com o coração cantando. Ela nunca a conhecera, mas apenas a imagem daquele homem cuidando de sua irmãzinha mais nova fazia-a suspirar deliciosamente.
– Você não faz ideia – ele riu do outro lado. – Acho que nunca ficamos tanto tempo separados. É uma pena que só conseguirei voltar no final do mês e não antes, para o aniversário de Monalisa.
Toda a expressão no rosto de ficou triste. Graças a Deus ele não conseguia vê-la agora. Seria constrangedor demais que soubesse o quanto ela estava decepcionada com isso.
– Sim, é uma pena... – respondeu, tentando fingir que aquela não era a pior notícia do mundo inteiro.
Ele riu do outro lado levemente e sentiu como se pudesse ver através dela. Ela odiava esse lado da própria personalidade, a incapacidade de esconder seus sentimentos. Ela era muito aberta. Suas emoções jorravam como uma cachoeira para qualquer um que quisesse ver. As vezes desejava ser o tipo de garota quieta e misteriosa, mas simplesmente não nasceu para isso.
Houve um outro suspiro do outro lado, mais prazeroso, como se ele estivesse se espreguiçando. As borboletas do estômago de acordaram e voaram descontroladas, principalmente quando ouviu o apelido que ele lhe dera sendo dito novamente por sua voz.
– Bem, mas chega falar de mim – disse do outro lado, com a voz de repente muito suave. – Me fale de você. Como foi seu dia, Lindinha?

Capítulo 2 - Os males dos cadernos de gatinho


COMEÇO DE SETEMBRO, CINCO MESES ATRÁS

AVISO DE GATILHO: rápido comentário gordofóbico.

Quando Brandon falou pela primeira vez sobre se mudar para a Flórida, não deu muita importância.
Desde o começo, quando todos finalmente saíram das garras de seus pais, ele sempre trazia a ideia de se mudarem para formarem novas lembranças, de preferência em um local há muitos horas de distância. Mas geralmente não era algo que ia para frente, comentários planando em suas cabeças como apenas uma ideia que realmente nunca se concretizaria, então todos apenas acenariam e sorririam, sabendo que continuariam na mesma cidadezinha na Virginia pelo resto de suas vidas.
As coisas mudaram quando Caleb se formou no ensino médio e foi aceito em uma faculdade em West Palm Beach. De repente, Brandon parecia realmente sério sobre a mudança e foi ficando cada vez mais firme em suas convicções. Ele até mesmo conversou com os chefes de seu trabalho sobre uma transferência, pegando-os todos desprevenidos.
– Você acredita que conseguiria o mesmo? – questionou à Daniel, em uma noite de jantar há alguns meses.
Ele encarou Brandon com a boca meio aberta e os olhos arregalados. e Caleb também ficaram totalmente sem palavras.
– Talvez...? – gaguejou Daniel, ainda em choque, com a comida em seu garfo caindo de volta no prato. Brandon acenou suavemente, parecendo satisfeito e voltou a comer como se não tivesse quase matado seus três irmãos mais novos do coração.
Não houve muito a ser discutido depois disso. Geralmente era assim quando Brandon colocava uma ideia na cabeça. Como o mais velho, ele se sentia responsável por todos eles de uma forma paternal que nunca tiveram, até mesmo com Daniel, que era apenas três anos mais jovem do que ele.
o amava com todo o coração e sabia que ele tinha as melhores das intenções, mas se ela tivesse que selecionar seus irmãos por ordem de teimosia, Brandon estaria em primeiro lugar. Depois que ele tomava uma decisão, principalmente uma que acreditava ser a mais correta para manter o resto da família segura e confortável, ninguém conseguiria fazê-lo mudar de ideia.
Ela sabia muito bem disso depois de tantos anos sob sua tutela. Para o azar dele, contudo, também nasceu com o gene da teimosia e era comum que não o deixasse em paz até que cedesse seu controle.
(não que acontecesse com muita frequência, mas não importava. Ela não era de desistir. Principalmente quando se sentia injustiçada, o que era basicamente o tempo todo dentro daquela casa, quando Caleb implicava com suas roupas, Daniel com seus namorados e Brandon com... Bem... Tudo).
Então eles se mudaram. A transferência de Daniel trouxe-lhe um salário muito melhor e isso o fez, sem mais explicações, ser um grande fã da Flórida. Caleb detestou completamente a ideia, o que ela não podia culpá-lo. Se Brandon viesse com a conversa de se mudar quando fosse a vez de de ir para a faculdade, ela provavelmente faria as malas e fugiria no meio da noite para nunca mais ser vista.
Ela poderia ir viver nos bosques, com os cervos e os ursos ou nas ruas, com os pombos e os ratos. Qualquer destino seria melhor do que ter os três seguindo-a por aí e controlando sua vida para sempre. Além disso, os animais a adoravam. Na floresta ou na sarjeta, ela provavelmente se tornaria uma Branca de Neve moderna, mas muito mais estilosa.
tentou ver a mudança com o máximo otimismo que seu querido cérebro foi capaz de produzir. Ela gostava da antiga casa, mas West Palm Beach era uma cidade com praias, onde poderia passar longas horas descansando debaixo do sol e isso com certeza era algo a favor da Flórida. Seus pais ficariam a uma distância muito maior, o que significaria que a maioria de suas interações deixariam de ser cara a cara. Outro ponto a favor da Flórida.
Mas, mais do que isso, era uma cidade em que Caleb, Daniel e Brandon não conheciam ninguém no colégio onde estudaria. O que significava que poderia fazer o que quisesse sem se importar em ter alguém de olho nela, prestes a entregá-la a qualquer segundo do dia.
O maior ponto de todos a favor da Flórida.
O sol escaldante do Estado do Sol nunca pareceu tão reconfortante e bem-vindo. Por isso, mergulhou nessa aventura como geralmente fazia com tudo em sua vida: profundamente e sem pensar duas vezes.
E ela surpreendentemente não entrou em pânico, mesmo que fosse, para si, uma reação mais comum do que gostava de admitir. foi capaz de manter a compostura e um sorriso no rosto, feliz pela decisão que Brandon havia tomado por eles. Sem surtos, sem longas conversas com a voz ansiosa dentro da própria cabeça. Apenas a alegria de se iniciar uma nova etapa em sua vida.
Até o primeiro dia de aula.
– Eu preciso de cadernos novos!
O barulho dos cadernos batendo contra o balcão da cozinha fez Daniel e Brandon saltarem de susto. Eles se voltaram para – Daniel com uma pequena mancha de café na camiseta – e a encararam com os olhos arregalados.
– O quê? – perguntou Brandon, franzindo as sobrancelhas. suspirou, colocando as mãos nos quadris antes de indicar os cadernos no balcão.
– Eu preciso de cadernos novos – repetiu, tentando fazê-los entender seu desespero. É claro que o primeiro dia de aula dela não poderia ser perfeito. Algo sempre dava errado, como se o universo não apreciasse dar a ela alguns minutos de paz.
– O que tem de errado com os seus? – Daniel questionou, tentando limpar sua roupa com um guardanapo. – Nós acabamos de comprá-los.
fez beicinho, frustrada pela clara cegueira de seus irmãos à um problema inquestionavelmente óbvio.
– Tudo sobre eles está errado! – ela chorou, sentindo o coração quase saindo pela boca. Oh Deus, ela teria um surto até o final daquele dia. Como conseguiria sobreviver em seu colégio daquela forma?
Os dois se aproximaram e encararam os cadernos. Daniel parecia ainda mais confuso e uma das sobrancelhas de Brandon se levantou em questionamento. bufou, revirando os olhos.
– Olhe para eles! – ela exclamou, gesticulando novamente com uma das mãos. – Eles são tão... Tão...
encarou os gatinhos de olhos enormes, os brilhos coloridos e os laços cor-de-rosa, espalhados por todas as capas. O coração dela foi parar em sua garganta.
– Ridículos! – chorou por fim, afundando o rosto nas mãos. – Eles são bobos, constrangedores e ridículos.
Mesmo sem ver, ela pode sentir os sorrisos carinhosos nos lábios de seus irmãos. Daniel se aproximou dela, rindo com carinho e passando o braço ao redor de seus ombros.
– Ora, , não fique assim – ele disse, fazendo-a olhar para ele e sorrindo ainda mais. – Caleb também é tudo isso e lá vai ele, porta à fora todas as manhãs.
De algum lugar no andar de cima, pode ouvir Caleb gritar:
– Vá se foder!
Daniel riu alto enquanto Brandon empurrava a cabeça dele para longe. Os lábios de se repuxaram para cima, mas apenas um pouco. Ela não estava pronta para deixar de ser dramática, já que era como lidava com seu nervosismo. Algumas pessoas fumavam, outras andavam de um lado para o outro. se afogava em sua própria dramaticidade.
– Qual é realmente o problema aqui? – questionou Brandon suavemente. – Você gostou dos cadernos quando os compramos. Até disse que o brilho dava um toque especial.
observou os próprios sapatos, de repente encontrando neles centenas de defeitos que não existiam no dia anterior. Ela realmente deveria aprender a dar laços mais bonitos.
– Só... – murmurou, antes de suspirar e levantar os olhos. – Acho que eles... Talvez as pessoas os achem...
Tolos. Constrangedores. Infantis.
E se acontecesse, como seria a sua vida naquela escola? Era o primeiro dia de aula, o dia mais importante do ano inteiro (o que era mais uma verdade incontestável da vida, é claro). E se ela não conseguisse fazer amigos por causa disso? E se isso a marcasse como uma pária no corpo estudantil?
Oh Deus, ela seria “a garota do caderno de gatinhos” até a formatura e teria que concretizar seu plano de se mudar para o meio da floresta. E as florestas da Flórida não eram nem mesmo florestas, eram pântanos! Com cobras, lodo e crocodilos! Além de centenas de pernilongos.
Ela sabia que estava certa, ela até pesquisou na internet.
teria que escolher entre ser comida por um crocodilo ou sofrer humilhação pública pelo resto do ano. Ela estava, sinceramente, tentada em ser devorada.
, o que é toda essa história? – questionou Daniel, olhando-a com olhos suaves. – Você geralmente é muito mais confiante do que isso. Além disso, você estava tão animada ontem à noite. O que está acontecendo?
Houve realmente algo que aconteceu. Daniel estava certo em apontar sua súbita insegurança, que não era nada comum, pelo menos para a mais velha e fora da casa dos pais. Ela geralmente era muito mais positiva do que aquilo.
– Por acaso isso tem algo a ver com a ligação de ontem? – perguntou Brandon, de repente muito sério e tenso.
fechou os olhos e suspirou. Na mosca.
Caleb apareceu naquele momento, contornando-os e pegando algumas panquecas em cima do balcão. Ele também parecia menos animado do que o habitual, provavelmente tendo ouvido toda a conversa.
– O que a mãe disse dessa vez? – questionou e o fato de não conseguir dizer nada foi resposta suficiente.
Se havia uma única pessoa no universo capaz de abalar a autoconfiança de , essa pessoa era a mãe dela. As duas não possuíam um relacionamento forte, mas, graças ao acordo de custódia, costumavam ter ligações semanais e até visitas no fim de semana.
Não que os pais dela se lembrassem de marcar esses encontros, mas não se importava. Claro, eles eram os pais dela e os amava profundamente, mas as vezes ela apenas...
...Não gostava muito deles.
Mas as ligações aconteciam (mais mensalmente do que semanalmente, mas quem estava reclamando?) e, para a infelicidade de , a mãe dela continuava sendo a mesma pessoa que sempre foi.
Uma megera.
– Oh, , querida, é claro que uma nova escola é algo emocionante – ela lhe dissera por vídeo com seu sorriso usual, antes de franzir as sobrancelhas em um mal fingido sinal de pena. conhecia aquele olhar mais do que gostaria. – Mas você não acha que talvez seja melhor repensar suas roupas? Talvez as outras crianças te achem um pouco... Você sabe...
Ela deixou os termos de fora, em uma rotineira ferramenta de manipulação. não poderia ficar brava com ela se sua mãe não tivesse realmente dito nada, certo? Se ficasse, estaria exagerando ou colocando palavras em sua boca.
Mas entendeu bem o que ela estava tentando dizer e tentou forçar a si mesma a não ser afetada por suas palavras. A mãe dela falava merda, aquilo era de conhecimento geral assim como a água era molhada e o céu era azul. Suas opiniões não importavam e não deveria dar a mínima para o que dizia.
E ela acreditou realmente ter conseguido permanecer sem ser afetada, até que recolheu os cadernos naquela manhã, pronta para guardá-los em sua mochila e sentiu a respiração falhar em ansiedade. De repente, eles se tornaram os piores cadernos que uma garota de dezessete anos poderia sequer pensar em levar para a aula.
– O de sempre – murmurou, brincando com a bainha de sua saia azul. Pelo menos ela havia acertado em sua roupa.
Mas não nos cadarços, pelo jeito. Eles realmente não pareciam tão sujos e tortos na noite anterior.
Daniel suspirou tristemente e Caleb enfiou panquecas na boca com tanta raiva que se surpreendeu por não ter se engasgado. Brandon a segurou gentilmente pelos ombros, virando-a para ele. Apesar de sua suavidade, ela pode notar seus ombros rígidos.
– Não permita que ela atinja você – ele disse, sério e paternal. – Você sabe como ela é.
– Tudo que sai da boca dela é um monte de merda – disse Caleb, recebendo um olhar censurador de Brandon. Ele não era um grande fã de palavrões, mesmo que ninguém respeitasse muito aquela regra dentro de casa.
– Caleb está certo, mesmo que eu odeie admitir – brincou Daniel, abraçando-a levemente. – , você é uma garota ótima e nunca teve problemas em fazer amigos. Não serão um par de cadernos que vão destruir a sua vida social.
– Você não sabe disso... – tentou argumentar, ainda parecendo murcha.
– Sim, ele sabe – argumentou Caleb, limpando a boca em um guardanapo e se aproximando mais. Agora, os três estavam ao redor dela, em um círculo de conforto. – Confie em mim, , o tipo de gente que se importar com algo assim é o tipo de gente que você não quer perto de você.
– Mesmo que doa me dizer isso, porque me considero um cara supersimpático, você é a borboleta social da família – sorriu Daniel. – Fazer amigos é sua vocação na vida. O que me dá cabelos brancos só de pensar, mas esse não é o ponto agora.
sorriu, sentindo-se levemente melhor. Brandon apoiou a mão no topo de sua cabeça, chamando sua atenção.
– Vai dar tudo certo, como sempre dá – ele disse, sorrindo para ela. – Tenha seu primeiro dia e, depois, se decidir que ainda quer trocar os cadernos, nós compraremos novos. Mas, sinceramente, não será necessário. As opiniões de nossa mãe são provavelmente as primeiras que deveríamos ignorar.
Ela suspirou, sentindo o coração bater em um ritmo normal e abraçou os três em um conjunto.
– Obrigada, pessoal – murmurou, sentindo os cantos dos olhos arderem. – Vocês são os melhores.
– Nós sabemos, nós sabemos – riu Daniel, cutucando-a nas costelas e tirando uma risadinha de . – E a voz da razão. Lembre-se sempre de nos ouvir.
Seus olhos se reviraram, mas ainda sorria.
– Além disso, você tem a nós três – argumentou Caleb. – Se alguém mexer com você é só nos avisar e nós acabaremos com ele.
deu-lhe um leve tapa no braço.
– Ele está certo – sorriu Daniel e, quando se voltou para Brandon, viu que ele também sorria, parecendo orgulhoso.
Os olhos de se reviraram novamente.
– E se for uma garota mexendo comigo? – questionou. Eles pareceram pensar por um segundo.
– Ai você bate nela – respondeu Caleb. A resposta que recebeu foi o bufo mais indignado que a respiração de conseguiu produzir.
Como se ela fosse, algum dia, conseguir bater em alguém. Nem ele acreditava no que estava dizendo.
Ela recolheu os cadernos (ainda parecendo bobos, mas nem tanto) e os guardou em sua bolsa, arrumando-a sobre o ombro. Seu celular vibrou com seu alarme, indicando que era hora de partir. Os quatro passaram a se mover, recuperando suas coisas. recolheu algumas torradas e uma maçã da mesa, sabendo que não era saudável pular o café-da-manhã e foi para fora de casa.
Ali, parou de supetão ao perceber algo.
– Por que todos vocês estão indo? – questionou, quase horrorizada. – Eu só preciso de um de vocês para me levar até lá.
Na verdade ela não precisava de nenhum deles, porque ela tinha uma maldita habilitação, mas Brandon ainda não confiava nela com um carro.
O que era absolutamente a coisa mais ridícula do mundo, porque ele confiava em Daniel com um carro e Daniel era o pior motorista que os Estados Unidos da América já havia formado em sua história.
– Nós todos vamos – disse Caleb, entrando no banco de trás. – Para te dar apoio.
se controlou para não bater os pés no chão de frustração e foi até o carro, se sentando no banco do passageiro com um pouco de violência.
– Me apoiar ou me controlar, assustando os garotos com a presença de vocês? – rosnou, enquanto colocava o cinto se segurança. A mão de Daniel, que estava ao lado de Caleb no banco de trás, pousou em seu ombro.
– Ora, , tenha mais fé em nós – ele disse. – Nós só queremos estar ao seu lado nesse dia tão importante. Afinal, você é a nossa irmãzinha.
Controlar, então.
Brandon se sentou no banco do motorista e eles logo partiram. Apesar de sua frustração, não pode deixar de sorrir ao ouvir as provocações de Daniel, que sempre adorava importunar Caleb com qualquer coisa.
Ela sabia que a viagem estaria cheia de muito mais ansiedade caso estivesse apenas presa com Brandon e seus discursos, então a distração foi bem-vinda. tomou seu café da manhã e, quando cada vez mais adolescentes apareceram nas calçadas, caminhando em uma mesma direção, uma respiração trêmula saiu de seus lábios. As mãos de Daniel cobriram seus ombros novamente, chacoalhando-a de forma brincalhona.
não tem medo de convívio social – ele recitou atrás dela. Murmurando baixinho em seguida: – Infelizmente...
– Muito menos de um bando de adolescentes sem cérebro – continuou Brandon, com os olhos na estrada, mas um sorriso no rosto.
– Ela vai deixar todos no chinelo – completou Caleb, dando-lhe seu enorme sorriso de menino.
Os olhos de arderam de novo. Ela os amava tanto as vezes que sentia vontade de chorar. Mesmo quando eles eram grandes idiotas, o que era basicamente o tempo todo.
O carro diminuiu sua velocidade e a cabeça de Daniel apareceu ao lado da dela.
– Mas sem garotos, é claro – ele sorriu, tentando parecendo inocente. – Certo, ? É possível ser a garota mais popular do mundo sem ter contatos com a população masculina.
– Na verdade, eu acho que não é possível – devolveu ela, levantando uma sobrancelha para ele.
A cabeça de Caleb também apareceu, junto de seu dedo indicador, apontando para cima como se tivesse uma ideia.
– Nunca é tarde para ser a primeira a conseguir esse enorme feito! – ele disse e ela teve certeza de que Brandon também estava quase prestes a sorrir.
Grandes, enormes, gigantescos idiotas.
– Vocês são uma pedra no meu sapato – suspirou, colocando a mão na maçaneta da porta quando o carro parou de se mover. – Tchau!
Antes que ela pudesse abri-la, contudo, Brandon começou a falar o mesmo discurso de sempre.
Nada de matar aula, blá blá blá... Nada de se envolver com drogas, blá blá blá... Nada de garotos, blá blá blá...
Ele deveria gravar esse discurso e colocar para rodar cada vez que quisesse que ela o ouvisse. Economizaria muito mais fôlego e saliva.
– E o mais importante, se alguém mexer com você, ligue para nós – terminou, fazendo suspirar profundamente. – Eu falo sério. Estarei aqui em dez minutos.
– Eu sei disso – ela gemeu, abrindo a porta apenas alguns centímetros. – Posso ir agora?
Os olhos dele se suavizaram. Brandon se inclinou, beijando-lhe na cabeça. Em seguida, estava fora, caminhando em direção ao seu novo colégio, acelerando o passo para se livrar deles o mais rápido possível.
Mas, quando seu pé tocou o primeiro degrau da pequena escadaria que levava às portas da frente, já dentro do terreno da escola, não pode conter a si mesma e se virou para olhá-los.
Daniel estava fora do carro, mudando-se para o banco da frente, os olhos semicerrados enquanto observava os arredores. Ele viu que ela olhava e levantou um braço, acenando alegremente um adeus enquanto sorria com alegria. Caleb também acenou da janela e Brandon sorriu, buzinando para ela.
Talvez devesse ficar constrangida ou irritada. Muitas pessoas ao redor se viraram, curiosos pelo som da buzina e a olhando engraçado. Ela também sabia, dentro de seus ossos, que Daniel estava demorando para entrar no carro porque estava tentando assustar o máximo de garotos que conseguisse apenas com o olhar.
Mas os olhos de lacrimejaram levemente de amor e ela sorriu, acenando um último adeus antes de quase saltitar pelo resto da escada. Ela realmente os amava, mesmo com toda dor de cabeça que causavam nela.
Secando as mãos suadas em sua saia, suspirou e endireitou as costas, enquanto entrava para dentro do colégio. O lugar estava lotado, cheio de estudantes conversando alto e andando de um lado para o outro. Ela agarrou uma das alças de sua mochila e engoliu seco.
– Está tudo bem, – murmurou para si mesma, enquanto desviava de um grupo que ria e passava correndo sem prestar atenção. – Você só precisa achar seu armário e então a sua sala de aula. Sem pânico. Você consegue.
Um grupo de garotos passou ao lado dela, sorrindo e dando-lhe piscadelas. sorriu de volta, virando-se levemente para vê-los sobre o ombro, antes de voltar a sua postura original.
Ela poderia ter errado nos cadernos (e nos cadarços), mas sabia que acertara em sua aparência. A saia e a blusa eram um de seus looks favoritos, assim como os brincos de cerejas penduradas em cordinhas finas. Além disso, o cabelo dela estava impecável. Separado em dois pompons crespos, um de cada lado da cabeça.
Outro garoto passou, acenando um olá. acenou de volta e se segurou para não começar a saltitar pelos corredores. As vezes ela não podia negar a razão dos irmãos serem tão repetitivos sobre ela ficar longe de garotos.
(as garotas deixadas de fora dessa regra porque elas eram um dos segredos que ainda não havia encontrado coragem para contar a eles).
Mas dessa vez você realmente vai seguir o conselho deles, disse uma voz sensata em sua cabeça. fez beicinho para os próprios pensamentos. Lembra-se? O plano é realmente não se envolver com ninguém até a faculdade. Estamos entrando em uma época de celibato.
Era o plano certo a se seguir, a racionalidade dela sabia disso. Não valia a pena viver toda aquela dor e todo aquele drama novamente. Até mesmo , que deixava-se ser dramática como deixava-se beber, comer e dormir, sabia disso. Uma mudança como a que fizeram exigia uma mudança de comportamento e se ela buscava apenas colher paz de espírito nessa nova fase de sua vida, então precisaria cortar alguns vícios aqui e ali em prol de um bem maior.
E um de seus maiores vícios era, com certeza, paquerar, namorar e se apaixonar.
Suspirando, abriu sua mochila e retirou o papel com seus horários de dentro. Ela torceu o nariz para os cadernos, menos odiosa, mas ainda infeliz com eles. Havia gatinhos na contracapa também!
Talvez eu devesse escrever uma carta de repúdio, pensou enquanto andava distraída. Caros criadores de cadernos, suas capas de animais fofinhos com laços enormes foram a razão da minha ruína, na jovem idade de dezessete anos...
– Ai!
O corpo de bateu fortemente contra outra pessoa, jogando-a para baixo com a força da inércia. Suas nádegas acertaram o chão do corredor e ela soltou a exclamação, mais surpresa do que dolorida.
– Desculpe, eu não te vi – disse a pessoa que trombara com ela e os olhos de se arregalaram de surpresa.
Uma garota gótica dos pés à cabeça estendeu a mão para ela. Com um leve sorriso, ela aceitou sua ajuda, impressionada com sua aparência. Talvez a desconhecida fosse o tipo de pessoa que deixaria levemente insegura, mas ela sorria de forma simpática, mesmo após o encontro. Não parecia pronta para caçoar de sua pessoa e isso era sempre um bom sinal.
– Tudo bem, eu também estava distraída – disse, levantando-se e arrumando sua saia. – Gostei do seu piercing no nariz.
A garota sorriu, parecendo tão surpresa quanto ela.
– Obrigada, eu gostei dos seus brincos – respondeu, apontando para as pequenas cerejas penduradas nos lóbulos de .
Uma onda de excitação a cobriu. Ela adorava confeccionar bijuterias e falaria sobre isso por horas se pudesse.
– Eu que fiz! – exclamou com olhos brilhantes.
Em seguida, sentiu-se tímida. Aquela era a primeira pessoa com quem ela conversa em seu novo colégio e talvez fosse melhor manter a postura um pouco mais controlada. já ouvira, em mais de uma ocasião, de como poderia ser borbulhante e animada demais para um primeiro contato. As vezes ela era um pouco intimidante, principalmente para pessoas mais quietas, como aquela menina gótica parecia ser.
– Será que você conseguiria me ajudar a achar minha sala? – perguntou timidamente, lembrando-se dos horários em sua mão. – Estou perdidinha.
A garota continuou com um semblante sério, mas uma voz calma. Ela encolheu os ombros, cobertos por uma jaqueta de couro-falso preto.
– Eu sou nova e tão perdida quanto você – respondeu e suspirou, no momento em que uma voz surgiu nos alto-falantes.
– Lembrando a todos os alunos que haverá, antes do almoço, uma reunião com toda a comunidade escolar dentro do ginásio. A presença de todos é requisitada...
Pânico encheu da cabeça aos pés. Ela não sabia onde estava seu armário, onde eram suas aulas e agora teria que descobrir onde ficava o ginásio? Que beleza. Que beleza. Ela estava perdida. Hoje tinha tudo para ser o dia oficial de sua ruína.
– Ai que ótimo – chorou, esquecendo-se de que não estava sozinha. Suas bochechas queimaram ao ver o olhar surpreso que a desconhecida lhe lançou. – Mais um lugar para que eu me perca para sempre enquanto procuro. Bem, desculpe novamente pelo trombo. Tchauzinho!
saiu correndo, desviando de alguns alunos até se dar conta de que não havia nem mesmo perguntado o nome dela, nervosa demais em não encontrar suas aulas.
– Oh, Deus – murmurou para si mesma. – E se essa foi minha única chance de fazer uma amiga e eu estraguei tudo? Muito bom, , primeiro os cadernos e agora isso...
Uma menina passou por ela, franzindo as sobrancelhas ao vê-la falando sozinha.
– ...E ainda vão achar que sou doida – gemeu, antes de fechar os olhos e se recompor com as mãos nos quadris. – Foco, garota. Se recomponha.
Ela respirou fundo e continuou seu caminho. Para sua sorte, uma professora passou ao seu lado e pode perguntar a ela onde sua próxima aula seria. Finalmente, ela pode se jogar em uma das cadeiras e suspirar aliviada. Primeira aula, presente. Sem constrangimentos, sem a vergonha de aparecer quando a aula já havia começado e ter todos olhando para ela, parada na porta querendo morrer.
Boa garota, segunda vitória do dia. A primeira sendo a aparência dela, é claro, graças a Deus boa como sempre.
tirou um dos cadernos de sua mochila e torceu o nariz. Ela olhou ao redor, se perguntando se alguém havia os notado, mas ninguém parecia incomodado. Seus ombros relaxaram e ela rapidamente o abriu, deixando as páginas em branco à mostra.
Tem gatinhos nos cantos das páginas?! gemeu e bateu a testa levemente na mesa. Que coisa absurda. Ela com certeza escreveria uma carta de repúdio quando chegasse em casa.
Mais alguns alunos entraram na sala e ela sorriu para os que encontraram seus olhos. Um garoto com cabelos cor de palha sorriu para ela antes de se sentar com seus amigos, mas tinha certeza de que ele se voltou para olhá-la novamente mais algumas vezes.
– Posso me sentar aqui?
Ela se virou para encontrar uma menina de tranças pretas, parecendo tímida.
O sorriso de brilhou. Uma nova chance de fazer amizades, nem tudo estava perdido.
– É claro! – exclamou, vendo-a se sentar ao seu lado. – Qual seu nome?
O nome dela era Caroline, uma garota realmente tímida de tranças pretas, saia arrastão e que participava do anuário do colégio. As duas conversaram alegremente, com tentando ao máximo controlar a si mesma, já que tendia a assustar pessoas mais caladas do que ela.
(o que poderia ser qualquer um, já que ela era a pessoa mais tagarela e energética que conhecia).
A aula começou e terminou. Caroline a acompanhou até sua próxima sala e a agradeceu tão animadamente que ela quase parecia constrangida. O garoto de cabelo cor de palha voltou a aparecer pelos corredores ou em outras classes, acenando simpaticamente. Em um certo momento, um de seus amigos o chamou em voz alta e ela descobriu que seu nome era Jeremy, mas nada além disso.
Depois de algumas horas, o sinal tocou e seguiu a multidão de alunos até o que ela acreditava ser o ginásio. Naquele momento, ela reconheceu a garota gótica com quem trombara no começo da manhã, andando calmamente ao longe.
As pernas dela funcionaram antes de seu cérebro. Quando se deu por si, já estava abordando-a no meio do corredor, levada pelo bom humor que floresceu conforme o dia passou sem mais problemas.
– Oi! – exclamou, recebendo um leve sorriso e um aceno de cabeça de volta. – Percebi que não me apresentei corretamente naquela hora. Desculpe. Estava tão louca que nem prestei atenção. Sou .
Os olhos da garota gótica desceram para os cadernos de gatinhos contra o peito de e ela se encolheu, batendo em si mesma mentalmente. Um leve pânico a tomou, mas a desconhecida não teve nenhum tipo de reação que fosse irônica ou cruel. Ela apenas olhou nos olhos de , antes de apertar sua mão.
– Monalisa Turner – respondeu.
– Que nome legal – elogiou ela, sendo extremamente sincera. Uma garota com um nome tão bonito só poderia ser legal, certo? – Se importa se eu andar com você? Não conheço ninguém aqui e sou um pouco ansiosa em conhecer pessoas novas.
não se surpreendeu ao ser tão aberta sobre isso com uma pessoa que acabara de conhecer. Ela amava fazer amigos, mas era inegável a ansiedade que contaminava sua mente em momentos que se sentia vulnerável, como naquele primeiro dia de aula. Além disso, ela era um livro aberto, por mais que detestasse esse fato. Falava qualquer coisa para qualquer um.
– Você tem medo de que elas sejam más com você? – questionou Monalisa, enquanto as duas andavam lado a lado, seguindo a multidão.
– Não consigo evitar – admitiu , sentindo as bochechas levemente quentes. – Pessoas do ensino médio podem ser cruéis.
Até ela, sendo a otimista que era, não podia negar isso. Suas experiências passadas quando criança, apesar de superadas, nunca deixavam de sussurrar no fundo de sua mente quando se sentia insegura.
– E eu não seria má? – ela questionou, parecendo genuinamente surpresa. se sentiu mal por um segundo. Ela sabia o que era ser julgada pela aparência e parecia ser algo que Monalisa enfrentava com frequência.
– Eu trombei com você e a primeira coisa que você fez foi pedir desculpas – avaliou , dando de ombros. – Acho que nosso santo bateu, se isso faz sentido.
Monalisa parecia gostar do que ouvia.
– Vamos formas uma dupla esquisita, sabe disso, não é? – ela brincou. soltou uma risadinha de deleite, que fez seus brincos balançarem.
– Os opostos se atraem!
As duas finalmente passaram pelas enormes portas do ginásio, entrando entre os espaços das altas e compridas arquibancadas. olhou em volta, sorrindo até as bochechas doerem, enquanto observava a quadra de basquete e o pequeno palco colocado ao centro, com quem deveria ser o diretor segurando o microfone.
As duas se sentaram nas arquibancadas um pouco mais altas, no centro e permaneceram observando os arredores. Monalisa se encostou no banco, parecendo entediada, enquanto quase saltava sentada de tanta animação.
Depois de alguns segundos, Monalisa esticou o braço e acenou para alguém ao longe. se virou para ver uma menina alta e de cabelos longos se aproximar, parecendo genuinamente tímida, mas com uma energia naturalmente elegante.
– Oi – ela disse, com um leve aceno.
– E aí – disse Monalisa. – Julie, essa é . , essa é Julie.
sorriu abertamente, ao mesmo tempo que tentava se controlar. Ela queria saltar de pé e dar-lhe um abraço, mas segurou os próprios impulsos.
– Eu amei os seus óculos – elogiou, enquanto Julie se sentava do outro lado de Monalisa. Os olhos dela se arregalaram e ficou feliz ao ver como ela parecia mais corada.
– Obrigada – Julie respondeu baixinho. – Eu adorei seus sapatos.
Uma voz masculina a interrompeu, no momento que abriu a boca para elogiá-la ainda mais.
– Vocês são o trio mais esquisito que já vi na minha vida.
se virou para encontrar um garoto muito bonito, de cabelos compridos, um boné vermelho e roupas de skatista.
– Uau, muito gentil da sua parte dizer isso – zombou Monalisa, parecendo levemente debochada. – Nós três, na verdade, nos juntamos apenas para chamar a sua atenção.
As sobrancelhas de se subiram com sua acidez. Pelo jeito, não era apenas a aparência de Monalisa que poderia ser afiada. Mas, mais do que isso, ela se surpreendeu com Julie, que pareceu não estar tímida pela primeira vez desde que chegara.
– Adrien, cale a boca – ela disse, franzindo as sobrancelhas e surpreendentemente levantando a voz. – Perdoem o meu vizinho, ele é um babaca.
Adrien não parecia incomodado, muito pelo contrário. Ele sorriu e pegou a mão de , surpreendendo-a ao dar um beijo galanteador na pele.
Mademoiselle – ele flertou, tirando uma risadinha de que ela não pode controlar. Ela não estava ali para namorar – infelizmente –, mas aquele garoto era charmoso e sabia disso.
Ele tentou fazer o mesmo com Monalisa, mas ela lhe deu um chega para lá que foi recebido com bom-humor. Adrien se sentou ao lado de Julie, que revirou os olhos e passou a ignorá-lo. gostou do temperamento dele, que parecia ser sempre otimista e jovial como o dela, então decidiu que não se incomodaria se ela e Adrien virassem amigos.
O diretor do colégio começou a falar naquele momento, chamando sua atenção. ficou atenta em seu discurso, se sentindo animada enquanto ele contava sobre a história do colégio. O corpo estudantil era quase três vezes maior do que na escola que ela estudava anteriormente, então era muito excitante estar em um ambiente totalmente novo e tão cheio de pessoas.
Quando ele comentou sobre a obrigatoriedade de participar de pelo menos uma aula extracurricular, Monalisa se inclinou para sussurrar com ela.
– Você tem ideia do que vai fazer?
– Eu não vi as atividades extracurriculares deles, mas eu fazia aula de artes no meu antigo colégio e adorava – respondeu. – Acho que vou continuar fazendo, foi onde aprendi a fazer meus brincos.
A melhor coisa do mundo aconteceu em seguida.
– E, agora, as meninas da torcida tem um recado para nós!
Oh meu Deus! Eles tem um time de torcida!
A animação a tomou dos pés à cabeça, tão violentamente que começou a aplaudir junto do resto dos alunos presentes até as palmas das mãos quase doerem. O time entrou, balançando seus pompons e algumas pessoas chegaram a levantar enquanto comemoravam.
O coração de palpitou e seu estômago deu um salto quando seus olhos caíram sobre a capitã do time. Com cabelos negros e a pele oliva, ela era provavelmente uma das garotas mais bonitas que já vira na vida. Suas bochechas queimaram levemente, enquanto ela olhava ao redor, tentando descobrir se alguém notara suas mãos suadas e rosto quente.
Por que todo mundo aqui é tão bonito?, questionou a si mesma quase revoltada. Justo agora que decidi não me relacionar com ninguém?
– Boa tarde, comunidade John Leonard! – gritou a capitã ao microfone. – O nosso time preparou uma apresentação muito especial para dar as boas-vindas a todos! Vamos lá, Lancers!
A apresentação começou e não conseguiu pensar em mais nada. Ela pode sentir as próprias bochechas doendo de tanto sorrir, enquanto as observava dançar, gritar e saltar pela quadra.
Deus, ela queria tanto estar ali. Será que daria certo dessa vez? Ela conseguiria alcançar esse sonho de tantos anos? Os uniformes, as danças, os gritos organizados, o espírito esportivo, a sensação de fazer parte de um time, o companheirismo. Ela queria tanto, tanto, tanto aquilo.
se voltou para Monalisa, sorridente, buscando ver se ela compartilhava de seu sentimento, para encontrar, no lugar, uma cena engraçada. Monalisa encarava alguém ao longe, nas arquibancadas de baixo, parecendo completamente espantada. Esticando o pescoço, pode ver que ela trocava olhares com um garoto extremamente bonito e bem arrumado.
– Quem é esse? – sussurrou baixinho, curiosa e a pegando de surpresa.
– Ninguém – Monalisa murmurou, voltando os olhos para a quadra. sorriu maliciosamente, vendo suas bochechas escurecerem.
– Ele é lindo – continuou. Ninguém... Até parece. – E está acenando para você.
O garoto realmente estava, com um sorriso no rosto. Monalisa continuou negando, enquanto acenou de volta para ele, simpaticamente como era o educado a se fazer, para então receber um tapa na mão.
– Pare! Não acene para ele!
Julie se intrometeu na conversa e descobriu naquele momento quem era Ian Harrington. Bonito, educado, popular e que deixava sua nova amiga gótica completamente desorientada.
A romântica dentro dela já podia ouvir os sinos de casamento tocando. Era incontrolável e ela não se sentia nem um pouco culpada.
A apresentação acabou e eles foram liberados logo em seguida. Monalisa saiu correndo, buscando evitar Ian, mas ele logo a encontrou, enquanto Julie, e Adrien assistiam sua troca de camarote. Quando finalmente parou de pensar em si mesma, linda e deslumbrante no uniforme de torcida daquele colégio, Adrien e Ian haviam sumido e ela estava sentada à mesa de almoço com suas novas amigas.
Uma de óculos cor-de-rosa e cardigã. Outra com batom preto e botas com no mínimo dez enormes fivelas pelas canelas. Enquanto as observava conversar, apoiou o queixo nas mãos e sorriu.
Ela costumava ser uma pessoa emocionada, que se apegava mais rápido do que era capaz de piscar e talvez aquela fosse uma daquelas situações. Diferentes das anteriores, contudo, quando o outro lado não retornava suas emoções com a mesma intensidade, algo lhe disse que aquelas duas meninas não sairiam de sua vida tão cedo.
🤸🏾‍♀‍💕🏍️
A mãe dela estava falando sobre si mesma há quarenta e cinco minutos.
– Que bacana, mãe – respondeu pela quarta vez, enquanto não tinha nada melhor para dizer. Brandon, que estava encostado na parede mais próxima, acompanhando a conversa que acontecia por câmera em seu próprio celular, apenas revirou os olhos em companheirismo.
– Sim, foi incrível – ela completou, antes de sorrir inocentemente. – E a escola? Já começou?
Finalmente, pensou com um pouco de amargor.
– Começou, na verdade – respondeu, apoiando o queixo na mão. – No começo da semana, há alguns dias.
– Hm – a mãe dela cantarolou do outro lado, focada nas próprias unhas. – E tudo ocorreu bem? Você fez amigas?
– Fiz sim – sorriu , sentindo-se finalmente animada. – Ótimas amigas, na verdade, elas são...
– Que legal, , querida – ela a interrompeu, sorrindo enquanto Brandon fechava ainda mais a cara há alguns metros. – O que mais?
Conversa entediante, entendi, ela pensou novamente. Valeu, mamãe.
– Bem, eles tem um time de torcida – contou, sentindo a atenção repentina tanto de Brandon quanto de Alexandra. – E eu estou pensando em participar.
As sobrancelhas dos dois subiram ao mesmo tempo. Mesmo que, muitas vezes (mais para sempre), soubesse que Brandon gostaria que a mãe deles fosse outra, havia momentos em que o parentesco era inegável.
– Oh – exclamou Alexandra, antes de sorrir como se não se convencesse com aquilo. – Que... Interessante.
A decepção que atingiu foi tão forte que ela não pode controlar a própria expressão facial.
– Você não acha uma boa ideia? – perguntou, triste, mas, no fundo, nem um pouco surpresa.
– Não é isso, querida – sua mãe disse, com aquele sorriso característico que lhe dava arrepios na espinha. – É só que provavelmente vai ser bem difícil entrar, você não acha?
abaixou os olhos, afundando as bochechas ainda mais nas mãos. Brandon se mexeu de onde estava, um sinal claro de que não estava gostando daquela conversa.
– Bem, eu ando treinando bastante – ela tentou argumentar. – Eu tenho um bom condicionamento físico, sou sociável, tenho uma boa memória...
– Sim, claro, claro, mas não estou falando disso – Alexandra a interrompeu, balançando a mão. As sobrancelhas de Brandon se franziram mais ainda. Ele iria ficar com rugas profundas antes dos trinta se continuasse assim. – É só que... Você sabe. Vai ser difícil para você, já que não parece uma líder de torcida.
Uau, mamãe, é sempre tão bom conversar com você. Me pergunto o porquê de não fazermos isso mais vezes. Realmente uma experiência única.
– Quem sabe... – respondeu, sentindo-se murcha como um balão. – Talvez as minhas habilidades sejam suficientes...
Um som saiu pelo nariz de sua mãe, enquanto ela sorria para a câmera. quase podia sentir as ondas de irritação saindo do corpo tenso de Brandon, os músculos dele tão tensos que provavelmente lhe daria dor nas costas.
– Claro, querida – Alexandra disse, claramente não concordando com isso. – Mas talvez, se você perdesse alguns quilinhos...
– Preciso sair agora, mamãe! – exclamou , assim que percebeu que Brandon estava prestes a agarrar o celular com o punho. – Falo com você semana que vem!
Ou daqui três meses, quem sabe.
Ela encarou seu irmão mais velho quando a ligação finalmente terminou e lhe devolveu seu celular. Ainda se sentindo chateada, mas sem querer piorar a situação e o humor de Brandon, sorriu.
– Bem, poderia ter sido pior – disse otimista, levantando-se da cama de seu quarto. – Agora vou ficar de olho na cozinha, não podemos confiar totalmente que Daniel não vá explodir tudo.
Ela foi até a porta, onde parou ao ouvir a voz de Brandon.
– Você quer mesmo fazer isso? – se virou, encontrando seus olhos. – Essa coisa de líder de torcida, é importante para você?
Ela se recostou no batente da porta, acenando levemente. Não era algo que ela já tivesse discutido profundamente com os irmãos, mas eles sabiam sobre esse sonho. Nunca se mostraram muito a favor, principal e exclusivamente pela questão dos uniformes que teria que usar, mas, como nunca conseguiu entrar em time nenhum, o assunto não virou assunto de discussão.
– Muito – admitiu, com um sorriso suave. – É algo que eu quero muito, muito, muito. Mais que tudo.
Brandon a encarou por longos segundos, parecendo profundamente pensativo.
– Mas enfim – suspirou, resolvendo trabalhar com as cartas que tinha. – Talvez ela esteja certa, sabe? Já tentei entrar para a torcida tantas vezes e nunca consegui... Talvez realmente não seja para mim. Não preencho o requisito.
Os olhos dele estavam fixos em seu rosto, intensos, enquanto sua mandíbula ficava dura. Ela não disse nada, balançando sobre os próprios pés, sabendo que precisava apenas contar com a própria paciência e com o quanto Brandon odiava a mãe deles.
– O quão curtas são as saias dos uniformes? – ele perguntou de repente, quebrando o silêncio. sorriu como uma pestinha.
– Muito curtas – alfinetou.
Ele jogou o rosto para o céu, com os olhos fechados e suspirando profundamente como se estivesse exausto. soltou uma risadinha, se deliciando de sua dor.
– Tudo bem – admitiu Brandon, colocando as mãos nos quadris. – Se é importante para você, vá atrás. Você sabe que consegue. Eu sei que você consegue.
saiu de onde estava, andando até ele e o abraçando pela cintura. Os braços dele cobriram seus ombros e a puxaram para mais perto. Ela sabia que ele odiava a ideia, mas estava fazendo isso porque viu como as palavras de sua mãe a magoaram. Aquela era uma das poucas fraquezas de Brandon e não era ela que reclamaria disso.
– Mesmo com as saias curtas? – perguntou. Brandon riu.
– Mesmo com as saias curtas. – Ele ficou alguns segundos em silêncio. – Apenas não se meta em encrencas e fique longe dos garotos, como combinamos. E sem saltos muito perigosos, não se machuque.
Ela o afastou, dando um tapa em sua barriga, enquanto Brandon ria.
– Eu sempre fico longe dos garotos – mentiu, tentando manter a compostura. Seu irmão empurrou a cabeça dela levemente, enquanto os dois se encaminhavam para fora do quarto.
– Eu sei que você faz – ele disse, lançando-lhe uma sobrancelha levantada. Nem mesmo ele acreditava nisso. – O problema é que os garotos não ficam longe de você.

Capítulo 3 - SÓBRIA VERSUS BÊBADA


COMEÇO DE SETEMBRO, CINCO MESES ATRÁS


Quando conheceu , ela estava levemente embriagada.
(Ou pelo menos era isso que ela dizia às pessoas, envergonhada demais para admitir que era tão fraca para o álcool que duas cervejas foram capazes de deixá-la com a cabeça completamente nas nuvens).
Foi na primeira festa do semestre, na sexta-feira daquela mesma primeira semana de aula. sentiu uma animação enorme em participar, principalmente pelo fato de que ela sabia que seria uma grande oportunidade de conhecer e impressionar o time de torcida. Era o tipo de festa que todo o corpo estudantil fora convidado e as oportunidades eram infinitas.
– Meninas, por favor! – ela chorou um dia antes, quando Monalisa e Julie se recusaram a comparecer. – É a primeira festa do semestre e eu soube que toda a equipe de torcida vai estar lá. Talvez eu consiga entrar para o time se eles me conhecerem antes e gostarem de mim.
– O nepotismo em sua forma mais pura – zombou Monalisa de volta, enquanto almoçavam juntas no refeitório. – Mas minha resposta ainda é não. Nem ao menos fui convidada para a festa.
fez beicinho. Ela precisava que as duas fossem à festa. Elas eram suas únicas amigas na escola até o momento. De certa forma, elas eram suas únicas amigas na cidade inteira. Ela podia ser boa em fazer amigos, mas tudo ficaria mais difícil sem o apoio emocional que apenas elas poderiam lhe proporcionar.
– Ninguém é convidado para as festas de Alvin – ponderou Julie e a amou profundamente naquele momento. – É meio consenso geral de que a festa vai acontecer e qualquer um pode ir se quiser.
– Eu só vou em festas que sou convidada – teimou Monalisa novamente, fazendo o beicinho de se aprofundar. – Então sinto muito.
As coisas mudaram de rumo no final. Alvin apareceu como um anjo salvador e as surpreendeu convidado Monalisa para a festa. Ela não ficou feliz (mais pelo fato de que ele a chamou de querida e falou sobre suas pernas de forma inapropriada), mas acabou cedendo quando insistiu mais algumas vezes.
– Eu vou se isso significa que vocês vão me deixar em paz – suspirou, fingindo estar mal-humorada enquanto batia pequenas palmas de animação. Elas poderiam ser amigas há apenas uma semana, mas já as adorava sem pestanejar.
Escolher a roupa que usaria foi uma das partes mais difíceis. era uma amante da moda e adorava cuidar da própria aparência, o que significava que seu arsenal de roupas e sapatos era gigantesco. Todo e qualquer dinheiro que conseguisse (fosse de seus pais, avós ou irmãos) eram gastos nas mais diversas e absolutamente adoráveis peças de vestimenta que, modéstia à parte, deixavam-na incrivelmente linda.
Ela encarou o próprio armário durante longas horas, até suspirar de frustração. Ainda era verão no começo de setembro e estava calor, o que a incentivava a usar roupas mais reveladoras. Os irmãos dela não iriam gostar, mas aprendera a lidar com eles há muito tempo. Ainda se sentindo levemente insegura pela necessidade de impressionar o time, ela por fim escolheu vestir sua cor favorita em uma tentativa de se manter em sua zona de conforto.
sorriu para seu vestido azul de mangas finas e decote reto que sempre abraçava suas curvas de uma forma maravilhosa. Ele costumava subir bastante por suas pernas, principalmente por ter quadris tão largos, mas ela sabia que, se usasse tênis ao invés de algo com salto-alto, não se sentiria tão exposta.
Arrumou-se pelo resto do tempo, penteando os cabelos até que circulassem sua cabeça como uma linda aureola. Depois, pintou as unhas, colocando pequenas e delicadas pedras de strass sobre o esmalte sem cor e finalizou tudo com seu colar e brincos delicados e com pingentes de arco-íris. Ela sorriu para o próprio reflexo no espelho, gostando da forma como a maquiagem colorida se destacou com o tom de sua pele. sempre foi uma garota colorida, seja de estilo ou personalidade, mas o azul era realmente sua cor principal.
Uma buzina soou do lado de fora de sua casa e o coração de errou uma batida. Julie havia chegado para buscá-la, mas o maior obstáculo de todos ainda não tinha sido superado: sair de casa. Como todas as vezes que possuía compromissos, ela tinha duas opções a seguir:
Número Um: Contar aos irmãos que iria à festa e pedir permissão para comparecer. Geralmente não recomendado em noventa por cento dos casos, resultado dependente do humor que eles se encontravam e do quão apertadas as roupas de eram. O desfecho também poderia ser mudado com muito choro, manipulação e com o quão disposta ela estava em implorar.
Ou número dois: fugir sorrateiramente sem falar para ninguém. Geralmente o mais recomendado, mas com certeza o menos seguro. Resultado dependente da altura da janela e da mobilidade permitida por suas roupas e sapatos. Varia entre dois resultados possíveis: comparecer à festa ou quebrar uma perna.
Ela foi até a janela de seu quarto, abrindo-a e torcendo os lábios. Era muito mais alta do que a casa em que vivera anteriormente e teria dificuldade em tentar descer por ali uma primeira vez, principalmente usando um vestido tão justo que dificultava seus movimentos.
Vou ter que treinar isso mais tarde, pensou com pesar, enquanto suspirava e fechava as cortinas. Dessa vez terei que arriscar ir pela porta.
Recolhendo de último minuto um casaco branco e felpudo do armário, que ia até sua cintura, ela desceu as escadas em silêncio, arrumando a fina tira de sua pequena bolsa sobre o ombro. Olhou ao redor com cuidado, suspirando de alívio ao não encontrar nenhum de seus irmãos. Ela se aproximou da porta da frente, esticando o braço para a maçaneta, quando ouviu o som de patas atrás de si.
– Ollie – sussurrou para seu adorável cachorro, que a encarou de volta com o rabo abanando. – Fique quietinho.
Ele virou a cabeça para o lado, ouvindo suas palavras e abanando o rabo ainda mais. olhou ao redor, desesperada, tentando virar a maçaneta enquanto pressentia que algo ia dar errado.
– Quietinho, Ollie, quietinho – repetiu baixinho enquanto abria a porta devagar. – Quietinho...
Ollie abriu a boca e latiu. fechou os olhos com força, congelando em horror enquanto o som ecoava pelas paredes.
– Não, não, não, Ollie – disse, tentando fechar seu focinho peludo enquanto ele continuava latindo. – Shh! Shh!
– Ollie? – chamou Daniel de algum lugar da casa. – O que foi?
Ela agiu antes que pudesse pensar. Suas mãos puxaram o decote mais para cima, escondendo os seios expostos. Depois, puxou o vestido para baixo, cobrindo mais as coxas. Enquanto vestia o casaco com desespero, lançou um olhar de fúria para seu cachorro no momento que seu segundo irmão mais velho saiu da cozinha para a sala. Eles ainda não gostariam de sua roupa, mas estava melhor do que antes.
– Eu achei que você fosse meu amigo! – ela chorou para Ollie, que a encarou animadamente com a língua para fora. – Se pensa que vou deixar você dormir na minha cama está muito enganado! Você me entregou, seu traidor.
Os olhos de Daniel caíram sobre com as sobrancelhas confusas, buscando a razão para o cachorro da família ter latido. Quando seu cérebro finalmente processou as roupas que ela usava e sua mão próxima da maçaneta, o queixo dele caiu em indignação.
– Onde é que você pensa que vai?! – ele exclamou chocado e soube que ela deveria ter tentado fugir pela janela.
Julie buzinou novamente do lado de fora e o som, junto da voz de Daniel, ecoou pela noite. A cabeça de Brandon apareceu no corredor, saindo do banheiro e a de Caleb se juntou um segundo depois, saindo de seu quarto.
– E o que você está vestindo?! – ele gritou logo em seguida. suspirou, fechando os olhos enquanto seus irmãos se aglomeravam à sua frente.
Deus, era muito pedir por uma noite de paz? Apenas uma? Só uma vez?
– Um lindo vestido, muito obrigada – argumentou, colocando as mãos nos quadris. Caleb semicerrou os olhos para ela.
– Um vestido curtíssimo isso sim – ele respondeu. revirou os olhos, pouco se importando com suas palavras.
– Você diz isso para todas as minhas roupas.
– Porque todas elas são muito curtas – Caleb disse, colocando as mãos nos quadris como ela. – Como vamos te proteger dos garotos se você se veste dessa forma?
soltou uma exclamação indignada e três punhos diferentes acertaram Caleb em seus braços: o dela, o de Daniel e o de Brandon.
– Ai! – ele exclamou de dor, esfregando as áreas machucadas enquanto seus irmãos reviravam os olhos. – Merda, isso doeu muito!
– Apesar de eu concordar que tem muita pele à vista... – murmurou Brandon, fazendo-a virar rapidamente para ele com uma expressão de raiva. - ...As roupas de não são o problema necessariamente.
mostrou a língua para Caleb, que também mostrou a dele enquanto ainda esfregava os braços doloridos.
– O problema é que ela está saindo de fininho em uma sexta-feira à noite – ele completou.
É claro que suas pequenas vitórias duravam pouco. Ela tinha karma. Muito karma. Karma de gerações. Ela provavelmente foi algum ditador horrendo que assassinou milhões de pessoas e agora tinha que pagar seus pecados, vivendo com três ditadores no lugar de um.
Eu prometo que vou ser boa na minha próxima reencarnação, eu prometo, rezou em desespero.
se virou para Brandon com um sorriso inocente, para encontrá-lo com os braços cruzados e uma careta paternal zangada no rosto.
– Posso saber aonde a senhorita está indo? – ele questionou. encolheu os ombros, fazendo seu melhor olhar de cachorrinho-pidão.
– Bem... Tem essa festa... – começou.
Iiih... – zombou Daniel imitando a postura de Brandon. – Lá vem.
o ignorou. Outra buzina soou do lado de fora.
– Tem essa festa que vai acontecer daqui a pouco e todo mundo vai – continuou levemente sem fôlego. – Minha amiga Julie veio me buscar e ela é super responsável, eu juro! Ótimas notas, não gosta de beber, vai me trazer de volta para casa...
Brandon torceu os lábios e levantou uma sobrancelha. continuou tentando convencê-lo, sabendo que ele nunca conseguia resistir ao seu beicinho por muito tempo, principalmente se ela jogasse sujo e tocasse seus pontos sensíveis.
– Eu sei que vocês não gostam quando vou em festas que não conhecem ninguém, mas é a primeira do semestre e eu preciso muito, muito, muito ir! – Ela colocou as mãos em sinal de oração e se aproximou de Brandon. – Eu fiz duas amigas ótimas que estão indo só por minha causa e é a oportunidade prefeita para fazer amizade com as meninas da torcida. Vocês sabem o quanto eu quero entrar para o time! Você mesmo disse que eu deveria seguir esse sonho.
– Com aqueles uniformes curtos... – murmurou Caleb baixinho. Todos o ignoraram, apesar de nenhum dos outros dois parecerem discordar.
... – Brandon murmurou. Ela não o deixou continuar.
– Nós estamos morando tão longe de casa e eu não tenho nenhum amigo além delas! Uma mudança que foi toda ideia sua! – apelou. – O que você espera que aconteça se eu não for em festas como todo mundo? Vou acabar completamente sozinha. E eu mesma as convenci a comparecer. Se eu furar com elas minhas amigas também vão me deixar.
Um pouco rainha do drama até mesmo para ela, mas o importante é que parecia que estava funcionando. Um longo suspiro saiu da respiração dele, como se aquela conversa lhe desse dor física e mental.
– E onde é essa festa? – perguntou Brandon. sorriu abertamente enquanto Daniel revirava os olhos. Eles sabiam que ela estava vencendo.
– Perto da praia, há uns vinte minutos de carro daqui – contou. – Posso te passar o endereço se quiser. É na casa de um dos jogadores de futebol da escola, então todo mundo vai-
– Opa, opa, opa! Você disse que o dono da festa é um homem? – lhe interrompeu Daniel com as sobrancelhas levantadas. prendeu a respiração.
Você e a sua boca grande!
– Sim, mas... – gaguejou.
– Não estou gostando dessa história - murmurou Brandon. Daniel e Caleb acenaram em concordância.
cobriu o rosto com as mãos em sinal de cansaço enquanto ouvia Julie buzinar mais uma vez.
– Alvin é um garoto do time de futebol e é o anfitrião, mas eu não estou indo nessa festa por causa dele! – suspirou desesperada.
– É isso que você diz... – alfinetou Daniel.
– Pelo amor de Deus! – exclamou frustrada. – Eu estou indo porque quero entrar para o time de torcida e para isso preciso conhecer os integrantes primeiro! Além disso, foram vocês que disseram que mudar para a Flórida seria bom e que eu poderia fazer vários amigos e toda essa história!
– Mas não se esses amigos forem homens! – devolveu Caleb. revirou os olhos e se voltou para Brandon novamente, sua única esperança.
– Por favor, por favor, por favor, me deixe ir à festa! – implorou com olhos pidões. – Eu juro que não vou fazer nada que vocês desaprovariam! Só quero me divertir com minhas novas amigas. Vocês podem me ligar de meia em meia hora se quiserem, só por favor me deixem ir!
Brandon a encarou de volta pelo que pareceram horas. Julie buzinou novamente.
– Você não vai voltar tarde – começou.
– Eu prometo! – disse enquanto saltava de alegria.
– E nada de garotos... – insistiu Daniel.
revirou os olhos, mas aceitou para que a deixassem em paz. A decisão de apenas se envolver com alguém na faculdade, longe deles, de preferência do outro lado do país, veio facilmente em sua mente depois de três namoros destruídos e sabe-se lá quantos potenciais parceiros afastados por causa de seus irmãos.
Ele não disse nada sobre ficar longe de garotas, mas não tentaria sua sorte dizendo-lhe isso. Ela não saberia dizer como Daniel reagiria se soubesse que tinha mais esse segredo sendo mantido deles.
– Eu prometo!
– E você vai nos enviar o endereço por mensagem para que possamos te buscar caso aconteça alguma coisa – terminou Caleb. – E vamos te checar de meia em meia hora.
– Eu prometo, eu prometo, eu prometo! – exclamou dando um abraço de alegria em cada um. – Obrigada!
Assim que se virou, a voz de Brandon a chamou.
– Espere! – Quando olhou para seu rosto novamente, ele apontou para as coxas dela, que voltaram a ficar expostas pelo tecido do vestido que subira.
Com um suspiro profundo, ela o puxou para baixo, esticando-o quase até os joelhos. Três passos o faria subir quase até a borda das nádegas, mas nenhum deles precisava saber disso. Em um movimento revoltado com as mãos, ela acenou para si mesma e disse:
– Está bom agor a?
Brandon a encarou pensativo, antes de se aproximar. Em movimentos rápidos, ele fechou o casaco felpudo de , subindo o zíper até as clavículas.
– Não tire o casaco – respondeu por fim. sorriu inocentemente, sabendo que faria exatamente isso quando tivesse a chance.
Ela correu até a porta e a abriu, acenando para Julie, que parecia estar exausta de esperá-la após tanto tempo. No segundo que colocou o pé na varanda, contudo, Caleb a interrompeu.
– Ei, espere! Você disse que sua amiga não bebe, mas não falou nada sobre si mesma. Você não vai beber, não é?
os encarou em silêncio por um momento. Cada um de seus irmãos a olhou de volta, em expectativa.
Um segundo se passou. Dois. Três.
E ela saiu correndo.
! – exclamou Brandon atrás dela enquanto a via fugir até o carro de Julie.
– Ligue o carro, ligue o carro! – gritou desesperada para Julie, que a encarou completamente confusa.
– O que está acontecendo? – perguntou, enquanto entrava no banco do passageiro como um furacão.
Caleb a seguiu. trancou a porta por dentro no mesmo segundo que ele a alcançou, tentando abri-la. Passou, então, a bater na janela fechada, tentando chamar sua atenção.
– Fala sério, ! – ele disse enquanto ela o ignorava. – Volte aqui!
– Vai, vai, vai! – gritou para Julie, que ligou o motor do carro, ainda com as sobrancelhas franzidas e os olhos arregalados.
! – ouviu Brandon gritar da porta da casa.
Ela acenou sorridente, mandando-lhe beijos. Caleb continuou batendo os nós dos dedos na janela.
– Amo vocês! Tchauzinho! – exclamou.
, eu não sei... – murmurou Julie hesitante.
– Vai! – insistiu e o carro passou a se mover.
– NADA DE GAROTOS! – gritou Daniel uma última vez, enquanto a casa deles foi ficando cada vez menor no horizonte.
suspirou aliviada, recostando-se no banco do passageiro e colocando o cinto. Quando sorriu para Julie, a amiga a encarava como se tivesse sido sua motorista de fuga em um assassinato sangrento.
– O que foi isso?! – exclamou horrorizada, enquanto sentia as bochechas queimando. – O que acabou de acontecer?
Uma enorme sensação de constrangimento a cobriu. Ela gostava muito de Julie e a considerava uma amiga incrível, mas elas se conheciam a pouco tempo. Contar sobre como possuía três irmãos mais velhos superprotetores pareceu, de repente, uma péssima ideia.
E se Julie os achasse malucos demais? Ela era tão calma, suave, responsável e racional... Talvez não fosse uma boa ideia. Ela poderia não querer mais ser amiga de e isso poderia afastar Monalisa também e então ficaria sem amigas, completamente sozinha em um novo Estado com apenas Caleb, Brandon e Daniel como companhia...
Ela preferiria ser obrigada a ter que usar apenas a cor verde pelo resto da vida do que isso.
– Nada – mentiu, com uma risadinha constrangida. Julie levantou uma sobrancelha em descrença, enquanto a assistia tirar o casaco e o pendurar em sua bolsa. – Apenas uma brincadeirinha entre irmãos. Eles são bobos assim.
pode ver em seus olhos que ela não acreditara em suas mentiras, mas aqui estava outra coisa sobre Julie: ela também era muito sensível aos sentimentos dos outros e provavelmente pressentiu que não estava confortável com o assunto.
– Tudo bem... – murmurou, piscando os olhos em confusão. – Por que você demorou tanto? Fiquei te esperando por quase meia hora.
Porque estou sendo punida por forças divinas...
– Desculpe, não conseguia decidir o que vestir – mentiu novamente, abaixando o pequeno espelho à sua frente e encarando o próprio reflexo.
Julie revirou os olhos e bufou, parecendo levemente divertida. Ela continuou dirigindo até a casa de Monalisa e elogiou suas roupas, fazendo-a corar. Enquanto era toda brilhos, cores e lantejoulas, Julie preferiu cobrir os ombros com uma blusa de lã de gola alta e usar uma saia modesta até o meio das coxas. Ela parecia não sentir calor, apesar do clima.
A diferença era boa de todas as formas possíveis e era nisso que pensava enquanto estacionavam na frente da casa de Monalisa. Quando a amiga apareceu, indo até o carro, as duas a observaram deslumbradas.
– Ela é tão poderosa – suspirou e Julie concordou ferozmente com a cabeça enquanto observava Lisa entrar no carro, com sua calça absurdamente colada e seus lábios pintados de preto profundo.
– Boa noite, senhoritas – ela sorriu, sentando-se confortavelmente no banco de trás.
– Você está tão fodona! – exclamou sem conseguir se conter. Ela elogiava com tanta facilidade quanto respirava. – E sexy. Queria ser como você.
– Confie em mim, você não gostaria – brincou Monalisa se volta, passando os olhos sobre ela. – E você está radiante, . De verdade.
sentiu as próprias bochechas queimando enquanto deixava seu elogio aquecê-la no coração.
– Oh! Sério? – brincou de volta, afofando os próprios cabelos com carinho. – Vesti a primeira coisa que vi.
– Mentira! – exclamou Julie franzindo as sobrancelhas. – Fiquei quase meia hora buzinando na frente da casa dela até que ficasse pronta.
riu levemente, com o rosto agora ardendo de constrangimento enquanto observava Monalisa elogiar o estilo de Julie em seguida. Ela manteria seus irmãos o mais longe possível de suas amigas até que elas estivessem tão próximas que não teria perigo de correram para longe ao saberem o quão malucos eles eram.
A viagem até a festa durou pouco, apesar de ter que quase implorar para que Julie acelerasse o carro para mais de trinta quilômetros por hora. Monalisa riu da interação entre as duas, principalmente quando começaram a brigar sobre o excesso de cuidados de Julie (“As leis de trânsito existem por uma razão!”), até que finalmente estacionassem há alguns metros da casa de Alvin.
A festa acontecia em uma mansão gigantesca à beira da praia. sentiu um pouco de inveja, desejando estar tão perto assim do mar e da areia, mas sabia que, mesmo com o emprego de Brandon e Daniel e da vida de classe média que tinham, nunca seriam capazes de pagar para viver em um local como aquele.
No fim, era só um sentimento bobo que não tinha tanta importância. Eles viviam bem e tinham o suficiente para suprir suas necessidades, então ela não iria reclamar do conforto que lhe proporcionavam, mesmo que as enormes janelas de vidro daquela casa brilhassem como estrelas.
O ambiente estava lotado, desde os jardins até o interior. entrou pela porta da frente com as amigas, logo encarando uma multidão caótica, que falava sobre a música alta e derrubava bebidas no carpete enquanto fumavam em cigarros eletrônicos. Ela percebeu que Monalisa franziu o nariz para o cheiro de fumaça, como se lhe desse mal-estar.
– Vamos procurar algo para beber! – sugeriu enquanto agarrava as mãos de cada uma e as arrastava pelo local, a procura da cozinha.
seguiu o fluxo de adolescentes, buscando o local por onde a maioria dos copos pareciam sair e finalmente achou o cômodo que queria, onde um grupo de garotos enchiam a geladeira de cerveja e outros misturavam marcas de vodca, frutas e açúcar em uma bacia profunda.
– Como eles conseguiram tanta bebida? Nós somos menores de idade! – murmurou Julie, com o nariz torcido. tentou se lembrar das fofocas que foi coletando ao longo da semana para saber mais sobre a vida das pessoas que queria impressionar.
– Alvin não tem um irmão mais velho? – questionou.
– Mas ele é só dois anos mais velho, tem dezenove – explicou Julie ainda parecendo confusa.
– Os meninos ricos conseguiram bebida antes dos vinte e um anos – zombou Monalisa. – Você está surpresa?
riu, vendo sentido em suas palavras e se aproximou dos garotos desconhecidos com um sorriso simpático.
– O que é isso? – perguntou gentilmente, vendo-os se virarem para ela e sorrirem enquanto lhe entregavam um copo automaticamente.
– A melhor coisa que você vai experimentar, bonitinha – o menino mais próximo paquerou, fazendo-a sorrir timidamente. O tom de sua voz era do tipo que ela sabia que seus irmãos desaprovariam.
Ele também entregou bebidas para Monalisa e Julie.
– Aqui meninas, aproveitem!
Julie cheirou a bebida com uma careta desgostosa. Monalisa não bebeu, apenas se recostando no balcão e segurando o copo frouxamente em sua mão. tomou um gole, não querendo ser rude, mas logo se engasgou com o gosto absurdamente forte de álcool que tocou sua língua. Como alguém conseguia beber aquilo?
– Isso é horrível – comentou Julie, abandonando seu copo e virando-se para . – Como consegue beber?
– Não é tão ruim – mentiu, bebendo novamente enquanto sentia o próprio rosto se contorcer e o peito queimar. Deus do céu, “a melhor coisa” que ela iria experimentar uma ova.
– Olha só o que o destino trouxe! – uma voz surgiu atrás de Monalisa, chamando a atenção de todas.
sorriu para um rosto bonito e cabelos cacheados presos em um rabo-de-cavalo.
– Oi Adrien! – cumprimentou feliz. Ela não tivera muito contato com ele fora os momentos em que o encontrou na presença de Julie e Monalisa, mas adorava sua companhia.
– Meninas! Como estão? – Adrien sorriu, em um tom galanteador, colocando os braços ao redor dos ombros das amigas de . – Tudo certo por aqui?
– A bebida é uma merda – respondeu Monalisa, prontamente afastando-se de seu toque. quis rir de sua atitude, mas se controlou. Ela, diferente de Lisa, não tinha a coragem de dizer tudo que pensava. No fundo, sempre achava melhor ser gentil.
– Sempre um poço de simpatia, Lisa – brincou Adrien antes de voltar os olhos para Julie. – E ora, ora, ora, Julie Filmore. Em uma festa. Será esse o fim do mundo?
Julie franziu as sobrancelhas e cerrou os olhos para ele. levantou as sobrancelhas ao perceber que ela não se afastou como Monalisa fizera.
– Só se eu estivesse me divertindo – murmurou, cruzando os braços. – O que não é o caso.
Monalisa bufou, em uma tentativa fracassada para não rir e Adrien colocou uma mão sobre seu coração, fingindo estar ofendido.
As sobrancelhas de se franziram. O que estava acontecendo ali?
– Você sempre quebra o meu coração sabia? – Adrien brincou, enquanto Julie revirava os olhos. – Vamos lá, é uma festa! A primeira que você vai em um bilhão de anos. Você precisa aprender a se divertir.
Oh meu Deus!, o cérebro de exclamou enquanto seus olhos se arregalavam. Eles estão flertando?
– Eu sei me divertir – rebateu Julie. O sorriso de Adrien ficou quase felino.
– Fazer lição de casa não é se divertir – zombou. – Vou te ensinar a se divertir de verdade.
Eles com certeza estão flertando!
observou conforme o aperto de Adrien nos ombros de Julie ficou um pouco mais forte e ele começou a tentar levá-la para longe. Ela olhou para Monalisa, tentando descobrir se a amiga havia percebido essa paquera tão óbvia, mas Lisa estava focada demais em tirar Julie daquela situação.
– Você quer que eu me livre dele? – questionou, entrando no meio dos dois. – Consigo em um piscar de olhos.
Julie olhou para ela e para Adrien durante alguns segundos. quase a viu aceitar, mas havia um comichão atrás de sua orelha que dizia que ela não o faria.
– Não se preocupe, Adrien é inofensivo – disse Julie dando de ombros. – Um idiota completo, mas inofensivo. Além disso, eu sei que ele ainda tem uma coleção de cuecas do Homem-Aranha. Se ele tentar qualquer gracinha, eu conto para a escola inteira.
Adrien pareceu horrorizado com a ideia e levou Julie rapidamente para o meio da multidão que estava fora da cozinha. Monalisa riu e sorriu.
– Eles formam um casal bem fofo, não acha? – questionou maliciosamente. O rosto de Monalisa se contorceu, como se ela quisesse gargalhar.
– Você é doida da cabeça, sabia? – brincou.
Mas não ouviu, pois seus olhos haviam caído sobre uma outra pessoa à vista, há alguns metros da cozinha, na bagunça da sala.
Uma pessoa alta, bonita e que sabia que Monalisa adoraria encontrar.
– Ai meu Deus, olha ali! – exclamou, apontando para a sala através do balcão que as separava da cozinha, antes de conseguir se conter. – É o seu bonitão!
viu conforme Monalisa arregalou os olhos e virou o pescoço, tão rápido que se surpreendeu por não ter o estralado. Há alguns metros estava Ian Harrington, o garoto charmoso que tinha certeza absoluta, com todas as suas forças, que Monalisa gostava.
Ela negava a todo custo, dizendo que Ian era apenas um garoto e que não estava nem ai para ele. Mas, diferente da crença popular, não era boba. Principalmente quando se tratava de romance.
– Oi, Ian! – gritou animadamente, acenando com o braço. Ele se virou ao seu chamado no mesmo segundo que Monalisa a agarrou pelas mãos e a puxou bruscamente para atrás de uma viga de mármore.
teve que se segurar para não rir. Para alguém que afirmava não dar a mínima, Monalisa era muito reativa quando se tratava daquele menino.
– Ele não é meu bonitão – rosnou com uma carranca mal-humorada. – E pare de ficar fazendo isso.
fez beicinho, fingindo-se de desentendida. Monalisa olhou ao redor, provavelmente procurando algo que mudasse o rumo daquela situação.
– Olha ali, as meninas da torcida – disse de repente, apontando para um pequeno grupo à distância. – Você não queria virar amiga delas? É a sua chance.
Ela sabia que a Monalisa estava tentando apenas se livrar dela, mas não importava. Entrar para o time era algo de extrema importância, quase uma questão de vida ou morte, então estava disposta a adiar aquela conversa para outra hora.
– Você acha que eu devo? – perguntou, alisando o vestido e afofando os cabelos em instinto. Ela arrumou o decote para como estava antes do conflito com seus irmãos. – Como estou?
– Impecável – elogiou Monalisa e sentiu as próprias bochechas quentes de alegria pelo elogio. – Agora vai! Você consegue!
se afastou, sentindo as pernas bambas. Borboletas explodiram em seu estômago enquanto ela se aproximava a cada passo do grupo que mais ansiava em participar. Ela chegou a pesquisar sobre cada um dos membros do time e talvez isso fizesse dela uma esquisitona como Lisa gostava de brincar, mas não pode se conter. Quando ficou sabendo dos testes para entrar na torcida, ficou tão insegura que a única coisa que pode acalmá-la foi pesquisar os nomes e informações dos outros membros para ter uma leve ideia de como se tornar amiga deles.
Geralmente era naturalmente boa nisso, mesmo que seus irmãos encontrassem maneiras de estragarem tudo. Ela era sorridente e simpática, além de extremamente gentil e não tinha problemas em iniciar conversas com estranhos.
Mas se tornar líder de torcida sempre foi um sonho que almejou e nunca foi capaz de conseguir.
Não que não tivesse tentado. Ela sempre o fez, desde o ensino fundamental. Treinou seus alongamentos, sua habilidade na dança, estudou diversos tipos de passos, um atrás do outro, até que pudesse sorrir para si mesma no espelho e considerar que tinha uma chance.
Ela não passou em nenhum dos testes que participou. Não importava o quanto se esforçasse, o quanto estudasse para que tudo desse absolutamente certo, nunca era aprovada, um ano atrás do outro, pelo mesmo time da escola que estudou durante toda sua vida.
No começo, pensou que talvez ela realmente não fosse tão boa assim. Ela não tinha uma experiência real, afinal, além das longas e exaustivas horas de treinamento que fazia no próprio quarto.
Mas, conforme notava cada vez mais os passos e saltos malfeitos dos alunos que passavam nos testes, ela começava a achar que talvez não fosse o caso.
Na última vez que tentou entrar para o time, a capitã, uma menina sorridente chamada Melanie, a puxou de canto no final dos testes.
– Olha, , não é que você não seja boa. Você leva muito jeito, na verdade – disse ela, sorrindo simpaticamente. sorriu de volta, levemente perdida. – É só que você... – Seus olhos percorreram seu corpo de cima a baixo antes que ela sorrisse novamente. – ...Não faz muito o perfil que procuramos, entende?
Ela não precisou dizer mais nada. entendeu automaticamente o que Melanie quis dizer com aquilo. Não era como se fosse a primeira vez que ouvira algo assim em seus dezessete anos de vida.
sabia que não se encaixava no estereótipo conhecido de como uma líder de torcida deveria parecer. Ela não era branca, não era loira, não tinha olhos azuis, mas, principalmente, não era magra.
Ela sabia que era uma garota gorda. Sempre foi e sempre soube. tinha os quadris largos, braços gordos, coxas grossas, seios grandes, barriga gorda.
Nunca foi um problema ou pelo menos não deveria ser. gostava da própria aparência, de seu estilo de roupa, de olhar para si mesma no espelho e sorrir apreciar o que via. Ela tinha uma boa saúde, praticava exercícios, comia mil vezes melhor que seus irmãos que, apesar de serem magros, provavelmente tinham mil vezes mais chances de ter problemas de saúde do que ela.
Mas quase todos a sua volta pareciam ter um problema com seu peso. Seu pai, com certeza sua mãe, seus ex-namorados com comentários aleatórios sobre fazer dieta, todas as líderes de torcida com quem lidara até agora. Todos enxergavam seu corpo como um empecilho que a impediria de ser feliz e alcançar seus objetivos a menos que ela o emagrecesse.
Um monte de merda, na opinião dela. teve sorte de ser afastada de seus pais em tempo suficiente para recuperar sua autoestima em relação à própria aparência (que sua mãe sempre fez questão em contaminar e que teria sido destruída completamente se não tivesse perdido sua guarda), vivendo com Brandon, Daniel e Caleb, que, apesar de todos os problemas, em momento algum jamais fizeram comentários negativos sobre o corpo dela ou sobre o que comia. Além disso, ela teve a graça de possuir a melhor ex-namorada do mundo, que a ajudou muito a enxergar um brilho em si mesma (e de quem ainda era uma grande amiga até hoje).
Ela era bonita, gorda, atlética e saudável e sabia disso. Mesmo assim, ainda era algo que atrapalhava sua vida, pois parecia que não havia uma pessoa ao redor dela (além de Monalisa, Julie e seus irmãos) que não a via como algo além de seu peso.
Por isso, criou uma estratégia. Para entrar no time, não importava apenas que ela visse a si mesma como uma ótima candidata para uma das vagas. Os outros membros também precisavam ter essa percepção. Então, decidiu que faria de tudo para que a conhecessem melhor, tornando-se amiga deles até o ponto que seu peso não os impediria de escolhê-la.
Em sua mente, o plano perfeito.
Mas não impediu suas mãos de suarem.
A rodinha foi ficando cada vez mais próxima. Uma das pessoas presentes, uma garota com cachos ruivos e sardas por toda parte, olhou para e sorriu, parecendo reconhecê-la.
sabia quem era ela. Emily Brown, a melhor amiga da capitã do time, Cynthia Willians. Elas tinham fotos lindas em suas redes sociais, junto dos garotos do futebol. Havia até mesmo uma foto muito antiga dela, Cynthia, Alvin e Ian, quando crianças. achou esquisito que fossem amigos, já que nunca o via com eles ao longo do tempo no colégio, mas, no fim, não era muito da sua conta.
(O que ela admitia ser um pensamento muito hipócrita de sua parte levando em consideração que estava literalmente stalkeando a vida daquelas pessoas sem culpa nenhuma).
– Oi! – exclamou Emily, chamando a atenção de todos para ela. tentou não corar e sorriu de volta. – Eu me lembro de você! , não é?
– Sim – confirmou , chegando cada vez mais perto timidamente. – .
– Oh, é mesmo! Sua apresentação foi muito boa! – exclamou uma menina de cabelos loiros e cacheados. Caroline Gray. A família tinha um rancho no interior. – Você tem um ótimo controle dos pés.
Suas bochechas esquentaram de alegria e as elogiou de volta, dizendo o quanto estava gostando do colégio e da Flórida. Um dos garotos do time, um menino alto e de descendência japonesa chamado Danny, também puxou conversa e eles assim ficaram pela próxima hora.
Laila Lewis, uma menina de cabelo Chanel e bochechas rechonchudas, ofereceu à ela uma cerveja e aceitou envergonhada. Ficou constrangida em admitir que era uma pessoa extremamente fraca para bebida, mas, ao mesmo tempo, qualquer coisa seria melhor do que o líquido tóxico que conseguira na cozinha. Ela bebeu de sua nova aquisição ao longo da conversa e, antes que percebesse, estava com uma nova lata entre os dedos e as vozes de seus colegas estavam começando a ficar abafadas como se ela estivesse debaixo d’água.
A capitã da equipe, Cynthia, a garota bonita que fez o coração de disparar em seu peito no primeiro dia de aula, não disse muito ao longo do tempo. Ela parecia distraída, sempre voltando os olhos para um ponto específico na multidão que a cabeça bêbada de não conseguia se obrigar a prestar atenção.
Mas Cynthia foi simpática como naquela manhã, quando fez o primeiro teste para o time e isso aliviou sua ansiedade consideravelmente. Monalisa tinha lhe acompanhado e ela e Cynthia se estranharam à primeira vista. ficou com medo que isso de alguma forma a prejudicasse, mas não parecia o caso. A capitã a observou com olhos espertos e parecia satisfeita com a simpatia e carisma que possuía apesar de seu nervosismo.
Em um certo ponto, quando sua cabeça já estava leve como as nuvens, Cynthia seguiu os olhos em alguém que ia da sala para a cozinha e passou a se mover.
– Vou pegar uma bebida – disse ela, saindo apressadamente em seguida. Emily a observou partir com sobrancelhas franzidas, antes de encolher os ombros.
– Oh! Tive uma ideia! – exclamou ela um tempo depois, quando deu um último gole em sua segunda cerveja. O gosto não estava mais tão forte, mas ela também mal sentia seu corpo, então talvez tivesse algo a ver com isso. – Nós podemos jogar verdade ou desafio!
engasgou-se, tossindo enquanto sentia o álcool entrar em seus pulmões. Alguém lhe deu palmadinhas nas costas e ela entrou em pânico enquanto todos do grupo acenaram em concordância, adorando a ideia.
Oh não, aquilo era péssimo. Esses tipos de jogos sempre iam se tornando cada vez mais selvagens ao longo do tempo e já estava sentindo o pescoço quente pela bebedeira. E se a desafiassem a beber mais? E se ela acabasse expondo um segredo muito constrangedor na frente de todos? Oh Deus, uma vez, na quarta-série, ela caiu de um balanço e rasgou seu vestido na frente de toda a turma. Todos viram sua calcinha de gatinhos. E agora não tinha ninguém com ela para impedi-la de contar sobre essa grande humilhação!
Emily, que Deus a abençoasse, pareceu sentir seu nervosismo, pois lhe deu um sorriso tranquilizador.
– Você é amiga de Julie Filmore e aquela nova garota gótica, não é? Eu te vi almoçando com elas hoje de manhã – disse e acenou em concordância (uma péssima ideia já que os pensamentos dela ficaram ainda mais embaralhados). – Por que não as convida para participar? Nós vamos estar na sala te esperando.
Ela conseguiu sorrir para Emily em agradecimento e se afastou, enfiando-se na multidão enquanto procurava pelas únicas duas pessoas que a impediriam de manchar a própria imagem na primeira festa do semestre.
A aglomeração insana e a fumaça dos cigarros eletrônicos por toda parte não ajudaram. trombou por aí, capengando levemente enquanto tentava passar, até que se viu frente a frente com uma porta de banheiro. Quando foi que ela subiu as escadas?
Dando de ombros, entrou, suspirando de alívio com o silêncio repentino ao fechar a porta. Apoiando-se na pia, ela encarou a si mesma no espelho e suspirou novamente.
– Você está bêbada – disse em voz alta e a do espelho riu, com suas pálpebras pesadas e bochechas quentes. – E muito linda. Parabéns, garota.
Ela permaneceu ali, afofando os cabelos e apreciando a si mesma até que seu cérebro sussurrasse que havia algo que ela deveria estar fazendo. franziu as sobrancelhas, tentando pensar. O que ela estava fazendo? Por que ela estava no banheiro? Havia alguma coisa... Um jogo...
Minhas amigas!
Com um pequeno gritinho, saiu do banheiro de volta para a multidão barulhenta e tentou passar pelo corredor e pelas escadas até o andar debaixo. Como as encontraria naquela bagunça? Julie desaparecera a um bom tempo, assim como Monalisa. Elas poderiam estar em qualquer lugar.
Um garoto vestindo um casaco verde que não lhe caía bem tropeçou em cima dela sem querer e viu sua chance.
– Você viu minhas amigas? – perguntou, vendo-o virar-se para ela com uma expressão surpresa.
– O quê? – ele gritou de volta.
– Minhas amigas! – exclamou . – Você as viu?
O garoto a encarou sem palavras por alguns segundos, antes de franzir as sobrancelhas.
– Eu não te conheço! – ele disse e ajeitou a postura, sentindo-se boba.
Ah é... Faz sentido.
Ela mordeu os lábios, tentando fazer seu cérebro funcionar. Como conseguiria encontrá-las assim? Pensa, , pensa!
– Uma delas é Julie – tentou, vendo-o parecer mais confuso. – Julie Filmore?
O garoto continuou a encarando completamente perdido. Uma ideia passou pela mente dela como um raio.
– Ela está com Adrien Rodriguez! – disse de repente.
– Adrien! É claro que eu o conheço! O cara é demais – o garoto, tão bêbado quanto ela, exclamou animadamente. sentiu-se feliz, até sua expressão ficar séria novamente. – Mas faz tempo que eu o vi, gatinha. Mais de uma hora, eu acho.
Ela fez beicinho, mas ainda não estava pronta para desistir.
– A outra é Monalisa... Ela... Hm... – pensou por alguns segundos. – Ela é gótica!
O garoto estalou os dedos como se tivesse uma ideia.
– Acho que vi uma gótica indo até a cozinha um tempo atrás – disse.
soltou uma exclamação animada e ela e o garoto bateram as mãos em comemoração. Finalmente!
– Obrigada, você me ajudou muito! – gritou sorridente e o desconhecido coçou a nuca, tímido.
– Que isso, não tem problema – disse ele, antes de descer os olhos pela figura dela. – Você é muito linda, sabia?
– Obrigada! – respondeu . – Você é super bonitinho, mas verde não é sua cor. Você deveria usar mais vermelho. Tchauzinho, obrigada de novo!
Ela o deixou para trás, completamente alheia e correu em direção as cozinhas tentando não tropeçar nos próprios pés. Quando finalmente chegou, gritou de alegria.
Monalisa estava ali!
– Lisa! – exclamou animadamente, enquanto corria para dentro da cozinha e jogava os braços ao redor do pescoço dela. – Estava te procurando por todo lugar!
– O quanto você bebeu? – perguntou Monalisa de prontidão, separando-as levemente e franzindo as sobrancelhas. não gostou de fazê-la se preocupar.
– Pouco, na verdade – admitiu tentando se forçar a ficar sóbria. – Eu sou fraca para bebida. Bem, não importa! Eu vim porque-
Mas seja o que for que fosse falar desapareceu de sua mente como fumaça ao vento. Os olhos de viajaram para a outra pessoa na cozinha e, de repente, a língua dela parou de funcionar assim como qualquer neurônio em seu cérebro.
Ela nunca viu um garoto tão bonito em toda a sua vida.
Sentado ao lado Lisa, no balcão no centro da cozinha, o estranho permanecia quieto em toda a sua glória, causando uma explosão de borboletas no estômago de sem qualquer tipo de aviso prévio. Ele vestia uma camiseta preta por baixo de uma jaqueta da mesma cor e era muito parecido com Monalisa em questão de estilo de roupa. Sua orelha estava coberta de piercings, além de possuir duas argolinhas finas, uma do lado da outra, na sobrancelha direita. Havia uma charmosa corrente de prata descansando em seu peito. Ele era alto, com cabelos escuros e parecia ser apenas um pouco mais velho do que ela.
Mas, apesar de todo o conjunto ser extremamente atraente, foram os olhos dele que a deixaram quente e sem palavras.
Olhos escuros que a observavam com a mesma intensidade que lhe dava.
O estranho a encarou pelos mesmos segundos em que se viu incapaz de dizer qualquer coisa e, de repente, a cozinha estava muito quente. Pelando. Pegando fogo completamente. As paredes provavelmente estavam derretendo, a tinta pingando como água no chão de madeira. Os lábios dele se repuxaram para cima, o começo de um sorriso que lhe trouxe um delicioso arrepio no estômago...
Dedos com unhas pintadas de preto estalaram na frente de seus olhos, tirando de seus devaneios.
– Ei! – chamou Lisa, chamando sua atenção. – O que você estava dizendo?
– Hã? – balbuciou como uma tola, tirando os olhos do garoto com muita dificuldade. O que fora aquilo? Ela se sentia quase fora da própria pele. – Ah, sim! Vim te chamar para ficar com a gente. Eu e algumas pessoas da torcida vamos jogar verdade ou desafio.
– Nem fodendo – Monalisa respondeu sem pestanejar e se encheu de decepção.
– Lisa, por favor! – chorou agarrando-lhe as mãos. – Não achei Julie em lugar nenhum e queria uma amiga para estar comigo. Por favor, por favor, por favoooooor!
– Eu odeio esse jogo – Monalisa insistiu. – Ele é uma desculpa para fazer merda sem culpa e humilhar o resto dos pobres coitados. Não. Vou. Jogar.
Aqui estava um fato sobre que era uma das únicas coisas que ela provavelmente detestava sobre si mesma: ela chorava por tudo. Desde criança, parecia possuir uma ligação direta entre seu coração e seu canal lacrimal, que não hesitava em funcionar assim que algum tipo de emoção se tornava levemente mais intensa.
Tristeza, alegria, raiva, indignação, carinho. Não importava o sentimento, os olhos de muito provavelmente se encheriam de lágrimas idiotas que a fariam se sentir tola e emotiva na frente de todos.
E o álcool com certeza não ajudava em nada.
A recusa de Monalisa a deixou tão triste em seu estado de embriaguez que os olhos dela ficaram automaticamente molhados. desviou o olhar, envergonhada por chorar por um motivo tão bobo, mas, antes que pudesse desviar o assunto, o ridiculamente atraente desconhecido se levantou e foi até ela.
– Não se preocupe, lindinha – ele disse e sua voz a atingiu direto no baixo-ventre, tão intensamente que as lágrimas de desapareceram. – Eu te faço companhia.
Um dos braços dele contornou os ombros dela e o toque, mesmo que por cima do tecido de sua jaqueta, trouxe-lhe arrepios pela pele. Ela não soube dizer se aquele tipo de reação estava sendo influenciada por toda cerveja que bebera ou se aquele estranho era realmente o homem mais charmoso do mundo como seu cérebro estava lhe dizendo.
Naquele momento, não estava nem ai.
– Sério? – perguntou, não conseguindo conter a própria animação.
Ele sorriu para ela – um sorriso de arrancar suspiros – e aproximou o rosto do de .
– Lindinha, eu pularia amarelinha vestindo um tutu se você me pedisse – murmurou e ela muito provavelmente estava morta no chão naquele momento e apenas não tinha percebido. – Agora, lidere o caminho.
Ele não precisou dizer duas vezes. Tomada por uma avalanche de excitação, agarrou-lhe a mão sem pensar duas vezes e o arrastou para longe. O estranho a acompanhou sem pestanejar e ela logo viu uma roda de pessoas familiares sentadas no centro da sala de estar. Emily acenou para ela, pedindo que se aproxima-se e se voltou para o garoto que arrastara até ali.
– Desculpe – murmurou envergonhada, tonta pelo álcool e pela animação. Os dedos dela estavam formigando, mas deveria ser o álcool. Ou um ataque cardíaco. – Fiquei um pouco animada demais.
O estranho sorriu com o canto da boca e se aproximou dela. Aquela sala estava muito quente e abafada. Alguém deveria abrir as janelas.
– Não se preocupe, eu vim por vontade própria – ele flertou, dando-lhe uma piscadela em seguida.
Oh, Daniel não iria gostar nada disso...
– Você vai jogar? – perguntou e o estranho acenou negativamente, para a sua decepção.
– Não, lindinha, não sou muito fã desse jogo – disse, antes se inclinar como se fosse contar-lhe um segredo. – Mas vou ficar de olho para que ninguém ultrapasse os limites, não se preocupe.
Ele piscou para ela novamente e obrigou a si mesma a se afastar enquanto sentia o próprio resto queimar. Não era possível que uma pessoa fosse tão charmosa. O álcool deveria ter a afetado mais do que imaginava. Era isso. Ela só estava muito bêbada. Ou alucinando. Talvez ela estivesse ainda no banheiro, olhando para o próprio reflexo em estado de transe ou algo assim...
– De onde você conhece ? – questionou uma das meninas do time (Kiara Taylor, descendência mexicana, a mãe era dona de uma revista de moda), assim que se sentou ao lado dela. franziu as sobrancelhas.
– Quem? – questionou. Kiara apontou para o bonito desconhecido que viera até ali com ela.
, eu acabei de ver você arrastando-o até aqui – explicou. – De onde você o conhece?
... Até o nome dele era legal.
– Hã... Não conheço, na verdade – murmurou , desviando os olhos de quando ele sorriu ao pegá-la olhando. – Acho que ele é amigo de uma amiga minha. É a primeira vez que o vejo.
– Bem, agora faz sentido – disse Kiara. – Ele é um ano mais velho e se formou no semestre passado. Achei que seria estranho você conhecê-lo. – O sorriso dela ficou malicioso. – Ele é um gato, não é?
Nunca palavras tão verdadeiras foram ditas em voz alta em toda história da humanidade.
Monalisa apareceu com Ian alguns segundos depois e Emily iniciou o jogo, girando a garrafa no centro do círculo. A mente de , contudo, viu-se incapaz de prestar atenção. Se perguntassem, ela teria dito que foram as duas cervejas e a adrenalina de correr para cima e para baixo procurando as amigas que a deixaram assim.
Mas, se fosse ser sincera, a real causa era um par de olhos que a observava há alguns metros como se fosse incapaz de se desviar para outro lugar.
Os desafios foram acontecendo e as verdades sendo reveladas. Kiara admitiu que seu primeiro beijo foi debaixo das arquibancadas na sexta série com Alvin, o dono da festa. Emily bebeu três shots um atrás do outro e teve que contar quantas pessoas já havia beijado na vida (infelizmente não muitas, já que ela tinha o péssimo, terrível, amaldiçoado hábito de se apaixonar por todos que beijava).
As coisas foram ficando mais selvagens com o passar do tempo. Cynthia e um garoto chamado Elijah tiveram que passar dez minutos trancados em um armário, Alvin foi desafiado a ficar apenas de samba-canção por três rodadas inteiras e Danny bebeu um bodyshot direto da barriga de Caroline.
Tudo acabou quando Ben Peterson girou a garrafa, após saltar nu da varanda do segundo andar para a piscina. Molhado e enrolado em uma toalha, ele sorriu maliciosamente para Emily, que escolheu pelo desafio.
– Eu te desafio a dar um beijo bem dado em Alvin – ele disse e houve uma mistura de humores pelo grupo.
Alvin pareceu presunçoso, enquanto Kiara e Caroline começaram a cochichar entre elas quase que desesperadamente. Cynthia agiu, por um milésimo de segundo, como se não tivesse gostado da ideia, mas sorriu tão feliz no segundo seguinte que achou que foi apenas o álcool em sua mente falando.
Emily, por sua vez, parecia extremamente desconfortável.
– Eu... Hã... Eu... – ela gaguejou e saiu de seu transe (no qual se perguntava como, de repente, piercings na sobrancelha ficaram tão atraentes), sentindo-se mal pela colega. Ninguém merecia ter que beijar alguém que não queria.
– Você não precisa fazer se não quiser.
Não foi que disse isso, apesar de estar pensando. Monalisa falou em alto e bom som pela primeira vez na última hora, sem se importar com todos os olhos que, de repente, voltaram-se para ela.
Cynthia e Ben pareceram desgostosos, mas sorriu, sabendo que aquela era a razão dela ter se aproximado tão rapidamente de uma garota que parecia não ter nada em comum com ela: porque, apesar de casca-grossa, Lisa era uma ótima pessoa.
Ben tentou argumentar que esse era o jogo, mas Monalisa não recuou. Cynthia (parecendo quase raivosa), passou a falar em nome de Emily, afirmando que ela não se importaria em beijar Alvin.
– Não sei... Acho que tudo bem... – murmurou Emily, não convencendo ninguém.
Mesmo querendo impressioná-las mais do que qualquer coisa, não podia simplesmente deixar que colega fosse obrigada a beijar alguém que não queria. Uma garota precisa se levantar e defender suas convicções. Ela tinha escrúpulos, afinal.
– Eu concordo com Lisa – disse rapidamente, encolhendo os ombros em seguida. – Acho melhor você pedir para ela fazer outra coisa, Ben. Algo que não a deixe desconfortável.
Talvez fosse um efeito da luz, mas pode jurar que viu os lábios de erguendo-se levemente para cima por um segundo.
– Concordo plenamente – disse Frank, o irmão mais velho de Alvin, que havia se juntado a eles no começo da brincadeira. Ele era muito parecido com o irmão mais novo, apesar de ser mais magro e com cabelos muito compridos. – E como eu moro nessa casa, a festa também é minha, por isso exijo que você refaça o desafio.
sorriu aliviada, mas não durou muito. Cynthia, com as sobrancelhas franzidas, sussurrou algo no ouvido de Emily que a fez parecer ainda mais chateada. Seu coração se afundou e ela perdeu toda a vontade de jogar aquele jogo, um sentimento que pareceu se espalhar entre os demais.
Monalisa saiu como um furacão depois disso. Ela virou as costas, dizendo algo para Julie, que acabara de aparecer, antes de ir em direção à cozinha. e Julie trocaram olhares confusos, mas Ian seguiu Lisa sem pensar duas vezes e isso as acalmou. Pelo menos ela não estaria voltando sozinha.
Tudo se dispersou rapidamente depois disso. O humor de Emily permaneceu murcho como uma bexiga e o mau-humor de Cynthia contaminou as pessoas ao redor como se ela fosse uma abelha-rainha. De repente, todos começaram a levantar e conversar, tentando deixar aquele momento constrangedor para trás.
– Ah, os dramas do ensino médio – suspirou Frank, sorrindo para ela em seguida. – Não tem nada melhor.
Julie foi até ela enquanto se levantava com dificuldade e ajeitava seu vestido. Havia um rubor em suas bochechas que ela disse ser causa do frio do lado de fora.
– O que foi tudo isso? – questionou enquanto a sala se esvaziava. encolheu os ombros, forçando a si mesma para não procurar um conjunto de olhos pretos pela bagunça de pessoas ao redor.
Ele teria saído de perto agora que Monalisa se fora? Ou estava ao redor, fingindo não a observar como ela fazia?
O que você está fazendo?, disse uma voz sensata em seu cérebro, sob toda a névoa do álcool. O plano era não se interessar por ninguém, se lembra? Não vale a pena a dor de cabeça.
torceu os lábios, odiando aquela voz racional. Ela realmente tinha feito um pacto com si mesma de apenas se envolver com outras pessoas quando não estivesse mais sob as asas dos irmãos, mas...
...Ele é tão bonito...
Ela com certeza não se importaria de poder olhá-lo por mais alguns minutos. Não era crime apreciar a beleza dos outros de forma respeitosa, pelo menos não da última vez que ela checou as leis de convivência do ensino médio.
– Não sei – respondeu, fingindo não estar olhando ao redor. – O jogo saiu dos trilhos e Monalisa ficou incomodada. Acho que foi por isso que ela saiu.
Julie franziu as sobrancelhas pensativa e pareceu começar a falar alguma coisa, mas não estava mais prestando atenção. Os olhos dela vagaram, finalmente encontrando , encostado com o quadril no sofá, a uma curta distância.
E olhando para ela.
As bochechas de se esquentaram ao mesmo tempo que ela tentou, com todas as forças, não sorrir (muito). As amigas provavelmente a achariam uma boba, ali, queimando apenas pelo olhar de um desconhecido completo, mas ela pouco se importou.
conheceu muitas pessoas bonitas ao longo de sua vida, homens, mulheres e outros, que fizeram o coração dela disparar nas costelas exatamente como agora. Ela sempre teve um fraquinho por um rosto bonito e uma pose paqueradora e perdeu a conta de quantos olhares de flerte já trocara em festas, mesmo com seus irmãos respirando em seu pescoço como malditos cachorros de guarda.
E ele com certeza encaixava-se em seus requisitos. Ela não se importaria em passar mais um tempo sob seus olhos bonitos. Além disso, ela estava apenas olhando. Que mal havia nisso?
, você está me ouvindo? – questionou Julie, tirando-a de seus devaneios e fazendo-a voltar os olhos para longe de .
– Hã... Sim? – murmurou envergonhada, recebendo um rolar de olhos em resposta.
– Estou dizendo que acho que vou ficar um pouco mais lá fora, aqui está muito abafado – repetiu, olhando ao redor com as sobrancelhas franzidas. – Quer me acompanhar?
não conseguiu impedir a si mesma de olhar na direção de onde estava, apenas para encontrá-lo se afastando em direção ao quintal na lateral da casa.
Seus olhos estavam nela e ele andava quase de costas, como se a convidasse silenciosamente a segui-lo.
Não vá! Isso pode acabar em desastre!, gritou uma parte de seu cérebro.
E é algo para a sóbria resolver!, gritou a outra.
Ela gostou mais da segunda voz. Com certeza uma voz muito mais inteligente. A sóbria que lidasse com seus problemas.
– Ótima ideia! – exclamou animadamente, agarrando a mão de Julie e a arrastando com brutalidade para fora da casa.
– Você vai arrancar meu braço – ouvi-a reclamar atrás de si, mas estava animada demais para notar.
As duas saíram para a noite estranhamente fria e fez beicinho ao não conseguir encontrá-lo em lugar nenhum. Muitos grupos estavam espalhados pelo jardim, fumando, bebendo e conversando sem parar. seguiu Julie com passos lentos, abrindo uma distância entre elas enquanto olhava ao redor discretamente.
Ela estava observando Julie torcer o nariz para Adrien, que participava de uma competição de quem conseguia beber mais estando de ponta-cabeça, quando uma voz surgiu perto de seu ouvido.
– Você nunca me disse o seu nome.
Arrepios desceram pelos braços dela enquanto se virava rapidamente para encontrá-lo parado bem atrás dela.
– E você não me disse o seu – respondeu, tentando manter a compostura. Aqui estava outro fato sobre : ela não era como Monalisa ou Julie. Se um garoto (ou garota) bonito flertava com ela, muito provavelmente ela flertaria de volta. Não tinha problema nenhum em admitir que achava alguém atraente.
Mesmo que qualquer lado racional dela estivesse implorando para que ela não flertasse com ele de volta, como havia prometido a si mesma que não faria mais.
– Touché – respondeu ele, em um murmuro que fez o estômago de voltar a se encher de borboletas. – Eu sou .
Ele estendeu a mão simpaticamente.
– respondeu, apertando-a em resposta. Ela era quente e levemente áspera, com alguns calos na palma, como se ele fizesse algum tipo de trabalho manual.
Antes que pudesse se afastar, segurou-a com delicadeza, dando-lhe um beijo no nós dos dedos. Os olhos dele não deixaram os dela em nenhum momento.
Oh sim, Daniel não ia gostar nada, nada disso.
Mas ela estava adorando, então seu irmão que sofresse sozinho.
Ele soltou sua mão por fim e tentou fingir que o beijo não percorreu sua pele como um raio. Que desgraçado. Esse garoto era bonito demais para o bem dela.
– Então... Você estuda no nosso colégio? – perguntou, já sabendo a resposta, mas precisando de um momento para acalmar a si mesma.
Ele negou com a cabeça, encostando as costas na lateral da casa. se aproximou, ficando a apenas três passos de distância.
– Estudava – explicou ele, tirando um isqueiro do bolso da jaqueta. – Me formei no semestre anterior.
– Veio à festa para lembrar dos velhos tempos? – brincou , vendo os olhos dele brilharem com alguma coisa que não pode reconhecer.
– Algo assim – respondeu, com o canto da boca subindo levemente. O dedão dele brincava com o isqueiro em sua mão, acendendo e apagando. – Mas nunca vi você antes. Eu saberia se tivesse.
Oh, ele é bom.
encolheu os ombros, encostando as costas na parede ao lado dele. O álcool em seu sangue e suas palavras paquerados deram-lhe mais coragem do que era bom para ela.
Uma pequena em seu cérebro gritou para que ela parasse de se aproximar dele, mas era tão fácil ignorar os planos que fizera sóbria, estando com a cabeça nas nuvens daquela forma. Ela deveria beber mais vezes.
– Talvez você só tenha me perdido pelos corredores – disse, encolhendo os ombros. O sorriso de cresceu, lindos dentes iluminados pela luz da varanda.
– Confie em mim, lindinha, eu não perderia de vista uma garota bonita como você nem se eu tentasse.
Ele é muito, muito bom.
riu, com o rosto queimando e desviou o olhar, sorrindo para os próprios pés. Seus ombros não tocavam os dele, mas era como se sentisse o fantasma de seu toque.
– Eu me mudei há alguns meses – explicou, ainda encarando seus sapatos. – Eu e meus irmãos viemos da Virginia. Meu irmão Caleb passou em uma faculdade aqui e nós achamos que seria financeiramente mais viável se nos mudássemos com ele.
Ela olhou para , que a observava atentamente, acenando enquanto ouvia suas palavras.
– Conheço um pouco da Virginia, minha mãe e meu padrasto moram em um Estado próximo de lá – ele contou. – E você está gostando da Flórida até então?
– Bastante, na verdade – sorriu . – Todos foram muito legais. E eu gosto do clima. Não é à toa que aqui é chamado de “Estado do Sol”.
Gritos há alguns metros chamaram a atenção dos dois. Adrien estava sentado no chão, coberto de cerveja e comemorando com os braços enquanto seus amigos gargalhavam ao redor. Julie os encarava com a mão na testa, em sinal de decepção.
riu levemente e os lábios de se inclinaram para cima.
– Seus amigos? – ele perguntou, tirando o que parecia ser um baseado do bolso.
– Mais ou menos – explicou . – Sou amiga de Julie, aquela que parece que gostaria de estar em outro lugar. Os meninos eu conheço bem pouco. E você?
– Só de vista – respondeu, encolhendo os ombros. – Todo mundo meio que conhece o Rodriguez. Ele dá festas boas para caralho.
acenou, já ansiosa para quando Adrien resolvesse dar uma de suas famosas festas. levantou o baseado em direção aos lábios e inclinou a cabeça para ela.
– Você se importa, lindinha? – perguntou educadamente. negou com a cabeça, feliz por ele ter perguntado. Geralmente as pessoas simplesmente começavam a fumar, jogando sua fumaça em todos ao redor e ela tinha que fugir desesperada, para que o cheiro não grudasse em seu cabelo.
Ele acendeu e fumou, tragando e soltando a fumaça branca para cima, onde não atingiria ninguém. , por alguma razão, não pode tirar os olhos de seu pescoço curvado para trás e de seus lábios levemente abertos. Era uma visão estranhamente sensual, que a deixou com as coxas levemente mais duras.
E notou.
– Você quer? – ele perguntou, levando o baseado entre seus dedos em direção a ela.
Talvez fosse o álcool, talvez fosse a vergonha de ter sido pega o encarando, talvez fosse sua presença que a fazia ficar boba e perdida. Fosse o que fosse, as palavras saíram antes que pudesse pensar.
– Claro. – E se arrependeu instantaneamente.
Mesmo tendo possuído muitas oportunidades antes, nunca encontrou coragem em fumar. Ela sabia que seus irmãos iriam conseguir sentir o cheiro do cigarro há quilômetros de distância e era tão fraca para a bebida que mal podia imaginar como a maconha agiria em seu corpo.
Por isso, ela se sentiu completamente em pânico ao pegar o baseado entre os dedos, vendo-se incapaz de dizer a ele que mudou de ideia. era como Monalisa, todo descolado com suas roupas pretas e... Bem... Vício em fumo. E se ele a achasse uma tola? Ela já parecia o completo oposto de alguém com quem ele se interessaria, toda brilhante e colorida como era.
Parecendo perceber seu pânico, sorriu levemente.
– Você já fumou antes? – questionou. tirou os olhos do baseado que encarava como se fosse uma arma, antes de corar de vergonha.
– Não – admitiu. O sorriso dele pareceu quase carinhoso, como se ele não estivesse rindo dela e sim achando-a divertida.
– Você comeu antes de vir para cá? – perguntou. negou com a cabeça. – Bebeu?
Uma risadinha embriagada passou seus lábios.
– Você pode dizer que sim – respondeu envergonhada. a observou por alguns segundos, pensativos, antes de rir pelo nariz.
– Posso te dar um conselho que você escolhe seguir ou não? – perguntou.
acenou gentilmente.
– Não fume.
As sobrancelhas dela se levantaram em surpresa. Não era que isso que estava esperando ouvir.
– Não? – murmurou, olhando para o baseado entre seus dedos. – Por quê? Eu sei que a maconha não é esse monstro que a maioria das pessoas pintam.
– Verdade, mas ainda assim – disse, encolhendo os ombros. – É como o álcool, tabaco ou outras drogas. Algumas pessoas ficam bem, outras não. O meu corpo lida bem com a erva, por isso eu fumo. O seu pode ser diferente. Tenho amigos que acabam com crises de ansiedade se fumarem, outros que passam mal se beberem uma gota de álcool. Vai de corpo para corpo.
o encarou com os lábios entreabertos, sem conseguir tirar os olhos de seu rosto.
– Eu sugiro que você fume quando estiver sem beber e com o estômago cheio, principalmente na presença das suas amigas – ele concluiu. – É o jeito mais seguro de evitar uma bad trip.
– E se eu quiser fumar mesmo assim? – questionou antes que pudesse pensar. sorriu e encolheu os ombros.
– Então vai fundo, lindinha. Você escolhe o que é melhor para você, não sou seu pai.
o encarou completamente sem palavras.
Se fossem seus irmãos ali com ela, eles simplesmente teriam arrancado o baseado de seus dedos e dado um jeito de arrastá-la para fora da festa. O que, no final, só serviria para que sentisse uma vontade gigantesca em fumar que era fruto simplesmente de uma grande revolta juvenil. Eles tomariam a decisão por ela, tratando-a como uma boba incapaz de escolher por si mesma como sempre fizeram e isso a deixaria indignada.
Mas não foi isso que fez.
Suas palavras e tom de voz não eram paternais, como se fosse uma criança sob seus cuidados. Ele deu sua opinião como faria com qualquer um e não buscou em nenhum momento obrigar a seguir seus conselhos. Foi provavelmente uma das primeiras vezes em sua vida que ela não se sentiu que alguém estava duvidando de sua capacidade de tomar decisões.
E, por isso, ela não pensou duas vezes em devolver-lhe o baseado, ao invés de fumá-lo como, por um segundo, quase planejou fazer.
continuou sorrindo para ela e não pode evitar de sorrir de volta. Os olhos dele voltaram a puxá-la como um imã e ela decidiu, naquele momento, que ir àquela festa foi a melhor decisão que tomara em toda a sua vida.
A sóbria teria um trabalhão para lidar com isso, mas e daí?
– Vem, troque de lugar comigo para que o vento não jogue fumaça em você – ele murmurou baixinho e o estômago de encheu-se de borboletas novamente enquanto sentia o calor dele se aproximar ainda mais.
Foi quando estava à sua frente, no segundo prestes a ir para seu outro lado, que um trovão cortou o céu e uma chuva forte começou a cair em cima de todos.
A multidão no jardim gritou e correu em direção à varanda, tentando permanecer seca. Adrien pisou em uma poça de lama que se formara rapidamente, sujando os sapatos de Julie, que o xingou raivosamente enquanto ele gargalhava e fugia.
não viu nada disso. E isso porque, quando todos começaram a se abrigar na varanda, alguém empurrou para cima dela, tão perto que ela ficou prensada contra ele e a parede em segundos.
O perfume dele fez sua cabeça flutuar. Devia ser crime ser tão cheiroso assim.
– Desculpe, lindinha, isso não é muito apropriado – murmurou , educado, mas com olhos quentes. – Você está bem ai? Quer tentar trocar de lugar?
E deixar de ser coberta por ele contra uma parede? Nem se ela tivesse perdido completamente a cabeça.
– Está tudo bem – respondeu baixinho e algo em seu rosto ou em sua voz fez os lábios dele voltarem sorrir.
O corpo se ficou ainda mais próximo. O pescoço dele se curvou para baixo e prendeu a respiração. Oh Deus, ele iria beijá-la? Ela ia deixar? Provavelmente era a pior ideia de todas, mas, Jesus, se esse não era o garoto com a boca mais bonita que já viu na vida...
Ela nem sabia que poderia existir algo como a boca mais bonita do mundo, mas existia e estava se aproximando do rosto dela.
A sóbria a odiaria se o beijasse. Mas a bêbada a odiaria se ela não o beijasse.
Seu coração estava batendo tão forte que parecia prestes a sair por sua boca. Ela o observou se aproximar sem conseguir desviar o olhar, cada vez mais perto. Para onde o cérebro dela foi? Por que ele não estava pensando?!
A cabeça dele se inclinou para o lado, a boca dela se abriu levemente em uma tentativa desesperada de respirar. Apenas poucos centímetros de distância, os lábios de perto de sua bochecha, fechou os olhos e então...
– Acho que o seu celular está tocando.
A voz dele foi baixa e quase rouca. Ela abriu os olhos novamente, perdida e com o rosto pegando fogo. As palavras de não fizeram sentido por longos segundos, enquanto o cérebro de tentava processar a tristeza da boca dele não estar na dela, até que ele apontasse para a bolsa em seu ombro.
– O celular – repetiu perto de seu rosto e finalmente entendeu o que ele estava dizendo. Constrangida, ela vasculhou a bolsa às cegas, desviando o olhar dele enquanto sentia o pescoço queimar junto de suas bochechas e o atendeu automaticamente. Ele provavelmente se aproximou para que ela pudesse ouvi-lo sobre o som das outras pessoas, agora muito perto e aqui estava , perdendo a sanidade como a boba que era.
– Alô?
– Que porra você está fazendo?! – exclamou Caleb do outro lado, parecendo extremamente irritado. As sobrancelhas de franziram, ainda em estado de estupor. Uma ótima pergunta, de fato. Ela estava perguntando a mesma coisa para si mesma apenas dois segundos antes.
– Oh, oi, Caleb. Tudo bem? – perguntou. Os olhos de ainda estavam no rosto dela.
– Tudo bem? Tudo bem?! É claro que não está tudo bem, você desapareceu por horas! – ele exclamou do outro lado. fez uma careta.
– Do que você está falando? – questionou como se ele fosse bobo. – Eu estou em uma festa, como avisei vocês.
– Então por que não atende as nossas ligações ou responde nossas mensagens? Nós estamos te ligando há muito tempo!
Os olhos de se arregalaram. Foi como receber um banho de água fria. Ela arrancou o celular do ouvido, encarando a tela e congelando automaticamente.
Vinte e oito ligações perdidas. Trinta e cinco mensagens não lidas.
Ela se esqueceu do acordo. Ela se esqueceu completamente de que deveria dar um sinal de vida a cada meia hora.
Ela estava completamente fodida. Morta e enterrada, sem direito a um enterro descente. Oh Deus, a lápide dela seria uma humilhação: “aqui jaz , morta pelos próprios irmão ao se distrair com os lábios bonitos de , um desconhecido que conheceu por apenas uma hora no máximo. Uma verdadeira idiota, morreu precisando de uma boa terapia”.
– Desculpe, eu não percebi! – tentou dizer enquanto entrava em pânico. Oh não, oh não, oh não, aquilo não era bom.
Ela pode ouvir Caleb bufar e imaginou que ele também revirava os olhos.
– Um pouco tarde agora, nós estamos indo te buscar – o ouviu dizer. Todo seu sangue desceu para seus pés.
– Como assim vocês estão vindo me buscar? – perguntou horrorizada. As sobrancelhas de se franziram enquanto ouvia seu horror. Ele abriu a boca, mas a cobriu com os dedos, mortificada. A última coisa que precisava era que Caleb ouvisse uma voz masculina junto dela.
Ele tinha lábios tão macios... Não que ela estivesse notando naquela altura do campeonato, é claro. Ela tinha mais senso do ridículo do que isso.
(na verdade, ela não tinha).
– Assim do tipo nós estamos literalmente na rua da casa onde a festa está acontecendo – ele respondeu. – E é melhor que você esteja onde falou que estava, . Sério. Brandon vai ficar puto para caralho se você não estiver aqui.
Oh não, oh não, oh não, oh não, oh não!
desligou o celular desesperadamente e se virou para . Ele a encarava com as sobrancelhas franzidas e a boca ainda coberta por sua mão.
– Eu tenho que ir – chorou , antes de começar a se afastar. Não foi uma tarefa fácil. Havia muitas pessoas amontoadas ao redor, esmagadas na área seca da varanda.
Meu deus, , ela pensou desesperadamente. Você é uma idiota. A maior idiota que já existiu!
– Está tudo bem? – questionou enquanto tentava segui-la. quis chorar de tristeza.
– Eu sinto muito! – disse, afastando-se em direção a porta que dava para dentro da casa. – Eu preciso muito, muito ir.
– Não se preocupe – ela o ouviu dizer atrás de si, quando finalmente chegou ao batente. – Mas está tudo bem? Você parece em pânico...
Pânico era pouco. A vida dela poderia ter acabado e o pobrezinho não fazia ideia.
– Olha, você.... Você... Meu bom Jesus – suspirou , olhando para . – Você é lindo demais. Mas eu tenho que ir. Desculpe. É uma situação de vida ou morte. Foi um prazer te conhecer.
– Também foi um prazer te... – Mas ela já estava dentro da casa, fugindo como o diabo da cruz. – ...Conhecer.
correu pela casa, batendo em quem entrasse em seu caminho, sem se importar com mais nada enquanto vestia seu casaco e fechava o zíper em desespero. Ela chegou à porta da frente no segundo que o carro de Brandon estacionou na calçada e suspirou aliviada, enquanto entrava na chuva e corria até o banco de trás.
– Por que você não atendeu nossas ligações? – questionou Brandon prontamente, encarando-a com seriedade. – Nós estamos te ligando faz horas.
– Me desculpe! – ela chorou instintivamente. – Eu perdi a noção do tempo, eu juro. Não foi minha intenção.
– Nós tínhamos um acordo, – Brandon continuou, com os ombros duros e os olhos sérios pelo espelho retrovisor. Ele não gritou apesar de sua raiva. Nenhum dos três tinha esse problema, não como o pai deles fazia. – Deixei você ir porque confiei que você seguiria o combinado.
– Eu sei – ela disse, cobrindo o rosto com as mãos. Seus olhos arderam, mas tentou ao máximo não explodir em lágrimas. – Eu juro, juro, juro, juro que foi sem querer. Não vai acontecer de novo. Eu prometo!
O carro se encheu de silêncio por alguns segundos, antes de Daniel se voltasse para ela também parecendo incomodado.
– Você bebeu? – ele questionou. Oh–oh, pergunta muito perigosa.
– Não – mentiu, porque, no fim, ela ainda queria viver. – Não bebi.
– Então o que você estava fazendo para não atender? – questionou Caleb, aproximando-se dela com um olhar julgador. Deus, por favor, que ele não sentisse o cheiro de cerveja nela.
bufou, de repente muito mal-humorada e cansada. Era ela quem deveria estar brava! Como eles se atreviam a interromper um beijo que não iria acontecer, com um garoto que ela nem deveria estar falando em primeiro lugar? Que audácia a deles!
– Eu estava muito ocupada me divertindo – respondeu, cruzando os braços e virando o rosto para a janela, tentando impedir que ele sentisse a bebida em seu hálito. – Vocês deveriam tentar as vezes.
– Nós apenas ficamos preocupados, – respondeu Daniel, ainda rígido, mas com o tom de voz um pouco mais suave. – Não pode nos culpar por cuidarmos de você.
Ela ficou em silêncio, sem vontade de discutir. O álcool e o perfume de baterem em sua mente com força, agora que finalmente estava sentada em silêncio e, de repente, só queria se deitar e dormir, por muitos dias de preferência.
Ninguém disse nada pelo resto da viagem. Daniel e Brandon pareceram mais calmos e descontraídos, provavelmente apenas aceitando que sua falta de resposta foi fruto de uma distração comum. Caleb, por outro lado, encarou-a por longos minutos, com os olhos semicerrados, como se soubesse que havia mais naquela história do que ela estava dizendo. Ele sempre foi o mais difícil de tirar de sua cola.
No fim, quando finalmente chegaram em casa, subiu as escadas sem falar com nenhum deles e logo se deitou em sua cama. Seu estado de embriaguez a fez esquecer que dissera que não deixaria que Ollie dormisse com ela e o cachorro logo encontrou conforto em seus pés no colchão macio.
No dia seguinte, ela acordou com uma ressaca latente na testa e a imagem de um sorriso felino martelando atrás de suas pálpebras. Um gemido pesado de frustração quebrou sua garganta seca, antes que cobrisse o rosto com as cobertas.
Ela odiava ser a sóbria.

Capítulo 4 - Aquele tal de


ATUALMENTE

Suas costas estavam completamente destruídas depois das dez horas de viagem de carro pela qual teve que passar, mas o sentimento não era, de modo algum, estranho ou pouco familiar.
saiu do banco do motorista após desligar o motor, pisando no asfalto da rua enquanto esticava os braços para cima e alongava a coluna. Suas botas fizeram barulho contra o pouco de cascalho que se espalhava pelo chão e um gemido de dor e alívio perpassou por sua respiração, enquanto ele ajeitava os ombros e o pescoço, livrando-se da tensão. A noite estava fria e silenciosa, então o som de sua chegada ecoou levemente pela rua, junto da televisão ligada de algum vizinho ao lado.
Eram em momentos como esse que ele se perguntava se uma moto seria mesmo uma boa ideia. Uma viagem tão longa como a que tivera acabaria de vez com sua lombar. Valeria a pena destruir sua coluna na jovem idade de dezoito anos, enquanto ainda esperava ter muito tempo de vida pela frente? Quer dizer, ele já estava em um processo de deterioração de seus pulmões com o fumo. Não era melhor preservar a maior quantidade de partes de seu corpo quanto possível?
Uma risada silenciosa passou por sua boca enquanto fechava os olhos e estralava o pescoço. Mesmo com esses pensamentos, o vibrar do motor ressoava em seus ouvidos, junto da sensação do banco de couro sob os dedos e a imagem de lindas e delicadas mãos com unhas pintadas de azul bebê ao redor de sua cintura. Era fácil tomar um lado da decisão dessa forma e desistir da saúde de suas costas.
Em sua balança, os prós venciam os contras.
Ele abriu o porta-malas, retirando sua bagagem de dentro e finalmente trancou o carro, indo até a porta da frente com ansiedade. A fechadura foi destrancada e seus sapatos entraram, levando um pouco de cascalho para o tapete principal. Um novo suspiro, agora mais feliz, trouxe um sorriso aos lábios dele.
– Finalmente – sussurrou para si mesmo, acendendo a luz do pequeno hall de entrada. – O bom filho à casa torna.
se divertia visitando sua mãe e padrasto na Carolina do Norte, mas sempre acabava ficando extremamente cansativo depois de um tempo. Não era sua casa, seu quarto ou sua cidade. Ele não tinha nenhum contato por lá, além dos companheiros de trabalho que seu padrasto o apresentara enquanto trabalhava para ele durante sua estadia. A sua vida, ao visitá-los, era composta simplesmente de matar a saudade e guardar o dinheiro que recebia graças ao seu trabalho de fim de ano.
Perdia a graça depois de tantas semanas. Principalmente porque, vivendo com o pai, ele possuía muito mais liberdade do que em qualquer outro lugar. Era quase como viver sozinho e se estranhava com a rotina que precisava seguir ao viver com sua mãe novamente, dando-lhe satisfações quando ela pedia.
Ademais, ele estava morrendo de saudade de sua irmã mais nova Mandy, de seu melhor-amigo Noah e os poucos amigos que ainda tinha em West Palm Beach, além de um par de olhos castanhos que não saíam de sua mente. Por isso, quando sua mãe perguntou a data em que ele estava pensando em voltar, foi fácil para adiantar algumas semanas em seu plano e ir embora bem antes do previsto.
– Mandy? Pai? – ele chamou enquanto trancava a porta da frente e olhava ao redor pelos corredores. – Vocês estão acordados?
Quando apenas o silêncio o respondeu, levou suas malas até seu quarto, largando-as em qualquer lugar e saindo em procura de sua família. Era quarta-feira à noite, mas não estava tão tarde. Eles já teriam caído no sono?
– Mandy? – ele chamou novamente, batendo na porta do quarto de sua irmã mais nova com os nós dos dedos. – Você já está dormindo?
– O-Oi! – a voz dela respondeu do outro lado, trêmula e parecendo nervosa. – Eu es-es-t-tou bem. Apenas c-ca-cansa... C-Cansada.
franziu as sobrancelhas para sua gagueira violenta, pois isso só poderia significar que algo estava errado. Mandy gaguejava desde pequena, mas o distúrbio piorava ainda mais quando ela estava sob muito estresse ou ansiedade. Aquilo era algo que ele aprendeu ao longo dos anos cuidando dela e que não passava por sem que percebesse automaticamente.
– Tem certeza de que está tudo bem? – questionou, encostando-se ao lado da porta com os braços cruzados. Ela não respondeu. – Por que você não abre a porta e me dá um abraço de boas-vindas? Você não sentiu a minha falta?
Foi um golpe baixo, mas sorriu ao ouvi-la aparecer, como sabia que faria. Mandy abriu a porta e o abraçou com força pela cintura, afundando o rosto em seu peito. Ele a abraçou de volta, apoiando a bochecha no topo de sua cabeça. Ela era alta para uma menina da idade dela e parecia ter crescido pelo menos três centímetros nesses quase dois meses que não se viram.
– Eu senti sua falta, Andy – murmurou em seus cabelos, chamando-a pelo apelido. – Fica chato depois de um tempo sem você sendo uma pestinha.
O aperto dela se intensificou e riu em seus cabelos antes de separá-los quase a força. Mandy permaneceu com os olhos baixos, como se não quisesse que ele percebesse algo e manteve a boca fechada, sabendo que sua gagueira a entregaria novamente. O cabelo dela cobriu suas bochechas como uma cortina escura.
Não foi preciso muito mais tempo para que percebesse o que estava realmente fora do lugar. Segundos apenas, o inclinar de dois olhos alguns centímetros mais para baixo de seus ombros.
– Mandy, por que você está usando um vestido? – perguntou, franzindo as sobrancelhas e inclinando a cabeça para o lado. Sua irmã mais nova era o tipo de pessoa que preferiria nunca mais sair de casa do que ter que usar saias e vestidos por aí. Ela não se sentia confortável usando nada além de bermudas e calças folgadas.
Mandy brincou com a bainha cheia de babados do vestido que ia até seus joelhos e permaneceu em silêncio, ainda sem conseguir olhá-lo nos olhos. Uma dor de cabeça começou a surgiu nas têmporas de , fruto de uma indignação que passou a crescer em seu peito.
Ele sabia muito bem o que tinha acontecido, mesmo sem que ninguém dissesse nada.
– Por acaso o pai te obrigou a usar isso? – perguntou, a voz baixa, mas controlada, mesmo que suas mãos estivessem apertando os próprios quadris com força.
Mandy acenou, ainda com olhos baixos.
– Por que calças e bermudas não são coisas de menina?
Outra confirmação. suspirou, puxando-a de volta para um abraço que sua irmã rapidamente retribuiu. Os ombros dele voltaram a doer, agora pela raiva que sentia. Aquela era outra razão que o impulsionou a voltar mais cedo para casa: impedir que Mandy ficasse sozinha com o pai deles e suas ideias retrógadas e sexistas por mais tempo.
– Não se preocupe mais com isso, está bem? – ele murmurou em seus cabelos antes de levantar seu rosto e sorrir para ela. – Eu voltei e você sabe que eu confronto nosso pai se for preciso. Pode colocar as roupas que quiser agora, eu vou falar com ele.
Mandy desviou o olhar, parecendo segurar algo na garganta. franziu as sobrancelhas para ela novamente e a fez olhar para ele com delicadeza.
– O quê? – questionou, vendo-a suspirar sem alternativa.
– Ele jog-g-gou minhas r-roupas f-fo-fora.
O cérebro de ficou em branco. As mãos dele a seguraram gentilmente pelos ombros enquanto ele se inclinava para frente. A indignação que nasceu em seu peito cresceu tanto que ele parecia estar saindo da própria pele.
Ele voltou para casa a apenas cinco minutos. E foi o suficiente para lembrá-lo porque sempre ansiava tanto para os feriados de fim de ano, quando ia com a irmã para outro Estado, bem longe de casa.
– Como assim o pai jogou suas roupas fora? – questionou, mantendo a voz firme e controlada, mesmo que estivesse com vontade de gritar em fúria. Mandy engoliu seco, claramente querendo fugir daquela conversa. Ela odiava a forma como o pai deles controlava o que fazia, mas, ao mesmo tempo, era uma apaziguadora. Era ela quem sempre tentava evitar que as brigas acontecessem, enquanto era quem enfrentava o problema sem pensar duas vezes.
– Ele di-disse q-q-que c-co-co-como eu s-sou uma menina, n-não d-de-dev-veria u-usar b-bermudas igual os meninos...
obrigou a si mesmo a relaxar os ombros para que o estresse de Mandy não ficasse pior. Foi provavelmente a tarefa mais difícil do dia, pois a raiva que inundava suas veias era protetora e alucinante.
Ninguém mexia com a irmãzinha dele, nem mesmo o próprio pai.
– Então foi por isso ele jogou suas roupas fora? Por que garotas devem usar saias e vestidos? – indagou novamente e ela acenou em concordância com olhos tristes. Com o coração apertado, deu-lhe um beijo fraternal na testa. – Não se preocupe com isso, Andy. Eu vou resolver tudo, está bem? Vá para o meu quarto e procure algo que possa caber em você. Acho que posso ter alguma blusa antiga que ficou pequena em mim.
Ela lhe deu o primeiro sorriso da noite e não pode impedir a si mesmo de sorrir de volta. Deus, a saudade que ele sentiu dessa menina.
– Amanhã nós vamos sair e comprar roupas novas para você, okay? Pode ficar tranquila – terminou, com um último tapinha no topo de sua cabeça.
Mandy o abraçou em agradecimento uma última vez e partiu para o quarto dele para se trocar. Quando ela estava fora de vista e de som, marchou até o quarto de seu pai, sabendo agora que ele provavelmente estaria ali, assistindo televisão, como se tudo estivesse bem e ele não fosse o maior desgraçado do planeta.
– Você jogou as roupas dela fora?! – exclamou raivoso ao abrir a porta com violência, entrando no quarto como um furacão. Seu pai, Eric , saltou levemente de susto da cama em que estava deitado, antes de revirar os olhos para o próprio filho. Ele não pareceu nem um pouco surpreso com sua reação e isso só serviu para enfurecer ainda mais.
– Olá, , é muito bom ver você – disse, ignorando sua raiva. – Como você está? Se divertiu na sua mãe?
– Você jogou as roupas dela fora? – repetiu , fechando a porta do quarto para que o som da briga não se propagasse. – Por que você faria algo assim? Isso é ridículo.
– Ridículo é uma garota usando roupas de garoto – argumentou seu pai, voltando os olhos para a televisão, em um sinal silencioso claro de que não queria ou não se importava o suficiente para ter aquela conversa. – A sua irmã já é grande o suficiente para saber o que é certo e o que é errado. Uma menina deve se vestir como tal.
– Ela tem doze anos – argumentou , cada vez mais frustrado com o fato de que seu pai apenas continuava a assistir seu jogo, fingindo que aquilo não era uma conversa séria. – Você tem ideia de como algo assim é violento para ela? Seria violento para mim se você simplesmente jogasse minhas coisas fora só porque quer. Você não tem o direito de fazer uma merda dessas.
– É claro que eu tenho o direito – rosnou Eric, franzindo as sobrancelhas e endurecendo a voz. Ambos se olharam com expressões rígidas e idênticas. – Eu sou o pai de vocês. Eu comprei aquelas roupas, eu faço o que eu quiser com elas. Se sua irmã quer ficar andando por ai como um menino, ela que vá morar com a sua mãe. Na minha casa as mulheres se comportam como mulheres e os homens como homens.
E ele se pergunta o porquê de ter sido deixado pela minha mãe...
fechou os olhos e passou as mãos pelos cabelos por um segundo, tentando recompor todo o autocontrole que ainda tinha. Se eles estivessem sozinhos em casa, ele não teria encontrado problemas em deixar aquela discussão explodir. Fazia quase dezenove anos que ele convivia com seu pai, quase dezenove anos que ele se recusava a abaixar a cabeça e aceitar suas merdas. Uma briga como a que estavam tendo não era novidade para nenhum dos dois, muito pelo contrário. Era surpreendente que nenhum deles tivesse estourado ainda.
Mas Mandy estava a apenas alguns metros de distância, no fim do corredor e se eles começassem a gritar, ela ouviria. Sua irmãzinha não precisava que a situação piorasse ainda mais. Ela já estava chateada o suficiente com o que havia acontecido.
Culpa corroeu de dentro para fora, subindo por sua traqueia até deixar um gosto amargo em sua boca. Ele sabia que não deveria ter ficado mais tempo na Carolina do Norte, com sua mãe e seu padrasto. Ele e Mandy haviam os visitado para o feriado de Natal, como todos os anos, com o objetivo de retornar um pouco antes que as aulas dela voltassem do intervalo de fim de ano, mas houve uma mudança nos planos.
O padrasto dele ofereceu um emprego temporário para , de apenas dois meses, mas com um salário que seria extremamente favorável para seus planos de comprar uma motocicleta. Desde que completara dezoito anos e o plano de ir para a faculdade foi por água a baixo, focou em guardar dinheiro para ter a moto que sempre quis, ocupando seu cérebro em algo mais produtivo do que as frustrações e reviravoltas sombrias de sua vida.
Mesmo assim, ele recusou no começo. Sabia como o pai deles era e como podia ser duro com Mandy graças as suas opiniões extremamente misóginas.
Mas sua irmã mais nova insistiu, dizendo que ela queria que ficasse, porque sabia que aquilo era importante para ele, então acabou cedendo no fim. O tempo, infelizmente, só provou como aquilo foi uma péssima ideia desde o começo e ele não pode se impedir de sentir que era sua culpa. sabia que deveria ter voltado com ela depois do Ano Novo. Ele era o irmão mais velho e deveria ter seguido seus instintos.
– Eu não entendo por que você faz disso um problema – argumentou frustrado, entrando na frente da televisão e obrigando seu pai a olhar para ele. – São apenas roupas. Ela se sente confortável em calças e bermudas, e daí? Por que forçá-la a se vestir de uma forma que a deixa mal? É ridículo, pai. Pare de perturbá-la, deixe-a em paz.
– É meu papel como pai cuidar dos meus filhos – disse Eric, franzindo as sobrancelhas para o filho e endurecendo as costas. – É meu papel ensinar a vocês o que é certo e o que é errado.
– Você me deixa fazer piercings e fumar desde que tenho quase dezesseis anos! – zombou . Eric bufou, como se essa informação não tivesse importância alguma.
– Com você é diferente, você é homem – argumentou seu pai e apertou os olhos fechados, batendo um punho na testa para controlar sua raiva.
Era como falar com uma parede. A parede mais misógina e teimosa do planeta.
– Se eu não a ensinar agora o que uma garota deve fazer e como deve se vestir, sabe-se lá como ela vai ficar no futuro – rosnou Eric, movendo o rosto para tentar olhar para a televisão atrás de . Com muita raiva por suas palavras, sabendo exatamente que tipo de indiretinha seu pai estava jogando, ele pegou o controle remoto na cama e desligou a tela com um aperto forte no botão. – Ei!
– As roupas que Mandy usa não definem quem ela é – rosnou , cansado, irritado e frustrado, desejando, pela milésima vez nos últimos anos, que ele tivesse feito as malas com Mandy e seguido sua mãe para longe quando ela finalmente se divorciara. – Tudo que você está ensinando a ela é que ela deve usar roupas que a deixam desconfortável só por causa do gênero dela. É ridículo. Que tipo de mensagem é essa?
O pai dele apenas revirou os olhos e bufou, tão irritado quanto ele. Sentindo-se exausto, apenas suspirou, sabendo que tudo que estava fazendo era gastar tempo, energia e fôlego. Quantas vezes eles já não haviam tido aquela discussão? Quantas mais vezes eles teriam que repeti-la?
– Você disse que tinha o direito de fazer isso porque foi você que comprou aquelas roupas e isso as faz suas – disse por fim, chegando a uma decisão. – Pois bem. Saiba que eu vou sair amanhã com Mandy e vou comprar roupas novas para ela. Aquelas serão então as minhas roupas, que eu as comprei com o meu dinheiro e você não vai ter direito nenhum de jogá-las fora.
Eric cerrou os olhos para ele, mas não vacilou. Ele manteve a postura firme e as sobrancelhas rígidas, sem desviar o olhar. No fim, foi o pai dele quem suspirou.
– E com que dinheiro você está pensando em fazer isso? – perguntou com zombaria.
– Com o dinheiro que ganhei trabalhando – respondeu simplesmente. O peito dele doeu, mas o sentimento foi rapidamente jogado para longe. Sua irmã era sempre um bem maior.
– Achei que você tivesse feito tudo isso para comprar sua motocicleta – continuou Eric, cruzando os braços e levantando uma das sobrancelhas. Ele parecia quase prestes a sorrir, como se tivesse colocado o filho em um beco sem saída.
– Eu fiz – zombou , levantando o queixo. – Mas um idiota jogou as roupas da minha irmã fora, então agora preciso cuidar dela.
O pai dele cerrou os olhos, irritado e abriu a boca para dizer algo, provavelmente mais absurdos. , cansado, apenas saiu do quarto, impedindo-o de continuar.
– Sempre bom ver você, pai – rosnou, finalmente fechando a porta atrás de si.
Ele foi até o próprio quarto, respirando fundo e suspirando, só sendo capaz de sorrir levemente ao ver Mandy vestindo uma de suas bermudas antigas e uma enorme camisa até os joelhos. Ela sorriu abertamente, parecendo realmente feliz pela primeira vez desde que voltara e isso aliviou o estresse em seus ombros. Uma risada foi tirada dele quando ela deu um rodopio com suas roupas enormes.
– Obrigada, – Mandy sussurrou, abraçando-o pela cintura. Ele deu um novo beijo no topo de sua cabeça. – Eu s-senti sua falta.
– Eu te amo, Andy – respondeu e sentiu o sorriso dela em seu peito.
Ela foi dormir e se jogou na própria cama, exausto até os ossos. Estava tarde agora, ele dirigiu sem parar por horas e o estresse que acabara de passar com certeza não ajudou a melhorar seu humor. Que ótima recepção de boas-vindas.
Ele chutou as botas para fora dos pés e tirou a jaqueta de couro dos ombros. Apesar de tudo, quando checou seu celular e se lembrou do dia que seria na sexta-feira da semana seguinte, não pode evitar um fluxo de animação que atravessou seu corpo, revivendo suas energias. Antes que pudesse pensar, ele clicou em um dos seus contatos e começou uma ligação.
– O que é? – veio a voz muito irritada de Monalisa, depois de um bom tempo de discagem. riu.
– Uau, é assim que se cumprimenta um grande amigo? – zombou, ouvindo-a bufar do outro lado.
– Está tarde para caralho e eu estou ocupada – respondeu ela, com o barulho de lençóis sendo mexidos ao fundo. – Você não deveria estar dormindo?
– Ocupada fazendo o que? Mofando sozinha no seu quarto? – questionou , franzindo as sobrancelhas. – É quarta-feira à noite.
Antes que ela pudesse responder, ouviu o barulho de lençóis novamente e uma risadinha não muito característica vindo de Monalisa. De repente, ele sabia exatamente o que ela estava fazendo e desejou ter esperado o dia seguinte para ligar.
– Ah não! – exclamou fingindo estar horrorizado. – Eu interrompi o sexo de vocês?
– Sim, seu empata foda do caralho – Monalisa zombou, rindo junto dele em seguida. – Agora diz logo o que você quer, está quebrando todo nosso clima.
riu abertamente, esfregando os olhos cansados com uma das mãos. A vida amorosa e sexual constante de Monalisa só o faziam se lembrar de quanto tempo fazia desde que se divertira assim com alguém. Meses provavelmente, desde seu término nas férias de verão do ano anterior. E esses pensamentos sempre o levavam por um certo caminho que tentava evitar, mas era incapaz, onde um perfume suave flutuava no ar, fazendo a boca dele ficar seca e lábios cheios apareciam atrás de suas pálpebras, deixando-o tão à flor da pele que ele precisava de um banho frio logo após.
Merda, se continuasse indo por aí teria que desligar o telefone e ir para o chuveiro naquele mesmo segundo. Principalmente se não conseguisse tirar a silhueta dela da cabeça.
– Mande um “olá” para Ian por mim – disse, ouvindo-a repassar a mensagem e desejando que isso distraísse sua libido traidora. – E estou ligando para avisar que o seu melhor-amigo do mundo inteiro vai conseguir estar presente no seu aniversário.
Uma exclamação chocada soou do outro lado da linha, quase o ensurdecendo.
– Vai se foder! Você está me zoando! – ela gritou, fazendo-o dar outra gargalhada.
– Por que você nunca acredita no que eu falo? É sério, caralho! Eu acabei de chegar em casa – zombou, sorrindo abertamente.
– Em casa na Flórida? – insistiu Monalisa. revirou os olhos, ainda com bom-humor.
– Em casa, West Palm Beach, Flórida, onde faz sol em um momento e cinco minutos depois estamos enfrentando um ciclone – brincou.
– Onde as baratas são do tamanho da minha cabeça? – ela lançou de volta.
– E eu e você somos as únicas pessoas vestindo preto em um raio de quinze quilômetros – ele terminou com rapidez.
Monalisa gritou de alegria e riu de novo sentindo uma saudade avassaladora de sua companhia. Bendito seja Noah e a festa que o convenceu a comparecer tantos meses atrás. Era tão bom voltar a ter uma amiga próxima. Mesmo que ele amasse seu amigo de infância, era dolorido ter apenas ele em sua vida, assim tão de repente. O fazia se lembrar do que acontecera e do quão solitário se tornara.
– Seu filho da puta, eu estou muito feliz – disse ela e ele pode ouvir o seu sorriso. – Achei mesmo que você não conseguiria vir.
– E perder o seu aniversário de dezoito anos? – exclamou , fingindo estar horrorizado. – Temos que passar por esse triste momentos juntos. Agora você também pode ir presa.
Monalisa gemeu de tristeza do outro lado da linha e ele riu novamente.
– Todos os nossos planos... – ela suspirou desapontada. – Agora indo por água abaixo.
Nah, estou só brincando – disse, sorrindo sorrateiramente. – O seu pai é rico para caralho, nós ainda estamos salvos. Ele vai pagar nossa fiança.
Os dois riram novamente, tanto que as costelas dele doeram. De repente, Monalisa ofegou, como se lembrasse de alguma coisa.
– Meu Deus, vai surtar se souber que você chegou mais cedo! Eu preciso contar para ela!
A visão de lindos olhos amendoados e um sorriso estonteante surgiram na mente de novamente. O coração dele, de repente, começou a bater como um pássaro dentro de uma gaiola. Maldita garota bonita demais para o bem dele. Apenas o nome dela já fazia sua garganta ficar seca.
– Não, não diga nada! – respondeu rapidamente, com a mente à mil. – Não conte a ninguém ainda.
– Por quê? – questionou Monalisa, antes de mudar o tom de voz para algo mais malicioso. – Você está planejando fazer uma surpresa?
O sorriso de ficou felino como o gato de Alice no País das Maravilhas.
– Eu preciso mesmo responder? – disse. – Agora, quais exatamente são os planos dela para semana que vem?

🤸🏾‍♀‍💕🏍️

Noah era um de seus melhores-amigos desde que se conhecera por gente.
Ele era primo de Cameron (seu, agora, ex-amigo) e os dois se conheceram em uma festa de aniversário aos seis anos de idade. Um garoto mais velho havia empurrado contra uma poça de lama e Noah apareceu, chutando-o fortemente na canela e gritando para que ele fosse embora.
Não funcionou bem como imaginavam, é claro. O valentão também o empurrou contra a lama e teve que ajudá-lo a se lavar, enquanto seu próprio lábio cortado ardia e um hematoma roxo de formava no rosto de Noah. Contudo, apesar da dor e da leve humilhação que machucou seu ego infantil, os dois se encararam depois disso sorrindo um para o outro e foram inseparáveis desde então.
Eles não estudaram na mesma escola ao longo da vida. Noah morava em West Palm Beach, mas em um distrito afastado e, consequentemente, comparecia a um colégio diferente. Mesmo assim, eles buscaram frequentar a casa um do outro regularmente durante a infância, principalmente quando os pais de ainda estavam juntos. Mandy o adorava desde pequena, então era fácil passar longas horas reunidos, assistindo filmes, até mesmo na companhia de seu pai de vez em quando.
As coisas ficaram um pouco tensas no ano anterior, alguns meses antes da formatura. Noah se abriu com e o resto de sua família, confessando que ele era, na verdade, um homem transgênero.
Não foi um problema para quem importava, é claro. não se importou, os pais de Noah não se importaram. Mas Cameron, assim como sua parte da família, recusaram-se a aceitar Noah como ele era e cortaram vínculos. Aquela era uma das razões para que parasse de ser seu amigo.
Além disso, havia seu pai. Seu tão maravilhoso pai, com suas ideias arcaicas e que deveriam ser deixadas onde surgiram, no século passado. A transição de Noah trouxe um lado transfóbico que nunca teve que lidar antes e, por isso, ele não culpou Noah quando o amigo disso que só estaria confortável em vê-los quando o pai dele não estivesse em casa.
Maldito seja, se pudesse, ele próprio só iria para casa quando seu pai não estivesse lá.
– Obrigado por me convidar – Noah disse na tarde seguinte de sua chegada, enquanto andavam pelo shopping lotado, que apenas West Palm Beach poderia lhe oferecer antes dos fins de semana. – Eu estava com saudade da sua irmã.
franziu as sobrancelhas para ele, fingindo estar ofendido.
– Obrigado pela parte que me toca – murmurou, enquanto Mandy ria ao seu lado. – É bom saber que você pensou em mim durante esses meses. Me faz sentir querido.
Noah riu com gosto, passando um braço ao redor de seus ombros. era pelo menos uma cabeça mais alto do que ele, então isso o forçou a se levantar um pouco na ponta dos pés, suas calças de couro preto esticando-se junto com seu corpo.
– Ora, querido , é claro que eu senti sua falta – brincou, antes de esticar o outro braço e apertar as bochechas de Mandy. – Mas você não chega aos pés da simpatia dessa gracinha aqui.
Eles entraram em uma loja enquanto bufava e empurrava sua irmãzinha, que ainda estava rindo dele. Alguns dos clientes nos arredores os olharam, franzindo as sobrancelhas e se afastando discretamente na maioria dos casos. Um grupo de pré-adolescentes passou a cochichar desesperadamente com os olhos nos dois, antes de explodir em risadinhas.
– Você e Monalisa deveriam se juntar – zombou de forma irritada, olhando ao redor com uma das sobrancelhas levantadas. – Para descobrir quem é o maior pé no saco.
Noah riu alto novamente e mais algumas pessoas se viraram para olhá-los. mal pode imaginar a cena que eles eram: dois jovens de roupas pretas, botas e jaquetas de motoqueiro, piercings e correntes, com uma garotinha de doze anos fazendo compras na área infantil de uma loja de roupas.
– Você sabe que nos ama – brincou Noah, sorrindo maliciosamente. O piercing acima de seus dentes brilhou na luz. – E é uma pena que eu não possa ir ao aniversário dela sexta-feira que vem. Queria finalmente conhecê-la pessoalmente, para que pudéssemos nos juntar em um complô contra você.
não pode se controlar e soltou uma gargalhada. Uma senhora perto deles franziu as sobrancelhas em reprovação e arrastou sua neta para longe de onde estavam.
– Obrig-gada p-por vir nos aj-judar a fazer c-compras – murmurou Mandy timidamente, segurando o braço de como apoio emocional. Ela sempre fez isso, desde muito jovem, agarrava seu braço como um pequeno coala precisando de amparo. Ele nunca se importou, muito pelo contrário. Era fofo.
Noah sorriu quase paternalmente e bagunçou seus cabelos, inclinando-se até ficar ao nível dela. Mandy também lidou muito bem com a transição dele, precisando apenas de uma longa conversa explicativa e algumas semanas cheias de respostas para suas perguntas curiosas.
– Ora e eu deveria fazer o que, Andy? Deixar o seu irmão cuidar disso para você? – brincou. O queixo de caiu e Mandy cobriu a boca com a mão, fingindo não rir.
– Com licença?! – ele exclamou horrorizado, tentando dar um soco no ombro de Noah, que se esquivou dando risada. – Eu me visto extremamente bem.
Ele sinalizou as próprias roupas escuras, ajeitando a jaqueta e passando a mãos pelos cabelos em seguida, as pulseiras de metal brilhando e chacoalhando em seus pulsos. Uma sobrancelha de Noah se levantou.
– E é graças a quem? – devolveu, com as mãos nos quadris. riu. Aquilo era verdade. Noah foi quem teve o primeiro contato com o estilo gótico, punk e alternativo e o apresentou a ele. Sabe-se lá como estaria se vestindo hoje em dia sem sua influência. Provavelmente como o maldito Cameron se vestia quando precisava fingir para os pais que não era um grandíssimo de um filho da puta.
– Se depender de mim, você e Monalisa nunca vão se conhecer – ele rosnou por fim, recebendo uma risada em resposta. – Nunca, jamais, não se eu quiser viver com paz de espírito por pelo menos mais cinquenta anos.
Eles perambularam pela loja pela próxima hora. Mandy passou a sorrir mais enquanto escolhia bermudas e camisetas estampadas nas araras e a observou com carinho. Era bom vê-la voltar a sorrir depois de toda aquela confusão maldita.
– Então... – murmurou Noah discretamente, quando Mandy se afastara para ir aos provadores. – Seu pai realmente jogou as roupas dela fora?
acenou em concordância, sentindo um gosto ruim na boca. Ele continuou passando os dedos pelas jaquetas nas araras, mas mal via as peças.
– Deus, que idiota – xingou Noah, balança a cabeça em descrença. – Sem ofensas.
– Não se preocupe, não ofendeu – sussurrou , com as sobrancelhas tensas e a cabeça começando a latejar. – Ele é o maior idiota. Não é à toa que minha mãe foi embora.
– E você vai gastar toda a sua grana para recuperar o guarda-roupa dela? – questionou Noah parecendo triste. – Eu posso ajudar a pagar, se quiser.
– Não é seu papel cuidar dela – respondeu , certificando-se que Mandy ainda não havia voltado. – E eu vou ficar bem. Vou precisar arrumar novos empregos para recuperar o dinheiro, mas não me importo. Isso é mais importante.
Noah apertou a mão em seu ombro e sentiu o corpo inteiro ficar cansado. Tudo que queria era aproveitar sua volta para casa em paz, rever seus amigos, paquerar o rostinho mais bonito que já conhecera na vida e comprar sua moto, mas seu pai tinha que fazer o que fazia de melhor: dar-lhe uma enorme dor de cabeça e o estressar até a porra da insanidade.
– Deus, que bagunça – ele suspirou, esfregando o rosto com as mãos com força. – Eu sabia que deveria ter voltado com ela após o fim do feriado. Ficar por lá foi uma péssima ideia desde o começo.
– Ei, pare com isso – censurou Noah, segurando-lhe pelos ombros. – Isso não é culpa sua. A própria Mandy foi a favor, todos nós sabíamos que conseguir esse dinheiro era importante para você.
acenou relutante, olhando-o nos olhos. No fundo, ainda era difícil se livrar da culpa. Ele sabia como o pai deles era. Ele sabia que era sempre melhor quando estava presente para intervir. Ele poderia viver sem sua moto, mas Mandy não poderia viver em um lar tóxico como aquele. O cuidado em relação à sua irmã sempre deveria vir em primeiro lugar.
– Vem, vamos achar uma jaqueta foda para você – disse Noah, entrelaçando um braço com o dele e tentando livrá-lo de seus pensamentos deprimentes. precisava de um cigarro. Ou da porra de um maço inteiro. – Nada para melhora nosso humor como uma linda peça jeans que seria proibida pelo regulamento de roupas do colégio.
Eles continuaram as compras. Mandy voltou, parecendo extremamente feliz e bagunçou seus cabelos, enquanto afirmava que ela poderia procurar por mais coisas se assim quisesse.
– Mas é tão c-caro – sua irmãzinha murmurou envergonhada.
– Eu tenho o dinheiro – respondeu, empurrando-a para uma sessão de camisetas. – Não se preocupe com isso.
Noah havia desaparecido atrás de alguns cintos e isso o deixou sozinho por alguns minutos. passou a ver algumas camisetas enquanto esperava Mandy retornar, completamente distraído. Ele não iria comprar nada para si, mas não fazia mal olhar. Pelas suas contas, sobraria apenas trinta, no máximo quarenta por cento do dinheiro que conseguira guardar para sua moto. Precisaria arrumar novos empregos agora, além de voltar a trabalhar na mecânica de seu pai, se quisesse recuperar o que foi perdido. Com certeza não era o que estava esperando quando voltasse, mas Mandy ficaria feliz, então...
De repente, enquanto analisava uma calça que precisava de mais rasgos, uma risadinha familiar chamou sua atenção.
O tilintar de sinos no vento. Tão familiar quanto respirar.
Ele levantou o queixo, olhando ao redor repetidamente, sem encontrar o que esperava. Ótimo, agora o cérebro dele estava começando a enlouquecer. Ela estava a tanto tempo ocupando seus pensamentos que ele estava começando a delirar, começando a ouvir sua risada por aí.
Ele balançou a cabeça levemente, bagunçando os cabelos enquanto tentava limpar os próprios pensamentos. Não era saudável a ter frequentando seu subconsciente com tanta frequência. Era quase esquisito. Ela provavelmente o chamaria assim se soubesse, afinal, eles eram apenas amigos. E amigos não deveriam pensar um no outro com tanta frequência, ter o desejo de ver um ao outro a cada minuto do dia ou enlouquecer ao ponto de começar a ouvir vozes por aí.
Mas o som apareceu novamente e percebeu que não estava louco (ou pelo menos não muito). Ele deu alguns passos para o lado, inclinando o tronco apenas alguns centímetros e então finalmente a viu.
, em toda a sua glória, parada a poucos metros de distância e conversando com uma garota de óculos que ele reconheceu como sendo Julie Filmore. Uma adorável blusa branca caindo pelos ombros, cabelo solto, com apenas duas tranças emoldurando as têmporas, enfeitadas por miçangas vermelhas nas pontas. Calças jeans apertadas emoldurando suas coxas, calças essas que deveriam ser proibidas pelo bem da saúde de todos os seres humanos que se atraíam por mulheres.
O coração de disparou em suas costelas e ele tentou controlar um sorriso. Mal haviam se passado dois meses sem que ele a visse pessoalmente e apenas a visão de suas bonitas curvas e seus olhos amendoados já o fizeram se sentir sem ar.
Ele era um tolo por um rosto bonito como o dela e não tinha nenhum problema em admitir esse fato. Qualquer um seria. Ele com certeza não era a única pessoa observando sua beleza pela loja e como poderia culpá-los? Ela se movia e lá estavam seus olhos, cravados nela, incapazes de se mover como se o simples pensamento fosse completamente antinatural.
Uma realização o fez tensionar os ombros de repente, quando um pequeno puxão em seu estômago tentou convencê-lo a ir falar com ela. não sabia que ele estava de volta na cidade e nem deveria saber. iria surpreendê-la na próxima semana, mas seu plano iria por água abaixo caso ela o encontrasse ali.
Ele olhou ao redor, nervoso, esperando que ela não o visse. se moveu com Julie, dizendo algo que a fez rir e passou a tirar algumas saias que estavam penduradas de cabides em círculo. Peças pequenas e apertadas. Peças maravilhosas e extraordinárias, das quais o criador deveria ganhar um maldito Prêmio Nobel da Paz pelo bem comunitário que fizera para todos que um dia veriam as usando.
A imagem dela, que seu cérebro traidor criou, vestindo saias como aquela – as nádegas marcadas, as coxas grossas nuas –, quase o fez suspirar em voz alta. esfregou os olhos com uma das mãos por um segundo, tentando se recompor. Ele não deveria ser tão propenso a pensar nela daquela forma. Eles deveriam ser apenas amigos.
Mas maldita seja, como os quadris dela ficariam bonitos... As mãos dele estavam quase formigando com o pensamento.
abriu os olhos novamente no mesmo segundo em que o corpo de passou a se mover e ela começou a ir na direção em que estava, com Julie logo atrás.
Desesperado, ele se lançou para trás de um estande de óculos de sol e tentou permanecer imóvel. Deus, que humilhação. Um metro e oitenta de altura, correntes de prata no pescoço, jaqueta de motoqueiro nas costas, botas enormes nos pés e aqui estava ele, escondendo-se apenas para conseguir ter apenas uma visão de seus olhos arregalados e surpresos daqui longos dias.
– Por que estamos nos esc-condendo?
saltou para fora da própria pele de susto, voltando-se para trás e dando de cara com a própria irmã.
– Nós não estamos – respondeu, certificando-se que se afastara o suficiente para não os ouvir. Uma sobrancelha de Mandy se levantou em descrença.
– É o que parece – ela murmurou, passando aos olhos ao redor. – J-Jada está aq-qui?
sorriu tristemente e deu-lhe um tapinha fraternal no topo da cabeça. Graças a Deus ele e Jada não haviam se encontrado desde seu término há oito meses. Se ele fosse apenas um pouco sortudo, ela estaria bem longe, fazendo faculdade do outro lado do país como havia planejado e ele nunca mais teria que lidar com ela.
– Não, não se preocupe – respondeu, olhando sobre o ombro e vendo Julie dizer algo à que a fez sorrir. – Não é nada.
Mandy era uma garota esperta. Ela seguiu os olhos dele, rapidamente entendendo suas atitudes estranhas e sorrindo como a pestinha que era.
– V-Você tem uma nova namorada? – questionou, levando uma beliscada leve na barriga que a fez rir e se afastar.
– Não, pestinha – respondeu entredentes, rindo e relaxando os ombros em seguida. – É apenas uma amiga. Eu quero surpreendê-la voltando mais cedo na semana que vem, então não quero que me veja.
– Bonita – sussurrou Mandy, antes de franzir as sobrancelhas e voltar à olhá-lo. – Tem certeza? Isso parece c-co-coisa de namorado e namorada.
– Então você tem uma visão limitada de relacionamentos, Andy – ele brincou, fazendo-se de desentendido. Sua irmã revirou os olhos e empurrou sua cabeça, fazendo seus cabelos voarem.
Ela riu mais uma vez e ergueu as mãos em sinal de rendição.
– Se v-você diz – respondeu, antes de encolher os ombros. – Mas q-que parece, parece.
olhou sobre o ombro, voltando a observar de longe. Julie disse algo e ela jogou o rosto para trás, rindo com um sorriso aberto que trouxe cambalhotas para seu estômago. As miçangas em suas tranças brilharam adoravelmente na luz.
– É... – ele suspirou, fingindo que não estava, de repente, com dificuldade para respirar. – Eu tenho certeza. Só amigos.

Capítulo 5 - Bi Wife Energy


MEIO DE SETEMBRO, CINCO MESES ATRÁS

foi àquela festa porque ele estava entediado, solitário e precisando de uma distração.
A ideia foi dada por Noah e rapidamente colocada de escanteio no começo. Ele não conseguia entender como ir a uma festa de seu antigo colégio ajudaria a melhorar o seu humor deprimente, apesar de reconhecer essa atitude como sendo típica de seu amigo. Confraternizar com outras pessoas sempre melhorava o humor de Noah, que acreditava fielmente na filosofia de o homem era um ser social (ou seja lá o que mais ele aprendeu em suas aulas de sociologia na faculdade).
Mesmo assim, não pode compreender seu ponto à primeira vista. O que teria de tão bom em um encontro de ensino médio com bebida barata e maconha ruim? Ele já tinha tudo isso em casa e com o detalhe especial de não ter que encarar ninguém além de si mesmo. Parecia bom o suficiente para .
Mas Noah insistiu, afirmando que qualquer coisa seria melhor do que ficar mofando em seu quarto, com apenas seus pensamentos como companhia para torturá-lo em sua solidão. não poderia dizer que ele estava cem por cento errado, então prometeu pensar no assunto.
– Já faz semanas – ele argumentara ao telefone. – Você pode ficar escondido na masmorra que chama de quarto quanto tempo achar que precisa, mas isso não vai ajudar. Não ajudou mês passado, não ajudou semana passada, por que ficar confinado ai ajudaria hoje também?
( franziu as sobrancelhas para suas palavras. Masmorra, que absurdo. Ele pelo menos abria as janelas uma hora ou outra, principalmente quando fumava, ao invés de criar uma sauna do inferno como Noah sempre fazia).
No fim, depois de perceber que estava a vinte minutos encarando o teto de seu quarto, com uma enorme vontade de chorar ou quebrar alguma coisa, cedeu aos seus conselhos e recolheu as chaves do carro. As vezes tudo que se precisava em um momento de merda era uma distração.
Noah não foi capaz de ir com ele à festa, o desgraçado, mas no fim, ao voltar para casa, não pode nem mesmo estar bravo com ele. Pelo contrário, sua ideia fora tão brilhante que ele sentiu como se pudesse beijar o amigo na boca em agradecimento.
Foi uma merda completa no começo. Todos na festa eram mais novos do que ele e havia pouquíssimas pessoas aqui e ali que reconheceu como sendo os antigos alunos de seu ano. Alguns o cumprimentaram e acenaram, mas sempre que as perguntas se voltavam para como ele estava ou como estavam Cameron e Jada, queria apenas recolher suas coisas e ir embora imediatamente.
Quando a terceira pessoa da noite perguntou sobre a razão de não estar na faculdade como havia planejado, saiu para fumar.
E então conheceu Monalisa.
De certa forma, não era como se não conhecesse outras pessoas que gostavam de se vestir como ele. Algumas entraram em sua vida pelas festas underground que Noah gostava de ir e outras das corridas ilegais de carros que assistiam uma vez ou outra fora da cidade. A maioria apareceu graças ao seu primo Benny, dono de um dos poucos estúdios de tatuagem da área e um nome conhecido entre pessoas com aquele estilo. Graças as horas que passava junto dele quando mais novo, observando-o trabalhar ou sendo um de seus clientes, ele teve a oportunidade de criar pequenos laços (mesmo que não profundos) com a não muito popular comunidade alternativa de West Palm Beach.
Mas ninguém vinha de seu antigo colégio. Então ao vê-la, adivinhando que ela estudava lá por estar naquela festa, sentiu um enorme respeito por Monalisa antes mesmo de conversarem. Ele sabia muito bem como era uma merda ser o único adolescentes de roupas alternativas no meio do ensino médio. Você se destacava como se tivesse uma seta brilhante logo acima de sua cabeça e a atenção poderia ser muito indesejada dependendo da situação.
Ela era tão legal quanto parecia e os dois se deram bem automaticamente. Em um piscar de olhos, estava no meio de competição de quem bolava o baseado mais bonito e combinando de encontrá-la em algum momento no futuro.
Monalisa era uma garota extremamente atraente, com certeza chamando a atenção dele com seus olhos inteligentes e suas pernas longas, mas o tipo de energia que pulsou entre eles foi muito mais de companheirismo do que qualquer outra coisa. Duas pessoas tão parecidas em aparência, em um meio que as colocava como divergentes dos demais, rapidamente encontravam um jeito de se tornarem camaradas.
Logo, ele não conseguia pensar nela de outra forma além de uma grande e insubstituível amiga.
– Ela deve estar indo se benzer – brincou Monalisa, poucas semanas depois da festa, enquanto os dois fumavam juntos na calçada à frente da mecânica do pai dele. – Parecia que íamos roubar a alma dela.
riu alto enquanto observava a senhora idosa, que os olhara com horror, andar rapidamente para longe.
– É um absurdo – respondeu, jogando o pescoço para trás e soprando a fumaça de seu cigarro para o céu. – Nós nem somos tão assustadores assim. Gostaria de ver como ela reagiria se visse meu primo Benny. Ele tem alargadores tão grandes que parecem bambolês e fez aquela coisa que corta a língua no meio.
– Insano – respondeu Lisa impressionada. – Mas não somos tão fracos assim. Conseguimos assustar algumas pessoas.
Ela não estava errada. pensou nas centenas de boatos que ouviu sobre si mesmo desde os dezesseis anos, um mais selvagem do que o outro, e em como as pessoas realmente acreditavam em muitos deles, por mais ridículos que fossem.
Quer dizer, sim, ele teve contato com a máfia italiana em um bar de apostas ao dezesseis anos, como adivinhou?
– Não vamos a shows de rock o suficiente – argumentou dando risada. – E eu nunca nem participei de uma briga de facas!
Brigas sim, de facas não.
– Você é uma vergonha para os bad boys do mundo todo – respondeu ela empurrando seu ombro. – Mas ei, pelo menos você tem uma jaqueta de motoqueiro.
– Agora só falta a moto – chorou fazendo beicinho, enquanto Monalisa ria de sua birra fingida. – Deus, por favor, tudo que eu peço é uma dessas para chamar de minha!
Ter uma moto era um sonho caprichoso desde que atingiu a idade para dirigir. Ele sempre as achou um método de transporte incrível e fascinante, mas foi apenas quando subiu em uma de verdade, para suas aulas de direção, que teve certeza de que ele precisava de uma moto tanto quanto precisava respirar.
– A maioria das pessoas pediria paz mundial, o amor verdadeiro... – brincou Monalisa.
– A maioria das pessoas estão cheias de merda – riu . Depois, ficou em silêncio por alguns segundos e inclinou as pontas dos lábios para baixo em apreciação, quando curvas de esquentar o sangue em um adorável vestido azul brilharam em sua mente. – Quer dizer, não que eu fosse reclamar de receber um pouco de amor, principalmente se vier daquela sua amiga bonita que parece que saiu de um anime.
Monalisa gargalhou, enquanto sorria e dava outra tragada em seu cigarro. , com seu perfume doce e brincos de arco-íris, plantou uma sementinha em sua mente que se recusou a não germinar. Conhecê-la também foi um dos momentos auge de sua noite. Ele deveria enviar à Noah um maldito presente, um cheque com todo dinheiro que possuía no banco. Uma garota não tinha o direito de ser tão bonita assim.
ficaria honrada com o elogio – brincou Monalisa, com uma sobrancelha levantada. – E eu já disse que poderia tentar arrumar um encontro entre vocês, se quiser.
Algo caiu dentro de seu estômago, como um pedaço de chumbo sendo lançado com desprezo. Ele com certeza estava muito tentado. se lembrou da deliciosa primeira conversa que tiveram e de como o sorriso dela o atingiu dentro dos ossos. Foi difícil tirá-la da cabeça depois disso, ele não sabia dizer se fora capaz de fazer isso até agora para ser sincero.
Mas também se lembrava de como ela saiu correndo de repente, sem explicar nada e deixando-o perdido e confuso para trás. parecia desesperada, cobrindo a boca dele para que a pessoa do outro lado do telefone não ouvisse sua voz. Talvez ela já tivesse alguém em sua vida e o flerte entre eles foi apenas um momento casual e sem segundas intenções? Uma garota bonita como ela deveria estar cheia de pretendentes em sua porta e apesar de se considerar um partido excelente – tinha espelhos em casa, afinal –, eles eram muito diferentes um do outro à primeira vista. Talvez ele não fosse de seu interesse, por mais decepcionante que esse pensamento fosse.
Além disso, o rosto de Jada apareceu na frente de seus olhos, com seus lábios torcidos e sobrancelhas franzidas, dizendo palavras que o feriram como facas e, de repente, não parecia mais tão fácil apenas pedir o telefone de , por mais adorável que ela fosse. Faziam menos de três meses e as lembranças ainda doíam para cacete. Ele não estaria se precipitando? Não seria essa apenas uma maneira de distração para fingir que todas as merdas que aconteceram na verdade não o machucaram tanto, como gostava de fingir por aí?
Nah – respondeu por fim, colocando os braços atrás do pescoço. Sentia-se, de repente, sem animação. – Eu não teria chances. Ela merece um garoto legal, sabe? Um que ela não vai ter problemas em apresentar para a mãe dela.
Monalisa franziu as sobrancelhas para ele, mas não o pressionou. Ela também tinha demônios que preferia guardar para si mesma.
– Nunca se sabe – a ouviu responder, dando outro trago em seu cigarro. – Você é um cara legal, bonitão e ela perguntou sobre você. E é aquele ditado: os opostos se atraem ou alguma merda assim.
Isso o lembrou de algo que fez um sorriso malicioso surgir em seus lábios.
– Ah sim, como você e o maravilhoso Ian Harrington... – disse o nome de Ian como se fosse o segredo mais picante do momento. Monalisa, em resposta, o empurrou com tanta força que ele caiu para o lado. – Ei! Não é minha culpa que o cara olha para você como se quisesse estragar esse seu batom preto com a própria boca.
– Você não presta – murmurou Lisa, parecendo tentar controlar um sorriso. – E Ian e eu somos apenas amigos.
– Fala sério! – exclamou dando risada, também feliz pela mudança do rumo da conversa. Nem a própria Monalisa deveria acreditar naquilo que estava dizendo. – Você não está saindo com ele, tipo, todo final de semana?
– Mas como amigos – rebateu ela, pouco convincente.
– Ah está bem, como amigos – zombou revirando os olhos. – E o que vocês ficam fazendo quando estão juntos? Uma lista de desculpas esfarrapadas para contar aos outros?
Monalisa riu e o empurrou novamente, parecendo tímida. Era uma aparência engraçada e fora do comum para ela, sempre tão confiante com seus colares cheios de espinhos.
– Na verdade, nós... É difícil de explicar. – Ela pensou por alguns segundos, buscando as palavras certas. – Ian tem uma mãe superprotetora e existem várias coisas que ele sempre quis fazer, mas nunca teve permissão. Então ele criou essa lista para cumprir antes de ir para a faculdade e me convidou para estar ao lado dele. Sei lá, a gente se entende.
As sobrancelhas de subiram. Ele e Ian Harrington nunca se falaram durante o tempo que estudaram juntos. era um ano mais velho e Ian era o tipo de garoto extremamente popular e arrumadinho do grupo de elite do corpo estudantil. Mesmo assim, não havia uma pessoa que tinha algo de ruim a dizer sobre ele e se incluía nessa estatística. Mesmo antes de Ian sofrer esse misterioso acidente que ninguém sabia realmente como havia acontecido, o achava um menino bom e educado. Sendo honesto, o único garoto popular que não o fazia querer vomitar a cada vez que andava pelos corredores.
No começo, quando Monalisa admitiu que ela e Ian estavam se tornando amigos próximos, ele achou aquilo ridiculamente engraçado ao pensar em como os dois não pareciam ter absolutamente nada em comum. Ian usava roupa social e era simpático com todos que falavam com ele. Monalisa não devia ter nem mesmo uma calça que não estivesse rasgada e falava mais palavrões do que palavras normais ao longo de suas frases.
Mas sua nova confissão o surpreendeu, mostrando que, na verdade, aqueles dois opostos se davam muito melhor do que ele poderia ter imaginado.
Uma imagem criada por sua mente apareceu como um tapa na cara. Um colar com pingente de arco-íris brilhando ao lado de correntes muito parecidas com as que usava há anos.
Ele empurrou o pensamento para longe como se fosse ferro quente em sua pele. Não era hora de ser torturado pelo próprio subconsciente, por mais deliciosa que aquela tortura fosse.
– Ei, isso é muito legal – respondeu, dando outro trago no próprio cigarro. – Essa coisa de pais protetores demais é uma merda. Meu pai cria minha irmã como se ela fosse feita de vidro, mas não me dá o mesmo tratamento.
– Machista – comentou Lisa.
– Não tem nem como negar – murmurou ele, realmente chateado com a situação. Porra, maldito seja o pai dele. com certeza perdera muitos anos de vida apenas pelo estresse que ele lhe dava. – Eu bato de frente com ele, mas sempre entra por um ouvido e sai pelo outro. Mas, ei, é legal que Ian confie em você para compartilhar esses momentos. Nós nunca conversamos antes da minha formatura, mas todo mundo percebeu o quão recluso ele ficou depois que perdeu a voz.
Monalisa assentiu, contemplativa, fumando enquanto olhava o horizonte.
– Eu fico feliz também – murmurou. – É legal vê-lo conquistando todas essas coisas que sempre quis. Ele até me chamou para fazer minha própria lista, mas sei lá...
Eles ficaram em silêncio, pensativos. o quebrou alguns segundos depois.
– Eu acho que você deveria fazer – disse. Monalisa olhou para ele chocada, virando o pescoço rapidamente.
– O quê? – exclamou, os olhos cobertos de maquiagem preta arregalando-se levemente.
– Eu acho que você deveria fazer – repetiu. – Essa lista ou o que quer que seja. Acho que seria uma coisa boa de se fazer.
Ela o olhou sem dizer nada, a boca levemente aberta em surpresa, e viu que Monalisa estava começando a perceber que ele a entendia mesmo sem saber de nada. Era a energia que sentia com ela desde o primeiro dia. Toda aquela ladainha de merda de que homens e mulheres não poderiam ser só amigos era pura mentira. Eles foram feitos para isso.
– Pode ser – respondeu ela simplesmente. – Vou pensar.
Os dois ficaram em silêncio novamente, apenas fumando enquanto observavam os carros passando. então olhou para o próprio celular e sorriu. Hora de um novo par de piercings.
– Tenho um compromisso daqui vinte minutos e acho que você vai gostar – disse, levantando-se. – Quer vir?
Monalisa encolheu os ombros e se levantou também.
– Não tenho nada melhor para fazer – brincou, dando um último trago em seu cigarro.
De onde estavam, ambos podiam ver o pai de limpando as mãos sujas de graxa em um pano e olhando para Monalisa com desaprovação.
– Tem certeza de que seu pai não se importa com os cigarros? – ela perguntou, levemente confusa. olhou para a mesma direção e riu constrangido. Se ele pudesse esconder o próprio pai de todos que conhecia, principalmente das mulheres, o faria sem pensar duas vezes. Ninguém merecia ter que lidar com todo o drama.
– Bem, ele não liga para o meu fumo – explicou. – Acha que é coisa de macho e toda essa merda. Você, por outro lado...
– Não sou macho o suficiente – Lisa respondeu, rindo levemente. Depois, encolheu os ombros e passou a caminhar. – Vem, vamos indo antes que ele resolva me denunciar para a polícia da feminilidade.
🤸🏾‍♀‍💕🏍️

CINDY
MEIO DE SETEMBRO, CINCO MESES ATRÁS

descobriu a própria sexualidade em uma idade jovem.
Mudar-se para fora da casa de seus pais foi o incrível começo de tudo. Ela obteve, de repente, um tipo de liberdade que nunca tivera antes, desvendando uma nova maneira de viver sua infância e pré-adolescência sem precisar ser a pessoa que limparia a casa de cima a baixo, sem direito a sair ou brincar, e sempre castigada caso contrário.
Ela pode começar a criar amizades pela primeira vez, agora que tinha permissão de gastar seu tempo se divertindo. Seus irmãos lhe compraram roupas novas e as crianças da escola pararam de caçoar de sua aparência. começou a ter amigos e amigas e a sorrir e se alegrar com a vida apenas poucos meses depois de sua mudança, a primeira vez desde... Bem... Sempre.
Foi nessa mesma época que Daniel começou a falar sobre garotos.
– Se algum deles te destratar, você fala com a gente imediatamente – ele insistia todas as manhã quando a levava para a escola. – Não deixe que nenhum deles te deixe desconfortável. De preferência fique bem longe deles. Foque em ficar amiga das meninas. Os garotos são todos idiotas. Se acontecer alguma coisa, chame um professor, o diretor e ligue para nós.
Na flor da idade de seus doze anos, acreditou nas palavras paranoicas do irmão e colocou seu foco em fazer amizades femininas. A missão foi bem-sucedida e ela logo conseguiu formar alguns laços, não se sentando mais sozinha no almoço e intervalos, e finalmente sendo convidada para festas de aniversário e noites do pijama.
Esses eram os momentos favoritos dela. adorava passar longas horas assistindo filmes, pintando as unhas e rindo até as costelas doerem. Ela dormia com um sorriso no rosto, finalmente se sentindo parte de um grupo como as crianças deveriam ser e sempre se encontrava ansiosa, de novo e de novo e de novo, para a próxima festa que viria.
Foi em um desses encontros amigáveis que ela descobriu que seus sentimentos eram um pouco diferentes dos das amigas.
Em uma noite específica, apenas algumas semanas antes que completasse treze anos, uma de suas amigas admitiu ter beijado pela primeira vez. Todo o grupo se animou, fazendo-lhe centenas de perguntas apressadamente e as observou com os olhos arregalados.
Ela havia presenciado alguns beijos aqui e ali, principalmente em filmes ou quando a namorada de Brandon da época vinha os visitar, mas não costumava pensar muito sobre o assunto. As vezes sentia vontade de experimentar, de saber como seria fazer aquilo que todos pareciam ansiar e desejar, mas Daniel era tão incisivo sobre os garotos serem todos idiotas, que ela logo perdia a vontade.
Se fosse para beijar um idiota, ela preferiria não beijar ninguém.
(uma vez ela disse isso ao irmão e ele ficou tão feliz com ela que lhe deu palmadinhas nas costas e comprou o maior sorvete que pode encontrar).
Uma das garotas, a mais próxima de , admitiu para o grupo que tinha medo de beijar alguém e acabar não sabendo o que fazer. A menina que beijara, então, teve uma brilhante ideia.
– Eu posso ensinar vocês!
E o mundo inteiro mudou depois disso.
Não eram beijos de verdade. Eram selinhos inocentes, com menos de um segundo de duração. Bitocas infantis que eram dadas nos lábios das amigas e que as faziam gargalhar logo em seguida, como se aquilo fosse bobo.
Não foi bobo para .
Enquanto as amigas riam e agiam como se aquilo fosse escandaloso, sentiu as bochechas arderem tanto que parecia estar com febre. Quando a garota se aproximou, rindo com a brincadeira, ela sentiu o coração quase sair pela boca.
E quando seus lábios se encontraram em um selinho de um milésimo de segundo, ela sentiu que que o mundo inteiro havia parado de girar.
Naquela noite, ela foi a única que não dormiu, permanecendo dentro de seu saco de dormir, com os olhos no teto escuro, o coração disparado no peito e o sangue borbulhando nas bochechas.
O cérebro de foi incapaz de esquecer aquele momento. Ela pensou, por um tempo, que talvez estivesse até mesmo doente. Ela comera algo que a fizera sentir mal-estar? Ou talvez fosse normal? Talvez as amigas também tivessem sentido aquilo, porque era por isso que as pessoas gostavam de beijar, porque as faziam se sentir assim.
Ela perguntou. Mas todas elas riram, como se a ideia daqueles beijos terem trazido sentimentos para seus corações fosse simplesmente absurda.
– Foi só treinamento – uma delas dissera. – Não era como se estivéssemos beijando meninos.
Só treinamento. Só um selinho inocente para que elas não passassem vergonha quando realmente beijassem de verdade.
Mas não parecia só um treinamento, não se sentia como só um treinamento. Então o que era?
não teve coragem de falar com os irmãos sobre isso. Brandon trabalhava dia e noite para os sustentar, Daniel estudava e estagiava e Caleb estava muito ocupado com os novos amigos que fizera. Seu pai costumava a dizer que pessoas ocupadas não deveriam ser interrompidas, a menos que ela estivesse disposta a sofrer as consequências (o que com certeza não estava).
Além disso, não era como se ela pudesse pedir ajuda para a própria mãe. Alexandra ainda estava ignorando suas mensagens e ligações, afirmando que estava muito chateada com para falar com ela no momento. Como se fosse sua culpa que eles tivessem se mudado, culpa dela, a peça no tabuleiro que menos teve poder para influenciar o jogo que seus pais e irmãos mais velhos estavam jogando.
Então o tempo passou. fez treze anos, depois quatorze, mas aquela noite continuou assombrando sua mente como se tivesse acontecido no dia anterior e não um ano antes. De repente, ela passou a perceber que todas as personagens de seus desenhos favoritos, das quais era quase obcecada, não eram sem objeto de fascínio por querer ser como elas. Ela queria estar com elas.
Mas também queria estar com garotos. os conhecia e sentia a mesma coisa: bochechas coradas, coração frenético, vontade incontrolável de explodir em risadinhas como a pré-adolescente que era. Ela finalmente beijou um deles um dia e foi tão bom quanto o beijo na festa do pijama.
Como era possível? Ninguém nunca lhe dissera que algo assim acontecia. Como ela poderia querer beijar a garota que morava ao lado deles e então se apaixonar por um menino de sua sala?
A palavra “bissexual” apareceu no final de seus quatorze anos, quase começo dos quinze.
Ela veio junto de um personagem de filme que expôs sua sexualidade ao pai e a pegou de tamanha surpresa que se engasgou com a pipoca que comia, enquanto Caleb dava-lhe tapinhas nas costas para acalmar sua tosse.
Bissexual. Havia um nome para isso. Ela o pesquisou desesperadamente na internet e encontrou um tsunami de informações, artigos, vídeos, blogs, experiências compartilhadas em fóruns online.
Ela não era esquisita ou maluca. Ela só não era hétero.
Foi maravilhoso e libertador. finalmente tirou o peso que ficou em cima de seus ombros por quase três anos, dando um nome aos seus sentimentos e percebendo que muitas pessoas compartilhavam de sua experiência.
Mas então ela encontrou um novo problema: contar sobre isso a alguém.
Seus irmãos nunca apresentaram opiniões contrárias a comunidade LGBT, mas ainda não conseguia encontrar coragem para contar a eles. Talvez tivessem opiniões retrógadas das quais não tinha conhecimento e como isso afetaria sua relação? Eles eram seu núcleo familiar, uma de suas bases e suportes de maior importância. Imaginar a vida sem seus irmãos ao seu lado era como imaginar a vida sem um pedaço emocional de si mesma.
No fundo, aquilo tinha muito mais a ver com seu passado de violência do que qualquer outra coisa. Seu subconsciente tinha medo de que os irmãos passassem a agir como seus pais caso reprovassem sua sexualidade. Pior, tinha medo de que a mandassem de volta, que não a quisessem mais por ser bissexual. encontrou tantas histórias de pessoas que passaram por isso que o pensamento fez sua garganta se fechar com terror.
Mas foi algo que ela só avaliou muitos anos depois, quando mais velha e mais madura. Naquela época, apenas imaginou que contar a alguém diferente bastaria.
estava com seu primeiro namorado, Ethan, aos quinze anos e acreditou que ele seria uma boa pessoa para revelar sua sexualidade recém-descoberta. Ele deveria amá-la e apoiá-la como só um namorado era capaz, afinal, então que mal haveria nisso?
Ela o fez, então.
E tudo que ele disse foi:
– Então agora eu tenho chance que você me traía com garotos e garotas?
Foi terrível. O ego dele ficou tão ferido que começou a tentar proibi-la de ter amigas mulheres. Passou checar seu telefone, criava brigas absurdas por ela simplesmente ir ao aniversário de alguém ou sentar-se ao lado de uma menina durante as aulas.
Era como estar namorando um de seus irmãos controladores, mas mil vezes pior.
Eles terminaram quando o relacionamento ficou extremamente desgastado (graças a isso e a presença constante de sua família enxerida), mas tinha quinze anos e ele foi seu primeiro amor, então ainda doeu mais do que ela gostava de admitir.
O segundo namorado de , Christian, foi a segunda pessoa para quem ela confiou sua sexualidade. Sendo a incorrigível romântica que sempre fora, parecia uma boa ideia quando se estava apaixonada novamente.
Não foi melhor. Ele não morreu de ciúmes e passou a controlá-la, mas foi ofensivo de outras formas. De repente, conseguia encontrar brechas a todo momento para tentar fazer com que beijasse uma garota na frente dele, como se sua sexualidade fosse algo a fetichizar.
Repulsivo.
A terceira e última pessoa para quem compartilhou aquela questão foi uma amiga que possuiu, quando ainda morava na Virgínia. Ela confessou um pouco tensa, rezando para que desse certo daquela vez e realmente pareceu funcionar no começo. Sua amiga sorriu e a abraçou, agradecendo a confiança, e o resto da noite se seguiu sem mais problemas.
Mas então o tempo passou. E foi percebendo que recebia cada vez menos convites para sair, ir em festas ou dormir em sua casa. Quando a confrontou, teve como resposta que ela não estava mais “confortável na presença dela”, já que agora sabia que também sentia atração por garotas. Como elas dormiriam na mesma cama? Como se trocaria na frente dela?
Aquela foi a reação que mais a machucou. Ser colocada quase como uma predadora sexual feriu se uma forma muito profunda. A indignação queimou sua garganta e ela chorou por um longo tempo, decidindo parar de tentar depois disso. Qual era o ponto de dividir algo tão especial com alguém apenas para ter seu coração massacrado logo em seguida? Só serviu para fazê-la se sentir infinitamente mais sozinha do que jamais se sentira na vida.
Mas houve algo que aconteceu nesse meio tempo, entre seus dezesseis e dezessete anos, que trouxe um novo rumo para a vida de : ela conheceu Emma.
A única coisa boa que foi capaz de tirar de seu terceiro relacionamento amoroso com o namorado número três, Anthony (que começou e terminou tão rapidamente que as vezes se esquecia da existência), foram as corridas de carro.
Ele costumava a levar escondido em competições como aquela, que ocorriam em terrenos vazios e abandonados perto da cidade onde moravam. No começo, o acompanhava apenas porque sabia que era algo importante para Anthony. Mas muito rapidamente, contudo, ela foi pegando gosto pela coisa e realmente se divertindo enquanto estavam lá.
Aconteceu na mesma época em que sua paciência se esgotou em relação aos seus irmãos. Depois de dois namoros destruídos (e o terceiro indo para o buraco também por causa deles), decidiu que iria parar de ouvir suas besteiras e obedecê-los como se suas palavras fossem lei. Ela poderia não ser tão capaz de se impor como gostaria, mas aprendeu a mentir e a escapulir pela janela, voltando as escondidas antes que percebessem.
Não era algo que se orgulhava ou que a fazia feliz. Na verdade, era muito triste pensar que ela precisava fazer tudo isso porque os três mantinham controle sobre ela como se fosse uma peça de porcelana frágil. Mas, naquela altura do campeonato, aos quase dezessete anos e finalmente tendo um gostinho da adrenalina e das loucuras que as pessoas da idade dela faziam, ela não pode mais se conter.
Parecia horrível e as vezes se sentia dessa forma, mas era a única forma que encontrou de se sentir levemente livre, então ela tentava não pensar muito sobre.
Emma costumava ser uma garota que assistia as corridas perto de onde gostavam de ficar. Sendo a borboleta social que sempre foi, não pode impedir a si mesma de iniciar uma conversa e as duas logo se tornaram amigas. Emma era um ano mais velha e começara a competir apenas recentemente, mas assistia desde sempre, graças ao irmão mais velho.
Com o passar do tempo, começou a ansiar cada vez mais pelas corridas. Ela amava a emoção de estar dentro de uma multidão enorme, gritando e torcendo, vibrando em conjunto. A adrenalina de ver e ouvir os carros correndo, passando, derrapando e jogando terra seca pelos ares. A empolgação (e aqui está algo de que não se orgulhava muito, mas ei, ela é jovem) de estar fazendo algo que não deveria, de estar em um local que não deveria estar. A emoção dessa vida dupla, onde de dia ela ouvia o quanto o mundo era perigoso, o quanto ela era frágil demais, jovem demais, suave demais para lidar com tudo e, a noite, ela estava no meio de uma multidão eufórica, fora da cidade, vendo corridas de rua ilegais e aproveitando cada minuto.
Era viciante.
Mas, acima de tudo, ela amava estar com Emma. Ela ansiava estar com Emma. E logo depois que terminou com Anthony, permitiu a si mesma a explorar esse desejo em vê-la todas as semanas e entendeu o porquê.
Emma se apaixonou por ela de volta, sua maior sorte, e elas engataram no melhor relacionamento que já tivera, provavelmente a razão para que, agora, ela fosse uma pessoa tão bem realizada.
Foi um namoro que durou seis meses e não havia um momento que se arrependesse do que tiveram. Ela lhe ensinou sobre muitas coisas, conversou acerca de seus antigos relacionamentos e como foram tóxicos, a ajudou a recuperar sua autoestima e era um ombro amigo nos momentos mais difíceis, principalmente em relação à sua família. Apesar de não ser bissexual e sim lésbica, Emma entendia na pele o que havia passado com sua (agora) ex-amiga, então a sensação de solidão se foi e ela foi capaz de se reconstruir para a pessoa que era atualmente.
As duas terminaram em bons termos. A família de Emma se mudou para o Canadá assim que ela se formou no ensino médio e as coisas decaíram a partir daí. Ela sempre desejou fazer faculdade em um outro país e não tinha nenhuma vontade de voltar aos Estados Unidos. Na mesma época, Caleb passara em uma faculdade na Flórida e se viu tendo que mudar de Estado em poucas semanas.
Elas tentaram por mais algum tempo, mas logo resolveram terminar. Sua amizade, contudo, continuou e as duas conversavam sempre que podiam, não importava a hora ou momento.
Como agora.
– E como foi o teste para o time de torcida? – questionou Emma na videochamada que compartilhavam, em uma tarde tediosa no meio do mês de setembro. – Você já recebeu algum resultado?
tirou os olhos da unha do pé que pintava e sorriu maliciosamente para seu celular, posicionado na mesinha ao lado de sua cama.
– Talvez... – brincou, vendo os olhos de Emma se arregalaram.
– Não se atreva a ser misteriosa! – ela gritou, apontando um dedo para a câmera. – Anda, ! Conta logo!
pressionou os lábios, tentando não sorrir enquanto a torturava mais um pouco. As sobrancelhas claras de Emma se franziram e ela gemeu de frustração.
– Fala! – insistiu quase raivosa. riu abertamente.
– Eu passei!
Um grito soou do outro lado da chamada, fazendo-a rir ainda mais. A imagem de Emma chacoalhou, como ela seu celular estivesse se movendo violentamente enquanto celebrava, os cabelos loiros voando por toda parte.
– Estou tão feliz! – gritou animadamente. – Você sempre sonhou com isso, ! Que alegria!
– Você não faz ideia do quanto eu gritei quando vi a lista – confessou, as bochechas levemente quentes. – Mas acalme-se, ainda não acabou. Essa foi a primeira etapa, ainda tenho que passar pela segunda.
– Merda, é verdade – Emma suspirou do outro lado, antes de encolher os ombros e sorrir. – Mas tenho certeza de que tudo vai dar certo. Você é ótima, , você sabe que é. Se aquelas imbecis do nosso antigo colégio não puderam ver isso, o problema é delas.
Ela sorriu, sentindo as bochechas ficarem mais quentes, dessa vez de alegria.
– Obrigada, eu estou bastante esperançosa – contou, enquanto fechava o esmalte e assoprava as unhas do pé. – Você sabe que as vezes eu posso ter um pouco melodramática...
– As vezes?
– ...Mas – continuou, lançando-lhe um olhar raivoso que apenas fez Emma rir. – A segunda fase dos testes será em dupla e eu fiz amizade com um garoto chamado Dylan que é muito talentoso.
– Você, sinceramente, não está achando que vai passar apenas por causa dele, não é? – ela a censurou, fazendo desviar o olhar. – , você é incrível nisso. Não precisa do talento de outra pessoa para ir bem.
gemeu de frustração e afundou o rosto nos travesseiros por um momento.
– Eu sei... – murmurou, sem conseguir encarar o rosto de Emma na tela e encarando as próprias mãos. Ela precisava retocar os esmaltes ali também. – ...Mas todo mundo é tão talentoso...
– Como uma pessoa tão confiante consegue ser tão insegura as vezes? – questionou Emma, parecendo revoltada. – Juro, , você me deixa louca as vezes.
– E como você acha que eu me sinto? – questionou, os olhos formigando um pouco. Merda, ela realmente odiava os próprios canais lacrimais. – Eu enlouqueço a mim mesma. Juro por Deus. Semana passada me olhei no espelho e tive certeza de que teria um dia incrível e que nada me abalaria. Terminei ele chorando porque descobri que as lontras gostam de dormir de mãos dadas.
Emma gargalhou e suspirou levemente, piscando os cílios algumas vezes. Monalisa gostava de brincar que ela era louca e, as vezes, era muito difícil discordar.
– Eu te amo – chorou Emma, limpando lágrimas dos olhos. – Mesmo você sendo doida. Acho que te amo até mais por isso. Mas sério, , toda e qualquer voz na sua cabeça que diga que você não é o suficiente está mentindo completamente. Confie em mim, eu não minto, você sabe.
sorriu com carinho e deixou que suas palavras tocassem seu coração. A opinião de Emma era tão importante para ela quanto a de Julie e Monalisa. Suas três amigas sempre eram sinceras com ela e isso lhe dava muito conforto em conversas como essa, pois era capaz de sentir que aquelas eram suas verdadeiras perspectivas.
– E saiba que não estou nem um pouco surpresa de que você já está cheia de amigos – continuou Emma. – Você foi feita para ser popular, .
– Você me conhece – brincou de volta. – Eu não poderia ficar sem conversar com alguém nem para salvar minha própria vida.
Emma riu novamente, antes de se lembrar de algo de supetão.
– Oh! E sobre aquela festa que você ia? – questionou. – O plano de fugir dos três patetas com quem você vive deu certo?
suspirou e se afundou em seus travesseiros.
– Eu fui pega tentando sair de fininho, mas consegui convencê-los no final – contou, vendo a expressão de Emma parecer impressionada. – Foi preciso muito choro e apelação para o emocional, mas deu certo.
Pelo menos na maior parte do tempo.
– Eu sinceramente não sei como você ainda não perdeu a cabeça – resmungou Emma. – Tipo gritar com eles até perder a voz, de tanta raiva que está sentindo. Eu tenho vontade de fazer isso e nem mesmo moro ai.
suspirou, pensando na forma como eles interromperam sua diversão naquela noite. Uma pequena chama de frustração se acendeu em seu peito.
– Talvez eu vá um dia – murmurou mal-humorada, enquanto virava de posição e afundava suas costas nos travesseiros. – Já estou no meu limite.
– Você diz isso desde que nos conhecemos, há tipo, uns dois anos – apontou Emma, nada impressionada. – Mas esse surto nunca vem.
– Eu sei – admitiu , sentindo-se cabisbaixa. – Mas estou melhorando com eles, eu prometo.
– Isso eu tenho certeza, querida, estou orgulhosa de você – sorriu ela. – E como foi a festa? Você conseguiu conversar com o time de torcida como queria?
– Sim! Deu tudo certo – sorriu , sentindo o humor melhorar automaticamente. – Passei a maior parte da noite com eles e acho que gostaram de mim. A capitã até sorriu e me deu os parabéns por ter passado na primeira fase.
– Estou tão feliz, ! Isso é ótimo! – Emma sorriu mais, antes de ficar um longo período em silencio. Uma de suas sobrancelhas subiu. – E?
– Como assim? – questionou , fazendo-se de boba.
– E...? – repetiu Emma. – É só isso? Você falou dessa festa a semana inteira e tudo que tem para me contar é isso?
As bochechas de se aqueceram. Havia, na verdade, um acontecimento que tinha deixado de fora da conversa. Algo que estivera rastejando para dentro de sua mente sempre que ela permitia se distrair um pouco. Olhos bonitos, em um rosto bonito, com um sorriso bonito...
Mas que não a afetaram. Com certeza. Nem um pouco.
(ok, talvez só um pouquinho).
– Não... – suspirou, tentando ser discreta, mas falhando miseravelmente. – Nada demais aconteceu...
A imagem de Emma se moveu violentamente, antes de focalizar em seu rosto, extremamente perto da câmera. Agora, só conseguia ver seu nariz e seus grandes olhos azuis.
– Você conheceu alguém?!
Os olhos de se arregalaram e ela soltou uma exclamação chocada. Do outro lado da chamada, Emma gritou, apontando para ela.
– Você fez! – exclamou surpresa. – Eu sabia! Você sempre fica esquisita quando conhece alguém!
Shh! – ela censurou desesperada, rapidamente se levantando de sua cama. – Fale baixo!
andou em passos silenciosos até a porta de seu quart, abrindo-a e colocando a cabeça para fora do corredor. Olhando de um lado para o outro, ela se certificou de que nenhum de seus irmãos estavam ouvindo à espreita e então fechou a porta novamente, suspirando de alívio.
– Desculpe, eu esqueci que você vive em cárcere privado – reclamou Emma, fazendo-a revirar os olhos. – Quer que eu chame a polícia e denuncie? Posso fazer um plano de fuga e tudo.
voltou para a cama, finalmente olhando para a tela de seu celular novamente e vendo Emma ainda próxima, parecendo sedenta por novidades.
– Então? – ela insistiu ansiosamente. – Quem é ela? Ou ele? Ou nenhum?
– Por que você insiste que conheci alguém? – esquivou-se , pressionando os lábios juntos. – Eu poderia ter tido apenas uma boa noite.
– Porque te conheço como a palma da minha mão, – argumentou Emma. – Você sempre fica com essa carinha, toda misteriosa e sem falar muito, quando conhece alguém que te deixa toda boba.
Droga. A intimidade era mesmo uma merda. deveria começar a ter amigas menos observadoras. Ela teria mais paz de espírito assim.
– Está bem, está bem – suspirou, rindo da exclamação animada que ouviu. – Mas eu não conheci, conheci alguém. Eu apenas... Bem, conheci, mas não nesse sentido...
– Como a pessoa é? – A câmera de Emma estava tremendo, como se ela estivesse pulando para cima e para baixo. – Alta? Baixa? Cabelos compridos? Curtos?
– Ah... – exclamou , desviando o olhar e sorrindo levemente. – É um garoto. Ele é amigo de uma amiga que fiz aqui recentemente e nós nos conhecemos na festa. Conversamos por um tempo, antes que meus irmãos me arrastassem de volta para a minha torre.
– E deixe-me adivinhar – disse ela maliciosamente. – Ele é tudo de bom nessa vida?
suspirou quase tristemente, enquanto se afundava em seus travesseiros. Oh, Deus, como ela sofria. Ela era a maior sofredora de toda terra.
– Ele é lindo de morrer – chorou, como se fosse a pior notícia do ano. – Desgraçado, maldito, garoto bonito.
Emma gargalhou, balançando a cabeça em descrença.
– E você está caidinha por ele – afirmou. arregalou os olhos para ela e ofegou, ofendida.
– Eu o conheci uma vez – constatou, ofendida. – Não estou caidinha por ele. É impossível que eu esteja caidinha por ele.
Emma revirou os olhos e a encarou como se fosse muito boba. Talvez realmente fosse o caso.
– E desde quando isso impede o seu coraçãozinho, ? – questionou. – Ou devo lembrar a senhorita que você mesma admitiu que se apaixonou por mim no nosso primeiro beijo?
cobriu o rosto com as mãos, sentindo as bochechas queimando e ouvindo-a rir. Maldita Emma e sua boa memória. Maldito coração tolo que se apaixonava com facilidade. Maldito signo de peixes, que com certeza tinha alguma influência nisso, porque não havia como as estrelas não fazerem parte daquele plano conspiratório do universo contra ela.
– Mas isso é porque minhas emoções foram feitas para me fazer pagar por todo o karma que acumulei ao longo das minhas reencarnações – reclamou indignada. – E eu não o beijei, então não estou caidinha, muito obrigada.
– Tudo bem, tudo bem, não está mais aqui quem falou – disse Emma, mostrando uma das mãos em sinal de rendição. – Mas e aí? Quando você vai ver o bonitão novamente?
suspirou, fingindo não estar se sentindo muito decepcionada de repente.
– Provavelmente nunca – respondeu, vendo Emma franzir as sobrancelhas. – Ele já se formou, nós não temos razões para nos encontrarmos...
– Vocês não tem uma amiga em comum?
– Sim, mas Monalisa não disse nada sobre ter perguntado sobre mim ou algo assim... – argumentou . Ela tentou, em uma tentativa falha de ser inocente, perguntar à amiga sobre ele, mas Lisa foi muito simplista em suas informações. – Talvez seja para o melhor.
– Como pode ser para o melhor não encontrar mais um cara que te conquistou à primeira vista? – rebateu Emma, parecendo revoltada. – Para mim parece uma notícia muito triste.
– Porque, se bem me lembro, eu não tenho muita liberdade para relacionamentos amorosos por aqui – respondeu. Emma gemeu profundamente de frustração. – Ou você se esqueceu dos três homens que vivem comigo?
– Deus, as vezes eu realmente odeio os seus irmãos – ela suspirou. – Sem ofensas.
– Não ofendeu – disse , encolhendo os ombros.
– Isso significa que você vai mesmo seguir aquele seu plano maluco de só se envolver com alguém quando estiver na faculdade? – A voz de Emma era de indignação. Sua expressão mostrava descrença.
se sentiu ofendida novamente.
– Como assim “plano maluco”? – perguntou franzindo as sobrancelhas. – Meu plano é um plano incrível. É um ótimo plano. É um plano sem falhas.
Que audácia da parte dela. Era o plano perfeito. era a rainha dos planos infalíveis.
Emma riu como se tivesse se engasgado.
– Pode até ser – afirmou, antes de levantar as duas sobrancelhas. – Mas só se você fosse outra pessoa.
– Você é muito má comigo – chorou , ouvindo-a rir. – É sério! Como meu plano poderia não dar certo? Eu só tenho que esperar até a minha formatura ano que vem. Depois irei para a faculdade, bem longe dos meus irmãos, e poderei ter o romance que fui feita para viver.
– O problema, , é que você não controla o seu coração – argumentou Emma colocando uma das mãos na cintura. – Não importa o quanto você finja que é o caso. Em dezessete anos de vida, quantas vezes você conseguiu ser racional e não seguir suas emoções românticas?
Ela ficou em silêncio por um longo tempo, pensando até que saísse fumaça por seus ouvidos. Que humilhação. Era melhor procurar um terapeuta. Ou o horário para o próximo avião que a levaria para um lugar bem longe dali. De preferência um em que ela tinha permissão para se esconder na floresta.
– Você está certa – chorou, jogando o corpo para baixo e afundando o rosto no colchão. – Eu nunca vou conseguir. Eu estou fadada a sofrer por amor por toda a eternidade.
Emma riu mais, como se aquela não fosse a realidade mais triste que ela já ouvira na vida. bufou. Ela realmente precisava de amigas novas. Era muito difícil ser a única dramática do grupo. Ninguém nunca a entendia.
– É contra quem você é, garota – Emma disse com um sorriso. – Não adianta lutar contra o seu coraçãozinho sensível. A mãe natureza te fez assim, vai fazer o quê?
chorou em seu colchão, afundada nas almofadas. Claro que, em seu estupor bêbado, ela não parou para pensar sobre esse catastrófico, terrível e deprimente fato sobre si mesma. Claro que não. A bêbada não pensava. Ela deixava tudo para a sóbria lidar no final.
Maldita bêbada. Ela era sua maior inimiga.
era um garoto bonito, paquerador e seguro quando sua cabeça estava alta pelo álcool. Mas, quando finalmente consciente, era capaz de usar sua racionalidade para avaliar a situação como ela realmente era e suas conclusões, sinceramente, acabaram muito desanimadoras.
Ela era uma pessoa que se apaixonava facilmente, sempre fora. Foi assim com seus primeiros três namorados, fora assim com Emma, foi assim com todas as pessoas que um dia se interessou.
Era como o tolo coração dela sempre funcionara.
O que ela teve com naquela noite, na verdade, foi sorte. Pura sorte que a fez sair de lá antes que algo mais acontecesse, antes que ele virasse mais do que apenas uma paquera deliciosa que não esqueceria tão cedo.
Quem sabe o que aconteceria se ela tivesse o beijado? Ou se se encontrassem mais uma vez? Era realmente melhor que não acontecesse. conhecia a si mesma e nada de bom sairia de se apegar a alguém naquele momento.
Emma estava certa, ela conhecia a si mesma há dezessete anos. era um grande, luminoso e piscante “não”, iluminado em uma placa gigantesca que deveria pregar na própria testa até o fundo do crânio.
– Não fique assim, querida – murmurou Emma tentando animá-la. – Você não disse que nunca mais veria esse garoto? Então pronto. Dê a si mesma alguns dias e ele vai desaparecer da sua cabeça.
acenou, ainda com o rosto escondido e suspirou. Ela estava certa. Não fazia tanto tempo assim desde que a festa acontecera. Mais alguns dias e esqueceria completamente da existência dele. Esse desespero todo era apenas os seus genes dramáticos, que corriam no DNA de sua família. Talvez, em outro século, algum parente antigo maltratou uma bruxa vingativa que amaldiçoou seus futuros descendentes, deixando-os fadados a serem dramáticos pelo resto de sua existência.
Emma mudou de assunto, tentando animá-la e sorriu para ela. Elas continuaram conversando e seu humor melhorou consideravelmente. Era melhor que continuasse sendo o que era até agora: um garoto delicioso que flertou com ela por uma noite e nada além disso.



Continua...



Nota da autora: bem, já tendo uma ideia do que o futuro trará a Cindy, sabemos que ela é tão boa quanto o Cebolinha em seus planos infalíveis.
Obrigada a todos pelo retorno com a história! De verdade! Fico muito, muito feliz a cada comentário, seja aqui, no whats, no tt, no facebook ou no instagram. Ninguém nunca me enviou um e-mail, mas me faria feliz do mesmo jeito. O importante é sempre saber se tem alguém do outro lado da tela, amando-os tanto quanto eu.
Espero ter trazido a questão da sexualidade da Cindy de uma forma positiva! Me baseei, com permissão é claro, em experiências vividas por amigas próximas, então espero que pareça real e sensível.
Qualquer apontamento é SEMPRE bem-vindo!
Esse capítulo foi o que eu chamo de "capítulo transitório" ou "capítulo ponte". Não tem muita ação rolando, mas sem ele fica quase impossível conectar os capítulos mais importantes. Ih, autora, quer dizer que o próximo é um capítulo importante? Pode ter certeza que SIM e não apenas isso, é um dos meus capítulos FAVORITOS também!
Espero ansiosamente para saber o que se passa na cabecinha de vocês. POR FAVOR, me sigam nas redes sociais! Toda ajuda por lá é muito mais que bem-vinda, me ajuda muuuuito a divulgar meus trabalhos.
Vejo vocês em duas semanas! Um beijo!



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