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Última atualização: 29/10/2021

EPÍGRAFE

“[...] é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir, é preciso chegar... Ah, como esta vida é urgente!

... no entanto
eu gostava mesmo era de partir...
e – até hoje – quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas”.

Mário Quintana


1. Encontro em Xangai

PARTE I
Encontro em Xangai: o antiquário de porcelanas


“A vida é a arte do encontro”
- Vinicius de Moraes

Era como voltar alguns séculos atrás e viver as experiências daquelas pessoas há muito tempo extintas. Embora fosse uma loja de antiguidades voltada para artefatos em porcelana, as prateleiras abarrotadas de outros objetos fascinantes faziam daquele lugar um verdadeiro labirinto para o passado, um verdadeiro túnel no tempo.
Meus dedos deslizaram em uma das estantes empoeiradas, sentindo o abandono daquelas peças e quase palpando a tristeza por não terem suas histórias contadas. Parei de caminhar quando um dominó de peças de bambu roubou minha atenção. A delicadeza com que os elementos do jogo tinham sido feitos era impressionante e, mesmo com a passagem dos anos, mantinham-se íntegros. Ao lado do jogo, duas pequenas estátuas de porcelana representando o encontro de dois casais foram perfeitamente pintadas e ornamentadas. Quem eles queriam representar? Será que foram um casal de verdade ou foi um encontro arranjado? Um casamento arranjado? Um amor proibido? Qual poderia ser a história daqueles dois?
- Da próxima vez que você inventar de tirar um ano sabático e me arrastar junto, podemos fazer isso em uma ilha grega ou na América Latina?
Despertei das indagações ao ouvir a voz de minha melhor amiga próxima a mim. Meus olhos foram, então, de encontro a ela, que, com seus cabelos ruivos, destacava-se como uma chama naquele local escuro e imundo.
- Deixe de ser tão superficial, . – respondi, afastando-me daquele curioso casal e caminhando até ela. – Eu sei o quanto você está gostando de estar aqui.
Ela revirou os olhos, tentando disfarçar a verdade numa atitude de displicência. A verdade é que nós duas viramos amigas inseparáveis após uma aula sobre o Egito Antigo ainda na educação infantil. As pirâmides, os deuses e o misticismo que envolvem a civilização egípcia despertaram a curiosidade em duas meninas que buscavam por refúgios mágicos em suas vidas pré-definidas e criaram um laço de amizade entre duas herdeiras solitárias.
Vitória Humeau Seymourt, herdeira do título de duquesa de Somerset, estava longe de se comportar como se era esperado de uma mulher da nobreza inglesa. Filha do 19° Duque de Somerset, John Seymourt¹, com uma artista plástica francesa, Marguerite Humeau¹, tivera uma criação bastante ortodoxa. Os Somerset estão longe da linha de sucessão ao trono inglês e pouco convivem com o resto da nobreza, exceto nas ocasiões em que lhe são tradicionais; assim, com as rédeas um pouco mais frouxas, minha amiga foi uma criança normal, até ser enviada para um internato suíço aos oito anos após perder a mãe em um trágico acidente. Com a morte da mãe, seu pai se afundou no trabalho e não encontrou disposição para criar uma filha sozinho, mandando-a, portanto, para longe de casa.
- Ok, não é tão ruim assim. – ela confessou, observando um jogo de chá de porcelana azul. – Mas eles podiam se esforçar para limpar um pouco mais esse lugar.
- Quem te ouve falando isso mal imagina a bagunça que é o seu apartamento. – resmunguei em tom de brincadeira, afastando-me rapidamente dela ao receber seu olhar ultrajado.
- Só porque você é uma perfeccionista não significa que todos nós devemos nos comportar da mesma forma. – franzi o cenho com suas palavras, tentando compreendê-las. Às vezes, não fazia muito sentido. – E não tem nada de errado em ter um pouco de desordem na vida.
- Então por que está julgando a limpeza da loja? – questionei, risonha. – Já parou para pensar em como deve ser cansativo tirar o pó de tudo isso aqui? – voltei a me aproximar para sussurrar as próximas palavras: - E eu só vi aquela senhorinha centenária aqui dentro.
- Eu vi! – respondeu empolgada, como se estivesse compartilhando um grande segredo. – Ela deve ser tão velha quanto as coisas aqui dentro, ou como os dinossauros.
Foi a minha vez de revirar os olhos, achando inacreditável a personalidade de minha amiga.
- Vem, vamos ver aquele último lado da loja e então voltamos para o hotel. – falei, puxando-a pela mão para uma parte ainda mais aos fundos da loja de antiguidades.
- Eu prefiro ficar por aqui, se não se importa. – ela disse, soltando-se e olhando com estranheza para onde estávamos indo. – Vou ficar ali perto da porta, já não aguento mais esse cheiro de pó e mofo. Daqui a pouco minha rinite se desenvolve e eu começo a espirrar sem parar. – resmungou, afastando-se de mim. – Não demore.
- Ok, me dê vinte minutos. – falei, dando de ombros e deixando que ela fosse na direção contrária à minha.
Outra vez era como usar um vira-tempo e transportar-me para uma época em que a eletricidade, a internet e as grandes invenções não passavam de ideias a serem elaboradas. Ao meu redor, bússolas de bronze, arcos e flechas, armaduras e uma imensa quantidade de louças faziam-me sentir nos tempos dos grandes imperadores e das guerras contra os hunos. Então, as prateleiras com as armas e com as louças deram espaço para uma parede inteira de borboletas de porcelanas de diversas cores e tamanhos, e, com a pouca luminosidade daquele ambiente, elas pareciam brilhar com qualquer feixe de luz adjacente, deixando aquele pequeno espaço com uma aura surrealista.
- Por que tantas borboletas?
Estava tão compenetrada em observar aquelas borboletas, uma azul celeste em especial, que não notei a aproximação de outra pessoa, e, por isso, quase tive um infarto quando ouvi a voz masculina atrás de mim. Provavelmente ele deve ter visto meu pulo sobressaltado, porque seria difícil não ver, mas optou por não falar nada e continuar encarando a parede à nossa frente. E, quando consegui acalmar minha respiração e após minha frequência cardíaca estar mais tolerável, virei-me para descobrir quem era o infeliz que tinha me assustado.
Ele usava uma calça social preta com uma camisa jeans com mangas que estavam dobradas até os cotovelos e o primeiro botão superior aberto. Vestia-se com elegância e, ao mesmo tempo, com simplicidade. A audácia de misturar um tecido fino com uma camiseta jeans dizia algo sobre sua personalidade. Ainda assim, o rosto maduro com um sorriso jovial e a voz levemente sonora que me eram apresentados, combinavam perfeitamente com os trajes e com a postura descontraída. Os traços mundialmente famosos de sua face logo me fizeram reconhecer quem era a pessoa que estava parada a minha frente.
- Então, por que tantas borboletas? – ele perguntou casualmente, como se não tivesse notado meu escrutínio sobre si.
Resolvi não fazer alarde, muito embora sua presença trazia-me certo nervosismo que eu não estava acostumada a sentir.
- Não faço a mínima ideia. – respondi, dando-lhe espaço para que se aproximasse da parede decorada.
Tom precisou de apenas uma passada para estar ao meu lado, e, com as mãos dentro dos bolsos da calça social, observou com curiosidade aquelas inúmeras borboletas.
- Ouvi uma lenda sobre elas, mas não achei que os chineses ainda fossem dar ouvidos a algo tão antigo. – falou, de repente, analisando com cuidado as centenas de borboletas como se elas fossem os objetos mais fascinantes do mundo.
- Estamos em uma loja de coisas antigas, sabe. – falei, irônica, soando, talvez, mais rude do que gostaria. Por detrás dos óculos de armação preta, Tom pousou seus olhos azuis sobre mim. – Então, qual a lenda? – tentei corrigir, sentindo-me acanhada pela intensidade de seu olhar.
Ele sorriu ladino, voltando a encarar a parede de borboletas e permanecendo em silêncio por alguns segundos. Seu silêncio incomodou-me e interiormente contorci-me por não ter sido mais educada.
- Contaram-me que uma jovem bela e inteligente, há muitos séculos, queria estudar em uma escola. Na época, apenas aos homens era permitido tal coisa, mas, nascida em berço de ouro, ela conseguiu que seu pai concordasse em lhe enviar para uma. Disfarçada de homem, ela estudou por três anos nesse lugar, onde conheceu um rapaz de mesma idade, com quem estabeleceu uma grande conexão. – começou ele, ainda analisando a exposição. – Sem revelar sua identidade, os dois tornaram-se parceiros de estudos e melhores amigos. Com o tempo, ela percebeu que estava se apaixonando, e, quando terminaram os estudos, ela tentou convencê-lo a se casar com sua suposta irmã gêmea.
- Mas a irmã gêmea era ela, no caso. – interrompi, e ele assentiu, voltando a me olhar.
- Com indiretas, ela tentou contar a ele sobre quem era, mas ele não entendeu os sinais. E, quando ela foi obrigada a voltar para casa, deu a ele uma carta para que ele a lesse quando ela já tivesse partido. Ao ler as palavras dela, ele percebeu toda a verdade e seus verdadeiros sentimentos, decidindo-se em ir atrás dela para que ficassem juntos. – Tom sorriu singelamente, talvez achando graça em ter minha atenção totalmente envolta naquela história. – Entretanto, quando chegou até a casa dela, foi proibido de vê-la por que acabou descobrindo que ela já estava prometida a outro.
- Mas na China de antigamente era proibido e impensável romper um noivado. – falei, deixando escapar meus pensamentos e lembrando-me das aulas de história oriental.
Tom assentiu, antes de continuar.
- Desiludido, o rapaz desistiu e tentou voltar para a sua vida, mas sua tristeza era tão grande que acabou ficando doente e morreu. Quando a nossa protagonista soube de sua morte, foi-lhe permitido ir até a sepultura dele para se despedir. No cemitério, vestida de noiva, ela clamou aos céus para que pudessem estar juntos outra vez, e que dessa vez fosse para sempre. – seu sorriso alargou-se em seu rosto, e comecei a desconfiar de que ele estava zoando com a minha cara. – Os céus decidiram atender a sua súplica e uma rachadura na sepultura apareceu, fazendo com que a jovem caísse dentro dela. Em seguida, a rachadura se fechou de imediato. No dia seguinte, visitantes do cemitério viram sair do túmulo duas grandes borboletas azuis que voaram juntas para o céu até desaparecem no horizonte.
Tom, então, ficou em silêncio, como se não tivesse mais nada a contar, terminando a lenda das borboletas azuis.
- E fim? – perguntei, inconformada.
- Fim. – ele deu de ombros, sorrindo e retornando a olhar para as borboletas na parede. – Essa lenda é a única conexão que consigo fazer ao ver o fascínio por elas nessa loja. Mas não consigo compreender a lógica da história.
- É sobre liberdade. – falei, observando a borboleta azul e tocando-a com cuidado. – É sobre ter nossas próprias asas para voar e para amar, desde que sejamos verdadeiros e confiantes com quem somos.
- E você chegou nessa conclusão em, o quê, cinco segundos? – ele falou, parecendo surpreso pela velocidade de meu raciocínio.
- Eu estava realmente prestando atenção nas suas palavras. – dei de ombros. – E gosto bastante de lendas e histórias antigas, talvez por isso seja mais fácil de compreender o que querem nos dizer.
Tom, ainda com as mãos dentro dos bolsos da calça, girou o corpo novamente em minha direção, e o imitei, de forma que pudéssemos ficar frente a frente. Com um sorriso simpático, como se fosse um homemcomum conhecendo uma garota qualquer no coração da maior cidade da China, ele estendeu a mão direita para mim amigavelmente.
- Oi, eu sou o Tom. – falou, ainda simpático e ainda tentando agir como alguém que não fosse mundialmente famoso.
- Oi, Tom. – respondi, aceitando seu cumprimento e o retribuindo. – Eu me chamo .
- Muito prazer em te conhecer. – respondeu, rompendo nosso contato.
- Digo o mesmo, senhor Loki. – brinquei, entregando o jogo.
Tom dramatizou, escondendo o rosto com a mesma mão direita, mas mantendo o sorriso nos lábios. O movimento de sua cabeça fez com que os fios loiros caíssem sobre os olhos, e sorri tímida por achá-lo ainda mais atraente agora que o conhecia pessoalmente.
- E eu achando que jamais seria reconhecido numa loja de antiguidades no meio de Xangai. – brincou.
- É meio difícil não saber quem você é quando seu rosto está ligado a maior franquia cinematográfica dos últimos tempos.
- Ok, você tem uma boa justificativa. – sorrimos um para o outro, sem saber o que falar ou o que fazer a seguir.
- Então.. – comecei, sem jeito. – O que Tom Hiddleston está fazendo nesse antiquário de porcelanas? Além de contar lendas locais para desconhecidos. – brinquei, tentando iniciar uma conversa.
Ele riu, fazendo-me sorrir em consequência.
- Além de contar lendas locais para desconhecidos... – começou ele, ainda sorrindo, voltando a ficar com as duas mãos nos bolsos e inclinando-se um pouco em minha direção. – Vim divulgar Os Vingadores: Ultimato.
- Isso justifica sua presença em Xangai, não nesse lugar. – apontei com ambos os braços para o lugar onde estávamos, querendo demonstrar a improbabilidade de vê-lo em uma loja empoeirada como aquela.
- Você é sempre assim tão curiosa?
- É um dom. – sorri orgulhosa.
- E o que acontece se eu me recusar a contar o motivo de estar aqui?
Estreitei os olhos, desafiando-o a fazer isso. Tom tentou permanecer sério, mas algo em seu jeito natural de sero impediu de segurar a gargalhada que durou alguns segundos. Era bonito de ver como ele parecia leve, sereno em estar em um ambiente escondido e longe dos holofotes. Sua risada combinava com o homem à minha frente, mas parecia distante daquele que costumava ver em atuações mais sérias. Diria que a palavra ideal para descrever essa dualidade dele seria interessante. Ou, quem sabe, intrigante?
- O tempo começou a fechar, e estávamos na rua. No que começou a chover, entramos na primeira loja que vimos. – explicou, por fim, após parar de rir.
Procurei com os olhos pelas outras pessoas que poderiam compor o “nós”, mas nos fundos daquele empório éramos apenas eu, ele e as borboletas. Sem contar as armaduras e todas as outras peças que nos rondavam.
- Uma explicação lógica. – comentei, desistindo de procurar por outras companhias.
- E você? Por que entrou aqui?
Outra vez, sorri sem jeito, mas sem esconder dele minha vergonha. Não era comum que mulheres jovens tivessem fascínio por antiguidades, porcelanas e lendas há muito esquecidas. Muito menos comum era a herdeira da família Bvlgari ter esses interesses e usar seu ano sabático para visitar lugares incomuns; era de se esperar que eu usasse meu tempo livre em Granada, Nassau, Nice ou NY, e não em Xangai e nos próximos que tinha em mente. Como explicar essa minha vontade de conhecer os lugares exóticos sem parecer excêntrica?
- Gosto de história. – respondi. – Vim para a China conhecer a cultura deles, visitar a Muralha e a Cidade Proibida.
- Você está um pouco longe de Pequim para conhecer a Cidade Proibida. – brincou ele, e, mais uma vez, senti-me envergonhada.
- Sim, eu sei. Mas chegamos no país apenas ontem, e aqui em Xangai tem pontos turísticos muito interessantes também.
- Como um antiquário de porcelanas? – zombou.
- Com certeza. – respondi. – Afinal, não é todo o dia que encontro uma parede de borboletas de porcelanas e conheço uma lenda local.
Provavelmente Tom não estava esperando por minha resposta, talvez ele estivesse acostumado com mulheres que se acanhassem com a sua provocação, beleza, ou fama, mas, depois de passado o primeiro impacto de conhecê-lo, ele tornou-se como qualquer outra pessoa de meu círculo social. Quantos atores usavam as joias de minha família? Quantas modelos já estamparam nossa marca? Eram pessoas com quem eu estava acostumada, e, por mais que eu o achasse absurdamente atraente e ficasse até um pouco desestabilizada por sua presença confiante, sabia me comportar de acordo.
- Touchè. – disse, brincando. Sorrimos cúmplices antes de voltarmos a encarar a parede de borboletas e deixarmos o silêncio recair sobre nós.
- Pretende levar alguma delas? – ele perguntou, após um tempo.
- Acho que sim. – encolhi os ombros, voltando a olhar para a borboleta azul celeste que roubara minha atenção minutos atrás. – Acho que aquela.
- Por que não leva essa?
No momento em que fui apontar qual tinha escolhido, Tom esticou o braço e nossas mãos se encontraram sobre a borboleta azul que deu início a toda a nossa conversa. Seu contato, mesmo que breve, causou um arrepio em meu corpo, e, ao recuarmos com os braços, sorrimos sem graça um para o outro.
- O toque de duas almas desconhecidas mostra que os caminhos de vocês se cruzaram, e a borboleta azul marca o início de uma história. – outra vez sobressaltei-me com uma voz desconhecida, mas agora Tom reagiu da mesma forma. Ao nos virarmos, encontramos a mesma senhora centenária que tinha chamado de dinossauro olhando-nos, com um sorriso doce nos lábios e os cabelos brancos presos em um coque rígido. – Vocês foram abençoados, e, mesmo que não se vejam por um tempo, estarão para sempre ligados.
Sem dizer mais nada, ela inclinou o corpo para a frente em saudação e desapareceu em uma das muitas estantes do antiquário. Meu coração batia forte, tanto pelo susto quanto pela intensidade de suas palavras, e, ao buscar pelos olhos do ator, ele parecia tão atordoado quanto eu.
- Ela me lembrou a avó da Mulan. – falei, tentando descontrair o clima embaraçoso que tinha se criado.
- De fato. – ele disse, relaxando um pouco os ombros.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Tom ergueu novamente o braço e retirou a borboleta azul da parede, afastando-se de mim. Fiquei parada vendo-o se afastar, sem entender o que tinha acontecido. Então era isso? Simples assim? Nosso encontro ia acabar assim? Sem nenhuma palavra de despedida?
Confusa, dei de ombros e caminhei para longe daquela parede, tentando afastar aquele estranho acontecimento de minha mente e focando em procurar minha amiga. Eu tinha mesmo conhecido Tom Hiddleston? Será que tinha colocado algum alucinógeno no meu café e tudo não passara de um sonho muito esquisito?
- Aí está você! – falou, chamando-me.
Levantei meus olhos em sua direção e foi quando percebi que estava na parte da frente da loja. Minha amiga, com seus lindos cabelos ruivos, estava sentada em uma poltrona de bambu com a senhora dona da loja ao seu lado. Esta segurava um embrulho nas mãos e olhava-me com ansiedade.
- Parou de chover. – falei, observando a rua além da vitrine e vendo a calçada repleta de poças de água.
- Sim, e por isso nós vamos embora. – disse, levantando-se e aproximando-se de mim.
- Antes de partirem, o rapaz deixou isso para você. – a senhora falou, estendendo-me o embrulho.
Ainda aturdida pelo meu encontro inesperado, peguei o objeto que me era estendido e o abri, encontrando a borboleta azul celeste com um pequeno cartão dentro. A caligrafia masculina era perfeita e combinava exatamente com o homem que conheci.

Até o nosso próximo encontro.
Tom.


¹ John Seymourt e Marguerite Humeau são duas pessoas que existem de verdade. Ele é o 19° Duque de Somerset, segundo a Wikipédia, e ela é uma artista plástica francesa, atualmente residente de Londres, formada pela Royal College of Art em 2011.


2. Encontro em Nairobi

PARTE II
Encontro em Nairobi: o santuário dos elefantes


“A vida é a arte do encontro”
- Vinicius de Moraes

Qual o segredo dos elefantes?

Depois de Xangai, e eu fomos até Pequim conhecer a Cidade Proibida e, de lá, conhecemos a Muralha da China. Ficamos quase um mês em território chinês e, depois de tanto tempo em solo oriental, minha amiga decidiu que estava na hora de voltar para o Ocidente e para todas as mordomias com que estava acostumada ao invés de me acompanhar no meu próximo destino. Enquanto ela embarcava de volta para Londres, eu acomodava-me em uma poltrona de primeira classe a caminho de Nairóbi, no Quênia, para encarar mais de dezesseis horas de voo e tentar controlar a ansiedade de finalmente estar indo para lá.
Há muitos anos, ainda adolescente e na época do ensino médio, encontrei um livro¹ na biblioteca do internato sobre a vida de uma ativista queniana, Joan Root², que fora assassinada em seu quarto cinco dias antes de completar setenta anos. A história da tímida mulher que lutava pela preservação da natureza e da vida selvagem da África enraizou-se em meu interior desde então, e, a partir da leitura daquele livro, o Quênia tornou-se um país de interesse para mim. Além disso, eu possuía uma estranha ligação com os elefantes desde que me lembro por gente, e, ao me informar sobre eles, soube que é nesse país que existe um dos maiores santuários de elefantes do mundo.
Ainda muito pequena, eu não devia ter mais do que seis ou sete anos, meu avô, até aquele momento presidente da Bvlgari, mandou fabricar para meu presente de aniversário um pequeno elefante de ouro branco com safiras cravejadas, e, ao me presentear com o objeto, explicou-me que o elefante, além de ser o maior animal terrestre, simboliza a sabedoria, a determinação e a longevidade. Contou-me, também, que minha falecida avó sonhou com um na véspera do meu nascimento e interpretou o sonho como um sinal de que minha vida seria próspera e duradoura. Desde aquele momento, eles eram meus animais favoritos, mesmo que eu jamais tenha visto um fora de um zoológico. Somente a ideia de estar indo para um lugar em que poderia vê-los realmente de perto, no seu habitat, deixava-me enérgica demais para tentar dormir nas primeiras horas de voo.
Portanto, eu tinha motivos suficientes para fazer de Nairóbi meu próximo destino do meu ano sabático. Estiquei minhas pernas sobre a poltrona, coloquei os fones e deixei uma playlist aleatória tocar, enquanto observava o mundo ficar cada vez menor. O brilho azul celeste de um objeto dentro de minha bolsa aberta chamou minha atenção, e, com cuidado peguei a borboleta de porcelana, delineando seus detalhes enquanto minha mente revivia aquele dia tão peculiar. Apesar de antiga, a borboleta estava em perfeito estado, quase como se estivesse viva em minhas mãos e como se pudesse sair voando a qualquer instante. Sorri tímida, sem querer deixar transparecer tudo o que aquele enfeite significava. Meu encontro com Tom Hiddleston em um antiquário em Xangai ainda parecia fruto da minha imaginação, e a única prova de que ele, de fato, acontecera era aquele objeto e o bilhete que ele me deixara.

Até o nosso próximo encontro.

Era o que ele tinha escrito, fazendo referência às palavras da anciã, dona do antiquário. Segundo ela, nossas almas, até então desconhecidas, tinham se encontrado e a borboleta azul marcaria o início de nossa história. A lenda chinesa falava que as borboletas azuis viajaram juntas para os céus, e questiono-me se o encontro de nossos caminhos irá trazer uma convergência duradoura. Agora que nos conhecíamos pessoalmente, eu sabia que nos encontraríamos eventualmente em alguns eventos, mas será que esses futuros encontros serão suficientes? Ou a vida estará nos reservando algo a mais? Hiddleston, com aquele recado, podia ter acreditado na história, ou também poderia apenas estar brincando comigo. Ou, ainda, aquelas palavras poderiam não significar nada mais do que um simples “até logo, nos esbarramos por aí, tchau”. Sorri nervosa, não sabendo o que, de fato, eu queria que aquele bilhete significasse, e guardei a borboleta com cuidado outra vez.
Com alguns anos de diferença entre nós, tentei me lembrar das histórias que sabia sobre Tom Hiddleston, e não eram muitas. Sempre muito reservado, suas aparições eram flashes de algum paparazzi de plantão, fotos de cotidiano como um homem comum, ou fotos que ele queria que fossem divulgadas, como eventos beneficentes, novos trabalhos, alguma campanha internacional. De sua vida pessoal, ou melhor, romântica, o relacionamento com Taylor Swift foi, de longe, o mais comentado – não somente pelo pouco tempo que durou, mas também por ter sido algo realmente inesperado para todos. Nomes de outras pessoas com que ele se envolvera me eram desconhecidos, porque, até o nosso encontro, ele não passava de um bom ator e um homem muito bonito que eu admirava de longe, mas sem nunca ter feito esforço algum para conhecê-lo, apesar da minha posição. De qualquer forma, ele ainda era um mistério para mim e foi pensando nele e especulando sobre um possível reencontro que adormeci.

Tom Hiddleston

A chuva, com certeza, tinha sido o fator que me levara a entrar naquele antiquário de porcelanas acompanhado de Jeremy Renner; entretanto, enquanto meu amigo e intérprete do Gavião Arqueiro permanecia próximo a porta, pronto para sair de lá assim que a chuva cessasse, eu decidi me aprofundar naquela loja repleta de histórias antigas, poeira e segredos. Foi no final de um corredor com dominós de bambu que cabelos castanho-claros presos em um rabo de cavalo displicente chamaram minha atenção e fizeram-me prosseguir naquele caminho. Afinal, quem mais se aventuraria em um antiquário de porcelanas em Xangai quando havia tantas outras atrações na cidade para conhecer?
Lembro-me de ter seguido a mulher com cuidado, observando seu caminhar leve com cuidado, até vê-la parar, encantada, em frente à uma parede com centenas de borboletas de porcelanas. Por um acaso do destino, no dia anterior, Mark Ruffalo estava lendo um livro sobre lendas chinesas e comentou sobre uma envolvendo um casal de apaixonados que apenas ficaram juntos após a morte, transformados em borboletas. Embora mórbido, o tópico pareceu-me adequado para puxar conversa com a mulher de sobretudo risca-giz chumbo e botas de cano curto pretas. Quando ficamos frente a frente, devido a nossa conversa inusitada, reparei que ela usava uma saia um pouco mais cumprida que a metade das coxas e do mesmo tecido do casaco e uma blusa preta lisa. O rosto, bem delineado, e marcado por uma leve maquiagem, tinha, ao mesmo tempo, uma expressão astuta e desafiante. Imediatamente quis conhecer melhor a moça que depois se apresentou como .
Após ter nossos caminhos cruzados naquele ambiente nada convencional, pensei nela por dias e na coincidência que foi tê-la conhecido naquele momento; meus sonhos eram assombrados com seu sorriso tímido e seus olhos curiosos. Ela não tinha me dado seu sobrenome, muito menos seu telefone, mas, alguns dias após desembarcar em LA, Zendaya nos encontrou em um evento da Marvel usando um colar exorbitante da Bvlgari que fora desenhado pela herdeira da marca. E, conversando com ela sobre a história da joalheria, sobre o quanto a minha amiga admirava Bvlgari pela sua elegância e educação, que descobri que a minha desconhecida de Xangai, é, na verdade, a herdeira de um império de joias.
Sotirio Bvlgari: designer de joias, futura CEO da marca de alta joalheria de excelência italiana, filha única do filho mais velho e atual CEO de Bvlgari, Giorgio, e herdeira de um legado cultural extenso. Tantos títulos para a mesma mulher que pediu licença da administração da empresa por um ano para viajar pelo mundo e se reencontrar – segundo os tabloides - e, sobretudo, para a dona do meu inconsciente desde Xangai. Por ser uma pessoa muito reservada e muito comprometida a não aparecer na mídia, e, portanto, com poucas fotos suas fora de eventos ou de transações multimilionárias que eram divulgadas, não fui capaz de reconhecê-la de imediato; entretanto, se o tivesse feito, será que teria iniciado aquela conversa? Ou teria me sentido intimidado pelo legado que ela carrega? Uma coisa é ser ator, outra bem diferente é ter uma herança gigantesca e ser preparado para assumi-la.
- Você parece estar em outro planeta. – Chris falou, chamando minha atenção para a realidade. – Ainda pensando na herdeira?
Devido à nossa longa amizade surgida pelos filmes de Thor, Chris tinha se tornado praticamente um irmão para mim, e fora para ele que acabei contando sobre o meu encontro inusitado e sobre . A partir do meu desabafo, meu amigo australiano não perdia a oportunidade de zombar dos meus devaneios e, frequentemente, duvidava de que eu realmente tivesse conhecido a moça. Fofoqueiro como só ele sabia ser, Chris indagou Zendaya – já que ela era a nova garota propaganda da marca – sobre , e confirmou o que já sabíamos: extremamente reservada, jamais tinha se envolvido em algum escândalo. Era o que os tabloides britânicos chamariam de “comportamento exemplar” da elite que eles tanto implicavam.
- Não. – menti, reparando que o salão de eventos do hotel em que estávamos finalmente estava quase cheio. Mais alguns minutos e a coletiva de divulgação do filme enfim começaria.
- Então no que estava pensando? – insistiu ele.
Imediatamente lembrei-me de um panfleto turístico deixado sobre minha cama do quarto do hotel quando chegamos.
- Estava pensando em visitar um santuário de elefantes que tem nos arredores da cidade. – falei, e, de repente, meu cérebro começou a desenvolver melhor a ideia. – Desde que visitei a Guiné em 2013, não tive mais oportunidades de conhecer outros lugares que possam estar precisando de suporte. A campanha de alimentos está a todo vapor, mas quem sabe não esteja na hora de começar algo envolvendo a preservação da vida selvagem do Quênia?
Chris, ao meu lado direito, perdeu o sorriso burlesco e ficou sério, assimilando meu discurso bem elaborado. De fato, conhecer o santuário parecia uma boa forma de aproveitar meu próximo dia no país e, quem sabe, ver uma nova oportunidade de campanha mundial surgir. Às vezes, eu mesmo me espantava com a velocidade com que conseguia elaborar desculpas para fugir de situações comprometedoras como aquela.
- Podemos começar. – Hugh, o organizador do evento, comentou próximo a nós, e ajeitamo-nos em nossas cadeiras para dar início a mais uma tarde cheia de perguntas sobre Os Vingadores: Ultimato.

♦♦♦

O Parque Nacional Amboseli ficava a pouco mais de três horas de viagem de carro de Nairóbi, onde o elenco estava hospedado. Chris Hemsworth, Scarlett e Chris Evans decidiram-me acompanhar naquela aventura rapidamente elaborada, e, durante toda a viagem que fizemos em uma Range Rover Classic, talvez de 1995, meus três amigos e companheiros de filmagem, divertiram-se com as diversas paisagens e empolgaram-se com a vida nativa que tínhamos de nossas janelas.
Quando o carro parou na província do vale do Rift, nos deparamos com uma imensa área de vegetação esparsa e, ao norte, a montanha mais alta do continente – Quilimanjaro. O guia nos levou por diferentes trilhas, sempre dentro do carro, pois em apenas determinados pontos nos era permitido sair de dentro dele. Além dos elefantes, vimos búfalos, girafas, zebras e guepardos. Quando paramos outra vez, próximo a um oásis repleto de zebras, Evans esticou o braço para fora da janela e ofereceu um punhado de folhas típicas que o guia nos deu para alimentar uma delas, que abocanhou tão ferozmente o alimento que fez Chris puxar o braço o mais rápido possível para dentro, colando-o próximo ao corpo, como se fosse protegê-lo de ser arrancado.
- Elas são herbívoros, Evans. – Scarlett disse, divertida, não escondendo o sorriso zombeteiro.
- Mesmo assim, não quero ter meu braço arrancado por uma. – retrucou ele, observando o animal se afastar lentamente do carro.
- Gostariam de ir ao mirante do Monte Quilimanjaro? – Adeben, nosso guia e motorista, perguntou, sorrindo divertido com a cena que tinha acabado de ver. – No caminho passamos pelo Santuário dos Elefantes, podemos parar lá também.
- Acho uma ótima ideia. – Hemsworth falou, espremido entre Evans e Scarlett.
Por ter me aproveitado da discussão inicial de onde cada um se sentaria no carro, sorrateiramente escorreguei para o banco de passageiro da frente e coloquei o cinto, não dando tempo para algum deles reclamar ou brigar pelo lugar e, no fim, eles tiveram que se dividir atrás e meu amigo australiano ficou com o pior assento depois de perder no jokenpô. Enquanto Hemsworth e Scarlett ainda implicavam com Evans sobre a zebra comer o braço dele, prestei atenção no monte que se aproximava e em toda a vida selvagem que nos cercava, e foi inevitável questionar se gostaria de tal lugar.
Alguns minutos, quase meia-hora, depois, Adeben parou o carro em uma planície com vegetação rasteira, predominantemente de gramíneas, mas com alguns arbustos e árvores esparsos. Era como entrar na animação do Rei Leão e vivenciar de perto a natureza da savana africana que nos cercava. Há alguns metros, um pequeno bando de elefantes, não mais do que quinze, alimentavam-se ou descansavam naquela paisagem, alheios à nossa presença. Percebi, contudo, um outro carro vazio não muito longe do nosso, o que me fez procurar pelos passageiros, vendo-os não muito distantes de nós, mas bem mais próximos dos animais.
- Aqui é o Santuário. – Adeben falou, destrancando as portas e abrindo a sua, descendo logo em seguida. – Podem se aproximar, mas tenham cuidado. E não fiquem muito próximo dos filhotes, a não ser que eles se aproximem de vocês. Nada de câmeras ou qualquer objeto que possa assustá-los.
Descemos do carro e seguidos Adeben em direção aos outros dois visitantes. O primeiro passageiro de quem nos aproximamos era um homem negro, e, pela reação dele ao ver Bomani, também era outro guia. Já o outro passageiro era uma mulher que estava parada sozinha mais adiante, perto demais da manada e dos elefantes.
- Bomani, não sabia que estaria por aqui! – Adeben falou, aproximando-se do outro guia, que observava silenciosamente sua única passageira. – E com apenas uma turista?
- Mas que diabos..! – Evans reclamou depois de tropeçar em uma raiz e quase cair, precisando se amparar em Hemsworth. - Eu devia ter ficado no hotel.. – resmungou, recuperando-se.
- E perder uma paisagem dessas? – Scarlett falou ao seu lado, segurando o riso.
- Uma turista que pagou por cinco. – respondeu Bomani, virando-se para nós enquanto inclinava a cabeça para uma mulher que se aproximava lentamente de um elefante solitário.
Observei a mulher que trajava um short de sarja bege, meias cor de oliva quase até os joelhos, tênis de trilha e uma blusa azul marinho de mangas longas. Os cabelos de uma cor conhecida prenderam, outra vez, minha atenção, e, antes que eu percebesse, caminhava em sua direção com um sorriso singelo nos lábios e a mente vazia de racionalidade. Seria muita coincidência encontrá-la aqui, tão longe de nosso primeiro encontro e mais longe ainda de sua cidade residencial.
A passos cuidadosos me aproximei e, à medida que o fazia, reconheci seus traços de perfil, não acreditando na imensa coincidência que estava acontecendo.
- ? – perguntei, chamando sua atenção.
A mulher virou-se surpresa em minha direção, arregalando os olhos e também parecendo não acreditar no destino. E eu me perguntando antes se ela ia gostar do Quênia...
- Você está me perseguindo? – ela perguntou, recuperando-se do susto e olhando-me com desconfiança.
- Posso te fazer a mesma pergunta. – respondi, cruzando os braços e sorrindo-lhe enviesado.
- Por que eu presumiria que você viesse para o meio do Quênia? – ela sorriu, e aproximou-se.
Sem jeito, nos abraçamos rapidamente e nos afastamos, ficando frente a frente outra vez.
- Não faço ideia... mas por que não me seguir? – brinquei, e a vi revirar os olhos divertida, recusando-se a responder a minha brincadeira provocativa. – O que você está fazendo aqui? Ainda no ano sabático?
- Então você sabe do meu ano sabático... – comentou, e percebi que tinha entregado o jogo. – Pelo visto descobriu meu sobrenome e algumas coisas sobre mim.
- Nada mais justo, já que desde o nosso primeiro encontro você sabe quem sou.
- De fato.
- Na verdade, foi injusto você saber tanto sobre mim e não me falar nada sobre você, além de que gosta de história e lugares antigos.
- Você não perguntou nada além disso, e ainda foi embora sem se despedir. – ela sorriu sem jeito. – Não me deu tempo de agradecer o presente.
- Espero que tenha gostado.
- Sim, eu gostei. – disse, ainda tímida. – Obrigada.
- Foi um prazer. – confessei. – Assim você teria algo para se lembrar daquele antiquário empoeirado.
- Oh, se não fosse a borboleta, eu provavelmente teria comprado um arco-e-flecha de bambu. – brincou, e foi a minha vez de revirar os olhos. – Mas sério.. o que você está fazendo no Quênia? Ainda na divulgação do filme?
- Exatamente. – respondi, e ela assentiu. – Agora, se me perguntar como que eu vim parar nesse Parque, a resposta é um pouco mais inusitada. – comentei.
- Como assim? – perguntou, interessada.
Contei a ela sobre a desculpa esfarrapada que precisei dar a Chris Hemsworth – na menção dos meus colegas, ela olhou para trás, onde os outros conversavam animados observando a fauna, mas sem jamais revelar que precisei inventar a história para não contar que meus pensamentos estavam presos nela. No final do meu pequeno relato, ela deu um sorriso singelo.
- Até parece previsão daquela senhora. – brincou, voltando a olhar para o elefante que ainda descansava a não mais do que três metros de nós.
Mais próximo do que antes do animal, temi por seu tamanho; entretanto, parecia completamente à vontade ali, como se pertencesse àquele lugar.
- E você? Por que o Quênia?
- Joan Root e elefantes. – respondeu simplesmente, e não entendi a primeira referência. Vendo a confusão em meu semblante, ela explicou: - Joan foi uma ativista queniana que lutou pela preservação da vida selvagem da África. Há boatos de que foi assassinada por isso. Desde que li sobre ela, senti necessidade de vir aqui.
- E os elefantes?
- Coisas de família. – disse, sem entrar em detalhes, mas sorrindo em direção ao animal. – Há uma lenda tailandesa sobre eles...
- Outra lenda? – brinquei.
- Foi você que começou com isso. – retrucou, e eu ri, assentindo em concordância. – Quer ouvir?
- Por favor. – falei, colocando-me ao seu lado e observando o imenso animal tão próximo de nós.
- Segundo uma lenda budista, a rainha Maya sonhou que um elefante branco penetrava em seu ventre pela axila direita. Em seguida, ela percebeu que estava grávida de Sidarta, o Buda, e, por isso, o elefante se tornou símbolo promissor para todo o povo. Acabou, também, simbolizando o poder real.
Fiquei em silêncio, assimilando suas palavras e, antes que percebesse, minha mente tentava imaginar um elefante penetrando uma mulher pela axila direita. Meu riso foi inevitável, e o soco que senti em meu ombro apenas comprovou que estava atenta às minhas reações.
- Deixa de ter mente poluída. – ela disse, risonha.
- Como que eu posso não imaginar uma lenda dessas? – respondi, sorrindo.
- Você não pode ser tão literal, Hiddleston. – ela disse, ainda com o sorriso nos lábios. – Tem que procurar o simbolismo por trás.
- Que é...? – perguntei, em tom desafiador e erguendo uma sobrancelha.
encolheu os ombros, com as mãos dentro dos bolsos frontais dos shorts.
- Eu ainda não sei. – gargalhei ao ouvir sua resposta e vi seu rosto corar, deixando-a, como se fosse possível, mais adorável.
- Não era você que consegue interpretar lendas numa velocidade absurda? – provoquei outra vez.
- Apenas posso dizer que, em diferentes culturas, eles estão associados a fertilidade, a família e a prosperidade.
- Se você olhar pelo tamanho da trompa... outch! – outro soco em meu ombro, dessa vez um pouco mais forte. – Mas eu só estou abordando a parte sexual de Freud!
- Hiddleston, fique quieto e não fale mais besteiras. – ela disse, em um tom que misturava divertimento e revolta.
- Para uma high society, você é muito violenta. – brinquei, massageando meu ombro esquerdo.
- Para alguém formado no Eton, você não parece ser muito inteligente. – foi a vez dela de provocar, com um sorriso maroto nos lábios e os olhos brilhando divertidos.
Boquiaberto por saber que ela sabia mais de mim do que eu tinha imaginado, dei mais um passo em sua direção, deixando-nos extremamente perto. Ela, de costas para o elefante e com a postura ereta, enquanto eu inclinava meu tronco para próximo de seu rosto devido a nossa diferença de altura.
- Você andou me stalkeando, Bvlgari? – perguntei em um sussurro, e a vi engolir em seco.
- Não, mas você estudou com o príncipe William, que é conhecido da minha melhor amiga, por consequência, eu o conheço. – ela tentou justificar, ficando cada vez mais vermelha.
- Hum, e só por curiosidade, você perguntou de mim para ele, foi?
Em um primeiro momento parecia impossível suas bochechas ficarem ainda mais vermelhas de vergonha, mas foi o que aconteceu, ao mesmo tempo que os lábios se frisaram e sua respiração acelerou. Adorável, completamente adorável. Desejei acabar com aquela distância entre nós e beijá-la.
- Claro que não. – respondeu, tentando manter-se firme e impassível à nossa proximidade.
- Que pena... – falei, e aproximei-me mais um centímetro, o suficiente para soprar contra seu rosto: - porque eu andei perguntando sobre você.
Contudo, antes que ela pudesse esboçar alguma reação ou me dar qualquer resposta, o animal atrás dela levantou-se de seu descanso e esticou a tromba em sua direção. Arregalei os olhos quando a trompa encostou nela, e deu um pequeno pulo de susto, olhando sobre o ombro para o elefante, que seguiu enrolando-a com a sua trompa. Em questão de segundos, os dois guias e meus três amigos estavam ao nosso lado, observando ser abraçada e erguida pela trompa.
Adeben e Bomani gesticulavam, apavorados, tentando puxar a trompa para baixo, enquanto Scarlett estava boquiaberta, Evans, amedrontado, recuou dois passos e Hemsworth ria de nervoso. Entretanto, o animal continuou levantando-a, e, ao invés de gritar apavorada ou espernear, riu e deixou-se ser erguida até o dorso no animal, onde ele a deixou. Os guias, chocados com a cena, pararam com as tentativas depois de a verem sobre o dorso do animal e o observaram, em silêncio, aproximar-se de mim.
Meu coração batia descompassado pelo que estava acontecendo, e, antes que eu pudesse reagir, foi a minha vez de ser erguido e depois colocado sobre ele. , já sentada, como se montasse um cavalo, ajudou-me a me equilibrar e a me sentar atrás de si. Depois, o elefante se afastou dos outros e começou uma lenta caminhada pela savana.
- Isso realmente está acontecendo? – perguntei, ainda pasmo e tentando me manter em equilíbrio.
- Sim. – ela disse, completamente radiante por estar ali.
- Será que ele nos escolheu por algum motivo?
deu de ombros a minha frente, enquanto acariciava o dorso do animal e fazia parecer extremamente fácil equilibrar-se sobre ele.
- Será que isso é mais um sinal do destino? – insisti.
- Sinal de quê?
- De que nossos caminhos seguirão se encontrando? – perguntei, lembrando-me das palavras da senhora chinesa.
me olhou sobre o ombro e o sol reluziu em seus olhos, deixando-a ainda mais bela.
- Eu não sei. – respondeu, voltando a olhar para frente em seguida.
Depois disso, ficamos em silêncio, aproveitando o passeio. Com o tempo, consegui encontrar um equilíbrio e relaxei a ponto de passar segurança para ela, que encostou suas costas em meu peito e deixou a cabeça tombar em meu ombro enquanto apreciávamos aquela caminhada tão atípica.
- Eu estava pensando... – comecei outra vez, depois de tanto tempo em silêncio, apenas ouvindo o barulho dos animais e o motor dos carros que nos seguiam a alguns metros. ergueu os olhos para mim, sem desencostar a cabeça. – Você contou essa lenda, disse que os elefantes representam fertilidade e, de repente, ele nos sequestra para um passeio... estou achando que ele entendeu que nós dois devemos ter filhos.
piscou uma, duas, três vezes antes de soltar uma gargalhada.
- Essa é a sua forma de dizer que quer fazer sexo comigo? – perguntou descaradamente, após parar de rir.
- Por quê, está interessada? – provoquei, com o rosto inclinado em direção ao dela.
- Muito. – respondeu, sem timidez alguma em seu rosto e com as írises resplandecendo sinceridade.
Foi a minha vez de ficar envergonhado, de sentir meu rosto mudar de cores até assumir o tom vermelho. Há anos que uma mulher não admitia tão francamente um interesse por mim. Meus últimos relacionamentos eram sempre iniciados na base de jogos de interpretação e sinais sutis, nada comparado ao que estava acontecendo entre nós desde Xangai.
- Ótimo. – respondi, sorrindo ladino, após me recuperar da sua resposta. – Porque também estou muito interessado.

¹ Livro: Na África Selvagem (2010), por Mark Seal. Fiz uma indicação literária sobre ele no meu Instagram, deem uma olhada se tiverem interesse.
² Joan Root (1936 – 2006) foi uma ativista queniana que lutou pela preservação ecológica da África. Casou-se com um famoso cineasta, Alan Root, e juntos realizaram diversas filmagens sobre a vida selvagem. Após o divórcio, Joan envolveu-se ainda mais com projetos de conservação ecológica e criou uma fundação anti-caça Task Force no Quênia. Foi assassinada em janeiro de 2006.


Continua...



Nota da autora: Sinto que vocês querem me matar por terminar dessa forma, portanto só vou dizer: nos vemos no próximo encontro – ou desencontro?. Lembrem-se de comentar, nem que seja para me ameaçar kkkk beijo grande e até a próxima parte. 🍀


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