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Última atualização: 10/03/2021

“Refere-se à libertação do que estava reprimido; sentimento de alívio causado pela consciência de sentimentos ou traumas anteriores (...) Ato de liberdade produzido por certas atitudes, principalmente representado pelo medo ou pela raiva.”

Prólogo

Grace Bridgerton nunca fora uma criança calma.
Sempre estava escorregando pelos corrimões, se pendurando em algum móvel, janela ou até mesmo, — como seus pais presenciaram uma vez — nas selas dos cavalos, fazendo-as de balanço. Kate e Anthony, com exceção das vezes que colocavam a vida de sua pequena garotinha terrorista em risco, nunca viram isso como algo ruim. Apesar das dores nas pernas e coluna por viverem correndo atrás dela, viam os joelhos ralados e as barras dos vestidos sujas de terra de como sinônimo de uma infância feliz e livre, como a de toda criança deveria ser.
Entretanto, eles não sabiam dizer se podiam dizer o mesmo agora que completara nove anos e que Mary, sua caçula de apenas um, aprendera a correr e parecia seguir os mesmos passos da irmã mais velha.
Fora em uma tarde de sol fraco no Hyde Park, que, enquanto Mary corria de um lado a outro atrás dos patos — enlouquecendo a mãe e as criadas que temiam que a bebê caísse no lago — ouviu um dos patos grasnando em sua direção enquanto brincava com uma de suas bonecas, sentada sob a grande toalha vermelha de piquenique estendida na grama úmida.
O susto fez com que a menina soltasse a boneca abruptamente sobre a toalha suja, fazendo com que os cabelos de lã daquela que ela decidira nomear como “Dixie” se enchessem de farelos de pão, biscoitos e o que mais tivesse restado ali.
Fora tudo absolutamente rápido, já que na hora que o bando de aves se amontoou sobre o brinquedo, a pequena Bridgerton concluira que era sua vida ou a de Dixie. Mas, como citado anteriormente: ela era uma Bridgerton, e, assim como seus pais, era extremamente competitiva e não desistiria assim fácil de sua boneca preferida.
Logo, corria na direção contrária da mãe atrás da boneca que, agora, estava no bico de um pato seguido por dezenas de outros. E então, milagrosamente, no mesmo instante que a garotinha parou para respirar, o bando parou; fazendo com que o ar que prendia nos pulmões saísse repleto de alívio por seus lábios e um pequeno sorriso se formasse nestes.
Sorriso que não durou, visto que, agora as aves bicavam impiedosamente a pobre Dixie, fazendo com sua dona soltasse um grito agoniado ao assistir a cena, sentindo-se completamente impotente frente às inúmeras aves furiosamente sedentas por um farelo que fosse.
— Dixie! — ela choramingou, fechando os olhos firmemente a fim de não ver o pavoroso cenário que estava a sua frente. Mesmo com os olhos fechados, sentiu as lágrimas se formando em desespero por perder Dixie. Um assobio ressoou e, então, os grandes olhos castanhos se abriram.
O amontoado de patos, agora focados em um petisco provavelmente muito maior, estava um pouco distante do lugar de antes, que, agora era ocupado por um garoto segurando Dixie —, ou ao menos o que restara dela.
Ele usava uma camisa de botões azul e calças curtas da mesma cor em um tom mais escuro. Seus cabelos eram perfeitamente penteados e ele a olhava com preocupação.
— Creio que isso é seu. — ele tentou dar seu melhor sorriso para confortá-la, lembrando das palavras da mãe, de que ele nunca podia deixar uma mulher chorando. caminhou devagar e ergueu a mão trêmula em direção a boneca.
— Minha Dixie… — seus dedos passearam pelo rosto sujo e cabelos arruinados da boneca enquanto seu rosto abrigava uma expressão pesarosa. — Minha boneca preferida. O que direi ao tio Colin?
— Não foi sua culpa. — o garoto de cabelos dourados disse.
— Foi sim, eu não a salvei. Tenho Dixie desde quando era bebê, foi um presente do meu tio, eu a amava tanto… — tagarelou em meio ao choro.
— Por favor, não chore… Eu… Eu… — ele se aproximou, articulando com as mãos — Você pararia de chorar se eu te desse outra boneca?
— Não é só uma boneca — resmungou inconformada —, é a Dixie!
— E o que quer que eu faça? Meu pai geralmente dá joias para minha mãe quando ela está triste ou brava… E, bem, eu não sei onde posso encontrar diamantes pra você. — ele suspirou pensativo — E mesmo que soubesse, não sei se venderiam para um garoto de onze anos…
— Eu não quero diamantes! Mamãe diz que homens só dão diamantes quando vão te pedir em casamento ou quando fazem algo errado, não te vi fazendo nada errado e muito menos quero casar com você, eu nem te conheço! EU SÓ TENHO NOVE ANOS! — Bridgerton tagarelou aos berros, dessa vez fazendo com que a reação do garoto fosse arregalar os olhos azuis em completo pânico.
— Pelo amor de Deus, não! Eu só quero que você pare de chorar! Não quero me casar… Nunca! — ele berrou em resposta — Garotas são pegajosas.
— Os garotos que são nojentos! — ela rebateu, cruzando os braços.
— Gostam de abraçar e ter filhas bonecas e nos fazem ficar pobres de tanto comprar diamantes!
— Vocês que são burros, se não fizessem tanta coisa errada com as mulheres não teriam que comprar tantos diamantes! E você certamente não conhece meninas, eu não sou assim!
— Vocês vivem com esses vestidos cheios de babados e não podem brincar que nem nós, não sabem brincar de amarelinha, nem… — uma risada da pequena Bridgerton interrompeu a fala do garoto.
— Arrume uma vareta que eu mesma desenho a amarelinha e te provo que você não sabe de nada.
Logo ambos pulavam dentro dos riscos improvisados na terra, ambos foram e voltaram três vezes. dera uma quarta volta, pulando até o “céu” e voltando com tamanha desenvoltura, equilíbrio e um sorriso convencido preso aos lábios.
, que, até então, não havia se apresentado para a garota, assistiu enquanto a mais nova pulava fazendo com que os babados de seu vestido e seus cabelos ondulados se movessem com graciosidade. Engoliu seco. O nível de dificuldade aumentando a cada rodada e aquilo mal parecia afetá-la, como era possível?
Ele segurou a pedrinha que a menina lhe entregara e então a jogou. Casa número sete. Depois de respirar fundo, o mais velho começou seu circuito, quando estava quase terminando, o grito da garota o desconcentrou completamente, levando-o ao chão.
— Aaaaaah! Eu ganhei, você perdeu! Eu ganhei, você perdeeeeeu! Você pisou na linha! — ela cantarolou apontando enquanto apenas grunhiu no chão. Só então, chamando a atenção da menina com o vestido verde de babados. — Meu Deus! Você se machucou?
Ela o ajudou a se sentar e em seguida, sentou-se à esquerda dele, olhando-o com atenção.
— Foi só um tombinho. — ele deu de ombros — Parabéns, você ganhou.
— Agora retira o que disse?
— Não. — ele sorriu, desafiando-a.
— Como ousa…
— Calma, calma! — ele ergueu as mãos em prol da própria defesa — Você é exceção, as outras meninas continuam chatas.
— Eu não sou diferente das outras meninas! — ela retorquiu ranzinza, arrancando risadas do garoto.
— Você sempre tem uma resposta para tudo?
— Papai disse que é coisa das mulheres da nossa família. — ela deu de ombros.
— Você é diferente, mas considere isso um elogio. — explicou o garoto de cabelos loiros.
— Obrigada?
sorriu. Em toda a sua existência nunca conheceu uma criança tão desconfiada e tagarela como ela. Aquilo era diferente. Ela era uma menina diferente. E aquilo era estranho e inexplicavelmente adorável.
— Eu já sei um jeito de consertar a Dixie. — ele disse depois de alguns segundos em silêncio, feliz por ver a expressão de esperança e alegria da garotinha. Seus olhos grandes cintilavam. — É esse o nome dela, certo?
Ela assentiu esperando o garoto contar o que havia planejado.
— Minha mãe pode restaurá-la. — ele observou a expressão confusa da garota, só então, lembrando-se que ela era mais nova e provavelmente não sabia o significado daquela palavra. — Digo, ela pode deixar Dixie novinha em folha. Minha mãe é incrível, não há nada no mundo que ela não possa fazer…
— Jura? Uau! Muito obrigada! Eu adoraria! — ela deu pulinhos empolgada e então parou, encarando-o. — Posso te perguntar algo?
— Claro!
— Você disse que não há nada que sua mãe não possa fazer. — assentiu orgulhoso, sob a fiscalização de um olhar sonhador da garotinha, afinal era verdade. A rainha podia fazer tudo o que quisesse. — Ela pode ir para a escola? Meus irmãos disseram que só os meninos podem ir e eu achei isso muito injusto… Sou mais inteligente que os dois juntos, acho que seria legal ir para a escola, sabe?
— Nunca perguntei se minha mãe foi. — ele franziu o cenho, realmente confuso — Mas também acho isso injusto, vou para a Eton em breve e seria legal se você fosse também.
— Seria… — ela murmurou triste — Minha tutora disse que há muitas coisas que meninas não podem fazer.
— Sabe, eu tive outra ideia.
— Você pensa rápido, em?
— Sim, papai diz que tenho uma mente ágil e que isso é algo muito bom.
— Não sei, deve ser mesmo, se ele diz. Mas e então, qual é sua ideia?
— Meu irmão disse uma vez que o mundo está mudando e sempre há coisas que deixam de ser certas ou erradas. — ele explicou, gesticulando com o resto de boneca em mãos — Podemos ser amigos e, então, se as coisas não evoluírem podemos nos casar. Mamãe sempre diz que mulheres casadas podem fazer mais coisas, vai ser bom para você e para mim; já que seremos amigos, não vou precisar ser preso a você e nem sofrerei como os adultos. Afinal, você nunca se apaixonaria por mim, não é?
— Claro que não! Eu sou uma criança, e crianças não se apaixonam. — ela disse como se fosse óbvio. — Se eu puder ir para a escola e usar calças como meus irmãos, eu topo.
— Por mim tudo bem. — deu de ombros estendendo a mão.
— Fechado então.
Ambos se encararam sorrindo até que, um grito desesperado pode ser ouvido.
— ALTEZA! Já está na hora de irmos para casa, vamos! — uma das criadas de gritou e então eles soltaram as mãos. Eles sorriram um para o outro e então o garoto correu em direção a mulher que o chamava, com Dixie em mãos; que, mais tarde quando no castelo, a rainha aceitou restaurar de bom grado.
Alexander achava que crianças não podiam ter problemas que não fossem quando não faziam as lições passadas pelos tutores ou quando quebrassem algo importante para os pais.
Mas ele estava enganado.
Somente quando chegou em casa que ele entendeu que tinha dois grandes. Não tinha a mínima ideia de como faria para entregar a boneca à menina do Hyde Park, de como poderiam ser amigos e de como poderiam cumprir o trato firmado. O segundo problema, e talvez o maior de sua existência até então, que o perturbaria por anos; era que ele ao menos sabia o nome dela.
E isso arruinava tudo.


Capítulo 01

Viajar e conhecer os mais diversos cantos do mundo era, sem sombra de dúvidas, algo encantador. Entretanto, nem os monumentos, oceanos e as mais diversas paisagens a qual os olhos humanos são capazes de observar e na memória prazeres incomparáveis guardar, poderiam exemplificar o alívio que era voltar para casa.
Os ombros relaxam, os olhos se atentam buscando detalhes de memórias confortáveis, o ar escapa dos pulmões até sair pelos lábios em um longo e delicioso suspiro de paz, e junto com ele, traz um sorriso de prazer e familiaridade. O príncipe mais novo da família poderia rodar o mundo atrás da liberdade, mas nenhum outro lugar o fazia se sentir tão livre e tão em paz como seu próprio lar.
Liberdade.
Era tudo que buscara em toda sua vida. Tratava-se de sua meta, seu propósito, seu estilo de vida. Mais que tudo isso, o rapaz de cabelos dourados e sorriso encantador encarava como sua missão na vida: mostrar que não precisava de ninguém para ser feliz, que não precisava se casar para atingir o auge de sua existência, que a liberdade, sim, era a resposta para tudo.
O que, claro, ia contra todas as expectativas depositadas em um príncipe e tratava-se de um dever. Afinal, um membro da realeza — como ouvira em toda sua existência vindo de sua mãe, a rainha Elle — deve ser uma figura exemplar para seu povo e o casamento deveria ser o principal dos exemplos a serem passados.
Mesmo que fosse o segundo na linha de sucessão ao trono. Errônea a percepção de quem acha que o fardo é menor para o filho caçula, pelo menos não quando se tem uma mãe como a rainha Elle Josephine , que tinha como principal objetivo ver seus filhos casados com boas moças.
Ele achava completamente errado que o casamento fosse de valorização primordial e que a educação, que era um ponto importantíssimo já que o conhecimento é o maior bem que alguém pode adquirir e que é essencial para viver, fosse tão banalizada, negligenciada e que somente os mais favorecidos tivessem acesso.
Mas era óbvio que isso nunca entraria na cabeça de seus pais, que eram só um reflexo da sociedade inglesa de mente fechada. Já tivera inúmeras discussões e costumava implicar com a mãe em relação a isso. Mas, assim como qualquer pessoa, cresceu e aprendeu que precisa escolher as batalhas que deve lutar e as que deve ignorar.
Bem, na opinião dele, essa era uma das discussões que preferia ignorar. Nesse intuito, passara os últimos dois anos viajando pelo mundo.
Era evidente que sentia falta de casa, dos pais, do irmão e de toda a sua vida em seu país de origem. Mas claro que, em consequência da luta incessante pela própria liberdade, aprendera a viver sozinho e aproveitar a própria companhia.
Por anos aquilo realmente bastara. gostava de não ter toda a atenção que tinha em Londres, gostava de conhecer lugares novos e gostava de não ter que comparecer a bailes sem graças com debutantes e suas mães que se atiram como se um casamento fosse a resolução de todos os seus problemas.
E na realidade, era. Já que o fracasso ou ascensão de uma mulher na sociedade se resumia ao fato dela ser ou não casada.
Entretanto, nos últimos meses o príncipe mais novo começou a sentir falta de casa. As águas marítimas não lhe chamavam tanta atenção já que sentia falta das águas escuras e tranquilas do Tâmisa, nenhuma bebida era como seu uísque preferido que era produzido somente em sua Londres de céu acinzentado e até mesmo o silêncio se tornara perturbador sem o falatório incessante da rainha Elle, conversas animadas com o rei Joseph ou simplesmente a presença de seu irmão mais velho, o príncipe .
O estopim para sua volta fora exatamente a carta dele, contando que o rei não se encontrava em boas condições de saúde e que, em momentos assim, a família deveria ficar unida. Além do apelo especial do herdeiro de que precisaria do apoio do irmão para assumir suas responsabilidades com a coroa.
O palácio continuava da mesma forma que na última vez que o vira, desde os jardins repletos das habituais glicínias, rosas, camélias e magnólias até a pintura clara das paredes. Assim que os grandes portões se abriram e a carruagem tornou a andar, suspirou, aliviado por finalmente chegar em casa depois de uma extensa e cansativa viagem e, de certa forma, preocupado, visto que algo dentro de si dizia que seu retorno era definitivo.
Era chegada a hora de retornar e encarar as responsabilidades de que ele tanto tentara se afastar.
Assim que adentrou o hall principal fora tomado pelos braços da mãe em um abraço quente e energizante, algo que ele nem sabia que precisava até receber de fato. fechou os olhos, aproveitando o afago nos cabelos que recebia e inalando o cheiro inconfundível do perfume da rainha.
— Ah , meu filho… — a rainha murmurou, o apertando ainda mais e então desferindo-lhe um tapa forte no ombro assim que se separaram — Nunca mais fique tanto tempo fora de casa. Um dia ainda me mata de tanta preocupação, seu desmiolado!
— Também senti sua falta, mamãe.
— Depois de dois anos tenho direito a receber um abraço? — a voz de se fez presente, fitou o irmão por alguns instantes enquanto este se aproximava — Ou é uma demonstração de afeto muito sofisticada para vossa alteza?
— Cala a boca. — retrucou, tomando o irmão em um abraço forte. — E o papai?
O príncipe notou a sua mãe e irmão mais tensos.
— Está nos aposentos reais. — explicou, tentando sorrir enquanto caminhavam na direção da sala de jantar — Fica o dia todo lá devido à dificuldade na marcha. Podemos almoçar e depois subimos para vê-lo, o que acha?
— Acho que o rei se sente muito solitário fazendo todas as suas atividades no leito. — murmurou, observando os criados correndo para colocar a mesa devido a sua chegada inesperada. — Podemos pegar os pratos e subir para fazer companhia a ele, o que acham?
— Não é o adequado, meu filho… — a rainha comentou receosa.
— Não é o adequado, mas o deixaria feliz. — o príncipe caminhou até a mesa, pegando um dos pratos postos para si e outro para o pai — Já é ruim demais estar doente, mas se sentir sozinho e abandonado é mil vezes pior.
— Faz sentido, mãe. Acho que ele ficaria feliz de ter a família reunida para uma refeição agradável. — concordou com o irmão.
A rainha ponderou por alguns segundos sob os olhares atentos dos filhos. Elle sorriu e caminhou pegando um prato pra si.
— Vamos logo.
Os três subiram as escadas em silêncio, foi por último, para surpreender o pai com sua chegada. Assim que a rainha abriu a porta, uma tosse seca e alta ressoou pelo cômodo.
— Querida… ? — perguntou com dificuldade em meio a crises de consecutivas tosses — O que fazem aqui?
— Viemos fazer um almoço em família. — adentrou o quarto, com os pratos em mãos.
O rosto de Joseph se iluminou, concluiu que se estivesse em perfeita forma, talvez ele tivesse saltado da cama.
— Meu filho! Ah, … — o rei Joseph murmurou com a voz fraca quando foi abraçado pelo filho — Senti tanto sua falta.
— Também senti falta de vocês, pai. — o mais novo respondeu enquanto ainda era segurado pelos ombros.
— Vamos comer, sentem-se. Enquanto isso você nos conta sobre suas viagens,
— Não creio que posso explicar tudo que vi com simples palavras, pai. — sorriu, enquanto sentava-se sobre o lençol de seda que cobria o pai e toda a extensão da cama em que ele se encontrava. — O mundo é muito belo para que passemos a vida inteira em um único lugar. Não conheço tudo, claro, mas Itália, Grécia e Egito foram amostras espetaculares.
— Você precisa sossegar, . — Elle retrucou, a voz esbanjando insatisfação enquanto assistia o filho rolar os olhos.
— Eu jurava que ia demorar pelo menos um dia para tocar nesse assunto, mãe. — ele fez uma careta, arrancando risos baixos e discretos dos outros dois homens enquanto a rainha continuava discursando.
— Não é em lugares como esse que encontrará uma esposa digna, além disso, não é adequado ficar longe da sua família… O que fará quando tiver uma esposa e filhos? Está na hora de crescer e assumir suas responsabilidades, não?
— O purê está gostoso, não? — perguntou ao pai que assentiu rapidamente, segurando o riso. Já não estava bem de saúde, não queria acabar de ser morto pelas mãos da esposa.
— Falando nisso, quais são seus compromissos para hoje? — questionou a rainha.
apenas deu de ombros.
— Não é como se eu tivesse outra opção que não ir ao compromisso que você já planejou. — respondeu sem nenhum resquício de ânimo na voz.
— Achei mesmo que não teria nenhum plano. — ela sorriu, como se não tivesse escutado a provocação dele — Hoje é o baile de aniversário da filha do visconde, ela é considerada o diamante da temporada. Como o boato da sua volta já se espalhou por toda Londres seria uma tremenda indelicadeza não aparecer.
— Realmente, meu irmão, uma descortesia. — colocou fogo na fogueira, sendo fuzilado pelo mais novo como resposta.
— Seria compreensível, na verdade. Eu cheguei hoje! — murmurou nervoso, mas suspirou dando-se por vencido, não queria brigar com a mãe e indispor ainda mais o pai. — Mas tudo bem, estarei lá.
— Ótimo, vou pedir que providenciem sua máscara e uma fantasia.
— Ah não! Aí não, majestade! — olhou a mãe, implorando por piedade enquanto o cretino de seu irmão ria baixinho, acompanhado do pai, que parecia se divertir com a discussão familiar. — Eu já estou fazendo o favor imensurável de ir, agora me fantasiar é pedir demais. Um traje formal já servirá, já tenho um.
— Feito, mas ainda precisa de uma máscara. — A matriarca ergueu uma sobrancelha e o rapaz bufou, Elle adorava quando os filhos recorriam a ela como a única opção para ajudá-los.
— Certo, mãe. Preciso que providencie isso para mim, por favor. — deu-se por vencido, mas ergueu o dedo como se avisasse a mãe — Mas, por favor, algo preto, simples e que não chame atenção.
A mulher bateu palmas repetidamente, animada e então saiu dos aposentos reais. soltou um suspiro alto e sôfrego contrastante com as gargalhadas do príncipe e do rei.
— Fez bem em não implicar, ela vê como se você estivesse em dívida com ela pelo tempo que passou fora. — explicou, dando-lhe tapinhas no ombro.
— Eu não quero me indispor com ela, mas ela torna essa missão completamente fadada ao fracasso. — praguejou o mais novo.
— Se os planos dela de casar seu irmão funcionarem logo ela te esquecerá. — fora a vez do rei de tentar confortar o filho que riu, irônico.
— Ou pior… Depois que ela casar se sentirá ainda mais determinada a fazer com que eu me case também. — os outros dois o encararam, como se refletissem acerca da conclusão de . Era exatamente isso que aconteceria, mas eles não diriam nada para não desanimar o mais novo, então apenas se entreolharam e caíram na gargalhada mais uma vez. O mais novo dos bufou, não conseguindo controlar a seriedade por tanto tempo e deixando-se levar pela onda contagiante de risadas.
Apesar dos pesares, era bom estar de volta ao lar.

🐝🐝🐝


Bailes de máscaras costumavam ser comuns na família Bridgerton, ainda mais depois que a história de Benedict e Sophie se tornou uma lenda, uma espécie de meta de romance a ser atingida. , a terceira filha do visconde Anthony Bridgerton e de sua esposa Kate, era uma das mais fiéis admiradoras da história dos tios e fora por esse motivo — e outros como ser extremamente curiosa e apaixonada por um bom mistério — que escolhera essa temática para o baile que celebraria seus vinte e um anos.
Evento esse que também daria início a alta temporada.
Mas a garota já se arrependia amarguradamente a cada puxada que recebia em seus longos cabelos ou a cada espetada acidental de um alfinete mal posicionado em seu vestido.
Seria perfeito, na percepção dela, se pudesse usar simplesmente os cabelos longos e castanhos soltos e que o vestido viesse sem haver necessidade de ajustar em seu corpo. Isso sem mencionar a quantidade de maquiagem que, por sorte, conseguira negociar com sua camareira Claire para que fosse algo sutil.
Diferente do que as moças costumavam usar em eventos como esse.
gostava de pensar que, antes de um evento para arranjar um bom marido, o baile de hoje era para celebrar sua existência, para rever os tios e primos que ela não via com tanta frequência e, principalmente, para se divertir.
Quando finalmente o relógio marcou às 19h50 (dez minutos antecedendo o início da festa), Claire sorriu para a garota e a liberou do que a mesma considerava uma sessão de tortura. relaxou os ombros, completamente aliviada e então dirigiu-se ao espelho adornado de ouro para verificar o resultado. Seus cabelos estavam presos em uma trança volumosa que caía por seu ombro esquerdo com graciosidade e tinha algumas mechas onduladas soltas emoldurando seu rosto a fim de dar um ar descontraído ao penteado, além das pequenas flores vermelhas e brancas colocadas despretensiosamente ao longo do comprimento de seus fios castanhos. Sua maquiagem era como pedira: sutil e delicada; destacava seus traços mais bonitos e a deixava iluminada, com um ar luxuoso.
E o vestido… Ah, o vestido. soltou um suspiro satisfeita e rodopiou lentamente a fim de observar cada detalhe. Era um pouco mais ousado do que estava acostumada a usar, mas era uma ocasião especial. A peça de seda era em um tom de salmão, sua saia tinha um volume moderado, as mangas longas eram bufantes em um tule do mesmo tom e tinha um decote sutil que ia de ombro a ombro e formava um pequeno “V” no centro que era contornado por flores semelhantes às de seus cabelos.
, filha, você está pronta? — pode ouvir-se a voz de Kate pelo corredor — Está na hora de descer para cumprimentar alguns convidados e seus tios que já estão lá embaixo… Uau!
A viscondessa parou de falar e abriu um grande sorriso ao admirar a filha, caminhou até ela e segurou suas mãos.
— Você é perfeita, querida. Mas hoje está especialmente linda. — os olhos da matriarca brilhavam. — Modéstia à parte, seu pai e eu somos artistas com belíssimas obras em exposição.
— Com sua contribuição majoritária, claro. — piscou.
— É óbvio, mas não diga isso perto dele. — as duas riram juntas — Sabe como seu pai pode ser sentimental quando quer.
— Como sei, mamãe… Podemos descer, então?
— Vou chamar seu irmão para acompanhá-la, só um instante.
Logo Miles, o segundo da prole não tão extensa de Anthony e Kate, adentrou o cômodo, com um sorriso debochado nos lábios.
— Quer matar o pai e o Edmund do coração, mana? — elogiou, oferecendo-lhe o braço.
— E você também.
— Eu não, querida irmãzinha. — ele piscou enquanto eles caminhavam pelo corredor que dava até as escadas do salão. — Quero distância da sua vida amorosa, obrigado.
— Eu também fico grata. — ela fez uma careta. — Alex, Will e Let já chegaram?
— Sim, com o tio Benedict e a tia Sophie. — Miles deu de ombros.
— Está muito cheio lá embaixo? — perguntou nervosa, não era muito favorável a multidões. Mas calhara de seu aniversário ser o primeiro evento da alta temporada social, então, por mais que seus pais não ligassem, segundo sua avó Violet Bridgerton aquele deveria ser um evento grandioso.
— Claro que está. Só nossa família já enche o salão… — ironizou tentando tranquilizar a irmã, mas tudo que recebeu em troca fora uma careta angustiada da mesma. — Certo, o que posso tentar fazer para ajudá-la?
— Uns copos de conhaque resolveriam. — quem dava de ombros agora, tentando parecer confiante.
— Posso surrupiar uma garrafa para mais tarde. Agora, sorria para esse bando de gente desocupada e fofoqueira como a recatada moça que nossos pais te ensinaram a ser.
segurou o riso enquanto apertava o braço do irmão. Era impossível não se sentir confortável quando Miles estava por perto. E então, pôs-se a descer a enorme escadaria enquanto ajustava a máscara dourada no rosto.
A decoração do salão principal estava tão digna quanto a garota imaginara, tinham camélias e lírios brancos assim como tecidos vermelhos e dourados por todas as partes e as inúmeras velas que tornavam a atmosfera romântica e aconchegante. Melodias de Brahms tocavam ao fundo e os criados andavam de um lado para o outro para servir os convidados que já haviam chegado, que no final de contas, nem eram tantos assim.
Quando Miles e chegaram ao final da escadaria, seus pais os aguardavam com Edmund.
— Você parece uma princesa, querida. — Anthony sorriu abobado para filha, como se não estivesse sendo observado. Nem se importava, na realidade.
era sua menininha, a que tinha um sorriso iluminado, que o deixava com os cabelos em pé desde o dia que nascera, a que o tinha como porto seguro, a que gostava de dançar sendo guiada por seus pés, a que pedia colo quando as tempestades vinham exatamente como a mãe fazia e, em outros vários quesitos, dos quatro filhos, a que mais se assemelhava a Kate. Era incrível ver o quanto o bebê que ele embalou incontáveis noites até o sono chegar havia crescido e se tornado uma mulher forte e decidida acerca de seus ideais.
— Sinto que precisarei manter os olhos em você a noite toda. — o visconde declarou enquanto beijava-lhe a testa.
— Papai!
— E eu vou ajudar! — Edmund apoiou.
— Mãe! — protestou em busca do apoio da mãe que riu.
— Pode deixar, querida. — a viscondessa piscou para a filha — Manterei os dois devidamente ocupados e bem longe de você.
— O que é isso? Anthony voltou a ser fiscal dos pretendentes alheios? — Eloise Crane chegou encarando o irmão na companhia de seu marido, Phillip.
— E o meu irmão sem um pingo de noção ou personalidade se tornou um belíssimo aprendiz, tia. — abraçou os tios.
— Se não fizer isso, não é ele. Mas a conheço o suficiente para saber que você é capaz de driblá-los, querida. — Eloise piscou na direção da sobrinha que sorriu em resposta.
Os minutos seguintes passaram da mesma forma, cumprimentou os tios Gregory e Lucy, Hyacinth e Garreth, Daphne e Simon, Francesca e Michael, sua avó Violet e sua avó Mary, sua tia Edwina e o marido — céus, só de pensar em toda essa quantidade de gente ela se cansava — , e então agora, conversava animadamente com os tios Colin e Penelope quando Benedict, Sophie e os primos se aproximaram.
— Sei que não aguenta mais dar oi para a família, mas tem um tempinho para seus tios e primos favoritos? — Benedict brincou enquanto abraçava a sobrinha.
— Todos nós sabemos que eu e Penelope somos os tios favoritos dela, meu caro irmão. — Colin entrou na brincadeira, fingindo estar sério até a bandeja de aperitivos passar.
— Certo, e é na casa de quem que ela passa mais tempo mesmo?
— Claro, ir para a roça é um evento. Isso não justifica!
— Adianta eu tentar falar alguma coisa? — murmurou enquanto abraçava a tia.
— Nem perca seu tempo, querida. — ela abanou a mão ao se separarem, só então a garota pode notar as vestes da tia.
— Tia! Esse vestido…
— É aquele vestido… — Violet completou
Sophie sorriu dando uma pequena volta com o vestido prateado, aquele que, mesmo sem nunca ter visto de fato, reconheceria em qualquer lugar. Ela e Violet — a caçula deles, que levava o nome da avó — pediam que a história da noite em que Benedict e Sophie Bridgerton se conheceram fosse contada praticamente todas as noites em que passavam juntas.
— Pedi à costureira que fizesse três réplicas… Essa que estou usando, uma para Violet e… — Sophie ergueu uma caixa decorada para a sobrinha — Uma para você.
Os olhos de marejaram de imediato. Sentia-se sortuda por ter uma família tão especial, que — mesmo de maneira peculiar — fazia todos se sentirem únicos.
— Eu só desejo que um dia, você encontre alguém tão bom quanto seu tio é para mim, . E que esse vestido te dê noites maravilhosas, assim como aquela que eu tive.
— É o hoje que morro diabético com tanto doce, céus. — resmungou Will com Alex e Charles.
— Ah, calem a boca. — Violet lhe deu uma cotovelada e então virou-se para a prima para cumprimentá-la de fato.
Depois de bons minutos imersa na conversa com os primos, notou que o salão começara a encher cada vez mais. Fora a deixa perfeita para que a avó paterna a arrastasse para cumprimentar os convidados.
O primeiro a ser escolhido — não por mera coincidência do acaso — fora o príncipe , que, mesmo sem demonstrar interesse algum em se casar desde que debutara no ano anterior, se tornou o desafio pessoal da predecessora dos Bridgertons. O que resultou, é claro, em alguns diálogos monossilábicos e só.
recebeu muitos pedidos, mas nenhum que lhe despertasse a vontade latente de se casar. Não apreciava nenhum cavalheiro tanto assim para tal, e não era como se Anthony e Kate cobrassem dela um casamento imediato, o que a deixava mais livre ainda para levar o tempo que achasse necessário para escolher.
— Majestade. — a aniversariante curvou-se na direção da rainha, repetindo o mesmo gesto com o príncipe.
— Senhorita Bridgerton, muito obrigada pelo convite. — a rainha cumprimentou. — Já conhece meu filho e logo conhecerá meu filho mais novo, o príncipe .
— É um prazer tê-los aqui. — sorriu.
— Felicitações, senhorita Bridgerton. — o príncipe tomou uma das mãos da mais nova, depositando um sutil beijo por cima do tecido fino da luva. — Ficaria honrado se a senhorita reservasse uma dança para mim.
— Claro, alteza. — ela tentou não parecer desconfiada ao sorrir, mas fora impossível. Grace Bridgerton era completamente transparente quando queria. — Se me permitem, vou cumprimentar os outros convidados para depois procurar meu pai para abrirmos a, ahn, pista...
— Claro. — a rainha disse sorrindo, assim como o filho.
Não era novidade alguma para que pessoas do sexo masculino, na maioria das vezes, são esquisitas e imprevisíveis. Seu pai e seus irmãos eram ótimos exemplos disso, viviam mudando de ideia, fazendo coisas sem pensar e depois vindo recorrer a ela ou a mãe. Mas, ainda assim, a aproximação do príncipe a deixou curiosa. Não era um sinal claro de que ele planejava cortejá-la, mas era algo a mais do que as conversas curtas que tornavam a palavra diálogo algo utópico e inatingível, então ela se deixou devanear acerca do assunto enquanto caminhava pelo salão e dizia a pessoas que sequer havia visto na vida que era ótimo tê-las ali.
Assim que, a grosso modo, grande parte dos convidados — lê-se os considerados bons pretendentes para a neta de Violet Bridgerton — foram devidamente recebidos, as duas caminharam até Anthony que já esperava a filha para a habitual primeira dança.
Aos olhos dos outros era algo ultrapassado para a idade que completava, mas ela não renunciava às tradições instauradas pela própria família, que eram de grande valia para ela. Era completamente compreensível que, com uma família tão numerosa e proporcionalmente afetuosa, ela se importasse e valorizasse tanto a todos, sobretudo seus pais.
Sua primeira dança sempre seria com o pai e, mesmo depois que se casasse prezaria sempre por guardar uma dança para aquele que era sua figura preferida do sexo masculino em todo o mundo. Aquele que, independentemente do que ela fizesse, certa ou errada, estaria do lado dela para ajudá-la.
— Pronta, querida? — Anthony questionou, enquanto posicionava-se para iniciar a dança com a filha, que assentiu sorrindo.
— Sempre, pai.
Quando a música soou pelo salão, deixou-se ser guiada pelo pai, enquanto valsavam ao redor do salão.
— Sua avó não desiste de tentar te jogar para o príncipe mesmo.
— Eu não ligo. — a menina deu de ombros — Não pretendo me indispor com ela e sei que, mesmo que eu escolha alguém que não seja de uma classe privilegiada, ela ficará feliz. Assim como você e a mamãe.
— Às vezes é melhor só escutar e concordar com sua avó, você até que aprendeu rápido.
— Vinte e um anos é rápido? — ela sussurrou ao ver que casais já se juntavam a eles na pista de dança.
— Eu demorei vinte e oito… E devo salientar que alguns de seus tios até hoje não aprenderam. — foi a vez de ele dar de ombros, com uma careta engraçada e logo acompanhou a filha na risada.
A música terminou e então a menina cumprimentou o pai curvando-se e movimentando levemente a saia do vestido com uma das mãos. Enquanto o patriarca apenas sorriu, satisfeito e repleto de orgulho da mulher que a filha se tornara enquanto depositava um beijo carinhoso no dorso de sua mão.
— Visconde Bridgerton. — uma voz saldou, levando o par de olhares de pai e filha até a figura do príncipe que, sabe-se lá quando materializou-se na frente deles. Anthony acenou com a cabeça, murmurando a saudação adequada em resposta. — Gostaria de ter a honra de dançar com sua filha.
— Perdoe-me, alteza, mas não é a mim que deve pedir. — o senhor Bridgerton meneou levemente a cabeça em direção à filha, com uma expressão séria que quase fez com que a garota gargalhasse.
— Ele já pediu, pai. — comunicou — Se me der licença.
aceitou a mão que o príncipe lhe estendia educadamente, e meneou levemente a cabeça em um diálogo mudo com o pai, que fez uma careta engraçada enquanto parecia considerar e então, fez um aceno afirmativo em seguida. Era o suficiente, ela sabia que o pai não tinha nenhuma ressalva em relação ao rapaz.
Quando a música tornou a tocar, era chegada a hora de dançar com o príncipe . No fundo, a aniversariante só pedia que não ficassem no habitual silêncio constrangedor.
— Sei que minha aproximação repentina pareceu estranha, senhorita Bridgerton. — o rapaz sorriu incerto, também parecia pisar em ovos quando estava com ela.
— Sem querer soar indelicada, mas pareceu sim, alteza. — soltou em um tom de voz divertido, observando-o relaxar mais.
— Gostaria de ser seu amigo, senhorita. — declarou simplesmente, os olhos verdes a encarando com cuidado. — E devo ressaltar que com a senhorita me chamando de alteza, isso parece algo, hm, inalcançável?
não conseguiu evitar o riso.
— Nunca ninguém pediu para ser meu amigo, alteza. — ironizou ela — As pessoas geralmente não fazem isso. Mas eu apreciaria uma amizade entre nós, sim. Claro, se deixar de me chamar de senhorita!
Ele a acompanhou dessa vez, cada vez mais o riso tornando-se mais leve e fácil, e deixando claro para ambos que, não era tão difícil assim estar na companhia um do outro.
— Como prefere que eu o chame? — perguntou, arqueando a sobrancelha, como sempre fazia quando estava curiosa.
— Pelo nome, ou simplesmente como .
— Ótimo, . — frisou, observando a expressão de agrado dele — Me chame de , então.
A partir dali, parecera que nunca na vida ambos se sentiram tão desconfortáveis na presença um do outro. Era extremamente fácil gostar do príncipe , o que tornava agradável estar diante da presença dele.
— Acho que gostaria de uma limonada antes da próxima música. — ela disse, subitamente, depois de uma agradável conversa sobre Shakespeare. — Mas antes, devo lhe dizer que me surpreendi positivamente com você.
— Sério? — ele levantou a sobrancelha direita, em uma apreciável expressão confusa.
— É, digo... Você quer ser meu amigo, não veio me cortejar com cantadas baratas como o enxame de homens solteiros geralmente faz. E eu aprecio sua sinceridade, de verdade.
— Eu fico lisonjeado , mas isso não significa que eu não tenha a intenção de cortejá-la. — ele deu de ombros com uma feição descontraída enquanto a garota semicerrou os olhos, curvando-se ao final da melodia.
— Vou buscar minha limonada, então. — ela o mediu descaradamente com o olhar e então tombou a cabeça levemente para o lado — Mas ponto para você, alteza.
E então Bridgerton, se retirou, deixando o príncipe com um sorriso gentil e inesperadamente roubado nos lábios.

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rondou o salão com o olhar, observando a decoração e o habitual cenário que sabia de cor. As conversas forjadas, quando, claramente ninguém gostaria de estar ali; os olhares de desespero vindos dos rapazes desconfortáveis quando uma mãe arrastava sua filha debutante em direção a ele e, então os rostos conhecidos de alguns rapazes Bridgertons que conversavam animadamente em um canto perto das limonadas.
— Ora se vossa alteza não resolveu voltar para casa. — Miles verbalizou, alto demais para o considerado adequado e então, seu irmão Edmund, William, Charles e Oliver. Os conhecia de sua época em Eton e também na Universidade.
— Vocês não têm ideia do alívio que é encontrar pessoas conhecidas nesse mar de gente estranha.
— Ah nós temos, sim. — William deu tapinhas em seu ombro.
— Não acho que seja complicado quando metade dos rostos que você encontra aqui faz parte da sua família. — debochou.
— Ainda pretende continuar negando que sua mãe no final sempre tem razão? — Oliver questionou, recebendo uma careta em resposta.
— Eu ainda pretendo fingir que tenho algum controle da minha vida, obrigado.
— Se casar não pode ser tão ruim quanto parece. — Edmund concluiu, pensativo.
— Você diz isso por que está completamente de quatro pela senhorita…
— Primeiramente, vai se foder Miles. — Edmund bateu no irmão, o interrompendo.
— Espera, espera… Você? Apaixonado?
— Não eu…
— Não é como se você precisasse de um casamento. É só uma forma de ter alguém completamente dependente de você ou, na pior das hipóteses, você ser o dependente. — começou seu habitual discurso em meio a risadas dos outros rapazes.
— Fora esse cenário pavoroso que temos que enfrentar para conseguir uma esposa. — William fez careta.
— Cada ano que passa eu concluo que as mulheres, de todas as idades, se tornam cada vez mais desesperadas por um casamento. Sejam as mães ou as debutantes... Por Deus, um casamento não vai salvar a vida de ninguém! — ele argumentou, notando os olhares estranhos dos outros cinco para algo atrás dele.
Então o tilintar da concha batendo na travessa de cristal que abrigava a limonada fez com que ele virasse e a encontrasse. A garota de vestido rosado, muito bonita por sinal, o encarava esperando que o discurso dele continuasse, com uma carranca clara de desaprovação.
— Típico. — ela riu, levando o copo até os lábios enquanto seus olhos castanhos pareciam congelar o cenário em volta na medida que encaravam , que engoliu seco sentindo-se acuado e em, partes atraído por ela. — Agradeça por ter o privilégio de não precisar que um casamento salve sua vida e por favor, me procure quando tiver o gosto não poder estudar como um homem, andar sozinho como um homem, festejar livremente como um homem, beber como um homem ou ser libertado de qualquer julgamento exatamente pelo simples fato de ser a droga de um homem.
Ela o olhou com severidade e então abriu um sorriso forçado.
— Sério, me procure. Faço questão de ver se o seu relato de pobre coitado macho sofrido continuará o mesmo.
piscou. Várias vezes, dando-se conta de que a garota já havia dado as costas apenas quando escutou as risadas e sentiu, mais uma vez, tapinhas nas costas.
Dessa vez vindos de Miles, que esbanjava um sorriso orgulhoso.
— Encantadora minha irmãzinha, não?

Capítulo 02

Se a música no salão não soasse tão alta seria provável que o som dos saltos de pudessem ser ouvidos por todo o ambiente. Ela marchava para longe dos rapazes com raiva, fulminando nenhum ponto específico e bebendo a limonada como se fosse um amargo e revigorante copo de álcool.
— Ei! — a Bridgerton ouviu uma voz familiar e então sentiu um toque suave em seu antebraço.
Florence Nightingale¹, sua melhor amiga, a encarava em um misto de diversão e preocupação. Afinal, ela sabia que poucas coisas deixavam daquela forma, muito menos no dia em que fazia aniversário, que era claramente seu dia favorito do ano, onde praticamente nada abalava seu bom humor.
— Vai cometer um assassinato ou vai abraçar sua melhor amiga depois de tantos dias?
A mais nova nada disse, apenas jogou seus braços ao redor da amiga a apertando em um saudoso abraço. Ela não esperava que a amiga voltaria de viagem a tempo do baile, visto que estava na Itália há quase um mês.
— Deus! Eu não acredito! — murmurou, aliviada enquanto se separavam do abraço demorado. — Eu pensei que você não conseguiria chegar… Céus! Estou tão aliviada que tenha chegado! Senti tanto sua falta…
Florence riu enquanto a amiga tagarelava sem parar.
— Desci do barco, passei em casa para um banho e vim. — Nightingale sorriu, parecendo tudo menos cansada. Quando pensou em ralhar e mandá-la para casa para descansar ela murmurou um “shh” — Meus pais te mandaram felicidades e pediram desculpa pois estavam exaustos demais para vir, então permitiram que eu viesse com minha dama de companhia e que eu dormisse aqui para matar a saudade. Isso é, claro, se estiver tudo bem para você e seus pais. — Peça isso a minha mãe e ela vai te estapear. — riu — Você é de casa, garota! Onde já se viu não estar tudo bem em você dormir aqui…
— Eu sei, idiota. Estava sendo educada. — Florence acompanhou a amiga na risada e então deu de ombros. — Ainda bem que cheguei a tempo de te impedir de cometer um crime de ódio. Anda, me conta o que houve.
bufou, sabendo que não conseguiria não contar nada a Florence. A amiga com certeza a faria falar, de qualquer forma.
— Um homem estragou meu dia.
Grace Bridgerton! — Florence ralhou indignada — Você está se ouvindo?
— Eu sei, é patético… — ela começou enquanto ambas caminhavam juntas para um dos cantos do salão.
— É claro que é patético, onde já se viu… Você? Abalada por conta de um homem estúpido?
— Não estou abalada! — quase gritou em ultraje — Estou indignada, para ser sincera. Como deixei que convidassem um sujeito como esse para minha festa?
— Quem é? — quis saber Florence, com as sobrancelhas erguidas em curiosidade.
— Graças a Deus eu não sei. — respondeu a mais nova em um suspiro enquanto terminava seu copo de limonada — E tenho a doce esperança de nunca saber.
Quando Florence e começaram a conversar brevemente sobre a viagem que a mais velha fizera, Violet apareceu para carregar a neta pelo salão mais uma vez.
— Ande, querida! — ela a cutucou sorrindo — A rainha quer te apresentar ao príncipe .
— Ah, claro… — a garota murmurou desconfortável, estava com saudades de Nightingale e queria colocar as fofocas em dia. Mas respirou fundo, sorrindo da forma mais agradável que pode, era a rainha, afinal. E ela e a amiga teriam a noite inteira para conversar se assim optassem.
O tal príncipe estava de costas, conversando com a mãe. Assim que a rainha avistou a aniversariante, ela sorriu e então a indicou com a cabeça para o filho. Quando o príncipe se virou, desejou com todo o seu ser que houvesse um buraco para se enfiar.
Por que diabos Edmund, Miles e os primos não a avisaram que ela ofendera o príncipe? Não que agora ela desejasse retirar o que havia dito, afinal, sua opinião não mudara nos poucos minutos que passaram desde o fatídico encontro dos dois, mas nunca era bom conquistar a inimizade de um membro real. Ela era sincera, mas ainda não era maluca.
— Senhorita Bridgerton! — a rainha saldou mais uma vez, enquanto ela se aproximava no encalço da avó.
— Majestade. — ela reverenciou com a voz fraca sob o olhar curioso e debochado do rapaz com a máscara preta. Mesmo com um anteparo cobrindo parte considerável de seu rosto, mesmo sem sequer conhecê-lo a fundo, sabia que ele ria dela internamente.
— Gostaria de lhe apresentar meu filho mais novo, príncipe Alexander .
— Ah! Claro… É um prazer alteza. — a garota reverenciou ressabiada, tentando não demonstrar sua raiva e altamente tentada a pisar nos impecáveis sapatos reais.
O príncipe ergueu uma das sobrancelhas sorrindo vitorioso por ter a oportunidade de descontar o desconforto que ela o causara a altura.
— Igualmente, senhorita Bridgerton. Estou encantado de finalmente conhecê-la. — disse levando o dorso da mão da garota aos lábios, plantando ali um beijo sutil por cima do fino tecido da luva enquanto mantinha os olhos fixos na imensidão das orbes castanhas que transbordavam irritação.
O sorriso de Bridgerton poderia parecer dócil na visão de qualquer outro ali, mas não para ele. conseguia enxergar com clareza que, se estivessem a sós, certamente as mãos dela estariam apertando seu pescoço.
E definitivamente não era no sentido bom do ato.
— Ah, que belíssima melodia! — a rainha comentou em harmonia com o olhar mal-intencionado da antiga viscondessa. — Por que não a tira para dançar, ?
Ele costumava aceitar pedidos desses por livre e espontânea pressão, mas não naquela noite. estava determinado a esbanjar seu sorriso convencido e irritar ainda mais a aniversariante, então assentiu de bom grado.
— Seria uma honra. Aceita minha companhia por alguns minutos, senhorita?
o fuzilou. Sob os olhares de expectativa das mulheres ali presentes e um pedido tão graciosamente forçado vindo do príncipe, a única opção que lhe restava era juntar sua própria mão a do príncipe e caminhar até onde outros casais dançavam.
— Que belíssima coincidência, não? — disse o príncipe enquanto segurava com delicadeza a cintura da garota. Ela não respondeu.
Não importava se ele a mandasse para a forca ou para o inferno. Que fosse, não estava acostumada a abaixar a cabeça, e não faria isso para quem não merecia sequer um pingo de sua tão valiosa educação.
— Deve ser complicado procurar rapazes que não sejam seus familiares por aqui… — provocou assistindo-a umedecer os lábios e perder a batalha que travava internamente.
— Isso seria complicado se eu fosse burra. — rebateu afiada.
— Ah! — ele fingiu estar encantado — A senhorita fala? Então creio que poderei me defender das palavras tão gentis que me disse agora a pouco…
A garota depositou a palma da mão nos ombros largos dele, ainda o fuzilando. O que fez com que o sorriso dele ficasse ainda maior e mais convencido. Só aí ela entendeu.
Ele queria irritá-la. Mas ele não esperava que , treinada pelo convívio com dois irmãos, soubesse exatamente como atingir um homem: ferindo seu orgulho.
— Muito obrigada, alteza, mas creio que já escutei o suficiente. — ela sorriu, observando a feição do rapaz se tornar confusa enquanto iniciavam a dança — Não tenho interesse em ouvir suas desculpas esfarrapadas.
— Belo modo de falar com uma figura da realeza, . — ele assentiu, enquanto ainda ria incrédulo. Ela era decididamente espirituosa.
— Por favor, alteza, me chame de senhorita. — Bridgerton disse entredentes — O que quer? Que eu peça sua piedade a minha pobre alma?
Ao constatar que ele não conseguiria dizer nada e a encarava intensamente com suas orbes azuis, não conseguiu fazer nada que não fosse rir.
— Você parece ser bonzinho, príncipe . Até mesmo com quem não tem paciência para massagear o seu ego. Agora podemos, por favor, ficar em silêncio até a música acabar?
— Você parece ser tagarela, senhorita Bridgerton. Creio que não conseguirá ficar tanto tempo calada… — ele manteve o tom convencido — Até mesmo com quem seu orgulho sufocante não te deixa conversar.
— Ora, seu… — ao investir toda sua raiva no tom de voz, não contava que seus pés a traíssem devido a quantidade de ações que executava ao mesmo tempo. Dentre essas, claro, ela podia destacar pensar em xingamentos, ter vontade de estrangular e ter que dançar com o príncipe .
Ela tropeçou, o que levou seu rosto a ficar extremamente perto do rosto do rapaz que a segurou de maneira ágil e firme. Tão firme que, se a ocasião e a pessoa fossem mais agradáveis, ela com certeza soltaria um suspiro e suas pernas vacilariam novamente.
— Viu? — ela o ouviu soltar assim que fora reposicionada devidamente no lugar — Apenas não consegue ficar calada.
E então, dentre as inúmeras e inesgotáveis coincidências da noite, as badaladas do relógio marcaram meia noite e a música parou naquele momento. Os convidados vibravam enquanto tiravam as máscaras e, decidida a não deixar que um idiota estragasse seu aniversário, o ignorou e sorriu.
Agora era oficial, ela tinha vinte e um anos. Levou as mãos habilidosamente até o laço feito na parte posterior de sua cabeça e desfez o laço da máscara que lhe cobria o rosto. Assim que reposicionou a visão para reverenciar e sair correndo para o mais longe possível do príncipe, ela travou.
Não podia ser.
Um arrepio lhe perpassou por toda a espinha e ela amaldiçoou a si mesma por ter uma memória tão boa. Mesmo assim ela continuava mentalizando que estava louca e que aquilo era completamente impossível. Mas não era. tinha o rosto completamente visível agora, então ela pôde ver com clareza o formato e os detalhes de sua face, de seus cabelos dourados e de seus olhos.
Os mesmos olhos que, anos antes, haviam lhe ajudado e olhado com ternura. Os mesmos olhos que a desafiaram e então se renderam logo em seguida quando ele confessou que ela era diferente. Porque ele era o garoto que havia simplesmente se tornado seu amigo naquela calorosa tarde no Hyde Park.
Ele era o garoto que havia prometido arrumar sua boneca preferida.
Era o garoto pelo qual ela sonhara por anos. O qual ela achava ter tido uma conexão instantânea. Aquele cujo ela prometera nunca se apaixonar.
Bridgerton estava surpresa e calada, como poucas vezes ficara em sua vida. Ela não conseguia acreditar que aquele garoto encantador e gentil se tornara um homem tão irritante e odioso. Não podia ser realidade.
Depois de o encarar assustada, fazer reverência e correr dali, a garota se trancou no banheiro pelo que pareceu ser uma eternidade, despertando parcialmente de seu transe apenas quando uma voz feminina esmurrou a porta de maneira desesperada para que ela liberasse o cômodo.
Assim ela o fez, caminhando atordoada por entre a multidão enquanto travava uma batalha com seu próprio pulmão em busca de ar. Até trombar com Edmund, que a olhou preocupado.
— Ei! Onde você estava? Estamos todos te procurando há uns dez minutos. — ele começou, a observando com cautela — Está tudo bem?
— Sim, sim. — disse mais como uma tentativa de se convencer do que de fato para informar o irmão — Só estou com dor de cabeça. Mas por que estão me procurando?
— Por que você é a aniversariante? — o mais velho retorquiu com uma careta esbanjando obviedade que fez com que a garota rolasse os olhos. — Na verdade, a mamãe quer servir o bolo, algumas pessoas já desejam ir embora.
A caçula assentiu, sendo acompanhada pelo rapaz até o bolo para que as convenções típicas de uma festa de aniversário acontecessem. Ser o motivo da celebração, de alguma forma, animou a garota e distraiu temporariamente seus pensamentos.
Por mais que no fundo ela estivesse pensativa acerca do rumo ao qual o garoto do parque havia tomado, decidiu esquecer aquilo. Estava chocada? Sim, afinal, tinha idealizado o garoto por todos esses anos. Mas não o conhecia o suficiente, sabia que pessoas raramente mudavam suas ações e pensamentos. Talvez ele sempre tenha sido assim, mas, de qualquer forma, ela não planejava descobrir.

🐝🐝🐝


Aos poucos os convidados do salão foram se dissipando até que somente , seus pais, Miles e Florence restassem ali. Como imaginado, os Bridgertons não tiveram nenhuma objeção ao fato de que Florence dormiria lá. Já estavam acostumados, visto que e ela eram inseparáveis e porque muitos familiares optaram por dormir por lá também. Então os planos das duas incluíam ir imediatamente para o quarto e fofocar até pegar no sono, mas assim que os mais velhos se retiraram do cômodo, o olhar cúmplice de Miles fez com que ambas permanecessem paradas.
— Consegui as garrafas que me pediu, irmãzinha. — ele sorriu vitorioso, recebendo um olhar agradecido de . — Estão todos no antigo escritório de Eddie.
— Estão? — resmungou confusa enquanto os três subiam as escadas — Quem?
— Nós, Edmund é claro, Charles, Alex, Will e Let. — Miles parecia esforçar-se para lembrar quem estava faltando enquanto enumerava nos dedos — E ah, nosso amigo.
Florence deu de ombros, já franziu o cenho. Que amigo era esse, afinal? No fim ela decidiu parar com o interrogatório. Não importava, tudo que ela queria era beber bons copos de conhaque ou uísque e conversar sem toda a formalidade exigida socialmente, já que estava — em maior parte — com a família.
Não era nenhum esforço seguir as normas de etiqueta, mas, assim como qualquer outra jovem, Bridgerton preferia o conforto de ser ela mesma.
Eles andaram sorrateiramente pelos corredores e então, Miles, que ia na frente, abriu a porta do escritório do irmão e gesticulou rapidamente para que as duas entrassem. O escritório era iluminado por luzes fracas e tinha um sofá pequeno com uma mesinha de centro antes da mesa de Edmund, que estava sem os papéis, penas e tinteiros espalhados por toda parte, já que agora o primogênito não morava mais ali e já não usava mais o cômodo.
Eddie e sua bagunça, pensou enquanto rolava os olhos.
Agora, a mesa continha apenas alguns petiscos surrupiados da festa, três garrafas de uísque, duas de vinho e uma solitária de conhaque dourado e envelhecido em barris de carvalho por cerca de vinte anos. sorriu, o reconheceria em qualquer lugar, afinal, era seu preferido.
— Até que enfim vocês subiram! — Eddie reclamou bebericando seu uísque.
— A maldita velha Dungrey não queria ir embora de jeito nenhum. — retorquiu Miles cansado só de se lembrar da senhora com mais vitalidade que todos os jovens presentes ali juntos que estava extremamente animada por ter um evento diferente em sua rotina corriqueira e entediante.
— Ela ainda está viva? — outra voz se fez presente, instantaneamente deixou o copo na mesa e fechou os olhos com força. Não era possível.
— Ah está. — Miles fez uma careta enquanto ria com — E como está…
— Quem é esse? — cochichou Florence curiosa enquanto se servia com alguns canapés. Let estava ao lado delas, também havia notado o desconforto da prima.
— O sujeito desprezível que eu mencionei mais cedo, Flora. — murmurou.
— Desembucha, . — pediu Violet.
— O que ele te disse, afinal? — perguntou Florence ao mesmo tempo.
— Posso contar quando estivermos a sós?
Florence e Violet se entreolharam e então assentiram. sorriu fraco em agradecimento e então tornou a encher o próprio copo.
— Hey, Flora. — cumprimentou Eddie.
— Olá Edmund. — a garota sorriu. bebericou o líquido dourado enquanto segurava o riso. Era nítido o quanto ambos se gostavam, a garota não se lembrava de ter visto o irmão mais velho tão abobalhado antes. Flora era mais centrada, ela nunca diria nada, mas também não era preciso.
— Como foi a viagem?
Quando a Bridgerton menos notou, Let já havia se sentado ao lado dos irmãos no sofá para iniciar uma partida de pôquer, deixando-a de vela perto do irmão e da amiga. soltou um risinho baixo e então pegou seu copo e alguns canapés, direcionando-se até o parapeito para observar a noite.
Depois do calor graças a multidão no salão mais cedo, o vento da área externa era revigorante. apoiou o copo no parapeito e então, soltou os cabelos — como desejava ter feito desde o início da noite —, deixando que as ondas castanhas caíssem por suas costas até a altura da crista ilíaca. O vento os balançou por alguns segundos e então ela tornou a beber o conhaque que tanto queria.
Nada era tão bom como aproveitar o silêncio e uma brisa refrescante. Mas é claro que o destino estava adorando brincar de contradizê-la naquela noite, então o silêncio durou pouquíssimos segundos.
O príncipe encostou-se ao batente da porta que levava ao parapeito e começou a observá-la. Os cabelos ondulados parecendo cortinas de seda dançando com o vento, o tecido que cobria lhe o busto delimitava perfeitamente a cintura e o tórax de forma justa até a altura do quadril onde o tule fazia com que a saia tivesse volume, o que deixava a mente livre para imaginar como seria colocar as mãos ali e tê-la sobre si. Ele não se surpreendeu nem um pouco ao se pegar tendo esses tipos de pensamento, podia ter uma língua afiada, mas era uma mulher com uma beleza indiscutível.
Ficara a observando durante toda a noite, ela sorria e tudo parecia se iluminar com sua presença. Todos pareciam felizes em tê-la por perto, ela exalava alegria e um calor humano que era diferente da típica frieza londrina. Era como se ela brilhasse.
— Eu achei que fosse uma boa garota. — o príncipe disse em um tom divertido, tentando não transparecer a insegurança enquanto se posicionava ao lado dela.
Nem ele sabia bem o porquê de insistir tanto em ficar perto dela, era só automático, involuntário. Quando ele se dava conta, lá estava ele.
— Boas garotas também bebem conhaque. — ela franziu o cenho, deixando claro que mais uma vez naquela noite ele tinha dito a coisa errada.
— Claro, isso não foi uma crítica, eu…
— Perdoe-me, alteza. — ela interrompeu sorrindo, dessa vez despida de ironia, apenas com um tom franco — Mas, sinceramente, eu não me importo. Ficou claro que nós não gostamos um do outro, não precisa se esforçar tanto.
— Isso não é verdade…
— Você é inteligente o suficiente para entender que é sim. — ela o interrompeu mais uma vez, enquanto tirava alguns fios de cabelo do rosto — Está tudo bem, ninguém é obrigado a se dar bem com todo mundo. Pessoas podem ser diferentes umas das outras…
— Eu não tenho nenhuma objeção em relação a você, senhorita Bridgerton. — quem a interrompeu dessa vez, assumindo o mesmo tom de franqueza enquanto aproximava-se perigosamente. Ela tombou a cabeça para o lado, analisando-o com a expressão indecifrável enquanto passava a língua pelos lábios úmidos de conhaque.
O príncipe engoliu a seco pensando como seria saboreá-los, mas manteve-se impassível enquanto a fitava.
— Eu tenho várias ressalvas em relação a você, alteza.
— Tudo bem. — sorriu verdadeiramente, só então se dando conta de que suas percepções sobre ela estavam tomando rumos errados.
Grace Bridgerton era extremamente interessante, seria um delicioso desafio continuar nesse jogo que os dois travaram inconscientemente se o prêmio fosse os lábios dela nos seus e seu corpo mergulhando no dela. Mas a garota fazia parte de uma categoria altamente perigosa e proibida, apenas um toque em seu corpo tentador e teria que ir contra tudo o que acreditava, visto que ela esperava se casar um dia e as convenções ditavam que isso era errado.
Ela não parecia do tipo de garota que desrespeita as regras, mesmo que agora ela finalizasse seu copo em um único gole sem qualquer delicadeza expressa nas normas de etiqueta. Estranhamente achou aquilo muito instigante, então pigarreou recobrando seus sentidos. Não podia mais ficar ali, terminaria a noite no clube ou na primeira taberna que encontrasse no caminho. Mas não podia continuar na Casa Bridgerton, desejando uma mulher que nunca poderia ter.
— Não me importo com as conclusões errôneas que tirou sobre mim, senhorita . Pense o que quiser, mesmo que isso signifique que está sendo injusta.
A acusação a fez abrir a boca indignada.
— Você que… Eu não…
— Pense o que quiser. — repetiu ele, sarcasticamente dessa vez — Se me der licença, vou me despedir dos seus irmãos. Na verdade, só permaneci pela insistência dos mesmos, afinal, fazia anos desde a última vez que nos vimos... Mas foi um prazer conhecê-la senhorita Bridgerton.
engoliu a seco enquanto lançava um olhar indignado as costas do príncipe, que já cumprimentava Eddie. Ridículo. Quem disse que ela havia pensado que ele estava ali por outro motivo? Céus, precisava de mais um copo.

🐝🐝🐝


A luz da manhã invadiu os aposentos de assim todos os outros dias. Joana, sua dama de companhia, sabia como a garota detestava ser acordada aos berros ou cutucões, então todas as manhãs ela ia meia hora antes do horário até o quarto da mais nova para abrir as cortinas e deixar que a claridade matutina se encarregasse de acordá-la.
Pontualmente às oito abriu os olhos, analisando tudo ao seu redor a fim de ganhar consciência de tempo e espaço. Florence dormia a sua esquerda, parecia um anjo, enquanto Let estava à direita, com os cabelos ainda desgrenhados pelo penteado da noite anterior e a boca ligeiramente aberta.
Ah, o equilíbrio. riu antes de acordá-las. Florence decidiu ir para casa, descansar mais algumas horas enquanto as Bridgertons começaram a se arrumar com a ajuda das criadas e camareiras para o almoço que teriam naquele dia.
Afinal, não era fácil reunir toda a família Bridgerton, agregados e primos sem que fosse Natal, um casamento ou algo do tipo. E, mesmo que a festa tenha sido no dia anterior, era oficialmente aniversário de , ou seja, já era motivo suficiente para se reunirem.
Depois que os cabelos estavam devidamente penteados e os vestidos presos, as garotas caminharam, entretidas em uma conversa animada, até a sala onde a mesa do café estava posta.
— Bom dia! — desejou em um tom de voz ligeiramente mais alto, para que todos pudessem ouvi-la. Recebeu alguns sorrisos e murmúrios como resposta e então ela se sentou para o desjejum.
— Você está péssimo, Miles. — cochichou Let ao primo, fazendo com que o grupo da noite anterior começasse a rir baixinho.
— Vocês duas têm sorte de terem maquiagem para cobrir a cara de ressaca. — cochichou ele de volta enquanto levava a xícara de café até os lábios e sorria para algo que sua tia Eloise afirmava há algumas cadeiras de distância.
— Algum benefício tínhamos que ter, irmãozinho. — deu de ombros ao pegar uma maçã. O café ocorreu tranquilo em grande parte, até que o mordomo da Casa Bridgerton entrasse correndo pelo cômodo.
— A senhorita tem visitas. — ele disse enquanto tentava recuperar o ar, logo Mary, a caçula da casa entrou correndo com os olhos arregalados.
— Não são só visitas, . São muitas visitas! O hall de entrada está parecendo até uma floricultura, vem. — Mary quase gritou.
franziu o cenho, embora sua vontade fosse cuspir o chá que bebia.
Não que fosse completamente inusitado ela receber uma ou duas visitas de pretendentes após algum evento importante nas últimas temporadas. Mas era isso, estritamente um ou dois. Aquilo a fez olhar imediatamente para mãe em um pedido silencioso de “socorro!”. Ela com certeza saberia o que fazer, afinal era Katharine Bridgerton, sempre sabia o que fazer.
Mas tudo que a matriarca fez fora ralhar com Mary, para que essa tivesse modos, e lançar um olhar engraçado para a mais velha, enquanto sinalizava para essa se levantar. O primeiro a fazer isso, entretanto, fora o visconde, quase derrubando as louças e indo na frente dos quatro filhos e da esposa. Os seis andaram às pressas até a escadaria que dava ao hall de entrada da Casa Bridgerton, que nunca estivera tão perfumado antes, afinal, estava infestado de rosas, lírios, tulipas, cravos e margaridas de todos os tipos e cores que conseguia pensar naquele momento — e eram muitos, mesmo que o raciocínio desta estivesse completamente deturpado pelo choque.
— Viu só? — Mary cutucou a costela da irmã e então sorriu, achava aquilo tão romântico. Edmund estava vermelho e Miles ria da situação, que englobava o pai e o irmão surtando e a irmã à beira de um troço.
— Dançar com dois príncipes certamente te tornou ainda mais disputada, mana. — Miles recebeu um tapa no braço nada discreto da irmã e um olhar severo vindo da mãe, o que foi suficiente para fazê-lo prensar os lábios em uma única linha em uma tentativa de segurar o riso.
avistou algumas faces conhecidas da noite anterior, agarrou o braço da irmã mais nova para que ambas descessem as escadas que levavam ao hall. Precisava mandá-los embora dali educadamente, nada no mundo a faria perder um dia em família. Seria tão mais fácil se papai simplesmente os despachasse daqui, afinal ele tem cara e licença poética para tal… Pensou ela, olhando para o pai dessa vez.
Mas Anthony não faria aquilo, claro. Não com a esposa ali o coagindo.
— Comemorei cedo demais quando Gareth pediu a mão de Hyacinth. — murmurou o visconde, enquanto Kate lhe acariciava o ombro com um sorriso reconfortante. — Pensei que nunca mais teria que passar por isso…
— Ah querido… — ela riu baixinho, assistindo as filhas caminharem até os sete rapazes ali presentes. — Não se esqueça que daqui há alguns poucos anos será a vez de Mary.
A viscondessa lembrou, para o desespero do marido, que fechou os olhos agoniado.

🐝🐝🐝


Poesias, gracejos e diálogos rápidos depois, se dirigia ao último rapaz. Miles arrastou o irmão mais velho de volta para a mesa do café e Kate e Anthony foram ao socorro da filha, que agora era agraciada com uma canção sobre seus cabelos longos e escuros que poderia facilmente estourar um tímpano ou quebrar o mais resistente tipo de vidro.
Já o seu sorriso… — o rapaz cantou em plenos pulmões enquanto tentava sorrir educada para o mais novo tópico da canção.
— Ah claro, meu sorriso... Pensei que já tinha acabado. — murmurou ela desesperada, mais daquilo e ela teria o mesmo destino de Mary, que correu escadaria acima assim que o lorde Davies começara sua performance para explodir em risadas.
Aquilo precisava acabar, sentiu que morreria ali mesmo de vergonha alheia.
Ah, e seu sorriso, então… —ele tornou a cantar em um tom muito mais que desafinado — Parecem navalhas contra meu tão indefeso coração!
A garota arregalou os olhos, o rapaz considerava mesmo que aquilo era um elogio?
— Ok, rapaz. Já chega… — o visconde bateu palmas, embora sua expressão fosse de terror.
— Senhor Davies, certamente se encontra incapaz de expressar sua gratidão para o seu gesto de tamanha criatividade e afeição. — Kate sorriu para o mais novo, embora sua vontade fosse gargalhar. assentiu, incapaz de opinar qualquer outra coisa que não soasse como uma piada.
— Sim, nós estimamos sua… Ahn… Coragem. — Anthony acenou com a cabeça, enquanto as outras duas acenaram em concordância — Mas estamos apreciando um dia em família e não podemos recebê-lo.
A senhora Bridgerton deu uma cotovelada no marido, que soou em um tom impaciente.
— O que meu esposo está querendo dizer é que nós vamos adorar recebê-lo em outro dia.
— Mamãe, pelo amor de Deus! — murmurou entredentes em um tom desesperado. Mais uma canção daquela e ela poderia dar adeus a sua tão necessária e apreciada audição.
— Certamente virei, Lady Bridgerton. — o rapaz sorriu para a viscondessa e então para , que se mexeu desconfortável com o olhar lançado em direção a ela — Faço questão de demonstrar minha mais sincera estima e admiração por sua filha.
— Ok, rapaz, quem sabe outro dia. — Anthony saiu do lado da esposa para aproximar-se de Davies, enquanto empurrava e dava tapas nada amigáveis em seu ombro — Vamos, eu mesmo te levo até a saída.
No entanto, para complementar o desespero, o mordomo ainda estava ali e com a mesma expressão de antes.
— Sim, Flint? — Kate questionou o mordomo, que agora estava pálido.
— A senhorita tem mais uma visita… — revelou ele, tirando um lenço do paletó e secando previamente o suor que corria por sua testa.
— Diga que não posso recebê-lo, Flint. Por favor… Estamos em um momento familiar.
— Só que… Bem, senhorita … É que… — Flint indicou a figura que adentrava o cômodo, o que fez com que a garota arregalasse os olhos e levasse a mão ao peito pelo susto.
— O que faz aqui?

¹ Florence Nightingale (1820-1910) ou “A Dama da Lâmpada”, como é conhecida, é considerada a precursora da enfermagem moderna. Aqui, algumas referências a sua vida aparecerão na história como acontecimentos secundários, alinhados, mas não totalmente fiéis aos originais. Ela foi inserida nessa história como uma homenagem a minha tão amada profissão e também por ser uma mulher empoderada, forte e leal a seus ideais, ou seja, a melhor amiga perfeita para nossa Bridgerton.


Continua...



Nota da autora: Olá!
Eu demorei um pouco, eu sei kkk, mas estou bem feliz com o rumo que Catarse está tomando, então creio que as próximas atualizações serão mais rápidas. Tenho muitas cenas e alguns capítulos praticamente prontos, então isso ajuda bastante.
Espero que tenham gostado desse capítulo com algumas interações divertidas entre nossa Bridgerton e o príncipe. Mal posso esperar para que vocês leiam o próximo, coisas importantes já começam a acontecer...
Não esqueça de deixar todo seu amor aqui nos comentários ou pelas redes sociais, incentivo sempre é bem-vindo e motiva mais ainda as autoras para que não desistam das histórias.
Até a próxima!
Com todo amor, Ju.

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