Última atualização: 17/06/2021
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Prologo

Passei a mão embaixo de meus olhos, tentando impedir que mais lágrimas caíssem. As últimas semanas haviam sido uma completa bagunça em termos profissionais, mas agora que a adrenalina baixou, eu não conseguia deixar de não pensar nisso e como eu havia perdido essa luta lá atrás, quando fiz minha decisão em finalmente me afastar.
Vi a porta se abrir e ergui os olhos, vendo Agnelli, Pavel e Allegri saírem com os olhares baixos e limpei os olhos rapidamente, puxando a respiração devagar. Allegri passou por mim, me dando um sorriso de lado e o presidente e o vice trocaram um olhar que eu bem conhecia: pena.
- Eu aguento. – Falei e Pavel se colocou em minha frente, apoiando a mão em meu ombro e negou com a cabeça.
- É isso mesmo. – Ele falou e eu assenti com a cabeça, soltando a respiração fortemente.
- Eu imaginei mesmo. – Engolindo em seco. – Eu tentei por um ano, gente.
- Não estamos preocupados com isso, você sabe, não sabe? – Agnelli falou, apoiando a mão em meu ombro.
- Eu vou ficar bem, Andrea. – Engoli em seco. – Não se preocupe que, apesar de tudo, eu sei separar, eu sempre soube. – Ele negou com a cabeça, apoiando a mão em meu ombro.
- Também não estou preocupado com isso agora, . – Ele pressionou os lábios. – Me prometa que vai ficar bem, uma hora ou outra.
- Eu vou, eventualmente. – Suspirei forte. – Já passamos por coisas piores...
- Mas vocês nunca se afastaram... – Pavel falou com a voz fraca, recebendo um olhar repreensivo de Agnelli e eu neguei com a cabeça.
- Agradeço o apoio, gente. Vocês nem precisavam fazer isso...
- Estamos juntos há mais de sete anos, precisamos nos apoiar. – Agnelli falou e confirmei com a cabeça.
- Grazie. – Dei um sorriso, sentindo-o dar um beijo em minha bochecha.
- Você pode falar com ele agora, se quiser. – Pavel falou. – Te vejo na coletiva?
- Não sei se aguento. – Respirei fundo.
- Fino alla fine, . – Agnelli falou e eu confirmei com a cabeça.
- Estamos aqui contigo. – Pavel falou, dando um beijo em minha bochecha e suspirei, vendo-os seguirem para a outra sala.
Engoli em seco, vendo a porta encostada e empurrei-a devagar, vendo Gigi sentado na poltrona, com o braço apoiado na mesa e olhando em volta. Mordi meu lábio inferior, sem me preocupar com o batom, pois ele já tinha saído há muito tempo, passei as mãos em meus olhos e tive um impulso de coragem, entrando na sala e fechando a porta atrás de mim. Vi seu olhar se virar para trás e segui até a mesa, me sentando na poltrona ao seu lado.
- Veio tentar me convencer a ficar? – Ele perguntou e apoiei os materiais em meus braços na mesa.
- Não dessa vez. – Suspirei, encarando seus olhos claros. – Eu tentei por um ano inteiro, não vai ser agora que você vai desistir. – Levei minha mão até a sua na mesa, segurando-a.
- Veio se despedir? – Ele perguntou.
- Não, vim conversar com você. – Abanei a cabeça. – Ou melhor, agora é a hora de você ouvir. – Suspirei e ele assentiu com a cabeça, me dando liberdade para seguir em frente. – Eu sei que você está indo embora por causa de mim...
- , eu...
- Xi. – Falei, negando com a cabeça. – Você só vai ouvir agora. – Ele assentiu com a cabeça. – Eu te conheço há 17 anos, há mais tempo do que muita gente nesse time e até da sua vida pessoal, então você não precisa me falar nada para que eu saiba das coisas, suas ações dizem tudo. – Suspirei. – Então, eu sei que foi por causa daquele basta no ano passado que você decidiu sair do time. – Mordi meu lábio inferior, segurando o choro. – Para ajudar, essa foi uma de nossas piores temporadas, o que deixou nossas emoções muito mais afloradas e tornou tudo mais difícil. – Suspirei, passando a mão no rosto.
- Eu preciso tentar coisas novas, ...
- Eu não acredito em nada disso, Gigi. – Ri fracamente. – Você tem 40 anos, qual é, vai começar a tentar coisas novas agora? Em outro time? – Neguei com a cabeça.
- Eu preciso fazer isso. – Ele falou fracamente, desviando o olhar.
- Ok, se é isso que você precisa para cuidar da sua sanidade mental, encaixar sua vida ou o que for, você tem todo meu apoio, sempre teve e sempre terá, você sabe disso. – Confirmei com a cabeça. – Mas resolva todas as suas pendências e volte para gente. E eu não digo voltar para mim, mas digo voltar para time. – Ele olhou para mim.
- Por quê?
- Você passou 17 anos da sua vida aqui, Gigi, aqui é seu lugar, aqui é seu time, aqui é sua família. Não se aposente em outro lugar. – Neguei com a cabeça. – Faça todos os experimentos que você quiser, tente coisas novas, bata mais recordes, ganhe mais prêmios, faça mais erros, o que quiser, mas volte para gente. – Puxei a respiração, sentindo que estava com vontade de chorar de novo.
- Você estará aqui? – Ele perguntou. – Se eu voltar?
- Eu sempre estarei aqui, Gigi. Minha vida é esse time, essas pessoas... – Neguei com a cabeça. – Você. Mia squadra, mia famiglia, mia Juve, se esqueceu? – Puxei a respiração forte. – Eu nunca precisei ouvir você dizer que me ama para sentir isso e espero que sinta o mesmo, mas isso... Sua decisão... – Dei de ombros. – Não faz sentido...
- Eu não posso fazer mais isso, ...
- Você só poderia ter dito para mim anos atrás. – Puxei a respiração fortemente.
- Sinto muito... Mesmo. – Ele disse fracamente.
- Eu sei... – Engoli em seco. – Mas volte para nós, ok?! – Suspirei. – Nem se for por seis meses, mas você precisa me prometer que vai encerrar sua carreira aqui. – Falei.
- Eu não posso prometer isso para você... – Ele falou baixo. – Você aprendeu a viver sem mim, comigo ao seu lado, eu preciso aprender também. – Puxei a respiração fortemente.
- O que mudou agora, Gigi? – Perguntei.
- Nada. – Ele falou fracamente. – Eu só não posso mais fazer isso... – Engoli em seco. – Mas fico feliz que você foi conseguiu seguir em frente...
- Seguir em frente? Por acaso essa é a aparência de alguém que conseguiu seguir em frente? Se afundar em trabalho? Não ter vida pessoal? Chorar pelos cantos? Crise de ansiedade ligada o tempo inteiro? Carregar o mundo nas costas? Além de ser rejeitada pelo homem que eu amo há 17 anos? – Ri fracamente.
- , eu...
- Eu não segui em frente, Gigi. Eu sobrevivi! – Minha voz se sobressaiu à dele.
- Mas de alguma forma você conseguiu e isso já me acalma. – Ele puxou a respiração fortemente. – Eu vou para outro lugar, entrar em um retiro, tentar fazer outras conquistas pessoais...
- Paris não é a melhor escolha, você sabe disso. – Falei e ele ergueu o olhar para mim. – Eu sei de tudo, Gigi.
- Eu tenho que tentar, . – Confirmei com a cabeça.
- Ok, mas, por favor, não vá com a desculpa de precisar de uma conquista pessoal, você não precisa mentir para mim.
- Achei que não soubéssemos mentir para o outro. – Ele comentou.
- Eu também achava, mas de uma forma ou outra aprendemos e foi aí que tudo começou a dar errado. – Soltei sua mão, inclinando meu corpo para frente. – Só prometa que vai se cuidar.
- Eu vou. – Ele falou fracamente e eu confirmei com a cabeça.
- Eu estarei aqui de braços abertos quando você se arrepender. – Me levantei, apoiando a mão na mesa.
- Como você pode ter tanta certeza de que eu vou me arrepender? – Ele perguntou.
- Porque eu te conheço. – Ri fracamente. – Tem algo te atormentando, Gigi. Algo que eu ainda não descobri o que é. Só acho que você está tentando passar por isso de forma errada... – Suspirei. – Só te falta coragem, uma coragem que você nunca teve antes. – Ele fechou os olhos.
- Você não sabe nada, . – Ele disse e eu suspirei.
- Beh, a vida é sua, não é mesmo? A vida, as escolhas... Agora o futuro também. Só seu! – Pressionei os lábios, inclinando meu corpo para frente e dei um beijo em sua testa, acariciando seu rosto. – Só não se esqueça que eu te amo, ok?!
- Não faça isso... – Ele sussurrou. – Não agora...
- Falar ou não falar, não muda o sentimento. – Dei de ombros. – Não vai mudar nada, já tentei, não tem por que eu esconder. – Suspirei, endireitando o corpo. – In bocca al lupo, Gigi. – Falei, pegando meus materiais.
- Você vai assistir a coletiva? – Ele perguntou.
- Não sei se aguento. – Suspirei. – Mas eu vou estar no seu último jogo, porque eu preciso, não porque eu quero. Não vai ser fácil para mim. – Engoli em seco e ele assentiu com a cabeça.
- A gente ainda se vê? – Ele perguntou e puxei a respiração, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.
- Eu não sei. – Suspirei. – Provavelmente. Sétimo scudetto di fila, é algo a se comemorar, outra Coppa Italia, sua carreira, a saída do Lich, Asa... Marchisio talvez saia também... – Neguei com a cabeça. – É um ciclo muito grande para não fechar. – Ele assentiu com a cabeça. – Eu vou sentir sua falta... – Minha voz saiu falha.
- Eu também. – Ele falou e eu balancei a cabeça, andando até a porta, sentindo as lágrimas deslizarem pela minha bochecha. – ... – Ele me chamou e eu parei na porta.
- Hum...
- Me desculpe por tudo. – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
- Me desculpe também. – Falei, pressionando os lábios fortemente.
- Eu sempre vou te amar. – Fechei os olhos quando sua voz saiu quase em um sussurro e as lágrimas deslizaram pela bochecha.
- Eu também... – A voz saiu falhada, mas não tive capacidade de repetir e saí pela porta, ouvindo-a bater com a força.
Apoiei minhas costas na parede e puxei a respiração, sentindo minhas pernas fraquejarem e o corpo desfalecendo aos poucos em direção ao chão. Senti duas mãos me puxarem pelos ombros e me apertaram contra seu corpo.
- Xi, xi! Estou aqui! – Ouvi a voz de Chiello em minha orelha e apertei meus braços ao redor de seu corpo. – Aguenta só mais um pouco... – Ele puxou a respiração forte, denunciando suas emoções também. – Só mais um pouco, . – Engoli em seco e assenti com a cabeça, com o queixo apertado em seu ombro.



Capitolo uno

Stagione 2001/2002
Lei


20 de junho de 2001


- Ah, amiga, vamos ser bem honestas, só você não via que ele ainda gostava da ex. – Giulia falava em minha orelha e eu suspirei, observando os carros passarem com rapidez na estrada.
- Mas eu achei que ele tivesse mudado. Que ele tivesse esquecido dela e... – Minha amiga suspirou, pegando minha mão em cima do meu colo.
- Eu entendo que é difícil, mas a gente simplesmente não escolhe por quem nos apaixonamos, quem vai ser o amor da nossa vida. – Virei para ela.
- Obrigada, Giulia, não está ajudando, também não precisa jogar na minha cara assim. – Bufei, suspirando.
- Não é isso, , digo que você também vai encontrar alguém que vai passar por cima de todas as pessoas por você, a diferença é que o Luigi achou mais rápido. – Revirei os olhos, ignorando o que ela disse e olhei para a estrada enquanto o ônibus avançava para fora da cidade com somente nós duas a bordo. – Não me entenda mal, eu...
- Eu entendo, Giulia, mas acho que eu tenho direito de ficar chateada, estávamos juntos há sete meses, poxa, é bastante coisa. – Passei a mão na bochecha, secando a lágrima solitária antes que borrasse minha maquiagem.
- Eu sei, amiga, me desculpe. – Ela falou, apoiando a cabeça na minha e suspirei. – Mas veja pelo lado bom, agora você vai fazer essa entrevista, vai arrasar, vai passar e aposto que terão vários jogadores lindos para você, pelo menos, dar uma olhadinha. – Ri fracamente.
- Eu só vim por causa de você, você sabe disso. Eu não entendo nada de futebol, não vejo o porquê deles me contratarem. – Ela ponderou com a cabeça.
- Porque você é demais, você é inteligente, incrível, além de que o salarinho deles viria muito bem a calhar para você. – Pressionei os lábios, assentindo com a cabeça.
- Viria mesmo, é o melhor salário que eu já vi para estágio. – Suspirei. – E são só quatro horas de trabalho por dia, não precisaria mudar para noite, ganho vale transporte... – Suspirei. – É no fim do mundo, mas tem ônibus direto de casa. – Dei um pequeno sorriso.
- Além do mais, você faz contabilidade, não acho que você precise saber muito sobre o jogo de futebol em si, você precisa saber de dinheiro e isso você é foda. – Ela falou esticando a mão e eu sorri, batendo na dela.
- É, mas metade da minha sala veio para essa entrevista, isso sem contar no pessoal que já não passou na dinâmica de grupo.
- Você passou na dinâmica, isso é muito bom, você sempre teve o espírito de liderança. – Franzi a testa, virando para ela.
- Giulia, você está me deixando com expectativas, ok?! Vamos devagar! – Falei e ela riu fracamente.
- Ah, mas pensa, amiga, ia ser demais! Além de que você poderia me apresentar algum jogador gato. O Zidane é lindo demais. – Ela falou, me fazendo rir fracamente.
- Você que deveria conseguir emprego no time, não eu, você sabe até quem joga aqui. – Falei, fazendo-a rir.
- Meu pai é torcedor roxo do Torino, né?! Eles são rivais direto, aí eu acabo aprendendo alguma coisa. – Ela deu de ombros.
- Ah, mesmo assim.
- Eu não ia me importar, mas não abriu vaga para o setor administrativo, se abrir, me avise, por favor... – Ri fracamente.
- Eu não sei nem se eu vou passar, Giulia! – Falei firme.
- Se continuar pensando com essa negatividade toda, não vai passar mesmo. – Ela disse, fingindo que havia se emburrado e cruzou os braços.
- Eu preciso passar. – Sussurrei, voltando a olhar pela janela e vi os muros branco com o escudo do time. – Puxa aí! – Falei rápido, vendo-a esticar a mão e puxar a cordinha, fazendo o som de parada ser soado no ônibus quase vazio.
Ela se levantou de seu lugar e eu me levantei atrás dela, segurando nas barras do ônibus. Quando o motorista parou, gritamos um “grazie” para ele e descemos. Esperando o ônibus sair de nossa visão. Observei a construção baixa, com um portão eletrônico logo na frente e as palavras “Juventus 1897” no muro em Vinovo. Do lado esquerdo, algumas pessoas estavam paradas em uma fila, atrás de uma grade, supus ser torcedores.
- Vem logo! – Giulia falou e ela puxou minha mão. Olhei rapidamente para os dois lados e corri para atravessar a rua com ela. Seguimos até os dois seguranças nos portões.
- Buon pomeriggio. – Um deles falou.
- Ciao! – Disse, pegando o papel em minha bolsa. – Eu tenho uma entrevista com Giorgio Bianchi.
- Qual seu nome? – Ele perguntou, pegando uma prancheta.
- . – Falei, vendo Giulia assentir com a cabeça.
- Certo, três horas?
- Isso. – Falei, checando o relógio e vendo que faltava uns 20 minutos ainda. Ele falou algo para o outro segurança e o portão foi aberto.
- Está vendo aquele prédio ali? – Ele me mostrou um prédio na diagonal e eu assenti com a cabeça. – É lá, só informar a recepcionista. – Ele me entregou um crachá escrito “visitante”.
- Beleza, obrigada. – Falei, colocando o crachá no pescoço.
- E a senhorita? – Ele perguntou para Giulia.
- Eu só vim acompanhar. – Ela falou.
- Se importa de esperar aqui? Teremos que fazer registro caso queira entrar e...
- Não, eu espero. – Ela falou rapidamente. – Boa sorte, amiga!
- Obrigada! – Sorri, abraçando-a fortemente.
Passei pelos portões e respirei fundo, olhando para o crachá e engoli em seco. Poucas pessoas cortavam meu caminho, e tentei manter ao menos o olhar sereno ao passar por todos. O prédio que me foi indicado era logo o primeiro, mas dava para ver que tinha outros seguindo em frente, inclusive estruturas de campo de futebol no canto extremo.
Passei pela calçada, entrando no caminho até o prédio indicado e empurrei a porta lentamente, vendo uma recepcionista sorrir para mim. Entrei na porta, tomando cuidado para ver se ela não batia e me aproximei da mesma.
- Ciao. – Falei, vendo-a sorrir. – Tenho uma entrevista com...
- Senhorita , certo? – Ela perguntou.
- Isso. – Sorri.
- Venha comigo! – Ela falou, tirando o fone do ouvido e cruzou sua mesa, segui atrás dela.
Passamos por algumas salas, tentei não ficar curiosa demais e a segui até outra sala. Ela abriu a porta e reconheci três alunos da minha sala ali e os três me deram aqueles sorrisos de “o que você está fazendo aqui?”, mas só os cumprimentei com um rápido aceno de mão.
- Pode esperar aqui, eles te chamam quando for sua vez. – A recepcionista falou e eu assenti com a cabeça.
- Grazie. – Falei, sorrindo e me sentei no local vazio no canto do sofá.
- Não sabia que viria, . – Luca falou.
- Também não sabia que viria. – Dei um sorriso, esperando que ele entendesse que não queria papo e vi uma revista do time jogada na mesa de centro e peguei, começando a folheá-la devagar.
Os três foram chamados um a um enquanto eu via um pouco das conquistas do time e tentava conhecer algum rosto. Quando vi o tal Zidane, o reconheci na hora, até eu que era fora desse mundo, já tinha visto-o na TV ou em propagandas. Além dele, não conheci nenhum dos outros. Passei para as conquistas do time do ano, descobri que estávamos no fim de uma temporada e início de outra, estávamos no fim de junho.
Segundo essa revista, a temporada nova começaria em julho. Eles haviam ficado em segundo lugar no campeonato italiano, perdendo para a Roma, foram eliminados nas oitavas da Coppa Italia e na fase de grupos, como último do grupo, na Champions League. Não entendia nada, mas não me parecia muito bom.
- ? – Ergui o rosto.
- Sim! – Deixei a revista na mesa de novo e me levantei.
- Eu sou Giorgio, come sta? – Ele perguntou e esticou a mão.
- Bene e lui? – Apertei a mão dele sorrindo.
- Venha comigo! – Ele disse, atravessando para dentro de uma sala e fui com ele. – Pode se sentar. – Ele disse e eu me sentei em sua frente, deixando minha bolsa do lado. – Então, senhorita . – Ele disse, se ajeitando em sua cadeira e eu sorri. – Universidade de Turim, contabilidade?
- Isso! – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Por que você decidiu fazer contabilidade? Acho que essa é a pergunta mais importante. – Ele falou, rindo fracamente.
- Eu sempre fui muito boa com números, desde mais nova, acho que acabei indo para o lado que eu tinha mais talento. Acabei tendo apoio de alguns professores no ensino médio e fiquei entre economia ou contabilidade. Fui na contabilidade, pois é um mercado mais acessível. – Ele assentiu com a cabeça.
- Certo, muito bem! – Ele disse. – Você tem razão, além de que cuidar de bolsa de valores, micro e macroeconomia, porcentagem e tal é bem chato. – Ele falou, me fazendo rir fracamente. – Aqui no time cuidamos mais da contabilidade do time mesmo, entrada e saída de dinheiro, transferências de jogadores, pagamento de jogadores e funcionários, investimentos, temos várias responsabilidades, então temos uma equipe de contadores bem grande para dar conta de tudo. – Assenti com a cabeça. – Cada um conectado a uma dessas áreas que eu citei, mas como estagiário, queremos dar a oportunidade para futuros profissionais terem o máximo de vivência, então você acaba participando um pouco de cada área.
- Ah, legal, é bom para aprender. – Sorri.
- Você é de Turim mesmo? – Ele perguntou.
- Não, sou de Palermo.
- Ah, está um pouco longe de casa. – Dei um pequeno sorriso. – O que veio fazer em Turim?
- Eu passei na Universidade de Turim e, como sempre gostei do tempo mais frio, decidi vir. – Sorri.
- Seus pais apoiaram sua decisão? – Ele perguntou.
- Eu perdi meus pais muito cedo em um acidente, sem família, morei em um orfanato até chegar à maioridade, aí eu vim. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
- Sinto muito. – Neguei com a cabeça.
- Sem problemas.
- E por que a Juventus? – Ele perguntou. – Você gosta de futebol? Tem alguma relação conosco?
- Sendo bem honesta, senhor, eu não sei nada de futebol, nem sei nada sobre o time. – Ri fracamente. – Eu vim pela oportunidade da vaga mesmo, pelo aprendizado e pelo salário que é o melhor oferecido para estagiários da nossa área, como eu moro sozinha e não tenho muito apoio, seria um alívio em algumas partes. – Falei e ele confirmou com a cabeça.
- Interessante. – Ele falou, se ajeitando na cadeira. – Todos os candidatos que vieram aqui falaram o quanto torciam para a Juventus, como gostavam dos jogadores e tudo mais, mas você veio pelo emprego mesmo. – Assenti com a cabeça.
- Queria ser mais entendida do assunto, talvez ter estudado um pouco antes de vir, mas tudo o que eu sei de futebol, eu aprendi lendo a revista na outra sala agora pouco. – Falei, engolindo em seco.
- Não ache que isso é algo ruim. – Ele falou. – Todos nesse clube, inclusive os jogadores, aprenderam sobre o futebol, aprenderam a jogar futebol, você pode aprender também. – Assenti com a cabeça. – Se for aprovada.
- Eu aprendo muito rápido, meus professores falam que eu tenho muita atenção a descobrir erros no meio de cálculos ou papeladas, trabalhei em um mercado quando mais nova, nunca tivemos problema no caixa, estou realmente disposta a aprender e me dedicar ao time. – Sorri e ele assentiu com a cabeça, retribuindo.
- Você disse que não tem tanto contato com o futebol, mas você tem contato com algum esporte? – Ele perguntou.
- Eu faço parte do time de vôlei da faculdade. – Falei.
- Ah, então está ótimo. – Ele disse, rindo fracamente. – Bom, senhorita, , nosso serviço aqui é das duas às seis da tarde, de segunda a sexta, salário e bônus são os mesmos que anunciamos na vaga. – Assenti com a cabeça. – Aqui dentro você vai ter contato direto conosco e com o administrativo e, ocasionalmente, temos algum evento, a presença de algum jogador, coisas que mudam a rotina do time, aí você participa de todas essas questões. – Assenti com a cabeça. – Como eu disse, o foco aqui é formar profissionais competentes para o mercado de trabalho. – Confirmei com a cabeça.
- Isso é muito bom. – Sorri.
- Bom, senhorita , eu acho que por aqui é só, você tem alguma dúvida? – Ele perguntou.
- Acho que não. – Falei, sorrindo.
- Vamos analisar os casos e daremos o feedback até a semana que vem. – Ele falou e eu sorri, assentindo com a cabeça.
- Tudo bem, obrigada. – Sorri, me levantando. – Obrigada pela oportunidade.
- Eu que agradeço, fico feliz pelo seu interesse. – Apertamos as mãos novamente e peguei minha bolsa.
- Arrivederci. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
Saí da sua sala, vendo que tinha mais dois garotos ali e um deles era da minha sala. Acenei com a cabeça e fui de volta para a recepção. Acenei para a moça, ouvindo-a me desejar in bocca al lupo e fui até o portão novamente, acenando para o porteiro e ele abriu para mim. Fui para o lado de fora, acenando para os seguranças e vi Giulia se levantar do rodapé rapidamente quando me viu.
- E aí? – Ela falou rapidamente.
- Parece que fui bem. – Falei, assentindo com a cabeça. – Mas tinha muita gente lá. – Suspirei.
- Perguntou se você gostava de futebol? – Ela perguntou.
- Mas é claro! – Falei, rindo.
- E aí?
- Eles disseram que acham interessante eu estar lá pela vaga e não pelos jogadores. – Dei de ombros.
- Isso é bom, não?!
- Parece! – Falei e ela me sacudiu.
- Ah, amiga, vai dar tudo certo, você vai ver. – Ela me fez rir.
- Tomara, amiga, tomara! – Suspirei.

Lui


25 de junho de 2001


- Ciao, Gigi! – Silvano falou quando abri a porta para ele.
- Entra! – Falei, abrindo espaço para meu empresário.
- Maria Stella, está muito bela hoje! – Ele falou para minha mãe e eu evitei a vontade de revirar meus olhos. – Senhor Adriano, tudo bem? – Ele cumprimentou meu pai e eu fechei a porta, me sentando na poltrona livre.
- Como está, Silvano? – Minha mãe perguntou.
- Quais as novidades? – Meu pai foi direto ao assunto.
- Apesar de todos os problemas do Parma e dos escândalos por acidente no começo, tive a impressão de que isso foi esquecido, pois o Gigi teve um uma boa atenção dentro do futebol italiano e temos alguns interessados. – Ele falou e eu apoiei os cotovelos nas pernas.
- Ofertas boas? – Minha mãe perguntou.
- Boas demais. – Ele apoiou sua pasta na mesa de centro do meu apartamento em Parma e tirou alguns papéis. – Temos algumas ofertas do Barcelona, da Roma, mas a melhor é a da Juventus. – Ele apoiou as mãos no colo.
- A Juventus não está em baixa, não?! – Meu pai perguntou. – Eles foram bem medianos nessa última temporada.
- Sim, isso é verdade. – Silvano falou. – Mas eles acabaram de vender Zidane para o Real Madrid por uma bagatela de 77 milhões de euros e eles querem investir na próxima temporada. – Ele falou, me estendendo um papel. – Junto de você, eles também estão negociando com Lilian Thuran aqui do Parma, Pavel Nedvěd e Marcelo Salas do Lazio. – Ele falou.
- 45 milhões de euros? – Falei, abismado.
- O quê? – Meus pais se levantaram rapidamente e meu pai puxou o papel da minha mão.
- E mais oito milhões em bônus não-declarados. – Silvano falou e eu suspirei, engolindo em seco.
- 53 milhões de euros? – Meu pai corrigiu.
- Sim. – Ele falou com um sorriso no rosto. – A maior transferência de goleiro é de 19 milhões, se querem saber.
- Cazzo! – Falei, levando a mão à boca.
- Pois é, é uma bolada bem grande. – Ele falou e eu respirei fundo. – O que acham?
- É demais! – Minha mãe falou, feliz.
- É grana para caramba. – Meu pai falou e eu só consegui deitar o corpo na poltrona atrás de mim.
- Eles falaram que você é o maior goleiro da atualidade e que eles não vão medir esforços para te ter. E como seu contrato com o Parma está acabando, é uma ótima oportunidade para você ir sem ter que pagar a multa. – Suspirei, passando a mão em meus cabelos cumpridos.
- Fala algo, filho! – Minha mãe falou e eu olhei para seus olhos azuis.
- Eu não sei o que falar. – Engoli em seco. – Isso é incrível!
- Apesar da última temporada eles terem sido bem medianos, eles estão investindo e não podemos nos esquecer que ganharam a Champions em 96. É recente, colocaram os olhos neles depois do desastre Heysel em 85. – Confirmei com a cabeça.
- Quais as condições? – Perguntei, segurando as mãos.
- Titularidade a partir do primeiro jogo e a camisa número um! – Ele falou e eu suspirei, levando a mão à cabeça.
- Vai ser sua oportunidade de ganhar um scudetto, filho! – Meu pai falou.
- Eu nem sei o que dizer. – Falei, pegando o papel da mão de meu pai e observando o número de novo.
- Imagino que você vá aceitar essa oferta. – Silvano falou.
- Mas é claro que sim! – Meu pai falou, animado.
- Gigi? – Minha mãe perguntou e eu tirei os olhos do papel.
- Sim, claro! – Falei, abanando a cabeça.
- Ele está abismado ainda. – Ela passou a mão em meus cabelos e eu suspirei.
- Eu não tenho noção do que é isso de dinheiro. – Falei e Silvano gargalhou.
- Meu garoto, esse é só o começo. Você tendo um desempenho melhor do que no Parma, vai começar a chover dinheiro para você. – Ele falou. – E mulheres! – Ele falou mais baixo e eu sorri.
- Vamos ficar no dinheiro por enquanto, né?! – Minha mãe falou.
- Eu já tenho 23 anos, mãe, qual é! – Falei, vendo-a rir.
- Você gostaria de analisar mais um pouco ou posso marcar a reunião, assinatura do contrato, exame médico e apresentação para imprensa? – Silvano perguntou.
- Por mim está feito, pode marcar sim. – Falei, entregando a folha novamente para ele.
- Meus parabéns, então, garoto! – Ele se levantou e eu fiz o mesmo, recebendo um forte aperto de mão e um abraço. – Você acabou de se tornar o goleiro mais caro da história! – Ele disse, dando dois tapas em minhas costas.
- Grazie! – Falei com um sorriso no rosto, vendo-o retribuir.
- Eu ligo para falar da data, mas já vai preparando a mudança para Turim. – Ele disse, cumprimentando meus pais.
- Eu te acompanho! – Minha mãe falou, seguindo até a porta com ele e eu me sentei na poltrona de novo.
Apoiei os cotovelos nas pernas e abaixei o rosto entre as mãos. Aquilo era coisa de outro mundo. 53 milhões! Eu não tinha a menor ideia do que era aquela grana toda. Ainda mais que o país mudou a moeda de lira para euro, então isso piorava um pouco minha cabeça, nunca fui muito bom em contas.
- Mio figlio! – Minha mãe falou e eu ergui o rosto. – Que alegria! – Ela falou, seguindo em minha direção e me levantei, deixando-a me abraçar. – Você merece todo sucesso desse mundo! – Ela falou, acariciando meu rosto.
- Grazie, mama! – Falei, sorrindo e ela deu espaço para meu pai.
- Parabéns, filho! Coisas extraordinárias virão para você! – Ele disse, me apertando e dando tapinhas em minhas costas.
- Ah, precisamos comemorar! – Minha mãe falou, animada e eu ri fracamente.
- Que foi, filho? Parece que está assustado. – Meu pai falou e eu ri fracamente.
- Eu estou surpreso, pai. Depois do rolo lá com o Parma, aquela história da polícia e a confusão com o slogan do fascismo, o número relacionado ao Hitler, achei que tudo ia desandar.
- Você é novo e errou, agora precisa tomar cuidado para não fazer mais esse tipo de besteira, a Juventus está confiando em você e você precisa ser o goleiro que eles esperam. – Meu pai falou.
- Não o pressione. – Minha mãe falou.
- Tudo bem, eu entendo minha responsabilidade, jogo na Serie A faz seis anos, é só que é muita grana. – Suspirei. – Mas estou animado em morar em Turim, fazer minha parte com o time. – Ele falou.
- Assim que se fala! – Meu pai me sacudiu um pouco. – Vamos comemorar, tem algum champanhe nessa casa, filho?
- Deve ter um vinho branco perdido por aí. – Falei, rindo fracamente e me sentei de novo na poltrona, largando o corpo nela.
- Você não me parece muito animado, filho. – Minha mãe falou, se abaixando ao meu lado.
- Eu só estou abismado, mãe. – Suspirei, dando um pequeno sorriso. – Isso vai ser um salto gigantesco na minha carreira e eu não sei se estou preparado para isso. – Ela colocou a mão sobre a minha.
- Vai sim, filho, mas achei que você estava acostumado depois de ir para o profissional com 17 anos e jogado a última Copa, mesmo como reserva. – Dei um pequeno sorriso.
- Eu sei, é que... – Abanei a cabeça. – É tanto dinheiro. – Rimos juntos.
- Faça bom uso dele. – Confirmei com a cabeça.
- Vamos comemorar, ligar para suas irmãs, arrumar a mudança... – Meu pai falou, trazendo as taças em uma mão e eu peguei uma e minha mãe a outra.
- Elas vão ficar muito felizes. – Falei, sorrindo.
- Todos estamos felizes por você, meu filho. – Minha mãe falou.
- Um brinde a Gigi. O goleiro mais caro da história. – Meu pai estendeu sua taça e eu fiz o mesmo, ouvindo o tilintar do vidro.
- Grazie! – Sorri, bebendo um gole do vinho branco. – Acho que eu devo informar o time. – Falei, apoiando a taça na mesa novamente.
- Vai lá! – Minha mãe falou e eu segui até o telefone.
- Está confuso de tudo, coitado! – Ouvi minha mãe comentar.
- Nosso filho será um sucesso, amor. Esse é só o começo. – Meu pai respondeu e eu sorri antes de pegar o telefone.

Lei


Um de julho de 2001


- Eu ainda estou chocada que você conheceu o Zidane! – Giulia falou, devolvendo a bola para mim e eu toquei, mandado para ela de volta.
- Eu não conheci o Zidane, eu estava no fundo da sala, acompanhando quietinha! – Ela mandou uma forte e eu dei uma manchete, erguendo a bola, antes de devolver no toque.
- Mesmo assim! – Ela falou, animada. – Ele é tão lindo quanto parece? – Ela suspirou feliz e eu mandei um corte para ela, vendo-a receber nos braços.
- Ele é careca, Giulia! – Falei, recebendo a bola alta e pegando-a com as mãos, parando o jogo.
- Ele não é careca, ele...
- Ele tem uma falha na cabeça que mostra que ele vai ficar careca em breve. – Olhei sugestivamente para ela e ela revirou os olhos.
- E daí? Ele é lindo! – Ela falou sonhadora, me fazendo rir.
- Tirando um “bonjour” geral, eu não entendi nada. Ele fala francês.
- Ah, ele falando francês! – Ela falou sonhadora e seguimos para a arquibancada.
- Falando nisso, eu vou precisar me matricular em algum curso de línguas o mais rápido possível se quiser entrar nesse mundo. – Suspirei, abrindo minha mochila e pegando minhas joelheiras.
- O salário dá para isso? – Ela perguntou, fazendo o mesmo.
- Eu preciso fazer umas contas quando receber, mas acho que sim, é mais do que eu ganhava na farmácia, e eu me virava bem. – Dei de ombros.
- Não, você se desenrolava bem, aquilo era uma miséria! – Ela disse e eu me sentei na arquibancada. – Meu pai pagava mais...
- Giulia! – A repreendi.
- Ok, ok. – Ela se sentou ao meu lado. – Você pode ver com o pessoal da faculdade de linguística, às vezes tem alguém dando aula particular mais barato, o pessoal dos intercâmbios da vida...
- Acho que eu deveria começar pelo inglês, né?! – Tirei os tênis, começando a colocar as joelheiras.
- É praticamente a língua oficial do mundo, né?! – Ela deu de ombros. – É um bom jeito de começar.
- Vou ver isso, o estágio está realmente legal, como meu chefe disse, agora é a época de transferência, então é mais agitado, depois dá uma reduzida.
- Quando você puder ver um jogo, favor pensar na sua amiga. – Ela falou, me fazendo rir.
- Achei que você torcesse para o Torino. – Falei.
- Meu pai torce para o Torino, eu não torço para ninguém...
- Você torce para o Zidane. – Comentei e ela sorriu.
- Ele vai para onde mesmo?
- Real Madrid. – Falei e ela riu.
- Bom, então agora torço para eles. – Rimos juntas. – Mas eu não nego de ver jogador bonito, vai que...
- “Vai que” o quê, sua louca? – Terminei de colocar as joelheiras, voltando a calçar os tênis.
- Ah, o destino bate, um jogador se apaixone por mim? Precisamos investir no nosso futuro. – Revirei os olhos.
- Trabalhe para caramba e seja o seu investimento. – Falei, me levantando e ajeitando a barra dos shorts do uniforme.
- Você é uma pessoa evoluída, , eu nunca serei assim. – Ela falou, me fazendo rir.
- Eu tive que me manter desde pequena, Giulia, imagina se eu tivesse esperado alguém todos esses anos?
- Eu sei, me desculpe, falei sem pensar, mas nunca na vida vamos ganhar igual jogadores de futebol. Isso simplesmente não acontece.
- É, isso é verdade, 77 milhões é uma grana que nem em sonhos eu imagino. – Suspirei.
- Cara, quanta grana! – Ela falou, se levantando. – O que eles vão fazer com isso?
- Pelo o que eu ouvi, eles vão investir em mais jogadores. Eles compraram um goleiro por 53 milhões. – Suspirei. – “Compraram”? Contrataram? Não sei o termo correto, mas é.
- 53 milhões, gente! Goleiro? Essa é surpreendente. – Ela falou.
- Eu não entendo nada, mas falam que é quase o triplo do que pagam mais ou menos por outros goleiros.
- Não me diga que é o Buffon. – Ela falou e eu virei rapidamente para ela.
- Ouvi esse nome aí. – Falei.
- Nossa! – Ela falou, surpresa. – Ele era do Parma, ele foi uma das grandes surpresas da Serie A. – Ela disse. – Eles conseguiram a Copa UEFA por causa dele.
- Ele parece ser sensacional. – Falei, pegando a bola ao seu lado e a bati no chão.
- Ele é! Só tem 23 anos. – Arregalei os olhos.
- Novo. – Comentei.
- Sim, ele foi com a Itália na Copa de 98, não jogou, mas jogou nas eliminatórias.
- Com 23 anos? – Perguntei.
- Não, né? Com 20, já faz três anos.
- Gente! – Falei, surpresa.
- Pois é! A Juve está apostando forte nele se comprou por essa grana toda. – Ela disse.
- Pelo o que falaram, eles querem melhorar o time depois da última temporada, e compensar a saída de sei lá quem.
- Se for isso mesmo, começaram bem. – Ela falou, pegando a bola da minha mão. – Eles já têm Del Piero e o Trezeguet no ataque.
- Eu estou ouvindo grego, Giulia, calma, eu estou lá há uma semana. – Falei, vendo-a rir.
- Eu vou te ensinando, amiga. – Ela disse.
- Giulia, , venham! – A nossa treinadora falou.
- Você vai conhecer o Buffon? – Ela perguntou.
- Não sei mesmo, ele vai na sexta. – Dei de ombros.
- Ele é gatinho também. Cabelos pretos, olhos claros...
- Agora entendo por que você gosta de futebol. – Brinquei com ela, me aproximando do resto da equipe.
- Não é só sobre isso, mas isso ajuda e muito! – Ela sussurrou a última parte, me fazendo gargalhar.
- Eu te aviso se o conhecer. – Empurrei sua cabeça para o lado e ela riu, me abraçando de lado.
- Vamos fazer time A com time B, , você é capitã do A, Antonia do B, tirem os times e vamos começar. – Ela disse e eu me aproximei.
- Par. – Falei.
- Ímpar. – Ela disse e sorteamos, dando o número seis.
- Eu quero Giulia. – Falei primeiro, vendo Antonia começar a selecionar seu time. Jogávamos assim faz tempo, os times já eram de praxe.

Lui


Três de julho de 2001 • Trilha SonoraOuça


Ouvi alguns gritos quando Silvano parou em frente aos portões do CT da Juventus e abaixei o vidro, acenando para alguns fãs que estavam grudado nas grades. Silvano guiou o carro para dentro do CT e um pessoal já nos aguardava ali. Era o pessoal engravatado de sempre, donos do dinheiro, como diria meu empresário.
Silvano estacionou no local indicado e eu saí dele vendo o fotógrafo e o cinegrafista já posicionarem suas câmeras em minha direção, me fazendo engolir em seco. Eu tinha meu nervosismo e incertezas como todos, mas eu estava me sentindo otimista. Era um novo time, uma nova temporada, uma estrutura visivelmente melhor do que o Parma, uma cidade diferente...
- Gigi! – Vittorio, presidente da Juventus, me cumprimentou.
- Ciao! – Estendi a mão, apertando-a fortemente.
- Que bom que está aqui! – Ele disse, passando a mão pelos meus ombros e cumprimentou meu empresário.
- Estou feliz em estar aqui! – Falei, sorrindo.
- Esses são Giorgio, nosso gerente de contabilidade. – O cumprimentei. – Lauro, gerente de comunicação e Stefano, nosso médico. – Ele falou e eu cumprimentei todos.
- Como está, Gigi? – O tal do Giorgio falou e eu sorri.
- Bene, grazie!
- Vamos lá para dentro? – Vittorio falou e eu assenti com a cabeça.
Segui os quatro com Silvano, o fotógrafo e cinegrafista para dentro do primeiro prédio e passamos pelos corredores, seguindo para o segundo andar. Vittorio abriu uma porta e entramos na mesma. Era uma grande sala de reuniões, com algumas pessoas já lá dentro.
- Ciao! – Acenei para elas, recebendo sorrisos de algumas mulheres e homens também engravatados.
- Gente, apresento a vocês, Gianluigi Buffon. – Vittorio falou, animado.
- É um prazer! – Falei, sentindo que estava com vergonha.
- Esse é Marcello Lippi, técnico do time. – Ele me apresentou ao técnico bastante conhecido na Itália
- Ciao, é um prazer. – O cumprimentei.
- O prazer é meu! – Ele sorriu.
- Nicola, gerente de marketing. – Acenei. – Enrico, nosso advogado, Michelangelo, nosso treinador de goleiros. – Ele me deu um forte abraço, me fazendo rir com a empolgação. – Giovanni, preparador físico, Matteo, gerente do time, Luciano diretor esportivo, Giraudo, diretor geral... – Ele foi falando e eu acenava e cumprimentava todo mundo.
Estava acostumado com uniforme e pés descalços, então me sentia um pouco intimidado no meio de tanta gente engravatada, apesar de alguns serem da equipe de treino. Eu era bem mais simples que isso, gente. Por favor.
- Pensamos em fazer a assinatura do contrato, depois tirarmos algumas fotos com a imprensa e, por último, vamos para o centro médico já fazer seus exames, o que acha? – Vittorio falou e eu virei para meu empresário.
- Tudo bem. – Ele falou e eu confirmei com a cabeça.
- Pode se sentar, então. – Ele falou e o tal Giorgio se aproximou.
- Alguma cláusula foi alterada? – Meu gerente mudou.
- Não, está tudo conforme enviado na outra vez. – Ele mexeu rapidamente nos papéis, conferindo as folhas. – Espera um pouco, está faltando uma folha aqui. – Ouvi dois toques na porta.
- Com licença. – Ouvi uma voz feminina e virei o rosto.
- ! – Giorgio falou e a moça colocou a cabeça para dentro.
- Esqueceu isso. – Ela falou, estendendo tipo uma apostila para ele.
- Ah, minha salvadora. – Ele falou, fazendo-a rir.
- Eu tomei liberdade para imprimir inteiro mais uma vez, a folha deu uma amassada. – Ela falou.
- Grazie, grazie! – Giorgio falou, animado. – Entra, acompanhe de perto. – Ele falou e a menina entrou.
Ela era bonita. Diferente de todos ali, ela estava de calça jeans escura e uma blusa branca com o escudo da Juventus do lado direito do peito. Os cabelos estavam presos para trás e caindo um pouco em seus ombros devido ao tamanho. Seus olhos eram e notei que ela desviou quando tentei focar neles. Ela também aparentava ser bem mais nova do que todos ali.
- Ciao. – Falei automaticamente, olhando para ela e vi que ela demorou para destravar.
- ? – Giorgio falou.
- Ciao! – Ela olhou para ele e depois para mim. – Ah, ciao! – Percebi que ela ficou envergonhada ao olhar para mim e suas bochechas enrugaram quando ela deu um sorriso.
- Gigi, essa é , ela é nossa estagiária de contabilidade, entrou no time faz pouco tempo.
- Prazer em te conhecer. – Ela falou sorrindo e eu retribuí.
- O prazer é meu. – Disse e ela desviou o olhar mais uma vez.
- Vamos, então? – Giorgio entregou o contrato e me deu uma caneta.
- Bem-vindo à Juventus, menino. – Vittorio falou e eu olhei para frente, vendo a tal no fundo da sala agora, tentando se esconder no meio das outras pessoas e eu sorri, mas não era um sorriso para as fotos, era para ela.
Ela era bonita demais para se esconder no meio do pessoal, bonita demais para estar estudando para ser contadora também, mas eu não me importava, só estava feliz por ter alguém mais despojado do que eu e mais ou menos da minha faixa etária ali.
Assinei o contrato, feliz por pelo menos a minha letra ser bonita e me levantei para apertar a mão de Luciano e sorrir para os flashes que estouravam em meu rosto. Virei para Silvano, vendo-o confirmar com a cabeça e o pessoal começou a aplaudir animado e eu assenti com a cabeça para eles.
- Perfeito! – Vittorio falou. – Vamos que a imprensa está esperando.
- Não vai ser uma coletiva, eles vão tirar só algumas fotos e você pode dar uma declaração. Nada demais. – Lauro falou e eu confirmei com a cabeça.
Todo o pessoal começou a sair da sala e eu esperei que todos saíssem, inclusive a estagiária, para ir atrás deles junto de meu empresário. Observei seguindo sozinha um pouco mais a frente e dei um passo mais rápido para poder encontrá-la.
- Ciao. – Falei e ela se virou para o lado, dando um sorriso.
- Ciao. – Ela respondeu.
- Você trabalha há muito tempo aqui? – Perguntei.
- Não, duas semanas, mais ou menos. – Ela ponderou com a cabeça.
- Ah, legal! – Falei, colocando as mãos dentro dos bolsos da calça. – Torce para Juventus ou algo assim? – Ela riu fracamente.
- Ironicamente, eu não sou muito de acompanhar futebol, o estágio foi uma sorte para mim, na verdade. – Ela deu um sorriso de leve, voltando a olhar para seus pés dentro do tênis.
- Você não conhece nada? – Perguntei, ouvindo-a rir fracamente.
- Eu sei um pouco sobre você, se servir. – Ela riu fracamente. – Só falaram de você nessa última semana.
- O que falaram de mim? – Perguntei, curioso e ela ergueu o rosto para mim, dando um sorriso de lado.
- Te chamaram de Superman, que você fez umas coisas bem incríveis no Parma, por isso o valor alto de mercado na transferência. – Assenti com a cabeça, sorrindo.
- E você acha que eu mereço? – Ela franziu o rosto, olhando um pouco para cima para chegar em meu olhar.
- Eu não entendo nada desse mundo ainda, preciso de um pouco mais de experiência para isso. – Ela deu de ombros.
- Se você precisar de alguma ajuda ou algo assim... – Dei de ombros e ela riu fracamente.
- Claro. – Ela sorriu. – Pode deixar. – Percebi que suas bochechas se enrugaram de novo, provavelmente de vergonha. – Vai lá. – Ela acenou com a cabeça para onde os repórteres e fotógrafos estavam posicionados e eu respirei fundo.
- Me deseje sorte. – Falei.
- Não acho que precise. – Ela ergueu o rosto para mim, sorrindo.
- Vamos, Gigi! – Lauro falou e eu suspirei.
Segui em direção onde ele mostrou e respirei fundo, relaxando os ombros e me coloquei em frente às câmeras. Acho que essa era a pior parte, eu não era fotogênico e não me achava muito bonito, além de que eu me sentia meio acuado em fazer isso. No meio de um jogo ou uma rápida entrevista, era fácil, agora ser apresentado quase como um modelo era um pouco pior. Eu nunca ficava bem nas fotos posadas para o Parma.
Foquei em atrás dos fotógrafos e ela tinha os braços cruzados e o corpo apoiado na parede. O que uma pessoa que não entendia nada de futebol fazia em um time de futebol? Era meio loucura pensar na possibilidade, mas me senti na necessidade de contar tudo o que eu sabia para ela, tudo mesmo, inclusive pensava já em quando nos encontraríamos novamente.
- Gigi, algumas palavras, por favor. – O repórter falou e eu me aproximei deles. – Como se sente em estar aqui hoje?
- Estou muito feliz em estar aqui na Juventus, esse time gigante que se mostra cada vez maior aqui na Itália. Vai ser um prazer poder jogar aqui nessa nova temporada. – Sorri.
- Como é ter somente 23 anos e ser o goleiro mais caro da história? – Outro perguntou.
- Nem sei o que é isso ainda. – Ri fracamente. – É um pouco surreal tudo isso, mas espero realmente mostrar para o que vim e deixar minha marca aqui no time. – Sorri.
- Grazie, ragazzi. – Lauro falou e eu acenei com a mão, seguindo Lauro novamente. – Muito bom, Gigi. – Ele falou. – Vamos te levar agora para os exames médicos com Stefano. – Ele falou para o outro profissional.
- Claro, só... – Virei para o lado novamente, procurando a estagiária da contabilidade e o lugar que ela estava antes agora estava vazio.
- O que foi? – Ele perguntou e eu olhei rapidamente em volta.
- Nada! – Falei rapidamente. – Vamos lá. – Sorri.
- Vamos lá! – Ele me repetiu e senti sua mão em minhas costas me empurrando para a outra direção.
Meus olhos giraram em todas as direções possíveis e suspirei, abanando a cabeça. Esperava que aquilo não tivesse sido coisa da minha cabeça, pois ela estava ali há poucos minutos. Entre o sim e o não, só esperava a próxima oportunidade de encontrá-la novamente.



Capitolo due

Lei


Cinco de outubro de 2001


Larguei a caneta e guardei na bolsa, me levantando antes de colocá-la nas costas. Peguei o material embaixo da carteira e a prova em cima da mesa e segui degraus abaixo, vendo o professor me dar um pequeno sorriso e entreguei a prova para ele. Ele me entregou uma caneta e eu assinei a presença ao lado do meu nome.
- Grazie. – Ele disse baixo e eu assenti com a cabeça.
Subi os degraus novamente, seguindo para fora da sala e senti um ventinho gelado passar pelos corredores abertos da universidade. Encontrei Giulia largada no andar de baixo e desci os lances devagar, sentindo os ombros ainda tensionados por causa da prova. Eu amava a profissão que havia escolhido, mas essas provas longas com milhares de cálculos me irritaram um pouco.
Giulia estava deitada no chão, com a cabeça em cima de sua mochila e uma perna dobrada em cima da outra como se fosse a sua casa e seu moletom cobrindo seu rosto dos raios de sol que denunciavam o horário já.
- Giorno! – Falei um pouco alto, empurrando sua perna e ela se assustou, tirando a blusa de seu rosto rapidamente.
- Ei, olha quem apareceu! – Ela falou, se sentando devagar.
- Estava em prova, matemática financeira. – Falei.
- Ah, eca! – Ri fracamente, sentando-se de pernas cruzadas em sua frente. – Não sei como você gosta disso.
- Cada um tem um dom, né?! – Dei de ombros. – E você? Estava me esperando ou teve prova também?
- Os dois, na verdade, mas eu acabei minha prova faz 50 minutos, né?! – Ela me deu um sorriso e eu ri fracamente.
- Desculpe. – Suspirei. – Eu tive pouco tempo para estudar, só queria saber de dormir no fim de semana. – Abri minha mochila, pegando meu lanche.
- É, eu percebi que você não ligou. Aconteceu alguma coisa?
- Ah, é só o trabalho, está um pouco mais cheio do que eu esperava. – Suspirei, dando uma mordida e estendi para ela. – Quer?
- Mas é claro! – Ela riu, dando uma grande mordida no meu lanche de atum. – O que está acontecendo?
- A temporada começou e eu achei que o trabalho ficaria mais calmo, mas não, a gente também cuida dos gastos de cada jogo, eu fico fazendo planilha o dia inteiro e ligando para todo mundo. – Suspirei. – Saí três dias mais tarde para conseguir finalizar.
- Pô, que chato!
- Eu não preciso ficar, sabe? Mas eu estou querendo mostrar serviço. – Suspirei. – Pelo menos a janela de transferência fechou. – Dei de ombros. – Menos um problema.
- E aí? O que está achando do trabalho?
- Estou surpresa como eu estou gostando, fico confusa às vezes, mas o pessoal é bem legal, assim como meu chefe! – Sorri e ela assentiu com a cabeça.
- Isso que é bom! – Sorrimos juntas e eu olhei em volta, vendo se tinha mais alguém conhecido. – Já aprendeu tudo de futebol?
- Eu não vi nenhum jogo ainda, Giulia. – Falei e ela virou o rosto para mim.
- Como não? Já foi umas seis rodadas. – Ela falou um tanto exaltada.
- Não precisa anunciar para faculdade inteira também, né?! – Falei, vendo-a fazer uma careta e olhar em volta. – Mas não, da mesma forma que eu não estou ligando para você, eu não estou vendo. Os jogos são de fim de semana, eu só penso em morrer na cama, isso se não tem prova na semana seguinte. – Suspirei.
- Ah, , qual é, ninguém está te pedindo para ir no estádio, o que seria legal também, é só ligar a porcaria da TV.
- 22 caras correndo atrás de uma bola não me parece a melhor forma de entretenimento, sabia? – Ela bufou, revirando os olhos.
- Você precisa começar a fazer mais parte desse time, realmente se tornar uma juventina, qual é.
- Por que isso é tão importante? Se nem eles se importaram quando me contrataram?
- Aí que está, meu anjo, você precisa pensar no futuro. Fazer carreira no time, o emprego é bom, qual é. Você pode ser efetivada. – Ela disse, bufando. – Diferente de mim que caio fora assim que me formar. – Ela suspirou.
- Talvez te contratem como comissionada, vai. – Falei.
- Valeu, amiga, mas eu vi a realidade lá, é difícil, além de que tem muito estagiário que entrou antes de mim. – Assenti com a cabeça.
- Se eu souber algo no time, eu te aviso. – Ela sorriu.
- Enfim, você precisa assistir a um jogo.
- Eu vou ver um dia, está bem?! – Rimos juntas e ela puxou um papel da lateral de sua mochila, abrindo-a quase como um mapa.
- O próximo é contra o Torino no dia 14 de outubro. – Ela arregalou os olhos. – Oh, é derby! Vai ser bom. – Franzi a testa.
- Quê? – Perguntei.
- São jogos clássicos contra rivais diretos. Juventus e Torino são rivais diretos, pois ambos são da cidade de Turim, sacou?
- Saquei. – Falei.
- Chamam de Derby dela Mole. – Ela falou. – Meu pai odeia ver esse derby.
- Torino perde mais?
- É um time mais fraco, então sim, mas ele se irrita demais. – Ela gargalhou. – A gente pode ver na sua casa, que tal? Podemos pedir uma pizza.
- Domingo? – Perguntei, fazendo umas contagens rápidas.
- É, três da tarde. – Ela falou.
- Acho que pode ser, eu acho que as provas já vão ter acabado. – Finalizei meu lanche, fazendo uma bolinha com o embrulho.
- Assim você também pode ver o Buffon jogar. – Ela piscou e deu um sorriso sapeca para mim.
- Ah, Giulia. Qual é. – Senti meu rosto esquentar e ela gargalhou alto.
- Você já encontrou com ele depois daquele dia? – Ela perguntou, empolgada.
- Não, eu não tenho contato com o time de forma alguma. Eu trabalho no primeiro prédio, o centro de treinamento e parte de treinos são um dos últimos. – Suspirei. – Eu não vou lá a pé. – Falei, rindo debochadamente.
- Ah, mas...
- E eu não tenho tempo, eu chego em cima no estágio e costumo sair um pouco depois do horário de treino. – Ela bufou.
- Ah, qual é, você que me disse que ele não desgrudou de você naquele dia. – Sorri.
- Vai ver ele só estava querendo se enturmar com alguém da idade dele. – Falei e ela riu fracamente.
- Uhum, claro. Com toda certeza. – Ela disse e eu sorri. – Admita, amiga, Gianluigi Buffon ficou caidinho por você.
- Ok, ok, eu admito, mas não estou pensando nisso agora, está bem?
- Ah, desiste do Luigi, tem um Gianluigi prontinho para te...
- Ah, fica quieta! – Joguei o embrulho do lanche em sua direção, ouvindo sua risada ecoar novamente. – E esse trocadilho foi péssimo.
- Assumo, mas...
- E não! Eu só vi o Gianluigi uma vez, posso te garantir que não foi paixão instantânea, pelo menos não para mim.
- Ah, , qual é, você não consegue nem me encarar quando eu falo dele. – Ri fracamente, negando com a cabeça. – Ele mexeu contigo, vai.
- Ele tem um metro e 92 de altura, ok?! Eu sou alta, mas eu me senti uma anã ao lado dele, isso é meio intimidador.
- Quanto maior a altura, maior a mão e sabe o que mais é maior também? – Ela deu um sorriso sacana.
- Sei, o tapa que eu vou te dar com essa mão aqui! – Estendi a minha para ela, fazendo-a rir.
- Sem graça. – Ela revirou os olhos. – Enfim, mas se você não encontra com ele ainda, você pode criar uma paixão platônica por ele, sabe como?
- Como? – Perguntei, desinteressada.
- ASSISTINDO AOS JOGOS! – Ela falou um pouco mais alto e eu revirei os olhos.
- Está bem, eu assisto aos jogos, gamo nele e aí? – Cruzei os braços.
- Aí a gente bola um plano para esse encontro ser frequente. – Ela falou.
- Ah, Giulia, por favor, agora eu preciso focar no fim do semestre e relaxar para as férias de inverno.
- Aí depois vai vir o campeonato e mais provas e as férias de verão e o ciclo é esse. – Ela falou, desanimada.
- Eu acabei de terminar com o Luigi, qual é, deixa eu curtir esse momento de solteira um pouco.
- Eu deixo você curtir o momento de solteira, acho até legal, mas falar que é porque acabou de terminar com o Luigi é um pouco ridículo, já faz seis meses. – Bufei, franzindo os lábios.
- Está bem, mas eu gostava dele, ok? Achei que essa parte de me julgar já tinha passado.
- Não estou julgando, estou tentando te ajudar. – Ela falou firme. – Eu entendo os motivos dele para terminar e tal, mas ele não pensou muito em você, então o certo seria você querer ficar com todos na sua frente e...
- Eu não sou muito dessa, ok?! E ele também foi meu primeiro, ainda não me acostumei tanto com isso. – Ela assentiu com a cabeça.
- Está bem, amiga, entendo. – Ela falou, abrindo um largo sorriso. – Mas me fala...
- Ah, lá vai. – Revirei os olhos.
- Se o Buffon tivesse interessado você topava? – Ela se aproximou de meu rosto, perguntando baixo e eu ri fracamente, desviando o olhar de novo. – Aí a minha resposta! – Rimos juntas.
- Ah, Giulia, eu não fiquei analisando muito o tamanho das mãos, mas só pela altura eu sei que ele deve ter uma pegada boa. – Falei rindo e ela gargalhou.
- Agora estamos falando a minha língua. – Ri fracamente. – Jogo na sua casa, domingo que vem, três horas da tarde, vou levar minhas coisas para dormir lá. – Neguei com a cabeça, rindo junto. – Vamos fazer um dia à lá Buffon.
- Ah, só você mesmo. – Rimos juntas.
- Ei, falando em jogo, será que você não consegue uns ingressos para gente assistir a algum jogo? – Ela perguntou. – Pode ser aqui em Turim mesmo.
- Não sei, não tinha nada disso no meu contrato, e confesso que tenho vergonha de perguntar, principalmente porque eu falei que não me interessava pelo futebol, né?! – Ela franziu os lábios.
- É, isso te queimou um pouco, principalmente por não pensar na sua amiga que ama futebol, mas ok, isso a gente conserta. – Rimos juntas.
- Eu tenho um contrato de dois anos, relaxa. – Falei, vendo-a rir.
- Menos quatro meses, nem vem, daqui a pouco é Natal. A gente precisa aproveitar. – Arregalei os olhos.
- Você é muito imediatista, pelo amor. – Suspirei.
- O tempo passa, amiga, qual é.
- Desacelera aí, vai. Por você a gente já tem 40 anos e não vivemos nada. – Olhei para ela.
- Ou vivemos tudo, depende da forma que você vê o copo.
- Sempre meio cheio. – Falamos juntas a frase da nossa treinadora e rimos.
- Enfim, o que eu preciso saber para ver um jogo de futebol?
- Para ver? Acho que podemos começar pela posição dos jogadores. – Ela falou, pegando rapidamente seu caderno e uma caneta, abrindo em uma folha qualquer.
- Ok... – Falei, vendo-a desenhar um retângulo, depois um círculo, até que percebi o desenho de um campo de futebol.
- No futebol temos quatro posições base: goleiro, defensor, meio de campo e atacante, e eles seguem nesse alinhamento, do gol nosso, até o gol do rival. – Ela fez a setinha. – Temos algumas variáveis como defensor central ou atacante zagueiro, enfim, eles estão começando a trabalhar mais em um jogador ter várias posições para não se prenderem a posição e sim a quem faz mais pelo time.
- Certo... – Falei.
- O goleiro é o cara que fica solitário lá atrás, ele fica sempre para dentro da linha, pois passando dela, se ele estiver com a bola, é gol. – Assenti com a cabeça. – Ele pode segurar a bola com a mão até essa grande área aqui, fora ele é um jogador normal e só pode usar os pés. – Confirmei. – Tudo certo até aí?
- Na paz, pode continuar. – Falei.
- Beleza, o defensor...

Lui


21 de dezembro de 2001


- Ah, que felicidade, meu filho! – Minha mãe me apertou pelos ombros.
- Aqui não, mãe, por favor. – Falei baixo, vendo minhas irmãs rirem.
- Ah, qual é, Gigi, a mamãe só está feliz por você. – Veronica falou.
- Eu sei, mas eu não posso ser sempre o bebê da família, né?!
- Mas você sempre vai ser o mais novo...
- Pelo menos não na festa do meu time. – Falei sugestivamente e ela e Guendalina sorriram.
- Tudo bem, mas estamos orgulhosas de você, vai! – Guendy falou e eu revirei os olhos.
Passamos por entre os fotógrafos na entrada da festa de Natal da Juventus e eu acenei rapidamente para eles, ouvindo-os me chamarem, mas me mantive no aceno. Entrei no local da festa e sorri ao ver a decoração tradicional de Natal misturada com as cores do time. Vi meus pais falando com uma pessoa com uma prancheta e me aproximei.
- Buona sera! – Falei.
- Gianluigi Buffon. – Ela falou rapidamente e eu assenti com a cabeça. – Venham comigo. – Ela disse.
Enquanto nós a seguíamos para nossa mesa, eu dei uma rápida olhada no local, alguns jogadores acenaram para mim, alguns funcionários desconhecidos me encaram e eu comecei a procurar a estagiária da contabilidade no meio da galera. Se era festa para os funcionários, ela estaria ali, não?!
- Quem está procurando? – Guendalina perguntou próximo ao meu ouvido.
- Aquela estagiária? – Veronica perguntou de lado.
- Sim, ela. – Falei, ficando de costas para ambas rapidamente, me colocando na ponta dos pés para olhar por cima do salão.
- Hum, Gigi ficou apaixonado. – Veronica brincou, me fazendo rir.
- Apaixonado não, mas interessado. – Falei. – Eu pensei que a gente se veria mais, mas não. – Bufei, acenando para a moça que nos levou à mesa. – Grazie.
- E não a viu desde a sua contratação? – Guendalina perguntou e meus pais e elas se distribuíram nas mesas.
- Não, nenhuma vez mais. – Suspirei.
- Vai ver é a área de trabalho dela, ela não precisa ficar com os jogadores, nunca pensou em ir na sala da contabilidade? – Veronica falou.
- Eu já fui na sala da contabilidade, bom, na sala do gerente do setor, eles que pagam a gente. – Falei.
- Vai ver é uma sala diferente, é estágio, né?! Não deve lidar com coisas muito diretas como pagamentos. – Guendalina falou.
- Não sei, mas eu fiquei interessado em vê-la novamente. – Olhei ao longe, desviando das pessoas em minha frente. – Ela era... – Suspirei.
- Ih, tem certeza de que não se apaixonou? – Veronica falou, me fazendo sorrir.
- Não tive a chance ainda, mas ela era bonita, sabe? E ela era alta, é difícil achar mulheres altas. – Falei, suspirando.
- Caham! – Ela e Guendalina falaram.
- Que não sejam minhas irmãs. – Elas riram.
- Entendemos, irmão. – Elas me deram tapinhas nos ombros, me fazendo rir.
- Alta quanto? – Veronica perguntou.
- Ah, um pouco mais alta que meu ombro. – Comentei, medindo rapidamente. – Do tipo que eu não ficaria com dor nas costas em um beijo.
- Ah, Gigi! – Elas gritaram, me cutucando na barriga.
- Para! – Falei firme. – Não me façam pagar mico. – Quase supliquei.
- Não prometemos nada. – Elas riram juntas.
- Gigi! – Ouvi uma voz e vi Pavel e Zambrotta.
- Ciao, ragazzi! – Falei, cumprimentando-os.
- Bene? – Eles perguntaram.
A festa propriamente dita começou com garçons passando com bebidas e aperitivos, além de uma música animada orquestrada por um DJ. Os jogadores e gerentes do time passavam ocasionalmente pela mesa para nos cumprimentar e eu também dava umas rápidas voltas para ver se encontrava ela.
O local era bem grande, realmente não tinha ideia de quantos funcionários tinham na Juventus além dos jogadores, mas com certeza era mais do que eu esperava, deveria ter umas 800 pessoas ali dentro, se não mais, além dos familiares que cada um foi liberado de trazer. Eu trouxe mais quatro, se cada um tivesse trazido mais isso, vish! Não conseguia nem pensar. E o espaço era tão grande que não tinha fim.
- Eu já volto. – Anunciei na mesa e tirei o guardanapo do colo, seguindo em direção ao banheiro. A quantidade de cerveja que eu tinha bebido já passava níveis estratosféricos, a bexiga já havia inchado e eu com certeza já estava mais alegre que o planejado.
Quando eu voltei para a mesa, finalmente a vi. Ela estava alguns metros mais longe, conversando e dançando com uma outra menina enquanto tinha na mão algum drink. Ela usava um vestido curto preto, meia calça e uma bota que subia pelas pernas. Sua amiga estava mais empolgada do que ela, quase pulando, ela estava mais contida, somente mexendo os ombros.
Ela percebeu que eu a encarava quando seu olhar se encontrou com o meu. Sua boca perdeu o canudo e percebi que um pequeno sorriso surgiu de seu rosto. Ela estendeu a mão e eu copiei o gesto. Esse movimento fez sua amiga virar o rosto para mim também e ela também abriu um sorriso.
Ambas começaram a cochichar e era claro que falava mil vezes “não” para a amiga e na minha cabeça eu já começava a pensar se não deveria me aproximar dela. Por sorte ou não, sua amiga venceu e ambas vieram em minha direção. Respirei fundo.
- É ela? – Ouvi Veronica atrás de mim.
- Não começa! – Falei entredentes.
- Mas é, não é?! – Foi a vez de Guendalina.
- É! – Falei, respirando fundo.
- Agora vai! – Guendy falou e notei que ambas estavam mais próximas.
- Ciao! – Sua amiga falou, sorrindo e eu olhei para com o olhar baixo.
- Ciao. – Falei, olhando para ela que sorriu.
- Ciao, Gigi. – Ela falou, desviando novamente o olhar do meu.
- Você não é fácil de encontrar, sabia? – Comentei, vendo-a rir fracamente.
- Você também. – Sorri, vendo-a morder seu lábio inferior.
- Ecco... – Ouvi sua amiga e minhas irmãs falarem.
- Ah sim. – Virei para o lado.
- Espera um pouco. – Ela falou rapidamente. – Vocês são Guendalina e Veronica? – Virei para minhas irmãs. – Giulia, olha isso!
- Meu Deus! – Sua amiga falou, animada.
- Da Nazionale de vôlei? – Ela continuou.
- Sim, somos. – Veronica falou, ambas se colocando ao meu lado.
- Meu Deus! Buffon! É óbvio! – Ela gargalhou e percebi que sobrei ali.
- Vocês são fãs? – Guendalina perguntou.
- Sim, nossa! – A tal Giulia falou.
- A gente joga vôlei na faculdade. – falou. – Estamos na final do campeonato universitário.
- Ah, mesmo? – Guendalina perguntou, sorrindo.
- Que posição vocês jogam?
- Eu sou oposto e a Giulia é levantadora. – Ela falou, sorrindo.
- Vocês são bem parcerias, então. – Veronica falou.
- Sim, ela é minha baixinha! – abraçou Giulia de lado e ambas riram.
- Agora faz sentido a altura. – Guendy sussurrou em meu ouvido, me fazendo rir fracamente.
- Quem diria que você é irmão de duas grandes jogadoras da história? – falou para mim e eu ri fracamente.
- Minha família inteira é de esportistas. – Comentei. – Minha mãe era lançadora de disco e meu pai fazia levantamento de peso.
- Ciao. – Vi que ambos se aproximaram e eu contive a vontade de revirar os olhos.
- Ciao, come stai? – perguntou, sorrindo.
- Essa é e Giulia, mãe. A trabalha para o time.
- O que faz? – Minha mãe perguntou, dando dois rápidos beijos nela.
- Eu faço estágio na contabilidade. – Ela sorriu. – Giulia veio como minha família hoje.
- E ouvi que joga vôlei? – Minha mãe perguntou.
- Sim. – Ela sorriu.
- Já pensou em seguir carreira no vôlei? – Meu pai perguntou.
- Estamos tentando com o campeonato universitário, vai que dá certo... – Ela deu de ombros.
- É assim que os olheiros acham mesmo, pode dar certo. – Veronica falou. – Você é oposto, eles adoram quem mata ponto.
- Ela mata bastante. – Giulia falou, rindo. – E é boa no saque, não erra um.
- Isso é ótimo. – Senti alguém me cutucar e vi Guendalina, ela movimentou a cabeça e me afastei um pouco da conversa, dando alguns passos para trás.
- O que foi agora? – Perguntei, irritado.
- Desculpe. – Ela fez uma careta. – Empatamos você, né?!
- Quais são as chances de elas serem suas fãs? – Perguntei em tom de sofrimento e ela riu fracamente.
- É, até eu me surpreendi. – Ela colocou a mão no queixo. – Ela é jogadora de vôlei também, eu e Veronica temos nosso público, ok?! – Ri fracamente.
- Eu sei, mas agora tudo isso foi por água abaixo. – Suspirei.
- Eu sei, me desculpe. – Ela disse e viramos a cabeça para meus pais que conversavam animadamente com ela. – Pensa bem, pelo menos ela já conheceu a família inteira, vai ser mais fácil quando virarem namorados. – Suspirei.
- Tem nem como eu pedir o número dela assim, qual é! – Neguei com a cabeça.
- Desculpe. – Ela disse, fazendo uma careta e eu suspirei.
- Eu vou fumar. – Falei, colocando a mão no bolso.
- Ei, vai nada! – Ela me puxou pelo ombro. – Fica aqui e acompanha o papo, vai quê? Vai criando afinidade, pô.
- Como com a mãe e vocês em cima dela? – Ela riu fracamente.
- Qual é, Gigi, você não quer só entrar nas calças dela, quer? – Ela olhou sugestivamente para mim.
- Não, quero conhece-la, mas com vocês aqui perto, minha tarefa acabou de ficar um pouco mais difícil. – Suspirei.
- Pensa pelo lado positivo, a mãe está em um papo superanimado com ela, ela gosta de mim e da Veronica, então tudo isso já é ponto para você, além de que ela vem na festa de fim de ano da empresa, a gente não vem ano que vem e pronto. – Ela deu de ombros.
- Deus, eu vou precisar esperar um ano? – Franzi os olhos. – Ela é estagiária, ela pode não estar aqui ano que vem.
- Fica aqui e analisa o papo. – Ela disse e me deixou sozinho, voltando para o papo. Suspirei e fiz o mesmo.
- Então, , você disse que é estagiária, faz faculdade aqui em Turim mesmo? – Guendy perguntou.
- Sim, Ciências Contábeis pela UNITO. – Ela falou, sorrindo.
- Ah, bacana. E você está em que ano? – Ela perguntou e eu ri fracamente. Minha irmã era demais.
- No terceiro, tenho a finalização dele e depois o quarto. – Ela falou.
- Ah, legal e você pretende ficar aqui na Juventus? – Guendy perguntou.
- Sim, eu tenho contrato até me formar, mas espero que me efetivem, estou gostando bastante daqui. – Ela sorriu e vi a mão de Guendy se estender atrás de meus pais e bati na dela, rindo fracamente.
- E você gostava de futebol quando veio para cá, como foi? – Minha mãe perguntou.
- Ironicamente, não. – Ela riu, encabulada. – Tudo o pouco que eu sei de futebol foi a Giulia que me ensinou. Eu sou mais do vôlei mesmo.
- Ah, mas aprende. – Veronica falou. – O Gigi nos ensinou muita coisa sobre futebol, aposto que ele pode te ensinar muitas coisas também. – Tentei manter minha feição calma, mas eu queria encontrá-la com meu pensamento.
- Claro. – respondeu e virei rapidamente para ela, vendo-a sorrir levemente.
- Quando quiser. – Disse, sentindo Guendalina me cutucar por trás e dei um tapa em sua mão.

Lei


13 de abril de 2002


Observei as adversárias erguerem a bola e pulei junto de Antonia, sentindo a bola batendo na ponta dos dedos e virei rapidamente para trás. Martina pegou de mal jeito, debruçando na quadra, mas ergueu, a bola passou para Giulia e ela olhou para mim. Assenti com a cabeça e ela ergueu em minha direção. Pulei próximo à rede e enchi a mão na bola.
As adversárias recuperaram a bola, fazendo quase o mesmo tipo de jogo que a gente e, de repente, a bola havia passado para nosso lado. Monica a recebeu e a bola foi muito para o lado, fazendo com que Giorgia precisasse sair da quadra para alcançar, mas ela caiu no chão antes que ela chegasse.
- Cazzo! – Reclamei, respirando fundo.
As jogadoras se juntaram no clássico cumprimento e vi a bola vir em minha direção. Suspirei, olhando para minhas companheiras de time e bati a bola contra o chão algumas vezes e fui para o fundo da quadra. Olhei para o placar e respirei fundo. Estava 25x25. Estávamos liderando por 15 pontos de diferença, foi só a gente relaxar e elas haviam aproximado. Iríamos até 27, então.
Soltei o ar pela boca devagar, desligando os ouvidos dos gritos e buzinas que tocavam no ginásio da universidade e ouvi somente a bola quicando no chão e voltando para meus dedos enfaixados. Segurei-a, ouvindo o apito e suspirei. Dei dois passos compridos, ergui a bola com a mão esquerda e senti a mão direita bater com força nela, causando um estalo forte e a bola foi com tudo para o outro campo.
No que meus pés bateram no chão novamente, o tempo voltou ao normal. Elas pegaram na bola meio desajeitada, mas pegaram! A bola passou para nosso campo e Giulia não perdeu o tempo, já levantou a mesma. Atravessei o campo com Antonia e meti a mão na bola para baixo, vendo-a bater com tudo no chão, deixando as defensoras do outro campo também no chão.
- Isso! – Giulia gritou, sendo a primeira a vir me abraçar e nos abraçamos, rindo.
- Só mais um, gente! – Antonia falou, batendo uma mão na outra.
- Só mais um! – Giulia aproximou o rosto do meu e eu assenti com a cabeça.
- Só mais um! – Disse baixo, voltando para o fundo da quadra, recebendo uma bola.
- Faz um especial! – Ela disse e eu ri fracamente.
- Nem vem! – Falei e olhei para frente.
O nosso especial era quase um suicídio nessa altura do campeonato, era sacar de forma que a bola desse a impressão de ir para fora, distraindo as adversárias, mas a bola acabava batendo poucos centímetros antes da linha, isso se não tocassem nela antes e o jogo seguisse.
Voltei para o fundo da quadra, sentindo os braços já arderem devido ao quinto set seguido e minha cabeça começou a funcionar rápido demais com a ideia. Se acertasse, seria vitória na certa, se eu errasse, tudo se igualaria e precisávamos de mais dois pontos de diferença. Olhei para meu lado direito, vendo três pessoas mais bem arrumadas no meio da moçada da faculdade, bem que a treinadora disse que teríamos olheiros ali hoje.
Ouvi o barulho da bola bater no chão normalmente quando eu me posicionei no fundo da quadra novamente e suspirei. Olhei para minhas companheiras e Giulia mostrava o número cinco atrás das costas, o número do especial. Virei o rosto para minha treinadora e ela já estava descabelada com isso tudo. O jogo foi seguindo, seguindo, seguindo e deixamos chegar a isso.
Ouvi o apito e engoli em seco mais uma vez, me fazendo respirar fundo. Ajeitei a bola na minha mão esquerda, estendendo-a e olhei para as adversárias posicionadas ali. Observei o local vazio no centro da quadra e era ali. Elas jogavam na posição 6-0, e a jogadora central estava mais perto da rede do que da quadra. Era perfeito.
- Cazzo! – Reclamei, rindo sozinha e suspirei, dando dois passos para frente e ergui a bola, deixando que a direita enchesse a mão na bola.
A expectativa andou em câmera lenta para mim. A bola saiu retinha na rede, enquanto meu corpo era fincado no chão novamente. A bola passou para o outro campo e fiquei marcando o ponto exato em minha mente, quase como se realmente tivesse um X vermelho marcado ali. Voltei para minha posição, engolindo em seco e vi a jogadora do meio tentar recuar quando percebeu onde a bola atingiria.
O estouro da bola no chão fez com que o tempo voltasse ao normal novamente e Giulia foi a primeira a vir em minha direção, me segurando pelas pernas e me erguendo no alto, me fazendo gritar e vi que a torcida da nossa faculdade já invadia o campo com a gente.
- VENCEMOS! – Giulia gritou a plenos pulmões, me fazendo gargalhar.
- VENCEMOS, CAZZO! – Gritei, sentindo-a dar um forte beijo em minha cabeça e encostar nossas testas.
As outras jogadoras e as reservas vieram nos abraçar e começamos a pular pela quadra, enquanto os torcedores da nossa faculdade gritavam à nossa volta, querendo participar da nossa comemoração, mas aquilo era nosso! Nosso mérito.
- SIAMO NOI! SIAMO NOI! I CAMPIONI DELL’ITÁLIA, SIAMO NOI! – Começamos a gritar, pulando e rindo.
- Parabéns, meninas! – A treinadora falou, passando uma a uma para abraçar. – Genial, ! – Ela falou, segurando meu rosto com as mãos e eu sorri.
- Ideia da Giulia! – Falei e ela gargalhou.
- Minhas duas louquinhas! – Ela falou e eu ri fracamente, sentindo-a me apertar pelo pescoço. – Os olheiros gostaram do que viram! – Ela falou e Giulia piscou para mim.
- Isso que a gente estava falando! – Ela me abraçou pelos ombros, me fazendo rir.
- Vão lá receber as medalhas! – A técnica falou, nos empurrando e rimos juntas.
A bagunça ainda estava formada no meio da quadra, como o jogo era em Turim, nossa faculdade estava em peso lá, mas conseguiram montar um pódio. O campeonato universitário era bem-visto aqui, jogamos contra uma universidade de Roma e havíamos ganhado, era simplesmente sensacional. Tinha um ano ainda de faculdade, um ano ainda para mostrar nosso valor e, com sorte, ser chamada para algum time profissional.
Não que eu fizesse questão de ser jogadora de vôlei profissional, longe disso, mas posso garantir que a grana seria muito mais fácil, apesar de que eu estava gostando e muito da minha vida na Juventus, só que também tinha consciência que dificilmente isso seria para a vida. Só a vida iria me dizer, mas ter um plano B seria uma boa.
Conseguiram despachar o pessoal de volta para as arquibancadas e eu pude, finalmente, cumprimentar as nossas rivais. Dei um rápido abraço e um beijo em cada uma, como capitã, eu precisava dar o exemplo. Ganhar de Roma era sempre bom, pois elas sempre nos zoavam, desde a primeira competição, então minha vontade é falar “toma essa”, mas eu fiquei feliz pelo exemplo. Elas receberam as medalhas de prata, se colocando no lado mais baixo do pódio e formamos uma fila para poder receber as nossas.
As meninas não paravam de gritar e pular e, enquanto cada uma das 11 anteriores recebiam suas medalhas, a gente gritava o nome delas, vendo a torcida nos animar. Quando chegou a minha vez, elas também gritaram e eu abri um largo sorriso, feliz por ter realmente encontrado meu lugar aqui.
Me coloquei para andar, me colocando na frente do responsável pelos jogos e ele colocou a medalha em minha cabeça, me dando dois beijos e eu sorri, agradecendo com um aceno de cabeça. Seguimos lado a lado alguns passos e ele me entregou o esperado troféu. Quem olha de fora deve achar que era besteira, mas os jogos universitários eram bem famosos na Itália, o pessoal realmente aloprava com isso e só as 12 melhores faculdades de cada modalidade participava, e o vôlei sempre estava dentro, mas era a primeira vez que esse time ganhava.
Segurei o troféu entre minhas mãos, seguindo até o meio do pódio e subi nele, sentindo minhas amigas me ajudarem. Fiz uma gracinha com ele e o ergui, gritando junto de minhas amigas e do pessoal da arquibancada, me fazendo gargalhar.
Tiramos algumas fotos e o troféu começou a passar de mão em mão, me fazendo sentar no chão e relaxar um pouco. Cinco sets direto era algo que nem a gente estava acostumada, ainda mais cinco de 25, o negócio foi aumentando e aumentando até o apito final ser soado. Meu corpo estava doendo demais devido a tensão e aquilo daria uma travada boa à noite. Ainda bem que era sábado e amanhã eu poderia descansar o dia inteiro.
- Ei! – Ergui o rosto, vendo Giulia se sentar em minha frente. – Va bene?
- , un po’ stanca. – Suspirei.
- Eu também estou. – Ela suspirou. – Você fez o especial! – Ela disse, me fazendo rir fracamente.
- Comecei a pensar o que a gente perderia se eu errasse...
- Nada! Você nunca erra! – Ela disse e eu ri fracamente.
- Pode acontecer! – Falei, suspirando e mexi no ombro. – Ah, estou dolorida.
- Eu também, quero uma massagem.
- Nem fala. – Ri fracamente. – Pelo menos amanhã é domingo, podemos relaxar o dia inteiro.
- Amanhã tem jogo! – Ela disse.
- Ah, que jogo o quê, deixa eu dormir! – Ela sorriu.
- É Juve e Milan, é jogão, poxa! – Sorri.
- Eu vou pensar, ok?! Eu real preciso descansar. – Suspirei.
- Eu também, mas valeu à pena. – Ela esticou a mão para mim e eu bati, sorrindo. – Agora faltam menos de dois meses para as aulas acabarem, a temporada do futebol também está acabando... Já sabe como vai ser suas férias? – Ela perguntou.
- Tenho nem ideia. – Suspirei. – Mas o último jogo do campeonato é dia cinco de maio, depois eles têm a final da Coppa Italia nos dias 25 de abril e 10 de maio consecutivamente, aí acaba. – Estralei o pescoço.
- Mas você tem férias, não tem?
- Tenho sim. – Falei. – Eu vou me informar, você tem algum plano?
- Não sei, pergunta para o Buffon. – Revirei os olhos.
- Ah, você está obcecada, Giulia, eu não tenho tido nenhum contato com ele desde o Natal, ou melhor, eu nunca tive. – Falei firme e ela gargalhou, se levantando.
- Bom, você deixou o coitado chupando o dedo na festa de Natal, né?! – Ela esticou as mãos e me ajudou a levantar.
- Eu não deixei ninguém fazendo nada, mas não é culpa minha se as irmãs dele são Guendalina e Veronica Buffon, qual é. – Ela riu.
- É, eu fiquei surtada também, confesso, pior que eu nunca fiz a ligação, sabia?
- Eu também não. – Falei firme. – Quem diria...
- Acho que elas seriam ótimas cunhadas e eu não tenho interesse nenhum nisso. – Ela passou o braço pelos meus ombros, me fazendo negar com a cabeça.
- É claro que não. – Revirei os olhos, seguindo com ela de volta para o vestiário.
- Mas eu acho que você está perdendo a oportunidade da vida, qual é, ele é...
- Ele é o maior goleiro da atualidade, Giulia, por que ele daria bola para mim? Eu sou só uma estagiária. – Suspirei. – Ele deve ter modelos aos pés dele diariamente.
- Não sei, mas ele parecia bem encantadinho por você, eu aproveitaria antes que ele conheça alguma modelo. – A empurrei para longe. – Ai!
- Eu também tenho meus valores, ok?! – Empurrei a porta do vestiário, vendo-a seguir atrás de mim.
- É por conhecer seus valores, amiga, que eu digo isso. – Ela sorriu e cumprimentamos algumas meninas que já tinham entrado. – Investe! Investe! – Ela falou firme e eu abri meu armário.
- Do que estão falando? – Antonia perguntou e eu bufei, me sentando no banco e tirando os tênis.
- Estou falando para investir no Buffon, ele é irmão da Guendalina e da Veronica, qual é, seria perfeito. – Giulia falou e eu puxei as joelheiras também.
- Ah, ele é bonito. – Antonia se sentou ao meu lado. – Você está afim dele? – Ela perguntou e eu bufei.
- Ele me... Deixou intrigada, ok?! – Falei, vendo as duas gargalharem.
- Eu não o acho tão gato, acho ele meio estranho, mas iria super pelo investimento. – Martina se aproximou também.
- Ele é intrigante. – Suspirei.
- Ele é gato e ele é simpático com ela, ele está na sua, amiga. – Suspirei, revirando os olhos.
- A gente não tem contato, caramba. São duas áreas totalmente diferentes do time, vocês sabem o tamanho daquele lugar? Eu canso quando eu preciso ir no administrativo, imagina se eu fosse para o CT?
- INVESTIMENTO! – Giulia falou alto e eu revirei os olhos.
- Você só está pensando no dinheiro e na carreira por causa das irmãs. – Falei, olhando-a firme nos olhos.
- Não, também não, qual é, você viu o tamanho das mãos dele? Cazzo, ! – Ela revirou os olhos. – Imagina aquilo te pegando de jeito. – Ela espalmou minha coxa, me fazendo rir fracamente. – Ter um parceiro sexual decente na vida também é algo incrível.
- Falou a expert no assunto. – Ela me deu a língua.
- Eu não sei de nada disso, mas acho que a Giulia está certa, . – Martina falou e viramos para ela. – Se o cara gosta de você, vai fundo. Quantas de nós pode falar que um jogador de futebol rico e famoso olhou para gente? – Suspirei.
- Eu não sei, ele é fofinho, sabe? Mas é o que a Giulia falou, só o tamanho das mãos me diz que ele não deve ser fáci...
- Pequeno. – Giulia falou rapidamente.
- Ah, para de pensar só naquilo! – Dei dois tapas em seus ombros, ouvindo-as gargalharam. – Vamos parar esse assunto, ok?! A temporada está acabando e eu não vou mais vê-lo, isso é fato.
- Você precisa começar a ir em jogos, vê-lo mais. – Giulia falou, me fazendo suspirar.
- Não me dão ingressos como estagiária e não quero gastar meu salarinho suado nisso, ok?! – Falei firme.
- Ok, então vamos focar em você ser efetivada no final da faculdade. Meta de vida! – Ela falou.
- Se não for para ficar com ele, , pensa na carreira que você pode fazer lá dentro. – Antonia falou e eu suspirei.
- Eu sei, é o que eu mais penso. – Suspirei.
- Além de vários outros jogadores que entram e saem dos times todos os anos. – Ela disse.
- O Del Piero é gato também, vai. – Martina falou e eu ri fracamente.
- O Del Piero tem 26, ele é areia demais para o meu caminhãozinho. – Rimos juntas.
- E o Buffon não? – Giulia perguntou.
- O Buffon já gostou de mim, aparentemente, ok?! Já temos um avanço. – Falei e elas irem. – Mas vamos mudar de assunto, chega da minha vida pessoal! – Me levantei rapidamente.
- Ok, , mas se vale de algo, a Giulia tem razão, é um investimento em vários níveis. – Martina disse, piscando para mim e rimos juntas.
- Ah, vamos nos arrumar que eu ainda quero pizza de celebração. – Empurrei as três e elas gargalharam, cada uma voltando para seu armário.
- Eu queria um Buffon de celebração, isso sim. – Giulia falou e eu revirei os olhos.

Lui


Cinco de maio de 2002 • Trilha SonoraOuça


Quando entrei no Stadio Friuli e vi os torcedores gritando por nós, eu já tinha a responsabilidade cravada em minhas costas. Sabíamos que a única coisa que poderíamos querer agora era uma vitória. Com a vitória do Lazio em cima do Internazionale por quatro a dois e vitória da Roma por um a zero em cima do Torino, isso abria nossas portas para ganharmos em cima da Udinese e finalizássemos o campeonato em primeiro lugar.
Estávamos em terceiro com 68, Roma em segundo com 70 e Internazionale em primeiro com 69. A diferença era que éramos os únicos com um jogo a menos e ele se resolveria agora, três da tarde, em Udine.
A Udinese estava com 40 pontos, mas já tinha saído da zona de rebaixamento com Verona, Lecce, Fiorentina e Venezia perdendo nos jogos de hoje, então eles não fariam questão de três pontos, não mudaria nada para eles, mas estávamos na casa deles e com a torcida deles, apesar de ter muito preto e branco embaixo daquele sol de cinco de maio.
Garantir nossa vitória foi fácil. Trezeguet abriu o placar aos dois minutos de jogo e Del Piero alongou a diferença aos 11, então sobrava 79 para gente aguentar todas as tentativas de ataque da Udinese. Fiz algumas defesas cruciais para conseguirmos manter o placar de dois a zero, mas quando o apito final foi soado, eu simplesmente me perdi!
Era o meu primeiro ano no time e havíamos ganhado o scudetto! Não passamos da fase de grupos da UEFA e tínhamos a final da Coppa Italia em alguns dias e estávamos indo com vantagem para Parma, mas o campeonato italiano era nosso! O pessoal estava aloprando já e com a perda massacrante da Inter, não poderia ficar melhor.
Os torcedores invadiram o campo segundos após a finalização do jogo e, antes mesmo que eu pudesse chegar em algum dos meus companheiros de time, eu já havia perdido as calças e a blusa. Ainda entenderia essa fissura no pessoal em deixar os jogadores seminus em pleno campo, mas quem se importava? O scudetto era nosso!
Jogadores e seguranças chegaram em mim com a mesma rapidez que os torcedores. Não tinha como fugir, eu estava encurralado, então só saí abraçando quem é que aparecia no meu campo de visão. Del Piero, Conte, Pavel, Thuram, Zambrotta e deixei que a loucura dos torcedores começasse a ser exalada por mim e aproveitei.
Encontrei o técnico e ele me deu um forte abraço, falando palavras de apoio para mim, ele poderia ter me xingado de todos os nomes que eu não saberia repetir o que ele disse, mas me fez rir naquele momento. Apareceram faixas, banners, mais torcedores e a festa era bianconera. Por um momento eu perdi os jogadores da Udinese para cumprimentá-los, mas não estava pensando muito nisso, só queria saber de curtir a festa.
Del Piero conseguiu levantar o 26ºscudetto da Juventus minutos depois. Os torcedores ainda estavam em cima, mas não tinha como conter e nem ter uma celebração apropriada. Ainda ganhamos o prêmio de melhor artilharia com 64 gols no campeonato e eu ganhei o prêmio de melhor goleiro com a melhor defesa. Foram 19 jogos sem levar gol, era meia temporada, então era bem legal!
As comemorações se seguiram para o vestiário e a festa com champanhe se alongou por mais algumas horas. Até Lippi foi para a banheira gelada e a gente simplesmente não conseguia parar. Alguns repórteres entraram no vestiário para poder falar com a gente, mas só saíam de lá molhados igual a todos.
Apesar de toda adrenalina, eu só conseguia pensar no dia seguinte, ainda tínhamos alguns dias de temporada com a final da Coppa Italia, depois era um mês de descanso e eu estava precisando disso. A temporada foi boa demais, mas eu estava exausto. Precisava realmente desse tempo para me preparar.
Apesar de que eu já havia recebido uma ligação de Giovanni Trapattoni, técnico da Seleção Italiana, e ele queria me convocar daqui três dias para o Mondiale no Japão e Coreia do Sul, então o tempo para descanso seria pouco, dia 17 seria o último amistoso e dia três de junho a gente estrearia na competição. Então seria uma semana agora e um pouco após a finalização da competição, se Deus quiser, com a taça de volta.
Apesar de querermos ir para casa e levarmos o prêmio para o pessoal que trabalhava nos bastidores, a festa se alongou bastante. Conseguimos sair para valer do vestiário do Udinese por volta das dez da noite. Premiação, festa, coletiva e organizar tudo acabou levando mais tempo que o esperado, mas depois da aguaceira rolada no vestiário, precisamos encontrar roupas secas para voltar e quem disse que encontramos?
Acabamos por dormir em Udine mesmo e pegamos o trem sete da manhã de volta para Turim. Apesar de também ficar no Norte, Udine ficava quase na Eslovênia, então foram umas nove, dez horas de viagem de volta para Turim. Ficamos curtindo no hotel até quase três da manhã, então acordar cedo fez o ânimo do pessoal se apagar drasticamente, então todo mundo capotou assim que nos ajeitamos em nossas poltronas.
Chegamos em Turim quase cinco da tarde e estávamos prontos para sair em carreata pelas ruas da cidade para celebrar junto de nossos torcedores, mas não sem antes ir até o CT levar o prêmio para o pessoal que não pôde nos acompanhar. Quando percebi que estávamos dentro do horário de expediente de , fiquei empolgado em vê-la novamente.
Eu sei que estava vivendo uma experiência levemente frustrada em estar caidinho por ela, mas em cada uma das oportunidades que eu a via, eu ficava cada vez mais intrigado com ela e queria saber mais sobre ela, sair com ela e o que a vida mais me permitisse, nem que eu ficasse vivendo à distância até isso acontecer.
Assim que chegamos de volta ao CT, os funcionários já estavam em peso para nos recepcionar e nunca havia me dado conta de quantas pessoas trabalharam por trás, creio que passava de 200, sem contar o resto da equipe que estava com a gente. Eu não conhecia mais da metade, mas nosso capitão, Del Piero, não se intimidou e desceu do ônibus com a taça, recebendo gritos e aplausos do pessoal.
Acho que agora eu entendia o que era ser capitão de um time. Era ser capitão de todos que faziam parte do time e não só dos jogadores. Ele foi em direção ao pessoal, a taça começou a passar de mãos em mãos, os abraços e os gritos começaram e eu só conseguia olhar para aquela cena com orgulho do que eu havia conquistado em um ano de time.
Recebi abraços de um pessoal do alto escalão, acenos de outro pessoal, mas eu estava totalmente avoado, só queria encontrá-la, de preferência antes de tomarmos as ruas de Turim. Dei uma andada pelo estacionamento, procurando entre o pessoal sentado no chão, encostado nas entradas dos prédios, até que eu a vi.
Um sorriso se formou em meu rosto inevitavelmente. Ela estava da mesma forma que eu havia visto-a na primeira vez: calça jeans, tênis no pé e a camiseta polo branca do time. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto, ela tinha um copo na mão e conversava com um colega próximo à entrada do prédio principal.
Me aproximei dela devagar, percebendo que seu olhar se encontrou com o meu e ela cochichou algo com seu colega e se afastou dele devagar. Ela bebeu o que restava em seu copo e jogou em uma lata de lixo ali perto.
- Ciao, Gigi! – Ela falou, sorrindo.
- ... – Falei com o mesmo sorriso no rosto.
- Parabéns pelo título! – Ela falou, me abraçando pelo pescoço e confesso que fiquei surpreso e travado com esse movimento, mas não perdi a oportunidade de apertar suas costas com as mãos. – Acho que o pessoal fala sério quando diz que você é bom mesmo. – Ela disse, se afastando e me contive em manter seu corpo mais próximo do meu.
- Eu fui contratado para isso! – Falei, vendo-a rir fracamente.
- Acho que aquele valor todo compensou, então. – Ela deu de ombros, sorrindo.
- O título não é só nosso, você sabe disso, certo? – Ela suspirou, olhando para a bagunça.
- Eu sei, mas as vezes eu me sinto meio fajuta aqui no meio do pessoal. – Ela riu fracamente. – Não entendo nada. – Sorri.
- Você está assistindo aos jogos, não? Sua amiga parece entender bastante. – Apoiei as costas na parede.
- Quase todo domingo estamos vendo os jogos, eu não tenho descansado mais de domingos por causa dela. – Rimos juntos. – Nem quando finalizamos o torneio de vôlei. Eu só queria dormir e ela “vamos ver o jogo, vamos ver o jogo”. – Gargalhei ao seu lado.
- E o que você está achando? – Perguntei, cruzando os braços.
- Nós ganhamos, então estou adorando! – Ela falou, me fazendo gargalhar. – É brincadeira, mas estou gostando sim. Você é bom mesmo. – Sorri.
- Obrigado. – Olhei para ela.
- E agora, o que acontece? – Ela perguntou, virando o rosto para mim.
- Como assim? – Perguntei.
- Férias? Descanso em ilhas gregas ou você é do tipo mais caseiro que vai para casa? – Rimos juntos.
- Eu vou ter pouco descanso, na verdade, vou para o Mondiale. – Ela arregalou os olhos.
- Meu Deus! Verdade! Vai começar, né?! – Ela falou surpresa demais.
- Vai sim, começa dia 31 de maio agora. – Ela sorriu.
- E você vai jogar?
- Sim! – Ri fracamente.
- Meu Deus! – Ela riu fracamente. – Isso é incrível, parabéns! – Ela riu sozinha. – Espero que vocês ganhem! – Ela suspirou.
- Também espero. – Rimos juntos e notei-a morder o lábio inferior, deixando um pequeno sorriso no rosto.
- Pelo menos eu vou ter mais jogos para ver nas minhas férias. – Sorri.
- Você vai ficar por aqui? Vai visitar sua família? – Perguntei.
- Vou ficar por aqui mesmo, minha amiga vai viajar com a família, me chamou para ir junto, mas não decidiram ainda para onde. – Sorri. – Mas eu devo voltar antes de vocês.
- Então, isso quer dizer que eu vou te ver na próxima temporada? – Perguntei, virando o rosto para ela.
- Acho que sim. – Ela sorriu, virando o rosto para mim. – Eles fizeram minha avaliação de estágio há uns dias e estão gostando do meu desempenho.
- Você vai longe! – Disse.
- Como você sabe disso? – Ela virou o corpo para mim, colocando as mãos nos bolsos da frente da calça.
- Eu não sei, mas ia gostar de te encontrar aqui outras vezes. – Ela sorriu, rindo fracamente.
- Talvez até com hora marcada... – Ela deu de ombros, sorrindo.
- Eu ia gostar. – Falei, vendo-a sorrir.
- Posso dizer algo? – Ela perguntou.
- Claro. – Falei e ela riu fracamente.
- Eu prefiro seu cabelo mais cumprido, esse corte não te valorizou em nada. – Ela disse, gargalhando em seguida e eu passei a mão em meus cabelos ralinhos.
- Eu perdi uma aposta. – Falei, brincando e ela sorriu.
- O bigode também não ajudou. – Ela mordeu o lábio inferior, fazendo uma careta.
- Ok, já entendi! Mais longo é melhor?
- Com certeza! – Ela disse, rindo em seguida.
- Gigione! – Ouvi um grito e vi Pavel se aproximar.
- Fala, Pavel! – Falei, sentindo-o me abraçar fortemente.
- Vamos andar pela cidade, cara! – Ele falou e eu ri fracamente.
- Alguém já está mais para lá do que para cá! – comentou e ele virou para ela.
- ! – Ele falou, animado, passando o braço pelos seus ombros. – Gigi, essa é a , ela é da contabilidade. – Ele falou e bateu a mão na testa, me fazendo rir fracamente. – Ela estava lá quando eu assinei com o time.
- Estava quando eu assinei também! – Falei. – Somos amigos. – Ela olhou para mim por cima de Pavel, escondendo um riso entre os lábios.
- Por que você está escondida aqui? Vamos lá, você precisa se enturmar mais com a gente! Vamos, vamos! – Ele começou a puxar .
- Pavel, não! – Ela falou, me fazendo rir. – Eu não sou do tipo que se enturma assim.
- Agora vai ser! – Ele falou. – Vem também, Gigione! – Ele me puxou pela blusa e saí gargalhando com ele, vendo os olhos arregalados de .
- Ele é louco! – Ouvi-a dizer.
- Pode ser, mas ele está certo, você precisa se enturmar com o pessoal! – Comentei, dando de ombros. – Quem tem amigos, tem tudo na vida. – Arqueei os ombros e ela sorriu.
- Talvez você esteja certo. – Ela disse, me puxando pelo braço e fomos enfiados no meio da galera.



Capitolo tre

Stagione 2002/2003
Lei


18 de junho de 2002

- Vai, Gigi! – Me levantei, apressada, suspirando quando ele pegou a bola. – Ufa! – Falei baixo.
- Você está mais surtada do que eu e eu não sabia que era possível. – Giulia falou e eu me joguei ao lado dela novamente, enchendo a mão de pipoca e levando à boca.
- É que eu não gosto de vê-lo levando gol. – Fiz um bico, colocando as pipocas uma a uma na boca.
- Você está super a fim dele, .
- Não é isso, é só que... – Dei de ombros. – Ele é meu amigo.
- Uhum, amigo? Vocês nunca saíram juntos, qual é! – Ela falou, apoiando os braços nos joelhos.
- A gente não se encontra lá na Juventus, eu já te falei isso um milhão de vezes. – Ri fracamente, assistindo ao jogo das oitavas do Mondiale.
- Mas você já foi lá na área de treinos? Uma coisa é você não poder ir, outra coisa é você não tentar. – Ela disse e eu suspirei.
- Não, mas é que...
- Você está no time há um ano, , aposto que pode dar uma voltinha lá na área de treinos. – Suspirei.
- Eu não sei, não sei se ele gosta de mim desse jeito. – Ela virou o rosto para mim.
- Você nunca vai descobrir se não tentar. – Ela falou. – Ele me pareceu bem interessado na festa de Natal.
- Mesmo? Para mim ele pareceu desinteressado. – Coloquei mais algumas pipocas na boca.
- Bom, a gente ficou em cima das irmãs dele, né?! Não teve muito espaço. – Gargalhamos juntas.
- Vai, Gattuso! – Giulia gritou, se levantando quando o jogador italiano se aproximou do gol, dando um tiro forte, mas o goleiro sul-coreano defendeu a bola. – Ah! – Ela reclamou. – Assim não dá!
- Calma, ainda tem um tempo. – Suspirei.
- É a prorrogação, se não resolver agora vai para pênalti, você quer ver seu garoto encarando uma disputa de pênalti? – Ela falou alto para mim.
- Ele não é meu garoto...
- Porque não quer.
- E não, não quero. – Ignorei-a, suspirando e deslizei o corpo no sofá. – E eu estou falando dos pênaltis.
- Mas você quer ficar com ele? – Ela virou para mim.
- Eu não sei, ok? Parece meio fora da minha realidade. – Apontei para televisão.
- É um pouco fora da realidade sim, mas você trabalha na realidade dele, qual seria o problema? – Ela se virou para mim.
- Eu não sei, jogador de futebol tem uma fama ruim, acabei de terminar com o Luigi e...
- Faz um ano, ! Por favor. – Ela falou e eu ponderei com a cabeça.
- Ok, mas...
- E agora tem um Gianluigi na parada... – Ela fez a piadinha ridícula com os nomes mais uma vez e eu revirei os olhos, ouvindo-a gargalhar sozinha no sofá.
- Você é ridícula, Giulia. – Falei, cruzando os braços.
- Só estou zoando contigo, mas já faz um ano para valer, se for essa a sua desculpa, sinto muito, não vai colar. – Ela disse.
- Ok, vou voltar ao fato de que jogador de futebol tem fama ruim, é mulherengo, não vale nada...
- Estou falando só para você dar uns beijos no cara, não prometer amor eterno e casamento. – Ela falou mais calma.
- Eu sei, mas ele é um cara legal, sabe?
- Então! Se ele é um cara legal e está te dando bola, aproveita! – Ela falou, enfiando a mão no balde de pipoca e eu suspirei.
- Eu não sei quando vou vê-lo de novo...
- Logo mais se eles NÃO FIZEREM A PORRA DE UM GOL E VOLTAREM PARA CASA! – Ela gritou com a televisão, jogando uma pipoca nela.
- Cata agora, eu limpei a casa ontem. – Falei e ela se ajoelhou no chão para pegar. – E se ele não quiser nada comigo?
- Meu Deus! Nem beijou o cara e já está sofrendo por antecipação. – Ela falou, virando o corpo no sofá. – , você é bonita, incrível e chamou atenção do goleiro mais caro da história! – Ela falou. – Não sei se ele vai querer namorar contigo, o que vai acontecer no futuro ou se o beijo vai ser bom, sei lá, mas ele está te olhando, ele está indo atrás de você, começa por aí. Depois você vê se vai dar namoro ou é só uma paixão boba. – Ela deu de ombros.
- É, você tem razão. – Disse, suspirando.
- AGORA FAZ ESSE GOL, VIERI! – Ela gritou para o atacante ou centroavante da Azzurra e eu suspirei.
- Você está começando a me dar dor de cabeça. – Falei, colocando as pipocas uma a uma na boca.
- Não, você que ficou pensando no Gigi e agora está falando que a culpa foi minha. – Ela disse e eu suspirei.
Virei para a televisão, vendo os jogadores de azul e os de vermelho correrem de um lado para o outro, enquanto os dois times tentavam evitar que o jogo seguisse para os pênaltis. Fazia um ano que eu estava na Juventus, eu já tinha aprendido bastante coisa no mundo do futebol, mas não era uma grande conhecedora ainda, pelo menos sabia ver quando algo era falta ou não.
Esse jogo Itália e Coreia do Sul só me irritou, o jogo foi marcado por uma arbitragem horrível. Horrível mesmo, até eu falava isso. Eles tiveram direito a um pênalti, mas Gigi pegou, o que eu fiquei bem feliz, algum tempo depois a Itália abriu o placar e a Coréia conseguiu empatar no final do segundo tempo levando para prorrogação.
Totti havia sido expulso minutos atrás por uma possível simulação de pênalti, mas o próprio narrador falou que havia sido de verdade e nada havia acontecido. Coco teve uma dividida com um coreano e precisou sair para fazer curativo com a quantidade de sangue que saía de sua cabeça. Parecia que eu estava vendo a luta livre, não um jogo de futebol. Agora faltava pouco menos que cinco minutos para o final da prorrogação e aquilo me deixava incrivelmente nervosa.
Não era só por Gigi ou pela Itália que eu assistia ao jogo, apesar de serem dois motivos bem plausíveis para acompanhar o Mondiale, mas tínhamos Iuliano, Zambrotta e Del Piero da Juventus na seleção e, com exceção de Zambrotta, que não entrou, e de Del Piero que saiu no começo do primeiro tempo da prorrogação, todos participaram desse jogo desastroso.
- Olha a Coréia! – Giulia falou, se levantando.
O coreano fez o cruzamento da bola, passando-a para a grande área e um outro cabeceou ela para dentro do gol. Prendi a respiração quando vi Gigi se aproximar da bola e acho que ele chegou a tocar nela antes dela entrar.
- NÃO! – Giulia gritou e eu suspirei, vendo os coreanos saírem correndo para comemorar e eu joguei a cabeça para lá.
- Tem mais três minutos, quem sabe eles não fazem mais um e empata? – Falei baixo, vendo que ela estava estressada demais.
- Não tem mais, . Acabou, é isso! A Itália está fora! – Ela falou.
- Mas tem três minutos ainda, não?! – Me ajeitei no sofá.
- Não, é o que eles chamam de gol de ouro, o primeiro a fazer gol nos acréscimos leva.
- Então acabou? – Me levantei rapidamente.
- Acabou. – Ela disse, se jogando no sofá de novo e eu olhei abismada para a TV, vendo filmarem Gigi sentado dentro do gol, abraçado na bola. – Não pode. – Fiz um pequeno bico.
- É isso, amiga. – Ela disse.
- Não é justo! – Falei.
- Tem gente que fala que não, outros que falam que sim, vai entender, não sei o que é correr por 120 minutos, deve ser foda para os jogadores. – Giulia acariciou minha cabeça e eu engoli em seco.
- Ele parece estar bem mal.
- Não é culpa dele, são coisas que acontecem. – Ela falou. – Não quer dizer que ele seja um mal goleiro, as vezes a gente perde, as vezes a gente ganha.
- Mas o juiz foi horrível! – Falei. – Ele beneficiou a Coréia em vários momentos, você viu!
- Todo mundo viu, mas se ele é o juiz e faz isso, quem vai contra ele? – Ela deu de ombros. – Posso ir ao banheiro?
- Vai lá, você sabe o caminho. – Suspirei, vendo-a rir, minha quitinete não era gigante para ela precisar andar muito para chegar lá.
Vi a comemoração da Coreia e os italianos tristes e peguei o controle, desligando a televisão. Eu não queria ver aquilo, agora que começava as conjeturas do que deu errado, qual foi o problema, mas todos sabiam que o problema era o juiz.
Segui até minha escrivaninha e peguei a pasta que eu tinha recebido da Juventus durante minhas férias que acabavam em alguns dias. Eles às vezes mandavam algumas informações para gente ficar por dentro ou um possível trabalho para quando a gente voltasse. Eram informações sobre jogadores entrando e saindo do time, algo para eu ficar por dentro da próxima temporada.
- O que está vendo? – Giulia voltou, secando as mãos na calça.
- Está sem toalha lá? – Perguntei.
- Não, mas não queria usar a sua. – Ela falou e eu revirei os olhos.
- Alguns jogadores entrando e saindo do time. – Falei.
- Alguém interessante? Não se ouve falar muito durante o Mondiale, só depois. – Ela disse.
- Hum, vamos ver... – Passei a mão nas listas. – O goleiro Carini vai sair, eles querem um francês... Eles estão de olho em três defensores... – Mostrei o papel para ela.
- Não sei quem são. – Ela disse. – Mas eles querem o Camoranesi. – Ela disse.
- Não sei quem é. – Falei.
- Ah, ele está aparecendo no Verona, é interessante. – Confirmei com a cabeça.
- E sem novidades no ataque. – Falei, fechando a pasta. – Parece que eles estão mais vendendo do que comprando, vai entender...
- Ah, um time funciona bem com uns 25, 26 jogadores, depois é demais. – Giulia falou.
- Entendi! – Deixei em cima da escrivaninha de novo. – É isso.
- Quando você volta a trabalhar mesmo? – Ela perguntou.
- Na segunda-feira. – Suspirei. – Ah, preciso fazer tanta coisa que dá até preguiça.
- Ah, deu para aproveitar as férias vai. – Ela deu de ombros.
- Metade do tempo eu fiquei me bronzeando com a sua família e a outra vendo a eliminação da Itália... É, dá para o gasto. – Falei e ela deu um tapa em meio ombro. – Ah, ainda estou dolorida.
- Mas não tinha ficado bronzeada, linda? – Rimos juntas e eu passei o braço pelos seus ombros.
- O que você quer fazer agora? Quer sair para comer algo? Cinema?
- A gente acabou de comer pipoca. – Giulia falou.
- Ah, mas é pipoca, não enche. – Falei.
- É, você tem razão. – Rimos juntas. – Apesar que as ruas vão estar lotadas de gente irritada pela derrota, melhor a gente pedir alguma coisa, pizza?
- Nunca nego! – Falei e ela abriu minha gaveta com diversos cardápios de restaurantes.

Lui


15 de agosto de 2002

- Acho que foi o pior jogo da minha vida. – Comentei, puxando a camisa para fora.
- Foi... – Del Piero falou, negando com a cabeça em seguida e se sentando em seu espaço no vestiário. – Parecia dominó, ficava cada vez pior.
- Nós fizemos tudo e mesmo assim... – Iuliano falou, negando com a cabeça.
- Maldito juiz! – Del Piero falou.
- Maldito gol de ouro. – Falei, começando a colocar a roupa de treino.
- A gente viu e, cara, foi roubado na cara dura. – Conte falou e assentimos com a cabeça.
- Vocês viram que deu merda no jogo contra a Espanha também, né?! – Trezeguet falou.
- Nem vi nada depois, só queria vir para casa e dormir por um mês. – Falei, me sentando no meu espaço para colocar as caneleiras e as chuteiras.
- Anularam dois gols perfeitamente válidos. – O francês continuou falando. – Falam que é esquema da FIFA para expandir o mercado para aquele lado.
- Pelo menos eles não ganharam! – Iuliano falou.
- É, mas ganhou o Brasil e agora eles têm cinco. – Zambrotta falou. – Vocês têm noção do que é isso? Eles foram os primeiros a ganhar a Jules Rimet, agora têm cinco campeonatos. É loucura.
- A gente precisa alcançar eles logo. Eles já ganharam a última em 94... – Falei.
- Em cima da gente! – Pessotto falou e eu assenti com a cabeça.
- E agora 2002, é loucura! – Finalizei.
- Isso é muito de sorte. – Del Piero falou. – Eles ganharam todos os jogos. E aposto que não tiveram problemas com arbitragem.
- Mas os caras estavam bons, viu?! A gente zoa o Ronaldo aqui na Internazionale, mas foi a campanha perfeita. – Iuliano falou.
- Falando em Ronaldo, foi lá para Espanha agora, defender o Real Madrid. Não o veremos mais por aqui. – Del Piero falou e o vestiário gargalhou junto.
- Vá com Deus. – Conte disse, rindo.
- Bom, vocês falando de Mondiale, a República Tcheca nem foi, então vocês estão no lucro! – Pavel falou, nos fazendo gargalhar.
- Quem sabe daqui quatro anos? – Falei, vendo-os rirem.
- E o Coco? Como ficou? – Thuram perguntou.
- Não foi tão feio. – Zambrotta falou. – Só pareceu pela quantidade de sangue que tinha.
- Parecia luta livre. – Chimenti comentou ao meu lado.
- Foi quase isso, deu vontade de voar no pescoço deles, viu?! – Del Piero falou. – Quando expulsaram o Totti... – Ele negou com a cabeça, revirando os olhos.
- Estou ouvindo muito papo nesse vestiário, andiamo, ragazzi! – Lippi gritou da porta do vestiário e dispersamos o papo.
Finalizei de calçar minhas caneleiras e meias e depois calcei as chuteiras. Me levantei novamente, vestindo a camiseta de treino e peguei as luvas. Segui para fora do vestiário junto de uma primeira leva, passando pelos corredores do vestiário e depois saí para o sol do começo da tarde, me fazendo franzir os olhos com a claridade.
Era o primeiro treino depois do desastre da Copa do Mundo. Aquele gol de ouro passava na minha cabeça ainda mesmo quase dois meses depois. Era totalmente defensável e eu deixei passar. Por mais que o pessoal falasse, falava que o jogo havia sido totalmente injusto, o que foi, eu não conseguia esquecer.
- Gigi! – Parei o passo ao ouvir alguém me chamando e virei o rosto para os lados, me surpreendendo ao encontrar ali.
Como assim ela estava ali? Ela nunca vinha ali. Sua roupa e seus materiais jogados ao seu lado denunciavam que ela não estava em horário de trabalho ainda. Seus cabelos estavam bagunçados e ela se levantou do chão quando eu me aproximei, passando as mãos na calça por estar sentada na grama.
- Ei, você está aqui! – Falei e ela sorriu.
- Vim um pouco antes do meu horário para ver se encontrava vocês treinando. – Ela falou. – Nunca vi um treino de vocês.
- E eles deixaram? – Ela fez uma careta.
- O Lippi sabe, se servir de algo. – Rimos juntos. – Tenho liberdade dentro do CT, só não posso bobear no meu horário de serviço. – Ela deu de ombros.
- Que horas você entra? – Perguntei.
- As duas, tenho... – Ela checou seu relógio. – 45 minutos para ver você levando umas boladas. – Gargalhamos juntos, me fazendo sorrir. – Desculpe pelo Mondiale.
- Ah! – Franzi a testa.
- Não quero trazer péssimas lembranças. – Ela adiantou, tocando meus braços rapidamente.
- Não, é que... – Suspirei, relaxando os ombros. – Foi um desastre. – Ela deu um pequeno sorriso.
- Me desculpe, realmente sinto muito, foi horrível o que aconteceu. – Ela suspirou. – Precisa de um abraço? – Ela fez uma careta, abrindo um pouco os braços e rimos juntos.
- Seu? Sempre. – Falei e ela sorriu, passando os braços pela minha barriga e me apertando por alguns segundos, me fazendo relaxar a ponto de fechar os olhos e acariciar seus cabelos.
- Veja pelo lado positivo: temos uma nova temporada a caminho, eu já sei mais sobre futebol e posso começar a dar palpite sobre as coisas. – Ela disse, se afastando devagar e quase a puxei de volta novamente.
- Algum conselho prévio? – Brinquei e ela riu fracamente.
- Não deixem que aquele juiz julgue qualquer outro jogo na carreira dele. – Ela falou, me fazendo gargalhar.
- E então, como foram as suas férias? – Perguntei. – Você está bronzeada. – Ela riu fracamente, ajeitando a alça da camiseta regata onde uma linha de biquini deixava seu corpo mais claro.
- Eu fui para Forte dei Marmi com a família da Giulia, eles gostam bastante de mim e me convidaram para ir, melhores 15 dias da minha vida. – Ela falou, me fazendo rir. – Depois ficamos vendo a competição e logo eu voltei a trabalhar.
- E seus pais? Não ficaram contigo?
- Vamos dizer que temos uma relação mais distante e nem tantas condições quanto os pais da Giulia. – Ela falou, ponderando com a cabeça.
- Eles moram longe daqui? – Perguntei.
- Eu sou de Palermo, bem lá no sul.
- Uau, está longe de casa, então. – Ela assentiu com a cabeça.
- E você? De onde são os Buffon? – Ela perguntou.
- Carrara. – Falei.
- Ei, eu passei por lá, é do lado do Forte dei Marmi, não?!
- É sim. – Sorri.
- Eu acho que tirei uma foto na frente da catedral de lá... – Ela ponderou com a cabeça. – Os pais da Giulia param tanto na viagem que é difícil lembrar. – Rimos juntos. – Duomo di Sant’Andrea, né?!
- Isso mesmo. – Falei, rindo, e ela sorriu.
- Catedral de mármore, né?! – Assenti com a cabeça. – Que legal, eu fui para sua cidade. – Ela riu fracamente.
- Quem sabe um dia eu não vá contigo? – Falei e ela deu um sorriso, enrugando suas bochechas e eu sabia que ela estava com vergonha.
- Ok. – Ela disse.
- Andiamo, Gigi! – Virei o rosto, vendo Bonnefoi gritar.
- Já vou! – Gritei de volta.
- Ei, se não é a aqui! – Virei para o lado, vendo Pavel se aproximar e ela sorriu.
- E aí, Nedvěd? – Ela falou e ele a abraçou, tirando-a do chão alguns centímetros.
- Veio me ver jogar? – Ele perguntou.
- Ah, com certeza. – Ela falou, rindo em seguida. – Faça bastante gols para mim.
- Ei! – Falei, vendo-a rir fracamente.
- Tem outros dois goleiros que ele pode fazer gol, vai. – Ela se explicou e rimos juntos.
- Ei, quem temos aqui? – Del Piero se juntou à roda.
- Ciao, capitano! – Ela falou, sorrindo.
- Ei, milagre te ver aqui fora! – Ele falou, cumprimentando-a com um rápido abraço. – Achou o caminho, foi?
- Não... – Ela disse, rindo. – Bom, sim, mas eu vim um pouco antes para ver vocês treinando, eu sempre venho depois e, quando vou embora, já acabou... – Ela deu de ombros. – Aproveitei que não tive a última aula e vim.
- Bom te ver aqui, você sabe que é sempre bem-vinda, não sabe? – Ela assentiu com a cabeça.
- Agradeço, Alex. Prometo vir quando der. – Ele a abraçou mais uma vez.
- Vamos, galera! – Ele falou para nós e se afastou com Pavel.
- Pessoal parece gostar de você. – Comentei.
- Bom, eu fiz o que você falou no fim da temporada passada, tentar me enturmar. – Ela sorriu. – Mas o Alex agrega muito fácil, ele é muito simpático. – Ela falou, rindo fracamente.
- Por isso que ele é o capitão.
- Talvez. – Ela deu de ombros. – Mas eu também tenho mais proximidade com você, com o Lilian, Pavel e Salas, mas porque eu estava lá acompanhando a contratação.
- Quem sabe eu não te vejo mais vezes? – Comentei, virando para ela e ela deu um pequeno sorriso, com o olhar no campo.
- Bom, eu tenho mais um ano aqui, isso é garantia. – Ela virou para mim. – Agora que eu já sei o caminho, posso encontrar mais vezes, apesar dos horários mudarem sempre.
- É, tem isso também, a gente costuma começar mais tarde, mas o primeiro treino da temporada é sempre o mais lento.
- Espero que vocês conquistem bastante coisas esse ano. – Ela suspirou. – Quanto mais prêmios, mais trabalho e quem sabe uma efetivação?
- Você ia gostar disso? – Virei para ela.
- Bastante. – Rimos juntos. – E não é só pelo salário que é muito bom, mas eu gosto do ambiente, dos meus colegas de trabalho, de vocês. – Ela virou para mim. – Eu me sinto feliz em trabalhar aqui, sabe? – Ela suspirou.
- Vou torcer por você. – Disse, vendo-a sorrir.
- E eu por você. – Ela sorriu.
- Andiamo, Gigi! – Lippi apareceu ao meu lado. – . – Ele desviou do seu caminho. – Você por aqui?
- Para você ver! – Ela sorriu e ele deu um rápido beijo e abraço nela.
- A gente tem uma reunião amanhã, hein?! – Ele falou e ela riu.
- Você tem uma reunião com o Giorgio, com sorte você me vê lá. – Ela disse e ele acenou.
- Vamos, Gigi! – Ele disse e rimos juntos.
- Vai lá, eu vou ficar mais um pouco, logo preciso me trocar e entrar também. – Ela disse, checando o relógio mais uma vez.
- Aparece mais vezes, ok?! – Falei.
- Pode deixar! – Ela falou e ficou na ponta dos pés rapidamente para deixar um beijo em minha bochecha e eu sorri. – O cabelo está muito melhor. – Ela falou e eu sorri, passando as mãos nos cabelos mais longos.
- E como está o vôlei? – Perguntei, afastando alguns passos, tentando evitar a cara de quem havia dormido com um cabide na boca.
- Está indo bem! – Ela sorriu, assentindo com a cabeça. – Voltamos na semana que vem, ganhamos o campeonato no começo do ano. – Ela abriu um largo sorriso.
- Mesmo? – Sorri, esbarrando em uma pilastra, vendo-a rir.
- Não são só vocês que podem gritar “i campioni dell’Italia siamo noi”. – Ela abriu um largo sorriso e eu retribuí.
- Até mais. – Falei.
- Não se sinta pressionado comigo aqui, ok?! – Ela falou um pouco mais alto e rimos juntos.
- Não, pressionado não. – Falei, acenando mais uma vez e virei para o campo, vendo seu sorriso uma última vez. Não me sentia pressionado, mas sim com a necessidade de dar meu melhor nesses poucos minutos que restavam dela ali.

Lei


13 de novembro de 2002

- Scusa, Giorgio? – Abri a porta lentamente após dar dois toques nela.
- Oi, , viene! – Ele disse e eu entrei em sua sala.
- O pessoal da prefeitura está aqui! – Falei.
- Ah, que ótimo! – Ele falou, se levantando. – Pode pedir para eles entrar?
- Claro! – Falei, dando um sorriso.
- Ah, ? – Virei para ele novamente.
- Diga! – Falei.
- Quer comprar um estádio? – Ele perguntou e eu franzi a testa.
- Até gostaria, mas acho que meu salário de estagiária não dá, senhor. – Brinquei, vendo-o rir.
- Participe da reunião, ok?! – Fiquei surpresa.
- Mesmo? – Sorri.
- Claro, você precisa participar mais se quiser ficar conosco. – Ele disse e eu assenti com a cabeça.
- Eu vou chamá-los! – Falei, tentando esconder o sorriso no rosto e puxei a porta, dando pulinhos animados para fora.
Atravessei o corredor da sala de contabilidade, chegando na grande sala onde ficava os outros funcionários e vi os três membros do conselho de Turim presentes, inclusive Antonio Giraudo, diretor geral da Juventus.
- Boa tarde, senhor Giraudo. – Falei para ele. – Eu sou , estagiária da contabilidade.
- Ah, , prazer em te conhecer! Giorgio disse ótimas coisas de você! – Ele esticou a mão para mim e eu sorri, apertando-a firmemente.
- O prazer é meu. – Sorri.
- Há quanto tempo está conosco? – Ele perguntou.
- Quase um ano e meio, senhor. – Sorri.
- Ah, que bom! Gostando daqui?
- Claro, é ótimo! – Sorri. – Vamos? Giorgio já está esperando vocês! – Falei e os quatro se levantaram, assentindo com a cabeça.
Segui na frente deles de volta para a sala do Giorgio, pegando meu caderno e caneta quando passei pela minha mesa, e abri a porta, deixando que eles entrassem e eles se cumprimentassem. Giorgio fez um movimento para eu entrar e fiz o que ele pediu, vendo-os se ajeitarem na grande mesa de reuniões colocadas no centro da sala e me coloquei na extremidade contrária.
- Então, Giorgio, Antonio, prontos para fechar negócio? – Um dos caras da prefeitura falou.
- Claro! Estamos empolgados com isso. – Giorgio falou e o baixinho de óculos tirou o contrato da maleta, esticando-o em cima da mesa.
- Temos só algumas dúvidas sobre algumas questões. – O mesmo homem falou e eu abri meu caderno, só para fingir que estava anotando alguma coisa.
- Claro, pode mandar! – Giorgio falou, relaxando na cadeira.
- Com a compra, vocês vão proibir os jogos do Torino no Delle Alpi? – Ele perguntou.
- Não temos intenções nenhuma de mudar nada agora. – Giorgio falou. – Por enquanto vamos só comprar o estádio. – Ele falou.
- Mas os planos são demoli-lo no futuro? – Outro perguntou.
- Sim, temos um projeto com o arquiteto Gino Zavanella para fazer um grande estádio com um shopping, museu, centro médico, hotel, centro de treinamento, tudo de melhor qualidade. – Giorgio falou.
- É, com isso, a intenção é esse se tornar o Juventus Stadium, aí sim o Torino não poderá mais ter o estádio como mandante.
- Qual o plano para esse projeto? – Outro perguntou.
- Cerca de 20 anos para ter tudo pronto, é um projeto bem grande. – Giorgio falou e eles assentiram com a cabeça. – O plano para ter o estádio pronto é de 10 anos. Depois vamos acrescentando as outras coisas até finalizar com um grande projeto.
- É bastante coisa.
- Não pensamos pequeno aqui na Juventus. – Antonio falou e eu dei um pequeno sorriso. Era muita coisa.
- Estamos com novos patrocinadores e novos projetos e queremos que até 2012 o Delle Alpi seja o novo lar da Juventus. – Giorgio falou. – Ainda sem data para construção, mas pretendemos demolir e limpar o terreno assim que possível. Vocês mencionaram sobre a renovação do Stadio Olimpico, certo?
- Sim, com a compra do Delle Alpi, pretendemos renovar o Stadio Olimpico, já que ele está parado desde 1990, o foco principal vai ser para os Jogos de Inverno de 2006, mas também precisamos ajustar algumas coisas para ficar melhor para os dois times quando vocês demolirem o Delle Alpi. – Um dos homens da prefeitura disse.
- Bom, então podemos programar nossa demolição para depois dos Jogos de Inverno. – Antonio falou, sorrindo.
- E dividimos o Stadio Olimpio com o Torino até a finalização da nossa nova casa. – Giorgio falou.
- Parece bom. – Eles falaram, sorrindo.
- Vamos falar de números, então? – Giorgio falou, se ajeitando na cadeira. – Vocês aceitam nossa oferta?
- Qual foi a última oferta? – Antonio perguntou.
- 26 milhões, mais alguns privilégios quando o novo estádio ficar pronto, camarote exclusivo, cadeira cativa, entre algumas outras coisas. – Giorgio explicou para ele que confirmou com a cabeça.
- Sim, aceitamos a oferta. Faltam só as assinaturas, então. – O baixinho da prefeitura falou, estendendo o contrato.
- Vamos fechar isso. – Antonio falou, pegando a caneta do homem e assinou.
Se eu não estivesse ouvindo falar da compra desse estádio praticamente desde o meu primeiro dia aqui, eu acharia até fácil a compra do estádio, mas essa oferta foi e voltou umas 12 vezes, cada vez era um valor diferente ou uma nova exigência, até que a Juventus jogou um valor mais alto, que pelo visto vai ajudar na reforma do Stadio Olimpico, para eles aceitarem. Beh, deu certo!
- Bom, senhores, foi um prazer fazer acordo com vocês. – Giorgio se levantou, cumprimentando os três e eu só via sorrisos no rosto.
- O prazer é nosso! – Eles falaram, animados e eu suspirei.
Fazer parte desse time estava melhor do que eu jamais imaginaria. Entrei aqui pelo salário, morar sozinha e me bancar sem ajuda de ninguém não era fácil, mas poder ver as decisões acontecendo, participar das reuniões, festas e até poder ter contato com os jogadores, era incrível. Ficava feliz quando Giorgio deixava eu participar de momentos como esse, de quando as pessoas me cumprimentavam quando eu chegava, até os jogadores que começavam a me reconhecer.
Ser reconhecida por Gigi, Pavel, Alex, além de alguns outros que eu participei da assinatura de contrato, era demais! Eles eram grandes estrelas do time e eu só a estagiária, mas eu me sentia bem, era sensacional. Claro que Giulia tinha razão, eu talvez estivesse gostando de Gigi de outra forma, talvez de uma forma que eu não devesse, mas juro que dessa vez eu estou falando sobre ele como jogador. Ele no campo era uma pessoa e ao meu lado era só o Gigi, ainda era um pouco difícil juntar essas duas pessoas, mas não era caso para agora.
O fechamento do Delle Alpi era o começo de um plano gigantesco no time, estávamos em expansão, mas sabíamos que não seria fácil. Giorgio e o pessoal falava em um plano de 20 anos, gente, eu acabei de fazer 21 anos, daqui 20 anos eu vou estar com 41, era loucura pensar assim, mas quem sabe eu não possa ver tudo isso acontecer? Só preciso garantir antes a minha efetivação no meio do ano que vem e tínhamos muitas coisas para acontecer ainda, inclusive as festas de fim de ano.
- Eu saio com vocês! – Antonio falou, indicando a porta e ele cumprimentou Giorgio e deu um aceno de cabeça para mim e eu acenei para os outros homens quando eles saíram.
- ISSO! – Giorgio falou, animado quando a porta fechou e eu ri fracamente.
- Celebrando um gol, Giorgio? – Brinquei e ele riu fracamente.
- Olha, , eu posso estar enganado, mas acho que esse vai ser o melhor fechamento das nossas vidas. – Ele falou, animado.
- Nossas? – Perguntei.
- Bom, eu já tenho 64 anos, não devo ficar por aqui muito tempo, mas quem sabe você não possa? – Ele falou e eu sorri.
- Se o senhor permitir, eu gostaria e muito. – Ele assentiu com a cabeça.
- Não é só de mim que isso depende, , mas saiba que eu estou muito satisfeito com seu desempenho aqui no time, de pensar que você não sabia nada quando chegou aqui. – Rimos juntos.
- Passos de bebê, Giorgio, mas parece que quando eu vejo essas coisas acontecerem, eu me sinto fazendo parte da história.
- Se Deus quiser, vai ser. O projeto do Juventus Stadium é algo sensacional, mas precisamos de espaço e dinheiro para isso. Acabamos de conseguir o espaço, agora juntamos dinheiro para demolir, depois mais um pouco para construção e por aí vai. – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Vai dar certo, você vai ver. – Assenti com a cabeça.
- Gosto da forma que você pensa! – Ele disse, me fazendo rir. – Bom, já passou das seis, você pode ir embora se quiser. – Ele falou e eu chequei o relógio no pulso.
- Ah, eu tenho treino as oito, vou sim. – Falei, apressada, pegando o caderno na mesa. – Parabéns pela compra! – Sorri.
- Parabéns para nós dois! – Ele disse, esticando a mão e eu bati na dele.
- Até amanhã! – Sorri e saí da sala.
Voltei para sala principal e algumas pessoas já tinham saído. Fechei o caderno, ajeitei minha mesa, desliguei o computador e puxei minha mochila debaixo da mesa. Eram 18:10, o ônibus das 18:05 já tinha passado, o próximo seria em 20 minutos e eu demorava quase uma hora e meia para chegar na faculdade. Com o trânsito do fim do expediente, eu já iria trocada.
- Ciao, ragazzi, a domani! – Falei para as poucas pessoas que sobraram.
- Ciao, . – Eles responderam e eu saí dela, andando um pouco pelo corredor e entrei no banheiro feminino, me fechando em uma das cabines.
Tirei a jaqueta, a blusa polo e a outra blusa por baixo, dei uma renovada no desodorante e coloquei a segunda pele de manga comprida por baixo da camiseta de meia manga de treino e fiz questão de colocar o corta-vento da Juventus por cima novamente, aqui era descampado e Turim não sabia aliviar muito no frio. Pelo menos não tinha nevado ainda.
Fiz o mesmo com a calça, tirei a jeans que eu usava, coloquei a segunda pele colada no corpo e o short de treino por cima de tudo, pena que não tinha um corta-vento para as pernas. Ajeitei minhas joelheiras para ser a primeira coisa que eu pegasse e troquei meus All-Star pelo tênis de ginástica.
Saí apressada da cabine, desfazendo meu rabo de cavalo e fiz um mais apertado e mais alto, dando várias voltas no lacinho até sentir o rosto dar aquela esticada. Abaixei os fios rebeldes com gel e dei uma rápida olhada em corpo inteiro para ver se estava ok. Esperava só não passar frio até a faculdade.
Peguei um lanche que eu havia trazido mais cedo, grata por não ter tido tempo de lanchar mais cedo ajeitando as planilhas de novembro, pelo menos eu teria um pouco de sustância para o treino, porque eu ia chegar na hora e ainda teria que correr faculdade adentro. Dei uma mordida nele enquanto seguia para fora do prédio administrativo, sentindo o frio gelado bater em meu rosto.
- É, talvez ficar com o cabelo solto até a faculdade não seria tão mal. – Comentei baixo, sentindo meu corpo arrepiar.
- !
- Ah, que não seja eu, que não seja eu. – Falei baixo, virando o rosto para o lado e suspirei ao encontrar Del Piero acenando para mim. – É, é para mim. Ciao, ragazzi! – Falei baixo, andando para mais perto deles no estacionamento, finalizando de engolir o pedaço do lanche.
- Você por aqui? – Pavel perguntou e eu ri fracamente.
- Saí um pouco mais tarde hoje. – Falei, checando o relógio novamente. – O que estão fazendo aqui nesse frio? – Perguntei, já sentindo meu corpo voltar a tremer.
- Decidindo se vamos para o bar ou para pizzaria. – Thuram falou.
- Nesse frio? Pizzaria sempre! – Falei, ouvindo-os rir. – Com um vinho de preferência.
- Aí sim, hein?! – Virei para o lado, vendo Gigi apoiado no carro e senti meu rosto esquentar na hora.
- E você? Para onde vai? – Del Piero perguntou, apontando para meus trajes.
- Eu tenho treino de vôlei as oito. – Chequei o relógio. – E eu tenho que ir logo ou vou perder o ônibus.
- Fica mais um pouco, eu te dou uma carona. – Gigi falou e eu dei um pequeno sorriso, abaixando a cabeça para esconder.
- É melhor...
- É, boa ideia! – Pavel falou rapidamente. – Dá para comer uma pizza com a gente até lá.
- Já estou lanchando. – Ergui o lanche, aproveitando para dar outra mordida nele, minha barriga estava pedindo.
- Não é uma pizza, mas faz parte. – Eles riram.
- Nem sempre dá para correr, né?! – Brinquei, dando de ombros e eles riram. – Mas eu realmente preciso ir, o caminho é longo. – Falei.
- Eu te dou uma carona, falei sério. – Gigi falou e minha cabeça começou a pensar em mil desculpas do porquê não seria bom eu entrar em um carro sozinha com ele.
- Não precisa, sério. – Dei um pequeno sorriso, erguendo o rosto para ele. – Você vai sair com os caras. Vocês precisam continuar ganhando.
- E você acha que isso afetaria alguma coisa? – Ele perguntou, me encarando com aqueles olhos azuis e só faltou eu desfalecer, se acontecesse, poderia ao menos culpar a tremedeira de frio.
- Eu não sei, afetaria? – Devolvi a pergunta com uma coragem que surgiu no meio desse frio e ele deu um sorriso, abaixando a cabeça. Abri um pequeno sorriso, sentindo o gosto da vitória e percebi o silêncio que havia ficado à nossa volta. – Ah, eu vi vocês nas eliminatórias para Euro.
- Viu a gente perder? – Del Piero falou e eu sorri, dando de ombros.
- Não dá para ganhar sempre, né?! – Eles riram. – Bom, se vai rolar pizza...
- ! – Virei o rosto para trás, encontrando Giorgio se aproximando do estacionamento. – Ciao, ragazzi! – Ele disse, cumprimentando alguns jogadores.
- Diga. – Virei para ele.
- Eu estou indo para a perto da UNITO, gostaria de uma carona? – Virei para Gigi que jogou a cabeça para trás e eu abri um pequeno sorriso.
- Claro, Giorgio! Agradeço! – Pavel segurava a risada com Thuram.
- Não dá para ficar bobeando nesse frio, gente! – Ele falou, seguindo em direção ao seu carro.
- Não dá para dizer não para o chefe. – Dei de ombros e eles assentiram com a cabeça. – A gente se vê. – Falei para todos, mas olhando para Gigi e dei alguns passos para trás, virando o corpo depois de um tempo.
Tirei a mochila das costas e entrei no carro de Giorgio, não era a primeira vez que eu aceitava carona de Giorgio, sua irmã morava perto da universidade e ele aparecia lá de vez em quando. Sempre que eu falava que ia para o treino, ele oferecia carona.
- Se importa se eu terminar de comer? – Perguntei.
- Não, fique à vontade. – Ele falou e eu puxei o cinto de segurança com uma mão, travando-o e senti o carro de movimentar.
Olhei pela janela, vendo os meninos me encarando, inclusive Gigi e ergui a mão livre, acenando em direção a ele que repetiu o gesto, desviei o rosto quando o carro virou e suspirei, imaginando o que teria acontecido se eu fosse embora com ele. Só sei que eu havia deixado ele desconcertado e estava louca para chegar na faculdade e falar com Giulia que ela tinha razão. Gianluigi Buffon sentia alguma coisa por mim.
Não sei o quê, mas alguma coisa tinha e eu estava empolgada e receosa ao mesmo tempo em descobrir.

Lui


19 de dezembro de 2002 • Trilha SonoraOuça

- Uma cerveja, por favor. – Falei ao apoiar no bar e fiquei de costas para ele, enquanto passava os olhos pelo local.
- Aqui. – O atendente falou e eu peguei a long neck aberta, levando à boca no mesmo instante.
- Fala, Gigione! – Camoranesi se aproximou, batendo a mão na minha e me deu um rápido abraço.
- E aí, cara? – Sorrimos.
- Que festança, hein?! – Ele se apoiou no bar também.
- Festa de Natal da Juventus, eles levam a sério essas comemorações. – Falei, rindo fracamente.
- Eu agradeço, no Verona não tinha nada disso. – Rimos juntos.
- Ciao, ragazzi!
- Capitano! – Cumprimentamos Del Piero que também parou no bar.
- Se divertindo?
- Sim, bastante! – Falamos.
- E você? – Perguntei.
- Fiquei uns 40 minutos preso com acionistas, presidência e contabilidade, mas sempre! – Sorrimos. – Não trouxeram suas famílias?
- Hoje me liberaram para vir sozinho. – Comentei, rindo.
- Minha família mora na Argentina e sem namoradas, a intenção é aproveitar aqui! – Camoranesi falou, dando passos para trás e eu ri fracamente.
- Falando em aproveitar, eu estava com a sua garota agora, o que rola entre vocês? – Del Piero perguntou.
- Como assim? – Perguntei.
- Você e a da contabilidade? É óbvio que ela gosta de você e é óbvio que você também gosta dela. – Ele deu de ombros. – O que rola entre vocês?
- Eu a conheci no dia da minha assinatura e ver todo aquele pessoal estranho, de terno, meio que me causou aquela estranheza, me senti...
- Entrando em um lugar que não pertence... – Ele finalizou e eu assenti com a cabeça.
- É, e ela estava lá, eu acabei me aproximando dela de alguma forma, não sei. – Suspirei. – A gente se vê super pouco, mas eu me sinto atraído por ela, ano passado eu queria ficar com ela na festa, mas eu descobri que ela era fã das minhas irmãs e... – Del Piero gargalhou.
- Empatou o esquema? – Ele brincou.
- Total! – Rimos juntos. – Guendy fala que foi bom, assim a gente a conhecia e ela conhecia a nossa família, mas depois não rolou mais nada. Aquele dia eu tentei dar carona para ela e não deu certo de novo. – Suspirei. – Não vai ser fácil.
- Bom, ela está sozinha aqui hoje. – Ele comentou e eu virei o rosto rapidamente para ela.
- Mesmo?
- Parece que sim! – Ele disse, dando de ombros. – Ela estava com o Giorgio e o pessoal do administrativo, não vi ninguém desconhecido com ela. – Ele deu de ombros.
- Onde você a viu pela última vez?
- Próximo aquela porta que dá para o jardim, sabe? Perto do banheiro.
- Sei sim. – Deixei a long neck no balcão e saí a passos rápidos em direção onde ele tinha indicado.
O local era muito cheio, todos os funcionários do time estavam lá, além de amigos e familiares que podiam vir junto, a altura ajudava na procura dela, mas era difícil quando parecia que todo mundo estava vestido do mesmo jeito. O aquecedor até tentava, mas estava frio demais hoje, seria um Natal com muita neve, certeza.
Passei os olhos pelo local que Del Piero havia dito e encontrei Giorgio e um pessoal da turma de engravatados, mas bufei ao notar que ela não estava ali. Virei para trás, empurrando a porta que dava para o jardim e percebi que tinha algumas pessoas na área coberta, algumas crianças brincando, alguns casais e senti o corpo arrepiar com o frio.
A neve não era forte, mas acumulava no cabelo e deixava o chão branco e levemente empoçado conforme derretia. Suspirei, andando mais um pouco pelo corredor, até o portão de estacionamento e nada.
- Procurando por mim? – Virei o rosto para algumas direções, encontrando se levantando da murada totalmente encapuzada, escondida por causa das plantas.
- Ei, estava se escondendo? – Me aproximei dela, vendo-a sorrir.
- Mais ou menos. – Ela suspirou e passei uma mão pela sua cintura, dando um abraço nela e um beijo em sua bochecha, sentindo seus braços me apertarem também. – Giorgio está me apresentando para todas as pessoas possíveis, falei que ia no banheiro para respirar um pouco. – Rimos juntos e me sentei ao seu lado. – O problema é só o frio aqui fora mesmo. – Ela disse, colocando as mãos enluvadas dentro do seu casaco de novo.
- Ele parece gostar de você. – Comentei, esticando as pernas para frente.
- Espero que sim, meu estágio logo acaba, a faculdade também, um emprego garantido seria muito bom.
- Vai dar certo, você vai ver. – Ela virou o rosto para mim, dando um pequeno sorriso que ficava quase escondido no capuz e no pelinho que o rodeava.
- Vou confiar em você. – Sorri também.
- Então, cadê Giulia? – Perguntei, ouvindo-a dar uma risada nasalada.
- Viajou com os pais para França. Vão passar o fim do ano lá. – Ela suspirou.
- E não te levaram dessa vez? – Ela sorriu.
- Eu amo demais os pais da Giulia, mas às vezes sinto que incomodo, sabe? Eu sempre estou junto e eles sempre fazem questão de pagar tudo para mim, sabendo que eu não ganho tanto e preciso do dinheiro... – Ela deu de ombros. – Usei uma desculpa que ia trabalhar, o que nem é tão mentira, porque eu volto do recesso assim que virar o ano, tem jogo em casa dia 12 já. – Ela suspirou e eu sabia que a contabilidade cuidava de algumas coisas assim.
- E sua família? – Perguntei, virando o rosto para ela e percebi sua feição fechada.
- É complicado. – Ela disse, mordendo o lábio inferior e abaixou seu rosto.
- O que aconteceu? – Virei o corpo para ela, erguendo uma perna para a murada e ela puxou a respiração forte, rindo fracamente.
- A Giulia é a minha família, Gigi. – Ela falou, virando o rosto para mim e notei seus olhos avermelhados. – Ela é o que eu tenho de mais próximo de uma família.
- Como assim? – Perguntei e ela mordeu o lábio inferior avermelhado de frio e engoliu em seco.
- Eu perdi meus pais em um acidente de carro quando eu tinha oito anos. – Ela falou. – Meus pais não tinham uma relação muito boa com seus pais, então eu fui para um abrigo. – Ela disse, passando a mão no nariz. – Estava convencida que viveria lá até fazer 18 anos, mas o governo tenta achar algum parente seu para você não ficar no abrigo...
- E não encontraram? – Perguntei e ela riu fracamente.
- Preferia que não tivessem encontrado. – Ela puxou a respiração forte, soltando-a com a mesma intensidade. – Eles conseguiram achar minha avó materna quando eu tinha 14, eu fui morar com ela, mas ela só aceitou por causa da ajuda que o governo dava, então pode imaginar como era... – Ela passou as costas da mão no nariz e eu apoiei uma mão em sua perna em sinal de apoio. – Ela odiava minha mãe por ter casado com meu pai, então era horrível, eu tinha que me virar sozinha, consegui um trabalho para ficar fora de casa e ganhar uma grana por mim mesma, quando chegou a idade de fazer vestibular, eu peguei o local mais longe que consegui, me matei de estudar para passar e, quando eu recebi a notícia, eu fugi.
- Me desculpe. – Falei baixo e ela virou o rosto em direção ao meu, dando um pequeno sorriso.
- Me desculpe, não tinha intenção de deixar o clima tão pesado. – Ela disse, olhando para cima e piscando algumas vezes.
- Está ok, eu perguntei porque me importo. – Falei e ela deu um pequeno sorriso. – É por isso que você diz que quer o emprego, porque eles pagam bem.
- Sim, com o meu salário no estágio eu consigo pagar o aluguel, as contas, comprar uma coisinha ou outra e não preciso me matar de trabalhar, como quando eu fazia bicos, eram jornadas duplas, dormia mal, aí afetava o desempenho na faculdade, perdia treinos... – Ela ponderou com a cabeça, como se lembrasse desse momento. – Eu estou feliz aqui e gostaria de ficar.
- A faculdade é gratuita? – Perguntei.
- Não, mas eu tenho bolsa por jogar vôlei, isso já ajuda e muito. – Rimos juntos.
- E aí você conheceu a Giulia aqui? – Perguntei.
- Sim. – Ela deu um sorriso aliviado. – Nos conhecemos nos primeiros dias e ela virou minha melhor amiga de cara, sua família é rica, então quando eles souberam minha história, eles tentam me ajudar de diversas formas e eu me sinto mal de vez em quando, apesar de gostar de viajar para lugares diferentes sempre que possível. – Ela riu fracamente e eu sorri.
- Isso quer dizer que eles gostam de você. – Ela virou o rosto para mim, assentindo com a cabeça.
- Sim, demais, mas eu sinto muita inveja deles, sabe? Uma invejinha boa, mas ainda assim...
- Pelo o quê? O dinheiro?
- A família. – Ela soltou um suspiro. – Ela tem dois irmãos pequenos, gêmeos, Gianni e Pietro, têm três anos, então às vezes eu me pego pensando neles e que aquela é a família que eu queria ter. – Ela abriu um sorriso para o nada. – Uma família apoiadora, cheia de irmãos, brigas, risadas, viagens de carro com todo mundo gritando. – Ela pressionou os lábios um no outro. – Tipo a sua... – Sua voz afinou e vi uma lágrima escorrer pelos seus olhos.
- Não chore! – Falei, passando meus braços ao redor do seu corpo, trazendo-a para perto de mim.
- Me desculpe. – Ela disse, erguendo uma mão por dentro de meu abraço e passou no olho. – Só a Giulia e algumas meninas do time sabem disso, é só inevitável não ficar triste pensando.
- Eu só consigo imaginar como deve ser. – Falei, apertando-a mais perto de mim e apoiei o queixo em sua cabeça.
- Não se preocupe com isso. – Ela suspirou.
- Eu me preocupo contigo. – Falei, sentindo-a se mexer e afrouxei os braços. – Eu vou me preocupar sim com seu bem-estar. – Falei e ela sorriu, virando de frente para mim.
- No momento? Estamos bem, o time acaba sendo uma família também, o que me ajuda um pouco. – Ela sorriu.
- Eu sei que a gente não se encontra sempre, mas se você precisar de algo, pode vir até mim, ok?! – Apoiei uma mão em cima da sua. – Minha família adorou você, por sinal. – Rimos juntos.
- Por sorte, eu acabo me dando bem com todo mundo. – Ela abriu um largo sorriso e eu retribuí.
- E você vai ser efetivada aqui, posso dar uma cantada lá com o pessoal influente. – Ela riu fracamente. – E um dia você vai ter a família que tanto quer. – Ela assentiu com a cabeça. – Por enquanto, continue agregando pessoas que você já vai criando a família que você escolheu.
- Obrigada, Gigi. – Ela ergueu seus olhos para o meu. – Isso é bem legal.
- Nessa vida de jogador de futebol, a gente acaba aprendendo a fazer pequenas famílias por onde passamos, eu passo mais tempo aqui do que com minha família de verdade, né?! – Dei de ombros.
- Isso é verdade. – Ela suspirou, assentindo com a cabeça. – Mia famiglia, mia squadra, mia Juve. – Ela disse e eu sorri.
- Assim que se fala. – Disse e ela me abraçou mais uma vez, apoiando o queixo em meu ombro e eu suspirei.
Passei uma mão em sua cintura, sentindo seu corpo inclinado sobre o meu e ela se afastou segundos depois. Ela deu um sorriso, assentindo com a cabeça e passei a mão esquerda na lateral de seu olho, tirando uma manchinha preta da maquiagem e senti sua respiração quente em meu rosto.
Ergui minha mão até seu rosto por dentro do capuz que ela usava e, por um momento, eu me esqueci do frio. Seu sorriso foi reduzindo conforme eu me aproximava dela e seus lábios entreabertos estavam convidativos demais. Senti uma mão em cima do meu braço e ela se aproximou também, me dando sinal verde para colar nossos lábios.
Meu corpo relaxou quando isso aconteceu e parece que o filme de um ano atrás passou em minha cabeça. Ano passado a vontade era outra, ficar com ela sim, talvez até no sentido sujo da palavra, mas agora, depois desse papo, senti uma necessidade de cuidar dela, protegê-la, fazer tudo para que esse time a acolhesse para sempre.
Ela aproximou mais seu corpo do meu, apoiando sua mão livre em minha perna no meio de nós e entreabriu mais os lábios para que minha língua encontrasse a sua. Minha outra mão subiu para sua cintura, apertando seu casaco pesado com firmeza e a puxei um pouco mais para perto e ela subiu uma perna na murada também, colocando-a em cima da minha.
Suas mãos subiram para meus ombros e ela deu algumas mordidas de leve em meus lábios, colando-os novamente enquanto meu polegar acariciava sua bochecha devagar. Suas mãos desceram para meu peito e ela nos afastou rapidamente, descolando nossos lábios e me fazendo abrir os olhos com pressa.
- Calma! – Ela disse abafado e franzi a testa. – Só espera! – Ela falou, com os lábios entreabertos e a respiração acelerada, eu não deveria estar tão diferente.
- O que...
- Espera! – Ela disse rápido, tirando as mãos de meu peito e endireitou seu corpo e olhou para cima, abrindo e fechando a mão diversas vezes.
- , o que...
- Só me dá um minuto. – Ela disse, virando o corpo para o lado e tirando sua perna de cima da minha.
Observei-a ter uma crise interna, pelo menos era o que pareceu. Ela parecia que falava sozinha. Ela olhava para cima, movimentava as mãos, se levantou, sentou de novo e eu não estava entendendo nada. Até que ela soltou a respiração forte e virou para mim.
- Ok. – Ela disse.
- O quê? – Perguntei, tentando esconder a cara de perdido em um sorriso.
- É melhor se a gente não fizer isso... – Ela fez uma careta, mordendo meu lábio inferior e eu ri fracamente. – Não porque eu não gostei... Eu gostei... – Ela riu fracamente. – Demais até, mas... – Rimos juntos. – Sabe aquela efetivação? – Ela mordeu a ponta da sua luva, me fazendo rir fracamente.
- Está com medo de que, ficando comigo, você não seja efetivada? – Perguntei.
- Assim, não falaram nada nesse departamento quando eu entrei aqui, mas vai que... – Ri fracamente de sua careta. – Você é um dos astros do time, acho que você só fica atrás do Del Piero e do Pavel... – Ela suspirou. – Você é mais importante do que eu aqui. – Ri fracamente.
- Ok, eu entendi. – Falei.
- Não fica chateado, sei que você também queria isso faz tempo...
- Um pouco. – Rimos juntos. – Mas não vou ficar chateado, decepcionado talvez seja a palavra... – Ela sorriu. – Por não poder te beijar mais. – Ela mordeu o lábio inferior de novo e levei uma mão até seu rosto de novo. – Consiga aquela efetivação, ok?!
- É? Para quê? – Ela perguntou.
- Para eu poder te beijar mais. – Roubei um rápido selinho de seus lábios, ouvindo-a rir fracamente quando me levantei da murada. – Agora vamos entrar! – Estendi minha mão para ela. – Vai ser um perigo ficar aqui perto de você! – Ela gargalhou, segurando minha mão e se levantando quando eu a puxei.
- Vamos lá, acho que eu não conheci a bancada acionista inteira do time ainda. – Ela suspirou com um sorriso nos lábios e eu retribuí, apesar de pensar que eu precisaria encontrar outra forma de aliviar o tesão por essa garota e que não a incluísse.



Capitolo quattro

Lei
17 de janeiro de 2003

Ouvi uma buzina e abri uma fresta da janela, vendo o carro dos pais de Giulia na porta e ela pelo vidro do passageiro. Acenei com a mão e fechei a janela novamente, travando nas laterais. Peguei o casaco em cima da minha cadeira, vestindo-o por cima do jeans e camiseta, feliz pelo tempo ter dado uma aliviada e a neve ter ido embora, pelo menos por enquanto.
Sei que falei para Giorgio que amava o inverno quando vim para cá, mas era mentira, eu falei aquilo para evitar falar de meus pais, minha avó e aquela história chata, então usar como desculpa que amava frio, me pareceu bom na hora. Acabei precisando dar uma pincelada rápida no assunto, mas eu odiava frio. Turim nem era tão insuportavelmente fria, mas quando inventava de nevar, ah, eu odiava.
Puxei minha bolsa, colocando-a atravessada em meu corpo e fui até a porta, abrindo-a e tirei a chave, trancando-a novamente. Saí pelo largo corredor de quitinetes, descendo os poucos degraus até a rua e abri o portão, fechando-a em seguida.
- Oi, família querida! – Falei, animada, vendo Giulia na porta do carro e ela me apertou com força.
- Ah, ! – Gargalhei com seu abraço de urso. – Que saudade, que saudade, que saudade! – Ela falou repetidamente. – Da próxima vez você vai com a gente.
- Ah, senti sua falta também, amiga! – A apertei pelos ombros, abrindo um largo sorriso para sua mãe que nos observava da janela do carro. – Da próxima vez você vai com a gente, não quero nem saber.
- Ah, vai dizer que fiz falta? – Ela entrou no carro, pegando um dos gêmeos no colo e eu me espremi ao seu lado. – Ciao, ragazzi!
- Ciao, querida, como você está? – Sua mão esticou a mão para mim e eu a apartei, dando um beijo nela.
- Oi, meninos! – Sorri para os gêmeos.
- Oi, ! – Eles falaram, sorrindo e dando acenos animados.
- Fez falta demais! – Giulia foi dramática. – Ah, Paris era tão chata...
- Adoro esse papo de rica. “Ah, Paris era tão chata...” – Afinei a voz, ouvindo seus pais rirem.
- Eu ia completar, ok?! Falar que sem você Paris era chata! – Gargalhamos juntas.
- Bom, qualquer lugar fica chato sem mim, então daremos um desconto. – Me fingi de metida, ouvindo-a rir. – Mas sério, como foi? – Perguntei.
- Ah, foi ótimo. – Ela deu de ombros. – O lugar é lindo, os caras não são tão bonitos, mas tirei algumas fotos, quando a gente pegar, eu te mostro.
- Vou querer ver sim. – Sorri.
- Mas senti sua falta! – Ela afirmou, me fazendo gargalhar e apoiei a cabeça em seu ombro.
- Eu também senti. – Suspirei.
- E você? Como foi? – Ela falou, animada.
- Ah, na noite de Natal eu comprei algumas comidinhas gordas para cear, depois no ano novo eu fui lá para o centro ver a queima de fogos e logo depois eu voltei a trabalhar, aí ficou melhor, foram só uns oito, nove dias sozinha. – Dei de ombros. – Posso garantir que eu dormi demais. – Sorrimos juntas.
- E a festa da empresa? – Ela deu um pulo.
- Ai! – Seu irmão reclamou ao bater a cabeça no teto.
- Ah, desculpa, desculpa! – Ela falou, dando beijos na testa do irmão, nos fazendo rir.
- Ah, foi boa... – Falei, dando um pequeno sorriso e mordendo meu lábio inferior.
- “Foi boa” em que sentido? – Ela perguntou e eu ri fracamente. – Beijou ele?
- Beijei. – Falei baixo.
- AH! – Ela gritou, empolgada, fazendo seu pai se assustar ao volante e eu e sua mãe gargalhamos.
- GIULIA! – Seu pai a repreendeu.
- Desculpe, mas eu esperei um ano por esse momento, Senhor! Mais, na verdade! – Ela falou rindo. – Conta tudo! – Ri fracamente. – Você foi embora com ele?
- Giulia! – Sua mãe a repreendeu.
- Calma! – Falei rápido, ficando envergonhada pelos seus pais. – Foi só um beijo, ok?! Um beijo.
- Um beijo? – Ela falou desanimada. – E aquela pegada? Aquelas mãos?
- CALMA! – Falei mais alto.
- Deixa ela contar a história. – Sua mãe a repreendeu novamente.
- Ok, fala! Mas eu vou te bater se não tiver uma boa explicação. – Rimos juntas.
- Ok, eu cheguei à festa sozinha e você sabe como é a festa, um lugar muito grande com muita gente.
- Uhum... – Ela assentiu com a cabeça.
- Eu logo encontrei meu chefe e ele parece satisfeito com meu trabalho, então me apresentou para todo mundo, todo mundo mesmo. Presidente, secretários, alto escalão de outras áreas da empresa, enfim... – Revirei os olhos.
- Isso é bom, querida, quem sabe vem a sua efetivação? – Sua mãe falou.
- Eu vou chegar lá! – Suspirei. – Enfim, eu fiquei lá conversando com o pessoal e não estava sendo fácil procurar o Gigi com aquela gente em cima de mim, aí eu usei a desculpa que iria no banheiro e sumi...
- Essa é minha garota. – Giulia falou e nós rimos.
- É, mas eu fui lá fora e estava nevando para caralho... Encurtando o papo, ele me achou.
- “Achou”? – Giulia perguntou.
- É, ele estava claramente me procurando, aí ele sentou do meu lado, papo vai, papo vem, eu falei de mim.
- Ok... – Giulia falou.
- Não, Giulia, eu falei de mim, da minha vida, meus problemas...
- Espera! Você falou dos seus pais?
- Falei. – Suspirei. – Ele perguntou de você, aí entramos naquele papo família, quando eu vi já estava chorando... – Neguei com a cabeça.
- Isso é ótimo, amiga.
- Como? – Perguntou.
- Poucas pessoas sabem da sua história e você se sentiu confortável o suficiente em compartilhar com ele. – Dei de ombros.
- Eu não sei, eu falei tudo para ele, de forma resumida, mas falei tudo, expliquei por que ser efetivada era importante para mim, por que eu tinha vontade de montar uma família, eu só falei. – Ri fracamente.
- E como ele reagiu? – Sua mãe perguntou.
- Ele ouviu, ele me abraçou, ele ficou lá me dando força, sabe? Esse papo ainda era meio difícil para mim, mas ele lidou bem demais. – Suspirei. – Aí ele me beijou.
- Ah! – Giulia gritou mais contida novamente, recebendo um olhar de seu pai e eu sorri. – E como foi?
- Foi ótimo, sabe? – Mordi o lábio inferior. – Assim, eu estava meio desajeitada, o corpo inclinado para frente demais, mas foi bom, a mão dele no meu rosto, apertando minha cintura... – Suspirei.
- A mão dele... – Ela suspirou e eu colei os lábios em sua orelha.
- A mão dele é muito grande, amiga, fiquei imaginando o tamanho do... – Cochichei para ela, ouvindo-a rir.
- IMAGINA? – Ela disse alto, gargalhando.
- Quando ele me apertou... – Falei mais contida, ouvindo-a rir. – Amiga do céu...
- São grandes? – Ela sussurrou e eu assenti com a cabeça.
- Ele segurou meu braço. – Apertei o seu, explicando. – Ele fechou a mão dele aqui em cima, não foi no pulso, não...
- Você sabe o que dizem... – Ela disse, gargalhando.
- Ainda bem que chegamos. – Seu pai disse aliviado, me fazendo rir fracamente.
- Desculpe. – Ri fracamente, vendo-o parar em frente ao restaurante e eu fui a primeira a descer para o valet pegar o carro.
- E por que ficou só nisso se você gostou? Ele não gostou? – Ela perguntou e eu dei um tapa em seu braço.
- Gostou, ok?! Mas aí começou a passar um filme na minha cabeça de “se alguém nos pegar aqui, eu posso perder minha efetivação” e aquele papo todo. – Suspirei, ajeitando a bolsa no ombro e fui ao seu lado até entrar no restaurante. – Então, eu o freei. – Neguei com a cabeça. – Não sei se o assustei, mas eu parei de pensar com o coração e pensei com a razão um pouco. – Suspirei, vendo seu pai falando com a recepcionista.
- E qual foi a reação dele?
- Ele pareceu entender, sabe? Mas percebi que ele desanimou, depois ele mesmo me falou que estava desapontado, sabe? – Neguei com a cabeça, acenando para a recepcionista e entramos logo atrás deles.
- Bom, imagino que ele, assim como eu... – Ela frisou. – Imaginou que se daria bem naquela noite, né?! – Rimos juntas, passando pelos ambientes do restaurante chique. – Não que você fosse até o fim com ele.
- Pensei, aí depois de ver o tamanho da mão, confesso que recuei um pouco. – Ela gargalhou, passando o braço pelo meu ombro, me puxando para perto.
- Ele deve ter pensado nisso, aí agora pensa comigo: serão pelo menos seis meses nessa indecisão? O cara estava querendo te pegar e, de repente, esse balde de água fria? – Ela suspirou.
- Eu não sei, talvez eu tenha perdido ele, talvez não, talvez eu também não seja efetivada e nunca mais o veja após o fim do semestre... – Neguei com a cabeça.
- Pegou o telefone dele, pelo menos? – Fiz uma careta. – Ah, meu Deus! Você é pior do que eu para namorar.
- O quê? Ele é gato, famoso, rico, superimportante para o time, eu fico meio assim, sabe? – Ela sorriu.
- Bom, eu quero te bater por não continuar, nunca mais te deixo ir sozinha, mas ok, entendo seu lado. – Sorri e ela deu um beijo em minha bochecha.
- Meninas? – Seu pai nos chamou e olhamos para ele.
- O quê? – Giulia perguntou.
- Vão querer abaixar o tom de voz ao saber que o “gato, famoso e rico” está há algumas mesas de nós. – Ele falou baixo e eu arregalei os olhos.
Desviei os olhos de Fabrizio e tombei um pouco o corpo para o lado direito, procurando com o olhar pelas mesas e percebi na mesa encostada na parede ele, seus pais e suas irmãs. E a pior parte? Seu olhar também havia me encontrado.
- Oh, merda! – Giulia falou e eu voltei a me esconder atrás do pai dela, fechando os olhos em uma careta.
- Eu não esperava isso. – Sussurrei para ela e seu pai saiu de nossa frente, dando à volta na mesa.
- A gente já volta! – Giulia falou para mesa e me puxou pelos ombros para o lado contrário, fazendo meu pescoço doer. Ela me puxou alguns passos, me encostando na parede. – E agora?
- E eu sei? Ele me viu, não posso fingir que não o vi depois de dar uma bela encarada, né?! – Cocei a cabeça, jogando os cabelos para trás.
- É, eu encarei também. – Ela suspirou.
- Ah, que droga! Não faz nem um mês. – Suspirei. – O que eu faço?
- Será que ele contou para família dele? – Ela perguntou. – Homens fofocam também. – Ela constatou sozinha e eu desviei o rosto, olhando de esguio para sua mesa, vendo-o conversar com suas irmãs. – E a família dele gostou de você.
- Eu vou ter que ir lá, não?! – Suspirei.
- Acho que sim, amiga, quer companhia?
- Não, eu vou só dar um oi, logo vou para mesa. – Falei, suspirando e ela ajeitou a gola do meu casaco.
- Vai lá, amiga! – Ela apertou meus ombros e saímos juntas do local escondido.
Fomos até sua mesa e ela se sentou em um dos lugares vagos e eu parei no outro para deixar minha bolsa e respirei fundo, vendo Giulia erguer os polegares. Virei o corpo, vendo-o em sua mesa e seu olhar encontrou o meu novamente e senti meu rosto esquentar. Ele ergueu a mão em um aceno e eu suspirei. Droga! Desviei das mesas no meio do caminho, me aproximando dele e ele se levantou, mordi meu lábio inferior ao notá-lo de blusa social e um paletó por cima.
- Ciao. – Ele falou primeiro e os outros quatro membros da mesa viraram para nós.
- Ciao. – Disse, sorrindo.
- ! – Sua irmã Veronica falou, se levantando.
- Ciao, ragazzi! – Sorri.
- Mãe, pai, vocês se lembram da da festa de Natal do ano passado? – Ele falou.
- Retrasado já. – Falei e ele riu fracamente. – Feliz ano novo, falando nisso.
- Claro que me lembro. – Sua mãe se levantou, me dando um abraço. – Feliz ano novo para você também, querida.
Me senti na obrigação de passar pela mesa inteira, cumprimentando seu pai, depois recebi abraços calorosos de suas irmãs e, por último, recebi um abraço desajeitado dele e um beijo em minha bochecha, me fazendo retribuir.
- Então, veio com a Giulia? – Ele comentou.
- Vim sim, eles voltaram de Paris e ela está toda animada contando da viagem. – Sorri, inventando qualquer coisa.
- E você, como está? – Ele perguntou.
- Tudo bem. – Assenti com a cabeça. – E você?
- Tudo bem também. – Sorri.
- Eu vou deixar vocês jantarem, foi um prazer ver todos vocês. – Falei, olhando para seus familiares e eles sorriram.
- O prazer é nosso. – Guendalina falou e eu assenti com cabeça e dei um aceno com a mão para Gigi.
- Ah, parabéns pelo jogo de domingo passado, 5x0 em cima do Reggina foi legal. – Falei e ele sorriu.
- Esperamos continuar as vitórias daqui dois dias em cima do Chievo. – Assenti com a cabeça.
- Vou torcer por vocês. – Falei, sorrindo e acenei novamente, dando alguns passos para longe de sua mesa, aliviando os ombros quando virei de frente para Giulia que tinha os olhos arregalados para mim.
- ... – Virei para o lado, vendo Gigi ao meu lado.
- Ei. – Falei, entendendo o olhar dela.
- Eu quero que saiba que não tem motivo para ficar esse clima entre a gente. – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
- É um pouco inevitável. – Disse, rindo fracamente.
- Não precisa ser. – Ele deu um sorriso, coçando os cabelos.
- Ok. – Falei, rindo fracamente e ele sorriu. – Bom jantar.
- Para você também. – Ele disse e acenou para Giulia que sorriu em sua direção e eu voltei meu caminho para a mesa, me colocando ao lado de minha amiga, de costas para sua mesa.
- E aí, como foi? – Ela perguntou.
- Estranho, desconfortável... – Falei, suspirando, colocando o guardanapo no colo.
- É, não me pareceu muito bom, não. – Ela disse, fazendo uma careta e eu ri fracamente.
- Ah, foi um desastre. – Fingi drama, abaixando a cabeça na mesa e ela riu.
- Vamos, amiga, pensa que são só mais seis meses. – Ela disse, dando de ombros. – Das duas uma: ou vocês vão se ver sempre, ou vocês nunca mais vão se ver, mas aí trate de pedir o telefone dele, ok?!
- É, vamos ver... – Abanei a cabeça, tentando voltar para a vida real, mas sentia meu corpo tenso por quem parecia encarar minha nuca com muito interesse.

Lui
15 de fevereiro de 2003

- Dois meses fora, Alex! – O médico do time falou para Del Piero que bufou.
- Cazzo! – Ele reclamou, tentando mexer o joelho e reclamou com o movimento, voltando para cima da maca.
- A gente vai fazer mais exames para entender melhor a extensão, mas por enquanto é fora. – O médico continuou.
- Dois meses, cara, até fim de abril você está de volta, até antes. – Ferrara falou, tentando dar uma força para nosso capitão, mas eu sabia o quão frustrante era uma lesão.
- Descansa, deixa o inchaço diminuir, depois fazemos mais exames para analisar melhor. – O médico falou e saí da porta da sala médica e voltei para meu canto no vestiário, pegando minha mochila e segui para o chuveiro.
Dei uma olhada no relógio, vendo que faltava uns 20 para as seis e apressei o banho. Eu ainda pretendia ir para Carrara. Era aniversário da minha irmã e minha mãe insistia em uma festinha para família, pena que Carrara ficava há três horas e meia de Turim, sem paradas. Com sorte eu chegaria para cortar o bolo.
Franzi a testa ao pensar nessa possibilidade e abanei a cabeça. Eu já tinha falado que ia, não dava para voltar atrás, pelo menos o próximo jogo seria em Parma, dava para eu ir direto, só precisaria conversar com Lippi antes disso, mas eu resolveria isso amanhã cedo, só realmente não podia esquecer.
Saí do banho, apressado, vestido uma calça jeans e uma blusa social e dei uma rápida penteada em meus cabelos, enfiando tudo de volta na necessaire e na mochila e joguei-a nas costas, deixando a toalha no local correto e ouvi uma voz no vestiário.
- Beleza, gente? Quem tiver contrato a vencer no fim da temporada, peçam para seus agentes e advogados entrarem em contato comigo. – Era Giorgio da contabilidade. – Bom fim de semana para vocês. – Ele falou, saindo do vestiário, acenando para o pessoal.
- Problemas de contrato? – Perguntei para Thuram.
- Problema no servidor, pelo o que eu entendi. – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
- Não é meu caso, eu estou indo, até domingo, gente! – Falei, acenando com a mão.
- Ciao, Gigi. – Ele falou, batendo na minha mão.
- Ciao, ragazzi! – Falei um pouco alto.
- Ciao! – Eles responderam e eu saí do vestiário, cumprimentando alguns membros da equipe técnica e passei por alguns corredores, empurrei algumas portas e encontrei Giorgio e Lippi conversando.
- Já está de saída, Gigi? – Lippi perguntou.
- Sim, tenho um compromisso, precisa de algo? – Perguntei, parando ao lado dele.
- Não, não, pode ir. Você sempre é um dos últimos a ir. – Ele falou, dando um tapinha em minhas costas. – Eu preciso ir também.
- Vamos, Gigi, eu te acompanho. – Giorgio falou, passando pelo caminho em direção estacionamento.
- Então, você é chefe da , não? – Perguntei, olhando para ele.
- Sim, boa menina ela! A conhece? – Ele comentou e eu ri sozinho.
- Sim, ela é gente fina. – Falei. – A gente se esbarra por aqui.
- Ela é muito boa no que faz, tem me ajudado bastante. – Ele comentou.
- O contrato dela acaba no meio do ano, né?! – Perguntei.
- Sim, ela se forma na faculdade, aí o contrato acaba, é uma parceria que a gente faz com universidades. – Ele falou.
- Há alguma chance de ela ser contratada? – Perguntei e ele riu fracamente.
- Me parece que você tem algum interesse nisso, Buffon. – Ele falou e eu ri fracamente.
- Que isso, senhor, ela só realmente comenta como gosta do estágio e como o dinheiro ajuda muito ela, ela não tem pais, sabe? Não deve ser fácil para ela.
- Sim, eu sei. Ela comentou comigo. – Ele disse. – Sendo bem honesto, eu gosto bastante dela, mas vai ser difícil convencer os acionistas a colocar uma garota na equipe administrativa do time.
- Nós já temos algumas mulheres, não?! – Perguntei.
- É diferente. – Ele falou. – O contato não é direto com vocês. – Assenti com a cabeça, entendendo o que ele queria dizer.
- Acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra, se ela faz um bom trabalho, seria burrice não a manter. – Dei de ombros.
- Você tem razão, garoto, vou ver o que consigo fazer. – Ele disse e eu assenti com a cabeça. – Agora, é uma pena o que aconteceu com ela, não?! – Franzi a testa.
- Como assim? – Perguntei e ele indicou um ponto com a cabeça e eu olhei.
Uma pessoa saía da sala do administrativo há vários metros de nós e eu não poderia reconhecer que era , mas ele sabia que era ela. Ela estava com uma perna enfaixada da coxa ao pé e usava duas muletas para se movimentar, enquanto equilibrava uma mochila nas costas.
- É ela? – Perguntei.
- É sim, ela teve um acidente no vôlei, algo assim. – Ele negou com a cabeça. – Eu tento dar carona para ela, mas nem sempre dá. Eu tenho uma reunião hoje.
- Entendo. – Falei, sentindo-o bater em minhas costas.
- Até mais! – Ele falou.
- Até! – Disse, acenando com a cabeça.
Observei-a andar incrivelmente devagar e imaginei que ela ainda ia pegar o ônibus ou o trem para chegar a sua casa. Olhei o relógio, vendo que passava um pouco das seis e suspirei, minha irmã ia entender.
Corri até o carro, abrindo-o e jogando a mochila de qualquer jeito no banco de trás e ajeitei o banco do carona de forma que ele ficasse bem mais para trás e um pouco mais reto do que estava. Olhei rapidamente para onde estava e a vi parada conversando com Giorgio. Esperei-o sair antes de me aproximar a passos rápidos.
- Oi. – Falei, deslizando para sua frente.
- Gigi! – Ela se assustou, rindo em seguida. – Você não pode fazer isso com uma pessoa nessas condições. – Ela falou e eu sorri.
- Me desculpe. – Falei, vendo-a sorrir. – Foi atropelada por um trem, é?! – Brinquei e ela riu fracamente.
- Quase isso. – Ela ponderou com a cabeça. – Conto os detalhes depois, eu vou perder o ônibus.
- Você pode me contar os detalhes agora e deixar eu te dar uma carona. – Falei, tentando esconder o sorriso.
- Eu não deveria... – Ela suspirou, mas dava para ver que ela cogitava isso.
- Você está com sua perna direita inteira engessada, , se foi pelo que houve no Natal, já faz tempo...
- Não é sobre isso, é que você é um jogador, eu sou uma estagiária...
- E ainda continua com a perna direita inteira enfaixada. – Falei e ela checou o horário em seu relógio.
- Não é fora de mão para você? Não vai te atrapalhar? – Ela começou a perguntar.
- Eu não me importo! – Falei e ela soltou um longo suspiro.
- Eu não posso...
- Fico imaginando como é pegar ônibus cheio assim... – Cantarolei.
- Não é muito bom, mas o ônibus ainda não está cheio aqui. – Ela disse e eu dei um sorriso.
- Qual é! São só alguns quilômetros. – Falei e ela negou com a cabeça.
- Ia me ajudar muito. – Ela falou, deixando os ombros caírem e eu dei um sorriso.
- Vem! – Indiquei com a cabeça o caminho e ela começou a seguir ao meu lado.
Dava para perceber que o negócio era recente quando ela fazia caretas para andar. A cada movimento com as muletas, eram uma franzida no rosto. Abri a porta para ela quando me aproximei do carro e ela soltou um suspiro.
- Muita calma nessa hora. – Ela disse.
- O que posso fazer? – Perguntei.
- Segura essa aqui! – Ela me deu a muleta do lado direito e se sentou devagar no carro, fazendo uma careta com o movimento e tirou sua mochila das costas, a peguei para ela. – Ok, agora... – Ela disse, colocando a perna direita para dentro e eu estava achando incrivelmente fofa todas as feições em seu rosto. – Pronto.
- Vou colocar aqui atrás. – Falei, pegando a outra muleta e coloquei no banco do carona, junto de sua mochila. Ela já tinha colocado a outra perna para dentro do carro e eu fechei a porta devagar para ela, dando a volta no automóvel.
- Tudo certo? – Perguntei, vendo-a colocar o cinto de segurança.
- Sim, tudo certo. – Ela falou e eu liguei o carro.
- Para onde? – Perguntei.
- Conhece a Piazza San Carlo? – Ela perguntou.
- Sou novo na cidade, mas já faz quase dois anos. – Rimos juntos. – Conheço a praça mais famosa da cidade.
- Eu moro lá perto, próximo ao Museu Egípcio. – Saí da vaga, seguindo em direção à portaria.
- Vou para lá, aí você vai me dando as direções. – Falei e ela assentiu com a cabeça, dando um rápido sorriso. – Agora, me conte, o que aconteceu?
- Sabe aquelas situações em que você se sente um idiota por ter feito aquela besteira? – Ela virou o rosto para mim.
- Muito bem. – Ri fracamente. – Vira e mexe eu dou de cara com a baliza ou bato a virilha. – Ela fez uma careta. – É... – Rimos juntos.
- Foi uma dessas situações. – Ela riu sozinha, levando a mão até o rosto. – A quadra de vôlei lá na faculdade fica em um lugar mais alto, então em volta dela é tudo morro, para chegar lá, no vestiário, enfim... – Ela riu sozinha novamente. – E eles colocam aquelas redes nos espaços abertos para evitar que alguém role lá de cima...
- Você rolou lá de cima. – Falei, virando para ela por alguns segundos e ela tinha um largo sorriso no rosto.
- Rolei! – Ela riu novamente e eu retribuí.
- Como? – Perguntei, ouvindo minha voz mais nasalada.
- Eles tiraram a rede para fazer manutenção, eu e a Giulia estávamos com um tempo livre e fomos fazer alguns treinos de recepção de saques fortes, só que eu não percebi que a cada saque dela, eu ia mais para trás. – Dei de ombros. – Eles têm uma murada de uns 20 centímetros que rodeia a quadra, eu tropecei nela, caí de costas e saí rolando até lá embaixo.
- Ah, meu Deus! – Falei, rindo fracamente e ela sorriu, negando com a cabeça. – Me desculpa, isso não é engraçado.
- É sim! – Ela sorria. – A Giulia se matou de dar risada, até perceber que eu não me mexia. Eu torci o tornozelo e o joelho. – Suspirei.
- Quanto tempo de repouso? – Perguntei.
- Dois meses, depois ainda vamos avaliar de novo. – Ela suspirou. – Só sei que dói para caramba.
- Quanto tempo faz? – Perguntei.
- 10 dias. – Ela suspirou. – É recente ainda.
- Por isso que você está com alguns arranhados no rosto.
- Ah, deve ser de esfregar a cara na grama por vários metros. – Rimos juntos novamente.
- O trabalho não te deu uma folga? – Perguntei.
- Me deram uma semana, mas não dá para ficar para sempre, né?! O corpo ainda dói um pouco, mas ainda bem que foi leve, o médico disse que eu poderia ter fraturado uma costela, quebrado de verdade alguma parte do corpo, mas foram só torções.
- Vai estar nova em breve. – Sorri e ela retribuiu.
- Vamos ver, o médico disse que torção é pior para resolver, talvez só com cirurgia, então vamos ver. – Ela suspirou.
- Vai dar certo, você vai ver. – Ela suspirou.
- Tomara, o vôlei é o único momento de lazer que eu tenho. – Suspirei. – E eu já vou perder o campeonato esse ano, tive vários olheiros me acompanhando ano passado, era a esperança de conseguir alguma coisa...
- Achei que você quisesse ficar no time. – Comentei.
- Ah, o trabalho no time é algo real, sabe? – Ela suspirou. – Trabalhar jogando em um time de vôlei profissional é o sonho. – Ela deu de ombros. – É tipo você, você se imaginaria sendo professor de educação física? Ou o que é que você sonhava ser quando criança além de ser um jogador de futebol.
- Entendo. – Falei, assentindo com a cabeça.
- Aposto que você estudava igual todos nós até ter a oportunidade de se tornar profissional, eu largava tudo para isso também. – Suspirei.
- Sim, eu larguei o último ano da escola para ir para o Parma. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
- É tipo isso. – Sorrimos juntos. – A gente sonha com os pés no chão. A faculdade é isso para mim. – Ela deu de ombros. – Se o vôlei der certo, eu vou de olhos fechados, se não, meu diploma de contabilidade vem em poucos meses.
- Se forma no meio do ano? – Perguntei.
- Sim, a formatura vai ser em agosto. – Ela disse.
- Vai ter festa? – Perguntei e ela sorriu.
- Até vai, mas eu vou de convidada da Giulia, o preço era meio salgado. – Ela fez uma careta, suspirando. – Mas tem tempo até lá, preciso ficar dois meses com essa coisa antes. – Ela disse, suspirando.
- Os pais da Giulia vão na colação? – Ela se virou para mim.
- Ah, vão sim, vão fazer questão de tirar várias fotos e fazer nós duas pagarmos mico. – Ela deu um pequeno sorriso.
- É bom, a gente não deve aproveitar esses momentos sozinho. – Falei e ela sorriu.
- Relaxa, Gigi, eu não estarei sozinha. Estou criando minha nova família, lembra? – Assenti com a cabeça, deixando o sorriso em meu rosto aumentar e desviei o rosto para a rua novamente.
Quando chegamos no centro da cidade, ela me indicou os caminhos e acabamos na frente de um prédio universitário de uns três andares. Ele era branco e tinha várias janelas, cada uma de um quarto talvez. Não era exatamente um lugar com cara de confortável, mas pelo menos era movimentado.
- Eu te ajudo! – Falei, saindo apressado do carro.
- Me dá minha mochila antes, por favor. – Ela falou e eu fiz o que ela pediu.
Entreguei para ela e ela pegou suas chaves, colocando a mochila nas costas em seguida. Ela tirou uma perna do carro e guiou a outra para o mesmo caminho, fazendo uma careta com o movimento. Entreguei a primeira muleta e ela apoiou o corpo nela, ficando em pé e soltando o ar pesadamente quando o fez. Depois entreguei a outra, deixando-a mais firme.
- Me dá a chave. – Pedi e ela esticou para mim.
- É o segundo portão. – Ela disse, apontando para ele e fui até lá, destravando-o e ela seguiu em direção a ele. – No fim do corredor, a última porta à direita. – Ela disse e fui para onde ela tinha mandado e destranquei também, vendo-a vir devagar e subir os poucos degraus com dificuldade.
Abri a porta e acabei espiando o pequeno espaço ali dentro, era bem pequeno, mas era bonitinho e ideal para uma estudante morando sozinha. Me afastei da porta para ela entrar e ouvi seu suspiro quando ela me alcançou.
- Obrigada pela carona. – Ela falou, dando um pequeno sorriso. – Não acredito que não é nem sete e eu já estou em casa. – Rimos juntos.
- Quando precisar, pode me chamar. – Falei, dando um pequeno sorriso e ela concordou com a cabeça. – Falando nisso, tem papel e caneta? – Perguntei e ela entrou pouco no local, pegando ambos e esticando para mim, anotei meu nome e o número do meu celular rapidamente. – Pronto, agora pode me chamar quando quiser. – Ela riu fracamente.
- Agradeço mesmo. – Ela sorriu.
- Se quiser carona, estiver triste, só quiser conversar... – Dei de ombros.
- Obrigada. – Sorri. – Eu não posso te chamar para entrar, está uma bagunça.
- Não se preocupe. – Ela abaixou a cabeça, sorrindo. – Eu preciso passar no mercado antes de ir para casa. – Ela confirmou com a cabeça.
- É melhor você não enrolar muito aqui, o pessoal é viciado em futebol, se der bobeira, você não sai nunca mais. – Rimos juntos.
- Entendi o recado. – Ela sorriu. – Até mais, .
- Até mais, Gigi! Obrigada de novo! – Ela sorriu e me aproximei dela, dado um beijo em cada bochecha sua.
Ela ergueu seu olhar para mim e senti sua respiração em meu rosto e não contive, colando nossos lábios. Soltei um suspiro com isso e subi uma mão para sua nuca, acariciando-a de leve. Ela me beijou de volta, mas seus novos meios de transporte não deixavam que nossos corpos se aproximassem muito, então findei o beijo com uma mordida em seu lábio inferior, vendo-a sorrir, encabulada.
- A gente não...
- Não estamos no território do time. – Falei rapidamente e ela sorriu, rindo fracamente.
- È vero! – Ela disse, visivelmente encabulada.
- A gente se vê. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
- Até mais! – Ela sorriu e me afastei alguns passos, vendo um sorriso dançar em seus lábios. – Bate o portão para mim, por favor?
- Claro! – Acenei com a mão, descendo alguns degraus e a vi morder seu lábio inferior. – Ciao.
- Ciao! – Ela retribuiu e dei às costas, com um largo sorriso no rosto.
Saí na rua novamente, puxando o portão e olhei para trás novamente, vendo-a me espiar e neguei com a cabeça, voltando para o carro. Entrei, procurando o celular dentro da mochila e disquei o número da minha irmã, feliz por ela atender logo.
- Ciao, fratellino! – Ela falou, animada. – Onde você está?
- Eu vou me atrasar um pouco, consegui sair do treino só agora.
- Ah, nossa! – Ela me pareceu, desanimada.
- Podem festejar, cortar o bolo, só não durma antes de eu chegar.
- Tudo bem, algum problema? – Ela disse.
- Não, não, está tudo certo. – Dei um pequeno sorriso, olhando para o portão fechado novamente.

Lei
12 de maio de 2003

- Como você se sente? – O técnico perguntou, finalmente livrando minha perna do gesso.
- Aliviada. – Falei, vendo-o rir fracamente.
- Quer guardar de recordação? – Ele perguntou e eu neguei com a cabeça.
- Não, obrigada! Pode triturar e jogar fora! – Falei, vendo-o rir fracamente.
- Agora relaxe o corpo e me deixa dar uma olhada. – Ele falou, colocando as duas mãos em meu joelho e minha perna e começou a mexer minha perna e pude ouvir um estralo saindo do mesmo.
- Não gostei desse som. – Falei.
- Relaxa, respira fundo. – Ele falou e fez o mesmo com meu tornozelo que fez o mesmo barulho. – Ok...
- O que isso quer dizer? – Perguntei.
- Agora é com o médico, vamos lá? – Ele falou, me estendendo a mão para me levantar e o obedeci.
Ele me levou até outra sala e eu sentei, ficando sozinha por poucos minutos. Suspirei, mexendo minha perna, ouvindo o estralo com pouco movimento e suspirei, apoiando a cabeça no encosto da poltrona, me assustando quando o médico entrou na sala.
- ! Quanto tempo! – Ele falou e eu me levantei para cumprimentá-lo.
- Oi, doutor, tudo bem? – Perguntei, vendo-o apontar para a cadeira e eu me sentei novamente.
- Tudo bem e você? Se acostumou com as muletas? – Ele perguntou e eu ri fracamente.
- Minhas axilas estão assadas, doutor. – Falei e ele riu fracamente.
- É ruim sim, mas aposto que ajudou. – Ele perguntou.
- Sim, mas ainda bem que acabou! – Falei, vendo-o rir fracamente e apoiar a pasta em sua mão na mesa.
- Vamos dar uma olhada nesse joelho e nesse tornozelo? – Ele perguntou, apontando para a maca atrás de si e eu assenti com a cabeça, me levantando e subindo nela. – Como foram esses dois meses?
- Quase dois meses e meio, né?! Foi difícil marcar horário. – Ele riu fracamente.
- Foi um teste para você. – Neguei com a cabeça, me deitando na maca e ele foi até minha perna, começando a fazer os mesmos movimentos que o técnico, apertando e ouvindo os estalos que o joelho fazia.
- Me diga que você tem novidades boas para mim, doutor. – Falei, passando as mãos nos olhos.
- Eu tenho boas notícias para você sim. – Ele disse, me dando a mão para me sentar na maca novamente. – Mas não as que você espera ouvir.
- Como assim? – Perguntei e ele pegou a pasta, tirando minha radiografia dali de dentro.
- Sua nova radiografia é quase idêntica à que você fez quando fraturou. – Ele falou, colocando-a na máquina e ligando a luz. – Em compensação, o desgaste do osso só está maior.
- Ok... – Falei para ele, franzindo a testa.
- Isso quer dizer, , que seu joelho está bom, seu tornozelo está bom, mas eles estão bons para o dia a dia, para você andar por aí, fazer uma atividade física ou outra, mas eles não estão bons para você pular em cima deles, se jogar no chão em cima deles, abusar da utilização deles...
- O que você está dizendo? – Perguntei.
- Do jeito que está agora, se você fizer atividades físicas muito intensas, você vai sentir muita dor, o desgaste pode aumentar e isso vai prejudicar sua vida. Se ajoelhar no chão vai ser difícil, correr longas distâncias, subir grandes escadarias vai ser difícil.
- E não tem como consertar isso? – Perguntei, pressionando os lábios uns no outro.
- Tem a cirurgia...
- Então, eu faço...
- Mas eu não indico você fazer isso agora. – Ele me cortou, olhando para mim. – Você é nova demais, ativa demais, essa cirurgia requer muita atenção, muitos cuidados, longo tempo de repouso, não é algo que eu indico para uma pessoa de 22 anos. – Suspirei.
- Mas então... – Ele suspirou. – Eu jogo vôlei, doutor, é tudo o que eu tenho nessa vida.
- Eu sei, e eu gostaria de ter notícias melhores para você, mas torção é pior do que quebrar, o tratamento é totalmente diferente. – Suspirei, negando com a cabeça, sentindo a respiração ficar pesada.
- Então, eu tenho que desistir? – Falei um pouco alto.
- Não, eu estou te dando uma sugestão, simplesmente. Se você falar que quer fazer, eu faço, seu plano cobre, você faz todo o tratamento com a gente. – Ele suspirou, se apoiando na mesa atrás de si. – Eu estou te indicando, como seu médico, a não fazer. – Ele tirou os óculos. – A cirurgia é a parte mais fácil disso tudo, mas depois são seis meses de repouso e, para você voltar ao nível que você está hoje, são muitas sessões de fisioterapia...
- Eu posso fazer fisioterapia para melhorar ou...
- Sim, você pode e deve, na verdade, vou te passar algumas sessões para fazer, pode fazer conosco mesmo, mas isso ainda é fortalecimento para o dia a dia, fazer coisas que eu e você fazemos, não encarar uma vida de esportista.
- E jogadores de futebol? – Perguntei rapidamente. – Eu vivo isso, doutor, eu vejo os jogadores se lesionando todo dia e...
- É uma vida que eu não indico para você. – Ele disse. – São formas de esportistas lidarem com isso, com a dor, com as fraturas, com as lesões. Algo igual você, eles resolveriam em três meses ou menos... – Suspirei. – Mas eles estão preparados para isso, eles dedicam a vida a isso. Fisioterapia constante, tratamentos constantes, utilização exagerada de remédio, vivem com a dor, se for preciso. – Abaixei a cabeça, sentindo uma lágrima escorrer de meus olhos.
- E se eu quiser viver assim? – Perguntei.
- Então, vamos para a cirurgia e fazemos todo o tratamento, mas o percurso é longo, cansativo e, quando se começa, precisa ir até o fim.
- Não pode ser só isso. – Suspirei, passando a mão nos olhos.
- Como eu disse, existem opções, só não quero ver uma moça como você, 22 anos, bonita, esforçada, confiante, ficar presa a isso para sempre. – Ele disse, apoiando a mão em meu ombro. – Não é viver, . – Engoli em seco, erguendo o rosto. – Vá para casa, respire fundo, avalie a notícia e depois volte para gente avaliar suas opções, ok?! – Ele disse. – Ainda temos um processo pelo meio do caminho.
- O que eu faço enquanto isso? – Perguntei, passando as mãos em meus olhos, suspirando.
- Faça algumas caminhadas, descubra seu corpo com essa lesão, veja o que te incomoda, se você sente dor ao fazer algum movimento, coisas assim. A gente se vê no mês que vem, pode ser? – Ele passou a mão em minha cabeça e eu assenti com a cabeça. – Se você sentir alguma dor muito aguda, aí você venha direto para cá, ok?! Não é para sentir, mas como você ficou bastante tempo com esse gesso, pode sentir alguma diferença.
- Ok, doutor. – Suspirei, me levantando da maca.
- Sinto muito, . – Assenti com a cabeça.
- Grazie. – O cumprimentei novamente e ele tirou a radiografia da máquina e me entregou dentro da pasta novamente.
- Estarei te esperando. – Ele falou e eu assenti com a cabeça. Fui até a porta da sala e a abri, saindo da sala de espera.
Puxei a porta logo depois, tentando conter as lágrimas que enchiam meus olhos e encostei as costas na parede, tentando normalizar a respiração. Pressionei as têmporas, soltando uns suspiros para o alto. Passei a mão nos olhos, balançando a cabeça e saí pelo corredor dos consultórios, voltando para a sala de espera, aonde todas as pessoas, inclusive Giulia, estavam de olho na TV.
- Amiga, vem ver! – Ela me chamou quando me viu e segui até ela, virando para a televisão.
Reconheci Lippi, Del Piero, Zambrotta, Davids, Ferrara e Pessotto na televisão, a imagem mudou e apareceu Lilian e Gigi escondendo o rosto com a mão, visivelmente envergonhado. Alguns estavam de terno e outros estavam com a blusa que representava o 27º scudetto, ironicamente, a blusa que eu estava usando agora. Eles haviam selado o scudetto no sábado após o empate contra o Perugia em casa. Não entendi o que falavam, mas Gigi ficava lindinho envergonhado e mais lindo ainda de terno, mas eu não estava muito animada para saber disso agora.
- Podemos ir? – Perguntei para ela, seguindo para fora do consultório e empurrei a porta, vendo-a correr para me alcançar.
- Ei, amiga, o que aconteceu? – Ela perguntou e deixei que as lágrimas corressem pelos meus olhos. – Ah, não! – Ela me apertou em um forte abraço.
- Eu não posso mais jogar. – Falei, apertando-a contra meu corpo também.
- Ah, não, amiga, não pode ser – Ela disse contra meu ouvido, suspirando e eu puxei a respiração fortemente.
- Ele disse que só cirurgia para corrigir de verdade, mas que a recuperação é muito lenta e que não aconselha que eu faça. – Disse, passando a mão nos olhos e ela suspirou, olhando para mim.
- Ah, amiga. – Ela olhou para mim. – Vai ficar tudo bem, eu prometo.
- Como? – Perguntei. – O vôlei é a melhor coisa que eu tinha. – Falei.
- A gente pode não fazer parte da liga profissional, mas seremos as melhores no clube de campo. Vamos bater as velhinhas facinho. – Ri fracamente.
- Você ainda pode jogar.
- Eu sei, mas sem você o vôlei é só um hobby. – Ela disse, dando de ombros. – Sem você a gente perdeu o campeonato, então sabemos quem é a forte do time, né?! Capitã. – Suspirei, passando a mão no nariz. – Talvez seja na hora da gente treinar um pouco de boxe. – Ela falou e eu ri fracamente, negando com a cabeça.
- Só você para me fazer rir agora. – Suspirei.
- Não poder realizar nossos sonhos é triste, amiga, eu sei, mas também sei que eles podem ser renovados diariamente. Você vai encontrar um novo sonho, você vai ver. – Assenti com a cabeça, suspirando.
- Só espero que minha efetivação se concretize. – Falei, suspirando.
- Falando nela, vamos te levar para lá o mais rápido possível para você não perder mais hora. – Ela disse, correndo até o carro que sua mãe havia nos emprestado e eu entrei do lado do carona.
- Obrigada, Giulia, você é a melhor. – Ela apertou minha mão.
- Você é minha irmã, , eu nunca vou te abandonar. – Sorri, assentindo com a cabeça. – E eu falei sério quando disse sobre o boxe, talvez seja uma ótima forma de extravasar a raiva. – Ri fracamente.
- Talvez, mas vamos esperar o semestre acabar, a formatura... Depois a gente vê o que faz da vida.
- Eu tenho que procurar emprego e, se Deus quiser, você não.
- Ah, tomara, o time é bom demais. Imagina se me efetivam e ao menos o salário dobra? – Virei para ela. – De quatro, eu trabalho oito horas e o salário só dobra.
- Seria demais.
- Seria bom demais! – Suspirei. – A primeira coisa que eu faço é arrumar um apartamento onde meu quarto não cheire fritura se eu fizer algo diferente na cozinha. – Gargalhamos juntas.
- E sair de perto da UNITO, lá é ótimo, mas você precisa morar mais perto de Vinovo, uma vez ou outra até vai, mas aqui é totalmente fora de mão para você. – Ela disse.
- Visualiza, Giulia, “eles pagam bem”.
- Ah, sim, claro, me esqueci! – Ela disse, rindo fracamente.
- E é legal, né?! Aprendi bastante coisa já, o pessoal é legal, meu chefe é legal...
- Os jogadores são gatos per um cazzo! – Rimos juntas. – Você viu o Gigi de terno? Amiga, vocês se viram depois daquela carona?
- Não, não o vi e não vamos falar disso agora, ok?! Eu ainda estou triste.
- Eu sei, mas ele passou o número dele e...
- Por favor, Giulia. – A repreendi.
- Ok, não está mais aqui quem falou. – Ela disse e eu suspirei, olhando para a janela e ela aumentou o som, fazendo All The Things She Said da t.A.T.u sair pelos alto-falantes e nós duas começarmos a competir quem cantava mais fino do que elas.
Deixei que minha cabeça entrasse na música e apoiei o rosto no vidro, suspirando com as imagens da estrada passando agilizada em minha cabeça. Eu não havia levado a sério isso quando aconteceu o acidente, achei que fosse alguma besteira. Eu estava dolorida sim, ralada, amassada no chão, mas eu não sentia nada de diferente, não era aquela dor de quebrado. E agora isso.
Eu me dediquei ao vôlei pelos últimos quatro anos, havia sido um dos esportes que aprendi a jogar no orfanato e usei ele para me desestressar de diversas formas. Pensar nele me lembrava a calmaria, que eu era capaz de enfrentar todas as coisas. Bater a mão na bola, ouvir o som alto dela com a minha mão e depois no chão, me trazia lembranças de felicidade. E agora não poder fazer isso?
Ok, era um pouco exagero, pelo o que o médico falou, eu podia jogar como lazer depois de passar pelo tratamento, fins de semana e quadras de areia estão aí para isso, mas perder a chance de fazer uma carreira era um pouco decepcionante.
Não que eu não soubesse lidar com decepções, acho que já tive várias nessa vida. Acho que isso tornava tudo mais frustrante. Parecia que sempre que eu encontrava formas divertidas de viver, ela era tirada de mim. Pensar nisso me fazia voltar para o time. Era sim uma coisa divertida que tinha acontecido comigo, eu não gostaria de perder também, mas meu contrato ia até dia 30 de junho, tudo poderia acontecer. Ainda era começo de maio, tinha outra avaliação em breve e esperava que desse certo.
- Chegamos, amiga! – Giulia falou e eu suspirei.
- Obrigada, viu?! – Falei, abrindo a porta do carro.
- Não precisa agradecer, amiga. Quer carona para voltar? – Ela perguntou.
- Não se preocupe comigo, um ônibus lotado no horário de pico é tudo o que eu preciso para pensar um pouco. – Ela riu fracamente.
- Estarei aqui as seis. – Ela disse e eu assenti com a cabeça, me debruçando sobre ela e dei um rápido abraço.
- Grazie mile. – Disse e saí do carro, percebendo muitos fãs amontoados na entrada do CT. – Mais essa agora. – Suspirei.
Me aproximei da muvuca que se aglomerava na frente do portão e me enfiei no meio do pessoal, parando na portaria e puxei meu crachá de dentro da blusa, mostrando para o mesmo porteiro que eu via todos os dias e ele assentiu com a cabeça. Ele abriu uma fresta tão pequena, que eu passei raspando para dentro, isso fez com que o pessoal gritasse um pouco, mas logo fechou, me fazendo franzir a testa.
- Pessoal doido. – Ajeitei a mochila nas minhas costas e dei dois passos, parando logo em seguida ao notar que os gritos não eram só do lado de fora. – Ah, o scudetto.
Com certeza o programa que Giulia estava vendo na sala de espera do médico era gravado, pois no meio de todos os funcionários do CT estavam os jogadores com as blusas do scudetto e alguns de terno, igual os vi há minutos na televisão. Parecia um ano atrás novamente, os jogadores tinham trazido a taça, o pessoal tirava fotos, conversava, gritava e tudo mais.
Era legal para o clube e para o meu currículo, posso colocar que fiz parte da conquista dos títulos 26 e 27 do time, o que não deixava de ser verdade, mas eu não estava a fim de festejar agora. Me trancar no banheiro e chorar até o fim do expediente me parecia uma ótima ideia. Ou ficar apática, acho que eu não tinha tantas lágrimas para quatro horas, era mais raiva mesmo.
Andei em direção ao prédio administrativo, passando o mais longe possível da galera e abaixei a cabeça perto dos jogadores que eu tinha mais contato, a última vez que eu vi a maioria foi com o gesso, então contar que eu tirei o gesso e se estava tudo bem, realmente não estava nos meus planos. Relaxei os ombros quando passei pela porta do prédio e suspirei, me sentindo mais segura, ouvindo as conversas mais baixas.
- ! – Franzi a testa ao me chamarem e eu reconhecia aquela voz rouca, me fazendo suspirar. – ... – Me chamou de novo e eu me obriguei a virar, encontrando Gigi com os cabelos bagunçados e arrepiados e aquele terno cinza escuro.
- Ei. – Falei, franzindo os lábios.
- Tentando fugir de fininho? – Ele perguntou, se aproximando mais alguns passos e eu ri fracamente.
- Vemos que não deu certo. – Mordi meu lábio inferior.
- Vejo que tirou o gesso. – Ele disse e eu assenti com a cabeça.
- É, acabei de sair de lá, na verdade. Preciso colocar uma calça. – Ele riu fracamente.
- Eu não me importo. – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Parabéns pelo scudetto, dois em dois anos, acho que logo a conta vai ser paga. – Brinquei, vendo-o rir.
- É, pois é! – Sorrimos. – Faltando duas rodadas para acabar.
- E tem o jogo de volta da semi da Champions, não?! Contra o Real Madrid? – Perguntei.
- Sim, é quarta. – Ele suspirou forte. – Perdemos o jogo de ida, mas conseguimos deixar um gol lá, então precisamos ganhar em casa e compensar.
- Vai dar certo, você vai ver. Del Piero também voltou, não?! – Ele sorriu.
- Ainda bem! – Ele disse, nos fazendo rir.
- Vai dar tudo certo. – Sorri, assentindo com a cabeça. – Eu tenho que ir, tenho umas coisas...
- Não vai comemorar com a gente hoje? – Ele perguntou e eu engoli em seco.
- Eu não estou no clima, Gigi. – Neguei com a cabeça.
- Está tudo bem? – Ele se aproximou mais alguns passos e pressionei os lábios um no outro. – Você pode me dizer, eu estou aqui para o que precisar, lembra? – Suspirei, sentindo os olhos encherem de lágrima de novo, mas ergui o rosto para evitar que elas caíssem.
- Eu acabei de voltar do médico, meu joelho e nem meu tornozelo curaram como deveriam, para ficar perfeito só se eu fizer cirurgia e ele me acha muito nova para isso. – Suspirei. – Mas sem isso, jogar vôlei se torna muito para meu corpo, o impacto é muito forte... – Senti uma lágrima escorrer e passei a mão para limpar rapidamente. – Resumindo: o corpo não aguenta.
- Não acredito... – Ele falou e eu assenti com a cabeça, sentindo-o passar os braços pelo meu corpo e me puxar para um abraço, me fazendo suspirar.
Passei meus braços por baixo dos seus, segurando em seus ombros e ele me apertou forte pelos ombros. Suas mãos passaram pelas minhas costas e eu deixei algumas lágrimas escorrerem até chegarem em seu paletó. Eu queria ficar lá por muito tempo, mas fiquei com medo de alguém aparecer e abanei a cabeça, passando as mãos nos olhos.
- Eu não sei o que te dizer, mas se ele acha que realmente não é uma boa ideia, você deveria ouvir. Qualquer cirurgia é chata, por isso que evitamos tanto aqui no time, o trabalho de recuperação é foda, a volta pior ainda, eu vejo o pessoal mais velho aqui, seis, oito meses sem jogar por isso, mas não pense que é o fim do mundo, ok?! – Ele acariciou minha bochecha com o polegar, limpando uma lágrima. – Você pode encontrar um esporte com menos impacto que você goste e ame do mesmo jeito. – Suspirei.
- Talvez, mas difícil entrar para o profissional, né?! – Arqueei os ombros. – Mas a Giulia disse boxe, talvez seja uma boa para me desestressar.
- É, talvez seja uma boa. Você deve ficar bem naquelas roupinhas. – Rimos juntos e senti meu rosto esquentar.
- É melhor eu ir... – Falei, apontando automaticamente para trás.
- Não quer comemorar um pouco mesmo? – Ele perguntou. – Eles liberaram o álcool. – Ri fracamente.
- É melhor não, acho que preciso lidar com o “luto” ainda, está cedo demais. – Suspirei e ele assentiu com a cabeça.
- Tudo bem, eu entendo. – Ele disse, se aproximando mais uma vez e dando um beijo em minha bochecha, e um sorriso começou a dançar em meus lábios. – Fique bem.
- Você também. Vai dar tudo certo quarta-feira. – Falei e ele cruzou os dedos das duas mãos em figas, me fazendo rir fracamente.
- Torça por mim.
- Sempre! – Falei, rindo fracamente e ele deu dois passos para trás antes de se virar e sair do prédio, me fazendo soltar um longo suspiro.
Levei a mão até a bochecha onde ele havia beijado e suspirei, sentindo o corpo relaxar. Deixei o sorriso se formar em meu rosto e balancei a cabeça. Aquele homem mexia comigo sempre que estávamos juntos, nos outros dias eu até esquecia dele, mas quando o via, sentia que eu ficava diferente. Seu abraço, seu beijo, seu sorriso torto, seus olhos azuis, a quantidade incrível de cabelo em sua cabeça, eu sabia que seria um problema enorme se essa efetivação realmente viesse, mas isso não me fazia desistir, só me dava vontade de consegui-la custe o que custar.

Lui
28 de maio de 2003

O juiz apitou o final da prorrogação e eu levei as mãos até a testa, respirando fundo. Depois de 120 minutos, eu consegui evitar que vários gols passassem pelas minhas balizas. Eu fiz minha parte, mas o goleiro Dida também havia feito a dele e nenhum gol bianconero passou por ele.
Caminhei até nosso técnico, recebendo um squeeze do assistente e virei-o na boca e um pouco no rosto, passando a toalha logo em seguida, jogando os cabelos para trás. Lippi e seus assistentes mantinham uma roda em volta de si com os 10 jogadores em campo e eu só acompanhava suas conversas, a única certeza era que eu seria o goleiro.
Após pouco tempo de conversa, ficou decidido que Trezeguet, Birindelli, Zalayeta, Montero e Del Piero fariam as cobranças. Lippi cumprimentou cada um dos cinco e veio em minha direção, colocando as mãos em minha cabeça e olhando firme em meus olhos.
- Você está fazendo um trabalho incrível, garoto! – Ele falou e eu assenti com a cabeça. – Faça seu melhor.
- Sim, senhor. – Falei, respirando fundo e larguei a toalha e o squeeze com os assistentes e ouvi o apito do juiz.
Voltei para o gol sul, passando pelo outro goleiro e ele passou o braço pelo meu ombro, acompanhando comigo. Ele não me disse nada e eu também preferi não, mas agora era com a gente. Quem fizesse o melhor, sairia daqui como campeão. Era simples assim, não tinha uma alternativa.
Nós bateríamos antes, então Dida se posicionou em seu lugar e eu aguardei na lateral. Tentei ignorar os gritos de Old Trafford em Manchester, mas eram ensurdecedores, mesmo assim tentei limpar a cabeça e respirar fundo. Eu tinha 25 anos, segundo ano na Juventus, oito anos no profissional e estava em uma final de Champions League. Era um sonho para qualquer jogador de futebol. Eu sabia o trabalho que tinha sido chegar até aqui, agora precisaríamos finalizar isso da melhor forma possível.
O juiz apitou e Trezeguet já estava em sua posição. Ele correu e fez um chute para o lado direito do gol. Dida se jogou para o mesmo lado e defendeu a bola, me fazendo suspirar. Começamos mal.
Ambos se cumprimentaram e trocamos de lugar. Me posicionei no centro do gol, ouvindo as observações do juiz em não me mexer antes do chute assenti com a cabeça. Serginho faria a batida. Ele correu em direção à bola e preparou o chute. Por causa do movimento do seu pé esquerdo, pulei para o mesmo lado, mas a bola foi à minha direita, entrando.
Birindelli se aproximou para bater e Dida tomou meu lugar novamente. Nosso defensor se preparou para bater e a bola seguiu para o centro do gol, enquanto Dida se jogava para a esquerda, me fazendo comemorar.
Seedorf faria a segunda batida do Milan. Arrumei minhas meias, me posicionando para receber a bola e o vi se afastar um pouco demais para fazer a batida. O juiz apitou e fui para a direita, espalmando a bola um segundo após o chute. Levantei em comemoração, ouvindo a torcida juventina gritar.
Me joguei do outro lado do campo, ficando de frente para a torcida e fechei os olhos. Era a vez de Zalayeta. A torcida acalmou os nervos e só ouvi o chute, vendo o pessoal comemorar e virei o rosto para o gol, vendo Dida comemorar. Ele havia salvado outro.
Voltei para meu lugar, vendo o milanista Kaladze se colocar em sua posição e me ajeitei também, soltando a respiração devagar. Ele fez o chute e eu pulei para esquerda, vendo a bola vir pelo centro do gol e chutei a mesma, sentindo a pancada da bola em minha panturrilha, me fazendo comemorar. Ergui o punho e pulei em frente à torcida bianconera.
Montero veio para a batida e fiquei na mesma posição que antes, de costas para o chute e soltei a respiração fortemente, ouvindo o barulho do chute na bola e logo em seguida a comemoração de novo. Dida comemorava. Ele havia salvado outra. Cazzo de merda! Isso estava virando surreal já.
Nesta, companheiro de Seleção, se aproximou para o quarto chute do Milan. Respirei fundo e fiquei em posição. Ele fez o chute e eu e a bola fomos para o mesmo lado, por questão de milésimos de segundo, eu não consigo espalmá-la. Levei as mãos à cabeça em frustração e dei espaço para Dida, voltando para meu lugar anteriormente e me joguei no chão novamente, respirando fundo.
Era a vez de Del Piero bater, do nosso capitão. Se ele acertasse, dependia de mim. Se ele errasse ou Dida defendesse, acabou para gente. Respirei fundo. Mal deu para ouvir o barulho do chute e vi o pessoal comemorando logo depois. Virei com pressa e vi nosso capitão beijando o escudo do time. Ele tinha acertado. Isso só queria dizer uma coisa: dependia de mim.
Era a vez de Shevchenko bater. Respirei fundo, soltando o ar devagar e me coloquei em posição, batendo as luvas uma na outra. Ele se afastou para fazer o chute. E assim que ele tocou na bola, eu pulei para a direita, sentindo o corpo cair, mas a bola foi para minha esquerda. Assim que a bola entrou no gol, eu suspirei, ouvindo a comemoração dos milanistas no estádio.
Agarrei a bola, colocando-a entre minhas pernas e abaixei o rosto nos joelhos, sentindo as lágrimas caírem sem dó. Não demorou muito para eu sentir alguns tapas nas costas e ergui o rosto ao ver Del Piero.
- Vamos, Gigi, não chore. Levante-se! Seja forte! – Ele disse firme e suspirei, sentindo-o me puxar para eu me levantar e seguir com ele em direção ao banco de reservas.
- Boa, rapaz! Defesas sensacionais! – Lippi veio em minha direção, me abraçando também e assenti com a cabeça, agradecendo.
Os jogadores também vieram me cumprimentar, falaram algumas palavras de apoio, mas tudo estava girando e eu só queria que tudo aquilo acabasse. Eles podiam dizer o que quisessem, mas eu sabia que tinha sido muita culpa. A desvantagem de ser goleiro era que, em pênaltis, realmente não tinha outra pessoa para culpar.
Dida foi muito bem, ele fez grandes defesas ao longo do jogo e defendeu três pênaltis. Eu defendi dois e já estava achando surpreendente. Pênalti era sorte. Você escolhia um lado e ia. Saber sobre os jogadores ajudava e eu os estudava muito bem, mas às vezes damos azar e nem todo jogador que bate com a direita joga na direita e o mesmo vale se o jogador é canhoto.
O Milan comemorava enquanto montavam o palco para o início da premiação. Me joguei no chão enquanto tudo era preparado e os outros jogadores ficaram à minha volta. Eu cheguei tão perto, tão perto e havia deixado escapar. Era realmente frustrante, não tinha outra palavra para defender isso melhor.
O Milan fez um corredor de honra e nos aplaudiram na hora de pegarmos nossas medalhas de prata. Dida me deu um forte abraço quando passei por ele, falando palavras de apoio e motivação para mim e eu dei dois tapinhas em suas costas. Agradeci muito pelo apoio, mas seria difícil alguma coisa me animar agora.
Após vê-los levantarem a taça em sinal de respeito, demos meia volta e entramos de volta para o vestiário. Ninguém falava nada, nem Lippi, que costumava falar grandes palavras de apoio para gente, tinha algo para falar. Não era hora de brigar e nem de apontar os erros, a gente sabia disso, mas o completo silêncio não era muito confortável.
Peguei minha mochila e fui para o banho, deixando que a água escorresse em meu rosto e precisei engolir as lágrimas novamente. Não era hora para isso. Fiz questão de tomar um banho bem demorado para ocupar o tempo das entrevistas, coletivas e afins. Me vesti com a roupa de viagem do time e voltei para meu ponto no vestiário, calçando os tênis e guardando as chuteiras e as luvas.
- Beh, ragazzi... – Lippi falou finalmente, me fazendo olhá-lo. – Eu sei que não foi o resultado que esperávamos, mas quero tirar um minuto para agradecer todos vocês pela garra que eu vi hoje. Foi um jogo bonito de se ver. – Ele sorriu, tirando os óculos. – Eles estavam muito mais fortes do que estamos acostumados a ver no campeonato, mas vocês conseguiram segurar até o último minuto. – Ele assentiu com a cabeça. – Gigi, você foi impecável hoje, suas defesas, seus saltos, sua parceria junto de Lilian... Não fique pensando nisso, você foi incrível. – Ele disse e Del Piero puxou uma salva de palmas, me fazendo assentir com a cabeça e dar um meio sorriso. – Teremos outras oportunidades, mas não pensem que algum de vocês tiveram culpa no que houve. Hoje quem ganhou foi a sorte... – Ele deu de ombros. – Acontece. – Ele disse, nos fazendo assentir com a cabeça e todos puxamos uma salva de palmas para ele que agradeceu, colocando a mão no peito. Desviei o rosto por entre meus colegas e vi o rosto de Del Piero avermelhado e inundado de lágrimas, me fazendo suspirar.
- Descansem hoje, voltamos para Turim amanhã ao meio-dia. 11 horas saímos do hotel. – O assessor de imprensa falou e assentimos com a cabeça.
Não demorou muito para que saíssemos de lá e voltássemos para o hotel. Era quase duas da madrugada quando chegamos. Alguns jornalistas e torcedores estavam na porta, mas eu ignorei-os, seguindo direto para o elevador com outros jogadores atrás de mim. Não falamos sobre nada. Só trocamos um boa noite quando nos separamos no corredor.
Entrei no quarto, fechando a porta devagar e deixei a mochila aos pés da cama, antes de me jogar de braços abertos nela. Agora que eu podia chorar e desabafar sozinho, sentia que as lágrimas se recusavam a sair na frente de meus colegas.
As imagens da última defesa passavam em minha mente. Ou a anterior, que foi coisa de centímetros para eu tocar na bola. Centímetros que me impediram de levantar a taça naquela noite. Meu sonho sempre foi ganhar um título no campeonato italiano, o que eu havia conseguido atingir por dois anos seguidos, agora eu bati na trava ao tentar ser campeão da Europa.
Eu não consegui chorar, por mais que eu insistisse em passar as imagens em minha cabeça. Eu não estava triste, havíamos chegado até a final e só nós sabíamos como foi difícil enfrentar tudo e todos, mas eu estava frustrado comigo mesmo. Apático, tentando entender onde eu tinha errado. Eu havia estudado o jogador, eu havia marcado com Nicola os pontos de impacto dos jogadores, mas, mesmo assim, algo deu errado.
Era o que Lippi havia falado: hoje quem ganhou foi a sorte. Em muitos casos, futebol era um jogo de azar, na hora do pênalti, tínhamos seis opções. Escolher se ficávamos no centro ou se pulávamos para esquerda ou para direita, e em que altura a bola poderia ir, para cima ou para baixo.
Soltei a respiração forte e ergui meu rosto do travesseiro, apoiando minhas mãos no colchão e me levantei, me sentando na cama. Tirei o casaco e a camisa do time e peguei minha mochila, puxando-a cima da cama. Procurei pelo meu celular e vi que tinha várias chamadas não atendidas, duas de minha mãe, duas de Guendy e umas quatro de um número estranho. Só sabia que era da Itália pelo DDI. Capaz de ser de algum jornalista.
Sem pique para retornar para minha família agora e ouvir palavras de apoio e consolação, deixei o celular de lado, deixando o corpo cair no colchão novamente. Eu deveria me levantar, me trocar, pedir alguma coisa para comer, já que meu estômago roncava, mas eu não estava no pique, acho que nenhum jogador, para falar a verdade.
O celular começou a tocar de novo e o peguei, vendo o mesmo número desconhecido e apertei o botão vermelho, negando novamente e deixei o celular de lado, me fazendo suspirar. Virei o corpo na cama, abraçando um travesseiro e fechei os olhos, tentando espantar os pensamentos do dia. Muita coisa havia acontecido, eu precisava relaxar.
O celular começou a tocar de novo e eu sentei com raiva na cama, puxando o aparelho na pressa e bufei. Observei o código de área da Itália e franzi a testa ao perceber que o outro era código de Turim. Normalmente era o pessoal da RAI ou da Sky Sports e o código era sempre de Milão ou Roma. O aparelho ainda tocava e eu, curioso, apertei o botão verde, colocando-o na orelha.
- Ciao? – Atendi.
- Gigi? – Uma voz feminina falou e eu franzi a testa.
- Chi è? – Perguntei.
- Eu sei que você está se sentido mal, mas achei que precisava de alguém para conversar. – A voz disse e um suspiro saiu pelo bocal logo em seguida.
- ? – Perguntei, surpreso.
- Sou eu. – Ela falou e dei um pequeno sorriso.
- Foi você que ligou todas essas vezes?
- Foi sim. – Ela riu fracamente. – Eu imagino que não queira conversar, só queria que soubesse que se eu posso contar contigo, saiba que pode contar comigo também, ok?! Para desabafar, conversar ou só ficar ouvindo a respiração pelo telefone. – Dei um pequeno sorriso.
- Que horas são aí? – Perguntei, vendo que no relógio marcava 2:28.
- Quase três e meia. – Ela disse.
- Você deveria estar dormindo. – Falei, suspirando.
- Eu estava vendo o jogo. Sinto muito. – Ela disse com sua voz baixa.
- Valeu.
- Se vale de algo, você foi incrível hoje, sabia? – Ela disse. – Você fez defesas sensacionais. – Ela riu fracamente.
- Você acha? – Dei um pequeno sorriso.
- Com certeza. E acho que já posso me considerar mais entendida depois de dois anos de clube. – Rimos juntos.
- Por que você está falando baixinho? – Perguntei.
- Giulia está aqui, eu estou escondida no banheiro. – Ela falou, me fazendo gargalhar.
- Ela está dormindo? – Perguntei.
- Sim, ela diz que não torce para Juventus, mas ficou bem triste também, dormiu assim que o jogo acabou. – Ela suspirou.
- Aposto que é por causa de você. – Ela riu fracamente.
- Bom, eu não poderia, nunca na minha vida, torcer para outro time se não fosse a Juventus, né?! É meu primeiro time e espero que seja o último. – Sorri.
- Acabou seu estágio, né?! – Perguntei.
- Eu ainda tenho até dia 30 de junho, depois vou conversar com Giorgio. – Ela suspirou.
- Alguma chance de eu te ver depois das férias? – Perguntei.
- Acho que sim, ele não me adiantou nada, mas fui bem elogiada no meu relatório. Espero que dê tudo certo.
- Vai dar sim, você vai ver. Você é boa. – Ela riu fracamente.
- Eu sou uma estagiária, Gigi, não sei que nível de boa eu sou, mas eu sei fazer café. – Gargalhei, derrubando meu corpo na cama novamente. – Viu?! Sabia que ia te animar um pouco. – Sorri.
- Você sabe quanto custa um interurbano para Inglaterra? – Perguntei, ouvindo-a rir fracamente.
- Sei sim, mas te fiz rir, então já valeu à pena. – Dei um pequeno sorriso, apoiando a mão no peito. – Você pode não ter ganhado hoje, Gigi, mas você deixou claro mais uma vez para o mundo quem você é, que você existe e que você é bom. – Ela disse. – Nem sempre podemos ganhar, mas podemos sempre tentar de novo. – Sorri.
- Você é boa com palavras, sabia? – Ouvi sua respiração.
- Eu sou melhor com números. – Ri fracamente. – Mas já precisei que me falassem palavras de apoio, seria egoísmo não repassar. – Sorri, suspirando.
Ficamos em silêncio por um momento e fiquei feliz, e surpreso, por ela ter ligado, nunca imaginei. Sabia que tinha passado meu número para ela me ligar se precisasse de algo, mas nunca imaginei que eu precisaria dessa ligação.
- Acho que está ficando tarde para você. – Falei, ouvindo sua respiração, sabendo que ela ainda estava do outro lado da linha.
- Gigi... – Ela me chamou.
- O quê?
- Por que você decidiu ser goleiro? – Ela perguntou. – Você é bom, não é essa questão, é só que parece que goleiro sempre leva. – Ela falou, rindo e eu gargalhei junto dela.
- Dizem que é uma profissão sofrida, mas tem algumas vantagens. – Sorri.
- Então, por quê? – Ela perguntou. – Foi paixão instantânea?
- Na verdade, não. Eu joguei como centro-campista quando era mais novo.
- Mesmo? – Ela falou, rindo fracamente.
- Mesmo! – Sorri.
- Não consigo imaginar... – Rimos juntos.
- Honestamente, acho que nem eu consigo mais. – Sorri.
- Como decidiu mudar isso? – Suspirei.
- Thomas N’Kono.
- Scusi? – Ela falou.
- É um ex-goleiro camaronês.
- Camaronês do país Camarões? – Ela perguntou.
- Exato. – Sorri. – Era Copa de 1990, eu tinha 12 para 13 anos. Argentina e Camarões. Eu fiquei surpreso com as cores de Camarões, estava um calor infernal...
- Foi aqui na Itália, não foi?
- Sim, foi! – Sorri, feliz por ela saber disso. – Acho que foi um dos dias mais quentes do ano e os jogadores de Camarões usavam uniforme completo, as cores muito vibrantes. Até que eu vi esse homem, goleiro. Ele fez uma defesa que ele pulou tão alto no meio dos jogadores e socou a bola uns 30 metros para cima.
- Foi aí?
- Foi aí! – Falei, rindo fracamente. – Nesse momento eu decidi que queria ser goleiro. Não um goleiro comum, alguém que faça essas loucuras, essas grandes defesas.
- Isso é legal! – Sorriu. – E depois você correu para jogar bola, aposto.
- É, tipo isso. – Rimos juntos. – Eu fui encontrar meus amigos e estávamos surpresos. Camarões teve dois jogadores expulsos e ainda ganharam o jogo.
- Caramba! – Ela falou, surpresa. – Que louco! – Rimos juntos.
- É, e as coisas foram acontecendo e oito anos depois eu estava sendo convocado para um Mondiale.
- Isso é incrível, Gigi. Sério, é inspirador te ouvir falar assim. – Sorri.
- Grazie. – Disse, suspirando.
- Sabe, acho que para ser goleiro você precisa não ter medo de nada, né?!
- Por que você diz isso? – Ri fracamente.
- Assim, você se joga no chão de uma forma que eu falo “pronto, agora quebrou de vez” e você levanta e já está pronto para próxima. – Gargalhei, ouvindo sua risada também.
- Talvez um pouco, mas a gente aprende a cair do jeito certo.
- Pode me ensinar? – Ela riu. – Acho que eu não teria me estabacado no chão. – Sorri.
- Como você está, falando nisso?
- Ah, eu vou lá semana que vem, ele quer que eu faça algumas sessões de fisioterapia, mas não estou muito animada.
- Vai sim, vai te fazer bem. – Falei e ela suspirou. – Pelo menos um fortalecimento.
- É, vamos ver. – Ela suspirou. – Acho que estou com fome.
- À essa hora? – Brinquei e ela riu.
- Pior que eu só comi guloseimas, deve ter um buraco no estômago.
- Eu comi antes do jogo, mas já faz quase oito horas. – Rimos juntos.
- Mah dai, ninguém aguenta também, né?! – Sorri. – Ainda mais depois de queimar tanta caloria hoje.
- Foi sofrido. – Suspirei, ouvindo-a bocejar do outro lado da linha. - Acho que alguém está com sono, isso sim.
- A adrenalina está baixando, a Giulia ficou aqui o dia inteiro e depois vimos o jogo, comemos muita coisa açucarada. – Ri fracamente.
- Vai dormir, eu acho que vou também e como no café da manhã.
- Tapeando a fome com sono? – Ela perguntou e eu ri fracamente.
- Às vezes funciona. – Falei.
- No meu caso vai ter que funcionar, se eu abrir a geladeira ou o armário, capaz de eu derrubar tudo o que está secando na pia. – Rimos juntos. – A Giulia é meio irritada quando acorda.
- E você não?
- Acho que eu sou bem relaxada para isso. A não ser que quebrem pratos e copos ao meu lado.
- Acho que até eu acordaria irritado assim. – Rimos juntos e ela bocejou novamente.
- É, acho que está dando minha cota. – Ela suspirou.
- Vai sim, eu logo vou. – Falei.
- Promete que vai ficar bem? – Ela perguntou e eu dei um pequeno sorriso.
- Eu já estou melhor. Obrigado pela ligação, foi bom. – Ela suspirou.
- Eu vou lá, então. Boa noite, Gigi. Dorme bem, ok?!
- Você também. – Falei.
- Parabéns, viu?! Foi incrível. – Ela disse e eu sorri.
- Obrigado. – Falei e logo a ligação foi desligada.
Soltei um suspiro, olhando para o aparelho e deixei o braço cair ao lado do corpo. Deixei que um pequeno sorriso escapasse de meus lábios e girei o corpo na cama, chutando os tênis para fora dos pés e puxei a coberta para cima de mim. Olhei para o horário mais uma vez, bati a mão no interruptor da luz e mordi meu lábio inferior, tentando tirar o sorriso de meu rosto.





Continua...



Nota da autora: Ah, gente, chegamos ao fim de mais uma temporada do time! <3 Esse começo é mais rápido, mas logo as temporadas ficarão bem mais longas – talvez até demais! Hahaa.
Essa temporada tivemos a final da Champions de 2003, a primeira que Gigi jogou e devo dizer que o começo da pequena obsessão dele? Ainda acho que ele não se aposentou por querer ganhar uma, mas acaba sendo um pouco sofrido.
Espero que tenham gostado e não se esqueçam de deixar um comentário no final! Beijos, beijos! <3

É novo por aqui? Que tal ler algumas informações abaixo?
1. Essa história se passa durante os 20 anos do Buffon na Juventus e sua vida pessoal, de 2001 até os dias de hoje, onde ele ainda joga. Então contém bastante slow burn (designação para histórias onde os pps demoram para ficar juntos).
2. Eu não me preocupei com o tamanho da história, então ela vai ser bem longa - mais do que estão acostumados - mas prometo que vai valer à pena, sinto que esses pps são os melhores que eu já escrevi em todos meus anos de escritora e é um roteiro bem fechado.
3. Estou escrevendo há um ano, então as atualizações serão frequentes. Optei por adiantar bastante antes do post por causa do próximo item quatro.
4. Essa história terá alguns crossovers durante ela. Outros personagens irão aparecer e alguns deles terão seu próprio enredo. Quando elas começarem, eu aviso vocês.
5. A história é muito visual, por isso criei um Instagram para postar fotos, vídeos, dream cast, entre outros, conforme eu for atualizando, mas cuidado! Eu vou atualizar as informações do capítulo quando enviar para minha beta, então se não quiser pegar spoiler antes de ler, deixe para encontrar as informações nos links que forem aparecendo durante a leitura.
6. A história também tem uma playlist, então em algumas cenas vocês poderão encontrar um link ao lado da data para aproveitar enquanto lê!
Ufa, acho que é isso, gente! Achei importante fazer esse textão logo no começo para vocês saberem o que vem por aí! Aproveitem!


Ei, leitoras, vem cá! O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso para você deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI.





Outras Fanfics:
Em breve!

Nota da beta: Tadinho do Buffon, gente, quase, hein? Mas era o Dida, o cara simplesmente era foda demais também. E a Serena? Meu Deus, tadinha, esse capítulo foi pra estragar tudo, coitada! Flávia veio entregando tudo aqui hahahah. Ansiosa pelo próximo! <3 💙

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail. Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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