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Última atualização: 10/01/2021

Capítulo Único

[I think of you before I sleep
I think of you before I wake
I’m counting down the days til you’re home
I’m tired of waking up alone]


De todas as coisas que poderiam ter acontecido naquele dia, não esperava ver Jackson Wang entrar no apartamento de Michael Wei Han. E ela realmente não esperava ver a filha de Michael, Elizabeth Yue, nos braços dele.
Era uma noite quase normal. A empresa para qual trabalhava na Inglaterra, ExGen, estava para fechar contrato com uma farmacêutica chinesa para certos serviços que a farmacêutica não realizava. Seria algo de mútuo benefício, além do dinheiro. Os chineses não gastariam milhões em equipamento e recrutamento de geneticistas capacitado e a ExGen aumentaria seu banco de dados, além do pagamento pelos serviços. O chefe de , Robert, estava muito animado com a possibilidade da parceria e a mandou para Hong Kong justamente para negociar. Segundo Robert, não só era uma das geneticistas no programa, mas também era carismática o suficiente para dar o empurrão final que o CEO da empresa, um Mr Michael Han, precisava.
Por sua vez, aproveitou a oportunidade para viajar na conta da empresa. Fazia anos que não voltava a Ásia, desde que havia se formado no ensino médio. Hong Kong, em especial, trazia memórias boas e ruins da época que havia morado lá. Dessa vez, anos depois e em outra fase da vida, ela estava determinada a aproveitar a viagem e matar a saudade. Talvez visitasse os pais de surpresa- eles não sabiam da viagem ainda e sabia que eles ficariam felizes em vê-la. Shenzhen não era tão longe e ela duvidava que Mr Han fosse demorar uma semana inteira para assinar o contrato.
E, na maior parte, ela estava certa. Dois dias e três reuniões depois de sua chegada, havia sido convidada por Mr Han para um jantar na casa dele, para comemorar o sucesso da visita e a assinatura do contrato. Não era exatamente o mais apropriado, claro, mas sabia que Robert não a havia mandado para a China pessoalmente por causa de seu diploma. E estava tudo bem- não era como se algo fosse esperado dela além do estritamente profissional.
Além disso, Michael era um homem de meia idade muito charmoso e interessante, honestamente não se importava de passar tempo com ele. Nada iria acontecer, não arriscaria, mas era charmoso ser cortejada por um homem tão bonito e poderoso. Uma power trip que fazia bem para o ego dela.
Eles estavam nos drinks ainda, com um Dry Martini e Michael com Whisky, jogando conversa fora sobre as mudanças no cenário político europeu. Nada muito sério, apenas esperando o jantar ser servido. De terno escuro e gravata vermelha, Michael era exatamente o tipo de homem que deveria se envolver e era difícil para ela lembrar o porque disso ser uma má ideia.
Cruzando as pernas, a morena abriu a boca para responder a pergunta sobre o Brexit quando escutou a porta de entrada se abrir e uma risadinha feminina ecoar pelo corredor. Ela olhou para a entrada, curiosa, e Michael visivelmente rolou os olhos.
— Honestamente, não adianta perguntar nada para essa garota. Ela muda de ideia toda hora. — suspirando, o homem levou o copo de Whisky aos lábios. — Perdão, . Elizabeth tinha tido que não estaria em casa hoje... Espero que não se importe de termos companhia para o jantar.
Era visível que Michael não estava nada feliz com isso, mas não ligava. Claro, não seria mais a atmosfera íntima de antes, mas talvez fosse melhor assim. Nada de bom viria de ficar muito próxima de Michael Han.
— Não se preocupe com isso, Michael. Tenho certeza que sua filha é ótima companhia. — afirmou, sem precisar mentir. Afinal, elas eram próximas em idade e Michael falava muito bem da filha. Ele não parecia o tipo de homem que elogiava sem motivo.
Segundos depois, Elizabeth adentrou a sala de estar em que eles se encontravam, os longos cabelos escuros presos em uma trança elegante. O sorriso de , que estava se formando, congelou em seu rosto quando percebeu que a garota não estava sozinha. Não, com os braços ao redor dela, estava alguém que conhecia muito bem.
Jackson.
engoliu seco, mantendo uma máscara calma, enquanto o fantasma de seu passado pressionava beijos leves no pescoço de Elizabeth, fazendo a garota rir novamente. Michael rolou os olhos novamente, acostumado com a cena.
— O noivo dela, Jackson Wang. Você reconhece? Ele é bem famoso. — Michael claramente não viu nada de errado com , porque sorriu de modo conspiratório. — Ele é um bom rapaz, bem criado. Nunca iria deixar minha filha namorar um desses idols, muito menos casar, mas Jackson... Ele é diferente.
A mulher tomou um gole de seu Martini, para disfarçar o fato que a garganta parecia fechada. — Já ouvi o nome, mas não é meu tipo de música. Eles parecem felizes.
Rindo, Michael olhou para a filha com carinho.
— Eles se amam. Nunca tinha visto Elizabeth tão feliz.
Realmente, eles pareciam felizes. esperava que sim. Ela não podia se prender ao passado, se recusava a ser o tipo de pessoa que desejava o mal para os outros. Só porque ela não havia conseguido seguir em frente, não significava que era culpa de Jackson. só tinha a si mesma para culpar.
Parecia que o ar tinha sido sugado de seu pulmão quando ele se virou, provavelmente para cumprimentar Michael, e viu sentada ali. O rosto atraente dele não mudou em nenhum momento, embora ainda conseguisse ler o que os olhos do homem não conseguiam esconder, ele a havia reconhecido. Não foi nenhuma surpresa para ela, no entanto, que ele não demonstrou o fato. Na verdade, ele sorriu e se apresentou como se fosse a primeira vez, um braço ao redor da cintura fina de Elizabeth.
Elizabeth Yue Han. Linda, esquia, de ótima família e bem inteligente. Chinesa.
forçou um sorriso, ignorando a dor insuportável no peito. — Muito prazer, Mr Wang. Auditore. - E não disse mais nada.
sabia como isso podia ser interpretado. Os dois sozinhos, em um ambiente íntimo, vestidos como se para um encontro. estava de vermelho e isso deveria dizer a Jackson o suficiente para tirar suas próprias conclusões. Jackson não tinha como saber que era um jantar de negócios e, pela expressão no rosto de Elizabeth, Michael não tinha contado a ela. Talvez ela devesse se apresentar acrescentando o título, o cargo. Mas ela não devia nada a esse homem. E ele não deveria se importar se ela estava com outro ou não.
A moça se recuperou mais rápido que Jackson, sorrindo educadamente.
— E eu sou Elizabeth. Papai não me disse que teria companhia hoje, mas é um prazer.
Ao lado de , Michael levantou uma sobrancelha.
— Eu me lembro claramente de você dizer que não estaria em casa hoje. Não achei necessário, já que vocês não se encontrariam imediatamente. Mas lembra do almoço que eu te pedi para comparecer…?
Elizabeth piscou e o sorriso se alargou, brincalhona.
— Agora sim, está explicado. Esqueça, , eu sou meio atrapalhada mesmo.
Confusa, olhou para Michael, que balançou a cabeça e piscou para ela. Talvez fosse algo que ele estava escondendo de Elizabeth? não sabia, mas confiava nele o suficiente para deixar para lá.
— Bem, já que estamos todos aqui, vocês dois ficam para jantar? — ele perguntou, olhando para Jackson e Elizabeth. A garota já estava assentindo, o que fez Jackson sorrir e inclinar a cabeça ligeiramente.
apertou as mãos no colo, tentando se manter sob controle. Ela não estava preparada para isso, nunca havia passado por sua cabeça que encontraria Jackson aqui. Hong Kong era enorme e ela estaria indo para o continente logo logo. Pelo que sabia, Jackson passava a maior parte do tempo na Coreia.
— Ótimo! — A voz de Michael fez se assustar um pouco, mas ninguém estava olhando para ela. — Podemos ir pra sala de jantar, então. Eu e podemos retomar o assunto com outro drink depois.
Como não fazia a mínima ideia se conseguiria nem mesmo ficar o jantar todo, não tinha tanta certeza. Mas ela não diria isso a Michael, não daria Jackson a satisfação de ver que ela estava tão afetada. Especialmente quando ele nem mesmo parecia se importar com sua presença. Aquilo... Doía. Tinha sido tão insignificante assim na vida dele? Era especialmente doloroso porque aqui estava ela, anos depois e ainda sim completamente apaixonada pelo homem que tinha destruído seu coração.
Aceitando o braço que Michael ofereceu, se levantou e o seguiu, ignorando a conversa baixa atrás deles. Jackson ainda não havia largado Elizabeth e, ao chegarem a mesa, ele puxou a cadeira para a noiva com um sorriso galanteador.
“Você fez isso para mim no nosso primeiro encontro,” ela pensou, aceitando a taça de vinho de um empregado com um sorriso que escondia o tumulto interno. “Eu brinquei que você era meu príncipe. E você prometeu me proteger para sempre. Mas quem me protege de você, Jackson?”
O jantar passou em um borrão, pelo menos para . Ela sabia que estava participando da conversa, que estava comendo, mas não conseguiria dizer a ninguém sobre o que estavam falando ou o que tinha sido servido. Estava no automático, mantendo a compostura por um fio. se sentia na beirada de um precipício, prestes a cair no abismo e ela não achava que conseguiria voltar dessa vez.
Mas, estava tudo indo relativamente bem, até que ela desviou o olhar de Michael para pegar a taça de vinho e teve que assistir, quase como que em câmera lenta, Jackson beijar o lindíssimo anel de diamantes na mão de Elizabeth, um sorriso gentil em seus lábios. Ela olhou para baixo imediatamente para esconder as lágrimas que brotaram, se sentindo estúpida e infantil das piores maneiras possíveis. Conseguia escutar Elizabeth perguntando algo ao pai, então achou seguro olhar para frente novamente.
Jackson a estava encarando, expressão ilegível frente aos olhos marejados de . Ela se levantou abruptamente, cortando a conversa entre pai e filha. Michael colocou a mão no braço dela, preocupado.
? O que houve?
Ela balançou a cabeça e dirigiu um sorriso trêmulo a ele.
— Me desculpe, Michael. Achei que a enxaqueca que estava brotando passaria, mas-
Não era uma desculpa perfeita, mas como já tinha mencionado seus problemas com enxaqueca antes, Michael comprou imediatamente. se sentiu mal quando viu a expressão preocupada do homem, mas ela não podia ficar ali. Pelo menos assim ninguém questionaria o porque dos olhos estarem se enchendo de água.
— Não, não, ...Mas é claro. Precisa que eu te leve até o seu hotel?
Ela negou com a cabeça, fechando os olhos por um momento.
— Não precisa, Michael. Por favor, não atrapalhe o resto de sua noite por minha conta. Eu vou ficar bem, só preciso me deitar.
Michael parecia que iria protestar, mas assentiu, segurando uma das mãos de nas suas.
— Pelo menos me deixe levá-la até o carro. E, por favor, me avise quando chegar. Preciso saber que você está bem.
Ela não podia negar algo tão simples, não tinha nem porque, então apertou a mão de Michael como resposta. Ele se virou para os outros dois, dizendo algo a Elizabeth que não estava prestando atenção. Ela ainda sentia o olhar de Jackson queimando sua pele, mas ele estava silencioso.
Foi só quando já estava em seu carro, dirigindo quase que cega por causa das lágrimas que caíam livremente, que ela percebeu que Jackson não havia dito uma palavra sem ser induzido a noite inteira depois de se apresentar para ela.

-


[Come home, girl come home
Come home, girl come home
I miss you more than can be told
I just wanna be with you in your hold
I’m tired of doing all this alone]


De certa maneira, sabia que ela iria parar naquela maldita ponte. Do momento que ela havia entrado no carro, mesmo que não conscientemente, tudo levava para aquele local. Felizmente, o friozinho e o cair da noite se encarregaram de deixar o parque quase vazio e a ponte totalmente. não sabia o que ela teria feito se tivesse encontrado algum casal de adolescentes se beijando contra o beiral. Provavelmente avisá-los que todas as promessas feitas seriam quebradas e que eles nem deveriam tentar.
Possivelmente, era só um pouco amarga.
Rindo de si mesma, ela limpou o rosto com a parte de trás de uma mão e procurou dentro do bolso do peacoat os cigarros que tinha comprado no caminho. O vento fez o trabalho de acender o primeiro difícil, mas ela não ligou. Qualquer coisa para se distrair do que tinha acontecido, do que estava acontecendo.
O primeiro trago queimou, fazia mais de um ano que havia parado de fumar, mas era também familiar. O menor dos vícios que os anos haviam trazido, ela suspeitava. Merda, porque agora? Porque aqui e agora, quando tudo estava indo tão bem em sua vida? A mulher, por anos, havia suprimido as memórias e os sentimentos associados a Jackson Wang com sucesso. E então, em questão de horas, o castelo de cartas que ela construiu ruiu no pior momento possível.
Gelado, o vento açoitou os cabelos de e ela nem mesmo se preocupou em prendê-los. Acendeu mais um cigarro quando o primeiro acabou, olhos ainda fechados com o rosto virado para o rio. Inspira, respira, inspira. O rítmo ajudava a manter as lágrimas sob controle. não queria chorar, ela já tinha chorado muito por Jackson.
Quando uma mão afastou uma mecha de cabelo de seu rosto, nem mesmo abriu os olhos para saber quem era. O perfume de Jackson o traía.
Como era possível que ele ainda usava o mesmo depois de tantos anos?
— Eu sabia que você estaria aqui. Não me pergunte como, mas eu sabia. — ele disse, gentilmente colocando a mecha atrás da orelha de . Pela proximidade, ele havia se apoiado na balaustrada da ponte. Perto, muito perto. Perto demais. O calor que vinha do corpo dele podia ser sentido mesmo pela camada do peacoat de .
Ela não respondeu, não confiando que sua voz permaneceria estável. Além disso, o que iria dizer? Esse é o lugar que você acabou com a minha vida, mas também onde disse que me amava? Parecia patético até mesmo em sua cabeça, não se humilharia dessa maneira.
Jackson não pareceu se importar com o silêncio.
— Eu não sabia que você fumava. Faz mal, . — A reprovação era clara na voz dele, como se ele tivesse o direito de julgar. estava quase tentada a contar pra ele que não se lembrava nada do primeiro ano da faculdade por causa da cocaína. Ela deu outro trago no cigarro. — Vai estragar a sua voz linda.
Aquilo já era demais.
— O que você quer comigo, Jackson?
Por um momento, ela achou que ele não iria responder. Era bem a cara do idol, ignorar perguntas que ele não gostava.
— Senti sua falta. Queria saber como você estava, . Fazem sete anos.
E de quem era a culpa? Não de , que nunca queria ter ido embora. De repente, ela estava furiosa.
— Sério isso? Você acabou de fingir que não me conhecia, Jackson. Porra, na boa? Vai se foder.
Virando para ir embora, foi parada por uma mão agarrando seu braço de maneira proprietária. Mas nunca machucando- Jackson jamais faria algo assim. Ela se recusou a olhar para ele.
— Me larga. Não tenho nada pra dizer pra você.
— Eu não queria deixar o clima ruim para você. Se eu soubesse, não teria interrompido o seu...jantar. Mr. Han não é velho demais pra você não? — Novamente, a reprovação quase pingava de seu tom.
Tossindo um pouco, quase riu enquanto apagava o cigarro na grade.
— Eu estava lá a trabalho. E não, eu não virei puta de uma hora pra outra. A empresa que eu trabalho está prestes a fechar um contrato com Mr. Han. Era um jantar de negócios.
Jackson fez um barulho de quem não estava acreditando muito nela.
— Íntimo daquele jeito? Você está de vermelho, . Eu sei o que significa.
Como ele ousava...? Como se ainda pudesse dizer algo daquele jeito pra ela! se virou, incandescente.
— Você não sabe de nada, Jackson Wang. Não me conhece mais, talvez nunca tenha conhecido. Não faça suposições infundadas.
A mão dele deslizou pelo braço de , segurando a mão delicada dela. Os olhos de Jackson eram tão intensos, se recusava a olhar pra ele. Ela não iria se perder nele novamente.
— Isso tudo por causa do que aconteceu? Oh, - eu nunca quis te machucar, nunca achei que depois de todos esses anos…
A mulher o cortou, friamente.
— Você acha que foi o único homem a despedaçar meu coração, Jackson? O primeiro, certamente, mas não o último. Essa honra pertence a Philip Gordon-Lennox. Vocês dois iam se dar muito bem, na verdade.
A temperatura do ar entre eles pareceu descer vários graus, como se uma frente fria tivesse aparecido do nada. A raiva de Jackson corria gélida, ela sabia, e algo em suas palavras havia tocado um nervo.
— O que foi que ele fez? , se esse filho da puta te machucou…
Incrédula, a mulher olhou finalmente para o homem que estava mais perto do que ela pensou.
— Ele fez a mesma coisa que você. Saiu comigo, me iludiu, me levou pra cama e depois me largou por uma aceitável garota britânica de berço dourado.
A reação de Jackson foi inesperada. Ele parecia atônito, como se tivesse o batido. Bem que ela queria, mas ia acabar quebrando a própria mão e não causando estrago nenhum na mandíbula perfeita do filho da puta. Ele deu um passo para trás, encarando com horror nos olhos.
— Você acha que foi por isso que...porque você não era aceitável? , pelo amor-
Pro bem da sanidade mental dela, precisa interromper Jackson mais uma vez.
— Era óbvio. Você estava prestes a debutar, já era complicado estar namorando e ponto. Comigo ainda? A Coréia ia te massacrar e a China não ia estar muito atrás. Eu não sou criança, Jackson, sei muito bem como essas coisas funcionam. Eu sei que... - não valia a pena.
Para seu horror, a voz de ficou embargada e ela soluçou. Droga, isso não podia estar acontecendo. Chorar na frente de Jackson era a última coisa que ela queria, ela não precisava disso. Não quando ele estava pra se casar com a garota perfeita e tinha a vida que queria agora. Como era cavalheiro, Jackson ficaria com pena dela e não iria aguentar. Colocando a mão livre no rosto, virou as costas pra ele e pressionou os lábios com força, tentando abafar o choro e os soluços doídos que surgiram sem permissão - totalmente sem sucesso.
De repente, os braços fortes de Jackson a envolveram por trás e ele enterrou o rosto nos cabelos dela. Por um momento, achou que estava tremendo, mas... Era ele. Jackson estava chorando também, silenciosamente, mas seus ombros balançavam com o esforço de se manter quieto.
— Você era a única coisa que valia a pena, . Ainda é. A coisa mais difícil que eu fiz foi abrir mão de você. — nunca tinha escutado a voz de Jackson daquele jeito, pesada com arrependimentos e dor. Mesmo quando eles terminaram, ele se apresentou calmo e sob controle. — Mas você tinha sonhos, tinha acabado de ser aceita em Cambridge e ia largar tudo por mim. Por causa da minha obsessão idiota. Eu não podia deixar que arruinasse a sua vida pra sofrer por minha causa. Porque você tem razão: eles iriam te odiar. A mulher mais perfeita do mundo e eles iriam te odiar. Eu te amava demais pra fazer isso com você, .
As palavras atingiram como se ela estivesse debaixo d’água. Ela ouvia perfeitamente, mas o significado delas demorou a chegar, a ser entendido. Porque o que Jackson estava dizendo... Mudava tudo e também não mudava nada.
Era terrível, descobrir que todos os anos de sofrimento, se sentindo horrível e sozinha e indesejada haviam sido mentira. Por sete anos, a mulher havia sentido como se não tivesse sido o suficiente para Jackson Wang e sua brilhante carreira, para seu futuro. Por sete anos, esteve convencida que não tinha sido verdadeiramente amada pelo homem que até hoje era dono de seu coração. Aqui estava ele, dizendo com todas as letras que ainda a amava.
Mas não tinha sido o suficiente para lutar por eles. Ou para fazer sacrifícios. estava pronta para dar as costas a um futuro brilhante por amor a Jackson. Ele, aparentemente, nunca contemplou fazer o mesmo e achou mais fácil abrir mão de seu amor por ela do que da carreira que queria.
— Eu prometi que iria te proteger de qualquer coisa. Até mesmo de mim. — Aquelas palavras, ditas pela voz embargada que havia passado quase uma década sonhando, a ajudaram a tomar uma decisão.
Devagar, com o coração novamente despedaçado e lágrimas escorrendo livremente pelo rosto, se desvencilhou do abraço do amado. O ruído de puro desespero que ele fez quando ela saiu de seus braços fez os joelhos de falharem por um momento- mas ela não olhou para trás. Largando o cigarro aceso no chão, ela colocou um pé na frente do outro e seguiu andando, para longe da ponte, de Jackson, e de um futuro que nunca foi. continuou sem hesitar, mesmo enquanto o choro de agonia de Jackson a matava aos poucos.

-


[And now, I miss you more than can be told
I’m tired of starting days alone
Tired of seeing you through my phone
I think of you before sundown
When the red shines from the sky]


não se lembrava de ter dirigido até o hotel. Não sabia como tinha estacionado o carro, como tinha passado pela recepção e entrado no quarto. Quando se deu por si novamente, ela estava no chuveiro gelado, tremendo de frio e ainda vestida. As lágrimas haviam parado fazia um tempo, mas não porque tinha conseguido se controlar. Só não havia mais nada nela para chorar.
De certo modo, deixar Jackson sozinho naquela ponte foi mais difícil do que o término deles. Porque agora sabia que ele a amava, que eles podiam ser felizes juntos agora. Mas boas intenções não apagariam todas as cicatrizes que o tempo separados havia deixado e não podia aceitar que o inferno que ela viveu simplesmente não importava mais.
Independente do que Jackson achou que estava fazendo, ele havia a deixado. Se, por um lado, ele achou que estava cumprindo sua promessa, por outro ele deixou sozinha. E isso não era algo facilmente curado com algumas palavras bonitas e uma declaração de amor. No final, nada havia mudado. Jackson iria se casar e ...ela ia sobreviver.
Já havia feito uma vez e faria de novo.

-

[I think of you when I’m alone
And half the pillows looking for your hair
Trying to be honest, I’m just trying to be true to myself
I’ve never been that honest, am I trying to be somebody else?]


Shenzhen não tinha mudado nada. Apesar do que aconteceu depois do jantar fatídico na casa de Michael Han, conseguiu que o contrato fosse assinado e entrou no carro, dirigindo para a casa dos pais. O homem estava visivelmente preocupado com ela quando se despediram, mas não pressionou depois de confessar que alguns problemas familiares haviam contribuído para a pressão que levou a “enxaqueca”. Não era exatamente verdade, mas como poderia explicar para Michael que o tão apaixonado noivo de sua filha era, na verdade, o amor da vida da mulher? Como colocar em palavras a história deles, desde que se conheceram quando eram apenas crianças até aquele último, idílico ano do ensino médio? E, no final, como fazê-lo entender o que os tinha separado?
Não, o que existia entre e Jackson era somente deles e um estranho como Michael não precisava saber de nada. A mulher tinha sorrido e prometido manter contato, antes de entrar no carro e ir embora.
O caminho era nostálgico, mesmo depois de todos esses anos. Quando criança, tinha morado com os pais em Shenzhen, mas a escola ficava em Hong Kong. Depois de um tempo, o pai dela achou melhor se mudarem para Hong Kong de vez. Ele podia pegar o trem e em vinte minutos estaria no trabalho, na Daya Bay Nuclear Power Plant. Afinal, ele era o único que trabalhava na parte continental da China- tanto quanto sua irmã estudaram em Hong Kong e sua mãe até hoje tinha um salão lá.
O bairro deles não havia mudado em nada desde a última vez que visitou, cinco anos atrás. Ela os via com frequência, mas sempre arrumava desculpas para que fossem até a Europa. A China foi a casa de por muito tempo, mas também carregava muitas memórias que ela preferia esquecer. Sabendo do término nada amigável entre ela e Jackson, seus pais não insistiam no assunto e sempre estavam dispostos a visitá-la.
As casas continuavam sendo impressionantes, não exatamente mansões, mas elegantes e vastas- algo não muito comum em Hong Kong, onde o metro quadrado era caríssimo. Sha Tin não era tão cara como as áreas mais centrais, mas ainda sim. sabia o quão privilegiada sua família era por morar em um lugar como aquele.
O que ela havia esquecido, claro, era que a família de Jackson também morava naquele bairro. E é claro que ela foi lembrada da pior maneira possível: dando de cara com a mãe de Jackson, carregando um buquê de flores e parecendo extremamente surpresa de ver ali, andando pela rua tão familiar como se não tivesse sumido por meia década.
Sophia Chow abriu um sorriso tão largo que quase deu um passo para trás. Elas sempre haviam se dado bem, quando e Jackson eram quase a sombra um do outro. A mãe do rapaz costumava brincar que passava tanto tempo na casa deles porque estava treinando para quando fosse a casa dela.
A lembrança trouxe a familiar pontada no coração, dessa vez exacerbada pelos acontecimentos da noite anterior. Colocar um sorriso no rosto foi quase impossível, mas não queria começar a chorar na frente de Sophia e ela sabia que iria.
— Mrs. Chow, olá.
Para a surpresa de , a normalmente reservada mulher deu três passos em sua direção e a abraçou. A moça piscou, retribuindo o abraço com alguns segundos de delay, olhos marejando quando o perfume familiar a envolveu. Por várias vezes, quando era pequena, Sophia havia consolado por um motivo ou outro. A mulher era quase sua segunda mãe.
— Minha querida, quanto tempo. Eu rezei tanto para que você encontrasse o caminho de casa.
Droga. Parecia que as lágrimas de não secaram totalmente, porque ela podia sentir que estava prestes a começar a choradeira mais uma vez. Ela não podia evitar, estava tudo tão fresco e estar aqui, abraçando a mãe de Jackson como se nada tivesse mudado... nem mesmo havia se despedido de Sophia e Ruiji antes de ir embora para a Inglaterra depois do término.
— Eu estava por perto, resolvi passar para dar um beijo nos meus pais. — a morena explicou, piscando rapidamente para se manter sobre controle. — Como você está, Mrs. Chow?
Sophia se afastou ligeiramente, mas ainda com os braços ao redor de , semblante se tornando pesaroso quando ela notou o cansaço da jovem que estava a beira das lágrimas.
— Eu sei que não tenho o direito de dizer nada — a mulher ignorou a tentativa de de mudar o assunto. — Mas..., Ka-Yee nunca mais sorriu como antes desde que você foi embora. Eu sei que todos pensam que ele está feliz, que ele está apaixonado…
Ela respirou fundo, apertando as mãos de entre as suas, visivelmente abalada.
— Mas nós duas sabemos que não é verdade, não é? Todo esse tempo nem a mídia nem as fãs viram meu filho feliz. Porque a felicidade dele estava na Inglaterra.
Com um sorriso triste, Sophia balançou a cabeça ligeiramente e deu um passo para trás. não sabia o que dizer e, aparentemente, nem precisava, porque Sophia já estava indo embora. A mão tremeu quando pegou o celular de dentro do bolso. Na tela, o futuro a encarava, sem misericórdia: o boarding pass, avisando de seu check-in feito e o vôo só de ida para Heathrow em menos de vinte horas.

-


[I see you in my closed eyelids
How much longer must I keep them shut?
I miss you more than can be told
I just wanna be with you in your hold]


Três meses depois

Enfim em casa. Jackson sabia que não ficaria por muito tempo em Hong Kong, mas qualquer pausa era bem vinda depois de quase três meses corridos de promoções. Não só isso, mas ele também estava tendo que lidar com o término de seu noivado e... Com as consequências de suas escolhas.
Inicialmente, ele não havia conseguido entender o porquê de ter ido embora naquela noite. Finalmente a verdade veio à tona, o motivo pelo qual ele tinha terminado com ela tantos anos atrás. Sempre para protegê-la, pensando no melhor para ela. Quebrava o coração de Jackson admitir, mas ele sabia que ficar com ele não teria sido bom para . Ele imaginava que ela fosse esquecê-lo, casar-se com um homem que poderia dar tudo o que ela merecia. Que seria feliz, bem-sucedida, amada. Por mais que doesse, era mil vezes preferível que ele sofresse do que .
Exceto, as coisas não funcionaram bem como ele havia planejado. Em vez disso, a insistência de Jackson em não contar para a verdade a machucou mais do que poderia imaginar, fazendo com que a mulher duvidasse de si mesma, passando anos acreditando que ela não era of suficiente para ele. O homem não podia imaginar a dor que ela carregou por tanto tempo sozinha. Se para ele, que achava que havia feito a decisão certa, foi quase insuportável passar todos esses anos sem ... Isso não era nada perto do que sua amada havia sofrido. Tudo por culpa dele. Porque Jackson achou que sabia mais, que era sua responsabilidade tomar todas as decisões.
Agora que havia tido tempo para processar tudo o que aconteceu naquela noite, Jackson não culpava por ter dado às costas e ido embora. Ele também não teria se dado uma segunda chance, não depois de tudo o que aconteceu.
Mesmo assim, o encontro com a amada serviu para algumas coisas. A primeira foi mostrar a Jackson que ele não podia continuar enganando Elizabeth daquele jeito. Ela merecia mais, alguém que a amasse de verdade e não a colocasse na sombra de uma mulher impossível de ser igualada. Afinal, não havia Jackson escolhido Liz justamente por ela ser o total oposto de ? Não, ele terminou o noivado e pessoalmente se desculpou com ela e com Mr. Han, que foi tão amigável e apoiou o relacionamento desde o começo.
Com isso veio a reação do público, das fãs. Claro, as fãs não ficaram felizes quando ele anunciou o noivado, mas elas agora estavam espumando para saber o porquê de ter terminado. Felizmente, Elizabeth era uma jovem muito forte que não iria se deixar chatear com comentários na internet. Na verdade, Jackson achava que a ex-noiva raramente se importava em olhar as redes sociais fora de sua bolha. Muito esperto da parte dela, principalmente nessa situação. As promoções com o GOT7 distraíram a maioria do fim de seu relacionamento e Jackson estava grato por isso. Também por ter algo para se ocupar, para clarear a mente. Qualquer coisa que apagasse o olhar de puro sofrimento de e o som dos soluços dela de sua mente.
Esfregando a mão no rosto com força, Jackson respirou fundo e desligou o carro com um aperto de botão. Estava estacionado na frente da casa dos pais fazia quase meia hora já, sem coragem para entrar, e ele sabia que sua mãe já havia notado. Mas eles perguntariam o que tinha acontecido, iriam querer saber a verdade sobre o término do noivado com Elizabeth e ele não sabia o que falar pra eles. Como Jackson poderia olhar seus pais nos olhos e contar que ele havia destruído a mulher que mais amava na vida? E por que? Porque seu ego e arrogância o haviam convencido de que ele era o dono da verdade e sabia o que era melhor.
Ficar escondido no carro não ia ajudar, então ele saiu e fechou a porta, seguindo para o portão. Curiosamente, ele estava entreaberto. Não era tão estranho assim, sua mãe às vezes deixava assim quando ela estava no jardim. Ou era uma bela de uma indireta para ele e os longos minutos que passou no carro. De qualquer maneira, ele terminou de abrir o imponente portão de madeira e parou, congelado com a cena que o recebeu.
Deitada em uma das poltronas reclináveis na beirada da piscina, de óculos de sol e lendo um livro, estava . Jackson teve que piscar algumas vezes para checar se não estava imaginando coisas, os pés o levando para mais perto sem sua permissão. Isso não era possível- o voo de havia partido nem dois dias depois que eles se encontraram novamente. Ele sabia porque tinha checado, desesperadamente querendo acreditar que a mulher não o tinha deixado, que eles ainda tinham chance. Mas foi embora e ele perdeu as esperanças.
Mas agora ela estava aqui, na sua frente, na casa de seus pais. Jackson não sabia o que pensar. A mulher se sentou na poltrona, empurrando os óculos de sol para cima e tirando os cabelos longos do caminho. Ao contrário da última vez que se viram, parecia relaxada e feliz. Ela estava brilhando, na verdade, de uma maneira que Jackson só via em seus sonhos- e nem tão frequentemente assim. Era ainda melhor que as memórias que ele tinha dos anos mais felizes de sua vida, porque era real.
? — ainda sem acreditar, ele teve que perguntar. A voz de Jackson tremia.
Sorrindo fracamente, a mulher em questão se levantou e fechou a distância entre eles com poucos passos, o longo e leve festivo off-white se enroscando nas pernas dela enquanto ela andava.
— Olá, Jackson. — foi tudo o que ela disse, parada tão perto que Jackson estava respirando o perfume dela com cada respiração.
— Você está aqui. Mas... Como?
Claramente, estava achando graça, porque seu sorrisinho atravessado aumentou. Jackson nem podia ficar bravo, ele não estava fazendo sentido nenhum.
— Te esperando, é claro. Você voltaria pra casa mais cedo ou mais tarde.
Não parecia possível que isso estava acontecendo, não depois da última conversa que eles tiveram e como ela terminou. estava perdida para ele, para sempre. Era isso que Jackson havia entendido quando ela deu as costas a tudo que eles ainda poderiam ser e ele não a culpava. Nem imaginava que, um dia, iria vê-la novamente.
— Eu não entendo. — o rapaz finalmente admitiu, cerrando os punhos para controlar o impulso de tocar a pele macia de .
Ela, para a surpresa de Jackson, tocou o peito dele levemente com as duas mãos, próxima o suficiente para que ele identificasse todos os tons de castanho dos olhos que ele podia se perder dentro.
— Eu sei. Tem muitas coisas que você não entende, Jackson, mas está tudo bem. E você sabe por quê? Porque eu sei que você também sofreu. A escolha foi sua, mas eu não passei pelas consequências sozinha.
Jackson não tinha como saber disso, mas a curta conversa com Sophia na rua aquele dia acendeu algumas luzes na mente de . A decisão tomada não foi fácil, mas foi a certa.
— Ainda sim, . Eu te machuquei tanto... — ele foi interrompido quando a mulher o beijou. Leve, quase um roçar de lábios.
— Sim, mas eu decidi te perdoar por isso. Que fique claro, Jackson, essa é a primeira e a última vez. Nunca mais ouse pensar que sabe mais sobre o que eu preciso e mereço do que eu. Não é seu lugar tomar decisões por mim e eu espero que, se você realmente me ama, você me respeite o suficiente para deixar que eu decida por mim mesma.
Jackson piscou, admirado e tocado pela imensa capacidade de de tirar seu fôlego e surpreendê-lo. O que ele havia feito para merecer o amor dessa mulher? Jackson não fazia a mínima ideia, mas ele faria o possível e o impossível para ser digno do perdão de .
— Nunca mais, meu deus- eu acho que ficar longe de você mais uma vez ia me matar, . Eu não sou forte o suficiente, nem se eu quisesse. — E não existia nada nesse mundo que ele queria menos do que ficar sem ela.
Envolvendo seus braços ao redor dela, Jackson apoiou o queixo no topo da cabeça da amada e respirou profundamente, os tons de baunilha e laranja exalando da pele e dos cabelos dela tão familiares como seu próprio nome. Mesmo depois de todos esses anos, ainda cabia em seus braços como se fosse feita para isso. E talvez fosse verdade. Ele nunca acreditou em almas gêmeas ou bobagens como essa... Mas tinha sido feita pra ele. E ele pra ela.
— Eu te amo, Jackson Wang, e é aqui que eu vou ficar. Aqui que eu quero estar.
Sem entender, ele franziu o cenho.
— Mas e seu trabalho, sua vida na Inglaterra...
Novamente, o interrompeu, dessa vez com um barulho de impaciência contra seu pescoço.
— Não importa. Eu estou em casa, Jackson. Esperei três meses aqui por você e agora, finalmente, eu estou em casa.
Parado ali, no meio do jardim da casa que um dia sonhou dividir com , com ela em seus braços, perfeita, real e ali... Jackson tinha que concordar.
Eles estavam em casa.



[I’m tired of doing all this alone
I miss you more than can be told
(I can’t stop thinking about you)
Girl, come home]






Fim



Nota da autora: Sem nota.





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