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Última atualização: 24/02/2022

Prólogo

Tem algo neste mundo que nos faz refém daquilo que nos mantém vivos. Algo que ninguém jamais viu. Terra, fogo, ar e água... Ou você ama, ou você odeia. Não importa o quanto você fuja, até mesmo aquilo que mais te faz bem é capaz de causar uma enorme destruição. Como uma grande onda em um límpido mar. Uma vida baseada em tentativas e erros. Sorrisos e lágrimas. Vitórias e derrotas. Esse mundo sabe muito bem como nos usar… E só aqueles que mergulham de coração serão capazes de encontrar a resposta.

***


ー Woah! bateu o próprio recorde mais uma vez!
ー Se ela continuar nesse ritmo, logo vai poder nadar a nível nacional. Não, mundial! ーHawks, treinador e ex-nadador olímpico, se empolgou.

Sábado, oito e meia da manhã. Mais um dia de céu aberto e ensolarado na pequena cidade de Adelaide, Austrália. O clima perfeito para uma competição entre duas crianças de 12 anos na piscina externa do Clube de Natação Aretusa. tirou a touca de silicone e balançou a cabeça, jogando pingos de água do cabelo chanel curto e moreno para todos os lados.
ー Eu vou vencer na próxima! ー declarou, confiante. A garota riu e fez um impulso para sair da piscina.
ー Por que não desiste logo dessas competições, hein? Eu já disse várias vezes que não nado para ganhar ou perder ー Ela estendeu a mão para o garoto, ajudando-o a sair da água.
e se conheciam por mais tempo do que poderiam imaginar. Eram como dois irmãos que se provocavam por qualquer coisa e disputavam quando bem entendessem, mas ainda assim eram amigos inseparáveis e que compartilhavam da mesma paixão: nadar. Os dois entraram juntos para o Clube Aretusa, uma das escolas de natação mais renomadas da cidade, e eram igualmente habilidosos no esporte. A garota preferia nadar no estilo livre, enquanto o outro se destacava no nado costas e borboleta. Mesmo que vencer ou perder em competições não importasse, sempre foi a mais rápida. Para ela, sentir a água enquanto nadava era sua única motivação. Era um sentimento único de liberdade e alegria.
Ouvir o mesmo discurso de que ela não competia, mas ainda assim sempre o vencia e se destacava com um novo recorde de tempo, frustrava . No entanto, por trás de sua frustração, também tinha uma enorme admiração pela conexão que tinha com a água e sua leveza ao nadar. Mas ela não precisava saber disso...
ー Hunf, diz isso porque não tem coragem de me enfrentar no nado borboleta! ー O garoto deu uma risada presunçosa enquanto pegava sua toalha na mochila. rolou os olhos e, com um sorriso cúmplice, roubou o pano de suas mãos. ー Ei!
ー Devia usar toda essa determinação nos torneios, já que gosta tanto de competir! Assim não teria ficado em 4º nos 100m do borboleta e nem teria perdido para Escola Nerissa… De novo ー Ao receber um olhar fulminante de , correu do garoto enquanto ria.
A Escola Nerissa era uma escola de forte potência na natação e grande rival do Clube Aretusa. A política que a equipe Nerissa seguia tanto nos treinos quanto nas competições era “o mais rápido vence”, enquanto no Aretusa sempre foi “mergulhe de coração”. E era por isso que , e todos os outros nadadores se identificavam tanto com o Clube e tinham uma certa rivalidade com a concorrência, porque não bastava ser o melhor e mais rápido se você não entendesse a verdadeira essência de qualquer esporte: dar tudo de si, se divertir e mergulhar de coração.
ー Ah, lá vão eles de novo… ー disse Dylan para Eliza, Liz para os mais íntimos. A dupla tinha a mesma idade dos outros dois, 12, e eram bons amigos de e . Dylan nadava o estilo peito e Liz, costas.
Vendo a garota de cabelos curtos fugir com a toalha enrolada no maiô azul escuro enquanto o outro corria atrás dela, chamou atenção não só dos amigos, como também dos professores e treinadores do Clube. Alguns apenas reviraram os olhos, acostumados com o comportamento das crianças. Liz deu uma risada enquanto se aproximava.
ー Arg! Agora tá toda molhada, idiota! ー reclamou ao conseguir pegar a toalha de volta. ー E você também perdeu para Nerissa no nado livre. Tá falando o quê?
ー E daí? Eu não me importo com isso. Elas são realmente boas! ー Respondeu simplesmente, referindo-se à equipe feminina da escola rival. permaneceu em silêncio e revirou os olhos para o mesmo discurso de sempre.
Enquanto ele secava os cabelos, o observou silenciosamente com um sorriso bobo no rosto. Sem perceber, sentiu um aperto no peito e o rubor nas bochechas aumentar aos poucos. Eram sensações estranhas e desconhecidas para a menina. Embora fossem amigos - às vezes rivais - desde que se conheciam por gente, ela ainda não entendia direito o porquê ficava nervosa perto dele. Não é como se sentisse o mesmo perto de Dylan, que também era seu amigo. Era completamente diferente, como se apenas pudesse mexer com seu coração. Será que se sente assim também? Talvez eu deva perguntar?, pensou.
ー ... E-ei, … ー Sua voz falhou. colocou a toalha úmida em volta do pescoço e a olhou com a sobrancelha erguida enquanto pegava uma garrafa d’água.
ー O que foi? ー Perguntou, achando graça na expressão que fazia.
Por que estou com vergonha?!, a menina soltou um suspiro, frustrada consigo mesma. Depois de alguns segundos de hesitação, abriu a boca para falar, mas foi interrompida com a chegada de Liz e Dylan. deu uma risada fraca, sem entender a reação emburrada de , que se virou e começou a se vestir.
ー Ué, já vai para casa? ー Perguntou Dylan, sentando em um dos bancos onde os alunos deixavam suas garrafas de água, chinelos e várias outras coisas em cima. vestiu um shorts jeans e uma camisa larga por cima do maiô úmido e sacudiu os cabelos curtos mais uma vez. Já deu para perceber que balançar as madeixas era uma mania dela?
ー Não são nem dez horas. É estranho você ir embora cedo ー Liz comentou, sentando ao lado de , que bebia água. ー Pensei que veria perder para você de novo.
ー Ah, tenho tanta sorte de ter amigos que torcem por mim! ー Ele deu um sorriso irônico, tirando risadas dos amigos.
ー Acho que vou dar um descanso para ele ー Ela provocou e revirou os olhos, mas se rendeu a uma risada. ー Por mais que eu queira treinar mais um pouco, já avisei o treinador Hawks que preciso ir para casa. Evie já deve estar me esperando.
ー Woah! Sua irmã vem te buscar hoje? ー Os olhos de Dylan pareceram brilhar, animado.
Evie era apelido para Evelyne, irmã mais velha de . Apesar da diferença de 8 anos de idade de uma para a outra, não tinha como negar que tinham o mesmo sangue. Eram muito parecidas em vários aspectos: aparência, voz, gênio. No entanto, Evie era bem mais madura e não tinha interesse algum em esportes, mas sim por moda e cabelo. Sempre bem-vestida e com uma aura angelical que encantaria qualquer um, até mesmo um garoto de 12 anos, como Dylan.
A pequena deu uma risada fraca, concordando, e colocou a mochila vermelha nos ombros.
ー Meu pai ganhou uma viagem para a praia num sorteio do trabalho dele. Byron Bay! Vamos velejar pela primeira vez!
ー Uau, que maneiro! Deve tá animada para nadar no mar! ー se empolgou, imaginando a aventura.
ー Animada é pouco, olha a cara dela! ー Liz apontou para o sorriso de orelha a orelha no rosto de . Ela sentiu o rubor nas bochechas, constrangida.
ー Bom, vejo vocês daqui três dias! ー A garota apertou a mochila em seus ombros e correu para a saída, mas antes de partir virou o rosto para , fez uma pausa acompanhada por um suspiro, e gritou. ー Quando eu voltar, vamos nadar de novo! Tenho uma coisa para te dizer, então aproveita esse tempo para treinar e me vencer. Assim você me deixa em paz!
O garoto abriu a boca, espantado, e bufou com a provocação. A amiga saiu de sua vista antes que pudesse retrucar qualquer coisa.
ー Isso foi um desafio? ー Dylan perguntou entre risadas.
ー Pareceu com um. E lançado por ? A coisa deve ser séria. O que será que ela quer dizer?
Liz e Dylan encararam com um sorriso malicioso nos rostos, que fez o garoto ficar levemente vermelho. Frustrado com as risadas dos amigos, levantou em prontidão, colocou o óculos e a touca de natação novamente e se preparou para voltar para a piscina.
ー Idiota... Eu, com certeza, vou te vencer! ー Declarou, confiante, antes de saltar na água.

***


Duas semanas se passaram. As aulas no Clube de Natação Aretusa continuaram normalmente, enquanto os treinos estavam cada vez mais rigorosos para o torneio entre escolas que se aproximava. O torneio em que as quatro crianças costumavam participar. e Dylan na categoria de revezamento medley masculino, Liz no feminino e na categoria individual com seu nado livre. No entanto, a garota ainda não tinha aparecido e nem dado notícias até aquele momento.
, com sua touca de natação, fechou o registro do chuveiro e se dirigiu para a piscina. Antes que ficasse em posição para saltar, olhou para a raia 4, onde costumava nadar, e suspirou, desanimado e pensativo, se perguntando o porquê ela ainda não tinha voltado e não deu nenhuma notícia há dias.
! ー Liz apareceu repentinamente com uma feição séria. Dylan estava logo atrás, com a mesma expressão. sentiu o coração acelerar.
ー O que foi? Que cara é essa… ー Ele forçou uma risada, intercalando o olhar entre os amigos.
ー Você já tá sabendo? ー Perguntou Dylan, receoso. apenas franziu a testa, confuso. ー Sobre
... Aquela idiota finalmente voltou?! ー O rapaz olhou por detrás dos amigos, procurando pela garota com um sorriso animado. Liz e Dylan trocaram um olhar de lamento e suspiraram, desfazendo o sorriso de . ー O que foi…?
ー Ouvimos do treinador que… Ela saiu do Clube.

Capítulo 01 - Um Novo Começo

5 anos depois…

Sete e meia da manhã. O dia estava lindo lá fora, com um sol radiante sobre a pequena Adelaide e que iluminava todo o quarto através da janela aberta. As finas cortinas pareciam dançar com a brisa de vento.
Uma mão magra e delicada puxou a primeira gaveta da cômoda branca. No meio das meias e roupas íntimas tinham algumas medalhas e dois porta-retratos virados para baixo. Silenciosamente, pegou uma das molduras e olhou bem para a foto em que tinham quatro crianças que sorriam de orelha a orelha enquanto seguravam um troféu na frente de uma enorme piscina. Estavam felizes como nunca.
Após um breve suspiro, guardou a fotografia de volta no fundo da gaveta. Colocou a mochila nos ombros e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si com uma certa força. Era o começo de um novo ano letivo nesta pequena cidade carregada de memórias.

***


fechou o zíper do casaco até o final, colocou a mochila no ombro e saiu de casa às pressas. Era o seu primeiro dia de aula como um estudante do último ano do ensino médio e ele já estava atrasado. Embora a escola não fosse tão longe de sua casa, ainda assim precisou correr com toda a velocidade para conseguir chegar a tempo. Quando cruzou a esquina, pôde ver o Clube Aretusa, que ficava exatamente ao lado dos portões da escola.
O rapaz colocou as mãos nos joelhos e soltou o ar, ofegante ao cruzar o portão. Zack, um dos funcionários mais conhecidos e querido pelos alunos, olhou para o relógio de pulso com um sorriso maroto e disse:
ー Nada mal, ! ー Ele elogiou. arrumou a postura e olhou para o homem. ー Mas para um nadador como você, não achei que fosse ficar tão cansado depois de uma corrida curta. Perdeu o jeito, garoto?
ー Bom dia para você também, Zack! Sentiu saudades? ー O garoto caçoou, secando o suor na testa.
ー É claro que eu senti! Ah, espera… Pronto, já passou.
O zelador deu uma risada alta ao ver a expressão emburrada de , que logo se deu por vencido e também riu. O garoto se despediu de Zack e dirigiu-se para o seu armário antes de ir para a aula. O funcionário reparou no quanto tinha crescido comparado aos últimos anos.
Estava mais alto, a voz mais grossa e o corpo largo devido ao esporte. No entanto, sua aparência continuava praticamente a mesma de quando era criança, com olhos verdes e o cabelo castanho curto penteado para cima, formando um topete. Em seu rosto, sempre tentava manter uma expressão séria e madura, embora por dentro fosse apenas um adolescente de 17 anos. Sua personalidade também não mudou muito. ainda demonstrava grande paixão pela natação, se preocupava com os amigos e tinha um forte espírito de competitividade e trabalho em equipe.
, ao fechar a porta do seu armário, deu um pulo para trás, assustado.
ー Que merda, Dylan! Desde quando tá aí?
ー Ahm… Dois segundos. Agora três, quatro, cinco…
ー Okay, já entendi ー rolou os olhos e riu, seguindo o amigo para a sala de aula.
Dylan também cresceu bastante com o passar do tempo. Seu corpo era bem torneado, assim como o de . Apesar de tentar parecer uma pessoa séria com um alargador 1mm na orelha e cabelos desgrenhados propositalmente, ele, na verdade, tinha uma expressão amigável e divertida. Qualquer um queria ser amigo de Dylan.
ー Ei, tenho duas notícias para você. Uma boa e outra ruim. Qual quer ouvir primeiro?
ー Hmm… Manda logo a ruim.
ー Soube que a mulher do treinador Hawks ficou com outro cara nessas férias e despertou o Rei Demônio que existe nele. Parece que tá descontando toda a raiva nos treinos pro torneio municipal ー Dylan contava naturalmente enquanto tinha os olhos arregalados, surpreso e espantado. ー Aquele velho fez um garoto iniciante nadar 400 metros livre!
ー O quê? Sério? E aquele papo todo de “Mergulhe de Coração” e blá blá blá?
ー Ah, esquece. Ele tá mais para “Se afogue de coração”... Coitado.
ー Argh, fala sério! E hoje eu tinha planos de ir para casa depois da escola. Não dormi nada essa noite ー O garoto lamentou, frustrado.
ー Faça isso e você vai nadar 800 metros… Ou limpar a piscina ー disse Dylan. soltou um suspiro, cansado.
Quando os dois amigos viraram o corredor e estavam se aproximando da sala aula, algo chamou a atenção de . Um perfume suave que ele conhecia exalou no ar no momento em que uma garota de cabelos morenos e longos, que batiam quase na cintura, passou por eles. Ela era alta se comparada às outras garotas daquela escola. Seus ombros eram um pouco largos e os braços compridos, mas seu físico não parecia ser de uma atleta. sentiu algo estranho ao ver aquela menina desconhecida se afastar lentamente, com os longos cabelos balançando conforme ela andava.
ー Ei! Tá me escutando? ー Dylan apareceu repentinamente na frente do amigo, tampando sua visão.
ー O quê? Disse alguma coisa? ー Perguntou , absorto. O amigo estreitou os olhos.
ー Viu algum fantasma? Seria o Rei Demônio?
ー Ah não! O Rei Demônio tá aqui?! ー Uma voz feminina surgiu, atraindo o olhar dos garotos. Era Eliza.
A menina tinha os cabelos loiros e longos presos num rabo de cavalo alto, revelando uma mecha cor de rosa na nuca. Por cima do uniforme da escola, ela vestia um agasalho azul claro com listras brancas. Na região do peito e nas costas tinha o logo do Clube Aretusa. Sua aparência ficou ainda mais atraente na adolescência, mas sua personalidade continuava descontraída, calma e refrescante. Era a mais sensata dos amigos, também mostrava grande dedicação pelo esporte e colocava o bem-estar dos amigos acima do seu.
ー Ei, Liz! Estamos na mesma sala de novo! ー Dylan comemorou, animado, e fez high five com a garota. Ela sorriu amigavelmente.
ー Atrasado no primeiro dia? ー A garota se aproximou de e o beijou. Ele retomou a consciência e respondeu ao selinho da namorada.
Dylan revirou os olhos, sentindo-se excluído. Embora estivesse acostumado com o relacionamento dos amigos, que começou quando ele menos esperava e agora tinha mais de dois anos. O garoto ficou entre Liz e e os abraçou pelos ombros para entrar na sala. Cada um foi para o seu lugar no fundo da sala e esperou pela chegada do professor daquele primeiro período.
Os dois garotos estavam na mesma fileira, um na frente do outro, enquanto Liz sentou na carteira ao lado de . À sua esquerda tinha uma grande janela que dava vista para a piscina externa do Clube Aretusa. Como o clima estava um pouco mais frio - embora estivesse ensolarado - não havia ninguém na água, mas com certeza tinham pessoas nadando na piscina aquecida, dentro do local.
ー E então, qual era a boa notícia? Ainda não me contou ー A voz de se misturou com a de outros alunos que conversavam na sala. Dylan ficou de lado na cadeira e abriu um largo sorriso, alimentando a curiosidade do garoto e de Liz também.
ー Não está óbvio? ー ele perguntou, apontando para si. e Eliza se entreolharam sem entender. Dylan revirou os olhos e riu. ー Vocês foram agraciados por poderem ver a minha linda cara todos os dias por mais um ano!
ー Tem certeza que essa não é a ruim? ー caçoou com uma risada, recebendo um dedo do meio em troca.
ー Agora, falando sério, tenho mesmo uma notícia boa… Não, ótima! ー O garoto se corrigiu.
ー Fala logo, Dylan! ー Liz pediu, irritada e curiosa.
O rapaz se aproximou dos dois como se fosse contar um segredo, mas, no momento em que abriu a boca para falar, o professor entrou na sala e as vozes dos alunos foram diminuindo aos poucos, até ficar um silêncio total. O homem de cabelos grisalhos e bagunçados que vestia uma calça de sarja e camiseta polo começou a falar o mesmo discurso que todos os professores dão no primeiro dia de aula. bocejou e apoiou o rosto em sua mão. Estava cansado, e ouvir sobre as férias dos outros e preparações para o vestibular estava deixando-o com mais sono ainda.
ー Devia ter ficado em casa… ー ele murmurou e deitou em cima dos braços. Sua sorte era que o corpo de Dylan, que estava na sua frente, era grande o suficiente para escondê-lo. A não ser os alunos ao seu redor, mais ninguém notou que dormiu por dois períodos seguidos, a ponto de sonhar. Era o mesmo sonho que tirava seu sono por várias noites.
Tudo o que ele via era uma garotinha sorridente de cabelos curtos com seu maiô azul encantando a todos ao redor com suas braçadas rápidas. Um nado apaixonado, como se a água a abraçasse e respondesse aos seus movimentos. Até que, de repente, uma enorme onda aparecia e ela mergulhava sobre as espumas da água. Ele esperava ansiosamente pela sua volta, mas a menina não retornava para a superfície. Respingos de água tampavam sua visão e, numa sensação sufocante e silenciosa, o sonho terminava.

***


ー Aaah! ー bocejou exageradamente ao empurrar a porta do banheiro masculino. Para a sua sorte, estava vazio.
Silenciosamente, o garoto foi até um dos mictórios. Ele olhou para os lados antes de abaixar o zíper da calça jeans, conferindo se realmente não tinha ninguém ali. Estava completamente sozinho. De fato, aquele era o melhor horário para se usar o banheiro na escola.
ー Ah, esqueci de perguntar ao Dylan qual era a boa notícia… ー Murmurou enquanto encarava seu reflexo no azulejo branco da parede. ー Não deve ser nada importante, já que não falou até agora…
O barulho da porta abrindo interrompeu seus devaneios. Ah, droga, agora não!, praguejou mentalmente. abaixou a cabeça ao perceber, pela sua visão periférica, que alguém estava no mictório exatamente ao lado. Aqui não! Não conhece as regras?
ー Woah! Eu conheço você! ー A voz estridente do “vizinho” assustou . Era um garoto alto como Dylan. ー , não é? Do Clube Aretuza!
ー Ahm… É… ー Concordou, sem jeito. Quem é esse cara?
ー Eu sou da Nerissa. Nadamos contra vocês e mais uma escola no revezamento medley ano passado, lembra? ー levantou o rosto para olhar o garoto pela primeira vez. Como se já não bastasse a falta de privacidade, o “vizinho” era um rival? ー Pela sua cara, acho que não lembra. Tudo bem! Meu nome é Arthur, mas pode me chamar de Art!
ー É um prazer! ー sorriu, desconfortável, e se afastou para lavar as mãos. ー Não sabia que tinha nadadores da Nerissa estudando aqui. É um pouco longe, não é? ー Perguntou, olhando-o pelo reflexo do espelho.
ー Ah, sim, um pouco. Mas essa escola é mais perto da minha casa, então… ー Arthur abriu a torneira para lavar as mãos também. reparou que ele tinha uma tatuagem estilo tribal na mão esquerda. ー O que aconteceu com aquela garota da equipe de vocês? A que tinha um cabelo bem curto.
congelou por um instante, surpreso com aquela pergunta repentina.
ー Nunca mais a vimos nas competições. Até as meninas da nossa equipe perguntam dela. O que é um pouco estranho, já que são rivais… Quer dizer, eu não me importo muito com isso e… ー Art falava rapidamente e sem parar, mas não estava mais prestando atenção. Ele forçou o maxilar e fechou o punho, sentindo-se nervoso e um pouco deprimido. ー Como era o nome dela mesmo? Maria... Não… Maitê?
ー É ! E ela não faz mais parte do Aretusa há muito tempo ー respondeu com uma voz tão séria que Arthur o encarou, em silêncio. ー Não sei nem se ela está viva.
Sem dizer mais nada, deu as costas e saiu do banheiro, sentindo uma mistura de desânimo e frustração, o mesmo sentimento que ele carregou por todos esses últimos cinco anos, logo depois que desapareceu sem falar absolutamente nada. O garoto esfregou as mãos no rosto e respirou fundo, tentando dissipar aquela sensação incômoda no peito.
Colocando as mãos nos bolsos da calça, caminhou pelo corredor vazio da escola lentamente, sem se importar se estava ou não perdendo a aula. Um pouco mais adiante, pôde ver que Zack conversava de braços cruzados com uma garota, que estava de costas para . Tudo o que ele podia ver eram os longos cabelos cobrindo as costas da menina. Ela segurava uma mochila vermelha no ombro direito.
ー Já ligamos para sua irmã e avisamos que você não se sente bem… Mas tem certeza que está passando mal mesmo? ー Zack ergueu uma sobrancelha, desconfiado. ー Você me parece bem saudável. E eu tenho a impressão de que te vi perto do depósito durante a segunda aula...
O depósito ficava localizado no pátio externo da escola, bem no fundo. Era comum encontrar alunos cabulando aulas ali, casais aos beijos e até mesmo professores fumando. Zack já perdera a conta de quantas vezes já pegou alguém no flagra naquele depósito.
ー Você me conhece desde a quarta série, Zack. Sabe que eu nunca mentiria para faltar a aula… ー Respondeu a menina com um sorriso singelo. O funcionário permaneceu em silêncio, analisando a situação.
ー Posso estar velho, mas não idiota. Se não me falha a memória, você já pulou o muro da escola só para ir até ao Clube aqui do lado e nadar!
ー Ahm… Okay, você tem razão. Posso ter fugido algumas vezes, mas nunca menti! ー A menina segurou a risada ao ver que Zack negava com a cabeça, dando-se por vencido. O homem ia falar mais alguma coisa, mas abriu um sorriso ao olhar para a pessoa que se aproximava.
ー E lá vem mais um golfinho! Por que não está na aula, ?
Ao ouvir o nome do rapaz, a menina retraiu os ombros e prendeu a respiração. Ela abaixou a cabeça levemente, cobrindo o rosto com parte do cabelo.
ー O que… Está chamando quem de golfinho? ー perguntou com a testa franzida, tentando manter-se sério.
ー Ahm… Eu já vou. É bom te ver de novo, Zack! ー A menina se afastou com passos apressados sem olhar para trás. O rosto dela ainda era um mistério para , que apenas observou como os cabelos dela balançavam conforme ela andava.
ー Quem é aquela? ー encostou-se na parede como se nada fosse. Zack o encarou de braços cruzados e bufou.
ー Nem vem me enrolar, garoto. Vai já para aula!

***


Ao entardecer, no Clube Aretusa, o agudo som do apito do treinador Hawks chamou a atenção de todos os nadadores que estavam dentro e fora da piscina. saiu da água ofegante e com os braços e pernas bambos. Era como Dylan havia dito, toda a ira do Rei Demônio estava nos treinos e, deitado no chão com a barriga para cima, podia sentir o peso.
Liz, vestindo um maiô vermelho com uma listra branca na lateral, se aproximou, segurando a touca e o óculos de natação na mão esquerda, e com a outra ajudou o namorado a se levantar. Ela também estava exausta, mas estava numa condição melhor que a dos amigos.
ー Cara, não sei se fico com raiva do treinador ou da mulher dele! Estou morto! ー disse Dylan, sentado no chão com os braços apoiados nos joelhos.
ー Fazia tempo que Hawks não soltava o Rei Demônio que existe dentro dele… ー Foi a vez de outra nadadora, que estava perto dos três amigos, comentar. Era Iara, que nadava o estilo livre e participava do revezamento medley junto com Liz nas competições.
ー Acho que vou vomitar… ー murmurou baixinho.
ー Aqui, toma uma água! ー Liz deu uma risada fraca e ofereceu sua garrafinha para o rapaz.
ー Atenção, olhem todos para cá! ー O Rei Demônio bateu duas palmas, chamando a atenção dos atletas. Mesmo com todo o treinamento severo, agora ele estava com uma feição suave. ー Este é o começo de um novo ciclo para o Aretusa e estou feliz de vê-los novamente…
ー É? Não parece… ー Sussurrou , recuperando o fôlego.
ー O Torneio Nacional está se aproximando e estamos apenas nos aquecendo! O que fizeram hoje é moleza perto do que está por vir… ー Hawks deu um sorriso malicioso.
ー O quê? Ele ficou maluco! ー Iara reclamou junto de outros nadadores ao redor.
ー Me lembre de trazer sal amanhã ー Dylan cutucou com o cotovelo.
ー Sal… Para quê?
ー Para purificar o coração desse velho! ー Respondeu o garoto, fazendo os amigos rirem. Então voltaram a prestar atenção ao que o Rei Demônio dizia.
ー Como alguns já devem ter percebido, estamos com vários membros novos na equipe! ー O treinador apresentou rapidamente o nome de cada membro novo, que acenaram e sorriram educadamente aos veteranos. ー É isto. Mergulhem de Coração, porque este ano é nosso… O quê?
Um dos assistentes, que vestia um uniforme básico de bermuda e camiseta com o logo do Aretusa, sussurrou algo no ouvido do treinador.
ー Ah, sim, como pude me esquecer? Ela já chegou?
O assistente concordou com a cabeça e depois de falar mais algumas coisas no ouvido do treinador, se afastou. Hawks suspirou e retomou a postura. Colocando as duas mãos na cintura e olhando firmemente para os nadadores na sua frente, especialmente , Dylan e Liz, ele sorriu e continuou com o discurso.
ー Temos mais um membro novo para vestir a camisa Aretusa… Ou devo dizer “vestir a touca”? ー Hawks riu da própria piada enquanto o restante permaneceu em silêncio e o encarou seriamente. O treinador pigarreou e continuou a falar. ー Enfim… Ela vai nos ajudar na assistência dos treinos daqui para frente, então sejam crianças educadas como sempre foram, okay?
Todos esperaram curiosos pela chegada da pessoa nova, mas até o Rei Demônio estava estranhando a demora para ela aparecer. Onde diabos se meteu? Não temos tempo a perder!, pensou enquanto olhava para um corredor que dava para o vestiário e a recepção do Clube.
ー Aposto que fugiu depois de ver o Rei Demônio! ー Dylan comentou e os amigos concordaram entre risadas. ー Ah, isso me lembra de uma coisa!
ー O quê? ー Liz perguntou.
ー Esqueci de falar na escola, mas…
ー Ah, olha ela aí! ー A voz de Hawks interrompeu Dylan, que revirou os olhos. Aquela era a terceira vez no dia que não o deixavam concluir a fala!
Comentários baixinhos começaram a ser feitos, entre eles de garotos que ficaram atraídos pela beleza da garota, que caminhava ao lado do assistente. Ela parecia ter a mesma idade que a maioria ali, entre 17 e 19 anos. Liz franziu a testa, buscando em sua memória se em algum momento já tinha visto aquela fisionomia antes. Dylan abriu um sorriso empolgado e virou para trás, cutucando fervorosamente o braço de , que quase se engasgou com a água que bebia. Tossindo, o garoto olhou para o amigo, assustado e irritado.
ー O que foi, porra?
ー Acorda, idiota! Olha!
silenciosamente resolveu olhar para onde todos também olhavam admirados e curiosos. Naquele instante, segurou a respiração no tempo em que seu coração acelerou de uma forma que ele não estava preparado. Parecia que ia explodir e a qualquer minuto iria desmaiar. Era a mesma garota de longas madeixas negras que havia visto mais cedo na escola… Mas, reparando em seu rosto pela primeira vez, notou que não era uma garota qualquer.
Impossível! Não pode ser. Isso não é real!
ー Pessoal, dêem boas-vindas à ! Nossa menina prodígio e nova assistente de treino do Clube Aretusa ー disse o treinador com um sorriso divertido no rosto.
ー Ahm… Conto com vocês! ー disse com a voz um pouco baixa e um olhar sério. Suas pernas tremiam um pouco, assim como seu coração batia tão rápido que parecia querer sair do peito. O cheiro do cloro da piscina estava deixando-a um pouco enjoada. Ela se atreveu a erguer a cabeça e olhar para aquele que tentou evitar a manhã toda.
Foi como se naquele momento tudo tivesse ficado em câmera lenta, como acontecia nos filmes. Liz acompanhou a cena com os olhos arregalados, sem acreditar que aquela poderia ser a de 5 anos atrás. No entanto, ela tinha uma expressão vazia e séria no rosto. Não se parecia nada com sua antiga melhor amiga, que era a mais sorridente e radiante do grupo. Eliza virou para o namorado, que encarava sem esconder o espanto estampado em seu rosto.
ー Essa é a boa notícia! ー Dylan virou para trás e se divertiu com a reação assustada dos amigos.

Capítulo 02 - Uma Pessoa Diferente

- Vejo vocês daqui a três dias! - A pequena prometeu com um alegre sorriso no rosto e partiu.
Os amigos esperaram, mas ela nunca voltou.
Todas as vezes em que acordava cedo para ir ao Clube Aretusa, ele sentava no meio fio da calçada. na esperança de que ela, de repente, apareceria com a desculpa de que estava atrasada ou doente e por isso faltou por vários dias seguidos. Ele esperou, mas ela nunca apareceu.
Quando colocava a touca e o óculos de natação e preparava-se para saltar na piscina, ele fechava os olhos e contava até nove mentalmente, como se no último segundo, ao abrir os olhos e virar para o lado, poderia vê-la pular na piscina e dar início a mais uma das competições entre os dois. Ele olhou para o lado, mas a garota nunca esteve ali.
Ao ir para a escola e sentar em sua carteira, deitava a cabeça na mesa e esperava pelo sinal do primeiro período tocar, e quando tocava, ele levantava e torcia para que visse os cabelos curtos balançarem na sua frente.
O garoto esperou, mas todos esses “rituais” não trouxeram de volta. Foram cinco longos anos de espera por uma única notícia. Coisas absurdas e inimagináveis passaram pela sua mente. Chegou até a pensar que sua melhor amiga estava morta! se preocupou, se chateou e se irritou… Até que chegou o momento em que simplesmente tentaria apagá-la de sua memória e seguiria em frente.
Estava convicto de que nunca mais a veria, mas lá estava ela. Depois de cinco anos, estava de volta. E completamente diferente de como os amigos se lembravam.
- Ah, é você mesma, né?! - Liz perguntou pela terceira vez seguida enquanto segurava a garota pelos ombros e a olhava dos pés à cabeça, como se procurasse algum resquício da antiga que conhecia. - Olha esse cabelo. Tão grande!
- Sim, Liz, sou eu, . - A menina respondeu entre risos. Seu coração batia rapidamente e seu corpo estava tenso. Não sabia como reagir na frente dos amigos depois de tanto tempo.
Ela se atreveu a olhar para , que estava mais atrás e encarava as duas com uma cara fechada e os braços cruzados na frente do peito. Parecia irritado, de alguma forma. engoliu em seco e suspirou.
- Como é que você some e não fala nada? Por onde você esteve? Ficamos preocupados, sabia? - disse Liz com uma voz acusadora.
- Eu sei… Erm… Me desculpe por isso - gaguejou e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. - Não é como se eu pudesse ter feito algo. Eu não tinha um celular na época e…
- Mandasse uma carta, um sinal, uma bomba… Qualquer coisa. - falou pela primeira vez desde que a viu. Sua voz grossa e rude foi como uma pedra caindo no fundo do coração da garota.
Estava certa. Ele com certeza estava irritado.
Um silêncio constrangedor pesou no ar. Dylan soltou um assovio e deu uma risada fraca para descontrair.
- Okay, isso é emocionante. Temos muito o que colocar em dia, e é óbvio que queremos saber o que ela tem feito nesses últimos anos, mas agora o que importa é que voltou! - ele disse, fazendo a garota sorrir, agradecida. continuava a encarar seriamente.
- Como é que você sabia que ela estava de volta? Desde quando… - Liz apontou para Dylan, que ergueu os ombros com um sorriso sapeca.
- Ontem encontrei a Evie quando estava saindo do Clube. Cara… Ela está ainda mais gata do que eu me lembrava.
- Encontrou minha irmã? - perguntou.
- Fiquei até na dúvida se era ela mesma, mas o primeiro amor a gente nunca esquece - O rapaz disse com um ar sonhador. Os amigos riram, inclusive , que negou com a cabeça. - Eu a vi conversando com o treinador Hawks na entrada. Quando estava indo embora, ela me viu e, por incrível que pareça, me reconheceu. Conversamos um pouco e então ela disse que você estava de volta e tal...
- E por que está contando isso só agora? - deu um soco fraco no braço do amigo.
- Eu quis contar assim que soube, mas achei que seria mais divertido ver a reação de vocês quando a vissem pessoalmente. E realmente foi!
O rapaz começou a rir, lembrando-se das diferentes expressões que os amigos fizeram quando viram . A garota, por outro lado, sentiu-se envergonhada por um momento. Mesmo que estivesse de volta à sua cidade natal e conversando novamente com seus amigos de infância, no fundo ainda tinha uma sensação de que ela não pertencia mais àquela roda.
- E você - virou para a menina com uma voz ainda mais séria. - Por que não falou nada? Por que não veio ver a gente antes?! - O garoto fechou o punho e apertou o maxilar. Liz suspirou e segurou sua mão, na tentativa de acalmá-lo. olhou para aquela proximidade com a testa franzida.
- Agora não é o momento de atacar pedras. O que importa é que ela está de volta e vamos poder nadar juntos de novo, como antigamente. Não é, ?
Enquanto Liz sorria alegremente, o sorriso no rosto de desapareceu no mesmo instante, mas ninguém pareceu notar.
- Woah! Vai ser divertido ver perder para a de novo! - Dylan comentou e revirou os olhos, frustrado. - Até o Rei Demônio pode se divertir com isso.
- Rei Demônio? Tá falando do treinador Hawks? - perguntou entre risadas.
- Ele tá pior a cada dia. Mas como você era a favorita dele, tenho certeza de que vai voltar a sorrir agora que está de volta ao time! - explicou Dylan, confiante. não disse nada, apenas olhou para as próprias mãos, hesitante.
Liz se afastou de e abraçou pelos ombros.
- Chega de papo e vamos nadar! Aposto que deve estar louca para entrar na água logo!
A garota respirou fundo e soltou o ar lentamente antes de responder. Ao olhar para a água da piscina, sentiu um leve arrepio no corpo.
- Eu… Tenho outras coisas para fazer agora. D-desculpa - gaguejou e, antes que os amigos pudessem falar qualquer coisa, deu as costas e se afastou rapidamente.
- O que deu nela? - Dylan franziu a testa.
Os três assistiram, surpresos e curiosos, a menina se distanciar, principalmente , que não entendeu a reação da garota. Aquela era mesmo a ?

***


Na manhã seguinte, Liz e subiam calmamente de mãos dadas as escadas da escola e conversavam sobre os acontecimentos do dia anterior e o retorno de .
- Foi um sonho! - disse .
- Não foi, eu estava lá! - Liz negou entre risadas.
- Um clone mal feito então… Porque nem de longe aquela poderia ser a que conhecíamos! - O garoto ponderou, fazendo a namorada bufar e rolar os olhos. - Ah, qual é! Vai dizer que não pensou o mesmo? Se fosse a de verdade, ela teria chegado daquele jeito saltitante dela e pulado logo na piscina.
- Pessoas crescem e mudam, ! Você também não é o mesmo de 5 anos atrás… Apesar que às vezes age igual uma criança - Liz sussurrou a última parte, mas ouviu e a empurrou de leve para o lado, fazendo a menina rir.
O casal continuou a caminhar calmamente pelos corredores, agora em silêncio e pensativos. Por alguma razão, Liz sentia-se um pouco desconfortável e até mesmo insegura. Ela respirou fundo e olhou para .
- Você está bem? - Perguntou, mordendo o lábio.
- E por que não estaria? - respondeu hesitante.
- Eu sei melhor do que ninguém como você ficou depois que foi embora… - Liz soltou a mão de e colocou nos bolsos do agasalho. - Não deixe a volta dela te afetar de novo, .
O garoto soltou um suspiro e também colocou as mãos nos bolsos da calça. Depois de uma pausa, deu uma risada fraca e respondeu simplesmente:
- Não sou mais criança, Liz. Tenho coisas mais importantes para me preocupar…
Eliza o encarou, em silêncio, se perguntando mentalmente se o que ele dizia era verdade ou se estava apenas tentando manter uma postura firme, embora seus olhos demonstrassem o contrário. Claramente estava incomodado.
- Você ainda gosta dela? - perguntou de repente.
continuou a olhar para frente e soltou um longo suspiro antes de responder.
- Essa não é uma pergunta estranha para se fazer ao próprio namorado? Esqueceu que estamos juntos?
- Não é como se estivéssemos perdidamente apaixonados quando começamos a sair - Eliza ficou de frente para o garoto enquanto andava de costas. Em seu rosto tinha um sorriso ligeiro. - Você sabe, nosso namoro é mais um trato do que uma promessa de amor.
- Ouch! Às vezes você pode ser má.
- Obrigada, vou levar isso como um elogio - Liz sorriu enquanto envolvia seu braço nos de .
Silêncio. Nenhum dos dois disse mais nada durante o percurso até a sala de aula, embora ambos pensassem em muitas coisas. Um namoro de fachada, mas não é como se não tivesse sentimentos envolvidos. Talvez a amizade prevalecesse mais que um amor romântico naquele relacionamento e os dois sabiam muito bem disso desde o início. No entanto, não era algo que os incomodava.
- Ah, olha lá! E por falar nela…
Liz apontou para o final do corredor, onde a própria conversava com Dylan e mais um garoto na frente dos armários. estreitou os olhos, tentando reconhecer a terceira pessoa que mostrava algo no seu celular para . Mesmo de longe, o casal conseguiu ouvir a risada alta do rapaz, e foi aí que se lembrou.
- Ah! É o cara que não respeita as regras do mictório!
Eliza se afastou de com a testa franzida, sem entender o que ele falava.
- Ele é da equipe Nerissa. Acho que é Arthur o nome dele, algo assim.
- Uau, pensei que os nadadores de lá estudassem na própria Escola Nerissa. O que ele faz aqui? - perguntou Liz.
- É, eu também achei estranho, mas parece que ele mora aqui perto.
- Ele pode ser um espião - Liz colocou a mão no queixo enquanto arregalou os olhos, pensando na possibilidade. Então, a risada da menina preencheu o corredor, chamando a atenção não só do namorado, como também de quem estava por perto. - É brincadeira, não estamos em um filme adolescente. Esse tipo de coisa não existe!
sentiu um estranho aperto no peito ao ver se aproximar com Eliza agarrada a ele enquanto ria alegremente. Era estranho vê-los tão próximos daquele jeito.
- Há quanto tempo eles estão juntos? - perguntou de repente, cortando a conversa entre Arthur e Dylan sobre os treinos para a municipal. Dylan seguiu o olhar da garota para saber do que ela falava.
- Ah, aqueles dois? Três anos… Eu acho - respondeu simplesmente. - Às vezes eu esqueço que eles estão namorando.
- Hmm… Três anos? - repetiu para si mesma num murmuro.
Ela observou os pombinhos se aproximarem com uma certa curiosidade. Não é como se ainda tivesse sentimentos pelo garoto, mas, de alguma forma, estava incomodada em saber que existia um romance entre os amigos. Na verdade, nem sequer imaginava que pensava nesse tipo de coisa! Para ela, tudo o que tinha na mente do rapaz era competir e vencer.
Quando seus olhos se encontraram com os de , virou o rosto no mesmo instante e apertou a mochila vermelha contra o corpo, tentando controlar aquela estranha inquietação. Então, de repente, viu uma mão tatuada balançar na sua frente, despertando sua atenção. Era Arthur.
- E então, qual sua resposta? – Perguntou, ansioso. O silêncio e a expressão confusa de entregavam que ela não tinha ouvido nada do que Dylan e Art falavam.
- … Resposta? Para quê? - Ela perguntou e os garotos riram.
- Você é mais distraída do que eu me lembrava - Comentou Dylan, cruzando os braços. - Estamos falando do Torneio Municipal e ele está nos desafiando na cara dura!
- As meninas da nossa equipe falavam que você era quase imbatível no nado livre - ergueu a sobrancelha para o sorriso atrevido que se formava nos lábios de Arthur. - Já que você está de volta, o que acha de competir com a gente nesse sábado?
respirou profundamente para dar uma resposta clara e direta àquela provocação, mas no momento em que abriu a boca, uma voz fina e desafinada surgiu.
- “Eu não nado para vencer ou perder… Blá blá blá” - respondeu por , mencionando o discurso que ela sempre usava. Dylan e Liz riram enquanto Arthur e apenas o encararam em silêncio. - Era o que ia dizer, não era?
Talvez aquela fosse a primeira vez em que sentiu o sangue subir de irritação ao olhar para o rosto de e ouvi-lo zombar dela. O que ele sabe sobre mim, afinal?, pensou. Ela se limitou a ignorá-lo, sem mostrar qualquer reação, e o silêncio dela mexeu mais com ele do qualquer resposta afiada ou um dedo do meio.
- Nesse caso, pense no desafio como um simples treino para a Municipal! - Art sugeriu.
- Eu topo! - Liz concordou, levantando o braço, animada.
- Pode ser divertido - Dylan também mostrou-se interessado com a proposta. apenas levantou os ombros. Ele nunca recusava um desafio.
- E então? - Arthur perguntou novamente.
sentiu os olhos dos quatro em cima dela, esperando por uma resposta. Ela abaixou a cabeça e suspirou.
- Eu não vou - Respondeu com a voz baixa.
franziu a testa, se perguntando se tinha ouvido certo. Aquela era a segunda vez que recusava um convite para nadar e evitava olhá-los nos olhos. Quem é você?, se questionou enquanto a encarava.
- Desculpa, mas eu já tenho planos para sábado. Quem sabe na próxima? - Ela acrescentou com uma risada fraca, sentindo o coração acelerado. - Preciso ir agora. Até mais tarde!
Assim como no dia anterior, a menina deu as costas para os amigos e apertou os passos para fugir daquela conversa o mais rápido possível. Os quatro a viram partir sem dizer absolutamente nada. Liz olhou de relance para , que tinha as sobrancelhas arqueadas e forçava o maxilar. Ela podia adivinhar o que se passava pela sua cabeça: que porra é essa?

***


fechou a porta do armário do vestiário do Clube Aretusa com força, assustando com o estrondo um outro nadador que estava ali.
- Aquela idiota volta como se nada tivesse acontecido, não fala nada e agora inventa desculpas para não nadar?! - Murmurou entredentes.
O garoto estava sem camisa e com sua calça de natação preta com uma linha azul e branca nas laterais, pronto para encarar mais um dia de treino. Embora estivesse cansado e com milhares de perguntas em sua mente, ele precisava liberar aquela raiva que queimava seu sangue de alguma forma. E nadar era sua melhor opção no momento.
soltou um suspiro pesado ao deixar a água do chuveiro cair no corpo, antes de entrar na piscina. Por que ele estava tão nervoso depois de finalmente reencontrar ? Mesmo que não admitisse, pensou que quando esse dia chegasse, ficaria mais feliz que qualquer um. No entanto, não estava sendo o caso. Vê-la agir tão diferente de como se lembrava apenas fazia o seu sangue subir. Argh, inferno!
- Ei, tudo bem? - Liz apareceu com um olhar atencioso. Ela estava com os cabelos molhados e vestia um maiô vermelho. - Vai ficar com rugas se continuar com essa cara.
Eliza tocou a testa do rapaz com o dedo indicador, desfazendo as rugas no meio das sobrancelhas. Ela sorriu e alisou carinhosamente o braço de .
- Só… Não acredito que aquela garota seja mesmo a - Ele suspirou, cabisbaixo. - Por mais que eu tente, parece que estou olhando para uma pessoa completamente estranha.
observou de longe, que amarrava os cabelos num rabo de cavalo enquanto passava instruções para uma das nadadoras novas.
Já fazia quase uma semana que estava de volta. Na escola, ela estudava na classe ao lado da de , Liz e Dylan - a mesma que a de Arthur - e quase não a viam por lá. No entanto, sempre a encontravam no Clube Aretusa depois das aulas, onde ela trabalhava meio-período na assistência dos treinos.
Todos os dias, ela analisava atenciosamente cada nadador e sempre fazia anotações em uma prancheta, assim como também seguia ordens do treinador Hawks, mais conhecido como o Rei Demônio. Embora realmente elaborasse bons treinos e estivesse sempre em contato com os nadadores, os amigos não a viram entrar na água nenhuma vez desde que ela apareceu. E isso intrigava .
O que mais chamou sua atenção fora o quão longe ela ficava da piscina, e raramente a via esboçar um sorriso. Era como se ela não quisesse estar ali, mas precisava.
- Uma pessoa triste… - acrescentou.
- Vamos dar um tempo a ela, ok? Deve ter uma razão para ela ter ido embora tão de repente e voltar dessa forma - Liz o abraçou e beijou sua bochecha. forçou um sorriso e balançou a cabeça, dispersando aquele sentimento esquisito.
- Eu preciso esfriar minha cabeça, então vou treinar até tarde hoje. Não precisa me esperar, ok? - Ele disse, seguido de um selinho na boca. A menina sorriu.
- Não se esforce tanto.
- Ei! ! - O casal se assustou ao ouvir o grito de Hawks. - Vai ficar de lenga-lenga com namoradinha ou vai entrar na droga da água?
- O Rei Demônio acordou. É melhor você ir antes que ele comece a soltar fogo - Liz disse, rindo. revirou os olhos, sem paciência, e deu outro beijo na namorada antes de colocar a touca e ir até a piscina.
- Aí, treinador, que merda é “lenga-lenga”? - O garoto caçoou de longe.
Eliza cruzou os braços e o encarou até ele saltar na piscina. Então, virou o rosto e olhou para . Ela assistia as braçadas de como se fosse a primeira vez vendo alguém nadar. De alguma forma, Liz estava se sentindo preocupada e confusa com a situação toda.
- … O que deu em você, ? - Sussurrou para si mesma.

Capítulo 03 - Take Your Marks

O resto da semana se passou tranquilamente e sem grandes novidades. Na verdade, para , todos os dias foram iguais desde que ela voltou para a pequena Adelaide. No momento em que o sol nascia até o seu pôr, a rotina era sempre a mesma: acordar cedo, tomar café, ir para a escola, ir ao Aretusa, voltar para casa, tomar banho e dormir. E então, no dia seguinte, começava tudo de novo.
Em casa, a garota estava imersa sobre a banheira de cerâmica, fazendo pequenas ondas na água com a mão. Até que ouviu três batidas na porta do banheiro.
ー Mana, vou dar uma saída e comprar alguma coisa para a gente comer. Quer que traga algo? ー ouviu a voz abafada da irmã, mas não respondeu. Continuou distraída com o balançar da água.
Evie olhou para o vapor que saía por debaixo da porta e suspirou, aceitando o fato de que havia sido ignorada pela irmã mais nova outra vez. Estava acostumada com aquilo, mas ainda assim insistia em tentar uma conversa com a garota, como pedir opiniões, perguntar como foi o dia com um enorme sorriso no rosto e até mesmo convidá-la para sair. Mas tudo o que recebia de volta era o seu silêncio.
ー Está bem… Vai ser massa, então. ー Murmurou para si mesma e deu as costas.
virou o rosto ao ouvir o som de porta bater, significando que Evie já tinha saído. A garota segurou a respiração e afundou na água, transbordando um pouco para fora da banheira. Ficou ali por alguns minutos, até sentir que não aguentava mais ficar sem respirar. Quando seu corpo começou a insistir por oxigênio, ela emergiu e puxou todo o ar como se fosse o último. Aos poucos, sua respiração retomou ao ritmo normal, mas ela ainda sentia uma sensação de aperto no peito. Então, uma lágrima escapou de seus olhos, se misturando com a água.

***


Na sexta-feira e no último período de aula, o professor segurava os alunos com sua explicação sobre as provas que teriam nas próximas semanas. Quando o sinal finalmente tocou, todos colocaram as mochilas nas costas e saíram às pressas da sala, ignorando qualquer sermão que o professor tivesse para dar. também levantou de sua carteira e começou a pegar suas coisas.
ー Ei, !
Escutando uma voz estridente chamá-la por trás, se virou calmamente e sorriu ao ver Dylan parado na frente da porta da sala.
ー Ah… Oi, Dylan! Já está indo para casa? ー Perguntou enquanto colocava a mochila nas costas e se aproximava do rapaz.
ー Quem dera! ー O rapaz suspirou, cansado. ー Ainda temos que treinar para Municipal. O Rei Demônio não libera nem um dia de descanso!
ー Nunca vi ele pegar tanto no pé de vocês ー riu, apesar de sentir pena dos amigos.
ー Pegando no pé é pouco! Mas pelo menos a fúria dele tá dando resultado. Ontem o bateu o próprio recorde de tempo no nado borboleta ー Dylan apontou para trás, onde ria de algo que Liz falava enquanto andavam até eles.
encarou o rapaz com um certo brilho no olhar. Ela não podia negar que estava orgulhosa de ver os resultados de na natação.
ー Ele melhorou muito desde a última vez que nadamos juntos ー disse, sorrindo. Dylan seguiu o olhar dela e fez um barulho com a boca.
ー Aah… Pensei que a primeira coisa que ia ver quando você voltou era uma competição com aquele idiota.
Colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, a menina olhou para os pés e suspirou fraco.
ー Foi mal por quebrar suas expectativas ー disse, dando um tapinha no ombro largo do rapaz. apertou a alça da mochila e se preparou para ir embora.
ー Espera, ! ー Dylan segurou seu braço. e Liz se aproximaram de mãos dadas. ー Hoje, depois do treino, nós combinamos de sair para comer alguma coisa e relaxar um pouco antes das provas. Por que não vem com a gente? ー Ele convidou com um sorriso sincero.
olhou de relance para as mãos de e Liz juntas e suspirou. Ela lambeu os lábios e forçou um sorriso de lamento.
ー Eu… Não posso hoje, desculpa! Tenho uma coisa para fazer, mas juro que vou na próxima. Preciso ir agora… ー A garota sorriu e deu as costas, saindo da sala com passos apressados.
Aquela não era a primeira desculpa que ela inventava, assim como não era a primeira vez que os amigos a convidaram para sair e se divertir. No fim, a resposta era a mesma: não posso hoje. Por mais difícil que fosse admitir, cada vez mais ela se distanciava daquela amizade de infância e eles não sabiam mais o que fazer. Mas não queria desistir e nem soltá-la tão facilmente, sem ao menos saber o que estava acontecendo. Ele tinha que tentar apenas mais uma coisa!
ー Eu vou na frente! Encontro vocês depois.
ー Espera, onde você… vai.
soltou a mão de Liz e saiu antes que ela terminasse a frase. Ele correu pelos corredores da escola sem importar-se com as chamadas de atenção e olhares reprovadores de funcionários e professores.
ー Ei, não corra nos corredores! ー Zack repreendeu quando passou por ele feito um furacão.
O rapaz correu o mais rápido que pôde até a saída, na esperança de encontrar . Do lado de fora, ele procurou pela menina entre as pessoas que passavam na rua. Quando viu as longas madeixas balançarem com a brisa do vento, ele sorriu vitorioso e apertou o passo até alcançá-la e segurar seu braço. virou para trás, assustada, e colocou a mão no peito ao ver um ofegante.
ー Ficou maluco? Quase me mata de susto, idiota!
ー O que você tem para fazer hoje? ー Ele perguntou de repente. franziu a testa e olhou para os lados.
ー Não interessa…
“Droga!”, pensou. Além de Evie, também não conseguia mentir para .
ー Eu sei que você está escondendo alguma coisa! ー acusou, sem dó. A garota abriu a boca para se defender, mas o rapaz continuou a falar. ー Assim como sei que você está inventando desculpas e só está fugindo da gente!
ー Não sei do que você tá falando…
“Pare, por favor!”, ela implorou mentalmente.
ー Por que não confia em nós e conta logo o que aconteceu com você?! ー A voz de se elevou, chamando a atenção de algumas pessoas ao redor. Dylan e Liz apareceram do outro lado da rua.
ー Não aconteceu nada... Pode me soltar, por favor? ー pediu, irritada, puxando o braço, mas o garoto não a soltou.
ー Do que você tá fugindo? ー O garoto perguntou seriamente, com a voz um pouco mais baixa, porém dura. Os outros dois amigos se aproximaram, preocupados. ー Por que você tá tão diferente?
ー Eu já disse que não aconteceu nada! O que deu em você? ー Agora foi a voz da garota que se elevou. Pessoas ao redor começaram a cochichar e murmurar.
, deixa ela em paz… ー Liz interviu, pegando no braço do namorado.
ー Então prova que não tem nada acontecendo e que você ainda é a que conhecemos! ー disse com uma voz desafiadora e séria. A garota o encarou com a respiração descompassada, completamente nervosa. ー Cumpra o desafio que você me fez na última vez, cinco anos atrás.
Usando uma expressão séria, diferente das costumeiras, empurrou o braço do garoto e o encarou silenciosamente.
ー Você mesma disse que quando voltasse, nadaríamos de novo. Se eu te vencer, você vai parar de fugir e falar logo que merda tá acontecendo! ー fez uma pausa e abaixou o tom de voz, olhando-a nos olhos. ー Se você vencer, pode continuar fingindo que não nos conhece. Faça o que quiser!
abaixou a cabeça e bufou, impaciente, sentindo raiva do garoto. Quando eram crianças, ele a desafiava praticamente todos os dias para uma disputa no nado livre e ver quem era o mais rápido. Para ela não importava se ganhava ou perdia, apenas queria nadar, então aceitava na esportiva. Mas ali, na frente de todos, sentiu uma vontade imensa de empurrar para longe e dizer não. Ela não queria nadar, nem competir e muito menos provar alguma coisa… Mas, por algum motivo, não encontrou forças para negar a provocação.
ー Está bem! Encontro você aqui, amanhã à noite. ー Ela apontou para o Clube Aretusa, sem tirar os olhos do rapaz. deu as costas mais uma vez e andou para longe, deixando os três amigos para trás.
ー O que deu em você, ?! ー Liz reprovou o namorado com uma feição nervosa.
ー Tem certeza do que está fazendo? ー Dylan perguntou, preocupado.
ー Não, mas sei que ela é como eu e nunca recusa um desafio ー respondeu com os olhos fixos na direção por onde havia ido. ー Já ‘tô de saco cheio de ficar sem respostas. Foi o único jeito que encontrei de tentar descobrir o porquê ela tá tão estranha…

***


No dia seguinte, as aulas de natação e treinos correram normalmente até o final da tarde. Ninguém comentou uma única palavra sobre o encontro marcado para aquela noite, apenas agiram como se fosse mais um dia. No entanto, não podiam negar que o clima estava tenso.
ー Será que ela vai vir mesmo? ー Liz perguntou, olhando para o caminho que levava para a entrada do Clube. O relógio marcava 21h15 e o Aretusa fechava às 22h00.
ー Não sei… Ela nem apareceu hoje ー Dylan apareceu, vestindo uma jaqueta com o logo do Clube e sentou no mesmo banco em que Eliza estava. Enquanto isso, vestia sua calça de natação preta e alongava os braços na frente da piscina externa.
ー Sabem, tenho pensado nisso ultimamente, mas… E se ela parou de nadar? ー Os dois amigos viraram para Eliza como se ela tivesse dito o maior dos absurdos.
ー Eu não acredito que ela realmente tenha parado. Quer dizer… Não faz o menor sentido ー disse, simplesmente. ー Quando éramos crianças, eu acreditava que ela era uma reencarnação de algum peixe.
ー O mais estranho é eu achar que isso tem sentido… ー Dylan disse entre risadas. ー Parecia que ela vivia debaixo d’água. realmente gostava de nadar…
ー E se ela realmente desistiu? ー Liz perguntou seriamente e uma pausa dramática se instalou. ー Digo… É uma escolha dela. É normal abandonarmos algo que gostamos de fazer, principalmente quando somos crianças.
ー Talvez você esteja certa, mas é da que estamos falando! ー respondeu, convicto.
Os três amigos continuaram conversando enquanto esperavam ansiosamente pela menina.
“Volte, você não precisa fazer isso”. “É perda de tempo. Vá para casa!”. “Não acredito que realmente vai fazer isso...”. “A água vai machucá-la. Volte agora mesmo!”. Era o que as vozes na cabeça de diziam para ela no momento em que colocou os pés para dentro do Clube e sentiu o forte cheiro de cloro das piscinas invadir suas narinas, causando um desconforto.
Ela pensou em dar meia volta e desistir, mas sabia que não podia fazê-lo. Então, com as mãos trêmulas, respirou fundo e caminhou em direção à piscina externa. No instante em que cruzou as portas de vidro, a conversa entre os amigos se quebrou e todos viraram para ela.
Mesmo que fosse a pessoa por quem esperavam, estavam surpresos por vê-la. Os cabelos estavam presos num coque malfeito e, por debaixo da calça moletom e agasalho, ela vestia um maiô azul escuro, parecido com o que ela usava quando era criança. Na mão esquerda, segurava com força a touca e os óculos de natação.
ー E então… V-você está pronto? ー Ela encarou , tentando parecer firme e segura. Embora sua voz entregasse totalmente o contrário.
O clima ficou tenso. Dylan e Liz intercalavam o olhar para os dois amigos sem saber se precisavam ou não dizer algo.
ー Quando você quiser… ー respondeu na mesma altura.
ー Vamos acabar logo com isso.
Perante seus olhos, a garota começou a tirar a roupa devagar, ficando apenas de maiô. O tecido colado ao corpo revelava o quanto a pequena , na verdade, tinha crescido. Seus ombros eram um pouco largos, os peitos eram um pouco maiores que os de Liz e seu quadril realçava suas longas pernas. Eliza olhou para os dois rapazes e notou que ambos a encaravam de maneira descarada. Ela bufou e levantou, colocando o apito no pescoço. Então, ficou de pé ao lado da piscina.
ー Okay, fiquem em suas posições! ー Ordenou, enciumada. Dylan deu uma risada fraca.
e vestiram suas toucas de natação e ajeitaram os óculos. Em seguida, cada um subiu no seu bloco de partida e ficou na posição para saltar. Ver de perto a profundidade da piscina e a água balançar fez o coração de disparar e o ar faltar. Sua visão estava começando a ficar um pouco turva. Não só suas mãos, mas suas pernas também tremiam.
olhou para a garota e franziu a testa, estranhando as reações da menina:
ー Você… Tá com medo? ー Ele perguntou antes de Liz dar a largada. deu um soluço fraco de espanto.
ー N-não… Por que eu estaria com medo? ー A garota gaguejou com a voz trêmula. Eliza reparou que a amiga estava começando a ficar pálida.
, você não parece bem… É melhor parar e…
ー Eu estou bem. Não se preocupem! ー interrompeu Liz, que lançou um olhar preocupado para . Dylan também levantou e ficou ao lado de Eliza, assistindo a cena com olhos atentos. ー Vamos terminar logo isso…
ー Já chega, . Você não…
ー Eu já disse que estou bem! ー A garota gritou, irritada, surpreendendo os amigos. Ela fechou os olhos e respirou fundo. ー Liz… Pode continuar. ー Pediu, agora com a voz mais calma.
Eliza lançou outro olhar para , como se pedisse a permissão dele. Contra a sua vontade, o garoto apenas assentiu com a cabeça e engoliu a seco, ficando na posição novamente. Hesitante, Liz deu seguimento à partida:
ー Às suas marcas… ー e se preparam para saltar e ao ouvir o som agudo do apito, os dois pularam na água ao mesmo tempo.

Capítulo 04 - Águas Profundas

ー Para quem diz ter parado de nadar, continua muito rápida! ー Dylan comentou, impressionado.
ー É verdade, mas veja! Ela tá puxando muito a água… ー Liz observou com a mão no queixo.
As braçadas dos dois nadadores eram afiadas como lâminas que cortam a água. Ambos eram rápidos e estavam dando tudo de si para vencer aquela disputa, como se o propósito fosse muito maior do que apenas ganhar ou perder. Embora nenhum dos dois soubesse o que ia acontecer depois que terminasse a corrida.
Quando eram crianças, sempre teve dificuldades para alcançar o tempo de no nado livre. Para alguém da idade dela, a garota era incrivelmente ágil e leve dentro da água. Não apenas ele, mas qualquer um que a visse nadando se impressionava. “A garota prodígio”, diziam. Mesmo que ele ficasse frustrado por perder, na verdade, amava nadar ao lado de . Quando ela de repente foi embora, o garoto treinou todos os dias com todas as forças que tinha, apenas para poder enfrentá-la novamente. Agora, não só dominava o nado costas e borboleta, como também se destacava no estilo livre.
ー Woah, deu a primeira volta! ー Dylan se empolgou. Liz colocou a mão no peito e manteve os olhos na amiga.
Era como se algo segurasse os braços e pernas de e tentasse puxá-la para o fundo da piscina. Uma sensação pesada que exigia muita força e fôlego. É doloroso, pare!, a voz em sua mente suplicou. A garota estava ficando para trás e manter o ritmo estava sendo uma tarefa mais difícil do que ela podia imaginar, mas ela não desistiu.
ー Estão lado a lado! ー Liz disse. Seu coração estava acelerado com a adrenalina.
Nos últimos 10 metros, e nadaram como se dependessem daquilo para sobreviver. E então, na última braçada, o vencedor espalmou a parede da piscina.
ー Isso! ー comemorou a primeira vitória com um enorme sorriso. Por um momento, esqueceu o verdadeiro motivo daquela disputa.
estava cansada e ofegante. Ela tirou a touca e o óculos e deu um impulso para sair da piscina, mas sentia-se tão fraca que não conseguiu e caiu de volta na água. Liz correu até ela e estendeu sua mão para ajudá-la. O sorriso no rosto de se desfez no exato segundo em que viu a condição da menina.
ー Parabéns pela vitória… ー A garota disse, com dificuldade para respirar.
… ー também saiu da piscina com a ajuda de Dylan.
ー Você… finalmente teve o que queria… ー Ela murmurou de joelhos, olhando para o chão molhado. Suas mãos e pernas ainda tremiam muito. Mal tinha forças para manter-se de pé. ー Agora me deixem em paz!
levantou e, sem olhar para trás, procurou por suas roupas. Ela precisava sair dali o quanto antes. pegou a toalha da mão de Liz e, com o coração batendo rapidamente, ousou se aproximar de . Ele finalmente tinha conseguido vencê-la depois de muito tempo, mas não sentia-se nada feliz. Pelo contrário, era como se um buraco se formasse em seu peito.
Oras, estava tudo errado!
A voz, o cabelo, o jeito doce e alegre de ser, a paixão pelo esporte… Estava tudo diferente. Quando a provocou para mais uma disputa, pensou que seria a chance de reviver os dias de quando eram crianças. Imaginou que ela poderia sorrir e sentir-se segura para confiar e conversar com os amigos, mas tudo o que ele via era uma pessoa assustada e fria.
ー Por que tá agindo desse jeito, ? ー Perguntou de repente. A menina permaneceu em silêncio, ignorando-o. rangeu os dentes, sentindo-se irritado. ー FALA ALGUMA COISA!
! ー Liz e Dylan se aproximaram com pressa.
ー Por que você foi embora? Por que você continua ignorando a gente? Por que você saiu do clube? Por que você parou de nadar? ー O garoto fazia uma pergunta atrás da outra, completamente enfurecido e confuso. Sua voz estava tremendo. Tudo o que ele queria eram apenas respostas. ー Do que você está com medo, droga?!
Já com suas roupas por cima do maiô molhado, apertou a touca e o óculos de natação com força em suas mãos, fechou os olhos e respirou fundo.
— Não tenho mais motivos para nadar… — disse em voz baixa.
Ela virou para trás rapidamente e encarou seriamente, com os olhos marejados.
ー Não importa o que eu faça ou deixe de fazer. Eu estou cansada disso tudo… ー A garota abriu a mão e deixou com que a touca e o óculos caíssem no chão. Os amigos a olhavam surpresos e sem saber como reagir diante daquilo. ー Essa é a última vez que nado com você ou qualquer outra pessoa... Aproveite sua vitória.
, espera! ー Liz correu atrás da amiga. Enquanto isso, estava parado, olhando para um ponto qualquer, sem saber o que dizer. As palavras de foram como um soco no estômago do rapaz.

***


! ー Liz gritou, mas a menina continuou a descer as escadas do lado de fora do Clube Aretusa. ー Não é justo o que você está fazendo com a gente. Por que tá sendo tão egoísta?!
parou de andar de repente e virou para trás, em silêncio. Eliza estava a poucos passos de distância e encarava a garota em sua frente com insegurança.
ー Todos nós ficamos preocupados quando você foi embora. Principalmente ! Ele te esperou todos os dias, até não aguentar mais! Então por que tá tratando ele dessa maneira, ?!
ー Eu não quero falar sobre isso agora, Liz… Por favor. ー A garota virou o rosto para o lado, desviando o olhar.
ー Sou sua amiga! Sabe que pode contar comigo! O que aconteceu com aquela que conhecíamos? Alegre, sorridente e…
ー Parem de procurar a antiga em mim! Eu não sou mais aquela criança! ー Exclamou, interrompendo a menina. Tratar os amigos com aquela atitude repugnante estava machucando por dentro. Ela não queria magoar ninguém. ー precisa de você agora. Ele é seu namorado, não é?
Liz nada respondeu, apenas preferiu ficar em silêncio.
ー Me desculpe por preocupar vocês por todo esse tempo… ー disse . E então, ela se virou para ir embora com o coração à mil.

***


Então você disse: Vá devagar, eu fico para trás. O ponteiro dos segundos está voltando... ー Evie cantava animadamente enquanto penteava o cabelo na frente do espelho. Sua voz desafinada parecia competir com a de Cyndi Lauper, que soava na caixa de som com o volume alto.
Se você cair, eu vou te segurar. Estarei esperando, vez após vez… ー Ela segurou o pente como se fosse um microfone e balançou a cabeça no ritmo da música, fazendo caras e bocas.
Um estrondo forte no andar debaixo chamou sua atenção. A mulher abaixou o volume da música e saiu do quarto na ponta dos pés, tentando não fazer barulho. E se fosse um ladrão? Seu coração acelerou ao pensar na possibilidade, então ela procurou em volta por algo que pudesse se defender. Com uma vassoura nas mãos, Evie desceu as escadas devagar.
ー Mana… É você? ー Perguntou em posição de ataque, olhando para os lados.
Nenhuma resposta.
Ao descer os últimos degraus, a mulher engoliu a saliva, apreensiva pelo silêncio que preenchia o andar de baixo. Time After Time ainda tocava na caixa de som. Uma ótima trilha sonora para um assalto, pensou ela. Evie caminhou cuidadosa e silenciosamente para a sala de estar, que era o único cômodo com as luzes acesas. Ao ouvir um som parecido com o ar sendo puxado pelo nariz, a mulher abaixou a vassoura e andou até o centro da sala.
ー Ah… É você, ! Que susto… ー Ela suspirou, aliviada, e deu uma risada em seguida, achando-se idiota por pensar em um ladrão. Evie se aproximou da irmã mais nova que estava sentada no chão, encostada no sofá, abraçando os joelhos. ー Fiz o jantar. Separei um prato para você e… Woah, o que foi?
agarrou as pernas da irmã repentinamente e soltou todo o ar que segurava em um choro alto. Ela soluçava e chorava como um bebê que implorava por leite. Evie arregalou os olhos e agachou para ficar na mesma altura que a irmã, então a envolveu com os braços num abraço apertado.
ー O que aconteceu, ? ー Perguntou, preocupada. Ela tocou no cabelo da menina e notou que estavam molhados, assim como suas roupas. ー Por que está molhada? Onde você estava?
ー Eu sou a pior, Evie! ー berrou sob as lágrimas, com a cabeça colada no peito quente da irmã.
ー O que está dizendo… Você não é a pior!
ー Eu... Não queria dizer aquelas coisas para ele… ー A menina soluçava desesperadamente. ー Estava com medo e nervosa…
, calma! Ele quem? Não estou entendendo…
ー Não aguento mais essa dor, Evie! Dói muito… Por favor, faz isso parar! ー A voz embargada e agonizante da menina encheu os olhos de Evelyne de lágrimas. abraçava a irmã com força como há muito tempo não fazia. A última vez que Evie viu a garota naquele estado foi há cinco anos.
ー Shh… Está tudo bem… Tudo bem... ー A irmã mais velha passou a mão na cabeça de , acariciando. Ela fechou os olhos, deixando uma lágrima escapar, beijou o topo da cabeça da menina e sussurrou com a voz calma. ー Chore o quanto quiser, mana. Eu sei que está com saudades. Eu também estou, mas vai ficar tudo bem!
Evie afastou para olhá-la nos olhos e sorriu, tentando passar confiança.
ー Estou aqui com você, okay? Para sempre! ー Ela a puxou para outro abraço apertado e permaneceu em silêncio, apenas ouvindo chorar por longos minutos. Quando percebeu que a irmã estava mais calma e soluçava menos, cantou baixinho outro trecho da música da Cyndi Lauper. ー Se você estiver perdido, você pode procurar e vai me encontrar, vez após vez…
Após alguns segundos em silêncio, murmurou com a voz embargada:
ー Ainda bem que você é cabeleireira e não cantora… ー Ela riu fraco, ainda sentindo o calor no colo da irmã, que revirou os olhos e a beliscou. ー Obrigada, Evie… ー disse baixinho após uma pausa.
Evelyne deu outro beijo no topo da cabeça de e suspirou com um sorriso. As duas ficaram ali, abraçadas na sala de estar por longas horas. Conversaram até tarde como não faziam por muito tempo. Quando Evie notou o silêncio e a respiração pesada da irmã, reparou que havia caído num sono profundo. Seus cílios pareciam brilhar com as lágrimas. Não quis acordá-la, então apenas a olhou seriamente e respirou fundo.
ー Você não pode se culpar para sempre, mana… Prometo que vou ajudá-la.

Capítulo 05 - Perto da Verdade

Na segunda-feira de manhã, quando o sol ainda estava nascendo e os ponteiros do relógio marcavam 5h30, colocou os pés para fora da cama e bocejou. Foi mais uma noite em claro. Para um atleta e adolescente com seu corpo em crescimento, poderia ser doloroso e prejudicial não ter dormido o suficiente. O garoto se arrastou para o banheiro, lavou o rosto com água gelada várias vezes e encarou seu reflexo no espelho. Estava péssimo! Olheiras fundas, pele pálida e lábios secos. Parecia alguém de ressaca e não um nadador saudável!
Depois de voltar para o quarto, vestiu o uniforme da escola preguiçosamente e procurou os tênis esportivos de sempre debaixo da cama. Precisou se esticar para conseguir pegá-los. Ele sentou na cama bagunçada encostada à parede, calçou as meias e em seguida os sapatos. Ao dar um nó malfeito nos cadarços, olhou para sua escrivaninha. Tinha alguns papéis espalhados, canetas e um notebook no centro. A touca preta e os óculos azuis de natação que havia deixado no Clube Aretusa há duas noites também estavam ali.
“Essa é a última vez que nado com você”. A voz fria da menina ecoou em sua mente. Ele não sabia se aquelas palavras doeram mais do que ver sua melhor amiga de infância no corpo de uma pessoa tão diferente e assustada.
Talvez vê-la dar as costas outra vez tenha doído mais.
pegou a touca na mão e suspirou, perguntando-se como reagiria quando a visse na escola.

***


ー Abram o livro na página 40 ー Pediu a professora de literatura. Aquela era a penúltima aula do dia.
Enquanto todos os alunos pegavam seus livros, manteve os olhos na janela, observando as crianças que nadavam na piscina externa do Aretusa. Estava distraído e com a mente no mundo da lua a manhã inteira. E para melhorar seu estado mental, tinha faltado e ele nem sabia se teria a chance de vê-la no Clube depois do que aconteceu na noite de sábado.
O garoto abaixou a cabeça, perguntando a si mesmo se a menina estava bem. E se ela não voltar? E se ela desaparecer mais uma vez? não aguentaria ser deixado para trás pela besteira que ele fez e tinha consciência disso.
Liz parou de acompanhar a leitura da professora e olhou para , que mexia a perna rapidamente e batia o dedo indicador na mesa. Algo estava deixando-o nervoso e ela sabia o que era, ou melhor, quem. Vendo aquilo, sentiu algo estranho no peito. Um incômodo que a tirava do sério. Então, com a cara fechada, arrancou um pedaço de papel, escreveu algo nele, amassou e jogou na mesa do rapaz.
Ele olhou surpreso para a bolinha amassada na sua frente e a abriu. Reconhecendo a letra, virou para Liz antes de ler, mas ela encarava o livro como o restante da sala. No papel dizia:
“Tente se acalmar. A de antigamente se foi. Ela fez a escolha dela e não podemos mais trazê-la de volta, nem voltar para aquele tempo. Não volte à estaca zero, ...”

não queria concordar com aquilo, mas ele sabia que a namorada tinha razão. Isso queria dizer que… O melhor era esquecer a garota por quem ele tanto esperou? Não há mesmo como trazer de volta aquele tempo em que sorriam enquanto nadavam juntos? Mesmo que a resposta fosse “não”, ele ainda fazia mil perguntas em sua mente e queria mais que tudo descobrir o que estava acontecendo.
Como manteria a calma depois de vê-la se tremendo inteira apenas para entrar na água?
amassou a bolinha de papel de novo e a colocou no bolso da calça. Liz lançou um olhar discreto para ele, esperando por uma resposta, mas tudo o que recebeu foi apenas um sorriso de canto. Sem tirar os olhos da namorada, ele abaixou a cabeça e sussurrou tão baixo, que Eliza precisou se esforçar para ler os lábios do garoto:
ー Não se preocupe comigo ー disse e espiou a professora, que continuava a leitura. ー Ela pode ter mudado, mas não vou desistir tão fácil. Pelo menos, desta vez, não vou deixá-la ir embora como da última vez.
Eliza rolou os olhos e imitou o gesto do garoto, abaixando o corpo na mesa.
ー Você não pode parar o tempo de novo por causa dela, . Você é idiota? ー Sussurrou entredentes. ー Insistir só vai fazer mal para você e para ela também!
ー Eu não consigo deixar isso de lado, Liz! Você viu como ela ficou no sábado!
ー Eu vi e também ouvi as coisas que ela falou. O que mais podemos fazer?
Mesmo que as vozes continuassem muito baixas, a conversa estava começando a atrair olhares curiosos dos alunos que sentavam perto deles. Dylan, na frente de , continuou focado na professora, mas tinha os ouvidos apurados para a discussão atrás.
ー É claro que eu fiquei preocupada em vê-la agir daquela forma. Você não é o único que quer respostas, mas não podemos forçar a barra, ! E é por isso que você tem que se acalmar e esquecer essa história toda!
ー Mas...
ー E daí que ela parou de nadar? não é mais criança e sabe o que está fazendo. Se essa escolha a faz feliz, então respeite a decisão dela. Viva a sua vida! Já te disse isso uma vez…
Liz encarou profundamente o namorado, que engoliu a seco. Apesar de sentir-se incomodada, ela não queria parecer dura demais com o garoto. Doía ver se preocupar tanto com . Era como se voltasse no tempo e visse o garoto com 12 anos novamente, vivendo uma vida desmotivada e sem brilho algum. Isso porque sua “rival” havia abandonado o seu posto, deixando-o sozinho, sem nenhuma explicação aparente. Assim como Liz não queria ver assustada, também se negava a permitir que parasse no tempo por causa dela mais uma vez.
A garota cruzou os braços na frente do peito e direcionou seu foco ao livro, quebrando a discussão antes que se transformasse numa briga na frente de todos. apertou o maxilar e apoiou o rosto na mão, pensativo.
Dylan balançou a cabeça, confuso pela discussão que acabara de ouvir. Ele voltou sua atenção para a aula e começou a anotar as coisas que a professora dizia. No entanto, a tinta da caneta azul aos poucos começou a ficar fraca, então virou para trás.
ー Aí, tem uma caneta pra emprestar? ー Pediu para , que o olhou com desdém. Nem estojo ele tinha. Dylan franziu a testa e riu. ー Como é que você chegou até o 3º ano?
ー Dylan, quer continuar a conversa lá fora? Vire para frente! ー Ordenou a professora com uma voz autoritária. Os alunos riram baixinho da reação indignada do rapaz, inclusive Liz e .

***


ー Eu juro que esse é o último favor que te peço! Te pago uma cerveja depois.
ー Sabe que estou aqui para ajudar no que for preciso. É o mínimo que posso fazer pelas filhas do meu grande amigo… Ah, mas aceito a cerveja.
ー Obrigada, Hawks! Você é o melhor ー Evie deu um pulo alegre e infantil.
Do lado de fora do Aretusa, debaixo do sol escaldante, Evelyne e o treinador Hawks conversavam calmamente. Era quase uma da tarde e, de um segundo para o outro, a movimentação nas calçadas começou a aumentar com os estudantes que saíam pelo portão da escola ao lado. Alguns, inclusive, passaram pelos dois para entrar no Clube.
Hawks olhou bem para o folheto em suas mãos que Evie havia entregado a ele mais cedo.
ー É um ótimo lugar para treiná-los, mas tem certeza que isso pode ajudá-la? ー perguntou.
Evie fez uma trança rápida no cabelo moreno, sentindo calor, e suspirou.
ー Não, mas não custa tentar ー ela respondeu com uma risada fraca. ー Eu só quero que ela se divirta com os amigos como qualquer adolescente normal faria.
Hawks não comentou nada, apenas a observou com a sobrancelha arqueada.
ー E talvez seja uma boa chance de enfrentar os próprios medos e criar boas lembranças. E isso também cabe a mim.
ー Nossa ー Treinador Hawks cobriu o rosto com o folheto, comovido. Evie riu. ー Isso foi lindo.
A conversa continuou por mais algum tempo até uma voz apaixonada surgir e atrair a atenção dos adultos. Quando Evelyne virou o rosto para trás, ela se deparou com o sorriso de orelha a orelha de Dylan. Ao lado dele estavam e Liz, que riam da expressão boba no rosto do amigo. Para o rapaz, é como se ele estivesse olhando para uma bela miragem brilhante.
ー Eu morri ou realmente tem um anjo na minha frente? ー Dylan disse, encantado. Liz e fizeram careta, envergonhados.
Evie se limitou a revirar os olhos e rir enquanto cruzava os braços. Ela tinha que admitir: a expressão de Dylan era fofa como a de uma criança. E era assim que ela o enxergava. Não eram os ombros largos ou o alargador na orelha que mudaria a visão que tinha dele.
ー É ー A mulher colocou uma mão no ombro de Hawks. ー Às vezes o treinador se parece com um anjo mesmo.
A felicidade estampada no rosto de Dylan foi substituída por uma feição amarga. Ele abraçou os próprios braços e tremeu os ombros como se tivesse sentido um arrepio enorme.
ー Ultimamente tá mais para demônio… ー Murmurou.
Em silêncio, o Rei Demônio se aproximou do nadador e o abraçou de lado, colocando todo o seu peso nos ombros do rapaz, que sentiu o coração disparar com aquele abraço do inferno, como pensou. virou o rosto, segurando a risada.
ー Vejo que está animado hoje, Dylan ー Comentou Hawks. Dylan engoliu a seco. ー Vamos. Tenho um treino especial para você ー Enfatizou a palavra enquanto arrastava o garoto para dentro do Clube. ー Nos falamos depois, Evie.
ー Ah... Espera... Treinador. Eu estava brincando! ー Dylan se debateu em vão. Então, dando-se por vencido, olhou mais uma vez para a mulher dos seus sonhos e gritou enquanto era arrastado por Hawks. ー Tchau, Evie! Me liga!
Os três que ficaram para trás apenas riram.
ー Ele não muda nunca ー Liz negou com a cabeça.
Evie sorriu e apertou a bolsa de couro preta debaixo do braço, preparando-se para ir embora e voltar ao salão de beleza em que trabalhava. Mas antes de dar um passo à frente, olhou bem para . Confuso, o garoto virou a cabeça para trás, pensando que ela estivesse olhando para outra pessoa que não fosse ele, mas não havia ninguém.
ー Ahm… O que foi? ー Ousou perguntar.
ー O que foi o quê? ー Evie devolveu a pergunta. Ela mal piscava e sua feição era séria.
ー Por que tá me olhando desse jeito?
ー Que jeito?
ー Como o Michael Myers olha pra Laurie Strode...
ー Está com medo?
ー ...Um pouco, então pare com isso. É esquisito.
Liz não dizia nada, apenas intercalava a atenção para os dois como se estivesse assistindo a uma partida de pingue-pongue. Aqueles olhos de raio-x de Evie estavam começando a incomodar .
ー Eu fiz alguma coisa de errado?
ー Não sei... Fez? ー Evelyne cruzou os braços seriamente. A imagem de aos prantos e agarrada a ela veio à sua mente. ー Como foi o final de semana?
Eliza virou para , surpresa com a pergunta. Este abaixou a cabeça e apertou o maxilar, sem saber o que ou como responder sem mencionar o encontro com no Aretusa. Afinal, era a única coisa que tinha em sua mente, além das duras palavras da menina antes dela dar as costas mais uma vez. É claro que Evie saberia de alguma coisa. Oras, elas eram irmãs e viviam juntas! Como ele não pensou nisso?
Percebendo o silêncio do garoto, Evie suspirou brevemente e soltou os braços, voltando para sua pose calma e simples de sempre.
ー Escuta ー Ela colocou a mão no ombro do rapaz. ー Eu não sei o que aconteceu no sábado, mas vocês deveriam conversar. Posso imaginar que não está sendo nada fácil lidar com a de agora, mas tenho certeza que logo ela voltará a ser quem era.
Liz franziu a testa, sem entender.
ー E por que acha isso?
Evie deu um sorriso aberto, expondo uma verdadeira alegria com uma pitada de alívio no rosto.
ー Ela finalmente conversou comigo depois de tanto tempo se isolando ー A mulher fez uma pausa e olhou de relance para . ー E eu também não sei como, mas vocês conseguiram fazê-la nadar. Ela estava vestindo um maiô no sábado.
Liz e permaneceram em silêncio. A imagem de tremendo diante da piscina veio como um flash na mente do rapaz, o que o fez questionar o por que Evie parecia animada em saber que a menina nadou, enquanto ele, na verdade, estava aterrorizado só de lembrar a condição da garota.
ー Por todo esse tempo ela se recusava a todo custo nadar por medo da água. Como se isso fosse o maior dos pecados.
Em um instante, a inquietação dentro do peito de ficou ainda mais forte.
ー Eu não entendo nada de esportes, mas sei que a natação sempre foi tudo para . Assim como a amizade entre vocês. Era o que a fazia feliz de verdade...ー Evie disse com um sorriso fraco nos lábios. ー Acreditem, já fiz de tudo para trazer minha irmã irritante e sorridente de volta. Até convenci o treinador Hawks a trazê-la para cá. Pensei que assim ela conseguiria se desprender do passado...
ー Se desprender do passado? Como assim? ー Liz perguntou. Evelyne olhou para os dois com a testa franzida.
ー Espera, vocês não sabem?
ー Não sabemos de nada. E isso está me matando! ー bufou e esfregou as mãos no rosto.
sempre foge da gente como se fôssemos uma ameaça. Você sabe de alguma coisa, Evie? ー Liz perguntou.
Evelyne respirou profundamente antes de responder.
tem medo da água porque se sente culpada pelo o que aconteceu com nossos pais.

Capítulo 06 - Ondas do Passado

5 anos atrás…

, senta direito antes que algum guarda pare a gente! ー Evie repreendeu a irmã mais nova, que estava com a cabeça para fora da janela e sorria de olhos fechados ao sentir o vento jogar seus cabelos curtos para trás.
ー Deixe ela, Evie. O ar está ótimo e não é sempre que viajamos juntos, não é? ー Disse Adam, o pai das duas garotas que sentavam no banco de trás do carro. Ele abriu a janela e colocou uma mão para fora enquanto a outra manejava o volante.
ー Então não reclame quando chegar uma multa enorme para você pagar ー A filha mais velha respondeu.
ー Não se preocupe com essas coisas agora, querida. Aproveite o momento em família! ー Ruth virou para trás e abaixou os óculos de sol para olhar Evie. ー Seja como o vento e voe! É como os jovens falam hoje em dia.
ー Não, mãe... Não falamos isso ー A garota começou a rir.
ー Quem se importa? A mamãe tem razão, Evie ー abriu os braços, animada, como se estivesse abrindo asas. ー Seja como o vento e voe!
A risada infantil da menina contagiou todos dentro do veículo. Com um sorriso singelo, ela fechou os olhos e respirou fundo aquele ar fresco do verão. Quando os abriu novamente, pôde ver o Farol da pequena cidade Byron Bay aparecer ao alto. Algumas pessoas subiam uma trilha para chegar até o local, de longe pareciam formiguinhas.
ー Ah, lá está o mar! ー Adam apontou para frente.
voltou para dentro do carro rapidamente e ficou no meio dos pais. Evie riu dos cabelos da irmã que estavam completamente bagunçados e jogados para trás por causa do vento.
ー Olha, tem gente surfando! ー Os olhos da garotinha pareceram brilhar de empolgação.
ー Sério? Onde? ー Evie se aproximou, curiosa.
ー Lá longe! ー apontou para o horizonte. ー Por que não arruma um surfista para você? Apesar que se isso acontecesse, Dylan ficaria bem chateado ー A menina riu da expressão da irmã mais velha, que rolou os olhos e a empurrou de leve.
ー Argh, tenho idade para ser a mãe dele!
ー Com 20 anos? Você não tem idade para ser a mãe de ninguém não, mocinha! ー Adam bufou. Ruth colocou a mão na coxa do marido, segurando a risada. ー O que foi?
ー Querido, nós tivemos Evie nessa idade, esqueceu? Se bem me lembro, eu tinha acabado de fazer 21 anos e precisei parar com a faculdade para trabalhar e comprar fralda.
ー Não incentiva! Meninas, não escutem a mãe de vocês. Estudem muito! ー Adam arregalou os olhos, espantado. As meninas riam no banco de trás enquanto o pai estacionava o carro em frente a um hotel simples, mas luxuoso, que ficava de frente para a praia.
ー Uau! ー Ruth e Evie exclamaram ao mesmo tempo. O pai ativou o alarme do carro e apareceu com duas malas de rodinha em cada uma das mãos.
O som das ondas se quebrando chamou a atenção de como se fosse hipnose. Embora fosse verão e o período perfeito para ir à praia, o local não estava tão cheio quanto a família imaginou que estaria. O céu estava limpo e o sol trabalhava com toda a sua força. Evie não perdeu tempo e pegou o protetor solar da sua bolsa e começou a passar nos braços enquanto tirou as roupas ali mesmo e ficou apenas de maiô, pronta para ir para a água.
ー Olha esse mar! ia adorar ver isso! ー A menina pensou alto.
ia adorar ver isso” ー Evie imitou a voz de , que olhou feio para a irmã. ー Papai devia se preocupar mais com você do que comigo. Aposto que ele vai chorar se souber que a preciosa caçula já tem namorado…
O rosto de mudou de cor ao ouvir aquilo. Suas bochechas ficaram tão vermelhas que Evelyne soltou uma risada alta, achando engraçado e fofo.
não é meu namorado! ー A menina sussurrou entredentes e olhou para o pai, que tirava mais malas do carro.
ー Mas você gosta dele.
ー Não gosto não!
ー Gosta sim. Vocês ficam tão bonitinhos quando nadam juntos… ー Evie estava se divertindo enquanto provocava a irmã.
ー Eu não gosto... Ah, como você é chata! Como é que o Dylan pode gostar de uma velha como você? ー cruzou os braços e olhou para o outro lado com a cara fechada.
ー Tá chamando quem de velha, filhote de peixe-palhaço?!
Ruth soltou um breve suspiro e riu ao observar as filhas se provocando. Já estava acostumada com aquela cena e ela nem intervia, porque sabia que no final as duas acabariam rindo uma da outra. Era uma relação comum entre irmãs que brigavam, mas se amavam.
ー Ei, meninas ー Adam chamou, colocando as duas mãos na cintura. Parecia cansado depois de carregar tantas malas para uma viagem de apenas três dias. ー Já terminaram de discutir? O que acham de ajudar o velho de vocês, hã?
As duas se encararam por alguns segundos até que começaram a rir. Viu?, Ruth pensou consigo mesma. Evie e se aproximaram para ajudar a carregar as malas. A filha mais velha colocou uma mochila nas costas e segurou a alça de uma bolsa surpreendentemente pesada. Enquanto isso, estava parada olhando para o mar.
Ah, a água prendeu sua atenção de novo.
ー Papai, quando vamos velejar? ー Ela perguntou.
ー Hmm... Parece que deixaram o melhor para o final. Só no 3º dia ー Respondeu, olhando para um folheto de viagens com cronogramas e um mapa turístico no verso. bufou. Estava ansiosa para aquilo e deixaram apenas para o último dia?! ー Não me olhe com essa cara, não fui eu quem organizou os horários.
Adam riu e deu um beijo no topo da cabeça da filha caçula, que sorriu.
ー Vamos fazer o check-in. Por que não vão na frente e…
Sem que o homem de cabelos grisalhos terminasse a frase, a pequena jogou os cabelos curtos para trás e saiu correndo em direção ao mar. Evie parou ao lado dos pais e cruzou os braços, rindo ao ver a irmã mergulhar na primeira onda.
ー E lá foi ela...
ー Tinha que ser sua filha ー Ruth comentou entre risadas.

***


Terceiro e último dia de viagem.
Embora os ponteiros do relógio ainda marcassem 6 horas da manhã, o sol escaldante atravessava as janelas do quarto do hotel em que a família estava hospedada, iluminando todo o cômodo. A manhã estava linda e, assim como quando chegaram, o céu estava azul, com algumas nuvens, e o clima perfeito para aproveitar o último dia na praia e no mar. No entanto, a atmosfera naquele quarto estava dividida.
De um lado, uma criança inquieta e ansiosa com um sorriso estampado no rosto, vestindo um shorts jeans por cima do maiô azul, prendia a franja para trás enquanto cantarolava qualquer música pop. Do outro, uma jovem adulta de cabelos sedosos e pele extremamente vermelha, fazia caretas de dor e praguejava enquanto tentava vestir um vestido florido de tecido leve.
ー Ah que droga! Dói tudo! ー Evie reclamou entredentes.
ー Senta aqui. Vou passar esse hidratante nas suas costas ー Ruth pediu e a menina obedeceu, sentando na cama bagunçada. Cuidadosamente, a mãe despejou um pouco do creme nas costas da filha, que retraiu o corpo na hora.
ー Ai!
ー Desculpe, mas tente ficar quieta ー Ruth segurou a risada, apesar de estar preocupada.
ー Como é que você conseguiu se queimar tanto em dois dias? ー Adam apareceu com um chapéu de aba e camisa aberta, exibindo o pelos grisalhos do peito. Ele também estava bronzeado, mas não tanto quanto Evie, que revirou os olhos, frustrada.
terminou de se arrumar e ficou de frente para a irmã, achando engraçada as reações dela, apesar de também sentir pena.
ー Eu não sei! Essa droga deve estar vencida ー A filha mais velha esbravejou, referindo-se ao protetor solar jogado em cima da cama.
ー Ei, olha o jeito que fala! ー Ruth a repreendeu e continuou a passar o hidratante na pele da menina com cuidado.
ー Isso dói? ー colocou um dedo no ombro da irmã. Estava tão vermelho, que ficou uma bolinha branca na região em que tocou. Evie afastou a mão da garota com fogo nos olhos.
ー Mãe! ー Evie lançou um olhar raivoso para a irmã caçula que correu para trás do pai.
, deixe sua irmã em paz!
ー Com você dessa forma, não podemos velejar ー Adam cruzou os braços, olhando seriamente para Evie, que gemia de dor. Ruth concordou e arregalou os olhos, aborrecida. ー Mal aguenta andar, quem dirá ficar num barco balançando debaixo desse sol.
ー Mas pai… ー A voz da pequena soou tristemente. Evie olhou para a irmã e suspirou.
ー Vocês podem ir sem mim. Eu fico aqui no ar-condicionado assistindo TV e tomando alguns drinks.
ー Querida, mas você vai ficar sozinha? ー A mãe perguntou, preocupada.
ー Não se preocupem comigo... Não é como se eu quisesse realmente ir, sabem? O negócio de água é com a , eu prefiro ficar em terra firme ー Evie piscou para a irmã, que sorriu alegre e sussurrou um “Valeu, mana”.
ー Tem certeza? ー Foi a vez do pai perguntar. A filha mais velha apenas acenou com a cabeça, afirmando. Adam passou o braço ao redor de , que estava ao seu lado, e suspirou. ー Se você diz... Então vamos lá! O mar nos espera!

PORTO de Byron Bay ー 6h00

A manhã também estava agitada para os veleiros e marinheiros naquele porto. Alguns preparavam os barcos no cais, outros checavam papeladas e também tinham os que apenas tomavam um café apressadamente e prestavam atenção no noticiário.
ー Uau, vão abrir uma nova pescaria aqui perto? ー Um dos veleiros comentou sem tirar os olhos da pequena TV.
ー Perda de tempo e dinheiro. Mal tem peixe nesse mar!
ー Isso é verdade. Semana passada fui pescar com meu filho e passamos a tarde inteira naquele barco velho, mas não levamos nenhum peixe para casa! Nenhunzinho ー O senhor careca e de bigode branco reclamou.
ー Isso que estamos na temporada de pesca! ー O veleiro acrescentou. Ao olhar a hora no relógio de pulso com o vidro quebrado, pulou do banco em que estava sentado e deu um último gole do café. ー Ah, droga, estou atrasado! Fiquei responsável por levar uma família para velejar hoje.
O homem vestiu um chapéu típico de pescador, colocou um óculos de sol e pegou sua mochila surrada no outro banco. O senhor mantinha os olhos no noticiário enquanto bebia de seu café preto. Estava tão focado que nem percebeu a partida do veleiro.
ー Hmm... Parece que vai cair uma chuva mais tarde. É, verão não se resume a dias ensolarados, né? ー O senhor virou o rosto e franziu a testa, notando que estava sozinho. ー Ué, pra onde ele foi?

***


ー Uau…
encarava o balançar da água como um cachorro olhava para um pedaço de frango. No azul profundo do mar, ela podia ver o sol e as nuvens refletidos. Era como se fosse uma pintura do céu em aquarela. Bonito, pensou. Ela esticou a mão brevemente e tocou a água enquanto o barco se movia devagar. Os pais da menina conversavam animadamente com o veleiro simpático, que contava incansáveis histórias sobre seus tempos de marinheiro.
ー Ah, aqui está bom! ー O veleiro puxou uma corda devagar, fazendo o barco parar. O mar estava tão calmo que mal era possível senti-lo balançar. De onde estavam, ainda dava para ver ao longe a praia. ー Aproveitem e relaxem!
ー Ah, vamos tirar uma foto antes! ー Adam tirou uma câmera da bolsa e olhou para a esposa e a filha com um ar infantil. ー Vamos registrar esse momento do nosso último dia da melhor viagem de todas!
se aproximou dos pais com um sorriso animado. Estava ansiosa para pular na água, mas também estava imensamente feliz. Ruth apertou o colete salva-vidas preto no corpo pequeno e magro da filha e deu um beijo na testa da menina.
ー É uma pena que Evie não esteja aqui ー Comentou . ー Se ela não tivesse dormido no sol, não teria ficado igual um pimentão e estaria aqui com a gente.
ー Você tem razão, mas vamos tirar outra foto quando voltarmos ー A mulher sorriu docemente.
ー Querem que eu tire? ー O velador perguntou educadamente. Adam entregou a câmera para ele e sentou ao lado de Ruth, abraçando-a pelo ombro. estava entre os dois e sorria abertamente enquanto fazia um sinal de paz com as duas mãos. ー Aqui está. Ficou ótima! Vocês formam uma família bonita.
ー Obrigado. Eu concordo! ー Adam sorriu, olhando para a foto. Sem dizer nada, saltou na água. ー Tome cuidado, querida! ー O pai alertou, mas não obteve resposta. Apenas observou, ao lado da esposa, a filha nadar devagar.
Era um pouco difícil coordenar o corpo na água com aquele colete. Para manter o ritmo e a linha reta, ela precisava dar braçadas leves e fracas, assim como bater bem as pernas. Sem ir para longe do barco e dos pais, nadou por longos minutos. Indo e voltando. O velador até chegou a se perguntar como uma garotinha daquela não ficava cansada.
Não muito distante, a pequena parou e ficou de costas, boiando o corpo na água. Ela sorriu enquanto observava o céu.
ー Ah... com certeza ia gostar disso! ー disse com a voz relaxada. Ela suspirou e, por um breve segundo, sentiu o rosto esquentar. ー O que será que ele está fazendo agora?
A menina deu uma risada fraca e balançou a cabeça, dispersando aquele sentimento. O que era aquilo? realmente tinha ficado com vergonha apenas por pensar no melhor amigo? Talvez tenha engolido água salgada sem querer. É, só podia ter sido isso… Se bem que ambos já tinham 12 anos e sempre foram próximos. Não é como se não conhecessem seus sentimentos ou o que quer que fosse a razão para fazer o coração acelerar ou rubor nas bochechas aparecerem. Afinal de contas, era um garoto!
sentiu o calor no rosto mais uma vez e borboletas no estômago. Uh, isso é novo. O que é?, se perguntou mentalmente. Ela colocou a mão na barriga e respirou fundo, tentando focar nas nuvens que começavam a se formar no céu e esquecer aquelas sensações constrangedoras. A garota também sentiu uma corrente fria passar junto de uma onda leve, mas não deu importância.
Cada vez mais nuvens se formavam no céu, até que uma gota caiu bem no nariz da menina.
ー Querida, volte para o barco. Nós já vamos embora! ー Ruth chamou, colocando as duas mãos em cada canto da boca para amplificar a voz.
virou o corpo e quando bateu as pernas para nadar até o barco, outra onda veio. Desta vez, era um pouco maior que a anterior. De repente, os pingos de chuva começaram a cair com cada vez mais força e velocidade, aumentando o nível das ondas que atrapalhavam a menina. Ela batia as pernas e dava braçadas, mas parecia que não saia do lugar.
, vamos, venha! ー Adam precisou gritar. O som da chuva batendo no mar estava começando a assustá-los no ritmo em que o balançar do barco aumentava. O velador tentava manter o controle segurando e puxando algumas cordas.
O céu agora estava completamente escuro. Parecia noite, embora não fosse nem uma da tarde. Ao fundo, alguns relâmpagos começaram a cair. Naquela altura, já estava completamente apavorada e cansada, mas quanto mais ela nadava, mais o barco se distanciava.
ー Pai… ー Ela tentou chamar, mas outra onda a atingiu. Uma tão grande, que a fez afundar.
! ー Ruth e Adam gritaram ao mesmo tempo. Em fração de segundos, Adam pulou no mar e tentou nadar em busca da filha, que lutava para emergir.
ー Vou pedir ajuda! ー O veleiro correu para a escotilha. Ruth, em prantos e assustada, segurava com força a barra do barco para não cair e gritava os nomes do marido e da filha.
! ー Adam gritou e olhou para todos os lados.
Outra onda.
ー PAI!
A voz da menina soou distante e foi interrompida pelas ondas que começavam a vir uma atrás da outra. Era como se fosse uma batalha entre a água da chuva e do mar e ambos não queriam ceder. conseguiu emergir e tentou, com todas as suas forças, ir até o pai, que também lutava contra as águas para resgatar a filha.
ー SEGURA MINHA MÃO! ー Adam se esticou e nadou o máximo que pode para alcançar a caçula.
Quando conseguiu pegar na mão do pai, ao olhar para o lado, uma imensa parede d’água se formou perante eles. Ao redor pareceu ficar em câmera lenta. E então, a parede caiu e quebrou sobre os dois e o barco. De repente, tudo ficou preto e silencioso. Um silêncio ensurdecedor e sufocante.

***


Pi… pi… pi…
Evie fechou os olhos com força e respirou fundo. Já não suportava mais ouvir aquele som agudo, que parecia piorar a dor de cabeça que sentia. Com o coração apertado, ela levantou a cabeça e segurou a mão fria da irmã, deitada na cama do hospital com uma máscara de oxigênio no rosto.
Já faziam mais de dez horas desde que Evie foi surpreendida com uma ligação de emergência do hospital de Byron Bay. Ela ficou tão assustada que nem sequer se lembrou da queimação que sentia na pele. Apenas correu, chorou e implorou a todos os seres divinos que existissem para que ela não ficasse sozinha. Agora, eram quase duas da madrugada e lá estava ela, segurando e beijando a mão de , sem coragem de olhar seu rosto desacordado.
ー Srta. ? ー Uma enfermeira com o uniforme verde bateu na porta e entrou no quarto.
ー Hmm…? ー Evie respondeu com desânimo.
ー Uma senhora chamada Donna veio visitá-la. Diz ser avó de vocês.
Evie suspirou e levantou da poltrona em que estava sentada. Antes de seguir a enfermeira, deu um beijo no topo da cabeça da irmã, que permaneceu imóvel. E então, saiu do quarto, deixando sozinha.
Pi… pi… pi…
“Que som é esse? Estou atrasada para a escola?”
“Está frio… Quem deixou a janela aberta? Espera, é verão… Por que estou com frio?”
“Ah, deve estar me esperando para mais uma disputa. Ele nem vai acreditar que nadei em alto mar!”

SEGURA MINHA MÃO! ー A imagem de Adam esticando sua mão para apareceu como um flash e desmanchou após uma onda enorme.
As ondas no cardiograma aumentaram, revelando os batimentos cardíacos acelerados da menina, que parecia fazer esforço para acordar.
ー Mãe... Pai... ー A voz de soou abafada por causa da máscara.
Ela tentou abrir os olhos devagar, mas sua visão era um pouco turva. Quando os abriu por completo, olhou ao redor sem entender que lugar era aquele. Seu peito subia e descia rapidamente com uma respiração descompassada. No momento em que levou a mão para o rosto e tentou tirar a máscara de oxigênio, Evie abriu a porta do quarto e entrou. Os olhos da irmã mais velha se arregalaram e brilharam de felicidade e alívio.
! Graças a Deus! ー Ela correu para abraçar , que não soube como reagir. ー Você está bem? Sente alguma dor?
Evie segurou com as duas mãos o rosto da irmã e a encarou com lágrimas nos olhos. , com uma feição desorientada, perguntou com a voz baixinha:
ー Cadê a mamãe e o papai?
ー Erm… ー Evie prendeu a respiração enquanto sentia o coração disparar. Não estava preparada para encarar aquela situação. Sem perceber, os olhos de encheram-se de lágrimas.
ー C-cadê eles, Evie? ー Sua voz soou trêmula. A jovem abaixou a cabeça, rendendo-se ao choro. Ela não sabia o que fazer ou falar, apenas sentir. Evie engoliu a seco e abraçou a irmã caçula silenciosamente. Ao ser abraçada de volta, sentiu a pele doer, mas ignorou. ー Não… ー A menina negou com a cabeça várias vezes, com os olhos marejados e incrédulos.
Mesmo fraca, gritou e chorou aos braços da irmã mais velha. Ali, ela conheceu uma dor que ela nunca imaginou conhecer um dia. Seu corpo doía. Sua cabeça doía. O coração doía. Em sua mente, podia ouvir a voz dos pais chamando pelo seu nome sobressaídas por outras vozes que nem sequer conhecia, mas diziam que a culpa era toda dela.
“Essa é a liberdade que você tanto diz sentir quando nada? Se você não tivesse entrado na água, seus pais estariam vivos agora. O que vai fazer, ? A culpa é sua!”

5 anos depois. Dias atuais...
A água da banheira se esparramou no chão do banheiro quando emergiu, soltando todo o ar que segurava para fora. Ela tossiu algumas vezes até retomar o ritmo normal da respiração. A garota encarou seu rosto refletido na água por algum tempo, ouvindo aquelas vozes incessáveis soarem como ruídos. suspirou e passou a mão na água, desmanchando seu reflexo.
ー Calem a boca!

Capítulo 07 - Ainda somos amigos?

A porta de vidro da entrada do Clube Aretusa se abriu com força quando o treinador Hawks passou por ela. Em seu rosto tinha uma expressão nada amigável. Eram quase quatro da tarde e o céu estava alaranjado e com poucas nuvens. Quando Dylan, Liz e um outro nadador viram o Rei Demônio se aproximar a passos pesados logo atrás de , os três se afastaram sem hesitar, deixando falando sozinho.
– Mas o que… – encarou os amigos andarem para longe sem entender. Dylan estava rindo ao lado de Liz.
!
O nadador deu um pulo, assustado, ao ouvir o grito de Hawks em seu ouvido. Quando virou para trás, se deparou com os braços cruzados na frente do peito e a cara carrancuda do treinador.
– Ah, merda… – murmurou , já esperando pelo pior. No segundo seguinte, soltou o ar e forçou um sorriso animado. – E aí, treinador, qual é a boa?
– Onde se meteu? – perguntou o Rei Demônio sem repudiar. Sua voz era tão áspera que até quem estava em volta olhava para saber o que estava acontecendo.
– C-como é que eu vou saber? – o nadador gaguejou. Se já havia perdido a compostura quando ouviu o grito do Rei Demônio, ser questionado sobre naquele tom foi como um soco no estômago.
Hawks descruzou os braços e esfregou o rosto com as mãos, frustrado.
– Já faz quase uma semana que ela não dá as caras! Vocês estudam juntos, não é? Não tem nenhuma notícia dela? – Perguntou e apontou o dedo para . – Nem tenta me enrolar, garoto.
– Quase não a vemos na escola. Não somos da mesma sala e ela sempre chega aqui primeiro, então não vemos ela sair… – deu um passo para trás na defensiva.
Em seu peito, um incômodo. Ele também estava preocupado com , que não apareceu no Clube desde a disputa na piscina externa.
Silêncio. A não ser o barulho da água da piscina, o nadador e o Rei Demônio se encararam por alguns segundos sem dizer absolutamente nada. pôde ouvir a saliva descer pela garganta. Ele estava tenso.
– Beleza! – Hawks bateu uma palma de repente, assustando novamente o rapaz. Ele tirou do bolso uma caneta e um papel, anotou algo rapidamente e, em seguida, entregou para . – Aqui, pegue.
– O que é isso? – O nadador ergueu a sobrancelha sem olhar para o que tinha na folha amassada.
– É o endereço da casa dela – Respondeu simplesmente. Os olhos de se arregalaram. – Vá até lá e entregue isso para ela e para Evelyne também.
O treinador tirou outra folha do bolso da bermuda que fazia parte do uniforme do Clube e deu para , que leu rapidamente com curiosidade. Parecia um folheto com algumas instruções de treino em que no topo estava escrito com uma fonte gritante “SUPER TREINO DE RESISTÊNCIA ARETUSA”, ao lado tinha o logo do Clube e o tão famoso bordão Mergulhe de Coração. O nadador balbuciou algumas palavras e franziu o cenho sem entender nada daquilo e o porquê ele estava pagando pela ira do Rei Demônio.
– Primeiro: por que eu tenho que ir até lá e fazer isso? – Perguntou. – Segundo: treino de resistência? Tá falando sério?
– Primeiro: porque seus amiguinhos fugiram e – Hawks abaixou o tom de voz para que apenas ouvisse. – soube que no último sábado alguém ficou até tarde na piscina para uma competição com uma de nossas assistentes. Talvez seja por isso que ela não vem mais?
O coração de acelerou e outra longa pausa se fez. Hawks olhou bem nos olhos verdes do nadador.
– Tem que ser você porque vocês sempre foram próximos. Desde pequenos – A voz do treinador se amenizou assim como em seus olhos tinham sinceridade. Oras, ele podia ser quem era, mas conhecia aquelas crianças melhor do que ninguém. Após um tapinha no ombro nu do nadador, Hawks continuou a falar – E segundo: eu sempre falo sério!
– Ah… – suspirou e encarou o endereço escrito no papel.
– Tente convencê-la a vir amanhã. Preciso da ajuda dela e esse treino só vai fazer sentido se ela participar.
O garoto respirou fundo e sorriu. Não é como se ele pudesse fugir. Na verdade, estava ansioso para encontrá-la.
– Está bem. Farei o possível.

***


O bairro arborizado e a rua tranquila com crianças brincando em frente a um pequeno parque trouxe uma certa nostalgia para . Era o mesmo lugar em que ele e os amigos costumavam brincar quando eram pequenos. Nada mudou por aqui, pensou ele com um sorriso nos lábios enquanto andava pela calçada e olhava ao redor. Ao parar em frente a uma simples casa com uma macieira do lado de fora, lembrou-se das incontáveis vezes que passou por aquela árvore correndo apenas para apertar o botão da campainha e desafiar sua rival pessoalmente para uma disputa de velocidade.
respirou fundo antes de apertar aquele botão. A campainha tocou três vezes, mas não houve respostas. O rapaz deu um passo para trás e olhou para as janelas em busca de alguma luz acesa, mas reparou que a única iluminação que tinha ali era a do poste na outra calçada. A casa estava vazia e nem mesmo Evie estava por perto. O nadador pensou em dar meia volta e ir para casa, mas de alguma forma sentiu-se hesitante. Olhou para os papéis que Hawks entregou a ele mais cedo, suspirou e se sentou no único degrau em frente a porta de entrada.
Ele esperou, esperou e esperou. Enquanto esperava pacientemente, vários pensamentos lhe vieram, desde o torneio que se aproximava à história que ouviu de Evie sobre a razão para ter mudado tanto. Pensar naquilo fazia seu peito doer de algum modo, porque agora tinha certeza do quão idiota e infantil ele estava sendo. ficou tão imerso sobre seus devaneios que nem viu a hora passar.
O céu alaranjado mudou para um tom roxo até escurecer completamente e dar lugar para a noite. A lua estava cheia e as nuvens no céu escondiam as estrelas. Olhando para cima, suspirou e levantou, preparando-se para ir embora, quando ouviu passos apressados se aproximarem.
Era . A garota tinha os longos cabelos amarrados em um rabo de cavalo alto e estava ofegante e com a pele suada. Em silêncio, ele a viu tirar os fones de ouvido, apoiar as mãos nos joelhos e respirar bem fundo para depois soltar o ar lentamente, retomando o ritmo da respiração. Ela parecia bem cansada. Até então ainda não tinha percebido a presença de , mas quando ela ajeitou a postura e balançou os cabelos da mesma forma como fazia quando eles eram curtos, o garoto riu fraco e disse:
– Velhos hábitos nunca mudam.
deu um sobressalto ao ouvir a voz do garoto, que olhava para ela com uma expressão divertida.
? O que faz aqui? – perguntou, completamente confusa e surpresa. Ele era a última pessoa que esperava ver.
– Um velho amigo não pode visitar sua velha amiga?
A menina olhou para os lados e deu uma risada sarcástica.
– E ainda somos amigos? – Ela respondeu com outra pergunta. Uma pergunta afiada que atingiu sem medir esforços. Embora o tom de tenha parecido irônico, ela, na verdade, queria realmente saber a resposta.
– Engraçado, me pergunto isso desde o dia que você chegou… Não – se corrigiu. – ... Desde o dia em que sumiu sem falar nada.
Se controla, idiota!, o garoto disse a ele mesmo mentalmente, mas as palavras saíram da sua boca sem que percebesse. No entanto, não pareceu ter sido afetada por elas, pelo contrário, não havia expressão alguma em seu rosto a não ser seriedade. Quer dizer, isso era o que podia ver, mas por dentro apenas ela podia sentir o quão rápido batia o coração e quão trêmulas estavam suas mãos apenas ao confrontar .
– De novo essa história? Você queria que eu fizesse o quê? Que eu mandasse uma simples carta dizendo que não iria voltar porque meus pa… – cortou a frase no meio e fechou a boca, desviando o olhar para qualquer outro ponto daquela rua silenciosa. franziu a testa e apenas observou a menina inquieta a poucos passos de distância. – Esquece. Não é da sua conta.
Ele sabia o que ela ia dizer. Aquela história ele já havia ouvido de Evie há alguns dias. Se a própria se negava a falar sobre seus pais, quem era para forçá-la a explicar qualquer coisa? Pelo menos um pingo de bom-senso ele tinha, mas não podia negar que ainda ficava frustrado ao ver a menina se afastar vagarosamente dele e dos amigos. Isso ele não podia aceitar, porque acreditava que em algum lugar dentro daquele coração vazio estava sua melhor amiga e rival. E ele iria trazê-la de volta de alguma maneira. Só não sabia como, mas iria fazer o que fosse preciso para ajudá-la.
O nadador olhou bem para ela por alguns segundos. Então, após um breve suspiro, colocou sua mochila para frente e procurou dentro dela o folheto que Hawks havia entregado mais cedo. Estava um pouco amassado, mas não tinha importância. pegou o papel e o estendeu para , que olhou para aquilo sem entender.
– O treinador me fez vir aqui para entregar isso para você e para Evie – O garoto mudou o rumo do assunto. A última coisa que ele queria agora era discutir. – Ele não falou muito, mas parece ser um dos treinos malucos dele para o torneio municipal.
– “Super Treino de Resistência Aretusa”? – Ela murmurou, lendo.
fez uma pausa e mordeu o lábio enquanto colocava a mochila de volta nas costas.
– Erm… Faz dias que você não aparece no Clube e… Eu sei que a culpa é minha – Suas palavras se embolaram. Ele estava nervoso. – Você não precisa nadar se não quiser e pode manter a distância que achar necessário de nós, mas volte para os treinos. Tem pessoas lá que contam com você, principalmente o Rei Demônio.
Silêncio. Desde que se reencontraram pela primeira vez, os dois não se olharam tão profundamente como se olhavam debaixo daquela fraca luz. olhou novamente para o folheto em suas mãos e suspirou.
– Tem outros assistentes muito melhores que eu lá… – ela comentou e riu, negando com a cabeça. O garoto andou até ela e ousou tocar no ombro da garota, que sentiu o corpo arrepiar com aquele contato.
– Eu discordo. Você é a única ali que treina os nadadores para darem o melhor e não para vencerem… E é disso que a gente precisa para “mergulhar de coração” – fez aspas com os dedos.
agradeceu mentalmente por estar escuro, porque assim não conseguiria ver um ligeiro sorriso se formar nos cantos dos lábios da menina. Como é que em um segundo eles estavam a ponto de brigar mais uma vez e no outro ela estava sorrindo? Era um sentimento confuso que atormentava os pensamentos de . Sem dizer mais nada, ela olhou para , que começou a andar pela calçada para ir embora e foi quando este passou por Evie, que vinha ao seu encontro vestindo o uniforme preto e rosa do salão em que trabalhava.
– Oh, e aí, ! O que faz aqui a essa hora da noite? – ela perguntou, simpática. parou e sorriu para a mulher mais velha.
– Vim dar um recado para , mas já estou indo embora.
– Quer uma carona?
Tanto quanto encararam Evie com uma expressão confusa. Demorou um minuto para que a própria entendesse os olhares, e então começou a rir de si mesma.
– Ah é, eu não tenho um carro… Mas se tivesse, eu daria uma carona.
– Valeu, Evie! Sua gentileza me toca – O garoto respondeu, irônico.
Ele voltou a andar e olhou para a palma de sua mão. parou de repente e deu uma última olhada para trás. ainda estava ali e também o observava de longe.
– Espero por você amanhã no Clube! Se não aparecer, o Rei Demônio vai matar! – ele gritou e pôde jurar que conseguiu vê-la rir, mesmo que um pouco, mas aquilo foi o bastante para fazê-lo sorrir. – Ah… Eu não sei você, mas ainda somos amigos.
Dizendo isso, ele virou as costas e partiu. manteve os olhos no garoto até que desaparecesse do seu campo de visão. Os sentimentos dentro de seu peito ainda eram muito confusos, especialmente sobre o rapaz. Ela não queria voltar para o clube de natação, mas não por medo de estar perto da água, mas por vergonha de encarar os amigos que ela tratou tão rudemente. Ao mesmo tempo em que sentia-se chateada, também sentia arrependimento, porque ela tinha plena consciência de que , Dylan e Liz não tinham culpa alguma. estava apenas sendo uma covarde como tinha sido nos últimos anos.
Por que estava sendo tão covarde? Esse pensamento lhe veio à mente quando ela fechou a porta de casa atrás de si.
– O que é isso? – Evie perguntou quando colocou o folheto sobre uma mesinha com cartas, chaves e outras bagunças espalhadas.
– Mais uma ideia maluca do treinador Hawks – A caçula respondeu em voz alta enquanto se dirigia para a cozinha. Evelyne olhou para onde havia ido antes de pegar o papel nas mãos e ler.
Um sorriso sorrateiro se formou em seus lábios.

***


Em cima do bloco de partida da raia 4, apertou os óculos de natação sobre os olhos e esperou pelo nadador que nadava peito espalmar a parede da piscina para ele saltar. O treino daquele dia eram as trocas do revezamento. Quando ficou em posição e estava pronto para pular, uma voz gritou atrás de si. Já sabendo quem era, o garoto apenas fechou os olhos, suspirou e desceu do bloco.
– Por algum motivo desconhecido, estou começando a não gostar mais do meu nome… – disse , tirando os óculos e a touca da cabeça.
– Reclame com seus pais depois – O Rei Demônio sorriu, irônico. – E aí, conseguiu falar com ? – Perguntou com a voz mais calma.
– É… Eu falei, mas… – olhou para o enorme relógio de parede do Clube e suspirou cabisbaixo ao ver que os ponteiros marcavam 14h35 – … Acho que não deu em nada. Pensei que ela estaria aqui hoje. Foi mal.
– Ah… Acho que não tem jeito mesmo. Vou ligar para Evie e avisar que… Woah! – De um segundo para o outro, a aura ao redor do Rei Demônio pareceu brilhar de felicidade.
Lá estava ela.
Quando Hawks viu se aproximar, vestindo o uniforme do Clube, um certo alívio preencheu seu peito. O treinador ficou tão empolgado ao vê-la que nem ouviu o que dizia e - sem intenção ou maldade - o empurrou para o lado para ir até a garota.
Splash! caiu na água. Dylan, Liz e outros nadadores que estavam por perto começaram a rir.
! Eu sabia que você não me deixaria na mão! – Hawks comemorou.
– Ah… É… – A garota olhou atrás do treinador, onde Dylan, entre risadas, dava a mão para e o ajudava a sair da piscina. – Desculpa por não ter aparecido nos últimos dias. Não estava me sentindo muito bem… – Mentiu.
– Agora você está bem? – Perguntou ele com sinceridade. apenas assentiu com a cabeça e sorriu para o treinador. – Ótimo! Qualquer problema que tiver, por favor, me avise. Você e Evie podem contar comigo sempre que precisarem… Sabem disso, não é?
Fora Evelyne, o treinador Hawks era o único ali que sabia dos reais problemas de . Seus medos, suas aflições e até mesmo dores. Para ele, as duas garotas eram como filhas. E quando descobriu sobre a morte dos pais delas, que eram seus amigos de longa data, o carinho e o instinto de proteção aumentou ainda mais, como se fosse uma promessa que ele precisava cumprir.
– Sim, treinador. Obrigada – sorriu, agradecida, e ele devolveu o sorriso.
Voltando para a postura de treinador sério - para outros, de “Rei Demônio” - Hawks parou ao lado da sua assistente mais nova. Quando a menina o viu colocar o apito na boca e encher o peito, sem perder tempo ela deu um passo largo para o lado e tampou os ouvidos. O som agudo do apito foi alto e forte o suficiente para chamar a atenção de todos que estavam ali.
pegou a toalha azul da mão de Liz e secou rapidamente os cabelos curtos e castanhos enquanto fazia uma lista mental com todos os xingamentos possíveis para o treinador. Colocando a toalha em volta sobre os ombros, ele ficou entre Eliza e Dylan para ouvir o que o Rei Demônio tinha para dizer. E foi quando viu , ao longe, parada ao lado de Hawks. não pôde evitar de sorrir quando seus olhos se encontraram com os dela.
Liz olhou para um e depois para o outro. E então, num impulso que nem mesmo ela esperava, se aproximou de e segurou sua mão. O que era aquilo? Ciúmes? Eliza não fazia ideia.
Vendo aquilo, desviou o olhar e suspirou. Decidiu focar toda sua atenção nas palavras do treinador. Ela também estava curiosa sobre o tal treinamento de resistência.
– O torneio municipal está cada vez mais perto. Temos ótimos nadadores competindo este ano e com muito potencial para vencer, mas isso não quer dizer que podemos sentar e relaxar – Hawks cruzou os braços enquanto olhava para cada um que estava ali. – Como eu já disse: o que vocês têm feito até agora foi só o começo. Um aquecimento. O treino de verdade começa amanhã!
Um murmúrio começou entre os nadadores, que não sabiam onde aquele discurso todo iria dar. De sobrancelhas franzidas, lançou um olhar para os amigos como se perguntassem se eles sabiam o que estava acontecendo, mas o que recebeu foi apenas um dar de ombros do Dylan e uma expressão confusa de Liz e . Um dos assistentes de treino começou a distribuir o mesmo folheto que recebeu na noite passada.
– “Super Treino de Resistência Aretusa”? Que merda é essa? – Iara perguntou.
– Fodeu… – Foi a vez de Dylan comentar enquanto lia as instruções no verso da folha. – Ele realmente quer que a gente se afogue de coração. – Eliza riu, mas concordou com o garoto.
– Preparei um treino especial para vocês. Não adianta ter velocidade se não tiver resistência! – disse o Rei Demônio. Em seu rosto tinha um sorriso que dizia que ele estava se divertindo com aquilo. – Cada um de vocês treinará no Centro Aquático de Sydney e… – Por um breve segundo, houve empolgação dos nadadores. Mas não durou muito tempo. – Com minha supervisão, nadarão longas distâncias no mar para ganhar resistência. Ah, mas este treino é restrito apenas aos veteranos!
O QUÊ!? A exclamação pareceu um coro ensaiado. Alguns estavam animados e outros nem tanto. Mas o que mais chamou atenção de e Liz não foi a ideia maluca e insana do Rei Demônio, que parecia confiante, e sim o choque estampado no rosto de .
– O mar?

Capítulo 08 - Um Medo Estúpido

BLAM!

O estrondo da porta batendo no andar de baixo fez Evie dar um pulo da cama e largar a lixa de unha, jogando-a para qualquer canto do quarto devido ao susto. A mulher ouviu passos pesados subirem as escadas e em seguida outro estrondo.
ㅡ Ah, não… Lá vamos nós ㅡ Ela disse após um suspiro pesado e saiu do seu quarto para ir ao de . Atrás da porta, podia ouvir a voz abafada da irmã.
Evie deu dois toques e girou a maçaneta antes mesmo de esperar por uma resposta, pois sabia que, se dependesse de , ficaria parada no corredor até o amanhecer. Então a mulher entrou e - graças ao seu rápido reflexo - desviou da almofada que a irmã atirou em direção à porta.
ㅡ Woah, essa foi perto… ㅡ comentou Evelyne, pegando a almofada do chão.
ㅡ Isso não é justo! ㅡ exclamou , sem perceber a presença de Evie. Seu coração batia muito rápido e seu rosto estava levemente vermelho. ㅡ Ele não pode me obrigar a isso!
ㅡ Ei, ei! ㅡ Evie interveio e impediu que a menina jogasse tudo o que estava em cima da cômoda para o chão. ㅡ O que aconteceu? Por que está tão nervosa?
A cabeleireira encarou bem aqueles olhos arregalados e lacrimejados. Apesar de perguntar o que estava acontecendo, Evie, na verdade, podia imaginar claramente a razão para aquele ataque de raiva que tirava lágrimas da menina. Segurou os dois pulsos de e a observou em silêncio.
ㅡ Treinador Hawks está acontecendo! Ele é o verdadeiro Rei Demônio! ㅡ A menina respondeu, nervosa. Evie mordeu os lábios, segurando a risada depois de ouvir o apelido do treinador. ㅡ Ele está me obrigando a participar desse treino estúpido que inventou.
ㅡ Treino… E qual o problema nisso? É o que tem feito nesses últimos meses, não?
ㅡ Desta vez é em Sydney. No mar.
Evie mordiscou o lábio e respirou fundo.
ㅡ Como ele pode me obrigar a isso, Evie?! Hawks sabe como eu me sinto quando estou perto da água! Ele sabe de tudo o que aconteceu, então por que eu tenho que…
ㅡ E qual o problema nisso, ? ㅡ Evelyne perguntou, interrompendo as reclamações da irmã caçula. Tanto a voz quanto o rosto da mulher estavam sérios.
se desprendeu da irmã mais velha e a olhou como se fosse uma completa estranha na sua frente. Não estava acreditando naquele tom tão despreocupado.
ㅡ O que… Você sabe…
ㅡ Você não pode fugir disso para sempre, ! ㅡ Evie a interrompeu novamente, elevando um pouco a voz. ㅡ Eu entendo seu medo, mas você tem que superar e viver sua vida, olhar para as coisas boas e se divertir! Pare de procurar problemas em tudo!
engoliu em seco e deu uma risada sarcástica.
ㅡ Não, você não entende nada…
ㅡ Sim, eu entendo! Se você não lembra, eles também eram meus pais. Eu também os perdi e sinto a falta deles. Mas já faz cinco anos. Cinco anos, ! ㅡ Evelyne exclamou, sentindo o coração acelerar. ㅡ Você não pode se isolar para sempre por causa desse medo idiota!
A racionalidade e calma que Evelyne se esforçava para manter estavam se esvaindo pouco a pouco naquele clima tenso que se instalava nas quatro paredes do cômodo. Se acalma, se acalma, se acalma… Evie repetia para si mesma enquanto respirava fundo. lançou o olhar mais sério que a mulher já viu.
ㅡ Acha que eu gosto de me sentir assim? Você não sabe o que é fechar os olhos e ver aquela cena várias e várias vezes. Você não sabe o que é sentir falta de ar toda vez que fica na frente da piscina, do mar… Que seja… Como se fosse se afogar. Não é você quem ouve vozes dizendo que a culpa é toda sua! ㅡ contraiu os lábios, encarando Evie com seriedade. A irmã a olhava sem saber o que dizer. ㅡ Se você estivesse lá naquele momento, também viveria com esse “medo estúpido”.
Silêncio.
Evie abaixou a cabeça e respirou bem fundo, pensando se valia a pena insistir naquela conversa ou não. Estúpida era como ela se sentia em realmente acreditar que aquele “plano” com Hawks iria funcionar. Ainda bem que Evie era cabeleireira e não psicóloga. Quem em sã consciência acharia uma boa ideia colocar uma pessoa traumatizada de frente para o seu maior medo? Apenas ela. No entanto, Evelyne só estava cansada de ver a irmã caçula se afundando vagarosamente e apostava todas as suas fichas em qualquer caminho que pudesse trazer de volta a felicidade para . E essa felicidade Evie sempre viu com clareza quando via a irmã nadar.
Evelyne andou até a porta, segurou a maçaneta e olhou para sentada na ponta da cama bagunçada.
ㅡ Você tem razão, me desculpe. Faça o que achar melhor, mas… ㅡ ela sorriu de canto e suspirou. ㅡ Tenho certeza que o pai e a mãe ficariam mais felizes se você lutasse ao invés de fugir. Se esforce por eles.
silenciosamente viu a porta se fechar. Olhou para um único ponto naquele quarto por alguns minutos enquanto tentava organizar seus pensamentos. O silêncio naquele cômodo nunca pareceu tão barulhento. Ela fechou os olhos e inspirou e expirou, tentando controlar aquele coração agitado com a respiração. Sentindo-se mais calma, levantou e andou lentamente até a cômoda. A mão magra puxou a primeira gaveta e pegou no fundo dela o porta-retrato virado para baixo. Ela olhou bem para aquela foto e, sem que percebesse, sorriu. As palavras de Evie soaram em sua mente e em seguida uma lembrança.
Seja como o vento e voe… riu de si mesma, olhando para a fotografia.

***


Naquela mesma noite.
Os ponteiros do relógio em cima da escrivaninha marcavam 23h. Deitado sem camisa sobre a cama bagunçada, encarava o teto do quarto em silêncio. Liz estava com ele. Os cabelos dourados estavam soltos e cobriam parte das costas nua da garota, que distribuía beijos calmos do torso até o pescoço do nadador. Ao tocar com suas mãos o rosto do rapaz e aproximar os lábios dos dele, reparou através dos olhos de que ele pensava em algo. E não era na namorada quase nua em seu colo.
Eliza abaixou a cabeça e rolou os olhos. Então, voltou a beijá-lo delicadamente enquanto dizia:
ㅡ Dylan disse que a mãe dele está grávida. Legal, não é?
ㅡ É... ㅡ A voz de soou monótona. Ele realmente não estava consciente do momento, mas Liz continuou.
ㅡ Mas parece que não é do pai dele. É de outro cara.
O nadador murmurou qualquer coisa sem sentido.
ㅡ É do treinador. Agora a mãe dele vai se separar do marido para ficar com o Rei Demônio. O que acha disso?
ㅡ Claro. O que você quiser, Liz – respondeu qualquer coisa que lhe veio à mente. Após uma pausa, franziu a testa e arregalou os olhos. ㅡ Espera, o quê? Dylan engravidou quem?
Eliza endireitou a postura e cruzou os braços, encarando o namorado de cima com um sorriso sarcástico no canto da boca, que não demorou muito para se desfazer. A menina respirou fundo e saiu de cima do garoto, sentando na cama e ficando de costas para . O nadador fechou os olhos e levou a mão ao rosto ao finalmente perceber a burrada que havia feito. Mais uma para a conta.
ㅡ Ah, droga... Me desculpa, Liz ㅡ Ele sentou e encostou as costas na cabeceira da cama, apoiando um dos braços em cima dos joelhos. ㅡ Não ‘tô muito no clima hoje. Eu…
ㅡ Estava pensando na , não é? E nessa viagem maluca para Sydney. ㅡ Eliza o olhou por cima do ombro. Ela suspirou e começou a vestir o sutiã vermelho escuro. ㅡ Eu sei, . Conheço você tempo o suficiente para saber o que se passa nessa sua cabeça oca.
O rapaz não conteve a risada fraca. A quem ele queria enganar? Liz estava certa sobre ele e sempre soube lê-lo pelas entrelinhas. Não só , como Dylan e até mesmo . A garota era uma ótima amiga observadora. Sem ter como contra-argumentar, o nadador virou o rosto e encarou a touca e o óculos de natação de jogados no meio da escrivaninha.
Eliza, já com suas roupas no corpo, seguiu o olhar do namorado e respirou fundo. Em silêncio, ela puxou a cadeira, sentou e pegou os óculos. A menina não queria admitir em voz alta, mas sentiu um leve aperto no peito ao segurar aqueles óculos e lembrar de tudo o que Evie havia contado sobre e pensar no que poderia acontecer nos próximos dias.
ㅡ Acha que ela vai ficar bem nessa viagem? ㅡ perguntou. A nadadora permaneceu em silêncio. ㅡ Quer dizer… Você viu a cara dela quando o treinador falou sobre o percurso no mar? Parecia apavorada.
ㅡ É, eu vi. Me pergunto se ela ao menos vai aparecer amanhã.
ㅡ Ela acabou de voltar. Não pode sumir de novo! ㅡ A voz de soou atormentada. O garoto voltou a deitar e cobriu o rosto com o travesseiro. ㅡ Por culpa do Rei Demônio, todo meu esforço foi jogado no lixo. Voltamos para a estaca zero. Percurso no mar? Que ideia idiota é essa?
Ouvindo o nadador resmungar abafado, Liz levantou da cadeira e sentou na ponta da cama.
ㅡ Acredito que o treinador sabe o que está fazendo. Ele não viria com esse trabalho todo só para vencermos a regional ㅡ A garota fez uma pausa e suspirou. ㅡ Algo me diz que esse treino não é para nós.
ㅡ Isso não faz o menor sentido.
ㅡ Nada tem feito sentido ultimamente. Toda essa história sobre , os pais dela e agora essa viagem repentina… Agora nada faz sentido, mas vamos esperar e ver o que acontece ㅡ Liz tirou o travesseiro do rosto de e o encarou com um sorriso de canto. ㅡ Ao invés de ficar choramingando, que tal levantar essa bunda daí e ajudá-la a enfrentar esse medo? Ela aparecendo amanhã ou não, vamos apoiá-la, okay?
ㅡ E como vamos fazer isso? ㅡ levantou um pouco o corpo para olhar a menina.
Liz ficou de pé e parou ao lado do nadador. Ela aproximou o rosto do dele e sussurrou com sua voz calma e sensata:
ㅡ Seja o de sempre.
Então, deu um beijo na bochecha do garoto e levantou. Rapidamente pegou sua mochila e o casaco do Aretusa que estava jogado na cadeira da escrivaninha e andou até a porta do quarto. a encarou quietamente e pensativo. A menina girou a maçaneta, mas antes de sair, deu uma última olhada no rapaz e disse:
ㅡ Ah, da próxima vez que for transar com alguém, não pense em outra pessoa, beleza? ㅡ Eliza saiu do quarto sem esperar por uma resposta de , que ficou com as bochechas levemente vermelhas.
O sorriso ligeiro nos lábios de Liz se desfez aos poucos quando ela fechou a porta atrás de si. Ela olhou para cima e soltou o ar lentamente, tentando ignorar aquela inquietação em seu peito.

***


No dia seguinte, a frente do Clube Aretusa estava um tanto quanto tumultuosa e animada com os nadadores conversando e rindo. O clima estava fresco e o céu ainda estava clareando com a chegada do sol que timidamente se escondia por detrás das nuvens.
ㅡ E então, quando podemos partir? ㅡ perguntou o motorista da van parada na frente do Clube, que levaria todos para Sydney. Hawks olhou para a rua vazia e calma, olhou para o seu relógio de pulso e suspirou.
ㅡ Está bem, vamos nessa ㅡ disse o treinador, cansado de esperar. Ele bateu duas palmas para chamar a atenção dos atletas e indicar que já podiam entrar no veículo.
Cada um que entrava, escolhia o seu lugar. , Liz e Iara sentaram juntos, enquanto na frente estava Dylan e mais um nadador que fazia parte da sua equipe de revezamento. Ambos discutiam feito crianças em passeio escolar para decidir quem ia na janela. Vendo aquela bagunça, Hawks apenas revirou os olhos. Ele olhou mais uma vez para a rua antes de entrar na van. Tinha a esperança de se surpreender novamente com uma chegada inesperada, mas não havia ninguém na rua. Então, o treinador deu um sinal para o motorista, que fechou a porta e correu para o seu lugar no volante.
No momento em que girou a chave na ignição e deu partida, a bagunça naquele veículo pareceu ainda maior. Hawks colocou o cinto e cruzou os braços na frente do peito seriamente. Quando encostou a cabeça no banco e fechou os olhos para tentar dormir, um barulho chamou sua atenção.
ㅡ Esperem por mim! ㅡ gritou, batendo na porta da van. Um dos nadadores abriu e ela entrou ofegante e um pouco suada depois de correr com pressa. Os amigos e o treinador Hawks a olharam surpresos, mas com sorrisos nos lábios.
ㅡ Pensei que não viria… ㅡ Hawks comentou, descruzando os braços. Ele estava feliz, de alguma forma. ㅡ Vou descontar o atraso no seu salário.
ㅡ Desculpe ㅡ A menina pediu, rindo. sentou no banco atrás do treinador e ao lado de . Ela deu um breve sorriso para o rapaz, que devolveu o gesto, aliviado. ㅡ Eu teria chegado mais cedo se não fosse Evie tentando arrumar o cabelo.
ㅡ Ei! Meus cabelos não têm nada a ver com isso ㅡ Evelyne também entrou na van e sentou no primeiro banco vago que viu. Ao lado de Dylan, que pareceu petrificado de surpresa. ㅡ Na verdade, teríamos chegado mais cedo se tivéssemos um carro. Oh, oi, Dylan!
O perfume suave da mulher preencheu as narinas do rapaz, fazendo-o abrir um largo sorriso. Liz e riram do amigo logo atrás.
ㅡ Essa é a melhor viagem de todas! Obrigado, Deus!ㅡ disse ele, animado.
O motorista mais uma vez deu partida no veículo e seguiu pela estrada.
Olhando pela janela, respirou fundo e tentou se concentrar na paisagem que estava em sua frente. Ela não conseguiu dormir direito, pensando sobre toda a discussão que teve com a irmã, a conversa com e sobre o receio que sentia ao saber que teria que ficar diante do mar que levou seus pais para longe. Ela estava assustada. No entanto, não queria dar razão para Evie e fugir mais uma vez. O que aconteceria nesses dois dias, não sabia e nem queria imaginar, mas lutaria contra esse medo e as vozes em sua cabeça. Ao olhar para as pessoas ao seu redor rindo, conversando e se divertindo, percebeu que não estava sozinha e não havia nada que pudesse dar errado.

Capítulo 09 - Chegando em Sydney

A suave brisa soprou as longas madeixas de para trás. Não havia ninguém ao redor dela, estava completamente sozinha. Ao menos era o que sentia naquele momento, parada com os pés na areia, olhando para o enorme mar à sua frente. Ela fechou os olhos e respirou fundo. O cheiro típico da praia e o som das ondas se quebrando fez o corpo da menina se arrepiar dos pés à cabeça.
Abriu os olhos lentamente, inspirou e suspirou. Seu peito doía e suas pernas tremiam.
一 Não precisa ter medo. Basta você ficar longe da água e ninguém vai se ferir. 一 uma voz distorcida e abafada soou nos seus ouvidos. A sensação era de que havia alguém do seu lado esquerdo, mas ela estava sozinha.
一 Foi muita coragem sua vir para este lugar. Olhe para lá 一 outra voz, desta vez soou do lado direito. abraçou os próprios braços ao ver mais uma onda se quebrar 一 é o mesmo mar que os levou para longe…
Mais uma voz. E depois outra, e mais outra.
A menina, petrificada, fechou os olhos com uma certa força. Aquelas vozes em sua cabeça ficaram ainda mais barulhentas assim que ela desceu da van, logo atrás de seus amigos e colegas, e colocou os pés na areia. Foi o momento em que uma chave se virou e todos ao redor pareceram ter sumido. queria parar de fugir e mostrar que tinha coragem, mas não estava funcionando. Talvez fosse melhor ter ficado em casa, pensou.
Abriu os olhos mais uma vez e soltou os braços, que estavam fracos como as pernas. Algo na beira-mar chamou sua atenção, quer dizer, alguém. Era um homem alto, mas ela não conseguia ver muito bem seu rosto da distância que estava. piscou uma, duas vezes. Então, uma mulher apareceu ao lado dele, cujo rosto também não era possível enxergar.
... 一 a mulher disse suavemente e tão baixo como um sussurro, mas seu nome soou nítido como se aquela pessoa estivesse a um passo de distância.
... 一 foi a vez do homem alto dizer, e o corpo da menina se arrepiou novamente.
Ela abriu um pouco a boca e deu um passo, como se fosse se aproximar. Até que ouviu seu nome ser chamado pela terceira vez.
一 Ei, Terra chamando ! 一 Liz balançou os braços na frente da amiga, despertando-a dos devaneios. Atrás dela estavam Dylan, Evie e .
Evelyne também encarou as ondas do mar com um certo aperto no peito.
一 Ahm... O que foi? 一 perguntou , piscando os olhos, confusa. franziu a testa, percebendo a inquietação da menina.
一 O treinador vai nos levar para conhecer o Centro Aquático antes de ir para o hotel. Você vem? 一 perguntou Dylan, animado.
respirou fundo e olhou para a água novamente. Não havia ninguém menos que banhistas ali. Estou maluca, pensou.
一 EI, VOCÊS AÍ! 一 O grupo virou para trás ao ouvir o tão conhecido grito do Rei Demônio. Ele segurava uma prancheta e usava óculos de sol, embora fosse quase noite. 一 Venham logo. Não temos mais tempo a perder!
一 Acho que não tenho escolha a não ser ir, não é? 一 respondeu para Dylan. Os amigos e a irmã riram brevemente e começaram a andar em direção aos outros nadadores que seguiam o treinador.
一 Você tá legal? 一 sussurrou. Ele diminuiu os passos para ficar ao lado de , enquanto Liz, Dylan e Evie caminhavam mais à frente. 一 Esteve quieta durante a viagem toda e nem vimos você sair da van.
一 Estou bem, não se preocupe. 一 sorriu para o garoto e colocou os braços para trás, escondendo as mãos trêmulas. 一 É só que... Faz muito tempo que não venho à praia. Estava lembrando de algumas coisas.
一 Lembranças boas? 一 perguntou , olhando para o mar. encarou em silêncio as pegadas que formava na areia enquanto pensava naquela pergunta.
一 Lembranças que eu gostaria de apagar... 一 respondeu num suspiro.
O garoto não soube o que dizer ao ouvir aquilo, pois sabia do que se tratava, mas não podia tocar no assunto. Evie o mataria se fizesse isso e iria atrás da irmã até o fim de sua vida por ela ter contado tudo sem sua permissão. Não que a morte dos pais das duas garotas fosse um segredo, porque não era. Mas não queria receber mais olhares de pena e ainda não estava pronta para se abrir, bem como lidar com as lembranças, que eram como cicatrizes que ela nunca conseguiria se livrar.
Percebendo o clima e o silêncio que se instalou entre os dois, respirou fundo e parou de andar. Seja o de sempre, lembrou-se das palavras da namorada. Os amigos também pararam, olhando para ele sem entender nada. Evie chegou a perguntar se ele estava passando mal e se queria parar para descansar, embora não tivessem andado nem dez minutos. O garoto negou enquanto entregava a mochila e o casaco para Dylan.
一 Desde quando virei seu mordomo? 一 reclamou o garoto, mas o ignorou, rindo.
一 Se quer apagar uma lembrança 一 ele virou para , que sentiu o coração dar um salto. Liz cruzou os braços e ergueu a sobrancelha, curiosa. 一 É só não pensar nela.
agachou para amarrar os cadarços dos tênis com mais firmeza. Então, de repente, começou a alongar os braços e as pernas.
一 Ahm... Não estou entendendo. O que está fazendo? 一 perguntou .
一 É, o que está fazendo? 一 Liz repetiu a pergunta.
一 Vamos apostar uma corrida! Eu e você. Agora. 一 apontou para , que riu alto e cruzou os braços.
一 Tá falando sério?
一 Está com medo de perder? 一 O garoto provocou.
一 Woah! Acho que tive um Deja vu! 一 Dylan colocou uma mão na cabeça. Evie riu do garoto, entendendo o que ele estava sentindo. Aquela parecia uma cena típica de e quando ainda eram crianças e se desafiavam todos os dias.
一 Medo de perder... Argh! Você continua o mesmo competitivo de sempre! 一 disse . Ela revirou os olhos ao perceber o sorriso presunçoso do nadador e sua pose desafiadora.
一 Ele não entendeu nada do que eu disse... 一 Liz murmurou para ela mesma, negando com a cabeça enquanto segurava a risada.
一 Ah, qual é! Quero ver se você é rápida correndo como é nadando. Dessa vez, vai ser uma disputa justa. Longe da água... 一 disse ele, lembrando-se da última vez em que competiram. engoliu em seco e suspirou.
一 Está bem. Vamos até o Centro Aquático. O treinador disse que é perto do hotel, a umas duas quadras daqui.
一 Fechado! 一 deu a mão para a menina, que apertou, hesitante.
entregou a mochila vermelha para Evie e repetiu todo o processo que havia feito. Firmou os cadarços dos tênis e se alongou. Ela estava um pouco nervosa sobre competir com o garoto novamente, ainda mais em terra firme, algo que nunca havia feito antes.
一 Isso vai ser interessante. Eu dou a largada! 一 Liz levantou o braço. Parecia animada com aquilo.
Os dois competidores da vez saíram da areia para se posicionarem na pista de caminhada da praia. Estando lado a lado e agachados para dar impulso, e se entreolharam de uma maneira divertida, diferente de quando nadaram juntos pela última vez.
一 Okay, preparem-se! 一 Eliza disse, ficando de frente para os dois amigos. Ela se sentiu como aquelas garotas gostosas em filmes de corrida. Evie e Dylan assistiam a cena de pé ao lado de uma árvore enquanto carregavam as mochilas.
一 Cuidado para não tropeçar. 一 disse , com aquele sorriso debochado. apenas revirou os olhos.
一 Às suas marcas… 一 começou Liz. e respiraram fundo, preparando-se para a largada.
一 Isso não é disputa de natação! 一 Interrompeu, Dylan.
一 Eu só sei dessa forma! 一 Eliza bufou e continuou. 一 Preparar... VÃO!
No instante em que abaixou os dois braços, e dispararam numa velocidade impressionante. Era nítida a distância que um estava para o outro. A menina estava ficando para trás, mas não estava preocupada se iria perder ou não. , por outro lado, corria com toda sua força, sem se preocupar em manter o ritmo da respiração com os passos. Okay, talvez nadar fosse mais fácil, pensou ele. O suor escorria enquanto o cansaço o dominava logo na primeira quadra.
一 Escutem, amanhã começa o Super Treino e eu não quero saber de moleza. Não estamos de férias! 一 o Rei Demônio dizia para os nadadores que o seguiam calmamente. 一 No final de tudo, vocês podem aprovei... Woah! Mas que merda!
一 FOI MAL, TREINADOR! 一 gritou quando passou por ele correndo, empurrando-o para o lado, quase o derrubando na areia. Ele franziu a testa, sem entender o porquê ele corria.
一 De quem ele tá fugin... 一 BLAM. Desta vez, o Rei Demônio foi para o chão com outro impacto certeiro na parte lateral do corpo. Os atletas, que também não sabiam o que estava acontecendo, seguraram a risada.
一 Desculpa, Hawks! Meu Deus... É... Eu preciso ir! 一 pensou em parar para ajudá-lo, mas logo voltou a correr com toda sua velocidade para alcançar , que estava perdendo cada vez mais fôlego agora que estava rindo.
O garoto ainda estava na frente quando o Centro Aquático de Sydney entrou no seu campo de visão. Ele ousou olhar para trás para saber o quão longe estava , mas foi neste momento em que ela o ultrapassou, tão rápido que nem ele acreditou. Tudo o que ele viu foi os longos cabelos presos se soltarem no instante em que ela parou no portão da “linha de chegada”.
Nos últimos segundos, quem abraçou a vitória foi . Extremamente cansada e ofegante, ela colocou as mãos nos joelhos e começou a rir. chegou logo atrás, também exausto e sem acreditar que havia perdido. Ele não estava irritado. Pelo contrário, estava mais feliz do que quando a venceu na piscina. Ver rindo foi o bastante para ele. Pensando bem, não houve derrotas, pensou ele.
一 Como? 一 perguntou ele, sem forças. Nem quando nadava 200m se sentia tão cansado assim.
一 Eu parei de nadar... Não de fazer exercícios. Na próxima... Tente gastar toda sua energia no final. Pode ajudar. 一 respondeu, ofegante. 一 Isso também vale para natação...
一 Acho que vou continuar com a natação... Parece que corri 20 quadras.
一 Será que o treinador está bem? 一 mudou de assunto e começou a rir. a acompanhou enquanto sentava em um banco que tinha na frente do Centro, para esperar o restante dos colegas. A menina sentou ao lado dele.
一 Ah, cara, ele vai me fazer nadar 800 metros sem parar... 一 lamentou entre risadas.
一 E eu vou limpar os banheiros e vestiários do Aretusa...
Ambos começaram a rir ainda mais alto, embora soubessem que o que diziam não era exagero quando falavam do treinador Hawks encarnado no Rei Demônio. Os dois continuaram a conversar calmamente como bons amigos que sempre foram. Por um momento, era como se nunca tivesse ido embora, pensou . O clima estava agradável. Nem mesmo o silêncio após a conversa foi capaz de incomodá-los.
一 E aí? Deu certo? 一 perguntou de repente.
一 Deu certo o quê? 一 devolveu a pergunta. Ela puxou as madeixas para trás e fez um coque no alto da cabeça, em seguida, começou a abanar o pescoço.
一 Aquelas lembranças que você mencionou... Você parou de pensar nelas nesse meio tempo?
A menina o encarou seriamente por alguns segundos. Então esse era o real motivo da disputa? não queria apenas provocá-la, mas, sim, ajudá-la a não pensar naquilo que a atormentava. Ela nem sequer estava ouvindo as vozes incessantes em sua mente. Ao se dar conta, desviou o olhar e riu brevemente.
一 É... Acho que funcionou um pouco. 一 disse ela. 一 Quem diria... Agora vejo que não existe só sede de vitória dentro de você. 一 Acrescentou, rindo. revirou os olhos verdes.
Silêncio. Os dois ficaram mais algum tempo sentados lado a lado sem dizer absolutamente nada. No momento em que Liz, Dylan, Evie e todo o time do Aretusa estavam se aproximando, engoliu a seco e disse suavemente:
一 Seja qual for o problema, não esconda ele só para você. Conte comigo... Quer dizer... Com todos nós para ajudá-la. 一 Ele virou o rosto para , que o olhava profundamente. 一 Agora há pouco eu pude ver a que eu conhecia, a minha melhor amiga e rival. Senti falta dela.
O rapaz mostrou um sorriso nos lábios que aqueceu levemente as bochechas e o coração da menina. Ali estava o sorriso meigo que fazia as borboletas se agitarem no estômago de quando ela era apenas uma criança de 12 anos. Aquela lembrança a fez sorrir e, mais uma vez, esquecer, por um breve momento, a dor e o medo que sentia ao ouvir o bater das ondas no mar.
não pôde evitar de sorrir.
一 Eu também senti...
一 Ei, aquilo foi demais! 一 A voz estridente de Dylan interrompeu , que deu um pulo de susto. Ela sentiu que suas bochechas estavam ainda mais vermelhas. 一 A melhor parte foi quando deu um nocaute no treinador!
Todos ali, menos e o Rei Demônio, riram. Ela levantou e se afastou de , que a observou andando até Evie para pegar a mochila. Ainda sentindo o rosto quente e o coração acelerado, ficou atrás da irmã, como se a usasse de escudo para escondê-la. Liz cruzou os braços e franziu a testa ao perceber a estranha reação da amiga.
Um único pensamento passou por sua mente e era que talvez seu acordo passional estivesse chegando ao fim mais rápido do que pensava.

Capítulo 10 - O Primeiro Dia

No dia seguinte, toda a equipe do Aretusa levantou cedo para tomar o café da manhã. E Evie estava junto. Talvez não fosse uma boa ideia reunir vários atletas e adolescentes em um único espaço de um hotel. O tumulto era grande e atraía maus olhares dos hóspedes mais velhos, que simplesmente desejavam tomar um delicioso café enquanto apreciavam a vista para o mar.
一 Ah… Ela está linda hoje também. 一 disse Dylan com uma voz apaixonada enquanto despejava suco de laranja em um copo.
一 Ei, cuidado, presta atenção! 一 Liz o repreendeu. Por um triz que o copo não transbordou.
一 Para quem você tanto olha com essa cara de tonto? 一 perguntou Iara, que também estava à mesa, sentada ao lado de .
Dylan nem se deu o trabalho de retrucar ou mandar o dedo do meio, ele manteve sua atenção no belo som que a risada de Evie emitia. Ah, essa deve ser a risada dos anjos, imaginou.
一 É a Evie, minha irmã. 一 respondeu sem precisar seguir os olhos do amigo sentado na sua frente. 一 Eu pensava que essa sua paixonite tivesse ficado lá atrás. Me surpreende que continue babando por ela todo esse tempo.
Liz deu uma risada fraca enquanto pegava o suco que Dylan quase desperdiçou.
一 É verdade. Como alguém pode gostar de uma pessoa por tanto tempo mesmo depois de anos sem vê-la? 一 disse ela como se nada fosse. 一 Mistérios da vida.
Naquele momento, e olharam para a amiga ao mesmo tempo. O garoto, que estava para comer um pedaço de pão, o derrubou no prato ao ouvir aquela indireta mais afiada que uma faca; e quando seus olhos se encontraram com os de , sentiu que seu corpo inteiro estava em chamas.
一 Primeiro: nunca foi uma paixonite. Meus sentimentos por ela são sérios, beleza? 一 Dylan argumentou de nariz em pé e sem vergonha alguma de admitir o que sentia por Evie. 一 Segundo: eu sempre vou gostar dela, mesmo sabendo que não tenho chance alguma com ela.
A voz do garoto pareceu triste por um momento, mas ele sorriu logo em seguida. É claro que Dylan já ficou com outras garotas, namorou uma durante o segundo ano do ensino médio, mas ele nunca esqueceu Evie e o que sentia pela mulher. E quando a viu novamente depois de cinco anos, sentiu uma felicidade imensa que só provou o quanto ele ainda era apaixonado. Embora não houvesse reciprocidade, Dylan já havia aceitado que não tinha mulher alguma que pudesse substituir Evelyne. Ao menos ainda não havia encontrado essa pessoa.
Iara bebericou sua xícara de café e observou Evie de longe, que conversava com o treinador Hawks.
一 E por que você se tortura desse jeito? Digo, por que gosta tanto dela mesmo sabendo que não vão ficar juntos? 一 perguntou.
Os três amigos pararam o que estavam fazendo para ouvir a resposta de Dylan. Estavam curiosos para saber. Como nunca tinham se perguntado isso antes? O garoto ficou tímido pela primeira vez, e isso surpreendeu , Liz e .
一 É o sorriso dela. 一 disse sem hesitar. Dylan olhou mais uma vez para a mulher, e desta vez ela acenou e sorriu amigavelmente para o garoto, que acenou de volta. 一 No meu primeiro campeonato de natação, eu estava tão nervoso que quase fiz xixi na sunga.
riu enquanto as garotas franziam a testa, se perguntando onde aquela história ia dar.
一 Mas também estava super animado que ia nadar com meus amigos no revezamento. Naquela época eu já nadava peito. Eu dei o meu melhor naquela prova, mas nem chegamos perto da vitória. Tinha acabado de fazer 10 anos, mas chorei igual a um bebê.

***


O pequeno Dylan estava sentado em um banco do lado de fora do vestiário. Sua cabeça baixa cobria os olhos vermelhos de tanto chorar. Pingos de água caíam de seus cabelos molhados da piscina, acertando a toalha cobrindo suas pernas magras. A frustração por ter perdido aquela prova era tão grande, que ele arremessou a touca de pano na parede, culpando-se por não ter ajudado seus amigos o suficiente. No entanto, naquele exato momento, passou uma jovem de 18 anos, com os cabelos presos em um rabo de cavalo e que vestia um vestido delicado da cor amarela com flores brancas espalhadas. Ela deu um pulo para trás, assustando-se com aquela touca voadora.
A jovem agachou e pegou a touca molhada do chão. Ainda agachada, percebeu que o garotinho com lágrimas por todo o rosto e meleca no nariz a encarava com os olhos arregalados.
一 Desculpa, moça, não queria te acertar!
一 Isso é seu? 一 ela perguntou educadamente. O pequeno Dylan abaixou a cabeça.
一 Não! Pode ficar para você se quiser! 一 ele negou. A menina riu brevemente e sentou ao lado dele.
一 Eu acho que isso não serve na minha cabeça. Sem falar que vai desmanchar todo meu cabelo. 一 disse, olhando para o tecido. 一 Combina mais com você. Eu acho que te vi nadando agora há pouco.
Dylan arregalou os olhos e sentiu ainda mais vergonha. Aquela sunga laranja extravagante poderia ser vista por qualquer um.
一 Eu fui péssimo, não fui? Natação não é para mim. Não ganhei nada!
一 Eu achei você incrível! 一 A jovem Evie sorriu para o garoto, que a encarou com aqueles olhos marejados. 一 Já fui em muitas competições de natação, mas ainda não tinha visto alguém da sua idade nadar… Como é o nome mesmo… Peito, eu acho… De uma maneira tão leve e bonita como você nadou.
一 Verdade? 一 Dylan perguntou, secando as lágrimas com as mãos. 一 Tá falando isso para me animar? Minha mãe sempre faz isso!
Evie deu uma risada alta e levantou, ficando de frente para o garoto.
一 Quero te animar, sim, mas estou sendo sincera. Minha irmã é como você e ela sempre diz que nadar não se trata de ganhar ou perder. 一 A jovem Evie agachou para ficar na altura dos olhos do garoto e tocou, com sua unha pintada, o peito dele. 一 Você tem que nadar com o coração e sempre dar o seu melhor, como eu vi você fazendo lá na piscina.
E então, Evie olhou bem para os olhos do pequeno Dylan e deu o seu sorriso mais sincero a ele. Foi naquele momento que nasceu uma admiração inexplicável dentro do rapaz e que foi amadurecendo dia após dia.

***


一 Ei, eu lembro desse dia. Eu também participei desse campeonato! 一 disse .
一 Um tempo depois eu entrei pro Aretusa e vocês já estavam lá.一 Dylan apontou para e . 一 Foi quando nos conhecemos.
一 E mesmo depois desse tempo todo, você ainda sente o mesmo por ela? 一 perguntou Iara, admirada com aquele romance.
一 É claro! Eu sempre vou amar a Evie, passe o tempo que for!
Algumas das nadadoras que estavam por perto e que escutaram aquilo, olharam encantadas para Dylan.
一 Por que você não é assim comigo?! 一 Liz deu um soco do braço de . A mesa toda riu, inclusive . Embora também sentisse um certo incômodo ao ver aquilo.
Ao longe, Evelyne sorriu e cutucou com o cotovelo o braço de Hawks, que olhava algo em seu celular.
一 Olha lá, ela está rindo mais uma vez como uma adolescente comum. 一 disse. 一 Eu sabia que trazê-la para cá era uma boa ideia.
一 Você é a irmã mais babona que eu já conheci. 一 Hawks caçoou, voltando a olhar para o celular. Ele checava a previsão do tempo.
一 Obrigada. 一 Evie sorriu, orgulhosa. 一 Só dela estar sorrindo com os amigos em um lugar que só traz lembranças ruins, já é um grande avanço.
一 Vamos ficar de olho. Só quem pode ajudar nisso são eles. 一 Hawks apontou para Liz, e Dylan, que riam de qualquer coisa. 一 Mas e você?
一 O que tem eu?
一 Está bem com tudo isso? Não deve ser fácil para você estar aqui também, não é?
Evie soltou um suspiro e terminou sua xícara de café preto.
一 Não é fácil, mas vou superar. Nada que uma boa cerveja não ajude, hã?
一 Ei, estamos aqui a trabalho, esqueceu? E isso inclui você como babá desses pirralhos! 一 Hawks riu, bagunçando o cabelo de Evelyne. 一 Agora vamos, o dia será longo!

***


一 Você está dobrando muito os joelhos. Tente manter o seu corpo reto 一 explicou para uma das nadadoras dentro da piscina, exemplificando com o próprio corpo a postura correta para nadar. 一 Se você relaxar as pernas, o seu tempo será mais devagar.
A atleta ouviu as dicas de silenciosamente. No momento em que ela deu as costas para falar algo com o treinador, a nadadora rolou os olhos e deu um impulso para sair da piscina. Ainda sem dizer nada, mas com a cara fechada, dirigiu-se até o vestiário feminino.
Naquele primeiro dia, para a alegria dos nadadores do Aretusa, os treinos aconteceram apenas no Centro Aquático. O lugar enorme dava a sensação de estar nos jogos olímpicos, o que trouxe uma certa nostalgia para o treinador Hawks, que não hesitou em entrar na piscina e desafiar para uma disputa de 400m no nado borboleta. Talvez aquele fosse o primeiro castigo por ter quase derrubado o Rei Demônio na frente de todos. também não saiu ilesa. Embora não tenha sido desafiada para nadar, trabalhou como nunca. Uma tarefa atrás da outra. Estava exausta.
Enquanto isso, estava deitado no chão, perto da piscina, com a barriga para cima. Seu corpo estava pesado como se um caminhão tivesse passado por cima e estacionado sobre ele. Dylan estava agachado ao lado dele, rindo. se aproximou e se agachou também.
一 Ele está bem? 一 perguntou, preocupada.
一 Eu acho que ele morreu. 一 Dylan riu. , que cobria o rosto com o braço, apenas mostrou o dedo do meio, sem fôlego para falar. 一 Ei, tenha modos! A culpa não é minha que você esbarrou no Rei Demônio no pior momento.
mordeu o lábio, segurando a risada. Ela estava mesmo preocupada, aquele não era um momento para rir.
一 Precisa de um médico? 一 perguntou. negou com a cabeça. A menina suspirou e virou para Dylan. 一 Onde está Liz?
一 No vestiário, eu acho. 一 respondeu o garoto. 一 Me ajuda a levantá-lo?
Enquanto Dylan envolvia o braço esquerdo do amigo em seu pescoço, correu para o outro lado para fazer o mesmo. estava tão cansado, que mal tinha forças para ficar de pé. Parecia um bêbado. Esse pensamento fez rir.
一 Do que está rindo? 一 perguntou o garoto.
一 Nada… Não é nada. 一 respondeu, mordendo o lábio. 一 Acha que vai conseguir treinar amanhã?
一 Eu só estou cansado. Isso não é nada.
一 Não, cara, eu é que estou cansado. Você está quase morto. 一 disse Dylan do outro lado e concordou.
一 Amanhã vocês vão nadar no mar, esqueceu? Não é o mesmo que nadar na piscina. 一 A voz da menina soou séria.
一 Eu sei disso. Mas estou bem para treinar, só preciso descansar.
一 Tem certeza? Você não é nenhum Michael Phelps! 一 se desvencilhou do braço de quando chegaram na porta dos vestiários e olhou nos olhos do garoto. 一 Não entre no mar se não tiver condições para nadar…
rolou os olhos, mas colocou um sorriso nos lábios para tranquilizar a menina.
一 Está bem. Entendido, treinadora! 一 ele bateu continência e riu.
negou com a cabeça e cruzou os braços. Ela observou os amigos entrarem no vestiário com um sorriso no canto dos lábios, mas ainda preocupada com o garoto. sabia que era forte o bastante para aguentar as artimanhas do treinador Hawks. Os meses em que o viu bater um recorde pessoal atrás do outro eram prova disso, mas não tirava o fato de que estava preocupada ao saber que veria seus amigos de infância enfrentar o mar que ela tanto temia.
respirou fundo e balançou a cabeça.
一 Para apagar lembranças ruins, não pense nelas… 一 repetiu para si mesma três vezes. Talvez isso fosse um bom mantra para seguir.

Capítulo 11 - A ironia da vida é uma droga

fechou os olhos e apoiou as duas pequenas mãos na barriga. Seu peito subia e descia lentamente com uma respiração tranquila enquanto seu corpo era sustentado pela água. Nada ao seu redor poderia tirar aquela sensação de liberdade e de completa paz. Nem mesmo as pequenas ondas que se formavam embaixo dela.
Vestindo o seu maiô azul, a garota estava com seus 12 anos novamente.
Ela abriu os olhos, ergueu a mão esquerda para o alto e encarou as nuvens no céu vasto e ensolarado entre os dedos. Por algum motivo desconhecido, sentiu-se ainda menor e sozinha. Um aperto em seu peito a incomodava. Então, abaixou o braço e virou para trás, onde ao longe pôde ver o barco. Havia três pessoas de costas para ela que conversavam entre si animadamente. Um ligeiro sorriso se formou nos lábios da menina, que começou a nadar em direção ao barco.
Enquanto batia as pernas, notou que as nuvens - que mais pareciam algodão - aumentavam, mas a água continuava calma e límpida. Aproximando-se do barco, as três pessoas que estavam ali, viraram para ela. parou de nadar e franziu a testa ao perceber que não eram seus pais e nem o veleiro. O que fazem aqui?, perguntou ao observar , Liz e Dylan diante dela. A menina ficou ainda mais confusa ao notar que os três amigos estavam diferentes… Pareciam mais velhos.
一 Por que estão aqui? 一 perguntou. Liz foi a primeira a abrir a boca para responder, mas o som parecia abafado. Assim como a voz de Dylan e de .
O aperto no peito de voltou a incomodá-la. A respiração estava descompassada e o coração acelerado. Um novo medo que nem mesmo ela sabia explicar ou entender por que sentia. Que merda está acontecendo?!, pensou.
A garota fechou os olhos com força ao sentir pingos de água caírem sobre sua cabeça e as ondas se formarem atrás dela, uma onda maior que a outra. Toda aquela paz e tranquilidade que sentia havia ficado para trás, substituídos pelo pavor. Quando abriu os olhos, arrependeu-se. Aquela parede d’água se formava lentamente atrás do barco, onde os três amigos continuavam a sorrir entre si.
Não, não, não… 一 disse para si mesma em prantos. 一 De novo não…
No momento em que a enorme onda começou a cair, ela pôde ouvir seu nome ser chamado ao longe, abafado por um grito.

SEGURA MINHA MÃO!

***


acordou em um salto, com o coração batendo tão rápido que era quase possível escutar. A nuca estava molhada de suor e a respiração fora de ritmo. Segurando com uma certa força o lençol da cama, a garota olhou para os lados e viu, do seu lado esquerdo, Evie dormindo profundamente com a boca levemente aberta e vestindo um Tapa Olho da cor rosa; do outro lado estava Liz, que também dormia.
Foi tudo um sonho. Esse breve pensamento fez soltar o ar brevemente, mas não foi o suficiente para acalmar o coração e apagar a imagem da queda da imensa onda. Ela fechou os olhos, levou a mão ao peito e respirou fundo ao lembrar.
Silenciosamente, saiu da cama e andou até o banheiro, onde tirou a roupa suada para tomar um banho rápido e frio. Sentindo a água do chuveiro cair sobre o corpo, abraçou os próprios braços e agachou enquanto chorava encolhida. Estava assustada, mas acima de tudo, cansada e nervosa consigo mesma.
一 Eu não aguento mais… 一 murmurou, cansada de ser consumida pelo medo.
sentia-se cansada daquelas palpitações que lhe tiravam forças para ficar de pé e apagavam todas as palavras da mente, impossibilitando de pedir qualquer socorro. Cansada da vontade de chorar e da saudade. Ela estava cansada de se afastar e de saco cheio das vozes insuportáveis que parecia sugar toda sua coragem.
Ao sair do banheiro já com um pijama limpo - um shorts de tecido leve e uma camiseta larga -, deitou novamente e suspirou.
一 Chamou Liz com a voz sonolenta. Ela sentou brevemente e acendeu o abajur que ficava entre sua cama e a de . A luz amarela iluminou as duas. 一 Que horas são?
一 Ahm… 4h35 一 respondeu, olhando para o celular. 一 Desculpa, eu te acordei?
一 Se eu disser que não, vai ser mentira. 一 Liz riu fraco. 一 O que faz acordada a essa hora? Sonhou com Dylan e se assustou?
一 É… Mais ou menos isso…一 disse entre risos. Ela fez uma pausa, encarando o teto do quarto. 一... Mais ou menos isso. 一 Repetiu, agora com a voz e expressão mais séria.
Liz observou que a ponta dos cabelos da amiga estavam molhadas, assim como a voz parecia levemente trêmula. Eliza voltou a deitar completamente, mas ficou de lado para olhar .
一 Está tudo bem? 一 Perguntou com cautela.
respirou fundo e imitou a posição da amiga, ficando de frente para ela. As duas se olharam em silêncio por alguns segundos.
一 Se eu disser que sim… Vai ser mentira. 一 respondeu, dando um sorriso de canto. 一 Tem muita coisa rolando na minha cabeça agora.
一 Como o quê?
suspirou e levou a mão para perto da lâmpada do abajur. Manteve sua atenção ali enquanto dizia:
一 Como quando a vida pode ser irônica às vezes…
一 O que quer dizer? 一 Liz perguntou, curiosa.
一 É irônico como algo que você mais ama e te faz se sentir viva também pode tirar de você tudo o que existe de bom, até mesmo as pessoas mais importantes na sua vida. 一 abaixou a mão e mordeu o lábio, impedindo a si mesma de continuar falando. Ela forçou uma risada e olhou para Liz, que a encarava seriamente. 一 Ah… O que estou falando… O dia já está quase amanhecendo, nem dormimos direito e eu estou aqui te enchendo de bobagens…
Eliza segurou a mão da amiga, surpreendendo-a. Ela sorriu amigavelmente e olhou bem nos olhos da menina, que pareciam confusos e perdidos.
一 Ei, só quem me enche de bobagens são Dylan e . Você não precisa recuar dessa forma, pode conversar comigo. Somos amigas, não somos? 一 A voz calma de Liz preencheu os ouvidos de . 一 Você acha a vida irônica e eu acho ela uma droga, mas o que podemos fazer? 一 Liz soltou um longo suspiro e desviou o olhar, mas não soltou a mão de . 一 A única coisa que sei é que nem tudo acontece da maneira como queremos… Às vezes precisamos até abrir mão daquilo e daqueles que a gente ama só para ter um pouco de felicidade. Isso é irônico e uma droga, não acha?
Eliza riu fraco para esconder o aperto que sentiu em seu peito. sentiu-se da mesma maneira. Ela suspirou e segurou com mais força a mão magra de Liz, agradecida pelo calor e pelo carinho que confortava o coração.
一 Você é tão boa comigo… Na verdade, com todo mundo. 一 disse . 一 Me desculpe pelas coisas que disse no dia da disputa com e pela maneira como tratei vocês. Fui uma idiota.
一 Relaxa, eu nem me lembro mais daquela briga. 一 Eliza deu um largo sorriso e bocejou. Ela apagou o abajur e agora a única luz que iluminava o quarto era a que saía da janela. 一 Vamos voltar a dormir, hoje vai ser um longo dia.
viu a amiga fechar os olhos e apertou a mão que ainda segurava.
一 Liz… 一 Chamou. Eliza apenas murmurou ainda de olhos fechados. 一 Tome cuidado hoje, está bem?
Liz abriu os olhos brevemente.
一 Não se preocupe, vamos ficar bem.
Então, em questão de minutos, as duas garotas caíram em um sono profundo. Evie, na outra cama, levantou o tapa olho e sentou. A mulher silenciosamente olhou para as costas da irmã caçula e suspirou, digerindo tudo o que acabara de ouvir.

***


一 Certo, vamos lá! 一 Hawks pegou sua prancheta carregada de anotações e esquemas de treino e começou a passar as primeiras instruções para seus assistentes. 一 Como não são todos que vão nadar em Águas Abertas, cada um de vocês ficarão responsáveis por acompanhar um grupo e observar o desempenho e tempo de cada atleta até o fim do percurso. Qualquer problema que surgir, venham até mim!
respirou fundo ao ouvir aquilo, mas manteve-se em silêncio. Então o treinador continuou a explicar a função de cada um para aquele treino de resistência.
O percurso é simples: cada atleta vai nadar de uma ilha para a outra - equivalente a 500 metros - seguindo o estilo crawl. Para a avaliação de desempenho, cada assistente responsável pelo seu grupo vai assistir os nadadores de um barco que seguirá a mesma trajetória.
一 … E você, , vai ficar com o grupo 3: Charlie, Eliza, Iara e Leo. 一 disse Hawks, mas a menina não pareceu ouvir. Ela tinha os olhos focados nas ondas se quebrando na beira-mar. 一 !
Uma outra assistente que estava ali cutucou disfarçadamente o braço de , que piscou duas vezes e olhou para Hawks.
一 O que… Ah, claro… Grupo 3. Entendido! 一 respondeu com uma risada fraca. Ela suspirou e engoliu em seco. 一 Mais alguma ordem?
O treinador fez uma pausa, cruzando os braços na frente do peito. Então respondeu com a voz calma:
一 Não, podem ir. Você 一 Hawks apontou para o assistente mais velho, que era seu braço direito nos treinos. 一 Vá chamar o Grupo 1. Encontro vocês no local combinado daqui 5 minutos. O mesmo vale para o restante, não atrasem!
Assim que o treinador terminou de falar, deu meia-volta e deu um passo para sair dali.
, espere aí 一 Hawks a interrompeu. 一 Para onde vai?
一 Dar uma volta. Posso? 一 O tom da garota soou sarcástico, mas não incomodou o Rei Demônio. Ele apenas soltou os braços e suspirou.
一 Eu sei que é difícil para você, mas pelo menos tente, okay? Esteja aqui na hora marcada.
一 Se você sabe que é difícil, então por que me trouxe para cá? 一 respondeu, afiada. Ela fechou os olhos, arrependida, e forçou um sorriso. 一 Desculpe, não quis dizer isso... Só vou andar um pouco e me preparar, está bem? Não vou demorar…
Hawks observou, com uma feição séria, mas preocupada, a menina se afastar a passos calmos. Ele olhou para o céu e agradeceu por não ver uma nuvem sequer, apenas o sol radiante ocupava aquele céu claro. Ainda olhando para cima, o treinador abaixou os óculos de sol, suspirou e disse:
一 Seja lá onde você estiver aí em cima, nos dê uma força…

***


Sentado na areia da praia, alongava o corpo com a ajuda de Dylan, que pressionava devagar as costas do amigo para frente. Ambos estavam no Grupo 1 para nadar em Águas Abertas e, enquanto aguardavam o sinal para entrarem no mar, conversavam com Liz e outros nadadores que estavam por perto sobre o percurso.
一 No começo eu critiquei, mas confesso que agora estou animado! 一 disse Dylan, empolgado para nadar até a outra ilha.
一 Isso é porque você não sente dor no corpo todo… Ai, vai com calma! 一 reclamou, fazendo careta para o corpo dolorido.
一 Como é que você vai nadar até lá 一 Eliza apontou para a ilha. 一 Com toda essa sua disposição? 一 Perguntou com ironia.
一 Se souber que você entrou no mar, mesmo estando ferrado, ela vai te matar! 一 Dylan alertou com uma risada fraca. Ele se afastou do amigo e sentou ao lado de Liz, que abaixou a cabeça.
一 Não estou ferrado! Já disse que consigo nadar… 一 bufou e olhou em volta. 一 Por falar nisso, viram ela hoje?
一 Quando acordei hoje cedo, ela já tinha saído do quarto. Nem Evie a viu sair… 一 Liz respondeu.
Os amigos se entreolharam por um tempo em silêncio, perguntando-se mentalmente onde a menina poderia estar e se ela estava bem. Percebendo a movimentação atrás de si, Liz forçou um sorriso nos lábios e levantou num salto. Enquanto estendia as mãos para Dylan e , ajudando-os a levantar, disse, convicta:
一 Não façam essas caras! é forte e logo ela aparece, relaxem. Eu vou procurá-la, estou no grupo dela mesmo. 一 Eliza cruzou os braços e sorriu para os amigos. 一 Agora vão, vão! O treinador já está olhando para cá.
Hesitante, se despediu da namorada com um beijo no canto da boca e foi, junto com Dylan, para onde o restante do Grupo 1 estava. Ele olhou para trás e viu Liz acenar com um sorriso no rosto e, então, dar as costas para ir atrás de .
vestiu a touca e o óculos de natação enquanto caminhava até o mar ao lado dos outros nadadores. No momento em que sentiu a onda se desmanchar sobre seus pés, ele respirou fundo e engoliu em seco. Ele olhou para trás mais uma vez e suspirou. Estava preocupado.
balançou a cabeça, puxou o ar e, enfim, mergulhou.

***


O som da água batendo nas pedras parece ser o mais belo e relaxante som, assim como as espumas da água que se desfazem lentamente é uma obra de arte. No entanto, no silêncio das águas do mar, sente a boca ressecar e o corpo tremer. Ela precisou segurar no corrimão da escadaria - que leva para uma parte rochosa da praia, onde turistas costumam ir para observar o mar do alto e tirar fotos -, inspirando e suspirando na tentativa de manter o controle e não se desesperar, embora fosse tarde demais. Pensar que naquele exato segundo seus amigos estavam mergulhando sobre as ondas, até então as inimigas de , fazia o coração da menina querer explodir.
一 Olha, tem caranguejos aqui! 一 Um homem de cabelos grisalhos e perfeitamente penteados para o lado disse, animado. Ele, que segurava uma criança pequena no colo, a colocou no chão, e então se agachou para ficar na altura dela. 一 Veja, filha, caranguejos!
一 Woah, são tão pequenos! 一 Os olhos da garotinha com os cabelos loiros presos numa presilha brilharam. 一 Olha, mamãe!
一 Estou vendo, querida. 一 Uma mulher respondeu, sorrindo. 一 Vou tirar uma foto de vocês, olhem para cá!
terminou de subir as escadas e encostou no guarda-corpo de madeira, mantendo o equilíbrio das pernas bambas. Dali ela conseguia ver as ondas se quebrando nas rochas abaixo dela e os tais caranguejos. Olhou para a família feliz e fã de “caranguejinhos” e suspirou. Embora, no fundo, estivesse com inveja, ela sorriu quando viu a garotinha pegar um crustáceo na mão e pular de animação e um pouco de medo. Os pais riram alto da filha pequena.
一 Agora solte ele, querida. Você pode se machucar! 一 Alertou a mãe. A menina fez uma cara emburrada, mas obedeceu.
Enquanto os pais tiravam fotos da paisagem e conversavam sobre a viagem que faziam, a garotinha continuou entretida nos caranguejos.
respirou fundo e olhou para o horizonte. Ao longe, ela conseguia ver a ilha em que os atletas do Aretusa precisavam nadar. Até então, quase não tinha ondas e a água estava tão calma como nunca. A garota olhou para o relógio de pulso e se perguntou se o grupo de já havia retornado para a praia ou não.
Uma brisa refrescante jogou os cabelos longos de para trás. Ela fechou os olhos e suspirou. Estava na hora de voltar. A menina deu meia-volta e desceu o primeiro degrau da escada, até que um grito alto e desesperado chamou sua atenção e, em seguida, o som da água batendo.
一 OLÍVIA! 一 A mulher gritou, apoiando-se no guarda-corpo. Todos que estavam ali fizeram o mesmo para ver o que estava acontecendo.
arregalou os olhos, mas não se moveu. Ela soube o que havia acontecido. A garotinha, Olívia, não estava ali.
一 ALGUÉM AJUDE MINHA FILHA! 一 Foi a vez do pai gritar, também desesperado. 一 CHAMEM AJUDA!
一 Eu vou salvá-la… 一 A mãe, chorando, começou a tirar os sapatos. O marido a impediu, segurando as mãos dela que tremiam.
一 Ficou maluca? Você não sabe nadar!
O homem começou a olhar para todos os lados em busca de solução, até que seus olhos focaram em e no uniforme que ela vestia, com o logo do Aretusa estampado na camisa.
一 Clube de Natação… 一 Ele murmurou para si mesmo e seus olhos pareceram brilhar, enquanto os de ficaram turvos com o coração acelerando cada vez mais. 一 Graças a Deus! Você… Você sabe nadar… Por favor, ajude minha filha!
一 O q-que… eu…? 一 perguntou com a voz trêmula. 一 Eu não posso… eu…
一 Até a ajuda chegar será tarde demais, por favor! 一 O homem implorou, segurando as duas mãos da garota. Ela virou brevemente o rosto e, no momento em que viu a água bater na pedra, seu corpo inteiro arrepiou.
一 Eu não consigo…
一 SOCORRO… Mamãe… 一 A voz da garotinha soou ao longe e interrompida.
engoliu em seco e olhou mais uma vez para o pai, que chorava como um bebê. Então, olhou para a mãe, que também estava desesperada e pronta para atravessar aquela divisória e resgatar a filha, embora não soubesse nadar.
一 Por favor… 一 O pai implorou mais uma vez.
Vai ficar parada mais uma vez e deixar com que a água fira aquela criança? Você não ama nadar? Então por que não entra logo nessa droga de mar e mostra quem está no controle?!
Pela primeira vez, quis dar ouvidos àquelas vozes barulhentas. Ela, então, com o coração a mil, tirou os tênis rapidamente e dirigiu-se para onde a mãe da menina se debruçava. Quando atravessou a divisória, sentiu a vertigem atingi-la no momento em que olhou para baixo, mas ela balançou a cabeça e ignorou.
一 Busquem ajuda, rápido! 一 disse . A garota respirou fundo e murmurou para si mesma antes de pular: mãe… pai… por favor, me deem suas forças.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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Nota da beta: AI COMO EU ESPERAVA POR ESSE MOMENTO, eu tô toda arrepiada, e nem é exagero! Essa história dela com a água me deixa envolvida demais e fico aqui agoniada, cadê o 12?????????? 💙

Qualquer erro nessa atualização ou reclamações somente no e-mail.


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