Última atualização: 08/09/2021

Capítulo 1

Luther

Estava treinando a pontaria enquanto bebia mais da safra nova de vinhos que meu pai tinha trazido. Bebi a terceira taça, já sentindo meus sentidos falharem ao quase errar o alvo com o martelo. Sabia que tinha deveres a fazer, afinal, eu era o príncipe herdeiro de Humpbrey – O reino dos Exércitos. Era um grande reino e bem conhecido por suas batalhas, éramos basicamente invencíveis. Mas a verdade era que eu preferia milhões de vezes estar me preparando para ir para guerra do que para rever a princesa insuportável que estava vindo para Humpbrey para passar um tempo.
— Esse vinho não é bom não, está me fazendo perder meus sentidos. Eu geralmente fico melhor quando estou bêbado! — Falei para os meus fiéis escudeiros, que concordaram comigo e riam junto de mim.
, quando eu disse para você se preparar que hoje você vai reencontrar a princesa de Aleudoria, não era para você ficar bêbado e suado! — ouvi a voz da minha mãe. Fechei meus olhos e bufei, quase resmungando baixo. Dei o machado para um dos escudeiros e virei o restante do vinho.
— Perdoe-me, mãe e caríssima Vossa Majestade. — Fiz uma breve reverência para ela. — Mas pelo que eu me lembre, a princesinha de Aleudoria era uma garotinha tão insuportável quanto minha irmã. Duvido muito ela ter melhorado! — Confessei, mostrando como não tinha boas lembranças da princesa .
Costumávamos nos encontrar muito quando éramos crianças, mas ela me odiava assim como eu também a odiava, nossa missão era ver quem conseguia irritar mais e definitivamente ela ganhava. era irritante em um nível não humano. Mas também não podia negar que eu estava curioso para saber como ela tinha ficado hoje em dia, já que não a via desde os onze anos.
— Ela é uma jovem adorável e muito querida. Comporte-se com ela, . Seja o príncipe gentil e educado que eu sei que você é! — Assenti para ela, seguindo ao seu lado para o grande salão, onde já estava acontecendo a festa de boas-vindas para ela, também para provar que a aliança entre nossos reinos ainda estava forte.
Minha mãe ajeitou minha roupa pela milésima vez, mesmo que ela já tivesse sido feita especialmente para mim, com as medidas certas e tudo mais, e não precisasse que ela ficasse ajeitando a todo segundo, até porque melhor não ficaria mesmo!
— Está tudo nos eixos, fique tranquila. — Tentei acalmá-la, mas a mesma respirou fundo e sorriu meio nervosa para mim.
— Sempre fico nervosa e ansiosa com festas, você sabe. Gosto de perfeição, ao contrário de seu pai, que nem chegou ainda. — Soltei uma risadinha, imaginando que meu pai chegaria todo sujo da caça e deixaria minha mãe louca, mas isso era tradição.
Fiquei ao lado dela o tempo todo na recepção da festa no grande salão, vendo os membros da Corte chegarem com toda elegância, as mulheres com vestidos tão chamativos que o Natal ficava apagado. Eu odiava ficar mantendo aquela pose de príncipe ali, com um sorriso gentil nos lábios, aquilo não era meu lado preferido de ser um príncipe. Até porque eu amava liberdade, e usava e abusava dela. Nessas festas de gala eu não conseguia nem sentir o gostinho da minha liberdade e isso era frustrante. Cumprimentei a todos que paravam e falavam conosco, com reverências e puxa-saquismo.
— Rainha Sylvia, é mais que um prazer revê-la! — Meus olhos foram direcionados a uma garota de cabelos ruivos que abraçou minha mãe com muita animação.
Não era possível que ela era a Emma! A garota ruiva insuportável que infernizou minha infância estava daquele jeito, era mesmo de ficar boquiaberto.
— Príncipe . — Cumprimentou-me com uma mesura. — Quanto tempo.
— Princesa . — A cumprimentei de volta, retribuindo sua reverência. — Sim, faz bastante tempo mesmo.
Aumentei o sorriso, ainda a olhando por completo e não acreditando que era mesmo ela. Afinal, ela estava impressionantemente linda, eu não podia negar.
— Mas não foi tempo o bastante para sentir sua falta. — Soltou em brincadeira, mesmo que eu soubesse que não era mesmo uma brincadeira.
O sorriso gentil do meu rosto acabou se transformando em um forçado enquanto revirava meus olhos para . Acabei recebendo um tapa da minha mãe por ter me visto fazer aquilo.
— Que pena, princesa . Se não fosse minha mãe lembrar o seu nome, te chamaria de Emília, provavelmente. — Soltei uma risadinha, porém sabia que minha mãe me mataria por aquilo, mas ela que começou, como sempre. Pude notar a princesa revirar seus olhos disfarçadamente.
— Estou tão feliz em vê-los juntos mais uma vez. Convide-a para dançar, . — Minha mãe disse, dando mais um abraço em e voltando a conversar com a duquesa que tinha parado ali.
— Eu adoraria! — Rolei meus olhos com sua resposta, já começando a pedir uma salvação divina.
Olhei para novamente, já achando estranho da minha parte ficar a encarando demais.
— Desculpe, perdeu alguma coisa aqui? — Ela indagou, fazendo uma voz toda fofa para disfarçar a acidez das palavras, obviamente.
— Por enquanto, não perdi nada não. — Voltei a sorrir, só que dessa vez com um tom de sarcasmo.
— Por enquanto? — Soltou um riso incrédulo.
— Sim, por enquanto. — Respondi, a encarando mais uma vez. Por mais que ela permanecesse irritante, ela tinha ficado bonita. — Que bom que você aprendeu a pentear o cabelo. — Murmurei, dando uma risadinha em seguida. Era quase que um impulso incontrolável essa vontade de ainda continuar com a implicância, era quase um carma que tinha voltado.
— Ah, eu aprendi assim que voltei para casa. Quando você estava por perto, eu preferia arremessar a escova em você do que usá-la em mim. — Acabei rindo do que ela me respondeu, lembrando bem dessas situações em que ela arremessava as coisas em mim.
— Eu acabava salvando a vida das escovas, né? Nem por um milagre elas conseguiriam desfazer os nós que tinham no seu cabelo. Aliás, graças a mim você ganhou um corte de cabelo bem bonito naquela época. — Pisquei um olho para ela, pegando uma taça de vinho para mim e para ela.
— Porque ninguém sabia me pentear direito! Eu devia ter cortado seus dedos depois daquilo. — Resmungou. Soltei uma risada quando ela tentou se defender, então fiz minha cara clássica de quem estava só a irritando mais uma vez.
— Por que será, né? — Ironizei cada letra, ainda rindo daquilo. Minha mãe me olhou ao ver que eu ria e então sorri para ela. — A princesa conseguiu me fazer rir, ela é realmente ótima! — Então minha mãe sorriu, toda feliz com aquilo e voltou a conversar. — Você ainda é daquelas que só ameaça e não cumpre? Ou aprendeu a parar de socar o vento? — Fiz um biquinho, fingindo socar o vento para irritá-la só mais um pouquinho.
— Primeiro: eu nunca ameaço se eu não tenho pretensão de cumprir, você bem devia lembrar disso. Segundo: eu me tornei muito boa no arco e flecha, então não preciso socar o vento. Terceiro: você quer provar das duas afirmações anteriores? Porque terei imenso prazer em mostrar. — Vi que ela tinha chegado bem mais perto, ficando exatamente de frente para mim.
— Isso foi uma ameaça? — estreitei meus olhos na direção dela, tentando soar ameaçador, mas eu estava me divertindo, talvez pela nostalgia de quando éramos crianças. — Você não perdeu o costume de falar demais, . Eu tentei acompanhar, mas acabei ficando sono.
Ajeitei minha roupa, bocejando de uma maneira dramática.
— E você não perdeu o costume de ser tão idiota, . — Rebateu.
— Obrigado, princesa. — Sorri cinicamente, como se tivesse adorado mesmo o adjetivo que ela tinha usado. — Mas cuidado, ameaças podem ser promessas que você não poderá cumprir.
— Eu sempre cumpro o que eu prometo, , portanto, você que deveria ficar com medo. — respondeu, mantendo sua expressão inabalável. — Acho que sua mãe falou que você deveria me convidar para dançar, Príncipe . — Lembrou-se enquanto mexia em seu vestido.
— Pois é, ela falou. — Concordei com ela, olhando para o meio do salão e negando com a cabeça. — Você não vai querer dançar comigo, princesa. Vai por mim. — Murmurei para ela. Eu era um péssimo dançarino, por mais que pisar no pé dela não seja de fato uma péssima ideia, mas eu passaria vergonha. — Mas já que o propósito da minha mãe é fazer nós dois nos conhecermos melhor, podemos dar uma volta pelo salão. — Estendi o braço para ela, esperando que ela aceitasse o convite e não questionasse o motivo.
— No momento, eu só quero dançar. Se ser com você é o preço a se pagar... Mas tudo bem, podemos fazer a Sylvia feliz. — Deu de ombros. Fiquei mais aliviado quando ela aceitou dar uma volta, mesmo com uma careta no rosto. — Além dos seus dentes, seu cérebro também cresceu ou continua do tamanho de uma ervilha, Príncipe ? — Soltei o ar e comecei a caminhar lado a lado com ela, com a pose cavalheiresca que eu tinha que seguir.
— Que hilária você! — Rolei meus olhos, voltando a sorrir e acenar para uma duquesa mais velha que a estátua da minha tataravó. — Cresceu do mesmo jeito que o seu cabelo também cresceu. — Retruquei, olhando para ela de relance. — Nenhum outro incidente com as sobrancelhas, princesa? — Pisquei meus olhos, usando a técnica de me fingir de fofo e inocente.
— Você não parece estar ouvindo muito bem quando eu falo, príncipe. — Fez uma careta, mas quando viu a duquesa, abriu seu sorriso educado para ela. — Nenhum. Elas estão ótimas. — Resmungou amargurada, com certeza lembrando de quando eu tinha raspado uma delas. — E os seus pés, como estão?
Então, sem quer eu esperasse, ela pisou em meu pé, me fazendo retrair os lábios com a dor repentina. Mordi minha mão que estava fechada em um punho e depois a encarei extremamente furioso.
— Ops, foi mal. Não queremos que você fique confortável demais nesses sapatos, né? — Ela sorriu quase inocente, mas eu via o brilho malicioso no fundo daqueles olhos .
— Eu poderia muito bem me vingar disso aqui, mas tudo bem, eu aceito pelas sobrancelhas. — Levantei os braços, dando uma risadinha abafada por ainda estar sentindo o pisão. — A propósito, quando você era criança, você era mais criativa com vinganças. — Murmurei mais próximo dela, sorrindo de lado e voltando a caminhar lentamente.
— Não estou vendo muitas formas de como eu poderia te infligir dor e humilhação agora, , mas se quiser, te mostro tudo que eu sei durante minha estadia aqui. — Falou serenamente, sorrindo para um casal que nos cumprimentou.
— Eu estou achando que você está falando demais. Dizem que cachorro que late muito, não morde. Então eu pago para ver o que você pode fazer durante sua infeliz estadia aqui. — Respondi, usando um tom de voz calmo e tranquilizado, a acompanhando da mesma maneira, mesmo que por dentro eu já estivesse pedindo arrego para alguém acabar com aquela festa tediosa.
— Não se preocupe. Você verá. — Garantiu. — Muito infeliz mesmo. Não vou ter muito o que fazer, então imagine só o tanto de tempo que terei para planejar suas humilhações. — Ouvi ela soltar um suspiro feliz e eu rolei meus olhos, querendo mesmo deixá-la falando sozinha. Deixando a raiva se esvair do meu corpo, só parei para cumprimentar um dos duques mais velhos e ricos da redondeza, basicamente o fornecedor dos melhores tecidos.
— Duque Charlington, é muito bom recebê-lo em nossa casa. Digo isso em nome do meu pai, o Rei. — Sorri cordialmente. O mesmo fez duas reverências, a mim e a . — Ela é a Princesa , de Aleudoria, como já deve saber. Queria ter a honra de levá-la ao meio do salão e poder ter uma dança com ela, mas devido à caça mais cedo não estou me sentindo bem. Aposto que Vossa Senhoria poderia demonstrar seu nobre talento com a dama. — Entreguei o braço de para ele, que ficou muito eufórico com a sugestão, e isso me fez rir disfarçadamente. — O hálito dele vai ser a melhor parte da dança. — Sussurrei no ouvido dela, piscando um olho e me afastando dos dois, rindo um pouco mais alto.
— Seria um prazer, Duque. — A princesa respondeu com delicadeza, e logo me fuzilou com o olhar.
Afastei- me deles e fui pegar mais bebida, ajeitando minha roupa e já pensando em uma maneira de fugir daquele lugar. Será que pular da sacada? Subornar um guarda? Fingir passar mal? Fiquei ponderando aquelas opções enquanto sorria cordialmente a todos que passavam por mim e me cumprimentavam com reverências e sorrisos, parando apenas para falar comigo sobre meu pai, que ainda não tinha aparecido na festa, sorte dele, é claro. Só acordei dos meus pensamentos de fuga quando vi me puxar com ela.
— Acho que seu planinho não foi lá muito bem-sucedido, meu bem. Sabia que eu estou me recuperando de uma gripe e não sinto cheiro de nadinha? Uma pena. — Deu de ombros, fazendo um biquinho. Acabei lamentando pelo meu plano não ter dado certo. — E sabia que o Duque é um ótimo dançarino e me falou curiosidades muito interessantes sobre tecidos? Ele inclusive mencionou que a roupa que você está usando foi feita com os tecidos dele e apesar de ser um tecido maravilhoso, demora a secar. Imagine que trágico seria se alguém derramasse bebida em você?
Em um movimento muito rápido, tropeçou para frente, derrubando sua bebida nas minhas calças. Arregalei os olhos e abri a boca, chocado e obviamente querendo matá-la.
A encarei com meus olhos pegando fogo. Ela tinha passado um pouco dos limites.
— Meu Deus, , que situação constrangedora! — Ela sufocou uma risada, tentando parecer chocada.
Assim que ela falou mais alto, quase que fazendo um anúncio, as pessoas começam a nos olhar, então forço um sorriso.
— Sabe, princesa , você acabou me fazendo um enorme favor. — Umedeci meus lábios enquanto olhava minha roupa, fingindo um falso descontentamento pela roupa molhada. — Uma pena que devido a esse acidente terei que me ausentar da festa. Mas tenho certeza de que a princesa está apta para dançar com todos que quiserem, já que eu não pude fazer isso, aposto que até o Duque quer repetir mais uma. — Apontei para ele com um sorriso maior nos lábios. — Acho que eu te devo obrigado, mas como eu não me importo em ser educado com você... Divirta-se!
Empurrei minha bebida nela, tirando o paletó enquanto caminhava para longe da festa e avistava minha mãe nos olhando sem entender nada. Encontrei um dos meus escudeiros pelo caminho e o chamei comigo.
— Prepare meu cavalo. — Ordenei, seguindo para o meu quarto apenas para trocar essa roupa e colocar uma mais simples para ir às tavernas do povoado vizinho.


Turner
Tinha dançado tanto que meus pés estavam doloridos, mas era uma delícia estar sentido isso porque significava que eu tinha conseguido passar a noite longe da companhia do príncipe. Era de se esperar que eu estivesse cansada depois do baile, mas eu não conseguia dormir de jeito algum e como ficar presa no quarto não iria me ajudar, fiz o que costumava fazer em Aleudoria e fugi com um livro. Foi mais complicado aqui já que eu não tinha passagens secretas ao meu dispor, mas vesti um dos vestidos que uma das minhas damas tinha deixado no meu quarto, coloquei um véu na cabeça e peguei um terço para fingir que era só uma dama que veio rezar com a princesa e já estava de saída. Os guardas mal olharam e sorri satisfeita por isso.
Eu ainda não conhecia bem o castelo, então me perdi em um ou outro corredor até chegar até aos jardins. Havia pegado uma lamparina no caminho e usava a luz dela para me guiar, embora soubesse que alguém poderia acabar me vendo. Quando cheguei em um lugar mais afastado e bom o suficiente, me deitei na grama e apaguei a lamparina. Eu realmente amava a sensação de estar aqui fora sem ninguém por perto, mas minha felicidade durou pouco. Ouvi alguém resmungando coisas que eu não consegui decifrar pela distância e franzi o cenho, em parte pela curiosidade, em parte por medo desse alguém estar acompanhado. Passos apressados começaram a vir na minha direção e arregalei os olhos, me preparando para fugir, mas antes que eu me encolhesse pra me esconder atrás da árvore onde eu estava, alguém tropeçou nos meus pés.
O homem que tropeçou em mim caiu de cara no chão, se esparramando no gramado em toda sua altura. Levei a mão até a boca, totalmente culpada pelo acidente. Ele começou a resmungar coisas sem sentido, misturadas a gemidos de dor, o que me fez correr até o homem para checar se ele estava bem.
— Ai, me perdoa! Eu não queria te machucar. Você está bem? — Perguntei, tocando no ombro da pessoa, mas assim que ele virou e eu pude ver quem era, me afastei.
me encarou com um misto de confusão e descrença, assim como eu o estava encarando. Pela janela do salão de bailes, vi ele sair do palácio hoje durante o baile, então não me surpreendi por encontrá-lo chegando amarrotado e exalando um odor forte de bebida.
— Entre todas as pessoas que eu poderia encontrar, foi justo com ela, Deuses? Isso é algum tipo de castigo? Eu juro que paro de beber escondido! — Ele olhou para o céu, reclamando com a voz chorosa. — Só não reclamo mais porque poderia ser pior.
Eu revirei os olhos, me afastando para longe dele novamente.
— Não acho que foram os Deuses que te colocaram no meu caminho. Eles não seriam maldosos assim. — Resmunguei, tão animada quanto ele. — Aliás, se alguém fez isso, esse alguém foi o mal encarnado. Embora eu ainda acredite que você é o próprio mal encarnado, portanto, não sei porque faria isso comigo, já que gosta tanto de mim quanto eu de você.
Retruquei, abrindo um sorriso fechado e falso. Eu não gostava de quando éramos crianças e certamente não gostava dele agora. Isis havia me pedido para ser legal com ele, conhecê-lo e então formar uma opinião sobre o garoto — agora homem — que eu não via há anos. Eu tinha dado essa chance e, se possível, gostava dele menos ainda. Antes ele tinha a desculpa de ser uma criança tola, agora ele era apenas um príncipe idiota e mimado.
— O que diabos você está fazendo aqui? — Perguntou irritado, tentando levantar, mas cambaleando quando fez isso.
— Não é da sua conta! — Rebati, como se fosse óbvio.
Podíamos estar noivos, mas eu não devia satisfação a ele e nunca iria, além, é claro, dos deveres políticos onde teríamos que trabalhar juntos. Fiz uma careta pelas tentativas ridículas dele em se levantar e balancei a cabeça em pura descrença pelo estado dele. Era com isso que eu iria me casar em poucas semanas? Que os Deuses me ajudassem.
— Mas você, por outro lado, é bem óbvio que estava bebendo por aí. — Apontei, me referindo ao estado dele. — Mal consegue ficar de pé.
Ele revirou os olhos.
— Eu sei muito bem o porquê de você estar aqui. — Me olhou com o mesmo descontentamento que eu. — Para atazanar a minha vida.
— Isso indicaria que eu penso muito em você, . — Bufei, cruzando os braços na defensiva. — E eu evito o máximo lembrar da sua existência.
Ele abriu a boca para retrucar, mas fechou novamente e parou para prestar atenção no som que eu também ouvi. Seus olhos se arregalaram e na mesma hora ficou de pé, como se tivesse recuperado o equilíbrio por pura magia.
— Eles estão vindo. — Sussurrou, me puxando com ele.
— Eles quem? — Fiquei confusa e me vi obrigada a segui-lo quando me puxou. — Eles quem?
Mas assim que perguntei, o som de passos e vozes ficou mais nítido, o que me fez acreditar que seriam os guardas. Sufoquei um gemido de desespero com a possibilidade de ser encontrada aqui. Meu pai era superprotetor comigo, o que queria dizer que meus guardas não desgrudavam de mim aonde quer que eu fosse. Minhas fugas eram meu único momento de solitude, já que eu sempre estava cercada de pessoas.
— Os guardas! — Grunhiu, me puxando com ele para onde quer que fosse. — É hora da ronda.
Olhando para trás enquanto corria com , vi ao longe a silhueta de quatro homens que passariam bem por onde estávamos se tivéssemos continuado ali perto da árvore. Ele parou atrás de uma estátua de mármore que era grande o suficiente para nos cobrir, mas para isso acontecer, precisávamos ficar próximos demais um do outro. O cheiro de bebida pareceu ainda mais intenso e foi impossível segurar a cara de nojo quando o odor fez meu estômago revirar.
— Você precisa urgentemente de um banho. — Reclamei, o olhando por cima do ombro.
Em resposta, soltou uma risadinha e seus olhos claros brilharam com malícia quando ele soprou no meu rosto. Meu cotovelo acertou suas costelas com força e ele reprimiu um grunhido ao mesmo tempo que eu segurei os xingamentos que queria soltar. Era minha primeira noite aqui e eu já queria matar o príncipe herdeiro. Um de nós acabaria na guilhotina por matar o outro e eu apostava todas as fichas em mim.
O som dos guardas ficou ainda mais audível quando eles passaram por onde estávamos e meu corpo inteiro tensionou enquanto isso. Se alguém descobrisse minhas fugas, isso representaria proteção redobrada e ainda mais atenção, coisa que eu não precisava de forma alguma.
— Vem comigo! — sussurrou quando os guardas se afastaram.
Ele saiu na frente e eu fiquei ali, sem entender nada. Pisquei os olhos, incrédula que ele estivesse me ajudando e mais cética ainda que eu estivesse o seguindo, pois foi o que eu fiz pela segunda vez em minutos. Ergui o vestido o suficiente para acelerar o passo sem cair e corri atrás dele na direção oposta à qual os guardas tinham seguido. Seguimos até a lateral do castelo, uma parte cheia de árvores e balanços com cordas enfeitadas por flores que se enrolavam ao redor delas. Eu tinha vagas lembranças sobre a casa na árvore que vislumbrei em cima de uma das árvores enquanto o seguia.
— Para onde estamos indo? — Perguntei quando ele parou do nada.
Olhei para , mas ele parecia confuso ao analisar o lugar.
— Quem colocou esses balanços aqui? — Questionou retoricamente, franzindo o cenho.
— Ah, não. Você não sabe para onde estamos indo, não é? — Suspirei, deduzindo isso pela confusão em seu olhar.
— É claro que eu sei onde estamos indo! — Ele respondeu como se fosse óbvio, mas isso não me convenceu.
Tomando mais uma decisão errada essa noite, decidi confiar nele. podia ser um ogro, mas eu queria voltar para meu quarto sem ser vista, e por não conhecer o castelo e o padrão de trocas de guardas por aqui, ele era minha melhor opção. Ele seguiu em direção a uma cerca-viva enorme e eu fui atrás, me amaldiçoando por ter tido a ideia de sair essa noite. Assim que passamos por duas cercas-vivas iguais à outra e depois de virarmos mais duas vezes em direções distintas, ele parou e encarou uma outra estátua de mármore, mas dessa vez seu olhar era de pânico, o que foi suficiente para soar alarmes na minha mente.
— Isso não é nada bom. — Ele murmurou.
— Por que isso não é nada bom, ? — Indaguei, olhando para a mesma estátua.
— Essa estátua significa que entramos em um dos labirintos que temos nos jardins aqui. O menor, para nossa sorte, mas não deixa de ser um labirinto. — Respondeu, passando as mãos no rosto como se procurasse uma solução. — Pior do que ficar perdido, é ficar perdido e bêbado na própria casa, mas pior ainda é ficar bêbado e perdido com você.
Eu podia muito bem gritar de frustração com a resposta dele. Não tinha reparado antes, mas olhando para os lados vi que estávamos cercados por cercas-vivas altas, floridas e com padrões que eu não tinha percebido.
— Você nos enfiou num labirinto? — Fechei os olhos, me controlando para não empurrar aquela estátua em cima dele. — Parabéns, Senhor "É claro que sei onde estamos indo". — Aplaudi, cheia de desdém.
— Você veio atrás de mim porque quis! — Ele pontuou, com raiva. — E ficar reclamando não ajuda!
Ele continuou a andar e eu fui atrás, dessa vez brigando comigo mesma por tê-lo seguido.
— Mas se for para comparar, pior do que estar em outro reino sozinha e tendo que aturar um babaca como você, é estar perdida em outro reino e ainda com um babaca bêbado como você. — Bufei, olhando para os céus em busca de paciência. — Eu me pergunto o que ainda falta para essa noite ficar melhor.
Me arrependi de perguntar imediatamente, pois muita coisa ainda podia acontecer. Estando na presença do , eu não duvidava da capacidade dele de fazer besteira e eu ainda estava o seguindo, o que podia muito bem acabar em nós dois presos aqui para sempre.
— Não fala uma coisa dessas porque ainda pode ficar pior. — Ele falou, olhando para o céu como que para se certificar de que não começaria a chover.
Depois dessa, andamos em silêncio a procura da saída, intercalando o silêncio com alguns palpites de para onde seguir e eventuais reclamações. Isso acabou me lembrando vagamente da nossa infância e de como acabamos nessa mesma situação quando éramos mais novos brincando de esconde-esconde. Mantive a memória para mim porque a última coisa que eu estava sentindo era nostalgia.
Depois do que pareceram longas horas andando pelo labirinto, mas que na verdade foram minutos, finalmente vimos a saída e eu quase gritei de felicidade, me apressando para sair dali e correr na direção oposta à de . Infelizmente, ele me parou antes que eu fugisse e me puxou para uma parte da cerca onde não podíamos ser vistos, o que resultou em nós dois muito perto um do outro.
— Você precisa parar de fazer isso! — O repreendi, lançando um olhar irritado.
— Vai por mim, não é por vontade própria! — Respondeu, abaixando o olhar para mim. — Tem dois guardas ali.
— É claro que pode piorar, né? — Me inclinei para o lado para espiar.
Os guardas realmente estavam mais à frente e pareciam concentrados demais no dever de proteger o palácio.
— Claro que pode piorar. — Sussurrou, tão irritado quanto eu pela situação.
— Tem outra saída? — Apelei.
Eu escalaria essas cercas se significasse que eu me distanciaria de e voltaria para o conforto e confinamento do meu quarto.
— Tem! — Ele sorriu, o que foi o bastante pra me assustar.
olhou ao redor de onde estávamos e seu olhar brilhou quando encontrou a estátua de centauro que estava perto de nós, como se ele tivesse ganhado o presente dos sonhos. Sem hesitar, empurrou a estátua no chão e o barulho da escultura quebrando chamou a atenção dos guardas direto para onde estávamos.
— Agora nós corremos! — Acrescentou.
disparou para o lado oposto, onde estaríamos escondidos quando os guardas passassem, mas que ainda daria para sairmos sem sermos vistos se os guardas seguissem na direção do corredor onde a estátua estava. Corri atrás dele e juntos vimos os guardas correrem em direção à estátua. Sorrateiramente, saímos de onde estávamos e corremos para fora do labirinto enquanto os dois iam na direção oposta. Levantei a saia do vestido de novo e comecei a correr com . A situação era até cômica, o que me fez rir um pouco com a adrenalina enquanto meu cabelo soltava do coque e as mechas bagunçavam na frente do meu rosto. olhou para trás ao ouvir minha risada e um sorriso cruzou os seus lábios, com certeza sentindo a mesma euforia que eu agora. Encostamos na lateral do castelo, atrás de uma pilastra, onde ninguém podia nos ver. Coloquei as mãos no quadril, tentando recuperar o fôlego que tinha sumido na corrida até aqui. Felizmente eu estava sem o espartilho ou seria mil vezes pior de recuperar.
— Tem uma entrada secreta naquele lado, mas os guardas vão nos ver. Alguma ideia? — Perguntou, voltando a atenção pra mim.
Mordi o lábio tentando pensar em algo e olhei ao redor. O lugar estava bem escuro, especialmente agora que uma nuvem densa cobria a Lua. Olhei para o lugar onde estávamos e vi uma janela discreta escondida atrás de umas moitas, próxima ao chão. Era grande o suficiente para passarmos e se estivesse aberta, com certeza daria para entrarmos por lá e acharmos nosso caminho depois. Me aproximei de lá e empurrei a janela para ver se conseguia abrir. Com um pouco de esforço e força, consegui abrir. Lá dentro estava extremamente escuro e eu não fazia ideia de onde dava, nem o que tinha, mas provavelmente levaria a um porão.
— Isso é um porão ou algo assim? — Perguntei a . — A gente pode tentar a sorte aí dentro. Não temos muita escolha mesmo.
Dei espaço para olhar lá dentro, mas ele pareceu tão perdido quanto eu.
— Não me julgue por não me lembrar desse lugar, mas aqui vai ser nossa saída mesmo. — Deu de ombros.
— Eu te julgo por respirar, . — Retruquei quanto ao seu pedido para não julgá-lo por não lembrar do lugar.
apoiou as mãos na moldura da janela e impulsionou o corpo para dentro, aterrissando lá dentro em um baque abafado. Observei ele passar pela janelinha e ao não o ouvir gritar por ter sido atacado ou nada do tipo, me convenci de que era seguro seguir.
— Pode vir! — Ele avisou.
Passar por ali com vestido se tornou uma tarefa mais difícil do que parecia e quando minhas pernas já estavam balançando dentro da sala, minha saia acabou enganchando em algo na janela.
— Ah, não... — Choraminguei, tateando atrás de mim para achar onde a saia tinha prendido.
As cegas, fui puxando a saia na tentativa de soltá-la de onde quer que tivesse prendido, mas para isso precisei usar as duas mãos. Tentei me manter o mais encostada possível onde eu estava, já que minha cabeça ainda estava para fora da janela, o que significava que minha saia estava totalmente levantada atrás, onde tinha enganchado. Já com raiva, puxei a saia com tudo e o som do tecido rasgando antecedeu a minha queda por ter me desencostado do parapeito que ainda me dava suporte. Despenquei com tudo, caindo de forma tão errada que não consegui conter o grito quando a dor irradiou no meu pé direito. A dor foi tanta que eu perdi o ar e a noção por alguns segundos, apenas vendo pontinhos brancos nublando minha visão.
— Ai, que... — Precisei de um minuto para recuperar a fala. — Inferno!
— O que aconteceu? — perguntou, o que me lembrou que ele ainda estava ali.
Choraminguei e olhei ao redor para buscar algo para me apoiar e conseguir levantar, mas estava escuro demais. Me escorei na parede e usei o pé bom para me levantar, mas assim que tentei botar força no outro pé também, a dor voltou com tudo e acabei caindo para o lado, mas era onde estava, então me segurei nele para não cair no chão.
— Eu acho que quebrei o pé. — Fechei os olhos, encolhendo o pé para longe do chão.
— Que azar é esse, ? Pelos Deuses! — bufou, tendo a sensibilidade de abaixar um pouco para que eu pudesse me apoiar melhor em seus ombros. — Vamos sair logo daqui. Eu te ajudo a chegar ao seu quarto.
Eu ignorei o comentário e foquei em sair dali viva, o que parecia cada vez menos provável. passou um braço ao redor da minha cintura e eu nem sequer quis reclamar por isso. Nesse ritmo, chegaríamos ao meu quarto ao amanhecer. A dor no meu pé estava insuportável e eu senti as lágrimas se acumularem quando tentei ficar em pé sozinha de novo. Tive que morder o lábio com força para reprimir outro grito. Eu podia odiá-lo, mas fiquei extremamente grata por não ter me empurrado. Ergui o pé machucado, pronta para fazer esse esforço e chegar ao meu quarto, mas só o fato dele balançar com os pulos que eu teria que dar já doía.
— Bem que a vidente da festa disse que minha estadia aqui seria agridoce e com alguns perigos dos quais eu não poderia fugir. Só não imaginei que um possível perigo seria eu quebrando o pé no que devia ser um passeio calmo pelo jardim. — Fiz uma careta, apertando os dedos no tecido do casaco dele novamente.
— Vamos apagar esse dia da memória, tá bom? Eu vou te pegar no colo, mas isso nunca aconteceu. — Avisou, me pegando no colo de uma vez.
— Considere esse dia apagado. — Assenti, pois era a coisa que eu mais queria agora, embora duvidasse que meu pé fosse me deixar esquecer.
Mas antes que déssemos dois passos, a porta da sala abriu e dois guardas apareceram com lamparinas em mãos, provavelmente atraídos pelo meu grito. Os dois se olharam desconfiados pela cena — eu no colo de .
— Ela quebrou o pé e eu estou ajudando! — esclareceu rapidamente, também notando os olhares deles. — Na verdade, não devemos explicações. A princesa de Aleudoria está ferida, movam-se!
ordenou com um tom de voz tão duro que os guardas saíram da frente e eu me senti estranhamente reconfortada com isso, pois não estava nadinha afim de aturar esse tipo de olhar. e eu já estávamos noivos, o casamento seria em semanas. E daí que estivéssemos a sós em um quarto escuro no meio da madrugada? Porém, quando pensei por um momento que teria paz, o Rei apareceu.
Com um choramingo, deitei a cabeça no ombro de , nem aí por ser .
— Isso é culpa sua! — Ele reclamou.
— Minha?! — Ergui a cabeça, ultrajada.
— Sua, totalmente sua! — Insistiu, mas o ignorei.
Engoli em seco, tentando recuperar a compostura e a dignidade que me restavam mesmo com o vestido rasgado, o cabelo bagunçado, as bochechas molhadas com lágrimas e o pé latejando com uma dor insuportável.
— Majestade, podemos conversar em outro lugar e enquanto algum médico tenta me ajudar? Meu pé está realmente me matando. — Pedi suavemente, usando o charme que eu era conhecida por ter. — Nós vamos explicar tudo com mais calma.
O Rei olhou para mim, depois para , depois para mim novamente. Seu olhar duro suavizou e ele soltou um suspiro, balançando a cabeça lentamente.
, leve para a ala médica, um dos guardas irá chamar o médico. — O Rei falou olhando para , depois para os guardas. — Rápido.
Um dos homens saiu imediatamente e caminhou comigo para fora daquela sala. No momento, eu não estava dando a mínima para as consequências de hoje, mas uma última olhada para o rosto severo do Rei me deixou apreensiva pelo que iríamos ouvir.
— Nós conversaremos sobre isso pela manhã. — Ele falou calmamente. — Quando tiver recebido cuidados médicos.
— Obrigada! — Tentei o melhor para sorrir, o que provavelmente ainda foi terrível.
O Rei nos deu as costas e seguiu na frente, com me levando atrás até a enfermaria.
— Isso significa “Você está ferrado, ”. — bufou, aborrecido.
— Eu não estou triste por meu pai não estar aqui agora, na verdade. — Suspirei, cansada. — Seria terrível ouvir ele reclamar sobre minha inconsequência.
Eu sabia que meu pai tinha seus motivos para ser tão protetor. Ele se sentia culpado por não ter conseguido salvar minha mãe e fazia de tudo para me manter segura agora, mesmo que significasse mais guardas do que eu preciso. Ele ficaria furioso ao ser informado sobre hoje, mas felizmente eu receberia apenas uma carta com toda sua fúria, carta essa que eu poderia ignorar.
— Sorte sua, princesa. — sorriu falso para mim.
— Eu posso levá-la, Alteza. — O guarda que sobrou se ofereceu, indicando a mim, me lembrando que ele ainda estava ali.
— Pode deixar, eu levo. Ela adora minha companhia mesmo! — Ele dispensou o guarda e seguiu caminhando comigo até a ala médica.
— Você está planejando me matar e por isso está querendo me levar pessoalmente até a enfermaria? — Franzi o cenho, deixando a cabeça pender para trás em sinal claro de cansaço. — Se for assim, por favor, me mata rápido. Esse dia já foi tortura o suficiente por todos os anos que ficamos longe um do outro.
Eu não sabia por que ele tinha resolvido me levar quando o guarda prontamente se ofereceu, mas estava cansada e com dor demais para descobrir ou me importar.
— Até que você é esperta, princesa. — Respondeu, sorrindo maldoso.
Fiz uma careta com o sorrisinho dele e quase gritei para os guardas virem me resgatar das garras desse louco, mas me contive e foquei em chegar logo à ala médica.
acabou rindo baixo com o meu pedido para a minha morte ser rápida.
— Serei bonzinho com a sua morte, prometo. — Seu tom de voz saiu tão falso quanto ele.
— É o mínimo que você pode fazer depois de tanto estrago. — Suspirei, olhando para o meu pé que latejava tanto que parecia que ia explodir.
Na metade do corredor tropeçou, quase me jogando dos braços dele. Arregalei os olhos e por instinto meus braços se fecharam ao redor dos ombros dele, minhas mãos apertando seu casaco com força e o meu rosto escondido na curva do pescoço dele para não ver a queda, mas a sua risada denunciou a brincadeira.
— Idiota! — Bati com força em seu ombro, o que apenas o fez rir mais.
O resto do percurso até a enfermaria foi sem mais problemas e meu peito se encheu de alívio quando entramos no cômodo cheio de camas vazias. As tochas estavam acesas e as velas perto da mesinha da primeira cama também. No entanto, como estava bom demais para ser verdade, meu pé machucado bateu na parede ao entrarmos e outra onda de dor pior ainda percorreu meu corpo. Mordi o lábio para segurar um xingamento e imediatamente olhei com ódio para , mas seus olhos estavam arregalados e cheios de culpa.
— Não foi proposital dessa vez, eu juro. Desculpa! — Retraiu os lábios, desviando o olhar para o meu pé machucado.
— Só me deita nessa cama e vai embora, por favor. — Praticamente implorei.
Eu tinha pedido “por favor” para . Eu definitivamente estava desesperada e com muita dor para ter pedido isso.
— Sinto muito. — Murmurou baixinho, rapidamente me botando na cama mais próxima.
Não tinha mais forças nem para responder com algum comentário ácido ou brigar, só queria algo para dor e dormir. Meu peito se encheu de felicidade ao avistar os guardas aparecerem com o médico no encalço, como um raio de esperança em uma noite sombria. O médico correu até mim e pediu licença antes de tirar minha sapatilha para verificar o pé. O mínimo toque me fez ir ao inferno e voltar.
— Chamem as damas da princesa imediatamente! Aqui é assustador de noite e ela precisará de companhia. — ordenou para os guardas, o que me surpreendeu.
Talvez a culpa tenha pesado o suficiente para que ele achasse que eu precisava de companhia, o que realmente seria uma coisa boa já que a enfermaria era muito deprimente.
— Sinto muito pelo seu pé, princesa insuportável. — falou, soltando uma risadinha baixa, então me deu as costas e saiu do cômodo.
— Enfia esse seu "sinto muito" no... AI! — Gritei quando o médico girou meu pé para examinar. — Eu quero alguma coisa para dor, por favor.
Precisei discutir com ele até convencê-lo de que eu precisava da misturinha de ervas que Oliver tinha me falado sobre. Quando finalmente me deu, eu apaguei por completo me sentindo tão leve que e essa noite infernal sumiram da minha mente em um sonho doce e bem-vindo.

Capítulo 2

Luther

Senti o gosto salgado de sangue no canto da minha boca e isso fez com que eu lambesse vagarosamente bem onde estava o novo corte. Sorri de lado com isso, aprofundando meu olhar no meu adversário que me chamava com a mão. Abri os braços, pedindo gritos da plateia de bêbados que nos assistiam. Cuspi o restante de sangue no chão, voltando a rodeá-lo como se fosse uma presa, e ele era, daquelas bem fáceis.
Estava o cansando, era uma tática, um soco ou outro eu aguentaria, até bem mais que isso. Então permiti que ele acertasse alguns, mas eu conseguia observar o suor em sua testa, suas pernas ficarem mais lentas, sua respiração mais ofegante que antes. Ele estava se desgastando tentando me derrubar, mas ele não conseguiria, não daquele jeito.
— Tá cansado, princesinha? — provoquei, fazendo os caras rirem com minha provocação e só incitando ele a vir para cima de mim.
Desviei de um soco, de outro e bloqueei o terceiro com meu joelho, o acertando bem de esquerda. Ele cambaleou para trás, atordoado e voltou a me atacar, sem pensar porque estava com raiva e cansado. Sorri, rodopiando quando ele voltou a tentar me socar.
— Achei que íamos lutar, não valsar. — Usei aquele tom de provocação novamente, sentindo-o me acertar um bem dado no peito, fazendo com que eu tossisse um pouco, porém, logo voltei a rir.
Peguei o brutamontes de surpresa e lhe dando uma boa cotovelada na jugular, o ouvi tossir sem ar e aproveitei para dar mais um soco em seu estômago, outro em sua barriga e um último de baixo para cima em seu rosto. Aquele golpe o fez cair imediatamente no chão. Senti meus dedos latejarem um pouco e os balancei no ar, ouvindo os aplausos. Abri mais o sorriso e peguei minha caneca de cerveja, virando todo o líquido e quando fui pedir mais uma, vi os guardas do castelo adentrarem a taverna. Rolei meus olhos com isso.
— Príncipe Luther, seu pai ordena sua volta ao castelo imediatamente. — Bati a caneca na madeira do balcão, pegando o pano que tinham me dado para secar o suor e o sangue e, em seguida, a minha camisa mais encardida que o lugar em si.
— E se eu me recusar a ir? — arqueei a sobrancelha para eles e vi o silêncio se estender por todo aquele lugar.
— Ele ordenou para que nós o levássemos escoltado até o castelo então. Desacordado mesmo.
Então mais soldados entraram, acabei rindo daquilo e vendo que era algo bem do meu pai ter mandado mesmo. Bufei, imaginando que a briga seria boa e eu venceria, porém, o castigo seria pior depois. Então, apenas soltei o ar pesadamente e assenti para eles, os acompanhando novamente até o castelo sem resmungar como era de costume. Estava dolorido pela briga e meio atordoado por ter bebido bastante, mas já estava quase sóbrio para poder sentir todas essas coisas.
— Podem deixar que daqui eu sei o caminho para o meu quarto. — Dispensei todos eles quando entramos no castelo.
Eles assentiram e voltaram para seus postos fora dali. Fechei minha camisa que ainda estava aberta, notando que eu tinha perdido alguns botões naquela taverna, dei de ombros e quando olhei para cima para identificar em qual corredor eu estava, acabei dando um encontrão com outra pessoa, uma pessoa menor que eu e mais delicada, obviamente.
— Você não é uma parede. — murmurou, os olhos semicerrados fixos no meu peito. Ela parecia estar vendo algo extraordinário a julgar pelo olhar concentrado. — Ei, por que você tá brilhando?
E então ela cutucou o meu peito, depois olhou para o próprio dedo como se não estivesse compreendendo nada.
Ela estava bêbada?
— Você nunca tinha notado meu brilho? Eu sou um príncipe e todos os príncipes brilham. Você também brilha. Estou perplexo que você nunca tenha notado. — Acabei me deixando levar pela brincadeira, porque eu iria zombar muito dela quando ela estivesse sóbria.
— Não. Ogros não têm brilho e você é um ogro. Não sei porque começou a brilhar agora. — pressionou os lábios um no outro, confusa. — Mas eu brilho?
Ela olhou para o vestido e precisou piscar duas vezes para assimilar o que quer que ela estivesse vendo, pois seu olhar adquiriu um ar ainda mais louco do que estava segundos antes.
— Ai, meu Deus! Meu vestido está pegando fogo. — ela riu, maravilhada, balançando a saia de um lado para outro. — Mas não arde.
— Eu sou um ogro? Verdade, mas um ogro da realeza. — Rolei meus olhos, suspirando com a infantilidade dela com aquela mesma história de ogro. — Infelizmente brilha.
Apontei para ela inteira, ainda achando engraçado como ela estava completamente fora de si. Então acabei rindo alto, sem me aguentar mesmo.
— Não está pegando fogo. Nem o fogo te aguentaria, . — comentei em resposta, em meio a risos.
— Um ogro da realeza não é muito melhor que um normal, só possui o título a mais. — deu de ombros, parecendo estar segurando o riso a julgar pela forma que sua boca estava levemente contraída. — Por que infelizmente? — perguntou, se referindo ao que eu tinha dito sobre ela brilhar.
Então ela abriu um sorriso torto, jogando seu cabelo ruivo no ar para mostrar um ponto.
— Eu sou o próprio fogo, por isso não me queimaria com ele.— retrucou, nada abalada pelo que eu tinha dito. — Deus do céu, tem dois de você? Você tem um gêmeo? Eu mal aguento um .
Os olhos dela se arregalaram subitamente, focando em um ponto ao meu lado, depois voltando para o meu rosto.
Rolei meus olhos bem dramaticamente, mas acabei por rir. Sempre achei engraçado ela me chamar de ogro. vivia em um conto de fadas até nos xingamentos.
— Olha só como ela sabe ser maldosa. Realmente me magoou muito ser chamado de ogro. — Fiz um biquinho como se fosse realmente chorar, sendo o mais falso que eu conseguia. — Porque o seu brilho quase me cega. — Tampei meus olhos ao olhar para ela, fingindo que me incomodava mesmo.
Mas acabei rindo, vendo que ela ria junto, e isso me fez ir parando aos poucos, percebendo que fazia anos que não ria junto com ela. Eram sempre xingamentos e troca de farpas, mas nunca uma risada compartilhada. Aquilo era incomum.
— O próprio fogo? Sei. — Debochei, encarando-a inteira, duvidando claramente disso.
revirou os olhos, preferindo ignorar a minha provocação, o que só ressaltava o quão ela não estava. Então, encarei meu próprio lado e franzi o cenho com a sua pergunta. Prendi levemente meu lábio, segurando a risada e voltei a olhar para ela.
— Tenho sim. Ele chama ... Klous. — Segurei a risada dessa vez. — Eu sou mais legal que ele. — falei sério, retraindo os lábios e os umedecendo como se estivesse falando a verdade verdadeira mesmo.
— Klous e ? Criativos... — ela fez uma careta, ponderando os nomes, mas não conseguindo disfarçar como tinha achado estranho o nome do gêmeo. — Você é o mais legal? Klous deve ser o próprio diabo para ser pior que você.
— Criativos demais, eles sabem. — Engoli a risada, não querendo explodir em risos novamente e voltando a fingir ser a verdade mais verdadeira mesmo. — Talvez você sónos ache chatos porque a chata de verdade é você. Já parou para pensar nisso? — Soltei a pergunta baixinho, tocando levemente sua têmpora com o indicador, indicando para ela pensar sobre aquilo.
me olhou por um momento, depois riu, parecendo achar graça.
— Eu não sou chata. Só com quem merece. Você, por exemplo. — apontou para mim, depois para o vazio ao meu lado. — Vocês, no caso.
— Ótimo, porque eu te trato da mesma forma. Não há injustiças entre nós dois, olha só que maravilha! — usei um tom de falsa alegria e até bati uma palma. — Ah, e o Klous também. Ele te trata da mesma forma. Enfim... — franzi de leve meu nariz, querendo rir.
— Já parou para pensar que você é o único que não gosta de mim? Vocês, no caso. Provavelmente porque são os idiotas da história. E eu já ouvi muita gente falar mal de você, então não sou a única que enxerga a verdade. — ela falou casualmente, mas fez uma careta do nada. — Você tá péssimo! E fedendo. Os dois estão.
— Só para constar também, você foi chata comigo primeiro. — Claramente me fiz de vítima, mas eu realmente não lembrava quem começou com a birra com quem ali. — Eu prefiro que falem mal mesmo. Não sou bonzinho e muito menos cavalheiro. Sou um guerreiro, um soldado, não fui criado para ser delicado.
O que era bem a verdade, meu próprio pai me colocava em treinamentos pesados e eu tenho cicatrizes pelo corpo para comprovar isso, mas eu não dava a mínima para .
— Eu não fui chata com você primeiro, tenho certeza! Eu era apaixonadinha por você quando era criança, não ia querer brigar se você não desse motivo. — Confessou, a voz soando esganiçada pela indignação. — Eu conheço guerreiros e soldados bem educados, sabia? Não é questão de ser delicado, só decente e não um principezinho mimado.
— Mas não serei eu a abalar seu ego inflado dizendo o que as pessoas falam de você por trás. Descubra por si só ou continue vivendo no país das maravilhas, princesinha.
Ela bufou e ignorou o que eu acabei de falar, preferindo sair na frente.
— Droga, tá vendo só? Eu me perdi por sua culpa. — resmungou, mudando de assunto e freando abruptamente no meio do corredor.
Arregalei meus olhos com a informação que eu tinha recebido da própria fonte e então comecei a rir, não tinha nem tentado segurar o riso, apenas ri.
— Apaixonadinha por mim? — Apontei para mim, ainda rindo meio incrédulo. — Então a princesinha de Aleudoria já gostou do ogro. Bom saber... — Aprofundei meu olhar nos olhos dela, mordendo meu lábio inferior.
se arrependeria a cada segundo por ter soltado aquilo para mim.
— Eu era jovem e ingênua, . Tinha ideias fantasiosas sobre romance já que somos noivos há anos, mas agora eu sou muito orgulhosa por ter superado aquilo e te enxergar como você realmente é. — ela explicou com impaciência. — Mas isso não importa no momento. Para onde você estava indo? Eu estava indo para... Um jantar?! Eu realmente não lembro.
O olhar de pura confusão no rosto dela seria trágico se não fosse cômico.
— Sei que eu estava indo para o meu quarto mesmo. — Comentei, também me esquecendo que eu tinha que tomar banho para a... — A festa! — soltei, porque provavelmente era para onde ela estava indo.
— Você está realmente precisando de um banho. — me olhou de cima a baixo, enrugando o nariz após a avaliação. — Está fedendo.
Tive que respirar profundamente um monte de vezes para a crise de riso passar porque tinha sido muito engraçado o que ela tinha me confessado, tinha sido um presente.
— Mas isso quer dizer que ogro já esteve nos seus critérios. Bom saber... — Passei a mão em meu queixo, rindo mais uma vez. — E que bom que hoje em dia está fora de questão. Apesar de tudo, eu não iria querer partir seu coração. — Pisquei um olho para ela.
Até porque eu nunca corresponderia a qualquer sentimento que ela tivesse por mim. Cruzes, eu a vi crescer e ela era insuportavelmente chata, não tinha nem como sentir algo por ela. Impossível. Zero chances.
— É fofo você acreditar que conseguiria partir meu coração. — ela riu, jogando a cabeça para trás em deleite.
— Está me cheirando, Turner? — Fiz uma careta para ela.
Mas eu estava mesmo, fiquei bebendo o dia todo e brigando. Era normal estar sujo, mas eu não era fresco como ela era.
— O seu cheiro está exalando, Luther. Para você ter noção de como está péssimo. — ela suspirou, olhando para o fim do corredor. — Eu preciso que você me leve ao salão, não sei chegar lá.
— Sinto muito para você, mas eu preciso primeiro tomar um banho e escolher minha roupa... — Esbocei uma careta nada contente. — Não posso escolher minha própria roupa, seria um verdadeiro caos.
— Que tipo de pessoa não sabe escolher a própria roupa? — ela me olhou perplexa.
— Só fui treinado para ser um excelente guerreiro, saber liderar minhas tropas e não deixar meu reino entrar em guerra. A parte das roupas nunca me foi passada não. — Respondi prontamente, rolando meus olhos com isso. — A questão é que você não sabe chegar na festa e eu preciso estar nela também.
— Um adulto funcional sabe escolher a própria roupa. — pontuou, agarrando meu pulso. — Vou escolher sua roupa e você vai me levar até o salão.
Não foi um pedido, nem um acordo, foi praticamente uma exigência enquanto ela me arrastava pelo corredor — indo na direção contrária à que seria a do meu quarto.
Levar ela daquele jeito para a festa seria uma péssima ideia, mas eu estava sem opções e meu pai parecia gostar dela. Não sabia o porquê. Ela era insuportável.
— Talvez não seja uma boa ideia você ir ao baile... — Sussurrei isso, não sabendo ao certo se ela tinha ouvido, confuso sobre fazer isso com ela ou não. — Afinal, o que foi que você tomou? E o seu pé? — olhei para baixo, vendo que ela caminhava muito bem.
— Eu também achei que não fosse, mas o convidado é importante e a rainha queria muito que eu estivesse presente. — Explicou, alegre demais. — Então eu convenci o curandeiro a me dar a mistura para dor que eu ouvi as criadas comentarem. Funcionou bem, não estou nem sentindo o meu pé. Prontinha para dançar!
— Deve ser mais um velho centenário chato e entediante. Nada de novo. Festa chata com gente velha. — Murmurei, totalmente contrariado de ir à festa. — Você tá claramente parecendo uma bêbada que abusou demais. — Apontei para ela inteira, rindo nasalado enquanto caminhava com ela até meu quarto.
— Eu estou perfeitamente bem! — Retrucou na defensiva. — E muito mais apresentável do que você.
Sabia que não era nada apropriado entrar com ela lá dentro, ainda mais sozinhos e isso nos traria muitos problemas mesmo. Mas sabia que se falasse para ela não entrar lá agora, teria que ir com ela naquele estado e também levaríamos a bronca. Quer dizer, no caso eu levaria. Inferno!
— Fique à vontade, eu vou tomar banho. — Anunciei, quando abri a porta do quarto. — Vou precisar fechar a porta e pedir para que você não atenda caso algum guarda ou qualquer outra pessoa bata na porta. Você pode fazer isso, não é?
— Você já percebeu que esbarrar em você só me traz problemas? — Ela suspirou, entrando atrás de mim no quarto. — Primeiro foi um tornozelo quebrado, agora, por conta desse tornozelo, eu estou cheia de ervas que não faço ideia do que são e estou no seu quarto. No seu quarto, . Eu preciso me lembrar de andar com uma dama que me mantenha longe de você.
— Posso te dizer a mesma coisa, princesa Turner. Só me traz enormes problemas e ainda mais festas chatas para ir e bancar o noivo perfeito para você! — Retruquei, rolando meus olhos e soltando o ar enquanto caminhava para atrás do biombo.
— Não é minha culpa se você é obrigado a comparecer a eventos, . Você é um príncipe, são obrigações, lide com isso. — Ela rebateu, dessa vez soando irritada como a normal faria.
Decidi não responder e a deixei sozinha no meu aposento, vendo que meu banho já tinha sido deixado preparado e provavelmente estavam atrás de mim, então apenas me despi e entrei na água que já não estava na temperatura que eu gostava, afinal, eu tinha demorado bastante para vir. No entanto, me banhei assim mesmo, tirando o sangue dos meus dedos e lavando bem o meu rosto, sentindo arder levemente o corte no canto dos meus lábios.
Devo ter demorado mais de dez minutos, enrolei o pano grosso branco em volta da cintura e voltei para o quarto, lembrando que a estava lá e quase voltei para o banheiro. Mas ela parecia estar...
— Não é que dormiu mesmo... — Murmurei baixinho, negando com a cabeça. — ? — chamei.
— Não estou dormindo. — ela resmungou, descruzando as mãos que estavam em cima da barriga. — Mas podia. Sua cama é mais confortável que a minha.
Soltando um muxoxo descontente, sentou na cama e lentamente abriu os olhos, focando em mim. Ela piscou, depois piscou novamente e depois de uma olhada que eu não pude deixar de notar, ela desviou o olhar para a parede rapidamente.
— O que você acha que está fazendo? — Exigiu, fechando os olhos. — Volta para onde você estava e espera lá até eu encontrar o que você vai vestir.
— O banho foi tão relaxante que eu até esqueci que você está aqui no meu aposento. Já era para você ter escolhido a roupa também. — Rolei meus olhos, segurando o pano com certa força para voltar para trás do biombo.
No entanto, ouvi passos no corredor juntamente das vozes de minha mãe, o bispo e claramente as outras pegadas eram dos guardas e aquilo me fez arregalar os olhos e olhar no mesmo momento. Corri até ela e tampei sua boca.
— Fica quieta que ninguém pode te ver no meu quarto e principalmente comigo junto e despido dessa forma. — Falei extremamente baixo, ouvindo as vozes se aproximarem.
— O quê? — Ela pulou da cama, alarmada. — Eu não posso... O que você tá fazendo?
Acabei puxando comigo para dentro do armário e nos fechando lá dentro, encarando os olhos da princesa.
— Não faz nenhum barulho. — murmurei pausadamente, ouvindo eles adentrarem o quarto e a voz da minha mãe invadir o cômodo, chamando por mim.
— Essa é a solução que você encontrou? Me esconder com você no armário? Não podia ter só me escondido? — ela sussurrou, praticamente gritando em tom baixo. — É melhor você sair.
parecia tudo, menos calma. A respiração dela estava tão ofegante que eu não duvidava que ouvissem caso chegassem mais perto do armário, sem contar que ela estava inquieta, trocando de peso de um pé para outro, fazendo seu corpo esbarrar no meu a cada segundo.
Em toda minha vida nunca pensei que ficaria preso com a em um armário e somente com um pano enrolado na cintura. Parecia castigo!
— Se eu sair agora, eles vão te ver, esperta! — rebati, falando extremamente baixo e negando de leve com a cabeça.
Desejei que minha mãe só desistisse de me procurar ali logo para acabarmos com isso. Era constrangedor demais. Inspirei profundamente, totalmente desconfortável com aquela situação, então talvez pelo nervosismo e a tensão do momento algo escapou da minha boca.
— Seu perfume é bom, princesa. — Minha voz tinha saído tão baixa que eu podia até torcer para ela não ter ouvido, mas não demonstrei arrependimento também.
Houve uma pausa silenciosa aqui dentro, o que me fez ter certeza que estava surpresa com o que eu tinha acabado de falar. Não dava para vê-la direito, mas tinha certeza que ela estaria me olhando desconfiada agora mesmo.
— Eu sei. — ela respondeu. — E você tá perto demais.
Estava quase batendo minha cabeça naquela madeira e provocando um desmaio para poder sair logo daquela situação. Ainda mais por ter soltado que ela tinha um perfume bom. Estava bêbado por acaso? Que péssimo dia que eu levantei da cama. Deveria ter continuado deitado.
tentou se afastar de mim, mas o armário era apertado com duas pessoas nele e eu ocupava pelo menos metade do espaço, o que resultou em tropeçando para trás novamente e caindo contra mim.
— Que coisa! — grunhiu baixinho, segurando nos meus braços. — Eu preciso parar de cair em cima de você.
Por ela ter quase tropeçado, isso fez com que eu segurasse em sua cintura com força, a puxando contra mim para que ela não caísse. Prendi meu ar de forma automática quando encarei seus olhos , e por mais escuro que estivesse naquele armário, consegui enxergá-los perfeitamente, ainda mais tão perto daquele jeito. Estávamos tão próximos que sentia até nossas respirações parecerem se embolar.
— Não torça o pé mais uma vez e não nos faça sermos descobertos também, por favor. — Murmurei, ficando desconfortável por tê-la deixado ainda mais perto de mim, então soltei sua cintura de imediato também. — E tenta não se mexer muito, esse... esse.... — Rolei meus olhos por não conseguir explicar. — Não se mexe, tá? Parece que o pano está se soltando, fica calma e não olha para baixo.
Tentei deixá-la calma, mas a culpa tinha sido dela que quase caiu, e o pano enroscou no vestido dela. Desci minhas mãos, puxando o pano de seu vestido e tentando prendê-lo calmamente naquela escuridão e quase saindo dali mesmo para expulsar aqueles enxeridos do meu quarto que estavam debatendo sobre onde eu estaria.
soltou um barulho esganiçado que podia ter sido um xingamento, um choro ou um grito abafado, mas que não me interessava de verdade, contanto que não ouvissem.
— Que péssimo dia para sair da cama, que péssimo dia para sair da cama... — Ela repetiu, tentando se acalmar. — Eu não quero mais ir para a festa. Eu quero voltar para o meu quarto e ficar o mais longe de você que seja humanamente possível, porque isso é mais contato do que eu posso tolerar por uma vida toda.
— Graças aos Deuses! — soltei aliviado. — Porque já foi comprovado que nós dois juntos no mesmo ambiente não dá certo de forma alguma. O azar vem acompanhado. Não é possível! — Até mesmo quis rir daquilo e tive que engolir aquela vontade de gargalhar da minha própria desgraça.
Felizmente uma das vozes no quarto falou algo sobre voltar para a festa e os outros concordaram, embora relutantes. Minha mãe falou algo sobre mandar alguém para me procurar e que ela iria à procura de para que pudessem ir juntas para o salão.
— Eu adoro a sua mãe, mas no momento eu nunca a odiei tanto. — murmurou.
Concordei com ela quanto àquilo porque até eu estava odiando minha mãe naquele momento. Então, assim que saíram do aposento e eu ouvi a porta sendo fechada, abri um pouco o armário só para me certificar que ninguém ficou ali para trás e saí em seguida ao ver que estávamos sozinhos novamente.
— Isso foi terrivelmente horroroso em todas as formas possíveis. Que noite horrível! — esbravejei, passando as mãos no meu cabelo e o puxando para trás. — Que não nos encontremos mais por essa semana. — Virei meu rosto e a olhei por cima do meu ombro.
— Podemos esquecer essa noite, por favor? — Ela praticamente implorou, saindo do armário logo em seguida. — Porque eu já tive o suficiente de você e do seu gêmeo.
Ela respirou fundo, olhando ao redor do quarto como se esperasse encontrar alguma coisa.
— É isso, eu estou aceitando o convite para passar uns dias com a Isis. — falou, voltando a me encarar. — Não acho que sobrevivo mais uma semana aqui se continuarmos nos encontrando dessa forma.
— Já esqueci. — Foi o que respondi sobre esquecermos aquela noite horrível.
Por mim, deletava todos nossos encontros e estava bom demais. Queria provar ao meu pai que não tinha condições de fechar acordo algum com o reino dela, porque ao mesmo tempo que poderia unir os reinos, poderia causar uma guerra interna. Todo dia seria uma batalha com ela perto de mim.
— Pobre princesa Isis. Apesar de conhecer a princesa Isis muito bem e saber que ela se dá bem com muitas pessoas mesmo, até mesmo com você. — Torci o nariz, porque a era insuportável e a Isis era simplesmente uma das minhas melhores amigas. — Mas olha, te escolto até o navio se quiser e ainda lhe desejo uma excelente viagem e um “volte quando eu não estiver”.
— Fique à vontade para cair do cavalo e quebrar o pescoço enquanto eu estiver fora. — Ela sorriu docemente, andando em direção a porta. — Então eu voltaria quando você não estivesse.
Sem olhar para trás, abriu a porta do quarto, espiou o corredor e só então olhou para mim novamente.
— Você é um doce. — Disse com certo amargor no meu tom de voz.
— Eu tenho que parar de esbarrar em você e você precisa parar de me arrastar para lugares escuros. — Ela falou, praticamente se escorando na porta agora. — O palácio é grande o suficiente para nós dois, então vamos evitar esses encontros a qualquer custo. Não ligo se você não me quer aqui. Eu não quero estar aqui, mas precisamos lidar com isso e enquanto não formos obrigados a casar, acho que conseguimos manter distância para o bem da nossa sanidade.
— Ótimo. Perfeito, na verdade. Vamos estabelecer um acordo. — Falei, me aproximando dela novamente e estendendo a mão para ela como se fôssemos mesmo fechar negócios. — Sem precisarmos ficar perto até sermos oficialmente obrigados a isso. Temos um acordo?
— Temos um acordo. — Ela concordou, apertando a minha mão.
E então se virou e saiu do quarto, mancando pelo corredor na direção bem contrária ao que deveria ser o quarto dela e também na direção errada do salão onde estava acontecendo a festa. Eu poderia ter avisado, mas ela podia descobrir o caminho sozinha.
Quis rir daquilo, mas estava tão exausto daquela situação toda que acabei nem rindo e fechando a porta logo em seguida. Não tinha condições de conviver com ela.
Não iria, me recus




Continua...



Nota da Sereia: Uma parceria de peso com a rainha Dany! A dona da princesa mais linda da minha vida. A , gente do céu! Foi por causa desse casal que eu ganhei essa pisciana que eu amo como amiga. Foi nosso primeiro casal, e o tanto que shippo não tá escrito!
Espero que vocês gostem deles como a gente ama demais.
Beijos e até o próximo capítulo.

Nota da Dany: O tanto que eu amo esses dois não dá para escrever no papel! Estou muito feliz em escrever com essa neném e mais ainda para que vocês conheçam e se apaixonem por os nossos pps como nós nos apaixonamos. Não deixem de falar o que acharam! Beijos!

Nota da beta: O que dizer desse casal que mal conheço e...
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