Ecos e Silêncio

Última atualização: 31/12/2021

Capítulo I.
Pesadelos.

Após dois anos na frota, já havia se acostumado com grande parte das dificuldades e encargos da vida de um soldado da infantaria móvel. Péssimos alojamentos, pesados treinamentos, superiores cretinos e uma ração que parecia lavagem. Conseguia lidar com tudo isso. A única coisa que nunca aceitaria, era ter que tomar banhos frios após um longo dia de treinamento. Então, todas as noites era mesma rotina: um longo tempo gasto tentando regular o chuveiro para conseguir um bom banho quente.
Girava o registro lentamente, tentando encontrar a posição exata que lhe traria água quente. Com o corpo nu envolto em uma toalha branca, sentia cada pelo de seu corpo arrepiado naquela noite fria.
Desviou a atenção do chuveiro ao ouvir passos e virou, deparando-se com um homem alto com uma toalha na cintura e uma expressão confusa. O homem coçou a cabeça e baixou o olhar, e ela teve que se segurar para não gargalhar.
— Me desculpe. — Gaguejou constrangido. — Sou novo aqui. — Justificou, querendo sumir dali.
— Não está no lugar errado. — Riu do constrangimento dele e voltou a atenção ao chuveiro. — Essa é a única área de banho dessa ala.
— Chuveiros comuns? Ok! — Ele ainda estava visivelmente desconcertado. Não seria nenhum sacrifício passar por banhos comuns. Mas era estranho, não estava acostumado àquela situação.
Continuava parado no mesmo local, observando a mulher ainda tentando regular a temperatura. Quando finalmente conseguiu, ela deu um gritinho de felicidade e o local logo foi preenchido pelo vapor.
— Então... eu volto mais tarde.
— Vai ter que se acostumar com isso, se decidir ficar. — desfez o coque que prendia seus cabelos. — Me ver nua é parte do trabalho. — Ela largou a toalha em um gancho e entrou debaixo da ducha ciente que ele a seguia com o olhar. — Vai ficar parado aí? — Questionou de olhos fechados, após algum tempo sentindo a água escorrer por seus cabelos.
Ele encarou o chão ao se dar conta que a encarava descaradamente.
— Pode tomar banho, prometo que não vou ficar espiando. — Lançou um sorriso para o homem, que ainda não havia se movido.
Após alguns segundos de hesitação, ele jogou a toalha no gancho, entrou debaixo do chuveiro e girou o registro. Gritou um palavrão ao sentir a água gelada.
— Conseguir banhos quentes é uma arte. — Ela comentou entre risadas. — Sou . E você é?
. — Ele estendeu a mão, mas logo recolheu completamente desajeitado.
Passou a tentar regular a temperatura do chuveiro. o observou por alguns instantes, antes de voltar a atenção à água quente.
— Prazer te conhecer, .
não. ! — Corrigiu, fazendo a mulher rir.
fechou os olhos, concentrando-se na pressão da água em sua pele. Aquele era o momento mais relaxante de seu dia. Ficava ali por um bom tempo, deixando a água retirar a sujeira, o suor e o cansaço. A água quente também tinha o poder milagroso de levar embora toda tensão e preocupações.
Ficou um tempo de olhos fechados, aproveitando seu mini spa, mas para sua insatisfação, sua bolha foi rompida. Abriu os olhos assustada diante do som de um estridente alarme. Virou-se, procurando , mas não o encontrou, estava sozinha na imensa área de chuveiros. Um frio desceu por sua espinha. Os azulejos brancos passaram a refletir uma luz vermelha e um grito foi ouvido.
Correu em direção à toalha, mas foi impedida por alguém segurando seu braço. Deparou-se com , que tinha um profundo ferimento no abdômen.
— O que houve? — Sentiu o desespero preencher seu interior. O medo de perdê-lo fazia seu coração doer. — Precisamos chegar à enfermaria! — Analisou o machucado com cuidado, tentando controlar o pânico.
— Não. — Ele levou as mãos até as bochechas dela. — É tarde demais. Tarde demais para mim e tarde demais para Betty. — Terminou com a voz falhando.
— O quê? Cadê ela, ? Cadê a minha irmã? — Sua aflição aumentou. O ar faltou e o chão parecia girar.
Desesperou-se com todas as possibilidades nefastas que passaram a rondar sua mente.
— Eu sinto muito. É tudo minha culpa. — Ele passou a apertar o rosto dela com força.
— Do que... — foi interrompida por gritos, que imediatamente foram reconhecidos.
Tentou se soltar de , mas não conseguiu. As mãos dele pareciam estar grudadas ao seu rosto. Os gritos aumentaram e se tornaram mais desesperadores. Então, como num passe de mágica, o vapor que os cercava transformou-se em chamas. finalmente se soltou de e correu.
O calor e as chamas a confundiam. Não conseguia distinguir de onde vinham os gritos. Fechou os olhos por um instante, esforçando-se em puxar o ar, primeiro pela boca, depois pelo nariz. Inalou fumaça, tossindo compulsivamente.
Ao abrir os olhos lacrimejantes, finalmente avistou a irmã: Betty estava a poucos metros dela, encurralada por labaredas fortes e brilhantes.
Precisava tirá-la dali.
Correu, atravessando o fogo, e foi em direção à irmã, mas antes que pudesse alcançá-la, seu corpo acertou uma parede de vidro. Tateou o vidro quente, pensando em formas de quebrá-lo. Olhou em volta, mas só conseguia ver mais chamas e fumaça. Parecia que estavam dentro de um forno gigante, onde o fogo queimava tudo que tocava, derretendo até as cinzas.
O som do fogo consumindo aquela sala era ensurdecedor, mas não o suficiente para abafar os gritos de Betty. passou a esmurrar o vidro diante da cena horrenda da irmã sendo alcançada pelo fogo. Uma onda de choque e angústia a atingiu.
Após alguns socos, suas mãos esquentaram e a dor se tornou insuportável. Mas ela não parava, precisava derrubar aquela parede!
Finalmente parou o movimento ao perceber que suas mãos trêmulas estavam em chamas. Gritou horrorizada e ao olhar para o chão, viu uma enorme mancha de sangue se formando.
Tentando ignorar a dor, passou a empenhar mais força nos socos. O barulho aumentou. Podia ouvir o concreto cedendo. Girou a cabeça fitando a sala a ponto de desabar. Ao voltar a encarar a parede de vidro, paralisou diante do corpo da irmã já consumido pelo fogo. Um profundo urro de dor e agonia saiu de seus lábios.

acordou gritando. Sentada na cama, ela passou a inspirar profundamente, tentando acalmar o ritmo de sua respiração. Olhou em volta confusa e tentando se localizar. O sonho pareceu tão real. Algumas memórias misturadas a fabricações de seu inconsciente, recheadas por sensações tão reais e dolorosas.
Olhou para baixo, encarando as cicatrizes nas mãos trêmulas. Cerrou os punhos com força. Era como se ainda pudesse sentir a dor gerada pelo fogo.
Assustou-se quando uma mão gelada tocou a base de suas costas, trazendo-a de volta para a realidade.
— Pesadelos? — O homem tinha a voz abafada pelo travesseiro.
— É. — se agitou ao sentir acariciando suas costas.
Os dedos dele contornavam a imensa tatuagem que cobria parte do tronco da mulher. O desenho de galhos e flores começava na base das costas e subia, espalhando-se pelo lado direito de sua barriga, terminando logo abaixo de seus seios. Incomodada, ela se mexeu na cama, colocando os pés firmes no chão. Buscou as luvas na mesa de cabeceira, calçando-se em seguida. Sentia-se totalmente exposta sem elas. Era como se já fizessem parte de si.
Apoiou os cotovelos nos joelhos e levou as pontas dos dedos às têmporas, massageando a região por alguns instantes. Como de costume, sua cabeça parecia que ia explodir.
— Se quiser, posso conseguir algo para te ajudar a dormir melhor. — Ele virou, apoiando-se nos antebraços. — Consigo umas paradas tão fortes que vão te derrubar.
— Nem pensar. Um vício já é suficiente para eu administrar. — Afastou-se, saltando da cama.
Catou a calça jeans jogada em uma cadeira e a vestiu rapidamente, rastreando o resto de suas roupas no chão do quarto bagunçado.
— Fica. Podemos nos divertir mais um pouco. — O homem sentou na cama, observando cada movimento da mulher.
— Tenho muita coisa para fazer. — Ela ainda buscava o restante de suas roupas.
— Tem que cuidar do seu bebê? — Debochou e imediatamente um sapato voou em sua direção. — Ai! Você precisa controlar essa sua raiva. — Massageou a testa, já imaginando o galo vermelho que se formaria ali.
— E você precisa limpar o seu quarto.
— Ok, mamãe.
— Cadê a porra do meu sutiã? — Berrou impaciente, espalhando uma pilha de roupas no chão.
Diante do tom de voz da mulher, revistou a mesa de cabeceira e debaixo da cama. Encontrou a peça presa ao estrado. Cuidadosamente retirou o objeto de renda dali e arremessou para . Ela encarou o sutiã por alguns instantes e então deu um longo suspiro.
— Isso não é meu. — Ela apertou os lábios, esforçando-se em conter uma risada.
— É claro que é.
— Tenho cara de quem usa qualquer coisa rosa com florezinhas? — Indagou, arremessando de volta para ele.
analisou o sutiã por alguns instantes e começou a rir.
Oops... — jogou o sutiã embaixo da cama.
Aquilo definitivamente não era de , nem era o tamanho certo. Sorriu ao se dar conta de que não fazia ideia de quem era a dona. Era alta a rotatividade naquele pequeno apartamento. As habilidades de não eram restritas a mecânica e muitas mulheres sabiam disso.
— Ainda preciso do meu sutiã.
— Para quê? Você está ótima assim. — Mordiscou a boca, analisando a mulher e recebeu um dedo do meio em resposta.
Sentindo os olhos dela queimando sobre si, sacudiu os lençóis e depois os travesseiros, finalmente encontrando o que ela procurava. Estendeu a mão vitorioso, mostrando o objeto, mas não fez sinal que jogaria para ela.
— Me dá logo isso!
— Eu acho que prefiro que você venha buscar. — Esboçou um sorriso safado, apertando a peça entre os dedos, ação que fez a mulher bufar.
— Se eu for aí, vou quebrar seu nariz... de novo. Que tal isso?
— Sempre tão brava. — Arremessou o sutiã contrariado, ciente de que ela cumpriria a ameaça se não o fizesse.
Observou atentamente ela colocar a peça e passeou os olhos por aquele corpo que ocupara a sua cama na noite anterior. Seu olhar focou no pequeno objeto metálico pendurado no pescoço dela.
— Por que ainda usa isso? — Apontou para placa de identificação.
— Sem perguntas. Esse é o trato. — Ela vestiu a blusa e o casaco escondendo a placa.
— Ok. Eu curto a vibe de mulher misteriosa e cheia de segredos. É sexy.
rolou os olhos, sentando-se em uma cadeira para calçar as meias e botas.
— Ainda acho que devia voltar para cama.
— Tenho muitos motivos para não fazer isso. O primeiro é que tenho muitos reparos para fazer. Meu plano era começar ontem à noite, mas te encontrei no bar e foi tudo pelo ralo. — Levantou, ajeitando a roupa amassada.
Cheirou a gola da blusa. Ali, uma mistura de álcool e perfume.
— Desculpe por ter atrapalhado seus planos de consertar a nave. — se livrou dos lençóis e caminhou em direção à mulher completamente nu. — Sinto muito por ter te dado uma noite espetacular. Isso é tão trágico. — Forçou uma expressão dramática, posicionando-se a poucos centímetros dela.
— É surpreendente como você consegue fazer eu me arrepender de vir para cá tão rapidamente. — Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, sustentando o olhar dele.
— Sinto te informar, , mas você me quer. O tempo todo. E está pensando agora em como não quer sair daqui. — Levou a mão direita até o pescoço, agora desnudo dela, e com o polegar delineou sua boca, enquanto mordiscava o próprio lábio.
Ela o encarou por mais alguns instantes e então desviou o olhar rindo.
— Tão narcisista. — Afastou-o e foi até a porta.
— Ei, nós devíamos nos encontrar mais vezes.
— Sinto te informar, mas isso não vai ser possível.
— Por que não? — Juntou as sobrancelhas, confuso.
— A minha sanidade voltou. — Ela abriu a porta do quarto e imediatamente um gato preto com grandes olhos verdes entrou. — Bom dia, Otis. — Fez um rápido carinho no animal e então voltou sua atenção para . — Você vai ter que se contentar com as memórias. — Soprou um beijo e saiu.

O amplo hangar, que abrigava o veículo e moradia de , estava preenchido pelo barulho de uma máquina de solda. Ela tentava se concentrar na tarefa de reparar a porta do setor de carga, mas seu pensamento estava distante. Ainda estava um tanto agitada pelos pesadelos que a assombraram.
Começou com uma memória, que por muito tempo, havia sido uma de suas favoritas. O momento em que conhecera , tímido e desconcertado, recém-chegado à academia militar. Mas logo o horror tomou conta: ele machucado, algo que aconteceu logo no terceiro ano de treinamento no planeta Nanthar. E, então, sua mente produzira vívidas imagens e sensações do fogo consumindo o prédio onde a irmã estava. Na realidade, ela não havia presenciado o momento em que as chamas alcançaram Betty — a irmã morreu antes que ela pudesse alcançá-la. Ainda tentou invadir o prédio, as queimaduras em seu corpo eram a prova disso, mas havia sido arrancada de lá pelos bombeiros.
Relembrar aquilo tudo era muito doloroso.
Apesar de se esforçar em não pensar naquelas memórias, em algumas noites seu inconsciente trazia imagens do fatídico dia dos atentados à New Charon.
As lembranças de foram interrompidas por um som agudo. Um pique de energia a deixou no escuro. Largou a máquina no chão e levantou a máscara, encarando apenas a escuridão.
— Betty! Isso não é engraçado! — Gritou impaciente para o nada.
Logo a luz voltou e sua irmã surgiu ao seu lado.
— Precisa parar de tentar me assustar.
— Desculpa... é que isso nunca deixa de ser divertido. — Betty encolheu os ombros.
— Onde estava?
— Fazendo umas merdas de poltergeist, assustando pessoas do outro lado da cidade. — Estalou os dedos algumas vezes, fazendo a luz piscar. — Estou melhor nisso. — Deu uma piscadela.
— Não anda possuindo ninguém, né?
— É claro que não. Te prometi que não faria isso. — Mentiu descaradamente, forçando uma cara inocente.
— Acho bom mesmo. Você disse que seus dias de dominadora de corpos haviam acabado.
— Cadê todo mundo? Cash não devia estar te ajudando? — Mudou de assunto rapidamente. Não era boa em sustentar mentiras.
Concentrou-se por um instante, tornando o corpo tangível e se sentou em uma caixa.
— Não sei. Cheguei e não encontrei ninguém.
— Chegou de onde? Onde passou a noite, mocinha? — Indagou curiosa, analisando a irmã.
— Eu estava... trabalhando. — gaguejou e Betty estreitou os olhos.
— Você estava com o .
— Talvez. — Disse entre os dentes, já aguardando a reação da irmã.
— Puta merda, ! — Gritou gesticulando exageradamente. — Precisa fazer melhores escolhas de vida. Ele é meio babaca.
— Um babaca gostoso. — Deu um sorriso de lado e viu Betty colocar a língua para fora, fazendo uma cara de nojo.
— Mas ainda assim um babaca.
— Só estamos nos divertindo. Relaxa.
— Ele é um criminoso, mercenário, contrabandista... — ela ia enumerando nos dedos, mas foi interrompida por uma gargalhada sonora.
— E daí? Eu também sou. A diferença é que aqui eu sou a chefe do crime. Já ele tem que obedecer às ordens do Archer. — Retrucou rindo e viu a luz piscar. — Vai acabar ferrando todo o sistema elétrico daqui. Pare de brincar com as luzes!
Betty se levantou, preparando-se para um longo discurso anti- e para defender seu direito de ferrar com o sistema elétrico o quanto quisesse. Mas foi interrompida pelo zunido irritante da campainha.
Caminhou até o pequeno painel perto da entrada da nave e ligou o monitor.
— Conhece esse cara?
Na entrada do hangar, estava um homem alto, que aparentava ter no mínimo quarenta anos. Ele parecia impaciente, olhando para o relógio e sustentando uma expressão carrancuda.
— Não. — se aproximou, analisando a figura mal-humorada. — Está bem vestido. Deve ser cliente. Vou atender e você desapareça.
— Por quê? — O tom de voz indignado combinava com sua expressão exagerada e teatral.
— Não vamos te expor sem necessidade. — Explicou, já caminhando em direção à entrada do hangar.
— Por quê? — Betty repetiu, cerrando os punhos e batendo um pé no chão. Um gestual de pirraça que ela repetia desde a infância. — Eu já ‘tô morta. Isso não devia ser preocupação. — Apontou para o próprio corpo, que se tornou quase completamente transparente.
parou e virou para a irmã, após dar um longo suspiro.
— Bess... você ainda está aqui. E isso significa que eu vou te proteger. — Mudou o tom de voz, esforçando-se em passar calma e ternura. — Dependendo do tipo de trabalho, você vai participar, como sempre. Mas não vou te expor a estranhos sem necessidade.
Betty assentiu e desapareceu completamente. então se apressou em direção à porta.
— Estou procurando o senhor . — O homem falou com uma voz grave, assim que a porta foi aberta.
— O senhor é?
— Don Cooper. Me falaram que encontraria o senhor aqui. — Ele se esforçava em ver o que estava dentro do hangar.
— Se está procurando pelo piloto da Guinevere, sou eu. . — Apontou os polegares para si, exibindo uma expressão convencida.
— Guinevere? Como nas lendas arturianas? — O rosto do homem se contorceu em surpresa e admiração.
— Exato.
— É raro ver gente, especialmente da sua idade, interessada em literatura antiga da Terra. É bom saber que existem pessoas cultas nesse planeta. — O tom elitista dele irritou .
Claramente ele era de um dos planetas centrais e sabe se lá por que estava ali, na periferia daquela galáxia, em um pequeno planeta mal terraformado, habitado por desajustados, marginais e criminosos.
— Do que precisa, senhor Cooper?
— Meu chefe precisa de transporte. — Diante daquelas palavras, ela finalmente deu espaço para ele entrar.
Caminhou em direção à nave, imediatamente sendo seguida.
— Ouvi muito a seu respeito. Muitos elogios, a maioria afirmando sua eficiência e discrição.
— Grande parte do mérito é da Gwen. — Bateu na lataria da pequena nave de transporte.
— É uma bela nave. — Diante do elogio, exibiu um largo sorriso.
Aquela nave era seu sustento e orgulho.
— Seu chefe precisa de transporte para onde?
— Ele gostaria de tratar do assunto pessoalmente. Poderia encontrá-lo hoje para debater os detalhes? — Cooper colocou as mãos nos bolsos.
Estava com os olhos em , mas atento e intrigado com a sensação de que não eram os únicos presentes naquele galpão.
— Claro.
— Às vinte e três horas, no The Sin. — Tirou um cartão do bolso e estendeu para a mulher.
— Ok. Estarei lá.
Assim que Cooper saiu e a porta se fechou, Betty se materializou ao lado de , que deu um pulo.
— O que falei sobre me assustar? — Rosnou para a irmã, que apenas deu de ombros.
— Não fui com a cara dele.
— Merda. Odeio o The Sin. — Resmungou após encarar o cartão por alguns segundos, ignorando o comentário da irmã.
Não era novidade nenhuma Betty não ir com a cara dos clientes. Ela reclamava de ser super protetora, mas as duas eram farinha do mesmo saco.
— Você está puta é porque vai ter que se arrumar. Tire a poeira do vestido vermelho... hoje é dia de femme fatale! — Sorriu animada e recebeu um dedo do meio em resposta.

•••

estava impaciente. Recostada a uma parede de metal enferrujado, ela encarava o relógio de dez em dez segundos. Sentia-se desconfortável naquele vestido vermelho e os olhares que a população masculina lhe lançava, estavam enfezando-a a ponto de imaginar vividamente cenas em que furava os olhos de todos eles com o palito que segurava seus cabelos em um coque.
Um homem se aproximou e ela então imitou o som de um javali, enquanto contorcia o rosto em uma careta — isso foi suficiente para ele se afastar.
Ainda rindo da expressão assustada do homem, tirou um cantil que carregava na pequena bolsa e deu algumas goladas. Cuspiu toda a bebida ao ver Cash surgir entre as pessoas que passavam naquela rua mal iluminada.
— Mas que porra.... o que você está fazendo aqui? — Aproximou-se do homem, após enfiar o cantil na bolsa.
— Vim encontrar o cliente.
— Por quê? Cadê o Ray? Ele que devia me encontrar. — A cada frase, elevava o volume da voz. Já se imaginava torcendo o pescoço de Ray.
— Ele está preso em compromissos matrimoniais. — Cash elevou as sobrancelhas repetidas vezes, dando um sorriso safado no final.
— E mandou você vir no lugar?
— Sim. Algum problema?
— Vários.
— Por quê? Por que sempre tem que ser assim? Você e o Ray são a cara das missões e eu um pobre mecânico relegado à escuridão e ao esquecimento. — Ele exagerava na emoção, tentando fazer drama.
Ação que aumentou a irritação de .
— A questão é que o Ray é grande, intimidador e o mais importante: ele não é mentalmente instável.
— Mentalmente... eu não sou mentalmente estável? — Falou indignado, elevando o tom de voz e enfiando a mão no bolso da jaqueta.
De lá, tirou uma meia verde limão com olhinhos de plástico costurados e a colocou na mão direita.
— Está ouvindo esse absurdo, senhor Bubbles? — Gritou com o fantoche de meia, exagerando nas expressões e mudando a voz. — Diz para ela que eu sou totalmente são. — Virou a mão na direção de , que o fuzilava com os olhos.
— Que merda isso está fazendo aqui? — Arrancou a meia dele e jogou no chão.
— Isso é uma meia, as pessoas costumam usar. — Deu de ombros, dando passos para trás, aproximando-se de onde estava o objeto.
— Não na mão como um fantoche.
— Não chame ele assim. O senhor Bubbles vai ficar chateado.
— Cash... — rosnou após um longo suspiro. — Precisamos desse trabalho. Precisamos de dinheiro. Se arruinar hoje, eu vou quebrar as suas duas mãos de forma permanente, de um jeito que eu nunca mais vou ver o senhor Bubbles. — As veias saltadas no pescoço dela diziam que estava falando muito sério.
— Mas você precisa das minhas mãos. Eu sou seu mecânico. Essas mãos mantem a Guinevere no ar. — Argumentou, erguendo os braços.
— Posso contratar outro.
— Mas...
— Mas nada. Nada de fantoches, nada de piadas ou histórias mirabolantes, nada de agredir garçons, nada de esfaquear móveis... — ia enumerando, relembrando incidentes anteriores. — E nada de assustar o cliente. — Finalizou ameaçadora.
— Você podia ter simplificado e dito sem diversão. Já me arrependi de ter vindo. — Fez uma careta, botando as mãos na cintura. — Brincadeira. A noite é uma criança. — A careta se transformou em uma expressão bizarra, com olhos arregalados e um sorriso maníaco.
— Você vai se comportar. Estamos entendidos? — abriu um pouco a fenda do vestido, mostrando a faca presa em sua coxa.
— Sim, senhora. — Fez uma debochada saudação militar. — Também vim preparado. — Virou de costas, mostrando duas facas presas ao cós da calça e mais uma presa ao sapato. — Posso pegar o senhor Bubbles?
— Não! Te devolvo quando voltarmos para casa. — Catou a meia do chão e enfiou na bolsa.
— Amei o vestido. — Uma mulher com longos cabelos pretos se intrometeu, aproximando-se. — Mas devia tirar as luvas... elas estão arruinando seu visual.
— Você está certa. Vou ter que correr em casa para trocar de vestido. Ó, céus, por que me fizeram tão descuidada com a moda? — começou, forçando uma voz aguda, encarando as luvas pretas. — Foda-se. — Cerrou os punhos de forma ameaçadora. — Vá importunar outro, antes que eu tinja esse seu vestido de vermelho do sangue, que vai sair quando eu quebrar seu nariz. — Vociferou, dando passos firmes em direção à mulher, que saiu apressada e assustada.
— E você está preocupada com o meu comportamento na frente do cliente? — Cash riu debochado, recebendo um soco no braço.



Capítulo II.
Senhor Z.

Dentro da The Sin, imediatamente teve seus sentidos sobrecarregados. O barulho era ensurdecedor. A música era repetitiva e tão alta, que ela sentia vibrando em seus ossos. Dúzias de perfumes se misturavam ao fedor de cigarros e charutos. Luzes vermelhas e rosadas piscavam repetidamente, iluminando o gigantesco local.
O clube tinha três andares: o térreo, com mesas espelhadas e estofados de couro espalhados, uma pista de dança e o balcão do bar. Em alguns pontos, mulheres dançavam em barras verticais. Havia também garçonetes seminuas servindo bebidas e drogas. No segundo andar, mais mulheres dançando em gaiolas de luzes e servindo as diversas mesas, cadeiras e sofás. De lá, era possível ter uma visão privilegiada do que acontecia no térreo. No terceiro andar, estavam as áreas reservadas. Ali, pequenas saletas com estofados de veludo vermelho tão espaçosos quanto uma cama de casal. Havia também mesas de vidro nas salas. Além de usadas para sexo, eram locais para transações e reuniões de negócios.
odiava aquele clube com todas as suas forças. Só ia até lá quando era necessário encontrar possíveis clientes. Já Cash, parecia criança em loja de doce, trocando olhares e tentando puxar uma conversa com qualquer mulher que cruzava o seu caminho.
— Eu preciso sair mais. — Cash murmurou, caminhando até uma ruiva que demonstrava toda sua força e flexibilidade em uma barra vertical.
Ele começou a dançar no ritmo da música, fazendo caretas que julgava sensuais, mantendo os olhos fixos na mulher. O momento foi interrompido quando um soco acertou seu braço direito.
— Mas que cara... — engoliu o palavrão, ao se deparar com o encarando impaciente.
— Trabalho primeiro.
— Ok, chefinha. — Seguiu a mulher, sentindo-se um pouco contrariado.
Viu ela pegar dois copos de uma bandeja e beber rapidamente.
— Trabalho primeiro. — Repetiu a frase dela.
— Trabalho melhor depois de ingerir meu combustível. — Rebateu, remexendo na bolsa. De lá, tirou o cartão que Don Cooper havia entregado mais cedo e mostrou para o segurança que ficava em frente à escada.
— Senhor Cooper está te esperando no camarote cinco.
O grandalhão mal encarado abriu caminho para , mas impediu a passagem de Cash.
— A senhorita é a única autorizada a passar.
O mecânico abriu a boca para reclamar, mas nem teve a oportunidade.
— Tudo bem. Ele tem coisas melhores para fazer aqui embaixo. — fez sinal para o colega circular e subiu as escadas.
Do segundo andar, analisou o térreo por um instante e então foi até o segundo lance de escadas. Ali, novamente precisou mostrar o cartão para um outro segurança. Alcançou o camarote cinco e deu duas batidas na porta.
— Seja bem vinda, senhora . — Cooper abriu a porta, expressando uma simpatia que gerou estranhamento.
entrou um tanto desconfiada. Deparou-se com um homem de cabelos castanhos compridos, que não aparentava ter mais de trinta, mas que se vestia como um idoso. De camisa social e um suéter xadrez escondendo o corpo magro, ele abriu um largo sorriso.
— Esse é meu empregador... — Cooper começou a apresentação, mas foi interrompido.
— Moses Zimmerman, prazer em conhecê-la. — O homem de xadrez se aproximou, estendendo a mão.
apenas riu.
— É sério isso? Tinha que escolher um nome falso e escolheu Moses Zimmerman?
O rosto do homem ficou branco por um instante, mas ele logo tentou disfarçar.
— Esse é meu nome verdadeiro. Por que eu esconderia meu nome? Isso não faz sentido nenhum. Eu não... — ele falava rapidamente, embolando as palavras.
— Seus olhos te entregaram. Está mentindo. Acabou de inventar o nome. E claramente não é o que tinha combinado com o grandão, porque ele fez uma singela expressão de desaprovação quando ouviu. — Ela ria da agitação do homem, que diante das acusações, começou a gaguejar.
Eu... eu... não...
— Ele é um bom mentiroso, mas não consegue esconder o desapontamento com você. — apontou para Cooper, sem disfarçar o deboche em sua voz.
— Senhora , o nome dele é Moses Zimmerman e é tudo que precisa saber. — Cooper se intrometeu, impaciente com o rumo que a conversa havia tomado.
— Tudo bem. Do que precisa, senhor Z?
Os homens se sentaram no sofá do lado direito da sala e Cooper fez sinal para que também se sentasse.
— Nem pensar, não estou a fim de pegar doenças.
O tal Zimmerman pulou do sofá imediatamente.
— Aqui tinha que ter luz negra para vocês terem noção da quantidade de fluídos nesses camarotes.
— Senhora ... — Cooper se pronunciou diante da inercia de seu patrão, que havia ficado agitado com os comentários sobre o sofá.
— Pode me chamar de .
. Precisamos da sua ajuda para um trabalho muito importante. E terá um pagamento adequado.
— Que tipo de trabalho?
— Do tipo importante e que precisa de discrição. — O homem a analisava atentamente.
Ao contrário do tal Zimmerman, Cooper aparentava segurança e mantinha uma postura inabalável.
— Sabe, estive pesquisando você. Estranhamente só consigo achar informações até cinco anos atrás.
— Isso é porque sou boa no que faço e me mantenho fora do radar.
— Você esteve no exército por quatro anos. O que aconteceu? Era uma pilota elogiada.
— Ainda sou uma pilota elogiada. — Rebateu impaciente, cruzando os braços. — E não acho que meu passado seja relevante.
— Você mudou para esse planeta há alguns anos. Por quê? — Cooper examinava cada gesto e expressão de . Queria descobrir tudo que ela escondia.
— Novamente não acho que isso seja relevante. Olha, não vim aqui para bater papo sobre o passado. Vim aqui por uma proposta de trabalho, então se ela não estiver mais de pé, eu prefiro ir embora desse clube infernal. — Rosnou e então se virou para ir em direção à porta.
— Espera. — Zimmerman se pronunciou, agitado. — Cooper só está sendo cuidadoso. É parte do trabalho dele. Mas você está aqui, porque é boa no que faz. E eu quero te contratar.
— Qual é o trabalho?
— Eu preciso... recuperar algo. — O homem parecia escolher as palavras cuidadosamente, gerando mais desconfiança em .
— Ok. Qual o tamanho do objeto?
— Um pouco mais alta que você. — Disse Zimmerman, dando um risinho nervoso.
— Uma pessoa? Isso é um sequestro? — A voz de endureceu.
Após três anos trabalhando do outro lado da lei, ela ainda se mantinha firme na posição de que não havia dinheiro no mundo que comprasse sua paz de espírito. Muitos contrabandistas haviam enriquecido aceitando todo tipo de trabalho moralmente questionável. não estava entre eles. Vivia uma vida modesta, porque escolhia seus clientes. Saques, contrabando e ações que prejudicassem o governo e grandes corporações estavam entre suas atividades favoritas. Mas sequestros e qualquer coisa que machucasse pessoas inocentes, era uma linha que ela não cruzava.
— Não. De jeito nenhum. — Seu rosto mostrava todo seu desespero.
— Não faço sequestros. Só capturo pessoas se forem procurados pela lei.
— Não é um sequestro. É um resgate. — Cooper se intrometeu.
Colocou a mão esquerda sobre o ombro de Zimmerman, tentando acalmá-lo.
— Ok. Ela está na prisão? Hospital psiquiátrico? — sentiu uma pontada ao mencionar aquelas palavras. Lembranças que ela queria enterrar passaram rapidamente por sua mente.
— Laboratório.
— Onde?
— Na galáxia Tneera. Só posso te dar o local exato quando estivermos na nave. — Zimmerman apertava e mexia as mãos repetidamente, demonstrando todo seu nervosismo.
— Posso trabalhar assim. Mas se chegarmos lá e ela não quiser vir com a gente, o trato está desfeito. Como eu disse, não faço sequestros. E o pagamento? — Diante da resposta de , Zimmerman deu um profundo suspiro de alívio.
Entregou um pequeno dispositivo para a mulher. No visor, o valor oferecido pelo trabalho.
— Quando partimos? — Indagou com um sorriso ao ver a quantidade de zeros.
— Fique preparada. Entraremos em contato.

desceu as escadas lentamente. Pensava na conversa que ocorreu minutos atrás e em como não confiava naqueles homens. Especialmente Cooper. Mas ela precisava daquele trabalho. Eram tempos difíceis. A fiscalização e policiamento nas rotas dos planetas centrais haviam aumentado. O que significava cargas apreendidas, prisões, trabalhos perdidos e contrabandistas tendo que ser mais cuidadosos. Além disso, havia grupos paramilitares e empresas de segurança privada em todo canto. Gigantes como a indústria farmacêutica, Cycorp Global haviam estendido seus tentáculos sobre as galáxias. E usavam grupos armados para isso. Além, é claro, de proverem todo tipo de produto consumido em todo canto. De remédios e órgãos sintéticos, a drogas recreativas e tecnologia. E destruir o contrabando era importante para manter os lucros nas alturas.
Outro motivo de aceitar o trabalho, era a possibilidade de aquilo realmente ser um resgate.
Ao chegar no primeiro piso, rastreou o local em busca de Cash, mas nem sinal dele. Decidiu então passar algum tempo em seu local favorito, a bancada do bar.
Atravessou o salão esbarrando em mulheres seminuas, que ofereciam todo tipo de drogas e bebidas. Teve que parar por um instante quando as luzes vermelhas passaram a piscar com mais intensidade. Lembrou do sonho. Das luzes vermelhas refletindo sobre os azulejos brancos. De repente, aquele local pareceu pequeno demais.
Sentiu o ar faltar e o corpo esquentar ao lembrar das chamas. Desequilibrou-se por um momento e teve que se apoiar a uma garçonete de cabelos loiros muito curtos.
— Você está bem? — A mulher perguntou, encarando-a com preocupação.
— Sim. Eu só preciso beber. — Massageou as têmporas e foi até o bar.
Fez sinal para o barman e abriu um largo sorriso quando um copo foi depositado na sua frente. Assim que deu o primeiro gole, cuspiu tudo de volta.
— Que merda açucarada é essa? — Rosnou para o homem, que apontou para um cara de camisa roxa do outro lado do bar.
revirou os olhos.
— Preciso limpar meu paladar. Me traz whiskey. Pode ser St. Barts, que é mais barato.
O barman recolheu o copo silenciosamente e limpou a bancada. Colocou um copo limpo na frente dela e começou a derramar o líquido.
— Deixe a garrafa. — Murmurou, sentando na banqueta.
O barman se afastou e se concentrou em sua bebida. Tentaria beber um pouco e relaxar. Infelizmente, incômodos não faltavam naquele local.
— Não gostou do drink?
Ela não precisou virar para saber que era o homem de camisa roxa ali, encarando-a.
— Não. — Rebateu, ainda com os olhos no copo.
— Nunca te vi por aqui. — O homem novamente tentou puxar conversa, ignorando todos os sinais de que ela não queria sua presença ali.
Ele escorou no balcão, aproximando-se dela.
— É porque eu odeio esse lugar.
— Você devia ser mais educada. Estou aqui e você nem ao menos me olha. — O tom de voz dele se tornou afetado.
já estava incomodada com a presença inoportuna, mas aquela frase a irritou ainda mais. Em um movimento rápido, catou uma faca do balcão e acertou entre os dedos da mão esquerda do homem. Ele deu um grito agudo e se afastou.
— Continue me incomodando e eu não vou errar. — Um sorriso macabro brotou em seu rosto, enquanto balançava a faca.
Imediatamente, viu o insuportável sumir entre as pessoas do clube. Entregou a faca para o barman e voltou a atenção à bebida.
Já mais relaxada, girou a banqueta e voltou os olhos para o ambiente que oscilava entre o vermelho e o rosa. A poucas mesas de distância notou , sentado em um sofá de couro e rindo sonoramente, enquanto uma mulher acariciava seu peito e sussurrava algo em seu ouvido. Desviou o olhar e viu ao longe Cash agarrado à um poste de metal e remexendo o corpo como uma cobra. Gargalhou, bebericando o whiskey. Ele parecia tentar ensinar novos movimentos para a ruiva.
O momento durou pouco, seguranças apareceram, tentando retirar o mecânico do local, mas ele abraçou o poste com todas as suas forças. pensou em intervir, mas desistiu, continuou sentada, assistindo Cash ser arrancado de lá e levado para fora do clube.
Assim que o tumulto acabou, levantou-se para seguir o amigo. Mas diante de seus olhos surgiu , com os cabelos curtos bagunçados e um sorriso de lado.
— Você está maravilhosa nesse vestido, mas... — ele começou, apoiando-se no balcão.
— Você prefere tirá-lo? — completou estreitando os olhos e se sentando novamente na banqueta. — Tão clichê.
— Mau humor + whiskey. Teve uma reunião ruim? — Ele se esticou e pegou um copo no balcão. E mesmo diante da careta dela, pegou a garrafa e derramou bebida em seu copo.
— Não vou falar de trabalho com você. É a concorrência. — Tomou a garrafa dele e encheu o próprio copo.
— Então é por isso que nunca me chamou para visitar a Guinevere? — Questionou, após beber um gole do whiskey. — Por que eu sou a concorrência?
— Não. Nunca te levei lá, porque tenho vergonha de você. — Disse com um sorriso debochado e viu ele encenar um punhal imaginário atingindo a própria barriga.
— Isso magoa meus sentimentos. — Forçou uma voz dramática.
— Eu sempre sou honesta.
— Sobre a Guinevere... — ele passou a mão pelos cabelos, flexionando os músculos durante o movimento. Ação que fez segurar uma risada. — Posso te ajudar a fazer os reparos.
— Nem pensar. Cash ia surtar.
— A nave é sua.
— Sim, mas ele é o mecânico. Isso significa que é o bebê dele.
— Isso é ridículo.
— Do que está falando? — Ela indagou, rindo. — Você é do mesmo jeito com a Perseus. Você até esculpiu uma miniatura dela.
— Como sabe disso? — franziu as sobrancelhas.
— Eu vi no seu quarto. Está logo na janela. Como em um santuário longe da bagunça.
— Ok. Mas como sabe que eu que fiz? — Ele coçou a nuca ainda confuso.
Eles mal conversavam sobre qualquer coisa. Não entendia como ela podia saber de um de seus hobbies favoritos.
— Porque tem ferramentas para todo lado no seu apartamento. — Ela tomou um gole da bebida. — Você é bom com madeira...
A expressão dele se tornou safada, fazendo revirar os olhos.
— Sou ainda melhor mecânico. — Deu um sorriso convencido. — Posso te ajudar.
— Eu já tenho mecânico.
— Seu mecânico é legalmente insano. Além disso, eu sou muito melhor que ele. — Argumentou, endireitando a postura.
— Ele está aqui, sabia? — Imediatamente percorreu os olhos pelo clube, mas tentou disfarçar.
— Não tenho medo do Cash. — Deu de ombros.
— Claro que tem. Qualquer pessoa com juízo tem medo do Cash. Ele é muito fã de facas... e de esfaquear coisas.
— Ok. Você não quer minha ajuda para consertar a nave. Mas aposto que quer minha companhia. — Ele se inclinou, aproximando-se um pouco mais.
— Não, obrigada.
— Ok. — Umedeceu os lábios, antes de continuar. — Vou aguardar a próxima vez que você se jogar nos meus braços.
— Isso nunca aconteceu. — Bateu no balcão, elevando o tom de voz e se sentindo um tanto ofendida.
— Já aconteceu seis vezes.
— Isso é tão triste. Você está contando? — Empurrou a peito dele, afastando-o. — Você está tão obcecado. Precisa de um terapeuta.
— Nós dois precisamos, senhora “eu me afogo no álcool para não lidar com meus problemas”. — Tomou a garrafa de whiskey, afastando dela.
— Mas esse é meu terapeuta... — pegou a garrafa de volta e a abraçou. — O nome dele é Bartholomew. Barato e eficiente.
— Quer dividir seu terapeuta? — Ele se aproximou novamente, ajeitando a alça do vestido dela e se aproveitando para tocar a pele fria.
— De jeito nenhum. — Colocou a garrafa no balcão e voltou o olhar para o próprio copo. — Sério. Preciso dormir sozinha hoje.
— É uma pena. — se afastou, mas parou no meio do caminho e virou, encarando-a com as mãos nos bolsos.
— O que está fazendo?
— Memorizando material para as minhas fantasias. Está certa, , estou obcecado e só as minhas memórias vão me acalentar até nosso próximo encontro. — Ele mordeu o lábio e viu ela segurar um sorriso.
— Vá embora logo ou eu vou ter que arremessar o Bartholomew em você. — Ameaçou com a garrafa em mãos.
então virou, afastando-se.
Decidida a ir atrás de Cash, se levantou e pegou a garrafa, mas antes que pudesse dar um passo, sentiu o corpo gelar quando um copo de chopp foi derramado em suas costas. Virou furiosa e preparada para trucidar o sujeito responsável.
— Eu sinto muito. Eu... eu... não foi de propósito. — O homem falava rápido e com pânico nos olhos. Claramente havia presenciado as ameaças de ou conhecia sua fama. — Eu devo ter tropeçado ou algo assim. Eu não queria... eu...
— Pague essa garrafa e estamos quites. — Exibiu a garrafa para ele, após um longo suspiro.
O homem pagou o barman e marchou em direção ao banheiro.
Tentando se limpar da melhor forma possível, ela amaldiçoava aquele clube. Aquele acontecimento seria mais um tópico na longa lista de motivos para odiar aquele lugar.
A porta do banheiro bateu, mas acreditando ser o vento, continuou concentrada em se secar. Ao encarar o espelho, tomou um susto ao ver o reflexo de Betty.
— Merda! O que você está fazendo aqui? — Gritou para a irmã, que a encarava com uma careta.
— Desculpa. — Ao analisar Betty, se deu conta que ela não se desculpava pelo susto.
— Isso é culpa sua? — Apontou para o próprio vestido encharcado.
— Sim, mas foi um acidente. — Explicou-se, forçando uma cara de inocente. — Eu te segui. Não confio no tal Cooper.
— Novidade... — revirou os olhos, voltando a se secar. — Nem eu confio, mas precisamos de dinheiro.
— Também não confio no .
— Espera... Você estava lá... ouvindo tudo? — A confusão de rapidamente virou irritação.
— Sim. E, meu Deus, você dá muita trela para ele. — Betty comentou e viu a irmã abrir a boca indignada. — Também te vi botar um cara para correr. E fiquei muito orgulhosa. — Deu um largo sorriso, fazendo sinal de joinha com as duas mãos.
— Não sabia que tinha uma stalker particular. — Arremessou uma bolinha de papel em Betty, que imediatamente ficou intangível.
— Eu não... — começou a se explicar, mas então sua expressão mudou.
— O que foi? — se preocupou.
Aquele olhar nunca significava boa coisa.
— Está ouvindo isso?
— Isso o quê?
— Tem alguém precisando de ajuda. No terceiro andar. — Agitada, Betty então tornou seu corpo invisível. A porta bateu em seguida.
seguiu a irmã porta afora, mas não a avistou em lugar nenhum. Apressou-se em direção às escadas. Parou por um instante, pensativa, e ao avistar , foi até ele.
— Segura para mim? — Jogou a bolsa em cima dele, atrapalhando o momento de chamego que ele compartilhava com uma mulher de azul.
Ele largou a mulher a encarando confuso.
— Cuida da minha bolsa. Se me roubar, eu vou saber e vou quebrar seu nariz. — Rosnou ameaçadora, vendo o homem apenas acenar com a cabeça.
Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ela correu até o segurança. Mentiu, dizendo que esqueceu a bolsa no camarote e teve sua entrada permitida. Ao alcançar o terceiro andar, olhou em volta, todas as portas estavam fechadas.
Betty ficou visível por um instante, apontando para o camarote oito. foi até lá e bateu na porta, mas não obteve resposta. Tentou girar a maçaneta e felizmente não estava trancada. Abriu com cuidado, tentando não fazer barulho.
Deparou-se com um homem enorme em cima da garçonete loira que havia esbarrado mais cedo. Ele pesava o corpo sobre o dela, tentando beijá-la, enquanto ela se desvencilhava, claramente desesperada, tentando afastá-lo.
assoviou, fazendo sua presença ser notada.
— Sai fora! Aqui está ocupado. — O homem abanou a mão, fazendo sinal para ela sair, mantendo o peso sobre a garçonete.
— Ela não está te curtindo nem um pouco. — comentou, agachando para ficar no campo de visão dele e viu a expressão do homem se tornar furiosa.
— Eu paguei, então eu não me importo se ela quer ou não. — Disse sem se mover.
— A questão é que... você não pode comprar consentimento.
— Vou me divertir com vocês duas. — O homem finalmente se levantou, libertando a garçonete.
Ela tentou engatinhar para longe, mas parou ao ouvir a voz dele.
— Se correr vai ser pior! — Gritou, cerrando os punhos de forma ameaçadora.
— Sabe... As duas coisas que eu mais amo no mundo são: um bom whiskey e espancar canalhas. E, felizmente, eu vou ter os dois hoje. Mas antes eu vou te dar uma amostra grátis de como é ter o corpo violado. — exibiu um sorriso de escárnio, dando um passo na direção do brutamontes. — Bess! — Chamou a irmã e então sentiu o ar ficar mais frio.
Viu a postura do homem mudar e enrijecer, enquanto seu olhar demonstrava completo desespero. Betty havia possuído seu corpo e claramente não era algo nada agradável. Estar consciente, mas sem controle de suas ações, era desesperador.
— Você está bem? — Ajudou a garçonete a levantar.
A mulher encarava seu algoz assustada.
— O que você fez com ele? — Ela tinha a voz trêmula.
— Não se preocupe com isso. Precisa sair daqui. Eu cuido dele.
A loira assentiu e correu porta afora.
— E então... o que acha da sensação? — voltou a atenção ao brutamontes. Estava satisfeita com a expressão desesperada estampada em seu rosto.
Encarou-o por alguns segundos, as veias saltadas em seu rosto, parecia fazer muita força para se libertar. Mas era impossível, Betty controlava seu corpo.
— Vá ver como ela está, Bess, eu cuido dele. — Imediatamente o ar novamente ficou gelado e o homem caiu de joelhos.
— O que fez comigo? — O homem ofegava, apoiou as mãos nas coxas, sentindo um cansaço como nunca sentiu na vida.
— Nada comparado ao que eu vou fazer agora. — Deu um sorriso sinistro, esperando uma reação. O que não demorou.
— Mexeu com o cara errado. — O brutamontes endireitou a postura e avançou cambaleante na direção dela.
desviou da fúria do homem e em um movimento rápido, segurou-o pelo braço, arremessando-o na mesa de vidro.
Ao encarar o homem desmaiado sobre a mesa estilhaçada, bufou, esperava uma briga mais longa. Não era de seu feitio agredir pessoas desacordadas. Mesmo se estas fossem gente do pior tipo. Então apenas largou o grandalhão desacordado e desceu as escadas apressadamente.
Passou por , novamente o atrapalhando, e catou a bolsa sem dizer uma palavra.
Já do lado de fora do clube, olhou em volta, mas não viu ninguém. A luz da rua piscou e então Betty surgiu do seu lado.
— Cadê ela? — Indagou para irmã, que oscilava entre ficar visível e invisível.
Possessões a enfraqueciam temporariamente.
— Não sei. Não consegui alcançá-la.
— Espero que esteja bem.
— O que aconteceu com você? — Uma voz saiu do lixo, assustando as mulheres.
— O que aconteceu com você? — Betty rebateu a pergunta ao identificar Cash caído entre sacos de plástico preto ao lado da lixeira.
— Aparentemente os seguranças daqui não são muito fãs de homens fazendo pole dance... — explicou, tentando se levantar, e Betty gargalhou. — Não seja má. Esse posto é da .
— Vamos embora, esquisitos. — se intrometeu, ajudando o amigo a levantar e o apoiando para que pudessem caminhar juntos. — Que merda! — Parou por um instante.
— O que foi?
— Esqueci o whiskey no banheiro. — Lamentou, voltando a caminhar.
— Por que você estava conversando com o ? — Disse Cash, após alguns passos. — Estava falando sério em me substituir? — Seu tom de voz estava genuinamente preocupado.
— Relaxa. Ele só estava flertando comigo.
— Até parece que ele tem chance. — Comentou com um risinho debochado.
segurou o próprio riso e lançou um olhar cúmplice para Betty, que deu uma gargalhada escandalosa.



Capítulo III.
O bando de desajustados.

Cash se arrastava nave adentro, ansiando por um bom banho e o conforto de sua cabine. Os minutos passados no lixo foram o suficiente para tornar sua presença capaz de empestear qualquer ambiente. Sentia-se como um gambá de desenho animado, como se exalasse uma nuvem fétida que se espalhava pelo ar.
Arrancou as botas e as largou no canto da saleta que ficava ao lado da enfermaria e subiu as escadas que o levariam ao deque superior com sua melhor cara de derrota. Passou por corredores decidido a ir direto para sua cabine e depois banheiro, mas ao ouvir o som de pancadas, desviou o caminho e foi até a área da cozinha.
Deparou-se com Ray, de avental e touca, na bancada, sovando uma massa e a esposa dele, Ruby, sentada à mesa no centro do cômodo limpando uma arma. Quando sua presença, e cheiro, foram notados, Cash deu um sorriso amarelo.
— Você está um lixo! — Disse Ruby com sua acidez usual.
— Obrigado. É lá mesmo que eu estava. — Cash fez uma pequena reverência desengonçada e viu a loira franzir o cenho, confusa.
— Nem pergunte. — Betty se materializou ao lado de Cash, fazendo-o pular de susto.
O mecânico colocou a mão no peito e foi até uma cadeira, mas antes que pudesse pensar em se sentar, ouviu o som da massa acertando a bancada com força.
— Nem pense em sentar aí. — Ray largou a massa e apontou o dedo de forma ameaçadora. — Eu limpei essa cozinha hoje.
— Por que está fazendo pão uma da manhã? — Cash se afastou da cadeira e apoiou a mão esquerda na parede, passando a encarar o amigo com curiosidade. — O que aconteceu? Você só cozinha de madrugada quando está preocupado ou muito puto.
— Está tudo bem, só quero comer pão fresco. — Ray deu um sorriso largo voltando a atenção à massa. — Está tudo na mais perfeita paz.
— Ray, eu vou te matar! — gritou, surgindo na cozinha com um olhar feroz.
— A culpa foi minha... — Ruby tentou explicar, mas foi imediatamente interrompida.
— Então vou matar os dois. — A piloto abriu a bolsa e arremessou a meia verde com olhos em Cash. — Mr. Bubbles foi à reunião.
— Cash, eu disse que não podia levar... — Ray balançou a cabeça expressando desapontamento.
— Por que você não foi? Você é meu brutamontes. — foi até a mesa e depositou a bolsa ali, sentando-se em seguida.
— Eu e Ruby tínhamos coisas a resolver.
— Eles estavam transando. — Betty comentou, fazendo gestos inapropriados.
— Caralho, Betty. — Ruby rosnou. — Você estava espiando a gente? Já falei que a minha cabine é espaço proibido. Vou ter que salgar essa nave inteira?
— Pode salgar. Sal não funciona. — Betty foi até a bancada, pegou um punhado de sal e jogou na barriga. — Viu? Essa história de que sal espanta fantasmas é mito. E eu não fui à sua cabine. Eu cheguei aqui, toda inocente, só de boas assombrando o local, e vi vocês dois mandando ver na cozinha. — Fez mais alguns gestos indecentes, desaparecendo em seguida.
Adorava plantar a discórdia e sumir.
— Aqui? Na cozinha? Por quê? Cadê as noções de higiene? — A cada frase, Cash aumentava o tom de voz e arregalava mais os olhos.
— A cozinha é meu templo. — Disse Ray com um sorriso, largando a massa para descansar e indo até a mesa, sentar-se ao lado da esposa. — Em todos os sentidos.
Nãoooo! — O mecânico caiu de joelhos dramaticamente com os braços erguidos.
— Já acabou o show? — Ruby indagou, entediada, prendendo os cabelos loiros em um coque.
— Sim, senhora. — Cash novamente foi até a cadeira, mas diante do olhar de reprovação de Ray, apenas colocou as mãos na cintura. — Mas é uma sacanamente isso. Ficar esfregando a vida sexual de vocês na nossa cara. Eu estou na seca há tempos e a também. — A indignação em sua voz era palpável.
Estava ainda mais aborrecido, pois seus planos com a dançarina ruiva foram frustrados muito rapidamente.
— Nem vamos mencionar a Betty. — Finalizou entre os dentes.
— Sua vida realmente está uma merda, mas a nossa querida capitã tem chegado de fininho antes das cinco. — Ray acusou com um sorriso sacana.
— Isso porque ela é uma alcoólatra que passa as madrugadas no Owen’s enchendo a cara.
— Exato. — concordou, agradecendo aos céus por Betty não aparecer dando uma risada debochada.
— E o trabalho? — Ruby indagou curiosa, finalmente largando a arma.
— Vamos para a galáxia Tneera.
— Planeta? — Foi a vez de Ray perguntar.
— Ainda não sei. Clientes estão bem misteriosos. Só vão me passar as coordenadas quando estiverem a bordo.
— Meio suspeito. — Ray comentou, juntando as sobrancelhas.
— Muito suspeito. — pegou na bolsa o pequeno dispositivo que Zimmerman havia lhe entregado mais cedo e deslizou para Ray. — Mas o dinheiro é muito bom.
— Nossa Senhora! Faz tempo que eu não vejo tantos zeros. — Fez um sinal de agradecimento aos céus, fazendo a esposa sorrir.
— Mas não vai se animando demais não. Não confio neles.
— Você não confia em ninguém... na verdade... as únicas pessoas que confia estão nessa mesa. — Disse Ruby sem uma gota de julgamento.
Nesse sentido, ela e eram muito parecidas.
— Ricaço babaca ou esquisitão?
— Um é babaca e o outro esquisitão. Os dois claramente são dos planetas centrais. Não sabem nada daqui.
— Espero que a gente não tenha uma situação no estilo Russell Wittenberg. — Ray encarava a amiga com um olhar de acusação.
— Dá para parar de ficar lembrando disso? — pediu manhosa e Ray meneou a cabeça negativamente.
— Eu sempre vou lembrar disso. Você quase arrancou o dedo dele fora, porque é uma esquentadinha que não consegue controlar o temperamento. E depois ele ainda queimou a gente em Mellion e não conseguimos mais trabalhos naquelas bandas.
— Ele apontou o dedo para mim. Chamou a Guinevere de lata velha e eu... — tentou justificar, mas desistiu ao ver que a desculpa não estava colando.
— É uma nave de segunda mão. Nem fabricam mais esse modelo. — Ruby afirmou com cuidado, sem usar qualquer expressão parecida com lata velha. — E esse é um nome muito estranho para uma nave. Sabe disso, né?
— Talvez, mas a nave é minha. E eu adoro as lendas arturianas.
— Devia fazer coisas mais produtivas. Passar os dias lendo e bebendo é um péssimo jeito de viver. — Cash se aproximou da mesa com a meia verde enfiada na mão direita. — Mr. Bubbles concorda. — Moveu a mão para cima e para baixo como se o fantoche de meia concordasse.
— O que seria melhor? Conversar com naves, maquinarias e meias? — rebateu com um sorriso cínico.
— Gwen, ela não quis te ofender. — Cash sussurrou, encarando as paredes de metal. — Nem você, Sr. Bubbles. — Voltou-se para o fantoche, acariciando a mão.
— E o que exatamente precisamos fazer para esses caras? — Ruby desviou a atenção de Cash, voltando ao assunto trabalho.
— Don Cooper e Moses Zimmerman… nomes falsos, obviamente... — revirou os olhos, rindo, relembrando a expressão de pânico de Zimmerman ao ser pego na mentira. — Estão pagando por um resgate. Precisamos retirar uma mulher que está sendo mantida em um laboratório.
— Isso tudo ficou ainda mais suspeito.
— Sim. E outra coisa estranha é que o tal Zimmerman se apresenta como o patrão, mas me parece que quem realmente manda ali é o Cooper.
— Como os nomes são falsos, acredito que investigações prévias não vão dar em nada. Mas assim que eles pisarem na nave, a gente fica de olho. — Ray falou após refletir por alguns momentos.
— Vou fazer uma lista dos reparos que precisamos fazer. Amanhã quero todos de pé bem cedo. Principalmente meu querido mecânico. — Disse , vendo o rosto de Cash se contorcer em uma careta.
— Já que vamos para Tneera, dependendo do planeta, acredito que poderíamos fazer um pequeno desvio para Shahar. — Ruby falou com um brilho nos olhos.
Sua animação foi rapidamente quebrada por Ray.
— Está maluca, mulher? — Encarou a esposa, incrédulo.
— Quê? Nós precisamos do dinheiro. — Deu de ombros e viu ele bufar. — Posso multiplicar esses zeros. — Apontou para o dispositivo animada.
— Você quer é torrar o dinheiro que não temos nos cassinos. Nem pensar. Você ainda está cheia de dívidas. E está em processo de desintoxicação. Nada de apostas. Nem Cara ou Coroa você está permitida jogar. — Ele falava rápido e um tanto desesperado.
Não conseguia acreditar que depois de todos os perrengues que haviam passado, Ruby não havia aprendido nada.
— Como se você mandasse em mim. — Comentou debochada e viu ele assentir freneticamente.
— Não mando mesmo. Mas esse é o tipo de coisas que destrói casamentos.
— O seu falatório destrói casamentos. — Retrucou e viu Ray colocar a mão no peito, sentindo-se ofendido.
— Ah é? Vai querer greve de sexo?
— Boa sorte com isso. — Ruby passou a analisar as próprias unhas. — Aqueles dias foram muito sombrios para você.
— Ok. — Cash se intrometeu antes que Ray pudesse se defender. — Bem divertido participar dessa discussão de casal. Obrigado. Eu e o Mr. Bubbles estamos agradecidos. Me lembraram por que estou feliz solteiro.
— Podemos passar em New Charon na volta? — Betty se materializou deitada num dos sofás que ficavam em uma pequena área de reuniões no canto daquele setor.
Aquelas palavras mudaram o clima do recinto. Por alguns segundos nenhum som foi ouvido. Todos ficaram estáticos ao ouvir as palavras “New Charon” saírem da boca da mulher.
trocou olhares preocupados com todos na mesa. Ray foi o primeiro a falar:
— Tem certeza de que quer ir lá?
— Sim.
— Betsy, a gente não vai lá tem cinco anos. Desde... — começou, mas não foi capaz de completar.
Ninguém ali gostava de mencionar o dia dos atentados.
— Eu preciso ir. — Ela se ajeitou, sentando corretamente no sofá, incomodada com as expressões piedosas que pesavam sobre si.
— Eu não acho isso uma boa ideia. — Disse finalmente, levantando-se e caminhando até a irmã.
Sentou-se no sofá ao lado dela diante de olhos suplicantes. Ray, Ruby e Cash então deixaram a cozinha silenciosamente. Sabiam os rumos que aquela conversa entre as irmãs tomaria.
— Por quê? Eu não vou fazer nada. Eu só quero ver ele. — Pediu com um olhar triste. — ... eu preciso ver o Pete.
— Não vai ser bom para você. — tentou tocar a mão da irmã, mas ela se tornou intangível.
— Você não sabe o que é o melhor para mim. — Murmurou chorosa.
— Mas eu sei o que é melhor para mim. — Os olhos de arderam e ela teve que se esforçar em não chorar — Eu não quero ir lá. Não posso. — Encarou o chão.
Se encarasse Betty, se desmancharia em lágrimas.
— Eu não quero reviver tudo. A dor e o desespero... quando vi... — não conseguiu terminar.
Foi atingida pelas malditas memórias. As lembranças das chamas a fizeram desviar o olhar e encarar as próprias mãos cobertas pelas luvas.
— Está tudo bem. Desculpe... eu entendo. — Betty se aproximou mais da irmã e se concentrou, apertando suas mãos com carinho.

Sozinha em sua cabine, encarava o teto ciente de que aquela seria uma noite insone. Cansada de contar os arranhões e danos na parede de metal, pegou o livro que estava sobre seu peito e colocou na mesa de cabeceira. Não conseguia se concentrar na leitura. Sentou-se na cama e calçou as botas surradas, apoiou os cotovelos nos joelhos e o queixo sobre as mãos entrelaçadas. Após respirar fundo por alguns segundos, se levantou.
Calçou as luvas e foi até a escada vertical fixa na parede em frente à cama. Subiu rapidamente e ao alcançar o deque superior, seus olhos focaram na entrada da cabine logo à frente da sua. Era a única com identificação, uma plaquinha com o nome Betty em letras garrafais em um tom de rosa. arquejou. Caminhou silenciosamente pelo corredor e entrou na ponte de comando. Aquele local era seu santuário.
Analisou as telas e painéis luminosos que cobriam as paredes e as duas mesas, a do piloto e a do copiloto. Eles mostravam todo tipo de informações e garantiam o acesso ao controle das mais diversas funções da nave. Parou diante do único painel onde as luzes piscavam de forma uniforme. Apertou uma sequência de botões e então ele se abriu. Ali, atrás de um painel falso, um esconderijo com duas prateleiras. Na superior, uma caixa de papelão e na debaixo uma garrafa de vodka e uma caneca de louça com a frase “calma, tudo vai passar, nem que seja por cima de você”.
Sorriu encarando a caneca. Um presente de Betty. O último presente dado ainda em vida.
pegou a garrafa e a caneca, e fechou o painel. Sentou-se na poltrona do piloto e encheu a caneca. Após um gole e uma expressão de satisfação, depositou a garrafa no chão e jogou os pés sobre a mesa. Ajeitou-se, sentando-se confortavelmente e passeou os olhos pelos controles, telas e alavancas sobre a mesa do piloto. No canto superior esquerdo, três fotos presas ao painel. Desviou o olhar das fotos e encarou o manche, já desgastado e com alguns arranhões. Tocou o controle por um instante.
Estava feliz em finalmente conseguir trabalho. Precisavam desesperadamente de dinheiro e ela já estava com saudade de pilotar.
Deu mais algumas goladas e então seus olhos focaram em um ponto a direita da mesa, ali havia alguns fios aparentes e um pedaço chamuscado, evidências de um curto-circuito causado pela irmã. Cada pedacinho daquela nave estava preenchido por memórias. Ali também havia muitos gatilhos para lembranças de um passado mais distante.
— Noite ruim? — A voz suave de Ray a tirou de seus devaneios.
— O que está fazendo acordado? — Girou um pouco a poltrona para encará-lo, mantendo os pés no painel.
Ele sentou-se à mesa do copiloto e girou a poltrona, ficando de frente para ela.
— Não consigo dormir. — Passou a mão no rosto repetidamente, ajeitando a barba, ação que deixou claro para que havia preocupações o corroendo.
— O que está acontecendo, Ray?
— São os meus rins.
Diante daquela afirmação, ela tirou os pés do painel e os colocou firmes no chão. Passou a analisar o amigo, preocupada.
— Hoje não faltei para transar... bom... eu transei... — riu por um instante e então se ajeitou, assumindo uma postura mais séria. — Eu fui ao médico hoje à tarde. Ele disse que meus rins estão falhando.
— Quê? Não. Você está bem. — ficou inquieta, mal conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo novamente.
— Na verdade não. Mas consegui disfarçar bem.
— Você precisa me contar esse tipo de coisa. — Largou a caneca no chão e juntou as mãos, apertando-as com força.
— Estou contando agora. O médico fez alguns ajustes nos sintéticos, mas eu preciso trocá-los. Estão ultrapassados. E como pode imaginar, o preço do modelo novo está absurdamente acima do meu orçamento. — Coçou o queixo, esforçando-se em não demonstrar o tamanho de sua tribulação. — E aí, hoje à noite eu fui com a Ruby conversar com o Big Mike...
— Você está louco? — Interrompeu-o, aflita.
Soltou as mãos já doloridas por um instante e então voltou a apertá-las.
— Não vou deixar você se meter com agiota. Especialmente o Big Mike. — Deu um longo suspiro, tentando acalmar a respiração, que havia se tornado curta e descompassada. — E a Ruby ainda está de acordo? Ela esqueceu que está com a cabeça a prêmio em Corham por conta das dívidas?
— Não é como se eu fosse conseguir um empréstimo em um banco com as minhas informações de crédito. — Deu um riso fraco e viu a expressão de mudar.
— Olha... o dinheiro desse trabalho vai ser bom. Mais do que suficiente para comprar os rins sintéticos e pagar cirurgia. Eu te dou a minha parte. — Ofereceu, decidida.
— De jeito nenhum.
— Não é como se eu fosse te dar tudo. Preciso tirar parte para fazer alguns reparos. — Ponderou, vendo-o se agitar.
— Mas não pode fazer isso. Eu não vou aceitar.
— Somos família. Não tem que lidar com isso sozinho. — sentiu o coração apertar.
Em seu primeiro ano no exército, havia conhecido Ray e Cash. E em meio a todas as provações que passaram desde então, eles haviam se tornado importantes demais para ela. Dez anos juntos os tornaram uma pequena família desajustada. Cinco anos atrás, ela havia perdido Betty. Não suportaria perder mais ninguém.
...
— Não faz doce. Você precisa. — Alterou o tom de voz, não se permitindo entristecer ainda mais.
— Eu aceito um empréstimo. — Disse após alguns segundos de reflexão.
— Ok. Sem juros.
— Tem que ter juros. — Ray se levantou e caminhou até a amiga. — Mas eles podem ser bem pequenos. — Terminou com um sorriso, arrancando risadas dela.
Diante do tom divertido dele, ela finalmente soltou as mãos.
— O que eu faria sem você?
— Estaria morto em uma vala em Cyriaque. — Relembrou o pequeno acidente envolvendo Ray, Cash e uma retroescavadeira. — Aquela foi a primeira vez que eu salvei o seu traseiro de uma dolorosa morte por esmagamento.
— Uma verdadeira heroína. — Fez uma pequena reverência.
Ao se levantar, as fotos presas ao painel chamaram sua atenção. Na primeira, fazia uma careta, enquanto recebia um abraço apertado de Betty; na segunda, o grupo estava nas escadas de um cartório após o casamento de Ray e Ruby; e na última, , Cash e Ray estavam uniformizados e posavam em frente um cruzador. Um rasgo do lado direito da foto revelava que uma pessoa havia sido retirada dali.
— Sabe qual é a minha memória favorita do nosso tempo na academia militar? — Comentou, analisando a última foto. — Nosso primeiro dia de treinamento.
— Por quê? Foi um dia tão tranquilo. — Tentou forçar uma expressão séria, mas havia uma pitada de ironia ali.
— Tranquilo? Esqueceu o fato de você ter dado um soco na cara de um oficial que estava sendo escroto com o Cash? Descobri que queria ser seu amigo naquele momento.
— Coronel Gergich. — Fez uma careta ao citar o nome do oficial. — Odiava ele.
— Certeza que aquele lá tinha pacto com o “coisa ruim”. — Disse Ray, fazendo sinal da cruz.
— Sorte nossa ele ter sido transferido.
— É, depois de dois anos e meio te fazendo comer o pão que o caramunhão amassou. Se dependesse dele, você nem teria se tornado piloto.
— Bons tempos.
— Você sente falta? — Indagou receoso, encarando a foto.
— Do Gergich? Nem um pouco.
— Não. De tudo. Da nossa vida de recruta e...
— Ser o braço armado do Estado? — O tom de voz dela endureceu. — Cometer crimes em nome de engravatados? Agir para satisfazer investidores e grandes corporações?
— Não sinto nenhuma falta disso. É só que... às vezes eu penso como tudo parecia mais simples. A rotina de treinamento e tudo mais.
— Eu entendo o que quer dizer. Naquela época, eu sentia que tinha respostas para tudo. Mas agora... — deu um longo suspiro, desviando o olhar. — É tudo tão confuso. Me sinto perdida a maior parte do tempo. Eu sinto que eu estou só sobrevivendo, dia após dia...
— Um copo após o outro. — Ray murmurou e viu ela assentir um tanto desconcertada.
— A única razão para essa foto estar aqui, é porque foi tirada no dia que consegui me tornar piloto. — voltou os olhos para a foto.
Os três pareciam tão felizes. Então seus olhos focaram no rasgo e sua expressão mudou.
— Às vezes fico pensando como as coisas seriam se a gente não tivesse saído... tudo seria diferente. — Deu outro longo suspiro. — E talvez... talvez a Betty estivesse viva.
— Não fala isso.
— É sério. — Começou, sentindo o rosto queimar. — Ela estaria viva e bem. Casada com o Pete e possivelmente já cheia de filhos. Eu não teria voltado para New Charon. Não teria levado desgraças e sofrimento para vida dela. — Dessa vez, ela não conseguiu impedir algumas lágrimas de rolarem.
Ray se abaixou. Sua mão esquerda tocou o joelho dela e a direita limpou seu rosto.
— Eu acredito em destino. E não acho que nada que a gente tivesse feito traria um resultado diferente.
o encarou, sentindo mais lágrimas nublarem seus olhos.
— Se ela não estivesse naquele prédio quando as bombas incendiarias explodiram... ela teria morrido de outra forma. Porque, infelizmente, e por motivos que não podemos explicar, aquela era a hora da Betty partir. — Finalizou, acariciando os cabelos da amiga.
— O destino é uma merda. — Limpou o rosto, sentindo-se fraca por ter chorado. Era algo que sempre tentava evitar.
— Às vezes é sim. Mas, às vezes, pode trazer coisas boas. Dois anos atrás o reator ficou a tempo de explodir. Foi um grande transtorno e muitos gastos para consertar...
— E muitos momentos com o nosso querido mecânico surtado com medo de morrer. — Ela riu com as memórias de um Cash completamente descompensado, gritando que era muito jovem e ainda tinha muito para viver.
— Sim! — Ray também riu com a memória. — Mas por conta disso, nós precisamos parar em Shahar. E aí eu conheci a Ruby.... enraivecida e a ponto de matar aquele crupiê.
Tão romântico... — comentou com um sorriso sarcástico.
— Com toda certeza que foi. — Rebateu um tanto ofendido. — Ainda acho bem surreal aquele mulherão ter dado bola para mim. Porque, minha nossa senhora... minha esposa é uma deusa.
— Ela é sim. Tem a beleza de Afrodite e o instinto assassino do Ares.
— E o apetite sexual do Zeus.
gargalhou da expressão tarada que ele fez.
— Ela é como um gato rabugento com a face de um anjo... e um espírito lascivo. Sério, às vezes eu olho para ela e só consigo pensar o quão sortudo eu sou por ela ter me notado.
— Ah... para de ser modesto. Você é bem bonito. Só tem um probleminha de calvície precoce. — Apontou para as entradas no cabelo dele, fazendo-o rir.
— Você é tão malvada.
— Calúnia. Sou mais doce que sumo de limão! — Tentou fazer uma cara meiga, mas não foi bem-sucedida. — Sabe... eu fico muito feliz por você. É muito bom ver vocês juntos. — Trocaram sorrisos sinceros.
Os dois tinham um laço tão forte e uma intimidade tão grande, que nos tempos de academia militar, muitos acreditavam que aquela relação era mais que apenas uma amizade. Algo que nunca se concretizou e nem se concretizaria, pois partilhavam um amor fraternal.
— E eu sei que eu não deveria falar o que estou prestes a falar, mas... é exatamente por conta dessa relação de vocês, que eu fico pensando em como a Betty também devia ter isso que vocês têm. Ela merecia isso.
— Eu concordo com você. Ela merecia. A vida não é justa. — Apertou os joelhos dela numa tentativa de conforto.
— Eu ainda me lembro com clareza do dia que ela chegou naquele orfanato. Aquela garotinha de quatro anos com grandes bochechas e língua afiada. — Sorriu, pensando nos momentos que as duas compartilharam na infância. — Ela chorou todas as noites na primeira semana. Ela era tão pequena e frágil. Mas aí, um dia ela me viu chorando. Era meu primeiro aniversário lá. O primeiro sem a minha mãe.... e ela foi até mim... — novamente as lágrimas rolaram sem que ela conseguisse impedir. — E ela me abraçou, disse que ia ficar tudo bem.
Ray envolveu suas mãos com carinho, sentindo lágrimas também molharem sua bochecha.
— Foi naquele momento que eu decidi que cuidaria dela. Eu tinha sete anos e fiz uma promessa. E eu cuidei por muito tempo... e ela virou minha irmã, mas... — sua voz falhou, tudo aquilo era doloroso demais. — Quando ela mais precisou de mim, eu falhei. Eu falhei, Ray. Eu não estava lá para protegê-la. — O choro se tornou mais forte.
Passou a soluçar sentindo o ar faltar. Ray se levantou e a puxou, colocando-a de pé e a abraçando com carinho.
.... Você precisa parar de se culpar. — Pediu, acariciando os cabelos dela. — Só tem uma pessoa que eu culpo por tudo... E não é você. — Nesse instante, o choro parou.
Ao pensar em , não conseguia chorar, só conseguia sentir ódio. Soltou-se dos braços de Ray e limpou as bochechas. Não queria mais pensar no passado. Não queria pensar em como sua irmã havia sido arrancada de sua vida. E não queria pensar no responsável por isso. Em como ele partiu seu coração de um jeito que não poderia ser consertado.
— Está com fome? — Mudou de assunto ao notar que a expressão dela havia mudado. — Posso te fazer minhas panquecas especiais. Te empanturrar até ficar caindo de sono.
— Eu aceito essa proposta. — Disse, estampando um largo sorriso.
— Devia parar de beber. — Novamente a puxou para perto, envolvendo seus ombros. — Senão vai ser a próxima com órgãos sintéticos...
Ela revirou os olhos e caminharam juntos até a cozinha.



Capítulo IV.
Bunny's Gentlemen's Club.

Quando acordou, a sensação era que sua cabeça iria explodir a qualquer momento. Tocou a testa, sentindo ali as marcas de botões. Havia dormido sobre o painel da mesa do piloto.
Na madrugada, após comer panquecas com Ray, havia voltado à ponte para guardar a caneca e a vodka que estavam largados no chão. Ao chegar lá, decidiu sentar-se e beber um pouco mais. Mas a exaustão a alcançou e dormiu por lá mesmo.
Ainda se sentindo desorientada, ouviu o toque insistente de um bipe. Tirou do bolso da jaqueta o dispositivo dado por Zimmerman e esperou a mente parar de girar para, então, conseguir distinguir a mensagem que aparecia na tela.
Viajariam no domingo. O que significava apenas três dias para fazer os reparos.
Levantou-se um pouco tonta e foi até a cozinha, encontrando um Ray bastante animado, preparando o café da manhã.
— Conseguiu dormir? — Ele indagou com um sorriso.
Era o único naquela nave que acordava de bom humor.
— Um pouquinho e você? — Murmurou, sentando-se à mesa e apoiando a cabeça ali.
— Um pouquinho. — Imitou o tom de voz dela.
— E como consegue ficar de bom humor mesmo assim?
— Porque a vida é linda. — Foi até a mesa e depositou dois pratos com panquecas.
— Por favor, sem papo motivacional tão cedo... — pediu com a voz abafada. — Cadê todo mundo? — Ergueu-se, puxando o prato para si.
— Todos dormindo. — Sentou-se à mesa, acompanhando-a.
Após uma rápida prece, começou a comer.
— Cash chegou às cinco.
— Onde ele foi? Eu nem vi ele sair.
— Não tenho a mínima ideia. Vai ver que ele está aprendendo com você a dar escapulidas na madrugada. — Insinuou brincalhão e recebeu uma risada irônica em resposta.
— Acho bom ele acordar disposto. Viajamos no domingo. — Disse, encarando as panquecas.
Sentia-se um tanto enjoada e por isso ainda não tinha começado a comer.
— Preciso que você e a Ruby façam compras. Precisamos de suprimentos, células de combustível, alguns parafusos... — enumerava, esforçando-se em se concentrar. Ainda tinha a mente um tanto nublada pela ressaca. — Enquanto isso, eu e o Cash vamos finalizar os reparos na baia de carga.
— Boa sorte para acordar ele.

Acordar Cash realmente não havia sido uma tarefa fácil. Tarefa ainda mais difícil, era garantir a concentração para os reparos necessários. Cash e estavam destruídos, cansados e de ressaca. Ainda assim, precisaram espantar o cansaço e garantir o trabalho do dia. Havia muito o que fazer nos dias que antecediam uma viagem.
Consertos e preparativos preencheram o tempo de toda a tripulação.
À noite, se jogou em um sofá na área de reuniões. O cansaço fazia sua cabeça doer. Pensou em cochilar enquanto esperava o jantar, mas o local foi invadido por uma Betty agitada.
— O que você está fazendo?
— Tentando dormir.
— Hoje é quinta-feira, esqueceu? — Elevou um pouco o tom de voz, jogando-se no sofá ao lado da irmã. — E sabe o que isso significa?
— Noite do karaokê! — Cash entrou na sala gritando e, em seus pensamentos, amaldiçoou toda a descendência dele.
Sentindo-se completamente derrotada e sem escapatória, sentou-se no sofá. Viu o local ser invadido por toda a tripulação e após alguns minutos, os acordes de uma música romântica começaram. Aquele era um compromisso semanal e em geral ela ria e se divertia naquele momento família, mas estava exausta, tudo que queria era uma cama.

A primeira apresentação foi de Betty e Cash. Com expressões exageradas e poses teatrais, eles fizeram um dueto barulhento e cafona. Depois foi a vez de Ray, arriscando alguns passos de salsa, cantou uma música animada, mas com a letra um pouco depressiva. Seus passos desengonçados fizeram a esposa rir um tanto envergonhada. Ruby cantou um metal com gritos guturais, capazes de incomodar o quarteirão inteiro e foi nessa hora que quis morrer. Sua cabeça zunia.
— Podemos pular a minha vez essa semana e só ir jantar? — Pediu com uma expressão derrotada.
— Claro! Mas semana que vem vai ter que cantar duas. — Disse Betty, após ponderar por um instante.

Após o jantar, foi até sua cabine, mas apesar da exaustão, sua mente não cedia. Mantinha-se acordada. Havia coisas demais a perturbando. Lembranças persistentes pareciam pairar sobre sua cabeça.
Sentindo que tudo de que precisava era uma distração, ela se levantou. Colocou um jeans e um fino casaco de moletom, calçou as luvas pretas, vestiu sua jaqueta de couro surrada e subiu as escadas.
Ao deixar o hangar, ajeitou a jaqueta no corpo e colocou o capuz na cabeça numa tentativa de se aquecer. Era uma noite muito fria. Decidiu, então, esquentar o corpo da melhor forma que conhecia: com álcool.
Caminhou silenciosamente por ruas desertas e mal iluminadas com as mãos nos bolsos.
O hangar ficava nos limites da cidade. Ao longe, era possível avistar uma cadeia de montanhas. Para além dela, uma região desértica inabitável. O planeta Baxu estava localizado na periferia da galáxia V’Nari. E como todo planeta com uma terraformação falha e incompleta, possuía vastas áreas inóspitas e contaminadas.
Trezentos anos antes, quando os seres humanos já haviam sugado cada recurso da Terra, depararam-se com uma superpopulação e um planeta agonizante. Diante de um cenário apocalíptico, milhares de pessoas entraram em naves geracionais e por décadas viajaram em busca de um novo lar. A busca terminou quando encontraram um pequeno conjunto de galáxias com dezenas de planetas com condições propícias a receber gigantescas máquinas que iniciariam a engenharia planetária. Os novos planetas passaram pela terraformação, que modificou profundamente suas condições atmosféricas, sua temperatura, solo e ecologia, garantindo, assim, que se tornassem locais capazes de receber a vida terrestre. Mas esse processo era complexo, demorado e custoso. E ocorreu de formas diferentes nos diversos planetas.
Alguns planetas com condições já mais apropriadas, passaram por processos mais minuciosos, tornando-se mais parecidos com a Terra. Esses locais, que imitavam com precisão a biosfera terrestre, eram habitados por pessoas privilegiadas e controlados por grandes corporações. Considerados o ápice da nova civilização, eles eram chamados de planetas centrais.
Conforme íamos nos distanciando desses planetas, encontramos níveis menos rigorosos de terraformação. Quanto mais distantes, piores as condições. Nas periferias das novas galáxias, planetas mal terraformados com regiões áridas, estéreis e hostis. Muitos convivendo com a má qualidade de água e ar. Locais até mesmo com áreas contaminadas. Baxu era um desses planetas.
Após alguns minutos de caminhada, alcançou ruas barulhentas e bem iluminadas. Dezenas de pessoas passavam e se esbarravam, dividindo as ruas estreitas com pequenos veículos flutuantes. Diversos odores se misturavam naquele emaranhado de tagarelas e barulhentos. Crianças corriam e ambulantes gritavam. Mais à frente, uma feira com diversos produtos, onde o falatório era ainda mais intenso.
Buscando se esquivar do tumulto, cortou caminho, passando por becos e vielas escuros.
Ao chegar no endereço desejado, bufou diante de luzes apagadas e um portão de metal enferrujado cerrado por largas correntes. Pela primeira vez em anos, ela encontrava o Owen’s fechado. Circundou o pequeno bar na esperança de enxergar alguma luz acesa para, então, exigir que Owen permitisse sua entrada.
Após um longo suspiro, virou-se para ir embora. Parou ao ouvir uma voz:
— O Owen falou que ia para o Bunny’s... — disse um homem maltrapilho, remexendo na lixeira.
— Bunny’s? — Aproximou-se, um tanto confusa.
Nunca havia ouvido falar do tal local.
— É, um lugar novo que abriu tem uns dias. É na rua da boate do Big Mike.
— Aqui. — Tirou algumas notas do bolso e entregou ao homem. — Pela informação.
O homem exibiu um sorriso desdentado e voltou a atenção ao lixo.
decidiu ir até o tal Bunny’s, talvez encontrasse lá a distração que precisava.
Após mais alguns minutos de caminhada, chegou à área mais movimentada da cidade. Era também a área que ela menos frequentava. Ali, diversos prédios espalhados com letreiros luminosos brilhantes e coloridos, além de telões e painéis. Pensou que ia ficar cega diante de tanta poluição visual. Cada letreiro chamativo indicava um dos diversos divertimentos daquele canto da cidade: bares, boates, locais de jogatina, clubes de apostas, uma arena de luta e casas de prostituição. A aglomeração ali era muito diferente do que se encontraria em um dos planetas centrais. A cidade de Nisse era o lar de todo tipo de bandidagem daquele lado da galáxia.
Só quando avistou o tal Bunny’s, é que se deu conta do que o local era: um clube de strip-tease com “Bunny's Gentlemen's Club” em gigantescas letras neon em sua fachada. Riu diante das diversas placas e telas com imagens sensuais femininas.
À primeira vista, era apenas mais um prédio com tinta descascada e tijolos expostos, mas a longa fila de homens aguardando para entrar revelava que ali havia mais do que a aparência demonstrava. Considerou ir até um outro bar no fim da rua, mas ao avistar Cash entrando no clube, decidiu segui-lo. O segurança do local era um velho conhecido e permitiu a entrada da mulher.
Já dentro do prédio, alcançou uma pequena sala com iluminação propositalmente bruxuleante. Dali, já era possível ouvir a música alta que fazia o concreto vibrar. Na saleta havia uma chapelaria, onde casacos, chapéus e armas deveriam ser guardados. Havia também uma mulher seminua rebolando e servindo de guia pelo longo corredor que dava para uma escada de ferro.
se apressou pelo corredor, alcançando Cash antes que ele pudesse chegar à escada que os levaria ao clube subterrâneo.
— Então é aqui que tem passado as madrugadas? — Indagou e viu Cash virar com os olhos arregalados.
— Oi, chefinha! — Disse um tanto constrangido.
— Pode ficar na putaria o quanto quiser. Mas preciso de você de pé e bem-disposto seis da manhã. Ainda temos reparos para fazer e eu pago o seu salário.
— Prometo que vou estar. — Fez uma desengonçada saudação militar e, então, desceu apressado.
Ao chegar no fim da escada, viu Cash seguir uma garçonete trajando um sutiã de renda e uma saia minúscula. Riu do desespero do amigo e então passou a analisar o local lotado.
O clube tinha uma iluminação violeta e era muito maior do que ela imaginava. Estava cheio de homens agitados e embriagados. Em todo canto, havia mulheres seminuas dançando, servindo bebidas e drogas, e arrastando homens em direção à locais mais reservados. No centro, um palco gigantesco com danças sensuais e apresentações.
Diante disso tudo, o que realmente chamou a atenção de foram algumas mesas com cabos, equipamentos e uma plaquinha escrito “Morpheus” em cima. Aquilo era tecnologia dos planetas centrais. Lá, uma das formas de se buscar prazer era através da utilização de dispositivos que permitiam acessar o córtex cerebral, garantindo a entrada em um mundo prazeroso de sonhos e memórias. Era algo muito caro e nunca visto por aquelas bandas. Nas mesas Morpheus, homens com cabos presos à cabeça babavam e riam em um estado de semiconsciência.
Um tanto perturbada, ela se afastou.
Como já havia entrado, decidiu ir até o balcão do bar. Era parte da sua política, não sair de um local com bebidas sem tomar pelo menos uma dose.
Estampou sua melhor expressão mal-humorada ao passar por homens com olhares sedentos e seguiu até o bar. No meio do caminho, deparou-se com uma mesa ocupada por cinco rostos conhecidos. Archie, seu rival nos negócios, estava acompanhado de seus quatro funcionários: Bernie, o bem-humorado piloto cinquentão; o grandalhão ruivo Saul; o musculoso tatuado chamado Leon e, por fim, , o mecânico e mais jovem do grupo.
! É bom ver você. — Archer gritou ao notar sua presença.
Ela se aproximou da mesa, cumprimentando todos.
— Então é aqui que a maior parte da população masculina tem passado o tempo? Bem que eu estava estranhando o Owen’s vazio. Tomara que isso aqui continue aberto. Estou amando meu boteco copo sujo só para mim.
— Fala sério! Pelo menos de mim você sente falta. — Disse Bernie, sorrindo e apontando uma cadeira para que ela se sentasse.
Nah... Nem um pouco. — Continuou de pé onde estava. — Qual a ocasião? — Indagou ao notar a quantidade de bebidas sobre a mesa.
— Bernie está se aposentando. — Saul explicou, abrindo uma cerveja e entregando para a mulher.
— Isso realmente merece uma celebração. Parabéns, Bernie... — começou, estendendo a garrafa para o alto. — Por finalmente se livrar do Archer te dando ordens.
— Quê? Eu sou um ótimo chefe. — O homem elevou um pouco o volume da voz, já um tanto bêbado.
— Há controvérsias. — Ela bebeu um pouco da cerveja.
Ignorava propositalmente , que estava logo ali, a devorando com os olhos. O jeito que ele a encarava a deixava um tanto desconfortável. Parecia que, de fato, ele conseguiria despi-la apenas com o olhar.
— Vou te provar como posso ser um patrão maravilhoso. Vem trabalhar para mim? — Archer levantou, aproximando-se de . — Estou falando sério.
— Não está não. Isso só pode ser piada. — Riu, afastando-o. — Por que eu abriria mão da minha independência para trabalhar para você?
— Porque eu adoraria te ouvir me chamando de capitão. — O tom de voz dele mudou e um sorriso sacana brotou em seu rosto.
— Isso nunca vai acontecer. Vai continuar sendo só uma fantasia profana nessa sua mente pervertida. — Empurrou-o novamente, dessa vez, fazendo-o cair sentado.
— Então, , o que achou do lugar? — Bernie se intrometeu.
— Eu achei triste. — Disse sem emoção.
— Triste?
— Sim, muito triste. Que vocês precisam pagar para ver peitos. — O deboche era palpável em sua voz.
— A gente não precisa pagar.... bom, pelo menos eu não preciso. A gente vem pelo clima do lugar e... — Saul ia tentando se explicar, mas foi interrompido.
— Eu vim pelos peitos! — levantou o dedo, estampando um sorriso canalha, gerando risadas.
— Viu que eles têm Morpheus? E todo tipo de quimeras. — Bernie apontou para Leon, que estava na cadeira ao seu lado.
E foi naquele momento que finalmente prestou atenção no agente de segurança: ele sorria para o nada e cada veia em seu corpo estava completamente negra. Estava sob o efeito de quimeras, potentes drogas criadas pela Cycorp Global.
— Anima de tentar, ?
— De jeito nenhum. Essa é minha única droga. — Mostrou a garrafa. — E não quero entrar na minha cabeça. Passo tempo demais tentando fugir de tudo que está aqui. — Deu duas batidinhas na testa e viu Bernie assentir concordando. — Bom... vou deixar vocês continuarem a festinha. — Afastou-se da mesa, não querendo prolongar o papo.
Acabou esbarrando em um moreno alto de nariz protuberante. Ele deu um sorriso amarelo diante do olhar da mulher.
— Owen, seu traidor! — Acusou, dando um soco no braço dele. — Você não pode fechar o bar numa quinta-feira. Quinta é um dia estressante. É noite de karaokê.
— Desculpa, . Mas até eu preciso relaxar. — Explicou-se diante de um olhar feroz. — Prometo que amanhã eu vou abrir. — Sua atenção foi desviada para uma mulher apenas de calcinha num palco ao longe.
Ai de você se eu chegar lá amanhã e não estiver me esperando com um sorriso no rosto e uma rodada grátis. — Gritou, afastando-se, e viu ele apenas balançar a cabeça, assentindo.
Ao alcançar o bar, empurrou alguns bêbados em seu caminho e se sentou em uma banqueta. Foi prontamente servida pela bartender, uma loira com tatuagens em todo o corpo, que depositou uma dose de tequila na sua frente. despejou o líquido de uma vez na garganta e girou a banqueta, observando o movimento.
Do lado direito, um homem se aproximou. Ele fumava um charuto e o fedor se espalhava pelo ambiente mal ventilado. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ela rosnou:
— Te dou dez segundos para levar esse toco do caramunhão para bem longe de mim.
O homem prontamente se afastou um pouco assustado com a expressão dela.
— “Toco do caramunhão”? Está convivendo demais com o Ray. — surgiu ao seu lado com uma cerveja em mãos. — Aqui. — Depositou a garrafa no balcão e sentou na banqueta ao lado.
— Eu não bebo isso. — Girou a banqueta, ficando novamente de frente para o balcão.
— Você já provou ou está só de frescura?
— Isso é cerveja de gente metida. — Afastou a garrafa e o rosto dele se contorceu em uma careta.
— Pode, por favor, só provar? — Pediu, recebendo um olhar entediado em resposta. — Se não gostar eu deixo você quebrar a garrafa na minha cabeça.
— É um bom trato. — Ela pegou a garrafa, abriu com uma pancada no balcão e bebeu. — Hoje é seu dia de sorte. — Disse, após ponderar por alguns segundos. — Não está bebendo?
— Não. Vou lutar hoje. — Deu um tapa em cada um de seus bíceps, exibindo uma expressão convencida. — Vai assistir?
— Com quem vai lutar?
— Tucker.
— Sério? Ele é bem... grande e mal-encarado. — Comentou, encarando o lutador que, naquele momento, estava sem camisa, tentando dançar sensualmente com uma mulher em uma plataforma.
— E daí? Eu sou o melhor.
— O mais modesto também... — riu irônica.
Seu riso aumentou quando um homem careca de cavanhaque passou por eles.
— Ei, Big Mike! — Chamou.
Big Mike era dono de metade da cidade. Dividia seu tempo entre agiotagem, organizar lutas e agenciar apostas.
— Cinquenta pratas no Tucker. — Passou o dinheiro rapidamente para o careca, que anotou algo em um dispositivo e saiu.
— Como você se atreve? — perguntou após alguns segundos estático a encarando.
— Olha... da última vez que apostei em você, eu perdi dinheiro. Não estou afim de arriscar.
— Assim você parte meu coração. — Disse dramaticamente. — Mas está tudo bem.... Eu sei que esse desprezo todo é só para disfarçar tudo que realmente sente por mim.
— E o que exatamente seria esse “tudo”? — Ela apoiou o cotovelo esquerdo no balcão e a cabeça na mão, encarando-o com curiosidade.
— Completa devoção. — Sussurrou após umedecer os lábios. — Você está até me seguindo.
— Te seguindo? — Bebeu a cerveja, fingindo interesse na história fantasiosa dele.
— O que mais viria fazer aqui?
— Beber! Já que o Owen fechou o bar. Aquele traidor.
— Pode tentar disfarçar, mas não pode negar seus sentimentos. — Ele se aproximou um pouco mais, encarando-a profundamente. — Ontem, por exemplo, você atrapalhou duas vezes meu lance com a Mellie.
— Quem é Mellie? — Ela estava genuinamente confusa.
— A garota que estava comigo quando você arremessou sua bolsa em mim. Dormi sozinho por sua culpa.
— Poxa, ... eu tô tão chateada. — Forçou uma cara triste, fingindo que ia chorar. — Vou nem dormir essa noite de tanto remorso.
— Você é um gênio do mal. Está aí nessa estratégia de espantar todas as mulheres para me ter só para você.
— Não acredito! Você finalmente descobriu meu plano. — Deu um tapa no balcão teatralmente.
— É um plano diabólico. — Acusou com um sorriso. — Mas como eu tenho um coração muito bom, aceito ir para casa com você depois da luta.
— Você é tão generoso. — Deu uma risada irônica, empurrando-o levemente.
Os dois endireitaram a postura ao ouvir a voz de Archer.
— Mais uma rodada! — O homem pediu para a bartender e, então, se voltou para . — Como vai o trabalho?
— Não vou discutir trabalho com você. — Ela passou a se concentrar na cerveja.
— Soube que tem viagem marcada para essa semana... — aproximou-se um pouco e viu a mulher franzir o cenho.
— Está me espionando?
— Talvez. — Deu de ombros. — Sabe... eu realmente preciso de um novo piloto. E adoraria ter você na Perseus.
— Não vai rolar.
— Eu sei, prefere ser sua própria chefe e tudo mais. Mas acho que devia vir até a Perseus hoje à noite.
Ela ergueu uma sobrancelha, já sentindo a impaciência preencher seu ser.
— Nós dois vamos viajar essa semana. A gente podia dar uma festinha de despedida... você pode me chamar de capitão a noite toda. — Archer tentou levar a mão até o rosto dela para, então, acariciá-la, mas foi impedido.
segurou sua mão com força e a torceu.
— Muitas palavras me vêm à mente para me referir a você... — rosnou, afastando-o. — Capitão não é uma delas. Isso... — apontou para os dois. — Não vai acontecer. Melhor desistir logo.
— Um dia você se rende. — Murmurou, afastando-se.
deu um longo suspiro. Sua vontade era quebrar aquela garrafa na cabeça dele e depois lhe dar uma surra. Largar ele ali, agonizando no chão. Mas não fez isso. Archer já estava muito bêbado, não seria uma briga justa.
— Archer ficaria muito puto se soubesse da gente. — soltou após algum tempo de silêncio.
— Achei que ele já soubesse.
— Não. Claro que não. Por que achou isso?
— Porque você é meio tagarela. — Riu da obviedade de sua afirmação.
— Isso é muito ofensivo. Eu sou um cavalheiro. Não saio contando por aí quem passa pela minha cama.
— E você tem medo dele saber, porque aquele macho tem o ego mais gigante desse planeta e ia querer achar formas de te punir por ter conseguido o que ele não conseguiu.
— Isso também. — Concordou, vendo-a gargalhar. — Mas, sabe... Acho que nós dois é que merecemos uma festinha de despedida.
— A garota de tanga dourada está doida para fazer essa festinha com você. — Apontou para uma mulher na plataforma a esquerda dele.
— Prefiro com você. — Disse sem nem olhar para onde ela apontava.
— Sério? — Seu tom misturava incredulidade e deboche. — E por que isso?
— Você é diferente. É a única que sempre me insulta de manhã... Ah! E algumas vezes durante o sexo. — Mordeu o lábio quando memórias o atingiam.
— A gente não precisa transar para eu te insultar. Posso fazer isso agora.
— Voto em você ir para o meu apartamento. Vou precisar de alguém para limpar meus ferimentos depois da luta. E também para fazer um carinho. — Disse, aproximando-se um pouco mais, falando ao pé do ouvido da mulher.
Sua voz rouca gerou alguns arrepios, mas ela apenas se afastou com um sorriso de escárnio.
— Tenho certeza de que o pronto-socorro vai estar tranquilo no horário...
! — Big Mike apareceu com uma expressão séria. — Precisa se preparar. — Fez sinal para o mecânico se apressar e saiu.
— Preciso ir, me deseje sorte. — Pediu, saltando da banqueta.
— Quebre uma perna... do Tucker. — Disse com um sorriso perverso.
retribuiu o sorriso e saiu apressadamente.
Novamente sozinha, continuou bebendo. Bebeu mais duas cervejas decidida a ficar ali o resto da noite. Antes que pudesse pedir mais uma, assustou-se com o som de aplausos e gritos. Virou para o palco e viu uma mulher estonteante, com longos cabelos pretos e uma coroa em chamas. Quando a música começou, ela passou a mover o quadril sensualmente. Em seguida, uma mulher loira apareceu carregando tochas acesas. A loira também começou a dançar. Entre os passos, ela parava de mover o corpo curvilíneo e fazia uma pose. Erguia as tochas até a boca e expelia fogo, levando os homens ali a loucura.
O barulho se tornou ensurdecedor. O tumulto somado a visões do fogo aumentando trouxeram de volta lembranças que tentava enterrar. Sua mente girou. Precisava sair daquele lugar quente e abafado.
Com passos trôpegos, correu até a saída do clube. Acabou esbarrando em uma mesa e derrubando bebidas. Mas nem mesmo olhou para o estrago. Foi até as escadas e as subiu com dificuldade. Ofegante, alcançou a chapelaria, recolhendo seus pertences rapidamente e se apressando porta afora.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Outra fanfic:
Coisas Frágeis (Restritas - Originais/Em Andamento)

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