Ecos e Silêncio

Última atualização: 15/02/2024

Capítulo I.
Pesadelos.

Após dois anos na frota, já havia se acostumado com grande parte das dificuldades e encargos da vida de um soldado da infantaria móvel. Péssimos alojamentos, pesados treinamentos, superiores cretinos e uma ração que parecia lavagem. Conseguia lidar com tudo isso. A única coisa que nunca aceitaria, era ter que tomar banhos frios após um longo dia de treinamento. Então, todas as noites era mesma rotina: um longo tempo gasto tentando regular o chuveiro para conseguir um bom banho quente.
Girava o registro lentamente, tentando encontrar a posição exata que lhe traria água quente. Com o corpo nu envolto em uma toalha branca, sentia cada pelo de seu corpo arrepiado naquela noite fria.
Desviou a atenção do chuveiro ao ouvir passos e virou, deparando-se com um homem alto com uma toalha na cintura e uma expressão confusa. O homem coçou a cabeça e baixou o olhar, e ela teve que se segurar para não gargalhar.
— Me desculpe. — Gaguejou constrangido. — Sou novo aqui. — Justificou, querendo sumir dali.
— Não está no lugar errado. — Riu do constrangimento dele e voltou a atenção ao chuveiro. — Essa é a única área de banho dessa ala.
— Chuveiros comuns? Ok! — Ele ainda estava visivelmente desconcertado. Não seria nenhum sacrifício passar por banhos comuns. Mas era estranho, não estava acostumado àquela situação.
Continuava parado no mesmo local, observando a mulher ainda tentando regular a temperatura. Quando finalmente conseguiu, ela deu um gritinho de felicidade e o local logo foi preenchido pelo vapor.
— Então... eu volto mais tarde.
— Vai ter que se acostumar com isso, se decidir ficar. — desfez o coque que prendia seus cabelos. — Me ver nua é parte do trabalho. — Ela largou a toalha em um gancho e entrou debaixo da ducha ciente que ele a seguia com o olhar. — Vai ficar parado aí? — Questionou de olhos fechados, após algum tempo sentindo a água escorrer por seus cabelos.
Ele encarou o chão ao se dar conta que a encarava descaradamente.
— Pode tomar banho, prometo que não vou ficar espiando. — Lançou um sorriso para o homem, que ainda não havia se movido.
Após alguns segundos de hesitação, ele jogou a toalha no gancho, entrou debaixo do chuveiro e girou o registro. Gritou um palavrão ao sentir a água gelada.
— Conseguir banhos quentes é uma arte. — Ela comentou entre risadas. — Sou . E você é?
. — Ele estendeu a mão, mas logo recolheu completamente desajeitado.
Passou a tentar regular a temperatura do chuveiro. o observou por alguns instantes, antes de voltar a atenção à água quente.
— Prazer te conhecer, .
não. ! — Corrigiu, fazendo a mulher rir.
fechou os olhos, concentrando-se na pressão da água em sua pele. Aquele era o momento mais relaxante de seu dia. Ficava ali por um bom tempo, deixando a água retirar a sujeira, o suor e o cansaço. A água quente também tinha o poder milagroso de levar embora toda tensão e preocupações.
Ficou um tempo de olhos fechados, aproveitando seu mini spa, mas para sua insatisfação, sua bolha foi rompida. Abriu os olhos assustada diante do som de um estridente alarme. Virou-se, procurando , mas não o encontrou, estava sozinha na imensa área de chuveiros. Um frio desceu por sua espinha. Os azulejos brancos passaram a refletir uma luz vermelha e um grito foi ouvido.
Correu em direção à toalha, mas foi impedida por alguém segurando seu braço. Deparou-se com , que tinha um profundo ferimento no abdômen.
— O que houve? — Sentiu o desespero preencher seu interior. O medo de perdê-lo fazia seu coração doer. — Precisamos chegar à enfermaria! — Analisou o machucado com cuidado, tentando controlar o pânico.
— Não. — Ele levou as mãos até as bochechas dela. — É tarde demais. Tarde demais para mim e tarde demais para Betty. — Terminou com a voz falhando.
— O quê? Cadê ela, ? Cadê a minha irmã? — Sua aflição aumentou. O ar faltou e o chão parecia girar.
Desesperou-se com todas as possibilidades nefastas que passaram a rondar sua mente.
— Eu sinto muito. É tudo minha culpa. — Ele passou a apertar o rosto dela com força.
— Do que... — foi interrompida por gritos, que imediatamente foram reconhecidos.
Tentou se soltar de , mas não conseguiu. As mãos dele pareciam estar grudadas ao seu rosto. Os gritos aumentaram e se tornaram mais desesperadores. Então, como num passe de mágica, o vapor que os cercava transformou-se em chamas. finalmente se soltou de e correu.
O calor e as chamas a confundiam. Não conseguia distinguir de onde vinham os gritos. Fechou os olhos por um instante, esforçando-se em puxar o ar, primeiro pela boca, depois pelo nariz. Inalou fumaça, tossindo compulsivamente.
Ao abrir os olhos lacrimejantes, finalmente avistou a irmã: Betty estava a poucos metros dela, encurralada por labaredas fortes e brilhantes.
Precisava tirá-la dali.
Correu, atravessando o fogo, e foi em direção à irmã, mas antes que pudesse alcançá-la, seu corpo acertou uma parede de vidro. Tateou o vidro quente, pensando em formas de quebrá-lo. Olhou em volta, mas só conseguia ver mais chamas e fumaça. Parecia que estavam dentro de um forno gigante, onde o fogo queimava tudo que tocava, derretendo até as cinzas.
O som do fogo consumindo aquela sala era ensurdecedor, mas não o suficiente para abafar os gritos de Betty. passou a esmurrar o vidro diante da cena horrenda da irmã sendo alcançada pelo fogo. Uma onda de choque e angústia a atingiu.
Após alguns socos, suas mãos esquentaram e a dor se tornou insuportável. Mas ela não parava, precisava derrubar aquela parede!
Finalmente parou o movimento ao perceber que suas mãos trêmulas estavam em chamas. Gritou horrorizada e ao olhar para o chão, viu uma enorme mancha de sangue se formando.
Tentando ignorar a dor, passou a empenhar mais força nos socos. O barulho aumentou. Podia ouvir o concreto cedendo. Girou a cabeça fitando a sala a ponto de desabar. Ao voltar a encarar a parede de vidro, paralisou diante do corpo da irmã já consumido pelo fogo. Um profundo urro de dor e agonia saiu de seus lábios.

acordou gritando. Sentada na cama, ela passou a inspirar profundamente, tentando acalmar o ritmo de sua respiração. Olhou em volta confusa e tentando se localizar. O sonho pareceu tão real. Algumas memórias misturadas a fabricações de seu inconsciente, recheadas por sensações tão reais e dolorosas.
Olhou para baixo, encarando as cicatrizes nas mãos trêmulas. Cerrou os punhos com força. Era como se ainda pudesse sentir a dor gerada pelo fogo.
Assustou-se quando uma mão gelada tocou a base de suas costas, trazendo-a de volta para a realidade.
— Pesadelos? — O homem tinha a voz abafada pelo travesseiro.
— É. — se agitou ao sentir acariciando suas costas.
Os dedos dele contornavam a imensa tatuagem que cobria parte do tronco da mulher. O desenho de galhos e flores começava na base das costas e subia, espalhando-se pelo lado direito de sua barriga, terminando logo abaixo de seus seios. Incomodada, ela se mexeu na cama, colocando os pés firmes no chão. Buscou as luvas na mesa de cabeceira, calçando-se em seguida. Sentia-se totalmente exposta sem elas. Era como se já fizessem parte de si.
Apoiou os cotovelos nos joelhos e levou as pontas dos dedos às têmporas, massageando a região por alguns instantes. Como de costume, sua cabeça parecia que ia explodir.
— Se quiser, posso conseguir algo para te ajudar a dormir melhor. — Ele virou, apoiando-se nos antebraços. — Consigo umas paradas tão fortes que vão te derrubar.
— Nem pensar. Um vício já é suficiente para eu administrar. — Afastou-se, saltando da cama.
Catou a calça jeans jogada em uma cadeira e a vestiu rapidamente, rastreando o resto de suas roupas no chão do quarto bagunçado.
— Fica. Podemos nos divertir mais um pouco. — O homem sentou na cama, observando cada movimento da mulher.
— Tenho muita coisa para fazer. — Ela ainda buscava o restante de suas roupas.
— Tem que cuidar do seu bebê? — Debochou e imediatamente um sapato voou em sua direção. — Ai! Você precisa controlar essa sua raiva. — Massageou a testa, já imaginando o galo vermelho que se formaria ali.
— E você precisa limpar o seu quarto.
— Ok, mamãe.
— Cadê a porra do meu sutiã? — Berrou impaciente, espalhando uma pilha de roupas no chão.
Diante do tom de voz da mulher, revistou a mesa de cabeceira e debaixo da cama. Encontrou a peça presa ao estrado. Cuidadosamente retirou o objeto de renda dali e arremessou para . Ela encarou o sutiã por alguns instantes e então deu um longo suspiro.
— Isso não é meu. — Ela apertou os lábios, esforçando-se em conter uma risada.
— É claro que é.
— Tenho cara de quem usa qualquer coisa rosa com florezinhas? — Indagou, arremessando de volta para ele.
analisou o sutiã por alguns instantes e começou a rir.
Oops... — jogou o sutiã embaixo da cama.
Aquilo definitivamente não era de , nem era o tamanho certo. Sorriu ao se dar conta de que não fazia ideia de quem era a dona. Era alta a rotatividade naquele pequeno apartamento. As habilidades de não eram restritas a mecânica e muitas mulheres sabiam disso.
— Ainda preciso do meu sutiã.
— Para quê? Você está ótima assim. — Mordiscou a boca, analisando a mulher e recebeu um dedo do meio em resposta.
Sentindo os olhos dela queimando sobre si, sacudiu os lençóis e depois os travesseiros, finalmente encontrando o que ela procurava. Estendeu a mão vitorioso, mostrando o objeto, mas não fez sinal que jogaria para ela.
— Me dá logo isso!
— Eu acho que prefiro que você venha buscar. — Esboçou um sorriso safado, apertando a peça entre os dedos, ação que fez a mulher bufar.
— Se eu for aí, vou quebrar seu nariz... de novo. Que tal isso?
— Sempre tão brava. — Arremessou o sutiã contrariado, ciente de que ela cumpriria a ameaça se não o fizesse.
Observou atentamente ela colocar a peça e passeou os olhos por aquele corpo que ocupara a sua cama na noite anterior. Seu olhar focou no pequeno objeto metálico pendurado no pescoço dela.
— Por que ainda usa isso? — Apontou para placa de identificação.
— Sem perguntas. Esse é o trato. — Ela vestiu a blusa e o casaco escondendo a placa.
— Ok. Eu curto a vibe de mulher misteriosa e cheia de segredos. É sexy.
rolou os olhos, sentando-se em uma cadeira para calçar as meias e botas.
— Ainda acho que devia voltar para cama.
— Tenho muitos motivos para não fazer isso. O primeiro é que tenho muitos reparos para fazer. Meu plano era começar ontem à noite, mas te encontrei no bar e foi tudo pelo ralo. — Levantou, ajeitando a roupa amassada.
Cheirou a gola da blusa. Ali, uma mistura de álcool e perfume.
— Desculpe por ter atrapalhado seus planos de consertar a nave. — se livrou dos lençóis e caminhou em direção à mulher completamente nu. — Sinto muito por ter te dado uma noite espetacular. Isso é tão trágico. — Forçou uma expressão dramática, posicionando-se a poucos centímetros dela.
— É surpreendente como você consegue fazer eu me arrepender de vir para cá tão rapidamente. — Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, sustentando o olhar dele.
— Sinto te informar, , mas você me quer. O tempo todo. E está pensando agora em como não quer sair daqui. — Levou a mão direita até o pescoço, agora desnudo dela, e com o polegar delineou sua boca, enquanto mordiscava o próprio lábio.
Ela o encarou por mais alguns instantes e então desviou o olhar rindo.
— Tão narcisista. — Afastou-o e foi até a porta.
— Ei, nós devíamos nos encontrar mais vezes.
— Sinto te informar, mas isso não vai ser possível.
— Por que não? — Juntou as sobrancelhas, confuso.
— A minha sanidade voltou. — Ela abriu a porta do quarto e imediatamente um gato preto com grandes olhos verdes entrou. — Bom dia, Otis. — Fez um rápido carinho no animal e então voltou sua atenção para . — Você vai ter que se contentar com as memórias. — Soprou um beijo e saiu.

O amplo hangar, que abrigava o veículo e moradia de , estava preenchido pelo barulho de uma máquina de solda. Ela tentava se concentrar na tarefa de reparar a porta do setor de carga, mas seu pensamento estava distante. Ainda estava um tanto agitada pelos pesadelos que a assombraram.
Começou com uma memória, que por muito tempo, havia sido uma de suas favoritas. O momento em que conhecera , tímido e desconcertado, recém-chegado à academia militar. Mas logo o horror tomou conta: ele machucado, algo que aconteceu logo no terceiro ano de treinamento no planeta Nanthar. E, então, sua mente produzira vívidas imagens e sensações do fogo consumindo o prédio onde a irmã estava. Na realidade, ela não havia presenciado o momento em que as chamas alcançaram Betty — a irmã morreu antes que ela pudesse alcançá-la. Ainda tentou invadir o prédio, as queimaduras em seu corpo eram a prova disso, mas havia sido arrancada de lá pelos bombeiros.
Relembrar aquilo tudo era muito doloroso.
Apesar de se esforçar em não pensar naquelas memórias, em algumas noites seu inconsciente trazia imagens do fatídico dia dos atentados à New Charon.
As lembranças de foram interrompidas por um som agudo. Um pique de energia a deixou no escuro. Largou a máquina no chão e levantou a máscara, encarando apenas a escuridão.
— Betty! Isso não é engraçado! — Gritou impaciente para o nada.
Logo a luz voltou e sua irmã surgiu ao seu lado.
— Precisa parar de tentar me assustar.
— Desculpa... é que isso nunca deixa de ser divertido. — Betty encolheu os ombros.
— Onde estava?
— Fazendo umas merdas de poltergeist, assustando pessoas do outro lado da cidade. — Estalou os dedos algumas vezes, fazendo a luz piscar. — Estou melhor nisso. — Deu uma piscadela.
— Não anda possuindo ninguém, né?
— É claro que não. Te prometi que não faria isso. — Mentiu descaradamente, forçando uma cara inocente.
— Acho bom mesmo. Você disse que seus dias de dominadora de corpos haviam acabado.
— Cadê todo mundo? Cash não devia estar te ajudando? — Mudou de assunto rapidamente. Não era boa em sustentar mentiras.
Concentrou-se por um instante, tornando o corpo tangível e se sentou em uma caixa.
— Não sei. Cheguei e não encontrei ninguém.
— Chegou de onde? Onde passou a noite, mocinha? — Indagou curiosa, analisando a irmã.
— Eu estava... trabalhando. — gaguejou e Betty estreitou os olhos.
— Você estava com o .
— Talvez. — Disse entre os dentes, já aguardando a reação da irmã.
— Puta merda, ! — Gritou gesticulando exageradamente. — Precisa fazer melhores escolhas de vida. Ele é meio babaca.
— Um babaca gostoso. — Deu um sorriso de lado e viu Betty colocar a língua para fora, fazendo uma cara de nojo.
— Mas ainda assim um babaca.
— Só estamos nos divertindo. Relaxa.
— Ele é um criminoso, mercenário, contrabandista... — ela ia enumerando nos dedos, mas foi interrompida por uma gargalhada sonora.
— E daí? Eu também sou. A diferença é que aqui eu sou a chefe do crime. Já ele tem que obedecer às ordens do Archer. — Retrucou rindo e viu a luz piscar. — Vai acabar ferrando todo o sistema elétrico daqui. Pare de brincar com as luzes!
Betty se levantou, preparando-se para um longo discurso anti- e para defender seu direito de ferrar com o sistema elétrico o quanto quisesse. Mas foi interrompida pelo zunido irritante da campainha.
Caminhou até o pequeno painel perto da entrada da nave e ligou o monitor.
— Conhece esse cara?
Na entrada do hangar, estava um homem alto, que aparentava ter no mínimo quarenta anos. Ele parecia impaciente, olhando para o relógio e sustentando uma expressão carrancuda.
— Não. — se aproximou, analisando a figura mal-humorada. — Está bem vestido. Deve ser cliente. Vou atender e você desapareça.
— Por quê? — O tom de voz indignado combinava com sua expressão exagerada e teatral.
— Não vamos te expor sem necessidade. — Explicou, já caminhando em direção à entrada do hangar.
— Por quê? — Betty repetiu, cerrando os punhos e batendo um pé no chão. Um gestual de pirraça que ela repetia desde a infância. — Eu já ‘tô morta. Isso não devia ser preocupação. — Apontou para o próprio corpo, que se tornou quase completamente transparente.
parou e virou para a irmã, após dar um longo suspiro.
— Bess... você ainda está aqui. E isso significa que eu vou te proteger. — Mudou o tom de voz, esforçando-se em passar calma e ternura. — Dependendo do tipo de trabalho, você vai participar, como sempre. Mas não vou te expor a estranhos sem necessidade.
Betty assentiu e desapareceu completamente. então se apressou em direção à porta.
— Estou procurando o senhor . — O homem falou com uma voz grave, assim que a porta foi aberta.
— O senhor é?
— Don Cooper. Me falaram que encontraria o senhor aqui. — Ele se esforçava em ver o que estava dentro do hangar.
— Se está procurando pelo piloto da Guinevere, sou eu. . — Apontou os polegares para si, exibindo uma expressão convencida.
— Guinevere? Como nas lendas arturianas? — O rosto do homem se contorceu em surpresa e admiração.
— Exato.
— É raro ver gente, especialmente da sua idade, interessada em literatura antiga da Terra. É bom saber que existem pessoas cultas nesse planeta. — O tom elitista dele irritou .
Claramente ele era de um dos planetas centrais e sabe se lá por que estava ali, na periferia daquela galáxia, em um pequeno planeta mal terraformado, habitado por desajustados, marginais e criminosos.
— Do que precisa, senhor Cooper?
— Meu chefe precisa de transporte. — Diante daquelas palavras, ela finalmente deu espaço para ele entrar.
Caminhou em direção à nave, imediatamente sendo seguida.
— Ouvi muito a seu respeito. Muitos elogios, a maioria afirmando sua eficiência e discrição.
— Grande parte do mérito é da Gwen. — Bateu na lataria da pequena nave de transporte.
— É uma bela nave. — Diante do elogio, exibiu um largo sorriso.
Aquela nave era seu sustento e orgulho.
— Seu chefe precisa de transporte para onde?
— Ele gostaria de tratar do assunto pessoalmente. Poderia encontrá-lo hoje para debater os detalhes? — Cooper colocou as mãos nos bolsos.
Estava com os olhos em , mas atento e intrigado com a sensação de que não eram os únicos presentes naquele galpão.
— Claro.
— Às vinte e três horas, no The Sin. — Tirou um cartão do bolso e estendeu para a mulher.
— Ok. Estarei lá.
Assim que Cooper saiu e a porta se fechou, Betty se materializou ao lado de , que deu um pulo.
— O que falei sobre me assustar? — Rosnou para a irmã, que apenas deu de ombros.
— Não fui com a cara dele.
— Merda. Odeio o The Sin. — Resmungou após encarar o cartão por alguns segundos, ignorando o comentário da irmã.
Não era novidade nenhuma Betty não ir com a cara dos clientes. Ela reclamava de ser super protetora, mas as duas eram farinha do mesmo saco.
— Você está puta é porque vai ter que se arrumar. Tire a poeira do vestido vermelho... hoje é dia de femme fatale! — Sorriu animada e recebeu um dedo do meio em resposta.

•••

estava impaciente. Recostada a uma parede de metal enferrujado, ela encarava o relógio de dez em dez segundos. Sentia-se desconfortável naquele vestido vermelho e os olhares que a população masculina lhe lançava, estavam enfezando-a a ponto de imaginar vividamente cenas em que furava os olhos de todos eles com o palito que segurava seus cabelos em um coque.
Um homem se aproximou e ela então imitou o som de um javali, enquanto contorcia o rosto em uma careta — isso foi suficiente para ele se afastar.
Ainda rindo da expressão assustada do homem, tirou um cantil que carregava na pequena bolsa e deu algumas goladas. Cuspiu toda a bebida ao ver Cash surgir entre as pessoas que passavam naquela rua mal iluminada.
— Mas que porra.... o que você está fazendo aqui? — Aproximou-se do homem, após enfiar o cantil na bolsa.
— Vim encontrar o cliente.
— Por quê? Cadê o Ray? Ele que devia me encontrar. — A cada frase, elevava o volume da voz. Já se imaginava torcendo o pescoço de Ray.
— Ele está preso em compromissos matrimoniais. — Cash elevou as sobrancelhas repetidas vezes, dando um sorriso safado no final.
— E mandou você vir no lugar?
— Sim. Algum problema?
— Vários.
— Por quê? Por que sempre tem que ser assim? Você e o Ray são a cara das missões e eu um pobre mecânico relegado à escuridão e ao esquecimento. — Ele exagerava na emoção, tentando fazer drama.
Ação que aumentou a irritação de .
— A questão é que o Ray é grande, intimidador e o mais importante: ele não é mentalmente instável.
— Mentalmente... eu não sou mentalmente estável? — Falou indignado, elevando o tom de voz e enfiando a mão no bolso da jaqueta.
De lá, tirou uma meia verde limão com olhinhos de plástico costurados e a colocou na mão direita.
— Está ouvindo esse absurdo, senhor Bubbles? — Gritou com o fantoche de meia, exagerando nas expressões e mudando a voz. — Diz para ela que eu sou totalmente são. — Virou a mão na direção de , que o fuzilava com os olhos.
— Que merda isso está fazendo aqui? — Arrancou a meia dele e jogou no chão.
— Isso é uma meia, as pessoas costumam usar. — Deu de ombros, dando passos para trás, aproximando-se de onde estava o objeto.
— Não na mão como um fantoche.
— Não chame ele assim. O senhor Bubbles vai ficar chateado.
— Cash... — rosnou após um longo suspiro. — Precisamos desse trabalho. Precisamos de dinheiro. Se arruinar hoje, eu vou quebrar as suas duas mãos de forma permanente, de um jeito que eu nunca mais vou ver o senhor Bubbles. — As veias saltadas no pescoço dela diziam que estava falando muito sério.
— Mas você precisa das minhas mãos. Eu sou seu mecânico. Essas mãos mantem a Guinevere no ar. — Argumentou, erguendo os braços.
— Posso contratar outro.
— Mas...
— Mas nada. Nada de fantoches, nada de piadas ou histórias mirabolantes, nada de agredir garçons, nada de esfaquear móveis... — ia enumerando, relembrando incidentes anteriores. — E nada de assustar o cliente. — Finalizou ameaçadora.
— Você podia ter simplificado e dito sem diversão. Já me arrependi de ter vindo. — Fez uma careta, botando as mãos na cintura. — Brincadeira. A noite é uma criança. — A careta se transformou em uma expressão bizarra, com olhos arregalados e um sorriso maníaco.
— Você vai se comportar. Estamos entendidos? — abriu um pouco a fenda do vestido, mostrando a faca presa em sua coxa.
— Sim, senhora. — Fez uma debochada saudação militar. — Também vim preparado. — Virou de costas, mostrando duas facas presas ao cós da calça e mais uma presa ao sapato. — Posso pegar o senhor Bubbles?
— Não! Te devolvo quando voltarmos para casa. — Catou a meia do chão e enfiou na bolsa.
— Amei o vestido. — Uma mulher com longos cabelos pretos se intrometeu, aproximando-se. — Mas devia tirar as luvas... elas estão arruinando seu visual.
— Você está certa. Vou ter que correr em casa para trocar de vestido. Ó, céus, por que me fizeram tão descuidada com a moda? — começou, forçando uma voz aguda, encarando as luvas pretas. — Foda-se. — Cerrou os punhos de forma ameaçadora. — Vá importunar outro, antes que eu tinja esse seu vestido de vermelho do sangue, que vai sair quando eu quebrar seu nariz. — Vociferou, dando passos firmes em direção à mulher, que saiu apressada e assustada.
— E você está preocupada com o meu comportamento na frente do cliente? — Cash riu debochado, recebendo um soco no braço.



Capítulo II.
Senhor Z.

Dentro da The Sin, imediatamente teve seus sentidos sobrecarregados. O barulho era ensurdecedor. A música era repetitiva e tão alta, que ela sentia vibrando em seus ossos. Dúzias de perfumes se misturavam ao fedor de cigarros e charutos. Luzes vermelhas e rosadas piscavam repetidamente, iluminando o gigantesco local.
O clube tinha três andares: o térreo, com mesas espelhadas e estofados de couro espalhados, uma pista de dança e o balcão do bar. Em alguns pontos, mulheres dançavam em barras verticais. Havia também garçonetes seminuas servindo bebidas e drogas. No segundo andar, mais mulheres dançando em gaiolas de luzes e servindo as diversas mesas, cadeiras e sofás. De lá, era possível ter uma visão privilegiada do que acontecia no térreo. No terceiro andar, estavam as áreas reservadas. Ali, pequenas saletas com estofados de veludo vermelho tão espaçosos quanto uma cama de casal. Havia também mesas de vidro nas salas. Além de usadas para sexo, eram locais para transações e reuniões de negócios.
odiava aquele clube com todas as suas forças. Só ia até lá quando era necessário encontrar possíveis clientes. Já Cash, parecia criança em loja de doce, trocando olhares e tentando puxar uma conversa com qualquer mulher que cruzava o seu caminho.
— Eu preciso sair mais. — Cash murmurou, caminhando até uma ruiva que demonstrava toda sua força e flexibilidade em uma barra vertical.
Ele começou a dançar no ritmo da música, fazendo caretas que julgava sensuais, mantendo os olhos fixos na mulher. O momento foi interrompido quando um soco acertou seu braço direito.
— Mas que cara... — engoliu o palavrão, ao se deparar com o encarando impaciente.
— Trabalho primeiro.
— Ok, chefinha. — Seguiu a mulher, sentindo-se um pouco contrariado.
Viu ela pegar dois copos de uma bandeja e beber rapidamente.
— Trabalho primeiro. — Repetiu a frase dela.
— Trabalho melhor depois de ingerir meu combustível. — Rebateu, remexendo na bolsa. De lá, tirou o cartão que Don Cooper havia entregado mais cedo e mostrou para o segurança que ficava em frente à escada.
— Senhor Cooper está te esperando no camarote cinco.
O grandalhão mal encarado abriu caminho para , mas impediu a passagem de Cash.
— A senhorita é a única autorizada a passar.
O mecânico abriu a boca para reclamar, mas nem teve a oportunidade.
— Tudo bem. Ele tem coisas melhores para fazer aqui embaixo. — fez sinal para o colega circular e subiu as escadas.
Do segundo andar, analisou o térreo por um instante e então foi até o segundo lance de escadas. Ali, novamente precisou mostrar o cartão para um outro segurança. Alcançou o camarote cinco e deu duas batidas na porta.
— Seja bem vinda, senhora . — Cooper abriu a porta, expressando uma simpatia que gerou estranhamento.
entrou um tanto desconfiada. Deparou-se com um homem de cabelos castanhos compridos, que não aparentava ter mais de trinta, mas que se vestia como um idoso. De camisa social e um suéter xadrez escondendo o corpo magro, ele abriu um largo sorriso.
— Esse é meu empregador... — Cooper começou a apresentação, mas foi interrompido.
— Moses Zimmerman, prazer em conhecê-la. — O homem de xadrez se aproximou, estendendo a mão.
apenas riu.
— É sério isso? Tinha que escolher um nome falso e escolheu Moses Zimmerman?
O rosto do homem ficou branco por um instante, mas ele logo tentou disfarçar.
— Esse é meu nome verdadeiro. Por que eu esconderia meu nome? Isso não faz sentido nenhum. Eu não... — ele falava rapidamente, embolando as palavras.
— Seus olhos te entregaram. Está mentindo. Acabou de inventar o nome. E claramente não é o que tinha combinado com o grandão, porque ele fez uma singela expressão de desaprovação quando ouviu. — Ela ria da agitação do homem, que diante das acusações, começou a gaguejar.
Eu... eu... não...
— Ele é um bom mentiroso, mas não consegue esconder o desapontamento com você. — apontou para Cooper, sem disfarçar o deboche em sua voz.
— Senhora , o nome dele é Moses Zimmerman e é tudo que precisa saber. — Cooper se intrometeu, impaciente com o rumo que a conversa havia tomado.
— Tudo bem. Do que precisa, senhor Z?
Os homens se sentaram no sofá do lado direito da sala e Cooper fez sinal para que também se sentasse.
— Nem pensar, não estou a fim de pegar doenças.
O tal Zimmerman pulou do sofá imediatamente.
— Aqui tinha que ter luz negra para vocês terem noção da quantidade de fluídos nesses camarotes.
— Senhora ... — Cooper se pronunciou diante da inercia de seu patrão, que havia ficado agitado com os comentários sobre o sofá.
— Pode me chamar de .
. Precisamos da sua ajuda para um trabalho muito importante. E terá um pagamento adequado.
— Que tipo de trabalho?
— Do tipo importante e que precisa de discrição. — O homem a analisava atentamente.
Ao contrário do tal Zimmerman, Cooper aparentava segurança e mantinha uma postura inabalável.
— Sabe, estive pesquisando você. Estranhamente só consigo achar informações até cinco anos atrás.
— Isso é porque sou boa no que faço e me mantenho fora do radar.
— Você esteve no exército por quatro anos. O que aconteceu? Era uma pilota elogiada.
— Ainda sou uma pilota elogiada. — Rebateu impaciente, cruzando os braços. — E não acho que meu passado seja relevante.
— Você mudou para esse planeta há alguns anos. Por quê? — Cooper examinava cada gesto e expressão de . Queria descobrir tudo que ela escondia.
— Novamente não acho que isso seja relevante. Olha, não vim aqui para bater papo sobre o passado. Vim aqui por uma proposta de trabalho, então se ela não estiver mais de pé, eu prefiro ir embora desse clube infernal. — Rosnou e então se virou para ir em direção à porta.
— Espera. — Zimmerman se pronunciou, agitado. — Cooper só está sendo cuidadoso. É parte do trabalho dele. Mas você está aqui, porque é boa no que faz. E eu quero te contratar.
— Qual é o trabalho?
— Eu preciso... recuperar algo. — O homem parecia escolher as palavras cuidadosamente, gerando mais desconfiança em .
— Ok. Qual o tamanho do objeto?
— Um pouco mais alta que você. — Disse Zimmerman, dando um risinho nervoso.
— Uma pessoa? Isso é um sequestro? — A voz de endureceu.
Após três anos trabalhando do outro lado da lei, ela ainda se mantinha firme na posição de que não havia dinheiro no mundo que comprasse sua paz de espírito. Muitos contrabandistas haviam enriquecido aceitando todo tipo de trabalho moralmente questionável. não estava entre eles. Vivia uma vida modesta, porque escolhia seus clientes. Saques, contrabando e ações que prejudicassem o governo e grandes corporações estavam entre suas atividades favoritas. Mas sequestros e qualquer coisa que machucasse pessoas inocentes, era uma linha que ela não cruzava.
— Não. De jeito nenhum. — Seu rosto mostrava todo seu desespero.
— Não faço sequestros. Só capturo pessoas se forem procurados pela lei.
— Não é um sequestro. É um resgate. — Cooper se intrometeu.
Colocou a mão esquerda sobre o ombro de Zimmerman, tentando acalmá-lo.
— Ok. Ela está na prisão? Hospital psiquiátrico? — sentiu uma pontada ao mencionar aquelas palavras. Lembranças que ela queria enterrar passaram rapidamente por sua mente.
— Laboratório.
— Onde?
— Na galáxia Tneera. Só posso te dar o local exato quando estivermos na nave. — Zimmerman apertava e mexia as mãos repetidamente, demonstrando todo seu nervosismo.
— Posso trabalhar assim. Mas se chegarmos lá e ela não quiser vir com a gente, o trato está desfeito. Como eu disse, não faço sequestros. E o pagamento? — Diante da resposta de , Zimmerman deu um profundo suspiro de alívio.
Entregou um pequeno dispositivo para a mulher. No visor, o valor oferecido pelo trabalho.
— Quando partimos? — Indagou com um sorriso ao ver a quantidade de zeros.
— Fique preparada. Entraremos em contato.

desceu as escadas lentamente. Pensava na conversa que ocorreu minutos atrás e em como não confiava naqueles homens. Especialmente Cooper. Mas ela precisava daquele trabalho. Eram tempos difíceis. A fiscalização e policiamento nas rotas dos planetas centrais haviam aumentado. O que significava cargas apreendidas, prisões, trabalhos perdidos e contrabandistas tendo que ser mais cuidadosos. Além disso, havia grupos paramilitares e empresas de segurança privada em todo canto. Gigantes como a indústria farmacêutica, Cycorp Global haviam estendido seus tentáculos sobre as galáxias. E usavam grupos armados para isso. Além, é claro, de proverem todo tipo de produto consumido em todo canto. De remédios e órgãos sintéticos, a drogas recreativas e tecnologia. E destruir o contrabando era importante para manter os lucros nas alturas.
Outro motivo de aceitar o trabalho, era a possibilidade de aquilo realmente ser um resgate.
Ao chegar no primeiro piso, rastreou o local em busca de Cash, mas nem sinal dele. Decidiu então passar algum tempo em seu local favorito, a bancada do bar.
Atravessou o salão esbarrando em mulheres seminuas, que ofereciam todo tipo de drogas e bebidas. Teve que parar por um instante quando as luzes vermelhas passaram a piscar com mais intensidade. Lembrou do sonho. Das luzes vermelhas refletindo sobre os azulejos brancos. De repente, aquele local pareceu pequeno demais.
Sentiu o ar faltar e o corpo esquentar ao lembrar das chamas. Desequilibrou-se por um momento e teve que se apoiar a uma garçonete de cabelos loiros muito curtos.
— Você está bem? — A mulher perguntou, encarando-a com preocupação.
— Sim. Eu só preciso beber. — Massageou as têmporas e foi até o bar.
Fez sinal para o barman e abriu um largo sorriso quando um copo foi depositado na sua frente. Assim que deu o primeiro gole, cuspiu tudo de volta.
— Que merda açucarada é essa? — Rosnou para o homem, que apontou para um cara de camisa roxa do outro lado do bar.
revirou os olhos.
— Preciso limpar meu paladar. Me traz whiskey. Pode ser St. Barts, que é mais barato.
O barman recolheu o copo silenciosamente e limpou a bancada. Colocou um copo limpo na frente dela e começou a derramar o líquido.
— Deixe a garrafa. — Murmurou, sentando na banqueta.
O barman se afastou e se concentrou em sua bebida. Tentaria beber um pouco e relaxar. Infelizmente, incômodos não faltavam naquele local.
— Não gostou do drink?
Ela não precisou virar para saber que era o homem de camisa roxa ali, encarando-a.
— Não. — Rebateu, ainda com os olhos no copo.
— Nunca te vi por aqui. — O homem novamente tentou puxar conversa, ignorando todos os sinais de que ela não queria sua presença ali.
Ele escorou no balcão, aproximando-se dela.
— É porque eu odeio esse lugar.
— Você devia ser mais educada. Estou aqui e você nem ao menos me olha. — O tom de voz dele se tornou afetado.
já estava incomodada com a presença inoportuna, mas aquela frase a irritou ainda mais. Em um movimento rápido, catou uma faca do balcão e acertou entre os dedos da mão esquerda do homem. Ele deu um grito agudo e se afastou.
— Continue me incomodando e eu não vou errar. — Um sorriso macabro brotou em seu rosto, enquanto balançava a faca.
Imediatamente, viu o insuportável sumir entre as pessoas do clube. Entregou a faca para o barman e voltou a atenção à bebida.
Já mais relaxada, girou a banqueta e voltou os olhos para o ambiente que oscilava entre o vermelho e o rosa. A poucas mesas de distância notou , sentado em um sofá de couro e rindo sonoramente, enquanto uma mulher acariciava seu peito e sussurrava algo em seu ouvido. Desviou o olhar e viu ao longe Cash agarrado à um poste de metal e remexendo o corpo como uma cobra. Gargalhou, bebericando o whiskey. Ele parecia tentar ensinar novos movimentos para a ruiva.
O momento durou pouco, seguranças apareceram, tentando retirar o mecânico do local, mas ele abraçou o poste com todas as suas forças. pensou em intervir, mas desistiu, continuou sentada, assistindo Cash ser arrancado de lá e levado para fora do clube.
Assim que o tumulto acabou, levantou-se para seguir o amigo. Mas diante de seus olhos surgiu , com os cabelos curtos bagunçados e um sorriso de lado.
— Você está maravilhosa nesse vestido, mas... — ele começou, apoiando-se no balcão.
— Você prefere tirá-lo? — completou estreitando os olhos e se sentando novamente na banqueta. — Tão clichê.
— Mau humor + whiskey. Teve uma reunião ruim? — Ele se esticou e pegou um copo no balcão. E mesmo diante da careta dela, pegou a garrafa e derramou bebida em seu copo.
— Não vou falar de trabalho com você. É a concorrência. — Tomou a garrafa dele e encheu o próprio copo.
— Então é por isso que nunca me chamou para visitar a Guinevere? — Questionou, após beber um gole do whiskey. — Por que eu sou a concorrência?
— Não. Nunca te levei lá, porque tenho vergonha de você. — Disse com um sorriso debochado e viu ele encenar um punhal imaginário atingindo a própria barriga.
— Isso magoa meus sentimentos. — Forçou uma voz dramática.
— Eu sempre sou honesta.
— Sobre a Guinevere... — ele passou a mão pelos cabelos, flexionando os músculos durante o movimento. Ação que fez segurar uma risada. — Posso te ajudar a fazer os reparos.
— Nem pensar. Cash ia surtar.
— A nave é sua.
— Sim, mas ele é o mecânico. Isso significa que é o bebê dele.
— Isso é ridículo.
— Do que está falando? — Ela indagou, rindo. — Você é do mesmo jeito com a Perseus. Você até esculpiu uma miniatura dela.
— Como sabe disso? — franziu as sobrancelhas.
— Eu vi no seu quarto. Está logo na janela. Como em um santuário longe da bagunça.
— Ok. Mas como sabe que eu que fiz? — Ele coçou a nuca ainda confuso.
Eles mal conversavam sobre qualquer coisa. Não entendia como ela podia saber de um de seus hobbies favoritos.
— Porque tem ferramentas para todo lado no seu apartamento. — Ela tomou um gole da bebida. — Você é bom com madeira...
A expressão dele se tornou safada, fazendo revirar os olhos.
— Sou ainda melhor mecânico. — Deu um sorriso convencido. — Posso te ajudar.
— Eu já tenho mecânico.
— Seu mecânico é legalmente insano. Além disso, eu sou muito melhor que ele. — Argumentou, endireitando a postura.
— Ele está aqui, sabia? — Imediatamente percorreu os olhos pelo clube, mas tentou disfarçar.
— Não tenho medo do Cash. — Deu de ombros.
— Claro que tem. Qualquer pessoa com juízo tem medo do Cash. Ele é muito fã de facas... e de esfaquear coisas.
— Ok. Você não quer minha ajuda para consertar a nave. Mas aposto que quer minha companhia. — Ele se inclinou, aproximando-se um pouco mais.
— Não, obrigada.
— Ok. — Umedeceu os lábios, antes de continuar. — Vou aguardar a próxima vez que você se jogar nos meus braços.
— Isso nunca aconteceu. — Bateu no balcão, elevando o tom de voz e se sentindo um tanto ofendida.
— Já aconteceu seis vezes.
— Isso é tão triste. Você está contando? — Empurrou a peito dele, afastando-o. — Você está tão obcecado. Precisa de um terapeuta.
— Nós dois precisamos, senhora “eu me afogo no álcool para não lidar com meus problemas”. — Tomou a garrafa de whiskey, afastando dela.
— Mas esse é meu terapeuta... — pegou a garrafa de volta e a abraçou. — O nome dele é Bartholomew. Barato e eficiente.
— Quer dividir seu terapeuta? — Ele se aproximou novamente, ajeitando a alça do vestido dela e se aproveitando para tocar a pele fria.
— De jeito nenhum. — Colocou a garrafa no balcão e voltou o olhar para o próprio copo. — Sério. Preciso dormir sozinha hoje.
— É uma pena. — se afastou, mas parou no meio do caminho e virou, encarando-a com as mãos nos bolsos.
— O que está fazendo?
— Memorizando material para as minhas fantasias. Está certa, , estou obcecado e só as minhas memórias vão me acalentar até nosso próximo encontro. — Ele mordeu o lábio e viu ela segurar um sorriso.
— Vá embora logo ou eu vou ter que arremessar o Bartholomew em você. — Ameaçou com a garrafa em mãos.
então virou, afastando-se.
Decidida a ir atrás de Cash, se levantou e pegou a garrafa, mas antes que pudesse dar um passo, sentiu o corpo gelar quando um copo de chopp foi derramado em suas costas. Virou furiosa e preparada para trucidar o sujeito responsável.
— Eu sinto muito. Eu... eu... não foi de propósito. — O homem falava rápido e com pânico nos olhos. Claramente havia presenciado as ameaças de ou conhecia sua fama. — Eu devo ter tropeçado ou algo assim. Eu não queria... eu...
— Pague essa garrafa e estamos quites. — Exibiu a garrafa para ele, após um longo suspiro.
O homem pagou o barman e marchou em direção ao banheiro.
Tentando se limpar da melhor forma possível, ela amaldiçoava aquele clube. Aquele acontecimento seria mais um tópico na longa lista de motivos para odiar aquele lugar.
A porta do banheiro bateu, mas acreditando ser o vento, continuou concentrada em se secar. Ao encarar o espelho, tomou um susto ao ver o reflexo de Betty.
— Merda! O que você está fazendo aqui? — Gritou para a irmã, que a encarava com uma careta.
— Desculpa. — Ao analisar Betty, se deu conta que ela não se desculpava pelo susto.
— Isso é culpa sua? — Apontou para o próprio vestido encharcado.
— Sim, mas foi um acidente. — Explicou-se, forçando uma cara de inocente. — Eu te segui. Não confio no tal Cooper.
— Novidade... — revirou os olhos, voltando a se secar. — Nem eu confio, mas precisamos de dinheiro.
— Também não confio no .
— Espera... Você estava lá... ouvindo tudo? — A confusão de rapidamente virou irritação.
— Sim. E, meu Deus, você dá muita trela para ele. — Betty comentou e viu a irmã abrir a boca indignada. — Também te vi botar um cara para correr. E fiquei muito orgulhosa. — Deu um largo sorriso, fazendo sinal de joinha com as duas mãos.
— Não sabia que tinha uma stalker particular. — Arremessou uma bolinha de papel em Betty, que imediatamente ficou intangível.
— Eu não... — começou a se explicar, mas então sua expressão mudou.
— O que foi? — se preocupou.
Aquele olhar nunca significava boa coisa.
— Está ouvindo isso?
— Isso o quê?
— Tem alguém precisando de ajuda. No terceiro andar. — Agitada, Betty então tornou seu corpo invisível. A porta bateu em seguida.
seguiu a irmã porta afora, mas não a avistou em lugar nenhum. Apressou-se em direção às escadas. Parou por um instante, pensativa, e ao avistar , foi até ele.
— Segura para mim? — Jogou a bolsa em cima dele, atrapalhando o momento de chamego que ele compartilhava com uma mulher de azul.
Ele largou a mulher a encarando confuso.
— Cuida da minha bolsa. Se me roubar, eu vou saber e vou quebrar seu nariz. — Rosnou ameaçadora, vendo o homem apenas acenar com a cabeça.
Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ela correu até o segurança. Mentiu, dizendo que esqueceu a bolsa no camarote e teve sua entrada permitida. Ao alcançar o terceiro andar, olhou em volta, todas as portas estavam fechadas.
Betty ficou visível por um instante, apontando para o camarote oito. foi até lá e bateu na porta, mas não obteve resposta. Tentou girar a maçaneta e felizmente não estava trancada. Abriu com cuidado, tentando não fazer barulho.
Deparou-se com um homem enorme em cima da garçonete loira que havia esbarrado mais cedo. Ele pesava o corpo sobre o dela, tentando beijá-la, enquanto ela se desvencilhava, claramente desesperada, tentando afastá-lo.
assoviou, fazendo sua presença ser notada.
— Sai fora! Aqui está ocupado. — O homem abanou a mão, fazendo sinal para ela sair, mantendo o peso sobre a garçonete.
— Ela não está te curtindo nem um pouco. — comentou, agachando para ficar no campo de visão dele e viu a expressão do homem se tornar furiosa.
— Eu paguei, então eu não me importo se ela quer ou não. — Disse sem se mover.
— A questão é que... você não pode comprar consentimento.
— Vou me divertir com vocês duas. — O homem finalmente se levantou, libertando a garçonete.
Ela tentou engatinhar para longe, mas parou ao ouvir a voz dele.
— Se correr vai ser pior! — Gritou, cerrando os punhos de forma ameaçadora.
— Sabe... As duas coisas que eu mais amo no mundo são: um bom whiskey e espancar canalhas. E, felizmente, eu vou ter os dois hoje. Mas antes eu vou te dar uma amostra grátis de como é ter o corpo violado. — exibiu um sorriso de escárnio, dando um passo na direção do brutamontes. — Bess! — Chamou a irmã e então sentiu o ar ficar mais frio.
Viu a postura do homem mudar e enrijecer, enquanto seu olhar demonstrava completo desespero. Betty havia possuído seu corpo e claramente não era algo nada agradável. Estar consciente, mas sem controle de suas ações, era desesperador.
— Você está bem? — Ajudou a garçonete a levantar.
A mulher encarava seu algoz assustada.
— O que você fez com ele? — Ela tinha a voz trêmula.
— Não se preocupe com isso. Precisa sair daqui. Eu cuido dele.
A loira assentiu e correu porta afora.
— E então... o que acha da sensação? — voltou a atenção ao brutamontes. Estava satisfeita com a expressão desesperada estampada em seu rosto.
Encarou-o por alguns segundos, as veias saltadas em seu rosto, parecia fazer muita força para se libertar. Mas era impossível, Betty controlava seu corpo.
— Vá ver como ela está, Bess, eu cuido dele. — Imediatamente o ar novamente ficou gelado e o homem caiu de joelhos.
— O que fez comigo? — O homem ofegava, apoiou as mãos nas coxas, sentindo um cansaço como nunca sentiu na vida.
— Nada comparado ao que eu vou fazer agora. — Deu um sorriso sinistro, esperando uma reação. O que não demorou.
— Mexeu com o cara errado. — O brutamontes endireitou a postura e avançou cambaleante na direção dela.
desviou da fúria do homem e em um movimento rápido, segurou-o pelo braço, arremessando-o na mesa de vidro.
Ao encarar o homem desmaiado sobre a mesa estilhaçada, bufou, esperava uma briga mais longa. Não era de seu feitio agredir pessoas desacordadas. Mesmo se estas fossem gente do pior tipo. Então apenas largou o grandalhão desacordado e desceu as escadas apressadamente.
Passou por , novamente o atrapalhando, e catou a bolsa sem dizer uma palavra.
Já do lado de fora do clube, olhou em volta, mas não viu ninguém. A luz da rua piscou e então Betty surgiu do seu lado.
— Cadê ela? — Indagou para irmã, que oscilava entre ficar visível e invisível.
Possessões a enfraqueciam temporariamente.
— Não sei. Não consegui alcançá-la.
— Espero que esteja bem.
— O que aconteceu com você? — Uma voz saiu do lixo, assustando as mulheres.
— O que aconteceu com você? — Betty rebateu a pergunta ao identificar Cash caído entre sacos de plástico preto ao lado da lixeira.
— Aparentemente os seguranças daqui não são muito fãs de homens fazendo pole dance... — explicou, tentando se levantar, e Betty gargalhou. — Não seja má. Esse posto é da .
— Vamos embora, esquisitos. — se intrometeu, ajudando o amigo a levantar e o apoiando para que pudessem caminhar juntos. — Que merda! — Parou por um instante.
— O que foi?
— Esqueci o whiskey no banheiro. — Lamentou, voltando a caminhar.
— Por que você estava conversando com o ? — Disse Cash, após alguns passos. — Estava falando sério em me substituir? — Seu tom de voz estava genuinamente preocupado.
— Relaxa. Ele só estava flertando comigo.
— Até parece que ele tem chance. — Comentou com um risinho debochado.
segurou o próprio riso e lançou um olhar cúmplice para Betty, que deu uma gargalhada escandalosa.



Capítulo III.
O bando de desajustados.

Cash se arrastava nave adentro, ansiando por um bom banho e o conforto de sua cabine. Os minutos passados no lixo foram o suficiente para tornar sua presença capaz de empestear qualquer ambiente. Sentia-se como um gambá de desenho animado, como se exalasse uma nuvem fétida que se espalhava pelo ar.
Arrancou as botas e as largou no canto da saleta que ficava ao lado da enfermaria e subiu as escadas que o levariam ao deque superior com sua melhor cara de derrota. Passou por corredores decidido a ir direto para sua cabine e depois banheiro, mas ao ouvir o som de pancadas, desviou o caminho e foi até a área da cozinha.
Deparou-se com Ray, de avental e touca, na bancada, sovando uma massa e a esposa dele, Ruby, sentada à mesa no centro do cômodo limpando uma arma. Quando sua presença, e cheiro, foram notados, Cash deu um sorriso amarelo.
— Você está um lixo! — Disse Ruby com sua acidez usual.
— Obrigado. É lá mesmo que eu estava. — Cash fez uma pequena reverência desengonçada e viu a loira franzir o cenho, confusa.
— Nem pergunte. — Betty se materializou ao lado de Cash, fazendo-o pular de susto.
O mecânico colocou a mão no peito e foi até uma cadeira, mas antes que pudesse pensar em se sentar, ouviu o som da massa acertando a bancada com força.
— Nem pense em sentar aí. — Ray largou a massa e apontou o dedo de forma ameaçadora. — Eu limpei essa cozinha hoje.
— Por que está fazendo pão uma da manhã? — Cash se afastou da cadeira e apoiou a mão esquerda na parede, passando a encarar o amigo com curiosidade. — O que aconteceu? Você só cozinha de madrugada quando está preocupado ou muito puto.
— Está tudo bem, só quero comer pão fresco. — Ray deu um sorriso largo voltando a atenção à massa. — Está tudo na mais perfeita paz.
— Ray, eu vou te matar! — gritou, surgindo na cozinha com um olhar feroz.
— A culpa foi minha... — Ruby tentou explicar, mas foi imediatamente interrompida.
— Então vou matar os dois. — A piloto abriu a bolsa e arremessou a meia verde com olhos em Cash. — Mr. Bubbles foi à reunião.
— Cash, eu disse que não podia levar... — Ray balançou a cabeça expressando desapontamento.
— Por que você não foi? Você é meu brutamontes. — foi até a mesa e depositou a bolsa ali, sentando-se em seguida.
— Eu e Ruby tínhamos coisas a resolver.
— Eles estavam transando. — Betty comentou, fazendo gestos inapropriados.
— Caralho, Betty. — Ruby rosnou. — Você estava espiando a gente? Já falei que a minha cabine é espaço proibido. Vou ter que salgar essa nave inteira?
— Pode salgar. Sal não funciona. — Betty foi até a bancada, pegou um punhado de sal e jogou na barriga. — Viu? Essa história de que sal espanta fantasmas é mito. E eu não fui à sua cabine. Eu cheguei aqui, toda inocente, só de boas assombrando o local, e vi vocês dois mandando ver na cozinha. — Fez mais alguns gestos indecentes, desaparecendo em seguida.
Adorava plantar a discórdia e sumir.
— Aqui? Na cozinha? Por quê? Cadê as noções de higiene? — A cada frase, Cash aumentava o tom de voz e arregalava mais os olhos.
— A cozinha é meu templo. — Disse Ray com um sorriso, largando a massa para descansar e indo até a mesa, sentar-se ao lado da esposa. — Em todos os sentidos.
Nãoooo! — O mecânico caiu de joelhos dramaticamente com os braços erguidos.
— Já acabou o show? — Ruby indagou, entediada, prendendo os cabelos loiros em um coque.
— Sim, senhora. — Cash novamente foi até a cadeira, mas diante do olhar de reprovação de Ray, apenas colocou as mãos na cintura. — Mas é uma sacanamente isso. Ficar esfregando a vida sexual de vocês na nossa cara. Eu estou na seca há tempos e a também. — A indignação em sua voz era palpável.
Estava ainda mais aborrecido, pois seus planos com a dançarina ruiva foram frustrados muito rapidamente.
— Nem vamos mencionar a Betty. — Finalizou entre os dentes.
— Sua vida realmente está uma merda, mas a nossa querida capitã tem chegado de fininho antes das cinco. — Ray acusou com um sorriso sacana.
— Isso porque ela é uma alcoólatra que passa as madrugadas no Owen’s enchendo a cara.
— Exato. — concordou, agradecendo aos céus por Betty não aparecer dando uma risada debochada.
— E o trabalho? — Ruby indagou curiosa, finalmente largando a arma.
— Vamos para a galáxia Tneera.
— Planeta? — Foi a vez de Ray perguntar.
— Ainda não sei. Clientes estão bem misteriosos. Só vão me passar as coordenadas quando estiverem a bordo.
— Meio suspeito. — Ray comentou, juntando as sobrancelhas.
— Muito suspeito. — pegou na bolsa o pequeno dispositivo que Zimmerman havia lhe entregado mais cedo e deslizou para Ray. — Mas o dinheiro é muito bom.
— Nossa Senhora! Faz tempo que eu não vejo tantos zeros. — Fez um sinal de agradecimento aos céus, fazendo a esposa sorrir.
— Mas não vai se animando demais não. Não confio neles.
— Você não confia em ninguém... na verdade... as únicas pessoas que confia estão nessa mesa. — Disse Ruby sem uma gota de julgamento.
Nesse sentido, ela e eram muito parecidas.
— Ricaço babaca ou esquisitão?
— Um é babaca e o outro esquisitão. Os dois claramente são dos planetas centrais. Não sabem nada daqui.
— Espero que a gente não tenha uma situação no estilo Russell Wittenberg. — Ray encarava a amiga com um olhar de acusação.
— Dá para parar de ficar lembrando disso? — pediu manhosa e Ray meneou a cabeça negativamente.
— Eu sempre vou lembrar disso. Você quase arrancou o dedo dele fora, porque é uma esquentadinha que não consegue controlar o temperamento. E depois ele ainda queimou a gente em Mellion e não conseguimos mais trabalhos naquelas bandas.
— Ele apontou o dedo para mim. Chamou a Guinevere de lata velha e eu... — tentou justificar, mas desistiu ao ver que a desculpa não estava colando.
— É uma nave de segunda mão. Nem fabricam mais esse modelo. — Ruby afirmou com cuidado, sem usar qualquer expressão parecida com lata velha. — E esse é um nome muito estranho para uma nave. Sabe disso, né?
— Talvez, mas a nave é minha. E eu adoro as lendas arturianas.
— Devia fazer coisas mais produtivas. Passar os dias lendo e bebendo é um péssimo jeito de viver. — Cash se aproximou da mesa com a meia verde enfiada na mão direita. — Mr. Bubbles concorda. — Moveu a mão para cima e para baixo como se o fantoche de meia concordasse.
— O que seria melhor? Conversar com naves, maquinarias e meias? — rebateu com um sorriso cínico.
— Gwen, ela não quis te ofender. — Cash sussurrou, encarando as paredes de metal. — Nem você, Sr. Bubbles. — Voltou-se para o fantoche, acariciando a mão.
— E o que exatamente precisamos fazer para esses caras? — Ruby desviou a atenção de Cash, voltando ao assunto trabalho.
— Don Cooper e Moses Zimmerman… nomes falsos, obviamente... — revirou os olhos, rindo, relembrando a expressão de pânico de Zimmerman ao ser pego na mentira. — Estão pagando por um resgate. Precisamos retirar uma mulher que está sendo mantida em um laboratório.
— Isso tudo ficou ainda mais suspeito.
— Sim. E outra coisa estranha é que o tal Zimmerman se apresenta como o patrão, mas me parece que quem realmente manda ali é o Cooper.
— Como os nomes são falsos, acredito que investigações prévias não vão dar em nada. Mas assim que eles pisarem na nave, a gente fica de olho. — Ray falou após refletir por alguns momentos.
— Vou fazer uma lista dos reparos que precisamos fazer. Amanhã quero todos de pé bem cedo. Principalmente meu querido mecânico. — Disse , vendo o rosto de Cash se contorcer em uma careta.
— Já que vamos para Tneera, dependendo do planeta, acredito que poderíamos fazer um pequeno desvio para Shahar. — Ruby falou com um brilho nos olhos.
Sua animação foi rapidamente quebrada por Ray.
— Está maluca, mulher? — Encarou a esposa, incrédulo.
— Quê? Nós precisamos do dinheiro. — Deu de ombros e viu ele bufar. — Posso multiplicar esses zeros. — Apontou para o dispositivo animada.
— Você quer é torrar o dinheiro que não temos nos cassinos. Nem pensar. Você ainda está cheia de dívidas. E está em processo de desintoxicação. Nada de apostas. Nem Cara ou Coroa você está permitida jogar. — Ele falava rápido e um tanto desesperado.
Não conseguia acreditar que depois de todos os perrengues que haviam passado, Ruby não havia aprendido nada.
— Como se você mandasse em mim. — Comentou debochada e viu ele assentir freneticamente.
— Não mando mesmo. Mas esse é o tipo de coisas que destrói casamentos.
— O seu falatório destrói casamentos. — Retrucou e viu Ray colocar a mão no peito, sentindo-se ofendido.
— Ah é? Vai querer greve de sexo?
— Boa sorte com isso. — Ruby passou a analisar as próprias unhas. — Aqueles dias foram muito sombrios para você.
— Ok. — Cash se intrometeu antes que Ray pudesse se defender. — Bem divertido participar dessa discussão de casal. Obrigado. Eu e o Mr. Bubbles estamos agradecidos. Me lembraram por que estou feliz solteiro.
— Podemos passar em New Charon na volta? — Betty se materializou deitada num dos sofás que ficavam em uma pequena área de reuniões no canto daquele setor.
Aquelas palavras mudaram o clima do recinto. Por alguns segundos nenhum som foi ouvido. Todos ficaram estáticos ao ouvir as palavras “New Charon” saírem da boca da mulher.
trocou olhares preocupados com todos na mesa. Ray foi o primeiro a falar:
— Tem certeza de que quer ir lá?
— Sim.
— Betsy, a gente não vai lá tem cinco anos. Desde... — começou, mas não foi capaz de completar.
Ninguém ali gostava de mencionar o dia dos atentados.
— Eu preciso ir. — Ela se ajeitou, sentando corretamente no sofá, incomodada com as expressões piedosas que pesavam sobre si.
— Eu não acho isso uma boa ideia. — Disse finalmente, levantando-se e caminhando até a irmã.
Sentou-se no sofá ao lado dela diante de olhos suplicantes. Ray, Ruby e Cash então deixaram a cozinha silenciosamente. Sabiam os rumos que aquela conversa entre as irmãs tomaria.
— Por quê? Eu não vou fazer nada. Eu só quero ver ele. — Pediu com um olhar triste. — ... eu preciso ver o Pete.
— Não vai ser bom para você. — tentou tocar a mão da irmã, mas ela se tornou intangível.
— Você não sabe o que é o melhor para mim. — Murmurou chorosa.
— Mas eu sei o que é melhor para mim. — Os olhos de arderam e ela teve que se esforçar em não chorar — Eu não quero ir lá. Não posso. — Encarou o chão.
Se encarasse Betty, se desmancharia em lágrimas.
— Eu não quero reviver tudo. A dor e o desespero... quando vi... — não conseguiu terminar.
Foi atingida pelas malditas memórias. As lembranças das chamas a fizeram desviar o olhar e encarar as próprias mãos cobertas pelas luvas.
— Está tudo bem. Desculpe... eu entendo. — Betty se aproximou mais da irmã e se concentrou, apertando suas mãos com carinho.

Sozinha em sua cabine, encarava o teto ciente de que aquela seria uma noite insone. Cansada de contar os arranhões e danos na parede de metal, pegou o livro que estava sobre seu peito e colocou na mesa de cabeceira. Não conseguia se concentrar na leitura. Sentou-se na cama e calçou as botas surradas, apoiou os cotovelos nos joelhos e o queixo sobre as mãos entrelaçadas. Após respirar fundo por alguns segundos, se levantou.
Calçou as luvas e foi até a escada vertical fixa na parede em frente à cama. Subiu rapidamente e ao alcançar o deque superior, seus olhos focaram na entrada da cabine logo à frente da sua. Era a única com identificação, uma plaquinha com o nome Betty em letras garrafais em um tom de rosa. arquejou. Caminhou silenciosamente pelo corredor e entrou na ponte de comando. Aquele local era seu santuário.
Analisou as telas e painéis luminosos que cobriam as paredes e as duas mesas, a do piloto e a do copiloto. Eles mostravam todo tipo de informações e garantiam o acesso ao controle das mais diversas funções da nave. Parou diante do único painel onde as luzes piscavam de forma uniforme. Apertou uma sequência de botões e então ele se abriu. Ali, atrás de um painel falso, um esconderijo com duas prateleiras. Na superior, uma caixa de papelão e na debaixo uma garrafa de vodka e uma caneca de louça com a frase “calma, tudo vai passar, nem que seja por cima de você”.
Sorriu encarando a caneca. Um presente de Betty. O último presente dado ainda em vida.
pegou a garrafa e a caneca, e fechou o painel. Sentou-se na poltrona do piloto e encheu a caneca. Após um gole e uma expressão de satisfação, depositou a garrafa no chão e jogou os pés sobre a mesa. Ajeitou-se, sentando-se confortavelmente e passeou os olhos pelos controles, telas e alavancas sobre a mesa do piloto. No canto superior esquerdo, três fotos presas ao painel. Desviou o olhar das fotos e encarou o manche, já desgastado e com alguns arranhões. Tocou o controle por um instante.
Estava feliz em finalmente conseguir trabalho. Precisavam desesperadamente de dinheiro e ela já estava com saudade de pilotar.
Deu mais algumas goladas e então seus olhos focaram em um ponto a direita da mesa, ali havia alguns fios aparentes e um pedaço chamuscado, evidências de um curto-circuito causado pela irmã. Cada pedacinho daquela nave estava preenchido por memórias. Ali também havia muitos gatilhos para lembranças de um passado mais distante.
— Noite ruim? — A voz suave de Ray a tirou de seus devaneios.
— O que está fazendo acordado? — Girou um pouco a poltrona para encará-lo, mantendo os pés no painel.
Ele sentou-se à mesa do copiloto e girou a poltrona, ficando de frente para ela.
— Não consigo dormir. — Passou a mão no rosto repetidamente, ajeitando a barba, ação que deixou claro para que havia preocupações o corroendo.
— O que está acontecendo, Ray?
— São os meus rins.
Diante daquela afirmação, ela tirou os pés do painel e os colocou firmes no chão. Passou a analisar o amigo, preocupada.
— Hoje não faltei para transar... bom... eu transei... — riu por um instante e então se ajeitou, assumindo uma postura mais séria. — Eu fui ao médico hoje à tarde. Ele disse que meus rins estão falhando.
— Quê? Não. Você está bem. — ficou inquieta, mal conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo novamente.
— Na verdade não. Mas consegui disfarçar bem.
— Você precisa me contar esse tipo de coisa. — Largou a caneca no chão e juntou as mãos, apertando-as com força.
— Estou contando agora. O médico fez alguns ajustes nos sintéticos, mas eu preciso trocá-los. Estão ultrapassados. E como pode imaginar, o preço do modelo novo está absurdamente acima do meu orçamento. — Coçou o queixo, esforçando-se em não demonstrar o tamanho de sua tribulação. — E aí, hoje à noite eu fui com a Ruby conversar com o Big Mike...
— Você está louco? — Interrompeu-o, aflita.
Soltou as mãos já doloridas por um instante e então voltou a apertá-las.
— Não vou deixar você se meter com agiota. Especialmente o Big Mike. — Deu um longo suspiro, tentando acalmar a respiração, que havia se tornado curta e descompassada. — E a Ruby ainda está de acordo? Ela esqueceu que está com a cabeça a prêmio em Corham por conta das dívidas?
— Não é como se eu fosse conseguir um empréstimo em um banco com as minhas informações de crédito. — Deu um riso fraco e viu a expressão de mudar.
— Olha... o dinheiro desse trabalho vai ser bom. Mais do que suficiente para comprar os rins sintéticos e pagar cirurgia. Eu te dou a minha parte. — Ofereceu, decidida.
— De jeito nenhum.
— Não é como se eu fosse te dar tudo. Preciso tirar parte para fazer alguns reparos. — Ponderou, vendo-o se agitar.
— Mas não pode fazer isso. Eu não vou aceitar.
— Somos família. Não tem que lidar com isso sozinho. — sentiu o coração apertar.
Em seu primeiro ano no exército, havia conhecido Ray e Cash. E em meio a todas as provações que passaram desde então, eles haviam se tornado importantes demais para ela. Dez anos juntos os tornaram uma pequena família desajustada. Cinco anos atrás, ela havia perdido Betty. Não suportaria perder mais ninguém.
...
— Não faz doce. Você precisa. — Alterou o tom de voz, não se permitindo entristecer ainda mais.
— Eu aceito um empréstimo. — Disse após alguns segundos de reflexão.
— Ok. Sem juros.
— Tem que ter juros. — Ray se levantou e caminhou até a amiga. — Mas eles podem ser bem pequenos. — Terminou com um sorriso, arrancando risadas dela.
Diante do tom divertido dele, ela finalmente soltou as mãos.
— O que eu faria sem você?
— Estaria morto em uma vala em Cyriaque. — Relembrou o pequeno acidente envolvendo Ray, Cash e uma retroescavadeira. — Aquela foi a primeira vez que eu salvei o seu traseiro de uma dolorosa morte por esmagamento.
— Uma verdadeira heroína. — Fez uma pequena reverência.
Ao se levantar, as fotos presas ao painel chamaram sua atenção. Na primeira, fazia uma careta, enquanto recebia um abraço apertado de Betty; na segunda, o grupo estava nas escadas de um cartório após o casamento de Ray e Ruby; e na última, , Cash e Ray estavam uniformizados e posavam em frente um cruzador. Um rasgo do lado direito da foto revelava que uma pessoa havia sido retirada dali.
— Sabe qual é a minha memória favorita do nosso tempo na academia militar? — Comentou, analisando a última foto. — Nosso primeiro dia de treinamento.
— Por quê? Foi um dia tão tranquilo. — Tentou forçar uma expressão séria, mas havia uma pitada de ironia ali.
— Tranquilo? Esqueceu o fato de você ter dado um soco na cara de um oficial que estava sendo escroto com o Cash? Descobri que queria ser seu amigo naquele momento.
— Coronel Gergich. — Fez uma careta ao citar o nome do oficial. — Odiava ele.
— Certeza que aquele lá tinha pacto com o “coisa ruim”. — Disse Ray, fazendo sinal da cruz.
— Sorte nossa ele ter sido transferido.
— É, depois de dois anos e meio te fazendo comer o pão que o caramunhão amassou. Se dependesse dele, você nem teria se tornado piloto.
— Bons tempos.
— Você sente falta? — Indagou receoso, encarando a foto.
— Do Gergich? Nem um pouco.
— Não. De tudo. Da nossa vida de recruta e...
— Ser o braço armado do Estado? — O tom de voz dela endureceu. — Cometer crimes em nome de engravatados? Agir para satisfazer investidores e grandes corporações?
— Não sinto nenhuma falta disso. É só que... às vezes eu penso como tudo parecia mais simples. A rotina de treinamento e tudo mais.
— Eu entendo o que quer dizer. Naquela época, eu sentia que tinha respostas para tudo. Mas agora... — deu um longo suspiro, desviando o olhar. — É tudo tão confuso. Me sinto perdida a maior parte do tempo. Eu sinto que eu estou só sobrevivendo, dia após dia...
— Um copo após o outro. — Ray murmurou e viu ela assentir um tanto desconcertada.
— A única razão para essa foto estar aqui, é porque foi tirada no dia que consegui me tornar piloto. — voltou os olhos para a foto.
Os três pareciam tão felizes. Então seus olhos focaram no rasgo e sua expressão mudou.
— Às vezes fico pensando como as coisas seriam se a gente não tivesse saído... tudo seria diferente. — Deu outro longo suspiro. — E talvez... talvez a Betty estivesse viva.
— Não fala isso.
— É sério. — Começou, sentindo o rosto queimar. — Ela estaria viva e bem. Casada com o Pete e possivelmente já cheia de filhos. Eu não teria voltado para New Charon. Não teria levado desgraças e sofrimento para vida dela. — Dessa vez, ela não conseguiu impedir algumas lágrimas de rolarem.
Ray se abaixou. Sua mão esquerda tocou o joelho dela e a direita limpou seu rosto.
— Eu acredito em destino. E não acho que nada que a gente tivesse feito traria um resultado diferente.
o encarou, sentindo mais lágrimas nublarem seus olhos.
— Se ela não estivesse naquele prédio quando as bombas incendiarias explodiram... ela teria morrido de outra forma. Porque, infelizmente, e por motivos que não podemos explicar, aquela era a hora da Betty partir. — Finalizou, acariciando os cabelos da amiga.
— O destino é uma merda. — Limpou o rosto, sentindo-se fraca por ter chorado. Era algo que sempre tentava evitar.
— Às vezes é sim. Mas, às vezes, pode trazer coisas boas. Dois anos atrás o reator ficou a tempo de explodir. Foi um grande transtorno e muitos gastos para consertar...
— E muitos momentos com o nosso querido mecânico surtado com medo de morrer. — Ela riu com as memórias de um Cash completamente descompensado, gritando que era muito jovem e ainda tinha muito para viver.
— Sim! — Ray também riu com a memória. — Mas por conta disso, nós precisamos parar em Shahar. E aí eu conheci a Ruby.... enraivecida e a ponto de matar aquele crupiê.
Tão romântico... — comentou com um sorriso sarcástico.
— Com toda certeza que foi. — Rebateu um tanto ofendido. — Ainda acho bem surreal aquele mulherão ter dado bola para mim. Porque, minha nossa senhora... minha esposa é uma deusa.
— Ela é sim. Tem a beleza de Afrodite e o instinto assassino do Ares.
— E o apetite sexual do Zeus.
gargalhou da expressão tarada que ele fez.
— Ela é como um gato rabugento com a face de um anjo... e um espírito lascivo. Sério, às vezes eu olho para ela e só consigo pensar o quão sortudo eu sou por ela ter me notado.
— Ah... para de ser modesto. Você é bem bonito. Só tem um probleminha de calvície precoce. — Apontou para as entradas no cabelo dele, fazendo-o rir.
— Você é tão malvada.
— Calúnia. Sou mais doce que sumo de limão! — Tentou fazer uma cara meiga, mas não foi bem-sucedida. — Sabe... eu fico muito feliz por você. É muito bom ver vocês juntos. — Trocaram sorrisos sinceros.
Os dois tinham um laço tão forte e uma intimidade tão grande, que nos tempos de academia militar, muitos acreditavam que aquela relação era mais que apenas uma amizade. Algo que nunca se concretizou e nem se concretizaria, pois partilhavam um amor fraternal.
— E eu sei que eu não deveria falar o que estou prestes a falar, mas... é exatamente por conta dessa relação de vocês, que eu fico pensando em como a Betty também devia ter isso que vocês têm. Ela merecia isso.
— Eu concordo com você. Ela merecia. A vida não é justa. — Apertou os joelhos dela numa tentativa de conforto.
— Eu ainda me lembro com clareza do dia que ela chegou naquele orfanato. Aquela garotinha de quatro anos com grandes bochechas e língua afiada. — Sorriu, pensando nos momentos que as duas compartilharam na infância. — Ela chorou todas as noites na primeira semana. Ela era tão pequena e frágil. Mas aí, um dia ela me viu chorando. Era meu primeiro aniversário lá. O primeiro sem a minha mãe.... e ela foi até mim... — novamente as lágrimas rolaram sem que ela conseguisse impedir. — E ela me abraçou, disse que ia ficar tudo bem.
Ray envolveu suas mãos com carinho, sentindo lágrimas também molharem sua bochecha.
— Foi naquele momento que eu decidi que cuidaria dela. Eu tinha sete anos e fiz uma promessa. E eu cuidei por muito tempo... e ela virou minha irmã, mas... — sua voz falhou, tudo aquilo era doloroso demais. — Quando ela mais precisou de mim, eu falhei. Eu falhei, Ray. Eu não estava lá para protegê-la. — O choro se tornou mais forte.
Passou a soluçar sentindo o ar faltar. Ray se levantou e a puxou, colocando-a de pé e a abraçando com carinho.
.... Você precisa parar de se culpar. — Pediu, acariciando os cabelos dela. — Só tem uma pessoa que eu culpo por tudo... E não é você. — Nesse instante, o choro parou.
Ao pensar em , não conseguia chorar, só conseguia sentir ódio. Soltou-se dos braços de Ray e limpou as bochechas. Não queria mais pensar no passado. Não queria pensar em como sua irmã havia sido arrancada de sua vida. E não queria pensar no responsável por isso. Em como ele partiu seu coração de um jeito que não poderia ser consertado.
— Está com fome? — Mudou de assunto ao notar que a expressão dela havia mudado. — Posso te fazer minhas panquecas especiais. Te empanturrar até ficar caindo de sono.
— Eu aceito essa proposta. — Disse, estampando um largo sorriso.
— Devia parar de beber. — Novamente a puxou para perto, envolvendo seus ombros. — Senão vai ser a próxima com órgãos sintéticos...
Ela revirou os olhos e caminharam juntos até a cozinha.



Capítulo IV.
Bunny's Gentlemen's Club.

Quando acordou, a sensação era que sua cabeça iria explodir a qualquer momento. Tocou a testa, sentindo ali as marcas de botões. Havia dormido sobre o painel da mesa do piloto.
Na madrugada, após comer panquecas com Ray, havia voltado à ponte para guardar a caneca e a vodka que estavam largados no chão. Ao chegar lá, decidiu sentar-se e beber um pouco mais. Mas a exaustão a alcançou e dormiu por lá mesmo.
Ainda se sentindo desorientada, ouviu o toque insistente de um bipe. Tirou do bolso da jaqueta o dispositivo dado por Zimmerman e esperou a mente parar de girar para, então, conseguir distinguir a mensagem que aparecia na tela.
Viajariam no domingo. O que significava apenas três dias para fazer os reparos.
Levantou-se um pouco tonta e foi até a cozinha, encontrando um Ray bastante animado, preparando o café da manhã.
— Conseguiu dormir? — Ele indagou com um sorriso.
Era o único naquela nave que acordava de bom humor.
— Um pouquinho e você? — Murmurou, sentando-se à mesa e apoiando a cabeça ali.
— Um pouquinho. — Imitou o tom de voz dela.
— E como consegue ficar de bom humor mesmo assim?
— Porque a vida é linda. — Foi até a mesa e depositou dois pratos com panquecas.
— Por favor, sem papo motivacional tão cedo... — pediu com a voz abafada. — Cadê todo mundo? — Ergueu-se, puxando o prato para si.
— Todos dormindo. — Sentou-se à mesa, acompanhando-a.
Após uma rápida prece, começou a comer.
— Cash chegou às cinco.
— Onde ele foi? Eu nem vi ele sair.
— Não tenho a mínima ideia. Vai ver que ele está aprendendo com você a dar escapulidas na madrugada. — Insinuou brincalhão e recebeu uma risada irônica em resposta.
— Acho bom ele acordar disposto. Viajamos no domingo. — Disse, encarando as panquecas.
Sentia-se um tanto enjoada e por isso ainda não tinha começado a comer.
— Preciso que você e a Ruby façam compras. Precisamos de suprimentos, células de combustível, alguns parafusos... — enumerava, esforçando-se em se concentrar. Ainda tinha a mente um tanto nublada pela ressaca. — Enquanto isso, eu e o Cash vamos finalizar os reparos na baia de carga.
— Boa sorte para acordar ele.

Acordar Cash realmente não havia sido uma tarefa fácil. Tarefa ainda mais difícil, era garantir a concentração para os reparos necessários. Cash e estavam destruídos, cansados e de ressaca. Ainda assim, precisaram espantar o cansaço e garantir o trabalho do dia. Havia muito o que fazer nos dias que antecediam uma viagem.
Consertos e preparativos preencheram o tempo de toda a tripulação.
À noite, se jogou em um sofá na área de reuniões. O cansaço fazia sua cabeça doer. Pensou em cochilar enquanto esperava o jantar, mas o local foi invadido por uma Betty agitada.
— O que você está fazendo?
— Tentando dormir.
— Hoje é quinta-feira, esqueceu? — Elevou um pouco o tom de voz, jogando-se no sofá ao lado da irmã. — E sabe o que isso significa?
— Noite do karaokê! — Cash entrou na sala gritando e, em seus pensamentos, amaldiçoou toda a descendência dele.
Sentindo-se completamente derrotada e sem escapatória, sentou-se no sofá. Viu o local ser invadido por toda a tripulação e após alguns minutos, os acordes de uma música romântica começaram. Aquele era um compromisso semanal e em geral ela ria e se divertia naquele momento família, mas estava exausta, tudo que queria era uma cama.

A primeira apresentação foi de Betty e Cash. Com expressões exageradas e poses teatrais, eles fizeram um dueto barulhento e cafona. Depois foi a vez de Ray, arriscando alguns passos de salsa, cantou uma música animada, mas com a letra um pouco depressiva. Seus passos desengonçados fizeram a esposa rir um tanto envergonhada. Ruby cantou um metal com gritos guturais, capazes de incomodar o quarteirão inteiro e foi nessa hora que quis morrer. Sua cabeça zunia.
— Podemos pular a minha vez essa semana e só ir jantar? — Pediu com uma expressão derrotada.
— Claro! Mas semana que vem vai ter que cantar duas. — Disse Betty, após ponderar por um instante.

Após o jantar, foi até sua cabine, mas apesar da exaustão, sua mente não cedia. Mantinha-se acordada. Havia coisas demais a perturbando. Lembranças persistentes pareciam pairar sobre sua cabeça.
Sentindo que tudo de que precisava era uma distração, ela se levantou. Colocou um jeans e um fino casaco de moletom, calçou as luvas pretas, vestiu sua jaqueta de couro surrada e subiu as escadas.
Ao deixar o hangar, ajeitou a jaqueta no corpo e colocou o capuz na cabeça numa tentativa de se aquecer. Era uma noite muito fria. Decidiu, então, esquentar o corpo da melhor forma que conhecia: com álcool.
Caminhou silenciosamente por ruas desertas e mal iluminadas com as mãos nos bolsos.
O hangar ficava nos limites da cidade. Ao longe, era possível avistar uma cadeia de montanhas. Para além dela, uma região desértica inabitável. O planeta Baxu estava localizado na periferia da galáxia V’Nari. E como todo planeta com uma terraformação falha e incompleta, possuía vastas áreas inóspitas e contaminadas.
Trezentos anos antes, quando os seres humanos já haviam sugado cada recurso da Terra, depararam-se com uma superpopulação e um planeta agonizante. Diante de um cenário apocalíptico, milhares de pessoas entraram em naves geracionais e por décadas viajaram em busca de um novo lar. A busca terminou quando encontraram um pequeno conjunto de galáxias com dezenas de planetas com condições propícias a receber gigantescas máquinas que iniciariam a engenharia planetária. Os novos planetas passaram pela terraformação, que modificou profundamente suas condições atmosféricas, sua temperatura, solo e ecologia, garantindo, assim, que se tornassem locais capazes de receber a vida terrestre. Mas esse processo era complexo, demorado e custoso. E ocorreu de formas diferentes nos diversos planetas.
Alguns planetas com condições já mais apropriadas, passaram por processos mais minuciosos, tornando-se mais parecidos com a Terra. Esses locais, que imitavam com precisão a biosfera terrestre, eram habitados por pessoas privilegiadas e controlados por grandes corporações. Considerados o ápice da nova civilização, eles eram chamados de planetas centrais.
Conforme íamos nos distanciando desses planetas, encontramos níveis menos rigorosos de terraformação. Quanto mais distantes, piores as condições. Nas periferias das novas galáxias, planetas mal terraformados com regiões áridas, estéreis e hostis. Muitos convivendo com a má qualidade de água e ar. Locais até mesmo com áreas contaminadas. Baxu era um desses planetas.
Após alguns minutos de caminhada, alcançou ruas barulhentas e bem iluminadas. Dezenas de pessoas passavam e se esbarravam, dividindo as ruas estreitas com pequenos veículos flutuantes. Diversos odores se misturavam naquele emaranhado de tagarelas e barulhentos. Crianças corriam e ambulantes gritavam. Mais à frente, uma feira com diversos produtos, onde o falatório era ainda mais intenso.
Buscando se esquivar do tumulto, cortou caminho, passando por becos e vielas escuros.
Ao chegar no endereço desejado, bufou diante de luzes apagadas e um portão de metal enferrujado cerrado por largas correntes. Pela primeira vez em anos, ela encontrava o Owen’s fechado. Circundou o pequeno bar na esperança de enxergar alguma luz acesa para, então, exigir que Owen permitisse sua entrada.
Após um longo suspiro, virou-se para ir embora. Parou ao ouvir uma voz:
— O Owen falou que ia para o Bunny’s... — disse um homem maltrapilho, remexendo na lixeira.
— Bunny’s? — Aproximou-se, um tanto confusa.
Nunca havia ouvido falar do tal local.
— É, um lugar novo que abriu tem uns dias. É na rua da boate do Big Mike.
— Aqui. — Tirou algumas notas do bolso e entregou ao homem. — Pela informação.
O homem exibiu um sorriso desdentado e voltou a atenção ao lixo.
decidiu ir até o tal Bunny’s, talvez encontrasse lá a distração que precisava.
Após mais alguns minutos de caminhada, chegou à área mais movimentada da cidade. Era também a área que ela menos frequentava. Ali, diversos prédios espalhados com letreiros luminosos brilhantes e coloridos, além de telões e painéis. Pensou que ia ficar cega diante de tanta poluição visual. Cada letreiro chamativo indicava um dos diversos divertimentos daquele canto da cidade: bares, boates, locais de jogatina, clubes de apostas, uma arena de luta e casas de prostituição. A aglomeração ali era muito diferente do que se encontraria em um dos planetas centrais. A cidade de Nisse era o lar de todo tipo de bandidagem daquele lado da galáxia.
Só quando avistou o tal Bunny’s, é que se deu conta do que o local era: um clube de strip-tease com “Bunny's Gentlemen's Club” em gigantescas letras neon em sua fachada. Riu diante das diversas placas e telas com imagens sensuais femininas.
À primeira vista, era apenas mais um prédio com tinta descascada e tijolos expostos, mas a longa fila de homens aguardando para entrar revelava que ali havia mais do que a aparência demonstrava. Considerou ir até um outro bar no fim da rua, mas ao avistar Cash entrando no clube, decidiu segui-lo. O segurança do local era um velho conhecido e permitiu a entrada da mulher.
Já dentro do prédio, alcançou uma pequena sala com iluminação propositalmente bruxuleante. Dali, já era possível ouvir a música alta que fazia o concreto vibrar. Na saleta havia uma chapelaria, onde casacos, chapéus e armas deveriam ser guardados. Havia também uma mulher seminua rebolando e servindo de guia pelo longo corredor que dava para uma escada de ferro.
se apressou pelo corredor, alcançando Cash antes que ele pudesse chegar à escada que os levaria ao clube subterrâneo.
— Então é aqui que tem passado as madrugadas? — Indagou e viu Cash virar com os olhos arregalados.
— Oi, chefinha! — Disse um tanto constrangido.
— Pode ficar na putaria o quanto quiser. Mas preciso de você de pé e bem-disposto seis da manhã. Ainda temos reparos para fazer e eu pago o seu salário.
— Prometo que vou estar. — Fez uma desengonçada saudação militar e, então, desceu apressado.
Ao chegar no fim da escada, viu Cash seguir uma garçonete trajando um sutiã de renda e uma saia minúscula. Riu do desespero do amigo e então passou a analisar o local lotado.
O clube tinha uma iluminação violeta e era muito maior do que ela imaginava. Estava cheio de homens agitados e embriagados. Em todo canto, havia mulheres seminuas dançando, servindo bebidas e drogas, e arrastando homens em direção à locais mais reservados. No centro, um palco gigantesco com danças sensuais e apresentações.
Diante disso tudo, o que realmente chamou a atenção de foram algumas mesas com cabos, equipamentos e uma plaquinha escrito “Morpheus” em cima. Aquilo era tecnologia dos planetas centrais. Lá, uma das formas de se buscar prazer era através da utilização de dispositivos que permitiam acessar o córtex cerebral, garantindo a entrada em um mundo prazeroso de sonhos e memórias. Era algo muito caro e nunca visto por aquelas bandas. Nas mesas Morpheus, homens com cabos presos à cabeça babavam e riam em um estado de semiconsciência.
Um tanto perturbada, ela se afastou.
Como já havia entrado, decidiu ir até o balcão do bar. Era parte da sua política, não sair de um local com bebidas sem tomar pelo menos uma dose.
Estampou sua melhor expressão mal-humorada ao passar por homens com olhares sedentos e seguiu até o bar. No meio do caminho, deparou-se com uma mesa ocupada por cinco rostos conhecidos. Archie, seu rival nos negócios, estava acompanhado de seus quatro funcionários: Bernie, o bem-humorado piloto cinquentão; o grandalhão ruivo Saul; o musculoso tatuado chamado Leon e, por fim, , o mecânico e mais jovem do grupo.
! É bom ver você. — Archer gritou ao notar sua presença.
Ela se aproximou da mesa, cumprimentando todos.
— Então é aqui que a maior parte da população masculina tem passado o tempo? Bem que eu estava estranhando o Owen’s vazio. Tomara que isso aqui continue aberto. Estou amando meu boteco copo sujo só para mim.
— Fala sério! Pelo menos de mim você sente falta. — Disse Bernie, sorrindo e apontando uma cadeira para que ela se sentasse.
Nah... Nem um pouco. — Continuou de pé onde estava. — Qual a ocasião? — Indagou ao notar a quantidade de bebidas sobre a mesa.
— Bernie está se aposentando. — Saul explicou, abrindo uma cerveja e entregando para a mulher.
— Isso realmente merece uma celebração. Parabéns, Bernie... — começou, estendendo a garrafa para o alto. — Por finalmente se livrar do Archer te dando ordens.
— Quê? Eu sou um ótimo chefe. — O homem elevou um pouco o volume da voz, já um tanto bêbado.
— Há controvérsias. — Ela bebeu um pouco da cerveja.
Ignorava propositalmente , que estava logo ali, a devorando com os olhos. O jeito que ele a encarava a deixava um tanto desconfortável. Parecia que, de fato, ele conseguiria despi-la apenas com o olhar.
— Vou te provar como posso ser um patrão maravilhoso. Vem trabalhar para mim? — Archer levantou, aproximando-se de . — Estou falando sério.
— Não está não. Isso só pode ser piada. — Riu, afastando-o. — Por que eu abriria mão da minha independência para trabalhar para você?
— Porque eu adoraria te ouvir me chamando de capitão. — O tom de voz dele mudou e um sorriso sacana brotou em seu rosto.
— Isso nunca vai acontecer. Vai continuar sendo só uma fantasia profana nessa sua mente pervertida. — Empurrou-o novamente, dessa vez, fazendo-o cair sentado.
— Então, , o que achou do lugar? — Bernie se intrometeu.
— Eu achei triste. — Disse sem emoção.
— Triste?
— Sim, muito triste. Que vocês precisam pagar para ver peitos. — O deboche era palpável em sua voz.
— A gente não precisa pagar.... bom, pelo menos eu não preciso. A gente vem pelo clima do lugar e... — Saul ia tentando se explicar, mas foi interrompido.
— Eu vim pelos peitos! — levantou o dedo, estampando um sorriso canalha, gerando risadas.
— Viu que eles têm Morpheus? E todo tipo de quimeras. — Bernie apontou para Leon, que estava na cadeira ao seu lado.
E foi naquele momento que finalmente prestou atenção no agente de segurança: ele sorria para o nada e cada veia em seu corpo estava completamente negra. Estava sob o efeito de quimeras, potentes drogas criadas pela Cycorp Global.
— Anima de tentar, ?
— De jeito nenhum. Essa é minha única droga. — Mostrou a garrafa. — E não quero entrar na minha cabeça. Passo tempo demais tentando fugir de tudo que está aqui. — Deu duas batidinhas na testa e viu Bernie assentir concordando. — Bom... vou deixar vocês continuarem a festinha. — Afastou-se da mesa, não querendo prolongar o papo.
Acabou esbarrando em um moreno alto de nariz protuberante. Ele deu um sorriso amarelo diante do olhar da mulher.
— Owen, seu traidor! — Acusou, dando um soco no braço dele. — Você não pode fechar o bar numa quinta-feira. Quinta é um dia estressante. É noite de karaokê.
— Desculpa, . Mas até eu preciso relaxar. — Explicou-se diante de um olhar feroz. — Prometo que amanhã eu vou abrir. — Sua atenção foi desviada para uma mulher apenas de calcinha num palco ao longe.
Ai de você se eu chegar lá amanhã e não estiver me esperando com um sorriso no rosto e uma rodada grátis. — Gritou, afastando-se, e viu ele apenas balançar a cabeça, assentindo.
Ao alcançar o bar, empurrou alguns bêbados em seu caminho e se sentou em uma banqueta. Foi prontamente servida pela bartender, uma loira com tatuagens em todo o corpo, que depositou uma dose de tequila na sua frente. despejou o líquido de uma vez na garganta e girou a banqueta, observando o movimento.
Do lado direito, um homem se aproximou. Ele fumava um charuto e o fedor se espalhava pelo ambiente mal ventilado. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ela rosnou:
— Te dou dez segundos para levar esse toco do caramunhão para bem longe de mim.
O homem prontamente se afastou um pouco assustado com a expressão dela.
— “Toco do caramunhão”? Está convivendo demais com o Ray. — surgiu ao seu lado com uma cerveja em mãos. — Aqui. — Depositou a garrafa no balcão e sentou na banqueta ao lado.
— Eu não bebo isso. — Girou a banqueta, ficando novamente de frente para o balcão.
— Você já provou ou está só de frescura?
— Isso é cerveja de gente metida. — Afastou a garrafa e o rosto dele se contorceu em uma careta.
— Pode, por favor, só provar? — Pediu, recebendo um olhar entediado em resposta. — Se não gostar eu deixo você quebrar a garrafa na minha cabeça.
— É um bom trato. — Ela pegou a garrafa, abriu com uma pancada no balcão e bebeu. — Hoje é seu dia de sorte. — Disse, após ponderar por alguns segundos. — Não está bebendo?
— Não. Vou lutar hoje. — Deu um tapa em cada um de seus bíceps, exibindo uma expressão convencida. — Vai assistir?
— Com quem vai lutar?
— Tucker.
— Sério? Ele é bem... grande e mal-encarado. — Comentou, encarando o lutador que, naquele momento, estava sem camisa, tentando dançar sensualmente com uma mulher em uma plataforma.
— E daí? Eu sou o melhor.
— O mais modesto também... — riu irônica.
Seu riso aumentou quando um homem careca de cavanhaque passou por eles.
— Ei, Big Mike! — Chamou.
Big Mike era dono de metade da cidade. Dividia seu tempo entre agiotagem, organizar lutas e agenciar apostas.
— Cinquenta pratas no Tucker. — Passou o dinheiro rapidamente para o careca, que anotou algo em um dispositivo e saiu.
— Como você se atreve? — perguntou após alguns segundos estático a encarando.
— Olha... da última vez que apostei em você, eu perdi dinheiro. Não estou afim de arriscar.
— Assim você parte meu coração. — Disse dramaticamente. — Mas está tudo bem.... Eu sei que esse desprezo todo é só para disfarçar tudo que realmente sente por mim.
— E o que exatamente seria esse “tudo”? — Ela apoiou o cotovelo esquerdo no balcão e a cabeça na mão, encarando-o com curiosidade.
— Completa devoção. — Sussurrou após umedecer os lábios. — Você está até me seguindo.
— Te seguindo? — Bebeu a cerveja, fingindo interesse na história fantasiosa dele.
— O que mais viria fazer aqui?
— Beber! Já que o Owen fechou o bar. Aquele traidor.
— Pode tentar disfarçar, mas não pode negar seus sentimentos. — Ele se aproximou um pouco mais, encarando-a profundamente. — Ontem, por exemplo, você atrapalhou duas vezes meu lance com a Mellie.
— Quem é Mellie? — Ela estava genuinamente confusa.
— A garota que estava comigo quando você arremessou sua bolsa em mim. Dormi sozinho por sua culpa.
— Poxa, ... eu tô tão chateada. — Forçou uma cara triste, fingindo que ia chorar. — Vou nem dormir essa noite de tanto remorso.
— Você é um gênio do mal. Está aí nessa estratégia de espantar todas as mulheres para me ter só para você.
— Não acredito! Você finalmente descobriu meu plano. — Deu um tapa no balcão teatralmente.
— É um plano diabólico. — Acusou com um sorriso. — Mas como eu tenho um coração muito bom, aceito ir para casa com você depois da luta.
— Você é tão generoso. — Deu uma risada irônica, empurrando-o levemente.
Os dois endireitaram a postura ao ouvir a voz de Archer.
— Mais uma rodada! — O homem pediu para a bartender e, então, se voltou para . — Como vai o trabalho?
— Não vou discutir trabalho com você. — Ela passou a se concentrar na cerveja.
— Soube que tem viagem marcada para essa semana... — aproximou-se um pouco e viu a mulher franzir o cenho.
— Está me espionando?
— Talvez. — Deu de ombros. — Sabe... eu realmente preciso de um novo piloto. E adoraria ter você na Perseus.
— Não vai rolar.
— Eu sei, prefere ser sua própria chefe e tudo mais. Mas acho que devia vir até a Perseus hoje à noite.
Ela ergueu uma sobrancelha, já sentindo a impaciência preencher seu ser.
— Nós dois vamos viajar essa semana. A gente podia dar uma festinha de despedida... você pode me chamar de capitão a noite toda. — Archer tentou levar a mão até o rosto dela para, então, acariciá-la, mas foi impedido.
segurou sua mão com força e a torceu.
— Muitas palavras me vêm à mente para me referir a você... — rosnou, afastando-o. — Capitão não é uma delas. Isso... — apontou para os dois. — Não vai acontecer. Melhor desistir logo.
— Um dia você se rende. — Murmurou, afastando-se.
deu um longo suspiro. Sua vontade era quebrar aquela garrafa na cabeça dele e depois lhe dar uma surra. Largar ele ali, agonizando no chão. Mas não fez isso. Archer já estava muito bêbado, não seria uma briga justa.
— Archer ficaria muito puto se soubesse da gente. — soltou após algum tempo de silêncio.
— Achei que ele já soubesse.
— Não. Claro que não. Por que achou isso?
— Porque você é meio tagarela. — Riu da obviedade de sua afirmação.
— Isso é muito ofensivo. Eu sou um cavalheiro. Não saio contando por aí quem passa pela minha cama.
— E você tem medo dele saber, porque aquele macho tem o ego mais gigante desse planeta e ia querer achar formas de te punir por ter conseguido o que ele não conseguiu.
— Isso também. — Concordou, vendo-a gargalhar. — Mas, sabe... Acho que nós dois é que merecemos uma festinha de despedida.
— A garota de tanga dourada está doida para fazer essa festinha com você. — Apontou para uma mulher na plataforma a esquerda dele.
— Prefiro com você. — Disse sem nem olhar para onde ela apontava.
— Sério? — Seu tom misturava incredulidade e deboche. — E por que isso?
— Você é diferente. É a única que sempre me insulta de manhã... Ah! E algumas vezes durante o sexo. — Mordeu o lábio quando memórias o atingiam.
— A gente não precisa transar para eu te insultar. Posso fazer isso agora.
— Voto em você ir para o meu apartamento. Vou precisar de alguém para limpar meus ferimentos depois da luta. E também para fazer um carinho. — Disse, aproximando-se um pouco mais, falando ao pé do ouvido da mulher.
Sua voz rouca gerou alguns arrepios, mas ela apenas se afastou com um sorriso de escárnio.
— Tenho certeza de que o pronto-socorro vai estar tranquilo no horário...
! — Big Mike apareceu com uma expressão séria. — Precisa se preparar. — Fez sinal para o mecânico se apressar e saiu.
— Preciso ir, me deseje sorte. — Pediu, saltando da banqueta.
— Quebre uma perna... do Tucker. — Disse com um sorriso perverso.
retribuiu o sorriso e saiu apressadamente.
Novamente sozinha, continuou bebendo. Bebeu mais duas cervejas decidida a ficar ali o resto da noite. Antes que pudesse pedir mais uma, assustou-se com o som de aplausos e gritos. Virou para o palco e viu uma mulher estonteante, com longos cabelos pretos e uma coroa em chamas. Quando a música começou, ela passou a mover o quadril sensualmente. Em seguida, uma mulher loira apareceu carregando tochas acesas. A loira também começou a dançar. Entre os passos, ela parava de mover o corpo curvilíneo e fazia uma pose. Erguia as tochas até a boca e expelia fogo, levando os homens ali a loucura.
O barulho se tornou ensurdecedor. O tumulto somado a visões do fogo aumentando trouxeram de volta lembranças que tentava enterrar. Sua mente girou. Precisava sair daquele lugar quente e abafado.
Com passos trôpegos, correu até a saída do clube. Acabou esbarrando em uma mesa e derrubando bebidas. Mas nem mesmo olhou para o estrago. Foi até as escadas e as subiu com dificuldade. Ofegante, alcançou a chapelaria, recolhendo seus pertences rapidamente e se apressando porta afora.



Capítulo V.
Distrações.

Do lado de fora, ainda ouvia os aplausos e a gritaria. Ouvia também aquela maldita música, que no momento, só a fazia pensar no fogo. Cerrou os punhos com força e marchou, afastando-se do local. Mas ela ainda não queria ir para casa. Não queria encontrar Betty. Não queria pensar na morte, na dor ou nas chamas.
Após caminhar por alguns metros, parou. Apoiou as costas em um muro pichado e cobriu o rosto com as mãos. Odiava aqueles momentos. Era como se voltasse àquela maldita noite.
De olhos fechados, passou a respirar fundo. Após algum tempo, abriu os olhos, já se sentindo mais calma. Ergueu a cabeça avistando um grupo de homens descendo a rua. Eles tinham bebidas nas mãos e caminhavam animados em direção à arena. Decidiu ir para lá também.
A Scythe Arena era um gigantesco galpão que ocupava metade do quarteirão. A rua em frente ao local estava muito movimentada. Muitos homens e mulheres deixavam os bares e clubes para assistir as lutas. Buscavam ganhar dinheiro nas apostas e também conseguir alguma diversão assistindo marmanjos sem luvas se socando e sangrando.
passou pelo portão de metal com duas foices esculpidas e adentrou a arena. Lá dentro, uma multidão de bêbados gritava ansiando por uma carnificina. O local cheirava a ferrugem, álcool, tabaco e suor. No centro estava o ringue circular, cercado por uma gaiola de metal que ia até o teto.
foi até o pequeno bar e rapidamente catou uma cerveja, que o distraído garçom havia largado na bancada. Empurrou alguns homens e entrou na terceira fileira, de onde poderia ver com clareza os golpes dados dentro do ringue.
Tucker foi o primeiro a entrar. O gigante moreno mal-encarado marchava sem nem prestar atenção na multidão. Em seguida veio , caminhando lentamente, esboçando um sorriso prepotente e se divertindo com a gritaria que preenchia o local. O mecânico deu alguns pulinhos se alongando e, por fim, deu tapas nos bíceps, chamando o oponente para a briga. Enquanto isso, Tucker permaneceu imóvel, aguardando o sinal para começar a luta.
Assim que a luta teve início, a gritaria aumentou. Por alguns segundos, os dois lutadores permaneceram em posturas defensivas, mas, então, Tucker avançou. Desferiu diversos golpes, mas habilmente desviou de todos, ainda conseguindo dar alguns socos no grandalhão.
Diferente de lutas profissionais, ali não havia rounds ou intervalos. Os lutadores ficavam em combate até um nocaute ou alguma lesão muito grave. Além de ganhar, outro importante objetivo era tentar não se machucar tanto. A luta sem luvas podia gerar fraturas e ferimentos sérios. O corpo, especialmente o rosto e o dorso das mãos, dos lutadores exibia as marcas e cicatrizes que provavam isso.
Sem ter recebido nenhum golpe, passou a exibir uma postura e expressão insolentes que enfureceram Tucker. O grandalhão novamente atacou, mas, dessa vez, conseguiu acertar um soco que arremessou o oponente na grade de metal. O mecânico se levantou ainda sustentando o sorriso convencido. Ele rapidamente se alongou e ajeitou a postura. Tucker tentou acertá-lo novamente, mas ele se esquivou, uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Tucker era maior e mais forte, mas também mais lento e desengonçado. Não era páreo para a agilidade de , que novamente desviou e então disparou repetidos golpes certeiros no grandalhão.
A cada soco, Tucker recuava. Tentou reagir, mas não conseguiu. Uma sequência de socos, chutes e um potente gancho de direita o derrubaram. A contagem terminou e o homem não se levantou, determinando sua derrota. Big Mike entrou no ringue e ergueu a mão do vencedor, enquanto o perdedor era carregado para fora ao som de gritos e vaias.
Ao deixar o ringue, encarou a multidão ensandecida e dentre os rostos, avistou . Ainda estampando seu sorriso convencido, ele foi até ela.
— Acabei de perder cinquenta pratas, porque, aparentemente, o Tucker desaprendeu a lutar. — Ela resmungou diante da expressão soberba dele.
— Não. Perdeu dinheiro, porque é teimosa. — Disse secando o rosto suado com uma toalha. — Tem que ter mais fé em mim. — Finalizou com um sorriso, começando a desenrolar as faixas das mãos.
— Não acho que isso vá acontecer.
— Te vejo em vinte minutos? — Ele se aproximou, pegando a cerveja das mãos dela. Conseguiu dar apenas uma golada antes dela tomar de volta.
— Vá limpar esses ferimentos! — Apontou para as mãos cheias de sangue e a bochecha já inchada.
— Não se preocupe, a maior parte do sangue é do Tucker. — Deu uma piscadela, afastando-se.
O barulho na arena aumentou, indicando que a próxima luta já ia começar.

Um tanto impaciente, deu três fortes batidas na porta, não se importando se acordaria os vizinhos. Após a luta, fez uma longa caminhada. Ansiava que o ar fresco e o barulho das ruas pudessem distrai-la, mas não foi o caso. Até considerou voltar para nave. Mas ainda se sentindo sufocada, acabou parando ali, em frente aquele pequeno apartamento.
Antes que pudesse bater mais uma vez, a porta foi aberta. vestia apenas um curto short de pijama e pressionava uma bolsa térmica contra a bochecha esquerda. Seu rosto e mãos exibiam as marcas do curto embate com Tucker. Ele até tentou, mas não conseguiu conter um sorriso que brotou em seu rosto diante daquela cena. estava ali, procurando por ele.
— Está atrasada. — Disse, dando espaço para ela entrar.
— Shhh! Calado. — Murmurou sem encará-lo. Estava concentrada em se livrar das luvas.
— Quer uma bebida? — Arremessou a bolsa térmica na pia e se aproximou.
A mulher meneou a cabeça negativamente e ele esboçou um sorriso cafajeste.
— É claro que não. Não viria aqui às três da manhã atrás de uma cerveja. Veio porque quer o meu corpo.
— Isso foi um erro. — Deu um longo suspiro entediado e caminhou até a porta.
Assim que tocou a maçaneta, agarrou sua cintura e a girou, fazendo-a ficar entre ele e a porta.
— Vir para cá foi a melhor decisão que tomou essa noite. — As mãos dele estavam firmes na cintura dela, enquanto seus olhos a observavam atentamente.
— Você superestima as suas habilidades.
— Tem que aprender a confiar mais em mim. — A voz rouca era apenas um sussurro.
Colou mais os corpos, prensando-a na porta e levou a mão esquerda até seu pescoço, afastando os cabelos dali. Assim que a mão gelada tocou sua pele, suspirou, sentindo os pelos da nuca eriçarem.
— Já perdeu cinquenta pratas por não confiar. — Disse divertido, deslizando a mão lentamente pelo tronco dela, sentindo o abdômen se contrair com o toque.
Diante daquela reação, ele se aproximou mais. Enfiou as mãos por dentro da jaqueta de couro e a retirou rapidamente, fazendo com que escorregasse pelos braços dela. Em seguida, livrou-se do moletom.
Encarando-a intensamente, subiu as mãos pelos braços desnudos e então envolveu seu rosto. A respiração de ambos já mudou de ritmo diante da expectativa. Ele se inclinou, finalmente acabando com a curta distância que havia entre eles, dando alguns beijos curtos nos lábios entreabertos da mulher.
Um tanto impaciente, enlaçou o mecânico com os dois braços, puxando-o para mais perto. Imediatamente as mãos dele começaram a passear pelo corpo dela tentando extinguir qualquer espaço existente entre os dois, intensificando o beijo. Ela puxou o rosto dele contra si, mas parou ao ouvir um gemido.
— Está tudo bem. Não é nada. Vou só ignorar a dor. — sussurrou, roçando os lábios aos dela.
Ele voltou a prensar o corpo da mulher contra a porta, direcionando seus lábios ao pescoço, queixo e então novamente a boca. Mãos subiam e desciam, alternando entre pescoço, cintura, seios, costas e bunda, distribuindo carinhos e apertões.
Sem partir o beijo, deslizou as mãos por debaixo da camiseta da mulher, apertando-a mais contra ele. Eles se afastaram brevemente para que a camiseta saísse, mas logo estavam unidos de novo, partilhando um beijo intenso e quente que os fez perder o folego.
Ela o empurrou o suficiente para desencostar da porta e começar a andar. Mantiveram-se grudados, com lábios colados e as mãos explorando o corpo um do outro, enquanto davam passos trôpegos até o quarto. Entraram no cômodo às cegas e com um andar cambaleante. Ambos já ofegantes e com marcas avermelhadas.
O momento foi interrompido por um sapato no meio do caminho. tropeçou e perdeu o equilíbrio, caindo de costas na cama, levando junto.
— Você ainda não limpou seu quarto. — Disse com a respiração falhada entre risos, sentindo o peso dele sobre si.
— Podemos discutir isso depois? — Pediu, rindo contra o pescoço dela.
Diante do silêncio, ele entendeu que a mulher também estava mais interessada em retomar as atividades mais prazerosas.
As mãos de abriram o botão da calça e ele se afastou o suficiente para deslizar a peça pelas pernas dela. Em seguida, arrancou as botas e meias atrapalhadamente, finalmente terminando de retirar o jeans. Ela riu da pressa dele e então se arrastou para o centro da cama, livrando-se do sutiã, logo sentindo beijos molhados que começaram em seu tornozelo e subiram por suas pernas, explorando trechos do seu corpo até finalmente alcançar seus lábios.
Novamente ele colou os corpos. Agora, o contato da pele dos dois era mais intenso.
Sua atenção foi direcionada para a orelha dela, mordiscou o lóbulo e então deu início a uma trilha de beijos que começou em seu pescoço e desceu, cobrindo ombros e então os seios, onde se demorou por mais tempo. Ela tinha as mãos enterradas no cabelo dele, totalmente entregue.
Quando os beijos famintos de desceram por sua barriga, estremeceu. Ele se deteve por alguns instantes, beijando a tatuagem que cobria a enorme cicatriz. Os toques atentos na pele áspera e irregular e incomodaram.
— Para! — Ela pediu com a respiração rápida e descompassada.
imediatamente se afastou.
— Você está bem? — Indagou preocupado, alisando a cintura dela e acariciando a cicatriz.
Ela pousou a mão sobre a dele e parou o movimento. Afastou-o um pouco, passando a encarar o teto, enquanto tentava normalizar a respiração.
— Quer conversar? — Diante daquela pergunta, os olhos dela o analisaram por alguns instantes.
Então, mordeu o lábio antes de responder:
— É a última coisa que quero fazer. — Sussurrou, cravando as unhas na cintura dele, aproximando a pouca distância que ainda havia entre os dois.
Tal ação fez a beijar com urgência. Uma mão foi até a bunda dela, puxando-a mais para si, enquanto a outra foi novamente até a cicatriz. Acariciou o local com cuidado, fazendo-a se encolher, partindo o beijo.
— Só... tenta não tocar nas minhas cicatrizes desse jeito. — Pediu, levando as mãos ao rosto dele.
— Elas são lindas e fazem parte de quem você é. — Virou o rosto, depositando um beijo demorado na palma direita dela.
recolheu as mãos, estampando uma expressão aborrecida.
— Não pode falar essas merdas para mim. — Tirou-o de cima dela e sentou na cama. — Não assim, com todo esse ar de seriedade... Aceito e até dou risada dos seus comentários quando são espirituosos. Mas não estou afim desse tipo de papo meloso. — Resmungou impaciente, encarando a janela.
Seus olhos focaram na pequena miniatura em madeira da nave Perseus.
— Não precisamos fazer nada. — Sua voz era um sussurro.
Sentou-se na cama delineando lentamente a coluna da mulher em um carinho simples. Ela virou o rosto, olhando fixamente para ele por alguns segundos.
— Sim, nós precisamos. — As mãos dela foram até o peito dele e o empurraram, fazendo que se deitasse de costas na cama. Ela então se sentou sobre ele, colocando uma perna de cada lado.
a encarava com curiosidade, sentindo-se um tanto confuso.
— Mas isso só vai funcionar se você não tentar ficar de amorzinho. Eu não preciso e nem quero isso. Guarda para as outras. Consegue fazer isso? — A voz dela saiu ainda mais provocante do que ela pretendia.
tinha os cabelos bagunçados, o rosto corado e seu peito subia e descia rapidamente diante da respiração ofegante. sustentou o olhar, sentindo-se completamente entorpecido pela mulher.
Com as mãos firmes nas coxas dela, ele se ergueu, sentando-se na cama e quase colando os corpos. Enquanto exibia seu sorriso mais safado, seu olhar a devorava, oscilando entre os olhos desejosos e a boca rosada. A ajeitou em seu colo e mordeu o lábio inferior, encarando-o com expectativa, pedindo que ele fizesse exatamente o que tinha em mente.
deslizou as mãos pelas costas da mulher até alcançar seus cabelos enroscando os dedos nas madeixas. Puxou a cabeça dela para trás com certa delicadeza, dando livre acesso para que sua boca macia e quente percorresse toda a região do pescoço aos ombros. Depositou alguns beijos ali e então se afastaram por alguns instantes, permanecendo a centímetros de distância, encarando-se profundamente.
então levou a mão até o pequeno objeto metálico que ela carregava no pescoço. Agarrou as plaquinhas de identificação e a puxou para mais perto, cessando a distância entre as bocas, dando início a um beijo que começou suave, mas logo se tornou desesperado. Com facilidade, ele inverteu as posições a jogando na cama e retirando as peças de roupa que restavam.

•••

Mais uma vez, tentava entrar sorrateiramente na Guinevere. Esgueirava-se lentamente pela baía de carga tentando não fazer barulho. Queria chegar logo em seu quarto para arrancar aquelas roupas e tomar um banho. Mas, ao mesmo tempo, não queria ser flagrada chegando novamente cinco da manhã. Não que ela se importasse com o que pensariam dela, mas apenas porque não queria conversar sobre nada daquilo. Já bastava Betty a perturbando por suas escapulidas na madrugada.
Com o passar dos anos, as horas de sono de foram se tornando cada vez mais reduzidas. Em grande parte, por conta dos pesadelos que passaram a habitar seus pensamentos após a morte da irmã. Desde então, quando ela não estava concentrada em trabalho, tentava se distrair. O álcool e o sexo a ajudavam nesse sentido. Percebeu que passar as madrugadas embriagada, rindo de qualquer coisa ou explorando prazeres era muito melhor que ficar encarando as paredes de metal de sua cabine. Era naqueles momentos, longe de sua tripulação, na presença de estranhos, que ela conseguia abafar as vozes e fantasmas do passado.
Quando alcançou as escadas que a levariam ao deque superior, ela tirou as botas. Queria tornar sua subida a mais silenciosa possível. Deu passos suaves e vagarosos torcendo para não encontrar ninguém acordado. Mas suas expectativas foram frustradas ao ser surpreendida por Ray surgindo no topo da escada. Ela gritou de susto e teve que se agarrar a parede para não rolar escada abaixo.
— Chegando de fininho de novo? Está parecendo adolescente. — Ray comentou com uma expressão descontraída.
— Eu tenho um espírito jovem. — Disse com um sorriso, soltando-se da parede. Passou a tentar inutilmente ajeitar os cabelos desgrenhados. — Você que é uma alma velha. A gente está quase chegando nos trinta, mas a sua alma já tem cinquenta.
Ele riu, balançando a cabeça em concordância. Afastou-se para que ela pudesse subir os degraus que restavam, mas a barrou assim que alcançou o corredor.
— O que foi? — Uma expressão confusa surgiu em seu rosto quando os dedos de Ray tiraram algo de sua blusa.
— O que é isso? — Indagou com um olhar inquisitivo encarando algo grudado em seu dedo. — Pelo de gato? Onde a senhorita estava? — Ele franziu o cenho e deu de ombros, estampando sua melhor cara de indiferença.
Não contaria que sua roupa estava cheia de pelos, porque passou parte da madrugada jogada no chão do apartamento de e Otis havia dormido em cima delas.
— Quem eu conheço que tem um gato preto? — Ray murmurou pensativo.
— Para de ser curioso. — Deu um leve tapa na mão do amigo e desviou dele, caminhando em direção à cozinha.
— Só um pouco. É que eu já sou perfeito em tantos sentidos. Precisava de um mini defeito. — Brincou com um sorriso divertido e viu ela gargalhar.
— Eu posso citar mais de um mini defeito.
— Espero que essa lista seja muito curta.
assentiu sorrindo e ele foi até a bancada.
— Vem tomar seu café. E depois banho. Está fedendo cerveja.
— Não estou não. — Resmungou após cheirar a gola da blusa.
Aproximou-se da bancada e pegou uma xicara de café.
— Cash já acordou?
— Ele não está aqui. Não voltou para casa.
— Merda!
— Acha que ele pode ter se metido em encrenca? — Perguntou, imediatamente rindo da expressão que surgiu no rosto de .
— Estamos falando do Cash. Ele com certeza se meteu em encrenca. — Largou a xícara na bancada e caminhou até a escada.
Desceu retirando a jaqueta e moletom e os jogou num pequeno sofá perto da porta da enfermaria. Entrou xingando Cash mentalmente e caminhou até a pia, onde lavou as mãos e o rosto. Ouviu o som de passos e olhou para porta. Ali, Ray segurando a xicara de café.
— Termina de beber primeiro, come alguma coisa.
— Como algo na rua. Preciso buscar nosso encrenqueiro. Tenho um palpite de onde pode estar. — Catou a jaqueta do sofá e novamente a vestiu. — Pode ir checando os dormitórios?
— Já estão preparados. Limpei tudo e troquei roupa de cama.
— Dispensa?
— Cheia.
— Você é maravilhoso. Sabe disso, né? — Pegou a xicara e bebeu mais alguns goles.
— Sim, as pessoas não me deixam esquecer. — Brincou, recebendo um sorriso verdadeiro da amiga. — Os ajustes que faltam dependem de mão de obra especializada.
— Vou lá buscar o nosso mecânico.

A cidade parecia muito diferente pela manhã. A luz do dia deixava mais aparente o estado precário das edificações e a sujeira das ruas. Para todo lado fileiras de prédios caindo aos pedaços. Fachadas encardidas e descascando, gigantescas rachaduras, vigas aparentes, vidraças quebradas e grades enferrujadas. As ruas antes desertas, agora estavam apinhadas. Pessoas iam para o trabalho, barracas eram montadas e pequenos comércios começavam a abrir suas portas.
caminhava apressadamente pelo calçamento esburacado já planejando todos os xingamentos que lançaria contra Cash. O trato era: ficar na farra o quanto quisesse, mas estar em casa para o trabalho. Em outras ocasiões até não se importaria. Mas já era véspera de uma viagem importante. Ainda havia muito o que fazer e ela precisava de ajuda.
Do outro lado da cidade, as ruas que a noite ficavam lotadas de pessoas bêbadas, agora eram povoadas apenas por lixo e entulho. Com as luzes neon apagadas, o lugar se tornava deprimente. passou por alguns bêbados desacordados e prestou atenção em cada um deles. Considerando a animação de Cash na noite anterior, a possibilidade de ele estar tombado em alguma sarjeta era muito alta.
Ao avistar uma barraca, foi até lá e comprou uma garrafa d’água. Então se apressou até o novo clube de strip.
Contornou a lateral do prédio e seguiu em direção ao beco. Ali, ao lado da gigantesca lixeira verde escura, caído entre sacos de plástico preto, estava seu mecânico.
— Cash! — Gritou e viu ele se mexer. — Acorda pra cuspir!
Ele novamente se mexeu. Tentou abrir os olhos, mas grunhiu insatisfeito, escondendo o rosto com o braço.
— Apaga essa luz! — Pediu com a voz sonolenta e bufou.
Ela abriu a garrafa de água e virou em cima do homem, que logo se levantou gritando. Mas como o mundo ainda estava girando devido o álcool, ele cambaleou até conseguir se apoiar na lixeira. Ainda desorientado, estreitou os olhos para a figura a sua esquerda tentando focalizá-la.
?
— Eu mesma, bebum.
— Você precisa aprender a ser um pouco mais delicada. — Comentou esfregando o rosto e ouviu um resmungo em resposta. — Nossa... que futum é esse?
— Você dormiu no lixo... de novo.
— Mas que caralho... — xingou olhando ao redor, enquanto se esforçava em lembrar da noite anterior.
Ela lhe entregou a garrafa e ele bebeu o pouco que não havia sido usado para acordá-lo.
— Vem, preciso te alimentar. — Apoiou Cash pela cintura, ajudando-o a caminhar em linha reta. Ação nada fácil, já que ele parecia tropeçar em cada uma das pedras desniveladas do calçamento.
— Ontem eu conheci uma mulher incrível. — Disse animado quando as memórias começaram a se reorganizar. — Eu estou apaixonado.
— Novidade... Você sempre se apaixona por strippers. E esse amor costuma durar uma semana. — Acusou e ele cutucou sua cintura.
— Para de ser cínica.
— Ok. Qual o nome dela? — Fingiu interesse e viu Cash abrir um largo sorriso.
Octopussy. — Disse de olhos fechados, relembrando o rosto da mulher. — Um lindo nome, não é? Ela também é bem linda. Ela vai me fazer um homem honesto.
— Octopussy vai te fazer um homem honesto?
Ele balançou a cabeça, assentindo, e ela apertou os lábios tentando conter uma risada debochada.
— E como terminou a noite nessa lixeira?
— Eu não fui o único a me encantar pela Octopussy. — Parou de andar, agora ficando cabisbaixo.
só conseguia pedir mentalmente para ele parar de repetir aquele maldito nome. Não ia conseguir conter o deboche por muito tempo.
— Tucker também queria ela. — A menção do lutador fez a expressão da mulher mudar.
— Aquele orangotango te jogou na lixeira?
— Sim.
— Cretino! — Imediatamente ela começou a fazer planos do que faria com o homem. — Depois que eu te levar para casa, vou fazer uma visitinha e acertar as coisas.
— Não precisa matar ele.
— Não vou, só pretendo machucá-lo um pouquinho.
— Não precisa fazer isso... é que... na verdade... — gaguejou, tentando se explicar.
passou a encará-lo com impaciência, então ele respirou fundo, se preparando para contar tudo.
— Eu que xinguei ele e tentei começar uma briga. Ele já estava bem puto de ter perdido a luta e doido para dar uma surra em alguém. Sorte a minha ele só ter me jogado na lixeira. — Disse, voltando a andar. — Sorte nada. — Corrigiu-se após alguns segundos de reflexão. — A Octopussy que intercedeu em meu favor.
— Por favor, para de repetir esse nome. — Pediu, não se atentando ao fato de Cash, mais uma vez, arrumando confusão com alguém muito maior que ele. Aquele nome estava desviando sua atenção de qualquer outra coisa.
— Por quê? É tão bom de falar. Octopussy, Octo-pussy, Octopussssssy... — ele repetia a palavra com diferentes ritmos e entonações.
— Se não parar, eu vou te devolver para o lixo.
— Para de ser malvada. — Pediu manhoso. — Eu tive uma noite difícil.
— Precisa de um café. Vem... — puxou ele e caminharam juntos até uma rua com diversas pequenas lanchonetes.
Foram até uma cafeteria estreita com uma placa em letras vermelhas garrafais onde se lia “Café da Mama B”. Ajudou o amigo a sentar em uma cadeira alta e se sentou ao seu lado. Cash apoiou os braços sobre a bancada e então sua cabeça tombou sobre os braços. Uma senhorinha de cabelos grisalhos apareceu com um sorriso.
— Bom dia para vocês.
— Bom dia, senhora Balaguer. — respondeu com um sorriso. Cash ergueu a mão para acenar para a mulher, mantendo a cabeça na mesma posição. — Preciso alimentar esse guaxinim de ressaca.
— Ah, Cash... você precisa parar de beber tanto. — A senhora Balaguer estava genuinamente preocupada. — Vou trazer café e um sanduíche de bacon e ovos. — Disse, saindo apressadamente em direção à pequena cozinha.
— Isso é um ultraje. Você bebe muito mais que eu. — Cash girou a cabeça para encarar a amiga.
Ela riu, assentindo.
— Verdade. Mas eu nunca acordei em uma lixeira.
— Isso porque sua vida é menos excitante que a minha. — Murmurou enterrando novamente o rosto entre os braços.



Capítulo VI.
Lembranças.

O dia da viagem havia finalmente chegado e a tripulação da Guinevere descansava em preparação. Bom... quase toda. estava acordada. Mas não eram as preocupações com o trabalho que perturbavam seu sono, mais uma vez o motivo de sua insônia eram as persistentes memórias que pareciam pairar sobre sua mente. Ela estava sentada na poltrona do piloto, encarando a caixa de papelão em seu colo. Era a primeira vez, em anos, que ela retirava aquela caixa do esconderijo. Ali, muitos vestígios de sua antiga vida. Uma vida que parecia já tão distante, cinzenta e desbotada.
Após horas encarando aquela tampa desgastada, ainda não havia encontrado a coragem para abri-la.
Às vezes, ela sentia uma inquietante vontade de botar fogo em tudo, na expectativa de que tal ação fosse capaz de exorcizar cada lembrança. Mas logo aquele sentimento era substituído por uma tristeza que deixava seu coração apertado.
Ainda dividida pelo desejo de se livrar de tudo e o de rever cada pedacinho ali, ela retirou a tampa cuidadosamente. Seus olhos imediatamente focaram em um coelho de pelúcia rosa encardido com uma gravata borboleta xadrez no pescoço. Sorriu, lembrando-se de Betty chegando no orfanato agarrada àquele bichinho. A primeira vez que a viu. A primeira memória. O peso daquela recordação fez com que não conseguisse deixar o coelho para trás, quando abandonou sua antiga vida. Antes de entrar numa nave rumo a outra galáxia, invadiu o apartamento que Betty dividia com Pete e roubou aquela pelúcia cor-de-rosa. Ela precisava daquilo, uma pequena parte da irmã para carregar consigo. Naquela época, mais do que nunca, ela precisava de coisas tangíveis para se agarrar. A morte da irmã, o trauma, a dor da perda e das queimaduras marcando seu corpo, achar que estava enlouquecendo quando começou a ver aparições de Betty... era mais do que conseguia suportar.
Suspirando, voltou sua atenção aos outros objetos na caixa. Remexeu diversos papeis e fotos antigas, e se deparou com um pequeno bloquinho de papel encadernado em uma capa de couro marrom. Sua respiração se tornou rápida e descompassada. Esqueceu-se que aquilo ainda estava ali. Lembrava vagamente de, em uma noite de bebedeira, jogá-lo em um balde com a intenção de incinerar aquele pedaço de passado.
Subitamente se levantou e foi até a cozinha. Voltou com um balde de alumínio em mãos e o colocou no chão. Jogou ali o bloquinho, fotos e qualquer outro objeto que a fizessem pensar em . Tirou o isqueiro do bolso e o acendeu, passando a encarar a pequena chama por algum tempo. Olhando fixamente para o brilho do fogo e envolta pelo silêncio, ela foi tomada por memórias.

Após duas horas de viagem e uma pequena turbulência, finalmente aterrissava no solo do planeta Meeha. Ligou os sistemas de defesa e camuflagem, catou a mochila na poltrona do copiloto e caminhou até a baía de carga, cantarolando e tocando um baixo imaginário. Parou ao se deparar com , paramentado com uniforme e equipamento de combate.
— Por que está vestido assim?
— Porque esse é o vestuário padrão para missões de reconhecimento em planetas em processo de terraformação... mas pela sua cara, isso não é uma missão. — Mudou o , quando deu um sorriso culpado. — Você me trouxe em uma viagem ilegal? — Elevou a voz, sentindo as primeiras pontadas de frustação. — Eu não posso ir para cadeia!
— Voltar para cadeia. — Corrigiu-o e ele a fuzilou com o olhar.
— Exatamente! Acabei de passar duas noites numa prisão militar. — Irritado, desabou no assento.
Encarou o chão e massageou a nuca, relembrando as madrugadas de cativeiro.
— Do que está reclamando? Aquilo é férias. Quando eu não estou a fim de treinamento, soco algum superior e vou para a cadeia descansar. — Provocou, sentando ao lado dele e foi recebida com uma expressão de indignação. — Pensa pelo lado positivo, dessa vez você vai ser preso por algo que fez e não por separar uma briga do Cash. — Disse com um sorriso debochado. — Cedo demais? — Diante do semblante brincalhão dela, ele balançou a cabeça, incrédulo.
— Você não presta!
— Eu sei. E isso é grande parte do meu charme. — Disse , forçando uma voz sedutora e encerrando com uma piscadela.
não conseguiu conter o pequeno sorriso que brotou em seus lábios.
— Não se preocupa, vai dar tudo certo. Não vai para cadeia. Ray está no controle de voo e Cash está trabalhando no hangar. — Ela tentava usar um de voz tranquilizador, enquanto começava a retirar os equipamentos de combate presos ao tórax dele.
— Cash está lá como faxineiro, como punição por perturbação da ordem. — Mordeu o interior da boca, ainda muito nervoso com a possibilidade de voltar para a prisão.
— Sim, mas está no hangar. E os dois vão garantir que ninguém vai dar falta dessa nave. — Ela falava com segurança, sem demonstrar nenhuma gota de preocupação. — Relaxa, eu já fiz várias viagens ilegais. — Deu um leve esbarrão nele.
— Não acredito que você me entregou documentos falsificados. — Respirou fundo e balançou a cabeça um tanto frustrado.
— Fala sério, ! Você realmente estava acreditando que tinha sido designado para uma missão ultrassecreta? — Indagou divertida, recebendo uma carranca em resposta. — Isso é adorável! — Apertou a bochecha do homem, que emitiu um som de desaprovação.
— Estou me sentindo extremamente ofendido.
— Não fique. É que você chegou tem poucos meses e, além disso, o coronel Gergich te odeia.
— Ele não me odeia.
— Odeia sim. E isso é até um elogio, porque ele é um cretino.
— Então... Você fraudou documentos, conseguiu que o Ray mentisse para você e, bom... do Cash eu já esperava isso. — Ia enumerando os fatos que lhe garantiriam mais algumas noites na prisão, enquanto ela o puxava para ficar de pé. — E se pegarem a gente?
— Não vamos ser pegos.
— Mas e se acontecer?
— Eu digo que sequestrei você. — Disse com um sorriso, abaixando-se e retirando parte da armadura e armas que ele carregava nas pernas.
— Não! Não vai levar a culpa sozinha.
— Eu meio que sequestrei você. E sou famosa por levar as pessoas para o mau caminho. — Ela passou as mãos pela cintura dele, desafivelando as munições presas ali.
segurou seus braços e a puxou para mais para perto a abraçando. Seus lábios tocaram os dela por um longo momento, mas antes que pudesse aprofundar o beijo, ela se afastou, agora se concentrando em retirar as partes da armadura presas aos ombros dele.
— Eu quis te trazer para relaxar.
— A possibilidade de mais tempo na prisão não é relaxante... — resmungou e ela deu uma risada solidária.
— Não está nenhum pouco curioso para saber onde estamos? — Indagou bem perto do ouvido dele.
Diante de um olhar ansioso, ela deu passos apressados, rapidamente cruzando a baía de carga. Apertou alguns botões na parede de metal e imediatamente as portas se abriram, revelando uma floresta iluminada por uma flora fluorescente. Plantas e flores roxas, azuladas e esverdeadas que emitiam um brilho forte capaz de romper a escuridão daquela noite sem estrelas visíveis.
— Uau! — disse somente ao se deparar com aquele espetáculo luminoso.
Sentindo-se deslumbrado, deu passos curtos, descendo a rampa conforme ela se estendia automaticamente abaixo de seus pés.
— Sabia que ia gostar daqui. — Ela estampava um amplo sorriso, satisfeita com o brilho nos olhos dele.
— Onde nós estamos? — Indagou ao pisar no solo do planeta e observar atentamente cada forma e cor que cobriam aquele pedaço de floresta.
— Meeha.
— Por que nunca ouvi falar desse lugar?
— Porque ele está sendo propositalmente mantido escondido. Está passando por uma terraformação minuciosa para se tornar um resort. — Havia repulsa em seu de voz.
— Que merda! — Seu olhar então passeou por cada pedaço da vegetação cobrindo aquela paisagem multicolorida. — Às vezes eu penso em quantos lugares a gente já destruiu. Nós somos como gafanhotos. Devorando e destruindo planetas, tentando transformá-los em substitutos para a Terra. A gente já não ocupou lugares suficientes?
— Os ricos nunca estão satisfeitos. É isso que eles fazem. Privatizam tudo e destroem a beleza.
— Isso não está certo. Lugares como esse deveriam ser preservados. Eu nunca vi nada assim. — Voltou sua atenção para uma flor de pouco mais de vinte centímetros que parecia brilhar mais que as outras.
Seus olhos analisavam atentamente o cintilar das pétalas que ia do roxo ao azul. Abaixou-se para observar mais de perto cada detalhe.
— Elas são tóxicas?
meneou a cabeça, aproximando-se.
— O botânico em você está claramente maravilhado. — Ela comentou com um sorriso — Eu sabia que ia amar aqui.
— Sou tão transparente assim?
— Sim.
— Esse lugar é incrível, mas eu ainda não sou botânico. Ainda preciso passar nos testes para, então, conseguir transferência para divisão de pesquisa. — se ergueu, sentindo-se um tanto ansioso ao pensar no processo seletivo que enfrentaria em poucas semanas.
Já havia fracassado uma vez. Não podia fracassar de novo.
— Fica tranquilo, você vai conseguir. Eu sou uma desordeira que já passou muitos dias na cadeia e consegui me tornar piloto. Você vai ser aprovado! Logo vai abandonar essa vida de privação e sofrimento na infantaria. — foi até ele e tocou seus ombros com carinho. — Agora vem... — a mão direita dela deslizou até encontrar a dele. — Depois vai ter tempo de fotografar, desenhar, pegar amostras e tudo mais. Mas agora temos outros planos.
De mãos dadas, caminharam por alguns minutos até alcançar um lago também fluorescente. A água tinha um violeta e brilhava ainda mais que a vegetação. se agachou perto da margem e ficou observando toda a beleza daquele lugar.
Da mochila, tirou uma manta que usou para forrar o chão. De lá, também retirou copos e alguns alimentos. Ao voltar a atenção para a mulher, a expressão de foi da confusão à admiração.
— Um piquenique na madrugada? Não te imaginava fazendo gestos românticos. — Ele se aproximou com um sorriso que aumentou diante da repentina timidez dela.
— Eu não estou. Só quis fazer algo para te ajudar a relaxar.
— Obrigado. — Suas mãos envolveram o rosto de com delicadeza.
— Não está mais com medo de ser pego?
— Eu realmente não quero passar mais nenhuma noite na cadeia. — Sentou-se na manta, passando a revistar o que ela carregava na mochila.
— Você precisa relaxar. Acho que um banho vai ajudar. — Tentou puxá-lo para cima, mas ele se soltou dela.
— Quê? Você está pensando em entrar aí? — Apontou para o lago violeta.
— Eu não estou pensando. Eu vou. — Disse, já retirando o casaco e a blusa. — Você não vem? — Apoiou-se no ombro dele para retirar as botas e então as calças.
— Não confio em água fluorescente.
— Vai me rejeitar, é?
— Eu não estou te rejeitando... — seus olhos estavam fixos na mulher, que retirava lentamente o sutiã e depois a calcinha. — Estou rejeitando esse lago e todas as doenças e predadores que devem morar aí. — Tentou tocá-la, mas ela se afastou.
— O único predador aqui sou eu! — Piscou e então virou.
Deu apenas dois passos e então virou novamente para ele.
— Nossa, isso foi terrível... estou convivendo demais com o Cash. — Deu uma sonora risada descontraída e pulou na água.

Após alguns minutos, decidiu sair e foi imediatamente recebida por , que colocou uma toalha de maneira protetora sobre seus ombros.
— Está congelando. — Esfregou os braços dela com a toalha e então a puxou para mais perto.
— Não deve me tocar. — Forçou uma expressão séria e então se afastou se secando. — Eu estava em contato com aquela água suja, cheia de toxinas alienígenas...
— Parece muito bem para mim.
— Não quis tomar banho comigo, não vai aproveitar esse corpo. — Ela se enrolou na toalha e foi até a manta diante dos olhos atentos de . — Droga, esqueci de pegar o cooler.
— Vou buscar.
— Está dentro da caixa de munições.
— Ok. — Deu alguns passos em direção à nave, mas então parou. — Aqui. — Retirou a jaqueta e arremessou para a mulher.
agarrou a jaqueta e a aproximou do rosto, sentindo ali aquele cheiro familiar que ocupava suas noites e pensamentos há algum tempo. Ao ajeitar o casaco para vestir, um pequeno objeto marrom caiu. Vestiu o casaco, sentou-se na manta, e alcançou o que parecia ser um bloco de notas. Cuidadosamente, desamarrou a cordinha que envolvia a capa de couro. Ao abrir e começar a folhear, deparou-se com diversos desenhos. Já sabia que tinha uma alma de artista e estava sempre rabiscando alguma coisa, mas aquela era a primeira vez que ela via aquele bloquinho. Absorta no que via ali, ela não notou a aproximação dele.
— Não era para você ver isso. — Disse , sentindo-se completamente desconcertado quando seu olhar encontrou o dela.
— A maioria dos desenhos aqui são retratos meus. — Ele entreabriu os lábios, como se fosse dizer algo, mas, ao invés disso, deu um sorriso. — Isso é meio assustador. Por acaso você cortou uma mecha do meu cabelo enquanto eu dormia e fica por aí cheirando ela? — Indagou preocupada e ele arregalou os olhos.
— Quê? É claro que não. — Disse um pouco nervoso, entre risos.
— Não ria. Isso já aconteceu uma vez. O cara era pirado.
— Não sou um maluco obcecado por você. Eu te garanto. — Afirmou com seriedade, estudando as expressões dela. Então umedeceu os lábios, tentando encontrar as palavras certas. — Você é minha musa.
— Uau. Nunca fui uma musa. Me sinto importante. — Disse, sustentando uma expressão convencida.
Colocou o caderno de lado e se jogou de costas na manta. Ficou ali, deitada, encarando o céu. Assim que se deitou ao seu lado, ela virou a cabeça para encará-lo. Delicadamente, ele acariciou sua bochecha e depositou um beijo na ponta de seu nariz.
— Ainda está congelando. — Ele tirou os fios de cabelos molhados grudados na testa dela e ela se aconchegou a ele.
— Acho que agora você pode aproveitar desse corpo... só um pouquinho. — Os dois riram, mas logo suas expressões mudaram.
Encaravam-se com intensidade, quando ele acabou com a distância entre as bocas. Aproximaram-se ainda mais e ele sentiu arrepios, quando ela o tocou com as mãos gélidas. deslizou a mão direita por debaixo da jaqueta, única peça de roupa que ela vestia, e sorriu contra lábios dela ao ouvi-la soltar um gemido baixinho. Impaciente, o puxou para mais perto aprofundando o beijo. Quando precisaram se afastar por um instante para recuperar o fôlego, ela o observou minuciosamente. Cada detalhe do rosto dele, cada sarda, as pequenas rugas que se formavam ao redor dos seus olhos, quando ele dava um daqueles sorrisos capazes de desarmá-la totalmente.
— Eu te amo. — Ao ouvir aquilo, sentiu que por um instante seu coração parou de bater.
Paralisou e prendeu a respiração sem perceber, enquanto aquela frase pairou no ar por um longo momento.
— Por favor, não fuja. — Ele abaixou a voz para um sussurro.
— Não vou. — As palavras saíram incertas e baixas.
Ela ainda estava tensa.
— Mas considerou entrar naquela nave e partir. — Estava preocupado com a expressão esquisita que surgiu no rosto dela.
— Talvez. — Sentiu a voz falhar e então deu um risinho nervoso. — Olha, , eu...
— Não precisa dizer nada. Sério. É só que... eu tenho me sentindo assim há algum tempo. E eu só precisava falar. — Ao ouvir aquelas palavras, ela finalmente se deu conta que sentia o mesmo.
Naqueles braços, ela encontrava conforto. Era para ser apenas algo casual. Puramente atração física. Mas algo se encaixou ali. Só não conseguiria expressar aquilo em palavras como ele, então, como sempre, disfarçou seus reais sentimentos através do humor.
— Sabe... acho que você está um tantinho obcecado.
hesitou, mordendo o lábio e então disse baixinho:
— É, eu acho que estou.
— Por favor, não corte uma mecha do meu cabelo enquanto eu estiver dormindo. — Pediu, ouvindo uma risada em resposta.

Amor, pensou com amargura. Aquela palavra havia perdido o significado há muito tempo. Aquele amor arrebatador que dizia sentir se extinguiu com a mesma facilidade que a chama do isqueiro desaparecia sem a pressão de seu polegar.
Acendeu novamente a pequena chama, dessa vez recordando dos incêndios que tiraram a irmã. Paralisou, sentindo-se sufocada pela recordação. Lembrou do calor, do brilho forte das chamas, do som das sirenes, dos gritos...
! — som da voz de Betty foi capaz de afastar as lembranças.
A mulher soltou o isqueiro no chão e se voltou para a irmã.
— Você está bem?
— É, eu só estava... distraída. — Murmurou, ainda balançada pelas memórias.
Rapidamente colocou a tampa sobre a caixa.
— E você? Está bem? — Indagou, tentando se recompor. — Anda meio sumida.
Haha! — Forçou uma risada. — Você fazendo piada de fantasma. — A voz de Betty soou um pouco ressentida.
— Desculpa. Não foi intencional. É que você literalmente não tem aparecido muito. — Com cuidado, colocou a caixa no chão e virou a cadeira, ficando de frente para a irmã. — Onde você estava? Não te vejo há dois dias.
— Eu estava tentando espionar nossos empregadores, mas não encontrei eles em lugar nenhum.
— Estranho. — Disse somente.
Seus pensamentos ainda estavam ocupados focados no passado. Queria desesperadamente ficar sozinha, para então enterrar novamente aquelas memórias.
... — Betty disse com a voz suave se aproximando. — Está tudo bem. — Fez uma pausa diante do olhar confuso da irmã. — Sentir falta dele. — Finalizou, lançando um olhar sobre as fotos no balde.
— Eu não sinto. — Disse sem emoção.
Abaixou-se e pegou novamente o isqueiro. Precisava se livrar de tudo aquilo. Exorcizar de vez cada pedacinho de ainda presente ali.
— Por favor, não faz isso...
— Ele matou você. — O peso daquelas palavras fez um nó se formar em sua garganta.
— Eu não acredito nisso. Já te falei centenas de vezes. Ele não sabia das bombas. Tenho certeza que não. Ele não colocaria vidas inocentes em perigo. — Elevou a voz.
Ela realmente acreditava em cada uma daquelas palavras.
— Ele colocou, no momento que decidiu participar daquele assalto. — pegou uma foto do balde, mas antes que pudesse incendiá-la, Betty desapareceu e rapidamente tomou o isqueiro de sua mão. — Que merda, Bess!
— É do que a gente está falando. — Ela reapareceu do outro lado da sala. — O cara que nem me deixava matar aranhas.
— Esse cara morreu. — Murmurou amargamente. — Espero que ele apodreça na prisão.
— Não fala isso.
— Ele te tirou de mim. Não dá para perdoar isso. — Encarou a foto por um instante e então a rasgou, em seguida a picotou em pedacinhos.
— Não foi culpa dele. Eu sei disso. E no fundo você também sabe. — Betty se aproximou novamente.
Tentou acariciar os cabelos de , mas ela se esquivou.
— Por favor, para. Pare de defendê-lo. — Cobriu o rosto com as mãos e jogou o corpo para trás, frustrada.
— Só... por favor, não queime essas lembranças. São parte de quem você é. — encarou a irmã.
Ela estava certa. Cada lembrança, cada souvenir, eram partes dela. Partes que transformaram ela em uma mulher cheia de arrependimentos. Partes que ela precisava destruir.
— E não é como se as memórias fossem desaparecer totalmente. Não pode fingir que o fogo vai simplesmente apagar tudo e...
— O fogo tirou você de mim. — Rosnou, girando a poltrona e finalmente se levantou. — O fogo fez de mim quem eu sou hoje. — Ela arrancou as luvas e estendeu as mãos para a irmã.
Após um longo suspiro, ela abaixou a voz e cerrou os punhos finalizando:
— Por favor, Betty, eu não quero falar de nada disso.
— Ok. Então vamos falar dessa caixa. Eu nunca a vi antes. — Deu um passo em direção à caixa, mas se posicionou na sua frente.
— Isso porque não tem nada aqui que te diz respeito.
— Sério? Então por que o senhor Bigodes está aí? Reconheci as orelhas quando entrei aqui. Eu não sabia que você tinha guardado. — Ao notar a expressão estampada no rosto da irmã, o de voz de Betty mudou. — O que mais tem na caixa? — Aproximou-se, mas apanhou a caixa do chão e a abraçou de maneira protetora.
— São só coisas minhas.
— Me deixa ver as fotos? Por favor.
— Não, Betty. Nada aqui te diz respeito. — A voz dela endureceu.
Apertou a caixa com mais força contra si e se virou para guardá-la. Foi então que notou que o ar havia ficado mais frio. Procurou Betty com o olhar e não encontrou. Quando finalmente percebeu o que estava para acontecer, não havia mais tempo de tentar reagir. sentiu os músculos enrijecerem na medida em que ia perdendo a capacidade de controlar seu corpo. Betty havia a possuído e agora começava a tirar a tampa da caixa. Ela até tentou lutar. Tentava resistir, mas era impossível. Lágrimas escorreram de seus olhos diante da impossibilidade de se defender.
Enquanto controlava o corpo da irmã, Betty podia sentir tudo o que ela sentia. Foi surpreendida quando seu interior foi tomado por desespero, dor e tristeza que transbordavam. Diante da força daqueles sentimentos, ela perdeu o controle por um instante. Foi o suficiente para tentar novamente lutar para expulsá-la de seu corpo.
O embate entre as irmãs durou pouco. Antes que Betty pudesse retomar o controle, a caixa escapou das mãos da mulher, espalhando todo seu conteúdo no chão da ponte de comando. A mais nova saltou do corpo da irmã, que então caiu sem forças no chão.
— Como pôde fazer isso comigo? — Com dificuldade, conseguiu cuspir as palavras. — Eu te disse que meu corpo é fora dos limites! — Sua fala era entrecortada, ela respirava com dificuldade.
Betty não ouviu nada daquilo. Sua atenção estava no pequeno objeto que rolou para fora da caixa. Ela alcançou o anel de ouro branco e o analisou. Reconhecia aquele delicado diamante.
— O que isso está fazendo aqui, ?
— Isso é meu.
— Não, não é. Eu conheço esse anel. É da mãe de Pete. — Disse Betty, melancólica.
Ela sentia seu peito sendo esmagado. Deu passos rápidos até a irmã.
— Por que isso está aqui? — Sua voz era quase um sussurro. Carregada de dor e rancor.
Sem conseguir suportar aqueles olhos ressentidos sobre si, desviou o olhar.
— Sabe, pode queimar tudo. Até essa nave se quiser. Mas esse anel e o senhor Bigodes são meus. — Ela pegou o coelho do chão e marchou porta a fora.
— Betty! — Chamou baixinho, ainda sem forças.
Assim que se viu sozinha, acertou a cabeça com força no chão repetidas vezes. E então chorou. Um choro engasgado e sonoro.

Após alguns minutos se recuperando, juntou tudo que estava espalhado e colocou a caixa de volta no esconderijo. Ficou parada diante da entrada do quarto da irmã por algum tempo. Não queria ter aquela conversa. Não queria ter que responder as dúvidas dela. Sentindo-se sufocada por toda aquela situação, ela finalmente abriu a escotilha e desceu as escadas que levavam ao quarto de Betty. Entrou no quarto aparentemente vazio, mas no cantinho da cama podia ver o senhor Bigodes.
— Betty, eu sei que você está aqui. — Chamou após algum tempo observando o quarto.
— Por favor, me deixa sozinha. — Betty pediu com uma voz chorosa.
— Eu roubei o senhor Bigodes horas antes de deixar New Charon. Eu invadi o apartamento, enquanto o Pete estava trabalhando e peguei. Eu precisava dele.
— E o anel, ? Por que está com ele? — Disse, finalmente se tornando visível.
Estava recostada a cabeceira da cama. Abraçava os joelhos, apoiando o queixo neles.
suspirou e se sentou na colcha lilás. Encarou a irmã por um instante. Pensou, tentando encontrar as palavras certas.
— Eu acho que isso só vai tornar tudo ainda pior.
— Eu não me importo. Eu preciso saber.
— O Pete deixou o anel comigo. Ele me pediu para eu esconder no meu apartamento. Ele te conhecia bem demais. Sabia que se deixasse em casa, você acabaria encontrando. — sentiu uma pontada ao mencionar aquelas palavras, mas a expressão que brotou no rosto da irmã é que fez a dor em seu peito aumentar.
— Ele ia me pedir em casamento. — Os olhos dela se encheram de lágrimas.
Ela puxou o coelho de pelúcia e o abraçou. Aumentando a força do abraço, conforme as lágrimas também aumentavam.
— Mas aí... tudo aquilo aconteceu.
O dia dos atentados. O dia que perdeu a irmã. O dia que destruiu sua vida.
— Ele foi me visitar no hospital. Eu disse onde o anel estava. Mas ele não quis de volta. Ele...
— Ele o que, ?
— Ele falou que devia ser enterrado com você. Mas eu não consegui. — Ela se abraçou e passou a encarar o chão. — Eu até pensei em fazer isso. Mas, naquele dia, no seu velório... é tão estranho falar isso. Naquele dia, eu vi você. E eu achei que estava enlouquecendo. Mas também achei que era algum tipo de sinal. E aí, guardei o anel. — Voltou o olhar para irmã, arrependendo-se assim que a encarou.
Arquejou, sentindo os olhos arderem. Engoliu o choro. Não podia se derramar agora. Precisava estar ali por ela.
— Me desculpa por ter escondido de você. Eu achei que saber só pioraria as coisas.
— Eu preciso ir até lá, . — Afirmou, decidida, limpando o rosto.
— Eu não posso.
— Você precisa. Por mim. Sabe que eu estou ligada a você. Se eu pudesse entrar em uma nave, eu iria. Mas não posso. Tem um limite para o tanto que posso me distanciar de você.
— Mas por que ir a New Charon?
— Eu preciso ver o Pete. Eu preciso me despedir.
— Não pode. Quer que ele acabe em um sanatório como eu? Eu passei uma semana naquele lugar e ainda tenho pesadelos. — Levou a mão esquerda até a nuca, tocando a pequena tatuagem ali.
Esforçou-se em não permitir que as lembranças daqueles dias a atingissem. Então, fechou os olhos e respirou fundo, tentando colocar seus pensamentos em ordem.
— Você me deve isso.
— Betty, você sabe que se eu pudesse eu trocaria de lugar com você. — Uma lágrima finalmente rolou por sua bochecha e ela se apressou em limpá-la. — Eu devia ter morrido aquele dia. Não você.
— Eu não... não é isso que eu estou falando. Eu nunca ia querer isso, ‘tá bom? — Betty foi até a irmã e se sentou ao seu lado, segurando suas mãos com carinho. — Nunca mais diga isso. — Deu um beijo na bochecha da mulher e acariciou seus cabelos. Em seguida, afastou-se um pouco para poder encará-la: — Eu... eu só preciso dizer adeus... por favor.
— Ok. Assim que terminarmos esse trabalho, eu te levo lá.
— Obrigada! — Betty envolveu a irmã em um abraço apertado.



Capítulo VII.
O hóspede suspeito.

Após uma madrugada difícil, se esforçava em focar sua atenção no trabalho. Havia alguns últimos ajustes a serem feitos antes da chegada dos clientes e tudo deveria estar pronto, mas, para isso, ela precisava encontrar seu mecânico. Após vasculhar as áreas comuns e o quarto de Cash, ela foi até o intercomunicador na parede:
— Cash, venha para a sala de máquinas imediatamente! Preciso de você agora! — Diante da falta de resposta, ela continuou. — Alguém viu o Cash?
— Ele falou que ia testar uma nova invenção. — A voz de Ruby ecoou pelos alto falantes.
Com passos apressados, foi até os dormitórios. Um dos quartos havia sido transformado em um pequeno laboratório, onde Cash armazenava e testava suas invenções. O mecânico tinha alma de inventor, um não tão bem-sucedido, mas persistente.
— O que é isso? — gritou ao ver Cash sair de dentro de uma enorme caixa de metal, que mais parecia um caixão posicionado na vertical.
— Isso é uma câmara de bronzeamento. — Disse orgulhoso, mostrando o próprio corpo.
Ele trajava apenas uma sunga roxa, óculos protetores e um tom alaranjado na pele.
— Você intencionalmente decidiu parecer um camarão frito? Que ótimo!
— Para de ser chata. Eu estou lindo. — Retirou os óculos protetores e, então, encarou seu reflexo na lataria da caixa metálica.
— Ok, coisa linda. Faça o favor de colocar uma roupa.
— Mas aí as pessoas não vão ver meu bronzeado. — Choramingou, recebendo um olhar irado em resposta.
— Cash, eu estou muito perto de te jogar em uma das turbinas. Então, não me testa. Quero você vestido, apresentável e profissional. — A voz de soou exausta. — Só finge.
— Sim, senhora. — Assentiu, catando o macacão do chão.
Vestiu-se rapidamente e ajeitou as mangas.
— Cadê a Betty? Ela sempre tem todo um momento de drama e sofrimento por ter que ficar invisível para os hóspedes.
— Ela só precisa de um tempinho sozinha. — Tentou disfarçar a tristeza, mas não conseguiu.
— É um dos dias ruins?
— É.
— Vem cá. — Abriu os braços e fez um gesto para ela se aproximar.
— Vamos reagendar esse abraço.
— Por quê?
— Porque você está laranja.
Ele abaixou os ombros, estampando uma expressão tristonha. o encarou por um instante, após um longo suspiro, ela se aproximou e foi recebida com um abraço apertado.
— Agora vá trabalhar. — Disse, afastando-se. — Tem um barulho esquisito vindo das paredes da sala de máquinas, acho que é o sistema de refrigeração.
— Eu acabei de trocar as válvulas de controle de fluxo e eu digo sem um pingo de modéstia que eu fiz um ótimo trabalho.
— Pois eu acho bom você ir checar esse seu ótimo trabalho, eu não quero decolar já tendo que contar com o sistema auxiliar. — Resmungou, irritada.
Diante da inércia dele, ela elevou a voz:
Agora!
— Ok, ok, chefinha. — Apressou-se porta afora.
Conhecia a mulher bem o suficiente para não testar seus limites. Conheciam-se há dez anos e uma coisa que havia aprendido muito cedo, era que não era de fazer promessas e ameaças vazias. Acabaria chutando o traseiro dele se não cumprisse seu papel importantíssimo de manter a Guinevere no ar.
Ao ouvir um estrondo, Cash desviou de seu caminho e foi até a baía de carga. Deparou-se com Ruby tentando empilhar sozinha algumas caixas para abrir mais espaço no recinto. Foi até ela e ajudou a carregar a caixa pesada. Quando a mulher finalmente o encarou, arregalou os olhos, surpresa.
— Que merda é essa? — Perguntou assustada com a cor dele.
— Desenvolvi uma sofisticada máquina de bronzeamento. — Abriu um pouco o macacão e apontou a mão para o torso, orgulhoso de seu bronzeado.
— Você está parecendo uma cenoura. — Comentou, alcançando outra caixa.
— Uma cenoura muito sexy. — Rebateu com um sorriso de lado, fazendo uma pose que julgava sensual. — E esse novo visual aí? — Disse em tom brincalhão, reparando o novo corte de cabelo da mulher.
— Achei que ficaria mais amigável assim.
— Para isso, essa franja teria que cobrir esses olhos de psicopata. — Murmurou, imediatamente se arrependendo do comentário.
Ela soltou a caixa e ele largou também.
— Nem pense em cochilar na sala de máquinas. — Apontou o dedo para ele e se aproximou com uma voz ameaçadora. — É melhor ir dormir no seu quarto... mas tranque a porta. Faço questão de arrombá-la e, então... — meditou por um momento, refletindo sobre qual seria a ameaça mais eficaz. — Talvez eu te jogue em uma das turbinas.
— Vai ter que entrar na fila. — Disse com uma expressão desgostosa.
Ela foi até Cash e acertou um soco no braço do mecânico. Ignorando os resmungos dele, ela deu mais um soco.
— Você precisa se comportar. O senhor Z é um desses engravatados dos planetas centrais, se assusta fácil. Temos que administrar isso.
— Ela é que é a psicopata. Está me ameaçando de morte. — Defendeu-se, enquanto massageava o braço.
— Vocês dois são psicopatas.
— Ah, tá! Como se você fosse normal. Mês passado você destruiu parte da coleção de bonecas de cerâmica do Crowley. Você fez um homem adulto chorar. — Cash acusou e viu segurar um sorriso diante da lembrança. Destruir aquelas bonecas havia sido muito satisfatório.
— Ela fez muitos homens adultos chorarem. — Constatou Ruby, relembrando diversas situações que poderiam ter colocado a piloto na prisão.
— Você também fez, Ruby. — Cash se voltou para a mulher com uma expressão de deboche. — E você é a pior daqui. Você é procurada pela justiça em três planetas diferentes.
— É só em um planeta e nem é pela justiça, é por um agiota. — Corrigiu-o, dando de ombros.
— Agiotas são a justiça nos planetas da fronteira.
— E você? Enfiou uma faca na coxa do Sherman, porque ele te chamou de maluco. — Foi a vez de Ruby acusá-lo.
— E o Ray ainda tem coragem de falar que nós somos uma grande família feliz.
— Mas nós somos. — Ray surgiu com sacolas de compras nos braços e dois grandes carrinhos de feira.
— Uma bem disfuncional e cheia de psicopatas. — Cash rebateu.
— Olha esse relacionamento lindo. — Ray disse, largando as sacolas no chão. — Vocês três e a Betty são como irmãos, sempre implicando um com o outro. Mas se alguém se atreve a se meter com alguém do grupo, o resto entra no modo irmão mais velho protetor.
— Ok, nós somos irmãos. E você seria o quê?
— A mãe. — respondeu séria.
— Eu aceito isso. Alguém precisa cuidar de vocês. — Ray riu e então se voltou para Ruby. — Bom dia, minha linda esposa.
— Bom dia, marido sexy. — Ela foi até ele e partilharam um beijo, que imediatamente foi interrompido por Cash tentando vasculhar as sacolas.
— O que tem aí?
— Comida.
— Oba.
— Pode ir diminuindo a animação. A comida de verdade é para os clientes. — se intrometeu, já catando as sacolas do chão.
— Vai me matar de fome? — Inquiriu indignado, apoiando as mãos na cintura.
— Não. Você vai poder comer nos horários predeterminados para as refeições. Para os seus lanchinhos da madrugada, você vai continuar comendo proteína moldada.
— Aquilo tem gosto de terra.
— É, mas você ama e tem vitaminas e sais minerais. — Forçou a voz para parecer um dos comerciais do produto. — Agora vá checar o barulho na sala de máquinas!
Contrariado, Cash se dirigiu às escadas que o levariam ao deque superior.
— Precisamos guardar isso tudo, já está quase na hora. — Disse , voltando-se para Ray e então também foi até as escadas, sendo imediatamente seguida.
— Você está bem? — Ray perguntou preocupado.
— Sim.
— Não, não está. — Disse, analisando a amiga que tinha uma postura derrotada.
Os olhos vermelhos e fundos, além das olheiras escuras, também não ajudavam.
— Não, não estou. Mas o cliente está chegando e eu sou profissional. Então eu vou fingir que nada está acontecendo e lido com essas merdas depois. Ok?
— Ok. E obrigada.
— Pelo quê? — Encarou-o com curiosidade.
— Por não mentir para mim.
— Eu mentiria se achasse que isso fosse funcionar. O problema é que a gente se conhece bem demais. — Disse com um sorriso e então foi a vez dela analisá-lo. — Como estão seus rins?
— Estou bem.
— Bem de verdade ou só dizendo que está bem para não me preocupar?
— Bem de verdade. O médico disse que os sintéticos aguentam mais um tempinho. — Disse sem encará-la, largando os carrinhos no chão do refeitório, logo se concentrando em guardar os alimentos.
— Você me agradeceu por contar a verdade e aí mente para mim descaradamente. — Ray estampava um olhar culpado.
...
— Eu liguei para Dahlia... dois dias atrás e ela finalmente me respondeu. Ela conseguiu uma máquina de diálise. É de segunda mão, mas está em boas condições. Eu já instalei na enfermaria. — Ele largou os mantimentos e se aproximou da mulher. — Precisei cobrar alguns favores, mas... — ao perceber que ele se aproximava, ela se apressou em falar:
— Não precisa, eu já fui abraçada hoje.
— Não por mim. — Ray disse baixinho e revirou os olhos.
Ela deu um passo na direção dele, sendo imediatamente envolvida em um abraço.
— Obrigado.
— De nada. Assim que a gente receber, vamos trocar esses sintéticos. A máquina é só por precaução. — Afastou-se para olhar nos olhos do amigo. — Só... não morre. Eu não posso perder a minha tripulação. — Diante daquele pedido, ele fez sinal que ia abraçá-la novamente, mas ela deu alguns passos para trás. — Por falar em não morrer, eu preciso checar o Cash.
deixou Ray terminando de organizar tudo na cozinha e então enveredou pelo corredor rumo à sala de máquinas.
— E aí? Descobriu o problema? — Perguntou para o mecânico, que encarava um painel aberto.
— Era o sistema de resfriamento. — Disse, limpando o suor da testa. — Acho que eu estava um pouco bêbado quando mexi nos circuitos. Alguns conectores estavam invertidos. — Murmurou, já esperando xingamentos.
permaneceu quieta, mas vermelha e cerrando os punhos com força.
— Você quer muito me bater agora, né?
— Muito mesmo. Mas não quero que os clientes te encontrem de olho roxo. — Rosnou entre os dentes. — Termine o serviço e... — foi interrompida pelo dispositivo em seu bolso.
Após ler o que estava escrito na tela, ela foi até o intercomunicador da sala de máquinas.
— Tripulação, aqui é a sua capitã. Os clientes estão chegando. Todos em suas posições.

Era responsabilidade de Ray o primeiro contato com os clientes. Apesar de uma aparência um tanto intimidadora devido ao seu tamanho, o homem era de longe o mais carismático. Ele atravessou a nave com passos lentos, ajeitando a roupa, os cabelos e a barba. Precisava estar apresentável.
Alcançou o portão do hangar e ficou ali, à espera dos novos hóspedes. Após alguns minutos, duas figuras bem-vestidas surgiram a sua esquerda. O mais alto parecia seguro de si com passos duros e uma expressão inabalável. O mais baixo tinha os cabelos compridos, uma postura desajeitada e uma expressão ansiosa estampada no rosto pálido.
Ray os recebeu com um largo sorriso. Após as apresentações, ofereceu-se para carregar as malas, que prontamente foram entregues, com exceção de uma maleta de metal que Zimmerman se recusou a entregar.
— Eu esperava mais. — Z murmurou assim que entraram no hangar e tiveram o primeiro vislumbre da nave.
— Não deve julgar um livro pela capa. A Gwen é tudo aquilo que ouviu falar. — Disse com um sorriso, admirando sua casa e transporte. — Ah... e, por favor, não fale algo do tipo perto da capitã. É uma temática sensível. — Alertou, preocupado com a possibilidade do homem ser agredido se repetisse aquelas palavras.
Ao alcançarem a baía de carga, encontraram no topo da rampa. Ela se esforçava em transparecer simpatia.
— Sejam bem-vindos à Guinevere.
— Uau. Ela é ainda mais bonita do que eu imaginava! — Zimmerman disse, forçando uma voz animada, passeando os olhos pelo interior da nave.
Preocupou-se com o alerta de Ray. A primeira impressão da capitã não havia sido das melhores, mas, mesmo com medo da mulher, ele não conseguiu conter o desejo de fazer comentários sinceros sobre o que via.
— Ouvi que é a nave mais rápida desse lado da galáxia. O que não faz sentido. Essa é uma nave de transporte classe C da segunda geração. Eles nem fabricam mais desse modelo. Ela não foi projetada para ser veloz. — trocou olhares com Ray e então manteve a expressão falsa.
— Bom, senhor Z, prepare-se para ser surpreendido. — Ela apertou o ombro dele com firmeza. — Ray vai fazer um tour para conhecerem a nave e seus dormitórios. Eu devo preparar tudo para a decolagem, mas antes preciso das coordenadas. — Caminhou até Cooper, que entregou para ela um dispositivo com a localização do laboratório.
Após analisar por alguns segundos, ela se voltou para o homem com as sobrancelhas arqueadas:
— Não há nenhum planeta aqui.
— Vai ver quando chegarmos. — Disse somente de modo enigmático e deu alguns passos nave adentro.
Zimmerman abraçou a maleta e o seguiu.
deu um aceno discreto para Ray e foi até as escadas. Com rapidez, alcançou o corredor e, então, a ponte de comando. Com o dispositivo em mãos, ela se sentou na poltrona do piloto e ajeitou a postura. Pressionou alguns controles e as telas e painéis que cobriam a mesa e as paredes se acenderam. Voltou-se para o sistema de navegação e digitou as coordenadas. Com atenção, ela observou os dados que surgiram em seu console, escrutinando-os rapidamente.
— Então, para onde nós vamos? — Ruby indagou curiosa, entrando na ponte.
— Aqui. — apontou algo na tela.
— Mas não tem nada aí.
— Cooper falou que vamos ficar surpresos quando chegarmos lá. — Disse, tentando replicar a voz grave do homem.
— Acho que vamos precisar estar preparados para todo tipo de surpresa. — Comentou, apoiando-se na mesa.
— Preciso que fique de olho neles, especialmente o Cooper. — Ordenou, abaixando o tom de voz.
Ruby acenou com a cabeça assentindo.
— Eu acho que... — parou de falar quando ouviram vozes vindas da escada. — Por favor, seja amigável. — Disse entre os dentes.
— Eu estou muito comprometida em ser amigável. Até cortei a franja para isso. — Jogou o cabelo de um modo debochado e seguiu para o corredor.

Após deixar as malas nos dormitórios, Ray levou os hóspedes para conhecer o resto da nave. Passaram por cada compartimento no deque inferior e ali foram apresentados a Ruby. No deque superior, foram primeiro à sala de máquinas e lá, conheceram Cash, que se empolgou explicando o funcionamento da nave. Falou dos motores primários e secundários, dos sistemas de propulsão, dos sistemas de suporte de vida, da proteção contra radiação e tantas outras coisas que pouco interessavam a qualquer um que não fosse mecânico.
— Obrigado pela longa e detalhista exposição, Cash. — Disse Ray, intrometendo-se. — Mas precisamos continuar. Temos um cronograma a cumprir.
O trio alcançou o refeitório, onde Ray falou sobre os horários das refeições e como se esforçavam em comer todos juntos. Então seguiram até o corredor que dava para a ponte de comando. Ali estavam as portas que levavam aos quartos da tripulação. Eram quatro, mas só uma delas possuía uma plaquinha de identificação.
— Quem é Betty? — Zimmerman indagou curioso, apoiando-se a um painel.
— Irmã da . — Disse Cash, surgindo na entrada do corredor. — Ela morreu... — choramingou com um tom de voz fúnebre. — Eletrocutada nesse mesmo painel. — Ao ouvir aquelas palavras, imediatamente Z saltou para longe do painel.
O desespero e agitação do homem desencadearam uma crise de riso em Cash. Ele só engoliu o riso quando viu o encarando com um olhar assassino da entrada da ponte.
— Peço desculpas pelo meu mecânico. — A piloto desceu os poucos degraus alcançando o corredor. — Ele tem um senso de humor estranho.
— Ela realmente está morta? — Cooper indagou surpreso. — Mas, então... por que manter um quarto? Não faz sentindo. Por que vocês...
— Isso não é da sua conta. — Rebateu ácida e se voltou para Cash. — Temos trabalho a fazer. Vamos decolar em alguns minutos.
— Sim, senhora. — Bateu continência e saiu em direção à sala de máquinas.
— Ray, leve os hóspedes para os dormitórios.
— Mas ainda não vimos a ponte. — Zimmerman resmungou.
— E nem vão ver. É solo sagrado. Vocês devem ficar longe da ponte de comando, da sala de máquinas e nem preciso mencionar os quartos da tripulação. São bem-vindos na cozinha e áreas comuns. Mas durante o procedimento de decolagem, precisam ficar nos quartos.
Cooper abriu a boca para questioná-la, mas ela nem deu tempo de ele fazer isso.
— Estamos entendidos ou eu vou ter que encerrar esse serviço antes de começarmos? — Finalizou, endurecendo a voz.
Quando os homens assentiram, ela cerrou os punhos. Estalou os dedos e caminhou silenciosamente até a ponte de comando, sentando-se na poltrona do piloto. Pelo intercomunicador, avisou Cash que iniciaria o procedimento de decolagem. Ele verificou motores e o sistema de propulsão, e apertou um botão que acionou uma luz no console do piloto.
Com o aval de seu mecânico, acionou um controle que fez o teto do hangar se abrir. Digitou uma série de botões em sequência. Números lampejaram nas telas acima de sua cabeça e zumbidos familiares preencheram a ponte de comando.
— Bom dia, garota. — Sussurrou, encarando a lataria da nave.
Apertou o botão do intercomunicador e então se dirigiu aos tripulantes e passageiros da Guinevere:
Bom dia, crianças. Aqui é a sua capitã. A Guinevere já está pronta para alcançar as estrelas e eu também. Nos falamos em breve.
A nave começou a vibrar. Com as mãos firmes no manche e os olhos nos medidores, fez um pequeno movimento. A nave pairou alguns metros acima do solo. Ainda verificando os sensores, ela recolheu as sapatas de pouso e placas metálicas fecharam os alojamentos dos suportes. Novamente moveu o manche. Agora a Guinevere estava inclinada para cima e começou a se mover adiante. Ela apertou alguns controles adicionais e a nave disparou, movendo-se em aceleração constante.

Cooper abriu a porta do dormitório e se dirigiu ao deque superior. Nas escadas, precisou se agarrar às paredes. Os tremores e sons que a nave fazia estavam aumentando e junto, aumentava a sua preocupação. Alcançou a área de refeições, onde Ray e Ruby conversavam despreocupados apoiados a bancada.
— Precisa de alguma coisa? — Ray perguntou, aproximando-se com um sorriso amigável.
— Estou um pouco preocupado... parece que a nave vai partir ao meio.
— Isso não vai acontecer. A Gwen é uma nave extremamente confiável, ela nunca nos deixou na mão e não vai deixar agora. Só estava parada por muito tempo. — Tocou o ombro do homem e então o levou até uma das poltronas da sala de reuniões. — Sente-se aqui. — Cooper retirou o paletó e então se sentou. — Vai ficar tudo bem. Você não... — foi interrompido pela voz de nos alto falantes.
Aqui é a sua capitã. Primeiro, alguns avisos: os sons que acabaram de escutar são apenas a Guinevere gritando de alegria de voar de novo. Não são sinal de que ela precisa ser substituída ou algo do tipo. — Fez uma pequena pausa e então finalizou endurecendo a voz: — realmente espero não ouvir a palavra com “L” dessa vez.
Palavra com “L”? — Indagou Cooper, juntando as sobrancelhas.
— Lata velha.
Em alguns minutos alcançaremos o portal 572. Portanto, preciso que estejam todos bem afivelados às poltronas. Procedimento padrão para o trajeto na hipervia. Quando alcançarmos a saída do portal, teremos chegado à galáxia Tneera. Após mais doze dias de viagem, encontraremos nosso destino. Eu garanto que vocês podem confiar em mim e nessa nave para isso.
— Hipervia? Eu não entendo. — Cooper arregalou os olhos, preocupado.
— É o jeito mais rápido de alcançar outras galáxias. — Ray utilizava um tom de voz tranquilizador, enquanto prendia o homem à poltrona.
— Sim, mas é muito arriscado. Nossas informações e as da nave vão ficar gravadas no portal.
— Na verdade não, nós...
— Não contamos para estranhos como fazemos nosso trabalho. — Ruby rosnou mal-humorada, interrompendo o marido e foi até uma das poltronas se prendendo ali.
Em seguida, Ray repetiu o procedimento e os três aguardaram a chegada ao portal em silêncio.

A tripulação da Guinevere estava sentada no refeitório. Partilhavam um ensopado e também uma sonora risada diante de uma história estapafúrdia compartilhada por Cash. O momento foi interrompido por Cooper, que surgiu no recinto com seu olhar sério e postura rígida.
— Qual o motivo de tantas risadas? Conseguia ouvir vocês das escadas.
— É só o Cash contando mais uma história que NUNCA aconteceu. — Ray comentou, fazendo sinal para Cooper se sentar.
— É verdade! — Cash elevou o tom de voz. — Ela chorou tanto que mofou o travesseiro. — Disse sério, ouvindo mais risadas. — Eu vou parar de contar as coisas para vocês. São péssimos amigos. — Resmungou, focando sua atenção no ensopado.
— Está com fome? — Ray perguntou para Cooper, que acenou se sentando à mesa. — Aqui. — Entregou um prato e uma colher.
— Cadê o senhor Z? — Indagou Cash após alguns minutos. — Não vi as fuças dele desde que chegaram.
— Dormindo. — Disse somente, ignorando os olhares curiosos que o observavam. — Isso parece delicioso.
— E está. Uma das minhas especialidades.
— A outra especialidade é expulsar a gente dos cômodos para dar faxina. — Cash murmurou, arremessando uma bolinha de guardanapo em Ray. — Eu não te perdoei, você atrapalhou o meu cochilo sagrado das quatro da tarde.
— Vocês todos parecem ser bem próximos. — Cooper comentou observando o grupo. — Trabalham juntos há muito tempo?
— Muito tempo mesmo. Alguns diriam que até demais.
— Pelo pouco que vi, percebo que parecem ter uma dinâmica familiar. Na verdade, são basicamente uma família. Vocês dois casados. — Apontou para Ray e Ruby. — Até a sua irmã fazia parte da tripulação. — Voltou-se para .
Assim que Betty foi citada, a expressão da mulher mudou.
— Qual era o papel dela?
— Eu vou voltar para a ponte. — A piloto disse, levantando-se da mesa.
— A Betty é um tema sensível por aqui. — Ray explicou assim que a mulher deixou o recinto.
— Há quanto tempo ela morreu?
— Cinco anos.
— O... o que aconteceu?
— Não vamos falar sobre isso. — Disse Ruby, que até então apenas observava o homem.
— Eu sinto muito, não quis ser inconveniente.
— Não toque mais no assunto, especialmente na frente da .
— Não vou. — Murmurou, voltando sua atenção ao prato na sua frente. — Esse realmente é um ótimo ensopado.
— Ray é um ótimo cozinheiro.
— É sim. Ele cuida dessa tripulação. É um marido maravilhoso para todos nós. — Disse Cash, abrindo um largo sorriso e desenhando um coração no ar.
— Há quanto tempo estão casados? — Direcionou a pergunta a Ray e Ruby, mas foi Cash quem respondeu:
— Dez anos.
— Quis dizer com a Ruby.
— Três anos.
— Como se conheceram?
— Em um cassino. — Cash novamente respondeu.
— Foi bastante romântico. Amor à primeira vista até. — Ruby completou, forçando uma expressão amigável e se ajeitando no banco para observar melhor o homem. — Mas me fala um pouco de você. — Ela apoiou os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos. — O Zimmerman claramente cresceu em um dos planetas centrais. Ele é meio esquisito... Deve ser médico ou cientista... algo do tipo. Passou muito tempo em uma bolha. Certeza que é a primeira vez que vem para um lugar como Baxu. Agora você... não me parece do tipo ricaço. Talvez trabalhasse com segurança. — Ela escolhia as palavras com cuidado, observando as reações dele, que claramente haviam ido da confiança ao desconforto. — Passou muito tempo em um dos planetas centrais. Poliu seus modos e discurso. Mas não nasceu em um deles. Você cresceu em Anammelech. — Os olhos dele se arregalaram — Deve ter nascido e passado parte da vida adulta lá. Tem uma tatuagem cerimonial nas costas. Eu vi um pedaço na sua nuca quando retirou o paletó mais cedo. — Ele se mexeu desconfortável.
— Não nasci lá. Também não nasci em um dos planetas centrais. — Ele respondeu, estampando um olhar hostil.
— Então, Cooper... — Ray começou amigável, tentando melhorar o clima que havia se instalado. — Quem nós vamos resgatar?
— O amor da vida do Zimmerman.

Betty vagava pela nave como uma alma penada. Invisível e observando a todos como se não fizesse parte desse mundo. O que era a verdade, ela realmente não fazia. Estava morta. Presa entre a vida e o além vida. Não entendia por que ainda estava ali. Vagando por aí, presa à irmã. Com a capacidade de ficar visível e invisível, tangível e intangível. Tentando agir como se ainda fizesse parte daquela família, daquela tripulação. Tentando ser útil. Uma das formas que ela havia encontrado para isso, era xeretar a vida dos passageiros, aproveitando de sua invisibilidade.
Após vasculhar as coisas de Cooper e não encontrar nada, ela foi até o quarto de Zimmerman. O encontrou deitado, preso a uma pequena máquina. Havia uma maleta prateada aberta em cima da mesa de cabeceira. Dentro da maleta um pequeno dispositivo retangular, dele saia um cabo que ia até a nuca do homem. Betty já havia ouvido falar daquela máquina. Era a Morpheus em tamanho para a viagem. Um dispositivo capaz de acessar e reviver sonhos e memórias com cores, sons, imagens e todo tipo de sensações. Ela observou o corpo adormecido na cama por alguns minutos, seus músculos contraiam e relaxavam e ele parecia sorrir em meio ao sono.
Betty então se voltou para as malas, revistou as roupas, objetos e papéis. Sentindo que sua incursão havia sido inútil, decidiu deixar o quarto. Dirigiu-se até a porta, mas então sua atenção foi capturada por aquela máquina que emitia uma energia muito forte. Foi até lá e encarou o pequeno monitor, localizado no topo do dispositivo. Ali, conseguia ver paredes brancas e então uma mulher deitada em uma maca. Ela parecia tentar se soltar. Betty se aproximou mais da máquina, curiosa com o que ia acontecer depois. Tocou a tela e então sentiu a energia passar por seu corpo. As luzes se apagaram e religaram repentinamente, aumentando a sua intensidade até as lâmpadas estourarem. Ela se afastou do aparelho, assustada, e se tornou visível sem perceber. Só se deu conta disso, quando viu Zimmerman sentado na cama, observando-a.
Com os olhos cheios de lágrimas ele disse:
Ally! Você está aqui.



Capítulo VIII.
Um trabalho arriscado.

No silencio da noite, aquela nave parecia tão fria e vazia. Na ponte de comando, só se ouvia o zumbido constante dos aparelhos e a respiração profunda de , que dormia debruçada sobre a mesa do piloto, seu rosto amassando botões e sensores. Seu sono foi interrompido por uma descarga elétrica que atingiu o painel.
— Porra! — gritou, assustada com o choque. Ergueu a cabeça, ainda se sentindo desorientada, encontrando os olhos de Betty.
— Me desculpa.
— Merda, Betty. Qualquer dia desses você vai me matar. De susto ou eletrocutada — murmurou, esfregando o rosto.
— Não foi intencional.
— É, eu sei. Nem sempre você tem controle. — Ela moveu a cabeça para os lados, estalando o pescoço, então catou a caneca e a garrafa que estavam no chão. Derramou a vodca e em seguida se voltou para a irmã. — Você está bem? — perguntou após bebericar a bebida.
— Eu fui descuidada — a voz dela era quase um sussurro.
— O que aconteceu? — abaixou a caneca. Seus olhos analisando o rosto de Betty, tentando decifrar o que passava por sua mente.
— O Zimmerman me viu.
— Está tudo bem. Ele vai achar que foi uma alucinação ou algo do tipo.
— Ele me viu... e me chamou de Ally. Ficou tão assustado. Era como se tivesse visto um fantasma — ela falava rápido, atropelando as palavras.
— Foi exatamente isso que aconteceu. Ele viu um fantasma — disse despreocupada, levando a caneca até os lábios. Parou no meio do caminho ao notar a expressão profundamente magoada no rosto da irmã. — Desculpa, sei que odeia essa palavra.
— Não... ah... você me entendeu.
— Não entendi.
, eu ‘tô falando sério. Ele olhou para mim e me reconheceu. — Ela cruzou os braços os apertando contra o peito. — Na verdade, ele achou que eu fosse outra pessoa. Me chamou de Ally com os olhos cheios de lágrimas — dizia aquilo mais pra si, tentando entender melhor o que tinha acontecido.
— Talvez você realmente se pareça com essa tal Ally, sei lá... Não é motivo para ficar preocupada — finalizou, voltando sua atenção à bebida.
— Você devia parar de beber — Betty soou ressentida.
— Eu sei, faz mal pra mim e blá blá blá — resmungou, um tanto sem paciência. — O que você e todo mundo tem que entender é que a bebida me ajuda a relaxar. E também me ajuda a funcionar.
— O nome disso é alcoolismo.
— Pelo menos uma coisa a minha mãe me deixou de herança — rebateu, amarga.
— Não brinca com isso.
— Eu não estou brincando. — Encarou a caneca por alguns instantes e então voltou o olhar para a irmã. — Conseguiu descobrir algo?
— Não — disse somente, desaparecendo em seguida.
Betty deixou a ponte. Não queria mais conversar com a irmã. Não quando ela estava mais preocupada em saborear a vodca do que prestar atenção no que ouvia. Alcançou o corredor e depois a cozinha. Desceu as escadas, e quando passou pela enfermaria, viu Cooper ali. Procurando algo nas gavetas. Não se importou. Pensou que talvez ele estivesse procurando um analgésico ou algo do tipo. Mas então ele parou. E olhou para ela através do vidro. Ela voltou os olhos para baixo, preocupada. Percebeu que ainda estava invisível. Mas era estranho, parecia que, mesmo invisível, ele percebia sua presença ali. Incomodada com a situação, se afastou do vidro. Foi até uma porta sinalizada com luzes e alertas. Se ainda estivesse viva, precisaria vestir um traje apropriado, apertar alguns botões no painel, abrir a porta hermética e entrar na eclusa de ar. Já com a roupa e capacete, abriria a porta externa para só então sair da nave. Mas ela não estava viva, não precisava de traje ou se preocupar com a alteração da pressão. Atravessou as duas portas sem nenhuma dificuldade, se deparando com a imensidão do espaço. Ali, podia flutuar.

***

Cash se movia lentamente. Era madrugada e ele assaltava a geladeira tentando não fazer barulho. Não queria ouvir sermão de ou Ray. Só queria comer mais um pouco de ensopado em paz. Era a primeira vez em semanas que comia carne de verdade. Já estava no segundo prato quando ouviu um som atrás de si. Virou já se preparando para começar um longo pedido de desculpas. Se deparou com Betty segurando o riso.
— Qualquer dia desses o Ray vai comprar um cadeado para a geladeira.
— Isso é um absurdo, me deixar passar fome — resmungou de boca cheia. Betty se apoiou na bancada ao lado dele. — Você está bem? Parece preocupada.
— O Zimmerman me viu.
— O coitado deve ter tomado o maior susto.
— Pior do que isso. Parece que ele me reconheceu. Me chamou de Ally. Ele... parecia feliz em me ver. — Os olhos dela passaram a encarar o chão. Tentava dar sentido àquela situação.
— Ele parece familiar para você?
— Nunca vi na vida... nem na morte.
— Vai ver você é só parecida com alguém. Já ouvi uma teoria de que todo mundo tem um doppelganger por aí. São muitas galáxias. A possibilidade de ter um sósia é bem grande. Já pensou? — indagou após um momento de reflexão. — Um Cash versão maligna?
— Acho que, nesse caso, você seria a versão maligna.
— Tem razão — concordou com um sorriso maníaco, e então deu uma gargalhada macabra erguendo as mãos de modo teatral. — Mas sério, deve ser só parecida com essa tal Ally mesmo.
— É... pode ser. — Deu de ombros e se sentou em uma banqueta. — Ele estava preso em uma daquelas máquinas Morpheus.
— Então é isso que ele carregava dentro da maletinha. Entrou aqui abraçado a ela. — Cash puxou outra banqueta, também se sentando. — Pensei que fossem drogas.
— Tem drogas na mala. Muuuuuita droga. Todo tipo de quimera.
— O Z tem uma carinha de viciado — afirmou e a viu concordar. — Mas sobre a Morpheus... vai ver que é a culpada. Ele estava imerso em memórias e, quando te viu, confundiu sonho e realidade.
— Faz sentido.
— Tem que comer isso. — Foi novamente até a panela. — Está muito bom.
— Sinto falta do ensopado do Ray — choramingou, apoiando o cotovelo na bancada e o rosto na mão. — Ele é capaz de tornar carne sintética saborosa.
— A melhor parte é que isso é carne de verdade — disse, feliz, mas então seus olhos a analisaram por um instante. Seu coração se encheu de tristeza. Betty estava sempre rindo e tagarelando. Era parte daquela tripulação. Parte daquela família. Às vezes, até esquecia que ela não estava viva. — Queria que tivesse um jeito de te trazer de volta. — Cash largou o prato na pia e foi até ela, a abraçando. Ela se concentrava em se manter tangível, entristecida de não poder, de fato, sentir aquele abraço.
— Eu também. — Deu um longo suspiro, tentando não chorar. — Eu sei que esse é o nosso sustento... mas eu meio que odeio quando a gente tem hóspedes. Vocês têm que agir como se eu não existisse.
— Eu sei. Essa parte é horrível — disse, se afastando. — Mas pensa pelo lado positivo, sendo invisível você pode fazer todo o trabalho de espiã. Essa operação só funciona tão bem porque temos você. Nossa superagente capaz de ficar invisível, possuir corpos, mexer com sistemas elétricos...
— Não sobreviveriam sem mim. — Jogou o cabelo de modo convencido.
— Você é nosso trunfo. Temos uma vantagem que ninguém mais tem. E eu gosto muito de fama de mal-assombrada que a Gwen carrega.
— Eu amo essa parte.
— Isso porque você é nossa jovem psicopata que adora assustar os outros. — Diante da afirmação, Betty deu um sorriso culpado. Mudou a expressão no segundo seguinte.
— Tem alguém vindo aí — sussurrou, imediatamente ficando invisível.
— Merda! — disse Cash, exasperado, correndo até a pia para tentar se livrar dos rastros de sua incursão a geladeira. Sentiu um alívio ao ver Zimmerman. — Boa noite Sr. Z. — O homem assentiu. Estava visivelmente perturbado.
— Estava conversando com quem? — indagou, desconfiado.
— Sozinho — se apressou em responder. — Eu falo muito sozinho. Também falo com a Gwen e com o Sr. Bubbles.
— Quem é Sr. Bubbles? — Juntou as sobrancelhas, confuso, não se recordava de ter sido apresentado a alguém com esse nome.
— Ele. — Retirou a meia do bolso e a ajeitou na mão.
— Olá, Sr. Bubbles. Muito prazer — disse Z dando um pequeno aceno, preferindo não contrariar Cash. O mecânico recolheu a mão a escondendo debaixo da axila.
— Ele é meio tímido com desconhecidos. Calma, Sr. Bubbles. — Fez carinho no dorso da mão. — Está com fome? Com certeza está, né. Não apareceu nem no almoço nem no jantar. Quer ensopado? Está maravilhoso. Vou esquentar para você.
— Não, obrigado.
— Sério? Ray cozinha muito bem. E é carne de verdade.
— Não estou com fome. Eu... vim até aqui porque preciso de outra coisa. — Ele estava nervoso, suas mãos estavam trêmulas. Ele tentava disfarçar as apertando, mas sua fala entrecortada e o suor em seu rosto o denunciavam. — É que... Alguma coisa aconteceu no meu quarto. Todas as lâmpadas explodiram.
— Deve ter sido algum tipo de pico de energia. — Cash lançou um olhar para onde Betty estava apoiada minutos antes. Fez sinal para Z ir na frente e o seguiu. — Colocou muitos aparelhos na mesma tomada?
— Não, mas.... acho que usei algo que pode ter puxado realmente muita energia.
— Uma Morpheus? — sugeriu e o homem parou no meio da escada o encarando com os olhos arregalados.
— Como você sabe?
— Chute de sorte.
— Tem experiência com esse tipo de máquina? Algo aconteceu, não quer ligar. Tenho dificuldade de dormir sem ela.
— Posso consertar qualquer coisa. Pode deixar que eu resolvo.
Ao alcançarem o quarto, Cash se assustou com tamanha bagunça. Além dos cacos de vidro no chão, havia roupas e objetos espalhados e um cheiro peculiar empesteava o ambiente.
— O que aconteceu aqui? — resmungou, estampando uma careta.
— Eu... estava procurando uma coisa.
— Que tal trocar de quarto por hoje? Vou trocar as lâmpadas e checar o sistema elétrico. Mas esse quarto vai precisar de uma faxina. E mesmo que eu limpe hoje, Ray vai limpar de novo amanhã porque ele é desse tipo.
— E a máquina? — disse, ansioso.
— Pode deixar que vou cuidar disso.
— Quanto tempo deve levar? Como eu disse, tenho dificuldade de dormir sem ela.
— Prefere que eu resolva isso primeiro?
— Sim, por favor.

***

Após uma convocação da capitã, Cooper caminhou até a sala de reuniões. Quando chegou lá, se deparou com toda a tripulação espalhada nos sofás e poltronas. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, viu se virar abruptamente para Cash com o maxilar travado e uma expressão aborrecida.
— Cash? Por acaso estamos com problemas nos alto-falantes?
— Não, senhora.
— Estranho. Porque essa é a única explicação para o Sr. Z não estar aqui.
— Não achei que a presença dele fosse necessária — disse Cooper, sendo imediatamente fuzilado pelo olhar da piloto.
— Eu disse que queria todos aqui. Todos — repetiu, endurecendo o tom de voz. — Cadê o Sr. Z?
— Dormindo.
— Tenho certeza de que não é nenhum pouco saudável ele ficar o dia todo preso àquela máquina.
— Ele...
— Não quero explicações ou desculpas — a frustração pulsou na voz dela —, eu não gosto de ter que me repetir. Mas já que aparentemente não ouviu o recado, farei isso. Eu disse que quero todo mundo aqui. Inclusive seu chefe. Vá buscá-lo — terminou, autoritária. Contrariado, Cooper abaixou o olhar e saiu.
— Vai assustar os clientes — disse Cash, imitando o jeito que ela falava com ele.
— Ele não é do tipo que vai se assustar.
Quando Cooper e Z. alcançaram a sala de reuniões, foram recebidos por olhares impacientes.
— Me desculpe pelo atraso, eu... — Z ia começar uma explicação, mas foi interrompido por .
— Não temos tempo para isso. Temos coisas mais importantes para resolver. — Diante da fala da mulher, o homem encolheu os ombros e se sentou em uma poltrona. — Já estamos perto do nosso destino. Preciso de mais informações para que possamos planejar a missão.
— Eu te disse. Quando chegarmos lá eu te passo tudo — disse Cooper secamente.
— Todo esse mistério de vocês não vai funcionar. Precisamos de todas as informações para fazer esse trabalho. Isso é uma invasão e eu não vou no escuro. Não vou colocar a minha tripulação em perigo. — ajeitou a postura e cruzou os braços. — Tenho certeza que é um lugar muito bem protegido, se não fosse, vocês não teriam me contratado. Aonde exatamente nos vamos? — Ele se manteve calado com sua postura inabalável e ela quis arremessar algo nele. — Sr. Z? — Se voltou para o homem que estava encolhido na poltrona, apenas observando a conversa. Zimmerman levou alguns segundos para entender que ela falava com ele. Com os olhos arregalados, lançou um olhar para Cooper e então observou toda a tripulação que esperava que se manifestasse. Se sentindo o centro das atenções, começou a falar:
— É um laboratório. Eu trabalhei lá por alguns meses.
— Que tipo de laboratório? — foi a vez de Ruby perguntar. Estava sentada no braço do sofá apoiada ao marido.
— Essa informação é... — Cooper tentou se intrometer, mas Z decidiu responder à pergunta.
— Eles trabalham com drogas sintéticas e outros tipos de tecnologia.
— Laboratório particular ou do governo?
— Particular. É da... Cycorp — disse com a voz baixa, já esperando uma reação negativa.
— Cycorp? A gente não se mete com a Cycorp. É um conglomerado gigantesco, com forças paramilitares muito bem treinadas. — Foi a vez de Ray se agitar. Conhecia muito bem a influência e poder daquela empresa.
— Nós sabemos, e é por isso que precisamos de ajuda. — Z apertou as próprias mãos com força. — Eu preciso de ajuda — sua voz falhou, ele parecia estar a ponto de chorar.
— Podemos ajudar..., mas para isso precisamos saber de tudo — disse Ray suavizando o tom de voz. — Que tal começar com perguntas mais simples? Quem é ela?
— O nome é Ally. Ela é... — abaixou a voz para um sussurro. — Uma mulher incrível. A mais bonita que já vi em toda minha vida.
— Vocês estão juntos?
— Sim. Nós nos apaixonamos.
— Por que ela está presa em um laboratório?
— Ela é jornalista — Cooper começou, recebendo um olhar surpreso de Zimmerman. — Eu preciso contar para eles — disse, apertando o ombro do homem que novamente se encolheu na poltrona. — Ela estava investigando a Cycorp, fazendo perguntas demais...
— É sério isso? — perguntou , desconfiada. — E aí eles agiram como uma grande corporação do mal e sequestraram ela.
— Acho que a Ally descobriu coisas muito graves.
— Espera... você trabalhava lá quando ela foi sequestrada? Me explica essa linha do tempo — Cash se intrometeu, tentando juntar as peças daquele confuso quebra cabeça.
— Ele se infiltrou no laboratório — Cooper respondeu por Z, que se mantinha encolhido na poltrona. — Procurando por ela. Queria salvá-la.
— E você? — perguntou, analisando Cooper atentamente.
— Eu já trabalhava lá.
— Então você fazia parte da corporação do mal que sequestrou uma mulher? — rebateu com um pouco de zombaria na voz.
— Eu não sabia disso. Trabalhava na segurança em um setor diferente.
— E aí o que aconteceu?
— Quando eu descobri o que estava acontecendo, eu decidi ajudá-lo. Mas não deu certo. Não conseguimos resgatá-la.
— Então agora vocês dois são procurados pela Cycorp?
— Só eu — Z se intrometeu. — Eles não sabem que o Cooper tentou me ajudar.
— E acham que ela ainda está lá? No mesmo laboratório?
— Eu tenho certeza. Gastei parte da minha fortuna para ter acesso a essa informação, e vou gastar até o último centavo para ter a Ally de volta — a voz de Zimmerman era baixa e urgente. — Mas preciso de ajuda para isso.
— Quero todas as informações sobre esse laboratório. Plantas, sistemas de segurança...
— Cooper tem acesso a tudo isso. — Encarou o homem com um olhar suplicante. O grandalhão então tirou um pequeno dispositivo do bolso e entregou nas mãos de . Ela analisou o material por alguns instantes e então com um movimento dos dedos, enviou os dados para a mesa no centro da sala. Depositou o dispositivo ao seu lado no sofá e apertou alguns botões na lateral da pequena mesa. Luzes se acenderam e um holograma foi projetado. Era um mapa de Tneera. Ela digitou as coordenadas e a imagem focou em um pequeno ponto vazio.
— Ainda não tem nada aqui.
— Você vai precisar aproximar mais. Não é um planeta ou lua. — A piloto obedeceu ao comando. Com os dedos, mexeu no holograma, dando zoom naquele pequeno ponto vazio. Algo então cintilou. Flutuando sobre a mesa, estava a imagem de uma estação espacial.
— É por isso que não aparece nos mapas estelares — disse , movendo a imagem com os dedos. Girava, aproximava e recuava o zoom. Pegou novamente o pequeno dispositivo e observou os diversos documentos armazenados ali. Plantas, mapas, dados do sistema de segurança. — Ruby! — Estendeu o aparelho para a mulher. — Vasculhe tudo. Ache nossa entrada.
— Na verdade, nós vamos entrar pela porta da frente — disse Cooper, recebendo olhares surpresos. — Ainda sou funcionário da Cycorp. Para eles eu apenas estou de licença cuidando da minha mãe doente.
— Por que decidiu ajudá-lo? — a piloto perguntou com a descrença estampada em seu rosto.
— Tudo que eu vi foi uma mulher... e um homem desesperado. — Algo no semblante dele incomodou profundamente. — Eu precisava ajudar. Não havia outra opção.

***

Faltavam três dias até alcançarem seu destino. Era noite de terça-feira e e Ruby estavam analisando as plantas da estação de laboratórios da Cycorp.
— Minha bunda está quadrada e não consigo mais pensar — disse , se jogando para trás. O problema real não era o cansaço, mas sim a situação em que se encontravam. Eram perguntas demais competindo por espaço em seu cérebro
— Vá dar uma volta. Refresca a cabeça.
— Você também precisa descansar.
— Eu estou bem. Estava sentindo falta disso — falava sem tirar os olhos da mesa iluminada.
— Ainda bem que tenho você, minha especialista em invadir lugares impenetráveis.
— Eu só sou uma boa ladra — disse com falsa modéstia.
— Vou instalar uma plaquinha de funcionário do mês com a sua foto.
— Por favor, não faça isso. O Cash vai acabar vandalizando.
— Está completamente certa — sorriu, imaginando seu mecânico completamente transtornado ao encarar tal placa. Ele sempre afirmava que era o membro mais importante da tripulação e que precisava ser mais valorizado. — Então... você fica com as plantas e documentos, e eu vou dar uma volta, checar tudo e depois descansar — completou, se dirigindo ao corredor.
foi até a ponte. Ali, passou alguns minutos checando sensores e medidores. Então caminhou até a sala de máquinas onde também fez uma vistoria nas máquinas e aparelhos. Após sua inspeção de rotina, se dirigiu às escadas. Na baía de carga, encontrou Ray jogando golfe. Os dias na nave podiam ser bem tediosos e, para lidar com isso, cada membro da tripulação havia desenvolvido hobbies e atividades para distraí-los durante as viagens. Ray amava limpeza, cozinhar e golfe. Havia comprado uma pequena pista com grama sintética que vez ou outra estendia na baía de carga e então dava algumas tacadas para esvaziar a mente.
— Como vai o trabalho? — ele perguntou ao notar a presença dela.
— Bem cansativo. A Ruby ainda está lá atolada em papelada.
— Ela adora achar falhas na segurança e pontos fracos nas construções — sorriu, relembrando a expressão concentrada que a mulher fazia trabalhando.
— Sua esposa é estranha.
— Nós todos somos. Um bando de desajustados, uma família de aberrações. — Ajeitou a postura e deu uma tacada acertando o buraco sem dificuldade.
— Verdade — disse somente, e então inspirou devagar, tentando ordenar seus pensamentos.
— Preocupada?
— Bastante. Eu acredito na maior parte das coisas que o Z falou. Ele pareceu sincero, mas o Cooper...
— Tem certeza que é uma boa ideia continuarmos com esse serviço?
— Sim! — disse, decidida. — Precisamos do dinheiro. Só vamos ser ainda mais cuidadosos que o normal. — Alcançou um dos tacos e o balançou no ar. — E você? Está bem? Certeza que é uma boa ideia você participar desse trabalho?
— Eu estou bem, juro — começou sério, mas ao observar a amiga, riu de seus movimentos. — Quer dar uma tacada?
— Não gosto de golfe. É estúpido. Gosto de esportes de contato.
— Eu sei. Do tipo que pode fazer faltas e machucar pessoas.
— Exatamente. Também gosto de destruir coisas — disse, analisando o taco. — Me empresta?
— Me dá isso. — Tomou o objeto de suas mãos, a deixando com uma expressão tristonha. — Você já quebrou dois. Já chega.
— Estraga prazeres.

***

Cooper subiu as escadas em direção ao deque superior. Ele dava passos lentos e desconfiados analisando cada centímetro da nave. Seus grandes olhos observando tudo, parecia farejar algo. Foi até a sala de máquinas e mexeu em algo no painel. Seguiu em direção a cozinha, dali foi até a ponte de comando. Do corredor, podia ver que estava lá dentro, dormindo profundamente recostada a poltrona do piloto com os pés apoiados no painel. No chão, uma garrafa de vodca quase vazia. Se afastou e foi até a única porta dos quartos da tripulação que tinha uma plaquinha de identificação. Com cuidado, abriu a escotilha e desceu as escadas, alcançando o quarto de Betty.
Após alguns minutos, Cooper subiu as escadas e chegou ao corredor. Sorriu satisfeito com sua incursão bem sucedida. Deu um passo em direção a cozinha sendo imediatamente surpreendido com uma garrafa de vidro atingindo a lateral de seu rosto. O vidro estilhaçou e o homem caiu, desacordado.<


Capítulo IX.
Objetos no espaço.

Cooper abriu os olhos sentindo sua mente girar. Sua cabeça doía e seu corpo inteiro tremia de frio. Levou a mão a testa e tocou um ponto ali, sentindo a dor aumentar. Sob a luz branca, encarou os dedos, notando o sangue pegajoso presente neles. Tentou se mover, finalmente percebendo que estava deitado no chão frio de metal. Com dificuldade, conseguiu se sentar. Novamente tocou a testa, sentindo alguns pedaços de caco de vidro. Permaneceu sentado por alguns minutos e então começou a perceber seus arredores, estava na eclusa de ar, sem uma roupa apropriada. Estava a uma porta e alguns botões de distância da imensidão do espaço. Se apoiando na parede, conseguiu se colocar de pé. Foi até a porta hermética e encarou o interior da nave através de uma pequena janela que havia ali. Levou um susto quando surgiu com uma expressão sombria. Os alto falantes chiaram e a voz dela foi ouvida:
— Você vai ser arremessado no espaço sem um traje apropriado. Faz ideia do que isso faz com o corpo humano? — disse a piloto, sorrindo com um ar ameaçador.
— Você está maluca? — elevou o tom de voz, já tomado pelo desespero. — Eu sou cliente. Estou pagando por essa viagem.
— Você pagou metade, eu te trouxe metade do caminho.
— Me tira daqui! — gritou, tentando inutilmente forçar a porta. — Isso não é engraçado.
— Sabe o que não é engraçado? — A voz de soou exausta e com raiva. — Você bisbilhotando por aí na madrugada. Não é nenhum pouco engraçado você invadir um dos quartos da tripulação.
— Eu só queria conhecer a nave.
— Desde que te conheci, não acreditei em uma palavra que falou, não vou começar agora.
— Me desculpe. O que você quer? Mais dinheiro?
— Não. O pagamento proposto já é bom o suficiente. Só te trouxe aqui para deixar algo bem claro. Essa é a minha nave, minha tripulação. Não te quero bisbilhotando por aí — explicou, sem paciência. — Não confio nenhum pouco em você. Acho que está escondendo muitas informações de mim. Não posso trabalhar assim.
— Eu sinto muito... eu...
— Não, não sente. E quer saber, eu não estou nem aí para os seus sentimentos. Eu me preocupo com as suas ações, e desde que chegou, elas têm sido suspeitas. Você tem tentado interrogar a minha tripulação.
— Eu só queria saber se podia confiar em vocês. Ter certeza que não se voltariam contra mim, que vocês realmente me ajudariam a salvar a Ally. — A voz dele falhou.
— Sabe, quando você fala dela, eu vejo em você a mesma dor que vejo no Z. E acho isso muito suspeito.
— É uma mulher indefesa que precisa ser salva.
— Não está me contando a história toda. — Fitou Cooper com um olhar demorado e severo. — E eu nem sei se quero saber. — Ele a encarava de volta com olhos frios e hostis. — Você vai sair e passar o resto da sua estadia no seu quarto. Do contrário, eu vou te jogar aí de novo e vou assistir o seu corpo ser destroçado de camarote.
— Você não vai se arrepender.
— Só o futuro vai me dizer isso. Boa noite, Cooper.
— Onde você está indo? — se desesperou novamente, tentando forçar a porta.
— Vai passar a noite aí. Amanhã conversamos.
Quando finalmente desistiu de tentar abrir a porta selada, Cooper encostou as costas na parede metálica e deslizou até o chão. Agora completamente sozinho, tateou o bolso interno do casaco. Com cuidado, retirou uma fotografia dali. Betty sorria abraçada a . Após observar aquela imagem por alguns instantes ele a guardou novamente e deu um pequeno sorriso.

***

Betty foi até a ponte de comando a procura da irmã e não a encontrou. Foi até o quarto de , também vazio. Vasculhou as áreas comuns, a enfermaria e a sala de máquinas. Decidiu então ir até seu próprio quarto. Se deparou com a mulher sentada em sua cama.
— O que aconteceu? Por que o Cooper está sangrando na eclusa de ar? — Havia urgência em sua voz. Após algum tempo lá fora, se sentia mais leve e tranquila. Mas assim que entrou na nave, esses sentimentos implodiram. Estava exasperada. Precisava saber o que tinha acontecido. Diante da inércia da irmã, bufou. — Me conta, ! — exigiu ansiosa e viu a mulher suspirar.
— Onde você estava? — disse, sem se mover.
— Lá fora.
— O Cooper bisbilhotando por aí, procurando sabe se lá o que no seu quarto, e você relaxando lá fora. — estampava um olhar desapontado. — Eu preciso de você aqui! — finalizou, endurecendo a voz.
— Eu não sou a porra de um cão de guarda! — Betty gritou. A luz cintilou na mesma intensidade da voz dela. — Eu não durmo, mas também preciso desligar as vezes. Lá fora eu consigo isso.
— Eu sei. — Encarou o chão, se sentindo envergonhada. — Me desculpe. Eu não estou puta com você. Estou puta com a situação. — Respirou fundo e então seus olhos se voltaram para a irmã. — Ele entrou aqui... não sei no que mexeu, se pegou alguma coisa. Preciso que verifique isso.
— O que será que ele está procurando? — Girou, examinando o quarto, tentando encontrar algo fora do lugar.
— Não faço ideia. E é isso que está me deixando maluca. — Apoiou os cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos. Em seguida segurou os cabelos com força e sua respiração acelerou. — Ruby disse que ele tem feito perguntas demais. E desde que o conheci, não acreditei em nada que saiu da boca dele.
— Vai matá-lo? — abaixou a voz para um sussurro.
— Não. Precisamos dele.
— Espera... você pretende continuar com o trabalho? — assentiu e a angústia de Betty aumentou. — Está doida? É muito perigoso. A gente tem que largar esses dois em algum lugar e seguir nosso caminho.
— Não podemos. Precisamos do dinheiro. — endireitou a coluna e viu Betty se aproximar.
— Eu sei que o dinheiro é bom, mas será que realmente vale a pena?
— Os rins do Ray estão falhando.
— Puta merda! — Betty encolheu os ombros e desabou na cama ao lado da irmã.
— Se desativarem de vez, vão começar a envenená-lo. Ele morre ou passa a vida preso a uma máquina de diálise. — Havia dor em sua voz.
— A gente consegue outro trabalho. — Alcançou a mão de , que então deu um sorriso triste.
— Bess, a gente ficou semanas sem nada. Não dá. Eu não tenho outra opção. Não posso perder ele também.

***

Os dias passavam lentamente dentro da Guinevere. A tripulação se preparava para a missão, tentando prever e se preparar para todos os cenários possíveis. Para Zimmerman e Cooper, os dias pareciam passar ainda mais devagar. Sentiam que estavam ali há meses. Além de não estarem acostumados em passar longos períodos dentro de uma nave, agora viviam como prisioneiros. O único contato que tinham com qualquer integrante da tripulação era nos momentos de alimentação ou então para receber breves instruções. Estavam isolados, cada um em seu quarto. Contavam os segundos que faltavam para chegar ao seu destino. Ambos receosos e angustiados com as possibilidades nefastas que os cercavam. Não sabiam se podiam confiar em e sua tripulação. Só podiam esperar.
Cooper estava deitado, encarando o teto metálico. Não aguentava mais ficar naquele quarto. Ao escutar batidas na porta, se levantou rapidamente, pegou o paletó e o vestiu. Depois, sentou na beira da cama, ajeitou a postura e ordenou a entrada. Ruby abriu a porta e entrou seguida pelo marido.
— Já chegamos? — Cooper perguntou, ansioso.
— Em alguns minutos — disse Ruby, colocando sobre a colcha uma pequena maleta. — Está pronto?
— Sim — murmurou, desconfiado diante da postura séria de Ray. Ele havia entrado em silêncio e se mantinha assim. Estranhou. O homem costumava ser o mais simpático ali. — Conseguiram clonar meu cartão de acesso?
— Não somos amadores — Ruby respondeu, estreitando os olhos de forma ameaçadora. — Olha, Cooper. Precisamos acertar algumas coisas. Nós três. Isso é um trabalho em equipe, precisa existir confiança entre nós. Uma confiança baseada em você ter a certeza que não vou hesitar em te matar se nós trair. — Fez sinal para o homem se levantar e então retirou seu paletó. Ele estranhou a atitude, mas se manteve calado diante das ameaças. — E eu sei que meu marido parece e age como um gigante gentil, mas saiba que ele vai te quebrar no meio se colocar nossas vidas em risco. Estamos entendidos? –—Cooper apenas assentiu diante do olhar furioso da mulher. — Ótimo. Agora estenda o braço. — Ele obedeceu. Ruby dobrou cuidadosamente a manga da camisa dele. Ray foi até a maleta na cama e pegou uma seringa de metal que mais parecia uma pequena pistola.
— O que é isso? — perguntou, apreensivo ao ver o objeto nas mãos do grandalhão.
— Rastreador — Ray respondeu, injetando o minúsculo dispositivo no braço esquerdo dele. — Precisamos ficar de olho em você. — Se aproveitando da distração de Cooper, Ruby atingiu seu pescoço com uma segunda seringa. — E isso é uma toxina.
— O quê? — Levou a mão ao pescoço desesperado.
— Em algumas horas, ela vai te causar dores terríveis. Temos tempo suficiente para fazer esse trabalho. Terminamos e aí eu injeto em você o antidoto. — Ruby pegou o paletó da cadeira e o ajudou a se vestir.
— Tratam todos os clientes assim? — indagou, massageando o pescoço.
— Só aqueles que provam não ser de confiança — a mulher rebateu, com um pouco de zombaria na voz.

***

Na sala de reuniões, Zimmerman se mexia inquieto. Estava tomado pelo medo. Medo da tripulação, medo dos agentes da Cycorp, medo de se machucar, medo de morrer, de falhar.
— Eu realmente vou ter que fazer o papel de prisioneiro? — Z choramingou e viu Ruby suspirar, cansada. Já havia explicado o plano para ele algumas vezes.
— Sim. É uma estação espacial, não dá pra entrar atirando e explodindo paredes, precisamos entrar da forma mais pacifica possível — Ray explicou diante do olhar receoso do homem.
— Você é a isca — disse Ruby, secamente.
Zimmerman tomou fôlego, se preparando para começar um discurso contra aquele plano. Foi interrompido pelos autofalantes. Se manteve calado, prestando atenção na voz da piloto:
Estamos nos aproximando. Preciso do Cooper na ponte para identificação.
Ruby fez sinal para o homem se levantar e o acompanhou até a ponte de comando.
— É gigante — a loira afirmou assim que avistou a estação espacial.
— Iniciando varreduras. — digitou alguns comandos e encarou os monitores. — Tem algo estranho. — Franziu o cenho diante dos dados recebidos. — Sem sinal de formas de vida.
— Como assim? — Ruby se aproximou, juntando as sobrancelhas.
— Segundo os sensores, não tem ninguém lá. A estação está vazia. Impossível. — Digitou novamente os comandos e recebeu os mesmos dados. Verificou os instrumentos e medidores. Sintonizou todos os escâneres para formas de vida. Alcance máximo. Nada apareceu nos monitores. Praguejou consigo mesma e então se voltou para o intercomunicador. Apertou os botões que a colocariam em contato direto com a sala de máquinas. — Cash, preciso que venha dar uma olhada nos sensores — ordenou, ouvindo o mecânico assentir. Em seguida, direcionou sua atenção a Cooper. — Enquanto ele não chega, vamos tentar contato. — Apontou o sistema de comunicações. — Assim que essa luz ficar verde, pode começar a falar. — acionou alguns interruptores em seu console. Cooper se aproximou e anunciou:
— Cylab 562, aqui é o agente de segurança 785, código de acesso 392846. Permissão para atracar? — Não houve resposta. Ainda tentou mais duas vezes, mas o rádio se manteve em silêncio.
— O que está acontecendo? — indagou Cash, entrando na ponte.
— Os sensores parecem não estar funcionando. — Se afastou para que ele pudesse ter acesso ao console.
— Deixa eu dar uma olhada. — O mecânico checou os instrumentos da mesma forma que havia feito segundos antes. Depois se enfiou embaixo da mesa. Fez uma inspeção visual e então começou a mexer em conectores e fiações. — Parece tudo ok.
— Não está. Meus scanners não estão captando formas de vida. Nadinha.
— O que os outros sensores te dizem?
— O reator está funcionando, casco intacto, gravidade artificial está ligada, Pressão e temperatura estão normais... — ia recitando as informações conforme apareciam em sua tela. — Só não encontro formas de vida.
— E se aconteceu alguma coisa? — a voz de Ruby transparecia sua preocupação.
— Talvez eles só abandonaram a estação — Cash tentou ser mais positivo diante da expressão de pavor que tomou o rosto de Cooper. — Um vazamento ou algo assim. Tem laboratórios. Algo tóxico pode ter escapado.
— Essa é a versão otimista — disse , se levantando da cadeira e indo até uma escotilha. Seus olhos analisaram atentamente a gigantesca estação espacial. — Precisamos investigar. — Cruzou os braços e se voltou para Ruby. — Vocês vão até lá, mas com os trajes, não tirem de jeito nenhum. Tem algo muito errado nisso tudo.

***

Sem nenhuma dificuldade e também sem nenhum tipo de permissão, atracou a Guinevere na estação da Cycorp. O rádio se manteve em silêncio, não ouviram ameaças e também não tiveram armas apontadas em sua direção. Decidiram manter o plano, entrariam lá com Zimmerman como prisioneiro.
e Cash ficaram na nave, como de costume. Davam suporte para os outros e estavam preparados para uma fuga eficiente, caso fosse necessário. Ray, Ruby e Cooper saíram da nave acompanhados de Zimmerman, que tinha seus pulsos presos por algemas. Os quatro equipados com trajes espaciais. Betty também os acompanhava, mas se mantinha invisível o tempo todo.
Cooper se adiantou. Foi até o painel que controlava a gigantesca comporta de metal. Utilizou seu cartão de acesso, digitou os códigos e passou pelas verificações biométricas, para só então ter acesso à estação. À primeira vista, não havia nada de errado. Não ouviram nenhum tipo de sinal soando ali dentro. Ruby foi até um dos monitores na parede e analisou os dados expostos. Não havia alarmes ou alertas indicando qualquer vazamento ou perigo. Mas decidiram ser cautelosos e mantiveram seus trajes pressurizados. Seguiram Cooper por corredores largos e estéreis não encontrando qualquer alma no caminho. A estação estava silenciosa, parecia um navio fantasma à deriva. Alcançaram uma bifurcação e seguiram pelo lado esquerdo, finalmente alcançando um vislumbre do que havia acontecido. O grupo ficou estático diante da cena. Havia ocorrido um banho de sangue. Se depararam com uma dúzia de corpos naquela área. Homens e mulheres, alguns com trajes de segurança e outros com jalecos brancos. Encontraram vestígios de luta. Parecia que eles haviam simplesmente decidido brigar entre si.
— Está vendo tudo isso, ? — Ray perguntou através do comunicador.
Que merda aconteceu aí? — Apiloto encarava os monitores horrorizada. Todos os trajes possuíam câmeras. Podia enxergar tudo através deles. — Precisam checar o centro de vigilância. E sejam rápidos. A qualquer momento pode chegar uma patrulha.
— Nenhum sinal de socorro foi ativado — Ruby se intrometeu.
Mas podem ter tentado entrar em contato. E se não conseguiram, vão vir aqui checar.
— Tem razão. Vamos nos apressar.
— Será que vocês podem me soltar? — pediu Zimmerman com a voz falha se apoiando a uma parede. — Não estou me sentindo muito bem.
— Respire devagar. — Ray o alcançou e tocou seu ombro. — Não é uma boa ideia vomitar dentro do traje.
— Para o centro de vigilância Cooper — Ruby ordenou, mas ele não se moveu.
— Preciso encontrar a Ally primeiro.
— Pelas câmeras vamos saber o que aconteceu.
— Eu preciso me certificar que a Ally está bem. Isso é prioridade. É para isso que estão sendo pagos. — Cooper rosnou endireitando os ombros e assumindo uma postura rígida. — Preciso encontrá-la.
— Estamos correndo contra o tempo. Acho melhor a gente se separar — disse Ray se aproximando da esposa.
— Z, você sabe onde a Ally está? — A mulher foi até Zimmerman, que ainda estava apoiado a parede tentando tranquilizar a respiração.
— Sim.
— Ótimo. Você e o Ray vão atrás da Ally.
— Não! Eu devo ir buscá-la — Cooper interveio. Era possível ver sua expressão furiosa por detrás do visor do capacete.
— É a mulher que ELE ama. Deixa o Z ser o herói no cavalo branco. – a entonação de Ruby avisava que ela não mudaria de ideia. – Tomem cuidado! – Apertou a mão do marido, que retribuiu gesto. Ray então seguiu Zimmerman em direção a outro corredor. — E você vem comigo. — A loira se voltou para Cooper, que tinha abaixado perto de um dos cadáveres. — O que está fazendo?
— Tanner... — começou com a voz fraca. — Ele era meu amigo — Cooper continuou sem encará-la, mas ciente de que era observado. Se aproximou mais do cadáver simulando uma despedida dolorosa, enquanto uma de suas mãos ágeis retirava um pequeno explosivo do bolso do segurança. Rapidamente, programou o timer e largou o objeto no chão.
— Sinto muito.
— Ele era um bom homem. — Se levantou rapidamente e enveredou por um corredor sendo seguido por Ruby.
Ao alcançarem a sala de vigilância, Cooper utilizou o cartão e digitou os códigos de acesso, mas sua entrada foi negada. Ainda tentou mais algumas vezes sem sucesso.
— Tem certeza que o código está correto? — a mulher estava impaciente.
— Eles devem ter alterado.
— Então vamos fazer isso do jeito difícil. — Ela se agachou um tanto desajeitada por conta do traje. Tirou uma ferramenta do bolso e abriu a proteção do painel. Afastou a tampa e estudou o seu interior atentamente. Começou a manipular os conectores, amaldiçoando as luvas que tornavam seu trabalho muito mais difícil. Focada em sua tarefa, não notou Cooper se afastando. Sua concentração foi interrompida pelo som agudo de explosões que ecoaram em seus ouvidos. Junto com o estrondo, um clarão pode ser visto do corredor. Sentindo a vibração bem abaixo dos pés, se encolheu de forma instintiva. Ao ouvir os passos pesados de Cooper ressoarem no deque metálico, se colocou de pé e correu atrás dele. O homem entrou em uma sala aberta e rapidamente digitou os controles. A comporta deslizou, fechando-se atrás dele. Ruby tentou usar o cartão clonado e os códigos que havia decorado, mas não teve sucesso. Tomada pela ira, esmurrou a porta. O comunicador chiou e ouviu a voz de .
— Que porra foi essa? — a tensão se revelou na voz da piloto.
— Cooper escapou. E aconteceu uma explosão — começou ofegante. — Mas acho que não comprometeu a estação. Nenhum alarme foi acionado. — Se afastou da comporta e foi até um dos monitores na parede.
— Aquele cretino obstruiu a câmera — vociferou. Ela permanecia na ponte fazendo verificações, sua atenção concentrada em cinco telas ao mesmo tempo. Agora, uma delas só exibia estática. — A explosão não gerou danos estruturais — completou após verificar os sensores. — Deve ter sido só uma distração.
— Filho da puta! — Ruby berrou novamente esmurrando a comporta.
— Ele desceu dois níveis — disse, observando os dados emitidos pelo rastreador. — Está entrando no centro de vigilância por outro caminho.
— Ok. Vou atrás desse desgraçado.

***

Zimmerman e Ray chegaram à ala de contenção. Eram vários quartos cinzentos do mesmo tamanho, preenchidos com apenas uma cama de solteiro, uma escrivaninha e uma cadeira. Entraram naquele que Z afirmou ser o de Ally, mas estava vazio. Sobre a mesa, algumas folhas de papel e giz de cera espalhados. Nas paredes, alguns desenhos simples que pareciam ter sido feitos por uma criança pequena. Ray os encarou um tanto desconfiado.
— São da Ally — Z disse, se aproximando. — É a única forma de se distrair por aqui. — Seus dedos tocaram o desenho de um girassol. A flor preferida dela. — Vamos, talvez a gente encontre algo no laboratório.
Assim que saíram do cômodo, escutaram o som de explosões e se jogaram no chão.

***

Betty vasculhava a estação sozinha. Encontrou mais corpos em outros cômodos. E em todos a situação se repetia. Sinais de luta. Era como se algo tivesse feito aquelas pessoas se voltarem umas contra as outras. Ao ouvir o barulho de explosões, desviou seu caminho e foi até a fonte dos sons. Chegou àquele primeiro ambiente onde se depararam com os corpos. Mas não havia sinal de detonação ali. Vasculhou o local e encontrou os resquícios do artefato explosivo. Reconheceu o tipo de arma, era de efeito moral. Não letal, e feita para atordoar e amedrontar. Aquele tipo especifico só emitia um som muito alto e um clarão capaz de desorientar. Caminhou por entre os corpos observando o cômodo, tentando decifrar quem teria feito aquilo. Pensava que talvez os sensores estavam errados, talvez alguém estivesse vivo por ali. Encarou os cadáveres, frustrada. Queria poder interrogar alguém. Mas, até onde sabia, era o único fantasma assombrando aquela instalação.
Caminhou pelo lugar atrás de qualquer outra pista, mas estagnou ao se deparar com um homem de cabelos muito brancos encaracolados e óculos tartaruga. Se aproximou assombrada por aquela figura que lhe parecia estranhamente familiar. Sem pensar muito, se afastou e dessa vez seguiu por um caminho diferente, sentindo que não era a primeira vez que cruzava aqueles corredores.

***

Cooper entrou no centro de vigilância e fechou a comporta atrás de si. Estava suado e com a respiração entrecortada. Havia corrido até ali. Foi até a mesa e encarou as dezenas de monitores na parede, localizando cada um dos integrantes da Guinevere. Viu Ruby, novamente perto do painel, tentando abrir de forma manual. Decidiu se apressar, não sabia quão boa a mulher era em invasões.
Ao tocar os controles, nas telas surgiram imagens de algumas horas antes. Assistiu o banho de sangue acontecendo, mas ignorou esse fato. Não era isso que estava procurando. Retrocedeu as imagens um pouco mais e encarou os monitores a procura dela: Ally. A encontrou no laboratório, em uma camisa de força e presa a uma maca. Um enfermeiro se aproximou para aplicar algo em seu pescoço. Ela se mantinha parada, mas quando ele tocou sua pele, os lábios dela se moveram, sussurrou alguma coisa para o homem que imediatamente se afastou. Ele largou a seringa e pegou um bisturi, que usou para atacar um segurança perto da porta. Pegou a arma do morto e atirou nos outros dois homens de jaleco na sala. Foi até os controles e selou a porta. Em seguida, voltou se para Ally e a soltou da maca, também a ajudando a retirar a camisa de força. Ela caminhou até a câmera e fez alguns sinais com as mãos. Depois se voltou para o enfermeiro, tocou seu rosto e sussurrou algo. Ele atirou nas câmeras e tudo escureceu.
Cooper bufou. Encarou as telas em silêncio por algum tempo e então sua atenção foi para os controles. Precisava apagar aquelas imagens. Não podia deixar rastros das ações da mulher.

***

Ruby estava com um joelho no chão, debruçada sobre o painel aberto amaldiçoando cada fiação e conector. Ao escutar a voz de Ray, se levantou e foi até o marido. Já haviam se falado pelo comunicador, mas precisava desesperadamente vê-lo e toca-lo depois das explosões.
— Nada ainda? — ele perguntou, se aproximando. Ela meneou com a cabeça e o abraçou. — Talvez a gente devesse só fazer um rombo nessa comporta.
— Mas vocês falaram que não dava para explodir paredes aqui. — Z se intrometeu com a voz baixa e aflita.
Em silêncio, Ruby retirou a arma de Ray do coldre e apontou para Zimmerman, que ergueu as mãos algemadas para o alto desesperado.
— Você vai me dizer exatamente o que vocês dois vieram fazer aqui — disse a loira raivosa.

***

Betty estava tomada por uma sensação estranha de familiaridade que só aumentou quando ela alcançou um corredor azul no nível C. Caminhava devagar tocando as paredes e as portas sentindo um nó se formar em sua garganta. Parou ao se sentir atraída por uma porta especifica do lado direito. Esta tinha um arco íris cobrindo o metal. Entrou se deparando com paredes revestidas por murais com pinturas de nuvens, árvores e animais. No chão, alguns brinquedos espalhados. Um deles chamou sua atenção. Foi até lá e alcançou o coelho de pelúcia azul com uma gravata borboleta xadrez no pescoço. Igual ao sr. Bigodes. Betty girou o cômodo abraçada ao bichinho. Sentia algumas memórias embaçadas a atingindo. Lembrou de um rosto idêntico ao seu. Mas não encarava o espelho. Encarava uma menininha com o coelho azul nas mãos. Era ela. Ally. A sua irmã.
— Não! Não! Não! — repetia Betty, sem parar, fitando a parede, aturdida. A gravidade daquilo foi absorvida lentamente por ela. Um grito profundo e gutural ecoou por toda a estação. E junto com ele, uma energia que se acumulara em seu interior sem ela perceber também saiu. Explodindo em ondas violentas, desativando circuitos, sobrecarregando e queimando sistemas elétricos e incapacitando humanos.


Capítulo X.
O mistério das duas irmãs

abriu os olhos. Sentia o corpo leve flutuar envolto pelo ar gelado da ponte de comando. Diante da escuridão, levou alguns segundos para se localizar. Se sentia como uma pena pairando alguns metros acima do chão. Quando voltou a si, tocou o teto e com os pés deu um impulso para baixo, se agarrando à mesa do piloto. Todas as luzes estavam apagadas. O gerador de gravidade artificial estava desligado. Também não tinha acesso a comunicações, navegação, ou qualquer outro instrumento ou sensor. Tocou os botões do console, mas os monitores permaneceram pretos. Era a primeira vez que se via cercada pela escuridão completa ali. Encarar a bancada de luzes piscantes agora totalmente apagada era algo que gerava estranheza. Nem as lâmpadas de emergência estavam acesas.
Tentou recordar o que havia acontecido. As memórias foram voltando em fragmentos. Lembrou da invasão, das explosões, da fuga de Cooper. E então do grito da irmã. Tal lembrança a estremeceu. Era um grito cheio de dor. Depois, veio um violento tremor atravessando a ponte, e aí tudo escureceu.
se arremessou contra a antepara e foi até uma escotilha. Avistou a estação espacial também completamente apagada. Tentando não se desesperar, se apressou até um pequeno armário no canto esquerdo. Retirou dali uma faixa elástica estreita com uma lanterna presa a ela. Ajustou na testa e apertou um botão. Um forte facho de luz iluminou o local. Se agarrando e pegando impulso nas paredes, deixou a ponte e flutuou pelos compartimentos da Guinevere. Deu um suspiro aliviado ao avistar luzes vindo da sala de máquinas. Mas ao chegar lá, percebeu que estas vinham de lanternas e lampiões movidos a bateria. Encontrou Cash que, diferente dela, tinha os pés presos ao chão. Ele usava botas magnéticas.
— O que aconteceu? — perguntou, aflita, se segurando as paredes.
— Fomos atingidos — o mecânico respondeu, sem encará-la. Sua atenção estava na câmara blindada que abrigava o reator.
— Pelo quê?
— Não sei ao certo. Só sei que me arremessou e fritou tudo. — Massageou o ombro dolorido. Não sabia o que tinha acertado. A única certeza era que, em algumas horas, estaria com uma gigantesca mancha roxa tingindo sua pele.
— Pode consertar? — Ela se aproximou. Havia urgência em sua voz.
— É claro que sim — respondeu sem hesitar. — O problema é o tempo.
— Tudo bem, você conserta isso e eu vou buscar nossa família — disse, já se preparando para se afastar, mas Cash a segurou pelo pulso.
— Não, . A gente precisa recuperar a energia. Preciso de sua ajuda aqui.
— Eles também precisam, podem estar machucados.
— Não vai adiantar nada ir lá sem consertarmos isso. — Novamente voltou sua atenção a câmara.
— Eu sei, não queremos estar encalhados para polícia nos achar.
— Não é só isso — começou, coçando a nuca. A situação era atípica, pela primeira vez, Cash parecia tentar filtrar bem as palavras. — O reator está instável, os motores avariados... tudo parou...
— Tudo?
— Tudo — repetiu, com uma expressão fúnebre. — Até o sistema de suporte à vida.... — Foi então que finalmente notou: o completo silêncio. As paredes não zuniam como de costume. Todas as máquinas estavam paradas. — Precisamos achar um jeito de consertar ou vamos morrer aqui. — Circundou a câmara, encarando os monitores desligados. – Além disso, a estação é um ecossistema delicado que precisa de muito trabalho para mantê-la estável. E pelo que parece. Todo mundo morreu. — Ele ainda estava assombrado pela narração de sobre a situação encontrada na instalação da Cycorp. — Depois disso... do que quer que tenha nos atingido... tenho certeza que a estação está desmoronando. Se não recuperarmos a energia, vamos ser arrastados junto com ela.
— Merda. A gente está muito fodido. — Se sentindo derrotada, apoiou a testa a estrutura de aço e fechou os olhos.
— Mais do que imagina. — Colocou as mãos na cintura e encarou o nada, pensativo. O mecânico soava cansado demais para destilar qualquer ironia ou piadinha.
— Então... o que a gente faz primeiro? — A piloto endireitou a postura e, após um impulso com os pés, flutuou até um armário em busca de equipamentos.
— Vamos estabilizar o reator.
Empenhados na difícil tarefa de recuperar a nave, e Cash trabalhavam rápido e sem parar. Atentos ao tempo e aos medidores de oxigênio, tentavam respirar devagar e de forma ritmada. Decidiram que só colocariam os trajes quando não fosse mais possível suportar as condições hostis da nave desligada. O traje tornaria o trabalho mais difícil. Não era nada fácil manipular conectores delicados com as pesadas luvas. Mas isso significava que precisavam economizar oxigênio. O calor que preenchia a sala de máquinas apenas piorava tudo. Enquanto no resto da nave a temperatura caía a cada instante, ali, a temperatura subia. Com o sistema de resfriamento desligado, aquele ambiente havia se transformado em um forno.
Agora também presa ao chão pelas botas magnéticas, largou as ferramentas por um momento para limpar o suor que escorria por seus olhos atrapalhando sua visão. Sua cabeça latejava e o peito ardia por conta da dificuldade em respirar, mas não podiam parar.
— Cash... — Sua fala estava entrecortada. Ela ofegava. — Você ouviu um grito? Antes de tudo apagar...
— Ouvi.
— Era a Betty. — Sentiu a boca seca amargar.
— Eu sei, também reconheci — murmurou, encarando a amiga. Notou um lampejo de medo brilhando no olhar dela. — Eu tenho certeza que ela está bem. Todos eles estão.

***

Na estação, a tripulação demorou mais a acordar. A carga de energia que os atingiu foi muito maior. A primeira a despertar foi Ruby. A loira abriu os olhos e se mexeu, sentindo dores por todo o corpo. Se lembrava claramente do impacto do seu corpo contra uma parede de metal. Com a vista embaçada, se sentou e olhou em volta, precisava encontrar Ray. Girou o pescoço dolorido, num esforço de distinguir algo em seu entorno, mas não conseguiu enxergar um palmo a frente de seu nariz diante da escuridão. Acionou um botão, acendendo as luzes do capacete, e passou a vasculhar o corredor. Ao avistar o marido, tentou se colocar de pé, mas não conseguiu. Então, engatinhou até ele. Seus dedos ansiosos o alcançaram e tocaram seu peito.
— Amor.... – chamou, mas não houve resposta. O homem permanecia completamente imóvel. — Por favor... acorda — insistiu, sacudindo-o. A dor, somada à aflição de ver o marido naquele estado, tornou sua respiração pesada. Ruby arfou, sentindo o ar escapar de seus pulmões. — Por favor. Eu não posso te perder. Acorda! — Aquilo era mais uma ordem do que um pedido. Ela colou o capacete ao dele por um instante. Seus lábios tremiam. Se afastou um pouco e alcançou o braço de Ray. Abriu o dispositivo que ele carregava no pulso e verificou os mostradores no pequeno painel. Estava vivo, mas seu ritmo cardíaco era lento e irregular. Precisavam retornar a nave.
Ao escutar alguém se mexendo, o olhar alerta voltou ao rosto de Ruby.
— O que aconteceu? — Zimmerman perguntou, desorientado, e uma luz forte ofuscou a sua visão. Cerrou os olhos diante do incomodo e colocou a mão esquerda na frente do rosto, tentando se proteger da claridade. Antes que pudesse pensar em se sentar, sentiu mãos firmes agarrando seu traje.
— Isso tudo foi uma armadilha — Ruby acusou, levando as mãos ao pescoço dele. Queria matá-lo ali mesmo. Tinha a voz trêmula e raivosa. O rosto vermelho com veias saltadas. — Você e o Cooper armaram isso tudo.
— Não. Isso não é... eu só quero encontrar a Ally. — Se debateu, sem conseguir se livrar do peso da mulher em cima de si. Ela era muito mais forte. — Por favor. Eu também não sei o que está acontecendo. Por que eu armaria para vocês? Por que me colocar em risco também? — elevou a voz, expressando todo desespero que transbordava de seu interior. — Por favor... — implorou com os olhos cheios de lágrimas. Diante da cena, que Ruby considerou patética, ela o soltou.
— Precisamos sair daqui — disse, somente se afastando e voltando até o marido. O encarou por alguns segundos. Ele agora parecia tão indefeso. Isso fazia também com que ela se sentisse desamparada. — Precisa me ajudar a carregá-lo — ordenou e viu Zimmerman se colocar de pé apoiado a uma parede. Ele se aproximou e juntos tentaram erguer o corpo pesado de Ray. Não tiveram sucesso. Z não era de muita ajuda, e Ruby sozinha não conseguiria.
Passos foram ouvidos e os dois viraram para a direção do som. Ali, diante deles, estava Cooper, de olhos fechados por conta da claridade. Antes que pudesse se pronunciar, a mulher retirou a arma do coldre e mirou nele, o encarando furiosa.
— A estação vai cair — Cooper constatou, erguendo os braços. — Precisamos ir.
— Nós vamos. Você fica — ela ameaçou, dando dois passos na direção dele.
— Eu te disse que precisava encontrar a Ally... — começou a argumentar, recebendo um olhar frio em resposta.
— E encontrou?
— Sim. Ela está viva. — O rosto dele se abriu em um sorriso e Z repetiu o gesto. – Conseguiu fugir durante o pandemônio que aconteceu aqui. Precisamos voltar para a nave. Vamos encontrá-la.
— Você não vai a lugar nenhum — a loira endureceu a voz, passando o dedo pelo gatilho.
— E nem o Ray — disse, desafiador, aumentando a irritação de Ruby. Suavizou sua expressão quando a mulher caminhou até ele apontando a arma para sua cabeça. — Vocês não vão conseguir tirar ele daqui sozinhos — tratou de se explicar diante do risco. — Eu aguento. Posso levá-lo. — A oferta era a única moeda de troca que ele tinha naquele momento. — Você precisa de mim, Ruby — finalizou, baixando a voz.
Ela hesitou. Parou e pensou por um instante, e então guardou a arma. Cooper abaixou os braços e, com passadas rápidas, alcançou Ray, o jogando por sobre os ombros. O homem era grande e pesado, mas ele também. O trio então seguiu em direção a saída.

***

Assim que o reator estabilizou, alguns sistemas religaram automaticamente, e a sala de máquinas foi preenchida pelo som dos aparelhos e das comemorações de Cash.
— Gwen, nunca fiquei tão feliz de te ouvir. — Deu um beijo na lataria da nave quando o ruído nas paredes voltou e as luzes se acenderam. Ao ouvir um zunido vindo dos dutos de ventilação, encarou os medidores notando que a taxa de oxigênio estava subindo. — O suporte de vida está funcionando.
— Finalmente. — suspirou, limpando o suor do rosto com a barra da camisa. Ao perceberem que a gravidade artificial também havia voltado, retiraram as botas magnéticas. — Vou checar a ponte — anunciou, correndo porta a fora. Alcançou o local a tempo de presenciar telas se acendendo na mesa e nas paredes.
A piloto foi até o console e digitou alguns comandos, observando as informações que surgiam nos painéis de leitura. Escrutinou-as rapidamente e então tentou utilizar o sistema de comunicações para entrar em contato com a tripulação, mas só ouvia estática. — Merda! — gritou aos ventos, acertando um tapa no painel. Correu de volta a sala de máquinas e avistou Cash, que agora focava sua atenção nos motores.
— E aí? — Ele tinha o rosto vermelho e a testa brilhando de suor.
— A energia voltou. O casco está intacto, mas... o sistema de comunicações está avariado.
— Certo. Essa é a fase três. Agora eu vou botar esses motores para funcionar direito. Enquanto isso, você vai buscar a tri... — Antes que pudesse terminar a frase, viu a mulher sair correndo pelo corredor.
vestiu parte do traje e se apressou até a eclusa de ar, terminando de se ajeitar no caminho. Assim que se certificou que tudo estava devidamente vedado, apertou os botões e atravessou as duas portas herméticas. No fim da passarela que ligava a nave à estação, estava a comporta de entrada. No pequeno painel à direita, utilizou um cartão e os códigos de acesso. Quando o sistema pediu pela verificação biométrica, ela fixou ali um pequeno dispositivo que sobrecarregou o sistema e a pesada comporta se abriu.
Lá dentro, tudo ainda estava escuro, então ligou a lanterna do capacete. Deu poucos passos antes de avistar luzes vindas de um corredor à esquerda. Desligou a lanterna e se aproximou da parede com a arma em mãos. Já havia perdido o contato há algum tempo. Não sabia o que tinha acontecido nesse intervalo, e precisava considerar as piores possibilidades. Quando a luz se aproximou, avistou Ruby, bem e armada. Do lado direito estava Zimmerman, caminhando com os ombros escolhidos, e entre eles Cooper, carregando Ray nas costas.
foi até eles ainda com a arma em mãos.
— Ruby, você está bem? — gritou, mantendo os olhos em Cooper.
— Sim. Mas o Ray está machucado, precisamos levar ele para enfermaria.
— Vocês vão na frente — a piloto ordenou e os seguiu, mantendo certa distância. Por vezes, olhava em volta na esperança de ver ou ouvir algum sinal de Betty.
Dentro da Guinevere, acompanhou o grupo até a enfermaria. Cooper deitou Ray na maca e deu alguns passos para trás. Ruby foi até o marido, o livrando do capacete, vestimentas e equipamentos. Quando se afastou para ligar o console médico, Zimmmerman se aproximou. O homem mal conseguiu encostar em Ray, quando armas se ergueram na sua direção.
— Eu sou médico! — gritou, com as mãos erguidas. — Posso cuidar dele. — Tinha os olhos estatelados e a voz trêmula. Estava tomado pelo medo.
Ruby trocou olhares com e então falou:
— Faça um bom trabalho. Sua vida depende disso.
A piloto ficou ali parada, encarando Zimmerman examinando Ray, enquanto Ruby acionava vários instrumentos no console médico, observando atentamente os dados que surgiam nas telas. Os olhos de focaram no amigo desacordado. Seu peito inflando e desinflando vagarosamente. Sentiu sua própria respiração acelerar. Não podia perdê-lo. Precisava dele. Um tanto atordoada, olhou de relance para o monitor. O vislumbre dos batimentos de Ray fez com que a piloto voltasse a si.
— Você fica aqui com ele — disse para Ruby, que se mantinha concentrada em sua tarefa. — Eu vou levar o Cooper para o quarto e depois ajudar o Cash para garantir uma decolagem segura. — Fez sinal para o homem, que imediatamente obedeceu caminhando em direção a porta. — As comunicações ainda não estão funcionando, então se precisar de mim, é só atirar em alguma coisa que eu venho correndo — finalizou, deixando a enfermaria.
Na área dos aposentos dos hóspedes, apressou Cooper. Havia muito a ser feito para que pudessem deixar aquele lugar. Aquilo era a prioridade. Depois teria tempo para se preocupar com todos os acontecimentos recentes. Antes que pudesse trancar o homem no quarto, ele gritou:
— Espera! Eu ainda preciso do antidoto.
— Que antidoto? — perguntou, genuinamente confusa.
— Para a toxina.
— Ah, isso... — Deu de ombros. — Isso foi uma mentira — respondeu, seca trancando a porta.
subiu as escadas e foi até a sala de máquinas com passos rápidos e pesados.
— Cash, como estamos? — gritou, ainda do corredor.
— Motores operando com 41% de capacidade — ele gritou de volta.
— É o suficiente para decolar. Então nós vamos. — Deu meia volta e correu até a ponte.
Seus dedos ágeis acionaram vários botões e interruptores em sequência. Dados cintilaram nos monitores e a nave começou a vibrar. Uma ligeira mudança no ruído dos motores foi ouvida. Ela tocou o manche e os direcionou para bem longe dali.
Quando estava pilotando, precisava de toda sua atenção nos controles e instrumentos no painel. Não podia deixar seu foco ser desviado para saúde de Ray, o grito e sumiço da irmã, ou mesmo todas as coisas suspeitas que ocorreram naquele dia. Naquele momento, ela e a Guinevere eram um só, e nada mais podia importar.
Após algumas horas sozinha com o zunido das máquinas, ouviu passos. Cash surgiu ao seu lado segurando algumas ferramentas.
— E os motores?
— Consegui dar uma tapeada, mas foi só isso — disse, se abaixando para cuidar do sistema de comunicações. — Temos danos muito graves. Precisamos colocar a nave em um estaleiro para fazer o trabalho pesado. O que nos atingiu atravessou a blindagem, danificou os sistemas e ferrou com os motores.
— Então... sem chances de a Gwen suportar a hipervia sem se partir. — Deu um suspiro resignado e se voltou para os mapas estelares. Precisava de um plano. — Como o Ray está?
— O que aconteceu? — O mecânico saiu debaixo da mesa com um olhar preocupado.
— Cooper trouxe ele desacordado. — Cash arregalou os olhos e fez menção de se levantar, mas ela o impediu. — Não, você fica e conserta isso. Precisamos do painel de comunicações funcionando. — Ela ligou o piloto automático e se levantou da poltrona. — Eu vou checar nosso brutamontes.
parou na metade da escada e puxou o ar lentamente. Soltou ainda mais devagar. Tentava se acalmar. Toda aquela situação havia deixado sua mente e corpo acelerados. Precisava pensar com clareza. Havia muitos problemas para resolver, mas era necessário cuidar de um de cada vez.
Tentando não permitir que o medo a dominasse, desceu os degraus que faltavam. Da janela da enfermaria, viu Ruby encarando o marido adormecido e apertando as suas mãos com força. Deu leves batidas na porta e entrou.
— Como ele está?
— Vai ficar bem. — A voz de Ruby era frágil. — Aquela energia... fritou tudo... inclusive os rins dele... o Z precisou retirá-los — explicou, encarando o marido. Com delicadeza, acariciou a lateral de seu rosto.
— O Ray vai ficar preso a essa maldita máquina.
— Bendita máquina — corrigiu, com uma expressão suave. Após muito sofrimento com o medo de perdê-lo, ela decidira encarar a situação por outra perspectiva. — É o que vai manter ele vivo. — Lançou um olhar para a máquina de diálise em funcionamento. — Graças a você, estávamos preparados — finalizou com um sorriso de agradecimento que foi retribuído.
— Isso aí é um terço? — Franziu a testa ao notar o que ela segurava entre os dedos.
— É. A mãe dele me deu de presente no casamento. Ficava guardado em uma gaveta. — Sorriu, encarando aquele objeto na palma da mão. — Agora eu estou aqui tentando convencer Deus a me ajudar, mesmo eu não sendo a pessoa mais religiosa.
— Acho que a fé do Ray vale por vocês dois. — se aproximou e tocou o ombro da amiga em um gesto de conforto.
— Sabe... quando ainda estávamos na estação, por um momento eu achei que tinha perdido ele. — Apoiou os cotovelos no colchão e o rosto nas mãos, numa tentativa de esconder os lábios trêmulos. — Achei que...
— Ele está bem agora. Aqui com a gente.
— O Z salvou o Ray. — Novamente, agarrou a mãos do marido e depositou um beijo ali. — Eu não acho que ele esteja trabalhando com o Cooper. Ele acredita que sim, mas...
— Eu concordo com você. O Cooper não está nos contando a verdade. E a cada atitude dele, tudo fica mais suspeito.
— Já conseguiu interrogá-lo?
— Ainda não. Primeiro preciso levar a gente para um local seguro. Precisamos botar a nave em um estaleiro para consertar tudo.
— Podemos ir para Sihnon — sugeriu assim que a ideia cruzou sua mente. — A Pike pode...
— Não dá. Tem que ser nesse sistema. A Gwen vai desintegrar se tentarmos utilizar um portal. — Cruzou os braços e encarou o nada, meditando por um instante. — Fique tranquila. Eu vou achar uma solução.
— Não duvidei disso nem por um segundo.
— O que aconteceu lá? — indagou após alguns minutos de silêncio. Aquela pergunta estava se repetindo em sua mente por horas.
— Eu não sei. Eu senti essa energia me atravessando... fui arremessada em uma parede e aí tudo ficou escuro.
— Você ouviu um grito?
— Sim... era a Betty. — Sua voz baixou a um sussurro ao relembrar aquele momento. Estava tão preocupada com o marido, que havia se esquecido do som de profunda agonia ecoando na estação.
— Você a viu?
— Não. Não tenho ideia do que aconteceu.

***

Quando Betty recobrou seus sentidos e abriu os olhos, percebeu que flutuava através do espaço profundo. Na verdade, estava sendo arrastada. Havia uma força gravitacional, que como um fio invisível, a mantinha próxima da Guinevere o tempo todo. O nome dessa força gravitacional era Davis. Por motivos que não entendiam, não conseguiam ficar longe uma da outra. Betty até já tinha tentando se afastar, mas parecia existir um limite para a distância entre elas. Tudo começou com sua morte. Quando se viu sozinha no escuro do além vida, ela procurou uma saída. Uma porta ou alguma luz branca e brilhante, mas não encontrou. Enquanto estava no limbo, não podia ver nada, mas podia ouvir. Ouvia a voz da irmã. Seu choro e sofrimento. Então, um dia conseguiu seguir a fonte da voz. E como mágica, se viu em um quarto de hospital. Se deparou com em uma cama, presa a aparelhos e com a pele marcada por queimaduras profundas.
O tratamento era doloroso e tudo o que Betty podia fazer era assistir. Alguns dias depois conseguiu fazer contato. Inicialmente não conseguia se manter visível ou tangível por muito tempo. Logo aprendeu essas habilidades. Percebeu que também conseguia influenciar sistemas elétricos. Era como se fosse um com aquela energia. Já haviam passado cinco anos e agora ela parecia conseguir conviver bem com a sua condição. Mas por algum motivo, não conseguia se afastar da irmã. Uma vez até tentou entrar em uma nave e voltar para New Charon sozinha. Mas antes que a nave pudesse atingir a exosfera, algo aconteceu. O veículo seguiu viagem, mas ela permaneceu ali. Sentindo uma força muito forte a segurando. Não demorou para perceber quem era a fonte dessa força.
Ainda tentando dar sentido a tudo que havia acontecido nas últimas horas, Betty entrou na Guinevere. Encarou a janela da enfermaria por algum tempo, vendo Ray preso a aparelhos e Ruby dormindo ao lado dele. Seguiu até a ponte, se deparando com cochilando recostada a poltrona. Ela despertou assim que entrou no ambiente. Parecia sentir a sua presença.
— Betty! — exclamou, surpresa. — Onde você estava? O que aconteceu? — Foi até ela com uma expressão preocupada.
— Eu cresci lá, ... — suas palavras saíram fracas, quase em um sussurro.
— O quê?
— O início da minha vida foi naquela estação. Eu me lembro dos laboratórios, dos quartos, dos médicos, da minha irmã... — Caminhou até uma escotilha e encarou a escuridão lá fora.
— Do que você está falando?
— A Ally é minha irmã — finalmente disse aquilo em voz alta, sentindo todo o peso daquela sentença.
— Não... isso não... não faz sentido. — esfregou o rosto. Por um momento, achou que ainda estivesse dormindo.
— Eu tenho certeza. Ela é a minha irmã — repetiu, sentindo um nó se formar em sua garganta. Não se lembrava bem das circunstâncias que a levaram para longe do laboratório. Mas sentia a culpa. Pesada e sufocante. Ela havia escapado e deixado Ally para trás. — Eu cresci lá. Agora eu me lembro. Acho que eu tinha reprimido essas memórias, mas quando eu vi aquela sala, aquelas pinturas, o coelho... me lembrei de tudo.
— Coelho?
— É. Igual o sr. Bigodes, só que azul. Era da Ally. — Ela encarava o nada com tanta tristeza que poderia preencher a sala.
— Betty, nada disso faz sentido.
— É por isso que o Zimmerman me reconheceu naquele dia. A Ally é a minha irmã gêmea. — Se voltou para que tinha a descrença estampada no rosto.
— Você tem uma gêmea e não se lembrava dela até agora?
— Eu devo ter reprimido a memória ou algo assim. Sabe-se lá como foi a minha vida naquele laboratório. — Se abraçou por um instante enquanto lembranças turvas a atingiam. Imagens de agulhas e as dores que elas causavam. Balançou a cabeça, tentando se livrar das memórias. — Eu tenho certeza. Eu cresci naquela estação, e tenho uma irmã gêmea chamada Ally. Nós precisamos encontrá-la — pediu com a voz chorosa.
— Eu... — começou, mas fechou a boca ao analisar a irmã. Ela estava desesperada e tinha absoluta certeza de tudo aquilo.
Mas não fazia sentido. Não era possível. Como tudo aquilo havia ficado escondido por tanto tempo? Lembrou do dia que a conheceu. Tão pequena e frágil segurando aquele coelho rosa. Quando atingiu a maioridade e lutou pela custódia de Betty, procuraram documentos ou qualquer outro registro, e não encontraram nada. A garotinha havia sido deixada lá pela polícia. Não sabiam do passado dela antes de sua chegada ao orfanato naquela noite de outono vinte e dois anos atrás.
fechou os olhos por alguns segundos e respirou fundo. Tentava organizar todas aquelas informações.
— Isso é o destino — Betty disse com a voz embargada, se aproximando. — Descobrir tudo, encontrar minha irmã.
— Não é o destino. — Deu alguns passos para trás quando as peças começaram a se encaixar. — O Cooper sabia. — sentiu seus batimentos acelerarem diante daquela certeza. — Ele sabia. Ele nos procurou.
— O quê?
— Ele ficou fazendo perguntas sobre você. Ficou genuinamente surpreso quando ouviu que estava morta. Esse tempo todo ele sabia. — A voz dela falhou na última palavra. Em silêncio, deixou a ponte. Avançou pelos corredores rapidamente, alcançando o deque inferior. Ao chegar na área dos hóspedes, abriu a porta do quarto sem qualquer cuidado.
Cooper se levantou assustado com a invasão. A piloto estava ali parada sem dizer nada.
— O que aconteceu? — perguntou, preocupado, sentando-se na cama. — Está tudo bem?
— A Ally é irmã da Betty — disse através dos dentes cerrados. Cooper arregalou os olhos, mas tentou disfarçar. — Você sabia disso, sempre soube. Não veio até nós por acaso. Você nos procurou, nos rastreou. E nos achou num pequeno planetinha fodido nos confins da galáxia. — Suas palavras saíram duras e ríspidas. — Você queria a Betty. E ficou genuinamente surpreso em descobrir que ela estava morta. — abria e fechava as mãos com força. Queria arrancar a verdade dele da forma mais violenta possível. — O Zimmerman sabe disso tudo? Ele não sabe, né? — Cooper se mantinha em silêncio e tentava manter a expressão impassível diante da mulher furiosa. Não reagiu quando as mãos dela agarraram seu colarinho. — Você vai me contar toda a verdade agora. — Diante da inércia do homem, ela tirou a arma presa em sua cintura e tocou o cano a bochecha dele.
— Para, ! — A voz de Betty foi ouvida. Em seguida, ela se materializou no quarto, tocando a mão da irmã.
— É bom finalmente te conhecer — Cooper disse, observando atentamente a mulher tão perto dele. Ele parecia maravilhado.
— Não está com medo de mim? — Betty perguntou, afastando a arma do rosto dele. deu um passo para trás. Estava irritada com a aparição da irmã. Mas ao encarar Cooper, percebeu que talvez ela conseguisse arrancar algumas verdades dele.
— Não. — Sua expressão se abriu em um sorriso terno e ele se colocou de pé. — Eu sempre soube que você estava aqui. Podia sentir a sua presença. — Tentou tocá-la, mas ela recuou. — Nem acredito que finalmente estou te conhecendo. Ally falava de você todos os dias.
— Onde ela está?
— Fugiu. Mas me deixou uma mensagem. Podemos encontrá-la. — Havia um brilho diferente em seus olhos.
— Onde? — insistiu, ansiosa.
— Callisto. É meu planeta natal. — Retirou um amuleto que estava escondido embaixo da camisa e mostrou para ela. — Sempre foi o plano levar a Ally para lá, onde poderia estar segura. Levar vocês duas. — Agora ele tinha um tom suave e reconfortante. Bem diferente da voz fria e mecânica que sempre direcionava a . — Eu te procurei por tanto tempo.
— Me fala do laboratório. O que realmente acontecia lá? E como eu escapei? — ela falava rápido, atropelando as palavras. — Sabe o que aconteceu com os meus pais? — Aquela pergunta era uma constante desde a infância.
— Não. Nunca tive acesso a essa informação. Mas sei que vocês foram levadas ainda bebês. — Baixou a cabeça com uma expressão triste. — A Cycorp faz experimentos com cobaias humanas há anos. Vocês foram as primeiras. Alfa e Beta.
— Cobaias... — repetiu a palavra, expressando toda dor em sua voz. Era tratada como apenas uma coisa por aqueles médicos e cientistas. Nem tinha um nome de verdade. Era só um experimento. Havia escapado. Encontrou uma família em e na tripulação. Mas Ally havia vivenciado aquilo por toda vida. Só conseguia pensar em tudo que ela havia sofrido sozinha.
— Que tipo de experimentos? — foi a vez de perguntar. Os olhos dela sobre Cooper, examinando suas reações.
— Utilizavam drogas para tentar destrancar habilidades no cérebro.
— Então é por isso que eu sou... diferente — disse aquilo mais para si. Com a angústia estampada em seu rosto, Betty suspirou, se afastando.
— Diferente como? – Cooper perguntou, mas não obteve resposta. A mulher desapareceu sem deixar qualquer vestígio de sua presença.

***

Sentada em uma cadeira de metal, encarava Zimmerman com uma sobrancelha arqueada enquanto ele narrava a história de sua vida até aquele momento.
— Um ano atrás eu recebi uma proposta para trabalhar com a Cycorp. Aprimoramento de seres humanos, é como chamavam. Eu aceitei. Achei que seria um novo desafio... — Ele apertava as mãos e se remexia sentado na cama, demonstrando seu nervosismo. Parecia atormentado por memórias. — Queriam analisar os efeitos de novas drogas sintéticas no cérebro humano. Eles já fazem esses experimentos há anos. Fiquei horrorizado quando cheguei. Queria me demitir. Mais aí eu conheci a Ally.
— Ally é a mulher que você supostamente ama.
— Eu a amo. De verdade. Mais do que qualquer coisa no mundo — disse gaguejando um pouco. Seus sentimentos transbordavam e transpareciam em cada olhar, fala e gesto. — Nós precisamos encontrá-la.
— Nós vamos, não se preocupe. Mas o preço subiu. E preciso que transfira o valor agora. O Ray precisa de rins novos.
— Tudo bem. — Alcançou um dispositivo na mesa de cabeceira e entregou nas mãos dela para que pudesse digitar o valor. — Estou confiando em você. Que vai me ajudar a salva-la.
— Sou uma mulher de palavra. E para isso tudo funcionar, também preciso confiar em você. Tem que me contar toda a verdade. — Ao sentir o olhar da mulher sobre si, Zimmerman suspirou, decidido a contar tudo.
— O Cooper mentiu. Ela não é jornalista — admitiu erguendo a cabeça para encarar que estava sentada bem perto dele. — Ela cresceu lá. Passou a vida toda naquele laboratório. — Sua voz era triste. Precisava encontrar Ally. Sua felicidade dependia disso.
— Sobre o que mais ele mentiu?
— Ele realmente é chefe da segurança. Ele já trabalhava lá há uns vinte anos. Viu a Ally crescer. Cuidou dela esse tempo todo. Mas o nome dele não é Cooper. É Don Pearson.
— E o seu?
— Sergei Zebrowski — firmou a voz e aprumou o corpo ao se apresentar, dessa vez com seu nome real.
— Nome bonito. — Havia uma carregada ironia na voz dela. — Mas vamos continuar te chamando de Z.
— Tudo bem, eu gostei do apelido.
— A Ally tinha uma irmã? — Ao ouvir aquela pergunta, os ombros dele ficaram tensos.
— Todas as cobaias são em pares. Gêmeos. É comum em experimentos desse tipo ter um inicialmente como controle, e aí testam como as reações variam no mesmo material genético — explicou com seu tom muito formal.
— Você nem se dá conta. Está falando de crianças como se fossem coisas. — Se inclinou, se aproximando mais dele, devagar e ameaçadoramente.
— Me desculpe. Não é minha intenção. — Se encolheu, com medo da mulher. — A Ally tinha uma irmã. Ela foi levada do laboratório com quatro anos. Sequestrada por uma cientista. A Cycorp investiu todos os esforços para encontrá-la, mas não tiveram sucesso.

***

estava sozinha na ponte há algumas horas. Não havia conseguido dormir nada. Havia muito para pensar. Todas as recentes revelações estavam dando um nó em seu cérebro. Ela encarava os mapas estelares, mas não conseguia se concentrar. Levantou da cadeira e caminhou pela ponte. Se sentia sufocada por todas aquelas informações. Precisava botar tudo para fora. Decidida, foi até a sala de máquinas. Chamou Cash e juntos foram até a enfermaria. Na presença de sua tripulação, incluindo Ray ainda inconsciente, ela explicou tudo. Contou cada detalhe que havia ouvido de Betty, Cooper e Zimmerman. Sua narração foi recebida com surpresa e incredulidade. Seguiu-se um silêncio na enfermaria, mas não por muito tempo. Cash falou primeiro.
— Cadê a Betty?
— Sumiu.
— Deve estar tentando digerir essa história toda — disse Ruby, preocupada. Betty sempre se isolava quando passava por momentos difíceis. E a sua condição garantia que ninguém pudesse encontrá-la se não permitisse. — Isso é loucura.
— Então... o que a gente faz agora? — Cash perguntou, angustiado.
— Vamos terminar o serviço. Vamos encontrar essa tal Ally.
...
— Precisamos saber a verdade. Toda a verdade. E não vamos conseguir isso do Cooper... nem do Zimmerman. — Caminhou pela enfermaria, massageando as têmporas. Sentia a cabeça latejar. — Mas primeiro a gente vai para Shahar.
— O que? Você está doida? — Cash gritou, recebendo um olhar de repreensão de Ruby. Ray tinha os sinais vitais estáveis, mas ainda estava adormecido.
— Precisamos consertar a nave. E tem que ser nesse sistema.
— Mas logo Shahar? É muito perigoso. A segurança lá é altíssima — disse Ruby, também se opondo ao plano, mas mantendo o tom de voz baixo. Em situações normais, não rejeitaria uma ida até o lar de cassinos e apostas. Mas nas atuais circunstâncias, não podiam ser descuidados. — Se nossas cabeças estiverem a prêmio, estamos indo para o local de encontro de caçadores de recompensa.
— Concordo com tudo isso. Mas precisamos de peças e de um estaleiro, e o Ray de rins. Shahar é o único lugar nesse sistema que a gente consegue os dois com um preço melhor e sem ter que lidar com as autoridades.
— Você está querendo comprar órgãos do Romney? Ficou maluca mesmo. — Cash novamente levantou a voz, e dessa vez recebeu um soco no braço. — Ele atirou em mim da última vez — choramingou, massageando o braço. — Ainda tenho a cicatriz.
— Porque você trapaceou no poker.
— É, Cash, você meio que mereceu — disse Ruby, vendo o rosto do mecânico se contorcer em uma careta.
— É bom saber que eu tenho amigos maravilhosos e leais. — Manteve a indignação na voz, tentando não gritar.
— Amigos maravilhosos e leais dizem a verdade. E você foi um idiota por tentar enganar o Romney dentro do território dele.
— Ele me deu um tiro! — rosnou entredentes, indignado com a insensibilidade das amigas.
— Para de drama. Foi de raspão e você se recuperou em poucos dias — disse já sem paciência. – Mas não se preocupe. Vocês vão ficar consertando a nave e eu vou lá sozinha.
— É claro, porque você é ótima em resolver conflitos — falou, o tom de voz dele estava recheado de sarcasmo.
— Ótimo mesmo é só o Ray. — Ela lançou um olhar para o amigo inconsciente. — Mas como ele está impossibilitado, eu vou ter que servir.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Outra fanfic:
Coisas Frágeis (Restritas - Originais/Em Andamento)

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