Ecos e Silêncio

Última atualização: 21/03/2021

Capítulo I.
Pesadelos.

Após dois anos na frota, já havia se acostumado com grande parte das dificuldades e encargos da vida de um soldado da infantaria móvel. Péssimos alojamentos, pesados treinamentos, superiores cretinos e uma ração que parecia lavagem. Conseguia lidar com tudo isso. A única coisa que nunca aceitaria, era ter que tomar banhos frios após um longo dia de treinamento. Então, todas as noites era mesma rotina: um longo tempo gasto tentando regular o chuveiro para conseguir um bom banho quente.
Girava o registro lentamente, tentando encontrar a posição exata que lhe traria água quente. Com o corpo nu envolto em uma toalha branca, sentia cada pelo de seu corpo arrepiado naquela noite fria.
Desviou a atenção do chuveiro ao ouvir passos e virou, deparando-se com um homem alto com uma toalha na cintura e uma expressão confusa. O homem coçou a cabeça e baixou o olhar, e ela teve que se segurar para não gargalhar.
— Me desculpe. — Gaguejou constrangido. — Sou novo aqui. — Justificou, querendo sumir dali.
— Não está no lugar errado. — Riu do constrangimento dele e voltou a atenção ao chuveiro. — Essa é a única área de banho dessa ala.
— Chuveiros comuns? Ok! — Ele ainda estava visivelmente desconcertado. Não seria nenhum sacrifício passar por banhos comuns. Mas era estranho, não estava acostumado àquela situação.
Continuava parado no mesmo local, observando a mulher ainda tentando regular a temperatura. Quando finalmente conseguiu, ela deu um gritinho de felicidade e o local logo foi preenchido pelo vapor.
— Então... eu volto mais tarde.
— Vai ter que se acostumar com isso, se decidir ficar. — desfez o coque que prendia seus cabelos. — Me ver nua é parte do trabalho. — Ela largou a toalha em um gancho e entrou debaixo da ducha ciente que ele a seguia com o olhar. — Vai ficar parado aí? — Questionou de olhos fechados, após algum tempo sentindo a água escorrer por seus cabelos.
Ele encarou o chão ao se dar conta que a encarava descaradamente.
— Pode tomar banho, prometo que não vou ficar espiando. — Lançou um sorriso para o homem, que ainda não havia se movido.
Após alguns segundos de hesitação, ele jogou a toalha no gancho, entrou debaixo do chuveiro e girou o registro. Gritou um palavrão ao sentir a água gelada.
— Conseguir banhos quentes é uma arte. — Ela comentou entre risadas. — Sou . E você é?
. — Ele estendeu a mão, mas logo recolheu completamente desajeitado.
Passou a tentar regular a temperatura do chuveiro. o observou por alguns instantes, antes de voltar a atenção à água quente.
— Prazer te conhecer, .
não. ! — Corrigiu, fazendo a mulher rir.
fechou os olhos, concentrando-se na pressão da água em sua pele. Aquele era o momento mais relaxante de seu dia. Ficava ali por um bom tempo, deixando a água retirar a sujeira, o suor e o cansaço. A água quente também tinha o poder milagroso de levar embora toda tensão e preocupações.
Ficou um tempo de olhos fechados, aproveitando seu mini spa, mas para sua insatisfação, sua bolha foi rompida. Abriu os olhos assustada diante do som de um estridente alarme. Virou-se, procurando , mas não o encontrou, estava sozinha na imensa área de chuveiros. Um frio desceu por sua espinha. Os azulejos brancos passaram a refletir uma luz vermelha e um grito foi ouvido.
Correu em direção à toalha, mas foi impedida por alguém segurando seu braço. Deparou-se com , que tinha um profundo ferimento no abdômen.
— O que houve? — Sentiu o desespero preencher seu interior. O medo de perdê-lo fazia seu coração doer. — Precisamos chegar à enfermaria! — Analisou o machucado com cuidado, tentando controlar o pânico.
— Não. — Ele levou as mãos até as bochechas dela. — É tarde demais. Tarde demais para mim e tarde demais para Betty. — Terminou com a voz falhando.
— O quê? Cadê ela, ? Cadê a minha irmã? — Sua aflição aumentou. O ar faltou e o chão parecia girar.
Desesperou-se com todas as possibilidades nefastas que passaram a rondar sua mente.
— Eu sinto muito. É tudo minha culpa. — Ele passou a apertar o rosto dela com força.
— Do que... — foi interrompida por gritos, que imediatamente foram reconhecidos.
Tentou se soltar de , mas não conseguiu. As mãos dele pareciam estar grudadas ao seu rosto. Os gritos aumentaram e se tornaram mais desesperadores. Então, como num passe de mágica, o vapor que os cercava transformou-se em chamas. finalmente se soltou de e correu.
O calor e as chamas a confundiam. Não conseguia distinguir de onde vinham os gritos. Fechou os olhos por um instante, esforçando-se em puxar o ar, primeiro pela boca, depois pelo nariz. Inalou fumaça, tossindo compulsivamente.
Ao abrir os olhos lacrimejantes, finalmente avistou a irmã: Betty estava a poucos metros dela, encurralada por labaredas fortes e brilhantes.
Precisava tirá-la dali.
Correu, atravessando o fogo, e foi em direção à irmã, mas antes que pudesse alcançá-la, seu corpo acertou uma parede de vidro. Tateou o vidro quente, pensando em formas de quebrá-lo. Olhou em volta, mas só conseguia ver mais chamas e fumaça. Parecia que estavam dentro de um forno gigante, onde o fogo queimava tudo que tocava, derretendo até as cinzas.
O som do fogo consumindo aquela sala era ensurdecedor, mas não o suficiente para abafar os gritos de Betty. passou a esmurrar o vidro diante da cena horrenda da irmã sendo alcançada pelo fogo. Uma onda de choque e angústia a atingiu.
Após alguns socos, suas mãos esquentaram e a dor se tornou insuportável. Mas ela não parava, precisava derrubar aquela parede!
Finalmente parou o movimento ao perceber que suas mãos trêmulas estavam em chamas. Gritou horrorizada e ao olhar para o chão, viu uma enorme mancha de sangue se formando.
Tentando ignorar a dor, passou a empenhar mais força nos socos. O barulho aumentou. Podia ouvir o concreto cedendo. Girou a cabeça fitando a sala a ponto de desabar. Ao voltar a encarar a parede de vidro, paralisou diante do corpo da irmã já consumido pelo fogo. Um profundo urro de dor e agonia saiu de seus lábios.

acordou gritando. Sentada na cama, ela passou a inspirar profundamente, tentando acalmar o ritmo de sua respiração. Olhou em volta confusa e tentando se localizar. O sonho pareceu tão real. Algumas memórias misturadas a fabricações de seu inconsciente, recheadas por sensações tão reais e dolorosas.
Olhou para baixo, encarando as cicatrizes nas mãos trêmulas. Cerrou os punhos com força. Era como se ainda pudesse sentir a dor gerada pelo fogo.
Assustou-se quando uma mão gelada tocou a base de suas costas, trazendo-a de volta para a realidade.
— Pesadelos? — O homem tinha a voz abafada pelo travesseiro.
— É. — se agitou ao sentir acariciando suas costas.
Os dedos dele contornavam a imensa tatuagem que cobria parte do tronco da mulher. O desenho de galhos e flores começava na base das costas e subia, espalhando-se pelo lado direito de sua barriga, terminando logo abaixo de seus seios. Incomodada, ela se mexeu na cama, colocando os pés firmes no chão. Buscou as luvas na mesa de cabeceira, calçando-se em seguida. Sentia-se totalmente exposta sem elas. Era como se já fizessem parte de si.
Apoiou os cotovelos nos joelhos e levou as pontas dos dedos às têmporas, massageando a região por alguns instantes. Como de costume, sua cabeça parecia que ia explodir.
— Se quiser, posso conseguir algo para te ajudar a dormir melhor. — Ele virou, apoiando-se nos antebraços. — Consigo umas paradas tão fortes que vão te derrubar.
— Nem pensar. Um vício já é suficiente para eu administrar. — Afastou-se, saltando da cama.
Catou a calça jeans jogada em uma cadeira e a vestiu rapidamente, rastreando o resto de suas roupas no chão do quarto bagunçado.
— Fica. Podemos nos divertir mais um pouco. — O homem sentou na cama, observando cada movimento da mulher.
— Tenho muita coisa para fazer. — Ela ainda buscava o restante de suas roupas.
— Tem que cuidar do seu bebê? — Debochou e imediatamente um sapato voou em sua direção. — Ai! Você precisa controlar essa sua raiva. — Massageou a testa, já imaginando o galo vermelho que se formaria ali.
— E você precisa limpar o seu quarto.
— Ok, mamãe.
— Cadê a porra do meu sutiã? — Berrou impaciente, espalhando uma pilha de roupas no chão.
Diante do tom de voz da mulher, revistou a mesa de cabeceira e debaixo da cama. Encontrou a peça presa ao estrado. Cuidadosamente retirou o objeto de renda dali e arremessou para . Ela encarou o sutiã por alguns instantes e então deu um longo suspiro.
— Isso não é meu. — Ela apertou os lábios, esforçando-se em conter uma risada.
— É claro que é.
— Tenho cara de quem usa qualquer coisa rosa com florezinhas? — Indagou, arremessando de volta para ele.
analisou o sutiã por alguns instantes e começou a rir.
Oops... — jogou o sutiã embaixo da cama.
Aquilo definitivamente não era de , nem era o tamanho certo. Sorriu ao se dar conta de que não fazia ideia de quem era a dona. Era alta a rotatividade naquele pequeno apartamento. As habilidades de não eram restritas a mecânica e muitas mulheres sabiam disso.
— Ainda preciso do meu sutiã.
— Para quê? Você está ótima assim. — Mordiscou a boca, analisando a mulher e recebeu um dedo do meio em resposta.
Sentindo os olhos dela queimando sobre si, sacudiu os lençóis e depois os travesseiros, finalmente encontrando o que ela procurava. Estendeu a mão vitorioso, mostrando o objeto, mas não fez sinal que jogaria para ela.
— Me dá logo isso!
— Eu acho que prefiro que você venha buscar. — Esboçou um sorriso safado, apertando a peça entre os dedos, ação que fez a mulher bufar.
— Se eu for aí, vou quebrar seu nariz... de novo. Que tal isso?
— Sempre tão brava. — Arremessou o sutiã contrariado, ciente de que ela cumpriria a ameaça se não o fizesse.
Observou atentamente ela colocar a peça e passeou os olhos por aquele corpo que ocupara a sua cama na noite anterior. Seu olhar focou no pequeno objeto metálico pendurado no pescoço dela.
— Por que ainda usa isso? — Apontou para placa de identificação.
— Sem perguntas. Esse é o trato. — Ela vestiu a blusa e o casaco escondendo a placa.
— Ok. Eu curto a vibe de mulher misteriosa e cheia de segredos. É sexy.
rolou os olhos, sentando-se em uma cadeira para calçar as meias e botas.
— Ainda acho que devia voltar para cama.
— Tenho muitos motivos para não fazer isso. O primeiro é que tenho muitos reparos para fazer. Meu plano era começar ontem à noite, mas te encontrei no bar e foi tudo pelo ralo. — Levantou, ajeitando a roupa amassada.
Cheirou a gola da blusa. Ali, uma mistura de álcool e perfume.
— Desculpe por ter atrapalhado seus planos de consertar a nave. — se livrou dos lençóis e caminhou em direção à mulher completamente nu. — Sinto muito por ter te dado uma noite espetacular. Isso é tão trágico. — Forçou uma expressão dramática, posicionando-se a poucos centímetros dela.
— É surpreendente como você consegue fazer eu me arrepender de vir para cá tão rapidamente. — Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo, sustentando o olhar dele.
— Sinto te informar, , mas você me quer. O tempo todo. E está pensando agora em como não quer sair daqui. — Levou a mão direita até o pescoço, agora desnudo dela, e com o polegar delineou sua boca, enquanto mordiscava o próprio lábio.
Ela o encarou por mais alguns instantes e então desviou o olhar rindo.
— Tão narcisista. — Afastou-o e foi até a porta.
— Ei, nós devíamos nos encontrar mais vezes.
— Sinto te informar, mas isso não vai ser possível.
— Por que não? — Juntou as sobrancelhas, confuso.
— A minha sanidade voltou. — Ela abriu a porta do quarto e imediatamente um gato preto com grandes olhos verdes entrou. — Bom dia, Otis. — Fez um rápido carinho no animal e então voltou sua atenção para . — Você vai ter que se contentar com as memórias. — Soprou um beijo e saiu.

O amplo hangar, que abrigava o veículo e moradia de , estava preenchido pelo barulho de uma máquina de solda. Ela tentava se concentrar na tarefa de reparar a porta do setor de carga, mas seu pensamento estava distante. Ainda estava um tanto agitada pelos pesadelos que a assombraram.
Começou com uma memória, que por muito tempo, havia sido uma de suas favoritas. O momento em que conhecera , tímido e desconcertado, recém-chegado à academia militar. Mas logo o horror tomou conta: ele machucado, algo que aconteceu logo no terceiro ano de treinamento no planeta Nanthar. E, então, sua mente produzira vívidas imagens e sensações do fogo consumindo o prédio onde a irmã estava. Na realidade, ela não havia presenciado o momento em que as chamas alcançaram Betty — a irmã morreu antes que ela pudesse alcançá-la. Ainda tentou invadir o prédio, as queimaduras em seu corpo eram a prova disso, mas havia sido arrancada de lá pelos bombeiros.
Relembrar aquilo tudo era muito doloroso.
Apesar de se esforçar em não pensar naquelas memórias, em algumas noites seu inconsciente trazia imagens do fatídico dia dos atentados à New Charon.
As lembranças de foram interrompidas por um som agudo. Um pique de energia a deixou no escuro. Largou a máquina no chão e levantou a máscara, encarando apenas a escuridão.
— Betty! Isso não é engraçado! — Gritou impaciente para o nada.
Logo a luz voltou e sua irmã surgiu ao seu lado.
— Precisa parar de tentar me assustar.
— Desculpa... é que isso nunca deixa de ser divertido. — Betty encolheu os ombros.
— Onde estava?
— Fazendo umas merdas de poltergeist, assustando pessoas do outro lado da cidade. — Estalou os dedos algumas vezes, fazendo a luz piscar. — Estou melhor nisso. — Deu uma piscadela.
— Não anda possuindo ninguém, né?
— É claro que não. Te prometi que não faria isso. — Mentiu descaradamente, forçando uma cara inocente.
— Acho bom mesmo. Você disse que seus dias de dominadora de corpos haviam acabado.
— Cadê todo mundo? Cash não devia estar te ajudando? — Mudou de assunto rapidamente. Não era boa em sustentar mentiras.
Concentrou-se por um instante, tornando o corpo tangível e se sentou em uma caixa.
— Não sei. Cheguei e não encontrei ninguém.
— Chegou de onde? Onde passou a noite, mocinha? — Indagou curiosa, analisando a irmã.
— Eu estava... trabalhando. — gaguejou e Betty estreitou os olhos.
— Você estava com o .
— Talvez. — Disse entre os dentes, já aguardando a reação da irmã.
— Puta merda, ! — Gritou gesticulando exageradamente. — Precisa fazer melhores escolhas de vida. Ele é meio babaca.
— Um babaca gostoso. — Deu um sorriso de lado e viu Betty colocar a língua para fora, fazendo uma cara de nojo.
— Mas ainda assim um babaca.
— Só estamos nos divertindo. Relaxa.
— Ele é um criminoso, mercenário, contrabandista... — ela ia enumerando nos dedos, mas foi interrompida por uma gargalhada sonora.
— E daí? Eu também sou. A diferença é que aqui eu sou a chefe do crime. Já ele tem que obedecer às ordens do Archer. — Retrucou rindo e viu a luz piscar. — Vai acabar ferrando todo o sistema elétrico daqui. Pare de brincar com as luzes!
Betty se levantou, preparando-se para um longo discurso anti- e para defender seu direito de ferrar com o sistema elétrico o quanto quisesse. Mas foi interrompida pelo zunido irritante da campainha.
Caminhou até o pequeno painel perto da entrada da nave e ligou o monitor.
— Conhece esse cara?
Na entrada do hangar, estava um homem alto, que aparentava ter no mínimo quarenta anos. Ele parecia impaciente, olhando para o relógio e sustentando uma expressão carrancuda.
— Não. — se aproximou, analisando a figura mal-humorada. — Está bem vestido. Deve ser cliente. Vou atender e você desapareça.
— Por quê? — O tom de voz indignado combinava com sua expressão exagerada e teatral.
— Não vamos te expor sem necessidade. — Explicou, já caminhando em direção à entrada do hangar.
— Por quê? — Betty repetiu, cerrando os punhos e batendo um pé no chão. Um gestual de pirraça que ela repetia desde a infância. — Eu já ‘tô morta. Isso não devia ser preocupação. — Apontou para o próprio corpo, que se tornou quase completamente transparente.
parou e virou para a irmã, após dar um longo suspiro.
— Bess... você ainda está aqui. E isso significa que eu vou te proteger. — Mudou o tom de voz, esforçando-se em passar calma e ternura. — Dependendo do tipo de trabalho, você vai participar, como sempre. Mas não vou te expor a estranhos sem necessidade.
Betty assentiu e desapareceu completamente. então se apressou em direção à porta.
— Estou procurando o senhor . — O homem falou com uma voz grave, assim que a porta foi aberta.
— O senhor é?
— Don Cooper. Me falaram que encontraria o senhor aqui. — Ele se esforçava em ver o que estava dentro do hangar.
— Se está procurando pelo piloto da Guinevere, sou eu. . — Apontou os polegares para si, exibindo uma expressão convencida.
— Guinevere? Como nas lendas arturianas? — O rosto do homem se contorceu em surpresa e admiração.
— Exato.
— É raro ver gente, especialmente da sua idade, interessada em literatura antiga da Terra. É bom saber que existem pessoas cultas nesse planeta. — O tom elitista dele irritou .
Claramente ele era de um dos planetas centrais e sabe se lá por que estava ali, na periferia daquela galáxia, em um pequeno planeta mal terraformado, habitado por desajustados, marginais e criminosos.
— Do que precisa, senhor Cooper?
— Meu chefe precisa de transporte. — Diante daquelas palavras, ela finalmente deu espaço para ele entrar.
Caminhou em direção à nave, imediatamente sendo seguida.
— Ouvi muito a seu respeito. Muitos elogios, a maioria afirmando sua eficiência e discrição.
— Grande parte do mérito é da Gwen. — Bateu na lataria da pequena nave de transporte.
— É uma bela nave. — Diante do elogio, exibiu um largo sorriso.
Aquela nave era seu sustento e orgulho.
— Seu chefe precisa de transporte para onde?
— Ele gostaria de tratar do assunto pessoalmente. Poderia encontrá-lo hoje para debater os detalhes? — Cooper colocou as mãos nos bolsos.
Estava com os olhos em , mas atento e intrigado com a sensação de que não eram os únicos presentes naquele galpão.
— Claro.
— Às vinte e três horas, no The Sin. — Tirou um cartão do bolso e estendeu para a mulher.
— Ok. Estarei lá.
Assim que Cooper saiu e a porta se fechou, Betty se materializou ao lado de , que deu um pulo.
— O que falei sobre me assustar? — Rosnou para a irmã, que apenas deu de ombros.
— Não fui com a cara dele.
— Merda. Odeio o The Sin. — Resmungou após encarar o cartão por alguns segundos, ignorando o comentário da irmã.
Não era novidade nenhuma Betty não ir com a cara dos clientes. Ela reclamava de ser super protetora, mas as duas eram farinha do mesmo saco.
— Você está puta é porque vai ter que se arrumar. Tire a poeira do vestido vermelho... hoje é dia de femme fatale! — Sorriu animada e recebeu um dedo do meio em resposta.

•••

estava impaciente. Recostada a uma parede de metal enferrujado, ela encarava o relógio de dez em dez segundos. Sentia-se desconfortável naquele vestido vermelho e os olhares que a população masculina lhe lançava, estavam enfezando-a a ponto de imaginar vividamente cenas em que furava os olhos de todos eles com o palito que segurava seus cabelos em um coque.
Um homem se aproximou e ela então imitou o som de um javali, enquanto contorcia o rosto em uma careta — isso foi suficiente para ele se afastar.
Ainda rindo da expressão assustada do homem, tirou um cantil que carregava na pequena bolsa e deu algumas goladas. Cuspiu toda a bebida ao ver Cash surgir entre as pessoas que passavam naquela rua mal iluminada.
— Mas que porra.... o que você está fazendo aqui? — Aproximou-se do homem, após enfiar o cantil na bolsa.
— Vim encontrar o cliente.
— Por quê? Cadê o Ray? Ele que devia me encontrar. — A cada frase, elevava o volume da voz. Já se imaginava torcendo o pescoço de Ray.
— Ele está preso em compromissos matrimoniais. — Cash elevou as sobrancelhas repetidas vezes, dando um sorriso safado no final.
— E mandou você vir no lugar?
— Sim. Algum problema?
— Vários.
— Por quê? Por que sempre tem que ser assim? Você e o Ray são a cara das missões e eu um pobre mecânico relegado à escuridão e ao esquecimento. — Ele exagerava na emoção, tentando fazer drama.
Ação que aumentou a irritação de .
— A questão é que o Ray é grande, intimidador e o mais importante: ele não é mentalmente instável.
— Mentalmente... eu não sou mentalmente estável? — Falou indignado, elevando o tom de voz e enfiando a mão no bolso da jaqueta.
De lá, tirou uma meia verde limão com olhinhos de plástico costurados e a colocou na mão direita.
— Está ouvindo esse absurdo, senhor Bubbles? — Gritou com o fantoche de meia, exagerando nas expressões e mudando a voz. — Diz para ela que eu sou totalmente são. — Virou a mão na direção de , que o fuzilava com os olhos.
— Que merda isso está fazendo aqui? — Arrancou a meia dele e jogou no chão.
— Isso é uma meia, as pessoas costumam usar. — Deu de ombros, dando passos para trás, aproximando-se de onde estava o objeto.
— Não na mão como um fantoche.
— Não chame ele assim. O senhor Bubbles vai ficar chateado.
— Cash... — rosnou após um longo suspiro. — Precisamos desse trabalho. Precisamos de dinheiro. Se arruinar hoje, eu vou quebrar as suas duas mãos de forma permanente, de um jeito que eu nunca mais vou ver o senhor Bubbles. — As veias saltadas no pescoço dela diziam que estava falando muito sério.
— Mas você precisa das minhas mãos. Eu sou seu mecânico. Essas mãos mantem a Guinevere no ar. — Argumentou, erguendo os braços.
— Posso contratar outro.
— Mas...
— Mas nada. Nada de fantoches, nada de piadas ou histórias mirabolantes, nada de agredir garçons, nada de esfaquear móveis... — ia enumerando, relembrando incidentes anteriores. — E nada de assustar o cliente. — Finalizou ameaçadora.
— Você podia ter simplificado e dito sem diversão. Já me arrependi de ter vindo. — Fez uma careta, botando as mãos na cintura. — Brincadeira. A noite é uma criança. — A careta se transformou em uma expressão bizarra, com olhos arregalados e um sorriso maníaco.
— Você vai se comportar. Estamos entendidos? — abriu um pouco a fenda do vestido, mostrando a faca presa em sua coxa.
— Sim, senhora. — Fez uma debochada saudação militar. — Também vim preparado. — Virou de costas, mostrando duas facas presas ao cós da calça e mais uma presa ao sapato. — Posso pegar o senhor Bubbles?
— Não! Te devolvo quando voltarmos para casa. — Catou a meia do chão e enfiou na bolsa.
— Amei o vestido. — Uma mulher com longos cabelos pretos se intrometeu, aproximando-se. — Mas devia tirar as luvas... elas estão arruinando seu visual.
— Você está certa. Vou ter que correr em casa para trocar de vestido. Ó, céus, por que me fizeram tão descuidada com a moda? — começou, forçando uma voz aguda, encarando as luvas pretas. — Foda-se. — Cerrou os punhos de forma ameaçadora. — Vá importunar outro, antes que eu tinja esse seu vestido de vermelho do sangue, que vai sair quando eu quebrar seu nariz. — Vociferou, dando passos firmes em direção à mulher, que saiu apressada e assustada.
— E você está preocupada com o meu comportamento na frente do cliente? — Cash riu debochado, recebendo um soco no braço.



Capítulo II.
Senhor Z.

Dentro da The Sin, imediatamente teve seus sentidos sobrecarregados. O barulho era ensurdecedor. A música era repetitiva e tão alta, que ela sentia vibrando em seus ossos. Dúzias de perfumes se misturavam ao fedor de cigarros e charutos. Luzes vermelhas e rosadas piscavam repetidamente, iluminando o gigantesco local.
O clube tinha três andares: o térreo, com mesas espelhadas e estofados de couro espalhados, uma pista de dança e o balcão do bar. Em alguns pontos, mulheres dançavam em barras verticais. Havia também garçonetes seminuas servindo bebidas e drogas. No segundo andar, mais mulheres dançando em gaiolas de luzes e servindo as diversas mesas, cadeiras e sofás. De lá, era possível ter uma visão privilegiada do que acontecia no térreo. No terceiro andar, estavam as áreas reservadas. Ali, pequenas saletas com estofados de veludo vermelho tão espaçosos quanto uma cama de casal. Havia também mesas de vidro nas salas. Além de usadas para sexo, eram locais para transações e reuniões de negócios.
odiava aquele clube com todas as suas forças. Só ia até lá quando era necessário encontrar possíveis clientes. Já Cash, parecia criança em loja de doce, trocando olhares e tentando puxar uma conversa com qualquer mulher que cruzava o seu caminho.
— Eu preciso sair mais. — Cash murmurou, caminhando até uma ruiva que demonstrava toda sua força e flexibilidade em uma barra vertical.
Ele começou a dançar no ritmo da música, fazendo caretas que julgava sensuais, mantendo os olhos fixos na mulher. O momento foi interrompido quando um soco acertou seu braço direito.
— Mas que cara... — engoliu o palavrão, ao se deparar com o encarando impaciente.
— Trabalho primeiro.
— Ok, chefinha. — Seguiu a mulher, sentindo-se um pouco contrariado.
Viu ela pegar dois copos de uma bandeja e beber rapidamente.
— Trabalho primeiro. — Repetiu a frase dela.
— Trabalho melhor depois de ingerir meu combustível. — Rebateu, remexendo na bolsa. De lá, tirou o cartão que Don Cooper havia entregado mais cedo e mostrou para o segurança que ficava em frente à escada.
— Senhor Cooper está te esperando no camarote cinco.
O grandalhão mal encarado abriu caminho para , mas impediu a passagem de Cash.
— A senhorita é a única autorizada a passar.
O mecânico abriu a boca para reclamar, mas nem teve a oportunidade.
— Tudo bem. Ele tem coisas melhores para fazer aqui embaixo. — fez sinal para o colega circular e subiu as escadas.
Do segundo andar, analisou o térreo por um instante e então foi até o segundo lance de escadas. Ali, novamente precisou mostrar o cartão para um outro segurança. Alcançou o camarote cinco e deu duas batidas na porta.
— Seja bem vinda, senhora . — Cooper abriu a porta, expressando uma simpatia que gerou estranhamento.
entrou um tanto desconfiada. Deparou-se com um homem de cabelos castanhos compridos, que não aparentava ter mais de trinta, mas que se vestia como um idoso. De camisa social e um suéter xadrez escondendo o corpo magro, ele abriu um largo sorriso.
— Esse é meu empregador... — Cooper começou a apresentação, mas foi interrompido.
— Moses Zimmerman, prazer em conhecê-la. — O homem de xadrez se aproximou, estendendo a mão.
apenas riu.
— É sério isso? Tinha que escolher um nome falso e escolheu Moses Zimmerman?
O rosto do homem ficou branco por um instante, mas ele logo tentou disfarçar.
— Esse é meu nome verdadeiro. Por que eu esconderia meu nome? Isso não faz sentido nenhum. Eu não... — ele falava rapidamente, embolando as palavras.
— Seus olhos te entregaram. Está mentindo. Acabou de inventar o nome. E claramente não é o que tinha combinado com o grandão, porque ele fez uma singela expressão de desaprovação quando ouviu. — Ela ria da agitação do homem, que diante das acusações, começou a gaguejar.
Eu... eu... não...
— Ele é um bom mentiroso, mas não consegue esconder o desapontamento com você. — apontou para Cooper, sem disfarçar o deboche em sua voz.
— Senhora , o nome dele é Moses Zimmerman e é tudo que precisa saber. — Cooper se intrometeu, impaciente com o rumo que a conversa havia tomado.
— Tudo bem. Do que precisa, senhor Z?
Os homens se sentaram no sofá do lado direito da sala e Cooper fez sinal para que também se sentasse.
— Nem pensar, não estou a fim de pegar doenças.
O tal Zimmerman pulou do sofá imediatamente.
— Aqui tinha que ter luz negra para vocês terem noção da quantidade de fluídos nesses camarotes.
— Senhora ... — Cooper se pronunciou diante da inercia de seu patrão, que havia ficado agitado com os comentários sobre o sofá.
— Pode me chamar de .
. Precisamos da sua ajuda para um trabalho muito importante. E terá um pagamento adequado.
— Que tipo de trabalho?
— Do tipo importante e que precisa de discrição. — O homem a analisava atentamente.
Ao contrário do tal Zimmerman, Cooper aparentava segurança e mantinha uma postura inabalável.
— Sabe, estive pesquisando você. Estranhamente só consigo achar informações até cinco anos atrás.
— Isso é porque sou boa no que faço e me mantenho fora do radar.
— Você esteve no exército por quatro anos. O que aconteceu? Era uma pilota elogiada.
— Ainda sou uma pilota elogiada. — Rebateu impaciente, cruzando os braços. — E não acho que meu passado seja relevante.
— Você mudou para esse planeta há alguns anos. Por quê? — Cooper examinava cada gesto e expressão de . Queria descobrir tudo que ela escondia.
— Novamente não acho que isso seja relevante. Olha, não vim aqui para bater papo sobre o passado. Vim aqui por uma proposta de trabalho, então se ela não estiver mais de pé, eu prefiro ir embora desse clube infernal. — Rosnou e então se virou para ir em direção à porta.
— Espera. — Zimmerman se pronunciou, agitado. — Cooper só está sendo cuidadoso. É parte do trabalho dele. Mas você está aqui, porque é boa no que faz. E eu quero te contratar.
— Qual é o trabalho?
— Eu preciso... recuperar algo. — O homem parecia escolher as palavras cuidadosamente, gerando mais desconfiança em .
— Ok. Qual o tamanho do objeto?
— Um pouco mais alta que você. — Disse Zimmerman, dando um risinho nervoso.
— Uma pessoa? Isso é um sequestro? — A voz de endureceu.
Após três anos trabalhando do outro lado da lei, ela ainda se mantinha firme na posição de que não havia dinheiro no mundo que comprasse sua paz de espírito. Muitos contrabandistas haviam enriquecido aceitando todo tipo de trabalho moralmente questionável. não estava entre eles. Vivia uma vida modesta, porque escolhia seus clientes. Saques, contrabando e ações que prejudicassem o governo e grandes corporações estavam entre suas atividades favoritas. Mas sequestros e qualquer coisa que machucasse pessoas inocentes, era uma linha que ela não cruzava.
— Não. De jeito nenhum. — Seu rosto mostrava todo seu desespero.
— Não faço sequestros. Só capturo pessoas se forem procurados pela lei.
— Não é um sequestro. É um resgate. — Cooper se intrometeu.
Colocou a mão esquerda sobre o ombro de Zimmerman, tentando acalmá-lo.
— Ok. Ela está na prisão? Hospital psiquiátrico? — sentiu uma pontada ao mencionar aquelas palavras. Lembranças que ela queria enterrar passaram rapidamente por sua mente.
— Laboratório.
— Onde?
— Na galáxia Tneera. Só posso te dar o local exato quando estivermos na nave. — Zimmerman apertava e mexia as mãos repetidamente, demonstrando todo seu nervosismo.
— Posso trabalhar assim. Mas se chegarmos lá e ela não quiser vir com a gente, o trato está desfeito. Como eu disse, não faço sequestros. E o pagamento? — Diante da resposta de , Zimmerman deu um profundo suspiro de alívio.
Entregou um pequeno dispositivo para a mulher. No visor, o valor oferecido pelo trabalho.
— Quando partimos? — Indagou com um sorriso ao ver a quantidade de zeros.
— Fique preparada. Entraremos em contato.

desceu as escadas lentamente. Pensava na conversa que ocorreu minutos atrás e em como não confiava naqueles homens. Especialmente Cooper. Mas ela precisava daquele trabalho. Eram tempos difíceis. A fiscalização e policiamento nas rotas dos planetas centrais haviam aumentado. O que significava cargas apreendidas, prisões, trabalhos perdidos e contrabandistas tendo que ser mais cuidadosos. Além disso, havia grupos paramilitares e empresas de segurança privada em todo canto. Gigantes como a indústria farmacêutica, Cycorp Global haviam estendido seus tentáculos sobre as galáxias. E usavam grupos armados para isso. Além, é claro, de proverem todo tipo de produto consumido em todo canto. De remédios e órgãos sintéticos, a drogas recreativas e tecnologia. E destruir o contrabando era importante para manter os lucros nas alturas.
Outro motivo de aceitar o trabalho, era a possibilidade de aquilo realmente ser um resgate.
Ao chegar no primeiro piso, rastreou o local em busca de Cash, mas nem sinal dele. Decidiu então passar algum tempo em seu local favorito, a bancada do bar.
Atravessou o salão esbarrando em mulheres seminuas, que ofereciam todo tipo de drogas e bebidas. Teve que parar por um instante quando as luzes vermelhas passaram a piscar com mais intensidade. Lembrou do sonho. Das luzes vermelhas refletindo sobre os azulejos brancos. De repente, aquele local pareceu pequeno demais.
Sentiu o ar faltar e o corpo esquentar ao lembrar das chamas. Desequilibrou-se por um momento e teve que se apoiar a uma garçonete de cabelos loiros muito curtos.
— Você está bem? — A mulher perguntou, encarando-a com preocupação.
— Sim. Eu só preciso beber. — Massageou as têmporas e foi até o bar.
Fez sinal para o barman e abriu um largo sorriso quando um copo foi depositado na sua frente. Assim que deu o primeiro gole, cuspiu tudo de volta.
— Que merda açucarada é essa? — Rosnou para o homem, que apontou para um cara de camisa roxa do outro lado do bar.
revirou os olhos.
— Preciso limpar meu paladar. Me traz whiskey. Pode ser St. Barts, que é mais barato.
O barman recolheu o copo silenciosamente e limpou a bancada. Colocou um copo limpo na frente dela e começou a derramar o líquido.
— Deixe a garrafa. — Murmurou, sentando na banqueta.
O barman se afastou e se concentrou em sua bebida. Tentaria beber um pouco e relaxar. Infelizmente, incômodos não faltavam naquele local.
— Não gostou do drink?
Ela não precisou virar para saber que era o homem de camisa roxa ali, encarando-a.
— Não. — Rebateu, ainda com os olhos no copo.
— Nunca te vi por aqui. — O homem novamente tentou puxar conversa, ignorando todos os sinais de que ela não queria sua presença ali.
Ele escorou no balcão, aproximando-se dela.
— É porque eu odeio esse lugar.
— Você devia ser mais educada. Estou aqui e você nem ao menos me olha. — O tom de voz dele se tornou afetado.
já estava incomodada com a presença inoportuna, mas aquela frase a irritou ainda mais. Em um movimento rápido, catou uma faca do balcão e acertou entre os dedos da mão esquerda do homem. Ele deu um grito agudo e se afastou.
— Continue me incomodando e eu não vou errar. — Um sorriso macabro brotou em seu rosto, enquanto balançava a faca.
Imediatamente, viu o insuportável sumir entre as pessoas do clube. Entregou a faca para o barman e voltou a atenção à bebida.
Já mais relaxada, girou a banqueta e voltou os olhos para o ambiente que oscilava entre o vermelho e o rosa. A poucas mesas de distância notou , sentado em um sofá de couro e rindo sonoramente, enquanto uma mulher acariciava seu peito e sussurrava algo em seu ouvido. Desviou o olhar e viu ao longe Cash agarrado à um poste de metal e remexendo o corpo como uma cobra. Gargalhou, bebericando o whiskey. Ele parecia tentar ensinar novos movimentos para a ruiva.
O momento durou pouco, seguranças apareceram, tentando retirar o mecânico do local, mas ele abraçou o poste com todas as suas forças. pensou em intervir, mas desistiu, continuou sentada, assistindo Cash ser arrancado de lá e levado para fora do clube.
Assim que o tumulto acabou, levantou-se para seguir o amigo. Mas diante de seus olhos surgiu , com os cabelos curtos bagunçados e um sorriso de lado.
— Você está maravilhosa nesse vestido, mas... — ele começou, apoiando-se no balcão.
— Você prefere tirá-lo? — completou estreitando os olhos e se sentando novamente na banqueta. — Tão clichê.
— Mau humor + whiskey. Teve uma reunião ruim? — Ele se esticou e pegou um copo no balcão. E mesmo diante da careta dela, pegou a garrafa e derramou bebida em seu copo.
— Não vou falar de trabalho com você. É a concorrência. — Tomou a garrafa dele e encheu o próprio copo.
— Então é por isso que nunca me chamou para visitar a Guinevere? — Questionou, após beber um gole do whiskey. — Por que eu sou a concorrência?
— Não. Nunca te levei lá, porque tenho vergonha de você. — Disse com um sorriso debochado e viu ele encenar um punhal imaginário atingindo a própria barriga.
— Isso magoa meus sentimentos. — Forçou uma voz dramática.
— Eu sempre sou honesta.
— Sobre a Guinevere... — ele passou a mão pelos cabelos, flexionando os músculos durante o movimento. Ação que fez segurar uma risada. — Posso te ajudar a fazer os reparos.
— Nem pensar. Cash ia surtar.
— A nave é sua.
— Sim, mas ele é o mecânico. Isso significa que é o bebê dele.
— Isso é ridículo.
— Do que está falando? — Ela indagou, rindo. — Você é do mesmo jeito com a Perseus. Você até esculpiu uma miniatura dela.
— Como sabe disso? — franziu as sobrancelhas.
— Eu vi no seu quarto. Está logo na janela. Como em um santuário longe da bagunça.
— Ok. Mas como sabe que eu que fiz? — Ele coçou a nuca ainda confuso.
Eles mal conversavam sobre qualquer coisa. Não entendia como ela podia saber de um de seus hobbies favoritos.
— Porque tem ferramentas para todo lado no seu apartamento. — Ela tomou um gole da bebida. — Você é bom com madeira...
A expressão dele se tornou safada, fazendo revirar os olhos.
— Sou ainda melhor mecânico. — Deu um sorriso convencido. — Posso te ajudar.
— Eu já tenho mecânico.
— Seu mecânico é legalmente insano. Além disso, eu sou muito melhor que ele. — Argumentou, endireitando a postura.
— Ele está aqui, sabia? — Imediatamente percorreu os olhos pelo clube, mas tentou disfarçar.
— Não tenho medo do Cash. — Deu de ombros.
— Claro que tem. Qualquer pessoa com juízo tem medo do Cash. Ele é muito fã de facas... e de esfaquear coisas.
— Ok. Você não quer minha ajuda para consertar a nave. Mas aposto que quer minha companhia. — Ele se inclinou, aproximando-se um pouco mais.
— Não, obrigada.
— Ok. — Umedeceu os lábios, antes de continuar. — Vou aguardar a próxima vez que você se jogar nos meus braços.
— Isso nunca aconteceu. — Bateu no balcão, elevando o tom de voz e se sentindo um tanto ofendida.
— Já aconteceu seis vezes.
— Isso é tão triste. Você está contando? — Empurrou a peito dele, afastando-o. — Você está tão obcecado. Precisa de um terapeuta.
— Nós dois precisamos, senhora “eu me afogo no álcool para não lidar com meus problemas”. — Tomou a garrafa de whiskey, afastando dela.
— Mas esse é meu terapeuta... — pegou a garrafa de volta e a abraçou. — O nome dele é Bartholomew. Barato e eficiente.
— Quer dividir seu terapeuta? — Ele se aproximou novamente, ajeitando a alça do vestido dela e se aproveitando para tocar a pele fria.
— De jeito nenhum. — Colocou a garrafa no balcão e voltou o olhar para o próprio copo. — Sério. Preciso dormir sozinha hoje.
— É uma pena. — se afastou, mas parou no meio do caminho e virou, encarando-a com as mãos nos bolsos.
— O que está fazendo?
— Memorizando material para as minhas fantasias. Está certa, , estou obcecado e só as minhas memórias vão me acalentar até nosso próximo encontro. — Ele mordeu o lábio e viu ela segurar um sorriso.
— Vá embora logo ou eu vou ter que arremessar o Bartholomew em você. — Ameaçou com a garrafa em mãos.
então virou, afastando-se.
Decidida a ir atrás de Cash, se levantou e pegou a garrafa, mas antes que pudesse dar um passo, sentiu o corpo gelar quando um copo de chopp foi derramado em suas costas. Virou furiosa e preparada para trucidar o sujeito responsável.
— Eu sinto muito. Eu... eu... não foi de propósito. — O homem falava rápido e com pânico nos olhos. Claramente havia presenciado as ameaças de ou conhecia sua fama. — Eu devo ter tropeçado ou algo assim. Eu não queria... eu...
— Pague essa garrafa e estamos quites. — Exibiu a garrafa para ele, após um longo suspiro.
O homem pagou o barman e marchou em direção ao banheiro.
Tentando se limpar da melhor forma possível, ela amaldiçoava aquele clube. Aquele acontecimento seria mais um tópico na longa lista de motivos para odiar aquele lugar.
A porta do banheiro bateu, mas acreditando ser o vento, continuou concentrada em se secar. Ao encarar o espelho, tomou um susto ao ver o reflexo de Betty.
— Merda! O que você está fazendo aqui? — Gritou para a irmã, que a encarava com uma careta.
— Desculpa. — Ao analisar Betty, se deu conta que ela não se desculpava pelo susto.
— Isso é culpa sua? — Apontou para o próprio vestido encharcado.
— Sim, mas foi um acidente. — Explicou-se, forçando uma cara de inocente. — Eu te segui. Não confio no tal Cooper.
— Novidade... — revirou os olhos, voltando a se secar. — Nem eu confio, mas precisamos de dinheiro.
— Também não confio no .
— Espera... Você estava lá... ouvindo tudo? — A confusão de rapidamente virou irritação.
— Sim. E, meu Deus, você dá muita trela para ele. — Betty comentou e viu a irmã abrir a boca indignada. — Também te vi botar um cara para correr. E fiquei muito orgulhosa. — Deu um largo sorriso, fazendo sinal de joinha com as duas mãos.
— Não sabia que tinha uma stalker particular. — Arremessou uma bolinha de papel em Betty, que imediatamente ficou intangível.
— Eu não... — começou a se explicar, mas então sua expressão mudou.
— O que foi? — se preocupou.
Aquele olhar nunca significava boa coisa.
— Está ouvindo isso?
— Isso o quê?
— Tem alguém precisando de ajuda. No terceiro andar. — Agitada, Betty então tornou seu corpo invisível. A porta bateu em seguida.
seguiu a irmã porta afora, mas não a avistou em lugar nenhum. Apressou-se em direção às escadas. Parou por um instante, pensativa, e ao avistar , foi até ele.
— Segura para mim? — Jogou a bolsa em cima dele, atrapalhando o momento de chamego que ele compartilhava com uma mulher de azul.
Ele largou a mulher a encarando confuso.
— Cuida da minha bolsa. Se me roubar, eu vou saber e vou quebrar seu nariz. — Rosnou ameaçadora, vendo o homem apenas acenar com a cabeça.
Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ela correu até o segurança. Mentiu, dizendo que esqueceu a bolsa no camarote e teve sua entrada permitida. Ao alcançar o terceiro andar, olhou em volta, todas as portas estavam fechadas.
Betty ficou visível por um instante, apontando para o camarote oito. foi até lá e bateu na porta, mas não obteve resposta. Tentou girar a maçaneta e felizmente não estava trancada. Abriu com cuidado, tentando não fazer barulho.
Deparou-se com um homem enorme em cima da garçonete loira que havia esbarrado mais cedo. Ele pesava o corpo sobre o dela, tentando beijá-la, enquanto ela se desvencilhava, claramente desesperada, tentando afastá-lo.
assoviou, fazendo sua presença ser notada.
— Sai fora! Aqui está ocupado. — O homem abanou a mão, fazendo sinal para ela sair, mantendo o peso sobre a garçonete.
— Ela não está te curtindo nem um pouco. — comentou, agachando para ficar no campo de visão dele e viu a expressão do homem se tornar furiosa.
— Eu paguei, então eu não me importo se ela quer ou não. — Disse sem se mover.
— A questão é que... você não pode comprar consentimento.
— Vou me divertir com vocês duas. — O homem finalmente se levantou, libertando a garçonete.
Ela tentou engatinhar para longe, mas parou ao ouvir a voz dele.
— Se correr vai ser pior! — Gritou, cerrando os punhos de forma ameaçadora.
— Sabe... As duas coisas que eu mais amo no mundo são: um bom whiskey e espancar canalhas. E, felizmente, eu vou ter os dois hoje. Mas antes eu vou te dar uma amostra grátis de como é ter o corpo violado. — exibiu um sorriso de escárnio, dando um passo na direção do brutamontes. — Bess! — Chamou a irmã e então sentiu o ar ficar mais frio.
Viu a postura do homem mudar e enrijecer, enquanto seu olhar demonstrava completo desespero. Betty havia possuído seu corpo e claramente não era algo nada agradável. Estar consciente, mas sem controle de suas ações, era desesperador.
— Você está bem? — Ajudou a garçonete a levantar.
A mulher encarava seu algoz assustada.
— O que você fez com ele? — Ela tinha a voz trêmula.
— Não se preocupe com isso. Precisa sair daqui. Eu cuido dele.
A loira assentiu e correu porta afora.
— E então... o que acha da sensação? — voltou a atenção ao brutamontes. Estava satisfeita com a expressão desesperada estampada em seu rosto.
Encarou-o por alguns segundos, as veias saltadas em seu rosto, parecia fazer muita força para se libertar. Mas era impossível, Betty controlava seu corpo.
— Vá ver como ela está, Bess, eu cuido dele. — Imediatamente o ar novamente ficou gelado e o homem caiu de joelhos.
— O que fez comigo? — O homem ofegava, apoiou as mãos nas coxas, sentindo um cansaço como nunca sentiu na vida.
— Nada comparado ao que eu vou fazer agora. — Deu um sorriso sinistro, esperando uma reação. O que não demorou.
— Mexeu com o cara errado. — O brutamontes endireitou a postura e avançou cambaleante na direção dela.
desviou da fúria do homem e em um movimento rápido, segurou-o pelo braço, arremessando-o na mesa de vidro.
Ao encarar o homem desmaiado sobre a mesa estilhaçada, bufou, esperava uma briga mais longa. Não era de seu feitio agredir pessoas desacordadas. Mesmo se estas fossem gente do pior tipo. Então apenas largou o grandalhão desacordado e desceu as escadas apressadamente.
Passou por , novamente o atrapalhando, e catou a bolsa sem dizer uma palavra.
Já do lado de fora do clube, olhou em volta, mas não viu ninguém. A luz da rua piscou e então Betty surgiu do seu lado.
— Cadê ela? — Indagou para irmã, que oscilava entre ficar visível e invisível.
Possessões a enfraqueciam temporariamente.
— Não sei. Não consegui alcançá-la.
— Espero que esteja bem.
— O que aconteceu com você? — Uma voz saiu do lixo, assustando as mulheres.
— O que aconteceu com você? — Betty rebateu a pergunta ao identificar Cash caído entre sacos de plástico preto ao lado da lixeira.
— Aparentemente os seguranças daqui não são muito fãs de homens fazendo pole dance... — explicou, tentando se levantar, e Betty gargalhou. — Não seja má. Esse posto é da .
— Vamos embora, esquisitos. — se intrometeu, ajudando o amigo a levantar e o apoiando para que pudessem caminhar juntos. — Que merda! — Parou por um instante.
— O que foi?
— Esqueci o whiskey no banheiro. — Lamentou, voltando a caminhar.
— Por que você estava conversando com o ? — Disse Cash, após alguns passos. — Estava falando sério em me substituir? — Seu tom de voz estava genuinamente preocupado.
— Relaxa. Ele só estava flertando comigo.
— Até parece que ele tem chance. — Comentou com um risinho debochado.
segurou o próprio riso e lançou um olhar cúmplice para Betty, que deu uma gargalhada escandalosa.



Continua...



Nota da autora: Oi, gente! Olha eu aqui de novo com mais uma fic de ficção científica.
Nessa estou tentando ir mais na linha ação + space opera com alguns misterios + uma pitada de comédia + uma fantasminha camarada + uma tripulação cheia de malucos haha. Quero algo sem o drama todo de Coisas Frágeis (que eu amo, mas é sofrida de escrever).
Estou amando escrever esses personagens e espero que curtam essa jornada.
Beijo, beijo.

Outra fanfic:
Coisas Frágeis (Restritas - Originais/Em Andamento)

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