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Última atualização: 04/02/2021

Introdução

Nota da autora sobre a temática Marinha.

A história a seguir descreve alguns elementos ficcionais sobre o trabalho naval. Fiz uma pesquisa singela, tanto sobre a Marinha brasileira, quanto a britânica, e resolvi mesclar informações das duas. A Marinha no geral tem muito material na internet, sobre cargos, deveres, missões, história ao decorrer do tempo etc. Mas, por se tratar de uma ficção, me senti na liberdade de criar alguns componentes, o que me ajudou muito a desenvolver o enredo. Por isso, não levem a fic como exemplo de dados sobre trabalho naval. A escolha da Marinha como plano/pano de fundo desse romance faz com que eu consiga criar os fatos que dão vida à história, sendo o espaço (navio do exército) dessa narrativa essencial, pois incita algumas situações sociais, gera características específicas em personagens e desenrola a trama do jeito que eu imagino.
Para tentar ilustrar alguns lugares, uniformes, e até mesmo os personagens fixos, criei uma pasta no Pinterest para a fanfic. Ajuda bastante a visualizar algumas situações descritas. O link para ela está na nota de autora, lá no final.
É isso, basicamente. Obrigada e boa leitura, espero que gostem <3


Prólogo

Aproximei-me da proa do navio e inspirei o cheiro salgado e úmido do oceano à minha frente. A maresia me fazia bem, o mar me fazia bem, me entregava a sensação de lar, de aconchego. Por mais que estivesse a quilômetros de casa, eu sentia genuinamente amor ao olhar para o horizonte. O balançar do navio me fazia devanear e refletir absurdamente (apesar da náusea incessante), como nenhum terapeuta conseguia, relaxando-me ao extremo. O metal frio acordava-me e me fazia ter o gole suficiente de realidade que eu precisava naquele momento, apesar do álcool em minhas veias me tornar tonta e dispersa, junto com as ondas, que me sacudiam. Eu estava presa ao momento, no agora.
A vista? Não precisava nem a descrever. O verde azul do mar contrastava com a cor alaranjada exorbitante do céu, que estava cercado de nuvens extremamente macias de tons pastéis.
Ok, eu havia descrito.
Afinal, era uma visão única. Sentia-me privilegiada de presenciar aquela cena digna de virar uma pintura renascentista impecável. O pôr do sol em alto-mar era covardia… Obviamente, era o palco perfeito para situações de prosa acontecerem, digno de formar contextos românticos improváveis.

Maldição… Como tantas reviravoltas puderam ter acontecido nos últimos meses?

A grande dúvida era se tudo não passava de uma grande alucinação, ou se realmente acontecera.
Enfim, o que estava havendo com a minha vida? Como tudo desandou de uma forma tão sistemática e desorganizada ao mesmo tempo? Quer dizer, desandou realmente ou ajeitou-se?

Tantas dúvidas para tão poucas respostas; tantas compreensões que estavam além do meu racional, e eu ali, debruçada naquela proa à beira-mar, pensando no que importava realmente, em como fugia da vida que me pertencia tanto.
Como ele havia tomado tanto espaço dentro de mim, como havia permitido isso? Mais perguntas sem respostas.

Tão pouca nitidez, sentimentos desordenados, confusão mental.

Assim que eu me sentia, 100% embaralhada. Entretanto, ao mesmo tempo, sabia exatamente o que queria. Mesmo que não concordasse comigo mesma, eu sabia.

Era essa a dúvida, afinal?

Oh, eu sabia a resposta dessa.

Maldito coração, maldito homem, maldita circunstância, maldito destino.
Destino…
Era aquela a resposta, então? Destino? Tão simples e complexo ao mesmo tempo, como ele costumava falar.
Senti seu perfume junto à brisa, balançando meus cabelos e pensamentos, incendiando-me por inteiro à medida que meu pulmão era tomado por aquela fragrância. Virei e deparei-me com seus olhos escurecidos por significados latentes, aproximando nossos corpos de forma urgente.
Destino, repeti para meu consciente. Então, se era assim que era para ser, assim seria.


CAPÍTULO 1 – DRY MARTINI

Londres, Cerimonial da Marinha Real Britânica, 11 p.m.

’S POV

O vento estava forte e gelado, fazendo um zunido irritante e insistente em meu ouvido, como se tentasse cochichar algo secreto para mim. Algo que me tiraria daquele momento depreciativo e solitário que eu estava.
Sentia-me tola com esse pensamento, afinal, o que o vento tinha a ver com as casualidades da minha vida?
Soltei uma risada desgraçada por tudo aquilo enquanto tentava me equilibrar com apenas uma mão no metal que barrava meu corpo de mergulhar no oceano. Com minha outra mão, segurava a taça despretensiosamente entre os dedos, balançando o líquido rubro e viscoso no cristal. Entornei mais um gole e olhei para frente.
O mar estava tão preto quanto o céu, tornando a linha do horizonte inexistente naquele momento, transformando ambos em um só. Era como se a noite tornasse possível o encontro dessas duas entidades tão antagônicas. Os astros brilhantes e pontiagudos mergulhavam nas ondas eriçadas, iluminando onde tocavam com seu reflexo, pintando de branco a superfície do mar soturno. Eu estava inteiramente sugada por toda aquela escuridão, inexistindo como indivíduo para fazer parte da paisagem salgada. Aquilo tudo era um calmante natural para os meus nervos tensos.
Até porque o mar moldara minha vida desde que me conhecia por gente, tornou-se meu maior e melhor confidente. Com ele, nunca havia oposição ou contrariedades. Eu sabia lê-lo tão bem quanto ele sabia me acolher. Àquela altura, eu podia afirmar que minha carreira na Marinha ia muito além de tradição familiar; tratava-se de uma conexão profunda que ultrapassava meu próprio entendimento.
Um novo vento gelado atravessou meu corpo, balançando meu vestido vermelho de seda como uma bandeira e arrepiando minha pele por inteiro. Tomei mais um gole do vinho, esquentando minha garganta.
Naquele momento, eu não me importava muito se ficaria doente se permanecesse ali. Inclusive, preferia tremer um pouco de frio. O que mais me incomodava era outra coisa: meus joelhos estarem completamente estremecidos, sem nenhuma relação com o álcool no meu sangue ou a ventania gelada. A sensação de tremor vinha de algo bem mais profundo e latente que eu gostaria. Era uma aflição que chegava a afetar meu estômago.
Não tinha como não me sentir ansiosa com as péssimas notícias que havia recebido naquela noite. Era tudo tão absurdo que, a qualquer tentativa minha de processar as informações, eu quase caía em um surto de risada desesperada.
Por isso o tanto de vinho naquela noite. Inclusive, precisava me servir de mais, porém meu medo de esbarrar com na festa me fincava ali fora como um poste.
Ainda tinha toda aquela intimidade ridícula dele com meu irmão, a qual eu não presenciava há alguns anos. Eu sabia que eles ainda eram amigos, mas era impossível não me irritar sempre que os via interagir. Quem ele pensava que era? Como tinha coragem ainda de falar com meu irmão após tudo que ocorreu? Aliás, como meu irmão era idiota o suficiente de continuar amigo daquele babaca? Nossas famílias eram rivais, sempre antagonistas; há gerações os e odiavam-se.
Fora o fatídico acontecimento do passado que destruiu o que restava de nossa família. A simples existência dele era um peso na minha vida. Ele representava dor para mim. Como podia representar amizade para meu irmão? Se Mauro respeitasse o mínimo da nossa história, nunca falaria ou olharia para ele de novo.
A proximidade de ambos fez com que, em diversos momentos da minha curta vida, eu devesse engolir sua presença e suas provocações baixas. Sua figura causava uma onda de repulsa por todo meu corpo. O simples cruzar de olhares com ele incendiava-me de raiva.
Pelo menos eu fazia questão de ser sempre tão desagradável quanto ele, infernizando-o no mesmo nível de crueldade que ele utilizava. Mauro sempre ficava entre nós, tendo que apartar nossas guerras verbais, mandando vez ou outra nós dois calarmos a boca.
E a notícia presente de saber que aquele ser, que eu mais desprezava na vida, seria meu mais novo chefe sugou o resto de poder que eu tinha sobre meus sentidos, embaraçando minha cabeça assim como meu destino. Era impressionante o quanto apenas a existência insuportável dele era capaz de estragar tudo. Por isso o frio era tão convidativo naquele momento. Ajudava-me a desligar qualquer que fosse a sensação física que aquele sujeito fazia-me passar, passando meu foco principal para o frio que me consumia. Só não precisava estar ventando tanto.
Abracei meus braços gelados em uma forma de autoconforto e deixei meus pensamentos voarem para onde eles quisessem, já que, após algumas taças de vinho tinto, eu ficava bem mais absorta a eles que o normal.
O que seria de mim daqui há uns meses? Por que justo ele seria meu novo chefe? Os Majores sabiam das desavenças, o que eles pretendiam com aquela escalação?
— Merda! — gritei de desespero, fechando meus olhos com força.
Eu deveria estar orgulhosa de mim mesma, e não lamentando de finalmente ter sido convocada para uma missão tão importante quanto aquela. Deveria focar nas boas partes do meu trabalho, afinal, com apenas 25 anos, eu era Tenente da Marinha Real Britânica, a segunda maior marinha de todo o mundo, com uma importância global insuperável. Caramba, eu era foda!
Tudo bem que, sendo neta de um Almirante (maior cargo dado a competentes marujos durante tempos de guerra), filha de um Capitão da Marinha e Médica da mesma, eu tinha minha moral para alcançar tal cargo, assim como meu irmão, dez anos mais velho, que já era Comodoro em frotas importantes para nosso país. Nós fazíamos parte do Corpo da Armada, que operava necessariamente em alto-mar. Majores e Sargentos eram designados para trabalhos terrestres administrativos, coisa que nós não almejávamos de jeito nenhum. Minha família era tradicional da Marinha Real, assim como os . Nossos sobrenomes circulavam há quase um século nas forças armadas.
E infelizmente para mim, a amizade de infância de meu irmão com era bem vista na Marinha, pois brotava um rumor de paz entre nossas famílias.
Ninguém sabia ao certo o porquê da rivalidade de gerações, e eu nem precisava ou queria ater-me a motivos tão antigos assim. Afinal de contas, errou de modo imperdoável anos atrás, o suficiente para três vidas de puro desprezo crescer imensamente dentro de mim, sempre engatilhando sofrimento e desprezo quando eu o via.
Oh, como eu o odiava.
A amizade de meu irmão com aquele energúmeno era indigerível para mim, não entrava na minha cabeça como os últimos acontecimentos trágicos mal afetaram aquela… relação.
Ambos, infelizmente, cresceram juntos. Estudaram na mesma escola e juntaram-se cada vez mais por pura rebeldia através dos anos, trazendo muita dor de cabeça para dentro de casa. Eu era testemunha. Esse era o principal motivo de desavença entre Mauro e nosso pai, e as brigas não eram leves.
Agora, mesmo que ambos tivessem altos cargos na Marinha, não possuíam trava alguma em demonstrar essa amizade aos olhares curiosos. Eu suspeitava que eles até gostavam da atenção, que era um tipo de mensagem silenciosa que passavam a todos, algo como: “Foda-se o que todos falam ou pensam, nossas famílias se odeiam e, ainda assim, somos amigos. Quem sabe até nos casemos só para terminar de foder com o psicológico da ”.
Argh, que raiva!
Com sendo nomeado Comandante (um dos mais jovens da história) para uma das missões mais importantes do nosso ano, sua petulância ia gritar no meu ouvido. Aquele serzinho desprezível…
Ok, era eficiente, mas também possuía influência e moral no meio, sendo neto de Almirante e filho de um Sargento respeitável, o que se sobressaiu ao seu enorme erro de anos atrás.
Patético.
Completamente esperado, mas, ainda assim... patético.
E não me importava o quanto ficava bem naquele smoking ou no uniforme da marinha, ele continuaria sendo um cretino. Será que cretinos sempre ficavam melhores de uniforme?
Balancei minha cabeça para os lados e fechei os olhos com força, tentando apagar qualquer pensamento nefasto que surgia em mim. Qual era meu problema? Será que não poderia confiar nem em mim mesma mais?
— E aí, maninha. — ouvi a voz de Mauro perto de mim e dei um pulo, assustando-me ao sentir sua mão de repente nas minhas costas.
— Merda! — disse automaticamente, pondo uma mão em meus batimentos acelerados. Mauro gargalhou com minha reação. Estúpido.
— Desculpe, não foi a intenção — deu uma última risada e apoiou-se ao meu lado. — Como você ‘tá?
— O que você acha? — olhei-o rapidamente e soltei uma risada seca. — Eu tô fudidaaaaaaa — gritei com vontade, abrindo os braços e desequilibrando-me imediatamente.
— E bêbadaaaa — Mauro disse, rindo do meu estado, abraçando-me de lado. — Nossa, como você ‘tá gelada, cara. Vai pegar um resfriado.
— Quem sabe assim eu morra de hipotermia e não tenha que lidar com o imbecil do seu amigo sendo meu chefe… Aliás, por que não ‘tá lá com ele?
— Que irmã dramática que eu tenho, meu Deus! — depositou um beijo na minha testa e aconchegou-se mais em mim, me esquentando. — Eu tô tão orgulhoso de você, sabia? De chegar aonde chegou, de ouvir tantos elogios sobre você. Ainda mais depois de tudo que a gente passou nos últimos anos…
— Coisas que nunca teríamos passado se não existisse… — comentei sem pensar muito, deixando o teor alcoólico assumir o controle de minhas palavras.
— Ah, Liv, nem começa com essa história de novo… — Mauro falou em tom cansado, desvencilhando-se de mim. Olhei-o desdenhosa.
— Como você pode defendê-lo tanto? — perguntei, indignada, aumentando meu tom ébrio de voz.
— Como você pode ser tão cabeça dura? — colocou as mãos na cintura, como nossa mãe fazia quando nos questionava sobre qualquer coisa. — Você sabe muito bem que a culpa não foi dele, que…
— Olha, Mauro, quer saber? Não precisa dar uma de advogado do diabo aqui. Nem sei por que estamos falando sobre o , na real. Ele é o último assunto que quero trazer à tona essa noite.
— Você que o mencionou, pra falar a verdade…
— E você podia me deixar xingá-lo, né? Daqui há uns dias, eu vou ser completamente proibida de falar um “A” torto pra ele… — disse com a voz embolada, suspirando de raiva por lembrar-me que a missão começaria logo, assim como a chefia de sob mim. Inferno.
Mauro soltou uma pequena risada e deu um último beijo na minha testa, pegando carinhosamente na minha mão desocupada.
— Olha, eu vou voltar lá pra dentro. Tenta não ficar martelando nesse teu cabeção... — deu um peteleco leve na minha testa. — só coisa ruim, ‘tá bem? E se lembra sempre, “Se a gente tem ainda um ao outro…
— … a gente tem tudo que precisa”... — completei nosso “lema”, olhando-o contrariada. Mauro depositou outro beijo em meus dedos gelados e saiu.
Uma enxurrada de memórias desagradáveis passou como um trem em meu coração, desencarrilhando toda a frustração de antes.
Assim que ele entrou novamente na festa, virei meu corpo para o mar e fitei-o, tentando extrair qualquer sensação boa daquela paisagem esplêndida.
Os nós de minha mão no metal já estavam duros e brancos, devido ao esforço de manter-me parada no lugar. Voltei minha cabeça para o céu, fazendo meu pescoço inclinar-se para o alto. Olhei para as estrelas extremamente brilhantes e elevei minha taça a elas, brindando à ironia do universo. Que bela merda eu estava metida.
Entornei o restante de líquido na minha garganta, sentindo-o queimar meu peito deliciosamente, enquanto tentava tornar aquilo uma distração para meu subconsciente; pelo menos o desconforto físico me tirava o foco do desconforto psíquico.
Sem me importar com mais nada (ou simplesmente não raciocinando direito), joguei a taça vazia no mar, voltando-me para frente do salão de festas rapidamente. Ajeitei meu vestido colado ao corpo e passei os dedos em meus cabelos soltos, tentando alinhá-los em vão. O vento naquela noite não estava para brincadeira. Ainda precisava segurar-me fortemente à grade ou sairia voando.
Assim que minha atenção subiu para a porta do salão, meus olhos encontraram a intensidade dos olhos de , analisando-me de longe com um meio sorriso no rosto, como se compreendesse a situação patética que eu dramatizava mentalmente.
Que merda estava acontecendo? Por que ele estava me encarando?
Franzi as sobrancelhas em confusão para, logo depois, abrir um sorriso desgraçado para meu futuro superior. Já que ainda podia fazer isso sem punições, aproveitaria ao máximo minhas últimas horas de um ultraje que podia ser expresso.
Ele apenas revirou os olhos, tomando o líquido âmbar de seu copo, antes de virar as costas para mim e dirigir-se ao bar mais próximo, provavelmente para pegar mais bebida. Desgraçado. Odiava que ele fosse o último a me lançar olhares irônicos.
Aquele era nosso joguinho, nos desprezar através de olhares. Isso quando não entrávamos em uma discussão tola qualquer, antes de sermos interrompidos.
Oh, como eu o odiava.

’S POV

Que tontura deliciosa! Mais deliciosa que isso só a bartender do bar secundário, que me servia generosamente whisky sem dosar corretamente. Ruiva dos olhos verdes maravilhosa! Pena que estava tão embaçada pelo álcool que me servia.
Avistei meu querido amigo há poucos metros de mim, desenrolando com uma maruja bem mais velha que ele. Mauro e seu gosto por mulheres mais velhas. Cada um com seus fetiches, não é mesmo? Os meus não eram enquadrados exatamente como “normais” também. Nada a julgar.
Continuei observando-o até o mesmo afastar-se da mulher, voltando-se para mim com um sorriso sacana.
— Olha só o número de quem que eu consegui! — disse-me, entusiasmado, balançando um papel branco com números entre os dedos. — Man, eu ‘tava tentando conquistar o número da Cindy há meses, desde minha última missão. — olhou de forma tola para mim, cheirando o bilhete idiotamente.
— Para com isso, cara, ‘tá me envergonhando, porra. — repreendi-o brincando, sorrindo em seguida e circundando seu pescoço com meu braço. — Vamos pegar uma bebida pra você? — guiei-o até a ruiva bartender deliciosa.
— Pra você, né, que vai ser chefe da minha irmã. — riu em forma de deboche. — Vocês se odeiam… — riu mais, mostrando-me que já estava levemente alterado. — Vocês se odeiam e vão trabalhar juntos, isso não vai dar certo. — Mauro gargalhou com vontade, apoiando-se no balcão do bar despretensiosamente e chamando a atenção da ruiva.
— Obrigado pela confiança, man. Se não fosse seu apoio, eu não sei o que seria de mim. — ironizei seu comentário, indicando o copo vazio à bartender. — Para de rir de mim, porra, vai beber o quê? — perguntei, impaciente, já revirando os olhos pela sensação ansiosa que se apossou de mim ao me lembrar de meu futuro ofício.
— O que vai querer, cavalheiro? — sorriu a ruiva, contemplando Mauro incisivamente e servindo o whisky em meu copo sem me olhar. Quem sabe todo aquele charme não o tirasse da ideia fixa de sair com a tal da Cindy, não é mesmo?
Assim que a mulher afastou-se de nós, senti-me à vontade para falar:
— Acho que ela ‘tá te dando mole…
— Não tô interessado.
— Mauro, é sério que você vai insistir naquela MILF da…
— Uou, uou, uou, julgando fetiches alheios, é isso mesmo? — olhou-me divertido, rindo debochado. — Você sabe que desde sempre eu me atraio por mulheres mais velhas, e qual o problema? Se você soubesse como elas são… — respondeu sacana, bebericando sua bebida.
Não pude deixar de gargalhar com aquela afirmação. Ele estava certo. Quem era eu para julgar fetiches e gostos alheios, já que gostava de algumas práticas… diferentes na hora do sexo.
Nos entreolhamos e seguimos nossa conversa, ainda comentando discretamente sobre o assunto. Nunca que iria julgar meu irmão de alma, como ele havia dito assim que tínhamos chegado ano bar. Meu espanto era esquisito, já que Mauro sempre tivera tal preferência. Ele era um dos meus amigos mais antigos, apesar da desaprovação de nossas famílias diante da amizade.
Isso não nos definia, muito menos nos deixávamos levar por todo aquele ódio entre nossos parentes. Ainda mais porque eu e ele nos dávamos super bem desde o primeiro minuto que havíamos nos conhecido, como dois irmãos. Entendíamo-nos, até silenciosamente, em situações constrangedoras e cabulosas da vida, em que um toque de silêncio era preciso.
Crescemos e amadurecemos juntos, felizmente. Mauro era meu melhor amigo. Não sabíamos o que seria de nós se não tivéssemos um ao outro. A maior provação da nossa irmandade fora anos atrás, quando aquele acidente infeliz marcou nossas vidas. E, mesmo assim, nossa amizade e apoio sobressaíram às adversidades.
Entretanto, era uma grande infelicidade Mauro possuir a irmã que tinha; a caçula era simplesmente insuportável. Garota petulante, se achava a dona da razão, como se estivesse sempre certa (sendo que eu era sempre o certo).
Garota irritante!
E, agora, depois daquela noite de eventos e festa, descobri que ela não só seria de minha tripulação, como eu deveria ser seu chefe direto em alto-mar.
Ou seja, passaríamos meses a fio tendo que suportar a persona um do outro, fora ter que aguentar seus olhares reprovadores e intensos voltados para mim. Eu tinha pulso para isso, sei que tinha, mas será que minha paciência durava uma hora perto dela?
Enquanto Mauro voltava sua atenção, agora bem menos sóbria, à MILF, perdi-me naquele salão de festas, olhando a todos com uma atenção analítica e interpretando cada feição forçada daquele encontro oficial como uma bela encenação.
Senti-me atordoado por tudo aquilo. Todos tão bem vestidos, mas tão desinteressantes a meu ver. Pedi para a bartender encher o copo de verdade daquela vez e me dirigi à parte externa do cerimonial para pegar um ar. Estava sufocado em meio a tantos cumprimentos incessantes e falas vazias obrigatórias. Formalidades, não é mesmo?
Dirigi-me decidido para fora da festa, focado em encontrar a proa do navio aportado. Nada como a brisa gelada para me fazer retornar à minha falsa felicidade ébria. Caminhando em direção à porta, de repente, antes de abri-la, presenciei uma cena.
Observei a garota insuportável segurar-se fortemente à grade do navio, como se estivesse prestes a cair. Tão tola, provavelmente tão bêbada que nem eu, deixando-se ficar tonta com as ondas batendo no navio ancorado. Por todas as notícias que recebemos naquela noite, seu estado alterado era completamente esperado. Até Mauro já havia falado em tom de alerta comigo sobre. Aquela, talvez, seria mais uma noite das muitas que já havíamos tido no passado.
Longe de mim isso ser um desejo, mas eu e Mauro sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, ela iria quebrar novamente, como acontecera anos atrás. A garota não lidava bem com notícias ou situações ruins.
Com esse raciocínio, pensei: como seria uma de minhas Tenentes com mais encargos, se não poderia nem me aguentar na sua vida?
Cocei meus olhos com a mão livre e ri sozinho. Quanta implicância, não? Era melhor me cuidar para que não ficasse irracional e focasse realmente só nas negatividades dela, que eram muitas. Iríamos trabalhar juntos agora. Precisávamos de civilidade e profissionalismo.
Vi sua cabeça pender para trás e erguer a taça aos céus para, logo depois, entornar todo o líquido bordô pela garganta, e… ela realmente tinha acabado de jogar a taça de cristal no mar? Caralho, que porra ‘tava acontecendo?
Ri debochado com a situação e me perdi por uns momentos nela e em seus cabelos voando com o vento forte, deixando suas costas desprotegidas e nuas. Seu vestido nada discreto e vermelho-sangue havia me chamado a atenção desde que ela entrara no salão com Mauro, três horas antes. Suas curvas acentuadas pelo tecido fino fizeram-me questionar se havia qualquer peça íntima vestida em seu corpo, já que nada marcava a textura de seda de seu vestido na sua pele.
Não pude deixar de encarar maliciosamente sua bunda, esta que não havia observado ainda o quão deliciosa e saliente era.
Oh, querido whisky...

Maldição.

Fui acordado dos meus devaneios com voltando-se para frente, com seus olhos fechados fortemente e uma expressão confusa estampando seu rosto delicado. Logo, seus olhos subiram e encontraram os meus, fazendo-a mudar gradualmente sua expressão confusa para algo que evidenciava todo o desprezo que sentia por mim.
Garota entojada.
Até quando não estávamos perto um do outro, o ódio transbordava por qualquer meio de comunicação que estava disponível no momento. E, ali, eram nossos olhares e expressão corporal. Seus braços cruzaram em frente aos seios, em uma posição como se cobrasse alguma explicação para eu fitá-la tão intensamente e por tanto tempo. Irritante...
Em resposta, coloquei meu olhar mais debochado e ri com desdém. Afinal, quem ela pensava que era?
Virei de costas e comecei a andar até o bar mais próximo, daquela vez com um bartender homem, que era o dono da empresa que fazia nossos eventos. Ele parecia extremamente concentrado em cortar as rodelas de limão bem finas. Sortudo desgraçado! Queria eu que minhas preocupações fossem tão banais.
Aproximei-me e fiz meu pedido:
— Boa noite, Ken! Double whisky para mim, sim? E o que as damas costumam mais pedir aqui? — apoiei-me no vidro do balcão e esperei.
— Boa noite, Comandante! — respondeu-me com um sorriso largo, derramando o líquido dourado do whisky caro em meu copo. Não pude deixar de sorrir discreto com o “Comandante”. — Bem, as damas costumam pedir muito gin tônica, tendo em vista a moda que está em tomar o drink. Quer pedir uma birita para alguma moça sortuda? — perguntou-me mais baixo, ainda com seu simpático sorriso no rosto.
— Hmm, gin tônica… Não sei se combina muito com ela, considerando que a mesma é o capeta em mulher — soltei sem pensar, dando de ombros, ouvindo a gargalhada do mesmo e acompanhando-o em seguida. Era rir para não chorar.
— Bem, se a dama em questão possui uma personalidade forte, então… — comentou enquanto secava um copo com o pano extremamente branco, com uma expressão pensativa e divertida. — ... recomendo um Dry Martini com garnish de azeitonas mesmo! — completou, alcançando a taça alta do drink.
— Ótimo! Perfeito! Dry Martini! O nome até combina com sua personalidade seca! — exclamei, rindo sem humor, entornando um pouco do whisky e fazendo o homem à minha frente rir.
Peguei o drink já pronto e me dirigi para a sacada. Estava na hora de ter uma pequena conversa com aquele ser demonizado por mim.

’S POV

Assim que deu as costas, me virei rapidamente de novo para o mar, xingando-o incessantemente:
— Meu Deus, como ele consegue me irritar até de longe, com um simples olhar e sorriso? Ridículo, filho da mãe, que enfie todo esse sarcasmo no meio do... — interrompi-me, sentindo uma tontura forte e o mundo girar rápido demais para minha pernas aguentarem. Péssima ideia de ter me virado tão abruptamente, culpa de e o que causava em mim. Segurei-me com mais força no metal e recuperei meu equilíbrio bêbado aos poucos. Fechei os olhos com força e inspirei a maresia, conseguindo me acalmar da irritação relativamente rápido, só para, logo em seguida, voltar a tê-la com força total ao sentir seu perfume tão perigosamente próximo de mim, me tirando de toda distração que havia tentado construir. Idiota, imbecil, mala sem alça, quem ele pensava que era (além de meu mais novo chefe) para se aproximar de me assim hoje?
. — cumprimentei-o, sem paciência alguma, revirando os olhos ao constatar realmente que era ele.
. — respondeu-me cordial, sem me olhar. Cruzei meus braços na frente de meu peito em postura defensiva. Para quê, né? Seus olhos brilharam ao repousar no meu decote, já que havia juntado os seios inconscientemente fazendo aquela pose. Sua boca abriu-se como se quisesse falar algo, mas não conseguia raciocinar, permanecendo quieto.
Homens.
Desfiz a pose em desconforto e completei:
— Vai ficar me comendo com os olhos ou tem algo a dizer? — perguntei, seca.
— Caramba, garota! Vim trazer um drink para você e pensei em conversarmos brevemente sobre nossa nova situação de trabalho. Se acalma aí. — disse, entojado, voltando aqueles malditos olhos para os meus novamente e abrindo um meio sorriso naqueles lábios ridiculamente atraentes. Eu estava muito bêbada mesmo para pensar algo como aquilo.
Olhei para suas mãos e vi um Dry Martini, um dos meus drinks favoritos. Peguei a taça tentando não tocar em suas mãos.
— Ótimo, boa garota! — completou o imbecil, com um sorriso maior que minha paciência naquele momento. Olhei-o com desdém e exclamei, irritada:
— Olha aqui, , garota é a mãe! Exijo respeito. Nunca te dei intimidade pra me chamar assim, e nunca o farei!
Suas mãos levantaram em rendição e uma expressão falsamente surpresa tomou conta de seu rosto. Pude ouvi-lo falar um “Ok, desculpe” baixo enquanto virava-me para o mar novamente. Dei um pequeno gole bêbado no drink e franzi minha sobrancelha pelo destilado puro do copo, praguejando baixo.
Senti-o encostar-se no metal ao meu lado, porém de frente para o salão de festas. Um silêncio estrondoso instaurou-se no ar, e a tensão poderia ser tocada caso eu levantasse minha mão.
Após um momento de mudez, senti os olhos de vidrados em mim, fazendo-me virar desgostosa para ele.
Há quanto tempo ele estava me encarando daquele jeito?
Suspirei alto, revirando os olhos, e voltei a encarar a imensidão, tomando o restante do drink. Argh, péssima ideia. A queimação foi nojenta. Martini era para degustar.
— Opa, garota, vai com calma! Isso não é água. — disse, rindo, bebericando o líquido igualmente forte de seu copo. Olhei-o com uma sobrancelha levantada e um olhar pingando à ironia pela hipocrisia em seu discurso. pareceu perceber rápido, pois gargalhou em seguida e terminou o conteúdo, dando de ombros.
Um sorriso discreto se formou no canto de meus lábios pela situação cômica, mas fiz questão de desmanchá-lo rápido para não dar abertura a momentos confortáveis perto dele. Peguei o palitinho dentro do meu copo e comecei a morder lentamente a carne macia das azeitonas. virou-se para mim e falou:
— Bem, eu gostaria de começar dizendo que será um prazer tê-la em minha tripulação, mas nunca fui um bom mentiroso — confessou, despretensioso e calmo, como se tivesse acabado de falar seu sabor de bolo preferido. Olhei-o, boquiaberta pela sua audácia, e ele riu, continuando presunçoso. — Eu sei o quanto nossos familiares se odeiam e o quanto esse sentimento estende-se para nós dois também, até porque não é muito difícil te achar insuportável — já estava pronta para retrucá-lo e mandá-lo à merda pela grosseria proferida, mas ele levantou um dedo no ar, como se pedisse um tempo para concluir. — MAS, espera, me deixa continuar, eu sou seu novo chefe, e, agora em diante, teremos que lidar bastante um com o outro. Vai ser algo diário, iremos conviver sob o mesmo teto, e isso é inédito para ambos. Portanto, proponho uma trégua nos insultos e farpas para, assim, tudo fluir lindamente e nosso trabalho juntos não ser o motivo de nossos assassinatos. Ou afastamento. — concluiu, sorrindo largamente, roubando a última azeitona de mim.
Coitado, devia achar que era o exemplo de maturidade do século.
Olhei-o desacreditada e gargalhei alto, jogando a cabeça para trás. Tive que rir, óbvio.
Subitamente, murchei meu sorriso, demonstrando o sarcasmo de minha breve risadaria. Seu sorriso foi sendo substituído por uma expressão de descontentamento, surpreso por suas palavras serem cômicas para mim. Algo cintilou em sua íris, como se minha reação psicótica o assustasse, fazendo-me voltar a esticar os cantos dos lábios.
, , … Como você chegou ao cargo que está vai ser uma pergunta que nunca vou poder responder a mim mesma. Você propõe que acabemos com nossos insultos e farpas com esse seu discurso de merda, carregado de insultos e farpas? Você tem o quê? 12 anos de idade? Seu QI é 50? Quanto ao meu trabalho fluir “lindamente” — fiz as aspas no ar enquanto me olhava sério e irritado. Lastimável! Eu nem tinha começado a destruir essa áurea patética de superioridade que ele possuía. —, pode deixar que isso acontecerá, você pedindo ou não. Como deve saber, sou extremamente qualificada. Inclusive, acredito ser mais competente que você em vários aspectos, até porque nunca cometeria o erro doloso que você cometeu. — alfinetei-o bem na nossa ferida, sem medo de soar extrema.
— Cuidado como você fala comigo… — murmurou ameaçador, aproximando seu rosto exasperado do meu.
— E quer saber o que mais? — meus olhos apresentavam um brilho úmido de nervosismo, o álcool na minha corrente sanguínea já tomava todo o controle de minhas palavras e emoções. — Com toda a sua incompetência e impulsividade, tenho plena certeza de que nessa missão... — murmurei igualmente próxima dele, destilando todo meu ódio no meu discurso. — você vai conseguir estragar tudo, que nem fez anos atrás. Se sua preocupação realmente fosse apenas fazer um bom trabalho dentro da Marinha, você poderia simplesmente sumir! — finalizei, depositando na taça o palito, sem azeitonas agora, e sorrindo desgraçada ao ver sua expressão séria, com os olhos semicerrados, inquieto de um jeito hostil.
Sinceramente? Apesar de sentir apenas desprezo e raiva naquele momento (ou em qualquer outro que devesse interagir com ), uma pontada de satisfação escorria pelos meus braços. Há anos eu não tinha a oportunidade de simplesmente calar a boca de daquele jeito. Eu, inclusive, havia esquecido do quão prazeroso era ver aquela expressão abalada no seu rosto.
A mão de , que estava repousada antes de forma distraída sobre o metal do convés, agora esmagava-o com furor. E se eu não soubesse o mínimo de resistência de objetos e capacidades humanas, afirmaria que aquele ferro iria envergar. Engolindo a seco discretamente, tentei manter minha pose de superioridade, disfarçando o possível medo de ter ido longe demais. Coisa que logo se dissolveu quando chegou mais perto de mim lentamente, jogando seu copo para trás com raiva, parando a centímetros do meu corpo, com um olhar ameaçador e um meio sorriso maligno nos lábios. Se eu não fosse quem sou, teria corrido amedrontada do que viria a ouvir a seguir:
— Você pode achar que sabe com quem está falando, mas, pelo visto, não faz a porra da mínima ideia, né, garota? — frisou entre os dentes com a última palavra, em uma provocação zangada. — Não sou homem de fazer ameaças, então não leve o que falarei a seguir como uma, mas sim como um simples aviso: você não tem noção do quanto acabou de tornar sua vida muito mais desagradável dentro da Marinha. Eu terei um prazer tão imenso de infernizar você, que farei que a última coisa que você pense antes de dormir seja eu, e a primeira ao acordar, também. — finalizou, me olhando de cima a baixo. Um frio percorreu minha espinha.
Merda.
Eu e minha boca grande.
Realmente não havia parado para raciocinar direito. Maldito vinho e martini. Ele sendo meu superior agora, toda minha carreira estaria praticamente em suas mãos, já que ele era o canal de comunicação direta ao conselho responsável pela tarefa de promover os marinheiros. teria que escrever relatórios sobre meu comportamento, além de poder prescrever medidas disciplinares (ou seja, punições) a mim e minhas possíveis faltas de condicionamento correto. Ele estava certo, eu havia acabado de tornar minha vida dentro do Corpo da Armada mais difícil. Engoli em seco e falei em um fio de voz:
— Você não pode simplesmente se tornar antiético por ter o ego ferido ou por questões pessoais… — olhei-o afetada, sentindo-me patética pela fraqueza demonstrada.
— Ego ferido? Oh, não. Meu ego está intacto — soltou uma risada seca, levando um dos dedos ao meu queixo, o levantando em seguida para olhá-lo direito nos olhos. — Quanto à questão pessoal, você deveria saber que eu não me importo com a rivalidade entre nossas famílias, apesar de achar que os sempre foram prejudicados pela sua espécie. — seu hálito ébrio e quente batia no meu rosto, paralisando-me em seus olhos. — No que diz respeito ao que ocorreu no passado entre mim e seus parentes, já deixei bem claro que nunca foi minha intenção as coisas saírem do controle daquele jeito. Me lembro amargamente de tal fato todas as noites. — confessou, fechando e abrindo os olhos pesadamente, carregados de dor. — Eu simplesmente não suporto você e sua personalidade limítrofe. E, sabe, cada vez mais acho que meu avô estava certo no que ele dizia: “Nenhum que eu conheci merece o ar que respira” — finalizou, sorrindo e largando meu queixo com força, para logo em seguida se afastar um pouco para me observar espumando de raiva pela sua última frase.
O segundo seguinte foi o mais rápido de minha vida. Quando dei por mim, acertei um tapa em cheio na cara daquele imbecil. E teria dado o segundo se ele não tivesse segurado o meu pulso com força. Tentei com o outro braço, mas falhei miseravelmente também. No instante seguinte, seu corpo estava de frente colado ao meu, fazendo a grade gelada do convés esmagar minhas costas nuas. A intensidade que usava para me olhar era proporcional ao quanto seus dedos apertavam meus pulsos. Sua respiração ofegante esquentava cada centímetro que tocava da minha pele, terminando de petrificar o restante dos meus movimentos.
— Cuidado, garota, você está abusando da minha boa vontade — cuspiu entredentes.
— Você é um monstro…
— Sou um monstro, e olha só que sorte a sua: agora sou seu chefe. É melhor ir se acostumando com a ideia de que, subordinada a mim, não poderá nunca mais agir do jeito que bem entender comigo. — vociferou, seu tom autoritário arruinando minha imobilização. Comecei a contorcer-me contra seu tronco, sem sucesso em sair por toda sua força e todo estado alcoolizado em que eu me encontrava.
— Como pode agir dessa forma depois de tudo o que aconteceu? — tentei uma joelhada em sua virilha, mas suas pernas pararam as minhas na mesma hora.
soltou uma risada irônica e analisou minha situação patética, percorrendo os olhos pelos movimentos desajeitados que eu fazia. Sem sucesso algum em desprender-me, parei abruptamente de me mexer, cansada demais de me debater daquele jeito nele. Encarei de volta seus olhos desgostosos.
— E quer saber o que mais? — aproximou de meu ouvido, com a respiração alcoólico e quente batendo no meu pescoço, produzindo um arrepio estranho em minha barriga. — Você já possui um castigo para cumprir em seu primeiro dia de recrutamento. — completou e largou meus pulsos com raiva, afastando-se abruptamente de mim. Precisei apoiar as mãos nos meus joelhos para não cair, tamanha era a pressão que seu corpo fazia contra o meu.
Comecei a massagear meus punhos pela dor do aperto de suas mãos e consegui voltar a respirar melhor com nossa distância. começou a andar em direção ao salão de novo, mas parou no meio do caminho apenas para me olhar por cima dos ombros.
— Bem-vinda à minha tripulação, Tenente — rosnou com sua voz seriamente grave, recomeçando a andar. Sua figura sumiu rapidamente pela multidão.
Oh, eu estava muito ferrada.


CAPÍTULO 2 – THE COLD SENSATION OF REALITY

’S POV
Cais da Marinha, Londres, 10 a.m.

O sol ardia no topo do céu, imitando lâmpadas incandescentes de um típico corredor de hospital. Sua luz riscava o rosto dos marinheiros, que corriam afoitos enquanto berravam comandos náuticos uns aos outros. Ouvi o pneu do carro de Mauro cantando longe, despedindo-se de mim em uma pressa bruta. Espremi meus olhos e pus a mão na testa, na tentativa de enxergar melhor o caminho até a rampa do navio; tudo parecia um borrão brilhante. Assim que pude encarar e dimensionar melhor o navio, assustei-me.
Devo confessar, apesar de saber que aquela era a maior embarcação da Marinha, não consegui deixar de ficar chocada com a longitude e altura ocupada por aquela enormidade cinza. Era como assistir a um prédio deitado na superfície do mar.
Empunhei as malas de rodinha e tentei ajeitar a mochila com os ombros mesmo, esperando aguentar a caminhada pelo cimento queimado sem sentir meus músculos completamente incendiados de dor. O caminho era longo, um vento forte de maresia batia contra meu corpo e embaraçava meu cabelo no rosto, incapacitando-me ainda mais de enxergar minimamente bem, fora meu queixo, que batia pesadamente de frio. Eu deveria ter colocado o moletom, como meu irmão recomendou.
Orgulhosa demais para aceitar conselhos dele, talvez?
Preferia essa versão a admitir que estava completamente aérea e perdida nas minhas ideias para estar de manga curta em um dia de inverno.
Assoprei forte contra os fios de cabelo e retirei-os do meu rosto por um instante, enxergando um marujo imenso passando na minha frente, quase trombando em mim. Seus ombros eram enormes, os braços mais largos que a âncora daquele navio. O cap que pendia em sua testa emprestava-lhe um ar sombrio, apesar de quase tampar a grosseira de seu rosto. Suas mãos eram cobertas por tatuagens, com desenhos incompletos, que provavelmente terminavam ao longo de seu braço, endurecendo ainda mais a figura do homem. Seu olhar fisgou o meu, intrigando-me a sustentá-lo igualmente. Sua íris gritava um vazio animalesco.
Um arrepio lambeu minha coluna, fazendo-me olhar rapidamente para a porta do navio, sem vontade alguma de dividir aquela conexão com ele. Eu já estava aflita o suficiente para não ir com a cara de alguém de primeira.
Observei o clima em volta. O dia estava anormalmente cristalino, o mar refletia o céu como um espelho recém-limpo; o que indicava uma boa partida, sem atrasos climáticos ou qualquer coisa do tipo. Infelizmente, não participaria logo da rota de partida, afinal, o profissional o qual a função era desaportar o navio era diferente daquele que projeta e executa os trajetos por toda a missão. O salário daquele desgraçado era enorme, o maior de todos no ramo náutico.
No entanto, a responsabilidade é tanto quanto.

Responsabilidades…

Um barulho de fragatas arranhou meus ouvidos, berrando algo de ruim, como se fossem alarmes de emergência. Olhei para o alto debilmente e senti meus ombros arderem enquanto parte de meu cabelo ainda ocultava minha vista. Que bagunça.
Continuei o meu caminho ávida, a adrenalina crescia à medida que o tempo restante até a reunião com diminuía. Querendo eu ou não, aquela reunião estava prestes a acontecer. As alças das minhas malas escorregavam da palma da minha mão, tamanho era meu suor de nervosismo pela situação.
Olhei uma última vez em volta, antes de subir a longa rampa. Um aperto no peito me fez suspirar desgostosa, mirando o céu subitamente, pedindo qualquer tipo de sensatez e paciência para os próximos meses. Qualquer luz ou sei lá o que que me ajudasse a agir com prudência naquela ocasião completamente desconfortável e estressante.

Eu estava tão fudida.

Basicamente, se dependesse do meu temperamento e da impulsividade de , civilidades e gestos de respeito não aconteceriam entre nós nas próximas semanas. O que formaria mais uma grande bola de neve até algo mais sério estourar em nós dois de novo, atingindo nossas carreiras e vida pessoal em cheio. Muita coisa dependia da forma como lidaríamos um com o outro, na atual conjuntura e hierarquia, em conjunto com esse ódio mútuo.
Havia anos que nada me tirava tanto a paz, principalmente em relação ao meu ofício. Estava tudo tão revirado que minha vontade era sair correndo e ligar para meu irmão me buscar, como uma criança assustada.
Assim que um último vento chicoteou dolorosamente meu cabelo nas costas, terminei de entrar no corredor primário do navio, o qual me levaria ao elevador principal, onde poderia ir a qualquer canto da embarcação, menos na torre e nos três últimos andares (aquele navio possuía 9 camadas de pisos). Eu só queria apertar o botão do andar de meu dormitório, o -1, para desmaiar um pouco na cama e me arrumar com toda a lentidão do mundo para a reunião.
Adentrei o corredor de uma vez, parando logo no início pela minha estranheza às coisas incomuns naquele cenário náutico do exército.
O chão estava coberto com um carpete azul escuro, extremamente brega em comparação com todo o local grosseiro e ferroso do restante da estrutura. Era um contraste confuso, feio, nada prático. Afinal, carpetes não poderiam mofar mais facilmente com a umidade do alto-mar?
Eu sabia que aquele navio era mais requintado, possuía regalias diferentes de qualquer outro, mas… o piso com carpete? Inconsistente. Fora que as rodinhas das minhas malas surradas teimavam em agarrar ao chão pomposo.
— Merda… — murmurei, irritada com o decorador de gosto duvidoso, que dificultava minha vida naquele momento. O esforço fez um vestígio de suor frio aparecer na minha testa, fazendo-me parar de repente no corredor estreito para amarrar o cabelo.
A situação toda me deixava claustrofóbica. A irritabilidade esquentava meu rosto, me fazia morder meus lábios até sentir um gosto metálico de sangue na língua. Conseguia ouvir meu coração golpeando ansioso meu peito cada vez que me atrapalhava mais.
— Com licença, eu te ajudo. — disse uma voz masculina atrás de mim, soando firme e meio apressada. Virei assustada para o autor e tropecei não sei como em meus próprios pés.
— Merda! — vociferei em reflexo, sentindo o impacto da queda em cheio no meu traseiro. E, devo dizer, a aspereza daquele chão conseguia pinicar minha pele até mesmo por cima dos jeans.
Olhei para cima finalmente e vi um… deus grego, talvez? Seu sorriso era plástico e perfeito, um olhar divertido repousava na minha figura. Xinguei mentalmente aquela obra de arte por ter me assustado assim e revirei os olhos, sentindo-me patética.
Aliás, como ele havia fugido do Museu do Louvre?
— Opa, vem cá, me dá sua mão — pescou meu antebraço inteiro e me levantou. — Desculpe, não pretendia te assustar. Só vi que empurrava suas malas com dificuldade… Quis ajudar — sorriu-me lindamente.
Senti um calafrio subir entre minhas pernas e paralisei na frente do homem, que continuava com meu braço agarrado nas suas mãos, esquentando minha pele. Meu rosto queimou.
— Claro, sim. Essa droga de carpete… — desvencilhei minha mão e passei-a nos fios avoados do meu cabelo, sorrindo sem graça. — Eu, ãhn… Não quero incomodar. Vou tentar puxar mais…
— Não, eu insisto, vamos. Eu pego as duas, elas parecem estar pesadas. — disse-me, fazendo um gesto negativo, já pegando nas alças das bolsas.
Suspirei fundo, derrotada, e senti seu perfume cítrico entrando na minha mente.
Ok, agora eu estava ansiosa e levemente apaixonada.
Parei de agir que nem uma pateta e continuei o caminho na frente do homem, ajeitando a mochila nas costas.
Virando no corredor, vi a escada e um par de portas de madeira esculpidas em estilo rococó, com detalhes dourados suntuosos que brilhavam minha íris. Mais uma particularidade que me fez refletir sobre as escolhas cafonas do decorador. Eu estava no Titanic ou em uma embarcação da Marinha Real Britânica?
— Ugh, eu odeio esses elevadores daqui… — ouvi o homem resmungar e parar logo atrás de mim. Sua voz era macia e grave, atravessava o ar como um afago até mim.
Ainda muda, abri uma das portas para que ele entrasse. Vi a tela do telefone em suas mãos e notei que o mesmo estava numa ligação. Encostei na parede oposta à sua e o observei discretamente. Sua testa estava franzida e seu olhar, voltado para o chão, era irritado. Sua voz pronunciava um francês nativo, com curtas frases, tom rude, objetivo como uma navalha. Eram poucas coisas que eu entendia, meu forte não era francês. No entanto, conseguia notar que o assunto era sério e o tirava dos eixos. Quem era aquele homem?
— Desculpe — disse sem me olhar, bloqueando e guardando o celular no bolso. — Assuntos aborrecedores… — completou, sorrindo simpático assim que me olhou.
— Acontece… — murmurei, tentando controlar ao máximo meu timbre vacilante de voz. Percebi que seu olhar, agora mais relaxado, me analisava numa calma cirúrgica. Eu nem precisava dizer o quanto meu sangue tinha subido até minhas bochechas, né?
— estendeu sua mão enorme em minha direção. Seu toque foi firme, quente, seu sorriso cordial estampava finas linhas no canto de seus olhos.
Então, um estalo acendeu minha lâmpada de raciocínio de volta.
Aquele era o Subcomandante da missão, , um dos amigos mais antigos e próximos do meu irmão. E de .
Oh, merda.
. — falei rapidamente, tentando sorrir da melhor forma que conseguia. Ao mesmo tempo, a expressão de transformou-se em surpresa e…
— Pera, como é que é? — analisou-me de cima a baixo, com o cenho franzido. — Você é a irmã caçula de Mauro?
— A única, assim espero. — tentei descontrair, puxando um sorriso de volta no rosto de .
— Mas é claro! Como eu sou idiota, a semelhança! Eu sabia que tinha algo de… familiar em você.
— Credo, me comparando com aquele feioso… — brinquei sem graça, arrependendo-me de imediato por estar nervosa ao falar com aquele deus grego. Ainda mais ele sendo um de meus superiores.
Porém, apenas sorriu mais largamente com a chacota ao meu irmão.
— Oh, bem, eu concordo. Com certeza você e sua mãe ficaram com toda a beleza da família — disse cortejador, atraindo minha atenção para ele ao ponto de nem me abalar pela menção à minha mãe.
olhou brevemente para trás, apertando o botão do andar onde ficavam os dormitórios de todos os marinheiros. Do Comodoro Fred até os cabos em treinamento, passando pelos profissionais de saúde e alguns engenheiros, aquele era o maior piso de toda a embarcação. Comportava 70 pequenos quartos individuais; os dormitórios comunitários ficavam no -4, destinado aos operários e funcionários de serviços gerais. Enquanto isso, o Comandante e Subcomandante tinham suas suítes individuais, na torre da Cabine Principal, fechando uma das cartilhas de hierarquia da cadeia alimentar da Marinha.
No entanto, nada daquilo importava naquele momento. Piscando como uma idiota em transe, ouvi a voz de como um som ao longe.
— Oi? Desculpa, eu tava em outro lugar. — sorri sem graça, sentindo o perfume cítrico dele mais intenso me inebriar. riu de leve.
— Eu disse que te ajudo a levar as malas até seu dormitório. O caminho é longo, assim posso aproveitar pra conhecer a irmã de um dos meus melhores amigos. — respondeu, recostando-se de lado na parede, ainda com o olhar pesado sob minha figura.
Cocei meu braço, nervosa. Não me lembrava da última vez que ficara tão sem graça e magnetizada por um cara, estava me sentindo patética.
— Olha, eu não vou recusar não. Meu irmão foi um trouxa, saiu cantando pneu só para se encontrar com uma tal de Cindy. Não pode ver uma mulher que o despreza que faz daquilo sua missão do mês... — revirei os olhos e encostei minhas costas na parede, emburrada.
— É, isso é a cara do Mauro — gargalhou baixo e balançou a cabeça negativamente, como se espantasse um pensamento. — Nossa, teve uma vez que… — a campainha do elevador tomou a fala de , virando nossa atenção para a porta abrindo. Um corredor cinza revelou-se. A luz mais cálida era pontual pela parede, dando uma sensação de conforto ao meu peito. Um pequeno sorriso formou-se no meu rosto.
— Sentindo-se em casa já? — despertou-me novamente, apoiando uma das malas nas costas e a outra em punho. — Qual o número do quarto?
— Ãhn, 22. — falei olhando para um chaveiro azulado, seguindo o passo de pelo extenso corredor.
Durante a caminhada, minha mente permaneceu em um lugar onde eu não sabia ao certo onde era. Para falar a verdade, desde o momento em que o dia começara, minha capacidade cognitiva de concentrar-me, ou travar uma conversa simples com alguém, estava completamente ausente. A oficialização de meu cargo era cada vez mais palpável, assim como a realização de um sonho antigo em atuar em rotas de missão. Infelizmente, meu encaixe nas equipes dependia completamente de , o que fazia surgir uma mão invisível que sufocava minha garganta.
Respirar fundo, contar até cem, tentar descrever o que enxergo ou escuto, sei lá o quê… Nada disso estava funcionando.
O fator surpresa com certeza contribuía para a pateticidade de toda a minha situação. Seu perfume cítrico deixado pelo caminho, contrastando com sua voz macia, abria um imaginário libertino no pouco de concentração que eu ainda tinha.
Abstinência sexual é foda.
Além disso, manter meus pensamentos castos perto de um cara daquele, por mais angustiada que eu estivesse, provavelmente era pecado.
Senti uma vontade de rir de nervoso pela situação; concentrei-me em analisar , que estava na minha frente, do mesmo modo como ele havia feito no elevador comigo.
Seu corpo alto era forte, as costas largas esticavam algumas partes da blusa social branca, fazendo com que eu pensasse inevitavelmente na sua figura sem camisa. andava numa marcha confiante, cantarolando baixo uma música qualquer em francês, olhando por cima dos ombros vez ou outra para sorrir para mim. Respondia as continências dirigidas a ele com um aceno de cabeça; os olhares curiosos não economizavam em cravar em cima de mim logo em seguida, com tonalidades de julgamento e penitência.
Desliguei minha mente de tudo e de todos, como sempre fiz minha vida inteira. Apenas entrei no meu estado aéreo e permiti-me divagar novamente sobre o carpete azul cafona.

Assim que dobramos o primeiro corredor, avistei o número 22 em relevo em uma das portas. colocou as malas no chão em frente à mesma e virou-se para mim com um meio sorriso, olhando-me curioso.
— Bom, eu adoraria ficar e realmente te conhecer mais, porém… — olhou para seu relógio de pulso rapidamente, com uma expressão de espanto. — Nós temos uma reunião daqui a pouco. Eu preciso me encontrar com para acertarmos alguns detalhes antes. Não param de me incomodar. — pegou o celular no bolso e virou para mim. Alguém ligava para ele.
— Claro! Preciso me preparar também... Foi um prazer te conhecer, . Meu irmão sempre falou muito de você — e, infelizmente, do também, pensei sozinha. Fiz uma continência rápida, e acompanhou-me, estendendo sua mão para mim em seguida.
— O prazer foi todo meu… — murmurou em tom dúbio de voz, depositando um beijo por cima de meus dedos. Meu corpo estremeceu com seu toque úmido, fazendo com que eu me perguntasse o quão bom seria ter seus lábios em outras partes do meu corpo.
Ok, eu estava muito emocionada.
— Obrigada pela ajuda com as malas, de verdade.
— Era o mínimo que eu podia fazer. Sendo irmã do Mauro, você é minha protégée.
— Subcomandante , senhor! — uma continência aleatória fora proferida para ele.
passou por mim e sustentou meu olhar até sumir do meu campo de visão. Notei minha pele arrepiar imediatamente.
Senti-me completamente juvenil e tola como se nunca houvesse falado ou até mesmo visto um cara gato na vida. Suspirei impaciente comigo mesma e destranquei a porta do quarto apressada, adentrando-o.
Estava escuro, um ar empoeirado repousava ali, imóvel, pintado de rajadas de luz que escapavam da cortina mal fechada. Imediatamente liguei a luz e enxerguei o cubículo aconchegante que seria meu lar pelas próximas longas semanas.
Abri um sorriso involuntário e permiti-me ficar plenamente feliz comigo mesma ao perceber onde eu estava. Meu peito coçava em contentamento por eu estar em uma missão finalmente importante e completamente inédita em anos. E meu cabelo não estava mais entrando na minha boca. Eu podia pensar positivo, apesar dos pesares.
A cama era um pouco maior do que uma de solteiro, alta, arrumada, grudada na parede direita do quarto. Dois pequenos armários ficavam perto do teto e acima das pequenas janelas do quarto, dando-me um espaço extra além das gavetas embaixo da cama. Uma pequena cômoda estava à esquerda, com um abajur de parede em cima. A porta para o lavabo ficava à esquerda também, perto da entrada do quarto. Ok, eu me via passando os próximos meses aqui tranquilamente.
Larguei a mochila longe e joguei-me na cama, captando no travesseiro um cheirinho leve de limpeza fresca. Virei-me e empurrei a cortina com os pés, tirando minha bota logo em seguida para relaxar melhor. O quarto iluminou-se de sol, uma paz me acendeu por dentro.

’S POV
Suíte do Comandante, andar 2 da torre, 10h30 a.m.

Meus olhos permaneciam fechados. Minhas mãos repousadas na beirada da sacada sustentavam meu corpo inclinado, recebendo os golpes fortes do vento como um afago. Respirei fundo a maresia.

Lar, pátria, obrigações, família, tradição, ódio, acidente… Mais ódio.

Suspirei, frustrado. Apesar de sempre me perder na beleza daquele horizonte brilhante, a falsa promessa de tranquilidade não me convenceu dessa vez. Na minha experiência, quando tudo aparentava estar relativamente calmo, um fato brusco mudaria a realidade alheia. Era assim que funcionava com o destino, com a vida no geral.
Pensando nisso, refleti o quanto o mar sempre foi um elemento dualista na minha vida. Tão poderoso quanto sereno, tão pacífico quanto perigoso. Assim como dava, tirava. Do mesmo modo que já trouxe muita alegria, já causou-me catástrofes intensas de viver. A única coisa que se podia afirmar era esse propósito intrínseco do mar de sempre servir sua natureza incerta, igualmente ao que o destino fazia.
Nessas circunstâncias dúbias, era impossível não pensar em meu livro preferido, O Velho e o Mar, e ter em mente toda a luta solitária do pescador com o dualismo da vida. Caçoado por todos de sua vila, digno de pena por não pescar nenhum peixe há meses, sua única força por muito tempo foi a crença que ele mantinha em si mesmo. A crença de que, apesar de seu rumo estar numa maré de má sorte, um dia tudo poderia mudar, e ele seria agraciado por um peixe finalmente.
E foi o que aconteceu.
Isso fazia-me lembrar que tudo o que eu precisava era simplesmente acreditar em mim. Viver um dia de cada vez sem desistir jamais, principalmente quando minha insegurança gritava que eu erraria de novo, que decepcionaria a todos e machucaria mais pessoas inocentes.
Por isso que pouco importava naquele momento o meu barulho interno de autodepreciação, eu sabia que logo tudo se acalmaria dentro da minha cabeça.
Senti meu celular vibrar no bolso da calça.
. — respondi em automático.
Oi, lindão, vem aqui fora me receber exclamou, fazendo-me sorrir imediatamente.
Desliguei e dirigi-me até a porta da suíte, agitado para reencontrar um de meus amigos mais próximos.
Assim que abri a porta, gargalhou animado e abraçou-me.
— Quanto tempo, cara. — murmurei nostálgico em seu ombro.
— Tô feliz demais em estar de volta. Mas me diz que isso no seu bolso é um Halls, pelo amor…
— Ah, cala a boca, — soltei-o e dei um tapa em seu ombro enquanto o otário ria. — Chegou quando em Londres? — perguntei, o analisando melhor, observando mudanças sutis de seis anos a mais em seu rosto. Porém, minha alegria em revê-lo era tanto quanto sua cara de palerma continuando a mesma.
— Tão cedo hoje de manhã que até consegui tomar o clássico English breakfast naquela lanchonete que a gente ia. Porra, que saudade que eu tava! — declarou, fazendo um gesto satisfeito em seu abdômen.
— Depois da missão, eu já avisei pro Mauro: uma semana, Amsterdam, nós três. — abracei seu pescoço, conduzindo nosso caminho pelo corredor estreito até o elevador.
— A “Avenida da luz vermelha” que nos aguarde. Deve ter uns três bares para sermos expulsos ainda. — declarou.
— Eu não me preocuparia com isso, se fosse você. E sim com esse seu corte de cabelo aqui… Que merda fizeram com você, hein? Na França os barbeiros trabalham de olho fechado? — zoei , fazendo-o gargalhar com um xingão.

Em pouco tempo, chegamos na cabine principal. Era ampla, espaçosa, muito bem iluminada e posicionada. Pegava metade do pequeno quarto andar da torre, sendo circundada por uma janela extensa e uma estreita sacada externa para vigília. O painel de botões e telas gritava meu nome, fazia meus dedos coçarem, tamanha a vontade de tocar e comandar aquela embarcação colossal.
e eu sentamos nas duas únicas cadeiras de frente aos painéis.
— Como foi ser recrutado novamente para a Armada Francesa, meu caro? — perguntei-o, espiando o radar náutico.
— Uma merde. Foi praticamente serviço de piloto de caça. Meu lugar é no mar, porra, não lá em cima que nem uma gaivota escandalosa. — riu da própria desgraça. — Mas você sabe como é meu pai. Depois de tudo aquilo…
— Tinha que ficar quieto se não ele ia comer seu cu, né?
— Mais ou menos isso.
Um barulho de porta ecoou e chamou nossa atenção. Comodoro Fred entrou, sugava por um canudinho o líquido preto da lata de Coca-Cola, com seus bigodes grossos e ruivos tampando seu lábio superior. O cinquentão tinha o narigão vermelho, redondo como uma salsicha, parecia uma caricatura viva. Era baixinho, tinha ombros estreitos e voz cansada; simpatia de pessoa.
Continências trocadas, voltei novamente para , falando mais baixo:
— Aqui foi uma bosta também, dor de cabeça atrás de dor de cabeça. O que veio depois do acidente… — bufei, deixando no ar minha fala, sem a mínima vontade de completar meu raciocínio e verbalizar essa tragédia.
— Eu imagino, cara. Me atualiza das coisas hoje à noite. Eu sei que você deve ter um bom bourbon e um fumo cubano diferente na sua cabine. — murmurou de volta.
— Awn, , quer um encontro comigo? — o olhei divertido, teclando as últimas coordenadas no computador.
— É o seu sonho, né? — respondeu, rindo. — E o Mauro, tá como? — seu tom ficou sério novamente.
— Você devia ligar pra ele, cara. Usa o telefone da cabine, foda-se.
— Odeio falar no telefone… — suspirou, cansado. — Pô, nem te falei, né. — exaltou-se na cadeira, olhando para Fred brevemente. — Conheci finalmente a irmã do Mauro — sussurrou animado.
Meus músculos travaram.
— O quê? — minha voz soou esganiçada e mais alta que esperava. — Você viu ? Ela… Ãhn, e aí? — tensionei a testa.
assobiou galanteador.
— Encantadora! O Mauro que me desculpe, mas a irmã dele é deslumbrante. Ia ser um pecado não dar uma chance. — piscou um olho para mim.
Peraí, o que eu estava ouvindo?
Senti uma pontada quente no meu peito e uma irritabilidade incomum nublar minha mente. Cerrei meus olhos para , penando em processar direito as palavras de fascínio dele para .
, não, peraí… — soltei uma risada sem humor. — Não me diga que você tá… pensando em tentar… Tentar qualquer coisa com… — ri incômodo, paralisado na figura dele.
— Ah, qual é. Ela é gata, qual o problema? — olhou-me despretensioso, dando de ombros. — Além do mais, já é maior de dezoito, sabe bem o que quer. E, se eu não desaprendi a ler as mulheres — riu sacana. —, ela pareceu estar na minha.
Olhei-o desgostoso uma última vez e voltei minha atenção para os comandos, soltando a respiração como um peso. Observei meus punhos e ambos estavam fechados, com os nós dos dedos brancos. Senti minha mandíbula tensa e minha pálpebra tremer de nervosismo. O que estava acontecendo comigo?
E quem pensava que era para afirmar tanta coisa sobre , sem ao menos conhecê-la direito?
Não que essa história de atração significasse algo para mim. No entanto, eu a conhecia desde que a mesma nasceu.
Algo que não era do feitio dela, acima de todas as coisas que ela já tinha feito de inesperado, era dar mole para caras desconhecidos. Ou sei lá o que achou que ela demonstrou.
Por que essa possibilidade me irritava tanto?

POV’S OFF
Andar -6, Sala de reuniões, 12h34 p.m.

No centro da sala de Reuniões Extra Oficiais, uma mesa oval comportava exatamente cinquenta marinheiros dos mais diversos cargos. A atenção de todos estava vidrada no telão ao fundo da sala, onde o Subcomandante explicava sobre os encargos, as particularidades da missão, possíveis perigos pela rota e exigências diárias para além do horário de trabalho. Vez ou outra, Comandante intervinha e pontuava suas decisões e o que esperava de todos que compunham a equipe especial. Qualquer erro cometido, por menor que fosse, traria prejuízos incapazes de serem dimensionados. A responsabilidade de todos precisava ser frisada sempre que possível.
Ao menos quando recuperava sua atenção no que o amigo falava e lembrava-se de comentar algo. Anotava aleatoriamente algo em seu caderno pessoal, listava palavras-chaves e espiava em volta da sala, sempre demorando discretamente na figura de . O rosto da mulher estampava uma distração sôfrega, como se o lugar em que sua mente se encontrava perturbava-a tanto quanto sua realidade nefasta. Era claro para seu incômodo de estar no mesmo lugar que ele.
Bufou impaciente com a postura desatenta de , ponderando se ela realmente estava pronta para o encargo que ele a designou. Após o anúncio que ambos trabalhavam na mesma equipe matutina, o rosto da moça nublou em contragosto. Até mesmo sua respiração levemente mais acelerada foi percebida por .
sentia como se o pior de seus pesadelos acontecesse bem na sua frente, sem que nada pudesse ser feito, por ela, para mudar.

“Será que é tão difícil assim me respeitar? Ela é completamente instável, tenho certeza de que na primeira oportunidade vai tentar me estapear. Se algo sair errado, vai ser culpa de…”

A impaciência de transformou-se em autocensura, retorcendo duramente seu peito assim que dividiu sua parcela de culpa no estado seco de .
Sentiu sua garganta fechar-se na mesma hora e moveu automaticamente seu tronco robusto até a mesa. Engoliu a água fresca com pressa e conseguiu respirar fundo de novo, sentindo seu peito esfriar da agonia. Lambeu os lábios úmidos e percebeu olhos fixos na sua figura pelo canto dos olhos.

****


estava gelada novamente, os braços e as mãos quase adormecidos pairavam sobre seu colo, suas pernas mexendo vez ou outra de nervoso. O mínimo de movimento deixava seu coração na boca.
Seus únicos momentos de lucidez eram justamente aqueles em que falava. Sua voz era sempre forte, agarrava-a de volta à sala de reuniões, puxava seu olhar imediatamente para o dele. Eram inúmeras as emoções e memórias que escapavam do inconsciente de sempre que o som de sua voz a invadia. Odiava sentir-se tão lúcida perto de . A raiva lhe fervilhava o rosto, sua garganta secava como areia no deserto.
A moça cobiçou imediatamente o copo d’água transpirando na frente de seus superiores, como se fosse a única preciosidade daquele navio inteiro.

“Com certeza a reunião vai ter mais de 4h de duração, e só os bonitos lá na frente tem água…”, repreendeu, pensativa, olhando para de volta.

O mesmo já fixava sua atenção nela. O cenho estava franzido, o maxilar, tenso, e a expressão dura era intimidadora. O desprezo por ele latejou em sua pele, fazendo-a arranhar as coxas com a ponta dos dedos até os joelhos, como se pudesse sobrepor, de alguma forma, a sensação que era ter o olhar fixo dele sobre si.
Tentou prestar atenção no que falava e…

“Pirataria em mares de fronteira, roubos milionários, sequestros, execuções à queima-roupa…
Ok, definitivamente não.”


Uma fina porém indiscreta sensação de enjoo apossou o corpo dela. Teve que fechar os olhos e respirar fundo para não vomitar. pressentia um desmaio instantaneamente toda vez que aquele assunto era abordado. Como nenhum outro martírio na sua vida, aquele tópico em especial acordava os piores pesadelos lúcidos que ela poderia ter.
Os piratas em questão não eram nem um pouco parecidos com aqueles caricatos retratados no mundo fantástico da Disney. Nem Capitão Gancho ou Jack Sparrow a bordo do Pérola Negra teriam grandes chances de sobreviver a tais ataques catastróficos. As artilharias usadas eram pesadas, e a mortalidade dos reféns chegava a 90% dos casos. Execuções sem piedade, ação rápida de invasão e crueldade visceral marcavam o comportamento dos maiores criminosos atuantes em alto-mar.
E, naquela missão em especial, o risco de ocorrer um cenário de cativeiro e saqueamentos milionários era o triplo do costumeiro. Sem chance para erros, todos os Marinheiros daquele navio estavam sob uma invisível porém onipresente sensação de apreensão coletiva.
O que fazia sentir suas mãos suando de nervoso ao lembrar de seu encargo e da responsabilidade que teria em traçar corretamente as rotas menos perniciosas a serem navegadas. Para ela, apesar do temor, era questão de honra doar-se ao máximo para que tudo saísse perfeitamente bem. Afinal de contas, sua história fora marcada tragicamente por um cenário daqueles, com erros de terceiros.
Isso a fez perguntar-se de repente o quão pequeno era trabalhar com perto de já ter vivido sua catástrofe pessoal que latejava em seu peito a cada instante. Não poderia ser tão ruim ter que lidar com aquele que ela julgava ter a maior parcela de culpa.
Sendo assim, passeou despreocupada os olhos pelo rosto de cada um na sala. Muitos dali havia prestado as provas e treinamentos junto, porém de nenhum se lembrava muito. Aquela época de sua vida era um grande borrão em sua memória, o qual ela não se orgulhava nem um pouco. Era vergonhosa a sensação de esquecimento, de simplesmente perder trechos de sua própria história e ouvi-los de boca em boca, ainda mais quando eram de pessoas às quais os nomes ela apenas sabia pela plaquinha metálica do uniforme.
Isso quando não tinha seus sonhos “especiais”, aqueles que ela julgava serem tanto memórias soterradas quanto armadilhas perniciosas de sua mente falha, inventando e distorcendo situações.
Parou seu olhar na moça simpática dos cachos cor de ferrugem. Sua atenção era devota à explicação, mordia frenética a tampa de sua caneta.
tentava lembrar o nome dela, sentindo-se mal de verdade pelo vacilo da memória.

“Ela foi tão simpática comigo… Emma… Emmy… Emily!”

A ruiva abordara no corredor do -1 enquanto ambas iam até a reunião. Quando Emily a viu, abriu um sorriso de ponta a ponta, abraçando-a forte, enfiando os cachos rubros e cheirosos em seu rosto. Há anos não se encontravam… Emily estava ansiosa para rever , apesar de saber que a moça não lembrava direito do treinamento ou de outros momentos cúmplices.
O sorriso da moça afagou o coração de no mesmo segundo, transmitindo-a uma tranquilidade ímpar; ela sentia que a conhecia realmente.
Porém, mais deleitoso que (re)conhecer Emily, era encontrar com os olhos gentis de vez ou outra durante suas falas, fazendo-o sorrir imediatamente.
Oh, .
Aquele sim era um homem no qual ela queria prestar mais atenção. Normalmente, não se interessava à primeira vista por ninguém, porém a solicitude dele em responder com paciência àpergunta de todos a derretia por inteiro.

“Um verdadeiro gentleman… Educado, voz macia… Fez questão de me ajudar a levar as malas pro quarto.”

Nem sabia o que sentia ao imergir nos olhos daquela mulher. Tinha algo muito humano em sua íris, algo para além do que ela queria mostrar. Sentia-se curioso, uma vontade de fazer mil perguntas para conhecer seus pensamentos, mais de sua vida, seus medos e anseios. Era como se um ímã terrestre repousasse na figura dela.
reparava todas as vezes em que a troca de olhares entre os dois ocorria; não era difícil de identificar que os poucos sorrisos que seu amigo tinha aberto durante a explicação eram direcionados a . A mesma continuava aérea, despertando em ódio apenas quando olhava para ele, ou derretendo de timidez quando sorria para ela.
sentiu uma pontada de mal-estar golpeando seu coração novamente.

’S POV

— Tenente , eu lhe fiz uma pergunta! — ouvi meu nome ser xingado por , despertando imediatamente minha atenção.
— Oi, que po… … — tossi e ajeitei minha postura. Olhei para e travei, sentindo-me ridícula e observada por todos no cômodo. Será que tinha como piorar minha situação?
O peso de ser incapaz de chamar de qualquer coisa além de “idiota” já era monstruoso. No entanto, ser pega no pulo em uma distração e ter que observar seu sorriso cínico me encarando era de embrulhar meu estômago. Os olhares alheios nem me perturbavam tanto, para ser sincera.
Ele era sempre a perturbação, com sua sobrancelha arqueada e expressão convencida, como se ele fosse algum presente divino ou qualquer coisa do tipo.
— Oh não, Tenente , você não estava ouvindo? — declarou, sarcástico. Idiota.
Começou a anotar algo em sua prancheta, balançando a cabeça negativamente. Minha ansiedade despontou em meu peito. O que ele estava tramando?
Uma tosse masculina retumbou, chamando a atenção de todos de volta.
— Enfim, Daniel, você vai então às 6h p.m. para a Estação Central de Controle, onde o clima para esse fim de… — a voz de ecoava longe para mim, enquanto meus olhos continuavam cravados em , assim como os dele em mim.
Seu olhar arrogante atravessava o meu como uma lâmina, vitorioso em prender minha atenção até mesmo quando já estava dolorido de sustentar o contato. O tom de sua íris intensificava à medida que passeava pelo meu rosto, esquentando-o sem minha permissão ou motivo algum.

****


Depois de quatro horas de duração, finalmente a tormenta chegou ao fim. Eu não aguentava mais aquela tensão no ar, o sufoco que estava sendo me manter ali sem gritar algum palavrão.
Ainda mais depois de descobrir que estava na equipe especial de . Agora, sim, eu podia afirmar que estava ferrada. Teria que trabalhar com ele todos os dias, vez ou outra sozinhos na cabine, numa sessão particular de tortura mental. Que a Deusa me ajudasse, ou eu sairia algemada daquele navio por assassinato. Mas também era como se pedisse pelo meu futuro descontrole, afinal, ele podia muito bem me ter designado para a equipe vespertina, a de .
Assim que liberou todos para sair, sua voz grave gelou meus movimentos:
Tenente , você fica.
Olhei-o imediatamente, quase em pé, vendo que o mesmo escrevia tranquilo em uma folha em cima da mesa, sem desviar sua atenção.
— Ãhn, precisa que eu fique ou… — coçou a nuca, sem jeito.
— Não. Preciso trocar uma palavra somente com ela — apontou para mim e olhou brevemente para o amigo, anotando algo rápido, sem me abalar. Senti um enjoo tomar conta de mim e sentei-me, encarando a figura do idiota na minha frente.
O movimento de seus braços fortes sobressaltava os ombros na camisa branca, ao ponto de seus músculos pesados serem notáveis; não que eu o analisasse, só estava óbvio demais.
Em câmera lenta, vi o cômodo esvaziando-se de sons de vozes e presenças fardadas. O último olhar confuso que pescou o meu foi o de , antes do mesmo fechar a porta lentamente. Levantei-me inquieta para andar de um lado para o outro.
— Oh, não, pode continuar sentada. — riu debochado.
— Eu não vou sair correndo, só preciso… me mexer. — respondi-o, impaciente.
— Ok, boa garota… — sorriu provocador, tampando a caneta.
— Não me chama assim… — murmurei hostil, parando de repente para olhá-lo.
— Oh, o que foi? Não gosta de apelidos? Você sempre gostou tanto de usá-los…
— Quer saber, , vai à merda. Pega essa sua provocação e...
— Olha bem como você fala comigo, garota! Eu sou seu superior agora! A situação pode piorar mais rápido do que você imagina.
— Ah, é? Como, ? Me fala como eu estar subordinada diretamente a você, um verme, pode piorar? — apontei nervosa para ele.
— Para bem aí com as suas ofensas! — levantou repentinamente, irritado, com os punhos fincados na mesa. — Eu exijo respeito!
— Como eu vou te respeitar se toda vez que você fala comigo faz questão de ser tão desprezível?! — descontrolei-me, indignada. contornou a mesa ávido, parando bem na minha frente.
— Eu vou falar uma última vez, e é melhor você escutar bem — seu peito ofegava de raiva e uma expressão de ódio estampava seu rosto. — Pega essa energia que você gasta sendo petulante e orgulhosa e transforme em trabalho bem feito. Como você acha que vai soar sua performance em meu relatório após você incisivamente insistir em fazer sua presença aqui na MINHA tripulação ser praticamente inútil, em vez de cumprir com sua função como uma boa Tenente? Ou você acha que a rivalidade entre nossas famílias não tá na mira de nossos superiores? Nossos futuros na Marinha estão em jogo, garota. Nossas funções se cruzaram. Agora é a hora de sermos profissionais e deixar isso tudo de lado. Quer mesmo dificultar mais ainda a missão? — rugiu com desprezo.
Sua fala carregada de razão despejou uma quantidade de realidade a qual eu não estava pronta para receber. Dei um empurrão desajeitado em sua figura, como se pudesse apagar seu discurso ou os fatos com aquele ato.
bufou irritado, seus olhos escureciam à medida que se aproximava. Automaticamente, me encostei na parede atrás de mim, derrotada.
— Você tem muito o que aprender ainda… Sem sombras de dúvida, seus erros de anos atrás não te ensinaram nada.
Então, não pude deixar de rir desdenhosa. Meus erros?
— Como você é presunçoso… — ri histérica. Meus olhos umedeceram, e meu nojo por ele cresceu. — Tudo… Simplesmente… Tudo de ruim que aconteceu é sua culpa. — um fio de voz saiu da minha garganta, como se alguém subtraísse o ar todo do cômodo. — Só porque meu irmão te perdoou e você… Você é meu chefe agora, não quer dizer que pode… ser egocêntrico e… sair falando… — murmurei, afetada, sem realmente conseguir terminar uma fala concisa. Eram inúmeros os sentimentos baixos que me atingiam naquele momento, e sentir a essência quente de cada vez mais perto de mim não ajudava a manter a sanidade. Naquele momento, a ansiedade batia com força na boca do meu estômago. Cada vez mais minha cabeça pesava no pescoço.
Fechei os olhos e apoiei minhas mãos na parede ao lado do meu corpo, minha respiração ofegante soava como uma bóia sendo esvaziada.
Odiava que me visse daquele jeito frágil, despida dos meus freios e muros sólidos de proteção.
— Eu… — tossiu grave.
— Cala a boca e sai de perto de mim — alcancei sua figura e voltei a empurrá-lo como conseguia, sentindo seu corpo robusto em nada se afetar com meus golpes.
— Para com isso, garota. — declarou ao agarrar meus pulsos. Suas mãos eram fortes, quase imobilizavam meus braços. — Para, porra!
Minhas bochechas quentes logo sentiram as primeiras lágrimas de agonia pela situação toda, por todo desconforto que era ter seu corpo tocando o meu. Abri meus olhos marejados e solucei fortemente, experimentando seu cheiro ardente perto demais de mim.
— Me larga! — gritei bestial.
Na minha última tentativa de desvencilhar meus punhos de seus dedos, grudou meus braços na parede, acima da minha cabeça, irritado. O impacto de nossas mãos na madeira dura fez-me encarar seus olhos . A pequena distância entre nós produzia um ar furioso com nossas respirações descompassadas, mesclando sensações dúbias dentro de mim. Um arrepio sensível subiu entre minhas pernas.
— Para… — murmurou, ofegante.
Senti meu peito arder por falta de ar e parei de me mover, caindo num choro inesperado de raiva. O som era alto, meus gritos eram respondidos por pedidos dele para eu ficar quieta.
Era isso que despertava em mim. Emoções sempre extremas e cruéis demais para serem sentidas. Independente da situação, ele era o fator na equação que multiplicava o resultado de suas ações anos atrás, em mais dor e sofrimento para mim.
Seu olhar era incisivo e pesado na minha figura. Penetrava com força dentro de mim, como se pudesse ler o que se passava na minha mente entre uma lágrima ou outra. Ele estava imóvel, concentrado, paralisado por culpa.
Eu sabia que ele ficava assim sem reação quando me via chorar. Porém, a distância de nossas últimas brigas divergiam completamente de todas as outras, o que fazia minha pele arder incômoda por ter sua respiração tão perto do meu rosto, como nunca antes.
Então, fitou minha boca ofegante e afrouxou completamente sua feição séria, magnetizando seu olhar perdido nos meus lábios entreabertos. Nossa proximidade gritou ainda mais para mim.
Eu permanecia paralisada por inteiro, assustada em ter tão abstraído em analisar com minúcia meu rosto, dividindo sua atenção principalmente entre meus olhos e minha boca. Algo me fez perguntar por onde vagavam seus pensamentos e por que eu sentia-me tão entorpecida quanto ele naquele momento.
Talvez se não fosse seu perfume tão… único, que infelizmente já conhecia tão bem, eu já teria saído daquele estado opressivo.
A atmosfera entre nós dois estava tensa, algo no ar cintilava um clímax próximo da situação toda, como uma bomba prestes a explodir.
Ouvi-o limpar a garganta e aproximar seu rosto milímetros do meu, suavizando a pressão nos meus pulsos, descendo-os na altura dos meus ombros, sem largá-los. Seu nariz roçou no meu, e uma sensação quente surgiu na minha barriga.
Como em uma paralisia do sono, nenhum músculo meu reagiu.
— Garota irritante… — murmurou rouco, fechando os olhos fortemente. Seu hálito picante de canela entrava na minha boca, envolvendo-me de um jeito perigoso.
abriu os olhos e me encarou de forma significativa. Não consegui não corresponder o olhar, me sentindo presa. Havia contextos nas nossas ações que eu tentei não interpretar ou raciocinar sobre.

E, então, eu me dei conta. Que merda estava rolando?

Agindo por impulso, dei-lhe uma joelhada na virilha, ouvindo-o urrar de dor. apoiou-se na mesa de reuniões com uma mão enquanto uma expressão de agonia pintava seu rosto.
— Qual seu problema? — vociferou, vacilante.
— Qual o seu problema, seu doente? — respondi-o, ofegante, passando as mãos pelos cabelos.
Antes de mais nada, apressei o passo e retirei-me da sala, marchando rápido no corredor estreito em direção às escadas.
Minha garganta estava mais seca do que nunca, o suor na minha nuca escorria pelas minhas costas como cubos de gelo. Sem pensar muito, dirigi-me ao andar -3, onde ficavam os ambulatórios, hospital do navio e os chuveiros comunitários.
Eu precisava de um banho extremamente frio.


CAPÍTULO 3 – CHAOS THEORY

AVISO DE GATILHO: O capítulo aborda uma situação de abuso sexual/assédio sexual. Se você se sensibiliza com a temática, leia com cuidado.

’S POV
Andar -6, sala de reuniões, 5h20 p.m.

“… vigília noturna toda sexta-feira com horário de início para 1 a.m. até 6 a.m.; liberar Tenente do trabalho vespertino neste dia.”

Os ponteiros do relógio da sala de reunião berravam cada vez mais alto os minutos que eu estava sozinho ali. Larguei a caneta de qualquer jeito e ouvi-a cair no chão; não me importei. Minha visão já estava embaçada pelo cansaço por ter escrito tanto durante e após a reunião. A satisfação em prescrever a primeira punição a era nula, principalmente pelas consequências que isso desencadearia. Porém, essa era uma de minhas funções de chefia agora. Quando sua autoridade na Marinha aumenta, as responsabilidades e deveres escalonam juntas.
Depois de chegar no limite do ridículo das discussões com , eu precisava frear seu comportamento explosivo. E, pelo visto, o meu completamente imprevisível.
Até porque o mais bizarro naquela história toda para mim era: que porra aconteceu comigo, para que, mesmo por um segundo, eu realmente desejasse beijá-la? E por que diabos a vontade não passava? Por que minha irritação não anulava isso?
Ainda mais depois do golpe em cheio que ela tinha dado nas minhas bolas. Eu estava simplesmente incapacitado de sair andando daquela sala naquele momento. A joelhada da desgraçada tinha sido forte e certeira. Preciso confessar que meu ego estava levemente abalado por isso. Não por ela ser uma mulher e ter me derrubado com apenas um golpe, todos na Marinha Real tinham um ótimo condicionamento físico. Mas sim por eu ter sido… repelido?
Não bastava quase beijar aquela garota irreverente, eu ainda fui rejeitado da pior forma possível.
Vencedor do bingo de idiotas aqui, senhoras e senhores.
Ouvi um toque na porta e levantei o olhar.
— E aí, mon amie. — entrou devagar na sala. Respondi-o com um aceno de cabeça.
— Preciso ir à Cabine de Comunicação Ativa. Você já pode descansar. — comentei, apertando meus olhos com mais força. Senti o cheiro de na ponta de meus dedos e meus batimentos aceleraram, como se ela estivesse perto de mim; soltei o ar pesadamente. Ouvi sentar ao meu lado e tamborilar os dedos na mesa.
— A briga foi feia, hein? — riu de leve, apaziguador.
— Tava escutando atrás da porta? — acompanhei seu tom e ri seco.
— As paredes têm ouvidos, mon amie. Para ser mais específico, 296 pares. — brincou com o número de tripulantes da missão. Seu tom ficou mais sério ao limpar a garganta. — Ouvi alguém comentar sobre vozes altas vindas daqui e de sair apressada um tempo depois. — completou, e eu bufei, irritado.
— Ah, claro. Ótimo. Mais história para os falatórios. Nem me pergunta… — continuei com os olhos fortemente fechados e a mão na testa. Suspirei, frustrado.
— Eu não ia. — falou de repente, chamando minha atenção. — Só vim avisar que vou tomar um banho longo, muuuuito longo, e depois vou bater na sua porta pra tomar um trago. — apontou para mim e piscou ao sorrir divertido. — E você, meu amigo, vai ficar mais embriagado que a última vez que saímos juntos. — ri com sua menção, coçando o queixo, nervoso, ao lembrar das horas que já passei em banheiros imundos apenas vomitando as tripas.
Eu não tinha mais idade e nem saco para isso, mas me anestesiar com álcool parecia a melhor opção naquele momento.
— Daqui a uma hora. — declarei finalmente.
— Ótimo, mais tarde então. — bateu a palma na mesa e piscou o olho, retirando-se logo em seguida da sala.
Suspirei, cansado, relaxando a postura na cadeira de couro, porém com meus músculos mais duros que pedra. Pelo menos tinha um membro meu que não estava mais… rígido.
Que momento perfeito para começar a desenvolver qualquer tipo de atração por .

’S POV
Andar -3, vestiário feminino, 5h40 p.m.

O banho não estava nem perto de aconchegante. Todo meu esforço para atrapalhar aquela sensação que eu sentia só a fervilhava mais dentro de mim. O jato de água do chuveiro era forte, e a temperatura, muito mais baixa do que o agradável, fazia com que cada parte do meu corpo tremesse desesperada. E passar o sabonete pela minha pele já anestesiada pela água fria só trazia mais sensações… bizarras.
Sem acreditar muito mais na promessa de um banho relaxante, desliguei o chuveiro. O eco das gotas no chão era alto. Respirei fundo e saí me arrastando, com uma toalha na cabeça e outra em volta do corpo, a ponta do meu nariz parecia a de um iceberg.
E não bastava o dia inteiro ter sido o próprio Armagedom, minha distração havia chegado ao cúmulo da burrice. Ir para o banho sem roupas limpas, e perceber isso apenas depois de colocá-las na máquina da lavanderia do banheiro, era uma bela cagada. Até porque eu não vestiria uma roupa branca molhada para ir até o meu quarto, não é mesmo?
Minha única saída era usar a toalha da cabeça por cima dos meus ombros, cobrir-me da melhor forma possível e rezar para o caminho até o dormitório estar desabitado. Apenas dois andares. Eu conseguiria, não é mesmo?
Botei meus tênis sem amarrá-los e espiei pela porta, enxergando nada além de vazio e uma brisa fria subir pelas minhas pernas. Caminhei um pouco apressada e cheguei nas escadas.
O horário estava ao meu favor, pelo menos. Muitos estavam em suas funções ou dentro de seus leitos, descansando. Mesmo assim, passei a subir de dois em dois degraus.
Porém, como eu devia prever, obviamente as coisas não saíram como eu queria. Ouvi um cantarolar masculino e a figura de um homem loiro aparecer. O sorriso dele abriu, seu olhar sacana encontrou as toalhas que eu estava enrolada, analisando-as minuciosamente. Dirigi-o um “boa noite” baixo e passei por ele com uma pressa desesperada.
Sua mão agarrou meu cotovelo.
— Opa, Tenente , espera…
Virei-me desconfortável, e meu rosto retorceu, aflito. Eu odiava quando pegavam invasivamente no meu braço. Sua postura exibia para mim o perfeito exemplo de macho ordinário. Não havíamos trocado nem uma frase direito e ele já me olhava sacana como se eu fosse nada além de um brinquedo erótico ou um sanduíche apetitoso.
— Os chuveiros são bons?
— Ãhn? — tossi, nervosa. — Bem, são… São duchas normais...
— Oh, claro que sim. Aposto que são. Sabe, fiquei impressionado com você na reunião.
— Por quê? — perguntei sem pensar, arrependendo-me logo em seguida por dar corda àquele cara nojento.
— Bem, alguém com um passado tão transtornado que nem o seu, ter o encargo que recebeu hoje… Deve ser bom ser você na Marinha. Não precisa incomodar-se em como agir, qualquer comportamento é suficiente… — disse em tom amargurado, seu olhar pingava à imoralidade. Minha mente nublou-se, estava desacreditada por ouvir uma difamação tão grotesca. Como ele podia declarar algo tão desprezível daquela forma? Ninguém naquele lugar me conhecia para falar coisa alguma.
A raiva crescente no meu olhar fez surgir devagar um sorriso perverso no rosto dele.
— Como é que é? — perguntei pausadamente.
— Ah, você entende. Todo mundo sabe o que aconteceu e o que você se tornou. É impressionante ver que ainda trabalha nas Forças Armadas! Os critérios devem ser baixos mesmo…
Olhei-o esperta. É sério que ele estava duvidando da minha capacidade?
— Pois é, que engraçado, não é? E, mesmo assim, apesar de qualquer erro que cometi, e das tragédias que enfrentei, ainda consigo ocupar um cargo maior e mais importante que aqueles que têm o “histórico perfeito”. Os critérios são baixos mesmo ou tem muitos incompetentes aqui? — olhei-o de cima a baixo, largando meu braço de sua mão com força. Dei as costas para ele e voltei a andar.
— Não interessa que cargo você está, vai continuar sendo a vagabunda que desfilou por aí de toalha no primeiro dia!
A gota d’água para mim foi ali. Virei subitamente e dei um soco na sua mandíbula, vendo o homem cair para o lado. Daniel apoiou-se desnorteado no corrimão. Sorri satisfeita e ensaiei a voltar a andar.
Infelizmente, antes que eu pudesse me dar conta, ele partiu furioso para cima de mim.
A toalha do meu ombro foi arrancada com violência e minhas duas mãos faziam força para que meu corpo continuasse coberto pela outra, tendo em vista que Daniel a puxava com força. Eu estava completamente vulnerável, qualquer movimento que eu fizesse era incapaz de me proteger dele. Ele pressionava com força seu corpo no meu, lambia e mordia violentamente a pele do meu busto e pescoço, tentava de qualquer forma tirar minhas mãos da toalha. Eu tinha certeza de que seus movimentos bruscos deixariam hematomas em minha pele. Tentei gritar desesperada, porém uma de suas mãos tapou rudemente minha boca.
A cada movimento de esquiva meu, uma memória sensorial aparecia no meu consciente. Lembrei-me com raiva da fatídica noite que algo parecido aconteceu, em que aquele porco nojento sentiu que tinha direito sobre mim e tentou possuir meu corpo à força.
À medida que Daniel pressionava com mais força seu quadril em mim, apertando agressivamente minha cabeça contra a parede, meu desespero crescia num fino suor em minha testa e um choro grosso. Eu podia jurar que desmaiaria de pânico.

Então, senti meu corpo sozinho novamente.

Agarrei o corrimão de imediato, forçando meu corpo a permanecer em pé pelas minhas coxas, que tremiam violentamente. Eu estava ofegante pela minha respiração ansiosa, soluçava pelo meu choro grosso. Ouvi um chiado e sons ao longe, que aumentavam à medida que conseguia me reestabelecer. Pisquei desesperada, precisava enxergar algo em meio a imagens tão embaçadas.

Sangue, xingamentos, súplicas…

, sai daqui! Você não vai querer ver o que estou prestes a fazer com esse verme! — vociferou gravemente enquanto dirigia seu olhar animalesco para mim.
— Por favor, para... Por favor… — Daniel implorava debilmente, seu rosto já estava inchado e molhado de vermelho. A mão enorme de apertava com força seu pescoço.
— Cala a boca, seu merda! — rosnou para ele, olhando-o de forma sinistra. Seu punho chocou-se num som seco contra o rosto de Daniel, a brutalidade era agoniante. — !
Depois que gritou meu nome pela última vez, uma descarga de adrenalina fez-me correr ávida escada acima, desesperada para escapar dos próximos segundos violentos de com Daniel.
Senti um de meus tênis sair do meu pé furtivamente, mas, com os sons violentos dos golpes e os gemidos sôfregos, não me atrevi nem a olhar para trás.

****


Dormitório 22, 6h30 p.m.

O lavabo encontrava-se uma bagunça total. A pia estava molhada e respingada de sabonete de baunilha; tinha espuma até no espelho, retorcendo meu reflexo de forma estranha. Pelo menos o ambiente cheirava mais a mim.
Eu esfregava severamente meu pescoço e colo com a toalha úmida, limpando, enojada, qualquer vestígio de Daniel de mim. Na minha pele, apareciam vergões vermelhos de ambas as violências. Ardia e machucava cada vez mais que minha força aumentava quando sentia um rumor de cheiro alheio.
De repente, ouvi um barulho na porta.
— Merda! — sobressaltei-me e derrubei algumas coisas no chão. — Tenha a santa paciência… — larguei a toalha longe e fui para o quarto. Pelo menos sair daquela atmosfera desesperada de higiene foi bom para a pele do meu pescoço descansar. — Já vou!
Peguei uma blusa preta de gola rolê na gaveta e a vesti, escolhendo a peça justamente por esconder as mordidas e o autoflagelo na minha pele. Pus uma calça de academia da mesma cor e atendi a porta.
Minha voz saiu surpresa pela figura na minha frente:
— Emily? Oi…
— Oi, , posso entrar? — sorriu simpática.
— Ãhn, claro, entra — dei passagem e observei-a se sentar na ponta da minha cama. — A que devo a honra? — Encostei-me de lado na parede, sorrindo.
Emily pegou o controle da TV e a ligou.
— Vim te agraciar com a minha companhia, tenho meia hora livre. — disse em um tom divertido, piscando o olho.
— Oh, que gentileza a sua — Ri de volta, mas logo desmanchei o sorriso ao olhar para o tênis branco de Emily e enxergar pequenas manchas frescas de sangue. Meu coração acelerou, e interrompi minha respiração por reflexo.
, ele já foi levado pro -9. — Emily falou de repente, puxando minha atenção de volta para seu rosto sério, porém terno. — Ficará preso até a Itália, onde será deportado de volta para Londres… Informaram para mim que ele sofrerá tanto processo administrativo quanto criminal. — seus olhos analisavam cuidadosamente meu rosto, que, com certeza, não tinha a melhor das expressões. Tossi por nervosismo, desejando uma água gelada para limpar minha garganta. A sensação era que uma bola se formava nela, me sufocando.
mandou você aqui? — perguntei, trêmula, falhando miseravelmente em tentar soar vaga.
— Não, eu quis vir. Mas ele quem autorizou minha meia hora livre, afinal, ele é o chefe. Logo voltarei para ajudar nos cortes de Daniel e… Senta aqui do meu lado, eu não vou te morder — afirmou em um tom calmo.
Joguei meu corpo na cama ao lado de Emily e deixei as pernas para fora do colchão, repousando meu antebraço sobre meu rosto, numa forma de me anular. Meu raciocínio era uma completa bagunça, igualzinho ao lavabo do quarto. O estresse fazia meus músculos sofrerem pequenos espasmos nervosos e meus dentes rangerem involuntariamente. Senti meu lado supersticioso gritar que o assédio era apenas uma pequena mostra de como seriam as próximas semanas no navio.
Bufei frustrada contra a manga da blusa.
— Eu já passei por uma situação assim, anos atrás — Emily falou subitamente, chamando minha atenção para seu rosto. — Como você deve saber, não tem muitas mulheres na Marinha. — virou-se de lado e apoiou as costas na parede, olhando pensativa para um ponto qualquer em sua frente. — O marujo apareceu no vestiário feminino depois de um treinamento físico, e eu estava lá sozinha. Eu nunca berrei tanto na minha vida, . Eu conseguia sentir a pele dele embaixo da minha unha, tamanha era a força que eu usava para machucá-lo. Minha sorte foi que o vestiário masculino era logo ao lado. Ouviram meus gritos e o tiraram de cima de mim. — suspirou pesadamente. Sentei-me perto dela e peguei nas suas mãos com carinho. — Eu lembro dele puxando meu cabelo com muita força, ele os cheirava de uma forma nojenta. Ele era comprido na época, eu alisava e não pintava de ruivo ainda — sorriu triste para mim. Analisei brevemente seu cabelo curto e não me atrevi a perguntar. — Foi a época que decidi pedir licença das Forças Armadas para cursar Medicina logo, voltei quando você começou seu treinamento.
— Eu sinto muito, Emily…
— Eu também sinto muito por você ter passado por isso, . — sorriu triste para mim e apertou minhas mãos mais forte. — O que eu quero dizer com tudo isso é que, na época, o apoio da minha irmã me deu muita força, me ajudou a superar cada dia mais esse episódio. Por isso, quero te dizer que você pode contar comigo para o que for, . Principalmente durante essa missão. O navio tem macho saindo até do ralo, a gente precisa saber que tem umas às outras. O elo de apoio entre mulheres é muito forte, nada destrói isso. Nada, . — Emily falou, convicta, olhando no fundo de minha íris umedecida. Abracei-a forte na mesma hora, chorando de forma silenciosa. Sem soluços ou lamúrias, apenas grossas lágrimas molhando minha bochecha e sua blusa.
Senti sua mão fazer um carinho afável nas minhas costas, acalmando a tensão que dominava meu consciente. Emily voltou a me olhar, falando em tom baixo e calmo:
— Sabe, tenho a impressão de que, na história de todas as mulheres do mundo, há episódios de assédios de todo tipo. Seja uma piada aqui, um comentário obsceno e ambíguo ali, um toque que nos deixa desconfortável… E dói constatar isso. — Emily limpou delicadamente as lágrimas que escorriam na minha bochecha. — Somos subjugadas até quando especialistas, ensinadas a competir umas com as outras desde criança só para tentarmos ser amadas e aceitas. Chegamos a achar que somos loucas quando somos apenas mal interpretadas! São tantos pensamentos degradantes e falsos, e, na grande maioria, proferidos e perdurados por homens. Só a gente sabe o que sofre, como, quando e onde. Por isso, a união feminina é tão importante. Eu estou aqui do seu lado agora.
— Obrigada, Emily… — falei em um fio de voz ao sentir um soluço vindo. — Obrigada. — abracei-a de novo.
— Tá tudo bem. — falou contra meu ombro, acariciando minhas costas gentilmente. — Ei, eu fico feliz demais que estamos na mesma missão, assim podemos nos reaproximar. Você vai ver o quanto me ama. — disse, convencida.
— Oh, começou! — funguei, sorrindo.
— Claro, ué, sou canceriana! Qualquer um que chora e me abraça, eu já fico emocionada. — Guardou uma mecha minha atrás da orelha — Agora, vou te mostrar um vídeo de um gato que veleja junto com seu dono!

****


Flashback, 9 anos atrás.

O cheiro úmido e salgado do vento que batia em meu rosto era intenso e reconfortante. Meus braços envolviam minhas pernas dobradas, enquanto sentia o ritmo suave das ondas balançando o barco. Enxerguei a figura alta de minha mãe vindo pelo estibordo com um isopor de ombro. Ela andava distraída, procurando algo dentro. Seu cabelo negro e longo grudava no rosto e não facilitava a tarefa.
— Toma, filha. — falou ao entregar-me um sanduíche, tirando as mechas de sua boca. Sentou ao meu lado na popa de nosso barco e admirou o céu, prendendo seus fios por fim — Vamos lá, pode falar. Somos só nós duas agora, sem seu pai, seu irmão, o amigo dele ou até mesmo aquele seu gato preguiçoso, que parece mais uma almofada peluda. — falou divertida, olhando-me rápido. Não pude deixar de sorrir, ainda mais com sua menção ao Gato, meu gato.
Sim, esse era o nome dele.
E sim, eu sou boa com nomes, obrigada.
— Não fala assim do Gato, ele não tem culpa…
— Claro que não. A culpa é da dona dele, que não o escova o suficiente.
— É que nessa época do ano…
— … eles trocam mais de pelos, eu sei, mocinha. Mas eu já te ensinei a tirá-los do uniforme azul marinho, né? Leva só um minutinho, o que é muito menos do que a sua soneca depois do despertador tocar… — minha mãe ralhou, mordendo seu sanduíche despreocupada. Olhei-a com um sorriso incrédulo.
— Abigail , que língua afiada! Você sabe que eu acordo de madrugada, não tem problema nenhum deixar minha soneca tocar meia hora. — ri junto com ela, pegando uma latinha de cerveja no isopor no nosso meio.
, só uma, hein. — falou em tom repreensivo.
— Ah, mãe, hoje é sábado. Papai sempre deixava…
— Ele não está aqui, querida. — declarou calma, derramando um molho vermelho no seu sanduíche. Abri a lata impetuosamente.
— Pois é, não está. — nossas íris se cruzaram na mesma hora, mesclando no ar a tensão do assunto com o cheiro agudo de peixe do cais.
, não fala…
— Não era para conversarmos? Vamos falar então — falei em tom amargurado, mudando minha postura subitamente. Cruzei as pernas e voltei a olhar para frente, bebendo um longo gole da cerveja gelada. Eu sabia que estava exagerando, mas minha tranquilidade havia esgotado muito antes do café da manhã naquele dia.
Minha mãe limpou calmamente os dedos num guardanapo e virou-se para mim, pescando minha atenção contrariada para ela. No mesmo nível que eu queria falar sobre, minha voz hesitava por pura imaturidade de não saber lidar com aquele assunto. Ouvi uma tosse vindo dela de “vamos lá” e bufei.
— Eu achei que você e o papai estavam se separando.
— Nós estamos, querida.
— Então por que ele saiu de fininho do seu quarto hoje cedo? Aliás, agora tem que dormir lá em casa todo fim de semana? Já viu a zona que ele e Mauro deixaram na sala? — virei fervorosa para minha mãe, que apenas olhava-me com um sorriso discreto no rosto. Sua mão alcançou carinhosamente meu rosto, acariciando minha bochecha gelada. Suspirei na mesma hora.
— Filha, seu pai bateu lá em casa de madrugada. Tinha bebido muito, me ligou mais de vinte vezes… — abanou o ar com uma mão, afastando uma provável lembrança deplorável dele. — Pelo menos chegou lá de táxi. Deixei-o dormir no nosso… no meu quarto, enquanto eu fiquei no de hóspedes — segurou em minha mão livre e fez carinho com o dedão, ainda sorrindo. — Ainda somos bons amigos, isso eu te garanto. Sempre vamos amar muito vocês, mas, sabe… — suspirou pesadamente e fungou, olhando para o céu. Uma umidade dolorosa brilhou em sua íris. Larguei minha cerveja de lado e peguei em suas mãos, distribuindo beijos nos seus dedos quentinhos.
— Desculpa te questionar assim, mãe. É que essa história toda confunde muito minha cabeça ainda… Você e papai simplesmente não falam e… Desculpa, mãe. — falei, levemente envergonhada, sentindo-a retribuir maternalmente meus beijinhos na mão.
Toda a situação em volta do divórcio dos meus pais era uma catastrófica incógnita que todos tinham suas versões e teorias. Tudo se tornara apenas um bolo de sentimentos frustrados, pitacos mentirosos e sangue quente subindo à cabeça.
No rosto meigo de minha mãe, estava um sorriso triste, apesar da voz serena.
— E, bem, quanto ao seu irmão e , pedirei que pelo menos tentem subir as escadas até o quarto, ou trancarei a porta dos fundos também. Irão dormir bêbados no jardim gelado, tá bom pra você assim? — perguntou, convicta, e eu revirei os olhos.
poderia simplesmente não aparecer, papai ficou irado em vê-lo lá hoje de manhã. E Mauro, como sempre, saiu em defesa do imbecil.
— Não entendo essa sua implicância com o rapaz, ele nunca te fez sofrer nada.
— Você tá brincando, né, mãe? Ele é insuportável em qualquer circunstância!
— Ele só te provoca porque sabe que você sempre responde irritada…
— A família dele é um covil de cobras!
— Nenhuma família é perfeita, filha.
— E as histórias que o vovô conta?
— Marinheiros adoram narrar anedotas, querida… — Bebeu calma um gole da minha cerveja. — Por que não deixa para odiar o rapaz quando ele realmente te fizer algo? — piscou ao sorrir, tocando carinhosamente a ponta do meu nariz com seus dedos quentinhos.


****


Pisquei meus olhos repetidas vezes até conseguir fixar novamente a visão na janela. Estava abraçada aos meus joelhos com meus pensamentos soltos como plumas numa ventania, indo e vindo à medida que uma memória se tornava ruim demais para ser revista.

“… ele nunca te fez sofrer nada.”

Algumas lembranças eu sabia que eram perigosas demais para acessar, mas, muitas vezes, elas batiam em mim sem serem chamadas. Vinham como um soco no estômago, umedeciam meus olhos com dolorosas sensações de perda e nostalgia. Eu me sentia exausta em reviver tanto isso.
Para tentar reverter aquele limbo mental em que me encontrava, vi uma alternativa de escape na paisagem que pintava a janela do meu quarto. Eu tentava me concentrar no feixe de luz que a lua produzia na água preta, refletindo toda sua graça de um jeito aceso. Subi meu olhar e vi as estrelas cochicharem umas para as outras, espalhadas por cada centímetro de céu, transformando-o em um rosto cor de jabuticaba com sardas cintilantes.
Porém, mesmo tentando observar somente a natureza, tais elementos agitavam minha memória e inundavam meu consciente daquelas noites de verão que eu vivi sob um céu como aquele com minha mãe e vô.
Eram madrugadas cheias de ternura, nas quais passávamos horas apenas conversando e pescando, rindo de bobices e piadas internas que nossa relação formava a cada passeio. Éramos só nós três contra qualquer eventual reviravolta no clima ou nas ondas salgadas. Nossa sorte era que vovô era mestre em ler e desvendar os próximos trejeitos do mar. Ele aproximava-se em silêncio da beira da água, fechava os olhos e ouvia o som molhado ao redor, esperando o veredicto com muito vento no rosto. Quando eu o via sorrir satisfeito, sabia que teríamos uma noite tranquila.
Suas mãos enrugadas e macias sempre guiava a mim e minha mãe para entrarmos na embarcação; meu avô fazia questão desse pequeno gesto antigo de cavalheirismo. Ele sempre teve esse tom cordial e caloroso com nós duas.
Por isso, quando ele ficou muito velhinho para nossas aventuras, eu e minha mãe paramos de velejar simplesmente. Não fazia mais sentido continuarmos, era um programa de nós três. Não existia uma versão da coisa onde navegaríamos sem meu avô ou qualquer coisa do tipo. Minha mãe e eu apenas passamos a frequentar de noite o cais onde nosso barco ficava.
Todo início de fim de semana, ela chegava de fininho no meu quarto, espiava dentro e avisava que meu irmão havia saído, e se eu não gostaria de uma sessão longa de conversa, pôker e comilança na embarcação aportada junto com ela. Com apenas um sorriso, eu me levantava da cama e seguia em seu encalço.
Era meu momento de descarrego da semana, no qual minha mãe ouvia pacientemente minhas lamentações adolescentes e me acalmava com um cafuné reconfortante no cabelo. Suas unhas compridas faziam os melhores carinhos do mundo.

Não ter mais nada disso era uma crueldade da qual eu sobrevivia há mais de seis anos.

“… quando ele realmente te fizer algo?”

Já foi difícil na época aceitar a ausência madura de meu avô, apesar de natural. Eu sabia que, uma hora ou outra, a senilidade gritaria e ele repousaria em casa mais que qualquer coisa.
No entanto, ter de encarar o novo domicílio da minha mãe como sendo um hospital, sem que ela nem mesmo fosse capaz de respirar sozinha, esgotou a minha vontade de viver, na época. Como eu poderia ser feliz ou aproveitar a vida, sabendo que ela estava inerte, imóvel e sem reação a nada? Ainda mais quando a vida de todos continuava normal e seguindo na boa. Eu reclamava de caprichos fúteis que minha mãe não tinha, nem a oportunidade de aborrecer-se.

“Por que não deixa para odiar o rapaz quando ele realmente te fizer algo?”

A voz dela, apagada e dolorosamente vaga na minha memória, fazia o ódio por triplicar na minha corrente sanguínea. Alimentar o meu desprezo por ele era um dever, principalmente quando a presença invisível de minha mãe ecoava lembranças como aquela. E posso afirmar que não foram poucas vezes. Nos últimos dias mesmo, a sensação me sufocava, produzia rebuliços ansiosos, que eram capazes de me fazer vomitar.

surgiu odiosamente em meus pensamentos, trajando seu uniforme branco repleto de insígnias, com aquele sorriso debochado, enquanto me encarava de um jeito presunçoso.
Fechei os olhos para espantar tais imagens e suspirei, cansada. Tudo apenas mostrava o péssimo humor que o destino tinha de escrever minha vida baseada numa piada de desgosto.
E, para piorar todo o drama, eu me atormentava com o constrangimento de quantas vezes me tirava furtivamente de inúmeras situações passíveis de mais tragédias. Odiava esse papel dualista que ele tinha na minha vida. Uma hora me enfiando em mais sombra, outrora acendendo uma vela no fim do túnel e salvando minha pele.
Porém, independente do lado que pesava mais na minha mente, eu sempre presumia que o ódio era o que gritava mais alto. Era cômodo e me parecia mais certeiro. Era fácil culpá-lo por tudo e simplesmente odiar o óbvio vilão da minha história.
De repente, senti minha garganta apertar mais com possíveis lágrimas e levantei. Não podia ficar naquele quarto respirando aquela atmosfera pesada e abafada.
Precisava de ar fresco e sair do meu quarto. Naquele momento, era o melhor que eu podia fazer por mim.

’S POV

Cheguei em minha suíte e tirei a blusa de forma violenta, fazendo com que alguns botões fugissem da costura e pulassem desesperados por todo o carpete. O cheiro nojento e metálico de sangue surgia ao meu redor, assim como dentro das minhas narinas, irritando ainda mais cada nervo do meu corpo.
Eu queria esmagar algo.
Gritar de raiva até minha voz falhar e meu fôlego acabar.
Aquele merda, verme, imbecil degenerado. Quem ele pensava que era para abusar de alguém, principalmente de , ainda mais na minha tripulação? Se o outro marujo não tivesse aparecido de repente nas escadas, meus punhos com certeza esmagariam o crânio vazio e miserável daquele saco de lixo. Porém, quem deveria ocupar as celas do navio era Daniel, e não eu.
Filho da mãe…
Era tão sequelado que chegou ao ponto de tentar atacar-me antes do encarceramento. Qual era o plano dele, afinal? Ele achava que fugiria para onde? Ia se jogar no mar? Naquela altura, temperatura e distância da terra firme? Morreria na hora. Imbecil.
Não seria uma má ideia, mas qualquer óbito no navio seria responsabilidade minha, de alguma forma. Minha tripulação era de quase trezentas pessoas. Como comandante, deveria deixar tudo em ordem com cada um deles.
Com toda certeza uma dose de vodka pura seria bem-vinda. Talvez três ou quatro, eu estava pouco me importando. Cheguei ao mini bar do meu quarto e parei bruto, apoiando minhas mãos com força na borda. A adrenalina corria irritada nas minhas veias. Cocei meus olhos, bufei exasperado, contei até 100 e suspirei. Peguei a garrafa e bebi alguns grandes goles do destilado, sem nem me servir num copo. A urgência de entorpecer meu corpo era alta. Caminhei até o banheiro junto da bebida e me despi. Precisava esfriar minha cabeça e limpar aquele cheiro patético em minha pele.

****


Saí tonto do banheiro, o vapor quente atrás de mim acompanhava meus passos e separava os cômodos como uma cortina de gotículas. Sequei meu corpo e vesti uma calça de moletom apenas. Precisava sentir a sensação de calafrio na pele, ainda mais com aquele oportuno vento gelado. Desconfortos físicos eram sempre uma boa estratégia para me distrair de irritações. Principalmente com meu corpo fervendo pelo banho quente nada curto. Não me orgulho de confessar isso, mas foram pelo menos cinquenta minutos embaixo d’água. Não adiantou muito para acalmar meus pensamentos homicidas, mas foi o suficiente para não ir atrás do erro de esmurrar mais a cara de Daniel. Suas súplicas se desligavam da minha cabeça à medida que a água pelando queimava minha pele. Eu conseguia atingir breves silêncios que ardiam.
Ao menos o choque térmico foi agradável o suficiente para arrepiar suavemente toda minha pele, do mesmo jeito que ocorria quando o cheiro de entrava em meus pulmões e…

Ãhn?
Ok… Eu não pensei nisso.

Peguei a garrafa de bebida e fui até a sacada, buscando, afobado, minha luneta no caminho. Sentei-me em uma das cadeiras e passei a observar a noite. Se ao menos eu possuísse meu telescópio no navio, poderia muito bem me distrair achando no céu as constelações que meu pai havia me ensinado a identificar. Era meu hobby particular, uma das poucas coisas que acalentava minha alma e me tirava completamente de alguma ruína mental. O céu estrelado, assim como a magnitude do oceano, me transportava diretamente para minha infância. Aqueles anos de vida que voltam sempre mergulhados em nostalgia.
Mauro apareceu na minha mente. Peguei o celular no bolso e disquei impulsivo seu número.
? Fala, irmão! — Mauro atendeu animado. Senti uma pontada no estômago e dei mais um gole da vodka. — Tudo bem por aí? — sua voz puxou um tom mais preocupado quando a minha demora para responder estendeu-se.. — ?
— Calma, cara, tava bebendo… — pigarreei, arrependido de ter feito aquela ligação.
, já falei pra não me ligar bêbado, cara. Eu sei que tu é apaixonado por mim, mas… Eu curto mulher — zombou de mim.
— Você e o tão que tão hoje, hein? Daqui a pouco, eu vou desconfiar que vocês estão jogando verde pra colher maduro comigo.
Porra, o ! Que saudade de zoar com ele! Como ele tá? — mais exclamou que perguntou.
— Ele parece estar bem. Tá feliz que voltou pra Marinha. E odeio falar isso, mas ele está de olho na . — confessei com certo desprezo, surpreendendo a mim mesmo. Tossi, incomodado.
Porra, desgraçado… Tinha que ser… Qualquer coisa dá um soco nele por mim se fizer algo de errado com a . A gente sabe como o pode ser com mulheres. — Mauro suspirou, cansado, e meu nó na garganta apertou mais, fazendo-me beber novamente. Ele sabia o quanto sua irmã fazia o que queria e como nosso amigo poderia beneficiar-se disso. — Mas não foi por isso que você me ligou, né? — Mauro perguntou, esperto.
Eu realmente não deveria telefonar alterado para ninguém, já estava mais que arrependido do meu ato pelo conteúdo da conversa que eu teria com ele.
Desembucha, porra. Aconteceu alguma coisa com a ? — Mauro soou mais preocupado e ávido que antes. Mais um gole de vodka.
— Um subtenente tentou… — pigarreei indisposto, o álcool escorria como fogo na minha garganta. — A foi assediada por esse subtenente, episódio parecido com aquele de anos atrás. — comentei em um quase fio de voz, incomodado em verbalizar aquela cena. Olhei tonto em direção ao horizonte, e a lua estava completamente turva e duplicada. Eu já estava bêbado.
Porra! Quem é esse moleque? Caralho, ele vai ver só, mano. Acabou a carreira desse merda, já era o sossego na vida dele. Esse bosta vai ver o que é viver o inferno na Terra… — Mauro continuou proferindo indignações bruscas, afundando sua fala em puro desgosto. Não era para menos. Depois dos tantos episódios trágicos da vida de , o cuidado que Mauro tinha com a irmã caçula havia triplicado em todas as circunstâncias.
E, apesar de não ir com a cara dela, eu prometi a Mauro que ficaria de olho e a cuidaria da melhor forma possível, como fiz algumas vezes no passado. Não foram poucas as situações esdrúxulas que eu me meti por causa de .
? — Mauro indagou, ávido. Seu fôlego era nervoso, ofegante, como se andasse de bicicleta naquele momento.
— Eu desfigurei o rosto daquele babaca — falei de repente, minha voz pingava a ódio. — O imbecil chegou a desmaiar ou fingir que desmaiou. Belo primeiro dia de missão… — interrompi-me ao ver a pequena figura de caminhando distraída pelo convés, indo em direção à proa. O que ela estava fazendo lá sozinha, nesse frio, depois do que aconteceu? — Mauro, eu te ligo amanhã. — tirei o celular do rosto e ainda pude ouvir um protesto do outro lado, mas rapidamente desliguei a ligação. Eu estava alterado demais para aquela conversa, para ser sincero. E caminhando solitária em direção à proa, encolhida em si, tirara minha atenção de qualquer outra ação que eu pudesse exercer.
Seu caminhar era lento e pesaroso. Quando não estava de cabeça baixa, olhava longamente para os lados e para o céu, como se procurasse algum alento imediato. A cada nova soprada de vento, seus cabelos longos balançavam afoitos. Eu jurava que, se me concentrasse, poderia sentir seu cheiro me alcançar pela brisa.
passava as mãos pelos braços vez ou outra, apequenando mais sua figura. Puxava em vão as mangas de sua blusa fina, esticava a gole da blusa com raiva... Senti um ímpeto de sair correndo para encontrá-la e apaziguar todos aqueles sofrimentos bárbaros que ela enfrentava. Queria garantir que ela não precisaria sentir qualquer angústia ou medo, que eu estava ali para ela, para abraçá-la e…

Espera, o que eu estava pensando?
Só podia ser o álcool.

Encurtei minha luneta e guardei-a no bolso, tão indignado comigo mesmo que quase derrubei-a no chão. Xinguei mentalmente todas as minhas versões bêbadas e respirei fundo. Aquele era um objeto de sorte na minha família, era sagrado para os . Fora do meu bisavô quando o mesmo foi General na Primeira Guerra; era passado de geração em geração sempre que uma conquista notável era alcançada. Recebi-a quando fui efetivado para meu atual cargo. O sorriso orgulhoso e o abraço forte do meu pai, ao entregá-la a mim, era uma memória muito viva no meu consciente. Eu a usava de subterfúgio vez ou outra para obter boa sensação quando sentia algo ruim me dominar.
Passei as mãos no meu cabelo, desordenado assim como minha mente estava; a mania de ficar nostálgico quando eu bebia era sufocante às vezes. Pelo menos podia culpar algo externo para justificar meus pensamentos mais sensíveis.
Levantei-me da cadeira, apoiei-me no parapeito da sacada e continuei a observá-la ao longe.
demonstrava estar absorta demais em seu próprio mundo. Vê-la andando daquele jeito perdido me fazia sentir um leve receio; qualquer situação perniciosa que ocorresse com ela poderia desencadear uma série de comportamentos autodestrutivos que viviam adormecidos dela. E, uma vez que esse lado despertava, um caos colossal respingava em todos. Eu sabia que ela era uma bomba-relógio com potencial de explodir em qualquer hora.
E tudo isso fazia uma questão particular e assustadora crescer em mim: o fato de, novamente, sentir meu ódio por ela evaporar pelos meus poros, desobedecendo minha mente condicionada para tal. Eu chegava a ficar tonto com essa possibilidade.
Compreendia que muitas vezes ela me tirava do sério como nunca ninguém tirava, no entanto… Eu também sabia muito bem que era minha resposta automática de defesa pelo modo que ela agia comigo. Uma ação e reação de reflexo, basicamente. Porém, era bizarro enxergar com os próprios olhos o quanto aquele sentimento de desprezo era uma farsa, na verdade.
Essa sensação me atingiu primeiro logo após o acidente de sua mãe, quando afundara-se em um submundo de distrações viciantes e sintéticas. Quase fora expulsa da Marinha por suas atitudes irresponsáveis, apesar do histórico exemplar e família conceituada no meio. Inclusive, foi a influência e súplica de seu avô que salvaram sua pele, e ela nem ao menos sabia disso. ganhou apenas uma dispensa por problemas de saúde e pôde regressar ao seu cargo normalmente após aquela fase.

Fase…

Como eu não desenvolveria empatia pela garota, não é mesmo? Ainda mais com a culpa que gritava nos meus ouvidos. Eu sabia que minha parcela de autoria era alta para ela ter se afundado daquele jeito. Por muito tempo, inclusive, eu tirei forças de onde não tinha para não cair no mesmo buraco que ela. O apoio e o perdão de Mauro foram substanciais para manter-me sóbrio. E isso, infelizmente, deu o efeito reverso a .
Eu sentia em sua íris que toda vez que ela me olhava, ela sofria, enxergava o mal de sua vida. Preferia submeter-se a uma lobotomia agressiva para esquecer quem eu era e o que eu causei a ter que ressignificar minha presença e lidar comigo.
Eu a conhecia o suficiente para afirmar que, nas próximas semanas, ela passaria por muitos momentos de aflição. Afinal, estava longe de sua família, sofrera assédio logo no seu primeiro dia de missão e trabalharia subordinada ao “monstro que destruiu sua vida”.
Porém, dentro de mim, minha teimosia cintilou uma ideia nova. Se eu tinha sido capaz de mudar minha opinião em relação a sem nem ao menos querer ou tentar, havia outra mísera possibilidade do mesmo ocorrer com ela em relação a mim. Abri um sorriso perverso com a ideia, iluminando aquela pequena parte de mim que permanecia em total escuridão há anos.
Continuei a observar sozinha por mais alguns momentos, até ver aproximar-se e tocar-lhe o ombro calmamente. O que ele fazia ali?

POV’S OFF

O pesado navio militar atravessava firme a superfície macia da água, fazendo sangrar, na negritude do oceano, uma espuma branca e passageira. Encarando o movimento encrespado do mar, estavam aqueles olhos, sempre tão humanos e cheios de vivência, imersos em observar cada fenômeno marítimo. A jovem encantava-se toda vez que percebia a água ganhar uma aparência fina de cetim sob a luz branca do luar.
O vento forte vindo do Sul fazia voar longe as expectativas de em ter uma boa primeira noite de sono no dormitório 22. A amargura fazia seu coração bater tão pesado que ela jurava estar em ritmo lento e desacelerado. O eventual frio que escolheu sentir naquele momento não a afastava do caos que vivia dentro de sua mente. A pele sensível de seu pescoço coçava por debaixo do fino tecido de tricô, costurando mais uma sensação incômoda para que ela vestisse a força. Sentia-se sobrecarregada emocionalmente, com os olhos tão úmidos que, vez ou outra, precisava piscá-los com mais força para desembaçar a vista e continuar a olhar o mar de cetim. botava a culpa no vento salgado por sensibilizar e molhar sua íris, não queria acreditar que chorava pela milésima vez no dia.
Afastou-se um momento da grade da proa com seu silêncio de luto. Agarrou os cabelos do couro cabeludo com seus dedos trêmulos e gelados. Estava frustrada, tinha vontade de gritar por seu chão esvair-se mais uma vez, como quando sua mãe fora vítima daquele atentado trágico e sanguinolento.
De repente, sentiu uma mão intrusa em seu ombro.
— Merda!
— Nossa, desculpe! — sorriu sem graça pelo sobressalto da moça, pousando uma mão no peito. — Eu tenho que parar de te assustar toda vez que nos encontramos.
— Cuidado que meu coração não é dos melhores… — tentou falar em tom jocoso, mas sua voz estava levemente embargada. Limpou as lágrimas sem graça, fungando baixo, com uma tentativa de sorrir para o homem ao virar-se. percebeu seu rosto inundado de tristeza e murchou seu sorriso na hora, preocupado.
— Ei, o que aconteceu? — aproximou-se e instintivamente envolveu suas mãos no ombro da mulher, olhando no fundo de sua íris envidraçada por lágrimas. Sentiu uma pontada no peito por perceber aqueles olhos tão humanos exalarem tanto descontentamento.
suspirou e sentiu a tristeza encurtada pelo susto inesperado que levou do homem. Ensaiou mais um sorriso pequeno.
— Nada de mais, é só um momento de descarrego por uma situação bosta que aconteceu… — disse, mais tranquila, abanando a mão no ar como se espantasse uma mosca qualquer.
ainda a olhava tenso e continuou com o leve carinho em seus ombros, lembrando de mais cedo.

“As brigas com realmente a afetam..”, pensou sozinho.

— Tem certeza? Eu sou um ótimo ouvinte, quase não bocejo. — brincou, amigável, e piscou um olho para a moça. riu pela bobice e sentiu que a aura pesada que sua mente criava com certa frequência fora quebrada quase que imediatamente pela presença leve de . O sorriso do homem a encantou até a mesma desnortear-se em pensamentos de como seria o casamento dos dois.
balançou sua cabeça negativamente e sorriu mais uma vez, feliz em conseguir ir em lugares mais afáveis com sua mente.
— Obrigada, de verdade. Mas, pra ser sincera, queria mesmo é distrair a cabeça com um chope escuro…
— Nesse frio? — o homem franziu as sobrancelhas e balançou negativo a cabeça. — Não… Nesse frio, você precisa disso daqui — retirou subitamente de dentro do casaco uma garrafa retangular com um líquido escuro e viscoso dentro, a tampa imitava a cabeça de um alce adulto. — Licor alemão de cinquenta e seis ervas, Jägermeister! Oh, não, não, é bom, eu juro! — falou com uma empolgação autêntica, apesar da careta de pela menção de “licor de ervas”. Nas suas poucas experiências bebendo licores, sempre golfava muito fácil pela espessura doce do álcool.
— Bom, esse realmente eu nunca provei… — disse, incerta, ao ver abrindo o lacre empolgado.
— Você gosta de bebida doce?
— Não exatamente…
— Oh… — o homem parou e abriu um bico rápido, o qual fez derreter imediatamente.
— Mas eu faço questão de experimentar! — a moça insistiu em um gesto de incentivo com as mãos. sorriu contente.
— Essa garrafa é muito especial pra mim, ganhei do… De um amigo muito querido quando fiz trinta anos — confessou, porém escondeu que havia sido o autor do presente. Não queria estragar a áurea mais relaxada que havia conquistado de ao mencionar o seu desafeto.
— Nossa, faz um tempo, ãhn? — disse, sem pensar muito, e a olhou com uma incredulidade divertida.
— Ouch! Só tenho trinta e seis!
— Oh, meu Deus, mil desculpas, Subcomandante, eu… — começou a explicar-se, mas se enrolou.
— Hey, relaxa, eu tô zoando. Pra falar a verdade, eu já tô mais perto dos quarenta do que dos trinta mesmo… — ele riu tranquilo e deu de ombros. — E é pra você, Tenente. — piscou galanteador para ela. sentiu um calor de timidez subir em suas bochechas e desviou o olhar brevemente para o mar. — Toma, faça as honras. — entregou a garrafa recém-aberta a ela.
A mulher entornou um gole do líquido grosso, sentindo o sabor doce de plantas aromáticas embalar seus sentidos com a intensidade peculiar das 56 ervas. Um amargor gostoso precedeu rapidamente a doçura. Não se sentiu enjoada. O homem a olhava com expectativa.
— Então…
— Esse licor é dos bons, uhn… — falou, impressionada por seu paladar aceitar a bebida forte. Bebeu mais um gole e fez o homem gargalhar, satisfeito.
— Que bom que gostou! — pegou entusiasmado a garrafa de sua mão e deu três goles grandes seguidos. Tossiu pelo excesso. — Vamos comemorar uma coisa aqui, little . — o homem sentiu-se confortável em ser mais íntimo com a mulher, encantado pelos olhos tão humanos o olharem com um brilho mais descontraído.
Little?
Little ! — repetiu divertido, bebendo mais um gole e fazendo rir. — Vamos brindar à vida, que é uma merda, mas nos botou na mesma missão de escolta! Talvez não tenhamos sido fortuitos o suficiente para cair na mesma equipe, mas… Um brinde ao fato de nos conhecermos finalmente! — declarou, animado, apesar de nunca ter passado por sua mente querer conhecer .
— Um brinde! — declarou, igualmente divertida. A mulher pegou a garrafa de sua mão, arrastou seus dedos nos de e olhou-o mais solta. Era incrível o quanto seu estômago vazio fazia com que o álcool subisse sua mente tão rápido. Sentia-se destemida e sem a cansada timidez ao ver um homem tão charmoso na sua frente quanto aquele. Além do mais, era incrivelmente cordial, um colírio para os olhos e uma ótima companhia. Para ela, não tinha um porquê conciso em não retribuir aquela simpatia dúbia. Bebeu mais dois longos goles da garrafa de 500ml.
— Um brinde… — repetiu, provocativo, enquanto a fitava intensamente.

****


, do alto de sua cabine, olhava a cena embasbacado. Toda a intimidade demonstrada pelos dois, os goles companheiros na bebida, os toques furtivos de , o sorriso frouxo de
Tudo que o homem experimentava era intenso e ruim. Sentia-se completamente embaralhado pela milésima vez no dia quando o assunto era a garota. Estava tudo ruidoso demais para que entendesse que era ciúmes de que o dominava naquele momento.
Claro, não via nada de errado na garota interagir com alguém, mas o pé atrás que tinha com gritava que uma conversa mais romântica entre os dois poderia ocorrer e culminar em tragédia.
Seu coração pulou ao ver os dois se aproximando fisicamente e, de súbito, um sangue quente subiu no seu rosto. Seu punho fechou raivoso em volta do que segurava ao pensar que flertaria com sem pestanejar.
Bebeu mais um gole da vodka, que já deslizava como água na garganta pelo tanto que havia consumido.
Continuou a observá-los, desejando que proferisse um tapa no rosto de . Bufou irritado e foi em busca de suas cigarrilhas vermelhas e picantes.
Estava inconsolável.

****


9 p.m.

As discretas luzes noturnas do navio iluminavam com timidez por onde tocavam, projetando uma sombra maior que a claridade das lâmpadas. Na penumbra da imensa proa, dois corpos lânguidos ensaiavam uma valsa enrolada, entre tropeços e risadas frouxas, bêbados com uma alegria perene. Uma música romântica em francês era cantarolada por um deles.
O homem tentava debilmente guiar a moça na dança, girando-a vez ou outra, sentindo o perfume dela voar junto com seus cabelos e entrarem no seu organismo, inebriando-o.
pisava risonha nos seus próprios pés, gargalhava como não fazia há anos, sentia-se leve e sem nenhum peso ou culpa assolando sua mente. A única coisa que lhe passava na cabeça era terminar a bebida e sentir de qualquer forma. O toque firme do homem na sua cintura fazia com que calorões deslizassem por entre suas pernas, amolecendo-as ainda mais. Não que ela ligasse, pois aproveitava da tontura da embriaguez para agarrar-se mais a ele e ter seu calor mais perto.
subitamente soltou a mão de , que a olhava sorrindo, e foi até a grade da proa, em uma tentativa esnobe de imitar sozinha a cena romântica de Titanic. Suas bochechas fumegavam e a pele do pescoço pinicava embaixo da blusa, mas não se lembrava do porquê. Só queria sentir a brisa fresca do mar levar para longe sua falta de fôlego pela dança. Sentiu uma vontade súbita de mergulhar na água negra de cetim.
Abriu os braços e quase caiu, segurando-se rapidamente no ferro à sua frente. apressou-se para perto dela.
— Ei, deixa que eu te ajudo — ele sussurrou contra o ouvido de , pegando nas suas mãos e entrelaçando os dedos. A moça arrepiou-se pelo hálito quente e o tom baixo do homem; era como se ele lambesse sua pele sem nem ao menos tocar a língua no seu corpo.
aproximou-se mais e preencheu o vazio nas costas de , encaixando perfeitamente seu corpo no dela e abrindo os braços de ambos vagarosamente. O vento estava inescrupuloso e forte.
— Fecha os olhos… — sussurrou, roçando devagar seu lábio no lóbulo da orelha de , amando cada movimento sutil da excitação dela em resposta.
A moça nem se lembrava que estava num navio militar, deixou-se levar por completo pela aura sensual que o homem criou. Era como ter um feitiço forte de hipnose dominando todos seus sentidos, inundando-lhe a cabeça com pensamentos lúbricos. O tronco grande de abocanhava a pequena figura de , que se ajeitava estrategicamente para tocar mais seu corpo no dele. O vento forte não fazia nem cócegas perto das sensações extremas que ela sentiu ao tê-lo tão perto assim.

— Sim, magnifique
virou-se e automaticamente circundou com seus braços o pescoço de . O mesmo abraçou com força a cintura dela.
— Eu já estou completamente bebadra declarou, alterada, enxergando tudo muito embaçado.
Seulement toi, petite?
— Ãhn? — abriu um sorriso confuso.
— Desculpe — riu pela sua tolice —, é mais fazil falar no meu idioma nat… nativ… nativo, quando tô bebadu declarou, rindo mais ainda pelos seus erros. derreteu-se novamente e desvencilhou-se do homem ébrio para olhá-lo melhor. Catou o licor do chão.
— Olha, falta só um golim… — levantou furtiva a garrafa quase vazia que segurava. mirou para o restante do líquido, mas, antes que pudesse falar qualquer coisa, a moça bebeu todo o conteúdo de uma vez. Nenhuma careta proferida, apenas um sorriso largo e divertido cresceu no rosto de .
— Ah, não, magnifique… Era pra deixar um golinho pra mimmm. — disse em tom manhoso.
— Demorou demais! — a moça exclamou, grudando a garrafa vazia no peito do homem. O mesmo tentou sorver risonho qualquer resto, mas não conseguiu.
— Você é malvada. — declarou num falso aborrecimento, encantado em como os olhos de brilhavam divertidos. — Vem cá, vem. — Num piscar de olhos, agarrou com força a cintura da mulher.
— E voze é lerdo… — declarou, risonha, circundando o pescoço dele.
Ambos guiaram-se abraçados, entre risos e tropeços, até a grade onde apoiou suas costas.
— Oh… — disse simplesmente, sem conseguir raciocinar ou dizer qualquer outra coisa. Segurava debilmente a garrafa na ponta dos dedos, mas apertava o corpo da moça contra o seu com vontade.
— Oh… — repetiu, provocativa, encostando seu nariz no dele. largou a garrafa sem se importar e subiu a ponta de seus dedos vagarosamente por debaixo da blusa de , sentindo a pele macia dela invadir seu organismo de desejos libidinosos. A moça arrepiou-se e debruçou mais seu corpo no de , que sentiu seu membro latejar contra o fecho da calça. remexeu-se no volume duro e soltou um gemido baixo pelo prazer quente que subiu na sua intimidade. Ambos suspiraram fortemente, fundindo ainda mais suas respirações ébrias.
Sem pensar em mais nada, finalmente selou os lábios de com um beijo lascivo e desesperado. A umidade alcoólica dos lábios fazia crescer a aura libertina de ambos, que aprofundaram ainda mais o contato de suas línguas entrelaçadas e afoitas. mordeu o lábio inferior de , que deu um tapa forte na sua bunda em resposta, fazendo-a gemer entre o beijo pela sensação de dualidade que a dor lhe infringiu. Adorava certas práticas mais brutas em horas de intimidade, e constatar que tinha uma mão firme só fez crescer seu desejo por ele. O homem sorriu satisfeito e apertou o local com força para que o corpo dos dois se tocassem mais.
Então, o celular de tocou alto.
— Porra… — partiu o beijo frustrado, revirando os olhos. , alcoolizada, deu um beijo no pescoço de e afastou-se de braços cruzados, dando-lhe privacidade para atender.
Porém, por mais distante que estivesse, ela conseguia escutar partes da conversa de que ocorria com ; a voz de ambos estava alta e alterada. Ouviu que era para os dois reunirem-se, entretanto houve um desencontro. Também teve o horário do jantar, o qual nem ou compareceram ( também não, pois não conseguiu parar de checar “os pombinhos” vez ou outra, apesar de sua desculpa ser outra).
sentiu uma preocupação nova em seu coração, referente diretamente ao seu profissionalismo na missão. Uma culpa católica pesou sua mente. Olhou subitamente para o homem, que também era um de seus chefes, e o viu guardar o celular no bolso com uma cara não muito boa.
— Hey — estendeu a mão para ela pegar, sorrindo discreto. — Eu pesizo… — tossiu ébrio em meio a um sorriso. — Eu preeciiso ir. — pescou os lábios de antes da mesma responder, afundando novamente o beijo em um contato caloroso até ambos ofegarem de prazer. murmurou um “gostosa” contra seus lábios, sorrindo sacana, e riu sem graça.
Pegou na mão dela e começou a guiá-la por todo o convés. Ambos tropeçavam nos próprios pés, riam tortos nos degraus, tropeçaram novamente no maldito carpete de veludo azul, que “de tão brega, arde os olhos”, como pontuou.
Vez ou outra, aproveitava os corredores vazios para pressionar novamente seu corpo contra o de , inebriando-se pelos gemidos úmidos de desejo que escapavam dos lábios dela. A vontade de era de devorá-la ali mesmo. Sentia seu organismo inteiro gritar para ter seus toques mais íntimos, seu cheiro mais perto de sua pele, seu suor misturando-se com o seu quando seu corpo chocasse contra o dela…
pegou nas coxas de e fez força para pegá-la no colo. Contudo, ela protestou trêmula, sentindo a ereção dele posicionada estrategicamente demais para ela resistir.
… — gemeu repreensiva, com os olhos fortemente fechados por prazer. O homem mexia-se contra ela, já sem se importar caso alguém aparecesse no corredor.
Magnifique… — sussurrou ao beijar o queixo da moça, devorando seus lábios novamente.


CAPÍTULO 4 – BLUE TILE

POV’S OFF

O dia era frio. Um tapete acinzentado e grosso insistia em cobrir toda a extensão do céu, embaçando os poucos raios solares que se atreviam a extrapolar os limites das nuvens escuras. A fina chuva que pintava o cimento do cais também molhava timidamente os uniformes dos marinheiros que ali trabalhavam. Cordas puxadas, âncoras levantadas, mãos limpando o suor da testa.
Com o passo despreocupado e ar confiante, o homem esguio respirou fundo o cheiro de sal da maresia e sorriu satisfeito. Olhou para trás e viu seu amigo, extremamente absorto em abrir um chocolate qualquer. Mesmo concentrado, percebeu a olhadela do amigo.
— Empolgado para desbravar a boemia da França,
mon amie? — perguntou, sorrindo, finalmente olhando para .
— Ainda é dia, . Sossega esse teu traseiro. — respondeu em tom zombeteiro.
— Até parece que não vai ser você o primeiro a cair bêbado no chão. — ralhou. Mordeu seu chocolate e mostrou um sorriso marrom de satisfação, do qual riu.
— É você sempre que dá trabalho, porra. A última vez mal conseguia falar de tão doido. — empurrou-o de leve e apenas deu de ombros, comendo despreocupado seu doce.
Ambos continuaram a caminhada pelo cais francês de Toulon, localizado no canal do Mar Mediterrâneo. Era a segunda missão internacional que faziam juntos, e já haviam levado duas advertências por medidas disciplinares. não ligava muito, sentia-se imune; irritava-se com certas posturas prepotentes do amigo, mas não o deixava sozinho por saber que sua presença servia muitas vezes de freio para as atitudes imaturas dele.
olhou em volta e reparou na atenção que chamava, tendo em vista o pai que tinha.
— Você não estava de brincadeira, hein, parece que todo mundo aqui te conhece.
— Não só parece, como é,
mon amie… Quem sabe eu consiga uns shots de graça e umas francesas bonitas para nós hoje. — piscou, convencido, um olho para , que apenas sorriu e balançou a cabeça negativamente.
Continuaram em direção ao clássico bar
“Eau Salée”, onde os marinheiros que ali aportavam eram fregueses assíduos. O local datava mais de 100 anos; entre guerras e declarações de paz, sobreviveu funestamente pela história. Suas paredes contavam anedotas macabras.
Assim que adentraram o bar deplorável e abafado, um silêncio curioso fez-se em conjunto com os olhares desconfiados para eles, que ambos receberam com o peito estufado.
Sentaram-se ao balcão velho de madeira e pediram um chopp para cada um. O som de cochichos do bar retornou.
olhou para o fundo do salão escuro, onde pôde enxergar buracos redondos nas paredes, que se assemelhavam a tiros de arma de fogo. Os furos deixavam a luz fraca do dia invadir o pequeno cômodo, iluminando os corpos estranhos que ali se embebedavam. Uma sensação gelada atravessou sua espinha e um pressentimento ruim apitou no seu organismo.

“Onde eu estava com a cabeça quando aceitei o convite de ?”, pensou, apreensivo.

— Mais duas doses de whisky pra esquentar o corpo, ok? — pediu em francês, piscando o olho para a bartender, que tinha no rosto uma expressão aborrecida. O homem deu uma boa olhada nos seios protuberantes dela, que pulavam no decote, e sorriu. — Hoje vai ser uma noite daquelas,
mon amie! — disse, animado, esfregando as mãos maliciosamente umas nas outras.

Onde estava com a cabeça ao aceitar aquele convite?


****


Cabine do Comandante, 3h30 a.m.

acordou num sobressalto violento. Estava no carpete áspero de seu quarto, com a garrafa de vodka quase vazia ainda repousada entre os dedos. Elevou seu tronco com o fôlego descompassado e sentiu que o cômodo girava afoito à sua volta; percebeu que definitivamente ainda estava num nível alto de embriaguez. Passou a mão pela testa, que queimava em uma dor pulsante, e sentiu o fino suor nervoso na palma. Estava todo encharcado, apesar do vento frio que entrava pela sacada do quarto. Pigarreou, enjoado, e sentiu que sua boca estava completamente seca.
Levantou-se com cuidado pela vertigem, foi até o banheiro e bebericou a água da torneira, molhando seu rosto e sua nuca logo em seguida. Sua respiração ainda era ofegante e da sua mente não sumiram as imagens do sonho repleto de lembranças funestas.
— Maldito dia! — esbravejou colérico, golpeando a pia com um soco.
Sentia-se constantemente perseguido por fantasmas do passado ao rememorar aquele trágico evento de sete anos atrás. Teve a paz arrancada de sua vida de uma forma tão brusca e dolorosa que sentia a crescente fenda no seu peito escurecer-se ainda mais com a culpa e penitência que sofria. Chegava a temer descansar ao anoitecer.
Via-se obrigado a entorpecer seu organismo vez ou outra para alcançar míseras horas de repouso sem aqueles pesadelos. Não enxergava uma luz no fim do túnel para si há anos.
olhou cansado para seu reflexo. Profundas olheiras de exaustão despontavam em seu belo rosto, a barba por fazer lhe conferia um ar indiferente, quase despojado, mas extremamente amargurado. Há dias não dormia direito. Estava preso numa realidade conturbada.
— Com por perto agora, está impossível me desligar dessa agonia constante... — cochichou sozinho, sentindo uma coceira estranha no seu peito.
Seu limbo pessoal fazia questão de lembrá-lo constantemente do quanto sua impulsividade ébria o fez agir com tanta irresponsabilidade; fora contra todos os treinamentos, protocolos de negociação e segurança que eram necessários naquele tipo de circunstância. acreditava que qualquer milésimo de segundo que houvesse planejado melhor, antes de agir, já alteraria o curso daquele episódio catastrófico.
Nunca na sua vida imaginou que talharia desastrosamente a vivência de tantas pessoas, inclusive daqueles que amava tanto. Fora um segundo de impulsividade para uma vida mergulhada em arrependimento.
Sua adrenalina e álcool no sangue estavam tão altos naquela noite que não era capaz de afirmar quanto tempo ou o que exatamente passou-se entre seu primeiro ímpeto precipitado até seu último momento consciente.
levara uma pancada tão forte na parte de trás de sua cabeça que um corte de doze centímetros abriu-se. No chão do local do sequestro, uma poça viscosa de sangue formou-se em volta dele. Seu amigo , que lá estava, gritara tão atormentado contra a camisa que estava dentro de sua boca que ficou com uma rouquidão intrínseca na voz.
considerava esse episódio e a conduta do sequestrador de uma covardia extrema, digna de um homem completamente frouxo por atacar um inimigo pelas costas. Não lutar de igual para igual e impedir a chance de defesa ao seu inimigo era o mais baixo que um ser humano poderia agir.
Tudo o que ocorrera depois fora relatado para por seu amigo, o único do local que assistira consciente a toda a cena hedionda. Sentia-se sufocado por não ter sua própria versão, ou até mesmo a de Abigail, que teve seus últimos segundos de consciência gravados em uma violência aterrorizante. A mulher encontrava-se em coma há anos; fora um milagre não morrer no local, tendo em vista o quanto sua cabeça fora igualmente golpeada, porém com muito mais perversão.
analisou-se uma última vez no espelho e mexeu impacientemente em seus cabelos, sentindo a cicatriz longa que riscava sua cabeça. Bufou irritado e foi até a sacada acendendo um de seus cigarros vermelhos picantes; sentia necessidade de descansar daquela ansiedade que quase o tombava sempre. A brisa fria da sacada o chamou para observar a madrugada. Um arrepio foi sentido na sua pele úmida e seus pensamentos distraíram-se brevemente com a sensação gélida da noite. Conseguiu respirar fundo.
Então, dirigiu seu olhar para a proa do navio, onde horas atrás ficara perturbado por ver numa cena romântica com um de seus melhores amigos. Não queria acreditar que havia se embriagado tanto justamente por sentir um ciúme tão latente da garota. A simples lembrança do beijo dos dois sumia com sua racionalidade novamente.
Aquela era uma novidade que ele não esperava e muito menos gostaria de experimentar. A negação era quase imediata, porém, apesar do sufoco no peito, não era de seu feitio dar as costas para o que sentia. Preferia ser franco consigo mesmo e tentar entender o que quer que fosse que surgia em seu coração pela moça. Afinal, ele ponderava que essa era a melhor opção para enfrentar seus demônios interiores e responder a seus questionamentos mais profundos. Fugir nunca era uma opção, muito menos bloquear ou reprimir algo quando o assunto era ela.
, inevitavelmente, trazia o calor que fervilhava o sangue de a todo momento, como um combustível para a fogueira que mantinha a temperatura estável de seu corpo. Era ela quem sempre o desordenava e genuinamente exaltava-o pelas constantes provocações e acusações ácidas. Era ela quem o fazia sentir aquela auto-repulsa tão latente que não o deixava dormir tranquilo à noite. Era a presença da moça que sumia com qualquer migalha de sanidade e paz que ele conseguia juntar porcamente de volta à sua vida. A dor de era o fardo mais pesado que carregava nas costas.
No entanto, havia algo a mais na mente dele que era simplesmente impossível de afastar, principalmente depois da festa de dias atrás: os sentimentos antagonistas que nutria inconscientemente por ela. Sentimentos esses que brotaram tênues no seu coração anos atrás quando viu na sua mais pura fragilidade, estendida no seu fundo do poço pessoal. Fora uma época extremamente preocupante para todos à sua volta. precisou cuidar dela inúmeras vezes sozinho, principalmente porque não era sempre que Mauro estava disponível para resgatar a irmã de suas atitudes depreciativas. Tomou como seu dever desempenhar uma figura mais protetiva para a moça, vigiar de longe seus passos rebeldes e intervir sempre que ela precisava. Era impossível ele não desenvolver uma grande empatia e preocupação por . Apenas nunca imaginara que aquilo evoluiria para o que se manifestou no seu coração horas atrás.
Sentindo-se patético pela milésima vez, puxou com força a fumaça para seus pulmões, que queimaram em um protesto de alívio pela nicotina. Sua visão tornou-se mais turva e um breve relaxamento lhe arrebatou. Olhou para a lua mais uma vez e admirou a intensidade que sua luz derramava-se como leite no horizonte escuro.
Oh, como odiava a ironia do acaso ao notar a formação de sentimentos por . Tantas mulheres para interessar-se, tantas pessoas e questões para dirigir sua atenção e energia… Tinha a plena convicção que sua existência se resumia a um papel em branco no qual o destino rabiscava o que bem entendia, só para deleitar-se com a confusão que a vida de tornava-se a cada novo ponto demarcado.
Inevitavelmente, fez uma simulação dolorida com o desprezo que a moça sentia por ele e do quanto ela riria de sua cara com vontade, caso o mesmo confessasse ter qualquer tipo de emoção romântica por ela. Seria a piada do século para , possuir seu inimigo interessando-se por ela.
E compreendia o ódio intenso que a moça sentia por ele. Sua culpa não o deixava achar que ela estava errada, inclusive. Apenas avaliava que a mesma pecava em não o ouvir para compreender que, na realidade, ele não tinha nada a ver com a tragédia final do acidente.
Todas as vezes que pretendera esclarecer as coisas com , como fizera com Mauro, a civilidade de ambos se dissolvia na grossa névoa de fúria que a comunicação entre eles teimava em formar. A moça recusava-se a ouvir qualquer coisa sobre o assunto, principalmente quando o locutor era ele. Preferia ater-se apenas às memórias dolorosas de quando recebeu a notícia do seu irmão pela primeira vez. O ponto principal, para ela, era o quanto ignorara os procedimentos padrões e agiu com impulso, pondo a vida de todos num risco ainda maior.
— Garota teimosa… — falou, frustrado, bufando a fumaça pelo nariz.
sentia sua maturidade evaporar de seus poros quando o assunto era aquele. Odiava o fato de a garota bater na tecla de sua culpa ao escolher não saber de alguns detalhes do acontecimento. Quebrou a cabeça para entender o porquê de seu posicionamento, até compreender o quanto precisava de uma figura fixa e tátil para culpar, ofender, diminuir e transferir toda sua dor e inconformidade pelo acontecido. Até porque todos ficaram no escuro por nunca descobrirem a identidade do criminoso responsável pelo atentado. Obviamente o escolheria para descarregar todas as suas frustrações e sofrimentos. Era fácil apontar a irresponsabilidade de seu desafeto e nutrir ainda mais seu ódio por ele.
No entanto, ele sabia que não podia ser hipócrita e vestir uma auréola na sua cabeça. Sentia-se envergonhado e frustrado por ter errado e notar o dedo dela apontando para ele, e, com isso, acabava por devolver impetuosamente, na mesma moeda, todos os insultos e provocações da moça. A situação chegava ao cúmulo de deleitar-se com as feições irritadas que fazia. Era quase como se ele aproveitasse a única comunicação que tinha com ela só para ter algum tipo de interação com a moça.
ainda não entendia direito que o desprezo que ele sentia, na realidade, era por ele mesmo, por ver aqueles olhos tão humanos, machucados e vazios.
Ter noção de certas coisas aquela noite só o fez enxergar mais o que ele não queria: o que acontecia dentro dele até poderia ser comparado a ódio, mas era só virar uma chave interna, regida por complacência e afeição, que um outro sentimento bem mais complexo e avassalador o preenchia.
E era a dona dessa chave que permanecia no coração de .
Tinha a larga sensação de sufoco ao notar que todo seu ser era completamente dominado por ela, que, assim que a moça aproximava-se, ele saía do controle de suas ações, pensamentos, impulsos, discernimento, sentimentos…
— É como se ela fosse a minha Kryptonita pessoal... — sussurrou e riu sem humor pela analogia tola, absorvendo um último trago do seu cigarro. Despiu-se angustiado e pôs seu short preto de banho. Sentiu que precisava gastar toda aquela energia acumulada que se transformava em ansiedade no seu peito. Realmente, não era saudável deixar-se consumir por aqueles pensamentos de autodepreciação e suposições estranhas, as quais pregavam ainda mais peças na sua sanidade. O melhor que podia fazer naquele momento era alcançar a exaustão física, nadando incessantemente até o horário do seu expediente chegar.

’S POV
Andar -1, dormitório 22, 4:15 a.m.

Um barulho redondo e grave soava perto dos meus ouvidos e me acordava suavemente de meu sono alcoólico pesado. Senti um hálito quente e abafado contra a pele do meu pescoço e franzi minha testa, ainda de olhos fechados. Tentei me mexer na cama e não obtive muito sucesso. Tinha um corpo grudado ao meu.
Com a lentidão igual a de uma lesma, abri os olhos em direção ao ronco e vi, na penumbra do quarto, cachos cor de fogo. Emily dormia pesadamente ao meu lado, com a boca aberta num profundo sinal de um sono gostoso. Suspirei fortemente e sentei na cama devagar, tomando cuidado para não a acordar.
Então, meus olhos dançaram pelas paredes do quarto, confusos, sem realmente poder focar num ponto. Desde quando eu estava num barco pequeno em que podia sentir as ondas violentas? Minha pouca visão, que percorria todo o meu dormitório, estava débil e duplicada. Merda! Definitivamente ainda estava tonta pelo tanto de licor que tomei com…
.
Uma enxurrada de memórias de horas atrás me atingiu.
Assédio, Emily me confortando, vento forte na proa do navio, , licor, beijos e amassos pelos corredores, Emily surgindo do nada nos interrompendo…
— Merda… — murmurei ao coçar meus olhos, que ardiam pela leve ressaca (moral e física) que me atingia.
Senti uma pontada de vergonha pelas minhas ações e um receio pelas consequências. Será que mais alguém havia visto eu e nos enroscando como dois gatos no cio pelos corredores? Onde eu estava com a cabeça para agir daquela forma dentro de um ambiente de trabalho? Eu deveria ter sido mais responsável, qualquer coisa de errado que fizesse ali iria cair como uma luva para me ferrar em seus relatórios para nossos superiores. Pelo menos eu confiava que Emily não contaria nada do que viu quando nos flagrou.
Que cena patética ela deve ter presenciado… Praticamente dois adolescentes.
havia me levado até o limite da razão, ao despertar em mim o que eu jurava estar inerte ou até mesmo morto. Prazer, luxúria, tesão… Há anos não experimentava uma excitação tão quente quanto aquela que sentira com ele. A simples memória de ter seu corpo contra o meu, de sentir na minha coxa seu membro rígido latejando, suas mãos grandes apertando minha pele, de seus dedos enroscando no meu cabelo ou até mesmo da sua boca na minha… Eu já queimava novamente. O que era ótimo, para falar a verdade. Ter vinte e cinco anos e me sentir uma idosa frígida era péssimo e eu já estava cansada daquilo. Porém, agir como uma garota irresponsável e lasciva já não combinava muito comigo.

Nota mental: nunca mais beber daquele jeito perto daquele homem delicioso.

Quem sabe quem seria o próximo a nos flagrar e interromper nossa aventura doida, não é mesmo? Já bastava meu sobrenome ser alvo de fuxicos e balelas por décadas, eu não precisava rechear ainda mais o bolo que minha história era, com maiores difamações. Era um grande peso na minha mente carregar tanta culpa por ter agido do jeito que agi anos atrás. Aqui, nessa missão, eu tinha a chance de não me exceder nem por um segundo por prazeres físicos e supérfluos. Ao contrário do que aquele imbecil do Daniel falou, eu era sim competente e capaz, e não era apenas um episódio de descuido que…
Senti meu coração acelerar e uma agonia assolar meu peito.
Merda, merda, merda, merda…
E se realmente mais alguém vira o que Emily interrompeu? Não era uma possibilidade absurda, afinal, havia quase trezentos marujos na missão. Merda de novo.
Passei as mãos no cabelo e os prendi num rabo de cavalo com o elástico que estava sempre no meu pulso. O suor de nervosismo já grudava alguns fios no meu pescoço úmido, subindo um calorão ansioso nas minhas bochechas. Oh, eu daria tudo para dar um mergulho no mar gelado naquele momento; sentir a fluidez macia da água na minha pele, o abraço molhado e confortante do mar envolver meus sentidos, descarregando todas as minhas frustrações em cada movimento meu de nado.
Espera.
E a piscina enorme dentro do navio no andar -2? Como havia esquecido?!
Bem, não era a mesma coisa, mas… já era algo.
Oh, seria lá que eu gastaria toda aquela energia ansiosa que me tombava sempre.
Saí com calma da cama, retirando delicadamente minhas pernas, que estavam enroscadas nas de Emily, fazendo o mínimo possível de barulho brusco. O sono dela parecia estar tão bom que nem me incomodei com a mancha de baba se formando no meu travesseiro ao redor da boca dela. Depois eu trocava a fronha.
Agora, só conseguia achá-la fofa dormindo com seu lindo cabelo cacheado cobrindo parte de seu rosto. Sorri com a visão cômica.
Uma amiga, finalmente…
Sempre fora uma dificuldade enorme aproximar-me dos outros, ter alguém tão simpática e solícita em ficar perto de mim realmente deixava um quentinho no meu coração.
Abri devagar uma de minhas gavetas e retirei meu maiô preto de lá. Uma das únicas peças mais… sexys que havia trazido para a missão, tendo em vista que sempre deveríamos perambular pelo navio trajando apenas os uniformes militares, com uma única exceção de quando precisávamos nos exercitar e usar roupas de ginástica.
A peça preta de banho deixava todas as minhas costas nuas, assim como a lateral dos meus seios, o que revelava algumas das minhas várias tatuagens nos locais. Eu amava como eu possuía vários desenhos na pele, mas quase nenhum era visível apenas com roupas normais. Era sempre uma surpresa diferente quando alguém me via com… pouca vestimenta. Peguei uma calça de moletom e a vesti por cima do maiô. Escrevi um pequeno bilhete para Emily, caso a mesma acordasse, a avisando onde estaria para que ela não se preocupasse com nada.
Saí de mansinho pela porta e encarei um corredor vazio com pouca iluminação, onde um vento frio logo atingiu meus braços desnudos. Céus, aquele horário fazia tudo parecer meio mórbido e assombrado. O zunido fino do vento era quase como um sussurro de aviso para mim. Ignorei meus receios e comecei a atravessar o corredor diretamente para as escadas até o -2. Era o andar convenientemente apelidado de “paraíso” por todos os marujos. E não era por menos, já que lá era o antro da pouca diversão que podíamos experienciar na missão. Lá ficava a área comum de TV (que mais parecia um mini cinema), a sala de lazer, com diversos jogos como ping pong e videogame (disputadíssimo), além da lanchonete, piscina, restaurante/bar e academia. Como ficávamos meses a fio em alto mar, o navio era projetado para imitar uma mini cidade, com amostras da vida que levávamos em terra firme, normalmente. Era um bom jeito de desocupar a cabeça diante de tanta responsabilidade que acrescia a nossa tensão nos ombros.
Cheguei nas escadas e encarei com medo os degraus “memoráveis”. O ocorrido de horas atrás ainda pesava o meu peito, insistindo em apertar firmemente minha garganta com uma bola de angústia. Era como se algo invisível pudesse tocar pervertidamente meu corpo por cima da roupa.
Ele já está preso…
Respirei fundo e desci as escadas mais rápido do que imaginei conseguir, chegando logo ao Paraíso.
Segui pelo extenso corredor, iluminado com lâmpadas brancas como de um hospital, e avistei a placa “piscina”. Abri de forma brusca as portas da área e fui imediatamente abraçada pelo ar quente do aquecimento da água. Um sorriso involuntário de alívio surgiu no meu rosto. Atravessei rápido o cômodo, tirando de qualquer jeito a calça, tropeçando nos meus próprios pés no caminho, ansiosa por mergulhar meu corpo na água… remexida? Pelas lâmpadas submersas que ficavam nas paredes da piscina, pude observar o encrespamento estranho dali. Porém, como meu estado mental não estava nem perto do lúcido, apenas dei de ombros e pus minha calça no chão mesmo. Me joguei na água como uma flecha e deixei a maciez embalar meus sentidos.

’S POV

Depois de nadar por apenas 15 minutos e sentir que a vodka estava pronta pra voltar para a minha boca, dei uma merecida pausa no esforço físico. Pelo menos já me sentia mais centrado e menos angustiado com as tantas novas dúvidas e antigas aflições que me dominaram. Dentre tantas habilidades que eu possuía, com certeza lidar com sentimentos tão dúbios e intensos não se enquadra em uma delas. Pelo menos eu não mentia para mim mesmo, ignorando que algo estava acontecendo comigo. Qualquer que fosse a situação que meu coração escolhesse viver, eu abraçaria sem pestanejar. A aflição vinha de qualquer jeito, e o amanhã fugia de qualquer tipo de controle, então para que escapar como um covarde, não é mesmo?
Um barulho brusco de porta retumbou por todo o cômodo e me sobressaltei com um xingão na cadeira que estava sentado.
Porra! Quem…

Meus sentidos se aguçaram, meu coração bateu violentamente contra meu peito e… Oh, ela andava inclinada tirando a calça que vestia rapidamente. Meus olhos permaneceram vidrados em sua figura despindo-se, em suas coxas e bunda se revelando (aliás, por que aquele maiô tinha que ser tão cavado?), em sua delicada mão soltando seus fios, balançando-os nas costas completamente nuas, fazendo-os tocar furtivamente a lateral dos seus seios… Oh, porra. Eu estava perdido mesmo, né? Me remexi na cadeira e ajeitei melhor meu short. Constrangedor…
Seu mergulho foi rápido e seu corpo atravessou a água como um tiro. Os movimentos começaram lânguidos, bem compassados, os braços e pernas tinham uma sincronia perfeita um com o outro. Ela estava concentrada, não parava um segundo sequer de nadar de um extremo ao outro. O que inclusive fez minha preocupação elevar-se cada vez que seu rosto demorava a aparecer na superfície da água. Até porque eu sabia o quanto tinha alguns impulsos masoquistas, do quanto ela ansiava e necessitava colocar seu corpo no limite às vezes, assim como ela fazia com seu fôlego naquele momento; tudo para obter um alívio psíquico. Exatamente como eu.
E, por mais que eu odiasse admitir isso, a possibilidade de ela estar em qualquer tipo de ruína mental destroçou meu coração. Era como se o que ela passou horas atrás também fosse culpa minha, como se o comportamento de terceiros fosse minha completa responsabilidade, assim como ela era. Só eu sei o quanto eu temia em errar e negligenciar os outros. No entanto, a possibilidade de algo ruim acontecer com tremia minhas mãos por puro pavor. Ela não merecia sentir ou passar pelas coisas que enfrentava.
Levantei-me com calma da cadeira e, sem perceber, caminhei magnetizado até sua figura na água, captando cada mínimo detalhe de seus movimentos. estava de costas para mim, porém pude observar que ela ofegava e já não nadava mais, apenas permanecia numa submersão calma, vez ou outra mergulhando, mexendo seus braços num carinho largo na água.
Céus, como ela era hipnotizantemente linda.
E eu um mero mortal patético.
Vi uma pequena tatuagem perto de sua nuca de um alien segurando um cigarro e franzi a testa em estranhamento. O que ela tinha de beleza pecava em bom gosto para tatuagem, devo admitir. Precisei segurar um riso irônico pelo meu pensamento. E como eu não sabia me segurar perto dela, ainda mais quando vinha algum tipo de provocação em minha mente, não resisti em me pronunciar:
— Por que você tem um alien fumante nas suas costas? — perguntei, rindo, vendo virar-se assustada para mim. Sua feição nublou assim que alcançou minha figura, e meu sorriso se alargou.

’S POV

— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, exasperada. apenas ria presunçoso, me encarando daquela forma tosca dele, com os braços definidos cruzados na frente do peito. — Eu te fiz uma pergunta. — engoli em seco pela forma que minhas bochechas queimaram com sua presença inesperada.
— Eu que perguntei primeiro, garota. Deixa de ser mal educada. — riu debochado.
— Você tá me seguindo, por acaso? — perguntei de forma cansada.
— Você é uma gracinha mesmo, né? Achando que tiro tempo da minha madrugada pra seguir os passos da sua realeza. — sorriu provocante.
Senti uma vergonha imensa pelo meu palpite presunçoso e desviei meu olhar do dele, bufando impaciente. Porém, logo voltei a encará-lo, sem vontade alguma de demonstrar que havia me afetado com sua zoação. Desci minha visão para seu tronco descoberto, que continha pequenos pingos de água escorrendo por toda sua pele, e me perdi por ali.
Oh, a água remexida era feitio dele então… Inferno.
Continuei meu caminho pelo seu corpo e pude notar que era completamente definido, parecia um maldito atleta de elite prestes a performar seu esporte. Suas coxas eram fortes, e seus braços cheios de veias pareciam troncos de uma árvore de tão grandes. Sua barriga era riscada em gomos e duas entradinhas em formato de “V” se mostravam perto da barra de seu short. Ele sempre chamara a atenção por sua figura imponente, mas, com aquela pouca vestimenta, deixaria qualquer um…
— Vai ficar me comendo com os olhos por muito tempo, garota? — falou debochado, chamando minha atenção de volta para seu rosto. De novo, senti minhas bochechas fervilharem, ainda mais pelo idiota repetir a minha frase do dia da festa em que ele me encarou provavelmente da mesma forma que eu fazia agora.

Merda. Eu sou patética.

— O que você tá fazendo aqui? — tentei perguntar firme, desviando o assunto da minha gafe. Eu culpava o álcool pelos meus pensamentos impuros direcionados àquele energúmeno.
— Provavelmente o mesmo que você, . Acordei perturbado e vim pra cá gastar energia. Exaustão física faz bem pra minha cabeça. Afinal, hoje eu espanquei e prendi um de meus subtenentes, que assediou sexualmente a irmã de um de meus melhores amigos. Pode ter certeza de que calmo não é um estado em que me encontro. — declarou, bufando. se sentou na borda da piscina, mergulhando apenas as pernas na água. — E você? — acenou com a cabeça em minha direção.
— Eu… — pigarreei, nervosa, tentando limpar a garganta daquela agonia grudenta; não queria ter aquela ou qualquer conversa íntima com . — Eu não… Eu acordei e…
— Tudo bem, não precisa continuar. — falou subitamente, entrando por completo na piscina. Provavelmente ele já desconfiava dos motivos pelos quais eu gaguejava tanto. — Inclusive, quero dizer que sinto muito que isso tenha ocorrido novamente com você. — coçou a nuca e bagunçou seus cabelos. — Nunca deveria nem atravessar pela sua cabeça passar por tal situação em seu ambiente de trabalho. Ou em qualquer lugar, pra falar a verdade. — estava com o cenho franzido e maxilar travado, me analisando daquele jeito sério que eu conhecia tão bem por nossas vivências passadas.
Sem conseguir sustentar a intensidade de seu olhar, desviei minha atenção para meus pés distorcidos debaixo d’água.
Oh, como eu odiava aquilo. Reconhecer suas expressões e notar nele uma preocupação tão transparente. Tudo engatilhava em mim a lembrança do quanto ele participara da minha vida de uma forma que nunca desejei, principalmente em ocasiões frágeis minhas, em que ele foi presente demais. Momentos aqueles que eu só queria apagar da memória, pois cada vez mais mostravam-me o quanto meu presente assemelhava-se ao meu passado amaldiçoado, trilhando um futuro desgostoso com por perto.
— Está tudo bem agora, . Já passou. — murmurei. — Emily me deu apoio e conversamos bastante sobre. E você, infelizmente, sabe que não é a primeira vez que uma merda dessas acontece comigo… — meu fôlego falhou pela dor de mais lembranças nojentas, mas me apressei em continuar. — Só não imaginava que pudesse ocorrer aqui. Mas… — murmurei hesitante, engolindo todo meu orgulho como uma comida indigesta. — Mas eu estou… Grata por você…
. Não precisa disso. — fez um sinal negativo com a cabeça, como se soubesse a dor que era para mim em ser civilizada com ele e verbalizar um agradecimento daquele nível. — Eu não fiz mais que minha obrigação, afinal...
— Não, . — insisti, finalmente olhando-o de volta. Minha voz tornou-se mais firme. — Eu sei que preciso te agradecer, nem quero imaginar o que teria acontecido caso você não tivesse…
, não. — me repreendeu, irritando-me levemente — Eu sou o Comandante da missão. Eu sou responsável, além de meu encargo, por todas as vidas que estão nesse navio. Nada de ruim deveria acontecer a ninguém.
— Eu consigo ser responsável por mim mesma… — falei baixinho, sem conseguir deter meu impulso de contrariá-lo sempre.
— Enfim! — revirou os olhos e bufou, irritado. — Não agradeça por eu cumprimir minha obrigação. Como já disse, nem deveria ter acontecido nada. — comentou, impassível, enquanto aproximava-se lentamente de mim — Para ser sincero, eu fico com receio que a qualquer momento, eu não esteja por perto para te ajudar. — sua voz abaixou o tom e enrouqueceu. Para mim, estava claro que ele travava uma batalha interna para verbalizar tais coisas.
E, apesar de suas palavras reconfortantes, de um modo infeliz, ainda assim sentia uma sensação agonizante crescer dentro de mim. A verdade era que se não fosse a falar todas aquelas coisas, eu até poderia me sentir aliviada e bem cuidada. Poderia descansar em paz ao saber que estava protegida por alguém em que eu confiava. Mas aquele discurso me remetia a momentos ruins, a um período de muita revolta e fraqueza na minha história. Fraqueza essa que fora criada e disseminada por cada fibra do meu corpo, por sua culpa. Aquelas palavras, por saírem de sua boca, não valiam nada para mim.
Tossi ao sentir minha garganta fechando-se por nervosismo. Eu não queria ouvir nada daquilo. Não queria nem estar olhando para ele.
— Bem, eu agradeço, . — minha voz estava quase trêmula; suspirei fundo para me recompor. — Mas não preciso de uma babá por perto para me proteger o tempo todo, eu consigo muito bem cuidar de mim. Não importa o que aconteceu no passado, eu cresci e posso me virar sozinha. Não preciso de você. — respondi, me esforçando ao máximo para manter o desprezo firme no tom de minha voz. soltou uma risada seca, e eu fuzilei seus olhos estampados com um deboche.
— Tava demorando mesmo… — coçou os olhos, cansado.
— O que você quer dizer com isso?
— Isso mesmo que você ouviu, . Você simplesmente não consegue ter uma conversa tranquila comigo, nem quando o assunto é sobre algo bom que te fiz. Deve ser quase um pecado você falar de uma forma civilizada comigo, não é mesmo? — continuou a andar para frente, coagindo-me a ir para trás em resposta. Sua declaração ridícula tomou conta do mínimo de controle que ele clamava que eu não possuía. Não importava a situação, o assunto ou qualquer merda, sempre me tirava dos eixos, sempre conseguia me irritar com sua presunção. Mas, naquela hora, foi a minha vez de rir debochada.
— Oh, o que foi? Eu magoei seus sentimentos delicados? — levei minhas mãos em direção ao meu peito, fingindo uma expressão de pena — É só que fica difícil para mim ser civilizada com um cavalo como você! — exclamei, irritada, e gargalhou imediatamente, jogando a cabeça para trás. Cretino.
— Nossa, sua criatividade em me xingar me impressiona mais a cada dia, garota. — ironizou e bateu palmas pausadamente — Bravo! — revirei os olhos, e ele riu seco. — Oh, e sobre a parte do “cavalo”… Bem, tenho algumas características em comum mesmo. — comentou com um sorriso, olhando para baixo rapidamente. Minhas bochechas queimaram. — Já me espiou trocando de roupa, ? — perguntou, provocativo.
— Você é um nojento, sabia? Um cretino, um animal! — berrei, furiosa por sentir suas respostas irônicas atingindo-me como um tiro. Meus braços levantavam a água à medida que a atingia irritada com socos, desejando que o rosto dele fosse o alvo do meu nervosismo.
— Mas é claro que eu sou um animal, ou você achou que eu era um vegetal gigante? — praticamente gritou, ironizando ainda mais minhas falas.
— Céus, como você consegue ser tão ridiculamente desprezível?! — joguei água nele no pico de minha imaturidade.
— E como você consegue ser tão ridiculamente linda?! — respondeu-me exasperado, com o rosto sério demais pelo conteúdo de sua fala. Porém, não senti nenhuma ironia e nem escárnio no timbre de sua voz. Ele parecia simplesmente consternado.
Pega de surpresa, apenas consegui permanecer em silêncio. Afinal, que merda ele queria ao falar aquilo?
passou nervoso as mãos pelo rosto, retirando a água que havia o atingido. Então, me olhou significativamente, ainda sério. O tom intenso que seu olhar adquiriu me fez desviar minha atenção dele. Virei a cabeça e encarei uma parede do cômodo que virara extremamente interessante naquela hora. Minhas bochechas queimavam como se alguém acendesse um fósforo perto do meu rosto. E, de novo, eu me perguntei, que merda ele quis dizer realmente com aquele seu comentário? Provável que só queria brincar com a minha cara e me provocar como sempre, me confundir.
— Ei, olha pra mim. — me pediu com a voz baixa e erma. Ignorei seu pedido, mas ele continuou. — , é só que eu… Porra… — pausou sua fala com um suspiro de frustração e continuou a aproximar-se de mim, com mais cautela, como se não quisesse me espantar. — … Eu não suportaria saber que algo de ruim aconteceu a você de novo, sendo que eu poderia evitar. E isso não sai da minha cabeça, desde hoje mais cedo, me lembrando de inúmeros eventos passados em que você correu um risco genuíno. E, pra falar a real, eu prometo que nada mais de ruim vai te acometer. Quero te dar a certeza de que você permanecerá segura e bem enquanto eu estiver por perto. — disse, cuidadoso.
Não consegui respondê-lo, apenas o olhei surpresa pela sua confissão inesperada e terna. Só fui capaz de encarar seus olhos , os quais estavam tão intensos que eu podia jurar conseguir lê-los como a página de um livro. Estava sem saber como proceder, como se não soubesse mais falar ou até mesmo respirar direito. Continuei minha caminhada para trás, como uma presa assustada, à medida que ele ficava mais próximo de mim.
Quando minhas costas subitamente bateram na parede gelada da piscina, meu fôlego se esvaiu. Olhei para os lados estupidamente, para confirmar que havíamos chegado na borda da piscina. Minha respiração omissa fez com que eu deixasse meus lábios entreabertos, assim como os de já estavam. Respirar pelo nariz naquele momento não parecia ser suficiente ou até mesmo seguro.
— Por que você tá falando essas coisas? — perguntei em um fio de voz, analisando-o copiosamente. — O que você quer de mim?
— Algo que eu já sabia que queria há muito tempo, mas sempre temi tanto que negava… — meu coração pulsou forte contra meu peito de um jeito que eu jurava que teria um ataque cardíaco.
Senti-me completamente envolvida naquela atmosfera densa que se formava vez ou outra entre nós, como se colocasse um peso ou uma umidade incômoda no ar. Encarava de volta seus olhos dúbios, sem realmente entender o que aquele calor que consumia meu ventre significava.
se aproximou de mim até ficar a poucos centímetros do meu corpo, seu olhar não desviava do meu nem um segundo sequer, apenas desviava sua atenção para minha boca entreaberta vez ou outra. Imitei seu gesto inconscientemente. esticou seus braços até onde os meus estavam, pegou em minhas mãos e entrelaçou nossos dedos com cuidado. Seus toques fizeram meu corpo se arrepiar por inteiro e queimar em partes extremamente sensíveis, o que me paralisou por completo pelas sensações drásticas. Eu era incapaz de agir por ter seu calor contrastando com minha pele fria.
Como seria ter seu corpo quente por completo dentro de mim?
levou minhas mãos até sua boca e beijou os nós de todos os meus dedos de forma lenta e suave. Eu o olhava inerte, sem entender o que se passava dentro dele para agir daquela forma. Estava hipnotizada com o oxigênio que meus pulmões consumiam misturados com seu perfume. Ele, então, fechou seus olhos com o cenho franzido, continuando seus beijos demorados. A única coisa que separava nossos corpos eram nossos braços entrelaçados, os quais ele flexionou em seu peito para aproximar minhas mãos de seu rosto. Continuei observando-o meticulosamente, em resposta àquele estímulo que ele me proporcionava. Sua pele do peito subia e descia tocando meus braços, engolia meus pensamentos, disparava meu coração, secava minha garganta e arrepiava cada centímetro do meu corpo.
Era como se meu corpo todo estivesse mergulhado em uma salmoura de uma confusão tão dúbia que esvaziava minha mente do desprezo que sentia pela presença de .
Seu rosto fez menção de avançar ao meu, ainda de olhos fechados, para então abrir quando se aproximou mais de mim, me encarando significativamente.
… — soprei em um quase gemido, imaginando o ápice que a situação poderia acarretar.
… — ele fechou novamente os olhos, e eu acompanhei-o. Seu nariz roçou no meu e um calor atravessou meu ventre.
Subitamente, ouvimos um barulho brusco vindo do vestiário, tirando-nos daquele momento que me queimara por inteiro.
Me desvencilhei sobressaltada dele, tirando minhas mãos das suas, tocando-lhe o peito nu e úmido para empurrá-lo de leve.
— Não, , não! O que você pensa que está fazendo? — perguntei, horrorizada, devido ao contexto que estava se formando entre nós. Ele me olhou inconformado e decepcionado e se afastou finalmente de mim para me observar melhor. Soltou uma risada curta e irônica, respondendo:
— O que você acha que eu estava fazendo, ? — falou mais calmo do que eu esperava. Olhou para o lado e balançou a cabeça negativamente. — Não quer admitir para si mesma o que está acontecendo? Precisa mesmo me questionar sobre o que estava prestes a acontecer? É assim que você vai agir? — perguntou, exasperado.
— Eu não sei se você bateu a cabeça na piscina quando entrou ou sei lá o quê, mas nada estava prestes a acontecer! — respondi duramente, sentindo lágrimas de confusão formarem-se nos meus olhos. Eu estava sem paciência alguma para qualquer que fosse o joguinho que ele queria configurar. O mais sensato para mim, no momento, era negar que estava sentindo o que sentira.
— Nada? — riu em deboche. — Esse “nada” que você está se referindo — fez aspas no ar, aumentando a entonação ríspida na voz. — parece mexer bastante com você também, pelo visto.
— Você é um doente, não percebe o absurdo que tá sugerindo? — olhei-o, furiosa. — Ou você está ficando louco, ou já esqueceu o que aconteceu anos atrás! — respondi com a voz embolada, sentindo minha garganta fechar com a memória dolorida que se formou na minha mente.

“Por que não deixa para odiar o rapaz quando ele realmente te fizer algo?”

Balancei a cabeça para espantar o sofrimento que crescia no meu peito e saí da piscina apressada com um impulso, agarrando uma toalha aleatória e minha calça logo em seguida.
— Não, não esqueci o que houve, . E nunca esquecerei. Já falei que sinto muito e que faria de tudo para mudar isso. Se eu pudesse, tomaria sua dor para mim pelo resto da minha vida patética! Mas pelo menos eu não estou sendo covarde ao negar algo tão óbvio! — vociferou alterado. E, se eu não estivesse completamente irritada naquele momento, até reconheceria que, na sua voz, um tom dolorido escapou.
— Lave a sua boca antes de falar assim de mim! Nunca mais me chame de covarde! Se tem alguém aqui assim, esse alguém é você! — gritei descontrolada, apontando meu dedo indicador em sua direção.
— Oh, agora eu sou covarde? O cara que enfrentou o que teve que enfrentar para salvar a sua pele diversas vezes? Que grande piada! Vamos, continue, eu tô quase achando graça! — brandou de volta.
— Cale a sua boca ou eu…
— Eu o quê? Vai sair correndo? Vai me dar outro tapa na cara? Ou vai me xingar mais? Oh, garota, como eu amo quando você me xinga! Você tem tanta criatividade, sabia? — gritou de volta, saindo exasperado da água, pondo-se na minha frente em um segundo.
Seus cabelos estavam colados na testa e seu short, ligeiramente levantado nas coxas. Um pensamento lascivo me fez secar seu corpo todo e uma nova onda de calor me tomou.
Balancei a cabeça negativamente, me odiando por sentir aquilo logo naquele momento.
— O que você ACHA que quase aconteceu entre a gente só é fruto da sua cabeça vazia e doentia! Nada, além do ódio que me consome toda vez que olho para você, corre dentro de mim! E eu sei que você sente o mesmo! — cuspi em desespero minhas palavras, olhando-o com raiva. Eu precisava ter a certeza de que ele também ainda me odiava, precisava de seu desprezo para continuar com o meu. Ou eu ficaria louca.
— Você não tem ideia do que está falando, garota
— Já falei para não me chamar assim… — murmurei entre os dentes e tentei empurrá-lo, mas permaneceu irredutível. Apenas aproximou mais seu rosto do meu e disse:
— Então comece a agir com a coragem de uma mulher de verdade e admita o que sentiu ali! — rosnou de volta. Seu peitoral subia de um jeito ofegante enquanto me encarava furiosamente.
— Quer saber? Me deixe em paz, ! Sua presença me enoja e sufoca até em poucos minutos!
— Oh, me desculpe! Aposto que se fosse , você já estaria lambendo o chão que ele passa, não é mesmo? — vociferou e soltou um riso irônico.
Com seu comentário completamente inesperado, fiquei atônita, com um frio paralisante lambendo pela minha espinha.
— O… Como… — tentei respondê-lo, mas minha mente nublou em confusão. Meus olhos piscavam frenéticos e assustados. permanecia com seu sorriso insolente no rosto. Como ele sabia…?
— Acha que não sei o que aconteceu na proa do navio? Por favor, , seja menos ingênua. Eu tenho plena noção de tudo que acontece aqui dentro. Já esqueceu quem é o Comandante? — alargou mais ainda seu sorriso, causando-me um calafrio nervoso.
Ali, naquele segundo, minha maior aflição de horas atrás estava concretizada. Senti meus joelhos tremerem e meus olhos marejaram ainda mais, enquanto me perdia em analisar a expressão desgraçada de .
— Me deixa em paz… — minha voz saiu fraca, e, ao tentar virar de costas, sua mão agarrou em meus braços, me voltando para mais perto dele.
— Você tem muito o que ouvir ainda… — murmurou com a voz rouca, deixando seu corpo inteiro perigosamente perto do meu de novo. Por um pequeno momento, não consegui me mover novamente, sendo magnetizada por sua respiração batendo no meu rosto. Meu olhar encarou hipnotizado a sua boca, e o calor de seu corpo era tanto que era integralmente sugado pela minha pele. Sentia-me amolecida só por tê-lo tão perto de mim.
Então, uma terceira voz nos tirou de nosso ridículo momento e fez nossas atenções voltarem para a porta do vestiário imediatamente.
— Gente, o que tá rolando aqui? — perguntou Emily, ainda de pijamas, adentrando o local. — Pude ouvir gritos do corredor. — coçou os olhos e bocejou.
Senti as mãos de soltando meus braços vagarosamente, arrastando seus dedos em mim. Com um arrepio intruso, virei completamente para a porta. Caminhei em passos firmes até a saída.
— Está tudo bem, Emily. Eu já estava de saída. Vamos voltar ao -1, ok? — a respondi apressada, querendo desesperadamente voltar com ela para nosso andar. Sentia meus olhos lacrimejarem de raiva.
— Adorei o pijama, Emily! — gritou de onde estava, em tom de provocação. Emily estava prestes a respondê-lo inocentemente, mas a puxei pelo braço rápido, com raiva de toda a insolência de .
Saí para o corredor apressada, com lágrimas quentes atravessando minhas bochechas. Eu segurava a mão de Emily e a levava comigo, porém ela me parou delicadamente e pôs suas mãos nos meus ombros, olhando-me ávida nos olhos, como se procurasse algo. Algo que provavelmente demonstrava o porquê de eu estar quebrada por dentro.
, calma! O que aconteceu lá? — perguntou, assustada.
— Nada de novo, apenas sendo um completo cretino. — limpei meu choro tolo e continuei puxando-a.
— Espera! Como você está? — Emily perguntou, desvencilhando-se de mim novamente. Seus dedos secaram minhas lágrimas com carinho e logo ela me abraçou. Seu gesto me acalmou, mas não fez sumir o nó na minha garganta.
— Nada bem. Não sei como vai ser segunda-feira ou o resto da missão. Só de pensar, eu fico muito ansiosa. — declarei, cansada, com minha voz abafada por seu ombro.
— Só tentem não se matar, ok? — olhou-me preocupada de novo.
— Eu não prometo nada.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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