Contador:
Última atualização: 16/12/2021

Introdução

Nota da autora sobre a temática Marinha.

A história a seguir descreve alguns elementos ficcionais sobre o trabalho naval. Fiz uma pesquisa singela, tanto sobre a Marinha brasileira, quanto a britânica, e resolvi mesclar informações das duas. A Marinha no geral tem muito material na internet, sobre cargos, deveres, missões, história ao decorrer do tempo etc. Mas, por se tratar de uma ficção, me senti na liberdade de criar alguns componentes, o que me ajudou muito a desenvolver o enredo. Por isso, não levem a fic como exemplo de dados sobre trabalho naval. A escolha da Marinha como plano/pano de fundo desse romance faz com que eu consiga criar os fatos que dão vida à história, sendo o espaço (navio do exército) dessa narrativa essencial, pois incita algumas situações sociais, gera características específicas em personagens e desenrola a trama do jeito que eu imagino.
Para tentar ilustrar alguns lugares, uniformes, e até mesmo os personagens fixos, criei uma pasta no Pinterest para a fanfic. Ajuda bastante a visualizar algumas situações descritas. O link para ela está na nota de autora, lá no final.
É isso, basicamente. Obrigada e boa leitura, espero que gostem <3


Prólogo

Aproximei-me da proa do navio e inspirei o cheiro salgado e úmido do oceano à minha frente. A maresia me fazia bem, o mar me fazia bem, me entregava a sensação de lar, de aconchego. Por mais que estivesse a quilômetros de casa, eu sentia genuinamente amor ao olhar para o horizonte. O balançar do navio me fazia devanear e refletir absurdamente (apesar da náusea incessante), como nenhum terapeuta conseguia, relaxando-me ao extremo. O metal frio acordava-me e me fazia ter o gole suficiente de realidade que eu precisava naquele momento, apesar do álcool em minhas veias me tornar tonta e dispersa, junto com as ondas, que me sacudiam. Eu estava presa ao momento, no agora.
A vista? Não precisava nem a descrever. O verde azul do mar contrastava com a cor alaranjada exorbitante do céu, que estava cercado de nuvens extremamente macias de tons pastéis.
Ok, eu havia descrito.
Afinal, era uma visão única. Sentia-me privilegiada de presenciar aquela cena digna de virar uma pintura renascentista impecável. O pôr do sol em alto-mar era covardia… Obviamente, era o palco perfeito para situações de prosa acontecerem, digno de formar contextos românticos improváveis.

Maldição… Como tantas reviravoltas puderam ter acontecido nos últimos meses?

A grande dúvida era se tudo não passava de uma grande alucinação, ou se realmente acontecera.
Enfim, o que estava havendo com a minha vida? Como tudo desandou de uma forma tão sistemática e desorganizada ao mesmo tempo? Quer dizer, desandou realmente ou ajeitou-se?

Tantas dúvidas para tão poucas respostas; tantas compreensões que estavam além do meu racional, e eu ali, debruçada naquela proa à beira-mar, pensando no que importava realmente, em como fugia da vida que me pertencia tanto.
Como ele havia tomado tanto espaço dentro de mim, como havia permitido isso? Mais perguntas sem respostas.

Tão pouca nitidez, sentimentos desordenados, confusão mental.

Assim que eu me sentia, 100% embaralhada. Entretanto, ao mesmo tempo, sabia exatamente o que queria. Mesmo que não concordasse comigo mesma, eu sabia.

Era essa a dúvida, afinal?

Oh, eu sabia a resposta dessa.

Maldito coração, maldito homem, maldita circunstância, maldito destino.
Destino…
Era aquela a resposta, então? Destino? Tão simples e complexo ao mesmo tempo, como ele costumava falar.
Senti seu perfume junto à brisa, balançando meus cabelos e pensamentos, incendiando-me por inteiro à medida que meu pulmão era tomado por aquela fragrância. Virei e deparei-me com seus olhos escurecidos por significados latentes, aproximando nossos corpos de forma urgente.
Destino, repeti para meu consciente. Então, se era assim que era para ser, assim seria.


Capítulo 1 – Dry Martini

Manchester, Cerimonial da Marinha Real Britânica, 11 p.m.

’S POV

O vento estava forte e gelado como eu gostava, mas fazia um zunido fino e insistente em meu ouvido, como se tentasse cochichar algo secreto para mim. Algo para me tirar daquele momento depreciativo e solitário que eu estava, talvez?
Senti-me tola com esse pensamento, afinal, o que o vento tinha a ver com as casualidades da minha vida?
Soltei uma risada infeliz por tudo aquilo enquanto tentava me equilibrar com apenas uma mão no metal que barrava meu corpo de mergulhar no oceano. Com minha outra mão, segurava a taça despretensiosamente entre os dedos, balançando o líquido rubro e viscoso no cristal. Entornei mais um gole do vinho e olhei afiada para a paisagem escura na minha frente.
O mar estava tão preto quanto o céu, tornando a linha do horizonte inexistente naquele momento, transformando ambos em um só. Era como se a noite possibilitasse o encontro dessas duas entidades tão antagônicas, mas que viviam tão perto uma da outra. Os astros brilhantes e pontiagudos mergulhavam nas ondas eriçadas, iluminando onde tocavam com seu reflexo, pintando de branco a superfície do mar soturno. Eu estava inteiramente sugada por toda aquela escuridão, ouvindo o som do mar em sua amplitude, inexistindo como indivíduo para fazer parte da paisagem salgada. Aquilo tudo era um calmante natural para os meus nervos tensos.
Não poderia ser de outra forma, já que o mar moldou minha vida desde que me conhecia por gente, tornou-se meu maior confidente, minha maior companhia, meu refúgio e fonte de lembranças importantes. Com ele, nunca havia oposição ou contrariedades. Eu sabia lê-lo tão bem quanto ele sabia me acolher. E, àquela altura, eu podia afirmar que minha carreira na Marinha ia muito além da tradição familiar; tratava-se de uma conexão profunda que ultrapassava meu próprio entendimento.
Um novo vento gelado atravessou meu corpo, balançando meu vestido vermelho de seda como uma bandeira. Tomei mais um gole do vinho, esquentando minha garganta, e senti um arrepio passear por toda minha pele desnuda.
Naquele momento, eu não me importava muito com a possibilidade de ficar doente caso permanecesse ali. Inclusive, preferia tremer um pouco de frio em tais circunstâncias. O que mais me incomodava era outra coisa: meus joelhos estarem completamente estremecidos, sem nenhuma relação com o álcool no meu sangue ou a ventania gelada. A sensação de tremor vinha de algo bem mais profundo e latente que eu gostaria. Era uma aflição que chegava a afetar muito mais que meu equilíbrio ou minha coordenação motora, como há anos não ocorria.
Não tinha como não me sentir ansiosa com as péssimas notícias que havia recebido naquela semana. Era tudo tão absurdo que, a qualquer tentativa minha de processar as informações, eu quase caía em um surto de risada desesperada.
Por isso o tanto de vinho naquela noite. Inclusive, minha taça no fim avisava que eu precisava me servir de mais, porém meu medo de esbarrar com o patife do na festa me fincava ali fora como um poste.
Ainda tinha toda aquela intimidade ridícula dele com meu irmão, a qual eu estava blindada há alguns anos. Eu sabia que eles eram melhores amigos, mas era impossível não me irritar sempre que os via interagir. Quem ele pensava que era, afinal? Como tinha coragem ainda de falar com meu irmão após tudo que ocorreu? Aliás, como meu irmão era idiota o suficiente de continuar amigo daquele cretino? Nossas famílias simplesmente não se davam bem, sempre foram antagonistas; há gerações os e odiavam-se, ao ponto de modificar a história da Marinha Real.
Fora o fatídico acontecimento do passado que destruiu o que restava de nossa família. A simples existência de era um peso na minha vida. Ele representava dor para mim. Como podia representar amizade para meu irmão? Se Mauro respeitasse o mínimo da nossa história, jamais falaria ou olharia para ele.
A proximidade de ambos fez com que, em diversos momentos da minha curta vida, eu devesse engolir sua presença e suas provocações baixas. Sua figura causava uma onda de repulsa por todo meu corpo toda vez que se aproximava. O simples cruzar de olhares com ele incendiava-me de raiva.
Pelo menos eu fazia questão de ser sempre tão desagradável quanto ele, infernizando-o no mesmo nível de crueldade que ele se utilizava. Mauro sempre ficava entre nós quando as coisas esquentavam muito, tendo que apartar nossas guerras verbais, mandando vez ou outra nós dois calarmos a boca.
Agora, a notícia presente de saber que aquele ser, que eu mais desprezava na vida, seria meu mais novo chefe sugou o resto de poder que eu tinha sobre meus sentidos, embaraçando minha cabeça assim como meu destino. Era impressionante o quanto apenas a existência insuportável dele era capaz de estragar tudo. Por isso o frio era tão convidativo naquele momento. Ajudava-me a desligar qualquer que fosse a sensação física que aquele sujeito fazia-me passar, passando meu foco principal para o frio que me consumia. Só não precisava estar ventando tanto.
Abracei meus braços gelados em uma forma de autoconforto e deixei meus pensamentos voarem para onde eles quisessem, já que, após algumas taças de vinho tinto, eu ficava bem mais absorta que o normal.
O que seria de mim daqui há uns meses? Por que justo ele seria meu novo chefe? Os Majores sabiam das desavenças, o que eles pretendiam com aquela escalação?
— Merda! — gritei, fechando meus olhos com força.
Odiava todo aquele drama que eu estava fazendo, de certa forma. Eu deveria estar orgulhosa de mim mesma, e não lamentando de finalmente ter sido convocada para uma missão tão importante quanto aquela. Deveria focar nas boas partes do meu trabalho, afinal, com apenas 25 anos, eu era Tenente na Marinha Real Britânica, a segunda maior marinha de todo o mundo, com uma importância global insuperável. Caramba, eu era foda!
Claro. Eu tinha gerações de militares na família, e isso te dava uma certa moral para alcançar cargos importantes mais jovens. Afinal, eu era neta de um Almirante (maior cargo dado aos competentes marujos durante tempos de guerra), filha de um Capitão da Marinha e uma Médica Sargenta, além de ter meu irmão, que era Comodoro em frotas importantes para nosso país. Nós dois fazíamos parte do Corpo da Armada, que operava necessariamente em alto-mar. Majores e Sargentos eram designados para trabalhos terrestres administrativos, coisa que nós não almejamos de forma alguma. Minha família era uma das mais tradicionais da Marinha Real Britânica, assim como os . Nossos sobrenomes circulavam há mais de um século nas forças armadas.
E infelizmente para mim, a amizade de infância de meu irmão com era bem vista na Marinha, pois brotava um rumor de paz entre nossas famílias. Afinal, uma rivalidade de gerações não facilitava as coisas dentro da repartição.
Todos sabiam muito bem das histórias das rixas que circulavam entre as duas famílias, tudo era motivo de fofocas até os dias atuais. Aumentadas, distorcidas, com testemunhas que nunca estiveram lá… A história da minha família era um verdadeiro circo, no qual todos colocavam sua pitada de autoria para fazer uma boa anedota e contar a alguém que ainda não sabia da coisa toda. Eu tentava não me ater a nada daquilo, fingir que não escutava, entende? Me concentrar na realidade e nas coisas que aconteceram comigo já me doía muito e soava muito mais urgente. Afinal de contas, eu tinha minha própria história com aquela família maldita. Não precisava do passado para me encher de ódio quando ouvia o sobrenome deles.
errou de modo imperdoável anos atrás, o suficiente para três vidas de puro desprezo crescer imensamente dentro de mim, sempre engatilhando sofrimento e desprezo quando eu o via. Ele, por si só, já havia arruinado boa parte da minha vida.
Oh, como eu o detestava.
A amizade de meu irmão com aquele energúmeno era indigerível para mim, não entrava na minha cabeça como os últimos acontecimentos trágicos mal afetaram aquela… relação.
Ambos, infelizmente, cresceram juntos. Estudaram na mesma escola e juntaram-se cada vez mais por pura rebeldia através dos anos, trazendo muita dor de cabeça para dentro de casa. Eu era testemunha. Esse era o principal motivo de desavença entre Mauro e nosso pai, e as brigas não eram leves.
Agora, mesmo que e Mauro tinham cargos de alta hierarquia na Marinha, não possuíam trava alguma em demonstrar essa amizade aos olhares curiosos. Eu suspeitava que eles até gostavam da atenção, que era um tipo de mensagem silenciosa que passavam a todos, algo como: “Foda-se o que todos falam ou pensam, nossas famílias se odeiam e, ainda assim, somos amigos. Quem sabe até nos casemos só para terminar de foder com o psicológico da ”.
Argh, que raiva!
Com sendo nomeado Comandante para uma das missões mais importantes do nosso ano, sua petulância ia gritar no meu ouvido. Aquele serzinho desprezível…
Ok, era minimamente eficiente, mas também possuía influência e moral no meio, sendo neto de Almirante e filho de um Sargento respeitável, isso tudo se sobressaiu ao seu enorme erro de anos atrás.
Patético.
Completamente esperado, mas, ainda assim... patético.
E não me importava o quanto ficava bem naquele smoking ou no uniforme branco da marinha, ele continuaria sendo um cretino.
Será que os cretinos sempre ficam melhores em uniforme?
Balancei minha cabeça para os lados e fechei os olhos com força, tentando apagar qualquer pensamento nefasto que surgia em mim. Qual era meu problema? Será que não poderia confiar nem em mim mesma mais?
— E aí, maninha. — ouvi a voz de Mauro perto de mim e dei um pulo, assustando-me ao sentir sua mão de repente nas minhas costas.
— Merda! — disse, pondo uma mão no meu peito. Mauro gargalhou. Estúpido.
— Desculpe, não foi a intenção — deu uma última risada e apoiou-se ao meu lado. — Como você tá?
— O que você acha? — olhei-o rapidamente e soltei uma risada seca. — Eu tô fudidaaaaaaa — gritei com vontade, abrindo os braços e desequilibrando-me imediatamente.
— E bêbadaaaa — Mauro disse, rindo do meu estado, abraçando-me de lado. — Nossa, como você tá gelada, cara. Vai pegar um resfriado.
— Quem sabe assim eu morra de hipotermia e não tenha que lidar com o imbecil do seu amigo sendo meu chefe… Aliás, por que não tá lá com ele?
— Que irmã dramática que eu tenho, meu Deus! — depositou um beijo na minha testa e aconchegou-se mais em mim, me esquentando. — Eu tô tão orgulhoso de você, sabia? De chegar aonde chegou, de ouvir tantos elogios sobre você. Ainda mais depois de tudo que a gente passou nos últimos anos…
— Coisas que nunca teríamos passado se não existisse… — comentei sem pensar muito, deixando o teor alcoólico assumir o controle de minhas palavras.
— Ah, Liv, nem começa com isso de novo… — Mauro falou em tom cansado, desvencilhando-se de mim. Olhei-o desdenhosa.
— Como você pode defendê-lo tanto? — perguntei, indignada, aumentando meu tom ébrio de voz.
— Como você pode ser tão cabeça dura? — colocou as mãos na cintura, como nossa mãe fazia quando nos questionava sobre qualquer coisa. — Você sabe muito bem que a culpa das coisas terem acontecido nunca foi dele, que…
— Olha, Mauro, quer saber? Não precisa dar uma de advogado do diabo aqui. Nem sei por que estamos falando sobre o , na real. Ele é o último assunto que quero trazer à tona essa noite.
— Você que o mencionou, para falar a verdade…
— E você podia me deixar xingá-lo, né? Daqui há uns dias, eu vou ser completamente proibida de falar um “A” torto pra ele… — disse com a voz embolada, suspirando de raiva por lembrar-me que a missão começaria logo, assim como a chefia de sob mim. Inferno.
Mauro soltou uma pequena risada e deu um último beijo na minha testa, pegando carinhosamente na minha mão desocupada.
— Olha, eu vou voltar lá pra dentro. Tenta não ficar martelando nesse teu cabeção... — deu um peteleco leve na minha testa. — só coisa ruim, tá bem? E se lembra sempre, “Se a gente tem ainda um ao outro…
— … a gente tem tudo que precisa”... — completei nosso “lema”, olhando-o contrariada. Mauro depositou outro beijo em meus dedos gelados e saiu.
Uma enxurrada de memórias desagradáveis passou como um trem em meu coração, desencarrilhando toda a frustração de antes.
Assim que ele entrou novamente na festa, virei meu corpo para o mar e fitei-o, tentando extrair qualquer sensação boa daquela paisagem noturna esplêndida.
Os nós de minha mão no metal já estavam duros e brancos, devido ao esforço de manter-me parada no lugar. Voltei minha cabeça para o céu, fazendo meu pescoço inclinar-se para o alto e olhei para as estrelas extremamente brilhantes. Elevei minha taça a elas, brindando à ironia do universo, e sorri. Que bela merda eu estava metida.
Entornei o restante de líquido na minha garganta, sentindo-o queimar meu peito deliciosamente, enquanto tentava tornar aquilo uma distração para meu subconsciente; pelo menos o desconforto físico me tirava o foco do tormento psíquico em que estava.
Sem me importar com mais nada (ou simplesmente não raciocinando direito), arremessei a taça vazia no mar, voltando-me para frente do salão de festas rapidamente. Ajeitei meu vestido colado ao corpo e passei os dedos em meus cabelos soltos, tentando alinhá-los em vão. O vento naquela noite não estava para brincadeira. Ainda precisava segurar-me fortemente à grade ou sairia voando.
Assim que minha atenção subiu para a porta do salão, meus olhos encontraram a intensidade dos olhos de , analisando-me de longe com um meio sorriso no rosto, como se compreendesse a situação patética que eu dramatizava mentalmente.
Que merda estava acontecendo? Por que ele estava me encarando?
Franzi as sobrancelhas em confusão para, logo depois, abrir um sorriso desprezível para meu futuro superior. Já que ainda podia fazer isso sem punições, aproveitaria ao máximo minhas últimas horas de um ultraje que podia ser expresso.
Ele apenas revirou os olhos, tomando o líquido âmbar de seu copo, antes de virar as costas para mim e dirigir-se ao bar mais próximo, provavelmente para pegar mais bebida. Cretino. Odiava que ele fosse o último a me lançar olhares irônicos.
Aquele era nosso joguinho às vezes, nos desprezar através de olhares. Isso quando não entrávamos em uma discussão tola qualquer, antes de sermos interrompidos.
Oh, como eu o odiava.

’S POV

Eu olhava extremamente concentrado para uma ruga no meio da testa de um Sargento enquanto ele falava sobre “a arte de desarmar bombas”. Os vincos na pele dele eram fundos, explicitavam seus setenta e poucos anos de idade, ao passo que seu jeito manso de falar sobre um assunto sério mostravam os possíveis mais de cinquenta anos de serviço na Marinha Real. Alguém o chamou, ele pediu licença, e eu fiquei mais uma vez naquela enorme festa em companhia apenas da deliciosa tontura de whisky caro. Vez ou outra, alguém me parava para cumprimentar e parabenizar pelo cargo no ofício que havia sido escalado, com grandes menções honrosas ao que minha família havia conquistado e blá blá blá. Eu tentava ignorar aquela parte, sempre fui de me afastar o máximo possível da sombra que minha família fazia. Só quem vivia do lado de cá sabia do peso que era ter esse tipo de sobrenome te acompanhando.
— Cara, tava te procurando!
Virei para trás e Mauro vinha em minha direção; acenei com a cabeça e bebi um pouco do whisky. Mauro era um cara alto, quase um e noventa de altura, forte, com os ombros largos, cabelos pretos espessos, cortados rentes à cabeça, e rosto limpo de barba. Típico militar, não passava despercebido pelo tamanho. Tinha a cara da mãe dele, apesar dos traços rudes.
— Você sumiu depois que eu fui ao banheiro. — ele disse, reclamando. Ele era meio dramático.
— O que eu posso fazer se estou requisitado essa noite? — disse, ébrio, abrindo os braços. — Sou um dos Comandantes mais jovens da história, porra! — Mauro abriu um sorriso assim como eu, bebeu todo o conteúdo de seu copo e me abraçou com força, me levantando levemente do chão.
— Garotão! — ele disse, abafado.
Nos soltamos, eu bebi o restante da minha bebida e cutuquei Mauro com o cotovelo.
— Vamos encher a cara. Comemorar logo isso. — falei com empolgação. Ele concordou e fomos juntos até o bar mais próximo, o que tinha, sorte a nossa, a bartender ruiva gata.
Chegamos lá e eu pedi mais whisky, ele foi na cerveja. Troquei olhares significativos e um breve sorriso com a bartender, enquanto Mauro apenas olhava em volta. Nos encostamos no balcão, de frente para toda aquela bagunça de pessoas extremamente arrumadas, suspiramos ao mesmo tempo e brindamos em silêncio.
— Então, como você está se sentindo sobre a escalação? — ele perguntou, bebendo um gole da sua cerveja gelada.
— Se eu falasse que não estou apreensivo, estaria mentindo — olhei para o gelo no meu copo e o balancei. — Mas, porra, é a missão mais importante do ano. Eu não durmo direito desde que recebi a notícia. Eu não sei se comemoro ou choro. — entornei a dose de whisky toda de uma vez e senti o líquido viscoso rasgar minhas garganta aos poucos.
Mauro soltou uma risada, e eu senti tudo girar. Virei meu corpo de forma débil no balcão e pedi mais uma dose para a bartender maravilhosa.
— Então você está com um problemão aí, hein? — ele perguntou, rindo.
— Será mesmo, meu amigo? — ironizei.
— Ah, grande coisa que você vai comandar uma missão de escolta intercontinental de alta periculosidade com um valor monetário na casa dos milhões. Tudo ficará bem. É só beber whisky. — ele debochou.
— Essa é a minha premissa para essa noite. Pelo menos hoje eu durmo. — afirmei, bebericando um pouco da bebida recém-servida e secando a ruiva, que saía para atender outro cliente.
Mauro riu e virou o rosto para mim.
— Agora sério, você deveria ficar preocupado mesmo é em ser chefe da minha irmã. Já pensou nisso? — ele disse, rindo mais ainda.
Eu apenas suspirei e fechei os olhos.
— Vocês se odeiam e vão trabalhar juntos, cara. Que desastre.
— Valeu, cara. E não, não quis parar para pensar sobre esse fato ainda. Mas obrigado pela lembrança. — virei meu corpo para frente mais uma vez, sentindo uma sensação incômoda no peito crescendo.
Mauro ria ainda, chegando ao ponto de jogar a cabeça para trás e gargalhar alto da minha cara. Naquele momento, eu só conseguia pensar que belo babaca que eu tinha como melhor amigo. Mas ok, eu entendia a parte cômica daquilo tudo. Talvez se eu estivesse no lugar dele também riria da comédia de escárnio que o destino fazia parecer que a nossa vida era às vezes. A verdade era que eu realmente não havia parado para pensar que havia me tornado chefe de ainda. Tinham se passado apenas dois dias da convocação e comunicação sobre a missão e o cargo, essas últimas quarenta e oito horas se passaram rápido com as intensas reuniões para elucidar tudo. Havia coisas que eu não tinha tirado energia para raciocinar ainda.
E a verdade era que eu não queria pensar em . Muito menos que eu iria a chefiar diretamente durante meses a fio, todos os dias, por horas, precisando aguentar os minutos ao seu lado, tendo que ouvir sua voz, sentir seu cheiro, ter sua presença próxima a mim. Só de imaginar que precisaria suportar seus olhares carregados de ódio direcionados à minha figura minha paciência ia para o saco. Era como se ela pudesse me aniquilar apenas me olhando. Sempre fora assim. Era sufocante, pode apostar. Eu não fazia ideia de como seria o ofício, há anos eu estava mais afastado dessa parte da vida de Mauro que era sua irmã caçula.
— Você já falou com ela em relação a isso? — perguntei de repente, circulando o gelo dentro do copo.
— Claro que não. E nem é preciso. Dá para notar que ela ficou arrasada com essa escalação, cara.
— Isso é ridículo. — soltei sem pensar. — É só um trabalho. Não é como se… É só um trabalho. — dei de ombros, como se não estivesse me importando com aquilo também.
— Você sabe como ela se sente em relação a você…
— E eu? Ela deve achar que estou nas nuvens com tudo isso, não é mesmo? Não a suporto também. — falei. — Eu sei que ela é sua irmã, até peço desculpas. Mas porra…
— Eu sei como vocês são, já presenciei várias situações. — Mauro disse manso, bebendo mais de sua cerveja.
— O que eu quero dizer é que é só uma missão. Ela não precisa ficar “arrasada”. — ironizei, modificando a voz idiotamente no final. Eu sentia que era só começar a falar de e seus trejeitos que eu me irritava com facilidade.
— É só começar a falar de que você fica esquentadinho. — Mauro disse, rindo, ao levar a garrafa até sua boca.
— Tava pensando nisso agora.
— Vou aproveitar a deixa e ver como está um momento. Acho que essa noite vai ser uma daquelas que ela enche a cara de vinho e volta para casa querendo passar no Burger King.
— Deprimente.
— Pois é.
Quando Mauro começou a se afastar, voltei a ouvir os sons da festa. Olhei por todo o perímetro do salão, onde tinha mulheres em seus elegantíssimos vestidos e homens de smoking ou farda branca servindo presença, e subi meu olhar para o par de lustres estrondosos que pendiam no teto como se não pesassem mais que a âncora de um navio. Caminhei alguns metros e fiquei entre o alvoroço de pessoas, apenas procurando por um rosto conhecido para trocar algumas palavras insignificantes até Mauro voltar. O ambiente ao meu redor cheirava a perfume caro e maresia, em que todos pareciam se esforçar demais para manter uma conversa interessante com a pessoa na sua frente. Parei para prestar atenção no que algumas pessoas falavam. Até que, finalmente, ouvi.
Estava demorando mesmo.
Virei meu rosto para o lado e vi que eram duas mulheres, deveriam ter na faixa dos seus cinquenta anos. Uma era loira e estava com um vestido preto comprido e a outra era morena e vestia um dourado até os joelhos, eram elegantes e bonitas.
— Você viu só o vestido que ela veio?
— Estrondoso, simplesmente estrondoso. E os cabelos? Sempre magníficos, não é? Ai, o quanto eu daria para ter aqueles cabelos. — a mulher do vestido dourado chacoalhou as mãos no ar, fazendo as pulseiras balançarem.
— Eu os acho muito compridos.
— Você só está com inveja!
Uma terceira mulher, loira, cheia de adornos dourados, se virou para elas e começou a falar:
— São enormes mesmo, não é? Mas ela sempre os teve assim, e são lindos de morrer. E combina tanto com ela.
Subitamente, uma mulher ruiva com um vestido verde se juntou ao trio.
— Que rosto belíssimo ela tem, não é mesmo?
— Ela é linda.
— Jovial.
— Magnífica.
— Pena que sempre aparenta estar abatida, não é mesmo?
— Uma pena.
— Horrendo.
— Mas o vestido dela era um escândalo.
— O mais lindo da festa!
— Perfeito!
Soltei uma risada e balancei a cabeça.
Esse, senhoras e senhores, era o efeito . Sem escapatória para ninguém. Não tinha para onde olhar quando ela chegava no cômodo. Em qualquer lugar que fosse, podia ser um estádio acontecendo o jogo mais importante do ano, ou em um sala de cirurgia com um médico extremamente concentrado, todos olhariam e sentiriam o efeito que causava. E não foi nada diferente naquela noite. Desde o momento em que ela entrou no salão, com seus cabelos enormes penteados para o lado, aquele vestido de seda cor de sangue esculpindo seu corpo e seu olhar sempre intenso para todos que cumprimentava, ela não fazia menos que ser o assunto de pelo menos metade da festa.
E não dava para explicar o que era ao certo. Claro, ela era absurdamente linda. Nem eu como inimigo número um dela podia negar aquilo. Mas não era isso, pois apenas beleza torna-se chato de olhar uma hora. tinha algo que despertava a curiosidade alheia. Ela tinha alguma coisa de fascinante. E não era bem definível, principalmente porque eu não achava nada fascinante, então não conseguia interpretar direito o fascínio geral em torno dela.
Talvez fosse algo como achar beleza em pessoas bonitas e totalmente quebradas. Como querer descobrir as camadas cada vez mais profundas de alguém que já havia sofrido tantas coisas trágicas quanto ela. O que será que tinha no âmago dela, sabe? Quais sombras ela projetava em seu interior.
Ou talvez as pessoas só fossem fissuradas em pessoas bonitas, arrogantes e insuportáveis. Como era.
E que sorte a minha, agora a garota estava na minha tripulação com um cargo diretamente ligado ao meu. Eu estava perdido, e a ficha ainda não tinha caído. Naquele momento, eu apenas existia e deixava minha mente flutuar em torno daqueles novos fatos da minha realidade enquanto continuava a me embebedar com um ótimo whisky.
Segurei o copo quase vazio na minha mão e o olhei com profundo interesse, enquanto o restante de gelo que nadava ali se dissolvia no álcool. Eu precisava organizar minha cabeça, sabia que ali não era o melhor lugar, em uma festa, enchendo a cara para tentar me anestesiar, mas aquele não era mais eu. Há muito tempo, eu fiz um pacto comigo mesmo em ser mais sincero e encarar as situações de frente. Até porque eu já tinha quase quarenta anos, e, depois de algumas décadas de idade, você começa a ser mais realista consigo mesmo, até quando não quer muito. É automático, as coisas apenas vêm na sua mente.
O que eu não conseguia parar de pensar naquele momento, por exemplo, era que tinha uma garota de vinte e cinco anos, irmã caçula do meu melhor amigo, que havia sido escalada para a minha tripulação em uma missão de suma importância, e nós dois não nos suportávamos. Em uma equação madura de adultos, os dois abandonariam as diferenças e trabalhariam sem problema algum. Porém, eu e éramos como fogo e gasolina. Nossas personalidades colidiam, nós não nos dávamos bem nem em uma simples conversa. E era isso. Como seriam os próximos meses das nossas vidas eu não fazia ideia, mas eu sabia que seria um desafio para o meu autocontrole.
Senti um sufoco no peito, típico de quando ficava ansioso, e tentei respirar fundo. Precisava tomar um ar, sair um pouco daquela festa cheia. Me encaminhei até a área externa do local. Eu sabia que estava frio por ser início de inverno e que provavelmente não tinha ninguém na parte externa pelo clima gelado, mas era isso mesmo que eu buscava. Solidão, respirar um ar fresco de inverno e talvez fumar um cigarro.
Quando cheguei na porta para abri-la, já não tinha ninguém em volta. Só ali a área da festa já era mais fria e, por isso, mais vazia. Olhei para fora para observar a noite e vi um grande borrão vermelho.
estava agarrada à grade de contenção do cerimonial, como se a mesma a impedisse de propósito de nadar na água do oceano à sua frente. Com a outra mão, tinha uma taça quase vazia de vinho. E seu vestido voava ao gosto do vento, assim como seu cabelo, que tinha aquela cor incrível que dava para ver as nuances até mesmo com a luz da lua. Devia ser por isso que ela deixava seu cabelo tão comprido, porque era lindo. Apesar de ser um homem fã de cabelos curtos em mulheres. Não que eu estivesse analisando assim. Era apenas uma observação. Ela provavelmente gastava muito com shampoo.
Enfim.
Continuei a observando, contido em não ir lá fora para não trombar com ela. Toda sua linguagem corporal estava tensionada, até mesmo com a distância eu podia falar que ela estava se tremendo de frio. E, por um momento, por ter convivido com ela o suficiente no passado, eu sabia por que ela estava fazendo aquilo. Permanecendo no frio daquele jeito. Ela realmente estava atormentada. precisava sentir alguma sensação corpórea extrema para se desligar um pouco da aflição mental que estava passando por ter que lidar com o fato de eu ser o novo chefe dela. Dá para acreditar?
Pelo visto, o álcool também não estava funcionando para ela. Afinal, o meu querido whisky também não estava nem perto de resolver minhas questões, e, àquela altura, parecia estar me confundindo o suficiente para que eu me mantivesse à mercê daquela visão, observando sozinha, meio hipnotizado em cada movimento que ela fazia. Convenhamos, ela não estava agindo muito normalmente, estava… cômico de se olhar. Não podia me culpar tanto por me manter parado ali a observando.
De repente, de uma forma dramática, ela pendeu sua cabeça para trás em direção às estrelas, ergueu a mão com a taça até os céus como se brindasse a algo, entornou o líquido que tinha dentro e então… Jogou a taça de cristal em direção ao mar. Mas que porra…
Ri com a situação e me deixei perder por mais alguns momentos em sua figura. O vestido vermelho-sangue colado até o quadril ficava comportado nas curvas, mas se perdiam na ventania insistente, os decotes que eu via eram nas costas e deixava algumas de suas tatuagens à mostra. Naquela distância, eu não conseguia ver quais eram os novos desenhos que estampavam sua pele, mas conseguia percebê-los mesmo assim. Deixei meus olhos baixarem, irem pela curvatura de sua cintura até a bunda. Engoli em seco e desci pelas suas coxas, que já estavam desnudas pela fenda do vestido estar aberta. E, apesar da postura tensionada, estava perfeitamente alinhada de salto alto preto, o que deixava suas panturrilhas torneadas contraídas. Voltei meu olhar vagarosamente pelos seus tornozelos, suas coxas, o quadril…
Ela virou seu corpo para frente abruptamente. Ela tinha confusão estampada nos delicados traços do rosto. ajeitou os cabelos com os dedos, os penteando, e então olhou para frente. Nossos olhares se cruzaram. Acordei de qualquer devaneio que poderia estar tendo naquele momento e senti como se uma estaca atingisse meu coração, ao mesmo tempo que ele acelerava com violência. Aos poucos, enquanto me olhava, sua expressão mudou de confusão para um ódio visceral.
Ela realmente me despreza.
tentou ajustar o vestido no corpo, apesar do vento, e cruzou os braços em frente aos seios, me olhando com um desdém palpável Eu apenas revirei os olhos à petulância dela e me encaminhei até o bar mais próximo, com uma ideia na cabeça.
Cheguei na bartender ruiva gata, que estava preparando um drink vermelho, e falei:
— Olá de novo, Mindy. — seus lábios se esticaram em um pequeno sorriso. — Oi, Comandante. — cumprimentou, com a voz rouca e sexy, e não pude deixar de sorrir no Comandante. — Double whisky? — ela apontou para o meu copo enquanto entregava a bebida para uma mulher ao meu lado.
— Claro. — a observei se esticar para pegar a garrafa no alto de uma prateleira e o tecido da sua roupa tomar forma no seu corpo. Ela pegou a garrafa, serviu as duas doses olhando no fundo dos meus olhos e pôs a garrafa no balcão. Bebi um pouco e continuei com o contato.
— Posso ser útil em mais alguma coisa? — ela perguntou, se inclinando pelo balcão e apoiando-se nos cotovelos.
— Claro, doçura. — falei. Seu sorriso esticou mais. — O que as damas normalmente pedem aqui?
— Ah, não, por acaso vai pegar bebida para uma moça? — ela fez um leve bico com os lábios carnudos, e eu sorri.
— Não é esse sentido, linda. Vamos dizer que eu preciso fazer as pazes com meu passado e fechar um acordo de paz para o futuro. — falei e me apoiei igualmente no balcão do bar, ficando mais próximo dela.
— Hm, parece importante. — ela disse rouca, mais baixo. — Então, você sabe o que essa moça gosta de beber?
— Eu estava esperando que você me respondesse o que costuma ser servido para as mulheres aqui. — levantei uma sobrancelha, olhando dos seus olhos para seus lábios, que pareciam extremamente convidativos à medida que ela os mordia ao sorrir para mim.
— Bem, normalmente servimos espumante, drinks doces com frutas em calda…
— Não, isso não parece combinar com ela. — balancei a cabeça.
— Como ela é? — Mindy perguntou.
— O próprio capeta em forma de pessoa.
A mulher na minha frente gargalhou e me fez sorrir junto.
— Então ela é difícil. — ela afirmou.
— Você está sendo gentil.
— Posso oferecer um drink mais forte como… Dry Martini, talvez. — ela falou enquanto pegava uma taça alta bem aberta.
— Perfeito, Dry Martini. Combina com o quão seca ela é.
Mindy me direcionou um olhar risonho, pegou azeitonas para colocar no copo e começou a preparar o drink. Entornei o whisky e senti que já me encontrava em um estado mental muito mais leve e solto, no qual as cores se misturavam e tudo balançava com mais facilidade. Meu corpo estava completamente aéreo. Quando percebi, estava sendo servido de mais bebida e um gelo grosso. O Dry Martini ficou pronto, agradeci com uma piscada de olho para a ruiva gata e me encaminhei para a parte externa da festa, onde estava.

’S POV

Assim que deu as costas, me virei depressa para o mar, agarrando a grade de contenção com força.
— Meu Deus, como ele consegue me irritar até mesmo à distância? Com aquele sorriso idiota no rosto ainda. Que grande cretino ele é, que enfie toda essa ironia patética no meio do... — interrompi meus xingamentos e fechei os olhos com força, enquanto respirava fundo repetidas vezes para tentar me acalmar. Soltei um grunhido e abri meus olhos.
Uma tontura fortíssima me dominou. Eu sabia que havia sido uma péssima ideia ter bebido taças e mais taças de vinho, indiscriminadamente, uma seguida da outra, mas o que eu faria para aguentar aquela festa, com todas aquelas pessoas, ainda mais após o comunicado do recrutamento, não é mesmo? Eu odiava aquela sensação de incerteza que me rondava sobre como seriam os próximos meses da minha vida. Odiava estar perdendo meu sono e viver com essa sensação ansiosa no peito. Eram angústias antigas retornando, e eu não queria encará-las.
Afinal, o que eu havia feito de tão ruim para merecer passar por aquilo, não é mesmo? Ter que enfrentar o castigo de trabalhar com e, pior, sob os comandos dele. Eu juro que ainda esperava por uma notícia, um e-mail ou até mesmo uma reunião em que tudo se revelaria ser apenas uma grande brincadeira de mau gosto dos nossos superiores.
Mas não. Tudo ficava cada vez mais real à medida que os segundos passavam, e nada era capaz de mudar isso. Como as coisas dariam certo se ao menor contato, quando nós apenas trocávamos olhares, já despertava os piores sentimentos dentro de mim? Tudo estava desmoronando sob meus pés, mais uma vez.
Senti meus ombros amolecerem, apesar de todos os meus músculos estarem fortemente contraídos. Toda a tensão emitia pensamentos doloridos na minha cabeça, deixando meu corpo inteiro alerta. Então, subitamente, ouvi um assobio atrás de mim. O barulho me pegou desprevenida, como se um trovão atravessasse o céu naquele segundo.
Olhei para trás e meu estômago embrulhou. vinha em minha direção, com uma taça de Dry Martini (o drink mais perfeito do mundo) em uma mão e um copo com whisky na outra. Ele sorria discreto, com o olhar fincado em mim, e seu caminhar era confiante, como sempre. Revirei os olhos na hora, ao mesmo tempo que voltava para o mar na minha frente.
Só podia ser brincadeira com a minha cara.
. — cumprimentei-o, sem paciência alguma, assim que ele se aproximou. Ele estendeu a taça, eu a peguei e tomei um pequeno gole. Não me incomodei em agradecer.
. — ele respondeu, sua voz grossa estava igual como sempre, talvez mais profunda.
Ele se apoiou na grade ao meu lado e ficou ali. O vento passava forte por nós e fazia meu vestido voar longe. A noite estava linda e gelada, a companhia e as circunstâncias estavam uma merda.
— Você vai falar mais alguma coisa ou só veio me trazer um drink? — perguntei, rindo nervosa por todo aquele silêncio desnecessário se enroscando entre nós. Se ele queria alguma coisa, que dissesse logo.
— Calma, garota, eu tenho algo a falar. — ele disse, em um falso tom sério. Eu conhecia aquele seu timbre de voz. Não me importei de primeira, apenas revirei os olhos mais uma vez. — Pensei em vir aqui para falarmos sobre… a nossa nova situação de trabalho. Já que é desfavorável para nós dois.
— Desfavorável? Isso é ser muito ingênuo. , você é meu novo chefe agora. Nós estamos ferrados. — olhei para ele desgostosa e bebi um grande gole do conteúdo da minha taça.
— Será que dá para ir com calma e diminuir um pouco a quantidade de álcool? — ele disse, abanando a mão.
— Você quem trouxe a bebida para mim, queridinho. — eu disse, virando meu corpo e cruzando os braços na frente dos seios, com a taça entre meus dedos. me olhou de lado, e eu ergui as sobrancelhas. Ele desceu seu olhar por toda a minha figura, vagarosamente, à medida que o vento me atravessava e levava o tecido do meu vestido com ele. Sua íris derreteu do meu colo desnudo até minha cintura, descendo nas minhas pernas, indo aos meus tornozelos, voltando com calma pela minha postura. Senti um calor preencher todo meu corpo aos poucos. — O que você está olhando tanto, hein, ? Nunca viu uma mulher antes? — seus olhos voltaram aos meus na hora, sustentando meu contato.
— Você está linda, . — ele falou de repente.
Espremi meus olhos em desconfiança. O que ele queria dizer com aquilo?
Não o respondi.
Apenas espreitei meu olhar para ele e permaneci parada.
— Por que fala isso? — perguntei.
— Porque é a verdade. — deu de ombros.
Virei para a frente para quebrar o contato visual com ele e dei mais uma bebericada da minha bebida, sem entender realmente onde ele queria chegar com aquele elogio repentino. Achei melhor apenas ignorar e tentar aproveitar o martini que eu tinha em mãos.
— Enfim. Onde eu estava? — ele continuou. — Sobre a missão, não é? Então, eu juro que queria dizer que será um prazer te ter na minha primeira tripulação, mas eu nunca fui um bom mentiroso. — ele afirmou, em um tom calmo, e eu o olhei chocada pela audácia. — Eu sei o quanto as nossas famílias têm uma vasta história de desavenças pesadas e o quanto isso se estende à nossa geração. Tirando eu e seu irmão, claro. — pausou, sorrindo rapidamente. — Sei que nos odiamos e que não tem como melhorar essa situação em poucos dias para a missão, mas a realidade é a seguinte: iremos trabalhar embaixo do mesmo teto, ou sobre o mesmo mar, dia após dia, por horas. Isso será inédito para os dois. E, nessa missão, nós temos que dar o nosso melhor. E isso significa dar uma trégua nisso tudo, nesse negócio de ódio, farpas, petulância, deixar essa sua arrogância de lado mesmo ou qualquer coisa desse nível para tudo fluir perfeitamente como deve acontecer. Ou esse trabalho será o motivo do meu assassinato e do seu afastamento. — concluiu, com um sorriso convencido, erguendo as sobrancelhas e pegando o palitinho de azeitonas da minha taça. Simples assim.
Ele só podia estar de brincadeira com a minha cara. Quem ele pensava que era para me chamar de arrogante com o discurso mais arrogante da noite? O observei, incrédula, enquanto ele devorava as azeitonas. Será que ele realmente achava que havia falado alguma coisa minimamente inteligente?
, como você conseguiu chegar no cargo que te colocaram será sempre um mistério para mim. — soltei uma risada. — Ainda mais depois de você ter feito o que fez, sabe? Com a minha mãe. — nesse momento, ele parou de morder as azeitonas. Sua atenção voltou para mim e toda sua expressão endureceu; eu apenas estiquei meus lábios em um sorriso infeliz. — Só sendo muito presunçoso mesmo para vir aqui e falar todas essas coisas achando que conseguiria algo de positivo nisso tudo. Um brinde à sua burrice, . — elevei minha taça em sua direção e bebi todo o conteúdo dela sem quebrar o contato visual com ele. O líquido queimou minha garganta e imediatamente me deixou mais tonta. Estava tudo ficando mais fácil. Me mexer, aguentar aquilo, xingar , odiá-lo, não ter medo de mais nada.
deu um passo na minha direção e parou próximo a mim. Ele exalava o seu perfume fresco, que estava mais forte naquela noite. Apenas o encarei desdenhosamente.
— Eu acho melhor você começar a ter cuidado com as coisas que você fala para mim, garota. — ele disse, devolvendo o palito sem azeitonas para minha taça vazia.
— Ah é? Por quê? Você não parece ter pensado antes de falar merda para mim. — falei, zonza.
Ele riu.
— Existe uma hierarquia entre nós agora, . — ele disse meu nome arrastado, e eu senti seu hálito quente de whisky tocar no meu rosto à medida que ele se aproximava ao falar.
— Essa vai ser sua desculpa de agora em diante para ser desprezível? — sussurrei em mais uma afirmação que uma pergunta, aproximando meu rosto também, sem medo. — A missão nem começou ainda.
— Eu já fui efetivado. Já sou seu superior. — ele sorriu, seus olhos semicerrados passeavam pelo meu rosto com sagacidade. — E, sabe, eu não estou gostando muito do tom que você está usando comigo. — ele negou devagar com a cabeça.
— Oh, meu tom… — eu ergui uma sobrancelha. — Que tal isso então? — pausei para olhar bem em seus olhos e murmurei. — Por que você não vai para o inferno, Comandante ?
Ele olhou para a minha boca e sorriu.
— Eu já vou pro inferno quando a missão começar, porque terei que lidar com você todos os dias. Então, que diferença faz? — deu de ombros.
Olhei para sua boca e odiei o pequeno sorriso que estava ali. Queria tirá-lo de lá, desmanchá-lo, destruí-lo.
— Sabe, por um lado eu estou ansiosa para que esse ofício comece. Quero estar por perto quando você estragar tudo e mostrar para todo mundo o incopetente que é.
soltou uma risada, passou a mão pelo rosto e bebeu todo o conteúdo do seu copo. Desviou o olhar do meu para vislumbrar o mar à nossa esquerda e, com um movimento calmo, apoiou seu copo na marquise na grade ao nosso lado.
— Você é bem difícil de conversar, sabia disso? — ele disse, voltando a me olhar, com as mãos apoiadas no quadril.
— E você é um descontrolado impulsivo.
— Que tal começar a maneirar no linguajar, garota?
— Quem você é, meu pai? — debochei.
— Para ser como ele, eu precisaria ser muito mais babaca e sumir da sua vida, não é mesmo?
Naquela hora, eu não pensei em mais nada. Senti como se algo fosse sugado do meu peito, uma sensação gelada lambeu minha espinha. Apenas ergui minha mão e dei um tapa com tudo na cara de . Seu rosto foi projetado para o lado com um baque surdo. Senti a palma da minha mão arder pelo impacto. Olhei para ela e, mesmo com a visão zonza, vi a pele avermelhada.
— Como ousa falar isso?
Ele virou o rosto para mim, com uma mão repousando no lado atingido.
— Você vai desejar não ter feito isso.
— Pare de me ameaçar! — gritei, ainda sentindo a dor pelas coisas que ele tinha falado de meu pai. Meus olhos começaram a umedecer com uma emoção ébria.
Com , era assim. Ele jogava sujo. Não importava o tamanho de sua ferida e o quanto havia custado para ela cicatrizar, ele iria abrir o corte mais uma vez só para ter o prazer de te ver machucado.
— Pelo visto você não tem a mínima noção do quanto acabou de dificultar a própria vida dentro da Marinha, né? — ele disse, devagar, com uma expressão de puro ódio no rosto. — Eu terei uma atenção especial na hora de escrever seus relatórios de desempenho, pode apostar nisso. Nossos superiores ficarão surpresos ao ver as coisas que eu terei a dizer sobre seu comportamento diante de figuras de autoridade na missão. Seria uma pena ir tão mal ao ponto de ser dispensada do Corpo da Armada, não é mesmo, garota? — ele abriu um sorriso, que mais parecia uma máscara de crueldade para mim naquele momento.
Foi como levar um soco no estômago seguido de um banho gelado. É claro que ele seria antiético ao ponto de prejudicar a minha carreira na Marinha. Ainda mais agora que ele tinha o poder de fazer isso. Não bastava falar coisas baixas para mim e me ameaçar, ele ainda me contaria qual seria o plano dele para estragar a minha vida mais uma vez. Soltei uma risada de nojo e o olhei de cima a baixo.
— Mas é claro que um seria corrupto em alguma coisa, está no sangue de vocês.
— Olha bem como fala da minha família. — ele falou, apontando um dedo para mim.
— Não basta os erros que cometeu no passado, precisa voltar no meu presente e arruinar com toda a minha vida de novo. — berrei, sentindo minha voz embargar. Tudo ao meu redor girava.
— Como se você já não fizesse isso muito bem sozinha.
Quando dei por mim, estava esmurrando seu peito com minhas mãos fechadas em punhos. No entanto, meus movimentos eram completamente ébrios e desordenados. pegou em meus pulsos rapidamente. Mas eu não parei de me debater.
— Me solta!
— Cuidado, garota, você está abusando da minha boa vontade. — ele disse entredentes, enquanto colava seu corpo no meu contra a grade para conter alguns de meus movimentos.
Pude sentir todo seu tronco duro e grande contra o meu, suas pernas trancando as minhas para que eu não tentasse chutá-lo e suas duas mãos pondo as minhas com força contra a grade com certa facilidade, como se eu não fizesse movimento algum contra os seus. Minha respiração estava ofegante. Eu sentia o calor de diretamente na minha pele, e isso me incomodava, me sufocava. Eu queria sentir o frio de novo. Não queria sentir meu corpo arder contra o dele. Parei de me mexer, com cansaço em meus músculos. Meu peito subia e descia desconexo, minha garganta estava seca. Ele continuava a prensar seu corpo contra o meu.
— Foi um erro achar que daria para ter uma conversa com você.
— Você é um monstro, como pode falar essas coisas depois de tudo que aconteceu? — eu disse, num fio de voz.
Ele se aproximou do meu ouvido e murmurou:
— Sou um monstro e, olha só que sorte a sua, agora sou seu chefe — ele disse, sua respiração quente batia no meu pescoço, causando um arrepio travesso em mim. Balancei a cabeça para os lados. Ele se afastou de mim para me olhar. — Você já possui uma medida disciplinar para cumprir no seu primeiro dia de recrutamento, Tenente. — dito isso, ele soltou seu corpo do meu abruptamente, afastando-se por completo de mim. Precisei apoiar as mãos nos meus joelhos para não cair, tamanha era a pressão que seu corpo fazia contra o meu.
Comecei a massagear meus pulsos pela dor do aperto de suas mãos e consegui voltar a respirar melhor com nossa distância. começou a andar em direção ao salão de novo, mas parou no meio do caminho apenas para me olhar por cima dos ombros.
— Bem-vinda à minha tripulação, Tenente . — rosnou com sua voz grave, recomeçando a andar. Sua figura sumiu rapidamente pela multidão.
Oh, eu estava muito ferrada.


Capítulo 2 – The Cold Sensation Of Reality

’S POV
Cais da Marinha, Londres, 10 a.m.

O sol ardia no topo do céu, imitando lâmpadas incandescentes de um típico corredor de hospital. Sua luz riscava o rosto dos marinheiros, que corriam afoitos enquanto berravam comandos náuticos uns aos outros. Ouvi o pneu do carro de Mauro cantando longe, despedindo-se de mim em uma pressa bruta. Espremi meus olhos e pus a mão na testa, na tentativa de enxergar melhor o caminho até a rampa do navio; tudo parecia um borrão brilhante. Assim que pude encarar e dimensionar melhor o navio, assustei-me.
Devo confessar, apesar de saber que aquela era a maior embarcação da Marinha, não consegui deixar de ficar chocada com a longitude e altura ocupada por aquela enormidade cinza. Era como assistir a um prédio deitado na superfície do mar.
Empunhei as malas de rodinha e tentei ajeitar a mochila com os ombros mesmo, esperando aguentar a caminhada pelo cimento queimado sem sentir meus músculos completamente incendiados de dor. O caminho era longo, um vento forte de maresia batia contra meu corpo e embaraçava meu cabelo no rosto, incapacitando-me ainda mais de enxergar minimamente bem, fora meu queixo, que batia pesadamente de frio. Eu deveria ter colocado o moletom, como meu irmão recomendou.
Orgulhosa demais para aceitar conselhos dele, talvez?
Preferia essa versão a admitir que estava completamente aérea e perdida nas minhas ideias para estar de manga curta em um dia de inverno.
Assoprei forte contra os fios de cabelo e retirei-os do meu rosto por um instante, enxergando um marujo imenso passando na minha frente, quase trombando em mim. Seus ombros eram enormes, os braços mais largos que a âncora daquele navio. O cap que pendia em sua testa emprestava-lhe um ar sombrio, apesar de quase tampar a grosseira de seu rosto. Suas mãos eram cobertas por tatuagens, com desenhos incompletos, que provavelmente terminavam ao longo de seu braço, endurecendo ainda mais a figura do homem. Seu olhar fisgou o meu, intrigando-me a sustentá-lo igualmente. Sua íris gritava um vazio animalesco.
Um arrepio lambeu minha coluna, fazendo-me olhar rapidamente para a porta do navio, sem vontade alguma de dividir aquela conexão com ele. Eu já estava aflita o suficiente para não ir com a cara de alguém de primeira.
Observei o clima em volta. O dia estava anormalmente cristalino, o mar refletia o céu como um espelho recém-limpo; o que indicava uma boa partida, sem atrasos climáticos ou qualquer coisa do tipo. Infelizmente, não participaria logo da rota de partida, afinal, o profissional o qual a função era desaportar o navio era diferente daquele que projeta e executa os trajetos por toda a missão. O salário daquele desgraçado era enorme, o maior de todos no ramo náutico.
No entanto, a responsabilidade é tanto quanto.

Responsabilidades…

Um barulho de fragatas arranhou meus ouvidos, berrando algo de ruim, como se fossem alarmes de emergência. Olhei para o alto debilmente e senti meus ombros arderem enquanto parte de meu cabelo ainda ocultava minha vista. Que bagunça.
Continuei o meu caminho ávida, a adrenalina crescia à medida que o tempo restante até a reunião com diminuía. Querendo eu ou não, aquela reunião estava prestes a acontecer. As alças das minhas malas escorregavam da palma da minha mão, tamanho era meu suor de nervosismo pela situação.
Olhei uma última vez em volta, antes de subir a longa rampa. Um aperto no peito me fez suspirar desgostosa, mirando o céu subitamente, pedindo qualquer tipo de sensatez e paciência para os próximos meses. Qualquer luz ou sei lá o que que me ajudasse a agir com prudência naquela ocasião completamente desconfortável e estressante.

Eu estava tão fudida.

Basicamente, se dependesse do meu temperamento e da impulsividade de , civilidades e gestos de respeito não aconteceriam entre nós nas próximas semanas. O que formaria mais uma grande bola de neve até algo mais sério estourar em nós dois de novo, atingindo nossas carreiras e vida pessoal em cheio. Muita coisa dependia da forma como lidaríamos um com o outro, na atual conjuntura e hierarquia, em conjunto com esse ódio mútuo.
Havia anos que nada me tirava tanto a paz, principalmente em relação ao meu ofício. Estava tudo tão revirado que minha vontade era sair correndo e ligar para meu irmão me buscar, como uma criança assustada.
Assim que um último vento chicoteou dolorosamente meu cabelo nas costas, terminei de entrar no corredor primário do navio, o qual me levaria ao elevador principal, onde poderia ir a qualquer canto da embarcação, menos na torre e nos três últimos andares (aquele navio possuía 9 camadas de pisos). Eu só queria apertar o botão do andar de meu dormitório, o -1, para desmaiar um pouco na cama e me arrumar com toda a lentidão do mundo para a reunião.
Adentrei o corredor de uma vez, parando logo no início pela minha estranheza às coisas incomuns naquele cenário náutico do exército.
O chão estava coberto com um carpete azul escuro, extremamente brega em comparação com todo o local grosseiro e ferroso do restante da estrutura. Era um contraste confuso, feio, nada prático. Afinal, carpetes não poderiam mofar mais facilmente com a umidade do alto-mar?
Eu sabia que aquele navio era mais requintado, possuía regalias diferentes de qualquer outro, mas… o piso com carpete? Inconsistente. Fora que as rodinhas das minhas malas surradas teimavam em agarrar ao chão pomposo.
— Merda… — murmurei, irritada com o decorador de gosto duvidoso, que dificultava minha vida naquele momento. O esforço fez um vestígio de suor frio aparecer na minha testa, fazendo-me parar de repente no corredor estreito para amarrar o cabelo.
A situação toda me deixava claustrofóbica. A irritabilidade esquentava meu rosto, me fazia morder meus lábios até sentir um gosto metálico de sangue na língua. Conseguia ouvir meu coração golpeando ansioso meu peito cada vez que me atrapalhava mais.
— Com licença, eu te ajudo. — disse uma voz masculina atrás de mim, soando firme e meio apressada. Virei assustada para o autor e tropecei não sei como em meus próprios pés.
— Merda! — vociferei em reflexo, sentindo o impacto da queda em cheio no meu traseiro. E, devo dizer, a aspereza daquele chão conseguia pinicar minha pele até mesmo por cima dos jeans.
Olhei para cima finalmente e vi um… deus grego, talvez? Seu sorriso era plástico e perfeito, um olhar divertido repousava na minha figura. Xinguei mentalmente aquela obra de arte por ter me assustado assim e revirei os olhos, sentindo-me patética.
Aliás, como ele havia fugido do Museu do Louvre?
— Opa, vem cá, me dá sua mão — pescou meu antebraço inteiro e me levantou. — Desculpe, não pretendia te assustar. Só vi que empurrava suas malas com dificuldade… Quis ajudar — sorriu-me lindamente.
Senti um calafrio subir entre minhas pernas e paralisei na frente do homem, que continuava com meu braço agarrado nas suas mãos, esquentando minha pele. Meu rosto queimou.
— Claro, sim. Essa droga de carpete… — desvencilhei minha mão e passei-a nos fios avoados do meu cabelo, sorrindo sem graça. — Eu, ãhn… Não quero incomodar. Vou tentar puxar mais…
— Não, eu insisto, vamos. Eu pego as duas, elas parecem estar pesadas. — disse-me, fazendo um gesto negativo, já pegando nas alças das bolsas.
Suspirei fundo, derrotada, e senti seu perfume cítrico entrando na minha mente.
Ok, agora eu estava ansiosa e levemente apaixonada.
Parei de agir que nem uma pateta e continuei o caminho na frente do homem, ajeitando a mochila nas costas.
Virando no corredor, vi a escada e um par de portas de madeira esculpidas em estilo rococó, com detalhes dourados suntuosos que brilhavam minha íris. Mais uma particularidade que me fez refletir sobre as escolhas cafonas do decorador. Eu estava no Titanic ou em uma embarcação da Marinha Real Britânica?
— Ugh, eu odeio esses elevadores daqui… — ouvi o homem resmungar e parar logo atrás de mim. Sua voz era macia e grave, atravessava o ar como um afago até mim.
Ainda muda, abri uma das portas para que ele entrasse. Vi a tela do telefone em suas mãos e notei que o mesmo estava numa ligação. Encostei na parede oposta à sua e o observei discretamente. Sua testa estava franzida e seu olhar, voltado para o chão, era irritado. Sua voz pronunciava um francês nativo, com curtas frases, tom rude, objetivo como uma navalha. Eram poucas coisas que eu entendia, meu forte não era francês. No entanto, conseguia notar que o assunto era sério e o tirava dos eixos. Quem era aquele homem?
— Desculpe — disse sem me olhar, bloqueando e guardando o celular no bolso. — Assuntos aborrecedores… — completou, sorrindo simpático assim que me olhou.
— Acontece… — murmurei, tentando controlar ao máximo meu timbre vacilante de voz. Percebi que seu olhar, agora mais relaxado, me analisava numa calma cirúrgica. Eu nem precisava dizer o quanto meu sangue tinha subido até minhas bochechas, né?
— estendeu sua mão enorme em minha direção. Seu toque foi firme, quente, seu sorriso cordial estampava finas linhas no canto de seus olhos.
Então, um estalo acendeu minha lâmpada de raciocínio de volta.
Aquele era o Subcomandante da missão, , um dos amigos mais antigos e próximos do meu irmão. E de .
Oh, merda.
. — falei rapidamente, tentando sorrir da melhor forma que conseguia. Ao mesmo tempo, a expressão de transformou-se em surpresa e…
— Pera, como é que é? — analisou-me de cima a baixo, com o cenho franzido. — Você é a irmã caçula de Mauro?
— A única, assim espero. — tentei descontrair, puxando um sorriso de volta no rosto de .
— Mas é claro! Como eu sou idiota, a semelhança! Eu sabia que tinha algo de… familiar em você.
— Credo, me comparando com aquele feioso… — brinquei sem graça, arrependendo-me de imediato por estar nervosa ao falar com aquele deus grego. Ainda mais ele sendo um de meus superiores.
Porém, apenas sorriu mais largamente com a chacota ao meu irmão.
— Oh, bem, eu concordo. Com certeza você e sua mãe ficaram com toda a beleza da família — disse cortejador, atraindo minha atenção para ele ao ponto de nem me abalar pela menção à minha mãe.
olhou brevemente para trás, apertando o botão do andar onde ficavam os dormitórios de todos os marinheiros. Do Comodoro Fred até os cabos em treinamento, passando pelos profissionais de saúde e alguns engenheiros, aquele era o maior piso de toda a embarcação. Comportava 70 pequenos quartos individuais; os dormitórios comunitários ficavam no -4, destinado aos operários e funcionários de serviços gerais. Enquanto isso, o Comandante e Subcomandante tinham suas suítes individuais, na torre da Cabine Principal, fechando uma das cartilhas de hierarquia da cadeia alimentar da Marinha.
No entanto, nada daquilo importava naquele momento. Piscando como uma idiota em transe, ouvi a voz de como um som ao longe.
— Oi? Desculpa, eu tava em outro lugar. — sorri sem graça, sentindo o perfume cítrico dele mais intenso me inebriar. riu de leve.
— Eu disse que te ajudo a levar as malas até seu dormitório. O caminho é longo, assim posso aproveitar pra conhecer a irmã de um dos meus melhores amigos. — respondeu, recostando-se de lado na parede, ainda com o olhar pesado sob minha figura.
Cocei meu braço, nervosa. Não me lembrava da última vez que ficara tão sem graça e magnetizada por um cara, estava me sentindo patética.
— Olha, eu não vou recusar não. Meu irmão foi um trouxa, saiu cantando pneu só para se encontrar com uma tal de Cindy. Não pode ver uma mulher que o despreza que faz daquilo sua missão do mês... — revirei os olhos e encostei minhas costas na parede, emburrada.
— É, isso é a cara do Mauro — gargalhou baixo e balançou a cabeça negativamente, como se espantasse um pensamento. — Nossa, teve uma vez que… — a campainha do elevador tomou a fala de , virando nossa atenção para a porta abrindo. Um corredor cinza revelou-se. A luz mais cálida era pontual pela parede, dando uma sensação de conforto ao meu peito. Um pequeno sorriso formou-se no meu rosto.
— Sentindo-se em casa já? — despertou-me novamente, apoiando uma das malas nas costas e a outra em punho. — Qual o número do quarto?
— Ãhn, 22. — falei olhando para um chaveiro azulado, seguindo o passo de pelo extenso corredor.
Durante a caminhada, minha mente permaneceu em um lugar onde eu não sabia ao certo onde era. Para falar a verdade, desde o momento em que o dia começara, minha capacidade cognitiva de concentrar-me, ou travar uma conversa simples com alguém, estava completamente ausente. A oficialização de meu cargo era cada vez mais palpável, assim como a realização de um sonho antigo em atuar em rotas de missão. Infelizmente, meu encaixe nas equipes dependia completamente de , o que fazia surgir uma mão invisível que sufocava minha garganta.
Respirar fundo, contar até cem, tentar descrever o que enxergo ou escuto, sei lá o quê… Nada disso estava funcionando.
O fator surpresa com certeza contribuía para a pateticidade de toda a minha situação. Seu perfume cítrico deixado pelo caminho, contrastando com sua voz macia, abria um imaginário libertino no pouco de concentração que eu ainda tinha.
Abstinência sexual é foda.
Além disso, manter meus pensamentos castos perto de um cara daquele, por mais angustiada que eu estivesse, provavelmente era pecado.
Senti uma vontade de rir de nervoso pela situação; concentrei-me em analisar , que estava na minha frente, do mesmo modo como ele havia feito no elevador comigo.
Seu corpo alto era forte, as costas largas esticavam algumas partes da blusa social branca, fazendo com que eu pensasse inevitavelmente na sua figura sem camisa. andava numa marcha confiante, cantarolando baixo uma música qualquer em francês, olhando por cima dos ombros vez ou outra para sorrir para mim. Respondia as continências dirigidas a ele com um aceno de cabeça; os olhares curiosos não economizavam em cravar em cima de mim logo em seguida, com tonalidades de julgamento e penitência.
Desliguei minha mente de tudo e de todos, como sempre fiz minha vida inteira. Apenas entrei no meu estado aéreo e permiti-me divagar novamente sobre o carpete azul cafona.

Assim que dobramos o primeiro corredor, avistei o número 22 em relevo em uma das portas. colocou as malas no chão em frente à mesma e virou-se para mim com um meio sorriso, olhando-me curioso.
— Bom, eu adoraria ficar e realmente te conhecer mais, porém… — olhou para seu relógio de pulso rapidamente, com uma expressão de espanto. — Nós temos uma reunião daqui a pouco. Eu preciso me encontrar com para acertarmos alguns detalhes antes. Não param de me incomodar. — pegou o celular no bolso e virou para mim. Alguém ligava para ele.
— Claro! Preciso me preparar também... Foi um prazer te conhecer, . Meu irmão sempre falou muito de você — e, infelizmente, do também, pensei sozinha. Fiz uma continência rápida, e acompanhou-me, estendendo sua mão para mim em seguida.
— O prazer foi todo meu… — murmurou em tom dúbio de voz, depositando um beijo por cima de meus dedos. Meu corpo estremeceu com seu toque úmido, fazendo com que eu me perguntasse o quão bom seria ter seus lábios em outras partes do meu corpo.
Ok, eu estava muito emocionada.
— Obrigada pela ajuda com as malas, de verdade.
— Era o mínimo que eu podia fazer. Sendo irmã do Mauro, você é minha protégée.
— Subcomandante , senhor! — uma continência aleatória fora proferida para ele.
passou por mim e sustentou meu olhar até sumir do meu campo de visão. Notei minha pele arrepiar imediatamente.
Senti-me completamente juvenil e tola como se nunca houvesse falado ou até mesmo visto um cara gato na vida. Suspirei impaciente comigo mesma e destranquei a porta do quarto apressada, adentrando-o.
Estava escuro, um ar empoeirado repousava ali, imóvel, pintado de rajadas de luz que escapavam da cortina mal fechada. Imediatamente liguei a luz e enxerguei o cubículo aconchegante que seria meu lar pelas próximas longas semanas.
Abri um sorriso involuntário e permiti-me ficar plenamente feliz comigo mesma ao perceber onde eu estava. Meu peito coçava em contentamento por eu estar em uma missão finalmente importante e completamente inédita em anos. E meu cabelo não estava mais entrando na minha boca. Eu podia pensar positivo, apesar dos pesares.
A cama era um pouco maior do que uma de solteiro, alta, arrumada, grudada na parede direita do quarto. Dois pequenos armários ficavam perto do teto e acima das pequenas janelas do quarto, dando-me um espaço extra além das gavetas embaixo da cama. Uma pequena cômoda estava à esquerda, com um abajur de parede em cima. A porta para o lavabo ficava à esquerda também, perto da entrada do quarto. Ok, eu me via passando os próximos meses aqui tranquilamente.
Larguei a mochila longe e joguei-me na cama, captando no travesseiro um cheirinho leve de limpeza fresca. Virei-me e empurrei a cortina com os pés, tirando minha bota logo em seguida para relaxar melhor. O quarto iluminou-se de sol, uma paz me acendeu por dentro.

’S POV
Suíte do Comandante, andar 2 da torre, 10h30 a.m.

Meus olhos permaneciam fechados. Minhas mãos repousadas na beirada da sacada sustentavam meu corpo inclinado, recebendo os golpes fortes do vento como um afago. Respirei fundo a maresia.

Lar, pátria, obrigações, família, tradição, ódio, acidente… Mais ódio.

Suspirei, frustrado. Apesar de sempre me perder na beleza daquele horizonte brilhante, a falsa promessa de tranquilidade não me convenceu dessa vez. Na minha experiência, quando tudo aparentava estar relativamente calmo, um fato brusco mudaria a realidade alheia. Era assim que funcionava com o destino, com a vida no geral.
Pensando nisso, refleti o quanto o mar sempre foi um elemento dualista na minha vida. Tão poderoso quanto sereno, tão pacífico quanto perigoso. Assim como dava, tirava. Do mesmo modo que já trouxe muita alegria, já causou-me catástrofes intensas de viver. A única coisa que se podia afirmar era esse propósito intrínseco do mar de sempre servir sua natureza incerta, igualmente ao que o destino fazia.
Nessas circunstâncias dúbias, era impossível não pensar em meu livro preferido, O Velho e o Mar, e ter em mente toda a luta solitária do pescador com o dualismo da vida. Caçoado por todos de sua vila, digno de pena por não pescar nenhum peixe há meses, sua única força por muito tempo foi a crença que ele mantinha em si mesmo. A crença de que, apesar de seu rumo estar numa maré de má sorte, um dia tudo poderia mudar, e ele seria agraciado por um peixe finalmente.
E foi o que aconteceu.
Isso fazia-me lembrar que tudo o que eu precisava era simplesmente acreditar em mim. Viver um dia de cada vez sem desistir jamais, principalmente quando minha insegurança gritava que eu erraria de novo, que decepcionaria a todos e machucaria mais pessoas inocentes.
Por isso que pouco importava naquele momento o meu barulho interno de autodepreciação, eu sabia que logo tudo se acalmaria dentro da minha cabeça.
Senti meu celular vibrar no bolso da calça.
. — respondi em automático.
Oi, lindão, vem aqui fora me receber exclamou, fazendo-me sorrir imediatamente.
Desliguei e dirigi-me até a porta da suíte, agitado para reencontrar um de meus amigos mais próximos.
Assim que abri a porta, gargalhou animado e abraçou-me.
— Quanto tempo, cara. — murmurei nostálgico em seu ombro.
— Tô feliz demais em estar de volta. Mas me diz que isso no seu bolso é um Halls, pelo amor…
— Ah, cala a boca, — soltei-o e dei um tapa em seu ombro enquanto o otário ria. — Chegou quando em Londres? — perguntei, o analisando melhor, observando mudanças sutis de seis anos a mais em seu rosto. Porém, minha alegria em revê-lo era tanto quanto sua cara de palerma continuando a mesma.
— Tão cedo hoje de manhã que até consegui tomar o clássico English breakfast naquela lanchonete que a gente ia. Porra, que saudade que eu tava! — declarou, fazendo um gesto satisfeito em seu abdômen.
— Depois da missão, eu já avisei pro Mauro: uma semana, Amsterdam, nós três. — abracei seu pescoço, conduzindo nosso caminho pelo corredor estreito até o elevador.
— A “Avenida da luz vermelha” que nos aguarde. Deve ter uns três bares para sermos expulsos ainda. — declarou.
— Eu não me preocuparia com isso, se fosse você. E sim com esse seu corte de cabelo aqui… Que merda fizeram com você, hein? Na França os barbeiros trabalham de olho fechado? — zoei , fazendo-o gargalhar com um xingão.

Em pouco tempo, chegamos na cabine principal. Era ampla, espaçosa, muito bem iluminada e posicionada. Pegava metade do pequeno quarto andar da torre, sendo circundada por uma janela extensa e uma estreita sacada externa para vigília. O painel de botões e telas gritava meu nome, fazia meus dedos coçarem, tamanha a vontade de tocar e comandar aquela embarcação colossal.
e eu sentamos nas duas únicas cadeiras de frente aos painéis.
— Como foi ser recrutado novamente para a Armada Francesa, meu caro? — perguntei-o, espiando o radar náutico.
— Uma merde. Foi praticamente serviço de piloto de caça. Meu lugar é no mar, porra, não lá em cima que nem uma gaivota escandalosa. — riu da própria desgraça. — Mas você sabe como é meu pai. Depois de tudo aquilo…
— Tinha que ficar quieto se não ele ia comer seu cu, né?
— Mais ou menos isso.
Um barulho de porta ecoou e chamou nossa atenção. Comodoro Fred entrou, sugava por um canudinho o líquido preto da lata de Coca-Cola, com seus bigodes grossos e ruivos tampando seu lábio superior. O cinquentão tinha o narigão vermelho, redondo como uma salsicha, parecia uma caricatura viva. Era baixinho, tinha ombros estreitos e voz cansada; simpatia de pessoa.
Continências trocadas, voltei novamente para , falando mais baixo:
— Aqui foi uma bosta também, dor de cabeça atrás de dor de cabeça. O que veio depois do acidente… — bufei, deixando no ar minha fala, sem a mínima vontade de completar meu raciocínio e verbalizar essa tragédia.
— Eu imagino, cara. Me atualiza das coisas hoje à noite. Eu sei que você deve ter um bom bourbon e um fumo cubano diferente na sua cabine. — murmurou de volta.
— Awn, , quer um encontro comigo? — o olhei divertido, teclando as últimas coordenadas no computador.
— É o seu sonho, né? — respondeu, rindo. — E o Mauro, tá como? — seu tom ficou sério novamente.
— Você devia ligar pra ele, cara. Usa o telefone da cabine, foda-se.
— Odeio falar no telefone… — suspirou, cansado. — Pô, nem te falei, né. — exaltou-se na cadeira, olhando para Fred brevemente. — Conheci finalmente a irmã do Mauro — sussurrou animado.
Meus músculos travaram.
— O quê? — minha voz soou esganiçada e mais alta que esperava. — Você viu ? Ela… Ãhn, e aí? — tensionei a testa.
assobiou galanteador.
— Encantadora! O Mauro que me desculpe, mas a irmã dele é deslumbrante. Ia ser um pecado não dar uma chance. — piscou um olho para mim.
Peraí, o que eu estava ouvindo?
Senti uma pontada quente no meu peito e uma irritabilidade incomum nublar minha mente. Cerrei meus olhos para , penando em processar direito as palavras de fascínio dele para .
, não, peraí… — soltei uma risada sem humor. — Não me diga que você tá… pensando em tentar… Tentar qualquer coisa com… — ri incômodo, paralisado na figura dele.
— Ah, qual é. Ela é gata, qual o problema? — olhou-me despretensioso, dando de ombros. — Além do mais, já é maior de dezoito, sabe bem o que quer. E, se eu não desaprendi a ler as mulheres — riu sacana. —, ela pareceu estar na minha.
Olhei-o desgostoso uma última vez e voltei minha atenção para os comandos, soltando a respiração como um peso. Observei meus punhos e ambos estavam fechados, com os nós dos dedos brancos. Senti minha mandíbula tensa e minha pálpebra tremer de nervosismo. O que estava acontecendo comigo?
E quem pensava que era para afirmar tanta coisa sobre , sem ao menos conhecê-la direito?
Não que essa história de atração significasse algo para mim. No entanto, eu a conhecia desde que a mesma nasceu.
Algo que não era do feitio dela, acima de todas as coisas que ela já tinha feito de inesperado, era dar mole para caras desconhecidos. Ou sei lá o que achou que ela demonstrou.
Por que essa possibilidade me irritava tanto?

POV’S OFF
Andar -6, Sala de reuniões, 12h34 p.m.

No centro da sala de Reuniões Extra Oficiais, uma mesa oval comportava exatamente cinquenta marinheiros dos mais diversos cargos. A atenção de todos estava vidrada no telão ao fundo da sala, onde o Subcomandante explicava sobre os encargos, as particularidades da missão, possíveis perigos pela rota e exigências diárias para além do horário de trabalho. Vez ou outra, Comandante intervinha e pontuava suas decisões e o que esperava de todos que compunham a equipe especial. Qualquer erro cometido, por menor que fosse, traria prejuízos incapazes de serem dimensionados. A responsabilidade de todos precisava ser frisada sempre que possível.
Ao menos quando recuperava sua atenção no que o amigo falava e lembrava-se de comentar algo. Anotava aleatoriamente algo em seu caderno pessoal, listava palavras-chaves e espiava em volta da sala, sempre demorando discretamente na figura de . O rosto da mulher estampava uma distração sôfrega, como se o lugar em que sua mente se encontrava perturbava-a tanto quanto sua realidade nefasta. Era claro para seu incômodo de estar no mesmo lugar que ele.
Bufou impaciente com a postura desatenta de , ponderando se ela realmente estava pronta para o encargo que ele a designou. Após o anúncio que ambos trabalhavam na mesma equipe matutina, o rosto da moça nublou em contragosto. Até mesmo sua respiração levemente mais acelerada foi percebida por .
sentia como se o pior de seus pesadelos acontecesse bem na sua frente, sem que nada pudesse ser feito, por ela, para mudar.

“Será que é tão difícil assim me respeitar? Ela é completamente instável, tenho certeza de que na primeira oportunidade vai tentar me estapear. Se algo sair errado, vai ser culpa de…”

A impaciência de transformou-se em autocensura, retorcendo duramente seu peito assim que dividiu sua parcela de culpa no estado seco de .
Sentiu sua garganta fechar-se na mesma hora e moveu automaticamente seu tronco robusto até a mesa. Engoliu a água fresca com pressa e conseguiu respirar fundo de novo, sentindo seu peito esfriar da agonia. Lambeu os lábios úmidos e percebeu olhos fixos na sua figura pelo canto dos olhos.

****


estava gelada novamente, os braços e as mãos quase adormecidos pairavam sobre seu colo, suas pernas mexendo vez ou outra de nervoso. O mínimo de movimento deixava seu coração na boca.
Seus únicos momentos de lucidez eram justamente aqueles em que falava. Sua voz era sempre forte, agarrava-a de volta à sala de reuniões, puxava seu olhar imediatamente para o dele. Eram inúmeras as emoções e memórias que escapavam do inconsciente de sempre que o som de sua voz a invadia. Odiava sentir-se tão lúcida perto de . A raiva lhe fervilhava o rosto, sua garganta secava como areia no deserto.
A moça cobiçou imediatamente o copo d’água transpirando na frente de seus superiores, como se fosse a única preciosidade daquele navio inteiro.

“Com certeza a reunião vai ter mais de 4h de duração, e só os bonitos lá na frente tem água…”, repreendeu, pensativa, olhando para de volta.

O mesmo já fixava sua atenção nela. O cenho estava franzido, o maxilar, tenso, e a expressão dura era intimidadora. O desprezo por ele latejou em sua pele, fazendo-a arranhar as coxas com a ponta dos dedos até os joelhos, como se pudesse sobrepor, de alguma forma, a sensação que era ter o olhar fixo dele sobre si.
Tentou prestar atenção no que falava e…

“Pirataria em mares de fronteira, roubos milionários, sequestros, execuções à queima-roupa…
Ok, definitivamente não.”


Uma fina porém indiscreta sensação de enjoo apossou o corpo dela. Teve que fechar os olhos e respirar fundo para não vomitar. pressentia um desmaio instantaneamente toda vez que aquele assunto era abordado. Como nenhum outro martírio na sua vida, aquele tópico em especial acordava os piores pesadelos lúcidos que ela poderia ter.
Os piratas em questão não eram nem um pouco parecidos com aqueles caricatos retratados no mundo fantástico da Disney. Nem Capitão Gancho ou Jack Sparrow a bordo do Pérola Negra teriam grandes chances de sobreviver a tais ataques catastróficos. As artilharias usadas eram pesadas, e a mortalidade dos reféns chegava a 90% dos casos. Execuções sem piedade, ação rápida de invasão e crueldade visceral marcavam o comportamento dos maiores criminosos atuantes em alto-mar.
E, naquela missão em especial, o risco de ocorrer um cenário de cativeiro e saqueamentos milionários era o triplo do costumeiro. Sem chance para erros, todos os Marinheiros daquele navio estavam sob uma invisível porém onipresente sensação de apreensão coletiva.
O que fazia sentir suas mãos suando de nervoso ao lembrar de seu encargo e da responsabilidade que teria em traçar corretamente as rotas menos perniciosas a serem navegadas. Para ela, apesar do temor, era questão de honra doar-se ao máximo para que tudo saísse perfeitamente bem. Afinal de contas, sua história fora marcada tragicamente por um cenário daqueles, com erros de terceiros.
Isso a fez perguntar-se de repente o quão pequeno era trabalhar com perto de já ter vivido sua catástrofe pessoal que latejava em seu peito a cada instante. Não poderia ser tão ruim ter que lidar com aquele que ela julgava ter a maior parcela de culpa.
Sendo assim, passeou despreocupada os olhos pelo rosto de cada um na sala. Muitos dali havia prestado as provas e treinamentos junto, porém de nenhum se lembrava muito. Aquela época de sua vida era um grande borrão em sua memória, o qual ela não se orgulhava nem um pouco. Era vergonhosa a sensação de esquecimento, de simplesmente perder trechos de sua própria história e ouvi-los de boca em boca, ainda mais quando eram de pessoas às quais os nomes ela apenas sabia pela plaquinha metálica do uniforme.
Isso quando não tinha seus sonhos “especiais”, aqueles que ela julgava serem tanto memórias soterradas quanto armadilhas perniciosas de sua mente falha, inventando e distorcendo situações.
Parou seu olhar na moça simpática dos cachos cor de ferrugem. Sua atenção era devota à explicação, mordia frenética a tampa de sua caneta.
tentava lembrar o nome dela, sentindo-se mal de verdade pelo vacilo da memória.

“Ela foi tão simpática comigo… Emma… Emmy… Emily!”

A ruiva abordara no corredor do -1 enquanto ambas iam até a reunião. Quando Emily a viu, abriu um sorriso de ponta a ponta, abraçando-a forte, enfiando os cachos rubros e cheirosos em seu rosto. Há anos não se encontravam… Emily estava ansiosa para rever , apesar de saber que a moça não lembrava direito do treinamento ou de outros momentos cúmplices.
O sorriso da moça afagou o coração de no mesmo segundo, transmitindo-a uma tranquilidade ímpar; ela sentia que a conhecia realmente.
Porém, mais deleitoso que (re)conhecer Emily, era encontrar com os olhos gentis de vez ou outra durante suas falas, fazendo-o sorrir imediatamente.
Oh, .
Aquele sim era um homem no qual ela queria prestar mais atenção. Normalmente, não se interessava à primeira vista por ninguém, porém a solicitude dele em responder com paciência àpergunta de todos a derretia por inteiro.

“Um verdadeiro gentleman… Educado, voz macia… Fez questão de me ajudar a levar as malas pro quarto.”

Nem sabia o que sentia ao imergir nos olhos daquela mulher. Tinha algo muito humano em sua íris, algo para além do que ela queria mostrar. Sentia-se curioso, uma vontade de fazer mil perguntas para conhecer seus pensamentos, mais de sua vida, seus medos e anseios. Era como se um ímã terrestre repousasse na figura dela.
reparava todas as vezes em que a troca de olhares entre os dois ocorria; não era difícil de identificar que os poucos sorrisos que seu amigo tinha aberto durante a explicação eram direcionados a . A mesma continuava aérea, despertando em ódio apenas quando olhava para ele, ou derretendo de timidez quando sorria para ela.
sentiu uma pontada de mal-estar golpeando seu coração novamente.

’S POV

— Tenente , eu lhe fiz uma pergunta! — ouvi meu nome ser xingado por , despertando imediatamente minha atenção.
— Oi, que po… … — tossi e ajeitei minha postura. Olhei para e travei, sentindo-me ridícula e observada por todos no cômodo. Será que tinha como piorar minha situação?
O peso de ser incapaz de chamar de qualquer coisa além de “idiota” já era monstruoso. No entanto, ser pega no pulo em uma distração e ter que observar seu sorriso cínico me encarando era de embrulhar meu estômago. Os olhares alheios nem me perturbavam tanto, para ser sincera.
Ele era sempre a perturbação, com sua sobrancelha arqueada e expressão convencida, como se ele fosse algum presente divino ou qualquer coisa do tipo.
— Oh não, Tenente , você não estava ouvindo? — declarou, sarcástico. Idiota.
Começou a anotar algo em sua prancheta, balançando a cabeça negativamente. Minha ansiedade despontou em meu peito. O que ele estava tramando?
Uma tosse masculina retumbou, chamando a atenção de todos de volta.
— Enfim, Daniel, você vai então às 6h p.m. para a Estação Central de Controle, onde o clima para esse fim de… — a voz de ecoava longe para mim, enquanto meus olhos continuavam cravados em , assim como os dele em mim.
Seu olhar arrogante atravessava o meu como uma lâmina, vitorioso em prender minha atenção até mesmo quando já estava dolorido de sustentar o contato. O tom de sua íris intensificava à medida que passeava pelo meu rosto, esquentando-o sem minha permissão ou motivo algum.

****


Depois de quatro horas de duração, finalmente a tormenta chegou ao fim. Eu não aguentava mais aquela tensão no ar, o sufoco que estava sendo me manter ali sem gritar algum palavrão.
Ainda mais depois de descobrir que estava na equipe especial de . Agora, sim, eu podia afirmar que estava ferrada. Teria que trabalhar com ele todos os dias, vez ou outra sozinhos na cabine, numa sessão particular de tortura mental. Que a Deusa me ajudasse, ou eu sairia algemada daquele navio por assassinato. Mas também era como se pedisse pelo meu futuro descontrole, afinal, ele podia muito bem me ter designado para a equipe vespertina, a de .
Assim que liberou todos para sair, sua voz grave gelou meus movimentos:
Tenente , você fica.
Olhei-o imediatamente, quase em pé, vendo que o mesmo escrevia tranquilo em uma folha em cima da mesa, sem desviar sua atenção.
— Ãhn, precisa que eu fique ou… — coçou a nuca, sem jeito.
— Não. Preciso trocar uma palavra somente com ela — apontou para mim e olhou brevemente para o amigo, anotando algo rápido, sem me abalar. Senti um enjoo tomar conta de mim e sentei-me, encarando a figura do idiota na minha frente.
O movimento de seus braços fortes sobressaltava os ombros na camisa branca, ao ponto de seus músculos pesados serem notáveis; não que eu o analisasse, só estava óbvio demais.
Em câmera lenta, vi o cômodo esvaziando-se de sons de vozes e presenças fardadas. O último olhar confuso que pescou o meu foi o de , antes do mesmo fechar a porta lentamente. Levantei-me inquieta para andar de um lado para o outro.
— Oh, não, pode continuar sentada. — riu debochado.
— Eu não vou sair correndo, só preciso… me mexer. — respondi-o, impaciente.
— Ok, boa garota… — sorriu provocador, tampando a caneta.
— Não me chama assim… — murmurei hostil, parando de repente para olhá-lo.
— Oh, o que foi? Não gosta de apelidos? Você sempre gostou tanto de usá-los…
— Quer saber, , vai à merda. Pega essa sua provocação e...
— Olha bem como você fala comigo, garota! Eu sou seu superior agora! A situação pode piorar mais rápido do que você imagina.
— Ah, é? Como, ? Me fala como eu estar subordinada diretamente a você, um verme, pode piorar? — apontei nervosa para ele.
— Para bem aí com as suas ofensas! — levantou repentinamente, irritado, com os punhos fincados na mesa. — Eu exijo respeito!
— Como eu vou te respeitar se toda vez que você fala comigo faz questão de ser tão desprezível?! — descontrolei-me, indignada. contornou a mesa ávido, parando bem na minha frente.
— Eu vou falar uma última vez, e é melhor você escutar bem — seu peito ofegava de raiva e uma expressão de ódio estampava seu rosto. — Pega essa energia que você gasta sendo petulante e orgulhosa e transforme em trabalho bem feito. Como você acha que vai soar sua performance em meu relatório após você incisivamente insistir em fazer sua presença aqui na MINHA tripulação ser praticamente inútil, em vez de cumprir com sua função como uma boa Tenente? Ou você acha que a rivalidade entre nossas famílias não tá na mira de nossos superiores? Nossos futuros na Marinha estão em jogo, garota. Nossas funções se cruzaram. Agora é a hora de sermos profissionais e deixar isso tudo de lado. Quer mesmo dificultar mais ainda a missão? — rugiu com desprezo.
Sua fala carregada de razão despejou uma quantidade de realidade a qual eu não estava pronta para receber. Dei um empurrão desajeitado em sua figura, como se pudesse apagar seu discurso ou os fatos com aquele ato.
bufou irritado, seus olhos escureciam à medida que se aproximava. Automaticamente, me encostei na parede atrás de mim, derrotada.
— Você tem muito o que aprender ainda… Sem sombras de dúvida, seus erros de anos atrás não te ensinaram nada.
Então, não pude deixar de rir desdenhosa. Meus erros?
— Como você é presunçoso… — ri histérica. Meus olhos umedeceram, e meu nojo por ele cresceu. — Tudo… Simplesmente… Tudo de ruim que aconteceu é sua culpa. — um fio de voz saiu da minha garganta, como se alguém subtraísse o ar todo do cômodo. — Só porque meu irmão te perdoou e você… Você é meu chefe agora, não quer dizer que pode… ser egocêntrico e… sair falando… — murmurei, afetada, sem realmente conseguir terminar uma fala concisa. Eram inúmeros os sentimentos baixos que me atingiam naquele momento, e sentir a essência quente de cada vez mais perto de mim não ajudava a manter a sanidade. Naquele momento, a ansiedade batia com força na boca do meu estômago. Cada vez mais minha cabeça pesava no pescoço.
Fechei os olhos e apoiei minhas mãos na parede ao lado do meu corpo, minha respiração ofegante soava como uma bóia sendo esvaziada.
Odiava que me visse daquele jeito frágil, despida dos meus freios e muros sólidos de proteção.
— Eu… — tossiu grave.
— Cala a boca e sai de perto de mim — alcancei sua figura e voltei a empurrá-lo como conseguia, sentindo seu corpo robusto em nada se afetar com meus golpes.
— Para com isso, garota. — declarou ao agarrar meus pulsos. Suas mãos eram fortes, quase imobilizavam meus braços. — Para, porra!
Minhas bochechas quentes logo sentiram as primeiras lágrimas de agonia pela situação toda, por todo desconforto que era ter seu corpo tocando o meu. Abri meus olhos marejados e solucei fortemente, experimentando seu cheiro ardente perto demais de mim.
— Me larga! — gritei bestial.
Na minha última tentativa de desvencilhar meus punhos de seus dedos, grudou meus braços na parede, acima da minha cabeça, irritado. O impacto de nossas mãos na madeira dura fez-me encarar seus olhos . A pequena distância entre nós produzia um ar furioso com nossas respirações descompassadas, mesclando sensações dúbias dentro de mim. Um arrepio sensível subiu entre minhas pernas.
— Para… — murmurou, ofegante.
Senti meu peito arder por falta de ar e parei de me mover, caindo num choro inesperado de raiva. O som era alto, meus gritos eram respondidos por pedidos dele para eu ficar quieta.
Era isso que despertava em mim. Emoções sempre extremas e cruéis demais para serem sentidas. Independente da situação, ele era o fator na equação que multiplicava o resultado de suas ações anos atrás, em mais dor e sofrimento para mim.
Seu olhar era incisivo e pesado na minha figura. Penetrava com força dentro de mim, como se pudesse ler o que se passava na minha mente entre uma lágrima ou outra. Ele estava imóvel, concentrado, paralisado por culpa.
Eu sabia que ele ficava assim sem reação quando me via chorar. Porém, a distância de nossas últimas brigas divergiam completamente de todas as outras, o que fazia minha pele arder incômoda por ter sua respiração tão perto do meu rosto, como nunca antes.
Então, fitou minha boca ofegante e afrouxou completamente sua feição séria, magnetizando seu olhar perdido nos meus lábios entreabertos. Nossa proximidade gritou ainda mais para mim.
Eu permanecia paralisada por inteiro, assustada em ter tão abstraído em analisar com minúcia meu rosto, dividindo sua atenção principalmente entre meus olhos e minha boca. Algo me fez perguntar por onde vagavam seus pensamentos e por que eu sentia-me tão entorpecida quanto ele naquele momento.
Talvez se não fosse seu perfume tão… único, que infelizmente já conhecia tão bem, eu já teria saído daquele estado opressivo.
A atmosfera entre nós dois estava tensa, algo no ar cintilava um clímax próximo da situação toda, como uma bomba prestes a explodir.
Ouvi-o limpar a garganta e aproximar seu rosto milímetros do meu, suavizando a pressão nos meus pulsos, descendo-os na altura dos meus ombros, sem largá-los. Seu nariz roçou no meu, e uma sensação quente surgiu na minha barriga.
Como em uma paralisia do sono, nenhum músculo meu reagiu.
— Garota irritante… — murmurou rouco, fechando os olhos fortemente. Seu hálito picante de canela entrava na minha boca, envolvendo-me de um jeito perigoso.
abriu os olhos e me encarou de forma significativa. Não consegui não corresponder o olhar, me sentindo presa. Havia contextos nas nossas ações que eu tentei não interpretar ou raciocinar sobre.

E, então, eu me dei conta. Que merda estava rolando?

Agindo por impulso, dei-lhe uma joelhada na virilha, ouvindo-o urrar de dor. apoiou-se na mesa de reuniões com uma mão enquanto uma expressão de agonia pintava seu rosto.
— Qual seu problema? — vociferou, vacilante.
— Qual o seu problema, seu doente? — respondi-o, ofegante, passando as mãos pelos cabelos.
Antes de mais nada, apressei o passo e retirei-me da sala, marchando rápido no corredor estreito em direção às escadas.
Minha garganta estava mais seca do que nunca, o suor na minha nuca escorria pelas minhas costas como cubos de gelo. Sem pensar muito, dirigi-me ao andar -3, onde ficavam os ambulatórios, hospital do navio e os chuveiros comunitários.
Eu precisava de um banho extremamente frio.


Capítulo 3 – Chaos Theory

AVISO DE GATILHO: O capítulo aborda uma situação de abuso sexual/assédio sexual. Se você se sensibiliza com a temática, leia com cuidado.

’S POV
Andar -6, sala de reuniões, 5h20 p.m.

“… vigília noturna toda sexta-feira com horário de início para 1 a.m. até 6 a.m.; liberar Tenente do trabalho vespertino neste dia.”

Os ponteiros do relógio da sala de reunião berravam cada vez mais alto os minutos que eu estava sozinho ali. Larguei a caneta de qualquer jeito e ouvi-a cair no chão; não me importei. Minha visão já estava embaçada pelo cansaço por ter escrito tanto durante e após a reunião. A satisfação em prescrever a primeira punição a era nula, principalmente pelas consequências que isso desencadearia. Porém, essa era uma de minhas funções de chefia agora. Quando sua autoridade na Marinha aumenta, as responsabilidades e deveres escalonam juntas.
Depois de chegar no limite do ridículo das discussões com , eu precisava frear seu comportamento explosivo. E, pelo visto, o meu completamente imprevisível.
Até porque o mais bizarro naquela história toda para mim era: que porra aconteceu comigo, para que, mesmo por um segundo, eu realmente desejasse beijá-la? E por que diabos a vontade não passava? Por que minha irritação não anulava isso?
Ainda mais depois do golpe em cheio que ela tinha dado nas minhas bolas. Eu estava simplesmente incapacitado de sair andando daquela sala naquele momento. A joelhada da desgraçada tinha sido forte e certeira. Preciso confessar que meu ego estava levemente abalado por isso. Não por ela ser uma mulher e ter me derrubado com apenas um golpe, todos na Marinha Real tinham um ótimo condicionamento físico. Mas sim por eu ter sido… repelido?
Não bastava quase beijar aquela garota irreverente, eu ainda fui rejeitado da pior forma possível.
Vencedor do bingo de idiotas aqui, senhoras e senhores.
Ouvi um toque na porta e levantei o olhar.
— E aí, mon amie. — entrou devagar na sala. Respondi-o com um aceno de cabeça.
— Preciso ir à Cabine de Comunicação Ativa. Você já pode descansar. — comentei, apertando meus olhos com mais força. Senti o cheiro de na ponta de meus dedos e meus batimentos aceleraram, como se ela estivesse perto de mim; soltei o ar pesadamente. Ouvi sentar ao meu lado e tamborilar os dedos na mesa.
— A briga foi feia, hein? — riu de leve, apaziguador.
— Tava escutando atrás da porta? — acompanhei seu tom e ri seco.
— As paredes têm ouvidos, mon amie. Para ser mais específico, 296 pares. — brincou com o número de tripulantes da missão. Seu tom ficou mais sério ao limpar a garganta. — Ouvi alguém comentar sobre vozes altas vindas daqui e de sair apressada um tempo depois. — completou, e eu bufei, irritado.
— Ah, claro. Ótimo. Mais história para os falatórios. Nem me pergunta… — continuei com os olhos fortemente fechados e a mão na testa. Suspirei, frustrado.
— Eu não ia. — falou de repente, chamando minha atenção. — Só vim avisar que vou tomar um banho longo, muuuuito longo, e depois vou bater na sua porta pra tomar um trago. — apontou para mim e piscou ao sorrir divertido. — E você, meu amigo, vai ficar mais embriagado que a última vez que saímos juntos. — ri com sua menção, coçando o queixo, nervoso, ao lembrar das horas que já passei em banheiros imundos apenas vomitando as tripas.
Eu não tinha mais idade e nem saco para isso, mas me anestesiar com álcool parecia a melhor opção naquele momento.
— Daqui a uma hora. — declarei finalmente.
— Ótimo, mais tarde então. — bateu a palma na mesa e piscou o olho, retirando-se logo em seguida da sala.
Suspirei, cansado, relaxando a postura na cadeira de couro, porém com meus músculos mais duros que pedra. Pelo menos tinha um membro meu que não estava mais… rígido.
Que momento perfeito para começar a desenvolver qualquer tipo de atração por .

’S POV
Andar -3, vestiário feminino, 5h40 p.m.

O banho não estava nem perto de aconchegante. Todo meu esforço para atrapalhar aquela sensação que eu sentia só a fervilhava mais dentro de mim. O jato de água do chuveiro era forte, e a temperatura, muito mais baixa do que o agradável, fazia com que cada parte do meu corpo tremesse desesperada. E passar o sabonete pela minha pele já anestesiada pela água fria só trazia mais sensações… bizarras.
Sem acreditar muito mais na promessa de um banho relaxante, desliguei o chuveiro. O eco das gotas no chão era alto. Respirei fundo e saí me arrastando, com uma toalha na cabeça e outra em volta do corpo, a ponta do meu nariz parecia a de um iceberg.
E não bastava o dia inteiro ter sido o próprio Armagedom, minha distração havia chegado ao cúmulo da burrice. Ir para o banho sem roupas limpas, e perceber isso apenas depois de colocá-las na máquina da lavanderia do banheiro, era uma bela cagada. Até porque eu não vestiria uma roupa branca molhada para ir até o meu quarto, não é mesmo?
Minha única saída era usar a toalha da cabeça por cima dos meus ombros, cobrir-me da melhor forma possível e rezar para o caminho até o dormitório estar desabitado. Apenas dois andares. Eu conseguiria, não é mesmo?
Botei meus tênis sem amarrá-los e espiei pela porta, enxergando nada além de vazio e uma brisa fria subir pelas minhas pernas. Caminhei um pouco apressada e cheguei nas escadas.
O horário estava ao meu favor, pelo menos. Muitos estavam em suas funções ou dentro de seus leitos, descansando. Mesmo assim, passei a subir de dois em dois degraus.
Porém, como eu devia prever, obviamente as coisas não saíram como eu queria. Ouvi um cantarolar masculino e a figura de um homem loiro aparecer. O sorriso dele abriu, seu olhar sacana encontrou as toalhas que eu estava enrolada, analisando-as minuciosamente. Dirigi-o um “boa noite” baixo e passei por ele com uma pressa desesperada.
Sua mão agarrou meu cotovelo.
— Opa, Tenente , espera…
Virei-me desconfortável, e meu rosto retorceu, aflito. Eu odiava quando pegavam invasivamente no meu braço. Sua postura exibia para mim o perfeito exemplo de macho ordinário. Não havíamos trocado nem uma frase direito e ele já me olhava sacana como se eu fosse nada além de um brinquedo erótico ou um sanduíche apetitoso.
— Os chuveiros são bons?
— Ãhn? — tossi, nervosa. — Bem, são… São duchas normais...
— Oh, claro que sim. Aposto que são. Sabe, fiquei impressionado com você na reunião.
— Por quê? — perguntei sem pensar, arrependendo-me logo em seguida por dar corda àquele cara nojento.
— Bem, alguém com um passado tão transtornado que nem o seu, ter o encargo que recebeu hoje… Deve ser bom ser você na Marinha. Não precisa incomodar-se em como agir, qualquer comportamento é suficiente… — disse em tom amargurado, seu olhar pingava à imoralidade. Minha mente nublou-se, estava desacreditada por ouvir uma difamação tão grotesca. Como ele podia declarar algo tão desprezível daquela forma? Ninguém naquele lugar me conhecia para falar coisa alguma.
A raiva crescente no meu olhar fez surgir devagar um sorriso perverso no rosto dele.
— Como é que é? — perguntei pausadamente.
— Ah, você entende. Todo mundo sabe o que aconteceu e o que você se tornou. É impressionante ver que ainda trabalha nas Forças Armadas! Os critérios devem ser baixos mesmo…
Olhei-o esperta. É sério que ele estava duvidando da minha capacidade?
— Pois é, que engraçado, não é? E, mesmo assim, apesar de qualquer erro que cometi, e das tragédias que enfrentei, ainda consigo ocupar um cargo maior e mais importante que aqueles que têm o “histórico perfeito”. Os critérios são baixos mesmo ou tem muitos incompetentes aqui? — olhei-o de cima a baixo, largando meu braço de sua mão com força. Dei as costas para ele e voltei a andar.
— Não interessa que cargo você está, vai continuar sendo a vagabunda que desfilou por aí de toalha no primeiro dia!
A gota d’água para mim foi ali. Virei subitamente e dei um soco na sua mandíbula, vendo o homem cair para o lado. Daniel apoiou-se desnorteado no corrimão. Sorri satisfeita e ensaiei a voltar a andar.
Infelizmente, antes que eu pudesse me dar conta, ele partiu furioso para cima de mim.
A toalha do meu ombro foi arrancada com violência e minhas duas mãos faziam força para que meu corpo continuasse coberto pela outra, tendo em vista que Daniel a puxava com força. Eu estava completamente vulnerável, qualquer movimento que eu fizesse era incapaz de me proteger dele. Ele pressionava com força seu corpo no meu, lambia e mordia violentamente a pele do meu busto e pescoço, tentava de qualquer forma tirar minhas mãos da toalha. Eu tinha certeza de que seus movimentos bruscos deixariam hematomas em minha pele. Tentei gritar desesperada, porém uma de suas mãos tapou rudemente minha boca.
A cada movimento de esquiva meu, uma memória sensorial aparecia no meu consciente. Lembrei-me com raiva da fatídica noite que algo parecido aconteceu, em que aquele porco nojento sentiu que tinha direito sobre mim e tentou possuir meu corpo à força.
À medida que Daniel pressionava com mais força seu quadril em mim, apertando agressivamente minha cabeça contra a parede, meu desespero crescia num fino suor em minha testa e um choro grosso. Eu podia jurar que desmaiaria de pânico.

Então, senti meu corpo sozinho novamente.

Agarrei o corrimão de imediato, forçando meu corpo a permanecer em pé pelas minhas coxas, que tremiam violentamente. Eu estava ofegante pela minha respiração ansiosa, soluçava pelo meu choro grosso. Ouvi um chiado e sons ao longe, que aumentavam à medida que conseguia me reestabelecer. Pisquei desesperada, precisava enxergar algo em meio a imagens tão embaçadas.

Sangue, xingamentos, súplicas…

, sai daqui! Você não vai querer ver o que estou prestes a fazer com esse verme! — vociferou gravemente enquanto dirigia seu olhar animalesco para mim.
— Por favor, para... Por favor… — Daniel implorava debilmente, seu rosto já estava inchado e molhado de vermelho. A mão enorme de apertava com força seu pescoço.
— Cala a boca, seu merda! — rosnou para ele, olhando-o de forma sinistra. Seu punho chocou-se num som seco contra o rosto de Daniel, a brutalidade era agoniante. — !
Depois que gritou meu nome pela última vez, uma descarga de adrenalina fez-me correr ávida escada acima, desesperada para escapar dos próximos segundos violentos de com Daniel.
Senti um de meus tênis sair do meu pé furtivamente, mas, com os sons violentos dos golpes e os gemidos sôfregos, não me atrevi nem a olhar para trás.

****


Dormitório 22, 6h30 p.m.

O lavabo encontrava-se uma bagunça total. A pia estava molhada e respingada de sabonete de baunilha; tinha espuma até no espelho, retorcendo meu reflexo de forma estranha. Pelo menos o ambiente cheirava mais a mim.
Eu esfregava severamente meu pescoço e colo com a toalha úmida, limpando, enojada, qualquer vestígio de Daniel de mim. Na minha pele, apareciam vergões vermelhos de ambas as violências. Ardia e machucava cada vez mais que minha força aumentava quando sentia um rumor de cheiro alheio.
De repente, ouvi um barulho na porta.
— Merda! — sobressaltei-me e derrubei algumas coisas no chão. — Tenha a santa paciência… — larguei a toalha longe e fui para o quarto. Pelo menos sair daquela atmosfera desesperada de higiene foi bom para a pele do meu pescoço descansar. — Já vou!
Peguei uma blusa preta de gola rolê na gaveta e a vesti, escolhendo a peça justamente por esconder as mordidas e o autoflagelo na minha pele. Pus uma calça de academia da mesma cor e atendi a porta.
Minha voz saiu surpresa pela figura na minha frente:
— Emily? Oi…
— Oi, , posso entrar? — sorriu simpática.
— Ãhn, claro, entra — dei passagem e observei-a se sentar na ponta da minha cama. — A que devo a honra? — Encostei-me de lado na parede, sorrindo.
Emily pegou o controle da TV e a ligou.
— Vim te agraciar com a minha companhia, tenho meia hora livre. — disse em um tom divertido, piscando o olho.
— Oh, que gentileza a sua — Ri de volta, mas logo desmanchei o sorriso ao olhar para o tênis branco de Emily e enxergar pequenas manchas frescas de sangue. Meu coração acelerou, e interrompi minha respiração por reflexo.
, ele já foi levado pro -9. — Emily falou de repente, puxando minha atenção de volta para seu rosto sério, porém terno. — Ficará preso até a Itália, onde será deportado de volta para Londres… Informaram para mim que ele sofrerá tanto processo administrativo quanto criminal. — seus olhos analisavam cuidadosamente meu rosto, que, com certeza, não tinha a melhor das expressões. Tossi por nervosismo, desejando uma água gelada para limpar minha garganta. A sensação era que uma bola se formava nela, me sufocando.
mandou você aqui? — perguntei, trêmula, falhando miseravelmente em tentar soar vaga.
— Não, eu quis vir. Mas ele quem autorizou minha meia hora livre, afinal, ele é o chefe. Logo voltarei para ajudar nos cortes de Daniel e… Senta aqui do meu lado, eu não vou te morder — afirmou em um tom calmo.
Joguei meu corpo na cama ao lado de Emily e deixei as pernas para fora do colchão, repousando meu antebraço sobre meu rosto, numa forma de me anular. Meu raciocínio era uma completa bagunça, igualzinho ao lavabo do quarto. O estresse fazia meus músculos sofrerem pequenos espasmos nervosos e meus dentes rangerem involuntariamente. Senti meu lado supersticioso gritar que o assédio era apenas uma pequena mostra de como seriam as próximas semanas no navio.
Bufei frustrada contra a manga da blusa.
— Eu já passei por uma situação assim, anos atrás — Emily falou subitamente, chamando minha atenção para seu rosto. — Como você deve saber, não tem muitas mulheres na Marinha. — virou-se de lado e apoiou as costas na parede, olhando pensativa para um ponto qualquer em sua frente. — O marujo apareceu no vestiário feminino depois de um treinamento físico, e eu estava lá sozinha. Eu nunca berrei tanto na minha vida, . Eu conseguia sentir a pele dele embaixo da minha unha, tamanha era a força que eu usava para machucá-lo. Minha sorte foi que o vestiário masculino era logo ao lado. Ouviram meus gritos e o tiraram de cima de mim. — suspirou pesadamente. Sentei-me perto dela e peguei nas suas mãos com carinho. — Eu lembro dele puxando meu cabelo com muita força, ele os cheirava de uma forma nojenta. Ele era comprido na época, eu alisava e não pintava de ruivo ainda — sorriu triste para mim. Analisei brevemente seu cabelo curto e não me atrevi a perguntar. — Foi a época que decidi pedir licença das Forças Armadas para cursar Medicina logo, voltei quando você começou seu treinamento.
— Eu sinto muito, Emily…
— Eu também sinto muito por você ter passado por isso, . — sorriu triste para mim e apertou minhas mãos mais forte. — O que eu quero dizer com tudo isso é que, na época, o apoio da minha irmã me deu muita força, me ajudou a superar cada dia mais esse episódio. Por isso, quero te dizer que você pode contar comigo para o que for, . Principalmente durante essa missão. O navio tem macho saindo até do ralo, a gente precisa saber que tem umas às outras. O elo de apoio entre mulheres é muito forte, nada destrói isso. Nada, . — Emily falou, convicta, olhando no fundo de minha íris umedecida. Abracei-a forte na mesma hora, chorando de forma silenciosa. Sem soluços ou lamúrias, apenas grossas lágrimas molhando minha bochecha e sua blusa.
Senti sua mão fazer um carinho afável nas minhas costas, acalmando a tensão que dominava meu consciente. Emily voltou a me olhar, falando em tom baixo e calmo:
— Sabe, tenho a impressão de que, na história de todas as mulheres do mundo, há episódios de assédios de todo tipo. Seja uma piada aqui, um comentário obsceno e ambíguo ali, um toque que nos deixa desconfortável… E dói constatar isso. — Emily limpou delicadamente as lágrimas que escorriam na minha bochecha. — Somos subjugadas até quando especialistas, ensinadas a competir umas com as outras desde criança só para tentarmos ser amadas e aceitas. Chegamos a achar que somos loucas quando somos apenas mal interpretadas! São tantos pensamentos degradantes e falsos, e, na grande maioria, proferidos e perdurados por homens. Só a gente sabe o que sofre, como, quando e onde. Por isso, a união feminina é tão importante. Eu estou aqui do seu lado agora.
— Obrigada, Emily… — falei em um fio de voz ao sentir um soluço vindo. — Obrigada. — abracei-a de novo.
— Tá tudo bem. — falou contra meu ombro, acariciando minhas costas gentilmente. — Ei, eu fico feliz demais que estamos na mesma missão, assim podemos nos reaproximar. Você vai ver o quanto me ama. — disse, convencida.
— Oh, começou! — funguei, sorrindo.
— Claro, ué, sou canceriana! Qualquer um que chora e me abraça, eu já fico emocionada. — Guardou uma mecha minha atrás da orelha — Agora, vou te mostrar um vídeo de um gato que veleja junto com seu dono!

****


Flashback, 9 anos atrás.

O cheiro úmido e salgado do vento que batia em meu rosto era intenso e reconfortante. Meus braços envolviam minhas pernas dobradas, enquanto sentia o ritmo suave das ondas balançando o barco. Enxerguei a figura alta de minha mãe vindo pelo estibordo com um isopor de ombro. Ela andava distraída, procurando algo dentro. Seu cabelo negro e longo grudava no rosto e não facilitava a tarefa.
— Toma, filha. — falou ao entregar-me um sanduíche, tirando as mechas de sua boca. Sentou ao meu lado na popa de nosso barco e admirou o céu, prendendo seus fios por fim — Vamos lá, pode falar. Somos só nós duas agora, sem seu pai, seu irmão, o amigo dele ou até mesmo aquele seu gato preguiçoso, que parece mais uma almofada peluda. — falou divertida, olhando-me rápido. Não pude deixar de sorrir, ainda mais com sua menção ao Gato, meu gato.
Sim, esse era o nome dele.
E sim, eu sou boa com nomes, obrigada.
— Não fala assim do Gato, ele não tem culpa…
— Claro que não. A culpa é da dona dele, que não o escova o suficiente.
— É que nessa época do ano…
— … eles trocam mais de pelos, eu sei, mocinha. Mas eu já te ensinei a tirá-los do uniforme azul marinho, né? Leva só um minutinho, o que é muito menos do que a sua soneca depois do despertador tocar… — minha mãe ralhou, mordendo seu sanduíche despreocupada. Olhei-a com um sorriso incrédulo.
— Abigail , que língua afiada! Você sabe que eu acordo de madrugada, não tem problema nenhum deixar minha soneca tocar meia hora. — ri junto com ela, pegando uma latinha de cerveja no isopor no nosso meio.
, só uma, hein. — falou em tom repreensivo.
— Ah, mãe, hoje é sábado. Papai sempre deixava…
— Ele não está aqui, querida. — declarou calma, derramando um molho vermelho no seu sanduíche. Abri a lata impetuosamente.
— Pois é, não está. — nossas íris se cruzaram na mesma hora, mesclando no ar a tensão do assunto com o cheiro agudo de peixe do cais.
, não fala…
— Não era para conversarmos? Vamos falar então — falei em tom amargurado, mudando minha postura subitamente. Cruzei as pernas e voltei a olhar para frente, bebendo um longo gole da cerveja gelada. Eu sabia que estava exagerando, mas minha tranquilidade havia esgotado muito antes do café da manhã naquele dia.
Minha mãe limpou calmamente os dedos num guardanapo e virou-se para mim, pescando minha atenção contrariada para ela. No mesmo nível que eu queria falar sobre, minha voz hesitava por pura imaturidade de não saber lidar com aquele assunto. Ouvi uma tosse vindo dela de “vamos lá” e bufei.
— Eu achei que você e o papai estavam se separando.
— Nós estamos, querida.
— Então por que ele saiu de fininho do seu quarto hoje cedo? Aliás, agora tem que dormir lá em casa todo fim de semana? Já viu a zona que ele e Mauro deixaram na sala? — virei fervorosa para minha mãe, que apenas olhava-me com um sorriso discreto no rosto. Sua mão alcançou carinhosamente meu rosto, acariciando minha bochecha gelada. Suspirei na mesma hora.
— Filha, seu pai bateu lá em casa de madrugada. Tinha bebido muito, me ligou mais de vinte vezes… — abanou o ar com uma mão, afastando uma provável lembrança deplorável dele. — Pelo menos chegou lá de táxi. Deixei-o dormir no nosso… no meu quarto, enquanto eu fiquei no de hóspedes — segurou em minha mão livre e fez carinho com o dedão, ainda sorrindo. — Ainda somos bons amigos, isso eu te garanto. Sempre vamos amar muito vocês, mas, sabe… — suspirou pesadamente e fungou, olhando para o céu. Uma umidade dolorosa brilhou em sua íris. Larguei minha cerveja de lado e peguei em suas mãos, distribuindo beijos nos seus dedos quentinhos.
— Desculpa te questionar assim, mãe. É que essa história toda confunde muito minha cabeça ainda… Você e papai simplesmente não falam e… Desculpa, mãe. — falei, levemente envergonhada, sentindo-a retribuir maternalmente meus beijinhos na mão.
Toda a situação em volta do divórcio dos meus pais era uma catastrófica incógnita que todos tinham suas versões e teorias. Tudo se tornara apenas um bolo de sentimentos frustrados, pitacos mentirosos e sangue quente subindo à cabeça.
No rosto meigo de minha mãe, estava um sorriso triste, apesar da voz serena.
— E, bem, quanto ao seu irmão e , pedirei que pelo menos tentem subir as escadas até o quarto, ou trancarei a porta dos fundos também. Irão dormir bêbados no jardim gelado, tá bom pra você assim? — perguntou, convicta, e eu revirei os olhos.
poderia simplesmente não aparecer, papai ficou irado em vê-lo lá hoje de manhã. E Mauro, como sempre, saiu em defesa do imbecil.
— Não entendo essa sua implicância com o rapaz, ele nunca te fez sofrer nada.
— Você tá brincando, né, mãe? Ele é insuportável em qualquer circunstância!
— Ele só te provoca porque sabe que você sempre responde irritada…
— A família dele é um covil de cobras!
— Nenhuma família é perfeita, filha.
— E as histórias que o vovô conta?
— Marinheiros adoram narrar anedotas, querida… — Bebeu calma um gole da minha cerveja. — Por que não deixa para odiar o rapaz quando ele realmente te fizer algo? — piscou ao sorrir, tocando carinhosamente a ponta do meu nariz com seus dedos quentinhos.


****


Pisquei meus olhos repetidas vezes até conseguir fixar novamente a visão na janela. Estava abraçada aos meus joelhos com meus pensamentos soltos como plumas numa ventania, indo e vindo à medida que uma memória se tornava ruim demais para ser revista.

“… ele nunca te fez sofrer nada.”

Algumas lembranças eu sabia que eram perigosas demais para acessar, mas, muitas vezes, elas batiam em mim sem serem chamadas. Vinham como um soco no estômago, umedeciam meus olhos com dolorosas sensações de perda e nostalgia. Eu me sentia exausta em reviver tanto isso.
Para tentar reverter aquele limbo mental em que me encontrava, vi uma alternativa de escape na paisagem que pintava a janela do meu quarto. Eu tentava me concentrar no feixe de luz que a lua produzia na água preta, refletindo toda sua graça de um jeito aceso. Subi meu olhar e vi as estrelas cochicharem umas para as outras, espalhadas por cada centímetro de céu, transformando-o em um rosto cor de jabuticaba com sardas cintilantes.
Porém, mesmo tentando observar somente a natureza, tais elementos agitavam minha memória e inundavam meu consciente daquelas noites de verão que eu vivi sob um céu como aquele com minha mãe e vô.
Eram madrugadas cheias de ternura, nas quais passávamos horas apenas conversando e pescando, rindo de bobices e piadas internas que nossa relação formava a cada passeio. Éramos só nós três contra qualquer eventual reviravolta no clima ou nas ondas salgadas. Nossa sorte era que vovô era mestre em ler e desvendar os próximos trejeitos do mar. Ele aproximava-se em silêncio da beira da água, fechava os olhos e ouvia o som molhado ao redor, esperando o veredicto com muito vento no rosto. Quando eu o via sorrir satisfeito, sabia que teríamos uma noite tranquila.
Suas mãos enrugadas e macias sempre guiava a mim e minha mãe para entrarmos na embarcação; meu avô fazia questão desse pequeno gesto antigo de cavalheirismo. Ele sempre teve esse tom cordial e caloroso com nós duas.
Por isso, quando ele ficou muito velhinho para nossas aventuras, eu e minha mãe paramos de velejar simplesmente. Não fazia mais sentido continuarmos, era um programa de nós três. Não existia uma versão da coisa onde navegaríamos sem meu avô ou qualquer coisa do tipo. Minha mãe e eu apenas passamos a frequentar de noite o cais onde nosso barco ficava.
Todo início de fim de semana, ela chegava de fininho no meu quarto, espiava dentro e avisava que meu irmão havia saído, e se eu não gostaria de uma sessão longa de conversa, pôker e comilança na embarcação aportada junto com ela. Com apenas um sorriso, eu me levantava da cama e seguia em seu encalço.
Era meu momento de descarrego da semana, no qual minha mãe ouvia pacientemente minhas lamentações adolescentes e me acalmava com um cafuné reconfortante no cabelo. Suas unhas compridas faziam os melhores carinhos do mundo.

Não ter mais nada disso era uma crueldade da qual eu sobrevivia há mais de seis anos.

“… quando ele realmente te fizer algo?”

Já foi difícil na época aceitar a ausência madura de meu avô, apesar de natural. Eu sabia que, uma hora ou outra, a senilidade gritaria e ele repousaria em casa mais que qualquer coisa.
No entanto, ter de encarar o novo domicílio da minha mãe como sendo um hospital, sem que ela nem mesmo fosse capaz de respirar sozinha, esgotou a minha vontade de viver, na época. Como eu poderia ser feliz ou aproveitar a vida, sabendo que ela estava inerte, imóvel e sem reação a nada? Ainda mais quando a vida de todos continuava normal e seguindo na boa. Eu reclamava de caprichos fúteis que minha mãe não tinha, nem a oportunidade de aborrecer-se.

“Por que não deixa para odiar o rapaz quando ele realmente te fizer algo?”

A voz dela, apagada e dolorosamente vaga na minha memória, fazia o ódio por triplicar na minha corrente sanguínea. Alimentar o meu desprezo por ele era um dever, principalmente quando a presença invisível de minha mãe ecoava lembranças como aquela. E posso afirmar que não foram poucas vezes. Nos últimos dias mesmo, a sensação me sufocava, produzia rebuliços ansiosos, que eram capazes de me fazer vomitar.

surgiu odiosamente em meus pensamentos, trajando seu uniforme branco repleto de insígnias, com aquele sorriso debochado, enquanto me encarava de um jeito presunçoso.
Fechei os olhos para espantar tais imagens e suspirei, cansada. Tudo apenas mostrava o péssimo humor que o destino tinha de escrever minha vida baseada numa piada de desgosto.
E, para piorar todo o drama, eu me atormentava com o constrangimento de quantas vezes me tirava furtivamente de inúmeras situações passíveis de mais tragédias. Odiava esse papel dualista que ele tinha na minha vida. Uma hora me enfiando em mais sombra, outrora acendendo uma vela no fim do túnel e salvando minha pele.
Porém, independente do lado que pesava mais na minha mente, eu sempre presumia que o ódio era o que gritava mais alto. Era cômodo e me parecia mais certeiro. Era fácil culpá-lo por tudo e simplesmente odiar o óbvio vilão da minha história.
De repente, senti minha garganta apertar mais com possíveis lágrimas e levantei. Não podia ficar naquele quarto respirando aquela atmosfera pesada e abafada.
Precisava de ar fresco e sair do meu quarto. Naquele momento, era o melhor que eu podia fazer por mim.

’S POV

Cheguei em minha suíte e tirei a blusa de forma violenta, fazendo com que alguns botões fugissem da costura e pulassem desesperados por todo o carpete. O cheiro nojento e metálico de sangue surgia ao meu redor, assim como dentro das minhas narinas, irritando ainda mais cada nervo do meu corpo.
Eu queria esmagar algo.
Gritar de raiva até minha voz falhar e meu fôlego acabar.
Aquele merda, verme, imbecil degenerado. Quem ele pensava que era para abusar de alguém, principalmente de , ainda mais na minha tripulação? Se o outro marujo não tivesse aparecido de repente nas escadas, meus punhos com certeza esmagariam o crânio vazio e miserável daquele saco de lixo. Porém, quem deveria ocupar as celas do navio era Daniel, e não eu.
Filho da mãe…
Era tão sequelado que chegou ao ponto de tentar atacar-me antes do encarceramento. Qual era o plano dele, afinal? Ele achava que fugiria para onde? Ia se jogar no mar? Naquela altura, temperatura e distância da terra firme? Morreria na hora. Imbecil.
Não seria uma má ideia, mas qualquer óbito no navio seria responsabilidade minha, de alguma forma. Minha tripulação era de quase trezentas pessoas. Como comandante, deveria deixar tudo em ordem com cada um deles.
Com toda certeza uma dose de vodka pura seria bem-vinda. Talvez três ou quatro, eu estava pouco me importando. Cheguei ao mini bar do meu quarto e parei bruto, apoiando minhas mãos com força na borda. A adrenalina corria irritada nas minhas veias. Cocei meus olhos, bufei exasperado, contei até 100 e suspirei. Peguei a garrafa e bebi alguns grandes goles do destilado, sem nem me servir num copo. A urgência de entorpecer meu corpo era alta. Caminhei até o banheiro junto da bebida e me despi. Precisava esfriar minha cabeça e limpar aquele cheiro patético em minha pele.

****


Saí tonto do banheiro, o vapor quente atrás de mim acompanhava meus passos e separava os cômodos como uma cortina de gotículas. Sequei meu corpo e vesti uma calça de moletom apenas. Precisava sentir a sensação de calafrio na pele, ainda mais com aquele oportuno vento gelado. Desconfortos físicos eram sempre uma boa estratégia para me distrair de irritações. Principalmente com meu corpo fervendo pelo banho quente nada curto. Não me orgulho de confessar isso, mas foram pelo menos cinquenta minutos embaixo d’água. Não adiantou muito para acalmar meus pensamentos homicidas, mas foi o suficiente para não ir atrás do erro de esmurrar mais a cara de Daniel. Suas súplicas se desligavam da minha cabeça à medida que a água pelando queimava minha pele. Eu conseguia atingir breves silêncios que ardiam.
Ao menos o choque térmico foi agradável o suficiente para arrepiar suavemente toda minha pele, do mesmo jeito que ocorria quando o cheiro de entrava em meus pulmões e…

Ãhn?
Ok… Eu não pensei nisso.

Peguei a garrafa de bebida e fui até a sacada, buscando, afobado, minha luneta no caminho. Sentei-me em uma das cadeiras e passei a observar a noite. Se ao menos eu possuísse meu telescópio no navio, poderia muito bem me distrair achando no céu as constelações que meu pai havia me ensinado a identificar. Era meu hobby particular, uma das poucas coisas que acalentava minha alma e me tirava completamente de alguma ruína mental. O céu estrelado, assim como a magnitude do oceano, me transportava diretamente para minha infância. Aqueles anos de vida que voltam sempre mergulhados em nostalgia.
Mauro apareceu na minha mente. Peguei o celular no bolso e disquei impulsivo seu número.
? Fala, irmão! — Mauro atendeu animado. Senti uma pontada no estômago e dei mais um gole da vodka. — Tudo bem por aí? — sua voz puxou um tom mais preocupado quando a minha demora para responder estendeu-se.. — ?
— Calma, cara, tava bebendo… — pigarreei, arrependido de ter feito aquela ligação.
, já falei pra não me ligar bêbado, cara. Eu sei que tu é apaixonado por mim, mas… Eu curto mulher — zombou de mim.
— Você e o tão que tão hoje, hein? Daqui a pouco, eu vou desconfiar que vocês estão jogando verde pra colher maduro comigo.
Porra, o ! Que saudade de zoar com ele! Como ele tá? — mais exclamou que perguntou.
— Ele parece estar bem. Tá feliz que voltou pra Marinha. E odeio falar isso, mas ele está de olho na . — confessei com certo desprezo, surpreendendo a mim mesmo. Tossi, incomodado.
Porra, desgraçado… Tinha que ser… Qualquer coisa dá um soco nele por mim se fizer algo de errado com a . A gente sabe como o pode ser com mulheres. — Mauro suspirou, cansado, e meu nó na garganta apertou mais, fazendo-me beber novamente. Ele sabia o quanto sua irmã fazia o que queria e como nosso amigo poderia beneficiar-se disso. — Mas não foi por isso que você me ligou, né? — Mauro perguntou, esperto.
Eu realmente não deveria telefonar alterado para ninguém, já estava mais que arrependido do meu ato pelo conteúdo da conversa que eu teria com ele.
Desembucha, porra. Aconteceu alguma coisa com a ? — Mauro soou mais preocupado e ávido que antes. Mais um gole de vodka.
— Um subtenente tentou… — pigarreei indisposto, o álcool escorria como fogo na minha garganta. — A foi assediada por esse subtenente, episódio parecido com aquele de anos atrás. — comentei em um quase fio de voz, incomodado em verbalizar aquela cena. Olhei tonto em direção ao horizonte, e a lua estava completamente turva e duplicada. Eu já estava bêbado.
Porra! Quem é esse moleque? Caralho, ele vai ver só, mano. Acabou a carreira desse merda, já era o sossego na vida dele. Esse bosta vai ver o que é viver o inferno na Terra… — Mauro continuou proferindo indignações bruscas, afundando sua fala em puro desgosto. Não era para menos. Depois dos tantos episódios trágicos da vida de , o cuidado que Mauro tinha com a irmã caçula havia triplicado em todas as circunstâncias.
E, apesar de não ir com a cara dela, eu prometi a Mauro que ficaria de olho e a cuidaria da melhor forma possível, como fiz algumas vezes no passado. Não foram poucas as situações esdrúxulas que eu me meti por causa de .
? — Mauro indagou, ávido. Seu fôlego era nervoso, ofegante, como se andasse de bicicleta naquele momento.
— Eu desfigurei o rosto daquele babaca — falei de repente, minha voz pingava a ódio. — O imbecil chegou a desmaiar ou fingir que desmaiou. Belo primeiro dia de missão… — interrompi-me ao ver a pequena figura de caminhando distraída pelo convés, indo em direção à proa. O que ela estava fazendo lá sozinha, nesse frio, depois do que aconteceu? — Mauro, eu te ligo amanhã. — tirei o celular do rosto e ainda pude ouvir um protesto do outro lado, mas rapidamente desliguei a ligação. Eu estava alterado demais para aquela conversa, para ser sincero. E caminhando solitária em direção à proa, encolhida em si, tirara minha atenção de qualquer outra ação que eu pudesse exercer.
Seu caminhar era lento e pesaroso. Quando não estava de cabeça baixa, olhava longamente para os lados e para o céu, como se procurasse algum alento imediato. A cada nova soprada de vento, seus cabelos longos balançavam afoitos. Eu jurava que, se me concentrasse, poderia sentir seu cheiro me alcançar pela brisa.
passava as mãos pelos braços vez ou outra, apequenando mais sua figura. Puxava em vão as mangas de sua blusa fina, esticava a gole da blusa com raiva... Senti um ímpeto de sair correndo para encontrá-la e apaziguar todos aqueles sofrimentos bárbaros que ela enfrentava. Queria garantir que ela não precisaria sentir qualquer angústia ou medo, que eu estava ali para ela, para abraçá-la e…

Espera, o que eu estava pensando?
Só podia ser o álcool.

Encurtei minha luneta e guardei-a no bolso, tão indignado comigo mesmo que quase derrubei-a no chão. Xinguei mentalmente todas as minhas versões bêbadas e respirei fundo. Aquele era um objeto de sorte na minha família, era sagrado para os . Fora do meu bisavô quando o mesmo foi General na Primeira Guerra; era passado de geração em geração sempre que uma conquista notável era alcançada. Recebi-a quando fui efetivado para meu atual cargo. O sorriso orgulhoso e o abraço forte do meu pai, ao entregá-la a mim, era uma memória muito viva no meu consciente. Eu a usava de subterfúgio vez ou outra para obter boa sensação quando sentia algo ruim me dominar.
Passei as mãos no meu cabelo, desordenado assim como minha mente estava; a mania de ficar nostálgico quando eu bebia era sufocante às vezes. Pelo menos podia culpar algo externo para justificar meus pensamentos mais sensíveis.
Levantei-me da cadeira, apoiei-me no parapeito da sacada e continuei a observá-la ao longe.
demonstrava estar absorta demais em seu próprio mundo. Vê-la andando daquele jeito perdido me fazia sentir um leve receio; qualquer situação perniciosa que ocorresse com ela poderia desencadear uma série de comportamentos autodestrutivos que viviam adormecidos dela. E, uma vez que esse lado despertava, um caos colossal respingava em todos. Eu sabia que ela era uma bomba-relógio com potencial de explodir em qualquer hora.
E tudo isso fazia uma questão particular e assustadora crescer em mim: o fato de, novamente, sentir meu ódio por ela evaporar pelos meus poros, desobedecendo minha mente condicionada para tal. Eu chegava a ficar tonto com essa possibilidade.
Compreendia que muitas vezes ela me tirava do sério como nunca ninguém tirava, no entanto… Eu também sabia muito bem que era minha resposta automática de defesa pelo modo que ela agia comigo. Uma ação e reação de reflexo, basicamente. Porém, era bizarro enxergar com os próprios olhos o quanto aquele sentimento de desprezo era uma farsa, na verdade.
Essa sensação me atingiu primeiro logo após o acidente de sua mãe, quando afundara-se em um submundo de distrações viciantes e sintéticas. Quase fora expulsa da Marinha por suas atitudes irresponsáveis, apesar do histórico exemplar e família conceituada no meio. Inclusive, foi a influência e súplica de seu avô que salvaram sua pele, e ela nem ao menos sabia disso. ganhou apenas uma dispensa por problemas de saúde e pôde regressar ao seu cargo normalmente após aquela fase.

Fase…

Como eu não desenvolveria empatia pela garota, não é mesmo? Ainda mais com a culpa que gritava nos meus ouvidos. Eu sabia que minha parcela de autoria era alta para ela ter se afundado daquele jeito. Por muito tempo, inclusive, eu tirei forças de onde não tinha para não cair no mesmo buraco que ela. O apoio e o perdão de Mauro foram substanciais para manter-me sóbrio. E isso, infelizmente, deu o efeito reverso a .
Eu sentia em sua íris que toda vez que ela me olhava, ela sofria, enxergava o mal de sua vida. Preferia submeter-se a uma lobotomia agressiva para esquecer quem eu era e o que eu causei a ter que ressignificar minha presença e lidar comigo.
Eu a conhecia o suficiente para afirmar que, nas próximas semanas, ela passaria por muitos momentos de aflição. Afinal, estava longe de sua família, sofrera assédio logo no seu primeiro dia de missão e trabalharia subordinada ao “monstro que destruiu sua vida”.
Porém, dentro de mim, minha teimosia cintilou uma ideia nova. Se eu tinha sido capaz de mudar minha opinião em relação a sem nem ao menos querer ou tentar, havia outra mísera possibilidade do mesmo ocorrer com ela em relação a mim. Abri um sorriso perverso com a ideia, iluminando aquela pequena parte de mim que permanecia em total escuridão há anos.
Continuei a observar sozinha por mais alguns momentos, até ver aproximar-se e tocar-lhe o ombro calmamente. O que ele fazia ali?

POV’S OFF

O pesado navio militar atravessava firme a superfície macia da água, fazendo sangrar, na negritude do oceano, uma espuma branca e passageira. Encarando o movimento encrespado do mar, estavam aqueles olhos, sempre tão humanos e cheios de vivência, imersos em observar cada fenômeno marítimo. A jovem encantava-se toda vez que percebia a água ganhar uma aparência fina de cetim sob a luz branca do luar.
O vento forte vindo do Sul fazia voar longe as expectativas de em ter uma boa primeira noite de sono no dormitório 22. A amargura fazia seu coração bater tão pesado que ela jurava estar em ritmo lento e desacelerado. O eventual frio que escolheu sentir naquele momento não a afastava do caos que vivia dentro de sua mente. A pele sensível de seu pescoço coçava por debaixo do fino tecido de tricô, costurando mais uma sensação incômoda para que ela vestisse a força. Sentia-se sobrecarregada emocionalmente, com os olhos tão úmidos que, vez ou outra, precisava piscá-los com mais força para desembaçar a vista e continuar a olhar o mar de cetim. botava a culpa no vento salgado por sensibilizar e molhar sua íris, não queria acreditar que chorava pela milésima vez no dia.
Afastou-se um momento da grade da proa com seu silêncio de luto. Agarrou os cabelos do couro cabeludo com seus dedos trêmulos e gelados. Estava frustrada, tinha vontade de gritar por seu chão esvair-se mais uma vez, como quando sua mãe fora vítima daquele atentado trágico e sanguinolento.
De repente, sentiu uma mão intrusa em seu ombro.
— Merda!
— Nossa, desculpe! — sorriu sem graça pelo sobressalto da moça, pousando uma mão no peito. — Eu tenho que parar de te assustar toda vez que nos encontramos.
— Cuidado que meu coração não é dos melhores… — tentou falar em tom jocoso, mas sua voz estava levemente embargada. Limpou as lágrimas sem graça, fungando baixo, com uma tentativa de sorrir para o homem ao virar-se. percebeu seu rosto inundado de tristeza e murchou seu sorriso na hora, preocupado.
— Ei, o que aconteceu? — aproximou-se e instintivamente envolveu suas mãos no ombro da mulher, olhando no fundo de sua íris envidraçada por lágrimas. Sentiu uma pontada no peito por perceber aqueles olhos tão humanos exalarem tanto descontentamento.
suspirou e sentiu a tristeza encurtada pelo susto inesperado que levou do homem. Ensaiou mais um sorriso pequeno.
— Nada de mais, é só um momento de descarrego por uma situação bosta que aconteceu… — disse, mais tranquila, abanando a mão no ar como se espantasse uma mosca qualquer.
ainda a olhava tenso e continuou com o leve carinho em seus ombros, lembrando de mais cedo.

“As brigas com realmente a afetam..”, pensou sozinho.

— Tem certeza? Eu sou um ótimo ouvinte, quase não bocejo. — brincou, amigável, e piscou um olho para a moça. riu pela bobice e sentiu que a aura pesada que sua mente criava com certa frequência fora quebrada quase que imediatamente pela presença leve de . O sorriso do homem a encantou até a mesma desnortear-se em pensamentos de como seria o casamento dos dois.
balançou sua cabeça negativamente e sorriu mais uma vez, feliz em conseguir ir em lugares mais afáveis com sua mente.
— Obrigada, de verdade. Mas, pra ser sincera, queria mesmo é distrair a cabeça com um chope escuro…
— Nesse frio? — o homem franziu as sobrancelhas e balançou negativo a cabeça. — Não… Nesse frio, você precisa disso daqui — retirou subitamente de dentro do casaco uma garrafa retangular com um líquido escuro e viscoso dentro, a tampa imitava a cabeça de um alce adulto. — Licor alemão de cinquenta e seis ervas, Jägermeister! Oh, não, não, é bom, eu juro! — falou com uma empolgação autêntica, apesar da careta de pela menção de “licor de ervas”. Nas suas poucas experiências bebendo licores, sempre golfava muito fácil pela espessura doce do álcool.
— Bom, esse realmente eu nunca provei… — disse, incerta, ao ver abrindo o lacre empolgado.
— Você gosta de bebida doce?
— Não exatamente…
— Oh… — o homem parou e abriu um bico rápido, o qual fez derreter imediatamente.
— Mas eu faço questão de experimentar! — a moça insistiu em um gesto de incentivo com as mãos. sorriu contente.
— Essa garrafa é muito especial pra mim, ganhei do… De um amigo muito querido quando fiz trinta anos — confessou, porém escondeu que havia sido o autor do presente. Não queria estragar a áurea mais relaxada que havia conquistado de ao mencionar o seu desafeto.
— Nossa, faz um tempo, ãhn? — disse, sem pensar muito, e a olhou com uma incredulidade divertida.
— Ouch! Só tenho trinta e seis!
— Oh, meu Deus, mil desculpas, Subcomandante, eu… — começou a explicar-se, mas se enrolou.
— Hey, relaxa, eu tô zoando. Pra falar a verdade, eu já tô mais perto dos quarenta do que dos trinta mesmo… — ele riu tranquilo e deu de ombros. — E é pra você, Tenente. — piscou galanteador para ela. sentiu um calor de timidez subir em suas bochechas e desviou o olhar brevemente para o mar. — Toma, faça as honras. — entregou a garrafa recém-aberta a ela.
A mulher entornou um gole do líquido grosso, sentindo o sabor doce de plantas aromáticas embalar seus sentidos com a intensidade peculiar das 56 ervas. Um amargor gostoso precedeu rapidamente a doçura. Não se sentiu enjoada. O homem a olhava com expectativa.
— Então…
— Esse licor é dos bons, uhn… — falou, impressionada por seu paladar aceitar a bebida forte. Bebeu mais um gole e fez o homem gargalhar, satisfeito.
— Que bom que gostou! — pegou entusiasmado a garrafa de sua mão e deu três goles grandes seguidos. Tossiu pelo excesso. — Vamos comemorar uma coisa aqui, little . — o homem sentiu-se confortável em ser mais íntimo com a mulher, encantado pelos olhos tão humanos o olharem com um brilho mais descontraído.
Little?
Little ! — repetiu divertido, bebendo mais um gole e fazendo rir. — Vamos brindar à vida, que é uma merda, mas nos botou na mesma missão de escolta! Talvez não tenhamos sido fortuitos o suficiente para cair na mesma equipe, mas… Um brinde ao fato de nos conhecermos finalmente! — declarou, animado, apesar de nunca ter passado por sua mente querer conhecer .
— Um brinde! — declarou, igualmente divertida. A mulher pegou a garrafa de sua mão, arrastou seus dedos nos de e olhou-o mais solta. Era incrível o quanto seu estômago vazio fazia com que o álcool subisse sua mente tão rápido. Sentia-se destemida e sem a cansada timidez ao ver um homem tão charmoso na sua frente quanto aquele. Além do mais, era incrivelmente cordial, um colírio para os olhos e uma ótima companhia. Para ela, não tinha um porquê conciso em não retribuir aquela simpatia dúbia. Bebeu mais dois longos goles da garrafa de 500ml.
— Um brinde… — repetiu, provocativo, enquanto a fitava intensamente.

****


, do alto de sua cabine, olhava a cena embasbacado. Toda a intimidade demonstrada pelos dois, os goles companheiros na bebida, os toques furtivos de , o sorriso frouxo de
Tudo que o homem experimentava era intenso e ruim. Sentia-se completamente embaralhado pela milésima vez no dia quando o assunto era a garota. Estava tudo ruidoso demais para que entendesse que era ciúmes de que o dominava naquele momento.
Claro, não via nada de errado na garota interagir com alguém, mas o pé atrás que tinha com gritava que uma conversa mais romântica entre os dois poderia ocorrer e culminar em tragédia.
Seu coração pulou ao ver os dois se aproximando fisicamente e, de súbito, um sangue quente subiu no seu rosto. Seu punho fechou raivoso em volta do que segurava ao pensar que flertaria com sem pestanejar.
Bebeu mais um gole da vodka, que já deslizava como água na garganta pelo tanto que havia consumido.
Continuou a observá-los, desejando que proferisse um tapa no rosto de . Bufou irritado e foi em busca de suas cigarrilhas vermelhas e picantes.
Estava inconsolável.

****


9 p.m.

As discretas luzes noturnas do navio iluminavam com timidez por onde tocavam, projetando uma sombra maior que a claridade das lâmpadas. Na penumbra da imensa proa, dois corpos lânguidos ensaiavam uma valsa enrolada, entre tropeços e risadas frouxas, bêbados com uma alegria perene. Uma música romântica em francês era cantarolada por um deles.
O homem tentava debilmente guiar a moça na dança, girando-a vez ou outra, sentindo o perfume dela voar junto com seus cabelos e entrarem no seu organismo, inebriando-o.
pisava risonha nos seus próprios pés, gargalhava como não fazia há anos, sentia-se leve e sem nenhum peso ou culpa assolando sua mente. A única coisa que lhe passava na cabeça era terminar a bebida e sentir de qualquer forma. O toque firme do homem na sua cintura fazia com que calorões deslizassem por entre suas pernas, amolecendo-as ainda mais. Não que ela ligasse, pois aproveitava da tontura da embriaguez para agarrar-se mais a ele e ter seu calor mais perto.
subitamente soltou a mão de , que a olhava sorrindo, e foi até a grade da proa, em uma tentativa esnobe de imitar sozinha a cena romântica de Titanic. Suas bochechas fumegavam e a pele do pescoço pinicava embaixo da blusa, mas não se lembrava do porquê. Só queria sentir a brisa fresca do mar levar para longe sua falta de fôlego pela dança. Sentiu uma vontade súbita de mergulhar na água negra de cetim.
Abriu os braços e quase caiu, segurando-se rapidamente no ferro à sua frente. apressou-se para perto dela.
— Ei, deixa que eu te ajudo — ele sussurrou contra o ouvido de , pegando nas suas mãos e entrelaçando os dedos. A moça arrepiou-se pelo hálito quente e o tom baixo do homem; era como se ele lambesse sua pele sem nem ao menos tocar a língua no seu corpo.
aproximou-se mais e preencheu o vazio nas costas de , encaixando perfeitamente seu corpo no dela e abrindo os braços de ambos vagarosamente. O vento estava inescrupuloso e forte.
— Fecha os olhos… — sussurrou, roçando devagar seu lábio no lóbulo da orelha de , amando cada movimento sutil da excitação dela em resposta.
A moça nem se lembrava que estava num navio militar, deixou-se levar por completo pela aura sensual que o homem criou. Era como ter um feitiço forte de hipnose dominando todos seus sentidos, inundando-lhe a cabeça com pensamentos lúbricos. O tronco grande de abocanhava a pequena figura de , que se ajeitava estrategicamente para tocar mais seu corpo no dele. O vento forte não fazia nem cócegas perto das sensações extremas que ela sentiu ao tê-lo tão perto assim.

— Sim, magnifique
virou-se e automaticamente circundou com seus braços o pescoço de . O mesmo abraçou com força a cintura dela.
— Eu já estou completamente bebadra declarou, alterada, enxergando tudo muito embaçado.
Seulement toi, petite?
— Ãhn? — abriu um sorriso confuso.
— Desculpe — riu pela sua tolice —, é mais fazil falar no meu idioma nat… nativ… nativo, quando tô bebadu declarou, rindo mais ainda pelos seus erros. derreteu-se novamente e desvencilhou-se do homem ébrio para olhá-lo melhor. Catou o licor do chão.
— Olha, falta só um golim… — levantou furtiva a garrafa quase vazia que segurava. mirou para o restante do líquido, mas, antes que pudesse falar qualquer coisa, a moça bebeu todo o conteúdo de uma vez. Nenhuma careta proferida, apenas um sorriso largo e divertido cresceu no rosto de .
— Ah, não, magnifique… Era pra deixar um golinho pra mimmm. — disse em tom manhoso.
— Demorou demais! — a moça exclamou, grudando a garrafa vazia no peito do homem. O mesmo tentou sorver risonho qualquer resto, mas não conseguiu.
— Você é malvada. — declarou num falso aborrecimento, encantado em como os olhos de brilhavam divertidos. — Vem cá, vem. — Num piscar de olhos, agarrou com força a cintura da mulher.
— E voze é lerdo… — declarou, risonha, circundando o pescoço dele.
Ambos guiaram-se abraçados, entre risos e tropeços, até a grade onde apoiou suas costas.
— Oh… — disse simplesmente, sem conseguir raciocinar ou dizer qualquer outra coisa. Segurava debilmente a garrafa na ponta dos dedos, mas apertava o corpo da moça contra o seu com vontade.
— Oh… — repetiu, provocativa, encostando seu nariz no dele. largou a garrafa sem se importar e subiu a ponta de seus dedos vagarosamente por debaixo da blusa de , sentindo a pele macia dela invadir seu organismo de desejos libidinosos. A moça arrepiou-se e debruçou mais seu corpo no de , que sentiu seu membro latejar contra o fecho da calça. remexeu-se no volume duro e soltou um gemido baixo pelo prazer quente que subiu na sua intimidade. Ambos suspiraram fortemente, fundindo ainda mais suas respirações ébrias.
Sem pensar em mais nada, finalmente selou os lábios de com um beijo lascivo e desesperado. A umidade alcoólica dos lábios fazia crescer a aura libertina de ambos, que aprofundaram ainda mais o contato de suas línguas entrelaçadas e afoitas. mordeu o lábio inferior de , que deu um tapa forte na sua bunda em resposta, fazendo-a gemer entre o beijo pela sensação de dualidade que a dor lhe infringiu. Adorava certas práticas mais brutas em horas de intimidade, e constatar que tinha uma mão firme só fez crescer seu desejo por ele. O homem sorriu satisfeito e apertou o local com força para que o corpo dos dois se tocassem mais.
Então, o celular de tocou alto.
— Porra… — partiu o beijo frustrado, revirando os olhos. , alcoolizada, deu um beijo no pescoço de e afastou-se de braços cruzados, dando-lhe privacidade para atender.
Porém, por mais distante que estivesse, ela conseguia escutar partes da conversa de que ocorria com ; a voz de ambos estava alta e alterada. Ouviu que era para os dois reunirem-se, entretanto houve um desencontro. Também teve o horário do jantar, o qual nem ou compareceram ( também não, pois não conseguiu parar de checar “os pombinhos” vez ou outra, apesar de sua desculpa ser outra).
sentiu uma preocupação nova em seu coração, referente diretamente ao seu profissionalismo na missão. Uma culpa católica pesou sua mente. Olhou subitamente para o homem, que também era um de seus chefes, e o viu guardar o celular no bolso com uma cara não muito boa.
— Hey — estendeu a mão para ela pegar, sorrindo discreto. — Eu pesizo… — tossiu ébrio em meio a um sorriso. — Eu preeciiso ir. — pescou os lábios de antes da mesma responder, afundando novamente o beijo em um contato caloroso até ambos ofegarem de prazer. murmurou um “gostosa” contra seus lábios, sorrindo sacana, e riu sem graça.
Pegou na mão dela e começou a guiá-la por todo o convés. Ambos tropeçavam nos próprios pés, riam tortos nos degraus, tropeçaram novamente no maldito carpete de veludo azul, que “de tão brega, arde os olhos”, como pontuou.
Vez ou outra, aproveitava os corredores vazios para pressionar novamente seu corpo contra o de , inebriando-se pelos gemidos úmidos de desejo que escapavam dos lábios dela. A vontade de era de devorá-la ali mesmo. Sentia seu organismo inteiro gritar para ter seus toques mais íntimos, seu cheiro mais perto de sua pele, seu suor misturando-se com o seu quando seu corpo chocasse contra o dela…
pegou nas coxas de e fez força para pegá-la no colo. Contudo, ela protestou trêmula, sentindo a ereção dele posicionada estrategicamente demais para ela resistir.
… — gemeu repreensiva, com os olhos fortemente fechados por prazer. O homem mexia-se contra ela, já sem se importar caso alguém aparecesse no corredor.
Magnifique… — sussurrou ao beijar o queixo da moça, devorando seus lábios novamente.


Capítulo 4 – Blue Tile

POV’S OFF

O dia era frio. Um tapete acinzentado e grosso insistia em cobrir toda a extensão do céu, embaçando os poucos raios solares que se atreviam a extrapolar os limites das nuvens escuras. A fina chuva que pintava o cimento do cais também molhava timidamente os uniformes dos marinheiros que ali trabalhavam. Cordas puxadas, âncoras levantadas, mãos limpando o suor da testa.
Com o passo despreocupado e ar confiante, o homem esguio respirou fundo o cheiro de sal da maresia e sorriu satisfeito. Olhou para trás e viu seu amigo, extremamente absorto em abrir um chocolate qualquer. Mesmo concentrado, percebeu a olhadela do amigo.
— Empolgado para desbravar a boemia da França,
mon amie? — perguntou, sorrindo, finalmente olhando para .
— Ainda é dia, . Sossega esse teu traseiro. — respondeu em tom zombeteiro.
— Até parece que não vai ser você o primeiro a cair bêbado no chão. — ralhou. Mordeu seu chocolate e mostrou um sorriso marrom de satisfação, do qual riu.
— É você sempre que dá trabalho, porra. A última vez mal conseguia falar de tão doido. — empurrou-o de leve e apenas deu de ombros, comendo despreocupado seu doce.
Ambos continuaram a caminhada pelo cais francês de Toulon, localizado no canal do Mar Mediterrâneo. Era a segunda missão internacional que faziam juntos, e já haviam levado duas advertências por medidas disciplinares. não ligava muito, sentia-se imune; irritava-se com certas posturas prepotentes do amigo, mas não o deixava sozinho por saber que sua presença servia muitas vezes de freio para as atitudes imaturas dele.
olhou em volta e reparou na atenção que chamava, tendo em vista o pai que tinha.
— Você não estava de brincadeira, hein, parece que todo mundo aqui te conhece.
— Não só parece, como é,
mon amie… Quem sabe eu consiga uns shots de graça e umas francesas bonitas para nós hoje. — piscou, convencido, um olho para , que apenas sorriu e balançou a cabeça negativamente.
Continuaram em direção ao clássico bar
“Eau Salée”, onde os marinheiros que ali aportavam eram fregueses assíduos. O local datava mais de 100 anos; entre guerras e declarações de paz, sobreviveu funestamente pela história. Suas paredes contavam anedotas macabras.
Assim que adentraram o bar deplorável e abafado, um silêncio curioso fez-se em conjunto com os olhares desconfiados para eles, que ambos receberam com o peito estufado.
Sentaram-se ao balcão velho de madeira e pediram um chopp para cada um. O som de cochichos do bar retornou.
olhou para o fundo do salão escuro, onde pôde enxergar buracos redondos nas paredes, que se assemelhavam a tiros de arma de fogo. Os furos deixavam a luz fraca do dia invadir o pequeno cômodo, iluminando os corpos estranhos que ali se embebedavam. Uma sensação gelada atravessou sua espinha e um pressentimento ruim apitou no seu organismo.

“Onde eu estava com a cabeça quando aceitei o convite de ?”, pensou, apreensivo.

— Mais duas doses de whisky pra esquentar o corpo, ok? — pediu em francês, piscando o olho para a bartender, que tinha no rosto uma expressão aborrecida. O homem deu uma boa olhada nos seios protuberantes dela, que pulavam no decote, e sorriu. — Hoje vai ser uma noite daquelas,
mon amie! — disse, animado, esfregando as mãos maliciosamente umas nas outras.

Onde estava com a cabeça ao aceitar aquele convite?


****


Cabine do Comandante, 3h30 a.m.

acordou num sobressalto violento. Estava no carpete áspero de seu quarto, com a garrafa de vodka quase vazia ainda repousada entre os dedos. Elevou seu tronco com o fôlego descompassado e sentiu que o cômodo girava afoito à sua volta; percebeu que definitivamente ainda estava num nível alto de embriaguez. Passou a mão pela testa, que queimava em uma dor pulsante, e sentiu o fino suor nervoso na palma. Estava todo encharcado, apesar do vento frio que entrava pela sacada do quarto. Pigarreou, enjoado, e sentiu que sua boca estava completamente seca.
Levantou-se com cuidado pela vertigem, foi até o banheiro e bebericou a água da torneira, molhando seu rosto e sua nuca logo em seguida. Sua respiração ainda era ofegante e da sua mente não sumiram as imagens do sonho repleto de lembranças funestas.
— Maldito dia! — esbravejou colérico, golpeando a pia com um soco.
Sentia-se constantemente perseguido por fantasmas do passado ao rememorar aquele trágico evento de sete anos atrás. Teve a paz arrancada de sua vida de uma forma tão brusca e dolorosa que sentia a crescente fenda no seu peito escurecer-se ainda mais com a culpa e penitência que sofria. Chegava a temer descansar ao anoitecer.
Via-se obrigado a entorpecer seu organismo vez ou outra para alcançar míseras horas de repouso sem aqueles pesadelos. Não enxergava uma luz no fim do túnel para si há anos.
olhou cansado para seu reflexo. Profundas olheiras de exaustão despontavam em seu belo rosto, a barba por fazer lhe conferia um ar indiferente, quase despojado, mas extremamente amargurado. Há dias não dormia direito. Estava preso numa realidade conturbada.
— Com por perto agora, está impossível me desligar dessa agonia constante... — cochichou sozinho, sentindo uma coceira estranha no seu peito.
Seu limbo pessoal fazia questão de lembrá-lo constantemente do quanto sua impulsividade ébria o fez agir com tanta irresponsabilidade; fora contra todos os treinamentos, protocolos de negociação e segurança que eram necessários naquele tipo de circunstância. acreditava que qualquer milésimo de segundo que houvesse planejado melhor, antes de agir, já alteraria o curso daquele episódio catastrófico.
Nunca na sua vida imaginou que talharia desastrosamente a vivência de tantas pessoas, inclusive daqueles que amava tanto. Fora um segundo de impulsividade para uma vida mergulhada em arrependimento.
Sua adrenalina e álcool no sangue estavam tão altos naquela noite que não era capaz de afirmar quanto tempo ou o que exatamente passou-se entre seu primeiro ímpeto precipitado até seu último momento consciente.
levara uma pancada tão forte na parte de trás de sua cabeça que um corte de doze centímetros abriu-se. No chão do local do sequestro, uma poça viscosa de sangue formou-se em volta dele. Seu amigo , que lá estava, gritara tão atormentado contra a camisa que estava dentro de sua boca que ficou com uma rouquidão intrínseca na voz.
considerava esse episódio e a conduta do sequestrador de uma covardia extrema, digna de um homem completamente frouxo por atacar um inimigo pelas costas. Não lutar de igual para igual e impedir a chance de defesa ao seu inimigo era o mais baixo que um ser humano poderia agir.
Tudo o que ocorrera depois fora relatado para por seu amigo, o único do local que assistira consciente a toda a cena hedionda. Sentia-se sufocado por não ter sua própria versão, ou até mesmo a de Abigail, que teve seus últimos segundos de consciência gravados em uma violência aterrorizante. A mulher encontrava-se em coma há anos; fora um milagre não morrer no local, tendo em vista o quanto sua cabeça fora igualmente golpeada, porém com muito mais perversão.
analisou-se uma última vez no espelho e mexeu impacientemente em seus cabelos, sentindo a cicatriz longa que riscava sua cabeça. Bufou irritado e foi até a sacada acendendo um de seus cigarros vermelhos picantes; sentia necessidade de descansar daquela ansiedade que quase o tombava sempre. A brisa fria da sacada o chamou para observar a madrugada. Um arrepio foi sentido na sua pele úmida e seus pensamentos distraíram-se brevemente com a sensação gélida da noite. Conseguiu respirar fundo.
Então, dirigiu seu olhar para a proa do navio, onde horas atrás ficara perturbado por ver numa cena romântica com um de seus melhores amigos. Não queria acreditar que havia se embriagado tanto justamente por sentir um ciúme tão latente da garota. A simples lembrança do beijo dos dois sumia com sua racionalidade novamente.
Aquela era uma novidade que ele não esperava e muito menos gostaria de experimentar. A negação era quase imediata, porém, apesar do sufoco no peito, não era de seu feitio dar as costas para o que sentia. Preferia ser franco consigo mesmo e tentar entender o que quer que fosse que surgia em seu coração pela moça. Afinal, ele ponderava que essa era a melhor opção para enfrentar seus demônios interiores e responder a seus questionamentos mais profundos. Fugir nunca era uma opção, muito menos bloquear ou reprimir algo quando o assunto era ela.
, inevitavelmente, trazia o calor que fervilhava o sangue de a todo momento, como um combustível para a fogueira que mantinha a temperatura estável de seu corpo. Era ela quem sempre o desordenava e genuinamente exaltava-o pelas constantes provocações e acusações ácidas. Era ela quem o fazia sentir aquela auto-repulsa tão latente que não o deixava dormir tranquilo à noite. Era a presença da moça que sumia com qualquer migalha de sanidade e paz que ele conseguia juntar porcamente de volta à sua vida. A dor de era o fardo mais pesado que carregava nas costas.
No entanto, havia algo a mais na mente dele que era simplesmente impossível de afastar, principalmente depois da festa de dias atrás: os sentimentos antagonistas que nutria inconscientemente por ela. Sentimentos esses que brotaram tênues no seu coração anos atrás quando viu na sua mais pura fragilidade, estendida no seu fundo do poço pessoal. Fora uma época extremamente preocupante para todos à sua volta. precisou cuidar dela inúmeras vezes sozinho, principalmente porque não era sempre que Mauro estava disponível para resgatar a irmã de suas atitudes depreciativas. Tomou como seu dever desempenhar uma figura mais protetiva para a moça, vigiar de longe seus passos rebeldes e intervir sempre que ela precisava. Era impossível ele não desenvolver uma grande empatia e preocupação por . Apenas nunca imaginara que aquilo evoluiria para o que se manifestou no seu coração horas atrás.
Sentindo-se patético pela milésima vez, puxou com força a fumaça para seus pulmões, que queimaram em um protesto de alívio pela nicotina. Sua visão tornou-se mais turva e um breve relaxamento lhe arrebatou. Olhou para a lua mais uma vez e admirou a intensidade que sua luz derramava-se como leite no horizonte escuro.
Oh, como odiava a ironia do acaso ao notar a formação de sentimentos por . Tantas mulheres para interessar-se, tantas pessoas e questões para dirigir sua atenção e energia… Tinha a plena convicção que sua existência se resumia a um papel em branco no qual o destino rabiscava o que bem entendia, só para deleitar-se com a confusão que a vida de tornava-se a cada novo ponto demarcado.
Inevitavelmente, fez uma simulação dolorida com o desprezo que a moça sentia por ele e do quanto ela riria de sua cara com vontade, caso o mesmo confessasse ter qualquer tipo de emoção romântica por ela. Seria a piada do século para , possuir seu inimigo interessando-se por ela.
E compreendia o ódio intenso que a moça sentia por ele. Sua culpa não o deixava achar que ela estava errada, inclusive. Apenas avaliava que a mesma pecava em não o ouvir para compreender que, na realidade, ele não tinha nada a ver com a tragédia final do acidente.
Todas as vezes que pretendera esclarecer as coisas com , como fizera com Mauro, a civilidade de ambos se dissolvia na grossa névoa de fúria que a comunicação entre eles teimava em formar. A moça recusava-se a ouvir qualquer coisa sobre o assunto, principalmente quando o locutor era ele. Preferia ater-se apenas às memórias dolorosas de quando recebeu a notícia do seu irmão pela primeira vez. O ponto principal, para ela, era o quanto ignorara os procedimentos padrões e agiu com impulso, pondo a vida de todos num risco ainda maior.
— Garota teimosa… — falou, frustrado, bufando a fumaça pelo nariz.
sentia sua maturidade evaporar de seus poros quando o assunto era aquele. Odiava o fato de a garota bater na tecla de sua culpa ao escolher não saber de alguns detalhes do acontecimento. Quebrou a cabeça para entender o porquê de seu posicionamento, até compreender o quanto precisava de uma figura fixa e tátil para culpar, ofender, diminuir e transferir toda sua dor e inconformidade pelo acontecido. Até porque todos ficaram no escuro por nunca descobrirem a identidade do criminoso responsável pelo atentado. Obviamente o escolheria para descarregar todas as suas frustrações e sofrimentos. Era fácil apontar a irresponsabilidade de seu desafeto e nutrir ainda mais seu ódio por ele.
No entanto, ele sabia que não podia ser hipócrita e vestir uma auréola na sua cabeça. Sentia-se envergonhado e frustrado por ter errado e notar o dedo dela apontando para ele, e, com isso, acabava por devolver impetuosamente, na mesma moeda, todos os insultos e provocações da moça. A situação chegava ao cúmulo de deleitar-se com as feições irritadas que fazia. Era quase como se ele aproveitasse a única comunicação que tinha com ela só para ter algum tipo de interação com a moça.
ainda não entendia direito que o desprezo que ele sentia, na realidade, era por ele mesmo, por ver aqueles olhos tão humanos, machucados e vazios.
Ter noção de certas coisas aquela noite só o fez enxergar mais o que ele não queria: o que acontecia dentro dele até poderia ser comparado a ódio, mas era só virar uma chave interna, regida por complacência e afeição, que um outro sentimento bem mais complexo e avassalador o preenchia.
E era a dona dessa chave que permanecia no coração de .
Tinha a larga sensação de sufoco ao notar que todo seu ser era completamente dominado por ela, que, assim que a moça aproximava-se, ele saía do controle de suas ações, pensamentos, impulsos, discernimento, sentimentos…
— É como se ela fosse a minha Kryptonita pessoal... — sussurrou e riu sem humor pela analogia tola, absorvendo um último trago do seu cigarro. Despiu-se angustiado e pôs seu short preto de banho. Sentiu que precisava gastar toda aquela energia acumulada que se transformava em ansiedade no seu peito. Realmente, não era saudável deixar-se consumir por aqueles pensamentos de autodepreciação e suposições estranhas, as quais pregavam ainda mais peças na sua sanidade. O melhor que podia fazer naquele momento era alcançar a exaustão física, nadando incessantemente até o horário do seu expediente chegar.

’S POV
Andar -1, dormitório 22, 4:15 a.m.

Um barulho redondo e grave soava perto dos meus ouvidos e me acordava suavemente de meu sono alcoólico pesado. Senti um hálito quente e abafado contra a pele do meu pescoço e franzi minha testa, ainda de olhos fechados. Tentei me mexer na cama e não obtive muito sucesso. Tinha um corpo grudado ao meu.
Com a lentidão igual a de uma lesma, abri os olhos em direção ao ronco e vi, na penumbra do quarto, cachos cor de fogo. Emily dormia pesadamente ao meu lado, com a boca aberta num profundo sinal de um sono gostoso. Suspirei fortemente e sentei na cama devagar, tomando cuidado para não a acordar.
Então, meus olhos dançaram pelas paredes do quarto, confusos, sem realmente poder focar num ponto. Desde quando eu estava num barco pequeno em que podia sentir as ondas violentas? Minha pouca visão, que percorria todo o meu dormitório, estava débil e duplicada. Merda! Definitivamente ainda estava tonta pelo tanto de licor que tomei com…
.
Uma enxurrada de memórias de horas atrás me atingiu.
Assédio, Emily me confortando, vento forte na proa do navio, , licor, beijos e amassos pelos corredores, Emily surgindo do nada nos interrompendo…
— Merda… — murmurei ao coçar meus olhos, que ardiam pela leve ressaca (moral e física) que me atingia.
Senti uma pontada de vergonha pelas minhas ações e um receio pelas consequências. Será que mais alguém havia visto eu e nos enroscando como dois gatos no cio pelos corredores? Onde eu estava com a cabeça para agir daquela forma dentro de um ambiente de trabalho? Eu deveria ter sido mais responsável, qualquer coisa de errado que fizesse ali iria cair como uma luva para me ferrar em seus relatórios para nossos superiores. Pelo menos eu confiava que Emily não contaria nada do que viu quando nos flagrou.
Que cena patética ela deve ter presenciado… Praticamente dois adolescentes.
havia me levado até o limite da razão, ao despertar em mim o que eu jurava estar inerte ou até mesmo morto. Prazer, luxúria, tesão… Há anos não experimentava uma excitação tão quente quanto aquela que sentira com ele. A simples memória de ter seu corpo contra o meu, de sentir na minha coxa seu membro rígido latejando, suas mãos grandes apertando minha pele, de seus dedos enroscando no meu cabelo ou até mesmo da sua boca na minha… Eu já queimava novamente. O que era ótimo, para falar a verdade. Ter vinte e cinco anos e me sentir uma idosa frígida era péssimo e eu já estava cansada daquilo. Porém, agir como uma garota irresponsável e lasciva já não combinava muito comigo.

Nota mental: nunca mais beber daquele jeito perto daquele homem delicioso.

Quem sabe quem seria o próximo a nos flagrar e interromper nossa aventura doida, não é mesmo? Já bastava meu sobrenome ser alvo de fuxicos e balelas por décadas, eu não precisava rechear ainda mais o bolo que minha história era, com maiores difamações. Era um grande peso na minha mente carregar tanta culpa por ter agido do jeito que agi anos atrás. Aqui, nessa missão, eu tinha a chance de não me exceder nem por um segundo por prazeres físicos e supérfluos. Ao contrário do que aquele imbecil do Daniel falou, eu era sim competente e capaz, e não era apenas um episódio de descuido que…
Senti meu coração acelerar e uma agonia assolar meu peito.
Merda, merda, merda, merda…
E se realmente mais alguém vira o que Emily interrompeu? Não era uma possibilidade absurda, afinal, havia quase trezentos marujos na missão. Merda de novo.
Passei as mãos no cabelo e os prendi num rabo de cavalo com o elástico que estava sempre no meu pulso. O suor de nervosismo já grudava alguns fios no meu pescoço úmido, subindo um calorão ansioso nas minhas bochechas. Oh, eu daria tudo para dar um mergulho no mar gelado naquele momento; sentir a fluidez macia da água na minha pele, o abraço molhado e confortante do mar envolver meus sentidos, descarregando todas as minhas frustrações em cada movimento meu de nado.
Espera.
E a piscina enorme dentro do navio no andar -2? Como havia esquecido?!
Bem, não era a mesma coisa, mas… já era algo.
Oh, seria lá que eu gastaria toda aquela energia ansiosa que me tombava sempre.
Saí com calma da cama, retirando delicadamente minhas pernas, que estavam enroscadas nas de Emily, fazendo o mínimo possível de barulho brusco. O sono dela parecia estar tão bom que nem me incomodei com a mancha de baba se formando no meu travesseiro ao redor da boca dela. Depois eu trocava a fronha.
Agora, só conseguia achá-la fofa dormindo com seu lindo cabelo cacheado cobrindo parte de seu rosto. Sorri com a visão cômica.
Uma amiga, finalmente…
Sempre fora uma dificuldade enorme aproximar-me dos outros, ter alguém tão simpática e solícita em ficar perto de mim realmente deixava um quentinho no meu coração.
Abri devagar uma de minhas gavetas e retirei meu maiô preto de lá. Uma das únicas peças mais… sexys que havia trazido para a missão, tendo em vista que sempre deveríamos perambular pelo navio trajando apenas os uniformes militares, com uma única exceção de quando precisávamos nos exercitar e usar roupas de ginástica.
A peça preta de banho deixava todas as minhas costas nuas, assim como a lateral dos meus seios, o que revelava algumas das minhas várias tatuagens nos locais. Eu amava como eu possuía vários desenhos na pele, mas quase nenhum era visível apenas com roupas normais. Era sempre uma surpresa diferente quando alguém me via com… pouca vestimenta. Peguei uma calça de moletom e a vesti por cima do maiô. Escrevi um pequeno bilhete para Emily, caso a mesma acordasse, a avisando onde estaria para que ela não se preocupasse com nada.
Saí de mansinho pela porta e encarei um corredor vazio com pouca iluminação, onde um vento frio logo atingiu meus braços desnudos. Céus, aquele horário fazia tudo parecer meio mórbido e assombrado. O zunido fino do vento era quase como um sussurro de aviso para mim. Ignorei meus receios e comecei a atravessar o corredor diretamente para as escadas até o -2. Era o andar convenientemente apelidado de “paraíso” por todos os marujos. E não era por menos, já que lá era o antro da pouca diversão que podíamos experienciar na missão. Lá ficava a área comum de TV (que mais parecia um mini cinema), a sala de lazer, com diversos jogos como ping pong e videogame (disputadíssimo), além da lanchonete, piscina, restaurante/bar e academia. Como ficávamos meses a fio em alto mar, o navio era projetado para imitar uma mini cidade, com amostras da vida que levávamos em terra firme, normalmente. Era um bom jeito de desocupar a cabeça diante de tanta responsabilidade que acrescia a nossa tensão nos ombros.
Cheguei nas escadas e encarei com medo os degraus “memoráveis”. O ocorrido de horas atrás ainda pesava o meu peito, insistindo em apertar firmemente minha garganta com uma bola de angústia. Era como se algo invisível pudesse tocar pervertidamente meu corpo por cima da roupa.
Ele já está preso…
Respirei fundo e desci as escadas mais rápido do que imaginei conseguir, chegando logo ao Paraíso.
Segui pelo extenso corredor, iluminado com lâmpadas brancas como de um hospital, e avistei a placa “piscina”. Abri de forma brusca as portas da área e fui imediatamente abraçada pelo ar quente do aquecimento da água. Um sorriso involuntário de alívio surgiu no meu rosto. Atravessei rápido o cômodo, tirando de qualquer jeito a calça, tropeçando nos meus próprios pés no caminho, ansiosa por mergulhar meu corpo na água… remexida? Pelas lâmpadas submersas que ficavam nas paredes da piscina, pude observar o encrespamento estranho dali. Porém, como meu estado mental não estava nem perto do lúcido, apenas dei de ombros e pus minha calça no chão mesmo. Me joguei na água como uma flecha e deixei a maciez embalar meus sentidos.

’S POV

Depois de nadar por apenas 15 minutos e sentir que a vodka estava pronta pra voltar para a minha boca, dei uma merecida pausa no esforço físico. Pelo menos já me sentia mais centrado e menos angustiado com as tantas novas dúvidas e antigas aflições que me dominaram. Dentre tantas habilidades que eu possuía, com certeza lidar com sentimentos tão dúbios e intensos não se enquadra em uma delas. Pelo menos eu não mentia para mim mesmo, ignorando que algo estava acontecendo comigo. Qualquer que fosse a situação que meu coração escolhesse viver, eu abraçaria sem pestanejar. A aflição vinha de qualquer jeito, e o amanhã fugia de qualquer tipo de controle, então para que escapar como um covarde, não é mesmo?
Um barulho brusco de porta retumbou por todo o cômodo e me sobressaltei com um xingão na cadeira que estava sentado.
Porra! Quem…

Meus sentidos se aguçaram, meu coração bateu violentamente contra meu peito e… Oh, ela andava inclinada tirando a calça que vestia rapidamente. Meus olhos permaneceram vidrados em sua figura despindo-se, em suas coxas e bunda se revelando (aliás, por que aquele maiô tinha que ser tão cavado?), em sua delicada mão soltando seus fios, balançando-os nas costas completamente nuas, fazendo-os tocar furtivamente a lateral dos seus seios… Oh, porra. Eu estava perdido mesmo, né? Me remexi na cadeira e ajeitei melhor meu short. Constrangedor…
Seu mergulho foi rápido e seu corpo atravessou a água como um tiro. Os movimentos começaram lânguidos, bem compassados, os braços e pernas tinham uma sincronia perfeita um com o outro. Ela estava concentrada, não parava um segundo sequer de nadar de um extremo ao outro. O que inclusive fez minha preocupação elevar-se cada vez que seu rosto demorava a aparecer na superfície da água. Até porque eu sabia o quanto tinha alguns impulsos masoquistas, do quanto ela ansiava e necessitava colocar seu corpo no limite às vezes, assim como ela fazia com seu fôlego naquele momento; tudo para obter um alívio psíquico. Exatamente como eu.
E, por mais que eu odiasse admitir isso, a possibilidade de ela estar em qualquer tipo de ruína mental destroçou meu coração. Era como se o que ela passou horas atrás também fosse culpa minha, como se o comportamento de terceiros fosse minha completa responsabilidade, assim como ela era. Só eu sei o quanto eu temia em errar e negligenciar os outros. No entanto, a possibilidade de algo ruim acontecer com tremia minhas mãos por puro pavor. Ela não merecia sentir ou passar pelas coisas que enfrentava.
Levantei-me com calma da cadeira e, sem perceber, caminhei magnetizado até sua figura na água, captando cada mínimo detalhe de seus movimentos. estava de costas para mim, porém pude observar que ela ofegava e já não nadava mais, apenas permanecia numa submersão calma, vez ou outra mergulhando, mexendo seus braços num carinho largo na água.
Céus, como ela era hipnotizantemente linda.
E eu um mero mortal patético.
Vi uma pequena tatuagem perto de sua nuca de um alien segurando um cigarro e franzi a testa em estranhamento. O que ela tinha de beleza pecava em bom gosto para tatuagem, devo admitir. Precisei segurar um riso irônico pelo meu pensamento. E como eu não sabia me segurar perto dela, ainda mais quando vinha algum tipo de provocação em minha mente, não resisti em me pronunciar:
— Por que você tem um alien fumante nas suas costas? — perguntei, rindo, vendo virar-se assustada para mim. Sua feição nublou assim que alcançou minha figura, e meu sorriso se alargou.

’S POV

— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, exasperada. apenas ria presunçoso, me encarando daquela forma tosca dele, com os braços definidos cruzados na frente do peito. — Eu te fiz uma pergunta. — engoli em seco pela forma que minhas bochechas queimaram com sua presença inesperada.
— Eu que perguntei primeiro, garota. Deixa de ser mal educada. — riu debochado.
— Você tá me seguindo, por acaso? — perguntei de forma cansada.
— Você é uma gracinha mesmo, né? Achando que tiro tempo da minha madrugada pra seguir os passos da sua realeza. — sorriu provocante.
Senti uma vergonha imensa pelo meu palpite presunçoso e desviei meu olhar do dele, bufando impaciente. Porém, logo voltei a encará-lo, sem vontade alguma de demonstrar que havia me afetado com sua zoação. Desci minha visão para seu tronco descoberto, que continha pequenos pingos de água escorrendo por toda sua pele, e me perdi por ali.
Oh, a água remexida era feitio dele então… Inferno.
Continuei meu caminho pelo seu corpo e pude notar que era completamente definido, parecia um maldito atleta de elite prestes a performar seu esporte. Suas coxas eram fortes, e seus braços cheios de veias pareciam troncos de uma árvore de tão grandes. Sua barriga era riscada em gomos e duas entradinhas em formato de “V” se mostravam perto da barra de seu short. Ele sempre chamara a atenção por sua figura imponente, mas, com aquela pouca vestimenta, deixaria qualquer um…
— Vai ficar me comendo com os olhos por muito tempo, garota? — falou debochado, chamando minha atenção de volta para seu rosto. De novo, senti minhas bochechas fervilharem, ainda mais pelo idiota repetir a minha frase do dia da festa em que ele me encarou provavelmente da mesma forma que eu fazia agora.

Merda. Eu era patética.

— O que você tá fazendo aqui? — tentei perguntar firme, desviando o assunto da minha gafe. Eu culpava o álcool pelos meus pensamentos impuros direcionados àquele energúmeno.
— Provavelmente o mesmo que você, . Acordei perturbado e vim pra cá gastar energia. Exaustão física faz bem pra minha cabeça. Afinal, hoje eu espanquei e prendi um de meus subtenentes, que assediou sexualmente a irmã de um de meus melhores amigos. Pode ter certeza de que calmo não é um estado em que me encontro. — declarou, bufando. se sentou na borda da piscina, mergulhando apenas as pernas na água. — E você? — acenou com a cabeça em minha direção.
— Eu… — pigarreei, nervosa, tentando limpar a garganta daquela agonia grudenta; não queria ter aquela ou qualquer conversa íntima com . — Eu não… Eu acordei e…
— Tudo bem, não precisa continuar. — falou subitamente, entrando por completo na piscina. Provavelmente ele já desconfiava dos motivos pelos quais eu gaguejava tanto. — Inclusive, quero dizer que sinto muito que isso tenha ocorrido novamente com você. — coçou a nuca e bagunçou seus cabelos. — Nunca deveria nem atravessar pela sua cabeça passar por tal situação em seu ambiente de trabalho. Ou em qualquer lugar, pra falar a verdade. — estava com o cenho franzido e maxilar travado, me analisando daquele jeito sério que eu conhecia tão bem por nossas vivências passadas.
Sem conseguir sustentar a intensidade de seu olhar, desviei minha atenção para meus pés distorcidos debaixo d’água.
Oh, como eu odiava aquilo. Reconhecer suas expressões e notar nele uma preocupação tão transparente. Tudo engatilhava em mim a lembrança do quanto ele participara da minha vida de uma forma que nunca desejei, principalmente em ocasiões frágeis minhas, em que ele foi presente demais. Momentos aqueles que eu só queria apagar da memória, pois cada vez mais mostravam-me o quanto meu presente assemelhava-se ao meu passado amaldiçoado, trilhando um futuro desgostoso com por perto.
— Está tudo bem agora, . Já passou. — murmurei. — Emily me deu apoio e conversamos bastante sobre. E você, infelizmente, sabe que não é a primeira vez que uma merda dessas acontece comigo… — meu fôlego falhou pela dor de mais lembranças nojentas, mas me apressei em continuar. — Só não imaginava que pudesse ocorrer aqui. Mas… — murmurei hesitante, engolindo todo meu orgulho como uma comida indigesta. — Mas eu estou… Grata por você…
. Não precisa disso. — fez um sinal negativo com a cabeça, como se soubesse a dor que era para mim em ser civilizada com ele e verbalizar um agradecimento daquele nível. — Eu não fiz mais que minha obrigação, afinal...
— Não, . — insisti, finalmente olhando-o de volta. Minha voz tornou-se mais firme. — Eu sei que preciso te agradecer, nem quero imaginar o que teria acontecido caso você não tivesse…
, não. — me repreendeu, irritando-me levemente — Eu sou o Comandante da missão. Eu sou responsável, além de meu encargo, por todas as vidas que estão nesse navio. Nada de ruim deveria acontecer a ninguém.
— Eu consigo ser responsável por mim mesma… — falei baixinho, sem conseguir deter meu impulso de contrariá-lo sempre.
— Enfim! — revirou os olhos e bufou, irritado. — Não agradeça por eu cumprimir minha obrigação. Como já disse, nem deveria ter acontecido nada. — comentou, impassível, enquanto aproximava-se lentamente de mim — Para ser sincero, eu fico com receio que a qualquer momento, eu não esteja por perto para te ajudar. — sua voz abaixou o tom e enrouqueceu. Para mim, estava claro que ele travava uma batalha interna para verbalizar tais coisas.
E, apesar de suas palavras reconfortantes, de um modo infeliz, ainda assim sentia uma sensação agonizante crescer dentro de mim. A verdade era que se não fosse a falar todas aquelas coisas, eu até poderia me sentir aliviada e bem cuidada. Poderia descansar em paz ao saber que estava protegida por alguém em que eu confiava. Mas aquele discurso me remetia a momentos ruins, a um período de muita revolta e fraqueza na minha história. Fraqueza essa que fora criada e disseminada por cada fibra do meu corpo, por sua culpa. Aquelas palavras, por saírem de sua boca, não valiam nada para mim.
Tossi ao sentir minha garganta fechando-se por nervosismo. Eu não queria ouvir nada daquilo. Não queria nem estar olhando para ele.
— Bem, eu agradeço, . — minha voz estava quase trêmula; suspirei fundo para me recompor. — Mas não preciso de uma babá por perto para me proteger o tempo todo, eu consigo muito bem cuidar de mim. Não importa o que aconteceu no passado, eu cresci e posso me virar sozinha. Não preciso de você. — respondi, me esforçando ao máximo para manter o desprezo firme no tom de minha voz. soltou uma risada seca, e eu fuzilei seus olhos estampados com um deboche.
— Tava demorando mesmo… — coçou os olhos, cansado.
— O que você quer dizer com isso?
— Isso mesmo que você ouviu, . Você simplesmente não consegue ter uma conversa tranquila comigo, nem quando o assunto é sobre algo bom que te fiz. Deve ser quase um pecado você falar de uma forma civilizada comigo, não é mesmo? — continuou a andar para frente, coagindo-me a ir para trás em resposta. Sua declaração ridícula tomou conta do mínimo de controle que ele clamava que eu não possuía. Não importava a situação, o assunto ou qualquer merda, sempre me tirava dos eixos, sempre conseguia me irritar com sua presunção. Mas, naquela hora, foi a minha vez de rir debochada.
— Oh, o que foi? Eu magoei seus sentimentos delicados? — levei minhas mãos em direção ao meu peito, fingindo uma expressão de pena — É só que fica difícil para mim ser civilizada com um cavalo como você! — exclamei, irritada, e gargalhou imediatamente, jogando a cabeça para trás. Cretino.
— Nossa, sua criatividade em me xingar me impressiona mais a cada dia, garota. — ironizou e bateu palmas pausadamente — Bravo! — revirei os olhos, e ele riu seco. — Oh, e sobre a parte do “cavalo”… Bem, tenho algumas características em comum mesmo. — comentou com um sorriso, olhando para baixo rapidamente. Minhas bochechas queimaram. — Já me espiou trocando de roupa, ? — perguntou, provocativo.
— Você é um nojento, sabia? Um cretino, um animal! — berrei, furiosa por sentir suas respostas irônicas atingindo-me como um tiro. Meus braços levantavam a água à medida que a atingia irritada com socos, desejando que o rosto dele fosse o alvo do meu nervosismo.
— Mas é claro que eu sou um animal, ou você achou que eu era um vegetal gigante? — praticamente gritou, ironizando ainda mais minhas falas.
— Céus, como você consegue ser tão ridiculamente desprezível?! — joguei água nele no pico de minha imaturidade.
— E como você consegue ser tão ridiculamente linda?! — respondeu-me exasperado, com o rosto sério demais pelo conteúdo de sua fala. Porém, não senti nenhuma ironia e nem escárnio no timbre de sua voz. Ele parecia simplesmente consternado.
Pega de surpresa, apenas consegui permanecer em silêncio. Afinal, que merda ele queria ao falar aquilo?
passou nervoso as mãos pelo rosto, retirando a água que havia o atingido. Então, me olhou significativamente, ainda sério. O tom intenso que seu olhar adquiriu me fez desviar minha atenção dele. Virei a cabeça e encarei uma parede do cômodo que virara extremamente interessante naquela hora. Minhas bochechas queimavam como se alguém acendesse um fósforo perto do meu rosto. E, de novo, eu me perguntei, que merda ele quis dizer realmente com aquele seu comentário? Provável que só queria brincar com a minha cara e me provocar como sempre, me confundir.
— Ei, olha pra mim. — me pediu com a voz baixa e erma. Ignorei seu pedido, mas ele continuou. — , é só que eu… Porra… — pausou sua fala com um suspiro de frustração e continuou a aproximar-se de mim, com mais cautela, como se não quisesse me espantar. — … Eu não suportaria saber que algo de ruim aconteceu a você de novo, sendo que eu poderia evitar. E isso não sai da minha cabeça, desde hoje mais cedo, me lembrando de inúmeros eventos passados em que você correu um risco genuíno. E, pra falar a real, eu prometo que nada mais de ruim vai te acometer. Quero te dar a certeza de que você permanecerá segura e bem enquanto eu estiver por perto. — disse, cuidadoso.
Não consegui respondê-lo, apenas o olhei surpresa pela sua confissão inesperada e terna. Só fui capaz de encarar seus olhos , os quais estavam tão intensos que eu podia jurar conseguir lê-los como a página de um livro. Estava sem saber como proceder, como se não soubesse mais falar ou até mesmo respirar direito. Continuei minha caminhada para trás, como uma presa assustada, à medida que ele ficava mais próximo de mim.
Quando minhas costas subitamente bateram na parede gelada da piscina, meu fôlego se esvaiu. Olhei para os lados estupidamente, para confirmar que havíamos chegado na borda da piscina. Minha respiração omissa fez com que eu deixasse meus lábios entreabertos, assim como os de já estavam. Respirar pelo nariz naquele momento não parecia ser suficiente ou até mesmo seguro.
— Por que você tá falando essas coisas? — perguntei em um fio de voz, analisando-o copiosamente. — O que você quer de mim?
— Algo que eu já sabia que queria há muito tempo, mas sempre temi tanto que negava… — meu coração pulsou forte contra meu peito de um jeito que eu jurava que teria um ataque cardíaco.
Senti-me completamente envolvida naquela atmosfera densa que se formava vez ou outra entre nós, como se colocasse um peso ou uma umidade incômoda no ar. Encarava de volta seus olhos dúbios, sem realmente entender o que aquele calor que consumia meu ventre significava.
se aproximou de mim até ficar a poucos centímetros do meu corpo, seu olhar não desviava do meu nem um segundo sequer, apenas desviava sua atenção para minha boca entreaberta vez ou outra. Imitei seu gesto inconscientemente. esticou seus braços até onde os meus estavam, pegou em minhas mãos e entrelaçou nossos dedos com cuidado. Seus toques fizeram meu corpo se arrepiar por inteiro e queimar em partes extremamente sensíveis, o que me paralisou por completo pelas sensações drásticas. Eu era incapaz de agir por ter seu calor contrastando com minha pele fria.
Como seria ter seu corpo quente por completo dentro de mim?
levou minhas mãos até sua boca e beijou os nós de todos os meus dedos de forma lenta e suave. Eu o olhava inerte, sem entender o que se passava dentro dele para agir daquela forma. Estava hipnotizada com o oxigênio que meus pulmões consumiam misturados com seu perfume. Ele, então, fechou seus olhos com o cenho franzido, continuando seus beijos demorados. A única coisa que separava nossos corpos eram nossos braços entrelaçados, os quais ele flexionou em seu peito para aproximar minhas mãos de seu rosto. Continuei observando-o meticulosamente, em resposta àquele estímulo que ele me proporcionava. Sua pele do peito subia e descia tocando meus braços, engolia meus pensamentos, disparava meu coração, secava minha garganta e arrepiava cada centímetro do meu corpo.
Era como se meu corpo todo estivesse mergulhado em uma salmoura de uma confusão tão dúbia que esvaziava minha mente do desprezo que sentia pela presença de .
Seu rosto fez menção de avançar ao meu, ainda de olhos fechados, para então abrir quando se aproximou mais de mim, me encarando significativamente.
… — soprei em um quase gemido, imaginando o ápice que a situação poderia acarretar.
… — ele fechou novamente os olhos, e eu acompanhei-o. Seu nariz roçou no meu e um calor atravessou meu ventre.
Subitamente, ouvimos um barulho brusco vindo do vestiário, tirando-nos daquele momento que me queimara por inteiro.
Me desvencilhei sobressaltada dele, tirando minhas mãos das suas, tocando-lhe o peito nu e úmido para empurrá-lo de leve.
— Não, , não! O que você pensa que está fazendo? — perguntei, horrorizada, devido ao contexto que estava se formando entre nós. Ele me olhou inconformado e decepcionado e se afastou finalmente de mim para me observar melhor. Soltou uma risada curta e irônica, respondendo:
— O que você acha que eu estava fazendo, ? — falou mais calmo do que eu esperava. Olhou para o lado e balançou a cabeça negativamente. — Não quer admitir para si mesma o que está acontecendo? Precisa mesmo me questionar sobre o que estava prestes a acontecer? É assim que você vai agir? — perguntou, exasperado.
— Eu não sei se você bateu a cabeça na piscina quando entrou ou sei lá o quê, mas nada estava prestes a acontecer! — respondi duramente, sentindo lágrimas de confusão formarem-se nos meus olhos. Eu estava sem paciência alguma para qualquer que fosse o joguinho que ele queria configurar. O mais sensato para mim, no momento, era negar que estava sentindo o que sentira.
— Nada? — riu em deboche. — Esse “nada” que você está se referindo — fez aspas no ar, aumentando a entonação ríspida na voz. — parece mexer bastante com você também, pelo visto.
— Você é um doente, não percebe o absurdo que tá sugerindo? — olhei-o, furiosa. — Ou você está ficando louco, ou já esqueceu o que aconteceu anos atrás! — respondi com a voz embolada, sentindo minha garganta fechar com a memória dolorida que se formou na minha mente.

“Por que não deixa para odiar o rapaz quando ele realmente te fizer algo?”

Balancei a cabeça para espantar o sofrimento que crescia no meu peito e saí da piscina apressada com um impulso, agarrando uma toalha aleatória e minha calça logo em seguida.
— Não, não esqueci o que houve, . E nunca esquecerei. Já falei que sinto muito e que faria de tudo para mudar isso. Se eu pudesse, tomaria sua dor para mim pelo resto da minha vida patética! Mas pelo menos eu não estou sendo covarde ao negar algo tão óbvio! — vociferou alterado. E, se eu não estivesse completamente irritada naquele momento, até reconheceria que, na sua voz, um tom dolorido escapou.
— Lave a sua boca antes de falar assim de mim! Nunca mais me chame de covarde! Se tem alguém aqui assim, esse alguém é você! — gritei descontrolada, apontando meu dedo indicador em sua direção.
— Oh, agora eu sou covarde? O cara que enfrentou o que teve que enfrentar para salvar a sua pele diversas vezes? Que grande piada! Vamos, continue, eu tô quase achando graça! — brandou de volta.
— Cale a sua boca ou eu…
— Eu o quê? Vai sair correndo? Vai me dar outro tapa na cara? Ou vai me xingar mais? Oh, garota, como eu amo quando você me xinga! Você tem tanta criatividade, sabia? — gritou de volta, saindo exasperado da água, pondo-se na minha frente em um segundo.
Seus cabelos estavam colados na testa e seu short, ligeiramente levantado nas coxas. Um pensamento lascivo me fez secar seu corpo todo e uma nova onda de calor me tomou.
Balancei a cabeça negativamente, me odiando por sentir aquilo logo naquele momento.
— O que você ACHA que quase aconteceu entre a gente só é fruto da sua cabeça vazia e doentia! Nada, além do ódio que me consome toda vez que olho para você, corre dentro de mim! E eu sei que você sente o mesmo! — cuspi em desespero minhas palavras, olhando-o com raiva. Eu precisava ter a certeza de que ele também ainda me odiava, precisava de seu desprezo para continuar com o meu. Ou eu ficaria louca.
— Você não tem ideia do que está falando, garota
— Já falei para não me chamar assim… — murmurei entre os dentes e tentei empurrá-lo, mas permaneceu irredutível. Apenas aproximou mais seu rosto do meu e disse:
— Então comece a agir com a coragem de uma mulher de verdade e admita o que sentiu ali! — rosnou de volta. Seu peitoral subia de um jeito ofegante enquanto me encarava furiosamente.
— Quer saber? Me deixe em paz, ! Sua presença me enoja e sufoca até em poucos minutos!
— Oh, me desculpe! Aposto que se fosse , você já estaria lambendo o chão que ele passa, não é mesmo? — vociferou e soltou um riso irônico.
Com seu comentário completamente inesperado, fiquei atônita, com um frio paralisante lambendo pela minha espinha.
— O… Como… — tentei respondê-lo, mas minha mente nublou em confusão. Meus olhos piscavam frenéticos e assustados. permanecia com seu sorriso insolente no rosto. Como ele sabia…?
— Acha que não sei o que aconteceu na proa do navio? Por favor, , seja menos ingênua. Eu tenho plena noção de tudo que acontece aqui dentro. Já esqueceu quem é o Comandante? — alargou mais ainda seu sorriso, causando-me um calafrio nervoso.
Ali, naquele segundo, minha maior aflição de horas atrás estava concretizada. Senti meus joelhos tremerem e meus olhos marejaram ainda mais, enquanto me perdia em analisar a expressão desgraçada de .
— Me deixa em paz… — minha voz saiu fraca, e, ao tentar virar de costas, sua mão agarrou em meus braços, me voltando para mais perto dele.
— Você tem muito o que ouvir ainda… — murmurou com a voz rouca, deixando seu corpo inteiro perigosamente perto do meu de novo. Por um pequeno momento, não consegui me mover novamente, sendo magnetizada por sua respiração batendo no meu rosto. Meu olhar encarou hipnotizado a sua boca, e o calor de seu corpo era tanto que era integralmente sugado pela minha pele. Sentia-me amolecida só por tê-lo tão perto de mim.
Então, uma terceira voz nos tirou de nosso ridículo momento e fez nossas atenções voltarem para a porta do vestiário imediatamente.
— Gente, o que tá rolando aqui? — perguntou Emily, ainda de pijamas, adentrando o local. — Pude ouvir gritos do corredor. — coçou os olhos e bocejou.
Senti as mãos de soltando meus braços vagarosamente, arrastando seus dedos em mim. Com um arrepio intruso, virei completamente para a porta. Caminhei em passos firmes até a saída.
— Está tudo bem, Emily. Eu já estava de saída. Vamos voltar ao -1, ok? — a respondi apressada, querendo desesperadamente voltar com ela para nosso andar. Sentia meus olhos lacrimejarem de raiva.
— Adorei o pijama, Emily! — gritou de onde estava, em tom de provocação. Emily estava prestes a respondê-lo inocentemente, mas a puxei pelo braço rápido, com raiva de toda a insolência de .
Saí para o corredor apressada, com lágrimas quentes atravessando minhas bochechas. Eu segurava a mão de Emily e a levava comigo, porém ela me parou delicadamente e pôs suas mãos nos meus ombros, olhando-me ávida nos olhos, como se procurasse algo. Algo que provavelmente demonstrava o porquê de eu estar quebrada por dentro.
, calma! O que aconteceu lá? — perguntou, assustada.
— Nada de novo, apenas sendo um completo cretino. — limpei meu choro tolo e continuei puxando-a.
— Espera! Como você está? — Emily perguntou, desvencilhando-se de mim novamente. Seus dedos secaram minhas lágrimas com carinho e logo ela me abraçou. Seu gesto me acalmou, mas não fez sumir o nó na minha garganta.
— Nada bem. Não sei como vai ser segunda-feira ou o resto da missão. Só de pensar, eu fico muito ansiosa. — declarei, cansada, com minha voz abafada por seu ombro.
— Só tentem não se matar, ok? — olhou-me preocupada de novo.
— Eu não prometo nada.


Capítulo 5 – WTFeelings

AVISO DE GATILHO: O capítulo faz menção à abuso sexual/assédio sexual e tortura. Se você se sensibiliza com alguma dessas temáticas, leia com cuidado.

’S POV
Domingo, andar -1, dormitório 22, 5:30 p.m.

— Merda! Cadê essa maldita? — berrei, olhando de um lado para o outro, à procura da lapiseira que eu acabara de usar. Respirei fundo, tentando conter minha impaciência, me levantei da cama, esbarrei em copos descartáveis vazios de café e bolinhas de papel e vi a dita cuja onde antes eu estava sentada. Uma risada nervosa e sem humor inflou minhas narinas. Essa desordem e desatenção toda demonstrava o exato estado que eu me encontrava mentalmente; na iminência de surtar até me encolher num canto como uma pirada e apenas observar o pandemônio que eu estava metida. Quer dizer, que o escárnio do destino havia me metido, para ser mais congruente.
Eu sabia que só precisava respirar fundo e me esforçar para pensar positivo e não me alarmar tanto com aquela voz interior desgraçada que alegava que tudo daria errado, mas era inútil. Era quase impossível não sentir um princípio de infarto pela minha velha companheira ansiedade. Ela estava mais presente do que nunca quando notei em meu relógio de pulso que meu primeiro dia oficial de missão estava a apenas 11 horas de distância. E eu não tinha nem para onde escapar ou como me esconder…
Porém, sendo bem sincera, fugir como uma medrosa como fiz inúmeras vezes durante minha vida em situações escabrosas não era da minha plena vontade e não resolveria nada. Claro, eu não podia negar que estava complicado lidar com aquele novo tom aflitivo no meu coração, que desorientara minha bússola interna. No entanto, se eu conseguisse pelo menos manter o mínimo de calma e não me desesperar tanto, até poderia ver um rumor de luz esperançosa no fim do túnel para mim e sair inteira daquela situação. Tudo que eu podia fazer era esperar.
Me sentei na cama, apoiei os cotovelos nos joelhos e escondi meu rosto nas mãos. Que inquietação nojenta, minhas pernas não paravam um segundo de balançar frenéticas… Pelo menos minha preocupação não circundava tanto o meu desempenho no trabalho; isso eu sabia que eu me sairia muito bem, afinal, nem teria sido escalada para tal missão e cargo se minha capacidade não fosse notória. Eu era a melhor no quesito e sabia disso, por esse motivo fiz questão de afirmar isso para na festa. Intimidações por parte dele não me atingiriam. Assim eu esperava.
No entanto, uma ficha dentro de mim tardara a cair e pesava toneladas em minha consciência agora. era meu superior. Eu, de um jeito muito estúpido, imaturo e até prepotente de minha parte, não havia parado para ponderar que era com ele que eu dividiria minhas muitas horas de incumbência nas próximas semanas. Seriam dois meses subordinada a ele. Ao . Meu maior inimigo.
Sim, um lapso de raciocínio quase tão impróprio quanto a existência dele na Terra. Meu lado racional escolhera teorizar que eu estava tão acostumada a desprezá-lo como o melhor amigo irritante do meu irmão, que havia igualmente menosprezado nosso novo tipo de relação.

E eu não acredito que usei a palavra relação, eca.

Por que usar essa simples palavra me afetava tanto, para falar a verdade?

Joguei minhas costas na cama e bati com tudo a cabeça na parede.
— Cacete! Será que tem como eu ser mais estúpida, universo? — gritei para o teto e me encolhi em posição fetal, em meio a mapas e folhas amassadas, em um típico drama meu. Eu só precisava de um abraço que não possuía há sete anos…
Odiava experimentar essa culpa em sentir essa ansiedade pesando mais em meus ombros que meu próprio asco por . Era quase como se eu pudesse lidar com meu ódio por ele, por já ser tão costumeiro para mim. Porém, eu não conseguia prever um palmo na minha frente diante daquela nova situação. Trabalhar com poderia ser minha nova ruína, meu novo fundo do poço.

Meu novo ponto fraco.

Afinal, eu prezava muito em ser competente em minha profissão e não gostaria de falhar por desprezá-lo a cada segundo de interação. E essa seria minha maior e mais nova provação: o quanto eu aguentaria sua presença perto de mim até meu incômodo afetar de verdade meu trabalho? Eu precisava parar de me deixar levar tanto por suas provocações baixas e ser mais madura que nunca, a ponto de ignorar e engolir os sapos que ele me faria passar. Mas será que eu conseguiria? Como eu poderia proceder assim se nunca agíamos diferente um com o outro? Como agiria comigo, aliás? Todo o medo do desconhecido fazia um bolo de ânsia embrulhar o meu estômago e, ao mesmo tempo que eu precisava que o dia de amanhã acontecesse logo para todas essas dúvidas amenizarem, eu só gostaria de parar o tempo com minhas mãos trêmulas e não lidar com nada disso. Era aquele mesmo medo do desconhecido, quando nosso primeiro dia de aula está prestes a acontecer.
E que comparação idiota.

Oh, como eu odiava me sentir uma… garota perto dele.

Com um suspiro largo, peguei o travesseiro e o enterrei em meu rosto para poder gritar. Mas antes de proferir qualquer som, batidas suaves ecoaram no quarto. Levantei num pulo e abri a porta de supetão.
Eu não estava pronta para aquela visão do paraíso.
Salut, mon chérie… saudou, encostado no batente da porta. Seu olhar me percorreu com minúcia dos pés à cabeça e um sorriso singelo surgiu por detrás da suntuosa rosa vermelha que ele encostava no nariz.
Sem esperar minha resposta, ele entrou, fechou a porta, avançou em minha direção e agarrou forte minha cintura, me levantando do chão. Seus lábios foram famintos de encontro aos meus e sua língua me invadiu de imediato. Fechei meus olhos em resposta e abracei seu pescoço, nos aproximando mais, me deixando amolecer em seus braços. Quando minhas costas grudaram na parede e seus beijos e mordiscadas deslizaram para o meu pescoço, consegui murmurar arfante:
— Que surpresa boa…
Pus meus pés no chão de novo e toda a angústia que antes eu sentia não me incomodava mais. Ainda abraçada a ele, roubei um selinho demorado seu e olhei para a rosa, que logo foi oferecida a mim. Aceitei, cheirei e abri um sorriso tímido pelo gesto.
— O que foi? Por que me olha assim?
— Porque você tem o sorriso mais lindo que eu já vi. E fico feliz em saber que eu tenho uma pontinha de mérito nisso… — comentou, deslizando suas mãos para dentro da minha blusa, apertando meu corpo contra o dele. Enterrou seu rosto no meu pescoço, distribuindo beijos estalados, que arrepiaram minha pele. — Gostou da rosa? — perguntou, sentando-se na ponta da minha cama e me puxando pelas pernas.
— Eu amei. — comentei, contemplando as pétalas rubras de textura aveludada. — No último aniversário que passei com minha mãe, ela me deu um colar rosê com pingente de rosa — confessei sem pensar, sorrindo com a nostalgia dolorida, porém afetuosa.
— Oh, magnifique, espero não ter trazido uma recordação ruim…
— Não, claro que não… Memórias com a minha mãe me fazem bem, afinal, eu a tenho perto de mim com elas. — sorri sincera para ele.
— E por que não está usando o colar agora?
— Eu perdi. — falei simplesmente, lembrando da manhã que acordei de ressaca e notei a ausência do colar algumas horas depois. Isso sim me doía. — Mas, mesmo assim, rosas são minha flor favorita, ainda mais as vermelhas. — aproximei a flor do meu nariz e respirei fundo.
— Hmm, sério? Mandei bem pra caramba então?! — abriu um sorriso e mordeu de leve a lateral da minha barriga, subindo suas mãos pela curvatura da minha lombar. — Fui bonzão?
— Agora você está sendo convencido. — falei, apertando seu nariz com carinho. — Mas, sim, mandou bem… E por um acaso há algum motivo específico para a visita ou veio aqui só para ouvir elogios? — perguntei, levantando uma sobrancelha, o fazendo rir.
— Eu preciso de motivo para querer ver a mulher mais linda e gostosa desse navio? — comentou, me fazendo gargalhar. Desferiu um tapinha na minha bunda e a apertou com força, me puxando para me sentar de frente em seu colo, com uma perna de cada lado de seu corpo. — Tá ocupada, magnifique? — perguntou, notando o caos do meu quarto.
— Na verdade, eu tentei me ocupar. Mas só estou me atrapalhando ainda mais. Não tenho muito o que fazer até o dia de amanhã chegar… — comentei, fazendo um biquinho dramático, com o olhar perdido em qualquer ponto.
— Quer uma dica, mon chérie? — perguntou, pondo uma mecha de cabelo minha atrás da orelha. — Deixa para se preocupar com o amanhã somente amanhã. Como você mesma disse, só está se atrapalhando ainda mais e pondo um peso desnecessário no seu dia. Relaxa, petite, vai ficar tudo bem. — finalizou sorrindo, distribuindo beijos demorados no meu rosto de forma carinhosa.
Se tinha mais alguma coisa que pudesse fazer para me encantar mais ainda e me deixar nas nuvens, eu desconhecia. Apoiei minha cabeça no seu ombro e continuei a contemplar a rosa, com um sorriso calmo no rosto.
— Você tem razão… — sussurrei, sentindo um arrepio gostoso com o carinho que ele fazia com a ponta dos dedos na minha coxa. — Aliás, onde foi que você conseguiu uma rosa em alto-mar?
— Oh, tem sempre um buquê na suíte do Comandante e do Subcomandante, é um gesto de praxe de boas-vindas das Forças Armadas. — disse, acariciando meu rosto. Escorregou a ponta dos dedos devagar pelo meu pescoço, alcançando minha clavícula e brincando com o decote da minha blusa. — E querendo soar brega, pois você merece, quis trazer uma rosa para a flor mais linda desse navio… — falou rouco, afastando meu cabelo do pescoço e beijando com malícia minha pele exposta.
Foi charmoso, mas eu não consegui segurar a risada.
— Meu Deus, !
— Ah, deixa eu ser romântico… — agarrou minha cintura e me jogou na cama, ficando entre minhas pernas, mordendo meu queixo. — Estraga-prazeres…
— Eu deixo… — olhei a rosa brevemente, antes de soltá-la acima da minha cabeça. — Mas quando você fala francês, já é poético o suficiente… — confessei, mordendo os lábios, e abracei sua cintura com minhas pernas, puxando seu corpo para mais perto do meu. Acolhi seu rosto com minhas mãos e o beijei com ternura.
— Hummmm… Entendi.
abaixou o rosto para a lateral do meu pescoço e, com o nariz, foi acariciando devagar minha nuca, beijando sensualmente o local.
Tu aimes quand je parle français? — sussurrou contra minha orelha, roçando suave os lábios na minha pele. Com uma de suas mãos, passou a arranhar de leve minha coxa, subindo a carícia gradualmente, arrepiado cada fragmento da minha derme. Fechei os olhos e arfei pela excitação do erotismo de seus toques. — Fala pra mim o que mais você gosta, chérie… — mordiscou o lóbulo da minha orelha e voltou com seus beijos e mordidas na minha mandíbula, embrenhando sua outra mão nos meus cabelos, puxando-os de leve. — Será que você gosta quando faço isso?
Sua mão encontrou a barra do meu short e seus dedos escorregaram para dentro do tecido, eriçando minha pele. Ainda beijando languidamente meu pescoço, agarrando a lateral do meu quadril, pressionou um de seus dedos no meu clitóris por cima do tecido fino da minha calcinha, provocando um gemido instantâneo meu.
— Eu gostei desse som, … Faz de novo pra mim? — apertou minha intimidade novamente e, com seus outros dedos, afastou o elástico da minha calcinha, tocando minha entrada. — Olha só como você já tá molhada… — riu baixo e me beijou com ferocidade.
Em completo êxtase e com a mente nublada de prazer, suguei com força seu lábio inferior, me movimentando contra seus dedos para sentir melhor seus toques provocantes e quase nulos.
— Quer mais, é? — perguntou, sorrindo entre o beijo, partindo o contato para tirar a camisa. Seu tronco desenhado por músculos me fez morder os lábios com malícia, imaginando como seria tocar e lamber cada centímetro de sua epiderme. Não resisti e passei minhas unhas com força por seu abdômen, me deliciando com a expressão mista de dor e prazer que soltou. No segundo seguinte, seu corpo voltou a colar no meu e nossos lábios se juntaram com vontade. Circundei sua cintura com minhas pernas mais uma vez e pude sentir seu pau duro tocando certeiro minha intimidade, me fazendo remexer embaixo dele, mordendo seu lábio sem pudor e gemendo desejosa. soltou um grunhido gutural de lascividade e se esfregou com força contra mim. Agarrei suas costas e arranhei sua pele em resposta à onda de tesão, que me inundou meus sentidos.
arfou contra minha boca e desceu seus beijos úmidos, chupando e mordiscando minha pele com uma agressividade animalesca. Logo em seguida, suas mãos subiram pela lateral do meu corpo e tiraram minha blusa de uma vez. Seus olhos lambuzados de prazer percorreram meus seios desnudos e um arrepio de luxúria me atravessou.
Sua boca desceu de encontro aos meus mamilos, lambendo-os e mordiscando com a ferocidade de um animal faminto que se alimenta de sua presa, causando uma sensação de ardência na minha pele. Puxei seu corpo mais perto do meu com minhas pernas e senti meu clitóris pulsar com sua ereção. grunhiu contra meus seios, me acompanhando em nossa sinfonia erótica de prazer, descendo seus beijos e mordidas pela minha barriga.
Suas mãos alcançaram a barra de meu short, e, num movimento bruto, ele os tirou, junto com minha calcinha. Nos olhamos cúmplices com o fôlego descompassado. A umidade crescente entre nós me despiu de qualquer vergonha que normalmente eu tinha ao ficar nua na frente de um homem. Tudo com estava sendo diferente desde o primeiro momento que nos encontramos.
Ainda ajoelhado entre minhas pernas, percorreu vagarosamente seus dedos desde meus lábios, descendo entre meus seios, chegando na barriga até minha virilha, na qual começou a estimular devagar meu clitóris com seu dedão em movimentos circulares, sem partir o contato visual que mantinha comigo.
Eu gemia e me contorcia de prazer, vendo um sorriso de satisfação surgir no seu rosto para, logo depois, ele chupar o próprio dedo que antes me provocava. De súbito, grudou seu corpo no meu mais uma vez, roçou nossos lábios e falou:
— Eu preciso te provar melhor,
Com um último beijo, desceu até meus seios, os juntando com as mãos e chupando com força, passou para minha barriga com mordidas e arranhões na minha cintura, que me provocaram espasmos, até finalmente alcançar minha virilha, em que me torturou pelos beijos demorados na parte interna da minha coxa.
Arfando e com a visão turva, olhei para baixo e vi um cintilar libidinoso em seus olhos, junto com um sorriso sacana no rosto. beijou demoradamente minha virilha uma última vez e fechou os olhos.
Então, sua língua acariciou toda a extensão da minha boceta, provocando meu clitóris com suaves sucções, alternando com lambidas firmes. Meus olhos reviraram, meu gemido saiu agudo e minhas mãos agarraram o lençol ao meu lado. chupou e mordiscou minha carne com desejo, apertou minhas coxas com força, grunhindo grave, como se matasse sua sede de dias com a água mais gelada do deserto escaldante, que era eu.
Com sua língua se movendo em círculos no meu clitóris, senti um prazer que há anos não me invadia. Arqueei minhas costas, e, com suas duas mãos, agarrou meus seios com força e provocou meus mamilos com brutalidade. Interrompi seus movimentos dolorosos pondo suas mãos na minha cintura, o que fez me puxar com vontade para mais perto de sua boca, me penetrando com a sua língua. Agarrei seus cabelos e o pressionei mais em mim, rebolando na sua boca.
Subitamente, senti dois dedos seus entrarem de uma vez na minha boceta, ritmando um movimento de ida e vinda que intensificaram meus gemidos de excitação. O prazer que sua língua e seus dedos me proporcionaram fazia meus músculos se contraírem dos meus ombros até meus dedos dos pés. O suor lúbrico brotava em meus poros à medida que suas chupadas no meu clitóris me aproximavam do orgasmo.
Até que batidas na porta ecoaram intrusas pelo quarto, fazendo meu clímax se distanciar. Olhei assustada para , que devolveu meu olhar e fez um gesto de “não” com a cabeça, avisando que não iria parar. A fricção do seu movimento com seus lábios provocava meu clitóris e fez meus olhos revirarem com a sensação. Eu estava tão disposta a gozar na sua boca que ignorar por completo quem quer que estivesse na porta era mais fácil que rir de uma boa piada.
Uma nova onda quente de prazer me inundou ao pensar que poderia estar fazendo algo proibido e deveria manter o silêncio absoluto. me sugava e penetrava tão frenético que precisei botar minha mão na boca para conter meus gemidos, apesar de ainda sentir meu orgasmo distante, até que…

? Posso entrar? — a voz de soou firme do outro lado da porta.

E, então, eu gozei.

****


POV’S OFF
Segunda-feira, andar -2, 5:30 a.m.

checava seu relógio de pulso a cada segundo. Seus pés apressados mergulhavam uns nos outros pela pressa, fazendo-a praguejar aos tropeços e tirar irritada os cabelos do rosto, prendendo-os como pôde. Tivera apenas duas horas de um sono de péssima qualidade que quase a fez vestir sua camisa branca do uniforme ao contrário pelo cansaço. Estava tão consternada pelo que ocorrera no domingo que revirara na cama como se a mesma pegasse fogo. Mas era apenas sua pele que ardia toda vez que lembrava ter gozado assim que ouvira a voz daquele que tanto odiava.
Sentiu-se suja e errada, como se houvesse cometido uma barbárie.
Assim que se recuperou do orgasmo, cobriu-se rápido com uma manta, apressou em vestir-se para sair de seu quarto e pôs a primeira coisa que viu no caminho, uma camiseta gigante de banda qualquer, para poder atender a porta. saiu atiçado, secando o canto dos lábios com as costas da mão, achando adorável a postura da moça, pois julgava que a mesma estava envergonhada pelas batidas na porta e zonza pelo clímax. Cumprimentou , beijou em despedida e saiu corredor afora com um desejo ainda maior por ela e com a promessa de que a teria por inteiro para ele.
sentia algo diferente apertando seu peito, só não sabia direito o quê. Julgava ser um tipo de remorso.
As lembranças dos tão poucos dias em alto-mar preenchidos por emoções demais já lhe abarrotavam a mente e afogavam seu coração em mais ansiedade. E, em meio a isso tudo, estava exausta fisicamente. Considerava cada vez mais plausível a possibilidade de voltar a tomar remédios pesados para ter um sono de qualidade e manter a calma, afinal, julgava que sua maturidade já era suficiente para não mergulhar na espiral caótica de vício como fizera no passado, quando quase perdera sua mãe e sua vida virara uma antítese do que fora planejada para ser.

Assim que adentrou avoada no refeitório do navio, o barulho alto de vozes a desnorteou ao ponto da mesma fazer uma careta. O local não possuía janelas, e as poucas luzes amareladas emprestavam ao espaço uma penumbra aconchegante para uns, mas sufocante para outros. O tempo ali era sempre o mesmo. O dia fora dali já ardia com o lampejo do sol.
Em um terço do restaurante, no lado esquerdo, ficava o suntuoso bar com o balcão acompanhado de banquetas altas de madeira, fixas no chão. Espelhos ao fundo refletiam as bebidas nas prateleiras e os marujos ébrios fora de seu expediente, que já entornavam seus irish coffee e canecos de chopp em meio a gritarias e guerras de braços. Uma zona animalesca. suspirou nervosa e sentiu uma coceira incômoda no seu olfato pelo cheiro grosseiro de testosterona.
Na outra parte do restaurante, como se uma cortina invisível de civilidade repousasse ali, os marinheiros conversavam em murmúrios nos assentos acolchoados de três lugares. Cada mesa cabia seis pessoas. Ao fundo do salão, ficava o buffet.

A mulher voltou a caminhar, embrenhando-se entre as mesas, sentindo os olhares pesados sob ela lhe arderem o pescoço. Fechou as mãos em punhos com força. Sabia que muitos dos olhares representavam a ignorância máxima masculina, que diminuía mulheres a meros objetos a serem cobiçados, porém, da sua audição, não escapava os burburinhos sobre seu sobrenome. Sentiu-se exposta como um animal de zoológico. Tentou ignorar contando até dez e olhando para pontos aleatórios do refeitório.
Mais adiante, avistou , com ar despreocupado, bebericando seu café e lendo um livro de capa escarlate. Então, com um magnetismo instantâneo, a figura maior ao lado dele a chamou. Inconscientemente, apesar da distância, prendeu a respiração, como se sentir aquele perfume fosse perigoso. No mesmo momento que alcançou o rosto do homem, levantou o olhar para ela e devolveu o contato com intensidade, inspecionando com uma minúcia cirúrgica toda a figura da mulher. Foi impossível ela não se sentir despida na mesma hora pelo tom de malícia que transbordava da íris dele, assim como ele a olhara no domingo depois da mesma atender a porta apenas com uma camiseta larga depois dos grunhidos que ele ouvira. julgara na hora que, em seus trinta e cinco anos, foram os sons mais perfeitos que já ouvira em toda sua vida desgraçada.
Toda a intenção indecente dele era clara para e lhe acalorava a carne. A consciência teimosa da mulher persistia em classificar a calidez intrusa como aversão, afinal, julgava ultrajante seu inimigo ter aquele tipo de postura com ela.
Porém, no seu inconsciente, uma sensação enfraquecida, quase inerte, de desejo recíproco permanecia desconhecida para ela.

E sabia.

Enquanto ainda caminhava, ele projetou seu corpo para frente, apoiou seu peso nos cotovelos e lambeu os lábios rápido, limpando o melaço que havia neles. Abriu um meio sorriso sacana e piscou para a mesma em provocação.
Desconcertada e enraivecida pelo atrevimento do homem, acordou do transe e desviou seu olhar do caminho. Seu corpo chocou-se na mesma hora com um marujo enorme, que se levantava naquele momento. segurou-se como pôde e continuou a andar atordoada, sem desculpar-se, até avistar uma cabeleira cor de fogo. Sentiu um alívio instantâneo.
Tocou o ombro da amiga com delicadeza e proferiu um oi tímido, observando que a mesa que Emily estava possuía mais três marinheiros desconhecidos.
, oi, bom dia! — Emily falou, levantando e abraçando a amiga. — Nossa, você demorou para descer. Quase larguei meu croissant de chocolate para ir lá te chamar. — comentou, sorrindo, limpando a boca. coçou a nuca, envergonhada. Olhou para os sapatos e depois para os desconhecidos, que a analisavam com o cenho franzido em curiosidade. Emily percebeu. — Oh, que mal educada que eu sou. , aquele ali é o marujo Chester, responsável pelo tratamento da água do navio. — apontou para o canto esquerdo da mesa, onde o homem que quase esbarrara no cais no dia de recrutamento. Era corpulento, tinha o maxilar bruto e a cara carrancuda ainda parcialmente escondida no cap. Seu “oi” soou como um resmungo, e capturou uma essência tímida vindo homem, diferente da grosseira que a acometeu no primeiro dia. — Este é um de nossos capitães, o Andrew. — indicou ao lado de Chester um homem forte de pele oliva, que tinha olhos verdes apaziguadores e um sorriso cálido. Por breves milésimos de segundos, se perdeu na beleza estonteante do homem e respondeu o cumprimento embasbacada. — E aqui do meu lado é a Beth, a mais nova subtenente da Marinha Real Britânica. — uma mulher com os olhos expressivos como uma tempestade a inspecionou com uma meticulosidade áspera. Sua pele cor de mármore brilhava, tinha grossas tranças longas em seu cabelo negro e uma voz macia. Parecia um anjo de tão linda.
Porém, no peito de , algo hostil apitou.

’S POV

Oh, como meu estômago roncava, protestava, me fazia salivar diante de tanta comida gostosa de café de manhã na minha frente. Talvez eu tivesse soado meio mal educada por apressar as apresentações de Emily e não ter deixado que ela terminasse a minha, mas sejamos realistas, quem não sabia quem eu era, infelizmente?
E eu estava atrasada. E com fome. E todos pareceram muito solícitos ao compreender o meu pedido de licença.
O que foi perfeito, pois eu era péssima com interações de primeira viagem. Falar com pessoas que eu não conhecia me despertava quase uma síncope. Ainda mais depois dos olhares bruscos de Beth direcionados para mim. Eu não costumava acreditar em sexto sentido ou coisas místicas do tipo, mas tinha ficado com uma sensação de arrepio estranha com tudo aquilo, como se algo secreto e invisível sussurrasse um aviso para mim.
Por essas e outras, estava em busca de uma de minhas clássicas evasões: doces. Comer bolo de café da manhã era como receber um abraço interno, um conforto para os meus neurônios, que, nas circunstâncias das últimas 72 horas, queimaram e trabalharam mais que o normal. Capturei para o meu prato um pedaço e senti o cheiro… dele.
— Caramba, , você me olha por um momento e já sai esbarrando nos outros assim? — riu debochado. — Achei que estávamos indo com calma…
— Será possível eu conseguir vomitar com o estômago vazio por apenas ouvir sua voz?
— Eu te abalo tanto assim, é? Como quando gemeu no domingo por eu bater na sua porta? — perguntou, pondo-se ao meu lado. O olhei chocada e senti minhas bochechas queimarem na hora. permaneceu com a postura serena, olhando despreocupado para a cesta de frutas. No seu rosto, repousava um daqueles sorrisos desagradáveis de quem só era capaz de se comunicar atentando contra a paciência de outra pessoa.

era um verdadeiro terrorista de paz alheia.

Mas eu também sabia ser. Afinal, esse jogo era nosso.

Mudei minha postura e diluí minha expressão indignada, mimetizando a sua.
— Oh, você tá falando de quando , seu amigo, me chupou e me fez gozar? — murmurei, pondo morangos do lado da minha torta.
— Quer me instigar assim, é, garota? — sussurrou rouco, virando para mim com o olhar cerrado, mordendo um pêssego com vontade, aproximando o corpo do meu como forma de intimidação. Olhei bem nos seus olhos e falei entredentes:
— Você que sempre começa com provocações baixas e insiste em ser um nojento…
— Fala mais, vai...
— Não é porque você é a droga do meu chefe agora que pode infernizar ainda mais minha vida. Você mesmo sugeriu que deixássemos as diferenças de lado e fôssemos civilizados e... Será que dá pra parar de rir enquanto eu falo?
— Você não entende mesmo, né, ? — perguntou e mordeu seus lábios úmidos do néctar doce da fruta.
— O que eu não entendo, ? — suspirei, irritada, ao ver seu sorriso alargar ainda mais. E por que eu olhava tanto para a boca dele?
— Eu faço você entender, mas não vou te entregar de bandeja falando, como já tentei. Você não me ouve mesmo. — deu de ombros e olhou despreocupado em volta. Que merda ele estava falando? — Mas você presta muita atenção nas minhas atitudes e… em mim. — finalizou e apontou para seu peito. — Então, pode deixar que eu te mostro. A não ser que um dia você amadureça e se disponha a ouvir umas verdades, que não são bonitinhas como as falácias de .
Eu não pude deixar de gargalhar, tive que rir da presunção daquele cretino. Juro pelo o que é mais sagrado, mas eu nunca compreenderia a autoestima masculina e o quanto conseguia ser inflada.
Porém, para completar a minha infelicidade do momento, o imbecil riu junto comigo, ainda mordendo a fruta e sugando o líquido que escorria de sua carne, o que contorceu meu rosto na hora e fervilhou ainda mais o calor de raiva que circulava em minhas entranhas por ele. Estava tão indignada que nem me preocupei em transparecer isso.
— Como você pode ser tão convencido, ? — perguntei, mais esganiçada que eu desejava.
— Será que sou mesmo ou apenas sei te ler bem demais, ? — ficou sério e me olhou enfático de cima a baixo, aproximando milimetricamente seu rosto do meu. — Não se atrase, faltam 15 minutos para o nosso expediente. E se comporte melhor perto de mim. — murmurou entre os dentes, olhando para meu prato em seguida. Abriu um meio sorriso e roubou minha fatia de bolo.
— Ei! — foi tudo que consegui falar, encarando atônita sua figura de costas, ouvindo uma risada sua. Como ele podia achar graça em ser tão detestável assim? Minha respiração estava tão ofegante pela irritação que eu podia jurar que enxergaria fumaça saindo de minhas narinas caso olhasse em um espelho.
Então, aos poucos, o burburinho do local voltou a dominar minha audição. Olhei em volta e me senti levemente atordoada, percebendo que algumas poucas pessoas olhavam para aquela cena patética. Ótimo, perfeito. Engoli em seco e voltei a encarar o buffet, sem sentir fome alguma mais, apesar do rebuliço ardente que escorria na minha barriga naquele momento.
já está te chateando, é?
Sobressaltei-me pela voz repentinamente próxima e quase derrubei o prato de minhas mãos.
— Nossa, eu sempre te assusto, hein? — comentou, rindo. Olhei para o homem ao meu lado, sentindo meus ombros desenrolarem alguns músculos tensionados, e me apressei em falar:
— A culpa não é sua, eu sempre fico enfurnada demais na minha cabeça, por isso os espantos — suspirei, cansada, e sorri para ele. — Desculpa, o que disse antes?
— Que já está te enchendo logo cedo.
— Oh, sempre que ele tem a oportunidade, não importa muito o horário…
— Sabe, ele tá meio carrancudo nos últimos dias, pra falar a verdade — riu, enquanto se servia de um cheesecake com geleia de frutas vermelhas. — Ele tá precisando transar, isso sim. — e, então, eu me engasguei com o café que começara a tomar, quase cuspindo em todo aquele paraíso de comida. Péssima escolha de palavras, .
— Meu Deus, que nojo, . Essa é a imagem mais perturbadora que você poderia ter colocado na minha cabeça agora. — de completamente nu, com a pele suada, os músculos contraídos e o fôlego falho por se movimentar com vontade para dentro de… Merda! — Eca!
Arranquei uma risada redonda de .
— Desculpe, eu ainda preciso me acostumar com o fato de vocês se detestarem… — comentou, rindo com tranquilidade. — Mas, enfim, falando naquilo. — aproximou-se furtivamente de mim e roçou nossas mãos. — Não consigo parar de pensar em ficar entre suas pernas e te lamber de novo até ouvir você gemer meu nome… — murmurou enrouquecido, estremecendo meu corpo. Eu sabia que estava com tesão, só estava transtornada com o fato de estar levemente confusa por ter sentido isso antes de me falar aquilo.
Espiei em volta e apenas vi Beth no buffet, um pouco afastada de nós, concentrada na parte dos frios. Fitei os olhos nublados de e terminei de me afogar naquela sensação de calor que insistia em me tocar entre as pernas.
— E eu não consigo parar de fantasiar em você fazer exatamente o que quiser comigo… — devolvi seu olhar lúbrico e mordi os lábios em um sorriso.

Por todo o domingo, após ir até meu quarto e encurtar meu momento com para me convocar à coleta do meu depoimento sobre o assédio para a prisão efetiva de Daniel, toda a tensão e insegurança daquele momento nocivo voltou com tudo para o meu corpo.
Era como se as mãos de Daniel subissem pela minha pele e ele me agredisse mais uma vez. Foi um calafrio de medo que não passava e apenas se transformava em mais angústia, frustração e gatilhos aflitivos para memórias que viviam inertes em mim.
Eu reconhecia que tivera todo o cuidado de fazer as perguntas menos invasivas possíveis e que demorou menos tempo que realmente o necessário para o testemunho. Mas nada disso impediu que as dores das lembranças não fossem avassaladoras.
Então, mais tarde naquele dia, tive a ideia de largar todo aquele peso dos meus ombros e gastar aquela energia desagradável indo até a sala de treinamentos de lutas, que, para minha felicidade, estava vazia.
Um soco atrás do outro, chutes que deixaram minhas canelas com alguns hematomas e fôlego tão descompassado que, em dado momento, achei que teria um infarto foram minha salvação. Um pouco de limite físico e uma sensação geral de alívio me tombava; era pura serotonina correndo nas minhas veias. Com o cansaço extremo, me estendi no chão de tatame com um sorriso no rosto e fios de cabelo grudados na minha testa.
Em algum momento, ouvi alguém entrar no local. Contudo, não me incomodei em me mexer e nem abrir os olhos. Somente quando uma sombra escureceu a iluminação que minhas pálpebras recebiam das lâmpadas da sala que me atrevi a olhar quem me espiava explicitamente demais.
Claro que era . Agachado ao meu lado, me observando com um sorriso sereno no rosto. O susto foi tanto que me apoiei nos cotovelos na hora, o que infelizmente fez com que ficássemos próximos. E, de novo, lá estávamos nós, nos encarando a centímetros de distância, com nossas respirações quentes se misturando junto com o oxigênio e nossos olhares percorrendo o rosto um do outro.
Apenas agi no automático, depois daquele dia escabroso com envolvido a cada período praticamente. Me levantei apressada, como uma fugitiva, e recolhi minhas coisas para sair de lá. Nem mesmo sua proposta sedutora em treinar luta comigo me animou. Era uma boa ideia ter a oportunidade de socar ou chutar a cara dele? Era. Mas eu não aceitaria tocá-lo, nem se fosse para desferir alguns golpes agressivos naquele imbecil. Afinal, não estava com psicológico para muito mais interações com ele. E me convenci também de que não queria sujar minhas mãos com sangue de verme ao machucá-lo.
Urghh, por que ele tinha que ter aparecido em minha porta bem no momento que fazia oral em mim?

, você tá bem?
— Oi? — minha atenção estava um lixo.
— Terra chamando ! Por que você tá destruindo o bolo? — Emily perguntou, retirando os óculos, com as sobrancelhas franzidas e abaixando seu livro.
— É que, eu só… — olhei para os farelos no meu prato e suspirei, cansada. — É que eu… Urgh, sabe?
— Olha, de um jeito muito estranho, eu acho que sei sim. Claro, eu não sei a sensação que é trabalhar sendo chefiada por alguém que você odeia e vice-versa, mas compreendo porque sua perna não parou de mexer nem um minuto desde que você sentou ou até mesmo não comeu nada, apesar de estar morta de fome. — esticou sua mão e entrelaçou os dedos nos meus, num singelo gesto de conforto. — Só se lembre de que qualquer angústia que estiver passando, você não precisa enfrentar sozinha. E se desprenda dessa necessidade de controlar tudo na sua vida. Deixa na mão do destino, ok? Com maturidade, a gente aprende a lidar com as adversidades da vida. Não precisa ter respostas ou solução para tudo. Aceitar a vida como ela é dói menos e é libertador.
Olhei para Emily enevoada por um atordoamento, como se acabasse de ouvir a resposta de todas as perguntas da vida, e respirei fundo. Soltei o ar com calma, respirei fundo de novo, olhei para minhas mãos, olhei para seus olhos verdes que sorriam para mim, olhei de novo para minhas mãos, um pouco menos confusa, e… Percebi que não tinha nada a dizer, pois ela estava coberta de razão. Eu não precisava controlar ou definir exatamente o que ocorria na minha vida, muito menos me desesperar pelas coisas que aconteciam ao meu redor. Eu não tinha o controle sobre elas. Eu só precisava aprender a lidar melhor com o que ocorria comigo, mas… como?
Vislumbrei Emily com o olhar apertado e um meio sorriso e perguntei:
— Ok, Deusa mística, a teoria eu entendo, mas como eu posso deixar a bagagem do meu passado de lado e agir assim, plena? Eu sou uma completa bagunça, como você deve saber…
— Tem tantas coisas que preciso te falar e mostrar… Porém, pelo que vejo ali no relógio, faltam cinco minutinhos para o seu expediente começar. Vem falar comigo depois do seu horário de almoço, que tal? — piscou para mim e deu um tapinha de leve na minha mão.
Grunhi em desespero pelo atraso iminente e assenti para ela, que sorriu satisfeita. Era óbvio que ainda estava em um forte apavoramento por ter que ficar as próximas horas no mesmo cômodo com , mas, mais do que nunca, eu teria que vestir minha melhor máscara de civilidade e encarar aquela situação toda. Eu precisava ser mulher e aprender a lidar com as adversidades que o acaso entrelaçava na minha vida.
Com certeza, durante minha curta passagem na Terra, eu já passara por coisas piores. O que era trabalhar com meu pior inimigo perto de ter minha mãe em coma, um pai sumido, quase ter morrido de overdose, ter apenas um dos rins, ouvir fofocas escabrosas sobre minha família e quase ter sido estuprada duas vezes, não é mesmo?

’S POV

No relógio de parede da cabine, já constavam três minutos de atraso de . Com toda a certeza eu contava os segundos da demora, que, inclusive, eu já esperava da garota, afinal, seria mais um bom motivo para pegar no seu pé. Meu plano desde sua recusa tão agressiva para o que quase ocorreu entre nós na piscina era voltar a provocá-la do mesmo modo e na mesma intensidade de antes de toda aquela porra de acidente ocorrer. Pelo menos eu sabia que, naquela época, o menosprezo entre nós dois era mais simples e advinha de instigações imaturas e propositais da minha parte e tradições familiares que nem nós tínhamos pleno conhecimento.
Para mim, agora, era preciso quebrar aquela barreira sólida como concreto que ela erguera, baseada num ódio em um fundamento doloroso, para conseguir mostrar o que podíamos nos tornar. E não seria qualquer coisa, eu sentia isso.
Ter uma breve noção daquilo tudo não me deixava menos perturbado ou mais ciente de como agir, para ser sincero. Minha impulsividade, como sempre, gritava dentro de mim e sabotava minhas chances de me aproximar furtivo de em diversas situações. Apesar disso, eu confiava na minha intuição de que eu poderia estar no caminho certo.
O mais complexo de admitir e lidar por enquanto era a proporção que a atração e a intensidade de sensações que nossas interações estavam despertando de modo óbvio em nós dois; estava se tornando impossível de ignorar. E, se eu fosse 1% mais insano, eu acabaria com todo aquele jogo que estava tramando e simplesmente a beijaria com a vontade que me consumia há dias. Ou talvez anos, não saberia afirmar.
Eu não parava de me perguntar de como seria tê-la em meus braços, experimentar o gosto de sua boca macia na minha, agarrar sua cintura, sentir sua pele na minha, embrenhar meus dedos em seus cabelos cheirosos, beijar e morder cada centímetro de seu corpo e ter seu perfume tão próximo de mim se misturando ao meu que minha cabeça criaria uma ilusão tátil de que eu estaria no paraíso.
Isso tudo já corria dentro de mim sem nem ao menos poder chegar realmente perto dela. Não pensar em mais nada e ter quase 24h por dia nos meus pensamentos estava levando toda minha sanidade e autocontrole aos poucos para bem longe. E eu já não tinha muito. Porém, eu não agiria mais como fiz na piscina, onde quase nos entregamos um para o outro. Eu a faria ceder de uma forma que nem mesmo ela entenderia como se deixou levar, para que, em seguida, se perguntasse como demorou tanto para me ter para ela.
O pequeno empecilho talvez atrapalhasse meus planos e atrasasse um pouco minha ação. Mas, como um grande amador de desafio, isso até me deliciava um pouco, como um grande masoquista desgraçado que eu era. Fazê-la ter noção de que o que ela teria com seria bom, mas comigo iria além de tudo o que ela jamais poderia imaginar viver, fazia meu peito coçar em contentamento. Meus dedos ardiam por não a tocar imediatamente, mas eu sabia que logo aquela calidez nos queimaria juntos.
Oh, doce , ela nem imaginava o quanto eu a queria. Talvez nem eu conseguisse dimensionar o quanto.
E sinceramente? Não era apenas atração física e desejo carnal. Ela era completamente perfeita em cada detalhe. Desde sua personalidade complexa e seu comportamento intenso, sua presença impossível de passar despercebível, ela tinha um intelecto tão notável que, em qualquer coisa que se propunha fazer, ela era a melhor. Além de seu humor ácido e gargalhada sonora como uma melodia de Mozart, seu sorriso era inigualável, e seu perfume… Oh, seu perfume… Era tão perfeito e marcante que eu podia jurar sentir naquele momento…
.
— Porra, garota! — virei abrupto para a porta. entrava na cabine com um sorriso satisfeito de escárnio.
— Oh, eu assusto o Comandante, é? — falou, debochada, fechando a porta do recinto.
— Assusta, assusta sim. Você me aterroriza de formas que eu não acho adequado nem mencionar em um ambiente de trabalho. — comentei, a acompanhando com o olhar e... Voilà, toda a aura convencida dela tinha evaporado. — Oh, que foi? Eu assustei você, garota?
— Vamos logo falar de trabalho, que tal? — sorriu desdenhosa, pondo-se ao meu lado.
— Ótimo, Tenente . Como deve saber, já estamos nos encaminhando para o sul da Itália. A rota foi traçada por mim e pelo Comodoro Fred no…
— Eu achei que eu seria a responsável pelas rotas que…— pegou os mapas físicos da minha mão e passou a analisá-los.
— Se você me deixar terminar de falar. — falei, repreensivo, e peguei os mapas novamente, passando a mostrá-la os caminhos. — De algum lugar deveríamos partir, certo? — ouvi um “uhum” concentrado seu e quase me perdi por ter sua expressão séria e atenta tão perto de mim. — Então, li por cima de novo e tenho minhas dúvidas sobre nossas escolhas. Para essa manhã, como meu primeiro comando, preciso que você leia e corrija com minúcia as rotas. Como deve saber, o Estreito de Gibraltar é um canal bem movimentado, mas com uma boa presença da Marinha Britânica ainda. Não teremos grandes problemas para passar. Porém, ainda preciso que planeje bem as comunicações externas necessárias. Dentro de duas semanas, se tudo sair como planejado, estaremos passando por lá. Depois que alcançarmos o Mediterrâneo, quero que sua atenção triplique, pois, como sabe, passaremos por mares mais perigosos perto da costa africana. Chegaremos no sul da Itália com três semanas de bordo, se suas rotas forem bem calculadas, e teremos três dias de porto lá, para então começarmos nossa missão de verdade, que será a escolta blindada. — nos olhamos brevemente e assentimos ao mesmo tempo, sérios. — Depois, partiremos com essa embarcação para a Ilha de Creta, onde lá ocorrerá a descarga milionária. Nossa postura será de guerra. Você também, como especialista em armas, tem um grande papel para arquitetar bem nossa conduta e modo de ação, apesar de precisar do meu aval para qualquer execução final. Teremos um treinamento para comandos não verbais posteriormente para isso. Então, como destino final e mais perigoso, a embarcação irá até a Turquia. De lá, depois de todos nossos deveres oficiais, voltaremos, com poucas paradas pelo caminho, até a Inglaterra. Entendeu? — a olhei com a sobrancelha levantada.
— Ok, é bastante informação para assimilar de uma vez, mas entendi sim.
— Não se preocupe, teremos de duas a três reuniões semanais com a equipe toda, fora outras com grupos menores e mais específicos, em que você estará em todas. Apenas elucidei todas as informações que discutimos na primeira reunião na sexta, pois você parecia completamente aérea e prestando atenção somente em , então…
— Como é que é?
, se tem algo que não passa despercebido de mim, é o comportamento dos meus marinheiros, ainda mais em reuniões importantes em que…
— Como pode afirmar algo tão…
— Óbvio? — soltei uma risada irônica e senti uma pontada de despeito por apego. — Se antes eu deveria ficar de olho em você de qualquer forma, de agora em diante suas atitudes terão prioridade no meu radar.
— Por que você vai bancar o perseguidor? — se virou para mim e percorreu toda minha figura com desprezo. — Quer saber, tenho certeza de que vai querer me ferrar nessa missão de qualquer forma… E eu achando que seria tudo diferente… — sua voz tinha um tom de desdenho tão latente que não pude deixar de sorrir. No segundo seguinte, venci o restante de nossa distância e pesquei uma mecha de seu cabelo, que caía no rosto, e pus atrás da sua orelha. transformou-se em um poço de atordoamento, e seu fôlego descompassou na hora. O ar entre nós intensificou daquela forma inebriante, e eu me deliciei ao analisar cada centímetro de sua face.
— Sabe o que você não entende ainda, ? — murmurei rouco e desci minha mão por sua bochecha, fazendo um carinho leve com meu dedo em sua pele macia. Seu olhar fechou-se brevemente e logo voltou a me encarar com um leve terror, acompanhando meus movimentos. — Nenhum menosprezo dirigido para mim, que sai de sua boca… — passei meu dedão no canto de seus lábios, me segurando para não os capturar — … tem um pingo de verdade. — aproximei rapidamente minha boca de sua orelha e sussurrei. — E isso te assusta, né?
Me afastei de novamente e vi em seu olhar uma larga mistura de choque e desespero. Dei mais alguns passos para trás e continuei a observar sua deliciosa expressão desconcertada.
— Você é… Eu não… — falou, trêmula.
Continuei a analisando, convencido, por saber estar certo da premissa de que eu sabia ler melhor do que ninguém, talvez até melhor que ela mesma. E isso tudo por ela não saber ou até mesmo não gostar de se enfrentar e ficar sozinha consigo mesma, se conhecendo. E eu já vivi muitas noites, por meses, entendendo e aprendendo quem era.
Foi então que um barulho na porta ecoou no cômodo. Praguejei e gritei um “entra”, olhando brevemente para , pois a mesma ainda me observava com o olhar completamente atordoado.
— Tudo bom, tripulação matutina? Vim trazer uns agrados. — comentou, sorrindo, entrando na sala empurrando a porta com o corpo, pois, nas mãos, tinha uma tigela de biscoitos e, na outra, uma garrafa térmica, que cheirava a café.
Oh, que príncipe encantado, não é mesmo?
, oi… — falou, indo em sua direção.
— Reparei que a senhorita não comeu praticamente nada no café da manhã, e, como você tem uma longa jornada de trabalho pela frente, não quero que passe mal.
Será que eu poderia vomitar com aquela cena forçada e melosa? Desde quando era solícito assim com mulheres?
— Poxa, que gentileza, não precisava… — falou sem jeito, pegou uma caneca que estava entre os dedos de e começou a encher de café. A garrafa foi repousada num rack grudado na parede ao fundo da cabine, o que fez com que ficasse de costas e fosse lá e simplesmente a abraçasse por trás e começasse uma trilha de beijos por seu pescoço. Bem na minha frente. Embaixo do meu nariz. No horário de expediente.
Nem levou muito tempo até que ele a virasse e a beijasse ali mesmo. E não foi qualquer contato, foi um beijo daqueles que deixa quem quer que estivesse por perto bem constrangido. Ou enraivecido, como eu fiquei.
Com uma mão no peito de , o afastou de forma delicada, me olhando de soslaio, com um constrangimento óbvio no rosto.
… — bebericou seu café e encarou seus pés. virou para mim e percebeu o motivo da vergonha dela, porém só conseguiu sorrir para mim.
— Oh… Não tem problema. Ele sabe que você tá me deixando louco… — comentou, se reaproximando dela e beijando seu pescoço. — E não há proibição de envolvimento na Marinha, certo? — afirmou, olhando-me por cima dos ombros.
Ok, chega disso.
— Não, não há, . Mas aqui não é local nem hora. Estamos trabalhando, e não quero que esse tipo de cena volte a acontecer. Não sou obrigado a ver meu Imediato e uma de minhas Tenentes aos beijos e carícias. Respeitem o superior de vocês, o encargo e deixem suas intimidades para os momentos propícios para tal. — comentei firme, com a mandíbula travada em uma raiva aguda na voz. Me fechei por completo com os braços cruzados na frente do peito.
me olhou subitamente com a testa franzida e uma expressão perturbada no rosto. Largou a cintura de aos poucos e se endireitou. Eu sabia que ele estava em conflito ao ouvir palavras tão duras vindas de mim e provavelmente esperava uma brincadeira jocosa logo em seguida para amenizar o clima tenso que eu havia instalado entre nós, mas isso não ocorreria. Meus limites ficariam cada vez mais claros e definidos, assim como minha hierarquia e o respeito que eu exigiria com ela. Por isso, continuei meus comandos:
— Inclusive, , necessito do relatório sobre a prisão de Daniel ainda hoje e quero que você o faça. Preciso protocolá-lo para mandar junto com o depoimento da Tenente à Matriz.
— Certo, tudo bem. — falou, passou as mãos nervoso pelo cabelo e ensaiou um sorriso amarelo para mim. — Perdão pelo inconveniente. Voltarei aos meus afazeres. Tenente, Comandante. — bateu continência para mim e deu um beijo singelo na bochecha de , que permanecia com o olhar assustado para mim e a boca levemente aberta em choque, com a caneca de café quase entornando.
Mantive minha postura dura e cara fechada para , sem lhe responder o aceno, ainda afetado pela cena carinhosa que acabara de presenciar. Até o mesmo fechar a porta atrás de si e eu encarar o rosto confuso de , o arrependimento estava longe de mim. Assim que soltei minha respiração com pesar, senti o ciúme corrompendo minha integridade, alterando meu humor e modo de falar com um querido amigo meu, que, apesar da hierarquia, nunca deveria ter lidado ou presenciado meu lado rude para com ele. Afinal, eu não tinha direito algum de me enciumar e agir como se fosse minha posse por um simples interesse que desenvolvia por ela. Não que isso tenha ficado claro para eles, mas, em meu peito, o arrependimento bateu sem pena.
Com desgosto por mim mesmo, cocei os olhos com força, virei para o painel e tentei me distrair com o mapa náutico digital, mudo, quieto por embaraço. A única coisa que conseguia pensar era em mais culpa e menosprezo pelas minhas ações; meu coração galopando no meu peito era alto o suficiente para me lembrar, a cada martelada, do idiota que era.
— Hein, ? Não vai me responder? — ouvi a voz de ao longe. E, com a cabeça abaixada entre meus ombros, suspirei com os olhos apertados, como se pudesse apagar o mundo à minha volta ao escolher enxergar nada. Juntei um mínimo de coragem e a espinhei por cima dos ombros.
— O que foi, Tenente? — soei mais firme que esperava, já com as narinas infladas de raiva pelo seu tom petulante.
— Que merda foi essa que você acabou de fazer? Por que falou com daquela forma?
Eu poderia falar todas minhas justificativas, confessar que senti ciúmes daquela cena, que havia sentimentos dentro de mim por ela que nem mesmo eu sabia definir bem ou lidar ainda, mas sinceramente? Do que adiantaria se ela surtaria ainda mais comigo? Do que adiantaria se eu entregaria a ela mais um motivo próspero para ela acabar comigo, me desrespeitar ainda mais e ter o prazer de me machucar? Arrisco dizer que minhas palavras soariam como mentira, uma zombaria de mau gosto para ela. Do que adiantaria responder-lhe com sinceridade se ela me odiava e preferia me ver morto a ouvir tudo o que eu tinha para lhe dizer? A garota era uma sádica, possuía um prazer intrínseco em me ver e fazer sofrer.
E, por mais que eu odiasse sentir aquilo de novo, meu ódio por ela estava presente junto comigo mais uma vez naquela cabine, como se nunca houvesse deixado meu peito. Talvez, para tal sentimento nocivo se esvair por completo de mim, muitas coisas teriam que ocorrer ainda.
! — seu grito transparecia um desespero confuso.
— O que foi, ? — gritei, nervoso, e virei subitamente para ela. Caminhei a passos largos até , parando a centímetros de seu corpo, com a raiva inflando minhas narinas e dominando meus sentidos. — O que você quer ouvir? Quer que eu repita que você teve um comportamento inadequado logo na primeira semana da sua missão? Tá achando o quê? Que tá num cruzeiro de férias e pode fazer a porra que quiser, como ficar se pegando pelos cantos com alguém? — abaixei meu rosto e olhei bem no rosto dela, rindo sem humor. — Ainda mais com um de seus superiores… — murmurei, desdenhoso. — Acabou a moleza por aqui. Pra que tentar ser educado contigo se é com grosseria que você me entende, não é mesmo? Eu poderia muito bem proteger nossos sobrenomes, mostrar o quanto nossa história evoluiu, mas você é impossível. — gritei a última palavra. — E não esqueça, sou eu quem faço os relatórios de performances aqui, toma muito cuidado como você age perto de mim. Prende essa sua petulância bem fundo de você e vai trabalhar direito!
Então, com o fôlego descompassado e meu peito ardendo, me afastei dela, observando sua postura apequenar-se.
Eu não sabia dizer quanto tempo de silêncio se fez entre nós, mas foi o suficiente para meu coração congelar e mais um arrependimento com culpa me atingir e me lembrar da minha impulsividade agressiva e do quanto isso me transformava em um grande merda.
Respirei fundo, com remorso, e comecei a falar:
, eu não…
— Sabe de uma coisa, ? — interrompeu, me olhando fria, distante como nunca, e soltou uma risada sem humor. — Todo esse seu discurso tão ético e maravilhoso sobre trabalhar direito, do meu comportamento inadequado… — começou a aproximar-se de mim devagar, passando o dedo com calma nos aparelhos. — É uma projeção de você mesmo em mim, sabia? — parou a centímetros do meu corpo e tocou as insígnias do meu uniforme, uma por uma. — Você clama que sabe me ler tão bem, que eu arrisco dizer que… Depois de tantos anos de convívios infelizes, eu também sei te decifrar direitinho. — murmurou e me olhou com os olhos cerrados, mergulhando no fundo da minha íris, como se enxergasse minha alma. — Por isso, só quero te deixar uma recomendação também, de colega para colega, sabe? — meu coração estava tão acelerado que eu podia jurar ouvi-lo. — Cuidado para não deixar essa sua atração, ciúme, mania de perseguição comigo ou sei lá o que atrapalhar o seu desempenho no seu trabalho, porque, garoto, você sabe muito bem… — aproximou seu rosto do meu e sussurrou a centímetros da minha boca — … que eu vou ser ótima em tudo que eu fizer mediante meu trabalho aqui. — deu dois tapas no meu peito e se afastou, fazendo-me soltar todo o ar que inconscientemente havia trancado.
Eu estava tão desnorteado com toda a postura autoconfiante repentina de que o aperto em meu zíper pela ereção inapropriada só foi notado por mim quando olhei para o rosto dela; e, pela intimidação explícita que senti em meus poros, eu realmente me senti um garoto naquele momento. Sua expressão era esperta, e ela mordia a ponta de uma caneta com um meio sorriso provocante nos lábios, como se houvesse descoberto um segredo sórdido meu.
Ali, eu me sentia completamente patético por estar louco de tesão por ela e só querer agarrá-la como um degenerado, mesmo depois dela ser uma perfeita cretina comigo.
Se tinha algo que não tinha medo, era de usar de sua crueldade para me responder depois de eu ser rude com ela. Até que era justo, não é mesmo?

Então, Fred adentrou a cabine de repente, chupando em seu canudinho de metal o líquido preto da Coca-Cola. Com todo meu atordoamento, me apressei em falar para descontrair o clima tenso nas minhas calças:
— Refrigerante nesse horário, Fred?
— Oh, eu só funciono depois da minha coquinha gelada — sorriu largo, com seu bigode ruivo escondendo boa parte de seu lábio superior. — Bom dia, querida !
— Oi, Fred! — respondeu ao seu padrinho, sorrindo.
Então, antes de encaminhar-me ao leme, olhei para uma última vez e captei em seu rosto, que já apresentava uma expressão fechada para mim novamente, uma distância maior formando-se dela para mim, como se uma parede cada vez mais grossa fosse construída e me mantivesse tão longe que eu precisaria gritar mais alto, assim como ela, para nos fazermos entender. Como se nossos comportamentos precisassem ser primitivos e agressivos sempre. Eu sentia no meu íntimo um ímpeto de ser diferente, de frear minhas grosserias impulsivas e conseguir me aproximar dela sem espantá-la cada vez mais, ou até mesmo em parar de ser um covarde e jogar na sua cara suas fraquezas e lembrá-la de seu passado pedregoso. O passado que eu ajudei a moldar ruim do jeito que foi. Mas como fazer isso?

Não sabia nem por onde começar para mudar as coisas entre nós.

POV’S OFF

Enquanto terminava de descer as escadas mórbidas e barulhentas para o -9, o homem espiou a mulher que estava em seu encalço por cima dos ombros, lhe oferecendo um cigarro enquanto botava um na própria boca. Já estava em seu segundo desde que havia saído da cabine. Odiava ter sido repreendido daquela maneira, sentia-se um simples subordinado, coisa que não era. Pelo menos em parte.
A subtenente Beth recusou o tabaco e olhou em volta do recinto, fazendo uma cara feia ao sentir o cheiro do lugar e o estado úmido e sujo que as paredes tinham. Eram todas esverdeadas e mofadas, o ar lhe sufocava a garganta, o frio chegava a ser corrosivo. Perguntou-se como podiam manter alguém ali daquele jeito, naquela insalubridade. Ouviu o homem ao seu lado tossir levemente, a olhando desconfiado, pousando a mão em sua cintura para os dois continuarem o percurso até as celas. Beth assentiu e continuou a caminhar.
— Estou aqui a menos de cinco minutos e já me sinto sufocada, como podem manter pessoas aqui?
— Você fala como se fôssemos trazer a Rainha neste lugar. — riu levemente, balançando a cabeça. — Não há muita preocupação com o bem-estar de quem é designado a ficar preso nessas celas. Entenda, são todos criminosos. — respondeu o homem simplesmente, dando de ombros, como se falasse de ratos imundos que deveriam ser exterminados.
— São seres humanos… — falou a mulher, abraçando seu próprio corpo pelo frio. Ouviu outra risada do homem e virou o olhar para ele, estava confusa.
— Oh, pelo amor de Deus, Beth, você sabe o que esse verme aí fez? — apontou com a cabeça para Daniel, assim que chegaram em frente à sua cela. O mesmo estava sentado no chão com apenas uma coberta sobre as pernas. Tinha os pés sujos e descalços e o rosto inchado, cheio de cortes com hematomas e sangue seco. Tinha as mãos presas nas grades em sinal da cruz, imobilizando-o de qualquer movimento, como simplesmente andar ou tentar deitar-se. Estava sentado há três dias, não havia dormido direito e nem se alimentado muito.
Beth deu um leve salto para trás ao ver o estado que o homem estava, pousando uma mão na boca em choque.
— Ele tentou estuprar uma de nossas Tenentes, a . Acha mesmo que ele merece ser bem tratado?
A mulher não conseguiu responder-lhe, estava abalada demais para assimilar qualquer informação. Apenas continuou observando e sua atitude dominante em relação ao detento, o qual parecia possuir um medo enorme do mais velho.
— Por favor, eu preciso me mexer. Preciso andar um pouco, me deitar, qualquer coisa que não seja ficar sentado. Eu não aguento mais, estou faminto, preciso de curativos e banho. Não aguento mais meu próprio cheiro. — Daniel suplicava com a voz chorosa, enquanto balançava suas mãos com as pesadas algemas no ferro da cela, reproduzindo um som estridente e frio no ar. soltou uma risada seca e abriu a cela para agachar-se ao lado de Daniel. Soltou a fumaça do cigarro no rosto dele, fazendo-o encolher-se em resposta. Na mesma hora, pegou com força seu rosto, virando-o para si novamente, sem se importar se estava machucando mais ainda ao tocá-lo daquela forma bruta por cima de tantos ferimentos. Um gemido suplicante foi ouvido.
, você o está machucando. — Beth comentou, sua voz estava falha e chorosa, sentiu-se nauseada pela visão. O homem a olhou divertido, sorrindo pelo seu comentário.
— Vermes não sentem dor, Beth. Quer ver? — tragou a fumaça novamente e enterrou o cigarro no braço do mais novo, fazendo-o urrar de dor pela queimadura. sorriu ao ouvir seus gritos de súplica e retirou o cigarro de sua pele, jogando-o longe. — Pronto, pronto, nem doeu tanto assim. A dor dignifica o homem, rapaz. Quem sabe no final dessa missão, com as minha visitinhas, você se torne um ser humano digno. — deu dois tapas no ombro do rapaz e pegou outro cigarro, levantando-se para acendê-lo.
Daniel não conseguiu proferir nenhuma palavra, sentindo-se nauseado pela dor. Vomitaria tudo que tivesse no estômago, se não fosse pela falta de comida, que já completava quase um dia. Beth olhou incrédula para e começou a caminhar apressada em direção às escadas, pronta para fugir daquela cena horrível que havia presenciado. Sua visão estava levemente turva pelas lágrimas, fazendo-a tropeçar em cordas sujas que repousavam no chão. Porém, antes que pudesse chegar no meio do caminho, o homem segurou-lhe os braços, puxando-a delicadamente para trás novamente.
— Ei, ei, desculpe. Vem cá. — puxou-a para um abraço, do qual a mesma aceitou na hora, enterrando seu rosto em seu pescoço.
, isso foi cruel. — Beth disse com a voz abafada, soluçando contra sua pele.
— Desculpe, linda, é só que eu não me controlo quando o assunto é violência contra mulher, sabe? Eu fico com uma raiva descomunal. — separou seu corpo levemente, o suficiente para ela olhar em seus olhos. — Não farei mais essas coisas — “na sua frente”, pensou —, prometo, está bem? — a mulher assentiu, voltando a se acalmar. tomou-lhe o rosto com as mãos e beijou sua boca, sendo correspondido imediatamente.


Capítulo 6 – Mockery Fate

POV’S OFF
Segunda-feira, 9:30 a.m.

Na cabine principal, no alto do quarto andar, um silêncio sepulcral reinava, estabelecendo uma atmosfera fria e distante entre e . A tensão que emanava de ambos era tão perceptível quanto a úmida maresia que pairava no ar e levava consigo a limpidez dos vidros, manchando as amplas janelas.
As paredes brancas da cabine, descascadas pelo tempo, possuíam uma decoração marítima completamente inútil. Nós estilizados com cordas encardidas, conchas pintadas artificialmente, boias desbotadas e antiquadas. A forma superficial que o decorador havia assimilado elementos do mar para decorar um navio da Marinha beirava à inocência. Afinal, ninguém ali estava em uma viagem de férias, ou em um passeio de cruzeiro, para achar aquele falso cenário tranquilo um mínimo apreciável. Trabalho Naval era sério e compunha uma parte extremamente importante das forças armadas, ainda mais aquele sendo um navio da Marinha Real Britânica. Sendo a segunda maior marinha do planeta e a soberana na Europa, possuía um inquestionável prestígio internacional.
Por isso que, independente da missão, as vidas dos marujos da Infantaria sempre estavam expostas a diversos perigos em alto mar, principalmente quando o dever designado era prestar escolta blindada ao Navio Cargueiro Emma Maersk. Aquela, com toda certeza, não era qualquer embarcação.
Com capacidade de carregar 375 mil toneladas, Emma Maersk era considerado um tesouro marítimo, transportando sempre milhões de euros em cargas, empilhadas em uma infinidade de contêineres. Tanto que fora tido como o “Mercedes-Benz dos Mares”, apelido esse que agradava e muito ao Comandante da missão, .
Seu peito enchia-se de um orgulho dúbio por ter chegado até ali, especialmente após tudo que sofreu ou fez sofrer. Deleitava-se toda vez que percebia, mesmo que sutilmente, que estava no Comando de um dos maiores navios da Marinha Real, o Queen Mary, e a caminho de escoltar a maior embarcação cargueira do mundo.
— Com licença, Comandante , a primeira rota está pronta para o senhor analisar. — declarou cordialmente Fred, o Comodoro.
olhou por cima dos ombros e acenou com a cabeça, confirmando sua diligência. Há quanto tempo estava analisando aquele retrato antigo? A foto em sépia roubou-lhe a atenção imediatamente quando reconheceu os dois rostos. Seu avô e o avô dela. Inimigos de berço, eternamente juntos em uma fotografia. caiu em um leve atordoamento nostálgico que lhe enevoava a atenção.
Virou-se para voltar ao leme, e seus olhos instantaneamente fixaram-se no brilhante horizonte à sua frente, onde um tempo límpido fazia-se presente. Sentiu uma euforia particular eletrizar todo seu corpo. Considerava-se um felizardo por presenciar aquela imensidão azul, pronta para ser desbravada.
E por suas próprias mãos. Ou comandos, como preferir.
Todo aquele encargo que o Major-General o havia designado, o objetivo de escoltar tamanha responsabilidade de um continente ao outro, conferia-lhe um entusiasmo vigoroso, apesar da leve pressão. Esses dois meses seriam decisivos em sua carreira, tudo deveria sair exatamente como planejado, com o mínimo de erros.
Não tinha dúvidas de sua plena competência e capacidade para tal, sabia que seu potencial era de berço e, uma hora ou outra, atingiria o cargo máximo no Corpo da Armada. Só não esperava que fosse antes dos 40 anos, como ocorreu.
Claro, seu sobrenome contribuíra e muito para atingir tal posto tão cedo, pois, além do mérito pessoal, nas Forças Armadas, era insuperável ter QI. Quem Indicasse. Não era novidade para ninguém que aqueles com gerações de militares na família tinham suas vantagens para construir carreira e alcançar posições elevadas prontamente. E isso era mais um ponto sobre , que circulava de boca em boca pela Marinha. Sentia-se no radar de todos o tempo inteiro, com uma pressão atordoante nos ombros. Mas não ligava para a opinião de subordinados naquela altura.
Apenas recordava-se de seu dever constantemente. Lembrava com seriedade as palavras de seus superiores nas reuniões que tivera antes da missão. As lacunas para erros eram cada vez mais estreitas, e não tinha pretensão alguma de atravessá-las. A falha de anos atrás e a culpa tão atual nem deveriam cruzar sua mente. O foco precisava ser constante e as distrações mínimas.

Sem distrações.

riu sem humor por essa constatação e inspirou fundo o ar, passando os olhos por todo o cômodo, analisando cada detalhe e marujo que se encontrava ali. Todos extremamente sérios, dialogando entre si pelo clássico vocabulário náutico, concentrados em seus ofícios. Cada um com uma responsabilidade diferente, mas todos com a mesma testa franzida de apreensão.
Então, pescou uma pequena figura. Aquela que se destacava instantaneamente para ele, não importando quem ou o que estava em sua volta. A mulher que o fazia arfar com pesar em tantos contextos diferentes.

Sem distrações…

A única coisa que falhara miseravelmente logo em seu primeiro dia de missão fora em comunicar-se pacificamente com , sua Tenente de cabine. A responsável por direcionar o melhor percurso marítimo de acordo com a leitura das possíveis mudanças climáticas. Em outras palavras, era ela quem traçava o destino que ele deveria seguir. Isso tudo soava tão poético e sacana ao mesmo tempo que fazia a garganta de coçar, tamanha era a ânsia de rir nervosamente.
Ele sempre acreditou que o Destino era uma entidade onipotente, a qual usava de muitas sátiras e escárnio para deliberar sem pudores a vivência de todos. Por isso, nada mais coerente que virar chefe de um de seus maiores desafetos, não é mesmo?
E, para piorar tudo, claro que descobriria em seu íntimo ter algum tipo de sentimento romântico por ela. Era a maldita cereja do bolo. Apenas mais uma imoralidade para a história dos dois.

A imoralidade de ter sentimentos, refletiu em um suspiro.

Pensou na briga de mais cedo e no quanto seu peito contorceu-se em angústia por sentir um desprezo tão aceso e real na voz dela. Apesar disso, uma culpa agonizante repousava no seu coração por ter sido tão rude com ela, em represália. Era gelada a sensação de estar afastando-a de si, como se ela lhe trouxesse todo o calor que ele precisava.
A constatação de tal sentimento veio quando, com apenas um olhar distraído dela, seu corpo voltara a arder como se fosse constituído de brasas. A pulsação latente por baixo do fino tecido do uniforme transtornou-o de desejo. Essa era a nova realidade agridoce dele, ter sentimentos por .

Sem distrações.

Abaixou o olhar para suas mãos e percebeu a palidez dos nós de seus dedos, tamanha era a força que fazia para manter-se no lugar. Então, uma ironia acendeu na mente de .
A ironia de ter passado a manhã toda com a mão espalmada naquele leme frio, apertando a dura madeira com firmeza, quando a coisa mais macia e quente do mundo estava a centímetros de distância de seus dedos calejados.
Lembrava perfeitamente como a pele de era terna e suave ao toque, como se fosse feita da mais pura seda e devesse ser acariciada a todo instante que ela desejasse. Não poder voltar a tocá-la imediatamente era uma tortura romana para ele. sentiu-se descontrolado algumas vezes naquela manhã, quando quase mandou os marujos saírem da cabine para ficar a sós com ela. Era como se seu perfume doce de baunilha soubesse o lugar onde era mais apreciado e escapava da pele dela para intrometer-se no olfato dele, despertando-lhe pensamentos lúbricos.

Sem distrações!

bufou impaciente, fazendo o Comodoro sobressaltar-se pelo barulho alto ao seu lado. Fred imediatamente dirigiu seu olhar de para o Comandante, como se adivinhasse o objeto de descontentamento da bufada dele. travou a mandíbula e preferiu ignorar o quão transparente estava sendo perto dela. Será que ela o havia ouvido?
Passou a observar a linguagem corporal de com minúcia, vendo um discreto, porém repetitivo, movimento de sua mão em seu pescoço. Compreendia exatamente o que aquela ação solitária simbolizava. Outra culpa pungente formou-se em seu peito. Sabia que, uma hora ou outra, precisaria esclarecer inúmeros pontos de diversas questões com ela. O silêncio já estava além do saudável, pressentia que algo explodiria logo. Que Deus o ajudasse, mas não gostaria que sua impulsividade fosse o estopim da dinamite.

****


ajeitou a postura em sua cadeira e deu um suspiro curto, digitando no moderno painel de controle os últimos números da segunda rota. Apesar de não ter calculado o itinerário que os levariam do Estreito de Gibraltar até o Mediterrâneo, sentia-se tonta por estar com a atenção tão focada em revisar e digitar cada coordenada. Percebera que corrigir e reformular a rota de Fred havia lhe tomado mais tempo e energia que elaborar ela mesma o percurso. Torceu para não se atrasar, sabia no que isso poderia implicar. Toda aquela responsabilidade estrangulava sua garganta em alguns momentos, como se a confiança depositada nela esvaziasse-lhe os pulmões.
Odiava admitir, mas estava sobrecarregada.
Por mais que seu preparo de anos fosse exemplar, sentia a leve pressão do ofício lhe tensionar os ombros, deixando cada fibra muscular sua embolada. Não havia brechas para erros de ninguém ali. Toda a atenção, dedicação e treinamento rígido que recebiam na Marinha deveriam ser executados com 100% de maestria.

Sem erros.

Aquela missão estava sendo o auge de sua carreira até o momento. Sentia-se orgulhosa por tornar-se Tenente aos 25 anos, ainda mais depois de tantos desastres em sua vida. Carregar as sequelas psicológicas daquele período perturbador representava ser forte e seguir em frente. Significava vencer todo dia, sempre que escolhia não sucumbir. Não era agora que iria distrair-se.

Sem erros…

Entretanto, por mais que devesse sentir plena satisfação pelo rumo correto que sua vida estava tomando finalmente, tinha algo que ainda lhe frustrava a alma. Ou melhor, alguém.

. De novo. Sempre ele atrapalhando meu caminho, pensou, aborrecida. na minha vida é que nem uva passas no arroz no Natal, completamente inconveniente e desnecessário.

O fato de viver tudo aquilo ao lado de , em seu igualmente auge de carreira, comprimia seu peito em desgosto. Não conseguia conformar-se com a escalação de ambos para trabalharem juntos em uma missão tão séria, com funções tão interligadas. A arruinada relação dos dois era como papel molhado pela chuva. Um dramático e irrefutável acidente. Prova disso havia sido a ausência ensurdecedora de comunicação daquela manhã. Isso com certeza sucederia em deslizes com consequências severas para ambos, se não resolvessem logo suas diferenças.
Porém, não conseguia imaginar-se tendo um diálogo impassível com tão cedo. Foram mais de duas décadas de contatos catastróficos, inúmeros momentos desagradáveis lhe inundavam a mente para cada segundo que pensava em deixar tudo para trás e ser civilizada com ele.

Sem erros, . Seu trabalho é mais importante, ponderou, agoniada, tentando concentrar-se em sua respiração.

Pelo canto do olho, podia perceber facilmente a silhueta alta e imponente de , fazendo-a quase bufar automaticamente toda vez que sentia o ultraje em tê-lo tão perto. Para ela, não era justo o cara que a fez perder o controle tantas vezes ser seu dirigente neste trabalho. Não fazia o menor sentido na sua cabeça.
Assim como não fazia o menor sentido o calor instantâneo que invadia suas bochechas toda vez que seus olhares encontravam-se. Era como se seu corpo escolhesse ignorar todo e qualquer pensamento odioso seu para arder por inteiro ao notar que dispunha da visão sem pudor de . Sentia-se uma presa sendo espreitada.
Seu olhar possuía diversos sentidos, dos quais conseguia interpretar fielmente. Em dados momentos, possuía o cenho franzido, demonstrando estar apreensivo e preocupado; em outros, um leve e travesso sorriso estampava seu rosto, enquanto seus olhos a analisavam com uma lentidão escrupulosa.

Só pode ser piada, uma brincadeira com a minha cara. Só faltava isso mesmo pra acontecer, repudiou em silêncio, quase rindo de desespero.

E, como se a situação não pudesse tornar-se mais esdrúxula, ainda penava em processar o motivo da briga de mais cedo com . Sentia-se desorientada e completamente confusa só de lembrar-se da cena enciumada dele. Desde quando seu inimigo sente ciúmes de você?
— Com licença, Tenente , pode rubricar aqui embaixo? — Tenente Andrew indagou. Sua voz era amigável e grave, quase baixa — Comandante autorizou sua rota. Só falta sua rúbrica para eu levá-la à sala de controles. — concluiu, sorrindo para a mulher. possuía um semblante perdido, como se ainda processasse a fala de seu colega.
Olhou para as mãos do homem e viu que portava uma caneta e um documento.
— Oh, sim. Claro. — balançou a cabeça para espantar sua distração e riu baixo — Desculpe, eu tava no mundo da lua.
— Eu percebi, Tenente. — respondeu, sorrindo de volta, mostrando seus dentes perfeitos e covinhas fundas no rosto. — A gente sempre fica meio perdido na primeira semana, não é mesmo? Ainda ainda mais com seu encargo. — recolheu os documentos da mão de e baixou a voz, para ser ouvi apenas por ela — Tenho certeza de que você já ouve muito isso, mas você é a melhor que tem em rotas. Não precisa se preocupar tanto, aposto que está fazendo um trabalho excelente. — concluiu, repousando delicadamente a mão no ombro de . O gesto representava um companheirismo velado, algo raro nas Forças Armadas, principalmente sendo de um homem para uma mulher. Tal constatação a fez amenizar a tensão em seus ombros.
Assim que Andrew retirou-se, continuou a olhá-lo, curiosa, até ele sumir pela porta recém-aberta. Um pequeno sorriso repousava em seu rosto, e um alívio corria pelo seu corpo. Apesar dos pesares daquela missão, enturmar-se ali estava sendo muito mais fácil do que na turma de recrutas. Os motivos de ter sido tão reservada ao decorrer dos anos e possuir tão poucos amigos baseava-se em seu sobrenome ter a fama que tinha na Marinha. E sua vida girava em torno do Trabalho Naval.

A gente não escolhe o que o destino nos reserva…

Aquela estava sendo a primeira vez que sentia efetivamente que se aproximava das pessoas certas.

, Emily, e agora Andrew... Ele foi tão simpático comigo a manhã toda.

Com esse pensamento, suspirou tranquila e passou os olhos despretensiosamente pelo vestíbulo, percebendo que já não tinha quase ninguém ali além dela, do Comodoro e do…
Os olhos de estavam escuros e intensos, sua visão dura a penetrava como uma estaca, lendo cada detalhe do rosto dela. E, antes do calor subir-lhe as bochechas, sentiu como se um cubo de gelo escorresse por sua espinha, arrepiando cada centímetro de sua coluna. A postura foi endireitada na hora, o sorriso murchou e uma corrente de adrenalina a atravessou, deixando-a alerta.

Merda, esse olhar de novo não, pensou em desespero, recordando-se dos estranhos últimos dias de comportamentos anormais de .

Então, no olhar dele, algo tão profundo quanto o Universo cintilou. Um tipo perversidade estampava sua íris. Abrindo um leve sorriso, piscou sacana para , fazendo-a arquear as sobrancelhas em espanto.
Bruscamente, virou sua cadeira e voltou sua atenção para frente, engolindo em seco ao perceber-se completamente encalorada em pleno inverno só por um olhar.
Sentiu uma raiva crescendo em seu peito e obrigou-se a respirar fundo e contar até 100.

Que merda tá rolando comigo? Por que eu tô me sentindo tão afetada com esse babaca?

Com um embrulho no estômago, preferiu ater-se ao problema da falta de comunicação entre eles. Odiava admitir, mas sentia a necessidade de adotar o bom e velho ditado “Mantenha seus amigos próximos, e seus inimigos mais próximos ainda”, pelo bem da sua sanidade mental e seus anseios profissionais.
Se ambos tiveram seus caminhos cruzados por forças superiores, sejam elas divinas ou humanas, precisava aprender a comunicar-se com aquele que mais odiava.

****


Segunda-feira, quarto andar, suíte 40, 8:00 a.m.

levantou-se da cama, desvencilhando-se das pernas longas da mulher e dos lençóis brancos, pronto para acender um cigarro. Sempre depois de transar, era sagrado fumar seu Camel; sentia como se a cigarrilha fora feita para tal. Abriu as cortinas ao mesmo tempo que o vidro da sacada e deixou o forte facho de luz adentrar o cômodo, assim como a brisa fresca da manhã.
Enquanto comprimia os olhos pela luminosidade, ouviu um gemido de protesto vindo da cama, indicando que a mulher havia despertado. Sentou-se no carpete entre o trilho da porta e a cama e passou a observar o dia lindo e ensolarado.
Apesar do frio, daria tudo para dar um mergulho no mar.
— Posso pegar um? — disse Beth, já acendendo um cigarro na boca. Ele nada respondeu, apenas a olhou rapidamente, sorrindo leve e voltando a encarar a movimentação no casco do navio.
A semana já começara agitada para todos. Estavam de duas a três semanas de chegar no sul da Itália, e, apesar desta ser sua terceira missão como Subcomandante, era a primeira em anos que estava apreensivo. Da mesma forma que era a primeira com Beth a bordo. A mulher já havia anunciado que só entrara para a Marinha Real por causa dele e pretendia que sua primeira missão fosse ao seu lado.
Era fácil arranjar isso. Ambos tinham pais que conseguiam dar seus jeitos para modificar qualquer coisa de acordo com suas vontades, afinal, Beth era filha de um importante Diplomata francês, enquanto o pai de era Primeiro-Ministro da França. Apenas duas ligações, e tudo saíra perfeitamente como Beth planejara. Ela apenas não imaginava o quanto estava completamente encantado e seduzido pela irmã caçula de um dos grandes amigos dele.
sempre soube da existência de desde que conhecera Mauro e aos 25 anos, quando saiu da Força Naval Francesa para arriscar-se na Marinha Real Britânica. Tinha conhecimento desde o início, inclusive, da desavença que ela e cultivavam a qualquer custo. Achava tudo aquilo muito besta. Sabia que o amigo não media esforços para implicar com ela e vice-versa. Porém, não conhecia muito mais do que isso sobre a moça. Havia a visto somente em duas ocasiões e bem de longe. Nunca reparou nela.
Como sempre morou sozinho na Inglaterra, nunca sentiu a necessidade de frequentar a casa de nenhum dos seus amigos, apenas passava em frente para buscá-los ou algo do tipo. Ambos possuíam sérios problemas entre suas famílias, uma rivalidade que havia passado por gerações sem motivos muito claros. Todo aquele drama doméstico fazia-o desinteressar-se profundamente em interagir com os familiares de seus amigos. Além do mais, com a liberdade que o trio tinha na casa de , não tinha por que não fazer as farras por lá.
Rapidamente tornaram-se amigos, se uniram como irmãos de sangue e fizeram tudo o que a boemia da juventude tinha para oferecer. Londres à noite era o melhor e mais completo submundo da diversão adulta para os três; isso quando não sentiam a necessidade de extravasar mais, escapando de trem por um fim de semana para aloprar em Amsterdam. Tudo que podiam experimentar, haviam experimentado.
Tinham, inclusive, recebido o apelido de “Trio Parada Dura” pela mãe de Mauro, Abigail.
Esse nome… Depois de tantos anos, esse nome ainda lhe gelava a espinha, por tudo o que ocorrera.
— Você está pensando em quê? — Beth perguntou de repente, soltando a fumaça e sobressaltando — Está pensando na , não é? — indagou, esperta, rindo seca enquanto sentia o ciúme umedecer seus olhos e corroer-lhe a paciência.
— Como é que é? — perguntou genuinamente surpreso, sabendo que estava sim pensando em uma , mas provavelmente não a que ela estava referindo-se.
— Eu vi o jeito que você estava falando com ela hoje de manhã no buffet. Acha que eu sou burra, não é? Só porque tem 13 anos a mais que eu, pensa que sou muito ingênua para perceber. — Beth falou, irritada, virando-se de súbito para ele com uma expressão rancorosa. Os olhos do homem passearam sem pressa pelos seios recém-desnudos da moça pelo movimento, antes de lhe responder calmamente.
— Beth, eu realmente não sei do que está falando. Se puder ser clara, conversaremos como adultos. — respondeu-a, sabendo que toda aquela história de maturidade e o jeito que abordava isso mexiam com ela.
Beth sentia-se extremamente insegura por ter 23 anos e estar com um cara de 36, que já havia vivido e experimentado muito mais que ela. Por diversas vezes, o mesmo pontuava isso como um problema, como sendo um dos principais motivos de não a assumir. Além disso, sentia medo de não ser mulher o suficiente para ele. Nunca havia tido outro homem ou namorado em sua vida, não sabia como uma relação deveria proceder-se efetivamente.
Olhou-o atravessado e respirou fundo. Precisava controlar-se para conseguir formar bem suas palavras, já que sua voz trêmula não ajudava.
— Eu sei que não devemos demonstrar que temos um relacionamento em público, mas você pareceu bem próximo dela no buffet, como se não possuísse nenhum tipo de vínculo com ninguém... — falou, aborrecida, sentando-se na cama e enrolando o lençol no corpo. — Isso me magoa, .
— Linda, eu tenho que manter comunicação com ela. — puxou a fumaça do cigarro com força, pausando sua fala para pensar no que dizer a Beth. Não que ligasse muito se a mulher sentia-se mal ou não por ele estar se aproximando de outra, mas sempre deixou claro a Beth que o envolvimento dos dois não podia ser sério, muito menos assumível. Sentia, sim, carinho e tesão por ela, mas não passava disso. Viveram muitas coisas boas juntos, porém não a levava a sério por muitos motivos pessoais. — e ela se odeiam, mas o trabalho de ambos é muito interligado. É aí que eu entro. — puxou mais fumaça, a olhando esperto — Agora mesmo que Daniel está preso, terei que falar com ela diversas vezes. Não estranhe se me ver conversando com fora do expediente ou qualquer coisa do tipo. Estamos aqui a trabalho, devemos levar tudo muito a sério, e lacunas de comunicação não devem ocorrer. — finalizou, puxando mais fumaça para os pulmões, como se eles lhe fornecesse o oxigênio para sobreviver.
Sentiu-se tão impressionado com a rapidez que havia achado uma boa desculpa que quase gargalhou. Sabia que aquele assunto ainda viria a tona outras vezes. Beth era extremamente insegura e enciumada, mas também tinha conhecimento que ela poderia contornar bem seus questionamentos. Depois de tanto tempo juntos, ela já sabia ler alguns comportamentos seus.
— Hum... — resmungou Beth, sentindo-se levemente aliviada e meio boba, compreendendo que, realmente, e possuíam funções que se chocariam algumas vezes. Porém, não conseguia parar de sentir-se insegura, não apenas por ter se impressionado com a aparência e presença que tinha, mas por não confiar 100% em . Algo acionava seu sexto sentido toda vez que o homem tinha que se explicar sobre algo.
Seu olhar perdeu-se nos seus dedos do pé enquanto balançava as pernas para fora da cama, como uma menininha emburrada.
— Hmmmmm — a imitou de forma divertida, fazendo-a abrir um sorriso contrariado. — Vem cá, vem... — soltou a fumaça pelo nariz e pegou no braço da mulher, puxando-a gentilmente.
— Não. — Beth respondeu em um falso tom contrariado, soltando seu braço e desviando o olhar ao sorrir.
— Ah, é? — ficou de joelhos na frente de Beth e agarrou sua cintura, puxando-a para o carpete ao lado da cama.
Beth o olhou boquiaberta, e imitou sua expressão de forma brincalhona, fazendo-a gargalhar mais ainda pela sua bobice. Então, ele começou a distribuir beijos estalados em seu pescoço, provocando cócegas no local.
!
— Beth! — a olhou, rindo, sendo acompanhado pela morena.
Então, parou e ajeitou-se entre as pernas dela enquanto tinha a cintura circundada pela mesma. Beth retribuiu o sorriso docemente e passou a acariciar o peitoral de , sentindo as grossas e elevadas cicatrizes que ele tinha no peito. Um calafrio percorreu sua espinha ao pensar no que ele passara, e, subitamente, sentiu vontade de chorar por pensar que ele poderia não ter sobrevivido ao atentado.
— Hey. — chamou-a, percebendo a repentina mudança na expressão de Beth ao tocar em seus ferimentos já antigos. Com um sorriso, aproximou-se e afundou o rosto nas negras madeixas de Beth, inspirando fundo seu perfume doce. Adorava como eles cheiravam a morangos.
Lembrava perfeitamente da primeira vez que sentiu esse cheiro, há 5 anos, quando começara a relacionar-se com ela.
Beth tinha apenas 18 anos, e ele, 31. A mesma ganhara uma festa colossal de boas-vindas, com metade da alta sociedade francesa e britânica presentes, comemorando sua volta do intercâmbio de dois anos para a Alemanha. A volta da filha de um importante diplomata europeu.
E lá estava , despojado, de smoking preto, camisa branca meio aberta, gravata borboleta desatada e um copo de whisky na mão. Havia tido uma séria briga com seu pai mais cedo naquele dia por recusar-se a usar o uniforme da Marinha Real, com todas aquelas insígnias para exibir e o seu cap de Capitão para emprestar a alguma criancinha da festa. odiava essa postura. Não era da Marinha para envaidecer-se, muito menos para ficar mostrando-se aos “amigos” de seu pai.
Assim que Beth entrara na festa, não conseguiu parar de olhá-la. Estava impressionado com a mulher exuberante na sua frente. Beth usava um vestido de seda branco e longo, super esvoaçante, com uma leve amarração na cintura e decotes profundos nas costas e no busto, além de uma fenda alta na perna. Havia crescido muito (literalmente, já que possuía quase 1,80m de altura); tinha um rosto angelical, mas com traços mais adultos.
Ela havia percebido os olhares lascivos de e não estava nem um pouco intimidada ou receosa em retribuí-los. Sempre nutriu uma paixonite por ele, mas nunca havia sido notada pela óbvia diferença de idade. Agora que já era uma mulher feita, poderia aproveitar-se do jeito esbelto que crescera e jogar charme para ele. Sabia de sua fama de galinha, não seria difícil seduzí-lo, ainda mais aquela noite, usando aquele vestido, com todos em volta bêbados demais para reparar na aproximação dos dois.
A festa foi uma oportunidade e tanto para ambos, e não perdeu tempo para abordá-la. Primeiro, foi um cumprimento com um beijo na mão; depois, uma dança lenta em que pressionava com as pontas dos dedos sua pele quente das costas, a aproximando. Então, passou para uma longa noite de drinks com cochichos galanteadores e risadas frouxas.
Depois que o jardim da casa esvaziou-se de convidados e a festa acabou, sobrou apenas e Beth, transando no gramado super bem cuidado da família.
Mais especificamente, atrás das lindas roseiras da mãe dela.
— Linda, você sabe muito bem que eu só quero você, né? — disse , distribuindo beijos molhados e demorados em seu pescoço, enquanto ajeitava seu membro duro estrategicamente entre as pernas dela. Beth soltou a respiração de forma pesada, perdendo-se naquela deliciosa onda de desejo que esquentou seu ventre.
sentiu a excitação crescer e investiu o quadril contra a mulher, arrancando um gemido rouco de sua garganta.
— Nada me excita mais que esse som, sabia? — falou , descendo seus beijos para os seios de Beth, chupando e mordiscando a pele por onde seus lábios passeavam.
A mão esquerda de subiu pela garganta de Beth, apertando seus dedos pela circunferência pulsante.
— Só você me faz gemer assim... — Beth engasgou-se em palavras, fechando os olhos umedecidos. Apertou os ombros de em resposta, demonstrando o exagero da força dele.
O mesmo deslizava lentamente sua outra mão pela macia coxa de Beth, aproveitando cada centímetro dos arrepios que causava em sua pele pelo seu toque quase nulo. Com a língua, provocava-lhe os mamilos, intercalando com chupões bruscos que machucavam sua pele. Beth mordeu a boca para suprimir um gemido sôfrego e acariciou o cabelo de . Sabia que esse gesto o distraía.
Subitamente, ele a olhou. Tinha um sorriso sacana estampado no rosto. Observando os dentes da mulher cravados em seus lábios, convenceu-se de que a estava satisfazendo por inteiro. Então, enfiou dois dedos em sua umidade, circulando com o dedão em seu clitóris. O prazer que atingiu Beth foi singelo.
— Eu te amo, . — gemeu, sentindo o tesão crescer ao ter os dedos do homem saindo e entrando em si continuamente.
— Eu também, linda. — respondeu-lhe contra sua pele, sem olhá-la nos olhos.
Apesar de Beth não acreditar muito em suas palavras, não podia deixar de apegar-se a elas para ter um motivo plausível em aceitar tudo o que aceitava. Sentia-se miserável por vê-lo claramente interessar-se por outras mulheres, mas não conseguia deixar de agarrar-se a esses pequenos momentos que possuía com ele. Era viciada em qualquer que fosse a sensação que lhe proporcionava desde a primeira vez que estiveram juntos. Ele a fazia sentir-se mulher, crescida, sexy.
Beth sonhava em ser tudo aquilo sozinha, mas seu amor próprio tinha limite, determinado por nome e sobrenome: o nome e sobrenome dele.

****


Ambulatório do Navio, andar -3, 12:10 p.m.

— Raijin, pode me passar o catálogo dos medicamentos? Farei a checagem agora para o gabarito da lista noturna.
— Sim, senhora. — respondeu-a prontamente, entregando um caderno A5 de capa preta a Emily, que permanecera em pé, contando frascos de iodo, até alcançar o objeto de couro.
— Obrigada, querido. — parou por um segundo e olhou-o, esperta — Eu pronunciei corretamente seu nome? Pode corrigir-me se errei, marujo. — Emily comentou, sorrindo, mostrando seus perfeitos dentes brancos. Raijin permanecia com a postura acanhada, porém a olhava com uma certa admiração.
— Oh, sim. A pronúncia da senhora foi perfeita.
— Tem algum significado? É um nome incomum.
— Sim, e é um significado muito especial para mim. — apontou para si mesmo e continuou — Eu nasci em York, em meio a uma tempestade violenta. A luminosidade das trovoadas era tão forte que fazia a noite parecer dia. Faltou luz na maternidade naquela madrugada. Meu avô disse que nasci sendo tocado pelo Deus do Trovão. — respondeu em tom orgulhoso, elevando as protuberantes maçãs de seu rosto em um sorriso — Raijin significa Deus do Trovão no Japão, país de origem dos meus avós.
— Que interessante, marujo! Espero estarmos a salvo de tempestades com você aqui, Raijin. — Emily comentou, sorrindo, fazendo o rapaz coçar a nuca envergonhado. — Por acaso foi a grande tempestade de 1999 de York?
— Sim, senhora!
— Oh, esse temporal foi brutal. Eu lembro de ver nos jornais o estrago na cidade. Mas me conte, Raijin, você é tão novo e já é formado em enfermagem, trabalhando na Marinha… Era um sonho seu, por acaso? — Emily perguntou, curiosa, olhando dos medicamentos para o rapaz. A simpatia da mulher havia relaxado Raijin ao ponto de descontrair os ombros, acalmando sua musculatura.
— Meu avô e minha avó conheceram-se na Segunda Guerra Mundial. Ambos eram de lados opostos, não podiam nem se falar. Apaixonaram-se à primeira vista e tiveram que começar a vida a dois fugidos, por isso vieram para a Inglaterra. Quem os escondeu no navio e acolheu mais tarde na sua casa foi um Tenente da Marinha Real, antigo conhecido dele da Guerra. Nossa família existe por causa da coragem que o amor verdadeiro deu aos meus avós, mas somente pela compaixão e lealdade desse marujo foi possível concretizar esse amor. Sempre quis ser que nem ele, apesar de nunca o ter conhecido. — comentou com um olhar vago, enquanto Emily o olhava intrigada — Cresci com meu avô muito presente. Ele dizia que, se fosse inglês, seria da Marinha Real. — riu, contente, e olhou para ela — Ele me ensinou desde cedo que a bondade pode mudar vidas, assim como o marujo fez conosco.
— Raijin, que lindas palavras! A história toda de sua família deve ser incrível. Passaria horas ouvindo você falar sobre. Por que não vamos no bar do navio sexta à noite? Te apresento a outros marujos. Todos vão amar te conhecer e ouvir suas histórias.
— Eu adoraria. — respondeu-a, sorridente.

Assim que Emily voltou a contar os frascos, concentrou-se nos remédios controlados de tarja preta, principalmente os de cunho psiquiátrico e neurológico. Esses deveriam ter uma atenção maior, por justamente possuírem um número considerável de marujos na tripulação que faziam o uso contínuo de alguns deles. O roubo de medicamentos em missões raramente ocorria quando a atenção era redobrada na checagem, e isso era algo que Emily priorizava, ainda mais sendo chefe do Ambulatório do Queen Mary.
— A senhora quer ajuda? — perguntou o rapaz, sobressaltando-a, enquanto a olhava com uma expectativa novata.
— Obrigada, Raijin. — sorriu ao enfermeiro — Mas sou muito metódica, certas coisas prefiro fazer eu mesma. E pode me chamar pelo nome, por favor! Estou me sentindo velha com esse tratamento. — disse divertida ao homem.
— Oh, sim, senh… Sim, Emily. Se precisar de ajuda, estou aqui. — Raijin concluiu, olhando para os sapatos de borracha brancos.
Emily o olhou esperta, percebendo que o rapaz não parava de mexer as pernas inquieto, como se precisasse de algum afazer urgente, ou sairia correndo dali. Observou sua feição e notou o quanto ele era atraente. Possuía a estrutura facial forte, seus cabelos negros brilhavam na luz branca do consultório, e tinha um semblante acolhedor. Mas, se não fosse pelo seu rosto perfeito e a voz macia, teria medo dele. Seu corpo imponente ocupava bastante espaço. Conseguia perceber o amontoado de músculos que o homem devia possuir por baixo daquele uniforme.
— Raijin, sou sua chefe aqui, mas pode procurar-me quando precisar, ok? Eu sei o quanto pode ser difícil não conhecer ninguém no local de trabalho. Pode contar comigo. — Emily declarou, tocando no ombro dele delicadamente enquanto sorria. O mesmo assentiu e olhou para o chão branco novamente, como se procurasse algo para falar.
— Hmm... A senh… Desculpe. Você já foi chefe do departamento de saúde em alguma outra missão? — indagou Raijin enquanto brincava com a tampa da caneta que ela usava.
— Não, essa é a primeira. Faz menos de um ano que me especializei em psiquiatria. Fiquei surpresa em ser escolhida, dentre tantos marinheiros médicos antigos, para ser a chefe de saúde do Queen Mary. Mas eu entendo os motivos de algumas escolhas dos nossos superiores. Essa foi outra decisão bem pensada, até.
— Como assim?
— Bom, a tripulação para esse ofício foi definida de forma bem estratégica. Concomitante a isso, temos um número considerável de marujos que fazem o uso de medicamentos controlados nesse ofício, por isso designaram a psiquiatra do batalhão — apontou para si mesma — para chefiar. Sabe, em toda missão, há apenas um médico e um psicólogo a bordo para ajudar a todos nas questões farmacológicas e psicológicas no período em alto mar. Para alguns tripulantes, é difícil ficar isolados por semanas sem pisar em terra firme. Por essas e outras, nessa missão, há dois médicos. Um clínico geral, que cuidará das emergências e casos mais brandos, e eu, que substituirei o papel do psicólogo em consultas individuais, além de prescrever e controlar os remédios. Terei mais controle sobre as terapias.
— Essa missão é especial até esse ponto?
— De certa forma, sim, mas não cabe a nós os motivos dessa singularidade. Há muita história encravada na rotina da Marinha Real ainda.
— Sim, claro… — o rapaz olhou em volta, como se procurasse algo para falar — Mas então, você está com a função de ser a psicóloga do navio?
— Sim e não, pois uma coisa não é igual a outra. Mas, para simplificar, sim. Estou responsável pelas psicoterapias e em convocar alguns marujos específicos para consultas. Temos que controlar bem os remédios utilizados. Estão quase contados para não haver falhas grotescas no estoque.
— E, por acaso, já tiveram muitos casos de roubo de medicação em…
De repente, um barulho estrondoso de porta se fez, e o Comandante entrou como uma ventania na sala, com a expressão alarmada e o peito ofegante.
Continências foram dirigidas a ele antes do mesmo pronunciar-se.
Analisando cada rosto assustado no consultório, viu um que não pretendia lidar no momento.
— Raijin, pode nos dar licença, por favor? — comandou, olhando para Emily significativamente, enquanto tentava recuperar uma respiração mais calma.
— Claro, sim, senhor Comandante . — Raijin levantou-se desajeitado e saiu pela porta, prestando condolências profundas até sua figura sumir da sala.
… Quer dizer, Comandan…
— Por favor, Emily, você pode me chamar pelo nome, como sempre.
— Sim, claro. , o que aconteceu?
aconteceu de novo.


Capítulo 7 – Heart Shame

POV'S OFF
Flashback, 6 anos atrás, festa de uma fraternidade aleatória em Londres.

Música para ouvir no momento indicado: “The Hills — The Weeknd”.

No pequeno jardim frontal de uma mansão de uma fraternidade qualquer, a baderna contemplada já era um claro indício do descontrole no interior do casarão. A música abafada dançava com as luzes neon, rajando a noite de colorido, assim como as garrafas que pintavam o gramado malcuidado da casa. Corpos agrupados suavam lascivos uns nos outros, demonstrando toda a bestialidade juvenil, que berrava a embriaguez. Assim, cada grupo encontrava-se eufórico e descontrolado demais para notar a presença imponente e mais velha, que marchava como um tanque em direção à mansão.
olhou em volta e arrependeu-se no mesmo instante de estar ali. Era como um intruso. Apreciava sair de sua zona de conforto e vivenciar situações diferentes, porém julgou que aquilo já beirava ao ridículo. Afinal, o que ele estava fazendo de sua vida? Envolvendo-se com uma caloura de 18 anos, sendo um oficial da Marinha nos seus quase trinta anos.
Sua consciência pesava consideravelmente depois do que gerou em seu ofício; feriu famílias além da sua, evidenciara negativamente ainda mais ambos os sobrenomes, manchando tanto o presente quanto o futuro de algo tão fétido quanto o passado. Ponderara inúmeras vezes que a culpa e o limbo que vivia 24h por dia era um bom castigo e uma justificativa melhor ainda para errar preguiçosamente no restante de sua vida. Com certeza era mais confortável do que o que seu amigo de infância presenciava todos os dias. Sentiu-se um merda por perceber isso e não dispor de energia suficiente para mudar, então tentou ignorar seus pensamentos e ateu-se a concentrar-se à festa em sua frente.
Assim que passou pela pequena porta da mansão promíscua, o barulho antes abafado gritou nítido no seu ouvido, tornando-o surdo imediatamente.

(Dê play na música)

Não ouvia mais nada que sua “namorada” tagarelava, ou voz alguma. O espaço para locomover-se era inexistente, e a luminosidade menor ainda, tornando tudo muito inóspito para manter-se ali. Tinha sorte de ser mais alto que a maioria e poder achar caminhos acessíveis para adentrar a festa. Seu instinto treinado o fez localizar de imediato as saídas cabíveis.
Sentiu alguém puxando sua camisa preta de botões pela manga. Olhou para baixo e viu Lucy, a caloura, falando algo. Inclinou-se para ouvi-la.
— Ei, vamos ali perto daquela janela, tem um aparador com várias bebidas. — a loira gritou em seus ouvidos, pegando em sua mão com carinho. acenou e guiou-se pela moça. Virou o rosto brevemente e viu um casal à sua esquerda cheirando pó e beijando-se em seguida.
Pela segunda vez naquela noite, arrependeu-se de estar ali. Não possuía mais paciência alguma para aquele tipo de ambiente. Seus tempos de saídas erradas haviam se encerrado há muitos anos. Olhou para Lucy. Seu rosto corado estampava um sorriso entusiasta, aproveitando cada segundo de todo aquele novo universo adulto acadêmico. Sentiu-se um merda por estar com ela.
Provavelmente a moça achava que o tiraria de qualquer limbo em que ele claramente encontrava-se. No entanto, apenas precisava de ajuda profissional.
— Quer o quê, bebê? — Lucy perguntou, e cochichou em seu ouvido que se serviria sozinho, terminando com um beijo em seu pescoço.
Os amigos dela cochicharam.
Todos faziam um burburinho curioso por ela sair com um cara mais velho, com carreira na Marinha Real. Nem imaginavam o quanto o namoro demonstrava um grande desespero por parte dele de tentar encaixar-se em um nicho social longe das Forças Navais. Aquela festa e a roda de amigos dela com certeza simbolizavam o máximo de tentando desaparecer de sua própria realidade. Do quanto nada ali deveria lembrá-lo do que aconteceu, das pessoas que machucou, do quanto fez sofrer. Porém, até na tentativa de escapar abarrotava-se em culpa e memórias.
Olhou em volta em profundo desinteresse e suspirou, arrependeu-se de ir àquela casa, deixando Mauro sozinho naquela noite. Nenhum dos dois queria ir à festa. No entanto, Mauro insistira que o amigo precisava divertir-se, preferindo permanecer em casa caso sua irmã aparecesse.
E, pela centésima vez naquela noite, arrependeu-se de estar metido naquela balbúrdia típica de calouradas.
Subitamente, pescou uma pequena figura. Aquela que sempre o fazia arfar com pesar.
, pensou inúmeras vezes, sentindo seu coração golpear seu peito, gelando seu sangue e músculos imediatamente.
Como não havia pensado naquela possibilidade? Apesar de todos os desastres daquele ano, no semestre passado, ela entrara para o curso superior de Relações Internacionais. Era óbvio que ela estaria presente na festa dos calouros, ela era a veterana.
Ainda mais depois do acidente de Abigail. desenvolvera uma grande rebeldia, converteu-se no oposto do que era. Indisciplinada, revoltada, insolente com todos.
A partir daquele momento, não conseguia mais desgrudar os olhos dela. Sua camisa parecia-lhe mais apertada, a garganta seca, o suor insistindo em brotar na testa.
encontrava-se visivelmente alterada, aparentando uma fluidez social tão ébria que mesclava com todo o clima excitado da festa. A luz arroxeada pintava sua pele descoberta, evidenciando o brilho da tinta neon que desenhava seu corpo com pinceladas de dedos.
Seus olhos estavam levemente fechados, a boca esticada em um sorriso extasiado, os braços moviam-se para o alto, animados. Virou de costas e afagou os cabelos com a mão. percebeu uma nova tatuagem na lateral de seu seio.
locomovia-se de acordo com a dança da multidão, embaralhando-se por corpos alheios, tão escorregadios quanto suas línguas ao engolir um comprimido. Sua expressão de deleite era uma satisfação de se olhar.
Sentiu um estranho deslumbre, piscou os olhos algumas vezes e balançou a cabeça para os lados. Olhou para Lucy e viu a moça falando empolgada com os amigos, envolvida na névoa eufórica do ambiente.
Subitamente, entre todos os cheiros defumados do local, sentiu o perfume doce conhecido. Virou a cabeça e percebeu mais perto. Seu olhar, afiado pela escura maquiagem, franziu em hostilidade para ele. Os dois encararam-se alheios a tudo. esticou os cantos dos lábios em um sorriso desgraçado e deu-lhe as costas, mergulhando na multidão novamente.
voltou a ouvir aos poucos os sons da festa, respirou fundo e piscou mais algumas vezes. Precisava de algo, precisava sair da atmosfera que sua consciência ocasionalmente criava. Seu peito ardeu, teve vontade de fumar um cigarro. Encheu um copo com gelo e um destilado qualquer.
— Ei, vou lá fora fumar. — falou ao pé do ouvido de Lucy, retirando-se em um beijo rápido para a porta de vidro à sua esquerda.

****


Na varanda de madeira branca, achou um canto afastado e escuro, apoiando-se de lado na coluna de quina. Retirou o cigarro vermelho da case metálica e acendeu-o. Tragou, sentiu o sabor picante de especiarias e soltou a fumaça. Um rapaz atravessou velozmente o jardim, trajando apenas cuecas frouxas brancas com um duende de cerâmica embaixo dos braços, gritando como um animal no cio. Jogou-se na piscina.
Diante de toda aquela bagunça juvenil, ateu-se a observar a fumaça azulada cortando o céu escuro, ponderando qual seria seu artifício para levar para casa e driblar Lucy para tal. Já havia perdido as contas de quantas vezes carregou-a para sua residência em tais circunstâncias, depois da mesma escapar para afundar-se em existências sintéticas.
Subitamente, sentiu o perfume de baunilha abraçar seu olfato pela segunda vez naquela noite. Seu peito pulsou rudemente.
apoiou os cotovelos na madeira branca, do lado do homem e de costas para a baderna na piscina. Mascava despreocupada um chiclete de canela.
— Está me seguindo? — perguntou, ácida.
— Seu irmão anda preocupado. — declarou, irritado, puxando mais fumaça.
— É? E você veio o quê? Me levar a força de novo? Ou vai ligar pra ele vir aqui fazer escândalo? — riu irônica. — Você realmente é lamentável, . — desprezou.
Sentia despeito em ter seu rival metendo-se em sua vida, ainda mais após o acidente que ela julgava ser sua culpa. Acreditava que suas pretensões de levá-la para casa de volta para seu irmão apenas traduzia um novo jeito de tentar irritá-la e tirar a única diversão de sua nova vida desgraçada.
— Sinto muito te decepcionar, mas eu vim acompanhando Lucy. De nada tenho a ver com você essa noite. — deu de ombros e percebeu, pelo canto do olho, que virara o rosto para ele na mesma hora. Tomou um gole de sua bebida e riu de leve. — Sabe, você deveria ser menos arrogante, garota. — tragou a fumaça com uma calma calculada e encarou-a com a sobrancelha levantada.
Então, percebeu que fitava curiosa o cigarro artesanal em sua boca. Estranhou o olhar fixo da moça e passou a analisar a feição dela. Estendeu automaticamente o fumo de seus lábios para a mesma.
despertou de um devaneio herege e apenas virou a cabeça, sentindo-se inibida por um momento. Suas bochechas fumegaram de vergonha e culpa.
Um silêncio duro instalou-se entre os dois.
O cabelo de balançava afoito pelo vento, como uma bandeira empunhada em um cais da Marinha. A brisa úmida do verão londrino densificava o ar e diluía a fumaça, latejando o perfume doce da garota na respiração de . Olhou-a de súbito, sentindo a tênue cócega do cabelo dela intrometer-se em sua pele, chamando-o para observá-la. Uma tristeza riscou seu peito.
perguntava-se o que passava exatamente na cabeça dela, tão perdida e diferente, com seu olhar tão vazio, em uma ressaca eterna de traumas e acontecimentos hediondos. O que será que ela pensava antes de dormir, ou ao acordar, e contemplar todos os dias não ter mais sua mãe e nem seu pai perto de si? Era completamente compreensível sua postura desesperada de embrenhar-se em festas lotadas de pessoas desconhecidas, procurando por companhias intensas de uma noite, vivendo pela próxima experiência carregada de entorpecentes, esperando por um preenchimento em sua alma mergulhada em um buraco de nostalgias que nunca mais se repetiriam.
Ali, a observando com minúcia, compreendera por que fazia o que fazia, por que ela se autodestruía tanto. Sua vida anterior fora arrancada de suas mãos e permanecia em um hiato sem previsão de volta. O vácuo de saudade que sua família despedaçada fazia em seu peito havia a destruído, havia a feito procurar por todos os tipos de vivências que fossem capazes de anestesiá-la até que a dor de seu sofrimento fosse suportável e afundasse em seu interior, tornando sua vida minimamente suportável.
— Tem alguma coisa na minha cara? — perguntou, hostil, sentindo-se estranhamente acalorada.
— O quê? — despertou-se, percebendo sua atitude esdrúxula. Acendeu o cigarro apagado novamente e baforou o fumo.
— Por que estava me encarando?
revirou os olhos e bufou.
— Vai embora comigo na boa?
— Eu tenho certeza de que você já sabe a resposta.
— Porra, garota! — mirou-a fulo, verbalizando a frustração de lidar com sua teimosia naquelas circunstâncias. — Você não tem noção onde está se metendo. — aproximou o seu rosto do dela e falou baixo, enrouquecendo o tom de voz. — A gente só está tentando te proteg…
— Há! — a risada de pingava a escárnio. — A gente! — seu olhar miserável pesou toneladas para . analisava copiosamente a expressão próxima de alarme do homem. — Proteger… — riu sem humor e pendeu sua cabeça para trás; queria ver os poucos pontos brilhantes que havia no céu urbano.
Sentia falta de velejar com sua mãe e ver o céu pintado com as sardas acesas. Fez uma bola de chiclete e estourou nervosa com os dentes. Seus olhos marejaram por um instante.
O tom dolorido na voz de absorvia totalmente a atenção de , que a fitava sugando os mínimos segredos de seus movimentos faciais. Seu maxilar travou e seus dentes cravaram no cigarro, irritado. Desistiu de convencê-la naquele momento, não pretendia ser tão hostil com ela naquela noite.
, então, percebeu um rapaz loiro com o rosto rosado e feição sacana aproximar-se de ambos. Ele usava roupas largas de algum time de esporte da faculdade e andava curvado, intimidando a todos de cima a baixo. Parou ao lado de e contornou-lhe o pescoço com o braço. riu seco pela postura possessiva do imbecil.
— E aí, gata, sumiu lá de dentro por quê? A gente tava num papo tão gostoso… — riu sacana contra o pescoço de . — Te dei até duas balinhas.
— Agora não, Bruce. — tirou o braço do rapaz, sentindo-se tensa pela menção da droga na frente de . O mesmo apenas revirou os olhos; já imaginava.
— Ué, o que foi, ? Vai dar pra trás logo agora? — questionou, remexendo-se, e abaixou o tom de voz. — Ou será que você quer dar por trás pra mim? — insinuou o porcalhão.
olhou-o na hora, entrou em um breve choque e irritou-se no segundo seguinte. gargalhou; achou comicamente trágico o tipo de pessoa ordinária que aproximara-se. Olhou de soslaio o rapaz, analisou porte físico e altura. Já previa a reação da moça e o que aconteceria.
— O que foi que disse? — permaneceu imóvel com o olhar fuzilante fixo na íris dilatada do rapaz. O mesmo pôs-se de frente para ela, numa perfeita personificação de um suíno. Nariz vermelho, queimado pelo sol, risada redonda e desafinada, postura emporcalhada.
Antes mesmo do patife responder, pôs suas mãos no ombro do rapaz e acertou-lhe uma joelhada nas bolas. Bruce urrou de dor como se estivesse num abate. Não satisfeita, aproveitou o envergamento de sua coluna e acertou-lhe um soco na mandíbula, nocauteando-o.
assistiu a toda cena com um meio sorriso quase orgulhoso, soltando calmamente a fumaça picante pelo nariz. Observou tirar irritada o cabelo do rosto, e ela o olhou ofegante no segundo seguinte.
Então, veladamente, ambos se encaminharam cúmplices para fora da sacada, atravessando a lateral do jardim até a área frontal da casa na velocidade proporcional de uma fuga.
Chegando no Ford Landau preto de , mudou sua direção e partiu apressada pela calçada, abraçando o próprio corpo frio. Sentia uma descarga de adrenalina forte delineando seu organismo, potencializado com o ecstasy que tomara. Precisava caminhar e gastar a energia sintética.
Além do mais, não havia a menor chance de ir para casa naquele estado, completamente alterada, e encarar seu irmão exausto. Suas pupilas estavam do tamanho de uma lua cheia e sua pele queimava com o mínimo estímulo. O ar fresco da noite seria um bom abraço naquela hora. Precisava ser.
olhou cansado para a pequena figura encolhida, mas não se frustrou. Sabia que se a obrigasse ou discutisse para ela entrar em seu carro, só a afastaria mais. O importante era ela sair daquele ambiente festivo nojento. Entrou no carro e deu partida, acompanhando-a devagar.
pegou o celular e enviou uma mensagem a Lucy, desculpando-se por sair de repente da festa. “Foi uma emergência”, justificou. Não mentiu, mas não se estendeu. Prometeu a si mesmo que terminaria tudo no dia seguinte, não era justo iludi-la daquela forma. Lucy era uma boa pessoa. Mudou de contato e enviou uma mensagem a Mauro, avisando que havia achado depois de dois dias sem a mesma dar notícias.
Quando completaram cinco minutos de percurso, entre olhares hostis e monossilabismos ácidos, avistou uma sombra alta em sua frente, escorada em uma árvore. Seu instinto gritou perigo, fazendo-a apertar o pingente de rosa de seu colar, seu objeto conforto. Olhou para o carro.
— Entra. — proferiu sem olhá-la, sua voz firme e autoritária a fez agir em automático. sentou e bateu a porta quieta. O choque do couro gelado e liso do banco embaixo de suas coxas fizeram-na respirar fundo o cheiro quente e familiar de , que lhe invadiu como uma estaca. Fechou os olhos e mordeu os lábios com força.
— Você tem que parar de ser tão orgulhosa, garota. — a voz grave dele a acordou do devaneio herege.
— Você tem que parar de se meter na minha vida, verme. — cruzou os braços como uma menina emburrada. a olhou divertido, rindo de sua postura imatura de represália.
— Ouch! Tá melhorando no timing de me responder, hein. — falou em deboche, enquanto sua raiva fazia-o pisar no acelerador, como se pudesse fugir daquela situação se acelerasse o carro com afinco.
— Vai se foder, .
— Olha, eu já estou tão ferrado que não acho que um pouco mais faça diferença, sabe? — murmurou, tamborilando os dedos nervosos no volante, com o olhar fincado na estrada.
calou-se, sentiu a acidez do efeito da droga no estômago arrebatar-lhe os sentidos como veneno, torcendo-lhe a feição. Lembrou miseravelmente do tanto de porcaria que ingeriu nos últimos meses, e de quando seu corpo poderia simplesmente desligar-se por autodefesa. Em seu interior, mergulhou em uma euforia paranoica. Tentou respirar fundo com a boca, remexeu-se no banco, gemeu agoniada por estar na própria pele, tão sensível. Sua perna balançava sem parar.
Taquicardia, sudorese excessiva, tontura, pânico…
— O que você usou? — perguntou de repente, ao notar a agitação de .
— Ecstasy e álcool…
— Porra… — prendeu uma repreensão maior. Abriu o porta-luvas do carro e tirou uma garrafa de dentro. — Tem água aqui. Abre a janela pra sentir o vento no rosto e não enjoar muito, não esquece de respirar fundo. Qualquer coisa tem chiclete aqui perto da marcha. — indicou com a mão, olhando-a brevemente. O rosto de retorcia em agonia.
— Eu… É melhor não… Não quero ir para casa…
— Relaxa, não vou te levar agora. Mauro deve estar acordado. — falou tranquilamente, como se explicasse o caminho para a sorveteria mais perto. Olhava a estrada, atento, à medida que acelerava mais o carro. — Ele não merece te ver assim. Já eu… — interrompeu-se, sentindo-se repugnante por pensar daquele jeito. Ajeitou-se incomodado no banco.
encolheu-se acanhada e encarou a paisagem noturna que corria na janela, atendo-se a observar os borrões luminosos de Londres. Deixou-se levar pelo vento fresco que bagunçava seu cabelo e embaralhava seus pensamentos.
Então, com uma nova onda de adrenalina descarregando em seus nervos, sentiu sua cabeça caindo como um peso morto para o lado e suas pálpebras fechando-se contra sua vontade. Com um desmaio repentino, sua consciência desvaneceu e seu coração acelerou.

Fim do flashback

****


’S POV
Andar -2, Ambulatório, 2 p.m.

— Mauro, eu estou bem, não foi nada demais, te prometo — insisti para meu irmão do outro lado da linha, esmagando o fio do telefone e imaginando suas mãos no lugar. Ansiosa era um estado de espírito o qual eu não poderia me dar o luxo de ficar, e meu irmão estava dando-me aquilo de bandeja com poucas palavras.
Já mediram sua pressão? Ou são os batimentos? Não faço ideia! — o tom dramático na sua voz me fazia revirar os olhos praticamente a cada instante.
Era compreensível a reação dele, mas Mauro era um alarmista por natureza. Eu já estava bem, com certeza não precisava lidar com um chilique de meu irmão por algo que já havia passado.
— Está vendo? Não é nem você que sofre de arritmia cardíaca e está prestes a ter um ataque do coração. — respondi devagar, cansada de me explicar naquela conversa.
, eu estou preocupado que algo mais sério te aconteça! — respirei fundo com uma mão repousada na testa.
— Eu entendo, mano, mas foi apenas um susto, já me medicaram e…
Passe para Emily, você vai insistir que está bem e eu nunca saberei realmente se você…
— Mauro, pare com isso! Eu acho que já estou com idade suficiente para…
, “pare com isso” digo eu! Você tem noção da sua irresponsabilidade de…
— O quê? Ok, chega! — vociferei aborrecida, pondo finalmente o telefone do ambulatório no gancho.
Bufei, frustrada. Olhei para os dois rostos que me vigiavam com uma expectativa ansiosa e dei de ombros, negando com a cabeça. Eles não esperavam que eu seguisse ouvindo meu irmão interrompendo-me a cada frase, não é mesmo? De novo, eu compreendia a preocupação, só não conseguia aceitar muito bem o grande circo que Mauro gostava de fazer por tão pouco. Eu literalmente me sentia uma palhaça.
, deixe eu tirar o aparelho de pressão de seu braço, sim? — Emily falou com cuidado.
— Oh, claro. — balancei a cabeça e estiquei meu braço em sua direção.
— Você entende por que ligamos para seu irmão, não é? Seu desmaio repentino foi preocupante, apesar de termos seu prontuário de históricos aqui. — concordei e suspirei profundamente. — Você está melhor agora? De verdade? — Emily perguntou, calma.
— Sim, estou mais tranquila. — olhei de soslaio para , que permanecia silencioso como uma estátua no canto da sala. Ele encarava-me sério. — E como você disse, desde que eu permaneça assim, eu ficarei bem, não é mesmo? — levantei uma sobrancelha para ele, que semicerrou os olhos para mim, entendendo minha indireta.
Eu conseguia ler, além da culpa quase sempre palpável, um brilho de apreensão involuntária instalado no olhar de . Com toda certeza seu arrependimento, fruto do final desastroso do nosso expediente, tentava dialogar comigo por meio de sua íris transgressora. Sua postura estava tensa, e a respiração levemente acelerada chamava minha atenção para o que parecia ser uma ansiedade para agir, como se ele estivesse impaciente e precisasse falar algo.
— Ótimo, que bom. Eu volto logo, está bem? Pegarei um frasco de Digoxina para você.
— Ah, claro. — sorri fraco para ela e senti leve um desespero ao ver Emily levantar-se.
Assim que ela apanhou meu prontuário da mesa e adentrou o outro cômodo, meus dedos preencheram o silêncio constrangedor instalado no ambulatório, tamborilando devagar onde as folhas antes estavam. Ficar sozinha com , vítima de seu olhar fixo, apitava um sinal de perigo dentro de mim, como se algo predatório estivesse à espreita pronto para me dar o bote.
— Vai continuar me encarando como um maníaco por muito mais tempo? — perguntei, rindo nervosa.
— Talvez eu esteja olhando para um ponto atrás de você. — respondeu rápido, apertando os braços entrelaçados um no outro.
— Você é um péssimo mentiroso. — falei, numa tentativa de desprezá-lo, porém sentindo apenas um grande ódio por mim ao arder por dentro quando ouvi sua voz grossa tão seriamente irônica direcionada a mim.
— Que gracinha que você é. — sorriu cínico e passou a andar pela sala, de um lado para o outro. — Você está bem mesmo? — perguntou exasperado, passando a mão pela barba, que começava a cobrir sua face.
De súbito, levantei-me da cadeira e dei-lhe as costas, passando o olhar em uma fotografia grande antiga de um dia agitado de trabalho em volta de um navio aportado da Marinha. Sentia meu rosto queimar e minha orelha esquentar de vergonha, enquanto meus braços permaneciam gelados. Abracei-me em reflexo.
— Eu estou… ótima — respondi baixo, suspirando profundamente meu descontentamento àquela pergunta.
— Você é uma péssima mentirosa. — murmurou severo, devolvendo minha frase. Revirei os olhos com sua pretensão em afirmar que estava mentindo, porém não desejava contradizê-lo.
Estava tão absorta em sentimentos aflitivos que o simples ato de respirar sufocava uma bola de ar em minha garganta.
Ouvi os passos de cessarem atrás de mim e um suspiro áspero escapar de sua garganta.
— Esqueceu seus remédios em casa, ! — esbravejou. — Você tem noção da seriedade da situação? O que isso poderia acarretar?
Respirei fundo e fechei os olhos por um instante, até me acalmar. Não poderia deixar que ele alterasse meu espírito, não naquele momento. Continuei a olhar os marujos na figura em sépia detalhadamente.
— Foi um erro honesto, . — passei a língua pelos lábios, que estavam secos por nervosismo. — Pode ocorrer com qualquer um. Infelizmente, foi comigo e durante uma missão. Vamos deixar isso para trás. — falei firme, mas sentindo um enorme desconforto instalar-se em meu peito.
— Eu não consigo simplesmente ignorar o pavor que foi ver você inconsciente na cabine, . E por um descuido tão tolo de sua parte. — suas palavras duras fizeram-me fechar os olhos novamente como se houvesse levado um tapa no rosto.
A verdade era que eu sentia vergonha. E por isso estava desconfortável e não desejava ter aquela conversa tão… visceral, sobretudo por ser do outro lado.
Eu sentia vergonha da minha condição, de ter desenvolvido uma doença tão jovem por comportamentos tão autodestrutivos. Sentia medo porque isso me acompanharia até meu último dia de vida e provavelmente, com o uso contínuo de remédios, eu teria consequências graves ao meu organismo.
E, por isso, sentia vergonha da que já fui, daquela jovem tola e descontrolada que não conseguia lidar com a própria vida, com a própria realidade, e usava de qualquer artifício para entorpecer-se e esquecer da desgraça que enfrentava. Sentia uma espécie de fracasso, de humilhação por tudo o que me fiz passar, e por principalmente ter tido , o ser que eu mais ressentia e que era em parte culpado pelo sofrimento que eu passava, tão presente em meus momentos mais sórdidos e complicados. De ser ele ali quem me cobrava responsabilidade novamente, de ter sido ele quem estava nas festas levando-me de volta para casa, de ter sido ele sempre que estava envolvido em tudo que me causava dor.
Vergonha por ter desmaiado no meio da cabine, no final do expediente, e ter sido acudida, de novo, por . Sempre ele, sendo o causador dos meus sentimentos sórdidos, porém tirando-me do buraco que eventualmente eu caía por causa deles. E isso me cansava de todas as formas possíveis.
Virei-me devagar para , que permanecia com a postura inundada de imparcialidade.
— E o que você quer que eu faça com todo esse sermão, ? — dei dois passos em sua direção, abraçada a mim mesma.
— Eu quero que você tenha mais responsabilidade com você mesmo aqui dentro, que leve as coisas mais a sério. Já bastava o dia do embebedamento na proa do navio com . Assim que reparasse que não havia trazido seu remédio, deveria ter procurado o ambulatório do navio. — falou entredentes, com o cenho franzido.
Respirei fundo e tentei manter o tom de minha voz baixo, pelo conteúdo do que iria falar para ele.
— Você não entende, não é mesmo?
Ele cruzou os braços, bufando sério.
— O que eu não entendo, ?
Soltei um riso fraco, cansado, e continuei:
— O quanto isso aqui — abanei para o vão entre nós — tem me estressado ao ponto de simplesmente ter me esquecido de tudo em relação a mim. Caramba… Eu esqueci a porcaria da roupa na hora do banho no primeiro dia e fui assediada! — minha voz elevou o tom e eu parei. descruzou os braços e sua expressão aliviou na impassibilidade. — Quer que eu fale o quanto estou estressada? O quanto que, em poucos dias de missão, já aconteceram tantas coisas comigo que eu posso rechear um álbum só meu de fofocas para a minha família? Do quanto estou envergonhada, sentindo-me suja por ouvir meu nome na boca de tanta gente que não conheço, atolada em pensamentos ruins 24 horas por dia, ou será que você quer ouvir do quanto eu estava sendo consumida por uma ansiedade repulsiva a cada dia que o início dessa missão se aproximava? — mordi os lábios por um momento, enquanto afrouxava sua postura. — Quer ouvir o quanto eu finalmente alcancei um cargo respeitado, contudo foi justamente na sua tripulação, e, por isso, meus pensamentos estavam afundados em angústia, pois eu não conseguia desviar minha atenção do fato de que eu teria que enfrentar a convivência com você, e talvez por isso eu tenha esquecido meu remédio de suma importância para a minha saúde, que eu tomo todos os dias há anos? — aproximei-me dele, ficando a centímetros de seu corpo, e baixei o tom de voz, — Talvez você queira ouvir eu confessando que estou simplesmente fora dos eixos, sem cabeça, pirando em estresse por ter que trabalhar com você, a pessoa que eu mais odeio no mundo? — desabafei por último, pausadamente.
Voltei a ficar de costas para ele, afundando as mãos em meus cabelos ao sentir meus olhos arderem, e caminhei para perto da figura antiga dos marujos.
Era horrível a ideia de que eu não conseguia me controlar perto de , a sensação que ele me dava de perder a calma, de ser ele o pertencedor de todos os meus impulsos e sentimentos irremediáveis. Na minha vida, era evidente onde eu sofria e o que me fazia sorrir. Com , era sempre uma névoa fria e densa, que não me deixava ver com claridade o meu limite entre a razão e a ação, em que eu simplesmente vomitava o que vinha em minha cabeça e agia sem pensar.
Sentia-me um desastre como pessoa, principalmente depois de ouvi-lo:
— Nessa missão, nós iremos tratar de coisas bem mais estressantes que a nossa convivência ou até mesmo os seus últimos dias. Temos muitas responsabilidades pela frente. Eu me pergunto se posso manter você trabalhando na tripulação com essa ocorrência. — ele falou, com uma voz gutural e séria que conseguiu atravessar minha coluna ao ponto de arrepiar minha pele.
O olhei por cima dos ombros, sem compreender de primeira suas palavras cortantes, e virei-me. Passei a observar a feição de , que havia mudado completamente. Seu rosto já não apresentava linhas de indignação encravadas. Seu maxilar estava fortemente fechado e seu olhar brilhava diferente, fixo em me analisar com uma minúcia dolorida.
Um pressentimento ruim me acometeu.

Desastre.

, não, nem pense nisso. Eu…
— E seu estado de saúde parece-me frágil. Teremos que ficar atentos para os próximos dias, se você ficará estável ou… — deixou a frase no ar, latejando um silêncio desconfortável até mim.
— O quê? , isso é um absurdo, eu fui medicada e tudo voltará ao normal comigo! Se isso realmente fosse um empecilho, não seria você quem decidiria sobre. — disse, com um certo desespero.
— Não é somente sobre isso, . É sobre o quanto você pode aguentar de estresse, como você agirá em situações de perigo. — seu tom era pensativo, e aquilo acendeu uma nova aflição dentro de mim.
Cruzei meus braços na frente do peito e alinhei minha coluna, tentando passar um certo controle, pois minha respiração passou a ficar descompassada.
— Eu nem mesmo seria recrutada para as Forças Armadas caso não fosse capaz de aguentar. Você sabe disso. — tentei falar em um tom firme, que saiu levemente exaltado, e senti uma pontada errônea em meu coração. Pus uma mão em meu peito na hora. Meus olhos arregalaram pela dor aguda e engoli em seco automaticamente. Sentindo-me zonza, apoiei minha mão esquerda na mesa ao meu lado. Minha respiração ofegou e um gemido de angústia escapou pelos meus lábios.
, percebendo minha situação, aproximou-se depressa de mim, pondo suas mãos na lateral do meu corpo.
? — disparou, alarmado. Nossos olhares se encontraram e as respirações mesclaram-se quentes pela proximidade. — O que você está sentindo? — pegou no meu pulso livre e envolveu a outra mão no meu braço, apertando o local com força, tentando manter-me no lugar, já que minhas pernas pareciam ter se transformado em gelatina. — ? Fala comigo. — seu perfume se embreou em mim, assim como seus dedos cálidos esquentaram minha pele.
— Não é… nada. — tentei afastar-me dele o empurrando pelo peito, porém uma vertigem escureceu minha visão, e eu precisei agarrar a primeira coisa que estava ao meu alcance, que infelizmente, foi o braço robusto de , que baixou para pousar a mão em minha cintura, agarrando-a firme.
? — sua voz firme tornou-se um som distante e seu calor encurtou o vão entre nossos corpos, tornando minha respiração mais entrecortada. A situação toda apenas piorava meus batimentos.

Mais desastre.

— Eu… tô bem, é só eu ficar calma. — e longe de você, pensei sozinha, com os olhos apertados.
— Eu não vou te largar. — disse, decidido.
Então, ouvi uma tosse feminina.
Virei meu rosto em direção ao som, porém a vertigem piorou e fez com que eu apertasse o braço de novamente, o que o fez envolver um de seus braços ao redor de mim com força.
? — ouvi em uníssono e senti dedos delicados pousarem no meu ombro, assim como um gelado estetoscópio em meu peito.
— Eu preciso sentar. — meu coração bateu irregularmente e minha respiração descompassada fez brotar um suor fino na minha testa.
me guiou até uma cadeira e me livrou de seus braços. Finalmente.
— A medicação ainda fará efeito. Você precisa permanecer calma. E eu ouvi vozes alteradas do outro cômodo e gostaria que isso não se repetisse. — Emily falou com a voz dura. Ouvi concordar baixo. — Agora, algumas recomendações, está bem? — uma imagem mais nítida de Emily começava a aparecer para mim. — Será bom que ouvirá, pois ele precisa corroborar, ok, Comandante? Certo. Repouso absoluto seria a opção ideal, mas estamos com falta de Tenentes no seu cargo. Então, o melhor será você ficar de repouso amanhã de manhã para trabalhar no período vespertino. De acordo?
— Tudo bem por mim. — falei com a voz falha, esfregando meu peito.
— Ótimo. — disse.
— Quanto a exercícios físicos, você está estritamente proibida de praticá-los nos dois próximos dias, ok? — concordei com a cabeça, sentindo uma leve vertigem com acréscimo de enjoo, e Emily continuou com sua listagem.

****


A par de todas as recomendações e com o outro médico do navio irrompendo o ambulatório com um marujo com o nariz sangrando, peguei meu mais novo frasco de remédio e comecei a arrastar-me pelo corredor para ir até meu quarto e descansar um pouco.
Quando estava pronta para fechar a porta do local e uma mão enorme interveio, revirei os olhos automaticamente.
, você não vai atrás de mim. — declarei, já dando as costas para ele e caminhando relativamente devagar. O pior de tudo era conseguir sentir sua enorme figura atrás de mim e perto demais.
Ouvi uma risada serena sua romper o silêncio e bufei automaticamente. Seu lado engraçadinho estava de volta então.
— Tenente , quem é o Comandante aqui nessa missão?
— O quê?
— Não conheço esse tal de “O quê”.
, não seja idiota.
— Como eu disse mais cedo, Tenente, é Comandante para você. Portanto, quem dá os comandos aqui sou eu, então, sim, eu te acompanharei até seu quarto. — declarou, enquanto dois marujos aleatórios batiam continência para ele ao passarem por mim.
Só podia ser brincadeira com a minha cara.
— Eu estou bem, ok? Pode deixar que eu me cuido daqui. — abanei uma mão no ar e continuei meu caminho. — Obrigada por… me trazer até o ambulatório. — fiz uma careta involuntária ao lembrar que acordei naquele mesmo corredor sendo carregada por e por minha pele estar infestada com seu cheiro. Era como ser intoxicada lentamente por ele.

Eu precisava urgentemente de um banho longo.

— De nada, .
Abanei o ar mais uma vez e continuei minha caminhada, estranhando o quão fácil havia sido. Sem uma grande discussão, sem muita insistência, pouca chatice… Olhei desconfiada para trás e vi que continuava a seguir-me.
Quando parei para olhá-lo, ele continuou seu caminho e aproximou-se de mim, fazendo com que cada centímetro da minha pele se eriçasse ao mesmo tempo quando nossa distância se tornou curta como a palma de uma mão. Parado bem na minha frente, cruzou os braços e continuou a fitar-me sério.
— Por acaso você não tem trabalho a ser feito, não? — perguntei um tanto alarmada, ainda massageando meu peito, que pulsava erroneamente.
— Você faz parte do meu trabalho, Tenente. — ergueu as sobrancelhas em uma expressão de obviedade. — Como eu já lhe disse, o bem-estar da minha tripulação faz parte do ofício. — descruzou um dos braços, aproximou a mão da minha que massageava meu peito e agarrou meu pulso. — E você não está bem. — falou rouco, massageando a área de pulsação com seu dedão.
Compenetrada em seu olhar sério, eu apenas consegui sentir minha respiração tornar-se entrecortada de novo pelo contato de seus dedos firmes e quentes em minha pele relativamente fria. Só podia ser efeito da arritmia cardíaca.
Então, ouvi uma voz divina.
, preciso falar com você. — Emily falou atrás dele. — está bem, não é mesmo?
— Nova em folha. — respondi alto, ainda encarando .
Então, ele baixou o rosto de leve até o meu e disse com a voz grave por resignação:
— Passarei no seu quarto mais tarde para ter certeza de que você está bem mesmo. — soltou devagar meu pulso e continuou a me olhar até dar as costas por completo.
— Não precisa! — falei em vão. — Merda…
Respirando fundo e sentindo meus batimentos tremidos contra meus dedos, que carregavam um pedaço do cheiro dele, eu tentava pensar de forma lógica que a arritmia tinha parcela de culpa no modo errôneo de como meu corpo inteiro estava reagindo a desde a noite na piscina.

’S POV

— Fico preocupado com o atraso da investigação. — confessei, bebendo o restante do café amargo que Emily havia me servido.
— Conseguirei começar assim que as terapias psiquiátricas iniciarem. Não tem como ser antes, . — Emily falou, negando com a cabeça ao passar o dedo em algo que lia em sua planilha.
— Preciso que você me entregue a lista de nomes ainda hoje, e quero que essa semana as terapias já iniciem, Emily. Se anunciarmos em reunião amanhã de manhã, você consegue esquematizar tudo para essa quarta-feira, não?
Ela sacudia a cabeça em negação. Não lhe era possível, pelo visto.
, eu sou uma só. Ainda não consegui encaixar horários para todos os marujos que estamos de olho. Eu conseguirei, talvez, convocar todos até sexta.
— Porra… — bufei, mordendo nervoso a tampa de uma caneta. — Quer saber? Eu te ajudo. No período da noite, depois de todos os turnos, pode ser? — ergui as sobrancelhas para ela.
— Nossa… Isso seria ótimo, ! Adiantaria tudo a tempo, sim. — concordou atônita, fazendo seus cachos pularem, e passou a escrever algo em sua agenda preta. — Perfeito. Obrigada. — sorriu.
— Tudo bem. A partir de amanhã, ok? — ela concordou. — E você sabe que não vai ser fácil chamar , né? Ela vai se esquivar o quanto puder, vamos precisar insistir com ela.
Pensei na briga de poucos minutos atrás e da minha ira sobre o pouco caso que ela fazia de seu esquecimento do remédio. Se soubesse a preocupação que tive ao vê-la caída no chão da cabine, se soubesse o desespero que contorceu em meu peito ao sentir que ela estava em mais um de seus ataques de arritmia, nenhuma palavra de raiva sairia de sua boca. Quem sabe ela apenas olharia em meus olhos em choque por entender minha dor de vê-la daquela forma e sairia correndo por não querer enxergar o que ocorria dentro de mim ao sentir sua saúde tão frágil e não ser eu a pessoa com o poder de fazer algo para melhorá-la.
não tinha noção alguma do que acontecia dentro de mim quando sua respiração cruzava a minha.
— Sim, mas já tenho minhas estratégias. — Emily bebericou o café. — Mauro me ligou antes da missão para elucidar alguns pontos e… O que foi, que cara é essa?
— Oh, nada… — mordi os lábios em um sorriso.
— O quê? Não posso falar com Mauro agora? — cruzou os braços e encostou-se emburrada na cadeira.
— Pode, claro… — dei de ombros e soltei uma risada.
!
— O que foi?!
— Nós tratamos de assuntos sérios apenas e… pare de me olhar assim! — bateu no meu ombro com um rolo de folhas.
— Eu não estaria olhando “assim” para você se você não estivesse se explicando por ter falado com Mauro sem eu nem ao menos ter perguntado nada!
— Oras! Eu sou psiquiatra, sei ler muito bem na expressão das pessoas a malícia entranhada!
— Eu? Malicioso? Assim você me ofende!
— Sabe, dá para entender por que se irrita tanto com você.
— Mas eu não fiz nada!
— Dissimulado!
Fiz uma careta falsa de afetado e gargalhei com a expressão nervosa que surgiu em Emily. Era difícil desconcertá-la. Mas, com o assunto “Mauro”, era meio caminho andado.
— Enfim! — falou, bufando. — Como eu estava dizendo, Mauro avisou-me em uma conversa extremamente formal e profissional alguns pontos interessantes de como abordar esse assunto de fazer terapia obrigatória aqui no navio com . Eu sei que terá relutância por parte dela, porém a minha primeira abordagem será nesta reunião. Portanto, não terá como ela contestar, ainda mais com você por perto. — Emily concluiu.
Concordei com a cabeça e mordi mais uma vez a tampa de uma caneta, lembrando-me da última vez desastrosa que Mauro tentara fazer com que fizesse alguma terapia psiquiátrica.

POV’S OFF
Flashback, 5 anos atrás, clínica psiquiátrica, complexo hospitalar.

Naquela gélida tarde de inverno londrino, embrenhada por caminhos humanos, a neblina leitosa embaçava a visão daqueles que se atreviam a sair de casa. A cidade possuía uma falsa camada de serenidade emprestada pelos borrões úmidos de luzes, que conferiam à paisagem urbana uma característica de pintura recém-feita. Tudo e todos moviam-se com uma lentidão temerosa pela fina garoa que molhava as calçadas e deslizava os sapatos com mais facilidade.
O silêncio britânico estava mais nítido que nunca, a natureza uivava em seu espectro. Os galhos secos brigavam entre si, as poças d’água eram pisoteadas pelas crianças, os ventos atravessavam os corpos alheios com veemência.
Em um consultório térreo, prestando atenção a cada som trazido pelos ventos vespertinos, estava o apático e entediado psiquiatra Martino, sentado em sua poltrona extremamente macia de veludo. Ele encontrava-se parado há quase uma hora, com apenas sua perna pendida balançando para cima e para baixo, acompanhando o ritmo de batuque que seus dedos faziam com a caneta tinteiro no prontuário de sua paciente.
Porém, na igual vastidão de silêncio estacionário que a consulta se encontrava, Martino movia as engrenagens de seu raciocínio depressa. Logo no início da sessão, compreendeu o que a jovem na sua frente pretendia. As décadas de experiência na profissão naquele hospital o deixaram afiadíssimo para ler seus pacientes.
Infelizmente para todos, Martino odiava dividir-se entre seu consultório muito bem planejado e aquele complexo hospitalar. Achava-se brilhante demais para trabalhar ali. Além disso, sua vida pessoal o deixara mais letárgico que o normal, quando sua sogra idosa teve de mudar-se para sua casa naquela semana. Era médico, mas não possuía vocação alguma para cuidar de quem necessitava. Portanto, naquela gélida tarde de inverno, Martino decidiu que só queria lidar com os casos mais brandos possíveis que o hospital o designou. Sem mais grandes dramas para ele.
Sua paciente, apesar de sentir um leve gosto de sangue na boca de tanto morder os lábios, pressentia que havia vencido aquela batalha de quase uma hora. O que começara um mês atrás, uma vez por semana, encerraria-se ali, finalmente. Nunca mais precisaria pisar naquele consultório etéreo demais ou até mesmo olhar para a careca muito lustrosa de Martino. Era quase nítido, tanto quanto o cheiro desagradável do perfume do médico, que estava liberta. Ela conseguia ler nos olhos apáticos dele.
Pondo um fim na estagnação, Martino balbuciou a primeira palavra da consulta, escreveu algo rápido em sua prancheta, levantou-se da poltrona suntuosa e deu um aperto fraco na mão da ex-paciente, dando um comando para que a mesma chamasse seu irmão para os esclarecimentos finais. Meras formalidades.
Ao partir do consultório com uma euforia contida no peito por conseguir o que queria, caminhou um pouco pelo estacionamento. Porém, logo diminuiu os passos ao pescar as duas figuras altas e embaçadas que reconhecera, apesar da neblina. Em um gesto automático de autopreservação, como se pudesse esconder-se assim, respirou fundo e prendeu o oxigênio em seus pulmões. Sentiu o ar gelado entrando e arrepiando seu organismo por inteiro.
Seria um arrepio de frio ou de medo que atravessou seu pequeno corpo?
Olhou com heresia para as folhas em suas mãos e engoliu em seco. Quase virou-se para voltar ao consultório e implorar para Martino mudar a nova orientação prescrita, mas tal ímpeto se dissipou no ar assim que uma buzina aguda soou atrás de si. saiu do caminho e retomou os passos até alcançar seu irmão.
Já era tarde. Não podia apagar o que estava feito.
Olhou para seu all star branco encardido e falou, relutante:
— Ãhn, mano, doutor Martino quer falar com você…
— Comigo? — Mauro franziu as sobrancelhas e soltou a fumaça de Malboro pelas narinas. — Tudo bem… — apagou a brasa na sola do sapato e pôs a bituca no bolso da jaqueta. — Volto logo. — deu um beijo na testa da irmã e foi.
Enquanto encarava o amigo afastar-se, apoiou-se em seu carro e tragou mais da fumaça picante para seus pulmões, abrindo um meio sorriso convencido por saber do que se tratava a conversa que Martino teria com Mauro.
— Conseguiu a dispensa, é?
— Não é da sua conta. — murmurou, olhando receosa para as costas do irmão. Suas mãos apertaram com mais força as folhas da dispensa contra seu peito, como se pudesse segurar seu segredo assim.
— Mas é claro que é. Quem você acha que vai ouvir as lamúrias de Mauro depois? — perguntou, brincando com sua case metálica de cigarrilhas entre seus dedos.
Ainda sem olhá-lo, esticou a mão em direção a , que prontamente respondeu entregando-a um de seus cigarros artesanais.
— Tem fogo? — perguntou, observando a moça encostando no capô de seu carro ao seu lado, atônita.
— Uhum. — tirou do bolso um zippo antigo de seu avô. — Será que ele vai ficar muito puto?
— Você ainda pergunta…
— Merda… — acendeu a cigarrilha, quase queimando os papéis e seus cabelos com suas mãos trêmulas. — O que você está fazendo aqui, aliás? — soltou casualmente a pergunta junto com a fumaça.
— Vim trazer meu pai, vai precisar ficar internado uma noite em observação. — soou sério e tossiu, incomodado, ao bater as cinzas.
— O que houve? — franziu as sobrancelhas e virou, curiosa, o rosto para ele. acompanhou seu gesto e passeou os olhos por toda a feição da garota, procurando algum resquício de sarcasmo, que não encontrou. Observou no lábio inferior da moça uma pequena fissura avermelhada.
— O de sempre. — deu de ombros, voltando seus olhos semicerrados nos dela. Não queria prolongar-se no assunto, mas o contato visual foi mantido por mais tempo que o necessário.
— Espero que ele melhore logo, os quartos daqui são frios demais à noite. — voltou rapidamente o rosto para a porta do consultório, sentindo suas bochechas queimarem, e começou a roer a unha, com o cigarro entre os dedos.
— Valeu. — continuou encarando curioso o perfil da moça, delineando em seu olhar cada detalhe de expressão que ela denotava. — O que você…
De repente, um alto barulho de porta chamou a atenção de de volta para frente, deixando-o alerta.
— Meus parabéns, , meus sinceros parabéns! Você conseguiu de novo! Continue assim! — Mauro esbravejou, irônico, batendo palmas, marchando em direção à irmã. Sua feição era dura como uma pedra. — Você é tão previsível, sabia?! Cacete! Por que eu ainda me surpreendo?
— Será que dá para parar de gritar? — falou, encurtando a distância até o irmão, com suas palmas das mãos fazendo movimentos repetitivos na tentativa de apaziguar a irritação do mais velho. — Tem gente olhando já!
— Você acha que eu me importo? Que olhem! , você precisa fazer acompanhamento psiquiátrico, caralho! — Mauro continuou aos berros.
— Eu não quero e não preciso. Eu já estou bem, ok? Eu estou limpa há um mês! — quase murmurou, em mais uma tentativa de fazer a raiva e o volume do irmão diminuírem.
Mauro riu desafinado e começou a caminhar de um lado para o outro, balançando a cabeça em negação, com as duas mãos passando frenéticas na cabeça raspada, como se o ajudassem a traçar um plano de ação. apenas conseguia abraçar-se, com os olhos marejados de vergonha.
— Meu Deus… Você está limpa porque quase morreu, porra! Não entende isso? — Mauro pegou com força nos braços da irmã. — Você teve uma overdose mês passado e quase morreu, caralho! Overdose! E vem dizer que não precisa se tratar com um psiquiatra? — a soltou e colocou uma mão na cintura. Direcionou um olhar desesperado, quase psicótico, para , e apontou para a irmã. — Eu vou interná-la num hospital psiquiátrico! Só assim para ela acordar para a seriedade da situação!
— O quê?!
— Como é que é?!
Ao redor do trio, pessoas passavam, cochichavam e encaravam a cena com um semblante curioso. reparava nos olhares maliciosos com um aperto no peito, apequenando-se cada vez mais em seu autoabraço, odiando a atenção que chamavam. Apesar de, por toda a sua vida, estar acostumada a ser um tipo de atração do “circo de horrores”, como apelidava as fofocas sobre sua família, ter desconhecidos ouvindo que precisava ser internada e que sofrera uma overdose fazia a musculatura de suas pernas se contraírem, tão grande que era a sua vontade de sair correndo dali. Sentia-se exposta aos olhares alheios como se a neblina não existisse para embaçar e esconder sua figura.
precipitou-se fulo até o amigo e declarou, com a voz firme:
— Mauro, se continuar assim, eu que vou te internar. Será que dá pra se acalmar um pouco? — andou frenético até Mauro. — Você está me irritando com toda essa gritaria desnecessária. Pare com essa babaquice de internação e acalma o traseiro, porra. Pare de berrar, respira fundo, fuma um cigarro, sei lá.
abraçou o amigo pelo pescoço e o levou para alguns passos adiante de seu carro, perto da porta do consultório, longe de .
— Eu não sei mais o que fazer pra ajudar a minha irmã, cara. Sabe como foram as sessões? Em completo silêncio! — declarou, desesperado.
Mauro acreditava na sobriedade da irmã, lembrava-se nitidamente do medo estampado na íris da moça quando a mesma acordou no hospital após a overdose. A fez prometer, diante da mãe inerte de ambos, que não usaria mais nada. Porém, embora acreditasse em cada movimento e palavra dela, também sabia que a mesma precisava de acompanhamento, que uma recaída era mais comum que se manter saudável, que ela podia ser forte, mas que também carecia de habilidade de pedir ajuda.
— Porra, ela ficou calada por uma hora, isso não é bom sinal, e o médico ainda...
— Por que você não faz terapia também, Mauro?
— O quê?
— É, ué, não é a única que precisa. Disso eu entendo bem, você sabe. Você também sofre com isso, além de ter seus problemas, suas próprias questões para resolver. Por que não faz também? Ah, espera. Estamos tão perto, vamos lá marcar uma consulta para você. — pegou na jaqueta do amigo e começou a arrastá-lo até a porta do centro clínico.
— Espera, cara, tá maluco? — Mauro soltou-se bruscamente e ajeitou as lapelas da jaqueta, olhando com estranheza para .
— Maluco? Talvez. Quem é normal nesse mundo, não é mesmo? Acredito até que seja preciso ser meio doido para conseguir viver minimamente bem aqui. Vem, vamos marcar uma consulta para você. — voltou a puxar Mauro.
, deixa disso! Que porra você está fazendo?
— O mesmo que você está fazendo com a sua irmã! — murmurou, fulo, aproximando o rosto do de Mauro. — Quer dar um “respiro” para ela um pouco?
, você melhor do que ninguém sabe do quanto precisa se tratar e…
— E você acha que ter uma overdose deve ser fácil por acaso, porra? Lembra como a achamos? — balançou a cabeça para espantar as memórias. — Por que não começa a conversar mais com ela, hein? Qual foi a última vez que você realmente parou o seu dia e conversou com a sua irmã? Porra… Eu e ela nos odiamos e eu acho que falamos mais nesse último mês que você com ela o ano passado todo! Sabe, você está fugindo, exatamente como meu pai fez.
Mauro sentiu dor em suas têmporas quando seus olhos ameaçaram umedecer e desviou de vergonha do olhar dolorido e repreensivo do amigo, recebendo a mão pesada dele no ombro. baixou o tom de voz e continuou:
— Por que não tenta entender qual o motivo que a leva a negar um tratamento que só traria benefícios para ela, hein? Mauro, ela não é burra. Ela só é um ser humano que está passando por muita coisa agora e precisa sentir que tem o irmão por perto e que pode contar com esse bunda mole de novo. E não com um completo estranho numa sala que deve feder a clorofórmio e ylang-ylang.
Mauro abriu um meio sorriso triste, balançou a cabeça em afirmação e sentiu um peso de culpa em seu peito palpitar por ter exagerado de novo ao reagir daquela forma com sua irmã. Refletindo sobre o que o amigo lhe disse, pegou um cigarro do bolso, o acendeu e olhou com uma desconfiança divertida para .
— Tem certeza de que a odeia? — murmurou, a fumaça escapava-lhe pela boca.
— O quê? Óbvio. — falou desafinado, endireitando a coluna. — Por quê? Tá com ciúme? Eu sou todo seu, gostosão. — desviou do assunto desconfortável, abraçando o pescoço do amigo.
— Sai fora, sua safada. — Mauro virou-se para voltar a caminhar para perto da irmã e sentiu uma gotícula de chuva cair em seu nariz.
Dez segundos depois, já estava dentro de seu carro com a caminho da confeitaria favorita dela. O percurso seria longo e de muita conversa, assim como os inúmeros cappuccinos que ele tomaria e os vários expressos com bolachas amanteigadas que a moça consumiria. Havia muito papo para os irmãos colocarem em dia.
voltou ao complexo hospitalar para buscar seu pai na consulta e levá-lo para visitar uma amiga de longa data, que estava internada há pouco mais de um ano em coma. Entre segredos sórdidos de família e fofocas que circulavam pela Marinha, aquele era um fato que ele nunca acreditara. Precisou ter seu pai corroborando a história, depois de anos de negação, para que algumas peças do tabuleiro se encaixassem em sua mente e alguns outros mitos se tornassem realidade. Realidade esta que nem mesmo seu melhor amigo sabia; seu pai não era maldoso por preferir deixar alguns segredos por baixo dos panos ainda, apenas acreditava que uma coisa revelada poderia deixar precedentes para outras muitas inverdades serem levadas como fatos. E não podia discordar de tal argumento. Certos segredos eram melhores permanecendo secretos.


Capítulo 8 – High Tension

AVISO DE GATILHO: Este capítulo contém uso de drogas ilícitas. Se você se sensibiliza com a temática, leia com cuidado.

POV'S OFF
Andar -9, 6h38 p.m.

escutava a cada palavra da conversa com uma calma preterida, apertando o ferro fundido das grades da escada com uma força descomunal e exagerada para alguém que não precisava de apoio algum para manter-se em pé. Suas narinas estavam infladas, seu peito subia e descia com veemência e seu maxilar estava a ponto de trincar, tamanho era o esforço que o homem fazia para manter a boca fechada.
Esse era o acordo. Sempre ouvir as ligações em silêncio; seu chantagista não gostava de ser interrompido durante suas exigências infames, e precisava prestar atenção a cada palavra se quisesse manter os segredos de seu pai a salvo. Além de fazer exatamente o que era exigido, contas em paraísos fiscais eram endereçadas através de mensagem de texto para serem recheadas com enormes quantias de dinheiro de imediatamente. E essa era apenas uma pequena parcela da ruína que ele vivia há anos, após ter seu destino cruzado com aqueles que tinham controle sobre praticamente todas as suas ações.
Quem diria que salvar uma mulher em um beco escuro de três homens mudaria todo o rumo de sua vida?
Assim que os novos comandos de seu chantagista terminaram, sentiu-se tonto, enjoado, pronto para botar o jantar para fora. Balbuciou um “entendido”, deslizou o telefone pré-pago pelo rosto, que suava frio, e finalizou a ligação. Lembrou-se de sete anos atrás, quando quase morreu ao passar por uma de suas provações, e balançou a cabeça para espantar tais memórias inoportunas. Não precisava daquilo naquele momento.
Suas mãos tremeram quando ele alcançou a carteira de cigarro, e seus dedos falharam duas vezes ao riscar a pedra do isqueiro para levantar a chama. Precisava evitar o nervosismo extremo para digerir todas as novas informações se quisesse que tudo saísse conforme o decretado.
Tragou a fumaça, prendeu e a expirou. A nicotina baixou sua pressão, arrepiou sua pele e lhe inebriou a mente. soltou um pequeno riso, virou-se com calma e desceu as escadas do último andar do navio pausadamente, ecoando no lugar sórdido o barulho metálico de sua chegada tenebrosa para o retirante que ali ficava. Olhou rapidamente seu relógio de pulso e viu que já estava atrasado para a reunião que teria com seu amigo e colega de trabalho, então calculou que mais dez minutos não seriam um grande problema. Necessitava daquele escape.
Ao chegar perto da cela e perceber a postura do encarcerado acovardando-se e encolhendo em sua própria figura, sorriu satisfeito. Olhou para trás, apanhou uma cadeira metálica enferrujada e a arrastou a passos lentos até a frente da cela, onde sentou-se em um cruzar de pernas. Apalpou seu bolso da camisa, pegou outro cigarro, jogou a bituca ainda acesa em Daniel e acendeu o novo, fumando-o em uma vagarosidade calculada. Então, falou:
— Sabe, rapaz, eu e você não somos tão diferentes assim. — sua voz estava enrouquecida, os olhos acompanhavam o rastro azulado que a fumaça fazia no ar plácido. — Pelos últimos dias, você tem sido… Como eu posso dizer… Movido pelo medo, não é mesmo? Já que você teme a mim e tem se comportado por isso. — ponderou, umedecendo os lábios rapidamente ao levar o cigarro à boca. — Em uma situação comparável com essa que você está pela qual eu passei, falaram-me algo interessante em relação a esse sentimento, que eu nunca mais esqueci. Sobre o quanto o medo tem um papel interessante em nossas vidas. Claro, depois enfiaram minha cabeça em um balde cheio d’água até eu quase sufocar, porém… detalhes. — abanou a mão no ar em profundo desinteresse, puxou mais fumaça até sentir o peito arder e continuou, calmo. — Se eu me lembro bem, a mensagem principal era sobre como ousamos permitir que o medo nos motive. Como ousamos deixar que ele faça parte de nossas decisões mais importantes de vida, das nossas carreiras e até dos nossos relacionamentos. — inclinou a cabeça para o lado, rindo da postura amedrontada de Daniel, e piscou devagar. — Até mesmo mudamos de princípios em questão de segundos por medo. — puxou longamente a fumaça e continuou. — Chega a ser engraçado, se pararmos para pensar. Nós tiramos um dia do ano desde criança para nos fantasiarmos e celebrarmos o medo, pedindo doces e ameaçando sermos travessos caso não nos obedeçam. — falou, esticando o canto dos lábios em um sorriso desgraçado.
Então, olhou com calma para brasa do cigarro e fincou-o vagarosamente no próprio antebraço, sentindo a dor lacerante espetar o fundo de seu estômago. A descarga de adrenalina delineou todo seu sistema nervoso, devolvendo a ele uma crueldade da qual ele havia perdido com a ligação de seu chantagista. Assim que tirou a bituca apagada da pele, jogou-a em Daniel, que olhava a cena aterrorizado demais para se mover.
— É aí que mora a nossa única semelhança e, ao mesmo tempo, maior diferença. — murmurou, enojado, observando o medo explícito do rapaz, que se mantinha agachado no canto da cela. — Eu vivo sob ameaças constantes que me fazem obedecer ordens de uma pessoa da qual eu desprezo a existência. Porém… Eu não sinto medo algum dele, não por mim. — seu brilho no olhar tornou-se opaco e sua voz, um eco morto. — E sabe de uma coisa? Eu estou cansado de viver assim, como uma casca vazia, como uma maldita marionete. Sem criar laços, precisando afastar todos de mim para mantê-los minimamente seguros. — ergueu os olhos úmidos para o teto e respirou fundo o ar úmido do porão do navio. — Mas esse é o problema do meu querido e… poderoso chantagista. Ele me subestima. Subestima a minha vontade de mudar a minha própria vida e essa realidade toda que ele criou. Ele subestima o quanto eu o odeio e tudo o que eu faria para acabar com ele. O negócio é que só o que eu precisava para modificar isso tudo era de uma pequena… faísca. — lentamente, ergueu-se e tirou o molho de chaves do bolso, mantendo seus olhos fixos em Daniel. — Lembra-se da mulher que você assediou? A Tenente ? — estalou a língua nos dentes e riu. — Ela acendeu alguma coisa dentro de mim, entende? Algo que estava apagado há muito tempo. Algo que eu julgava até mesmo estar morto. E, por ela, eu não quero mais viver sendo controlado como um brinquedo. — falou, balançando a cabeça em negação, e continuou: — E o que você fez com ela me deixou muito… — o homem passava chave por chave, com uma calma cruel que fazia o coração de Daniel pular. — Muito… — achou a chave e sorriu. — Muito puto. E eu preciso ter a certeza de que você vai pagar pelo o que fez, nem que eu tenha que acabar com você todos os dias. — dito isso, a cela foi aberta e a adentrou.
— Por favor, não… — Daniel suplicou, escondendo o rosto entre os joelhos em um gesto de proteção. Suas costas, fortemente grudadas nas grades, doíam, tamanho era o medo que o fazia ir para trás cada vez que os passos de tornavam-se mais próximos dele.

’S POV
Andar -2, vestiário, 7h03 p.m.

Respirei fundo e passei o sabonete pela pele úmida de meus braços, sentindo a fragrância doce da baunilha embalar meus sentidos em nostalgia, visto que aquele era meu cheiro desde que eu me conhecia por gente. Infelizmente, do jeito que eu estava afundada em desalento, logo divaguei e fui longe a um local nocivo de memórias dolorosas onde eu evitava a todo custo adentrar, porém, nos últimos dias, os letreiros de entrada estavam mais acesos que nunca.
Fechei os olhos, sentindo a água fria do chuveiro bater no meu rosto, e lembrei-me do céu poucas semanas depois de minha mãe sofrer o atentado e do quanto ele parecia-me mais opaco que o normal, ainda mais quando eu fugia e ia até o píer perto de nossa casa. Tentava encontrar algum alento nas estrelas, que já não pareciam tão admiráveis e brilhantes quanto quando eu as observava na companhia de minha mãe.
Naquela mesma onda, a vida ao meu redor havia perdido os tons de cor primária, e as nuances do meu desejo de viver esmaeciam a cada dia em que eu acordava e percebia que o que eu vivia era um pesadelo lúcido. E, por mais contraditório que isso soe, minha mãe ter sobrevivido ao acidente, porém ter permanecido em coma com sequelas graves, deixava meu coração partido a cada vez que eu a visitava no hospital.
Era sufocante vê-la deitada, inerte, sem reagir a nenhum tipo de estímulo à sua volta. Quase como estar em seu funeral e assistir ao seu corpo ser velado toda vez que eu a via. Eu entrava em pânico ao tocar em sua mão gelada e não receber carinho algum, ou um sorriso acalentador seu em resposta. Minha mãe sempre fora uma pessoa quente, com o coração enorme que envolvia todos ao seu redor com apenas um olhar; era simplesmente errado ter aquela imagem adoecida sua à minha frente.
Por esse motivo, toda vez que eu a visitava com meu irmão, em meu peito era como se brotasse uma turbulência violenta em meio ao um céu já nebuloso. Crises fortíssimas de ansiedade me acometiam. Não havia nada que me acalmasse, nada que me tirasse do estado repressivo de choro que eu entrava.
Então, eu simplesmente parei de visitá-la, com muita vergonha e pesar no meu coração. A menor ideia de voltar ao hospital e vê-la com inúmeros fios saindo de seu corpo para mantê-la viva causava-me pavor. Apesar de seu quadro ser estável e de racionalmente eu saber disso, o ambiente hospitalar tinha um ar de morte para mim. Entre todos aqueles andares, a atmosfera de enfermidade com cheiro de óbito me envolvia, e, em dado momento, eu não consegui mais lidar com isso.
Meu irmão, como sempre, não aprovou meu arbítrio. Ele não compreendia o quanto eu sofria naquele ambiente adoentado e me acusava de ser uma filha negligente e uma irmã ingrata, de não segurar as pontas junto com ele. Eu não tirava sua razão de sentir-se assim, afinal, todas as responsabilidades da família de repente recaíram sobre seus ombros; ele estava sobrecarregado. Porém, eu não admitia que ele fosse injusto comigo também. Nós brigávamos incessantemente em torno da minha ausência nas visitas, e a harmonia já fraquejada em casa simplesmente deixou de existir.
Tudo ao meu redor parecia desmoronar, peça por peça, como um dominó derrubando o outro. E a culpa sempre apontava na mesma direção que minhas gerações passadas apontaram. Era como uma maldita bússola indicando o caminho para a desgraça de nossa família, e dessa vez com um novo capítulo para renovar a tragédia em nossa história, uma tradição catastrófica recomeçando.
Eu sentia a cólera me consumindo, a impotência relembrando-me todos os dias o pouco controle que eu possuía sobre o meu próprio destino. Tinha a culpa e a vergonha de não visitar mais minha mãe resvalando em mim todos os dias assim que ouvia meu irmão pegar as chaves do carro para ir até lá e a ira de alguém que precisava achar um responsável para a tragédia que havia acometido a família. Afinal, por causa de , nunca achamos o verdadeiro culpado. E, por essas e outras, eu precisava fugir da minha própria realidade, de mim mesma.
Então, casualmente, eu passei a frequentar um pub de universitários, perto da minha faculdade, na qual eu cursava Relações Internacionais, onde encontrava com pessoas aleatórias e com um alívio momentâneo chamado álcool. A velha máxima de companhias erradas na hora errada aconteceu em pouco tempo; em duas semanas, eu já saía com pessoas de caráter duvidoso, experimentando substâncias que faziam muito mais que apenas anestesiar-me da minha ansiedade e esquecer quem eu era de fato. Era um frenesi sem fim.
Obviamente, meu comportamento transformou-se em algo problemático e minhas atitudes tornaram-se hostis, tendo em vista a pessoa que eu era antes. Isso abalou principalmente meu futuro na Marinha, como eu nunca achei que atingiria, pois sempre julguei ter uma certa imunidade nas Forças Navais pela minha família ser influente e antiga no meio e pelo meu histórico perfeito.
Eu sempre tinha sido a filha disciplinada, a prodígio, a que dava o melhor exemplo em casa. Por isso, foi uma surpresa quando fui convidada a pedir licença pelas perturbações que meu comportamento problemático causava dentro e fora da repartição. Isso foi humilhante para mim. A Marinha sempre foi tudo para minha família e, por consequência, para mim. Eu cresci sonhando em ser uma maruja. Foi frustrante ver minha carreira precisar ser interrompida daquela forma.
De primeira, eu entrei em um estado opressivo de tristeza. Não saía mais da minha cama nem para me alimentar ou para tomar meus deliciosos e sagrados banhos. Depois, deixei finalmente a ira me consumir e me afundei ainda mais na lama de infortúnios que eu criava ao meu redor. Eu me coloquei em limites perigosos, os quais atravessava sem nem ao menos olhar para os lados, sem ponderar se sobreviveria para ver o sol nascer mais uma vez. Eu não ligava para mais nada. Afinal, eu havia perdido tudo o que um dia já importara para mim, tudo e todos que eu amava estavam, de certo modo, indo embora; minha vida desmoronava mais a cada dia, e, daquela vez, por culpa minha.
Eu, mais do que ninguém, sabia o quanto o Destino podia ser impetuoso e o quanto ele se deleitava em jogar com nossas vidas como se tudo não passasse de uma simples partida de xadrez. Afinal, para ele, éramos meras pecinhas naquele enorme tabuleiro, em que, a cada movimento, sentíamos as consequências com a nossa carne e divertíamos quem estava acima de nós.
Na semana em que se fez um ano do atentado de minha mãe, eu senti, mais do que nunca, que precisava desviar do meu destino, de mim mesma. Meu estado emocional estava em frangalhos. Na época, eu já havia desenvolvido arritmia cardíaca e, por mais estranho que possa soar, tomava religiosamente o remédio necessário todos os dias. Porém, naquela semana, eu havia ligado o foda-se e simplesmente tinha ”esquecido” daquele meu compromisso com minha saúde. Minha mãe estava hospitalizada há um ano por um acidente trágico, eu não queria cuidar de mim. Soava ridículo na minha cabeça esse tipo de zelo.
Então, veio o momento da minha overdose.
Foi no dia exato em que se completava um ano que vi minha mãe pela primeira vez no hospital em coma. Desde cedo naquele dia, eu havia decidido me entorpecer com qualquer coisa que possuía em casa. Desde os destilados do meu irmão até as drogas que eu tinha no meu quarto, para à noite ir em uma festa qualquer e terminar com mais substâncias dentro do meu organismo.
Eu já era acostumada com uma certa quantidade de entorpecentes, então eu podia usar uma alta dosagem de drogas com álcool que não teria um efeito tão grande quanto em alguém que as usava casualmente apenas. Porém, naquele dia em especial, eu havia comprado um opióide que nunca havia utilizado, além de ter ganhado de presente de um carinha que ficava uma seringa de heroína.
Meu corpo inteiro estava anestesiado, meus membros estavam moles, e minha mente não focava em nada realmente; lembrava-me de precisar andar pelo meu quarto apoiada pelas paredes e móveis enquanto tentava me arrumar para sair com a lentidão de uma tartaruga. Daquela forma, eu não sentia aflição ou sofrimento algum. Nada me acometia. Daquele jeito, eu conseguia ser eu, viver a minha realidade, pensar no que havia passado no último ano e não cair no fundo do poço.
No entanto, foi quando a noite caiu que tudo piorou. No auge da minha loucura, ouvi no andar de baixo meu irmão chegar com em nossa casa. Meu coração terminou de se partir, e a parte agressiva do álcool subiu em minha cabeça. Eu senti como um afronto de ambos, um desrespeito, principalmente de meu irmão, estar lá, bem naquela data. Ele era o responsável, o marinheiro cujas ações erradas escalonaram o atentado para algo bem pior do que realmente poderia ser. Se ele tivesse agido de forma correta, o atendimento médico teria chegado mais rápido para socorrer minha mãe, e ela poderia não estar naquela situação. Além do mais, teríamos um culpado para julgar e prender. era o homem daquela família que criara tantas situações lastimosas em tantos passados bem mais distantes que o nosso, e que meu irmão continuava amigo. Foi como receber um soco no estômago.
Minha dor acumulada de anos me empurrou com tudo para que eu terminasse de tomar tudo que eu possuía escondido em meu quarto. Não havia outro escape a não ser usar tudo de ilícito de uma vez para não sentir o turbilhão de sentimentos ruins que acometiam minha vida; eu precisava daquele sossego químico por mais algumas horas. A raiva dentro de mim borbulhava o sangue que corria nas minhas veias, esquentando minha pele.
Depois de alguns minutos, mais entorpecida do que já estive em toda a minha vida e completamente anestesiada pela seringa de heroína, eu tentava terminar de arrumar meus cabelos em um reflexo borrado meu no espelho. Até que minha respiração começou a tornar-se pesada e todo o esforço que eu fazia para inspirar mais oxigênio para meus pulmões parecia não fazer efeito. Era como ter alguém tapando minhas narinas. Em seguida, uma dor lacerante na ponta do estômago me atingiu e minha coluna envergou em reflexo, fazendo-me cair de joelhos no carpete do quarto. Na hora, eu compreendia o que estava acontecendo comigo, mas não queria admitir. O exagero de minhas ações finalmente estavam apresentando as consequências.
Jogada no chão do meu quarto, sozinha, pensando na minha mãe e em tudo que circundava minha vida, eu perdia minhas forças a cada segundo, com minha respiração se esvaindo sem minha permissão e minha vida sumindo por entre meus poros, que suavam frios. Eu me lembrava nitidamente de sentir lágrimas quentes de arrependimento riscarem a lateral do meu rosto.
Então, fiz a última coisa que consegui antes de minhas forças se esgotarem por completo: alcancei meu celular, que estava no bolso traseiro de minha calça, e liguei para meu irmão. Ele sabia que eu estava em casa, então não faria sentido ligar para ele. Não sei quanto tempo ao certo passou-se, mas pude ouvir ao longe um barulho alto de batidas na porta, junto com as vozes de Mauro e de chamando-me.
Então, eu me deixei ir.
Minha memória seguinte foi acordar no hospital, dois dias depois daquele pesadelo. Eu estava fraca e aterrorizada. Na minha mente, eu só conseguia pensar que nunca mais usaria nada na minha vida novamente. Assim que meu irmão percebeu que eu havia acordado, ele chorou desesperado e me fez prometer que nos tornaríamos uma família mais uma vez, que iríamos nos unir e venceríamos aquilo juntos daquela vez.
Com o fim de toda aquela dificuldade que eu impus para a minha vida, vieram minhas crises de abstinência. E, mesmo com a promessa a Mauro de largar aquela vida limítrofe, eu neguei ajuda profissional na época. Eu ainda sentia muita vergonha por ter passado por tudo aquilo, sentia-me fraca por ter sucumbido àquele escape, rancorosa pelo acidente e com muita solidão no meu dia a dia. Eu olhava em volta e não queria ajuda de um psiquiatra, apenas queria minha mãe de volta.
Eu queria escapar do meu próprio corpo, daquela agonia de querer usar qualquer coisa para entorpecer-me, mas mesmo assim preferi passar por aquela fase de privação sozinha. Era quase como uma questão de honra conseguir reerguer-me; eu nunca tinha sido muito boa em aceitar ajuda.
Não foi fácil, eu precisei ser mais forte do que em qualquer situação da minha vida. Eu redescobri da pior forma possível que era uma pessoa extremamente ansiosa. Minha vida virou um pandemônio na época. As madrugadas eram em claro com meu irmão ao meu lado cuidando de mim, aguentando meus ataques de pânico junto com as crises fortíssimas de abstinência, nas quais meu corpo tremia por inteiro enquanto suava frio e eu vomitava até não aguentar mais. Nosso único alívio vinha quando minha exaustão física chegava finalmente e me nocauteava de jeito.

Agora, naquele momento, desgastando o sabonete pela milésima vez pelo meu corpo, eu compreendia o quanto estava ansiosa como antigamente. Compreendia por que estava metida em um banho completamente desconfortável, onde eu mal conseguia permanecer quieta, sentindo a água fria cair em meus ombros como agulhas, tentando penetrar à força, com um banho glacial, uma sensação qualquer em meus músculos tesos.
Infelizmente, a tensão que preenchia meus sentidos era forte demais, e eu apenas conseguia concentrar-me ainda mais no fato de que estava aflita e que não poderia me exercitar por mais vinte e três horas e trinta e sete minutos para aliviar isso. E devo apontar para o fato de que fazer uma contagem regressiva não ajudava como eu havia pensado que ajudaria.
Eu sabia que precisava movimentar-me urgentemente ou gritaria de nervoso, por isso não aguentei e perguntei logo, em alto tom:
— Emily, tem certeza de que são dois dias inteiros sem exercícios físicos? Porque, assim, andar nesse navio enorme já é um esforço e tanto, então penso que já posso…
, não me faça repetir pela milésima vez a resposta dessa pergunta! É tão difícil assim ficar sossegada? — perguntou aos berros, tendo em vista o barulho alto do chuveiro ligado.
— Não, é só que… — pensei um pouco, com vergonha de falar que sim, era difícil para mim ficar parada. — Eu gosto de manter uma rotina. Só isso. — respondi relutante e mergulhei no chuveiro, retirando os resquícios de condicionador do cabelo.
— Oh… Claro. — falou em tom irônico. — Tem certeza de que não é porque você está tensa e precisa se exercitar para liberar isso?
Abri um sorriso involuntário por sua resposta. Em poucos dias de convivência, eu não poderia afirmar tantas coisas sobre Emily quanto ela poderia de mim pelo seu jeito totalmente astuto, porém a sincronicidade de nossas personalidades, que permitia a existência daquela harmonia absurda em nossa relação, era algo perfeitamente mágico para mim. A presença de Emily havia trazido uma amizade natural e aprazível, ainda mais por ela ser o oposto de mim em inúmeras qualidades do seu caráter. Ela transmitia uma facilidade incrível em ser positiva, e isso era algo que eu admirava com todo o meu ser.
Havia apenas uma nova tensão dentro de mim com a ideia de que essa pessoa que eu finalmente havia sentido confiança para começar a abrir-me também seria a mesma que iria analisar-me em sessões obrigatórias de terapia e, talvez, dependendo do que eu falasse, escreveria um relatório detalhando alguma inconformidade sobre mim para nossos superiores. Era, no mínimo, frustrante e intimidador.
Finalmente ter uma amiga confiável, porém ser obrigada a fazer terapia com ela. Isso não poderia se enquadrar como conflito de interesses?
Eu conseguia montar milimetricamente inúmeros cenários desastrosos na minha cabeça para algo de ruim no meu futuro na Marinha ocorrer, como no passado, mas, ao mesmo tempo, uma pequena parte minha, chamada “Lado Racional”, lembrava-me algumas poucas vezes que eu não tinha mais com o que me preocupar, que eu havia superado as adversidades do passado e agora eu era apenas uma excelente Tenente exercendo o meu cargo com maestria.
— Vem cá, você vai acabar com a água do navio assim. — os cachos cor de fogo de Emily apareceram em cima do meu box.
— Merda, Emily! Eu tô pelada, dá licença! — falei, tentando tampar meu corpo com minhas mãos, inutilmente.
— Ah, qual é, eu sou médica. — deu uma piscadinha esperta. — E você já está no banho há um bom tempo.
— Eu só estava tentando relaxar, ok? Pronto. Desliguei, viu? — passei a mão pelos meus cabelos e amassei-os, retirando o excesso de água.
— Ótimo, boa garota. — seus cachos sumiram do meu campo de visão.
— Oh, não. Não me chame assim. — falei, levemente enraivecida. — me chama assim. — disse o nome dele em um tom colérico.
Ouvi uma gargalhada de Emily e puxei minha toalha, bufando.
— Awn, vocês têm até apelidinhos. Que fofos. — sua voz estava mais distante.
— Emily, vai se ferrar. — berrei.
— O que foi? Você acha que eu não percebo a tensão sexual que emana de vocês dois?
— Que nojo, de onde você tirou isso?
— De todas as vezes que vocês interagem praticamente.
— Eu vou fingir que você não está falando uma asneira dessa.
— Você pode mentir à vontade para você mesma, mas eu sou ótima em ler os outros. Sabe, amor e ódio andam lado a lado…
— Emily…— falei, cansada.
— Não está mais aqui quem falou! — sua voz se aproximou novamente e sua mão apareceu em cima do meu box.
Então, ficamos um tempo em silêncio, apenas com o som das gotas dos chuveiros caindo no piso molhado ecoando pelo cômodo. Eu não estava pensando em enquanto secava meu corpo, de modo algum.
— Aliás, como foi o trabalho vespertino hoje? — ela perguntou.
— Oh, foi muito bom. Bem melhor, inclusive. — sorri sozinha ao lembrar que não precisei lidar com os olhares intensos e fixos de em minha figura, e muito menos com meus arrepios de… nojo que isso desencadeava em mim, e fiquei agradecida por aquele dia de trabalho. Infelizmente, minha felicidade duraria pouco, e, no dia seguinte, já precisaria voltar a dividir a cabine com mais uma vez.
Então, enquanto amassava o cabelo na toalha, lembrei-me de um evento que ocorreu na tarde de trabalho, que me deixou desconcertada na hora.
— Mas sabe… Durante o expediente, aconteceu algo estranho.
— Como assim?
e Beth. Lembra-se dela? Uma hora eles discutiram. — falei, saindo do box com a toalha enrolada no corpo.
— Lembro sim. Que tenso, uma briga no expediente entre um superior e uma subordinada. — Emily arregalou os olhos enquanto penteava os cabelos com um pente garfo. — E foi sobre o quê? O que ela fez?
— Então, esse é o ponto que quero chegar. Eu não tenho a mínima ideia do que eles falaram porque a discussão foi toda em francês.
— Como é que é?— Emily perguntou pausadamente, parando seus movimentos devagar — Como assim? — sussurrou.
— Você sabia que Beth era francesa ou falava francês? — levantei uma sobrancelha, curiosa.
— Bem, ela comentou que vinha de lá sim, mas… Que bizarro. — sua expressão brilhava em um misto de choque e fascínio. — , conta mais, como foi?
— Então, o mais estranho é que a briga aparentou ser meio íntima, sabe? Como se eles se conhecessem muito bem. Afinal, como ambos sabem que o outro fala esse idioma, entende? E eu não sei se foi algo relacionado a trabalho, pois se fosse, por que falariam em francês?
— Não faço a mínima ideia, . — espremeu os olhos, deixando sua expressão pensativa.
Nos olhamos por um tempo pelo espelho até ela falar novamente:
— Espera, Andrew trabalha no período vespertino também, não é mesmo? — perguntou esperta, levantando a sobrancelha.
— Sim. Por quê?
, ele fala cinco línguas, uma delas é francês. Por acaso ele estava na cabine quando…
— Estava. — mordi os lábios e sorri ao mesmo tempo que Emily. — Meu lado curioso está gritando, Emily.
— O meu também, . — ela falou e virou-se para mim. — Foi uma discussão acalorada? — gesticulou, passando a mão pela nuca.
— Foi… constrangedora. Do tipo que os dois olharam em volta em certo ponto porque todos os marujos os encararam pela elevação de voz.
— Não creio. — tampou a boca e arregalou os olhos. — Acho que tem algo aí. — disse acusatória, apontando seu dedo no ar.
— Eu tenho praticamente certeza. — falei e mordi os lábios num sorriso. — Ok, Emily, eu tô muito empolgada com tudo isso, mas vou me trocar um instante e já volto. — fiz sinal para ela esperar, e seus cachos úmidos pularam quando ela concordou.
Fui até a área dos armários do vestiário, terminando de secar-me, e peguei o uniforme branco. Enquanto isso, devaneei rapidamente sobre a situação da “discussão acalorada e íntima” ser justamente com o cara por quem eu estava interessada, e meu coração resvalou por um momento.
— Emily. — chamei, hesitante.
— Oi. — berrou.
— Você sabe que estou me envolvendo com , né?
A ouvi concordar e continuei.
— E se e Beth… — interrompi minha fala e ponderei sobre meu raciocínio, sentindo-me ridícula ao quase verbalizar um ciúme fundado em achismos — Ah, não é nada. — concluí, balançando a cabeça.
— O quê? Você acha que pode ter algo entre eles? — sua voz ainda estava distante.
Isso era outra coisa em Emily pela qual eu tinha uma adoração especial; nem sempre eu precisava falar exatamente o que se passava em minha mente para me fazer entender. Ela era o tipo de pessoa que muitas vezes, com um olhar ou uma fala incompleta, você poderia comunicar um pensamento inteiro.
— É que foi uma cena muito estranha, sabe? — falei, voltando para a parte das pias e chuveiros, completamente vestida com a farda branca.
— Logo mais falaremos com Andrew e descobrimos o que foi dito, ok? — Emily piscou um olho e eu apenas concordei, resignada. — Mas, , sua pulga atrás da orelha? Ela tem motivos. Não ache em momento algum que está exagerando em desconfiar de algo. — Emily falou, deixando-me mais apreensiva do que estava antes de lhe falar sobre o ocorrido.
No fundo, eu compreendia o fato de que não possuía direito algum de exigir qualquer coisa de com tão pouco tempo de envolvimento quanto nós tínhamos, e por isso mesmo não o confrontaria sobre nada do gênero em relação a briga bem íntima que ele tivera com Beth.
No entanto, parte do meu interesse em relação a simplesmente asfixiava com a mínima ideia de que ele poderia estar envolvendo-se com outro alguém ao mesmo tempo que eu, ou vice-versa. Era desconfortável a concepção de que me deixei aproximar de um indivíduo que poderia estar com outra pessoa, e ela nem ao menos soubesse. Porém, ao mesmo tempo, eles poderiam ser apenas conhecidos, como eu e éramos. Eles podiam até mesmo se odiar. E toda minha neurose seria, novamente, somente neurose.
Afinal, tranquilidade era um estado de espírito com o qual eu não experimentava há dias, e conversar aquilo com Emily e ela achar tão estranho quanto eu com certeza não me ajudava a pensar com otimismo sobre aquela história toda. Minha vontade era de sair correndo do vestiário à procura do capitão Andrew para perguntá-lo logo do que se tratava aquela briga maldita. Mas eu não iria deixar-me descontrolar até aquele ponto. Poderia sentir meu peito arder de ansiedade, se corroer para saber o que ambos falaram, mas esperaria até ver Andrew casualmente uma próxima vez.

’S POV
Andar 3, escritório do Comandante, 6h50 p.m.

Meu peito subia e descia de forma acelerada enquanto eu mantinha o olhar perdido em um ponto qualquer do cômodo. Agora, sozinho no escritório, eu ponderava cada mínima coisa. Sobre como aquele espaço, que era designado para aqueles que exerciam minha função em missões, era grande demais para apenas uma pessoa trabalhar. Sobre as inúmeras responsabilidades diretas e paralelas que a minha função tinha e o quanto eu precisava manter meus ouvidos e olhos bem abertos a todo momento. E o mais preocupante para mim naquele momento: o quanto as ações de terceiros produziam consequências diretas para mim.
Assim que Andrew apareceu manso na minha porta há uma hora para conversar sobre um assunto delicado que dizia respeito a , um sinal vermelho antigo acendeu dentro de mim. Porém, eu não imaginava que era tão grave o assunto. Ele sempre teve problemas com seus comportamentos impulsivos, talvez por isso nós nos déssemos tão bem. Eu o compreendia e compartilhava do mesmo defeito. Porém, com os anos, eu aprendi a controlar as exaltações da minha personalidade. E, pelo visto, meu querido amigo não.
Por isso, eu esperava a próxima reunião, que seria justamente com , tentando voltar com a minha calma. Precisava de uma estratégia sucinta para chegar ao assunto e resolver da melhor forma possível o empecilho que criara dentro do meu navio. Talvez eu precisasse averiguar certas ocorrências sozinho antes de abordar qualquer coisa com ele diretamente, ou apenas pioraria a situação, e não era isso que eu pretendia.
Enquanto inclinava com força meu pescoço para os lados e estalava minha coluna, passei meus olhos por todo o cômodo silencioso. Ali, todos os elegantes móveis eram de uma madeira escura e envernizada, expressando ao local uma atmosfera séria, como se estivesse em um prédio empresarial e fosse a sala de um importante CEO. E isso, de certa forma, me fazia sentir seguro.
Assim que se entrava no cômodo, à direita, havia um amplo sofá de couro preto encostado na parede, com uma mesa de centro à frente e uma pequena lareira elétrica ao lado leste. À esquerda da sala, um móvel do teto ao chão possuía diversos livros de capa dura e com pequenos adornos marítimos; em uma pequena parte escondida do móvel, garrafas de destilado repousavam envelhecidas. No fundo do cômodo, a ampla janela circundava toda a parede, iluminando bem a minha mesa.
Ali, naquela sala, era onde eu ficava quando o expediente da manhã terminava. Eu configurava os assuntos das próximas reuniões, respondia e-mails, comunicava-me com qualquer parte do navio à distância de um botão, ou até mesmo com alguém de fora dele, quando precisávamos passar por canais internacionais; chamava algum marujo para uma conversa mais séria e assinava documentos extraoficiais.
De repente, ouvi batidas características na porta e levantei o olhar.
— Pode entrar! — falei alto. Levantei da cadeira e apoiei os dois punhos na mesa, inclinando-me sobre ela.
Mon amie. — apareceu na fresta da porta recém-aberta e logo entrou.
, meu salvador. — falei, sorrindo, abrindo os braços e soltando o ar de meus pulmões pesadamente.
— Resolvendo muito pepino? — perguntou relaxado, imitando meu gesto com os braços abertos.
— Ah, coisas relacionadas ao ambulatório, mudanças de horários, penitências… — abanei o ar e estalei meu pescoço mais uma vez, jogando-me em minha poltrona de couro atrás de mim. — Quer saber, por que não alcança um bourbon que tem naquele armário ali? — apontei o móvel alto ao lado esquerdo de , onde os destilados ficavam. — Só abrir essa portinha e puxar o fundo falso… Isso. Boa, garoto.
Eu e entraríamos em reunião, porém seria mais proveitoso se tudo precedesse uma conversa amigável com um destilado. Não havíamos tido tempo de conversar direito desde o início da missão mesmo.
— Você leu a minha mente, eu estou precisando muito de um álcool na veia, mon amie. — encarou a garrafa suntuosa com um sorriso e olhou em volta do cômodo por um instante. — Não tem copos?
— Não, vai ser no gargalo mesmo. Como nos velhos tempos. — sorri para ele.
sentou na minha frente e me passou a bebida. Foi quando percebi pequenas gotas de sangue no colarinho de sua blusa. Trinquei minha mandíbula na hora para não falar nada ainda.
Apenas sorri de volta para ele, abri a garrafa e fiz as honras com o primeiro gole ardente deslizando pela minha garganta.

****


Após trinta sedentos minutos meus e de , nos quais cada um alternava uma frase nostálgica e um gole acompanhado de uma careta etílica, finalmente percebi a inquietação de meu amigo ceder e ouvi a pergunta que ele deveria estar doido para me fazer desde que entrara em meu escritório:
— Cara, … E essa história do divórcio dos pais da ? — pronunciou em um tom mais baixo de voz, como se escolhesse as palavras com cautela.
— O que você ouviu por aí? — questionei, levantando uma sobrancelha. Minha ideia era instigá-lo a contar-me qual era a anedota que ele ouvira pelos cantos do navio antes de contar a “tediosa” história real.
A fofoca sempre se modificava com o tempo e as pessoas.
— Ah, você sabe. — coçou a nuca. — Que a mãe dela e seu pai tiveram um caso, o pai dela descobriu, quase avançou no seu pai em expediente, pirou de ciúmes e…
— … e se mudou para Itália para a casa dos pais porque não aguentou a humilhação de ser largado. Clássica! Essa é uma das mais sem graça, para falar a verdade. — dei um gole no bourbon e passei a garrafa para ele. — odeia essa teoria, eu acho que ela até acredita, no fundo, apesar de ser um absurdo.
— Não é verdade? — riu.
— Claro que não, porra! — joguei um clipes nele. — Meu pai e Abigail nunca tiveram um caso. Eles apenas… Eles tinham essa proximidade por… certos motivos, e o pai de era maluco, doente de ciúme por isso. Ele sempre entrou na onda dessa rivalidade entre as nossas famílias e jurava que meu pai era apaixonado por Abigail. Ficou anos só na especulação, até que um dia quase avançou no meu pai por causa de uma interpretação equivocada de uma cena que viu. — parei para pegar a garrafa e beber um gole, sentindo a raiva deslizar e aquecer minha garganta junto com o bourbon. — O cara humilhou meu pai, referindo-se à doença dele de forma pejorativa, xingou, fez chacota, quase o espancou. Então, Abigail foi sábia e pediu o divórcio daquele imbecil depois disso. O cara se mostrou agressivo, ela ficou com medo disso. Ele apenas colheu o que plantou. — dei de ombros, passando a garrafa. parecia estupefato.
— Que confusão… estranha. — ele falou enquanto olhava para um ponto qualquer de cenho franzido. — E, mesmo assim, todo mundo fofoca mentiras assim? Com tanta perversidade? — concordei, e ele bebeu mais um gole do bourbon. — Como se vocês não fossem ouvir! — ele riu, negando com a cabeça.
— Exatamente. Como se não tivessem testemunhas, inclusive. Isso causa traumas, brigas e problemas reais para nós, que somos da família. É uma zona, ridículo. As pessoas fazem de tudo para ter uma fofoca tola na ponta da língua. A vida deles deve ser muito desinteressante mesmo para manter todo esse calabouço de histórias nojentas. — desabafei, pegando a garrafa e sorvendo mais um gole do líquido âmbar. Passei-a para mais uma vez, que não bebeu de imediato; ele mantinha os dedos no queixo, o esfregando, junto com o cenho franzido.
— Me fale uma coisa, qual foi a história mais absurda que você já ouviu sobre a família de vocês? — apoiou o queixo na mão, olhando-me com os olhos apertados e um interesse genuíno nunca expressado.
Devia confessar que era estranho todo aquele comportamento, e atribuía essa curiosidade repentina tanto ao álcool quanto ao desejo de para com . Com anos de amizade, nunca havia interessado-se em conhecer nossas famílias, nunca nem havia perguntado sobre as questões que circundavam os nossos sobrenomes; ele simplesmente não ligava.
Eu e Mauro achávamos que a vida dele já era um escândalo por si só, que ele já suportara coisas demais por ter um pai político tão importante. possuía um passado tenebroso por conta disso, logo não gostaria de lembrar da própria história, entrelaçando sua vida em mais anedotas trágicas e novelas de famílias que nem mesmo diziam respeito a ele.
Desse modo, naquele momento, eu reconhecia e até mesmo me incomodava do quanto o interesse de por era real e forte, pois ele claramente deixava tudo o que sofrera de lado e interessava-se pela primeira vez em anos de amizade em nossas vidas. Isso me dava um misto de sentimentos confusos e ruins, quase como se eu quisesse esconder tudo sobre e eu para não pertencer a ninguém mais. Como se sentisse ciúmes de tudo que ocorreu conosco. E eu odiava perceber isso. Sentia-me um animal.
— A coisa mais absurda, além de toda essa baboseira que acabei de falar? — olhei-o desconfiado, esperando que ele vacilasse por um momento.
— Sim. — respondeu prontamente, passando-me a garrafa.
— Hm. — pensei um pouco, dando um grande gole nervoso. — Talvez que meu pai seja o pai de Mauro.
Então, vi a boca de abrir vagarosamente e seu rosto adotar uma expressão quase infantil de espanto.
— Espera aí, Mauro e você… — ele apontou para mim, de cenho franzido, então sua boca abriu ainda mais, como se raciocinasse algo — Então quer dizer que… e Mauro não tem o mesmo pai? — ele quase cochichou.
— Você não sabia? — falei descontraído.
— Não! — pôs uma mão na boca, impressionado. Talvez ele estivesse completamente alterado pelo bourbon àquela altura.
— Meu Deus, olhe só para nós, estamos parecendo duas senhoras aposentadas sentadas na calçada fofocando.
— Uou, volte algumas casas. Quem é o pai de Mauro? — passei a garrafa para ele, rindo com seu tom curioso.
— O cara já faleceu. Acredite se quiser, mas se afogou quando Abigail ainda estava gestando Mauro, infelizmente. Por isso o pai de e ele não se dão bem. Como eu falei, o cara é doente, tinha ciúme até do falecido.
— Mas quem era o cara? — deu mais um gole.
— Um brasileiro que foi trabalhar no porto de Ramsgate. — fiz uma pausa para pegar a garrafa, estendendo o corpo na mesa.
— Conta mais, cara.
— Calma, porra. Teve anos de amizade para saber de seus amigos e está exigindo agora saber de tudo? — alfinetei, sentindo as palavras enrolarem na minha boca devido ao álcool.
— Eu… Bem é que…
, relaxa. Estou zoando com você. — bebi um gole. — O cara se chamava Mauro também, por isso nosso amigo tem esse nome diferente. Veio nos anos setenta para a Inglaterra procurando por oportunidade de emprego, e achou nos portos. Conheceu os Royal Marines em um bar, fez amizade com os e logo aproximou-se de Abigail. Mauro fala que a mãe dele afirma que foi amor à primeira vista. Ficaram juntos por quase quatro anos. Foi como um romance de cinema. — fiz um gesto amplo no ar enquanto me observava atento, piscando devagar, como se para não perder um detalhe sequer. — A tragédia ocorreu em uma noite de trabalho, quando ele puxava a âncora de um navio. Não o viram cair no mar agitado. A correnteza o levou, ele se afogou. — bebi um grande gole e senti um pequeno calor em meu estômago. — Nunca encontraram o corpo dele, o cara sumiu no mar. Abigail estava grávida de quatro meses do Mauro. E… foi isso. — murmurei com pesar, visualizando em o choque pelo drama. — Então não. Meu pai não é o mesmo de Mauro, apesar de ele ser como um irmão para mim. E se fosse para eleger, essa é uma das fofocas mais absurdas e nojentas que eu já ouvi sobre nós, pois anula toda a história de amor que Abigail teve com esse cara e inviabiliza toda a vida dele, que morreu tragicamente em um dia de trabalho honesto enquanto a esposa gestava o filho deles. O nosso amigo. Essa suposição, além de tudo, trouxe muita dor de cabeça, culminou até no divórcio dos pais de .
Suspirei pesadamente, e acompanhou o movimento, pegando a garrafa por cima da mesa. Assim que a pegou, levantou-a no ar e, com um gesto emocionado, falou:
— Ao Mauro, pai de Mauro! — brindou e bebeu dois goles de uma vez. — Porra! — fez uma careta e me devolveu o bourbon no final.
— A eles… — terminei a garrafa de uma vez e a repousei não mesa.
— E você sabe tout sobre os , apparemment. — falou enrolado, já misturando francês na frase.
— Bem, nossas famílias sabem tudo uma sobre a outra. — abri um sorriso discreto. — “Mantenha seus amigos próximos, e seus inimigos mais ainda”, ou seja, saiba tudo sobre eles. Apesar de achar que toda essa história de rivalidade vai um pouco longe demais às vezes, eu fui criado nessa crença. Desde pequeno, eu aprendi tudo sobre eles, e tenho certeza de que foi igual do outro lado. — dei de ombros.
— Sabe, é parecido na política, mon amie. Quando sofri um dos sequestros, meu pai jurava que a oposição… — quando tentou levantar-se da cadeira, caiu no chão na mesma hora que ia contar sua história. — Porra!
Levantei-me e contornei a mesa depressa, pegando em seus braços para ajudá-lo. aceitou meu auxílio e levantou cambaleando em seus próprios pés.
— Que tal eu te levar para seu quarto, ?
— Eu aceito, mon amie. — tentou falar sem se enrolar, espremendo os olhos de dor.

****


Por todo caminho até o andar de nosso quarto, soltava frases sobre como gostaria de saber mais sobre a minha família e a de , tropeçava em seus pés e ria sozinho de sua própria condição. Eu senti uma culpa cristã por ter sido a minha ideia de beber o destilado antes da reunião e nem ao menos ter chegado ao assunto delicado que deveria ter tratado com ele.
Afinal, não estávamos mais em bares funestos pelas ruas de Manchester ou Amsterdã para ficar daquele jeito, e eu sabia que meu amigo descontrolava-se com mais facilidade que eu, portanto, deveria tomar mais cuidado da próxima vez. Afinal, eu, como Comandante, nunca estava realmente fora das funções para me alterar daquela forma.
Precisava ficar alerta e, querendo ou não, ainda tinha uma última obrigação que havia me comprometido a fazer àquela noite.

’S POV
Andar -1, cabine 22, 9 p.m.

Sentada na beira da minha cama, apenas com a luz do abajur ligada, eu encarava entediada as minhas unhas do dedo do pé esmaltadas de preto. Eu tentava distrair-me com a ideia se as pintava de vermelho ou se as deixava daquele jeito por mais um tempo. Com meu joelho flexionado, encostado em meu peito, eu conseguia sentir meu coração acelerando vez ou outra quando um pensamento traiçoeiro atravessava minha mente e lembrava-me o porquê de eu estar tão aflita e esforçando-me para encontrar uma distração boba.
Eu simplesmente não conseguia desligar minha mente. Ela estava comprometida com minhas neuroses, sedenta por respostas que eu não teria naquele momento. Uma hora, com a sensação de que meu peito derreteria de ansiedade, eu havia cogitado o absurdo de aparecer na porta do quarto do Capitão Andrew para enchê-lo de perguntas sobre mais cedo, porém meu bom senso falou mais alto, e eu desisti da audácia.
Soltei um suspiro frustrado, fraco, e deitei na cama. Senti o livro que li a tarde inteira atrás de minha cabeça e o peguei na mão. Sua capa era dura, porém surrada, de um bordô elegante, com as páginas velhas e bem gastas, com o típico cheiro de naftalinas esquecidas dentro de um guarda-roupa. Eu o havia comprado em um sebo. Era um romance brasileiro, de título “Olhai os Lírios dos Campos”, do extraordinário escritor Érico Veríssimo. Por meu irmão ter ascendência brasileira, minha mãe fazia questão de introduzir a cultura de lá dentro de casa, para ele ter um contato mais profundo com uma parte dele que se perdera tão cedo. E eu, desde cedo, sempre fui apaixonada pela literatura do país. É simplesmente incrível. Porém, havia trazido apenas um livro para a missão, e já estava na metade dele.
No entanto, antes do encargo, meu avô havia me entregado uma maleta, e bem pesada, diga-se de passagem. Lá dentro havia os famosos diários das minhas antepassadas, empilhados por ordem cronológica e de geração. Havia gerações que eu nem ao menos conseguia fazer o paralelo de parentesco, de tão antigas que eram as parentes. Os últimos de uma das pilhas eram os de minha mãe… E eu nunca havia tido acesso a eles. Eu me perguntava o que poderia estar lá. Será que eram apenas relatos de missões? Ou dentro deles minha mãe escrevia sobre as histórias entre as famílias, os segredos embutidos nas nossas vidas, os momentos mais particulares de sua própria história...
Quando meu avô me concedeu a maleta, ele entregou junto uma caderneta preta igual àquelas, afirmando que agora era a minha hora de começar a escrever a minha história, que, de certa forma, era a de nossa família. Como sempre, eu estava metida em mais uma tradição, mas esta eu aceitei com toda a minha alma.
Levantei devagar da cama e puxei a maleta, que ficava ao lado da mesinha de cabeceira. Abri-a e contemplei os cadernos, maravilhada com a possibilidade de histórias que estavam ali. Peguei o meu diário em branco e separei-o, pondo em cima da cama para começar o quanto antes minha missão de preenchê-lo com as minhas palavras, com a minha vida.
Com um suspiro longo, ainda de pé, olhei para o lado e vi a rosa vermelha, agora murcha, que trouxera para mim outro dia. Sorri sozinha com a flor e o que ela representava. Senti meu ventre esquentar e pus minha mão na região, lembrando das carícias sedentas que eu recebi, de todas as lambidas, as mordidas, as chupadas, até que… apareceu na minha porta. Que sina maldita!
Me sentei na cama abrupta, inconformada. Como será que cabia tanto ódio dentro de mim por alguém? Aliás, como duas pessoas que se repudiavam tanto podiam ter seus destinos cruzados tantas vezes? Como isso podia ser justo? Quer dizer, desde quando a vida é justa, não é mesmo?
Roendo as unhas e com as pernas voltando a balançar de nervoso, meus pensamentos retornaram à briga de mais cedo entre e Beth, e do quanto os dois pareciam envolvidos em uma atmosfera tão particular que não foram nem capazes de controlar o impulso de se comunicarem em suas línguas nativas. Beth negava tanto com a cabeça enquanto gesticulava em sua direção de forma alterada, o que chegara a me assustar em alguns momentos. O que eles falavam? De onde eles se conheciam? Com certeza o primeiro contato não havia sido na missão.
Não aguentando mais, decidi levantar-me e bater na porta do quarto de Emily. Eu não falava com ela desde o início da tarde, era possível que ela encontrara com Andrew e esclarecera com ele sobre tudo aquilo. Eu precisava da tradução da briga.
Respirei fundo, levantei e saí do dormitório.
Ao bater no quarto de número 24, não obtive uma resposta imediata de Emily, mas, por trás de sua porta, ouvi uma agitação confusa e uma voz grossa presente. Estranhei no mesmo momento.
— Emily? Sou eu, . — falei, encostando a orelha no metal frio da porta. Pude ouvir mais barulho de correria.
Então, de repente, a porta se abriu, e uma figura robusta, alta, esbaforida, com um cheiro forte de destilado apareceu no meu campo de visão. Ele estava com os cabelos desgrenhadas, a blusa mais frouxa que o normal e o olhar baixo, brilhante. Meus lábios separaram-se vagarosamente em um leve choque e, tentando balbuciar algo pela surpresa, eu apenas abri e fechei minha boca, muda.
Nos encaramos por alguns segundos até ele abrir um sorriso.
, tudo bem com você? — perguntou enrolado, com um olhar franzido em desconfiança.
O que ele estava fazendo ali, naquele horário, daquele jeito, no quarto de Emily?
— Oi, ! — Emily praticamente berrou, atrás dele, empurrando-o pelas costas para sair do quarto dela. — Tudo bem?
Assim que acordei da leve perturbação que me encontrava, dei passagem para ele passar. Nós três ficamos em um pequeno círculo no corredor, eu encarando os dois sem entender coisa alguma do que ocorria, enquanto sorria discreto e coçava sua nuca, ao passo que Emily apenas olhava com expectativa para mim, esperando que eu falasse alguma coisa.
Por que eu estava com uma sensação tão fria, como se algo sugasse todo o sangue do meu corpo?
? — Emily tentou mais uma vez.
cruzou os braços na frente do peito e adotou sua postura tipicamente arrogante ao me analisar de cima a baixo. Seu olhar fez um arrepio traiçoeiro percorrer por todo meu corpo. Então, ele virou o rosto para Emily e falou:
— Bom, depois nos falamos, ok? — piscou um olho para ela e fez um leve carinho em seu ombro. Ela apenas concordou e sorriu.
Naquela hora, eu não sei o que deu comigo, mas senti meu sangue borbulhar e esquentar meu rosto por inteiro, meu coração acelerou violentamente e um sentimento impulsivo tomou conta de mim. Era como se eu fosse capaz de dar um grito ali naquele momento. Quando dei por mim, já estava falando.
, preciso falar com você.
Ele virou o rosto para mim, franziu o cenho e passou a me analisar mais uma vez.
— Comigo? — perguntou, com um sorriso cretino surgindo no seu rosto. — Pode falar, .
Na mesma hora, eu engoli em seco. Afinal, eu não tinha nada realmente para falar com ele.
— Precisa ser a sós. — disparei, cruzando meus braços para me proteger da minha própria mentira. Eu tinha que ganhar tempo se quisesse sustentar aquela história.
Emily e entreolharam-se antes de voltarem a me encarar com estranheza, e eu apenas me xinguei mentalmente por estar agindo de forma tão anormal.
— Ok… — ele pôs as mãos no quadril, o que expandiu sua figura. — Amanhã às sete da noite no meu escritório, você sabe onde fica, Tenente. — deu alguns passos em minha direção, ficando a centímetros de mim. — Não se atrase, . Eu não suportaria dar uma advertência disciplinar para você por uma falha tão tola. — falou enrouquecido, esticando o canto dos lábios em um pequeno sorriso.
Então, ao continuar seu caminho, esbarrou lentamente o cotovelo arqueado em mim. Pelo choque que o contato produziu na minha pele, eu fechei os olhos na hora. Conseguia ouvir nitidamente meu coração golpeando meu peito com violência, eu só não pude distinguir se era por toda a tensão da mentira ou por qualquer outro motivo infame que eu preferia não admitir.
Quando os passos de não podiam mais ser ouvidos por mim, eu suspirei profundamente e abri meus olhos mais uma vez, passando a encarar o nada. Eu conseguia sentir os músculos do meu pescoço duros, os meus braços e pernas tremerem. Que merda estava acontecendo?
? — Emily chamou, fazendo-me levantar o olhar até ela. — O que houve? Está se sentindo bem? — ela sorriu e pôs uma mão em meu braço, o apertando com um carinho leve.
— Tudo ótimo. — disparei, assentindo e sorrindo.
— É? E por que bateu na minha porta esse horário? — ela perguntou, franzindo a boca.
Pisquei algumas vezes, tentando recobrar meu raciocínio de porquê estava ali, e de repente o motivo tornou-se ínfimo perto da dúvida que acabara de presenciar.
Afinal, o que estava fazendo no quarto de Emily?
— Eu, ãhn… Só gostaria de confirmar o horário que tomo o remédio mesmo.
— É de manhã. Não esquece, por favor. — sorriu, afagando meu ombro.
— Ah, claro. — balancei a cabeça, resignada, e respirei fundo. — Ok, boa noite — disse, a encarando sem entender nada do que estava acontecendo dentro de mim.
— Boa noite. — repetiu o gesto e virou-se para a porta, adentrando o quarto.
Fiquei ainda um tempo no corredor, sozinha, apenas olhando para aquele carpete azul extremamente brega, imersa nas sensações mais esdrúxulas que botavam à prova diretamente a pouca sanidade mental que me restava.

Primeiramente, o que estava rolando ali? Por que estava naquele horário da noite, cheirando a bebida, no quarto de Emily? Por que Emily parecia agir com tanta cautela diante de tudo aquilo? Como se realmente tivesse algo para esconder? Eu não a conhecia tão bem assim, mas normalmente ela era de falar muito, de puxar assunto, de perguntar qualquer coisa só para preencher o vazio do silêncio…
E por que retirou-se tão rápido, sem fazer nenhuma piadinha, sem me provocar, sem tirar com a minha cara em nenhum momento praticamente? Por que parecia que eu estava interrompendo algo entre os dois? Algo íntimo?
O que estava acontecendo ali?
Por que a possibilidade de qualquer coisa ocorrer entre os dois me incomodava tanto?


Capítulo 9 – Intimacy

AVISO DE GATILHO: Este capítulo contém violência e abuso sexual. Se você se sensibiliza com a temática, leia com cuidado.

POV’S OFF
Seis anos antes

Debaixo do céu noturno, uma macia garoa entrava pela fresta da janela do carro, imperceptível, silenciosa. Na frente do espelho retrovisor, aproximando-se para enxergar melhor, examinava seu nariz e limpava todo o sangue que insistia em gotejar dele. Era a única coisa que ele fazia desde que puxou a marcha; tentar higienizar seu machucado da melhor maneira possível e torcer para que não houvesse nenhum osso quebrado, o que, pela dor, era difícil de acreditar.
Ao olhar para baixo e ver toda sua camisa cinza manchada de vermelho, pensou no pano limpo que possuía no porta-luvas. Não estava conseguindo conter o sangue que escorria de seu nariz, e, a cada novo pingo que caía na sua marcha, ficava mais nervoso. Inclinou-se para abrir o porta-luvas ao seu lado, porém acidentalmente seu braço roçou na coxa de , que estava no banco do carona. O toque fez uma descarga de adrenalina eletrizar toda a extensão de seu corpo, como se levasse um choque violento no qual as peles se encontravam.
— Porra! — ele xingou, atordoado.
grudou as costas no banco e prendeu a respiração por um instante, tentando recompor-se. Estava esgotado, aos nervos, nem um pouco sóbrio e sem compreender mais por que seu organismo reagia tão diferente à garota nos últimos tempos. Em um simples toque na pele dela, ele sentia a sua arrepiar-se, seu corpo ardia de uma forma diferente toda vez que seus olhares misturavam-se um no outro, sentir o perfume dela era um estímulo para querer perder-se em quem ela era. Como podia estar tão descontrolado ao lado de uma garota que mal suportava? Como tudo podia ser tão ambíguo dentro dele?
Porém, naquela noite, tudo estava mudado. Ele não poderia mais deixar-se ter aqueles pequenos vislumbres eventuais. Não podia mais sentir-se assim. Depois daquilo, deveria afastar-se de para sempre.
Sentindo-se nauseado pelo cheiro pinicante de sangue no ar, tateou os bolsos à procura de seu último cigarro. Só queria pensar na forma mais rápida e fácil de acalmar-se no momento. O mínimo pensamento do que havia ocorrido naquela noite o desnorteava. Segurou o cigarro entre os dedos ainda úmidos, acendeu e puxou a nicotina para seus pulmões. Sentiu um relaxamento cretino passear pelo seu organismo. Era o melhor que ele conseguiria de paz por muito tempo.
Repousou a cabeça no encosto do banco e fechou os olhos, para então soltar a fumaça com um suspiro cansado. Sem pensar muito, estendeu o cigarro para . Ele sabia como ela precisava de um trago tanto quanto ele. Talvez até mais. Porém, a única vez que partilharam um cigarro na vida antes fora quando a garota estava bêbada demais para conseguir acender um sozinha e precisou dar a ela sua cigarrilha já acesa.
Naquele momento, no entanto, ainda tentava assimilar todo o tormento pelo qual passou na última hora; quando viu o cigarro estendido a ela, apenas o pegou com os dedos trêmulos e fumou. Pouco se importava se iria compartilhar uma cigarrilha com ele; só queria preencher os pulmões com a fumaça apimentada para seus joelhos pararem de se comportar como uma gelatina.
E, assim, eles estavam no píer de sempre, mas não como costumavam aparecer por ali. Normalmente, era depois de uma euforia errada da garota, somada a uma sentença de culpa e preocupação do homem, em que ambos esperavam um horário de sobriedade maior para voltar para a casa de .
Porém, naquela ocasião tudo estava mudado.
— Você está bem? — perguntou, com a voz estranhamente firme e grave. Seus olhos estavam fixos em encarar o teto de seu carro.
— Eu… Sim. — respondeu, sentindo uma vertigem ao balançar a cabeça em afirmação. — Você?
— Sim. — ele olhou de soslaio para as mãos com manchas vermelhas e fungou o nariz, puxando o sangue que insistia em escorrer.
Ela assentiu pela resposta dele e tragou profundamente a fumaça. Então, inclinou-se para frente e abriu o porta-luvas, alcançando a toalha para dar a .
— Obrigado. — ele disse, surpreso.
Botou a toalha no nariz e começou a limpar-se.
engoliu em seco ao olhar para o rosto de . Havia muito sangue espalhado pela gola empapada de sua camiseta, e suas mãos pareciam estar vestindo luvas. De repente, foi como se pudesse sentir o gosto ferroso na sua boca; desviou o olhar para seus dedos, onde o cigarro repousava. Havia uma mancha vermelha no papel de seda. jogou-o pela janela em um gesto de repulsa.
— Tem outro cigarro? — ela perguntou baixo.
— Era o último.
— Merda… — murmurou, sentindo a mandíbula doer de tanta força que fazia para mantê-la fechada.
— E não é como se você pudesse fumar mais também… — ele suspirou, fechando os olhos brevemente ao fazer pressão com a toalha no rosto. Definitivamente tinha quebrado um osso.
— Nessas condições, eu simplesmente devo.
— Seu problema no coração…
, agora não… — ela disse pausadamente.
— Você sabe o que pode acontecer.
— Como se eu ligasse a mínima.
— Tem pessoas que ligam para você te esperando na sua casa. — ele disse, em um tom um pouco mais alto e autoritário.
— Eu não quero ouvir nada disso agora. — ela respondeu, ríspida.
— Agora? Você nunca quer ouvir nada. — ele ralhou.
!
!
Ambos se olharam ao mesmo tempo. As íris gritando em desespero pelo que captaram minutos atrás, tamanha violência e descontrole, tantos erros e impulsos difíceis de se conter. sentiu as lágrimas emergirem ao enxergar os olhos do homem destacados em todo aquele sangue. Toda sua pele foi dominada por uma coceira incômoda, o que a fez lembrar do quanto foi tocada sem consentir. De repente, percebeu a dor que dominou a íris da garota e assistiu com o coração pesado sua expressão retorcer na agonia do choro.
… — ele tentou.
De súbito, ela virou-se para frente. Não era possível esquivar-se de ouvir a pena na voz de , mas evitar seus olhos compadecidos era a melhor forma da onda de perturbação que ela sentia não a dominar.
— Nada do que aconteceu hoje foi culpa sua. Ouviu bem? — ele disse, firme, olhando o perfil da garota. Ele sabia que, depois daquilo, ela estaria mais perdida que antes. Conseguia ler em todos os trejeitos dela. Ela já estava mudada. Lamentou por não ter proximidade o suficiente com ela e não poder abraçá-la, consolá-la da melhor forma possível que sabia, porém não conseguia afirmar se seria apropriado qualquer tipo de contato físico no momento.
Ajeitou-se para frente no banco, repousando as mãos no final do volante, sentindo todos os nós de seus dedos abertos em feridas e seus músculos dos braços gritarem de dor.
Apesar de ter saído em vantagem por toda a briga, a movimentação brusca pela casa e os golpes que acabou sofrendo lhe renderiam bons hematomas pelo corpo e rosto. Pouco ligava para isso, no entanto. Não tinha ninguém para explicar-se além de seu pai. A dor também era sempre o de menos.
O único infortúnio seria se suas marcas virassem provas de que ele esteve em uma briga recente, que acabou em um assassinato.
, e se ele morreu? — perguntou com a voz falha. Um soluço de agonia saiu de sua garganta.
— Então ele teve o que mereceu.
Ela se virou para ele.
— Você enlouqueceu? Como pode dizer isso?
— Aquele porco estava em cima de você! Eu entrei em automático, sabia que você precisava de ajuda. E faria tudo de novo! Se ele morrer, eu vou preso e pronto, mas pelo menos esse maldito não vai mais fazer isso com ninguém! — ele bradou, a raiva explícita em sua voz mostrava que a cena de abuso passava mais uma vez diante de seus olhos ao enxergar os de completamente marejados de sofrimento.
Ela cravou no rosto dele para tentar ler algum mínimo indício de vacilo em sua expressão dura, porém não encontrou. Sentiu o choro voltar a embolar sua garganta, como um balão enchendo-se, a deixando sem ar, e lembrou do quanto gritou até sua respiração falhar antes de chegar para ajudá-la. Uma náusea a dominou junto com as memórias sensoriais.
estava tão distraidamente bêbada naquela festa que mal notou a malícia de Bruce ao convidá-la para subir a um dos quartos da mansão para “experimentar uma bala nova que havia chegado de Miami”. Assim que a porta do cômodo fechou, o rapaz agiu. Ela gritava, tentava empurrá-lo, mas ele era um atleta veterano de grande porte. Nada adiantava.
Porém, horas antes na festa, e haviam discutido sobre o fato do homem, nas palavras dela, “estar a seguindo”. Ele tentou conversar e levá-la para casa, como sempre, mas não funcionou, como sempre. , então, escolheu ficar afastado, de vigia, apenas para saber se ficaria bem, ora ou outra rondando o lugar para ver onde ela estava. Durante toda a festa, onde passava os olhos distraída, lá estava , destacando-se no meio de todas aquelas pessoas eufóricas demais. Ela bufava sempre que o via. Odiava sentir-se vigiada, como se precisasse de uma babá.
ficou em alerta total quando, de repente, não pôde mais ver por canto nenhum da casa. Assim que raciocinara que ela não estava mais no primeiro andar, subiu apressado para o segundo e aguçou os ouvidos pelas portas, até encontrar uma trancada com berros desesperados entre as batidas fortes da música. Ao tentar arrombar a porta, Bruce foi abri-la com toda a fúria, e estava preparado. Socou seu rosto de imediato e não parou mais. A briga estendeu-se para o andar de baixo, onde uma redoma de pessoas foi feita ao redor de ambos; todos assistiam petrificadas ao espetáculo sanguinolento e formador de testemunhas. Alguns tinham celulares nas mãos, uns sorriam, mas fechavam os olhos com os golpes brutais, outros vários faziam apenas sons de incentivo.
Até que Bruce foi ao chão e simplesmente permaneceu lá, sem mover-se mais, com o rosto desfigurado e ensanguentado e a respiração por um fio. continuou os golpes como um tanque, desferindo sua ira vingativa sem parar no rapaz. Toda a frustração crescente pelos seus erros do passado o terem levado para aquele momento fazia seus braços moverem-se cada vez mais forte.
saiu de cima de Bruce cambaleando, com o puxando pelos ombros e gritando coisas ininteligíveis.
Pela violência da cena, a redoma de pessoas ficou em um silêncio fúnebre enquanto abria passagem para um ofegante e uma desesperada passarem. Ambos se encaminharam rapidamente para o Ford Landau de , o qual entraram rápido, e foram até o cais de sempre, por um motivo diferente das outras vezes.
A garoa macia que entrava pela janela do carro começava a gelar a ponta do nariz dos dois, que ainda tinham a respiração meio ofegante e nervosa por tudo que acabara de acontecer.
ponderava sobre tudo.
— Se… Se eu não tivesse entrado no quarto com ele… — falou com a voz embargada, pensando o quanto estava com o juízo alterado pelo álcool. — Nada disso teria…
— Não importa, . — cortou. — Não é culpa sua que você foi a um lugar com ele. A culpa é sempre de quem pratica esse tipo de crime. Isso é crime, entendeu? Você foi a vítima. Nunca é culpa da vítima. Não quero você achando que tem culpa de qualquer coisa que ocorreu hoje.
— Mas e se ele morrer, ? — perguntou baixo, quase inaudível, com as lágrimas grossas despontando no rosto, lembrando do quanto Bruce permanecia imóvel com o rosto irreconhecível debaixo do punho de .
— Vai acontecer o que tiver que acontecer, .

’S POV
Dormitório 22, 4:24am.

Acordei em um susto, como se houvessem eletrizado meu corpo por dentro, e aquela última frase do sonho fosse o fio condutor daquela sensação no meu organismo. Sentei-me com uma lentidão estremecida na cama e olhei o relógio da mesinha de cabeceira marcando o quase fim da madrugada. Uma dor lancinante riscou minha cabeça, como se as enxurradas de lembranças do sonho doessem ao cair uma por uma no meu consciente.
Na hora, para frear meus pensamentos sobre aquele dia, a primeira coisa que gritou para a minha memória muscular foi que eu precisava nadar. Só isso importava. Por isso, ainda na penumbra do quarto, tateei a gaveta esquerda embaixo da cama e alcancei meu maiô preto. Despi-me de qualquer jeito do pijama, vesti o maiô deitada mesmo, uma calça preta de yoga por cima e um moletom. Por fim, peguei uma muda do uniforme oficial para levar junto, pois pretendia nadar até o horário do expediente e me arrumar no vestiário mesmo, e apenas fui.

Andando pelos corredores vazios e super silenciosos do navio, eu me perguntava o que eu estava fazendo. O frio que pairava no ar era algoz, motivo pelo qual me fez andar mais rápido que o normal para chegar logo até a área da piscina. Eu adorava frio, de verdade, mas, naquelas condições, eu precisava sentir algum tipo de conforto com meu corpo, e uma natação intensa com água aquecida era a saída perfeita. Eu só queria fugir daqueles corredores.
Ao chegar e abrir as portas da área, fui agraciada com a fina mudança de temperatura no ar, como se fosse abraçada por inteiro. Comecei a despir-me rápido do moletom, já sorrindo, soltando o cabelo de qualquer jeito e tirando a calça com os pés mesmo. Quando terminei com tudo, corri e mergulhei rápido na água, sentindo meu corpo ser envolvido pela atmosfera líquida e morna. Não perdi tempo e comecei a nadar até sentir a musculatura das minhas coxas pedirem para eu parar e meu fôlego não aguentar mais uma braçada. Era isso que eu precisava.
Boiei por um momento, sozinha, com o barulho que eu fazia com minhas mãos na água, apenas olhando para o teto, e senti o relaxamento pinicar a minha pele. Minha mente não costumava ficar silenciosa quando eu relaxava. A distração que o meu corpo pedia era outra.
Mergulhei novamente e nadei de uma ponta a outra, sem respirar, sem parar. Meu peito ardeu e minha panturrilha esquerda teve uma leve cãibra, porém eu não parei. Comecei a nadar de costas e rapidamente alcancei a outra borda. Eu precisava de distração. Tomei impulso e comecei a nadar até o outro lado mais uma vez. Em um movimento equivocado, respirei um pouco de água. Parei, tentei mais uma vez, e fui nadando de frente, prendendo a respiração de novo. Fiquei sem fôlego até a metade, tossi um pouco, mas me recompus. Peguei mais ar e continuei, eu precisava me distrair. Bati as pernas com força, chegando até o outro lado com velocidade.
Peguei impulso e senti a água deslizando pela minha pele. Minhas pernas batiam ordenadas e minhas mãos esticavam na água para me dar impulso, até um flash de memória me atravessar e eu achar que tinha visto um vulto na borda da piscina ao voltar na superfície para pegar ar. Levei um susto na hora, o que me distraiu mais uma vez e me fez respirar mais água.
Parei de nadar, enquanto tossia enlouquecidamente, e me abracei, assustada.
Senti-me vulnerável e ridícula. Busquei por alguém ao virar para todos os cantos do cômodo, mas eu estava sozinha. Não havia ninguém além de mim ali. Minha respiração estava ofegante, estremecida, como se as sombras azuladas me espreitassem. Eu estava em total alerta, sentia que algo de ruim aconteceria a qualquer momento. Pus as mãos nos olhos e apenas os fechei por um instante, mantendo-me paralisada na água, perto de uma borda, sentindo meu peito estrangular de angústia. Então, pude perceber que o que eu sentia mais medo estava dentro de mim, e não ali fora.
Até aquela missão, fazia anos que eu não pensava em muitas coisas que haviam ocorrido em minha vida. Eu preferia reprimir, colocar em uma caixa trancada a sete chaves dentro de mim e não lidar com nada daquilo. Eu simplesmente precisei fazer isso. Viver um dia após o outro, fazer o que tinha que ser feito e seguir em frente. Ignorar era o que eu havia aprendido a fazer há quatro anos e estava funcionando muito bem para eu colocar minha vida nos eixos.
Porém, nos últimos dias, com tão perto, com todos os acontecimentos me atingindo de todos os lados, os sonhos tão realistas… As memórias que escolhi adormecer estavam voltando a agitar-se dentro de mim. Eu não tinha para onde fugir para não enxergar nada daquilo.
E eu odiava essa sensação, essa autopiedade que inevitavelmente sentia por ter passado por aquelas coisas. Odiava lembrar de cada um daqueles episódios como pertencentes a capítulos da minha vida. Eu apenas queria esquecer, enterrar, não sentir mais nada.
E sim, eu culpabilizava por ser o grande pivô de muitos dos meus traumas. Não era fácil conviver com o cara da família que tinha mil e uma rixas com a minha, sendo amigo do meu irmão e escalonando situações ruins para a minha realidade. Apesar de eu saber que tinha me metido em muita merda por conta própria, para mim estava óbvio a parcela de responsabilidade dele no gosto amargo que eu sentia ao olhar meu passado.
Aquele sonho representava mais um dos vários motivos pelos quais eu ressentia tanto . O que ele fez com Bruce e o fato de ele ter sobrevivido sem prestar queixas contra era o porquê de eu não poder denunciá-lo pelo abuso daquela noite. Fora tudo para livrar , sob ameaça de Bruce. Meu abusador continuou solto por culpa minha e principalmente por culpa de .
— Olha só quem temos aqui. — uma voz grave soou na porta do cômodo. — Está tão ansiosa para a nossa reunião que está me seguindo?
Não me virei e nem me mexi de primeira. Apenas suspirei profundamente, de olhos fechados, e me resignei. Era óbvio que aquilo era passível de acontecer. Nunca pense no diabo, porque ele pode aparecer.
— Essa é só mais uma presunção previsível de sua parte. — respondi alto, sentindo meu sangue subir imediatamente. Passei as mãos pelo rosto com certa violência, para tirar a água em excesso.
— Eu venho todos os dias às cinco da manhã para nadar antes do expediente. Você que apareceu aqui do nada, garota.
— Você vem todos os dias aqui no mesmo horário como naquela primeira vez que nos encontramos por acaso? — perguntei. — Está tentando topar comigo a todo custo, hein? — virei para ele finalmente.
Ele estava de calça de moletom preta e uma camiseta branca, muito bem alinhado, até mesmo para alguém que tinha acabado de acordar. Seu cabelo estava perfeitamente penteado para trás, o que deixava sua aparência em um tom sério, que destoava do brilho divertido no seu olhar.
— Olha só quem está sendo presunçosa agora. — ele falou, sorrindo. Continuamos a nos encarar enquanto ele vinha devagar em direção à piscina.
— Só estou ligando os pontos. Afinal, quem sugeriu em primeiro lugar que estava sendo seguido não fui eu. — ponderei e mordi os lábios em um sorriso falso.
parou ao lado de uma cadeira e alisou o encosto devagar. Sua postura era relaxada, e o sorriso não sumia dos lábios.
— Não é presunção presumir que alguém talvez tenha coisas a te dizer durante uma madrugada, principalmente depois de marcar uma reunião, convenhamos, sem nenhum motivo. Porém, é presunção afirmar que alguém vai a um lugar a um certo horário todos os dias só para ter a chance de por acaso esbarrar com você. — seus olhos cravados em mim escureciam a cada palavra que ele falava.
Olhei para ele com uma sobrancelha arqueada e apoiei os braços na borda da piscina.
— Presunção ou não, você parece desesperado para me encontrar aqui todos os dias, no mesmo horário.
— Você não deveria falar o que não sabe, garota. — ele falou, ainda sorrindo.
— Você tem razão, eu deveria falar apenas coisas que eu sei. — afirmei com a cabeça. — Como, por exemplo, o quanto você sempre dá um jeito de piorar uma situação e estragar tudo.
gargalhou e jogou a cabeça para trás.
— É mesmo? Engraçado… — ele alisou o maxilar. — Porque parece que eu sempre acrescento uma presença agradável para qualquer ambiente.
— Você é repugnante. — falei com nojo.
— Sou, é? A que devo a honra desse belo apelido nesse horário tão remoto? — ele perguntou, com uma cara cínica de curiosidade.
Inclinei a cabeça para o lado, sorrindo, e disse:
… — debrucei-me na borda e continuei. — Você por acaso lembra-se de Bruce?
Milimetricamente, sua expressão arrogante foi desmanchando-se e seu sorriso, sumindo. Ele permaneceu em silêncio, mas, ao encarar seus olhos, eu sabia muito bem o que se passava dentro dele, sem precisar que movesse os lábios para responder a minha pergunta.
Naquele momento, era como se o fino véu que ficava entre mim e ele tivesse sido puxado, e agora nós víamos claramente todas as mazelas cometidas, a culpa, a injustiça, o trauma, a negligência.
— Lembra-se de tudo que ocorreu, não é mesmo? — continuei com o infeliz sorriso nos meus lábios ao observar a perturbação de de longe.
— Por que você está falando disso agora? — ele perguntou, enquanto cruzava os braços na frente do peito, se fechando.
— Sabe, eu nunca te falei uma coisa, . — dei de ombros, e continuei, calma — Uma coisa que acho importante de você saber. Um dos traumas mais… assustadores que te perseguem depois de um episódio de assédio ou abuso é o que você está andando na rua e enxerga seu abusador em todo homem que é levemente parecido com ele. É aterrorizante. Como se você estivesse sendo perseguida por ele. Sempre parece que ele está lá. Fora os flashbacks constantes. As lembranças que moram dentro de você. — rompeu o contato visual comigo brevemente, como se estivesse atordoado. Esperei-o olhar para mim mais uma vez e continuei, devagar: — Mas o pior de tudo, no meu caso, era que eu continuava realmente a ver Bruce na faculdade porque ele continuava solto, e sabe por quê? — levantei as sobrancelhas enquanto meus olhos umedeciam levemente. — Porque eu nunca pude denunciá-lo, senão ele prestava queixa contra você. E ele tinha testemunhas para te ferrar, dezenas delas. Você lembra disso, não é mesmo, ?
, eu…
— Se você falar que sente muito, eu dou um grito. — falei, olhando sua forma paralisada, já borrada pelas lágrimas. Pisquei diversas vezes, respirei fundo e enxuguei meu rosto mais uma vez.
— O que você quer que eu fale, então? — ele perguntou, seu maxilar estava completamente tenso.
Olhei para baixo e vi meus pés tortos pela refração da água. Amaciei a superfície com a ponta dos dedos devagar, vendo o azul translúcido do líquido ceder na minha pele de forma macia, e sorri ao voltar a encarar a figura tensa de .
— Eu só gostaria de saber como você dorme à noite, sabendo de todas as coisas que você fez. — disse, com a voz embargada.
— Nós o fizemos ser preso, .
— Por um crime que não foi o que ele cometeu comigo. E sim por um que você e meu irmão forjaram. — soltei uma espécie de risada, que mais pareceu um bufo.
descruzou os braços e apontou para o próprio peito.
— Eu apenas acelerei as coisas, está bem? Bruce vendia drogas em festas, uma hora ou outra seria preso. — brandou.
Naquela hora, com aquela justificativa corrupta e podre de em defender seus erros em cima de mais erros, minha cólera simplesmente me dominou. Tomei um impulso para sair da piscina e parei bem na sua frente. Se fôssemos da mesma altura, nossos narizes se tocariam pela proximidade.
— Denunciá-lo depois de “plantar” drogas na casa dele não é uma forma de deixar as coisas erradas certas, . — esbravejei, limpando o rosto da água que gotejava.
— Bruce era um perigo, , para você, para qualquer pessoa. Nós precisávamos fazer alguma coisa para tirá-lo de circulação. E nós fizemos.
— Oh, que belo discurso. Você acha que esse plano ridículo seu e do meu irmão resolveram alguma coisa de verdade?
— Sinceramente, eu acho. O tiramos de circulação, não é mesmo? — ele assentiu, passando a mão pela cabeça. — O que você queria que nós fizéssemos? — ele abriu os braços. — Aliás, o que você quer que eu faça agora? — perguntou. Seu peito subia e descia de forma rápida.
— O que eu quero, ? — meu queixo tremeu e meus olhos arderam pela umidade, que voltava a invadi-los. — Eu quero apagar tudo o que eu senti. — confessei. — Esquecer o quanto eu fiquei desamparada e sozinha. O quanto vocês resolveram o seu problema, mas me deixaram de lado completamente. — o choro leve embargou as últimas palavras na minha boca, e eu apenas suspirei, sentindo a tristeza se espalhar pelo meu peito.
Os olhos de suavizaram e sua expressão mudou completamente.
Engoli em seco e pisquei com pesar, minhas bochechas logo em seguida sentiram os riscos úmidos descendo. Dentro de mim, havia sentimentos sufocantes, lembranças da minha solidão, na qual às vezes passava um dia inteiro sem pronunciar uma palavra sequer pois não tinha ninguém para conversar. Era um ciclo vicioso em que eu precisava sair de casa para ver gente, esquecer quem eu era, vivenciar uma vida que não era a minha. Eu tentava me afastar de tudo o que pudesse me fazer lembrar das coisas que aconteceram comigo.
— Eu não tinha ninguém para conversar sobre aquilo. Ninguém. Eu estava sozinha. Era um segredo podre meu, quase… Quase como se fosse o meu crime e minha penitência. Quando eu procurava pelo meu irmão, ele só dizia que estava resolvendo as coisas e mudava de assunto. Ele não gostava que eu falasse daquela noite. — fechei os olhos marejados por um instante, lembrando das vezes em que ele e conversavam sobre aquilo, mas eu não. — Sabe, eu comecei a achar que eu não tinha direito nenhum de me sentir agredida ou machucada. Comecei a desmoralizar minha própria dor, como se eu não houvesse sofrido nada realmente. Como se o único com um problema real fosse você, e eu apenas precisava seguir em frente. — confessei, assentindo.
olhava para mim como se assistisse a uma cena de horror, e aquilo me causava raiva, deixava meu coração ainda mais pesado. Uma parte de mim odiava expor uma fraqueza minha tão profunda para alguém que eu repudiava tanto, porém a outra parte, a que dominava no momento, gritava para revelar tudo o que ele havia causado em mim com suas ações impulsivas e desenfreadas.
Olhar para ele e enxergar a culpa tardia lhe arrebatando era como tomar uma sopa fria; péssimo, mas não poderia desperdiçar a oportunidade. Ele deveria ouvir aquilo.
— Você tem noção do que é sentir um vazio crescente na sua vida? Como se ninguém estivesse ali realmente para você? Faz você querer preencher com qualquer coisa que te faça vivenciar algo diferente, que te promete elevar ao céu e além. — falei num sopro. — Tudo que eu queria na época era a merda de um abraço, um apoio, qualquer coisa que não fosse a solidão total. Eu queria ter minha mãe perto, meu pai. Ter com quem conversar sobre aquele peso absurdo que era ter vivido aquilo. — coloquei uma mão no peito em reflexo e senti a latente ausência do colar que minha mãe me deu doer junto com meus batimentos acelerados. — Mas de você, ? De você, eu não quero merda nenhuma. — dito isso, virei as costas para começar a andar até minha toalha e ir embora dali.

Porém, não consegui.

Subitamente, senti uma mão quente no meu cotovelo me puxando para trás, como um solavanco. Então, fortes braços puxaram a minha cintura, enquanto meu tronco todo era envolvido por outro maior que o meu, à medida que mãos grandes deslizavam suavemente pelas minhas costas, me puxando conforme me apertava mais para perto.
Em choque, eu não soube como reagir.
Quando percebi que estava me abraçando, um estremecimento intruso tomou conta de mim e me fez fechar os olhos de imediato. Todos os meus outros sentidos aguçaram.
O corpo de era quente e grande, conseguia praticamente me esconder por ser tão mais robusto que eu. Seu queixo havia repousado na curvatura do meu pescoço, de um modo que sua postura ficara levemente curvada pela nossa diferença de tamanho, e me deixou com o rosto próximo de sua nuca. Eu sentia seu perfume de sabonete e seu cheiro picante, sentia seu aroma me embalar e enfraquecer minhas pernas, conseguia perceber o calor de sua essência latejando dentro de mim e demorando para sair da minha memória. Naquele curto espaço de tempo, eu só conseguia me perguntar como apenas um aroma era capaz de me fazer arder por inteiro.
Minha respiração falhou, e eu me senti intoxicada. me apertou mais contra si, e, no meu interior, eu desejei poder tocá-lo nos ombros, porém meus braços permaneceram dobrados acima de seu pescoço, demonstrando que estava tão atônita por aquele momento estar ocorrendo que não conseguia me mexer.
Ele passou a nos embalar suavemente para os lados, e eu só consegui pensar em como eu estava molhada e apenas de maiô. Afinal, eu conseguia sentir suas mãos espalmadas diretamente na minha pele, enquanto seu dedão fazia um carinho gostoso e lânguido na minha cintura, como se apreciasse a situação para me afagar onde conseguisse.
Em meio àquele abraço, eu notei uma estranha e instantânea ausência de problemas. Era como ter respostas que eu nunca havia tido em um simples gesto; era ter, em um ato, todo o acalento que eu precisava.
— Eu queria poder pintar de branco todas as memórias ruins que você tem e desenhar em cima apenas coisas boas. Pegar uma borracha e apagar todas as suas dores, consertar todas as merdas que eu já fiz. — ele disse baixinho, contra a pele do meu pescoço, perto do meu ouvido, causando-me um estremecimento gostoso. — Você merece uma vida repleta de encantos e coisas boas. Eu odeio saber o quanto você sofre. — respirou profundamente e esfregou o queixo de leve no meu pescoço, arranhando o local com sua barba.
Meu coração resvalou contra meu peito. Abri os olhos e senti-os mais úmidos que antes diante do que estava ouvindo e presenciando.
— Eu ainda vou te fazer sorrir, espero que saiba disso. — dito isso, ele depositou um beijo delicado e demorado embaixo da minha orelha e se desfez do abraço numa lentidão sôfrega, deixando comigo parte de seu cheiro e uma sensação estranha no meu peito pela ausência de seu corpo.
virou em direção à porta e se foi.

’S POV
Restaurante do navio, 5h30 a.m.

Havia manhãs que começavam escuras. Surgiam contrariedades no tempo, as nuvens fechavam e, de repente, uma ameaça de tempestade era defrontada. Um rebuliço começava, preocupações a mais para se ter surgiam.
Eu estava atordoado, encarando o meu reflexo inócuo pelo espelho acima da pia, com o rosto impassível. Era a terceira vez que eu ia ao banheiro do restaurante em menos de meia hora, sempre que sentia uma onda de ansiedade por vir. Era preciso respirar fundo, fechar os olhos por um momento e tentar pensar racionalmente. Não me deixar levar.
Respirei fundo o ar gelado em volta de mim e alcancei as toalhas de papel para enxugar as mãos. Empurrei a porta para sair e senti de imediato o cheiro de café do salão, assim como o barulho de conversas paralelas das mesas cheias de marujos. A caminhada de volta até o meu lugar particularmente me fazia bem, me ajudava a desligar a cabeça; era quando eu recebia os olhares. Aqueles que a gente recebe quando está em um cargo importante e passa em um sala cheia de pessoas que trabalham para você. Era boa a sensação de segurança que isso passava.
Acenei para alguns marujos, continuei o passo firme e fui até a mesa que estava sentado com .
— Foi rápido dessa vez. — ele falou assim que sentei de volta.
— Você conta quanto tempo eu fico no banheiro, ?
— Lavou as mãos?
— Eu só fui jogar água no rosto.
— É, hoje você tá péssimo, cara. — ele disse, fazendo uma careta ao me analisar.
— Obrigado.
— O que rolou? Tá enjoado?
— Não é nada, eu só dormi pouco. — respondi, mordendo com rancor uma torrada com geleia.
Após voltar da piscina para o quarto, eu sentia meu corpo inteiro em queda livre. Fiquei por uma hora como um perturbado fumando um cigarro após o outro numa tentativa ordinária de conter a agitação das minhas mãos. A agora memória de ter tido tão perto de mim, de certa forma em meus braços, me consumia. Antes do café da manhã, precisei tomar um longo banho congelante para reprimir o calor e todas as outras sensações sórdidas quando era impossível deixar de esquecer do quão lisa e macia era a pele dela.
Por outro lado, havia a metade culpada do meu cérebro, que ainda tentava processar todo o desabafo visceral dela. Imaginava todo um novo arco de sofrimento, em que ela precisou enfrentar sozinha a dor de ser uma vítima de algo tão horrendo, e de mais uma vez haver responsabilidade minha no meio disso tudo. Eu já decidira comigo mesmo perdoar-me por certos erros do passado, porém como seguir em frente e tentar ressignificar minha presença para se ela ainda estava machucada?
— Finalmente ela veio… — comentou baixo, como se falasse sozinho, enquanto olhava para um ponto atrás de mim.
Eu nem precisei espiar por cima dos ombros para saber de quem ele estava falando. Estávamos perto da porta, então, quando passou pelo meu lado, meu coração pulsou com tanta violência no meu peito que pensei que ele sairia de dentro da minha caixa toráxica. Não consegui mais desviar minha atenção dela. Sem medo de soar ridículo, eu podia jurar que, se me esforçasse, sentiria o cheiro que os cabelos úmidos dela emanaram no ambiente; sua pele tão fresca pelo provável banho que ela tomou parecia suave ao toque.
Um nervosismo juvenil de quando estamos diante da garota que pensamos horas por dia na pré-escola, e ela passa por nós no recreio esfriou meu estômago; o mesmo tipo de nervosismo que temos quando estamos a instantes de darmos o nosso primeiro beijo e nos sentimos extremamente vivos.
Me remexi na cadeira, pigarrei e tomei um gole de café, para então voltar a olhá-la.
Eu conseguia perceber que ela estava completamente tensa. Como sempre, ao tentar entender o que se passava com ela, a primeira coisa que chamava minha atenção era sua linguagem corporal, que denunciava o que seus olhos não queriam me dizer.
Por um momento, ao continuar a observar , convenci-me de que havia piorado tudo. Afinal, desde quando inimigos se abraçam e falam as coisas das quais eu falei?
Desde quando nos abraçamos, ou até mesmo deixamos momentos de raiva de lado para contemplar o rosto um do outro de perto, como se estivéssemos em um estado de pane e prestes a nos beijarmos. Não é mesmo?
A questão é que, comigo e com , as coisas nunca foram muito conforme as regras do jogo. Então, esse negócio de odiar também poderia ser um pouco fora da curva, não é mesmo?
— O que você tá olhando tanto? — perguntou.
Voltei minha atenção para ele, na minha frente, e neguei com a cabeça.
— Nada.
virou na mesma direção que antes eu olhava e passeou os olhos pelo salão por um instante, antes de falar:
— Emily me chamou para uma “consulta-reunião” agora de manhã. — suas sobrancelhas estavam fortemente franzidas, mostrando descontentamento.
— É mesmo?
— Espero que ela não enfie uma injeção letal em mim ou qualquer coisa do tipo.
— Por que ela faria isso, idiota? — perguntei, rindo.
— Ela me odeia desde que namorou com Mauro e saiu com a gente algumas vezes.
— Ela não te odeia. — afirmei, estranhando aquela frase. Emily era incapaz de sentir coisas odiosas, ela literalmente sofria com a morte de formigas. Porém, não era difícil ser contra algumas atitudes de depois que você o conhecia melhor.
— Mas ela quer me odiar, tenta com tanta força que eu consigo sentir até mesmo quando ela não me olha. — ele dizia, apontando o garfo no ar. — Ela gosta da ideia de me odiar porque acha que é o certo a se fazer. — afirmou. — Mas, no fundo, ela me acha gostoso e não consegue me odiar de verdade.
— Você é um completo imbecil. — disse, rindo, e enxuguei o canto da boca pelo café.
Espreitei por uns segundos e vi o quanto ele estava calmo. Aquele momento era perfeito.
, mudando de assunto… — endireitei a coluna. — Você e a Subtenente Beth brigaram outro dia na cabine? — perguntei enquanto brincava com uma bolinha de guardanapo que havia feito.
, que levava a xícara até sua boca, parou de repente.
— Como é?
— Foi relatado para mim que foi uma briga no meio do expediente, em francês, inclusive…
— De onde tirou essa história? — ele riu e largou a xícara com calma.
— … e foi uma discussão bem alvoroçada. Todos ao redor ouviram, presenciaram tudo.
— Quem falou isso para você?
, isso aconteceu? Só me responda essa pergunta. — falei, pegando a bolinha na ponta dos dedos e a levando até meu rosto, fazendo com que olhasse para mim.
Por breves segundos, ele foi capaz apenas de me observar paralisado, como se eu não estivesse realmente o questionando daquilo mesmo. Ele costumava ficar na defensiva quando era questionado, e não estava sendo diferente daquela vez. Seu olhar estava desacreditado e fixo em mim, a respiração alterada e postura petrificada; tensão pura.
— Eu, bom… Sim. — ele afirmou com a cabeça. — Aconteceu uma discussão e… Eu e Beth falamos… Nós nos conhecemos já de fora daqui, e ela… O pai dela… — ele gesticulava com um braço de forma desordenada. — Nossos pais se conhecem e… Bem… A briga… — seu olhar havia mais uma vez se direcionado para um ponto na mesa, como se precisasse de uma fonte para tirar as informações e falá-las. Sua gagueira era um claro sinal de que sua relação com Beth era bem mais profunda do que o que ele tentava passar para mim, mas isso não interessava para mim no momento. Havia um ponto mais importante nisso tudo.
, por que a subtenente Beth disse na briga que não gostaria de lhe acompanhar mais nas rondas ao encarcerado Daniel? — o interrompi. olhou-me surpreso na hora, ainda com a mão na nuca. Então, alguns segundos depois, no rosto dele, um sorriso se formou devagar, mostrando que ele havia entendido toda a situação finalmente.
Eu tinha uma breve noção de qual era a resposta para o questionamento que havia feito, porém precisava ter a certeza de que ele me contaria algo como aquilo.
Além de ser um claro problema de comunicação e confiança com a minha tripulação no geral, eu estava lidando com uma questão de abuso de autoridade, crime e violência.
— Você me pergunta o porquê, mas parece que já sabe a resposta, mon amie. — ele falou, sorrindo e apoiando os cotovelos na mesa, com a postura mais relaxada. — Mas você quer ouvir de mim se me perguntou, não é? — ele piscou devagar.
Eu não precisei responder, já havia feito o meu ponto. Apenas continuei olhando impassível para seu rosto.
— Tudo bem então. — ele acenou. — A verdade é que a subtenente Beth não quer mais me acompanhar nas rondas à área de cárcere porque eu espanco aquele verme pelo crime nojento que ele cometeu. — apontou o dedo de forma hipotética no ar, o rosto estava franzido de desprezo. — Ela não aguenta a pressão de ouvir os murros que eu dou na cara daquele imbecil. — ele fechou a mão direita em punho e golpeou a esquerda devagar. — E você sabe por que eu faço isso, . Sabe como eu sou e do quanto eu aprecio fazer isso, né? — disse em baixo tom, como se contasse um segredo sujo.
— Na próxima ronda, eu irei junto com o médico para avaliar a situação toda. — soltou um riso nasalado e continuou a me fitar com os olhos gelados. — De agora em diante, você está proibido de ir até o -9 sozinho. O certo seria te tirar das rondas, mas o Capitão Andrew te acompanhará nas demais visitas. — falei, sem me afetar pela crueldade que eventualmente surgia em . Eu já havia visto algumas imoralidades soltas em sua personalidade, com certeza a necessidade por violência era uma das que menos me impressionava.
— Por que ele? — perguntou, um sorriso fino estampava seu rosto. — Foi ele quem te procurou e contou sobre tudo? Quer dizer que temos um capitão que fala francês por aqui… — ele estalou os dedos enquanto olhava em direção à mesa que Andrew estava sentado.
— O porquê das minhas decisões não te interessa, . — falei, firme. Ele voltou seus olhos com lentidão até os meus. — O que eu quero saber do meu Subcomandante agora é por que nas rondas até o encarcerado houve uso de violência, sendo que o mesmo já se encontrava preso.
— Ah, não seja hipócrita, ! — ele empurrou um prato na mesa. — Quando eu cheguei lá, o cara já tava todo quebrado. Você mesmo triturou o rosto daquele maldito antes de meter uma algema no pulso dele. Não me venha com…
— Chega! — bati com um punho na mesa, fazendo os talheres pularem. Um flash do rosto de Bruce esfolado atravessou minha mente. ergueu as sobrancelhas. Abaixei meu tom de voz e continuei:
— Sabe o que vai acontecer agora? Aquele maldito irá passar por exames médicos que gerarão relatórios para nossos superiores. — aproximei meu tronco por cima da mesa e continuei, apontando o dedo para . — E você sabe muito bem quem tem a responsabilidade dentro desse navio para assinar esses relatórios, não é mesmo?
— Sei. — ele disse, mal abrindo a boca.
— Meu nome estará lá, estampando mais uma falha de comando clara. Uma falha disciplinar do meu Subcomandante, dessa vez. — falei entredentes. — Você acabou de fazer uma merda no navio que respingou em mim, , e isso ocorrerá mais uma vez se você continuar com esses comportamentos inaceitáveis aqui dentro. — respirei profundamente e senti minha paciência se esvair junto com o ar em meus pulmões. — Por isso, eu só preciso que você escute uma coisa. — pousei com força uma mão em seu ombro por cima da mesa, nos aproximando, desejando mesmo pegar em seu colarinho. — Anda na linha. Controla esse seu humor aí. Se você fizer mais alguma merda aqui dentro e acabar manchando meu nome… — abaixei meu tom de voz e continuei: — Eu juro que você vai desejar nunca ter voltado para Inglaterra. Eu falo sério.
Dito isso, espremeu os olhos e sorriu.
— Belas palavras, mon amie. — afirmou veemente com a cabeça. — Quanta paixão pelo ofício, quase me emocionei. — ele tirou minha mão de seu ombro e se afastou para encostar na cadeira. — Nada mais vai acontecer, palavra de honra. Agora mesmo que terei a companhia do leal e bilíngue Capitão Andrew… — fez um gesto largo até a mesa onde o mesmo estava e sorriu desgostoso.
— Eu estou falando sério, . Você não pode sair espancando um Subtenente encarcerado. Ele cometeu o crime e pagará pelo o que fez. Preste atenção nas suas atitudes, somos figuras de autoridade aqui dentro. — falei, firme.
fez sinal de rendimento e sorriu apenas.

POV’S OFF
Consultório do navio.

, é obrigatório, sinto muito. — Emily falou, com calma, enquanto entrelaçava os dedos na sua frente na mesa.
— Isso vai contra a liberdade de escolha, sabe. — sorria provocativo, apesar de soar entediado.
“Franceses”, ela pensou, quase revirando os olhos. Em vez disso, apenas suspirou, olhando para pontos aleatórios da sala. A mulher estava perdendo o ânimo por ter lidado com tanta relutância masculina naquele cubículo etéreo demais.
Emily passara a manhã toda conversando com os marujos que faziam uso de medicamentos controlados, os informando que, dali para frente, o conselho ético de medicina da Marinha havia definido que era obrigatório fazer consultas para regularizar a terapia medicamentosa. Ela já imaginava a onda de represália que teria que enfrentar, só não projetava que seria algo tão intenso quanto estava sendo. Indignações, recusas mal-educadas, desconfianças infundadas, indagações esdrúxulas… Quando os marinheiros ouviam que teriam a consulta com Emily, então, o machismo os faziam crer que eram autossuficientes demais para ter uma mulher analisando-os com o poder de prescrever um tratamento adequado ao seu quadro.
Emily sentiu-se enojada diversas vezes.
, no entanto, era um caso em que ela particularmente interessava-se em olhar com uma energia extra. Nunca havia tido a oportunidade de tratar um paciente com estresse pós-traumático com o histórico como dele, no qual a pessoa passara por tantos eventos e perdas terríveis. Tanta crueldade chegava a parecer ficção. Má ficção, por sinal.
— Acredite, é para o seu próprio bem. Você faz uso de ansiolíticos, não é mesmo? — ela perguntou, preparando-se para escrever algo em seu caderno.
— Você tem meu prontuário. — ele respondeu enquanto a olhava incisivamente. Os braços estavam fortemente cruzados.
Emily endireitou-se, respirou fundo e juntou as mãos na sua frente mais uma vez. Havia notado que o homem não mexera um músculo após sentar-se na cadeira diante dela, como se ele calculasse seus movimentos. Ela conseguia perceber que seu maxilar estava tenso, porém ele não transparecia mais nenhuma emoção além de um congelante tédio. Ele simplesmente a encarava diretamente nos olhos, sem hesitação, com a postura fechada, destacando os fortes braços de alguém que encontrava certo prazer em pegar pesos na academia. Emily não conseguia lê-lo naquele momento, mas podia tentar alguma reação.
— Ok… — murmurou, pigarreando. — Então, como foi sua volta para a Inglaterra? — ela tentou, sorrindo.
— Não podia ter sido melhor. — ele disse, impassível.
— Já se instalou na cidade?
— Não.
— Pretende?
— Quem sabe.
— Chegou no dia de início da missão mesmo?
— Sim.
— Como estão as coisas na França?
— Caóticas, perfeitas como sempre.
— E como vai sua família?
— Esplêndida, Emily. E a sua? — perguntou, irônico, levantando as sobrancelhas. Sentiu-se enojado por Emily tocar no assunto, mas não era como se pudesse evitar.
— Oh, a minha vai…
— Sabe, você fica bem atrás dessa mesa. — ele falou devagar, sorrindo, enquanto a analisava afiado. — Parece tão preocupada em fazer as perguntas certas.
Emily desviou o olhar, constrangida.

— Você me detesta, Emily. Não finja se importar com a minha família.
— Eu não odeio você, . Eu não odeio ninguém, para falar a verdade. — Emily franziu a testa, séria. — E é claro que me importo, inclusive, eu sin…
— Sente muito? — ele soltou um riso nasalado. — Diga isso para a minha mãe, que teve que enterrar os restos do que sobrou do próprio filho. Você não sente muito, Emily, só achou chato ter ouvido essa notícia no meio do seu dia. Minha mãe sente muito, todos os dias, na ausência do meu irmão e nos traumas que ficaram do nosso sequestro.
Emily prendeu a respiração na hora, como se para evitar sentir o cheiro de um cadáver podre. Não esperava receber tantas informações ácidas de uma vez só. Aliás, não esperava ouvir falar tanto. Apesar de no passado ter sido de seu convívio por alguns meses, os dois nunca trocaram muitas palavras, e, quando ouvira as histórias dos sequestros que ele sofrera ao longo de sua vida, sempre era da boca de outra pessoa.
percebeu o choque na expressão da mulher e suspirou, cansado.
— Desculpe. — disse, descruzando os braços. — Não era para você ouvir isso.
— Não, tudo bem. — ela abanou a mão. — Obviamente não é novidade para ninguém tudo pelo o que você e sua família passaram. — ela afirmou com a cabeça, fazendo os cachos balançarem. — Mas quero que saiba que esse assunto…
Emily continuou a falar. Automaticamente, sentiu o típico enjoo submergindo no seu estômago, fazendo-o engolir em seco. Seu sorriso desfez-se e seu rosto ganhou uma máscara neutra e azeda como vestimenta. Sua língua ficou com gosto de cobre na hora. Passou a encarar os olhos de Emily como se fossem bolinhas de gude verdes e escutou tudo que saía da boca da mulher como se não estivesse realmente ali. Era isso que acontecia com sua cabeça ao ouvir de outra pessoa as coisas pelas quais ele passara. Sua mente entrava em um processo automático de absorver informações e as palavras simplesmente o atravessavam, tudo isso em câmera lenta.
havia se acostumado parcialmente à osmose. Por muito tempo, ainda depois do ocorrido, ele precisou ouvir dos jornais de toda a França sobre o acontecimento que envolveu os filhos do Primeiro Ministro francês. Fora um escândalo. O sequestro dos dois, com a execução do irmão mais novo de , era noticiada mesmo após anos.

Porém, para , era muito mais que apenas uma notícia. Era sua família, seu próprio sangue e sua dor pessoal.

— Então. — ela pigarreou. — Qual horário seria melhor para…
piscou os olhos devagar. Estavam frios e vazios, distantes em controlar o gelo que sentia na espinha.
— De manhã. Quarta-feira. Me encaixe em algum horário e depois me avise. Tudo bem, doutora? — ele levantou uma sobrancelha, a voz tão erma não traduzia o que seus pensamentos gritavam.
— Oh, claro. S-sim.
— Ótimo, até semana que vem. — ele disse, levantando-se da cadeira. Uma sensação quente embolava sua garganta.
— Até… — Emily tentou despedir-se, mas já havia fechado a porta atrás de si.
Quando ele alcançou o corredor vazio do navio, andou a passos largos para achar o banheiro do andar. Estava suando frio, precisava jogar água no rosto e dar pesados tapas nas bochechas. Aquela maldita vertigem havia voltado junto com o enjoo. Sabia que era só concentrar-se em respirar fundo, mas sua pressão apenas baixava mais à medida que atravessava o corredor em disparada. Se respirasse fundo, ficaria ainda mais tonto. Estava fraco, suas pernas amoleciam mais a cada passo.
Conseguiu encontrar o banheiro e o adentrou com um empurrão seco. Seus olhos pularam pelo cômodo, da pia até os mictórios, em uma velocidade que seu cérebro não pôde acompanhar. O alarme de perigo dentro da sua cabeça soava alto. No momento, só conseguia pensar em não deixar que ninguém o visse. Não, não, deveria entrar em uma cabine e trancar-se, não responder caso alguém aparecesse e chamasse pelo seu nome. Veriam seu estado e não o respeitariam mais.
Sem conseguir respirar direito, sufocando como se estivesse embaixo d’água, adentrou a primeira cabine e debruçou-se sobre o vaso. Ia vomitar. Definitivamente ia vomitar. Todos seus músculos estavam fortemente contraídos, tensos como uma corda esticada. Sentiu espasmos violentos vindo desde seus pés até sua língua, envergando sua coluna com violência sobre a porcelana. Todo seu corpo tremia, o suor brotava lívido na testa e nos braço. hiperventilava sem um segundo de descanso. Mas nada saía ou entrava. Era como se não importasse estar envolto de oxigênio, sua garganta fechava-se como um punho para não deixar passar nada por lá. Sentia que ia morrer.

“Emily… Aquela cretina… tinha que tocar no assunto da minha…. família. Como ela pode… ter tanta frieza…”

Sentiu mais uma vez a ânsia vindo junto com os espasmos secos de sua garganta. Não podia acreditar que aquele seria seu fim. Não conseguia respirar, não conseguia...
Uma das mãos foi debilmente até um dos bolsos da calça e pescou um frasco de remédio que ele sempre carregava. As pílulas amarelinhas. Benzodiazepínico. Um dos calmantes que sempre tomava em casos de ataques de pânico. Já o ministrava sozinho e não precisava de médicos da Marinha para prescrevê-lo, tinha seu neurologista na França.
Abriu o frasco com um tremor sôfrego e conseguiu sorver duas pílulas. Obrigou-se a encostar na parede da cabine, ainda sentado, e sentiu o corpo inteiro mole e dolorido, como se houvesse praticado uma maratona. Sua cabeça doía fortemente e sua garganta estava mais seca que uma duna. Seus pensamentos vinham a milhão sobre o que acontecera com ele e com seu irmão, Adrien. Todos os dias de cativeiro, as torturas físicas e psicológicas, a execução… Os traumas eram difíceis, mas os enfrentava de frente. O pior era o luto que se apossara dele.

Adrien era tudo o que importava para e vice-versa. Com diferença de um ano de idade, eles cresceram como carne e unha e construíram um elo inquebrável de irmandade. Filhos de pais públicos, sempre ocupados com a mídia e com compromissos demais para prover amor e carinho para duas crianças, os irmãos tinham apenas um ao outro. Ao perder Adrien daquela forma abrupta e violenta, tinha uma sensação de vazio constante. Era como ter momentos inteiros de sua vida simplesmente apagados e arrancados dele.

só conseguia ter boas lembranças do irmão. Adrien se recusava a desistir, e, apesar de ser o mais novo, podia afirmar que aprendia muito com ele, e continuava aprendendo. Seu irmão era o tipo de pessoa que sempre fazia todos sentirem-se vistos e amados ao redor dele, não media esforços para transformar um dia comum em um evento extraordinário. Tinha uma risada estrondosa e contagiante. Não merecia ter tido o fim escabroso que teve. A ausência de seu irmão, sempre tão viva dentro dele, o ensinou da pior forma possível o quanto ser uma pessoa solitária era a melhor escolha para ele, ao menos assim estaria protegendo os outros do que ele tanto se esforçava para esconder.
sentia que inexistia sem seu irmão. Que não sentia apenas saudade de Adrien, que sentia saudade de ser irmão dele também. Não era apenas o abraço que não recebia dele que doía, mas também o abraço que nunca mais daria nele. sentia saudade da pessoa que nunca mais seria com seu irmão, pois nunca mais existiria para aquela pessoa, que estava mais viva do que nunca dentro dele.
Então, ainda hiperventilando, percebeu que chorava. Um choro embolado, grosso, que o fazia abrir e fechar a boca sem emitir som algum, como se o punho fechado na sua garganta ainda permanecesse ali. Apenas um sopro de desespero que emergia de sua superfície intocável e dura era capaz de ultrapassar. Sentiu-se ridículo, pequeno, um frouxo. Nunca se deixava chegar até ali. Sempre tinha tudo sob controle, normalmente conseguia reprimir seus sentimentos e seu emocional até não conseguir lembrar-se o que era ter problemas ou questões para lidar.
Agora, estava ali, como um garoto assustado, encolhido no chão do banheiro e com lágrimas em seus olhos, com saudades do falecido que um dia foi seu irmão. A verdade era que não tinha controle sobre nada, nunca tivera.

****


O dia estava intenso no Queen Mary. De norte a sul, o navio alvoroçava-se sob a ameaça da primeira tempestade, que escurecia o céu acima deles. O aviso já havia sido emitido da Cabine Principal que as águas estariam mais agitadas que o normal dali para frente. A apreensão era sempre alta quando se viajava de um continente a outro, porém, com o tempo ruim, tudo ganhava um quê de ficção perigosa, que fazia até o mais cético dos homens rezar alguma pequena oração esquecida que havia aprendido quando criança.
O subtenente Ryder era um daqueles céticos que rezava para que seus enjoos cessassem de uma vez. Enquanto saía do banheiro do -3 com a mão na altura do estômago e uma cara de quem havia visto coisas nojentas saírem de si há poucos momentos, ainda podia sentir o gosto ácido na boca o fazer lembrar de pedir a Deus que o balançar do navio diminuísse um pouco. Estava enjoado desde o início da missão, e por isso vomitara diversas vezes durante os últimos dias; já conseguia ver os ossos de seu quadril despontando na pele por isso. Seus colegas o diziam que era comum sentir-se assim, principalmente por se tratar de seu primeiro recrutamento, mas eles ainda riam de sua cara quando Ryder saía correndo da cozinha para vomitar no banheiro mais próximo. Ele sentia-se na escola, sendo motivo de piada mais uma vez. E Ryder detestava isso. Havia se alistado para desconectar-se com o mundo lá fora, pretendia esquecer a vida cretina que levava com uma família disfuncional, queria apagar os anos que passou naquela escola, onde todos tiravam sarro de seus dentes cavalares, e ficar o mais longe possível de tudo que o fazia lembrar-se de seus professores omissos. Havia ouvido falar que marinheiros conviviam mais com seus companheiros do que com a própria família. Era isso que buscava.
No entanto, a vida militar era vocação. Trabalhar com hierarquia e disciplina não é para qualquer um. Quando Ryder estava virando o corredor para chegar até o banheiro, com seu vômito quase subindo pela garganta, ele esbarrou com o corpo enorme do Subcomandante da missão, o francês . Ao vê-lo, obrigou-se automaticamente a entrar em posição de sentido, como se um gelo queimasse a sua coluna. O enjoo arrepiava sua pele, engoliu em seco diversas vezes, com o suor brotando ao lado das têmporas, sem conseguir pronunciar nenhuma palavra além de balbucios. Sentia-se ridículo ao fazer aquilo, era humilhante como pedir aos professores do colégio permissão para urinar, mas, no fundo da sua alma, aquilo já era automático.
Ao bater continência e mirar para o rosto duro do homem, percebeu que seus olhos estavam vermelhos, como se…
olhou o marujo de cima a baixo ao ter seu caminho interrompido. Estava aturdido e não esperava encontrar alguém por ali. Apenas franziu a testa e respirou com aspereza, continuando seu caminho ao verificar que não era ninguém importante.
Ryder quis xingá-lo, mas, ao mínimo pensamento daquilo, sua boca encheu-se de um líquido pastoso e quente, e ele correu para o banheiro para ajoelhar-se na frente do vaso e rezar para que aquilo parasse. Que se danem os olhos vermelhos de choro do Subcomandante , ele precisava vomitar.

****


Raijin andava apressado para chegar até o -3, a doutora Emily o esperava. Descia as escadas ao mesmo tempo que recitava um antigo mantra. Estava distraído. Por isso, ao passar por mais um lance de degraus em alta velocidade, não viu a mulher que vinha em sentido contrário ao seu e trombou seu enorme corpo com tudo no dela. Beth cairia no chão se não fosse a agilidade do rapaz, que agarrou um braço seu e sua cintura assim que se deparou com a situação. Eles olharam-se atônitos por um momento. Raijin vislumbrou a mulher e se lembrou do dia em que foi na ópera com seus pais, e pensou ter ouvido anjos cantarem. Porém…
— Está chorando? — ele estranhou, pelos olhos da mulher estarem vermelhos, em conjunto com seu rosto úmido.
Ela desfez-se dele. Ajeitou a farda, limpou o rosto e fungou.
— Quem é você? — ela perguntou por impulso. — O que te interessa se estou chorando ou não?
— Odeio ver pessoas chorando. — ele confessou, negando com a cabeça.
Ela soltou um riso nasalado, fraco.
— Vocês homens não se importam com nada, essa é a realidade — ela disse, lembrando-se do que acabara de conversar com . Afastou-se de Raijin e continuou seu caminho.
Se não fosse o choro da mulher, ele afirmaria com todo seu coração que havia acabado de apaixonar-se à primeira vista.

’S POV
7h12 p.m.

Já era escuro. Eu corria pela área externa do navio em direção à proa em alta velocidade, vestida apenas com uma blusa fina de manga comprida preta, um short preto folgado e uma determinação enraizada no meu peito. Estava um típico frio cortante de início de outono europeu e chovia uma fina garoa, com fortes ventos, que gritavam ruidosamente nos meus ouvidos e agitavam o mar, trazendo à superfície do navio gotículas salgadas e intrusas. Eu sentia minhas narinas congelarem e minhas coxas se arrepiarem a cada passada que eu dava, porém era isso mesmo o que queria, as sensações corporais extremas prometidas dos quatro ventos. Era uma necessidade sentir a exaustão física nos meus músculos e respirar o ar pungente e congelante que envolvia a minha pele. Eu já conseguia sentir a endorfina explodir por todo o meu corpo.
Optei por correr pelo navio ao invés da academia porque precisava subir e descer escadas. Exigia mais do meu físico, da minha atenção, eu me concentrava mais no momento. O principal era fixar minha atenção em outra coisa que não fosse qualquer outra parte da minha vida. Como sempre, eu estava fugindo de mim, fugindo de sentir o que um momento me despertara, escapando de memórias, de lugares e pessoas, me esgueirando até eu me tornar exausta o suficiente para esquecer de tudo e apagar num sono tão profundo que eu não precisaria lidar com nada.
Entre o irracional e o racional, minha sanidade se perdeu pela manhã inteira, quando precisei ficar perto de por todo o expediente, ouvindo sua voz gutural, tendo sua presença acesa por perto, vendo sua figura e, furtivamente, sentindo seu cheiro picante e característico. Fiquei rendida a sensações dúbias que percorriam meu corpo, que eu não conseguia descrever como boas ou ruins. Preferi as deixar em um anonimato traiçoeiro e silencioso, no qual eu tentava administrar os calores que subiam pelas minhas pernas, em contrapartida com os arrepios que surgiam em minha nuca, falando para mim mesma que uma sensação anulava a outra, e por isso eu estava bem. Afinal, não é correto sentir o desejo de ser tocada como se ardesse em uma fogueira quando seu olhar cruza com o de seu inimigo, mas é o certo quando ele se aproxima e seu corpo inteiro se arrepia, pois você o odeia, e tê-lo perto de você lhe enoja ao ponto de eriçar sua pele. Então, você se afasta de todas as sensações com um suspiro, correndo por todo o navio, em toda a sua estrutura metálica e ruidosa, até sentir seus músculos arderem em dor e o frio entrar embaixo de sua pele.
Enquanto eu descia mais uma escada, a chuva se intensificou ao ponto de cobrir tudo com um véu branco, e precisei diminuir o passo para não escorregar. Fiquei embaixo do patamar da escada para não pegar a chuva, em um andar alto, encostada na parede ao lado de uma porta. Estava com o fôlego descompassado, sorvendo todo aquele ar úmido de maresia e chuva forte, apenas encarando o oceano colossal à minha frente, com um sentimento de vazio arranhando o meu peito. Como nunca na minha vida, eu olhava para tudo aquilo e sentia apenas vontade de gritar.
Ao decorrer dos anos, eu me tornei boa em disfarçar sensações físicas, principalmente quando elas eram tão cruas e primitivas, mas esconder de mim os sentimentos que um momento me despertara era uma tarefa árdua.

“Eu ainda vou te fazer sorrir, espero que saiba disso.”

Fechei os olhos com força, como se isso fosse reprimir tudo que envolvia minha mente, reprimir o real motivo de minha pele arrepiar quando se aproximava de mim na Cabine, a razão de minha sanidade estar sendo segurada por um fio de prata, invisível e frágil, como meu destino parecia estar.
Vislumbrei o oceano mais uma vez, sorvendo o ar úmido nos meus pulmões com todas aquelas gotas robustas salpicando o mar escuro na minha frente, e ponderei sobre tudo. O que realmente estava mudando dentro de mim?
Nada parecia real. E, ao mesmo tempo, tudo era palpável demais. A chuva que caía e molhava cada superfície, os espasmos de cansaço nos músculos da minha perna, meu coração acelerado em meu peito, que estrangulava por uma aflição traiçoeira. Eu não queria mais pensar em e no que ocorrera. Estava esgotada, me sentindo sufocada, como se uma bola se expandisse em minha garganta.
Fechei meus olhos mais uma vez e me deixei levar por um momento pelo barulho do temporal, e todo aquele cheiro úmido de familiaridade, de memória. A chuva era igual, forte, irreverente e fria. Era tudo como no dia de hoje, mas as circunstâncias eram mais fáceis e leves, e eu estava apenas me despedindo da minha mãe para mais uma missão. Eu e ela compartilhávamos um guarda-chuva abraçadas, conversando animadas, enquanto meu irmão levava a mala dela e andava ao nosso lado. Quando chegamos na porta do navio, ela se despediu distribuindo vários beijos no meu rosto, falou para eu me cuidar e deixou minhas roupas impregnadas com seu cheiro. Me entregou o guarda-chuva, pegou a mala com meu irmão e correu até entrar no navio. Antes de sumir no corredor, ela acenou e sorriu uma última vez, e eu imitei seu gesto, imaginando que, quando ela voltasse daquela missão na França, tudo seria igual, e nós tomaríamos uma garrafa de vinho Carmenére francês juntas, enquanto ela contava suas histórias do trabalho e dos sebos que visitara na cidade. Mas o fim da história tinha sido um pouco diferente.
Abri os olhos e encarei o chão branco metálico. Meu fôlego estava descompassado, e eu sabia que era pelo medo que eu sentia de ficar sozinha. Não parecia seguro fechar os olhos e acessar qualquer memória que fosse.
Então, eu ouvi um clique metálico. A porta ao meu lado se abriu. O homem me percebeu assim que se virou. Estava com um cigarro na boca e prestes a riscar um isqueiro.
?
— Oi, . — falei, surpresa.
— O que está fazendo aqui? — perguntou, fechando a porta atrás de si e tirando o cigarro da boca. estava lindo de uniforme branco, sem cap. Não havia falado ou até mesmo o visto o dia todo, estava contente com a coincidência. Ele se aproximou e circundou minha cintura enquanto puxava os cantos dos lábios em um sorriso cativante. Me aconcheguei contra seu peito com os braços flexionados e senti seu calor de imediato, como um casulo. Seus braços eram fortes e faziam o abraço ser confortável.
— Eu estava correndo antes do mundo resolver desabar. Veio fumar um cigarro? — perguntei, me afastando de seu corpo para ver seu rosto.
— É sagrado depois do expediente. — o levou aos lábios mais uma vez e acendeu, baforando logo em seguida. — Aceita?
— Com certeza. — peguei a cigarrilha e fumei profundamente. — Oh, eu estava precisando disso. — soltei a fumaça aos poucos, sentindo o relaxamento da nicotina se espalhar pelo meu corpo e dissolver minhas tensões físicas. Ele riu e depositou um beijo demorado na minha testa.
— Como foi seu dia? — perguntamos ao mesmo tempo e rimos.
— Você primeiro. — ele murmurou enquanto me apertava mais próximo de seu corpo e pegava o cigarro de volta.
— Foi… cansativo. — falei, suspirando.
— E você ainda veio correr? — ele perguntou, divertido.
— É uma das coisas que eu faço quando tenho muita coisa na cabeça. — abri um sorriso e dei de ombros. — E você?
Ele soltou a fumaça, sorriu e indicou o cigarro entre os dedos.
— Velhos hábitos parisienses, eu acho. — falou, e eu contemplei em silêncio o rosto de por um instante. Cada detalhe de sua face, suas pequenas rugas ao redor dos olhos, que se acentuavam quando ele sorria, os cílios grossos, o maxilar bem definido e o queixo com a ponta arredondada.
Ele me olhava sereno, também sorrindo, pulando seus olhos em cada canto que podia do meu rosto. De súbito, pegou uma mecha do meu cabelo que escapava para meu rosto e a colocou atrás da minha orelha, fazendo um carinho de leve na minha bochecha logo depois.
— Você é muito linda, sabia? Me dá uma paz te olhar. Ainda mais assim de perto.
Meu coração derreteu ao ouvir aquelas palavras e meu sorriso aumentou sem nem eu perceber. Senti sua respiração quente no meu rosto e olhei para sua boca.
— É? Então por que você não me beija?
Ele riu, jogou o cigarro longe e aproximou seu rosto vagarosamente do meu. Nossos narizes se tocaram, e pude sentir seus lábios macios encostando nos meus num beijo que se aprofundou aos poucos, suave. Eu ouvia a chuva cair impetuosamente e sentia dedilhar devagar com suas mãos quentes por debaixo da minha blusa, enquanto nossas bocas abriam e nossas línguas se encontravam. Ele me apertou com força pela cintura, aproximando nossos corpos. Eu me sentia afundando nele. Meus braços se enroscavam em seu pescoço, minha pele inteira se arrepiava, meu tesão aumentava sempre que sua língua escorregava mais fundo dentro da minha boca e se enrolava na minha.
Agarrei sua nuca e puxei seu cabelo sem me importar se o machucaria. grunhiu contra a minha boca e deixou suas mãos deslizarem pelo meu corpo, apertando minha bunda com força. Ele girou nossos corpos e me grudou na parede gelada ao lado da porta, prensando seu corpo contra o meu, sem parar de me beijar. roçou o volume da sua ereção devagar perto da minha virilha, causando um calorão por todo meu ventre, e eu mordi seu lábio inferior em resposta. O beijo aprofundou mais uma vez e as carícias foram cada vez mais longe, junto com nosso desejo um pelo outro. Sem pensar muito, levantei uma perna e circundei o quadril de para aproximá-lo de mim; ele prontamente levou uma mão para baixo da minha coxa e a alisou por inteiro.
Interrompeu o beijo por um instante e grudou sua testa na minha, com seu fôlego precário batendo no meu rosto, me olhando com a íris lambuzada de prazer. Aproveitou que eu estava com a perna mais aberta e se encaixou melhor em mim, puxando meu joelho mais pra cima de seu quadril.
— Você não tem noção do quanto me deixa louco. — ele disse, e eu sorri antes de nos envolver em mais um beijo. me puxou para mais perto, segurando minha cintura em um abraço forte, enquanto descia sua boca pelo meu maxilar e distribuía beijos demorados pelo meu pescoço, perto da minha orelha…
Ao decorrer dos anos, eu fiquei boa em disfarçar sensações físicas de mim mesma, principalmente as mais primitivas e cruas, mas esconder os sentimentos que um momento me despertara era uma tarefa árdua.

“Eu ainda vou te fazer feliz, espero que saiba disso.”

Bastou um segundo de um toque similar de na minha pele para que a minha mente fosse minada com imagens de abraçado a mim na piscina, enquanto ele falava todas aquelas coisas, e depois depositava um beijo demorado no meu pescoço, perto da minha orelha. Um segundo para eu sair do presente e voltar a sentir o vazio que dominara meu peito assim que ele se desvencilhara de mim e saíra de lá. Meu estômago revirou, e eu não aguentei. Afastei na hora, empurrando-o.
Dieu!
— Desculpe!
— Está tudo bem, mon chéri?
— Oh, sim. Sim. — gesticulei em sua direção. — Acho que só me assustei com a ideia de que alguém poder aparecer a qualquer momento e nos flagrar. — eu disse rápido, olhando ao redor e enxergando a escuridão absoluta pincelada pelo temporal.
ainda me olhava com as sobrancelhas franzidas, desconfiado, devido a brutalidade com a qual o afastei de mim. Eu abri um sorriso e peguei em suas mãos, puxando-o de volta.
— Achei ter feito algo de errado — ele envolveu meu rosto com suas mãos e me analisou por um momento. — Está tudo bem mesmo? — eu assenti e tentei manter meu sorriso razoável, enquanto finalmente relaxava a expressão e se encostava na parede ao meu lado. — Bom, você tem razão, de certa forma. Apesar do alerta vermelho para ninguém operar aqui fora por causa da tempestade, a gente não pode abusar da sorte. — ele disse, pegando outro cigarro e o acendendo.
Encostei ao lado dele e tentei relaxar, respirando fundo.
— Quer tomar um vinho do Porto no meu dormitório depois do jantar? — eu perguntei de repente, me surpreendendo com a minha própria atitude. me olhou de lado na hora. Abriu um sorriso e me passou o cigarro. — Eu trouxe uma garrafa e…
— Eu adoraria. — sua voz tinha um tom límpido de malícia, e eu me peguei sorrindo pela sua resposta. — Eu dou um jeito de levar as taças. — ele deu uma risada e seu olhar derreteu para toda a minha figura, parando nas minhas pernas desnudas. — Não está com frio, mon chéri? — ele perguntou, pegando o cigarro dos meus dedos e o levando para a boca.
— Nunca me importei muito em sentir frio. — falei, soltando a fumaça com um longo suspiro. Estava há horas sem comer e a nicotina baixava a minha pressão, então me recostei zonza em e inclinei minha cabeça em seu ombro. Ele estava quente e aconchegante. Aproveitei que estava apoiada em seu braço e peguei em sua mão. Ele devolveu o gesto.
— Entendi. Eu já fiz muito isso, sabe.
— Como assim “muito isso”?
— Correr na chuva, sentir frio de propósito, pedalar por quilômetros até a exaustão, enfim… Coisas assim pra dispersar minha mente. — me afastei para ver seu rosto, e me olhou de volta, tragando profundamente o cigarro. — Eu costumava usar esses estímulos físicos pra simplesmente esquecer e… — ele soltou a fumaça, mudo.
— Apagar?
— É. Apagar. — ele balançou a cabeça de leve. — Desligar a mente por um momento. Porque era demais sentir. Eu precisava… varrer pra longe, sabe? — ele tragou o cigarro mais uma vez e me passou.
— Sim — falei, inspirando e sentindo a fumaça queimar meu peito.
— Então, o que você precisava varrer pra longe hoje?
Busquei seus olhos mais uma vez e neles tinha uma intensidade astuta, como se me lesse como um livro. Naquele momento, eu compreendi que ele me entendia, e muito bem. Mais do que nunca, eu sabia que podia confiar em pois não seria condenada, e eu tinha toda vontade do mundo de contar tudo o que se passava dentro de mim, mas não podia. Nada do que acontecia comigo era simplesmente um fato. Tudo implicava sempre em algo maior e maior por causa de sobrenomes e histórias e passados que nem ao menos fui eu quem criei. Então, eu não podia compartilhar nada do que havia ocorrido com ele. Dei de ombros e falei:
— Não é nada demais, eu… só tive um dia muito estressante por causa das tempestades e…
— Sabe, eu chorei hoje. — falou de repente, abrindo um sorriso ao ver que aquela informação fez uma expressão de surpresa surgir no meu rosto. Ele apertou minha mão com mais força e se ajeitou de frente para mim — Há anos eu não chorava. E hoje eu chorei como um… Um garotinho que não ganha o brinquedo que quer de Natal. — ele riu e jogou a bituca de cigarro longe. — Eu tinha uma pessoa muito importante na minha vida que se foi. Ele era tudo pra mim e nada mais importava quando a gente tava junto. — o olhar de era distante ao dizer tais palavras. — Deve fazer uns… onze anos, talvez doze. Mas não importa. Faz tempo demais e a saudade nunca diminui, entende o que eu digo? E hoje foi um daqueles dias que foi demais pra aguentar a falta dele. E eu nunca achei que um dia desses fosse voltar a acontecer. — ele falou, virando o rosto para mim. — O que eu quero dizer é… Não espera explodir para procurar por alguém. Pode conversar comigo, se precisar. Eu tô aqui. — disse, acariciando minha bochecha com as costas de seus dedos.
Deveria ser tudo tão simples. Eu poderia compartilhar com tudo que me afligia, assim como ele havia feito, explicar desde o início todas as coisas que aconteceram comigo para eu me tornar a pessoa que eu era hoje, falar o que estava me assombrando e sentir meu peito se esvaziando das aflições que me assombravam… Mas não. Nada nunca era tão simples, não na minha vida. Ainda mais quando envolvia .
— Eu sei, obrigada — falei, sorrindo. Peguei sua mão e beijei seus dedos. retribuiu o gesto. Aproveitei o momento para mudar de assunto. — Vamos entrar? Quero tomar um banho quente antes do jantar ser servido.
— Vamos sim, petit. Eu te acompanho até seu dormitório. — ele disse, me dando o braço. Eu sorri e aceitei. Nos desenrolamos apenas quando alcançamos as escadas, principalmente porque ouvimos vozes vindo delas.
A partir dali, andamos lado a lado, descendo os degraus e conversando amenidades do expediente de . Todo o horário vespertino havia sido um compilado de dificuldades relacionadas ao tempo instável e qual rota mais rápida e menos perigosa a percorrer. Era um papo automático. Eu sabia bem o assunto, afinal, era justamente o meu trabalho. Tanto que nem percebi que minha mente voou para longe mais uma vez, ao pensar coisas que aceleravam meu coração por todos os motivos errados. Meu braço formigava com a lembrança do momento em que me puxava de volta e aproximava seu corpo do meu, circundando minha cintura com força e encaixando seu rosto na curvatura do meu pescoço. Tudo parecia tão…
Pisquei diversas vezes, sentindo um atordoamento me dominar. Precisei olhar para e respirar fundo.
— Chegamos no seu andar. — ele falou, olhando em volta. Encostei seus dedos de leve nos meus, e ele sorriu para mim.
O meu dormitório era o segundo virando à esquerda no final do corredor, e era um longo corredor. Na hora, enquanto andávamos, eu não sabia dizer se era porque estávamos em silêncio total ou se era porque todo o caminho estava vazio, mas eu tinha uma sensação viscosa e incômoda no meu peito. A cada passo que eu dava, ela crescia, como uma bexiga de ar sendo inflada. Quase como se estivéssemos na iminência de algo acontecer.
Foi então que, logo antes de nos virarmos à esquerda no final do corredor, nos deparamos com .
Quando seu olhar repousou em mim, ele nem ao menos pareceu ter notado mais ali. Sua expressão era urgente e seu fôlego, ofegante.
. — ele pigarreou. — Eu estava no escritório esperando por nossa reunião quando recebi uma ligação de seu irmão e… A sua mãe, ela… — ele respirou fundo, como se precisasse de coragem para falar, e continuou: — Ela está respondendo por estímulos.

O começo de uma história.


Continua...



Nota da autora: Olá leitoras queridas, tudo bem com vocês?
Eu sei, eu sei. O primeiro beijo dos pps parecia tão perto de acontecer. Eu mesma havia falado que tava na iminência, mas simplesmente não rolou. Ainda mais pelo tom da cena, todos os sentimentos envolvidos, as circunstâncias. Mas espero que vocês tenham sentido a emoção que eu tentei transmitir mesmo assim, o toque íntimo que foi aquele abraço, o quanto de carinho teve ali e quantas barreiras foram quebradas entre os dois.
E que notícia, hein? Depois de sete anos, uma resposta a um estímulo, uma luz no fim do túnel pra mãe da pp. Spoiler? Com o quadro dela melhorando, será que eles finalmente saberão o que ocorreu no atentado? Quem foi realmente o culpado? Quais foram suas motivações?
Enfim…
O que acharam desse capítulo? Me falem tudooo, não escondam nada hehehe ❤️





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Caso não esteja vendo a caixinha de comentários, você pode acessá-la por aqui.


comments powered by Disqus