For Every Seasons

Última atualização: 27/03/2022

PARTE I
PRIMAVERA


“Primavera não é uma simples estação de flores, é muito mais, é um colorido da alma.”
(Jaak Bosmans)


Capítulo 1

“Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”
(Cecília Meireles)

Abril, 2016
Não deveria fazer tanto calor na primavera
, esse era o meu único pensamento.
Não lembrava de na primavera passada estar suando tanto como naquela, com a minha blusa preta de manga quase colando no meu corpo. Quem diria que a meteorologia que apontava uma brisa suave soprando na Prefeitura de Osaka naquela tarde – me fazendo usar calça jeans, uma camisa quente e botas para não correr o risco – estava errada? E ao invés de uma brisa suave, havia um sol escaldante em plena primavera japonesa?
Assim que saí do aeroporto de Osaka e fui recebida por uma baforada de ar quente atípica, contrastando com o frio de dentro do aeroporto, soube que aquela primavera não seria como as outras. Não como um sexto sentido nem nada psíquico, até porque temporadas quentes, para mim, não representavam coisas boas desde a infância, mas aquilo poderia significar novas vibrações para aquele novo começo.
– Tem certeza que o ar condicionado está no mínimo? – perguntei pela terceira vez ao taxista e ele me deu uma olhada nada amigável pelo retrovisor. Seus olhos pequenos ficaram ainda menores, se estreitando, não muito feliz com a minha pergunta. Eu também não ficaria muito feliz no lugar dele. Ninguém gostava de estar preso em um engarrafamento dentro de um carro abafado e, convenhamos, eu era uma cliente muito chata.
– Tenho certeza. Quer que eu desligue o ar condicionado e abra as janelas?
Dei um sorriso amarelo e neguei sua pergunta. Era óbvio que eu não queria. Provavelmente morreria afogada no meu próprio suor. E no dele. Só de pensar, já me dava ânsia de vômito.
Engarrafamentos eram o meu pesadelo. Eu era uma pessoa apressada por natureza, não gostava de esperar e detestava depender de fatores externos para cumprir com meus objetivos. Já estava atrasada por causa do voo que acabou sendo protelado por duas horas por causa de uma criança perdida dentro do avião que, na verdade, estava escondida dentro do banheiro para assustar a mãe, cansada por conta da longa viagem e do jet lag, ainda tinha um engarrafamento e aquele calor para piorar minha situação.
– Será que vamos demorar muito? – fingi olhar o relógio de pulso com impaciência, mas meus olhos não chegaram a registrar realmente que horas eram. Talvez por ele ainda estar ajustado no fuso horário antigo ou talvez porque eu me pressionaria ainda mais por saber quão atrasada eu verdadeiramente estava.
– Cidade grande, senhora. Enfrentamos situações assim o tempo todo. – Na cabeça dele, eu era só mais uma turista chata e ignorante de quem ele arrancaria muito dinheiro. E... senhora? Eu parecia tão velha?
– Eu já... – antes que eu pudesse completar a frase, um barulho alto de batida me cortou.
Eu me abaixei no chão, cobrindo a cabeça instantaneamente com medo que algo viesse na direção do carro e me atingisse. Não parecia um tiro, era mais como uma colisão ou algo grande caindo. Será que era um terremoto? Um tsunami? Improvável. Durante todo o caminho o rádio do táxi estava ligado sintonizado em uma estação de notícias e nenhum alerta foi emitido sobre desastres naturais.
– Já não estava feio o bastante... – o taxista comentou, olhando pela janela, mas sem se mover do lugar, despreocupado, como se não fosse nada. Aquele tipo de coisa era comum naquela área?
– O que aconteceu? – perguntei, ainda assustada, voltando a sentar no banco, mas alerta a qualquer outro som.
– Um acidente. – Eu abri a porta do carro assim que ele falou. – Ei! Para onde você vai? A corrida ainda não acabou.
Tirei da bolsa um punhado de ienes recém trocados no aeroporto e o entreguei antes de fechar a porta.
– Acho que isso vai ser o suficiente para levar minhas malas para o endereço que eu te entreguei.
– Mas para onde você vai?
– Aconteceu um acidente e olha o tamanho desse engarrafamento. Pode haver vítimas e o resgate pode demorar de chegar. Eu preciso ver se eles precisam da minha ajuda. – eu falei como se fosse óbvio e ele me olhou como se eu estivesse louca. Não julguei seu olhar estranho, não era todo mundo que tinha aquela coragem. Sabia que iria me atrasar ainda mais e perder o meu táxi, mas não podia fingir que nada havia acontecido como aquele taxista. Não poderia perder a chance de salvar uma vida.
– A senhora é médica?
– Não, mas sei um pouco de primeiros socorros. – Dei de ombros. Na verdade, tudo que eu sabia sobre primeiros socorros havia sido um curso básico que ensinava sobre que tipo de ferimento não mexer e como fazer a manobra Heimlich.
– Boa sorte. Parece que vai precisar muito.
A cabeça dele voltou para dentro do carro e ele levantou as janelas, mostrando que não estava dando a mínima para a minha atitude. Nem todo mundo estava disposto a abandonar seus carros para ajudar um acidente desconhecido.
Eu havia crescido com um tio que sempre dizia que para salvar alguém eu deveria fazer tudo que estivesse ao meu alcance. Além do mais, acidentes de carro me faziam lembrar algumas coisas do meu passado. Eu nunca poderia abandonar uma pessoa que precisava da minha ajuda.
Não foi difícil encontrar o local do acidente. Eu corri para onde a fumaça resultante da batida subia. Tinha cheiro de óleo por toda a pista e os carros ao redor não paravam de buzinar. Alguns curiosos saíam para ver o que havia acontecido e outros tentavam manobrar o carro para longe do acidente, mas quase ninguém se aproximou para ajudar.
– Tem algum risco de explosão? – foi a primeira pergunta que eu fiz para a pessoa mais perto de mim. Eu podia parecer louca, mas era sensata. Não colocaria minha vida em risco por outras pessoas.
– Acho que não, mas existem pessoas presas nos carros.
Andei para mais perto do local do acidente, tentando entender o que estava acontecendo e como eu poderia ajudar. Era difícil enxergar com toda a fumaça escura, mas eu apertei meus olhos, procurando por alguém para me informar.
– Como eu posso ajudar? – perguntei para ninguém específico.
– Os rapazes estão verificando as vítimas que ficaram presas nas ferragens. – uma mulher me respondeu, parada há alguns metros da batida, onde alguns homens tentavam socorrer as vítimas dentro do carro.
– Alguém já ligou para a emergência?
– Eles devem chegar em trinta minutos porque o engarrafamento é muito longo. Esse horário é muito complicado na pista principal.
Um grito vindo do chão, ao lado dos carros, chamou a minha atenção e eu corri até a mulher grávida que sangrava muito. Não conseguia saber se ela havia sido tirada de um dos carros ou arremessada para fora porque parecia falar coisas incoerentes. Me aproximei com cuidado, tentando entender.
– Alguém... Por favor, me ajude...
Me ajoelhei ao seu lado, procurando algum ferimento visível, com medo de mexer em algo e agravar seus ferimentos. Ela agarrou minha mão e apertou com força, gritando em seguida. Eu tentei puxar de volta, mas ela apertou ainda mais, como se aquela ação fosse salvar a sua vida. Meu coração disparou com a adrenalina.
– Por favor, não se mexa. Tente ficar imóvel para não se machucar ainda mais, tudo bem? – tentei acalmá-la. – O resgate está chegando.
– Me ajude. – ela implorou.
– Está sentindo alguma dor? – ela balançou a cabeça com força. – Eu posso...
– Ele está vindo. – Ela gritou, apertando ainda mais a minha mão e eu quase gritei junto com ela.
– Sim, o resgate está vindo. – Falei, sem saber sobre o que ela estava falando. – Logo eles estarão aqui.
– Não! O meu bebê. Meu bebê está vindo.
Só naquele momento eu percebi que ela estava prestes a dar à luz, com água molhando seu vestido e o chão embaixo dela. Sua bolsa havia estourado. Comecei a entrar em pânico porque não fazia ideia do que fazer.
– Ela está dando à luz! Alguém me ajude! – gritei sem parar e um dos homens que ajudava outra vítima, correu até nós e se ajoelhou ao meu lado.
– Ela está com dor? – ele perguntou.
– Minha bolsa estourou. – A mulher deitada falou. – Eu estou com muita dor. As contrações estão mais rápidas agora, eu...
– Sente dor em mais algum lugar? – o homem ao meu lado quis saber.
– Eu não sei. Por favor, me ajude.
Ele levantou o vestido da mulher e olhou alguma coisa entre suas pernas. Eu tentei não pensar no quão estranho era aquilo.
– O bebê está vindo. Ela parece estar com uma dilatação suficiente. Ele está saindo. – O homem exclamou como se aquilo fosse uma coisa boa e não significasse que teríamos que ajudar a fazer aquele parto no meio da estrada.
– O que?
Eu me abaixei para olhar entre pernas da mulher e vi uma bola preta prestes a sair. Quase desmaiei com a cena. Tive que olhar para outro lugar e prender a respiração para não vomitar. Ela estava parindo ali, no asfalto, com o sol tinindo em nossas cabeças. Senti o mundo girar. Nunca, em meus piores pesadelos, poderia imaginar que veria uma mulher dando à luz. Uma mulher que eu não sabia nem o nome.
– Você vai ter que segurar as pernas dela. – o homem ao meu lado ordenou e eu o olhei com uma careta.
– O que você vai fazer? – perguntei.
– O bebê está saindo. Nós vamos ter que ajudá-lo.
Quase vomitei de novo com a ideia de meter a mão e puxar aquela cabeça para fora das partes íntimas de uma completa desconhecida. Não queria nem levantar o vestido dela, quem dirá enfiar a mão ali embaixo.
– O socorro está chegando em vinte minutos. – Eu argumentei. – Podemos esperar por eles, não precisamos fazer isso. Além do mais, nenhum de nós sabe fazer partos. Se algo der errado...
– Nós não temos vinte minutos. – Ele falou, rudemente. – O bebê pode morrer se não fizermos algo. O bebê e ela.
– Por favor... – a mulher enfiou as unhas na minha mão, chorando, e eu engoli a dor do seu aperto. – Não deixe o meu filho morrer. Por favor...
– A cabeça dela está sangrando. – Eu falei. – Não deveria ver isso primeiro?
O homem levantou e examinou a cabeça da mulher, como se fizesse ideia do que poderia estar acontecendo ali.
– Parece ter sido um machucado exterior. – Ele constatou. – Sente náuseas?
– Não sei! – a mulher gritou entre os dentes, com o suor brotando da testa.
– Tente se concentrar nas outras coisas que está sentindo, senão podemos perder você e o seu bebê. – Ele falou firmemente. – Sente tontura?
– Não. – Ela chorou.
– Ânsia de vômito? – ela negou levemente, ainda chorando. O desconhecido sacou a lanterna do celular e colocou nos olhos dela. A mulher seguiu a luz com os olhos. – Ela ficará bem por enquanto. – Ele concluiu.
– Você é médico, por acaso?
– Sou. – Ele falou com ironia e eu quase ri. Ao contrário de mim que estava quase hiperventilando, ele estava calmo e compassivo diante daquela situação. Como se fizesse partos na estrada todos os dias. – Mas nós vamos ter que fazer isso juntos. A perna dela parece mais machucada do que a cabeça, então eu vou imobilizar primeiro e depois tentamos tirar o bebê.
Era aquilo mesmo que eu havia acabado de ouvir? Nós iríamos realmente fazer o parto daquela mulher no meio de um engarrafamento como aquele? Sem nenhum instrumento adequado ou higienizado? Na frente de todas aquelas pessoas?
Alguns kits de primeiros socorros começaram a parecer, à medida que as pessoas iam saindo de seus carros para ajudar. Com papelão e elástico o homem imobilizou a perna esquerda da mulher que parecia ser a fonte de todo sangue.
– Você, – ele chamou uma pessoa próxima. – Segure a cabeça dela com cuidado para impedir que sua agitação cause outro ferimento. Você, – ele apontou para mim. – Segure a perna esquerda aberta para que eu consiga tirar a criança.
– Realmente, nós... Eu... – tentei argumentar novamente, mas ele me cortou.
– Nós precisamos salvar a vida dessas duas pessoas. – Eu tomei duas respirações profundas e fiz como ele orientou. – Qual é o seu nome? – ele perguntou para a grávida.
– Naomi Tanaka. – Ela respondeu, trêmula.
– Tanaka-san¹ , eu preciso que você empurre com toda força que você puder na minha contagem. Não se preocupe com mais nada, só empurre.
O suor escorria pela minha testa e pingava no chão. Minha blusa estava toda grudada e minha calça esfolada por conta do asfalto, mas quando Naomi começou a gritar, fazendo força para seu bebê sair, nada mais importava.
– Um, dois, três, força!
– Vamos, Tanaka-san! Força! – eu a incentivei, ignorando a dor do aperto dela na minha mão.
– Precisamos seguir as contrações. Um, dois, três, força!
Seu grito rasgou o ar e eu vi homem ao meu lado tirar a criança de dentro de Naomi. Vendo aquela cena, eu só consegui sorrir e chorar, emocionada, junto com a mãe.
O homem ao meu lado olhou para mim, com o bebê nos braços. Logo o recém-nascido começou a chorar violentamente, tremendo todo o corpo vermelho. O estranho riu para mim e, de maneira automática, eu ri alto junto com ele. Eles ficariam bem. Ficaria tudo bem.
Tudo pareceu se mover em câmera lenta. Aquilo era um milagre. Eu tinha acabado de assistir um milagre. Eu continuei rindo, aliviada por ter dado certo. Tínhamos conseguido. O bebê havia nascido. Meu coração batia como louco em meus ouvidos com toda a emoção e minhas mãos ainda estavam trêmulas.
– Meu filho! – Naomi gritou.
– Ele está bem, Tanaka-san. – Eu sorri para ela. – Seu filho nasceu.
A criança continuava chorando. Todos ao redor aplaudiram, também comemorando. As palmas se misturaram com o barulho da ambulância chegando e eu suspirei de alívio. Tudo ficaria bem mesmo.
– O resgate chegou. – Alguém gritou.
Rapidamente os paramédicos apareceram, cortaram o cordão umbilical e pegaram o bebê para tratá-lo de forma adequada. Noami ainda agarrava minha mão com força.
– Você vai com ela? – um dos paramédicos perguntou e sem hesitar, eu afirmei. Não sabia como Noami estava envolvida no acidente ou se o pai do seu bebê estava machucado, mas se eu estivesse no lugar dela, assustada e com dor, gostaria de ter alguém ao meu lado que segurasse a minha mão e me passasse segurança. Estava feliz por ser aquela pessoa para ela.
Colocaram Noami em uma maca e eu e o homem desconhecido subimos na parte de trás da ambulância para o hospital.
– Muito obrigada. Muito obrigada. – Noami chorava, agradecendo.
Eu estava tão feliz que nem o atraso e nem o calor me incomodava mais. Nem mesmo o fato de estar com os braços cobertos de sangue de uma mulher que eu havia acabado de conhecer.
– Ela vai ficar bem? – perguntei ao paramédico.
– Os primeiros socorros foram feitos adequadamente. Ela ficará bem. – Ele garantiu. – Está fora de perigo.
– E o bebê? – o filho de Naomi agora se encontrava em uma manta, deitado ao lado da mãe, mas eu não podia deixar de me preocupar pela maneira que ele havia nascido.
– Está bem também.
– E as outras vítimas?
– Todos ficarão bem. – Quem respondeu dessa vez não foi o paramédico e sim o homem na minha frente. O motorista mais bem preparado que eu já havia encontrado na minha vida. Eu nunca havia aprendido aquilo na autoescola ou em qualquer aula de primeiros socorros. O Japão devia ensinar bem seus motoristas. – Está tudo sob controle agora, não se preocupe. – Ele garantiu, ainda sorrindo, como eu.
Ah, olá. Muito prazer. – Eu o cumprimentei com uma reverência, lembrando dos modos orientais.
– Muito prazer. Sou Haru.
Haru. Primavera. De um jeito estranho achei que o nome combinava com ele. Com seu sorriso carismático e sua disposição em ajudar aquele Haru realmente me lembrava a primavera.²


¹San: Este é um honorífico japonês que pode ser usado em praticamente todas as situações, independente do sexo da pessoa. Podemos dizer que é equivalente a Senhor ou Senhora. ²N/A: Haru significa primavera em japonês.

Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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